Uma luta numa cidade vazia

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Uma luta numa cidade vazia
 Uma luta numa cidade vazia Marina de Godoy Magalhães Costa Escola da Vila 2 ano 2015 “Yo he armado una historia de un avión que no aterrizaba nunca. Ellos ​
estaban en este avión y por eso nada podían, ni llamar ni escribir, ni venirme a buscar porque estaban en el avión que no aterrizaba nunca.”​
(Mariana Eva Pérez) Alguns de vocês podem não acreditar na história que vou contar. Se minhas palavras não convencerem, não os impeço de me chamarem de "louca", se bem que prefiro "loca de la Plaza de Mayo [louca da Praça de Maio]". Uma entre todas as outras loucas, aquelas que possuem, mesmo que num pedaço de mente ardilosamente escondido, a mesma história que toma forma a seguir. No fim de 1982, Buenos Aires estava muito mais vazio do que era antes de 1976. Eu e minhas companheiras, nós que caminhávamos em torno da pirâmide de Mayo, nos movíamos quase sozinhas. A maioria das pessoas, dos civis (como eram chamados naquela época aqueles que não eram militares, muito menos ativistas), saíam de casa o mínimo possível, apenas para o necessário, ou quando eram chamadas. Mas os que atendiam os chamados nunca voltavam. A cidade parecia um pedaço de terra abandonado, silencioso. Nos dias que realizávamos nossa marcha, apenas o grito de nossas vozes era ouvido, num som agudo e rouco, protagonista. Aviões cinza chumbo voavam frequentemente pelos dias que, mesmo ensolarados, eram dias cinzas. Nós marchávamos por debaixo daquele céu barulhento de aviões. Todas nós, as abuelas, perguntávamos, aos gritos, em meio à Praça, onde estavam nossos filhos e netos. Assim como acredito que todos os civis se perguntavam onde estavam suas mulheres que carregavam seu bebê no ventre, seus irmãos e irmãs, amigos e amigas. Haviam histórias de centros clandestinos. Mas deveriam ser mais de mil só para suportar a todos aqueles que foram levados e deixaram sua ausência marcando uma cidade vazia, sem voz. E os aviões nunca paravam de passar, zumbindo sobre nossos panos brancos presos em nossas cabeças. Manchas pretas no céu. Borrões que atiçavam meu instinto de mãe, de avó. Instintos que me diziam que aquelas manchas não eram boa coisa. Sempre que eu olhava pro céu, pra algum avião passando, um frio na barriga me consumia. Quando eu era jovem, sempre que sentia frio na barriga eu andava até o Río de la Plata e só ficava olhando pra água e sentindo o vento no meu rosto. O frio passava. Mas naqueles tempos, não se podia ir ao rio. Era proibido, e os guardas em suas posições asseguravam isso. O por quê de tantas proibições, e tantos aviões, ninguém tinha certeza, apenas suspeitas. E eu tinha meus instintos. Instintos que falharam pouquíssimas vezes. Nós abuelas realizávamos reuniões na ​
Confeteria Las Violetas, ​
na ​
Avenida Rivadavia se me recordo bem, ​
em que organizávamos nossas marchas e petições, sob outros pretextos claro, talvez um aniversário. Enfim, numa quinta­feira resolvemos inovar. Os guardas não cansavam de nos chamarem de ​
locas​
, os civis não perdiam o medo, o que era compreensível em tempos tão escuros. Resolvemos marchar até o Río de la Plata. Quando eu afirmei aquela decisão, um frio na barriga nostálgico surgiu em mim. Diferente do que eu normalmente sentia naqueles anos. No dia seguinte, mais ou menos ao meio dia, nos encontramos num ginásio e logo seguimos nossa marcha em direção ao rio. Era uma marcha desafiadora tanto para os militares quanto para nós mesmas, não sabíamos o que esperava por nós. Mas nunca imaginávamos que seria o que encontramos. Quando avistamos o lugar que queríamos chegar, o lugar que chamávamos de ​
Río de la Plata​
, nos vimos rodeadas de morte. Depois do que eu vi, o rio pra mim não era mais da prata. Era uma imensidão vermelha. De longe, parecia que tinham uns objetos ao longo de todo o rio. Quando marchamos um pouco mais, vimos que não eram objetos. Na verdade eram pessoas. Naquele pedaço de céu haviam mais aviões do que em cima da nossa Praça. Todas ficamos paralisadas por vários instantes. Até que um avião também parou por um instante. Sabíamos que apenas tinha diminuído a velocidade, mas parecia que a aeronave tinha se impactado com tudo aquilo tanto quanto a gente. Engano. Depois de poucos segundos, começaram a cair pessoas daquele avião lento. Caíam pessoas do céu para o rio, já congestionado. Não sabíamos o que fazer. Mas sabíamos que seríamos detidas, torturadas e enfim jogadas do céu para um rio de morte se continuássemos ali paradas. Voltamos num silêncio profundo e dolorido. Dentro de nós também, silêncio sem fim. Depois daquela cena, eu fiquei 15 dias com febre, deitada, sem vontade de nada. Não falava, não pedia, não lutava. Eu tentava não pensar na queda dos corpos, porque pensar era enlouquecer. Mas um dia eu acordei e pensei… Quem buscaria meu filho comigo deitada? Eu sempre digo que, a partir daquele dia, nasceu outra pessoa em mim. Uma disposição diferente aflorava no meu corpo. Eu tinha que lutar contra os aviões, contra o medo social, contra os que maleavam o terror nas próprias mãos. Mas devia haver uma força muito mais forte.