uvir ílvra de zu zus lesar dòs ruídos rae nossa época

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uvir ílvra de zu zus lesar dòs ruídos rae nossa época
>uvir
ílvra de zu z us
lesar dòs ruídos
rae nossa época
Walter C. K aise
Moisés Silva
Introdução à H erm enêutica Bíblica © 2002, Editora Cultura Cristã.
O riginalm ente publicado nos E U A com o título A n Introduction to Biblical
H erm eneutics © 1994, W alter Kaiser, Jr. e M oisés Silva - G rand Rapids,
M ichigan, 49530, USA. Todos os direitos são reservados.
4
l 5 edição - 2002 - 3.000 exem plares
Tradução
Paulo C ésar N unes dos Santos
Tarcízio José Freitas de Carvalho
Suzana Klassen
R evisão
R ubens Castilho
C laudete Á gua de M elo
E ditoração
Rissato
Capa
A ntônio Carlos Ventura
Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:
C láudio M arra (P residente), A lex Barbosa Vieira,
A proniano W ilson de M acedo, Fernando H am ilton Costa,
M auro M eister, Ricardo A greste e Sebastião Bueno Olinto.
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CDITOAA CULTURA CRISTA
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Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
P ara Dr. A ríh u r e A lice H olm es,
extraordinários servos de Cristo, com gratidão p e lo s conselhos
espirituais e acadêm icos durante o curso universitário
e p e la am izade ao longo da vida.
W alter C. K aiser, Jr.
A Tia Fina.
M oisés Silva
índice
P re fá c io ..............................................................................................................
A b re v ia tu ra s......................................................................................................
7
10
Parte 1. A B u sca por Significado: O rientações Iniciais
1. Q uem P recisa de H e rm e n ê u tic a ? ...............................................
13
2. O Sentido do S ig n ific a d o .............................................................
25
3. Vam os Ser Lógicos: U sando e A busando da L in g u a g e m ....
45
Parte 2. C om preendendo o Texto: O Sentido nos G êneros L iterários
4. “R ecordo os feitos do S enhor”0 Sentido da N a rra tiv a .......
65
5. “D e B oas Palavras T ransborda o M eu C oração” :
O Sentido da Poesia e da S a b e d o ria .........................................
81
6. “E stes, porém , foram registrados para que creiais” :
O Significado os E v a n g e lh o s......................................................
99
7. C om o L er um a Carta: O Sentido das E p ís to la s ......................
117
8. E quanto ao futuro?: O Significado da P ro fe c ia ....................
135
v.
Parte 3. R espondendo ao Texto: Significado e A plicação
9. “A ssim com o a corça suspira pelas correntes de água” :
O U so D evocional da B íb lia .....................................................
157
10. O bedecendo à Palavra: O U so C ultural da B íb lia ..............
167
11. Juntando as peças: O U so Teológico da B í b l ia ...................
18“
Parte 4. A B usca por Significado: O utros D esafios
12. U m a B reve H istória da In te rp re ta ç ã o .....................................
203
13. V isões C ontem porâneas da Interpretação B íb lic a ..............
221
14. E m Favor da H erm enêutica de C a lv in o ................................
243
15. O bservações F in a is .......................................................................
263
G lo s s á rio ............................................................................................................
275
B ibliografia A n o ta d a ......................................................................................
278
ín d ice de Passagens B íb lic a s .......................................................................
279
ín d ice de N o m e s .............................................................................................
284
índice de A s s u n to s ..........................................................................................
286
Prefácio
D a m esm a fo rm a que a obra de B e rn a rd R am m P ro te sta n t B ib lic a l
Interpretation (Interpretação bíblica protestante) foi escrita em 1956 para um
amplo espectro de leitores, assim tam bém Uma Introdução à H erm enêutica
Bíblica busca alcançar a m esm a am plitude de leitores leigos e profissionais
para ajudá-los a com preender os textos bíblicos. Porém , as m udanças na for­
ma com o os textos são entendidos não foi nada menos que catastrófica no
curto período de tempo desde que Ramm escreveu sua obra. Quase todos os
pressupostos de Ramm já foram questionados e testados pelos novos ventos
da m odernidade e da pós-m odernidade. As correntes de pensam ento m uda­
ram de m odo tão radical os padrões de raciocínio a ponto de nos perguntar­
mos (apesar de, a nosso ver, só por um momento) se o leitor deste prefácio é
capaz de compreender o que dissemos até aqui! O fato é que, aquilo que carac­
teriza nosso tempo, como observa o subtítulo, é A Busca pelo Significado.
Os fatores que diferenciam este livro dos outros numa área que tornouse subitam ente um tanto cheia de novos títulos depois de um longo período
com poucas publicações estão (1) na singularidade de nossa abordagem ,
(2) na m aneira com o afirmamos a urgência em nossos dias da necessidade de
uma obra como esta que apresentam os e (3) no cuidado que tivemos para
tornar este livro útil tanto para o leitor leigo como, especialm ente na parte 4,
para o estudante mais avançado.
*
Nossa abordagem é tão surpreendente que pode ser que alguns tenham
olhado duas vezes quando viram os nomes de Kaiser e Silva como co-autores,
achando que esses dois não se encaixam com tanta facilidade. M as é por isso
que esta obra é singular. Não é um caso no qual dois ou três autores ceir.
pontos de vista idênticos ou similares sobre as questões de interpretação de::dem escrever um livro para apresentar uma única visão. Pelo contrário. :u '_ mos escrever um único livro sobre herm enêutica bíblica sabendo cue
um de nós com preende o processo de interpretação de m aneira diferente em
algum as áreas-chave que representam os pontos mais críticos de discussão
sobre a interpretação nos dias de hoje. Desse modo, os leitores de nosso texto
não recebem um a única opinião, e são levados, portanto, a chegar às suas
próprias conclusões depois de ouvirem uma discussão vibrante entre dois
autores que ousam concordar com o fato de que discordam satisfatoriam ente
(em certos pontos críticos). Os estudiosos - até m esm o os evangélicos - teri­
am mais sucesso se contássem os com mais exemplos de colegas envolvendose neste tipo de experiência. Mas os leitores devem ficar avisados de que há
mais áreas nas quais concordam os do que nas quais discordam os, incluindo
questões fundam entais como a autoridade das Escrituras e a prim azia do sig­
nificado autoral. Mas algumas de nossas discordâncias concentram -se em
questões que são graves e críticas para o futuro. As diferenças entre as idéias
de cada autor ficam evidentes especialm ente nos capítulos 8, 11 e 14. E nesse
espírito que convidam os os leitores a participar conosco de um a conversa
cordial, porém prudente.
Apesar de o tom ser amigável, nossos leitores não devem se enganar
achando que aquilo que está envolvido em suas conclusões é menos sério.
Enquanto Ram m lutou com questões a respeito do modo como as suposições
naturalistas afetam a herm enêutica, nossa geração valoriza tanto o individua­
lism o, a liberdade e a iniciativa da pessoa, que a pergunta mais im portante
não é mais “E verdade?” e sim, “Isso im porta?” Assim, a questão da relevân­
cia tomou precedência sobre a pergunta “O que o texto significa?” Aliás, o
sentido do que vem a ser significado é extrem am ente com plexo e discutido
acaloradam ente tanto por evangélicos como por não-evangélicos. Se algum
dos significados ou todos os significados sugeridos podem ou não ser consi­
derados válidos e qual deve ser o critério para tal validação são questões que
geram em nós, os leitores m odernos da Bíblia, um desconforto cada vez m ai­
or. Enquanto isso, toda uma geração esta à espera de ouvir um a palavra de
Deus. E quase como o antigo dilem a filosófico: Será que a árvore que caiu na
floresta fez algum barulho, tendo em vista que não havia ninguém para ouvir?
Em nosso caso, a questão é: Será que Deus, de fato, revelou algum a coisa aos
profetas e apóstolos se eles não entenderam algumas das coisas (ou todas as
coisas) que eles mesmos escreveram e se nós, os leitores, tem os tantas opini­
ões diferentes sobre o que foi com unicado? Por isso este diálogo é tão urgente
e crítico. Os resultados deste debate irão m oldar a próxim a geração de crentes
a ponto de estas questões poderem ser consideradas entre as tendências mais
relev an te s d a te o lo g ia evangélica.
Mas esta obra vai além do enfoque nas questões críticas. Ela considera
seriam ente o aspecto da busca m oderna por relevância que, para nós, é tão
cabível e já fazia parte da intenção divina desde o princípio. Preocupam o-nos
em ajudar os leitores a responder à pergunta: “O que im porta?” Crem os que o
processo interpretativo não se com pleta quando declaram os o que o autor
estava tentando dizer, pelo contrário, acreditam os que a interpretação e a
exegese devem tam bém decidir qual é a relevância atual, a aplicação e o sig­
nificado contem porâneo desse texto. Se tudo isso é parte ou não do processo
de significado, é um dos pontos sobre os quais temos diferentes opiniões.
Assim, em vez de escrever um livro que sim plesm ente analisa o problem a,
decidim os que tam bém devemos oferecer o m áximo de ajuda possível ao
m ostrar a leigos e estudiosos como extrair benefícios contem porâneos da in­
terpretação de vários tipos de textos bíblicos. M esm o parecendo surpreen­
dente, é possível que o estudioso esteja numa posição m enos vantajosa nesse
passo do processo de significado do que o leigo que já vem perguntando qual
é a “moral da história” desde o começo!
Por fim, esperam os que esta obra não fuja de seu enfoque principal que
é sobre as Escrituras em si. Nosso desejo foi, na m edida do possível, apresen­
tar uma discussão breve e direta das questões e dos métodos e então deixar o
leitor a sós na presença do texto das Escrituras e do m inistério do Espírito
Santo. Que esse prazer e alegria na Palavra e o Deus Soberano da Palavra
estejam presentes com você nos próxim os dias.
Devem os um a palavra especial de agradecim ento a Leonard G. Gross, o
editor de im pressão, por seu entusiasm o durante as prim eiras fases deste pro­
jeto; a Jam es E. Ruark, gerente de edição, por sua paciência e auxílio na
produção final desta obra e a Stanley N. Gundry, editor-chefe, por sua pro­
posta inicial esse projeto.
Abreviaturas
AB
A JT
ATR
AV
BAGS
BJRL
CTJ
CTQ
GiC
HUCA
ICC
IDPSup
IJF M
JB C
JBL
JETS
JR
JTV1
KJV
LB
LCC
NIV
NTS
SBET
SBLDS
SR
TJ
TSK
VT
W BC
W TJ
A nchor Bible
Asia Journal ofT heology
A nglican Theological Review
Authorized (King James) Version
W. Bauer, W. F. Arndt, F. W. Gingrich, and F. W. Danker,
Greek-English Lexicon o fth e Testament
Bulletin o fth e John Rylands University Library
Calvin Theological Journal
Concordia Theological Quarterly
Gospel in Context
Hebrew Union College Annual
International Criticai Com m entary
lnterpreter’s Dictionary o fth e Bible, supp. vol.
International Journal o f Frontier M issions
Jerome Biblical Commentary, ed. R. E. Brown et al.
Journal o f Biblical Literature
Journal o fth e Evangelical Theological Society
Journal o f Religion
Journal o fth e Transactions o fth e Victorian Institute
King James (Authorized) Version
Linguistica Biblica
Library of Christian Classics
New International Version
N ew Testament Studies
Scottish Bulletin o f Evangelical Theology
Sciety of Biblical Literature Dissertation Series
Studies in Religion/Sciences religieuses
Trinity Journal
Theologische Studien und Kritiken
Vetus Testamentum
W ord Biblical Com m entary
Westminster Theological Journal
PARTE 1____________
A Busca por Significado:
Orientações Iniciais
O próprio uso do termo hermenêutica levanta uma questão
importante: Por que deve-se esperar que leitores da Bíblia estudem
os princípios de interpretação? Apesar do que nossas experiências
cotidianas possam sugerir, o processo envolvido na compreensão
de um texto é bastante complicado. As dificuldades aparecem prin­
cipalmente quando tentamos ler um livro que é produto de uma
outra cultura ou época, como podem deixar claro alguns exemplos
de Shakespeare. No caso de documentos da antigüidade escritos
em outra língua, precisamos fazer um esforço adicional e levar em
consideração seu contexto original mediante um método conheci­
do como exegese gramático-histórico. A Bíblia como um todo é
um livro relativamente claro para a leitura e pode ser útil especifi­
car em quais áreas surgem as dificuldades: linguagem? estilo lite­
rário? aplicação? Além disso, o caráter divino das Escrituras suge­
re que precisamos adotar alguns princípios especiais que não seri­
am relevantes para o estudo de outros escritos.
CAPÍTULO 1_______________
Quem Precisa de Hermenêutica?
M
o is é s
S
il v a
O term o herm enêutica (assim como seu prim o mais ambíguo e até m isterio­
so, herm enêutico) tem -se tornado cada vez mais popular em recentes déca­
das. Com o resultado, tem sido ampliado e estendido de todas as form as. U sa­
do por tantos escritores, o term o transform a-se em alvo m óvel, gerando ansie­
dade nos leitores que buscam, em vão, defini-lo e compreender o que significa.
Seu significado tradicional é relativam ente simples: é a disciplina que
lida com os princípios de interpretação. Alguns escritores gostam de cham ála de ciência da interpretação; outros preferem falar de arte da interpretação
(talvez com a implicação: “Ou você a tem ou não!”). Deixando de lado essas
diferenças de perspectiva, o interesse básico da herm enêutica é claro o sufici­
ente. Deve ser acrescentado, entretanto, que quando os escritores usam o ter­
mo, na m aioria das vezes o que eles têm em m ente é a interpretação bíblica.
M esm o quando é outro texto que está sendo discutido, a B íblia provavelm en­
te assom a por trás.
Esta últim a observação suscita uma questão interessante. Afinal, por que
tal disciplina deveria ser necessária? N unca tivemos aula sobre “Com o Inter­
pretar o Jornal” .'Nenhum colégio propõe um curso sobre “A Herm enêutica da
C o n v e rsaç ã o ” . Isso é um a rea lid a d e até com resp e ito a cursos sobre
Shakespeare ou Homero, que certam ente tratam de interpretação da literatu­
ra, m as em que nenhum pré-req u isito de herm enêutica aparece. Por que
então som os inform ados subitam ente em nossa instrução acadêm ica que
precisam os nos tornar hábeis em um a ciência de som exótico, se q u e re ­
m os en tender a B íblia?
U m a resposta possível que pode ocorrer é que a Bíblia é um livro divino,
e assim exige de nós algum treinam ento especial para entendê-la. M as esta
solução sim plesm ente não satisfaz. Com o expressou um estudioso católico
rom ano, “Se alguém é capaz de falar de m aneira absolutam ente clara e tornar-se com preensível com eficácia irresistível, esse tal é Deus; portanto, se há
algum a palavra que poderia não exigir um a herm enêutica, essa seria a palavra
divina” .1 Os protestantes, por essa razão, têm sempre enfatizado a doutrina
da perspicuidade ou clareza das Escrituras. A Bíblia em si nos diz que o prérequisito essencial para entender as coisas de Deus é ter o Espírito de Deus
(IC o 2.11), e que o cristão, tendo recebido a unção do Espírito, não precisa
nem m esm o de um professor (lJ o 2.27).
O que ocorre, na realidade, é que precisam os da herm enêutica não exa­
tam ente pelo fato de a Bíblia ser um livro divino, mas porque, além de ser
divino, é um livro humano. Estranho como possa soar aos ouvidos, esta m a­
neira de olhar nosso problem a pode nos colocar no cam inho correto. A lin­
guagem hum ana, por sua própria natureza, é grandem ente equívoca, isto é,
capaz de ser com preendida em mais de um a forma. Não fosse assim, nunca
duvidaríam os do que as pessoas querem dizer quando falam; se proposições
pudessem significar somente uma coisa, dificilm ente ouviríam os debates so­
bre se Johnny disse isso ou aquilo. Na prática, é claro, o núm ero de palavras
ou sentenças que geram m al-entendidos constitui um a proporção m uito pe­
quena do total de proposições em itidas por um determ inado indivíduo em um
determ inado dia. O que precisam os reconhecer, porém, é que o potencial para
um a má interpretação está sempre presente.
Em outras palavras, precisam os da herm enêutica para textos além da
Bíblia. Na verdade, nós precisam os de princípios de interpretação para enten­
der conversações triviais e até m esm o acontecim entos não-lingüísticos - afi­
nal, a falha em com preender o piscar dos olhos de alguém poderia significar
um desastre em certas circunstâncias. M as, então, retornam os à nossa questão
original: Por que não nos foi exigido estudar herm enêutica no segundo grau?
Por que é que, apesar dessa om issão em nossa educação, quase sempre com ­
preendem os o que nosso próxim o nos diz?
A resposta simples é que aprendem os herm enêutica durante toda a nos­
sa vida, desde o dia em que nascem os. Pode até ser que as coisas mais im por­
tantes que aprendem os sejam aquelas que fazemos inconscientem ente. Em
resum o, quando você com eça um curso de herm enêutica, pode estar certo de
que já conhece muito bem os princípios mais básicos de interpretação. Toda
vez que você lê o jornal ou ouve um a história ou analisa um acontecim ento,
prova a si m esm o que é um entendido na arte da herm enêutica!
1 L uis A lonso-S chõkel, H erm enêutica de Ia Palavra (M adrid: C ristandad, 1986), 1:83.
Isso talvez seja algo perigoso de se dizer. Você pode ser tentado a fechar
este livro “inútil” im ediatam ente e devolvê-lo à livraria, na esperança de con­
seguir seu dinheiro de volta. Entretanto, é necessário que apresentemos a ques­
tão e a ressaltem os. Além de gozar de um relacionam ento correto com Deus,
o princípio mais fundam ental da interpretação bíblica consiste em colocar em
prática o que fazem os inconscientem ente todos os dias de nossa vida. A
herm enêutica não é prim ariam ente um a questão de aprender técnicas difí­
ceis. O treino especializado tem o seu lugar, mas é, na verdade, bastante se­
cundário. Poderíam os dizer que o que im porta é aprender a “transpor” nossas
rotinas interpretativas costum eiras para a nossa leitura da Bíblia. E justam en­
te aí que com eçam nossos problem as.
Por um a razão, não devem os pensar que o que fazem os todos os dias
seja tão sim ples assim . Antes que você pudesse ler um a revista, por exem ­
plo, você teve que aprender inglês. Você acha que isso é fácil? Pergunte a
qualquer estrangeiro que tentou aprender inglês depois da adolescência. N o­
tavelm ente, você atravessou esse difícil e com plicado processo com grande
sucesso nos prim eiros poucos anos de sua vida. Aos 4 ou 5 anos de idade,
você - e todo e qualquer ser hum ano sem deficiências - já teria dom inado
centenas e centenas de regras fonológicas e gram aticais. Na realidade, seu
vocabulário era bastante lim itado, mas aprendê-lo é a parte mais fácil do
dom ínio de um a língua.
Além disso, sua mente recebe, cotidianam ente, incontável núm ero de
impressões. Estas são os fatos da H istória - prim eiram ente suas experiências
pessoais, porém suplem entada pelas experiências de outros, incluindo infor­
mação sobre o passado - com todas suas associações, quer psicológicas, sociais
ou outras quaisquer. De m aneira não m enos im pressionante que a aquisição
de um a língua, seu cérebro organiza cuidadosam ente essas m ilhões de im ­
pressões, m antendo algumas na superfície, outras em nível sem iconsciente, e
ainda outras em algo equivalente a uma lata de lixo.
E tudo um com ponente essencial da interpretação eficiente. Sigamos
nossa ilustração um tanto fictícia: Toda vez que você recebe uma impressão,
sua m ente verifica se esse já é um fato arquivado; se não, ela relaciona essa
nova im pressão às obtidas anteriorm ente a fim de que possa fazer sentido.
Usando outra analogia comum , seu cérebro é com o um filtro que seleciona
todos os dados novos. Se um fato anterior despercebido não passa pèlo filtro,
seu cérebro tem apenas duas escolhas imediatas: forçá-lo pelo filtro distorcendo
a evidência ou rejeitá-lo completamente. O último é o equivalente inconsciente
“Já tomei um a decisão - portanto, não me perturbe com os fatos” . Há, porém,
um a terceira opção: adm itir sua ignorância e deixar o novo fato de lado até
que seu filtro seja capaz de lidar com ele.
Vemos, então, que nossa prática diária de interpretação não é tão sim ­
ples com o podíam os ter im aginado. Exige um processo bastante com plexo
(ainda que geralm ente inconsciente) que concentra-se na linguagem e na H is­
tória, usando ambos os termos num sentido bastante amplo. O bviam ente,
nossa com preensão é reduzida à m edida que a linguagem ou os fatos que
estão sendo in te r p r e ta is são desconhecidos para nós. Se um advogado usa
linguagem técnica legal quando procura iniciar um a conversa com um estra­
nho no m etrô, dificilm ente se pode esperar que haja m uita com preensão. De
m aneira semelhante, um a pessoa que não acom panhou os desenvolvim entos
do governo am ericano, por um período extenso de tem po, não será capaz de
com preender um editorial de um jornal, ou até mesmo caricaturas políticas.
O problem a torna-se mais sério se existem diferenças lingüísticas e cul­
turais entre o interlocutor (ou escritor) e o ouvinte (ou leitor). Suponham os
que, tendo somente uma fam iliaridade básica com os escritos de Shakespeare,
decidim os com preender Otelo. Em vários m om entos atravessaríam os passa­
gens contendo certas palavras que nunca vimos antes ou que parecem ter
sentidos bastante incomuns. Por exemplo:
I f I do prove her haggard,
Though that her je sse s were my dear heart-strings
I ’d whistle her o ff and let her down the wind
To prey atfo rtu n e. ... (3.3.260-63)
M esm o após descobrirm os que haggard é igual a “falc ão ” e que je s s e s
corresponde a “fech o s” , acharem os m uito difícil identificar o que O telo
quer dizer, isto é, se acaso sua esposa se m ostrasse infiel, ele perm itiria
que seu coração se partisse ao deixá-la ir em bora.
Considere um problem a ainda mais enigm ático. No início da peça, o
duque de Veneza e alguns senadores estão discutindo notícias recentes a res­
peito de um a arm ada turca, mas há considerável discrepância quanto ao nú­
m ero de galés envolvidas. O duque diz então:
/ do not so secure me in the error,
B ut the main article I do approve
In fe a rfu l sense. (1.3.10-12)
O que pode nos frustrar em uma passagem como esta é que todas as palavras
são fam iliares a nós - na verdade, até m esm o o sentido dessas palavras se
aproxim a do uso moderno - ainda assim, o sentido total parece nos escapar. A
m enos que estejam os bastante fam iliarizados com a literatura shakespeariana,
levará um tem po até interpretarm os essa afirm ação corretam ente. Em prosa
m oderna, “o fato de que existe um a discrepância nos relatos não m e dá ne­
nhum sentido de segurança; é com espanto que devo dar crédito ao ponto
principal da história”.
Os problem as mais traiçores, porém , surgem quando um a palavra ou
expressão é fam iliar e o sentido a que nos atemos tem lógica no contexto,
entretanto nossa ignorância sobre a história da linguagem nos engana. Q uan­
do lago relata algo que Cássio disse enquanto dorm ia, Otelo cham a-o de
m onstruoso. lago lem bra Otelo que se tratava apenas de um sonho, pelo que o
último responde: “Mas isso significou um conclusão precedente” (3.3.429).
Em nossos dias, a expressão uma conclusão precedente significa “um resulta­
do inevitável”, e é possível obter algum sentido da passagem se tom arm os
este com o sendo o sentido aqui. Nos tempos elisabetanos, porém , a expressão
simplesmente significava “uma experiência prévia” ; Otelo acredita que o que
Cássio dissera enquanto dormia refletia algo que realmente já havia acontecido.
Esses são os tipos de dificuldade que encontram os quando lem os um
trabalho escrito em nossa língua e produzido dentro da cultura ocidental geral
da qual fazemos parte. Quando nos aproxim am os da Bíblia, porém , encontra­
mos um livro que não é escrito nem em nossa língua nem em linguagem
m oderna relacionada de m aneira próxim a dela. Além disso, nos defrontam os
com um texto que está extrem am ente distante de nós quanto ao tem po e espa­
ço. Percebem os, então, que, com respeito tanto à linguagem quanto à H istó­
ria, a interpretação da Bíblia se apresenta como um desafio para nós. Por
conseguinte, uma com preensão acurada das Escrituras requer o que veio a ser
conhecido como exegese gmm ático-históricci.2
O term o exegese (usado freqüentem ente pelos estudiosos bíblicos, mas
raram ente por especialistas em outros campos) é uma form a rebuscada de se
referir à interpretação. Pressupõe que a explicação do texto envolveu análise
cuidadosa e detalhada. A descrição gram ático-histórica indica, naturalm ente,
que essa análise deve prestar atenção tanto na linguagem em que o texto original
foi escrito quanto ao contexto cultural específico que deu origem ao texto.
Não podem os, por exemplo, partir do pressuposto de que as regras lin­
güísticas da sintaxe de nossa língua ou as nuanças das palavras de nosso vo­
cabulário correspondam àquelas do grego do Novo Testamento; caso contrário,
corremos o risco de impor nossas idéias sobre o tpxto bíblico. Semelhantemente,
se falharm os em tom ar nota das características distintivas culturais da socie­
dade hebraica ou das circunstâncias históricas por detrás de um livro do A nti­
go Testamento, permitiremos que nosso “filtro” mental - isto é, nossos precon­
ceitos - determinem o que as passagens bíblicas podem ou não podem significar.
2 Term os com o gram ático-histórico e histórico-gram aticcd são usados tam bém com o m esm o senti­
do. O bserve, entretanto, que a expressão histórico-crítica tem outras associações m ais controversas.
Veja as discussões sobre o m étodo histórico-crítico no cap. 2, pp. 29, 30, e cap. 13, pp. 2 2 7 -2 ;-.
N aturalm ente, a tentativa de encaixar nossos preconceitos no texto bí­
blico tem criado um a disciplina acadêm ica extrem am ente am pla e complexa.
Em parte por causa da distância (tanto lingüística quanto histórica) que nos
separa da B íblia ser tão grande; em parte porque a B íblia é um docum ento
bastante extenso escrito por muitas pessoas durante um vasto período de tem ­
po; em parte porque a Bíjplia tem atraído a atenção profissional de m uitos
estudiosos durante os últimos vinte séculos; em parte porque a B íblia toca
nos problem as mais profundos enfrentados pelas pessoas de todos os lugares
- por estas e outras razões, nenhum outro docum ento literário suscitou um
corpo m aior de escritos acadêm icos, envolvendo pesquisa especializada de
todos os tipos e gerando debates acalorados.
Apesar disso, devemos observar novam ente que, em princípio, não há
diferença entre os problem as da interpretação bíblica e aqueles que confron­
tamos em nosso dia-a-dia. A maioria de nós não diz que está praticando exegese
gram ático-histórica quando lê um a carta de um parente, mas é precisam ente
isso o que estam os fazendo. A diferença é, por assim dizer, quantitativa em
lugar de qualitativa. (Até o momento, é claro, estam os voltados apenas para
as características hum anas das Escrituras. As questões especiais relacionadas
com o caráter divino da Bíblia ainda serão vistas mais adiante.) Em outras
palavras, quando lem os a Bíblia deparam os com um número m uito m aior de
detalhes sobre os quais somos ignorantes do que quando interpretam os textos
em nossa língua contem porânea.
A propósito, esse modo de tratar a questão nos ajuda a reconhecer que
os problem as da interpretação bíblica são norm alm ente nossos problem as,
não da Bíblia! Apesar de existirem , de fato, algumas passagens nas Escrituras
que, em razão do assunto apresentado, são intrinsecam ente difíceis de enten­
der, a m aior parte das passagens não pertence a esta categoria. Fundam ental­
m ente, a Bíblia é um livro bastante simples e claro. Nós, entretanto, somos
pecadores e ignorantes. Q uer seja por causa de nossas lim itações ou nossa
preguiça, freqüentem ente falham os em dim inuir a distância que nos separa
do texto bíblico, e é isso o que nos causa problem as.
M as agora perguntemos: Qual é a dificuldade existente para a m aioria
de nós poder entender a Bíblia? Grandes porções das Escrituras consistem de
narrativas de sentido claro. Nesses textos, apenas raram ente deparam os com
um a palavra que nos traz dificuldade de com preensão, ou um a excentricidade
gram atical que não pode ser solucionada. (Em outras palavras, todas as tradu­
ções padrão tratam essas passagens essencialm ente da m esm a form a). Além
disso, nossa inform ação com respeito ao contexto histórico é geralm ente bem
adequada para dar sentido a esses textos históricos. Por que, então, tanto de­
bate acerca da interpretação bíblica?
Podemos ser capazes de responder a essa questão se considerarmos um
exemplo bastante específico e típico. Em Mateus 8.23-27 lemos a curta e bem
conhecida história de Jesus e seus discípulos entrando num barco no M ar da
Galiléia. Enquanto Jesus estava dormindo, uma tempestade repentina começou
a sacudir o barco. Os discípulos acordaram Jesus e lhe pediram para salvá-los.
Jesus os repreendeu em razão de sua pouca fé e acalmou as ondas. Espantados,
os discípulos disseram: “Quem é este que até os ventos e o m ar lhe obedecem ?”
A questão sobre o significado dessa passagem pode ser considerada em
vários níveis. Vejamos cada um deles.
1. O nível lingüístico, não encontram os nenhum a dificuldade aqui. To­
das as palavras gregas dessa passagem são clara e am plam ente comprovadas.
E m bora tradutores possam diferir ligeiram ente quanto às palavras de nossa
língua que m elhor representem os term os gregos correspondentes, não há um
debate real sobre o que essas palavras gregas significam. De m aneira sem e­
lhante, não ocorrem form as gram aticais raras.
2. Com respeito ao contexto histórico (cultura, geografia, etc.), tam bém
não há discussão. A referência ao “lago” (com o visto na NIV; lit., “o m ar”) é
certam ente ao Lago de Genesaré, ou o M ar da Galiléia. Tam bém sabem os
sobre as tem pestades repentinas que surgem na região.
3. O “sentido” da passagem , porém, inclui mais do que puram ente os
fatos da história. N orm alm ente tem os interesse no ensino da passagem . E n­
tretanto, m ais uma vez aqui a intenção prim ária da história é cristalina. O
acontecim ento dem onstra o grande poder de Jesus, de m aneira que não havia
necessidade de os discípulos se desesperarem.
4. Mas, e quanto à historiciãade da narrativa? Muitos debates hermenêuticos
concentram-se precisamente nesta questão. No presente caso, ela surge por duas
razões. Em primeiro lugar, uma comparação dessa narrativa com as passagens
paralelas (Mc 4.35-41; Lc 8.22-25) revela algumas diferenças interessantes. Teria
o acontecimento ocorrido em um determinado ponto no ministério de Jesus em
que Mateus o coloca, ou foi justamente depois que Jesus proferiu as parábolas do
reino, como Marcos nos relata? Os discípulos eram respeitosos, como Mateus
parece retratá-los, ou eram mais impulsivos (cf. Mc 4.38)? Em segundo lugar,
muitos estudiosos modernos rejeitam a possibilidade de milagres. Se as ocorrên­
cias sobrenaturais estão fora de questão, então certamente essa passagem será
interpretada de maneira diferente de seu sentido manifesto.
5. Ainda outro nível de sentido surge quando distinguim os o aconteci­
m ento histórico em si de seu contexto literário. Este ponto torna-se especial­
m ente claro se novamente com pararm os M ateus com os outros evangelhos.
Por exem plo, o fato de M ateus colocar a história logo após dois incidentes
ligados ao discipulado (M t 8.18-22) pode nos transm itir algo importante.
Quando observam os que a história em si é apresentada com a declaração de
que “seus discípulos o seguiam ” (palavras não encontradas em M arcos ou
Lucas), podem os razoavelm ente inferir disso que uma das razões pelas quais
M ateus relata a história é para nos ensinar acerca do discipulado, que é um
im portante tem a em todo o evangelho. (Observe, todavia, que a intenção do
autor é grandem ente parte dos dois prim eiros itens acima. As distinções que
estam os apontando aqui podem tornar-se um tanto artificiais).
6. A lém do contexto literário, precisam os ter em m ente o contexto
canônico m ais am plo, isto é, com o a passagem se relaciona com o todo do
cânon (a com pleta coleção) das Escrituras? Fazer esta pergunta é m over-se
em direção à área da teologia sistem ática. Com o a repreensão de nosso Se­
nhor sobre os discípulos se encaixa no ensino bíblico geral acerca da fé? O
poder de Jesus sobre a natureza nos ensina algo acerca de sua divindade?
Perguntas com o estas certam ente são parte da herm enêutica considerada de
form a geral.
7. Mas podem os até m esm o ir além dos limites das próprias Escrituras e
considerar a história da interpretação. Em bora seja muito im portante distin­
guir o sentido do texto bíblico das opiniões de leitores subseqüentes, existe de
fato um a conexão próxim a, visto que hoje nos encontram os no final de uma
longa tradição. De fato, não é possível pular os últimos vinte séculos com o se
não tivessem acontecido. Quer estejam os cientes disso ou não, a história da
interpretação tem nos influenciado direta e indiretam ente. Quanto mais tiver­
mos consciência desse fato, mais fácil será identificar e rejeitar aquelas inter­
pretações que acharmos inaceitáveis. O que precisa ser assinalado, porém , é
que todos nós, de m aneira bastante freqüente (m esm o que inconsciente) par­
timos do pressuposto de que um a interpretação específica seja o sentido do
texto, quando na realidade podem os sim plesm ente ter assim ilado (por meio
de serm ões, conversas, etc.) o que a história da igreja preservou.
8. Finalm ente, devemos considerar “o que a passagem quer dizer para
m im ” , ou seja, o significado presente da passagem .3 Tradicionalm ente, esse
passo é descrito como aplicação e distinguido bem nitidam ente do sentido do
texto. Em décadas recentes, porém , um núm ero de escritores influentes - não
apenas no cam po da teologia mas tam bém da filosofia e do criticism o literá­
rio - têm protestado que a distinção não tem sustentação. A rgum enta-se, por
exem plo, que, se não sabemos como aplicar um m andam ento das Escrituras
para nossa vida diária, então não podem os realm ente afirm ar saber o que
aquela determ inada passagem significa.4 R ejeitar a distinção entre sentido e
* A lgum as vezes o term o contextualizcição é usado para assinalar este ponto, enfatizando nossa
n ecessidade de ver a relevância da passagem em nosso próprio contexto.
4 Veja o cap. 13, sessão 4 (“O Papel do L eitor”).
aplicação parece um a posição extrem a, mas não há dúvidas de que há uma
m edida de verdade nisso (observe que esta oitava categoria é m uito sem e­
lhante à terceira). Certam ente, quando a m aioria dos cristãos lê a Bíblia, eles
querem saber o que fazer com aquilo que lêem . Também podem os considerar
que o tanto que a Bíblia afeta nossa vida é pelo menos uma m edida do quanto
nós a com preendem os.
O que aprendem os a partir desses vários níveis de sentido? E m prim eiro
lugar, com eçam os a com preender porque, por um lado, a Bíblia é tão clara,
enquanto, por outro, sua interpretação pode tornar-se com plicada. Até onde a
exegese histórico-gram atical diz respeito (principalm ente os níveis 1 e 2, mas
tam bém parcialm ente 3 e 5), a história do acalm ar da tem pestade é, na verda­
de, uma narrativa sim ples. Nesse sentido, a história é bastante típica, conside­
rando outras que encontram os na B íblia como um todo. Evidentem ente, algu­
mas passagens poéticas do Antigo Testam ento apresentam sérias dificuldades
lingüísticas; as visões do livro de A pocalipse não são sem pre claras; gosta­
ríam os de ter mais dados históricos relativos ao livro do Gênesis; e assim por
diante. É um pouco enganoso, porém , dar tanta atenção às passagens proble­
m áticas a ponto de esquecerm os a clareza apresentada na m aior parte das
Escrituras. (Precisam os lem brar constantem ente da clareza essencial da m en­
sagem bíblica, pois um livro que trata da interpretação bíblica, por sua pró­
pria natureza, vai concentrar-se nos problem as.)
Em segundo lugar, a distinção nas oito partes apresentadas acim a pode
nos ajudar a entender por que muitos estudiosos que não professam eles pró ­
prios a fé cristã (pelo menos não em um sentido evangélico) são capazes de
escrever com entários proveitosos e por outro lado interpretar a Bíblia. Um
ateu, por exem plo, pode rejeitar a possibilidade de m ilagres (e portanto “dei­
xar de com preender” com pletam ente o nível 4) e ao mesmo tem po ser capaz
de entender o significado da passagem para sua vida (nível 8) e ter um conhe­
cim ento teológico defeituoso sobre a natureza da fé (nível 6).
Precisam os enfatizar, entretanto, que as distinções que apresentam os são
um pouco incom uns. A m aior parte dos intérpretes raram ente tem consciên­
cia delas. Além disso, os vários níveis estão tão intim am ente entrelaçados
que isolar qualquer um deles seria um procedim ento artificial. Por exem plo,
não é incom um ouvir dizer que qualquer um, m esm o um descrente, pode
interpretar a B íblia e som ente quando ele a aplica é que surge a questão da fé.
H á um a m edida de verdade nessa form ulação, mas a distinção parece dem a­
siadam ente simples. Afinal, pode alguém interpretar a Bíblia de uma form a
com pletam ente desapaixonada? Visto que todos (mesmo um ateu) têm algum
tipo de com prom etim ento de fé, esse com prom etim ento não interfere sempre
no processo exegético?
Em todo caso, deve ficar claro que ao categorizar esses níveis de signifi­
cado com o fizemos, nos deslocamos quase im perceptivelm ente das caracte­
rísticas hum anas das Escrituras para sua característica divina. O nível 4 acer­
ca da historicidade, por exemplo, dificilm ente pode ser desassociado de uma
visão do leitor acerca da inspiração bíblica. O nível 6 acerca do contexto de
canonicidade tem pouco pes#o para alguém que não está convencido da unida­
de divina das Escrituras. Finalm ente, o nível 8 im plica que quando lem os a
B íblia nós a reconhecem os como sendo a Palavra de Deus dirigindo-se a nós;
certam ente, se não nos apropriam os da m ensagem de Deus, podem os consi­
derar que estam os tendo falhas herm enêuticas.
Mas agora, se a Bíblia é de fato um livro divino e único, não deveríam os
esperar usar princípios de interpretação que se aplicam a ela de m aneira espe­
cial? C ertam ente que sim. Até este ponto vimos aquilo que é freqüentem ente
cham ado de herm enêutica geral, isto é, critérios que são relevantes para a
interpretação de qualquer coisa. Existe tam bém aquilo que é cham ado de
herm enêutica bíblica. Enquanto alguns estudiosos discutem acerca da neces­
sidade para tal disciplina em particular, ninguém que com preenda o caráter
especial das Escrituras desejará ignorá-la.
1. Em prim eiro lugar, devemos aceitar o princípio de que som ente o
Espírito de D eus sabe as coisas de Deus, com o Paulo ensina em 1 Coríntios
2.11 (parte de uma rica porção das Escrituras com amplas im plicações). C on­
seqüentem ente, somente alguém que tem o Espírito pode esperar adquirir
um a verdadeira e satisfatória com preensão das Escrituras. E justo notar que
nesse versículo o apóstolo não está tratando diretam ente da questão da inter­
pretação bíblica.5 Apesar disso, se admitirmos que a Bíblia é onde devemos ir
para descobrir acerca “das coisas de D eus”, então a relevância das palavras de
Paulo para a herm enêutica bíblica é inegável.
2. Este princípio da necessidade da presença interior do Espírito Santo é
enfatizado de um ângulo diferente em 1 João 2.26,27b. Os cristãos a quem
João está escrevendo estão enfrentando problem as com falsos m estres que
desejam alterar a m ensagem apostólica. Esses cristãos, intim idados pelo novo
ensino, tornaram -se vulneráveis. Eles precisam de instrução. Assim, João diz:
“Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar. Quanto
a vós outros, a unção que dele recebestes perm anece em vós, e não tendes
necessidade de que alguém vos ensine.” Antes, no versículo 20, ele havia
deixado claro o que tinha em mente: “E vós possuis unção que vem do Santo
e todos tendes conhecim ento.” Temos, então, um segundo princípio da inter­
pretação bíblica: a essência da revelação de D eus - a verdade —é comparti5 E até m esm o possível que a inspiração apostólica esteja em vista aqui. Cf. W aíteT c. K aiser”Jr., “A
N eglected T ext in B ib ü o lo g y D iscussions: 1 C orinthians 2 :6 -1 6 ”. W T J 43 (1980-81): 301-19.
Ihada p o r todos os que crêem. N ão precisam os de mais ninguém para suprir,
nem mesmo para contradizer, a mensagem do evangelho.
3. Indiretam ente, porém , as palavras de João nos levam a um terceiro
critério. O fato de que os cristãos sabem a verdade e que não deveriam deixar
ninguém os afastar dela sugere que a mensagem de D eus para nós é consis­
tente. Em outras palavras, deveríam os interpretar as várias partes das E scritu­
ras de m aneira que se harm onizem com seus ensinos centrais. M uitos em
nossos dias opõem -se a este princípio. O fato de que Deus usou autores hu­
m anos para nos dar a Bíblia, afirmam eles, significa que deve haver contradi­
ções nela. M as um a Palavra de Deus corrom pida pela ignorância e inconsis­
tências dos seres hum anos não seria mais a Palavra de Deus. Não podem os
lançar um a parte das Escrituras contra outra, nem podem os interpretar um
detalhe das Escrituras de form a que enfraqueça sua m ensagem básica.6
4. Finalm ente, uma interpretação satisfatória da bíblia requer uma pre­
disposição submissa. O que nos motiva a estudar a Bíblia? O desejo de ser­
m os eruditos? Considere o alvo do saímista: “D á-m e entendim ento, e guarda­
rei a tua lei; de todo o coração a cum prirei” (SI 119.34). Nosso Senhor disse
aos judeus que ficaram confusos com seu ensinam ento: “ Se alguém quiser
fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se
eu falo por m im m esm o” (Jo 7.17). O desejo de guardar os m andam entos de
Deus, a determ inação em fazer a vontade de Deus - este é o grande prérequisito para a verdadeira com preensão bíblica.
Q uem precisa de herm enêutica? Todos nós precisam os. Este livro é
m eram ente um guia para ajudar você a ler a Bíblia com o você lê qualquer
outro livro, e ao m esm o tem po, lê-la como não faz com nenhum outro livro.
6 N osso reconhecim ento de que a B íblia é hum ana, assim com o divina, im plica, de fato, que deve­
ríam os considerar a d iversidade de seus vários autores, a diversidade de ênfases, suas form ulações
únicas, e assim por diante. N ão deveríam os im por um a uniform idade artificiai sobre o texto bíhiico. C om o im plem entar este princípio sem enfraquecer a unidade d a E scritura é, às vezes, d i f L \
C apítulos posteriores deste livro tratarão d esta questão.
A definição de significação de um texto mudou dram atica­
mente em 1946 com a declaração de que é uma falácia depender
que o autor queria dizer como forma de determinar o significado
do texto. Desde aquela época, três figuras tenderam a dom inar os
contínuos refinamentos ou protestos a respeito dessa dita falácia:
H ans-G eorg Gadam er, Paul R icoeur e E. D. Hirch. G adam er
enfatizou a “fusão de horizontes” (quase numa recriação da dialética
de Hegel usando termos atuais), Ricoeur visualizou um conjunto
completam ente novo de operações quando trata-se de com unica­
ção escrita, enquanto Hirsch afirmou que é impossível validar o
significado se este não estava ligado às afirmações sobre a verdade
por parte do autor e diferenciado dos sentidos do texto.
No m om ento, há quatro modelos principais para se enten­
der a Bíblia: o m étodo de texto-prova, o m étodo histórico-crítico, o m étodo de reação do leitor e o m étodo sintático-teológico.
O prim eiro com freqüência é ingênuo, o segundo já foi conside­
rado improdutivo, o terceiro muitas vezes é uma reação ao pri­
m eiro, e o últim o é holístico e envolve tanto as aplicações histó­
ricas quanto práticas.
Em meio a todas essas grandes m udanças, descobrim os que
a palavra “significado” é usada nos dias de hoje de modo a in­
cluir o referente, o sentido, a intenção do autor, a im portância
que uma passagem tem e suas conseqüências.
CAPÍTULO 2_________
O Sentido do Significado
W alter
C.
K a is e r , J r .
“ Q uando uso um a p a la v ra ” , disse H um pty D um pty em um tom bem d e s­
denhoso, “ significa apenas o que escolho que ela signifique - nem m ais,
nem m enos.”
“A questão é” , disse Alice, “se você pode fazer as palavras significarem
tantas coisas diferentes.”
“A questão é”, disse Humpty Dumpty, “quem deve ser o mestre, afinal.”7
Alice apresenta um princípio válido: as palavras freqüentem ente possuem
um a am pla gama de possíveis significados, mas o significado que exibem em
um contexto particular e que tam bém partilham no foro público não pode ser
desconsiderado ou arbitrariam ente usado de form a intercam biável. M as A li­
ce não está sozinha em sua luta para interpretar e entender o que os outros
e stã o d ize n d o ou escrev en d o . E stu d io so s m o d ern o s e le ito re s leig o s
freqüentem ente sentem -se tão confusos quanto Alice quando tentam com pre­
ender qual pode ser o significado de alguns diálogos e livros. N a realidade, os
problem as são até mais com plicados do que a pobre Alice suspeitava. De
fato, como Lewis Carrol continuou a nos dizer:
Alice estava muito confusa para dizer algum a coisa, assim , após um
m inuto Hum pty Dum pty começou novamente.
“Im penetrabilidade! É isso o que eu digo!”
“Você me diria, por favor” , disse Alice, “o que isso significa?” ...
" L ew is C a rro ll, T h ro u g h the L o o k in g G la ss (F ila d é lfia : W in sto n , 1923; re im p re s so 1957).
p. 213.
“O que eu quis dizer por ‘im penetrabilidade’ é que já tivemos o suficien­
te acerca desse assunto, e que seria propício se você m encionasse o que você
pretende fazer em seguida, pois suponho que não pretenda parar aqui todo o
resto de sua vida.”
“Isso é que é fazer uma palavra significar tanto!” , asseverou Alice, em
tom cuidadoso.
«
“Quando eu faço um a palavra trabalhar bastante deste m odo” , disse
H um pty Dumpty, “eu sempre pago um adicional.”
“O h!” disse Alice. Ela estava confusa dem ais para fazer qualquer ou­
tra observação.8
Três Novos Humpty Dumptys
O problem a do significado m udou dram aticam ente em 1946. Dois críticos
literários, W. K. W im satt e M onroe Beardsley, dispararam um tiro que, cedo
ou tarde, foi ouvido em todo o m undo literário. W im satt e Beardsley distinguiram cuidadosam ente três tipos de evidência interna de significado, adm i­
tindo que dois tipos são apropriados e úteis. Entretanto, a m aior parte de suas
qualificações e distinções já desapareceu, engolidas na versão popular do
dogm a de que qualquer coisa que um autor queira significar ou pretenda dizer
por m eio de suas palavras é irrelevante para nossa obtenção do significado
daquele texto! Assim aconteceu que, de acordo com esse conceito, quando
um a obra literária era term inada e entregue aos seus leitores, tornava-se inde­
pendente de seu autor no que se refere ao seu significado.
A principal falha das gerações anteriores, de acordo com a Nova Crítica,
era a “falácia intencional” , ou seja, a falácia de depender do que um autor
queria dizer pelo seu próprio uso das palavras no texto escrito com o a fonte
do significado naquele texto.9 Porém m omentos ainda mais decisivos neste
século de m udanças herm enêuticas ainda estavam por vir.
H a n s-G
eorg
G adam er
A teoria m oderna da interpretação foi abalada mais um a vez em 1960, quan­
do H ans-Georg G adam er publicou na A lem anha seu livro Truth and M ethod
(Verdade e m étodo).10 O título de seu livro contém o tem a de sua tese central:
A verdade não pode residir na tentativa do leitor de voltar ao sentido do autor,
pois esse ideal não pode ser realizado tendo em vista que cada intérprete tem
*7bid., pp. 213-214.
9 W. K. W im aatt e M onroe B eardsley, “T he Intentional Fallacy” , Sew anee R eview 54 (1946);
reim presso em W illiam K. W im satt, Jr., The Verba! Icon: Studies in the M eaning o f P oetry (N ova
York: Farrar, Straus, 1958), pp. 3-18.
10 H ans-G eorg G adam er, Truth a n d M ethod: E lem ents o f P hilosophical H erm eneutics, trad. inglês
(N ova York: Seabury, 1975; reim presso, C rossroad, 1982).
um conhecim ento novo e diferente do texto no próprio m om ento histórico do
leitor." A partir dessa tese central fluíram quatro afirm ações12 em seu método:
1. O preconceito (alemão, Vorurteil) na interpretação não pode ser evita­
do, mas deve ser incentivado para que se possa compreender o todo da
obra e não apenas as partes. Esse pré-entendimento vem de nós m es­
mos e não do texto, visto que o texto é indeterminado em significado.
2. O significado de um texto sempre vai além de seu autor. Disso pode­
mos inferir que a com preensão não é um a atividade reprodutiva,
mas produtiva. O assunto em questão, e não o autor, é o determ inante
do significado.
3. A explicação de um a passagem não é nem inteiram ente o resultado
da perspectiva do intérprete nem com pletam ente aquela da situação
histórica original do texto. E, sim, um a “fusão de horizontes” (ale­
mão, Horizontverschmellzung). No processo de compreensão, as duas
perspectivas são contidas em um a terceira nova alternativa.
4. Significados passados não podem ser reproduzidos no presente por­
que o ser do passado não pode se tornar ser no presente.
P
aul
R
ic o e u r
Na obra Interpretation Theory,n publicada em francês em 1965, Paul Ricoeur
questionou a idéia de que um texto é sim plesm ente “a fala escrita” , um diálo­
go colocado em papel. Em lugar disso, segundo sua perspectiva, a escrita
fundam entalm ente altera a natureza da com unicação e oferece um conjunto
todo novo de operações, incluindo estas quatro:
1. Um texto é sem anticam ente independente da intenção de seu autor.
O texto agora significa o que quer que diga, não necessariam ente o
que seu autor tinha pretendido.
2. Gêneros literários fazem mais do que apenas classificar textos; eles
na realidade dão um código que form a o cam inho pelo qual um lei­
tor irá interpretar aquele texto.
3. U m a vez que os textos foram escritos, o significado deles é não mais
determ inado pela com preensão que os leitores originais tinham des­
11 E. D. H irsch, Jr., Valiclity in Interpretation (N ew Haven: Yale U niversity Press, 1967), trata a
teo ria de G adam er de interpretação no apêndice 2, pp. 245-64.
12 Para a organização geral dos pontos relacionados a G adam er e subseqüentem ente a Paul R icoeur
e E. D. H irsh, sou grato a S andra M. Schneiders, “From E xegesis to H erm eneutics: T he P roblem s
o f C ontem porary M eaning in Scripture” , H orizons 8 (1981): 23-39.
13 Paul R icoeur, Interpretation Theory: D iscourse a n d the S urplus o f M eaning, trad. Inglês iF crt
W orth, Tex.: Texas C hristian U niversity Press, 1976).
ses m esm os textos. Cada público subseqüente pode ler agora sua
própria situação no texto, pois um texto, diferentemente da fala, trans­
cende suas circunstâncias originais. As novas leituras não são em
nada m enos válidas. Elas não devem ser com pletam ente contraditó' rias à com preensão do público original, mas podem ser diferentes,
m ais ricas, ou mais«empobrecidas.
4. U m a vez que um texto é escrito, o significado daquilo que exprim e
não está mais relacionado diretamente ao seu referente, ou seja, àquilo
de que se trata. O novo sentido é libertado de seus limites situacionais,
abrindo, deste modo, um m undo todo novo de significado.
E . D . H ir s h
O único am ericano a exercer m aior influência sobre a herm enêutica durante a
im portantíssim a década de 60 foi E. D. Hirsch, um professor inglês da U ni­
versidade de Virgínia. Hirsch se mostrou contrário às tendências estabelecidas
por W im satt e Beardsley, Gadam er e Ricoeur. Ele afirmou que o significado
de um a obra literária é determ inado pela intenção do autor.14 Na realidade ele
se baseou nos estudos de Em ilio Betti, um italiano historiador da lei, que
tinha fundado um instituto para teoria da interpretação em Rom a em 1955.
Porém foi Hirsch quem popularizou essa visão e, portanto, é o m ais conheci­
do pelos seguintes conceitos:
1. O significado verbal é qualquer coisa que alguém (norm alm ente o
autor) desejou expressar por meio de uma seqüência particular de
palavras e que podem ser partilhadas por meio de sinais lingüísticos.
2. A verdadeira intenção do autor fornece a única norm a genuinam ente
discrim inadora para se distinguir interpretações válidas ou verda­
deiras das inválidas e falsas.
3. O prim eiro objetivo da herm enêutica é tornar claro o significado
verbal do texto, não sua significação. O significado é aquele que é
representado pelo texto e que um autor desejou dizer pelos sinais
lingüísticos representados. A significação, ao contrário, denom ina
um relacionam ento entre o sentido e um a pessoa, conceito, situa­
ção, ou outro possível núm ero de coisas.
4. O significado do texto não pode mudar, mas a significação pode e
m uda na realidade. Se o significado não fosse determ inado, então
não haveria norm a determ inada por meio da qual julgar se um a pas­
sagem estava sendo interpretada corretam ente.
14 H irsch, Validity in Interpretation; idem, The A im s o f Interpretation (C hicago: U niversity o f C h i­
cago Press, 1976).
Essas são as principais formas do desenvolvimento da teoria hermenêutica
contem porânea. O im pacto que cada um a já teve em nossa geração de intér­
pretes - sem m encionar as futuras gerações de intérpretes de todos os tipos não foi nada menos que a principal revolução na form a como atribuím os o
significado a m ateriais escritos, incluindo a Bíblia. Dificilm ente qualquer es­
fera do processo interpretativo escapou de uma reestruturação e reconsideração
m aior desde a década de 60. A vida do intérprete nunca será com o antes da
últim a m etade deste século. Os efeitos dessa revolução podem ser ilustrados
em quatro m odelos para uso da Bíblia.
Quatro Modelos para Entender o Significado da Bíblia
O MODELO TEXTO-PROVA
A abordagem texto-prova para a compreensão do significado da Bíblia enfatiza
o lado prático e pastoral da vida.15 Tipicam ente um significado bíblico é ne­
cessário para algum propósito referente à vida real, e o intérprete então pro­
cura alguns textos escriturísticos que apóiem o tem a atual ou a posição pas­
toral desejada. Os textos escriturísticos são valorizados mais por seu uso cur­
to, epigram ático de diversas palavras-chave coincidentes com o tópico ou
assunto contem porâneo escolhido do que pela evidência que na realidade tra­
zem de seu próprio contexto.
Tendo em vista que ignora o contexto, este método é com pletam ente
inadequado. O que é pior, ele tende a tratar a Bíblia como se fosse um livro
m ágico ou talvez nada mais que um a antologia de ditos para cada ocasião.
Textos individuais, todavia, pertencem a unidades m aiores e são dirigidos a
situações específicas, resultantes de propósitos históricos pelo quais foram
escritos e contextos pelos quais agora são relevantes.
O modelo texto-prova freqüentemente se apóia em leitura simples do texto.
Pode desprezar o propósito pelo qual o texto foi escrito, o condicionamento his­
tórico em que é colocado, e as convenções de gênero que lhe dão forma. Conse­
qüentem ente, este m étodo é vulnerável à alegorização, psicologização,
espiritualização, e outras form as de ajustes rápidos e fáceis das palavras
escriturísticas para dizer aquilo que se deseja que elas digam na cena contem ­
porânea, ignorando o propósito pretendido e uso conform e determ inado pelo
contexto, gram ática e pano de fundo histórico.'
O MÉTODO HISTÓRICO-CRÍTICO
A ssim com o o m étodo texto-prova gozou de relativa hegem onia em m uitos
círculos evangélicos no passado, tam bém o m étodo histórico-crítico atingiu
um a condição sem elhante entre os intérpretes eruditos do século 20.
15 P ara alguns d os conceitos referentes aos quatro m odelos sou grato a S chneiders, “ From E xegesis
to H erm eneutics” , pp. 23-39.
Este m étodo está mais preocupado em identificar as fontes literárias e os
contextos sociais que deram vida a segmentos m enores do texto do que em
concentrar-se em quaisquer discussões sobre quão normativos esses textos
são para os leitores contem porâneos e para a igreja. Com freqüência, esse
m étodo tem evitado qualquer discussão da relação do texto com a revelação
divina, sua função com o <cânon na igreja, ou seu uso no em preendim ento
devocional-teológico-pastoral dos cristãos.
N este m étodo, a teoria do significado e interpretação determ ina o que o
texto quis dizer em um tem po, lugar e cultura distantes. Esta é pretensam ente
um a questão de pesquisa desinteressada nos fatos objetivos da gram ática,
H istória e m etodologias críticas m odernas. A tarefa de descobrir o que o texto
significa hoje para a igreja e o indivíduo é relegada a teólogos e pastores não a exegetas, estudiosos críticos e lingüistas cognatos. A lém disso, a tarefa
interpretativa é declarada com pleta após o texto ter sido dissecado e deixado
- norm alm ente - desencaixado em um contexto antigo com pouco ou ne­
nhum sentido para seus leitores contem porâneos.
M as o tem po tem provado estar contra este intrincado m odelo de inter­
pretação da Bíblia. O significado do texto é necessariam ente atrofiado desde
o início por causa da recusa do m étodo em oferecer qualquer assistência com
relação a com o a igreja deve entender esses textos. O problem a pastoral e
pessoal da aplicação foi deixado de lado sem tratam ento. O processo de inter­
pretação foi interrom pido quando estava apenas parcialm ente com pletado.
A lém do mais, este m odelo enfatizava sua lealdade mais a teorias contem po­
râneas sobre a form ação de textos e a supostas fontes orientais e clássicas que
estão por trás delas do que a uma consideração daquilo que o texto, tanto em
suas partes quanto em sua totalidade, tinha a dizer.
O MÉTODO DE RESPOSTA DO LEITOR
Em reação à frustrante apatia do m étodo histórico-crítico de determ inação de
significado, um terceiro método surgiu em torno das contribuições de G adam er
e Ricoeur. Enquanto essa perspectiva freqüentem ente vê o m étodo históricocrítico com o um passo necessário e legítim o para discernir o que um texto
significava, ela enfatiza a necessidade de perm itir ao leitor e ao intérprete
determ inar o que o texto significa agora - em sua m aior parte sentidos novos,
diferentes e parcialm ente conflitantes.
Finalm ente chegou a hora de a igreja e o indivíduo receber algum a ajuda
da exegese. O processo interpretativo não poderia afirm ar ter atingido seu
objetivo de qualquer form a até que tivesse envolvido o texto e o seu contexto
original com as questões, significados e respostas dos leitores contem porâne­
os desse texto.
Infelizm ente, este m étodo reagiu de tal form a aos abusos do m étodo
histórico-crítico que, assim como m uitos pêndulos, tam bém inclinou-se lon­
ge dem ais na outra direção. O que se perdeu na m istura foi a prim azia da
intenção do autor e a maioria das possibilidades de testar a validade das várias
interpretações sugeridas. Todos os significados têm agora uma base potenci­
alm ente sem elhante, mas poucos intérpretes são capazes de dizer quais são
normativos. O resultado é que a igreja continua perdendo toda autoridade
derivada do texto, visto que ninguém pode classificar, e m uito menos deter­
minar, qual é o significado correto ou preferencial em grande núm ero de sig­
nificados concorrentes.
O MÉTODO SINTÁTICO-TEOLÓGICO
Velhos livros sobre herm enêutica inclinaram -se a designar o honrado m étodo
dos intérpretes dos séculos 18 e 19 com o sendo o m étodo histórico-gram atical de exegese. Entretanto, de lá para cá esse nome provou-se enganoso. Q uan­
do Karl A. G. Keil usou esse termo em 1788, a expressão gramm atico se
aproxim ava daquilo que entendem os pelo term o literal, o que ele expressava
com o sendo o significado simples, claro, direto ou habitual. Ele não estava
sim plesm ente referindo-se à “gram ática" que era usada. Igualm ente, o con­
texto “histórico” em que o texto foi redigido era tam bém m uito im portante
para essa perspectiva, visto que deseja chegar tão próxim o quanto for possível
dos tempos e contextos em que o autor original estava falando.
A fim de enfatizar mais da inteireza da obra literária e ressaltar que a
exegese não teria com pletado seu trabalho quando o intérprete tivesse anali­
sado todas as palavras e observado os usos naturais e históricos das m esm as,
classificam os este quarto m odelo para interpretação da Bíblia com o sendo o
m odelo sintático-teológico. Este m odelo faz o tradicional estudo históricogram atical do texto, seguido por um estudo de seu significado que dem onstra
sua relevância histórica - tanto com respeito ao resto das Escrituras quanto
com respeito à sua aplicação contem porânea. Com freqüência, os intérpretes
m odernos falham em observar os relacionam entos sintáticos e teológicos que
as palavras e conceitos têm nas Escrituras.
Este m odelo de com preensão do significado enfatiza a necessidade de
se apreender perícopes inteiras ou unidades com pletas de discussão como
base para interpretar um texto. As decisões interpretativas-chave giram em
torno de com o a sintaxe de expressões, cláusulas e frases contribui para a
form ação dos vários parágrafos que form am o bloco total do texto sobre aquele
determ inado assunto ou unidade de pensam ento. Em razão de a Bíblia preten­
der ser a palavra de Deus, a tarefa de localizar o significado não está term ina­
da até que se possa apreender o propósito, o escopo, ou razão (a teologia, na
verdade) pelo qual esse texto foi escrito.
Aspectos do Significado
Antes de continuar diretam ente a nossa busca pelo significado da Bíblia, pre­
cisam os olhar mais cuidadosam ente para a própria palavra significado. Com o
verem os, significados diferentes desta palavra estão intim am ente ligados com
vários outros conceitos-chaves da herm enêutica, incluindo aqueles de refe­
rente, sentido, intenção e significação.16
O S IG N IF IC A D O CO M O R E F E R E N T E
Com o os exem plos de Shakespeare no capítulo 1 deixam claro, é possível
saber o significado de cada palavra em um texto e ainda assim não fazer a
m ínim a idéia do que está sendo dito. Em tais casos, o que geralm ente está
faltando é um a noção do que está sendo falado - o referente. O referente é o
objeto, acontecim ento, ou processo no m undo para o qual um a palavra ou
toda um a expressão é direcionada.
Questões referenciais aparecem com bastante regularidade na interpreta­
ção bíblica, tanto dentro da Bíblia quanto nas interpretações que fazemos dela.
Naturalmente, alguns leitores estão satisfeitos com seu próprio entendimento
das passagens na Bíblia. Entretanto, o intérprete que deseja entender fará a
m esm a pergunta referencial que o leitor etíope fez acerca do Servo Sofredor
em Isaías 53 ao evangelista Filipe: “Peço-te que me expliques a quem se refere
o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?” (At 8.34). Em outras palavras,
a quem estas palavras se referem? Naturalmente, o etíope podia entender as
palavras, mas ele não tinha idéia de qual era exatamente o referente.
Questões sem elhantes sobre a identidade dos referentes surgem em vá­
rias passagens. Por exemplo, do que que Jesus está falando em João 6.53: “Se
não com erdes a carne do Filho do hom em e não beberdes o seu sangue, não
tendes vida em vós m esm os” ? M esm o que João não tivesse previam ente re­
gistrado a instituição da Ceia do Senhor, a linguagem aqui traz um reconheci­
m ento desse assunto. “Carne” nos Evangelhos era uma referência à encarnação
de Jesus, e “sangue” referia-se à sua morte, ou seja, à sua vida oferecida
violentam ente pela morte. Tomando a parte pelo todo, esperava-se que os
ouvintes de João viessem a crer na vida e no m inistério do Cristo encarnado,
assim com o crer em sua m orte e em tudo o que ela alcançou.
Igualm ente, os “falsos apóstolos” de 2 Coríntios 11.13, que tinham re­
cebido um “espírito diferente” , aceitavam um “evangelho diferente” , e prega­
ram um “outro Jesus” (v. 4), precisavam ser identificados a fim de que se
pudesse com preender contra quem Paulo estava se opondo em 2 Coríntios
10-13. Estes “superapóstolos” (2Co 11.5) eram ou gnósticos pneum áticos ou
16 Para m uitas partes da discussão seguinte sou grato a G. B. C aird, The L anguage anel Im agery oj
the B ible (Filadélfia: W estm inster, 1980), cap. 2, “T he M eaning o f M eaning,” pp. 37-61.
triunfalistas, judeus helenistas operadores de m ilagres que queriam zorr.r^r
de Paulo com suas próprias criações teológicas. Mas novamente devemos
perguntar primeiro: De que Paulo está falando? Quem são estes superapóstolos?
Nossa com preensão de 2 Tessaionicenses é grandemente enriquecida
quando podem os identificar os referentes para o “hom em da iniqüidade” e
“aquele que agora o [homem da iniqüidade] detém ” em 2 Tessalonicenses 2.3
e 7. N orm alm ente o prim eiro é tido como o Anticristo do final dos tem pos e o
último é visto com o a pessoa do Espírito Santo. M as essas identificações não
podem ser feitas levianam ente, pois a interpretação dessa passagem é radical­
m ente afetada pela escolha que se faz do referente.
Sem elhantem ente, o “pastor” de Ezequiel 34.23,24 é crucial para o en­
tendim ento da passagem , O Bom Pastor de João 10 vem a ser o m esm o que
foi contrastado com os maus pastores (isto é, todos os líderes, sacerdotes,
profetas, príncipes, entre outros) que tinham roubado e vitim ado o rebanho de
Deus no livro de Ezequiel.
Claram ente, o referente é um fator crucial. Quando perguntam os: “O
que você quer dizer?” algum as vezes estam os tentando descobrir do que se
trata toda a discussão ou sobre quem /o quê está sendo falado.
O SIGNIFICADO COMO SENTIDO
Outro im portante em prego da palavra significado é seu uso com o “sentido” .
Significado com o o referente nos diz do que está sendo falado, porém o signi­
ficado com o sentido diz o que está sendo falado acerca do referente.17 Logo
que o sujeito ou objeto do discurso é estabelecido, partim os para descobrir o
que o autor atribui àquele sujeito ou objeto.
Quando perguntam os pelo sentido de uma palavra ou um a passagem ,
estam os pro cu ran d o por um a definição ou por algum tipo de cláu su la
aposicional que nos mostrará como a palavra, ou todo o p a rá g ra fo , está f u n c io ­
nando em seu contexto. Significado com o sentido é qualquer coisa que algum
usuário desejou expressar por interm édio de um a palavra em particular ou
por um a série de palavras em um a sentença, parágrafo ou um discurso. Além
da sentença, o relacionamento das proposições nos parágrafos e discursos
carregam o sentido que o escritor deseja transmitir.
Com o ilustração, considere Rom anos 9*30-10.12. Esse texto tem sido
objeto de quase todo extrem o de interpretação, o mais das vezes sim plesm en­
te porque o intérprete falha em, prim eiram ente, estabelecer o referente exato
ao qual a passagem está se dirigindo e, em segundo lugar, em m ostrar qual o
significado ou sentido em que essa passagem contribui com esse referente ou
r Para um a m aneira diferente de distinguir os term os sentido e referente, veja M oisés Silva, Bíblica:
Words a n d T heir M eaning: A n Introduction to Lexical Sem antics (G rand R apids: Z o n d e n ir..
1983), pp, 102-8.
sujeito. M uitas vezes as predileções teológicas parecem ser m ais form ativas
para aquilo que se espera encontrar no texto do que um ouvir paciente do que
o texto tem a dizer.
Para observar o sentido-significado nessa passagem , deve-se entender o
que significam quatro proposições-chave no texto. Observe com o algum as
das proposições são em pregadas em aposição a outros term os na passagem e
com o cada um a das quatro proposições, usada a partir do público judaico, ao
qual se dirigia, opõe-se em contraste com quatro termos correspondentes usados
no método dos gentios de buscar os mesmos objetivos que a comunidade judaica.
nomon diakaiosyés - Romanos 9.31, Israel buscava uma “lei de justiça”
a li’hós ex ergon - Rom anos 9.32, “não decorreu da fé e sim [como se
fosse possível] com o que das obras”
zélon theou (...) ou k a t’ epignósin - Rom anos 10.2, “eles têm zelo por
Deus... não com entendim ento”
kai tem idian - Rom anos 10.3, eles procuraram estabelecer “a sua pró­
pria [justiça]”
Claramente, o referente dessas quatro proposições era a população judaica. Mas
quais os significados e qual o sentido que o apóstolo Paulo ligou a cada uma?
Israel, de acordo com essas quatro proposições, tinha empreendido o processo
de buscar a justiça (o tópico anunciado em Romanos 9.30) de modo totalmente
invertido. Paulo estava, deste modo, exortando: Não acusem a lei m osaica, nem
culpem a Deus, o legislador, por aquilo que Israel fez aqui. Israel era culpado de
inventar sua própria lei para substituir a lei de Deus e fazer uma nova lei a partir
da justiça de Deus. Em vez de ir a Deus pela fé, lamentava Paulo, Israel insistia
em fazer da justiça um program a de obras, como se isso fosse possível! Em bora
devamos admirar o zelo de Israel, este zelo não era baseado no conhecimento
que veio da Palavra de Deus (Rm 10.4). O resultado era um a justiça caseira, tão
valiosa quanto um níquel de madeira.
O que poderia ser mais claro: os gentios obtiveram a justiça de Deus ao
crerem naquele que é aqui cham ado Pedra e Rocha, nosso Senhor. Assim, não
deveriam se envergonhar. M as Israel, que criou um plano faça-você-m esm o,
errou não apenas na m aneira apropriada de receber esta graça, mas tam bém
na finalidade ou objetivo da lei (Rm 10.5), que não era menos que o próprio
Cristo e sua justiça. De fato, m uito antes, nos dias de M oisés e da própria
Torá, a m esm a justiça tinha sido descrita em Levítico 18.5 e D euteronôm io
30.10-14 (o texto grego deliberadam ente usou palavras que juntaram as duas
citações em vez de contrastar as duas). A palavra que M oisés pregou foi a
m esm a palavra de fé pregada por Paulo.
O sentido está na totalidade da passagem : A justiça de Deus apontava
para Cristo e vinha somente pela fé, não por obras. A pessoa que fizesse essas
coisas viveria na esfera delas. Portanto, Rom anos 10.5 introduziu duas cita­
ções de Moisés, apoiando o sentido consistente iniciado na questão introdutória
em 9.30 e sustentada em cada um dos quatro contrastes exibidos nas proposi­
ções dos parágrafos. O sentido do uso dessas palavras, enquanto form am o
sentido de toda a passagem , é o segundo significado mais im portante a obter
um a vez que o referente foi identificado.
O SIGNIFICADO COMO INTENÇÃO
Ao falar de significado como intenção, não pretendemos entrar na mente, na
psicologia ou nos sentimentos do autor. Não temos nenhuma forma de obter ou
controlar tal informação. Em lugar disso, estamos interessados somente na inten­
ção verdadeira do autor expressada na maneira como ele juntou palavras indivi­
duais, expressões e sentenças em um trecho literário para formar um significado.
É preciso reconhecer, também, que não é sempre possível dissociar signifi­
cado como sentido de significado como intenção. Os dois são freqüentemente
idênticos, de m aneira que as distinções feitas aqui são arbitrárias e sim ples­
m ente refletem nossa tendência a usar vocabulário que muitas vezes se sobre­
põe. M as alguns pontos precisam ser determ inados sob o título “o significado
com o intenção” , com o segue.
O im pacto deixado por W im satt e Beardsley é que a intenção de um
autor não determ ina o que um a obra literária significa. Em lugar disso, o
que um interlocutor quis dizer não coincide necessariam ente com o que a
sentença significa. Perm ita-nos com plicar a questão um pouco mais: p ro ­
fessores com freqüência avaliam o trabalho de um aluno para depois rec e ­
ber seu protesto de que o professor não com preendeu o que ele quis dizer.
Tipicam ente o professor responderá: “Eu só posso dar nota a você por aqui­
lo que você escreveu de fato, não por aquilo que você queria dizer.” D esta
m aneira, pensam os, o significado do texto tem um significado independen­
te de seu autor. Todavia essa ilustração vale som ente com o um com entário
sobre a habilidade artística ou, neste caso, a habilidade lingüística do estu ­
dante. A utores, assim com o outros com unicadores, com freqüência afirm am
coisas de m aneira m uito sim plória com am bigüidades ou elipses, assum in­
do que o referente seja conhecido sem ser citado. Todavia, a intenção do
interlocutor nunca é irrelevante, pois o único cam inho de fuga do' atoleiro
criado por esta objeção é perguntar ao interlocutor o que ele ou ela quis
dizer - e se o interlocutor ou escritor não está m ais disponível, devem os
buscar o contexto para term os pistas adicionais.
P. D. Juhl ilustra como isso pode funcionar quando um homem diz: “Gosto
mais da m inha secretária do que a m inha esposa.” Quando exclam am os com
sobrancelhas erguidas: “É verdade m esm o?” ele im ediatam ente percebe que
não entendem os o que ele pretendia comunicar. “Não, você não me com pre­
endeu” , protesta ele. “Eu quero dizer que gosto mais dela do que a m inha
esposa gosta.” Ainda não está absolutam ente claro o que ele pretende, mas
estam os mais perto agora do que estávamos antes. O hom em chegou a ter
êxito em influenciar o significado da sentença anterior, m esm o que sendo
c o n stru íd a de form a bastante lim ita d a .18 E ntretanto esses são casos de
in co m p etên cia de autoria. F reqüentem ente é possível inferir do contexto
o que um autor quer dizer, m esm o quando ele ou ela falhou em expressar
sua intenção claram ente.
C o m o a i n t e n ç ã o a f e t a o s i g n i f i c a d o . A intenção pode afetar o significa­
do de diversas m aneiras. Prim eiram ente, a intenção do autor determ ina se as
palavras devem ser entendidas literalmente ou figurativamente. Portanto, quan­
do o salm ista escreve que as árvores batem palm as, fica claro que a união de
um sujeito inanim ado com um predicado norm alm ente atribuído a seres ani­
m ados é suficiente para nos dar o indício de que a linguagem é figurativa.
Em segundo lugar, a intenção do autor determ ina o referente que uma
palavra irá ter. Aqui estão alguns exemplos em que é dito algum as vezes que
um a elocução teve um significado além daquele que o autor original preten­
d ia.19 Por exemplo, se nos lim itarm os no m om ento somente ao significado
com o referente, as seguintes afirmações pareceriam contradizer nossa tese de
que a intenção do autor determ ina o sentido: (1) afirmações em geral podem
ser aplicadas a qualquer m embro de uma classe, (2) verdades em geral podem
ser facilm ente transferidas a outras, e (3) cum prim entos parciais dentro de
um a série de previsões, pertencentes a uma linha que m ostre solidariedade
associada entre todas as partes, pode tam bém ir além do im ediato e particular
à m anifestação final da previsão.
M arcos 10.25 ilustra a prim eira objeção levantada contra nosso princí­
pio de intencionalidade autoral: “E mais fácil passar um cam elo pelo fundo
de um a agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” De acordo com a
perspectiva de alguns, essa elocução vai além do referente im ediato do autor.
Essa afirm ação se aplicaria não apenas ao povo rico dos tem pos de Jesus, mas
a todos aqueles mem bros pertencentes à m esm a classe dos “ricos” de qual­
quer época. Entretanto, visto que o princípio não m udou tanto no contexto
bíblico quanto em nossos tem pos modernos, a verdade-intenção perm anece a
m esm a. Em vez de quebrar nossa regra, apenas ajuda a desenvolvê-la mais.
18 P. D. Juhl, Interpretation: A n E ssa y in the P hilosophy o f L iterary C riticism (P rinceton, N.J.:
Princeton U niversity Press, 1980), pp. 52-65.
19 Veja a boa discussão em G. B. C aird, The L anguage a n d Im agery o fth e Bible, pp .56-58.
A segunda objeção pode ser ilustrada por M arcos 7.6, em que Jesus se
queixou: “Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas...” Podem os
responder a esta objeção em termos sem elhantes ã prim eira. Isaías não se
dirigiu diretam ente a um público que passou a existir setecentos anos após
sua m orte, mas a verdade que ele afirmou foi prontam ente transferida ao lon­
go dos séculos em razão do fato de que aquilo que ele havia dito poderia
perfeitam ente ser dito tam bém acerca dos contem porâneos de Jesus. Não há
m udança na intencionalidade autoral.
A te rc e ira c a te g o ria de e v id ê n c ia lev an tad a co n tra nossa tese da
intencionalidade autoral tom a o significado do referente com o sendo m últi­
plo, isto é, aponta para um núm ero de pessoas que cum priram a previsão e,
portanto, além da im ediata intenção do autor - da m esm a form a que a previ­
são acerca da vinda do “pequeno chifre” , ou anticristo, em Daniel 7.8, 11, 25
é tida pela m aioria com o sendo sim ultaneam ente um a referência a Antíoco
Epifânio IV e à m anifestação final do diabo nos últim os dias. Porém até m es­
mo 1 João 2.18 diz que “m uitos anticristos têm surgido” , sem m enosprezar o
fato de que “com o ouvistes que [ainda] vem o anticristo” .
N aturalm ente, concordam os que alguém com perfil diabólico que vio­
lentam ente se opôs ao reino de Deus foi e é um legítim o referente em subse­
qüentes gerações, m esm o em bora essa pessoa possa não ser a m anifestação
final do anticristo do fim dos tempos. Apesar disso, é o significado pretendido
pelo autor que deve ser o ponto de partida de onde toda a com preensão se
inicia. E na ilustração considerada há pouco, em bora existam m últiplos cum ­
prim entos por toda a História, enquanto o tem po avança para o seu final,
nenhum desses cum prim entos constitui um caso de significados duplos ou
múltiplos. Todos eles participam de um único significado, ainda que tenha
havido um núm ero m últiplo de cum prim entos por todo o curso de tempo.
Esta é a singularidade da questão que estam os defendendo. E sem elhan­
te à perspectiva apresentada pela escola de Antioquia de interpretação do 5o
ao 7o séculos d.C. Foi um caso de cum prim entos m últiplos com um sentido
único ou significado que incorporou todos eles, por causa da natureza genéri­
ca do term o usado ou o coletivo, natureza singular do term o usado, ou a soli­
dariedade associada que os muitos referentes com partilhavam com o repre­
sentativo que corporificava todo o grupo.
O único caso em nossa cultura ocidental em que um fenôm eno sem e­
lhante ocorre é na designação de uma com panhia, tal como GM C. GM C sig­
nifica “General M otors Com pany” , o nom e oficial, mas, se eu tivesse que
processar a com panhia, de um a perspectiva geral, o processo se denom inaria
Kaiser versus GMC. Para os propósitos da lei, ambas as partes seriam tratadas
como se fossem indivíduos, m esm o que GM C signifique um conjunto de ad­
m inistradores, em pregadores e acionistas, não apenas um a pessoa. Esta é um a
ilustração da solidariedade associada, em que m uitos e um são tratados como
uma entidade, m esm o que sejam compostos de várias partes.
I n t e r v e n ç ã o D i v i n a . N o caso das E scrituras, porém , outra intenção
m aior devè ser considerada: a intenção divina. Devem os perguntar neste pon­
to: É a intenção divina dentro da palavra revelada a mesma que a intenção
autoral, ou é diferente?
Há casos nas Escrituras em que as “intenções” de Deus diferem clara­
m ente daquelas dos hom ens que ele estava usando para cum prir seus propósi­
tos. Por exemplo, José disse a seus irmãos: “Vós, na verdade, intentastes o
mal contra mim; porém Deus o tornou em bem ” (Gn 50.20). De m aneira
sem elhante, os assírios pretendiam destruir Israel, mas Deus tencionava que
eles fossem apenas a vara da disciplina em suas mãos (Is 10.5-11). Não m e­
nos ignorante dos propósitos e usos para o qual Deus o com issionou, foi Ciro,
o m edo-persa, pois Ciro nem m esm o ainda o conhecia (Is 45.1-4).
Contudo nenhum desses exemplos trata da redação das Escrituras. O
que está sendo confundido aqui é o propósito-intenção com a verdade-inten­
ção. No caso dos autores das Escrituras, havia tal concordância entre o divino
e o hum ano (ou seja, um “andar ju n to ” no dom ínio do pensam ento) que o
Espírito de Deus era capaz de tom ar as verdades de Deus e ensiná-las em
palavras aos autores das Escrituras.
O principal texto que dem onstra este ensino quanto a esta declaração
está em 1 Coríntios 2.6-16.20 O versículo 13 enfatiza que os escritores da
B íblia receberam não palavras ensinadas pela sabedoria hum ana, mas “ [pala­
vras] ensinadas pelo Espírito” . Ou seja, o Espírito de Deus não sussurrou
m ecanicam ente o texto aos ouvidos do escritor, nem os autores viram -se es­
crevendo autom aticam ente. Em lugar disso, experim entaram um a assim ila­
ção viva da verdade, de modo que o que haviam experim entado no passado
por m eio de cultura, vocabulário, sofrimentos e coisas sem elhantes foi absor­
vido e assim ilado em só produto que veio sim ultaneam ente da personalidade
única dos escritores. De m aneira igualm ente verdadeira, todavia, veio tam ­
bém do Espírito Santo! E o Espírito Santo estava com os escritores não ape­
nas no estágio conceituai ou das idéias, mas por todo o cam inho do estágio da
escrita e verbalização de sua com posição do texto. É o que Paulo reivindicava
para si e para os profetas e apóstolos, portanto, é difícil ver como o produto do
texto pode ser separado em com ponentes divinos e hum anos, cada um refle­
tindo um a intenção independente - um a hum ana e outra divina. Assim, enten­
der a intenção do autor hum ano é entender a intenção do autor divino.
20 Veja W alter C. Kaiser, Jr., “A N eglected Text in B libiology D iscussions: 1 C orinthians 2 .6 -1 6 ”
W TJ 43 (1980-81): 301-19.
Deve-se acrescentar rapidam ente, porém , que isso não é dizer que : ?
referentes divinos pretendidos fossem lim itados àqueles que o autor via ou
significava. Era necessário somente que o escritor tivesse um entendim ento
adequado daquilo que era pretendido tanto no futuro próxim o quanto no dis­
tante, m esm o que não pudesse com preender todos os detalhes que deveriam
ser incorporados ao progresso da revelação e da História.
SIGNIFICADO COMO SIGNIFICAÇÃO
Em m uitos contextos, os term os significado e significação se sobrepõem . Em
seu uso em estudos textuais, todavia, somos advertidos a fazer distinção entre
os dois seguindo as linhas traçadas por E. D. Hirsch.
Significado é aquilo que é representado pelo texto; é o que o autor quis
dizer por m eio do seu uso de um a seqüência particular de sinais; é o
que os sinais representam . Significação, por outro lado, designa um
relacionam ento entre esse significado e um a pessoa, ou um a concep­
ção, ou um a situação, ou na realidade qualquer coisa im aginável.
Em outro lugar, Hirsch resum iu a distinção desta forma:
A c a ra c terístic a im p o rtan te do sig n ificad o com o d istin to da sig n ifi­
cação é que esse sig n ificad o é a re p resen tação d ete rm in a d a de um
texto p ara um in térp rete. ... S ig n ificação é o sig n ificad o re la c io n a ­
do a algo m ais.21
Nesses term os, o significado é fixo e imutável; a significação nunca é fixa e
sem pre é m utável. Com o Hirsch afirmava: “Banir o autor original com o o
determ inante do significado [é] rejeitar o único princípio norm ativo convin­
cente que poderia em prestar validade à um a interpretação.”22
M as seria igualm ente trágico concluir as próprias responsabilidades
interpretativas com a tarefa de determ inar o que o texto significava para o
autor e os leitores orginais, sem ir adiante em lidar com a significação con­
tem porânea do texto. A tarefa herm enêutica deve continuar até dizer o que o
texto quer dizer ao leitor ou ouvinte contem porâneo.
Este sentido como significação poderia tam bém ser cham ado de sentido
conseqüente ou implícito. Juntam ente com o fato de existir apenas um único
significado-com o-sentido (que é o que estam os aceitando aqui), há.inum eráveis significados-com o-significação que podem e devem ser indicados. A l­
guns desses significados mais recentes estendem-se a pessoas contemporâneas,
acontecim entos ou questões que vão além daqueles dos escritores originais e
21 H irsch, Valiclity in In terpretation , p. 8; idem, The A im s o f Interpretation, pp. 79-80.
22 H irsch, Validity in Interpretation, pp. 4-5.
de seus leitores. Outros são novas relações que podem ser legitim am ente vis­
tas entre um a elocução textual mais antiga e o m undo do público contem po­
râneo. A significação pode tam bém estar relacionada a certas inferências teo­
lógicas, contidas tanto no texto com o vindo de fora dele. De fato, o com enta­
rista G eorge Bush apresentou um a boa alegação para a im portância das
inferências na interpretação: ,
Se as inferências não estão ligadas na interpretação da lei divina, então
apontaríam os para o m andam ento expresso que foi violado por N adabe
e Abiú ao oferecer fogo estranho [Lv 10.1 -3], e que custou a vida deles.
Q ualquer proibição em term os rígidos acerca dessa m atéria será procu­
rada em vão. Por outro lado, não teria nosso Salvador dito aos saduceus
p a ra inferirem que a doutrina da ressurreição era verdadeira, a partir
do que D eus havia dito a M oisés na sarça?23
O texto pode tam bém conter uma alusão a suas próprias significações e
inferências dentro de si, como em Atos 5.30: “O Deus de nossos pais ressus­
citou a Jesus, a quem vós m atastes, pendurando-o num m adeiro.” Por que o
apóstolo Pedro não usou sim plesm ente o verbo crucificar em lugar da desa­
jeitada expressão “pendurando-o num m adeiro” ? Sem dúvida Pedro quis cha­
m ar a atenção para as conotações de D euteronôm io 21.22,23 com suas refe­
rências para a execrável condição de todos os que m orressem dessa m aneira.
Não poderia a inferência ser a de que o M essias morreu debaixo da “m aldi­
ção” de Deus sobre o pecado de Israel e do m undo ao tom ar nosso lugar? A
im plicação teológica e significação da crucificação com o Pedro e Lucas en­
tenderam são trazidas desse modo para o próprio contexto do leitor ou ouvin­
te. Em lugar de classificar esse tipo de inferência com o sendo um a expressão
direta da intenção autoral, parece m elhor considerá-lo com o um exem plo de
significações “conseqüentes” ou “im plícitas” que o texto das Escrituras nos
estim ula a encontrar como parte legítim a de seu significado total.
E im portante, contudo, estarm os certos de que o sentido conseqüente ou
im plícito que atribuím os a um texto é aquele que reflete acuradam ente a ver­
dade fundam ental ou princípio no texto, e não algo separado ou diferente.
Conseqüentem ente, Paulo em pregou de m aneira correta (não: alegorizou) o
princípio de não am ordaçar um boi em Deuteronôm io 25.4 à aplicação práti­
ca de pagar um pastor ou trabalhador cristão. Tanto a lei deuteronôm ica quan­
to o apóstolo construíram sobre o m esm o princípio, a saber, que desenvolver
atitudes de benevolência e dádivas com alegria de um a substância é (neste
caso) mais im portante que m eram ente preocupar-se com o tratam ento de ani­
m ais (Dt 25), ou m esm o pagar trabalhadores aquilo que deveria ser pago por
23 G eorge B ush, Notes, C riticai a n d Practical, on the B ook o f Leviticus (N ova York: N ew m an and
Ivision, 1852), p. 183, ênfase dele.
seu trabalho (IC o 9.7-12). Não apenas Paulo disse que aquilo que estava es­
crito em D euteronôm io não foi escrito para bois, mas inteiram ente para nós;
tam bém fica claro que a coleção de leis na seção de Deuteronôm io da qual
esta foi tirada tem plenam ente como seu objeto a recom endação de um espí­
rito de gentileza e generosidade acerca deles.24
De maneira semelhante, Jesus usou Oséias 6.6 (“M isericórdia quero e não
holocaustos”) para justificar o fato de seus discípulos comerem com publicanos
e pecadores (M t 9.10-13) e para justificar a ação de seus discípulos de colher e
comer espigas no sábado (Mt 12.1-7). Certamente, as aplicações diferiam uma
da outra, mas o princípio por trás tanto do texto do Antigo quanto do Novo
Testamento perm anece o mesmo - a saber, a atitude do coração é mais impor­
tante e sempre toma precedência sobre a mera obrigação exterior.
Se esses textos ilustram legítim as inferências que carregam em si o sen­
tido para novas áreas, mas em que as significações são da m esm a ordem que
aqueles contidos no sentido que o autor queria demonstrar, que ilustração
podem os dar de uma inferência que é separada e diferente do sentido do autor
e portanto deve ser evitada como herm eneuticam ente incorreta? Um a ilustra­
ção assim encontra-se em M alaquias 3.6: “Eu, o Senhor, não m udo.” Alguns
têm exposto desta maneira:
Prem issa maior: D eus é absolutam ente im utável (Ml 3.6).
Prem issa menor: O que é absolutam ente im utável é eterno
(sabido pela razão, mas não ensinado aqui)
Portanto: D eus é eterno.
Todavia não existe autoridade nesse texto para alegar que Deus é eterno. N es­
se caso a im plicação e a aplicação são separadas e diferentes daquilo que é
ensinado no texto, e portanto não se trata de uma inferência que vem do princípio
ensinado no texto. A eternidade não é demonstrável exegeticamente nesse texto,
visto que ele está falando acerca do atributo divino da imutabilidade. Infere-se a
eternidade, não com base naquilo que esse texto ensina sobre Deus, mas, em
lugar disso, a partir daquilo que se conhece acerca de Deus de fontes total­
m ente diferentes e de um a definição do que significa ser Deus.
Neste ponto a teologia já passou por cim a dos procedim entos exegéticos,
e está sendo trazida ao texto ab extra (ou de fora) e colocada com o um filtro
sobre o texto. É totalm ente diferente da afirm ação feita no texto. A com para­
ção entre “Eu não m udo” e “Eu sou eterno” não é um a distinção de coisas
24 Veja argum entação m ais detalhada em W alter C. K aiser, Jr., “A pplying the Principies o f the Civil
Law : D euteronom y 25.4; 1 C orinthians 9 .8-10” , em The Uses o f th e Olcl Testam ent in the Sev.
(C hicago: M oody Press, 1985), pp. 203-20, esp. pp. 218-219.
sem elhantes, mas de dois atributos diferentes de Deus.25 De fato, a eternidade
nesse caso é provavelm ente nada mais que um a extrapolação teológica. M as
naquele caso deveria ser deste modo classificado e não diretam ente atribuído
ou ligado com a autoridade das Escrituras com o sua fonte em M alaquias 3.6.
Não há dúvida de que a grande contribuição de nosso século para o
debate herm enêutico será nossa preocupação com o leitor e com a aplicação
contem porânea e a significação que um sentido passado tem para hoje. Devese ter cuidado, porém , em seguir o fio condutor da intenção autoral e tornar
clara qualquer conexão vista entre um princípio num texto e as circunstâncias
m odernas. Concentrar-se na significação de um texto não deve levar a proporse um novo sentido do texto que não seja, de fato, ensinado nas Escrituras.
Fazer o contrário significaria arriscar-se à perda de autoridade, pois tais
inferências não seriam parte da natureza escrita do texto e portanto não seriam
autoritativas para nós hoje.
O U TRO S SE N T ID O S D E
“
S IG N IF IC A D O ”
O significado pode ter definições adicionais além das quatro esboçadas ante­
riorm ente aqui. O significado como valor aparece quando dizem os: “O livro
de Isaías significa mais para mim do que todos os outros livros proféticos.”
Esta é uma expressão de preferência e prioridade. Todavia, nenhum a reivin­
dicação foi feita quanto ao sentido, verdades ou significação do livro de Isaías.
O significado como im plicação é outro uso desta palavra de amplo sen­
tido. “Isto é guerra” , entoou o presidente dos Estados Unidos, significando
que um fenôm eno levou inexoravelm ente a outro. Ou, usando outro exemplo,
na vida de nosso Senhor, sua obediência inabalável à vontade do Pai levou-o
ao sofrim ento. “ [Jesus] aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb
5.8). Observe que Jesus não foi à escola a fim de “aprender” obediência, nem
precisou ser ensinado como obedecer: em lugar disso, ele aprendeu o que a
obediência pressupunha. Neste caso o sentido de “aprender” para o escritor
de Hebreus trazia consigo uma im plicação sobre como o intérprete irá, algu­
mas vezes, ver sentidos associados com palavras bíblicas como im plicações
legítim as que fluem de uma com preensão válida do texto.
N aturalm ente, d izer isso não o transform a em fato, pois cada um
desses exem plos deve ser dem onstrado com evidência apropriada. D evese ter cuidado com o uso da im plicação para que não se caia na arm adilha
de aceitar um a inferência separada e diferente daquilo que o texto re a l­
m ente apresenta evidência.
^ Veja C. F. D eV ine, “T he C onsequent Sense” , C athoüc B ib lica l Q uarterly 2 (1940): 151-52.
T am bém W alter C. Kaiser, Jr., “A R esponse to A u th o r’s Intention and Biblical Interp retatio n ” ,
em H erm eneutics, Inerrancy a n d the Bible, org. por Earl D. R adm acher and R obert D. Preus
(G rand Rapids: Z ondervan, 1984), pp. 443-46.
Conclusão
Neste capítulo apresentam os vários conceitos revolucionários usados na in­
terpretação de textos no século 20. Conquanto muitas dessas novas aborda­
gens estejam interessadas na com preensão dos textos de form a mais profun­
da e criativa, é preciso que busquem os entendê-las corretamente. Por esta
razão procuram os m anter um equilíbrio entre dois princípios: (1) um foco
criativo sobre as necessidades do leitor, e (2) um desejo de validar sentidos e
aplicações do texto como sendo corretos, autoritativos e, portanto, normativos.
Com o Hirsch dem onstrou, a base para a validação do sentido de qual­
quer passagem pode somente ser localizada no sentido que o autor pretendia.
M as a significação legítim a em todas as aplicações contem porâneas dessa
passagem deve ser achada na identificação de todos os relacionam entos váli­
dos que existem entre o sentido pretendido do autor e quaisquer questões
contem porâneas sugeridas, leitores e intérpretes. Em outras palavras, a auto­
ridade para o sentido de um texto é de solidez proporcional ao nosso entendi­
m ento da verdade que o autor pretendia expressar.
O ato de isolar cada um dos quatro significados um do outro é na
verdade algo arbitrário e teórico. M esm o assim , cada um realiza um p a ­
pel, um a função real. O problem a é que o ato de entender e in terpretar
ajunta todas essas várias funções novam ente. D este m odo, os assim ch a­
m ados cinco sentidos que discutim os separadam ente para o prop ó sito de
análise deve agora ser restaurado a um m odo holístico de o lhar para o
texto quando procuram os interpretá-lo.
Muitas questões levantadas no estudo da Bíblia estão relacio­
nadas ao significado lingüístico e os argumentos usados para apoi­
ar determinadas idéias muitas vezes não são válidos. Devemos ter
cuidado para não m inimizar a importância das línguas originais
das Escrituras, tendo em vista que é fácil compreender as nuanças
que o texto apresenta em nossa língua, mas não em grego ou
hebraico; além disso há, por vezes, detalhes de interpretação que
podem ser resolvidos somente lançando-se mão do original. Por
outro lado, alguns leitores acabam exagerando a importância das
línguas bíblicas como se a versão em nossa língua fosse inadequa­
da e portanto incapaz de transmitir o significado correto.
Outros possíveis perigos tam bém m erecem atenção, como
a tendência de alguns de partir do pressuposto de que o significa­
do de um a palavra é baseado em sua história; devemos evitar em
particular as interpretações que apóiam -se muito fortem ente na
etim ologia de um a palavra. Por outro lado, com freqüência lemos ou ouvimos exposições que com binam os vários significa­
dos que um a palavra pode ter; em vez de identificar a função
específica de um a palavra dentro de um determ inado contexto,
os significados são lidos para dentro da passagem. Por fim, é
im portante não enfatizar excessivam ente as distinções sutis de
vocabulário e gram ática, pois o autor depende do poder da passa­
gem escrita com o um todo (e não de tênues diferenças lingüísti­
cas) para transm itir o significado.
CAPÍTULO 3_________
Vamos Ser Lógicos
USANDO E ABUSANDO DA LINGUAGEM
M o is é s S ilva
Todos gostam os de pensar em nós m esm os como seres hum anos racionais e
perspicazes, especialm ente se estam os envolvidos em um a discussão com al­
guém. É de se entender, portanto, que quando nos vemos perdendo terreno na
disputa, estam os prontos a usar nossa m elhor arm a - na realidade, a tática
definitiva para silenciar alguém - “Você está sendo ilógico!” Juntam ente com
“isto é apenas a sua in terp retação ” e outras respostas escolhidas, a re c la ­
m ação de que nosso oponente não é lógico pode ser sim plesm ente um
ataque verbal injusto.
É inegável que algumas vezes podem os ter boas razões para suspeitar da
capacidade de raciocínio de nosso oponente. Pode bem ser que, por exemplo,
quando afirmamos: “Esta é apenas a sua interpretação” , tenham os percebido
que a outra parte está sim plesm ente declarando um a opinião e, portanto, con­
fundiu o significado do texto com um a das opções interpretativas disponíveis.
Poderia ser m ais produtivo (em bora dificilm ente garantido!) especificar quais
outros sentidos parecem razoáveis e dem onstrar que deveríam os ter bases
persuasivas para a escolha de um entre os outros.
Sem elhantem ente, há m aior probabilidade de progresso em um debate
se, em lugar de lançar uma alegação geral sobre um lapso lógico de um indi­
víduo, fizerm os um esforço para identificar a falácia específica que detecta­
mos. Observe a palavra esforço. A m aioria de nós é form ada de pensadcre>
preguiçosos. Podem os estar vagam ente cônscios de que um argum ento é fr^-
co, mas não estam os realm ente preparados para dizer como. Infelizm ente,
este problem a não está restrito a discussões pessoais. As m esm as questões
surgem quando lem os um com entário bíblico, ou m esm o quando estam os
ponderando sozinhos acerca do sentido de um versículo.
O objetivo deste capítulo é fornecer algum a ajuda na avaliação dos argu­
m entos. Não tentarem os dar, um tratam ento com pleto, visto que há vários
livros excelentes disponíveis.26 A lém disso, nosso interesse prim ário não
corresponde em todos os aspectos àqueles da disciplina filosófica que cham a­
mos de lógica, mas em nos concentrarm os mais especificam ente no uso da
linguagem . As ligações entre lógica e linguagem são, na verdade, muito pró ­
xim as, mas estam os m enos diretam ente interessados nas questões tradicio­
nais da filosofia do que nos problem as típicos que surgem quando estudantes
da B íblia buscam descobrir o sentido do texto e quando procuram defender
sua interpretação.
Visto que um a grande proporção de argum entos exegéticos recorre ao
grego e ao hebraico, precisarem os prestar atenção especial ao que diz respei­
to ao uso apropriado das linguagens bíblicas. Podem os com eçar consideran­
do duas tendências opostas que freqüentem ente aparecem no estudo das E s­
crituras, a saber, a m inim ização e a superestim ação das línguas originais.
Não Minimize a Importância das Línguas Originais
Para alguns cristãos, ouvir referências ao grego ou ao hebraico pode ser bas­
tante intimidador. Talvez porque receberam ensino fraco, com um a visão de
que a Versão King James (KJV) é inspirada e é, portanto, tudo de que se
precisa. Esta não é um a posição m uito “lógica” porque levanta inúm eras per­
guntas sem resposta. Com o sabem os que a KJV e não outra tradução é inspi­
rada? O que as pessoas de fala inglesa utilizavam antes que a KJV fosse pro­
duzida no século 17? Deus inspira traduções individuais em cada língua m o­
derna? Além disso, podem os dem onstrar que aqueles que produziram a KJV
tiveram , eles m esm os, que traduzir das línguas originais.
Outros crentes, percebendo que nenhuma tradução é infalível, apresentam
um a objeção mais razoável. Tem a ver com o princípio bíblico de que nós não
precisam os de nenhum intermediário humano (quer sacerdote ou estudioso)
entre nós e Deus. Jesus Cristo é o único mediador (lT m 2.5). Se eu tiver de
depender de um especialista em línguas para entender a Bíblia, não estaria en­
tão comprom etendo essa preciosa verdade?
16 P ara aplicações d a lógica básica para o estudo d a B íblia, veja especialm ente Jam es W. Sire,
S cripture Twisting: Twenty Ways the C ults M isreacl the B ible (D ow ners G rove, 111.: Intervarsity,
1980); e D. A. C arson, E xegetical Fallacies (G rand R apids: Baker, 1984).
Parte da resposta a esta preocupação é afirm ar sem receio que as tradu­
ções disponíveis em nossa língua são perfeitam ente adequadas. M esm o algu­
mas das versões que não são da mais alta qualidade apresentam de form a
bastante clara a m ensagem básica do evangelho e a obediência que D eus re­
quer de nós. Jam ais devemos pensar que um a pessoa sem um conhecim ento
de grego e de hebraico ou sem o acesso direto a um estudioso corre o risco de
não encontrar as verdades essenciais das Escrituras.
N unca nos esqueçam os, porém , que quando lem os um a tradução em
nossa língua, estam os de fato reconhecendo, m esm o que indiretam ente, nossa
dependência dos estudiosos. A lguém teve que aprender as línguas bíblicas e
fazer grandes esforços por um longo período de tem po antes que os dem ais
leitores pudessem fazer uso de um a tradução que entendessem . Em bora as
E scrituras afirm em que tem os acesso direto a Deus, as E scrituras tam bém
deixam claro que D eus outorgou m estres à sua igreja (ex., E f 4.11). C erta­
m ente não haveria razão algum a para se ter m estres se os cristãos nunca
precisassem de orientação e instrução em sua com preensão da revelação de
Deus. E studiosos não podem im por seus pontos de vista sobre a igreja, nem
podem agir com o se fossem os grandes depositários da verdade, mas a igre­
ja não deve esquecer o quanto ela tem sido beneficiada pelos seus esforços
através dos séculos.
De qualquer form a, seria um grande erro negar a im portância de se dar
atenção às línguas originais. Alguns anos atrás, um pastor estava apresentan­
do um estudo bíblico no meio da sem ana e falava sobre Efésios 4. Usando a
KJV, ele leu o versículo 26, “Irai-vos e não pequeis” . Ele então continuou
afirm ando que esse versículo proíbe a ira na vida de um cristão.
E com preensível a razão por que esse pregador sentiu-se com pelido a
interpretar o versículo dessa m aneira. Afinal, outras passagens na B íblia pa­
recem condenar vigorosam ente a ira (ex., M t 5.22), assim ele deve ter suposto
que a passagem de Efésios não poderia significar algo contrário ao resto das
Escrituras. Sua conclusão foi que a palavra não se aplicava a ambos os ver­
bos, pecar e irar. Porém essa interpretação não é realm ente possível. Se há
algum a am bigüidade para o leitor m oderno, ela não existe no grego original,
onde a partícula negativa (que sempre afeta a jfalavra seguinte) vem depois do
verbo irar e antes do verbo pecar. Algum a reflexão posterior sobre o ensino
bíblico acerca da ira - incluindo o fato de que Deus m esm o é algum as vezes
retratado com o estando irado (ex., Rm 1.18) - torna claro que essa em oção
hum ana não é necessariam ente pecam inosa em si. O que o apóstolo pretende
que entendamos é que, embora possa haver situações em que a ira é apropriada,
não podem os perm itir que se tornem um a ocasião para pecar.
Os m estres dos estudos bíblicos sem anais não são os únicos que ocasio­
nalm ente usam incorretam ente a Bíblia ao deixar de levar em conta as línguas
originais. Estudiosos tam bém podem tropeçar. Um escritor bastante notável,
que por acaso é um proponente da assim cham ada teologia existencialista,
afirmou que a essência do ser é um dinâm ico “deixar ser” . Posteriorm ente em
sua argum entação ele observa: “É significativo que a B íblia não com ece sim ­
plesm ente afirm ando a existência de Deus, mas com seu ato de criação, que é
a admissão da existência. Sua primeira afirmação é: “Let there be light” [em
português a expressão foi traduzida “haja luz” - N.R.] e assim começa a história
de seu “deixar ser” .27
O que o autor dessas palavras deixa de dizer ao leitor é que não há nada
no texto hebraico de Gênesis 1.3 que corresponda precisam ente ao verbo “let”
(deixar, perm itir). Em bora o hebraico (assim com o muitas outras línguas)
tenha um a form a verbal específica para a terceira pessoa no im perativo, no
inglês não encontram os essa forma. Em inglês tem os na verdade um a segun­
da pessoa do imperativo, com o em “C om e!” Para expressar a idéia de im pera­
tivo na terceira pessoa, contudo, usamos outros meios, tais com o “John m ust
com e!” ou “L et John com e!” No segundo exemplo, o verbo let não tem o
sentido usual de “perm itir”, nem qualquer sentido dinâm ico; em lugar disso,
funciona m eram ente como um verbo auxiliar para expressar a idéia de im pe­
rativo. Resum indo, esse recurso teológico à tradução inglesa de Gênesis 1.3
para sustentar essa proposta m erece muito pouca recom endação. U sando a
m esm a linha de argum entação, poderíam os apontar para o verso 11 (“Let the
land produce vegetation” - [“Produza a terra relva”]) e concluir que a B íblia
nos encoraja a falar sobre o “deixar produzir” de Deus.
De form a m ais freqüente do que parece (como esses exem plos podem
sugerir), um certo conhecim ento das línguas bíblicas prova seu valor de um a
m aneira negativa, ou seja, ao nos ajudar a pôr de lado interpretações inváli­
das. Este ponto torna-se particularm ente significativo quando percebem os que
perspectivas heréticas muitas vezes se baseiam em mau uso do texto. Alguns
grupos, especialm ente as Testem unhas de Jeová, rotineiram ente apelam para
o fato de que em João 1,1c, “E o Verbo era D eus” , o term o grego para Deus,
theos, não tem o artigo definido, e assim, afirm am eles, significa tanto “um
deus” quanto “divino” . Até m esm o um conhecim ento superficial do grego,
porém , perm ite ao estudante notar que em muitas passagens que indiscutivel­
m ente se referem ao único Deus, o artigo definido está ausente no grego (m es­
mo em João 1, veja vs. 6 e 18). Estudantes com conhecim ento mais avançado
da língua saberão que uma das m aneiras com o a gram ática grega distingue o
27 Jo h n M a c q u a rrie , P rin c ip ie s o f C h ristia n T heology, 2a ed. (N o v a Y ork: S c rib n e rs , 1977),
pp. 109, 197.
sujeito da sentença (aqui “o Verbo” , ho logos) do predicado (“D eus”, the os) é
precisam ente reservando o artigo ao prim eiro mas om itindo-o com o último.
No entanto, m uitas características das linguagens bíblicas tam bém têm
um valor positivo para a interpretação, particularm ente quando o autor b í­
blico explora um a dessas características com propósitos estilísticos. Em
Êxodo 16.15, por exem plo, som os inform ados de que os israelitas, ao ver o
m aná, perguntaram o que era. M oisés respondeu: “Isto é o pão que o Senhor
vos dá para comer.” N este caso, a últim a expressão pode ser traduzida lite­
ralm ente:28 “para vosso alim ento.” Não é um a expressão com um , e um im ­
portante estudioso judeu sugeriu que essa pode ter sido um a alusão sutil a
G ênesis 1.29, onde a m esm a expressão pode ser encontrada.29 Se puderm os
entender assim , o escritor de Êxodo pode ter desejado que seus leitores
vissem a experiência no deserto com o um período de teste com parável ao
teste de A dão e Eva. Essa interpretação poderia ser apoiada contextualm ente
em Êxodo 16.4 e D euteronôm io 8.2,3.
Quando olham os para o Novo Testam ento, vemos que nenhum livro se
utiliza de alusões desse tipo mais freqüentem ente que o evangelho de João.
Um a possibilidade interessante é 19.30, que descreve a morte de Jesus com a
expressão “rendeu o espírito” . Foi observado que o verbo que João usa aqui
para “rendeu” (paredóken “deu, entregou”) não é a palavra com um usada
nesse tipo de contexto. Posto que o evangelho tem inúm eras referências a
Jesus outorgando o Espírito Santo a seus discípulos, alguns estudiosos suge­
rem que a expressão aqui serve para trazer esse tem a à m em ória. Seria forçar
uma leitura sugerir que a dádiva do Espírito na realidade tenha acontecido
naquele m om ento. M ais provavelm ente, João está lem brando seus leitores
que o espantoso acontecim ento da crucificação não é um sinal de fracasso.
Ao contrário, é o “erguer-se” de Jesus (3.14; 12.32), o tem po de sua glorifica­
ção, que torna possível o cum prim ento de sua prom essa (7.39).
Essa interpretação da linguagem de João não seria aceita por todos. Na
verdade, a abordagem que procura de form a m eticulosa demais por alusões
sutis desse tipo com freqüência corre o perigo de descobrir coisas que não
estão no texto. M ais tarde tratarem os desse risco neste capítulo com mais
detalhe. Certam ente, não devemos depositar tanto peso em tais interpretações
a m enos que elas possam ser confirmadas pfelo contexto. A pesar disso, há
um a abundância de bons exemplos em que a atenção a essas sutilezas ajudou
intérpretes a lançarem nova luz sobre o texto.
A conclusão a ser tirada desta parte não é que todo cristão deve freqüen­
tar o sem inário e tornar-se um especialista em grego e hebraico. O que preci­
:s C om o em ARA . N ota do tradutor.
U m berto C assuto, A C om m entary on the B o o k o fE x o d u s (Jerusalém : M agnes, 1967), p. 196.
samos ter em m ente, porém , é que as versões em nossa língua p o r si m esm as
não podem ser a base exclusiva para a form ulação da doutrina. Devem os, em
particular, ser cuidadosos em não adotar novas idéias, se estas ainda não fo ­
ram analisadas de acordo com o texto original. Além disso, quando há um a
diferença de opinião entre estudiosos da Bíblia, o ideal seria procurar desco­
brir se o grego ou o hebraico lançariam luz sobre o debate. Porém , é válido
ressaltar que, se possível, os pastores devem adquirir algum a proficiência nas
línguas originais da Bíblia. Aqueles que ensinam suas congregações sem ana
após semana e que devem oferecer orientação em questões teológicas não podem
se permitir negligenciar uma ferramenta tão importante em seu ministério.
Não Exagere a Importância das Línguas Bíblicas
Em alguns aspectos, não é possível superestim ar o valor de se conhecer grego
e hebraico. Porém , ao m udarem o seu foco de atenção, m uitos estudiosos da
B íblia têm na realidade exagerado a im portância dessas línguas. Com o suge­
rim os na seção anterior, seria extrem am ente lam entável dizer que os cristãos
que têm acesso à B íblia som ente por m eio de suas m odernas traduções são
incapazes de aprender por si mesm os o que é a m ensagem de salvação. Os
estudantes do sem inário são conhecidos por dar a im pressão de que qualquer
um que não estiver fam iliarizado com as línguas originais deve ser um cristão
de segunda classe. E mais de um estudioso parece argumentar, pelo menos
indiretam ente, que a igreja não pode dizer nada que não tenha sido ilum inado
pelos especialistas.
U m m odo com um de superestim ar as línguas bíblicas é rom anceandoas, dando a im pressão de que o grego e o hebraico têm um a posição única (e
quase divina?). N a tentativa de m ostrar a beleza do hebraico, por exem plo,
alguns escritores olham as peculiaridades na gram ática que possam dar apoio
à sua m aneira de com preensão. U m a ilustração m uito freqüente apresentada
é o fato de o hebraico não ter gênero neutro, aspecto lingüístico que, suposta­
m ente, possui algum significado especial.
Embora os substantivos no grego possam pertencer a um de três gêneros
(masculino, feminino e neutro), os substantivos hebraicos podem ser somente
masculinos ou femininos. Em razão dos conceitos abstratos serem freqüentem ente
expressos em grego por m eio do gênero neutro, alguns escritores concluíram
que os dois fatos estão intim am ente relacionados. Conform e expõe um antigo
livro: “O pensam ento hebreu [é expresso] em figuras, e conseqüentem ente
seus substantivos são concretos e vividos. Não existe algo com o um gênero
neutro, pois, para o semita tudo é vivo.”30
,0 E lm er W. K. M ould, E ssentials o f B ible H istory, ed. rev. (N ova York: R onald, 1951), p. 307. Estas
palavras ou afirm ações sem elhantes têm sido citadas em livros recentes com o sendo apropriadas.
Um a reflexão momentânea, entretanto, deveria deixar claro que, quer os
hebreus pensassem ou não abstratamente, isso teria pouco a ver com a estrutura
de sua língua. E m inglês, por exemplo, não há nenhuma distinção de gênero em
substantivos e adjetivos (somente em pronomes pessoais). Poderíam os dizer
que esse fato diz algo a respeito da habilidade do interlocutor inglês ou sua
disposição de pensar abstratamente? E verdade que os interesses especiais de
um a com unidade são algumas vezes evidenciados em sua língua, particular­
m ente em seu vocabulário. Mas, se queremos saber o que um grupo de pessoas
realm ente pensa ou crê, deveríamos olhar para as afirmações feitas, não para a
estrutura gramatical da linguagem usada.
Parte do problem a aqui é que tendem os a transferir as qualidades daqui­
lo que o povo diz para a form a que costum am dizê-lo. Isso é especialm ente
verdadeiro acerca do grego, um a língua que já recebeu m uita atenção. De fato,
o grego é rom antizado ao extremo. Charles Briggs, um eminente estudioso bí­
blico do século passado, colocou desta forma: “A língua grega é a bela flor, a
jóia elegante, a m aior obra-prim a concluída do pensam ento indo-germ ânico.”
Ao considerar o grego clássico, Briggs usa term os com o complexo, artístico,
belo, acabado, fo rte e vigoroso. Ele então acrescenta: “ Sua sintaxe é organi­
zada no m ais perfeito s iste m a .... [a língua grega] luta com a m ente, defendese e se lança, conquista como um exército armado.” Posteriorm ente, quando
Deus escolheu o grego para transportar a m ensagem do evangelho, sua lin­
guagem foi “em pregada pelo Espírito de Deus e transform ada e transfigura­
da, sim, glorificada, com uma luz e santidade que a literatura clássica jam ais
havia possuído” .31
É preciso lem brar que esse ponto de vista foi em parte influenciado pela
opinião - m uito com um no século 19 - de que as línguas clássicas, grego e
latim, eram inerentem ente superiores a quaisquer outras. Essa opinião, por
sua vez, está relacionada à ênfase que os lingüistas naquele século deram ao
estudo com parativo e histórico das línguas. D urante o século 20, todavia, os
estudiosos fizeram pesquisas profundas sobre as línguas faladas nas culturas
“prim itivas” , tais com o os índios da A m érica do Norte e do Sul, tribos africa­
nas e outros grupos. As próprias características gram aticais que costum avam
estar associadas à suposta superioridade daslínguas clássicas (ex., um sistema
verbal complexo) aparece em grau ainda maior nas “primitivas” .
A grandeza da civilização grega não pode ser igualada ao sistem a gra­
m atical de sua linguagem . Não é a língua em si, mas como ela foi usada pelo
povo que m erece admiração. De m aneira interessante, a form a do grego usa­
11 C. A. B rig gs, G eneral Introduction to the Study o f th e H oly Scriptures (G rand Rapids: Baker.
1970, reim presso d a e d . 1900), pp. 64, 65-67, 70-71. Cf. a crítica de J. B a rre m The S e m a n a : s
B iblical L anguage (Oxford-, O xfo rd U niversity P ress, 1961), pp. 246ss.
da pelos escritores do Novo Testam ento é m ais sim ples do que aquela usada
pelos grandes escritores do período clássico anterior. O grego do Novo Testa­
m ento, por exem plo, contém menos form as “irregulares” , e a ordem de pala­
vras nas sentenças é menos complexa. Um a de suas características mais dis­
tintivas, de fato, é que ela se aproxim a da linguagem com um ente usada pelo
povo em sua conversação çliária.
Fatos desse tipo não invalidam a beleza das línguas bíblicas. A té certo
ponto, esta é um a questão de gosto pessoal, e os autores deste livro acreditam
que o hebraico e o grego são quase tão belos quanto parecem! N em ao m enos
precisam os negar que a poderosa m ensagem do evangelho teve um im pacto
significativo sobre o grego, particularm ente em seu vocabulário.
No final, todavia, não devem os confundir a m ensagem divina em si
com os m eios hum anos que Deus usou para proclam á-la. E ssa questão tem
clara relevância para o assunto da interpretação bíblica. A lgum as das falá ­
cias das quais tratarem os no resto deste capítulo surgiram por causa da ex a­
gerada im portância atribuída ao sistem a lingüístico hum ano (hebraico e es­
pecialm ente grego). Os autores bíblicos não escreveram em linguagem m is­
teriosa ou codificada. Sob inspiração, eles usaram sua linguagem diária de
um a form a norm al.
Não Iguale o Sentido de uma Palavra com sua História
Talvez o erro mais com um que surge em discussões que envolvem linguagem
(e particularm ente as linguagens bíblicas) é a tendência de se em pregar erro­
neam ente o estudo da etimologia, ou seja, a origem e o desenvolvim ento de
palavras. U m a im portante razão por detrás deste problem a é o interesse ine­
rente pelo assunto. Sem dúvida, a inform ação etim ológica pode m ostrar-se
fascinante. Recordo-m e claram ente de ter ouvido em m inha época de facul­
dade um serm ão sobre o tem a da sinceridade. Para ajudar os ouvintes a enten­
der o conceito, o orador recorreu à etim ologia da palavra sincero. De acordo
com o orador, ela vem de duas palavras latinas, sine cera, “sem cera” . A
term inologia era usada para descrever estátuas que podiam ser consideradas
autênticas, pois não havia sido usada cera para encobrir seus defeitos.
E im portante observar que, como ilustração, esse elem ento de inform a­
ção foi bastante eficaz. O pensam ento tinha algo de fascinante, e nos ajudou a
ver a virtude da sinceridade sob um a nova luz. O perigo, todavia, estava na
possível inferência de que a origem latina da palavra sincero realm ente
corresponde ao sentido da palavra hoje. O fato é que, quando os interlocutores
usam esta palavra, cera e estátuas são as coisas mais distantes que poderiam
ter em mente. Por isso, o sentido “puro” ou “não adulterado” dessa palavra é
arcaico hoje. Quando interlocutores usam a palavra, o sentido que procuram
transferir é sim plesm ente “verdadeiro” ou “honesto” .
M as os problem as vão ainda m ais além. A transferência do físico (cera,
no sentido literal) para o figurativo, pode ter sido acidental ou trivial. U m a
m udança assim no sentido não provaria necessariam ente que alguém pode
com preender a virtude da sinceridade com referência à venda de estátuas sem
defeito. E m esm o se alguém o fizesse, por que deveríam os adotar a com pre­
ensão dessa pessoa acerca da sinceridade? Além disso, a B íblia não foi escrita
em latim e assim , a associação com estátuas pode não ter sido parte do senti­
do que os autores do Novo Testam ento tinham em mente.
Com o se tudo isso não fosse suficiente, um a breve análise de dicionários
etim ológicos de nossa língua revela mais que depressa que não existe qual­
quer certeza de que a palavra sincero tenha vindo do latim sin ceral E alguns
estudiosos que acreditam que exista essa ligação suspeitam que o contexto
real era a descrição, não de estátuas, mas de mel. Reconstruções etim ológicas
são freqüentem ente hipotéticas e em determ inados m om entos puram ente im a­
ginárias. A pesar disso, alguns pensadores ficaram conhecidos por desenvol­
ver grandes edifícios conceituais baseados em tais reconstruções. M uito in­
fluente, particularm ente entre os filósofos existencialistas, foi a suposta
etim ologia da palavra grega para “verdade” , aletheia. E possível que esta
palavra tenha sido form ada com binando-se a partícula negativa a- com o ver­
bo lanthano, “esconder”, e essa possibilidade é usada com o pretexto para
m ostrar que o verdadeiro significado da verdade é a “transparência” ou “cla­
reza” .32 Entretanto, esta etim ologia é discutível e, m esm o que não fosse, não
poderia provar que reflete um a visão filosófica da verdade - muito m enos que
tal visão é correta!
Um dos resultados lam entáveis de se recorrer à etim ologia é que ela
em presta ao argum ento um tom científico e a posição do locutor soa m uito
m ais autoritativa do que realm ente é. Alguns escritores, cônscios do caráter
hipotético de seus argum entos etim ológicos, mas incapazes de resistir à ten­
tação de usá-los de qualquer m aneira, incluem um “talvez” ou algum a outra
qualificação, mas a m aioria dos leitores é indevidam ente influenciada pelos
argum entos e term inam aceitando a conclusão, m esm o que nenhum a evidên­
cia real tenha sido apresentada.
A melhor maneira de ilustrar essa questão é cjiar alguns exemplos ultrajantes:
Desconfio de rancheiros (ranchers) desde que conheci alguns que pa­
reciam mentalmente desequilibrados. Provavelmente não se trata de
um mero acidente que a palavra inglesa ranch (•< rank < francês antigo
reng < indo-europeu sker) esteja etimologicamente relacionada a
deranged (demente).
” M acquarrie, P rincipies, pp. 86, 333.
Cristãos deveriam ser otimistas. Deveríamos ter em mente que a pala­
vra pessim ista vem da palavra latina para “pé”, pes. Em razão de tro­
peçarmos com nossos pés, encontramos o verbo relacionado peccare,
“pecar”, e o cognato inglês pecadillo. Assim, talvez possamos consi­
derar os pessimistas como pessoas que têm o hábito de cometer pe­
quenos pecados.
4
Em nosso grupo religioso não acreditamos ser necessário ter líderes. A
palavra clero (do indo-europeu kel, “golpear”) está relacionada a cala­
m idade (< latim, “uma severa pancada”). Não é de se surpreender que,
ao longo dos séculos, o clero tem abusado de seu poder e ferido pessoas.
Dançar é certamente proibido para os cristãos. Não é sugestivo que
a palavra b a lle t venha do grego bailo, que é também a origem de
d ia b o lo s, “diabo”?33
As possibilidades são intermináveis! À parte de seu conteúdo excêntrico, o tipo
de argumento (isto é, a lógica) exemplificada nessas quatros observações é ex­
trem am ente comum. E precisamente por ser esta lógica a mais freqüentem ente
usada para tecer conclusões que não são absurdas, mas que parecem plausíveis,
muitas pessoas são persuadidas por ela, mesmo que, a rigor, não seja acom pa­
nhada de nenhuma evidência substancial.
Em com entários bíblicos e outros trabalhos sérios, é possível tam bém
surgirem com entários etim ológicos que norm alm ente não lançam luz verda­
deira sobre o sentido do texto. E comum, por exemplo, que escritores com en­
tem que a palavra hebraica traduzida por “glória” , kabod, basicam ente signi­
fique “peso” . (Incidentalm ente, as palavras básico e basicam ente, quando
aplicadas ao sentido de palavras, são excessivam ente ambíguas e são norm al­
m ente - e erroneam ente - tomadas para im plicar algo assim com o o sentido
“real” ou “essencial” .) N este caso, a ligação não pode ser questionada, e podese ver facilm ente como a noção de “peso” pode estar relacionada àquela de
“im portância” e, por isso, ao sentido mais específico quando usada em refe­
rência a Deus. Em bora este desenvolvimento histórico da palavra seja exato e
interessante, é possível afirmar que, genuinam ente aum entaria nossa com pre­
ensão da palavra (ou m esm o do conceito por detrás da palavra) em passagens
que falam das grandiosas m anifestações de Deus? Duvido m uito - a m enos
que tenham os um a boa razão contextual para pensar que o próprio autor bíbli­
co estivesse associando essa palavra com o conceito de peso.
Este problem a aparece de form a ainda mais freqüente nos estudos do
Novo Testam ento, visto que muitas palavras gregas com postas são relativa­
33 Os relacionam entos etim ológicos são tornados de R obert Claiborne, The Roots ofE nglish: A R eciders
H andbook ofW ord O rigins (N ova York: Tim es Books, 1 9 8 9 ),pp. 119, 130-31, 184,218-19.
m ente “transparentes” , ou seja, pode-se ver facilm ente que palavras foram
com binadas para form arem um a só. Um dos exemplos mais com uns é o verbo
hypom eno (“ seja paciente”), que é criado a partir da preposição hypo, “em ­
b a ix o ” , e o verbo m eno, “perm an ecer” . Pregadores não se cansam de o b ­
servar que a palavra grega realm ente significa “ficar por b a ix o ” e então
continuarão descrevendo alguém carregando um fardo pesado por um longo
p eríodo de tem po.
C om o ilustração, essa figura pode provar ser útil, mas é altam ente
questionável se ela nos leva para mais perto do sentido pretendido pelo autor
bíblico. Precisam os ter em m ente que a linguagem figurativa rapidam ente
perde o seu frescor, um processo que resulta em muitas “m etáforas m ortas” .
Considere a palavra inglesa understand. Ajudaria um estudante estrangeiro
saber que esta palavra vem de stand e under (em bora a m aioria das pessoas de
fala inglesa norm alm ente não tenha consciência desse fato) e que ela foi ori­
ginalm ente um a figura de linguagem (ainda que não possam os dizer precisa­
m ente com o o novo sentido desenvolveu-se)? A etim ologia figurativa da pa­
lavra é, de fato, um tanto irrelevante para os interlocutores m odernos, visto
que seu significado pode estar perfeitam ente claro sem o conhecim ento das
origens das palavras.
N aturalm ente, deve-se m anter sempre aberta a possibilidade de que um
escritor bíblico tenha explorado intencionalm ente a história (ou outras asso­
ciações) de um a palavra. Um a técnica literária assim é encontrada com mais
freqüência na poesia do que na prosa. Todavia, o único m eio de se determ inar
se o autor agiu desse modo é prestar cuidadosa atenção ao contexto. Não
podem os presum ir que um autor estava necessariam ente consciente da
etim ologia de um a palavra. E se ele estava, não podem os supor, sem qualquer
evidência, que ele desejava que seus leitores compreendessem a relação. Acerca
da única evidência disponível a nós, devemos enfatizar novam ente, é o con­
texto, a força de um a passagem (ou até mesmo do livro) com o um todo. Com
pouquíssim as exceções, observarem os que o contexto apóia o uso com um de
um a palavra em lugar de sentidos desconhecidos.
Não Leia os Vários Sentidos de uma Palavraf em um Uso Especifico
M uitas vezes, estudantes são aconselhados a exam inar com o um a determ ina­
da palavra é usada ao longo de todas as Escrituras. Até m esm o cristãos que
não aprenderam as línguas bíblicas podem usar certas concordâncias (assim
como outras ferram entas) que estão ligadas a termos gregos e hebraicos. Em
princípio, a recom endação é sadia, pois esse m étodo nos ajuda a determ inar o
"alcance sem ântico” da palavra em questão, isto é, se tem os noção dos poss:'-
veis usos de uma palavra, estaremos em m elhor posição para decidir que uso
específico ocorre na passagem ou passagens que estam os estudando.
As palavras erri itálico no parágrafo anterior ressaltam o alvo apropriado
de tal estudo das palavras. Na prática, porém , os estudantes geralm ente igno­
ram exatam ente esse aspecto. Em vez disso, toda a com plexidade de sentidos
é injetada em um a passagem . Norm alm ente, isso acontece de um a m aneira
sutil. Até m esm o um com entarista responsável, ansiando lançar luz sobre uma
palavra, pode inform ar ao leitor que a palavra em questão é usada em um a
variedade de form as no Novo Testamento. Segue-se então um a lista desses
empregos, incluindo citações de várias passagens, com a im plicação de que
todas elas de alguma maneira contribuem para o sentido da palavra no versículo
que está sendo analisado.
De tem pos em tem pos, surgem mais casos de mal uso desse m étodo.
Certa vez, quando um pregador de renom e estava pregando sobre Hebreus 12
cham ou a atenção para um a palavra específica naquele capítulo e disse à sua
congregação que a palavra tinha quatro sentidos. Com base nisso ele havia
produzido um esboço de quatro divisões que levou a quatro pequenos ser­
m ões com quatro textos diferentes, mesmo que ostensivam ente ele pretendes­
se explanar Hebreus 12.
Porém , se refletirm os por alguns m om entos sobre nossa própria lingua­
gem , poderem os reconhecer o quanto esse tipo de abordagem consegue ape­
nas distorcer o sentido. Suponha que um turista asiático se veja diante desta
frase: “A paciente teve uma dor aguda em seu joelho.” Esse estrangeiro, que
não está fam iliarizado com a palavra aguda nos pergunta o que ela significa,
e assim respondem os:
Na geometria, a palavra é usada quando se trata de ângulos menores
que 90 graus, enquanto que na música ela pode indicar um som em
tonalidade alta. Ela também é usada para indicar um tipo de sinal para
acentuar palavras em algumas línguas e textos. Em objetos, indica um
lado pontudo. A palavra pode ser usada como um sinônimo para “inci­
sivo, discernidor, perspicaz”. Coisas que são de grande importância
podem ser chamadas de agudas. Na medicina, ela pode descrever uma
doença que pode levar a uma crise. Finalmente, a palavra pode signifi­
car “intensa”.
Um tratado com o esse pode provar ser bastante interessante e informativo,
mas, para entender a sentença em questão, o estrangeiro precisava sim ples­
m ente da últim a palavra. O único outro sentido que poderia lançar algum a luz
sobre o assunto é o de “pontudo”, visto que um a dor aguda é aquela que
freqüentem ente se assem elha à sensação de ser ferido por um objeto pontia­
gudo. A m aior parte das palavras em qualquer língua tem uma variedade de
sentidos, mas com o regra o contexto autom ática e efetivam ente suprim e to­
dos os sentidos que não são apropriados, de m aneira que os ouvintes e leitores
nem ao m enos pensam neles.
A questão fica ainda mais com plicada ao considerarm os se certas asso­
ciações podem estar presentes em determ inada sentença (ver acim a os exem ­
plos de Êxodo 16 e de João 19). Não é sem pre fácil decidir esta questão. Se
lerm os em um a revista que “a desavença entre os eruditos foi aguda” , mais
que depressa tom arem os o sentido como sendo “intensa, severa” , mas estare­
mos nós sendo influenciados pela freqüente com binação dor aguda, e assim
deduzirem os, consciente ou inconscientem ente, que os eruditos em questão
estavam passando por uma experiência dolorosa? É possível tam bém que,
visto que as pessoas envolvidas são eruditas, o sentido “incisivo, discernidor”
nos afete? Talvez sim e talvez não. Seria certam ente precário, todavia, dar
interpretações baseadas naquilo que é apenas um a possibilidade teórica (a
menos que seja apoiada por forte evidência contextual).
Conquanto esta seção saliente a questão do vocabulário, devem os obser­
var um problem a relacionado quando recorrem os a fatos gram aticais. Em
recente artigo que trata da difícil passagem com respeito às m ulheres em
1 Tim óteo 2, o autor diz o seguinte com relação ao versículo 12 (“Não perm i­
to que as m ulheres ensinem ”):
A fim de alcançar maior reflexão do sentido dessa instrução, podemos
encontrar auxílio no exame dos verbos em nosso texto. Essa é a tercei­
ra vez no capítulo 2 de Timóteo que aparece um verbo na primeira
pessoa do singular. 1 Timóteo 2.8 começou com a primeira pessoa:
“Quero, portanto, que os varões orem em todo lugar.” O mesmo verbo
está implícito no versículo 9, onde o autor se dirige às mulheres - “(Que­
ro) que as mulheres... se ataviem...” Agora, no versículo 12 temos outro
verbo na primeira pessoa - “Não permito”. Na língua grega há nove
usos diferentes do tempo presente. [Aqui, uma das gramáticas padrão é
citada no rodapé]. Segundo P. B. Payne, a primeira pessoa do presente
do verbo pode ser usada para indicar restrição temporária. Com esse
sentido do verbo, entra em jogo uma restrição de tempo. Até que as
mulheres tenham aprendido o que elas precisam a fim de obterem um
pleno conhecimento do verdadeirt) ensino, elas não devem ensinar ou
ter autoridade sobre homens. Não há razão para que estas mulheres não
pudessem ter permissão posterior para ensinar e ter autoridade (como
Febe, Priscila e Júnia), se aprendessem o verdadeiro ensino, submeten­
do-se a Timóteo para instrução.34
G lo ria N e u fe ld R e d e k o p , “L et th e W om en L earn : 1 T im o th y 2 .8 -1 5 R e c o n s id e re d ” , SR 19
1990): 242.
A prim eira parte desse parágrafo é, de fato, irrelevante para a tese do
autor. (Na verdade, ela serviu justam ente para m inar essa tese, visto que o
verbo no versículo 8 certam ente não tem restrição tem poral). De tem pos em
tempos surgem discussões de textos bíblicos que recorrem às línguas originais
talvez somente para causar uma impressão; os leitores precisam saber discernir
se algo substancia] está sendo realm ente apresentado. Nossa preocupação m ai­
or, todavia, é com a segunda m etade do parágrafo que, de fato, contém um
argum ento de substância com base na gram ática grega. Para nossos propósi­
tos atuais, não precisam os determ inar se o verbo no verso 12 tem um restrição
tem poral; a questão, sim, é saber se o recurso obtido do grego é convincente.
A lógica do autor acim a é sim plesm ente olhar para os vários em pregos
com provados ou sentidos do tem po presente, e então escolher um que se en­
caixe naquela com preensão da passagem do autor. Esta abordagem não é exa­
tam ente aquela que já discutim os; neste caso, o intérprete não leu todos os
sentidos em um a ocorrência específica. O problem a é sem elhante, contudo,
visto que a decisão da intérprete (até onde podem os dizer) baseou-se sim ples­
m ente num a certa gam a de usos e não foi controlada pelo contexto. No m íni­
mo, devem os dizer que a intérprete não apresentou uma razão contextual
para escolher a função tem porariam ente restrita do tem po presente do grego.
Não Superestime Pontos Sutis da Gramática e Vocabulário
A perspectiva de que as linguagens bíblicas - grego em particular - são
inigualavelm ente ricas ou precisas tem levado muitos estudiosos a depositar
extrem a confiança em distinções de vários tipos. E muito comum a tendência
de se procurar diferenças entre sinônimos como um a chave para a interpreta­
ção de passagens. Não podem os duvidar, por exemplo, que as várias palavras
hebraicas usadas em referência ao pecado têm sentidos característicos (com ­
parável com as diferenças em palavras de nossa língua como pecado, m alda­
de, mal, transgressão, etc.). Q ualquer estudo cuidadoso dos textos do Antigo
Testam ento que contêm essas palavras requerem algum a atenção para as dis­
tinções, e uma abordagem descuidada quanto ao uso da palavra é indesculpável.
Não podem os jam ais esquecer, porém , que os escritores freqüentem ente
usam um vocabulário diferente por simples razões de estilo como, por exem ­
plo, para evitar repetições. Nestes casos, podem os dizer que as diferenças
entre as palavras são “neutralizadas” pelo contexto. Até m esm o quando um
autor faz uma escolha léxica por razões semânticas (em vez de estilísticas),
não se segue daí que nossa interpretação perm anece ou cai dependendo de
nossa habilidade em determ inar precisam ente porque um a palavra foi esco­
lhida em vez de outra. Afinal, as pessoas norm alm ente não se com unicam
pronunciando palavras isoladas, mas ao proferir sentenças completas.
Em vista da im portância das palavras, o que realm ente nos interessa,
então, é com o essas palavras foram com binadas pelo interlocutor. Visto que o
foco do sentido é, portanto, a sentença (ou até m esm o o parágrafo), a força
específica de qualquer palavra depende em grande parte do contexto mais
amplo. Isso não significa negar que palavras individuais tenham um lim ite
estável de sentidos - afinal, sem essa estabilidade a com unicação seria im ­
possível. E útil pensarm os no relacionam ento entre palavra e sentença como
algo recíproco. A palavra traz um a contribuição ao significado de toda a sen­
tença, mas a sentença com o um todo tam bém contribui para um sentido espe­
cífico da palavra.
Poderíam os m esm o dizer que as línguas têm um sistem a incorporado de
redundância, característica que torna possível com preenderm os algum as sen­
tenças até m esm o se um espirro ou algum outro barulho nos im pede de ouvir
um a ou duas palavras. (De modo similar, não deixam os necessariam ente de
apreender o sentido total de um sermão, se nossa m ente vagueia por alguns
m inutos.) Considere como seu vocabulário continua a crescer quer você pro­
cure ou não palavras no dicionário. Consciente ou inconscientem ente, podese aprender o sentido de novas palavras sim plesm ente ao ouvi-las sendo usa­
das em sentenças específicas, visto que as sentenças como um todo suprem
esse sentido para o ouvinte.
Se esta é a m aneira como a língua funciona, podem os inferir que as sutis
distinções léxicas desem penham apenas um papel secundário na interpreta­
ção. Quantos escritores arriscam tudo num a palavra, esperando que os leito­
res captem a única pequena distinção que determ ina o sentido de toda a sen­
tença? Não se pode negar, por exemplo, que há algumas distinções entre os
dois verbos gregos para amor, agapao e phileo. E menos claro, porém , que
essas distinções sejam refletidas, por exemplo, no diálogo entre Jesus e Pedro
registrado em João 21.15-17. Os tradutores da NVI devem ter pensado assim,
visto que traduziram o prim eiro verbo (na pergunta de Jesus) com o “verda­
deiro am or” , enquanto o último (usado por Pedro em sua resposta) é traduzi­
do sim plesm ente por “am or” . Tal distinção é altam ente questionável. Para
m encionar apenas um problem a, o último verbo é usado pelo Filho acerca do
am or de Deus em 5.20. Porém m esm o se a djstinção pudesse ser sustentada,
seria razoável pensar que a com preensão apropriada da passagem se prende à
nossa habilidade de descobrir um contraste assim tão fraco? U m a interpreta­
ção sólida deveria ser form ada sobre evidência muito mais am pla que esta.
Podem os dizer, em term os gerais, que, quanto m aior o peso depositado
sobre as distinções entre sinônimos, m aior será a probabilidade de que essas
distinções estejam sendo exageradas. Por exemplo, os verbos gregos oida e
ginosko podem ambos ser traduzidos por “saber, conhecer” . A distinção m aií
freqüentem ente sugerida entre esses verbos é que o últim o pode ser usado
m ais facilm ente em contextos que lidam com a aquisição do conhecim ento.
Conseqüentem ente, oida é freqüentem ente encontrada onde tal aquisição não
está em vista, mas isso deixa de fora inum eráveis contextos em que os verbos
poderiam ser usados reciprocam ente. Em lugar disso, alguns estudiosos pro­
curam argum entar que gino$ko refere-se especificam ente ao conhecim ento
em pírico, ou seja, algo adquirido pela experiência e não por m eio de conheci­
m ento inato ou intuitivo. Essa alegação, em bora plausível, é na m elhor das
hipóteses algo hipotético e não leva com pletam ente em conta as m uitas pas­
sagens onde tal distinção não está presente. Aqueles que a aceitam , porém ,
algum as vezes vão além e sugerem que oida indica m aior certeza, sim ples­
m ente porque é encontrada em alguns contextos (ex.: Rm 8.28) que falam de
segurança. Outros até mesmo sustentam que ela reflete o conhecimento divino.
Se há perigo na sugestão das distinções léxicas, que dizer quanto às
gram aticais? Veja por este ângulo: quando foi a últim a vez que você pensou
não ter entendido um a frase por não poder determ inar por que o interlocutor
escolheu usar o presente simples (ex: “Com o você se sente?”) em vez do
gerúndio (“Com o você está se sentindo?”) Com raras exceções, esses tipos de
decisões são feitos não com base em cuidadosa deliberação e sim, mais ou
m enos de form a autom ática. E até m esm o quando param os para pensar sobre
escolhas gram aticais, isso acontece norm alm ente porque estam os preocupa­
dos em usar nossa língua “corretam ente” , não porque o sentido viesse a ser
substancialmente diferente (ex: “Depois que ele foi embora, os problem as co­
m eçaram ” significa o mesmo que a expressão mais formal: “Após ele ter parti­
do, com eçaram os problem as”).
Q uando nos voltam os para o Novo Testam ento grego, porém , os estu ­
dantes despendem grande som a de esforços tentando interpretar sutilezas
gram aticais. C onsidere H ebreus 1.2: “N estes últim os dias, nos falou pelo
Filho.” As últim as três palavras traduzem duas palavras gregas, en huio,
literalm ente, “no filho” . A contece que o uso do artigo definido no grego não
corresponde exatam ente ao artigo “o ”. U m a das diferenças tem a ver com a
om issão do artigo grego quando nós, por causa do costum e de nossa língua,
esperam os ver o artigo. Em algum as situações, a om issão pode refletir a
possibilidade de que o foco do autor esteja m enos na identidade do objeto
do que em sua qualidade.
A d istin çã o é m in im am en te p e rc e p tív e l (em algum as p a ssa g e n s,
inexistente) e não pode ser reproduzida em nossa língua. Quando pessoas
tentam transm itir a idéia, acabam exagerando (ex.: com um a paráfrase como
“em alguém que é por natureza um filho”). Um expositor popular chega a ser
místico: “N ovam ente sentimos a pobreza de nosso idiom a, e devemos tradu­
zir: ‘Seu Filho” , ou ‘um F ilho’. M as, se disserm os repetidas vezes a nós m es­
mos as exatas palavras: D eus fa lo u a nós no Filho, nosso coração sentirá o
significado, em bora nossas palavras não possam traduzi-las.”35 De fato, a pre­
sença ou ausência do artigo aqui não altera o sentido da oração. Constituiu-se
num a escolha estilística que os leitores originais da epístola (e talvez até m es­
mo o escritor!) possivelm ente não pudessem ser capazes de justificar de for­
ma satisfatória.
O uso incorreto mais com um da sutileza gram atical tem a ver com os
tem pos gregos. Parte da razão é que o sistem a verbal grego inclui um a form a
de tem po classificado como aoristo. Visto que o term o não é usado quando se
relaciona com nossa língua, traz em si um sentim ento quase esotérico e in­
centiva uma interpretação errônea. Outra razão é o fato de que os verbos gre­
gos exploram distinções “de tem po” mais freqüentem ente do que fazem os
nossos verbos. A distinção entre o passado simples em nossa língua (“eu comi”)
e o im perfeito (“eu havia com ido”) é relativa ao tem po e corresponde m ais ou
menos a um a distinção sem elhante no grego. Além disso, entretanto, o grego
m antém a distinção no modo não indicativo, como o imperativo, e o fato cria
problem as para o estudante.
O tempo aoristo recebeu este nome de gramáticos gregos que reconheci­
am que havia algo de indefinido acerca dele (a palavra grega aoristo significa
"indefinido”). Curiosamente, muitos intérpretes do Novo Testamento o vêem
como especial em algum aspecto e exageram grandemente seu significado. Uma
das séries de comentários mais freqüentemente usadas por estudiosos do grego
do Novo Testamento reflete grandemente essa tendência. Por exemplo, sobre
Filipenses 2.15: “para que vos torneis irrepreensíveis” , esse comentarista inter­
preta o verbo aoristo como significando que “pode ser definitiva e perm anente­
mente” . E sobre Apocalipse 2.5: “arrepende-te e volta à prática das primeiras
obras”, ele diz que os “dois imperativos clara e peremptoriamente são aoristos:
'e arrepender (completamente) e fazer (decisivamente) as primeiras obras!’ como
foi feito no primeiro amor durante os dias passados”.36
Em certos casos a escolha do tem po (ou algum outro detalhe gram atical)
pelo autor grego talvez contribua em certa m edida para o significado que de
outra m aneira está claram ente expresso no texto. Se é assim, a gram ática é, na
m elhor das hipóteses, um apoio secundário para a interpretação da passagem .
Entretanto, se um sentido proposto não pode ser estabelecido sem recorrer-se
a um a sutileza gram atical, é possível que o argum ento seja inválido. Os escri­
’5 W illiam R. N ew ell, H ebrews: Verse by Verse (C hicago: M oody, 1947), p. 3n.
16 R. C. H. L enski, The Interpretation o fS t. P a u is E pistles to the G alatians, to the E phesians, and
to the P hilippians (M inneapolis: A ugsburg, 1961; orig. 1937), p. 802; idem, The Interpretation
o fS t. J o h n s R evelation (M inneapolis: A ugsburg, 1961; orig. 1943), p. 88.
tores bíblicos foram claros e explícitos e não esperavam que seus leitores
tivessem de decifrar com plicados enigm as lingüísticos. De qualquer modo,
estudantes leigos das Escrituras não deveriam ser influenciados tão facilm en­
te por um especialista que tenta persuadi-los por m eio de um a argum entação
técnica desse tipo.
4
Sumário
Em bora os princípios discutidos neste capítulo consistam de “nãos”, deve
ficar evidente que todos eles im plicam diretrizes positivas. Podem os resum ir
essas diretrizes em outras palavras:
1. R econheça a im portância das línguas bíblicas para obter uma in ­
terpretação apropriada. Procure fam iliarizar-se com o grego e o hebraico.
Se isso não for possível, acostum e-se com a idéia de que há um a distância
lingüística e cultural que nos separa do texto bíblico. Em bora essa distância
não deva ser exagerada, tom e cuidado ao ler na B íblia idéias que podem ser
sustentadas som ente a partir da tradução em nossa língua.
2. Tenha em m ente que as traduções em nossa língua são confiáveis
para a m aioria dos propósitos. Em bora devam os ser gratos aos especialis­
tas que podem nos ajudar com detalhes e am bigüidades, é im portante lem ­
brar que o ensino das Escrituras com o um todo está prontam ente acessível a
todos os crentes.
3. D ê prioridade ao uso comprovado e contem porâneo das palavras.
Em bora as origens e o desenvolvim ento de um a palavra possam ser interes­
santes, os escritores dependem da m aneira como a língua é usada em seu
tem po. N orm alm ente, sentidos propostos são válidos som ente se podem ser
confirm ados por referências contem porâneas ao texto.
4. Concentre-se em usos específicos no contexto. Estar ciente de que existe
uma ampla gama de possibilidades de sentidos para uma palavra pode ser útil
como base para fazer uma escolha, mas devemos lembrar que (exceto por troca­
dilhos e outros tipos de alusões raras) outros sentidos que não os especificados
pelo contexto não ocorrem normalmente ao interlocutor e seu público.
5. Enfatize o contexto. Este é o princípio fundam ental. É de fato a dire­
triz que se sobrepõe a todas as outras. Por exemplo, a razão pela qual não
tem os de ser servos dependentes dos estudiosos é que o contexto m aior das
Escrituras pode ser entendido sem um conhecim ento de detalhes técnicos.
Antes de tentarm os resolver um problem a específico em um versículo, preci­
samos ler e reler todo o capítulo - na realidade, o livro todo do qual aquele
versículo faz parte. Com certeza, a leitura constante das Escrituras em sua
totalidade é a m elhor receita para se lidar com a Palavra corretam ente.
PARTE 2___________________
Compreendendo o Texto:
O Sentido nos Gêneros Literários
A narrativa é um dos gêneros mais comuns na Bíblia. Mas,
ao contrário da prosa, que declara os fatos diretam ente, a narrati­
va depende de seleção dos detalhes, da form a com o os aconteci­
m entos são organizados e de recursos retóricos para determ inar
os princípios que deseja comunicar.
Os elem entos mais im portantes da narrativa são a cena, o
ponto de vista, o diálogo e os recursos retóricos como a repeti­
ção, a inclusão e o quiasm o. Cada elem ento ajuda o intérprete a
com preender mais adequadam ente o significado e o propósito de
cada episódio narrado ter sido incluído nas Escrituras. As narra­
tivas bíblicas m ostram os elem entos da estrutura em quatro ní­
veis diferentes: o nível verbal, o nível da técnica narrativa, o ní­
vel do universo narrativo e o nível do conteúdo conceituai.
Nos casos em que a narrativa tam bém inclui referências a
detalhes históricos de acontecim entos, pessoas ou datas do m un­
do real, esses detalhes tam bém podem e devem estar presentes na
interpretação do texto à m edida que o autor os indicou para de­
m onstrar diferentes graus de preocupação apologética e interes­
ses relacionados à m ensagem do texto.
CAPÍTULO 4_____________
“Recordo os Feitos do Senhor”
O SENTIDO DA NARRATIVA
W a l t e r C . K a is e r , J r .
O gênero mais com um na B íblia é a narrativa, com bem mais que um terço de
toda a B íblia nesta forma. A estrutura da narrativa estende-se desde a história
de Deus lidando com a hum anidade da criação ao exílio de Judá nos livros de
G ênesis a 2 Reis. Em term os de divisões do cânon hebraico,37 a narrativa é o
gênero predom inante na Torá (esp. Gênesis, Êxodo e Núm eros), em todos os
livros dos Profetas Anteriores, em alguns dos Profetas Posteriores (esp. partes
principais em Isaías e Jerem ias, além de partes de Jonas e outros livros), e
tam bém em vários livros dos Escritos (esp. Crônicas, Esdras, N eem ias, Rute,
Ester e Daniel). E la tam bém dom ina os Evangelhos e o livro de Atos. A nar­
rativa é claram ente a principal estrutura de sustentação da Bíblia.
A narrativa em seu sentido mais amplo é um relato de acontecim entos
específicos no tem po e espaço com participantes cujas histórias são registradas
com um com eço, m eio e fim. Diferentem ente da prosa, em que as coisas são
declaradas diretam ente, a narrativa apresenta coisas indiretam ente. Seu estilo
deriva da seleção do escritor (dentre um vastò núm ero de detalhes possíveis),
-17 O C ânon H ebraico é dividido em três partes principais com o segue:
Torá: O P entateuco
E scritos
P rofetas
Poetas: Salm os, Jó, Provérbios
Primeiros: Josué, Juizes, Sam uel, R eis
C inco P equenos R olos: R ute, C antares,
Últimos: Isaías, Jerem ias, E zequiel e
E clesiastes, L am entações, E ster
os 12 profetas m enores
As H istórias: D aniel, E sdras, N eem ias.
C rônicas
disposição (não necessariam ente estritam ente seqüencial ou cronológica), e
recursos retóricos. O últim o inclui declarações-chave proferidas pelas figu­
ras centrais da narrativa, perm itindo ao autor desse modo apresentar os pon­
tos que revelam o foco e o propósito de contar a história.
Os leitores e intérpretes das histórias algumas vezes envolvem -se tanto
com os personagens e a tram a da narrativa que se esquecem de considerar
qual é a m ensagem de Deus para a igreja contem porânea. Para eles, a história
torna-se um fim em si mesma.
De m aneira mais freqüente, porém , encontram os o problem a oposto.
M uitas vezes leitores projetam algum a verdade moral ou espiritual sobre um
personagem bíblico ou acontecim ento, prestando mais atenção à lição moral
que vêem na narrativa do que à história em si. A objeção subjacente a inter­
pretar a B íblia de form a m oralista, tirando exem plos de cada passagem de
narrativa é que ela destrói a unidade da m ensagem da Bíblia. Nesse m étodo
de lidar com o texto, cada narrativa tende a ser cortada da história redentora
de Cristo e resulta em séria fragm entação da m ensagem da Bíblia. Em lugar
de considerar todo o acontecim ento, personagem , e episódio que contribui
para a form ação do contexto em que está posto, com dem asiada freqüência,
um processo subjetivo de analogia passa a vigorar, junto com um isolam ento
individualista de detalhes selecionados que passam a se ajustar aos caprichos
dos propósitos do intérprete. Um processo de seleção assim tende a ser arbi­
trário, subjetivo, e geralm ente não relacionado ao contexto total da narrativa,
m uito m enos à m ensagem total da Bíblia.38
Esse tipo de desonestidade herm enêutica do texto não pode trazer consi­
go a autoridade da Bíblia. O desejo de encontrar o que é prático, pessoal,
desafiador e individualm ente aplicável é louvável; m étodos que essencial­
m ente nos perm item desconsiderar a narrativa em si, entretanto, deixam m ui­
to a desejar. A única cura para esse tipo de abuso é aprender a lidar com a
questão de como essas narrativas estão sendo, de fato, apresentadas e usadas
pelos escritores da Palavra.
Sem dúvida, um grande núm ero de leitores da Bíblia é beneficiado por
esse m étodo de tratam ento de textos narrativos que acabam os de criticar. U m a
defesa com um de tal método personalizado de leitura da Bíblia é dizer: “Mas
eu alcancei grande bênção a partir da lição moral que vi no texto bíblico;
certam ente ele é verdadeiro!” Se a narrativa em si não expressou a verdade
“vista” , porém , então tem os que dizer: “Ficam os felizes pela bênção - contu­
do não podem os dizer o m esm o pelo texto a que você está atribuindo!” Nossa
38 P a ra c o m e n tá rio s p ro v e ito so s so b re e ste tó p ic o , v e ja C a rl G. K ro m m in g a , “ R e m e m b e r L o t’s
W ife: P re a c h in g O ld T esta m en t N a rrativ e T e x ts” , C T J 18 (1983): 33 -3 4 ; S id n e y G re id a n u s,
S o la S c rip tu r a : P ro b lem s a n d P r in c ip ie s in P re a c h in g H is to r ic a l Texts (T o ro n to : W edge,
1 9 7 0 ), pp. 2 2 -5 5 .
prim eira tarefa é prestar cuidadosa atenção ao texto das Escrituras - incluin­
do cada passagem narrativa.
Recursos Literários na Narrativa
Para ajudar nosso estudo dos textos da narrativa e do sentido que pretendem
transm itir, tom em os a típica narrativa, olhando m ais cuidadosam ente para
seus elem entos-chave.
A CENA
A característica mais im portante da narrativa é a cena. A ação da história é
dividida em um a seqüência de cenas, cada um a apresentando o que aconteceu
em determ inado tem po e lugar. O autor usa cenas para concentrar a atenção
em um conjunto de ações ou palavras que ele quer que exam inem os.
C ada cena norm alm ente não tem m ais que dois personagens. Q u an ­
do há um grupo presente em um a das cenas, tende a fu n cio n ar com o um
dos personagens.
U m a das características mais notáveis da narrativa bíblica é “a presença
difusa de D eus” . Freqüentem ente, Deus é um dos personagens nessas cenas,
ou a voz do profeta que funciona em lugar da presença de Deus. Considere
cenas sem elhantes de dois personagens em Gênesis como Deus e A dão (cap.
3), Deus e C aim (cap. 4), Deus e Noé (cap. 6) e Deus e Abraão (cap. 12). A
presença de Deus, ou até m esm o a alusão à sua presença, freqüentem ente
com eça a estabelecer o ponto de vista assum ido pelo narrador. Sobre o pano
de fundo dessa presença explícita ou im plícita vêm as prom essas, ordenan­
ças, providência ou o poder de Deus nessas narrativas.
O intérprete deve identificar cada um a dessas cenas, da m esm a form a
que alguém desdobraria um a longa passagem em prosa em parágrafos. E útil
esboçar um a síntese de proposição para cada cena, sim ilar à m aneira como
poderíam os identificar o tópico ou a sentença tem a de cada parágrafo em um
artigo. Essa síntese de proposição deve concentrar-se nas ações, palavras ou
descrições na cena, tendo em m ente a direção que o autor parece estar seguin­
do em toda a seqüência das cenas. Se, num a prim eira análise, o ponto apre­
sentado pelo autor em determ inada narrativa é obscuro, podem os obter ajuda
focalizando o m om ento da presença de Deu^, suas ações, os com entários em
cada cena em que elas são relevantes.
O PONTO DE VISTA
As cenas têm um padrão básico, incluindo um a série de relações com um come­
ço, meio e fim. Normalmente, chamamos essa disposição de trama da narrativa.
A trama traça o movimento dos incidentes, episódios ou ações de uma narrativa,
normalmente, enquanto giram em tomo de algum tipo de conflito.
Em algum ponto na narrativa, o autor leva ao clímax toda a série de episó­
dios nas várias cenas, desse modo suprindo todo o ponto de vista para a histó­
ria. Esse ponto de vista form a a perspectiva da qual toda a história é contada.
A narrativa de 1 Reis 17, por exemplo, abruptam ente apresenta ao leitor
um certo “Elias, o tesbita, dos m oradores de G ileade” . Podem os facilm ente
identificar quatro cenas individuais nesse capítulo:
1. Elias no palácio perante o rei israelita Acabe (v. 1)
2. Elias sendo alim entado pelos corvos ju n to à torrente de Q uerite
(vs. 2-7)
3. Elias pedindo à viúva à porta da cidade de Sarepta, Fenícia, para
alim entá-lo, seguido pelo m ilagre da m ultiplicação do óleo e da fa­
rinha (vs. 8-16)
4. A m orte do filho da viúva na casa da própria viúva e Elias restaurando-o à vida com a ajuda de Deus (vs. 17-24)
Porém , qual é o ponto de vista subjacente a todas essas quatro cenas? Se não
puderm os responder a esta questão, as cenas para nós são apenas um a coleção
aleatória de histórias.
A prim eira vez que olhei seriam ente para essa passagem , lem bro-m e de
tê-la lido e relido inúm eras vezes, procurando pelo ponto de vista e propósito
do narrador ao introduzir esses quatro episódios. Observei a repetição da ex­
pressão palavra do Senhor, que aparece nos versículos 2, 8, 16 e 24. Em
princípio a considerei sim plesm ente um a form a de introdução ou (em um
caso) de conclusão. Entretanto, m inha visão dessas expressões m udou quan­
do percebi que o narrador m uitas vezes colocava o ponto que desejava apre­
sentar na form a de um a citação ou discurso na boca de um dos personagenschave em algum estágio culm inante na tram a. Partindo desse raciocínio, ob­
servei novam ente o versículo 24: “Então, a m ulher disse a Elias: ‘Nisto co­
nheço agora que tu és hom em de Deus e que a palavra do Senhor na tua boca
é verdade’.”
O “ponto de v ista ” do n arrad o r n essa passagem era d e m o n stra r que
a p a la vra de D eus era digna de confiança em cada um a das circunstâncias
da vida relatadas nas quatro cenas. O ponto de vista, portanto, funciona nesse
texto de narrativa exatam ente com o aquilo que tenho cham ado de ponto pivô
(ou fulcro) que funciona em textos didáticos ou de prosa.39 Essa característi­
ca, então, nos guia ao discernir que verdade o autor pretendia transm itir ao
escolher e registrar esses episódios. Ao focalizarm os sobre o ponto de vista
39 W alter C. Kaiser, Jr., Toward an Exegetical Thology: B iblical E xe g esisfo r P reaching a n d Teaching
(G rand R apids: B aker, 1981), pp. 152-55.
do autor inserido no contexto literário m aior podemos evitar estabelecer m era­
m ente “lições” superficiais ou vagas “bênçãos” ao lermos as narrativas bíblicas.
DIÁLOGO
O terceiro elem ento principal da narrativa bíblica é o diálogo. Com o Robert
A lter observou: “Tudo no m undo da narrativa bíblica definitivam ente gravita
em direção ao diálogo. ... em term os quantitativos, um a parte notavelm ente
grande do peso da narrativa é carregada pelo diálogo, as transações entre per­
sonagens tipicam ente se desdobrando por m eio das palavras que trocam entre
si, com apenas a m enor intervenção possível do narrador.”40
O tem a da passagem , que o ponto de vista expressa, é geralm ente trans­
portado ju n to em seu m ovim ento progressivo pelo diálogo. A lter sugere
duas regras úteis que alertam os intérpretes para a im portância desse m ovi­
m ento do diálogo:
1. O lugar em que o diálogo é prim eiram ente introduzido será um im ­
portante m om ento na revelação do caráter de seu locutor - talvez
m ais na m aneira do que na substância daquilo que é dito.
2. Observe onde o narrador escolheu introduzir o diálogo em vez da
narração. O ritm o especial do m over-se entre diálogo e narrativa,
enquanto centraliza-se em algum a troca verbal direta entre os perso­
nagens, nos ajudará a observar sua relação com Deus e entre si.41
O diálogo ocasionalm ente aparece na form a de um discurso estilizado, em
que um personagem repete um a parte ou o todo do que outro personagem
disse. Nesses casos, devemos observar cuidadosam ente quaisquer pequenas
diferenças, ligeiras alterações, inversões de ordem , elaborações ou om issões.
Tais variações podem m uito bem ser significativas ao revelar o personagem
ou um a inclinação diferente para os acontecim entos que estão ocorrendo.
Raram ente um narrador entra diretam ente na narração - como, por exem ­
plo, para dar a moral da história. Mas o narrador, com grande freqüência, faz
um discurso resum ido em um a conjuntura particularm ente crítica na narrati­
va a fim de (1) acelerar a fluência da narrativa, (2) evitar excessiva repetição,
ou (3) dar algum a perspectiva para o que foi djto.
O diálogo é um dos principais m eios pelos quais o narrador pode apre­
sentar a caracterização. A narrativa que envolve esse diálogo tende sim ples­
m ente a confirm ar o que é dito no diálogo. Conseqüentem ente, é m ais im por­
tante seguir o diálogo com cuidado para apreender o desenvolvim ento do
ponto que está sendo apresentado - em geral de form a indireta - pelo autor.
4 R obert Alter, The A r t o f B iblical N arrative (N ova York: B asic B ooks, 1981), p. 182.
4- Ibid., pp. 74-75.
O RECURSO RETÓRICO
É com um narradores bíblicos utilizarem certos recursos retóricos que apare­
cem tam bém em outros tipos de prosa e na poesia. Três im portantes são:
repetição, inclusão e o quiasmo.
R e p e t i ç ã o . U m dos recursos retóricos favoritos da narrativa hebraica era
a repetição. U m tipo de repetição usa a reincidência de palavras ou expres­
sões curtas; outro une ações, im agens, motivos, temas e idéias.
A repetição de palavras era especialm ente significante. Em m uitos ca­
sos o autor usava palavras repetidas ou m esm o sentenças para expressar um a
certa ênfase, sentido ou desenvolvim ento do texto. Deste m odo, 2 Reis 1.3,6
e 16 traz cada um a a m esm a pergunta: “Porventura, não há Deus em Israel,
para irdes consultar Baal-Zebube, Deus de Ecrom ?” a fim de reforçar a idéia
que o escritor queria apresentar. U m a repetição sem elhante por m eio do uso
de um a pergunta reincidente aparece em um a narrativa com respeito a um
profeta abatido e fujão. Duas vezes o narrador registra a pergunta do Senhor:
“Que fazes aqui, Elias?” (lR s 19.9,13), em que “aqui” refere-se à caverna do
M onte Horebe, a centenas de quilômetros do lugar onde Deus o havia mandado.
Ainda, em outro exemplo, cada um dos três capitães enviados para cap­
turar Elias faz o m esm o discurso exceto pela im portante variação na terceira
e últim a tentativa de trazer Elias perante o rei. Os prim eiros dois dizem a
E lias asperam ente, “Hom em de Deus, o rei diz: ‘D esce im ediatam ente’”
(2Rs 1.9,11; m inha própria tradução). O terceiro capitão, aparentem ente um
pouco mais m oderado devido à experiência fulm inante de seus dois colegas
anteriores, suaviza seu pedido com um respeitoso: “Hom em de Deus, seja,
peço-te, preciosa aos teus olhos a m inha vida e a vida destes cinqüenta, teus
servos; pois fogo desceu do céu [um circunlóquio para ‘D eus’] e consum iu
aqueles dois prim eiros capitães de cinqüenta; porém , agora, seja preciosa aos
teus olhos a m inha vida” (vs. 13,14).
Outro tipo de repetição dentro da narrativa hebraica é a “repetição resu­
m ida” . N esse tipo, o narrador faz o leitor voltar ao ponto original na história
após desenvolver um incidente relacionado. Assim, em 1 Samuel 19.12 lemos
que “M ical desceu Davi por um a janela, e ele se foi, e escapou” . O leitor
perm anece com M ical durante o tem po em que Davi tem sucesso em escapar.
No verso 18, porém , somos levados de volta ao ponto principal pelo com entá­
rio do narrador de que “Davi fugiu, e escapou” .42
i n c l u s ã o . U m segundo recurso retórico que os narradores bíblicos usa­
vam é a inclusão, que na realidade é uma form a de repetição. “Inclusão”
42 D uas obras úteis acerca d a m atéria de interpretação de narrativas bíblicas são A dele B erlin, Poetics
a n d Intepretation o f B iblical N arrative, e B urke O. L ong, “F ram ing R epetitions in B iblical
H isto rio g rap h y ” , JB L 106 (1987): 385-99.
refere-se a um a repetição que m arca o início e o fim de um a seção, colocando
entre parênteses ou cercando o m aterial assinalado.
Um a ilustração muito boa de inclusão pode ser encontrada em Êxodo
6.13 e 26,27. No verso 13 lemos: “Não obstante, falou o Senhor a M oisés e a
Arão e lhes deu m andam ento para os filhos de Israel e para Faraó, rei do
Egito, a fim de que tirassem os filhos de Israel da terra do Egito.” De form a
especialm ente curiosa, o que se segue é um a lista genealógica de som ente três
dos doze filhos: Rúben, Simeão e Levi, com um tratam ento m ais detalhado
acerca de Levi - presum ivelm ente porque essa lista ia até M oisés e Arão.
Aqui a genealogia term ina tão abruptam ente quanto havia com eçado. Então
as seguintes palavras nos versos 26,27 aparecem como um a inclusão com o
verso 13: “São estes Arão e M oisés, aos quais o Senhor disse: ‘Tirai os filhos
de Israel da terra do Egito, segundo as suas hostes.’ São estes que falaram a
Faraó, rei do Egito, a fim de tirarem do Egito os filhos de Israel; são estes
M oisés e Arão.”
A contece que esses três filhos de Jacó figuraram de um a m aneira nega­
tiva nos relatos anteriores da narrativa nas Escrituras. Rúben havia dorm ido
com a concubina de seu pai (Gn 35.22; 49.4), e Simeão e Levi m assacraram
os siquem itas após terem exigido que todos os hom ens siquem itas fossem
circuncidados (Gn 34.25-31). Após tais incidentes, os leitores poderiam im a­
ginar com o seria possível para alguém que veio de tais origens ser usado por
Deus. Não é de adm irar que o texto enfatize tão repetidam ente esta inclusão:
“São estes Arão e M oisés!” A inclusão, portanto, nos ajuda m anter o foco
sobre o fato de que o cham ado e os dons de Deus para liderança tinham muito
pouco a ver com herança, habilitades naturais, ou linhagem humana.
q i u a s m o . Um terceiro recurso retórico da narrativa bíblica é o quiasm o,
um recurso literário que obteve esse nome a partir da letra chi grega (%). E
assim designado devido ao cruzam ento, ou inversão, dos elem entos relacio­
nados em construções paralelas.
Quiasm os podem envolver a inversão de qualquer coisa desde palavras
ou cláusulas em duas linhas paralelas de poesia a uma série de diálogos, ou
m esm o a um a série de capítulos de narração. E mais fácil identificar quiasm os
onde as mesmas palavras, cláusulas, ou expressões estão invertidas. Um exem ­
plo claro pode ser encontrado em Isaías 11.13:
a
Efraim
b
não invejará
c'
e Judá
b'
não oprim irá
•
c
Judá
a'
Efraim
O utro tipo de qiuasm o vai além de tal paralelism o em versos únicos.
Existe tam bém em capítulos, seções, e algum as vezes até m esm o em livros
inteiros da Bíblia. Longe de ser m eram ente um ornam ento superficial decora­
tivo, o quiasm o é um a das convenções mais artísticas usadas para narrativas
na Bíblia. Com o tal, pode ser um a chave para detectar os alvos do autor, pois
o acontecim ento ou idéiaprincipal tipicam ente aparece no ápice - ou seja, no
m eio da história.43 U m a clara ilustração de quiasm o em uso num a seção de
um livro bíblico pode ser vista na seguinte análise de Daniel 1-7:
Introdução. Daniel 1
A. Daniel 2
Quatro Im périos Gentios do m undo
B. Daniel 3
Perseguição dos Gentios sobre Israel
C. Daniel 4
Providência divina sobre os Gentios
C ’ Daniel 5
Providência divina sobre os Gentios
B ’ Daniel 6
Perseguição dos Gentios sobre Israel
A’ Daniel 7
Quatro im périos Gentios do m undo
De acordo com essa estrutura quiástica, portanto, o centro dos prim eiros sete
capítulos vem em D aniel 4 e 5. D aniel 4 foi a palavra final de D eus a
Nabucodonosor, e Daniel 5 foi a palavra final de Deus a B elsazar; para todos
os intentos e propósitos, esses dois reis foram a m onarquia inicial e conclu­
dente da dinastia babilônica. Com o tal, funcionaram tanto para incitar como
para alertar todas as nações gentias sobre os planos, propósitos e graças que
Deus oferece a todas as nações do mundo.
Deve-se observar tam bém que uma análise como esta não com prom ete a
unidade do livro de Daniel ou im plica que os prim eiros sete capítulos foram
separados dos capítulos 8-12. Daniel foi escrito em duas línguas: aram aico, a
língua popular daqueles dias, e que foi usada em Daniel 2-7, e o hebraico, que
foi usado no restante do livro. Esse fato costum a corroborar com a linha de
evidência que vem da form ulação quiástica. De fato, a m udança nas línguas
pode muito bem ser um sinal hermenêutico de que o público principal para o qual
cada seção está dirigida também muda precisamente naqueles mesmos pontos.
Níveis Estruturais na Narrativa
O NÍVEL VERBAL
A análise da estrutura baseada no nível verbal concentra-se particularm ente
em palavras ou expressões que são repetidas. S. Bar-Efrat44 ilustra esta form a
43 VejaY. T. R adday, “ C hiasm in S am uel”, LB 9/10 (1971): 21-31; id em , “C hiasm in T ora” , LB 19
(1972): 12-23.
44 S. B ar-E frat, “Som e O bservations on the A nalysis o f Structure in B iblical N arrative”, V T 3 0
(1980): 157-70.
de estruturação pelo comentário da narrativa que aparece seis vezes em Gênesis
1: “H ouve tarde e m anhã, o prim eiro [segundo, etc.] dia” (vs. 5, 8, 13, 19, 23,
31). Outros exem plos são dos quatro m ensageiros de Jó 1, cujas palavras “só
eu escapei, para trazer-te a nova” (vs. 15, 16, 17, 19) trazem um a estrutura
quádrupla para o texto, e as quatro vezes em que D alila pergunta a Sansão
pelo segredo de sua força (Jz 16.6, 10, 13, 15), que tam bém ressalta e de fato
fornece a estrutura da narrativa.
Outras características estilísticas em acréscim o à repetição incluem o
uso de m etáforas, sím iles e construções incom uns da gram ática ou sintaxe.
O NÍVEL DA TÉCNICA NARRATIVA
A estrutura no nível da técnica narrativa é expressa pelos m odelos alternantes
de (1) diálogo versus descrição do narrador; (2) narração versus descrição; e
(3) com entário, ou até m esm o explicação e apresentação de cenas, versus
resum o da ação. O mais im portante, todavia, é o prim eiro.
A técnica narrativa afeta principalm ente o ritm o em que progride a nar­
ração e a questão da ordem dos acontecim entos. Quando o autor utiliza-se de
um a apresentação cênica, o tem po passa vagarosam ente e somos deste modo
forçados a prestar grande atenção aos detalhes, a fim de extrair a direção ou
significância da narrativa. Mas quando o narrador m uda para sínteses de pro­
postas na narrativa, então a velocidade do tem po é acelerada e o ponto da
narrativa pode ser declarado mais diretam ente.
Os autores podem interrom per sua história em qualquer ponto, fazendo
isso conform e técnicas estabelecidas. Um m arcador de estrutura desse tipo é
o freqüente uso de retrospectivas para falar do passado, anterior ao com eço da
narrativa. No hebraico, esses flashbacks eram indicados pelo uso da form a
perfeita do verbo em vez do im perfeito normal.
O NÍVEL DO MUNDO DA NARRATIVA
O terceiro nível estrutural focaliza-se no m undo da narrativa, ou seja, o âm bi­
to em que a história acontece. Trata dos dois principais com ponentes ou con­
teúdos das narrativas: personagens e acontecim entos.
Os personagens são desenvolvidos com respeito à sua identidade, suas
características e suas funções. Intérpretes de#vem observar as ligações dos
vários personagens enquanto aparecem em seqüência no texto. N orm alm ente
o personagem introduzido em segundo lugar em um texto se torna o prim eiro
a aparecer no próxim o link quando a narrativa progride. Seguir esses links
pode nos fornecer um indício sobre onde o autor .deseja que centralizem os
nossa atenção.
A relação entre os acontecim entos de um a história com põem a trama.
M uitas narrativas têm um a única trama. Em todo o livro de Ester, por exem-
pio, o plano de Ham ã de exterm inar todos os judeus no im pério m edo-persa
tom a o centro da ação, com as tentativas de M ordecai e Ester em revogar
essas ações tendo um papel secundário. Na realidade, descrever a tram a ge­
ralm ente resum e-se à simples paráfrase da história. Recursos com uns de en­
redo incluem o clímax, o segundo clímax e a inversão. N orm alm ente as tra­
mas desenvolvem -se até o clímax e então descendem para um a conclusão
pacífica. Algum as vezes esse m odelo é ignorado e a narrativa im ediatam ente
ascende para um segundo clímax. Jó enfrentou os quatro m ensageiros, por
exem plo, para depois ser confrontado por três “consoladores” para um novo
desafio que teve de superar. Na inversão, a ação sofre um a m udança repentina
no ponto crucial. O episódio do sacrifício de Isaque em Gênesis 22 ilustra a
inversão, assim com o a narrativa sobre o retorno de Jacó para encontrar seu
irm ão Esaú após vinte anos de serviço dedicados a Labão em Gênesis 32,33.
Incluído no nível do m undo-narrativo da análise do texto estão as refe­
rências aos term os espaciais e tem porais usados na narrativa. Freqüentem ente,
a ação de um a única história muda de um lugar para outro, criando deste
m odo um a estrutura distinta. Igualm ente, a história pode m udar ao indicar
um a alteração no tem po ou até m esm o quanto tem po o acontecim ento levou,
com o na narrativa do dilúvio em Gênesis 7,8.
O NÍVEL DO CONTEÚDO CONCEITVAL
O nível final que dá estrutura às narrativas é aquele do conteúdo conceituai.
Este elem ento focaliza-se em temas, que são norm alm ente apresentados em
expressões curtas, ou em idéias, que ocorrem na form a de sentenças com ple­
tas. Os tem as apresentam as questões centrais da narrativa, enquanto as idéias
apontam para a lição, a m ensagem ou o ensinam ento encontrado na narrativa.
U m a vez que na m aioria dos casos tanto os tem as quanto as idéias da narrati­
va ficarão im plícitos, não afirmados explicitam ente, será necessário exercer
um cuidado especial, junto com um intenso autocontrole e autocrítica.
Neemias 4-6 pode nos fornecer ilustrações tanto dos temas quanto das idéias
desses capítulos. Em linhas gerais, o livro pode ser dividido nestas idéias:
Caps. 1-7: Princípios da liderança eficaz
Caps. 8-10: Princípios da renovação espiritual
Caps. 11-13: Princípios de excelência consagrada
Os temas dos capítulos 4-6 poderiam bem ser dispostos da seguinte maneira:
Cap. 4: A oposição à reconstrução
Cap. 5: A opressão sobre o pobre
Cap. 6: O dram a do líder
As idéias dessa passagem estão unidas em seu foco sobre a obra de Deus:
Cap. 4: Obstruindo a obra de Deus por interm édio de violência explícita
Cap. 5: Obstruindo a obra de Deus por interm édio de pressão interna
Cap. 6: O bstruindo a obra de D eus por interm édio de líderes ardilosos
Em resum o, com o indica Bar-Efrat, podem os usar níveis estruturais para
(1) dem onstrar a unidade de uma narrativa, (2) determ inar os lim ites de um a
história, (3) dem onstrar os valores retóricos ou expressivos encontrados den­
tro de um texto, (4) entender o efeito que o autor quis causar no leitor, e
(5) observar que elem entos do texto o autor desejou ressaltar.45
Considerações históricas na narrativa
Em bora o gênero literário da narrativa abranja m uito m ais do que o relato
histórico, não podem os negligenciar essa questão devido ao seu uso extensivo
em ambos os Testam entos. Entretanto, a questão da historicidade é extre­
m am ente complexa, especialmente se insistirmos em nos atermos ao ideal do
século 19 de uma história acurada, objetiva, imparcial e não interpretativa.
M as não precisamos usar a palavra histórico dessa maneira. Será suficien­
te para os nossos propósitos observarmos se essas pessoas e acontecimentos
que os escritores retratam como sendo parte do espaço-tempo contínuo real­
mente viveram durante os períodos que eles alegaram terem vivido e fizeram o
que é atribuído a eles. Se isso também pode ou não ser compreendido como
estando dentro dos limites do que tem sido tecnicamente designado como his­
tórico desde o século 19, é uma outra questão da qual nós não nos ocuparemos
neste momento. Não é nem mesmo crucial que procedamos desse modo a fim
de interpretar o texto com qualquer grau de justiça.
A IMPORTÂNCIA DA HISTORICIDADE
Sidney Greidanus definiu a questão crucial da historicidade de um a for­
m a precisa:
Em bora haja muito a ser dito a respeito do poder da H istória e com o ela
opera à parte da questão da historicidade, entretanto tam bém deve ser
dito que procurar tratar todas as narrativas bíblicas com o sendo pará­
bolas se constitui em um a grosseira bipersim plificação, pois nem todas
as narrativas bíblicas são anistóricas. ... A questão aqui novam ente é o
intento ou propósito do texto. Se esse intento... nos leva a relacionar
acontecim entos históricos, então esquivar-se desse intento na interpre­
tação deixaria de conceder plena justiça a esse sentido da narrativa.46
* Ibid.,~V12.
46 Sidney G reidanus, The M odern P reacher a n d th eA n cie n t Text: Interpreting and Preaching B iblical
L iterature (G rand Rapids: E erdm ans, 1988), p. 199.
A m aioria dos intérpretes m odernos preferiria dar a todo o corpo narra­
tivo o título de “relato” , que para eles significa que não contém H istória, mas
era apenas - nas palavras de Hans Frei - “com o H istória” .47 A inda assim
negar-se a existência de um a narrativa histórica no texto bíblico, quando o
próprio texto assim reivindica, deve ser considerado o equivalente a negar sua
m ensagem . Por exem plo, a negação ou elim inação das referências históricas
na narrativa sobre a vida de Jesus e seu m inistério seria tão destrutiva com
relação às verdadeiras intenções dos escritores quanto um a negação ou elim i­
nação de todos os contatos históricos na narrativa do êxodo.
É verdade, obviam ente, que as alusões históricas não são norm alm ente
o ponto principal das narrativas. Entretanto, funcionam com o corolários que
validam o ensino e as afirm ações feitas no texto. Em m uitos casos, a teologia
ensinada em um texto repousa diretam ente sobre a realidade dos aconteci­
m entos que ocorreram da m aneira com o foram postas. Se os acontecim entos
não fossem verdade, a teologia que repousa sobre eles conseqüentem ente tam ­
bém não seria verdadeira. Por exemplo, a teologia que declara que Jesus “so­
freu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morreu e foi sepultado;
ressuscitou no terceiro dia...” está inequivocam ente ligada com a H istória. Se
Pilatos não tivesse existido, e se não tivesse ocorrido a m orte, o sepultam ento,
ou a ressurreição de Jesus no terceiro dia, o Credo A postólico seria, de fato,
inútil, por refletir apenas um a im aginação descom edida.
Por outro lado, a m ensagem de tais passagens que fazem alusões histó­
ricas não deve ser encontrada em suas apologéticas - ou seja, na defesa da
facticidade e realidade do que está sendo aludido com o tendo acontecido no
tem po e no espaço. A m ensagem ainda deve ser encontrada nos ensinos do
texto literário diante de nós. Na m aioria dos casos, o texto tem outro propósi­
to além de sim plesm ente nos ensinar que esta pessoa ou o acontecim ento
ocorreu ou não. Ainda assim a referência histórica não pode ser dispensada
com tanta rapidez ou de m aneira leviana, com o muitos estudiosos m odernos
pressupõem irrefletidam ente - talvez esperando por m eio disso evitar o atoleiro (e lam entavelm ente os fracos resultados para um a igreja que espera) da
escola da crítica histórica.
Existem um as poucas narrativas históricas em que a existência objetiva
da referência histórica não tem conseqüências herm enêuticas para um a com ­
preensão adequada da passagem . Greidanus m ostra-nos essa realidade com
relação ao propósito dos livros de Jó e Jonas.48 Posso concordar com ele so­
bre o livro de Jó, mas não creio que o propósito de Jonas possa ser com pleta­
m ente com preendido sem colocá-lo diante de seus antecedentes históricos.
47 Frei usou o term o para este propósito em seu E clipse o f B iblical N arrative (N ew H aven: Yale
U niversity Press, 1974), cap. 1.
48 G reidanus, The M odern P reacher a n d th e A n c ie n t Text, p. 195.
No caso de Jó, nenhum contexto histórico particular é apresentado pelo
livro. É somente quando se observa o fato de Jó realizar seus próprios sacrifícios
(em lugar de depender de qualquer estrutura levítica) e observar características
lingüísticas e culturais (tais como os termos que Jó usa para comprar) que se torna
possível imaginar um contexto patriarcal durante os dias de Abraão, Isaque e
Jacó. Ainda assim, nada no livro em si será seriamente afetado por essa identifica­
ção ou mesmo a ausência dela. Essa identificação serve somente para enriquecer
nossa compreensão das nuanças, o contexto cultural e coisas desse tipo.
Jonas é um a outra história. Deve-se reconhecer a brutalidade dos assírios
e o que a capital de Nínive significava para todos aqueles que tinham sofrido
tão im petuosam ente sob aquela im piedosa m áquina de guerra. Deste modo,
com o na m aior parte das narrativas históricas, um com ponente-chave da his­
tória se perderia se a referência histórica fosse abandonada. Assim acontece
com Jonas. A lém disso, abandonar o pano de fundo histórico do livro de Jonas
representaria perder o contraste com a notícia dada em 2 Reis 14.25, em que
Jonas, o filho de Am itai, o profeta de Gate-Hefer, foi usado por Deus durante
os dias de Jeroboão II no reino do norte para profetizar acerca da expansão
das fronteiras de Israel. Naquele papel Jonas era um proclam ador feliz, ao
passo que seu papel de alertar o inim igo de Israel acerca do desastre im inente
dava ao inim igo a oportunidade de arrependim ento e a extensão incerta da
m isericórdia de Deus (incerta na visão distorcida do profeta infeliz) para um a
população que Jonas queria logo ver liquidada.
A pesar de toda esta discussão, a interpretação não é para ser confundida
com fazer apologética ou a m era extração de fatos evidentes da narrativa.
Tomar parte nessa confusão seria negar quase tudo que tem sido enfatizado
nas prim eiras duas seções deste capítulo, e iria subverter o propósito original
do autor a propósitos substitutos que são os nossos próprios, m esm o se esses
propósitos fossem considerados com o sendo por uma boa causa - a defesa da
fé. D esta form a, um a abordagem apologética do texto seria o m esm o que lêlo com o um a coleção de pedaços de evidência, separados e não relacionados
um com o outro - um a expedição arqueológica ao texto. Essa abordagem traz
evidência de m uito pouco sentim ento para o texto como literatura ou para sua
m ensagem , em parte ou no todo.
VERDADE OU SENTIDO NA NARRATIVA BÍBLICA
*
Os dois gigantes contemporâneos da herm enêutica que escreveram sobre a nar­
rativa bíblica são Hans Frei e Paul Ricoeur.49 Frei argum enta que os cristãos
não devem continuar a fazer quaisquer afirmações acerca da autenticidade das
histórias narradas na Bíblia. Em seu influente livro The Eclipse o f Biblical
49 Fui grandem ente ajudado em m inha com preensão destes dois eruditos p or G ary C om stock, “Truth
or M eaning: R icoeur versus Frei on B iblical N arrative” , JR 66 (1986): 117-40.
Narrative, ele afirma que em lugar disso era suficiente dizer que essas narra­
tivas eram cheias de significado.
O problem a com eçou, até onde Frei pôde determinar, quando as forças
do deísm o, da crítica histórica e da exposição de Hum e sobre as reivindica­
ções históricas convergiram para juntar a interpretação bíblica com a defesa
da autenticidade das afirm ações históricas da Bíblia. Isso levou a um a perigo­
sa distinção entre “sentido’* (o que o texto diz) e as referências do texto (sobre
o que é). Frei advertiu que as várias tentativas em transpor esse abism o foram
todas m alsucedidas. Frei concluiu que a causa de sua falha era sim plesm ente
que tais narrativas realísticas não perm item um a separação entre o sentido e
sua referência. O que é encontrado no texto em sua form a literária, conse­
qüentem ente deve ser encontrado em seu sentido.
Infelizm ente, o sentido de Frei do que ele cham ou de narrativa realista
não está preso a um a discussão tanto das intenções do autor quanto do leitor
ou suas respostas. Sua posição é que a narrativa refere-se a si m esm a e é
autônom a. Q ualquer questão sobre a verdade de um a narrativa bíblica para
esse estudioso é um lam entável erro de categoria, pois de que adianta se em ­
penhar em conversação racional e defesa apologética dos fatos na narrativa,
visto que eles somente seriam entendidos por aqueles que já fossem crentes?
Outras pessoas sensatas seriam excluídas. Portanto, a m elhor solução, segun­
do Frei, é alargar os lim ites daquilo que consideram os “o texto em si” para
incluir todas as experiências dos leitores cristãos da Cristandade. “Narrativas
realistas” não convidam os leitores a avaliar a verdade das sentenças que eles
usam ou para estim ar sua coerência lógica. Em lugar disso, as narrativas são
unidades autônom as que não podem ser pressionadas a indagar se a figura
cristã é m ais “verdadeira” do que qualquer outra.
Paul Ricoeur concorda com Frei em que o sentido de um a história “histó­
rica” é sua tram a, a interatividade de seus personagens e suas circunstâncias
direcionadas para um fim. Todavia Ricoeur interpreta essa tram a por algum
tipo de audiência histórica - isto é, como essa evidência textual é construída
por um público específico. Em bora a tram a seja encontrada “dentro” do texto,
Ricoeur acrescenta que o m undo do texto (sua “referência”) surge da fusão de
horizontes entre o texto e seu leitor.50 Entretanto, ele tam bém nega que as nar­
rativas realistas se refiram a objetos reais, pessoas ou acontecim entos referidos
naqueles textos. Visto que o m undo do texto é ficcional (nas palavras de Frei,
“com o História”), um novo m undo foi criado: um m undo possível.51
50 Para o term o “fusão de h orizontes” veja cap. 2, p. 29
51 N em Frei nem R icoeur desenvolveram form alm ente um a herm enêutica geral d a narrativa, m as
am bos contribuíram para este assunto em seus escritos. Para obter os conceitos de R icoeur, veja
seu Interpretation Theory: D iscourse a n d the S urphts o f M eaning (Fort W orth: Texas C hristian
U niversity Press, 1976) e The C o nflict o f Interpretation: E ssays in H erm eneutics (E vanston, IL:
N orthw estern U niversity Press, 1974). N ovam ente sou grato a C om stock por sua discussão de
R ico eu r em “T ruth or M e aning” , pp. 131 -40.
O USO DA HISTÓRIA NA NARRATIVA HISTÓRICA
Até certo ponto, então, a questão de se a Bíblia tem quaisquer exem plos de
escrito histórico, é um debate de semântica. Se insistirm os sobre a definição
bastante lim itada de H istória que prevaleceu no século 19 - H istória com o
"relato imparcial, objetivo” então a resposta é não. A B íblia nunca reivindi­
cou ter um ponto de vista desinteressado; ela é partidária de Deus e seu reino,
e é assim que tem se apresentado.
M as, se a H istória inclui (1) contar o que aconteceu, (2) dar a perspecti­
va do escritor sobre o que aconteceu, e (3) organizar tudo em um m odelo com
significado para transm itir uma m ensagem - então a B íblia de fato inclui
H istória.52 A principal diferença entre as definições m odernas da H istória e
aquelas que estam os usando para m ateriais bíblicos é que a B íblia inclui uma
interpretação dos acontecim entos e pessoas que descreve de uma perspectiva
divina. A lguém poderia cham ar isso de escrito de História profética, com o
sugere Greidanus. Todavia salientam os que não deve ser forjada um a fenda
entre sentido e referente como Frei e R icoeur advertiram, pois isso novam en­
te se constituiria em erigir o “fosso feio” entre os acontecim entos da H istória
e as reivindicações necessárias de fé.
A interpretação da narrativa deve dar prioridade aos recursos literários e
à estrutura literária, se desejam os ter sucesso em interpretar este gênero bas­
tante profuso. M as, se o sentido tam bém deve ser considerado responsável
com respeito aos critérios de autenticidade e veracidade, será necessário estar
pronto para m ontar esse texto no m undo prim ário de realidades em que ele
reivindica ter acontecido. A triste história da m aior parte da em preitada hu­
m ana é que quando corrigim os um abuso (neste caso, a substituição da
apologética para fazer interpretação), o pêndulo tende a balançar até atingir o
outro extrem o. Com o um corretivo para esse tipo de reação excessiva, propo­
mos que os intérpretes incluam as referências históricas onde o texto assim o
faz, pois provavelm ente foram incluídos pelo escritor porque ele sentiu que
possuíam algum a contribuição relevante para o processo do sentido.
52 Estes critérios são sugeridos em parte em R onald E. C lem ents, “H istory and T heology in Biblical
N arrative” , H orizons o fB ib ilic a l Theology 4-5 (1982-83): 45-60, conform e m e foram evidenciados
por G reidanus, The M odern P reacher, p. 191, n° 11.
U m terço do Antigo Testam ento e um a boa parte do Novo
Testam ento aparecem em form a poética. Enquanto a principal
característica da poesia hebraica é o paralelism o de pensam entos
- apesar da discordância de alguns estudiosos da atualidade outras características que encontram concordância incluem a for­
m a concisa e um m aior uso de recursos retóricos.
Todas as form as de literatura usam figuras de linguagem ,
mas os livros poéticos as apresentam com m aior freqüência. E s­
sas figuras podem ser agrupadas de acordo com os princípios de
com paração, adição, associação, contraste ou omissão.
A literatura de sabedoria da Bíblia inclui um a quantidade
enorm e de subgêneros como provérbios, enigmas, adm oestações,
diálogos e onom ástica. Cada subgênero requer um a adaptação da
estratégia interpretativa.
CAPÍTULO 5
“De Boas Palavras Transborda
o Meu Coração”
O SENTIDO DA POESIA E DA SABEDORIA
W alter
C.
K a is e r , J r .
Em bora a narrativa seja o gênero mais comum na Bíblia, a poesia não fica
muito atrás. Ao todo, aproximadamente um terço do Antigo Testamento é escri­
to em forma poética, que, se fosse impresso em seqüência, comporia um volume
cuja extensão total facilmente excederia o Novo Testamento. O Novo Testamento
em si também exibe uma quantidade surpreendente de material poético.
Neste capítulo consideraremos prim eiram ente algumas das característi­
cas deste gênero bíblico popular, incluindo figuras de linguagem que especial­
mente caracterizam a poesia. Porém, tendo em vista que todos os tipos de lite­
ratura bíblica fazem algum uso das figuras de linguagem, observaremos mais
de perto esses recursos na segunda seção. Finalmente, examinaremos com mais
pormenores a literatura conhecida como Sabedoria. Os livros de Sabedoria Jó, Provérbios, Eclesiastes, e, para alguns intérçretes, Cântico dos Cânticos expressam a sabedoria adquirida em grande parte por meio da experiência e
reflexão nos caminhos de Deus. Os escritores bíblicos usaram muitas formas dife­
rentes para transmitir a sabedoria, que a terceira seção resumirá.
Poesia
A poesia mais conhecida na Bíblia pode ser encontrada nos Salmos, seguida
talvez por Provérbios e outros livros de Sabedoria. M esm o assim , mal com e­
çamos a esgotar a riqueza da poesia encontrada no Antigo Testam ento. De
fato, som ente sete livros do A ntigo Testam ento não contêm qualquer poesia.
Levítico, Rute, Esdrás, N eem ias, Ester, Ageu e M alaquias. A poesia do Novo
Testamento inclui (1) citações de poetas antigos (At 17.28; Tt 1.12; IC o 15.33);
(2) possíveis hinos cristãos do século Io (ex.: Fp 2.5-11; lT m 3.16; 2Tm 2.1113); (3) passagens nos m oldes da poesia do Antigo Testam ento, com o no
M agnificat de Lucas (1.46-55), Benedictus (1.68-79), Gloria in Excelsis (2.14)
e Nunc Dimittis (2.29-32); e (4) passagens que têm o grandioso e m ajestoso
estilo da poesia, tais com o o lam ento de Jesus sobre Jerusalém (Lc 13.34,35),
partes do Discurso do Cenáculo (ex., João 14.1-7), e as canções e im agens de
A pocalipse (ex.: 4.8, 11; 5.9-10, 12-13; 7.15-17; 11.17-18; 15.3-4; 18.2, 1424; 19.6-8). A poesia é, deste modo, um a form a extrem am ente im portante
para os intérpretes com preenderem .
A pesar da quantidade de poesia na B íblia e a riqueza do nosso conheci­
m ento acerca de poesia clássica dos poetas gregos e latinos, os intérpretes da
Bíblia m uitas vezes desconhecem as exigências herm enêuticas especiais da
poesia. Parte do problem a está dentro da própria disciplina de interpretação
da Bíblia, pois algum as das mais im portantes decisões sobre com o devemos
tratar a poesia ainda não foram resolvidas satisfatoriam ente pelos estudiosos
desse gênero literário. Isso significa que devemos sempre ter um a atitude
m ais hipotética na interpretação da poesia bíblica.
PARALELISMO
A era m oderna do estudo da poesia do Antigo Testam ento com eçou em 1753,
quando Robert Low th publicou sua obra, considerada de grande autoridade
sobre o assunto.53 Lowth desenvolveu a tese de que a característica principal
da poesia no Antigo Testam ento era o que ele classificava de paralelism o
hebraico. “A correspondência de um verso ou linha com outro, cham o de
paralelism o. Quando um a proposição é em itida, e um a segunda é juntada a
ela, ou feita com base nela, equivalente ou contrastante com ela em sentido,
ou sem elhante a ela na form a de construção gram atical, a estas cham o de
linhas paralelas; e às palavras ou expressões que respondem um a à outra nas
linhas correspondentes, term os paralelos.”54
L ow th nom eou estes três tipos básicos de paralelism o: sinônim o,
antitético e sintético. No paralelism o sinônimo, a segunda linha da form a
poética repete a idéia da prim eira linha sem fazer qualquer adição significati­
va ou subtração a ela. Alguns exem plos deste tipo de poesia são:
53 R o b ert L ow th, D e sacra H ebraeorum praelectiones academ icae (C onferências sobre a poesia
sagrada dos hebreus) (O xford: C larendon, 1753).
54 R obert L ow th, Isaiah: A N ew Translation, w ith a P relim inary D issertation a n d Notes, Criticai,
P hilological, a n d E xplanatory, 10a ed. (B oston: Peirce, 1834), p. ix.
Grita na rua a Sabedoria,
Nas praças levanta a voz (Pv 1.20).
Ada e Zilá, ouvi-me;
vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos (Gn 4.23).
A minha alma engrandece ao Senhor,
e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador (Lc 1.46b,47a).
No paralelismo antitético de Lowth, a segunda linha da poesia contrasta ou nega
o pensamento e o sentido da primeira linha. Provérbios 10-22 é especialmente
rico em exemplos desse tipo de paralelismo. Dois exemplos desse tipo são:
O filho sábio alegra a seu pai,
mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe (Pv 10.1).
Leais são as feridas feitas pelo que ama,
porém os beijos de quem odeia são enganosos (Pv 27.6).
A terceira form a - paralelism o sintético - tem sido um problem a desde que
Lowth o introduziu. Esta não exibe uma rim a de pensam ento e um paralelism o
de idéias, com o nas outras duas form as de paralelism o. Apesar de as linhas
poéticas no paralelism o sintético poderem ser paralelas na form a, não estão
equilibradas em pensam ento ou idéias com o estão as linhas dos dois tipos
anteriores. Na form a sintética não há nem gradação nem oposição das pala­
vras nas linhas paralelas; as linhas são sim plesm ente paralelas na form a, p a ­
recendo im itar o paralelism o real sem, de fato, fazê-lo. O prim eiro exem plo
de Low th de paralelism o sintético foi:
Louvai ao Senhor da terra,
monstros marinhos e abismos todos;
fogo e saraiva, neve e vapor,
e ventos procelosos que lhe executam a palavra;
montes e todos os outeiros,
árvores frutíferas e todos os cedros;
feras e gados,
répteis e voláteis;
reis da terra e todos os povos,
'
príncipes e todos os juizes da terra;
rapazes e donzelas,
velhos e crianças (Sl 148.7-12).
Em razão dos problem as surgidos ao procurar-se caracterizar cuidadosam en­
te esta terceira categoria (que até m esm o Lowth adm itia ser problem ática), e
devido ao fato de um a porcentagem relativam ente pequena de poesia encai­
xar-se no tipo sinônim o ou antitético, um crescente núm ero de estudiosos
questiona a tese geral de Lowth. Esse grupo, liderado por Jam es Kugel, afir­
m a que a segunda linha da poesia sempre acrescenta significado à prim eira
linha, desenvolvendo de algum a form a o pensam ento da prim eira linha. Kugel,
porém , reagiu tão fortem ente à estrutura de Lowth que chega quase a negar
que a Bíblia tenha qualqyer poesia. Essa posição, a nosso ver, é exagerada.55
Em bora possam os considerar o paralelism o com o a principal caracterís­
tica da poesia bíblica, devemos adm itir que muitos poem as bíblicos exibem
um paralelism o m uito fraco ou absolutam ente nenhum .56 A lém disso, algu­
mas form as da prosa hebraica m ostram um a sim etria que poderia ser classifi­
cada com o paralelism o.
Além do paralelism o, outras características da poesia hebraica que cos­
tum am distingui-la da prosa são (1) um a concisão relativam ente m aior ou
laconism o da form a e (2) um m aior uso de certos recursos retóricos. D iscuti­
rem os resum idam ente essas características nas seções abaixo.
CONCISÃO OU LACONISMO DA FORMA
Em contraste com a prosa, que é tipicam ente organizada em parágrafos, a
poesia é dividida em estrofes. U m a das características mais com uns usadas
para dem arcar o fim da estrofe é a presença de um refrão. Esta característica
é atestada na poesia ugarítica, e ocorre em cerca de dezoito salmos (SI 39 ,4 2 43, 44, 46, 49, 56, 57, 59, 62, 67, 78, 80, 99, 107, 114, 136, 144, 145). Por
exem plo, a tripla repetição do refrão no contínuo Salmo 42-43 o divide em
três estrofes:
Por que estás abatida, ó minha alma ?
Por que te perturbas dentro de mim ?
Espera em Deus, pois ainda o louvarei,
a ele, meu auxílio e Deus meu (Sl 42.5, 11; 43.5).
A lém disso, é bem possível que a palavra hebraica selah tam bém possa servir
para m arcar o fim, ou algum outro ponto significativo na estrofe. Ela ocorre
53 Veja Jam es L. K ugel, The Idea o f B iblical Poetry: P aralelism a n d Its H istory (N ew H aven: Yale
U niversity Press, 1981), e, com um a visão m ais m oderada, R obert Alter, The A rt o f B ib lica l
P oetry (N ova York: Basic, 1985). Para um a avaliação evangélica de m uitos destes m esm os assu n ­
tos, veja as obras de T re m p e r L ongm an III: Literary A pproaches to B iblical Interpretation (G rand
Rapids: Z ondervan, 1987); H ow to R ea d lhe P salm s (D ow ners G rove, IL.: InterV arsity, 1988); e
“ B iblical P oetry” em A C om plete L iterary G uide to the B ible, org. por L eland R yken e T re m p e r
L ongm an III (G rand R apids: Z ondervan, 1993), pp. 80-91.
56 Em L am entações, por exem plo, 104 das 266 linhas (39% ) não contêm nenhum paralelism o (de
acordo com a contagem de D elbert H illers, L am entations, AB [G arden C ity, N. Y.: D oubleday,
1972], p. xxxiv). O s fatos aqui são particularm ente claros, visto que quatro de cinco capítulos em
L am entações estão com pletam ente em form a acróstica alfabética, o que nos d á um exem plo dos
m ais sim ples que tem os d a form a p oética bíblica.
71 vezes em 39 salm os assim com o em Habacuque 3.3,9,13. Infelizm ente,
porém , ninguém sabe exatam ente qual é o sentido que essa palavra tem e
m uito m enos se ela tem qualquer função poética.
A poesia bíblica é bastante elíptica. Com freqüência, suprim e um subs­
tantivo ou o verbo da segunda linha, não deixando desse modó qualquer for­
ma gram ática paralela para equilibrar a linha. M ais difícil ainda para os intér­
pretes é a característica distinta da poesia hebraica em ser escrita geralm ente
sem conjunções (ex.: e, mas, ou) e com poucos indicadores tem porais (quan­
do, então, depois) ou conectores lógicos (deste modo, portanto). Finalm ente,
três características comuns da prosa hebraica são raras na poesia: o m arcador
de objeto direto et, o pronom e relativo ‘aser (“quem ”, “qual”, “que”), e a
form a narrativa do verbo hebraico (que consiste da conjunção “e” m ais o
tem po im perfeito).
RECURSOS RETÓRICOS
A poesia bíblica - com o qualquer outra poesia - é rica no uso de im agens e
figuras de linguagem , muitos exemplos dos quais veremos na seção seguinte.
Observam os aqui três recursos retóricos que particularm ente caracterizam a
poesia hebraica: quiasm o, discutido acim a no capítulo sobre narrativa, e dois
outros tipos de paralelism o - o que poderíam os cham ar de sim bolism o
em blem ático e paralelism o clim ático (ou escadaria). Esses recursos podem
servir com o chaves que sinalizam a presença da poesia e alertam o intérprete
para quaisquer nuanças especiais que o autor desejasse transm itir no texto.
s i m b o l i s m o e m b l e m á t i c o . Neste tipo de paralelism o, um a linha tom a a
form a de um enunciado factual bastante claro e sim ples, enquanto que a(s)
linha(s) de equilíbrio tom a(m ) a form a de um sím ile ou m etáfora com o um a
ilustração figurativa do m esmo enunciado. Exemplos deste fenôm eno são (com
o sim bolism o em blem ático em itálico):
Como jóia de ouro em focinho de porco
Assim é a mulher formosa que não tem discrição (Pv 11.22).
Como água fria para o sedento
Tais são as boas-novas vindas de um país remoto (Pv 25.25).
Como suspira a corça pelas correntes <Jas águas,
assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma (Sl 42.1).
P a r a l e l i s m o c l i m á t i c o . N este recurso favorito (tam bém cham ado de
“paralelism o de escadaria”), o poeta repete um grupo de duas ou três palavras
em duas - algum as vezes três ou quatro - linhas sucessivas. O intérprete deve
observar a ênfase e a beleza estética deste tipo de poesia. Aqui estão três
exem plos de Salmos:
E i s q u e o s t e u s in im ig o s , S en h o r ,
e is q u e o s te u s in im ig o s p e r e c e r ã o ;
s e r ã o d is p e r s o s t o d o s o s q u e p r a t ic a m a in iq ü id a d e
(92.9).
L e v a n t a m o s r io s , ó S en h o r ,
le v a n t a m o s r io s o s e u b r a m id o ;
le v a n t a m ^ o s r i o s o s e u f r a g o r
(93.3).
C a n t a i a o S en h o r u m c â n t ic o n o v o ,
c a n t a i a o S en h o r, to d a s a s te rra s .
C a n t a i a o S en h o r, b e n d iz e i o s e u n o m e
(96.1,2a).
Figuras de Linguagem
É o m om ento agora de olharm os mais sistem aticam ente para as figuras de
linguagem em pregadas pelos autores bíblicos. Esses recursos aparecem na
poesia, assim com o em narrativas, profecias, cartas e em todos os outros gê­
neros, com o acontece na literatura hum ana em todos os lugares. Em bora não
conheçam os nenhum a regra totalm ente objetiva para distinguir todas as figu­
ras de linguagem que um autor bíblico tenha usado ao transm itir sua m ensa­
gem, ainda assim, há certas perguntas que podem os fazer ao texto que podem
servir com o diretrizes para determ inar quando um autor saiu do sentido estri­
tam ente literal das palavras e expressões usadas:
1. Há um a desproporção entre o sujeito e o predicado, tais com o na
declaração: “Deus é a nossa R ocha” , em que um sujeito anim ado
(Deus) está ligado a um substantivo predicado inanim ado (rocha)?
2. Do m esm o modo, o predicado atribui ao sujeito ações que não são
possíveis no m undo real, tais como “os m ontes bateram palm as” ?
3. U m a palavra [rica de sentidos] é im ediatam ente seguida por outra
palavra que a define ou a restringe, tais com o “estam os m ortos”
diretam ente seguida pela expressão “em nossos delitos e pecados” ?
Neste caso, o term o “m ortos” é subitam ente transferido do dom ínio
da sepultura para o dom ínio da conduta moral.
4. Poderia haver um a razão para um a figura de linguagem neste ponto
do texto, a fim de dar um a ênfase m ais dram ática, um sentim ento
elevado, ou torná-lo mais m em orável?
5. E possível identificar a característica que decidi cham ar de uma
figura de linguagem em outros contextos?
O mais com pleto guia sobre figuras de linguagem é aquele escrito por E.
W. Bullinger.57 Em sua obra ele catalogou m ais de duzentas figuras de lin­
57 E. W. Bullinger, Figures o fS p ee ch U sed in the B ible: E xp la in ed a n d Illustrated (1898; reim presso,
G rand Rapids; Baker, 1968). Veja tam bém G eorge M. L am sa, Idiom s in the B ible E xplained
(N ova York: H arper & Row, 1985).
guagem e apresenta cerca de oito mil ilustrações de seu uso nas Escrituras.
Em cada caso, ele prim eiro definiu a figura de linguagem , para depois citar
exem plos do m undo clássico grego e dos autores rom anos, e finalm ente apre­
sentar inúm eros exem plos das próprias Escrituras. E um a coleção das mais
valorosas para o intérprete da Palavra de Deus.
M encionam os aqui os tipos observados com mais freqüência, dividindo-os em figuras de com paração, adição ou inteireza de expressão, relação ou
associação, contraste e om issão.58
FIGURAS DE COMPARAÇÃO
A mais sim ples e mais clara de todas as figuras de linguagem é o
símile. U m sím ile é um a com paração expressa ou formal entre duas coisas ou
duas ações em que um a é dita ser “com o” , ou “sem elhante a” outra, “ ...como
descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam , sem que prim eiro
reguem a terra... assim será a palavra que sair da m inha boca” (Is 55.10,11). O
sím ile é designado para ilustrar o sentido do autor. Visto que é um a com para­
ção expressa e afirmada, é a figura de linguagem mais fácil de ser reconheci­
da; sua função no texto é geralm ente inteiram ente clara.
m e t á f o r a . M ais difícil que a anterior, porém m uito mais freqüente é a
figura de linguagem da m etáfora. Aqui a com paração não é expressada nem
fica im plícita. Neste caso, uma idéia é transm itida de um elem ento para outro
sem que se diga diretam ente que um é “sem elhante” ou “com o” o outro. Por
exem plo, Jesus, ao se referir a Herodes Antipas, disse: “Ide dizer a essa rapo­
sa” (Lc 13.32). Sem dúvida, Jesus deixou de lado as características físicas da
raposa, tais com o sua pelagem , e salientou a sagacidade que as raposas ti­
nham em com um com Herodes Antipas. Jesus tornou essa com paração m e­
m orável, im prim indo por assim dizer, até certo hum or sobre ela, e agora po­
demos perceber que nos surge a idéia da figura de um a raposa todas as vezes
que pensam os em Herodes Antipas.
Observe que há três partes em cada sím ile ou m etáfora: (1) o sujeito ou
item que é ilustrado pela im agem , (2) a im agem da com paração direta ou
im plícita, e (3) o ponto da com paração direta ou im plícita e sim ilaridade. Em
alguns casos, um a ou mais destas podem estar faltando e devem, portanto, ser
supridas pelo intérprete. Por exemplo, quando Jesus enviou seus discípulos
“com o ovelhas entre lobos” , ele não afirmou diretam ente (1), o que os intér­
pretes podem prontam ente suprir.
S ím ile .
i8 Cf. A. H. Snym an e J. v. W. C ronje, “Tow ard a N ew C lassification o f the Figures (SCH M A TA ) in
the G reek N ew T estam ent” , N T S 32 (1986): 113-21. O s autores distinguem p rincipalm ente entre
figuras gram aticais e figuras retóricas. A ssim , todas as figuras são agrupadas de acordo com
q uatro princípios: repetição, om issão, m udança de expectativas e m edição de unidades.
É possível tornar-se exageradam ente entusiasm ado pelas possibilidades
de tais com parações e com eçar a sugerir um núm ero ilim itado de idéias dire­
tas ou indiretas. Lem bro-m e de ouvir um estudante de faculdade apresentar
um discurso devocional com grande entusiasm o sobre o Salm o 104.16, que
na Authorized Version diz, “As árvores do Senhor estão cheias de seiva". Ele
então sugeriu todos os tipos(de com parações “viscosas” (mas m em oráveis)
entre crentes e árvores que eram cheias de seiva. Não im portava o fato de que
a p alav ra seiva não estivesse no texto original (a N V I diz: “As árvores do
S enhor são bem reg ad as”); a seiva estava escorrendo, e assim foram se n ­
do apresentadas as alusões sobre vários pontos de com paração com os
crentes.
G. B. C aird nos alertou para esse problem a.
Quando o salmista nos diz que uma família unida é como óleo que
desce para a barba de Arão e para a orla de sua veste, ele não está
tentando nos persuadir de que a unidade da família é suja, sebosa, ou
volátil; ele está pensando na fragrância penetrante que de maneira tão
profunda marcou sua memória na unção do sumo sacerdote (SI 133.2).59
P a r á b o l a e A l e g o r i a . Quando um sím ile é estendido ao longo de um a histó­
ria, torna-se um a parábola. Jesus usou com grande eficácia esta form a de
com paração. (Ver tam bém o capítulo 6, sob o título: “Falava a Eles em Pará­
bolas”). Igualm ente, a m etáfora também pode ser estendida em um a história,
tornando-se deste modo um a alegoria. Um a das mais m em oráveis alegorias
no texto bíblico é aquela relativa à fidelidade conjugal encontrada em Provér­
bios 5.15-23. A com paração que é m ostrada ali é entre a prática de beber água
do próprio poço e a necessidade de ser fiel dentro das responsabilidades con­
jugais e privilégios do casam ento.
FIGURAS DE ADIÇÃO OU AMPLITUDE DE EXPRESSÃO
Um recurso literário que os escritores gostam de em pregar com o
propósito de enfatizar o argum ento é a figura de linguagem cham ada de
pleonasm o. Esta figura envolve um a redundância de expressão usada a fim de
obter um certo efeito sobre o ouvinte ou leitor. Deste modo, Gênesis 40.23
nos inform a que “o copeiro-chefe, todavia, não se lem brou de José, porém
dele se esqueceu” . O escritor poderia ter term inado a sentença após “José” .
Entretanto, a ênfase era im portante para ele, de modo que acrescentou de
form a redundante, “dele se esqueceu” .
p a r o n o m á s i a . O utra m aneira de conseguir a atenção do ouvinte ou leitor
é por interm édio da figura de linguagem conhecida com o paronom ásia. Ela
envolve um a am plitude de expressão ao repetir palavras que são sem elhantes
P le o n a s m o .
59 G. B. C aird, The L anguage a n d Im agery o fth e B ible (Filadélfia: W estm inster, 1980), p. 145.
em som, mas não necessariam ente sem elhantes em sentido em todos os ca­
sos, pois freqüentem ente as palavras sem elhantes no som são usadas m era­
m en te p a ra dar um certo e feito . U m dos m ais fam o so s ex em p lo s de
paronom ásia é encontrado no capítulo de abertura da Bíblia, tohu wabohu,
“sem form a e vazia” (Gn 1.2). No Novo Testamento, há panti pantote pasan
“ [em] tudo, [tendo] sempre, tudo” (2Co 9.8). O efeito é quase o m esm o como
quando dizem os “rola a bola” , “com e e dorm e” ou algo parecido. É apenas
algo divertido rim ar as palavras colocando-as juntas, mas não se pretende que
uma palavra seja interpretada como tendo sentido à parte da outra palavra - como
se, em nosso exemplo, “sem forma” fosse uma idéia separada de “vazia” .
H i p é r b o l e . A hipérbole é um exagero consciente ou um tipo de excesso
para aum entar o efeito do que está sendo dito. O salm ista clam ou com exage­
ro intencional no Salmo 6.6: “Estou cansado de tanto gemer; todas as noites
faço nadar o m eu leito, de m inhas lágrim as o alago.” (Seria possível algum
leitor deixar de perceber essa hipérbole im pressionante?!) Assim tam bém , o
intérprete não deve tom ar literalm ente algum as das palavras de Jesus no Ser­
mão do M onte proferidas claram ente como hipérbole. Por exem plo, Jesus
ensinou: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti” (Mt
5.29). O intérprete precisa ver aqui um exagero consciente da parte de Jesus,
a fim de levar seus ouvintes a estarem sempre prontos a agir im ediatam ente
rem ovendo aquilo que pudesse causar ofensa. Em Juizes 7.12 os m idianitas e
os am alequitas que vieram contra Israel nos dias de Gideão eram com o “gafa­
nhotos em m ultidão” e “seus cam elos em m ultidão inum erável com o a areia
que há na praia do m ar” . Tal figura de linguagem carrega consigo de form a
dram ática um a certa idéia do nível de frustração e a aparente im possibilidade
da tarefa que está à frente de Gideão.
H e n d í a d i s . Outra m aneira de aum entar o efeito daquilo que está sendo
dito é com a hendíadis - usando duas palavras para referir-se a apenas um a
coisa. E m Gênesis 19.24 o hebraico literalm ente diz que “choveu enxofre e
fogo” . A NVI, todavia, reconhece a hendíadis, traduzindo por “ súlfur arden­
te” (ou poderia tam bém ser “o enxofre que estava em fogo”). D entro do Novo
Testam ento, é possível que João 1.17 tam bém seja um outro exem plo, em que
"a graça e a verdade” pode sim plesm ente ser entendido como tratando-se da
verdade graciosa de Deus.
H e n d í a t r i s . Termo relacionado a hendíadis, em que três palavras são
usadas para expressar apenas um conceito. Em João 14.6, Jesus declarou: “Eu
sou o cam inho, e a verdade e a vida” , provavelm ente pretendendo com unicar
que ele era o único, verdadeiro e vivo cam inho para o Pai. O m esm o poderia
ser dito com respeito ao final da oração do Senhor em M ateus 6.13 que apare­
ce som ente em m anuscritos posteriores, “Pois teu é o reino e o poder e a
glória para sem pre” . Esta hendíatris pretendia indicar que Cristo tinha um
glorioso e poderoso reino que duraria para sempre.
O utro exem plo vem de D aniel 3.7, onde o Rei N abucodonosor da
B abilônia ordenou que ao som dos instrum entos “os povos, nações e as lín­
guas” (tradução literal) deveriam prostrar-se e adorar a im agem que ele havia
erguido. D iante do fato de que as línguas não se prostram e m uito menos
adoram , a figura é um a hendíatris em que as pessoas de todas as nações e
línguas devem curvar-se em adoração ao ídolo.
FIGURAS DE RELAÇÃO E ASSOCIAÇÃO
Em razão das figuras de linguagem serem baseadas em algum
tipo de sem elhança ou relação que diferentes objetos têm uns com os outros,
é possível expressar um a causa quando o efeito é pretendido, ou substituir um
substantivo por outro intim am ente associado a ele. Deste modo, referim o-nos
ao estabelecim ento m ilitar dos Estados Unidos pelo prédio de cinco lados
que ele ocupa, o Pentágono. Esta figura é conhecida com o m etoním ia. Assim
Lucas 16.29 declara que os irmãos do hom em rico tinham “M oisés e os pro­
fetas” , m esm o que ambos já tivessem m orrido havia m uito tem po. O que se
pretendia dizer é que tinham os livros que M oisés e os Profetas do Antigo
Testam ento haviam escrito. Que a “casa” de Davi, que Deus prom eteu em
2 Sam uel 7.16 iria durar para sempre, como iria seu “trono”, não significa que
tanto o trono quanto a casa possam ainda ser vistos até os nossos dias. A casa
de Davi era sua dinastia e linhagem fam iliar; seu trono indicava seu reinado.
S i n é d o q u e . Proxim am ente relacionado com a m etoním ia é a figura da
sinédoque, na qual o todo pode ser com preendido pela parte, ou a parte pelo
todo. Assim, Lucas 2.1 afirma que “todo o m undo” deveria recensear-se, quan­
do, de acordo com o contexto, ele queria dizer precisam ente o que os traduto­
res da NVI interpretaram com o “todo o m undo rom ano” .
Igualm ente, M ateus 12.40 usa a fórm ula estereotipada “três dias e três
noites” , sem todavia querer dizer um período com pleto de 72 horas com o
tam bém não é o caso 1 Sam uel 30.12. N essa passagem , D avi colocou-se
diante de um egípcio, parte da brigada que havia roubado todos os bens e a
fam ília de Davi e de Ziclague, enquanto ele e seus seiscentos hom ens estavam ausentes. Q uando Davi exigiu que o egípcio dissesse quanto tem po
havia se passado desde que ele tinha sido abandonado pelos invasores
am alequitas, a quem Davi estava perseguindo, a resposta foi: “três dias e
três noites” . Porém , então o egípcio acrescentou: “m eu senhor me abando­
nou quando eu fiquei doente, e hoje é o terceiro dia” (v. 13, lit.). D este
m odo três dias e noites foram ajuntados porque esta era a fórm ula estereo­
tipada que sem pre aparecia junta. A lém disso, era habitual, com o num ero­
M
e t o n ím ia .
sos exem plos ilustram no texto, referir-se a um dia todo e noite (ou ano)
quando a referência pretendida era apenas à parte dele.
U m a ilustração final de sinédoque encontra-se em Juizes 12.7, em que o
texto hebraico literalm ente traduzido apresenta o juiz Jefté sendo enterrado
"nas cidades de G ileade” . N aturalm ente, Jefté não foi partido em pedaços e
enterrado pedaço por pedaço em toda a terra de Gileade, mas o núm ero total
de cidades ou vilas foram usados no lugar de um a parte, e assim a NVI corre­
tam ente interpreta: “ [ele] foi enterrado em um a cidade de Gileade.”
FIGURAS DE CONTRASTE
Q uando um escritor utiliza palavras para transm itir o oposto de seu
sentido literal, isso é conhecido como ironia. É usado com m aior freqüência
em contextos onde se pode achar tam bém sarcasm o ou ridículo. Assim a es­
posa de Davi, M ical, o ridicularizou: “Que bela figura fez o rei de Israel,
descobrindo-se, hoje, aos olhos das servas de seus servos, como sem pejo se
descobre um vadio qualquer!” (2Sm 6.20). Jó exibe essa m esm a tendência ao
querer dizer o oposto do que acabara de expressar quando concluiu severa­
m ente o que pensava sobre os seus assim chamados três amigos que haviam
continuado a surrá-lo com más aplicações de teologia: "N a verdade, vós sois
o povo, e convosco m orrerá a sabedoria!" (Jó 12.1).
L i t o t e s . Lítotes são um a form a de declaração incom pleta que afirmam
algo ao negar seu contrário. Assim, por exemplo, Paulo asseverou em Atos
21.39: “Eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante da Cilícia.”
Abraão m enosprezou a si mesmo, dizendo que era só “pó e cinzas” (Gn 18.27),
a fim de aum entar a grandeza de Deus.
E u f e m i s m o . U m a terceira form a de contraste aparece na substituição por
um a expressão mais branda, mais agradável e m odesta de um a palavra que é
desagradável, ríspida e indelicada. Isso é conhecido com o eufem ism o. Assim
com o algum as vezes preferim os falar “toalete” em vez de “banheiro” , encon­
tramos em Juizes 3.24 e em 1 Samuel 24.3 um a referência a um hom em “co­
brindo seus pés” com o um eufem ism o para o ato de defecar, devido ao fato de
que suas vestes caíam em torno de seus pés enquanto ele se abaixava. Atos
2.39 e Efésios 2.13 usam um eufem ism o étnico,em suas referências a “todos/
aqueles que estão ao/m uito longe” . Claram ente, essa é um a form a de rodeio
para se referir aos gentios sem ter de usar a palavra em si.
F i g u r a s d e o m i s s ã o . Freqüentem ente o texto om ite certas palavras ou
expressões, deixando o sentido para ser fornecido pelo leitor.
Z e u g m a . U m a form a m uito interessante deste recurso é a zeugm a. Esta
form a alia dois sujeitos e objetos juntos com um verbo em que o verbo na
verdade funciona apropriadam ente somente para um dos dois sujeitos ou obje­
Iro n ia .
tos. M uitos casos são esclarecidos pela inclusão de outros verbos nas mais
m odernas traduções, aparecendo assim som ente em traduções literais do tex­
to hebraico e grego. M inha zeugm a favorita encontra-se em Gênesis 4.20:
“ ...Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e gado” (lit.). Ao traduzir
“ ... e criam gado” , a NVI nos m ostra mais diretam ente (mas de form a m enos
rica) o que o escritor im aginava que seu público deveria entender. A ssim tam ­
bém , um a declaração em 1 Tim óteo 4.3 se encaixa nesta m esm a categoria,
pois critica aqueles que “proíbem o casam ento, exigem abstinência de ali­
m entos” . O acréscim o da expressão exigem era necessário por causa da ju n ­
ção dos dois conceitos quando o prim eiro verbo da proibição foi com binado
apenas com a prim eira idéia.
E l i p s e . A maior categoria desse tipo de omissão é chamada de elipse. Nes­
te caso, um a declaração incompleta deve ser preenchida a fim de term inar o
pensamento. Bullinger dedica as primeiras 130 páginas de seu Figures ofSpeech,
de 1.100 páginas, à discussão da elipse. Pode haver elipses de tudo desde o
sujeito, o verbo, um pronome, a cláusulas inteiras. O último tipo é melhor ilus­
trado em 2 Tessalonicenses 2.3, onde um a injunção introdutória “Ninguém, de
nenhum modo, vos engane” é seguido pela declaração “porque [este dia não
virá] sem que a rebelião ocorra e seja revelado o hom em da iniqüidade, o ho­
m em destinado à perdição” [NVI], em que colchetes são acrescentados para
m ostrar a adição da cláusula omitida. Felizmente, a m aioria dessas elipses já foi
adicionada em grande parte das traduções em nossa língua para incluir o senti­
do pretendido pelo contexto.
Conclusão
A B íblia contém muitas outras figuras de linguagem , das quais pudem os exa­
m inar e ilustrar algum as das principais. Elas sempre provarão ser um a fonte
rica para reflexões, cham ando nossa atenção para algo que o escritor quer
realçar entre todas as inform ações no texto. O intérprete, todavia, deve ser
especialm ente cuidadoso quando lida com figuras de com paração (sím iles,
m etáforas, parábolas e alegorias) para resistir à tentação de criar com para­
ções além daquela(s) que o escritor escolheu para sua com paração direta ou
im plícita. D e m aneira semelhante, quando as figuras de relação, contraste,
adição, ou om issão são usadas, deve cuidar em preservar ao m áxim o o ponto
que está sendo apresentado tanto nas lim itações contextuais quanto na exten­
são de uso que essa figura de linguagem em particular irá ditar.
Figuras de linguagem não são tão precisas em seus significados quanto
a prosa. O que essas figuras perdem em precisão, todavia, é certam ente
recom pensado por sua m aior h ab ilidade de nos dar ilustrações e tra n sm i­
tir um a vivacidade que a prosa com um não poderia oferecer. D esta m anei­
ra, nossa atenção é dirigida a certos itens que, de outro m odo, poderiam pas­
sar despercebidos.
Literatura de Sabedoria
Os três ou quatro livros da Bíblia conhecidos como literatura de Sabedoria
expressam a preocupação dos escritores de que ordenemos nossa vida de acordo
com a própria ordem de Deus no mundo. “Todo o dever do hom em é” , como
Eclesiastes resum e, “tem e a Deus e guarda os seus m andam entos” (12.13).
Aqueles que escolhem desprezar esta sabedoria e disciplina divina são aspe­
ram ente acusados de loucos (Pv 1.7).
Além de Jó, Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, a erudição
católica inclui os livros apócrifos Eclesiástico (Ben Sirach) e a Sabedoria de
Salomão dentro da literatura de Sabedoria. A esta lista, tanto os judeus quanto
os cristãos geralm ente acrescentam certos salmos com o m esm o estilo literá­
rio dos livros de Sabedoria ou o mesmo m aterial temático. Esses salmos exi­
bem várias características típicas da literatura de Sabedoria em geral:
1. Acrósticos alfabéticos (versos sucessivos com letras sucessivas do
alfabeto hebraico)
2. Ditos num éricos (“seis coisas o Senhor aborrece; sim, sete...”)
3. Ditos com “B endito”
4. Ditos com “M elhor” (“M elhor é o pouco do justo do que a riqueza
de muitos ím pios”)
5. Com parações e advertências
6. D iscursos de pai para filho
7. O uso de provérbios, sím iles, perguntas retóricas e expressões
com o “o u ç a ”
Assim, os Salmos 1, 19b, 32, 34, 3 7 ,4 9 ,7 8 , 111, 112, 119, 127, 128 e
133 são norm alm ente classificados com o salmos de Sabedoria.
Para dizer a verdade, a Sabedoria hebraica não é simplesmente um gênero,
mas um conjunto de muitos subgêneros. Um é a alegoria, que já consideramos na
seção anterior. Entre os subgêneros estão o provérbio, o ditado, o enigma, a ad­
vertência, o diálogo e a onomástica (i.e., listas de nomes ou substantivos).
O PROVÉRBIO
Provérbios são ditos breves e m em orizáveis, que incorporam a sabedoria de
m uitos, possuem um a plenitude de sentido com aplicabilidade am pla, e têm
um certo tem pero que garante sua utilidade contínua. São encontrados em
praticam ente todas as partes da Bíblia. Pela sua natureza e form a, os provér­
bios são declarações generalizadas que cobrem o mais vasto núm ero de ca­
sos, mas nenhum deles deve ser considerado um conjunto de regras inflexí­
veis a serem aplicadas a todo os casos sem exceção.
Ao contrário, é possível jogar um provérbio contra outro tanto em nossa
cultura quanto nas Escrituras, onde ocorre com freqüência. Por exem plo, um a
pessoa aconselha outra sobre a perspectiva de se casar: “Quem pensa dem ais
nada faz” , enquanto outro conselheiro adverte: “Olhe antes de saltar.” O ou­
vinte deve, então, apressar-se ou agir com cautela?
De m aneira sem elhante, Provérbios 26.4,5 aconselha:
Não respondas ao insensato segundo a sua estultícia,
para que não te faças semelhante a ele.
Ao insensato responde segundo a sua estultícia,
para que não seja ele sábio aos seus próprios olhos.
O escritor desses provérbios, provavelm ente Salom ão (Pv 25.1), não estava
indeciso sobre se alguém deveria ou não responder a um insensato; na verda­
de, ele nos apresentou dois cenários em que a pessoa sábia pode ser instruída
se aplicar a verdade sabiam ente. Em alguns casos, a pessoa sábia precisa
concluir que um insensato irá apenas enredá-lo na lam a e os dois em pouco
tem po ficarão parecidos um com o outro. Em outros casos, a pessoa sábia
pode concluir que um a palavra dita de m aneira apropriada no m om ento cor­
reto pode ser vencedora e salvar o insensato da destruição.
O DITADO
O ditado está intim am ente ligado ao provérbio. De um modo geral, ditados
são declarações que relatam o que acontece ou deixa de acontecer em certas
ocasiões. M ais um a vez, não devem ser considerados regras fixas, m as so­
m ente observações. Os ditados podem ser didáticos (ex.: Pv 14.31 - “O que
oprim e ao pobre insulta aquele que o criou, mas a este [Deus] honra o que se
com padece do necessitado”) ou m eram ente empíricos, descrevendo situações
que costum am surgir com freqüência, porém que não têm regras fixas (ex., Pv
17.28 - “Até o estulto, quando se cala, é tido por sábio, e o que cerra os lábios,
por sábio”). M uitas vezes, esses ditados são agrupados em torno de um tópi­
co, de form a m uito sem elhante ao que acontece em Provérbios 1-9, onde, por
vezes seguidas volta-se a falar de duas m ulheres contrastantes - M adam e
Estultícia e Senhora Sabedoria.
O ENIGMA
O enigm a é criado como um quebra-cabeça para o ouvinte ou leitor, deixan­
do-o perplexo para inicialm ente obscurecer e esconder algum as partes do seu
significado testando, deste m odo, a acuidade e habilidade daqueles que ten­
tam solucioná-lo.
O enigm a mais conhecido da Bíblia não ocorre nas seçoes de Sabedoria,
mas em Juizes 14.14, em que Sansão testa os fílisteus deste modo:
Do comedor saiu comida,
e do forte saiu doçura.
Após persuadir a m ulher de Sansão (Sansão cham ou isso de “lavrar com m i­
nha novilha” [Jz 14.18]), os fílisteus triunfantem ente anunciaram :
Que coisa há mais doce que o mel
e mais forte que o leão?
A R ainha de Sabá foi um a das pessoas que foram até a corte de Salom ão
para “te stá -lo ” com enigm as e perguntas difíceis (lR s 10.1). N a verdade,
“entender um provérbio e um enigm a; os ditados e charadas do sábio”
(Pv 1.6, m inha tradução) era um dos propósitos de Salom ão ao escrever o
Livro de Provérbios.
Também há enigm as no Novo Testamento. A pocalipse 13.18 pergunta
se alguém tem entendim ento. Caso tenha, que “calcule o núm ero da besta,
pois é núm ero de hom em . Ora, esse núm ero é seiscentos e sessenta e seis” .
Alguns enigm as são tão difíceis que não tem os nem m esm o certeza de
como traduzi-los num período tão posterior de tempo. Provérbios 26.10, por
exemplo, foi interpretado pela AV, “O grande Deus que form ou todas as coi­
sas tanto recom pensou os loucos, e recom pensou transgressores” . Porém a
NVI interpretou o m esm o verso da seguinte m aneira: “Com o um arqueiro
que fere a qualquer um à sua volta é aquele que em prega um insensato ou
qualquer transeunte.” Essas duas interpretações são com pletam ente diferen­
tes - e assim é a interpretação oferecida na N ew Jewish Publication Society ’s
Tanakh - The H oly Scriptures: “Um m estre pode produzir algo, mas aquele
que emprega um tolo é como aquele que emprega transeuntes.” O texto hebraico
é suscetível ainda de outras interpretações. O verso foi planejado para ser um
verdadeiro enigm a - e conseguiu!
4 ALEGORIA
Um a alegria é um a m etáfora estendida - assim como a parábola é um sím ile
estendido. Com o tal, a alegoria contém sua interpretação dentro de si m esm a,
p f e vez das imagens e do significado serem m antidos separados, com o em
m símile e um a parábola, na m etáfora e na alegoria, identifica-se o significalátocom a própria im agem . Deste modo, cristãos e sal são vistos com o um pela
^■ctáfora: “Vós sois o sal da terra” (M t 5.13). Jesus e a videira estão ligados
l « m o um em João 15.1: “Eu sou a videira verdadeira, e meu pai é o agricultor.”
A m etáfora que consiste de apenas um a palavra ou sentença não é uma
3Ée?oria. M as quando é expandida em um a narrativa com mais detalhes, a
figura torna-se um a alegoria. A alegoria da “videira [tirada] do Egito” no
Salm o 80.8-15 refere-se claram ente ao que Deus fez por Israel, que nesse
caso é a “videira” . M as um exem plo ainda m elhor da m etáfora estendida
pode ser encontrado em Provérbios 5.15-23. Essa alegoria incentiva a intim i­
dade sexual dentro da fidelidade conjugal com a im agem de se beber água da
própria cisterna ou poço. A pista oferecida pelo escritor para desvendar essa
alegoria surge no verso 18, em que ele parece interrom per o que pareceria de
outro m odo ser um tratado sobre o dever de poupar-se água; ele, então,
exorta: “Alegra-te na m ulher da tua m ocidade.” Essa declaração soa tão estra­
nha no contexto que, a princípio, somos tentados a crer que não há ligação
com a afirm ação anterior - em que o sujeito é a água. Mas quando o escritor
continua: “Saciem -te os seus seios em todo o tem po, seja sempre cativado
pelo seu am or” (v. 19), fica claro que estam os lidando com um a alegoria.
U m a outra surpreendente alegoria é encontrada em Eclesiastes 12.1-7,
onde as imagens descrevem os efeitos do avanço dos anos sobre hom ens e
m ulheres. O pregador retrata em linguagem vivida o m om ento em que “ces­
sarem os teus m oedores da boca, por já serem poucos” (v. 3c, a perda dos
dentes dim inui a habilidade de m astigar com ida) e “cessar o som dos
m oedores” (v. 4b, o desdentado somente pode m astigar com idas m acias). Os
“hom ens fortes se curvarem ” (v. 3b), em prestando efeito a pernas vacilantes e
joelhos fracos. “Com o floresce a am endoeira” (v. 5c) como o cabelo torna-se
branco. “A alcaparra se tornou ineficaz” (v. 5e, cf. NASB) pode se referir à
perda de potência sexual. O gênero de alegoria traz um a grande riqueza tanto
para as seleções de sabedoria quanto para outras formas literárias na Bíblia.
A ADMOESTAÇÃO
Outro tipo de subgênero de sabedoria que é tão com um no antigo Oriente
Próxim o é a adm oestação. Os egípcios, em particular, desenvolveram esta
form a até se tornar um a arte elevada em suas muitas instruções dadas aos
pretendentes a cargo de governador e outras lideranças no Egito.
Adm oestações aparecem tanto de m aneira positiva (ordens) quanto como
um a expressão negativa (proibições). Norm alm ente, um a cláusula elucidativa
aparece ligada a cada adm oestação, explicando por que a injunção está sendo
feita e observando os resultados que virão. Por exemplo, Provérbios 23.3
adm oesta: “Não cobices os seus [do governante] delicados m anjares, porque
são com idas enganadoras.”
O DIÁLOGO
O livro de Jó ilustra o uso mais extenso do diálogo nos escritos de Sabedoria.
O diálogo surge entre Jó e seus três “am igos” : Elifaz o tem anita, Bildade o
suíta, e Zofar o naamatita. Posteriorm ente, Eliú o buzita e Deus entram no
diálogo. Outras porções das Escrituras exibem algum as frágeis afinidades
com o diálogo, com o Provérbios 5.12-14; 7.13-21; 8.4-36. M as a form a não
é tão consistente nesses textos como acontece em Jó.
* O.XOMÁSTICA
Alguns estudiosos teorizaram que certos materiais de Sabedoria, como o poe­
ma sobre sabedoria em Jó 28 ou o discurso de Deus a Jó em Jó 38, junto com
Salmos 104 e 148, talvez tenham surgido em parte oriundos de listas sobre
vários tópicos que foram usadas pelos escritores de Sabedoria de m aneira
secundária para organizar seu pensam ento sobre certos assuntos.60 Ninguém
postulou ainda um a relação direta no uso das listas, mas alguns sugerem que
a organização dos assuntos e questões que aparecem possa ter sido influenciada
pelo conhecim ento prévio que os escritores tinham dessas listas.
CONCLUSÃO
O intérprete do gênero de Sabedoria deve, assim como acontece com a m aior
parte dos gêneros, prim eiram ente determ inar a qual dos subgêneros o texto
pertence. Cada subgênero exigirá uma adaptação na estratégia interpretativa
para esse texto. Talvez um a habilidade prática seja mais exigida em determ i­
nar o caráter exato e a extensão deste tipo de literatura do que em qualquer
outra form a bíblica. N aturalm ente, deve-se usar o contexto quando este se
m ostra útil, esclarecendo o pano de fundo para quaisquer dessas diferentes
formas. M as onde o contexto é incerto, o bom senso e discernim ento tornam se particularm ente im portantes para a análise do texto em mãos.
t
Veja, por exem plo, G erhard Von R ad, “ Job xxxviii and A ncient E gyptian W isdom ” , em Studies
A n cien t Israelite W isdom, org. por J. L. C renshaw (19-55; reim presso, N ova York: Ktav. 19” r .
pp. 267-77; Jam es L. Crenshaw , “W isdom ,” em O ld Testam ent Form C riticism , org. por Johr. H
H ayes (San A ntonio, T X : T rinity U niversity Press, 1974), pp. 258-59.
A prim eira questão da qual precisam os tratar no estudo dos
Evangelhos está ligada à sua historicidade. Apesar de não ser
incom um os estudiosos argum entarem que as narrativas dos evan­
gelhos não são confiáveis, não podem os, de fato, preservar a
m ensagem do Novo Testamento se minimizarm os seu fundam ento
histórico. Ainda assim, os Evangelhos não foram escritos apenas
para com unicar inform ações fatuais e nem foram criados de acor­
do com os métodos e expectativas da narrativa histórica m oder­
na. Os autores foram bastante seletivos quanto ao m aterial que
escolheram incluir e, além disso, apresentaram -no de modo a re­
fletir sua própria (e inspirada) interpretação e aplicação dos fa­
tos. Escreveram tanto na condição de historiadores com o na con­
dição de teólogos.
Para a interpretação dos Evangelhos é de especial im por­
tância o papel desem penhado pelas parábolas nos ensinam entos
de Jesus. Apesar de essas histórias terem como intenção instruir
o povo em term os claros e concretos, elas tam bém eram um ins­
trum ento de julgam ento, pois endureciam o coração dos desobe­
dientes. Além do mais, um a com preensão correta das parábolas
exige que prestem os m uita atenção em seu cenário histórico; se
notarm os os detalhes culturais, é mais provável que com preen­
damos sua m ensagem. Por fim, precisam os levar em considera­
ção o contexto literário das parábolas, pois os escritores dos evan­
gelhos estavam interessados não apenas no papel de um a parábo­
la durante o m inistério de Jesus, mas tam bém em com o ela se
aplicava à igreja cristã.
O caráter distinto da form a com o Jesus ensinava aparece
mais claram ente quando ela é com parada com o ensinam ento
dos rabinos daquela época. Sem dúvida a abordagem de Jesus era
diferente. O m ais im portante, porém , era o conteúdo de sua m en­
sagem. Um elem ento significativo de seus ensinam entos era sua
ênfase sobre a graça, que por vezes era obscurecida pelos m es­
tres judeus daqueles dias. O tem a de cum prim ento tinha desta­
que especial: a vinda de Jesus significava a chegada do reino de
Deus, com todas as bênçãos associadas a ele.
CAPÍTULO 6_______________
“Estes, porém, foram registrados
para que creiais”
O SIGNIFICADO DOS EVANGELHOS
M o is é s S ilva
Os Evangelhos são história ou teologia?
Com o vimos no capítulo 1, m uitas questões foram levantadas sobre o caráter
histórico das narrativas bíblicas. Questões desse tipo tornam -se cruciais parti­
cularm ente quando lidam com os evangelhos. Afinal, para o cristão, nada é
tão fundamental quanto a realidade da vida de Jesus, sua morte e ressurreição.
É im portante lem brarm os que, quando falam os sobre o sentido ou inter­
pretação de um a passagem , qualquer um a dentre várias questões distintas
podem estar em vista: um detalhe sintático, o intento prim ário da passagem ,
seu significado mais amplo, e assim por diante. A questão da historicidade
pode parecer estar fora da categoria de interpretação, estritam ente falando,
visto que o “sentido” de um a história não é norm alm ente afetado pela sua
realidade factual. A interpretação da história de George W ashington e a cere­
jeira, por exem plo, perm anece a m esm a, quer essa história tenha ou não acon­
tecido realm ente - a saber, ninguém deveria mentir.
Por que, então, a questão da historicidade surge com freqüência quando
lidamos com a interpretação bíblica? Não seria mais fácil dizer que a história
da tem pestade que foi acalm ada em M ateus 8 pode ser interpretada correta­
m ente sem referência à sua verdade histórica? (No capítulo 1, com pare a
discussão da historicidade, o quarto nível do significado). Se sim, alguém
poderia argum entar que, quer o incidente realm ente tenha acontecido ou não,
M ateus deseja com unicar aos leitores o poder espiritual de Jesus e, desse
m odo, incentivá-los a ser discípulos fiéis. Afinal, não é assim que norm al­
m ente tratam os as parábolas? A m aioria dos leitores reconhece que a história
específica do Bom Sam aritano não precisa necessariam ente representar um
acontecim ento factual; a verdade que Jesus ensinou com aquela parábola per­
m anece, a despeito de sua historicidade. Por que não abordarm os o resto do
m aterial nos evangelhos da m esm a m aneira?
Esta m aneira de leitura dos Evangelhos e Atos - ou pelo m enos parte do
m aterial de narrativa contido neles - atrai muitas pessoas, incluindo um a m i­
noria de estudiosos evangélicos, porque ela os liberta de terem de se preocu­
par com discrepâncias históricas. Além disso, aqueles que abandonaram a
crença no sobrenatural, m as desejam continuar sendo identificados com o cris­
tãos, acham aqui um a saída para o seu dilema.
U m a “solução” assim, porém , é fácil demais - até m esm o ilusória. Ela
enfrenta dois problem as principais - um teológico e outro literário. A fé bíbli­
ca, com o é quase universalm ente reconhecida, tem um caráter histórico em
suas próprias fundações; em contraste com outras religiões, esta é um a de
suas particularidades mais significativas. Os m odernistas que buscam afirm ar
os ensinos religiosos da Bíblia, enquanto rejeitam suas reivindicações histó­
ricas são mais ousados que o m ágico Houdini. A incoerência resultante é
logicam ente insustentável. Seria o equivalente a reivindicar fidelidade à D e­
claração de Independência [dos Estados Unidos da América] ao m esm o tem ­
po que se repudia, como antiquado, o princípio de liberdade política.
A lém desse obstáculo teológico, existe um outro obstáculo literário.
Quando se lê qualquer tipo de literatura, nada é mais im portante que fazer
justiça a seu caráter. Se tentarm os entender a obra Macbeth, de Shakespeare,
com o a narrativa histórica sim ples, deturparm os seu sentido total. Podem os
ainda ser capazes de interpretar muitos detalhes corretam ente e até mesmo
dar sentido à sua “m ensagem ” , mas nenhum estudioso de Shakespeare iria
tolerar as inevitáveis distorções que resultariam disso. Esse problem a é ainda
m aior quando com etem os o erro oposto. Se alguém como W inston Churchill,
ao escrever H istory o fth e English Speaking Peoples (História dos povos de
fala inglesa), pretende descrever um acontecim ento factual, significa que a
referência histórica faz parte, em grande proporção, de seu sentido. Ignorar o
leitor ou rejeitar esse intento é fazer picadinho do escrito.
No caso dos Evangelhos, tudo indica que os escritores esperavam que
suas declarações fossem consideradas históricas. Lucas, em particular, com e­
ça tanto seu evangelho quanto o livro de Atos, tornando o propósito bastante
explícito (veja Lc 1.1 -4 e At 1.1-3), enquanto os outros não deixam nenhum
vestígio de que seu intento seja significativam ente diferente. A verdadeira
razão pela qual não nos sentim os coagidos a interpretar as p arábolas histo ­
ricam ente é que elas são apresentadas em estilo próprio - o leitor ou ouvin­
te fica im ediatam ente ciente de que elas pertencem a um gênero diferente
(tipo literário).
Sem dúvida, há um a m edida de verdade em toda m entira. A razão por
que muitos estudantes da Bíblia acreditam que podem desprezar a historicidade
das narrativas do Novo Testam ento é que essas narrativas nem sem pre estão
em conform idade com os padrões da escrita da H istória moderna. Se quere­
mos fazer justiça ao caráter literário dos Evangelhos e de Atos, portanto, de­
vemos observar não apenas seu caráter histórico, mas tam bém algum as ca­
racterísticas adicionais.
De especial ajuda aqui é a m aneira com o o evangelho de João expressa
seu alvo: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais
que não estão escritos neste livro. Estes, porém , foram registados para que
creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida
em seu nom e” (Jo 20.30,31). Evidentem ente, ninguém esperaria ler um a de­
claração desse tipo na história de Churchill. O autor do Quarto Evangelho
tinha em m ente mais do que apenas reportar fatos; ele queria m udar a vida
dos seus leitores.
Não se deve cair na arm adilha de fazer distinções claras e falsas. João
dificilm ente m inim iza a verdade histórica de sua narrativa: “Aquele que isto
viu testificou, sendo verdadeiro o seu testem unho” (19.35). Entretanto, seria
um erro de julgam ento focalizar tanto sobre a questão histórica e deixar de
considerar outros aspectos do evangelho, particularm ente com o eles podem
ter afetado sua composição.
M esm o um a observação rápida do evangelho de João deixa claro que
não se trata propriam ente de um livro de H istória - m uito m enos um a bio­
grafia - no sentido habitual. N ada é dito sobre o nascim ento de Jesus ou sua
infância. Exceto por algum as referências cronológicas (ex.: à P áscoa em
6.4), lem os a m aior parte do evangelho tendo apenas um a vaga noção de sua
com posição tem poral. A lém disso, as propo/ções são desconcertantes: q u a­
se um terço do livro (caps. 13-19) é dedicado às últim as 24 horas da vida de
Jesus! E specialm ente intrigante é a sim ilaridade de estilo entre as n arrati­
vas e os discursos: nesse evangelho (mas não em outros), Jesus fala da m a­
neira com o João escreve.
Essas e outras características nos ajudam a entender que a fidedignidade
dos Evangelhos não deve ser posta em term os da historiografia m oderna, que
dá ênfase à seqüência cronológica rígida e clara, seleção equilibrada do m ate-
rial, citações textuais, e assim por diante. Em sentido real, os escritores do
evangelho são pregadores. Eles selecionam acontecim entos da vida de Jesus
e seus ensinam entos, guiados não pela inteligibilidade, mas pelo seu propósi­
to ao escrever. Eles organizam o m aterial nem sem pre com base na ordem
seqüencial, mas com a perspectiva de im prim ir sobre os leitores certas verda­
des específicas.
t
Caímos em um problema, portanto, quando abordamos o texto com ques­
tões que os escritores dos Evangelhos não estavam interessados em respon­
der. M esm o Lucas, que parece ter sido o mais preocupado em prover detalhes
históricos, não estava escrevendo um tratado que pretendia ser um a enciclo­
pédia. Certam ente, ele nunca im aginou que, vinte séculos depois, estudiosos
estariam analisando cada palavra que ele escreveu e com parando-a em deta­
lhe com os outros Evangelhos assim como com outros docum entos e dados
arqueológicos do m undo M editerrâneo.
Em resum o, devemos ler os Evangelhos e Atos já esperando que conte­
nham apenas inform ações parciais e descrições im precisas que tornam difícil
- às vezes im possível - resolver aparentes discrepâncias. Isso não significa
em m om ento algum que os escritores bíblicos não sejam dignos de confiança.
A falta de precisão absoluta é inerente à linguagem humana. O grau de preci­
são esperado de um leitor ou escritor depende da questão em pauta assim
com o dos objetivos determ inados (ou implícitos). Não acusam os um orador
público de irresponsabilidade se, quando está falando a um público geral, ele
apresenta, por exemplo, um valor arredondado sobre o custo de se enviar um
satélite para o espaço. M as, se esta m esm a pessoa estivesse preparando um
relatório financeiro para ser exam inado pelo Congresso, qualquer im precisão
poderia ser ilegal.
Vejamos por este lado: se M ateus tivesse fornecido cada detalhe que
alguns leitores m odernos esperam , com a exaustiva precisão necessária para
responder a todos os problem as em potencial, sua narrativa não seria apenas
excruciantem ente longa - mas, o que é pior, o im pacto de sua m ensagem teria
sido tragado pelo excesso de informação. Dentro de seu propósito, porém ,
M ateus apresentou a verdade da m aneira mais persuasiva possível.
Pode ser proveitoso lem brar que nossa fonte de autoridade não está nos
sim ples fatos da História, mas na apresentação inspirada desses fatos na B í­
blia. Alguns estudiosos, ansiosos por dem onstrar a historicidade de Jesus e
sua obra, tentam ver “por detrás” dos Evangelhos e alcançar o autêntico Je­
sus. Fica a im pressão de que o im portante é o que Jesus “realm ente” disse e
não aquilo que os Evangelhos relatam que ele tenha dito. Mas essa conclusão
seria uma negação da autoridade divina no que diz respeito aos Evangelhos.
Se Lucas, por exemplo, resum e um discurso de nosso Senhor ou parafraseia
um de seus ensinamentos, é o relato de Lucas daquelas palavras - não a recons­
trução histórica do que Jesus “realmente” disse - que é divinamente inspirado.
Considere a história do jovem rico. De acordo com M arcos 10.17,18 e
Lucas 18.18,19, este jovem chamou Jesus de “bom m estre” e perguntou a
Jesus o que ele deveria fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu: “Por
que me cham as bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus.” Quando nos
voltamos para o evangelho de M ateus, porém, encontram os um relato um
pouco diferente. Aqui o jovem se dirige a Jesus com um título sim ples de
“M estre” , e então pergunta sobre o que ele deveria fazer de bom para herdar a
vida eterna. A resposta de Jesus foi: “Por que me perguntas acerca do que é
bom? Bom só existe um ” (M t 19.16,17).
Tem-se procurado resolver essa discrepância, mas, se tentarm os fazer
com que os três Evangelhos digam a m esm a coisa, podem os deixar passar um
ponto m uito im portante que M ateus deseja que com preendam os. C ertam ente
os cristãos prim itivos, quando leram ou ouviram essa história, conform e foi
contada por M arcos e Lucas, ficaram perplexos com a resposta de Jesus, que
soa com o se ele negasse que fosse bom. Talvez M ateus, antecipando esse
problem a, conte a história de form a a ajudar o leitor a com preender m elhor o
sentido da conversa de Jesus com o jovem .
Na continuação do diálogo, Jesus aponta para os Dez M andamentos como
que ensinando aquilo que o jovem deveria fazer. A resposta do hom em , entre­
tanto, revela seu problem a mais profundo: “M estre, tudo isso tenho observa­
do desde a m inha juventude” (Mc 10.20). Claram ente, esse hom em acha que
é inculpável - ele está convencido de sua própria bondade. Quando ele cha­
mou Jesus de “bom ” , não estava reconhecendo a bondade única e divina de
Jesus; estava na realidade tratando Jesus como um igual! Pensava, portanto,
que poderia alcançar a salvação fazendo algum a coisa boa. Colocando em
outras palavras a pergunta daquele jovem , M ateus nos ajuda a identificar seu
problem a im ediatam ente. Podem os assim m elhor entender a instrução poste­
rior de Jesus. Ao pedir ao jovem que vendesse tudo o que tinha e desse aos
pobres, Jesus estava forçando o hom em a reconhecer que ele estava com ple­
tam ente errado ao pensar em si m esm o com o bom; de fato, ele era culpado do
m aior pecado de todos ao deixar de am ar a Deus acim a de tudo.
Podem os ver, então, que as m udanças que M ateus introduz não preten­
dem enganar, nem são o resultado e um erro descuidado. Em lugar disso, ele
está interpretando, sob inspiração divina, o significado desse encontro de Je­
sus com o jovem rico. Assim como todo bom pregador reconta e parafraseia o
texto bíblico para torná-lo mais claro e para ajudar a congregação a aplicá-lo,
assim tam bém fizeram os escritores dos Evangelhos. A diferença é que os
autores dos Evangelhos falavam com a própria autoridade de Deus. Na reali­
dade, Jesus fala por meio desses escritores não m enos do que quando ele
viveu na terra.
A m aioria de nós tende a tratar os Evangelhos da m aneira com o trata­
mos janelas: olham os através deles para algo além. Em outras palavras, te­
mos o hábito de ler os Evangelhos somente com o meios de se alcançar os
acontecim entos históricos p^ra os quais eles apontam. Todavia, esses escritos
são m uito mais do que isso. Eles são como um vitral. Não apenas m ostram e
refletem a luz que está por detrás deles como tam bém nos convidam a olhar
para eles e desfrutar deles pelo que são.
Não foi por acaso que Deus nos deu quatro evangelhos, m esm o havendo
m uita sobreposição entre eles. A vida e a m ensagem de Jesus é tão rica que
precisam os de m ais do que um a perspectiva. Você pode ver porque é tão erra­
do ignorar as diferenças entre os Evangelhos ou tentar m inim izá-las. Em vez
disso, devem os concentrar nossa atenção nessas distinções e procurar com ­
preender o que cada escritor está tentando nos contar.
H istória ou teologia? Esta é um a pergunta falsa. Os escritores dos evan­
gelhos são tanto historiadores quanto teólogos. Eles recontam os fatos, mas
tam bém os interpretam para que nós possam os crer.
“Ensinava-Lhes Muitas Coisas por Parábolas”
Talvez a característica mais distintiva dos métodos de ensino de Jesus era o
seu uso de parábolas.61 (Veja o capítulo 5, sob “Figuras de Com paração”). Há
algum as razões óbvias pelas quais ele pode ter escolhido essa form a de ins­
trução. Parábolas são simples e interessantes, de modo que um público geral
podia seguir a história facilm ente. O que é mais im portante, essas histórias
tratam diretam ente das realidades da vida diária. Assim, um ouvinte podia se
“identificar” rapidam ente com o conteúdo da parábola e, assim, com preender
sua relevância. Além disso, as parábolas têm a vantagem de desarm ar aqueles
que possam ofender-se com sua mensagem, visto que o ouvinte freqüentem ente
tem que esperar até o último m om ento da história para descobrir seu signifi­
cado (cf. esp. a parábola de Natã ao Rei Davi em 2Sm 12.1-10).
Há um a im portante m edida de verdade em todas essas explicações, mas
surge um sério problem a. Se as parábolas de Jesus são tão sim ples, por que há
tantos debates acalorados sobre seu significado? A literatura erudita m oderna
sobre o assunto é im pressionante. Em bora seja tentador culpar os próprios
estudiosos, que não deixam as parábolas em paz, a verdade é que até m esm o
61 A presentar um a definição precisa d e p a rá b o la não é fácil, visto que o term o po d eria ser usado de
m aneira m uito abrangen te para qualquer tipo de com paração. A m aior parte dos leitores d a B í­
blia, todavia, tem um a definição satisfatória do term o com o referindo-se às bem conhecidas
histórias de Jesus. Isso é bom o suficiente para os propósitos deste capítulo.
os discípulos de Jesus algum as vezes ficavam intrigados pelas histórias de
seu m estre (Mc 4.13). Cristãos m odernos tam bém coçam a cabeça de vez em
quando, im aginando, por exemplo, como Jesus podia elogiar o com porta­
m ento desonesto do adm inistrador infiel (Lc 16.1-15). Não era sim plesm ente
injusto para um em pregador pagar a m esm a quantia a todos os trabalhadores,
sem considerar quantas horas eles haviam trabalhado (M t 20.1-16)?
Em resum o, precisam os de tanta “habilidade herm enêutica” para enten­
der as parábolas quanto precisam os para com preender outras partes das E s­
crituras. A lém disso, o uso que Jesus fez das parábolas reflete certas preocu­
pações teológicas que não podem ser ignoradas.
O SIGNIFICADO TEOLÓGICO DAS PARÁBOLAS
Em resposta à pergunta dos discípulos sobre a parábola do semeador, Jesus
fez um a declaração que está entre as mais difíceis registradas nos Evange­
lhos: “A vós outros vos é dado o conhecer o m istério do reino de Deus; mas,
aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e
não percebam ; e, ouvindo, ouçam e não entendam ; para que não venham a
converter-se, e haja perdão para eles” (Mc 4.11,12, citando Is 6.9,10). Jesus
parece estar dizendo que seu propósito em usar parábolas com aqueles que
não pertencem ao seu grupo de discípulos era o m esm o propósito (punição)
por detrás do cham ado de Isaías: endurecer os ouvintes em sua descrença.
M uitos estudiosos da Bíblia acham difícil acreditar nessa declaração
por um a razão: parece incom patível com o desejo e a m issão de Jesus em
buscar e salvar o perdido. Além disso, alguém poderia argum entar que assim
com o não faz sentido para Deus enviar Isaías para fazer e dizer exatam ente
aquilo que irá garantir o fracasso em seu m inistério, assim tam bém ninguém
pode im aginar que Jesus iria intencionalm ente prejudicar sua própria prega­
ção do evangelho! Tem-se buscado, portanto, am enizar ou até m esm o expli­
car satisfatoriam ente o sentido aparente das palavras de Jesus.
É im portante observar que, mesmo no caso do cham ado de Deus a Isaías,
aceitar essas palavras não im plica caracterizar todo o m inistério de Isaías
nesses termos. O profeta disse muitas coisas que tiveram outras funções ou
propósitos. Sem elhantem ente, não se deve inferir que as palavras em M arcos
4.11,12 descrevem a razão exclusiva para o uso que Jesus fez das parábolas.
As outras razões possíveis m encionadas no com eço desta seção - sim plicida­
de, solidez, e assim por diante - continuam sendo válidas se entendidas no
contexto mais amplo da m issão de Jesus.
Qual era essa m issão? Quando Jesus era apenas um bebê, um hom em
justo cham ado Sim eão declarou que a criança era “destinada a causar tanto a
ruína quanto o levantam ento de muitos em Israel (Lc 2.34). Em outras pala­
vras, Cristo é tanto a pedra angular (Mt 21.42-44) quanto uma pedra de trope­
ço (Rm 9.32,33); ele é fragrânçia de vida para aqueles que crêem e o cheiro
de m orte para aqueles que o rejeitam (2Co 2.14-16). No estágio do m inistério
de Jesus em que ele contou a parábola do semeador, as pessoas já haviam “se
posicionado” . No capítulo 3 de M arcos, somos inform ados de que alguns dos
fariseus, irados com a cura que Jesus havia realizado no sábado, com eçaram
a tram ar sua m orte (v. 6). Oujxos m estres da lei o acusaram de expulsar dem ô­
nios pelo poder de Satanás (v. 22). Em reação a esses grupos que o rejeita­
vam, Jesus disse: “Qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é m eu irmão,
irm ã e m ãe” (v. 35).
Nesse contexto, podem os ver que as parábolas cum prem o propósito de
discrim inar entre aqueles que ouviam Jesus. Certam ente, essas histórias não
“criam pecado” no coração das pessoas inocentes! Ao contrário, as parábolas,
quando endereçadas àqueles que haviam se posicionado contra o Senhor, tor­
navam -se instrum entos de julgam ento. Assim, “ ... ao que tem se lhe dará; e,
ao que não tem , até o que tem lhe será tirado” (Mc 4.25). Q ualquer tentativa
de interpretar as parábolas sem levar em consideração esse fator pecará ao
não fazer justiça ao ensino de Jesus.
Há outro ponto teológico a ser considerado com respeito ao uso que
Jesus fazia das parábolas. De acordo com M ateus 13.35, esse m étodo de ensi­
no era o cum prim ento de uma profecia.62 A profecia em vista é: “Abrirei em
parábolas a m inha boca; publicarei coisas ocultas desde a criação [do m un­
do]” (citando o SI 78.2). O ponto principal parece ser que as parábolas de
Jesus cum prem o plano eterno de Deus em revelar sua verdade ao seu povo.
Em segundo lugar, todavia, essas palavras sugerem um relacionam ento pró­
xim o entre a criação e a redenção. As verdades de Deus são, com o que
“construídas dentro” da ordem criada. Jesus não olha acidentalm ente para a
natureza esperando encontrar ilustrações interessantes! Com o aquele que é
tanto Criador quanto Salvador, ele pode sim plesm ente extrair da ordem cria­
da esses paralelos que nos ajudam a entender seus propósitos.63
O CONTEXTO HISTÓRICO DAS PARÁBOLAS
U m estudioso proem inente argum entou corretam ente que Jesus usava as p a­
rábolas como “arm as” contra seus oponentes.64 O ponto aqui é que as parábo­
las devem ser entendidas historicam ente, isto é, identificando-se as situações
específicas em que elas foram usadas.
62 É preciso lem brar que a palavra profecia não deve sim plesm ente ser identificada com o predição.
P articularm ente no evangelho de M ateus, a noção do cum prim ento profético tem um a extensão
bastante am pla, que inclui não apenas a realização de um a predição m as tam bém idéias com o a
o utorga de um a prom essa e a conclusão dos planos de Deus.
63 E sta idéia é resum idam ente sugerida por G eerhardus Vos, B ib lica l Theology: O ld a n d N ew
Testam ents (G rand Rapids: E erdm ans, 1948), p. 380.
64 Joachim Jerem ias, The P arables o f Jesus, ed. rev. (N ova York: Scribners, 1963).
A parábola do filho pródigo em Lucas 15, por exemplo, tem sido lida
tradicionalm ente com o um a passagem evangelística. Pregadores, com o regra
geral, concentram -se na m aldade do filho e no seu arrependim ento e, desse
modo, exortam suas congregações a se converterem. Esse é um em prego com ­
pletam ente legítim o da parábola, mas podem os obter um a reflexão mais pro­
funda de sua m ensagem , se observarm os que Lucas nos conta especificam en­
te qual era o contexto histórico em que Jesus contou essa história. No início
do capítulo ele revela: “Aproxim avam -se de Jesus todos os publicanos e peca­
dores para o ouvir. E m urm uravam os fariseus e os escribas, dizendo: ‘Este
recebe pecadores e come com eles’” (vs. 1-2). Jesus então passa a contar três
parábolas - a ovelha perdida, a dracm a perdida e o filho (pródigo) perdido àqueles que estavam murm urando.
E m bora a conversão dos fariseus e dos mestres naturalm ente fosse parte
do objetivo ao contar aquelas parábolas, fica claro que Jesus estava usando
essas histórias principalm ente para repreendê-los. O hom em que perde uma
ovelha, m esm o se ela for uma em cem, experim enta grande alegria quando a
encontra; certam ente a m ulher que perde uma entre dez valiosas m oedas fica­
rá ainda mais entusiasm ada se a encontrar. Ainda assim os fariseus reclam am
em vez de se alegrarem quando um pecador é “achado” . A parábola do filho
perdido funciona, então, com o um poderoso clímax. Essa história é m ais lon­
ga, e inclui detalhes m uito m aiores, mas o ponto a ser apreciado é o papel do
filho mais velho, cujo único irm ão - não um em cem ou m esm o um em dez tinha se perdido. Esse irm ão mais velho representa os queixosos fariseus, que
pareciam incapazes de com partilhar a alegria de Deus e dos anjos no céu.
A atenção ao contexto histórico tam bém inclui sensibilidade para com o
pano de fundo cultural das parábolas. Os leitores ocidentais no século 20 têm
seu próprio conjunto de im pressões, que nem sempre correspondem àquelas
dos ouvintes de Jesus. A tendência a perderm os algum as das nuanças é inevi­
tável.65 Por exemplo, o pedido do filho - “D á-m e a parte dos bens que me
cabe” - poderia provavelm ente ser interpretado como um desejo pela m orte
de seu pai. De qualquer form a, o incidente criaria um rom pim ento entre o
filho e sua fam ília (e até m esm o a cidade como um todo) m uito mais severo
do que seria o caso se as mesmas palavras fossem ditas em nossa sociedade.
O utro detalhe interessante é o fato de que era de esperar que o irm ão
mais velho, naquela situação, fizesse de tudo para reconciliar seu irm ão com
o pai. Não apenas ele deixa de fazê-lo, mas até m esm o aceita sua própria
parte da herança. Em outras palavras, desde o com eço da história o irmão
m ais velho é colocado sob um a luz negativa. Na realidade, ele com partilha do
65 Para o que se segue, veja K enneth F. Bailey, Poet a n d Peasant: A L iterary C ultural A p p ro a ch to
the P arables o fL u k e (G rand Rapids: E erdm ans, 1976), cap. 7.
pecado de seu irm ão, e isso nos dá um a perspectiva m elhor com a qual pode­
mos entender sua indignação egoísta no final da história.
Finalm ente, quando lemos acerca do pai correndo para se encontrar com
o filho m ais jovem , vemos isso apenas com o um a expressão de alegria. No
O riente M édio, todavia, particularm ente em áreas rurais, espera-se que um
hom em m aduro sempre ande devagar e com dignidade. E provável que o pai
na parábola corra para proteger o seu filho das crianças da cidade, que pode­
riam decidir atingi-lo com pedras. Ao fazê-lo, todavia, o pai hum ilha-se a si
m esm o e torna-se um a poderosa figura do Deus da graça.
Em bora o sentido prim ário da parábola não mude com base nesses deta­
lhes culturais, eles nos trazem um a reflexão dentro dos “aspectos ocultos” da
história que acrescentam m uito à nossa com preensão do ensino de Jesus.
O CONTEXTO LITERÁRIO DAS PARÁBOLAS
O contexto histórico, porém , não é a única questão que requer atenção. Com o
vimos, os escritores bíblicos não estavam interessados em com por narrativas
neutras, isoladas. Em lugar disso, apresentam acontecim entos históricos de
um ângulo particular; ao fazê-lo, eles interpretam os acontecim entos para
nós. Quando estudam os as parábolas, portanto, precisam os nos interessar não
apenas pela sua função durante o m inistério de Jesus mas tam bém pela m a­
neira com o elas são usadas pelos autores dos evangelhos. Sob inspiração divi­
na, eles aplicam o ensino de Jesus sobre a situação posterior das igrejas cris­
tãs. U m estudo cuidadoso dessa característica lança luz sobre com o nós tam ­
bém podem os usar as parábolas.
M ateus, em particular, organizou seu m aterial de m aneira tem ática e
parece ter feito um esforço especial para aplicar as palavras de Jesus à igreja
ou igrejas para os quais ele estava escrevendo. E evidente, por exem plo, que
M ateus se preocupa com a falta de com prom isso genuíno entre alguns grupos
cristãos, e assim o tem a do verdadeiro contra o falso discipulado torna-se
um a ênfase m aior de seu evangelho.
Considere a parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16). Não é
difícil entender essa parábola à luz de seu contexto histórico, com o discutido
na seção prévia. Essa história tam bém é um a arm a com a qual Jesus repreen­
de seus oponentes por se queixarem da graça de Deus sobre os pecadores. Na
parábola, os trabalhadores que chegam no final do dia e trabalham apenas por
um breve período no frescor da noite recebem o m esm o pagam ento que aque­
les que trabalharam o dia todo e tiveram que suportar o calor do dia. De
m aneira não surpreendente, os últim os ficam ofendidos e reclam am . Porém o
dono estava sim plesm ente sendo generoso. Sem dúvida ele sabia que nenhum
hom em podia alim entar uma fam ília com uma pequena fração de um salário
diário, e assim ele é gracioso para com o grupo que trabalhou por um período
curto. Essa parábola, então, assem elha-se fortem ente ao ponto principal da
parábola do filho pródigo.
M ateus, porém , a aplica à igreja cristã pelo modo como ele introduz a
história no contexto do evangelho com o um todo. Recordam os que, ao final
do capítulo 19, ele havia relatado o incidente do jovem rico, um hom em que
pensava que era bom o suficiente para herdar o reino dos céus. Q uando Jesus
o fez perceber que isso não era verdade, ele se foi desapontado, e o Senhor
com entou sobre a im possibilidade da salvação por meios hum anos. Nesse
ponto, Pedro expressou seu com prom isso com o discipulado, e Jesus respon­
deu que os verdadeiros discípulos receberão muitas bênçãos e herdarão a vida
eterna. Ele então term inou dizendo: “Porém muitos prim eiros serão últimos;
e os últim os, prim eiros” (v. 30).
Ao colocar a parábola dos trabalhadores im ediatam ente após esse inci­
dente e repetir as palavras de 19.30 no final da parábola,66 é com o se M ateus
estivesse dizendo aos seus leitores cristãos:
Não se sintam por demais confortáveis quando lerem sobre a repreen­
são de Jesus aos fariseus. Os mesmos problemas que Jesus teve de
enfrentar estão presentes em nossas congregações. Há alguns de vocês
que não entendem o que é a graça e o discipulado. Pensam que porque
vocês se consideram “cristãos” não têm mais nada com que se preocu­
par, e em lugar disso menosprezam outros que não parecem tão bons
quanto vocês. Bem, lembrem-se de que alguns de vocês que parecem
ocupar os primeiros lugares terminarão no final, e àqueles que são con­
siderados humildes e indignos serão dados lugares de honra.
Em resum o, o estudo cuidadoso das parábolas envolve não apenas vêlas no contexto histórico do m inistério de Jesus, mas tam bém entender como
elas funcionam na narrativa de cada evangelho. Não deveríam os tratar os es­
critores do evangelho como jornalistas que deveriam ter tentado evitar inter­
pretar os fatos que relatam . Em lugar disso, eles eram teólogos inspirados e
m estres cujo própria apresentação da obra de Jesus é uma chave essencial em
nossa apreciação do texto bíblico.
Ele os ensinou com autoridade
Em bora o uso das parábolas fosse a característica mais distinta no m étodo de
ensino de Jesus, dificilm ente é a única. U m a das descrições mais surpreen­
dentes do m inistério de Jesus é o com entário: “M aravilhavam -se da sua dou­
“ É naturalm ente im possível provar que Jesus m esm o não usou esta expressão após a p arábola, m as
um estudo cuidadoso do m étodo de com posição de M ateus tem persuadido a m aioria dos eru d i­
tos de que esta é parte da técnica em pregada pelo évangelista. N ovam ente, não se deve pensar
que um m étodo desses resulte em erro ou desonestidade. Sob inspiração divina, M ateus está
tornando claro a seus leitores o significado da parábola.
trina, porque os ensinava como. quem tem autoridade e não como os escribas”
(Mc 1.22; cf. M t 7.28,29). Para a m aioria dos leitores dos Evangelhos, esse
verso parece falar do poder da personalidade divina de Jesus. Sem dúvida,
esta é parte da explicação para a reação do público. O próprio M arcos em
vários pontos cham a a atenção para a adm iração que o Senhor inspirava na­
queles que estavam ao seu rpdor (Mc 4.41; 5.15; 10.32; 16.8), e talvez o clí­
m ax no evangelho seja a reação do centurião ao testem unhar a m orte de Je­
sus: “Verdadeiram ente, este hom em era o Filho de D eus!” (15.39).
Apesar disso, é im portante observar que, ao falar da autoridade de Jesus,
M arcos contrasta o ensino do Senhor com aquele dos “escribas” . Em outras
palavras, não era tanto porque o ensino de Jesus era mais poderoso do que
aquele dos mestres hum anos em geral; o contraste é especificam ente com os
rabinos e escribas judeus, que estavam mais associados com a escola dos
fariseus. Qual é, então, o foco da com paração? Parte do interesse pode ter
sido sim plesm ente o estilo de ensino. A literatura rabínica (em bora date de
um período posterior) nos dá algum a idéia da abordagem usada pelos rabinos
do século I o. Grande parte dela consistia em debater as opiniões dos princi­
pais sábios, algum as vezes sem uma clara resolução. O bviam ente, a aborda­
gem de Jesus era bem diferente, e isso deve ter sido suficiente para causar
um a forte im pressão naqueles que o ouviam.
Porém , não apenas o estilo de ensino de Jesus era diferente, mas a pró­
pria substância de sua m ensagem . Aqui torna-se claro, mais um a vez, o valor
de se com preender o pano de fundo histórico. U m a definição m uitas vezes
provém da negação; ou seja, somos mais capazes de identificar objetos se
puderm os distingui-los de outros objetos com os quais estam os fam iliariza­
dos. E precisam ente isso que M arcos está fazendo quando nos fala que Jesus
não ensinava com o os escribas. Para dar sentido ao que M arcos quer dizer,
entretanto, precisam os estar fam iliarizados com o ensino dos escribas.
Em décadas recentes, pesquisas acadêm icas têm trazido algum as m u­
danças significativas para a nossa com preensão do pensam ento judaico do
século I o. Fica claro agora, por exem plo, que não podem os sim plesm ente
dispensar a teologia rabínica com o um “sistem a legalista” que ignorava total­
m ente a doutrina da graça divina.67 M uito da literatura judaica existente re­
flete uma com preensão genuína, senão com pleta, dessa doutrina. C om etería­
mos um penoso erro, porém , se concluíssem os que o “legalism o” não foi de
67 E m bora vários escritores na p rim eira m etade do século 20 tiveram o cuidado de desenvolver este
ponto, a o bra m ais influente é a de E. P. Sanders, Paul a n d Palestinian Judaism : A C om parison
o fP a tte r n s o fR e lig io n (Filadélfia: F ortress, 1977). Para m ais detalhes sobre o m aterial que se­
gue, ver m eu artigo “T h e P lace of H istorical R econstruction in N ew T estam ent C riticism ” , em
H erm eneutics, A uthority, and C anon, org. por D. A. C arson e J. W. W oodbridge (G rand R apids:
Z ondervan, 1986), pp. 109-33, esp. pp. 117-21.
m aneira algum a um problem a para o judaísm o do século Io. Uso aspas por­
que o term o significa coisas diferentes para pessoas diferentes. A questão
aqui não é se os fariseus eram “rigorosos dem ais” (com o verem os, eles não
eram rigorosos o suficiente!) ou se eles estavam preocupados dem ais com
questões da lei. Qual era, então, o problem a?
N osso Senhor tratou a questão central mais diretam ente no incidente
registrado em M arcos 7.1-13 (cf. M t 15.1-7), que nos conta que os fariseus
reclam avam quando os discípulos de Jesus deixavam de observar o rito ceri­
m onial de purificar suas mãos antes de comer. Esse rito, todavia, não era uma
injunção bíblica, mas sim parte da “tradição de anciãos” (v. 5; cf. G1 1.14).
Uma característica básica do pensam ento rabínico é a ênfase na dupla Torá: a
lei escrita (a Bíblia Hebraica, especialm ente os cinco livros de M oisés) e a lei
oral (as tradições dos anciãos). A lei oral poderia ser vista até certo ponto
com o um a interpretação e aplicação da lei escrita; ainda assim m uito dela
consistia de debates que tratavam de questões legais técnicas, o que levou ao
desenvolvim ento de novas regulam entações.
Ironicam ente, muitas dessas regulam entações tiveram o efeito de em bo­
tar a força dos m andam entos bíblicos. Os fariseus, m uito conscientes da fra­
queza hum ana, procuravam interpretar as exigências rígidas da Torá de m a­
neira a torná-las, de fato, mais “cum príveis” . Por exemplo, a lei exigia que
todos os débitos deveriam ser cancelados todo sétimo ano (Dt 15.1-3); a natu­
reza hum ana sendo o que é, aqueles que tinham meios para em prestar dinhei­
ro ficavam relutantes em fazê-lo, tem endo que não pudessem recuperá-lo.
Com o resultado, o pobre sofria. Com vistas à resolução desse problem a, uma
regulam entação foi adotada que interpretava a lei com o algo que se aplicava
som ente a em préstim os pessoais. Se o em préstim o fosse dado para o tem plo,
porém , a fim de que os sacerdotes pudessem distribuí-lo entre os pobres, en­
tão o recebedor continuaria a ter o direito de recebê-lo só m esm o no sétimo
ano. (U m a regulam entação com parável, a de C orbã, é m encionada em
M c 7.10-12). Em bora esse tipo de regra zom basse da lei (ver especialm ente a
grave advertência em Dt 15.9,10), as pessoas convenciam -se de que agora
estavam obedecendo à lei e desse m odo, com o dizem os hoje em dia, podiam
“sentir-se m elhor consigo m esm as” .
Jesus, porém, tinha muito pouca paciência com esse tipo de hermenêutica.
Citando a condenação de Isaías com respeito à hipocrisia, ele acusou os fariseus
de anular os m andam entos de D eus por interm édio da tradição hum ana
(Mc 7.6-9, 13). De fato, o ensino dos escribas m inava a autoridade da Palavra
de Deus. Essa crítica é especialm ente evidente no Serm ão do M onte, onde
Jesus introduz diversos ensinam entos seus com as palavras: “Ouvístes que foi
dito... eu, porém , vos digo” (M t 5.21ss). E curioso que m uitos leitores pen­
sem que Jesus está aqui se distanciando de, ou m esm o abolindo, os m anda­
m entos do A ntigo Testamento. M uito pelo contrário. Ele veio não para abolir
esses m andam entos, mas para os cum prir (5.17); seu próprio ensino clara­
m ente intensificou a força desses m andam entos, diretam ente contra a tendên­
cia rabínica de relaxá-los. Ele deixa essa posição absolutam ente explícita tan­
to no início quanto no fim da passagem : “Porque vos digo que, se a vossa
justiça não exceder em m uito a dos escribas e fariseus, jam ais entrareis no
reino dos céus” (5.20). “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso
Pai celeste” (5.48).
Essa declaração conclusiva deixa m uito claro que o foco da controvérsia
era entre Jesus e os rabinos. Ao contrário da tendência rabínica de relaxar o
padrão divino, os discípulos de Jesus nunca podem ficar satisfeitos com m e­
nos que a perfeição. Isso significa que os verdadeiros discípulos de Jesus
estão sem pre conscientes de seu pecado, e assim aprendem a depender não de
sua própria força moral mas da graça de Deus, orando como o coletor de
impostos: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (Lc 18.13). Se definirm os
“legalism o” como uma perspectiva que vê as pessoas com o m oralm ente autosuficientes, e deste modo de algum a form a contribuindo para sua própria sal­
vação, reconhecerem os que todos nós - até m esm o o mais m aduro dos cris­
tãos - m uitas vezes caím os vítimas disso. Também podem os ver com o esta
tendência hum ana teria sido grandem ente exacerbada por um sistem a de in­
terpretação que, com efeito, dim inuísse as exigências divinas e influenciasse
pessoas a se sentirem autocom placentes. Q uaisquer que sejam as intenções,
um a perspectiva com o essa pode servir somente para obscurecer as riquezas
da graça de Deus.
O Serm ão do M onte, porém , cham a nossa atenção para outra diferença
crucial entre o ensino de Jesus e aquele dos escribas. Na opinião de alguns
estudiosos, o capítulo 5 de M ateus apresenta Jesus com o um novo M oisés
que, de um a m ontanha, entrega a lei do reino para o seu povo. Na realidade, o
período m osaico está term inado e um a nova era começou. Sem forçar demais
este paralelo, devemos reconhecer que o Sermão do M onte reflete um ponto
de vista escatológico (de “final dos tem pos”). M esm o as bem -aventuranças
que introduzem essa passagem criam uma expectativa sobre a novidade da
obra de Jesus. Conform e já vimos, nessa passagem o Senhor explicitam ente
descreve o propósito de sua vinda com o tendo o objetivo de cum prir a lei e os
profetas (5.17). Por essa razão, todo o evangelho de M ateus parece estar
estruturado em torno desse tem a, visto que vezes seguidas o autor aponta para
os acontecim entos na vida de Jesus que ocorreram a fim de cum prir o que
havia sido profetizado nas Escrituras (1.22; 2.15, 17, 23; 4.14; etc.).
No início de seu m inistério, Jesus indicou essa natureza escatológica de
sua vinda com as palavras: “O tem po está cumprido, e o reino de Deus está
próxim o; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). Lucas, que coloca
grande ênfase sobre este tema, introduz o m inistério público de Jesus relatan­
do a visita à sinagoga em Nazaré (Lc 4.14-21). Ali Jesus anunciou que tinha
vindo para cum prir a prom essa de Isaías 61.1,2:
O Espírito do Senhor está sobre mim,
pelo que me ungiu para evangelizar os pobres;
enviou-me para proclamar libertação aos cativos
e restauração e vista aos cegos,
para pôr em liberdade os oprimidos,
e apregoar o ano aceitável do Setihor (Lc 4.18,19).
A presença do Espírito, que Jesus recebeu em seu batism o (cf, Lucas 3.21,22,
em cum prim ento de Is 42.1), era o claro sinal de que os últimos dias haviam ,
de fato, chegado. Os milagres de Jesus, particularm ente seus exorcismos, eram
por sua vez a evidência de que ele havia sido revestido do Espírito Santo: “Se,
porém , eu expulso dem ônios pelo Espírito de Deus, certam ente é chegado o
reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28).
O evangelho de João, m ais do que qualquer outro, extrai o significado
desta “escatologia realizada” para a vida dos crentes. Fazendo referência à
profecia do fim dos tem pos de Ezequiel 36.24-27, João relata as palavras de
Jesus a Nicodemos: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar
no reino de D eus” (Jo 3.5). Num sentido importante, é com o se os seguidores
de Jesus tivessem experim entado a ressurreição, m esm o que a ressurreição
final seja ainda futura: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a m i­
nha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em
juízo, mas passou da m orte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que
vem a hora e já chegou, em que os m ortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e
os que a ouvirem viverão” (Jo 5.24,25, mas cf. vs. 28,29).
Este ensino - os crentes já com eçaram a desfrutar da era final m esm o
que ela ainda não tenha se m anifestado por com pleto - é expressado bela­
m ente no Discurso do Cenáculo. Em João 14.2, Jesus prom ete a seus discípu­
los que irá preparar um lugar para eles na casa de seu Pai, onde há muitos
quartos (a palavra grega aqui para “quarto” é m one). Isso parece ser um a
prom essa relativa ao céu no futuro. Porém, depois que ele lhes assegura que,
em sua partida, o Pai enviará o Espírito Santo sobre eles, acrescenta: “Se
alguém me ama, guardará a m inha palavra; e meu Pai o amará, e virem os para
ele e faremos nele m orada [m one]” (v. 23). Pelo fato de ele nos oferecer seu
Espírito (ver 7.37-39), podem os desfrutar sua própria presença em nossa vida.
A antiga era sob a lei de M oisés term inou; a graça e a verdade agora reinam
sobre aqueles que colocam sua confiança em Jesus.
Verdadeiram ente Jesus “os ensinava com o quem tem autoridade e não
com o os escribas” !
Conclusão
Este capítulo tocou apenas em umas poucas questões que precisam ser leva­
das em consideração, se desejam os entender os Evangelhos. Certas aborda­
gens técnicas, tais como o estudo das fontes literárias, levantam outros assun­
tos im portantes que não podem ser ignorados em um exam e mais m inucioso
desses docum entos. Tenha em m ente, porém , que é m uito fácil perder-se em
detalhes. N unca se esqueça da “perspectiva geral” . Os princípios discutidos
neste capítulo ajudarão a m anter um a estrutura que lhe perm itirá ler os Evan­
gelhos de m aneira responsável e proveitosa.
Apesar de as epístolas do Novo Testam ento não serem um a
“correspondência pessoal” no sentido mais freqüente, podem os
facilm ente com preendê-las incorretam ente a m enos que as trate­
mos com o cartas reais e históricas (em vez de livros de teologia).
Em term os práticos isso significa, em prim eiro lugar, que deve­
mos ler cada carta do Novo Testam ento com o um todo; nossa
tendência a tratá-las como livros de referência dos quais se con­
sulta apenas um trecho de cada vez distorce nossa percepção de
sua m ensagem . Em segundo lugar, esses escritos surgiram de
ocasiões históricas reais, o que significa que devemos aprender a
ler “nas entrelinhas” de modo a entender o texto dentro do seu
contexto original. Em terceiro lugar, devemos aprender a tratar
as cartas do Novo Testam ento do ponto de vista literário, isto é,
reconhecendo que são docum entos pensados e que podem refle­
tir m étodos retóricos usados na antigüidade. Em quarto lugar,
esses escritos devem ser lidos teologicam ente; ao m esm o tem po
em que somos sensíveis à diversidade que eles representam , de­
vemos procurar apreciar suas características unificadoras, espe­
cialm ente a convicção dos autores de que os últimos dias haviam
chegado com a vinda de Cristo. Por fim, não podem os nos esque­
cer que as epístolas do Novo Testam ento são escritos investidos
de autoridade e, portanto, seu caráter histórico não diminui sua
relevância para nossa vida.
CAPÍTULO 7
Como Ler uma Carta
O SENTIDO DAS EPÍSTOLAS
M o is é s S ilva
Há mais de meio século, um filósofo americano interessado especificam ente
nos desafios do ensino superior chegou à conclusão de que os estudantes preci­
savam de ajuda para captar o sentido dos livros. E o que era verdadeiro acerca
dos estudantes também se aplicava em mesmo grau às pessoas em geral. Con­
seqüentemente, ele publicou um volume intitulado How to Read a Book (Como
ler um livro).68 Em bora alguns se admirem de alguém que ainda não saiba ler
um livro pudesse ler esse, o volume tornou-se um sucesso instantâneo.
N ão é de surpreender que a habilidade de decifrar um alfabeto e identi­
ficar palavras - e até m esm o ser capaz de captar o sentido de sentenças e
parágrafos - é apenas um passo preparatório para a leitura “real” . Diferentes
tipos de livros requerem diferentes estratégias de leitura, quer estejam os ou
não conscientes do uso de tais estratégias. Todos nós podem os m elhorar nos­
sas habilidades enquanto buscam os ler obras desafiadoras com mais eficiên­
cia e precisão.
O título deste capítulo, porém , pode causar algum espanto. Q ual p o d e­
ria ser a dificuldade de ler correspondência pessoal? A final, se há algum
tipo de escrita que pode ser lida por quase qualquer um, m esm o por pessoas
de nível prim ário, é um a carta de um am igo. Este capítulo é necessário,
porém , justam ente porque a m aioria de nós não lê 1 C oríntios ou Tiago
com o se fossem cartas.
68 M ortim er J. A dler, H ow to R ea d a B ook: The A rt o fG e ttin g a L iberal E ducation (1940; ed. rev.
N ova York: Sim on & Schuster, 1972). A edição atual não tem m ais o subtítulo.
D izer essas coisas, entretanto, é levantar a questão do gênero literário. Ê
m esm o necessário sugerir que as cartas de Paulo, por exemplo, são apenas
com o cartas pessoais m odernas? O fato de que algum as vezes nos referim os a
elas com o epístolas (o que sugere docum entos relativam ente longos e for­
mais) é um a indicação da diferença. Estudiosos têm discutido esta questão
exaustivam ente. No passado alguns pensavam que as cartas de Paulo deviam
ser tratadas com o as epístolas de escritores latinos com o Cícero e Sêneca, ou
seja, com o docum entos cuidadosam ente elaborados com a intenção de ser
lidos com o obras literárias. Esse ponto de vista foi, de modo geral, abandona­
do. Não há nenhum a boa razão para pensar que Paulo teve quaisquer preten­
sões literárias quando escreveu esses documentos.
É igualm ente claro, porém , que não são sim plesm ente cartas “pessoais” .
Em bora algum as poucas cartas de Paulo tenham sido escritas para indivíduos
(1-2 Tim óteo, Tito, e especialm ente Filem om ), até m esm o estas vão muito
além de assuntos pessoais. Assim com o nas outras cartas, os com entários
pessoais desem penham um papel secundário e o tom geral é form al. Algum as
delas contêm argum entação im plícita e até m esm o m ostram o uso de técnicas
de retórica. Finalm ente, o mais fundam ental é que elas foram escritas com
um tom de autoridade apostólica que dá a elas um caráter único.
Porém , por m ais im portantes que sejam essas características, não devem
obscurecer o que é essencial acerca desses docum entos do Novo Testamento:
eles não foram originalm ente escritos como os livros m odernos publicados
para grandes públicos - m ilhares de leitores que o autor nunca encontrou;
eram , sim, cartas autênticas em que os autores, sob inspiração divina, deram
instrução direta a uma igreja específica ou a um grupo de igrejas. (M esmo
aquelas que têm um caráter mais pessoal parecem dirigir-se à igreja da qual o
recipiente era um líder). N a sabedoria e providência de Deus, os cristãos de
todas as partes e de todos os tem pos podem beneficiar-se dessas cartas como
a Palavra de Deus para eles tam bém. Se desejam os usá-las com responsabili­
dade, porém , precisam os respeitar seu caráter. Com o observado no capítulo
anterior, ler um relato histórico como se fosse uma poesia (ou vice-versa) é
um a in justiça para com o escrito e leva a um a com preensão incorreta.
Sem elhantem ente, ler um a das cartas de Paulo, como se fosse um livro técni­
co de referência ou um livro didático de sem inário de teologia, pode nos en­
veredar pelo cam inho interpretativo errado.
Lendo as Cartas do Novo Testamento por Inteiro
Talvez o aspecto mais óbvio ao ler uma carta é aquele que ignoram os mais
facilm ente quando lemos as epístolas do Novo Testamento. Todos nós, ao
receber um a carta de um conhecido, procuram os lê-la inteira de uma sentada
(geralm ente nem m esm o esperamos para nos sentar!). Em parte por causa das
divisões em capítulos e versículos de nossas Bíblias m odernas, os cristãos
raram ente dedicam o tem po necessário para ler toda um a epístola. Na reali­
dade, podem os nos sentir m erecedores de um tapinha nas costas se conseguir­
mos term inar a leitura de um capítulo inteiro.
O que pensar de um hom em que recebe um a carta de cinco páginas de
sua noiva na segunda-feira e decide ler apenas a terceira página naquele dia, a
última página na quinta, a prim eira página duas semanas depois, e assim por
diante? Sabemos que ler um a carta de m aneira tão fragm entada provavelm en­
te não traz nada além de confusão. O sentido de um parágrafo na terceira
página pode depender grandem ente de algo dito no com eço da carta - ou seu
real sentido pode não ficar aparente até que a próxim a página seja lida. Q uan­
to mais bem redigida a carta, m ais arriscado seria dividi-la arbitrariam ente
em segmentos. Além disso, parte do sentido de um docum ento é o im pacto
total que provoca no leitor, e esse sentido, com freqüência é m ais do que a
soma de suas partes.
O utra m aneira de afirm ar esses pontos é dizer que seções específicas
em um a carta do Novo Testam ento devem ser lidas no contexto. Com o vi­
mos antes, a interpretação contextual é um dos princípios básicos a ser lem ­
brados quando buscam os com preender o que as pessoas dizem e escrevem .
Ironicam ente, m uitos leitores costum am ignorar este princípio justam ente
quando m ais precisam dele, isto é, quando estão tentando dar sentido a um a
passagem difícil.
U m bom exem plo disso é Hebreus 6.4-6, que parece ensinar que os cris­
tãos podem perder a fé e que, se isso acontecer, eles não podem ser restaura­
dos novam ente. Ao se concentrarem nesses versos de m aneira isolada do res­
to do livro, os leitores podem criar um bom núm ero de interpretações, sendo
que todas são defensáveis de um jeito ou de outro: (1) cristãos podem, de fato,
perder sua salvação perm anentem ente; (2) cristãos podem perder sua salva­
ção, mas a restauração é possível; (3) os cristãos podem perder seus galardões,
mas não a sua salvação; (4) a passagem fala de pessoas que são apenas cris­
tãos professos, mas não verdadeiram ente regenerados; (5) a passagem é pura­
m ente hipotética; (6) a passagem não lida realrpente com a salvação pessoal
mas com questões cristãs-judaicas mais amplas. E assim por diante.
Com o desejam os ilustrar somente um princípio de interpretação, não
nos preocupem os por enquanto com qual dessas com preensões está correta;
pensem os em com o abordar o problem a. E justo dizer que a m aioria dos cris­
tãos que se vêem desnorteados com essa passagem tem apenas um a vaga
idéia de qual seja o propósito geral de Hebreus, e m esm o aqueles que tentam
ler o livro com algum cuidado geralm ente acabam um tanto confusos. Porque
esse assunto não é fam iliar a nós, acham os Hebreus um a epístola difícil de
entender. Com o resultado, tentamos dar sentido a 6.4-6 - uma passagem muito
difícil em um livro difícil - ignorando seu contexto, m esm o que seja exata­
m ente o tipo de passagem que exige atenção especial para o contexto!
Deveríam os ler com pletam ente toda a epístola diversas vezes, talvez em
diferentes versões, até que nos tornem os bastante fam iliarizados com seu con­
teúdo, seus interesses e propósitos aparentes do autor, o modo com o o argu­
m ento é desenvolvido, e assim por diante. U m a característica im portante que
descobrirem os é que 6.4-6 não é a única passagem desse tipo no texto. De
fato, há quatro outras passagens cham adas de “passagens de advertência” em
Hebreus (2.1-4; 3.7-15 e continuando através do capítulo 4; 10.26-31; 12.2529). Q uando tom am os o argum ento do livro com o um todo, parece m enos
provável que essas quatro advertências estivessem tratando de situações dife­
rentes. Pelo contrário, elas criam um efeito cumulativo. O autor está profun­
dam ente interessado em seus leitores e tentando cuidadosam ente atingir seu
grande alvo, ou seja, alertá-los para que não com etam algum pecado terrível
que trará o severo julgam ento de Deus.
Tendo reconhecido essa característica da carta, elim inam os mais do que
depressa algum as interpretações sobre o texto de 6.4-6. A idéia de que a pas­
sagem está falando sobre a perda de galardões, por exemplo, sim plesm ente
não se enquadra no caráter da carta com o um todo; é um a interpretação que
não pode ser apoiada a partir do contexto. De m aneira sem elhante, qualquer
visão que m enospreze o elem ento pessoal tam bém é suspeita, porque outras
advertências (esp. 3.12) deixam claro que o que está em jogo é o relaciona­
m ento individual com Deus. Novam ente, a visão que tom a a passagem com o
puram ente hipotética faz pouco sentido. Qual é a razão de escrever toda uma
carta, com tais advertências severas e em ocionais para prevenir algo que na
realidade não pode acontecer?
D ecidir entre as opções restantes não é fácil e exige que levem os outros
fatos em conta. Todavia, pode-se ver claram ente que, quanto mais difícil a
passagem , precisam os da m áxim a atenção à relação da passagem com o con­
texto de todo o documento.
Lendo as Cartas do Novo Testamento Historicamente
Todo docum ento escrito deveria ser lido “historicam ente” , ou seja, devería­
mos levar em consideração que foi escrito por um determ inado indivíduo (ou
grupo de indivíduos) em determ inada época na H istória e m otivado por algu­
m a ocasião em particular. Apesar disso, alguns tipos de escrita podem ser
com preendidos muito bem m esm o quando conhecem os relativam ente pouco
de seu contexto histórico. Ser capaz de ler livros de ciência no colegial, por
exemplo, não depende tanto de se conhecer quais foram seus autores ou qual
pode ter sido sua situação histórica.69 Em outras palavras, livros didáticos são
dirigidos a públicos m uito amplos, para estudantes por todo o país, cujas ex­
periências pessoais variam grandem ente.
Por outro lado, pense numa coluna de um jornal de um colégio. Nesse
caso temos um escrito dirigido a um público muito mais homogêneo. Todos os
estudantes compartilham muitas experiências importantes e uma base de co­
nhecim ento comum. Eles pertencem a uma região geográfica bem definida.
Todos sabem quem é o diretor e a m aioria dos professores. O que é mais im por­
tante, compartilham percepções em comum sobre a escola, as pessoas que são
parte dela, e os desafios que ela oferece. O jornal da escola, portanto, será
compreendido por esses estudantes de um modo que um estranho não pode
entender tão facilm ente - mesmo os pais podem ter que lutar com isso de vez
em quando! Observe também que, em contraste com os livros didáticos, edito­
riais em um jornal estudantil tem uma expectativa de vida muito curta. O que
era um “assunto quente” em um a edição particular do jornal possivelmente não
terá nenhum a influência no ano seguinte, ou mesmo no mês seguinte.
E qu an to às cartas do N ovo T estam ento? Os e stu d io so s b íb lico s
freqüentem ente se referem a essas cartas como escritos ocasionais. Com isso,
buscam enfatizar que Paulo, por exemplo, escreveu suas cartas para suprir as
necessidades históricas específicas. Não é como se o apóstolo, não tendo nada
m elhor para fazer, pensasse ser um a boa idéia escrever um artigo teológico
para qualquer um que pudesse estar interessado nele! Pelo contrário. Sem pre
houve um a ocasião concreta que o motivou a escrever esses docum entos. N or­
m alm ente, era em razão de igrejas específicas estarem experim entando pro­
blem as que tinham de ser resolvidos; em alguns casos, com o com os gálatas,
a necessidade era urgente.
Pelo fato de as cartas de Paulo lidarem com princípios perenes, é fácil
não darm os im portância ao seu caráter ocasional. Se arrancarm os 1 Coríntios
de seu contexto histórico, a m ensagem precisa de seu docum ento nos escapa­
rá. O que é pior, poderíam os deixar de interpretar corretam ente ou aplicar
indevidam ente seu sentido. Tome o capítulo 7, verso 1: “E bom que o hom em
não se case” (NVI; lit. “não tocar um a m ulher”). Alguns concluem a partir
dessas palavras que o casam ento é um a coisa'm á a ser evitada. Tal interpreta­
ção, porém , dificilm ente é consistente com o ensino bíblico m ais geral, ou até
** M esm o n este caso tais questões não são com pletam ente irrelevantes. Se um livro de astronom ia
tem q uatro décadas, con h ecer esse fato afeta o m odo com o lem os. Se d escobrim os que o au to r de
tal texto tem um a m otivação fortem ente ideológica (tal com o o an ticriacionista Carl Sagan, ou
talvez alguém determ inado a p rovar que o m undo foi criado em seis dias de 24 horas), provavel­
m ente pretenderem os levar esse fato em conta, enquanto buscam os interpretar declarações espe­
cíficas no livro.
m esm o com as próprias declarações de Paulo em outros lugares (cf. E f 5.2233 e lT m 3.2; 4.3).
Ao que parece, entre as muitas questões que dividiram os crentes de
Corinto, uma das mais significativas tinha a ver com diferentes idéias sobre
sexo e casam ento. Algum as pessoas na igreja tinham um a visão m uito liberal.
Pensavam , por exemplo, qpe era justificável para um cristão unir-se a uma
prostituta (6.15,16). Quando um sujeito em seu m eio tornou-se íntim o de sua
madrasta, essas pessoas não puderam condená-lo (5.1,2). Outro grupo na igreja,
porém , talvez em reação, foi a outro extremo. Criam que até m esm o no casa­
m ento o sexo deveria ser evitado (7.3-5), pois assim poderiam tam bém não se
casar. Em apoio à sua posição, provavelm ente recorreram ao fato de o próprio
Paulo ser solteiro.
Pode-se notar facilm ente a dificuldade que estava diante de Paulo. Visto
que o grupo m ais rigoroso se opunha à im oralidade, ele desejava apoiá-los o
quanto possível. Além disso, há certas vantagens em continuar solteiro, e as­
sim ele não queria condenar aqueles que, pelas razões corretas, haviam esco­
lhido não se casar. O casam ento, entretanto, é uma instituição divina a ser
defendida, e há também importantes razões práticas para a m aioria das pessoas
se casar. Assim, quando ele com eça sua discussão no capítulo 7, Paulo afirma
o que pode ter sido algum tipo de lema entre o grupo mais rigoroso: “É bom
que o hom em não toque em mulher.” Ao fazê-lo, reconhece que existe algum a
verdade na posição desse grupo, mas então continua desenvolvendo essa de­
claração e corrigindo os abusos.
Se, em vez de escrever um a carta, Paulo tivesse com posto um tratado
sobre ética cristã, seria razoável esperar um capítulo com pleto sobre casa­
m ento que desse um a apresentação mais “equilibrada” . Porém, devido ao fato
de Paulo ter escrito 1 Coríntios para tratar de problem as históricos específi­
cos, o capítulo 7 precisa ser compreendido à luz desses problemas. Além disso,
devemos ter em mente que, como resultado, suas instruções naquele capítulo são
apenas um a parte do que a Bíblia como um todo ensina sobre casamento.
A próxim a pergunta de grande im portância que deve ser feita é: Com o
podem os dizer qual foi o contexto histórico das cartas do Novo Testam ento?
O livro de Atos nos dá algum a im portante inform ação sobre o m inistério de
Paulo e, desse modo, nos oferece um a estrutura básica para a leitura das car­
tas. Infelizm ente, muitos detalhes estão ausentes. Docum entos históricos além
da B íblia lançam interessante luz aqui e acolá, mas ainda nos deixam com
buracos im portantes. A partir daí, via de regra, dependem os de evidência in­
terna, ou seja, a inform ação que podem os apreender a partir das próprias car­
tas. O problem a é que essa evidência, para a m aior parte, é indireta. Paulo não
ordenou prim eiram ente a situação em Corinto, por exemplo, antes de passar a
tratar dela. Não era necessário fazê-lo! Os Coríntios estavam plenam ente conso e n te s dos problem as. Nós, por outro lado, somos forçados a supor quais
m ia m sido os problem as.
Em outras palavras, temos que “ler nas entrelinhas” a fim de reconstruir
o contexto histórico. Por essa razão algumas pessoas podem objetar nossa
ênfase sobre a interpretação histórica. Elas argum entarão que essa aborda­
gem injeta subjetividade demais no processo, visto que estudiosos diferentes
surgirão com diferentes reconstruções.
Esse tipo de objeção é usada não apenas por cristãos evangélicos que
desejam preservar a autoridade e a clareza das Escrituras. Há tam bém um
segmento entre os estudiosos contem porâneos que prefere tratar as cartas do
Novo Testam ento estritam ente como objetos literários, ou seja, m ais ou m e­
nos desligados de seu contexto histórico. Um estudioso sim patizante desse
ponto de vista reclam a que outros estudiosos dependem grandem ente da “leitura-espelho” . Em sua opinião, eles adm item de form a dem asiado fácil que
no texto aos gálatas, por exemplo, podem ver o reflexo das pessoas que esta­
vam causando problem a entre as igrejas da G alácia.70
Em resposta, podem os prontam ente adm itir que a leitura nas entrelinhas
pode ser um exercício perigoso e que o m étodo muitas vezes é objeto de
abuso. Devem os ter em mente, porém , que toda leitura de um texto requer
um a certa observação das entrelinhas. Como vimos no capítulo 1, a com pre­
ensão é possível somente dentro da estrutura de um conhecim ento suposto. A
breve carta de Paulo aos gálatas teria se tornado um a enciclopédia de inúm e­
ros volumes se o apóstolo tivesse enunciado cada detalhe que constitui a rede
total de conhecim ento relevante à sua m ensagem.
Assim, a pergunta não é se devemos ler nas entrelinhas mas como deve­
m os fazê-lo. C ertam ente, quanto m ais um a in terp retação depende das
inferências (e não de declarações explícitas no texto), m enos persuasiva ela é.
Se um a reconstrução histórica perturba (em vez de reforçar) o sentido aparen­
te de um a passagem , precisam os ser céticos em relação a ela. Por outro lado,
se um estudioso propõe uma reconstrução que surge do texto em si, e se essa
reconstrução por sua vez ajuda a dar sentido a difíceis declarações no texto,
não precisam os rejeitá-la com base no fato de ser apenas um a teoria.
Um bom critério para avaliar a validade *assim como o valor que uma
teoria pode ter para a exegese é fazer esta pergunta: A interpretação de uma
passagem particular poderia ser sustentada mesmo se não tivéssem os a teo­
ria? Um a boa interpretação não deve depender tão fortem ente de inferências
que não possam sustentar-se por si próprias sem a ajuda de um a construção
70 G eorge Lyons, P auline A utobiography: Toward a N ew U nderstanding, SB L D S 73 (A tlanta:
Scholars Press, 1985), cap. 2.
teórica. U m a teoria sobre a situação histórica pode nos ajudar a ficar mais
atentos para certas características do texto que poderíam os de outra form a
ignorar; mas, em últim a análise, é o texto que deve ser determ inante.
Voltemos agora a 1 Coríntios. A teoria sobre a situação histórica contro­
la nossa leitura do texto, ou o texto em si sugere a teoria? Note que a questão
surgiu porque tínham os consciência de um a dificuldade no texto. Ou seja, à
prim eira vista, Paulo parece dizer algo que é inconsistente com outros aspec­
tos de seu ensino. Em segundo lugar, lem bre-se que tem os clara inform ação
dos capítulos 5-7 sobre as disputas entre os coríntios quanto ao com porta­
m ento sexual. A lém disso, o capítulo 7 com eça referindo-se a um a carta que
os coríntios enviaram a Paulo, e claramente foi essa carta que levantou a questão
do casamento. Podem os dizer, então, que a concepção básica de nossa interpre­
tação, em bora sugerida por certas inferências históricas, depende prim ariam en­
te do texto em si, e não de especulação extravagante.
Outros aspectos de nossa interpretação podem ser menos certos. M encio­
namos, por exem plo, que a teoria de que a declaração “é bom para o hom em
não tocar em m ulher” pode ter sido um a expressão usada por um a das facções
coríntias. Não há como provar que essa teoria esteja certa ou errada. M as
observe que a teoria não é de todo essencial para a interpretação. M esm o se
essas palavras fossem originais de Paulo, nossa leitura geral da passagem
pode ainda ser facilm ente apoiada.
Um a boa com preensão do contexto histórico de um docum ento pode
ajudar-nos não apenas a lidar com versículos difíceis; pode tam bém aum entar
nosso entendim ento sobre um a carta como um todo. Considere a carta de
Paulo aos Filipenses. A m aioria dos cristãos fam iliarizados com este livro
pensa im ediatam ente na repetida ênfase de Paulo sobre o tem a da alegria
assim com o o notável “hino de C risto” em 2.6-11. Essas características, as­
sim com o a óbvia cordialidade do apóstolo por seus irmãos e irmãs em Filipos,
sugere a m uitos leitores que essa igreja era um a congregação-m odelo, talvez
sem m uitos problem as.
U m a pequena leitura nas entrelinhas, porém , sugere um outro quadro.
De fato tem os certa evidência externa de que essa igreja estava localizada na
província da M acedônia. Atos 16, por exemplo, conta a fundação da congre­
gação por Paulo, Silas e Timóteo. Além disso, 2 Coríntios 8.1-5 deixa claro
que esses crentes eram m uito pobres e, apesar de sua pobreza, excepcional­
m ente generosos em apoiar o m inistério de Paulo. Paulo com enta esse m esm o
fato em Filipenses, tanto no início da carta (1.5, onde a palavra cooperação
quase que certam ente se refere ao seu apoio financeiro) e no fim (4.14-16).
Um a leitura cuidadosa de Filipenses 4.10-19 dá-nos a nítida impressão de
que os problem as financeiros da congregação tinham se tornado uma preocupa­
ção crescente. Paulo havia acabado de receber um presente dessa igreja pelas
m ãos de seu m ensageiro, Epafrodito (2.25). Conquanto o apóstolo queira ex­
pressar seus mais profundos agradecim entos por esse presente, ele claram en­
te deseja evitar a sugestão de que a abundância material é a chave para sua
felicidade (observe esp. 4.11 e 17). Ele term ina a passagem assegurando-lhes
que Deus atenderá às suas necessidades (v. 19).
Tendo observado esses detalhes, outras características da carta com e­
çam aparecer de um a nova m aneira. Por exem plo, a forte exortação de P au­
lo para não ficarem ansiosos (4.6,7) provavelm ente estava relacionada às
preocupações financeiras deles. Além disso, ao que parece, as num erosas
referências à alegria na carta indicam , não que os filipenses eram um grupo
alegre, m as exatam ente o oposto. Haviam perdido o seu contentam ento cris­
tão, e Paulo deve persuadi-los a recobrá-lo! U m a chave para essa recupera­
ção é poderem entender que a verdadeira alegria não depende do que se
tem : “A prendi a viver contente em toda e qualquer situação” (4.11). D eve­
mos alegrar-nos no Senhor (3.1; 4.4) porque podem os fazer todas as coisas
por interm édio dele (4.13).
M ais séria ainda, porém , era a presença da dissensão dentro da igreja. A
m aior parte dos leitores da Bíblia não im aginava que os filipenses precisavam
enfrentar esse tipo de problem a, o que de fato é o caso. As exortações em
favor da unidade e hum ildade estão presentes em 2.1-4 por algum a razão.
Certos leitores parecem pressupor que Paulo achava que seria agradável falar
nesse assunto! Os com entários introdutórios (v. 1) estão cheios de em oção e
revelam a profunda preocupação, enquanto a advertência contra o egoísm o
(v. 4) está proxim am ente relacionada com aquilo que ele teve de dizer para a
mais dividida entre as igrejas prim itivas, a congregação de Corinto (veja IC o
10.24). Paulo até m esm o decide apresentar nomes. N a raiz da dissensão esta­
va algum a séria discordância entre dois im portantes m em bros, E vódia e
Síntique (4.2,3).
Com base em Filipenses 2.19-30, além disso, pode-se supor razoavel­
m ente o que a igreja disse a Paulo na m ensagem que acom panhou seu presen­
te. “Estam os tendo sérios problem as, Paulo. Precisam os de você aqui. Se você
não puder vir, por favor, envie-nos seu amigo querido Timóteo. Você pode
ficar com Epafrodito para sua assistência.” E claro que essa possível com uni­
cação dos filipenses não sobreviveu assim; essa m ensagem é especulativa
(outro exem plo de reconstrução histórica) e certam ente não-essencial para a
com preensão desses versos. Todavia a passagem, e até mesmo Filipenses como
um todo, tom a um novo significado e faz m uito mais sentido quando lemos
sob essa luz.
De qualquer form a, é fácil ver como nossa percepção de um a carta pode
ser aum entada de m odo significativo se fizerm os um esforço para identificar
suas origens históricas. Novam ente, deveríam os lem brar que a razão por que
somos capazes de entender cartas contem porâneas enviadas a nós é que te­
mos pleno conhecim ento de sua origem e contexto (e que a razão por que
algum as vezes interpretam os mal essas cartas é justam ente causada por algu­
m a falha em nosso conhecim ento do contexto). Note ainda que tratar as cartas
do Novo Testam ento historicam ente é um im portante m étodo para aplicar
com sucesso a prim eira parte áeste capítulo, isto é, a necessidade de ler cartas
com o docum entos inteiros. Se fizerm os isso, seremos não apenas capazes de
apreciar a m ensagem total das cartas; estarem os em m elhor posição para re­
solver quaisquer problem as interpretativos que possam surgir à nossa frente.
Lendo as Cartas do Novo Testamento como Documentos Literários
U m a das razões de as cartas do Novo Testam ento serem algum as vezes refe­
ridas com o epístolas é que parecem mais form ais em caráter do que se espera
de um a típica correspondência pessoal. Neste ponto precisam os ter um a vi­
são equilibrada. Tendo em vista que Paulo escreveu esses docum entos com o
apóstolo, devemos m esm o esperar algo mais que alguns rabiscos apressados.
O próprio fato de ele ter usado secretários sugere um cuidado especial duran­
te a redação.71
Em décadas recentes, estudiosos começaram a atribuir m aior reconheci­
m ento às qualidades literárias das cartas do Novo Testamento. E aparente, por
exemplo, que Paulo tinha algum conhecimento das técnicas ensinadas por pro­
fessores de retórica do mundo antigo. Já a extensão de seus conhecimentos
dessa técnica é uma questão aberta para debate. Sem elhantem ente, nem todos
os estudiosos concordam sobre se Paulo fez uso consciente dessas técnicas.
Podem os continuar insistindo que Paulo não enxergava suas cartas prim aria­
m ente como obras literárias para publicação geral. Porém, há muito a ser apren­
dido de estudos atuais sobre o caráter retórico dos documentos bíblicos.
N enhum a carta recebeu mais atenção a esse respeito do que a epístola de
Paulo aos cristãos da Galácia. O fato em si é sugestivo. Dado o tom altam ente
em ocional e urgente dessa carta, não se deveria esperar que fosse um a obra
cuidadosam ente elaborada. N a realidade, G álatas tem sido freqüentem ente
usada com o evidência de que Paulo podia escrever em estilo “rude” . (Um dos
m ais conhecidos exemplos dessa im polidez é Gálatas 2.4,5, que, falando es­
tritam ente, é um a sentença incom pleta no grego). Ao m esm o tem po, estudio­
sos reconhecem que o argum ento da carta é disciplinado e bem -elaborado.
M as quão literária é essa obra?
71 O bserve esp. Rm 16.22. É geralm ente reconhecido que era dado algum arbítrio ao escrib a (ou
am anuense) na escrita d a carta.
Podem os com eçar observando alguns itens bastante óbvios sobre a es­
trutura de Gálatas. Com o faz em suas outras cartas, Paulo com eça esta com
um a saudação (“Paulo...: graça e paz...”) e term ina com um a bênção (6.18).
A lém disso, podem os identificar um a seção mais longa de introdução à carta
(1.1-10) e outra de conclusão (6.11-18). Entre essas duas seções temos o corpo
da carta, que, por sua vez, é dividido em diversas seções. A prim eira (1.112.21), em que Paulo p arece defender sua autoridade independente, tem
um sabor histórico; a segunda (3.1-4.31) é m ais argum entativa e d o u trin á ­
ria; a terceira (5.1-6.10) é p rim ariam en te exortatória, ou seja, c a ra c te riz a ­
da por e x o rtaçõ es.72
Quando recebem os um a carta de um amigo, não tentam os norm alm ente
apresentar um esboço. Por quer deveríam os fazê-lo com as cartas de Paulo?
Parte da resposta é que essas cartas são um pouco mais longas (no caso de
Rom anos e 1-2 Coríntios, diríamos muito mais longas) do que uma corres­
pondência pessoal típica; estar atento para os pontos onde ocorrem as m udan­
ças de tópico pode ajudar a orientar o leitor. M as há uma questão m ais funda­
m ental aqui. Até m esm o uma carta inform al de um amigo tem um a certa
estrutura, quer o escritor tivesse consciência disso ou não. Em alguns casos,
para ser claro, o argum ento pode ser um pouco incoerente e não apresentar
um esboço inteligível. É sempre verdade, porém , que nossa habilidade para
en te n d e r um a carta (ou qualquer outro docum ento) está ligada a quão
acuradam ente percebem os sua estrutura. Esse processo de identificação é
grandem ente inconsciente, mas, se receberm os um a carta mais longa e com ­
plicada, podem os com eçar a nos perguntar sobre questões estruturais (“E sta­
ria o advogado falando sobre algo mais neste parágrafo, ou eu perdi a liga­
ção?”). Quanto mais explícitos form os com respeito a essas questões, mais
sensíveis nos tornam os para com a inform ação que o contexto traz.
A lém disso, este tipo de estudo fornece os meios para se com parar as
várias cartas entre si, a fim de que possam os identificar o que é peculiar a
cada um a delas. Ao estudarm os as saudações nas cartas de Paulo, por exem ­
plo, percebem os que a m aioria delas é bastante curta. Apenas duas delas,
Rom anos e Gálatas, são expandidas para incluir material substancial. No caso
de Gálatas, esse detalhe pode m uito bem ser um a evidência adicional da ur­
gência com que Paulo escreveu essa carta. E l^ n ão m encionaria logo de início
seu título de apóstolo, se não sentisse a necessidade de negar um a das acusa­
ções que m otivaram a redação da carta, de modo que ele nos assegura: “após­
tolo - não da parte de hom ens, nem por interm édio de hom em algum , m as por
Jesus Cristo e por Deus Pai.”
72 E ste esboço tradicional do corpo de G álatas pode ser. encontrado, com algum as variações m eno­
res, em m uitos com entários e obras conhecidas. Verem os, porém , que estudiosos recentes têm
discutido sobre alguns im portantes detalhes e até m esm o sobre a abordagem geral.
A segunda parte da introdução (1.6-10) é até mais interessante. Nesse
ponto, em suas outras cartas Paülo sem pre faz seus agradecim entos (ou pro­
nuncia um a bênção) a Deus pelas pessoas a quem ele estava escrevendo. Aqui,
entrentanto, em lugar de com eçar com “Eu agradeço a m eu D eus” , ele excla­
ma: “Adm ira-m e que estejais passando tão depressa daquele que vos cham ou
na graça de Cristo para outro evangelho.” Alguém fam iliarizado com as car­
tas de Paulo acharia essa obsefvação com pletam ente inesperada, e é o inespe­
rado que causa m aior im pressão sobre nós. O que é mais im portante, o ato de
Paulo divergir dessa m aneira de sua prática nos diz m uito acerca de seu esta­
do e m otivação ao escrever Gálatas.
Até aqui tudo bem. M uito poucas pessoas objetariam este tipo de dis­
cussão ou o esboço no qual está baseada. M as é possível adm itirm os que
Paulo tenha feito uso m aior das técnicas literárias? Há muito tem po foi obser­
vado que em Gálatas 4.4,5 o apóstolo parece usar um quiasm o, ou seja, um a
ordenação de cláusulas em um padrão A -B -B ’-A’:
Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, jA}
nascido sob a lei, {Bj
para resgatar os que estavam sob a lei {B’j
afim. de que recebêssemos a adoção de filhos. (A ’}
Tomando essa passagem como indicação - assim como mais um a prova de
que quiasm os eram usados com freqüência no m undo antigo - um estudioso
do Novo Testam ento nos anos 60 pensou ter detectado outro e mais sofistica­
do quiasm o em G álatas.73 Na realidade, ele propunha que Gálatas com o um
todo tratava-se de um im enso quiasm o, com posto de quiasm os secundários,
que, por sua vez, eram feitos de quiasm os terciários, e assim por diante. A
noção de que Paulo, ou qualquer outra pessoa sã investiria o tem po e o esfor­
ço para com por esse tipo de escrito sem nenhum benefício aparente (afinal,
levou vinte séculos para alguém descobri-lo) foi dem ais para os estudiosos
contem porâneos, a m aioria dos quais não foi persuadida por essa teoria. A
m aior objeção a ela, porém , é que funciona somente forçando a evidência.
Conquanto alguns dos quiasm os propostos pelo autor são intrigantes e pos­
sam ser válidos, m uitos outros dificilm ente podem ser considerados por meio
de um a leitura natural do texto.
M ais persuasivo, em bora ainda questionável, é a sugestão de que Gálatas
reflete em sua estrutura os princípios retóricos da antiga oratória grega e lati­
na. Particularm ente influente tem sido a proposta de que Gálatas foi com pos­
ta com o um a “carta apologética”, com as seguintes seções:
73 John B ligh, Galatians in Greek: A Slructural Analysis ofS t. P a u is Epístle to the Galatians, with
Notes on the Greek (D etroit: U niversity o f D etroit Press, 1966). Subseqüentem ente ele escreveu
um com entário baseado nessas investigações; veja seu Galatians: A Discussion o f St. P a u is
Epístle , H ou seh o ld er C om m entaries 1 (L ondres: St Paul, 1969).
Prescrito epistolário, 1.1-5
Exordium (introdução aos fatos), 1.6-11
Narratio (declaração dos fatos), 1.12-2.14
Propositio (resumo do conteúdo legal da narratio), 2.15-21
Probatio (provas ou argumentos), 3.1-4.31
Exhortatio (exortações), 5.1-6.10
Pós-escrito epistolário, 6.11-1874
Alguns estudiosos discutem sobre a identificação precisa de G álatas com o
uma carta apologética, outros protestam contra vários detalhes do esboço.
M esm o esse esboço cuidadoso não é capaz de considerar todos os fatos (ex.:
as exortações não se encaixam em qualquer padrão conhecido em escrita de
correspondência formal). M ais fundam ental é a objeção de que o fato de Pau­
lo usar com tal detalham ento as regras da oratória pareceria inconsistente
com seu repúdio à eloqüência de um discurso (1 Co 2.1-5; 2Co 11.6; Cl 2.4).
Q uaisquer que sejam os problem as, há um crescente reconhecim ento da
necessidade de se analisar as cartas do Novo Testam ento à luz das práticas
retóricas antigas. Esse desenvolvim ento na erudição m oderna tem tido algu­
mas valiosas repercussões, das quais uma das mais im portantes é a renovada
apreciação pela integridade e coerência desses docum entos. Um exem plo in­
teressante é a carta de Paulo aos Filipenses. No passado, alguns estudiosos
argum entaram que Filipenses era, na verdade, com posta de duas ou três car­
tas diferentes. Estudos retóricos recentes, porém , m ostram que esse docu­
m ento é um todo literário e que as teorias de fragm entação não podem
corresponder à sua estrutura.
Lendo as Cartas do Novo Testamento Teologicamente
M esmo após termos feito um esforço especial para entender as epístolas como
documentos inteiros, questionando seu contexto histórico e estrutura literária,
ainda nos resta um a tarefa crucial - a interpretação teológica. Na história da
moderna erudição bíblica, esta tarefa tem, muitas vezes, sido m inimizada, ig­
norada ou mesmo rejeitada no todo como algo que está fora da responsabilida­
de do intérprete. N as décadas recentes, porém , a validade da reflexão teológica
tem-se tornado extensamente reconhecida. Visto que as cartas do Novo Testa­
mento, especialm ente as de Paulo, tratam de questões teológicas de modo mais
direto e extenso do que outras partes das Escrituras, as discussões sobre a teolo­
gia paulina são agora mais numerosas do que grãos de areia na praia.
N a realidade, os estudiosos têm diversas idéias sobre o que significa
interpretar a Bíblia teologicam ente. Para alguns, parece ser um exercício de
74 H ans D ieter Betz, Galatians: A C om m entary on Paul ’s Letter to the Churches in Galatia, H erm eneia
(Filadélfia: Fortress, 1979), pp. 14-25.
descobrir “contradições” entre os autores bíblicos (ex.: Paulo versus Tiago),
ou m esm o entre dois escritos do m esm o autor (ex.: Rom anos versus Gálatas).
No outro extremo, alguns estudiosos conservadores dedicam tanto de sua aten­
ção às características com uns entre os escritores das Escrituras que a m ensa­
gem bíblica torna-se irrelevante.
Aqui, com o muitas vezes é o caso, é necessário equilíbrio. Por um lado,
um com prom isso evangélico com a unidade divina das Escrituras certam ente
im plica que devemos interpretar livros individuais dentro do contexto teoló­
gico total da Bíblia, a fim de que a ligação entre as partes e o todo torne-se tão
clara quanto possível. Por outro lado, a sensibilidade para com o caráter hu­
m ano e histórico das Escrituras nos levará a reconhecer e até m esm o enfatizar
a peculiaridade de cada porção. Na realidade, uma das diretrizes herm enêuticas
m ais úteis que podem os usar consiste em perguntar a cada escrito: “Por que
Deus incluiu este livro no cânon? Qual é a sua contribuição para o ensino
total das Escrituras? Qual é o seu lugar na história da revelação?”
Quando estudiosos abordam a Bíblia teologicam ente, um tópico m uito
com um de discussão é se podem identificar um elem ento unificador no pen­
sam ento de um escritor. Conseqüentem ente, m uita tinta foi gasta em assuntos
com o “o centro da teologia paulina” . Q uer possam os apresentar tal centro ou
não - isto é, um núcleo doutrinário que considera tudo o mais que Paulo
ensina - é um a questão com a qual não precisam os nos preocupar. Fica claro,
todavia, que Paulo prestou atenção a conceitos fundam entais, e se desejarm os
interpretar seus escritos com responsabilidade, terem os que considerar com o
essas idéias básicas relacionam -se com passagens específicas.
No tem po da Reform a Protestante, estudos teológicos procuravam con­
centrar-se no ensino do apóstolo sobre a justificação individual pela fé e não
pelas obras. Hoje em dia, porém , alguns argum entam vigorosam ente que essa
com preensão, m otivada pelas experiências pessoais de Lutero, reflete um a
distorção de Paulo. Tal crítica é certam ente um a reação extrem ada. Pode-se
ainda argum entar persuasivam ente que a doutrina da justificação pela fé fun­
ciona com o um tipo de rótulo conceituai que ajuda a dar sentido a grande
parte do ensino de Paulo. Entretanto, há algum a verdade em toda falsidade, e
os estudiosos m odernos apresentam um ponto im portante quando argum en­
tam que um a questão mais ampla, o relacionam ento entre judeus e gentios,
deveria desem penhar um papel mais proem inente em nossa interpretação do
ensino de Paulo.
M esm o o argum ento de Gálatas 3, tão vital para a doutrina da justifica­
ção, é m otivado e fortalecido por um a questão m aior e dom inante, a saber:
Q uem são os verdadeiros descendentes de Abraão? Poderiam surgir objeções,
tendo em vista que a estrutura da epístola de Rom anos é m otivada pela m es­
ma pergunta. Fazer tal pergunta, todavia, é refletir sobre a natureza da histó­
ria redentora e desse modo sobre a form a com o Deus cumpriu suas prom es­
sas. Com o vimos em nossa discussão dos Evangelhos, um aspecto central do
ensino de Jesus foi precisam ente o tem a do cum prim ento. Sua declaração de
que o reino de Deus tinha vindo im plicava a chegada dos “últim os dias” e nos
leva a pensar em sua m ensagem com o tendo um caráter escatológico básico.
Não é de causar espanto que alguns estudiosos detectaram um a ênfase
sem elhante em outras partes do Novo Testam ento, especialm ente nos escritos
de Paulo.75 Na verdade, fica claro que Paulo com preendia a vinda de C risto em particular, sua ressurreição e exaltação - com o a m ais im portante virada
na história da redenção. O foco escatológico do ensino de Paulo é algum as
vezes m uito explícito, como em 1 Coríntios 10.11, onde ele diz que os cris­
tãos experim entam “o cum prim ento [lit., o fim] dos tem pos” . M esm o onde
não está enunciado, esse tem a p arece fo rn ecer a estrutura p ara a teologia
geral de Paulo.
Esta perspectiva pode ser m uito útil para corrigir nossa com preensão de
passagens específicas. Em Rom anos 1.3,4, por exem plo, em que Paulo parece
resum ir a essência do evangelho que prega, ele focaliza Cristo com o aquele
que, por um lado, “nasceu da sem ente de Davi segundo a carne” , mas por
outro lado “foi determ inado Filho de Deus em poder segundo o Espírito de
santidade na ressurreição dos m ortos” (trad. lit.). Tradicionalm ente, essa de­
claração era com preendida como uma referência às duas naturezas de Cristo,
com a palavra carne, indicando sua natureza hum ana, e a palavra espírito a
sua natureza divina. A idéia resultante era que, na ressurreição, a divindade
de Jesus havia sido dem onstrada. Essa visão reflete-se parcialm ente na NVI:
“que, quanto à sua natureza humana era um descendente de Davi, e que, por
interm édio do Espírito de santidade fo i declarado com poder para ser o Filho
de Deus por sua ressurreição dos m ortos” (itálicos acrescidos).
Entretanto, alguns intérpretes recentes, argumentam persuasivamente que
a passagem não se refere às duas naturezas (coexistentes) de Cristo, mas, em
lugar disso, aos dois estágios (sucessivos) de sua obra m essiânica, ou seja,
sua hum ilhação e sua exaltação.76 Em bora Cristo fosse eternam ente divino, o
título Filho de Deus provavelm ente refere-se àquilo que Ele se tornou na res­
surreição, ou seja, o M essias exaltado, vitorioso (o verbo traduzido “declara­
15 U m dos escritores m ais recentes a apresentar esse p onto foi G eerhardus Voos, The Pauline
Eschatology (G rand R apids: E erdm ans, 1930). A m ais com pleta exposição d essa perspectiva é
de H. R idderbos, Paul: An Outline o fH is Theology (G rand Rapids: E erdm ans, 1975). Pelo que
segue, cf. a útil discussão em R ichard B. G affin, Jr., The Centrality o fth e Resurrection: A Study
in P a u is Soteriology (G rand R apids: Baker, 1978). A lgum m aterial acim a vem de M oisés Silva,
“ System atic T heology and the A postle to the G en tiles” (a sair em 77).
16 Veja a extensa discussão em G affin, Centrality, pp. 98-114, e a literatura citada por ele.
do” pela N V I tem um a força m uito maior, com o “determinar, estabelecer,
apontar”). Os dois estágios de Cristo, portanto, refletem dois períodos dife­
rentes na história da redenção: o presente tempo mau da carne e o tem po
glorioso futuro do Espírito. O próxim o relacionam ento entre o Cristo ressus­
citado e o Espírito Santo é enfatizado em outras passagens, tais com o R om a­
nos 8.11; IC o 15.44,45; 2Co 3.17,18.
A m aravilhosa verdade contida em Rom anos 1.3,4 e em passagens para­
lelas, portanto, é que com a ressurreição de Cristo a era futura torna-se uma
realidade agora, pelo menos em parte, para aqueles que estão unidos com
Cristo nessa ressurreição. Na verdade, no capítulo 6 da m esm a carta, o após­
tolo indica os cristãos como aqueles que m orreram com Cristo e que já foram
ressurretos com ele para um a nova vida. Em razão de o Espírito Santo, que é
a essência da era por vir, ter sido dado a nós no prim eiro episódio de nossa
herança (cf. Ef. 1.13,14), fomos transportados, em um sentido m uito real,
para o céu e nos sentam os lá com Cristo (E f 2.6; Cl 3.1-4; cf. Fp 3.20).
Entretanto, não está a “presente era perversa” (G1 1.4) ainda conosco?
Paulo não reconhece que os cristãos continuam a viver “na carne” (G1 2.20
lit.; NVI, “no corpo”)? E justam ente aqui que a im portância da m ensagem
paulina fica aparente. No pensam ento judaico, “este m undo” deveria term i­
nar com a inauguração da “era por vir” . Por outro lado, segundo Paulo (e sua
visão é refletida em outro lugar no Novo Testam ento), a nova era do Espírito
com efeito sobrepõe-se à velha era da carne. Teólogos m uitas vezes falam
dessa perspectiva como uma tensão entre o “já e o ainda não” . Em bora Jesus,
com sua vinda, tenha instaurado o reino de Deus, e assim já tenha conquista­
do as forças do inim igo, ainda assim o pecado e a m iséria continuam conosco
até a consum ação.
Essa verdade tem im plicações abrangentes na m aneira com o interpreta­
mos o Novo Testamento. Fica claro, por exemplo, que as declarações difíceis
de Paulo sobre a lei M osaica devem estar relacionadas à sua com preensão da
carne e da m orte. Em bora o apóstolo claram ente entenda a lei com o divina­
m ente outorgada e, portanto, inerentem ente boa - im plicando que ela tem
relevância para o cristão (Rm 7.12; IC o 7.19; G1 5.14) - ainda assim ele
afirm a que, na fraqueza da carne, ela tornou-se instrum ento de pecado e m or­
te (cf Rm 7.8-10; 8.3; IC o 15.56; 2Co 3.6-8). O pacto m osaico foi um acordo
tem porário, antecipando a vinda de Cristo (G1 3.23-25).
Novam ente, a doutrina da santificação é grandem ente ilum inada pela
abordagem escatológica de Paulo. O conflito entre a carne e o Espírito expe­
rim entado pelos crentes (G1 5.16-26) reflete um a luta não precisam ente entre
duas partes de cada indivíduo, mas sim entre duas forças de proporções cós­
m icas. Todavia, visto que já m orremos para o pecado e não estam os sob a
sujeição da lei, mas vivos para Deus, somos assegurados de que o pecado não
terá dom ínio sobre nós (Rm 6.14). A luz desta segurança, fica m uito clara a
responsabilidade do crente em levar um a vida obediente. Se o pecado foi
destronado, sim plesm ente não tem os desculpa quando desobedecem os a
D eus. O E sp írito de C risto nos libertou do pecado e da m orte. P odem os
aprender a “ m ortificar os feitos do corpo” com o filhos de D eus que são
guiados pelo seu E sp írito (Rm 8.13,14).
Lendo as Cartas do Novo Testamento como Documentos Autoritados
Devem os concluir este capítulo com um breve mas im portante lem brete de
que, assim com o o restante das Escrituras, as epístolas vieram a nós do pró­
prio D eus e, portanto, trazem consigo sua autoridade. Q uando Paulo e s­
creveu suas cartas, ele o fez com a co nsciência de falar as palavras de
D eus (cf. lT s 2.13), e não hesitou em ex ercitar sua autoridade apostólica
quando necessário (cf. 2Ts 3.6).
Esse ponto precisa ser dem onstrado porque nossa ênfase sobre as cartas
com o docum entos históricos poderiam levar a um a dim inuição de sua im por­
tância com o Escritura. Não é com um ouvir com entários sobre o caráter
contextualizado desses livros - deixando implícito que eles podem ter sido
relevantes em um dado m om ento num contexto histórico particular, mas não
agora. Com o com todo erro, há uma m edida de verdade nessa abordagem .
Por exem plo, a m aior parte dos cristãos hoje não crê que seja necessário para
as m ulheres cobrir a cabeça em adoração, como 1 Coríntios 11.5 sugere. A
razão norm alm ente dada é que Paulo estava provavelm ente tratando de um a
prática cultural que é estranha a nós. Sem dúvida, certos m andam entos e prin­
cípios nas Escrituras (não apenas nas cartas!) são difíceis de ser aplicados
hoje; retornarem os a este tópico em capítulo m ais adiante.
Não devemos concluir, porém , que esse tipo de dificuldade seja típico.
Falando de m aneira geral, um conhecim ento da situação histórica nos ajuda a
refinar nossa com preensão dos m andam entos das Escrituras, mas não rem ove
sua validade para nós. E necessário haver m uitas razões textuais persuasivas
para decidir que um a passagem em particular nas cartas do Novo Testam ento
seja tão condicionada historicam ente que não tenha aplicabilidade atual. A fi­
nal, as Escrituras nos foram dadas com o algo “útil para o ensino, para a repre­
ensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16).
U m a surpreendente porção da Bíblia (27%), trata de previ­
sões acerca do futuro, m esm o que a função da previsão seja um
aspecto m enos proem inente entre os profetas do que aquela da
proclam ação. Esse tipo de profecia não é “H istória já escrita” ,
mas apresenta características como inteligibilidade, definição e
unidade orgânica.
A pesar do aforism o popular de que os “profetas escreviam
m ais do que sabiam ” , a com preensão que os próprios profetas
tinham de suas profecias é dem onstrada por m eio de sua cons­
ciência (1) dos resultados de suas palavras; (2) das im plicações
de suas profecias; (3) do conhecim ento de coisas que eram h u ­
m anam ente im possíveis de conhecer; e (4) da relação que os
acontecim entos e circunstâncias contem porâneas tinham com
um a série de acontecim entos futuros.
Há três tipos de profecia: condicional, incondicional e
seqüencial. Cada profecia deve ser interpretada de acordo com
seu tipo para que a análise não se torne confusa.
Para expressar o futuro, os profetas usavam term os, aconte­
cim entos e pessoas do passado. Também empregavam várias ex­
pressões proféticas para m arcar a presença de um a passagem so­
bre o futuro. Isso não levava a uma interpretação de “duplo senti­
do” da profecia, mas sim a um sentido único e com plexo em que
o “já cum prido” e o “ainda não cum prido” eram vistos como
partes claras de um significado com pleto, ligado, em seu ínterim ,
a um a série de cum prim entos múltiplos.
CAPÍTULO 8
E quanto ao futuro?
O SIGNIFICADO DA PROFECIA
W a l t e r C . K a is e r , J r .
O tópico da profecia com freqüência produz dois tipos de reações extrem as
nos leitores e intérpretes: o assunto é totalm ente evitado ou visto com apatia
ou então é transform ado em uma brincadeira. Essas duas reações são inade­
quadas e carecem do equilíbrio que é apresentado no texto bíblico.
A profecia é um gênero bíblico mais amplo do que a m aioria das pessoas
pensa. M uitos ligam a palavra profecia à idéia de futurologia. M as, em sua
grande parte, tanto a profecia dos profetas m ais antigos (Josué, Juizes, Sam uel
e Reis), quanto dos profetas mais recentes (Isaías, Jerem ias, Ezequiel, Daniel
e os doze profetas m enores) e dos profetas do Novo Testam ento, na verdade
envolve os m ensageiros de Deus na proclam ação da palavra do Senhor para a
cultura contem porânea que precisava ser mudada, a fim de deixar de resistir à
palavra de Deus. Nesse sentido, esses profetas eram “proclam adores” .
O aspecto da profecia que é mais difícil de ser interpretado é aquele que
trata da previsão. O núm ero de previsões sobre o futuro dentro da B íblia é tão
grande em ambos os Testam entos que serve de repreensão silenciosa a qual­
quer um que hesite em estudar essas previsões.
De acordo com os cálculos de J. Barton Payne, há 8.352 versículos que
contêm algum tipo de previsão, dentro de um total de 31.124 versículos na
Bíblia toda - a surpreendente porção de 27% da B íblia trata de previsões
futuras. Payne calculou que o Antigo Testam ento contém 6.641 versículos
sobre o futuro (de um total de 23.210 versículos, ou seja, 28,6% ), enquanto o
Novo Testam ento apresenta 1.711. (de um total de 7.914, ou seja, 21,6% ) Ao
todo, esses 8.352 versículos discutem 737 diferentes tópicos proféticos! Os
únicos livros que não contêm previsões são Rute e Cantares no Antigo Testa­
m ento e 3 João no Novo Testamento. Os outros 62 livros da B íblia aparecem
um a ou m ais vezes dentro dos 737 tópicos reunidos por Payne.77
Os livros do Antigo Testam ento com a m ais alta porcentagem de profe­
cias acerca do futuro são Ezequiel, Jerem ias e Isaías, com respectivam ente
65, 60 e 59% de seu total de versículos. No Novo Testamento, os três prim ei­
ros são Apocalipse, M ateus e Lucas com 63, 26 e 23% respectivam ente de seu
conteúdo total.
Assim, fica claro que a profecia sobre o futuro não pode ser vista super­
ficialm ente, se querem os fazer justiça à B íblia da form a com o Deus quis
com pô-la. Q ualquer declaração da Palavra de Deus com o um todo precisa
interagir com esses temas proféticos em um a escala relativam ente grande,
tendo em vista que aproxim adam ente um quarto dos versículos da B íblia di­
zem respeito a esse tópico.
As Características da Profecia Bíblica
As profecias bíblicas têm o seu próprio conjunto de características e aspectos
que a distinguem de qualquer im itação. Na virada do século, R obert B.
Girdlestone tratou dessa questão, enumerando as seis características seguintes:
1. A profecia bíblica prevê de m aneira clara as coisas que estão por vir,
sem envolvê-las em am bigüidades com o faziam os oráculos das na­
ções pagãs.
2. A profecia bíblica é planejada para ser um a previsão e não um a
declaração retrospectiva, um a profecia não-intencional, ou um a adi­
vinhação que por um acaso acabou acontecendo.
3. Ela é escrita, publicada ou proclam ada antes da ocorrência do acon­
tecim ento a que se refere e de um modo que não poderia ter sido
previsto pela simples sagacidade humana.
4. Ela é cum prida subseqüentem ente, de acordo com as palavras da
previsão original.
5. E la não causa o seu cum prim ento, porém m antém -se como testem u­
nha até que o acontecim ento tenha ocorrido.
6. U m a profecia bíblica não é um a previsão isolada, mas pode estar
relacionada a outras profecias, form ando, portanto, um a longa série
de previsões.78
77 J. B arton Payne. E ncyclopedia o f B iblical Prophecy: The Com plete G uide to Scriptural Predictions
a n d their F ulfillm en t (N ova York: H arper and Row, 1973), pp.631-82.
78 R obert B. G irdlestone. The G ram m ar o f P rophecy: G uide to B ib lica l P rophecy (reed., G rand
R apids: K regel, 1955), p .l.
É claro que nem todas as profecias encaixam -se em todas as categorias
acima. M as, m esm o onde há exceções, elas ainda apresentam o ím peto e o
espírito de todas as seis descrições. Agora, exam inarem os em mais detalhes
algum as das características da profecia bíblica.
INTELIGIBILIDADE
U m a expressão popular diz que a profecia é “História já escrita” . Se, literal­
m ente, isso fosse verdade, a profecia seria tão óbvia e clara quanto escrever
História. Mas a profecia possui um certo aspecto enigm ático, até m esm o quan­
do Deus fez conhecer sua palavra a M oisés em Núm eros 12.6-8. Nesse texto,
é dito que M oisés tem duas vantagens claras em relação aos outros profetas
que vieram depois dele. Em primeiro lugar, Deus falou diretamente com Moisés
(“de sua própria boca, claram ente”), enquanto falou a outros profetas de for­
ma m enos clara (por exemplo, por enigm as). Em segundo lugar, Deus apare­
ceu pessoalm ente a M oisés, enquanto ele revelou-se a outros profetas por
m eio de sonhos e visões. Esses fatores certam ente m arcam um contraste entre
a clareza, facilidade de interpretação e definição daquilo que é observado em
Moisés e aquilo que é visto nos outros receptores de profecias da Bíblia.
Essa admissão, porém , não deve ser levada ao extrem o de afirm ar que
não se pode com preender nada do m aterial profético até que Deus valide a
palavra proclam ada por seu servo por meio do cum prim ento da profecia. N or­
m alm ente, usamos de m aneira equívoca a palavra completam ente quando afir­
m am os que: “um a profecia não é feita para ser completam ente com preendida
antes de seu cum prim ento.” E claro que essa é um a afirm ação verdadeira,
m as tam bém redundante. N aturalm ente, a prova está no resultado final.
Toda profecia tinha a intenção de com unicar um a com preensão adequa­
da do futuro para os ouvintes que a recebiam , m esm o que fosse apresentada
sob a form a de um enigm a, viesse acom panhada de sím bolos, envolta em
uma visão e não fosse com pletam ente clara. Tais observações levam a longas
discussões e debates para determ inar se as profecias devem ser entendidas
“literalm ente” , “figuradam ente” ou “espiritualm ente” .
O que significa um a visão literal? Raym ond Brown a define com o sendo
“o sentido que o autor desejava passar e que é transm itido por m eio de suas
palavras” .79 A pesar de a profecia, de fato, u'sar mais a linguagem figurada incluindo sím bolos, figuras de linguagem , alegorias e parábolas - do que as
narrativas ou a prosa didática, isso não significa que as palavras ou termos usados
são menos literais. Deve-se partir do pressuposto de que há um sentido gramati­
cal, simples e direto antes de se buscar o que está “contido dentro de” ou “encai­
xa-se em ” ou é “baseado em” alguma outra coisa além do sentido literal.
19 R ay m o n d E. B row n. “T h e L iteral Sense o f Scripture” , in JB C , pp. 601-10.
Assim, é preferível procurar entender a profecia em sua form a natural,
direta e literal. M as deve-se ter em m ente que “literal” aqui significa que as
palavras devem ser com preendidas de acordo com o seu sentido gram atical e
filológico normal; aliás, esse é o significado clássico do m étodo de interpre­
tação gram ático-histórico. Apesar de um a boa parte das palavras ser do tipo
figurado, elas não são menos significativas sim plesm ente por serem figuradas
pois, ainda assim, o autor queria dizer algum a coisa ao usar essas palavras.
A questão do cham ado “sentido espiritual” é m uito mais com plexa. Esse
sentido norm alm ente não é determ inado de m aneira explícita por m eio das
intenções do autor ou pelo fato de a linguagem figurada ser usada nas profe­
cias. É com um dizer que esse sentido está nas entrelinhas e que não é
identificável pela gram ática do versículo em si. Sob um outro ponto de vista,
ele é prim eiram ente identificável no Novo Testamento e depois revisado como
um novo valor dado a uma antiga leitura. Nesse sentido, portanto, tais releituras
de antigos valores surgem de pressuposições que a pessoa trouxe para dentro
da passagem baseando-se em suas próprias referências teológicas. (O proble­
ma, entretanto, não está no fato de que o intérprete possui um a série de pres­
suposições, ou em sua “espiral herm enêutica” . Devem os adm itir que todos
nós tom am os um texto como produto de nossas origens, experiências e enten­
dimentos anteriores. E preciso que testemos essas pressuposições usando como
referência a essência das Escrituras como um todo e, particularm ente, as evi­
dências da passagem que está sendo exam inada.)
Um a questão apresenta-se aqui: “E possível que o significado antigo das
palavras pretendido pelos autores do Antigo Testamento dentro de um conjunto
de valores, adquira um novo conjunto de valores sem que a intenção original
seja distorcida?” Um a questão-chave que divide os intérpretes em diferentes
escolas de pensamentos é a form a como o termo “Israel” é usado no texto do
Antigo Testamento. Tendo em vista estar claro nas Escrituras que existe apenas
um “povo de Deus” , alguns chegaram à conclusão de que a palavra “Igreja”
pode ser substituída em algumas importantes profecias do Antigo Testamento
sobre o futuro de “Israel” . A explicação para essa substituição norm alm ente
afirma que ela é um progresso da revelação e da unidade do povo de Deus aqui
mencionada. Mas, a não ser que essa identificação possa ser localizada dentro
do próprio Antigo Testamento essa interpretação seria um caso de eisegese, ou
seja, forçar um sentido (neste caso, adquirido pelo Novo Testamento com o um
todo) sobre um texto antigo (no Antigo Testamento).
Aqueles que querem defender tal “sentido espiritual” podem acabar lançan­
do mão do que é chamado de analogia da fé - um método que aplica percepções
da teologia sistemática na prática da exegese. Alguns, entretanto, argumentam
contra tal prática, procurando basear a exegese o máximo possível apenas nas
conclusões que são apoiadas pela análise de determinados textos.
Em resposta a essas afirmações, aqueles que defendem o uso da “analo­
gia da fé” argum entam que é apropriado ler nas entrelinhas do Antigo Testa­
mento, tendo em vista que o autor de ambos os Testam entos é o m esm o Deus - e de que é ele que continua acrescentando às suas próprias revelações
no processo de nos dar os dois Testamentos. Tratarem os mais desse assunto
no capítulo 11 mas, por ora, observem os que tanto a “revelação progressiva”
quanto a “analogia da fé” devem ser definidas com mais precisão se deseja­
mos refletir o que a igreja quer dizer com esses termos. A revelação progres­
siva tem um aspecto orgânico em que o gérm en contido nas prim eiras m en­
ções de um tem a continua ao longo do desenvolvim ento desse tem a sob a
form a da m esm a idéia seminal, tom ando porém uma form a m ais desenvolvi­
da na revelação posterior. A analogia da fé, portanto, não estabelece significa­
dos adicionais mas reúne aqueles que já estavam presentes sob um a form a
seminal ou rudim entar e passa a expressá-los de m aneira m ais plena pela
exegese m ais com pleta da revelação progressiva.80
CLAREZA
N osso Senhor nos advertiu que, ao contrário do caso de M oisés, haveria um a
certa opacidade ou um a qualidade enigm ática ligada ao que os outros profe­
tas tinham a dizer. Isso não ocorre devido a um a falta de precisão da parte
desses profetas ou do Revelador divino. Na realidade, tem a ver com coisas
tais com o a “perspectiva profética”, “solidariedade corporativa” e a m istura
de aspectos tem porais com o o “aqui e agora” com as revelações do tipo “já
ocorrida” e “ainda não ocorrida” , que são encontradas nesse gênero de literatura.
A “perspectiva profética” aparece com certa freqüência nos profetas do
Antigo Testam ento. E um fenôm eno que m escla tanto os aspectos próxim os
quanto distantes da previsão em um a única visão. Assim, Joel prediz que, de
acordo com a reação do povo ao cham ado ao arrependim ento, Deus poderia
reverter a devastação trazida pela praga de gafanhotos - a m anifestação do
D ia do Senhor daquela época - m andando (derram ando) chuvas im ediata­
m ente (J1 2.23). Porém , ele “derram aria” tam bém o Espírito Santo de form a
que viria a afetar a todos (versículos 28,29). Esse segundo aspecto realizou-se
mais tard e -p a rc ia lm e n te , no Pentecoste (At 2.16). Essa profecia ainda espera
um cumprimento pleno na segunda vinda de Cristo (J1 2.30,31).
80 Sobre este assunto, ver H. S. Curr, “ Progresive R evelation” , J T V I 83 (1951): 1-23; D. L. Braker,
“P rogressive R evelation” , em Two Testaments, One Bible (D ow ners G rove: InterV arsity, 1976),
pp. 76-87; Jam es I. Packer, “An E vangelical View o f Progressive R evelation” , em Evangelical
Roots: A Tribute to Wilbur Smith, org. por K enneth S. K antzer (N ashville: N elson, 1978),
pp. 143-58; W alter C. K aiser, Jr., “P rogressive R evelation” , em Toward Old Testament Ethics
(G rand Rapids: Z ondervan, 1983), pp. 60-64. Ver tam bém Frederic G ardiner, “T he P rogressive
C haracter o f R evelation” , em The Old and New Testaments in the M utual Relations (N ova York:
Pott, 1885), pp. 28-61.
Eis um dos aspectos da profecia que aum enta a dificuldade de interpre­
tação. Alguns referem -se a esse fenôm eno com o um resum o profético. A ilus­
tração com um é do pico de duas m ontanhas distantes que não perm item ao
observador definir qual é a distância entre eles. Da m esm a form a, os intérpre­
tes que olham ao longo do corredor do tem po tendem a ver acontecim entos
que vieram m ais tarde ligados ao contexto original. Os profetas do Antigo
Testam ento costum avam ver a prim eira vinda de Cristo m esclando-se com
acontecim entos ligados à sua segunda vinda.
U m a outra form a de ilustrar essa m istura dos aspectos próxim os da pro­
fecia com os distantes é a im agem de um profeta olhando pela m ira de um
revólver. A m ira mais próxim a ao olho alinha-se com a m ira do outro lado do
cano da arm a; exatam ente da m esm a form a, o profeta está consciente do cum ­
prim ento próxim o e da form a com o ele fará parte do cum prim ento final. Po­
rém , o intérprete deve cuidar para observar que, m esm o havendo m últiplos
cum prim entos da profecia, na mente do profeta eles estão ligados a um único
sentido e significado, tendo em vista que os cum prim entos fazem parte da
unidade orgânica e do todo ao qual pertence cada acontecim ento futuro.
Essa visão da profecia é conhecida com o o início da escatologia form al
e tem um aspecto de “já cum prida” e de “ainda não cum prida” encontrado em
m uitas das previsões tanto no Antigo como no Novo Testam ento. De acordo
com essa visão, m uitos anticristos já vieram, alguns estão em cena no m o­
m ento, m as a aparição do anticristo final acontecerá no fim dos tem pos como
afirm am várias passagens, em especial 1 João 2.18. Isso com para-se bem
com o 1 João 4.3: “ ... este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes
ouvido que vem e, presentem ente, já está no mundo.”
Da m esm a form a, o profeta Elias já havia m inistrado mas ainda iria
voltar, mas João Batista tam bém tinha vindo “no espírito e poder de E lias”
(Lc 1.17). A inda assim, Deus mais um a vez enviaria “o profeta Elias, antes
que venha o grande e terrível Dia do Senhor” (Ml 4.5). Jesus, é claro, confir­
m ou essa m esm a visão quando pregou em M ateus 11.14 que “se o quereis
reconhecer [João Batista], ele m esm o é Elias, que estava para vir” . M ais tar­
de, em M ateus 17.11 Jesus acrescentou: “De fato, Elias virá e restaurará todas
as coisas. Eu, porém , vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram ;
antes, fizeram com ele tudo o quanto quiseram .” D iante disso, poderia pare­
cer que Jesus havia respondido ao m esm o tem po sim e não. João Batista foi o
cum prim ento da prom essa de que Elias viria antes do grande Dia do Senhor,
porém , ele só veio no “espírito” e “poder” de Elias. Jesus adm oestou que, se
você for capaz de recebê-lo, ainda haveria uma vinda futura de Elias. Quem
seria essa pessoa e de que form a isso aconteceria foram questões não soluci­
onadas por revelações posteriores. M as fica claro que a profecia possui tanto
um aspecto de “já cum prida” com o de “ainda não cum prida” .
Assim, não é de se adm irar que tantos tenham dificuldade em decidir
quão clara é a palavra profética, tendo em vista que ela possui um núm ero
com plexo de cum prim entos, m esm o que esses m últiplos cum prim entos este­
jam organicam ente relacionados e tenham um sentido unificado. A m elhor
m aneira de descrever essa unidade é ilustrada pela linhagem m essiânica. Cada
filho nascido na linhagem de Abraão e Davi foi um verdadeiro cum prim ento,
um a antecipação do clím ax do cum prim ento que viria a se realizar no fim da
linhagem . Cada um teve a função de proclam ador de Deus e de evidência
tangível dentro da História de que a palavra de Deus sobre a prim eira e a
segunda vinda do M essias era e continua sendo confiável. Ao longo desse
tem po, cada filho apontava para Aquele que iria incorporar tudo aquilo que
foram os m em bros da linhagem e m uito m ais. E aqui entra na discussão o
conceito de “so lidariedade co rp o rativ a” , pois cada um dentro da lin h a ­
gem de D avi era um a parte do Todo (que estava por vir) e dos m uitos (na
linhagem da “S em ente”).
UNIDADE ORGÂNICA
Com freqüência, o padrão da revelação bíblica com eça apresentando um dos
grandes tópicos da profecia de m aneira ampla e claram ente delineada, dei­
xando por conta de revelações subseqüentes expandir e desenvolver o tema.
Essa interdependência das discussões proféticas dentro do texto bíblico tor­
na-se extrem am ente im portante para o intérprete; não podem os supor que
cada previsão é um a unidade isolada. Raram ente esse é o caso!
As profecias sobre Cristo com eçam sob form a germinal em Gênesis 3.15.
M as elas continuam , reaparecendo com Noé (9.26,27), Abraão (12.3; 15.2-8;
18.18) e todos os patriarcas ao longo da linhagem de Davi. Da m esm a form a,
o oráculo de B alaão (Nm 24.17-24) contém o germe profético de m uitas pro­
fecias que foram feitas mais tarde sobre as mesmas nações que haviam se
posicionado contra o povo de Deus (ver exem plos em Am 1-2; Is 13-23; Jr 4651 e E z 25-32).
Algumas vezes, o mesmo profeta repetia uma profecia semelhante sobre o
m esmo assunto. Dessa forma, o profeta Daniel repetiu a questão do destino dos
quatro impérios mundiais oposta à vinda do reino de Deus, sob a liderança do
Filho do Hom em , em Daniel 7 assim como efe já havia citado no capítulo 2.
Mas, Daniel 2 trata dos aspectos externos dessas potências mundiais, enquanto
o capítulo 7 as observa do ponto de vista de seus aspectos internos. Assim tam ­
bém, o carneiro de dois chifres e o bode de Daniel 8 são uma repetição do
segundo e do terceiro império mundial de Daniel 2 e 7 (conforme a visão que
Daniel recebe em 8.20,21).
A compreensão que os profetas possuíam de suas próprias profecias
U m a das respostas mais com uns à pergunta sobre qual era a com preensão que
os profetas tinham de suas próprias profecias é a que diz que: “os profetas
escreviam m ais do que sabiam.” Ao contrário desse aforism o repetido tantas
vezes, os profetas com preendiam aquilo que estavam pregando e escrevendo.
Isso não quer dizer que sua cognição era com pleta no que diz respeito a tudo
o que registravam ou que sabiam de todas as im plicações de seus escritos. O
tem po e a m aneira exata nos quais Deus iria cum prir suas prom essas para o
futuro m uitas vezes eram tão desconhecidos para esses profetas quanto o são
para nós. N ão pregavam, porém , palavras que não tinha sentido para eles e
que nós, os intérpretes m odernos pudem os pela prim eira vez com preender à
luz do Novo Testamento. Deus não inspirava os autores das Escrituras sim ­
plesm ente ignorando a capacidade racional deles. Há quatro im plicações re­
lacionadas às evidências de que os profetas com preendiam suas m ensagens.81
Os profetas estavam conscientes dos resultados de suas profecias
Jonas tinha tanta consciência daquilo que Deus requeria para ele que fugiu na
direção contrária. Ele não queria que sua pregação fosse um a oportunidade
de arrependim ento para um povo que tivera um relacionam ento tão sangrento
e cruel com a sua própria nação (Jn 4.3). Da m esm a form a, M icaías sabia
m uito bem que o rei Acabe iria se opor à sua profecia e, assim, a princípio ele
profetizou de form a irônica e confusa (lR s 22.15b). A lém disso, ele tam bém
sabia o que iria acontecer com os falsos profetas do grupo de Zedequias
(versículo 25: eles iriam se esconder “de câm ara em câm ara”) e o que iria
ocorrer ao rei Acabe na batalha sobre a qual ele buscava a orientação divina
antes de lutar (versículo 28: ele não retornaria em segurança).
OS PROFETAS ESTAVAM CONSCIENTES DAS IMPLICAÇÕES DE SUAS PROFECIAS
Quando o profeta Amós recebeu as visões de que Deus m andaria a praga de
gafanhotos e de fogo que consum iria tudo, ele apresentou objeções e suplicou
a Deus que voltasse atrás (Am 7.1-6). Com o poderia Amós ter orado na fun­
ção de intercessor, se não fazia idéia do que significavam as duas visões?
Jerem ias, por outro lado, foi proibido por Deus de interceder pelo povo em
oração a favor de Judá, uma vez que Judá tinha ido longe dem ais (Jr 7.16;
11.14; 14.11). Não era mais um a questão de cum prim ento condicional da
profecia caso o povo não se arrependesse; a palavra de Deus m encionou o que
aconteceria de qualquer m aneira. E Jerem ias tam bém sabia!
81 E ssa d iscussão está am plam ente baseada no estudo bastante apropriado feito por D ouglas Stuart,
“T he O ld Testam ent P rophets’ Self-U nderstanding o f T heir Prophecy”, Them elios 6 (1980): 9-14.
OS PROFETAS RECEBIAM MENSAGENS DE COISAS QUE ERAM HUMANAMENTE IMPOSSÍ­
VEIS DE SABER
Em diversas ocasiões Eliseu advertiu o rei de Israel para que estivesse prepa­
rado em um determ inado lugar (como, por exem plo, em 2 Reis 6.9). Aliás,
Eliseu disse ao rei israelita as “exatas palavras” proferidas pelo rei da Síria
em seu quarto (versículo 12b). Tais incidentes m ostram claram ente o que
significava ser um recipiente de revelações. Esses profetas não apenas fala­
vam de segredos do quarto de dorm ir do inim igo, como tam bém eram trans­
portados por m eio de visões para observar o que estava acontecendo a quilô­
m etros de distância. Foi dessa m aneira que Ezequiel recebeu a visão daquilo
que se passava em Jerusalém enquanto estava na Babilônia, a quase dois mil
quilômetros de lá (Ez 8.3b-11.25). Assim, em lugar de estarem confusos, os pro­
fetas falavam com precisão, noção de detalhes e compreensão inigualáveis.
OS PROFETAS RELACIONAVAM SUAS PROFECIAS A ACONTECIMENTOS E CIRCUNSTÂNCIAS
DE SUA ÉPOCA
N ão se poderia esperar que um a predição sobre um futuro distante com pouca
relação com o presente fosse de interesse para os ouvintes do profeta ou tives­
se qualquer im pacto prático ou pessoal na vida do povo. E por essa razão que
as profecias estavam enraizadas em determ inados acontecim entos contem po­
râneos. Em alguns casos, Deus prim eiro explicava o que ia fazer antes que o
profeta passasse a m ensagem adiante para o seu público (Ez 14.2-11; Daniel
7.16-28; 12.8-10). O Senhor assegurou a Am ós de que não faria “coisa algu­
m a, sem prim eiro revelar os seu segredo aos seus servos, os profetas” (Am
3.7). A resposta de Am ós foi: “Falou o Senhor, quem não p ro fetizará?”
(versículo 8). Havia um imperativo divino sobre a profecia uma vez que Deus
havia falado e essa obrigação não era cum prida, enquanto os contem porâneos
do profeta não tivessem um a chance de responder a essa m ensagem.
C ertam ente está claro que os profetas escreviam apenas o que lhes era
ordenado por Deus. Em cada caso, porém , possuíam um a com preensão do
que estavam escrevendo, o que era adequado o suficiente para perceberem as
im plicações e os resultados daquilo que estavam dizendo.
Princípios para a interpretação profética *
G irdlestone adverte que “não há um a estrada perfeita para o estudo c ie n ­
tífico da p ro fe c ia ” .82 Duas razões im portantes para tal conclusão en co n ­
tram -se no caráter enigm ático de grande parte do m aterial p rofético e na
enorm e q u antidade de m aterial b íblico que existe em praticam en te todos
os tópicos proféticos.
82 G irdlestone, G ram m ar o f Prophecy, p. 104.
As seguintes diretrizes são dadas para ajudar o intérprete a navegar nas
difíceis águas da profecia. Em m uitos casos, quando não existem problem as
e sp e c ífic o s (por c a u sa da au sên c ia de sím b o lo s, tip o s ou lin g u a g e m
apocalíptica), o intérprete pode geralm ente proceder como faria com um a
passagem em form a de prosa. Porém , em muito do m aterial profético, um a ou
m ais das quatro diretrizes a seguir devem ser levadas em consideração.
PRO FECIAS INCONDICIONAIS D EVEM SER DISTINGUIDAS DE PRO FECIAS CONDICIO­
NAIS E SEQ ÜENCIAIS
As profecias da Bíblia podem ser classificadas tom ando-se com o base seu
cum prim ento: condicional, incondicional ou seqüencial. Esses três tipos apa­
recem com relativa regularidade e são acom panhados de indicadores no texto
que ajudam o leitor ou intérprete a distinguir entre eles.
P r o f e c i a i n c o n d i c i o n a l . A lista de profecias incondicionais não é m uito
longa, mas elas ocupam algum as das posições mais cruciais na história da
redenção. Essas prom essas são unilaterais no sentido de que não dependem
de form a alguma da obediência ou comprom etim ento humanos para que ocorra
seu cum prim ento. Estão norm alm ente ligadas à aliança.
A aliança incondicional em Gênesis 15, na qual Deus de m aneira cerim o­
nial passou entre as carcaças dispostas para a cerimônia, é significativa. Em tais
cerimônias, era costume cortar os animais sacrificiais ao meio e colocá-los de
m aneira a form ar um corredor ao longo do qual passavam aqueles que estavam
fazendo a aliança. Se uma das pessoas que havia passado pelo corredor não
cum prisse com sua parte na promessa que havia jurado manter, sua vida teria o
m esm o destino daquela dos animais que formavam o corredor (Jr 34.13).
Tendo em m ente esse contexto, podemos então com preender por que
Gênesis 15.9-21 é tão significativo para a aliança com Abraão. Deus, m ostra­
do com o um a tocha de fogo que passa por entre as carcaças dos anim ais,
prom eteu sua aliança com Abraão, mas o próprio Abraão não passou pelo
corredor.83 Foi isso que tornou a aliança unilateral e, portanto, incondicional
da parte de Deus.
O utras alianças incondicionais são: a aliança de Deus em relação às
estações do ano (Gn 8.21,22); a prom essa de D eus de um a dinastia, reino e
dom ínio para Davi e seus descendentes (2Sm 7.8-16); a prom essa de Deus
de um a Nova A liança (Jr 31.31-34); e a prom essa de D eus de novos céus e
nova terra (Is 65.17-19; 66.22-24). Essas prom essas estão relacionadas à
nossa salvação por m eio da sem ente de A braão e Davi e da Nova A liança,
83 A lguns protestam veem entem ente c o n tra a visão de que a aliança com A braão foi incondicional.
Para um a exploração m ais com pleta do problem a, ju n tam en te com um a b ib lio g rafia e um a res­
p o sta m ais detalhada, ver W alter C. Kaiser, Jr. Toward R ediscovering the O ld Testam ent (G rand
R apids: Z ondervan, 1987), pp. 149-55.
juntam ente com o trabalho de Deus de m anter as estações e restaurar os
novos céus e nova terra.
P r o f e c i a c o n d i c i o n a l . A m aior parte das profecias do Antigo Testam ento
é condicional. Quase todas essas previsões são baseadas em Levítico 26 ou
Deuteronôm io 28-32. Esses dois textos enum eram as conseqüências específi­
cas que resultam da obediência ou desobediência à palavra de D eus. Os
dezesseis profetas literários do Antigo Testam ento citam ou fazem alusão a
esses dois textos centenas de vezes.84
A característica mais m arcante dessas profecias é que cada um a tem um
“se” ou de um “a m enos que” , quer ele apareça de form a explícita ou, mais
freqüentem ente, im plícita. Assim, no caso de Jonas, não havia um a prom essa
explícita de que, se o povo se arrependesse, seria poupado da calam idade que
Jonas havia am eaçado que sobreviria em quarenta dias. Entretanto, a suposi­
ção de que Jonas sabia que tal cancelam ento da punição era possível, caso
houvesse um inesperado arrependim ento, pode explicar sua profunda relu­
tância em proclam ar a declaração divina de julgam ento. Se o fim estava pró­
xim o, então por que Jonas não havia se deleitado em anunciar o súbito exter­
m ínio de seus inim igos? É provável que Jonas soubesse e contasse com o fato
de que tudo m udaria em relação à destruição de Nínive, se o povo de repente
resolvesse arrepender-se de seus pecados. O m esm o tam bém acontece com
todas as outras declarações de bênçãos ou julgam ento.
Jerem ias 18.7-10 identifica explicitam ente o aspecto condicional que
muitas vezes aparece implícito, ao colocá-lo na form a de um princípio geral:
No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para
o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade
contra a qual eu falei, também, eu me arrependerei do mal que pensava
fazer-lhe. E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou
reino, para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mau perante mim e
não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que hou­
vera dito lhe faria.
Esse princípio é o cerne de todas as profecias condicionais.
Levítico 26 e Deuteronôm io 28-32 listam alguns tipos m ais com uns de
bênçãos e julgam entos que serão recebidos, dependendo da atitude de um a
nação ou pessoa. 1 Reis 21.20-24 deixa claro cjue aquilo que é dito sobre as
nações tam bém vale para as pessoas. Quando o rei Acabe arrependeu-se, Deus
reverteu suas palavras sombrias e declarou que o julgam ento que havia am e­
açado não aconteceria nos dias de Acabe, tendo em vista que ele havia se
hum ilhado diante da palavra de Deus.
u Ver. por exem plo, D ouglas Stuart, H osea-Jonah, W B C 31 (W aco, TX : W ord, 1987), pp. xxxiixlii, que d á um resum o das citações dessas d uas passagens nos cinco prim eiros profetas m enores.
S tuart encontrou 27 tipos de m aldições e dez tipos de bênçãos de restauração.
P r o f e c i a s e q ü e n c i a l . Este terceiro tipo de profecia é m uito parecido com
as profecias do tipo “já cum prida” ou “ainda não cum prida” que discutim os
anteriorm ente. As previsões contidas nessas profecias colocam vários even­
tos juntos em um a única previsão, m esm o que venham a ser cum pridos num a
seqüência e num a série de acontecim entos que podem se estender ao longo de
vários séculos.
,
Diversas profecias dessa categoria já foram usadas por pessoas que não
sim patizam com o ponto de vista da Bíblia para provar que m uitas das previ­
sões bíblicas nunca se cum priram , ou pelo menos não da m aneira com o o
texto afirm ava que se cum pririam . N orm alm ente essa lista inclui:
1. A profecia da destruição de Tiro por N abucodonosor (Ez 26.7-14;
29.17-20).
2. A profecia de Elias contra o rei Acabe por ele ter assassinado Nabote
(lR s 21.17-29).
3. A profecia de Isaías sobre a destruição de Dam asco (Is 17.1).
A profecia de Ezequiel 26.7-14 pode ser tom ada com o um caso típico. E
preciso que se observe que Ezequiel 26.3 declara que o Senhor “traria muitas
nações” contra Tiro. E, de fato, Nabucodonosor, com o rei da Babilônia, é
especificado no versículo 7 como sendo uma dessas muitas nações. O que a
m aioria dos intérpretes não observa é que o versículo 12 apresenta um a m u­
dança súbita no pronom e, passando da form a singular vista nos versículos 811 (“ele”) para o plural no versículo 12 (“eles”). Quando juntam os isso com o
term o “m uitas nações” do versículo 13, fica claro que estam os lidando com
um a profecia seqüencial.
A H istória confirm a essa interpretação. Depois de sitiar Tiro durante
treze anos (aproxim adam ente entre 586-573 a.C.), Nabucodonosor só foi ca­
paz de em purrar a cidade de Tiro da costa cananéia para um a ilha dois quilô­
m etros para dentro do mar. Até m esm o Ezequiel 29.18, o m esm o contexto em
que havia sido feita a previsão sobre o papel de N abucodonosor na queda de
Tiro, reconheceu a frustração do rei por não ser capaz de conquistar Tiro.
Centenas de anos mais tarde, o m acedônio Alexandre o Grande apareceu e ele
tam bém quase se frustrou com sua tentativa de ir contra as forças fenícias de
Tiro no m eio em que os fenícios sentiam -se em casa - o mar. Entretanto, de
acordo com o que havia sido previsto pela profecia de Ezequiel, por volta de
323 a.C., Alexandre o Grande rem oveu “os muros, as pedras e o pó” (26.12)
da velha e abandonada cidade à beira-m ar e literalm ente os lançou “no m eio
das águas” a fim de construir um a ligação com a ilha sobre a qual estava a
nova cidade de Tiro, que ele acabou tom ando com facilidade. Som ente esse
tipo de tratam ento do texto encaixa-se na explicação do term o “m uitas na­
ções” e ilustra quais são as im plicações de um a profecia seqüencial. M as
observe que o texto contém indicações que perm item o seu entendim ento.
N ossa interpretação não foi im posta sobre o texto só porque sabíam os qual
seria o seu cum prim ento.85
TERMOS EMPRESTADOS DA HISTÓRIA PASSADA DE ISR A E L PODEM SER USADOS PARA
EXPRESSAR O FUTURO
Poucas características da profecia são m ais com uns do que a expressão do
futuro em term os que são tom ados em prestados do passado histórico de
Israel. Tendo em vista que o autor e seu público obviam ente não haviam
experim entado o futuro, com o o profeta poderia falar desse futuro de form a
significativa, a m enos que usasse analogias para referir-se a ele? A lém dis­
so, os m étodos de D eus agir apresentam um padrão constante entre si tom ar em prestado do passado para nos ajudar a conceitualizar o futuro é a
form a m ais lógica e natural de proceder. A lguns exem plos de term os usados
para retratar o futuro são:
1. Criação. Os term os e conceitos de Gênesis 1-2 reaparecem no retra­
to de novos céus e nova terra em Isaías 65.17 e 66.22.
2. Paraíso. O Jardim do Éden é usado para ter idéia da futura situação
paradisíaca da árvore da vida, com rios fluindo dela conform e apa­
rece em Isaías 51.3; Zacarias 1.17 e A pocalipse 2.7.
3. O dilúvio. Os dias de Noé e a form a como as pessoas continuavam
vivendo do m esm o jeito, apesar de estarem diante de um desastre
em Gênesis 6-8, serve de analogia de como serão os dias no tem po
da v id a do F ilh o do H om em (M t 2 4 .3 7 -3 9 ). A té m esm o os
escarnecedores daquele tem po são usados com o m odelos do dia
escatológico vindouro (2Pe 3.3-7).
4. A destruição de Sodoma e Gomorra. O que Deus fez com as cinco
cidades da planície em Gênesis 18-19 e Deuteronôm io 29.23 ele
tam bém fará com os perversos num dia vindouro, de acordo com
2 Pedro 2.6; M ateus 10.15; 11.24; Apocalipse 14.10,11 e 19.20.
5. O êxodo. A ssim com o D eus tom ou seu povo p ela m ão nos dias do
Faraó, ele o fará um a segunda vez quando ele voltar (Is 11.12 e
Zc 10.10,11).
6. A experiência no deserto. A presença do pilar de nuvem e fogo,
juntam ente com as fontes no deserto servem de indicadores sobre
com o Deus irá agir no dia em que vier novam ente (Is 4.5, 35).
85 Para u m a discussão e outros exem plos sobre profecias seqüenciais, ver W alter C. K aiser, Jr., B ack
Tow ard the Future: H in ts f o r Interpreting B ib lica l P rophecy (G rand R apids: B aker, 1989),
pp. 37-40.
7. O pecado de A cã e o Vale de Acor. Aquilo que não havia passado de
problem as para Israel por causa do pecado de Acã um dia se tornará
um a “porta de esperança” (Os 2.15).86
A lém dos acontecim entos passados servirem de m odelo para expressar o
futuro, da m esm a form a o texto utiliza personalidades históricas para carac­
terizar algum as pessoas que estão por vir. Elias, Josué, Zorobabel e Davi,
por exem plo, são usados para nos ajudar a criar conceitos sobre com o serão
as pessoas que no futuro irão tom ar o seu lugar (M t 11.14; Ag 2; Zc 3-4, 6 e
2Sm 7, lC r 17; SI 89 e 132).
Um a boa ilustração desse uso do passado para retratar o futuro pode ser
encontrada em Ageu 2.21-22:
Fala a Zorobabel, governador de Judá: Farei abalar o céu e a terra;
derribarei o trono dos reinos e destruirei a força dos reinos das nações;
destruirei o carro e os que andam nele; os cavalos e os seus cavaleiros
cairão, um pela espada do outro.
H á pelo m enos três alusões históricas que podem ser encontradas nesse tex­
to sobre o que D eus fez no passado e que serve de base para com preender o
que ele fará no futuro: (1) assim com o ele destruiu Sodom a e G om orra
(D euteronôm io 29.23), assim ele “derribará” o trono dos reinos “naquele
dia” (Ag 2.23); (2) assim com o “os cavalos e os cavaleiros caíram ” no m ar
Verm elho (Êx 15.1, 5), assim tam bém os inim igos do M essias serão con­
quistados “ n aq u ele d ia” ; e (3) de m an eira sem elh an te à g ran d e c o n q u is ­
ta de G id eão , em que cada hom em m atou o seu p ró p rio irm ão p e la e s p a ­
da no cam po do in im igo (Jz 7.22), assim tam b ém será a v itó ria de D eus
“ n aq u ele d ia ” . D essa form a, podem os e n te n d e r até certo p o n to coisas
que nenhum de nós ainda ex p e rim e n to u , tendo em vista que esses a c o n ­
tec im e n to s ainda não oco rreram .
EXPRESSÕ ES PROFÉTICAS QUE SE R E P E T E M MARCAM A PRESENÇA D E PASSAGENS
PROFÉTICAS
N os casos em que um intérprete não está certo se um a passagem pode ser
entendida com o profecia, é de grande ajuda tom ar com o referência algum as
das principais expressões usadas com mais freqüência nas profecias. A m aior
parte dessas expressões aparece com tanta freqüência que acabou tornandose um conjunto de term os técnicos para os conceitos que elas representam .87
86 P ara um a discussão m ais com pleta desse uso do passado para descrever o futuro, ver G irdlestone,
G ram m ar o f P rophecy, pp.66-75. Ver tam bém Kaiser, B ack Towarcl the Future, pp. 51 -60.
87 O conteúdo principal dessa seção vem de G irdlestone, G ram m ar o f Prophecy, capítulo 8, “Recurrent
P rophecy F orm ulae”
A lista abaixo contém algum as dessas expressões:
1. N os dias vindouros ou nos últim os dias. Essa expressão refere-se
ao período de tem po introduzido em conjunto com a série de acon­
tecim entos relacionados à segunda vinda de nosso Senhor. Os p ri­
m eiros exem plos dessas expressões aparecem na bênção de Jacó
sobre seus filhos (Gn 49.1) e nas previsões de B alaão (Nm 24.14).
O uso que os profetas fazem do term o refere-se ao tem po da res­
tauração (Is 2.2; Jr 49.39; M q 4.1; Os 3.5). Em João 6.39, 40, 44,
54 a expressão últim os dias é usada para o tem po de ressurreição
dos crentes.
2. O dia do Senhor. Não se trata aqui de um período de 24 horas, mas
de um conjunto de acontecim entos que precedem e incluem o se­
gundo advento de Cristo, durante o qual Deus trará o julgam ento e a
salvação. Proclam ações desse dia podem ser encontradas ao longo
de toda a história profética, mas o dia ainda está “próxim o” e não foi
revelado. A m enção clássica desse dia pode ser encontrada em Amós
5.18. E possível que a prim eira referência esteja em Êxodo 32.34,
“no dia da m inha visitação” . O term o aparece com freqüência nos
profetas (com o por exemplo, J1 1.15; 2.1; 3.14; Is 13.6; Ez 30.3,
Sf 1.7, 14). Algumas vezes o termo é usado simplesmente como “na­
quele dia” (Am 8.3, 9, 13; 9.11).
3. A vinda do Senhor. O livro de Judas (versículo 14) afirm a que
desde a era pré-patriarcal, E noque esperava a nova vinda do Se­
nhor. Esse segundo advento é m encionado com o um a epifania, um
nascim ento, um a form a de m anifestação do Senhor. Cristo voltará
à terra para punir (Is 26.21), para salvar (Is 40.10), para ir ao seu
tem plo (Ml 3.1) e para visitar Sião (Is 59.20). Ele o fará “subita­
m ente” (Ap 3.11; 22.7, 20) com o um relâm pago ou de m aneira
sem elhante a um ladrão (lT s 5.2; 2Pe 3.10; Ap 3.3; 16.15). Os cren­
tes, portanto, precisam estar preparados e vigiar constantem ente
(Lc 12.39; 21.34; lT s 5.4).
4. R estaurar a sorte do meu povo ou voltar do cativeiro. Deus irá liber­
tar o seu povo, Israel, em todas as partes do m undo pela segunda
vez, assim com o ele os libertou do cativeiro egípcio. N orm alm ente,
esse acontecim ento é colocado próxim o à sua vinda. Jerem ias e
Ezequiel usam essa expressão repetidam ente (Jr 30.3; Ez 39.25). A
m esm a expressão tam bém pode ser usada em relação à restauração
das nações estrangeiras por Deus, a saber M oabe, A m on e Egito
(Jr 48.47; 49.6. Ez 29.14).
5. O remanescente voltará. .Semelhante à expressão anterior, esta tam ­
bém prediz a restauração de Israel à sua terra nativa de Canaã. Ela
aparece pela prim eira vez em Gênesis 45.7, mas é usada repetida­
m ente nos profetas (Is 6.13; 10.21, 22 e em livros com o Joel, Amós,
M iquéias, Sofonias, Jerem ias e Ezequiel). No Novo Testam ento,
Paulo usa a idéia em Rom anos 9.27 e 11.5. Deus sem pre teve um
pequeno grupo de fiéis que constituíram o rem anescente.
6. A habitação (ou tabernáculo) de D eus entre os homens. O tem a da
prom essa na B íblia usa esse conceito com o parte de um a expressão
com posta de um a tríade que se repete quase cinqüenta vezes ao lon­
go de ambos os Testamentos. Deus prom eteu que iria habitar no
m eio de Israel (lR s 8.27), mas no dia final ele viria pessoalm ente
para estar no m eio de seu povo (Ez 37.27, 28). A m esm a verdade é
ensinada em Zacarias 2.10, 11; 8.3, bem como em Apocalipse 21.3.
Assim como o verbo tornou-se carne e veio habitar (“tabernacular”)
entre nós no prim eiro advento (Jo 1.14), assim tam bém Cristo virá
mais um a vez para cam inhar e falar em nosso meio; só então ele
tam bém irá governar e reinar.
7. O reino de Deus. O cântico de M oisés em Êxodo prom etia: “o Se­
nhor reinará por todo o sem pre” (Êx 15.18). Deus é reconhecido
com o rei em 1 Sam uel 12.12, mas o conceito do M essias ter um
reinado surge de uma prom essa feita a Davi em 2 Sam uel 7.16, da
visão profética do M essias governando com o rei sobre toda a terra
nos Salm os Reais e da figura encontrada em passagens com o Isaías
9.6,7; 24.23; M iquéias 4.7; Obadias 21; Daniel 7.14 que dão esse
reino e dom ínio ao Filho do Hom em. Esse tem a torna-se um dos
pontos principais do m inistério do Senhor nos Evangelhos e nas
Epístolas de Paulo.
Essas e muitas outras expressões semelhantes têm o papel importante de alertar
o intérprete para a presença de m aterial profético. Quase sempre indicam que
o cenário para o cum prim ento final do texto é o tem po da segunda vinda de
nosso Senhor. Fique atento para a presença dessas expressões e observe se o
uso das m esm as em cada contexto tem o significado técnico.
ALGUNS TERMOS PROFÉTICOS SÃO RICOS EM ALUSÕES
A linguagem da profecia muitas vezes tem um a história e textura vividas. As
ações e descrições que ela usa com freqüência são típicas, sim bólicas e cheias
de alusões a acontecim entos do passado.
Alguns desses termos podem ajudar o intérprete a adquirir certa perspectiva
sobre a literatura bíblica. Os seis termos a seguir estão entre os mais comuns:88
88Ibid., capítulo 7, pp. 48-53.
1. Terra. U m a das decisões m ais difíceis para o intérprete é se deve
traduzir o term o ’eres como “terra” ou “Terra” . Isaías 24 é um bom
teste. É provável que a profecia aponte para um contexto m undial,
tendo em vista o uso de céu como contraponto no versículo 21. A s­
sim, podem os form ular a seguinte regra: quando o term o “Terra” é
usado em contraste com céu, ele tem um sentido mais amplo; mas
quando está num contexto que faz contraponto com os gentios, ele
significa “terra” no sentido de “terra prom etida” .
2. M ar. O m ar pode referir-se a mais do que um grande corpo de água.
Ele pode ser um a m ultidão de pessoas - como é o caso em Daniel
7.2,3 - da qual erguem -se os quatro impérios m undiais.
3. A reia na praia e estrelas no céu. Aqui tam bém am bas as form as
de pensam ento significam um grande núm ero de pessoas e a popu­
lação incontável de Israel (Gn 22.17; Os 1.10; lR s 4.20; Gn 15.5;
Hb 11.12).
4. D ias de nuvens e escuridão; sangue e fo g o e nuvens de fum aça. O
sol se tornará em trevas e a lua em sangue. N orm alm ente, essas
frases representam calam idades nacionais e m undiais. Elas são sím ­
bolos de grande sofrim ento e destruição perm itidos por Deus e liga­
dos ao julgam ento da hum anidade na sua segunda vinda. As origens
desses term os estão em cataclism os do passado, tais com o o dilúvio
e a destruição de Sodom a e Gom orra. Ver textos com o Joel 2.10, 3031; 3.15; Isaías 13.10; 34.4; Ezequiel 32.7; 34.12; M ateus 24.29;
A pocalipse 6.12.
5. O norte. Algum as vezes, o norte representa a Assíria, outras vezes a
Babilônia ou a M edo-Pérsia. Isso acontece porque todos os conquis­
tadores do leste que foram contra Israel tinham que passar pelo nor­
te, tendo em vista que o deserto não perm itia um a incursão direta.
M ais tarde, o norte passou a referir-se aos m onarcas da Síria e
Selêucida, que governaram sobre a Síria e Palestina (Dn 11.6-40).
Em Ezequiel 38-39, o rei do norte é identificado com Gogue, Rôs,
M eseque e Tubal, identidades que foram consideradas por alguns
com o sendo potências residentes na antiga União Soviética. Os m es­
mos tem as são encontrados em Ezequiel 38-39 e aparecem nova­
m ente em Apocalipse 19.17, 1 8 e 2 0 .8 .
6. A s bodas do Cordeiro. Este term o m arca a futura união de Cristo
com a Igreja na conclusão da História (Ap 19.7-9; 21.2, 9).
A profecia m uitas vezes usa um a grande quantidade de im agens sim bólicas,
especialm ente nos trechos chamados de apocalípticos. A literatura apocalíptica
aparece em Daniel 7-12, em todo o livro de Zacarias, em M ateus 24-25, em
2 Tessalonicenses e no livro de. Apocalipse. Aqui, a revelação é transm itida
por m eio de anjos, visões e sonhos, juntam ente com outros meios sobrenatu­
rais. M esclados a essas m ensagens estão mares e tigelas de sangue, espíritos
com aparência de sapos e outros símbolos. Esses sím bolos podem ser classi­
ficados em três grupos:
1. Sím bolos explicad-os no m esm o contexto (com o, por exem plo,
Dn 2.37-44; 8.20,21; Ap 1.20; 4.5).
2. S ím bolos que são paralelos a im agens do A ntigo T estam ento
(com o, por exem plo, a árvore da vida em Gn 2.9; 3.24 e usada
em Ap 2.7; 22.2).
3. Sím bolos que não são explicados pelo contexto nem no A ntigo
T estam ento (com o a “pedra b ran ca” de Ap 2.17 ou o “p ila r” em
Ap 3.12), para os quais dependem os de costum es locais ou do
uso do term o dentro do tex to .89
O suposto duplo sentido das profecias
U m a das asserções feita com m ais freqüência acerca das profecias refere-se
ao que alguns cham am de “duplo sentido” da profecia. N orm alm ente, o ter­
mo significa que a passagem profética tem dois sentidos diferentes, cada um
separado do outro pelos contextos de ambos os Testam entos. Esse term o não
inclui aqueles tipos de profecia em que o cum prim ento inicial contém o ger­
me ou as sementes do cumprimento final (como o caso da escatologia recente
citada acima com sua profecia do tipo “já cumprida” e “ainda não cumprida”).
O apoio a esse conceito de duplo sentido vem do fato de os escritores do
Novo Testam ento parecerem ter um a certa am plitude na form a com o utilizam
determ inadas passagens do Antigo Testamento. Se os escritores do Novo Tes­
tam ento puderam fazer uso desses textos mais antigos de um a form a que
parece um tanto quanto ou totalm ente diferente dos propósitos originais, en­
tão, essa deve ser um a indicação divina de que há duplo sentido ou significa­
do, pelo m enos nos textos que tratam de profecias.
Esse argumento, entretanto, falha ao não observar que algumas dessas pas­
sagens do Novo Testamento estão apenas usando a linguagem conhecida do An­
tigo Testamento. Outros argumentos não apresentam uma compreensão razoável
de qual seria o ponto de concordância entre o Antigo e o Novo Testamento.
Outros afirm am que algum as passagens proféticas devem receber um
sentido duplo, pois certas profecias se referem a diferentes acontecim entos,
um mais próxim o e outro mais distante, ou um tem poral e outro espiritual, ou
até m esm o eterno. M as aí é que com eça a confusão. Esses exem plos não são
89 Ver m uitos outros exem plos em K aiser, B ack Toward the Future, pp. 41-49.
propriam ente casos de duplo sentido, pois um a profecia pode, de fato, estar
relacionada a mais de uma coisa (com o por exemplo, algo espiritual e tem po­
ral) mas ainda assim, ter um único sentido. Esse é o caso das profecias da
escatologia recente.
Entretanto, pode-se levantar fortes objeções contra a idéia de haver um
verdadeiro duplo sentido das profecias. Se, por exemplo, as Escrituras podem
ter diferentes significados, sendo possível constatar apenas um deles a partir
da passagem em um dos Testam entos, não podem os então estar certos do que
exatam ente aquele texto buscava ensinar. M ais um a vez, essa teoria do duplo
sentido corrom pe o valor das profecias, pois ou ela com plica o significado, de
form a a deixar dúvidas sobre o cum prim ento das m esm as ou ela evita esse
perigo ao tom ar as profecias tão generalizadas que fica im possível um cum ­
prim ento específico. Outra objeção surge quando se diz que o segundo e dife­
rente sentido é derivado de um novo significado que aparece pela prim eira
vez no Novo Testam ento em relação a esse texto do Antigo Testam ento. Mas
essa possibilidade dissipa a força de qualquer valor apologético que afirma
que o A ntigo Testam ento antecipou o que aconteceu no Novo Testamento.
A solução para essas questões pode ser encontrada principalm ente em
duas afirmações: (1) Um a característica m arcante da profecia é que ela m ui­
tas vezes olha adiante, “não apenas para um único acontecim ento ou pessoa,
mas para um a série de acontecim entos dentro de um a linha progressiva de
desenvolvim ento, tendo... sempre o m esm o sentido, mas com diversos desdo­
bram entos e aplicações” ;90 e (2) na com binação de tipo e profecia, o que pode
ser dito do tipo no Antigo Testam ento pode ser profeticam ente aplicado ao
oposto desse tipo no Novo Testamento.
Nessas concessões, pode-se ver que existe um certo grau de verdade nas
afirm ações acerca do duplo sentido. M uitas profecias têm um desdobram ento
de aplicações ou cum prim entos com o form a de assegurar que a palavra seja
m antida viva enquanto aguarda pelo cum prim ento final, mas todos esses des­
dobram entos com partilham de um mesmo sentido. O único ponto que estam os
negando aqui é que as profecias possam ter um significado ao serem proferi­
das de m odo natural ou original e outro significado supostam ente oculto exa­
tam ente nas m esm as palavras quando reaparecem mais tarde relacionada a
um assunto diferente.
Portanto, enquanto negam os a presença de “significados m últiplos” ,
“duplo sentido” ou qualquer teoria semelhante, afirmamos a existência de
“cum prim entos m últiplos” . O m al-entendido surge quando não distinguim os
lJ0 F rederic G ardiner, “T he A lleged ‘D ouble S e n se ’ o f S cripture”, em The O ld a n d N ew Testam ent
a n d T h eir M u tu a l R ela tio n s (N ova York: Jam es Pott, 1885), p.271. D evo o form ato principal de
m eu p ensam ento a essa seção d a obra de Gardiner.
duplo sentido de m últiplos cum prim entos. Dou preferência para o term o usa­
do por W illis J. Beecher. Ele refere-se aos m últiplos cum prim entos com o
um a “profecia genérica” , a qual ele define com o sendo “aquela que diz res­
peito a acontecim entos que ocorrem num a série de partes, separadas por in­
tervalos e que se expressam em linguagens que podem aplicar-se indiferente­
m ente à parte mais próxim a o^u à parte mais distante, ou ainda, ao todo - em
outras palavras, um a previsão que, ao aplicar-se ao todo de um acontecim en­
to com plexo, tam bém aplica-se a algumas de suas partes” .91 Essa definição é
um a das m elhores que temos à nossa disposição para tratar das várias ques­
tões aqui levantadas.
A chave para isso tudo é uma idéia derivada de nossa herança antiga que
foi novamente redescoberta neste século (da escola de interpretação de Antioquia,
com sua visão de theoria, dos séculos 5o a T d.C.).92 A idéia essencial é de que
há três aspectos na profecia, e não dois. Essas três partes são:
1. A palavra de previsão que antecede o acontecim ento para o qual
ela aponta.
2. O meio histórico, pelo qual Deus m antém viva a palavra de previsão
durante as sucessivas gerações, ao dar dem onstrações parciais que
estão ligadas à prim eira proclam ação da palavra com seu cum pri­
m ento num clímax final.
3. O cumprimento fin a l dessa palavra na era do Novo Testam ento, no
prim eiro advento ou nos dias do segundo advento.
C ada cum prim ento é, portanto, a realização parcial do que foi prom etido e
um a continuação da palavra que aponta para um futuro cum prim ento no clí­
m ax final.
91 W illis J. Breecher. The P rophets a n d the P rom ise (N ova York: T hom as Y. C row ell, 1905), p. 130.
52 Ver m ais sobre theoria e a escola de A ntio q u ia no capítulo 12, p. 213.
PARTE 3___________
Respondendo ao Texto:
Significado e Aplicação
O m étodo devocional de estudo da B íblia está enraizado
num forte desejo de aplicar a Bíblia à vida diária. Esse m étodo
parte corretam ente do pressuposto de que as palavras das E scri­
turas são claras o suficiente para que se com preenda sua m ensa­
gem básica, mas não exige que todas as Escrituras sejam igual­
m ente claras e compreensíveis. O leitor depende do Espírito Santo
para ilum inar as Escrituras usadas no estudo devocional. Incluí­
das de m aneira especial na obra esclarecedora do Espírito Santo
estão as questões de aplicabilidade, o ministério de encorajam ento
dos desanim ados e a tarefa de convencer a todos da presença do
pecado ã m edida que os leitores são expostos às Escrituras.
A m editação na Palavra de Deus é essencial para o m étodo
devocional. A m editação não tem como objetivo a auto-abnegação, com o é norm alm ente o caso nas religiões orientais e algu­
m as outras seitas contem plativas de nossos tempos. Em vez dis­
so, a m editação bíblica procura estabelecer com unhão com Deus
e adoração a ele ao envolver a pessoa com o um todo - corpo,
alm a e m ente. Ela usa as Escrituras com o o foco em que está
centrada essa m editação.
CAPÍTULO 9________________
“Assim como a corça suspira pelas
correntes de água”
O USO DEVOCIONAL DA BÍBLIA
W alter
C.
K a is e r , J r .
A arte e disciplina de usar a Bíblia na vida devocional está rapidam ente tornando-se um hábito perdido do coração, da m ente e da alma. Para aqueles que
ainda procuram m anter um a prática devocional diária, ela pode significar a
leitura de alguns parágrafos de com entários am plam ente ilustrados em um
guia devocional im presso em páginas m uito pequenas, de conteúdo facilm en­
te assim ilável em questão de m inutos e ostensivam ente centrado em torno de
um versículo, expressão ou frase das Escrituras. Infelizm ente, as porções
bíblicas m inguadas apresentam -se com freqüência desligadas de seu contex­
to na Bíblia e muitas vezes refletem pouca ou nenhum a ligação com seu pro­
pósito original dentro do cânon.
M esm o que esse problem a tenha se tornado mais acentuado nos últim os
anos, ele certam ente não é um a questão inédita no Corpo de Cristo. Próxim o
do com eço deste século, W ilbert W. W hite, fundador de um sem inário em
Nova York, detectou essa m esm a fraqueza nos hábitos de leitura e estudo da
Bíblia daquela época. Na tentativa de ir ao encontro dessa deficiência, ele
desenvolveu o que cham am os de m étodo indutivo de estudo da Bíblia. O ob­
jetivo principal do Dr. W hite era treinar os leitores da Bíblia para que desen­
volvessem por si m esm os um a form a independente de coletar dentro do texto
das Escrituras idéias originais que os ajudariam a crescer na graça e conhe­
cim ento de nosso Senhor Jesus Cristo. Além disso, ele esperava que aqueles
que tivessem descoberto esse novo m étodo de coletar os ensinam entos da
Bíblia de forma sistemática e indutiva passassem o conhecimento adiante para
outros, expandindo assim os benefícios desse novo uso devocional da Bíblia.
C om o tem po, o m étodo indutivo tornou-se bastante fam oso, de m odo
que nos dias de hoje há um grande número de pessoas que usam essa form a de
estudar, m uitas das quais talvez nem tenham ouvido falar de W ilbert W hite.
Atualm ente, m esm o não séndo cham ado de m étodo indutivo, ele está presen­
te de form a acentuada nos m inistérios paralelos da igreja das últim as quatro
ou cinco décadas e aparece em diversos guias de estudo bíblico, especialm en­
te naqueles que estão voltados para os m inistérios com universitários no O ci­
dente. Esse m étodo desenvolve a paciência do leitor que se põe diante de um
texto e o observa cuidadosam ente até que o texto tenha dom inado o observa­
dor, em lugar de o observador dom inar o texto. Q uer o m étodo indutivo seja
ou não seguido de form a rígida, os crentes devem recorrer com seriedade ao
seu uso devocional da Bíblia.
Definição
O m étodo devocional de estudo da Bíblia tem suas raízes num forte desejo de
encontrar nos textos das Escrituras aplicações sólidas para a vida diária. Tal
estudo não é m otivado pela curiosidade intelectual, histórica ou crítica; en­
volve, sim, um com prom isso claro de ver m udanças nas próprias atitudes, nos
valores e nas ações pessoais.
Os term os devoção ou método devocional estão ligados pelo verbo de­
votar, que pode ser definido como um ato de dedicação que envolve o dar-se
por com pleto, tendo o foco da atenção centrado totalm ente no outro. Assim , o
objetivo principal no exercício de ler as Escrituras de form a devocional não é
o dom ínio do conhecim ento sobre Deus, mas o dom ínio de Deus sobre o
leitor, por m eio do m inistério do Espírito Santo, à m edida que o leitor usa a
Palavra de Deus com o um desafio a fazer progressos no crescim ento cristão e
a dar frutos.
U m a obra que tem enorm e influência na área que estam os discutindo é
o livro de M erril C. Tenney, o falecido deão e professor de Novo T estam en­
to de W heaton G raduate School of Theology e entitulado Galatians: C harter
o f Christian Liberty. N essa m aravilhosa antologia sobre os diferentes m o­
dos de se tratar o estudo do texto bíblico, Tenney definiu o estudo devocional
da B íblia com o sendo “m ais um espírito do que um a técnica; é o espírito de
anseio que busca a m ente de Deus; é o espírito de hum ildade que ouve a
voz de Deus; é o espírito de aventura que busca com seriedade a vontade de
Deus; é o espírito de adoração que descansa na presença de D eus” .93
95 M e rril C. T enney. G a la tia n s: C h a rte r o f C h ristia n L ib e rty (G ra n d R ap id s: E e rd m a n s, 1950),
pp. 2 0 7 -8 .
A própria B íblia estim ula os crentes a praticarem regularm ente a disci­
plina de estudar a Palavra de Deus, a fim de que cada pessoa possa ser renova­
da diariam ente por m eio da instrução, do incentivo, da repreensão e da orien­
tação encontrados na Palavra. Talvez o texto mais conhecido que incentiva
esse tipo de contato com a Palavra de Deus seja aquele em que o Senhor diz a
Josué quando este tomou as rédeas da liderança: “Não cesses de falar deste
Livro da Lei; antes, m edita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer
segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu cam inho e
serás bem -sucedido” (Js 1.8). Esse texto define praticam ente o exercício
devocional em sua totalidade. O estudo devocional deve ser regular (“dia e
noite”), reflexivo (“medita nele”), aplicável (“tenha cuidado de fazer tudo quanto
nele está escrito”) e constante (“não cesses de falar deste Livro da Lei”).
As Escrituras não têm o propósito de ser apenas um campo de aprendiza­
do para estudiosos e profissionais do clero; elas são dirigidas ao povo. Aliás,
um a das questões centrais da Reforma foi a clareza das Escrituras e o seu fácil
acesso a todos os leitores.
A Clareza das Escrituras
Se todos os crentes são incentivados a usar a Bíblia de form a devocional,
pressupõe-se que as palavras das Escrituras são com preensíveis, ou claras o
suficiente para que possam ser entendidas por todos sem a ajuda de um estu­
dioso ao lado do leitor para instruí-lo. Seria essa é um a pressuposição razoá­
vel? Podem os estar seguros de que tais leitores não incidirão em erro ao per­
correrem o cânon das Escrituras, ao lerem os textos por conta própria e de
acordo com sua visão e com preensão?
N inguém foi mais veem ente em tom ar um a posição a favor da clareza de
significado da B íblia e seu fácil acesso a todos do que M artinho Lutero. Sua
declaração mais vigorosa desse princípio pode ser encontrada em seu livro
On the Bondage o fth e Will, escrito com o resposta à obra do respeitado estu­
dioso Erasm o, On the Freedom o fth e Will. De acordo com Erasmo:
Há certas coisas que Deus desejou que contemplássemos, à medida
que o veneramos em silêncio místico; há, ainda, muitas passagens dos
textos sagrados sobre as quais muitos comentaristas simplesmente tra­
çam suposições, mas que ninguém conseguiu tirar da obscuridade: tais
como a distinção entre a trindade divina, a conjunção da natureza divi­
na e humana de Cristo, o pecado sem perdão; há, porém, outras coisas
que Deus quis que ficassem evidentes e tais coisas são os preceitos de
uma boa vida. Esta é a Palavra de Deus, que não é encontrada apenas
nos mais altos céus ou nas terras mais longínquas, mas está ao nosso
alcance, em nossa boca e em nosso coração. Essas verdades devem ser
aprendidas por todos, mas o restante fica ao encargo de Deus, e é
mais religioso simplesmente adorar essas outras coisas, mesmo sen­
do elas desconhecidas, do que discuti-las, tendo em vista que tam­
bém não são solucionáveis.94
A pesar de Lutero a princípio ter discordado violentam ente de Erasm o, afir­
m ando que as Escrituras eram claras e disponíveis, ele acabou adm itindo que
há certos aspectos obscuros *das Escrituras. “Adm ito, é claro, que há m uitos
textos nas Escrituras que são obscuros e de difícil com preensão, não por cau­
sa da m ajestade de seus assuntos [como argum entava Erasm o], mas por causa
de nossa ignorância do vocabulário e da gram ática; mas esses textos de form a
algum a im pedem o conhecim ento do conteúdo das Escrituras.”95
No final das contas, a discussão entre Lutero e Erasmo não era sobre a
aplicação do aprendizado ou sobre o estudo, nem sequer era sobre se os textos
das Escrituras eram claros o suficiente para que a mensagem principal da Bíblia
pudesse ser compreendida pelo leitor comum. No fundo desse debate estava a
seguinte questão: “Até que ponto o leitor comum, ou mesmo a igreja como um
todo, tinha a obrigação de submeter-se às tradições e aos pronunciamentos ofi­
ciais do papa sobre a exposição adequada das Escrituras?” Os Reform adores
afirmavam que para se conhecer o significado essencial da m ensagem da Bíblia
o leitor não tinha essas obrigações! Não havia necessidade da história da tradi­
ção de ninguém para se interpretar as Escrituras; a Bíblia era suficientem ente
inteligível sem esses elementos.
O que significou, pois, o m om ento em que a B íblia foi declarada com o
sendo clara e de com preensão acessível a todos? Sim plesm ente que a B íblia
é considerada clara e possível de ser entendida em todos os aspectos neces­
sários para a nossa salvação e crescim ento em Cristo. Não se estava afir­
m ando que a B íblia é com pletam ente inteligível, não havendo nela nenhum
m istério ou área que desafie a com preensão de um a ou outra geração de
leitores. Se os leitores fizessem o m esm o esforço usado para a com preensão
da literatura de um m odo geral, afirm ava-se que iriam adquirir e ntendim en­
to adequado e suficiente para guiá-los a um relacionam ento salvífico e a
um a vida de obediência com seu Senhor.
Essa definição sobre a clareza das Escrituras apareceu em m uitas obras
^protestantes logo após a Reform a. A mais conhecida é o parágrafo 7 sobre a
doutrina das Escrituras da Confissão de Fé de W estm inster (1647).
Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do
mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser
94 E. G. R upp et a l., organizadores, L u th e r a n d E rasm us: Free Will a n d Salvation, L C C 17 (F ilad él­
fia: W estm inter, 1969), pp. 39-40 (ênfase m inha).
95 Ibid., pp. 110-11.
obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro pas­
so da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os
doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários,
podem alcançar uma suficiente compreensão delas (ênfase minha).
H á m ais em jogo aqui do que a simples com preensão das palavras em si.
M esm o quando os leigos comuns são capazes de obter um entendim ento ade­
quado e suficiente do que está sendo dito na Bíblia, ainda há uma outra di­
m ensão relacionada à recepção e aplicação dessas questões na própria vida e
coração. Não teria isso um efeito sobre a questão da clareza das Escrituras?
O Trabalho de Iluminação do Espírito Santo
Um dos textos de suma importância que deve ser considerado aqui é a declaração
feita pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural não aceita
as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las,
porque elas se discernem espiritualmente.” Enquanto trabalhava no meu progra­
ma de doutorado, tive uma experiência extraordinária em um dos seminários dos
quais participei e que selou esse texto em minha mente e meu coração.
Um distinto professor recém-chegado da Universidade de Yale estava ofere­
cendo um seminário especial sobre “As origens do Cristianismo” na universidade
em que eu estava estudando na Costa Leste. Um dia, os alunos desviaram o as­
sunto de modo que o professor acabou discutindo sua compreensão de Romanos
1-5. Com eloqüência pouco usual e exegese perfeita, ele passou por esses capítu­
los com grande habilidade, declarando que todos ali presentes haviam pecado e,
portanto, careciam da glória de Deus. Mas para aqueles que acreditassem no
sacrifício do Filho de Deus pelos pecados, estes não seriam apenas transforma­
dos em pessoas retas mas também declarados justificados, como um juiz que
encerra um caso por falta de provas sobre a culpa do acusado. Em poucas ocasi­
ões ouvi um a exposição tão audaciosa e clara do texto de Paulo.
Depois de duas horas, entretanto, o encanto foi subitam ente quebrado
quando um dos estudantes judeus em nossa classe, que juntam ente com ou­
tros que haviam acom panhado com certo desconforto a longa explanação,
sim plesm ente falou (naquele clim a de nervosism o que, àquela altura h a ­
via se instalado): “Será im pressão m inha, ou o p rofessor desta classe a c re ­
dita nisso tu d o ?”
Im ediatam ente, o professor respondeu em um tom de escárnio: “Quem
falou em acreditar? Só estou argum entando sobre o que Paulo disse. Estou
cansado de ouvir vocês, jovens estudantes neo-ortodoxos dizerem ‘E isso que
este ou aquele tópico significa para mim Fui treinado sob a antiga teologia
liberal; nós aprendem os o que Paulo disse. Só que, por um acaso, nós não
acreditam os no que Paulo disse!”
Com ecei a entender onde Paulo queria chegar com sua afirm ação em
1 Coríntios 2.14. Esse professor não “aceitava” (uma possível tradução para
dechetai) aquilo que ele sabia tão bem a ponto de poder ensinar praticam ente
com perfeição durante duas horas. Fica claro, portanto, que o m inistério e a
obra do Espírito Santo, ao ilum inar a m ente e o coração daqueles que ouvem
as verdades espirituais, não devem ser tratados levianam ente em toda essa
área da interpretação bíblica, especialm ente no que diz respeito à aplicação
daquilo que somos ensinados por m eio da Bíblia.
Alguns acreditam haver dois tipos separados de lógica no m undo: um a
para os crentes e um a para os descrentes. M as Paulo deixa claro em Rom anos
1-2 que aqueles que não são convertidos são capazes de entender a verdade
sobre Deus o suficiente para se condenarem a si mesmos, tendo em vista que
eles não agiram de acordo com aquilo que sabiam sobre Deus. E 1 Coríntios
2.14 reforça esse conceito - sem o m inistério e ilum inação interior do Espíri­
to Santo, tais pessoas não aceitarão nem tom arão para si as realidades encon­
tradas no texto bíblico. Assim, um a das obras singulares do Espírito Santo é
de convencer, dar convicção e despertar o coração adorm ecido para aplicar na
vida do indivíduo as verdades vistas nas Escrituras. A fim de os leitores se
colocarem em posição em que o m inistério do Espírito Santo possa agir de
form a mais eficaz, as Escrituras pedem que eles ponderem e m editem cuida­
dosam ente sobre o que está sendo dito no texto bíblico.
O Ato de Meditar nas Escrituras
A arte e prática de m editar nas Escrituras tem um papel im portante no uso
devocional da Bíblia. A m editação é apresentada nas Escrituras com o um ato
de adoração que envolve a com unhão com Deus. Em lugar de ser um a rota de
fuga em que o indivíduo é, de algum a form a, assim ilado, absorvido ou m es­
clado com o ser divino por um processo m ístico não especificado - com o é
ensinado com tanta freqüência por m uitas religiões orientais e algum as seitas
ocidentais m odernas - a m editação nas Escrituras pode ser cuidadosam ente
definida quanto aos seus objetivos, métodos de prática e resultados.
Podem os ter um a boa idéia do que significa a m editação ao exam inar­
mos o contexto em que se encontram o conceito e as palavras de m editação. O
Salm o 77 tem relevância especial, fazendo referência à m editação em três de
seus versículos. O salm o pode ser dividido em duas partes: os versículos 1-9
expressam a tristeza de Asafe; os versículos 10-20 relatam com o ele superou
esses problem as. No tem po de sua angústia e durante noites insones ele m edi­
tou sobre o Senhor (versículo 3). Em sua inquietação, o salm ista recordou-se
de dias mais felizes no passado (versículo 5) e nas longas horas da noite seu
coração m editou (versículo 6) no que ele aprendeu sobre Deus pela Palavra
durante os bons tem pos da sua vida. E le se perguntou se Deus o esqueceria
para sem pre. M as, então, no versículo 10 ele subitam ente lem brou-se dos
feitos passados de Deus. N esse ponto ele decidiu: “C onsidero tam bém nas
tuas obras [de Deus] todas e cogito [ou pondero, medito] dos teus prodígios”
(versículo 12). Assim , o profundo desânim o do salm ista acabou cedendo
ao livram ento de Deus, quando ele concentrou sua m editação nas obras de
D eus. E sse é exatam ente o resultado desejado da leitura devocional dos
textos das Escrituras.
A m editação é um exercício do coração, ou seja, da pessoa com o um
todo. Tal m editação é ressaltada no Salmo 19.14; 49.3; Provérbios 15.28 e
Isaías 33.18. O objetivo da m editação, de acordo com o Salmo 49.3, é encon­
trar entendim ento, não da m aneira com o é m uitas vezes pregada nas religiões
orientais ou em algumas seitas de nossos dias. Para meditar, não é preciso
tentar esvaziar-se, para que supostam ente o divino possa fluir através do ser
de um a form a panteísta. Em vez disso, deve-se procurar levar todo o ser corpo, alm a e espírito a concentrar-se em Deus, suas obras e especialm ente
sua Palavra, que nos fala tanto de sua pessoa quanto de suas obras.
B aseando-nos sim plesm ente no núm ero de referências, ao que parece
a m editação que é incentivada pelas E scrituras tem seu foco central na P ala­
vra de D eus. Com o já observam os, Josué 1.8 ordena que a m editação no
Livro da Lei seja praticada dia e noite. O próprio livro de Salm os com eça
com um a benção para a pessoa que se deleita na lei de Deus e que m edita
nessa lei dia e noite (SI 1.1,2). R epetidam ente, o Salm o 119 estim ula seus
leitores a m editar “nos teus preceitos [preceitos de D eus]” (versículos 15,
78), nos decretos de Deus (versículos 2 3 ,4 8 ), na sua lei (versículo 97), nos
seus testem unhos (versículo 99) e nas suas prom essas [palavras] (versículo
148). A m ente daquele que está m editando não deve ficar vazia; ela deve
encher-se das E scrituras, a Palavra de Deus. Da m esm a form a, quando a lei
de D eus está no coração da pessoa, seus passo não vacilam , pois “A boca do
justo profere a sabedoria e a sua língua fala o que é ju sto ” (SI 37.30,31). É
isso que significa m editar na Palavra de D eus quando ela é lida de m aneira
devocional. O resultado é que a Palavra de Deus perm anece constante no
coração do crente em qualquer situação em que ele se encontrar: quando
está assentado em sua casa, andando pelo cam inho, ao deitar-se e ao levan­
tar-se (Dt 6.6-9; Pv 3.22-24; 6.22).
Conclusão
Não há apenas um m étodo de estudo da B íblia que possa exigir direitos ex­
clusivos sobre todos os outros. Aliás, Howard Vos identificou dezessete dife­
rentes form as de estudar a B íblia em seu livro Ejfective Bible Study.9b É ver­
96 H ow ard Vos, E ffective B ible Stucly. 2a ed. (G rand R apids: Z ondervan, 1956).
dade que alguns dos seus dezessete métodos envolviam mais de um a aborda­
gem; entretanto, o im portante é que uma pessoa pode fazer o seu estudo
devocional do texto usando form as com o o m étodo biográfico, tópico, doutri­
nário, indutivo ou analítico. N enhum m étodo é um a vara de condão que dis­
pensa a necessidade de a pessoa usar sua m ente e de aceitar que é necessária
um a disciplina rígida em todas essas form as de estudo.
Aliás, é recom endável que os leitores da Palavra variem o uso devocional
das Escrituras de tem pos em tempos. Não se deve ficar tão preso a ponto de
não haver espaço para experim entar e am pliar a esfera de investigação. A
única precaução necessária é deixar que, em prim eiro lugar, o texto diga aqui­
lo que ele quer antes que tentem os aplicar esse texto à nossa realidade con­
tem porânea. É sempre de grande ajuda colocar por escrito aquilo que pensa­
mos estar vendo no texto. Um registro de nossas observações em um caderno
com pleta as ferram entas necessárias, especialm ente se vamos ju n ta r várias
partes e organizá-las de modo que tenham os uma visão geral daquilo que
estam os procurando.
Finalm ente, um a das melhores formas de m editar sobre um texto é sele­
cionar um ou mais versículos da passagem sobre a qual estam os refletindo e
m em orizá-los. U m a vez na m em ória, eles podem ser arm azenados para m o­
mentos futuros de pensam ento e reflexão e ser aplicados às diversas vicissitudes da vida.
O intérprete deve servir de ponte entre os elem entos cultu­
rais que estão presentes no texto das Escrituras e aqueles de nos­
sos tempos. Um a proposta para transpor essa barreira é cham ada
de etno-herm enêutica, que reconhece a presença de “horizontes”
na interpretação em diferentes culturas: a cultura da Bíblia, a
cultura do intérprete e a cultura do receptor. Deve-se cuidar para
não perm itir que o segundo e o terceiro elem ento determ inem a
m ensagem do prim eiro elem ento.
Os pais da igreja prim itiva usavam term os como “condes­
cendência” , “adaptação” e “aculturação” para lidar com as ques­
tões culturais dentro do texto. Sob o ponto de vista deles, os as­
pectos culturais das Escrituras tinham a finalidade de tornar a
verdade mais acessível e de nos ajudar a aplicar o texto ao nosso
tem po presente.
Há três opções disponíveis para a interpretação dos aspec­
tos culturais das Escrituras: (1) m anter a teologia ensinada ju n ta ­
m ente com a expressão histórica e cultural daquele princípio ou
(2) m anter a teologia da passagem substituindo a expressão do
com portam ento ou ainda (3) substituir tanto o princípio quanto a
prática. As cinco diretrizes para se fazer um a dessas interpreta­
ções são: (1) observar a razão oferecida pelo texto para a existên­
cia de um elem ento cultural, (2) m odificar a form a cultural m an­
tendo o conteúdo, (3) evitar todas as práticas relativas a culturas
pagãs, (4) m anter as práticas baseadas na natureza de Deus e
(5) fazer ajustes quando as circunstâncias alteram a aplicação de
um a lei ou princípio. M as, acim a de tudo, ser hesitante e hum ilde
em todos os casos em que estam os incertos.
CAPÍTULO 10
Obedecendo à Palavra
O USO CULTURAL DA BÍBLIA
W a l t e r C . K a is e r , J r .
A revelação de Deus nas Escrituras foi originalm ente escrita em hebraico,
aram aico e grego, por escritores que representavam um a variedade de cultu­
ras que, m uitas vezes, diferenciavam -se de form a dram ática das culturas para
as quais a Bíblia foi traduzida. Essas diferenças nem sempre são devidam ente
consideradas até que com eçam os a traduzir a Bíblia para um a outra língua.
Em seu livro Customs, Culture and Christianity, Eugene A. Nida relata
com o a cham ada tradução literal da Bíblia pode gerar conotações errôneas
num a outra cultura. Por exemplo, o povo Kpelle da Libéria considera o ato de
espalhar ram os de palm eiras na passagem de Jesus durante a entrada triunfal
em Jerusalém como um insulto, pois a sua cultura exige que todas as folhas
sejam retiradas do cam inho para a passagem de qualquer dignitário. Da m es­
m a form a, o povo Zanaki da Tanganica acha estranho o fato de Jesus estar
“batendo à porta” (Ap 3.20), pois em sua cultura um hom em pára diante da
porta e pede para entrar. Só os ladrões batem à porta para ver se há alguém em
casa antes de assaltarem .97
Aquilo que é verdade para a tradução da Íííb lia tam bém vale para a sua
interpretação. O intérprete deve servir de ligação ao explicar os elem entos
culturais que estão presentes no texto das Escrituras, levar em consideração
sua própria bagagem cultural e transcender ambos para que possa com unicar
a m ensagem original das Escrituras para a cultura do público de sua época.
Tudo isso requer um a com preensão do que vem a ser cultura.
1,7 E ugene A. N ida, Custom s, C u ltives a n d C hristianity (L ondres: Tyndale, 1954), pp. 220, 218.
Definição de Cultura
Não é tão fácil definir cultura. Num sentido mais amplo, norm alm ente signi­
fica a m aneira padronizada de com o as pessoas fazem coisas juntas. Assim,
ela im plica certo grau de hom ogeneidade ao longo de um determ inado perío­
do de tem po. De acordo com a definição de Eugene Nida, “Cultura é todo o
com portam ento aprendido que é socialm ente adquirido, ou seja, as caracte­
rísticas m ateriais e não-m ateriais que são passadas de um a geração para ou­
tra” .98 D esta form a, o term o cultura designa a m aneira singular com o um
grupo de pessoas encara e faz as coisas dentro de um certo período de tem po,
incluindo seus valores, m odos, expressões e conquistas.
Ao m esm o tem po que há certas necessidades básicas com uns à m aioria
dos grupos de pessoas, é surpreendente como as culturas variam e diferem
um a das outras. Na área da alim entação, por exemplo, os não-ocidentais m ui­
tas vezes ficam horrorizados ao pensar que os ocidentais com em leite fer­
m entado (queijo), enquanto alguns ocidentais escandalizam-se que os coreanos
consum am picles de repolho, esquim ós com am a pungente carne de m orsa
e os chineses degustem ovos ferm entados de pato. C onform e o ditado p o ­
pular, o que é um banquete para alguns pode ser veneno para outros - m as
assim são as culturas.
A revelação de Deus em sua Palavra veio nos term os da cultura de seus
prim eiros públicos de leitores e ouvintes. Portanto, se desejam os usar essa
palavra de m aneira eficaz nos dias de hoje, precisam os ser capazes de nos
com unicarm os por essa cultura bíblica com outras pessoas que desejam des­
dobrar a m ensagem do evangelho. Os escritores da B íblia usaram o m aterial
cultural que estava à sua disposição, quer no em prego m eram ente incidental
de term os que já possuíam toda um a história de associações e significados,
quer no uso de um term o que era particularm ente significativo naquela cultu­
ra. Assim com eça o problem a da cultura, pois aquele term o não seria usado
por pessoas de outras culturas mais m odernas para expressar determ inada
idéia. O A ntigo Testam ento chega a m encionar o m onstro m arinho Leviatã e
até m esm o dragões de sete cabeças! Se nossa cultura não vê essas figuras
com o sendo significativas ou com o parte do discurso quotidiano, então o pro­
blem a é nosso, com o intérpretes, e não da Bíblia.
O fato de a B íblia ter sido escrita em determ inada época e para um deter­
m inado grupo de pessoas por.um determ inado escritor e para um a determ ina­
da situação não ocorreu com a intenção de rem over da B íblia o seu caráter útil
para as gerações futuras, mas sim para torná-la mais próxim a da realidade de
um modo geral. Infelizm ente, algum as pessoas não com preendem essa ques­
tão e constroem em cim a disso o argum ento de que a especificidade da Bíblia
,Jli Ibid., p.
28.
tom ou o seu texto inacessível para eles. Na verdade, a Bíblia seria inacessí­
vel para nós se tivesse sido escrita em algum tipo de m etalinguagem , com
fatos que se passassem em algum outro planeta e que não tivessem contato,
sentim ento ou em patia conosco. Assim, nem todo o aspecto da Bíblia deve
ser visto sim plesm ente com o mais trabalho para nós. Ela deve nos dar um
senso de afinidade e identificação, pois tam bém somos m ortais e com parti­
lham os necessidades tão detalhadas e específicas quanto aquelas que nos dei­
xam perplexos em outras culturas."
A BÍBLIA E A RELATIVIDADE CULTURAL
A Palavra de Deus chega até nós em determ inada linguagem cultural e histó­
rica que vai da época antes do Cristianism o até o prim eiro século cristão. Se
querem os com preender o significado dentro da intenção original dos autores
que, antes de m ais nada, foram aqueles que estiveram diante de Deus e rece­
beram dele a m ensagem que escreveram, devemos com eçar a entender o que
eles queriam dizer por suas alusões culturais. Isso não significa que esse é o
fim do processo, pois ainda precisam os ligar essa com preensão com a cultura
para a qual desejam os anunciar essas palavras, sem esquecer ainda que é ne­
cessário levar em consideração nossa própria bagagem cultural com o intér­
pretes. Por enquanto, vamos nos concentrar na questão das alusões culturais
dentro do texto.
Em prim eiro lugar, devemos ser capazes de reconhecer os aspectos cul­
turais da Bíblia. N orm alm ente essas são as passagens mais problem áticas de
ser aplicadas diretam ente para os dias de hoje. Os valores, associações e sig­
nificados que elas possivelm ente carregavam num a outra época não são fá­
ceis de ser transpostos para os nossos dias. Elas muitas vezes tam bém ilus­
tram com o certas verdades ensinadas nos textos estavam sendo postas em
prática em outros tempos. Assim como lemos em Filipenses 4.2 “Rogo a Evódia
e rogo a Síntique [que] pensem concordem ente, no Senhor” e norm alm ente
não encontram os estranheza nessas palavras, devemos agir da m esm a form a
em relação a outros elem entos culturais. A m aior parte das pessoas, nunca
tendo se encontrado com Evódia ou Síntique, ensina que essa passagem é a
ilustração de um princípio com o aquele de Efésios 4.32: “Antes, sede uns
para com os outros benignos, com passivos' perdoando-vos uns aos outros,
com o tam bém Deus, em Cristo, vos perdoou.” Ninguém tom a essa passagem
de form a literal, agindo exatam ente como Paulo pediu que fizessem essas
duas m ulheres. Por que, então, tem os tanta dificuldade em entender outras
questões que, de algum modo, são sim plesm ente culturais?
m Ver tam bém o W illow bank R eport G ospel a n d Culture, Lausanne O ccasional Papers n° 2 (W heaton,
1978), pp. 1-33.
Talvez a lista de algum as passagens candidatas ao título de culturais nos
ajude a concentrar de m aneira mais precisa no problem a. Considere as se­
guintes ordens bíblicas:
-T a m b é m vós laveis os pés uns dos outros (Jo 13.14).
- Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo (2Co 13.12).
- É próprio que a m ulher ore a Deus sem trazer o véu? (IC o 11.13).
- Conservem -se as m ulheres caladas nas igrejas (IC o 14.34).
-T o d o hom em esteja sujeito às autoridades superiores (Rm 13.1).
- É desonroso para o hom em usar cabelo com prido (IC o 11.14).
- Em bainha a tua espada (M t 26.52).
- Não em presta o seu dinheiro com usura (SI 15.5).
- Quero que todos os hom ens sejam [solteiros] tais com o tam bém eu
sou (IC o 7.7).
- [Não se chegue] à m ulher na sua m enstruação (Ez 18.6).
A m aioria desses exemplos é bem conhecida e pode servir de ilustração para
o tipo de questão com a qual deparam os ao interpretar os elem entos culturais
na Bíblia. No cerne dessa busca está o problem a de se distinguir aquilo que é
universal e de autoridade perm anente daquilo que é cultural e, portanto, está
mais relacionado a ilustrações de um princípio apresentado naquele tempo.
Precisam os de um conjunto de diretrizes que nos ajude não apenas a determ i­
nar quando estam os lidando com uma questão cultural mas tam bém a enten­
der o seu uso em nossos dias e em outras culturas além da nossa própria.
Desenvolverem os esses assuntos mais adiante neste capítulo.
A Bíblia e a contextualização
A contextualização está intim am ente ligada à exegese cultural e é um term o
novo que recentem ente vem ganhando destaque na discussão teológica. Ao
que parece, o term o foi usado pela prim eira vez em um docum ento preparado
em 1972 pelos diretores do Theological Education Fund ao se referirem à
oferta de educação teológica no terceiro mundo. Mais tarde, Bruce Nicholls o
definiu com o sendo “a tradução do conteúdo imutável do evangelho do reino
para um a form a verbal significativa para os povos em suas diferentes culturas
e dentro de suas situações existenciais particulares” .100 Jam es Oliver Buswell
III ofereceu um a outra form a de organizar nosso tratam ento das questões en­
volvidas na definição da contextualização, sugerindo que quebrem os o term o
1011 B ruce N icholls, “T heological E ducation and E vangelization” , in L et the E arth H ea r H is Voíce,
org. por J. D. D ouglas (M inneapolis: W orld W ide Publications, 1975), p. 647.
em três categorias: “contextualização da testemunha, contextualização da igreja
e sua liderança e contextualização da Palavra.” 101
O tem a contextualização tem apresentado várias aplicações nos últimos
anos, sendo algum as delas boas e outras que ficam aquém das Escrituras em
term os de autoridade que seja de ajuda para as culturas contem porâneas. No
aspecto m ais negativo, alguns têm usado essa idéia para apoiar causas sociais
ou políticas que refletem seus próprios desejos (como, por exem plo, certos
casos da teologia da libertação na A m érica Latina, algum as teologias fem i­
nistas, negras e asiáticas). Quando as preocupações do intérprete contem po­
râneo superam aquelas contidas no texto de tal form a que o texto se transfor­
m a num sim ples tram polim para propagar o que os pensadores m odernos
desejam falar, o term o contextualização acaba passando de algo útil a um
mero instrumento a serviço daqueles que o manipulam. O texto precisa continuar
a ser prioritário e dirigir qualquer contexto sobre o qual esteja sendo aplicado.
Ainda assim, há muito o que aprender com a contextualização, até mesmo
por aqueles de tendência conservadora. Stanley Gundry comentou em seu discur­
so presidencial de 1978 no encontro anual da Evangelical Theological Society:
Pergunto-me se realmente reconhecemos que toda teologia representa
uma contextualização, mesmo a nossa própria teologia. Falamos da
teologia na América Latina, da teologia negra ou feminista, mas sem
titubear, supomos que a nossa própria teologia é simplesmente teologia
e que, sem dúvida, apresenta-se em sua forma mais pura. Será que re­
conhecemos que a versão da teologia evangélica da maior parte daque­
les presentes nesta sala é, na verdade, norte-americana, branca e mas­
culina e que reflete e/ou está direcionada para valores e preocupações
dessa população?102
N ossa prática da contextualização terá mais efeito do que a m aneira como
transm itim os nossos sermões a diferentes culturas ou do que a m aneira com o
aconselham os aqueles que estão passando por dificuldades; ela terá um im ­
pacto poderoso na form a com o exercitarem os a teologia e no modo como
apresentarem os as Escrituras para nós mesmos e para os nossos ouvintes. E
im possível evitar a nossa perspectiva, mas ela deve ser levada em conta de
m aneira honesta se querem os ser justos com ç>texto, com nós m esm os e com
os outros. O texto conform e sua intenção original determ inada pelo autor,
deve ser sempre a referência para nossas perspectivas e para as conclusões
que tiram os dele.
101 Jam es O. B usw ell III, “C ontextualization: T heory, T radition and M ethod” , in Theology and
M ission: P aper G iven a t Trinity C onsultation N ° 1,.org. por D avid J. H esselgrave (G rand R apids:
Baker, 1978), pp. 89-90.
102 Stanley N. G undry, “ E vangelical T heology: W here S hould We Be G oing?” J E T S 22 (1979): 11 .
Etno-hermenêutica e conceitos relacionados
Em 1973, Charles H. Kraft defendeu o desenvolvim ento de um a nova m escla
de disciplinas que ele chamou de etnoteologia cristã. 103 Nela, ele queria con­
siderar seriam ente tanto a teologia cristã quanto a antropologia. Em 1978
Larry W. C aldw ell propôs um outro cam po de estudo cham ado de etnoherm enêutica, que consideraria seriam ente as disciplinas da herm enêutica e
da antropologia.104
ETNO-HERMENÊUTICA
Na visão de Caldwell, o m odelo típico para a interpretação de um texto podia
ser cham ado de m étodo de dois passos: prim eiro, extraía-se do texto aquilo
que ele queria dizer de acordo com as m elhores técnicas gram ático-históricos
disponíveis (Caldwell preferia cham ar esse m étodo de histórico-crítico). O
segundo passo, então, era aplicar o texto e apresentar o seu significado em
nossos tem pos. M as Caldwell percebeu que o seu m étodo de dois passos era
com pletam ente ocidental no sentido de que não lidava adequadam ente com a
perspectiva transcultural. Sua crítica era, de várias form as, m ais do que
justificada. Não era mais possível discutir o processo de interpretação sem
levar em conta as im plicações transculturais daquilo que estava sendo lido.
Um outro teólogo ocidental apresentou um a form a de transpor o texto
antigo para o m undo m oderno. Hans-Georg Gadam er enfatizou a necessidade
de um a “fusão de horizontes” entre o m undo do texto original e o m undo do
intérprete m oderno.105 Esse m esm o conceito foi abordado por vários outros
escritores evangélicos, ainda que de m aneira m odificada. Anthony Thiselton,
por exem plo, colocou esse conceito no título de seu livro The Two H orizons
(Os dois horizontes), mas ele tam bém não conseguiu ver a necessidade de
um a perspectiva transcultural no trabalho de interpretação.106
O que realm ente era necessário não era um m odelo com dois h o ri­
zontes, m as sim , um que tivesse três e incluísse a perspectiva transcultural.
E le seria assim :
103 C harles H. K raft, “Tow ard a C hristian E thn o th eo lo g y ” , in God, Man, and Church Growth:
Festschrift in H onor o f D onald Anderson McGavran, org. por A. R. T ippet (G rand R apids:
E erdm ans, 1973), p p .109-26.
m Ver outros três trabalhos de L arry W. Caldw ell: “T hird H orizon E thnoherm eneutics: R eevaluating
N ew T estam ent H erm eneutical M odels for Intercultural B ible Interpreters T oday” , A J T 1 (1987):
314-33; “D oing T heology A cross C ultures: A New M ethodology for an O ld T ask” , IJFM 4
(1987): 3-7; “T hird H orizon Ethnoherm eneutics: R e-evaluating th e A p o stle P a u l’s H erm eneutical
M e thodology for C ross-C ultural B ible Interpreters T oday” (T rabalho não publicado ap resenta­
do n a reunião d a E vangelical T heological Society em 19 de novem bro de 1988).
105 H ans-G eorg G adam er, Truth and M ethod (L ondres: Sheed and W ard, 1975) 273.
106 A nthony C. T hiselton, The Two Horizons: New Testament Hermeneutics and Philosophical
Description (G rand R apids: E erdm ans, 1980).
Prim eiro horizonte: A cultura da Bíblia.
Segundo horizonte: A cultura do intérprete.
Terceiro horizonte: A cultura do receptor.107
Em cada um desses horizontes, um círculo de bagagem cultural e compreensões precisava ser levado em consideração a fim de que um a cultura não
se tornasse norm ativa em relação às outras. Até aqui, podem os concordar
com a necessidade de um novo programa como esse e o apoiamos prontamente.
Entretanto, um novo elem ento surgiu quando alguns m em bros da escola
da nova etno-herm enêutica afirm aram que a com preensão de Paulo do Antigo
Testam ento sofreu um a revolução com pleta depois de sua conversão, de modo
que suas interpretações sobre o que havia sido dito no Antigo Testam ento não
eram m ais determ inadas pelo que o texto queria dizer para o seu escritor
original, mas por aquilo que o contexto presente exigia.108 De acordo com
C aldw ell, em term os antropológicos Paulo passou a determ inar o significado
do Antigo Testam ento por m eio de sua própria visão de mundo. Ele com eçou
a usar a técnica rabínica do midrash, que sim plesm ente significa “A quilo [o
texto do Antigo Testamento] é isto [a nova realidade em nossa cultura]” . Foi
proposto, então, que podem os fazer o m esm o tipo de revisão do texto nos
dias de hoje, criando um a ponte entre a cultura bíblica e a cultura m oderna
com a m ensagem da Bíblia.
Tudo isso parece um tanto arrogante. A tendência é de se elevar um
horizonte acim a de outros, especialm ente a nossa cultura m oderna e fazê-lo
m ais norm ativo do que a revelação que veio de Deus. Podem os ver por m eio
de um a argum entação de Charles R. Taber que esse uso de um a m etodologia
rabínica para determ inar o significado de um texto como form a de legitim ar
um relaxamento contemporâneo dos valores e significados antigos do texto não é
um a aberração incomum no pensamento de nossos dias. De acordo com Taber:
Os escritores do Novo Testamento usavam uma hermenêutica em rela­
ção às muitas citações do Antigo Testamento que era derivada da inter­
pretação rabínica, mas que estava no pólo oposto daquilo que conside­
raríamos legítimo nos dias de hoje. Em nossos termos, algumas das
passagens do Antigo Testamento citadas estão claramente fora de con­
texto de forma que, ao afirma que ‘íX” é o cumprimento de “Y” pode
nos parecer mais, na verdade, que “X” nos faz lembrar vagamente de
“Y”. Em outras palavras, hoje rejeitamos radicalmente a hermenêutica
107 S obre esses assuntos, ver E ugene A. N ida, Message and Mission (N ova York: H arper & Row,
1960), p p .33-58; H arvey C onn, Eternal Word and Changing Worlds: Theology, Anthropology,
and Mission in Trialogue (G rand R apids: Z ondervan, 1984), pp. 188-90; e D onald A. C arson,
“ H erm eneutics: A B rief A ssessm ent o f Som e R ecent T rends” , Themelios 5 (1980): 17-20.
108 C aldw ell, “T hird H orizon E thnoherm eneutics” , pp. 8 , 11.
rabínica do século I o; com que bases fazem os isso? Sei de várias tenta­
tivas de se contornar esse fato desconfortável. Por exem plo: que aque­
les escritores eram inspirados, portanto podiam fazer associações de
idéias que não perm itiríam os aos nossos estudantes nos dias de hoje;
que há duas ou m ais aplicações para essas passagens, e assim por dian­
te. M as o fato é que aquilo que eles consideravam um a herm enêutica
correta era parte d a ta g a g e m de sua herança cultural, enquanto aquilo
que consideram os b o a herm enêutica e exegese é parte de nossa heran­
ça cultura ocidental.109
N ão tem os com o escapar à pergunta de Taber: É possível rejeitarm os a
herm enêutica rabínica do século Io com o sendo inapropriada para nós e, ao
m esm o tem po, aceitá-la com o sendo uma exposição adequada daquilo que
Paulo e outros escritores do Novo Testam ento estavam fazendo?
Sem dúvida, Paulo era treinado nas técnicas rabínicas, pois ele havia
recebido de Gam aliel a m elhor educação possível na sua época. M as usar
esse fato que é aceito por todos para chegar às conclusões de Charles Taber
dem onstradas na citação acim a é outra questão. De que form a esse tipo de
argum entação poderia ter sustentado Paulo em sua apresentação apologética
de que o Jesus que ele havia encontrado na estrada era o M essias do Antigo
Testam ento? É possível im aginar Paulo falando “O Antigo Testam ento não
diz aquilo que estou concluindo desses textos, mas, por favor, perm itam que
eu m ostre com o posso provar por meus princípios de midrash que esses tex­
tos ensinavam exatam ente o que aconteceu com Jesus como M essias”? Seria
essa um a base adequada para ganhar o povo da com unidade judaica para C ris­
to? Tal afirmação exige que exercitem os dem ais a im aginação.
Colocando de um a outra form a, poucas pessoas na igreja da atualidade
apresentam objeções em relação ao uso inocente de alegorias ou outro tipo de
tratam ento subjetivo do texto bíblico para propósitos devocionais. Se os m es­
mos m étodos forem usados para incentivar novas doutrinas que consideraría­
mos heréticas (assim com o os judeus consideraram os ensinam entos de Pau­
lo), nos veríam os obrigados a voltar para o que está escrito no texto mais
rapidam ente do que alguém conseguisse dizer “sensus literalis”.
Assim, um a coisa é usar os m étodos midrash e pesher de exegese para
ensinam entos devocionais sobre os quais já existe concordância, e outra coisa
bem diferente é im aginar que os apóstolos usaram tais técnicas para argu­
m entar que o que havia acontecido com Cristo não era nem novo nem im pre­
visto! Sim plesm ente não se encaixa nas evidências do contexto do Antigo
Testam ento e dos cum prim entos que aconteceram no Novo Testam ento dizer
que os textos antigos eram meros lem bretes para os apóstolos de que o con­
109 C harles R. Taber, “Is T here M ore T han O ne W ay to D o T h eo lo g y ? ” G iC , 1 n° 1 (1978): 8.
teúdo do Novo Testam ento era verdadeiro. Seria isso motivo suficiente para
alguém apostar sua vida e m orrer com o fizeram os apóstolos?
Infelizmente, ao que parece, os estudiosos têm aplicado as admiráveis
descobertas das metodologias herm enêuticas encontradas nos Papiros do Mar
M orto em Qum ram em mais áreas do que são autorizados pelos fatos da ques­
tão. Há um a tendência de se pensar que toda a interpretação do século I o era
semelhante àquelas que foram encontradas acidentalmente em Qum ram (uma
form a de reducionismo!). Além disso, todos admitem que o próprio grupo que
produziu esses papiros (possivelmente os essênios) e usou as formas de inter­
pretação midrash e peresh era uma seita à margem da sociedade judaica e difi­
cilm ente representava qualquer padrão investido de autoridade. Tal solução não
deve ser transform ada em resposta para a m aior parte dos problemas com os
quais deparamos ao interpretar aquela época e também não deve ser vista como
um divisor entre o que o autor quis dizer e o que a cultura extraiu do texto.
CONDESCENDÊNCIA, ADAPTAÇÃO E ACULTURAÇÃO
A exegese rabínica não é a única form a usada para tentar juntar os três hori­
zontes e introduzir a etno-herm enêutica. Outras tentativas antigas falavam de
“condescendência” , “adaptação” ou “aculturação” . Crisóstom o, um dos pais
da igreja prim itiva, por exemplo, usou a idéia da “condescendência” de Deus
(do grego synkatabasis) para tratar do fato de que os autores das Escrituras
usaram um a ou outra im precisão a fim de falar de tal modo a fim de serem
entendidos por seus ouvintes. Na visão de Crisóstom o, a condescendência
não era um a form a indireta de declarar que aquele pequeno e inocente erro
havia escapado dentro do texto das Escrituras, tam bém não era um a form a de
desculpar os autores das Escrituras, que devem ter sido acusados daquilo que
consideram os verdade sobre todos os mortais: “Errar é hum ano.”
Porém tal conclusão é incorreta em ambos os aspectos. U m a coisa é
apresentar determ inado assunto de m aneira aproxim ada, ainda assim referin­
do-se a ele de form a real e precisa; outra coisa é representar o assunto por
m eio de term os que podem induzir ao erro. Os profetas e apóstolos usaram o
prim eiro procedim ento e não o segundo. E concordam os com a afirm ação de
que os escritores da Bíblia eram tão hum anos quanto nós. M as essa objeção
em relação ao caráter hum ano dos escritores ignora o conteúdo essencial das
Escrituras. Conform e B. B. W arfield m ostrou há muito tem po a luz pura da
revelação de Deus não é distorcida ao passar por canais que sabemos ser hum a­
nos, assim como a luz solar pura não é distorcida ao ser filtrada por um vitral, pois
o mesmo Deus que deu origem à luz do sol também arquitetou o vitral.
A preparação que ocorreu na vida, rias experiências, no vocabulário e na
visão de m undo dos escritores da B íblia é grandem ente significativa. Assim,
quando se tornaram escritores bíblicos, as expressões que usaram foram tão
autênticas que qualquer um de nós que os tivesse conhecido antes de seus
escritos teria reconhecido instantaneam ente que era daquela m aneira que cada
escritor falava. As expressões, o vocabulário, o estilo e outros aspectos eram
singulares a cada escritor; ainda assim o produto final foi exatam ente aquele
que Deus queria, tendo em vista que ele acom panhou cada escritor de form a
que houvesse um a assim ilação viva da verdade - e não um ditado m ecânico
das palavras, com o se Deus as tivesse sussurrado no ouvido dos escritores
que, com m ovim entos involuntários da mão, as escreviam autom aticam ente.
Em 1 Coríntios 2.13 Paulo afirma que essas verdades lhe foram “ensina­
das em palavras” . Ou seja, aquilo que ele escreveu havia se tornado com ple­
tam ente parte dele. É, de certa form a, como o que acontece com os nossos
alunos hoje em dia, fazendo com que seja difícil dizer onde term inam as
idéias do professor e com eçam as do aluno. N esse caso, entretanto, o produto
total foi exatam ente aquele pretendido por Deus, pois ele estava presente ao
lado dos escritores ao longo de todo o processo de verbalização das verdades
que haviam assim ilado sob a tutela do Espírito Santo.
A lém disso, há um tipo de condescendência que não envolve necessa­
riam ente o erro - a condescendência de nosso Senhor. N esse sentido, por­
tanto, pode-se estabelecer um a paridade entre “aquele que não pecou” com o
sendo o Verbo incarnado e a proteção recebida por aqueles que escreveram
a Palavra (IC o 2.6-16, especialm ente versículo 13).
O que foi dito sobre a condescendência tam bém vale para a adaptação e
a aculturação. Os aspectos culturais da m ensagem não foram desenvolvidos
com a finalidade de torná-las mais difíceis de ser interpretadas, ou para nos
enganar, e sim para fazer a verdade acessível, transform ando-se em parte de
cada pessoa em cada era sucessiva da História. As particularidades do texto,
quando ele introduz material culturalm ente relevante, tinham a intenção de
nos ajudar a aplicá-lo a nossa vida diária ao verm os suas vividas ilustrações
sobre com o os princípios ali citados foram colocados em prática naquela épo­
ca e cultura. Essas particularidades, portanto, não visavam ser um obstáculo
para a análise contem porânea daquilo que estava sendo dito.
O que resta, então, se admitirmos que há inúmeras alusões culturais dentro
do texto bíblico? Nada é perm anente? Não há pontos fixos de referência?
Paul B eaucham p foi de ajuda nesse aspecto ao cham ar a atenção para o esco­
po da m ensagem bíblica:
D e acordo com a Bíblia, esse sinais com uns [conform e indicado em
Jerem ias 20.10 e Ezequiel 26] de bem -estar espiritual e físico são onde
D eus fala ao hom em , a todos os hom ens, independente de sua cultura.
Com essa base, podem os procurar definir o elem ento com um da cultu­
ra: aquilo que é carne está relacionado ao espírito, a condição tem porá­
ria está relacionada à eternidade, aquilo que está dentro do tem po está
relacionado ao que vai além do tem po. Por causa disso, as culturas
contêm um pouco do Logos, de sua propensão, por assim dizer, de
tornar-se carne. O conceito de Sabedoria, conform e é usado dentro da
Bíblia, encaixa-se convenientem ente nessa definição provisória. A Sa­
bedoria é tanto inerente quanto transcendente, presente no tem po e eter­
na. M as um fato é motivo de grande adm iração para o leitor do A ntigo
Testam ento. Israel está profundam ente consciente da Sabedoria com o
sendo um dom universal de D eus ao hom em e não som ente a Israel. A
própria Sabedoria... afirm a que desde o princípio ela está “regozijando-se no seu m undo habitável e achando as [suas] delícias com os fi­
lhos dos hom ens” (Pv 8.31), e não apenas com os filhos de Israel...
A liás, podem os observar que, com exceção de uns poucos casos mais
recentes, a literatura de Sabedoria evita deliberadam ente m encionar a
história de Israel e contém preceitos que são de fácil aceitação em to­
das as partes do m undo.110
Esse, de fato, é um ponto m uito bem lem brado. A B íblia se inicia com uma
visão universal em Gênesis 1-11. E só a partir do cham ado de Abraão que o
tem a de Israel com eça a aparecer em prim eiro plano. Mas os livros de Sabe­
doria voltam aos tem as da criação e universalidade encontrados em Gênesis
1-11, fazendo assim com que suas declarações transcendam todas as culturas
e épocas. Infelizm ente, parece que deixam os de lado os livros de Sabedoria
durante m uito tem po e, portanto, nos encontram os um tanto despreparados
em se tratando de responder a perguntas sobre a cultura e sobre aquilo que é
perm anente. Na Sabedoria tem os um elem entos transcultural que m ostra o
cam inho para que encontrem os valores aos quais todas as culturas e épocas
podem se apegar sem sentir que sua própria cultura foi relegada a um segundo
plano ou enganada.
Diretrizes práticas para a interpretação cultural
Fica claro em Hebreus 1.1 que Deus falou em sua Palavra a nossos pais pelos
profetas “muitas vezes de m uitas m aneiras” . M esm o levando em considera­
ção a diversidade de métodos, entretanto, afirrr^m os a im portância das E scri­
turas com o um todo (2Tm 3.16,17) - incluindo as partes culturais! Assim , as
diretrizes abaixo podem ser úteis ao tratarm os dos aspectos culturais e histó­
ricos das Escrituras.
110 Paul B eaucham p, “T he R ole o f the O ld Testam ent in the P rocess o f B uilding U p L ocal C hurches” ,
em B ible a n d Inculturation. Vol 3, em Inculturation: Working Papers on Living Faith a n d Cultures.
O rg. por A ry A. R oset C rollius Rom e: Pontificai G regorian U niversity, 1983), pp. 6,7.
Antes de com eçar a lista, porém , observe que nos vemos diante de três
opções em cada um a dessas situações que envolvem um lado cultural ou his­
tórico da revelação que está sendo considerada.
1. Podemos m anter tanto a teologia ensinada (como, por exem plo, o
princípio afirm ado no texto ou que fica subentendido no contexto) quanto a
expressão histórico-cultural desse princípio. D aí os princípios delineados por
Deus sobre alguns tipos de responsabilidades nos relacionam entos entre m a­
rido e mulher, pai e filho, soberano e cidadão que parecem ser afirm ados nas
Escrituras. Se esse entendim ento é correto, m esm o que de form a lim itada,
tem os aqui exem plos de casos em que o princípio teológico foi com binado
com o costum e particular que expressa esse princípio. O grau em que o prin­
cípio perm anece contido dentro de um a cultura pode variar de acordo com os
diversos sistem as de interpretação. M as fica dem onstrado o conceito de que
tanto o princípio quanto parte (senão toda) a sua m anifestação histórico-cul­
tural ainda perm anece.
2. Podemos m anter a teologia da passagem (o princípio), m as substituir
a expressão com portam ental p o r uma expressão mais recente, porém igual­
m ente significativa. Encontram os precedentes para esse procedim ento nas
cham adas leis civis e cerim oniais de M oisés que são usadas com o ilustração
para a lei perm anente de Deus. Em 1 Coríntios 5, por exemplo, o princípio da
santidade do casam ento e da sexualidade hum ana é m antido, m esm o que a
ordem de se apedrejar mãe e filho que são culpados de incesto tenha sido
substituída pela excom unhão de ambos da com unidade de crentes. Por trás da
lei m oral de Deus (encontrada, por exemplo, nos Dez M andam entos e na lei
de santidade de Levítico 8-12) estava o caráter de Deus. Era isso que tornava
esses princípios teológicos im utáveis; as sanções ou penalidades, entretanto,
estavam sujeitas a m odificações.111 Assim, por trás da lei contra o incesto
tanto no Antigo quanto no Novo Testam ento estava o caráter santo de Deus e
a santidade do casam ento; o princípio perm aneceu, m esm o que a aplicação
cultural tivesse variado.
3. Em alguns casos, tanto o princípio (como por exem plo o cham ado
princípio econôm ico de subordinação) quanto a prática são substituídos. E o
caso do costum e de usar véus ou certos penteados que foi substituído por
práticas consideradas mais igualitárias e tam bém é o caso da substituição de
conceitos fam iliares que são considerados por alguns um a hierarquia antiga
ou m esm o patriarcal. Isso não significa que a simples decisão de fazer essas
m udanças é autom aticam ente válida, pois a m odernidade e os defensores do
pensam ento contem porâneo nem sempre têm as justificativas adequadas para
111 Para m ais esclarecim entos sobre esse ponto crítico, ver W alter C. Kaiser, Jr., “G o d 's Prom ise
Plan and H is G racious Law ” , JE T S 33 (1990):289-302.
afirm ar a autoridade das novas posições adotadas. Pode haver casos em que
certos pontos teológicos considerados essenciais por algum as pessoas não
passem de outras expressões de cultura e da época em que foram escritos,
mas tudo isso deve ser dem onstrado por meio do texto e não apenas declara­
do, tendo com o base o pensam ento individual.
De m odo geral, o texto irá fornecer suas próprias pistas sobre qual des­
sas três opções deve ser usada. Para oferecer ainda mais ajuda no m om ento de
lidar com as questões culturais, nos voltamos para as cinco diretrizes a seguir:
OBSERVE A RAZÃO PELA QUAL A ORDEM, O COSTUME OU O EXEMPLO HISTÓRICO APARE­
CE NO TEXTO
Se a razão para a prática ou ordem que está sendo questionada tem como base
a natureza de Deus, então essa prática ou ordem é relevante para todos e em
todas as épocas. Gênesis 9.6, por exemplo, ordena que todo aquele que derra­
m ar o sangue de um a pessoa de forma deliberada e premeditada, deve sofrer a
pena capital. A razão para isso encontra-se no caráter e natureza de Deus: “por­
que Deus fez o hom em segundo a sua própria imagem.” Conseqüentem ente,
enquanto hom ens e mulheres forem a imagem de Deus, eles continuam a ter
valor aos olhos do Criador.
M as, e quanto à sanção da pena capital? Essa pena é necessariam ente
um a obrigação em nossos dias sim plesm ente porque concordam os que a proi­
bição de tirar a vida de outro intencionalm ente é de natureza divina? É im pos­
sível com preender a força dessa razão teológica e moral até que observem os
como a pena está intimamente ligada à teologia apresentada no texto de Gênesis
9.6. “Se alguém derram ar o sangue do homem, pelo hom em [pelas autorida­
des governantes, conform e é especificado mais tarde] se derram ará o seu.
Porque Deus fez o hom em segundo a sua im agem .” A vida da pessoa que foi
assassinada é tão preciosa que os hom ens (neste caso, os governantes - para
evitar o surgim ento de “justiceiros” na sociedade) ficam devendo a Deus a
vida daquele que foi m orto.112 E dessa form a que a razão para um a ordem ou
costum e nos ajuda a saber se tanto a form a cultural quanto o conteúdo ainda
estão em uso.
EM ALGUNS CASOS, MODIFIQUE A FORMA CULTURAL, JMANTENDO PORÉM O CONTEÚDO
O princípio da hum ildade, por exemplo, é um a ordem perm anente para todas
as épocas, m esm o que as aplicações específicas - como lavar os pés uns dos
outros - tenha m udado (supostam ente por causa do nosso m om ento histórico,
m odelos de sapatos e nossos tipos de estradas). João 13.12-16 é claro sobre
112 P ara m ais observações sobre essa exegese, ver W alter C. Kaiser, Jr. Toward O ld T estam ent E thics
(G rand Rapids: Z ondervan, 1983), pp. 165-68. Ver tam bém H ard S ayings o f th e O ld Testam ent
(D ow ners G rove, 1L: InterV arsity, 1988), pp. 40-45.
aquilo que Jesus fez e sobre sua ordem , mas o seu ponto principal é preserva­
do em M arcos 10.42-45: “Sabeis que os que são considerados governadores
dos povos têm -nos sob seu dom ínio, e sobre eles os seus m aiorais exercem
autoridade. M as entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se
grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o prim eiro entre
vós será servo de todos. Rois o próprio Filho do Hom em não veio para ser
servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por m uitos.”
Assim tam bém , Tiago pede aos crentes que observem o princípio da
im parcialidade (Tg 2.1-4) sendo que a form a que esse princípio tom a pode
não ser a m esm a em todas as culturas. No caso de Tiago, consistia em ter os
pobres sentados em cadeiras durante os cultos na igreja, enquanto os ricos
ficavam de pé ou sentavam-se no chão. O princípio continua sendo o m esm o,
mas a sua aplicação pode tom ar várias formas.
RECUSE PRÁTICAS QUE ERAM PARTE INTEGRANTE DAS CULTURAS PAGÃS DA ÉPOCA
A lgum as práticas são básica e inerentem ente erradas, pois originam -se de
religiões e culturas pagãs e, em muitos casos, apresentam características às
quais a B íblia se opõe em term os m orais, éticos e teológicos. Em alguns ca­
sos, a continuação ou adoção de algumas práticas podia servir de ponte que
levava o praticante de volta ao paganism o de onde ele havia saído ou, em
outros casos, o introduzia naquela form a de culto.
A forte condenação bíblica à bestialidade, ao com portam ento hom osse­
xual, ao travestism o e à exibição deliberada da nudez está freqüentem ente
ligada com aquilo que essas práticas significavam no paganism o. Cada um a
dessas práticas cananéias ofendia um aspecto na natureza m oral de Deus e de
seus a trib u to s. N esses caso s, não há d ú v id as de que a fo rm a estav a
inseparavelm ente ligada ao conteúdo e significado da religião pagã e de suas
práticas, que os crentes não deveriam seguir.
MANTENHA PRÁTICAS QUE ESTÃO FUNDAMENTADAS NA NATUREZA DE D E U S
A lgum as form as que, à prim eira vista, podem parecer simples expressões
culturais são, na verdade, ordens inflexíveis baseadas na natureza de Deus.
Assim, as questões de divórcio e segundo casam ento, obediência aos pais e o
devido respeito ao governo, são alguns exemplos de ordens fundam entadas
na natureza de Deus ou nas ordenanças de sua criação e que têm relevância
universal e perm anente. Portanto, “o que Deus ajuntou não separe o hom em ”
(Mt 19.6). E assim que tem sido e deve continuar sendo, pois Deus apresentou
essa diretiva na criação.
É interessante observar que não é cobrada do crente a responsabilidade
moral de decidir sobre o pagam ento ou não de impostos para um governo que
o indivíduo acredita estar contra a lei moral (ou por causa de algum a outra
objeção igualm ente válida). O motivo pelo qual ele é liberado dessa respon­
sabilidade m oral está em Rom anos 13.7 que coloca os im postos na m esm a
categoria do pagam ento por serviços prestados por profissionais. Quando pa­
gamos um encanador, eletricista ou um m arceneiro que tenha prestado servi­
ços para nós não estam os condescendendo e nem incentivando qualquer prá­
tica errônea que esses profissionais possam ter em sua vida pessoal. Nós pa­
gamos aquilo que eles cobram por seus serviços, sem abater da conta a quan­
tia que suspeitam os que estejam usando para jogar, beber ou trair a esposa.
Da m esm a form a, quando pagam os impostos, damos a César o que lhe é
devido; não tem os como deduzir aquela porcentagem que crem os ser utiliza­
da para guerras que não podem os apoiar ou para clínicas de aborto que não
podem os justificar m oralm ente. Em contraste com essa ilustração dos im pos­
tos estão as ordens fundam entadas na natureza moral de Deus ou nas orde­
nanças de sua criação.
OBSERVE QUANDO AS CIRCUNSTÂNCIA ALTERAM A APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO
Existe, de fato, precedente bíblico para se dizer que as circunstâncias podem
alterar a aplicação das leis de Deus que não estão fundamentadas na sua natureza
(na lei moral de Deus), mas que são verdadeiras, pois ele as proferiu dentro de um
determinado contexto. As leis que não são baseadas na natureza de Deus mas em
sua determinação numa ocasião especial são chamadas de leis positivas.
U m exem plo da m udança na aplicação de um a ordem pode ser visto
no com ando que foi dado a A rão e seus filhos. A princípio, só eles dev eri­
am com er o pão da proposição colocado diante do Senhor no tabernáculo
(Lv 24.8,9). M as, quando surgiu um a em ergência no caso em que D avi e
de seus hom ens estavam sem com ida, A im eleque ofereceu a D avi e seu
exército esse alim ento sagrado e proibido (IS m 21.1-6).
M as essa ilustração ainda m ostra de outras form as com o uma lei positi­
va pode ter sua aplicação m udada quando as circunstâncias assim o exigem .
O próprio Jesus usou essa m esm a ilustração para justificar o fato de ter reali­
zado atos de m isericórdia no sábado, o que foi considerado por alguns com o
um a violação de seu caráter sagrado (M t 12.1-5; Mc 2.23-25; Lc 6.1-4). O
que, a princípio, parecia não perm itir exceções (tais com o realizar tarefas que
eram consideradas trabalho no sábado), na verdacte tinha a condição de “sen­
do todas as outras coisas iguais” ligada a si.113 Isso não significa que estam os
confundindo a lei moral (a qual afirmamos ser encontrada, em parte, nos Dez
M andam entos) com a lei positiva, pois o m andam ento sobre o sábado é o
único que m escla tanto aspectos morais quanto positivos. Ele é m oral no sen­
113 Ver J. O liver B usw ell, A S ystem atic T heology o f the C hristian R elig io n , 2 vols. (G rand R apids:
Z ondervan, 1962), 1:368-73.
tido de que afirma que Deus é senhor do tem po e, portanto, tem o direito de
receber de volta um a porção do nosso tem po em adoração a ele. M as é posi­
tivo ou cerim onial no sentido de que determ ina que exatam ente o sétim o dia
deve ser guardado para essa finalidade.
As Escrituras são absolutam ente leais aos princípios fundam entados na
natureza de Deus, mas há bastante flexibilidade ao se aplicar os m andam en­
tos positivos com o leis de higiene e alim entação (ver M c 7.19 e At 10.15,
onde todos os alim entos são declarados puros). Assim tam bém , a m esm a fle­
xibilidade é encontrada nos casos de regulam entações cerim oniais, com o por
exem plo em 1 Reis 8.64 onde, em lugar de usar o altar conform e determ ina­
do, Salom ão usou o meio do átrio do tem plo para sacrificar diversos anim ais
durante a cerim ônia de consagração, pois o altar era muito pequeno para aquela
ocasião (ver 2Cr 4.1; lR s 9.26). De qualquer m aneira, o princípio de adora­
ção foi m antido m esm o que os meios tivessem variado.
Precisam os estar atentos às leis positivas, observando sua ligação a um a
determ inada ocasião histórica, mas tendo em m ente tam bém os princípios
que estão envolvidos nelas. É de pouco valor observar de m aneira form al
ordens como “Entra no barco” , “Solta o potro” ou “Lança ao fundo” . O contexto
nos ajudará a ver que elas são referências específicas a pessoas específicas, mes­
mo que o princípio por trás seja o mesmo para todos que vieram depois.
Conclusão
Esta área da aplicação cultural e histórica da m ensagem bíblica nem
fácil de ser resolvida em todos os casos. Quando nos vemos num
devem os lem brar a necessidade de hum ildade. Tam bém só tem os
quando m antem os em m ente os três horizontes de interpretação da
sem pre é
im passe,
a ganhar
Bíblia.
A IMPORTÂNCIA DA HUMILDADE NOS CASOS DE INCERTEZA
R obert C. Sproul nos dá o seguinte bom conselho sobre com o lidar com a
dúvida nas questões de interpretação:
E se, depois de estudo cuidadoso da ordem bíblica, ainda estam os in­
certos se ela é um a questão ligada ao princípio ou ao costum e? O que
podem os fazer quando precisam os decidir com o tratar essa ordem de­
pendendo de seu caráter? É aqui que o princípio bíblico da hum ildade
pode ser útil. A questão é sim ples - seria m elhor tratar um possível
costum e com o se fosse um princípio e pecar pelo excesso de escrúpulo
em nosso desejo de obedecer a Deus; ou seria m elhor tratar um possí­
vel princípio com o se fosse um costum e e ser culpado de desprezar um
m andam ento transcendente de D eus, transform ando-o em m era con­
venção hum ana? Espero que a resposta seja óbvia.114
114 R. C. Sproul. “C ontroversy at C ulture G ap ” , E terníty (1976): 40.
Em outras palavras, é m elhor errar por excesso de preocupação em se­
guir o texto do que supor que, quanto mais arriscada a posição que tom am os,
mais aceitável será entre aqueles que valorizam a criatividade com o se ela
fosse exclusivam ente representada por toda e qualquer novidade.
A importância dos três horizontes
Ao concluir este capítulo, voltam os à argum entação do início. H á, de fato,
três horizontes: o da B íblia, o do in térprete e o do receptor. A essa altura,
tam bém já deve ter ficado claro que cada um desses três horizontes tem
um contexto.
A Bíblia foi escrita dentro de determ inadas culturas e épocas. N enhum
intérprete tem o direito de fazer com que cada texto diga aquilo que ele quer.
Deve-se perm itir que o texto apresente aquilo que deseja transmitir, com o
devido respeito pela situação particular e pela cultura na qual ele foi baseado.
Enquanto alguns apontaram para o uso do Antigo Testam ento dentro do Novo
Testam ento com o form a de legitim ar certos tipos de análise intuitiva, não
podem os dizer que os escritores do Novo Testam ento não estavam interessa­
dos no significado original das Escrituras mais antigas, especialm ente no que
diz respeito à form ação de doutrinas baseadas nesses textos anteriores ou
quando os estavam utilizando com fins apologéticos para m ostrar que o C ris­
tianism o não era apenas um a fantasia inventada por alguém.
Os intérpretes tam bém devem ter consciência da m aneira com o sua cul­
tura reforça algum as questões, mas os im pedem de ver outras possivelm ente
de igual im portância. Além disso, quando os intérpretes deparam com um
texto, já form aram dentro de si uma espiral herm enêutica que costum a im por
categorias ou m aneiras de encarar determ inadas questões. Os intérpretes de­
vem passar constantem ente por períodos de auto-exam e para detectar quão
livres realm ente são e para considerar como cada uma das atitudes adotadas
anteriorm ente afeta a exegese.
Por fim, leitores, ouvintes e o público de nossa época para os quais as
antigas Escrituras estão sendo proclam adas tam bém devem ser levados em
consideração, tendo em vista sua cultura e valores pessoais. Ninguém é uma
ilha e ninguém entrou em cena com pletam ente inocente e com um a tabula
rasa. Nossas falhas morais se m anifestam de m aneira diretam ente proporcio­
nal aos preconceitos que acumulam os. Aliás, quanto mais nos aproxim am os
daquele cerne religioso ou filosófico de nossa vida, mais perto estam os de
possíveis conflitos com outros pontos de vista culturais e espirituais. Poderia
construir-se um a escala da interatividade cultural e espiritual: em um dos
extrem os ficariam as questões m atem áticas - até m esm o Belzebu e um santo
poderiam concordar com a resolução de determ inada equação. No m eio da
escala estariam as ciências sociais, naturais e, finalm ente, no outro extrem o
estariam as artes e ciências hum anas, em que conflitos trem endos aum entari­
am à m edida que nos aproxim ássem os dos lugares mais profundos da alma.
Tendo em vista que a teologia e a interpretação das Escrituras estão situadas
nesse segundo extrem o na escala, e não na área da m atem ática, é imperativo
que procedam os com cuidado e estejam os abertos a um a rigorosa auto-análise do contexto cultural em que nos encontram os."5
115 P a ra e ssa seção , ver C. R en é P ad illa, “T h e In te rp re te d W ord: R e fle ctio n s o f C ontex tu ai
H erm eneutics” , T h e m e lio s l (1981): 18-23.
O uso da teologia no processo interpretativo m uitas vezes
transform a algo que de outro modo seria um a divagação pouco
interessante num a experiência poderosa e cheia de vida. Há duas
ferram entas disponíveis para essa tarefa: a analogia da fé e a ana­
logia das Escrituras.
A analogia da fé, apesar de receber interpretações variadas e
freqüentemente ser mal utilizada, exige que interpretemos cada tre­
cho das Escrituras de modo que esteja de acordo com os ensinamentos
da Bíblia com o um todo. Ela pressupõe (1) a coerência das E scri­
turas, (2) a natureza orgânica da Bíblia e (3) um cânon com pleto
do Livro Sagrado. Quando a analogia da fé é aplicada dessa m a­
neira, as Escrituras interpretam as próprias Escrituras, especial­
m ente no uso de passagens verbal e topicam ente paralelas. N or­
m alm ente, entretanto, o uso da analogia da fé é reservado para o
m om ento em que o intérprete já está preparado para conferir sua
interpretação da passagem em relação ao resto das Escrituras.
A analogia das Escrituras refere-se ao uso exegético de tex­
tos mais antigos que serviram de fonte para passagens mais re­
centes, oferecendo base, profundidade e em oção às palavras usa­
das. Elas incluem termos técnicos, citações diretas, citações in­
diretas, alusões a acontecim entos passados, pessoas, instituições
ou alianças anteriores.
Essa analogia é útil para colocarm os o foco sobre certas
passagens-chave que são o fundam ento de determ inadas doutri­
nas. São esses capítulos que contêm a m aior concentração de
ensinam entos em um só lugar sobre a doutrina em questão.
Alguns dos princípios mais im portantes por trás do uso teo­
lógico profícuo da B íblia são: (1) a exegese vem antes de qual­
quer sistem a de doutrina, (2) as doutrinas não devem ir além das
evidências encontradas nas Escrituras, (3) somente aquilo que é
diretam ente ensinado nas Escrituras deve falar à consciência, e
(4) a interpretação teológica deve ser relevante para a igreja.
CAPÍTULO 11
Juntando as peças
O USO TEOLÓGICO DA BÍBLIA
W a lte r
C.
K a is e r , J r .
A analogia da fé
A interpretação bíblica é um dos campos de estudo mais críticos do trabalho
teológico. Qualquer falha na missão interpretativa afeta im ediatam ente os
resultados obtidos na teorização teológica.116
Sob um outro ponto de vista, para que a prática da herm enêutica seja
realizada de form a com pleta, ela precisa envolver tanto o elem ento exegético
quanto o teológico. A parte exegética do processo interpretativo exam ina os
aspectos gram aticais, históricos e literários do texto. M as, um a vez que essas
tarefas são concluídas, precisam ser relacionadas ao pensam ento geral daque­
le livro bíblico que está sendo estudado e a todo o cânon das Escrituras. E
nesse ponto que o com ponente teológico do estudo interpretativo assum e o
prim eiro plano, norm alm ente introduzindo o conceito muitas vezes mal utili­
zado da analogia da fé.
A analogia da fé (analogia fid.es) é um cojiceito que tem muitos defen­
sores, mas poucos tom aram o tem po necessário para defini-la com cuida­
d o .117 Esse conceito vem de um a frase em Rom anos 12.6: “Tendo porém
diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a
116 P ara um desenvolvim ento m ais detalhado de alguns assuntos deste capítulo, ver W alter C. Kaiser,
Jr., “H erm eneutics and the T heological T ask” , 77, n.s., 12 (1990): 3-14.
117 U m a exceção notável é o estudo cuidadoso de H enri B locher “T he ‘A nalogy o f F a ith ’ in the
Study o f S cripture” , S B E T 5 (1987): 17-38.
proporção da nossa f é [kata tem analogian tes pisteos].” N orm alm ente, duas
outras passagens tam bém são citadas: Rom anos 12.3, onde Paulo diz que
ninguém pense de si m esm o além do que convém, mas sim que pense com
m oderação “segundo a medida da f é [metron pisteos] que Deus repartiu” ; e 2
Timóteo 1.13: “M antém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé.”
Em R om anos 12.6 Paulo m ostra que o dom da profecia deve ser “de
acordo com ” ou “proporcional à” fé. Foram sugeridas três m aneiras p rin ci­
pais de se interpretar essa frase. Em prim eiro lugar: ela pode referir-se à fé
pessoal em Cristo. A ssim , os profetas devem profetizar de acordo com o
grau de sua própria com preensão e resposta à graça de Deus no evange­
lh o .118 Em segundo lugar, pode referir-se àquilo que é m atem aticam ente
proporcional; o dom do profeta deve ser exercido dentro dos lim ites da fé,
restrito aos propósitos e à esfera do p ro feta.119 E o terceiro ponto de vista
entende que Paulo estava pedindo que o profeta falasse de acordo com ver­
dades anteriorm ente reveladas na Palavra de D eus. E ssa terceira definição
pode apoiar a regra freqüentem ente usada de que o verdadeiro profeta j a ­
m ais contraria a revelação já existente (Dt 13.1-5; 18.20-22; At 17.11;
IC o 14.37; lJo 4 .1 -6 ).120
Cada um desses três pontos de vista apresenta um padrão em relação ao
qual a profecia deve ser julgada. Nesse sentido, então, o uso que Paulo faz da
frase analogia da f é não está tão distante do modo com o m uitos já o utiliza­
ram ao longo da história da interpretação. Nossa preferência, entretanto, é
para com o terceiro ponto de vista, pelas razões citadas. Henri B locher resu­
m e apropriadam ente a situação ao comentar: “O apóstolo, quando estava di­
tando Rom anos 12.6 mal deve ter pensado no procedim ento técnico de ‘com ­
parar as Escrituras com as E scrituras’; ainda assim, ele se preocupou com a
concordância do discurso cristão em relação ao conjunto geral de ensinamentos
oferecidos pela inspiração de Deus, sendo sua principal ênfase no equilíbrio
(analogia), incluindo todas as partes. De m odo substancial, seu argum ento
não estava tão distante do conceito de analogia da fé.” 121
O conceito de analogia da fé entra em cena no processo interpretativo
depois que já foi estabelecido o significado particular da passagem em rela­
ção ao seu contexto imediato. Tendo em vista que a analogia da fé passa por
todas as Escrituras sem se preocupar com a seqüência, é m elhor que seja
118 C. E. B. C ranfield, A C riticai a n d E xegetical C om m entary on the E pístle to the R om ans, ICC.
2 vols. (E dim burgo: T. & T. C lark, 1975-79), 2:621.
119 C onform e representado por John M urray, The E pistle to the R om ans, 2 vols. (G rand Rapids:
E erdm ans, 1959-65), 2:123.
120 C onform e representado por L eon M orris, The E pistle to the R om ans (G rand R apids: E erdm ans,
1988), 441.
121 B locher, “A nalogy o f Faith” , p. 28.
usada com o form a de sumário, na conclusão da investigação de cada parágra­
fo ou unidade básica do trabalho exegético. A analogia da fé reúne versículos
de todo o cânon em um conjunto que é verdadeiram ente bíblico em sua deri­
vação. As doutrinas que são afirmadas e o apoio dado a cada um a das doutri­
nas dentro desse conjunto de versículos citados são tão úteis e válidos quanto
a exegese que está por trás desse trabalho de construir o texto e suas definições.
A analogia das Escrituras
Antes de olharm os mais de perto como a analogia da fé pode ser usada no
processo interpretativo, devemos considerar o termo paralelo - a analogia
das Escrituras,122 Foi John Bright quem observou que a m aioria das passa­
gens bíblicas possui dentro delas algum aspecto teológico expressado de m a­
neira que transform a a passagem em um a parte da estrutura da B íblia com o
um to d o .123 As raízes dessa teologia m uitas vezes foram encontradas em
textos das Escrituras que vieram antes do texto em exame.
As indicações de um a teologia anterior dentro do texto são:
1. O uso de certos term os que já adquiriram um significado especial
dentro das Escrituras (por exem plo, sem ente, servo, rem anescente,
herança).
2. O uso de citações diretas de escritores que precederam o texto exa­
m inado (com o por exemplo a tríade: “Eu serei o seu Deus, vós sereis
o m eu povo e eu habitarei no meio de vós” ).
3. O uso de citações indiretas ou alusões a acontecim entos, pessoas
ou instituições passadas (por exemplo, o Êxodo, a epifania do M on­
te Sinai ou quando Deus deu as leis) e
4. U m a referência à aliança e seu conteúdo (aliança com Abraão, Davi
ou a Nova Aliança).
Em cada caso o intérprete deve prestar m uita atenção no contexto anterior.
N essas ocasiões, o escritor da passagem estava construindo sobre um a base
bíblica que já estava à sua disposição. Nas palavras de John Bright, essas
passagens anteriores “inform aram ” o texto mais recente, dando-lhe m aior
sentim ento e profundidade.
Não é difícil encontrar exem plos m odernos para esse processo. Pode­
mos m encionar “W atergate” ou o nome de qualquer um daqueles que estive­
rem envolvidos nesse escândalo durante a presidência am ericana de Richard
Nixon e um a série de lem branças, associações e até m esm o um a ou outra
122 P ara m ais discussões ver W alter C. Kaiser, Jr., Toward a n d E xegetical Theology: B iblical Exegesis
f o r P reaching a n d Teaching (G rand R apids: Baker, 1981), 134-40.
123 John B right, The A u th o rity o fth e O ld Testam ent (N ashville: A bingdon, 1967), pp. 143, 170.
frase específica nos vêm à mente. Esse único fato tem influência sobre todos os
personagens, acontecimentos e escritos da história americana a partir de 1973.
D a m esm a form a, quando o profeta O séias m enciona em O séias 2.15
que D eus vai devolver a Israel “ as suas vinhas e o vale de A cor por porta de
esperança” , ele está se referindo diretam ente ao pecado de A cã em Josué 7.
N aquele incidente um único hom em trouxe grande tristeza sobre todo Isra ­
el, então o apedrejaram nc5 vale de A cor (Js 7.24), pois ele havia trazido
“problem as” e “desastre” (achor) sobre o povo. M as no grande anúncio que
D eus faz por m eio de O séias, ele prom ete transform ar o que antes havia
sido um lugar de desastre em um a “porta de esperança” ! Ao observarm os
essa “teologia inform ada” , com preendem os quão com ovente e profunda é a
alusão em O séias.
U m intérprete pode entender m elhor a analogia das Escrituras ao con­
sultar edições anotadas da B íblia com referências anteriores, tais com o a
Thom pson Chain Reference Bible e a D ickson Reference Bible e m uitas ou­
tras edições m odernas que trazem tais referências sobre alusões e citações.
D eve-se ter o cuidado, entretanto, de elim inar todas as referências que citam
passagens posteriores ao texto que está sendo investigado.124
O uso da analogia da fé
A lgum as vezes, apesar de toda a ênfase dada aos detalhes, partes e m inúcias
das Escrituras, os intérpretes modernos deixam de lado três elem entos de
im portância vital que podem parecer antiquados: (1) a coerência das E scritu­
ras, (2) a natureza orgânica das Escrituras e (3) o cânon definitivo das E scri­
turas. B locher argum enta contra tal “m odernização” dizendo que “ se as E s­
crituras fossem um a coleção de ditados independentes, todos eles corretos,
m as sim plesm ente justapostos, tratando de tópicos não relacionados entre si,
de que form a poderia ser usada a analogia [da fé]?... M as a Escritura é como
um diálogo e muito m ais.125
É aqui que a analogia da fé entra em cena mais um a vez. Tendo em vista
que um a única M ente governa sobre as Escrituras, é apropriado e justo para
Deus, o Espírito Santo, juntar a totalidade de seu pensam ento sobre um deter­
m inado assunto, de form a sem elhante como nós faríam os com os escritos de
um autor humano. E se pressupomos a existência de comunicação, não estamos
adm itindo tam bém que o autor apresenta coerência e unidade em seu pensa­
m ento até que se prove em contrário? Por que os estudiosos da Bíblia fazem
124 E ssas “B íblias tó p icas” podem ser úteis em outras ocasiões (m ais especificam ente na analo g ia da
fé) m as não nos estados form ativos do processo de interpretação. U m a fonte rica em referências
a passagens anteriores é a obra The Treasury o f S criptural K now ledge de R. A. Torrey, que
c o n tém m ais de cinco m il referências d esse tipo. A o bra de Torrey c o n tin u a a ser reim pressa
m esm o tanto tem po depois de sua m orte em 1928.
125 B locher, “A nalogy o f F aith”, pp. 32-33.
suposições que ficam aquém disso? É possível que eles não acreditem em
um a m ente divina unificada por trás das Escrituras como um todo? A suposi­
ção contrária à unidade da Bíblia, mais do que qualquer outro fato, tem afas­
tado evangélicos de buscar os princípios internos unificadores na teologia ou
na ética bíblica, de modo que não com preendem por com pleto a legitim idade
da teologia sistem ática. O sucesso nos m étodos analíticos de estudo tem im ­
pedido o evangelicalism o de concentrar sua atenção nos estudos sinópticos e
sintéticos m ais profundos que são necessários para a interpretação teológica
da Bíblia.
A unidade da Bíblia, entretanto, pode ser argum entada a partir de pelo
m enos três pontos de vista.
COERÊNCIA
O argum ento a favor da coerência pode ser encontrado, em parte, no modo
com o os escritores da B íblia fazem referências diretas ou indiretas à porções
do texto bíblico que os precedem . Assim, Daniel “entendeu pelos livros [Es­
crituras]” que aquilo que Jerem ias havia dito menos de um século antes era
aquilo “que falara o Senhor” (Dn 9.2 citando Jr 25.11,12 e 29.10 referindo-se
ao fato de que o cativeiro de Judá na Babilônia iria durar setenta anos). E
sobre esse m odelo dos setenta anos, então, que Daniel recebe sua revelação
dos “setenta ‘setes’” (Dn 9.24). A concordância e dependência dos autores
bíblicos entre si fica evidente ao longo de todo o texto.
NATUREZA ORGÂNICA
Existe um a natureza orgânica nas revelações pelo fato de as prim eiras m ani­
festações conterem form as seminais ou o germ e de idéias que ganharão ex­
pressão plena mais tarde, à m edida que a revelação progride. Assim, confor­
me indicou O. Palm er Robertson:
Gênesis 15.6 - “Ele [Abraão] creu no Senhor, e isso lhe foi imputado
para justiça” - ecoa deliberadamente em Habacuque 2.4 “... mas o jus­
to viverá pela fé” e nos dá bases para uma compreensão adequada do
texto. Os mesmos radicais usados para os conceitos de fé e justiça [he
emin, emuna, sedaqa, saddiq] aparecem em ambas as passagens. No
contexto de Habacuque, fica evidente um teste de fé semelhante àquele
pelo qual passou Abraão devido ao não cumprimento imediato da pro­
messa divina.126
Assim, textos separados entre si por séculos estavam organicam ente relacio­
nados um ao outro e a sem ente daquilo que mais tarde alcançaria a plenitude
frutífera, já estava presente no prim eiro texto.
126 O. P alm er R obertson, ‘“ T he Justified (by Faith) Shall L ive by ~His S teadfast T ru st’ - H abakkuk
2 :4 ” , P resbyterion 9 (1983): 65.
O CÂNON COMPLETO
A terceira parte da argum entação em favor da unidade da Bíblia envolve con­
siderações acerca da natureza com pleta do cânon. Nos últimos anos tem -se
dado atenção novamente à situação canônica. Isso tem aberto cam inho para
um a redescoberta parcial do conceito de princípio e fim na revelação de Deus.
Esse conceito de inteireza/ios oferece um contexto geral que esclarece aquilo
que a m ente organizadora das Escrituras tinha como visão.
A própria idéia de cânon deixa im plícita a existência de um padrão ou
recurso de m edida pelo qual um a coleção de livros é reconhecida com o nor­
m a para uma com unidade. Esse reconhecim ento tam bém contém um a idéia
não apenas de princípio e fim, mas a sugestão de que há recursos conectivos
dentro desse corpo de texto. Assim, enquanto as partes individuais do cânon
têm valor por si m esm as, apenas quando o texto é visto como um todo é a que
o intento de Deus em sua plenitude pode ser declarado em qualquer um dos
vários assuntos que são tratados dentro dos livros.
A tarefa teológica do intérprete
A frase analogia da f é não é comum nos escritos dos pais da igreja prim itiva
e na Idade M édia. Mas o conceito aparecia sob diversos outros nomes: a fé,
regra de fé, m edida da fé, fé católica ou instituição apostólica da igreja. Em
todos esses term os, o conceito de unidade das Escrituras é proem inente. Tal
unidade baseia-se em quatro pilares: (1) o fato de as Escrituras terem um
único e divino Autor; (2) o fato de Cristo estar presente no Antigo T estam en­
to, não apenas de m aneira virtual ou im plícita, mas diretam ente, tendo em
vista que os profetas falam dele; (3) o fato de Cristo ser o centro das E scritu­
ras e (4) o fato de as doutrinas dentro das Escrituras estarem ligadas entre si
ao longo de todo o texto e desenvolverem -se um a a partir da outra.127
O Ilum inism o e o advento do m étodo crítico superior levaram muitos
dentro da igreja a rejeitar a unidade das Escrituras com o uma doutrina viável
ou um aspecto herm enêutico utilizável. Isso deixou m uitos leitores contem ­
p o rân e o s da B íb lia e x tre m a m en te co n fu so s e sem nenhum p rin c íp io
organizador ou m étodo pelo qual poderiam juntar toda a história da Bíblia.
Esses princípios devem ser revisados mais um a vez e é o que pretendem os
fazer a seguir:
A PERSPICUIDADE DAS ESCRITURAS
O princípio de perspicuidade das Escrituras (ver tam bém capítulo 9, pp. 157164) afirm a que a m ensagem das Escrituras é clara o suficiente, de m odo que
127 D evo esta lista a R obert D. Preus, “T he U nity o f S cripture” , CTQ 54 (1990): 1-23.
até o m enos instruído dos leitores é capaz de entender a m ensagem da salva­
ção que a B íblia apresenta. Essa afirm ação clássica de perspicuidade (“clara
ao entendim ento”) ou da natureza clara da B íblia não significa que todas as
partes da Bíblia são igualm ente claras e livres de qualquer dificuldade. A
perspicuidade nunca foi pretendida como um atalho ou chave m estra para
abrir todos os ensinam entos ou interpretações da Bíblia. O Bispo H erbert
M arsh declara como esse princípio tem sido mal entendido e mal utilizado:
U m a outra expressão usada pelos nossos Reformadores, a “perspicuidade
dos Escritos Sagrados” não tem sido m enos abusada do que [outras]
expressões sim ilares [tais com o “a Bíblia é sua própria intérprete”].
Q uando eles [os Reform adores] defenderam a perspicuidade da Bí­
blia, sua intenção não era argum entar contra a aplicação do Ensino,
m as contra a aplicação da Tradição à exposição das Escrituras... N ão!,
disseram nossos R eform adores; não precisam os da ajuda da nossa Tra­
dição; é suficientem ente perspícuo usar a Bíblia sem ela... Eles não
tinham a intenção de declarar que a Bíblia era perspícua tanto para os
instruídos com o para os não-instruídos. Se assim fosse, eles jam ais te­
riam oferecido aos não-instruídos explicações sobre ela .128
As Escrituras interpretam as Escrituras
Com freqüência, aquilo que é obscuro numa parte da B íblia fica claro em
outra parte. A ferram enta da herm enêutica a ser usada aqui é a de passagens
paralelas. Quando o contexto im ediato não ajuda os intérpretes a descobrirem
o significado da passagem , eles podem utilizar dois tipos de passagens para­
lelas encontradas em outras partes das Escrituras.
P a s s a g e m P a r a l e l a V e r b a l . M uitas vezes, a mesm a palavra, frase, cláu­
sula ou expressão aparece em duas ou mais passagens com um a conexão se­
m elhante e com referência ao m esm o assunto ou a assuntos bastante próxi­
mos. É de grande im portância para o intérprete dem onstrar essa relação, pois
a m era presença das m esm as palavras e expressões não é, por si, prova sufi­
ciente de ligação entre as duas passagens.
U m a ilustração de uma passagem paralela verbal encontra-se em 1 Reis
19.9, 11, que fala de Elias no M onte Horebe - “Ali, entrou num a caverna,
onde passou a noite... disse-lhe Deus: ‘Sai e põe-te neste m onte perante o
Senhor.’ Eis que passava o Senhor.” A área para onde Elias havia fugido de
Jezebel era a m esm a do M onte Sinai, onde M oisés havia recebido as duas
tábuas da lei. O term o “caverna” em 1 Reis 19.9 sem dúvida é um a alusão à
“fenda da penha” m encionada em Êxodo 33.22. O m ais im portante é que
128 B ispo H erbert M arsh, A C ourse o f Letters... in T heological Lectrning (B oston: C um m ings and
H illiard, 1815), 18, itálicos dele.
nessa passagem anterior o Senhor disse a M oisés: “Farei passar toda a m inha
bondade diante de ti e te proclam arei o nom e do Senhor” (Ex 33.19).
Além da relação entre a caverna de Elias e a fenda da penha de M oisés,
a m enção em ambos os textos da passagem do Senhor faz a ligação entre os
dois textos e aum enta a nossa com preensão da relação do Senhor com Elias
nesse acontecim ento. O profeta desanim ado precisava claram ente da m esm a
coisa que M oisés recebeu do Senhor: um a nova visão do Deus vivo trazida
quando o Senhor fez passar os seus atributos diante deles com o form a de
lembrá-los quem e o que ele é. Desse modo, o exame dos paralelos verbais pode
acrescentar profundidade aos ensinamentos e pregações dos textos bíblicos.
P a s s a g e m P a r a l e l a T ó p i c a . U m a passagem paralela tópica é aquela que
trata dos m esm os fatos, assuntos, sentim entos ou doutrinas da passagem com
a qual está sendo com parada, sem usar as mesmas palavras, cláusulas ou ex­
pressões. Bons exemplos desse tipo de fenôm eno podem ser encontrados no
m aterial sinóptico dos Evangelhos e em Samuel, Reis e Crônicas. Além des­
ses relatos sinópticos, tam bém há pares de passagens que incluem os Salmos
14 e 53, Salm o 18 e 2 Samuel 22, Salmo 96 e 1 Crônicas 16 e Judas e 2 Pedro.
Os cham ados oito salmos de fuga de Davi representam um outro tipo de
passagem paralela tópica:
Salm o 18, quando Davi foi livrado das mãos de Saul (2Sm 22).
Salmo 34, quando Davi fingiu estar louco (IS m 21).
Salm o 52, quando Doegue falou de Davi para Saul (IS m 22).
Salm o 54, quando os zifeus foram até Saul (IS m 23).
Salm o 56, quando os fílisteus capturaram Davi (IS m 21.10-15).
Salmo 57, quando Davi fugiu para a caverna (IS m 22).
Salmo 59, quando os homens de Saul vigiaram Davi (ISm 19.11-17).
Salmo 142, quando Davi estava na caverna (IS m 24).
Quando os intérpretes estudam esses salmos como um a unidade, ju n ­
tamente com as passagens relevantes de Samuel, surgem elementos da experiên­
cia e da teologia de Davi que, de outro modo, perm aneceriam ocultos.129
Por fim, considere as palavras de Jesus em Lucas 14.26 dizendo que
aqueles que o seguissem deveriam “aborrecer” pai e mãe. Recebem os ajuda
para interpretar esse “aborrecer” usando com o referência a passagem parale­
la tópica em M ateus 10.37, onde Jesus pede que seus discípulos não amem
seus pais “mais do que a m im [ele]” .
129 E sse e stu d o o b v ia m e n te d e p e n d e d a a n tig ü id a d e e a u te n tic id a d e d o s títu lo s dos S alm os.
E sse s títu lo s vêm de an te s do sé c u lo 3 “ a .C ., o q u e é a te sta d o p e la fato d e os e s c rito re s da
S e p tu a g in ta não tere m sid o c ap a z e s d e tra d u z ir m u ito s dos term o s d o s títu lo s e em vez
d isso la n ç a ra m m ão d a tra n s lite ra ç ã o . T ais e v id ê n c ia s p o d e m se r s u p o s iç õ e s em fa v o r de
su a a n tig ü id a d e .
As passagens-chave
Já argum entam os anteriorm ente que os estudos baseados na analogia da fé
não devem ser usados com o su bstituto p ara a árdua tarefa de estu d ar
exegeticam ente um a determ inada passagem das Escrituras dentro de seus pró­
prios term os. Pelo contrário, tais estudos são extrem am ente úteis no final do
processo interpretativo, quando tem as, passagens e doutrinas sem elhantes
podem ser considerados como um teste para o sentido geral e a veracidade da
interpretação proposta. Assim, o uso da analogia da fé serve para verificar
conclusões alcançadas por via da exegese e para indicar que direção o m esm o
ensinam ento tomou em um m om ento posterior da revelação.
Juntam ente com o estudo de passagens relacionadas em term os de ana­
logia da fé, tam bém é de grande ajuda nos concentrarm os nos capítulos-chave
das Escrituras que tratam de im portantes assuntos como:
G ênesis 1-2: A criação
Isaías 40: O caráter incom parável de Deus
Isaías 53: A natureza da Expiação
1 C oríntios 15: A R essurreição
2 Coríntios 5.1-10: A natureza do estado interm ediário
Filipenses 2.1-11: A natureza da E ncarnação
Capítulos desse tipo são cham ado na história da igreja de sedes doctrinae ou
“assento da doutrina” . Essas passagens, que cham am os de passagens-chave,
podem servir m uito bem para im por lim ites para os intérpretes, à m edida que
estes buscam orientação sobre a interpretação de textos que são verbalm ente
ou topicam ente paralelos. Essas passagens-chave contêm um a grande quanti­
dade de m aterial sobre determ inada doutrina reunida em um só lugar. De
certa form a, representam um a função de “autopoliciam ento” das Escrituras
que é particularm ente im portante para os Protestantes, que rejeitaram as lim i­
tações externas (como, por exemplo, a igreja ou a tradição) no seu processo
de interpretação da Bíblia.
Um sumário dos princípios
Se Deus é, de fato, o autor de um a revelação autêntica sobre si próprio para os
m ortais, é natural pensarm os que as Escrituras podem ser usadas para o
ensinam ento doutrinário e teológico. 2 Tim óteo 3.16,17, aliás, coloca “dou­
trina” com o o prim eiro item num a lista de benefícios provenientes das E scri­
turas. O apóstolo Paulo fala sobre esse m esm o assunto ao m encionar que os
rom anos deveriam obedecer às doutrinas de todo o coração (Rm 6.17). Em
suas duas cartas ao jovem Timóteo, o m esm o apóstolo advertiu doze vezes
para que ele cuidasse de m anter a sã doutrina. Toda essa ênfase na doutrina e
nos ensinam entos não foi invenção de algum m ovim ento evangélico da época
e nem um a reação exagerada de alguns teólogos, pois a m esm a ênfase nos
ensinam entos é m arcante no próprio m inistério de nosso Senhor. O povo se
adm irava com seus ensinam entos (M t 7.28). De fato, ele declarava claram en­
te que sua doutrina vinha do Pai (Jo 7.16). Portanto, o uso doutrinário da
Bíblia não pode ser tom ado levianam ente e nem m enosprezado. Ele é, na
verdade, aquilo que dá substância e form a a toda a fé cristã. A doutrina só é
possível porque Deus falou por m eio das Escrituras.
N esta parte final resum irem os os princípios básicos que estão por trás
do uso teológico profícuo da Bíblia.
1 . O PESO MAIOR DOS ENSINAMENTOS DOUTRINÁRIOS DEVE SER COLOCADO SOBRE
AS PASSAGENS-CHAVE.
E ste princípio é preferível a qualquer outro princípio reducionista tal como
dar prioridade ao Novo Testam ento em lugar do Antigo, ou aos Profetas em
lugar da Lei ou ainda às Epístolas em vez dos Evangelhos. Cada um a dessas
alternativas foi testada ao longo da História, em m uitos casos com efeitos
desastrosos. Tal é a deferência em relação à suposta superioridade daquilo
que é mais recente que se acaba im pugnando a revelação de Deus e criandose um cânon dentro do cânon. Ao longo de ambos os Testam entos a revelação
de Deus sem pre m ostra de novo sua plenitude num a seqüência de doutrinas.
C onseqüentem ente, é im portante que consultem os um a a um a essas passa­
gens-chave e nelas procurem os a expressão plena daquilo que Deus tinha em
m ente sobre cada um a das grandes verdades didáticas.
2. A EXEGESE VEM
ANTES DE QUALQUER SISTEMA DE TEOLOGIA.
As Escrituras em si não são um livro didático para a teologia assim com o o
m undo natural ao nosso redor tam bém não vem com pleto com um livro didá­
tico sobre geologia, física ou quím ica. M esm o que toda a criação tenha se
originado de Deus, assim com o todas as Escrituras são obra de suas mãos,
recebem os a ordem da criação já em funcionam ento e não o m anual de opera­
ção. A propensão hum ana para organizar, classificar e arranjar esses dados,
tanto as revelações naturais como as sobrenaturais, provavelm ente reflete o
fato de que fom os criados à im agem de Deus.
M as quando essa propensão de form ar um a teologia volta-se para fontes
fora da Bíblia, não há fim para os problem as que surgem. Tais fontes externas
podem tornar-se grades que são colocadas sobre o texto servindo de lim itação
e im pedim ento para o mesmo.
E ssas grades podem ap resen tar-se na form a de filosofias com o o
panteísm o ou o existencialism o, ou podem ser o com prom isso com determ i­
nados princípios organizadores de um a analogia separada da fé e desligada
daquilo que é oferecido pela leitura da Bíblia em si. Nessa segunda categoria
estão incluídos os nossos sistemas de revelação divina ou a nossa teologia sobre
a Aliança bem como o Calvinismo, o Arminianismo, as teologias carismáticas
ou de cessação. Não pretendem os dizer que um sistem a está certo e os outros
estão errados mas sim, que se deve cuidar para que o sistem a venha em se­
gundo lugar depois da exegese da Bíblia. Em outras palavras, m uitas vezes
tem os a tendência de fazer com que a Bíblia se encaixe em nossos sistem as e
não o contrário e por isso nossos estudos e argum entações acabam não che­
gando a lugar nenhum.
3. As DOUTRINAS
NÃO DEVEM IR ALÉM DAS EVIDÊNCIAS ENCONTRADAS NAS
Es-
CRITURAS.
A tentação de se dizer mais do que é dito nas Escrituras é sem pre um risco,
pois nós m ortais somos um grupo curioso. M as, além de nossa curiosidade,
tem os tam bém um desejo profundam ente engendrado de fingir que sabem os
m ais do que outros sobre assuntos relativos tanto a este m undo quanto ao
próxim o. E nesse ponto que com eçam os a extrapolar as evidências que temos
em m ãos, a fim de fazer aquilo que pensam os ser deduções perfeitam ente
lógicas sobre algum as das doutrinas. Também é nesse ponto que os m odernis­
tas com eçam a fazer perguntas para as quais o texto não tem respostas diretas.
Para a infelicidade da causa do evangelho, nós muitas vezes nos tornam os
especialistas nessas extrapolações teológicas e forçam os outros a concorda­
rem com as nossas conclusões ou então a deixarem o “nosso grupo” .
4. A ANALOGIA DAS ESCRITURAS DEVE TER PRIORIDADE SOBRE A ANALOGIA DA FÉ.
Tendo em vista que já apresentam os em algum detalhe os dois tipos de analo­
gia, serem os sucintos. M inha preocupação ao citar este princípio é de priorizar
a exegese e aquilo que já se sabia por revelações anteriores de D eus e, só
depois, acrescentarm os por sumários tudo o que o Senhor revelou mais tarde
sobre um determ inado tópico. Em outras palavras, precisam os ler a Bíblia
seqüencialm ente para não cairm os no erro de “inserirm os no texto” aquilo
que esperávam os encontrar nele.
O uso da “teologia inform ada” a partir da analogia das Escrituras pode
fazer um a grande diferença em um a exegese qye, de outro m odo, seria anêm i­
ca e sem entusiasm o. Assim, quando Elias tomou “doze pedras” (e não dez) a
fim de construir um altar que representasse as doze tribos e declarou “Teu
nom e será Israel” , ele estava claram ente fazendo o povo relem brar a prim eira
vez em que essas palavras haviam sido proferidas. Em Gênesis 32.28 e 35.10,
duas vezes (tendo-se passado um período de trinta anos entre um a vez e ou­
tra) Jacó ouviu de Deus: “Já não te charharás Jacó, porém teu nom e será
Israel.” Em ambos os casos (em um a das vezes ele lutou contra um anjo do
Senhor em Peniel e na outra ele s.e preocupou se os cananitas iriam m atar sua
fam ília depois do que havia acontecido no incidente sobre Diná em Siquém),
Jacó foi advertido para que deixasse de lado a dependência em si m esm o e em
seus ídolos.
Quase um m ilênio depois, Elias teve que ensinar mais um a vez a m esm a
lição aos descendentes de Jacó. “Lançai fora os deuses estranhos que há no
vosso m eio” ordenou o Senhor em Gênesis 35.2. Elias fez um pedido sem e­
lhante em 1 Reis 18.21. Assim, a teologia inform ada fortalece e enriquece
nossa exegese dos textos bíblicos. A partir desse ponto é possível - e desejá­
vel - introduzir em nossa exegese da passagem um ensinam ento sem elhante
de um texto posterior das Escrituras tratando do m esm o tópico, pois ambos
form am um a analogia total da fé. E de suma im portância utilizar prim eiro a
analogia das Escrituras (de um texto anterior) e depois a analogia da fé no
sum ário de cada um dos pontos principais de um sermão.
5.
SÓ AQUILO
QUE É ENSINADO DE FORMA DIRETA NAS ESC R IT U R A S DEVE FALAR
À CONSCIÊNCIA.
De m aneira sem elhante à teologia, o mesmo princípio se aplica às áreas da
m oralidade e da ética. Mais um a vez, ao m oldar-se um a ética ou m oralidade,
existe a tendência de se colocar tanta confiança em extrapolações hum anas e
deduções pessoais das Escrituras quanto nos textos das Escrituras em si. Isso
não faz justiça nem à prim azia das Escrituras nem à com unidade dos crentes.
A pelar para a consciência dos crentes sobre questões que não são ensi­
nadas diretamente nas Escrituras é correr o risco de criar um a nova tradição
que venha a com petir por reconhecim ento com as próprias Escrituras. É com
razão, portanto, que levantam os objeções a seitas que acrescentam às E scritu­
ras meras idéias hum anas. Da m esm a forma, devemos protestar contra as
interpretações hum anas que são elevadas à categoria de Escrituras. Além dis­
so, tais inferências são um desrespeito à nossa liberdade cristã em Cristo.
Deve-se ter cuidado ao aplicar este princípio, pois alguns, para evitar
cair na vala de um lado da estrada, acabam caindo na vala do outro lado.
Assim, devemos condenar aquilo que é diretam ente condenado nas E scritu­
ras. Tam bém devemos condenar aquilo que é condenado pela aplicação im e­
diata de um princípio. Mas, quando nenhum a dessas duas condições está pre­
sente, a consciência do cristão não pode ser m anipulada por qualquer outra
fonte. Nos casos em que as questões se tornam mais controversas (como, por
exem plo, quando supõe-se que certos ensinam entos bíblicos estão m esclados
com o contexto cultural, como a ordem de se lavar os pés uns dos outros em
João 13.14), é que nossa interpretação não deve ser tão inflexível e perm a­
nente, pelo m enos no que diz respeito a apelar para a consciência alheia.
6 . N e n h u m a d o u t r in a d e v e s e r b a s e a d a em u m a ú n ic a p a ssa g e m d a s E s c r i­
t u r a s , PARÁBOLA, ALEGORIA, TIPO, SENSUS PLENIOR OU NUMA LEITURA INCERTA
DO TEXTO.
O ensino doutrinário é valioso demais para ser confiado àquelas áreas da in­
terpretação em que os preconceitos subjetivos do leitor podem acabar sendo
m ais fortes.
Os m órm ons, por exemplo, transform aram 1 Coríntios 15.29 em um a
doutrina-chave e é desse texto que tiram um a de suas principais característi­
cas - “Se, absolutam ente, os mortos não ressuscitam , por que se batizam por
causa deles?” Provavelm ente, nessa passagem Paulo só estava argum entando
com algum a outra pessoa. Seria demais afirmar que esse único versículo é
evidência adequada para se construir um a doutrina sobre o batism o dos m or­
tos. Independente de como Paulo estava argumentando nesse ponto, é extrema­
mente perigoso tomar um único versículo e formular uma doutrina a partir dele.
Vou me lembrar sempre do dia em que um homem abriu sua Bíblia no livro
de Atos e declarou que pertencia à igreja “Somente de Jesus”, pois assim eram
batizados em Atos 8.16 - “...mas somente haviam sido batizados em nome do
Senhor Jesus” . E quanto ao que o resto das Escrituras tem a dizer sobre a Trinda­
de? Aquele homem já havia se decidido e formado sua própria denominação.
Da mesm a form a é arriscado nos contentarmos com uma doutrina apoiada
exclusivam ente no argum ento de uma parábola, alegoria, tipo, no cham ado
sensus plenior ou num a passagem de leitura incerta. Alguns, por exemplo,
basearam a doutrina da Trindade exclusivam ente em 1 João 5.7,8. As evidên­
cias, entretanto, indicam que esse trecho vem de m anuscritos mais recentes
da Vulgata latina que acrescentou aproxim adam ente 25 palavras, incluindo
aquelas traduzidas como “o Pai, a Palavra e o Espírito Santo” . Esse escrito
não pode ser considerado parte do texto original, portanto não deve ser usado
para a teologia e doutrina. Tais procedim entos são exem plo do em prego de
um “texto-prova” , um m étodo que usa textos sim plesm ente porque contêm
um a certa palavra ou idéia, sem levar em consideração o contexto ou a inten­
ção original do autor acerca do texto.
7. A
INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA DEVE RECONHECER SUA RESPONSABILIDADE PE­
RANTE A IGREJA.
O Espírito Santo não deu início à sua obra quando nós chegam os neste está­
gio da H istória e com eçam os a interpretar a Bíblia. Durante séculos, desde o
Antigo Testam ento, tem havido um acúmulo fiel e constante de ganhos, com ­
preensão e insights entre o povo de Deus.
M ais um a vez, há um a vala de cada lado do caminho. Pode-se estar tão
atento para aquilo que a igreja e os outros crentes do passado aprenderam das
Escrituras a ponto de transform ar esses conhecim entos em tradições e fazer
deles novas escrituras. Mas o outro lado tam bém é igualm ente problem ático.
Alguns desprezam todos os insights e obras do passado, com o se estivessem
selados dentro de um vácuo e todos os ensinam entos doutrinários tivessem
com eçado a partir deles.
O ensinam ento doutrinário das Escrituras deve ser com partilhado. O tra­
balho teológico deve ser feito com um espírito que convida outros crentes a
avaliá-lo e com pará-lo aos padrões das Escrituras. Essa necessidade de se
trabalhar em conjunto não é devida a um a natureza inadequada das E scritu­
ras, mas sim à inadequação dos leitores e intérpretes da Bíblia.
Os Reform adores lançaram um sistema duplo de verificação e equilíbrio
quando anunciaram o sacerdócio de todos os crentes e lançaram mão das lín­
guas originais da Bíblia. Se o sacerdócio tivesse precedência, o resultado pode­
ria ser a anarquia, pois cada um passaria a fazer o que fosse certo aos seus
próprios olhos. Se o uso das línguas originais viesse antes, provavelmente terí­
amos sido abandonados à mercê dos estudiosos que acabariam constituindo o
júri final sobre o que o texto estaria ou não dizendo. Felizmente, os Reformadores
insistiram tanto no sacerdócio de todos quanto no uso das línguas originais das
Escrituras. Isso trouxe o equilíbrio e a necessidade de que estudiosos e leigos
passassem a depender uns dos outros.
PARTE 4____________
A Busca por Significado:
Outros Desafios
U m conhecim ento da -história da interpretação pode ser um a
das p roteções m ais eficazes contra o erro interpretativo. E ssa história
co m eça com os Targums ju d aico s, que usavam tanto o sentido ex p lí­
cito quanto o oculto das leis m osaicas. Três grupos im portantes aju­
daram a form u lar diferentes aspectos d a interpretação judaica. O ra ­
bino H illel representou o prim eiro grupo com suas sete regras que, de
m odo geral, eram um desenvolvim ento lógico de princípios de bom
senso. M ais tarde, o rabino E liezar expandiu as regras de H illel com
um conjunto de 32 regras, incluindo diversas técnicas m ísticas para
obter os significados m ais profundos das E scrituras. Os essênios dos
papiros do M ar M orto desenvolveram o m étodos pesher, que tran s­
form ava pessoas e acontecim entos em valores e significados co n tem ­
porâneos pela sim ples d eterm inação dos intérpretes. O terceiro grupo
era com posto de ju d eu s da diáspora, sendo Philo o seu representante
mais lem brado e que enfatizou a hyponoia, ou seja, um sentido mais
profundo das Escrituras que podia ser descoberto por meio de alegorias.
Os escritores do N ovo T estam ento usaram quase trezentas cita­
ções do A ntigo T estam ento ju n tam en te com centenas (ou até m ilha­
res, de acordo com alguns) de outras alusões a ele. E m uito pouco
provável que Jesus e os apóstolos tenham usado a interpretação ale­
górica ou m esm o valores p e sh e r ou m idrash para textos do A ntigo
T estam ento, a fim de provar que aquilo que afirm avam , ou seja, que a
d o u trin a do A ntigo T estam ento sobre o M essias havia se cum prido
em C risto e na igreja.
Três escolas dom inaram os prim eiros séculos da era cristã: a de
A lexandria, a de A ntioquia e a do O cidente. A escola de A lexandria
especializo u -se no sistem a alegórico de interpretação baseado num a
do u trin a de corresp o n d ên cia entre as realidades celeste e terrena, en ­
quanto a escola de A ntioquia d efendia a doutrina da theoria, afirm an­
do que as E scrituras tinham um único significado que incluía o lite­
ral, o espiritual, o histórico e o tipológico. A escola do O cidente era
m ais eclética, incorporando p rincípios das outras duas escolas e sen­
do rep resen tad a p o r hom ens com o Jerônim o e A gostinho.
A Id ad e M éd ia deu origem aos vitorinos de P aris, S tephen
L angdon, Tom ás A quino e um ju d e u convertido, N icolau de Lira.
N icolau influenciou L utero e a R efo rm a com sua insistência no senti­
do claro do texto. R eu ch lin e E rasm o lançaram os fu n dam entos p ara
a R eform a, m as L utero e C alvino lideraram os ataques contra a inter­
p retação alegórica. N a era pós-R eform a, os pietistas enfatizaram a
a p lic a ç ã o das E s c ritu ra s à fé e p rá tic a in d iv id u a is, e n q u a n to o
R acionalism o com eçou u m a tendência que acabou levando às form as
histórico-críticas de estudo da B íblia.
CAPÍTULO 12________________
Uma breve história da interpretação
W a l t e r C . K a is e r , J r .
U m a com preensão da história das interpretações da Bíblia pode ser de grande
ajuda para aquele que está estudando as Escrituras. Pode servir, por exemplo,
com o um a advertência para que não se com eta os m esm os erros do passado.
Pode tam bém determ inar quais influências levaram a alguns m al-entendidos
sobre a Palavra de Deus. Além disso, ela pode fam iliarizar o intérprete com
alguns dos excelentes exegetas do passado e dem onstrar alguns dos m étodos
que eles usaram para tratar das Escrituras. Independente da m otivação de
cada um para entrar em contato com o trabalho daqueles intérpretes que nos
precederam , certam ente o estudo cuidadoso de suas obras pode poupar o es­
tudante de perder tem po valioso e seguir por trilhas que não levam a lugar
nenhum e já foram anteriorm ente testadas sem oferecer resultados.
Pode-se dizer que, praticam ente desde o princípio, m uitos ouvintes e
leitores da m ensagem da B íblia dem oraram para captar as verdades espiri­
tuais nela contidas. Os profetas reclam aram repetidam ente que Israel era
um público tolo, insensato e rebelde: “tendes olhos e não vedes, tendes ou­
vidos e não ouvis” (Jr 5.21; ver tam bém J s 6.10; Ez 12.2). A situação não
era diferente no tem po do Novo Testam ento. Paulo precisa escrever aos
T essalonicenses pedindo: “não vos dem ovais da vossa m ente, com facilida­
de, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epísto­
la, com o se procedesse de nós” (2Ts 2.2). E é verdade que as cartas de Paulo
contêm “certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis
deturpam , com o tam bém deturpam as dem ais Escrituras para a própria des­
truição deles” (2Pe 3.16). As pessoas vão distorcer não apenas as cartas de
Paulo m as as “dem ais E scrituras” tam bém . D aí a necessidade de uma breve
história da interpretação da B íblia.130
A hermenêutica judaica
A grande vantagem que o povo judeu possuía foi reconhecida por Paulo em
Rom anos 3.1-2: “aos judeus foram confiados os oráculos de Deus.” M as esse
tesouro nem sem pre dirigiu as atitudes do povo, pois as leis foram ignoradas
e os profetas foram perseguidos.
Quando o povo retornou do exílio na Babilônia foi necessário, portanto,
que tivesse os Targums (de um a palavra que significa “explicar”) para que
pudessem ser orientados na interpretação das Escrituras, Assim, os ensinamentos
orais tornaram -se um suplem ento fixo e crescente para o texto bíblico, tendo
um a autoridade igual ã das Escrituras. Afirm ava-se que essa tradição havia
sido passada fielm ente do escriba Esdras e dos mem bros da Grande Sinagoga
que, por sua vez, supostam ente haviam recebido esses ensinam entos por meio
da revelação divina.
No início da era cristã, os rabinos judeus costum avam fazer um a distin­
ção entre dois sentidos do texto: o peshat, ou seja, o “claro” ou “sim ples” (daí
o sentido literal ou histórico) que significava a passagem bíblica; e o remciz, o
sentido oculto da lei m osaica e do Halaká. Havia tam bém o sentido derüsh
(“buscado”) das Escrituras, isto é, o sentido alegórico expresso na form a de
H agadot ou lendas. E dessa últim a palavra que veio o substantivo midrash
“exegese” . O quarto m étodo usado na interpretação judaica era o sôd - o
sentido m ístico ou cabalístico de um a passagem .
A exegese que tratava de assuntos históricos ou dogm áticos era cham a­
da de midrash de Hagadot. Esse tipo de interpretação era mais ilustrada, prática
e mesclada com um a grande quantidade de alegorias, lendas e histórias bíblicas
emocionantes. Era basicamente uma visão homilética do estudo da Bíblia.
A exegese, por outro lado, tratava de questões legais e era cham ada de
m idrash de Halaká. Essa form a de interpretação procurava aplicar a lei por
analogia e pela com binação de textos em casos excepcionais para os quais
não havia nenhum a sanção na lei de M oisés.
A interpretação judaica era determ inada, em grande parte, por sua pró­
pria estrutura teológica e pelos objetivos da com unidade, na qual as E scritu­
ras desem penhavam um papel. Três grupos im portantes ajudaram a form ular
os diferentes aspectos da interpretação judaica: os rabinos; a seita de Qumram,
dos papiros do M ar M orto, e a diáspora judaica.
130 Para um outro sum ário d essa h istórica com algum as perspectivas diferentes, ver M oisés Silva,
H a s the C hurch M isread the B ible? The H istory o f Interpretation in the L ig h t o f C urrent Issues
(G rand Rapids: Z ondervan, 1987), especialm ente os capítulos 2 e 3.
OS RABINOS
D epois da época de Esdras e dos mestres, ou Tanna’im (com o foram cham a­
dos após o ano 30 d.C), que vieram após a revolta dos M acabeus, deu-se
início a um a tradição que acabou resultando em grandes coleções de escritos
que na era cristã ficaram conhecidos como oM ishnah, o Gemara e o TalmucL.m
No com eço, essa tradição de leis orais desenvolveu-se como um paralelo da
Torá. M as com o passar do tem po, a validade dessas tradições precisava ser
provada por meio da referências aos próprios textos bíblicos. Assim, desen­
volveu-se um a espécie de coordenação entre o texto bíblico, a tradição e a
aplicação contem porânea.
Os princípios para coordenar esses três elem entos foram estabelecidos
por vários conjuntos de leis rabínicas conhecidas como middôt. Não se sabe
ao certo qual a origem dessas leis, mas a m aioria afirma que o conjunto mais
antigo de sete m iddôt é do famoso rabino Hillel, um contem porâneo de Jesus,
m ais velho do que ele (30 a.C. a 15 d.C., aproxim adam ente). Estas são as sete
regras de H illel:132
1. Inferência do sentido mais brando (prem issa menor) para o mais fo r ­
te (prem issa maior), ou um argumento a fo rtio ri. Afirm a sim plesm ente que
aquilo que é verdade sobre o m enor tam bém o é sobre o m aior. A ssim ,
tendo em vista que o sábado era m ais im portante do que os outros dias
festivais, um a restrição colocada sobre um dia festival anual era ainda
m ais aplicável ao sábado.
2. Analogia de expressões. Passagens ambíguas eram explicadas ao fa­
zer um a inferência da analogia de expressões, isto é, de palavras e frases
sem elhantes usadas em algum outro lugar. Assim, considerando que Levítico
16.29 pede aos judeus: “afligireis a vossa alm a” no Dia da Expiação, sem
explicar qual a natureza dessa aflição, interpretava-se que os judeus deviam
abster-se de com ida no Yom Kippur, pois essa m esm a expressão tinha sido
usada em Deuteronôm io 8.3 com a m enção explícita de fome.
3
.A plicação p o r analogia com uma cláusula ou a extensão do específ
co para o geral. Nessa regra, textos eram aplicados a determinados casos se
eram de natureza semelhante, mesmo que não fossem tratados de forma direta
131 A lgum as partes do T alm ud originaram -se no século 2 ” a.C., quando vários ensinam entos co m e­
çaram a ser passados oralm ente e aum entaram constantem ente a cada g eração. E ntão, no século
2° d.C ., lu d a h H á-N asi coletou esses ensinam entos n a form a escrita. E sse trabalho, que consiste
de 63 tratados, ficou conhecido com o o M ishnah. C om o passar do tem po, o próprio M ishnah
foi sujeito a um a interpretação escrita, o Gem ara. A com binação do M ishnah e do G em ara
norm alm ente é cham ada de Talm ud.
132 Para um a explicação m ais com pleta dessas regras, ver M ikra: Text, Translation, R eading, and
Interpretation o f th e H ebrew B ible in A n cien t Judaism a n d E arly C hristianity, org. por M artin
Jan M ulder (Filadélfia: Fortress, 1988), pp. 699-702. Ver tam bém K arlfried Froehlich, B iblical
Interpretation in the E arly Church (Filadélfia: Fortress, 1984), pp. 30-36.
dentro das Escrituras citadas. Em outras palavras, um princípio geral era construído
sobre a base de um ensinamento contido num versículo (cláusula). Assim, por
exemplo, o caso do assassinato não-intencional de um companheiro lenhador que
é citado em Deuteronômio 19 pode ser aplicado a qualquer tipo de morte aciden­
tal resultante de dois homens trabalhando juntos em um lugar público.
4. Aplicação p o r analogia com duas cláusulas. Essa regra é sem elhante
à anterior, porém aqui ela é fortalecida por m eio de duas cláusulas, ou dois
versículos para o princípio geral. Êxodo 21.26,27 determ inava que um escra­
vo que tivesse o seu “olho” ou “dente” destruído deveria ser libertado. Por
analogia, essa regra poderia ser aplicada a todas as outras partes do corpo.
5. Inferência de um princípio geral para um caso ou exemplo específico.
Essa regra pode ser usada de duas formas - do geral para o específico ou viceversa. Assim, Êxodo 22.9 diz que se um homem emprestar a outro seu boi, ju ­
mento, ovelha ou vestimenta “ou qualquer coisa” , aquele que recebeu o emprés­
timo deve pagar uma restituição dobrada, caso venha a perder o que foi empresta­
do. Mas, por causa do uso do termo generalizado “qualquer coisa”, o texto mos­
tra que boi, jumento, ovelha e vestimenta são apenas exemplos e, portanto, a lei
aplica-se a qualquer coisa - quer animada ou inanimada - que tenha sido tomada
emprestada e perdida e que deve ser reembolsada em duas vezes o seu valor.
6. Explicação de uma outra passagem. Sem elhante à prim eira regra,
esta explica uma passagem apelando para outro trecho das Escrituras. Foi
colocada para o rabi Hillel a seguinte questão: o cordeiro da Páscoa deveria
ser abatido no sábado se o décim o quarto dia de Nisan fosse um sábado? Ele
respondeu que, tendo em vista que Núm eros 28.10 decreta que “sacrifícios
diários” deveriam ser oferecidos tam bém aos sábados, então por analogia o
cordeiro da Páscoa tinha de ser abatido no décim o quarto dia de Nisan, inde­
pendente do dia da sem ana em que caísse.
7. Aplicação de uma inferência evidente p o r si própria em um texto.
U m a passagem não deve ser tom ada como um a declaração isolada, mas so­
m ente à luz de seu contexto. Portanto, a aparente proibição de que qualquer
um saísse de casa no sétimo dia em Êxodo 16.29 deve ser interpretada em seu
contexto para ser aplicada apenas na situação de se juntar m aná no deserto,
que havia sido oferecido em dobro no dia anterior.
M ais tarde, no século 2o d.C., o rabino Ishm ael ben Elisha aum entou
para treze o núm ero de regras.133 O rabino Eliezar ben José as desdobrou em
32 regras. A essa altura, outras técnicas foram incluídas tais com o a gematria,
ou com putação dos valores num éricos das letras com a finalidade de obter
D avid D aube, “R abbinic M ethods of Interpretation and Hellenistic R hetoric” , HU CA 22 (1949):23964, argum enta de m odo bastante convincente que essas regras de m odo geral refletem a lógica e os
m étodos d a g ram ática e da re tó rica helen ísticas. Veja tam bém B ernard R o sen sw eig , “T he
H erm eneutic Principies and T heir A pplication” , Tradition 13 (1972): 49-76; e J.W e in g re e n , “T he
R abbinic A pproach to the Study o f the O ld Testam ent”, B JR L 34 (1951-52): 166-90.
significados mais profundos ao compará-los com outras palavras que tivessem a
m esma combinação de números; o notrikon, quebra de uma palavra em duas ou
mais, ou a reconstrução de uma palavra usando-se as iniciais de várias outras
palavras, ou até mesmo a sugestão de uma nova frase usando todas as letras de
um a única palavra como iniciais para as outras palavras que formavam a frase;
ternura, a permutação de letras pelo uso de três alfabetos cabalísticos; e sôd, a
busca pelo sentido alegórico ou místico. Essas derivações posteriores das sete
regas de Hillel, que antes normalmente haviam refletido o peshat, ou sentido
direto do texto, acabaram culminado no sistema cabalístico do século 13.
A SEITA DE QUMRAM
A com unidade de Qum ram é mais conhecida pelo conjunto de papiros do
M ar M orto encontrado em 1947 e em anos subseqüentes. A m aioria identifica
a seita que copiou esses textos com os essênios m encionados em Josefo, Philo,
Strabo e outros escritores da antigüidade.
Os essênios eram leitores ávidos da Bíblia. M uitos de seus com entários
foram encontrados junto com cópias das Escrituras feitas por eles, especial­
m ente o com entário sobre Habacuque. N orm alm ente seus com entários cita­
vam um a passagem curta com dois ou três versículos. A citação era seguida
da frase “Seu pesher é...” (da palavra aram aica psr, “interpretar”). O aspecto
singular da interpretação que eles ofereceram , especialm ente dos livros pro­
féticos, foi que tudo do passado era transform ado e recebia um valor e um
significado contem porâneo. O “ju sto ” em Habacuque 1.4, por exemplo, era o
“M estre da Justiça” ou o fundador da seita dos essênios. E o “perverso [que]
cerca o ju sto ” , na m esm a passagem era o “sacerdote perverso” ou o “hom em
de mentiras” que perseguia o “Mestre da Justiça” . Os “caldeus” ou “babilônios”
em 1.6 eram os rom anos, aos quais a seita se referia usando o nom e bíblico
“kittim ” . E assim desenrolava-se a exegese pesher dessa seita.
A DIÁSPORA JUDAICA
A terceira form a de herm enêutica judaica foi aquela que surgiu entre os ju ­
deus da diáspora, especialm ente aqueles em A lexandria, no Egito. A figura
mais representativa provavelm ente foi Philo (20 a.C. a 50 d.C., aproxim ada­
m ente). Na capital helenística, o cânon ju^leu das Escrituras era a Septuaginta,
a tradução grega da Bíblia. M uito da inspiração dos estudiosos helenistas foi
decorrente do conceito de que as Escrituras continham um a verdade mais
profunda, um sentido espiritual cham ado de hyponoia. Essa verdade mais
profunda estava por trás das palavras hum anas e precisava ser descoberta por
m eio da interpretação alegórica. Isso perm itia que o texto com unicasse algo
m ais, além daquilo que as palavras significavam . Até m esm o H om ero e
H esíodo, dois autores gregos b astan te co n hecidos e apreciados foram
escrutinados para descobrir as verdades éticas e cósm icas mais profundas sob
o véu de suas narrativas acerca de deuses e deusas.
O m odelo usado por Philo para seu princípio herm enêutico era a divisão
platônica do m undo e das pessoas em duas esferas - um a visível e outra
em blem ática. O significado literal do texto era o visível, ou aquilo que
correspondia ao corpo; o significado mais profundo, ou a hyponoia, era o
sim bólico, ou aquilo que correspondia à alma. Sem pre que Philo era confron­
tado com aquilo que, para ele, parecia impossível, injusto ou absurdo dentro
do texto bíblico, ele procurava cuidadosam ente por pistas tais como núm eros
m isteriosos, etim ologias, expressões peculiares e coisas do gênero que pu­
dessem desvendar o ensinam ento de hyponoia por trás do significado superfi­
cial do texto.134 Na rarefeita cultura helenística em que vivia o povo da diáspora
naquele tem po, pensava-se que era som ente por meio desses passos que os
judeus poderiam sobreviver e tornar as leis de M oisés atraentes para a m enta­
lidade grega.
O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento
H á 224 citações diretas do Antigo Testam ento dentro do Novo Testam ento,
sendo que cada um a é introduzida por um a expressão típica.135 Em sete outros
casos elas são introduzidas pela palavra “e ” ; dezenove casos de paráfrases ou
sum ários do Antigo Testam ento parecem depender de citações e 43 casos de
clara sem elhança indicam que esses textos tam bém dependem do A ntigo Tes­
tam ento. Não há unanim idade sobre o número exato de alusões ao Antigo
Testam ento dentro do Novo: C. H. Toy contou 613, W ilhelm Dittmar argu­
mentou que eram 1.640, enquanto Eugene Huehn pensou ter encontrado 4.105!
O importante é que os escritores do Novo Testamento dialogavam com o Antigo
Testamento e sentiam que estavam diretamente ligados a ele.
Então, de que form a o Novo Testam ento interpretava o Antigo? Eles
refletiam todos os três tipos de herm enêutica judaica que acabam os de iden­
tificar como se costum a afirmar?
M uitas das sete regras de Hillel aparecem nos ensinam entos de Jesus,
pois essas regras norm alm ente fazem justiça às intenções do autor que escre­
veu o testam ento m ais antigo. Ótimos exemplos que m ostram nosso Senhor
fazendo uso dessa prática podem ser encontrados em M arcos 2.25-28 e João
134 Philo cham ava esse tipo de interpretação de “Leis da A legoria” {On A braham , 68). A s 23 regras
de P h ilo foram organizadas por C harles A. B riggs sob quatro títulos: A legoria G ram atical, A le­
goria R etórica, A legoria p or M eio de N ovas C om binações e Sim bolism os. Ver C harles A ugustus
B riggs, G eneral lntroduction to the S tudy o fH o ly Scripture, edição revista (1900; reim pressa ,
G rand Rapids: Baker, 1970), pp. 434-36.
1,1 Ver R oger N icole, “T he New Testam ent U se o f the O ld T estam ent” . em R evelation a nd Inspiration
o f the B ible, org. por Carl F. H. H enry (G rand R apids: Baker, 1958), pp. 137-51).
7.23; 10.34-36. M as Jesus não nos dá nenhum exem plo de exegese medrash
ou pesher. Alguns procuraram ver a expressão do Serm ão do M onte “Ouviste
que foi dito... Eu porém vos digo” como um a form a de exegese pesher m uito
parecida com aquela usada em Qum ram . Porém , em lugar dessa descoberta
m udar o sentido daquilo que a revelação mais antiga ensinava, em cada um
dos casos é possível encontrar concordância e mais subsídios para a m esm a
argum entação de M oisés e dos profetas. Há tam bém dúvidas sobre se é possí­
vel encontrar um a visão alegórica no uso que Jesus fez das parábolas. Tendo
em vista que a parábola é baseada num símile, as com parações são analogias
diretas e não alegorias indiretas.
E quanto a Paulo e os apóstolos? O próprio Paulo não confessou estar
usando de alegoria ao falar de Sara e Agar em Gálatas 4.24-31? Existe um a
linha m uito fina de distinção entre o uso que Paulo faz de um a alegoria e um a
alegorização do Antigo Testamento. Esse ponto crítico encontra-se em Gálatas
4.24. N esse versículo, Paulo usou um a expressão grega bastante incom um
que pode ser traduzida como “tudo aquilo que pode ser colocado em um a
alegoria” . Àquela altura, Paulo havia decidido que desejava tanto transm itir
sua m ensagem que decidiu adotar, m om entaneam ente, o m étodo com o qual
tantos ju d eu s do seu público estavam fam iliarizados. E n tretan to , com isso
ele não preten d ia in terp retar o que G ênesis havia afirm ado sobre aquelas
duas m ulheres ou aquilo que G ênesis estava ensinado po r m eio de um
sentido de hyponoia. N um a avaliação m ais detalhada, portanto, esse su­
posto exem plo d e sap a re ce .136
U m ponto de vista m uito m ais com um é de que os escritores apostólicos
do Novo Testam ento usavam o m étodo medrash ou pesher de interpretação
do Antigo Testam ento. Diz-se, por exemplo, que ao usar 1 Coríntios 10.1-6,
Paulo estava baseando-se em um a lenda rabínica de um poço móvel em form a
de pedra, aproxim adam ente do tam anho de um forno ou colm éia que ia rolan­
do atrás do povo no deserto enquanto eles percorriam m ontanhas e vales. De
acordo com a lenda, sua água saciava a sede, curava e fazia correr rios que
tinham em suas margens um tipo de gram a que servia de desodorante!
M as confundir a “pedra” de 1 Coríntios 10.1-6 com um tipo de reserva­
tório am bulante é fazer associações onde,não há bases para isso. E verdade
que a pedra é tida com o sendo “espiritual” , mas o adjetivo denota sua origem
e não sua natureza. Ela era sobrenatural em origem, como dem onstram os
acontecim entos em Êxodo 17.6, quando o próprio Senhor se coloca ao lado
136 U m outro exem plo citado com freqüência - o com entário de Paulo em 1 C oríntios 9.9 sobre não
am arrar a boca do boi - tam bém não d em onstra u m a intenção de alegoria. Ver um a argum enta­
ção m ais detalh ad a desse exem plo em W alter C. K aiser, Jr., The Use o fth e O ld Testam ent in the
N ew (C hicago: M oody, 1985), pp. 203-20.
da pedra que jorrou água quando ele assim ordenou. N esse sentido, então,
Cristo acom panhou Israel com sua presença real, assim com o Isaías viu C ris­
to no tem plo celeste (Is 6; ver tam bém João 6.41).
D a m esm a form a, a discussão em Gálatas, quando Paulo insiste que o
Antigo Testam ento não usou o plural sementes, mas sim semente, não é um
exem plo de midrash. Quando, Paulo m ostra que a palavra é um substantivo
singular coletivo que aponta prim eiro para o representante de todo um grupo
- Cristo - e depois para todos os que estão incorporados nesse singular cole­
tivo - todos os que crêem (G1 3.29) - ele está argum entando em favor do
m esm o significado defendido no Antigo Testamento. Essa argum entação é
tão favorável ao Antigo Testam ento que é incrível observar com o m uitos dos
estudiosos do Novo Testam ento nem a percebem!
M uitos outros exemplos podem ser m encionados. E im peroso atentar
para as sábias palavras de Frederic Gardiner há mais de um século:
E m todas as citações que são usadas em form a de argum ento ou para
estabelecer qualquer fato ou doutrina, obviam ente é necessário que a
passagem em questão seja citada de m aneira justa, de acordo com sua
intenção e significado real, a fim de que o argum ento nela apoiado seja
válido. Tem havido m uita crítica precipitada sobre algum as dessas pas­
sagens e têm -se afirm ado im pensadam ente que os apóstolos, especial­
m ente Paulo, usaram a escola de pensam ento rabínica, fazendo cita­
ções das Escrituras de m odo rabínico e inconseqüente. U m a avaliação
cuidadosa e paciente das passagens em si será suficiente para acabar
com essas percepções errôneas.137
O método interpretativo e os pais da igreja primitiva
As interpretações do período dos pais da igreja prim itiva e dos prim eiros sé­
culos cristãos tendem a encaixar-se em três escolas principais: a de Alexandria,
a de A ntioquia e a do Ocidente.
A ESCOLA DE ALEXANDRIA
O prim eiro grande m estre da escola de A lexandria foi Titus Flavius C lem en­
te. Clem ente adotou o m étodo alegórico de Philo e propôs o princípio de que
as Escrituras devem ser com preendidas alegoricam ente. Ele argum entou que
“por m uitos motivos, as Escrituras escondem o sentido... sendo pois que os
m istérios sagrados das profecias estão ocultos em parábolas” {M iscellanies
6.15). Em outra parte de sua obra ele ensinou que “quase todas as Escrituras
são expressas em form a de enigm as” (Stromata 6124.5-6). O lem a da escola
137 Frederic G ardiner, The O ld a n d N ew Testam ent in Their M u tu a l R elation (N ova York: Jam es
Port, 1885), pp. 317-318.
de A lexandria era: “A m enos que você acredite, você não irá com preender”
(uma tradução e aplicação incorreta de Isaías 7.9 na Septuaginta).
O rígenes, um discípulo de Clem ente (185-253/254 d.C-, aproxim ada­
m ente) foi, provavelm ente, o m aior teólogo de seu tem po. Ele deve ser adm i­
rado m ais pelo seu prodigioso trabalho na área da crítica textual do que por
sua obra de interpretação bíblica. Orígenes tam bém seguia o m étodo alegóri­
co de Philo, porém deu ao m étodo um a base bíblica e declarou que as E scri­
turas tinham um sentido triplo: corpóreo ou carnal, físico e espiritual. Ele
delineia esses sentidos na obra On First Principies, o prim eiro tratado técnico
sobre a teoria herm enêutica cristã:
O seguinte m étodo, tirado dos próprios textos bíblicos nos parece, de
fato, a m aneira correta de nos aproxim arm os das Escrituras e captar­
mos seu sentido. Em Provérbios de Salom ão encontram os o seguinte
tipo de diretiva sobre as doutrinas divinas nas Escrituras: “Porventura,
não te escrevi excelentes coisas acerca de conselhos e conhecim entos,
para m ostrar-te a certeza das palavras da verdade, a fim de que possas
re s p o n d e r c la ra m e n te aos q u e te e n v ia re m ? ” [de a c o rd o com a
Septuaginta e o latim de Provérbios 22.20,21]. Isso significa que se
deve gravar na alm a as intenções da literatura sagrada de m aneira tri­
pla; a pessoa mais sim ples pode ser edificada pela carne das Escrituras
(ou seja, o entendim ento m ais óbvio); aqueles em estágio interm ediá­
rio, pela alm a das Escrituras; mas a pessoa que é experim entada e apro­
xim a-se da descrição do apóstolo: “Entretanto, expom os sabedoria en­
tre os ex p e rim e n ta d o s; não, p o rém , a sab ed o ria d e ste sé c u lo ...”
[IC o 2.6,7], será beneficiada pela lei espiritual das Escrituras que c o n ­
têm “ som bras dos bens v in d o u ro s” [H ebreus 10.1]. Pois, assim com o
o ser hum ano consiste de corpo, alm a e espírito, assim tam bém acon­
tece com as E scritu ras que D eus com pôs p a ra a salvação da h u m a­
n id ad e (4 .2 .4 ).138
De acordo com Orígenes, todos os textos bíblicos têm um sentido espiritual,
m as nem todos possuem tam bém um sentido literal. O fato de haver tantas
pedras de tropeço para a interpretação literal do Antigo Testam ento forçou
Orígenes a buscar nos textos um a com preensão m ais profunda. O m étodo que
O rígenes usava para sua herm enêutica bíbliqa era o de anagoge (“ascenden­
te”), a ascensão da alm a do nível da carne para o universo do espírito.
Os sucessores de O rígenes construíram sobre as fundações lançadas
po r ele. Q uando O rígenes teve de deixar A lexandria por causa da p e rse ­
guição, foi m orar em C esaréia, em Israel. A figura m ais distin ta dessa
nova escola em C esaréia foi G regório T aum aturgo, seguido de P an fílio e
138 C onform e recentem ente traduzido por K arlfried Froelich, B ib lica l Interpretation in the E arly
C hurch (Filadélfia: Fortress, 1984), pp. 57,58.
E usébio. E usébio de C esaréia era tão devoto a P anfílio que tam bém é
conhecido com o E usébio P anfílio.
Eusébio de C esaréia chegou a afirm ar que M oisés e os profetas não esta­
vam falando para o público de seus dias. Gregório de Nissa (335-94) escreveu
Life o fM o ses, que ilustra a com preensão analógica ou m ística do texto bíbli­
co naquela que é provavelm ente sua mais pura forma.
Parece bastante possível a existência de listas de equivalentes alegóricos
para m estres e pregadores pertencentes à escola de Alexandria. Tais chaves
alegóricas estavam presentes na obra de Philo e agora, o Inventário Grego de
Papiros 3718 da Universidade de M ichigan, que foi datado por paleógrafos
com o pertencente ao século 7o d.C., parece confirm ar ainda m ais a existência
de tais listas.139 Por m eio desses docum entos ficamos sabendo, por exem plo,
que João 2.1 (“Três dias depois, houve um casam ento em Caná da G aliléia”)
tem os seguintes valores alegóricos: os “dias” são Cristo; “três” é a fé; “um
casam ento” é o cham ado aos gentios; e “Caná” é a igreja. Provérbios 10.1
(“O filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua m ãe”)
é alegorizado da seguinte m aneira: “o filho sábio” é Paulo; o “pai” é o Salva­
dor; o “filho insensato” é Judas; e a “m ãe” é a igreja.140 Esse docum ento,
apesar de m ais recente que a m aior parte das evidências sobre a escola de
A lexandria, sem dúvida pertence à m esm a tradição.
O sistem a alegórico de interpretação é construído sobre a doutrina das
correspondências. Em term os sim ples, ela afirmava que todo objeto ou acon­
tecim ento natural ou terreno é acom panhado de um objeto ou acontecim ento
análogo correspondente e de natureza espiritual ou celeste. Em grande parte,
essa idéia é derivada de Platão, que dividiu o m undo em dois: um m undo
visível e o outro em blem ático; um palpável e o outro invisível. Em sua mais
am pla aplicação, ele afirma que toda a vida e toda a história secular é uma
alegoria e descrição de coisas espirituais ou celestes; outros restringem sua
aplicação somente às Escrituras. Deve-se observar, entretanto, que em ne­
nhum texto a Bíblia ensina tal doutrina de sombras e im agens ou a doutrina
das correspondências. Essas doutrinas são diretam ente derivadas da filosofia
secular daquela época; assim, as Escrituras não podem ser culpadas de defen­
der tal ponto de vista.
A ESCOLA DE ANTIOQUIA
E m oposição à escola de A lexandria estava a escola de Antioquia. O verda­
deiro fundador da escola de A ntioquia, provavelm ente, foi L uciano de
Sam osata, por volta do final do século 3o d.C. Outros consideram o distinto
™ Ib id T p p . 79-81.
140 H á outros dezesseis versículos que esse docum ento, m esm o que fragm entário, tam bém com enta
de m aneira sem elhante.
presbítero D iodoro com o sendo seu fundador em aproxim adam ente 290 d.C.
Independente do fundador, não há dúvida sobre quais foram os dois m aiores
discípulos dessa escola: Teodoro de M opsuestia e João Crisóstomo.
O lem a da escola de Antioquia era theoria, que vem do grego “ver” . Eles
afirm avam que o sentido espiritual não podia de form a algum a ser separado
do sentido literal, como acontecia na escola de Alexandria. Os exegetas da
escola de A ntioquia eram unidos e determ inados em sua preocupação de pre­
servar a integridade da H istória e do sentido natural da passagem . M as eles
tam bém estavam igualm ente preocupados com o excesso de literalidade, bem
com o com o excesso de alegoria ou aquilo que cham avam de “judaísm o” . Os
dois extrem os eram igualm ente perigosos; somente a theoria podia oferecer o
cam inho interm ediário afastado dos perigos de ambos os lados.
Enquanto os estudiosos de Alexandria viam pelo menos dois sentidos
justapostos em todos os acontecim entos, os de Antioquia afirmavam que um
acontecim ento das Escrituras tinha somente um significado - um significado
que, para a visão apurada do exegeta “teorético” , era tanto literal quanto espi­
ritual, histórico e tipológico.141 Os estudiosos de Antioquia davam grande ênfase
à idéia de a theoria referir-se basicam ente ao fato de que havia um a visão ou
percepção da verdade espiritual no cerne do acontecim ento histórico que os
escritores da Bíblia estavam registrando. Afirm avam ainda que essa ligação
entre o acontecim ento histórico e a verdade espiritual não era um duplo sen­
tido ou significado, mas um sentido único conform e havia sido a intenção
original dos escritores da Bíblia.
Os patriarcas de Antioquia não teriam com partilhado dos m esm os p res­
supostos da crítica histórica m oderna de que a ciência ou arte da exegese é
essencialm ente um a disciplina histórica e não teológica. Em lugar disso, a
theoria afirmava que o acontecim ento histórico era em si o veículo necessário
para aquela verdade espiritual e teológica. M as, ao contrário da alegoria, eles
insistiam que os acontecim entos históricos eram indispensáveis com o m eio
que Deus havia escolhido para dar expressão à sua verdade eterna. Portanto, o
objetivo da exegese estava tão envolvido com o esclarecim ento espiritual e
doutrinário quanto com os fatos históricos e filológicos.
A ESCOLA DO OCIDENTE
A terceira escola do período dos pais da igreja era cham ada de escola do
Ocidente. Ela parecia ser mais eclética em seus m étodos de interpretação
pois incluía alguns elem entos da escola alegórica de A lexandria mas tam bém
141 A m elhor discussão sobre esses assuntos talvez seja aquela e ncontrada em John B reck, The
P ow er o fth e Word in the W orshiping C hurch (C restw ood, N.Y.: St. V ladim ir’s S em inary Press,
1986), p p .25-113. E tam bém B radley N assif, “T h e ‘Spiritual E x eg esis’ o f Scripture: T he School
o f A ntioch R evisited” , A TR 75 (1993): 437-70.
incorporava alguns princípios de Antioquia. Sua característica mais m arcante,
entretanto, era colocar em prim eiro plano um elem ento que até então não
tinha sido um a questão im portante: a autoridade da tradição na in terpreta­
ção da Bíblia.
Os principais representantes dessa escola são Hilário, Am brósio e, espe­
cialm ente, Jerônim o e Agpstinho. Jerônim o é fam oso por sua tradução da
Bíblia Vulgata. Ele sabia grego e hebraico, enquanto o conhecim ento de A gos­
tinho das línguas originais era deficiente. Mas Agostinho especializou-se mais
em sistem atizar as verdades da Bíblia do que em sua exegese.
A gostinho expressou seus princípios herm enêuticos em sua obra De
D octrina Christiana. Nela, ele ressaltou a necessidade de um sentido literal
com o sendo a base essencial para o sentido alegórico. Mas Agostinho não
hesitou em usar de form a um tanto livre o m étodo alegórico. Para ele, o fator
decisivo sem pre que parecia haver dúvida nas Escrituras era a regula fid ei
(“regra de fé”), que de acordo com ele significava o conjunto de doutrinas da
igreja. É nesse ponto que a autoridade da tradição com eça a exercer um papel
im portante nas práticas de interpretação de Agostinho, pois o uso adequado
da regula fid ei pressupõe que, para m edir um texto, o seu significado já foi
suficientem ente estabelecido e que aquela passagem pertence à doutrina, sen­
do usada com o “regra de fé” ; de outra forma, corre-se um risco enorm e de
cair em eisegese.
Infelizmente, Agostinho argumentava em favor de um sentido quádruplo
das Escrituras: histórico, etiológico (uma investigação acerca das origens e cau­
sas), analógico e alegórico.142 O conjunto de quatro termos que acabaram sen­
do aceitos pela escola ocidental de herm enêutica era composto pelo sentido
literal, alegórico, tropológico (moral) e anagógico (m ístico ou escatológico).
A ilustração usual desse sentido quádruplo surgiu por volta de 420 d.C. nas
Conferências (14.8) de João Cassiano: Jerusalém literalmente significa a cida­
de dos judeus; alegoricamente Jerusalém é a igreja (SI 46.4,5); tropologicamente,
Jerusalém é a alma (SI 147.1,2, 12); e anagogicam ente, Jerusalém é nosso lar
celestial (G14.26). Cassiano deixou claro que o sentido quádruplo não se encai­
xava em todas as passagens das Escrituras; devia-se sempre dar atenção prim ei­
ram ente ao sentido literal, conforme enfatizado pela escola de Antioquia. Mas
os sentidos analógico e alegórico mantinham vivas as preocupações centrais da
escola de Alexandria com os aspectos místicos e espirituais do texto, enquanto
o tropológico perm itia que m oralistas judeus e cristãos descobrissem os
ensinamentos morais e éticos do texto.
142 A gostinho, On the U sefulness o f B ible, 3.5-9. A gostinho trabalhou n essa lista para o A ntigo
T estam ento b aseando-se nos term os técnicos gregos de um a análise retórica d a linguagem .
A interpretação da Bíblia na Idade Média
A Idade M édia não foi a época mais brilhante da igreja, nem da herm enêutica
bíblica. Aliás, muitos mem bros do clero, sem falar nos leigos, eram ignoran­
tes até m esm o sobre o que a B íblia dizia. Mas até o ponto em que havia um a
consciência das Escrituras, a interpretação de sentido quádruplo continuou
conform e a proposta dos pais da escola do Ocidente.
O que ganhou im portância, entretanto, foi o princípio de que a interpre­
tação da B íblia precisava adaptar-se às tradições e doutrinas da igreja. Um
dos mais instruídos intérpretes das Escrituras daquela época, Hugo de São
V ítor (10967-1141) declarou: “Aprenda prim eiro em que deve acreditar e então
vá até a B íblia e encontre lá esse preceito!” Porém , m esm o que Hugo tenha
vivido mais de cem anos antes de Aquino, ele parece ter captado um dos
princípios de Tomás de Aquino de que a pista para o significado das profecias
e m etáforas era a intenção do escritor, tendo em vista que o sentido literal
incluía tudo o que o escritor do texto sagrado pretendia dizer.
As figuras-chave desse longo período entre os anos de 600 e 1500 foram
os vitorinos, do m osteiro de São Vítor em Paris. Com o já m encionam os, Hugo
foi provavelm ente o representante m aior daquela escola, mas seu discípulo
A ndré de São V ítor tam bém foi admirável por ter expandido essa ênfase no
sentido literal usando o texto da Vulgata para o significado cristão da B íblia e
o texto em hebraico para a explicação ju d aic a.143
Outra figura importante desse período foi Stephen Langdon (1150-1228),
arcebispo de Canterbury. Foi ele quem dividiu a Bíblia em seus capítulos
atuais. M as ele tam bém interpretou a Bíblia para enquadrá-la nas doutrinas
da igreja. Para ele, a preferência deveria ser dada ao significado espiritual e
não ao sentido literal, tendo em vista que ele considerava o prim eiro mais útil
para a pregação e o crescim ento da igreja.
A mais importante figura de toda essa era, entretanto, foi Tomás de Aquino
(1225-74). Ele defendeu o sentido literal como base para todos os outros senti­
dos das Escrituras. Argumentou, porém, que o intérprete deve perceber que a
Bíblia tem ainda um sentido simbólico, pois as coisas celestes não podem ser
expressas em termos terrenos sem fazer uso de algum a form a de simbolismo.
Além disso, a história de Israel encaminhava-se para a Nova Aliança. Assim, a
antiga doutrina da correspondência, que havia ocupado o centro da interpreta­
ção alegórica das Escrituras, ainda era essencial à exegese da Idade M édia.
M ais uma pessoa se destaca nesse período: Nicolau de Lira (1270-1340).
Sendo um judeu convertido ao Cristianism o, Nicolau possuía dom ínio com ­
pleto do hebraico. O que tornou o seu trabalho diferente foi que, mais do
143 A m elhor d iscussão sobre a exegese da Idade M édia é a obra d e B erryl Sm alley, The S tudy o f lhe
B ib le in the M iddle A g es (N otre D am e, IN: N ote D am e Press, 1964).
qualquer outro desde a época da escola de Antioquia, ele deu preferência ao
sentido literal das Escrituras. Nicolau constantem ente pedia que se consultas­
sem as línguas originais e reclam ava que estava-se perm itindo que o sentido
m ístico “sufocasse o literal” . Ele insistia que som ente o sentido literal deveria
ser usado para provar qualquer doutrina. Foi sua obra que influenciou Lutero
e afetou tão profundam ente a Reform a. Com o diz o aforism o “Si Lyra non
lyrasset, Lutherus non saltasset” (Se Lira não tocasse, Lutero não dançaria).
Interpretação da Bíblia na Reforma
As bases para a Reform a foram preparadas, ainda, por mais dois hom ens do
período da Renascença durante o com eço do século 16: Johannes R euchlin e
Desidério Erasm o. Reuchlin, tio de Felipe M elanchthon, m erece seu título de
pai do estudo hebraico na igreja cristã, pois foi ele quem publicou a gram ática
hebraica, o léxico hebraico, um a obra sobre a acentuação e ortografia hebraica,
além de um a interpretação gram atical dos setes salmos de penitência. Não é
de adm irar que, ao se referirem a Reuchlin, alguns diziam que “Jerônim o
havia renascido” .
Erasm o (1467-1536) publicou a prim eira edição crítica do Novo Testa­
m ento em grego em 1516. Também publicou suas Anotações e suas Paráfra­
ses dos Evangelhos depois de ser incentivado por John Colet (1467-1519) a
aplicar às Escrituras a nova ênfase hum anista do estudo histórico e filológico.
O Novo Testam ento grego de Erasm o tornou-se a ferram enta básica de Lutero
durante os anos form ativos e polêm icos da Reform a.
M artinho Lutero prestou um grande serviço ao povo alem ão quando tra­
duziu a B íblia das línguas originais para o alem ão. As regras herm enêuticas
de Lutero eram m elhores do que sua prática, pois ele insistia no sentido literal
com o sendo a única base adequada para a exegese. Em frases características,
Lutero difam ou o sentido alegórico das Escrituras dizendo que “as alegorias
de Orígenes não valem mais do que pó” , pois “as alegorias são especulações
vazias... a escória das Escrituras Sagradas” . “As alegorias são inconvenientes,
absurdas, obsoletas, trapos soltos.” Ele advertiu que usar tal m étodo de inter­
pretação da Bíblia era o m esm o que “degenerar... em um jogo sem sentido” .
“A alegoria é como um a bela m eretriz que se m ostra particularm ente sedutora
para os hom ens desocupados.” 144 “O Espírito Santo” , declarou Lutero, “é o
escritor m ais sim ples nos céus e na terra; portanto, suas palavras não podem
ter mais do que um sentido simples, ao qual cham am os de sentido literal ou
sentido das Escrituras.” 145
144 M artinho L utero, Lectures on G enesis, em L u th e r's W orks, vols. 1-3, org. por Jaroslav Pelikan
(St. L ouis: C oncordia, 1958-61), com enta sobre G ênesis 3.15-30.
145 C onform e citado por Frederic W. Farrar, H istory o f Interpretation, B am pton L ectures, 1885
(G rand Rapids: Baker, 1961), p. 329.
João Calvino tinha um a opinião igualm ente forte sobre essas questões.
Em seu com entário sobre Gálatas 4.21-26 ele reclam ou que introduzir diver­
sos significados nas Escrituras é “ceder a Satanás” . E na introdução ao seu
com entário sobre Rom anos ele advertiu: “É uma audácia próxim a ao sacrilé­
gio usar as Escrituras como nos apraz e brincar com elas como se fossem uma
bola de tênis, com o muitos já fizeram anteriorm ente... a prim eira tarefa de um
intérprete é deixar que o autor diga aquilo que expressa de fato, em vez de
atribuirm os a ele aquilo que acham os que ele que dizer.”
Apesar das doutrinas de sola fid e e sola gratia (“som ente pela fé” e
“som ente pela graça”) terem constituído o princípio material da R eform a
protestante, o princípio fo rm a l era o de sola Scriptura. A norm a para todas as
doutrinas não seria encontrada na tradição ou na igreja, mas “som ente nas
E scrituras” . Essa foi um a inversão da estratégia de interpretação que com e­
çou com a escola Ocidental dos pais da igreja.
Há m uito que dizer sobre M elanchthon, Zw ingli, Bucer, B eza e outros,
mas é possível que o m elhor resum o dos princípios da interpretação da Refor­
m a esteja nas palavras de W illiam Tyndale, o tradutor do prim eiro Novo Tes­
tam ento im presso em inglês (1525):
V ós deveis co m p reen d er, p o rtan to , que as E scritu ras têm apenas
um sen tid o , que é o sentido literal. E que o sentido literal é a raiz e
a b ase p ara todos, e ân co ra que n u nca falha; se vos apo iard es nela,
n ão ireis cair em erro ou d e sv ia r do cam inho. E se deix ard es o sen ­
tido literal, certam en te d esv iareis do cam inho. A inda assim , as E s­
critu ras usam p ro v érb io s, sim ilitu d es, charadas e alegorias, com o o
fa z e m o u tra s fo rm a s lite r á r ia s ; m as a q u ilo q u e o p ro v é r b io ,
sim ilitu d e, c h a ra d a ou aleg o ria sig n ifica é literal em seu sen tid o , o
q ual deveis b u scar d ilig e n te m e n te .146
A interpretação da Bíblia na era pós-Reforma
Os dois m ovim entos mais significativos para a história da interpretação no
século 17 foram o pietism o e o racionalism o. O pietism o era um protesto
contra o dogm atism o doutrinário e o institucionalism o que exibia um a falta
de fé pessoal e ausência de prática cristã piedosa no estilo de vida do indiví­
duo. A lém de líderes do m ovim ento, com o Philip Jakob Spener e Augustus
H erm ann Francke, as mais valiosas contribuições à interpretação foram feitas
por John A lbert Bengel (1687-1752). Ele foi o prim eiro a classificar os m a­
nuscritos do Antigo Testam ento grego em fam ílias, baseando-se em suas se­
m elhanças. Ele tam bém publicou sua fam osa obra Gnomon do Novo Testa­
146 W illia m T y n d ale, T he O b e d ie n c e o f a C h ristia n M a n (P a rk e r (o rg .) D o c tr in a l T reatises,
1928), pp. 3 0 7 -9 .
mento (1742), exem plar para futuros com entários, pois m anteve-se próxim a
ao sentido natural do texto enquanto incluiu por volta de cem figuras de lin­
guagem e suas respectivas definições no apêndice de seu quinto volume.
Os prim órdios do racionalism o filosófico estão em René D escartes
(1596-1650), Thom as H obbes (1588-1679), B aruch Spinoza (1632-77) e
John L ocke (1632-1704). O racionalism o teológico, entretanto, estava d ire­
tam ente ligado a três fontes principais: C hristian von W olff (1679-1754),
H erm ann Sam uel Reim arus (1694-1768) e G ottholdE phraim L essing (172981). W olff procurou ju n ta r a revelação bíblica ã revelação natural, enquanto
R eim arus fez da revelação natural a origem do C ristianism o. Lessing c o n ­
tribuiu para essas questões argum entando que as incertas verdades da H is­
tória jam ais poderiam ser um a prova para as verdades necessárias da razão.
A ssim , podem os dar crédito a esses hom ens por m uito daquilo que m ais
tarde se transform ou em C ristianism o liberal, incluindo a form a destrutiva
de crítica à B íblia nos séculos 19 e 20.
O século 18 experimentou uma continuação de pietismo e racionalismo. O
pietismo, entretanto, recebeu a princípio mais visibilidade por meio das prega­
ções de John Wesley (1703-91). Os reavivamentos wesleianos, em especial, con­
vidavam homens e mulheres ao estudo da Bíblia em grupos e individualmente.
Ainda assim , apesar de todas essas contribuições no estudo e interpreta­
ção da Bíblia de acordo com o seu sentido único, natural ou literal, um a cor­
rente paralela voltou a surgir nos escritos de Im m anuel Kant (1724-1804) e
Friedrich Schleierm acher (1768-1834). Kant queria alcançar a esfera de tudo
o que é universal, de Deus e da im ortalidade a partir de um a esfera inferior a fenom enal (a esfera de nossa vida cotidiana). No final, depois de ter escrito
três livros, ele decidiu que isso era impossível, exceto por uma “im perativo
categórico” , um “vós deveis” que perm anecia dentro de todos os mortais.
Schleierm acher, por outro lado, enfatizou o Gefühl (sentim ento hum a­
no) com o base para a consciência que o ser hum ano tem de Deus. A religião
não deveria mais originar-se de um livro, da razão ou de qualquer coisa exter­
na; sua fonte prim ária podia ser encontrada em nossos sentim entos de depen­
dência de outro alguém. Dentro desse novo conjunto de definições e diante da
negação da B íblia como fonte com petente, o pecado era sim plesm ente uma
interrupção desse sentimento de dependência em Deus, e não um a rebelião
contra o Deus que havia se revelado nas Escrituras ou em Jesus Cristo.
Albrecht Ritschl (1822-89) concordava com a posição de Schleierm acher
em rejeitar a religião pessoal baseada em acontecim entos históricos ou em
um livro com o a Bíblia. Ele argum entava que, em vez disso, o Cristianism o
baseava-se num julgam ento de valores. A ênfase principal da religião deveria,
portanto, ser o valor ético e moral do Cristianism o.
O clím ax de grande parte dessa linha de pensam ento veio com A dolf
von H arnack (1851-1930). Ele pediu uma volta à religião, mas não um a reli­
gião sobre Jesus. Assim, ele elim inou dos Evangelhos tudo o que, em sua
opinião, representava acréscim os helenísticos que haviam sido subseqüente­
m ente agregados a eles.
D entro desses debates, não sobrou muito tem po para as perguntas sobre
com o interpretar a Bíblia, pois, à m edida que o liberalism o e o m odernism o
cresciam , a interpretação tornou-se menos im portante para observadores e
praticantes. Até a m etade do século 20, as energias dos estudiosos foram
dedicadas a questões racionalistas, históricas e críticas sobre a Bíblia e a fé.
Desse ponto em diante, a questão subitam ente torna-se extrem am ente
com plexa à m edida que várias prioridades conflitantes surgem em m eio aos
estudiosos e leitores da Bíblia. Chegam os, assim, às teorias contem porâneas
de interpretação, assunto a ser tratado no próxim o capítulo.
O campo da interpretação bíblica passou por m udanças drás­
ticas durante o século 20, em grande parte por causa do trabalho
de estudiosos com o Karl Barth e R udolf Bultm ann, mas tam bém
por causa do desenvolvim ento de outras áreas, com o a crítica
literária, a filosofia e até m esm o a ciência. Em grande parte, es­
sas m udanças sinalizaram um a reação ao m étodo histórico-críti­
co que nasceu no século 19. Esse m étodo concentra-se no signi­
ficado histórico da B íblia de m aneira tão intensa que, com fre­
qüência, parece excluir sua relevância atual.
A ascensão da Nova Crítica (nos estudos literários norteam ericanos) cham ou a atenção para o fato de que os textos literá­
rios têm significado por si m esm os, independentem ente da inten­
ção original do autor. Especialm ente quando aplicada à Bíblia,
essa visão m inim iza a historicidade das narrativas. Além disso,
um a ênfase crescente no papel do leitor vem introduzindo um
forte elem ento de subjetividade ao trabalho de interpretação.
A pesar de, possivelm ente, ser verdade que não devemos identifi­
car o significado de um texto de m aneira total e exclusiva com
aquilo que o autor pretendia conscientem ente comunicar, é um
erro grave deixar de lado o conceito da intenção do autor ou m es­
mo relegá-lo a um segundo plano.
CAPÍTULO 13_________
Visões contemporâneas da
interpretação bíblica
M o is é s S ilva
Principais desenvolvimentos do século 20
N ão é exagero dizer que o interesse contem porâneo por herm enêutica sinali­
za um a nova época no estudo científico da B íblia.147 Os observadores nor­
m alm ente vêem o início dessa época no trabalho de Karl Barth (1886-1968),
um dos teólogos mais influentes dos tem pos modernos. Barth foi educado na
tradição liberal clássica de estudiosos altam ente respeitados. A inda assim , ao
deixar o m eio acadêm ico e dedicar-se ao pastorado, descobriu que seu treina­
m ento tinha pouco valor para a vida eclesiástica.
Então, em 1914 veio a tragédia da Prim eira Guerra M undial, que afetou
de m odo bastante direto o desenvolvimento da teologia na Europa. O libera­
lism o, crendo que a proclam ação do “evangelho social” traria ao m undo o
reino divino de paz, havia se apoiado fortem ente numa visão otim ista da na­
tureza hum ana. Suas esperanças foram esm agadas pela guerra. Barth, é claro,
foi afetado pessoalm ente por esses acontecim entos. Ele viu os professores
que tanto reverenciava adotarem posições políticas que, para ele, contradiziam
os m esm os princípios que eles haviam ensinado. A única porta que perm ane­
cia aberta para ele era rom per com o seu passado teológico; e assim ele o fez,
de m aneira pouco usual.
147 E sse capítulo é um a versão revisada e abreviada do artigo de M oisés S ilva “C ontem porary
T heories o f B iblical Interpretation” , em The N ew In terp reter’s B ible, vol.l (N ashville: A bingdon,
a ser lançado). U sado com perm issão.
Logo depois da guerra, Barth publicou um com entário sobre a epístola
de Paulo aos Rom anos que causou ondas de choque entre os estudiosos. Como
disse alguém , foi com o se um a bom ba tivesse caído sobre o jardim onde os
teólogos estavam brincando. Ainda hoje, seu livro parece um tanto estranho.
Ele tem pouca sem elhança com um com entário exegético típico. Em lugar de
concentrar-se no significado histórico do texto, por causa de sua preocupação
com a relevância do textò para o leitor da atualidade, Barth parecia ignorar
esse significado. Com o era de se prever, o com entário não trouxe nada de
novo para os estudos de Rom anos. Sua visão ousada, entretanto, pôs em m o­
vim ento um a transform ação dram ática na m aneira dos teólogos encararem a
interpretação bíblica.
Entra em cena R udolf Bultm ann (1884-1976), cujo relacionam ento com
Barth no início era relativam ente amigável. Basicam ente um estudioso do
Novo Testam ento com interesse especial na escola da história da religião,
B ultm ann com partilhava com Barth uma profunda preocupação com a rele­
vância do Cristianismo. Por vários motivos, entretanto, eles logo seguiram cami­
nhos diferentes. Um fator importante foi Bultmann ter adotado o existencialismo,
particularmente aquele apresentado pelo filósofo Martin Heidegger.
Entre os artigos de Bultm ann, poucos são mais interessantes do que um
com o título “É Possível um a Exegese Sem Pressuposições?” 148 A resposta à
sua pergunta foi “não” . Bultm ann não estava sugerindo que os leitores da
B íblia devem decidir de antem ão o significado específico de um texto: ele
sem pre acreditou que a objetividade (devidam ente com preendida) é o alvo da
exegese. Seu argumento, entretanto, era de que todos nós levamos para dentro
do texto a nossa visão de m undo e que a supressão dessa visão de m undo está
fora de questão. Bultm ann continuou seu argum ento de form a ousada:
O m étodo histórico inclui a pressuposição de que a H istória é uma
unidade no sentido que form a um contínuo fechado em seus efeitos e
dentro do qual acontecim entos individuais estão ligados pela sucessão
de causa e efeito... esse encerram ento significa que o contínuo dos acon­
tecim entos históricos não pode ser interrom pido pela inferência dos
poderes sobrenaturais e transcendentes e que, portanto, não existem
“m ilagres” nesse sentido da palavra.
B ultm ann tinha razão ao argum entar que era im possível interpretar a B íblia
(ou qualquer outro texto) sem pressuposições.149 O tipo de neutralidade que
148 R u d o lf B ultm ann, “Is E xegesis w ithout P resuppositions P ossible?” em E xistence a n d Faith:
ShorterW ritin g s o f R u d o lf B ultm ann, org. por Schubert M. O gden (N ova York: W orld Publishing,
1960), pp. 289-96. As citações seguintes são das pp. 291-92.
149 E ssa ênfase não era exclusividade de B ultm ann. Já foram levantados m uitos questionam entos
sobre a objetividade e im parcialidade d a tarefa científica em diversas áreas. N a teologia, o b ser­
var especialm ente o trabalho de C ornelius Van Til; construindo sobre a filosofia de A braham
os estudiosos mais antigos haviam buscado não existe. Se os pressupostos do
próprio B ultm ann estavam alinhados com as pressuposições dos escritores
bíblicos ou não, é um a outra questão. Pode-se argum entar que um com pro­
m isso cristão autêntico deve ser com patível com a fé daqueles por m eio dos
quais nos veio a revelação. E levantada, assim, a questão inevitável: Que sen­
tido faz-nos apegarm os à nossa identidade cristã se nossos pressupostos mais
básicos (a questão da chamada inferência de Deus neste mundo) são conflitantes
com aqueles das Escrituras cristãs?
Observe, entretanto, que os objetivos teológicos de Bultmann, assim como
os de Barth foram grandem ente afetados por uma preocupação com a rele­
vância. Ele argum entava que se nós m odernos não somos capazes de acredi­
tar em m ilagres, então devem os reapresentar a m ensagem cristã prim itiva em
term os que nos sejam com preensíveis. Esse princípio levou B ultm ann a de­
senvolver um m étodo herm enêutico cham ado de desm itologização (ou talvez
a descrição m ais precisa seja remitologizaçãó). Ele acreditava que os cristãos
prim itivos usavam categorias m íticas para dar expressão à sua fé oriental.
Deve-se repensar os mitos da m aneira como foram elaborados por seus cria­
dores. A visão de Bultm ann, aliás, não envolvia exatam ente a rejeição dos
m itos m as a sua tradução em form a de mitos modernos. Com isso, B ultm ann
estava antes de mais nada referindo-se às categorias da filosofia existencialista.
Alguns dos discípulos de Bultmann, mesmo que insatisfeitos com vários
elem entos das idéias de seu mestre, buscaram construir novas idéias durante
as décadas de 50 e 60. Um exem plo foi o m ovim ento que ficou conhecido
com o “a nova busca pelo Jesus histórico” e que procurou levar a fé cristã
recente para mais perto do Jesus histórico muito mais do que B ultm ann havia
permitido. Para os nossos propósitos, o desenvolvimento da Nova Hermenêutica
foi ainda mais signficativo. Esse m ovim ento tinha pouca ligação com as pre­
ocupações tradicionais da herm enêutica,150 exceto pelo fato de concentrar-se,
num sentido geral, no conceito de entendim ento. Aliás, os estudiosos repre­
sentantes da Nova H erm enêutica dificilm ente discutiam os m étodos pelos
quais era determ inado o significado histórico do texto bíblico. Estavam mais
interessados em desenvolver uma teologia que se assentava sobre certas vi­
sões continentais a respeito da linguagem e do pensam ento, especialm ente
K uyper, ele desenvolveu um sistem a apologético, no qaal o papel das pressuposições era fu n d a ­
m ental. Ver o seu livro The D efense o f the Faith, 3a ed. (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and
R eform ed, 1967; reim presso 1985).
1M) O próprio term o h erm enêutica reflete um a m udança de perspectiva e “ pode tornar-se contíguo
com a teo lo g ia cristã com o sendo a declaração do significado das E scrituras para os nossos d ias”
(Jam es R. R obinson, “H erm eneutic since B arth” em The N ew H enneneutic, vol.2 de N ew Frontiers
in Theology, org. por J.M . R obinson e John B. C obb, Jr. [N ova York: H arper and Row, 1964),
pp. 1-77, especialm ente p. 6). O term o herm enêutica vem sendo usado de m odo bem m ais
restrito para referir-se à d isciplina que trata dos princípios e m étodos d a interpretação.
dos ensinam entos do filósofo existencialista M artin Heidegger (1889-1976).
Por causa das im plicações amplas dessas idéias, entretanto, o m ovim ento teve
um im pacto significativo sobre as discussões subseqüentes acerca da inter­
pretação bíblica.
Enquanto esses acontecim entos desenvolviam -se entre os estudiosos bí­
blicos e teológicos, um conjunto paralelo de idéias com eçava a ganhar ex­
pressão no cam po da c rítita literária. Já em 1930, um im portante grupo de
estudiosos literários argum entava que a visão tradicional da crítica não era
satisfatória - especialm ente, que a preocupação habitual com o autor norm al­
m ente era mal direcionada. A intenção de um poeta ao escrever um poem a,
por exem plo, pode ser de interesse histórico, mas tem pouca relevância para a
nossa com preensão desse poema. Conhecida como Nova Crítica, essa visão
tratava o texto com o um artefato independente de seu autor e, portanto, abria
m ais um a vez a questão fundam ental do significado textual.151
A relação entre os discípulos da crítica literária, da filosofia e da teolo­
gia afetou profundam ente o debate ao longo das últimas décadas. Talvez a
figura mais proem inente tenha sido o filósofo alem ão H ans-Georg Gadamer,
cujo nom e norm alm ente (porém nem sempre com justiça) é associado à visão
relativista da interpretação. Gadam er chegou, de fato, a dar a im pressão de
que a verdade dentro da interpretação é um a questão de gosto pessoal.152
E im portante ter em mente, porém , o contexto dessa discussão. A m aior
preocupação de Gadam er era refutar a afirmação de que apenas o m étodo
científico é capaz de chegar à verdade. Na raiz desse m étodo está a dúvida especialm ente a dúvida sobre qualquer coisa que não possa ser repetida e
verificada. Conseqüentem ente, a tradição é um a form a de “preconceito” e
deve ser elim inada. Mas as ciências humanas, especialm ente a História, não
estão sujeitas à repetição e verificação, podendo-se inferir, portanto, que as
ciências hum anas não podem chegar à verdade.
Em oposição a esse ponto de vista - que era quase lugar-com um há
algum as décadas e ainda hoje continua a dom inar certos campos - Gadam er
argum entou que o “preconceito” não pode ser elim inado. Aliás, o preconceito
é essencial para a consciência e a com preensão. Sua intenção era reabilitar a
tradição (em particular os clássicos) que oferece as pressuposições que p o ­
dem ser testadas à m edida que são aplicadas ao texto. No desenvolvim ento
IM Ver a discussão um tanto diferente sobre a N ova C rítica, intenção do autor e a obra de H ansG eorg G adam er, Paul R icoeur e E. D. H irsch no capítulo 2 “O Sentido do S ignificado” .
132 D e acordo com Joel C. W einsheim er em G a d a m e r’s H erm eneutics: A R ea d in g o f Truth and
M ethod (N ew H aven: Yale U niversity Press, 1985): “ Se u m a interpretação é verdadeira ou não é
u m a q uestão de gosto. Se isso parece d enegrir a verdade, é só porque denegrim os o gosto com o
função congnitiva capaz de chegar à verdade. É som ente porque pensam os que a verdade é
exclusivam ente algo que precisa ser provado” (p. 111).
dessa concepção, entretanto, G adam er tam bém colocou ênfase excessiva na
visão de que o passado não é fixo, que acontecim entos e textos anteriores
m udam à m edida que vão sendo continuam ente com preendidos. Se assim
for, não é possível identificar o significado do texto sim plesm ente pela in­
tenção do autor.
Ironicam ente, logo depois da publicação da obra de Gadamer, a própria
ciência m oderna passou por algumas transform ações radicais, em grande par­
te com o resultado do trabalho de Thom as K uhn.153 Apesar de muitos cientis­
tas continuarem talvez a fazer o seu trabalho como se nada tivesse aconteci­
do, é de conhecim ento geral que as ciências exatas não são fundam entalm en­
te tão diferentes das ciências hum anas. Am bas estão profundam ente envolvi­
das na herm enêutica, de modo que nenhum cam po de estudo tem com o esca­
par de um certo grau de relatividade. De qualquer m aneira, o pensam ento de
G adam er teve um impacto profundo não apenas na discussão filosófica, como
tam bém no estudo da literatura e, portanto, no estudo bíblico e teológico.
O trabalho de Paul Ricoeur é especialm ente conhecido nesse sentido.
Entre suas inúm eras idéias sugestivas, devemos notar sua ênfase na distinção
das relações entre falar-ouvir e escrever-ler. No discurso oral, o significado
do discurso sobrepõe-se à intenção do orador. “D entro do discurso escrito,
porém , a intenção do autor e o significado do texto deixam de coincidir... o
rum o do texto escapa do horizonte finito vivido por seu autor. O que o texto
significa agora é mais im portante que a intenção do autor quando ele o escre­
veu.” '54 Conquanto o próprio R icoeur não fosse um estudioso da Bíblia, esta­
va profundam ente interessado no pensam ento religioso e, portanto, muitos
teólogos e estudantes da Bíblia têm sido influenciados por seu trabalho.
J. S. Croatto é um exem plo especialm ente interessante, tendo em vista
que seus escritos, surgidos no contexto da teologia da libertação da A m érica
Latina, tornaram -se bastante populares em países de língua inglesa.155 D e acor­
do com Croatto, a Bíblia não deve ser vista como um depósito fixo que já deu
153 T hom as S. K uhn. The Structure o fS c ie n tific R evolutions, 2a ed., International E ncyclopedia of
U nified S cience 2 /2 (C hicago: U niversity o f C hicago Press, 1967). P ara m ais sobre a relevância
do trabalho de herm enêutica de K uhn, Vern S. Poythress, Science a n d H enneneutics: ImpU cations
o f S cientific M eth o d f o r B ib lica l Interpretation, F oundations o f C ontem porary Interpretation 6
(G rand Rapids: Z ondervan, 1988), caps. 3-4.
154 Paul Ricoeur, Interpretation Theory: D iscourse a n d the Surplus o f M eaning (Fort W orth: Texas
C hristian U niversity, 1976), pp. 29-30; ver tam bém E ssays on B iblical Interpretation, intro d u ­
ção por L ew is S. M udge (Filadélfia: Fortress Press, 1980). D entre as várias análises im portantes
de R icoeur, ver especialm ente K evin J. V anhoozer, B iblical N arrative in the P hilo so p h y o fP a u l
R icouer: A S tudy in H e n n en e u tic s a n d Theology (C am bridge U niversity Press, 1990).
151 J. Severino. C roatto, H erm enêutica bíblica. Para una teoria de Ia lectura com o prod u cció n de
sentido (B uenos Aires: L a A urora, 1984), especialm ente pp. 7, 23-24, 73. T radução para o
inglês por R. R. Barr, B iblical H enneneutics: Toward a Theory o fR e a d in g as the P roduction oj
M ea n in g (M aryknoll, N.Y.: O rbis, 1987), pp. ix, 17, 66.
toda a sua contribuição - não é urna questão da Bíblia “ter dito” tudo o que
tinha a dizer, mas sim de que ela “continua dizendo” . Ao passar suas m ensa­
gens para a form a escrita, os autores bíblicos, em si, desapareceram , mas sua
ausência significa riqueza sem ântica. O “encerram ento” do significado do
autor resulta na “abertura” de um novo significado. Croatto chega a nos dizer
que a responsabilidade do leitor não é a exegese - tom ar o sentido puro como
alguém que tira um objeto d€ um baú de tesouros - mas sim a eisegese, ou
seja, devemos “entrar” no texto com novas questões a fim de que sejam pro­
duzidos novos significados.
Nunca é demais enfatizar o caráter radical desses desenvolvimentos. Para
o praticante do método histórico é absolutamente chocante ouvir que a eisegese
é um m odo perm itido - quanto m ais preferido! - de se aproxim ar do texto.
D urante dezenove séculos o estudo da Bíblia m oveu-se justam ente no sentido
contrário a esse tipo de visão (especialm ente na form a da interpretação alegó­
rica), de m odo que, com a m aturidade do m étodo histórico uma grande vitó­
ria foi conquistada pela exegese responsável. M as agora, nos dizem que a
interpretação histórica é obsoleta. Em bora ninguém esteja argum entando que
devem os voltar à alegorização incontrolável de alguns intérpretes antigos e
m edievais, à prim eira vista, a busca por significados diferentes daqueles que
foram pretendidos pelo autor original parece que estam os abrindo m ão de
séculos de progresso herm enêutico.
A situação se com plica ainda mais. Durante várias décadas testem unha­
m os o surgim ento de um a variedade de visões mais especializadas e até m es­
m o esotéricas com o o estruturalism o, o pós-estruturalism o, a desconstrução e
assim por diante (ver abaixo a seção “O Papel do Leitor”). Nos extrem os mais
radicais, algum as escolas questionam as próprias fundações do pensam ento
ocidental e assim, sugerem a im possibilidade de se interpretar textos.
E certo que ainda há alguns defensores em inentes da “intenção do au­
tor” no cenário contem porâneo, sendo E. D. Hirsch um dos mais conhecidos.
Argum entando em favor de um a distinção entre significado (invariável e que
era intenção do autor) e significação (a aplicação alterável de um escrito a
diferentes contextos), Hirsch acreditava ser capaz de preservar o papel crucial
do autor original contra os ataques de pensadores como G adam er.156 Além
156 E. D. H irsch, Jr., Validity in Interpretation (New Haven: Yale U niversity Press, 1967). E ssa o bra
tem sido bem aceita por m uitos escritores evangélicos, incluindo W. C. Kaiser, Jr., The Uses oj
the O ld Testam ent in the N ew (C hicago: M oody, 1985) e alguns outros estudiosos bíblicos
p reocupados com a objetividade do significado histórico, m as H irsch não é bem aceito pela
m aioria dos pensadores filosóficos e literários. Para u m a breve crítica ver A nthony C. T hiselton,
N ew H o rizons in H en n en eu tics: The T heory a n d P ractice o f Transform ing B ib lica l R eading
(G rand Rapids: Z ondervan, 1992), p. 13. B en M eyer, C riticai R ealism a n d the N ew Testam ent,
(P rinceton T heological M onograph Series 17 (A llison Park, Pa.: Pickw ick, 1989), capítulo 2,
defende o sentido intencionado do texto, reconhecendo, ao m esm o tem po, os pontos fracos da
argum entação de H irsch.
disso, a grande m aioria dos livros e artigos que tratam do texto bíblico conti­
nua a dar prioridade para o seu significado histórico. Um fato que causa per­
plexidade é que, de tem pos em tem pos, em reuniões de profissionais da
área, pode-se ouvir um estudioso que parece teoricam ente ter adotado a nova
visão, porém cuja verdadeira interpretação não se m ostra diferente da exegese
histórica comum . Em outras palavras, o abandono das interpretações autorais
e históricas seria difícil de docum entar em relação aos artigos usuais publica­
dos nos jornais de estudo bíblico reconhecidos.
De qualquer form a, seria um erro inferir que os debates contem porâneos
da herm enêutica são um mero exercício. Os questionam entos das visões tra­
d icio n a is são sérios e p recisam ser c o n sid erad o s com cuidado. E sses
questionam entos têm, particularm ente, um a influência direta sobre a relevân­
cia da Bíblia para a com unidade da fé. Afinal de contas, seja lá o que os
estudiosos estejam fazendo em suas publicações especializadas, deve-se per­
guntar qual é a responsabilidade dos pregadores ao se dirigirem às suas con­
gregações e tam bém de que form a o crente com o indivíduo deve encarar a
leitura e o estudo das Escrituras.
O método histórico-crítico
Antes de olharm os mais detalhadam ente para os vários aspectos do atual de­
bate, devemos deixar claro aquilo a que os pensadores contem porâneos estão
reagindo contra. Infelizmente, a term inologia nem sempre é tão precisa quanto
gostaríam os. A té aqui, usei de paráfrases com o “interpretação histórica” e
“crítica bíblica” para representar o trabalho da m aioria dos estudiosos da B í­
blia. Se com preendida num sentido geral, essa visão caracteriza de m aneira
justa a m aioria dos estudiosos, m esm o que seus pontos de vista sobre o cará­
ter da B íblia possam ser diferentes uns dos outros.
Nesse nível geral, talvez o m elhor descritor seja a exegese gramáticohistórica (ver discussão no capítulo 1). Esse term o antigo concentra a atenção
na análise detalhada do texto em conform idade com a linguagem original e a
situação histórica original. Essa visão foi desenvolvida com a clara intenção
de opor-se à interpretação alegórica e à nossa tendência natural de interpretar
o texto baseados em nossa língua m aternáe à luz de nossos próprios costum es
e experiências. Um corolário im portante dessa visão afirmava, por exem plo,
que antes aplicar Rom anos 8 às nossas necessidades, deveríamos pôr de lado
os nossos preconceitos e perguntar o que o autor original queria dizer. De
acordo com esse ponto de vista, em outras palavras, apenas quando tivésse­
mos descoberto o que Paulo desejava com unicar aos cristãos de Rom a pode­
ríam os fazer uso do direito de aplicar essa passagem à nossa situação.
É possível, entretanto, dizer que essa visão é sem elhante ao m étodo “his­
tórico-crítico” ? M uitos daqueles que estudam a Bíblia, incluindo estudiosos
im portantes, rejeitam esse m étodo com base no fato de que ele é incom patível
com o caráter divino das Escrituras. É aqui que com eça a confusão, pois o
rótulo de “histórico-crítico” não é usado por todos exatam ente com o m esm o
sentido. Estudiosos que rejeitam o m étodo - norm alm ente cham ados de con­
servadores ou evangélicos - certam ente não têm objeções à leitura histórica
da Bíblia. M uito pelo contrário, eles têm sido os defensores m ais articulados
do sentido autoral e histórico, opondo-se às tendências atuais. Além disso, há
muitos aspectos do estudo “crítico” dos quais eles têm participado sem receio.157
Infelizm ente, há um a profunda am bigüidade no term o crítica. M esm o
deixando de lado as conotações negativas que a palavra tem no uso com um ,
pode-se distinguir diversos significados. Nos cam pos das artes e literatura ele
refere-se à capacidade de avaliar a qualidade artística de determ inada obra (a
aplicação dessa capacidade à B íblia foi um tanto duvidosa no passado, mas
vem ganhando força na atualidade). Quando usado para referir-se ao estudo
da Bíblia, a principal idéia é a investigação de modo científico das origens
históricas, texto, com posição e transm issão literária dos docum entos. Para
qualquer um que adm ita que a Bíblia tem tanto características hum anas quan­
to divinas, não pode haver objeção a tal estudo.
O problem a surge, entretanto, por causa dos laços m uito próxim os entre
o m étodo crítico e os princípios do Ilum inism o. A prioridade que foi dada à
razão hum ana durante aquele período teve im pacto direto sobre a questão
da autoridade religiosa. Essa prioridade ditava que a B íblia deve ser tratada
“com o qualquer outro livro” , um a frase que não precisa ser considerada
ofensiva pelo evangélico desde que tam bém haja o reconhecim ento de que
a B íblia é singularm ente divina em sua origem e, portanto, deve ser tratada
de m odo diferente de qualquer outro livro. No que diz respeito à Idade da
R azão, entretanto, tal qualificação era inaceitável, pois é óbvio que seria
destrutiva para o princípio da autonom ia hum ana. Da m esm a form a, a “crí­
tica bíblica” veio a significar não apenas a investigação científica dos docu­
m entos bíblicos, mas um m étodo que pressupõe desde o com eço o direito
de o crítico ju lg a r as verdades afirm adas na Bíblia. A ssim , interpretar a
B íblia historicam ente, por exem plo, significava quase que por definição
adm itir que ela contém contradições.158 Em resum o, concordar com a visão
137 E ntre os estudiosos conservadores dos últim os dois séculos estão especialistas do N ovo T esta­
m ento com o J. B. L ightfoot, T heodore Z ahn, B ernhard W eiss, J. G resham M achen, H erm an
R id d erb o se F. F. Bruce. N o cam po do A ntigo T estam ento, observe nom es com o E. H engstenberg,
Franz D elitzsch, R obert D ick W ilson, E dw ard J. Young e o estudioso ju d e u U m berto C assuto.
bit W. G. K üm m el, The N ew Testam ent: The H istory o fth e Investigation o f Its P roblem s (N ashville:
A bingdon, 1972), p p .29-31 e em outras partes d a obra.
de que a B íblia não era totalm ente confiável tornou-se um dos princípios
orientadores do “m étodo histórico-crítico” .
Q ualquer um que tivesse um com prom isso teológico com a visão tra­
dicional da inspiração certam ente não poderia exercer a “crítica” nesse sen­
tido. D esenvolvim entos subseqüentes, porém , criaram ainda m ais com pli­
cações. As form ulações da cham ada crítica superior159 sobre as origens his­
tóricas do docum ento bíblico apresentaram a crescente tendência a dene­
grir os valores religiosos da Bíblia. No com eço do século 20, as visões
“conservadoras” e “liberais” haviam se tornado quase totalm ente po lariza­
das, apesar de a visão conservadora continuar a usar extensivam ente os es­
tudos críticos no que diz respeito à form a com o podiam ser integrados à
estrutura da ortodoxia teológica.
É bastante óbvio o significado desses desenvolvim entos para este capí­
tulo, m as há dois pontos que precisam ser enfatizados. Em prim eiro lugar, a
antítese fundam ental entre as escolas conservadoras e críticas não deve obscurecer seu objetivo com um de descobrir o significado do texto. C om prom e­
tidas com a prioridade do intento autoral, ambos os lados pressupunham a
necessidade de um a visão objetiva, científica e sem preconcepções, que deve­
ria ser diferenciada do trabalho de aplicação.
Em segundo lugar, ironicamente, essa história tam bém nos faz lembrar
que compromissos teológicos dificilmente podem ser separados de decisões
sobre os princípios hermenêuticos. Diante das afirmações da Bíblia e das ex­
pectativas religiosas que ela coloca sobre seus leitores, a neutralidade teológica
é um a ilusão. Não estamos com isso negando que pessoas de escolas teológicas
m uito diferentes possam chegar às mesmas conclusões sobre diversos pontos
em nível de detalhes e até mesmo em relação a questões mais importantes. Mas
é ilusão pensar que podemos nos aproxim ar dos textos das Escrituras sem ne­
nhum preconceito em nossa mente. A ênfase atual da “pré-com preensão” , por­
tanto, é um desenvolvimento salutar que não deve ser ignorado.
A autonomia do texto
M esm o com pouca reflexão, podem os com preender que não é um a tarefa
sim ples determ inar o significado de um texto. Para que ocorra a interpretação
deve haver um autor, um texto e um intérprete (leitor ou ouvinte) e é ju sta ­
m ente essa relação de três partes que pode gerar confusões. M esm o quando
deparam os com afirm ações cujo significado parece óbvio, a verdade é que
um a grande quantidade de conhecim ento e experiências prévias já preparou
nossa m ente para tratar dessa inform ação nova. Não há garantias, entretanto,
de que nossa mente está, de fato, preparada para processar a mensagem.
159 E sse título servia para d istin g u ir as visoes m ais controvertidas das investigações que se con cen ­
travam n a linguagem e n a transm issão textual, que são referidas com o crítica inferior.
No processo de determ inar o significado de uma determ inada palavra ou
frase nas cartas de Paulo, por exemplo, os intérpretes freqüentem ente se per­
guntam: “Teriam os leitores originais captado tais e tais significados?” Não é
incom um determ inada interpretação ser rejeitada justam ente porque não po­
deria se esperar que aqueles leitores chegassem a tal conclusão. Porém , prati­
cam ente todos os estudiosos adm item que algum as das nuanças mais sutis e
ricas do apóstolo estavam além do alcance do público original.
N a introdução ao seu fam oso dicionário do grego do Novo Testam ento,
W alter B auer levantou
a possibilidade de que aquilo... que Paulo dizia, condicionado por seu
passado judaico, não era sem pre com preendido da m esm a form a pelos
ouvintes cristãos gentios, que tam bém não podiam se desligar de suas
form as de pensam ento anteriores...
Tendo isso em mente, podem os concluir que algum as vezes há
dois significados para a m esm a passagem , um do ponto de vista do
escritor e outro que se torna evidente quando o indivíduo se coloca
intelectual e espiritualm ente no lugar do recipiente; o lexicógrafo natu­
ralm ente sente a obrigação de tirar as conclusões apropriadas. A form a
com o um a passagem é com preendida por seus prim eiros leitores pode
ter efeito im ediato sobre sua interpretação posterior.160
Enquanto essa citação levanta diversas questões interessantes, neste m om en­
to precisam os apenas observar o reconhecim ento de que tal apelo aos leitores
originais nem sempre funciona - que, por si só, tal apelo não é um a solução
satisfatória para o problem a de interpretação. Em outras palavras, precisam os
lidar com a possibilidade de um “distúrbio” entre dois pontos do triângulo
interpretativo: o autor e o leitor.
No m om ento em que admitimos esse problem a, porém , tam bém estam os
adm itindo que escrever um texto (e, num certo sentido, fazer um discurso)
envolve um risco. O texto passa a ter vida própria. É um assunto a ser enten­
dido de m aneiras diferentes daquelas que eram a intenção do autor. Essa com ­
plicação cresce à m edida que o texto se distancia (geograficam ente, cronolo­
gicam ente ou culturalm ente) de seu autor, especialm ente à m edida que se
perde a possibilidade de pedir uma explicação do autor.
Os estudiosos da Bíblia interessados no significado histórico original do
autor não têm ficado alheios a esse problema, apesar de nos perguntarmos se eles
perceberam completamente quais são, de fato, suas implicações. Para eles, entre­
tanto, o problema era simplesmente um desafio a ser superado. Algumas vezes,
uma solução definitiva pode estar além do alcance do intérprete, mas fazem-se
todos os esforços possíveis para descobrir o que o autor pretendia dizer.
160 BAG D, p. xxiv.
Com a ascensão da Nova Crítica, entretanto, os estudantes am ericanos
de literatura com eçaram a ver esse fenôm eno não como um problem a a ser
resolvido, mas como um a oportunidade para a criatividade interpretativa.
Em vez de perguntar “O texto significa isto ou aquilo?” com a m esm a
entonação que perguntam os “Café ou chá?”, deixando im plícito que só
se pode escolher um a resposta, os críticos com eçaram a perguntar “É
possível que o texto signifique isto ou aquilo?” com um a entonação de
“C igarros ou bebidas?” e que vê o texto com o um a arca de m istérios
que não aparecem na superfície. (H á um a certa discussão sobre se o
autor sabe o que ele colocou na arca). Para dar um exem plo, podem os
entender nas palavras de M arvell:
E nquanto a m ente, com m enos prazer,
R ecolhe-se em sua própria felicid ade
que a m ente tem m enos p razer p o r cau sa da felicid ad e ou que é por
c au sa da felicid ad e que a m ente se reco lh e? A resp o sta p assa a ser
“As duas coisas - e que outros sentid o s podem os en c o n trar nessas
p a la v ra s? ” 161
Livres das lim itações da intenção do autor, os críticos podiam então procla­
m ar a autonom ia do texto. Essa perspectiva tornou-se predom inante na crítica
literária norte-am ericana durante os anos 40 e 50 apesar de ter dem orado a
causar im pacto nos estudos bíblicos. Quando finalm ente isso aconteceu, ou­
tras correntes de pensam ento, tais como o “estruturalism o” francês, tam bém
estavam entrando em cena.
U m dos elem entos mais controvertidos dessa ênfase m oderna sobre a
autonom ia do texto é a tendência de relegar a um segundo plano a referência
a outras obras da literatura, especialm ente às obras históricas. Em outras pa­
lavras, um a ênfase na autonom ia do texto significa que o texto é separado não
apenas do seu autor, mas tam bém da realidade extralingüística à qual ele pa­
rece fazer referência.
Os estudiosos bíblicos do passado (tanto os “liberais” quanto os “con­
servadores”) com freqüência são criticados por darem atenção dem ais à ques­
tão da historicidade. Se os estudiosos conservadores se perguntam o que pode
ter m otivado o personagem bíblico a agir de uma determ inada m aneira, são
criticados por estarem concentrando-se num acontecim ento histórico e não
nas habilidades literárias do autor bíblico. Se os estudiosos liberais realizam
um a leitura um pouco mais conservadora de uma porção histórica, também
são criticados por não com preenderem o que se passa. Em resum o, o próprio
161 G. W. T urner, Stylistics (B altim ore: P enguin, 1973, pp. 100,101. E im portante observar que a
ênfase focaliza-se prim ariam ente sobre a poesia, um m eio que u sa freqüentem ente a am bigüida­
de intencional e, assim , suscita a ênfase im aginativa.
ato de se fazer perguntas históricàs é considerado basicam ente irrelevante.
U m proponente desse ponto de vista sugere que “a nova crítica literária pode
ser designada como inerentemente anti-histórica” . Ele comenta ainda que “con­
siderar a B íblia como literatura é o princípio e o fim da tarefa do estudioso. A
Bíblia é vista, antes de mais nada, com o um projeto literário” .162
Com o norm alm ente é o caso quando um a nova e provocadora idéia apa­
rece e é aceita por pensadores entusiastas, a idéia de autonom ia do texto tem
m ostrado que possui dois lado. Tanto os resultados positivos quanto os nega­
tivos são claram ente diferenciáveis. E previsível que afirm ações aparente­
m ente extrem as tenham a tendência de prejudicar a nossa aceitação dos ele­
m entos positivos. Até m esm o os pontos de vista mais objetáveis, entretanto,
podem refletir algum a verdade im portante e devemos nos esforçar para lhes
fazer justiça.
Sem dúvida a exegese histórica - apesaV de suas fam osas exceções tende a ignorar a qualidade literária intrínseca dos docum entos bíblicos. A
Nova Crítica e outros desenvolvim entos mais recentes relacionados a ela nos
ensinam a prestar atenção à “textura” da literatura bíblica. Essa qualidade não
deve ser vista como o princípio e o fim de nosso interesse. Isso seria enfra­
quecer o que já foi tradicionalm ente reconhecido como um elem ento funda­
mental da religião bíblica, a saber, o seu caráter essencialmente histórico.
De qualquer m aneira, a narrativa bíblica, bem como outros gêneros bí­
blicos que incluem referências históricas, não deve ser tratada com o se fosse
neutra, livre de “desvios” interpretativos e teológicos. (A crença na inspira­
ção bíblica e na infalibilidade não torna impossível - e na verdade, intensifica
- a im portância desse elem ento interpretativo.) M as a perspectiva teológica
dos escritores bíblicos raram ente é expressa em term os explícitos; pelo con­
trário, ela reflete-se em sua com posição do texto. Assim, prestar atenção à
qualidade literária da narrativa - m esm o quando ela é considerada relativa­
m ente independente da referência histórica - é um a prática de im enso valor
para a com preensão do significado da história que está sendo apresentada
pela narrativa.
O papel do leitor
Ao longo dos séculos, tem -se partido sempre do pressuposto de que a nossa
percepção das inform ações corresponde exatam ente à realidade objetiva. Se
vemos um cavalo preto, deve ser preto - e certam ente deve ser um cavalo!
Afinal, de que outra form a o trabalho científico poderia prosseguir sem tal
segurança? O que é verdadeiro para o observador científico, supostam ente
tam bém é verdadeiro para alguém que está interpretando literatura, apesar de
162 D. R obertson, “ L iterature, the B ible as” , em Sup, pp. 547-51, especialm ente p. 548.
ser preciso reconhecer que, nesse caso, há mais espaço para am bigüidades e
m al-entendidos. Os intérpretes bíblicos antes deste século tinham , de fato,
grande consciência sobre o papel das pré-concepções, mas sim plesm ente su­
punham que elas podiam ser superadas.
Isso não acontece mais. Se há algo diferente na herm enêutica contem ­
porânea é justam ente a ênfase que ela dá à subjetividade e relatividade da
interpretação. As origens dessa perspectiva podem ser encontradas na filoso­
fia do pensador do século 18, Im m anuel Kant, cuja obra sem dúvida foi um
divisor de águas entre o pensam ento m oderno e tudo o que o precedeu. O
efeito da contribuição de Kant foi tão abrangente e de caráter tão fundam ental
que nenhum a disciplina intelectual pode escapar ao seu im pacto - nem m es­
mo a interpretação bíblica, apesar de ter levado algum tem po para os exegetas
entenderem o que estava acontecendo.
Falando em termos simples, Kant estava profundam ente preocupado com
a tensão insuportável que o Ilum inism o havia criado entre a ciência e a reli­
gião (o velho problem a filosófico da razão versus a fé, agora com nova rou­
pagem ). Sua própria solução para o problem a foi divorciar os dois ao deter­
m inar os seus papéis. A religião, por exemplo, deve reconhecer suas lim ita­
ções: os princípios básicos da fé não podem ser provados pela razão teórica.
M as a ciência tam bém é restrita: os observadores nunca vêem as coisas com o
elas realm ente são, tendo em vista que a m ente não é um simples receptáculo
m oldado por sensações físicas, mas sim um órgão ativo que traz ordem em
m eio à série de dados caóticos com os quais depara. Pode-se m uito bem ad­
m itir que o m undo como o conhecem os é um m undo criado pela nossa m anei­
ra de ordenar as sensações.
M uitos cientistas continuaram .seu trabalho na mais sublim e ignorância,
mas a sem ente das m udanças fundam entais na perspectiva científica havia
sido plantada. Aliás, algum as das questões mais significativas debatidas na
filosofia da ciência do século 20 estão relacionadas à relatividade do pensa­
m ento científico. Conform e já m encionam os, os escritos controversos de
Thom as Kuhn serviram para sensibilizar a com unidade científica para essa
questão. O interesse prim ário de Kunh era com preender o processo hum ano
por m eio do qual aconteceram as grandes m udanças em nossa interpretação
do m undo natural. Se observarmos com cuidado a “revolução científica” as­
sociada ao trabalho de Galileu e Copérnico, por exemplo, não encontram os
apenas um a simples m udança de opinião baseada na investigação imparcial
de dados objetivos. D iante de novas evidências descobertas, cientistas respei­
táveis continuaram apegando-se a visões tradicionais da física e da astrono­
m ia. Eles procuraram integrar algumas das novas evidências à sua interpreta­
ção geral; quando não conseguiam fazer isso, tratavam as novas descobertas
como anomalias - ou seja, dados para os quais ainda não tinham uma explicação.
Com o parte de seu argumento,-Kuhn chamou a atenção para um a fasci­
nante experiência psicológica. Nela, os investigadores usavam um baralho
que continha algumas anom alias, tais com o um seis de espadas vermelho ou
quatro de copas preto. As cartas eram rapidam ente m ostradas um a a um a e
pedia-se que os sujeitos as identificassem. Em momento algum os sujeitos pa­
receram perceber as anomalias, pois eles prontamente integravam os novos f a ­
tos a um sistema que era incofhpatível com esses fatos. Ao serem expostos
m ais dem oradam ente ao baralho anômalo, a m aior parte dos sujeitos çetceVicu que \vavuY um problem a, mas não foi capaz de determ inar a anom alia.
Com o aum ento do tem po de contato, eles foram capazes de identificar corre­
tam ente as cartas anômalas. Alguns sujeitos, entretanto, m esm o depois de
terem um tem po de contato m uito mais longo do que os outros, continuaram
a sentir dificuldade e tornaram -se bastante ansiosos. Para eles, era com o se
um a inflexibilidade interpretativa os im pedisse de aceitar a nova evidência.163
A velha frase: “Eu já tom ei um a decisão - portanto não me perturbe
com os fatos” norm alm ente é dita de m aneira jocosa, mas ela é m ais verda­
deira do que percebem os ou querem os admitir. Esse não é necessariam ente
um caso de teim osia proposital ou desonestidade. Quando alguém interpreta
incorretam ente aquilo que falamos, podem os encontrar consolo no fato de
que “as pessoas ouvem aquilo que querem ouvir” . Talvez mais precisam ente,
podem os dizer que as pessoas ouvem aquilo que sua m ente está preparada
para ouvir. E im possível para nós com preender e assim ilar novas inform a­
ções a m enos que as relacionem os com aquilo que já sabem os, ou seja, fil­
trando-as de m odo que encaixem -se em nosso “pré-entendim ento” . É verda­
de que alguns de nós têm mais facilidade de realizar esse processo do que
outros. A lém disso, alguns indivíduos sábios parecem capazes de identificar a
anom alia rapidam ente e ajustar sua estrutura interpretativa de modo que esta
leve em consideração o novo fato.
De qualquer forma, o im portante é que os pensadores contem porâneos
aprenderam a aceitar o papel da subjetividade do observador na pesquisa
c ien tífica.164 M as se isso tudo se aplica às “ciências exatas” , nas quais as
m edidas objetivas estão no cerne da pesquisa, o que dizer das ciências hum a­
nas e, especialm ente, da interpretação da literatura, nas quais o fator subjeti­
vo parece tão mais proem inente? Esses desenvolvim entos nos m ostram , entre
outras coisas, que provavelm ente superestim am os as diferenças entre as ciên­
cias exatas e hum anas. Em ambas essas disciplinas tão abrangentes, o pesqui­
sador vê-se diante de dados que só podem ser interpretados à luz de conheci­
163 K uhn, Scientific R evolutions, pp. 62-64.
164 D evo d eixar de fora do relato m uitos outros desenvolvim ento relevantes, tais com o as im p lica­
ções do princípio d a incerteza na área da física quântica.
m entos prévios; em ambos os casos, portanto, o intérprete já tem - consciente
ou inconscientem ente - um a teoria que busca explicar o m aior núm ero possí­
vel de fatos. Tendo em vista a natureza finita de todos os intérpretes hum anos,
nenhum a explicação pode abranger absolutam ente todos os dados. Em m ui­
tos casos, é um conjunto de preconcepções, e não o peso das evidências, que
determ ina a conclusão final.
Nos dias de hoje essa é uma afirm ação am plam ente aceita. Alguns pen­
sadores, entretanto, argum entam que pelo menos no caso da interpretação
literária precisam os ir além. Chega-se a sugerir que o papel do leitor é, e deve
cada vez mais ser a única coisa que im porta. Tanto para os praticantes do
m étodo histórico (que enfatiza o sentido geral pretendido pelo autor) quanto
para os da Nova Crítica (que despreza qualquer intenção autoral), a única
coisa na qual pode-se depender é na objetividade do texto. Para os proponen­
tes da “teoria da resposta do leitor” , entretanto - pelo menos em suas form as
m ais extrem as - não existe um texto objetivo. Tendo em vista que todo leitor
traz um a estrutura interpretativa para dentro do texto, cada leitor gera um
novo significado e, portanto, cria um novo texto.
Sem dúvida, a atual ênfase no papel do leitor está presente em vários
pontos de vista. Incluídos na categoria geral, há insights profundos acerca do
processo de interpretação, bem com o idéias ligadas a m odism os.165 O perigo
está em que, perturbados por form ulações que nos parecem extrem as, pode­
mos acabar fechando nossos olhos para contribuições valiosas feitas por esse
m ovim ento. Essa reação excessiva seria particularm ente infeliz, tendo em
vista o caráter das Escrituras como livro que fala a todas as gerações. Se há
algo dem onstrável na história do estudo bíblico, é o vigor e a constância com
a qual os crentes põem em prática em sua vida os ensinam entos que recebem .
Essa relevância não é resultado da atem poralidade da Bíblia, se com
isso estam os nos referindo a um significado transcendente totalm ente isolado
dos fatores históricos. Pelo contrário, é justam ente o fato de a m ensagem
bíblica ter-se m ostrado relevante para um a variedade admirável de pessoas de
diferentes idades e origens que prova seu caráter essencialm ente histórico. A
palavra foi dada ao povo no contexto de suas situações de vida e foi pronta­
165 O trabalho de Stanley Fish, ls There a Text in T his G lass? The A u th o rity o f Interpretative
C om m u n ü ies (C am bridge, M ass.: H arvard U niversity Press, 1980), pp. 301 -21, é especialm ente
influente. A rgum entando que seu ponto de vista não deix a im plícita um a “ pluralidade infinita de
significados” , Fish observa que “as frases surgem apenas em situações, e dentro dessas situa­
ções, o significado norm ativo de determ inada afirm ação nem sem pre será óbvio, ou pelo m enos
acessível, apesar de que em outra situação a m esm a afirm ação, que já não será exatam ente igual
terá outro significado norm ativo que não será m enos óbvio ou acessível” (pp. 307-8). M ais um a
vez, “é im possível até m esm o pensar em um a frase in dependente de seu contexto, e quando se
pede que considerem os um a frase p ara a qual não foi especificado um contexto, nós autom atica­
m ente ouvirem os essa frase no contexto em que ela norm alm ente é en co n trad a” (p. 310).
m ente contextualizada por leitores subseqüentes. (O que dificilm ente é aci­
dental. Afinal de contas, o Espírito Santo, autor das Escrituras, é quem ofere­
ce a com preensão ao leitor).
Alguns pensadores vêem o conceito de contextualização com o um a
revitalização da B íblia que a desprovê de sua autoridade. A pesar do conceito
talvez ter sido mal usado em dçterm inados casos, a autoridade bíblica tam ­
bém pode ser facilm ente enfraquecida ao m inim izar-se a realidade da varia­
ção histórica. A autoridade divina das Escrituras chega até os seres hum anos
em suas situações concretas, que estão sujeitas a m udanças. A natureza abso­
luta dos m andam entos de Deus, portanto, não seria preservada, mas sim aca­
baria com prom etida, se esses m andam entos não fossem gerais e vagos o sufi­
ciente para poderem ser aplicados a todas as situações da m esm a m aneira.
Esses comentários servem apenas para dar crédito ao intenso envolvimento
do leitor no processo de interpretação das Escrituras. Não devem os, portanto,
ser enganados pela aparente novidade e vanguarda da teoria de resposta do
leitor. Enquanto a atual preocupação com o leitor é um fenôm eno recente, a
novidade em questão está relacionada principalmente com o caráter consciente
e explícito dessas descrições. Sem dúvida há um a realidade para a qual essas
descrições apontam e essa realidade sempre esteve presente.
Gostem os ou não, os leitores podem criar sentidos - e com freqüência o
fazem - para um texto que lêem. Assim sendo, há várias opções à nossa dis­
posição (além de ignorar a realidade!). Em um extremo, podem os legitim ar
todas as respostas dos leitores, ou pelo menos aquelas que sejam apoiadas
pela autoridade de algum a com unidade; é de se duvidar, entretanto, que a
integridade do Cristianism o possa ser preservada dentro desse tipo de estrutu­
ra. No outro extrem o, podem os tentar suprim ir os preconceitos do leitor. Com
efeito, esse tem sido o alvo da exegese histórica: a objetividade total por parte
do intérprete a fim de evitar-se injetar dentro do texto qualquer significado
além do histórico. M as tal objetividade não existe. E se existisse, seria de
pouca utilidade, pois então estaríam os sim plesm ente envolvidos num a árida
repetição do texto que não leva em consideração nenhum valor duradouro.
Paradoxalm ente, muito do sucesso da crítica bíblica m oderna foi obtida à
custa de um a perda da relevância bíblica.
O m étodo histórico não estava necessariam ente errado em distinguir
entre o que a B íblia queria dizer e aquilo que ela quer dizer nos dias de hoje.
Na prática, entretanto, esse m étodo tam bém separou os dois. A nova visão
nos ensina, ou melhor, nos faz lem brar que se não sabem os o que a Bíblia
quer dizer nos dias de hoje, é de se duvidar que saibam os o que ela queria
dizer em sua época. Em todos os estágios da interpretação,
algum a necessidade hum ana está sendo preenchida. N enhum a das ati­
vidades presentes é um a verdade “puram ente objetiva” livre de qual­
quer questão ou preocupação hum ana. Toda busca por “significado” é
um a busca por um a aplicação pois se pedim os pelo “significado” de
um a passagem , estam os expressando em nós m esm os um a ignorância,
um a incapacidade de usar a passagem . Pedir por “significado” é pedir
por um a aplicação das Escrituras para determ inada necessidade; estamos
buscando nas Escrituras um a form a de rem ediar a falta, a ignorância, a
incapacidade. D a m esm a form a, um a busca por “aplicação” é um pedi­
do de significado; aquele que pede não com preende a passagem bem o
suficiente para usá-la para si m esm o.166
Em resum o, não é necessário suprim ir nosso contexto presente a fim de en­
tender o texto. Pelo contrário, em certos m omentos, precisam os nos aproxi­
m ar das Escrituras com nossos problem as e questões, se querem os verdadei­
ram ente com preender o que elas estão dizendo. Reconhecem os, assim, que
para valorizar o texto o leitor deve assum ir um com prom isso. Um com pro­
m isso, entretanto, im plica um a “precom preensão” e tal preconcepção não é
apenas perm itida com o tam bém necessária, (ver SI 119.33,34).
A intenção do autor
Sem dúvida, existe um a certa legitim idade na afirmação de que o sentido do
texto não deve ser identificado com a intenção do autor de form a exclusiva e
absoluta. Todo professor já deve, por exemplo, ter experim entado a realiza­
ção de ver um aluno fazer um a pergunta que parafraseia, interpreta e expande
as questões m encionadas em um a aula. N ã o seria c o r r e to d iz e r q u e tu d o o q u e
aluno diz fazia parte da intenção consciente do professor, mas o instrutor fica
feliz em receber o crédito pelo “novo” significado, desde que seja um a
inferência legítim a de sua aula.
É possível dizerm os que a interpretação do aluno foi parte do significa­
do da aula? Em certo sentido, sim, podem os confirm ar isso pelo fato de que o
professor aceitou a interpretação. Agora, se a m esm a interpretação tivesse
surgido de um a conversa entre alunos, sem que o professor estivesse presente
e, portanto, sem que ele pudesse confirm á-la, ela ainda seria parte do signifi­
cado. Essa possibilidade de expansão sem ântica aum enta no caso de um do­
cum ento escrito, pois o texto torna-se am plam ente disponível para um a nú­
m ero grande e diverso de pessoas que estão cada vez m ais distantes do con­
texto original do autor. O apóstolo Paulo, por exemplo, não poderia ter pre­
visto certos problem as específicos das igrejas cristãs do século 20. Q uer ad­
m itam os ou não, a “aplicação” das declarações paulinas sobre esses proble^ M o h n M . ¥ x iã ^ ~ T h e D o c tr in e o f th e K now ledge õ f G od (P hillipsburg, NJ: P resbyterian and
R eform ed, 1987), p. 83.
m as im plicam um a decisão sobre o significado do texto que certam ente não
era parte da intenção original do autor.
A questão torna-se ainda mais prem ente para os cristãos que vêem Deus
como o grande autor das Escrituras. A convicção da autoria dupla - tanto hum a­
na quanto divina tem sido o fator motivador por trás de tanto uso controverso da
Bíblia ao longo dos séculos. Q uer pensemos no tipo de exegese judaica associ­
ada ao rabino Akiba que encontrava um significado importante em cada deta­
lhe, ou no program a alegórico de Orígenes de Alexandria, ou na cham ada visão
tipológica dos estudiosos de Antioquia, ou no apelo do sensus plenior (“signifi­
cado mais pleno”) ou simplesmente na leitura devocional realizada por m ilha­
res de crentes - todas essas visões pressupõem que há “m ais” no texto bíblico
do que os autores humanos tinham consciência.167
Em resum o, m inha própria posição, tanto no cam po literário quanto no
teológico, é de que o sentido da passagem bíblica não precisa ser identificado
com pletam ente com a intenção do autor. É uma questão bem diferente, entre­
tanto, sugerir que o significado autoral seja dispensável ou até m esm o secun­
dário. Enquanto em certos casos a tarefa de identificar o que o autor bíblico
queria dizer não é a única form a legítim a de se proceder, essa tarefa é sempre
legítim a e deve, de fato, continuar a funcionar com o nosso objetivo essencial.
Pode-se argum entar que essa é a única m aneira honesta de se proceder
antes de se fazer outras considerações acerca do texto. Nossa interatividade
social uns com outros está ancorada nesse princípio. Todos reconhecem os
que é totalm ente injusto tom ar um a conversa que acabam os de ouvir e inter­
pretar as palavras de apenas um dos interlocutores num sentido diferente talvez até contraditório - daquele que era a intenção do interlocutor. De fato,
denunciam os esse tipo de procedim ento diariam ente com o sendo um com ­
portam ento m oralm ente inaceitável. E impossível justificar a idéia de que tal
princípio pode sim plesm ente ser suspenso no caso de docum entos escritos.
Considere, por exemplo, as afirm ações feitas pelo teólogo da libertação
Croatto (resumidas anteriorm ente neste capítulo) de que intérpretes devem
ler “para dentro” do texto o seu próprio significado. E provável que Croatto
ficaria profundam ente ofendido (e com razão) se interpretássem os que seu
livro significa que o m elhor tipo de herm enêutica é a fundam entalista, ou de
que seu livro lança um a ética de capitalism o que serve de base para afirm ar
que os Estados Unidos justificadam ente exercem pressão sobre a A m érica
167 D e fato, o p rofessor K aiser argum enta que o significado divino deve ser o m esm o que o signifi­
cado hum ano, de outro m odo o significado real das E scrituras seria inacessível para nós; afinal,
a exegese g ram ático-histórica é n o ssa única m aneira de determ inar o que o texto em si diz (The
Use o f the O ld Testam ent in the N ew [C hicago: M oody, 1985], pp. 63-66). Para um ponto de
vista diferente, ver Vern S. Poythress, “D ivine M eaning in Scripture” , W TJ 48 (1986): 241-79.
Latina. Tais interpretações da obra de Croatto seriam deploráveis e conside­
radas um insulto pessoal.
Em resposta a isso, alguns podem sugerir que ele estava se referindo
apenas a obras que se tornaram clássicas, quer religiosas ou de outros tipos.
Sem dúvida, há certa m edida de verdade nesse argumento. Um a obra clássica
torna-se parte de um a determ inada com unidade cujos m em bros, justam ente
por usarem a obra, colocam sobre ela suas próprias impressões. M as adm itir
isso está m uito longe daquilo que alguns m odernistas vêm sugerindo. Podese argum entar razoavelm ente que, quanto mais im portante é um a obra, mais
liberdade pode-se tom ar com ela? Que quanto mais respeitam os um texto
m ais justificativa temos para desconsiderar o autor? Independente de outras
funções que um clássico possa ter, ele continua a ser um docum ento histórico
e exige um a interpretação histórica.
U m a parte da dificuldade surge do papel exercido pela poesia na m aio­
ria das sociedades. Quando alguém com põe um poem a ou produz um a pintu­
ra - ou seja, um produto puram ente artístico - o criador está, de fato, convidando-nos a interpretar aquela obra de várias maneiras. Mas os textos bíbli­
cos, nesse sentido, não são arte. Até m esm o a poesia hebraica do Antigo Tes­
tam ento não pode ser reduzida a arte pura. Sejam quais forem as característi­
cas artísticas e literárias que podem os encontrar nas Escrituras, seu propósito
principal é de com unicar um a m ensagem inteligível que exige um a resposta.
Conclusão
O contato com as teorias contem porâneas de significado e interpretação não
causa confusão; ele tam bém pode trazer angústia pessoal acerca da incerteza
da experiência hum ana. Devemos ter em m ente, entretanto, que alguns dos
estudiosos que questionam a definição e objetividade do significado continuam
suas tarefas cotidianas pressupondo que interpretações não são apenas possí­
veis com o tam bém essenciais. Eles conversam com o funcionário do banco e
acreditam que o dinheiro indicado no saldo está m esm o lá. Eles lêem no jo r­
nal o relato de um incêndio em outra cidade e não passam por uma crise
em ocional questionando se o fogo de fato consum iu a casa que é m encionada
na reportagem . Eles até m esm o escrevem livros sobre a m orte do autor e
esperam que os leitores acreditem que eles próprios estão bem vivos.
A visão de que é o leitor quem cria o significado faz lem brar um a antiga
pergunta: Se um a árvore cai no m eio da floresta e ninguém ouve, será que ela
vai produzir algum som? Suponham os que eu receba um a carta mas, tem endo
aquilo que ela possa m e dizer, decida queim ar a tal carta sem antes lê-la.
Pode-se argum entar que, tendo em vi&ta que o leitor para o qual a carta havia
sido escrita nunca chegou a lê-la, então ela não teve sentido nenhum. Porém ,
a realidade objetiva da com unicação não é desfeita pela m inha reação - e
certam ente seria tolice acreditar que eu não seria afetado como resultado da
decisão de não ler a carta (que, por um acaso podia dizer: “Você deve ser
operado até sexta-feira ou então m orrerá”).
Para aqueles que acreditam que as Escrituras são o que dizem ser - a
m ensagem de Deus para nós - deve-se fazer ainda m ais um a consideração. A
B íblia apresenta Deus com o sendo o Criador de todas as coisas. Incluindo a
fala hum ana. Aliás, a habilidade do hom em e da m ulher falarem parece estar
relacionada de m aneira m uito próxim a ao fato de terem sido criados à im a­
gem de Deus, que fez o m undo por m eio de ordens faladas: “Haja...” A reali­
dade e eficácia da com unicação hum ana é um reflexo do poder de falar do
próprio Deus. M as a fala hum ana é finita e, mais im portante ainda, profunda­
m ente afetada pela presença do pecado. Não é de se surpreender, portanto,
que surjam perguntas válidas sobre a subjetividade do intérprete, o caráter
relativo de cultura e a am bigüidade no significado. Esses são problem as que
não devem ser ignorados ou deixados de lado em função de um apelo às
considerações teológicas.
De qualquer m aneira, o propósito do Criador, que é tam bém o Salvador,
não pode ser frustrado por causa da fraqueza humana. Aliás, assim com o a
neve e a chuva não voltam para o céu sem produzir fruto na terra, “assim será
a palavra da m inha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz
e prosperará naquilo que designei” (Is 55.10,11). Para o cristão, o significado
da revelação está inextricavelm ente ligado a Cristo, que veio para “explicar”
ou “interpretar” (exegeomai) o Pai e cujas palavras temos garantia de que
jam ais passarão (Jo 1.18; M c 13.31).
O trabalho exegético de João Calvino, bem com o o sistem a
teológico associado ao seu nome, pode ser de grande ajuda em
nossa busca pelo desenvolvim ento de princípios e m étodos de
interpretação. Os com entários de Calvino são um m odelo de cla­
reza e excelência. Além disso, sua obra - alinhada com a doutri­
na da graça com um - reflete um entendim ento crítico da contri­
buição que descrentes podem oferecer à nossa com preensão da
verdade, e essas características têm algum as im plicações interes­
santes para os estudos evangélicos modernos.
Um a questão mais controversa tem a ver com a relação entre
a teologia e a exegese: enquanto os estudiosos bíblicos tendem a
ignorar ou até mesmo rejeitar o valor da teologia sistemática para
o seu trabalho de interpretação, pode-se argumentar que os com ­
prometimentos teológicos inevitavelmente afetam o processo de
exegese e que tal influência é tanto essencial quanto desejável.
Por fim, entre as distinções doutrinárias do calvinism o, ne­
nhum a é mais fundam ental do que a ênfase na soberania de Deus.
U m a com preensão desse ensinam ento pode aum entar em m uito
nosso entendim ento da narrativa bíblica. Por m eio do conceito
de aliança, ela nos dará um foco mais preciso sobre o sentido das
Escrituras como um todo; irá até m esm o nos ajudar a ver com o o
próprio processo de interpretação é guiado pela sabedoria de um
Deus am oroso e todo-poderoso.
CAPÍTULO 14_________________
Em favor da hermenêutica de Calvino
M o i s é s S ilva
A palavra calvinista (além de qualquer conotação negativa que possa ter para
alguns de meus leitores), contém um a am bigüidade. O meu interesse está nos
m étodos de interpretação usados por João Calvino, o reform ador protestante
do século 16 em seus com entários bíblicos? Ou o título deste capítulo referese ao sistem a de teologia que originou-se das Institutas da R eligião Cristã de
Calvino e que alcançou sua plenitude de expressão um século depois na C on­
fissão de Fé de W estm inster?168
A am bigüidade é intencional, tendo em vista que um de meus objetivos
é ressaltar a estreita relação entre a interpretação bíblica e a teologia sistem á­
tica. E verdade que seria um exagero afirm ar que o m étodo exegético de
Calvino em seus com entários é absolutam ente idêntico ao uso que ele fez da
Bíblia nas Institutas, mas deve-se reconhecer que ao longo de duas décadas, o
pensam ento teológico de Calvino guiou sua exegese, enquanto sua exegese
contribuiu continuam ente para a sua teologia. (A prim eira edição das Institutas
apareceu em 1536 e a últim a em 1559 e, durante essas duas décadas foi pro­
duzida a m aior parte dos com entários.)
168 N a A m érica do N orte, o calvinism o d a C onfissão de*W estminster desenvolveu-se por m eio dos
puritanos, especialm ente John E dw ards, e m ais tarde pelos grandes teólogos de P rinceton do
século 19 e por C harles H odge e B. B. W arfield no com eço do século 20. (E ste ú ltim o escreveu
o a rtigo “C a lv in ism ” para The New Schaff-H erzog Encyclopedia o f Religious K nowledge
[reim presso, G rand R apids: Baker, 1977], 2:359-64, que pode servir com o um a breve p orém útil
introdução). D epois de 1929, essa tradição teológica tornou-se associada prim ariam ente com o
W estm inster T heological Sem inary, especialm ente por causa do trabalho de John M urray e
C ornelius Van Til. A sem elhança do título deste capítulo com a obra de Van Til The Case fo r
Calvinism (Filadélfia: P resbyterian and R eform ed, 1964) é m ais do que um a coincidência.
M ais um a vez, alguns podem objetar que há diferenças significativas
entre o próprio Calvino, de um lado, e o calvinism o de outro.169 Essas dife­
renças, entretanto, têm sido m uito exageradas. M esm o havendo característi­
cas que, sem dúvida, distinguem essas duas expressões de teologia (como,
por exemplo, a organização, formulação e ênfase), tais distinções tornam-se me­
nos importantes diante dos comptomissos fundamentais que as mantêm unidas.
É justo avisar o leitor de que o ensino em um a instituição que, tendo
derivado da Confissão de Fé de W estmisnter, busca preservar, propagar e cons­
truir sobre a posição teológica apresentada naquele docum ento. Em outras
palavras, m inha objetividade nesta área está aberta para questionam entos.
Tam bém vale a pena m encionar, entretanto, que não fui criado num meio
calvinista e que m inha educação inicial em teologia veio de uma tradição
bem diferente.
É curioso que os mesm os meios conservadores dos quais faço parte aliás, o evangelicalism o am ericano de um modo geral - açoia-se fortem ente
nas publicações de estudiosos reformados, tais como B. B. Warfield, J. Gresham
M achen e E. J. Young, mas ao m esm o tem po são um tanto críticos sobre
aquilo que chamam de “intelectualismo frio” da tradição de Princeton-Westmisnter
e sobre as características fortem ente calvinistas de sua teologia. Ao lermos
qualquer livro, não há dúvidas de que devemos reter sem dem ora aquilo que é
valioso e rejeitar o que é danoso. Mas será apenas coincidência que essa tra­
dição teológica, mais do que qualquer outra, tem suprido os meios para pre­
servar a integridade intelectual do evangelicalism o? Faz sentido lançar críti­
cas sobre o rigor acadêm ico desses estudiosos, enquanto usamos livrem ente
os frutos do seu trabalho acadêm ico? E será possível que, aquilo que o
evangelicalism o considera digno de objeção dentro de sua teologia seja ju sta ­
m ente o que torna possível sua contribuição para os estudos conservadores?170
Sejam quais forem nossas respostas a essas perguntas, podem os certa­
m ente sair ganhando ao considerarm os as distinções da “herm enêutica de
C alvino” . Observe, porém , que não posso defender adequadam ente todas as
m inhas afirm ações neste texto, especialm ente tendo em vista que algum as
delas exigiriam extensas discussões teológicas. (Os eventuais com entários
'm E specialm ente depois d a ascensão d a cham ada teologia neo -o rto d o x a em 1920, tornou-se c o ­
m um desprezar os teólogos calvinistas dos séculos 17 e 18 com o estudiosos que enfraqueceram
o espírito dos R eform adores. M ais tarde, alguns autores procuraram fazer um a divisão clara
en tre C alvino e a C onfissão de W estm inster. Para u m a crítica d essas tentativas, veja Paul H elm ,
C alvin a n d the C alvinists (C arlisle, Pa: B anner o f T ruth, 1982).
170 Pode-se argum entar, por exem plo, que a d efesa de W arfield à infalibilidade das E scrituras, m es­
m o tendo sido am plam ente adotada pelos evangélicos não-calvinistas, está intim am ente relaci­
onada ao seu com prom isso com a soberania divina. Ver a introdução de C ornelius Van Til a B.
B. W arfield The Inspiration a n d A u th o rity o fth e B ible, org. por S. G. C raig (reim presso, F ilad él­
fia: Presbyterian and R eform ed, 1964), especialm ente p. 66.
bibliográficos nas notas de rodapé podem ser de valor para os leitores que
desejam saber mais sobre essas questões.) Também não desejo sugerir que as
qualidades positivas apresentadas abaixo são propriedade exclusiva dos estu­
dos Reform ados. Se coloco as distinções Reform adas em contraste com o
evangelicalism o amplo, é apenas para esclarecer as questões. De fato, a tradi­
ção calvinista que sofre com suas próprias fraquezas, tem muito que aprender
com os cristãos de outras linhas de pensam ento.
Excelência e clareza da exposição
Ao tentar m ostrar os pontos a favor da visão calvinista sobre a interpretação
bíblica, é preciso antes de m ais nada apelar para aqueles com entários bíblicos
pelos quais Calvino com razão se tornou fam oso. M uitos estudiosos, alguns
dos quais pouco propensos a aceitar o calvinism o, enfatizam as virtudes ex­
traordinárias de Calvino com o intérprete das Escrituras. Um breve sum ário
das opiniões sobre esse assunto é oferecido por Philip Schaff, figura proem i­
nente entre os historiadores da igreja do século 19: “Calvino foi um gênio
exegético de prim eira ordem. Seus com entários são insuperáveis em term os
de originalidade, profundidade, perspicácia, solidez e valor perm anente...
Reuss, o editor chefe das obras [de Calvino], ele próprio um em inente estudi­
oso da Bíblia, afirma que Calvino está ‘sem som bra de dúvida entre os gran­
des exegetas do século 16’... Diestel, o m elhor historiador da exegese do A n­
tigo Testam ento cham a-o de ‘criador da autêntica exegese’.” 171 É ainda mais
adm irável que exegetas profissionais de nossos dias continuem a se referir a
Calvino com naturalidade quando com entam sobre o texto bíblico. M esm o
que Calvino tenha vivido m uito antes do desenvolvim ento da visão científica
m oderna, é bastante provável que nenhum com entarista de antes da metade do
século 19 seja citado com tanta freqüência quanto ele.
Entre os traços característicos do trabalho de Calvino com o com entaris­
ta, nenhum é tão im portante quanto o seu desejo de claridade e brevidade.172
Esses não eram dois objetivos separados, mas sim ideais gêmeos que ele bus­
cava num a distinção consciente em relação aos trabalhos que o antecederam .
Ao olhar para trás, para a história da redação de com entários bíblicos, ele
descobriu que havia um teólogo que se destacava com o m odelo para os intér­
pretes bíblicos: João Crisóstomo, o pregador de Antioquia do século 14. Q uan­
171 History o fth e Christian Church (N ova York: Scribners, 1885-1910), 8:524-25.
172 E m um a carta para Sim on G rynaeus, ele afirm a que a principal virtude do intérprete está in
perspicua brevitae. Ver R ichard C. G am ble, “Brevitas et facilitas: Tow ard an U nderstan d in g of
C a lv in ’s H erm eneutic” , WTJ 47 (1985): 1-17, especialm ente pp. 2-3. Para o que vem depois, ver
pp. 8-9 e 13-15. O bserve tam bém que os serm ões de C alvino são u m a fonte rica p ara ilustrações
d e alguns pontos aqui discutidos.
do com parados com os escritos de Crisóstom o, a m aior parte dos escritores
subseqüentes parecia prolixa.
M as, se Calvino tinha objeções contra com entários m uito longos, a ra ­
zão não era sim plesm ente im paciência em relação a um determ inado estilo era, sim, o inevitável obscurecim ento da m ensagem contida no texto que o
preocupava. A tarefa do intérprete é de esclarecer o significado pretendido
pelo autor, enquanto o acúm ulo de m aterial norm alm ente distancia o intér­
prete desse propósito. Ao m anter esse princípio, Calvino conscientem ente
evitava lidar com opiniões contrárias (a menos que a om issão das m esm as
pudesse confundir os leitores) pois, conform e ele dizia: “Não há nada que
considere m ais im portante do que a edificação da igreja.” A lém disso, ao
que parece, ele procurava escrever em estilo que era m odelado de acordo
com as próprias E scrituras. A B íblia tem sua p rópria eloqüência: a e lo ­
q üência da sim plicidade.
N em todos os seguidores de Calvino o im itaram nesse aspecto. Os puri­
tanos do século 17 tinham a tendência de escrever enorm es exposições, tal
com o a obra influente de W illiam Gurnall, The Christian in Complete Arm our,
um tratado sobre Efésios 6.11-20 que tomava mais de 1.200 páginas. Nas
últim as duas décadas, o crescim ento do ensino tem levado m uitos estudiosos
a escrever longas obras tam bém. Seria im prudente ignorar a m aravilhosa con­
tribuição de alguns desses com entários para a nossa com preensão do texto
bíblico. A inda assim, o exem plo de Calvino precisa fazer-nos lem brar quais
devem ser os nossos principais objetivos. E m uito fácil nos im pressionarm os
com os problem as exegéticos ou com as necessidades devocionais que perce­
bemos; em ambos os casos, acabam os perm itindo que a m ensagem central e
sim ples do texto tom e um a posição secundária. Se, porém , tivermos em m en­
te que não há motivo mais im portante do que a edificação da igreja - sendo a
base para isso o próprio ensinam ento de Deus e não a nossa im aginação nossos esforços perm anecerão concentrados no significado histórico inten­
cionado pelo autor bíblico.
A graça comum
U m a segunda característica distinta do m étodo de interpretação de Calvino
preocupava-se profundam ente com o aprendizado hum ano. Nesse sentido,
C alvino era produto do R enascim ento e, inevitavelm ente, seguidor do
hum anism o ligado a E rasm o.173 Antes de dedicar sua vida ao m inistério cris­
tão, Calvino havia sido treinado nas ciências hum anas e produzido um co­
m entário detalhado sobre De clementia, um a obra filosófica de Sêneca, o
173 Ver Q uirinus B reen, John C alvin: A Study in French H u m anism (G rand Rapids: E erdm ans,
1931). E specialm ente capítulos 4-5.
estóico espanhol do século I o. Independente do que se possa pensar desse
com entário, ele revela claram ente que Calvino havia refinado suas aptidões
dentro dos m elhores m étodos de análise filológica e literária disponíveis em
sua época. Também fica claro que, subseqüentem ente, em vez de abandonar
sua devoção aos estudos clássicos (com o fez Jerônim o - ou pelo menos assim
ele afirmava), Calvino colocou esses estudos a serviço da interpretação bíbli­
ca e reflexão teológica. Conform e expressou em suas Institutas, “Os hom ens
que se alim entaram das artes liberais ou pelo menos as experim entaram são
capazes de, com sua ajuda, penetrar em lugares mais profundos e secretos da
sabedoria divina” . E tam bém , “M as se é vontade do Senhor que sejam os au­
xiliados pela física, dialética, m atem ática e outras disciplinas tais, por m eio
do trabalho e do m inistério dos descrentes, façamos uso dessa assistência.
Pois, se negligenciarm os a dádiva das artes, oferecida gratuitam ente por Deus,
devem os sofrer a ju s ta punição por nossa indolência” .174
O uso que Calvino fazia do ensino “secular” é especialm ente significa­
tivo, pois reflete um conceito teológico-chave, a saber, sua visão da cham ada
graça comum. Esse é um ponto crucial, pois a visão de Calvino deve ser
diferenciada daquela de outros estudiosos evangélicos que usam livrem ente
m étodos críticos, m esm o que estes tenham sido desenvolvidos sem conside­
ração pela fé bíblica (e algumas vezes em oposição a ela). O problem a aqui
não é exatam ente o fato de esses métodos serem usados, mas que são usados
sem um a reflexão cuidadosa sobre suas im plicações teológicas. Em outras
palavras, raram ente vemos um a tentativa de se integrar os princípios dos estu­
dos críticos com as características do pensam ento evangélico. Fica a im pres­
são de que, a m enos que um a conclusão específica dos estudos contradiga
explicitam ente algum preceito da teologia “conservadora”, devemos nos apro­
priar livrem ente da obra dos críticos “liberais” . Essa atitude, acabará m inan­
do a integridade do evangelicalism o. A própria coerência da fé evangélica
pode acabar enfraquecida quando elem entos possivelmente incom patíveis são
adotados sem avaliação crítica. Além disso, a visão não agrada os estudiosos
não-evangélicos que argum entam , com certa razão, que a credibilidade do
pensam ento conservador torna-se suspeita.175 Em resum o, o desejo de se ga­
nhar respeitabilidade intelectual sai pela culatra.
Então, em que a visão de Calvino era diferente? Como se sabe bem, o
reform ador suíço começou suas Institutas discutindo epistem ologia, ou seja,
refletindo sobre as questões fundam entais do conhecimento: como exatam ente
174 João C alvino, h istitu tes o f the C hristian R eligion, org. por J. T. M cN eíll, traduzido por F. L.
B attles, L ibrary o f C hristian C lassics, vols. 20-21 (Filadélfia: W estm isnter Press, 1960), 1.5.2
(p. 53), 2.2.16 (p. 275).
173 M as nem sem pre essa observação é precisa ou justa, Jam es Barr, em sua obra Fundam entalism
(Londres: SCM , 1977), especialm ente no capítulo 5, levanta questões que m erecem nossa atenção.
podem os conhecer Deus? Sua resposta foi que o conhecim ento de Deus e o
conhecim ento de nós mesm os estão intim am ente relacionados. Ele argum en­
tava que não podem os olhar para nós mesm os sem pensar em Deus. “Pois,
claram ente, as grandes dádivas que recebem os não vêm de nós; aliás, nosso
próprio ser não é nada além da subsistência no Deus único. Então, por m eio
desses dons que são derram ados sobre nós com o o orvalho que cai do céu,
somos guiados feitos riachos correndo para a própria fonte.” A rebelião de
A dão certam ente trouxe ruína, mas até m esm o esse fato “nos com pele a olhar
para o alto” . Ele continua dizendo que, de qualquer m odo, não podem os espe­
rar adquirir um conhecim ento claro de nós mesm os - tendo em vista que
somos dados à hipocrisia - a menos que olhem os cuidadosam ente para Deus
e julguem os todas as coisas pelos seus padrões.176
Em capítulos subseqüentes Calvino ainda tem m uito a dizer sobre a re­
velação geral e sobre outras evidências da graça de Deus para com a hum ani­
dade em geral. E de especial interesse para nós a sua discussão sobre o apren­
dizado hum ano com o um dom do Espírito:
Ao depararm os com esses assuntos [artes e ciências] nos escritores se­
culares, deixem os que a luz adm irável da verdade que brilha neles
nos ensine que a m ente do hom em , m esm o que caída e pervertida de
sua integridade, ainda assim continua vestida e ornada com as excelen­
tes dádivas de D eus. Se consideram os o Espírito de D eus com o única
fonte de verdade, não devem os rejeitar a própria verdade nem desprezála onde quer que ela se m anifeste, a m enos que desejem os desonrar o
Espírito de Deus. Pois ao darm os pouco valor às dádivas do Espírito,
estam os condenando e repreendendo o próprio Espírito... É im possível
lerm os os escritos da antigüidade sobre esses assuntos sem grande ad­
m iração... M as podem os considerar algo com o sendo nobre ou louvá­
vel sem reconhecerm os, ao m esm o tem po, que vem de D eus?...
Porém , antes de pensarm os que qualquer hom em é verdadeira­
m ente abençoado quando possui grande poder de com preender a ver­
dade nos elem entos deste m undo, devemos acrescentar que toda a ca­
pacidade de entendim ento e o entendim ento que dela é decorrente, é
instável e transitória diante de D eus, se não está apoiada sobre a sólida
fundação da verdade.177
E essencial com preenderm os o equilíbrio de Calvino nessa citação. Ao reco­
nhecer ao m esm o tem po o caráter m aravilhoso e louvável do aprendizado
hum ano com o sendo um dom divino, e tam bém a sua instabilidade inerente
por causa da m ente caída e pervertida do pecador, ele pôde fazer justiça à
coerência do ensinam ento bíblico.
176 C alvino, ln stitu te s, 1.1.1-3 (pp. 35-39).
177 Ibid. 2 .2.15-16 (pp. 273-75).
A teologia reform ada posterior não foi sempre coerente na aplicação
das idéias de Calvino. Na tradição holandesa, entretanto, a doutrina da graça
com um tem um papel proem inente e controverso e poucos deram a ela mais
atenção do que Cornelius Van Til. M esm o sem entrarm os em detalhes sobre
seu sistem a apologético, podem os m ostrar certas características que são par­
ticu larm en te relevantes para a herm enêutica bíblica. A im p o rtân cia do
pressuposicionalism o e, portanto, a negação da neutralidade são essenciais
para Van Til. Em contraste com a tradicional distinção católico-rom ana entre
natureza e graça - e, portanto, entre razão e fé - Van Til argum entou que, de
acordo com as Escrituras, todos os seres humanos sabem muito bem que Deus
existe e que foi seu poder que criou o mundo. A lém disso, todos eles rejeita­
ram esse conhecim ento e rebelaram -se contra ele (ver especialm ente R om a­
nos 1.18-23). Os seres hum anos, portanto, não são observadores neutros que
precisam ser persuadidos por m eio de argum entos racionais de que existe um
Deus para que possam em seguida experim entar a fé. Pelo contrário, eles
escolheram por vontade própria adorar a criatura em lugar do Criador, seu
m odo de pensar é distorcido pela presença do pecado. Os leitores vão notar
que essa form ulação é um a m aneira específica de expressar a doutrina Refor­
m ada sobre a depravação total.
Van Til tam bém enfatizou, entretanto, que hom ens e m ulheres não são
pecam inosos por completo. O pecado fundam entalm ente distorceu, m as não
destruiu o seu caráter como im agem de Deus. Em outras palavras, eles são
inconsistentes tanto no seu modo de pensar com o em sua conduta. E aqui que
a doutrina da graça com um se m ostra claram ente. Deus continua a m andar o
calor do sol a este m undo pecam inoso; ele refreia o progresso do mal em
m eio à sociedade hum ana como um todo. Com o resultado disso, m uitos que
rejeitam a bondade de Deus conseguem viver uma vida aparentem ente exem ­
plar, m esm o que seu ponto de partida devesse levá-los à com pleta licenciosidade. Do m esm o modo, apesar de terem desprezado o conhecim ento do único
e sábio Deus, a m ente deles ainda alcança feitos adm iráveis. M as o progresso
intelectual dessas pessoas é feito à custa de “capital em prestado” , ou seja, ao
se aproveitarem das m esm as verdades que elas contradizem por seus com pro­
m etim entos. Assim, a visão de Van Til, m esm o 0sendo radicalm ente antitética,
de form a algum a nos leva ao desprezo das conquistas da hum anidade; pelo
contrário, ela possibilita que as com preendam os.178
178 Ver C ornelius Van Til, The D efense o f the Faith, 3a ed. (P hillipsburg, NJ: Presbyterian and
R eform ed, 1967) capítulo 8, e idem C om m on G race (Filadélfia: Presbyterian and R eform ed,
1947), especialm ente p. 91, sobre o caráter correlativo da graça com um e da depravação total e
p. 95: “E som ente quando pressionam os o valor objetivo das afirm ações cristãs em cada um de
seus pontos que podem os nos perm itir serm os ‘g e n ero so s’ com respeito ao hom em natural e
suas conquistas. Q uando estam os totalm ente conscientes de nós m esm os é que podem os c o o p e­
T anto a h istó ria da “A n tig a P rin c e to n ” 179 quanto de W estm inster
exem plificam com o essa com preensão calvinista do pecado e da graça co­
m um podem afetar os estudos teológicos. Os teólogos mais conhecidos de
Princeton, Charles H odge (1797-1878) e Benjam in B. W arfield (1851-1921)
não estavam somente a par de todo o progresso contem porâneo das ciências
exatas e hum anas e do estudo bíblico crítico;180 tam bém fica claro que seu
próprio pensam ento foi afetado positivam ente por aqueles avanços. Enquanto
m uito de seu trabalho tinha um lado fortem ente polêm ico que ia contra os
estudiosos descrentes, é inegável que seu próprio pensam ento refletia um a
integração entre o cham ado conhecim ento secular e os ensinam entos bíbli­
cos. Não foi, entretanto, a adoção ingênua de idéias não-bíblicas, mas sim ­
plesm ente o reconhecim ento de que Calvino estava certo ao insistir que o
Espírito de Deus é a fonte de toda a verdade e, portanto, não devemos desprezála onde quer que ela apareça; em outras palavras - usando de um ditado pro­
fundo que para alguns tornou-se um clichê ambíguo - “toda a verdade é a
verdade de D eus” .
Especialm ente na área dos estudos bíblicos, ninguém ilustra esse princí­
pio de m aneira mais poderosa do que J. Gresham M achen (1881-1937), que
lecionou Novo Testam ento em Princeton até 1929 e então, por causa de con­
flitos m odernistas-fundam entalistas naquela época, levou vários de seus co­
legas a fundar o W estm inster Theological Sem inary na Filadélfia. Tendo estu­
dado com alguns dos teólogos liberais m ais proem inentes na A lem anha,
M achen lutou contra os questionam entos feitos acerca da autoridade das E s­
crituras e da integridade da fé evangélica. No final, tornou-se o principal inte­
lectual a opor-se ao m odernism o fazendo, ao m esm o tem po, uso pleno dos
estudos associados a esse m ovim ento.
As duas principais obras de M achen - “The Origin of P aul’s R eligion”
(1925) e “The Virgin Birth o f C hrist” (1930) - são exem plos brilhantes do
ensino evangélico, sendo que em ambas ele procura desconstruir lógica e
pacientem ente os princípios básicos da teologia liberal. É importante enfatizar,
entretanto, que M achen não dom inava o estudo liberal sim plesm ente para ter
m ais m unição intelectual contra ele (com o costum am fazer diversos estudio­
sos evangélicos). A seriedade com que ele considerava esses estudos fica evi­
rar com aqueles que tam bém recebem aquilo que nos é de direito.” Em outras palavras, só
quando não estam os equivocados quanto a antítese entre os pontos de vista cristão e não-cristão
é que podem os, com legitim idade, usar o trabalho do descrente.
179 Ironicam ente, m uito do trabalho de Van Til foi desenvolvido com o reação ao sistem a de apologética
que estava sendo usado em Princeton. Ao corrigir certos aspectos da visão de W arfield, en tre ta n ­
to, Van Til estava com efeito trazendo a ap ologética do calvinism o am ericano para m ais perto de
sua teologia.
ls" Ver M ark N oll, “T he P rinceton R eview ” , W TJ 50 (1988): 283-304, especialm ente pp. 302,3.
dente em cada página assim como o fato de que ele não tinha m edo de apren­
der com o estudo liberal. Não é de se surpreender que um conhecido crítico
alem ão, que questionava a validade da tese de M achen, tenha escrito um arti­
go crítico de vinte páginas sobre a obra “The Virgin Birth of C hrist” , no qual
ele considerava o livro como sendo “tão circunspecto e inteligente em suas
discussões que deve ser plenam ente reconhecido como um a im portante con­
quista” .181 Ainda assim, não podem os ignorar que o próprio M achen conside­
rava sua visão como “ sendo com pletam ente apologética” .182
Nos dias de hoje, a crescente presença dos evangélicos em fóruns de
estudiosos, tais como a Sociedade de Literatura Bíblica (Society o f Biblical
Literature) é, ao m esm o tem po, encorajadora e enervante. Algum as vezes,
tem e-se que essa participação seja reflexo da tendência de dividir o intelecto
em com partim entos. Os com prom issos com a verdade bíblica são suspensos,
não sim plesm ente para propósitos tem porários de discussão, mas talvez como
reflexo da visão de que as questões têm um caráter neutro. (Em princípio, é
bastante apropriado incluir estudiosos não-evangélicos num am plo espectro
de questões sem aum entar a ansiedade em relação às pressuposições teológi­
cas. M as é preciso observar se, no processo de discussão, nosso próprio pen­
sam ento não se torna independente de nossa fé.) Com exceção de ocasionais
desacordos sobre idéias específicas, raram ente se encontra um esforço, ou
m esm o um desejo no sentido de analisar o caráter fundam ental dos principais
pontos de vista à luz da fé evangélica. Talvez um pouco de reflexão sobre
com o Calvino e alguns de seus sucessores relacionaram o seu estudo das
Escrituras ao aprendizado hum ano possa ajudar os estudiosos conservadores
m odernos em seu processo de fazer o mesmo nestes tem pos tão desafiadores.
Teologia e exegese
Com o sugerido ao leitor na seção anterior, não é viável separar a interpreta­
ção bíblica da teologia.183 A relação entre exegese e teologia sistem ática tem
sido um a das questões m ais controvertidas na história do estudo da Bíblia.
181 F. K attenbusch, crítica em TSK 102 (1930): 454.
182 J. G resham M achen, The Virgin Birth o f Christ, 2a ed. (N ova York: H arper & Row, 1932), p. x.
A lgum as vezes pensa-se q u e a visão de M achen era incom patível com a de Van Til; esse co n cei­
to errôneo é tratado de m aneira adequada por G reg L. B ahnsen, “M achen, Van Til, and the
A pologetic T radition o f the O P C ” , em Pressing Toward the M ark Essays Commemorating Fifty
Years o fth e Orthodox Presbyterian Church, org. por C. G. D ennison e R. C. G am ble (Filadélfia:
C om m ittee for the H istorian o f the O rthodox P resbyterian C hurch, 1986), pp. 259-94. Para m ais
sobre esse assunto, porém , gostaria de sugerir que o caráter daquilo que M achen e alguns de
seus predecessores fizeram (quaisquer que fossem os seus princípios apologéticos conscientes)
serviu de m odelo para Van Til no que diz respeito ao uso apropriado dos estudos de descrentes.
IS1 Parte do m aterial dessa seção foi tirado de “System atic T heology an the A postle to the G e n tile s”,
a ser p u blicado em TJ.
M uitos estudiosos duvidam , ou até m esm o negam, que seja de fato possível
usar a Bíblia com o propósito de se desenvolver um a teologia sistem ática. De
acordo com esse ponto de vista, os diversos autores bíblicos possuíam teologias diferentes e até m esm o incom patíveis; portanto, tratá-los com o um a uni­
dade pode resultar apenas na distorção do texto.
Estudiosos bíblicos evapgélicos rejeitaram essa proposta, mas isso não
significa que têm a teologia sistem ática em alta consideração. Pouquíssim os
entre eles dem onstram algum interesse no assunto que, aliás, é visto com
suspeita. Para eles, a sugestão de que a teologia sistem ática deve influenciar a
exegese é particularm ente digna de objeção. Ainda assim, é justam ente essa
relação que desejo afirm ar e aqui, mais um a vez, Calvino proporciona um
m odelo admirável.
Quando a prim eira edição das Institutas foi publicada, C alvino ainda era
bastante jovem e as revisões e expansões subseqüentes refletem tanto o cres­
cim ento de seu conhecim ento da teologia histórica (referências aos pais da
igreja prim itiva e aos teólogos medievais aum entam pronunciadam ente a cada
edição subseqüente) quanto sua m aior atenção ao trabalho exegético. E im ­
provável que alguém argum ente que esses dois lados de sua obra sejam inde
pendentes um do outro - como se ele se esquecesse de sua teologia quando
exercitava a exegese (e é por isso que seus com entários são tão bons!) ou não
desse atenção à Bíblia quando fazia teologia (e é por isso que as Institutas são
tão ruins!). M inha própria tese é de que tanto suas interpretações quanto sua
teologia são excelentes justam ente por estarem relacionadas.184 A inda que se
tenha pouco uso para o sistem a de Calvino, desejo sugerir que a exegese só
tem a ganhar se for feita de m aneira consciente dentro da estrutura da teolo­
gia do exegeta.
E necessário adm itir que tal visão parece absolutam ente oposta às afir­
m ações da exegese gram ático-histórica. Há três séculos os estudiosos já esta­
vam argum entando, com grande vigor, que a teologia sistem ática - especial­
m ente em sua form a clássica - deveria ser m antida separada da interpretação
bíblica. De fato, não era difícil m ostrar com o desvios teológicos com fre­
qüência tinham posto a perder o trabalho da exegese. Cada vez mais, a verda­
deira exegese “histórica” era vista com o um a interpretação que não é influen­
ciada por com prom etim entos teológicos. Leopold Im m anuel Rückert, no pre­
184 O próprio C alvino via esses dois projetos com o sendo com plem entares. Em sua declaração
intro d u tó ria às Institutes (“John C alvin to the R eader” ), ele nos diz que seu objetivo n essa obra
é de ajudar os “candidatos à teologia sagrada” a captarem a “ som a da religião em todas as suas
p artes” , e assim guiá-los no estudo das E scrituras. Tal com pêndio lhe possibilitaria evitar longas
d iscussões quando estivesse escrevendo com entários. D e acordo com esse ponto de vista, o uso
adequ ado de com entários pressupunha que o estudante estivesse “arm ado com u m co n h ecim en ­
to desta obra, com o um a ferram enta necessária” (pp. 4,5).
fácio de seu com entário sobre Rom anos, escrito em 1831, afirmou que o in­
térprete bíblico deve abandonar sua própria perspectiva.
Em outras palavras, exijo dele estar liberto do preconceito. Com o
exegeta, o intérprete do Novo Testam ento não tem um sistem a e não
deve ter um, quer seja dogm ático ou em ocional. Em sua posição de
exegeta, ele não é nem heterodoxo nem ortodoxo, nem supernaturalista
nem racionalista, não é favorável ao panteísm o e nem a qualquer outro
“ism o” que possa existir. Ele não é nem piedoso e nem perverso, não é
m oral nem im oral, não é sensível nem insensível.185
U m de seus contem porâneos, o grande çxegeta do Novo Testam ento H einrich
Augustus W ilhelm Meyer, expressou a m esm a idéia com o vemos a seguir:
As áreas dogm áticas e filosóficas devem ficar fora de um com entário.
Pois a tarefa da exegese é determ inar de m aneira im parcial e históricogram atical o significado que o autor desejava transm itir por m eio de
suas palavras. De que forma o significado assim determinado se relacio­
na com os ensinam entos da filosofia, até que ponto está em concordân­
cia com os dogm as da igreja ou a visão dos teólogos, com o ele será
usado pelos estudiosos dessas ciências - para o exegeta com o um
exegeta, essas são questões que não lhe dizem respeito.186
Nos dias de hoje, a m aioria das pessoas diria que essas duas form ulações são
incrivelm ente ingênuas. M as não devemos nos enganar. O com prom etim ento
por trás delas ainda está m uito vivo. Além disso, há m uitos exegetas que recu­
sariam essas afirmações, porém cujas obras, m esm o que não intencionalm en­
te, são um a expressão perfeita desse ponto de vista. Contrário a essa visão,
desejo argum entar que a exegese correta deve ser inform ada pela reflexão
teológica. Colocando da m aneira mais chocante possível: meu sistem a teoló­
gico deve me dizer com o exercitar a exegese. E possível um a posição tão
ultrajante ser defendida? Há três considerações que tornam essa posição não
apenas defensável como, de fato, a única opção real.
Em prim eiro lugar devemos reconhecer que a teologia sistem ática é, em
grande parte, um exercício de contextualização, ou seja, a tentativa de se
reform ular os ensinam entos das Escrituras de m aneiras que sejam significati­
vas e com preensíveis em nosso contexto atual. E verdade que algum as vezes
os teólogos deixaram a im pressão (ou até m esm o afirmaram ) que suas descri­
ções eram exatam ente os ensinam entos das Escrituras e, por serem indepen­
dentes do contexto histórico do teólogo, essas descrições teriam validade per­
m anente. M as o próprio processo de se organizar os dados bíblicos - isso sem
185W. G. K üm m el, The N ew Testament: The H istory o f the Investigation o fth e Its P roblem s (Nashville:
A bingdon, 1972), p. 110.
m [bid„ p. 111.
falar no uso de um a língua diferente num diferente contexto cultural - traz à
tona o contexto do teólogo. Até m esm o Charles H odge que afirm ava com
orgulho que nenhum a idéia nova jam ais havia sido proposta em P rinceton187
era, de fato, um pensador criativo, e sua obra System atic Theology reflete em
todas as suas partes a integração inovadora de algum as linhas da filosofia do
século 19 com a teologia clássica Reform ada.
Não há nada intrinsecam ente digno de objeção na procura por se enten­
der e explicar um escrito antigo por meio de categorias contem porâneas em
si, ainda assim, os estudiosos bíblicos partem do pressuposto de que tal pro­
cedim ento é indesejável. Com o foi expresso por um escritor, a interpretação
bíblica deve ser feita “em term os daquilo que o próprio texto diz... fazer uso
de... form ulações mais recentes não é apenas um a forma de anacronism o como
tam bém obscurece o im pacto das palavras específicas que o autor escolheu
usar naquela ocasião. Em resumo, tal visão é metodologicamente indefensável.188
M as o sim ples uso de nossa língua m ãe para explicar o texto bíblico significa
que estam os lançando m ão de uma expressão formal subseqüente. Se, por
exem plo, um escritor m oderno deseja explicar o pensam ento de Aristóteles,
todos nós adm itim os não apenas a legitim idade, mas tam bém o grande valor
e até m esm o a necessidade de se fazê-lo pelo uso de term os filosóficos con­
tem porâneos que tornem possível expressar claram ente as obras do escritor
da antigüidade. Alguém que sim plesm ente voltasse a declarar os ensinam entos
de A ristóteles em grego ou m esm o em equivalentes rígidos de nossa língua
m ãe, não seria capaz de explicá-los justam ente por não ter-se feito nenhum
esforço para contextualizá-los.
Em segundo lugar, nossa visão evangélica da unidade das Escrituras exige
que considerem os a B íblia em sua inteireza com o contexto de qualquer uma
de suas partes. Um exem plo relacionado ao estudo de Aristóteles tam bém é
útil neste caso. O estudioso m oderno olha para toda a obra de A ristóteles em
busca de ajuda para com preender algum detalhe em um de seus escritos indi­
viduais. Se vemos as Escrituras como vindas de um único Autor, uma com ­
preensão sistem ática da Bíblia contribui para a exegese das passagens indivi­
187 E ssa referência foi feita especialm ente em relação ao jornal que ele editava (ver N oll, “T he
P rinceton R eview ”, p. 288). E claro que H odge não era tão ingênuo quanto essas palavras p o ­
dem fazer parecer. Seu uso de um a hipérbole tinha a intenção de m ostrar a substância d o u trin á ­
ria e não a form a com o as doutrinas eram form uladas. A lguns escritores m odernos, de fato,
enfatizam - e criticam fortem ente - o uso inovador do realism o escocês p o r H odge. Sem negar
q u e alguns aspectos d esse contexto têm um efeito negativo, devem os dar atenção tam bém aos
benefícios. E m todos os casos, é m inha opinião que a suposta dívida d e H odges e de estudiosos
subseqüentes de P rinceton ao realism o é grandem ente superestim ada.
1811 C linton E. A rnold, revisão crítica da obra de Silva, P hilippians, in C riticai R eview o f B o o ks in
R elig io n 1991 (A tlanta: Scholars Press, 1991), p. 232.
duais. A dm itim os que há alguns perigos nesse m étodo. Com base num a leitu­
ra duvidosa de Rom anos 12.6 certos cristãos apelaram com freqüência para a
“analogia da fé” de uma form a que não faz justiça à distinção dos escritores
da Bíblia com o indivíduos. Além disso, é fácil cair na arm adilha da eisege, de
interpretar um texto como sendo um a idéia teológica abrangente só porque
nós (algum as vezes inconscientem ente) desejam os evitar as im plicações da­
quilo que o texto realm ente está dizendo. Portanto, é com preensível que o
professor K aiser queira restringir os princípios da analogia da fé ao final do
processo interpretativo, e ainda assim apenas com o m eio de resum ir os
ensinam entos da passagem .189 Fazê-lo, entretanto, é negligenciar a m ais im ­
portante dádiva herm enêutica de Deus para nós, a saber, a unidade e a inteire­
za de sua própria revelação.
Em terceiro lugar, e finalm ente, m inha proposta soará m uito m enos cho­
cante se nos lem brarmos que, de fato, todos nós incluímos a teologia na exegese
de qualquer form a. Quer tenham os ou não a intenção de fazê-lo, quer goste­
mos ou não, todos lem os o texto conform e interpretado por nossas pressupo­
sições teológicas. Aliás, o argumento mais sério contra a idéia de que a exegese
deve ser feita independente da teologia sistem ática é que tal ponto de vista é
irrem ediavelm ente ingênuo. A m era possibilidade de entender qualquer coisa
depende de nossas estruturas anteriores de interpretação. Se observam os um
fato que faz sentido para nós, é sim plesm ente porque conseguim os encaixá-lo
dentro de um conjunto com plexo de idéias que assim ilam os anteriorm ente.
E claro que, algum as vezes nós forçam os o fato a se encaixar em nossas
preconcepções e assim, o distorcem os. A solução entretanto, não é negar que
tem os essas preconcepções e nem tentar reprim i-las, pois estaríam os apenas
enganando a nós m esm os. É mais provável que tom em os consciência dessas
preconcepções, se buscarm os conscientem ente identificá-las e então usá-las
no processo exegético. Desta form a, quando depararm os com algo que vai
contra a direção que nossa interpretação está tom ando, estam os mais prepara­
dos para reconhecer essa anom alia por aquilo que ela é, a saber, um a indica­
ção de que o nosso esquem a interpretativo é falho e precisa ser m odificado.
Em contraste, é m enos provável que exegetas que convencem a si m esm os de
que podem entender a Bíblia diretam ente, pof m eio de técnicas filológicas e
18‘J Ver acim a, p. 189. O utros escritores são mais negativos e tendem a enfraquecer a coerência das
Escrituras. Ver C alvin R. Schoonhoven, “T he ‘A nalogy o f F aith’ and the Intent o f H ebrew s” em
Scripture, Tradition and Interpretation: Essays Presented to Everett F. Harrison by His Students
and Colleagues in Honor o f His Seventy-fifth Birthday, org. por W. W. G asque e W. S. L aSor
(G rand Rapids: E erdm ans, 1978), pp. 92-110, especialm ente p. 105. A inda de m ais ajuda é Henri
B locher, “T he ‘A nalogy o f F aith’ in the Study o f the Scripture: In Search o f Justification and
G uidelines’, SBET 5 (1987): 17-38, apesar de que eu gostaria de ir u m pouco m ais além que ele.
históricas puras e sem a m ediação prévia de com prom etim entos exegéticos,
teológicos e filosóficos, percebam o caráter real de suas dificuldades exegéticas.190
O velho conselho de que aquele que está estudando a B íblia deve buscar
ao m áxim o encarar o texto sem um a idéia form ada sobre seu significado (e
que, portanto, os com entários devem ser lidos depois da exegese e não antes
dela) tem a vantagem de estim ular o pensam ento independente; além disso,
ele nos faz lem brar que nosso objetivo principal é, na verdade, descobrir o
significado histórico e de que estam os sempre correndo o risco de im por o
nosso significado sobre o texto. De qualquer m aneira, esse conselho é funda­
m entalm ente equívoco, pois não é verdade em relação ao processo de aprendi­
zado em si. Em vez disso, eu sugeriria que o estudante que se encontra diante de
uma passagem e traz consigo, por exemplo, um contexto dispensacionalista, deve
buscar o significado do texto supondo que o dispensacionalism o é correto. Eu
chegaria até m esm o a dizer que, ao deparar com um detalhe que não se encai­
xa em seu esquem a dispensacionalista, o estudante deve “fazê-lo” encaixarse. O propósito aqui não é lidar incorretam ente com o texto, mas tom ar cons­
ciência daquilo que estam os prestes a fazer de qualquer m aneira. Com o resul­
tado, deve-se ter um aumento na sensibilidade em relação aos aspectos do
texto que perturbam a nossa estrutura interpretativa e, em conseqüência dis­
so, um a prontidão m aior para se m odificar essa estrutura.191
A soberania de Deus na interpretação bíblica
A teologia de Calvino é m ais conhecida por sua ênfase na soberania divina,
particularm ente em sua expressão por meio do conceito da predestinação. A
verdade, entretanto, é que poucos teólogos foram tão equilibrados quanto
Calvino em sua tentativa de dar expressão à plenitude do ensinam ento bíbli­
co. O próprio fato de ele ter escrito com entários sobre quase todos os livros da
Bíblia deve servir para nos mostrar alguma coisa. Mesmo em meio a um contexto
fortemente polêmico, ele conseguiu fazer justiça a cada locus teológico.
E irônico que seu equilíbrio seja especialm ente evidente na form a com o
tratou a predestinação. Essa doutrina não ocupa lugar tão proem inente nas
Institutas, como se poderia imaginar. Ela não é tratada no prim eiro capítulo e
nem m esm o em todo o livro 1. É preciso esperar até o livro 3, capítulos 21-24
para encontrar, então, um texto de 44 páginas, o que eqüivale a m enos de
cinco por cento das Institutas. Em resum o, um a com preensão da doutrina de
190 T alvez valha a pena dizer que m uito antes da ênfase d ada por R u d o lf B ultm ann a um “ prée n te n d im e n to ” se tornasse u m assunto popular, e certam ente antes de Tornas K unn q u estio n ar a
neutralidade da investigação científica, C ornelius Van Til expôs de m odo ainda m ais radical o
papel das pressuposições na vida com o um todo.
191 O u pelo m enos é o que esperam os - nesse ponto, entretanto, a disposição psico ló g ica no rm al­
m ente acaba tom ando conta!
Calvino sobre a soberania divina aplicada à salvação deve levar em conta seu
lugar no contexto de seus ensinam entos com o um todo.
De um outro ponto de vista, entretanto, essa doutrina foi ainda mais
im portante para Calvino do que norm alm ente nos damos conta. O fato de não
ser um assunto de discussão explícita nos livros 1 e 2 dificilm ente significa
que não está presente neles. M uito pelo contrário. A reverência e adm iração
de Calvino diante da majestade e do poder de Deus sobre toda a criação perm eia
sua teologia com o um todo de form a fundam ental. N a tradição calvinista,
essa ênfase tem exercido um papel im portante. Em lugar de anular a liberda­
de hum ana, a soberania divina absoluta, em si, faz com que essa liberdade
tenha significado.192 Pelo fato de nosso ser encontrar-se som ente em Deus, a
liberdade fora de sua vontade é inconcebível. Da m esm a form a, tendo em
vista nossa escravidão ao pecado (Rm 6.16-23), seria ilusório pensar que a
salvação pode, de algum a forma, depender do nosso esforço ou vontade (Jo
1.13; Rm 9.14-16).
Qual a relevância disso tudo para a herm enêutica bíblica? Podem os ape­
nas ilustrar o seu significado com alguns exem plos. No que diz respeito à
prática exegética, a doutrina da soberania divina nos torna particularm ente
sensíveis ao agir de Deus na história da redenção. Em nenhum a parte a narra­
tiva bíblica sugere que o plano divino tenha sido frustrado por acidentes his­
tóricos ou pela obstinação humana. Enquanto a livre iniciativa e a responsabi­
lidade aparecem de m aneira bastante clara, as realidades hum anas são m os­
tradas com o estando em coordenação com - e na verdade sob - a vontade de
Deus para o seu povo. Um texto que cham a particularm ente a atenção é o
relato dos acontecim entos nos dias de Roboão, cujas decisões perversas opri­
m iram Israel levando à tragédia de um reino dividido: “O rei, pois, não deu
ouvidos ao povo; porque este acontecimento vinha do Senhor, para confirmar a
palavra que o Senhor tinha dito por intermédio de Aías a Jeroboão, filho de Nebate
(lR s 12.15). Os profetas entenderam bem o significado desse princípio:
192 C onform e aparece n a C onfissão de Fé de W estm isnter 3.1 “P or toda a eternidade e p o r m eio do
m ais sábio e santo conselho de sua própria palavra, D eus ordenou o que quer que venha a
acontecer; m as ain d a assim D eus não é o autor do pecado, e nem a v iolência é oferecida de
acordo com a vontade de suas criaturas e nem é tirada delas a liberdade ou a c o ntingência, estas
são, sim, estabelecidas” (grifo m eu). E ste certam ente não é o lugar para se oferecer um a defesa
filosófica d esta doutrina. O bserve, entretanto, que um m undo no qual absolutam ente qualquer
coisa acontece fo ra d a vontade de D eus, é um m undo inevitavelm ente governado pela c o n tin ­
g ência, ou seja, pela incerteza radical. Se D eus sabe ao certo o que vai acontecer no futuro (a
d o u trin a fundam ental do conhecim ento prévio), então tudo o que acontece é aquilo que deveria
acontecer. Porém , se os acontecim entos não são “d eterm inados” nesse sentido, então D eus não
tem com o saber o que vai acontecer, o que significa que q u a lq u er coisa p oderia ocorrer e D eus
estaria um tanto lim itado sobre o que poderia fazer a tal respeito.
Jurou o Senhor dizendo:
Como pensei, assim sucederá, e,
com o determ inei, assim se efetuará.
Porque o Senhor dos Exércitos o determ inou; quem , pois, o invalidará?
A sua mão está estendida; quem po is a fa r á voltar atrás?
(Is 14.24, 27J.
A relevância desses conceitos aparece inesperadam ente em vários problem as
exegéticos. A crítica à redação, por exem plo, m ostra com o m uitas vezes a
narrativa bíblica colore e interpreta acontecim entos históricos. Para alguns
estudiosos, essa característica é prova de que os escritores bíblicos m anipula­
ram os fatos. Os escritores conservadores, tem endo as im plicações, m uitas
vezes se esquivam de tais aspectos e procuram , por exemplo, m inim izar as
diferenças entre os Evangelhos. Estudiosos evangélicos que conhecem o va­
lor do trabalho de crítica à redação nem sempre tratam com seriedade dos
im portantes questionam entos teológicos levantados por esse m étodo. A visão
reform ada da inspiração bíblica, entretanto, cam inha lado a lado com a com ­
preensão reform ada da História. O Deus que controla os acontecim entos da
H istória é o m esm o Deus que interpreta esses acontecim entos nas Escrituras
e, portanto, não pode haver qualquer contradição inerente entre os dois. Isso
não significa que estam os livres para adotar qualquer visão das narrativas,
m esm o que enfraqueça sua confiabilidade. Também não sugere uma solução
autom ática para m uitos problem as difíceis. Mas significa que não precisam os
“proteger” a credibilidade das Escrituras ao garantirmos que estejam em con­
formidade com as nossas expectativas em relação aos escritores históricos.193
A doutrina da soberania divina tam bém nos ajuda a com preender o cará­
ter central do conceito de aliança nas Escrituras. Com o bem sabem os, o
calvinism o é caracterizado por um a visão cham ada de teologia da aliança. O
term o significa diferentes coisas para diferentes pessoas; ele serve, de fato,
com o form a conceituai de abranger um a rica e am pla variedade de ênfases,
algum as mais claram ente bíblicas do que outras. Fundam entalm ente, referese à disposição de Deus em seu plano da salvação. É Deus quem tom a a
iniciativa de form ar um povo para si, de modo que a afirm ação “Eu sou o teu
D eus e vós sereis o m eu povo” oferece um princípio que perm eia toda a his­
tória da redenção (de Gênesis 17.7,8 a Apocalipse 21.3).
Em vários pontos, a exegese deve ser guiada pela fidelidade a esse prin­
cípio, com o nas passagens baseadas na doutrina da salvação pela graça, ou
quando analisam os a função da lei m osaica em relação à aliança com Abraão.
Este conceito, evidentem ente, tem m uito a dizer sobre questões relacionadas
191 T ratei desse problem a em “N e d B . Stonehouse and R edaction C riticism ” , W TJ 4 0 (1977-78): 777 8 ,2 8 1 -3 0 3 .
à profecia e ao lugar do povo em Israel. Tradicionalm ente, por exem plo, o
dispensacionalism o criou um a forte separação entre Israel e a igreja cristã.
Escritores mais recentes reconhecem características im portantes com uns a
am bas,194 porém a unidade orgânica do povo de Deus ao longo do tem po é
um a ênfase distintiva da teologia da aliança. Essa ênfase, por sua vez, tem
im plicações profundas sobre nossa com preensão da eclesiologia (inclusive as
questões de governo da igreja, batismo, etc.), do uso que o cristão faz do
A ntigo Testam ento e m uito mais.
Finalm ente, um entendim ento da doutrina de Calvino ou Agostinho (a
m esm a de Paulo!) acerca da soberania e da predestinação afetam diretam ente
a com preensão da interpretação bíblica.195 Não basta reconhecer o senhorio
de Deus sobre a história bíblica, se nós m esm os, com o intérpretes, não nos
subm eterm os a esse senhorio. Aliás, não faz sentido afirmar, por um lado, que
os acontecim entos relacionados às Escrituras, bem como a redação das E scri­
turas são um cum prim ento da vontade de Deus e, por outro lado, supor que
nossa interpretação desse m aterial tem um a espécie de natureza neutra e cará­
ter independente. Ainda assim, alguns daqueles que estudam a Bíblia pare­
cem pensar (ou pelo m enos agem com o se pensassem ) que depois de “todo o
trabalho” de acom panhar a redação das Escrituras por muitos indivíduos di­
ferentes durante muitos séculos, Deus resolveu ficar apenas observando, en­
quanto os crentes tentam entender o que fazer com os textos bíblicos! B em ao
contrário. Os propósitos divinos estão sendo cum pridos ainda hoje na vida
dos crentes, enquanto ouvem as E scritu ras da m esm a form a com o e s ta ­
vam sendo cum pridos quando D eus acom panhou os acontecim entos da
histó ria da re d e n ç ã o .196
As im plicações dessa verdade são um tanto abrangentes. No m ínim o,
ela deve nos encher de um senso de hum ildade perante a m ajestade de Deus;
verdadeiram ente, sem ele nada podem os fazer (Jo 15.5), e é só porque ele nos
unge com o seu Espírito que somos capazes de aprender (lJ o 2.27). Esse
princípio tam bém lança algum a luz sobre as difíceis perguntas que cercam
assuntos com o a aplicação correta das Escrituras, o uso de m étodos alegóri­
15,4 N o capítulo 8 o p rofessor K aiser p rocura um m eio-term o entre o d ispensacionalism o e a teologia
d a aliança n essa questão. P orém , não fica claro para m im se ele fez ju stiç a à ênfase com a qual
os escritores do N ovo T estam ento encaram as prom essas do A ntigo T estam ento cum pridas no
contexto da igreja.
195 Para um a discussão m ais geral sobre essa questão ver Vern S. Poythress, “G o d ’s L ordship In
Interp retatio n ” , W JT 50 (1988): 27-64.
196 É im portante ressaltar m ais um a vez que, apesar de parecer um paradoxo, a dou trin a d a sobera­
n ia divina dentro d a H istória não suspende a iniciativa h um ana nem coloca sobre D eus a re sp o n ­
sabilidade sobre o pecado hum ano. D e m aneira sem elhante, a realidade da soberania de Deus
em n ossa vida com o cristãos tam bém não garante q u e irem os sem pre fazer o que é certo e nem
nos de sc u lp a q u a n d o fazem os o que é errado.
cos e as declarações dos teóricos sobre o papel do leitor. Enquanto com parti­
lho da preocupação do professor K aiser sobre métodos superficiais de inter­
pretação (especialm ente nos estudos bíblicos das igrejas), m inha atitude em
relação ao estudo com um e popular das Escrituras não é de form a algum a tão
negativa. Apesar de não aprovar nem recom endar os m étodos herm enêuticos
de Orígenes, é difícil para mim dispensá-los sim plesm ente sem fazer uma
pergunta prem ente: Por que a interpretação alegórica falou ao coração de
tantos crentes e por que continua a ir ao encontro de suas necessidades nos
dias de hoje?197 Da m esm a form a, uma leitura da Bíblia que enfatiza o papel
do leitor, especialm ente quando feita em oposição à interpretação histórica,
pode facilm ente tornar-se uma desculpa sutil para encontrar aquilo que estamos
procurando. Os questionam entos sobre essa nova visão são sérios dem ais para
serem ignorados.
Se acreditam os que o Espírito de Deus está de fato agindo quando os
cristãos exploram as Escrituras e, se sua tarefa de esclarecer é algo m ais do
que sim plesm ente identificar o significado do texto, não é verdade então que,
de algum a form a, os intérpretes contribuem para o sentido da Bíblia a partir
de seu próprio contexto? Deus não espera até que nos tornem os m estres do
m étodo histórico-gram atical para nos ensinar algum a coisa. Em vez disso, ele
usa até m esm o nossa ignorância para nos guiar até ele e lança m ão de nossa
capacidade de fazer associações como um meio de reconhecerm os sua verda­
de. Há algum tem po atrás ouvi um pastor testem unhar sobre a bondade de
Deus por causa de um acontecim ento um tanto trivial. Num m om ento de de­
sânim o enquanto caminhava, ele encontrou um galho atravessado sobre a cal­
çada. Por algum motivo, aquilo o fez lem brar da im agem bíblica do cajado e
das m uitas verdades consoladoras associadas a ele. Devem os condenar esse
pastor por sua interpretação alegórica daquele acontecim ento e proibi-lo de
usar esse tipo de herm enêutica novamente? Ou devemos reconhecer que Deus,
em sua sabedoria e soberania, deleita-se em trabalhar em nós seja qual for o
nível de “receptividade” em que nos encontram os?
O fato de Deus poder usar nossa ignorância para sua glória não é motivo
para continuarm os ignorantes - e não ousemos apelar para a soberania divina
para desculpar nossas falhas. D iante disso, devemos fazer tudo o que está ao
nosso alcance para ajudar os crentes a com preenderem o caráter histórico das
Escrituras e, assim, respeitarem seu significado original. M as é preciso que,
em sua leitura da B íblia especialm ente para fins devocionais, os crentes repri­
m am as associações que lhes vem à m ente? O contato anterior com outras
partes das Escrituras leva-nos inevitavelm ente a fazer associações literárias
197Ver m inha discussão em H a s the C hurch M isread the B ible? The H isto ry o f Interpretation in the
L ig h t o f C urrent Issues (G rand R apids: Z ondervan, 1987), capítulo 3.
que, do ponto de vista exegético, são forçadas. Mas, desde que tais associações
sejam bíblicas - desde que não afirmemos aquilo que não faz parte do significa­
do original do texto que estamos lendo - será mesmo necessário condenarmos
esse método comum (e que persistiu ao longo do tem po!) de se encontrar conso­
lo e orientação nas Escrituras? Será que a idéia do poder de Deus em nossa ativida­
de interpretativa não deve afetar nossa avaliação desse problema?198
H á mais um a conclusão a tirar da doutrina da soberania divina. Se reco­
nhecem os o senhorio de Deus em nossa interpretação, esse fato deve nos en­
cher de confiança. E certo que há m uito o que nos desestim ular quando estu­
dam os as Escrituras. Algum as vezes, o processo de nos fam iliarizarm os com
a história da interpretação bíblica pode ser um a experiência desnorteante.
M esm o nos dias de hoje, quando olham os à nossa volta, tom am os consciên­
cia das controvérsias teológicas entre os crentes e vemos quão deprim entes
elas podem ser. E, com o se isso tudo não fosse suficiente, quando exam ina­
mos a nós mesmos encontramos ignorância, egoísmo, dureza, engano - e uma
série de obstáculos que parecem eliminar todas as esperanças herm enêuticas!
Entretanto, um m om ento de reflexão sobre a soberania de Deus deve ser
suficiente para nos colocar nos eixos. Se o Senhor nos garante que sua palavra
não voltará vazia para ele, pelo contrário, que ele realizará os seus desejos
(Is 55.11), com o podem os pensar que seus propósitos serão frustrados e seu
povo não chegará “à unidade da fé e do pleno conhecim ento do Filho de
D eus” (E f 4.13)? Que possam os aprender a fazer todas as nossas interpreta­
ções bíblicas na certeza de que “aquele que com eçou boa obra em [nós] há de
cum pri-la até o D ia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).
198 P or razões sem elhantes, estou aberto para a p ossibilidade de que os apóstolos, em sua leitu ra do
A ntigo T estam ento, podem ter em algum as ocasiões usado de m étodos que não estão em c o n ­
fo rm idade com aquilo que consideram os m etodologia exegética “ correta” . Sem , de form a a lg u ­
m a, obscurecer a distinção entre a obra inspirada dos escritores bíblicos e o nosso uso das
E scrituras, devem os fazer ju stiç a à ligação de co n tinuidade que há entre eles e nós. (Ver G. Vos,
B ib lica l Theology: O ld a n d N ew Testam ents (G rand Rapids: E erdm ans, 1948), 325-36. O p ro ­
fesso r K aiser considera d ifícil acreditar que Paulo p ed e ter usado um argum ento sobre as E scri­
turas que não representasse o sensus literalis do texto do A ntigo T estam ento (ver capítulo 10).
Se a com preensão apostólica do A ntigo T estam ento era fundam entalm ente equivocada, seria
im possível defen d er a viabilidade intelectual da m ensagem do evangelho. M as tam bém não
posso aceitar que um a eventual alusão “livre” ou “associativa” - m esm o no m eio de um a argu­
m entação séria - reflete necessariam ente um a com preensão incorreta da o bra literária a que se
refere. Ver m eu artigo “T he N ew Testam ent Use o f the O ld Testam ent: Text Form and A uthority” ,
em Scripture a n d Truth, org. por D. A. C arson e J. W. W oodbridge (G rand R apids: Z ondervan,
1983), pp. 147-65, especialm ente 157-58.
O cerne da interpretação bíblica não se alterou m uito no
últim o século e meio: Devemos ficar a sós com o autor. Entretan­
to, houve um a enorm e m udança: A tarefa herm enêutica não está
com pleta até que tenham os lidado com o problem a da aplicação
do texto. Agostinho percebeu esse m esm o dilem a há m uito tem ­
po, porém sua solução levou à proposta insatisfatória de três ou­
tros sentidos para as Escrituras além do sentido literal: o alegóri­
co, o tropológico e o anagógico.
Com o teste para determ inar se a teoria de um único signifi­
cado porém m últiplas aplicações aqui defendida é de fato utilizá­
vel, usamos as quatro principais “interpretações” dadas ao longo
dos séculos para a parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1 16). Concluím os que elas não passam de quatro diferentes apli­
cações de um único princípio.
Ajuda é oferecida ao intérprete para m over-se do princípio
de significado único para a aplicação do significado do texto.
Essa assistência pode ser encontrada (1) nas declarações explíci­
tas feitas na perícope, (2) nos sumários editoriais dados pelos
autores das Escrituras, (3) nas cláusulas de m otivação ligadas às
ordens bíblicas e (4) em ilustrações sobre como as Escrituras usam
textos bíblicos anteriores para a edificação.
Ao aplicar os princípios por trás das ordens bíblicas, devese ter cuidado de separar o que é ensinado daquilo que sim ples­
m ente foi registrado na Bíblia e de não universalizar e generali­
zar prom essas bíblicas além do seu escopo de referência.
CAPÍTULO 15
Observações finais
W a lte r
C.
K a iser, J
r
.
E m 1859, Benjam in Jowett, o então Professor Régio de Grego da U niversida­
de de Oxford, publicou um artigo sobre a interpretação das Escrituras. Nesse
artigo Jow ett propôs a tese de que “As Escrituras possuem um único signifi­
cado - o significado que tinham na m ente do Profeta ou Evangelista que falou
ou escreveu para os ouvintes ou leitores que o receberam pela prim eira vez” .
Interpretações, acréscim os posteriores ou idéias ligadas a um texto bíblico,
ou até m esm o tradições que vieram depois dele deveriam ser deixados de
lado em favor do significado único do texto. De acordo com Jowett: “O ver­
dadeiro uso da interpretação im plica livrar-se da interpretação para que fique­
mos a sós com o autor.” 199
A pesar de todos os anos que se passaram desde que essas palavras foram
publicadas pela prim eira vez, a questão central sobre a interpretação da B í­
blia, de certa form a, não se afastou muito da tese central de Jowett. Porém ,
em outros aspectos, estam os a anos-luz de distância desse objetivo. Nos dias
de hoje, o crescente papel da cultura, im aginação, o progresso da revelação, o
papel do ouvinte e do leitor, o desenvolvimento das teorias histórico-críticas
de com preensão da Bíblia e as novas descobertas tanto no universo científico
quanto nas teorias da com unicação com plicaram as coisas de m aneiras que
Jowett jam ais poderia ter imaginado.
M as, quanto m ais se estuda o problem a do significado único versus
m últiplos significados do texto, parece mais tentador dizer que essa discus­
191) B enjam in Jow ett, “O n the Interpretation o f Scripture” , E ssays a n d R eview s, T ed. (L ondres:
L ongm an, G reen, L ongm an and R oberts, 1861), pp. 330-433, citação nas pp. 378, 384.
são, pelo m enos da form a como se apresenta entre evangélicos que acreditam
nos m esm os conceitos de revelação, é um desacordo sobre o problem a da
aplicação mais do que sobre o objetivo da interpretação em si.
U m dos m aiores ganhos e mais incom uns benefícios que vimos na se­
gunda m etade do século 20 é a ênfase na idéia de que nossa tarefa herm enêutica
não está com pleta até que nó§, bem com o nosso público contem porâneo, te­
nham os aplicado o significado que acreditam os que o autor está com unican­
do. Jam ais deveria ter deixado um vazio entre o que o texto significava e o
que significa, entre o passado e o agora. Pode-se dizer que esse vazio existe
apenas com o um a conveniência acadêm ica para um a separação m om entânea
na tarefa de exam inar duas partes inseparáveis de um todo. M as aquilo que o
estudioso separa a fim de realizar certos estudos sob seu m icroscópio, deve
ser reunido novam ente pelo intérprete com o entendim ento de que o processo
não está com pleto enquanto o texto não for aplicado e seu significado con­
tem porâneo não for com preendido.
Sim patizo com aqueles intérpretes que lutam , por um lado, com o que
parecem ser atribuições racionalistas de um único significado para o texto em
questão e, por outro lado, com a necessidade de discernir algum significado
espiritual e relevância teológica de narrativas perturbadoras como a bebedei­
ra de Noé, o assassinato de Sísera, a escolha de Ester para rainha ou um salm o
de m aldição com o Salmo 137. Todos devem lutar com o dilem a de reconciliar
o significado superficial de tais narrativas bíblicas e textos com a necessidade de
mostrar como esses mesmos textos podem edificar o leitor contemporâneo.
A solução de Agostinho para o problema do significado
Agostinho percebeu o dilem a que apresentam os. Com o vimos no capítulo 12,
ele propôs que, com o as Escrituras foram dadas para a edificação da igreja,
além do sentido literal o intérprete poderia apelar para outros três sentidos,
cada um correspondendo a um a virtude. O sentido alegórico correspondia à
fé, tendo em vista que ensinava a igreja a crer; o sentido tropológico era a
expressão do amor, pois ensinava aos indivíduo o que deviam fazer; e o sen­
tido anagógico apontava para o futuro e para a virtude da esperança. M as,
m uito raram ente, nas mãos dos m elhores intérpretes entre os pais da igreja
prim itiva e na igreja medieval, foi possível encontrar mais do que um signifi­
cado além do literal. Ao que parece, o que estava sendo defendido era que um
texto precisava ainda ser aplicado a situações da vida real, bem com o com ­
preendido em seu contexto original. U m a das aplicações podia ser doutrinária
(Agostinho usa a expressão “fé”), outra podia ser moral e ética (“am or”),
outra ainda podia estar relacionada ao escatológico e ao futuro (“esperança”).
Cada um dos três sentidos normalmente era coordenado, um por vez, ao sentido
literal, o que sugere que as palavras significado e sentido estavam sendo usa­
das por ele de m aneiras que se aproxim am de nossa idéia de “significação” e
“aplicação” sem substituir o significado que o texto continha em si.
M as não parece justo igualar tal sistem a de interpretação à observação
freqüentem ente citada de C. S. Lewis, que com entou em seu livro Till We
Have Faces: “U m autor não precisa necessariam ente entender o significado
de sua própria história m elhor do que qualquer outra pessoa.”200 U m a aplica­
ção m últipla baseada em com preensão literal de um texto não é o m esm o que
um a pluralidade de verdades ou níveis distintos de significado em um só,
dentro da m esm a passagem (ou m esm o de um princípio desconhecido), sen­
do aplicada de m aneiras que não são governadas pelo texto.
Um caso de teste para compreender o significado único
Explorem os as diferenças entre (1) um princípio único ou verdade ensinada
por um escritor hum ano nas Escrituras (que pode ter m últiplas aplicações em
áreas da doutrina, m oral e acerca do futuro) e (2) m últiplos níveis de signifi­
cado para um determ inado texto. Com o caso para teste, considerem os a pará­
bola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16).201
N essa parábola, o dono de um a vinha contrata trabalhadores para traba­
lhar durante todo o dia em sua vinha pelo salário costum eiro de um denário.
Porém , ele acaba precisando de mais ajuda, então ele volta ao m ercado às
nove, ao m eio-dia, às três e às cinco e contrata os trabalhadores que lá encon­
tra. A única prom essa que faz àqueles que contrata às nove, ao m eio-dia e às
três da tarde é de que lhes dará o que é justo. Quanto aos trabalhadores que
contrata às cinco, ele os m anda para a vinha sem nenhum a prom essa sobre o
salário que irão receber.
Quando chega a hora do pagam ento de cada trabalhador, o proprietário
instrui o adm inistrador a pagar com eçando por aqueles foram contratados às
cinco horas. Em vez de dar a eles apenas um doze avos de um denário, ele
paga o salário de um dia. Quando aqueles que trabalharam desde cedo até o
fim do dia recebem a m esm a quantia - um único denário - em vez da quantia
adicional que esperavam quando viram os que haviam sido contratados por
últim o receberem um denário, eles com eçaram a reclam ar. O proprietário,
en tretan to , respondeu que não havia enganado ninguém , pois havia pago
o que tinha prom etido. Se desejava ser generoso com aqueles que haviam
chegado por últim o, esse era um privilégio seu. Jesus afirm ou que assim é
o reino de D eus.
200 W. H. L ew is, org. Letters o f C. S. Lew is (N ova York: H arcourt, B race and W orld, 1966), p. 273.
201 Estou em dívida com D avid. C. Steinm etz em sua obra “T he Superiority o f Pre-critical E xegesis” ,
T heology Today 37 (1980): 27-38, especialm ente pp. 33-35, pelo esboço dos vários pontos de
v ista aqui apresentados.
Existem duas interpretações básicas dessa parábola: um a que provavel­
m ente surgiu com Irineu e outra com Orígenes. Orígenes via essa parábola
com o um com entário sobre as várias idades em que um a pessoa pode conver­
ter-se a Cristo, sendo que o “dia” eqüivale a toda a vida de um indivíduo.
Alguns serviram e am aram a Cristo desde sua infância; outros vieram a se­
guir a Cristo bem mais tarde na#vida. Irineu, entretanto, via a parábola como
um a referência à história da salvação, na qual várias épocas da H istória - de
A dão a Noé, de Noé a Abraão, de Abraão a Davi e de Davi a Cristo - eram
retratadas, sendo que a Trindade seria o dono da vinha e Cristo o adm inistra­
dor. Os trabalhadores contratados na décim a prim eira hora eram os gentios. O
dia do pagam ento veio com a ressurreição, quando os trabalhadores judeus
reclam aram , pois haviam feito a m aior parte do trabalho daquele dia, mas
Deus havia sido igualm ente generoso para com todos.
O autor anônim o do século 14 da obra Pearl (Pérola) propôs um a tercei­
ra interpretação, aplicando a parábola à m orte de uma menina. M esm o que
ela tivesse apenas 2 anos de idade, e tivesse, por assim dizer, entrado na vinha
na décim a prim eira hora (às cinco da tarde), Deus não havia deixado de dar a
ela a sua graça.
John Pupper de Goch, um teólogo flam engo do século 15, sugeriu um a
quarta interpretação. Para ele a parábola atacava a doutrina das recom pensas
proporcionais no céu, de acordo com serviços prestados a Jesus Cristo. Os
únicos a entrarem em contenda por causa de recom pensas proporcionais são
aqueles representados pelos prim eiros trabalhadores contratados na vinha.
M as o Senhor rejeitou a idéia de que, por terem trabalhado doze vezes mais,
deveriam receber um pagam ento doze vezes maior.
E m 1525, M artinho Lutero expandiu sua concordância inicial com a
interpretação do teólogo flam engo ao insistir que a parábola celebrava a bon­
dade de Deus e resistia a toda religião baseada no cum prim ento da lei e nas
boas obras. Todos os trabalhadores são indignos, m esm o que não o sejam
pelas m esm a razões. A salvação não está fundam entada no m érito hum ano,
mas apenas na bondade e graça de Deus.
A questão que fica para nós é se esses quatro principais usos da parábola
representam quatro níveis diferentes de significado, ou se representam um
único nível e quatro diferentes aplicações. As evidências são a favor do se­
gundo caso, ou seja, quatro aplicações de um m esm o princípio que, por sua
vez, vem do sentido natural ou literal da parábola. Todos os quatro concor­
dam que a parábola é um a declaração da generosidade e da graça de Deus
para com os trabalhadores indignos. U m a vez que essa bondade de D eus é
captada na passagem , a relação de judeu para gentio, o problem a de um a
m orte prem atura ou de um a conversão tardia e a questão das recom pensas
proporcionais podem ser vistas de várias m aneiras, nas quais o m esm o princí­
pio está sendo aplicado em diferentes culturas, épocas, contextos, necessida­
des e problem as pessoais. Cada aplicação é eficaz e válida desde que seja
uma explicação mais detalhada do princípio comum que está por trás do texto.
Assim, em vez de falar em níveis de significado em um texto, talvez o
que se tenha procurado ao longo da história da interpretação - incluindo a
atual preocupação com o papel do leitor - são níveis de aplicação e significa­
do, ou o que um escritor cham a de “significados conseqüentes” . Um fato
com um a todas as quatro interpretações principais dessa parábola é a im agem
do proprietário da vinha como um doador cheio de graça, generosidade e
benevolência. Se esse princípio não fosse fundamental para todo o resto que esta­
va sendo dito, não haveria como validar a aplicação que estava sendo feita. Tam­
bém não haveria autoridade por trás da aplicação atribuída a essa parábola.
Identificando e usando princípios gerais
U m a grande parte da arte de interpretação de passagens é m over-se das ques­
tões específicas m encionadas no texto bíblico para o princípio geral que está
por trás desses elem entos específicos.
Ao relatar um a história de fam ília, Jack Kuhatschek, me fez lem brar de
um a experiência parecida que tivemos com o fam ília com nosso filho mais
novo, Jonathan.202 Jonathan ficou encantado quando finalm ente estava com
idade suficiente para agradecer pela com ida à m esa em nome de toda a fam í­
lia. Para a exasperação de seus irm ãos e irm ã mais velhos, ele usou a oportu­
nidade para falar de praticam ente tudo o que viu sobre a mesa. “Obrigado
pelo sal e pela pim enta. Obrigado, Senhor, por nossas colheres, garfos e fa­
cas. O brigado pelo leite, pela salada, pelo pão...” E assim ele continuou sua
longa lista enquanto a com ida esfriava. Finalm ente, e para a felicidade de
seus irm ãos já irritados, Jonathan concluiu com o “A m ém ” .
Ou as instruções que havíam os dado a Jonathan sobre com o orar agrade­
cendo a com ida em geral não foram entendidas ou eram intencionalm ente
ignoradas. Porém , passados alguns meses, um dia ele de repente nos surpre­
endeu ao dizer: “Senhor, obrigado pela com ida sobre nossa mesa. Em nome
de Jesus, Am ém.” Jonathan havia aprendido a generalizar.
A legitim idade de tais práticas de generalização é repetidam ente afir­
m ada no próprio texto bíblico. D eus não apenas resum e toda a sua lei em
dez m andam entos (Ex 20.1-17; D t 5.6-21), com o tam bém dá outros sete
sum ários de leis. O Salm o 15 conserva a Lei de D eus em onze princípios;
Isaías 33.15 a expõe em seis m andam entos; M iquéias 6.8 as resum e em
três ordens; Isaías 56.1 as reduz ainda m ais a dois m andam entos; e A m ós
202 Jack K uhatschek, A p p ly in g the B ible (D ow ners G rove, IL: interV arsity Press, 1990), pp. 51-52.
5.4, H abacuque 2.4 e Levítico 19.2, colocam toda a lei em um a única decla­
ração geral.
O próprio Jesus deu continuidade a essa m esm a tradição ao resum ir a lei
toda em dois princípios: “Am arás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de
toda a tua alm a e de todo o teu entendim ento... O segundo, sem elhante a este
é: A m arás o teu próxim o cornp a ti m esm o” (M t 22.37-40; Lc 10.26-28;
D t 6.5; Lv 19.2, 18).
A fim de identificar princípios gerais no texto bíblico, há três perguntas
que os intérpretes devem fazer: O autor afirma o princípio de m aneira explí­
cita na passagem em questão? Se não o faz, um contexto mais am plo revela
esse princípio geral? A situação específica do texto contém quaisquer razões,
ex plicações ou dicas que poderiam sugerir o que m otivou o escrito r a ser
tão concreto em vez de abstrato, ao m encionar as ilustrações específicas
que ele escolheu?
A busca pelos princípios no texto bíblico norm alm ente não se encontra
em palavras ou frases isoladas e certam ente não está em versículos editoriais
do texto. Em vez disso, tais princípios são m ostrados pela tese que controla
parágrafos, capítulos, seções de um livro, e até mesmo livros inteiros da Bíblia.
H á inúm eros exem plos de um princípio específico declarado explicita­
m ente dentro de um bloco de ensinam entos. E o caso, por exem plo, da quinta
visão dentre as oito visões de Zacarias, em que ocorre a aparição enigm ática
de um candelabro de ouro ladeado por duas oliveiras. Quando o profeta per­
guntou “Que é isto?” , recebeu como resposta - “Esta é a palavra do Senhor a
Zorobabel: Não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Se­
nhor dos E xércitos” (Zc 4.6). Esse é princípio controlador geral de toda a
passagem : o que for conquistado não virá pelas mãos de líderes políticos e
religiosos; virá por m eio do Espírito Santo.
Em 1 Coríntios 8 Paulo trata da questão de com prar com ida que foi
oferecida a ídolos. No versículo 9 ele declara explicitam ente o princípio rele­
vante: “Vede, porém , que esta vossa liberdade não venha, de algum m odo, a
ser tropeço para os fracos.” Essa idéia vale para qualquer liberdade ou restri­
ção a ser exercida na com pra de carne nos m ercados que eram conhecidos por
sua ligação com o tem plo e seus rituais sacrificiais.
M as, e se o texto não fala diretam ente qual é o princípio? Isso acontece
com freqüência no texto narrativo que tende a declarar as coisas indiretam en­
te, em lugar de colocá-las na form a de discurso direto, com o acontece na
prosa. Nesses casos, podem os contar com o contexto geral para nos ajudar.
Gênesis 37-50 registra a história de José. Apenas um a ou duas vez du­
rante a longa narrativa dessa história recebem os algum a indicação do que
trata esse episódio todo e por que Deus queria que ele fosse registrado em sua
Palavra. Quando José se revelou aos seus irmãos, ele concluiu: “Agora, pois,
não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós m esm os por me haverdes
vendido para aqui; porque, para a conservação da vida, Deus me enviou adi­
ante de vós... Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão
na terra e para vos preservar a vida por um grande livram ento” (Gn 45.5, 7).
M ais tarde, José repetiu esse tem a aos seus irm ãos ao dizer-lhes: “Vós, na
verdade, intentastes o ma] contra mim; porém Deus o tornou em bem, para
fazer, com o vedes agora, que se conserve m uita gente em vida” (Gn 50.20). O
princípio da providência prevalecente de Deus, portanto, é a chave para a
interpretação da narrativa sobre José. Som ente o contexto a revela, m esm o
que cada episódio individual ou perícope dentro da história não m ostre esse
princípio claram ente com o sua própria conclusão.
Em outros casos, nem uma declaração direta do princípio e nem m esm o
um a declaração indireta dentro do contexto mais amplo aparece. O que fazer
então? Aqui, a busca pelo princípio geral deve ser feita com a m inúcia de
detetives investigando a cena de um crim e em busca da pistas.
Outros recursos literários são acionados nesse ponto, tais com o a cláu­
sula de motivo, que está freqüentem ente ligada aos m andam entos bíblicos.203
As cláusulas de motivo podem tom ar pelo menos um a entre quatro form as (a
cláusula de motivo aparece em itálico):
1. E xplanatória - um apelo ao bom senso do ouvinte. “Se um h o ­
m em a m aldiçoar a seu p a i ou a sua mãe, será m orto; am aldiçoou
a seu p a i ou sua m ãe; o seu sangue cairá sobre ele ” (Lv 20.9; ver
tam bém D t 20.19; 20.5-8).
2. É tica - um apelo à consciência, à m oral. “Q uando edificares um a
casa nova, far-lhe-ás, no terraço, um parapeito, p ara que nela
não ponhas culpa de sangue, se alguém de algum m odo cair dela ”
(D t 22.8).
3. Religiosa e teológica - um apelo à natureza e vontade de Deus.
“Não profanarão as coisas sagradas que os filhos de Israel oferecem
ao Senhor, pois assim os faria m levar sobre si a culpa da iniqüida­
de, comendo as coisas sagradas; porque eu sou o Senhor que os
santifico” (Lv 22.15,16; Ver Dt 18.9-12).
4. H istória da redenção - um apejo à intervenção do Senhor na histó­
ria de seu povo. “Quando vindim ares a tua vinha, não tornarás a
rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será o
restante. Lembrar-te-ás que fo ste escravo na terra do Egito; pelo
que te ordeno que fa ça s isso” (Dt 24.21,22).
203 O prim eiro estudioso de tem pos m odernos a m ostrar a função da cláusula de m otivo foi B erend
G em ser, “T h e Im portance o f M otive C lause in O ld T estam ent L aw ” , em VT, volum e sup. 1
(1953): 50-66.
U m a vez que identificam os o princípio geral, devemos aplicar esse prin­
cípio à nossa vida, seja à mesma situação que o texto das Escrituras apresenta
ou a um a situação sem elhante ou comparável.
O livro de Tiago ilustra ambas as form as de aplicar um princípio básico.
Esse livro pode m uito bem ser o resum o de um a série de serm ões pregados
por Tiago e que têm com o base lyna parte da Lei da Santidade, nesse caso, em
Levítico 19.12-18. Cada versículo dessa passagem , exceto pelo versículo 14,
é citado ou aludido no livro de Tiago.204
Em Tiago 2.1, o autor repete um a parte da “lei real do am or” de Levítico
19.15 que diz: “Não farás injustiça no juízo.” O princípio é declarado clara­
m ente. Ele tam bém é ilustrado em Tiago 2.2-7 quando se fala com o a igreja
deve acom odar o hom em rico usando anéis de ouro e roupas de luxo e o pobre
andrajoso. Se o hom em pobre está sentado no chão e o hom em rico recebe um
bom assento, não seria esse um im portante tipo de discrim inação que ofende
o princípio de não se m ostrar parcialidade? M as não é apenas nesse contexto
que a m esm a política não-discrim inatória poderia ser usada com autoridade e
precedência bíblica. Aliás, Tiago 2.9 repete o princípio m ais um a vez e m os­
tra com o ele se encaixa num princípio ainda maior: “Am arás o teu próxim o
com o a ti m esm o” (Lv 19.18b; Tg 2.8). O princípio dessa passagem enquadra-se em qualquer situação que possa prejudicar meu próxim o (definido nas
Escrituras com o qualquer necessitado).
Assim, a aplicação pode envolver um a situação idêntica em que crentes
negros ou os de outras origens étnicas eram segregados a um a parte m enos
confortável da igreja, a fim de dar preferência ao grupo racial dom inante ou à
classe que “pagava as contas” daquela igreja. Ou ainda, a aplicação pode
estender-se além de uma situação igual ou idêntica para outras que sejam
sem elhantes e com paráveis desde que tam bém estejam relacionadas ao prin­
cípio geral em questão.
Situações especiais na aplicação dos princípios bíblicos
Até aqui, argum entam os que devemos identificar o princípio geral da passa­
gem e procurar aplicá-lo a um a situação igual ou sem elhante em nossa vida
nos dias de hoje. M as m uitas vezes deparam os com certos tipos especiais de
problem as quando tentam os aplicar determ inadas form as literárias da Bíblia,
especialm ente as leis, os exem plos e as prom essas bíblicas. Cada um a dessas
situações deve ser exam inada em função de um a ou duas características sin­
gulares que cada uma apresenta.
204 Ver L u k eT . Johnson, “T h e use o f L eviticus 19 in th e L e tte r o f Jam es” , JB L 101 (1982): 391-401.
Ver tam bém “A pplying the P rincipies o f the C erim onial Law: L eviticus 19 and Jam es” , capítulo
11 em W alter C. Kaiser, Jr., The Uses o f the O ld Testam ent in the N ew (C hicago: M oody, 1985),
pp. 221-24.
AS LEIS BÍBLICAS
Em prim eiro lugar, considerem os as leis bíblicas. D iz-se com freqüência que
o Antigo Testam ento tem mais de seiscentas leis. Na verdade, o núm ero usa­
do nos meios rabínicos é 613, mas em nenhum lugar do texto o Antigo Testa­
m ento declara o núm ero exato. Alguns crentes m odernos observam algum as
(mas não todas) dessas leis. Existe algum a base real para tal distinção, ou ela
é sim plesm ente deixada por conta dos instintos e sentim entos de cada crente?
As próprias Escrituras nos oferecem um a form a de selecionar as leis que
continuam a ter relevância em nossa vida e deixar de lado aquelas que se
tornaram obsoletas por meio de uma declaração de Deus dizendo que elas já
não são mais úteis. M esm o que a lei seja um a só, somos ensinados a distin­
guir pelo m enos três aspectos diferentes nessa lei. Jesus autorizou tal posição
quando usou o conceito em M ateus 23.23 declarando que alguns preceitos
são m ais im portantes do que outros. E essa classificação e priorização dentro
da lei que estabelece que o caráter moral da lei é m ais elevado que os aspec­
tos civis e cerimoniais. Nesse versículo, justiça, m isericórdia e fidelidade são
m ais im portantes que as leis sobre o dízim o das especiarias, pois, evidente­
m ente, refletem a natureza e o caráter de Deus.
Quando Deus deu instruções sobre a construção do tabernáculo com
todos os seus utensílios, cultos, rituais e m inistérios, ele deixou im plícita um
“prazo de validade” ao inform ar M oisés de que ele deveria fazer e arrum ar
todas essas coisas exatam ente “segundo o modelo que te foi m ostrado no
m onte” (Êx 25.9, 40). Tendo em vista que M oisés construiu tudo de acordo
com o m odelo daquilo que Deus lhe m ostrou, ele obviam ente não estava de
posse do que era real. Esse tabernáculo verdadeiro perm anecia com Deus,
separado de M oisés e de Israel, até m esm o quando o escritor de Hebreus
tratou desse assunto (Hb 8.5). Depois que o verdadeiro análogo para cada um
desses m odelos veio na prim eira vinda de Cristo, incluindo sua morte, ressur­
reição e m inistério, podem os supor que tudo o que fazia parte da antiga lei
cerim onial podia ser colocado de lado, exceto a aplicação dos princípios que
perduram até nossos dias. As form as, rituais e locais exatos foram substituí­
dos, conform e é ensinado em Hebreus 9, 10.
Alguns ensinam que apenas aquelas leis que são repetidas no Novo Tes­
tam ento são normativas para os dias de hoje. M as há muitas leis que ainda
oferecem orientação para o crente e não são encontradas no Novo Testam en­
to, que falam de questões como casam ento entre parentes próxim os, estupro,
bestialidade, aborto, entre outros. O próprio Jesus tratou o Antigo Testam ento
com o sendo provido de autoridade e, portanto, devemos fazer o m esmo.
U m a lei bíblica pode continuar vigente nos princípios que ela incorpora
m esm o que a obediência à sua form a exata possa não ser mais exigida nos
dias de hoje. É o que acontece com a lei sobre não colher nas bordas de
um cam po para que os pobres possam colher naquela parte. E ssa lei não é
válida para as áreas agrícolas de nossas fazendas; porém , indo além da
econom ia agrícola refletida na lei de L evítico 19.9,10, ainda tem os o b ri­
gação de expressar, das m aneiras que nos são possíveis, nossa p reo c u p a ­
ção p rática com os pobres e os estrangeiros em nosso m eio. D iversos ou­
tros textos da B íblia tratam da m esm a questão (por exem plo, Êx 22.21-27;
Dt 14.28,29; 15.12-14).
Até m esm o a lex talionis (“olho por olho, dente por dente”) ainda é
usada. A lei foi dada aos “juizes” (Ex 21.6; 22.8,9) como uma form ulação
estereotípica que significa “faça com que o castigo seja apropriado para o
crim e” ; não procure tirar vantagem indevida da situação. Em acordos sobre
acidentes de carro, por exemplo, a regra é “pára-choque por pára-choque,
pára-lam a por pára-lam a” , não tente se aproveitar do acidente para levantar
fundos para a faculdade dos filhos.
Enquanto a tendência do Antigo Testam ento é de dar leis específicas,
para as quais devemos form ular ou identificar o princípio geral, as leis do
Novo Testam ento muitas vezes já aparecem na form a geral e, portanto, nossa
tarefa é identificar as situações específicas às quais o princípio se aplica nos
dias de hoje. Quando, por exemplo, Paulo urge “Alegrai-vos sempre no Se­
nhor; outra vez digo: alegrai-vos. Seja a vossa m oderação conhecida de todos
os hom ens” (Fp 4.4,5), a natureza geral dessa ordem é evidente. O que não
fica tão evidente são as m aneiras como devemos m anifestar a alegria no Se­
nhor e a m oderação àqueles ao nosso redor.
EXEMPLOS BÍBLICOS
A segunda área em que a aplicação de princípios gerais adquire enorm e im ­
portância é a da biografia e exemplos bíblicos. Tendo em vista que um terço
da Bíblia é apresentado sob a form a de narrativa histórica, esse não é um
pequeno problem a.
Algum as passagens nos dizem exatam ente o que deve ser adm irado e
im itado na pessoa que está sendo apresentada. No caso das duas parteiras no
Egito, Sifrá e Puá, era o seu tem or de Deus (Êx 1.17). É verdade que elas
tam bém m entiram para o faraó, mas essa questão moral não é tratada no tex­
to. Isso nos m ostra que devemos fazer a distinção entre o que a B íblia aprova
e o que ela relata.
Em outras situações, a questão que está sendo ensinada com base nos
exem plos bíblicos é levantada de modo implícito. O que dizer, por exemplo,
de Jonas? Em nenhum m om ento o texto faz uma pausa para um com entário
moral, nem indica algo de bom ou mau sobre o caráter do profeta. M as a
m e n s a g e m e s tá im p líc ita n a p e rg u n ta q u e o S e n h o r faz e co m a q u a l e n c e rra se o livro: “E n ã o h ei d e eu te r c o m p a ix ã o d a g ra n d e c id a d e d e N ín iv e ? ”
(Jn 4 .1 1 ). A re lu tâ n c ia de J o n a s e m m in is tra r e m n o m e d e D e u s p a ra u m p o v o
q u e h a v ia tra ta d o o seu p o v o tã o m al é o p o n to c e n tra l do liv ro , sem q u e isso
a p a re ç a e s c rito de m a n e ira e x p líc ita . A ssim , é c o lo c a d a d ia n te d e nós a m e s ­
m a p e rg u n ta q u e fo i fe ita a Jo n a s. A g ra ç a d e D e u s é m u ito m a io r e m a is
m a g n â n im a d o q u e a d a m a io r p a rte d as c ria tu ra s de D e u s, q u e e x p e rim e n ta ­
ra m e ssa m e s m a g ra ç a .
PROMESSAS BÍBLICAS
P o r fim , d e v e m o s o lh a r p a ra as p ro m e s s a s n a B íb lia . C o m fre q ü ê n c ia h á g ra n ­
d e c o n fu sã o n e ssa á re a , te n d o e m v ista q u e m u ito s d e nós c re sc e m o s o u v in d o
p a la v ra s c o m o : “T o d a a p ro m e s s a d a P a la v ra é m in h a.” Se e ssa s p a la v ra s
fo re m c o m p re e n d id a s lite ra lm e n te , elas n ã o m o stra m q u e o e sc o p o d e a lg u ­
m as p ro m e s s a s n ã o é u n iv e rsa l e q u e a lg u m a s p ro m e ssa s ta m b é m são a c o m ­
p a n h a d a s d e c o n d iç õ e s. A lg u m a s p ro m e s s a s fo ra m fe ita s d ire ta m e n te a c e rto s
in d iv íd u o s o u g ru p o s d e p e s s o a s e só p o d e m se e s te n d e r a lé m d e s s a s p e s ­
s o a s , q u a n d o o s p r in c íp io s g e r a is in e r e n te s d a q u e le s te x to s p e r m ite m q u e
is s o s e ja f e ito .
U m p rin c íp io g e ra l n ão é a m e s m a c o is a q u e u m a p ro m e ssa . U m a p r o ­
m e ssa b a s e ia -s e n a q u ilo q u e D e u s a firm o u q u e fa ria ou n ão fa ria ; u m p r in c í­
p io b a s e ia -s e em q u e m D e u s é, e m seu c a rá te r e su a n a tu re z a . A ssim , d e v e ­
m o s fa z e r as s e g u in te s p e rg u n ta s ao e s ta b e le c e r os p rin c íp io s c o n tid o s nas
p ro m e s s a s d e D e u s: É p o ssív e l d is c e rn ir no c o n te x to u m a d e te rm in a d a p e sso a
ou g ru p o d e p e s s o a s a q u e m e ssa p ro m e s s a é o fe re c id a d e m o d o p a rtic u la r?
H á n a p ro m e s s a q u a lq u e r e v id ê n c ia de q u e e la fo i o fe re c id a d u ra n te u m c e rto
p e río d o de te m p o o u so b c e rta s lim ita ç õ e s de te m p o e c o n d iç õ e s ? E ssa p r o ­
m e ssa é, d e a lg u m a fo rm a , q u a lific a d a n o p ro g re s s o d a re v e la ç ã o ?
A p ro m e s s a d e D e u s d e c o n s tru ir u m a “ c a s a ” ou d in a stia a p a r tir do rei
D a v i (2 S m 7 e lC r 17) c e rta m e n te lim ita -s e à lin h a g e m de D a v i e ao g o v e rn o
e re in a d o m e s s iâ n ic o de D e u s em seu re in o v in d o u ro . N ã o h á b ases q u e p e r­
m ita m a p lic a r e s s a p ro m e s s a a q u a lq u e r c a sa no s e n tid o físic o (ou d e d in a s ­
tia ) no s d ia s d e h o je.
D a m e s m a fo rm a , o u tra s p ro m e ss a s ta m b é m têm c o n d iç õ e s e x p líc ita s
ou im p líc ita s lig a d a s a e la s. 1 P e d ro 1.5, p o r e x e m p lo , a firm a q u e os c re n te s
são “ g u a rd a d o s p e lo p o d e r de D e u s ” , m as ta m b é m e x p re ssa a c o n d iç ã o p a ra
q u e isso a c o n te ç a : “ m e d ia n te a fé ” . É u m c a so se m e lh a n te ao d e C o lo sse n sse s
1 .2 2 ,2 3 , o n d e n ó s q u e u m d ia e s tá v a m o s a lie n a d o s a g o ra e sta m o s re c o n c ilia ­
do s c o m D e u s e p e ra n te su a sa n tid a d e , sem c u lp a ou re p re e n s ã o - “se é q u e
p e rm a n e c e is n a fé, a lic e rç a d o s e firm e s, n ão vos d e ix a n d o a fa sta r d a e s p e ra n ­
ça d o e v a n g e lh o ” . O s c re n te s têm a s e g u ra n ç a e te rn a , m as h á a p ro x im a d a ­
m ente vinte passagens de aviso nas Escrituras que devem ser colocadas ao
lado dessas m aravilhosas promessas.
Os provérbios do Antigo Testamento são especialm ente difíceis no exer­
cício de encontrar os princípios gerais das prom essas de Deus. Deve-se ter o
cuidado de não supor que o provérbio é uma prom essa só porque ele se parece
com uma. Provérbios são, na#verdade, ditados de Sabedoria que se aplicam a
situações gerais, sem m encionar as exceções que muitas vezes os qualificam.
Essa lim itação fica particularm ente evidente nos dois provérbios em 26.4,5,
que parecem contradizer-se ao oferecer conselhos opostos - “Não respondas
ao insensato segundo a sua estultícia” e “Ao insensato responde segundo a
sua estultícia” . Assim tam bém , o provérbio sobre a educação dos filhos em
Provérbios 22.6 não é uma garantia absoluta de que se forem seguidas as
regras estabelecidas no texto, então, obrigatoriam ente, tudo dará certo em
relação à criança. M uitos acabam prejudicando-se ao transform ar os provér­
bios em verdades universais e incondicionais, ou em promessas sem qualifica­
ções. Há ocasiões em que fazendeiros podem ter cuidado bem de suas terras, mas
ainda assim as colheitas não serem boas. A culpa não é do agricultor, mesmo que
Provérbios 28.19 pareça garantir justamente o oposto. Portanto, devemos tomar o
cuidado de discernir exatamente quais afirmações na Bíblia são promessas e de­
vemos também ter o cuidado de determinar se elas dirigiam-se exclusivamente a
certas pessoas ou estavam condicionadas por certas qualificações.
Conclusão
N orm alm ente, é mais fácil propor teorias do que colocá-las em prática. De
vários m odos, o mesmo é verdade para a interpretação da Bíblia. A inda as­
sim, nesse caso, é a prática (e não a habilidade de criar mais teorias) que leva
à perfeição. Não há nada que substitua a atenção que deve ser dada aos deta­
lhes e à experiência com todo o acervo de textos bíblicos.
O mais im portante trabalho necessário para nossos dias é o de encontrar
verdadeiras aplicações que não devem ir além do que Deus revelou nos prin­
cípios de sua Palavra. Fazer os textos se encaixarem em nossos interesses e
usá-los para responder a algumas perguntas imediatas que possam os ter é
como usar a Bíblia da mesma forma que os gregos usavam os diversos oráculos
de sua época. E brincar com a Bíblia como se ela fosse uma bola de tênis, condu­
zindo-a de um lado para o outro à mercê do serviço de nossos próprios jogos.
Mas a Bíblia não é só um livro sobre pessoas do passado e nem mesmo é
simplesmente um livro escrito para nós; é um livro no qual precisamos nos iden­
tificar de maneira muito pessoal com a história em todas as suas partes, em suas
leis e em suas promessas. Ao fazê-lo devemos estar sempre atentos para a verda­
de única intencionada pelo autor, que afirmou estar no conselho de Deus e, por­
tanto, ouviu claramente a voz de Deus por todas as gerações vindouras.
Glossário
A m a n u e n se . U m e sc rib a ou se c re tá rio e m p re g ad o p a ra c o p ia r m an u sc rito s o u e sc re v e r tex to s
d ita d o s.
C o n te x tu a liz a ç ã o . C o m fre q ü ê n c ia , o term o é u sa d o c o m o sin ô n im o de aplicação (no c am p o
das m issõ e s é sin ô n im o de índígenização) re fe rin d o -se ao p ro c esso d e c o m p re e n s ã o e
e x p lic a ç ã o d e um tex to ou d o u trin a , levando em c o n ta o c o n te x to h istó ric o d o p ró p rio
in té rp re te (su a situ a ç ã o d e vida). A p e s a r d e sse p ro c e ss o se r c o rre to e a té m e sm o
in e sc a p á v e l, em c ertas o c a siõ e s ele p a rec e in c lu ir a a lte ra ç ã o do c o n te ú d o d a m e n s a ­
gem d o ev an g e lh o p a ra e n c a ix a r-se no c o n te x to m o d ern o , fa ze n d o o term o a d q u irir
u m a n u a n ç a n e g ativ a em a lg u n s m eio s co n se rv a d o re s.
C rític a . A av aliaç ão ou in v estig a çã o c ie n tífic a de o b ra s de lite ra tu ra (e arte). P a ra m uitos,
q u a n d o a p lic a d o à B íb lia , e sse term o d e ix a im p líc ita a in d e p e n d ê n c ia d o in té rp re te da
a u to rid a d e re lig io sa , in clu in d o u m a n e g aç ão d a in falib ilid ad e . O term o crítica superior
re fe re -se ao e stu d o das o rig en s d a c o m p o s iç ã o do texto; em d e c o rrê n c ia d e sse m éto d o
co m freq ü ê n c ia (m as nem sem p re) re fle tir u m a v isão fraca da a utoridade e co n fiab ilid ad e
d a B íb lia , ele ad q u iriu u m a c o n o ta ç ã o neg ativ a no m eio dos e stu d io so s ev an g é lic o s. O
te rm o crítica inferior é um sin ô n im o ru d im e n ta r do m éto d o c ie n tífico de e stu d o b íb lic o
qu e su rg iu n o sé c u lo 19 e c o n tin u a a se r u sa d o p o r um gru p o im p o rta n te de e stu d io so s;
o term o n o rm a lm e n te d e ix a im plícita um a atitude de ceticism o em relação às afirm ações
das E scrituras.
D e ísm o . U m m o v im e n to filo só fic o do sé c u lo 18 q u e e n fatiz a v a a m o ralid ad e e a re lig iã o n a tu ­
ral e n eg av a a in te rfe rê n c ia de D e u s so b re o m u n d o criado.
D e sm ito lo g iz a ç ã o . U m m éto d o de in te rp re ta ç ã o (a p rin cíp io a sso c ia d o a R u d o lf B u ltm a n n ),
qu e vê na m a io r pa rte d a B íb lia a p re se n ç a d e f o rm a s p rim itiv a s d e p e n sa m e n to e que
p ro c u ra trad u z i-la s p a ra c ateg o ria s m odernas.
D id á tic o . Q u e tem a fin alid ad e de ensinar. O term o c o m freq ü ê n c ia é u sa d o p a ra re fe rir-se aos
livros b íb lic o s (co m o P ro v é rb io s, E c le sia ste s e as E p ísto la s do N ovo T esta m e n to ) que
tê m um fo rte p ro p ó sito instrutivo.
E sc a to lo g ia . O e stu d o d a s c o isas lin a is. O adjetivo escatológico é u sa d o c o m fre q ü ê n c ia p a ra
id e n tific a r p a rte s das E s c ritu ra s q u e e n fa tiz a m o te m a d o c u m p rim e n to . O term o
escatologia cum prida (ou recente ) re fe re -se ao c u m p rim e n to in ic ial ou p a rcial de a c o n ­
te c im e n to s a sso c ia d o s ao lim do m undo.
E stru tu ra lism o . E m lin g ü ística , um m éto d o que se c o n c e n tra no c a rá te r da lin g u a g e m c o m o um
siste m a e stru tu ra d o (ao c o n trá rio da a n álise dos e le m e n to s iso lad o s uns dos o u tro s). N o
e stu d o d a lite ratu ra, é um m o v im e n to que se c o n c e n tr a e m p a d rõ e s re p e titiv o s d e
p e n s a m e n to e c o m p o rta m e n to . (O te rm o ta m b é m é u s a d o e m o u tra s d is c ip lin a s ,
c o m o a p s ic o lo g ia e a a n tr o p o lo g ia ).
E tim o lo g ia . A o rig e m e o d e se n v o lv im en to h istó ric o das palavras.
E x e g e se g ra m á tic o -h istó ric a . U m ç ié to d o de in te rp reta çã o q u e e n fa tiz a a n e c e ssid a d e de se
levar e m c o n sid e ra ç ã o as lín g u a s o rig in a is e o c o n te x to h istó ric o das E sc ritu ras. P o r ser
u sa d o c o m o um o p o sto da e x eg ese ale g ó ric a , o te rm o é um e q u iv a len te ru d im e n ta r d a
in te rp re ta ç ã o literal.
E x eg e se . A n á lise e e x p la n a ç ã o de um texto, n o rm alm en te fazen d o re fe rê n c ia a in te rp re ta ç õ e s
d e ta lh a d a s e c ie n tíf ic a s ( “ c r í t i c a s ” ). O te rm o m u ita s v e z e s é d i f e r e n c i a d o d e
herm enêutica, sen d o que e sta re fe re -se aos p rin cíp io s d a in te rp re ta ç ã o , e n q u a n to a
exegese e stá re la c io n a d a à p rá tic a de e x p lic a r os textos.
E x is te n c ia lism o . U m m o v im e n to filo só fic o m o d ern o que se c o n c e n tra n a e x is tê n c ia e lu ta do
in d iv íd u o em um m u n d o q u e não pode se r c o m p re en d id o . A lg u n s teó lo g o s im p o rta n te s
p ro c u ra ra m e n te n d e r a B íb lia u sa n d o as c ateg o ria s do e x iste n cia lism o .
G ê n ero . U m tip o de c o m p o s iç ã o lite rária q u e p o d e se r d istin g u id o p o r a sp e c to s c o m o o c o n te ú ­
do ou u m a fo rm a esp ecífica.
H e rm e n ê u tic a . O e stu d o de p rin cíp io s e m éto d o s de in te rp reta çã o . O term o a lg u m a s v e ze s é
u sa d o p a ra e n fa tiz a r a re le v â n c ia p re se n te de um texto. (T am bém pode re fe rir-se a u m a
p e rs p e c tiv a te o ló g ic a e s p e c ífic a q u e o rie n ta d e te rm in a d a in te rp re ta ç ã o ). O te rm o
herm enêutica gerai re fe re -se a p rin cíp io s que são a p lic áv e is à in te rp re ta ç ã o de q u a l­
q u e r tex to ; herm enêutica especial trata que q u e stõ e s d istin tiv as de um d e te rm in a d o
tex to (ou g ru p o de tex to s re la cio n a d o s).
In c lu s ã o (ta m b é m inclusia). U m a té c n ic a lite rá ria u sa d a p a ra in d ic a r os lim ite s de u m a u n id a ­
de lite rá ria ao c o m e ç a r e te rm in a r com os m esm o s term o s ou term o s p a ralelo s.
In te n ç ã o a u to ral. T erm o u sa d a em re fe rê n c ia ao sig n ific a d o p re te n d id o p e lo a u to r o rig in a l de
u m tex to , d istin to de o u tro s p o ssív e is sig n ific a d o s que os leito res p o d e m a firm a r te r
d e sc o b e rto no texto.
In te rp re ta ç ã o a le g ó ric a . U m m éto d o que b u sc a outros significados a lém do h istó ric o (literal,
sim ples) d a p assagem . O term o é associado com m ais freqüência a O rígenes de A lexandria
que u sou as categ o rias da filosofia grega para d esco b rir esses outros significados.
In te rp re ta ç ã o tip o ló g ica . D ife re n te d a in te rp reta çã o a leg ó rica, esse m éto d o a firm a a e x is tê n c ia
do sig n ific a d o h istó ric o do tex to m as tam b é m o b se rv a que e n tid a d e s (p e sso a s, o b jeto s,
a c o n te c im e n to s) m e n c io n ad o s no tex to p re fig u ra m e n tid a d es su b se q ü e n te s c o rre sp o n ­
d e n te s (o rei D avi, por ex em p lo , é v isto co m o um tipo de C risto).
L eitw ort (do a le m ão “p a la v ra p rin c ip a l” ). U m term o o u g ru p o d e term o s re la c io n a d o s q u e se
re p e te m d e n tro de um d e te rm in a d o texto, re fle tin d o a e x istê n c ia de um tem a p ro e m i­
n e n te e, a ssim , a ju d a n d o o in té rp rete a id e n tific a r o sig n ific a d o do texto.
L ite ra tu ra a p o ca líp tic a . U m tipo de e sc rito (c o m o o livro d e A p o c a lip se ou os ú ltim o s c a p ítu lo s
de D a n ie l) que u sa sim b o lism o s para p re v er o futuro, e sp e c ia lm e n te o fim do m undo.
M e táfo ra . U m a fig u ra de lin g u a g e m em que a pa la v ra u sa u m a c o m p a ra ç ã o não e x p re ss a para
in d ic a r a que e la se a sse m elh a.
M é to d o d a re sp o sta do leitor. U m a v isão da in te rp re ta ç ã o de tex to s que m in im iz a ou até m e s­
m o re je ita a in te n ç ão au to ral e e n fatiz a o papel do leito r no d e sc o b rim e n to e c o n stru ç ã o
de sig n ific a d o .
M e to n ím ia . U m a fig u ra d e lin g u a g e m na q u a l u m a palavra é usada para e x p re ssa r u m se n tid o
d ife re n te do seu se n tid o literal, p o ré m re la c io n a d o a ele.
P e n c o p e . U m a s e le ç ã o tira d a d e um liv ro , e s p e c ia lm e n te u m a se ç ã o e s c o lh id a p a ra le itu ra s
litú rg ic a s . O te rm o é u sa d o n o s e s tu d o s b íb lic o s p a ra in d ic a r um p a rá g ra fo d if e r e n ­
te , e s p e c ia lm e n te n o s E v a n g e lh o s , ou u m a s e ç ã o c o n tín u a d e te x to s o b re u m m e s ­
m o a ssu n to .
Q u ia sm o . T é c n ic a lite rá ria que in v erte o e le m e n to em d u a s frases p a ralela s (v er e x em p lo s no
c a p ítu lo 5).
R e tó ric a. O e stu d o dos p rin cíp io s d e c o m p o siç ão , e sp e c ia lm e n te as re g ra s fo rm u la d a s n o m u n ­
do a n tig o p a ra a le itu ra e o ra tó ria eficaz. O term o c rític a retó rica re fe re -se a o e stu d o
m o d ern o d a lite ra tu ra à luz de tais regras.
S ed es doctrinae. (T erm o em latim para “assento/sede d a dou trin a”). U m ou m ais trechos bíblicos
ex ten so s que apresentam e fundam entam determ inadas doutrinas.
S e m ân tica . O e stu d o d o sig n ificad o .
S e n su s p le n io r (T erm o em latim p a ra “ sig n ific a d o p le n o ” ). A v isão de q u e p a ssa g e n s das E s c ri­
tu ra s c o n tê m u m sig n ific a d o (ou sig n ific a d o s) p re te n d id o p o r D e u s, a lé m do sig n ific a ­
do h istó ric o p re te n d id o p e lo e sc rito r hum ano.
S in é d o q u e. U m a fig u ra de lin g u a g e m em q u e u m a pa rte é u sa d a no lu g ar d o to d o e vic e-v e rsa .
T ex to -p ro v a. U m v e rsícu lo ou p a ssa g e m m ais longa u sa d o s p a ra p ro v a r u m d e te rm in a d o p o n to
ou d o u trin a . A p e sa r d e sse m éto d o não se r co n d en á v el em seu p rin c íp io (su p o n d o que
e le re fle te u m a ex eg e se c u id a d o sa ), o term o m u itas vezes im p lic a u m a v isã o q u e iso la
a p a ssa g e m d e seu c o n te x to e assim , age a rb itraria m e n te.
O b serv a çã o : e ste g lo ssá rio não inclu i to d o s os term o s téc n ico s, ten d o em v ista que a m aio r
p a rte d e le s é d e fin id a e m seu c o n te x to e n ã o é u sa d a em o u tro s casos.
Bibliografia anotada
M uitas introduções úteis à interpretação b íblica foram publicadas na últim a década. U m a das m ais
bem -sucedidas é a obra de G ordon D. Fee e D ouglas Stuart, How to Read the Bible fo r A li
Its Worth: A Guide fo r Understandgins the Bible, 2“ ed. (G rand R apids: Z ondervan, 1993),
que usa u m estilo claro e in te/essante para ajudar o leitor cristão a desenvolver um m étodo
de estudo da B íblia. U m a obra que foi especialm ente popular durante os anos 50 e 60, mas
ainda pode ser um a leitura profícua é Protestam Biblical Interpretation, 3a ed. (G rand Rapids:
B aker, 1970), de B ernard Ram m . Para um a valiosa introdução que não foi escrita do ponto
de v ista evangélico, veja R obert M organ e John B arton, Biblical Interpretation (N ovaY ork:
O xford U niversity Press, 1988).
E ntre as obras m ais extensas usadas com o livros de estudo para faculdades e sem inários, M ilton S.
Terry, Biblical Hermenutics: A Treatise on the Interpretation ofth e Old and New Testaments
(1885; reim presso, G rand R apids: Z ondervan, 1974) serviu de guia p ara várias gerações de
estudantes; apesar de estar desatualizada, contém grande riqueza de inform ações úteis e
interessantes. H á um a geração, a obra de A. Berkeley M ickelsen, Interpreting the Bible
(G rand R apids: E erdm ans, 1963) era utn livro de estudo am plam ente utilizado. M ais re ­
centem ente, surgiram duas obras bastante detalhadas para o estudante d e teologia: G rant R.
O sborne, The Hermeneutical Spiral: A Compreliensive Introduction to Biblical Interpretation
(D ow ners G rove, IL: InterVarsity, 1991) e W illiam Klein et a i, Introduction to Biblical
Interpretation (Dallas: W ord, 1993). Q ualquer um desses dois livros pode ser visto com o
leitura essencial para aqueles que precisam de um a exposição com pleta de todo o cam po da
h erm enêutica bíblica. O utras duas contribuições recentes são D avid S. D ockery, Biblical
Interpretation Then and Now: Contemporary Henneneutics in the Light o fth e Early Church
(G rand Rapids: Baker, 1992) e M illard J. E rickson, Evangelical Interpretation: Perspectives
on Hermeneutical Issues (G rand R apids: B aker, 1993). U m a o b ra m ais a v a n ç a d a e c o m ­
p le ta e q u e c o b re um te r r e n o m a io r é A n th o n y C. T h s e lto n , N ew H o rizo n s in
H enneneutics: The Theory a n d P ractice o f Transform ing B ib lica l R eading (G ra n d
R ap id s: Z o n d e rv a n , 1992).
H á tam bém vários livros disponíveis que apresentam um enfoque m ais específico. Os leitores inte­
ressados em d esenvolver um m étodo específico que inclua habilidades técnicas devem c o n ­
siderar D ouglas Stuart, Old Testament Exegesis: A Handbook fo r Students and Pastors
(Filadélfia: W estm inster, 1983). Para um a obra que trata de questões m ais am plas ver W alter
K aiser, Jr., Toward an Exegetical Theology: Biblical Principies fo r Preaching and Teaching
(G rand R apids: Baker, 1981) na qual ele desenvolve seu m étodo “sintático-teológico” . D ois
livros que se concentram nos perigos que devem ser evitados são D. A. C arson, Exegetical
Fallacies (G rand Rapids: Baker, 1984) e Jam es W. Sire, Scripture Twisting: 20 Ways the
Cults Misread the Bible (D ow ners G rove: IL: InterVarsity, 1980).
A Série Foundations o f Contemporary Interpretation (G rand R apids: Z ondervan, 1987-94), volta­
da p ara o estudante teológico iniciante e leigos cristãos interessados, concentra-se em q u e s­
tões interdisciplinares. Os volum es incluem M oisés Silva, Has the Church Misread the
Bible? The History o f Interpretation in the Light o f Current Issues (vol. 1, 1987) que serve
de introdução para a série; Royce G ordon G ruenler, Meaning and Understanding: The
Philosophical Framework fo r Biblical Interpretation (vol. 3, 1987); M oisés Silva, God,
Language, and Scripture: Reading the Bible in the Light o f General Linguistics (vol. 4,
1990); V. Philips L ong, T h e A rto f Biblical History (vol. 5, 1994); Vem S. Poythress, Science
and Henneneutics: Implications o f Scientfic M ethod fo r Biblical Interpretation (vol. 6,
1988); e R ichard A. M uller, The Study o f Theology: From Biblical Interpretation to
Contemporary Formulation (vol. 7, 1991).
índice de passagens bíblicas
G ê n esis
1-11 ....................
1 ..
......
1 -2 ....................... .....
1 .2 .......................
1 .3 .......................
1 .2 9 .....................
2 . 9 ........................
3 . 1 5 .....................
3 . 2 4 .....................
4 . 2 0 .....................
4 . 2 3 .....................
6 - 8 ....................... .....
8 .2 1 ,2 2 ...............
9 . 6 .......................
9.26,27 ...............
1 2 .3 .....................
1 5 .........................
1 5 .2 -8 .................
1 5 .5 .....................
1 5 .6 .....................
15.9-21 ...............
1 7 .7 ,8 .................
1 8 .1 9 ..................
1 8 .1 8 .................. .....
1 8 .2 7 ..................
1 9 .2 4 ..................
2 2 .........................
2 2 .1 7 ..................
32,33 ..................
32.28 ..................
34.25-31 ............
3 5 . 2 .....................
3 5 .1 0 ...................
35.22 ..................
3 7 -5 0 .................
40.23 ..................
4 5 . 5 .....................
4 5 . 7 ...........................
49.1 .....................
4 9 . 4 .....................
50.20 .................. ......
177
73
147, 195
89
48
49
152
141
152
92
83
74, 147
144
179
141
141
144
141
151
191
144
258
147
141, 147
91
89
74
151
74
197
71
198
197
71
268
88
269
1 5 0 ,2 6 9
149
71
3 8 ,2 6 9
Exodo
1 .1 7 .....................
6.13, 26,27 ......
272
71
15.1, 5 ....................
1 5 .1 8 ................
1 6 ............................
1 6 .4 .........................
1 6 .1 5 ......................
1 6 .2 9 ......................
1 7 .6 ........................
2 0 .1 -1 7 ..................
2 1 . 6 ........................
21.26,27 ................
2 2 .8 -9 .....................
2 2 . 9 ........................
2 2 .2 1 -2 7 ................
2 5 .9 ,4 0 .................
32.34 ......................
33.19, 22 ............... .. 193,
148
150
57
49
49
206
209
267
272
206
272
206
272
271
149
194
L evítico
1 0 .1 -3 .....................
1 6 .2 9 ......................
1 8 -2 0 ......................
1 8 .5 ........................
19.2, 1 8 .................
1 9 .1 5 ................
1 9 .9 ,1 0 ..................
1 9 .1 2 -1 8 ................
2 0 . 9 ........................
2 2 .1 5 ,1 6 ................
2 4 .8 ,9 .....................
2 6 ............................
40
205
178
34
268
270
272
270
269
269
181
145
N ú m e ro s
1 2 .6 -8 .....................
2 4 .1 4 ......................
2 4 .1 7 -2 4 ................
2 8 .1 0 ......................
137
149
141
206
D e u te ro n ô m io
5.6-21 .....................
6 . 5 ...........................
6 .6 -9 .......................
8.2,3 .......................
8 . 3 ...........................
1 3 .1 -5 .....................
14.28,29 ................
1 5 .1 -3 ,9 ,1 0 .........
267
268
163
49
205
188
272
111
1 5 .1 2 -1 4 ...............
272
1 8 .9 -1 2 .................
269
1 8 .2 0 -2 2 ...............
188
1 9 ...........................
206
20.5-8, 1 9 ............
269
21.22,23 ...............
40
2 2 . 8 .......................
269
24.21,22 ...............
269
2 5 . 4 .......................
40
2 8 - 3 2 .....................
145
29.23 ......................... 147, 148
3 0 .1 0 -1 4 ...............
34
Jo s u é
1 .8 .......................... ... 159, 163
7 . 2 4 .......................
190
J u iz e s
3 . 2 4 .......................
7 . 1 2 .......................
7 . 2 2 .......................
1 2 .7 .......................
1 4 .1 4 ,1 8 ...............
1 6 .6 ,1 0 ,1 3 ,1 5 .....
91
89
148
91
95
73
1 Sam uel
1 2 .1 2 .....................
1 9 .1 1 -1 7 ...............
1 9 .1 2 .....................
2 1 -2 3 ...................
2 1 .1 -6 ...................
2 1 .1 0 -1 5 ...............
2 4 ...........................
2 4 . 3 .......................
3 0 .1 2 .....................
150
194
70
194
181
194
194
91
90
2 S a m u el
6 . 2 0 ......................
91
7 ............................ .... 1 4 8 ,2 7 3
7 .8 -1 6 ..................
144
7 . 1 6 ...................... .... 90, 150
104
1 2 .1 -1 0 ................
2 2 ..........................
194
1 Reis
4 . 2 0 ......................
151
8 . 2 7 ...........................
8 . 6 4 ...........................
9 26
..........
10.1 ...........................
1 2 .1 5 .........................
1 7 ...............................
18.21 .........................
19.9, 11 ....................
19.9, 1 3 ....................
21 17-29....
2 1.20-24, 27-29 ....
2 2 .1 5 .........................
150
182
182
95
257
68
198
193
70
146
145
142
2 R eis
1 .3 ,6 ,9 ,1 1 ,1 6 ..........
6 . 9 ..............................
1 4 .2 5 .........................
70
143
77
1 C rô n icas
1 6 ...............................
1 7 ...............................
194
148, 273
7 8 . 2 .......................
8 0 .8 -1 5 .................
8 9 ...........................
9 2 . 9 .......................
9 3 . 3 .......................
9 6 ...........................
9 6 .1 ,2 ...................
104 ..'.....................
1 0 4 .1 6 ..................
1 1 9 .........................
119.33,34 ............
1 1 9 .3 4 ..................
1 3 2 ........................
1 3 3 .2 .....................
1 3 7 ........................
1 4 2 ........................
147.1,2, 1 2 ..........
1 4 8 ........................
1 4 8 .7 -1 2 .............
106
96
148
86
86
194
86
97
88
163
237
23
148
88
264
194
214
97
83
Provérbios
2 C rô n ica s
4 1
182
Neemias
4 - 6 ............................
74
Jó
1 .................................
12.1 ...........................
73
91
2 8 .............................
3 8 .............................
97
97
Salm os
1.1-2 ........................
6 . 6 ..............................
1 4 ............................
1 5 ............................
1 5 .5 ...........................
1 8 .............................
1 9 .1 4 .......................
3 4 ............................
37.30,31 ..................
4 2 .1 ,5 , 11 ...............
4 3 . 5 ...........................
4 6 .4 ,5 ......................
4 9 . 3 ..........................
52, 54, 56, 57, 59 .
5 3 .............................
7 7 ..............................
163
89
194
267
170
194
163
194
163
84, 85
84
214
163
194
194
162
1 .6 ........................
1 .7 ........................
1 .2 0 ......................
3 .2 2 -2 4 ................
5 .1 2 -1 4 ................
5 .1 5 -2 3 ................ ....
6 . 2 2 ......................
7 .1 3 -2 1 ................
8 .4 -3 6 ..................
8.31 ....................
10.1 ...................... ....
1 1 .2 2 ..................
14.31 ...................
1 5 .2 8 ...................
1 7 .2 8 ...................
2 2 . 6 ....................
22.20,21 ............
2 3 . 3 ....................
25.1 ....................
25.25 ....................
2 6 .4 ,5 .................. ....
2 6 .1 0 ..................
2 7 . 6 ....................
2 8 .1 9 ...................
95
93
83
163
97
8 8 ,9 6
163
97
97
177
8 3 ,2 1 2
85
94
163
94
274
211
96
94
85
9 4,27 4
95
83
274
Eclesiastes
1 2 .1 -7 .................
1 2 .1 3 ..................
96
93
Isa ía s
2 . 2 .......................
4.5, 3 5 ................
6 ...........................
6 .9 ,1 0 ................
6 . 1 0 ....................
6 . 1 3 ....................
7 . 9 ......................
9.6,7 ..................
1 0 .5 -1 1 ..............
1 0 .2 1 ,2 2 ...........
1 1 .1 2 .................
149
147
210
105
203
150
211
150
38
150
147
71
141
149
151
258
146
151
151
150
149
267
163
151
195
149
113
38
147
32. 195
1 1 .1 3 .................
13-23 ................
1 3 .6 ....................
1 3 .1 0 .................
14.24, 27 ..........
17.1 ....................
2 4 .......................
24.21 .................
24.23 .................
26.21 .................
3 3 .1 5 .................
3 3 .1 8 .................
3 4 . 4 ....................
4 0 .......................
4 0 .1 0 .................
42.1 ...................
4 5 .1 -4 ................
5 1 . 3 ...................
5 3 ....................... .......
55.10,11 ........... ....... 87,240
55.11 .................
261
56.1 ..................
267
59.20 ................
149
6 1 .1 ,2 ................
113
6 5 .1 7 ................ ....... 144, 147
144
6 5 .1 7 -1 9 ..........
66.2 2-24......... ....... 144, 147
Jerem ias
5.21 ..................
7 . 1 6 ..................
11 .14 ...............
203
142
142
14.11 ................
1 8 .7 -1 0 ............
2 0 .1 0 ................
2 5 .1 1 ,1 2 ..........
2 9 .1 0 ................
3 0 . 3 ..................
3 1 .3 1 -3 4 ..........
142
145
176
191
191
149
144
3 4 .1 3 .........................
4 6 -5 1 .......................
48.47 .........................
4 9 . 6 ...........................
49.39 .........................
144
141
149
149
149
E zeq u iel
8 .3 - 1 1 .2 5 ................
1 2 .2 ...........................
14 2-11
................
1 8 .6 ...........................
2 5 -3 2 .......................
2 6 ...............................
26.3, 7 - 1 4 ................
2 6 .1 2 ........................
2 9 .1 4 ........................
2 9 .1 8 ........................
2 9 .1 7 -2 0 ..................
3 0 . 3 ...........................
3 2 . 7 ...........................
3 4 .1 2 ........................
34.2 3 ,2 4 .................
143
203
143
170
141
176
146
146
149
146
146
149
151
151
3 6.24-27................
37.27,28 ................
38-39 .....................
39.25 .......................
D a n ie l.........................
2 .3 7 -4 4 ....................
3 . 7 ............................
2, 7, 8 ......................
7 - 1 2 .........................
7 . 2 ,3 .........................
7.8, 1 1 , 2 5 ..............
7 . 1 4 ..........................
7 .1 6 -2 8 ....................
8.20,21 .................... . 141,
9.2, 2 4 .....................
1 1 .6 -4 0 ....................
1 2 .8 -1 0 ....................
2.23, 30,31 ...........
139
Am ós
1 -2 .............................
141
143
3 . 7 ,8 ..........................
5 . 4 ............................. 267, 268
149
5 . 1 8 ...........................
142
7 .1 - 6 ..........................
149
8.3, 9, 1 3 .................
9.11 ...........................
149
O badias
21 ...............................
150
Jon as
4 . 3 .............................
4.11 ...........................
142
273
M iquéias
4.1 .............................
4 . 7 .............................
149
150
33
113
6 . 8 ...........................
267
150
H abacuque
151
149
1.4, 6 .......................
207
2 . 4 ........................... 191, 268
3.3, 9, 1 3 ................
85
72
152
90
141
151
151
37
150
143
152
191
151
143
Oséias
1 .1 0 ..........................
151
2 . 1 5 .......................... . 148, 190
149
3 . 5 ............................
41
6 . 6 ............................
Joel
1 .1 5 ;2 .1 ; 3 . 1 4 ......
2.10, 30-31 3 .1 5 ...
2.28, 29 ....................
149
151
139
Sofonias
1.7, 1 4 ......................
149
Ageu
2 .................................
2.20-23 .....................
148
148
5 . 1 3 ...........................
95
112
5 . 1 7 ...........................
1 12
5.17, 20, 48 ............
5 .2 1s s .......................
I 11
5 . 2 2 ...........................
47
5 . 2 9 ...........................
89
6 . 1 3 ...........................
89
196
7 . 2 8 ...........................
110
7.28,29 .....................
99
8 .................................
8 .1 8 -2 2 .....................
19
19
8 .2 3 -2 7 .....................
41
9 .1 0 -1 3 .....................
147
1 0 .1 5 .........................
194
1 0 .3 7 .........................
1 1 .1 4 .................
140. 148
147
1 1 .2 4 .........................
1 2 .1 -5 .......................
181
41
1 2 .1 -7 .......................
113
1 2 .2 8 .........................
90
1 2 .4 0 .........................
1 3 .3 5 .........................
106
111
1 5 .1 -7 .......................
17.11 .......................
1 9 .6 .........................
19.16,17.................
140
180
103
109
1 9 .3 0 .........................
2 0 .1 -1 6 .. 1 0 5 ,1 0 8 ,2 6 2 , 265
2 1 .4 2 -4 4 ...................
105
268
2 2 .3 7 -4 0 ..................
23.23 .........................
271
24.29 .........................
151
2 4 .3 7 -3 9 ..................
147
151
2 4 -2 5 .......................
26.52 .........................
170
Zacarias
147
1 .1 7 ...........................
150
2 . 1 0 ...........................
148
3 - 4 , 6 ........................
268
4 . 6 ............................
150
8 . 3 ............................
10.10,11 ................. . 1 4 7 ,1 5 0
»
M ala q u ia s
3.1 ............................
3 . 6 ............................ .
4 . 5 ............................
149
4 1 ,4 2
140
Mateus
1.22; 2.15, 1 7 .2 3 .
4 . 1 4 ........................
112
112
Marcos
1 .1 5 ...........................
1 .2 2 ...........................
2.23-25 .....................
2 .2 5 -2 8 .....................
3.6, 2 2 ,3 5 ...............
4 .1 1 ,1 2 .....................
4 . 1 3 ...........................
4 . 2 5 ...........................
4 .3 5 -4 1 .....................
4 . 3 8 ...........................
4.41; 5 .1 5 ................
7.1-13 .......................
7 .1 0 -1 2 .....................
113
110
181
208
106
105
105
106
19
19
7 . 6 ...........................
37
110
111
111
7.6-9, 1 3 ..................
7 . 1 9 ...........................
1 0 .1 7 ,1 8 ..................
1 0 .2 0 .........................
1 0 .2 5 .........................
1 0 .3 2 .........................
1 0 .4 2 -4 5 ..................
13.31 .........................
1 5 .3 9 .........................
1 6 .8 ...........................
111
182
103
103
36
110
180
240
110
110
L ucas
1 .1 -4 ..........................
1 17
1.46,47 .....................
1 .4 6 -5 5 .....................
1 .6 8 -7 9 .....................
2.1 .............................
2.14, 2 9 - 3 2 ..............
2 . 3 4 ...........................
3 .2 1 ,2 2 .....................
4 .1 8 ,1 9 .....................
4 .1 4 - 2 1 .....................
6 .1 -4 ..........................
8 .2 2 -2 5 .....................
1 0 .2 6 -2 8 ..................
1 2 .3 9 .........................
1 3 .3 2 .........................
13.34,35 ..................
1 4 .2 6 ........................
1 5 ...............................
1 6 .1 -1 5 .....................
1 6 .2 9 ........................
1 8 .1 3 ........................
1 8 .1 8 -1 9 ..................
2 1 .3 4 ........................
101
140
83
82
82
90
82
105
113
113
113
181
19
268
149
87
82
194
107
105
90
112
103
149
João
1.1 .............................
1 . 6 .............................
1 .1 3 ...........................
1 .1 4 ..........................
1 .1 7 ..........................
1 .1 8 .......................... .
2.1 ............................
3 . 5 ............................
3 . 1 4 ..........................
5 . 2 0 ..........................
5.24,25, 28,29 ......
6 . 4 ..........................
6 .3 9 ,4 0 , 44, 5 4 ....
48
48
257
150
89
4 8 ,2 4 0
212
113
49
59
113
101
149
10*.......................
1 0 .3 4 -3 6 ............
1 2 .3 2 ..................
1 3 .1 2 -1 6 ............
1 3 .1 4 .................
14.1-7 .................
1 4 .2 .....................
1 4 .6 ....................
1 4 .2 3 .................
15.1 ....................
1 5 .5 ....................
1 9 .......................
1 9 .3 0 .................
1 9 .3 5 .................
2 1 .1 5 -1 7 ...........
20.30,31 ...........
210
32
196
23
209
113
49
33
209
49
179
170, 198
82
113
89
113
95
259
57
49
101
59
101
A tos
1 .1 -3 ..................
2 . 1 6 ....................
2 . 3 9 ....................
5 . 3 0 ...................
8 . 1 6 ...................
8 . 3 4 ...................
1 0 .1 5 .................
1 6 .......................
17.11 ...............
1 7 .2 8 .................
2 1 .3 9 .................
101
139
91
40
199
32
182
124
188
82
91
6.41 .....................
6 . 5 3 .....................
7 . 1 6 .....................
7 . 1 7 .....................
7 . 2 3 .....................
7 .3 7 -3 9 ...............
7 . 3 9 .....................
R om anos
162
1 - 2 .....................
1 - 5 .....................
161
1 .3 -4 .................. ....... 131, 132
47
1 .1 8 ..................
249
1 .1 8 -2 3 ............
204
3 .1 -2 .................
6 . 1 4 ..................
133
257
6 .1 6 -2 3 ............
195
6 . 1 7 ..................
132
7.8-10, 1 2 ....... .......
8 ....................... .......
8.3, 11 ............
8.13-14 ...........
227
132
133
60
8 . 2 8 ....................
257
9 .1 4 -1 6 .............
150
9 . 2 7 ....................
35
9 .3 0 -3 2 .............
33
9 .3 0 -1 0 .1 2 ......
32
9.31, 3 2 ............
106
9.32,33 .............
34
1 0 .2 ,3 ................
34
1 0 .4 ,5 ................
35
1 0 .5 ....................
150
1 1 .5 ....................
188
1 2 .3 ....................
1 2 .6 ................... 1 8 7 ,1 8 8 ,2 5 5
170
13.1 ....................
181
1 3 .7 ...................
1 C o rín tio s
2 .1 -5 .................
129
211
2.6-7 .................
2 .6 -1 6 ............... .. 2 2 ,3 8 ,1 7 6
2.11 ..................
1 4 ,2 2
2 . 1 3 ..................
176
2 . 1 4 .................. ....... 161, 1 6 '
170
4 . 3 4 ..................
5 .........................
178
124
5 - 7 ....................
p?
5.1,2; 6.15,16 .
7 ......................... ....... 122, 124
PI
7.1 ..................... .......
7 .3 - 5 .................
122
7 . 7 .....................
170
7 . 1 9 ..................
132
8 ........................ .......
268
9 .7 -1 2 ...............
41
1 0 .1 -6 ...............
209
10.11 ...........
131
1 0 .2 4 ................
125
1 1 .5 ..................
133
1 1 .1 4 ................
170
1 4 .3 7 ................
188
1 5 ......................
195
1 5 .2 9 ........................
199
1 5 .3 3 ........................
82
15.44, 4 5 ,5 6 ..........
132
2 C o rín tio s
2 .1 4 -1 6 ........... .........
3.6-8, 17,18... .........
5 .1 -1 0 ............. .........
106
132
195
8 .1 -5 ............... ........
9 . 8 .................. ........
124
89
10-13 ..................
11.5, 1 3 ...............
1 1 .6 ......................
1 3 .1 2 ....................
G álatas
1 .1 -1 0 ..................
1.11-2.21 ...........
1 .4 .........................
1 .6 -1 0 ..................
1 .1 4 ......................
2.4,5 .....................
2 . 2 0 ......................
3 ............................
3 .1 -4 .3 1 .............
3.23-25 ................
3 . 2 9 ......................
4.4,5 .....................
4 .2 1 -2 6 ................
4 . 2 6 ......................
4 .2 4 -3 1 ...............
5 .1 - 6 . 1 0 ............
5.14, 1 6 -2 6 .......
6 .1 1 -1 8 ...............
6 . 1 8 .....................
E fésio s
1.13,14; 2 . 6 .......
2 . 1 3 ......................
4 . 1 1 , 2 6 ...............
4 . 1 3 ......................
4 . 3 2 ......................
5.22-33 ...............
6 .1 1 -2 0 ...............
32
32
129
170
127
127
132
128
111
126
132
130
127
132
210
128
217
214
209
127
132
127
127
132
91
47
261
169
122
246
Filip en ses
124
1 . 5 .......................
261
1 . 6 .......................
2 .1 - 4 ....................
125
2 .1 -1 1 .................
195
82
2 .5 -1 1 .................
2 .6 - 1 1 ,2 5 .......... ..... 124, 125
2 . 1 5 .....................
61
2 .1 9 -3 0 ...............
125
3 ...........................
130
3.1; 4 . 4 ...............
125
3 . 2 0 .....................
132
4 . 2 ......................
4.2,3 ....................
4 . 4 ,5 ....................
169
125
272
125
4 . 6 ,7 ..........................
4 .1 0 -1 9 ..................... 124, 125
4.11 ...........................
125
125
4 . 1 3 ...........................
124
4 .1 4 -1 6 .....................
4 . 1 7 ...........................
125
125
4 . 1 9 ...........................
Colossenses
1.22,23 .....................
2 . 4 .............................
3 .1 - 4 ..........................
273
129
132
1 Tessalonicenses
2 . 1 3 ...........................
5 . 2 .............................
5 . 4 .............................
133
149
149
2 Tessalonicenses
2 . 2 .............................
2 . 3 .............................
2 . 3 , 7 ........................
3 . 6 .............................
203
92
33
133
1 Tim óteo
2 . 5 .............................
2.8, 1 2 ......................
3 . 2 .............................
3 . 1 6 ...........................
4 . 3 .............................
46
57, 58
122
82
188
82
133
17 7 ,1 9 5
T ito
1 .1 2 ...........................
82
Hebreus
1 .1 .............................
1 .2 .............................
2.1-4; 3.7-15 ..........
5 . 8 .............................
6 .4 -6 ..........................
177
60
120
42
119, 120
10.1 ...........................
1 0 .2 6 -3 1 ..................
151
56
120
Tiago
2.1 .............................
2 . 9 .............................
2 .2 -7 ..........................
2 . 8 .............................
270
270
270
1 Pedro
1 .5 .............................
273
2 Pedro
2 . 6 .............................
3 .3 - 7 ..........................
3 . 1 0 ...........................
3 . 1 6 ...........................
147
147
149
203
1 João
2 . 1 8 ...........................
2.26,27 ............
2 . 2 7 ...........................
4 . 3 ..............................
4 .1 - 6 ..........................
5.7,8 ..........................
Jud as
1 4 ...............................
22
140
199
149
92, 122
2 Timóteo
1 .1 3 ...........................
2 .1 1 -1 3 .....................
3 . 1 6 ...........................
3 .1 6 ,1 7 .....................
8 . 5 ...........................
9 - 1 0 ........................
1 1 .1 2 .........................
1 2 ...............................
1 2 .2 5 -2 9 ..................
»
271
271
211
120
Apocalipse
1 .2 0 ...........................
2 . 5 .............................
2 . 7 .............................
2.7, 1 7 ......................
3.3, 11 ......................
3.12; 4 . 5 ..................
3 . 2 0 ...........................
6 . 1 2 ...........................
1 3 .1 8 .........................
14.10,11; 1 9 .2 0 .....
1 6 .1 5 .........................
19.7-9, 1 7 ,1 8 ..........
2 0 . 8 ...........................
2 1 . 3 ...........................
21.2, 9 ......................
2 1 . 3 .........................
2 2 . 2 .........................
22.7, 20 ....................
152
61
, 152
152
149
152
167
151
95
147
149
151
151
150
151
258
152
149
índice de Nomes
A d ler, M o rtim e r, 117
A g o stin h o , 2 02, 214, 259, 262, 264
A k ib a , ra b in o , 238
4
E lie z a r b e n Jo sé, rab in o , 2 02, 206
A lter, R o b e rt, 69
E p ifâ n io IV, A n tío c o , 37
A m b ró sio , 2 1 4
E rasm o , D e sid é rio , 159, 160, 2 02, 2 16, 246
E u sé b io , 212
A n d ré d e S ã o V ítor, 215
A q u in o , S ã o T om ás de, 202, 215
A ristó te le s, 2 5 4
F ra n c k e, A u s g u t H e rm a n n , 217
F re i, H a n s, 76, 77
B a r-E fra t, 72, 75
B a rth , K arl, 220-223
B au er, W alter, 2 3 0
G a d am e r, H a n s-G eo rg , 26, 28, 30, 172, 224226
B e ard sle y , M o n ro e , 26, 2 8 , 35
G a lile u , 233
B e a u c h a m p , P au l, 176
G ard in er, F re d e ric , 210
B e ec h er, W illis J., 154
G ird le sto n e , R o b e rt B ., 136
B e n g e l, Jo h n A lb e rt, 217
G re g ó rio d e N issa , 212
B e tti, E m ilio , 28
B e za , T h e o d o re , 217
G re g ó rio T au m atu rg o , 211
B lo ch er, H e n ri, 188, 190
G undry, Stanley, 171
B rig g s, C h a rle s, 51
G u rn all, W illia m , 246
G re id an u s, S ydney, 75, 76, 79
B rig h t, Jo h n , 189
B u c er, M a rtin , 217
H a rn ac k , A d o lf von, 219
H eid eg g er, M a rtin , 222, 224
B u llin g e r, E. W ., 92
H e sío d o , 207
B ro w n , R a y m o n d , 137
B u ltm a n n , R u d o lf, 220, 222, 223
H ilário , 214
B u sw e ll, Ja m e s O liv er III, 170
H ille l, ra b in o , 2 02, 205 -2 0 8
H irsc h , E. D ., 28, 39, 43, 226
C a ird , G . B „ 88
H o b b e s, T h o m a s, 218
C a ld w e ll, L a rry W ., 172, 173
H o d g e , C h a rle s, 2 50, 254
C a lv in o , Jo ã o , 202, 2 17, 24 2 -2 5 2 , 256, 257,
H o m e ro , 13, 207
259
C a ssia n o , Jo ã o , 214
H u e h n , E u g en e , 208
C h u rc h ill, W in sto n , 100, 101
H u m e, D av id , 78
C íc e ro , 118
C iro , 38
C le m e n te , T itu s F la v iu s, 210, 211
C o let, Jo h n , 2 1 6
C o p é rn ic o , 233
Ish m a el b e n E lish a , rab in o , 206
C risó sto m o , Jo ão , 175, 213, 245, 246
C ro a tto , J. S., 225, 226, 238, 239
H u g o de S ão V ítor, 215
Irin eu , 26 6
Jerônim o, 202, 214, 216, 247
Josefo, 207
Jow ett, B enjam in, 263
Juhl, P. D., 35
D e sc a rte s, R e n é, 218
D ie ste l, 245
D io d o ro , 213
Kaiser, 255, 260
Kant, Im m anuel, 218, 233
K eil, K a rlA . G .,3 1
K raft, C harles H „ 172
K ugel, Jam es, 84
K uhatschek, Jack, 267
K uhn, T hom as, 225, 233, 234
L angdon, Stephen, 202, 215
L enski, C. H., 61
L essing, G otthold E phraim , 218
L ew is, C. S., 265
Locke, John, 218
L ow th, R obert, 82-84
L uciano de Sam osata, 212
L utero, M artinho, 130, 159, 160, 2 0 2 ,2 1 6 ,2 6 6
M achen, J. G resham , 244, 250, 251
M arsh, H erbert, 193
M arvell, 231
M elanchthon, Philipp, 216, 217
M eyer, H einrich A ugust W ilhelm , 253
N icholls, B ruce, 170
N icolau de L ira, 202, 215, 216
N ida, E ugene A., 167, 168
N ix o n , R ich a rd , 189
O rígenes, 211. 216, 238, 260, 266
Panfílio, 211
Paulo, 22, 34, 161, 162; alegorizando o Velho
T estam ento, 209; interpretação de. 173,
174; cartas de, 118, 121, 123; retórica de,
126; teo lo g ia de, 130, 131
Payne, J. B arton, 135
Payne, P. B., 57
P hilo, 202, 207, 208, 210, 211, 212
Platão, 212
Pupper, John, 266
R eim arus, H erm ann Sam uel, 218
R euchlin, Johannes, 202, 216
Reuss, 245
Ricoeur, Paul, 27, 28, 30, 77-79, 225
R itschl, A lbrecht, 218
Robertson, D., 232
R obertson, O. Palmer, 191
Rückert, L eopold Im m anuel, 252
Schaff, Philip, 245
Schleierm acher, Friedrich, 218
Sêneca, 1 18, 246
Shakespeare, 13, 16, 32, 100
Spencer, P hilipp Jacob, 217
Spinoza, B aruch, 218
Sproul, R. C., 182
Strabo, 207
Taber, C harles, 173, 174
Tenney, M errill C., 158
T eodoro de M opsuéstia, 213
T hiselton, A nthony, 172
Toy, C. H „ 208
T yndale, W illiam , 217
Van Til, C ornelius, 249
Vos, H ow ard, 163
W arfield, B enjam in B., 175, 244, 250
W esley, John, 218
W hite, W ilbert W., 157, 158
W im satt, W. K „ 26, 28, 35
W olff, C hristian von, 218
Young, E. J., 244
Z w ingli, U lrich, 217
índice de assuntos
A d m o e sta ç ã o , 96
E lip se , 92
A le g o ria , 88, 95, 96, 216
E n ig m a , 94
E p iste m o lo g ia , 247
A lia n ç a co m A b ra ão , 258
A lia n ç a nas E sc ritu ras, 189, 258
E p ísto las: a a u to rid ad e das, 133; c o n te x to h is­
tó ric o das, 122; q u a lid a d e s lite rárias
A m a n u e n s e , 275
A n a g o g e , 211
d as, 126; o sig n ific a d o d as, 117-133;
A n a lo g ia d a fé, 138, 186-190, 198
n a tu re z a o c a s io n a l d as, 121; le itu ra
A n a lo g ia das E sc ritu ras, 186, 189, 190, 197,
d as, 118-120; in te rp re ta ç ã o te o ló g ic a
das, 129-133; co m o d o c u m e n to s in te i­
255
A n tig o T esta m e n to : u so do, 259; p o e sia no,
ros, 126.
E sc a to lo g ia , 1 1 2 ,1 1 3 ,1 3 1 ,1 3 2 ; re c e n te , 140,
81, 82
A n tio q u ia , e sc o la de in te rp re ta ç ã o de, 212
A p lic a ç ã o : d a fé, 21; n ív eis de, 267; p rin c í­
152
E sc o la o c id e n tal de in te rp re ta ç ã o , 213
pio s de, 267-270; o p ro b lem a da, 264,
E sc ritu ras: a p lic a ç ã o d as, 2 6 7 -2 7 0 ; a u to rid a ­
265; d a s E sc ritu ras, 2 0 ,2 3 6 ,2 7 0 -2 7 4
d e d a s, 250; c la re z a d a s, 159, 160;
A ra m a ic o , 167
co n ce ito de a lia n ça n as, 2 58; in te rv e n ­
A ristó te le s, 254
B íb lia : e c u ltu ra, 167-184;
ção divina das, 38; m ed itação nas, 162,
u so dev o cio n al
163; “ p a ssa g en s-ch a v e ” d as, 195-197;
d a , 1 5 7 -1 6 4 ; n a tu re z a o rg â n ic a da,
p e rsp ic u id a d e d as, 14, 192; re d a ç ã o
191; u so te o ló g ic o da, 187-200;
d as, 38; se n tid o ú n ico d as, 263; u n i­
u n i­
d a d e da, 191-193. Ver ta m b é m E s c ri­
da d e das, 192. Ver ta m b é m B íb lia .
E sp írito S anto, 22, 38, 113, 132, 133, 139,
turas.
C â n o n , 20, 192; h e b raico , 65
1 5 6 ,1 5 8 ,1 6 1 ,1 6 2 ,1 7 6 , 1 9 9 ,2 4 8 , 268
C o m p re e n sã o d a B íb lia , 24. Ver ta m b é m S ig ­
E ssê n io s, 175, 202, 207
E stru tu ra lism o , 275
n ificad o .
C o n fissão d e F é de W estm inster, 1 6 0 ,2 4 3 , 244
E stu d o b íb lic o indutivo, 157, 158
C o n tex to , 1 1 9 ,1 5 7 ; h istó ric o , 1 2 2 ,1 2 4 ; c o ­
E stu d o das p alav ras, 5 5 -6 2 , 276
n h e c im e n to so b re o, 125, 126;
n ificad o , 58;
e sig ­
das E sc ritu ra s, 62, 122
E tim o lo g ia , 52 -6 2 , 276
E tn o -h e rm e n ê u tic a , 166, 172-177
C o n te x tu a liz a ç ã o , 170, 171, 235, 253, 257
E u fem ism o , 91
C re d o dos a p ó sto lo s, 76
E v a n g e lic a lism o a m e ric a n o , 244
C rític a à re d aç ão , 258
E v an g é lic o s, e stu d io so s, 250, 251
C rític a , 275: à re d aç ão , 258; ao term o , 228,
E x eg e se g ra m á tic o -h istó ric a , 17, 18, 30, 31,
229
C rític a lite rária, 224, 232
C u ltu ra e a B íb lia , 167-184
D e ísm o , 78, 275
D e sm ito lo g iz a ç ã o , 2 23, 275
137, 138, 172, 227, 252, 276
E x e g e s e ju d a ic a , 2 3 8 . Ver ta m b é m H e r m e ­
n ê u tic a r a b ín ic a .
E x eg ese, 138, 276; d efin ição , 17; g ra m á tic o h istó ric a , 2 52; ju d a ic a , 2 38; p re ssu p o ­
D iá lo g o , 96, 97
siç õ es na, 222; e teo lo g ia, 196, 197,
D iá sp o ra ju d a ic a , 207, 208
D id á tic a , 275
2 5 1 -2 5 6 . Ver ta m b é m H e rm e n ê u tic a ,
D isp e n sa c io n a lism o , 256, 259
D ita d o , 94
In te rp re ta ç ã o
E x iste n c ia lism o , 222, 276
E c le s io lo g ia , 259. Ver ta m b é m Igreja.
F a lá c ia in te n c io n a l, 26
F a rise u s, 110, 111
E ise g e se , 138, 255
F ig u ra s de lin g u a g e m , n a p o e sia, 8 6 -92
F o rm a , n a p o e sia, 84, 85
p erío d o p ó s-R e fo rm a, 2 1 7-219; e a ig re ­
G e m a ra , 205
G e m atria , 206
ja , 199; e o b jetiv id a d e, 235, 2 36; h istó ­
G ê n ero , 2 76; narrativo, 6 5 -79
da, 20, 2 0 2 -2 1 9 ; g ra m á tic o -h is tó ric a ,
G ra ç a , 112; c o m u m , 2 4 6 -2 5 1 ; d o u trin a da,
110; de D e u s, 266, 273
G ra m á tic a , u so in co rre to da, 5 8 -6 2
G re g o , 4 6 -6 2 , 167
H a g a d o t, 204
H a lak á , 204
rica, 122, 227, 228, 235, 236; h istó ria
17, 18, 137, 138; lite rária, 235; m éto d o
d e v o cio n al de, 156-164; m é to d o h istó ­
ric o -c rític o de, 29, 30, 2 2 7 -2 2 9 ; p rin c í­
pios de, 13, 14; tip o ló g ica , 2 76; v isõ e s
c o n te m p o râ n e a s da, 2 2 1 -2 4 0 . Ver ta m ­
b é m E x e g e se , H e rm e n ê u tic a .
H e b raic o , 4 6 -6 2 , 167
Iro n ia, 91
H e n d ía d is, 89
Je su s: o a u tê n tic o , 102; a a u to rid a d e de, 109-
H e n d ía tris , 89
114; o C risto , 101; d isc íp u lo s de, 112;
H e rm e n ê u tic a ra b ín ica , 173-175, 205 -2 0 7
e n sin a m e n to s de, 110, 112, 2 08; e os
H e rm e n ê u tic a ; b íb lic a , 22; c a lv in is ta , 2 4 3 -
D e z M a n d a m e n to s, 103.
2 6 1 ; in te r e s s e c o n te m p o râ n e o e m ,
L eg a lism o , 110-112
2 2 1 -2 4 0 ; d e fin içã o de, 13, 2 76; geral,
L ei m o saica, 204, 258
22; ju d a ic a , 2 0 4 -2 0 8 ; n e c e ssid a d e de,
14, 15; ra b ín ica , 173, 174. Ver ta m ­
L ei. Ver L ei m o sa ic a
L e itw o rt, 276
b é m E x eg e se ; In te rp re ta ç ã o
L ín g u a o rig in al, 4 6 -6 2
H ip é rb o le , 89
H istó ria , o p o d e r da, 75
H istó ria: d a in te rp re ta ç ã o , 2 0 2 -2 1 9 ; reg istro
L ín g u a /lin g u a g e m , 15-18; figurativa, 55; o ri­
gin al, 46 -6 2 ; u so e abuso, 4 5 -6 2 ; p a ­
lavras em , 56
m o d ern o da, 101; n a n arrativa, 75-79;
L in g u a g e m figurativa, 137
n e c e ssá ria p a ra a in te rp reta çã o , 15; de
L ín g u a s d a B íb lia , 4 6 -6 2
u m a p a la v ra, 52-55.
L in g ü ístic a , 18
H isto ric id a d e : dos E v an g e lh o s, 9 9 -1 0 4 ; im ­
p o rtâ n c ia da, 75 -7 7 ; do N o v o T esta ­
L ite ral, 31, 138
L ite ra tu ra a p o ca líp tic a , 151, 276
m en to , 101
L ite ra tu ra ju d a ic a , 110. Ver ta m b é m G e m ara ;
H y p o n o ia , 2 02, 207 -2 0 9
Id a d e d a R a zã o , 228
Id a d e M é d ia, in te rp reta çã o d u ran te a, 2 1 5 ,2 1 6
Ig re ja C a tó lic a R o m an a , 249
Ig reja , a: e a in te rp re ta ç ã o teo ló g ica , 199, 200
M id ra sh ; M ish n a h ; T alm ud; T arg u m s
L ito tes, 91
L ó g ic a e lin g u a g e m , 46
M e d ita ç ã o nas E sc ritu ras, 162, 163
M e táfo ra , 87, 276
Ilu m in ism o , 228, 233
M é to d o de re sp o sta do leitor, 30, 31, 277
In c lu sã o , 70, 276
M é to d o d e v o cio n al de e stu d o d a B íb lia , 157-
In te n ç ã o a u to ra l, 32, 35-39, 235, 276
In te rp re ta ç ã o a le g ó ric a , 212, 276
In te rp re ta ç ã o de S a b e d o ria , 93-97
In te rp re ta ç ã o h istó ric a , 122, 227, 2 28, 235,
236, 252
164
M é to d o h istó ric o c rític o d e in te rp re ta ç ã o , 29,
30, 78, 227 -2 2 9
M é to d o sin tá tic o -te o ló g ic o , 31
M e to n n h ia , 90, 276
In te rp re ta ç ã o lite rária, 235
In te rp re ta ç ã o tip o ló g ic a , 2 7 6
M id ra sh , 175, 204
In terp re ta ç ão : alegórica, 212; con tex tu al, 119;
M id ra sh de H a lak á , 204
M id ra sh de H a g a d o t, 204
c u ltu ra l, 1 6 7-184; d e p ro fe c ia s , 143-
M ish n a h , 205
152; d o s p ais d a ig re ja prim itiv a, 210-
N arrativ a: h istó ria na, 75 -7 9 ; re c u rso s lite rá ­
2 14; d u ra n te a Id a d e M é d ia, 215, 216;
rio s na, 6 7-72; sig n ific a d o da, 6 5-79;
d u ra n te a R e fo rm a , 216, 217; d u ra n te o
nív eis e stru tu ra is na, 72-75
N otrikon , 207
R e p etiçã o , no g ê n e ro narrativ o , 70
N o v a H e rm e n ê u tic a , 223
R e tó ric a , 277
N o v a C rític a , 26, 220, 2 24, 2 3 1 -2 3 2 , 235
R evelação, 141; geral, 248; progressiva, 263
N o v o T esta m en to : h isto ric id a d e do, 101; uso
R e v elaç ã o p ro g ressiv a, 139
do A n tig o T esta m en to no, 2 0 8 -2 1 0
S a b e d o ria n a B íb lia , 177
O b je tiv id a d e d a in te rp re ta ç ã o , 235, 236
S a n tific aç ão , d o u tr in a d a , 132
O m issã o , 91
O n o m a stic a , 97
Sedes doctrinae, 277
Selah, 91
P a p iro s d o M a r M o rto , 175, 202, 207
S e m ân tica , 277
P a rá b o la s, 88, 101; c o n te x to literário das, 108,
109; sig n ific a d o te o ló g ic o d as, 105,
Sensus plenior, 277
106; u sa d a s p o r Je su s, 104-109;
P a ra le lis m o , 82-86
S en tid o , sig n ific a d o c o m o , 32
S e rm ão do M o n te, 111, 112
S ig n ific a çã o , sig n ific a d o com o, 32, 226
P a ro n o m á sia , 88
S ig n ific a d o dos E v an g e lh o s, 9 9 -1 1 4
P a ss a g e n s p a ra le la s, 193
S ig n ific a d o h istó ric o , 220
P e ríc o p e , 277
S ig n ific a d o : a sp e cto s do, 32 -4 2 ; e a in te n ç ão
P e rsp e c tiv a p ro fética , 139
do autor, 26 -2 9 ; c o m o re q u isito , 42;
P e rsp ic u id a d e d a s E sc ritu ra s, 14, 192
do s E v an g e lh o s, 99 -1 1 4 ; o se n tid o d o,
Pesher, 202, 207, 209
25; m o d elo s p a ra a c o m p re e n s ã o do,
P ie tism o , 217, 218
P le o n a s m o , 88
ç ão , 2 26; c o m o u m valor, 4 2 ; d e u m a
P o e sia , 81-92; re cu rso s re tó ric o s na, 85, 86;
palav ra, 52-58. Ver tam bém c o m p re ­
u g a rític a , 84
P re ss u p o sic io n a lism o , 249
P ro fe cia : a lin g u a g e m da, 150; c a ra c te rís ti­
29-31; das E sc ritu ras, 20; e sig n ific a ­
ensão.
S ignificados c o n seq ü en tes d as E sc ritu ras, 266,
267
c a s da, 1 3 6 -1 4 1 ; c o n d ic io n a l, 144-
S im b o lism o na B íb lia , 215
147; e a c o n sc iê n c ia do p ro feta , 142,
S ím ile, 87
143; e a H istó ria, 146-148; in co n d ic io ­
S in é d o q u e, 90, 277
nal, 144; in te rp re ta ç ã o da, 143-152;
lin g u a g e m fig u rativ a na, 137, 138; o
S iste m a c ab a lístic o , 207
S o b e ra n ia d e D e u s, 256-261
sig n ific a d o da, 135-154; se n tid o d u ­
SÔd, 204, 207
plo da, 152-154
S u b je tiv id ad e d a in te rp reta çã o , 2 33, 234
P ro v é rb io , 93, 94
T alm ud, 205
P s ic o lo g ia , 35
T argum s, 202, 204
P u rita n o s, 246
Ternura, 207
Q u ia sm o , 2 77; e m G á la ta s, 128; n a po esia,
T eo lo g ia re fo rm a d a, 254
85, 86; no g ê n ero narrativ o , 71, 72
Q u m ra n , se ita de, 207. Ver tam bém p ap iro s
d o M a r M o rto .
R a c io n a lism o , 218
R e c u rs o s de re tó rica : em narrativa, 7 0-72; em
p o e sia, 85, 86
T eo lo g ia siste m á tic a, 138, 255. Ver tam bém
T eologia.
T eologia: e e x eg ese, 196-198, 2 5 1 -2 5 6 ; lib e ­
ral, 250, 251; R e fo rm a d a, 249, 254;
sistem ática, 243, 252-256. Ver tam bém
T e o lo g ia siste m á tic a.
R e c u rs o s lite rário s, 67-69
R e fe re n te , 32, 34, 35, 79
T exto-prova, d a in te rp reta çã o , 29, 277
R e fo rm a , a, 1 5 9 - 1 6 0 ,2 1 6 ,2 1 7
T orá, 65, 1 1 1 ,2 0 5
R e le v â n c ia d a B íb lia , 222, 223
T rad içã o , a u to rid ad e da, 214
R e m ito lo g iz a ç ã o , 223
Z eu g m a, 91
R e n a s c im e n to , o, 246
Theoria, 1 5 4 ,2 1 3
In trodu ção à
H erm enêu tica
■■■I B íb lica
Com ouvir a
Palavra de Deus
apesar dos ruídos
de nossa época
Este livro busca alcançar leitores
leigos e profissionais para ajudá -los
a compreender os textos bíblicos. E
uma obra notável e única, por causa
da singularidade de sua abordagem,
da maneira como evidencia a
urgência em nossos dias da
necessidade desse estudo, bem
como pelo cuidado que os autores
tiveram em tornar o livro útil para
um número maior de estudiosos.
„
r
VValter C . Kaiser, Jr.
Ph.D., Brandeis) é professor de
Antigo Testamento no GordonConwell Theological Seminary.
Seus muitos trabalhos publicados
incluem Descobrindo o Antigo
Testamento, desta editora.
M o isés Silva
(Ph.D., Manchester) é professor
de Novo Testamento no
Westminster Theological
Seminary, em Filadélfia.
CDITORA CULTURA CRISTA
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