Teorias dos Meios de CoMuniCação no Brasil e no Canadá

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Teorias dos Meios de CoMuniCação no Brasil e no Canadá
Teorias dos Meios
de Comunicação
no Brasil e no Canadá
Volume 1
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5/20/14 4:31 PM
Universidade Federal da Bahia
Reitor
Dora Leal Rosa
Vice-reitor
Luiz Rogério Bastos Leal
Editora da Universidade Federal da Bahia
Diretora
Flávia Goulart Mota Garcia Rosa
Conselho Editorial
Alberto Brum Novaes
Angelo Szaniecki Perret Serpa
Caiuby Alves da Costa
Charbel Ninõ El-Hani
Cleise Furtado Mendes
Dante Eustachio Lucchesi Ramacciotti
Evelina de Carvalho Sá Hoisel
José Teixeira Cavalcante Filho
Maria Vidal de Negreiros Camargo
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Teorias dos Meios
de Comunicação
no Brasil e no Canadá
Volume 1
Luiz Claudio Martino
Giovandro Fer reira
Antonio Hohlfeldt
Osvando José de Morais
O r g a n i z a d ores
Tr a d u ç ã o d e
Sigr id Janus e Luiz Claudio Martino
S alv ad or . E d u fb a . 20 13
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2013, autores.
Direitos para esta edição cedidos à Edufba.
Feito o Depósito Legal.
Capa
Charles Ribeiro
Vicente Reis
Projeto Gráfico e Editoração
Gabriela Nascimento
Revisão
Lucas Guimarães Pacheco
Normalização
Susane Barros
Sistema de Bibliotecas - Ufba
Teorias dos meios de comunicação no Brasil e no Canadá. /
Organizado por Luiz Claudio Martino; tradutores Sigrid Janus, Luiz
Claudio Martino - Salvador: EDUFBA, 2013.
V.1. 312p.
ISBN 978-85-232-1131-8
1. Meios de comunicação – Brasil . 2. Meios de comunicação – Canadá.
3. Comunicação midiática. 4. Jornalismo. I. Martino, Luiz Claudio. II. Janus,
Sigrid. III. EDUFBA.
CDU – 659.3
CDD – 302.23
Editora filiada à
Editora da UFBA
Rua Barão de Jeremoabo
s/n - Campus de Ondina
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[email protected]
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Sumário
{ Volume I
11Apresentação
13
O lugar “virtual” das ciências da comunicação revisitado
Gaëtan Tr emblay
35 O campo dos estudos em comunicação no Canadá: ponto
de vista a partir do programa de doutorado conjunto em Montréal
Ér ic George
53
Escrita(s), mídias e tecnologias do intelecto: Notas sobre a atualidade dos trabalhos de Goody
Oumar Kan e
73
Civilização, transporte e assentamento: comunicação organizacional nas primeiras obras de Harold Innis
W illiam J. Buxton
91
A pesquisa-criação explicada: quatro modos interligados
Owen Chapman e Kim S aw c h uk
111 Entre ecologia e arqueologia: uma perspectiva sobre a teoria mediática
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Thier r y B ardin i
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137 A opinião na comunicação: uma abordagem construtivista-
crítica
Milton N. Campos
157 Das teorias da comunicação: um breve percurso da mensagem a certos desafios da análise dos discursos
mediáticos
Giov an dr o Marcus Fer r ei ra
175
Uma teoria da comunicação para sociedades com grandes diferenças sociais
An ton io Hohlfeldt
191
Considerações sobre a explicação em comunicação
L uiz Claudio Martin o
213
Teorias da comunicação, a hermenêutica, o diálogo, a compreensão e a interpretação: esboço para uma
contribuição às “novas teorias” e aos “novos métodos”
Os v an do Jos é de Mo rai s
233
Teorias da Palavra II: de conexões e relações
Paulo B. C. Schettino
259
A comunicação como artifício: uma leitura sobre Vilém Flusser
Mír iam Cr istin a Car l os Si l v a
273
As teorias do cinema e a atualização dos gêneros
Cr is tian e Fr eitas
287
O perfil dos estudos de internet na pesquisa em comunicação brasileira
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Jan ara Sous a
307
Sobre os autores
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Sumário
{ Volume II
11Apresentação
13 Ensaio sobre a identidade das ciências da comunicação e da informação
Juçara Gor s ki Br ittes e L or en a Rúb i a Per ei ra Cami n h as
43
Repensando o arcabouço teórico-metodológico na construção da cidadania pelo viés da análise do discurso
Giov an dr o Fer reira e C l ar i s s a V i an a Matos Moura
55
A proposta interdisciplinar de Innis e McLuhan e a pesquisa em comunicação brasileira
Katr in e Tokar s ki Boav en tura e Rod r i g o Mi ran d a Bar b os a
73
O campo comunicacional e as teorias da publicidade
Rosan a Nan tes Pav ar in o
91
Chamem o Conar! O efeito de terceira pessoa e o apoio às intervenções regulatórias na publicidade de cervejas
An dr é B omf im dos Santos
107
Survey e análise de conteúdo: revisitando os instrumentos analíticos da abordagem quantitativa nos estudos iniciais sobre mídia e audiência
Adr ian o de Oliv eira Samp ai o
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121
A Literatura de autoajuda e a teoria funcionalista dos usos e satisfações: uma análise da linguagem de Augusto Cury
Emilson Fer reira Gar c i a Jun i or e Rob ér i a Nád i a Araújo Nas cimen to
129
Percepção de mídia hostil no Twitter
R afael Cardoso Samp ai o e João S en n a Tei xei ra
145 A compreensão de internet nos artigos publicados na E-Compós
L uis a Maran hão de Araújo
159 Novos parâmetros na comunicação: reflexão sobre relações comunicativas via tecnologias da informação e da
comunicação
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Edien ar i Oliv eira dos An jos
175
Espaço acústico, paisagem sonora e espaço sonoro: relação de figura e fundo entre os conceitos aplicados ao estudo da teoria dos meios e do espaço
Macello Medeir os
189
Diálogos possíveis entre semiótica e iconologia: o caso dos ex-votos do Brasil e das Américas
José Cláudio Alv es de Ol i v ei ra
205
Jornalistas assessores de imprensa: a tensão entre os campos da comunicação e da informação e a configuração do processo produtivo da notícia
Giov an dr o Fer reira e Cl aud i an e Car v al h o
221
Enquadramento colaborativo: uma análise comparada do framing adotado pelos cidadãos-repórteres durante a
Rio+20 no WikiNotícias e Indymedia
Yur i Almeida
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237
O enquadramento do sofrimento em notícias de
violência envolvendo crianças e adolescentes:
estudo de caso dos jornais Massa! e Correio
Iv an is e Hilbig de An drad e
261
A cobertura de meio ambiente pela Globo News: análise do Jornal das Dez e do Cidades e Soluções
L eila Nogueira
279
Expectativas do leitor e Newsmaking
L idian e San tos de L ima Pi n h ei r o
293
Os casos de homofobia no Estadão.com: uma análise do enquadramento noticioso
Mar ian a Guedes Con de
311
Sobre os autores
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A p r e s e n ta ç ã o
Esta coletânea de artigos contém os textos apresentados no Colóquio Internacional Teorias dos Meios de Comunicação no Brasil e no Canadá, realizado na
Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, entre os dias
22 e 26 de outubro de 2012.
O encontro reuniu pesquisadores brasileiros do projeto Teorias da
Comunicação (TeCOM), financiado pelo Programa Nacional de Cooperação Acadêmica através da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior e que abrange a Universidade Federal da Bahia, a Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a Universidade de Brasília e a
Universidade de Sorocaba, em parceria com pesquisadores do Doutorado
Conjunto em Comunicação de três universidades canadenses: Université de
Montréal, Univesisté du Québéc à Montréal e Concordia Univesity.
A diversidade de temas, opiniões e pontos de vista aqui expressos reflete
um dos objetivos do encontro, que foi o de conhecer as tendências atuais presentes nos trabalhos realizados nos dois extremos do continente americano.
O Canadá é um dos raros países a serem reconhecidos por terem desenvolvido uma tradição própria de pesquisas em comunicação. A chamada Escola
de Toronto – da qual Harold Innis e Marshall McLuhan são os mais ilustres
representantes – é, sem dúvida, uma das grandes contribuições ao pensamento comunicacional, e boa parte dos textos aqui reunidos retomam e renovam
esta tradição. Mas o Canadá também tem, evidentemente, outras correntes
de pensamento, e os dois volumes da presente publicação esperam poder
contribuir para sua divulgação.
Além do valor intrínseco de cada texto, o contraponto com os pesquisadores brasileiros permite contrastar e melhor entender algumas linhas de
rupturas e continuidades da pesquisa em comunicação desenvolvida nestes
dois países.
Lui z C la ud i o Ma r t i no
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O lugar “virtual”
das ciências da
comunicação
revisitado
Gaëtan Tremblay
Introdução
Em 1998 – uma edição especial da revista Loisir et Société (Lazere Sociedade) dedicada às teorias da comunicação, que coordeno com Bernard Miège
– publiquei um artigo intitulado O lugar virtual das ciências da comunicação.
Tenho aqui a intenção de revisitar este texto, cerca de 15 anos mais tarde, perguntando-me o que ainda tem de relevante e o que mudou ao longo dos anos.
As ciências da comunicação institucionalizaram-se em grande parte durante as últimas décadas. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e
com ritmo mais acentuado desde o final dos anos 60, aumentou o número
de departamentos, institutos e escolas de comunicação, grupos e centros de
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pesquisa, revistas e coleções de livros, em todos os continentes. Iniciadas por
professores “marginais” do sistema acadêmico, na periferia, em comparação
com a definição clássica das disciplinas, se impuseram progressivamente,
apoiadas por um desenvolvimento tecnológico sem precedente e programas de pesquisa públicos e privados. Mas, apesar desses sinais exteriores de
institucionalização, não se pode concluir que as ciências da comunicação
amadureceram ou que ganharam o reconhecimento e o respeito das mais velhas disciplinas sociais.
Não pretendo neste texto, fazer a história do surgimento e da institucionalização dos estudos de comunicação. Outros já cumpriram essa tarefa
melhor do que eu poderia fazer – por exemplo: Flichy (1991); Lacroix e Lévesque (1985); Mattelart (1992, 1994), Miège (1995). Meu objetivo aqui é mais
modesto. A partir das minhas raízes numa sociedade específica, o Québec –
onde o desenvolvimento das ciências da comunicação tem necessariamente
tomado um caminho particular –, e a partir do meu conhecimento incompleto desta gama de atividades inteletuais, proponho levantar uma série de
questões que aparecem agora relevantes para a reflexão teórica sobre o campo
e no campo da comunicação. Dentre as questões acerca do objeto das ciências
da informação e da comunicação, seus métodos e abordagens, suas relações
com as ciências vizinhas, escolho três entre muitas outras. A primeira concentra-se sobre as origens e a identidade das ciências da comunicação. Desde
o legado das ciências sociais até a criação e a institucionalização de novas
ciências, a comunicação aparece alternadamente e simultaneamente como
um objeto específico, disputado e compartilhado. Entre as ciências sociais,
as ciências da educação e as ciências da gestão, quais são as ciências da comunicação? A segunda questão aborda as ambições expressas recentemente
pelas ciências da comunicação sobre o advento da sociedade da informação:
pode-se compreender e explicar a sociedade global a partir da sociedade da
comunicação? A terceira questão revela as peculiaridades das relações entre
a teoria e a prática, o conhecimento acadêmico e a prática profissional no
campo das comunicações, que é de alguma forma um lugar de encontros e
conflitos entre as ciências sociais, as ciências da gestão e as ciências da educação. As ciências da comunicação constituem um campo privilegiado para
analizar as dificuldades da multidisciplinaridade e das ambiguidades da
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parceria universidade-indústria na mudança das condições de docência e investigação em ciências humanas e sociais.
Questões de origem e de identidade
As ciências da comunicação são ciências sociais? E, em caso afirmativo, o que
as distingue de outras ciências sociais?
Existem, com certeza, ciências da comunicação que nada têm de social,
em particular aquelas ligadas à física e à engenheria da comunicação. Há outras que se interessam apenas marginalmente pelo social, como a psicologia
da comunicação e algumas correntes da semiologia. Essas, evidentemente,
não estão em questão quando investigamos as relações das ciências da comunicação com as ciências sociais. A resposta seria muito óbvia: nem todas as
ciências da comunicação são ciências sociais. Mas entre aquelas que integram
o social em sua problemática, poderíamos pensar em um conjunto original,
um conjunto distinto da sociologia da comunicação, da economia política da
comunicação, da ciência política da comunicação etc.? Em suma, existe algo
que seria uma ciência social da comunicação?
Vamos discutir rapidamente esta questão das relações entre as ciências sociais e as ciências da comunicação em quatro pontos: 1) o legado das
ciências sociais, 2) a criação de um corpo de conhecimento específico e diversificado, 3) o peso da tecnologia, 4) um objeto adequado, mas disputado e
compartilhado.
O legado das ciências sociais
As ciências da comunicação, sem dúvida, foram criadas por meio de empréstimos importantes em abordagens teóricas e métodos desenvolvidos pelas
ciências sociais e humanas, tanto se não mais do que a cibernética, a teoria
de sistemas e a engenharia. Sua influência foi variável de acordo com os contextos nacionais e culturais, mas a linguística, a psicologia social, a sociologia,
a economia e a história inspiraram muito o trabalho de pesquisadores que
se dedicaram ao estudo das comunicações. Além disso, muitas vezes estes
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pesquisadores foram formados em pelo menos uma destas ciências sociais.
Apesar de sua contribuição inquestionável, não são geralmente engenheiros
que fundaram departamentos, institutos ou escolas de comunicação. Não são
eles também que escreveram os livros didáticos e a maioria dos textos de referência. No Québec, pelo menos – mas nós sabemos que esse também era o
caso em muitos outros lugares – são acadêmicos formados em ciências sociais
e humanas que formaram a base da docência e da pesquisa em comunicação.
Desde o final do século XIX, o psicólogo social francês Gabriel Tarde estava interessado na imprensa popular e chamou a atenção para a nova forma
de agrupamento social que ela favoreceu: o público. Alguns anos mais tarde,
os pesquisadores da Escola de Chicago, o filósofo John Dewey (1990), o sociólogo Robert E. Park (1955) e o psicólogo social George H. Mead (1967) fizeram
avançar um pouco mais essas primeiras reflexões e esboçaram as primeiras
teorias sociais e políticas da comunicação. Em comparação, não foi somente depois do fim da Segunda Guerra Mundial que apareceriam as primeiras
contribuições dos engenheiros e dos matemáticos – a teoria estatística da informação de Shannon (1949) e a cibernética de Wiener (1948). Os primeiros
estudos sobre a propaganda, por sua vez, datam da Primeira Guerra Mundial.
O livro de Lasswell, conhecido por ser importante no surgimento de ciências
da comunicação, será publicado em 1927.
A consulta de textos históricos fornecerá ao leitor muitos outros exemplos mostrando que, desde o início, as ciências da comunicação têm sido
fortemente influenciadas pelo legado que receberam das ciências sociais, com
efeitos diferentes dependendo dos contextos geográficos e culturais, porque
essas ciências sociais são caracterizadas mais pela multiplicidade e diversidade de seus modelos teóricos do que pela homogeneidade. Estas relações
de filiação vão continuar ao longo do tempo. Ao longo da sua curta história,
as ciências da comunicação têm sido influenciadas pelas grandes tendências
que cruzaram as ciências sociais: o funcionalismo, o behaviorismo, o marxismo, o estruturalismo, o liberalismo. Os autores de referência – de Marx a
Sartre, de Foucault a Bourdieu – têm produzido os mesmos efeitos de moda
e o mesmo impacto. Pode-se encontrar, em ciências da comunicação como
em outros lugares, uma corrente administrativa e outra mais crítica, sendo a
primeira em grande parte dominante.
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Os mesmos dilemas, as mesmas grandes oposições que atravessaram as
ciências sociais e que ainda são relevantes – ator e sistema, voluntarismo e
determinismo etc. – também assombram as ciências da comunicação.
Finalmente, a influência das ciências sociais também é sentida no design
de modelos alternativos para o desenvolvimento de projetos experimentais e
de transformação social, que se materializaram no Québec, por exemplo, em
experimentos de educação social como TEVEQ,1 a rádio e a televisão comunitárias, e na América Latina, em uma filosofia de desenvolvimento que tem
inspirado vários projetos de intervenção social.
No Québec, todas essas experiências de participação, animação e desenvolvimento, que surgiram na década de 60 por iniciativa de pessoas formadas
em sociologia e nas ciências da educação, bem como nas profissões da comunicação, influenciaram profundamente o desenvolvimento da reflexão e da
análise em departamentos acadêmicos criados a partir dos anos 70.
A criação de um corpo de conhecimentos sobre a
comunicação
As ciências da comunicação não constituem uma disciplina particular, no
sentido clássico e um pouco old-fashioned, caracterizado por um objeto que
seria inteira e exclusivamente específico e por alguns métodos específicos
(haveria muitas ciênciais sociais que também poderiam satisfazer a esses requisitos?). A comunicação – como a saúde ou a educação – é mais um campo
de estudo, um conjunto de questões e problemas. Ela corresponde aos desejos
de um C. Wright Mills (1967), sociólogo americano fora do mainstream, que
apelou para a formação de equipes de pesquisa e a organização de conhecimentos mais em termos de problemas que de estruturas rígidas disciplinares.
As teorias da comunicação são múltiplas, diversificadas e não integradas
em um todo coerente, como é também o caso em sociologia, em antropologia, em economia e em outras ciências sociais. Elas têm todas por objeto
a comunicação, processo de troca de mensagens, ao qual tem sido dado as
definições mais diversas. A comunicação é tanto um requisito prévio e um
1
Projeto de televisão educativa participativa desenvolvido na região do Saguenay no fim dos anos 60.
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produto da vida social; por isso, é assim integrado à maioria das construções teóricas gerais da sociedade, tanto no modelo estrutural-funcionalista
de Talcott Parsons (1951) ou no modelo estruturalista de Claude Lévi-Strauss
(1958). O que distingue os especialistas das ciências da comunicação é que
eles tornaram a troca de mensagens o foco central de suas preocupações e a
articulação de sua visão da sociedade.
Em suas tentativas de compreender a complexidade do objeto comunicação, os cientistas sociais ​​rapidamente se confrontaram ou foram levados
a obter o conhecimento em áreas mais ou menos alheias às ciências sociais
como a engenharia, a matemática, a psicologia e até a fisiologia. O viés para a
comunicação, para um campo em vez de uma disciplina, tem levado pesquisadores provenientes das ciências sociais a desenvolverem uma abordagem
“comunicacional”, que lança uma luz específica sobre o social e contribui de
modo original para a compreensão da sociedade como um todo.
Levaria muito tempo para sistematicamente identificar e avaliar qualitativamente as contribuições dos estudos de comunicação ao conjunto de
conhecimentos acumulados pelas ciências sociais. Ainda lembremos que elas
contribuíram com vários conceitos: informação, redundância, feedback, códigos, canal, ruído, redes, viés espacial e viés temporal, monopólio e oligopólio
de conhecimento, opinião pública, espaço público. Elas destacaram fenômenos como a impossibilidade de não comunicar (WATZLAWICK et al., 1972),
ressaltaram a importância de sistemas técnicos de comunicação e contribuíram para a compreensão de processos complexos, tais como a influência da
mídia e das mensagens.
Elas especialmente ajudaram a perceber a importância adquirida pelas
comunicações nas sociedades modernas desde meados do século XIX até o
ponto de poderem ser consideradas um setor específico, assim como a educação e a saúde, irredutível a meras manifestações de uma superestrutura que
seria totalmente dependente da infraestrutura econômico-política, e cuja
análise é tão necessária para a compreensão da estrutura e do funcionamento
da sociedade como um todo.
As pesquisas sobre a industrialização da cultura e da comunicação, entre
outras, têm permitido ao mesmo tempo enfatizar a integração desses campos ao vasto movimento que orienta o desenvolvimento da economia e da
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sociedade, bem como destacar os traços que caracterizam o processo de comercialização e industrialização nessas áreas.
O peso da tecnologia e da aborgagem determinista
O objeto que se impôs às ciências da comunicação, sob o efeito combinado
do fascínio pela tecnologia e os interesses dos doadores privados e públicos, é,
no entanto, na maioria dos casos, menos comunicação em si que as máquinas
para comunicar – os meios de comunicação, ou as Tecnologias da Informação
e da Comunicação (TICs).
A história do pensamento comunicacional é de fato marcada, orientada
em cada uma de suas etapas por avanços tecnológicos. Assim, Gabriel Tarde (1901) cunhou o conceito do público em relação ao desenvolvimento da
imprensa de um centavo (a penny press). A Escola de Chicago sonhou com
o potencial democrático da rádio, da imprensa e do telégrafo. Os estudos
sobre os efeitos da comunicação foram encomendados pelas estratégias de
manipulação e temores despertados pelo uso das técnicas mais recentes. A
teoria da informação de Shannon (1949) foi o resultado de uma estratégia de
tecnologia de telecomunicações racional, eficiente e lucrativa. E assim por
diante. Goste-se ou não, deve-se notar que o fator técnico é fundamental para
o surgimento e desenvolvimento das ciências da comunicação, a tal ponto
que poderíamos até dizer que são mais ciências da mediatização que ciências
da comunicação. Com exceção, talvez, da semiótica, da retórica e de algumas
abordagens para a comunicação interpessoal, mais relacionadas aos estudos
literários e à psicologia. E ainda pode-se mostrar que elas não ficaram imunes
à influência dos modernos desenvolvimentos tecnológicos. Psiquiatras em
Palo Alto (WATZLAWICK et al., 1972), por exemplo, basearam sua pragmática da comunicação na teoria dos sistemas e na cibernética, desenvolvidas por
engenheiros, preocupados com a instalação e o desempenho de dispositivos
técnicos. O desenvolvimento da semiótica, nos anos 60 e 70, está relacionado, pelo menos em parte, com a nova importância do fenômeno televisual e a
civilização da imagem que ela devia demonstrar.
Este peso desproporcional da tecnologia na definição do objeto das
ciências da comunicação é quase inseparável da inclinação para se concen-
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trar em uma abordagem determinista. De fato, parece que o determinismo se
manifesta com mais força e com mais repetição em ciências da comunicação
que nas ciências sociais em geral. Pode-se referir a McLuhan (1968, 1970) ou,
em menor medida, a Innis (1950, 1951), que fizeram dos meios de comunicação fatores-chave na evolução das sociedades. Mas poderíamos facilmente
identificar vários outros autores que participam da mesma tendência. Mesmo
que eles se defendem explicitamente a adotar o determinismo tecnológico,
transmitem seus pressupostos em suas análises. Autores como Pierre Lévy
(1990, 1995) e Régis Debray (1991), sem dúvida, pertencem a este grupo. Tudo
se passa como se as ciências da comunicação repetissem continuamente um
velho modelo circular da forma seguinte: em primeiro lugar, uma inovação
técnica imediatamente estimula uma abordagem determinística, que capta
as consequências “inevitáveis”; em segundo lugar, a observação e análise de
situações concretas invalidam a perspectiva determinista; em terceiro lugar,
uma outra inovação técnica provoca um retorno ao determinismo; novas observações e análises invalidam a perspectiva determinista e assim por diante.
Os primeiros estudos sobre a propaganda e os efeitos das mídias começaram este padrão recorrente: no princípio, cremos na onipotência dos meios.
Os resultados da pesquisa levaram a relativizar essa perspectiva. O mesmo
processo foi repetido com cada inovação técnica e está se recuperando em
movimento, hoje, com a mesma simplicidade e a mesma ignorância histórica,
sobre a implementação da autoestrada da informação, o advento da multimídia e da expansão do ciberespaço.
Essa “obsessão” da técnica é encontrada no discurso sobre a “sociedade
da informação”, como veremos a seguir. É urgente para as ciências da comunicação adotarem e desenvolverem uma perspectiva dialética na análise do
fenômeno técnico: embora reconhecendo a exterioridade que lhe confere a
sua materialidade, deve ser entendido como parte de um processo de produção social das máquinas, assim como de seus usos.
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Um objeto disputado e compartilhado.
As ciências da comunicação entre as ciências sociais,
as ciências da educação e as ciências da gestão
É certo que são significativas as contribuições das teorias e métodos das ciências sociais para o surgimento das ciências da comunicação. Isso não deve
impedir a conclusão de que a institucionalização destas últimas levou a uma
relativa autonomia. Pesquisadores de comunicação agora se recrutam em
grande número entre os programas de pós-graduação em comunicação, que
não têm as mesmas relações com as ciências sociais que tinham seus antecessores.
Junto com o crescente reconhecimento oficial dos currículos em comunicação, os fenômenos que eles estudam chamaram a atenção de todas
as ciências sociais, de tal modo que o objeto que eles se deram se encontra
disputado. Sociólogos como cientistas políticos, economistas, geógrafos, tais
como advogados, cientistas da gestão ou da educação, entre muitos outros,
estão cada vez mais interessados ​​em novas técnicas de comunicação e de informação e desenvolvem muitos trabalhos de pesquisa. A falta de interesse
da maioria dos cientistas sociais para os fenômenos da comunicação foi, certamente, um dos fatores que têm levado muitos pioneiros das ciências da
comunicação a criarem departamentos ou escolas especificamente dedicados
ao estudo da comunicação nos anos 60 e 70. Mas esses dias estão muito longe. Quase em todos os lugares agora, as ciências sociais e as humanidades
integraram as comunicações no seu âmbito de preocupações preferidas. Com
exceção, talvez, da economia. Curiosamente, no momento em que os políticos, as mídias e os analistas de todos os tipos chamam a economia moderna
de economia do conhecimento ou da informação, há – pelo menos no Canadá – poucos economistas que se interessam ativamente nestas questões
e poucos departamentos universitários de economia oferecem cursos ou
opções em comunicação. Em contraste, a comunicação invadiu disciplinas
dedicadas à gestão, chamadas ciências administrativas. Ou deveríamos dizer
que os especialistas em gestão e administração invadiram o campo da comunicação, contribuindo grandemente para o desenvolvimento de estudos em
comunicação organizacional?
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Herdeiras de ciências sociais e humanas, as ciências da comunicação, por
muito tempo ignoradas, desprezadas, criticadas, dedicaram-se ao estudo de
um objeto que agora chama a atenção de todos. A tal ponto que muitos propõem caracterizar a natureza da sociedade contemporânea tomando como
referência a importância que a informação tem adquirido. Então, a questão
das relações entre as ciências sociais e as ciências da comunicação surge com
uma nova urgência em um quadro renovado. Especialmente como outras influências que se manifestaram no campo da comunicação nas últimas décadas.
Não se pode agora analisar as relações entre as ciências da comunicação
e as ciências sociais sem ter em conta as ciências da gestão, nas quais os estudos de comunicação se desenvolveram em um ritmo preocupante nas últimas
duas décadas. Currículos acadêmicos, pesquisas e publicações abundam em
marketing, publicidade, gestão de pessoal ou de Tecnologia da Informação
(TI). Estes trabalhos são, naturalmente, inspirados mais pelos imperativos da
gestão que pelas abordagens das ciências sociais e são mais focados no negócio que na sociedade. Mas, na realidade, as coisas não são recortadas tão
claramante como acreditam alguns. São muitas as áreas de sobreposição, de
colaboração ou de conflito. Por exemplo, currículos de relações públicas ou
de publicidade são encontrados tanto nas escolas de comunicação quanto de
gestão. Professores formados em ambos os campos trabalham tanto em uma
área como na outra. E as mesmas teorias da organização abastecem cursos de
comunicação organizacional ou de comunicação administrativa.
Em suma, a comunicação tornou-se, gostemos ou não, um lugar de
encontro e de conflito entre as ciências de gestão e as ciências sociais. Os
poderes públicos têm estimulado ou provocado essa orientação. Isso pelo
menos é o caso no Québec e no Canadá. Programas de assistência à pesquisa
são organizados, desde alguns anos, a fim de promover a parceria entre governo, empresas privadas e universidades. A organização da pesquisa, orientada
para o desenvolvimento de parcerias, cria este lugar de encontro e define as
condições para a prática da pesquisa. Isto não pode ser feito sem efeito sobre
as orientações da teoria comunicacional.
As ligações com as ciências da educação, em particular com a educação de adultos, são ainda mais antigas. Assim como nas ciências sociais, as
preocupações educacionais populares no Québec têm inspirado os primeiros
desenvolvimentos das ciências da comunicação e exercem uma influência
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decisiva, até o final dos anos 70. A institucionalização da formação e a decolagem da pesquisa em comunicação nas décadas 60 e 70 foram produzidas no
contexto de um amplo movimento de participação, de animação e educação
popular. Pode-se descrever como modernista a filosofia geral que as inspiraram, seja por suas reivindicações do direito de falar por todos, seja pelo
direito à comunicação ou por suas aspirações de transformação social e de
apropriação coletiva do projeto de mudança.
As experiências de comunicação alternativa e de educação popular
foram, então, lugares de encontros e conflitos entre especialistas de ciências sociais e de ciências da comunicação, profissionais da informação e de
produção audiovisual, educadores, facilitadores sociais, ativistas do meio
associativo. Os meios de comunicação eram vistos como ferramentas para
mudar a sociedade.
A partir dos anos 80, a problemática passa por profundas transformações
que resultam, em grande parte, da ascensão das ciências da administração e
da sua crescente influência no campo das comunicações. A concepção da relação comunicação-sociedade muda radicalmente. Os meios de comunicação
são cada vez menos vistos como instrumentos de mudança. Eles tornam-se
instrumentos de gestão de empresas, é claro, mas também do Estado e da
sociedade. As comunicações agora ocupam o polo magnético da relação comunicação-sociedade. Então, já não se pensa em termos de utilização de meios de
comunicação para a mudança social, mas sim em termos de uma adaptação
social necessária às mudanças no mundo das comunicações, uma adaptação
necessária do conjunto das necessidades da sociedade da informação.
Ainda é um projeto modernista, sem dúvida, mas de uma natureza
totalmente diferente. A gestão é o mundo da computação e da racionalidade instrumental. Nós gerenciamos tudo em nossas sociedades modernas,
como fartamente indica o vocabulário, tanto na vida cotidiana como em
várias áreas especializadas. Gerenciamos nossa relação matrimonial, nossos
problemas pessoais, gerenciamos nosso tempo, nosso estresse, o meio ambiente como gerenciamos nossas finanças, para não mencionar que, nossa
sociedade, gerenciamos o sistema de saúde, de educação, as prisões etc.
O pensamento estratégico é triunfante. É um paradoxo interessante analisar o fato de que esta atitude proativa frequentemente coexiste nos mesmos
indivíduos que aderem ao determinismo tecnológico. “O interesse dos es-
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pecialistas em administração em relação à comunicação é compreensível,
especialmente porque os avanços da digitalização têm expandido as possibilidades de controle e, consequentemente, de gestão”. (BENIGER, 1986)
Esta invasão da área de comunicação por especialistas de gestão não deixa
de ter influência sobre a orientação da teoria. Talvez devesse ser analisada nesta perspectiva a tese daqueles que afirmam que o cálculo assumiu a hegemonia
sobre o idioma. (LÉVY, 1990) Isso indicaria uma revolução do pensamento?
Sim, sem dúvida, do pensamento ideológico. Pois é um fato que a influência da
abordagem gerencial tende a marginalizar a reflexão sobre as finalidades em
comparação com o pensamento que se dedica ao cálculo dos meios.
Este renovado interesse para a comunicação não surpreende. Máquinas
para informar e comunicar gradualmente se impuseram em todas as áreas da
atividade social, tanto no local de trabalho como em casa. Especialistas em
todas as ciências sociais e ciências da gestão as encontram a qualquer tempo, intimamente relacionadas ao tema de suas preocupações mais imediatas.
O cientista político está questionado por seu uso em estratégias eleitorais,
na administração pública e pelas perspectivas da democracia futurista eletrônica. O especialista em gestão por sua proliferação em todos os tipos de
organizações e empresas, tanto para as atividades de produção como para
o planejamento, a administração ou a distribuição. O sociólogo por transformações, reais ou percebidas, que sugerem sua generalização em todos os
sectores da vida social e da comunidade. Sua onipresença levanta as questões
mais diversas e chama a atenção de especialistas de todos os tipos. Como
essas máquinas influenciam a organização do trabalho? Como usá-las para
melhorar a oferta de educação, saúde, assistência social? Elas oferecem uma
melhor produtividade? Elas contribuem para o desemprego ou a criação de
emprego? Qual é o seu impacto na vida familiar e social?
P o d e u m a t e o r ia d a c o m u n i c a ç ã o e x p l i c a r
a sociedade global ?
Entre os anos 70 e 90, a reflexão sobre as relações comunicação-sociedade se
desloca do tema da experimentação social alternativa para se fixar no tema
da gestão da sociedade global. Se a ideologia da comunicação (BRETON;
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PROULX, 1989) se impôs, ao ponto de dizer que a sociedade foi conquistada
pela comunicação (MIÈGE 1989, 1997), isso significaria que a teoria da
comunicação pode dar conta da sociedade global? Podemos entender a
sociedade atual a partir da comunicação, colocando-a como ponto de partida
e como ponto de chegada, como o alfa e o ômega da realidade social?
Esboços de teorias globalizantes eram relativamente numerosas em
ciências da comunicação. (MIÈGE, 1995) Também não é uma característica
exclusiva delas. As ciências sociais, especialmente a sociologia e a economia,
têm compartilhado esta ambição desde muito tempo. As tentativas mais
recentes, em comunicação, foram formuladas em termos de sociedade da
informação e em termos de globalização. E essas “teorias” são interessantes
porque parecem ser compartilhadas por especialistas de outras origens, tanto
das ciências sociais, como das ciências da gestão ou da educação.
A sociedade da informação e a globalização ou
a ambição da globalidade
Com a popularidade que conhece agora a expresão “sociedade da informação”, parece que a comunicação não só impulsiona a vanguarda, mas constitui
a essência da sociedade que está a tomar forma diante de nossos olhos, sendo a chave que leva à sua compreensão. Alguns economistas (MACHLUP,
1979; PORAT, 1977) e alguns sociólogos (BELL, 1973; TOURAINE, 1969) destacaram, já faz tempo, a importância da informação e do conhecimento no
funcionamento das economias e sociedades modernas. Mas é somente a partir dos anos 90, com projetos de construção de redes de banda larga, que o
termo conseguiu notoriedade.
Nem todos os discursos que descrevem a sociedade da informação têm
um carácter teórico. Longe disso. Mas seria um erro negligenciá-los. A história mostra a importância dos temas “propostos” pelos poderes públicos e
privados no desenvolvimento da pesquisa em comunicação (ver entre outros
Mattelart (1992) e Tremblay e Sénécal (1987).
Tal sociedade da informação seria aquela em que a informação e o conhecimento se tornariam os principais fatores de produção e onde a maioria
dos trabalhadores estaria ocupada com tarefas de recolha, tratamento e trans-
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missão de informações; uma sociedade onde a competitividade da economia
dependeria principalmente do domínio do conhecimento e da inovação. O
uso adequado das novas tecnologias de informação e comunicação deveria,
de acordo com os seus promotores, permitir, ao mesmo tempo, aumentar
a produtividade e melhorar a qualidade dos serviços. Claro que, nesta nova
sociedade, as redes de banda larga e a rápida difusão cobrem todo o planeta
e tornam disponíveis, a preços acessíveis a todos, os recursos disponíveis em
termos de conhecimento, informação e entretenimento.2
Entretanto há mais. A expresão “sociedade da informação” reflete o
desejo de pensar a totalidade do social em termos de comunicação (especificamente em termos de informação). Ela indica a superação de uma concepção
instrumental da comunicação definida como um conjunto de recursos para
fazer a guerra, para assegurar o progresso e a cultura (MATTELART, 1994)
em que ela substitui uma abordagem essencialista da comunicação, na qual
a comunicação parece como a essência da sociedade. A hipótese é plausível
e iluminadora? As ciências da comunicação se tornaram ciências da sociedade global, substituindo – ou abraçando – a sociologia em seus esforços para
explicar o fato social total (MAUSS, 1980)? Estaríamos tentando alcançar o
sonho de um Lévi-Strauss (1958) que, nos anos 50, evocou, em um capítulo
de Antropologia estrutural, criar uma vasta ciência da comunicação baseada
nos isomorfismos que poderíamos observar entre as regras de troca de bens
materiais, de pessoas e de símbolos? É legítima tal reivindicação ao status de
“rainha das ciências sociais”? Não é uma ambição excessiva, mesmo em uma
perspectiva mcluhanienna?
A todas estas questões, outra está subjacente: é possível projetar a totalidade da sociedade como um vasto sistema de comunicação? É possível
compreender a sociedade só a partir da comunicação? A comunicação é, naturalmente, necessária para a vida social. Toda organização, cada cultura é
impensável sem código e sem sistemas de troca. Mas isso não significa que a
vida social é reduzida apenas para actividades de comunicação.
2 Tratamos este tema da sociedade da informação com mais detalhes em Tremblay (1995) e também em Lacroix e Tremblay (1997).
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Qualquer tentativa de generalizar postulados necessariamente parciais,
subjacentes a qualquer disciplina; ou pior ainda, tentar generalizar os “a
priori” de uma escola de pensamento ou de uma teoria em particular no
campo desta disciplina, tudo isso leva necessariamente a visões reducionistas
e a teorias simplistas do social, como bem o ilustraram os economistas
liberais e os neoliberais ao tentarem estender à totalidade do social seus
pressupostos questionáveis sobre
​​
o homo economicus e o funcionamento
perfeito do mercado. As teorias da comunicação não podem escapar das
mesmas armadilhas quando viajarem pelas mesmas vias.
Para entender a sociedade em sua totalidade a partir da comunicação é
essencial completar e enriquecer a sua perspectiva de partida com a necessária contribuição de outras perspectivas disciplinares. A complexidade social
só pode ser compreendida através de uma atitude aberta, que implica a multidisciplinaridade e a transdisciplinaridade.
As teorias da sociedade da informação não atendem a esses requisitos.
Observemos, em primeiro lugar, os termos usados​​. Falam de sociedade da
informação e não de sociedade da comunicação, com bastante ambiguidade para substituir um termo pelo outro. A escolha das palavras nunca é
inocente. Informação é um conceito mais preciso, porém, mais restrito do
que o de comunicação. A informação é conteúdo, trocado ou armazenado. E
desde que Shannon (1948) propôs uma medida, expressa em bits,3 para melhorar o desempenho e o custo das trocas por sistemas de telecomunicações,
a informação refere-se a uma sucessão de sinais, independentemente do seu
sentido, o seu significado. A informação ignora a semântica como a pragmática, a outra seção das ciências da comunicação que se concentra sobre as
relações de interinfluência entre aqueles que se comunicam uns com os outros. A informação assim se refere ao que pode ser medido quantitativamente
e economicamente. A informação é um produto que tem um valor que pode
ser armazenado, processado​​, vendido e comprado.
3Notemos que a fórmula de medição da informação de Shannon é contemporânea aos primeiros
desenvolvimentos da informática. A unidade de medida, o bit, é aliás utilizada tanto em informática como em telecomunicações. A convergência entre as técnicas de comunicações, das quais tanto
se fala desde os anos 90, já havia colocado seus primeiros fundamentos desde o Pós-Guerra.
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A comunicação, ao contrário, inclui tudo, tanto o conteúdo como o
recipiente e o processo. Comunicar é ligar as pessoas, os grupos sociais. A comunicação não se limita à produção, transmissão e recepção de informação
que é instrumental e econômica. É troca de símbolos, um processo multifuncional. Certamente, pode ser utilitária, funcional (função informativa). Mas
também é compartilhar significado (função semântica), objeto dos estudos
semióticos. Finalmente, desenvolve o que o linguista Roman Jakobson chamou a função fática, ou seja, essa relação sem utilidade aparente, só prazer
de troca, comunicar com os outros, para repetir e reforçar os laços sociais.4
A comunicação pode, evidentemente, ser objeto de medição. Podemos atribui-la um preço, como sabem fazer as empresas de telefonia, que vendem o
uso de infraestrutura de transmissão e o tempo de comunicação. Mas esta
tradução quantitativa da comunicação pode ser feita à custa da redução a
seus componentes técnicos, utilitários, informativos. É a deriva que ameaça
toda abordagem em termos de sociedade da informação.
O determinismo tecnológico subjacente ao modelo da sociedade da informação, em que a evolução da tecnologia da informação e comunicação é
apresentada como o fator determinante de mudança, é uma explicação reducionista necessariamente incapaz de tomar em consideração as estratégias
dos jogadores e os conflitos resultantes. É também uma leitura que oculta
todos os problemas e desafios enfrentados pelas sociedades contemporâneas,
que não resultam diretamente ou principalmente do desenvolvimento das
técnicas de comunicação e informação: as desigualdades sociais, a pobreza,
a marginalização e a exclusão etc.
Precisa-se enraizar as ciências da comunicação no
campo das ciências sociais
Uma teoria da comunicação que tem como objetivo dar conta do social deve
necessariamente ser articulada a uma teoria da produção material (de transformação do mundo, de produção de riqueza) e a uma teoria das relações de
4Lee Thayer (1968), de sua parte, distingue quatro tipos de funções da comunicação: a função
informativa, as funções de ordem e de instrução; as funções de influência e de persuasão; as
funções integrativas.
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poder, em suma, ao que Nicholas Garnham (1990) chama de uma economia
política da comunicação. Esta exigência é tanto mais necessária nas sociedades de hoje, onde a comunicação, desde a criação de seus produtos até a
sua distribuição, é ampla e profundamente enraizada no modo de produção
capitalista.
A obra de Harold Innis é um bom exemplo desta necessária conexão
das ciências da comunicação com outras ciências sociais, particularmente a
história, a sociologia, a economia e a ciência política. Se a tese de Innis é construída em torno do papel central das tecnologias de comunicação na criação
e sobrevivência dos impérios, os conceitos de monopólio ou oligopólio do
conhecimento e do equilíbrio entre os meios de comunicação favorecendo
viés temporal e viés espacial – uma transposição de conceitos da economia –
desempenham um papel maior na construção de seu argumento. E se o ponto
de partida de seu pensamento tem, a priori, a favor de um certo determinismo tecnológico, a análise histórica e detalhada que ele desenvolve, ela atribui
grande importância aos conceitos de interesse, de poder, de acessibilidade
e alocação de recursos. Isso resulta em um modelo explicativo muito mais
complexo do que se podia vislumbrar a partir da hipótese inicial.
Espera-se que as ciências da comunicação reconectem com essa perspectiva que abraça a história, a sociologia, a ciência política e a economia.
É somente através de tal esforço que poderão chegar a uma explicação abrangente da sociedade a partir de uma análise da comunicação.
C o n h e c i m e n t o t e ó r i c o e e x p e r i ê n c ia p r át i c a
Sociólogos que se interessaram por
​​ temas como direito e saúde não criaram programas de formação em direito e medicina, nem fundaram novos
departamentos acadêmicos. Fizeram sociologia do direito e da saúde em
departamentos de ciências sociais ou se integraram a facultades de direito
e medicina, onde se encontraram em minoria e em situação marginal. Suas
pesquisas e escritos, sem dúvida, influenciaram os currículos e a prática profissional, mas ambos permaneceram respectivamente sob a responsabilidade
dos advogados ou médicos.
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Não tem sido o caso em comunicação. Os cientistas sociais que acreditavam na necessidade de desenvolver estudos e pesquisas em comunicação
tiveram que criar seus próprios espaços institucionais para isso. E nestes locais – escolas, institutos, departamentos – muitas vezes se combinaram com
as ciências sociais e a formação profissional. Assim se iniciaram relações originais entre a teoria e a prática, entre o conhecimento das ciências sociais e a
prática profissional em comunicação. Ao contrário do que aconteceu quando
os sociólogos estavam interessados ​​em direito ou em medicina, a participação
de cientistas sociais de comunicação tem resultado em influência real e significativa sobre os currículos e projetos de pesquisa. Mas, ao mesmo tempo,
estes marginais em sua própria disciplina – o resultado de escolhas pessoais
ou indiferença ou desprezo de seus colegas pelos fenômenos de comunicação – encontraram-se fazendo outra coisa, mas não ciências sociais. Eles
sempre enfrentaram problemas de gestão e de prática profissional. Por interessante que seja, essa posição levanta novas questões sobre a relação entre
teoria e prática, que devem ser clarificadas. Pelos teóricos da comunicação,
ela também provoca muitas vezes um emaranhado complexo entre análise e
normatividade, cujas consequências foram pouco aprofundadas.
Evoco rapidamente aqui essa complexa questão das relações entre o conhecimento teórico e a prática profissional. É necessário fazer uma análise
mais cuidadosa porque as ciências da informação e comunicação estão no
centro do acelerado processo de industrialização e mercantilização da educação, um processo ainda mais acentuado no nível de pós-graduação, pela
expansão das novas tecnologias de informação e de comunicação.
C o n s i d e r a ç õ e s f i n ai s : a c r i s e d a s c i ê n c ia s s o c iai s
As ciências sociais estão passando por um período difícil desde os anos 80.
Alguns não hesitam em falar de crise. Ela se manifesta de várias formas: um
declínio na popularidade de seus programas; a falta de credibilidade em
relação aos tomadores de decisão, públicos e privados, ou em relação à população; um questionamento de seus modelos gerais, uma renovação teórica
difícil etc. Mais geralmente, é preciso invocar a ênfase em todo o sistema de
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ensino sobre a qualificação profissional e a formação utilitária em detrimento
do aprofundamento do conhecimento, da análise teórica e da pesquisa desinteressada. Isso resulta em uma desqualificação das análises críticas.
Esta crise também afeta as ciências da comunicação a partir de vários
ângulos. Com certeza, novos temas e objetos de pesquisa se impuseram ao
longo dos últimos quinze anos. Porém, me parece que a problemática aqui
analizada permanece relevante. Os estudos de comunicação ainda são muito
populares entre os alunos. Mas eles são mais atraídos por seus aspetos práticos e as profissões de produção – do jornalismo ao multimídia passando pelo
audiovisual –, que pela análise inspirada por paradigmas das ciências sociais.
Além da sedução da clientela de alunos, o verdadeiro desafio da vitalidade
de uma abordagem inspirada pelas ciências sociais fica na própria definição
do lugar que as ciências da comunicação querem ocupar além da gestão e do
profissionalismo.
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O campo dos
estudos em
comunicação no
Canadá
Ponto de vista a partir do programa de
doutorado conjunto em Montréal
Ér ic George
Introdução
A comunicação é, antes de tudo: uma prática, uma arte ou então uma ciência, uma disciplina? Este tipo de questionamento não é recente. No entanto,
me parece ainda ser de grande atualidade. O simples fato de falar em estudos
em comunicação (ou Communication Studies) nos leva a fazer uma escolha em
favor de um conhecimento que é possível, pelo menos em certa medida, de
transmitir e enriquecer no contexto das instituições de ensino, incluindo a
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universidade. E se estamos realmente no âmbito da ciência, podemos falar de
um registro no campo das ciências sociais, humanidades ou devemos também
colocar a ênfase nas ciências da engenharia ou ciências da natureza? Por outro
lado, poderíamos falar de disciplina ou seria melhor optar pela interdisciplina,
ou apenas simplesmente pelo objeto, que seria, por sua parte, comunicacional,
devido à falta de perspectiva? Todas estas questões merecem ser contempladas
em um livro dedicado às teorias da comunicação (midiática) no Brasil e no
Canadá. Além disso, seria ainda possível considerar a possibilidade ou não,
e também a relevância, de distinguir a pesquisa em comunicação midiática
e a pesquisa em comunicação que não se refere aos meios. Se for possível
distinguir os subconjuntos que constituem a comunicação mediática, a comunicação organizacional e a comunicação interpessoal – embora uma definição
ampla da organização pudesse prontamente incluir a comunicação interpessoal –, torna-se rapidamente mais difícil distinguir de um lado a comunicação
mediática e do outro a comunicação pública ou comunicação social.
Este conjunto de questionamentos parece tanto mais complexo de
analisar que essas considerações epistemológicas serão difíceis de examinar
sem fazer referência ao contexto, notadamente o contexto institucional no
qual os estudos que doravante chamaremos de estudos em comunicação,
se desenvolvem. Por contexto institucional consideramos, especificamente, o contexto da universidade em que trabalham, pelo menos no Canadá,
a maioria dos pesquisadores e estudantes que refletem sobre essas questões.
Departamento de Comunicação da Universidade de Montréal, Departamento de Informação-Comunicação na Universidade Laval, Departamento
de Letras e de Comunicação da Universidade de Québec em Trois-Rivières
(UQTR), do Departamento de História da Arte e Estudos da Comunicação na
McGill University, Departamento de Letras e Comunicação da Universidade de Sherbrooke, Departamento de Estudos de Comunicação na Concordia
(Montréal), Escola das Mídias e Departamento de Comunicação Social e Pública da Universidade de Québec em Montréal (UQAM); as designações que
incluem pesquisadores e estudantes variam muito, mesmo dentro da província do Québec. O objetivo deste texto é focar nossa atenção na situação
dos estudos em comunicação a partir da análise da evolução do conteúdo,
especialmente em termos de cursos, dentro do programa conjunto de comu-
36—Éric George
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nicação de três das quatro universidades de Montréal: Concordia University,
a Universidade de Montréal e a Universidade de Québec em Montréal.
Esta perspectiva nos parece particularmente relevante, pois acreditamos
que a reflexão sobre o estado dos estudos em comunicação vai depender, pelo
menos em parte, da graduação anterior, atual e futura dos doutorandos que
terão concluído esses estudos, doutorandos que têm ou chegarão a ter cargos de professores e pesquisadores. Para completar a nossa análise, vamos
discutir em primeiro lugar a criação do programa e as orientações iniciais.
Depois, vamos analisar em uma segunda etapa as mudanças importantes
feitas durante a década de 2000. Para concluir questionando o futuro dos
estudos em comunicação, veremos que, se inicialmente a busca de coerência
era dominante, particularmente desde a década de 2000, a ênfase tende a
ser colocada sobre a diversidade que aparece doravante caracterizar antes de
tudo os estudos em comunicação.
D e v o lta à c r ia ç ã o e à s o r i e n ta ç õ e s i n i c iai s
O programa conjunto foi lançado em 1987, em um contexto em que existia
somente um doutorado em comunicação no Québec, na Universidade McGill, e no Canadá inglês, na Universidade Simon Fraser, em British Columbia.
Ele foi criado quando, em média, 25 estudantes de mestrado se formavam a
cada ano nas quatro universidades da cidade de Montréal, embora McGill
oferecesse apenas três vagas por ano no seu programa de doutorado. Além
disso, com um corpo docente de cerca de 60 membros, as três universidades que compunham o futuro programa conjunto concentravam a metade
dos recursos do Canadá inteiro. No entanto, tiveram que contratar jovens
professores que tinham concluído seu doutorado ou em outras disciplinas
ou em outros países, devido à ausência de ofertas significativas de programa
de doutorado em comunicação no Québec e no Canadá. Logo no início, 22
professores foram capacitados para ensinar e orientar teses. Parte dos colegas
da UQAM não podia, de fato, pretender intervir neste nível de estudos de
pós-graduação, pois, enquanto profissionais, eles próprios não tinham diplomas de doutorado. No entanto, a oferta de cursos sempre foi significativa
O campo dos estudos em comunicação no Canadá—
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no contexto da formação seguida por todos os estudantes. No lançamento
do programa, este período de curso incluía, entre outros, 18 créditos de seminários. Todos deviam ser liderados por dois professores de duas das três
universidades de ensino em team-teaching e havia um fórum de doutorado
que depois reunia todos os estudantes inscritos no programa. Os especialistas
externos consultados pelo subcomitê de avaliação dos programas da Conferência dos Reitores e Diretores das Universidades do Québec (CRÉPUQ)1
também destacaram a importância acordada aos seminários no momento de
autorizar a criação deste programa. (UdeM; UQAM, 1987) Ainda hoje, essa
grade curricular representa uma fase importante, com os 15 créditos de cinco
seminários e 6 créditos do fórum de doutorado aos quais devem ser adicionados os 6 créditos do projeto de tese que concluem o curso.
Além disso, o programa incluía quatro eixos principais em termos de
ensino e pesquisa:
•
Aspectos sociais e culturais das tecnologias de informação e comunicação
•
Análise dos discursos e mensagens dos meios
•
Organização e redes de comunicação
•
Comunicação e desenvolvimento
Cada estudante deve se inscrever em um ou dois eixos e seguir os cursos
integrados nos mesmos. Além disso, era necessário passar a fase da prova de
síntese, rebatizada desde então de prova de doutorado, no final do primeiro
ou, se for o caso, no final do segundo ano. Esta tinha como objetivo avaliar os
conteúdos teóricos suscetíveis de interessar o estudante durante seu percurso até a defesa da tese. Uma pergunta, a mesma para todos, era apresentada
ao estudante que devia responder com a ajuda de uma bibliografia, na qual
uma dúzia de referências vinha de uma lista específica de cada eixo, atualizada mais ou menos regularmente pelos professores que registravam suas
pesquisas em um determinado eixo.
1
Conférence des recteurs et des principaux des universités du Québec.
38—Éric George
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5/20/14 4:31 PM
O primeiro ano, o percurso de formação era como se segue, conforme
descrito no documento Rapport d’évolution 1987-1993,2 (1994, p. 4):
Dois seminários dos eixos a serem escolhidos dentro dos quatro
oferecidos anualmente
12 créditos
Seminário de epistemologia
6 créditos
Fórum do doutorado
3 créditos
Oficina de Pesquisa
9 créditos
Aceitação do projeto de tese
6 créditos
Total das aulas
36 créditos
Tese
54 créditos
As características do programa mencionadas acima (necessidade da
inscrição em um ou dois dos quatro eixos, obrigação da existência de um
seminário de epistemologia, aulas ministradas por dois professores de duas
universidades, bibliografia parcialmente imposta para a prova de síntese) inicialmente procuravam se basear numa coerência forte objetivando estruturar
fortemente o campo dos estudos em comunicação, enquanto se beneficiavam
das contribuições recíprocas de dois colegas de duas universidades diferentes.
No entanto, as mudanças foram muito rápidas.
Em 1993-1994, o percurso tornou-se o seguinte:
Dois seminários dos eixos a serem escolhidos dentro dos quatro
oferecidos anualmente ou Um seminário de eixo e dois seminários
especializados de 3 créditos
12 créditos
Fórum do doutorado
6 créditos
Duas Oficinas de Pesquisa de 3 créditos
9 créditos
Aceitação do projeto de tese
6 créditos
Total das aulas
30 créditos
Tese
60 créditos
2Relatório de evolução. (N.T.)
O campo dos estudos em comunicação no Canadá—
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39
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O seminário de epistemologia foi cancelado após os dois primeiros
anos, pois foi considerado que duplicava os seminários dos eixos. Também
foram introduzidos os seminários de 3 créditos dados por um só professor,
em setembro de 1993. Os mesmos tinham como objetivo “proporcionar uma
formação mais especializada em determinadas áreas, particularmente em
metodologia” assim como “tratar das temáticas que sobrepõem vários eixos e
promovem a articulação dos mesmos”. (UdeM; UQAM, 1993, p. 5) O fórum de
doutorado se revelou ser um elemento importante da proposta pedagógica e
passou a ter 6 créditos, dos 3 anteriores, em 1990-1991. A oficina de pesquisa
realizada com o orientador da tese passou de 9 a 6 créditos e foi dividida em
dois (2 vezes 3 créditos) para promover uma maior flexibilidade.
A busca por certa coerência ou até por uma coerência certa no início
do programa foi então dando gradualmente lugar a uma expressão cada vez
mais plural. Isso é explicado, em parte, pela evolução do número de professores. Em 1987, 22 professores eram elegíveis para o programa de doutorado
(6 na Concordia, 7 na Universidade de Montréal e 9 na UQAM). Em 1993,
esse número havia aumentado em 68%, com um total de 37 para as três universidades (9 na Concordia, 12 na Universidade de Montréal, 16 na UQAM).
Pode-se também notar que, se os eixos 1 e 2 eram altamente dominantes em
termos de interesses de pesquisa entre os professores no início do programa,
o forte crescimento da participação de professores registrando suas atividades nos eixos 3 e 4, entre 1987 e 1993, favoreceu grandemente um reequilíbrio
entre os quatro eixos. No entanto, o estudo da história do programa vai nos
levar a considerar que as mudanças mais importantes foram feitas alguns
anos mais tarde.
A s m u d a n ç a s n o táv e i s d
​​ e s d e 2 0 0 5
Em 2005, a estrutura do programa tinha mudado um pouco, ou seja: 63 créditos para a tese, 21 créditos para os cursos, 6 créditos para o projeto de tese, a
prova de síntese ainda não tinha créditos. Foi nesta época que aconteceram as
mudanças mais significativas na estrutura do programa. Antes de prosseguir
40—Éric George
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 40
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para as mudanças realizadas, é importante aqui mencionar alguns novos elementos de contexto. Primeiro, outros programas de doutorado foram criados
no Canadá, desde a criação do programa conjunto em Montréal. Pensamos,
por exemplo, nos das universidades de Calgary, de Carleton (Ottawa) e de
York (Toronto). Segundo, o período foi marcado pela graduação de estudantes
matriculados no programa e também pela contratação de novos professores.
Em 2012, 45 professores na UQAM, 26 na Concordia e 18 na Universidade de
Montréal podem ser elegíveis para o programa de doutorado para orientar
teses de doutorado em comunicação. Terceiro, os estudantes solicitaram a
possibilidade de seguir um percurso mais flexível para especialmente seguir
os seminários de sua escolha de acordo com seus interesses de pesquisa para
realizar sua tese em seguida.
Primeira mudança notável: a substituição dos quatro eixos em cinco
áreas e a criação de novos cursos.
Com o fim dos quatro seminários de eixos, os seminários especializados
foram desenvolvidos, uma maioria vinda de um banco de cursos permanentes e uma minoria correspondente a cursos de conteúdo variável em função
dos interesses de pesquisa dos professores.
Isso resultou no seguinte percurso:
Seminário de integração
3 créditos
Quatro cursos (4x3 cr.)
12 créditos
Possibilidade de trocar um seminário por uma oficina de pesquisa
Fórum do doutorado
6 créditos
Aceitação do projeto de tese
6 créditos
Total das aulas
27 créditos
Tese
63 créditos
Anteriormente, tínhamos o seguinte esquema (excluindo os seminários
de conteúdo variável).
O campo dos estudos em comunicação no Canadá—
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41
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Eixos e cursos correspondentes (antes da reforma de 2005)
•
Eixo 1: aspectos sociais e culturais das TICs3
As indústrias culturais
Recepção das mídias
As Políticas de comunicação
Tecnologias de comunicação
•
Eixo 2: análise dos discursos e mensagens médiadas
Comunicação e desempenho
Teorias semióticas e hermenêuticas
Discursos e representação
Análise do discurso social
•
Eixo 3: Organização e redes de comunicação
A organização como discurso: a noção de cultura organizacional
Comunicação organizacional e ambientes
A comunicação interpessoal nas organizações
A Mudança organizacional
•
Eixo 4: Comunicação e Desenvolvimento
Comunicação, Cooperação Internacional e Desenvolvimento
Comunicação e as instituições multilaterais
Comunicação intercultural
Globalização dos meios de comunicação e desenvolvimento
cultural
3
Tecnologias da Informação e da Comunicação.
42—Éric George
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Áreas e cursos relacionados (após a reforma de 2005)
•
Área 1: Comunicação Internacional e Desenvolvimento
Comunicação e Desenvolvimento
Comunicação, conflitos e paz
Identidades e intercâmbios culturais
Globalização das comunicações
•
Área 2: Comunicação organizacional e redes de comunicação.
Teorias da comunicação organizacional
Cultura Organizacional
Comunicação e mudança nas organizações
Comunicação, interações e discurso nas organizações
Organização e redes de comunicação
Tecnologia e organizações
•
Área 3: Estudos midiáticos e Cultural Studies
Teorias culturais em estudos de comunicação
Recepção das mídias
História e historiografia das mídias e da cultura
Mídias alternativas
Cultura popular
•
Área 4: Tecnologias da Informação e Comunicação e Sociedade
Indústrias Culturais
Políticas de comunicação
Tecnologias de comunicação e sociedade
Tecnologia midiática como prática
Usos das tecnologias da informação e da comunicação
O campo dos estudos em comunicação no Canadá—
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Interação humano-computador
Comunicação, democracia e poder
•
Área 5: Teorias e análise dos discursos
Comunicação e desempenho
Análise do discurso social
Discursos e representação
Estratégias e estilos de comunicação
Discursos do Corpo
O que podemos aprender com essas mudanças?
Primeiro, o antigo eixo 1 Aspectos sociais e culturais das tecnologias da informação e da comunicação foi dividido em duas áreas: a área 3, Estudos midiáticos
e Cultural Studies e a área 4, Tecnologia da Informação e Comunicação e Sociedade. Nesta ocasião, o campo dos Cultural Studies que não parava de se
desenvolver na Universidade de Concordia foi institucionalizado. Podemos
também notar o forte desenvolvimento de cursos dedicados às tecnologias,
especificamente às tecnologias da informação e da comunicação (TIC). De
fato, passamos da oferta de um único curso (Tecnologias da Comunicação)
a cinco cursos (incluindo o curso Interação humano-computador que não
inclui a palavra “técnica” em seu título).
Note-se também que o termo “comunicação” tornou-se muito mais presente na área 2 do que era no eixo 3. Enquanto às áreas 1 e 5, ficaram bastante
próximas aos antigos eixos 2 e 4. Não devemos esquecer a presença contínua
de seminários de conteúdo variável, que foram justificados da seguinte maneira:
Cada ano, o programa oferecerá uma seleção de seminários especializados representativa das diferentes áreas do programa, com
cerca da metade destes seminários vindo de um banco de cursos
permanentes (cursos com conteúdo determinado), a outra meta-
44—Éric George
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de sendo constituída por seminários atendendo às necessidades
pontuais ou contemplando conteúdos particulares propostos pelos professores/professoras (cursos de conteúdo variável). (UdeM;
UQAM, 2004a)
Em segundo lugar, a eliminação dos eixos resultou em várias outras
mudanças: nesta ocasião, os cursos dos eixos foram, naturalmente, também
eliminados. Por consequência, isso permitiu que os estudantes tivessem uma
oferta de cursos mais aberta, visto que antes eles tinham restrições em suas
escolhas de cursos de acordo com sua inscrição em um determinado eixo.
Doravante, as áreas de pesquisa representam apenas pontos de referências.
No entanto, para não incentivar demasiada dispersão, um novo seminário,
chamado seminário de integração, foi criado. O mesmo tinha como objetivo:
Para proporcionar um lugar para a apresentação de recursos e
orientações do programa e oferecer ao estudante uma série de
abordagens, objetos, teorias e métodos privilegiados pelos professores do programa, e isso através dos três departamentos parceiros
e das cinco áreas contempladas pelo programa. O mesmo poderá
também servir para introduzir as abordagens epistemológicas e metodológicas que caracterizam o campo. (UdeM; UQAM, 2005, p. 3)
Dito isto, além desta apresentação, este seminário foi dado de diferentes maneiras de acordo com os colegas que o proporcionavam. Observamos,
entretanto, que essa era uma oportunidade de convidar vários colegas das
três universidades que assim apresentavam suas perspectivas epistemológicas, suas escolhas teóricas e metodológicas assim como seus resultados de
pesquisa. Parece-nos que isto permitia, por consequência, que os estudantes
do programa encontrassem assim um ponto de vista um pouco mais global
sobre os estudos em comunicação do que permitiam os seminários especializados. Estamos falando no passado porque o seminário foi posteriormente
cancelado, especialmente após críticas estudantis relativas à forma como o
mesmo foi dado.
Terceiro, o lugar da metodologia tem sido objeto de debate. Lendo os
documentos que relataram as discussões em reuniões, incluindo das jornadas
O campo dos estudos em comunicação no Canadá—
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de estudo entre professores e estudantes, por exemplo, o dia 13 de fevereiro de
2004, verificou-se que os representantes das três universidades tinham posições divergentes sobre a importância da metodologia no currículo. A posição
era muito favorável à existência de um curso obrigatório para todos os estudantes de doutorado da Universidade de Montréal. No entanto, na Concordia
e na UQAM, a tendência era de não estabelecer obrigações muito fortes para
os estudantes porque, na verdade, a tendência dominante era pela abertura
em termos de seleção de curso. (UdeM; UQAM, 2004b)
As discussões incluíram, em especial, o fato de que era impossível contemplar um curso em que todos os métodos de pesquisa mobilizados em
comunicação poderiam ser apresentados e testados em detalhes. O campo
dos estudos em comunicação foi considerado vasto demais para ser objeto de
um único curso. Assim, decidiu-se que os métodos de pesquisa e além, a metodologia, deviam ser tratados mais especificamente em cada seminário. Isso
refletiria assim a diversidade, tornando-se a característica número um dos
estudos em comunicação. Nota-se também que cada colega pode desejar dar
um curso com enfoque metodológico no contexto de um seminário com conteúdo variável. Mas isso depende doravante apenas das iniciativas pessoais
pontuais e da maneira como essas propostas serão recebidas pelos membros
dos comitês de programas locais e conjuntos encarregados da atribuição dos
cursos a cada ano.
Em quarto lugar, os elementos de bibliografia obrigatórios para a prova
de doutorado foram removidos com o fim dos eixos em 2005. Em seguida,
dois anos depois, foi a questão única que foi excluída. Até então, na verdade,
todos os estudantes deviam responder à mesma pergunta. No final da década
de 2000, antes de sua remoção, a pergunta era a seguinte: “Exponha as principais correntes de pensamento em seu campo de pesquisa e desenvolva
uma reflexão crítica em relação a essas correntes. Na conclusão de sua
prova, indique a relevância desta reflexão para seu projeto de tese”.
Doravante, os professores membros dos comitês da prova de síntese,
rebatizada na ocasião prova de doutorado, tiveram a possibilidade de eles
mesmos escolherem as duas perguntas que seriam respondidas pelo estudante. Essa mudança foi explicada como se referindo à autonomia acadêmica
tanto dos professores, quanto dos estudantes. Durante uma jornada de es-
46—Éric George
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tudo realizada em 3 de novembro de 2000, alguns professores tinham até se
perguntado se a imposição de tal bibliografia não era incompatível com o
princípio da liberdade acadêmica. Mais uma vez, nos afastamos mais um pouco de um modelo acadêmico normativo para favorecer um modelo à la carte.
Em quinto lugar, em 2005, a possibilidade de realizar a tese em pesquisa-criação, e não apenas da forma tradicional em pesquisa, foi introduzida. Na
verdade, a possibilidade foi introduzida em Concordia e na Universidade de
Montréal, mas não na UQAM, onde o programa de mestrado em pesquisa-criação era, contudo, dinâmico. O problema era principalmente de ordem
institucional e deveria ser resolvido em breve, após mais de sete anos. De
qualquer forma, a abertura para a pesquisa-criação abriu ainda mais o campo
da comunicação visto que, segundo a definição de uma tese de pesquisa-criação, a mesma deve incluir os elementos seguintes:
A tese de pesquisa-criação inclui um componente de prática de
criação ou de produção inovadora na área dos meios/comunicações, e um componente de escrita. Ela responde aos mesmos requisitos que a tese-pesquisa tradicional, salvo o tamanho do componente de escrita (cerca de 150 páginas).
Continuidade em termos de requisitos e especificamente da coerência
da problemática até a metodologia, passando pelo quadro teórico, mas também mudança com a introdução de um trabalho de criação que se refere à
produção.
Pa r a c o n c l u i r
A reforma de 2005 foi baseada nos seguintes objetivos:
O principal objetivo da reforma é a introdução de uma maior
flexibilidade no programa, sem sacrificar a coerência. Isso representa um grande desafio, especialmente tendo em conta as
três culturas departamentais que coexistem dentro do programa. A reforma proposta tem por objetivo, portanto, manter e
fortalecer a natureza conjunta do programa, enquanto permite
O campo dos estudos em comunicação no Canadá—
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uma maior margem de manobra para as unidades locais. Mais
importante ainda, ela também pretende fornecer um percurso
mais individualizado para cada estudante, inclusive eliminando a necessidade de o estudante se associar fortemente com um
determinado eixo desde o início de seu programa de estudos.
Finalmente, pretende-se atualizar a cara do programa, substituindo os quatro antigos ‘eixos’ em seis ‘áreas’, para melhor refletir a orientação global do programa e dos interesses de seus
membros. (UdeM; UQAM, 2004c)
Introduzir uma maior flexibilidade no programa, mantendo a sua coerência. Flexibilidade e coerência. Não é tão óbvio, nem tão simples, combinar
as duas qualidades. Como vimos anteriormente, a coerência estava definitivamente presente na criação do programa e essa qualidade era provavelmente
necessária de qualquer maneira para que ele fosse aceito pelo Ministério da
Educação do Québec. Mas ela continua sendo uma característica marcante
do programa? Podemos ao menos nos permitir formular essa pergunta. Ao
longo do tempo, a ênfase tem sido colocada na flexibilidade e, como já mencionado, na diversidade.
De outra parte, é preciso dizer que o próprio campo dos estudos em
comunicação vem se tornando cada vez mais complexo e isso muito além de
Montréal e do programa conjunto. Podia-se ler, dessa forma, o trecho que se
segue, extraído do Projeto de maior modificação do programa em 2005:
O campo das comunicações evolui rapidamente. A inovação tecnológica e social é constante. Um programa elaborado há mais de
dez anos não podia integrar, por exemplo, todos os fenômenos
associados com o desenvolvimento do multimídia e da Internet.
As problemáticas da globalização também passaram por mudanças
significativas na última década e os movimentos sociais antiglobalização também têm crescido consideravelmente. Cada um desses
fenômenos comunicacionais – e seus componentes econômicos,
sociais e políticos – levou à realização de muitos estudos e à publicação de uma quantidade considerável de livros, documentos
e artigos. A abordagem de ‘Cultural Studies’, por exemplo, tão importante na tradição Inglesa, diversificou-se consideravelmente.
48—Éric George
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A análise do discurso, a semiologia e a retórica continuaram seu
desenvolvimento e sua contribuição para a compreensão dos conteúdos. A história das ciências da informação e da comunicação
tem sido enriquecida por muitas novas contribuições. A teoria da
difusão tem sido alvo de críticas consideráveis ​​e de novas abordagens, como a teoria da tradução, surgiram como alternativas de explicação. A teoria das indústrias culturais e a economia política da
comunicação se tornaram mais complexas e formularam críticas
importantes acerca da sociedade da informação e da economia do
conhecimento. A apropriação das tecnologias digitais tem levado
ao desenvolvimento de novas teorias dos usos, dos objetos (como
o corpo) foram problematizados e teorizados em uma perspectiva
comunicacional. (UdeM; UQAM, 2005, p. 6)
Em paralelo, a composição do corpo docente das três universidades
continuou a crescer e a se diversificar. Na UQAM, em 2011-2012, havia 31 professores no Departamento de Comunicação Social e Pública e 30 professores
na Escola das Mídias, 45 podendo ensinar e/ou orientar teses de doutorado.
Na Universidade de Montréal, o Departamento de Comunicação tinha 18
professores. Na Universidade de Concordia, o Departamento de Estudos de
Comunicação tinha 26. A maioria podia ensinar e/ou orientar teses. Deve-se
notar aqui que todos os professores qualificados para dar aulas não podem
necessariamente ensinar e orientar teses. Na verdade, ter um doutorado e ter
experiência em pesquisa não é o suficiente para poder orientar teses de doutorado. Ser autorizado a orientar este tipo de trabalho requer a apresentação
de uma aplicação que será considerada tanto pelo comitê de programa local
da universidade de origem do candidato quanto pelo comitê do programa
conjunto. Para fazer isso, é necessário demonstrar atividades de pesquisa, especialmente durante os últimos cinco anos e ter experiência em orientação.
Em outras palavras, ter orientado três teses de mestrado com sucesso para se
candidatar (no caso da UQAM). Portanto, os professores em início de carreira
não podem orientar tese.
Finalmente, é a flexibilidade, a diversidade que tem prevalecido e tivemos a oportunidade de observar, durante o colóquio dos estudantes realizado
em abril de 2013 sobre os Desafios e Futuros de comunicação, que esta quali-
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dade, a diversidade, era considerada muito positiva pela maioria dos nossos
colegas, começando com os de língua inglesa. Isso tudo é um pouco preocupante, pois é questionável até que ponto não há aqui uma falta flagrante
de vontade de refletir profundamente sobre a natureza dos estudos em comunicação. Dito isto, nenhuma situação está imutável, porque o programa
de doutorado sempre se baseou na constante adaptação em vários procedimentos de avaliação parciais, especialmente em torno das jornadas de estudo.
Assim, em uma reunião do subcomitê sobre a reforma curricular realizada em
27 de janeiro de 2003, se contemplou a possibilidade de manter apenas três
eixos: 1) Mídias e tecnologias, 2) Práticas culturais e interculturais; 3) Redes,
comunidades e organizações. Havia também a questão da revisão dos eixos
a cada cinco anos para refletir sobre a natureza sempre em mudança dos estudos em comunicação, bem como o perfil dos professores contratados ao
longo dos anos nos departamentos. Desde então, continuamos a assistir ao
questionamento de um modelo pedagógico baseado em padrões, em favor
de um modelo que depende muito da escolha do estudante e da liberdade
acadêmica dos professores. Esta evolução correspondeu simultaneamente
à diversificação das perspectivas desenvolvidas no contexto dos estudos em
comunicação e à vontade de aumentar as escolhas para os estudantes em termos de curso. Mas nada diz que esta tendência dominante no momento não
encontrará uma tendência contrária, por exemplo, se houver contratação de
novos colegas que têm um doutorado em comunicação, seja do programa
conjunto ou de outro lugar. Suas sensibilidades em favor de uma reflexão
sobre o que são os estudos em comunicação poderiam, talvez, mudar esta
situação. Isso ilustra o quanto as dimensões epistemológicas e institucionais
são, decididamente, intrinsecamente ligadas.
R e f e r ê n c ia s
UdeM - UNIVERSIDADE DE MONTRÉAL; UQAM - UNIVERSIDADE DE
QUÉBEC. Parecer do Conselho de Universidades para o Ministro da Educação
e da Pesquisa. Projeto de programa conjunto de doutorado em comunicação
apresentado pela Universidade de Concordia, a Universidade de Montréal e a
Universidade de Québec. Montréal: Québec,1987.
50—Éric George
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UdeM - UNIVERSIDADE DE MONTRÉAL; UQAM - UNIVERSIDADE DE
QUÉBEC. Projeto de reforma do programa, Versão 2.2. Montréal: Québec, 20
abr. 2004a.
______. Projeto de reforma do programa, versão 2.0. 5 abr. Montréal: Québec,
2004c.
______. Projeto de maiores modificações do programa, em 2005. Programa
conjunto de doutorado em comunicação da Universidade de Concordia,
da Universidade de Montréal e da Universidade do Québec em Montréal.
Montréal: Québec, 2005.
______. Relatório de evolução 1987-1993. Programa conjunto de doutorado em
comunicação da Universidade de Concordia, da Universidade de Montréal e da
Universidade do Québec em Montréal. Montréal: Québec, 1993.
______. Tabela síntese das consultas, em 2004. Programa de doutorado
conjunto em comunicação da Universidade de Concordia, da Universidade de
Montréal e da Universidade do Québec em Montréal. Montréal: Québec, fev.
2004b.
O campo dos estudos em comunicação no Canadá—
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Escrita(s), mídias
e tecnologias do
intelecto
Notas sobre a atualidade dos trabalhos de
Goody
Oumar Kane
Introdução
O primeiro capítulo de A razão gráfica (La raison graphique) de Jack
Goody (1979) abre em destaque com uma citação do poeta senegalês Léopold
Sédar Senghor: “A emoção é negra, a razão helênica”. Palavras às quais ecoam
imediatamente a refutação do escritor nigeriano Wole Soyinka que contesta
a validade da teoria estética da negritude e acusa a mesma de tentar essencializar certos traços culturais, e de retomar o “silogismo racista” característico
do debate ideológico europeu.
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E é, em parte, entre os extremos deste debate que Goody procura efetuar uma mediação, através de seu interesse pelos modos de comunicação
dominantes nas sociedades humanas e sua análise das relações entre meios
de comunicação e modos de pensamento. Seu primeiro campo antropológico
será, para este propósito, a sociedade LoDagaa do Gana.
As mediações operadas pelos sistemas e os modos de comunicação são
determinantes aos olhos de Goody, o conceito de mediação permitindo-lhe
se colocar à revelia tanto das teses materialistas como das espiritualistas. Entretanto, ele não subestima as implicações da escrita que perturbam até os
procedimentos cognitivos humanos. Este é o objetivo do conceito de tecnologias do intelecto, que ele forjou para relatar este processo. Um pouco como
Harold Innis, mas partindo de uma perspectiva diferente, Goody tenta explicar a organização social não supondo uma “mentalidade pré-lógica primitiva”
ou um “milagre grego”, mas, ao contrário, estabelecendo uma correlação com
os modos de comunicação da oralidade e da escrita. Ao fazer isso, ele arranha
en passant Lévi-Strauss que, com sua distinção entre sociedades quentes e
frias e seu conceito de “pensamento selvagem”, teria se colocado na linha de
Lévy-Bruhl. Este último, cuja influência científica não poderia ser superestimada, mobilizou as noções de “mentalidade pré-lógica” e de “mentalidade
lógica”, sem considerar a influência determinante dos meios de comunicação sobre a produção do social e sobre os processos cognitivos. Para Goody,
a escrita influencia a organização social e as relações sociais, e nisto ele concorda com Innis. Mas ele vai mais longe, porque para ele a influência da
escrita sobre os processos cognitivos e sobre o desenvolvimento da ciência
é determinante: “Sem listas e sem tabelas, não há bio-logia (é um logos científico); sem saber escrever, não há matemática e sem traços sobre uma folha,
não há geometria; sem mapas ou esquemas não tem geografia (está escrito na
própria etimologia da palavra!)”. (GOODY, 2007, p. 238)
Sem que um diálogo explícito tenha se estabelecido entre os dois estudiosos, manifestadamente eles se empenharam em analisar os mesmos
fenômenos com a mesma ambição teórica e a mesma perspectiva histórica,
com resultados por vezes convergentes, por vezes irreconciliáveis. Vamos tentar identificar alguns dos fios desta emaranhada teia teórica que tem grandes
implicações nas ciências da comunicação e na teoria mediática. Parece-nos
também que este questionamento cruzado dos trabalhos de dois pesquisa-
54—Oumar Kane
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dores a partir de categorias que lhes são comuns é relevante e merece ser
complementado por uma aproximação de Goody e de McLuhan. Em outras
palavras, nos parece que a obra de Goody seja uma mediação útil, se não necessária, para qualquer comparação entre McLuhan e Innis. Este desvio pela
antropologia britânica permite estabelecer a ligação entre os pesquisadores
da Escola de Toronto, na qual se costuma classificar Innis e McLuhan. No
entanto, vamos nos restringir, no âmbito deste artigo, a iniciar um diálogo
entre Goody e Innis. Em um segundo momento, traremos as contribuições de
Herrenschmidt, que se interessa pela semiologia das escritas, a fim de questionar a relevância da obra de Goody para pensar novas formas de registro,
incluindo as formas correlativas ao desenvolvimento da informática e das redes informáticas. Goody servirá como pivô para questionar seu predecessor
(Innis), antes de ser ele mesmo questionado por trabalhos mais recentes que
estudam os mesmos objetos que ele (Herrenschmidt). A partir deste diálogo
duplo, esperamos mostrar a importância da contribuição de Goody para a
teoria mediática nas ciências da comunicação.
a. Innis à luz de Goody
Em sua introdução a The Bias of Communication, uma das principais obras de
Innis (1968), Marshall McLuhan afirma que o livro é o resultado de uma investigação sobre as causas das mudanças nas sociedades humanas, e que seu
autor é um identificador de patterns em dadas conjunturas históricas. É ao
estudo desses patterns ou formes que Innis e Goody se dedicaram, a partir de
culturas disciplinares diferentes, mas com implicações importantes para as
ciências da comunicação. Ou seja, o estudo dos determinantes relativamente
estáveis n
​​ o estudo dos meios foi o objeto da atenção destes autores, o que não
deixou de expô-los a grandes salvas de críticas.
A e s c r i ta e n t r e m e i o s , m o d o d e c o m u n i c a ç ã o e
t e c n o l o g ia d o i n t e l e c t o
Quais são os meios aproveitados pelo letramento (literacy) para construir seu
poder e seu império sobre a sociedade? Goody se vale do conceito de modos
Escrita(s), mídias e tecnologias do intelecto—
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de comunicação, seguindo duas modalidades bastante distintas. Em A razão
gráfica, o modo de comunicação é explicitamente enviado ao modo de produção de Marx: “não se pode realmente separar – para, em outro contexto,
me servir da terminologia de Marx – os meios de comunicação das relações
sociais, que em conjunto formam o modo de comunicação”. (GOODY, 1979,
p. 100) A evocação da relação entre os modos de comunicação e os modos de
produção e de reprodução do pensamento é muito clara, sendo que é graças
aos primeiros que os homens estão em interação mútua e “transmitem de geração em geração sua cultura e seus padrões de comportamento’”. (GOODY,
1979, p. 86) Mais recentemente, Goody (2007) parece distanciar-se do registro marxiano e usa a expressão “modos de comunicação” como sinônimo de
meios de comunicação ou tecnologia do intelecto.1 De fato, ele afirma que o
letramento não é um substituto para a oralidade como o capitalismo substituiu o feudalismo (ou o feudalismo a escravidão), mas que nasce um processo
de articulação entre a escrita e a oralidade no seio mesmo das sociedades.
O conceito de interface permite dar contar dessa articulação.
O problema da interface, ou seja, da coexistência de várias tecnologias
do intelecto (ou meios na terminologia de Innis) é analisado de forma muito
diferente pelos dois autores. Goody fala de uma “interface dissimétrica” ​​entre
a escrita e a oralidade, devido à superioridade da segunda sobre a primeira,
daí o termo ecricultura por ele cunhado. Assim, aqueles que não dominam a
escrita numa cultura escrita são rotulados de disléxicos. Estamos muito longe
do conceito de equilíbrio que sustenta a teoria innissiana e o faz lamentar a
idade de ouro da oralidade no momento em que o viés espacial está em seu
pico. Voltaremos mais adiante a essa divergência teórica entre os dois autores.
O termo medium ou meio não é usado por Goody, ao contrário de Innis
(1971) que o utilizou em sua ampla extensão, pois, para ele, o trilho ferroviário, por exemplo, era um medium de comunicação.
A diferença entre Goody e Innis concerne, em parte, ao fato de que Innis
se interessa pela comunicação a partir de uma abordagem de economia política, enquanto Goody se concentra na escrita enquanto tecnologia, o que tem
1O termo se refere às “operações concretas e formais, práticas e cognitivas, linguísticas e culturais
que a escrita permite num modo específico e intensivo.” ( GOODY, 2007, p. 242)
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implicações diretas para a cognição (o saber) e indiretas para o poder. Para
Innis (1971), as tecnologias são os meios (meios de comunicação), que permitem o contato entre civilizações e definem os contornos de suas economias
domésticas, enquanto para Goody,2 trata-se de entender o funcionamento
das culturas partindo não de uma análise culturalista (que ele critica qualificando-a de culturalismo difuso ou de relativismo difuso), mas considerando
as tecnologias que estas civilizações dispõem e que, ao mesmo tempo, dão-lhes forma de maneira significativa.
Outra semelhança entre os dois autores está relacionada à perspectiva
agnóstica comum, considerando que os meios ou modos de comunicação induzem uma dissimetria dentre os atores sociais e nas relações de poder em
função dos vieses (bias)3 que lhes são inerentes (INNIS, 1968, 1972) ou das
exclusões que elas induzem. (GOODY, 1979, 1986) As análises dos dois autores em termos de dependência encontram ecos explícitos na evocação da
situação colonial que caracterizava, ainda fortemente enquanto escreviam,
tanto as sociedades africanas analisadas quanto a situação colonial (ou quase
colonial no caso do Canadá) que queria retratar Innis ao se interessar pelas
fontes da dependência entre as periferias e os centros imperiais em diversas
conjunturas históricas.
Neste sentido, encontra-se nos dois autores uma perspectiva crítica,
mesmo se as escolhas normativas subjacentes são opostas, com destaque
para a escrita em Goody4 e com destaque para o tempo (e, portanto, para a
oralidade) em Innis (1968, p. 190, tradução nossa): “Meu preconceito é com
a tradição oral, particularmente como refletido na civilização grega e com a
necessidade de recuperar algo de seu espírito”.5 Esta oposição entre tempo e
2Ele também usa o termo “civilização”, mas em seu sentido hierárquico, como uma forma de
sociedade caracterizada por certo grau de progresso. (GOODY, 2007, p. 195)
3Além disso, o viés espacial dos mídias identificado por Innis tem, segundo ele, como resultado
uma espacialização e fragmentação do espaço em unidades mensuráveis​​, que tem uma afinidade
com a cultura da escrita e o desenvolvimento de unidades de medida de alta precisão mencionadas por Goody (2007).
4 Goody (2007, p. 15) teria provavelmente respondido que Innis alimentava assim uma “nostalgia
das oralidades perdidas”.
5
“My bias is with the oral tradition, particularly as reflected in Greek civilization, and with the necessity of recapturing something of its spirit”.
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escrita é superficial e só permanece válida se ficar circunscrita à teoria innissiana dos vieses (bias) mediáticos. Levando a análise mais longe, podemos ver
que ambos os autores concordam apesar de sua discordância, pois em seus
respectivos sistemas cada um dá preferência ao tempo: preferência do tempo
sobre o espaço (Innis) e preferência do tempo sobre a não cumulatividade
(Goody). Em última análise, por causa de seus diferentes modos de conceituação e perspectivas normativas (mais explícita em Innis do que Goody),
ambos os autores privilegiam o tempo, o que leva a um privilégio concedido
à oralidade em Innis e à escrita em Goody. Em outras palavras, a divergência
mediática esconde um acordo ontológico sobre a categoria temporal. Esta
discordância é simplesmente ligada às implicações que eles dão à oralidade.
Onde aparece claramente uma diferença significativa entre os dois
autores, é na caracterização da oralidade como time-binding e como promovendo a continuidade para Innis. No seu conjunto, a obra de Goody tratou de
refutar essa interpretação que considera que as culturas orais das sociedades
são movidas pela reprodução do mesmo e a identidade de si mesma. Goody
argumenta que as culturas orais são inerentemente inovadoras e caracterizadas pela mudança. Então, para ele, a escrita é muito mais time-binding que
a fala, e assim se opõe drasticamente a Innis e sua hierarquia dos suportes
midiáticos (Figura 1).
Figura 1 - Hierarquia de viés por tipo de mídia
Fonte: BABE, 2000, p. 75.
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Sobre esta questão dos suportes, vemos novamente os dois autores não
se oporem, mas se interessarem em aspectos diferentes do mesmo problema. Ambos estão focados na materialidade dos suportes, mas enquanto Innis
(1972) enfatiza a difusão e o manuseio do papiro ou do pergaminho, Goody se
interessa, por sua parte, a sua conservação e ao efeito da sua degradação sobre
a memória e a cumulatividade do conhecimento. É por causa desse interesse
nos processos cognitivos que Goody (2007) chega a distinguir os fenômenos que seguem uma lei acumulativa (aritmética), e aqueles que obedecem
a uma lei cumulativa (geométrica). Obviamente as mudanças induzidas por
estes últimos na organização social são muito mais importantes, como atesta
amplamente o caso da escrita através do tempo e do espaço de acordo com
Goody.
A e s c r i ta e s ua s i m p l i c a ç õ e s : o p r o b l e m a
d a c au s a l i d a d e
Para Goody, a língua não é um simples meio de comunicação, mas um instrumento de produção do social e do cognitivo. O mesmo acontece com a escrita
enquanto tecnologia do intelecto. Suas relações com o poder são manifestas
de várias maneiras. Em um capítulo intitulado Escrita e revolta na Bahia, Goody (2007) revela o papel da escrita na série de revoltas entre 1807 e 1835 em
Salvador, na Bahia, uma província brasileira produtora de açúcar. Os líderes
desta revolta foram escravos e homens livres muçulmanos que tinham o domínio da escrita árabe. Com base nomeadamente numa vasta literatura que
inclui o trabalho de Nina Rodrigues, Os Africanos no Brasil, na qual ela analisa
o papel do Islã na Bahia no século XIX, Goody argumenta que as figuras de
proa destes eventos foram membros de culturas guerreiras, mas destaca o domínio da escrita e da leitura em árabe como a caraterística mais determinante
de sua liderança nas revoltas mencionadas. Como prova disso, depois de 1835,
muitos negros libertos que sabiam ler e escrever foram devolvidos à África
para evitar a agitação social. (GOODY, 2007, p. 140) Os efeitos do Islã sobre as
revoltas nas Américas não seriam devidos ao Islã em si, mas ao fato de que se
trata de uma “religião do Livro”, que podia, assim, transmitir fielmente uma
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mensagem de respeito da norma religiosa à qual os alfabetizados podiam se
referir, se mantendo a distância das formas sincréticas amplamente difundidas no Brasil e favorecidas pelas autoridades. (GOODY, 2007, p. 152)
Mais amplamente, a relação entre a escrita e o proselitismo religioso
é analisada ​​extensivamente por Goody (1986, 2007). Em Poderes e saberes da
escrita, ele considera que o proselitismo religioso é uma implicação6 (2007,
p. 212, 244) da escrita e da existência de um livro sagrado como um conjunto
de crenças fixas, e desenvolve, de maneira convincente, os efeitos da escrita
sobre a organização social e em seus subsistemas (direito,7 religião,8 economia
etc.) a longo prazo.
Sobre as implicações da escrita, a análise converge em Innis e Goody:
o alto grau de abstração da escrita, a possibilidade de padrões éticos e da lei,
a possibilidade de aparições dos profetas são evocados explicitamente pelos
dois autores. Em outras palavras, a aparição do universal como categoria do
entendimento se torna possível devido à descontextualização radical que a
escrita permite em relação a uma palavra que, por sua vez, está sempre situada hic et nunc. (GOODY, 1986; INNIS, 1968)
Mas as dificuldades metodológicas ligadas ao empreendimento científico são enormes, considerando as críticas às quais as mesmas expõem
os escritores que nele se engajam. As críticas de determinismo unifatorial
(técnico ou não), de perspectiva unilinear ou de funcionalismo, se opõem regularmente à pesquisa antropológica. A questão do determinismo ainda está
pendente e a análise de Goody pretende ser muito conservadora na medida
em que ele usa o conceito de tendência e não o de causa. Ele considera que se
6E não das consequências, termo que induz a ideia de efeitos mecânicos e forçados. É interessante
notar que Innis (2004, (p. 34, grifo nosso) também evita usar uma terminologia causalista e recorre repetidamente ao mesmo termo implications: “I have attempted to suggest that Western civilization has been profoundly influenced by communication and that marked changes in communications have had important implications.” (INNIS, 1968, p. 3) ou ainda mas especificamente:
“We can do little more than urge than we must be continually alert to this implications of the bias
and perhaps hope that consideration of the implications of other media to various civilizations
may enable us to see more clearly the bias of our own.”
7A existência da lei (vs. direito costumeiro) está relacionada com o aparecimento da escrita que
permite documentar os antecedentes.
8 “O letramento fabrica também a ortodoxia, principalmente as religiões escritas que fixam uma
vez por todas (?) uma versão das escrituras e procuram impor uma única leitura, uma só interpretação”. (GOODY, 2007, p. 237)
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a escrita tem implicações manifestas sobre a organização social, se trata mais
de uma radicalização de fatores presentes na sociedade oral do que de uma
verdadeira revolução. A este respeito, sua tese em A razão gráfica (1979), segundo a qual as sociedades da escrita são mais conservadoras e as sociedades
da oralidade mais inovadoras é mantida em A lógica da escrita (1986).
Goody responde à crítica de determinismo tecnológico, argumentando que ele não sustenta que a escrita seja o único fator, mas que é um fator
significativo do qual tentou distinguir as implicações em longo prazo sobre
a organização social e cognitiva. Isto não significa negar que a organização
social e as tecnologias do intelecto sejam “sistemas dialéticos em interação”.
(GOODY, 1986, p. 9)
Innis, de forma idêntica, foi acusado de determinismo tecnológico, notadamente por Rogers (1997) sobre o motivo que, em sua análise, os meios de
comunicação determinam a organização social. Mas o conceito de viés (bias)
é justamente escolhido por Innis para mostrar que não há inferência automática no sentido que Goody dá ao termo “consequências”, mas que têm fatores
facilitadores ligados aos diferentes meios. Em Goody, tanto quanto em Innis,
os modos de comunicação têm certamente uma influência sobre a organização social, mas a seus olhos toda a monocausalidade deve ser rejeitada. Aqui
vemos um ponto muito claro de convergência entre os dois autores sobre a
inter-relação entre os processos de difusão do conhecimento e os modos de
comunicação:
O impacto da ciência sobre o desenvolvimento cultural foi evidente
em sua contribuição para o avanço tecnológico, particularmente na
comunicação e na disseminação do conhecimento. Por sua vez, isto
ficou claro nos tipos de conhecimentos disseminados, quer dizer, a
ciência vive sua própria vida não apenas no mecanismo que proporciona a distribuição de conhecimento, mas também no tipo de conhecimento que será distribuído. (INNIS apud BABE, 2000, p. 61)
Da sua parte, Goody (2007, p. 197) estava muito consciente das críticas
que enfrentaria ao desenvolver o conceito de tecnologias do intelecto. Este
conceito suscita fortes oposições, porque supõe uma “determinação por forças externas não humanas”. Ele opõe a esta crítica recorrente, que McLuhan
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e Innis também enfrentaram argumentos contrários, sendo os dois mais importantes os seguintes: 1) a determinação é uma causalidade monofatorial,
mas muitos outros fatores culturais específicos interferem. Segundo Goody, é
preciso discriminar dentro da cadeia das implicações e evitar o uso de um culturalismo difuso, que não explica nada; 2) a tecnologia não é de forma alguma
não humana, uma vez que é o produto da atividade humana.
Já em A razão gráfica ele chamava a atenção contra o uso das explicações
unilineares e monocausais para explicar a complexidade de “assuntos humanos”. Mais uma vez, ele opta por uma via mediana entre
escolher uma causa única e rejeitar qualquer explicação causal, entre afogar tudo na causalidade estrutural ou a coerência funcional
e isolar um único fator material como causa dominante ou mesmo
determinante; permanece aberto todo o campo de feixes de causas
convergentes, dos mecanismos de retroação, dos meios de avaliar
o peso relativo de uma pluralidade de causas. (GOODY, 1979, p. 49)
C o n v e r g ê n c ia s e d i v e r g ê n c ia s d e I n n i s e G o o dy
Um ponto de concordância entre os dois autores diz respeito ao grau de abertura ou fechamento das sociedades orais. Innis (1968) se refere a isso ao falar
de elasticidade enquanto Goody (2007) fala de inovação ou de pura variação9
(1979). Mas as conclusões que tiram são opostas, já que para Innis o costume
supostamente detém uma força vinculativa em termos de respeito da norma. Goody usa o mesmo conceito de costume (de acordo com ele, a lei é um
privilégio das culturas da escrita), mas para mostrar que costume, inovação e
mudança são normas que andam de mãos dadas nas culturas orais.
O conceito de monopólio, importante para Innis, é homólogo ao de
“difusão restrita”, conforme definido por Goody no registro da exclusão. Por
exemplo, o caso da epopéia de Gilgamesh que Goody evoca e que teria tido
9Isto é provavelmente porque ele prefere o sintagma “formas orais padronizados” ao conceito
polêmico de “literatura oral” para explicar a estabilidade de determinadas produções em culturas
orais.
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uma “difusão escolar”, caracterizada pelo controle da escrita por um grupo
especializado. É neste sentido que uma perspectiva agnóstica está presente
na obra de ambos os autores. Isto permitiu, por exemplo, a autonomização
de uma organização distinta do Estado, dotada de recursos e de alto grau de
legitimidade: a Igreja. (GOODY, 1986)
Embora menos explícita do que em Innis, vemos aparecer aqui a análise
política, quando da análise da posse da técnica da escrita e de sua restrição a
apenas uma parte da sociedade. De outra parte, o conceito de tecnologia do
intelecto está destinado a reconciliar os termos de binarismo, que são o (plano) material do qual participam as tecnologias e o (plano) espiritual do qual
sai a vida intelectual. É uma forma para Goody de mostrar que as mutações
tecnológicas têm implicações cognitivas importantes ao nível individual (ontogenético) e coletivo (filogenético). Para Innis, o suporte mediático induz os
vieses sobre a organização social e o exercício do poder. Este é o significado
de sua famosa análise frequentemente citada:
De acordo com suas características, ele [um meio de comunicação]
pode ser mais adequado para a disseminação do conhecimento ao
longo do tempo do que sobre o espaço, especialmente se o meio
é pesado e durável e não é adequado para o transporte ou para a
difusão do conhecimento sobre o espaço ao invés do tempo, particularmente se o meio é leve e facilmente transportado. A relativa
ênfase no tempo ou no espaço implicará uma[sic] viés de significação para a cultura no qual ela está inserida. (INNIS, 1968, p. 33)
Estas palavras colocam com clareza o alcance da perspectiva innisiana e
a causa de seu interesse nos suportes mediáticos. Elas ressoam com a análise
de Goody (2007, p. 46), que examina as mudanças ligadas às diferenças entre
os modos de comunicação:
O que dizíamos então, e que mantemos ainda, é que é mais razoável combinar determinados aspectos das diferenças ou das alterações perceptíveis (isto é, as diferenças vistas num quadro dinâmico
e evolutivo) com as diferenças ou alterações nos meios e modos de
comunicação do que às artes de uma cultura ou ao gênio de um
povo.
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Assim para Goody (2007), o interesse na materialidade da escrita continua central, mas é a escrita em si como tecnologia, em vez de seus suportes,
que chama sua atenção.
Ainda se acrescenta o papel central da memória que é, de alguma maneira, objetivada e desterritorializada sob a forma de traços escritos, o que
permite um conhecimento cumulativo e uma crítica reforçada. As mudanças
nos modos de comunicação levam a mudanças substanciais nos modos de
armazenamento e nas formas de acesso a um conhecimento acumulado. Esta
é uma das funções da escrita, de favorecer uma mudança neste domínio, mudança no sentido de uma maior fidelidade dos traços em comparação com a
oralidade.
b. Goody frente à proliferação das escritas
Nos parágrafos seguintes, vamos evocar a proliferação das escritas e das inscrições correlativas das inovações tecnológicas recentes. Uma atenção particular
será dada à moeda e à informática que são caracterizadas, respectivamente,
por uma escrita aritmética e digital. Este processo não é de nada linear, tanto
do ponto de vista da historicidade dos suportes (antiguidade da moeda) que
das idas e voltas (a etimologia do código remete ao antigo codicilo).
Sobre a escrita aritmética
Em trabalhos sobre as implicações da escrita, Goody e Watt (1968) focalizam
o caráter específico da escrita alfabética em relação a outras formas de escrita.
Mais recentemente, Goody (2007) reconheceu que este privilégio concedido à
escrita alfabética era devido à influência exagerada que os trabalhos de Havelock (1981) tiveram sobre eles na época. Isso o levou a reconsiderar sua posição
inicial e ampliar o espaço de seu interesse a outras formas de escrita. Mesmo
assim, é essencialmente a escrita da língua e a cultura letrada decorrente10 que
consistentemente tem sido focada em seus trabalhos. Seu interesse reside na
10O letramento designa, segundo Goody, mais do que competência técnica de leitura e de escrita,
refere-se à possibilidade de recorrer a esta competência, a fim de atingir os seus fins.
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escrita da língua como inovação gráfica, apesar ou por causa da diversidade
de contextos sócio-históricos que analisa. Para outros autores, no entanto, a
escrita da língua é uma forma de escrita entre outras, e não é por acaso que,
enquanto Goody fala da escrita (no singular), Herrenschmidt usa o termo no
plural em seu livro As três escritas.
Herrenschmidt (2007) estabelece uma distinção entre a escrita da língua
(que segundo as grafias podem mobilizar unidades diferentes) e aquela dos
números (sob a forma de algarismos):11 escrita linguística e escrita aritmética
são assim dois modos de registro diferentes que respondem a modalidades
específicas de organização.
Sobre o antigo Oriente Médio, Goody considera que a escrita está relacionada com a circulação de bens e a utilização da moeda no âmbito de uma
economia de mercado. Mas se interessa menos pelas inscrições e por aquilo
que seria uma escrita aritmética. Assim, considera somente a finalidade da
moeda, e não sua materialidade ou especificidade gráfica. Quando ele fala das
incidências da alfabetização e monetização sobre a organização social, evoca
Parsons (apud GOODY, 1986, p. 177), que parece mais próximo do que ele a
considerar a moeda como medium institucionalizado possuindo “as propriedades de uma linguagem e de um meio de comunicação”. Para Herrenschmidt,
a moeda cunhada foi um suporte de escrita de algarismos, uma escrita monetária aritmética, os algarismos, neste caso, considerados como unidades
aritméticas e não linguísticas. Isso tem implicações em termos de circulação e recepção muito mais amplas do que a perspectiva goodiana permite
captar quando focaliza somente na escrita linguística. A escrita monetária
aritmética favoreceu uma economia de troca, mas manteve-se atrelada a uma
tradição vernacular, cujo processo está à revelia da circulação dos escritos
acadêmicos (linguística e matemática) caracterizados por seu cunho restrito, na acepção de Goody. O processo de crescente abstração é fundamental
em termos de escrita de algarismos. As unidades de medida (milhas, côvados,
dedo etc.), antes inseparáveis da
​​ prática social, resistiram à imposição de um
sistema métrico abstrato válido em qualquer lugar, a qualquer momento e o
11Uma distinção operacional entre o número e o algarismo seria que o primeiro é uma unidade
aritmética, e o segundo uma entidade gráfica.
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mesmo para todos. Outrora, as unidades de medida não somente não valiam
o mesmo, dependendo do local, mas a mesma unidade mudava, dependendo
da natureza rara ou preciosa do produto medido: “De facto, a mesma medida
como o minot valia 3 bushel no caso do trigo, 4 se fossem sal e 5 se medimos
aveia”. (HERRENSCHMIDT, 2007, p. 342) A grande variabilidade dos instrumentos de medição foi assim reduzida com a institucionalização do espaço
de trocas econômicas de unidades abstratas e, dessa forma, universalizáveis:
As primeiras moedas permitiram ver a materialização de vários buris, em seguida, as moedas da região grega dos séculos V e IV A.C.
difundiram uma escrita de números e suas relações sob a forma
geométrica, uma escrita específica que, oriunda da pesquisa matemática, ganhou a via gráfica das moedas, espalhando-se no social,
encontrou dificuldades teóricas e retornou ao domínio matemático. (HERRENSCHMIDT, 2007, p. 226)
Mais tarde, com o surgimento da impressão, a variedade de suportes
se amplia e o papel permite acrescentar cartas de câmbio, cheques e notas
promissórias ao panorama de suportes mediáticos monetários. Este processo levou finalmente à consolidação das economias-mundos analisadas por
Braudel (1985).
Apesar de sua especificidade em relação à escrita da língua, a escrita monetária aritmética é uma forma de escrita no sentido de Goody e, portanto,
mantém as suas implicações sobre os processos de cognição:
Artefato político e econômico, a moeda cunhada em metal precioso, pesada e escrita tornou equivalente coisas e pessoas que não
são equivalentes, nos mecanismos de troca de mercado e de punição jurídica. Ela generalizou o uso dos números usados em sua
notação para avaliar as coisas, os seres, as situações e calcular suas
relações... a moeda serviu de ferramenta cognitiva. (HERRENSCHMIDT, 2007, p. v)
Neste sentido, Herrenschmidt se interessa muito mais pelos suportes
materiais dos meios que Goody (ela é mais próxima neste sentido de Innis),
mas seu interesse é essencialmente articulado em torno dos processos cog-
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nitivos e das implicações dos sistemas gráficos sobre a cognição. Quando
ela afirma que os romanos “... criaram as minúsculas em vez das maiúsculas,
substituíram o rolo de papiro ou pergaminho, o volumem, pelo livro costurado e paginado, o códex, que garantiu a difusão do Novo Testamento e do
Cristianismo” (HERRENSCHMIDT, 2007, p. 224), obviamente ela se interessa à genealogia dos suportes midiáticos, mas se interessa muito pouco à
questão do poder ou da circunscrição das habilidades de leitura no mundo
antigo como fizeram respectivamente Innis e Goody .
O código: historicidade e performatividade
Caracterizada por Herrenschmidt (2007) como terceira revolução gráfica
(depois da escrita das línguas e da escrita monetária aritmética), a escrita informática começa com um interesse nas matemáticas, antes de incluir em seu
campo de ação o conjunto total dos registros (incluindo o vivo). Isto foi alcançado aplicando a seus objetos a hegemonia de um código binário: “O código
constitui a linguagem numérica da tradução da qual se serve a máquina para
escrever, a seu modo, tudo que o usuário coloca dentro e o que está preparada
para receber”. (HERRENSCHMIDT, 2007, p. ii)
A máquina de Turing tem um lugar essencial neste processo mais próximo de nós através da importância dada ao algoritmo:12
Com efeito, o digital permite tornar manipulável qualquer conteúdo ligando-o a símbolos sem sentido, manipuláveis por regras
também sem sentido. Esta ausência de significância permite a mecanização, o que a máquina de Turing teoriza e nossos computadores concretizam. (CROZAT et al., 2011, p. 13)
É interessante notar que Turing chamou sua máquina de “máquina de
papel”, o que articula metaforicamente os suportes da revolução tardia do
impresso e da escrita monetária original.
12 “Uma série finita de regras a aplicar, em uma ordem específica, a qualquer quantidade de dados,
para chegar, em uma quantidade finita de etapas, a um resultado, e isso tudo qual que sejam os
dados processados​​“. (HERRENSCHMIDT, 2007, p. 434)
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Apesar de sua importância fundamental, a revolução do impresso tinha
seus limites internos. Um deles é que “a impressão não sabia contar”, possibilidade de computação onde a informática se tornará, quatro ou cinco séculos
mais tarde, a campeã:
[…] o cálculo estava liderando a dança das invenções da mecanização e aritmética – revanche sobre a imprensa, que, desenvolvida no
terreno da escrita alfabética, multiplicava os textos, reproduzindo
as línguas, fabricando autores e leitores. Mas a impressão, que havia construído um império, não sabia contar. Quando as máquinas
de calcular foram capazes de escrever textos em linguagem natural, este império viu-se ameaçado. (HERRENSCHMIDT, 2007,
p. 430)
Sem que se possa enunciar um julgamento definitivo sobre a ameaça
do digital sobre o impresso, deve-se reconhecer, na cultura contemporânea,
a centralidade do cálculo e do imperativo de calculabilidade. O código tem
sido de fato frequentemente analisado em relação às restrições, notadamente
de uso, que impõe aos usuários finais. Lessig (1999), em seu famoso livro Code
and other laws of cyberspace, considera que o código remete ao design técnico
e permite a estruturação anterior do espaço dos usos possíveis13 dos dispositivos e das redes informáticas.
O código informático resulta de uma atividade de escrita (DOUEIHI,
2008), mas tem especificidades, incluindo as relacionadas com seu caráter de
escrita coletiva. (COUTURE, 2012) Existem atualmente estudos de etnografia
do código14 que analisam os modos de escrita dos programadores em informática e a forma de socialidade que caracteriza estas comunidades específicas.
Os Estudos Críticos de Código (ou Critical Code Studies - CCS) tentam, por
outro lado, aplicar as ferramentas da hermenêutica crítica à interpretação de
código informático. (MARINO, 2006) Portanto, o código considerado como
um sistema de signos torna-se, como toda a escrita, suscetível de análise se-
13Se limitarmo-nos à informática, parece que as práticas de leitura que o computador “autoriza”
são, em sua maioria, diferentes do que o papel permite. 14Este é o título de uma edição especial da revista eletrônica TeamEthno-online, publicada em 2006.
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miótica ou mesmo plástica, se seguimos aqueles que estão interessados em
​​
analisar o código como uma forma poética. Isso significa que o código como
objeto de estudo é apropriado de formas muito diferentes por parte daqueles que o estudam. Isso abre o caminho para a circulação e as influências do
código através dos sistemas informáticos que o veiculam na sociedade. Esta
perspectiva apenas abordada, mas não retida por Herrenschmidt (2007),
permite apreender o código como escrita sob o duplo registro de sua materialidade e dos efeitos da sua circulação “restrita” sobre os fenômenos cognitivos
e as relações de poder. Ao contrário das outras escritas, o código se destina a
ser “lido” por um ator não humano: o computador. Mesmo que outros programadores possam ler, e de fato, muitas vezes leem o código informático,
por exemplo, a fim de melhorá-lo, permanece o fato de que, pela primeira vez
na história das escritas, o código se destina à interação homem-computador,
no mais alto grau.
Kittler (apud MARINO, 2006) retraçando a genealogia do “código” retorna ao códex analisado ​​por Goody e Innis e ao codicilo, este “pequeno tablete
de madeira coberta com cera, a fim de inserir as letras”. Em outras palavras,
o código que agora designa uma forma de escrita específica da informática,
significava originalmente o suporte material da escrita. O códex veio a designar mais tarde uma coleção de textos legais, mostrando assim seu parentesco
com o código: o de instrumento de controle à distância (MARINO, 2006),
mas que ainda permaneceu sujeito a uma difusão restrita enquanto tinha
uma pretensão à universalidade.
De acordo com Bachimont (2000), a escrita informática caracterizava
uma razão computacional da mesma maneira como a escrita da língua caracterizou uma razão gráfica. Além disso, “a transição para a escrita digital
não é apenas uma mudança de suporte, é uma reconfiguração do sistema
técnico de produção e de manipulação, que age sobre a própria natureza do
conhecimento”. (CROZAT et al., 2011, p. 10) Assim, a escrita digital e o código
renovam, quase nos mesmos termos, as análises iniciadas por Goody sobre a
escrita da língua, há quase quatro décadas.
Escrita(s), mídias e tecnologias do intelecto—
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Conclusão
Através desta breve viagem entre estes três autores que se interessaram ​​na
importância dos meios sobre a organização social, visitamos três regiões do
saber: economia política, antropologia e semiologia histórica (incluindo a
contemporânea ao código). Encontramos caminhos interessantes para pensar uma teoria mediática dos registros, atenta aos meios mais antigos e mais
recentes. Uma peculiaridade desta jornada, que fez dialogar autores que não
necessariamente têm mantido relações, é que os mesmos não se limitam às
barreiras disciplinares e, sem a pretensão de interdisciplinaridade, atravessam alegremente fronteiras em busca de elementos suscetíveis de esclarecer
o seu objeto de pesquisa.
Os importantes trabalhos de Goody permitem lançar luz sobre os de Innis, devido a seus interesses convergentes. Por outro lado, os desafios postos
pelos desenvolvimentos recentes da teoria mediática ao pensamento goodiano (enraizado em diversas tradições disciplinares) são de grande interesse. Os
casos da escrita aritmética (moeda) e da escrita digital (o Código) em relação
ao conceito de informação são instrutivos a este respeito.
Desprendida do ouro, que tinha se tornado arbitrário, a moeda sem
referência e solta teria se tornado no século XX “livre como a informação”.
(HERRENSCHMIDT, 2007) Este fenômeno teria tido consequências importantes sobre o pensamento humano. Herrenschmidt se junta aqui à tese
central de Goody sobre as ligações entre a escrita e o pensamento humano,
como evidenciado em seu capítulo intitulado “Os números e sua representação conquistam o pensamento humano.” Ela permite ampliar os limites dos
trabalhos de Goody e assim, de pensar uma teoria mediática atenta tanto à
escrita quanto à calculabilidade antiga e ao código recente que dele se aproveita.
Os efeitos da escrita aritmética seriam muito mais importantes do que
os da escrita da língua, visto que se relacionam com o surgimento do “homem
gráfico” e a concepção do homem como “media” dos cálculos realizados sobre
suas práticas sociais ou sua fisionomia.
A “gigantesca mudança semiológica” que introduziu a hegemonia do
código (HERRENSCHMIDT, 2007, p. 351-351) tem agora incidências signifi-
70—Oumar Kane
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cativas sobre o vivo e a replicação do vivo. O código genético e nosso universo
reticulado agora parecem ter a mimese como lei, a lei do desejo, levando consigo, na mesma dança, todas as outras. (GIRARD, 1961)
Mas, com estas considerações, entramos no contexto de uma teoria totalizante que contrasta com a precaução sistemática, que tanto Goody como
Innis demonstraram no conjunto de suas obras.
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Civilização,
transporte e
assentamento
Comunicação organizacional nas primeiras
obras de Harold Innis
William J. Buxton
I n t r o d u ç ã o Harold Innis não é geralmente considerado um dos principais autores em
comunicação organizacional.1 De fato, provavelmente, o único comentarista
1Este artigo é uma versão revisada do artigo que foi apresentado a What is an organization? Materiality, Agency and discourse: A Tribute to the Work of James R. Taylor, Montréal, Maio de 2008. Sua
elaboração foi financiada pelo Standard Research Grant (#410-2008-1949) do Social Sciences and
Humanities Research Council of Canada. Partes deste texto aparecem de forma um tanto diferente em North by Northwest: Harold Innis and ‘the advancement of knowledge of the Canadian North,
Introdução a W. Buxton (Ed.). Harold Innis and North: Appraisals and Contestations. Montréal/
Kingston: McGill-Queen’s University Press, 2013.
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que argumentou em favor da influência do trabalho de Innis neste campo
talvez tenha sido James R. Taylor (2000, 2001). Tal como a maioria dos estudiosos que tomaram por base os escritos de Innis para lançar luz sobre
questões de comunicação, Taylor inferiu numerosas contribuições a partir de
dois textos que Innis produziu no final de sua carreira, a saber, Bias of Communication (O Viés da Comunicação) e Empire and Communications (Império
e Comunicações) (INNIS, [1950] 1972, [1951] 1964). Depois de ter delineado
“a dinâmica que Innis identifica no macrocosmo do surgimento e desaparecimento histórico dos grandes impérios do passado”, Taylor (2001, p. 11)
argumenta que as mesmas tendências atuam “no microcosmo, na dinâmica organizacional do crescimento e declínio das grandes empresas em nosso
próprio tempo e nossa própria sociedade”.
Embora Taylor tenha demonstrado que podemos nos basear nos insights
dos escritos tardios de Innis para examinar a dinâmica organizacional contemporânea, isso não nos permite chegar a nenhuma conclusão sobre como o
próprio Innis examinou a natureza e estrutura da vida organizacional. O que
não seria um problema crítico se Innis tivesse pouco a dizer sobre as grandes organizações e suas dinâmicas, seria perfeitamente justificado proceder
como Taylor, extraindo contribuições dos escritos tardios de Innis e aproveitando-os para analisar a vida organizacional contemporânea. Não se trata
de Innis não ter conseguido dar a atenção para a natureza e funcionamento
de grandes organizações, pois ele escreveu extensivamente sobre as dinâmicas organizacionais – especialmente no início de sua carreira. Taylor (2000,
p. 3) está correto em seu julgamento quando disse que “Innis nunca contribuiu para os estudos de comunicação organizacional”, mas apenas porque o
campo não existia enquanto Innis estava vivo. Além disso, enquanto Taylor
(2001, p. 1) se refere à Innis como “um intelectual profundamente engajado”,
ele realmente não explora as implicações desta afirmação, examinando Innis
principalmente em termos acadêmicos convencionais, como alguém mais
interessado em interpretar o mundo do que em mudá-lo. Minha tese é que
Innis tinha um persistente interesse pela vida organizacional, não apenas em
descrevê-la, mas em construí-la a seu próprio modo.
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O objetivo deste artigo é tomar certa distância para corrigir essas
abordagens enviesadas. Seu argumento é que, se desejamos identificar as
contribuições de Innis para a compreensão das dinâmicas organizacionais
contemporâneas – e por extensão da comunicação organizacional – o melhor
ponto de partida não são os escritos tardios de Innis – que tratavam apenas
indiretamente das grandes organizações. Em vez disso, defendo que é muito
mais proveitoso examinar os primeiros escritos de Innis, onde as grandes organizações são abordadas com certo detalhe.
Muito tem sido escrito, é claro, sobre o estudo pioneiro de Innis, The
Fur Trade of Canada (O comércio de peles no Canadá, 1930). Porém foi dada
menos atenção à forma como Innis examinou a estrutura e a dinâmica per
se de algumas das organizações envolvidas com o comércio de peles, ou seja,
a Company of New France, a Northwest Company e a Hudson Bay Company. Do
ponto de vista organizacional, os extensos escritos de Innis sobre o comércio
de peles lançam luz sobre o funcionamento destas e de outras organizações
de comércio de peles.
Em minha opinião, no entanto, penso que o ponto focal dos primeiros
trabalhos de Innis não foi de fato as peles e outros produtos básicos, per se;
seu principal ponto de referência era muito maior, a saber, a civilização. Assim, ele acreditava que era em virtude da produção de produtos básicos que
uma civilização única poderia ser estabelecida no norte da América do Norte. Mas esses produtos básicos não determinavam por si próprios, de modo
algum, a forma que esta civilização iria tomar. Innis era da opinião de que
era através da interação entre a geografia e a atividade humana – enquanto
mediada pela tecnologia – que se deu o processo civilizatório. Sem dúvida, as
mais importantes características do mundo físico para Innis eram a extensão
geográfica do Canadá, a vegetação e a fauna encontradas no conjunto interligado de bacias hidrográficas que formavam o Canadá. Na visão de Innis,
a geografia natural desse país podia ser melhor entendida como proporcionadora de uma série de restrições e de possibilidades que poderiam conduzir a
diferentes resultados civilizacionais, dependendo das necessidades, dos projetos e das atividades dos habitantes humanos. Neste sentido, Innis – como
Civilização, transporte e assentamento—
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ele prontamente admitiu – foi muito influenciado pela tradição possibilista
francesa como praticada por Vidal de la Blache (1922), Jean Brunhes (1912), e
Demangeon Albert (1942).2
Na visão de Innis, o desenvolvimento da civilização ocorreria de maneira evolutiva. Neste sentido, ele não era neutro em relação à civilização; seu
próprio trabalho pode ser visto, a seu modo, como constitutivo do processo
civilizatório. Ele acreditava que através do conhecimento que ele era capaz de
produzir, o desenvolvimento da civilização seria subsidiado e fomentado. Se
examinarmos o projeto inicial de Innis como sendo um projeto para definir
e ajudar a constituir os aspectos chaves da civilização, então somos obrigados a repensar a forma como o seu trabalho é compreendido e periodizado.
Admintindo-se que seu ponto de referência era de uma civilização em evolução, isto sugere que ele estava preocupado com mercadorias básicas apenas
na medida em que a produção e distribuição das mesmas contribuiriam para
o processo civilizatório. Innis nunca considerou os produtos básicos como
entidades separadas, isoladas umas das outras, ele os via como formando
um conjunto que trabalhava com outros fatores, tais como povoamento,
transporte e tecnologia, para constituir civilizações. O que foi central para as
civilizações modernas, segundo Innis, foi o fenômeno da industrialização. Innis estava particularmente preocupado com a forma como se deu o processo
de industrialização em um país jovem como o Canadá e que consequências
teve. Colocar a civilização – com especial referência à industrialização – como
o ponto central dos primeiros trabalhos de Innis exige repensar a forma como
entendemos o corpus desses primeiros trabalhos. Isso significa dar mais atenção a aqueles primeiros escritos que empregavam bastante explicitamente a
ideia de construir uma civilização como um ponto de referência. Dessa forma, então, podemos melhor contextualizar outros escritos do período em
que seus pontos de vista sobre a civilização permanecem, em grande parte,
implícitos.
2Em uma carta a Isaías Bowman (1935), um dos maiores geógrafos da América, Innis notou que
ele (Innis) tinha sido muito influenciado por “O Francês”.
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Com este objetivo, vou tratar de um trabalho em particular, a saber,
a History of the Canadian Pacific Railway 3 (História da Companhia Ferroviária
do Canadá). Depois de examinar o que este revela a respeito do projeto inicial de Innis, vou considerar brevemente a sua relevância para alguns de seus
(menos conhecidos) escritos posteriores sobre a interação entre os produtos
básicos (ou seja, pele, trigo e peixe) e os processos mais amplos de povoamento, urbanização e industrialização.
A Hi s t ó r ia d a Ca n a d ia n Pa c i f i c Rai lway
Durante muito tempo, a História da Canadian Pacific Railway foi relegada
à categoria juvenília de Innis. No entanto, uma leitura atenta do texto revela
que se trata de muito mais do que a Canadian Pacific Railway (CPR). Assim,
em seu estudo, Innis procurou dar substância, corpo e sentido à forma organizacional contemporânea da ferrovia, que identificava inicialmente como
pivô para o surgimento da “civilização” no Canadá. No entanto, de forma
mais ampla, o estudo pode ser visto não apenas como um esforço para mapear o Canadá em um sentido espacial, mas para fornecer um mapa conceitual
da interseção da estrada de ferro, enquanto uma forma de tecnologia, com a
paisagem canadense, as indústrias de produtos básicos, a industrialização e
a ocupação humana (do mesmo modo com fenômenos tais como as viagens
transoceânicas, o turismo e o imobiliário). Em particular, Innis se esforça em
demonstrar a extensão em que o comércio de peles define as condições de desenvolvimento do sistema de ferrovias. Além disso, como examinarei adiante,
um tema recorrente no texto de Innis consistia em como o transporte e a
comunicação – tal como consagrados no crescimento e desenvolvimento da
CPR – poderiam ser vistos como constitutivos de uma civilização emergente
no Canadá.
A análise do texto deixa claro que Innis não estava simplesmente escrevendo um estudo descritivo da estrada de ferro, ele estava às voltas com a
questão do surgimento do Canadá. Ele ressaltou que embora este país tenha
3Depois de concluir sua tese de doutorado sobre a CPR na Universidade de Chicago em 1920, Innis
publicou uma versão revisada deste trabalho em 1923.
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alcançado algum grau de união política com a Confederação,4 essa união era
fraca e atenuada. De acordo com Innis, ela ligaria as civilizações que tinham
crescido em torno de três das maiores bacias hidrográficas, nomeadamente, o Pacífico, a Baía de Hudson e o Saint Lawrence. Todas formadas graças
ao comércio de peles. No entanto, sua análise deixa claro que o Canadá não
se formou simplesmente nas searas do comércio de peles, como muitos têm
afirmado, ele ressaltou que a exigência de grandes áreas inabitadas fazia do
comércio de peles algo amplamente antitético em relação à civilização. De
fato, a preservação do comércio de peles pela Hudson’s Bay Company serviu para retardar o povoamento humano. Logo, em decorrência dos conflitos
que engendrou, a civilização que se desenvolveu em relação dialética com o
comércio de peles foi um catalisador para a civilização. Em virtude dos assentamentos que a Hudson’s Bay Company implantou para administrar o
mercado de peles, o comércio e a indústria que ali floresceram acabaram por
suplantar os assentamentos.
De fato, Innis procurou situar a CPR em relação ao desenvolvimento
de assentamentos dentro das três subcivilizações que existiam no Canadá,
em grande parte em decorrência das atividades da Hudson’s Bay Company.
O capítulo introdutório faz o mapa dos modos como a civilização e os assentamentos se desenvolveram nas três bacias hidrográficas, e os desafios em
jogo quando foram feitos esforços para uni-las na parte norte da América do
Norte.
O relato de Innis surpreende, pois não procede cronologicamente, mas
em ordem cronológica inversa. Ele começa no oeste, se volta para Manitoba,
e conclui com a base de drenagem do St. Lawrence. Por que isso? Pode-se argumentar que seu estudo foi firmemente ancorado no presente e, portanto,
começou com o contemporâneo, trabalhando para trás para entender suas
raízes. A questão era saber como a civilização canadense poderia ser realizada, por assim dizer, fazendo da união política uma união real, graças ao
fortalecimento das relações econômicas e dos vínculos civilizatórios. Embora
Innis evidenciasse certa simpatia pela British Columbia e a Red River Colony
4A Conferação do Canadá refere-se ao processo de formação deste país na década de 1860. No
início eram apenas quatro colônias britânicas e outras foram gradualmente integradas até formar
o Canadá de hoje. (N.T.)
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(Colônia do Rio Vermelho), seu ponto de referência era claramente o leste
canadense em conformidade com as suas elites políticas e econômicas. A este
respeito, as duas subcivilizações do oeste apresentaram problemas diferentes
em virtude de cada uma ter uma maneira diferente de operar o comércio de
peles. No caso da British Columbia, o comércio de peles foi importante no
início, mas diminuiu depois no sul nas regiões de povoamento americano.
O Imperialismo norte-americano resultou na disseminação de colonos, que
forçaram uma resolução do litígio de fronteira em 1846, dando aos Estados
Unidos terras ao sul do paralelo 49. Este arranjo político forçou os britânicos
a desenvolver suas organizações comerciais independentemente do rio Columbia. Além disso, a Hudson’s Bay Company estava em uma posição frágil
por causa da distância entre sua sede e a costa oeste, o que significava que as
autoridades locais poderiam ter certo controle para incentivar o povoamento
e o desenvolvimento de uma infraestrutura para a civilização. Em decorrência
da corrida do ouro, foi estabelecido um desenvolvimento dinâmico, combinando transporte, mineração e povoamento, desimpedido pelo comércio
de peles. Assim, devido a este crescimento de força e de autonomia – a uma
distância muito grande do centro do poder, no leste canadense –, era vital
estabelecer linhas de comunicação, para evitar a possibilidade de estabelecer
uma causa comum com seus vizinhos do Sul.
Innis em seguida voltou-se para o sistema da Baía de Hudson, dando
atenção especial para a Red River Colony, localizada em uma área controlada
e monopolizada pela Hudson’s Bay Company. Isto resultou em uma relação
altamente conflituosa entre o povoamento e a Companhia. O legado foi uma
colônia muito alienada às autoridades centrais e precisando ser colocada na
linha, novamente através do fortalecimento das linhas de comunicação entre
a mesma e o leste canadense. A subcivilização da bacia hídrica do St. Lawrence, segundo Innis, tinha sido capaz de desenvolver a indústria e o comércio de
forma irrestrita, porque tinha sido estabelecida em uma área em que o mercado de peles do império francês tinha se desmoronado. Assim, ela poderia
servir melhor como fonte para a modernização do resto do Canadá através de
meios tecnológicos.
O que tornou possível a civilização canadense, na visão de Innis, foi
uma ligação das três civilizações através de uma ferrovia transcontinental.
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Ele comparou o sistema ferroviário a uma ponte que atravessava os principais
pilares das três áreas do sistema hídrico. Os comentários de Innis revelam
que ele tinha em mente mais do que simplesmente uma ligação entre o leste e o oeste, ele se esforçou em enfatizar a importância da rede de linhas
que foi construída, trazendo a civilização, os assentamentos e a circulação
de mercadorias até áreas remotas. Innis tinha uma visão clara da emergente internacionalização do Canadá muito antes de publicar The Cod Fisheries
(A Pesca do Bacalhau, 1940). Ele não apenas via o Canadá como um posto
avançado da civilização europeia, o qual estava se adaptando ao novo mundo;
ele também via a integração do Canadá à ordem do mundo imperial através
das operações da Canadian Pacific Railway.
A história da CPR de Innis pode ser vista como um primeiro levantamento e inventário do Estado do Canadá, identificando e mostrando a relação de
suas partes constituintes. Neste sentido, é notável que Innis tenha organizado seu relato em termos de “índices” de civilização. De fato, alguns capítulos
são organizados desta forma. Em sua opinião a ferrovia oferecia claros padrões de civilização. O uso de índices revela o engajamento ativista de Innis
com o processo de evolução. Um índice, por sua própria natureza, consiste
em um padrão de avaliação do desenvolvimento. Ele permite determinar em
que medida a civilização foi realizada dentro de uma variedade de domínios,
tornando possível a tomada de ações concertadas em caso de necessidade,
e corrigir áreas onde a evolução ficou para trás. Tomados em conjunto, os
vários índices que determinavam o lugar que a civilização canadense tinha na
escala evolutiva forneceriam uma imagem instantânea do desenvolvimento,
o que seria valioso para os políticos, assim como para as elites trabalhando no
setor privado5. Para Innis, alguns índices importantes incluíam contratos, o
valor do frete, bem como o frete de passageiros, os lucros, as taxas de frete e
a eficiência.
Ao fazer uso dos índices como marcadores para a civilização, Innis notou a presença de grupos de desenvolvimentos derivados que acompanhavam
o índice em questão. Por exemplo, ele observou que a expansão da estrada e
5A discussão de Innis sobre o comércio contemporâneo de peles também usou índices como
pontos de referência, notadamente em sua discussão sobre como o aumento dos preços serviu
como um índice. (INNIS, 1927)
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o desenvolvimento do transporte de mercadorias estavam ligados não só à
circulação de mercadorias, mas também ao aumento de equipamentos (tais
como locomotivas, carros de primeira classe, carros para fumantes, carros de
caixa, carros de plataforma, carros de gado, vagões de carga e carros de ferramentas). (INNIS, 1923, p. 133) Além disso, outras facilidades, como o telégrafo,
elevadores de grãos, serviço de lago (com melhoramento das instalações nos
terminais), bem como lojas de automóveis e lojas de consertos estavam ligados. (INNIS, 1923, p. 134) A vontade de estender o serviço de frete também
levou à expansão de ramais (para compensar os custos gerais da linha principal) e à aquisição de instalações portuárias na fachada atlântica. (INNIS, 1923,
p. 135-137)
As taxas de frete também foram importantes para Innis devido ao que
elas revelam sobre as relações entre as margens e a periferia, bem como do
movimento dos bens de primeira necessidade. Neste sentido ele examinou
com muita atenção as questões de regulamentação. Através de seu estudo, ele
tornou-se extremamente consciente dos desequilíbrios que tinham ocorrido.
O motor de crescimento para a Canadian Pacific Railway foi o amplo desenvolvimento da rede de ramificações de linhas no oeste, o que resultou em
amplo movimento de cargas e pessoas. No entanto, por causa dos elevados
investimentos envolvidos na construção da estrada através do longo e improdutivo terreno ao norte do Lake Superior, a Companhia estava sob pressão
para recuperar seu investimento. Devido à situação de concorrência no leste,
o que limitou os preços que podiam ser cobrados, esta opção não foi aberta.
Por isso ela procurou recuperar o seu investimento através da cobrança de
elevadas taxas de frete para o oeste canadense, o que criou um grande descontentamento junto aos agricultores das pradarias e alimentou a formação
do Partido Progressista. Embora Innis tivesse certa simpatia com os interesses do oeste, ele acreditava que o assunto tinha sido efetivamente atendido
pelo Conselho de Comissários Ferroviários (Board of Railway Commissioners
- BRC), que desempenhou o papel de mediação entre os proprietários da ferrovia e os agricultores do oeste. Seguindo sua abordagem evolucionista, Innis
achava que o BRC representava um mecanismo que a civilização desenvolveu
para regular as tensões internas.
Civilização, transporte e assentamento—
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Na época em que Innis escreveu sua History of the Canadian Pacific
Railway, nem a comunicação organizacional, nem tampouco o estudo das
dinâmicas organizacionais existiam como campos de estudo. Não obstante,
pode-se perceber um grande interesse de Innis por questões pertinentes a
essas áreas de estudos acadêmicos. Em particular, ele era da opinião que o
transporte, que por sua própria natureza envolvia linhas e redes de comunicação em grandes áreas muito dispersas, formava a base da civilização.
Isso ficou claro em seus comentários sobre as canoas usadas no início do
comércio de peles, o desenvolvimento de estradas e canais e, em particular,
a construção de linhas ferroviárias. Para invocar um termo que ele mesmo
iria popularizar mais tarde, estes sistemas de transporte poderiam ser vistos como formas de comunicação com tendência ao espaço (space-binding).
O que distinguia a ferrovia de outras formas de transporte/comunicação era
o nível de sofisticação e engenharia tecnológica que representava, os custos
gerais que envolvia, sua velocidade e capacidade de transporte, e acima de
tudo, sua capacidade de servir de catalisador para outros desenvolvimentos.
A ferrovia, ao contrário de outras formas de comunicação, tornou possível o povoamento humano em larga escala. A ferrovia não só transportava
colonos e seus bens, mas permitiu que eles se concentrassem em novas áreas urbanas, e abriu novo território agrícola onde poderiam trabalhar a terra.
Além disso, uma vez estabelecidos os colonos, a ferrovia transportava seus
produtos e mercadorias até o mercado, trazia bens manufaturados até eles, e
fornecia os serviços postais e telegráficos que precisavam para se manter em
contato com o resto do mundo. A ferrovia, segundo Innis, tornou possível
a criação de novas redes globais de transporte e de comunicação. Ele continuamente enfatizou que a construção da Canadian Pacific Railway estava
intimamente ligada ao desenvolvimento do transporte dos navios a vapor
de longa distância, tanto nas águas internas dos Grandes Lagos, quanto nos
oceanos Atlântico e Pacífico. Isso significava que a combinação de linhas ferroviárias com as linhas de transportes dos navios a vapor não só permitiu que
o Canadá se desenvolvesse como um posto avançado da civilização ocidental,
mas permitiu que a nova nação se tornasse o nexo central de comunicação
entre as civilizações europeias e asiáticas.
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5/20/14 4:31 PM
A History of the Canadian Pacific Railway de Innis é importante não só
para o que tinha a dizer sobre a relação entre ferrovia, comunicação e civilização; ela também fornece um ponto de entrada para entender seus primeiros
trabalhos. Na verdade, vários estudos que Innis publicou durante o período
de 1927-1930 foram estruturados pelo ponto de vista que ele havia desenvolvido em seu trabalho sobre a CPR.
Innis: sobre transporte, povoamentos e produtos de
primeira necessidade
Esse período é crítico para a obra de Innis, visto que começou a explorar o
lugar emergente do Canadá no mundo. Ele não só analisou a forma como a
jovem nação recém-industrializada se ajustou na ordem política e econômica
global, mas explorou suas relações com outros países. Enquanto os escritos
em questão se referem a vários produtos de primeira necessidade, Innis enfatizou que a produção desses produtos só poderia ser compreendida a partir
do modelo de povoamento que emergiu com a industrialização impulsionada
pela ferrovia. Por exemplo, a ferrovia teve grande importância em um artigo
sobre o povoamento do oeste canadense que Innis apresentou nas reuniões da
International Geographical Association, realizadas na Universidade de Cambridge, em 1928, no qual ele discute como o desenvolvimento da economia
do trigo no oeste canadense foi afetado pelos “desenvolvimentos tecnológicos
nos Estados Unidos, responsáveis por
​​ um aumento rápido na produção de
trigo”, bem como pela “industrialização crescente da Grã-Bretanha”. (INNIS,
1930a, p. 373) Acima de tudo, ele ressaltou o impacto da construção da ferrovia
no oeste canadense:
A Canadian Pacific Railway foi concluída de Winnipeg até Vancouver no oeste e até Montreal no leste. O país foi rapidamente
vistoriado e o território aberto para novos colonos, que foram introduzidos no país através de uma ampla publicidade por parte da
ferrovia e do governo. (INNIS, 1930a, p. 373)
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Alinhado com o quadro de referência “possibilista”, Innis argumenta que
as características físicas das pradarias interagiam com a tecnologia ferroviária
para produzir resultados específicos em termos de comércio e assentamentos:
A regularidade das pradarias do oeste canadense facilitou a construção rápida da ferroviária e a rápida ocupação pelos colonos.
A relativa ausência de árvores de grande porte tornou possível a
rápida divisão do solo virgem e apressou a produção de trigo. Os
Grandes Lagos ofereceram um curso de água conveniente para o
transporte de grandes quantidades de trigo para o litoral do Atlântico. As desvantagens geográficas ocasionadas pela localização de
passagens de montanha, que determinaram a projeção da linha
principal, foram de importância relativamente pequena. (INNIS,
1930a, p. 373)
Innis também dedicou muita atenção à estrutura organizacional da
CPR, que, em sua opinião, fluiu a partir do “fundo político” do dia:
O controle da ferrovia foi colocado nas mãos de uma única empresa para que a construção fosse realizada mais rapidamente e que o
país fosse colonizado de forma mais eficaz. As energias encarregadas ​​do rápido povoamento poderiam ser direcionadas com grande
eficácia para a única tarefa de incentivar a imigração e desenvolver
o tráfego migratório. (INNIS, 1930a, p. 374)
Innis chamou a atenção sobre como “a eficiência crescente do mecanismo de preço”, alimentando a disseminação da industrialização através da
ferrovia, afetou bastante o desenvolvimento da economia de trigo.
O trigo produzido no Canadá era vendido em um mercado mundial
em troca de pagamento em dinheiro à vista. As várias operações
envolvidas na transferência do trigo, do produtor canadense ao
consumidor inglês, necessitavam de um elevado grau de eficiência
na comercialização do trigo e no mercado de câmbio internacional e interno. Bancos canadenses foram rapidamente extendidos a
partir da sede no leste e foram feitas adaptações para que o trigo
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pudesse ser enviado, com o mínimo atrito possível, diretamente da
fronteira até os centros da industrialização. (INNIS, 1930a, p. 374)
O que tornou possível essa maior eficiência, segundo Innis, foram as
“melhorias de comunicação, a formação de habilidade bancária, e um sistema
educacional comparativamente mais eficaz. Os efeitos cumulativos destes
fatores podem ser vistos no rápido e acentuado aumento na produção e exportação de trigo”. (INNIS, 1930a, p. 374) Este padrão de desenvolvimento,
sugere Innis, teve implicações importantes para a organização da vida urbana
e rural no Oeste canadense. Em decorrência de fatores como a dispersão dos
colonos em faixas estreitas transzonais às linhas ferroviárias, a ocupação de
terras que poderiam ser “divididas para cultivo sem dificuldade” e o trabalho
de campo baseado em flutuações sazonais, “a vida em família e a vida social
foram temporariamente separadas”, e “a vida em comunidade foi seriamente
prejudicada”. “Centros urbanos”, argumentou Innis, “foram criados em relação direta com as ferrovias e a conveniência de elevadores para o embarque
de grãos... Estes centros se tornaram ponto de distribuição para suprimentos, por exemplo: implementos agrícolas, madeira, carvão e mercadorias em
geral”. Esses grandes centros “floresceram em pontos divisionais”6 e eram
“dependentes da localização de linhas secundárias e dos pontos de entroncamento, de pontos terminais, e do estímulo à população oferecido por prédios
públicos, instalações educacionais e casas populares”. Assim, o crescimento
das cidades foi possível graças às “ferrovias e os subsídios do governo”. Isso
significou que os centros urbanos do Oeste canadense eram caracterizados
por “períodos de febril especulação imobiliária e pelos pesados encargos
​​
das
longas linhas de bondes, das linhas de luz elétrica, das tubulações de gás, das
linhas telefônicas e dos sistemas de esgoto”. (INNIS, 1930a, p. 375)
No entanto Innis sustentou que a vida nessas comunidades estava
melhorando: linhas secundárias foram construídas dando maior
acessibilidade. O automóvel, o telefone e o rádio contribuíram
para a solução dos problemas. Melhores condições de vida segui6No Canadá divisional points são estações que fornecem acesso e serviços aos passegeiros, como
também abastecem e cuidam da manutenção dos trens. Foram fomentadores do crescimento
urbano, várias cidades importantes tiveram como origem um ponto divisional. (N.T.)
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ram as melhorias de transporte e de comunicação. O pool para a
exploração do trigo se desenvolveu como a manifestação de uma
nova solidariedade. (INNIS, 1930a, p. 376)
Esta linha de argumentação também serviu de pano de fundo para
The Fur Trade in Canada (O Comércio de Peles do Canadá, 1927). Com base
no extenso trabalho de campo e nas pesquisas de arquivos, Innis examina
esta atividade com destaque para sua prática e perspectivas.7 O fato de estes
estudos garatiram a ele o centro do palco durante a década de 1920, revela
que a sua preocupação principal neste momento não era tanto se envolver na
história econômica canadense em si mesma, mas ao contrário, dar sentido ao
estado da construção da civilização no Canadá – um projeto, claro, que podia
ser auxiliado e estimulado pela pesquisa histórica. Ao descrever a indústria
do comércio de peles da década de 1920, Innis salientou a sua estreita ligação
com a urbanização, um processo que estava intimamente associado com o
desenvolvimento do transporte ferroviário:
A demanda de peles estava localizada principalmente em centros
populacionais que acolhem uma grande classe social voltada ao
lazer. Eram áreas com populações em que as diferenças de classe
foram estabelecidas como parte inerente da organização social, ou
que tinham aumentado a produção de bens através de novos processos, como nos países recentemente submetidos ao alcance da
indústria da máquina[...] o crescimento das grandes cidades [foi]
possível graças à existência de um excedente de bens [...]. (INNIS,
1927, p. 17)
Pela mesma razão, Innis observou um aumento no número de caçadores
brancos, cujos métodos de caça ele considerava superiores aos dos nativos.
De acordo com Innis, a crescente presença desses caçadores se devia às “novas
7
The Fur Trade in Canada tinha a intenção de apenas complementar o trabalho anterior, fornecendo-lhe o contexto histórico. Como R.M. Maclver notou em seu prefácio ao texto, essa história do
comércio de peles, aqui apresentada pelo Doutor Innis, pode ser considerado como uma introdução ao estudo analítico desta indústria, que aparece em outro volume, The Fur trade of Canada.
(1927) Os dois volumes juntos têm a intenção de dar uma sinopse da indústria, mostrando,
dentro do contexto, histórico a importância social e econômica do comércio de peles, o papel que
desempenhou e continua a desempenhar na vida geral do país. (INNIS, 1930)
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linhas de transporte ligadas à construção das ferrovias”. (INNIS, 1927, p. 94)
De maneira geral, Innis acreditava que a transformação do transporte, enraizada na disseminação da tecnologia ferroviária, aumentaria a rivalidade entre
os comerciantes de peles:
As perspectivas não são promissoras. Parece provável que a concorrência entre os comerciantes vai aumentar com constante a
melhoria dos meios de transporte. Em condições favoráveis de
transporte, o pequeno comerciante experiente tem certas vantagens sobre a grande empresa. (INNIS, 1927, p. 96)
O ponto de vista de Innis era aquele do Estado, confrontado com o problema de fazer a indústria de peles funcionar de forma mais eficaz através da
busca de maneiras de aumentar a oferta e de regular a produção. Encarnando
o evolucionismo que Innis via como característica da civilização ocidental, o
Estado, de acordo com Innis, exigia uma base de conhecimento para poder
manter as indústrias de produtos de primeira necessidade em equilíbrio. Portanto, o conhecimento que ele e seus colegas produziam sobre a indústria de
peles – enfatizando a relação desta com a industrialização, com novas redes
de transporte e povoamento – era intrinsecamente de natureza prática e bem
alinhado com as tendências tayloristas do período.8
Conclusão
Há muito mais em jogo neste artigo do que demonstrar que Harold Innis
fez importantes contribuições para a comunicação organizacional. Trata-se
também de questionar os pressupostos profundamente arraigados sobre que
tipos de organizações são considerados dignos de estudo e o que significa
a comunicação dentro de uma organização. Acima de tudo, ele fornece alguns insights sobre como a comunicação organizacional pode ser examinada
historicamente. Fazer isso, no entanto, significa repensar em que medida os
nossos conceitos atuais, tanto de organização, como de comunicação, podem
8
Como Veblen e Taylor, Innis era um grande admirador da profissão de engenharia e seu ethos de
eficiência.
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ser aplicados a períodos anteriores. De maneira geral, a pesquisa neste campo
centrou-se na cena contemporânea, com particular referência à comunicação oral e textual em organizações que operam dentro de fronteiras espaciais
delimitadas. Dados esses preconceitos “presentistas”, não é de admirar que
tão pouca pesquisa histórica sobre a comunicação organizacional tem sido
produzida; examinada através da lente de categorias e pressupostos contemporâneos, fenômenos históricos parecem ter pouca relevância para o campo
da comunicação organizacional.9
No entanto, se abandonarmos as nossas noções atuais do que organização e comunicação significam para nós em favor do que organização e
comunicação significavam para pensadores e profissionais do passado, poderemos desenvolver uma melhor apreciação de como questões de relevância
para a comunicação organizacional foram abordadas, muito antes de o próprio campo tomar forma.10 No caso de Innis, como acontecem com muitos
de seus contemporâneos, as organizações se referiam a amplas entidades espacialmente dispersas (como a Canadian Pacific Railway e a Hudson’s Bay
Company), que eram definidas não tanto pelo que se passava em suas sedes,
mas por suas atividades nos territórios distantes do interior canadense. Em
virtude das grandes distâncias envolvidas e da dificuldade do terreno, a comunicação no interior das organizações ocorria, em grande parte, através de
transporte. Isso não só envolvia a movimentação física de cartas, relatórios e
memorandos, mas também colocava as pessoas face a face, assim como produzia e reproduzia as redes da coletividade, fossem essas redes compostas por
postos de comércio de peles, pools para a produção de trigo, pontos de divisão
das estradas de ferro, ou vilas de pescadores.
Ao mesmo tempo, esta comunicação através do transporte tornou possível a formação de numerosas e diversificadas estruturas organizacionais,
que acompanhavam os processos de povoamento, cultivo e que eram ligados
9Refletindo sobre essa tendência, vale ressaltar que a Divisão de Comunicação Organizacional
(OCD) [da Associação Internacional de Comunicação] centra-se na análise, compreensão e crítica
das práticas de comunicação na vida organizacional contemporânea (ICA, 2009, grifo nosso).
10A obra de Raymond Williams sobre palavras-chave (1976) é instrutiva a este respeito, pois permite-nos analisar criticamente como os conceitos como a comunicação e a organização evoluíram
enquanto as circunstâncias históricas mudaram.
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à propagação da ferrovia, dos navios a vapor e outras novas formas de transportes mecanizados. De um ponto de vista innisiano, as formas de transporte
– da canoa até a ferrovia, passando pelos navios a vapor, o trator e o avião
– foram, em virtude do seu papel comunicativo, um produto de primeira necessidade para a disseminação da “civilização”, assim como foram as peles,
o peixe, a madeira e o trigo.
R e f e r ê n c ia s
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90—William J. Buxton
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A pesquisa-criação
explicada
Quatro modos interligados
Owen Chapman
Kim Sawchuk
Introdução
A pesquisa-criação é uma categoria em transformação dentro das ciências
sociais e humanas, no Canadá. Na Grã-Bretanha e na Austrália, é geralmente chamada de prática como pesquisa (practice as research, BARRETT; BOLT,
2010). Nos Estados Unidos, é chamada de pesquisa baseada nas artes (arts-based
research, LEAVY, 2009) ou é equiparada aos doutorados em criação artística.
(ELKINS, 2009) As teses e os projetos de pesquisa-criação incluem uma componente estética experimental, uma obra artística ou um processo criativo
nos resultados finais de um estudo. Os tópicos contemplados não poderiam
ser examinados, nem explorados se a prática criativa, independentemente da
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expressão adotada, não tiver como base uma produção artística: vídeo, performance, filme, obra sonora, blog ou texto multimídia.
As universidades e outras instituições de ensino que conferem títulos
acadêmicos estabeleceram formalmente protocolos e práticas que identificam as áreas válidas do conhecimento e que são também usados como quadro
normativo para os modos de apresentação e de avaliação. Seja qual for a
forma que assuma, o gênero acadêmico é facilmente reconhecível: o texto
acadêmico geralmente envolve um enunciado, uma pergunta de pesquisa,
uma revisão da literatura, uma teoria, uma metodologia, uma apresentação
de resultados, uma análise e uma conclusão. A tese tem que ter todos estes
componentes. Enquanto, no caso da pesquisa-criação, a tese e a pesquisa frequentemente rejeitam as formas argumentativas que caracterizam a maior
parte do conhecimento acadêmico. De fato, os aspectos teóricos, técnicos e
criativos de um projeto são realizados em paralelo.
Os modos de apresentação também variam. Portanto, enquanto metodologia, a pesquisa-criação questiona as representações convencionais do
gênero acadêmico assim como a produção de conhecimento nas culturas do
impresso.
Apesar da aparente “novidade” da pesquisa-criação, existem importantes precursores na cultura escrita do conhecimento nas ciências humanas:
Walter Benjamin e seu uso inovador da alegoria (1969); Marshall McLuhan
e sua experiência tipográfica em Counterblast (1970) (MCLUHAN; PARKER,
1970); Donna Haraway e sua remodelação do manifesto (1991); e Roland Barthes (1977) e sua implantação do alfabeto como modelo para uma análise do
discurso sobre o amor. Estes exemplos mostram que acadêmicos experimentam há muito tempo formas de redação que questionam a hegemonia dos
modos de argumentação e de apresentação lógico-dedutivos ou analíticos.
Este artigo tem como objetivo explicar, decompor e desenvolver o conceito de pesquisa-criação em algumas de suas manifestações mais recentes.
Primeiro, revisamos alguns dos estudos acadêmicos atuais que analisam a
relação entre a pesquisa e a prática criativa. Então, a partir da noção de “semelhanças de família” desenvolvida por Ludwig Wittgenstein (2009), discutimos
as quatro maneiras em que o termo “pesquisa” e a ideia de “criação” podem se
articular entre si. Concentrando nossa atenção sobre o que interliga as duas
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partes da expressão “pesquisa-criativa”, descrevemos e examinamos quatro
modos: “a pesquisa para a criação”, “a pesquisa pela criação”, “as apresentações criativas da pesquisa” e enfim “a criação como pesquisa”.
Em cada um desses casos, enfatizamos que a pesquisa-criação representa um modo válido de expressão das ideias, dos conceitos e dos resultados de
experimentos. Para fazer isso, apelamos para nossos trabalhos e nossa jornada
como teóricos e profissionais no campo das mídias. As quatro subcategorias
listadas representam potenciais momentos do processo de pesquisa-criação,
que, dependendo dos projetos, se tornam mais ou menos importantes. Elas
não são nem mutuamente exclusivas, nem exaustivas. O objetivo é de destacar
as perspectivas que permitam melhor entender a pesquisa-criação enquanto
forma rigorosa de intervenção crítica que reflete as experiências midiáticas e
os modos de conhecimento atuais dos estudantes e dos pesquisadores.
O i n í c i o d e u m d e b at e
Recentemente, um grande número de trabalhos acadêmicos têm se concentrado no conceito de pesquisa-criação. (ZEFFIRO; SAWCHUK, 2012) Alguns
de seus autores – especialistas em ciências sociais e humanas – têm se esforçado para esclarecer o papel da criatividade e da imaginação enquanto
funções intrínsecas da pesquisa. Às vezes muito recentes, todos esses estudos,
no entanto, são baseados em livros como A imaginação sociológica de C. Wright Mills (1967) ou o ensaio importante de Laurel Richardson (2000) sobre a
escrita como um método de pesquisa. Lembramos que esta autora defende
o papel essencial da criatividade, da imaginação e da política da forma nas
ciências sociais e humanas.
Os acadêmicos que se dedicam a essas perguntas agora vão além das
definições extensivas e tentam ser mais específicos. Haseman (2006) fala de
“investigação orientada pela prática” (practice-led research).
Em Leavy (2009), essa expressão é usada em paralelo com as de pesquisa
baseada nas artes (arts-based research) e de pesquisa performativa (performative research). Barrett e Bolt (2010), por sua vez, tratam de “pesquisa em
estúdio” (studio-based inquiry) e de “prática como pesquisa” (practice as
A pesquisa-criação explicada—
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research). Embora eles usem um vocabulário diferente, os autores levantam
questões não apenas fascinantes, mas complementárias sobre a avaliação de
tais trabalhos. Os estudos recentes se diferenciam precisamente daqueles
que os precederam pelo interesse para as normas de avaliação. Barrett e Bolt
(2010), Leavy (2009) e Haseman (2006) concordam com o seguinte fato: por
omissão, os subsídios – e outras formas de reconhecimento oficial do potencial de um programa de pesquisa – muitas vezes são dados para trabalhos
realizados através de uma abordagem quantitativa e positivista.
Por sua natureza muitas vezes experimental e processual, a pesquisa-criação tem um enorme potencial enquanto intervenção neste “regime de
verdade” gerando formas de conhecimento contextualizado, juntamente com
novas formas de desenvolver e disseminar o conhecimento, a pesquisa-criação ajuda a descobrir os diferentes quadros e métodos de análise cultural (por
exemplo, uma representação de dança ou de teatro no teatro ou em outro
lugar, uma série de composições áudio gravadas em estúdio e a prototipagem
colaborativa de novas aplicações de mídia). (FOUCAULT, 1980) Inspirando-se em Pierre Bourdieu, Barrett e Bolt (2010) operacionaliza conceitos como
“conhecimentos tácitos” e “a outra lógica da prática”. Assim, ela alinha a pesquisa-criação com os métodos mais convencionais, assumindo que os modos
de conhecimento “não científicos” e intuitivos poderiam estar na origem de
toda descoberta, uma ideia que é rejeitada quase sempre no contexto dos paradigmas de pesquisa tradicional.
Barrett e Bolt (2010, p. 4) corretamente salienta que os conhecimentos
subjetivos e tácitos estão relacionados com o sentimento de fazer “parte do
jogo”. Neste contexto, as ideias e estratégias surgem segundo as demandas
que se manifestam durante os processos criativos.
Essa concepção do papel dos “conhecimentos tácitos”, da “intuição” e dos
“sentimentos” proporciona um dos principais motivos do comprometimento dos pesquisadores-criadores com os métodos dos quais são promotores.
De fato, é somente através de uma abordagem artística e criativa de seus temas de pesquisa que conseguem se envolver e se engajar em um processo
que lhes-convêm. Esta motivação é, sem dúvida, essencial para a continuação de todo programa de pesquisa; é particularmente importante no caso da
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pesquisa-criação uma vez que a mesma enfatiza a tomada de riscos criativos,
ato muitas vezes vivido como um tipo de jogo.
Além disso, Barrett e Bolt (2010, p. 11) destaca que, “tanto como uma
obra de arte, a redação de uma pesquisa qualitativa tem como objetivo, finalmente, (re)presentar um conjunto de significados para uma audiência”. Os
métodos focados nas artes são meios para criar uma consciência crítica ou
para sensibilizar as pessoas; são úteis para o trabalho de identidade e podem
ajudar a expressar opiniões minoritárias e a promover o diálogo (BARRETT;
BOLT, 2010), incluindo a apresentação dos trabalhos acadêmicos a um público mais amplo. Além disso, eles sugerem, por métodos indutivos, significados
frequentemente múltiplos. Os projetos de pesquisa-criação podem produzir
formas poderosas de introspecção e intervenção.
“A s s e m e l h a n ç a s d e fa m í l ia”
Como demonstrado em nossa análise inicial, a “pesquisa-criação” descreve
um conjunto de abordagens e atividades que integram os processos criativos
e envolvem a produção de obras de arte no âmbito universitário. Nosso objetivo é de definir e desenvolver este campo. Para fazer isso, vamos estabelecer
distinções no próprio seio do universo metodológico da pesquisa-criação em
vez de comparar esta prática com a pesquisa qualitativa ou quantitativa tal
como é geralmente considerada – embora as opiniões sobre o tema variem.
Nessa ótica, gostaríamos de oferecer quatro conceitos relacionados ao termo
pesquisa-criação. Através deste exercício, não pretendemos definir a essência
desse conceito, mas sim representar suas tipologias no contexto das “semelhanças de família” de Wittgenstein (2009). O livro Investigações Filosóficas1
deste autor é organizado em torno de uma série de aforismos. É interessante
notar que Wittgenstein usa os “jogos” para ilustrar a noção de “semelhanças
de família”. Ele questiona o fato de que eles ajuntam atividades tão diversas como xadrez, beisebol ou charadas. Ao invés de explicar o que têm em
comum, a ideia de “semelhanças de família” é um incentivo para prestar atenção não só as suas características comuns, mas também suas particularidades.
1Data de publicação original 1953.
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É assim que “encontramos uma complexa rede de similaridades que se sobrepõem e se entrecruzam, tanto em sua globalidade quanto em seus detalhes”.
(WITTGENSTEIN, 2009, p. 36, tradução nossa)
Wittgenstein compara este tipo de relacionamento em rede com a noção
de semelhanças de família, o que difere do conceito platônico de princípio filosófico. A fim de estabelecer semelhanças de família, buscamos determinar
tanto as semelhanças como as diferenças de determinados fenômenos, relacionados e heterogêneos.
Wittgenstein (2009, p. 38) concordava que havia “limites difusos” entre
os conceitos e que não era possível estabelecer distinções claras. Dada essa
imprecisão, como então descrever um conceito? O autor propõe o uso de
exemplos para aumentar a compreensão e para facilitar a análise: “É precisamente assim que se explica o que é um jogo. São dados exemplos na esperança
de que eles vão ser interpretados da maneira desejada”. Estes exemplos não
descrevem a essência de uma coisa e não constituem também uma definição
clara, é por isso que precisam ser implantados e que precisa-se fazê-los agir.
Além disso, eles não podem se substituir à compreensão de um fenômeno,
fazem parte integrante de sua ilustração.
As explicações de Wittgenstein sobre o uso de exemplos para ressaltar
as “semelhanças de família” são inseridas em uma concepção teórica da ontologia da pesquisa-criação – não enquanto entidade específica, mas sim como
conceito cujos limites são difusos. Obviamente, a pesquisa-criação não é uma
metodologia com contornos definidos ou perfeitamente claros. Refere-se,
de fato, a uma ampla variedade de possibilidades. As considerações de Wittgenstein orientam nosso uso de exemplos em termo de pesquisa-criação. As
quatro modalidades que discutiremos a seguir constituem, de fato, formas de
organizar os exemplos coletados. Claro, outras categorias e outros exemplos
poderiam ser propostos.
Ao oferecer quatro modos de pesquisa-criação – a “pesquisa para a criação”, a “pesquisa pela criação”, as “apresentações criativas da pesquisa” e a
“criação como pesquisa” chamamos a atenção para os dois termos principais.
Melhor, estamos realçando-os enquanto elementos mutualmente constitutivos nos exemplos enumerados, o que é devido tanto à relação a eles
atribuída que à maneira desta concepção se formar e ser colocada em prática.
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É também pela combinação de ambos esses componentes que a expressão
pesquisa-criação pode ser considerada como uma forma de intervenção potencial. Além disso, graças às possibilidades oferecidas através dos diversos
suportes utilizados em pesquisa-criação, os componentes de projetos podem
ser apresentados e divulgados através de modos de conhecimento paralelos.
Usando uma variedade de diferentes formas de citação ou de atribuição, tal
método é, portanto, uma extensão da etnografia performativa, segundo De
Garis (1999), sendo que “fazer” constitui uma forma eficaz de “conhecer”. Esta
perspectiva é ecoada nos recentes debates sobre a filosofia do método que, de
acordo com John Law, (2004, p. 2) trata da “bagunça na pesquisa em ciências
sociais”. No contexto de tais debates, a pesquisa é vista como uma prática de
“implementação” (enactment). Isso inclui a inédita interpretação do conceito
de “montagem” de Bruno Latour (2005) e a afirmação de Law (2004, p. 55)
que os “objetos de pesquisa” – ou o que geralmente designamos como tal –
são, na verdade, construções oriundas de diversas formas de representação
acadêmica.
A p e s q u i s a pa r a a c r ia ç ã o
Pode parecer enganoso distinguir as fases de pesquisa iniciais das fases
de produção (devido a uma crença equivocada de que o tempo dedicado à
pesquisa exclui o processo de produção “oficial”). No entanto, é importante
reconhecer que a criação – mesmo (e especialmente), quando realizada
como uma pesquisa per se – supõe, antes de tudo, uma compilação. Assim,
os elementos – documentos, ideias, conceitos, colaboradores, tecnologias
etc. – são reunidos durante um processo de “pesquisa”. Da mesma forma,
a leitura de artigos de revisão recentes, a busca de referências importantes
ou a realização de entrevistas desempenham um papel fundamental nas
várias contribuições acadêmicas do conhecimento, tratando-se de trabalhos
convencionais, projetos de pesquisa-criação ou de outras iniciativas. A
compilação constitui um tipo de pesquisa porque ela tende a uma futura
“revelação”, tornada possível por uma concepção artística da tecnologia
enquanto prática ou técnica. (HEIDEGGER, 1977)
A pesquisa-criação explicada—
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Tomamos por exemplo os trabalhos contínuos de Sawchuk sobre os rios
subterrâneos em Montréal. Os pesquisadores se propõem de fato a criar um
experimento in situ que permitirá aos usuários de smartphones descobrirem o
percurso dos rios desaparecidos e enterrados da cidade (ver www.mobilities.ca).
O projeto necessitou mais de um ano de pesquisas em arquivos do Canadá e do
Québec. A consulta de mapas e relatórios da época – bem como a prospecção
a pé – permitiu reconstruir a rede de cursos de água. O projeto também exigiu
esforços constantes para encontrar a melhor maneira de compartilhar recursos
graças à computação em nuvem, a programação em grande escala e o funcionamento do universo de aplicações. O aprendizado e a pesquisa relacionados
ao projeto foram realizados tanto antes como durante a fase de produção, durante a criação do site e do lançamento da versão inicial do aplicativo.
Durante todo o processo de produção, essas várias formas de coleta de
dados usando mídias digitais influenciaram sem parar as escolhas éticas e
estéticas da equipe.
A “pesquisa para a criação” evoca o caráter ao mesmo tempo essencial
e diversificado das práticas específicas da vida universitária – entrevistas,
compilação de “conteúdo digital”, pesquisa documental rigorosa, análise
documental, pesquisa técnica etc. na maioria dos projetos de pesquisa-criação. Ela requer a aplicação de uma série de técnicas de pesquisa de base
bem conhecidas. Podemos citar especificamente os procedimentos a serem
respeitados para uma revisão da literatura ou uma análise documental e a
definição de um conjunto de conceitos que fornecem orientação intelectual
e inspiração para os responsáveis do projeto. Deve-se ressaltar que muitos
projetos de pesquisa-criação em estudos de mídia não são o trabalho de uma
pessoa só. Estes são frequentemente colaborações complexas que envolvem significativamente a concepção participativa e a amizade como método
(TILLMANN-HEALY, 2003) na determinação dos objetivos criativos.
A p e s q u i s a p e l a c r ia ç ã o
A pesquisa é mais do que apenas uma simples etapa na elaboração de projetos
artísticos destinados a ter uma existência própria. Assim, as performances,
98—Owen Chapman e Kim Sawchuk
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experiências, obras de arte interativas e outras produções permitem a produção de dados de pesquisa que, finalmente, favorecem a compreensão de
diversas dinâmicas. A utilização da informação proveniente da pesquisa pela
criação não ocorre no final do processo, com o único propósito de “avaliar” a
eficácia do trabalho; de fato, o trabalho em si pode gerar informações sobre a
obra em gestação.
Este fenômeno pode ocorrer de várias maneiras, inclusive através de respostas oficiais de usuários objetivando a melhoria de um projeto ou a tomada
cuidadosa de notas de pesquisa.
Além disso, a concepção ou o teste iterativo supõem às vezes a participação de indivíduos ou de grupos pertencendo ao público-alvo. Por exemplo,
através de uma série de oficinas relacionadas ao projeto de gravação áudio
no campo Audio-Mobile (http://audio-mobile.org) de Chapman (em colaboração com Sawchuk), os participantes testam as novas versões do aplicativo
móvel, bem como outras aplicações comerciais para gravar e remixar. Nessas
oficinas – que variam em duração de um a dois fins de semana – também
são discutidos vários outros tipos de projetos áudio in situ realizados ao nível
internacional, bem como quadros teóricos e tecnológicos relacionados com
vários conceitos: “gravação em campo”, “caminhadas sonoras”, “dispositivos
móveis”, “paisagens sonoras” etc. A aplicação Audio-Mobile passou por várias
melhorias depois destas oficinas, modificações na concepção da interface,
adição ou remoção de algumas funções e mudanças na estrutura do menu
e do sistema de navegação. Considerando a experiência e os conhecimentos
que puderam ser extraídos destas oficinas, esses encontros são mais parecidos como breves colaborações entre os participantes. Elas também são a
origem de muitos novos conceitos tecnológicos, metodológicos, teóricos e
criativos que – seguindo o exemplo de Crow, Longford e Zeffiro Sawchuk
(2008) – coletamos e perfeiçoamos atualmente a fim de estabelecer protocolos e práticas para nossas iniciativas atuais e futuras.
No entanto, a inclusão de práticas artísticas colaborativas no mundo da
pesquisa sancionada pelas instituições e as novas oportunidades de financiamento têm, pode-se dizer, um preço. De fato, quando os artistas estão se
unindo com terceiros, às vezes são obrigados a preencher formulários complicados relacionados com o protocolo ético do projeto. Esses formulários
A pesquisa-criação explicada—
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 99
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muitas vezes deixam os comitês acadêmicos encarregados de examiná-los
e, confusos, influenciam as liberdades e as práticas dos próprios candidatos.
A pesquisa acadêmica envolvendo seres humanos deve passar certamente
por uma avaliação ética. No contexto da pesquisa-criação, o papel dos colaboradores artísticos é difícil de ser definido: são eles sujeitos de pesquisa
ou cocriadores? Assim, as questões que envolvem os protocolos institucionalizados da ética da pesquisa são extremamente importantes para o futuro
acadêmico da pesquisa-criação. Eles geram também muitos debates, especialmente no Canadá, onde os três órgãos administrando os protocolos de
Ética da Pesquisa – o Conselho de Pesquisas em Ciências Humanas (CRSHC),
o Instituto de Pesquisa em Saúde do Canadá (IRSC) e o Conselho de Pesquisas em Ciências Naturais e Engenharia do Canadá (CRSNG) – publicaram em
dezembro de 2010 uma nova versão de seus regulamentos. De acordo com
esses regulamentos, as práticas criativas não constituem “pesquisa” em si. Tal
declaração permite (e é, talvez, melhor assim) evitar a importante dificuldade
que seria o estabelecimento de diretrizes éticas para as práticas artísticas colaborativas. No entanto, ela também reforça a distinção histórica entre arte e
conhecimento. Contudo, um grande número de projetos de pesquisa-criação
visa justamente o questionamento desse conceito e pretende intervir na realidade da universidade. Voltaremos a este assunto no final do nosso artigo.2
A s a p r e s e n ta ç õ e s c r iat i va s d a p e s q u i s a
As apresentações criativas de pesquisa acadêmica tradicional é o terceiro
modo da pesquisa-criação no contexto das “semelhanças de família”. A recente explosão de gêneros acadêmicos indica claramente a vitalidade desta forma
de pesquisa-criação em muitas disciplinas: sociologia, estudos culturais, antropologia, comunicação e estudos de mídia, entre outros. Em 2000, em um
excelente artigo intitulado Writing as a Method of Inquiry (“escrever como método de investigação”), Laurel Richardson descrevia as muitas maneiras com
as quais práticas de escrita criativa intimamente relacionadas com a poética
2 Para mais informações sobre a Declaração de Política dos três Conselhos acesse: <http://www.
pre.ethics.gc.ca/pdf/fra/eptc2/EPTC_2_FINALE_Web.pdf >.
100—Owen Chapman e Kim Sawchuk
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 100
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das mídias questionaram os gêneros acadêmicos. Designando esse tipo de
pesquisa pela sigla PAC3 (Prática Analítica Criativa), ela afirma que esses modos de escrita experimentais dão resultados que se manifestam não só ao fim
de um projeto, mas também durante sua realização. O conhecimento não
difere da prática de gravação; é efetivamente retrabalhando nossos projetos
que chegamos ao conhecimento. Nas ciências humanas e sociais, a performer
acadêmica Jackie Orr adotava, em 2005, um estilo de escrita inspirada da colagem para melhor transmitir os aspectos do estado mental de “pânico” que
queria descrever. Nas conferências, ela utiliza amostras sonoras de boletim
de notícias que pontuam, enfatizam ou apoiam adequadamente as ideias que
apresenta. Enquanto ao projeto Lost Rivers (Rios Perdidos) de Sawchuk, foi
concretizado por uma aplicação, um site e exposições apresentadas em galerias tradicionais.
Nesses espaços, alguns dos “ativos digitais” do projeto foram mobilizados para uma projeção na vitrine, uma instalação de vídeo em grande escala
e uma caminhada sonora móvel, complementados por composições de áudio
interativas de Samuel Thulin – artista sonoro e doutorando em Comunicação.
Dado a vontade entre os pesquisadores em adotar modos mais poéticos e evocativos de expressão, as revistas acadêmicas devem agora lidar com
novos gêneros e encontrar maneiras originais de apresentar seu conteúdo on-line. RESmedia, por exemplo, convida os críticos a escrever artigos curtos e
a incorporar no texto imagens ou trechos dos filmes estudados. O Canadian
Journal of Communication também permite a inclusão de filmes, imagens e
sons na sua publicação online. No entanto, é Vectors que vai mais longe, uma
vez que apenas são selecionados projetos podendo existir somente online.
Quanto às teses, as universidades estabelecem regras sempre mais restritivas e, paradoxalmente, mais elásticas. Por exemplo, à normalização do
tamanho das margens e da fonte se junta a exigência de utilização de uma
fonte específica e, para fins de arquivo, o uso de papel – embora algumas universidades, deve-se notar, estão se movendo para práticas de arquivamento
digital. Da mesma forma, as imagens devem ser inseridas no texto segundo um código bem definido apenas como “figuras”, para ilustrar um ponto.
3
CAP <creative analytic practice/pratique analytique créative>. (N.T.)
A pesquisa-criação explicada—
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101
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As ilustrações, os arquivos de som, os trechos vídeos e outros meios não são
considerados como elementos essenciais. Na verdade, na maioria das instituições, avaliação e arquivamento dos mesmos são problemáticos.
Assim, em 2007, Chapman escreveu sua tese – Selected Sounds: A collective investigation into the practice of sample-based music – em HTML para
poder organizar algumas partes de maneira não linear e inserir exemplos de
áudio.4 Estes também foram gravados em um CD e colocados juntos com a
cópia do documento que Chapman foi obrigado a submeter. O uso de novas
mídias apresenta desafios, especialmente em termos de arquivamento e preservação. Tendo em conta a evolução constante dos sistemas operacionais,
das atualizações frequentes de aplicativos de software e dos programas e o aumento da velocidade de processamento e da capacidade de armazenamento
do material, a questão do arquivamento e acessibilidade futura desses projetos torna-se primordial.
A c r ia ç ã o c o m o p e s q u i s a
Para entender a mais complexa de nossas categorias – a criação como pesquisa – é importante entender que o surgimento de certos tipos de pesquisa
não é possível sem o ato de criação. Por pesquisa, não queremos dizer aqui a
análise de processo ou de produtos criativos na forma de dados. Defendemos
ao contrário que – de acordo com a orientação de cada um – criar uma obra
de arte constitui a pesquisa. Esta exploração pela criação pode incluir a experimentação, a análise, a crítica e um profundo compromisso com a teoria
e metodologia. Como categoria, a criação como pesquisa tem como objetivo
reconhecer este potencial. Trata-se de investigar a relação entre a tecnologia,
o ato de reunir e o de revelar através do processo artístico, onde, de acordo
com Franklin (1992) e Heidegger (1977), a “tecnologia” refere-se tanto ao “material” quanto a um estado de espírito e o ato de fabricar. Esta abordagem
supõe que o tempo, a energia e a atenção necessários para a pesquisa estejam
realocados no centro dos processos de prática criativa.
4
<http://selectedsounds.org>.
102—Owen Chapman e Kim Sawchuk
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 102
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O projeto MemorySpace5 de Sawchuk (2012) ilustra esse ponto de vista.
De fato, o processo criativo – a organização de uma exposição pública coletiva de fotografias pessoais, em colaboração com idosos – não teria tido o
sucesso esperado sem a vontade de aprender, inclusive através da discussão
e do uso de vários suportes de mídia digital. A simples redação de um texto
sobre os idosos e seu consumo de tecnologia digital, por exemplo, não teria
tido o mesmo impacto. O projeto, sem dúvida, levantou muitas questões teóricas. Assim, Sawchuk examinou a relação entre os suportes midiáticos e os
vários sentimentos vivenciados pelas pessoas com relação à proteção de suas
vidas pessoais, representadas, neste contexto, por imagens. De fato, estes sentimentos tomam o lugar da fronteira entre o público e o privado, limite que
influencia tanto as imagens pessoais que os participantes estão dispostos a
compartilhar os métodos de difusão que considerem aceitáveis.
Como parte de sua tese de doutorado sobre o uso de sample6 na música
(Selected Sounds, mencionada acima), Chapman, por sua vez, produziu um
disco compacto7 em colaboração com outros seis artistas sonoros. Cada participante sugeriu uma amostra áudio para o projeto e compôs uma música
usando apenas os sete tons propostos. Entrevistas com os artistas lançaram
luz sobre suas práticas de amostragem/sample, suas definições das mesmas,
as tecnologias que eles privilegiam e os processos que adotaram para contribuir com o projeto. Assim, a produção colaborativa forneceu não só um
ponto de referência fundamental para o componente etnográfico do projeto,
mas também permitiu a exploração do potencial deste tipo de práticas musicais e a sua demonstração frente aos auditores.
Portanto, o processo de colaboração resultou em uma pesquisa pela
criação. Os “resultados” da pesquisa também foram apresentados de forma
criativa e original. Esta combinação de modos de pesquisa-criação não é surpreendente; como mencionamos anteriormente, as quatro categorias não são
mutuamente exclusivas. No entanto, uma distinção essencial, embora sutil,
vá até o próprio cerne de nossa concepção de criação como pesquisa.
5<www.memoryspace.mobilities.ca>.
6Sample refere-se a trechos de outras músicas servindo de base para uma nova. (N.T.)
7
CD. (N.T.)
A pesquisa-criação explicada—
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 103
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O processo de amostragem colaborativo foi, para o próprio Chapman,
um modo de pesquisa essencial que permitiu a realização, análise,
contextualização e teorização de um conjunto de obras de arte originais e
direcionadas. O resultado é uma experiência de aprendizagem rica e versátil.
Durante o trabalho, a heterogeneidade idiossincrática das práticas musicais
inspiradas de amostras – cuja filiação a esta categoria permaneceu clara por
causa de seus ares familiares – se revelou. Prova irrefutável da diversidade
das abordagens, das estéticas e das técnicas no campo, o disco compacto
desta colaboração não poderia ter revelado esta “verdade” de maneira mais
eloquente. No entanto, sem interpretação, seu conteúdo permanece opaco.
Podemos considerar, entre outras coisas, as entrevistas realizadas no âmbito
do projeto, bem como as observações dos participantes, como formas de
identificar e explorar o conhecimento que já fazia parte da obra, por assim
dizer, o que leva à noção de criação como pesquisa. Este é também o que
faz deste empreendimento uma intervenção. Primeiro projeto de doutorado
de pesquisa-criação em comunicação no Canadá, ele oferece um modelo
original de pesquisa acadêmica. Em termos de contribuições textuais, uma
ligação explícita foi estabelecida entre as citações de autores e a amostragem
na música eletrônica. (CHAPMAN, 2011)
De novo, essas formulações teóricas foram exploradas, primeiramente,
através de práticas artísticas; Chapman as descreveu em seguinte, até mesmo
as imitou em certa medida, na sua tese escrita.
A artista performática e teórica, Natalie Loveless (2010), explica, admiravelmente, a nossa posição:
Tenho a intenção de estourar nossas reflexões sobre as categorias
de “prática” e “teoria” de modo que elas sejam secundárias em relação a uma ampla variedade de modos; eu quero interpretar a
prática na teoria e a teoria na prática, um pouco como a fita de
Moebius, isto é, como sendo diferentes apenas no contexto de um
determinado momento de produção. Queria que nossos conceitos
de “teoria” e “prática” sejam refutados enquanto opostos binários,
não pela assimilação, mas pela compreensão de suas complexidades contextualizadas.
104—Owen Chapman e Kim Sawchuk
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Se a pesquisa pela criação supõe um processo iterativo – idas e voltas
entre a pesquisa e a criação ou a reflexão e o desenvolvimento de conhecimento – a criação como pesquisa, por sua vez, redefine os conceitos de teoria,
criatividade e conhecimento como tais. Trata-se, ao mesmo tempo, de uma
forma prática de compromisso teórico e de reconhecimento dos processos
de análise e de articulação de novos conceitos fazendo, por vezes, parte do
processo de criação artística. A produção de conhecimento é feita através
de um trabalho criativo, em vez de uma simples análise ou interpretação do
mesmo. Assim, o trabalho criativo pode ser considerado como uma intervenção altamente eficaz que, pela sua forma de contribuir para o conhecimento,
se afasta significativamente da norma acadêmica. Isto leva a repercussões
epistemológicas. Fontes de conhecimento, as produções criativas – embora
equivalentes em termos culturais – são distintas de outros tipos de pesquisa
cujos resultados têm uma forma mais clássica: artigo de jornal especializado,
livro estudioso, fórmula matemática, relatório de pesquisa, estudo, teses etc.
Graças à pesquisa (ou seja, a interpretação e análise) e à criação (ou seja,
a implantação e o compromisso prático), o fenômeno que nos interessa surge.
Conclusão
Longe de querer estabelecer categorias definitivas, nossa abordagem propõe promover um exame lúdico das “semelhanças de família” entre os vários
aspectos da pesquisa-criação que muitas vezes inclui uma variedade de atividades. Obviamente não é fácil delimitar essas categorias, porque elas estão
interligadas. Os modos de pesquisa-criação não são etapas lineares, mas processos que operam em paralelo.
Aqui é onde nós queremos chegar: enquanto meio de analisar as mídias
que permitem aos acadêmicos experimentar diversos processos criativos,
a pesquisa-criação faz descobrir estruturas inéditas para entender, comunicar e divulgar conhecimento. A partir desta perspectiva, a pesquisa-criação
também é uma intervenção epistemológica no âmbito da metodologia acadêmica. Os novos horizontes que ela abre mudaram de aparência, dependendo
das disciplinas que a acolheram. Nossas experiências, por exemplo, foram
A pesquisa-criação explicada—
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firmemente enraizadas nas áreas da comunicação, das mídias e dos estudos culturais, como ensinadas na Universidade Concordia. Cada projeto de
pesquisa-criação é uma intervenção potencial, tanto no que diz respeito às
tradições de pesquisa, prática e história nos quais está registrado quanto dentro da instituição que o patrocina.
Essa heterogeneidade torna precisamente a pesquisa-criação um fenômeno tanto oportuno quanto problemático em termos da sua integração
nos sistemas universitários de produção de conhecimento. Por transgredir as
normas estabelecidas sobre a forma e o conteúdo da atividade universitária, a
pesquisa-criação revela sua natureza construída em relação com toda forma
de conhecimento. Ao fazê-lo, ela também aponta para outros elementos do
“regime de verdade” endêmico do sistema universitário, incluindo a tendência
a privilegiar as formas lineares e textuais de disseminação do conhecimento,
os métodos quantitativos de medida de produtividades dos teóricos, a natureza institucionalizada e burocrática do financiamento e o conservadorismo
de muitas publicações.
Felizmente, um número crescente de universidades canadenses reconhece a importância da pesquisa-criação e colabora com pesquisadores,
acadêmicos e artistas para encontrar maneiras de integrá-la como uma abordagem válida de pesquisa acadêmica em ciências sociais e humanas, bem
como em belas-artes. No contexto da comunicação e dos estudos das mídias, foi necessário reconhecer que a produção e prática não são úteis apenas
como uma “formação profissional” para aqueles que aspiram a uma carreira
na indústria. De fato, elas podem também ser um componente essencial dos
estudos em comunicação.
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Entre ecologia e
arqueologia
Uma perspectiva sobre a teoria mediática
Thier r y Bardini
Introdução
A análise de um novo medium funciona muitas vezes sob o modo de uma
analogia a priori com um medium já existente. Quantos equívocos teóricos
e metodológicos foram cometidos? Por exemplo, considerando a cinematografia como se tratasse de fotografia animada. Abordando alguns tipos
de representações televisuais, como se fazia outrora com as representações
teatrais. Ou contemplando o ciberespaço em continuidade com as análises
dos usos da informática. A marca das condições do passado de um medium
institucionalizado e, por tanto, já historicizado, frequentemente se repercute
nas concepções e percepções de um medium em fase de emergência. A extrapolação prospectivista serve, neste momento, de forma de raciocínio e, nesses
casos, a análise parece ser evolucionista quase que por natureza.
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As relações entre os media não constituem um campo de evidência, de
experiência direta. Precisamos então antecipar tanto as rupturas como as
continuidades em nosso estudo das novas configurações do saber emergente
na encruzilhada atual dos media, em uma nova ecologia mediática. “Configuração” é a palavra-mestre desta abordagem: meu objeto de estudo são as
configurações ou dispositivos mediáticos em vez dos media, simplesmente
porque a palavra medium muito frequentemente se refere apenas aos dispositivos técnicos de transmissão ou de difusão da informação. Ao inverso, por
configuração ou dispositivo mediático, entendo que se trata de um objeto
de caráter complexo e compósito, constituído por redes dinâmicas de gestos, de imagens, de atos de linguagem ou de discurso, ancorado nas práticas
que mobilizam entidades humanas e não humanas, naturais e artificiais, em
processos de comunicação (que eles mediam). Em outros termos, uma configuração mediática é um dispositivo específico de mediação e, em vez de
insistir no objeto medium, insisto no processo de mediação habilitado por um
dispositivo específico.
De fato, enxergo na emergência dos novos relacionamentos que se tecem entre as diversas configurações mediáticas, o fenômeno mais notável
na produção da paisagem mediática contemporânea. As configurações mediáticas se escrevem, então, necessariamente em uma diacronia, dentro de
diversos processos de transformação que associam (re) combinações de configurações mediáticas anteriores e fenômenos de inovação. A recombinação de
configurações mediáticas anteriores às vezes os transforma profundamente,
ao ponto de parecer reinventar o medium de origem. Devido à onda de informatização dos anos 80 e depois da onda de implementação de rede dos anos
90, a própria noção de mass-media foi assim submetida a uma mutação e se
parece agora como uma montagem complexa de modalidades análogas e digitais, de mediações tradicionais e de “novas tecnologias”. Em suma, estamos
agora nos deparando com uma verdadeira ecologia mediática que nada ou
quase nada nos permite antecipar, senão analogias limitadas e rapidamente
ultrapassadas.
Considerando este contexto contemporâneo, este texto propõe uma
perspectiva sobre a teoria mediática no cruzamento com as abordagens da
ecologia mediática – inspirada pelos trabalhos fundadores de Harold Innis,
112—Thierry Bardini
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 112
5/20/14 4:31 PM
Marshall McLuhan e Neil Postman, mas também da mediologia francesa de
Régis Debray e Daniel Bougnoux – e da arqueologia mediática – inspirada por
Friedrich Kittler, Jussi Parrika e Erkki Huhtamo. Trata-se, de fato, de apresentar um conjunto conceptual apropriado à teoria mediática neste início de
vigésimo primeiro século.
U m a n o ta l e x i c a l : / m e . d j Ɔ m / , / m e . d j a /
Antes de entrar no cerne da questão, permitam-me um instante de reflexão
lexical. Alguns de vocês talvez questionem minha insistência em colocar em
itálico a palavra “medium” nessas frases iniciais. Longe de qualquer efeito de
estilo (duvidoso) que trataria de indicar ao leitor as palavras “importantes”,
reservo de preferência essa convenção às palavras de origem estrangeira e,
em particular neste caso, ao latim. Considero assim crucial distinguir tanto
quanto possível, diversos sentidos e ortografias de uma constelação conceptual própria a meu propósito. A palavra /me.dja/ (na sua transcrição do
alfabeto fonético internacional) representa, de fato, a ponta de um iceberg
semântico que as convenções ortográficas deveriam nos permitir derreter.
Assim, distingo aqui médium de medium e até mesmo de meios; as mídias de
media e, sobretudo, a mediação da mediatização.
Em sua acepção mais geral, mas também mais adequada para meu propósito de almejar o desenvolvimento de uma ecologia mediática, usarei a
palavra medium, no plural media, nos dois casos em itálico, para significar
os meios, intermediários ou meios de comunicação. O uso do itálico se faz
necessário aqui visto que a palavra contemplada vem do latim, onde possui
todos esses sentidos. Restringirei em seguida o uso da palavra “médium”,
no plural “médiuns”, a seu sentido adquirido no século XIX de “pessoa conhecidamente dotada do poder de comunicar com os espíritos”. (MÉDIUM,
2008) Trata-se realmente de uma restrição do sentido da palavra /me.djƆm/,
palavra aparecida na língua francesa no século XVI e que manteve seu sentido
do latim até o século XIX. Segundo o dicionário, o sentido derivado de intermediário entre os vivos e os espíritos, remontaria a 1853 e seria proveniente
do inglês. Os primeiros significados expressam com precisão o sentido em
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latim: “1. (1704) MÚS. alcance da voz, registro dos sons entre o grave e o agudo
[...] 2. LOG. Meio termo. 3. PINT. Líquido que serve para suavizar as cores”.
Enfim, ainda segundo o dicionário, restringirei o uso da palavra “mídia”, no
plural “mídias”, aos “meios de difusão, de distribuição ou de transmissão dos
sinais portadores de mensagens escritos, sonoros ou visuais” destinados a um
público de massa. Isso está em conformidade com a etimologia muito recente
(1965) desta palavra em francês, sendo que se trata de fato da francização do
inglês americano “mass media”.1
Mais que simples convenções ortográficas, as precisões anteriores pretendem oferecer vários meios de engajar nossas reflexões, no bom sentido, e
traduzem, de fato, alguns axiomas fundamentais para pensar a ecologia mediática contemporânea:
1) Todos os media não são mídias. Em outras palavras, existem os
meios, intermediários ou ambientes (milieux) de comunicação que
não são direcionados aos públicos de massa. Everett Rogers, por
exemplo, falava antigamente de “de-massificação” para evocar a capacidade de alguns “novos media” (como eram chamados na época)
de permitir a interação interpessoal ao dar a seus usuários certo grau
de controle sobre o processo de comunicação. (ROGERS, 1986, p. 5)
2)Os media podem funcionar como médiuns, disponibilizando o
pensamento dos mortos, por exemplo, mas isso não constitui uma
condição necessária, e menos ainda uma condição suficiente, para
sua condição de ser-medium. A ecologia mediática contemporânea
concerne tanto aos seres vivos quanto aos mortos e não pode ser
reduzida unicamente a sua função memorial (nem tampouco à sua
função de transmissão, como veremos mais adiante).
3) O sentido mais geral da palavra medium caracteriza essas entidades,
humanas ou não, como intermediários ou ambientes; elas são, por
definição, entre. Quando esse “entre” é considerado num sentido
1
Traduzimos aqui o termo francês “médium” por “mídia”. Ambos correspondem à adaptações do
latim, respectivamente, ao idioma francês e ao idioma português. O francês também emprega
as formas “média” e “médias” para designar meio e o plural de meios. Neste caso, usaremos
“mídia” e “mídias”. (N.T.)
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teológico, a palavra “meio de comunicação” deveria ser privilegiada.
Trata-se, no entanto, de um sentido entre outros de medium, que
não supõe necessariamente uma causalidade final. Ao inverso, veremos que a causa formal é crucial para entender, em um sentido pelo
menos, a ecologia mediática contemporânea.
Da e c o l o g ia m e d i át i c a
Meu uso da noção de ecologia mediática se inscreve em várias tradições acadêmicas bem estabelecidas, algumas se identificam diretamente com esse
vocábulo, outras o mobilizam de maneira menos central, até mesmo implícita. Essas tradições, ou campos de estudos, parecem estar difundidos de
maneira global, pelo menos na América do Norte, tanto como na Europa.
Como Lance Strate (2006, p. 4-5), prefiro falar de campos de estudos (fields of
study) do que de disciplina, de escola, de teoria ou de paradigma. Pois, como
ele, penso que esses campos são de fato pluri, inter ou mesmo transdisciplinários; que eles não constituem uma escola, mas abrigam provavelmente
várias delas (ou nenhuma, segundo os sentidos vagos que nos ligam a esse
termo); que “teoria”, com seus sotaques cientistas e suas origens gregas, metaforicamente visuais, não convém para descrever seu discurso; e finalmente,
que a diversidade desses campos, suas relativas ausências de comunicação,
não milita para um estatuto pragmático (nos dois sentidos centrais descritos
por Kuhn (1983), ou no sentido de Agamben (2008), mas de preferência pré-pragmático. (NYSTROM, 1973 apud STRATE, 2006, p. 4) Devido à falta de
espaço, me limitarei aqui a conjugar duas abordagens centrais dos estudos da
ecologia mediática: a nebulosa norte-americana (federada por Neil Postman)
que reivindica seu nome, e a mediologia francesa (ao redor de Régis Debray),
que me parece muito próxima da primeira.
Não está no meu propósito aqui produzir uma verdadeira genealogia
da noção de ecologia mediática, ainda mais que apareça relativamente sujeita a debates. Alguns, como Neil Postman, seu principal defensor americano,
atribuem sua paternidade a Marshall McLuhan (POSTMAN, 2006, p. 65),
e outros, a Neil Postman. (LUM, 2006, p. 9) De todo modo, penso que pode-
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mos facilmente datar essa ideia no final dos anos 60, período que parece ser
caracterizado pelas ressonâncias dessa noção de ecologia. Postman (2006, p.
62) atribui a origem moderna desta noção ao biólogo alemão Ernst Haeckel,
quem a usava para qualificar “as interações entre os elementos de um ambiente natural”. Por sua vez, a mediologia francesa remete à introdução da noção
do “ambiente” (milieu), primeiro passo rumo a uma “ecologia cultural”, no
“século XIX, com Lamarck e Darwin, [que] importou a noção de ambiente da
mecânica para a biologia”. (DEBRAY, 2009, p. 18) Mas, enquanto movimento
militante de grande amplitude, foi nos anos 60 que a ecologia se desenvolveu,
especificamente seguindo a publicação da obra pioneira de Rachel Carson,
Silent Spring. (CARSON, 1962) Em sua conferência em homenagem ao conde
Alfred Korzybski, Gregory Bateson (1970) já usava a noção de uma “ecologia
das ideias”, que ele atribuía a Sir Geoffrey Vickers. Baterson (1980, p. 265) precisou essa ideia em 1974:
Na raiz [desta perspectiva] está a noção que as ideias são interdependentes, que elas interagem entre si, que elas vivem e morrem.
[...] Você tem este tipo de entrelaçamento complicado, vivendo,
lutando e cooperando, idêntico a aquele que você encontraria em
qualquer encosta de montanha com as plantas e os diversos animais que ali vivem – de fato, uma ecologia.
O vínculo com Krozybski está longe de ser fortuito aqui, já que, segundo Postman (1974), a ecologia mediática, ou seja, o estudo dos media como
ambiente, não é nada mais do que “a semântica geral levada ao extremo”
[General Semantics writ large]. Durante sua palestra em homenagem a Korzybski, Postman (1974) indicava assim que ele não tinha feito nada mais do
que melhorar o mapa fornecido pelo conde polonês, que, segundo ele, “sofria
de uma curiosa e paradoxal obstrução da visão: não enxergava que os media
deviam ser considerados como linguagens e assim não tinha refletido seriamente sobre como suas estruturas influenciam as percepções e os valores de
uma dada época histórica”. Na mesma linha de pensamento, a mediologia
francesa se refere deste modo ao livro “fundador” de André Leroi-Gourhan
(1964), Le geste et la parole, para estabelecer essa isomorfia medium/linguagem
na perspectiva de uma antropologia, ou melhor, de uma antropo-genética: “o
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pré-histórico”, escreve Debray sobre Leroi-Gourhan, “estabeleceu que a linguagem e a ferramenta são ‘a expressão da mesma propriedade do homem’”.
(LEROI-GOURHAN, 1964 apud DEBRAY, 2009, p. 20)
Essa passagem pela técnica, aparentemente própria do homem,2 se
torna a passagem obrigatória da natureza à cultura, da ecologia natural à ecologia cultural: no meio da passagem, os media, essas técnicas singulares, esses
dispositivos de mise en abyme – e no abismo. Ou para retomar Derrida (1990,
p. 191-192), questionando Heidegger:
A mão do homem seria então uma coisa à parte, não tanto como
órgão separável, mas porque é diferente, dessemelhante de todos
os órgãos de preensão (patas, garras, unhas); ela está afastada de
maneira infinita pelo abismo de seu ser. Esse abismo é a fala e o
pensamento. Somente um ser que fala, ou seja, que pensa, pode
ter a mão e realizar na manipulação as obras da mão. A mão do
homem é o pensamento a partir do pensamento, mas a mesma é
pensamento a partir da fala ou da língua.
De um modo certamente menos antropocentrista, Deleuze e Guattari
(1980, p. 79) confirmam: “o que chamamos propriedades do homem – a técnica e a linguagem, a ferramenta e o símbolo, a mão livre e a laringe flexível,
‘o gesto e a palavra’ – são na verdade, propriedades desta nova distribuição,
cujo começo é difícil de atribuir ao homem enquanto origem absoluta”. Não
se trata de uma propriedade, uma distribuição, como no caso de distribuição
estatística, um novo dado; Guattari (1989) insistiria mais tarde na evocação
de emaranhamento de suas três ecologias: “a ecologia ambiental deveria ser
pensada em um único elemento com a ecologia social e a ecologia mental,
através de uma ecosofia de caráter ético-político”. É neste sentido que Erich
Hörl (2012, p. x) conclui hoje, evocando o fato que
Essas constatações programáticas demonstram a cristalização progressiva de uma semântica nova em torno do conceito de ecologia,
2
Com ou sem maiúscula, essa figura que descobrimos então como sendo potencialmente obsoleta
(ANDERS, 2002; FOUCAULT, 1966), ou, pior ainda, que o medo de seu desaparecimento é apenas o reflexo narcísico da angustia ecológica suprema, o desaparecimento da vida mesmo sob os
golpes da técnica.
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encarregada de descrever a condição técnico-mediática contemporânea – ao mesmo tempo em que mostram quanto o conceito de
ecologia está em evidência, estando ele próprio num processo de
deslocamento, de transformação e de reformulação.
Da c o n f i g u r a ç ã o t e c n o -m e d i át i c a c o n t e m p o r â n e a :
t o r n a r-s e c y b e r-m e d i a
É preciso, cantam os mediólogos em harmonia, reformular a questão da
técnica, ou melhor, sob sua aparência contemporânea, a questão das técnicas
do sentido: “nos mostrando a articulação entre uma representação simbólica
eficaz (organizadora) e uma inovação técnica, a mediologia de fato refere
o pensamento à ferramenta e a ferramenta ao corpo, sede do sentido”.
(BOUGNOUX, 1991, p. 35) A mediologia francesa, da qual Bougnoux é um
orgulhoso representante, segui os passos de Régis Debray, que a colocou
desde suas origens na ordem da transmissão, da qual ela representaria
“o ponto de vista” próprio: ela reúne “tudo que diz respeito à dinâmica da
memória coletiva”, consiste “em transportar uma informação no tempo”, tem
“um horizonte histórico, e como base de partida, uma performance técnica
(via o uso de um suporte)”. (DEBRAY, 2000, p. 3)
Entrento, ainda é preciso, corrigiu rapidamente Louise Merzeau (2009a,
p. 780), desconfiar das “oposições rígidas entre duas polaridades”, como a
polaridade inicial estabelecida por Debray (comunicar/transmitir): “a demarcação clara e nítida entre uma continuidade cultural trabalhando no longo
prazo e a dispersão instantânea de uma indiferenciação técnica impede de
fato de pensar nos fenômenos de hibridação que caracterizam a hiperesfera”
insiste, evocando a mediaesfera contemporânea sob seu nome mediológico
(a hiperesfera, depois da logoesfera, a grafoesfera e a videoesfera, MERZEAU, 2009b). Encontramos aqui, sem dificuldades, as classificações esboçadas
por Harold Innis (1950) e Marshall McLuhan (1962), cujas fases são revistas e
renomeadas, antes de ser ampliadas por essa quarta e contemporânea descrição. Notamos, de passagem, a introdução de um novo termo vindo do léxico
biológico, a hibridação e a ascensão em potência dimensional associada ao
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prefixo “hiper”, mobilizado desde 1962 por Ted Nelson para qualificar as novas formas de escrita (hipertextuais). ( BARDINI, 2004)
Em suas Notes Toward an Intellectual History of Media Ecology, Casey
Man Kong Lum 2006, p. 32-33) resume a tradição de pesquisa da ecologia mediática em três propostas teóricas:
1) A forma simbólica de um medium impõe as características de um
código no qual o medium apresenta a informação [...] e as estruturas
que organizam os símbolos. Da mesma maneira, a estrutura física
de um medium remete às características da tecnologia que carrega o código e os entraves físicos por a codificação, a transmissão,
o armazenamento, a recepção, a decodificação e a distribuição da
informação;
2) O conjunto único de características físicas, tanto quanto simbólicas
de cada medium induz um conjunto de vieses que lhe são próprios;
3) Os media de comunicação induzem diversas consequências físicas
ou perceptuais, sociais, econômicas, políticas e culturais, relacionadas aos vieses intrínsecos desses media.
De outra parte, Lum (2006, p. 34) insiste sobre o fato que essas três proposições teóricas devem ser situadas dentro de uma perspectiva mais ampla
que descreve um continuum indo do determinismo tecnológico ao determinismo duro (soft and hard determinism) e centrado na simbiose cultura/
tecnologia, “uma perspectiva para considerar a cultura humana como resultante das interações mutualmente transformativas entre as pessoas e as
tecnologias ou media”.
Assim, considerando os media como linguagens, a intuição original
de Postman apenas fazia desenvolver a tese de Korzybski adicionando, na
equação, a tecnologia – e mais especificamente as tecnologias do intelecto.
(GOODY, 1979; LÉVY, 1990) Em outros termos, a perspectiva da ecologia
mediática insiste nas formas e nas consequências da mediação linguística e
assim nas configurações técnicas (ao mesmo tempo como processo e como
resultado) de suas formas de expressão. De fato, Postman submeteu a tese
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de Korzybski ao mesmo tratamento que Douglas Engelbart, o pioneiro da
informática pessoal que inventou o mouse e a primeira interface gráfica hipertextual (BARDINI, 2000), deu à hipótese de Whorf-Sapir: ele a estendeu
às tecnologias mediáticas e às suas hipóstases informáticas, permitindo assim
sua plena entrada na cibercultura contemporânea.
A hipótese de Whorf estipula que ‘a visão do mundo de uma cultura é limitada pela linguagem que esta cultura usa’. Mas parece
que existe um fator a ser considerado na evolução da linguagem e
da capacidade humana de raciocínio. Oferecemos assim a hipótese
seguinte, que é parente da hipótese de Whorf: tanto a linguagem
usada por uma cultura quanto a capacidade para a atividade intelectual eficaz são diretamente afetadas, durante sua evolução,
pelos meios pelos quais os indivíduos controlam a manipulação
simbólica externa. (ENGELBART, 1962, p. x)
Esta conexão acabará sendo crucial para a aparição da ecologia mediática própria da cibercultura contemporânea: ela demonstra na realidade que
estava tanto presente nas mentes de seus analistas ou críticos quanto de seus
engenheiros. A relação com a hipótese de Whorf-Sapir não tinha escapado à
atenção de Neil Postman, que a havia rebatizado de
a hipótese Sapir-Whorf-Korzybski-Ames-Einstein-HeisenbergWittgenstein-McLuhan-et al., segundo a qual, a linguagem não é
um simples veículo para a expressão, mas é também seu motorista: o que percebemos, e então podemos aprender, é uma função
de nossos processos de linguagem. (POSTMAN; WIENGRATNER
apud STRATE, 2006, p. 51)
Segundo Lance Strate (2006, p. 86), Louis Forsdale, o professor de Neil
Postman, ainda considerava que a compreensão que McLuhan tinha dos media era fundamentalmente só uma extensão da hipótese de Whorf-Sapir.
Mas além da referência aos pensadores das mediaesferas passadas, dos
períodos antedatadeluvianos (antes do dilúvio dos dados digitais), a ecologia
mediática contemporânea atualiza uma equação original: ecologia X cibernética = meio.
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Existe de fato um efeito de sincronicidade que eleva ao quadrado, que
amplia, o que o ambiente veio a significar. Para além das ferramentas, as
técnicas e os dispositivos, a ecologia mediática contemporânea descobre novamente (reinventa talvez) uma nova organização do mundo, onde tudo é só
fluxo, processo, patterns: “Onde acreditávamos tratar com as coisas, precisávamos considerar os fluxos; trocar as causas pontuais pelos sistemas e as
interações; entre os seres estáveis introduzir a dialética, os ciclos recursivos,
em suma, o pensamento comunicacional”. (BOUGNOUX, 1991, p. 23) Régis
Debray (1991, p. 234-235), com seus três princípios fundadores da mediologia
como “ecologia das ideias”, tinha aberto o baile, e suas regras do método ecológico renovavam assim o vocabulário: “Não tratar as ideias como coisas, mas
como organismos vivos, ou seja, como relações e não entidades” (o princípio
de interação); “Tratar então de populações, conjunto dos indivíduos de uma
mesma espécie, para restituí-las em um ecossistema, equilíbrio baseado em
intercâmbios e interações” (o princípio de população), e, por fim, o princípio
“Uma espécie, um nicho”. Insistimos, então: esta ecologia não é metafórica, uma simples translação de um método, do vivo (organismos) ao psíquico
(ideias), ou como os simples de espíritos queriam nos fazer acreditar, dos genes aos memes (onde o resultado se acha origem em uma invenção lexical
simplista e simplificadora, pobre Baldwin!). Não, longe da linearidade, incipit
o ciclo estranho, porque recursivo, onde ninguém pode discernir o efeito da
causa: a partir daí, tudo é só “um ciclo sem fim, com espirais sempre reiniciadas”. (DEBRAY, 2009, p. 13)
D o e s t u d o d o s m e d i a a o s e s t u d o s d a s m e d ia ç õ e s
A evocação de ciclos recursivos, ciclos sem fins e outras espirais, assim como
o empréstimo de um vocabulário biológico (hibridação, simbiose), ancoram
a ecologia mediática em um pensamento cibernético que testemunha de sua
atualidade. Ciclo (loop), com seu qualificativo técnico de retroação (feedback)
é, na verdade, um dos dois conceitos centrais – junto com código – da síntese
cibernética. (BARDINI, 2011, p. 68-70) Nascido com a reciclagem do regulador
equipando os antigos moinhos de água sobre os primeiros motores a vapor e
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particularmente sob a forma do regulador de bolas do motor de James Watt,
o ciclo retroativo invadiu também, desde o século XIX, o pensamento biológico. Gregory Bateson (1980, p. 47), de fato, notou que Alfred Russel Wallace,
o codescobridor da teoria da seleção natural tinha se dado conta, desde 1856,
que o princípio da seleção natural “é exatamente aquele do regulador centrífugo do motor a vapor, que controla e corrige toda irregularidade quase antes
mesmo que elas estejam presentes”. Essa convergência conceitual se manteve
central no pensamento mediático, como atesta esse comentário de Friedrich
Kittler (2003 apud WHINTROP-YOUNG, 2011, p. 79) – um dos teóricos mais
marcantes da mediologia alemã do final do século XX:
as máquinas e particularmente as máquinas inteligentes contemporâneas concebidas por [Alan] Turing, em 1936, não estão aí para
nós humanos – somos, por assim dizer, construídos em escala
grande demais – mas seria na verdade como se a natureza, essa
resplandecente, cognitiva parte da natureza, retroagisse sobre si
mesmo [sondern daß sich die Natur, dieser leuchtende erkennende Teil der Natur, mit selbst selbst rückkoppelt].
Essa convergência cibernética possui duas características fundamentais
para o pensamento da ecologia mediática contemporânea: 1) ela renova a concepção da causalidade mobilizada nesses estudos; 2) solicita outra concepção
da temporalidade. Essas duas características juntamente contempladas justificam uma transição do estudo dos media ao das mediações.
No que se refere à causalidade, a maioria das análises mediológicas
reivindicam uma forma de causalidade diferente da clássica relação de causa e efeito. Essa causalidade, ou essa lógica, ou ainda essa escala temporal,
à imagem do ciclo de retração, é frequentemente qualificada de “não linear”
(BOUGNOUX, 1991, p. 40), de “recursiva” (LÉVY, 2009, p. 30) ou de “circular”.
(MERZEAU, 1999) Isso permite geralmente aos mediólogos recusar as acusações de “determinismo tecnológico” e reivindicar ao contrário uma lógica da
coconstituição ou da coprodução da sociedade (ou das relações sociais) e da
técnica: “o espaço das circulações que tratamos não se encontra num regime
mecanista (uma causa, um efeito), mas sistemista (circularidade causa/efeito/
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causa) [...] o laço causal entre uma técnica e uma cultura não é nem automático nem unilateral”. (DEBRAY, 2000, p. 87-88, grifo do autor)
Cabe a Marshall McLuhan ter sido o primeiro a relatar essa mudança
de lógica em relação à noção aristotélica de “causa formal”. (MCLUHAN, M.,
1976) Seu filho Éric precisou essa questão num livro recente. (MCLUHAN,
M.; MCLUHAN, E., 2011) No prefácio deste livro, Lance Strate (2011, p. x-ix)
resume, perfeitamente, esse argumento:
McLuhan, junto com os outros pesquisadores da ecologia mediática, foi acusado de ser tecnologicamente determinista. E embora o determinismo tecnológico tenha sido frequentemente usado como argumento espantalho para descreditar McLuhan e os
outros sem devida consideração, é muito fácil cair, por força do
hábito ou falta de alternativa facilmente accessível, na linguagem
determinista de causa a efeito. Assim, acabaremos dizendo, como
por um tipo de atalho, que o estribo é a causa do feudalismo, da mesma maneira que poderíamos dizer que a evolução nos faz andar de
pé. Tanto para os ecólogos mediáticos como para os biólogos, entendemos esse tipo de linguagem com um atalho, até mesmo uma
forma de poesia usada para representar os fenômenos bem mais
complexos. Esta complexidade pode ser bem melhor representada
pelo conceito de causa formal do que por aquele de causa a efeito
(também conhecida sob o nome de causa eficiente); a causa formal
é a causalidade das propriedades emergentes, a causalidade que os
ecólogos mediáticos geralmente têm na cabeça quando consideram o impacto da mudança técnica sobre os indivíduos e as sociedades, sobre a comunicação, a consciência e a cultura.
A circularidade da causa formal, que faz com que “o contentor ‘estilize’
o conteúdo” (HUYGHE, 2009, p. 83) corresponde bem às pretensões teóricas
da mediologia e particularmente à concepção da tecnologia ou das relações
sociedade/tecnologia. Se, como afirma Bougnoux (1991, p. 410), “a relação da
ferramenta ao uso não é linear (causal), mas ecológica”, convém retificar este
parêntesis precisando: causal, sim, mas não no modo eficiente, mas bem mais
no modo formal. Ou para falar de maneira mais clara, formal, na medida em
que
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o público é, em todos os assuntos de arte e expressão, a causa formal [...]. A causa formal é uma questão de efeito e de forma estrutural, não de julgamento de valor [...]. Visto que as causas formais
estão escondidas no ambiente, elas exercem uma pressão estrutural por intervalo e interface interpostos com tudo que se encontra
no território ambiental. (MCLUHAN, M., 1975 apud MCLUHAN,
M. MCLUHAN, E.,, 2011, p. 129-130)
É unicamente em, e através de seu uso da causalidade formal, que o aforismo mais conhecido da mediologia – “o medium é a mensagem” (MCLUHAN,
M., 1964, p. 25) – pode ser realmente entendido.
A meu ver, é esse recurso, muitas vezes implícito, à causa formal que se
traduz pela necessidade para a ecologia mediática tanto como para a mediologia, de passar do estudo das media ao estudo das mediações. Notamos, em
primeiro lugar, que aqui aceito dizer mediação e não mediatização. A “mediação” é definida pelo dicionário por “intervenção destinada a fazer concordar,
a conciliar, a reconciliar”, ou mais geralmente como “o fato de servir de intermediário”, enquanto a mediatização designa a publicidade feita em torno
de um conceito, uma organização ou uma pessoa, pelas mídias (e, então,
particularmente as mídias de massa): publicidade no sentido de tornar público, mas também no sentido da tentativa de influenciar um comportamento
de consumo. Numa primeira aproximação, poderíamos dizer que a definição mais ampla do medium corresponde à mediação e às mídias de massa a
mediatização. Mas, de maneira mais crucial para meu propósito, considero
que a mediatização corresponde a um objetivo teológico (orientado para um
propósito, uma causa final), enquanto não é necessariamente o caso para a
mediação (apesar da primeira definição do dicionário).
A mediação é a quarta e “última” fase da trajetória dos estudos que
contemplamos aqui: eles vão da mensagem ao medium ao meio à mediação.
(DEBRAY, 2009) Observam que “fase” deve ser entendida no sentido da termodinâmica, no sentido onde líquido, sólido e gasoso podem ser as fases de
um corpo, segundo as condições de temperatura, de pressão, no sentido, então, onde o corpo contemplado é o conjunto dessas fases (a água, H²O, não
é só um líquido). No sentido em que, por exemplo, James Watt não inventou
o governador centrífugo, primeira invenção cibernética antes do tempo: foi
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simplesmente uma defasagem, desde seu antigo funcionamento nas máquinas explorando a fase líquida do H²O (os moinhos) a aquelas explorando sua
fase gasosa (os motores a vapor). Não no sentido de “estado”, implicando, então, uma linearidade cronológica, “não um momento temporal trocado por
outro, mas um aspecto resultando de uma duplicação de ser e se opondo a
outro aspecto”. (SIMONDON, 1989, p. 159) É exatamente por essa razão que
“isso [tal medium, o livro] nunca matará aquilo [tal outro medium, a catedral]”
(MERZEAU, 2009b). É exatamente por essa razão também que a palavra mestre da ecologia mediática é “o emaranhamento das formas da mediação” e que
a “configuração mediática” é um conceito bem melhor que o fetiche reificado
e impossível de se encontrar, “o medium”. O que Debray (2009, p. 21), ele de
novo, traduz em um programa:
o objeto de estudo [da mediologia] não é um objeto, nem uma região da realidade (as mídias), mas os relacionamentos entre objetos
ou regiões. Entre uma idealidade e uma materialidade; um sentimento e uma máquina; uma disposição e um dispositivo.
O recurso não é novo (HENNION, 1990), e não se limita ao estudo destes dispositivos técnicos particulares que antigamente achou-se certo chamar
de “media”. Talvez seja válido para toda forma de técnica, como lembrou Madeleine Akrich (1993, p. 96-97):
Manter que existem formas de mediação técnica [...] é se proibir o
tipo de dicotomia entre, de um lado, os indivíduos e do outro, os
objetos técnicos [...]. É supor que existem formas híbridas [...] que
se baseiam numa combinação inextricável entre certos elementos
técnicos e certas formas de organização social.
Mas será mais válido para estes dispositivos singulares cuja circulação é
o próprio?
Outra vantagem, mais técnica, a palavra [mediação] designa uma
operação, não operadores; não obriga a fazer uma separação de
princípio entre ferramentas, permite circular sem solução de continuidade dos humanos às coisas, passando por sujeitos ou obje-
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tos, instrumentos, sistemas, linguagens, instituições. (HENNION,
1993, p. 32)
Falar de “mediação mediática” não é, então, uma tautologia. Os media
são apenas uma forma técnica de construção da realidade social, mas, esta
forma tem suas especificidades no nível de seus dispositivos e assim também
no nível das interações que habilitam e/ou restringem, em outras palavras,
enfim às formas de uso que permitem. Somente a análise das mediações
mediáticas, análise formal e causal (mesmo assim), poderá, é a aposta metodológica e, então, triplamente ecológica (como o queria Félix Guattari), dar
conta do emaranhamento contemporâneo das formas mediáticas, da intermedialidade (GAUDREAULT; MARION, 2000) constitutiva da híperesfera
contemporânea.
U m m é t o d o d u p l a m e n t e r e c u r s i v o : a a r q u e o l o g ia
m e d i át i c a
O aspecto talvez mais contraintuitivo, mas também o mais problemático,
do recurso à causalidade formal é a temporalidade que a mesma mobiliza.
Pensem um pouco. O tempo de ponta-cabeça, onde, de certa maneira, o
efeito precede a causa. No entanto, é a temporalidade em ação, se podemos
acreditar nos mediólogos e em outros ecólogos mediáticos: “os efeitos se tornam conscientemente acessíveis sob a forma de descobrimento ou invenção
como novas causas, tanto equipamento como software”, escrevia Marshall
McLuhan e Nevitt (1973 apud MCLUHAN, M.; MCLUHAN, E., 2011, p. 43) em
seu texto precursor. E os mediólogos ainda insistem: “a mediação volta para
trás para morar por dentro da mensagem, que só existe independentemente de seus médiuns e meios de transmissão”. (DEBRAY, 2009, p. 19) O ciclo
temporal recursivo torna-se assim estranho, à imagem daquele que inicia o
computador, o ciclo de inicialização cujo nome inglês [bootstrap loop] evoca a
fantasia do barão de Munchausen saindo de um buraco se puxando a si mesmo pelos cabelos, ou em uma edição posterior, puxando as correias das botas
[by his own bootstraps].
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Penso que é aqui que se impõe um embrião de discurso sobre o método. Se os mediólogos, ou pelo menos os mediólogos franceses, remetem sua
mediologia ao “tempo da transmissão” (DEBRAY, 2000), e que esta temporalidade é o tempo circular das causas formais, o tempo das técnicas mediáticas,
ainda precisa implementar uma concepção adequada de historicidade – “uma
historia marcada por emergências”. (BOUGNOUX, 1991, p. 29) Como dar conta destas emergências que fazem e desfazem a história, e como assim articular
temporalmente a ecologia mediática? Aqui se impõe uma ontogenética, e então, um método.
A resposta vem, a meu ver, da mediologia alemã (e particularmente dos
trabalhos de Friedrich Kitller, 1990, 1999 e 2010, mesmo se ele finalmente
recusou a apelação de arqueologia mediática para qualificá-los), a partir dos
trabalhos seminais de Michel Foucault (1966, 1969), e nos prolongamentos do que chamamos, enfim há pouco tempo, de arqueologia mediática.
(HUHTAMO, 2011; PARIKKA, 2012) Devido à falta de espaço, não vou tentar
estabelecer uma genealogia deste método e ainda menos uma arqueologia ao
quadrado, de escavar uma arqueologia desta arqueologia mediática (as duas
últimas referências contribuíram para isso). Vou tentar, ao contrário, ressaltar
as especificidades e necessidades, a partir de um conceito emprestado de Friedrich Kitller: a recursividade (WINTHROP-YOUNG, ainda não publicado).
Recursividade 1. Histórias do presente, ou a insustentável permanência do
novo. Se as antigas tecnologias um dia foram novas (MARVIN, 1990), pode
se perguntar até quando os novos media ainda o serão. A resposta provável é
“perpetuamente”, e isto ao menos em um sentido:
A consequência de uma filosofia dos dispositivos é uma mudança
de orientação, que se desvia do Eterno para apreender o novo. O
novo supostamente não designa a moda, mas ao contrário a criatividade variável segundo os dispositivos [...]. Pertencemos a dispositivos, e agimos neles. Chamamos a novidade de um dispositivo
em relação aos precedentes de atualidade dela, nossa atualidade.
O novo é o atual. O atual não é o que somos, mas ao contrário, o
que nos tornamos, o que estamos nos tornando, em outra palavra
o Outro, nosso tornar-se-outro. Em todo dispositivo, é preciso distinguir o que somos (o que já não somos mais), e o que nós estamos
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nos tornando: a parte da história, e a parte do atual. (DELEUZE,
1988)
Se as novas mídias são perpetuamente (ou sempiternamente) destinadas
a serem remediadas (BOLTER; GRUSIN, 1999), sua arqueologia inverte recursivamente as correntes dessas re-mediações, retrocedendo seus efeitos sobre
suas materialidades: essas histórias do presente, que partem do presente, da
perpétua novidade do atual, seguem as cadeias das causalidades formais e
reencontram o novo a cada etapa, como tantas fases da novidade. Um atual qualquer será assim recursivamente constituído do conjunto das fases de
novidades, não das passadas, mas tornadas contemporâneas deste atual na
medida em que contribuem à novidade. O que importa é o movimento diagnóstico que parte do atual para reencontrá-lo, sempre o mesmo e diferente,
nessas materializações anteriores, enterradas nas camadas da mediação.
Em outras palavras, passar da arqueologia do discurso (FOUCAULT, 1969)
à arqueologia destes suportes enquanto participantes destas condições de
possibilidades, sem se confundir, uma espiral a mais ou a menos (os discursos/
as redes de Kitller, aufschreibesysteme, literalmente os sistemas de notação).
Recursividade 2. Das condições de possibilidade às condições de existência
às condições de medialidade (o reino da felicidade). Foucault (1969, p. 115), em
um gesto pós-estruturalista, propôs de passar das condições de possibilidades
às condições de existência do discurso. A arqueologia mediática propõe voltar às condições formais que permitem ao discurso tomar forma, as mesmas
formalmente determinadas pelas condições técnicas dos suportes. A cada
etapa, as causas formais, também recursivas, movem o problema e evitam
“o fracasso metodológico da arqueologia”: “a ideia bizarra de regularidades
que se auto gerenciam”, que é o sintoma deste fracasso em Foucault. Segundo
Dreyfus e Rabinov (1984, p. 126), não é nada bizarra se aceitamos que a causalidade que mobiliza é formal e não eficiente, em outras palavras, recursiva.
Assim, é possível entender, ao contrário do que dizem Dreyfus e Rabinov,
como uma arqueologia ampliada, descritiva e não hermenêutica, pode de fato
mobilizar “uma eficiência causal das regras que regem as formações discursivas”, sem por tanto “hipostatizar ilegitimamente as regularidades formais
que descrevem estas formações e as tornar suas condições de existência: uma
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eficiência causal formal em vez da eficiência causal eficiente”. Sendo que, segundo Brian Massumi, “as regras determinam o jogo [aqui, da linguagem] do
ponto de vista formal, mas não o condicionam (são a sua causa formal, e não
sua causa eficiente)”. (MASSUMI, 1998, p. 123) Isto não significa em caso nenhum recair na “ilusão formalizadora” que Foucault (2001, p. 756) descreve
como “imaginar que as leis da construção [de uma ciência, ou do saber], são,
ao mesmo tempo e por direito, condições de existência”.
Aliás, Dreyfus e Rabinov (1984, p. 124-125) tinham já a intuição que “não
se trata totalmente, portanto, da armadilha na qual ele [Foucault] cai”. Isto
também não consiste, apesar da semelhança, em invocar de novo as condições de possibilidade, ou mesmo “um forma de determinação absoluta”.
A estranheza não é mais bizarra se ao aceitar que “as práticas discursivas são
autônomas e determinam seu próprio contexto”, e que de fato é possível “encontrar nas próprias práticas discursivas o princípio regulador nas quais elas
estão submissas” (DREYFUS; RABINOV, 1984, p. 126), basta entender que as
práticas discursivas são também práticas mediáticas e que a regulação aqui
evocada nada mais é do que a recursividade intrínseca à causa formal – aliás, o
princípio cibernético por excelência. As condições de medialidade estão para
as condições de existência, assim como as mesmas estão para as condições de
possibilidade, o que fecha o ciclo de retroação sem tautologia, mas ao contrário, em um modo quase tautológico. Neste “quase” se escondem a mediação e
a remediação, a perpétua produção do novo que nomeamos “atual”: alguma
coisa é deslocada nesta passagem, no círculo do ciclo regulador, alguma coisa
se transmete; “porque a linguagem é confundida com seu próprio funcionamento e nele esconde, poderíamos dizer, o segredo”. (ROSSET, 1997, p. 57)
Recursividade³. O ciclo-memória, desfeito pelo próprio ciclo. Mas o que
acontece justamente quando a atualidade, a novidade das práticas mediáticas,
está organizada pelo princípio operacional da recursividade? O que acontece
quando a discretização do tempo, além de ser um artefato de método (do método arqueológico ou anarqueológico – ZIELINSKI, 2006), torna-se o modo
operacional do artefato mesmo? Marshall McLuhan admitia seu pessimismo
numa entrevista nas colunas da revista americana Wired, aliás um excelente
medium, medium sagrado do qual é o Santo Padroeiro: “a eficiência da idade
da máquina não poderia descobrir nada que vale a pena, agora”. (WOLF, 1996,
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p. 187) Uma entrevista com McLuhan em 1996? Até Wikipédia sabe que o mesmo faleceu em dezembro de 1980. No cabeçalho do artigo, o entrevistador se
entregava:
Uma após a outra, pequenas alusões, confirmadas por terceiros,
antigamente próximos a McLuhan, convenceram Wolf que seu
correspondente não era mesmo McLuhan, era um bot 3 programado com um conhecimento tão profundo e atemorizador da vida e
da biografia de McLuhan e de sua inimitável perspectiva. (WOLF,
1996, p. 129)
Em outras palavras, uma máquina de escrever foi programada para gerar
um “novo” McLuhan, cuja perspectiva é, apesar de tudo, vista como “inimitável” por aquele mesmo que supostamente deveria questioná-lo. Ainda pior,
esta máquina se revela pessimista de suas próprias capacidades de descobrir
coisa alguma, por excesso de eficiência. Como dizem os americanos: “period!”
Inconclusões
Se a mediação é a quarta fase dos estudos mediológicos e se a arqueologia
mediática possui as chaves de sua operacionalização metodológica com recursividade de uma série potencialmente infinita de causas formais, que são
o inverso da semiose, então, talvez devessem entender esta quarta fase da
mesma maneira que Marcel Duchamps entendeu outrora, no final da modernidade, a quarta dimensão: “Virtualidade como quarta dimensão: não a
Realidade sob a aparência sensorial, mas a representação virtual de um volume (análogo a sua reflexão em um espelho)”. Este enunciado um tanto
crítico faz sentido se fizermos o esforço de relacioná-lo aos comentários que
o rodeiam. Sugere um programa: tratar a quarta dimensão de maneira intrínseca, não analógica, apoiando-a em uma definição topológica da dimensão.
A ideia, se desenvolvermos até o final a intuição de Duchamps, é mais ou
3Abreviação de “robot”. Um programa de software que imita o comportamento de um ser humano,
através da consulta de motores de busca ou da participação em bate-papo em chats ou em discussões. (N.T.)
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menos a seguinte: em vez de apreender a dimensão pelas bordas, ou em outras palavras, pelos frágeis perfis que ela nos apresenta em três dimensões,
podemos tentar, ao contrário, nos colocarmos dentro dela, de uma só vez,
como um tipo de salto da mente. Este salto, o dispositivo inteiro do Grand
Verre,4 com seus múltiplos programas e diagramas, está encarregado de estabelecer sua possibilidade e mesmo sua necessidade.
Uma formulação um pouco diferente da mesma exigência nos levaria a
insistir no caráter intrínseco da abordagem: se a quarta dimensão pode ser
retomada a partir da terceira (como agir de outra maneira?), não será como
um limite externo, mas como uma dimensão evanescente, pronta a ser reabsorvida pela “superfície” de nosso espaço habitual. A realidade seria assim
o depósito, o resíduo (em vez da projeção) de formas quadridimensionais
que um espírito superior poderia desdobrar numa dimensão suplementar.
E a virtualidade seria justamente a película evanescente, propriamente “infradelgada”, que nos separa desta outra dimensão. Recuperada através da
experiência virtual, a quarta dimensão não é mais relegada aos confins da realidade ou dentro de qualquer fundo sem fundo; ela não pode ser procurada
em outro lugar senão na sua superfície, ou em suas franjas. (DURING, 2007)
Um espírito superior, disse você, Mister During? Um humano aumentado, talvez um cyborg? Um novo McLuhan, ciberneticamente modificado e
regenerado?
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5/20/14 4:31 PM
A opinião na
comunicação
Uma abordagem construtivista-crítica
Milton N. Campos
Introdução
Nosso objetivo com esse artigo é o de apresentar ao leitor uma visão integrada
a respeito dos processos de comunicação, ilustrando-a com uma breve descrição de seu fundamento epistemológico (de orientação construtivista-crítica),
da teoria que dele deriva (a ecologia dos sentidos) e de propostas metodológicas
que respondem, ao mesmo tempo, às necessidades de verificação teórico-científica e às práticas comunicativas de intervenção social. Inúmeras razões
nos levaram a propor tal abordagem. A razão principal consiste em compreender a comunicação como um processo fundamentalmente ético.
A problemática do estatuto da comunicação deriva de sua própria história como disciplina, gerida já a partir do século XIX por meio, sobretudo,
de estudos psicológicos, filosóficos e linguísticos, mas “nascida”, nos anos
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30, de um sequestro que Benito chama de “invasão metodológica da sociologia” (1982). Não podemos ignorar, a não ser que queiramos enfiar a cabeça
na areia, que a comunicação foi promovida a “disciplina” em um contexto
de transferência histórica de poderes políticos, econômicos e militares da
elite internacional do sistema-mundo capitalista (FRANK, 1980) do Império
Britânico ao novo “bastião da liberdade individual”, a nação estadunidense.
Ligada à propaganda nos anos 30, imediatamente após a crise de Wall Street e a emergência dos Estados Unidos como potência, a comunicação foi
um instrumento crucial no confronto do capitalismo e do socialismo como
ideologias, sistemas e projetos humanos internacionais (como evidencia a
emergência da publicidade de guerra da BBC de Londres, do terceiro Reich
sob o comando de Goebbels e do Regime Soviético Stalinista).
Aceita-se hoje em dia, de uma maneira geral, a ideia segundo a qual a
comunicação é um “campo”. Sabe-se que inúmeras disciplinas mais estabelecidas que a comunicação, como é o caso das naturais (biologia, psicologia)
e sociais (ciência política, sociologia), sem falar nas exatas, têm múltiplas
denominações, normalmente criadas com o objetivo de categorizar as principais em subcampos específicos (exemplos: biologia marinha, psicologia do
desenvolvimento, política internacional, sociologia urbana etc.). No caso da
comunicação, o problema é mais complexo. Dependentemente da denominação atribuída, podemos tratá-la de diferentes maneiras: como campo
profissional relacionado às práticas comunicativas (jornalismo, relações
públicas etc.), como “ciência” cujas pesquisas produzem conhecimentos
julgados verdadeiros e ou válidos, ou ainda como um campo de “estudos”
(referente à tradução da denominação inglesa Communication Studies). Este
último parte do pressuposto segundo o qual os processos de comunicação
não podem expressar universais e não são necessários (no sentido lógico do
termo). Nesse caso, portanto, tratar-se-ia de uma não ciência, de um campo
literário-filosófico. Falar então de subdivisões torna-se difícil. Se tomarmos
somente o termo “comunicação midiática” ver-nos-emos diante do paradoxo de nos questionar se a mediação releva de meios profissionais (práticas
de informação, práticas de persuasão etc.), teóricos (classes sociais, processos
econômicos etc.) ou técnicos (televisão, redes de computadores etc.).
138—Milton N. Campos
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5/20/14 4:31 PM
A história ocidental tem múltiplos índices que demonstram não só
que a comunicação não foi uma descoberta “ianque”, mas que os “meios”, as
“mídias”, as “mediações” que levaram os cientistas sociais norte-americanos
a separá-la da psicologia social e da sociologia, não constituem o cerne do
problema. A preocupação com a comunicação não nasceu nem com a propaganda nem com o desenvolvimento de tecnologias “midiáticas”. Se pensarmos
no princípio que constitui a comunicação, razões e paixões se entretecem
pela ética e, seja qual for o meio, a mídia ou a mediação (pouco importa como
as definamos), seus fundamentos foram explorados ao longo da história das
ideias no seio de outros campos disciplinares (lógica, filosofia, biologia, psicologia, matemática etc.). É certo que as técnicas que permitem a representação
do diferido assombram os incautos. No entanto, elas não se distinguem, em
seus fundamentos, das representações pictóricas das cavernas ou dos sistemas simbólicos de comunicação dos indígenas das Américas.
Do ponto de vista histórico, é certo afirmar que o estatuto contemporâneo da comunicação se constituiu durante o desenvolvimento de tecnologias
que possibilitaram formas crescentes de intermediações capazes de permitir
que “realidades” representadas e re-representadas emergissem indefinidamente, criando novas formas de participação coletiva. No entanto, o uso das
técnicas associadas às tecnologias contemporâneas não muda a essência da
existência humana e da necessidade biológico-simbólica de comunicar. A
comunicação, como disciplina, tem como foco, portanto, essa necessidade
essencial interativa, e não o que a “media” ainda que esse aspecto justifique
um subcampo específico de questionamento. De modo que as denominações
contemporâneas de “ciência” ou “ciências da informação e da comunicação”,
“ciência” ou “ciências da comunicação”, “estudos em comunicação”, parecem-nos mais servir à dinâmica da “especialização” obsessiva do empirismo de
orientação norte-americana, limitando sua compreensão como campo de reflexão transversal, prévio a todas as disciplinas e práticas.
Pela comunicação, expressamos juízos. A problemática dessa possibilidade de expressão vai além do necessário e universal e do contingente e
particular (situado), o que nos permite colocar em questão todas as tentativas de se classificar a comunicação. Se, portanto, não podemos associá-la
ao racionalismo, ao empirismo ou às abordagens fenomenológicas, a questão
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consiste em saber qual seria o estatuto epistemológico mais adequado. Não
podemos nos esquecer que a causalidade empírica é análoga aos mecanismos
biológicos da inferência (operações mentais) e que as relações entre sujeito e
objeto precisam ser compreendidas ao longo do tempo. As interações comunicativas são resultado de relações in media res entre sujeito e objeto. De um
lado, construções mentais subjetivas que se desenvolvem ao longo do tempo (relativamente aos conhecimentos dedutivos possíveis capazes de extrair
formas lógico-matemáticas solidárias à realidade empírica) – processos necessários e universais – e, de outro, percepções de ordem afetiva modeladas
temporalmente em função da experiência (relativamente aos saberes indutivos fenomenológicos, capazes de expressar o mundo vivido) – processos
contingentes e particulares.
Ambos os polos das interações respondem, ao mesmo tempo, por valores
e atitudes de ordem ética. A consequência dessa posição é um “relativismo
relativo” que não exila a possibilidade de retirar conhecimentos necessários e
universais do campo da comunicação nem de integrar, nos estudos, as possibilidades hermenêuticas que emergem da interpretação do vivido. Propomos,
portanto, a ideia de “atravessar”, pela comunicação, os conhecimentos (resultando de processos rigorosos de verificação) e os saberes (resultando de
interpretações calcadas na subjetividade ancorada em processos intersubjetivos). Para nós, a comunicação é prévia a todas as disciplinas e práticas porque
sem ela, nenhuma delas seria possível: precisamos da comunicação para estabelecer todos os campos acadêmicos, da matemática à história. Ela é também
condição necessária às práticas de intervenção informal ou profissional no
mundo social. Trata-se, portanto, de uma transdisciplina, de uma transprática.
Para tanto, delinearemos resumidamente a posição construtivista-crítica por meio de uma discussão específica resultando de um estudo preciso
a respeito do problema do jornalismo de “opinião”, atravessando-o (porque
poderíamos estudá-lo de um ponto de vista econômico, político, psicossociológico etc.). A partir de uma perspectiva construtivista-crítica, gostaríamos
de problematizar a questão específica dos chamados “gêneros opinativos”,
analisando-a do ponto de vista da ecologia dos sentidos. (CAMPOS, 2007) Estas se desenvolvem transversalmente junto aos participantes dos processos
de comunicação e refletem sua imersão psicossocial (cognitiva, afetiva) em
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contextos históricos e ético-políticos. Estruturamos esse estudo nas seções
seguintes: “Opinemos sobre o que é opinião”, “Considerações teórico-metodológicas” e “A construção da opinião no espaço público”. Na conclusão,
retomaremos a crítica que desenvolveremos relativamente à própria noção
de “gênero opinativo”, obedecendo a abordagem construtivista-crítica. Dessa
maneira o leitor poderá ter uma ideia, ainda que bastante limitada,1 da aplicação teórica da ecologia dos sentidos e da metodologia de análise do discurso
habilitada pela lógica natural. Faremos esse percurso discutindo a ética da
prática jornalística, historicamente consagrada como uma das principais integrantes do campo da comunicação, tal como ele é entendido atualmente
no Brasil.
Opinemos sobre o que é opinião
O objetivo da escolha da opinião, e de como ela é tratada dentro do âmbito do jornalismo, reside no fato de ela constituir um problema intelectual
que está longe de ser esclarecido, mas que pode ser compreendido, ainda que
de maneira parcial, à luz do desenvolvimento histórico da sociedade e das
tensões geradas pelas lutas sociais. Este problema diz respeito ao estatuto de
verdade que costuma acompanhar as histórias difundidas através das mídias
jornalísticas.
Sabe-se que a prática profissional jornalística construiu, ao longo de
sua história, tradições relativas às maneiras pelas quais a comunicação com
o público deveria ser estabelecida. O resultado, adaptado de acordo com a
natureza de cada mídia, tomou a forma do que convencionamos chamar, na
academia, de “gêneros jornalísticos”. As práticas das redações, dos jornais às
rádios, das televisões às mídias digitais que fazem uso da internet, tiveram
como resultado o desenvolvimento de dois tipos básicos de tratamento do
“novo”: a notícia – fundamentada na ideia segundo a qual os fatos existem
em si e podem ser objetivamente comunicados, e a opinião – fundamentada
na ideia segundo a qual os fatos objetivamente apresentados mereceriam um
tratamento reflexivo e analítico resultante de tomadas de posição. Encontra1
Para maiores esclarecimentos, convidamos o leitor a consultar nossas publicações.
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mos, em cada um desses dois tipos básicos de gêneros jornalísticos nomeados
segundo certa tradição acadêmica que distingue o empirismo absoluto supostamente objetivo do subjetivismo radical, formas mais específicas. Entre
as que se referem ao segundo caso, a opinião, encontramos, por exemplo, o
editorial, os comentários, as colunas dos leitores, as charges e as trocas virtuais
– estabelecidas graças a procedimentos de produção como, por exemplo, os
que encontramos na coluna do jornal O Globo Online “Eu repórter”.
A opinião poderia ser definida sucinta e popularmente como a manifestação de ideias a respeito de imagens do mundo: representações que fazemos
de coisas e experiências, relativamente a conhecimentos e saberes. Fundamentalmente resultado de interações que entretecem a subjetividade (ligada ao
valor) e o mundo objetivo (ligado à possibilidade de se afirmar um “fato”)
(HABERMAS, 2003), ela expressa universos de sentidos constituídos na progressão do mundo vivido dos sujeitos. A opinião tece esses mundos vividos
sócio-historicamente na vida de grupos aos quais pertencem (as várias comunidades que se intersectam no conjunto da sociedade) e que se desenvolvem
em contextos de trocas com o meio natural (o meio ambiente). Ainda que
expressa subjetivamente, a opinião não está condenada ao mundo interior.
Ela constitui-se dinamicamente no mundo social. Além disso, é deste constituinte por conta das imbricações sócio-político-econômicas que a produzem
dialeticamente.
Afirmar a existência do “jornalismo opinativo” como gênero implica que
este seja elemento de uma estrutura mais ampla na qual sejam categorizados
outros gêneros. Pode-se considerar didaticamente aceitável tal “gênero”, por
exemplo, quando professores ensinam a alunos de graduação como se desenvolveram as formas de expressão jornalísticas. De fato, folheando um jornal ou
“hiperlinkando” um website, podemos identificar produções “informativas”,
“analíticas”, “opinativas”. Classificações como estas nos permitiriam dizer que
uma produção é informativa quando ela trata de fatos “objetivamente” narrados; que uma produção analítica (ou interpretativa) desconstrói posições que
se confrontam em debates públicos que merecem ser classificados sem que o
autor, necessariamente, tome uma posição; que uma produção opinativa é a
única que permitiria ao jornalista, em tese, de tomar uma posição, de defendê-la criticando visões concorrentes e de, eventualmente, apresentar pistas
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de solução e assumi-las como corretas. Ora, tal constelação estrutural pede
uma reconfiguração diante de uma análise construtivista-crítica.
Ainda que o atual “modelo” profissional que encontramos nas redações
dos jornais, rádios e tevês seja o resultado de um desenvolvimento histórico
e que o jornalismo tenha passado por diferentes fases que o consolidaram de
certa maneira e não de outra na sociedade brasileira (porque não podemos
falar em jornalismo no singular, mas em jornalismos no plural), a distinção
categórica que exila a opinião em determinados estilos jornalísticos merece
ser colocada em questão. As razões para tal empreitada são múltiplas, mas a
mais fundamental é que a manifestação expressiva de uma forma jornalística
dada responde a imperativos complexos que tecem sujeitos, comunidades e
sociedades em função de razões, de sentimentos e de julgamentos de fato e de
valor que moldam configurações de sentidos (as ecologias dos sentidos). Definir uma opinião não é, portanto, tarefa menor. Preferimos fazer um percurso
analítico de modo a tratar um conjunto de questões de fundo que, acreditamos, permitirá um entendimento renovado sobre o que seria uma opinião.
C o n s i d e r a ç õ e s t e ó r i c o -m e t o d o l ó g i c a s
Para explorarmos mais profundamente a problemática da opinião, faremos,
na próxima seção desse ensaio, uma análise discursiva de um artigo de jornal,
fundamentada na ecologia dos sentidos. Para tanto, nos serviremos da lógica
natural. Acreditamos que, fundados na manifestação empírica de uma expressão simbólica (o artigo do jornal), poderemos avançar a discussão sobre o
estatuto da “opinião”.
No que diz respeito à ecologia dos sentidos (CAMPOS, 2011), trata-se
de uma teoria que defende a ideia segundo a qual, para se compreender processos de comunicação, é necessário desvelar como as estruturas cognitivas,
afetivas e ético-morais dos interlocutores são tecidas no mundo social, de
modo a descrever e explicar a construção das trocas na medida em que se
desenvolvem as ações comunicativas. Ela se fundamenta nas trocas simbólicas que obedecem a imperativos que interpenetram, de um lado, o mundo
vivido dos sujeitos e, de outro, as estruturas da sociedade, modeladas pelo que
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chamamos de fatores comunicativos. Do ponto de vista do mundo vivido,
os sujeitos constroem imagens do mundo nas quais estão imersos, graças a
suas estruturas cognitivas e afetivas e, complementarmente, a suas condições
materiais de subsistência. Cognições e afetos são governados pela consciência de existir dos sujeitos e pelo exercício da vontade, que se traduzem como
valores morais. Do ponto de vista das estruturas sociais, produto e resultado
da organização das comunidades e sociedades – no caso das contemporâneas, trata-se das organizações civis, de direito privado, público etc. –, suas
instituições determinam o conjunto dos bens que permitem a elas gerenciar
riquezas. Ambas são governadas pela ordem jurídica (dos estatutos de pequenas organizações ao direito geral que rege o Estado) que reflete o seu caráter
ético (ou não ético).
Do nosso ponto de vista, as interações que se estabelecem graças às
trocas simbólicas que definem as coconstruções de imagens do mundo de
sujeitos e coletividades são mediadas não por objetos técnicos possibilitados
pelas tecnologias da informação e da comunicação (como tradicionalmente
são apresentadas por teorias da comunicação), mas por mediações de outra ordem. Ainda que as técnicas e as tecnologias determinem limites nas
construções de expressões comunicativas e as modelem (e as chamamos aqui
de fatores comunicativos), as interações, na verdade, são “mediadas” por
estruturas de comunicação bem mais amplas e poderosas. Acreditamos na
pertinência da visão do filósofo alemão Jürgen Habermas (1987a, 1987b), para
quem estas mediações são estabelecidas, de um lado, pelo poder econômico
através da linguagem do dinheiro e de seus outros códigos e, de outro, pelo
aparelho do Estado através da burocracia administrativa e do sistema político.
Essas mediações comunicativas estão, na verdade, no centro da problemática
do espaço público e da ética que, ainda que determinada até certo ponto pela
história, obedecem a imperativos da ordem do desejo, aqui definidos como
os valores que modelam crenças como, por exemplo, o ideal democrático
das trocas cooperativas e a amizade como recusa do servir. (CHAUÍ, 1982)
Segundo o epistemólogo Jean Piaget, a cooperação é um processo de trocas
simbólicas no qual os participantes, livres das amarras da coação, são iguais
ou se consideram iguais uns aos outros, o que é o fundamento da democracia social (1977). Esse estado de equilíbrio das trocas, que Habermas chama
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de agir comunicativo, se distingue dos processos mediados por linguagens
do poder econômico e administrativo-político, fundamentalmente coativos
e instrumentais.
A maneira pela qual entendemos a ecologia dos sentidos e a visão específica de mediação, de “midiático”, foi aplicada parcialmente em um estudo
no qual analisamos onde estão e como se relacionam intrinsecamente os
mundos vivido e social. Nele, tomamos uma supostamente ingênua forma
de jornalismo informativo retirada de uma notícia que a Folha de São Paulo apresentou como fato, com o objetivo de examinar se ela esconde – ou
não – uma dimensão opinativa, e se seria possível pensar o informativo em
termos não opinativos. Aplicamos, para compreender as trocas que se estabelecem entre os interlocutores desse processo de difusão e de acesso à notícia,
como instrumento de análise, a lógica natural. Esta é considerada uma teoria
lógica. Na comunicação, ela nos serve como método. Trata-se de uma linguagem desenvolvida pelo lógico e comunicólogo suíço Jean-Blaise Grize (1982,
1997, 1996) que serve para identificar e descrever as operações mentais que
os interlocutores de uma situação de comunicação ativam quando “esquematizam”, isto é, quando interpretam e cointerpretam progressivamente as
representações evocadas pelas imagens que fazem do mundo, através de suas
subjetividades, passando pelas construções intersubjetivas e pelas objetivas
(compreendidas como aquilo que todos consideram real).
As esquematizações (o ato de escrever esse artigo sendo um exemplo de
tais processos) expressam como os sujeitos, quando conectados pela interação comunicativa, constroem e reconstroem imagens do mundo com base
em finalidades fundadas em suas estruturas cognitivas (as capacidades cerebrais que os permitem acessar o mundo vivido, nomeá-lo e compreendê-lo) e
afetivas – as capacidades cerebrais que os permitem perceber, sentir o mundo
vivido. Por serem finalidades, essas estruturas acabam por expressar juízos
que, por sua vez, expressam valores morais e ético-políticos. Tais finalidades
se ancoram nas representações de mundo enraizadas em noções culturalmente pré-construídas ao longo da história das comunidades e sociedades.
Ao serem processadas cognitiva e afetivamente pelo organismo, acabam por
moldar o entendimento que fazem do mundo graças a sua capacidade de
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perceber e de, pelos sentidos da linguagem, re-tecer o legado simbólico dos
antepassados, criando novas significações e construindo novos mundos.
A integração desses diferentes níveis de olhar é o que fundamenta
uma análise ecológica dos sentidos. Tentaremos aqui mostrar uma pequena dimensão de sua capacidade heurística ao fazer o exercício de desvelar a
emergência da opinião, aplicando a lógica natural. (GRIZE, 1996, 1997) As lógicas tradicionais são objetivas e seus objetos são relacionados por operações
(tais como a afirmação, a negação, o condicional etc.). A natural acrescenta
à lógica dos objetos, a lógica dos sujeitos, o que faz com ela tenha operações
diferentes relacionadas a uns e outros. As operações da lógica natural não se
confundem com as da lógica formal. Além disso, ela se ancora na linguagem,
podendo aplicar-se também a outras multilinguagens como as dos sons, das
imagens etc. (CAMPOS, 2010) Uma explicação detalhada da lógica natural
está além do âmbito desse texto. No entanto, cabe ao menos esclarecer que
ela lida com o sujeito, os objetos e as relações entre uns e outros que se estabelecem através das múltiplas linguagens. Do ponto de vista da lógica dos
sujeitos, leva-se em consideração o caráter daquele que se responsabiliza pelo
ato de comunicar (operação sigma). Do ponto de vista dos objetos (operações
alfa, delta, gama, iota, ômega, rô), trata-se de construções cognitivas e afetivas
expressas pela linguagem. Na intersecção entre as duas, temos a predicação
– que descreve os conteúdos de juízos expressos através de enunciados e
configurações (operação etá) – que nos permite de ir além da lógica e inferir,
graças à análise construtivista-crítica, os valores morais e ético-políticos subjacentes às escolhas dos sujeitos. (CAMPOS, 2011)
A c o n s t r u ç ã o d a o p i n i ã o n o e s pa ç o p ú b l i c o
As trocas comunicativas são múltiplas e plurais, podendo tomar diversas formas, serem estabelecidas por poucos ou muitos sujeitos, os sujeitos entre si
ou entre instituições, as instituições entre si ou entre grupos sociais etc. Aqui,
como tratamos de uma problemática relacionada a uma das múltiplas maneiras pelas quais a comunicação foi institucionalizada no domínio público, no
caso o jornalismo, lidamos com uma troca simbólica que se dá entre o leitor
do jornal e uma matéria. Esta traz em seu bojo uma complexidade relativa a
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sua produção, que ultrapassa o exclusivo tratamento cognitivo, afetivo, moral
e ético-político, do jornalista que a redigiu, mas inclui todos os sujeitos envolvidos em sua produção. Lidamos, nesse caso, com interações que englobam
as esferas privadas de muitos sujeitos (em suas dimensões cognitivas, afetivas
e morais), e um espaço público preciso, consolidado pela história recente do
país, na qual a ética política emerge.
O princípio de base de uma esfera pública própria a uma democracia
social consiste no acesso de todos os participantes à vida social e política, em
uma necessária independência de interesses privados (normalmente comerciais, mas podendo se revestir de outros tipos de interesse) e governamentais,
e em um ambiente permitindo que debates críticos racionais possam ser
estabelecidos. (HABERMAS, 1987a, 1987b; POLAT, 2005) No entanto, não
podemos falar da possibilidade de uma esfera pública, mas de inúmeras esferas públicas. Por exemplo, tomemos o caso de periódicos que poderiam,
classicamente, serem classificados como jornalismo opinativo: os pasquins
liberais que floresceram durante o Primeiro Império. Este foi curto, turbulento, e domesticado pela Constituição outorgada em 1824 por D. Pedro I
após o fechamento da Constituinte, uma vez que os liberais que a dominavam
exigiam um modelo imperial em que o soberano tivesse um papel meramente
figurativo. Frei Caneca, e outros tantos jornalistas, tiveram triste fim: aprisionamento, tortura e morte. (SODRÉ, 1996)
Neste caso, num tempo em que o jornalismo “informativo” era quase
que totalmente inexistente, e em que as práticas eram quase sempre de tomadas de posição (fosse para apoiar a autoridade de Sua Majestade, o Imperador,
ou para contestá-la), falamos de um espaço público imperial, onde as vozes
eram colonizadas pela estrutura econômica e administrativo-política: para
votar era necessário fazer demonstração de riqueza, o que eliminava a maioria da população, sem falar, é claro, dos escravos. As caricaturas floresceram
um pouco mais tarde e, como se sabe, estas sempre comunicam opiniões pela
via do humor. Ainda que durante a crise que se instalou no Segundo Império,
por volta dos anos 50 do século XIX, elas tenham tido um papel significativo que seria mantido ao longo do desenvolvimento do jornalismo nacional
(SODRÉ, 1996), o espaço público era essencialmente o mesmo, mas mais
oligárquico e menos imperial. Se saltarmos no tempo e tratarmos, por exem-
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plo, dos editoriais no início do século XX, estes só apareceram com clareza
com a profissionalização dos jornalistas e o estabelecimento de grandes empresas jornalísticas porque antes quase tudo era “editorializado”. (SODRÉ,
1996) Durante a Primeira República, cuja constituição tinha sido promulgada
sob a égide de um golpe militar e que exclui o voto aos mendigos e analfabetos, cuja grande maioria era oriunda da população negra que foi literalmente
abandonada pelo Estado, além de violentamente condenada ao abismo da
negação de sua humanidade em suposta liberdade, estamos diante de um espaço público burguês de fundo oligárquico que coloniza a maioria pela Lei e
pela interiorização de sua própria servidão. (LA BOÉTIE, 1982)
A noção de espaço público só pode ser compreendida historicamente.
Do outro lado da moeda, temos a esfera privada das construções de ordem
cognitiva e afetiva, com suas consequências morais. É preciso sublinhar que o
exercício da opinião – de ordem privada –, no espaço público, está delimitado
pela ordem social e política normatizada pelo direito em vigor. Não é possível
aceitar a categorização estrutural da opinião jornalística como algo separado
da notícia (como mostraremos no estudo que apresentaremos a seguir), ao
menos de um ponto de vista construtivista-crítico, porque ela releva de imbricações entre o público e o privado. Pergunta Habermas relativamente ao
espaço público de hoje – aquele em que se inserem as notícias supostamente
neutras da Folha e das outras formas atuais de jornalismo brasileiro:
Seria possível, e em qual medida, que um espaço público dominado pelas mídias de massa possa propiciar oportunidades para que
os atores da sociedade civil levem ao fracasso qualquer esperança
dos poderes invasores das mídias políticas e econômicas, ou seja
de transformar, de reconstituir de maneira inovadora, e de filtrar
criticamente o espectro de valores, de temas e de razões canalizadas por uma influência exercida de fora? (HABERMAS, 1992, p. 186,
tradução nossa)2
2Est-il possible, et dans quelle mesure, qu’un espace public dominé par les mass-médias puisse
accorder des chances aux acteurs de la société civile de faire échec quelque espoir au pouvoir
envahissant des médias politiques et économiques, donc de changer, de reconstituer de façon innovatrice et de filtrer de façon critique le spectre des valeurs, des thèmes et des raisons canalisées
par une influence exercée de l’extérieur?
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Habermas responde acreditar ser possível compreendê-lo de maneira
política, de modo a que possamos buscar soluções analíticas adequadas para
uma teoria da democracia. Ora, a questão que se coloca, relativa à maneira
pela qual a opinião foi categorizada, é a seguinte: o espaço público brasileiro é
verdadeiramente democrático? As pretensões à validade da verdade dos fatos
veiculados como notícias e das ideias apresentadas como opinião são plenamente exercidas? Existem fronteiras entre essas duas formas?
Tomemos o objeto de nosso resumido estudo, a manchete de primeira
página da Folha de São Paulo do dia 7 de dezembro de 2011 (o título e os dois
primeiros parágrafos):
Brasil para de crescer
A economia brasileira parou de crescer no terceiro trimestre e fez o
governo reduzir a previsão de crescimento do PIB (soma dos bens e
serviços do país) em 2011 de 3,8% para 3,2%. A estagnação foi recebida com alívio, pois temia-se uma retração.
Só a agropecuária teve ganho; serviços e indústria encolheram [...].
(SOARES et al., 2011)
O editorial – modo francamente opinativo – da mesma edição, intitulado Crescimento zero (p. 2) relata que “não surpreendeu a informação” relativa
ao anúncio do governo de que “os números aventados pelas autoridades são
bastante discutíveis”. Afirma, mas não explica o porquê. Trata-se de uma opinião não submetida à exigência de um espaço público democrático, qual seja,
o de permitir que o leitor tenha as condições mínimas para compreender e
interpretar as razões que são apresentadas a título de pretensões à validade das supostas verdades, de modo que ele possa julgá-las e reconstruir sua
própria opinião. (HABERMAS, 2003) É possível afirmar isso examinando a
notícia que fundamenta o editorial – supostamente não opinativa. Veremos
que as condições para o estabelecimento de um espaço público permanecem
as mesmas. Apliquemos a lógica natural no que diz respeito à responsabilização do sujeito da comunicação (aquele que escreveu com a finalidade de
avançar certas representações fundamentadas em pré-construídos culturais
das camadas da sociedade brasileira que leem jornais), aos objetos do discurso
e às predicações, utilizando apenas quatro de suas operações:
A opinião na comunicação—
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1) operação sigma, de responsabilização do sujeito – esta operação
está obscurecida. O autor escreve em terceira pessoa, como se o
dito não fosse o dito de qualquer um. Dessa forma, em vez de ele
se responsabilizar pelo dito, transfere essa responsabilização a um
outro que deve tomá-la como verdadeiro por conta da maneira supostamente “exterior” pela qual os dados são apresentados. Alguém
“diz”, que não é ele (mas, que ele mesmo pode ser), especialmente
quando atribui – supostamente ao governo – um alívio paradoxal
relativamente à estagnação da economia brasileira, por conta de um
também suposto temor de retração.
2) operação alfa, de extração dos objetos principais do discurso, e operação gama, de constituição dos objetos subordinados aos principais
– a aplicação destas duas operações nos permite identificar dois objetos principais, o primeiro com inúmeros subordinados:
Alfa 1 - Economia brasileira
Gama 1 - terceiro trimestre
Gama 2 - previsão
Gama 3 - crescimento
Gama 4 - PIB (bens e serviços)
Gama 5 - 3,8%
Gama 6 - 3,2%
Gama 7 - Estagnação
Gama 8 - Retração
Gama 9 - Agropecuária
Gama 10 - Ganho
Gama 11 - Serviços e indústria
Alfa 2 - Governo
3) operação etá, de extração de predicações – trata-se de uma operação
que sempre exige a menção a seu oposto, pois indica uma escolha
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(possibilitando que infiramos o que é subjacente a um juízo, ressaltando a qualidade moral e ética do discurso). Temos aqui:
Etá 1 (sobre Alfa 1) parou de crescer; não parou de crescer
Etá 2 (sobre Alfa 2) fez o governo reduzir a previsão; não fez o governo reduzir a previsão
Etá 3 (sobre Gama 7) foi recebida com alívio; não foi recebida com
alívio
Etá 4 (sobre Gama 8) temia uma retração, não temia uma retração
Etá 5 (sobre Gama 9) teve ganho; não teve ganho
Etá 6 (sobre Gama 11) encolheram; não encolheram
Para fins de análise, fixemo-nos somente nas consequências das predicações (ignorando, desse modo, outras dimensões analíticas possíveis
resultantes da aplicação das operações alfa e gama), porque reveladoras da
dimensão ético-política. Estas são da ordem do direito de escolha que o sujeito que se responsabiliza pela comunicação exerce através de sua maneira
de apresentar pretensões à validade de supostos fatos. Ora, esse sujeito da
comunicação, o jornalista (imerso em um meio ambiente ao mesmo tempo
natural e social), avança tais pretensões crendo que elas terão como resultado
uma aceitação de sua validade. Tal movimento na direção do outro, tomado
como escolha e, portanto, apresentando um caráter minimamente opinativo
(porque a terceira pessoa o apaga), é feito na intenção de ser recebida pelo outro de maneira maximamente informativa. Este outro pode ficar satisfeito ou
não com a explicação. O editorialista do jornal, por exemplo, não se satisfez:
julgou insuficientes as explicações do governo, desvalorizando, assim, contraditoriamente, a informação que o mesmo jornal apresenta em manchete,
sob a forma de “notícia”, na primeira página. O que diriam outros sujeitos
leitores? A única coisa que podemos afirmar é que eles recebem afirmações
não explicadas sobre o fato de o governo reduzir a previsão de crescimento.
Recebeu-se com alívio. Quem? Temia-se uma retração. Da parte de quem?
Seria o jornalista, o governo ou ambos? Seriam outros, como por exemplo,
economistas? E se a agricultura vai bem, mas os serviços e a indústria menos,
isso é necessariamente uma má notícia? Fica ao leitor a tarefa de decidir se
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rejeita ou se assimila como suas as formulações do jornalista, reconstruindo-as. Existe uma ambiguidade inerente ao estatuto da opinião informativa.
Conclusão
As escolhas discursivas de jornalistas são ético-políticas à part entière e, dificilmente, poderiam ser consideradas exclusivamente informativas. Elas são
da ordem da cognição porque o jornalista usa determinadas razões, expressas discursivamente, para pretender que o suposto fato que é tratado, o é
de maneira isenta. O jornalista assim minimiza a opinião maximizando a
informação supostamente explicitadora de uma realidade que poucos compreendem. Pode-se supor que sentimentos ligados a sua existência o façam
agir dessa maneira (que podem ser da ordem ideológica como uma crença ou
resultado de uma colonização ideológica interior, ou ainda de subserviência profissional, além de outras explicações impossíveis de serem acessadas
através da simples interpretação do leitor). Tais ações ocultam escolhas de
termos, verbos e estilos, que são, efetivamente, maneiras de opinar. Ao fazê-lo, comprometimentos morais estão em jogo e determinações ético-políticas
agem sobre o espaço público, sob a forma de discursos comunicativos.
No caso do espaço público brasileiro atual, em que uma cultura enraizada em práticas históricas totalitárias e manipuladoras insidiosamente
contaminam as instituições (cujo novo estado de direito ainda se configura,
dado que a última constituição brasileira ainda não foi totalmente regulamentada, abrindo espaço para a cultura das leis que “colam” ou “não colam”),
as palavras publicadas na primeira página da Folha não são somente expressões estritamente “profissionais” e, menos ainda, ingênuas. São discursos que
se constroem e se estabelecem em espaços “públicos” nos quais existem opacidades, em cujas águas turvas se coconstroem juízos. Longe de querer negar
o caráter democrático das instituições “midiáticas” – tais como as empresas
jornalísticas e seus periódicos – e de seu papel fundamental na configuração
da sociedade brasileira contemporânea, a ideia segundo a qual o jornalismo
comercial de mercado de orientação norte-americana constitui modelo de
isenção, profissionalismo (MATOS, 2009) e responsabilidade está longe de
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ser demonstrada. Nosso estudo, ainda que resumido e limitado, revela a impossibilidade mesma de tal pretensão, o que sugere a pertinência de se pensar
os meios, as mídias e as mediações não em termos técnico-tecnológicos
(ainda que o desenvolvimento de lentes dessa ordem estruturem as comunicações de maneiras impensáveis no passado), mas em termos econômicos e
ético-políticos.
A informação é sempre construída opinativamente. A questão que se
coloca não é a de eliminar a opinião, mas de se construir alternativas públicas que permitam ao jornalista de contribuir para o debate sem mascarar
suas próprias escolhas. Apesar do radicalismo gritante dos pasquins do Primeiro Império ou da imprensa revolucionária da ditadura (KUCINSKI, 2006;
SODRÉ, 1966), essas formas de jornalismo francamente opinativo, análogas
às práticas de certa imprensa europeia político-partidária, permitem a explicitação – e não o mascaramento – da opinião, ancorada em projetos de
sociedade. A opinião está longe de ser um elemento de uma estrutura, ou seja,
um gênero jornalístico ao lado de outros. A opinião é a própria essência das
instituições de comunicação como participantes (a título de representantes)
de um espaço público considerado como ágora independente de interesses
instrumentais de classes ou grupos políticos. (HABERMAS, 1992) Se é verdade
que o jornalismo atual de mercado amplificou a “qualidade” da informação (se
adotarmos essa ilusão difundida pela direita) exilando outras formas como o
jornalismo francamente engajado (por conta de excessos de esquerda), tais
contrapontos poderiam sinalizar a busca de um jornalismo equilibrado e renovado no contexto de uma esfera pública representativa de uma democracia
realmente social. Nem prá lá, nem prá cá, mas discursos que expressem uma
ética da cooperação e de um agir comunicativo estrangeiro não somente às
formas de colonização impostas de fora, mas também as autogeradas pelos
sujeitos por conta de construções cognitivas, afetivas e morais de subordinação que Habermas (1989) chama de colonização interior.
A problemática do ponto mediano vai além das coconstruções dos sujeitos nos contextos concretos da comunicação pública. O ideal do “onde
deveríamos chegar” é de ordem ética, de escolha (da operação etá da lógica
natural). Não só jornais, mas teorias da comunicação, a título de discursos,
podem ser objetos de controle ideológico e de colonização mental. Para ter
A opinião na comunicação—
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poder liberador, tais discursos precisam expressar processos de comunicação
de maneira inversa à pensada por La Boétie (1982, p. 49), para quem
É incrível como o povo, quando se sujeita, de repente cai no esquecimento da franquia tanto e tão profundamente que não lhe é
possível acordar para recobrá-la, servindo tão francamente e de tão
bom grado que ao considéra-lo dir-se-ia não perdeu sua liberdade
e sim ganhou sua servidão.3
A resposta inversa, para nós, é a de se pensar a comunicação como
transdisciplina e transprática, que buscamos revelar ao aplicar os construtos
teóricos da ecologia dos sentidos (CAMPOS, 2011). Ela emerge da necessidade
de se pensar a ação comunicativa como exercício pedagógico de liberdade
(FREIRE, 2007), atravessando conhecimentos e saberes, preocupações sublinhadas por Freitag:
Was ist der Mensch? A abordagem inter e multidisciplinar nos
torna sensíveis ao caráter ao mesmo tempo biológico, psicológico e social do homem. Ele não é a priori um ser dotado de
razão, mas tem um potencial para a racionalidade teórica e prática que somente se constitui como razão em decorrência de
processos interativos. (FREITAG, 1992, p. 286)
Acreditamos que só desmontando as ideologias subjacentes ao que
entendemos ser teorias e subteorias da subordinação e concebendo a comunicação, essencialmente, como campo transversal focalizado no exercício da
ação ética, é que poderemos pensar em um futuro que nos liberte da violência
que construímos no presente e da que guardamos na memória do passado.
Ainda que teorias não sejam soluções sociais, elas fazem parte das ideologias
difundidas pelo sistema-mundo (FRANK, 1980), que são as que, muitas vezes, abraçamos acriticamente. Optar por aquelas que fazem a crítica da farsa
das academias, da prática das redações e das múltiplas formas de comuni3Il n’est pas croyable comme le peuple deslors qu’il est assujetti, tombe si soudain en un tel et
si profond oubly de la franchise, qu’il n’est pas possible qu’il se resveille pour la rvoir, servant si
franchement et tant volontiers qu’on diroit, a le voir qu’il a non pas perdu sa liberté, mais gaigné
sa servitude
154—Milton N. Campos
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cação, como instrumentos ideológicos da servidão, nos parece um caminho
promissor. Não nos iludamos: para que as gerações mais jovens que se interessam pelas práticas comunicativas possam contribuir para a transformação
da sociedade, é preciso pensar a ética como fundamento de todo e qualquer
discurso. Acreditamos que no princípio construtivista-crítico da cooperação
e da ação comunicativa está o fundamento ético que nos permite edificar
relações respeitosas, fundamento dos direitos humanos. Ainda que nossa contribuição epistemológica, teórica e metodológica seja apenas um dos
múltiplos caminhos possíveis de se pensar a comunicação, acreditamos que o
exercício da ética – ausente de muitas teorias – seja o mínimo que podemos
esperar de intelectuais e profissionais em suas práticas discursivas.
R e f e r ê n c ia s
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156—Milton N. Campos
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Das teorias da
comunicação
Um breve percurso da mensagem a certos
desafios da análise dos discursos mediáticos
Giovandro Marcus Fer reira
Da M e n s a g e m
Harold Lasswell e Paul Lazarsfeld definem as bases da análise de conteúdo da
comunicação nos anos 20 do século XX. Porém, ela se torna mais popular nos
anos 50 sendo empregada em estudo de diversos temas cobertos pelos meios
de comunicação: violência, racismo, situação da mulher, perfis comparados
de jornais no mundo etc. Já surgem, nesta época, as críticas ao excessivo peso
no aspecto quantitativo da análise que se concentrava basicamente nas informações manifestas.
Os estudos sobre a mensagem surgem, portanto, em contestação aos
modelos de massificação, fazendo apelo, entre outros, à decomposição do
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então ato de comunicação, trazendo em questão a importância da articulação ou estruturação da mensagem nos efeitos provocados pelos meios de
comunicação. (FERREIRA, 2007) Lasswell foi um pioneiro, com seus estudos
oriundos da sociologia e da política, na introdução da análise do conteúdo
no âmbito das mensagens mediáticas, enriquecendo a reflexão em torno
dos atos de comunicação, como se dizia, então, juntando-se aos estudos dos
emissores, dos meios e dos efeitos. No entanto, continua havendo uma visão
que a ação, a iniciativa é uma exclusividade do emissor e os efeitos recaem,
também exclusivamente, sobre o público ou os receptores. Essa assimetria
reforça, igualmente, a concepção de linearidade, causalidade e determinação
nos estudos dos meios de comunicação. Tal concepção é observada não só nos
estudos oriundos da mensagem no domínio da comunicação, mas também
aqueles tendo a cultura e a técnica como eixos estruturantes, forjando uma
espécie de relação de estímulo-resposta, ativo-passivo no ato comunicativo.
Também se atendo ao estudo da mensagem, mas numa perspectiva de
sua otimização a partir do fluxo comunicacional, a teoria informacional ou
das telecomunicações, faz, igualmente, seu aparecimento no contexto de
pesquisa do campo mediático e é, essencialmente, uma teoria da transmissão, segundo o esquema proposto por Shannon (apud WOLF, 1996). Há uma
fonte que emite sinais através de um aparelho de transmissão, e, por sua vez,
há um receptor que realiza a conversão de tais sinais para um destinatário.
A mensagem neste aparelho pode conter ruídos, e a teoria da informação se
apega ao código, pois ele torna possível a inteligibilidade da transmissão da
informação, ou seja, a diminuição do ruído.
O código é um conjunto de sinais, que serve de parâmetro para reduzir
a equiprobabilidade na fonte. A informação é apreendida pelo seu lado mensurável no interior de um código, ou seja, o aspecto ressaltado é o sistema
sintático. Neste caso, todo o aspecto referente ao significado é desconsiderado, algo intrínseco a toda comunicação humana. Segundo Escarpit (1991,
p. 30),
Os teóricos da telecomunicação se interessam antes de tudo ao
significante que deve ter um certo número de qualidades: resistência ao ruído, facilidade de codificação e decodificação, velocidade
158—Giovandro Marcus Ferreira
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de transmissão. Eles se interessam ao significado na medida onde
suas características têm uma incidência sobre o significante.
Robert Escarpit explora o exemplo do correio para ilustrar as preocupações da teoria da informação. O correio deve transmitir um telegrama, sem
estar, no entanto, interessado no conteúdo da mensagem. Para o correio o
significado da mensagem é indiferente na medida em que sua tarefa é a transmissão de uma quantidade de informação. Porém, tal modelo comunicativo
teve e tem grande repercussão na sociedade e teve, igualmente, desdobramentos no interior da pesquisa em comunicação. O linguista russo Roman
Jakobson, que migra para a América do Norte, foi um arauto na ampliação do
modelo em questão, buscando articulá-lo com a linguística. Para ele,
a atividade comunicativa é representada como transmissão de um
conteúdo semântico fixo entre dois pólos, igualmente definidos,
encarregados de codificar ou decodificar o conteúdo, segundo as
restrições de um código igualmente fixo. (JAKOBSON, 1963, p. 87)
Jakobson tem o mérito, mesmo se apropriando da teoria da informação,
de ser também um dos primeiros linguistas a fazer a distinção entre o processo de produção e o processo de recepção de frases. Mesmo se esta distinção
não tenha as características que se empregam atualmente. (VERON, 1985)
Recebendo influência de outras disciplinas, com destaque para a linguística, a problemática da teoria da informação vai sendo ampliada e
posicionada não somente junto ao significante, mas também à noção mais
geral da significação. Este novo posicionamento será definido por alguns
como o modelo semiótico-informacional. Ele guarda essencialmente o esquema precedente, porém, o mais importante é que a linearidade da transmissão
se encontra arraigada ao funcionamento dos fatores semânticos, através do
conceito de código. A comunicação se realiza pela transformação de um sistema por um outro, e não por uma simples transmissão de informação. (WOLF,
1987) Porém, a noção de código encontra-se ainda como balizadora na relação
dos sistemas em questão.
O código será a base contratual visto a partir de dois aspectos: de um
lado, no tocante à articulação dos códigos, e de outro, acerca da situação
Das teorias da comunicação—
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específica do processo de comunicação. Este último está presente na relação
dos códigos e dos subcódigos entre a produção e recepção da comunicação
(desníveis de códigos, hipercodificação, hipocodificação etc.) e nas circunstâncias forjadas pelos fatores sociais que provocam a assimetria entre os dois
polos da comunicação. A noção de desajustamento na recepção da mensagem
se torna cada vez mais evidente, assim como as implicações socioculturais.
Do discurso
Apesar dos limites dos modelos abordados até então, em particular as contribuições de Jakobson – há a importância de abrir o processo comunicativo às
interferências sociais. Isso possibilitará uma ampliação, em estudos posteriores, da influência de tais fatores – socioculturais – na compreensão do processo
comunicativo. Um novo modelo é esboçado para melhor apreender a relação
entre a produção e a recepção, ou melhor, o reconhecimento das mensagens.
Uma característica importante neste novo momento é pensar tal relação,
não mais restrita a noção de código, mas a partir de “conjuntos de práticas
discursivas”1(GEERTZ, 1978), que leva em consideração a sincronia da comunicação, mas também a sua diacronia. Assim, pode-se pensar a problemática
extrapolando a sincronia do processo de comunicação, levando igualmente
em consideração a significação através do passado, com a implicação do tempo. A indagação pode ser deslocada da seguinte maneira: por que sem saber
das notícias do dia seguinte, muitos leitores já têm em mente qual jornal que
gostariam de ler amanhã? Para entender o processo de comunicação, e toda
significação que ele comporta, a pesquisa sobre o discurso mediático é levada,
cada vez mais, à contextualização, ou melhor, às condições de produção e de
reconhecimento dos processos comunicacionais em questão.
1A noção de “conjunto de práticas discursivas” encontra correspondência na antropologia do norte-americano Cliffort Geertz. Para este autor, a cultura pode ser igualmente representada como
conjuntos de textos e como um sistema de regras que determinam a criação e a orientação das
novas produções textuais. Logo, os conjuntos de textos ou sistemas de signos e discursos que
circulam numa cultura vão provocar influências sobre a produção e o reconhecimento de mensagens dos meios de comunicação. A competência interpretativa dos receptores está articulada
com o consumo precedente de tais discursos ou sistemas de signos, em vez de uma apreensão
de códigos de maneira pura e simples. (GEERTZ, 1978)
160—Giovandro Marcus Ferreira
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Há um duplo processo na semiotização do mundo através do ato enunciativo: processo de transformação e processo de transação. (FERREIRA,
1999) O processo de transformação ocorre pela mimesis, ou seja, o mundo se
transformando em discurso, cuja estruturação (mediação simbólica) depende
dos fatores estruturais inteligíveis, recursos simbólicos e aspectos temporais. A mimesis é constituída por uma dupla face – imitação e criação – que
se articula, ao nível externo, na capacidade de apreensão das coisas ou na
capacidade de projeção fora de, engendrando “a coisa do texto”, e, ao nível
interno, face explorada pela semiologia, que coloca todo empreendimento na
relação dos sujeitos internos do discurso, enunciador e coenunciador (Sobre
as mimesis, a semiotização global do processo comunicativo, vamos explorá-las mais à frente neste artigo). (FERREIRA, 1999)
O conceito de enunciação se coloca no patamar da forma, tentando fugir, primeiro momento, do aspecto conteudístico da mensagem. Benveniste
dizia de forma abreviada que “a enunciação é essa colocação em funcionamento da língua por um ato individual de utilização”(BENVENISTE, 1974,
p. 80), ou de maneira próxima, segundo Jean Dubois (1969), referindo-se à
enunciação como o impacto do sujeito no interior do seu próprio discurso.
A linguística oferece ao conceito de enunciação as três categorias que estão
sujeitas à instabilidade no discurso: as categorias de pessoa, de espaço e de
tempo. Na análise do(s) discurso(s) no interior das pesquisas de comunicação
mediática, o conceito de enunciação vai utilizado (ou ao menos realizado tentativas) em diferentes matérias significantes, também não verbais, sobretudo
a partir de orientações ofertadas por Roland Barthes no seu último trabalho,
dedicado ao estudo da fotografia. (BARTHES, 1980)
Busca-se trabalhar com a noção de dispositivo de enunciação para operacionalizar a instabilidade e, por conseguinte, o posicionamento discursivo.
Três instâncias se abrem, metodologicamente, tendo em vista o funcionamento enunciativo: o lugar daquele que fala, o lugar a quem é endereçado
o discurso e o tipo de relação que se estabelece. Pelas tramas da enunciação,
pode-se caracterizar estas instâncias que articulam a forma e sentido no/do
discurso.
Este nível de transformação, em estudo da análise do(s) discurso(s), vem
sempre acompanhado do processo de transação, apegando-se, inicialmente,
Das teorias da comunicação—
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ao quadro interior no qual se desenvolve o discurso (situação de comunicação) e, mais tarde, como um tecido arrancado de uma semiosis ternária,
social, histórica e infinita, ou melhor, do fluxo de produção social do sentido.
Nesta perspectiva, a produção e o reconhecimento do discurso são edificados num diálogo intertextual, cuja construção de um texto é “costurada”
pelos ecos de outros textos precedentes. A perspectiva diacrônica do consumo de tais textos adquire relevância na produção e no reconhecimento de
um processo comunicativo. Diante da complexidade, ou então, do mistério
da recepção, no dizer de Daniel Dayan (1992), a noção de recepção vem carregada de desníveis e de “efeitos possíveis”. As implicações socioculturais tiram
o receptor da condição de “depósito” da transmissão de mensagem e migram,
por conseguinte, o estudo do signo, da análise do(s) discurso(s) para um conhecimento melhor da recepção, realizando articulações possíveis, nesta
nova etapa de construção de uma semiótica da recepção e aproximando,
o destinatário e o receptor, e concomitantemente, as abordagens sociológicas
e semiológicas. Nas palavras de Mauro Wolf (1993, p. 217), pode estabelecer tal
desafio na seguinte perspectiva: “conectar discursos, interações e contextos
sociais, tal é o objetivo explícito de uma corrente para o qual o discurso não é
somente um objeto semiótico, mas deve ser constantemente ligado a outros
contextos caso se queira compreender sua dinâmica.”
Uma questão aqui se levanta: como considerar um elemento relevante
acerca de um determinado tipo de discurso? Para que um elemento seja
considerado condição de produção e/ou recepção não é suficiente pleiteálo, é preciso que ele deixe pistas na superfície discursiva, levando assim os
valores das variáveis postuladas como condições de um determinado tipo de
discurso. Se tais condições mudam, o discurso muda igualmente. (VERON,
1979)
Produção e recepção são dois polos conceituais produtores de sentido.
O desnível entre eles é provocado pela circulação que adquire diferentes
formas segundo o tipo de produção significante almejada. A circulação é o
conceito oriundo de um modelo que posiciona o discurso entre seu engendramento e seus efeitos. Nestes termos, o que tradicionalmente se estuda como
marcas linguísticas, nesta outra abordagem passam a ser traços ou pistas da
operação de engendramento e/ou então de reconhecimento, que definem
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o sistema de referência das leituras possíveis. A noção de circulação oferece
ao modelo analítico uma dinamicidade acerca da variação do investimento
de sentido nas matérias significantes ao longo do tempo (VERON, 1979), em
outras palavras, pode-se caracterizar como a variação do ethos, fazendo do
sentido uma materialização no tempo e espaço.
A linearidade entre a produção e o reconhecimento foi durante muito
tempo sustentada pela hipótese da convencionalidade: os atos de linguagem
foram submetidos às convenções, pois a distinção entre dois polos do discurso não era, então, pertinente, pois uma regra convencional assegurara a
univocidade do resultado. Portanto, fora dos performativos, a convencionalidade torna-se insustentável. Um enunciado qualquer, sem ter esgotado todas
suas significações, não pode se submeter a nenhuma convenção, caso não
seja essa que contribui a lhe dar sentido. (VERON, 1987)2
O desnível não é, igualmente, considerado por aqueles que têm uma
posição não convencionalista. Nesse caso, a regra da convenção se desloca
em direção à intenção: ela se torna “o objetivo consciente” do autor. Portanto,
fica claro que só o autor tem acesso as suas intenções, pois ele não passa seu
tempo verbalizando-as. Se ele não as comunica constantemente, elas não
se constituirão num fenômeno de comunicação. Isto quer dizer que entre a
produção e o reconhecimento, há mais indeterminação que supõe as perspectivas ligadas à convenção e à intenção.
[...] o teórico não-convencionalista não poderá se contentar de
ignorar essa distinção; ele será conduzido a produzir uma confusão permanente entre a produção e o reconhecimento. Para compreender a natureza desta confusão e o mecanismo de seu funcionamento, é preciso interrogar a noção mesmo de ‘intenção’[...] que
tem um papel fundamental na teoria dos atos de linguagem, que
jamais fora definida. (VERON, 1987, p. 186)
A materialização da noção de circulação é fruto da diferença entre a produção e os efeitos dos discursos. As marcas sobre a superfície dos discursos
2Veron (1987) descreve em diversos capítulos de seu livro La sémiosis sociale - fragments... certos
impasses que a hipótese da indeterminação relativa fez emergir entre a produção e o reconhecimento no seio do estudo do ato de linguagem.
Das teorias da comunicação—
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são interpretadas a partir de dois polos analíticos, enquanto pistas ou traços
das operações de engendramento da produção e do reconhecimento que definem o sistema de interpretações de leitura. As condições da circulação são
variáveis, pois sofrem a influência do suporte material-tecnológico do discurso, da dimensão temporal, que possibilita a análise ser feita de maneira
diacrônica, além, obviamente, da sincrônica.
E m b u s c a d e u m a n o ç ã o d e e n u n c ia ç ã o
“a b s t r at i z a n t e ”
Todos os avanços acerca da noção de discurso e os vários momentos da semiologia devem ser acompanhados por uma mudança também na noção de
enunciação. As matérias significantes são complexas, múltiplas, diferentes
(verbais e não verbais, só para assinalar uma distinção primária) e a confortável
noção oriunda da linguística dos anos 60 e 70 é fortemente pensada para o
material verbal e ancorada no conteúdo.
Uma página de um jornal é um objeto complexo para a análise do discurso. Ela contém um discurso a partir de texto, imagem e diagramação.
Diante da complexidade desse corpus é preciso almejar procedimentos metodológicos que sejam capazes de apreender o funcionamento de tamanha
heterogeneidade e, ao mesmo tempo, é preciso, igualmente se chegar a um
efeito unitário.
Diante da impossibilidade de tratar o jornal pela análise linguística (mesmo tendo a sua página texto também), torna-se necessário uma abordagem,
que ultrapasse a descrição e se interesse nos funcionamentos do discurso.
(VERON, 1986) A teoria da enunciação formulada por Antoine Culioli (1992)
tem se demonstrado fecunda na perspectiva de análise dos discursos sociais
(notadamente a imprensa) pelas seguintes razões:
1) Ela se fixa no cognitivo dos procedimentos linguísticos fomalizados
de maneira não sequencial;
2) Ela tem um movimento “abstratizante” que corresponde às necessidades que tocam ao funcionamento mesmo do languageiro.
164—Giovandro Marcus Ferreira
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A teoria da enunciação de Culioli para bem apreender a dinâmica do
discurso pelo viés “abstratizante” centra toda a problemática sobre a atividade
modalizante de um sujeito enunciador. Antoine Culioli (1992, p. 21) observa
dois momentos na realização desta análise: 1) a conjugação das modalidades
enunciativas; 2) a construção das representações – “substitutos desgarrados
da realidade”.3
As modalidades enunciativas são focadas sobre o conteúdo do enunciado. Elas indicam diferentes julgamentos sobre o enunciado e colocam em
evidência a intervenção da relação intersubjetiva num discurso, pois o sujeito
não é “real”, mas teórico, um modelo metalinguístico que permite um inventário dos funcionamentos cognitivos. Culioli (apud VERON; FISCHER, 1986)
trabalha com 4 tipos de modalidades diferentes na relação intersubjetiva:
--
As modalidades-1 correspondem às enunciações assertivas tradicionais. Normalmente, o lugar primordial é construído sob forma de
predicação, uma formulação linguística que se valida como referência pela afirmação ou negação.
--
As modalidades-2 fazem, de sua parte, referência às fórmulas linguísticas onde o julgamento sobre o enunciado está baseado sobre o
necessário ou o possível do eventual ou do provável em certos casos.
--
As modalidades-3 se encontram numa dimensão do afetivo ou apreciativo, centrada sobre o Ego (sujeito enunciativo). Por intermédio
dos apreciativos, podem ser formulados julgamentos autocentrados,
refugiando-se numa espécie de “eu penso que”, levando à validação
ao reenvio à imagem especular do “eu”. Em certos casos limites as
modalidades 3 poderão estar colocadas no patamar do “é evidente
que [...]”.
3Na interpretação de Jean-Claude Milner, a teoria de Culioli pode ser lida segundo duas perspectivas: “uma de maneira ‘transcendental’, na qual a teoria aparece como uma reflexão sobre a
essência de toda a linguagem, como é dito, senão de toda representação no que ela representa
se houver representação – será um passo em direção a um filosofia do ‘espírito’ [...] e a outra
empírica, pela qual a teoria aparece como uma série de propostas para eventuais substâncias
naturais da língua”. (CULIOLI , 1992, p. 21)
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--
As modalidades-4 tem uma relação modal que coloca em jogo o Ego
e o Alter, o enunciador e o coenunciador. A injunção é uma fórmula
linguística que utiliza esta relação intersujeitos no discurso, isto é,
a presença do coenunciador na enunciação. Pela sua complexidade, esta fórmula linguística exige uma abordagem metalinguística.
(VIGNAUX , 1988)4
Na comparação das três primeiras modalidades, as M-1 e M-2 têm como
validação a objetividade, pois elas se abrem ao julgamento universal. Em contrapartida, as M-3 centram o modo de validação sobre a subjetivação, elas não
procuram uma referenciação exterior. As três modalidades estão sob o jugo
da validação objetiva ou subjetiva.
Em relação às modalidades-4 (M-4), a validação não se encontra num ou
noutro extremo. Que se pode observar nos exemplos abaixo:
(A) Não fique aí sem fazer nada
(B) Faça atenção!
Esses dois enunciados injuntivos provocam algumas observações. Eles
descrevem uma ordem, um desejo e eles tornam presente um coenunciador. As enunciações carregam as marcas do coenunciador pelo emprego da
segunda pessoa ou pelo modo do verbo. Ambos os enunciados comportam,
igualmente, marcas que estão na fronteira do linguístico e do paralinguístico,
pelo uso do ponto de exclamação “!” e outros indícios que podem ser identificados como uma transcrição do oral, como formulação na escrita de práticas
sociais reguladas.
Este tipo de enunciado é uma interpelação que não admite um desnível
entre a temporalidade da ação e o presente da enunciação. As modalidades-4
estão em ruptura com as M-1 (asserção tradicional), mesmo se todas as duas
(M-1 e M-4) têm sua fixação no presente da enunciação, pois a introdução do
4 George Vignaux (1988, p. 111) acrescenta a estas quatro modalidades, um último tipo de modalidades pela sua importância em relação aos “registros de discurso”: “Estas da citação, do estilo
indireto ou ainda das distâncias tomadas pelo enunciador vis-à-vis a este que é contado em todos
os casos de narração, seja ela ‘real’ ou ‘imaginária’”.
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coenunciador faz emergir uma indeterminação fundamental no tocante aos
valores de verdade dos enunciados. Ambos enunciados (A e B) não podem ser
considerados sob a responsabilidade unicamente do enunciador quando tratados objetivamente ou subjetivamente. Vejamos outros exemplos, propostos
por Veron e Fischer (1986):
(C) “Entrada proibida”
(D) “Cachorro valente”
Les deux enunciados fazem apelo às relações coenunciativas, de maneira
escrita ficando o coenunciador numa situação anônima. O coenunciador ficaria explícito, caso o enunciado fosse oral: “o senhor não pode entrar”, “você
corre risco ultrapassando o portão”. Esses enunciados têm um valor dêitico
que não é levado em conta por marcas linguísticas, pois é o ambiente no qual
o enunciado está inserido, coloca em evidência o referente da enunciação. Há
um valor coenunciativo do presente, na medida em que a interdição se atualiza pela leitura de cada destinatário, pelo fato de efetuar a leitura.
O enunciado (D) é mais complexo, pois ele mistura as M-3 (apreciativo
= ele é valente) e as M-4 (relação Ego Alter). Portanto, esse não se reduz às
M-3, já que as fronteiras do Ego são ultrapassadas (“eu penso que...”). Ela significa preferencialmente “veja um cachorro que você achará valente”. Numa
abordagem em termos intersubjetivos é permitido de re-situar a análise dos
agenciamentos sintáticos, colocando em evidência o tipo de relação em questão como constituinte do núcleo do dispositivo de enunciação. A. Culioli
retoma esse ponto de vista quando afirma que “[...] pode-se considerar que
cada vez que você produz um enunciado, você produz ao mesmo tempo um
enunciado desarssertivo, de tal maneira que você produz, em seguida, o recuperar numa asserção”. (CULIOLI, 1992, p. 12)
O enunciado caracterizado pela formulação enunciativa assertiva (pela
marca do possível) se encontra num futuro visado pelo enunciador. Portanto,
este acontecimento não se realizou numa “predição” pela qual sua execução
encontra no dispositivo enunciativo construído. Pode-se, então, explorar
dois caminhos analíticos a partir de uma abordagem topológica: de um lado,
eles elaboram o plano enunciativo, estando o sujeito enunciativo na origem e,
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de outro, o plano das representações. A relação entre esses dois planos introduz um desnível, uma distância, que permite trabalhar, não mais com marcas
linguísticas, mas pelo viés de noções.5
A análise pensada em termos de caminhos se engaja desde já numa “metalinguística operatória”. No caso estudado, busca-se construir uma tipologia
que tenha, desde sua origem, uma dupla escolha: (a) o enunciador estabelece ao coenunciador as condições e os limites de suas interpretações, e (b) a
validação da construção proposta é “reenviada” ao coenunciador. (CULIOLI,
1990)
Segundo Veron e Fischer (1986), a abordagem proposta por Antoine
Culioli tem uma dupla vantagem: ela coloca em evidência uma problemática a partir das relações intersubjetivas e ela faz apelo, ao mesmo tempo, a
instrumentos mais abstratos tendo em vista a explicação de operações cognitivo-linguageiras. Toda esta démarche possibilita analisar os discursos sociais
que não são unicamente linguageiros, como é o caso da imprensa, televisão
etc.
Um paralelo pode, então, ser feito entre as características das injunções
analisadas por Culioli e o discurso da imprensa: todos se caracterizam por
uma produção que se endereça a alguém que poderia se encontrar em situação de recepção. Esse alguém é longe de ser anônimo quando se constrói um
coenunciador bem determinado. Para esta construção, o coenunciador será o
sujeito que assumirá as operações complexas e a quem se emprestará intenções, necessidades, interesses e uma identidade bem precisa.
Enfim, em ambos os casos, os resultados poderão ser idênticos se não
há exatidão ao nível da construção imaginária do coenunciador, quer dizer,
a correspondência entre a imagem do destinatário e dos atores sociais que
estarão em situação de leitura.
5
“Este termo noção provém da insatisfação que concerne ao tratamento lexicológico. Os estudos
lexicológicos são feitos com objetivos precisos e o trabalho é feito de maneira coerente numa disciplina e não conduz sempre resposta à espera de outras disciplinas... As noções são sistemas de
representação complexos de propriedades físico-culturais, isto é, propriedades de objetos saídos
de manipulações necessariamente tomados ao interior de culturas e, deste ponto de vista, falar
de noção é falar de problemas linguísticos. Eu não vejo como se poderia levantar o problema de
outra maneira.”. (CULIOLI, 1990, p. 49- 50)
168—Giovandro Marcus Ferreira
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Se eu me engano na atribuição a meu co-enunciador uma apreciação de meu cachorro, eu serei verdadeiramente roubado. Se a
revista não tem êxito de encontrar os destinatários que aceitem a
imagem que a revista os propõe deles mesmos, ela não será comprada. (VERON; FISCHER, 1986)
Esta démarche feita demonstra a necessidade de uma busca de um conceito mais abstrato, menos conteudístico – do dispositivo de enunciação para
as análises dos discursos mediáticos. De um lado, pela importância e centralidade de tal conceito no domínio discursivo e, de outro, pela complexidade
das matérias significantes dos discursos mediáticos, levaria a uma mutilação
de corpus analisados pela originária concepção enunciativa marcadamente
linguística, ancorada com exclusividade no conteúdo. Esta parte do artigo em
conclusão, que busca repensar as relações no interior do núcleo enunciativo,
clama por uma visão de um círculo semiótico ou hermenêutico que busca,
igualmente, abarcar no seu interior as relações dos sujeitos discursivos e dos
sujeitos empíricos. Este novo horizonte que será trabalhado em seguida.
Do círculo semiológico ao círculo hermenêutico:
a semiotização global da comunicação
Além de repensar o conceito de dispositivo de enunciação nas pesquisas de
comunicação, em especial no âmbito de discurso e mídia, também é preciso ultrapassar o círculo semiológico, considerado como uma totalidade do
processo de significação por diferentes autores, mesmo que muitos deles se
autodenominem semioticistas de terceira ou última geração. Neste desafio
pode-se apelar à hermenêutica que se oferece como atividade “a reconstrução
do conjunto de operações pelas quais uma obra se eleva sobre o fundo opaco
de viver, de agir e de sofrer, para se dado por um outro a um leitor que a receber e muda assim seu agir.”(RICOEUR, 1983, p. 106-107),
As operações conduzidas pela semiótica textual tornam-se uma parte do
círculo hermenêutico na articulação das três mimesis. O círculo semiológico
torna-se uma das mimesis (II) que se encontra situada entre as outras duas:
a mimesis I ou a pré-figuração e a mimesis III ou a refiguração. (RICOEUR,
Das teorias da comunicação—
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1983) As três mimesis constituem um processo de semiotização global, pela
qual procura-se demonstrar que o tempo é estruturado como uma narração.
A passagem pelo narrativo marca a elevação do tempo do mundo ao tempo do homem ou o tempo fora da língua Zeit e o tempo da língua Tempus.
(WEINRICH, 1973) As mimesis, segundo Ricoeur, constituem, ao mesmo
tempo, uma teoria do texto e uma teoria da ação e descrevem uma dupla face
do signo. De um lado, ele não é a coisa, ele não chega a se metamorfosear em
coisa, mas de outro lado, ele evoca alguma coisa e ele é uma “imitação” ou
uma “re-presentação” da coisa. Nesta dupla face encontra a força e a fraqueza do signo, da qual se origina o funcionamento dialético da tripla mimesis.
(RICOEUR, 1986) Fazendo uma aproximação com a construção do discurso
mediático, pode-se esboçar um quadro das Mimesis ( M I, M II e M III) do fato
à interpretação da leitura.
Esquema 1 - Implicações no processo de semiotização
(posicionamento discursivo)
Processo de Configuração
Processo de Refiguração
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Fato
Suporte
Notícia
Leitor
Interpretação
(M I)
Mediático
(M II)
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(M III)
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processo
de
transação
A relação entre a linguagem e a realidade, onde a “linguagem se constrói de alguma maneira marginalmente vis-a-vis à experiência”, torna-se um
universo quase autônomo. Percebe-se, neste aspecto, uma certa legitimidade
em estudos que não levam em conta o universo extradiscursivo. Estes estudos
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são sensíveis ao “exílio do signo”, ou seja, no primeiro funcionamento da linguagem, porém não se pode ignorar o extralinguístico quando se estabelece
como marcos da pesquisa (objetivos e problemas) que ultrapassam o domínio
do linguístico, como é o caso, por exemplo, da evolução do posicionamento
discursivo dos suportes mediáticos.
Busca-se, então, como uma semiotização global, reabilitar o social ou o
mundo da ação no estudo de fundo semiótico, e vice-versa, quando o ponto
de partida for o chão das teorias sociológicas. Há uma relação de autonomia e
de dependência entre as duas instâncias de significação pelos sujeitos implicados no ato de linguagem, ou melhor, no processo de enunciação. Pode-se
designar quatro sujeitos engajados no duplo processo – transformação e
transação – da tripla mimesis: os sujeitos sociais ou empíricos, protagonistas
que se encontram no espaço do fazer – Sujeito Comunicante (Sc) e Sujeito
Interpretante (Si); os sujeitos discursivos construídos no processo de transformação, circunscritos ao espaço do dizer – Sujeito Enunciador (E) e Sujeito
Coenunciador (Co-E).
A encenação do Dizer implica um olhar implícito no que tange à posição
dos sujeitos empíricos. Pode-se dizer que o processo de enunciação conduz
um duplo “contratos” que se influenciam mutuamente e se desenvolvem
numa permanente relação. A evolução do posicionamento discursivo é a evolução do perfil dos sujeitos sociais e dos sujeitos discursivos numa constante
troca entre eles. Todo posicionamento discursivo é, antes de tudo, um posicionamento sócio-semiótico no sentido pleno do duplo processo de significação.
O estudo do posicionamento discursivo tem como objetivo analisar a
construção de sentido de um ou mais suportes mediáticos levando em consideração a implicação de quatro sujeitos, dois empíricos (Sc – Si) e dois
discursivos (Se – Sco). Pode-se mesmo postular que o sentido discursivo é
fruto desta inevitável relação:
[...] o sentido do discurso se constrói num encontro entre dois
espaços, interno e externo, que têm, em verdade, uma certa autonomia,ao mesmo tempo, não há razão de existir se não for um
em relação ao outro: o externo no interno, o interno no externo.
(CHARAUDEAU, 1989, p. 14)
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Além das buscas no tocante aos sujeitos discursivos, por isso que se colocou em relevo na parte precedente uma reflexão em torno da enunciação,
há também em trabalhos analíticos um refinamento necessário em relação
aos sujeitos empíricos tanto na produção quanto no reconhecimento ou
recepção. O público “desenhado” pelas estratégias textuais refere-se aos sujeitos discursivos, mas há também sujeitos empíricos que traçam suas próprias
estratégias em relação ao texto.
Levando em conta um jornal, por exemplo, ele se encontra no interior
de um chão de produção (regional, national etc). O chão de produção pode
ser caracterizado como uma zona de concorrência, na qual diversos jornais
com características semelhantes, buscam distinções na corrida por aumento
de seus leitores. A zona de concorrência provoca uma dinâmica de semelhança e distinção orquestrada pelo busca do primeiro lugar. Os jornais buscam
construir posições “distintas” (“individuação”) para se diferenciar dos outros
na luta para conquistar um lugar privilegiado no seio da concorrência.
A concorrência, em relação à produção, é uma fonte de significação nos
estudos do posicionamento discursivo dos suportes mediáticos. Assim como
as expectativas do público no que se refere ao reconhecimento. Em ambos os
casos, o estudo do posicionamento discursivo se aproxima de conhecimentos
oriundos da sociologia, gestão, marketing entre outros.
O duplo espaço analítico que se atém os estudos do posicionamento discursivo se distancia da crítica de John Fiske, quando ele coloca em destaque
os limites de certas pesquisas que mutilam seus objetos, no caso específico
das análises de audiência: “Os programas são produtos, distribuídos, definidos pela indústria. Os textos são produtos de seus leitores.”6( MATTELARD,
1995, p. 89)
Enfim, as preocupações aqui expostas buscam fazer um duplo movimento – centrípeto e centrífugo – em relação à construção de sentido dos
discursos mediáticos. De um lado, revendo a noção de enunciação tendo
em vista à diversidade das matérias significantes que compõem os discursos mediáticos e, conseguintemente, às exigências diferenciadas se for feita a
6Esta crítica de J. Fiske (Television culture, Londres, Methuen, 1987) foi reproduzida a partir do
livro de Armand et Michète Mattelard.
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comparação com os estudos discursivos de décadas passadas (imanentistas)
ou, então, aqueles circunscritos ao domínio da linguística. De outro lado, a
atenção dada ao lançamento de pontes – das fronteiras às membranas – em
relação a outros domínios científicos tão necessários no conhecimento das
estratégias, sujeitos empíricos e de suas implicações com os sujeitos discursivos. Expostas tais preocupações, novos desafios vão se abrindo no tocante
às construções metodológicas no âmbito da análise dos discursos mediáticos,
tendo em vista que chão de pesquisa escolhido tem imbricações que o próprio
dispositivo de enunciação pode desconhecer.
R e f e r ê n c ia s
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174—Giovandro Marcus Ferreira
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Uma teoria da
comunicação para
sociedades com
grandes diferenças
sociais
Antonio Hohlfeldt
Introdução
São os centros hegemônicos que, de modo geral, produzem novas tecnologias e, por consequência, novos conhecimentos a respeito da realidade. Isso
não tem sido diferente em relação aos processos de comunicação social.
Neste sentido, os pesquisadores norte-americanos, em especial psicólogos e
sociólogos, tem-se destacado no conjunto desses estudos. Raramente, contudo, aparece um estudioso de algum outro centro, como o Brasil. É o caso
do pernambucano Luiz Beltrão (1918-1986) que, na metade dos anos 1960,
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justamente no momento em que eclode o golpe de Estado militar no Brasil,
torna-se o primeiro doutor em comunicação social do país e, ao defender sua
tese de doutorado junto a uma banca internacional, acaba por constituir talvez a única teoria comunicacional de gênese brasileira. Trata-se do que hoje
conhecemos como a Folkcomunicação.
A s o c i e d a d e d e m a s s a o c i d e n ta l
A transformação das Gemmeinschaften em Gesellschaften, ou seja, a passagem das Comunidades à condição de Sociedades, conforme Ferdinand
Tönnies (1947), [....] foi propiciada especialmente pela chamada Segunda
Revolução Industrial, que gerou o forte processo de migração rural na Europa
e nos Estados Unidos. Surgiram as grandes cidades, resultado de um processo de sucessivos fenômenos que Melvin Defleur assim alinha: urbanização,
modernização, migração, divisão do trabalho, estratificação e mobilidade
ascendente. (DEFLEUR, 1993, p. 200) Dito de outro modo, a industrialização produz grande migração da zona rural para a urbana; esta migração faz
crescer significativamente cidades pequenas e médias, inchando as já cidades maiores, levando à divisão do trabalho e à especialização profissional e,
consequentemente, à estratificação social (diferenciação entre as classes sociais), mas também a uma mobilidade ascendente. Podemos lembrar, aqui,
a transformação experimentada por descendentes dos primeiros imigrantes
europeus que chegaram aos Estados Unidos: irlandeses, poloneses, noruegueses etc., sem esquecer os chineses e nipônicos, que ocuparam as cidades,
ali desenvolveram trabalhos considerados socialmente menores, mas ascenderam rapidamente na escala social, logo se tornando proprietários.
O fenômeno chegou a ser observado e parcialmente estudado pelo francês
Aléxis de Tocqueville que, ao visitar e demorar-se algum tempo nos Estados
Unidos, escreveu poderoso e definitivo livro a respeito da modernização daquela nação. (TOCQUEVILLE, 1973[1835]) A migração, ao fazer crescer as
cidades, provoca o fenômeno da urbanização e, por consequência da modernização, graças ao desenvolvimento de novas tecnologias que são logo
adotadas pelas classes sociais ascendentes.
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Chegamos, assim, à era das multidões, o que parece preocupar a alguns,
como Gustave Le Bom (2008[1895]), enquanto outros compreendem que se
trata de um fenômeno nascente, mas plenamente controlável, graças a algumas novas práticas sociais, como a da imprensa: é o caso de Gabriel Tarde
(1992[1901]), que menciona, como uma espécie de multidão domada, a emergência dos públicos. A valorização do jornal propicia a conversação e, por
consequência, a organização de grupos de opinião, gerando o fenômeno que
mais tarde seria estudado por Walter Lippmann (2008[1922]) enquanto a opinião pública. A explosão das grandes massas populares chamaria a atenção,
não apenas dos estudiosos europeus quanto, especialmente, dos norte-americanos ou daqueles que se estabeleceram nos Estados Unidos.
O l í d e r d e o p i n i ã o e o d u p l o f l u xo i n f o r m a c i o n a l
Foi o caso do austríaco Paul Lazarsfeld (1901-1976). Em sua juventude, fez pesquisas empíricas em Viena, o que lhe valeu convite da Fundação Rockefeller
para deslocar-se para os Estados Unidos, diante da ameaça nazista. Lazarsfeld
deixa a Europa em 1933, estabelecendo-se em Nova York. Vai desenvolver o
Radio Research Project, nas universidades de Newark e Princeton, e em 1940
estabelece-se na Universidade de Columbia, onde cria o Bureau of Applied
Social Research.1 Entre 1941 e 1951, Lazarsfeld trabalha especialmente com
Robert K. Merton, talvez o mais importante sociólogo funcionalista do século XX, estabelecendo uma espécie de contraponto aos estudos de Harold
Lasswell e Wilbur Schramm, que se interessavam especialmente pelo poder
que a mídia exercia sobre os receptores. Lazarsfeld e Merton, ao contrário – e
mais tarde Elihu Katz e outros pesquisadores –, entendiam que tal influência
era apenas relativa, já que, apesar da heterogeneidade social, havia a permanência de um certo número de características entre os integrantes de uma
sociedade (DEFLEUR, 1971, p. 176), pois que as pessoas se organizavam estratificadamente em diferentes categorias sociais, identificando-se segundo suas
classes sociais, religião, etnia, local de residência etc. Para eles, essas relações
1Os dados biográficos de Lazarsfeld foram colhidos especialmente na obra de Philippe Breton e
Serge Proulx (2002, p. 145).
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interpessoais acabavam se tornando mais importantes que a influência das
mídias. (IGARTÚA; HUMANES, 2004, p. 206) Deste modo, a força da comunicação de massa, considerada enquanto aquele conjunto de procedimentos
pelos quais grupos de especialistas se servem de inventos técnicos “[...] para
difundir um conteúdo simbólico a um público vasto, heterogêneo e geograficamente disperso” fica relativizada. (IGARTÚA; HUMANES, 2004, p. 112)
Se Tocqueville já havia surpreendido pioneiramente o fenômeno do
anonimato nas grandes sociedades, expresso de passagem na obra antes
mencionada, Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach (1993, p. 211) mostram
o quanto Lazarsfeld e Merton valorizaram a importância dos relacionamentos sociais, numa sociedade originalmente igualitária, em que se reconhecia
especialmente a livre iniciativa e a competência individual (conforme o mesmo Tocqueville também registrara). Daí que Lazarsfeld e seus companheiros
vão se distanciar da onipotência do emissor sobre o receptor, expressa por
Harold Lasswell (1927), para entender que os mídias, não apenas medeiam,
mas também são mediados através de, no mínimo, três processos paralelos ou simultâneos de outras influências: a seleção individual, conforme
os estereótipos (LIPPMANN, 2008[1922]) adquiridos e desenvolvidos por
cada sujeito; o circuito das relações interpessoais e a dimensão temporal.
(BRETON; PROULX, 2002, p. 148) A consequência dessa nova perspectiva é
que se sai de um conceito relativamente simples para um conceito bem mais
complexo, porque as relações entre mídia e receptores/consumidores se tornam mais críticas e autônomas.
Quer em The people´s choice (1948), que Lazarsfeld escreve com Bernard
Berelson e Hazel Gaudet, quer em Personal influence: The part played by people
in the flow of mass communication (1956), produzido com a colaboração de
Robert Merton, Wright Mills e Thelma Ehrlich Anderson, em volume que
publica com Elihu Katz, Lazarsfeld apresentará quatro diferentes características que explicam a mediação social experimentada pelos próprios mídias:
a) as pessoas não estão isoladas mas pertencem a grupos sociais; b) as respostas às mensagens dos mídias não são diretas, mas mediadas por essas
relações grupais; c) deve-se distinguir dois momentos: o da recepção e atenção (à mensagem) e o de sua aceitação (ou rechaço); d) cada indivíduo cumpre
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diferente papel no ato comunicativo. (HOHLFELDT; FRANÇA; MARTINO,
2001; IGARTÚA; HUMANES, 2004)
Não se pode menosprezar as evidências dessas pesquisas: no caso de The
people´s choice, o trabalho envolveu 2400 eleitores do condado de Erie, no
Ohio,2 enquanto Personal influence foi desenvolvido por uma equipe, com
mais de 800 mulheres da localidade de Decatur, no Illinois, e mais tarde reunida e analisada por ele e Elihu Katz, quando refinaram as hipóteses iniciais
de seus estudos. Daí advieram os dois conceitos-chave da teoria: existe, em
cada grupo social, uma espécie de líder de opinião, “indivíduo que estava em
maior contato com a mídia” (DEFLEUR; BALL-ROCKEACH, 1993, p. 212) e
que, por isso mesmo, não apenas compreendia mais facilmente quanto tomava posição mais rapidamente a respeito do fato informado, provendo, assim,
interpretações para os demais integrantes do grupo. Era, em última análise,
a aludida referência pessoal, que tanto podia influenciar sobre muitos quanto sobre poucos, mas que dependia, para o seu sucesso, fundamentalmente,
do reconhecimento dos pares como conhecedores daquele tema (RUDIGER,
1998, p. 55), observação semelhante à que Pierre Bourdieu já fizera, ao mostrar
que ninguém alcança poder por si mesmo, mas tem seu poder reconhecido
pelos pares que, assim, o legitimam. (BOURDIEU, 2002)
Esse líder de opinião, assim, filtra e reinterpreta uma mensagem original. Neste caso, a mensagem original, oriunda de uma mídia, não atinge
diretamente ao receptor, mas atravessa etapas intermediárias, sendo mediada por essas lideranças. Daí o segundo conceito central da teoria, que é o do
duplo fluxo da informação, ou seja: ela sofre uma limitação em seus efeitos
originais, pois é filtrada por aquelas lideranças, atingindo indiretamente ao(s)
receptor(es). Dito de outro modo: as mensagens das mídias não atingem a
todos os membros de um grupo, mas apenas a alguns (poucos) que se encarregam de, depois de filtrar, retransmitir aquela mensagem original que,
evidentemente, já se acha modificada. Neste sentido, pode-se chegar a duas
conclusões:
2
Mesma região que serviria de referência, anos mais tarde, para os estudos de Maxwell McCombs
para a agenda setting. (HOHLFELDT; FRANÇA; MARTINO, 2001, p. 187)
Uma teoria da comunicação para sociedades com grandes diferenças sociais—
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a) as relações interpessoais são mais importantes que a influência
dos meios (IGARTÚA; HUMANES, 2004, p. 211);
b) a comunicação interpessoal é extremamente importante, mesmo nas chamadas sociedades de massa (ALSINA, 2001, p. 53),
e hoje em dia, com o advento da internet, torna-se ainda mais
significativa, na medida em que permite a formação das redes de
comunicadores (diríamos, as redes sociais).
D é f i c i t c o n c e i t ua l e a p l i c a ç ã o c o m p e n s at ó r ia
Apesar de ser enorme a influência dos estudos de Paul Lazarsfeld, a ponto de
ele ser considerado o pai da communication research (IGARTÚA; HUMANES,
2004, p. 117- 211), sua teoria é por demais generalista e embora mencione as
diferenças sociais, não explora esta perspectiva. Neste sentido, seus estudos não
se distanciaram significativamente daquele comportamento administrativo e
formal que caracteriza boa parte das pesquisas norte-americanas. Foi preciso
a figura do brasileiro Luiz Beltrão para recolocar, de certo modo, a teoria num
contexto social objetivo e dar-lhe, então, sim, uma consequência. Isso vai
ocorrer na redação de sua tese de doutorado, quando desenvolve o conceito de
agente folkcomunicacional, assim caracterizado pelo autor: a) possui prestígio
na comunidade; b) está exposto às mensagens do sistema de comunicação
social massivo e industrializado); c) mantém frequentes contatos com fontes
externas (à própria comunidade a que pertence) autorizadas de informação;
d) possui mobilidade e e) guarda profundas convicções filosóficas. (BELTRÃO,
1980, p. 35)
Como se sabe, o Brasil sofreu uma colonização por ocupação, diferentemente dos Estados Unidos, que teve uma cultura transplantada (RIBEIRO,
1970). Evidentemente, tais condições gerariam processos diversos de colonização. Nas colônias portuguesas, a metrópole jamais permitiu a existência
de um prelo, com a única exceção de Goa (HOHLFELDT, 2011), ao contrário da colonização espanhola que, desde a primeira metade do século XVI,
já tinha a imprensa estabelecida no México e, logo depois, no Peru. No caso
brasileiro, a colonização estabeleceu o que, mais tarde, seria denominado os
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dois brasis (BASTIDE, 1957): havia um país mais urbano, próximo ao litoral,
e um outro país, eminentemente rural, no interland do continente. Quando,
já ao longo do século XIX, há o transplante da sede do reino português para
o Rio de Janeiro, expandem-se as cidades e começa o processo de ocupação
mais intensa do interior, mas a divisão permanece. O surgimento da imprensa, no Brasil, em 1808, ampliou ainda mais este fosso, pois a maior parte da
população era analfabeta e, portanto, tinha escasso acesso à imprensa. Nem
mesmo a aparição do cinema e do rádio, mídias que dispensavam o domínio
da escrita, resolveu a dicotomia: a inexistência de linhas de transmissão de
energia elétrica fazia com que tanto o cinema quanto o rádio continuassem
confinados aos espaços já mais desenvolvidos.
Havia, pois, como constata Luiz Beltrão, uma cisão ética e política (2001,
p. 54), que refletia também uma cisão cultural e educacional. Contudo, isso
não significava que as populações rurais do imenso interior brasileiro não
acompanhassem os acontecimentos ocorridos nos espaços urbanos do litoral ou fossem desconhecidas dos aglomerados urbanos. Como registrou
dinamicamente o comediógrafo Martins Pena, ainda na primeira metade do
século XIX, ocorria, contudo, uma relação díspar: o aglomerado urbano menosprezava a tradição rural, desqualificando-a enquanto ignorante, e esta, ou
assumia este julgamento preconceituoso, ou se isolava, para não sofrer tais
pré-julgamentos.
Os agrupamentos urbanos acompanharam, ainda que com alguma defasagem, as conquistas tecnológicas das sociedades industrializadas. Assim, a
imprensa amplia sua circulação a partir dos anos 1850; o cinema chega, ainda
ao final do século XIX, e o rádio já emite suas primeiras mensagens, nos anos
1920. A televisão estrearia nos anos 1950. Todos os mídias, contudo, atendiam
a públicos ínfimos e reduzidos, circunscritos aos espaços próximos ao litoral.
No espaço rural, distante e isolado, contudo, formavam-se circuitos alternativos aos processos industrializados de informação e comunicação. É a
isso que Luiz Beltrão vai denominar de folkcomunicação, criando um termo
que juntava a expressão mundialmente aceita de folk lore – cultura do povo –
traduzida mais literalmente como folclore – e a comunicação. Conceituava
ele, na obra antes mencionada:
Uma teoria da comunicação para sociedades com grandes diferenças sociais—
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Folkcomunicação é o processo de intercâmbio de mensagens através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore
e, entre as suas manifestações, algumas possuem caráter e conteúdo jornalístico, constituindo-se em veículos adequados à promoção de mudança social. (BELTRÃO, 2001, p. 73)
Buscando precisar o conceito, algumas páginas adiante, Beltrão retoma
o termo: Folkcomunicação é, assim, o processo de intercâmbio de informações e manifestação de opiniões, idéias e atitudes da massa, através de agentes
e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore. (BELTRÃO, 2001, p. 79)
Tomemos um exemplo histórico: quando os padres jesuítas chegaram
à nova colônia da América do Sul, a fim de alcançarem a catequese almejada dos indígenas, trataram de aprender o que denominaram idioma geral, o
guarani, e assimilar alguns dos usos e costumes das diferentes aldeias. Assim,
José de Anchieta, por exemplo, descobriu que os índios gostavam de música e
de representações dramáticas. Não titubeou, pois, em escrever peças dramáticas a serem representadas nas aldeias, valendo-se do idioma português, o
latim e a língua geral guarani. Neste sentido, podia-se dizer que os portugueses eram os grupos dominadores e colonizadores que se comunicavam com
os grupos minoritários e marginalizados, através de agentes intermediários,
folkcomunicacionais – os sacerdotes – que, tendo alcançado reconhecimento
por parte dos indígenas, podiam transitar com certa liberdade entre os dois
grupos, restabelecendo entre eles as necessárias pontes de comunicação, mas
a cada momento adaptando e traduzindo as mensagens trocadas entre ambos.
No estudo que constituiu a tese de doutoramento de Luiz Beltrão (2001,
p. 127), ele identificou três grandes categorizações, quais sejam: a informação
oral, a informação escrita e a informação opinativa. As informações orais teriam como agentes transmissores os cantadores do nordeste, que herdaram
as práticas do cordel medieval; o caixeiro viajante; os motoristas de caminhão
etc. Tais agentes, normalmente oriundos das comunidades rurais, por força
de suas atividades profissionais, passam a circular nas comunidades urbanas,
sem nelas se fixar: cruzam constantemente as fronteiras entre umas e outras,
levando daqui para lá e de lá para cá, modos de falar, modos de ver, modos de
se comportar que, quando nas novas comunidades, são adaptados às condições diferenciadas em que serão praticados.
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No caso da informação escrita, vamos encontrar os folhetos de cordel,
os almanaques (outra tradição europeia medieval), os calendários e livros de
sorte etc.
No que toca à folkcomunicação opinativa, ela depende da existência de
espaços e de práticas comunitárias, locais e oportunidades em que as comunidades se reúnem e terminam por se misturar: feiras, vendas e pulperias,
portos, pátios de igrejas, barbearias e farmácias etc.
Deve-se mencionar, ainda, as festas e folguedos: queima dos Judas (tradição portuguesa medieval), carnaval, mamulengos (representações teatrais
com bonecos de enormes dimensões), bumba meu boi, artesanatos, esculturas etc.
Em síntese, em princípio, os sistemas comunicacionais industrial
(massivo) e rural correriam paralelos, sem nunca se encontrarem. Graças às
práticas dos agentes folkcomunicacionais, contudo, os sistemas acabam se
encontrando e entrecruzando, trocando mensagens que, na sua dinâmica de
circulação, terminam por mudar de aspecto e, às vezes, até mesmo de sentido.
No caso das comunidades rurais, esta dinâmica se expressa justamente através das atividades folclóricas ou, para ficar mais claro, através das atividades
da cultura popular.
Embora abrindo um caminho profundamente importante e amalgamador, que permitiria vencer as aparentemente profundas divisões entre os
dois sistemas comunicacionais, a teoria de Luiz Beltrão enfrentou imensas
dificuldades para ser reconhecida. Como registra José Marques de Melo, de
um lado, havia os folcloristas conservadores e as forças reacionárias do governo que se estabelecera no país, após o golpe de estado de 1964: para esses,
o folclore é uma manifestação do passado, que assim deve ser conservada,
congelada, distante e isolada, como peça de museu. (MARQUES DE MELO,
1964, p. 4) Quanto aos militares, o fato de Luiz Beltrão lançar mão de teorias do folclorista Edison Carneiro, acusado de integrar grupos simpáticos ao
comunismo, bastou para que a teoria encontrasse reservas e até restrições.
Basta dizer que a primeira edição de sua tese teve cortada praticamente toda
a exposição teórica, na medida em que a editora temeu enfrentar a censura se
publicasse o capítulo teórico da obra. (BELTRÃO, 1971)
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Do outro lado, nos anos 1960 e 1970, a esquerda descobria a teologia
da libertação e, assim, para ela, a cultura popular deveria ser modernizada e
valorizada, mas sob uma perspectiva reinterpretativa, com vistas à revolução
e ao enfrentamento. Assim, os segmentos populares passaram a ser considerados como marginalizados, e uma dupla carga semântica acabou marcando e
prejudicando a aceitação da teoria: a folkcomunicação seria um produto rural
e, ainda por cima, marginalizado.
Levou tempo para que Luiz Beltrão se desse conta que o caminho por ele
iniciado era mais amplo e mais dinâmico do que poderia parecer. No segundo trabalho publicado, ele amplia o conceito de marginalizado para além do
universo rural, chamando a atenção para três aspectos que, dali para a frente,
marcariam a comunicação popular: a artesania, a transmissão horizontal e a
ampliação do conceito de marginalização a todo e qualquer espaço, não mais
limitado ao universo rural. (BELTRÃO, 1980)
No novo trabalho, Beltrão (2001, p. 38) reconhece que a comunidade
marginalizada em que ocorrem os processos folkcomunicacionais pode ser
rural, urbana ou cultural. Pode-se dizer que é a marginalização cultural a que
acaba sendo a perspectiva mais produtiva dos estudos que se seguirão, agora,
não mais restritos a Beltrão, mas já contando com alguns primeiros discípulos, como o próprio José Marques de Melo, Roberto Benjamin, Sebastião
Breguez, Joseph Luyten e, sucessivamente, Osvaldo Trigueiro, Cristina
Schmidt e eu próprio.
Os grupos marginais, rurais, urbanos ou culturais, podem compreender
os grupos messiânicos, o aparecimento do coronelismo (LEAL, 1975[1948]),
além de práticas variadas como o grafito – quer nas portas e paredes de
banheiros, quer nas paredes das casas, em praticamente todas as cidades
(BARBOSA, 1984; MAILER; NAAR, 1974; RAMOS, 2003), as legendas de
parachoques de caminhões, as publicações de livros erótico-pornográficos
(ASSUNÇÃO, 1984; MARINHO, 1983), a circulação de provérbios, ditados,
jogos e brincadeiras, anedotas, advinhações, correntes, brincadeiras etc., para
além de práticas sócio-religiosas, como a lavagem do Bonfim, procissões de
Semana Santa etc. Essas práticas circulam dinamicamente e, embora mantendo sua essência, mudam aspectos externos de aparência e se adaptam
facilmente a novos tempos.
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Lembro-me que, há alguns anos, estive na cidade de Caruaru, no interior de Pernambuco. Queria conhecer sua feira, famosa em todo o Nordeste.
Lá estava a bandinha de pífanos e, na feira, os castiçais de velas e as grandes
bacias feitas de latas de azeite que, depois de abertas, eram soldadas artesanalmente. Anos depois, ao retornar à feira, a situação era e não era a mesma:
os castiçais haviam desaparecido, pelo simples fato de que a ação saneadora
do governo federal e de governos estaduais havia estendido a rede elétrica
por todo o estado de Pernambuco, dispensando as antigas velas. Quanto às
bacias, que tanto serviam para se banhar quanto para utilidades na cozinha,
elas continuavam, mas agora eram de plástico multicolorido, muito mais baratas, leves e práticas.
Quanto às correntes, quem não recebeu, em algum momento, uma
carta pelo correio, sugerindo a reprodução daquele texto, que deveria ser enviado a amigos e conhecidos, sob pena de enormes infelicidades para quem
quebrasse a seriação? Ora, hoje, essas correntes circulam pela internet, com a
mesma dinâmica e as mesmas ameaças.
Mais interessante é a prática do ex-voto, casualmente um dos primeiros estudos desenvolvidos por Luiz Beltrão. No nordeste, o ex-voto reproduz
algum membro do corpo a propósito do qual o crente fez a promessa a seu
santo protetor, ou à Virgem. Em centros do sudeste brasileiro, o ex-voto foi
substituído pelo santinho, que deve ser distribuído nas missas; pelo anúncio
de jornal, em que se agradece ao santo por uma graça recebida; mas, sobretudo, pela vela – maior ou menor, mais cara ou mais barata – conforme a graça
alcançada e a disponibilidade pecuniária do devoto para pagar a promessa.
Hoje, nem esta vela sobrevive. Nas igrejas europeias, o devoto coloca uma
moeda de um euro numa ranhura existente para este fim e a vela elétrica se
acende, sendo sua luz mais intensa, ou permanecendo acesa por mais tempo,
conforme o valor colocado. Mais recentemente, esse tipo de promessa pode
ser realizada virtualmente, pela internet, através do cartão de crédito. Mudou
o suporte, mas o procedimento folkcomunicacional permanece exatamente
o mesmo.
Para que se possa compreender, pois, claramente, e valorizar a contribuição de Luiz Beltrão: em sociedades com imensas divisões sociais – econômicas
e culturais – como ainda ocorre com o Brasil, haveria a impossibilidade de
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comunicação entre os diferentes segmentos e universos sociais, não fossem
esses agentes folkcomunicacionais que vivem a cruzar as fronteiras entre um
e outro universo. São eles que dinamizam e enriquecem os processos culturais, emprestando-lhes variedade e criatividade.
Mais que isso, Luiz Beltrão acabou resolvendo um problema que, anteriormente, seu conterrâneo e contemporâneo, Paulo Freire (1980), havia
levantado, a partir de sua experiência de ensino entre os mineiros peruanos.
Freire entendia que um processo verdadeiramente educacional só poderia
ocorrer se emissor (professor) e receptor (discípulo) se colocassem num mesmo patamar, o que permitiria a verdadeira dialogia, que só pode se dar entre
semelhantes. Mas ele nunca chegou a resolver o problema sobre como chegar
a esta situação ideal. Foi a teoria folkcomunicacional de Luiz Beltrão que deu
a resposta àquele problema: através dos diferentes elementos da cultura popular, mobilizados pelos líderes de opinião, podemos alcançar esta situação
paritária, como demonstrei em artigo recente. (HOHLFELDT, 2009, p. 94)
Ou seja, e para concluir: menos marginalizados do que pode parecer;
bem mais integrados do que poderíamos imaginar, muitos segmentos populacionais continuam vivendo à margem dos processos de comunicação
social massivos e industrializados, mas isso não significa que estejam alienados ou marginalizados. Na verdade, eles circulam voluntariamente nestas
linhas paralelas, mas podem e conseguem aproximar-se e intercambiar com
os segmentos massivos e industrializados, ainda que sob outras perspectivas
e adaptando os procedimentos disponíveis a seus próprios interesses. Basta
observarmos a importância de engenheiros e arquitetos de departamentos
municipais de urbanização e habitação entenderem e se disporem a conversar com populações para as quais desenvolvem projetos de moradia popular.
Ou acompanharmos a vitalidade dos grafites que, por vezes, enfeiam nossas cidades ou os carros dos trens metropolitanos ou os banheiros de nossas
universidades, mas que algumas municipalidades têm usado para enfeitarem
empenas cegas de prédios cujas laterais não devem nem podem ficar vazias,
quando o prédio lateral é derrubado para dar espaço a uma nova construção.
Luiz Beltrão idealizou uma teoria aplicável a todas as sociedades, desenvolvidas ou não, industrializadas ou não, mas especialmente para as
sociedades onde remanescem grandes diferenças sociais, econômicas e cul-
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turais. Ele objetivou e contextualizou aquele processo que Paul Lazarsfeld e
Elihu Katz identificaram, sem, contudo, aprofundá-lo. Beltrão mostrou que o
processo do duplo fluxo, na verdade, é mais que isso. É processo de múltiplos
fluxos, sucessivos, contraditórios e simultâneos, que se enriquecem mutuamente, que se abrem e se ampliam permanentemente. Esta foi a sua grande
lição.
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Considerações
sobre a explicação
em comunicação
Luiz Claudio Martino
I n t r od ução
A epistemologia da comunicação vem sendo discutida há pouco mais de
meio século, mas somente a partir dos anos 1980 ganha alguma regularidade.
Seus principais temas têm sido o campo (Integração ou dispersão? Disciplina
científica ou interdisciplinaridade?) e o objeto de estudo (O que estudamos?).
Os trabalhos de história do campo e das teorias da comunicação também
se encontram pouco desenvolvidos, apenas mais recentemente, há cerca
de uma década, começam a ter um tratamento adequado (BUXTON, 1996;
PAULY, 1997) e ainda têm pouco valor como contribuição epistemológica.
(MARTINO, 2004)
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Estas diferentes discussões, como se sabe, não são independentes (em
grande parte se recobrem ou se implicam mutuamente) e têm consequências diretas sobre o que entendemos por teorias da comunicação. Muito desse
esforço, no entanto, se dissipa em questões e objetivos que não são propriamente epistemológicos. Por exemplo, quando a reflexão se desenvolve de
forma meramente descritiva (mapeamento das teorias, estabelecimento de
redes de colaboração entre pesquisadores, número de citações), ou como
julgamento político (teoria crítica versus pesquisa administrativa), como julgamento ético-estético (modernidade versus pós-modernidade) ou, ainda,
como tentativa de justificar toda e qualquer pesquisa realizada em nossas
instituições como sendo teoria da comunicação (interdisciplinaridade, estudos culturais, estudos feministas, crítica literária etc.). Além disso, o trabalho
epistemológico frequentemente é confundido com outras abordagens que
refletem sobre o conhecimento, tais como a sociologia da ciência, a gnosologia ou a filosofia da ciência (MARTINO, 2003), de modo que o simples
tratamento de temas sobre comunicação ou a referência à abordagens que
tratatam o saber comunicacional não são suficientes para caracterizarem um
trabalho epistemológico de nosso domínio de estudos.
Por essa razão, mesmo quando encarada diretamente, a reflexão sobre
pontos capitais frequentemente não chega a alcançar uma dimensão epistemológica. Por exemplo, as questões sobre o campo, por vezes são reduzidas
a aspectos institucionais (institucionalização do conhecimento), deslocando
a análise para a sociologia da ciência; por vezes são substituídas pela história do campo (fundação das instituições, primeiros cursos, aparecimento de
revistas, premiações etc.). Mesmo os conteúdos das teorias têm sido tomados e transformados em produção intelectual global, gerando índices para
expressar a força ou a relevância de uma instituição (volume e distribuição
da produção bibliográfica em categorias temáticas, índices de citações etc.).
O que, de modo muito significativo, tem levado às questões políticas sobre
o produtivismo (aliás, muito necessárias), mas não exatamente à discussão
de problemas sobre teoria e epistemologia. O problema do objeto de estudo, por sua vez, não raro é entendido como a despropositada procura de um
consenso, para se concluir, de forma sumária e despropositada, pela inviabilidade de haver um objeto de estudo. Isso, claro, quando não é simplesmente
192—Luiz Cláudio Martino
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confundido com a discussão de objetos empíricos (listagens e apontamentos sobre “coisas” ou temáticas interditas ou permitidas aos estudiosos da
Comunicação).
Com isso, a área de comunicação não vem aproveitando os mais relevantes potenciais da análise epistemológica, como o de refletir sobre as
características que singularizam as teorias da comunicação frente a outras
teorias e frente à realidade social, enquanto uma forma de abordagem relevante e particularizada. Reflexão epistemológica e produção teórica pouco
se tocam. A questão da teoria, não raro, fica confinada à apresentação em
manuais de introdução, que bem ou mal estabelecem o conjunto de conhecimentos de nossa área de conhecimento. De forma mais ou menos consciente
eles dão resposta à questão “quais são as teorias da comunicação”, mas paradoxalmente não indicam os critérios que permitem saber o que faz delas
teorias da comunicação. (MARTINO, 2007) As tentativas de apreender a unidade do campo sem a explicitação e discussão crítica desses critérios é um
sinal claro da ruptura entre teoria e a reflexão epistemológica. (MARTINO,
2008)
O propósito do presente texto é mostrar que – apesar de pouco evocada
nos estudos de nossa área – a noção de explicação é fundamental para articular a questão da teoria às discussões epistemológicas, como aquelas relativas
ao campo, disciplina e ao objeto de estudo. Ela nos permite resgatar a questão
da teoria desde seu elemento mais profundo até seus aspectos pragmáticos e
reorientar a discussão para aquilo que é mais próprio à reflexão epistemológica. Não podemos seguir discutindo se o campo é “aberto ou fechado”, se o
objeto de estudo da comunicação deve ou não se restringir às formas tecnológicas (meios de comunicação). A dimensão epistemológica não se esgota
com estas discussões e nem poderá atingir alguma consistência sem levar em
conta a natureza da teoria enquanto recurso explicativo, ou seja, a natureza e
o objetivo da teoria.
As razões do “esquecimento” da noção de explicação podem ser buscadas
tanto fora como internamente à nossa área de estudo. No primeiro aspecto destaquemos a forte concentração dos especialistas na questão lógica da
explicação e no interesse pelas ciências da natureza (particularmente o movimento do empirismo lógico, como veremos em seguida). Quanto aos fatores
Considerações sobre a explicação em comunicação—
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internos ao nosso domínio de estudo, a pouca familiaridade com a questão
da ciência (formação do comunicólogo enquanto profissional dos meios de
comunicação, estudos de Comunicação tomados como conhecimento técnico ou como arte etc.) levaram a uma fraca concepção epistemológica. Em
parte isso se dá pelo baixo investimento, em parte pela crença ingênua de
reivindicar para a comunicação uma condição sui generis no campo do conhecimento, o que leva a alguns a se aventurarem em arrojadas concepções do
estatuto epistemológico de nosso saber, talvez por parecer-lhes ser mais fácil
reinventar o conhecimento que procurar entendê-lo.
L ó g i c a d a e x p l i c a ç ã o e c i ê n c ia s s o c iai s
Historicamente a questão do conhecimento atravessa a história da filosofia,
mas o ponto em questão, tendo por foco as teorias científicas, se inaugura
com o empirismo lógico e seus críticos. Eles entenderam e se ocuparam da
questão da explicação como um problema lógico, os modos de sustentação
do conhecimento científico na linguagem e nas formas de raciocínio (modelos Hipotético-dedutivo e Indutivo-estatístico). Dentre suas principais
preocupações está a definição do conhecimento científico, seja através da
demarcação deste em relação ao senso comum, seja por meio da refutação e
expurgo de todo elemento metafísico.
A tradição do empirismo lógico (também conhecido como positivismo
lógico) tem por referência um artigo que Hempel e Oppenheim publicaram
em 1948. (SALMON, 1990) Ele deu forma ao debate epistemológico e muito
influenciou o tipo de abordagem do problema da explicação, posteriormente
designado e classificado como lógica da explicação. A partir dai foi possível
importantes avanços em matéria de compreensão do que é uma teoria. Foram
feitos debates reunindo filósofos e cientistas em torno de questões como a do
falsificacionismo (uma teoria pode ser verificada pelos fatos?) e a do realismo
(qual a relação entre as teorias e o mundo? Uma teoria científica é literalmente uma verdade, fala do mundo tal como ele é ou vale apenas por seu poder de
explicação? Pode-se entender por isso, coisas tão diferentes como ela ser uma
ficção útil ou uma aproximação do real?).
194—Luiz Cláudio Martino
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O empirismo lógico, porém, não constitui a única entrada. A epistemologia que emerge no início do século XX com esse movimento foi
predominantemente uma reflexão filosófica sobre as ciências da natureza e
particularmente da física. Ou seja, uma reflexão de filósofos e não de cientistas, que se apoiava na ideia da superioridade do modelo da física (o que
denota que tantos seus adeptos como seus críticos partiram de pressupostos
realistas como referência). De outra parte, os poucos trabalhos em epistemologia das ciências sociais frequentemente se restringiram a marcar a diferença
de seu modo de explicação, normalmente insistindo na distinção com a noção de “compreensão”.
Esta situação fortaleceu o predomínio da visão de que a epistemologia
seria uma matéria exclusiva da filosofia, ou seja, que não haveria uma epistemologia elaborada pelos cientistas (retomaremos a este ponto mais à frente),
que este trabalho não lhes caberia. Posição obviamente pouco aceitável, que
não faz justiça à contribuição dos cientistas e particularmente para nós, ao
grande envolvimento que os cientistas sociais tiveram e ainda têm com a fundamentação de suas disciplinas (basta lembrar o quanto foi intenso o debate
na virada do século entre sociólogos, historiadores, psicólogos).
Mesmo entre os autores que identificam e mostram sensibilidade a este
problema não estão livres de vê-lo retornar. Kaplan (1975), por exemplo, faz
uma boa apresentação ao apontar corretamente que filósofos e cientistas têm
interesses diferentes. Seguindo a linha do empirismo lógico, os primeiros se
propõem a distinguir a ciência da metafísica. Suas principais questões giram
em torno da demarcação entre estas duas formas de conhecimento, eles procuram estabelecer os critérios de distinção entre o científico e o não científico
(senso comum, metafísica). Contudo, como adverte Kaplan (1975, p. 41),
O próprio cientista, entretanto, não pode conseguir muito com
base no critério de distinção entre o científico e não científico.
Para ele, a questão não é tanto a de afastar o sem-sentido metafísico, mas identificar e esclarecer a significação científica. Como
devemos entender e empregar conceitos do tipo de ‘motivação inconsciente’, ‘estrutura social’ e ‘utilidade do dinheiro’? Não se trata
de noções caracteristicamente metafísicas, mas que significados
têm elas?
Considerações sobre a explicação em comunicação—
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As teorias científicas são conceitos metafísicos? Devem, portanto, serem
eliminados? A demarcação entre ciência e metafísica é necessária, mas até
que ponto pode-se ser absolutamente rigoroso com o elemento especulativo
sem reduzir a reflexão científica à mera descrição de elementos empíricos?
Este problema – é preciso dizer – não gerou nenhuma “crise na ciência”, ao
contrário, ele ajudou a melhor compreender o que é teoria.
Para o empirismo lógico a questão da fundamentação da ciência continua sendo a observação, mas ela é deslocada para o plano da linguagem (ou
da lógica). Seu objetivo é separar proposições metafísicas (ou sem sentido no
plano da observação) e proposições que levam a fatos que podem ser observados (um elemento extralinguístico podendo, então, servir de critério para
avaliação das teses). De modo geral, esta visão continua a ser interessante,
mas deve obviamente ser temperada para se evitar a renúncia da teoria e adoção de uma posição hiperempirista inconsistente (apenas o observável, sem
“concessões”). Se o projeto de fundamentar a ciência em uma linguagem perfeitamente depurada de elementos metafísicos não pôde ser realizado (seja
pela lógica, seja pelo operacionalismo), isto não significa, de forma alguma,
que não foram importantes ou que devam ser recusados em sua totalidade.
Ao contrário, estas reflexões, seus impasses e imperfeições caso possam ser
classificados como “fracassos” enquanto projetos filosóficos, de outro lado,
alimentam e fazem avançar nosso conhecimento epistemológico. Em última
instância, bem entender o problema da demarcação – ter em conta as linhas
de continuidade e ruptura entre teorias científicas e elementos metafísicos –
nos leva a compreender em que consiste a diferença entre ciência e filosofia.
Então, se o problema filosófico da demarcação está longe de ser ocioso,
também é preciso ter em conta, como faz Kaplan, que ele não ocupa a atenção
de cientistas em suas atividades comuns, voltada para a elaboração de teorias
e não para a justificativa da existência destas. Raramente o cientista discute
se é válido ou não fazer teorias, até porque sua questão não é (e não pode ser)
a fundamentação última da teoria na realidade, o que implicaria abandonar a
ciência para fazer metafísica. Ele não discute se a realidade existe ou não, se a
objetividade é mera quimera ou o efeito de um “gênio maligno”, sua preocupação é fornecer elementos que expliquem a realidade.
196—Luiz Cláudio Martino
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Kaplan coloca muito bem isto, no entanto, o problema indiretamente
retorna quando consideramos o quadro de sua apresentação. A questão da
explicação se dá totalmente dentro do espaço filosófico. O próprio empirismo é apresentado como um movimento que liga as questões do século XVIII
(empirismo epistemológico, Locke, Hume, Kant) às do século XX (empirismo
lógico, Círculo de Viena, Popper). Ficam de fora as contribuições dos cientistas sociais no século XIX, desconsiderando-se as discussões que fundaram a
psicologia e as disciplinas das ciências sociais.
As tradições que se seguiram ao positivismo lógico buscaram outros
modos de fundar a explicação das teorias científicas. (MAYES, 2005) Para as
novas correntes da epistemologia filosófica a fundamentação não se dá no
real (empírico), nem na lógica (empirismo lógico), mas em aspectos psicológicos (crença) ou pragmáticos (utilidade, propósito, problema-resposta). Desse
modo, entretanto, elas não alteraram a situação, apenas buscaram alternativas no tocante ao problema da fundamentação das teorias.
De outra parte, nas ciências sociais a questão da demarcação toma outras
formas. Inicialmente se refere à distinção destas com a filosofia, mas principalmente em relação às ciências da natureza, procurando a especificidade de
sua forma de conhecimento. O foco da atenção não é prioritariamente uma
relação com o real (metafísica, física), o que se busca estabelecer é a possibilidade de tomar o homem como objeto de estudo científico e principalmente a
especificidade das diferentes disciplinas das ciências sociais, o ponto de vista
de cada uma delas sobre este objeto comum, o homem.
Devemos ter em conta esta diferença dos desenvolvimentos da discussão
epistemológica entre a filosofia e as ciências sociais a respeito da discussão
do problema da explicação. A atenção de cientistas sociais se volta para os
modos de definição e esclarecimento de seu objeto. Este não é uma realidade imediata (todo pesquisador é um ser humano), centrada na realidade do
indivíduo como unidade biológica, trata-se de um fenômeno que ultrapassa
o indivíduo ou a soma dos indivíduos e requer um trabalho teórico especial,
no qual o objeto aparece graças ao jogo das confrontações entre as perspectivas sobre o homem. Se estamos longe de um objeto natural, mesmo assim
é preciso desnaturalizá-lo em relação à percepção do senso comum que cada
pesquisador traz consigo. A multiplicidade de dimensões disciplinares (social,
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psicológica, antropológica, econômica etc.), sua irredutibilidade teórica, mesmo em franca antinomia com a unidade ontológica do homem, representa o
lastro e primeiro expediente epistemológico dessa operação fundamental de
desnaturalização que fundamenta as ciências sociais.
É assim que a questão da explicação ocupa um lugar central nas preocupações dessas ciências sociais. O que ganha relevância não é a fundamentação
da teoria no real (o que implica uma ontologia ou uma redução à linguagem),
mas o estabelecimento de um princípio epistemológico de distinção entre as
disciplinas, entendidas como as grandes linhas que dão forma aos fenômenos
humanos enquanto objeto de estudo.
O que é explicar?
Comecemos por uma questão de fundo: Podemos não explicar? A explicação,
lembremos, ultrapassa o quadro da ciência. Enquanto atribuição de sentido,
ela está presente na atividade dos seres humanos em geral, como sujeitos
conscientes e observadores de seus meios ambientes ou simplesmente como
seres inquietos. Trata-se de um ato inerente à consciência, no qual se estabelece a relação entre fatos (por exemplo, vejo um livro no chão de meu quarto
e me pergunto por aquilo que o fez cair), a explicação é uma satisfação a nossa
“curiosidade”, um modo de manter o controle sobre nosso ambiente imediato
e assim agir sobre ele.
Mas a pergunta tem um sentido diferente no âmbito da ciência.
Primeiramente, a explicação não é uma operação facultativa, não é opcional.
Se no âmbito do senso comum nem sempre se tem necessidade de explicar,
em ciência, ao contrário, não explicar equivale a perder o sentido e a razão de
ser da atividade científica, ainda que esta não se resuma a isso. Em seguida
podemos nos perguntar: as teorias devem necessariamente ser explicativas ou
podem ser apenas descrições? A resposta é taxativa: não. É próprio da teoria
ser explicativa. As tentativas de opor descrição e explicação não são consistentes. (BROWN, 1972) Em geral elas repousam sobre a afirmação de que nosso
conhecimento consistiria apenas em descrições. Por exemplo, não podemos
198—Luiz Cláudio Martino
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dizer por que a água ferve a 100 graus, mas somente que isto acontece.1 Isso,
contudo, não toca o cerne da explicação, pois esta não se refere à informações
isoladas (nossas formas mais básicas de conhecimento do mundo), e sim a
formas de correlacionar ou de sistematizar informações. A informação sobre
o ponto de fervura da água pode, por exemplo, em uma determinada situação, dizer por que desapareceu a água da panela ou servir para construir uma
máquina a vapor. Pretender opor explicação e descrição é muito artificial, tal
como a atividade de conceituação, a descrição pode ser uma etapa da construção da teoria, mas não uma forma independente e oposta. Também pode
ser válido produzir descrições mesmo sem um objetivo teórico totalmente
explicitado, como preparação para a teoria (pesquisas exploratórias). O que
evitamos aqui são descrições aleatórias e que, desse modo, ficariam sem sentido. Este só aparece em relação a um quadro teórico.2
As teorias são sistemas organizados de informação, implicam relação
entre informações. Estas não são “colhidas” em estado natural, são frutos
de equacionamentos teóricos. Seria impossível tudo descrever e descrever
qualquer coisa não teria valor algum. Em uma visão desnaturalizada, como requerida pelas ciências sociais, o sentido e a pertinência são dados pelo quadro
teórico, não existem em si e por si mesmos. As teorias científicas, portanto,
não podem prescindir da explicação. Seria como apresentar um mundo sem
qualquer indagação sobre ele, sem “curiosidade”, sem inquietação.3
1
Temos aqui a distinção entre leis científicas (regularidades empíricas) e teorias. Todo objeto abandonado próximo da Terra cai. Esta regularidade empírica é explicada pela teoria da gravidade. Os
protestantes ocupam melhores posições econômicas que os católicos (regularidade), Weber explica-a analisando a relação entre a crença dessa religião e os princípios do capitalismo. Enquanto
a regularidade empírica é fruto da observação, a teoria exige a introdução de conceitos e relações
mais complexas. Retomando o exemplo, a explicação da fervura da água poderia ser feita pela
introdução de conceitos como átomos, elétrons, particulas subatômicas, energia etc. Enfim, pela
relação de “entidades” teóricas, ou não diretamente observáveis.
2 Para uma discussão mais detalhada sobre a descrição, ver Brown (1972), La explicación en las
ciencias sociales.
3Assim é a relação do pensamento com o mundo no âmbito do senso comum. Propícia para a
ação e não para a reflexão sobre as coisas.
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Chegamos ao que muitos entendem ser o ponto crucial da questão, sua
relação com a noção de problema. Explicar é responder a questão por quê? E
isso pode variar muito de acordo com os propósitos ou o quadro de referência
no qual a pergunta é elaborada: Por que o tapete está manchado? Por que os
canos d’água de uma casa estouraram no último inverno? Por que a eletrólise
da água decompõe suas moléculas? Por que existimos? Este pequeno conjunto de perguntas nos dá uma ideia de quão variado pode ser o contexto da
pergunta e a necessidade de discernir diferentes dimensões de pertinência e
graus de exigência.
Para o senso comum pode ser suficiente montar a sequência de fatos
(antes não estava manchado, agora está); cientistas buscariam estabelecer a
relação entre fatos concretos e leis abstratas (expansão da água pelo congelamento; quebra das moléculas da água); e filósofos, mais do que buscar uma
resposta, podem fazer da questão um modo de refletir sobre a condição humana. A explicação está, portanto, situada pelos quadros de um problema, ele
mesmo equacionado por fatores como o propósito (alguns autores consideram isto como a pragmática da explicação), o tempo para a resposta, o tipo
de resposta que se pretende (científica, filosófica, senso comum etc.), enfim,
fatores que situam o problema em um contexto e fazem com que certas respostas sejam pertinentes e outras não.
O tapete está manchado porque Deus quis; os canos d’água congelaram
por que a melancolia que corre em nossas veias envenena nossa atenção e
prejudica os cuidados das coisas mundanas (alguém esqueceu de esvaziar os
canos no inverno); a eletrólise insufla a luta de classes entre as moléculas.
A impertinência deste conjunto de respostas revela que há uma satisfação
intelectual a ser preenchida. A variedade de propósitos (expectativas, finalidades) e de pertinência das respostas em relação aos problemas indicam pontos
importantes sobre o conhecimento científico: a) a ciência não trabalha com
causas últimas, nem com um conceito absoluto de verdade; b) a explicação se
insere em um quadro cujos limites e significação são relativos e dados pelo
problema; c) o modo como representamos a realidade e os propósitos da pergunta estabelecem a dimensão de pertinência da explicação.
Uma consequência direta disso é que podemos mudar este quadro e renovar indefinidamente o questionamento. Uma explicação pode ser resposta
200—Luiz Cláudio Martino
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dentro de um quadro, mas pode vir a ser questão e problema em um novo
quadro. A cadeia de “por quês” é necessariamente infinita. Sempre podemos
questionar as respostas, tornando-as novos pontos de interrogação: Por que
o tapete está manchado? Por que alguém distraído esbarrou na xícara. Por
que alguém estava distraído? Estava distraído porque estava esgotado. Por
que estava esgotado? As atuais relações econômicas de produção e trabalho
fazem com que o trabalhador seja levado a um estado em que se vê exaurido
de suas forças físicas e mentais. Por que chegamos a este modo de produção?
Historicamente, a luta de classes foi instaurada e as formas desse conflito levaram às características do estado atual. Mas por que há luta de classes? Com
o aquecimento do planeta, há 10 mil anos atrás, foi possível novas formas de
organização social. Por que houve um aquecimento do planeta... Deus!
Como vemos, a cadeia causal é infinita (e, além disso, pode ter desenvolvimentos múltiplos, não obstante a linearidade do exemplo). O único modo
de colocar-lhe um ponto final é recorrer a uma causa real ou verdadeira, que
pode ser Deus ou outra entidade metafísica que represente o absoluto (o real,
o Ser etc.). Esta resposta pode ser válida para o pensamento religioso ou para
certas filosofias. Para o pensamento científico a cadeia de “por quês” não pode
ser tomada de modo absoluto, pois as questões são relativas a certo quadro
de pertinência. No caso da ciência não há causas últimas, temos apenas explicações relativas aos diferentes quadros de referência teórico-epistemológico,
cada um deles representado, grosso modo, por uma disciplina científica.
Dessa forma, as disciplinas correspondem às dimensões de pertinência de
um problema, é no seu interior que se estabelecem os graus de exigência de
uma explicação teórica, relativa ao estado do conhecimento naquela matéria.
Brown (1972) mostrou que em ciência social a explicação última pode ter
dois sentidos diferentes. No sentido em que o âmbito da explicação extrapola
o quadro de refência estipulado (de onde podemos tirar a conclusão de que
o elemento explicativo não corresponde à disciplina – portanto, trata-se de
uma explicação não pertinente) e no sentido em que chegamos ao último
elemento de uma série de explicações, para além do qual cairemos no caso
anterior. Este limite é que faz com que os pesquisadores de um certo domínio
de estudo encontrem significações cada vez mais profundas (derivações do
significado dos objetos empíricos extraídas do objeto teórico) sem perderem
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o quadro de referência e sem serem obrigados a passar a outros “níveis de
realidade”, ou seja, a outras dimensões de análises, que exigiriam a troca do
aparato conceitual e metodológico, portanto, uma redução de uma disciplina
à outra (como na pirâmide do conhecimento proposta pelo positivismo de A.
Comte).
Também podemos entender isso formulando a explicação como uma
operação de redução, ou séries de reduções que permitem passar de um certo
elemento da realidade a outro mais significativo. Entendemos o primeiro graças ao segundo, pois ele contém a significação do primeiro; afirmar que algo é
explicado por outra coisa equivale a dizer que a significação está nesta última.
(MARTINO, 2011) Notemos que o elo entre elemento explicado e o elemento
que explica não é apenas lógico, a forma que damos à realidade, a maneira
que configuramos o objeto, é de onde extraímos as relações ou propriedades
que serão encadeadas. Além do estabelecimento de nexos lógicos (dedução,
indução), passamos de um elemento a outro por relações entre propriedades
empíricas e também através do estabelecimento de uma hierarquia hipotética (a ação política explica o comportamento social, um processo econômico
é explicado pelo estado do desenvolvimento tecnológico ou por uma certa
mentalidade). A possibilidade de variarmos os termos explicativos nos leva a
compor séries diferentes e a chegar a explicações diferentes e concorrentes.
Não podemos resolver a priori se o homem é um ser mais social que político,
ou mais econômico que histórico etc., só podemos ter um posicionamento
epistemológico. Para as ciências sociais tais posicionamentos se tornam as
matrizes disciplinares e restam vias abertas para compreender o homem.
Então, seja tomando a explicação como resposta a uma questão do tipo
“por quê?”, seja entendendo-a como redução a um elemento significativo,
podemos dizer que as disciplinas científicas são definidas pelo tipo de explicação e que este estabelece os limites dentro dos quais a teoria faz sentido.
Além de ser uma definição estritamente epistemológica, esta abordagem da disciplina científica também tem a vantagem de poder apontar tipos
de interdisciplinaridade. Por exemplo, para as correntes marxistas que tomaram como base a teoria crítica de Horkheimer, a interdisciplinaridade é uma
redução ao elemento político (pan-político, como chamamos), pois todas as
outras dimensões dos fenômenos humanos podem e devem ser reduzidas à
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política (dominação, poder, luta de classes), entendida como realidade última. Para o pensamento complexo, a explicação é completamente rejeitada,
seja para substituí-la pela descrição, seja pela constatação da complexidade,
acompanhando o desdobramento de um objeto indeterminável. O positivismo comtiano introduz uma hieraquia e faz da física o nível mais fundamental
da realidade, ao qual todas as outras disciplinas podem ser reduzidas. O fisicalismo de Carnap propõe um reducionismo lógico e não ontológico, como
o anterior. Estes exemplos mostram que os tipos de explicação permitem
definir não somente as diciplinas como também os diferentes tipos de interdisciplinaridade, pois a explicação constitui o elemento não camuflável, não
retórico, ao qual todas as reflexões devem se reportar enquanto reação às suas
inquietações originais. Colocar o problema da disciplina científica na forma
de uma tipologia mostra que elas se definem reciprocamente, pois equivalem
a posicionamentos epistemológicos.
A explicação em comunicação
Duas questões se apresentam: 1) O que diferencia a comunicação de outras disciplinas? 2) Quais as modalidades de explicação empregadas em
comunicação?
Com relação a esta última, os modos de explicação em comunicação
não são diferentes daqueles encontrados nas grandes correntes filosóficas
que atravessam as ciências sociais. Como nas demais disciplinas, as pesquisas
seguem padrões de explicação (causalidade, correlação, interpretação etc.).
Estes podem ser formalizados em programas de pesquisas (BERTHELOT,
2001), também podem ser tipificados segundo a relação de causalidade
(LITTLE, 1991), ou podem ser derivados dos princípios filosóficos dos grandes
paradigmas das ciências sociais: funcionalismo, marxismo, estruturalismo,
construtivismo etc., por exemplo, Brueny e colaboradores (1974).
A variedade dos modos de explicação em nossa área reflete a condição geral do desenvolvimento desses modos nas ciências sociais. Alguns
interpretam tal variedade como consequência da natureza particular de
nosso conhecimento como campo de estudo interdisciplinar: o campo é
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aberto, de natureza não disciplinar (inter, trans, pluridiscicplinar), supõe uma
complexidade do objeto. Essa maneira corrente de entender o estatuto epistemológico da comunicação é na realidade muito problemática e bastante
diferente daquela presente nos autores acima citados. O fato que padrões
explicativos possam ser compartilhados (tal como acontece com os recursos
metodológicos) não tem nenhuma significação especial para uma disciplina
isoladamente. Não temos aí um argumento que torna a comunicação mais
“interdisciplinar” que qualquer outra disciplina. O que alguns entendem ser
uma reposta à primeira questão: a especificidade da comunicação enquanto
disciplina residiria em sua abertura como campo de conhecimento.
Mas se a comunicação é um campo aberto, como entender a relação
entre explicação e campo? Uma de nossas conclusões foi que os tipos de
explicação permitem definir as disciplinas, porém tal função não pode ser
desempenhada na concepção de campo.4
Examinemos esta noção. Podemos defini-la como a convergência de
teorias de várias disciplinas em um objeto empírico (interdisciplinaridade).
Temos uma pluralidade teórica (sociologia, psicologia etc.), acionada para explicar uma classe de fenômenos, os processos de comunicação. A unidade
recai sobre o objeto estudado, é ele que articula a diversidade das teorias em
torno de si. Entretanto – e este é o ponto – não há necessidade de que esta
unidade seja bem desenvolvida (quais processos de comunicação? O processo
de transferência psicanalítica em um consultório? Uma rede social baseada
em uma tecnologia como o Twitter? Uma emissão de TV, um choro de bebê,
a dança das abelhas?). Não temos um conjunto de teorias a partir do qual elas
são tencionadas. O encontro de teorias diversas em um objeto empírico não
significa supor qualquer relação entre elas, por conseguinte, fica dispensando
qualquer trabalho de sistematização teórica, razão pela qual a ideia de campo aparece como mais “pacífica” que a de disciplina. A diversidade teórica se
expressa como um inumerável somatório de teorias e conduz a um espaço de
discussão demasiado amplo e heterogêneo, incapaz de propiciar as condições
4 Fazemos aqui, para fins de expressão, a distinção entre campo e disciplina (termos que também
podem ser usados como sinônimos). O primeiro termo remete à noção de interdisciplinaridade,
o segundo à teoria científica. A noção de campo (de teorias científicas) deve ser entendida como
abertura e inclusão indefinida, enquanto que a noção de disciplina científica exige uma matriz
teórica.
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de debate de teses e o desenvolvimento do conhecimento. Os recortes do objeto empírico são de tal forma variados que introduzem rupturas conceituais
e metodológicas entre as problematizações, isolando-as. Dito de outro modo,
se cada teoria comporta um trabalho de desconstrução do objeto empírico
ou de construção de seu objeto, elas nunca poderão se encontrar no objeto
empírico. A existência deste não seria compatível com as formulações teóricas. O que há de “pacífico” – a convivência “democrática”, a “tolerância” e a
“liberdade” que alguns apreciam na ideia de campo – na verdade ela encerra
um profundo problema epistemológico, conhecido como a incomensurabilidade das teorias, pois estariam isoladas uma das outras, na estéril paz das
mônodas que as encerram.
No vocabulário epistemológico, a noção de objeto empírico representa o
ponto limite para a ancoragem das interpretações teóricas no real (a ciência se
pretende um discurso sobre a realidade). Aqueles que evocam uma abertura
do campo invertem este significado: a complexidade do objeto corresponde à
ausência de tratamento teórico. Temos um objeto completamente indeterminado, ou seja, sem teoria. Daí a correspondência entre objeto empírico (sem
recorte teórico) e a noção de campo: a indeterminação do objeto real leva a
uma “abertura teórica” infinita. Esta fórmula vazia, que apenas expressa as
inúmeras possibilidades de abordagem, opera uma verdadeira amputação dos
fundamentos da teoria, uma vez que esta não pode ser considerada apenas
em sua relação com os fatos. Voltamos a uma crença do positivismo ingênuo
que, centrado unicamente no elemento empírico, desconsidera o importante
papel da relação das teorias para a produção do conhecimento, desde a representação do objeto empírico até a validação das teorias.
Em suma, o problema com a ideia de campo entendido como abertura e inclusão indefinida é uma total desarticulação da teoria. A produção de
conhecimento depende de um conflito de teorias que devem estar tencionadas por uma unidade epistemológica (disciplina). Tal unidade corresponde
à proposição hipotética de um objeto de estudo comum. O objeto introduz
uma identidade cujo efeito é a geração de tensão, polêmica, criando um efeito
sistêmico entre as diversas tradições de pesquisa, escolas e correntes teóricas.
Desse modo, todo avanço significativo alcançado por uma escola, toda conquista realizada por uma pesquisa lança nova luz às pesquisas já realizadas,
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fazendo com que todas as escolas tenham que se reposicionar. A ciência é impensável sem este efeito sistêmico, sem o qual não teríamos o conhecimento
científico.
Retomando nossas duas perguntas, podemos resumir a resposta à segunda questão dizendo que as modalidades de explicação empregadas em
comunicação podem ser as mesmas das ciências sociais, à condição, claro,
de a comunicação também ser uma disciplina e não um campo de estudo.
A explicação é uma função da teoria e não pode ser separada de seu quadro de
pertinência, que é a matriz disciplinar na qual se inscreve. Porém nada disso
tem sentido na concepção de um campo aberto, ou de um objeto complexo
(exigindo o concurso de várias disciplinas sem a possibilidade de tomá-las em
separado).
Resta agora apontar o que diferencia a comunicação. Uma questão que
para muitos é praticamente impossível de ser respondida, considerando-se a
variedade de assuntos em que os processos comunicacionais podem aparecer
e sua implicação em várias formas de conhecimento.
Correndo o risco de decepcionar, digo que a resposta pode ser bastante simples, se abandonamos a atitude em voga de querermos revolucionar o
conhecimento tentando encontrar um lugar sui generis para nossa área de
estudos. Se entendermos a comunicação como uma disciplina das ciências
sociais, então passa a ser possível fazer apelo aqui à maneira como outras disciplinas respondem a esta questão. De pronto nos desvencilhamos da ideia de
que nosso objeto de estudo seria mais complexo ou mais difícil de estabelecer
que o de outras disciplinas. A resposta dada pelas ciências sociais é bastante
simples: processos sociológicos implicam explicações sociológicas, processos
econômicos implicam explicações econômicas, processos comunicacionais
implicam explicações comunicacionais. Ou seja, é o modo de explicar que
define a disciplina e esse modo é dado por um posicionamento epistemológico frente ao conjunto dos conhecimentos estabelecidos (disciplinas), ou
seja, pela especificidade da abordagem teórica de cada disciplina em relação
ao objeto empírico.
Isso permite entender porque o número de disciplinas não é infinito,
nem completamente determinável. Conforme nossa proposição de disciplina, a flexibilidade em questão é estritamente epistemológica, não estamos
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nos referindo às vicissitudes da atualidade, modismos, tensões políticas e organizacionais das estruturas administrativas. Se a definição de uma disciplina
deve ser referida ao conjunto das disciplinas, por um jogo de oposições sistêmicas, então os limites entre elas admitem transformações. As disciplinas
científicas não são o produto de mera burocracia acadêmica, elas remetem a
tipos de explicação que correspondem a vetores significativos da realidade
examinada e aos quadros epistemológicos demarcados pela relação das disciplinas entre elas. O que equivale a dizer que o quadro disciplinar depende
do estado atual dos conhecimentos. Por isso, não há nada de definitivo nestas
delimitações, embora não seja tão fácil alterá-las, como sugere o ritmo das
revoluções proclamadas a cada publicação de artigos em revista. A própria
emergência da comunicação como uma ciência social leva a um novo arranjo
disciplinar, novas relações entre as disciplinas. Notemos que isto não se deve
à simples administração do espaço disciplinar, mas a emergência de fenômenos sociais até então desconhecidos, relacionados a um novo sentido das
tecnologias de comunicação quando estas passam a desempenhar um papel
de destaque na organização social. Tal como a sociologia emerge junto com o
aparecimento de um novo elo social (solidariedade orgânica, no vocabulário
de Durkheim) ou a economia com a descoberta da economia de mercado.
Examinemos essa flexibilidade com mais detalhes. O objeto genérico das ciências sociais se apresenta como “multifacetado”, o homem é um
ser social, histórico, econômico, político, comunicacional etc. As disciplinas
correspondem a estes diferentes aspectos ou dimensões. Para o cientista social a realidade de seu objeto se apresenta a partir de um leque de planos de
observação possíveis, os quais não podem ser tomados simultaneamente. A
definição de um objeto de estudo não requer a desconsideração dos aspectos não contemplados, mas o estabelecimento de uma hierarquia entre eles.5
Dizer que o homem é um ser político, como supõe as ciências políticas, impli5Hierarquia, centralidade, figura-fundo, redução. São alguns termos empregados para marcar a
opção por uma das dimensões do objeto empírico, o homem. A pregnância de uma dessas dimensões sobre as outras não pode ser definitivamente fundada no real, são opções epistemológicas, remetem a pressupostos axiomáticos, enunciados admitidos como princípios para uma
formulação do objeto de estudo. As teorias não são demonstrações lógicas, nem as pesquisas
podem ser verificações empíricas destes pressupostos iniciais. São derivados destes. Isto constitui uma fonte de mal-entendidos sobre a teoria: a pertinência de uma teoria não é uma prova,
nem mesmo uma justificativa para uma hierarquia real.
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ca em reconsiderar outras dimensões, isto é, organizá-las a partir do político.
O que não acontece no mesmo grau com as ciências duras ou na concepção
de campo. Por exemplo, a descoberta de novos níveis nas órbitas dos elétrons
não exige uma reconsideração necessária da teoria da óptica ou do conceito de gene de um animal, ou do conceito de comunicação tecnológica. As
ciências sociais trabalham de forma sistemática, a definição da sociologia tem
implicações importantes para a economia ou a política, são visões diferentes
do homem.
Ao explicar, ao dar sentido à realidade, os pesquisadores acabam estabelecendo recortes, criando entradas e seleção do que é mais relevante para
compreender os fenômenos que lhes inquietam. Eles constituem modos de
explicação que, para além dos matizes e combinações próprias das pesquisas individuais, podem ser levados a algumas posições básicas que são as
disciplinas.
Uma disciplina é um posicionamento em relação à complexidade da
realidade. O objeto de estudo de uma disciplina deve ser entendido como
o primeiro recorte e tomada de posição epistemológica sobre a realidade.
Trabalhar na condição de comunicólogo implica em tomar os processos
comunicacionais como chave de leitura do mundo humano, reorganizar
as outras dimensões do homem de modo que possam ser esclarecidas pela
ação dos processos comunicacionais. Neles deve residir a significação dos
fenômenos analisados. Não é uma posição fechada, que possa ser fundada definitivamente, mas é um posicionamento, uma opção. Qualquer divergência
neste plano nos leva a outra disciplina ou mesmo a outra forma de conhecimento. Se acreditarmos, por exemplo, que a divisão do trabalho é o elemento
explicativo, esta crença pode significar outra posição epistêmica (sociologia,
economia política). Opções como estas extrapolam o âmbito comunicacional
e não podem gerar teorias da comunicação. O máximo que aí podemos ter
são teorias de outras disciplinas que tomam os processos comunicacionais
(teorias sobre comunicação). (MARTINO, 2007) De outra parte, divergências
sobre o que são ou como devem ser formulados os processos comunicacionais (enquanto significativos, e não apenas como processos empíricos) nos
levam à diferenças teóricas, propriamente comunicacionais. Há, portanto,
uma forte relação entre explicação e objeto de estudo. A unidade da disci-
208—Luiz Cláudio Martino
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plina, formulada de maneira abstrata no objeto de estudo, ganha um plano
efetivo quando analisada pelo modo de explicação de cada disciplina.
Um conjunto de explicações pode ser considerado pertinente à disciplina
comunicação na medida em que este se refere à propriedades comunicacionais,
seu limite serão aquelas explicações cujas variáveis exigem outras explicações
em termos de propriedades não comunicacionais. Dito de outro modo, a explicação em comunicação será aquela em que a redução aos fatores significativos
não recai sobre elementos contento explicações não comunicacionais. Por
exemplo, o comportamento de uma emissora de TV (seleção de notícias, grade
de programas etc.) pode ser explicado por fatores não propriamente comunicacionais, como seus compromissos políticos ou pelas relações econômicas,
aos quais a emissora se encontra submetida como empresa de mercado. Mas
inversamente, sua atividade comunicacional também pode ser tomada como
o fator significativo que explica um processo econômico, como: a influência
da publicidade sobre o mercado, um vazamento de informações com graves
consequências políticas, ou uma notícia que altera o comportamento dos investidores etc. Enfim, explicar é tomar partido em uma hierarquia de fatores
ou variáveis estabelecendo uma rede onde a significação de um elemento é extraída de outro. Uma explicação em comunicação toma como significativos os
processos comunicacionais e, consequentemente, interpreta a realidade social
por essa perspectiva.
Definir uma disciplina por um tipo de explicação nos permite entender
melhor o que é comunicação (processo e disciplina) e também nos permite
evitar algumas vias equivocadas de formulação do objeto de nossa área de conhecimento (campo, complexidade do objeto), que supõem que a variedade
de informações, assuntos ou de âmbitos da realidade constituem ou implicam
em uma abordagem interdisciplinar. Além disso, também tem a vantagem de
permitir à comunicação de se beneficiar da experiência e da produção epistemológica de outras disciplinas, colocando-a de vez no jogo de tensões e
complementaridade da pesquisa em ciências sociais.
Considerações sobre a explicação em comunicação—
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Teorias da
comunicação,
a hermenêutica,
o diálogo,
a compreensão e
a interpretação
Esboço para uma contribuição às “novas
teorias” e aos “novos métodos”
Osvando José de Morais
Prolegômenos
O texto que apresentamos a seguir é a ampliação, em forma escrita, da comunicação de mesmo título que fizemos oralmente no Colóquio Internacional
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Brasil-Canadá realizado em outubro de 2012 nas dependências da Universidade
Federal da Bahia (UFBA), na cidade de Salvador-Bahia como atividade do projeto do Programa de Cooperação Acadêmica (Procad) da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do qual somos criadores e signatários junto aos coordenadores de programas de Pós-Graduação das
universidades UFBA, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUC-RS) e Universidade de Brasília (UnB), desenvolvido sob a coordenação
geral do prof. dr. Giovandro Marcus Ferreira. Na ocasião apresentamos de
modo sucinto os resultados de pesquisa que empreendemos, especialmente
para o projeto Procad, sobre as possíveis e necessárias intersecções entre as
teorias da comunicação e a filosofia clássica, em caminho metodológico em
direção aos pensadores Hans-George Gadamer e Paul Ricoeur. A justificativa
de nossa pesquisa dá-se em função da premente necessidade de se pensar novas teorias para o fenômeno comunicacional que deem conta da efervescência
atual da área motivada, principalmente, pela oferta de novos dispositivos produzidos pela ciência aplicada em nossa atualidade. Agregamos outros autores
em torno dos nomes acima citados que constam de nossas referências para
melhor compor o corpus teórico dos resultados de nossa pesquisa.
T e o r ia s d a c o m u n i c a ç ã o, a h e r m e n ê u t i c a , o d i á l o g o,
a c o m p r e e n s ã o e a i n t e r p r e ta ç ã o : e s b o ç o pa r a
u m a c o n t r i b u i ç ã o à s “ n o va s t e o r ia s ” e a o s “ n o v o s
métodos”
Este trabalho tem como objetos principais as teorias da comunicação e o método científico de pesquisa, levando em conta as dificuldades enfrentadas em
função de inúmeras correntes teóricas das ciências sociais aplicadas, e da diversidade de métodos de análise utilizados na área.
Propõe-se, ao mesmo tempo, a hipótese de que a comunicação, em sua
dinâmica, pode também ser compreendida a partir de suas matrizes filosóficas a fornecerem elementos de conhecimento e teorias, justificando pensar
sobre os aspectos intrincados do conceito de comunicação.
Propõe-se discutir ainda, as teorias da interpretação e do diálogo na tentativa de entender as relações sociais e humanas, vistas aqui como processo
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complexo que inclui, na dinâmica das trocas, o caráter cognitivo, espiritual, emocional e interativo, mas requerendo, acima de tudo, entendimento e
compreensão.
Pretendemos acrescentar mais um objetivo nesta pesquisa que é a
tentativa de aprofundar as análises das ideias de Gadamer, principalmente em Verdade e Método, e de Paul Ricoeur, em o Si mesmo como um outro e
Teoria da Interpretação, com a finalidade de melhor pensar a comunicação.
Acrescentamos termos que procedem a um levantamento de teóricos da comunicação que constam das referências. Dentre eles, destacamos alguns por
acreditarmos trazerem discussões mais pertinentes e, às vezes, pouco usuais,
casos de Shannon, Weaver, Luhmann, Nancy, Pearce e Petri. Por tratar-se de
pesquisa teórica, propomos uma reflexão acerca dos fenômenos teóricos e
metodológicos da comunicação como estratégia de abordagens do objeto de
pesquisa e tratamento dos problemas.
Aproveitando a clássica definição de Kant de que a filosofia é a ciência
da relação de todos os conhecimentos com os fins essenciais de razão humana, parte-se do pressuposto de que a comunicação, em sua dinâmica, pode
ser compreendida também como questão filosófica, dado que os eventos e as
ações são matrizes centrais no processo comunicacional, e seriam imperceptíveis por sua condição subjacente nas relações sociais, combinando aspectos
culturais, temporais e subjetivos.
De outro modo, a partir da introdução de tecnologias, de início, a revolução industrial, pensada em seus vários estágios, ao inserir técnicas de
produção e reprodução de imagens com suas máquinas mediadoras, pode-se perceber a erupção de outras formas de construção de culturas, outros
condicionamentos, outras capacidades de significações, tanto no contexto
social quanto no político e econômico. É neste sentido que entendemos que
os sistemas de cultura possam representar as finalidades máximas da Razão.
Neste sentido, a dificuldade de se definir a comunicação como processos subjetivos delicados de percepção, instigou-nos a repensar a comunicação
como linguagens autogeradoras de sentidos indeterminados, sígnicos e imprevisíveis que provocam rupturas nos conceitos de comunicação suscitando
a transcendência do ir além: o mundo mental seria parte de outro mundo
diverso, e o percebido silencia-se no universo solitário e particular.
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Uma das grandes contribuições de Gadamer consiste na ideia de que
a linguagem atua constantemente como medium, isto é, como tradutora e
mediadora das experiências humanas, levando em conta o conceito clássico
que pressupõe não somente a compreensão que se funde na transferência
de conhecimento para o outro, mas também a participação imediata de um
no outro, pois só assim é possível compreender o que se exprime, pondo-se
de acordo com a linguagem. Desse modo, objetivando exprimir consciente e
inconscientemente o pensamento.
As experiências vão além da mera reprodução abarcada pela linguagem,
indicando acordos fáceis ou difíceis, tomadas de consciência e, ainda, as condições em que se realizam qualquer entendimento. Por isso mesmo, tenta-se
evitar tanto o empirismo simplista como o racionalismo radical e dogmático.
Por outro lado, todo entendimento pressupõe a transposição de sentido
de um contexto para o outro. É nesse ponto que incluímos os conceitos de
comunicação que preconizam a necessidade sine qua non do domínio de um
mesmo código. Mesmo assim, comunicar para Gadamer significa traduzir,
usando a linguagem como medium, em um processo de acordo que possibilita trocas, inclusive, também de consciências além de experiências entre os
interlocutores. Mesmo que o conceito de troca seja questionado por muitos
teóricos da comunicação, ele é essencial.
Outro sentido explorado por Gadamer para comunicação é o de conversação, implicando reações entre os envolvidos. Esse debate pode dar-se
em várias etapas, e a compreensão que envolve decisões dedicadas de ambas
as partes, implicando uma reiluminação, “Como ocorre entre duas pessoas,
também entre os terceiros dessa ‘conversação’ se dá uma comunicação que é
mais que mera adaptação”. (GADAMER, 2005, p. 502)
Neste sentido, pode-se dizer que a linguagem é o medium universal e
cada meio de comunicação a desenvolve e aprimora a própria compreensão
de mensagens, seja na forma escrita, oral ou por imagens, mantendo observância na inclusão de seus usos e costumes.
Assim visto, cada meio de comunicação desenvolve sua linguagem, isto
é, reconverte seu texto em linguagem, e Gadamer classifica esse processo
como “consciência compreensiva” realizada através do que foi comunicado,
incluindo aí a ideia da fala oral e de sua relevância nos meios massivos.
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A palavra falada para Platão se constitui como o pensar verdadeiro e,
como comunicação, surpreende pelo modo de falar, o tom, a cadência e não
sofre da mesma debilidade do texto escrito que pode sucumbir a mal-entendidos. É na conversação que se dá prontamente a comunicação que fortalece
o sentido do que foi dito.
Pensar a comunicação seria ater-se a um conjunto de intenções possíveis que se revelariam abissais, pois o que realmente foi comunicado, em sua
essência, ficou discreto por redução a uma dimensão mental.
Neste ponto, a linguagem organiza didaticamente a compreensão e é
essa possibilidade mediadora que torna concreto o próprio sentido. Por isso
mesmo, pode-se dizer que por mais eficaz que a comunicação seja, ela é sempre aproximada. Apenas parte das intenções seria plenamente atingida. Os
processos mentais de ordenação e seleção gerariam possibilidades em grau
infinito.
A comunicação, juntamente, com a difusão em jornais, rádio e da televisão, incluindo neste contexto seus modernos sistemas como, por exemplo,
a complexidade de telefonia móvel, com todas as suas potencialidades, e da
Internet que se impõe como base de convergência, ocupa um espaço importante nos estudos dos fenômenos sociais.
É neste ponto que poderíamos aproximar, por exemplo, as teorias do
linguista Roman Jakobson, que não reduz a comunicação a uma simples troca de mensagem, mas tenta entendê-la como Fenômeno de Interação entre
fonte, mensagem e destinatário. A comunicação, neste contexto, não seria
uma mera transferência, mas admite ser pensada, também, como mistério
ou como fenômeno inexplicável. Não se pode, portanto, reduzi-la à simples
transferência. Mesmo diante de argumentos teóricos sólidos conceitua-se,
ainda, a comunicação impregnada dos sentidos de transmissão de mensagem, de notícia, de informação, de partilha.
Independente de ser referência universal para a comunicação, o modelo
de Shannon e Weaver é criticado por autores como os teóricos Carl Adam
Petri, Barnett Pearce e Niklas Luhmann, que ampliam discussões ao conceito
de como encontrar o interlocutor, compreender-se; problemas relacionados
à privacidade e à publicidade e ainda à comunicação em rede. Estes autores
argumentam e pensam no modo como a comunicação acontece e a enfatizam
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não como fenômeno físico, mas como fenômeno social articulado à múltiplas dimensões e funções ou protocolos. Lembremo-nos que Shannon, como
engenheiro empregado de uma companhia telefônica, teve como objetivo
principal a melhoria de qualidade da transmissão do enunciado do falante ao
receptor, independendo do conteúdo. Desse modo, acreditamos que “a teoria
matemática” de Shannon deve estar situada mais apropriadamente entre as
teorias da informação muito embora tenha seu lugar, também, entre as chamadas “teorias” da comunicação.
Independente de quaisquer protocolos, a comunicação está relacionada
à construção social da realidade e aos valores das ações e interações, à construção de histórias que cada um faz sobre si mesmo e o mundo, e buscar um
sentido comum às mensagens transforma a comunicação em um mistério.
A teoria dos sistemas de Luhmann foi construída como sistemas de comunicação que é também um processo seletivo, isto é, aquilo que é constituído
como seleção, vale dizer, como informação. Portanto, o ato de comunicar está
interligado à escuta e à informação. Por outro lado, a distinção entre informação e o ato de comunicação só é possível quando há divergência entre a
escuta e as instruções de fonte. É neste sentido que ele é mais categórico ao
afirmar que a comunicação só é possível como processo autorreferencial, pois
o ato de comunicar, informação e escuta são três processos irredutíveis um
ao outro.
Faz-se necessário, neste sentido, ainda, discutir a comunicação a partir
do conceito de sociedade da informação. Informação esta que permeia as relações sociais, econômicas, interpessoais e afetivas. Assumir que a transmissão
de conhecimento se dá por sistemas de transmissão traz novas perspectivas
de pensar a comunicação. A partir daí, por exemplo, surgem também abordagens comunicacionais novas para explicar fenômenos humanos diversos
como: o funcionamento da mente humana e do sistema nervoso central; o
caráter genético da individualidade dos seres humanos, entre outros. Novas
formas de representação, memorização e manipulação podem ser repensadas
ao mesmo tempo como comunicação e como informação. Torna-se fundamental saber, por exemplo, aspectos qualitativos e quantitativos daquilo que
foi comunicado. Melhor dizendo, o que foi memorizado e o quanto foi esquecido e ainda o custo de tudo isto. A comunicação não está dissociada da
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indústria de tecnologia da informação. E, a ampliação da potencialidade humana, como causa e efeito, mudou o modo de entender as complexidades dos
processos sociais. Há um total controle de informação e das pessoas. De maneira planejada, as pessoas são submergidas cotidianamente por informações
em quantidade acima de seus limites. Alegam-se o direito de gerar e também
o de difundir informações. Há ainda o direito de recebê-las, mas há também
o de não recebê-las. É neste sentido que a Sociedade da Informação parece estar reduzida às relações econômicas. Neste contexto cultural, pode-se
também argumentar sobre a possibilidade de se fazer uma síntese do homo
economicus com o homo juridicus como simples ator do mercado que tem leis,
além de direitos, ambos estabelecidos pelas instituições. Por isso mesmo que
recorremos às teorias de Gadamer para afirmar que a linguagem é o sinal da
comunicação devido a sua natureza processual e pragmática.
É na linguagem que os atos comunicativos ganham formas e sentidos.
Jean-Luc Nancy faz uma distinção entre operar e comunicar, classificando a
comunicação como a inoperância de obra social. E é esta mesma inoperância
que torna a comunidade culturalmente forte, resistente à reificação mercantil indo além de qualquer lógica econômica, institucional ou técnica. Os jogos
linguísticos elaborados pelas comunidades sociais criam vínculos, impõem
limites, mostram divergências. No entanto, existe uma dinâmica na criação
de regras, rompendo continuamente com os limites.
A comunidade e a comunicação são constituídas por indivíduos, e não
ao contrário, pois a segunda se faz necessária para fazer do homem um ser
social, dando forma a seus comportamentos, multiplicando de maneira ilimitada a comunidade. Por outro lado, o contexto, a cultura e a comunidade em
que acontece a comunicação desempenham papel importante, pois criam e
transformam os contextos e projetam as relações entre contextos e cultura.
É neste sentido que nos interessa discutir a comunicação como linguagem,
aproximando o conceito de linguagem ao conceito de “fala” saussuriana
como um processo contínuo que evolui também de maneira contínua, criando novas possibilidades a partir de como as pessoas a praticam. A linguagem
é, de maneira abstrata, comunicação, pois é composta de múltiplos jogos linguísticos e caracterizam múltiplas comunidades e formas de vida do próprio
homem. Compartilhar jogos linguísticos é comunicar. A comunicação só
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consegue atingir seus objetivos, tornar comum, por meio dos jogos linguísticos que delimitam e regulam.
Discutir sobre a comunicação como simples transferência obriga-nos a
retomar em nosso texto o debate a respeito do momento crucial da comunicação que é a escuta, caracterizada pelos contextos sejam físico-espacial
ou organizativo-social. Neste processo, há uma dependência da cultura e do
compartilhamento devido, principalmente, a seu caráter dinâmico, processual e autorreferencial. (LUHMANN, 1990, p. 16)
É neste sentido que podemos afirmar que a comunicação cria comunidades, coloca os seus participantes em estado de sincronismo ao criar uma
identidade coletiva que os distingue de quem não participa. É na comunicação que a comunidade toma forma, cria limites e sentido. A comunicação
é a ação que engloba as pessoas na comunidade e não haveria limites e
nem identidades como processo. (LUHMANN, 1979, p. 25) Por isso mesmo,
a comunicação só tem sentido dentro de uma comunidade, pois somente a
comunicação cria comunidade. A comunicação, no entender de Luhmann,
não somente cria, mas multiplica as comunidades. A comunicação multiplica
as comunidades e a multiplicidade de comunidades cria novas formas de comunicações, como se pode observar, hoje, com o incremento das facilitações
para interações comunicacionais entre os indivíduos, ainda que a priori sejam
pertencentes a comunidades distintas.
Acrescentando mais alguns argumentos a essa mesma discussão, JeanLuc Nancy diz que a comunidade e a comunicação são constituídas de
individualidade, pois a comunicação se faz necessária para fazer do homem
um ser social, dando forma a seus comportamentos sociais, multiplicando
ilimitadamente as comunidades em que participa e dando forma a cada uma
delas. De que maneira estes processos que criam, multiplicam, e dão forma
poderiam ser pensados como objetos da comunicação?
Da discussão acerca dos conceitos de comunicação como informação,
transferência, escuta, troca, compartilhamento, diálogo e interpretação podem vir contribuições teóricas e metodológicas para se pensar a comunicação,
hoje, com seus desdobramentos multidisciplinares, intertextuais e tecnológicos. Propõe-se aqui incluir aspectos relevantes nesta discussão a partir das
ideias de Ricoeur e Gadamer sobre as diferentes maneiras que o Outro como
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si mesmo e Outro se fazem presentes nos processos comunicacionais. Podese dizer que se trata de um sujeito diante de outro sujeito, em um processo
contínuo de intersubjetividade. Conviver e viver com o outro, próximo ou
distante, no tempo e espaço, são problemas essenciais da comunicação. No
contexto atual, conviver e viver ganham novas dimensões por meio do uso
massivo das tecnologias de telecomunicação exemplificadas nas redes sociais.
É destas relações que são travados novos tipos de diálogos com consequências
ainda imprevistas, envolvendo a intimidade, a impossibilidade e a pessoalidade como relações sociais. É esse “si-mesmo” como um Outro, é esse Outro
que sou eu mesmo que estabelecemos múltiplas mediações, principalmente
através das obras da cultura que os sujeitos produzem e nela se reconhecem.
A cultura é o reflexo do sujeito que comunica, age e interage consigo mesmo e
com os outros. A cultura como sistema são os fins máximos da Razão. É neste
sentido, como aponta Kant, que se faz necessário um duplo combate contra
o empirismo puro e outro, tão intenso quanto, contra o racionalismo dogmático. A cultura deveria ser entendida em vários sentidos que completam as
dimensões do humano: a cultura, como astúcia, calcula e desvia.
Nossas discussões centram-se na importância que o diálogo representa
para a comunicação. É no diálogo que a linguagem se manifesta, estabelecendo
o encontro de dois mundos com desdobramentos imprevisíveis, transformadores e enriquecedores entre os participantes do processo comunicacional.
É no diálogo que o Outro se faz presente ou se apresenta. Evocam-se
aqui as ideias de Paul Ricoeur ao rastrear esse Outro ou Outros na convivência, na vivência entre, próximos e distantes no tempo e no espaço. Em
relação ao tempo, devemos levar em conta os antecessores como resgate,
como dívida; pensa-se ainda nos sucessores, que como promessa, sofrerão as
consequências das ações, decisões de cada iniciativa. Quanto ao espaço, fala-se dos contemporâneos, próximos e distantes, íntimos ou impessoais ou no
anonimato como sendo relações intrincadas que se aplicam à comunicação,
e não considerar tais complexidades seria fazer uma análise simplista. Difícil
seria não colocar o humano com suas interrogações no centro. Na verdade,
o humano traz de volta as relações sociais que poderiam ser traduzidas na
trajetória sensível “recoeuriana” como puramente comunicação: o Outro que
pode estar à nossa frente ou ao nosso lado. O Outro que está em nós. O Outro
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que somos nós mesmos. Nós mesmos que somos Outro. Esse Outro, diverso
de nós mesmos, somos nós mesmos. O Outro, mas o mesmo. O mesmo, mas
o Outro.
Neste jogo linguístico, percebe-se um processo comunicacional ativo e
profundo. Impõe-se uma reflexão sobre todo o processo, que sem esse exercício, torna-se difícil pensar a comunicação.
Os múltiplos sentidos gerados pelas relações sociais no processo comunicacional não iluminam os problemas do entendimento. As teorias do
diálogo esclarecem as dúvidas. É no diálogo que você esclarece o que quis
dizer. Como escolher entre as várias interpretações aquela que mais se aproxima da tradução da mensagem?
Nesta perspectiva há, primeiramente, a necessidade de entender o
Outro, o humano que está presente em todo ato comunicacional linguístico verbal, tanto na oralidade quanto no impresso e visual. É evidente que se
pode dizer algo e compreender as interpretações divergentes, porém, fazendo
parte de um projeto que pressupõe intenções intercaladas em um jogo de
mensagens explícitas e implícitas.
Encontrar significados divergentes diz respeito à autonomia do autor
ou emissor. O que ele quis dizer pouco importa. A mensagem organizada e
veiculada desprendeu-se das intenções, ganhou autonomia. O que se tenta
interpretar independe do autor. Interpreta-se o que está organizado como
mensagem. Verifica-se que há um abismo entre os dois: o autor e a interpretação do que foi produzido por ele. Não há controle das suas intenções sejam
elas quais forem.
Deste modo, reconhece-se a diferença do diálogo oral e da escrita. No
diálogo, é possível esclarecer as dúvidas. Dizer com outras palavras, de outro
modo. Já na escrita, o leitor interpreta a seu modo. O texto impresso está ali,
organizado e aberto às boas e más interpretações. A tarefa do leitor é objetiva
e ao mesmo tempo ativa. É ele que dá vida ao texto e o faz falar, a seu modo,
é claro. E nesse falar pressupõem-se todas as brechas possíveis. Há um diálogo. É o diálogo do leitor com o texto. Há, portanto, uma briga entre os dois,
estabelecendo uma relação de consciências. Por outro lado, pode-se prever a
imposição do leitor do texto impresso que aproveita de sua suposta condição
de ser agente.
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Se a interpretação, enquanto comunicação, acompanhar as ações, os
acontecimentos e as experiências humanas, se torna imperioso tomar cuidado para não se fechar em apressadas conclusões de que tudo é interpretação
e, em decorrência do assim pensar que todas seriam válidas. Há forças, alheias
ao texto, que, ao se imporem, transformam tudo em verdadeiro jogo. A dimensão objetiva com seus elementos estruturantes transforma-se apenas em
uma base, mas não é suficiente para fornecer segurança e validar as interpretações. Neste ponto, pode-se falar de ideias autônomas: a do autor/emissor
e a do receptor com todas as nuanças que o conceito requer. No entanto, a
materialidade seja verbal-impressa ou visual independente do meio, é base
para interpretação.
O conceito de compreensão faz parte do grande projeto teórico de
Gadamer que levanta discussões comunicacionais esclarecedoras. Isto quer
dizer que o pensamento hermenêutico é na verdade uma dinâmica sequencial
envolvendo a interpretação, abrindo caminho para um completo compartilhamento em constante diálogo, como base para determinar a comunicação.
Na comunicação gadameriana está explícita uma teoria do diálogo que
engloba, ao mesmo tempo, o entendimento e a interpretação, sem esquecer
objetivamente a tradição e a historicidade que estes conceitos comportam.
O contexto é rico em teorias e é justo dar a Friedrich Schleiermacher o papel
de pioneiro, pois foi o primeiro a elevar a hermenêutica a outros parâmetros
que ultrapassaram a simples interpretação, estabelecendo procedimentos
metodológicos de abordagem de textos. É neste ponto que afirma não haver
nenhuma gramática universal que possibilita aos falantes de uma mesma língua se entender e se comunicar. Deve haver sim, um esforço de compreensão
que supere as diferenças. É neste sentido que a comunicação, como diálogo,
deve ser entendida, e fundamentada nas naturezas filosóficas, preponderantemente nas clássicas.
Não se deve esquecer uma outra influência importante nas teorias de
Gadamer, que foi Wilhelm Dilthey ao difundir a compreensão como o elemento diferencial das ciências humanas em relação às ciências da natureza.
Sua proposta era fundamentar um processo rigoroso nas ciências humanas
por meio da compreensão, ligando os vários universos, as várias culturas, as
Teorias da comunicação, a hermenêutica, o diálogo, a compreensão e a interpretação—
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várias vivências, numa tentativa de supressão das distâncias numa prática de
compartilhamento de experiências e de visão de mundo.
Desse modo, acreditamos que a importância de Schleiermacher e Dilthey
encontra-se no feito de direcionar o pensamento hermenêutico, centrando-o
no conceito de compreensão. Constatada a presença dos dois pensadores no
pensamento de Gadamer, é com Heidegger, seu professor, que há um intenso
diálogo, provocando uma radicalização do termo “compreensão”.
Heidegger vê a interpretação como um processo possibilitado pela compreensão que é, na verdade, uma intensificação do conceito diltheyano e
marcará definitivamente os caminhos teóricos de Gadamer.
As mudanças do pensamento filosófico de Heidegger sobre o Ser terão
importância fundamental na dinâmica comunicacional que se estabelece
nessas teorias. O Ser – aí compreende, mas que também se faz compreender
em um processo intruso em diálogo como processo que se projeta no mundo
como vivência e que faz o elo entre a compreensão e interpretação.
Este mesmo elo dialoga com as estruturas prévias já sedimentadas e que
fazem parte da tradição. Por exemplo, a compreensão como comunicação é
um jogo com regras mutantes e o campo desse jogo é formado por elementos
culturais, sígnicos e histórico-linguísticos.
É dessa interação que poderíamos aplicar a ideia de Gadamer de fusão
de horizontes à comunicação, pois, envolve uma pluralidade de elementos
que orientam a performance compreensiva.
Difícil não associar todo esse processo à comunicação, pois, o caráter
institucional tão raro à comunicação se repete na necessidade de compreender e ser compreendido, independente das tecnologias e do número de
pessoas envolvidas.
Os horizontes, os universos culturais se misturam e se interpenetram.
Por isso, faz-se necessário levar em conta os repertórios de vida, de acontecimentos e mundo que formam e determinam as modulações, obedecendo às
condições particulares de cada horizonte que se interceptam. Toda compreensão envolve as estruturas prévias que, na verdade, são indispensáveis para
se compreender ou participar do jogo interpretativo-comunicacional.
Perceber mais elementos ou menos elementos da mesma obra, por
exemplo, já determina os limites do universo de cada participante. É nesse
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esforço de comunicar que entram no jogo comunicativo as trocas repertoriais
necessárias, enquanto o modelo racional ganha espaço. O objetivo não descarta, mas ameniza o subjetivo.
Embora seja necessário que se faça a distinção entre objetivo e subjetivo,
é desse jogo comunicacional que surgem novas compreensões nascidas das
tentativas e correção e autocorreção dos pressupostos.
Toda compreensão, em sua circularidade, é uma realização própria inesgotável das possibilidades de sentidos daquilo que se pretende compreender,
incluindo as repetições que fazem parte das regras do jogo da comunicação.
O sentido de um ato comunicacional, daquilo que precisa ser compreendido, é para Gadamer uma interpretação finita que, porém, não se esgota
e revela apenas uma possibilidade. É nesse sentido que o caráter da compreensão como comunicação é aberto e evita-se sequer pensar em qualquer tipo
de arbitrariedade interpretativa. O que está em jogo é fazer emergir o que
precisa ser compreendido e interpretado, eliminando e superando, com o
intuito comunicativo, as distâncias temporal e espacial presentes no objeto
interpretado.
No sentido específico, a hermenêutica de Gadamer é uma crítica da
compreensão finita, englobando, inclusive, a concepção da linguagem, isto é,
o caráter político da linguagem para além do instrumental.
A c a m i n h o d a s “ n o va s ” m e t o d o l o g ia s
Fazendo justiça ao célebre começo de Crítica da Razão Pura, de Kant, intensamente comentado por Gadamer, quando associa diretamente conhecimento
à experiência, fica explícito que devemos buscar metodologias que acompanhem a ciência no século XXI que sofre os efeitos das teorias e do fabuloso
desenvolvimento tecnológico do século XX.
Ainda estamos fazendo a passagem do século passado, pródigo em
experimentações e teorias, mas foram esses mesmos movimentos que contribuíram para um novo projeto político e social cuja práxis dividiu o planeta
em duas ideologias. É neste sentido que ainda estamos praticando as mesmas teorias, pensadas no século passado a provocar dúvidas quanto às suas
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justificativas e aplicabilidade no século atual. Por exemplo, retomar Kant, ao
assumir que conhecimento e experiência revelam a essência do ser humano
e é caminhar em uma determinada direção em que há um saber adquirido,
através da práxis, acumulado pelas vivências, verificado não só na herança
cultural e na tradição, mas acima de tudo na necessidade de teorias e métodos que pensem esse sabor/saber subjetivo e instável e busquem caminhos
científicos seguros para a experiência em nosso contexto.
Não é possível avaliar em que dimensão poder-se-ia adaptar as teorias
existentes ou, por outro lado, buscar novas que justifiquem a tentativa de
delimitar os objetos, mesmo considerando ser interminável a tarefa do pesquisador que é a de determinar o objeto, no contexto contemporâneo da
práxis como aplicação da ciência, pressupondo também escolha e decisão,
o caráter infinito de ciência que, se contrapõe ao imediato de práxis. É neste
sentido que a ciência não é mais a essência do sabor/saber sobre o mundo e o
ser humano. A ciência moderna se traduz em experiência.
Ultrapassar a estreiteza dos preconceitos já é, em si, a tentativa de se
abrir para o outro, encontrar no outro o encontro de horizontes, a troca
de experiências que se dá verdadeiramente como comunicação no diálogo.
Nesse intercâmbio, há o acordo com consenso, mas com desfecho ainda ignorado comportando aventuras e riscos com final imprevisível.
Em sua essência, o diálogo se constitui como um processo linguístico para Gadamer, mas ampliando um pouco mais o conceito de texto, com
sentido linguístico, metodologicamente, incluímos às imagens eletrônicas
(digitais ou analógicas) pictóricas também como objetos hermenêuticos, que
abarcam inclusive as linguagens, ampliando ainda mais o espaço de troca, de
diálogo enquanto compreensão de mundos, realidades e horizontes.
Especificamente do caso brasileiro e também da América Latina para
falar de teorias, faz-se necessário fazer uma retrospectiva, abordando as intrincadas questões históricas e culturais que são, acima de tudo, autor de
questões políticas. Por exemplo, os meios de comunicação de massa, em sua
totalidade, estão inseridos em um jogo político com funções determinadas,
ainda que negadas peremptoriamente. Negação que nada mais é que fruto de
cumplicidade. São as contradições latino-americanas que precisam, dialeticamente, ser estudadas para que um esboço teórico comece a ganhar forma e
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fazer justiça ao sentido da palavra Theoria, que, vista de modo ampliado, quer
dizer cortejo, ritual organizado com muitos participantes com a finalidade de
justificar as práticas comunicacionais.
É neste sentido que cultuar e cultivar e pensar as práticas juntamente
com os instrumentos possibilitam enxergar o aliens, o alheio, o estranho, mas
dominador e feitiço tanto quanto o colorido das miçangas trocadas em um
processo contínuo de colonização.
Estamos sob a ação de fetiches – alienados e encantados que somos pela
teoria. Há que se desencantar para de novo voltar a nos reencantar. No Brasil
e América Latina, as coisas são e não são ao mesmo tempo. Algo próximo ao
realismo mágico de Gabriel García Márquez, restando buscar respostas que
poderão estar na arte, na literatura, na cultura e na poesia.
O século XXI, em nosso contexto geográfico, deveria retomar os ideais e
refazer o convite de Feuerbach ao ativismo revolucionário do século passado.
Considerações metodológicas
Tornou-se necessário retomar aos teóricos que tratam da história da ciência, quando discutem os acontecimentos científicos colocados em sequência
ou deslocados de seus contextos, as crises e surgimento de novas teorias. No
entanto, é importante salientar que a história da ciência não se constitui somente do acúmulo de práticas, de ideias e de teorias.
As questões filosóficas trazem à luz elementos que provam a herança
dos iluministas que, por sua vez, retomam Platão e Aristóteles ao proporem
o uso livre da razão e do intelecto que viria a determinar a cultura do século
XX, englobando o mundo da técnica com seus desdobramentos relacionados
à informação, conhecimento e suas contradições.
Baudrillard e Postman, por exemplo, enfatizam que o acréscimo da informação não acarreta o aumento do conhecimento, ou seja, a inflação da
informação pode significar “deflação do sentido”, crise que atinge o auge com
os media, o computador e a internet. Constituem discussões necessárias para
se pensar a comunicação hoje, envolvendo, obviamente, os conceitos de memória artificial garantida para os meios de comunicação de massa.
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O tema da memória e da construção de sentidos é pertinente na sociedade da informação com seus computadores e redes sociais, que podem
ser vistos como máquinas de memória capazes de registrar, transmitir e memorizar tudo. São insuperáveis, quando comparadas à Enciclopédie, que não
conseguia uma atualização instantânea como fazem atualmente as redes
sociais.
No entanto, todos os suportes materiais fazem e sempre fizeram esse
mesmo papel: armazenar, prolongar e reter a memória humana, pois, diante
da necessidade constante de atualização, se percebeu, inevitavelmente, os limites da memória humana, incluindo os objetos. Por exemplo, a arte com sua
capacidade de reter e comunicar.
A comunicação como processos constantes de atualizações, trocas e
compartilhamentos teria a tarefa de provocar interpretações em seus múltiplos sentidos e, mais ainda, instituir diálogos.
Sobretudo, aludíamos a alguns pensadores como, por exemplo, Francis
Bacon, ao fazerem colocações sobre o método científico e a necessidade de
isenção de preconceitos, devendo-se travar uma luta constante contra a generalização apressada, típica da natureza humana.
Bacon propõe muito cuidado com estes estados na observação, atenção especial às ideias recebidas da educação, cuidados e precisão no uso da
linguagem. Por fim, chama atenção para necessidade de se desenvolver experiências específicas para atender às interrogações científicas de pesquisa.
Quando se discute as teorias e os fatos que as acompanham, Popper
nega qualquer lógica na descoberta científica. Pode-se valer de tudo: insights,
intuição, imaginação e observações controladas.
Fazer uma leitura atenta da profusão de teorias e discussões metodológicas deverá ser atividade constante desta nossa pesquisa rumo ao entendimento
e conhecimento das teorias da comunicação. Metodologicamente, existe
uma relação estreita entre comunicação e cultura. Poderíamos dizer tratar-se de uma imbricação perceptível nas práticas e nas trocas, e inclusive nos
conceitos.
Por isso mesmo é que Edward Hall estabelece uma grande tríade composta de estados de consciência relacionados diretamente aos conhecimentos
e práticas formais, informais e técnicas que, por sua vez, se desdobram em
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efeitos que se ligam estreitamente a essas mesmas categorias, completando
os vários sentidos nas relações humanas diretas como a própria essência da
comunicação.
Dessa relação triádica, pensada como comunicação e cultura, é que se
busca reunir as diferenças culturais e comunicacionais divididas em países e
regiões com suas especificidades como justificativas teóricas da comunicação, com todas as suas contradições observáveis no século atual.
Não se pode esquecer, por exemplo, do encontro frutífero da desconstrução de Derrida com a Hermenêutica. Lembramos ainda do tradutor
italiano de Verdade e Método, Gianni Vattimo, que associou o pensamento de
Gadamer a um niilismo feliz.
Acrescente-se o trabalho que R. Rorty faz com as ideias gadamerianas a
estabelecer caminhos com vias diretas do pragmatismo norte-americano e a
hermenêutica.
São discussões travadas no contexto da modernidade (pós) do século XX
que poderão gerar frutos teóricos e metodológicos frente às relações de pensamento e reprodução do “real” inconstante, na atualidade, e de seus efeitos
no Outro, centro de interesse da hermenêutica com as teorias do diálogo, da
compreensão e da interpretação. É a relação do Eu com o Outro que na verdade é a essência da comunicação.
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Teorias da Palavra II
De conexões e relações
Paulo B. C. Schettino
Introdução
A Comunicação, apenas recentemente, ganhou, pouco mais de um século,
a importância que detém atualmente e o status de figurar como um ramo
das ciências sociais aplicadas. Isso se observa, não apenas em função de sua
presença no processo cotidiano de interação das pessoas, mas principalmente
devido a sua transmutação em objeto de pesquisas e formulações de teorias
construídas na intenção de seu conhecimento. A presente comunicação que
agora se faz em texto acadêmico, por sua vez, resulta e dá continuidade à
pesquisa que empreendemos para o Programa de Cooperação Acadêmica
(Procad) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes), priorizando a palavra como ferramenta e instrumento principais do
fenômeno humano comunicacional ao independer das coordenadas tanto
espacial quanto temporal, desde que se verifica sua presença constante em
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todas as formas de tecnologias utilizadas ao longo de toda a história do desenvolvimento da humanidade e evolução de sua práxis.
O Projeto Procad, ao reunir pesquisadores das teorias da comunicação
de quatro universidades do país, nos deu o ensejo e liberdade de enveredar,
cada um à sua escolha, pelos temas que a seu ver particular avultam em relação a outros, quando dividimos com alunos em sala de aula o resultado de
nossas investigações. É no diálogo que remonta ao Sócrates de Platão que somamos o nosso pensamento ao do outro/outros e tecemos com a onipresente
palavra os diferentes tipos de texto, seja na dissertação, na descrição, na argumentação, ou, finalmente, na narração, como quer Othon M. Garcia. Dessa
forma, Garcia nos fornece a principal, e uma das possíveis sistematizações
da tipologia textual; ao longo de nossa pesquisa, sentimos, ocasionalmente,
a necessidade de diferenciar os textos segundo outros parâmetros, como se
perceberá ao longo de nossa exposição. Por exemplo, quando recorremos ao
apoio teórico de Gérard Genette, somos levados à opção de pensar a oposição
Oralidade e Grafismo ou Fala e Escrita entre a diferenciação dos pares, se
por modo ou forma. Genette, a princípio, quando questiona a divisão textual clássica dos estudos de Gênero Literário centrada na tríade composta
por Épico/Lírico/Dramático, sedimentada sobre bases históricas que considera falsamente apoiadas em Platão e Aristóteles, reduz e propõe usar como
parâmetro o Tema abordado pelo produtor do texto como principal elemento
separador, e coloca Épico/Narrativa de um lado e Dramático como Modos
de expressão deixando a Poesia (universalmente confundida como Gênero
Lírico) limitada à questão da Forma – junto à opção de ser Prosa ou Verso –
nesse sentido, Verso jamais seria sinônimo de Poesia ou do expressar-se pelo
Poético, e coloca também como opção de questões formais a utilização de
diferentes línguas e linguagens. Mais à frente poder-se-ia pensar a Poesia ou
Lirismo como a possibilidade de atingir-se, paradoxalmente, o intangível por
meio da capacidade de figurativização do produtor do texto quando abandona a objetividade do texto “prosaico”.
O texto de Chico Buarque, que usamos como epígrafe, ilustra o pensamento de Charles Morris quando dá ao signo verbal as dimensões
pragmáticas, sintáticas e semânticas. Quando o compositor nos permite metaforizar a concretude do tijolo do pedreiro, transmutando-o em palavra, por
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consequência, a parede real que vimos ser levantada pelo obreiro associa-se
ao texto verbal de conteúdo intangível construído com palavras utilizadas
como unidades mínimas textuais à semelhança dos tijolos. E, assim, nos pomos a fiar, palavra com palavra, ora um texto mágico, ora um texto lógico, ou
para os melhores tecelões – mágico e lógico.
A busca da palavra adequada – le mot juste –, entre as tantas possíveis
de um dicionário é que diferencia o ourives da comunicação verbal do outro tecelão preocupado antes com a intenção de transmitir uma informação
imediata. Desse modo, de novo, podemos perceber mais uma divisão clara
em dois tipos distintos nos textos que produzimos: textos subjetivos e textos objetivos. Da primeira tipificação pertencem os textos em que o autor se
permite extravasar todo o seu universo interior, ao abusar da figurativização
verbal – metáforas, na teoria literária ou símbolos, nas teorias da comunicação – aqui transformados em sinônimos, por meio de palavras existentes em
seu repertório; enquanto que o segundo tipo reúne textos que priorizam o
objeto principal da informação, sendo neles proibidos elucubrações fantasiosas do autor, viagens semânticas pelo universo dos sentidos diversos de
uma palavra e uso de figuras da linguagem verbal. Em suma, neste processo
de escolha se encontram em jogo de oposição a subjetividade e a objetividade
do autor textual.
Aqui trataremos primordialmente de comunicação; comunicação
humana; ciências; fenomenologia; mediações e as relações e conexões traduzidas por vínculos que estas palavras possuem com os conceitos básicos
de três categorias, a saber: comunicação – entendida como “fenômeno”; cultura – como “estado”, e educação – como “processo”. Se concordarmos com
Teilhard de Chardin e aceitarmos que a existência do homem, imerso em uma
miríade sem fim de outros seres vivos, constitui-se no que o autor chamou de
“fenômeno humano” também se enquadrariam na categoria de “fenômeno”
os impulsos inatos para a busca de relações com o outro, sejam quais forem
suas molas propulsoras ou ainda desconhecidos interesses, que em diferentes
formas somadas poderíamos considerar como “comunicação”.
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Da c o m u n i c a ç ã o e d a c u lt u r a
Tudo começou por algo que chamamos pele. Os estudiosos de citologia sabem
que a protocélula viva – a primeira que soube engendrar-se – surge após o
isolamento de uma porção do todo como decorrência ao desenvolvimento de
uma membrana a dividir o dentro e o fora provocando a imposição de limite.
O dentro – em tudo igual ao fora – mantém com a outra parte uma relação de
trocas permitindo a entrada parcimoniosa do outro em si, partes estas utilizadas como alimento necessário para a sua manutenção e devolvendo para fora
o rejeito após o processamento da matéria entrante. Essa relação primeira – a
princípio uma “comunicação” ou relação, conexão? – bilateral entre o ser vivo
e seu habitat, passará a ser reconhecida como simbiótica quando a parte isolada dá início a produção de seus semelhantes, formando colônias com seus
pares, e fora, outras formas de seres vivos surgirem além de suas colônias imersas na imensidão do meio, também a formarem colônias sempre mantendo
uma atividade de troca que interessa a todas as partes. (CAPRA, 2002)
A matéria isolada parte para a viagem infinita das modificações e novas
identidades que por força surgirão alhures frutos da complexidade crescente
de seus centros ocupados por algo que se esboça – segundo Chardin: a encefalização progressiva rumo à complexidade do cérebro, a princípio objetivando
a manutenção da geração de seus pares subsequentes. Quando uma dessas
embrionárias formas de vida se desgarra ao assumir a sua diferença, um novo
grupo social se forma, guerreiro, que lutará com unhas e dentes (quando os tiver como mecanismo inato de defesa de si e de sua prole) pela manutenção de
sua diversidade e de sua cultura e de sua colônia. A produção da pele durante
a ontogênese humana, enquanto que isola a individuação, irá proteger seu
interior, mas por outro lado, garantirá as relações e conexões com o exterior
devido à sua porosidade, à semelhança da prestação de serviço realizado pela
membrana da protocélula primordial. Isoladas ilhas somos, mas nem tanto.
Incorre-se no erro, ou no “pecado” de soberbia aquele indivíduo que esconde
a sua dependência à relação que nega ao Outro, algo imprescindível de muito
humano que Tzvetan Todorov chamou de necessário Reconhecimento do “simesmo” pelo Outro, desejo de nele ver o seu reflexo. E nascemos todos com
essa necessidade e a aparelhagem de órgãos próprios criados pela natureza
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em nós, com o fito único de nos capacitar a estabelecer conexões e relações
que chamamos de “fenômeno comunicacional”.
A Comunicação como um Enigma
Empreende-se a busca do significado – sobre o enigma proposto na enunciação do emissor, conforme Hegel, quando afirma tratar-se de um jogo
estabelecido entre emissor e o receptor. (HEGEL, 2000) O verdadeiro significado (ou sentido) da matéria expressada é obviamente conhecido pelo emissor
ou propositor, e forma e substância que se utilizam no ato de expressá-lo seriam por meio de símbolos/signos/frases/ou texto proposto como enunciado.
A decifração do enigma por parte do receptor é intencionalmente dificultada
pelo emissor que embaralha a seu modo os dados propostos, que reunidos
formam uma unidade ocultada insidiosamente, e esta unidade seria o conteúdo ou significado ou sentido da mensagem, em suma: a resposta do enigma
proposto. Existem duas engenhosidades nesse jogo. A primeira pertencente
ao emissor na construção do enigma que comporta a escolha das partes constituintes que decide usar para, depois de reunidas, comporem uma unidade
– a solução do enigma. E da parte do receptor cuja engenhosidade consiste
em sua capacidade ou competência de reconstruir a unidade que se encontra
oculta pela escolha e disposição das partes no todo, e – EUREKA! – Saquei!
É justo esse momento de epifania ou revelação ou desvelamento da solução
ocultada que se entenderá como semiose.
Por engenhosidade a equipe de tradutores preferiu traduzir a palavra
alemã (Witz, ingenium) a capacidade de perceber semelhanças ou conexões ou
relações em coisas diversas: perspicácia do receptor que em segunda instância
é capaz de perceber várias coisas diferentes dentro do todo. Em suma, existe
engenhosidade em perceber semelhanças e as reunir em um todo – construção; e no inverso: do todo (unidades) em direção às suas partes componentes.
Em suma: trata-se de duas competências – construção e desconstrução/análise e síntese. De parte do propositor: a sua escolha dos sígnos elementares
– palavras ou imagens, ou palavras e imagens – que irá utilizar no seu engenho de simbolizar/ocultar/velar sua proposição fruto de sua construção/
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codificação do símbolo; deixando para o receptor a tarefa de desconstrução e
decodificação no intento de decifrar o momento epifânico da semiose.
Será necessária a aquisição de competências específicas para decifrar ou
decodificar as palavras que vemos ou ouvimos a partir das portas da percepção
constituídas pelos inumeráveis buracos que tornam a nossa pele permeável
– qual a célula primordial – e pelos sete “buracos” que possuímos em nossa
cabeça, sendo que quatro deles distribuídos em duas duplas quase idênticas
unidas por iguais funções que desempenham, dois a dois – a dupla que permite a entrada em nosso cérebro dos estímulos produzidos pela luz, e a outra,
que permite a entrada dos estímulos produzidos pelo som. O processo desencadeado que se realiza quando escutamos ou vemos a frase “Queimar navios!”
já não significa que sairemos em desabalada carreira com tochas de fogo nas
mãos em busca de inexistentes embarcações. Se o fato ocorresse bem longe
de rios ou mares, indagaríamos: “qual?”; ou ainda, “onde?”; ou talvez, “cadê?”.
Trata-se de uma longa viagem até ao entendimento para quem fica exposto a essas palavras e perceber que só existe um destino para si, que é o de
seguir sempre em frente. Desse modo fica bem mais claro para nós a relação
ou conexão que podemos fazer entre as palavras que designam e denotam
as diferenças entre o fenômeno comunicação e o processo educação. Para a
comunicação fica a competência de produção e recepção das palavras, enquanto que o processo educacional se confunde com a sua principal função,
que é o ensino do uso das diferentes linguagens possíveis ao ser humano tanto na sua vez de produzir como na de receber palavras.
Há, hoje, um segmento específico da área das teorias da comunicação
que se preocupa essencialmente com as relações entre comunicação e educação, chamadas intimamente por alguns pesquisadores de educomunicação, a
reunir conhecimentos de intersecções observáveis nestes dois universos do
conhecimento. Não se “educa” um aprendiz para que ele se transforme em
um “clone” do mestre, no mais das vezes, mal formado, que seria no mínimo
trágico ou patético, e sim para dotar o educando de conhecimento da linguagem, seja ela qual for, que o tornará apto a se comunicar. E, desse modo, capaz
de compreender a si e ao seu habitat que é, em suma, a sua circunstância, com
o acréscimo de, em conjunto com o outro, juntos, provocarem a mudança
de estado da cultura comum que codividem. São as linguagens criadas pelo
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homem, com o fito na comunicação, que irão multiplicar a cultura estilhaçando-a em culturas, quantas forem as mudanças de estado produzidas pela
comunicação no seio de uma comunidade de humanos que se transformam e
estão continuamente a transformar a sua comunidade e sua cultura.
D e a l i t e r a ç õ e s e a s s o n â n c ia s
Diz-se que os vocábulos vida e vento têm muito mais coisa em comum além
da consoante inicial; ambos juntam ou separam, aleatoriamente, gentes e
coisas. Portanto, de aliterações a aliterações chegamos ao vínculo ou associação ou relação ou conexão entre duas palavras ligadas indissociavelmente
por amálgama bem mais forte ou infinitamente mais forte que a sonoridade
inicial que ambas utilizam.
Diz-se também ter sido por imitação ou mimesis dos sons circunstantes
da natureza que o homem primordial deu os primeiros passos em direção à
capacidade de gerir os sons que produzia. Alguns chegam a imaginar o homem aprendendo a modular e cadenciar seus sons mimetizando os sons que
ouvia dos pássaros ou da repetição dos marulhos das ondas do mar. Não é
de se espantar quando se constata que, dentre os filósofos gregos anteriores
a Sócrates, muitos deles colocaram o Movimento ao lado das quatro raízes
da natureza – ar, água, terra, fogo – e das duas forças – Philia/Neikós; amor/
ódio; atração/repulsão – na constituição do cosmo. Do movimento repetido,
cadenciado e ritmado nasce a música, o modo maior de expressão criado pelo
homem e que nela se embute a palavra, sonora de início.
Desde o seu surgimento os detentores da palavra possuirão o poder.
Palavra e poder sempre caminharão juntos, a primeira, tanto na forma oral
quanto escrita. Os primeiros escribas que se tem notícia, da Suméria ao Antigo
Egito, se não foram poder, dele se locupletaram. Fazendo como Kubrick e
Clarke e construindo uma imensa elipse temporal – que não nega a evolução
histórica da humanidade que passa por sucessivos impérios, todos assentados
sobre a díade palavra e poder – chegamos ao nosso tempo dos Boothe-Luce,
Roberto Marinho, Mondadori, Assis Chateaubriand, Murdoch e afins, todos
muitíssimo bem representados pelo Cidadão Kane de Orson Welles.
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Os sete postulados da comunicação verbal
Os sete postulados da comunicação verbal em direção à sua crescente complexidade partem da palavra como unidade mínima do discurso, enovelando-se
à medida em que, paulatinamente, adquire-se a competência não apenas de
sua elaboração mas também rumo ao pensamento desdobrado, ao mesmo
tempo que tece a produção de sua materialidade em um texto verbal, oral ou
escrito. Quando em debate precisamos nos fazer entender frente aos alunos
da disciplina de teorias da comunicação, aludimos a um estágio da ontogênese humana anterior à aquisição e uso da palavra que denominamos de
Pré-Comunicação ao lançarmos mão do prólogo do filme 2001 – Uma Odisséia
no Espaço. Realizado pela dupla de criadores formada pelo cineasta Stanley
Kramer e Arthur C. Clarke, justo a sequência da luta pela posse da água por
dois grupos rivais de hominídeos, visiona-se a necessidade de se fazer entender pelo outro por meio do uso de dois recursos paralinguísticos: sons ainda
inarticulados de alta intensidade transformados em urros, gritos e grunhidos
devidamente acompanhados de expressões faciais exageradas e exageradas
utilizações integralmente do corpo, em que se sobressaem gesticulações desordenadas dos braços e mãos. Produção alternada de som e imagem com a
intenção clara de atemorizar e ameaçar traduzindo um esboço de discurso
comunicacional com o conteúdo ainda não verbal de avisar ao outro o horrível que lhe aconteceria caso não desistisse de seu intento. Em outro estágio
de sua evolução, tanto o homem arcaico, já de posse da palavra, quanto nós,
ainda em nosso tempo, não iríamos abandonar de vez a utilização teatral do
corpo para reafirmar e amplificar as palavras que utilizamos nas nossas relações interpessoais. O escritor inglês, Conan Doyle, em sua obra O Mundo
Perdido, contribui para reforçar a estreita conexão que podemos estabelecer
entre a palavra e as diferentes culturas.
Logo após, a tribo inteira realizou um conselho, sentada no chão,
em círculo; durante o conselho, nós nos mantivemos sentados ali
por perto, numa laje de basalto, contemplando a cerimônia dos
índios. Dois ou três guerreiros fizeram uso da palavra; por fim, o
nosso jovem amigo, o índio chefe, procedeu a uma arenga fogosa; empregou expressões fisionômicas tão eloquentes, e gestos tão
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consentâneos, que nos foi possível entender tudo o que ele disse,
com tanta clareza como se conhecêssemos o idioma dele. (DOYLE,
1987, p. 13)
Com os grifos que fizemos queremos chamar atenção para as associações possíveis com alguns conceitos saussurianos da comunicação verbal: 1)
“uso da palavra”, 2) “empregou expressões fisionômicas”, 3) “gestos”, 4) “entender”, e por fim, 5) “idioma”, ou seja, 1) fala (parole); 2 e 3) paralinguagem; 4)
semiose; e por fim, 5) língua (langue).
Starobinski nos chamou atenção para uma pesquisa que Saussure empreendia e abandonara sobre o tema das palavras ocultadas pelas palavras
– os anagramas – que hoje somente encontramos nas revistinhas de passatempo vendidas nas bancas de jornal. Saussure foi em busca de palavras
escondidas entre as palavras que compunham os versos de autores clássicos.
As encontrou nos versos de Homero, Virgílio, Lucrécio, entre outros, o que
nos indica tratar-se de pensamento semelhante ao de Hegel, quando este
assinala o discurso do emissor da comunicação como a proposição de um
enigma a ser decifrado/decodificado pelo receptor, conforme vimos anteriormente. Presentemente, revisitando as narrativas de “aventuras” encontramos
um sem número de romances, novelas e contos que partem de um enigma a
ser decifrado pelo herói em seu percurso narrativo como principal arcabouço
do texto – de Poe (O Escaravelho de Ouro), Verne (Viagem ao centro da terra;
A Jangada); Doyle (no já citado O Mundo Perdido). Senão, vejamos: após uma
longa exposição dos métodos adotados para decifrar o enigma proposto em
O Escaravelho de Ouro, a pesonagem-narradora diz ao seu interlocutor:
No caso atual, e em suma em todos os casos de escritas secretas, a
primeira questão a resolver é a lingua da cifra, porque os princípios
de soluções, particularmente quando se trata de cifras mais simples, dependem da genialidade de cada idioma e podem ser modificados. Em geral, não existe outro meio senão tentar sucessivamente, dirigindo-nos segundo as probabilidades, a todas as línguas que
nos são conhecidas até encontrarmos a boa. Mas, na cifra que nos
ocupa, qualquer dificuldade a esse respeito acha-se afastada pela
assinatura. O jogo de palavras com a palavra Kidd só é possível na
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língua inglesa. [...] No caso presente, porém, presumi que o criptogramas era inglês. (DOYLE, 1987, p. 29)
Alguns anos mais à frente de Poe, o francês Júlio Verne (1973, p. 25)
praticamente reproduz suas palavras então no seu Viagem ao Centro da Terra:
É o que chamamos criptograma, combinação na qual o sentido
se oculta baralhando de propósito as letras. Dispondo-as convenientemente hão-de dar uma frase completa. E talvez esteja aqui
a explicação, ou pelo menos a indicação, de algum descobrimento
maravilhoso.
.....................................................................................................................
Primeiramente é preciso saber o idioma do criptograma. Coisa
simples! Temos aqui cento e trinta e duas letras, das quais setenta
e nove consoantes e cinquenta e três vogais. Ora é nesta proporção
que são compostas as palavras das línguas meridionais, ao passo
que os idiomas do Norte exigem muito mais consoantes. É, pois,
uma língua do Sul.
.....................................................................................................................
- É latim, não há dúvida! – dizia o doutor –, mas latim transtornado.
.....................................................................................................................
Parece que a frase primitiva foi regularmente escrita e depois
transformada conforme uma lei, que é preciso descobrir. Quem
possui a chave desta cifra leria corretamente. Mas, qual é a chave?
Sabes qual é a chave, Axel?.
Chamamos a atenção para que se observe nos dois autores a utilização praticamente das mesmas palavras como enigma, criptograma, língua,
ocultação, engenho, entre outras mais que também encontramos em Hegel,
quando propõe a comunicação como enigma. Deve-se ressaltar que associamos o termo “cifra” à noção de “código”, quando tratamos de construção de
linguagem no campo da comunicação. Deixamos de citar trechos semelhan-
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tes de autoria de Conan Doyle em virtude de serem em grande quantidade,
incontáveis, mesmo em sua série de narrativas dos casos protagonizados por
sua personagem principal – Sherlock Holmes –, e pelo exaustivo trabalho sobre o assunto e autor nas obras do italiano Umberto Eco, desde o clima de
decifração de enigma que emula em O Nome da Rosa ao destaque quando se
refere ao O Signo dos Quatro, de Doyle.
A Palavra
A primeira aquisição da primeira ferramenta da comunicação se dá pela doação da palavra, conforme assinalamos na primeira parte de nossa pesquisa.
E é em sua forma oral que a registramos junto à primeira imagem percebida.
Em termos de fragilidade e dependência, o “filhote” do humano perde tão somente para aqueles da classe zoológica dos marsupiais – os nossos brasileiros
“gambás” e os australianos cangurus, que nascidos prematuros se escondem
em bolsas apropriadas das suas mães para completarem sua ontogênese. Sons
e imagens se misturam indistintamente provocando movimentos desconexos de olhos esgazeados e torções de cabeça em busca da fonte geradora do
estímulo percebido, acompanhados de movimentos convulsivos das mãos em
tentativa de apreensão de algo que desconhece. O filhote do humano, com
sua extrema fragilidade e dependência, deitado em decúbito dorsal, muito
se assemelha às tartaruguinhas, que para serem caçadas e detidas em sua
desabalada carreira salvadora são viradas com o casco para baixo sacodem desordenadamente ao vento seus principais órgãos de relação – cabeça e braços
e pernas. Também suscita a lembrança da reprodução do Menino na manjedoura das pinturas renascentistas, e na estatuária dos presépios napolitanos.
Ininteligíveis a princípio, as primeiras palavras se somam à primeira luz que
vemos.
Desse modo, tem-se início à reconstrução ou representação do mundo
circunstante sob a forma de signos, portanto, virtual em sua essência, procedimento nominado por Blikstein de “fabricação da realidade”. É o russo
Luria que complementaria Izidoro, e nos esclarece como se processa em nós,
paulatinamente, a capacidade de acoplar sons e imagens até chegarem à imagem do mundo devidamente concebida como uma representação audiovisual
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do primeiro espetáculo das coisas do mundo – palavra e imagem já agora
indissociáveis e indistintas. Amalgamadas no hólo da representação sígnica,
mantêm entre si uma relação biunívoca: transformamos palavras em imagens
e imagens em palavras. Tornamos a nos apoiar em Saussure e seu estudioso
Starobinski para estabelecer conexões entre a palavra, sua amplificação na
complexidade da língua, e o discurso nas palavras de Saussure, quando afirma
que a língua nasce por determinação da necessidade imperiosa do discurso
e indaga para si o que separaria este daquela, e mais ainda: o que permitiria
dizer que a língua somente entra em ação como discurso?
A perífrase e o provérbio
Encontramo-nos no vasto terreno da frase em que as palavras, vistas como
sígnos quando proferidas ou registradas em sequência em série numérica, estabelecem entre si uma relação de dependência que resulta em outro signo,
agora mais complexo, com outro significado, fruto do que Morris chamou de
dimensão sintática do signo – a competência que todo signo detém de se ligar
a outro para geração de outro ainda maior – aqui, no nosso estudo, a palavra
–, que ao ligar-se a outra produz o sentido pretendido embutido na intenção do propositor constituindo seu discurso. Eis a frase em seu nascedouro
como variável dependente da fonte (emissor? receptor?) ou qualquer que seja
a intenção ou necessidade que a faz surgir. Usualmente encontradas nos manuais de gramática a dupla Castro Alves/O poeta dos escravos confirma a
ideia hegeliana de proposição de enigma comunicacional quando o emissor
opta primeiro pela enunciação do epíteto ou apelido do poeta baiano, e a frase “O poeta dos escravos” se traveste de perífrase – ou frase encobridora – da
resposta esperada: “Castro Alves”. Toda perífrase, mais complexa que a palavra a embute, encobre ou oculta, e abusar de seu uso é tentativa de dificultar
o discurso direto da comunicação transformando a performance da fala em
circunlóquios, isto é, divagações figuradas ao contrário de dirigir-se à palavra
que intencionalmente permanece no centro de círculos periféricos constituintes da linguagem enigmática ou criptografias – a palavra que deveria ser
objetiva “enterrada” em tumbas construídas de palavras.
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Das frases curtas, tais como: – “Mim, Tarzan” e – “You, Jane”, até as longas frases complexas capazes de conterem “pensamentos desdobrados” vai
– segundo Vygotski, Luria, Piaget, entre outros autores – um também longo
percurso histórico da evolução da humanidade à semelhança do longo período
de aprendizagem da infância do indivíduo moderno à posse de competências
para sua enunciação. Do homem comum ao poeta, seja por imitação ou por
ato criador de textos verbais como reclama Aristóteles para aqueles por ele
denominados de “poetas”, sobraram as frases que a História registra, com
ou sem autoria explicitada, verdadeiros patrimônios universais da cultura.
Disseminadas pelos quatro cantos do mundo, às vezes atemporais ou datadas,
frutos que são do conhecimento empírico dos que vieram antes de nós, essas frases nos governam “mais do que a anatomia” como querem o escritores
Gore Vidal e Dorothy Parker. Elas formam uma semiosfera a volutear invisíveis, porém, sentidas ou lembradas, em volta de nossas cabeças e se fazem
presentes quando delas precisamos, seja como um veto às nossas ações ou um
aviso de atenção. A depender de forma ou ocasião podemos chamá-las por
muitos apelidos: Adágio, Moral, Máxima, Ditado... ou, também, provérbios.
O Período e o Parágrafo
Concretizada dentro do indivíduo a aptidão para o uso da palavra, oral ou
escrita, e partindo em direção à complexidade crescente da comunicação, a
depender da competência adquirida de expressar seu pensamento desdobrado vai-se construindo textos cada vez mais longos. Falar ou escrever demanda
aprendizagem e nos faz vir à mente a memória do registro icônico dos três
macaquinhos com as mãos ora vedando a boca, ora vedando os olhos, ora
vedando os ouvidos a nos ensinar o adágio popular: “Quem não lê mal fala,
mal olha e mal vê”, e também a outra: “Quem não lê, não escreve.” As crianças
mantidas à margem do convívio humano, conforme registro de vários autores
e, entre eles, principalmente Bakhtin e Wittgenstein, corroboram com seu
silêncio e incapacidade de se relacionarem com o outro e com o mundo as já
citadas palavras de Bakhtin, quando assevera que são do outro as palavras que
usamos. Encontramos laconismo e seu oposto, a prolixidade nos indivíduos
com que interagimos. Há alguns que nos aturdem pelo sequencial inesgo-
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tável de palavras emitidas oralmente e dentre eles, os mais espertos fazem
disso o seu meio de vida – o poeta Billy Blanco, com seu bom humor que lhe é
peculiar, identifica dentre eles as profissões de camelôs ou políticos, mestres
da oratória em seu discurso fácil e copioso. Períodos e mais períodos vão sendo construídos, em caudal, prolongando-se em parágrafos e mais parágrafos.
O que se observa no domínio da fala também tem seu sucedâneo na competência da palavra escrita – oradores e escritores sempre estiveram à frente ou
junto ao poder que lhes concede a palavra.
A Parábola
A narrativa como o locus do mito – duas palavras que se confundem etimologicamente no grego –, compreendendo-se ela mesma como o próprio mito,
já que produzida por um narrador ou pela própria personagem transformada
em Herói passa a ser construída passo a passo a sua História. Tal como a
perífrase que por meio de circunlóquios oculta a palavra, a parábola também
é encobridora construindo-se ao mesmo tempo em que se desnovela ao se desenredar, figurativizando a ponto mesmo de abusar de metáforas e alegorias,
e nesse trabalho de se construir prolixamente, nada mais intenta que ocultar
o provérbio. Tudo vale lançar mão para que fatos se transformem em fábulas
– as suas representações – desde “imaginar” um tempo que indistintamente
animais e gentes dialogavam, e que em estado de latência, enigmaticamente,
a narrativa-esfinge espera que o seu receptor consiga desvendar a síntese de
seu conteúdo resumido na frase.
É, como veremos adiante, esse mito ou narrativa que reproduzido e alterado incansavelmente, por diversas razões, irá se constituir no elemento
catalisador capaz de aproximar os diferentes meios de comunicação.
A Paráfrase
A intertextualidade em suas diferentes formas em concordância com sua natureza de diálogo entre textos verbais, de início, para sua possível ampliação
entre textos de outras naturezas, tais como os predominantemente visuais ou
imagéticos. A sua ocorrência é sutil a depender de uma antena sensibilíssi-
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ma portada individualmente pelos leitores cuja sensibilidade cresce e se afina
com o repertório de textos anteriormente lidos e armazenados. No entanto,
o seu autor tem por obrigação deixar bem claro, ou através de pistas intencionais, que ele está recontando com suas próprias palavras algo que leu, fruto
da lavra de outrem, sob pena de incorrer nos pecados que às vezes se comete,
e deixar que seu texto resvale para os casos que veremos no próximo postulado, o sexto de nossa série.
A Paráfrase distingue-se da citação explícita – aquela que agregamos
ao nosso texto com recuo e corpo de letra diferenciado – por se caracterizar
na utilização dos recursos linguísticos e repertório do novo autor, mas que
não perderá de modo algum a sua natureza de citação, agora aparentemente
implícita, porém, é certo que sua filiação não escapará do crivo de pelo menos
um leitor atento – isso, sempre.
A Paródia e o Pastiche e o Plágio
Na Paródia a vinculação do novo texto autoral ao outro anteriormente preexistente deveria ser automática para o seu leitor, como no caso anterior da
paráfrase. Ambos, paráfrase e paródia, são reunidos de acordo com o prisma
da narratologia sob o epíteto de Texto de Chegada, enquanto que o texto
do qual derivam, se originam, citam ou se apoiam recebe a denominação de
Texto de Partida, visto que ambos não existiriam sem a existência desse anterior. Aqui é oportuno lembrar as relações passíveis de serem observadas entre
as narrativas de Homero e Joyce sobre a mesma personagem – Ulisses – ainda
que diste, no entorno de 3000 anos, a produção de uma e de outra. Oportuno
lembrar aqui a visita aos mesmos tema e herói realizada por Olgaria Matos,
pelo viés filosófico:
A viagem de Ulisses é a viagem metafórica que a humanidade
precisa realizar para efetuar a passagem da natureza à cultura, do
instinto à sociedade, da auto-expressão ao autodesenvolvimento.
O eu homérico que distingue as forças obscuras da natureza e a
civilização expressa o medo original da humanidade diante do outro. O ato sacrifical repetido organiza a identidade do sujeito com
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as forças da natureza, a fim de lhe permitir purificar-se da natureza
no interior da própria humanidade.
.....................................................................................................................
As etapas vencidas na viagem de volta a Ítaca são aquelas realizadas
pela humanidade para poder chegar, partindo do mito, ao despregamento vitorioso da ratio: submissão dos instintos a um controle
- repressão que é uma luta que se inicia com a conquista perpétua
sobre as ‘faculdades inferiores’. Pelo menos desde Platão, a subordinação dos instintos é vista como elemento necessário da razão
humana. A luta culmina em um sistema produtivo cuja manutenção requer que o corpo humano se submeta a suas necessidades.
Ao dominar a natureza exterior domina-se a interior. Em Ulisses
convergem Iluminismo e Mito. (MATOS, 1987, p. 157)
De Homero a Joyce e Matos, o mito de Ulisses viaja nas asas de Cronos
e transcende da figurativização do homem para a sua pluralidade, a humanidade; assim como faria a dupla de roteiristas, Kubrick e Clarke, ao chamar de
odisseia a tumultuada viagem do coletivo do homem em direção ao futuro.
Não seria esse o caso que aludimos acima, porém, o argentino (que se
revolva na tumba!) Borges aventa a hipótese de possibilidade de existirem
dois textos totalmente congruentes ainda que os separem eixos espaciais e
temporais totalmente intransponíveis e mesmo assim são intertextuais na
ideia, no tema, e até mesmo na forma e no modo – o argentino imaginou
a possibilidade de dois indivíduos sonharem o mesmo sonho, em distantes
épocas e lugares, o que não apenas endossamos como também consideramos
de uma sagacidade extremada.
De retorno às palavras deste sexto postulado, existe, porém, uma distinção marcante entre paráfrase e paródia: na primeira, o autor da paráfrase
reproduz, além do conteúdo, também o tom do discurso, enquanto que na
paródia o leva para oposição de 180º – da seriedade para o jocoso, da tragédia
para a comédia, e principalmente, do sagrado para o profano. De modo geral,
quase sempre se tem na paródia a intenção de “brincar”, à guisa de “popularizar”, com a sisudez tanto do autor quanto de seu texto original. É nessa
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acepção que teria se criado, ao longo dos tempos, as oposições entre “Alta
Literatura” e “Baixa Literatura”, “Cultura de Elite” e “Cultura de Massa” que
remonta aos gregos, desde a A República de Platão aos movimentos sociais de
luta de classes, passando pela Revolução Francesa no séc. XVIII, até eclodir
no marxismo e na Revolução Russa, de 1917. A partir disso, tem-se o discurso
entranhado de que tudo o que é popular também é vulgar, o que não seria de
todo incorreto dado à etimologia da família das palavras “vulgar” ou “vulgata”.
Quanto aos outros dois – pastiche e plágio – devem ser peremptoriamente evitados sob pena de cometimento de apropriação indébita de trabalho
alheio. Se o primeiro encontra-se carregado negativamente por não ir além
de uma “cópia feita em carbono” e mal feita, dir-se-ia mesmo pejorativo passível de execração pública, o segundo se transforma em caso de polícia por ser
classificado como crime.
Qualquer um de nós, acadêmicos, que tivermos um texto nosso colocado em uma das duas categorias estará a cometer suicídio moral a começar
pela perda de credibilidade, e deverá procurar pousada bem longe, bem “a leste do Éden” da Academia. Parodiando o provérbio “O lobo perde o pelo, mas
não perde o vício” nos parece que o ser humano insiste em não aprender com
as experiências alheias, quando prefere estar à mercê de suas paixões. Mesmo
na atualidade, observa-se que os casos de fraude acadêmica estão a se repetir
mais frequentemente.
A Poesia e a Prosa
Aqui estamos a nos acercar de pontos polêmicos que tratam da delicada separação entre literatura e comunicação insistentemente defendida por alguns
autores estudiosos da primeira. A raiz da palavra poesia foi gestada na Grécia,
pelo menos para nós, partícipes da civilização ocidental judaico-cristã, mesmo retrabalhada pelo latim vulgar dos romanos, foi mantida sua essência
original de significado vinculado à ideia de criação. Herdamos nossa língua
do sincretismo produzido pela mistura, ao longo de séculos, dos dialetos falados pelas antigas comunidades da península ibérica com o estropiado – por
isso, vulgar – das “falas” dos centuriões romanos durante a ocupação de seu
império. Herdamos essa nova língua portuguesa de nossos descobridores e
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colonizadores – bem mais isso que aquilo –, da qual deriva o nosso português,
porém ficamos também com o elo que vincula poesia e criação. O conceito de
poesia ligado à “a arte de escrever em verso”’ e “aquilo que desperta o sentimento do belo” se verifica somente a partir do século XVI. Uma prática muito
encontradiça e muito perigosa, que hoje está a arrebanhar muitos adeptos
entre orientadores de pesquisa acadêmica é o de assinar em conjunto com o
orientando os textos que a este pertence.
C o n s i d e r a ç õ e s f i n ai s
Nunca se falou ou se escreveu tanto como agora. Qualquer que seja o meio
de comunicação, ainda que cada um tenha construído uma linguagem própria e que cada um escolha o veículo de transporte que mais se lhe adéqua,
ainda assim, se existe algo que os una mesmo diante de flagrantes diferenças,
sem nenhuma dúvida seria a palavra, seja na forma oral ou escrita, ou nas
duas em concomitância. Assim como aponta Saussure ser a língua comum
o principal fator que produz identidade ao indivíduo e ao grupo social a que
pertence permitindo que tanto um quanto o outro mantenham sua unicidade, seria o mito ou narrativa, à semelhança da língua natural que responde
pela formação de uma comunidade humana, que uniria os diferentes meios
de comunicação criados pelo homem por mais díspares que possam parecer
já que possuem, cada um deles, a sua própria linguagem.
Como já foi dito anteriormente o melhor exemplo ilustrativo do que
afirmamos pode ser conferido na sequência final do filme Cortina de Fumaça/
Smoke, da dupla de cineastas Paul Auster e Wayne Wang (1995), quando se
tem o mesmo mito de uma temática de Natal apresentado nos modos narrativo e dramático e nas formas: verbal oral, verbal escrito e imagético – ou
forma audiovisual. Todas as representações produzidas pelo homem através da aplicação de um tipo particular de techné findam por apresentarem
variações dos mesmos temas universais – o ser humano e suas paixões e o
desnovelo de um particular percurso do herói da narrativa e as atribulações
e percalços enfrentados. Os livros de literatura, as narrativas radiofônicas, as
“notícias” jornalísticas, os enredos cômicos ou trágicos do teatro, cinema e
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televisão estão sempre a apresentar novas releituras ou versões do “desejo de
vingança produzido pelo ódio feminino nascido da rejeição” do mitologema
de Medéia; do mitologema do Triângulo Amoroso envolvendo escolhas a
produzir o Predileto e o Rejeitado no mito das relações entre a tríade composta por Deus-Pai, Caim e Abel narrado no livro do Genesis bíblico; e no
mesmo livro, do mitologema a partir do conflito de gerações formado pelas
relações turbulentas entre as personagens da díade – Deus-Pai e Adão, protagonistas do eterno drama originado pelos papéis desempenhados de Criador
e Criatura – focado na obediência; e outras ilustrações advindas de narrativas
produzidas pelo pensamento-mítico poético das civilizações humanas anteriores ao surgimento do registro da palavra escrita na Suméria.
Nas universidades brasileiras a separação entre os cursos, seja de graduação ou pós, de Letras e Comunicação é, infelizmente, quase total. Quando
nos cursos de Letras se torna imperioso abordar a conexão entre as palavras
e as imagens o magistério dessas poucas disciplinas fica reservado aos professores de formação apenas em estudos literários. Tão violento quanto essa
separação acima descrita é se perceber algo semelhante dentro do próprio
seio da grande área das ciências da comunicação: a insistência de alguns setores da subárea do jornalismo se manterem a parte da comunicação. O mesmo
problema se observa nas relações conflituosas entre o teatro, o cinema e a
televisão provocadas por certos autores que insistem em ignorar que os três
meios de comunicação estão unidos e inseparáveis – conectados – pelo uso
comum que fazem da associação “gesto/imagem e palavra”. Essas dissensões
nos fazem crer originarem-se da antiguidade das práticas reconhecidas como
teatrais, literárias, e jornalísticas. Se, como acredita o vulgo através de ditado
popular: “antiguidade é posto”, que seja, daremos primazia ao teatro, à literatura e ao jornalismo como os mais antigos meios de comunicação utilizados
pelo homem, do primordial ao atual de nossos dias, e desse modo cremos lhes
fazer justiça desde que não nos tentem impedir a utilização dos conceitos
matemáticos da palavra “função” que estabelece relações e conexões entre
duas variáveis – a dependente e a independente – que os iguala e submete à
dependência da palavra, que sobre eles paira e sobrenada.
Sonora ou visual, ou audiovisual; isolada ou conectada às suas semelhantes ou a outras formas auditivas ou visuais formando um tecido/texto,
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com efeito discursivo à escolha do utente abrigando seu pensamento e seu
propósito de comunicação.
Virtual, aproveitada da Física, é uma das palavras mais encontradiças
em todas as bocas na atualidade, e é parente próxima de outra – intangível –
que também anda em alta a permear os mais disparatados discursos verbais.
Virtualidade e intangibilidade seriam qualidades inerentes ao que não se pode
apreender, a tudo que não se deixa nem sequer suavemente tocar – tanger.
A comunicação entre computadores pessoais de dois indivíduos comuns, a princípio ensaiada nos Estados Unidos, após o fim da Guerra Fria
– até então era para uso exclusivo entre militares das Forças Armadas como
fora um dia a comunicação via rádio e os aviões – é disseminada em sua exploração comercial pelo mundo inteiro em fins do século passado. A internet,
ao trazer em sua esteira a capacidade de comunicação instantânea e formação
de redes de utentes e o aparente desaparecimento de intermediação entre os
clássicos atores do fenômeno comunicacional – emissor e receptor – transforma-se em “coqueluche” mundial, como também fora um dia o cinema e a
televisão. O progressivo desenvolvimento das tecnologias de comunicação a
distância por meio do tráfego de palavras – rádio e telefonia – bem como o
mesmo observado para o tráfego de imagens geradas a distância e viajoras até
o destino visado – televisão, convergem para a internet.
É oportuno, então, reiterarmos a reprodução do texto citado pelo italiano Castellani sobre a suposta profecia que teria feito uma monja alemã de
Dresden, do período entre 1680 a 1706, quando se refere ao futuro em sua fala
premonitória (SCHETTINO, 2009, p. 141):
Chegará um tempo no qual voará a voz. E os homens conversarão
entre si por além de mares e montanhas.
Chegará ainda um tempo no qual voarão as imagens. E os homens
poderão ver-se por além de mares e montanhas.
Aquele será um tempo de grandes dores e de grandes tormentos.
Voarão as imagens como os anjos, mas não levarão a luz dos anjos.
Eis que, indubitavelmente é chegado o tempo aludido – o nosso tempo,
século XXI – pelas palavras visionárias da religiosa alemã que as teria proferido lá pelos idos do século XVII ou XVIII. Semelhante aos nossos cérebros, que
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serviram de modelo para o protótipo da dita Inteligência Artificial concebida
pelo homem, o computador tomará para si a tarefa antes humana de somar,
subtrair, quantificar e medir, e, principalmente, armazenar virtualmente através de sua linguagem própria e simplificada os dados que lhe são fornecidos
constituindo-se em uma grande memória da humanidade. Gradativamente
irá minimizar-se graças, principalmente, aos conhecimentos ofertados pela
utilização crescente da nanotecnologia a ponto de caber na palma de nossa
mão e cada mão estendida, devidamente aparelhada, será transformada paradoxalmente em isolado nó de rede universal de comunicação a distância. Ao
invés de telefonia móvel dever-se-ia saudar o aparecimento da comunicação
móvel que nos possibilita manter a conexão comunicacional independente
de deslocamentos espaciais geográficos ou no eixo temporal, já que a instantaneidade e simultaneidade foram atingidas.
Dentro desse mesmo projeto Procad o pesquisador em comunicação
e cultura, Osvando J. de Morais, publicou seu texto em que prioriza a necessidade de irmos em busca de teorias capazes de interpretar as mudanças
observáveis no cotidiano atual das pessoas. Mudanças essas impostas pela
exposição e utilização da avassaladora e contínua proposição técnica transformada em artefatos de comunicação disponibilizados para a massa.
[...] a natureza interdisciplinar da comunicação aponta para alguns caminhos na superação dos obstáculos presentes nesse seu
começo de existência. 1- A interação social através de mensagens
trocadas entre os indivíduos e estes, por sua vez, com os meios
massivos de comunicação, está presente na sociedade e na cultura,
representando e refletindo simbolicamente o mundo. 2- Antes,
os meios de comunicação de massa, como o próprio termo já denota, aglutinavam públicos. Agora, com a expansão dos canais, os
públicos são fragmentados em segmentos estanques, cada qual a
fazer sua própria escolha: selecionando e/ou editando e construindo sua programação particular, a partir daquela comum produzida
e enviada para todos. 3- É imperioso pensar em teorias basilares
de comunicação que deem conta dos processos atuais em que as
práticas das comunicações interpessoal, grupal e coletiva ganham
novas configurações. (MORAIS, 2010, p. 92)
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Justo por pensar de igual forma é que concordamos com o pensamento
– quase advertência – que se pode depreender das palavras expressadas por
Morais: já nos encontramos munidos de uma enorme gama de instrumentos
que modificaram por completo a prática da comunicação humana – e o mercado que existe é forte! – a provocar mudanças cada vez mais avidamente em
curto espaço de tempo, e estes períodos por sua vez aceleradamente menor,
disponibilizando artefatos cada vez mais sedutores (os modelos de aparelhos
lançados no mercado se superam em seis meses).
Se comunicação humana, meios de comunicação e sua aparelhagem artificial modificam-se seguidamente, nós, pesquisadores de comunicação e de
cultura, devemos vislumbrar teorias outras devidamente alicerçadas sobre as
anteriores – literalmente dizemos que ao conhecê-las subimos aos ombros
dos que vieram antes e desse modo deles recebemos a competência de vermos
mais longe, vislumbrando e descortinando horizontes cada vez mais amplos.
Estes artefatos que todos portamos, carregando nos bolsos ou nas mãos,
se transformaram na grande “onda” universal do momento. Fonte de riqueza
para poucos e endividamento de muitos, poder-se-ia dizer milhões. Porém,
juntamente com o pen-drive forma a dupla que vem alterando a vida de seus
utentes de forma substancial. Poderemos até mesmo, por resistência, não nos
transformarmos nos meios de comunicação, porém, o que de certa forma nos
parece certo é que eles nos transformam substancialmente, ou no mínimo,
neles dependentes.
R e f e r ê n c ia s
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A comunicação
como artifício
Uma leitura sobre Vilém Flusser
Mír iam Cr istina Carlos Silva
Vi l é m F l u s s e r
Para alguns, pode parecer incoerente elencar Vilém Flusser entre textos que
pretendem priorizar a discussão sobre as teorias da comunicação, por se tratar de um pensador acostumado a escrever no formato do ensaio. Em suas
palavras:
Ensaio é isto: tentativa de ver em que dá uma hipótese de trabalho.
E o interessante do ensaio não é o resultado, a hipótese confirmada ou refutada. O interessante é o que se mostra ao longo da experiência empreendida. A suspeita inicial pode ter sido confirmada,
refutada ou deixada aberta. (FLUSSER, 2011, p. 163)
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E confirmar, refutar ou mesmo deixar aberta uma hipótese inicial, ainda
não é o que move para a realização de um ensaio, porque o que o fundamenta
é “o fascínio exercido pelas experiências relatadas”, pelos fenômenos, os quais
“davam respostas inesperadas ao autor, confundiam as suas perguntas e rompiam os seus preconceitos”. (FLUSSER, 2011, p. 163, 165)
A base dos escritos de Flusser, concretizados em ensaios, vem tanto da
filosofia, apreendida de forma autodidática, quanto da poesia. Porém, não
se deve confundir esta prática como confusão com o objeto observado, tampouco como aquilo que o próprio filósofo classificou como “transcendência
irresponsável”, pois este afirma que, diante da admissão da objetividade como
ideal impossível, “o distanciamento passa a ser desejável”, por se admitir o
esforço para o que pode ser conhecido, a partir de um ponto de vista despreconcebido e amplo, atitude à qual Flusser denomina como “científica
pós-objetiva”.
Bernardo, em prefácio à edição brasileira de Natural: Mente, chama a
atenção para o quanto o texto flusseriano se torna desafiador, graças a sua
capacidade de assumir a condição ficcional de todo discurso, especialmente o
acadêmico, no qual mesclava “silogismo com metáfora e axioma com ironia”.
Portanto:
assume a condição ficcional de todo discurso, escrevendo filosofia
como quem faz ficção: antes mostrando que demonstrando, antes
provocando que esclarecendo, antes driblando que afirmando, antes aludindo que apontando, antes suspendendo que pontificando.
(BERNARDO, 2011, p. 8)
Ao que tudo indica, trata-se de um texto desafiador, por construir-se
a partir de uma metodologia que, por trás da aparente leveza poética, esconde a coragem de desmontar raciocínios solidificados, convidando a um
refletir, que põe em relevo o tão discutido, mas pouco praticado, pensamento
complexo, transdisciplinar, quando se trata de eleger metodologias e compartilhar pesquisas por meio de textos, no universo acadêmico. Bernardo (2011,
p. 10) expõe o fato de que “mapas são teorias, a saber, ficções válidas por um
certo momento. Quando essas ficções se reificam e se tornam crenças e sis-
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temas dogmáticos, elas passam a ocultar todas as paisagens que pretendiam
descrever”.
Contrapondo-se aos dogmatismos, Flusser faz, com os fenômenos, o
mesmo que Oswald de Andrade fazia com a realidade a sua volta, para criar
poesia: como uma criança que desmonta o brinquedo para ver como este
funciona, ao modo dadaísta, observa os fenômenos para apreendê-los, ou
desaprendê-los, no sentido de desmistificá-los, para chegar à essência das
coisas. Bernardo credita ao filósofo um certo ceticismo, somado a uma disponibilidade “para o casual, para o instante e para o detalhe” (FLUSSER, 2007,
p. 9), o que caracterizaria a poesia, mas também esta filosofia dos céticos, que
não se pretende erigir em sistema.
É assim que Flusser consegue trazer à tona discussões sobre comunicação e mídia, antecipando problemas cada vez mais emergentes entre os
teóricos da comunicação, tais como o do ambiente das tecnologias digitais e
seus impactos sobre a comunicação e a cultura. Baitello Júnior fala a respeito
da contribuição de Flusser:
[...] por sua aguda e inovadora maneira de analisar a comunicação,
suas novas ferramentas e seus impactos sobre a sociedade contemporânea. Flusser é considerado um dos maiores expoentes de uma
moderna Teoria da Mídia, com um enfoque filosófico e antropológico dos fenômenos e processos da comunicação. (BAITELLO
JÚNIOR, 2012, p. 146)
Menezes (2009, p. 169) explica que Flusser provocava e se deixava provocar afetuosamente pela presença dos outros: “Assim, podemos dizer que
experimentou um método fenomenológico, na medida em que cultivou a
perspectiva da volta às coisas, isto é, da atenção aos fenômenos, ao que aparece à consciência”. Trata-se, por isto, ainda nas palavras de Menezes, de um
pensador cuja metodologia “é marcada por perguntas, pela observação atenta
dos fenômenos e, especialmente, pela coragem de duvidar”.
Na instigante obra Natural: Mente, exemplar da metodologia usada pelo
investigador, Flusser formula perguntas e mais perguntas – aproxima-se dos
objetos “perguntando-os”, ao que aparentemente ele mesmo responde, mas,
na verdade, trata-se de deixar que os objetos lhe falem – abrir-se para ouvi-los
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e novamente perguntar, em um movimento de construção de teses, antíteses
e sínteses, que geram uma nova tese.
Menezes (2009, p. 168) destaca a obra Bodenlos, palavra alemã que significa “sem chão”; “sem terra” ou “sem fundamento”, e relata o diálogo de
Flusser com 11 interlocutores, sendo sete brasileiros e quatro imigrantes.
Alex Bloch, Milton Vargas, Vicente Ferreira da Silva, Samson Flexor, João
Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Dora Ferreira da Silva, José Bueno,
Romy Fink, Miguel Reale e Mira Schendel. Estes foram alguns entre os interlocutores de Vilém Flusser. Como marca característica de Flusser, está a de
alguém propenso ao diálogo, ainda que não à concordância, já que Bodenlos
mostra que toda a construção do significado de sua vida e de sua
produção intelectual aconteceu na conversação. Na relação com
outras pessoas que também buscavam a compreensão do mundo e
a justificativa para continuar a viver e manter um engajamento na
contemporaneidade. (MENEZES, 2009, p. 168)
O filósofo, de origem tcheca, nasceu em 1920, em Praga, e foi criado
entre duas culturas, a judia e a alemã. O pensador afirma, contudo, que sua
formação se deve a duas formas de cultura, às quais ele classifica e descreve:
minha mente é produto de duas tradições contraditórias e jamais
satisfatoriamente sintetizadas. Da tradição da voz e da tradição da
imagem. Do mandamento, e da idéia. Do verbo, e do substantivo. Da decisão existencial, e da metafísica especulativa. Não posso
simplificar o dilema ao dizer que tradição do invisível é a judia, e a
do inaudível é a grega. É dilema anterior às duas culturas fundantes da minha mente. Já na cultura judia há elementos imaginativos, embora os profetas se tenham esforçado para expurgá-los. E já
na cultura grega há elementos dialógicos, embora o “logos” tenda
sempre a idealizar-se. (FLUSSER, 2011, p. 129)
Flusser viveu a experiência do nômade, desde nascer e formar-se entre
culturas distintas, à fuga da guerra, quando foi para a Inglaterra, em 1939, e,
em seguida, chegou ao Brasil, em 1940, com a família do futuro sogro. Em
terras brasileiras, permaneceu de 1940 a 1972, escrevendo em português, para
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aproximar-se da cultura e da língua, mas também dos amigos de seus filhos,
brasileiros, estudantes que frequentavam a sua casa. De 1972 a 1991 residiu
na Provença. E é no final do ano de 1991, ao regressar à sua cidade natal para
uma palestra, cidade esta à qual resistira retornar por longo tempo, que viria
a falecer, em um acidente automobilístico.
O já mencionado nomadismo é explicitado no texto Chuva, da obra
Natural: Mente, em que Flusser descreve, a partir da observação de um cedro
em seu jardim, a essência do estrangeiro, como “quem afirma seu próprio
ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra”. (FLUSSER, 2011,
p. 64) A metáfora parece se referir a ele mesmo, que viveu em terras brasileiras
e criou vínculos, ao ponto de dominar por completo a língua portuguesa, escrevendo, dialogando com pares e díspares, mas sem nunca deixar de ser um
estrangeiro, seja no Brasil ou nos outros lugares onde viveu:
Eu sou o ruído do parque que transforma a sua redundância em
informação significativa. Destoo, e tal dissonância é o núcleo da
música do parque. É isto o significado das minhas respostas: sou
estrangeiro por ser cedro, e é apenas com relação à minha estrangeiridade que o resto do parque se torna nativo. Ser estrangeiro
é, pois, no fundo, isto: revelar ao contexto que ele próprio não é
estrangeiro. (FLUSSER, 2011, p. 61)
E sem perder a marca de estrangeiro, talvez, reforçando-a, lançou sobre
o Brasil o seu olhar e o comunicou, pois criou vínculos, fez amigos e desafetos, foi adorado por uns e acusado de polemista e superficial por outros;
em terras brasileiras, deu aulas e escreveu sobre diversos assuntos. Mesmo
depois, vivendo na Europa, onde ganhou reconhecimento, passou a escrever
em alemão e, em seguida, para publicar no Brasil, em português, língua com
a qual extrapolou os muros acadêmicos, colaborando com artigos em jornais,
e somou mais uma estrutura complexa, ou seja, mais uma língua, entre as
quais ele já transitava para compreender o mundo. Vale lembrar que, Flusser,
em Língua e Realidade, defende o poliglotismo como um método para se ultrapassar os limites linguísticos e, consequentemente, da visão de mundo
expressa por esta língua.
A comunicação como artifício—
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F l u s s e r , a c o m u n i c a ç ã o e a c u lt u r a
Para Vilém Flusser a comunicação humana é um processo artificial, constituído de artifícios, de descobertas, de ferramentas e de instrumentos. Para
que o homem possa estabelecer comunicação, símbolos são organizados em
códigos, que procuram fazer com que a humanidade se esqueça, ainda que
temporariamente, da sua condição inescapável de mortal. O autor explica
que: “os homens comunicam-se uns com os outros de maneira não natural”.
(FLUSSER, 2007, p. 89)
O pensador ressalta que a fala, por exemplo, que parece ser nossa por
natureza, é produto de aprendizado, e é diferente de cultura para cultura, assim como a escrita e os gestos, portanto, não se trata de natureza, mas de uma
segunda natureza. Menear a cabeça em sinal de concordância ou franzir o
cenho por estranhamento não são gestos naturais, instintivos, embora sejam
aparentemente inconscientes. (FLUSSER, 2007)
Pode-se acrescentar que, em uma esfera de outra complexidade, também
não é natural fazer poesia, cinema, teatro, dança, considerados linguagem e
artifícios humanos, muito diferentes da dança das abelhas quando encontram o néctar para fazer o mel. São artifícios carregados de complexidade.
Esta condição não natural é o que define o homem, cujas relações não são naturais, e mesmo aquelas mais primitivas, tais como a amamentação e o sexo,
são ações artificializadas, marcadas pela cultura. Assim, tanto a comunicação
quanto a cultura são artifícios humanos. Cabe ressalvar, porém, que para ele,
não apenas o conceito de cultura, mas o de natureza, também deve ser posto
em dúvida, pois a natureza que vemos está mediada pela cultura, da mesma
forma que a cultura é naturalizada ao ponto de impedir-nos de refletir.
Ao retomar as referendadas ideias de cultura, o autor constrói e desconstrói definições, por exemplo, quando descreve “cultura” como “a imposição
deliberada de um significado humano ao conjunto insignificante de natureza” e arte como “o método pelo qual o espírito humano se impõe sobre a
natureza”. Mas, em seguida, acrescenta que “embora muitos possam efetivamente esposar tal conceito, é ele inteiramente insatisfatório”. (FLUSSER,
2011, p. 27) Essa insatisfação é constatada a partir da relação fenomenológica
de Flusser com os objetos analisados, dos quais vai arrancando as camadas
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aparentes, descobrindo que sempre há a possibilidade de uma nova camada a
ser observada e retirada, gerando novas perguntas, que tendem à invalidação
da resposta anterior.
Em outra conceituação de cultura, parte das percepções, ao observar o
fenômeno da chuva pela janela, bem como da segurança de estar em uma sala
confortável, em sua casa, de onde pode visualizar a chuva através da vidraça.
Em sua narrativa, fica patente a já mencionada metodologia de “perguntar” as
coisas (perguntá-las) e, ainda, perguntar às coisas:
Voltarei a olhar a chuva pela janela para ver se ela me diz algo a
respeito. Eis o que está dizendo: aqui fora está chovendo, lá dentro estás abrigado. Isto é a distinção categórica entre natureza e
cultura. Natureza é como a chuva: provoca a sensação de impotência; cultura é como a sala: provoca sensação do abrigo. (FLUSSER,
2011, p. 53)
É possível que Flusser não se aborrecesse com uma discordância, ou
pelo menos com outra pergunta. A cultura provoca sensação de abrigo, desde
que seja a minha cultura. Já a cultura do outro pode provocar sensação de
medo, estranhamento, repulsa e até indignação. Pode, é claro, produzir simpatia e cumplicidade, mas é, sobretudo, a partir dela, a cultura do outro, que
posso me reconhecer na minha própria cultura, e aqui é possível se apoiar no
mesmo Flusser, quando este define que “natureza como minha circunstância
espontânea e isenta de problemas, é cultura como presença estranha e estrangeira na minha circunstância, que se autoafirma e, portanto, dá sentido à
natureza”. (FLUSSER, 2011, p. 64)
O autor afirma que, para os tecnocratas, a cultura é a transformação de
algo em “bom” para um propósito deliberado, ressaltando que, para estes, a
“cultura é injeção de valores no conjunto isento de valor chamado natureza”.
(FLUSSER, 2011, p. 54) A estas definições, contrapõe o raciocínio de que a
isenção de valor está na tecnologia, e não na natureza, cujas coisas são todas
más, porque oferecem condicionamento e impotência:
Se não fossem más as coisas da natureza, não se explicaria o engajamento em cultura. É sempre engajamento contra a natureza. As
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coisas da técnica são eticamente neutras, e passam a ser boas se
me abrigam, e más, se me condicionam. Produzi-las é necessário,
mas não basta. É necessário, porque resulta em coisas parcialmente boas. Mas não basta, porque pode resultar em coisas más se perdermos a consciência da cultura. Se progresso for, como o afirmam
os tecnocratas, um processo ao longo do qual eventos naturais são
transformados em lineares, então progresso (e ordem) não basta.
O que urge, para que o progresso tenha sentido, é manter e refinar
a capacidade crítica dos valores (a capacidade ética, política, em
suma: liberdade). Tecnocratas não bastam. (FLUSSER, 2011, p. 54)
Desta forma, tanto natureza quanto cultura são perniciosas quando
condicionam. Flusser resume dizendo que “as coisas são boas apenas na medida em que contribuem para me libertar” (2011, p. 55), e que isto é a medida
da cultura, pois “tecnologia ainda não é cultura. E tecnocracia (governo da
tecnologia não controlado) é anticultura. Em suma: cultura é tecnologia mais
liberdade”. (FLUSSER, 2011, p. 54)
Até que ponto, portanto, ainda que Flusser não tenha se referido exatamente a isto, as tecnologias da comunicação podem ser consideradas cultura?
Talvez a resposta possa ser: até o ponto em que nos libertam, ao invés de nos
condicionar.
O vislumbre de Flusser antecipa a crítica do uso indiscriminado e inconsciente das tecnologias da comunicação. Basta um breve passeio com os
olhos por grupos de pessoas, em escolas, shoppings, parques, clubes, restaurantes, juntas e isoladas, com seus celulares, computadores e outros aparatos,
para se perceber a pertinência da reflexão:
A liberdade surge por salto dialético acima do acaso e da necessidade, salto este possibilitado pelo conhecimento. Sem o conhecimento, a máquina de escrever não é coisa da cultura, mas condição natural, como o é para macacos. Existem muitas situações,
aparentemente culturais, nas quais manejamos aparelhos como se
fôssemos macacos. Porque os ignoramos parcial ou inteiramente.
Em tais situações os aparelhos funcionam, e os nossos dedos funcionam. E é contra tais situações que as revoluções se insurgem.
Para libertar os dedos. (FLUSSER, 2011, p. 83)
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Tornar cultura o natural, e verificar a naturalização do não natural, da
cultura, faz pensar que “o natural mente quando se transforma em hábito”.
(BERNARDO, 2011, p. 12) Por isso, o simples ato de amamentar, que parece
um hábito natural, na maior parte das culturas, por estar associado à condição humana de mamíferos, pode ser visto também como um hábito cultural,
marcado pelas interdições, por protocolos, por contextos que apontam que
ele não pode ser visto nem como natureza e tampouco como cultura, apenas. Não há dúvidas de que a cultura imprime na mãe um olhar diferenciado
para o filho amamentado, uma forma de se comportar durante o aleitamento,
condições públicas e diferenciadas de se oferecer o seio ao alimentando, ainda que um seio des-erotizado, mas que pode se tornar contraventor, agressivo
e censurado. Basta rememorar o episódio em que a mãe, que amamentava o
filho em um Instituto Cultural de São Paulo, no ano de 2011, foi convidada a
se retirar do recinto, já que o lugar era inadequado para o ato, na avaliação de
um dos seguranças. Alegou-se, atendendo-se ao questionamento da mídia,
que a interpretação do segurança teria relação com a proibição de “se alimentar” naquele local, curiosamente, um local de cultura e de arte, portanto, pelo
menos em tese, um lugar de liberdade de expressão. Os diretores pediram
desculpas às mães que, indignadas, organizaram um “mamaço” na frente do
instituto. Para remediar a situação, os dirigentes disseram que orientariam
melhor os funcionários, além de que todas as mamães eram bem-vindas, com
ou sem suas crias penduradas às tetas.
Mas é fato que há toneladas de notícias semelhantes mundo afora, como
a de uma mãe expulsa de pub, por amamentar, em Londres, e de outras, presas, e outras, indignadas, porque as colegas não se dignam a cobrir os peitos
enquanto amamentam. Enfim, trata-se de um ato natural, de uma comunicação profunda entre mãe e filho, entretanto, trata-se também de um ato nada
natural, profundamente marcado pela cultura e pelos intertextos do erotismo, das sanções e da incompreensão coletiva. O sexo, necessidade primitiva
para a preservação da espécie, é marcado pela cultura, ritualizado, erotizado,
desviado de sua função reprodutiva para o lúdico, e, certamente, é ele uma
das maiores interferências confusas no ato de amamentar, contaminado de
culpa pelo desejo e pelo olhar do outro. Ainda, quem sabe, ele seja a memória
A comunicação como artifício—
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de uma natureza e de uma fragilidade que não queremos lembrar ou que não
achamos digna de tornar pública.
Flusser (2007, p. 90) afirma, entretanto, que nem sempre o caráter artificial da comunicação é consciente: “após aprendermos um código, tendemos
a esquecer a sua artificialidade”. Ocorre, deste modo, uma falsa naturalização
daquilo que nasce artificial. Os códigos, explica, tornam-se uma espécie de
segunda natureza. O mundo artificializado da segunda natureza é que nos
faz esquecer o mundo da primeira natureza. A comunicação, relacionada à
cultura, promove o artifício de nos iludir a respeito de nossa condição de seres mortais e solitários. Portanto, o objetivo primeiro da comunicação seria,
sobretudo:
nos fazer esquecer desse contexto insignificante em que nos encontramos – completamente sozinhos e ‘incomunicáveis’ – ou
seja, é nos fazer esquecer desse mundo em que ocupamos uma
cela solitária e em que somos condenados à morte – o mundo da
natureza. (FLUSSER, 2007, p. 90)
Neste sentido, podemos ler em Flusser um pessimista, que aponta a característica mais humana como a da incomunicabilidade. Porém, podemos
também encontrar em suas palavras a definição do homem como artífice,
cujo intento é destruir as barreiras desta profunda incomunicabilidade, ou
seja, retomando o pensamento de Baitello Júnior (2012), capaz de erguer pontes sobre abismos, para tentar alcançar o outro, por meio da comunicação.
A comunicação vista a partir de Flusser aproxima-se da criatividade e da
arte, entendendo-se a arte, neste caso, como a organização do mundo em artefatos e códigos, sendo que os objetos e os códigos são ambos carregados de
informação, que tentamos organizar, acumular, fazer ganhar sentido. O ato
de comunicar, para Flusser (2007, p. 90), pode ser interpretado, desta maneira, como uma espécie de remédio, ou “um artifício cuja intenção é nos fazer
esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada à morte”.
A partir deste objetivo da comunicação, o de nos fazer esquecer de nossa essencial natureza, a de seres mortais, é que Flusser justifica a condição
do homem como um animal político. O autor explica essa condição humana
268—Míriam Cristina Carlos Silva
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“não pelo fato de ser um animal social, mas sim porque é um animal solitário,
incapaz de viver na solidão”. (FLUSSER, 2007, p. 91)
A teoria da comunicação é classificada por Flusser como uma disciplina
interpretativa, inserida no campo das ciências humanas, já que ela necessita
criar significados e interpretar os fenômenos muito mais do que explicá-los.
Ele afirma que as ciências da natureza e as humanidades têm mapas contrários: “o tempo corre em direção oposta nas duas disciplinas. Nas ciências
da natureza corre rumo à entropia: nas humanidades, rumo à informação
crescente”. (FLUSSER, 2011, p. 34) Portanto, uma coisa se torna natureza na
medida em que é explicada ou se torna espírito na medida em que alguém
decide interpretá-la. Neste caso, a diferença entre ciência natural e ciência do
espírito (ou ciências humanas) é definida pelo posicionamento do pesquisador. Um mesmo fenômeno, analisado sob aspectos diferentes, passa a ser um
fenômeno diferente. A nuvem explicada não tem relação com a nuvem interpretada, não é o mesmo objeto, tornam-se nuvens diferentes uma da outra,
de acordo com o ponto de vista.
Flusser aponta a comunicação como uma disciplina interpretativa, ou
seja, um fenômeno significativo a ser interpretado. A comunicação explicada,
portanto, é diferente da comunicação interpretada. São fenômenos distintos.
A comunicação como ciência interpretativa dá a abertura suficiente para
um método fenomenológico, em que o pesquisador se deixe tocar pelo objeto
de pesquisa, produzindo interpretações abertas a novas interpretações, como
num processo de semiose – em que um intérprete, a partir de um signo, gera
um interpretante, que será transformado em um novo interpretante, por outro intérprete, infinitamente.
Flusser (2011, p. 37) pondera sobre a comunicação humana como inatural, contranatural, ao se propor a armazenar informações adquiridas, o que
a torna negativamente entrópica, já que, ao passo que tudo tende à desorganização, a comunicação humana propõe uma organização das informações,
pois “armazenar informações (neguentropia) é a meta da humanidade”, e
acrescenta que esta é uma característica fundamental do homem, um animal
que encontrou truques para acumular informações adquiridas. Este acúmulo
de informações é um processo, mais do que de necessidade, de liberdade, se-
A comunicação como artifício—
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gundo o teórico. Comunicar é, deste modo, uma tentativa de dar significado
à insignificância de uma vida assombrada pela morte.
Pode-se concluir, com o autor, que a comunicação humana é um fenômeno de liberdade, cujo propósito maior é acumular para iludir. Trata-se,
porém, de uma ilusão que serve para tornar a vida vivível. Passamos a viver,
então, em um mundo codificado, construído a partir de símbolos ordenados, e nele se represam as informações adquiridas. A comunicação compõe a
cultura, constituída pelos instrumentos e seu exercício de poder sobre a vida
cotidiana, cultura esta que “longe de libertar o homem da determinação pelas
forças da natureza, se constitui em condição determinadora. Portanto, em
segunda natureza”. (FLUSSER, 2011, p. 161)
Flusser (2007) descreve duas formas fundamentais de comunicação,
que não se excluem, são interdependentes, mas que são distintas em diversos aspectos. Ele explica que, para produzir informação, os homens trocam
diferentes informações disponíveis, na esperança de sintetizar uma nova informação – a este processo, chama de comunicação dialógica. Na segunda
forma, as informações existentes são compartilhadas, para que possam resistir ao efeito entrópico da natureza – a comunicação discursiva. Sobre a
relação entre estas duas formas, explica que o discursivo não pode viver sem
o dialógico. Para que haja um diálogo é necessário que tenha havido, antes,
a apreensão de discursos. Para que haja um discurso, o emissor tem que dispor de informações produzidas no diálogo anterior. A grande dificuldade,
entretanto, pondera o autor, é a produção de diálogos efetivos. Ocorre uma
onipresença dos discursos dominantes, o que torna os diálogos impossíveis e
desnecessários.
O que caracteriza o homem é a incomunicabilidade, pois, ao contrário
do que parece, nem tudo é comunicação efetiva. A comunicação, segundo
Flusser (2007), só alcançaria o seu objetivo quando houvesse um equilíbrio
entre discurso e diálogo. Quando há um predomínio dos discursos, o que
ocorre, segundo o teórico, é a solidão entre os homens, apesar do permanente contato com as fontes de informação. Quando, por outro lado, ocorre
um predomínio dos diálogos provincianos, a mesma solidão assoma àqueles
homens, que se sentirão extirpados da história.
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Sobre pontes e abismos
Baitello Júnior (2012) descreve a comunicação como tentativa de alcançar o
outro, superando abismos profundos, com a utilização de mídias, ou seja, de
pontes:
Por que nos preocupamos tanto com os meios, com esse meio
de campo entre o um e o outro? Porque há aí um abismo. E
abismos são vazios gigantescos e assustadores. Como temos
horror ao vazio, tentamos preenchê-lo com tudo o que temos
à mão: com os gestos, com a voz, com os rastros (olfativos, visuais, auditivos ou táteis). Com as imagens arcaicas, com escritas de todos os tipos, com as imagens produzidas por máquinas e até mesmo com as próprias imagens de imagens. Mas
preencher o abismo é um trabalho insano e inglório, como enxugar gelo ou esvaziar um rio. Há apenas lampejos de um fugaz preenchimento, pontos fugazes que nos levam até o outro,
transpondo por breves relances o vazio do abismo. Para conseguir esses lampejos e tais relances é que experimentamos todos
os meios, todo tipo de midia. A essa atividade damos o nome de
comunicação, criação de pontes para atravessar o abismo que
separa o eu do outro. A essas pontes, como elas se colocam no
meio de campo, damos o nome de midia, ou meios, ou media.
(BAITELLO JÚNIOR, 2012)
Como contribuição fundamental para as ciências, a da comunicação,
em particular, e as humanas, em geral, Flusser aponta para a possibilidade
de uma metodologia fenomenológica, ou de um método também nômade,
flexível, por meio do qual se revela que é necessário que continuemos a nos
espantar.
Se buscamos o que se encontra escondido “no fundo” dos acontecimentos, das pessoas e dos textos, caímos na histeria da interpretação de tudo, duvidando do fenômeno para, como Descartes,
acabar com todas as dúvidas. Ao contrário, a filosofia precisa antes
de mais nada proteger a dúvida e preservar o enigma, mantendo-
A comunicação como artifício—
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nos na superfície do mistério, portanto, mantendo-nos em condições de nos maravilharmos e de nos espantarmos. (BERNARDO,
2011, p. 18)
O conceito de comunicação, indissociável do conceito de cultura, pressupõe a percepção de um mundo codificado, de um universo midiático em
uma escalada crescente para a abstração. Tal complexidade obriga à formulação contínua de questões, para que se possa escapar da condição de serviçais
de tecnologias que não se conhece, de realidades que não se observam e não
se questionam, nas quais o mote será reproduzir e não criar.
É, pois, a constatação de um abismo. Pode-se dizer, inspirado em Flusser:
remover neblinas, saber do tamanho do abismo e, ainda assim, arriscar-se nas
pontes e caminhar, para experimentar o lampejo da comunicação. Esta parece ser uma atitude digna.
R e f e r ê n c ia s
BAITELLO JÚNIOR, Norval. O pensamento sentado: sobre glúteos, cadeiras e
imagens. São Leopoldo: Unisinos, 2012.
BERNARDO, Gustavo. O naturalmente? In: FLUSSER, Vilém. Natural: mente.
São Paulo: Annablume, 2011.
FLUSSER, Vilém. O mundo codificado. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.
FLUSSER, Vilém. Natural: mente. São Paulo: Annablume, 2011.
MENEZES, José Eugenio de O. Comunicação, espaço e tempo: Vilém Flusser
e os processos de vinculação. Comunicação, Mídia e Consumo, n. 6, p. 165-182,
2009.
272—Míriam Cristina Carlos Silva
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As teorias do
cinema e a
atualização dos
gêneros
Cr istiane Freitas
Introdução
Esse texto tem por objetivo compreender as teorias realistas e sua atualidade
através, especificamente, da reconfiguração da imagem biográfica que invadiu em seus diferentes formatos as telas do cinema, da televisão e da web nos
últimos tempos. Assim, pensar sobre o realismo nos coloca diante de uma
teoria dos estudos de cinema, mas também de escola, movimentos e estratégia estética e, na atualidade, encontra a sua força no filme biográfico e nos
seus desdobramentos como o filme histórico e o filme político.1
1Essa especificidade em relação aos filmes biográficos diz respeito à pesquisa realizada pela autora com fomento de bolsa produtividade do CNPq intitulada Os filmes biográficos sobre a ditadura
militar brasileira: o realismo como estratégia estética.
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Nesse sentido, o realismo está presente de forma recorrente na produção cinematográfica mundial e brasileira, pois capta as emoções através do
personagem que vivenciou uma história, que contém como toda história de
vida seus percalços, ajudando, assim a exorcizar as situações traumáticas e
reconstruindo esses acontecimentos no presente. Essa estratégia pode ser entendida como um instrumento relevante para a compreensão da comunicação
na atualidade e que remete ao presente transformando, reinterpretando o
passado, interagindo, assim, entre o vivido e o transmitido. Daí, por exemplo,
a frequência com que assistimos hoje no país, nas diferentes mídias, histórias
de superação de limites socioculturais e afetivos como o filme Gonzaga de pai
para filho (Breno Silveira, 2012) realizado para o cinema e televisão ou Lula, o
filho do Brasil (Fábio Barreto, 2009).
Assim, as diferentes telas que possibilitam assistirmos a filmes, na atualidade, estão invadidas por imagens que tem como estratégia o uso do realismo
e muitas vezes, o relacionando a algum tipo de conflito histórico importante.
Podemos citar no que nos interessa aqui a cinematografia brasileira que comparece com filmes biográficos sobre a ditadura militar brasileira. Essa ideia
nos ajuda a entender o aumento indiscriminado da produção de filmes sobre
essa temática na última década, devido também a várias datas históricas relembradas, como os 40 anos do maio de 68 e do Golpe Militar; a efetivação
de algumas medidas que contribuem para que o acontecimento histórico não
seja esquecido, como indenização às vítimas ou familiares que lutaram no
período; e, algumas discussões importantes, que colaboram de forma crucial,
para a construção da história, como a abertura dos arquivos políticos e a formação da Comissão da Verdade. Dentre essa produção de imagens destaca-se
o filme biográfico, entendido aqui como o filme que apresenta somente um
personagem que vivenciou determinado acontecimento histórico. Assim, o
realismo que encontra força nas biografias e no filme político permite analisar
os significados estéticos e o contexto sociocultural e histórico dessas escolhas.
o r e a l i s m o e a c r ia ç ã o
Por realismo entendemos ser a construção de um mundo imaginário, produzindo um efeito de real. A banalização do fenômeno do realismo, nas artes e
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nas mídias, deve-se a sua vinculação, no século XX, às artes narrativas e do
espetáculo. Em revanche, algumas correntes realistas do século passado vão
tentar recuperar certa capacidade de idealização2 para dizer algo sobre o real.
O cinema, em sua essência, é uma técnica de reprodução das aparências, tendo sido configurada de acordo com os princípios do realismo.
Basicamente, todo o cinema narrativo, com exceção dos movimentos experimentais e de alguns gêneros muito próximos do irrealismo, como o filme
fantástico e o burlesco, sustentaram-se na ideia de que o realismo tem por
objetivo descrever as relações entre os homens.
Assim, a partir dos anos 1950, várias teorias relacionadas aos estudos
de cinema priorizaram o realismo em suas teses. Iniciadas por André Bazin e
Siegfried Kracauer, essas teses se alastraram a partir dos anos 1960, baseandose na ideia de que o cinema representa a realidade e, ao mesmo tempo, mostra
a sua ontologia, colocando o cinema em um contexto de investigação científica em diferentes áreas do conhecimento, como filosofia, história, passando
pela linguística e a comunicação. Ambos são entusiastas do uso recorrente
do realismo como estratégia estética e críticos contundentes dos que defendiam “a arte pela arte”, para usar um termo de André Bazin (1993). Para Bazin
e Kracauer, o realismo é uma evolução da linguagem cinematográfica e um
aprimoramento do estilo, reconhecendo, ao contrário de alguns críticos, que
opõem formalismo ao realismo, a valoração da utilização da técnica para o
resultado final. Como afirma Kracauer (2010, p. 77), “tudo depende do justo
equilíbrio entre tendências realista e formalista, e o equilíbrio acontece quando a última não se sobrepõe a primeira, colocando-se, em última instância,
sob a sua direção”. Enquanto que para Bazin, o cinema como arte somente foi
possível por causa da realidade, e a técnica está a serviço de neutralizar ou não
a eficiência desta arte. Ou seja, para ambos os autores, a realidade se sobrepõe
à técnica, mas não prescinde dela.
Se para Bazin, grosso modo, o cinema se aproxima do mundo como seu
prolongamento, destacando a sua capacidade em participar da vida existente,
para Kracauer, ao contrário, o cinema registra os aspectos já vistos para re-
2A definição de realismo aparece na filosofia para designar uma crença em uma realidade das
ideias e também está relacionado ao sentido de idealismo dado por Platão. Esse sentido possibilita efervescentes discussões teóricas até os dias de hoje.
As teorias do cinema e a atualização dos gêneros—
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velar aquilo que não é compreensível de imediato. Se para Bazin o cinema é
uma “revelação” e, portanto, evidencia as aparências, para Kracauer, o cinema
é apreendido como um suporte, onde o mundo é reproduzido e documentado, auxiliando o pesquisador.
Esses autores partem do pressuposto de que um mesmo acontecimento
histórico é passível de diferentes representações, e cada uma dessas formas
de representação abandona ou salva qualidades que faz com que o acontecimento seja reconhecido, na tela, e introduz, com objetivos didáticos ou
estéticos, as abstrações mais ou menos corrosivas que subsistem do original.
Nesse sentido, o diretor tem sempre que reconquistar a realidade. Kracauer
ainda avança, com as suas ideias em relação à Bazin, ao enfocar que o cinema
realista é um sintoma da realidade vivida, servindo como documento para
construção e atualização da história.
Datam também dessa época os filmes que reforçam e renovam a teoria
realista como o movimento do neorrealismo italiano e o filme testemunho
sobre catástrofes históricas, entendido aqui como um gênero que faz parte
da grande família do documentário e mantém uma relação direta com filmes históricos e, por vezes, com filmes biográficos. A estrutura desses filmes
se sustenta em relatar a história de pessoas que vivenciaram, diretamente,
determinado acontecimento histórico. Pensar sobre esses gêneros e analisar
esses filmes nos levam à afirmação, já preconizada de forma diferenciada por
Bazin e Kracauer, de que o cinema se inspira no registro da similitude e da
narrativa.
Segundo Alain Badiou (2005, p. 82), “a função da similitude no real
deve-se ao fato de que não existe real suficiente que não levante suspeita.
O fascínio pelo real é também o fascínio pela desconfiança.” Para o autor, as
categorias subjetivas da política revolucionária como, por exemplo, a virtude
e a lealdade, são marcadas pela desconfiança dessas categorias em relação ao
real: se elas são, de fato, verossímeis e participam da aparência. O real pode
ser entendido, então, pelo fascínio pelo autêntico ou por aquilo que não pode
ser destruído.3
3
Pensamos aqui especificamente nos filmes biográficos que dependem dessa desconfiança e desse fascínio do real para alcançar o espectador.
276—Cristiane Freitas
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A teoria realista não se sustenta somente na semelhança, pois requer
algo da ordem da criação. Isto é, a semelhança associada a algo da esfera do
não humano pode levar a um conhecimento e a uma reflexão em proveito do
humano, que não diz respeito somente à ordem mecânica, mas à criação que
passa pela metáfora e pela analogia. Nesse sentido, a analogia e a metáfora
nos ajudam a identificar o relativismo que comporta o pensamento sobre o
real nesse cinema que imprime, no espectador, diferentes modos de compreensão do mundo social em função da similaridade que essa compreensão
apresenta com as imagens fílmicas.
Para Bazin, o real, no cinema, está diretamente vinculado ao imaginário
e a uma determinada forma de representação. Para ele, a necessidade humana
de construir sistemas de representação parte de uma “necessidade fundamental” de promover uma continuidade entre o que é mostrado e aquele que
mostra e encontrou diferentes meios de realizá-la através dos séculos. Desde
o seu nascimento, no cinema, nunca houve a necessidade de promover confusão entre representante e representado, mas, ao contrário, construir relações
imaginárias específicas que se diferenciam daquelas que evidenciam o real. O
cinema daria para a humanidade, então, a resposta ideal e potente para restituir o desejo humano de se ver reproduzido em imagens em movimento,
devido à sua capacidade de produzir registros do mundo em suas diferentes
dimensões. Estas diferentes formas de representação passam pela ideia de
crença, e o cinema a reforça em todas as instâncias no decorrer da sua história. O cinema, arte por excelência do século passado, e que, por sua natureza,
poderia ser considerado como uma arte mimética mecânica demonstrou, ao
contrário, ao longo da sua história, que a sua técnica permite uma construção
e uma reinvenção do realismo, contribuindo para o avanço sobre a sua teoria.
A at ua l i d a d e d o f i l m e b i o g r á f i c o
O filme biográfico é um dos gêneros que, por sua importância e proliferação na atualidade, nos ajuda a compreender essa construção do realismo.
A narrativa biográfica não pode ser reduzida ao fato de mero conhecimento
do acontecimento ou representante de uma causa, pode ser transformada em
As teorias do cinema e a atualização dos gêneros—
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criação pelo questionamento do impensável que pode ser controlado pelo
pensamento.
É nesse sentido que o filme biográfico como testemunho, parte integrante da teoria do realismo e de suas formas de representação, começou a
ser pensado após a abertura dos campos de concentração, devido às imagens
realizadas por americanos, soviéticos e nazistas, bem como pela descoberta de
notas feitas pelos prisioneiros e pelos arquivos de imagens criados posteriormente e reconstituídos até hoje, como forma de recuperar e certificar dados
da história. Podemos citar vários exemplos desses arquivos contemporâneos,
como o texto em que o diretor de cinema, Samuel Fuller, relata, detalhadamente, o método de filmagem que empregou ao participar como soldado da
liberação do campo de Falkenau, assim como o documentário Falkenau: vision
de l’impossible, de Emil Weiss, realizado em 1988, que conta a história, vivida
por Fuller, que também assina o roteiro do filme; e a exposição fotográfica
Mémoires des camps, que ocorreu em Paris, em 2001, revelou várias imagens
que haviam circulado, até então, atribuídas a determinados lugares; todavia,
com a exposição, certificou-se que ocorreram em outros locais, assim como,
na mesma exposição à certificação de imagens que haviam sido creditadas
aos nazistas, foi agora atribuída aos soviéticos.
A criação dessas imagens tem sua importância na construção da história
e da memória, mas as estratégias estéticas para alcançar esses objetivos é que
são questionadas e que imprimem a sua valoração. Claude Lanzmann (1985),
que, com o inquestionável Shoah, criou um dos mais importantes arquivos
construído de maneira inclassificável, defende a ideia de que os arquivos
visuais precisam possibilitar a imaginação e o poder de evocar o acontecimento. Por outro lado, Didi-Huberman (2003) defende, em seu livro Images,
malgré tout, a importância incondicional da construção de arquivo de imagens. O autor afirma que as imagens não bastam por elas mesmas; para que
elas possam significar, precisam ser contextualizadas de forma crítica, como,
por exemplo, ressaltar o objetivo da realização, o porquê e como, é o que foi
feito, por exemplo, na exposição Mémoires des camps citada acima. Ou seja,
para o primeiro, o testemunho retém o privilégio de fazer a história, porém,
para o segundo, esse poder está na imagem.
278—Cristiane Freitas
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No entanto, temos um consenso em torno da importância do filme
biográfico e, consequentemente, da formação de arquivo visual para (re)
construção e reorganização da memória, mas a diferença situa-se em como
fazê-lo. Esse gênero e suas variações é hoje um dos formatos mais difundidos
e utilizados para a exibição de acontecimentos históricos, pois capta as emoções, mediada pela produção da imagem como ouvinte entre o personagem
que vivenciou o acontecimento e o espectador. Esse processo criativo ajuda a
compreender as dificuldades e atualiza o acontecimento no presente.
A at ua l i d a d e d o f i l m e p o l í t i c o
O filme político é uma variação possível e frequente do filme biográfico e nos
interessa aqui como uma forma de criação e atualização das teorias realistas,
especificamente, no que se refere ao filme brasileiro sobre a ditadura militar.
Para entendermos o que é filme político partimos da ideia de Walter
Benjamin (1991), para quem, na era da reprodução, surge uma nova função
do cinema que é política, ou seja, o filme vale pela exposição e não pelo culto.
Podemos dizer, também, que filme político é o gênero que aborda como tema
principal a maneira como é governado um Estado e o exercício do poder,
a sua conquista e a denúncia dos seus excessos. Apresenta em seu cerne a
ideia de busca sobre um aspecto do real que foi ocultado, tendo a sua força
sustentada por um trabalho de investigação que não é feito pelas instituições
oficiais, propondo, assim, uma reconstrução da história e mesmo uma intervenção do real. Por vezes, os filmes políticos são reduzidos a gêneros como
filmes de propaganda ou filmes de militante.4
O trabalho técnico-artístico, então, torna-se visível nos filmes políticos
e históricos não pela representação que consiste a roteirizar os personagens
de ficção, mas como meio de produção de sentido e afetos. É assim que foram legitimados vários movimentos de vanguarda, entre eles o Cinema Novo,
4No final dos anos 70, o filme militante passou a ser designado também como “filme de intervenção”. Essa mudança deve-se a afirmação em manter a vontade de agir sobre a sociedade, porém
abandonando o dogmatismo característico dos anos 60. A ideia era que o “filme de intervenção”
pudesse dialogar com outros filmes que não faziam parte do sistema político, mas a partir de
determinadas estruturas socioculturais pudessem propor transformações.
As teorias do cinema e a atualização dos gêneros—
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ancorados na recusa violenta a ideia que separa a arte e a vida, permitindo
a integração das dimensões políticas e ideológicas. Tal constatação nos leva
a afirmar que o filme político não precisa contar uma história mesmo que
tenha elementos narrativos; não necessita obedecer às regras da coerência e
da verossimilhança; e, o seu fim pode ser aberto, pois o que importa é a busca
por um processo sobre o real. Ou seja, nesse gênero fílmico, o que conta em
termos estéticos é a análise dessa busca, possibilitando ao espectador usufruir
dos seus meios para efetuar a compreensão do real.
Os cineastas que valorizam explicitamente o acontecimento histórico marcado pela revolta ou insurreição, geralmente, defendem uma causa.
Nesse sentido, podemos citar, entre os realizadores brasileiros, Lúcia Murat
e Silvio Tendler, ex-militantes que tem a temática sobre a ditadura militar e
a ideia do político diretamente relacionadas a suas filmografias. O que nos
parece evidente, hoje, é que a “ação revolucionária” dos cineastas se exerce
em outro lugar e, principalmente, de outra maneira. Isto significa que a maioria dos cineastas contemporâneos, identifica o acontecimento histórico pela
dramatização da reconstituição do fato, ou seja, os realizadores não analisam
ou questionam os problemas impostos pelo passado ou sua relação com o
presente, não fazem uma reconstrução pela via do imaginário que permite
compreender a história e a tornar inteligível.
No entanto, o cinema tem a liberdade de narrar praticamente o que quiser em
nome da criatividade artística podendo ser legitimado ou não pelos teóricos,
pela crítica e/ou pelo público. O que é isso companheiro? (Bruno Barreto, 1994)
é um exemplo de ficção controverso e polêmico dessa ideia, devido ao tratamento espetacular e novelesco dado à narrativa, o filme foi prestigiado pelo
público e atacado pela crítica e pelos militantes que inspiraram personagens
da trama. Ou ainda, em relação ao documentário podemos citar o recente
Marighella, de Isa Grinspum Ferraz (2012), que fez um filme homenagem ao
tio guerrilheiro e não obteve praticamente público algum.
Dessa forma, podemos nos indagar se esses filmes ainda são políticos.
Segundo Laurent Dubreuil (2011, p. 32), em artigo no Cahiers du Cinéma, os
filmes políticos contemporâneos podem ser definidos como tendo por estratégia estética “o realismo cidadão ou cívico”. Em oposição ao realismo
socialista que se dirigia à classe trabalhadora/oprimida e justificava a sua
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autoridade em função da verdade; o realismo cívico, menos dogmático, é endereçado aos cidadãos tentando neutralizar toda a forma de poder que não
seja “correta”. Nesse sentido, o conteúdo político não deve se submeter à
construção da narrativa, a composição das imagens e aos diálogos. Esse último tem, regularmente, a informação como principal função. Em sua maioria,
os filmes biográficos recentes, trazem à tona o passado que não passa e que
continua a ter um papel fundamental no agenciamento coercitivo na sociedade brasileira atual. Esses filmes despolitizam a sua temática de maneira
implícita e a (re)politizam de outra forma através do uso da seguinte ideia
recorrente: a ocultação do regime ditatorial de maneira indispensável à ação
fílmica. Por exemplo, em grande parte dos filmes atuais encontramos cartões
explicativos e voz em off com dados históricos pontuais, como ano e identificação do local onde se passa a cena ou trama, mas sem a problematização do
conflito histórico. A (re)politização tem por meta promover o reconhecimento e a denúncia pela repetição, como, por exemplo nos filmes sobre a ditadura
militar brasileira a recorrência às cenas de tortura, mostrando ou relatando
algumas técnicas utilizadas pelos militares, como o pau-de-arara, a cadeira do
dragão e os afogamentos.
Mas alguns filmes atualizam o realismo, como Diário de uma busca
(Flávia Castro, 2011) em que a cineasta relata a experiência do seu pai, Celso
Gay de Castro, militante político dos anos 60, exilado e morto em Porto
Alegre em circunstâncias não esclarecidas. O fascínio de Flávia Castro pelo
personagem/pai comprova a importância da realização de filmes biográficos
como forma de entendimento de acontecimentos traumáticos, além disso, a
reconstituição histórica é marcada pelos lugares em que o pai viveu e a ideia
do filme em resgatar a fragilidade afetiva e a força ideológica do militante
demonstra a atualidade do político.
Essa ideia é uma das estratégias utilizadas, hoje, para mostrar nas telas a
(re)politização. A construção da memória não permite mais a continuação da
luta, mas apresentar-se ao presente a partir de uma versão do passado baseada
em uma demanda tácita de reparação. Essa demanda pode ser exemplificada
pelo documentário Cidadão Boilesen (Chaim Litewski, 2009), imigrante escandinavo que se tonou empresário bem-sucedido no Brasil. Boilesen é nome
As teorias do cinema e a atualização dos gêneros—
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de rua em São Paulo, mesmo tendo participado ativamente do financiamento
à tortura no país.
É nesse sentido que Diário de uma busca e Cidadão Boilesen podem ser
considerados filmes políticos, pois estabelecem uma relação estreita entre
estética e manifestação política: a dialética é inseparável do realismo que se
libera da representação contínua da realidade para dar a essa mesma realidade todas as visibilidades possíveis através de uma câmera que deixa revelar
as “impurezas”, e os seus personagens não são vitimizados. Em outros filmes
são apresentados diálogos convencionais, construções narrativas lineares,
montagem banal. Essas estratégias estéticas tem uma missão: construir uma
política que mantém a força em um realismo em que a representação não se
diferencia. Essa forma é a do pragmatismo informativo e não deixa espaço
para a criação artística.
A (re)politização não acontece somente nos filmes mas também nas ruas.
O militante, em uma organização revolucionária nos anos 1960, geralmente,
não era um meio de transmissão de ordens e conselhos vindos de cima, mas
um indivíduo consciente que se apropriava das análises e das orientações
da sua organização ou poderia até participar da sua elaboração. Hoje, a política mudou e esse “personagem” também, estamos distantes do militante
profissional atrelado aos aparelhos ideológicos, como os comunistas, anticolonialistas, feministas, sindicalistas e outros que mantinham presença nas
ruas, nas universidades e nas mídias. O militantismo reaparece marcado pela
irreverência que oxigena de alguma forma a política tradicional, como no
Fórum Social Mundial no início dos anos 2000; na mobilização tecnológica
das redes sociais no movimento conhecido como Primavera Árabe em 2011; e,
na sua forma mais radical desempenhada pelos jovens islamistas kamikazes.
O filme político mudou, principalmente, em relação aos aspectos
formais (passou a ser mais convencional), ao discurso (passou a ser menos
dogmático) e ao modo de produção (passou a ser mais democrático).
O cinema político, originalmente, tinha por objetivo contribuir para
transformação do homem e da sociedade através da imagem cinematográfica como pregava os movimentos de vanguarda nos anos 1960, entre eles, o
Cinema Novo. No entanto, o cinema não pode transformar o que quer que
seja se ele mesmo não se transforma e isso ocorre de forma diferenciada de
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acordo com os seus objetivos que podem ser externos (oriundos da sociedade)
e internos (o cinema que se encarrega de fazer as transformações). É inútil
pretender a mutação da sociedade sem reformular o cinema. Essa mudança
do homem e da sociedade passa também pela transformação do espectador
ao filme que diz respeito ao gênero político. O espectador não aceita somente
o filme como uma forma de divertimento e evasão das relações sociais, mas
como meio de confrontar as suas condições reais de existência com o objetivo
de alterá-las.
Hoje, o que o cinema apresenta é a diluição do político e uma dificuldade enorme de olharmos para nossa história. Essa dificuldade se justifica pela
maneira como a história se desenvolveu e a solução para o seu entendimento presente nos filmes atuais. O cinema contemporâneo não se sustenta na
revolução, é, em sua maioria, informativo, pragmático, linear, convencional,
mas filmes lúdicos e fragmentados começam a surgir, como Diário de uma
busca, engajado em uma crítica política, mostra a interrupção de uma ordem.
Assim, o cinema pode fazer obras exemplares com a narrativa histórica e a
concepção realista: construir a emoção através da renovação do olhar, construir um pensamento pela metamorfose de um combate político.
O cinema do “realismo cidadão” não faz a história, ele serve às convenções e a uma sociedade com ausência de futuro. Não existe, portanto, uma
nostalgia do gênero cinematográfico político, no sentido de que aquilo que
era feito no passado era melhor, mas a necessidade da lembrança para reconstruir a memória sustentada pela ideia de (re)politização.
A l g u n s a p o n ta m e n t o s s o b r e c i n e m a
c o m o c r ia ç ã o d a r e a l i d a d e
O filme biográfico e político é parte tanto da política, da memória e da história atrelado à discussão sobre o realismo e nos remete, então, a ontologia da
imagem cinematográfica. Para compreender a questão, precisamos partir da
definição de imagem que, frequentemente, segundo Alain Badiou, é entendida
a partir da psicologia da percepção em que “a imagem é uma relação de conhecimento à realidade”. (BADIOU, 2010, p. 357) Partindo desse ponto de vista, é
As teorias do cinema e a atualização dos gêneros—
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assim que se estabelece a relação do espectador com o filme: a imagem que ele
constrói a partir da imagem que está na tela. Contudo, em última instância
as imagens não são o filme em si; elas são a relação que fazemos do filme, ou
seja, a associação entre imagens. Ao se opor a essa relação, e, no entanto, a esse
ponto de vista, Gilles Deleuze pensa o cinema como conceito, transformando
a imagem em realidade e não como algo da ordem da consciência.
É assim que o autor agrupa imagem e movimento, criando o conceito
chave da sua obra monumental sobre cinema “Imagem-Movimento” (1983),
com a seguinte definição: “o cinema não é uma imagem em que se agrega o
movimento, ele nos dá imediatamente uma imagem movimento. O cinema
nos dá um corte, mas um corte móvel e não um corte imóvel + o movimento
abstrato”. (DELEUZE, 1983, p. 11) O cinema não é, então, a representação do
movimento, mas uma criação. Nesse sentido, ele é feito de imagens, mas a
imagem não é uma representação. Como escreve Badiou: “a imagem é com o
que o cinema pensa, porque o pensamento é sempre uma criação”. (BADIOU,
2010, p. 358)
Nesse sentido, o cinema é a realidade e não uma representação, pois ele
se constitui em uma forma de pensamento em movimento onde há criação
e abstração. Pode ser exemplificado naquilo que Deleuze definiu como “imagem-afeição” que explicita o afeto presente na imagem tanto nos personagens
quanto nas coisas e corrobora as ideias de Kracauer e Bazin, apresentadas anteriormente, sobre o realismo no cinema.
Podemos nos perguntar, então, como e quais os limites da representação impostos pelo realismo? As diferentes mídias e suas técnicas, cada vez
mais entranhadas no cotidiano, possibilitam que o acontecimento histórico
torne-se um simulacro; o efeito de real acaba invadido de imagens extremas,
que, por vezes, viram míticas (como a cena de corpos enfileirados e olhares
perdidos dos prisioneiros dos campos de concentração), substituindo, assim,
o impacto pela indiferença. Além disso, esse debate é reforçado pela exposição indiscriminada de imagens visuais de grandes catástrofes ligadas à ideia
da sua irrepresentabilidade,5 além de contribuir para a sua banalização e para
5
Podemos citar o cineasta Claude Lanzmann, o filósofo Jean-François Lyotard e o psicanalista Gérard Wajcman, entre outros, como pensadores de diferentes áreas que contribuem para o debate
sobre as teorias realistas e defendem a ideia de irrepresentação das catástrofes históricas.
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a inconsistência de um rigor histórico. Assim, toda a ideia de veracidade, que
sempre permeou o realismo, perde a importância para as questões atreladas
à representação.
Tal proposição é marcada pelo uso de estratégias estéticas que se apropriam de uma determinada técnica que deve ser repetida indefinidamente
para permitir ao espectador assimilá-las, rapidamente, criando, assim, um
código de comunicação apreendido por todos. É dessa maneira, que, segundo
Jean-François Lyotard, “se multiplicam os efeitos da realidade ou os fantasmas do realismo”. (LYOTARD, 1988, p. 14) Ainda segundo ele, os que recusam
o questionamento das regras estabelecem uma comunicação com o público
e um desejo intrínseco de mostrar a realidade, utilizando-se de objeto e situações capazes de satisfazer ao espectador, mesmo que o tema, a princípio,
seja o mesmo: o mal. Este é o realismo didático e desprendido de abstrações.
Nesse sentido, as diferentes mídias que formam os arquivos de imagem
visual têm paradoxalmente, como afirma Lyotard, “o poder de (ir)realizar os
objetos cotidianos, os papéis da vida social e as instituições”. (LYOTARD,
1988, p. 14) A essas representações, também ditas realistas, restam somente
lembrar a realidade.
Nos anos 1960, a efervescência em torno do político e das artes, devido
aos acontecimentos históricos, fez com que autores como Jean-Luc Godard e
Jacques Rivette, somente para citar alguns, questionassem o poder do cineasta e a essência do filme político, defendendo a proibição do uso de estetização
excessiva nesse gênero fílmico. O sentido dessa interdição se sustenta na
ideia de que o filme político precisa evoluir para além do ponto de vista que
se desenvolve na esfera representativa, ou seja, o cineasta recusa a dramatização, pois essa não mostra os “fatos” da vida somente propõe a sequencialidade
desses fatos através da ficção.
Assim, a transcrição do acontecimento histórico não é justificada pela
obediência às regras de um gênero fílmico ou às necessidades de uma progressão dramática, mas a escolhas que selecionam situações e personagens
que não acontecem ao acaso. Toda criação do realizador consiste em se informar da melhor maneira possível para alimentar o drama da sua ideologia
e a do espectador. Segundo Marc Ferro (1989, p. 33), em Cinema e História, a
preocupação do cineasta com a exatidão de detalhes, eu cito “tem um papel
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de tapa-sexo cuja função é tornar opaca a ideologia latente do filme, a perversão de fundo que o faz se submeter a um passado que poderia ser apresentado
de outra maneira”.
Podemos constatar, então, que as teorias realistas contribuem para a
construção de uma estratégia estética valorativa que se distancia da representação da realidade e se aproxima da sugestão, do tensionamento de regras
técnicas e da criação de um pensamento sobre o real. E os filmes biográficos
são uma ferramenta que permite usufruir dessa possibilidade em todas as
suas instâncias.
R e f e r ê n c ia s
BAZIN, André. Qu’est-ce que le cinéma. Paris: Cerf, 1993.
BADIOU, Alain. Cinéma. Paris: Nova, 2010.
______. Petit Manuel d’inesthétique. Paris: Seuil, 1998.
BENJAMIN, Walter. Écrits français. Paris: Gallimard, 1991.
DELEUZE, Gilles. L’image-mouvement. Paris: Minuit, 1983.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Images, malgré tout. Paris: Minuit, 2003.
DUBREUIL, Laurent. Le réalisme citoyen. Cahiers du cinéma, n. 665, mar. 2011.
FERRO, Marc. Révoltes, révolutions, cinéma. Paris: Centre Pompidou, 1989.
FULLER, Samuel. Le camp de concentration de Falkenau. Cahiers du cinema,
Paris, n. 656, 2010.
GODARD, Jean-Luc. Histoire (s) du cinéma. Paris: Gallimard, 1998.
KRACAUER, Siegfried. Théorie du filme: la redemption de la réalité matérielle.
Paris: Flammarion, 2010.
LEBLANC, Gérard. Militantisme et esthétique. In: GAUTHIER, Guy (Org.). Le
cinéma militant reprend le travail. Paris: Corlet, 2004.
LYOTARD, Jean-François. Le postmoderne expliqué aux enfants. Paris: Galilée,
1988.
RIVETTE, Jacques. L’abjection. Cahiers du Cinéma, Paris, n. 120, 1961.
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O perfil dos
estudos de internet
na pesquisa em
comunicação
brasileira
Janara Sousa
Introdução
Este trabalho é parte das investigações realizadas pelo grupo de pesquisa
Internet e Produção Científica, no qual participam docentes e discentes do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação
da Universidade de Brasília. A proposta do grupo é analisar a produção científica dos estudos de internet na área de comunicação no Brasil. Neste trabalho,
em particular, trazemos um levantamento inicial de 190 artigos, coletados em
sete periódicos nacionais da área de comunicação.
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A proposta de estudar a produção científica sobre internet nasceu da
percepção de que cada vez mais a área de comunicação tem participado e
provavelmente até liderado, no âmbito das ciências sociais, o debate sobre o
tema. Como evidência, temos os grupos de trabalho criados no âmbito dos
eventos da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação (Compós)
e da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
(Intercom); a fundação, no ano de 2006, da Associação Brasileira de
Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber); e o lançamento de periódicos científicos inteiramente dedicados ao debate da internet e cibercultura, como: a
revista Cibercultura, a 404notFound e as outras tantas que destinaram dossiês
especiais sobre o tema.
Neste sentido, acreditamos que há no campo dos estudos de internet a
produção de um material científico considerável que vale a pena ser analisado
na perspectiva de nos auxiliar na compreensão da formação desses estudos,
seu cenário atual e apontar possibilidades futuras. Portanto, nos debruçamos na análise da produção científica de sete periódicos brasileiros da área
de comunicação, que no ano de 2011 eram as únicas que gozavam da avaliação Qualis B1: Famecos, Galáxia, Contracampo, Intercom, E-compós, Matrizes e
Comunicação, Mídia e Consumo, que nos trouxeram a amostra inicial de 190
artigos científicos.
Produção científica e estudos de internet
Os estudos de internet se tornaram mais comuns a partir da década de 1990.
Autores como Posthill (2010) e Wellman (2004) propõem divisões para compreendermos a história destes estudos. Via de regra, estes pesquisadores
apontam para uma, duas ou três fases da pesquisa divididas nas décadas de
90, anos 2000 e, mais recente, no final desta década. Essas fases, em ambos os
autores, nos revelam o amadurecimento teórico e metodológico dos estudos
da área. Para além da dicotomia que polarizou o início do debate, utópico x
distópicos, real x virtual, online x offline, hoje se aprimoram as abordagens
metodológicas e o debate epistemológico, que auxiliou na construção mais
clara do que é essa área de estudos.
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O recorte temporal da nossa análise considerou, sem dúvida, o regaste
histórico destes autores. Neste sentido, a década de 1990 marcaria a primeira
fase, no qual a produção científica refletia, como citamos anteriormente, a
novidade e a ampliação do fenômeno. Entretanto, considerando o contexto
brasileiro, marcamos o início das nossas buscas para o ano de 1998, que, segundo Wellman (2004), é o marco que dá início a segunda fase, caracterizada
pela popularização do acesso à rede, especialmente nos Estados Unidos e em
alguns países europeus. Considerando que a internet no Brasil começou a se
popularizar aproximadamente entre os anos de 1995 e 1997, definimos o ano
de 1998 como um momento em que possivelmente a comunidade acadêmica
brasileira já começava a debater o tema.
Entretanto, nas sete revistas analisadas não encontramos nenhum artigo publicado no ano de 1998. É somente a partir de 1999 que se começa a
tímida produção sobre a rede mundial de computadores.
Adriana Amaral e Sandra Montardo (2010, 2011), que também se dedicaram ao exame da produção científica sobre os estudos de internet, definiram
como recorte temporal de análise o lapso entre os anos de 2000 a 2010, que,
segundo Posthill (2010), seria a segunda era dos estudos da internet. Para as
autoras, o cenário brasileiro de pesquisa pode ser dividida em duas fases. Na
primeira metade dos anos 2000,
[..] começam a surgir estudos mais temáticos com enfoques comparativos com outras mídias (impresso, audiovisual etc.) e análise
estrutural de ferramentas online. Há também, uma intensa preocupação com as noções de espaço (ciberespaço e seus impactos
na sociedade contemporânea), enfoques entre a relação entre o
imaginário da cibercultura e o da pós-modernidade. (AMARAL;
MONTARDO, 2010, p. 63)
Já a segunda fase desta década, segundo as autoras, foi caracterizada por
recortes e amostras mais bem definidas. Nesta fase, elas também apontam
uma questão interessante: as questões metodológicas, negligenciadas no início da pesquisa, passaram a ser consideradas com mais atenção. À guisa de
conclusão as estudiosas consideram que as preocupações metodológicas no
Brasil e nos Estados Unidos tomaram rumos diferente:
O perfil dos estudos de internet na pesquisa em comunicação brasileira—
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De maneira geral, percebe-se que, no Brasil, há a predominância de estudos teóricos sobre a área de interesse considerada, sendo que os estudos
empíricos, apesar de terem crescido entre 2006 e 2010, ainda são inferiores
numericamente que os puramente teóricos. Nos Estados Unidos, porém,
observa-se o contrário: por lá, a pesquisa na área começa com o enfoque
empírico e termina com um aumento de produção teórica. (AMARAL;
MONTARDO, 2010)
Este resultado vai ao encontro dos primeiros resultados que encontramos na pesquisa mais ampla que estamos realizando. Ao analisar os artigos
publicados sobre o jornalismo online, por exemplo, lançamos a pergunta
sobre quais foram os procedimentos metodológicos utilizados. Chegou-se
a conclusão que as investigações empíricas são em número menor que as
puramente teóricas e que a abordagem majoritariamente privilegiada é a
qualitativa. É somente nos anos 2010 e 2011 que encontramos mais pesquisas
quali-quanti ou estritamente quantitativas. (SOUSA, 2012)
Um aspecto interessante é que a análise da produção científica na área
de comunicação, de modo geral, tem sido abraçada por alguns autores, como:
Romancini (2006, 2011), Araújo (2005, 2006), Kunsch (1997, 2003), Primo e
colaboradores (2008) e outros. Com relação aos estudos de internet, têm-se menos pesquisadores, mas com contribuições muito interessantes e
resultados capazes de já promover comparações entre os achados, como evidência temos as supracitadas autoras Amaral e Montardo (2010, 2011) e o livro
Métodos de pesquisa em internet (FRAGOSO, RECUERO, AMARAL, 2011), uma
obra muito importante para compreender esse campo de estudos.
Finalmente, é importante observar que analisar a produção científica é
um sinal de amadurecimento da área. É preciso ler os pares e intensificar o
diálogo com eles para que uma área do conhecimento amadureça:
[...] uma forma de unir o rigor científico com resultados relevantes dentro de um domínio de estudo é adquirir o hábito de repassar nossas bibliografias de um modo mais sistemático e rigoroso,
ser capazes de reconhecer nossos avanços, assim como de criticar
nossos métodos ou resultados. (MELLADO, 2010, p. 126, tradução
nossa)
290—Janara Sousa
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Aspectos metodológicos
Para discutir os procedimentos metodológicos dividimos este tópico em dois:
a especificidade da amostra e os procedimentos de coleta e análise de dados.
Especificidade da amostra
Seguramente, uma das primeiras questões que se pode colocar sobre esta pesquisa é relativa à especificidade da amostra. Por que os periódicos? Porque
não as teses, os artigos publicados em congressos ou os dossiês temáticos das
revistas especificamente voltados para os estudos de internet?
As possibilidades são muitas e, certamente, continuam a nos seduzir.
A ideia de analisar os artigos publicados nas sete revistas trata-se de um levantamento inicial/geral, que delineia um cenário amplo e nos dá condições
de tomar outras decisões, como ampliar a amostra ou partir para outras naturezas de produção científica.
Neste sentido, escolhemos os sete periódicos científicos melhores avaliados pelo Sistema Qualis, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (Capes), no ano de 2011, são eles: Contracampo, E-compós,
Famecos, Galáxia, Intercom, Matrizes e Comunicação, Mídia e Consumo. Tratase de revistas respeitadas na área da comunicação que aceitam somente
publicação de autores que são doutores, doutorandos, mestres e mestrandos.
Dois destes periódicos pertencem às duas maiores associações de pesquisadores em comunicação do país: Intercom e Compós. E os outros cinco estão
ligados a programas de pós-graduação respeitados e que existem há muito tempo: Contracampo, Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Universidade Federal Fluminense; Matrizes, Programa de Pós-Graduação
em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo; Galáxia,
Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo; Famecos, Programa de Pós-Graduação
em Comunicação Social, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul; e Comunicação, Mídia e Consumo, Programa de Pós-Graduação em
Comunicação e Práticas de Consumo, da Escola Superior de Propaganda e
Marketing (ESPM/SP).
O perfil dos estudos de internet na pesquisa em comunicação brasileira—
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É interessante observar que essas cinco revistas pertencem a programas
de pós-graduação que estão no Sul e Sudeste do Brasil. Na verdade, três delas
estão em São Paulo, uma no Rio de Janeiro e outra no Rio Grande do Sul.
A produção qualificada e respeitada destes periódicos e sua boa avaliação, pela Capes, nos faz acreditar na capacidade de influência deles, o qual
pode levar autores que pretendem se inserir estrategicamente no cenário nacional do debate sobre comunicação a publicarem nestes espaços.
Com relação ao recorte temporal, como dissemos anteriormente, escolhemos o ano de 1998 como o primeiro para analisar desde o princípio essa
segunda fase de estudos de internet, proposta por Wellman (2004), e o início
da pesquisa no Brasil. Como colocamos, neste ano não encontramos publicação sobre o tema. O final da nossa busca foi o ano de 2011 na tentativa de
abarcar o máximo possível de publicações e compreender a dinâmica e o cenário desses estudos.
Dentro deste recorte, é possível fazer uma subdivisão, conforme havia
sido anunciado anteriormente por Amaral e Montardo (2010). Isto porque do
ponto de vista da quantidade de artigos temos, claramente, um marco: o ano
de 2005. De 1998 a 2004 o volume de publicações era baixo e razoavelmente
estável. No entanto, a partir de 2005 a quantidade de artigos sobre internet
aumenta vertiginosamente:
Gráfico 1 - Quantidade de artigos publicados por ano
Fonte: Elaboração própria.
292—Janara Sousa
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Como podemos perceber no gráfico acima, somente no ano de 2005 houve mais publicações do que em todo o período de 1998 a 2004. Certamente,
tem-se aí um achado importante para nossa pesquisa. Mesmo considerando
as limitações da nossa amostra, é possível que os estudos de internet tenham
ganhado mais força no Brasil, na área de comunicação, a partir da segunda
metade dos anos 2000. Se considerarmos a fundação da ABCiber como um
marco, o que aconteceu em 2006, isto pode explicar o aumento do número de
pesquisadores e publicações que deu condições deste surgimento e também
o alto volume de artigos publicações em 2007, ano em que, nos periódicos
analisados, houve a maior quantidade de trabalhos. Essas considerações são
hipóteses acerca da produção dos estudos de internet. Nada obstante, esclarecemos que para efeito da análise realizada para produção deste artigo, em
alguns momentos, utilizaremos esses dois recortes de tempo no sentido de
compará-los.
Procedimentos de coleta e análise de dados
Para realizar este estudo nos utilizamos dos procedimentos bibliométricos, que são comumente utilizados na análise da produção científica. Estes
procedimentos, resultado do cruzamento de áreas como a matemática e a
estatística, ficaram especialmente conhecidos por permitirem as análises das
citações contidas nas produções científicas:
dentro da bibliometria, particularmente, a análise de citações permite
a identificação e descrição de uma série de padrões na produção do conhecimento científico. Com os dados retirados das citações pode-se descobrir:
autores mais citados, autores mais produtivos, elite de pesquisa, frente de pesquisa, fator de impacto dos autores, procedência geográfica e/ou institucional
dos autores mais influentes em um determinado campo de pesquisa; tipo de
documento mais utilizado, idade média da literatura utilizada, obsolescência
da literatura, procedência geográfica e/ou institucional da bibliografia utilizada; periódicos mais citados, “core” de periódicos que compõem um campo.
(ARAÚJO, 2006b)
O perfil dos estudos de internet na pesquisa em comunicação brasileira—
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Para além das citações, os procedimentos bibliométricos nos permitem
compreender melhor o cenário atual e as perspectivas de uma área de estudos
e seu capital científico, ou seja, as redes de cooperação formadas e o fluxo de
influências entre os pesquisadores.
Para analisar o cenário de produção científica de uma determinada área
há um conjunto de indicadores bibliométricos que podemos lançar mão, tais
como: produção, ligação e citação. (GRÁCIO; OLIVEIRA, 2011) Para efeito
deste trabalho, utilizaremos os indicadores de produção e de ligação.
Os indicadores básicos de produção são constituídos pela contagem do
número de publicações do pesquisador, grupo de pesquisadores, instituição
ou país e objetivam refletir seu impacto junto à comunidade científica a qual
pertencem, dando visibilidade àqueles mais produtivos, bem como às temáticas mais destacadas de uma área do conhecimento. (GRÁCIO; OLIVEIRA,
2011, p. 252)
Com os indicadores de produção buscamos compreender quem são os
autores da área da comunicação que se dedicam aos estudos de internet, os
autores mais produtivos e quais as regiões brasileiras e os estados da federação aos quais pertencem. Além disso, nos interessou conhecer o gênero dos
pesquisadores e as instituições as quais são provenientes. Esses achados nos
permitem compreender melhor a história destes estudos, a sua composição e
a média de produtividade.
O outro conjunto de indicadores que nos interessou foi o de ligação,
visto que consideramos a autoria compartilhada como um sinal de amadurecimento do campo. Como os autores se ligam? Como eles compõem grupos
de pesquisa e redes de colaboração?
A colaboração científica entre autores ou instituições supõe uma consorciação de hipóteses e objetivos centrais de um projeto, o estabelecimento
de uma divisão de trabalho, a interação entre os investigadores, o compartilhamento de informações e a coordenação destas diferentes relações do
investimento conjunto. (GRÁCIO; OLIVEIRA, 2011, p. 252)
Portanto, para compreender este quesito levantamos a quantidade de
artigos realizados em coautoria ou autoria múltipla e os de assinatura individual. Fizemos esta análise, inclusive, na produção dos pesquisadores com
maior média de publicação, isto porque, entre outras razões, há pesquisa-
294—Janara Sousa
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dores que acreditam: [...] que autores mais produtivos tendem a ser mais
colaborativos”. (MAIA; CAREGNATO, 2008, p. 24)
P e r f i l : p r o d u t i v i d a d e , au t o r ia e d i s t r i b u i ç ã o
geográfica e institucional
Para analisar a amostra de 190 artigos publicados nos últimos 13 anos, nos
principais periódicos científicos brasileiros, e traçar um perfil inicial dos estudos de internet no Brasil, elegemos três aspectos importantes de análise:
produtividade, autoria e distribuição geográfica e institucional. Para tornar
mais claro os achados encontrados, vamos apresentar separadamente cada
um desses aspectos. Mais uma vez é importante destacar que para efeito de
compreender melhor o cenário e as tendências dos estudos de internet, apresentaremos alguns dados separados pelos recortes de tempo: 1998 a 2004 e
de 2005 a 2011.
Produtividade
A produtividade se refere ao total de artigos publicados sobre internet e a
média de publicação por autor nos periódicos selecionados. Seguramente,
para uma análise mais rica destes resultados, seria interessante comparar
com outros trabalhos que tiveram objetivos semelhantes. No entanto, no
que concerne à produtividade e ao perfil da investigação, de modo geral, não
encontramos muitos interlocutores. Aqui apresentaremos as médias de publicação e a variação por ano.
Em primeiro lugar, vamos analisar a média de publicação dos autores.
No período total analisado, 1998 a 2011, observou-se que 125 autores foram
responsáveis pela publicação dos 190 artigos da nossa amostra. Como é possível observar na Tabela 1, a maioria dos autores publicou somente um artigo.
Encontramos oito frequências de publicações que representam médias
homogêneas até chegarmos às maiores médias. Isto quer dizer, os autores que
publicaram entre 9 e 3 artigos, no período total de análise, somam menos de
10%. A distribuição entre as frequências dos autores que publicaram mais de
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um trabalho é muito semelhante. O cenário só se modifica quando observamos as médias de publicação de 2 e 1 artigos. Efetivamente, a proporção de
autores que publicou somente um artigo nestas revistas nos últimos 13 anos
é de quase 80%. Ou seja, a média de produtividade é muito baixa, o que pode
ser explicado pela grande transitoriedade dos autores no interesse pelo tema
internet, o qual pode denunciar uma falta de investigação sistemática na área.
Tabela 1 - Frequência de publicação (%) dos autores
Frequência de publicação
de artigos
Número de autores
(%)
9
1
0,8
8
2
1,6
6
1
0,8
5
1
0,8
4
2
1,6
3
7
5,6
2
14
11,2
1
97
77,6
Total
125
100
Fonte: Elaboração própria.1
Autoria
A proposta de compreender a autoria é fundamental para a análise da produção científica. Neste item, vamos focar nossa atenção em quatro aspectos:
o número de autores, dos 190 artigos analisados; o gênero deles; os pesquisadores com maior índice de produtividade, que provavelmente se destacam
como influentes na pesquisa pela sua inserção mais estratégica e continuidade dos estudos sobre o tema; e a questão das coautorias.
1
Para efeito de construção desta tabela, levou-se em conta somente o primeiro autor de cada artigo.
296—Janara Sousa
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Na mostra, como já observado, foram encontrados 125 autores2, destes
quase 52% são mulheres e 48% homens, o qual revela que, no âmbito pesquisado, há uma considerável presença feminina. A presença das mulheres foi
crescendo com o passar dos anos. Na primeira fase da pesquisa, 1998 a 2004,
a presença de mulheres como primeira autora era menor que 35%. É somente
na segunda fase, 2005 a 2011, que essa proporção se inverteu.
Outro aspecto importante de considerar no que concerne à autoria são
os autores mais produtivos. Como vimos na Tabela 1, a média de publicação
é de um artigo por autor. Não obstante, como esta mesma tabela acusa, há
autores que publicaram um volume maior de artigos. Escolhemos o recorte
de 13 anos, justamente para que, com o lapso de tempo maior, diminuísse a
nossa margem de erro de autores mais produtivos. Elegemos como mais produtivos os autores que publicaram 3 ou mais artigos.
Gráfico 2 - Proporção de homens e mulheres na produção científica sobre internet
Fonte: Elaboração própria.3
2
Para efeito desta análise, consideramos apenas o primeiro autor.
3
Para efeito de construção desta tabela, levou-se em conta somente o primeiro autor de cada artigo.
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Quadro 1 - Autores com maior produtividade
Autor
Nº de artigos
Eugênio Trivinho
9
Alex Primo
8
Erick Felinto
8
Raquel da C. Recuero
6
André Lemos
5
Adriana Amaral
4
Francisco Paulo Jamil
4
Claudia Irene de Quadros
3
Fernanda Bruno
3
Francisco Rüdiger
3
Gisela G. S. Castro
3
Sandra P. Montardo
3
Simone Maria Andrade Pereira de Sá
3
Suely Fragoso
3
Total
65
Fonte: Elaboração própria.4
O autor com maior produtividade, no âmbito da nossa pesquisa, foi
Eugênio Trivinho, que publicou 9 artigos. Dos 14 autores destacados pela
maior produtividade, o maior grupo é o que publicou 3 artigos, que representa metade da amostra. No grupo dos autores mais produtivos, é também
possível perceber que a proporção por gênero, verificada na amostra total, se
mantém: há um pouco mais de mulheres do que homens. Entretanto, as três
maiores médias de publicação pertencem aos homens.
A importância de se conhecer/nomear os autores mais produtivos reside
no fato de que eles foram responsáveis por mais de um terço da produção
científica analisada em nossa amostra. Ou seja, dos 190 artigos, assinados por
125 primeiros autores, eles foram responsáveis por 65. Isto implica dizer que
11% dos autores assinaram mais de um terço das publicações. Certamente,
4
Para efeito de construção desta tabela, levou-se em conta somente o primeiro autor de cada artigo.
298—Janara Sousa
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eles assumem uma posição de liderança e, provavelmente, de forte influência
entre o grupo dos pesquisadores da área. E, ao contrário da maioria dos autores, que talvez tenham uma atuação mais pontual no que se refere aos estudos
de internet, eles, pelo volume e qualidade da sua produção, têm uma adesão
maior ao tema.
Assim colocado, considerando que um dos objetivos desta pesquisa é
conhecer melhor a história e composição dos estudos de internet, mesmo
considerando as limitações da amostra, certamente, este grupo de pesquisadores mais produtivos tem um papel importante na construção desta história.
A coautoria é uma pista importante para compreender como os pesquisadores de uma determinada área se organizam e realizam parcerias em suas
pesquisas. A avaliação das coautorias pode nos indicar a questão da formação
de redes e grupos de investigação. A autoria compartilhada é um indicador
importante da colaboração científica. (MAIA; CAREGNATO, 2008)
Gráfico 3 - Produção em coautoria (%)
Coautorias
26,84%
Único autor
73,16%
Fonte: Elaboração própria.
Nesse sentido, consideramos como muito importante a produção em
parceria, na medida em que isso revela, como colocamos antes, o trabalho
continuado de um grupo que realiza uma ação estratégia para tornar público
os resultados das investigações, divisão de trabalho, negociações e interação.
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Considerando isso, o cenário dos estudos de internet revela que ainda carece
de amadurecimento.
Diante do cenário de baixa produção em autoria múltipla, como evidenciado no Gráfico 3, é oportuno lançarmos a pergunta: diante da possibilidade
de trabalhar em parceria, que o próprio meio oferece, por que os estudiosos
da área se valem pouco disto?
Nada obstante, o cenário da nossa mostra não difere da constatação das
autoras Maria de Fátima Maia e Sônia Caregnato, que afirmam que nas ciências sociais a incidência de coautorias é mais baixa do que em outras áreas:
Os resultados desses estudos revelam que as colaborações entre autores
têm aumentado em todas as disciplinas. Entretanto, o grau de colaboração
difere entre elas; ou seja, nas ciências naturais, por exemplo, não só o número
de artigos em coautoria como o número de autores por artigos é maior do que
nas ciências sociais. (MAIA; CAREGNATO, 2010, p. 20)
Outro indicador importante da autoria compartilhada é o da natureza da
pesquisa. Conforme as autoras Maria de Fátima Maia e Sônia Elisa Caregnato
(2008), os estudos de coautoria revelam que a incidência dela é maior em
trabalhos experimentais e menor em teóricos. Compreende-se que a complexidade, diversidade e multiplicidades das tarefas exige o trabalho em grupo
nas pesquisas empíricas. Certamente, os trabalhos teóricos não são menos
complexos, porém podem representar a empresa de um único investigador.
Um exemplo interessante, que pode significar melhor o nosso achado da baixa produção em coautoria, diz respeito a uma pesquisa que Maia e
Caregnato (2010) realizaram no âmbito do Programa de Pós-Graduação em
Epidemologia, da Universidade Federal de Pelotas. No período de 1991 a 2002,
foram publicados 237 artigos, destes, 220 (93%) eram de autoria compartilhada; e somente 17 artigos (7%) foram de autoria individual. A baixa produção
em coautoria, ou autoria múltipla, do nosso quadro geral é também acompanhada pelos supracitados autores mais produtivos. Mais de 70% dos artigos
publicados por esse grupo foi de assinatura individual.
Embora o número de publicações em autoria compartilhada seja pequeno, mais de 80% dos autores mais produtivos publicaram, pelo menos uma
vez, em parceria.
300—Janara Sousa
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Distribuição geográfica e institucional
No item anterior, que aborda os procedimentos metodológicos, já se havia
constatado uma concentração geográfica das revistas no Sul e Sudeste do
Brasil. Agora vamos analisar outros três aspectos para observar a qualidade de
distribuição da produção científica brasileira: região geográfica dos autores
mais produtivos; o tipo das universidades, se pública ou privada; e instituição
propriamente dita de cada um deles.
A maior parte dos pesquisadores com o maior número de artigos publicados na nossa amostra está na região sul, como podemos ver na imagem
abaixo. Há duas regiões que não foram representadas:
Gráfico 4 – Distribuição geográfica dos autores mais produtivos por região brasileira (%)
Fonte: Elaboração própria.
Como é possível perceber no gráfico acima, 50% dos autores mais produtivos, da produção científica analisada, está na região Sul, mais de 35% está
na Sudeste. As regiões Norte e Centro-Oeste não têm representantes entre os
mais produtivos. Isto, certamente, revela uma grande concentração geográfica dos estudos de internet no Sul e Sudeste do Brasil, fato que já havia sido, de
alguma forma, anunciado pela concentração geográfica das revistas.
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Outro dado interessante é observar em quais estados da federação
estão os pesquisadores mais produtivos (apresentados no Quadro 1). Os representantes da região Sul estão praticamente todos no Rio Grande do Sul,
excetuando uma pesquisadora do Paraná. Os da região Sudeste estão divididos entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. E na região Nordeste
tem-se um pesquisador da Bahia, André Lemos, e um do Ceará, Francisco
Paulo Jamil.
Com relação ao tipo de universidade, se pública ou privada, verificou-se
que a divisão foi equitativa entre os pesquisadores mais produtivos. Logo,
metade atua em universidades públicas e a outra metade em privadas.
Finalmente, vale a pena destacar as instituições de origem dos pesquisadores mais produtivos, no âmbito do nosso levantamento. Há dois autores na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um em cada uma das universidades a seguir: Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM); Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo; Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul; Universidade Católica de Pelotas; Universidade do Estado do
Rio de Janeiro; Universidade do Tuiuti do Paraná; Universidade do Vale do
Rio dos Sinos; Universidade Federal da Bahia; Universidade Federal do Ceará;
Universidade Federal do Rio de Janeiro; Universidade Federal Fluminense;
Universidade Feevale.
C o n s i d e r a ç õ e s f i n ai s
A proposta desta pesquisa foi compreender melhor a história e o desenvolvimento dos estudos de internet na área da comunicação no Brasil. Acreditamos
que analisar a produção científica é uma tarefa fundamental para qualquer
área do saber. É preciso ler os pares para qualificar o diálogo e compreender o
cenário atual e os caminhos que as pesquisas tomam. Embora essa ação ainda
seja tímida na área da comunicação no Brasil, percebemos que há cada vez
mais pesquisadores interessados no debate da nossa produção científica, que
se tornaram nossos valorosos interlocutores.
Sem dúvida, a pesquisa em comunicação ainda é muito jovem, especialmente no cenário brasileiro, mas enfatizamos que há um material
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bibliográfico suficiente e qualificado que carece de análise, compreensão
e debate. Nesta linha de pensamento, é de assustar o quanto os estudos de
internet são recentes, data de menos de 15 anos atrás, mas o volume de informações e de publicações, talvez impacto do próprio meio, é também de
assustar. Acreditamos que analisar essa produção é uma oportunidade especial, já que estamos vivenciando a formação destes estudos e fazendo a
história deles.
A nossa amostra de análise, fruto de uma coleta nas sete revistas melhores avaliadas da área de comunicação, no período de 1998 a 2011, nos trouxe
190 artigos e 125 primeiros autores. É interessante observar que de 1998 a
2004 o número de publicações era muito baixo, até que em 2005 houve um
vigoroso aumento, indício de um fortalecimento destes estudos. Os resultados da publicação apresentam disparidades regionais que vão desde a origem
das pesquisas à origem das instituições aos quais os autores estão vinculados. As regiões Sul e Sudeste concentram sozinhas a maior parte da produção
científica dos estudos de internet e a maior parte dos autores, inclusive os
mais produtivos.
Finalmente, vale destacar um fato importante: quase 80% dos autores
publicaram somente um artigo. Este achado, aliado aos outros desta investigação, nos faz inferir que os estudos de internet no país ainda são pouco
sistemáticos, embora possuam uma elite produtiva de pesquisa.
R e f e r ê n c ia s
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O perfil dos estudos de internet na pesquisa em comunicação brasileira—
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 303
303
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O perfil dos estudos de internet na pesquisa em comunicação brasileira—
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S o b r e o s au t o r e s
Antonio Hohlfeldt
Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Pesquisador do CNPq.
Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM; Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio
Grande do Sul. Coautor, dentre outros, de Teorias da comunicação: conceitos,
escolas e tendências (2001, 12ª edição 2012).
Cristiane Freitas Gutfreind
Doutora em Sociologia pela Université René Descartes e professora do
Programa de Pós-graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Membro da comissão coordenadora do PPGCom,
editora da Revista Famecos e pesquisadora do CNPq. Coautora de Cinema
em choque. Diálogos e rupturas (2013). Entre seus interesses se destacam os
seguintes temas: teorias do cinema, imaginário, relações do público com a
técnica.
Éric George
Professor da Escola dos Meios, Faculdade de Comunicação e diretor do
Programa de Doutorado em Comunicação da Universidade do Quebec em
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307
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Montreal (UQAM). Pesquisador do GRICIS-UQAM. Pesquisador Associado,
Maison des Sciences de l’Homme Paris Nord. Coeditor da Revue Tic&Société.
Seus interesses são a economia-política e o pensamento crítico em comunicação e entre suas publicações se encontra a coedição de Où [en] Est la
Critique en Communication? (2013).
Gaëtan Tremblay
Pesquisador do GRICIS da Universidade do Quebec em Montreal. Um
dos nomes de referência da pesquisa em comunicação canadense, com vasta publicação, dirigiu vinte livros coletivos e quase duas centenas de artigos
e capítulos sobre as comunicações, as indústrias mediáticas, a formação a
distância e a sociedade da informação. Um de seus últimos lançamentos é
Renewing the Knowledge Societies Vision for Peace and Sustainable Development (2014, Unesco).
Giovandro Marcus Ferreira
Professor e ex-diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade
Federal da Bahia. Coordena o Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do
Discurso e Midia e o Centro de Estudo em Comunicação, Democracia e Cidadania. Pesquisador do CNPq.
Janara Sousa
Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Entre seus interesses de pesquisa estão a metodologia, as tecnologias da
comunicação e entre suas publicações se encontram Teoria do meio: contribuições limites e desafios (2009) e a coedição de 100 anos de McLuhan (2102).
Kim Sawchuk { [email protected]
Professora da Concordia University. Editora do Canadian Journal of
Communication e coeditora do Wi: Journal of Mobile Media. Coautora de Sampling the Wireless Spectrum: the politics, poetics and practices of mobile media
308—sobre os autores
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 308
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(2010). Seus interesses de pesquisa são: metodologia, gênero, análise do discurso, comunicação móvel, estudos culturais.
Luiz Claudio Martino
Professor titular da Faculdade de Comunicação da Universidade de
Brasília. Pesquisador do CNPq. Pesquisador convidado no GRICIS, da Universidade do Quebec em Montreal. Seus interesses são a epistemologia, a
tecnologia e a história da comunicação. Entre suas publicações estão vários
artigos, co-organização de livros, entre eles Teorias da comunicação: poucas
ou muitas? (2007).
Milton N. Campos
Professor do Departamento de Comunicação da Unviersidade de Montreal. Seus domínios de interesse são a ética discursiva, comunidades e redes
sociais, tecnologia digitais e intervenções políticas. Entre suas publicações se
encontra Navegar é preciso. Comunicar é impreciso (Edusp, 2014).
Míriam Cristina Carlos Silva
Professora titular do Mestrado em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba, na linha de pesquisa Análise de Processos e Produtos
Midiáticos. É roteirista e documentarista. Realiza pesquisa sobre a importância do narrador nas narrativas midiáticas. Entre suas publicações temos
Apresentação: Olhares, saberes e Partidas: a pesquisa em movimento.
Osvando José de Morais
Mestre em Literatura Brasileira e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Professor e pesquisador acadêmico em
Teorias da Comunicação e da Cultura. Diretor editorial Intercom. Entre suas
publicações encontram-se várias coedições, Comunicações e problemas Luiz
Beltrão (2013, 4v.) e Quem tem medo de pesquisa empírica? (2011).
sobre os autores—
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309
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Oumar Kane
Professor da Escola dos Meios, Faculdade de Comunicação e pesquisador do GRICIS da Universidade do Quebec em Montreal. Interesses: teorias e
epistemologia da comunicação, economia política, comunicação ambiental,
saúde, comunicação internacional e estudos pós-coloniais. Entre suas várias
publicações encontram-se as coedições de Mobilisation et médiation de l’objet
technique dans la production de soi (2012) e Identités diasporiques et communication (2013).
Owen Chapman
Professor da Concordia University e codiretor do Laboratório de Mobile
Media. Seu trabalho com arte envolve música, projecção de vídeo, microfones de contato e velhos instrumentos eletrônicos. Seus temas de pesquisa
incluem metodologias de pesquisa-criação e a intersecção de arte áudio, perfomances e sons eletrônicos. Entre os vários artigos publicados encontra-se
Research-Creation: Intervention, Analysis and ‘Family Resemblances’. (Canadian
Journal of Communication, 37, 2012).
Paulo B. C. Schettino
Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Cineasta, mestre e doutor em Ciências da Comunicação
pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Autor do
livro Diálogos sobre a tecnologia do cinema brasileiro (São Paulo: Ateliê Editorial/2007). Realizador do documentário Ora (direis) ouvir estrelas! (2008).
Thierr y Bardini
Professor do Departamento de Comunicação da Universidade de
Montreal. É autor de vários artigos e livros sobre a inovação, a sociologia da
tecnologia e hipermídia. Entre eles se encontram Junkware (2011) e Bootstrapping: Douglas Engelbart, Coevolution, and the Origin of Personal Computing
(2000).
310—sobre os autores
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5/20/14 4:31 PM
William J. Buxton
Professor da Concordia University e diretor do Programa de Doutoramento Conjunto em Comunicação (Concordia, Universidade de Montreal e
UQÀM). Seus temas de interesse são a história da comunicação e a Escola de
Toronto de Comunicação. Entre suas várias publicações se encontram Harold
Innis in the New Century: Reflections and Refractions (1999).
sobre os autores—
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311
5/20/14 4:31 PM
Colofão
Formato
170 x 240 mm
Tipologia
Calluna e ScalaSansPro
Papel
Impressão
Capa e Acabamento
Tiragem
teoria-meios-comunicacao_v1.indb 312
Alcalino 75 g/m2 (Miolo)
Cartão Supremo 300 g/m2 (Capa)
Edufba
Cian Gráfica
400 exemplares
5/20/14 4:31 PM

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