Era Monográfica 1 - NIA

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Era Monográfica 1 - NIA
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Era Monográfica 1 (2013)
ERA MONOGRÁFICA -1
SOBREIRA DE CIMA
Necrópole de Hipogeus do Neolítico
(Vidigueira, Beja)
António Carlos Valera
(Coordenador)
2013
1
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
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Era Monográfica 1 (2013)
SOBREIRA DE CIMA
Necrópole de Hipogeus do Neolítico
(Vidigueira, Beja)
Beja)
António Carlos Valera
(Coordenador)
2013
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Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Título: Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico (Vidigueira, Beja)
Série: ERA MONOGRÁFICA
Número: 1
Propriedade: EraEra-Arqueologia S.A.
Editor: Núcleo de Investigação Arqueológica
Arqueológica – NIA
Local de Edição: Lisboa
Data de Edição: 201
2013
Capa: excerto de fotografia de António Valera
(Sepulcro 1 da Sobreira de Cima)
ISBN: 978-989-98082-0-1
Colaboram neste volume:
António Carlos Valera;
António Faustino Carvalho;
Cláudia Costa;
Cristina Barrocas Dias;
José Mirão;
Manuela Dias Coelho;
Maria Isabel Dias;
Nelson Cabaço;
Thomas Schuhmacher.
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Era Monográfica 1 (2013)
ÍNDICE
António Carlos Valera
NOTA INTRODUTÓRIA .............................
...........................................................................................................................
................................................................................... 09
António Valera e Manuela Coelho
1. A NECRÓPOLE DE HIPOGEUS DA
A SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA):
ENQUADRAMENTO, ARQUITECTURAS E CONTEXTOS .......................................................................
............................................................ 11
António Carlos Valera
2. CRONOLOGIA ABSOLUTA DA NECRÓPOLE DE HIPOGEUS
DA SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA) ..........................................................................................
......................................... 41
António Carlos Valera
3. ASPECTOS DO RITUAL FUNERÁRIO NA NECRÓPOLE DA SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA) .......................... 47
António Carlos Valera e Cláudia Costa
4. UMA PARTICULARIDADE RITUAL: A ASSOCIAÇÃO DE FALANGES DE
OVINOS-CAPRINOS
CAPRINOS A FALANGES HUMANAS NOS SEPULCROS DA SOBREIRA DE CIMA .............................................. 63
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Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
António Faustino Carvalho
5. ESTUDO DO ESPÓLIO FUNERÁRIO EM PEDRA LASCADA DA
NECRÓPOLE DE HIPOGEUS NEOLÍTICOS DA SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA) ................................................. 71
Mª Isabel Dias
6. ESTUDO COMPOSICIONAL DA MATÉRIA ENVOLVENTE AOS GEOMÉTRICOS DA
NECRÓPOLE NEOLÍTICA DA SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA) .................................................................................... 87
António Carlos Valera e Nelson Cabaço
7. A PEDRA POLIDA NA NECRÓPOLE DA SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA) ...................................................... 91
Thomas X. Schuhmacher
8. IVORY FROM SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA) ............................................................................................. 97
Cristina Barrocas Dias
José Mirão
9. IDENTIFICAÇÃO DE PIGMENTOS VERMELHOS RECOLHIDOS NO HIPOGEU DA SOBREIRA DE CIMA
POR MICROSCOPIA DE RAMAN E MICROSCOPIA ELECTRÓNICA DE VARRIMENTO ACOPLADA
COM ESPECTROSCOPIA DE DISPERSÃO DE ENERGIAS DE RAIOS-X (MEV-EDX) ......................................................... 101
António Faustino Carvalho
10. ANÁLISE DE ISÓTOPOS ESTÁVEIS DE QUATRO INDIVÍDUOS DO SEPULCRO 1
DA NECRÓPOLE DE HIPOGEUS DA SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA):
PRIMEIROS RESULTADOS PALEODIETÉTICOS PARA O NEOLÍTICO DO INTERIOR ALENTEJANO ................................. 109
António Carlos Valera
11. A NECRÓPOLE DA SOBREIRA DE CIMA NO CONTEXTO DAS
PRÁTICAS FUNERÁRIAS NEOLÍTICAS NO SUL DE PORTUGAL ...................................................................................... 113
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Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
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NOTA INTRODUTÓRIA
António Carlos Valera
A necrópole da Sobreira de Cima foi identificada no final de 2006, no âmbito do acompanhamento
arqueológico que a ERA Arqueologia S.A. realizava, para a SMCC, na empreitada de construção da
Subestação de Alqueva (400/60 kV) da REN.
Os trabalhos realizados no âmbito do processo de minimização permitiram por em evidência a
importância científica desta necrópole de hipogeus neolíticos, a qual foi a primeira a ser identificada no
interior alentejano, funcionando como prenúncio daquilo que viria a ser revelado ao longo dos últimos seis
anos no distrito de Beja, quer no âmbito da mitigação do empreendimento da rede de rega de Alqueva, quer
mais recentemente em projectos de rede viária.
Inicialmente foi identificado apenas um sepulcro (sepulcro 1), na sequência do abatimento da
cúpula da cripta funerária com a passagem de um veículo pesado da obra. A descoberta deu origem a uma
intervenção arqueológica de emergência de escavação integral do monumento. Não tendo a tutela aceite
uma proposta para a realização de prospecções geofísicas na sequência da identificação do sepulcro 1, os
trabalhos mecânicos de terraplanagem continuaram na sua periferia, facto que, dada a dimensão da
maquinaria utilizada (a pá da giratória era do tamanho da câmara de um sepulcro), acabaria por conduzir a
afectação de mais três contextos funerários (sepulcros 2, 3 e 4). A estratégia seria então revista: os
trabalhos mecânicos foram suspensos e prospecções geofísicas foram aceites e realizadas na área ainda a
afectar pela obra e periferia imediata, permitindo identificar seguramente mais dois sepulcros (com forte
possibilidade da existência de um terceiro). Destes, apenas um (sepulcro 5) se encontrava em área de
construção, estando os restantes em zona próxima, mas já não afectada. Assim, em termos globais, o
processo de minimização traduziu-se na escavação integral dos sepulcros 1 e 5 (pouco afectados pela obra)
e escavação das partes que restaram dos sepulcros 2, 3 e 4, em grande parte destruídos pela maquinaria
pesada.
Figura 1 – Vista da obra em progressão enquanto se escavava o sepulcro 1.
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Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Após os trabalhos de escavação, todas estas cinco estruturas foram destruídas, uma vez que a
construção da subestação implicava uma descida significativa da cota do terreno nesse ponto, obrigando ao
corte de cerca de metade do pequeno cabeço onde se localizava a necrópole. Na outra metade, contudo,
preserva-se seguramente mais um sepulcro identificado pela geofísica e alguns vestígios superficiais
(existindo uma anomalia que poderá corresponder um outra estrutura deste tipo). Contudo, a área
prospectada em termos geofísicos fora da zona a afectar directamente pela obra foi bastante restrita, sendo
provável que mais sepulcros existam pela vertente Este da parte conservada do cabeço.
O estudo desta necrópole, e após algumas publicações preliminares, viria ser integrado no projecto
realizado no âmbito do projecto PTDC/HIST-ARQ/114077/2009, “Práticas funerárias da Pré-História Recente
no Baixo Alentejo e retorno socioeconómico de programas de salvamento patrimonial”, financiado pela FCT
e pelo programa COMPETE, comparticipado pelo FEDER, contando ainda com colaborações externas que
permitiram alargar os estudos específicos realizados.
É este trabalho que agora se publica, ainda sem integrar o estudo detalhado da componente
antropológica (pelo que, no que respeita a esta matéria, será utilizada a informação disponível do relatório
final dos trabalhos de arqueológicos – componente de antropologia).
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A NECRÓPOLE DE HIPOGEUS DA SOBREIRA CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA):
ENQUADRAMENTO, ARQUITECTURAS E CONTEXTOS
António Carlos Valera
Manuela Dias Coelho
1.1. ENQUADRAMENTO GEOGRÁFICO
Administrativamente, a necrópole da Sobreira de Cima situa-se no extremo Norte do concelho da
Vidigueira, distrito de Beja, a escassos 200 metros da linha de fronteira com o concelho de Portel (distrito de
Évora), na freguesia de Marmelar. As suas coordenadas nacionais são: M 55724; P 164330; Z 184 (ponto
localizado na zona central do topo do cabeço).
O sítio localiza-se cerca de 1000m a sul do paredão da Barragem de Alqueva, na margem direita do
Guadiana, a 500 m a oeste do leito do rio, cujo curso desenvolve um meandro alargado neste troço (a meio
do qual desagua, na margem esquerda, o rio Ardila).
Em termos geomorfológicos, a necrópole está implantada no topo de um cabeço de orientação
norte-sul, sobranceiro a uma pequena bacia aplanada situada imediatamente a oeste, que drena o relevo
mais alto envolvente, e ao arranque de outra pequena linha de água imediatamente a sul. Ambas se tornam
mais encaixadas para Sudeste até desaguarem no Guadiana. A leste, uma outra linha de festo marca o início
da vertente direita do vale do Guadiana, que se apresenta com um considerável encaixe neste ponto. Para
norte/noroeste o relevo vai aumentando, constituindo-se como um dos contrafortes sudeste da sequência de
elevações que constituem a Serra de Portel, a qual corresponde a “um ‘horst’ com cerca de 50 Km de
comprimento por 20 de largura, orientado no sentido E-O, que se eleva acima da peneplanície do Alentejo
(Barros e Carvalhosa e Galopim de Carvalho, 1970: 6). O sítio encontra-se, assim, na zona em que o
Guadiana corta esta sequência de relevos elevados que delimitam a sul a peneplanície de Évora,
encontrando-se numa zona onde, dos cabeços mais altos, o horizonte visual se estende longamente sobre a
planície do Baixo Alentejo. A zona da Sobreira de Cima situa-se, deste modo, relativamente próxima do
importante acidente tectónico – a falha da Vidigueira – que marca a separação relativamente abrupta
(escarpa de falha com 150 a 200 m) entre duas unidades fundamentais do relevo da região: a Serra de
Portel e a planície de Beja, as quais correspondem a duas unidades geológicas distintas. A sul as formações
terciárias, a norte as formações cristalofílicas. A necrópole localiza-se nestas últimas, numa zona de
contacto entre os micaxistos e as rochas verdes (séries cristalofílicas de idade indeterminada).
Imediatamente a sul da falha da Vidigueira desenvolvem-se depósitos modernos e plio-plistocénicos em
ambas as margens do Guadiana, correspondendo aluviões e coluviões actuais, terraços e cascalheiras com
intercalações argilo-arenosas. Bordeando estes terraços do Guadiana e do Ardila, e desenvolvendo-se para
sul, surgem os calcários.
Na área da necrópole os micaxistos mostram leitos micáceos alternando com outros mais ricos em
quartzo, apresentando-se muito siliciosos. Os níveis de alteração são muito diversificados, com variações
abruptas em curtos espaços, podendo aparecer níveis muito argilosos seguidos de rocha compacta. Ocorrem
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Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
também manchas de gnaisses e grauvaques associadas aos micaxistos. As rochas verdes são compostas por
diferentes tipos de xistos, entre os quais predominam os cloritoxistos e, na zona, os xistos anfibolíticos.
Os sepulcros encontram-se escavados nos micaxistos, mas a escassas dezenas de metros dos xistos
anfibolíticos, aspecto relevante, como se verá, para a interpretação de algumas práticas documentadas.
Figura 1 – Localização da Sobreira de Cima no Sudoeste Peninsular e na C.M.P., 1:25000, fl.501.
Figura 2 – Localização da Sobreira de Cima na carta Carta Geológica de Portugal, 1:50000, fl. 43-B.
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1.2. A NECRÓPOLE DE HIPOGEUS
Em face de apenas ter sido intervencionada a área afectada pela obra (e um pouco mais em
prospecção geofísica), não é possível determinar os limites da necrópole a leste e nordeste, nem ter a
percepção do total de sepulcros presentes ou da sua distribuição espacial global. O número de sepulcros
seguramente conhecidos (e intervencionados) é de cinco, existindo com grande probabilidade um sexto
(anomalia geofísica coincidente com evidências arqueológicas superficiais) e a eventualidade de um outro
(uma anomalia geofísica, mas sem qualquer correspondência com vestígios de superfície – sepulcro 7).
Figura 3 – Planta da distribuição dos sepulcros e de vestígios de superfície no cabeço (estelas em anfibolito a verde e lingotes de
anfibolito a vermelho).
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Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
A distribuição destes sepulcros (Figura 3) revela que o sepulcro 2 se localiza a uma cota mais
elevada (acima dos 184 m), praticamente no topo e ao centro do cabeço, enquanto os sepulcros 1, 5, 3, 4 e
6 se distribuem em arco ao seu redor, de noroeste para sudeste, a cotas ligeiramente mais baixas, entre os
182m e os 183,5m. O eventual sepulcro 7 localizar-se-á numa zona mais afastada deste núcleo, já na zona
de estreitamento do cabeço e da sua ligação às áreas de topografia mais elevada, mas a uma cota um
pouco mais baixa (cerca dos 180m). Assim, nesta elevação de planta ovalada, que apresenta o eixo maior
com uma orientação norte – sul, verifica-se que dois sepulcros se localizam nesse eixo central (sepulcros 2 e
3), enquanto dois se localizam na vertente oeste (mais concretamente a noroeste – sepulcros 1 e 5) e os
restantes 2+1 (?) na vertente leste.
Nesta mesma vertente, e junto ao possível sepulcro 6, registaram-se à superfície algumas estelas
em anfibolito (na Figura 3 marcadas a verde), uma delas de grandes dimensões, assim como alguns
esboços/lingotes de anfibolito, apenas rudemente talhados (na Figura 3 a vermelho). Tanto as estelas como
os esboços são elementos que se identificaram na arquitectura e nas deposições rituais de alguns dos
sepulcros escavados, pelo que a sua presença em torno à anomalia geofísica reforça a ideia de que, de
facto, poderá existir aí um sepulcro.
A visibilidade sobre a paisagem é restrita por um conjunto de topografias mais altas que envolvem
o cabeço onde se localiza a necrópole, o qual está encaixado numa área deprimida. Contudo, a partir das
elevações circundantes o horizonte visual estende-se sobre a planície de Beja a sul e sobre o vale do
Guadiana a norte.
1.3. O SEPULCRO 1
O sepulcro 1 corresponde a uma sepultura de inumação colectiva escavada no substrato rochoso
xistoso, arquitectonicamente composta por uma câmara funerária à qual se acedia por um poço lateral que
tinha junto à base uma entrada.
Na câmara foram detectadas deposições primárias em conexão anatómica de vários indivíduos,
com esqueletos total ou parcialmente preservados. Estas deposições primárias abrangiam as partes centrais
e laterais da câmara. Nestas últimas encontravam-se igualmente acumulações de ossos humanos
desarticulados, possivelmente como resultado do afastamento de esqueletos de deposições mais antigas em
momentos de inumação de novos indivíduos.
Os restos humanos estavam colocados directamente sobre o chão da câmara, maioritariamente em
decubitus lateral, sendo o processo de sedimentação praticamente inexistente na área central (resultado da
boa selagem da entrada e de o monumento se ter mantido intacto desde o seu encerramento).
1.3.1. Arquitectura
O sepulcro 1 apresenta uma câmara escavada na rocha, de planta irregular (mas com tendência
ovalada) e tecto abobadado. O chão situava-se a 3,10 m de profundidade relativamente à superfície (179,91
cota média do chão da câmara; 183 cota média da superfície na zona da câmara). No eixo da entrada, com
orientação O – E, mede 3,2 metros e, no eixo perpendicular N – S, mede cerca de 3,5 metros. As paredes,
algo irregulares, desenvolviam-se em cúpula, a qual era relativamente baixa, não ultrapassando 1 m de pé
direito.
O acesso, localizado a oeste (ligeiramente descentrado para sul relativamente ao centro da
câmara), era feito por um poço vertical lateral, que, aquando da identificação do monumento, se encontrava
preservado em cerca de 1 m a partir da sua base, mas que relativamente à topografia original do terreno
teria cerca de 1,6 m. Na base do poço, do seu lado leste, existia uma abertura irregular, mas
tendencialmente elipsoidal, que permitia o acesso à câmara, com 86 cm de altura e 54 cm de largura
máxima. O fundo do poço situava-se cerca de 90 cm acima do chão da câmara, pelo que a entrada se fazia
descendo por uma pequena rampa localizada abaixo da abertura, a qual apresentava um desbaste como
que a fazer um degrau que facilitava o apoio dos pés.
O poço apresentava uma planta subcircular, com o eixo maior N-S medindo 1,20 metros e o eixo
menor O-E medindo 1,14, ao nível da sua parte superior preservada. Para a base ia progressivamente
estreitando, apresentando no fundo 94 cm por 60 cm. A abertura era encerrada por uma grande laje de
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anfibolito de formato ovalado, com 90 cm de altura e 80 cm de largura máxima. Uma fina camada de argila
revestia as paredes do poço, sobrepondo-se ligeiramente ao rebordo da laje de encerramento, vedando
desta forma todos os interstícios entre a laje e a parede. O poço foi depois selado com um enchimento de
argila embalando fragmentos de cascalho de xisto. Ao longo do processo deste enchimento foram sendo
feitas deposições rituais de blocos/lingote de anfibolito (ver Capítulo 3). Não sabemos como seria a
morfologia da parte superior do poço - obliterada pelos trabalhos mecânicos - podendo ou não apresentar,
tal como no sepulcro 2, um ligeiro estrangulamento.
1.3.2. Sequência estratigráfica faseada
A identificação do sepulcro 1 ficou a dever-se à afectação provocada pela maquinaria da obra
quando se procedia à escavação do cabeço e se removiam as terras. A passagem de um camião no local
provocou o abatimento do tecto da câmara, expondo a estrutura negativa e os contextos arqueológicos no
seu interior. Este abatimento correspondia a um depósito (UE7) caracterizado por cascalho de xisto
desagregado e solto no topo, sob o qual foi identificado um outro nível de abatimento do tecto e parte da
parede (UE8) formado por grandes placas de xisto em desagregação que se encontravam sobrepostas e em
cutelo a preencher grande parte da superfície da câmara. Ao verificar-se no interior da câmara (a primeira
estrutura a ser identificada e à qual se acedeu através do interface de destruição do tecto) a existência de
uma entrada, foi realizada no exterior uma pequena sondagem de diagnóstico que permitiu a identificação
da estrutura de acesso em poço original.
Após a remoção destes níveis de derrube verificou-se a existência de dois depósitos formados a
partir da degradação do interior da câmara, numa fase pós-deposicional. Um destes depósitos era
caracterizado por cascalho de xisto desagregado e solto e encontrava-se encostado à parede do sepulcro,
numa estreita faixa nos quadrantes sudeste e sudoeste. Esta unidade estratigráfica (UE36) formou-se devido
à queda de fragmentos de xisto do tecto e parede do sepulcro ao longo do tempo. Junto à entrada da
câmara e nas áreas laterais imediatas registou-se um outro depósito (UE4), castanho claro, arenoso de grão
muito fino (pulverulento) e solto, de reduzida potência. A sua formação estará relacionada com processos
tafonómicos relacionados com a acção de agentes bio erosivos, nomeadamente de raízes que se infiltraram
através da entrada do monumento e que, ao longo do tempo, facilitaram a formação de uma fina película
de sedimento sobre os contextos arqueológicos preservados nessa área.
Figura 4 – Aspecto do abatimento da cúpula do sepulcro 1 e da entrada encerrada pela laje de anfibolito (vista do interior da
câmara).
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As últimas deposições funerárias correspondem a um total de oito indivíduos e uma
redução/conexão anatómica parcial (Guerra e Marques, 2007). Tendo revelado a existência de sobreposições
de indivíduos, salienta-se o facto de o crânio do esqueleto 4, uma criança de cerca de cinco anos, se
encontrar sobre a mão do esqueleto 3 e, da mesma forma, o esqueleto 5 apresentar o coxal sobre o coxal do
esqueleto 6 e sobre o crânio do esqueleto 7. Este último, por sua vez, apresentava-se em relação de
sobreposição com o esqueleto 8. Estas foram as relações estratigráficas possíveis de estabelecer entre as
deposições desta última fase, sem que se conheça qual o intervalo de tempo entre a primeira e a última
deposição e o próprio encerramento final do sepulcro. Um facto desfavorável para o estabelecimento de
uma leitura estratigráfica foi a quase ausência de sedimento no interior da câmara, verificando-se a falta de
relações físicas entre alguns dos esqueletos para que se pudessem avançar considerações sobre a
organização e diacronia fina da sequência dos enterramentos.
As últimas utilizações do sepulcro encontravam-se a ocupar grande parte da área da câmara, à
excepção da zona junto à entrada e das zonas junto à parede onde foram identificados dois depósitos com
grande concentração de ossos humanos desarticulados. Coloca-se a hipótese de estas acumulações de ossos
desarticulados (à excepção de alguns dos membros inferiores que permaneceram em conexão anatómica
sob as UES 6 e 18) terem sido formadas devido à remobilização de esqueletos sepultados em fases
anteriores de modo a obter espaço para as novas deposições, hipótese a esclarecer com o estudo completo
da colecção de restos osteológicos.
O ossário UE6 situava-se no quadrante sul. Esta concentração de ossos estava envolta em
sedimento castanho avermelhado (devido à forte concentração de cinábrio) arenoso e solto, de grão fino e
heterogéneo, com inclusão pontual de bolsas/nódulos de “ocre” amarelo.
Figura 5 – Aspecto das deposições primárias do sepulcro 1 (as mais evidentes com contornos dos corpos delineados). Os pontos
vermelhos correspondem a geométricos associados às mãos dos indivíduos. Ao lado da entrada, um dos conjuntos votivos.
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Figura 6 – Pormenor do ossário lateral UE6, aspecto de uma das deposições primárias que se lhe sobrepõe ligeiramente e planta
geral do sepulcro 1. Note-se a concentração dos materiais votivos em dois núcleos, um de cada lado da entrada.
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Na extremidade deste depósito, junto ao lado direito da entrada da cripta funerária, foi identificada
uma concentração de material arqueológico votivo: um conjunto composto por machados e enxós de pedra
polida, geométricos e lamelas de sílex. Esta deposição ritual apresentava uma localização circunscrita à zona
lateral da entrada. No restante depósito apenas foram identificados alguns fragmentos de pulseira em
marfim e, pontualmente, alguns geométricos. Já nos quadrantes noroeste e nordeste do sepulcro foi
identificada a UE18 na qual, também junto à entrada da câmara (agora do lado esquerdo), foi registado um
outro conjunto votivo semelhante, com machados e enxós, lamelas e lâminas de sílex, um núcleo de
quartzo, geométricos, fragmentos de marfim e punções em osso. Este depósito era caracterizado por
sedimento castanho avermelhado escuro de grão fino, homogéneo, arenoso e solto. Apresentava uma
concentração de material osteológico disposto de forma desorganizada e em mau estado de conservação.
Foram também aqui identificados nódulos/bolsas de “ocre” amarelo, para além da concentração de
cinábrio, conferindo ao depósito uma cor avermelhada.
Sob estes depósitos localizados junto às paredes da câmara foram registadas várias conexões
anatómicas parciais que deverão corresponder ao que resta de deposições de uma primeira utilização do
sepulcro. Sob a UE6 foram identificadas as conexões parciais 2, 3, 4 e 6, das quais três correspondiam a
reduções dos membros inferiores (Guerra e Marques, 2007). Estas conexões encontravam-se sobre um
depósito – UE 39 - caracterizado por sedimento castanho amarelado claro, arenoso e de grão fino, solto e
heterogéneo, com inclusão pontual de cascalho e calhaus de xisto, alguns fragmentos de ossos humanos e
frequentes raízes. De natureza indeterminada, esta unidade estratigráfica encontrava-se circunscrita ao lado
sul da câmara. Por outro lado, sob a UE18 foram identificadas as conexões anatómicas parciais 5 e 7,
também correspondentes a membros inferiores (Idem).
Na base da estratigrafia foram identificadas duas unidades. A UE10, distribuída por toda a área da
câmara, caracterizava-se por um depósito muito fino, composto por sedimento arenoso de grão fino, solto e
heterogéneo, de cor castanha avermelhada devido à forte concentração de cinábrio. Para além disso foram
também identificadas bolsas circunscritas de carvões e cinzas, evidências provavelmente relacionadas com
os rituais inerentes às deposições humanas. Já sobre o substrato geológico da base da câmara foi
identificada a UE40, formada a partir da própria desagregação da rocha, resultando num depósito arenoso
de sedimento solto a moderadamente compacto, pulverulento e homogéneo, de cor cinzenta esbranquiçada.
Esta unidade estratigráfica foi identificada nos quadrantes sudeste e sudoeste da câmara, onde se
registaram algumas raízes, que poderão justificar a sua formação através da desagregação do substrato,
criando sulcos estreitos e de contornos irregulares no chão da estrutura.
Por seu turno, a estrutura lateral de acesso à câmara encontrava-se preenchida apenas por um
único depósito (UE9), composto por sedimento castanho amarelado claro, areno-argiloso, com forte
concentração de cascalho de xisto desagregado e ocasionais calhaus da mesma formação geológica,
apresentando-se muito compacto. Ao longo desta colmatação foram também ocasionalmente identificados
nódulos de argila castanha alaranjada escura e uma sequência de deposições rituais, a diferentes cotas, de
esboços e “lingotes” em anfibolito.
Este acesso em ”poço” encontrava-se revestido na parede e na base por uma película de argila de
cerca de 3 cm de espessura. Esta argila de revestimento (UE19), homogénea e de grão fino, apresentava cor
rosa alaranjado claro e encontrava-se muito compacta, com inclusão ocasional de elementos não plásticos
(tornando-se muito friável quando seca). Importa referir que muitos dos lingotes/esboços de xisto
anfibolítico da UE9 se encontravam parcialmente “cravados” nesta argila devido à pressão dos sedimentos
argilosos e compactos. Esta argila de revestimento sobrepunha parcialmente os limites/rebordo da laje de
encerramento do sepulcro, selando-a.
Uma laje de anfibolito (UE5) encerrava a abertura (UE117) de acesso à câmara, apresentando-se
rachada na vertical e sensivelmente a meio devido à pressão dos sedimentos de colmatação do acesso e à
acção de algumas raízes.
Quer a câmara quer o corredor foram escavados no substrato rochoso (UE1) formado por
micaxistos. O substrato apresentava-se heterogéneo, com diferentes graus de compactação e diferentes
tonalidades, ou seja, do amarelo alaranjado e esbranquiçado ao laranja avermelhado. Esta heterogeneidade
verificava-se também em relação às díspares orientações naturais dos diferentes graus de alteração desta
formação, sendo que apenas uma parte se apresentava laminada e em desagregação.
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Figura 7 – Entrada do sepulcro 1, vendo-se a laje de encerramento e duas fases de deposição de lingotes/esboços de anfibolito
no enchimento do poço de acesso. Perfil este-oeste do sepulcro 1 (círculos azuis correspondem a locais de amostragem para
datação B-OSL.
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Figura 8 – Integração do sepulcro 1 na topografia original do cabeço.
1.3.3 – Dados antropológicos preliminares
A situação registada em escavação evidencia vários momentos de utilização que podem ser
agrupados de duas realidades: uma relacionada com corpos ainda em conexão anatómica total ou parcial e
outra relativa a ossos desarticulados e algumas reduções, resultado da remobilização realizada no âmbito
da gestão do espaço funerário.
De acordo com o relatório antropológico (Guerra e Fernandes, 2007), o NMI é 22, embora o
carácter ainda não sistemático da abordagem permita supor que este valor estará algo subestimado.
Já quanto à idade à hora da morte, foi possível fazer estimativas para um total de 8 indivíduos: um
com idade entre 3 e 6 anos; três com idades entre 7 e 12 anos; um com idade entre 13 e 20; um outro com
idade entre 21 e 30 anos; dois com idades entre os 31 e os 60. A estes há a juntar mais sete adultos de
idade indeterminada. No que respeita à diagnose sexual, esta só foi possível em cinco casos,
correspondendo a um elemento do sexo masculino e a quatro indivíduos do sexo feminino. Parece, assim,
que estamos em presença de uma população natural, embora se deva fazer notar a ausência de crianças
com idade inferior a 3 anos e de idosos com idade superior a 60 anos.
1.4. O SEPULCRO 2
Ainda que a parte preservada deste sepulcro seja muito parcelar, esta estrutura parece similar ao
sepulcro 1, ou seja, constituída por uma câmara de forma tendencialmente circular e tecto abobadado ao
qual se acederia através de um ”poço” lateral de “boca” e colo estreitados. Com a afectação deste sepulcro
a ligação do poço à câmara não ficou preservada, ainda que a proximidade das duas estruturas e a
inclinação da base da primeira em direcção à segunda confirmem a relação entre ambas, enquanto espaços
um único monumento funerário.
Ao contrário do poço do sepulcro 1, que foi afectado na horizontal, não permitindo a definição do
seu perfil integral, o poço de acesso ao sepulcro 2 foi cortado na vertical, preservando-se a sua metade
oeste, o que possibilitou a obtenção da sua secção. Trata-se de um poço de perfil troncocónico, com paredes
apresentando um certa concavidade e um forte estrangulamento um pouco abaixo da sua boca. Tinha cerca
de 1,80 m de profundidade, uma largura máxima na zona da base de 1,40 m e uma largura mínima na zona
20
Era Monográfica 1 (2013)
do estrangulamento de 50 a 60 cm. A base e parte das paredes estavam revestidas por um fina camada
argilosa e a restante área preenchida por dois depósitos argilosos e com cascalho de xisto, verificando-se
também a deposição ritual de blocos/lingotes de anfibolito.
Em relação à câmara, o poço de acesso situava-se a sudoeste. A ligação entre os dois espaços foi
destruída, preservando-se apenas o início da descida da abertura de entrada, a qual deveria ser também
acentuada já que, à imagem do sepulcro 1, existe uma diferença de cerca de 82 cm entre a base do poço e o
chão da câmara. Esta entrada deveria ser igualmente encerrada por uma laje, da qual, contudo, não
restaram vestígios após a afectação mecânica.
Da câmara funerária preservou-se apenas a extremidade oeste, o que corresponde ao lado esquerdo
junto à entrada, com uma parte do chão e da parede de arranque da cúpula. O chão da câmara situa-se a
cerca de 2,75 metros de profundidade relativamente à superfície (cota média do chão da câmara de 181,25
e cota média da superfície do terreno de 184).
Figura 9 – Aspecto da afectação do sepulcro 2; pormenor da estrutura do poço de acesso, vendo-se o início da entrada para a
câmara; concentração de materiais e alguns (escasso) na parte preservada da câmara, num depósito com forte componente de
pigmentos vermelhos (UE28).
21
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Apesar da forte afectação, os restos preservados revelam que este sepulcro seria
arquitectonicamente muito semelhante ao Sepulcro 1 (Figura 10).
1.4.1. Sequência estratigráfica faseada
Fase II
A esta fase corresponde a afectação recente do sepulcro (corte UE25) que destruí grande parte da
câmara sepulcral, ficando apenas preservada parte da sua base e do arranque da parede/tecto abobadado,
assim como de parte dos depósitos arqueológicos preservados no seu interior.
Esta afectação, traduzida num corte longitudinal no sentido descendente desde o topo do cabeço
até uma cota inferior à base da câmara, resultou na acumulação de sedimentos na envolvência da área do
sepulcro 2, sedimentos compostos quer por substrato geológico desagregado (cascalho de xisto) quer por
depósitos arqueológicos (provenientes do interior da câmara) completamente revolvidos. Como medida de
minimização, e para além da escavação do que restava preservado, procedeu-se a trabalho de crivagem
destas terras, resultando na recolha de algum material arqueológico e osteológico.
Fase Ia – Poço de acesso
O primeiro depósito de enchimento (UE22) identificado no interior do poço de acesso apresentava
grande potência estratigráfica. Era caracterizado por sedimento castanho amarelado/alaranjado claro muito
compacto e areno-argiloso. Apresentava-se homogéneo, com forte concentração de cascalho de xisto
desagregado e ocasionais calhaus da mesma formação geológica. Este enchimento revela que a estrutura
terá sido colmatada de uma só vez e de forma intencional onde, tal como no sepulcro 1, foram identificados
vários níveis de concentrações organizadas de lingotes/esboços de xisto anfibolítico intercalados por níveis
de sedimento.
Figura 10 – Planta das partes preservadas do poço de acesso e câmara do sepulcro 2 (esquerda); planta do depósito UE28 (direita).
22
Era Monográfica 1 (2013)
Sob o depósito de enchimento descrito foi identificado um outro (UE23) localizado na base da
estrutura e caracterizado por sedimento cinzento esbranquiçado claro, arenoso e solto, composto por areias,
cascalho e calhaus de xisto. Foram identificados nódulos de argila de cor castanha alaranjada escura, devido
ao facto de esta unidade estratigráfica se encontrar em contacto com a argila de revestimento.
Este revestimento (UE29) encontrava-se na base da estrutura e apenas na parte inferior da parede.
Era composto por argila de cor cinzenta esbranquiçada clara com inclusões de cascalho de xisto. O
revestimento apresentava-se compacto e homogéneo ainda que na superfície se identificassem nódulos de
argila castanha alaranjada escura sobre o nível de argilas esbranquiçadas, reforçando a película de
revestimento na base do “poço”.
Fase Ib - Câmara
No topo da estratigrafia da parte preservada da câmara foi identificado o depósito UE28. Este
depósito caracterizava-se por um sedimento castanho avermelhado arenoso, homogéneo e de grão fino,
com presença de pequenas bolsas de cor amarelada. Quer a cor vermelha quer estas bolsas amareladas
devem-se à concentração de pigmentos de cinábrio e ocre e, em áreas mais restritas, de “ocre” amarelo.
Integrava materiais arqueológicos de carácter votivo, compostos por um recipiente em calcite, uma pulseira
de calcário, seis machados de pedra polida, um núcleo de sílex, duas lâminas e geométricos também de sílex
e um punção em osso. Importa salientar o facto de tal como no Sepulcro 1, estes materiais se encontrarem
encostados à parede da câmara, na área mais próxima do ”poço” de acesso (neste caso à direita).
Neste depósito foram também identificados fragmentos de ossos humanos soltos/desarticulados.
Sob a (UE28) foi identificada uma redução (UE47), que por sua vez se sobrepunha ao depósito
(UE46) de sedimento castanho avermelhado arenoso e solto de reduzida potência estratigráfica. Este
depósito apresentava-se heterogéneo pela variação de cores e tonalidades que apresentava, havendo
concentração de pigmentos vermelhos e pontualmente amarelos em algumas zonas, assim como zonas de
tonalidade acinzentada devido ao contacto com o substrato. Assentava directamente na base da câmara.
Os dados antropológicos são escassos. Apenas se registaram alguns ossos desarticulados e muito
fragmentados e a conexão anatómica parcial de parte de membros inferiores. Os diferentes parâmetros da
análise antropológicos apenas permitiram estimar a idade à morte do indivíduo a que corresponde a
redução, a qual será superior a 20 anos (Guerra e Fernandes, 2007).
1.5. OS SEPULCROS 3 E 4
Sobre os sepulcros 3 e 4 pouco há a dizer, dado o elevado grau de afectação que sofreram. Em
ambos apenas se preservou uma pequena parte das respectivas câmaras, não existindo qualquer informação
sobre a estruturação das entradas.
1.5.1. Sepulcro 3
Seria constituído por uma câmara da qual se preservou um pequeno segmento do lado oeste. O seu
chão encontrava-se a cerca de 2,6 metros da superfície (cota média da base da câmara de 181 m e cota
média da superfície na zona da câmara de 183,6 m). Não há informação sobre a estruturação da entrada,
sendo que não se encontrava no quadrante oeste.
No topo da estratigrafia desta pequena área da cripta foram identificadas duas unidades
estratigráficas (UEs 48 e 51) que, ainda que individualizáveis, deverão corresponder a uma mesma realidade
que foi truncada e parcialmente remexida durante afectação. Trata-se de um depósito de sedimento
alaranjado e argiloso, moderadamente compacto e homogéneo com inclusão de cascalho e xisto e presença
ocasional de raízes. Ainda que tenha sido identificado algum material osteológico, depreende-se que a
formação deste depósito corresponderá a um momento pós utilização da câmara devido à relação de
sobreposição que mantinha com as unidades estratigráficas relacionadas com a utilização do monumento.
Assim, sob aquele depósito foi identificada a redução (UE 55) caracterizada por um conjunto de
vértebras em conexão. Esta redução sobrepunha-se ao depósito (UE53), identificado na zona mais a sul do
interior da câmara. Era caracterizado por sedimento castanho solto e arenoso com presença ocasional de
raízes e de pigmentos vermelhos, que lhe conferia em determinadas zonas a tonalidade avermelhada. Neste
depósito foram identificados alguns fragmentos de ossos humanos.
23
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 11 – Imagem, perfil e plano do pequeno troço
preservado da câmara do sepulcro 3.
Paralelamente, junto da parede da câmara, foi identificado o depósito (UE52) caracterizado por
sedimento castanho avermelhado arenoso e solto. Aqui verificou-se, por um lado, uma maior concentração
de pigmentos vermelhos e, por outro, uma maior presença de material osteológico. Tratava-se de ossos
desarticulados concentrados junto da parede, podendo corresponder a restos de um ossário. Ao nível da
componente artefactual, foi aqui registado um punção em osso.
Na base da estratigrafia, na área sul da câmara, foi identificado o depósito (UE54) formado devido
à desagregação do substrato geológico, apresentando-se muito pulverulento e de reduzida potência.
Os dados antropológicos são diminutos. Apenas alguns ossos desarticulados junto à parede
conservada e um conjunto de vértebras em conexão anatómica, para a qual foi possível estimar uma idade
entre os 30 e os 60 anos (Guerra e Fernandes, 2007).
1.5.2. Sepulcro 4
Tal como para o sepulcro 3, as informações sobre a arquitectura do sepulcro 4 são bastante
escassas. Apenas se preservou um pequeno segmento da câmara funerária, com parte do chão e arranque
da parede. Com os dados disponíveis, apenas podemos dizer com segurança que, ao nível do chão, a
câmara se encontrava a cerca de 3m de profundidade relativamente a superfície (179,26 cota média do chão
da câmara; 182,25 cota média da superfície na zona da câmara).
Quando à entrada, ela não ficava do lado sul, podendo encontra-se em qualquer dos restantes
quadrantes. Nos dois sepulcros que se encontram na vertente oeste, as entradas estão orientadas para oeste
e noroeste, precisamente no sentido do declive, o que permitiria que a profundidade dos acessos pudesse
ser menor. Seguindo a mesma lógica, poderíamos assumir como mais provável a localização da entrada do
sepulcro 4 no quadrante nordeste, ou seja, no sentido da vertente naquele ponto, o que faria da parte
conservada o fundo da câmara, local onde nos sepulcros preservados também não ocorrem deposições de
materiais. De facto, não foi recolhido qualquer material arqueológico, circunstância que, em função da
localização dos conjuntos artefactuais dos sepulcros 1, 2 e 5 (junto as entradas), poderá reforçar a ideia de
que esta seria uma área mais afastada da zona de acesso. Os materiais osteológicos são igualmente
escassos e com pouco potencial informativo, resumindo-se a um conjunto de ossos desarticulados, que
apresenta a particularidade de reunir um número elevado de ossos longos de membros inferiores
(eventualmente correspondendo a um ossário com alguma “arrumação” espacial de ossos).
24
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 12 – Imagem e plano da pequena secção preservada
p
da câmara do sepulcro 4.
A estratigrafia identificada neste pequeno troço apresentava no topo um depósito de sedimento
argiloso e cor alaranjada (UE41), compacto e homogéneo com inclusão frequente de cascalho e xisto e
presença ocasional de calhaus
lhaus da mesma formação geológica. Ainda que tenha sido identificado
pontualmente algum material osteológico de pequenas dimensões e muito fragmentado, depreende-se
depreende que
este depósito corresponderá a um momento pós-ocupacional
pós ocupacional da câmara devido à relação de sobreposição
que mantinha com as unidades estratigráficas relacionadas com a utilização do monumento. Poderá,
eventualmente, corresponder a uma situação semelhante à observada na câmara do Sepulcro 5, onde, com
a fractura antiga da laje da porta e abatimento
abatimento de parte do tecto na zona da entrada, os sedimentos
argilosos que preenchiam o acesso escorreram para o interior, preenchendo-o
preenchendo o de forma homogénea (ver
adiante).
Sob este foi identificado o depósito (UE42) constituído por sedimento castanho alaranjado escuro
e
e
homogéneo, argiloso e compacto, onde foi registada a já referida concentração de ossos humanos
desarticulados junto à parede. Também aqui foram identificados alguns nódulos de ocre vermelho junto do
material osteológico.
Na base da estratigrafia, e relacionado com o momento de construção do monumento, observou-se
observou
um revestimento (UE43) de parte do chão e parede da câmara, sem que fosse possível concluir se este
revestimento se encontraria em parte ou na totalidade da superfície destas áreas. Este revestimento
re
era
composto por argilas compactas e homogéneas de cor rosa e alaranjada clara e apresentava reduzida
espessura (±3cm).
1.6. O SEPULCRO 5
epulcro 5, tal como os restantes, corresponde a uma sepultura de inumação colectiva escavada
O sepulcro
no substrato
ato rochoso xistoso, arquitectonicamente composta por uma câmara funerária à qual se acedia por
um corredor escavado na rocha e delimitado/ladeado por pequenos pilares/estelas de xisto anfibolítico.
Na câmara foram detectadas deposições primárias em conexão
conexão anatómica, com dois esqueletos
preservados e outros em redução anatómica. A última deposição primária encontrava-se
encontrava na área central da
câmara. Numa fase intermédia de utilização do sepulcro foi constituída uma acumulação de ossos humanos
desarticulados, que por sua vez se sobrepunham às reduções anatómicas e ao outro esqueleto preservado
que se encontrava junto da parede da câmara, evidenciando-se
evidenciando se vários momentos de utilização do
monumento.
25
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Após o seu encerramento, o Sepulcro terá sofrido várias afectações em idade antiga que resultaram
em dois episódios de abatimento do tecto e na intrusão de unidades sedimentares exteriores à câmara
sepulcral.
1.6.1. Arquitectura
O sepulcro 5 é o que, entre os sepulcros escavados, apresenta uma arquitectura mais complexa,
nomeadamente no que concerne à estruturação do acesso. Tal como os restantes, é composto por uma
câmara escavada na rocha, mas não apresenta um acesso em poço como os sepulcros 1 e 2, mas sim um
curto corredor igualmente escavado da rocha e um complexo dispositivo de monólitos de anfibolito.
A câmara apresenta uma planta irregular, de tendência ovalada. O eixo maior, de orientação NE-SO
tem 3,5 m de comprimento, enquanto o eixo que lhe é perpendicular, e que corresponde à orientação da
entrada (NO-SE) mede 2,4 m (Figura 13). A sua altura rondaria 1 metro de pé direito no centro,
apresentando o chão uma certa convexidade em perfil. Desta forma, a reunião das paredes da cúpula com o
chão fazia-se a uma cota superior à cota média do chão, formando um perfil ogival (Figura 14).
Relativamente à superfície, o chão da câmara situava-se a cerca de 3 metros de profundidade (cota média
do chão da câmara – 180,33m; cota média da superfície na zona da câmara 183,25m).
A entrada para a câmara fazia-se através de uma passagem que seria ovalada (apenas se
preservava a metade inferior) e que se apresentaria num plano ligeiramente mais inclinado do a que a
entrada do sepulcro 1, abrangendo já parte da cúpula. A penetração na cripta processar-se-ia de forma mais
vertical, enquanto as dos sepulcros 1 e 2 seria mais lateralizada. A diferença de cotas entre o chão da
câmara e o chão do corredor na zona da entrada é de 80/90 cm, levando a que, tal como nos outros dois
sepulcros em que foi possível ter informações sobre a entrada, o acesso se fizesse descendo uma pequena
rampa, muito verticalizada.
Figura 13 – Plano da câmara e corredor de acesso do sepulcro 5.
26
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 14 – Perfil do sepulcro 5.
Como referido, à cripta acedia-se através de um curto corredor com cerca de 2 metros de
comprimento e 1,20 /1,30 metros de largura, inclinado no sentido da entrada da câmara. A sua
reconstituição está muito dificultada pelo nível de destruição que o mesmo apresentava (já que terá sido
parcialmente afectado pelos trabalhos mecânicos da obra), estando praticamente reduzido à sua planta de
base. De facto, a superfície aplanada mecanicamente que permitiu a identificação do sepulcro 1 abrangia a
zona do corredor de acesso do sepulcro 5, rebaixada em cerca de 120/130 cm relativamente ao que seria a
superfície original (em função do que é possível reconstituir a partir do levantamento topográfico). Se
pensarmos que os depósitos de cobertura têm cerca de 20 / 30 cm, poderemos estimar que o substrato
original estaria cerca de 1 metro mais acima.
A base preservada do corredor era composta por uma fossa de contornos sub-rectangulares, por
vezes algo irregulares. Ladeando esta fossa e a própria entrada da câmara, existiam dois alvéolos
grosseiramente circulares, que serviriam para a implantação de estelas de xisto anfibolítico. Ambos
apresentavam o pedúnculo dessas estelas ainda cravados.
Abrangendo sensivelmente metade da grande fossa foram abertas três valas. Duas paralelas, uma
no limite NE da fossa e outra a cerca de 20 cm do limite SO. As extremidades SO destas valas eram cortadas
por uma outra que lhes era perpendicular, formando assim uma espécie de U, aberto para o lado da entrada
da câmara. Estas valas apresentavam ainda cravados no interior os pedúnculos de estelas em xisto
anfibolítico, alguns dos quais haviam sido calçados com vários blocos/lingote de anfibolito. Na vala
transversal, um espaço alongado encontrava-se vazio, sugerindo o lugar de uma estela mais larga. Do lado
exterior desta vala transversal, surgiram ainda escavados no interior da grande fossa, dois alvéolos
lateralizados, contendo cada uma restos de pedúnculos de estelas de xisto anfibolítico (Figura 15).
Figura 15 – Aspecto do corredor com os pedúnculos das estelas ainda encaixados e depois de estes retirados.
27
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Quanto às estelas, encontravam-se partidas, preservando-se as suas bases em pedúnculo, que se
encontravam cravadas nas valas e alvéolos. Contudo, com paralelo em algumas estelas que apareceram
inteiras à superfície junto ao possível sepulcro 6, é possível pensar em tamanhos e morfologias semelhantes
para as do sepulcro 5 (Figura 16).
Figura 16 – À esquerda: estelas recuperadas à superfície. À direita: alguns dos “pedúnculos” de estelas recuperados no interior das
valas do corredor do sepulcro 5 (escalas de 20 cm).
Figura 17 - Hipóteses de correspondência entre os tipos de estela encontrados à superfície e a estrutura de corredor de acesso ao
sepulcro 5.
28
Era Monográfica 1 (2013)
A quase totalidade dos pedúnculos recuperados e o tamanho das respectivas fossas de
implantação, sugerem que essas estelas fossem semelhantes a uma das que apareceu inteira à superfície e
que tem cerca de 90 cm de comprimento e apresenta uma morfologia mais larga e achatada no topo,
estreitando para a base. Registaram-se à superfície outras duas estelas com forma genericamente
semelhante, mas mais pequenas, às quais se poderiam assemelhar as estelas colocadas mais a NO, no lado
exterior do “U” formado no acesso ao sepulcro 5. Já o espaço em aberto a meio da vala transversal que
fechava o “U”, e que se situa precisamente em frente à entrada na câmara, sugere uma estela mais larga e
de maiores dimensões, como a que foi registada à superfície junto ao sepulcro 6 e que mede cerca de 2,5m
(Figura 17).
Figura 18 – Pormenor dos calços das estelas, com recurso a blocos/lingote de anfibolito.
1.6.2. Sequência estratigráfica faseada da câmara
Fase V
No topo da estratigrafia foi identificado, na área do corredor e da câmara, o depósito (UE56),
composto por terras remexidas devido às perturbações mecânicas e caracterizado por sedimento arenoso
pouco compacto e amarelado com inclusão de cascalho de xisto. Neste depósito foi identificado um
fragmento de uma laje de xisto anfibolítico, podendo corresponder a um elemento arquitectónico do
monumento funerário entretanto fragmentado e descontextualizado.
Também resultante do interface de destruição recente, no interior da câmara sepulcral foi
identificado um nível de abatimento do tecto (UE64) caracterizado por um depósito de derrube de
fragmentos de xisto em desagregação que, devido à queda, ficaram sobrepostos entre si e dispostos em
cutelo com orientação sudeste/noroeste, a partir do topo do interface de destruição e em direcção ao
interior da câmara (Figura 19: 2).
Fase IV
A esta fase correspondem as realidades relativas a um intervalo de tempo compreendido entre a
utilização / encerramento do sepulcro e a afectação recente em contexto de obra.
No topo da estratigrafia foi identificado o depósito (UE116), acumulado no interior da câmara
devido a um abatimento da zona da entrada e quebra da laje de encerramento do acesso, fazendo com que
os sedimentos argilosos que foram depositados para encerramento da área do corredor escorressem para o
interior do espaço funerário. Este depósito remobilizado caracterizava-se por sedimento vermelho
alaranjado, moderadamente compacto e homogéneo com inclusão de raízes e abundância de cascalho de
xisto. Ao depositar-se principalmente na zona de entrada da câmara, sobre a laje de fecho fragmentada e
sobre um abatimento antigo do tecto nessa zona, este depósito de escorrência acumulou-se formando uma
pendente do exterior para o interior, de sentido Oeste/Este, formando um “cone” de sedimento nesta área
(Figura 19: 3 e 4).
29
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Entre o momento de deposição da UE116 e o abatimento antigo do tecto na zona da entrada
identificou-se o depósito (UE66) que deverá ser resultante do facto de, por esta altura, o interior da câmara
estar muito exposto ao exterior,
ior, fazendo com que na zona mais baixa da estrutura, nos quadrantes sudoeste
e sudeste,
udeste, se fossem acumulando terras. Este depósito era caracterizado por sedimento amarelo alaranjado
moderadamente compacto, argiloso e muito plástico. As suas características
características indicam, inclusive, que deverá
estar relacionado com a entrada de água no interior da estrutura,
estrutura, pois em escavação soltava-se em
camadas/películas de reduzida espessura, evidenciando relação com contextos de muita humidade
hum
e
sedimentação horizontal (Figura 199: 5).
1
2
3
4
5
6
Figura 19 – Sepulcro 5: fases V e IV da sequência estratigráfica (posteriores à utilização do sepulcro. Fase V: vista da definição inicial
inicia
do sepulcro (1) e do derrube de parte da cúpula (UE64)
(UE64) provocado pela obra (2). Fase IV: vista das escorrências dos enchimentos do
corredor para o interior da câmara, cobrindo o abatimento antigo da cúpula na zona da entrada (3 e 4); vista da UE66 cobrindo o
rebordo do abatimento antigo (5); vista do aglomerado
aglomerado de ossos e cascalho correspondente à base do abatimento antigo (6).
30
Era Monográfica 1 (2013)
Sob este foi identificado o já referido primeiro abatimento do tecto da câmara, ao qual se
sobrepunham também a laje de fecho fragmentada e o depósito de escorrência de sedimentos do corredor
(UE116). Este abatimento (UE65) correspondia a um depósito de derrube solto e homogéneo de cor amarela
esbranquiçada com bolsas de sedimento mais alaranjado (devido ao contacto com os depósitos adjacentes e
sobrejacentes), constituído por cascalho de xisto resultante da desagregação da parede da câmara na zona
da entrada. No nível inferior deste derrube foram identificadas lajes de xisto de maiores dimensões
dispostas de forma aleatória na horizontal, também como resultado derrocada da estrutura.
Com este abatimento, verificou-se a afectação dos depósitos arqueológicos subjacentes, fazendo
com que algum material osteológico e arqueológico se apresentassem algo remexido. A nível artefactual foi
identificado um lingote/esboço de xisto anfibolítico (com provável origem no corredor de acesso e trazido
para o interior da câmara pelo processo erosivo ocorrido). Registou-se, ainda, uma concentração de ossos
soltos/desarticulados junto à parede da câmara, no quadrante leste (Figura 19: 6).
Sob o abatimento do tecto foi identificado um fino depósito (UE67) de sedimento vermelho
alaranjado compacto e homogéneo, muito argiloso. Apresentava inclusões de cascalho de xisto e algumas
sementes. Não forneceu materiais arqueológicos, mas pelo facto de se sobrepor aos depósitos funerários,
incorporava já alguns ossos. Por baixo desta unidade foi identificado o depósito (UE75), circunscrito aos
quadrantes Sudeste e Sudoeste, numa faixa junto à parede da câmara do sepulcro. Este era caracterizado
por sedimento arenoso de cor cinzenta esbranquiçada, moderadamente compacto, com inclusão de cascalho
de xisto e ocasional material osteológico (mais uma vez, provavelmente relacionado com a unidade
subjacente que correspondia a uma concentração de ossos humanos). Finalmente, ainda a esta fase
corresponde o depósito (UE70), formado devido à progressiva desagregação da parede e tecto da câmara ao
longo do tempo, caracterizado por sedimento arenoso branco acinzentado moderadamente compacto,
homogéneo e de grão fino, facto que lhe conferia um aspecto pulverulento. Estes depósitos, que ocupavam
grande parte da área da câmara, correspondem a sedimentações já posteriores ao encerramento final do
sepulcro, mas prévias ao abatimento antigo descrito.
Fase III
A esta fase corresponde última utilização da cripta e momento do seu encerramento, quando é
selada com uma laje de xisto anfibolítico (posteriormente fragmentada em vários pedaços identificados no
já interior desta estrutura).
Estas últimas utilizações são traduzidas pelo depósito (UE72), caracterizado por sedimento de cor
laranja amarelado homogéneo, compacto e argiloso. Neste depósito foram identificados alguns materiais
arqueológicos, como machados de pedra polida, uma lâmina e um geométrico, estes últimos em sílex. Este
conjunto artefactual estava circunscrito à zona de entrada da câmara, do lado direito. Ainda relativo a uma
última utilização da câmara do sepulcro, foi identificado na área central um esqueleto (UE68) pertencente a
um indivíduo do sexo masculino, depositado em posição fetal e com cabeça para a entrada (Figura 19). Esta
deposição encontrava-se parcialmente sobre a acumulação de ossos relativa à Fase II de utilização (Figura
20) e apresentava a particularidade de o seu crânio ter sido sobreposto e afectado por um fragmento
derrubado da laje de encerramento da câmara.
Fase II
Por trás e sob a última deposição primária foi identificado um extenso ossário (UE69), que
preenchia o fundo da câmara e se prolongava quase até à entrada pelo lado esquerdo. Este ossário, apesar
de uma aparência caótica, apresentava níveis de organização. Verificou-se que os crânios se encontravam a
delimitar a área de concentração dos ossos desarticulados face à zona central, desprovida de material
osteológico (com excepção do esqueleto UE68). Para além disso a análise da distribuição espacial dos ossos
(todos foram coordenados) permitiu evidenciar, dentro desta concentração de ossos, a existência de
conjuntos intencionalmente organizados, ou seja, em que aparentemente se agrupavam ossos específicos
por núcleos distintos. Na zona central do ossário concentravam-se ossos de sub-adultos (Figura 21: 2) e do
seu lado esquerdo observou-se uma concentração de falanges humanas (Figura 21: 1) associadas a falanges
de ovinos/caprinos (ver capítulo 4). A distribuição dos ossos longos não sugere qualquer organização
espacial específica.
31
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 19 – Vista da última deposição na câmara do sepulcro 5, vendo-se o ossário anterior por trás e o conjunto de materiais à
esquerda da entrada (para a qual está orientada a cabeça do indivíduo).
Figura 20 – Detalhe do esqueleto UE68, vendo-se parte das pernas e os pés a cobrir o ossário anterior.
32
Era Monográfica 1 (2013)
Ao nível da componente artefactual, foram identificados, misturados nesta concentração
con
de ossos,
machados de pedra polida, geométricos, uma lâmina, osso polido e, a título pontual, um seixo talhado e
líticos de tipologia indeterminada apenas com vestígios de afeiçoamento. Estes materiais, contudo,
revelavam uma vez mais uma concentração
concentração e localização específica junto à parede da câmara e na zona da
entrada (Figura 21: 4), agora do lado do lado esquerdo (limite que o ossário atingia desse lado).
lado)
1
2
3
4
5
6
Figura 21 – Deposições das fases II e I. Fase II (ossário): aspecto da zona de concentração de falanges humanas (1); zona de
concentração de ossos de sub-adulto
adulto (2 e 3); concentração de machados na extremidade do ossário, junto ao lado esquerdo da
entrada (4). Fase I: pormenor de uma redução
redução sob o ossário (5); esqueleto de mulher no fundo da câmara sob o ossário,
ossário revelando
uma compressão significativa dos membros inferiores (6).
33
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Fase I
A esta fase corresponde às primeiras utilizações deste sepulcro, traduzidas por uma série de sete
reduções/conexões anatómicas parciais (Figura 21: 5) e uma deposição primária, ou seja um esqueleto do
sexo feminino em posição fetal, comprimido contra a parede do fundo da câmara (Figura 21: 6). Estas
reduções não apresentavam um padrão como o verificado no sepulcro 1 (onde as reduções correspondiam
principalmente a membros inferiores), sendo um conjunto muito diversificado. Ao nível das suas relações
físicas foi possível verificar que as reduções 4 e 5 se encontravam estratigraficamente sobre a redução 6.
Sob estas deposições, e a cobrir grande parte da área da câmara, foi identificado o depósito (UE76),
de reduzida potência estratigráfica. Era caracterizado por sedimento areno-argiloso medianamente
compacto, homogéneo com forte concentração de pigmentos vermelhos. Aqui foi identificada a presença de
raízes e algum cascalho de xisto, este último resultante da desagregação do substrato da base da câmara.
Nesta unidade estratigráfica foram ainda recolhidos alguns fragmentos de material osteológico, assim
como, a nível artefactual, alguns geométricos.
Paralelamente, na zona sul da câmara registou-se uma pequena mancha de areias pretas (UE73).
Este depósito, de reduzida potência estratigráfica, apresentava-se medianamente solto e heterogéneo e aqui
foram ainda identificados alguns fragmentos de material osteológico, para além da presença de alguns
machados de pedra polida.
Na base da estratigrafia foi identificado o depósito (UE71), de sedimento branco acinzentado
moderadamente compacto e homogéneo, arenoso e de grão fino, muito pulverulento. Pelas suas
características, este depósito formou-se devido à degradação do substrato da base da câmara. Envolvia um
conjunto de machados de pedra polida (com algum “ocre” amarelo associado), geométricos e uma lâmina
concentrados, uma vez mais, à entrada da câmara, do lado esquerdo.
1.6.3. Sequência estratigráfica faseada do corredor
Fase IV
O corredor de acesso à câmara do sepulcro foi truncado pelo interface de destruição resultante da
acção da obra. Devido a este corte horizontal, o topo desta estrutura foi destruído, assim como parte das
estruturas/elementos arquitectónicos que o integrariam e do depósito de encerramento que colmatou a sua
utilização.
Fase III
Corresponde ao intervalo de tempo compreendido entre a utilização e encerramento do sepulcro e a
afectação recente em contexto de obra, durante o qual se verificou a fragmentação da laje em xisto
anfibolítico que encerrava a entrada da câmara. A fragmentação desta laje, como já foi referido, ocorreu a
quando do abatimento antigo de parte da cúpula, o qual provocou a movimentação de parte do sedimento
depositado no corredor para o interior da câmara.
Figura 22 – Aspecto do enchimento do corredor, vendo-se as bases dos pilares/estela que o delimitavam, a laje da porta
fragmentada e a localização do machado.
34
Era Monográfica 1 (2013)
Fase II
Trata-se do momento de encerramento final do sepulcro, resultando na última colocação da laje de
encerramento da entrada e posterior preenchimento da área do corredor com o depósito (UE57). Este era
caracterizado por sedimento vermelho alaranjado, compacto e argiloso, com presença frequente de cascalho
de xisto e de xisto anfibolítico (este último devido à fragmentação/desagregação dos pilares/estelas
identificados na estrutura). Para além disso, foram também identificados neste depósito, ocasionalmente,
calhaus de xisto anfibolítico e nódulos de argila de cor amarelada.
Ao nível dos materiais arqueológicos, tal como no sepulcro 1 foi identificada a presença de
abundantes lingotes/esboços de instrumentos de pedra polida, em muitos casos com trabalho de
afeiçoamento. Ao contrário do verificado no sepulcro 1, e porque aqui a potência estratigráfica do depósito
era mais reduzida, não foi possível identificar qualquer sequência na deposição destes esboços/lingotes em
xisto anfibolítico ao longo deste depósito de encerramento. De sublinhar a presença de um seixo talhado em
quartzito e, no nível inferior, junto à base do corredor, a deposição de um machado de pedra polida perto da
abertura de acesso à câmara.
Fase I
Aqui engloba-se o momento de construção do corredor de acesso à cripta. Este foi construído com a
abertura de uma vala linear de orientação sudeste/noroeste, de forma sub-rectangular e cuja parte
preservada apresentava profundidade pouco pronunciada. Foram igualmente abertas outras estruturas
negativas na área do corredor, dividindo-se em alvéolos circulares e valas alongadas para implantação de
vários pilares/estelas.
Os alvéolos circulares encontravam-se revestidos por argila muito compacta de cor amarela a
esbranquiçada, funcionando como “cimento” para a colocação na vertical dos elementos pétreos. Duas
valas de forma sub-rectangular orientadas no sentido sudeste/noroeste com cerca de 65 cm de
comprimento, de contornos e base irregulares, ladeavam o corredor incorporando cada uma três
pilares/estelas. Na extremidade oposta à entrada estas valas terminavam numa outra que lhes era
perpendicular com cerca de 1m de comprimento. Esta vala parece ter sido construída como fecho do
corredor e, pela sua forma e dimensão, poderá ter sido base de implantação de uma estela central de
grandes dimensões (Figura 17) para além de dois pilares laterais cuja base ainda se conservavam. Pelo seu
exterior, foram ainda identificados alvéolos de mais dois pilares/estelas.
Estes pilares/estelas em xisto anfibolítico foram cortados pelo interface de destruição recente,
ficando apenas preservada a sua base no interior dos alvéolos/fossas, calçados com blocos/lingotes de
anfibolito. Esta circunstância sugere que, com excepção da grande estela central, os pilares/estela laterais
deveriam estar ainda presentes antes da afectação.
1.6.4. Dados antropológicos preliminares
No Sepulcro 5 foram identificados 2 esqueletos em conexão anatómica e 7 reduções (Guerra e
Fernandes, 2007), assim como um conjunto alargado de ossos desarticulados, mas dispostos de forma
organizada.
Relativamente aos esqueletos e às reduções foi possível observar ou estimar a orientação em 6
casos, verificando-se a orientação O – E em cinco situações e a orientação E – O na restante e uma
tendência geral para a deposição em decúbito lateral. Embora a orientação do corredor de acesso seja
sensivelmente NO – SE, a abertura de entrada situa-se do lado Oeste da câmara, pelo que se pode assumir
que existe uma orientação da cabeça para a entrada na maioria das situações observadas, tal como
acontecia com o sepulcro 1. Esta situação é particularmente evidente na deposição do último esqueleto, que
ocupava a área central da câmara, imediatamente à frente da entrada.
Numa abordagem ainda preliminar (que teve por base as conexões e as classificações feitas na fase
de escavação e levantamento dos ossos), foi determinado um número mínimo de 16 indivíduos (o qual
deverá aumentar com um estudo mais sistemático da colecção osteológica). Os esqueletos e as reduções
apontam para indivíduos adultos jovens ou maduros, mas alguns sub-adultos foram identificados entre os
ossos desarticulados. Tal como no sepulcro 1, verifica-se a inexistência de idosos e de crianças com idade
inferior a 3 anos.
35
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Relativamente à diagnose sexual, tendo por base o universo das conexões (idem), foi possível
identificar a presença de 3 indivíduos de sexo masculino e de outros 3 do sexo feminino. Aquele que
corresponderá à deposição mais antiga (no fundo da câmara, comprimido contra a parede) é uma mulher,
enquanto a última deposição (ao centro de câmara e parcialmente sobre o ossário) corresponde a um
homem.
1.7. OS EVENTUAIS SEPULCROS 6 E 7
Como resultado dos trabalhos de prospecção geofísica, foram identificadas duas anomalias junto
aos limites da área afectada, as quais poderão corresponder a mais dois sepulcros.
Sobre o eventual sepulcro 7 (Figura 3) apenas temos, de momento, a referência da anomalia
geofísica. Como se verificou que outras duas anomalias registadas e sondadas na área de afectação não
correspondiam a realidade arqueológicas, a dúvida permanece sobre a natureza deste sinal geofísico. Já
relativamente ao eventual sepulcro 6, as probabilidades de se tratar de um sepulcro saem reforçadas pela
proximidade de várias estelas e blocos/lingotes de anfibolito à superfície.
No sentido de tentar reforçar essa possibilidade, e perante a possibilidade de existir interesse em
valorizar um sepulcro no local, foi iniciada uma pequena sondagem diagnóstico que procurava confirmar a
existência de estruturas arqueológicas naquele ponto, nomeadamente que pudessem pertencer a uma
entrada de sepulcro. A sondagem, com cerca de 1 m2, foi rapidamente interrompida, pois começaram a
aparecer a poucos centímetros de profundidade, e envolvidos num sedimento muito argilosos semelhante
ao dos poços de acesso, vários blocos/lingote de anfibolito alinhados e um seixo talhado. Entendendo-se
que a compreensão destes vestígios obrigava a uma análise em área e num outro contexto de intervenção,
não se prosseguiram os trabalhos e a sondagem foi tapada, sem que as peças fossem removidas. A
probabilidade de existência de um sepulcro naquele ponto do cabeço é, pois, elevada.
Figura 23 – Imagens da geofísica (por georadar) e respectiva interpretação fornecidas pela Eastern Atlas. As referências 4 e 3(?)
correspondem, respectivamente aos possíveis sepulcros 7 e 6.
36
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 24 – Aspecto da pequena sondagem (interrompida) na zona do possível sepulcro 6, vendo-se a concentração dos blocos
lingotes de anfibolito.
1.8. A ENVOLVENTE DA NECRÓPOLE DE HIPOGEUS
Com o objectivo de estabelecer um enquadramento local da necrópole foram feitas prospecções
selectivas do espaço envolvente e o reconhecimento dos dois monumentos megalíticos vizinhos,
referenciados no Estudo de Impacte Ambiental.
Os dois monumentos megalíticos relocalizados correspondem aos seguintes monumentos: Anta 1
do Monte da Sobreira localizada 500m a sudeste da necrópole de hipogeus, no prolongamento da linha de
festo, sobranceiro ao Guadiana; Anta 2 do Monte da Sobreira localizada 300m a Sul da necrópole, numa
plataforma aplanada entre duas ribeiras subsidiárias directas do Guadiana (Figuras 25 e 26).
Figura 25 - Contexto arqueológico local de cronologia Pré-Histórica. 1. Necrópole da Sobreira de Cima; 2. Anta 1 do Monte da
Sobreira; 3. Anta 2 do Monte da Sobreira; 4. Sobreira de Cima 3; 5. Sobreira de Cima 2; 6. Sobreira de Cima 1; 7. Castelo dos
Pardieiros 1; 8. Monte dos Pardieiros de Baixo 1; 9. Anta da Balsinha; 10. Possível pedreira de xistos anfibolíticos.
37
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 26 – Anta 1 do Monte da Sobreira (esquerda) e Anta 2 do Monte da Sobreira.
Figura 27 – Vista da área da possível pedreira a partir da necrópole e aspecto das concentrações de blocos de xisto anfibolítico à
superfície e vista, a partir da necrópole, do cabeço onde se localizam.
Na sequência dessas mesmas prospecções foram referenciados dois sítios inéditos e que foram
designados por Sobreira de Cima 2 e Sobreira de Cima 3 (uma vez que já existia um outro local referenciado
no inventário da EDIA como Sobreira de Cima 1). Localizam-se um em frente do outro, de cada lado da
ribeira que corre a sudeste do cabeço da necrópole, ambos em zonas onde as vertentes deixam de ser
suaves para apresentarem um declive mais acentuado (Figura 25). Na Sobreira de Cima 2 (a cerca de 300 da
necrópole) foi identificada indústria macrolítica sobre seixo, com seixos talhados, núcleos, lascas (entre as
38
Era Monográfica 1 (2013)
quais uma “gomo de laranja”) e um bojo de cerâmica manual. Na Sobreira de Cima 3 apenas se registaram
alguns seixos talhados.
Mas o local mais interessante, tendo em conta o tratamento conferido ao anfibolito nesta necrópole
(ver capítulo 3), foi identificado a nordeste da necrópole, num pequeno cabeço sobranceiro ao Guadiana,
onde foi detectada uma possível pedreira para a exploração de xistos anfibolíticos (Figura 25). Mesmo na
extremidade do cabeço observa-se à superfície uma enorme concentração de blocos de xisto anfibolítico
com as mesmas características dos blocos/lingote que aparecem depositados nos acessos aos sepulcros 1, 2
e 5 e à superfície na zona do sepulcro 6 (Figura 27). Esta concentração prolonga-se pelo início da vertente
sul do cabeço, mas está muito bem localizada. Poderá corresponder a um local de extracção e
abastecimento destes blocos, sendo de extremo interesse tentar estabelecer a sua cronologia, pois não é de
todo inviável que este fosse um dos locais de abastecimento dos blocos que surgem na necrópole.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GUERRA, R. E FERNANDES, T. (2007), Relatório antropológico dos sepulcros da Sobreira de Cima, Laboratório de
Antropologia Biológica, Universidade de Évora, Policopiado.
39
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
40
Era Monográfica 1 (2013)
2
CRONOLOGIA ABSOLUTA DA
NECRÓPOLE DE HIPOGEUS DA SOBREIRA DE CIMA
(VIDIGUEIRA, BEJA)
António Carlos Valera
A recente proliferação de necrópoles neolíticas de hipogeus no interior alentejano não foi ainda
acompanhada pela obtenção de cronologias absolutas, pelo que, no momento em que escrevo, a Sobreira
de Cima (por ter sido a primeira a ser identificada na região) continua a ser a única deste período e com este
tipo de estruturas a estar datada em termos absolutos.
Existe actualmente um conjunto de sete datações de radiocarbono para a Sobreira de Cima,
abrangendo quatro dos cinco sepulcros escavados (Tabela 1). Cinco dessas datações foram já publicadas
(Valera, Soares e Coelho, 2008), acrescentando-se agora mais duas (Wk-36004 e Wk-36006) realizadas no
âmbito de uma colaboração com o projecto “O Algar do Bom Santo e as sociedades neolíticas da
Estremadura Portuguesa, VI-IV milénios a.C.” (PTDC/HIS-ARQ/098633/2008, financiado pela Fundação para
a Ciência e a Tecnologia) coordenado por António Faustino Carvalho (Carvalho, neste volume).
No cômputo geral, foram datados restos osteológicos humanos dos sepulcros 1, 3, 4 e 5. Do
sepulcro 1 foram datados restos de quatro esqueletos individualizados (esqueletos 1 a 4), tendo a amostra
relativa ao esqueleto 5 revelado um teor demasiado baixo de colagénio para permitir a datação. Dos
sepulcros 3, 4 e 5 dataram-se ossos integrados em ossários. Nos dois primeiros casos, muito afectados pela
destruição mecânica, não se registaram ossos em conexão e no último, após várias tentativas para obter
ossos com colagénio, apenas se conseguiu datar uma falange integrada no extenso ossário existente nesse
monumento. O sepulcro 2, também muito afectado pela obra, forneceu muito poucos ossos e nenhuma das
amostras revelou a presença de colagénio, pelo que este sepulcro não se encontra datado pelo radicarbono
(embora o seu espólio e arquitectura sejam, em grande medida, coincidentes com o registado nos sepulcros
1 e 5. Os resultados obtidos (Figura 1) foram calibrados através do programa OxCal 4.2, fazendo uso da
curva IntCal 013 (Bronk Ramsey 2009).
Tabela 1 – Datações de radiocarbono para os sepulcros da Sobreira de Cima
Sítio
Sobreira de Cima 1
Sobreira de Cima 1
Sobreira de Cima 1
Sobreira de Cima 1
Sobreira de Cima 1
Sobreira de Cima 3
Sobreira de Cima 4
Sobreira de Cima 5
Amostra
Esqueleto 1 (costelas)
Esqueleto 2 (Costelas)
Esqueleto 3 (Costelas)
Esqueleto 4 (Costelas)
Esqueleto 5 (Costelas)
Tíbia esquerda
Fémur direito
Falange
Ref. Laboratório
Sac-2261
Wk-36003
Sac-2260
Wk-36005
Wk-36006
Beta - 231071
Sac-2256
Beta - 232637
41
Data BP
4500±70
4601±26
4530±50
4566±30
-4670±50
4520±35
4080±40
Cal BC 2s
3483 - 2932
3500 - 3197
3483 - 3033
3492 - 3109
Sem colagénio
3631 - 3357
3359 - 3098
2863 - 2489
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 1 – Representação gráfica conjunta das probabilidades de distribuição das datações da Sobreira de cima
Figura 2 – Representação gráfica individualizada com probabilidades de distribuição das datações doSepulcro 1.
42
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 3 – Representação gráfica individualizada com probabilidades de distribuição das datações dos Sepulcro 3, 4 e 5.
As duas novas datações, se por um lado se enquadram dentro do intervalo global já definido pelas
datas anteriormente obtidas (excepção feita a Beta-232637, de que se falará mais adiante), permitem, em
conjugação com aquelas, uma análise mais detalhada dos possíveis intervalos de tempo de utilização da
necrópole.
No sepulcro 1, três das quatro datas (Sac-2261; Sac-2260; Wk-36005) não se distinguem
estatisticamente, definindo genericamente um período enquadrável entre 3400 – 3100/3000 (percentagens
de probabilidade acima dos 90%) para a deposição dos indivíduos 1, 3 e 4. Todavia, a datação obtida para o
indivíduo 2 (Wk-36003) revela dois picos de distribuição com percentagens semelhantes (45% e 49%),
sendo que o intervalo mais recente (49%) se sobrepõe ao limite mais antigo do intervalo definido pelas
outras três datações deste sepulcro (ver Figura 2, com distribuição de probabilidades para as datações do
sepulcro 1), mas o pico mais antigo (45%) é claramente anterior. Ora perante a similaridade estatística entre
estes dois intervalos obtidos para a datação Wk-36003, mas que estão bem separados entre si, duas
possibilidades devem ser colocadas.
Uma primeira possibilidade será a data real estar integrada no intervalo mais recente. Nesta caso,
enquadrar-se-ia no limite inferior do intervalo das restantes datações obtidas para este sepulcro, sendo
genericamente concordante com elas, embora reforçando a metade mais antiga desse intervalo. A segunda
possibilidade será a data real estar no intervalo anterior, colocando a deposição do indivíduo 2 claramente
no início da segunda metade do 4º milénio. A ser assim, a construção do sepulcro dataria de meados do
milénio, tendo a sua utilização decorrido ao longo dos séculos seguintes.
Esta segunda hipótese poderá ser consubstanciada pela datação obtida para o sepulcro 3, a qual
apresenta um intervalo de distribuição de 83,4% entre 3535 e 3357 cal AC (Figura 3). Desta forma, a datação
mais antiga para o sepulcro 1 e a datação obtida para o sepulcro 3 parecem colocar a origem da necrópole no
século sexto do 4º milénio a.n.e..
43
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
A situação contextual em que se encontra o esqueleto 2 do sepulcro 1, que apresenta a datação mais
antiga,, implica, contudo, uma valorização específica do resultado obtido.
obtido
2.1. COMENTÁRIO
OMENTÁRIO AOS RESULTADOS OBTIDOS
De facto, os quatro esqueletos datados no sepulcro 1 são os que se encontravam num estado de maior
integralidade e estavam dispostos numa linha mais próxima da entrada (Figura 4). Os esqueletos 1 e 2 não
revelam relações
es físicas entre si, o que impede o recurso à estratigrafia para definir relações temporais entre
ambos. Já o esqueleto 4 (de uma criança) apresentava a cabeça sobre as mãos do esqueleto 3. A aparência
geral da deposição, porém, sugere grande proximidade no
no tempo das inumações, contrastando com o ossário
que se acumulou a sul e que corresponderá a deposições anteriores. Por outro lado, as datações obtidas para
os esqueletos 1, 3 e 4 confirmam, na medida em que o radiocarbono o permite fazer, essa proximidade
proximidad de
integração dos corpos na cripta, facto que a quase total ausência de sedimentação interna e não esgotamento
da utilização do espaço funerário igualmente sugere. Ora situando-se
situando se no meio destas deposições e
apresentando um estado de integralidade significativo
significativo é pouco provável que o esqueleto 2 corresponda a uma
deposição muito mais antiga. Esta circunstância contextual parece, assim, reforçar a primeira hipótese colocada
relativamente ao intervalo mais recente da datação obtida para o esqueleto 2 do sepulcro
sepulcro 1.
Figura 4 – Situação contextual dos esqueletos datados no sepulcro 1.
44
Era Monográfica 1 (2013)
Ainda assim, se esta natureza contextual registada no sepulcro 1 permite valorizar sobretudo o intervalo
mais recente da datação, ela não escamoteia o facto de que o sepulcro 3 apresenta uma datação mais antiga e
que coloca aquele sepulcro a funcionar no início da segunda metade do 4º milénio a.n.e..
Quanto à datação da amostra proveniente do sepulcro 4 é perfeitamente coincidente com as três
datações mais recentes do sepulcro 1, ou seja, integra o intervalo genérico 3400 – 3100 cal AC.
Por último, a data obtida para um elemento integrante do ossário do Sepulcro 5 apresenta uma
significativa disparidade relativamente a todas as restantes, situando-se na primeira metade do 3º milénio
a.C. Tendo em conta que o contexto funerário datado é muito semelhante ao registado no Sepulcro 1 e, por
conseguinte, bastante diferente dos contextos funerários calcolíticos em hipogeu que têm vindo a ser
recentemente intervencionados, casos como o Carrascal (Valera, 2010) ou Cortes 2 (Valera et al., no prelo),
esta datação deverá ser olhada com pouca confiança, revelando o osso datado pouco colagénio. Até porque
o Sepulcro 5, ao contrário dos restantes, foi alvo de um abatimento antigo, tendo a câmara sido preenchida
por sedimentos argilosos que selavam a entrada, os quais foram homogeneamente sedimentados sobre os
ossos por acção hídrica, o que gerou condições tafonómicas distintas relativamente aos restantes sepulcros
ao mesmo tempo que facilitava eventuais acessos posteriores ao interior da câmara. A presença de um
pente em marfim no ossário poderá consubstanciar uma revisitação deste contexto já no 3º milénio AC
(porém há que lembrar a presença de marfim no contexto fechado do sepulcro 1).
Datando-se momentos de utilização dos sepulcros, os resultados funcionam, naturalmente, como
datações ante quem para a construção dos mesmos. Assim, os dados obtidos permitem colocar a hipótese
de a origem da necrópole se reportar ao início da segunda metade do 4º milénio a.n.e. (concorrendo para tal
juízo sobretudo a datação do sepulcro 3) e que a sua utilização se terá desenvolvido ao longo dessa
segunda metade. Porém, o facto de, nos sepulcros que possibilitaram essa observação, os espaços
funerários terem sido encerrados em fase ainda longe do esgotamento da sua capacidade enquanto
contentores funerários, indicia que o espectro cronológico de utilização de cada sepulcro não terá sido
particularmente longo. Já a datação obtida para uma amostra de ossário do sepulcro 5, que poderá indiciar
uma reutilização pontual desta necrópole no 3º milénio, que a ter ocorrido deixou relativamente poucas
marcas, é pouco credível, dada a situação contextual e a qualidade da amostra datada.
Os dados cronométricos e contextuais da Sobreira de Cima confirmam inequivocamente o
enraizamento bem dentro do 4º milénio a.C. da origem das construções funerárias em hipogeu, reforçando a
ideia de que algumas poderão remontar a meados desse mesmo milénio. Nos territórios litorais, são já
várias as datações que referenciam estas estruturas funerárias claramente dentro de segunda metade do 4º
milénio, casos dos monumentos de Cabeço da Arruda 1 (Silva, 1999), câmara ocidental da Praia das Maçãs,
Monte do Castelo (Cardoso e Soares, 1995) e Monte Canelas (Soares, 1999). O monumento do Monte do
Castelo datará muito provavelmente do 3º quartel deste milénio e entre as datações publicadas para S.
Pedro do Estoril 1 (Gonçalves, 2005) surge uma outra data idêntica à obtida para o Sepulcro 3 da Sobreira
de Cima.
Estas circunstâncias permitem pensar num desenvolvimento paralelo e em simultâneo da
construção de hipogeus em territórios do litoral e do interior do centro-sul de Portugal, contribuindo para
uma significativa variedade da arquitectura e ritualidade funerária a partir de meados do 4º milénio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARDOSO, J.L. e SOARES, A.M.M. (1995), "Sobre a cronologia absoluta das grutas artificiais da Estremadura
Portuguesa", Almadan, II Série, 4, p.10-13.
CARVALHO, A.F. (neste volume), “Análise de isótopos estáveis de quatro indivíduos do sepulcro 1 da necrópole de
hipogeus da sobreira de cima (vidigueira, beja): primeiros resultados paleodietéticos para o neolítico do interior alentejano”
(A.C. Valera coord), Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico (Vidigueira, Beja), Era Monográfica, 1, Lisboa,
Nia-Era, p.109-112.
GONÇALVES, VÍCTOR (2005), “Cascais há 5000 anos. Tempos, símbolos e espaços da morte das antigas sociedades
camponesas”, Cascais há 5000 anos, C.M.C, p.63-195.
SILVA, ANA MARIA (1999), "A necrópole neolítica do Cabeço da Arruda (Torres Vedras, Portugal): os dados
paleobiológicos", Saguntum, Extra 2, p.355-360.
SOARES, A.M.M. (1999), “Megalitismo e cronologia absoluta”. In BALBIN BEHRMANN, R. e BUENO RAMIREZ, P.
(eds.), Actas do II Congresso de Arqueologia Peninsular, 3, Zamora, Fundación Rei Afonso Henriques, p. 689-706.
45
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
SOARES, JOAQUINA (2003), Os hipogeus pré-históricos da Quinta do Anjo (Palmela) e as economias do simbólico,
Setúbal, MAEDS.
VALERA, A.C. (2010), "Gestão da morte no 3º milénio AC no Porto Torrão (Ferreira do Alentejo): um primeiro
contributo para a sua espacialidade", Apontamentos de Arqueologia e Património, 5, Lisboa, NIA-ERA Arqueologia, p.
57-62.
VALERA, A.C. e COELHO, M. (2007), A necrópole neolítica da Sobreira de Cima. Relatório dos Trabalhos
Arqueológicos., Lisboa, ERA Arqueologia.
VALERA, A.C.; GODINHO, R.; CALVO, E.; MORO B. J.; FILIPE, V. e SANTOS, H. (no prelo), “ Um mundo em negativo:
fossos, fossas e hipogeus entre o Neolítico Final e a Idade do Bronze na margem esquerda do Guadiana (Brinches,
Serpa)“, Actas do 4º Colóquio de Arqueologia do Alqueva, Beja (2010)
VALERA, A., SOARES, A. M. e COELHO, M. (2008), ““Primeiras datas de radiocarbono para a necrópole de hipogeus da
Sobreira de Cima (Vidigueira, Beja)”. Apontamentos de Arqueologia e Património, Lisboa, NIA-ERA, 2, p. 27-30.
BRONK RAMSEY, C. (2009). Bayesian analysis of radiocarbon dates. Radiocarbon, 51(1), 337-360.
46
Era Monográfica 1 (2013)
3
ASPECTOS DO RITUAL FUNERÁRIO NA NECRÓPOLE DA SOBREIRA
DE CIMA (VIDIGUEIRA, BEJA)
António Carlos Valera
Este capítulo é dedicado aos aspectos da ritualidade envolvida nas práticas funerárias que
ocorreram na Sobreira de Cima. Embora o conceito de rito diga tradicionalmente respeito ao conjunto de
fórmulas mais ou menos reguladas que compõem todo um cerimonial, enquadrando gestos, expressões
orais, posições corporais, vestuários, artefactos votivos e toda uma série de actos de natureza variável, o
conceito aqui utilizado será ainda mais lato, incorporando a própria arquitectura e as opções que ela
encerra. De facto, a construção de um sepulcro e o modelo arquitectónico escolhido já estão imbuídos de
ritualidade e são em si práticas regidas por critérios que se fundamentam nas concepções de vida e morte e
nas prescrições que as regulam.
Porém, se se procura lidar com um conceito de ritual amplo e abrangente, confrontamo-nos sempre
com a circunstância de que uma parte significativa desse ritual não fica materializada no registo
arqueológico. Os gestos realizados, os cânticos ou o choro praticados, os comportamentos, as
particularidades do vestuário e de outros adereços, as posições corpóreas dos vivos, as sequências de acções
e outras normas intangíveis não nos chegam. Quando muito podem chegar-nos alguns “produtos”, alguns
resultados dessas práticas se os contextos estiverem bem preservados. É o caso da Sobreira de Cima,
sobretudo nos Sepulcros 1 e 5, onde aspectos relacionados com a deposição dos corpos, dos artefactos
votivos e da própria construção e gestão do espaço funerários nos fornecem preciosas janelas sobre
algumas componentes dos rituais realizados.
3.1. A DEPOSIÇÃO DOS CORPOS E A GESTÃO DO ESPAÇO FUNERÁRIO
Relativamente a esta vertente do ritual, apenas temos informação relevante para os sepulcros 1 e 5
(as câmaras dos restantes foram muito afectadas, não permitindo a recuperação de informação significativa
neste particular).
O sepulcro 1 corresponde a uma sepultura colectiva de deposições primárias, onde se registaram
processos de lateralização (com a consequente desarticulação total ou parcial dos esqueletos) de deposições
mais antigas com o fim de obter espaço para as mais recentes. Esta é a interpretação que se assume
provisoriamente até que o estudo antropológico da aglomeração dos ossos desconectados esteja realizado
(até lá, teremos sempre que ter em mente a possibilidade de poderem existir algumas deposições
secundárias de ossos soltos ou de segmentos de corpos). Ainda assim, um espaço considerável da câmara,
imediatamente em frente da entrada, apresentava-se totalmente livre de qualquer deposição (de corpos ou
de artefactos), o que por si só indica que o espaço funerário estava longe de se esgotar aquando do
encerramento definitivo do sepulcro.
No que respeita à deposição dos corpos, nos casos em que a observação foi possível os mesmos
apresentavam-se sempre em decúbito lateral, sendo possível estabelecer ou estimar a orientação em sete
esqueletos e numa redução. Predomina a orientação SO-NE, com quatro situações, seguida de duas
orientações O-E e outras duas N-S. As cabeças apresentam-se predominantemente orientadas para a
47
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
entrada, situação associada às orientações SO-NE dos corpos da metade norte da câmara e O-E nos corpos
da metade sul (já que o poço de acesso está ligeiramente descentrado para sul relativamente ao eixo central
da câmara). Já relativamente a aspectos mais particulares, como a posição dos braços, a situação é um
pouco mais heterogénea: braço flectido com mão junto à cabeça e outra sobre a pélvis, braços estendidos
ao longo do corpo ou braços entre as pernas foram situações documentadas. Desta forma, a deposição dos
corpos, quer na sua posição genérica, quer na sua orientação, parece apresentar padronizações
eventualmente relacionáveis com prescrições de natureza ritual e onde o posicionamento da cabeça
orientada à entrada parece ser um requisito importante.
Tal como o sepulcro 1, o sepulcro 5 corresponde a um monumento de inumação colectiva. Também
aqui se registou uma interrupção da utilização do espaço funerário muito antes de este se encontrar
esgotado. Quando a última deposição é efectuada (esqueleto localizado na área central da câmara), uma
parte significativa da cripta, junto à entrada e do lado norte estava ainda livre, já para não falar do volume
que, em termos totais, estava por preencher. Trata-se, pois, e uma vez mais, de um encerramento que não
terá por motivação o esgotamento funcional do sepulcro.
Figura 1 – (esquerda) Aspecto de uma deposição primária encostada ao ossário lateralizado do sepulcro 1; (direita) vista da última
deposição em conexão anatómina no centro da câmara do sepulcro 5 e ossário por trás, preenchedo o fundo da cripta funerária.
Figura 2 – Aspectos das deposições primárias em conexão anatómica nas áreas centrais das câmaras dos sepulcros 1 (esquerda)
e 5 (direita) e dos ossários lateralizados.
48
Era Monográfica 1 (2013)
A última deposição, com a conexão anatómica bem conservada, revela a manutenção da intenção
de colocar os corpos em decúbito lateral e uma orientação genérica da cabeça para a da entrada. Por trás
desta última deposição registava-se um extenso ossário, sob o qual, e comprimido contra a parede do fundo
da câmara, estava um outro indivíduo em conexão, provavelmente correlativo das primeiras utilizações do
sepulcro e mais sete reduções. De um modo geral, também não existem evidências de particulares
segregações de idade ou de sexo, com excepção das crianças inferiores a três anos, cujos ossos, de acordo
com observações de campo, se concentram na área central do ossário.
O ossário por trás da última deposição apresenta um número de ossos desarticulados superior ao
do sepulcro 1 e, ao contrário deste último, apresenta uma organização espacial com uma inequívoca
diferenciação espacial de alguns tipos de ossos, facto que revela a importância de uma coordenação
tridimensional integral de todo o material osteológico, permitindo uma posterior análise de distribuição
espacial. Primeiro verificou-se uma espécie de alinhamento de crânios inteiros ao longo do limite da mancha
de ossos desarticulados, separando-a do espaço mais livre (do lado da entrada, como que repetindo a
orientação dos esqueletos, com a cabeça para esse lado). Depois, verificou-se, com base na classificação
efectuada durante o levantamento dos ossos, uma concentração muito localizada de ossos de sub-adulto na
área central do ossário. Finalmente, foi possível perceber o agrupamento de falanges, mandíbulas e dentes
soltos na área mais NE do ossário, com a particularidade ritual de às falanges humanas estarem associadas
falanges de ovinos e caprinos (aspecto do ritual tratado individualmente no capítulo seguinte). Esta
associação não é tão clara no sepulcro 1, mas dos poucos ossos de fauna recuperados neste sepulcro a
maioria correspondia a falanges de ovinos/caprinos.
Trata-se, pois, de sepulcros de deposição colectiva primária e também secundária. Aqui convirá
realizar alguns esclarecimentos terminológicos, já o que a classificação de “colectivo” tem sido utilizada
com diferentes sentidos por diferentes autores. Assim, e a título de exemplo, Philippe Chambon considera
para o megalitismo três tipos de sepultura: a individual, a múltipla e a colectiva, definindo sepultura
colectiva (com recurso a uma citação de Leclerc et Tarrête, 1988) como “structures dans lesquelles plusieurs
corps ont étè déposes successivement fur et à mesure dês décès” (Chambon, 2003: 18-19), opondo-a à
sepultura múltipla, considerada como aquela que recebe deposições simultâneas. A diferenciação não está,
portanto, no número de indivíduos que a sepultura comporta, mas na diferenciação de tempo das
deposições. Já para Cidália Duarte, o conceito de colectivo abarca tanto as deposições múltiplas simultâneas
como as sucessivas, considerando a não “diferenciação de espaço para diversos indivíduos ou grupo de
indivíduos.” (Duarte, 2003: 268). No entanto, esta autora quando fala de colectivo não se refere à estrutura
sepulcral, mas ao tipo de deposições que ocorrem num dado sepulcro. Por isso distingue ainda os Ossários,
considerando nesta categoria a acumulação de ossos dentro de um mesmo sepulcro realizada com o
objectivo de arranjar espaço para novas deposições. Assim, o conceito de colectivo é restrito às deposições
múltiplas ou sucessivas em que “os cadáveres são colocados em sobreposição, embora em posição
primária” (idem). Já Victor Gonçalves fala de sepulcros individuais ou mono familiares ou de uso restrito por
oposição aos “monumentos colectivos que, pelo número de enterramentos a que se destinavam, obrigariam
a segundas inumações, funcionando então na prática, exclusivamente como ossários” (Gonçalves, 1999:47).
Aqui o critério de diferenciação entre monumentos “mono familiares” ou de “uso restrito” e os
considerados colectivos é o número de indivíduos comportados, considerando ainda que, na prática, os
sepulcros colectivos teriam essencialmente deposições secundárias e não primárias. Acresce ainda,
relativamente aos conceitos de deposição primária e secundária, que alguns autores consideram que a
organização dos ossos dentro de um sepulcro para angariação de mais espaço para novas deposições não se
enquadram dentro do conceito de deposições secundárias (as quais implicariam fases sucessivas de
tratamento dos corpos e deslocalização de ossos), enquanto para outros essa manipulação se inscreveria já
num tratamento secundário, dando origem a “ossários”. Perante estas e outras matizes diferenciadas que a
terminologia relativa às deposições funerárias pode assumir, como se enquadram os dados da Sobreira de
Cima?
Quer no sepulcro 1 quer no 5 temos deposições que arqueologicamente poderemos definir como
primárias. Os esqueletos que se encontram genericamente completos abrangem diferentes espaços dos
sepulcros e a sobreposição é pouco frequente, acontecendo ocasionalmente e com partes reduzidas dos
corpos, como no sepulcro 1 onde uma criança tinha a cabeça sobre a mão de um adulto. Existem depois,
várias deposições em conexão, mas com o esqueleto “reduzido”, as quais são normalmente interpretadas
49
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
como resultado da desarticulação provocada pela angariação de novo espaço sepulcral (não se consideram
hipóteses de introdução de partes do corpo já desmembrado, talvez por preconceito actual). Finalmente,
ocorrem conjuntos de ossos desarticulados, acumulados em áreas restritas das criptas. Aqui existe uma
diferenciação entre os dois sepulcros: enquanto no sepulcro 1 os ossos desarticulados parecem estar
acumulados sem qualquer padrão específico de organização (será necessário concluir um estudo
antropológico aprofundado para ser mais definitivo relativamente a esta questão), no sepulcro 5 uma parte
dos ossos desarticulados aparece, como vimos, com uma segregação espacial claramente definida, caso dos
ossos de sub-adulto e das mandíbulas e falanges, estas últimas com a particularidade de terem falanges de
ovinos/caprinos jovens associadas. O número mínimo de indivíduos identificados anda na casa das duas
dezenas no sepulcro 1 e da dezena e meia no sepulcro 5, sendo que deverá ser bem superior em ambos os
sepulcros, uma vez que estas determinações tiveram por base exclusivamente as conexões anatómicas
preservadas. As idades são variadas (apenas não ocorrem velhos e crianças com idade inferior a três anos.)
e ambos os géneros estão representados. Uma imagem que sugere vínculos familiares nestes sepulcros.
A estratigrafia observada revelou diferentes momentos de deposição, pelo que não estaremos
perante casos de exclusiva deposição múltipla, embora seja possível (sobretudo no sepulcro 1) que alguns
cadáveres tivessem sido depositados em simultâneo. Assim, terão seguramente existido deposições
sucessivas e o espaço sepulcral terá sido gerido em função dessa sucessão. Nessa gestão, alguns esqueletos
terão sido desarticulados total ou parcialmente, dando origem a acumulações de ossos (com ou sem
organização perceptível arqueologicamente). Sem um estudo antropológico completo e aprofundado não
poderemos ter a ideia de se os ossos desarticulados presentes poderiam resultar todos de deposições
primárias realizadas nos sepulcros ou se terão sido ali introduzidos ossos em contexto de deposição
secundária (resultado de processamentos do corpo realizados noutro local, que até poderiam ser outros
sepulcros da mesma necrópole). Esta possibilidade é viável em particular no sepulcro 5.
Assim sendo, poderemos falar de sepulcros de deposições colectivas primárias sucessivas,
eventualmente contendo algumas deposições múltiplas (sendo que a introdução secundária de ossos não
pode desde já ser excluída), onde se constituíram acumulações de ossos desarticulados (ossários), que tanto
podem apresentar padrões organizativos arqueologicamente reconhecíveis como não. Nos sepulcros que
melhor se conservavam terão sido sepultados, seguramente, mais de duas dezenas de indivíduos (resultados
finais só depois de concluído um estudo antropológico profundo). Os corpos foram depositados
directamente sobre o chão das criptas e muito provavelmente polvilhados com pigmentos vermelhos, que
também cobriam alguns materiais votivos e formava manchas, colorindo os sedimentos. A posição do corpo
é flectida, em decúbitos lateral, e a tendência de orientação da cabeça para o quadrante da entrada é
dominante. Igualmente generalizado é o comportamento de não individualização do espólio votivo,
optando-se por concentrar os artefactos votivos de cada lado da entrada, o que poderá representar uma
forma de reforçar o carácter gregário e colectivo dos sepulcros.
Gestões do espaço funerário semelhantes têm sido também registadas noutros sepulcros do género
e do mesmo período, como por exemplo em Monte Canelas (Silva, 1996; Neves e Silva, 2010) ou no Outeiro
Alto 2 (Valera, Filipe e Cabaço, 2012). Porém, o que o sepulcro 5 da Sobreira de Cima parece demonstrar é
que essa gestão “funcional” do espaço funerário não é meramente pragmática, mas que ela própria está
envolvida de ritualidade, através de organizações espaciais específicas intencionais e com significados
concretos, as quais poderão ser detectadas dentro do aspecto aparentemente caótico de um aglomerado de
ossos (se os procedimentos de registo forem os adequados). Estes “ossários organizados” corresponderam,
assim, a verdadeiras “deposições secundárias internas” ao sepulcro, no sentido em que revelam
organização e intencionalidade, ainda que não resultem da trasladação de um espaço funerário para outro,
ainda que tais práticas de trasladação não possam, de momento, ser inteiramente excluídas.
3.2. OS MATERIAIS QUE INTEGRAM A COMPONENTE VOTIVA INTRA TUMULAR
A maior parte dos conjuntos artefactuais terá um tratamento individualizado por categoria e em
capítulos específicos, onde se abordam aspectos mais relacionados com o seu estudo tipológico e
tecnológico. Será o caso da pedra talhada, da pedra polida e do marfim. Aqui, para além de uma descrição
geral dos materiais presentes, trata-se sobretudo da sua contextualidade, ou seja, da forma como
materializam determinadas prescrições rituais e ajudam a construir os contextos de sentido em que se
50
Era Monográfica 1 (2013)
integram. À parte será considerada uma particularidade ritual relacionada com restos faunísticos, a qual,
pela sua natureza, se julgou pertinente aprofundar num capítulo autónomo (Valera e Costa, neste volume).
Assim, relativamente à componente artefactual, os vários sepulcros intervencionados sugerem uma
grande homogeneidade no que respeita aos materiais que eram incorporados no ritual: artefactos de pedra
polida (machados e enxós), lâminas e lamelas grandes, geométricos, punções em ossos estão representados
na maioria dos sepulcros, assim como a total ausência de cerâmica e de pontas de seta. A esta matriz base
acrescentam-se pulseira/s em marfim, um fragmento de dormente de mó e um núcleo no sepulcro 1; um
pente em marfim, um possível fragmento de alfinete de osso, dois seixos talhados e um fragmento de cristal
verde no sepulcro 5; uma pulseira e um recipiente em pedra no sepulcro 2 (Tabela 1). A estes materiais
acrescem alguns outros recolhidos à superfície no exterior dos sepulcros (não se contabilizando aqui as
estelas de anfibolito, que serão referidas mais à frente).
O conjunto base (presença de pedra polida, lâminas e lamelas, geométricos e punções em osso;
ausência de pontas de seta, placas de xisto e cerâmica) está presente nos sepulcros 1, 2 e 5 (no 3 também
apareceu um punção) e, como vimos anteriormente, está bem datado da segunda metade do 4º milénio no
sepulcro 1, contexto fechado e não perturbado, e que permite também colocar no Neolítico Final a mais
antiga utilização de marfim até ao momento datada na Península Ibérica. Este “pacote”, com as suas
presenças e ausências, tem vindo a ser registado em vários outros hipogeus neolíticos, como é o caso do
Outeiro Alto 2 (Valera, Filipe e Cabaço, 2012), Vale de Barrancas 1 (Nunes, 2012), Trigaches (Baptista, 2010)
no Alentejo interior, ou do hipogeu de Barradas no Algarve (Barradas, Silvério e Silva, 2012).
Já nos sepulcros 2 e 5, a par de conjuntos base idênticos ao do sepulcro 1, ocorre um fragmento de
pente em marfim (no S5) e uma bracelete e um fragmento de recipiente em pedra (no S2), materiais
tradicionalmente atribuídos ao 3º milénio. No sepulcro 2, dado o nível de destruição da câmara, não
podemos saber se se encontrava selada (embora o poço de acesso o estivesse), nem se existiriam outros
materiais ou evidências que indicassem utilizações posteriores ao 4º milénio e pudessem explicar a presença
da bracelete e recipiente em pedra. Quanto ao sepulcro 5, sabemos de um abatimento antigo da zona da
entrada e existe uma datação da primeira metade/meados do 3º milénio que poderia indicar uma
utilização/visita tardia do sepulcro, com a qual poderemos ser tentados a relacionar o pente de marfim,
(embora este estivesse contextualmente integrado no ossário), mas a data é pouco fiável (ver Capítulo 2).
Independentemente de eventualidade de pontuais incorporações tardias, os conjuntos artefactuais
presentes na Sobreira de Cima revelam uma significativa padronização, os quais parecem inequivocamente
responder a prescrições do ritual, tanto no tipo de presenças, como no que respeita às ausências (das quais
há que sublinhar a total exclusão de cerâmicas, pontas de seta e placas de xisto). Quanto ao caso concreto
da incorporação de braceletes no contexto do sepulcro 1, a especificidade reside apenas na matéria-prima,
que aqui é o marfim. De facto, as braceletes surgem igualmente neste tipo de “arranjos contextuais”, como
acontece no Outeiro Alto 2 (Valera, Filipe e Cabaço, 2012) ou Barradas (Barradas, Silvério e Silva, 2012), e a
que eventualmente podemos juntar também a sepultura de Cerro das Cabeças em Silves (Gomes e Paulo,
2003), mas onde são em todas os casos realizadas sobre concha de Glycimeris. Mas se a composição dos
conjuntos votivos obedece a prescrições, a sua deposição não é menos normalizada. A localização de
artefactos nas câmaras mais preservadas revela um padrão intencional e eventualmente constituído ao
longo do tempo de utilização dos espaços funerários: nos sepulcros 1 e 5 a quase totalidade dos materiais
foram depositados junto à entrada, de um lado e do outro, formando dois conjuntos bem individualizados.
No sepulcro 1 (Figura 6), do lado direito da entrada estava depositado um conjunto de dez peças de
pedra polida, constituído por sete machados e três enxós. Junto a este conjunto registaram-se ainda três
geométricos, uma lamela e uma lâmina. Do lado esquerdo da entrada estava um outro conjunto de
utensílios de pedra polida com nove peças, composto por sete enxós e dois machados, o que constitui uma
inversão da relação machados/enxós que se registava do outro lado. Junto as estas peças de pedra polida
encontravam-se mais quatro lâminas, quatro geométricos, um núcleo de lamelas sobre cristal de quartzo
hialino, cinco lamelas e três punções em osso. Duas lamelas e um punção distribuíam-se por uma zona um
pouco mais estendida ao longo da parede, até uma zona mais lateral da câmara, onde ocorriam também
alguns pequenos fragmentos de pulseiras em marfim. Esta lateralização relativamente ao núcleo da
esquerda da entrada poderá corresponder a arrastamentos pontuais das três peças, no âmbito da utilização
funerária da câmara. Note-se que a estes dois conjuntos não se associavam quase nenhuns ossos humanos
(apenas alguns fragmentos dispersos).
51
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 3 – Materiais da câmara do sepulcro 1: machados e enxós, lâminas, geométricos, lamelas, núcleo em prisma de quartzo, punções
em osso e braceletes em marfim.
52
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 4 – Materiais
iais provenientes da câmara do sepulcro
sepulcro 2: machados e enxós; lamela, segmento de lâmina e geométrico; recipiente e
bracelete em calcário.
Figura 5 – Materiais
ateriais da câmara do sepulcro
s
5:: machados e enxós, pente em marfim e fragmentos de “pedra verde”.
53
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Tabela 1 – Materiais registados na Sobreira de Cima.
Categorias / Sepulcros
Enxós
Machados
Lingote/Esboço
Lâminas
Truncatura sobre lâmina
Lamelas
Geométricos
Núcleos
Seixo talhado
Artefacto calcário /mármore
Punção em osso
Frags. pulseira em marfim
Matriz / pente em marfim
Alfinete ?
Dormente de mó
Líticos inclassificáveis
Frags. de cristal verde
Sep 1
10
9
67
5
0
6
17
1
0
0
3
149
0
0
1
2
0
Sep 2
6
1
8
0
1
2
2
0
0
2
1
0
0
0
0
0
0
Sep 3
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
1
0
0
0
0
0
0
Figura 6 – Distribuição dos materiais votivos na câmara do sepulcro 1.
54
Sep 4
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
Sep 5
7
8
44
4
0
0
14
0
2
0
0
0
1
1
0
3
3
Totais
23
18
119
9
1
8
33
1
2
2
5
149
1
1
1
5
3
Superfície
0
0
21
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
1
0
0
Tot Glob
23
18
140
9
1
8
33
1
2
2
5
149
1
1
2
5
3
Era Monográfica 1 (2013)
A esta distribuição muito bem demarcada fogem três geométricos, cada um associado a um
indivíduo dos que se apresentavam em conexão anatómica na área central da câmara, assim como um
grupo de seis outros geométricos e a grande maioria de fragmentos de bracelete de marfim, os quais se
encontravam misturados com o ossário junto à parede sul da câmara. Tendo em conta a associação
verificada de geométricos a indivíduos, será provável que as peças integradas no ossário também
estivessem conectadas com indivíduos concretos, tendo sido remobilizadas juntamente com os ossos
aquando da formação da acumulação de ossos. Já as braceletes, apesar do número de fragmentos ser
grande (mais de uma centena) o seu tamanho é muito pequeno e apresentam-se lascados, facto que
traduzirá um número de pulseiras indeterminado, mas relativamente reduzido. A sua concentração neste
local indica que estariam relacionados com os esqueletos desarticulados (como sugerem alguns fragmentos
à volta dos de alguns ossos) e a própria manipulação dos corpos no âmbito da gestão do espaço funerário
terá contribuído para a fragmentação destes objectos, já de si frágeis. Seriam elementos de adorno que
estariam colocados no cadáver e a sua integração no ossário terá resultado da mesma dinâmica de
manipulação de ossadas para obtenção de espaço.
Desta forma verifica-se que, com a possível excepção das pulseiras em osso e de alguns
geométricos, os materiais votivos não aparecem associados especificamente a qualquer corpo, sendo
agrupados à esquerda e à direita da entrada e de maneira que claramente os individualiza relativamente aos
espaços ocupados com as deposições de corpos. As únicas situações de possíveis associações de artefactos
a corpos específicos correspondem efectivamente a dois geométricos, com um a ser registado junto a uma
mão do esqueleto 2 e outro junto a uma mão do esqueleto 3. Poderiam estar colocados nas respectivas
mãos, ou estas poderiam segurar os cabos em que estariam fixados (note-se que um deles apresentava
vestígios do material utilizado na fixação do geométrico – Dias, neste volume). Um terceiro geométrico
associado a um indivíduo específico encontrava-se junto à articulação do braço esquerdo com o tronco, pelo
que poderia ser uma deposição votiva ou encontrar-se no interior do corpo (já que pelos restos de fixação
torna-se evidente que estes geométricos eram pontas de projéctil).
Quanto às aglomerações junto à entrada, tratando-se de uma necrópole colectiva, com uma
sequência de utilização onde se sepultaram mais de duas dezenas de indivíduos, é natural que estes
conjuntos de materiais não se tenham formado de uma só vez, mas sejam o resultado de sucessivas adições
aquando de cada deposição funerária, o que configuraria uma espécie de fusão entre um carácter mais
individual e outro mais colectivo do ritual (não espacialmente relacionado com um indivíduo em concreto).
A sua localização junto à entrada é também sugestiva, já que é conhecida a importância simbólica
das entradas enquanto espaços de ligação, de transição entre áreas funcional e simbolicamente distintas,
entre estados diferentes. A deposição de materiais junto a esse espaço de transição estará certamente
relacionada com o papel que o mesmo desempenharia nas cosmogonias destas comunidades e nos próprios
simbolismos metafóricos da arquitectura destes sepulcros, a qual deve ser entendida também, nas opções
que encerra, como uma expressão do ritual funerários e da ideologia da morte.
Este mesmo quadro foi registado no sepulcro 5 (Figura 7). Em termos do material votivo, o padrão
repete a concentração de materiais de ambos os lados da entrada, sem que outros tivessem sido registados
nas áreas mais centrais e mais profundas do espaço funerário. Verifica-se, uma vez mais, a total ausência de
cerâmica e repetem-se, quase na íntegra, os mesmos conjuntos líticos do sepulcro 1: machados, enxós,
lâminas, geométricos, estando apenas ausentes as lamelas. Verifica-se também uma certa diferenciação de
proporcionalidade, por vezes invertida, entre os dois conjuntos, tal como acontecia no sepulcro 1. Assim, do
lado norte registou-se apenas pedra polida, com 3 machados e duas enxós, do lado sul ocorrem 5 machados
e 4 enxós, mas agora associados a um conjunto de quatro lâminas e de 14 geométricos e ainda um pente
/matriz em osso. Os punções e as braceletes estão ausentes.
Uma vez mais, não há individualização das oferendas votivas, sugerindo que sempre que se
depositava um novo indivíduo, as oferendas seriam adicionadas a um dos conjuntos localizados nos lados
da entrada. A escolha do lado poderia, assim, ser significante. Contudo é interessante registar que o número
de geométricos (14) é idêntico ao somatório dos utensílios de pedra polida e que esse número se aproxima
do número mínimo de indivíduos avançado pelo relatório preliminar de antropologia (embora de forma
subestimada), o que poderia indiciar que vários elementos ali sepultados poderiam ser acompanhados pela
deposição de, pelo menos, um objecto de pedra polida e um geométrico, colocados não junto aos corpos,
mas nos tais conjuntos à entrada.
55
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Já no que respeita ao sepulcro 2, em face da destruição sofrida os aspectos referentes ao ritual
funerário são mais difíceis de estabelecer. Contudo, e tal como para a arquitectura, os dados disponíveis
parecem aproximar bastante este sepulcro de algumas das situações registadas nos sepulcros 1 e 5.
Sendo um sepulcro colectivo, relativamente à deposição de corpos e à sua orientação nada se pode
dizer. Apenas a acumulação junto à parede de alguns ossos desarticulados e de uma redução pode sugerir
uma gestão do espaço funerário semelhante à observada nos sepulcros melhor preservados. Já no que
respeita aos materiais votivos, no troço conservado registou-se uma concentração de vários artefactos,
nomeadamente de seis peças de pedra polida, correspondendo a um machado e seis enxós (uma outra seria
recuperada na crivagem do cascalho da destruição mecânica), duas lamelas, uma truncatura sobre
segmento de lâmina, um geométrico (outro seria recuperado também no âmbito das mesmas crivagens), um
punção em osso e dois outros artefactos em pedra: uma fina bracelete em calcário fragmentada, com
configuração de tendência circular, e fragmentos de um recipiente em calcite.
Figura 7 – Distribuição dos materiais votivos na câmara e corredor do sepulcro 5.
Correspondendo este troço da câmara ao lado esquerdo imediato à entrada, esta concentração de
materiais poderá reflectir uma situação paralelizável ao padrão de distribuição observado nos sepulcros 1 e
5. Esta hipótese sai igualmente reforçada pela relação machados/enxós, que repete a situação do
aglomerado de deposições do lado esquerdo da entrada do sepulcro 1, no qual também se contavam alguns
geométricos, lamelas, lâminas e punções de osso. Contudo, dado o nível de afectação sofrida pela câmara
deste sepulcro, não poderemos assumir esse paralelo sem algumas reservas.
Por último, há que referir a utilização de pigmentos vermelhos (ocre e cinábrio) no interior de todos
os 5 sepulcros intervencionados. Em vários casos (sobretudo nos sepulcros 2 e 3), os pigmentos chegaram
mesmo a impregnar os sedimentos preservados, formando autênticas “camadas vermelhas” (Figura 8). Para
além do vermelho foi igualmente registado, ainda que pontualmente, o polvilhamento com “ocres”
amarelados, inclusivamente sobre alguns dos materiais de pedra polida (Figura 8).
56
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 8 – Impregnação de pigmentos vermelhos nos sedimentos da câmara do sepulcro 2 (Esquerda); restos de pigmentos amarelados
numa enxó proveniente do mesmo contexto (Direita).
3.3. A RITUALIDADE DOS PROCESSOS DE ENCERRAMENTO E A IMPORTÂNCIA DO ANFIBOLITO
Uma parte importante dos rituais realizados na Sobreira de Cima seria, seguramente, o
encerramento dos sepulcros, particularmente o encerramento definitivo. Esses rituais foram documentados
nos três sepulcros que preservavam a totalidade ou parte das entradas (uma vez mais os sepulcros 1, 2 e 5),
os quais, é importante voltar a frisar, se encontravam longe de ver o seu espaço interior esgotado.
No sepulcro 1 verificou-se que, colocada a laje de encerramento pela última vez, foi depositado
junto à sua base um bloco/lingote de anfibolito e que ao longo do preenchimento do poço de acesso com
sedimentos argilosos e cascalho de xisto se foram realizando sucessivas deposições de conjuntos de
blocos/lingote de anfibolito (Figura 9), que na parte conservada do poço totalizavam o número de 67
registos. Nesta ritualização do encerramento, o anfibolito, enquanto matéria-prima, ganha um significativo
relevo (que poderá ser estendido à própria circunstância da laje de porta ser igualmente em xisto
anfibolítico). Note-se que não se registou qualquer outro material no depósito de preenchimento do poço.
Por outro lado, o facto de não existirem blocos/lingote no espaço funerário (onde os utensílios de pedra
polida estão acabados e sem grandes sinais de uso e nem todos são em anfibolito) traduz também, de
forma particularmente evidente, uma intenção, constituindo uma dicotomia que corresponderá a uma forma
de texto, como se as deposições na cripta fossem de utensílios ligados a indivíduos (ainda que não
directamente associados aos corpos), e as deposições do encerramento remetessem para o elemento
identificador de um colectivo.
No sepulcro 2, apesar do nível de afectação, o ritual de encerramento parece ser idêntico,
observando-se o preenchimento do poço de acesso com sedimentos argilosos e cascalho de xisto, ao longo
do qual se foram fazendo deposições rituais de blocos/lingote de anfibolito, sem que estes apareçam na
parte preservada da câmara, nem que outros materiais ocorram nos depósitos de enchimento do poço.
Quanto ao sepulcro 5, este apresentava, como vimos, uma distinta arquitectura de entrada (ver
capítulo 1): um pequeno corredor ladeado por estelas, encaixadas em valas ou alvéolos escavados na rocha
e calçadas com recurso a lingotes de anfibolito em bruto ou esboçados por talhe (Figura 10), substituía um
acesso em poço evidenciado pelos sepulcros 1 e 2. Porém, também este acesso era preenchido por
sedimentos argilosos onde, uma vez mais, se encontravam blocos de anfibolito em bruto ou esboçados. E
como no sepulcro 1, a entrada na câmara era fechada por uma laje de anfibolito, a que se juntavam as
estelas que definiam o corredor, igualmente naquela matéria-prima. Por outro lado, estelas destas surgiram
à superfície junto ao possível sepulcro 6 (Figura 10).
Já em texto anterior se sublinhou a manipulação simbólica e ritual do anfibolito na Sobreira de
Cima, tanto nos processos de encerramento dos sepulcros, como na sua própria arquitectura (Valera, 2009).
57
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 9 – Encerramento do sepulcro 1: laje de anfibolito e sequência de deposições de lingotes/esboços da mesma matéria-prima.
Figura 10 – Pedúnculos de estelas de anfibolito, calçados por esboços/lingotes de anfibolito, integrados no corredor do sepulcro 5 e
aspecto de duas das estelas de anfibolito registadas à superfície.
58
Era Monográfica 1 (2013)
Utilizado como elemento arquitectónico (nos pilares, nos calços e nas lajes de porta) ou em
materiais nos primeiros estádios de transformação tecnológica para a produção de utensílios de pedra
polida depositados nos encerramentos finais das entradas, o anfibolito claramente desempenha um papel
preponderante nos rituais funerários que se desenrolaram nesta necrópole, a qual, convém lembrar, se
localiza numa área imediata a uma zona de afloramento destas rochas.
Esta circunstância foi interpretada como um processo de transformação desta matéria-prima em
agente de identificação e objecto de ritualização, indo além da sua mera utilização em procedimentos rituais
(idem). De facto, a par dos mortos, o anfibolito enquanto matéria-prima em bruto ou em estádios iniciais de
transformação apresenta-se com particular destaque na Sobreira de Cima, “desempenhando um papel
central no cerimonial e não apenas o de mais um elemento votivo no conjunto dos artefactos votivos”
(ibidem).
Como então se referia, a presença de materiais em anfibolito é comum nos contextos sepulcrais
neolíticos (observando-se curiosamente um decréscimo durante o Calcolítico) e, em alguns casos,
apresentam mesmo algum destaque, de que são exemplo dois grandes blocos de anfibolito à entrada do
dólmen de S. Pedro de Dias ou os lingotes/esboços depositados na estrutura tumular do dólmen dos
Moinhos de Vento (Senna-Martinez, 1989), ambos na Beira Alta e perto de uma área de possível
proveniência. A sua deposição ritual em contextos de fossa não funerários foi igualmente argumentada para
algumas situações, como no habitat do Ameal, Carregal do Sal (Senna-Martinez, 1995/96), ou na Luz20 –
Mourão (Valera, 2006; 2013). A sua abordagem num plano ideológico e simbólico foi igualmente já
ensaiada para o território do centro-sul de Portugal (Lillios, 1997; 2000).
Mas esse destaque simbólico é particularmente sublinhado pelos contextos da Sobreira de Cima. A
importância do anfibolito como recurso regional para as comunidades neolíticas e calcolíticas do interior
alentejano há muito que é sublinhada (Lillios, 1997; 2000): importante no contexto do desenvolvimento das
comunidades agrícolas locais; importante no âmbito das interacções que estas estabeleciam com áreas
regionais periféricas e onde as rochas duras para a produção de machados, enxós, cunhas, etc. escasseiam.
Para entender o papel desempenhado por esta matéria-prima na Sobreira de Cima será preciso,
porém, ir mais além que simplesmente constatar estas dinâmicas de interacção e de circulação de produtos.
Será necessário questionar as suas implicações sociais e ideológicas. A vinculação de uma comunidade a
determinada actividade ou produto acaba sempre por ganhar uma dimensão identitária, gerando uma
associação, que para além de concreta é também simbólica, entre o grupo e essa prática ou elemento.
Poderá ser esse o caso da comunidade sepultada na Sobreira de Cima. Numa área onde esse recurso
abunda, esta gente (se local ou exógena é outra discussão) poderá ter tido uma forte ligação à extracção e
circulação de anfibolito, associação que ficaria registada na arquitectura e ritualização dos encerramentos
dos sepulcros.
O facto de os blocos de anfibolito talhados e esboçados nunca aparecerem no interior das câmaras
funerárias, onde apenas as peças finamente acabadas foram depositadas e, repete-se, nem todas em
anfibolito, relacionam estes materiais com o momento de encerramento final de um sepulcro. E tal como
esses blocos, todos os elementos arquitectónicos em anfibolito estão relacionados com as entradas. Os
materiais em anfibolito não parecem desempenhar um papel similar ao dos materiais votivos colocados no
interior das câmaras. Ao contrário daqueles, eles não se oferecem facilmente a uma interpretação que os
assuma como dádiva pessoal para os mortos.
Pelo contrário, parecem falar de um factor central da vida desta comunidade. Consagrados e
reforçados por um ritual que os utiliza espacialmente nas áreas de acesso aos sepulcros, as quais ligam o
mundo dos mortos ao dos vivos, os anfibolitos parecem assumir um papel emblemático e de cimento na
construção da identidade destas gentes, funcionando simultaneamente na sua afirmação social, económica
e até possivelmente política.
Mas, como foi igualmente sublinho em texto anterior (Valera, 2009), esse carácter preponderante
do anfibolito poderá ser maior do que simplesmente emblemático de uma comunidade. São conhecidos
historicamente vários exemplos em que a importância de determinados materiais para certas comunidades
os eleva a categorias ontológicas animadas. De facto, se considerarmos que estas comunidades neolíticas
poderiam apresentar, dentro das suas cosmovisões e da sua forma de se relacionarem com o mundo, uma
componente fortemente animista, então teremos que aceitar que certas materialidades podem incorporar
personalidades sociais particulares, almas, espíritos e ter ontologias também particulares. Essa
59
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
“personalidade” é frequentemente assumida como uma essência, algo inerente a esse ser, e a modificação
formal, como a transformação de uma matéria-prima em artefacto, não implica a alteração dessa mesma
essência. Pelo contrário, a manutenção no artefacto das propriedades simbólicas atribuídas à matéria
original será preponderante para o desempenho social desse artefacto.
Neste sentido, a propósito do marfim presente nos sepulcros dos Perdigões escrevi:
“A dificuldade de resposta a estas questões não nos deve iludir sobre a sua pertinência e sobre a
necessidade de as contemplarmos nos quadros que compomos sobre o problema da interpretação do papel
social simbólico (e não simplesmente económico) desempenhado pelas “matérias-primas”, neste caso
concreto o marfim. É conhecida a prática de atribuir propriedades, capacidades e intencionalidades a
matérias-primas, antropomorfizando-as. Frequentemente essa atribuição está associada à origem, ao
sentido conferido ao local ou à entidade de onde se extrai o material trabalhado. A Montanha de onde se
extrai a pedra não é só uma montanha, mas frequentemente uma entidade personificada de cujas
qualidades o fragmento de rocha, ou a água que dela escorre, participam. Por exemplo, o Monte Arci que
forneceu obsidiana a tantas regiões seria sagrado; participaria a obsidiana dessa essência? Seria a distante
montanha que forneceu as Blue Stones de Stonehenge sagrada e seria o cromeleque, através das suas
pedras, uma representação que participaria da essência dessa montanha (como sugeriu T. Darvill – 2006)?.
E que dizer do animal de onde se extrai o sangue, o osso, ou o dente? A Antropologia está cheia de
exemplos de personificações de elementos da natureza, cujas “qualidades” continuam activas nas
“matérias-primas” deles extraídas, sendo essas mesmas qualidades factor de valorização do papel social
dos objectos produzidos com elas. Apesar de estarmos a falar do final do 4º e no 3º milénio AC, olhar o
marfim como simples matéria-prima, bela e valiosa, pode ser curto.” (Valera, 2010: 40).
Dentro deste contexto interpretativo poderíamos sugerir que a relevância que é dada ao anfibolito
na Sobreira de Cima o transporta para além do papel de agente identitário e de emblema de uma
comunidade e o coloca no seio do próprio grupo com um dos seus membros. “Mais do que simplesmente
representar, unir e diferenciar o grupo (o que já é muito), isto é, de ter uma acção icónica e emblemática na
identidade grupal, esta matéria poderia ser imbuída de espírito, animada, transformando-se em “entidade”,
a qual, numa perspectiva animista poderia ser entendida como parte integrante do grupo ou, numa variante
totémica, como um ancestral activo na origem do grupo. E seria nessa condição de membro que participaria
no processo de construção identitária.” (Valera, 2009).
A expressão simbólica de certas categorias artefactuais está frequentemente em estreita relação
com a matéria-prima de que são feitas, podendo existir entre ambas uma fluidez identitária, onde objecto e
matéria-prima não são realidades separáveis, mas apenas dois estados de uma mesma entidade. Se esta
matéria-prima foi vista simplesmente como tal, se foi um recurso estratégico elevado a ícone comunitário,
se foi mais além do que isso e foi entendida como membro da identidade grupal dificilmente pode ser
estabelecido em termos de demonstração empírica. Porém, a dimensão textual, comunicativa, dos contextos
está lá, apenas exigindo maior esforço hermenêutico e teórico. E esta necrópole conjuga de forma evidente
ritualidades que falarão de indivíduos, mas que simultaneamente falam da comunidade e, de uma forma
evocativa, de aspectos identitários e emblemáticos dessa mesma comunidade. Mais que uma simples
necrópole, a Sobreira de Cima parece ser um emblema, um símbolo, de uma comunidade muito ligada a
este recurso específico, por ventura uma declaração política, o que poderá explicar a sua “estranha”
localização, numa área que actualmente (em face dos conhecimentos do momento) parece constituir-se
como uma zona de “fronteira” entre expressões funerárias com algumas diferenças.
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61
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
62
Era Monográfica 1 (2013)
4
UMA PARTICULARIDADE RITUAL:
A ASSOCIAÇÃO DE FALANGES DE OVINOSOVINOS-CAPRINOS
CAPRINOS A
FALANGES HUMANAS NOS SEPULCROS DA SOBREIRA DE CIMA
António Carlos Valera
Cláudia Costa
A escavação dos sepulcros 1 e 5 da Sobreira de Cima (os que apresentavam as câmaras
integralmente preservadas) revelou a presença de ossos de fauna não transformados em artefactos (aos
quais se excluem, portanto, os punções sobre osso e os materiais em marfim). Para além de um fragmento
inclassificável proveniente do sepulcro 5, todos os ossos classificáveis correspondem a falanges de ovinos e
caprinos, num total de 64 unidades, predominantemente I e II falanges.
Estes conjuntos de restos faunísticos, pela exclusividade do tipo de ossos presentes, animais
representados e associações contextuais identificadas, parecem reflectir um normativo ritual específico,
desconhecido em contextos paralelizáveis há data da intervenção, mas entretanto reconhecido em outros
contextos análogos recentemente intervencionados.
4.1. AS SITUAÇÕES CONTEXTUAIS
As situações contextuais em que aparecem as referidas falanges são distintas nos sepulcros 1 e 5.
A diferença começa pelo número: 57 no Sepulcro 5 e apenas 7 no Sepulcro 1. Mas para além do número, ou
talvez devido a ele, é igualmente possível estabelecer uma diferenciação em termos de associações
contextuais. Se para o sepulcro 1 as sete falanges não revelam uma distribuição particularmente
significativa, já no sepulcro 5 existe uma concentração e uma associação espacial específica, a qual foi
reconhecida porque todos os restos humanos e animais foram coordenados.
Neste sepulcro as falanges de ovinos/caprinos estavam integradas no grande ossário que preenchia
o fundo da câmara, por trás da última deposição primária que ocupava o centro da câmara. Como já foi
referido em capítulos anteriores, este ossário, no seu aspecto aparentemente caótico, apresentava uma
gestão intencional traduzida numa distribuição específica de alguns tipos de ossos humanos. Uma das
concentrações, na extremidade nordeste do ossário, é caracterizada pela presença da grande maioria das
falanges humanas recolhidas no sepulcro. Acontece que a distribuição espacial da quase totalidade das 57
falanges de ovinos/caprinos revela uma clara associação à concentração de falanges humanas nessa
extremidade do ossário (Gráfico 1).
Trata-se claramente de uma distribuição espacial que traduz intenção, revelando que a
incorporação dos restos faunísticos foi feita seguindo preceitos de associação específica a ossos humanos
equivalentes. Estes restos faunísticos participaram, portanto, num arranjo significante que estruturou
espacialmente o ossário. Este não corresponde, assim, a um simples acumular desorganizado de ossos de
deposições anteriores para obtenção de novo espaço funerário. Mesmo que o objectivo primordial tenha
sido esse, a constituição do ossário (como a disposição dos crânios já indicava – ver capítulos 1 e 3) foi
parcialmente organizada e acompanhada de uma prática ritual que associou falanges animais e humanas
numa área específica.
63
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Gráfico 1 – Sepulcro 5. À esquerda: distribuição espacial de todos os ossos do ossário; à direita: distribuição de mandíbulas falanges
humanas e falanges de ovinos/caprinos. É visível a concentração preferencial das falanges humanas na extremidade nordeste do
ossário e a clara sobreposição da concentração de falanges de ovinos/caprinos.
4.2. ANÁLISE ARQUEOFAUNÍSTICA
A colecção faunística é composta quase exclusivamente por falanges dianteiras e traseiras,
desarticuladas e sem qualquer conexão anatómica, revelando, na generalidade, um grau de maturação
precoce, apontando para a presença de indivíduos sub-adultos.
Os exemplares identificáveis reportam-se, em exclusivo, ao grupo dos ovinos/caprinos, sendo que
alguns elementos conservavam caracteres que possibilitaram a classificação específica através de
procedimentos comparativos com os esqueletos que compõem a colecção de referência do Laboratório de
Arqueociências (da DGPC). Assim, a espécie maioritária é Capra hircus (cabra), tendo apenas uma falange
sido atribuído a Ovis aries (ovelha). Os restos aos quais não foi possível a integração taxonómica foram
classificados como Ovis/Capra.
Foram ainda recuperados no sepulcro 5 cinco fragmentos não identificáveis. Devido ao grau de
imaturidade dos elementos não foi possível proceder à diagnose sexual e a estimativa da idade à morte é
feita com base no estado de fusionamento das falanges.
4.2.1 As falanges de ovinos/caprinos dos Sepulcros 1 e 5
No sepulcro 1 foram recuperados sete elementos de falanges, sendo que apenas uma II falange
dianteira foi classificada como pertencente a Capra hircus e as restantes não reuniam condições de
preservação de caracteres de diagnose para se proceder à classificação específica, pelo que foram
integradas no grupo morfológico Ovis/Capra.
No sepulcro 5 foram recuperadas cinquenta e sete falanges além de cinco fragmentos ósseos não
classificáveis. Vinte e duas foram atribuídas a Capra hircus e apenas uma I falange dianteira foi classificada
como pertencente a Ovis aries.
Os elementos de cabra e de Ovis/Capra revelam dois estádios de fusão diferentes, embora
próximos: por um lado, as I e II falanges sem as epífises proximais ligadas, que são o grupo maioritário, e,
por outro, as I e II falanges fundidas com as epífises, mas com a linha de fusão visível (Gráficos 2 e 3).
No que diz respeito à atribuição etária com base na maturação do esqueleto de ovinos e caprinos
domésticos, verificamos que não existe consenso na literatura consultada (Gráfico 4). Segundo Schmid
(1972) e Davis (1987) a I falange de Ovis sp. fusiona a partir dos 6/9 meses, mas para Silver (1969) fusiona
ao mesmo tempo que a II falange a partir dos 12/16 meses. No que concerne à Capra sp. Davis (1987)
64
Era Monográfica 1 (2013)
propõe que a epífise proximal da I falange liga à diáfise a partir dos 10 meses até aos 23. No entanto parece
unânime que as falanges quer de ovinos quer de caprinos se encontram fusionadas antes dos dois anos de
idade.
Tabela 1 – Elementos de fauna recuperados nos Sepulcros 1 e 5.
Sep. 1
Sep. 5
Total
Fal. I ant.
1
1
Fal. I ant.
Fal. I pos.
Fal. II ant.
Fal. II pos.
Fal. II ind.
Fal. III ind.
Fal. I ind.
Fal. II ind.
Fal. III ind.
Fal. Ind.
Frag. inc.
7
2
4
4
1
5
17
14
2
7
2
5
4
1
5
19
15
4
1
5
69
Ovis aries
Capra hircus
Ovis/Capra
Outros
Total
1
2
1
2
1
5
62
7
Gráfico 2 - Categorias etárias de Capra hircus (Un - “não-fusionado”, Pf - “parcialmente fusionado” e Ju - “juvenil”).
Nº
Capra hircus
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
Un
PF
Ju
Fases etárias
Ph I
Ph II
Gráfico 3 - Categorias etárias de Ovis/Capra (Un - “não-fusionado”, Pf - “parcialmente fusionado” e Ju - “juvenil”).
Nº
Ovis/Capra
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Un
PF
Ju
Fases etárias
Ph I
65
Ph II
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Gráfico 4 - Estabelecimento de idades com base no grau de fusionamento das falanges e metatarso segundo os vários autores.
As diferenças atribuídas à determinação etária dos ovinos/caprinos com base no crescimento dos
ossos dever-se-á aos diferentes ritmos de crescimento destas espécies, para o qual contribuem alguns
factores externos como o clima, o espaço geográfico em que se inserem, as especificidades alimentares, mas
também o sexo do animal, a castração e a genética (Andugar et al, 2008).
4.3. OS RESTOS FAUNÍSTICOS EM CONTEXTO FUNERÁRIO HUMANO DA SOBREIRA DE CIMA: UMA VERSÃO
DO PROBLEMA DA RELAÇÃO HOMEM-ANIMAL NA PRÉ-HISTÓRIA RECENTE.
A presença de restos faunísticos em contextos funerários da Pré-história Recente em Portugal está
longe de ser inédita. Mas se são várias as associações contextuais conhecidas, a informação e o pensamento
crítico disponíveis sobre a natureza dessas associações são confrangedoras na maioria das situações,
limitando-se à referência a “ossos de fauna”, grande parte das vezes sem que se conheça a classificação
taxonómica, raramente se vislumbra qualquer reflexão aprofundada e teoricamente sustentada sobre o
sentido ou sobre o estatuto desses restos no contexto dos rituais ligados à gestão da morte.
O amadurecimento de natureza epistemológica e teórica da investigação das práticas funerárias da
Pré-História Recente em Portugal, por oposição às perspectivas estritamente ligadas à análise artefactual ou
das arquitecturas funerárias, obriga à interpretação destas práticas sociais numa perspectiva antropológica,
onde se procura ultrapassar o fosso disciplinarmente cavado entre a sua dimensão física e a cultural. Como
consequência, impõe-se a avaliação integrada e interdependente de todas as vertentes em que estas
práticas se podem decompor.
Trata-se de uma perspectiva que tem informado estudos recentes, que procuram interrogar a
presença de restos faunísticos em contextos funerários como elementos cujo sentido e desempenho
contextual ultrapassam a simples atribuição de “oferenda cárnica”, expressão infeliz e redutora, mas
frequentemente utilizada. A percepção de que, para os períodos em questão, a relação Homem – Animal
não deve ser reduzida à concepção do animal como objecto, como simples recurso ao serviço da exploração
económica humana, e a noção de que o ordenamento ontológico do mundo vivo seria substancialmente
distinto do nosso, permitem desbloquear questionários e ultrapassar axiomas que dificultam o entendimento
dos potenciais desempenhos sociais das diferentes espécies (Valera, 2012). Neste contexto, destaque para o
66
Era Monográfica 1 (2013)
recente ensaio sobre a presença de patas de animais em contextos funerários Pré-Históricos portugueses
(Valera e Costa, no prelo), onde esta circunstância contextual da Sobreira de Cima foi integrada.
De facto, no caso da necrópole da Sobreira de Cima, a acumulação de fauna recuperada composta,
em exclusivo relativamente aos elementos classificáveis, por falanges de Ovis aries e Capra hircus é,
inequivocamente, de origem antrópica. A exclusividade taxonómica e anatómica, assim como a clara
associação espacial no sepulcro 5 aos ossos humanos equivalentes, apontam claramente para uma
intencionalidade e para significados simbólicos. Acresce que se trata de uma adição de ossos desconexos e
não de partes do corpo dos animais com carne. Mesmo as epífises e diáfises das falanges de sub-adultos se
encontravam em desconexão. Também não se registaram marcas de corte. Estes aspectos parecem revelar
que os elementos osteológicos foram efectivamente incorporados no ossário livres de tecidos moles, ou seja,
como ossos em estado seco.
Esta particularidade ritual, que surgiu na Sobreira de Cima como uma originalidade, conhece agora
paralelismos nos hipogeus do Neolítico Final do Outeiro Alto 2 (Valera e Felipe, 2010), os quais revelam
uma grande similitude com a Sobreira de Cima em todos os âmbitos do ritual funerário (desde a
arquitectura, ao tratamento dos corpos ou ao espólio votivo). Aqui verifica-se uma situação semelhante à do
sepulcro 1 da Sobreira de Cima, com o aparecimento de algumas falanges de ovino/caprinos dispersas nos
contextos funerários.
Naturalmente, sobre o significado concreto dos sentidos desta associação apenas poderemos
especular (o que não é um problema em si, desde que devidamente controlado e explicitado – ver capítulo
11), mas parece começar a delinear-se uma prática que percorre parte significativa da Pré-História
portuguesa e que se traduz na introdução em contextos funerários humanos de patas, partes de patas ou de
ossos de patas de animais, variando as partes e as espécies ao longo do tempo.
Na recente inventariação (Tabela 2) da presença de faunas em contextos funerários pré-históricos
no sul de Portugal sujeitos a escavações modernas e com informação disponível (Valera e Costa, no prelo)
verifica-se que, para o Neolítico Final, temos as duas situações da presença de falanges de ovino/caprinos
na Sobreira de Cima e Outeiro Alto 2 (Valera, Filipe e Cabaço, 2013) e a associação de patas de suínos
juvenis às deposições primárias em fossa do Sector I dos Perdigões (mais concretamente uma pata dianteira
na Fossa 11 e uma pata traseira na Fossa 7 – Valera, 2008; Moreno-García e Cabaço, 2009).
Neolítico
Final
Partes anatómicas
Crânio, vértebras cervicais e pata dianteira em articulação – Canis sp.
Crânio, vértebras cervicais e patas dianteiras em articulação –
Idade
Bronze
Não
datados
X
X
Ovis/Capra
Extremidades de membros articuladas – Sus sp.
Extremidades de membros articuladas – Canis familiaris
Membros completos em articulação - Canis familiaris
Membros completos em articulação – Carnívoro indeterminado
Rádios e ulnas isoladas – Bos taurus
Rádios e ulnas isoladas – Ovis aries
Falanges isoladas – Ovis aries e Capra hircus
Esqueletos quase completos – Sus sp.
Ossos desarticulados – vários taxa
Calcolítico
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
Tabela 2 – Inventário, por cronologia, do tipo de deposições faunísticas em contextos funerários da Pré-História do Sul de Portugal
(Segundo Valera e Costa, no prelo, traduzido). Nota: as falanges transformadas (por polimento, gravação ou pintura) em artefactos
ideotécnicos (quase sempre de equídeo ou cervídeo) não foram contabilizadas por se considerar que não integram os contextos
como partes representativas de determinado animal, mas como suportes para artefactos concretos e com significados próprios, o
mesmo acontecendo com qualquer outro artefacto sobre osso.
Durante o Calcolítico, a diversidade de situações parece aumentar significativamente, registando
situações várias da presença de ossos dispersos e conexões anatómicas parciais e, sobretudo, uma aparente
incidência na presença de restos de canídeos ou carnívoros indeterminados. Já na Idade do Bronze essa
diversidade parece voltar a reduzir-se, com uma preponderância da deposição de partes específicas de patas
de bovídeos ou ovino/caprinos, circunstância que uma vez mais configura uma atribuição de papeis
específicos a essas deposições, os quais se poderão relacionar com o estatuto de determinados animais e/ou
67
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
partes dos respectivos corpos. Porém dados ainda por publicar e outros em processo de obtenção poderão
introduzir alterações nesta apreciação.
Neste estudo é sublinhado que 82% das situações inventariadas ao longo das cronologias
consideradas correspondem a deposições de patas ou partes de patas em conexão anatómica ou de ossos
de patas isolados. Como explicar esta aparente preferência tão marcada?
As interpretações mais comuns para a presença de restos faunísticos nestes contextos são a da
integração destes restos como oferendas cárnicas, nomeadamente de partes de animais consumidos durante
os rituais funerários. No quadro da racionalidade moderna, a preferência por patas explicar-se-ia pelo seu
reduzido valor em carne, fincando as partes mais ricas para consumo dos vivos. Mas estas explicações não
funcionam para as associações contextuais verificadas na Sobreira de Cima, sobretudo no Sepulcro 5. A
associação de ossos secos de ovino/caprinos jovens ao mesmo tipo de ossos humanos num espaço
circunscrito dentro de um ossário implica níveis de significado simbólico que não são contemplados pelas
respostas tradicionais. Porquê esta associação de falanges de animais a falanges humanas? Porquê a
exclusividade do tipo de ossos e da exclusividade da espécie? Porquê a sua incorporação como ossos
individualizados? Se as respostas a estas perguntas são desconhecidas, dificilmente poderemos aceitar
possam residir em estritas relações economicistas entre homem e animal.
O mesmo se verifica para as exclusividades registadas na Idade do Bronze e, por exemplo, com a
frequente presença de patas ou partes cranianas de cão em contextos funerários calcolíticos, espécie que
não terá sido relevante na dieta alimentar, sendo as evidências do seu consumo anteriores à Idade do
Bronze bastante raras na Península Ibérica (Sanchis e Sarrión 2004; Arbogast et al., 2005). Como se refere
no estudo citado:
“On the contrary, since the Early Neolithic we have evidences of careful burials of dogs, isolated or
associated to humans, and of possible sacrifices, with segmentation of the dog bodies and deposition of
parts (such as skulls with the first vertebrae and paws), presenting treatments quite similar to the ones
conceded to some human bodies (Valera, Nunes e Costa 2010). In some sites where several complete dogs
are deposited, such as Polideportivo de Martos (South Spain), the context is seen as a foundation ritual
(Cámara Serrano et al., 2008). In other sites sacrificial practices are related to the social role and status of
the dog in human communities, such as Camino de las Yeseras, Madrid (Liesau et al., 2008). In fact, the
present evidence of dog funerary treatment clearly suggests an unsystematic practice of dog eating. So,
considering the presence of dog paws or cranium in human funerary contexts during Chalcolithic as “meet
offerings” is too simplistic (to say the least).” (Valera e Costa, no prelo).
Por outro lado não deixa de ser estranho que não apareçam “oferendas cárnicas” de animais
selvagens, nomeadamente no Calcolítico, quando falanges de equídeos e cervídeos surgem integradas
nestes contextos, por vezes em grande número (como acontece nos sepulcros 1 e 2 dos Perdigões),
transformadas em artefactos e outros ossos destes animais (talvez com a excepção de hastes de cervídeos)
estão ausentes ou são extremamente raros.
Parece, pois, cada vez mais claro que as respostas para as interrogações levantas por alguns destes
contextos, nomeadamente para os da Sobreira de Cima, terão que ser procuradas a partir de
enquadramentos teóricos que contemplem outras dimensões da relação homem-animal e da relação partetodo no tratamento dos corpos. Assim, partindo de uma crítica realizada à abordagem da relação homemanimal na Pré-História Recente sustentada na racionalidade e organização ontológica moderna do mundo
(Valera, 2012) e no papel social que a segmentação parece desempenhar para estas comunidades (Valera,
2010), apontámos um conjunto de ideias força a ter em conta no tratamento destas problemáticas:
- as práticas funerárias, nomeadamente no Neolítico e Calcolítico, são muito diversificadas e
incluem múltiplas formas, tempos e espaços de tratamento do corpo, onde homens e animais parecem
partilhar procedimentos, sugerindo que o distanciamento ontológico moderno não estaria ainda
plenamente instituído;
- os contextos funerários mais “formais” serão apenas uma parte, provavelmente em articulação
com outras, desta diversidade de práticas funerárias e é neste contexto diversificado e de maior
68
Era Monográfica 1 (2013)
proximidade ontológica entre o humano e o não humano que se deve pensar a presença de determinados
restos de animais;
- o estatuto social dos animais não é o mesmo para todas as espécies e varia ao longo de um tempo
que integra a vida, o momento da morte e o pós morte, ou seja, a presença de restos de um animal pode
relacionar-se com circunstâncias diversas, quer se pense no papel social atribuído ao animal em vida, na
morte e no seu além;
- a segmentação de corpos, que, perante as evidências mais recentes, tanto parece aplicar-se a
animais como a humanos, traduz uma prática que pode ser observada noutras dimensões da vida (desde o
objecto à própria comunidade), remetendo para o problema da relação parte-todo nas estratégias de
organização ideológica e mental do mundo social.
Neste contexto teórico, um segmento de um corpo, seja humano ou animal, pode adquirir um papel
social particularmente relevante, criando problemas a abordagens sustentadas pela percepção do corpo
como unidade. De facto, a moderna geometria cartesiana, que cria dicotomias de valor entre todo e parte,
completo e incompleto, não será o quadro metal mais apropriado para lidar com estas realidades
contextuais que nos vêm chegando da Pré-História (Valera, 2010). O segmento ou o fragmento não devem
ser desvalorizados no seu potencial simbólico e na sua capacidade de gerar e manter laços ou assumir
funções particulares (afinal, o princípio psicológico da relação parte-todo que funcionou e funciona no que
respeita às relíquias, aos amuletos ou a propriedades mágicas atribuídas a certos objectos).
Naturalmente, não será possível demonstrar o real sentido atribuído a circunstâncias como as
observadas na Sobreira de Cima ou Outeiro Alto 2 relativamente às falanges de ovino/caprinos, nem o
significado das práticas que lhes deram origem (embora uma proposta seja avançada no capítulo 11). Mas
podemos sugerir a dimensão social em que provavelmente operaram. Podemos, e devemos, procurar dotar
os nossos discursos interpretativos de maior plausibilidade e validade, o que normalmente numa ciência
histórica (como é a Arqueologia) se traduz numa adequação aos dados empíricos disponíveis e sua
contextualização a escalas progressivamente mais vastas (onde se vai delineando a natureza desses
próprios dados empíricos), mas também num controlo crítico da maior ou menor adequação dos quadros
teóricos que utilizamos para pensar e falar sobre o passado. Este controlo crítico, associado ao crescimento
do número de contextos bem intervencionados e questionados, poderá proporcionar uma escala contextual
que torne mais fácil interpretar esta particularidade ritual da Sobreira de Cima, precisamente porque a essa
escala contextual mais elevada, mais transversal e integradora, a particularidade deixa progressivamente de
nos aparecer assim tão... particular.
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Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
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Era Monográfica 1 (2013)
5
ESTUDO DO ESPÓLIO FUNERÁRIO EM PEDRA LASCADA DA
NECRÓPOLE DE HIPOGEUS NEOLÍTICOS DE SOBREIRA DE CIMA
(VIDIGUEIRA, BEJA)
António Faustino Carvalho1
Apesar da muita atenção que têm atraído desde o início da investigação arqueológica em Portugal,
as práticas funerárias neolíticas são, na realidade, ainda mal conhecidas em diversos dos seus aspetos. A
razão para tal é dupla: deve-se, por um lado, à utilização de métodos de escavação e de registo muito
deficientes e, por outro, ao facto de se estar perante contextos arqueológicos formados a maior parte das
vezes por ossários que passaram por complexos processos de formação antes da sua escavação. A
convergência de ambos os fatores explica muitas das lacunas de conhecimento atuais. Neste quadro geral,
as oferendas funerárias em pedra lascada, cuja análise é usualmente relegada para segundo plano,
permanecem mal documentadas e pior estudadas.
A necrópole de hipogeus de Sobreira de Cima é, no entanto, uma exceção a vários títulos. Com
efeito, é formada por contextos fechados, homogéneos, rigorosamente escavados e já objeto de datação
absoluta, pelo que estes sepulcros se constituem como sítios-chave para o estudo daquela componente, não
só em termos de associações funerárias e interpretação paleoetnológica, como também no que respeita aos
seus aspetos tecno-tipológicos, que são o objeto de análise no presente texto.
7.1 INVENTÁRIO
7.1.1. Sepulcro 1
Do Sepulcro 1 são provenientes produtos alongados e geométricos com os seguintes efetivos:
•
11 lâminas e lamelas, das quais sete apresentam retoque ou sinais de utilização que permitem a
seguinte classificação tipológica:
- uma truncatura (na zona proximal) (Fig. 1, nº 6);
- um entalhe (na extremidade distal ultrapassada) (Fig. 2, nº 4);
- uma com retoque marginal (em ambos os bordos) (Fig. 1, nº 1);
- quatro com retoque a posteriori devido a utilização (Fig. 1, nº 2; Fig. 2, nº 2, 3 e 5).
•
17 geométricos, repartidos pelos seguintes tipos e subtipos (Fig. 3):
- dois triângulos escalenos;
- quatro trapézios assimétricos (2 dos quais com entalhe na base menor);
- um trapézio assimétrico de truncaturas côncavas;
___________________________________________________________
1
Universidade do Algarve, F.C.H.S., Campus de Gambelas, 8000-117 Faro. E-mail: [email protected]
71
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
- quatro trapézios retângulos (1 dos quais com entalhe na base menor);
- três trapézios retângulos de pequena truncatura côncava (1 dos quais com entalhe na
base menor);
- dois trapézios retângulos de truncaturas côncavas;
- um geométrico de tipologia indeterminada (fragmentado).
Todas as peças enumeradas são em sílex, com exceção de dois produtos alongados em chert e de
três geométricos em quartzo (dois triângulos escalenos e um trapézio retângulo de truncatura menor
côncava). Além destas, foi ainda recuperado um núcleo prismático para lamelas, sobre cristal de rocha (Fig.
1, nº 7), o qual apresenta duas plataformas alternas: uma facetada, para lamelas; outra, para lascas,
aproveitando uma das superfícies originais, patinadas, do cristal.
7.1.2. Sepulcro 2
Do Sepulcro 2 são provenientes produtos alongados e geométricos com os seguintes efetivos:
•
3 lâminas e lamelas (Fig. 4), das quais um apresenta retoque que permite a sua classificação
tipológica do seguinte modo:
- peça bitruncada com retoque em ambos os bordos, sendo as truncaturas obtidas através
de retoque invasor bifacial (Fig. 4, n.º 1).
•
2 geométricos (Fig. 4):
- um trapézio assimétrico de truncaturas côncavas;
- um trapézio retângulo de pequena truncatura côncava (com entalhe na base menor).
Todas as peças enumeradas são em sílex, com exceção de uma pequena lâmina em chert. Há ainda
a registar uma lasca parcialmente cortical, em quartzo, com retoque marginal no bordo direito, e com talão
esmagado (Fig. 4, n.º 4).
7.1.3. Sepulcro 5
Do Sepulcro 5 são provenientes produtos alongados e geométricos com os seguintes efetivos:
•
4 lâminas (Fig. 5), das quais uma apresenta sinais de utilização que permitem a sua classificação
tipológica do seguinte modo;
- peça com retoque a posteriori devido a utilização (Fig. 5, n.º 1).
•
14 geométricos, repartidos pelos seguintes tipos e subtipos (Fig. 6):
- um triângulo escaleno;
- um trapézio assimétrico;
- um trapézio assimétrico de truncaturas côncavas;
- cinco trapézios retângulos;
- três trapézios retângulos de pequena truncatura côncava;
- um trapézio retângulo de truncaturas côncavas;
- dois geométricos de tipologia indeterminada (fragmentados).
Todas as peças enumeradas são em sílex, com exceção de 1 lâmina em chert e de 2 geométricos em
quartzo (1 triângulo escaleno e 1 trapézio retângulo).
Além daquelas peças, o Sepulcro 5 revelou ainda um fragmento de rocha metamórfica
indeterminada sem sinais evidentes de talhe intencional e uma lasca de quartzo não cortical, retocada e sem
talão. Porém, um dos aspetos da componente votiva em pedra lascada que mais individualiza este sepulcro
é a presença de utensílios robustos, nomeadamente sobre seixo, que se podem descrever do seguinte modo:
72
Era Monográfica 1 (2013)
•
•
•
um percutor de quartzito, cuja fragmentação impede a determinação do suporte (seixo?), sendo no
entanto visível talhe em toda a sua periferia, conformando uma peça de morfologia arredondada,
com sinais de impacto na cornija formada pelos levantamentos e a plataforma a partir da qual estes
foram executados;
um percutor sobre seixo de quartzito, com levantamentos unifaciais (formando portanto uma peça
de tipo chopper), com sinais de impacto no gume assim obtido (Fig. 6, n.º 15);
um raspador duplo sobre lasca espessa, de rocha xistosa, com retoque em ambos os bordos.
7.2. ANÁLISE COMPARATIVA DOS SEPULCROS: PADRÕES GERAIS E DIFERENCIAÇÕES.
A cronologia radiocarbónica disponível para os sepulcros da necrópole da Sobreira de Cima indica
que a sua utilização terá ocorrido ao longo da segunda metade do IV milénio a.C. (ver Valera et al. [2008] e
dados inéditos). Pode divisar-se, talvez, uma maior antiguidade do Sepulcro 3 cuja cronologia absoluta
parece centrar-se em meados daquele milénio. A inexistência de artefactos em pedra lascada no Sepulcro 3
impede, contudo, que se busquem eventuais tendências diacrónicas na tecnologia e tipologia de produção
lítica no decurso do período de utilização da necrópole.
Refira-se que a datação obtida para o Sepulcro 5, centrada no segundo quartel do III milénio a.C., e
portanto mais recente que as anteriores, pode ser explicada, de acordo com os autores acima citados, por
fatores tafonómicos relacionados com ação hídrica resultante, por sua vez, de um abatimento antigo do
sepulcro. E, de facto, como demonstrado pela análise comparada da cultura material, pelo menos no que ao
talhe da pedra diz respeito (ver adiante), estamos perante manifestações funerárias caracteristicamente
neolíticas sem que se reconheça qualquer indício material sólido de reutilização calcolítica deste hipogeu.
Deste modo, os contextos objeto de estudo no presente trabalho devem ser considerados contemporâneos
— ou, pelo menos, penecontemporâneos —, pelo que as (poucas) diferenças significantes que se assinalam
entre si se deverão mais provavelmente a diferenciações intergrupais do que a transformações tecnológicas
e alterações estilísticas ocorridas na diacronia. Isto é, partindo do pressuposto segundo o qual as sociedades
neolíticas estariam organizadas em função de relações de parentesco, cada sepulcro poderá ter sido então,
por hipótese, utilizado unicamente por segmentos (p. ex., famílias extensas ou linhagens) de uma
comunidade mais alargada.
7.2.1. Lâminas e lamelas
No conjunto dos três sepulcros analisados, foi possível identificar nove lâminas e lamelas intactas
num total de 18, às quais se podem juntar outros cinco exemplares quase intactos, o que significa 78% do
total. Este elevado índice de conservação das peças — que contrasta com os índices homólogos obtidos em
contextos habitacionais — permite análises comparativas das dimensões dos produtos alongados
recorrendo ao comprimento dos mesmos. Com efeito, o exercício de comparação dos valores obtidos para a
necrópole da Sobreira de Cima com dois contextos do Neolítico médio da Estremadura — a Gruta do Lugar
do Canto (Cardoso e Carvalho, 2008) e o Algar do Bom Santo (Carvalho, 2009a) — permite verificar que os
referidos extremos da variação correspondem a dois grupos dimensionais principais (Fig. 7):
1. um, formado por peças com larguras e comprimentos compreendidos entre os 8-20 mm e os 25-100
mm, respetivamente, ou seja, artefactos classificáveis como lamelas e pequenas lâminas (Grupo 1);
2. outro, menos numeroso, formado por peças com larguras e comprimentos compreendidos entre os
18-28 mm e os 120-180 mm, respetivamente, ou seja, artefactos classificáveis como lâminas
robustas (Grupo 2).
Como argumentado a propósito do estudo dos materiais do Algar do Bom Santo (Carvalho, 2009a),
a existência de dois módulos distintos nesta fase do Neolítico corresponderá à existência de dois processos
de talhe laminar (ao que tudo indica) autónomos. Esta conclusão será retomada na parte conclusiva deste
trabalho mas, perante a sua evidência, optou-se metodologicamente por proceder à análise tecnológica
separada de ambos os grupos.
Assim, se se comparar os dados sistematizados nos Quadros 1 e 2, verifica-se que as regiões
73
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
proximais das peças em causa revelam morfologias equiparáveis, sem diferenças dignas de nota entre os
dois grupos: são predominantes os talões facetados, associados a bolbos tendencialmente nítidos, sem
labiado nem sinais de abrasão ou regularização da cornija dos núcleos; do mesmo modo, a quantificação
das secções transversais das peças indica o domínio das geometrias trapezoidais. A única diferença
assinalável é a presença de tratamento térmico do sílex em 42,8% das peças pertencentes ao Grupo 1,
procedimento que, à semelhança do que se havia verificado aquando do estudo das grutas estremenhas
acima referidas, não terá sido empregue no caso da produção das lâminas robustas integrantes do Grupo 2.
Assinale-se ainda que uma peça deste último grupo, do Sepulcro 5, ilustrada sob o nº 1 da Fig. 5, apresenta
o talão proeminente e espesso, o que constituirá um traço morfológico comum nas produções laminares de
grandes módulos típicas do Calcolítico.
7.2.2. Geométricos
Seja qual for o sepulcro considerado, a tipologia predominante entre os geométricos é a trapezoidal
(n=27); não havendo segmentos de círculo, a restante tipologia resume-se ao grupo dos triângulos, sempre
pertencentes ao subtipo escaleno (n=3), os quais, note-se, são todos fabricados em quartzo branco com boa
aptidão para o talhe. Em termos de subtipos trapezoidais, o inventário apresentado atrás revela o domínio
dos trapézios retângulos (seja com truncaturas retas, seja com a pequena truncatura côncava) no Sepulcro 2
e 5, e dos trapézios assimétricos (de truncaturas retas) no Sepulcro 1.
O conjunto de geométricos trapezoidais denota uma forte homogeneidade em termos tecnológicos
(Quadro 3). Com efeito, salvo uma única exceção, o retoque aplicado no fabrico destas peças — como,
aliás, no caso dos triângulos — é sempre curto, abrupto e, predominantemente, direto (em torno dos 45%
dos totais). A única alternativa a este padrão genérico são as peças com retoque direto numa truncatura e
inverso na truncatura oposta (o que ocorre em cerca de 30% do total), conformando um traço comum a
todos os sepulcros.
No que respeita à tecnologia dos suportes dos trapézios, verifica-se também uma nítida
homogeneidade (Quadro 3): as secções transversais são quase sempre trapezoidais (com exceção do
Sepulcro 5, onde apresentam geometrias irregulares); e o tratamento térmico do sílex está bem
representado mas nunca constituiu, ao que tudo indica, um procedimento técnico relevante para a produção
de utensilagens geométricas.
O histograma de frequências da Fig. 9 demonstra que as larguras dos micrólitos geométricos estão
compreendidas entre os 10 e os 17 mm, o que implica que foram sempre produzidos a partir do
seccionamento de suportes alongados de módulos menores, portanto inseridos do Grupo 1, tal como acima
definido.
7. 3. INTEGRAÇÃO REGIONAL
O grupo megalítico de Reguengos de Monsaraz, localizado a cerca de três dezenas de quilómetros
para nordeste em linha reta dos hipogeus da Sobreira de Cima, constitui o conjunto de paralelos mais
adequados e próximos geograficamente para efeitos de comparação e de integração regional desta
necrópole. Infelizmente, a principal fonte para o estudo do material em pedra lascada daquele grupo
megalítico é ainda a produzida pelo casal Leisner em 1951, sendo negligenciáveis as contribuições a este
respeito publicadas desde então. O estudo do talhe da pedra levado a cabo por estes autores, muito
genérico, teve como objetivo principal o ordenamento cronológico e cultural daquelas realidades (Leisner e
Leisner, 1951), pelo que foi organizado em “material de época neolítica” (micrólitos; facas sem retoque) e
“material de época eneolítica” (pontas de seta; lâminas de retoque marginal, serras e foices; alabardas;
núcleos de cristal de rocha e de quartzo). Assim, embora esta separação seja válida nos seus aspetos
principais e o material de época neolítica seja de facto comparável com o da necrópole da Sobreira de Cima,
somente através da análise direta dos materiais reguenguenses se poderia no entanto discutir algumas das
questões tratadas nos apartados precedentes.
No que respeita à produção laminar, é interessante salientar desde logo que, apesar de não terem
procedido a (ou, pelo menos, publicado) análises métricas sistemáticas, os Leisner foram explícitos no
reconhecimento de dois módulos de talhe principais no Megalitismo de Reguengos, o que vai ao encontro
74
Era Monográfica 1 (2013)
do verificado na Sobreira de Cima e nas grutas-necrópole estremenhas. Com efeito, aqueles autores
identificam uma abundante produção lâmino-lamelar de pequenas dimensões, integrável no Grupo 1 tal
como definido atrás, a que os autores se referem nos seguintes termos: “[f]acas pequenas e finas, que, no
sudeste, caracterizam o neolítico final, saíram da anta do Poço da Gateira (Nº 29), da anta 1 das Vidigueiras
(Nº 125), da anta 2 da Comenda (Nº 36) e de mais algumas antas de fácies neolítica (Nº 95, 99, 126 e 128)2
, encontrando-se também no concelho vestígios desta indústria em quase todas as antas de espólio
eneolítico” (Leisner e Leisner, 1951: 59). Na mesma página, é também referido que “[a]o lado das facas
pequenas, aparecem já, na anta do Poço da Gateira e em outras antas de fácies neolítica (Nº 30 e 126)3 ,
facas de tamanho maior, até 17 cm de comprimento”, o que significa que se trata de peças integráveis no
Grupo 2.
Como se referiu atrás, os micrólitos geométricos são colocados pelos Leisner entre o material de
época neolítica e, neste aspeto, há também um claro paralelismo com a Sobreira de Cima, no que respeita
às tipologias predominantes e respetivas matérias-primas. Como afirmado pelos autores que se têm vindo a
citar, “[e]ntre os micrólitos de sílex predominam os trapézios, ao passo que os triângulos são mais
frequentes entre os micrólitos de quartzo” (Leisner e Leisner, 1951: 54). Em termos de subtipos, também se
verifica em Reguengos a presença de triângulos escalenos; no entanto, o traço mais marcante é o domínio
dos trapézios assimétricos, com ou sem a base menor retocada, em monumentos como as antas 1 e 2 da
Vidigueira, anta 2 da Comenda 2, anta 1 da Farisoa, anta 2 de Gorginos e, talvez mais notoriamente, na
anta 1 do Poço da Gateira, atribuída à fase inicial do Megalitismo regional. Assim, há portanto uma
diferença estilística em relação aos hipogeus bejenses, a qual se poderá dever a fatores culturais ou étnicos
ou, em alternativa, a fatores cronológicos. Não havendo elementos que permitam, de forma segura, optar
por qualquer destas hipóteses, note-se no entanto que a anta 1 do Poço da Gateira é cerca de um milénio
mais antiga, a julgar pela sua datação por termoluminescência (OxTL169b: 4510 ± 360 BC) publicada por
Whittle e Arnaud (1975). Este facto — apesar das diferentes opiniões sobre a aplicabilidade do método em
contextos deste tipo, formuladas por exemplo por Gonçalves (1992) ou Soares (1999) — permite considerar
provisoriamente válida a segunda daquelas hipóteses.
7.4. CONTRIBUIÇÃO PARA O CONHECIMENTO DO TALHE DA PEDRA NO CENTRO E SUL DE PORTUGAL
DURANTE O IV MILÉNIO a.C.
O estudo da componente em pedra lascada da necrópole da Sobreira de Cima vem reforçar o
conhecimento que se está presentemente a construir acerca da tecnologia e tipologia líticas dos contextos
do centro e sul de Portugal atribuíveis ao Neolítico médio. O facto de se estar a lidar com contextos
homogéneos, bem definidos e datados — o que não acontece na generalidade dos sítios desta época
disponíveis para estudo, seja em ambiente funerário ou em contexto habitacional — confere um elevado
grau de segurança às conclusões que têm vindo a ser obtidas, apesar da exiguidade das amostras
artefactuais analisadas (Cardoso e Carvalho, 2008; Carvalho, 2009a; ver também, a este propósito, as
sínteses apresentadas em Carvalho, 2009b, 2012). A necrópole da Sobreira de Cima revelou dados que
permitem, desde já, avançar algumas conclusões a respeito de dois aspetos principais, sobre os quais se
apresentarão de seguida algumas considerações: a funcionalidade específica das armaduras geométricas e
os processos de produção laminar vigentes no IV milénio a.C.
Com efeito, uma questão que não foi aflorada nos apartados precedentes é a da presença de uma
substância esverdeada aderente a alguns micrólitos geométricos. De acordo com as análises químicas
efetuadas (Dias, 2008), trata-se de uma argila de tipo clorite, talvez associada a caulinite, e não de qualquer
matéria orgânica de tipo mástique, ao contrário do que se poderia supor. Porém, outro facto interessante
associado a estes casos únicos de preservação é a observação da região da peça onde a substância fora
aplicada e extrair conclusões acerca do modo em como se encontraria inserta no respetivo suporte em
matéria orgânica (partindo do princípio de que a aplicação desta matéria tinha esse objetivo). Assim, pondo
de lado os casos dúbios ou menos bem conservados, pode concluir-se o seguinte:
____________________________________________________________________________
2
Numeração correspondente às antas 7 e 11 da Herdade das Areias, anta 2 da Herdade das Vidigueiras e anta 2 da Herdade dos
Gorginos.
3
Numeração correspondente à anta 2 do Poço da Gateira e anta 2 da Herdade das Vidigueiras.
75
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
•
•
No trapézio retângulo em sílex pertencente ao Sepulcro 1 (Fig. 3, nº 2), a substância argilosa
localiza-se em torno da base menor (não retocada) da peça, deixando como parte exposta o gume
de maior comprimento do geométrico, o qual teria sido, portanto, encabado à maneira de
“elemento de foice” ou de “ponta transversal”.
Nos quatro triângulos que conservam uma quantidade significativa desta substância argilosa —
dois em quartzo e dois em sílex, todos do Sepulcro 1 (Fig. 3) — observa-se que esta se localiza
sobre o vértice que une as duas truncaturas, de modo a deixar exposto o gume bruto da peça e
parte da truncatura de menor comprimento. Este modo de inserção da componente em pedra
sugere um encabamento de tipo “arpão”, isto é, com o utensílio compósito a comportar vários
triângulos alinhados. Independentemente do rigor destas observações realizadas a olho nu, não
deixa de ser significativo verificar que todos os triângulos referidos são provenientes do mesmo
sepulcro, o que parece ir ao encontro da hipótese de se tratar de peças originárias de um único
utensílio compósito aqui depositado como oferenda funerária.
No exercício de comparação das produções laminares das grutas-necrópole estremenhas do Lugar
do Canto e o Bom Santo — que, recorde-se, estão também datadas do IV milénio a.C. — concluía-se, entre
outros aspetos, que “[...] no estado atual dos conhecimentos e com os dados disponíveis, parece haver
nesta fase dois processos de talhe laminar distintos no que respeita aos módulos obtidos, mas
aparentemente recorrendo aos mesmos procedimentos básicos:
1. a produção, por percussão indireta e com recurso a tratamento térmico do sílex, de lamelas e
lâminas de pequenas dimensões;
2. a produção de lâminas notoriamente mais robustas, talvez por percussão indireta, mas sem
tratamento térmico (possibilidade que se deverá testar no prosseguimento da investigação)”
(Carvalho, 2009a: 80).
A análise tecnológica dos produtos alongados da Sobreira de Cima veio validar estas observações
ao nível da volumetria das peças, dos procedimentos técnicos envolvidos na sua produção e também, por
consequência, da técnica de talhe empregue na sua debitagem (percussão indireta). O aspeto talvez mais
significativo é a — pelo menos aparente — confirmação da não aplicação de tratamento térmico para a
extração das peças mais robustas. Este facto necessita portanto de investigação específica sobre o mesmo,
por exemplo de carácter experimental: a inexistência daquele pré-tratamento confirma-se de facto nestas
produções? Se sim, implicaria o uso, afinal, de uma técnica de talhe distinta, ou de uma variante, da que se
deduz? Ou a ausência de tratamento térmico respondia a requisitos funcionais relacionados com as tarefas a
que se destinavam estes produtos acabados?
Por outro lado, a existência de dois processos técnicos gémeos visando a obtenção de produtos
alongados — ao que tudo indica, com um elevado índice de uniformidade morfológica e tecnológica no
caso das peças mais robustas — e com uma circulação geográfica alargada, que abrange uma região
interior (o Alentejo) afastada das principais áreas com recursos siliciosos aptos para o seu fabrico (a
Estremadura), levanta a questão da eventual especialização da produção lítica já em pleno IV milénio a.C.
Esta possibilidade remete-nos porém para um patamar interpretativo a outras escalas de abordagem que se
afastam dos objetivos deste texto.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARDOSO, J.L. e CARVALHO, A.F. (2008), “A Gruta do Lugar do Canto (Alcanede) e sua importância no faseamento do
Neolítico no território português”, (CARDOSO, J.L., coord.) Octávio da Veiga Ferreira. Homenagem ao Homem, ao
Arqueólogo e ao Professor, Oeiras, Câmara Municipal de Oeiras (Estudos Arqueológicos de Oeiras; 16), p.269-300.
CARVALHO, A.F. (2009a), “O final do Neolítico e as origens da produção laminar calcolítica na Estremadura
Portuguesa: os dados da gruta-necrópole do Algar do Bom Santo (Alenquer, Lisboa)”, (Gibaja, J.F.; Terradas, X.;
Palomo, A.; Clop, X., coords.) Les grans fulles de sílex. Europa al final de la Prehistòria, Barcelona, Museu
d’Arqueologia de Catalunya (Monografies; 13), p.75-82.
CARVALHO, A.F. (2009b), “O talhe da pedra na Pré-História recente de Portugal. 2.: o estado actual da investigação”,
Praxis Archaeologica, 4, p. 67-91 [edição on-line: http://www.praxisarchaeologica.org].
76
Era Monográfica 1 (2013)
DIAS, M.I. (2008), “Estudo composicional da matéria envolvente aos geométricos da necrópole neolítica da Sobreira de
Cima (Vidigueira)”, Apontamentos de Arqueologia e Património, 1, p. 13-14.
G.E.E.M. [GROUPE D'ÉTUDE DE L'EPIPALÉOLITHIQUE-MÉSOLITHIQUE] (1969), “Epipaléolithique-Mésolithique. Les
microlithes géométriques”, Bulletin de la Société Préhistorique Française, 66, p. 355-366.
GONÇALVES, V.S. (1992), Revendo as antas de Reguengos de Monsaraz, Lisboa, Uniarq (Cadernos da Uniarq; 2).
LEISNER, G.; LEISNER, V. (1951), Antas do concelho de Reguengos de Monsaraz. Materiais para o estudo da cultura
megalítica em Portugal, Lisboa, Instituto para a Alta Cultura.
SOARES, A.M. (1999), “Megalitismo e cronologia absoluta”, II Congreso de Arqueología Peninsular, III, Zamora,
Fundación Rei Afonso Henriques, p.689-706.
VALERA, A.C.; SOARES, A.M. e COELHO, M. (2008), “Primeiras datas de radiocarbono para a necrópole de hipogeus da
Sobreira de Cima (Vidigueira, Beja)”, Apontamentos de Arqueologia e Património, 2, p.27-30.
WHITTLE. E.H.and ARNAUD, J.M. (1975), “Thermoluminescent dating of Neolithic and Chalcolithic pottery from sites in
central Portugal”, Archaeometry, 17:1, p.5-24.
Quadro 1
Sobreira de Cima
Grupo 1 (lamelas e pequenas lâminas): tecnologia (a)
Sepulcro
1
(n=7)
Talão
liso
facetado
4
diedro
2
Bolbo
reduzido
1
nítido
5
Ondulações
presentes
4
ausentes
2
Labiado
presente
1
ausente
5
Cornija
regularizada
1
não regularizada
5
Secção
trapezoidal
5
triangular
2
Tratamento térmico
presente
3
ausente
4
(a) No cálculo dos valores percentuais não se procedeu ao
baixos valores absolutos em causa.
77
Sepulcro
Sepulcro
TOTAL
2
5
(n=12)
(n=3)
(n=2)
N
%
1
1
12,5
4
50
1
3
37,5
1
12,5
1
1
7
87,5
4
50
1
1
4
50
1
1
3
37,5
5
62,5
1
2
33,3
1
6
66,6
3
2
10
83,3
2
16,6
3
42,8
1
1
4
57,1
arredondamento dos mesmos dados os
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Quadro 2
Sobreira de Cima
Grupo 2 (lâminas robustas): tecnologia (a)
Sepulcro
1
(n=4)
Talão
liso
facetado
3
diedro
1
Bolbo
reduzido
nítido
4
Ondulações
presentes
2
ausentes
2
Labiado
presente
1
ausente
3
Cornija
regularizada
2
não regularizada
2
Secção
trapezoidal
2
triangular
2
Tratamento térmico
presente
ausente
4
(a) No cálculo dos valores percentuais não se procedeu ao
baixos valores absolutos em causa.
Sepulcro
Sepulcro
TOTAL
2
5
(n=6)
(n=0)
(n=2)
N
%
0
1
4
66,6
1
2
33,3
1
1
16,6
1
5
83,3
1
3
50
1
3
50
1
16,6
2
5
83,3
2
66,6
2
4
33,3
2
4
66,6
2
33,3
0
2
6
100
arredondamento dos mesmos dados os
Quadro 3
Sobreira de Cima
Geométricos trapezoidais: tecnologia (a)
Sepulcro 1
Sepulcro 2
Sepulcro 5
TOTAL
(n=15)
(n=2)
(n=13)
(n=30)
N
%
N
%
N
%
N
%
Retoque: posição
directo
7
46,6 6
46,1 13
43,3
inverso + directo (b)
4
26,6 2
100
4
30,7 10
33,3
alternante
1
7,6
1
3,3
cruzado + directo (b)
1
6,6
1
7,6
2
6,6
cruzado + inverso (b) 1
7,6
1
3,3
indeterminado (c)
3
20,0 3
10,0
Retoque: extensão
curto
15
100
2
100
12
92,3 29
96,6
curto + invasor (b)
1
7,6
1
3,3
Retoque: inclinação
abrupto
15
100
2
100
12
92,3 29
96,6
semi-abrupto
1
7,6
1
3,3
Secção
trapezoidal
8
53,3 2
100
2
15,3 12
40,0
triangular
5
33,3 1
7,6
6
20,0
irregular
2
13,3 10
76,9 12
40,0
Tratamento térmico
presente
6
40,0 3
23,0 9
30,0
ausente
9
60,0 2
100
10
76,9 21
70,0
(a) No cálculo dos valores percentuais não se procedeu ao arredondamento dos mesmos dados os baixos valores
absolutos em causa.
(b) Numa e noutra truncatura, respectivamente.
(c) Retoque total ou parcialmente coberto por mástique.
78
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 1 - Sepulcro 1. 1-6: lâminas e lamelas; 7: núcleo de cristal de rocha (escala em cm). (Segundo Valera e Coelho, 2007)
79
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 2 - Sepulcro 1. 1-5: lâminas (escala em cm). (Segundo Valera e Coelho, 2007)
80
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 3 - Sepulcro 1. 1-15: micrólitos geométricos (escala em cm). (Segundo Valera e Coelho, 2007)
81
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 4 - Sepulcro 2. 1-3: lâminas e lamelas; 4: lasca retocada; 5-6: micrólitos geométricos (escala em cm).
(Segundo Valera e Coelho, 2007)
82
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 5 - Sepulcro 5. 1-3, 6: lâminas; 4-5: geométricos (escala em cm). (Segundo Valera e Coelho, 2007)
83
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 6 - Sepulcro 5. 1-14: micrólitos geométricos; 15: seixo talhado(escala em cm). (Segundo Valera e Coelho, 2007)
84
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 7 - Gráfico de dispersão dos produtos alongados
alongados inteiros, em função dos seus comprimentos (C) e larguras (L), dos hipogeus
da Sobreira de Cima e das grutas-necrópole
necrópole do Lugar do Canto e do Bom Santo.
60
produtos alongados
50
geométricos
40
30
20
10
26-27,9
24-25,9
22-23,9
20-21,9
18-19,9
16-17,9
14-15,9
12-13,9
10-11,9
8-9,9
0
Figura 8 - Histograma de frequências percentuais de larguras (em milímetros) dos produtos alongados e dos geométricos dos três
hipogeus da Sobreira de Cima.
85
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
86
Era Monográfica 1 (2013)
6
ESTUDO COMPOSICIONAL DA MATÉRIA ENVOLVENTE AOS
GEOMÉTRICOS DA NECRÓPOLE NEOLÍTICA DA
SOBREIRA DE CIMA (VIDIGUEIRA)1
Mª Isabel Dias2
8.1. INTRODUÇÃO
No âmbito da realização do relatório das escavações de salvamento efectuadas pela Era
Arqueologia S.A. (para a SMCC e REN) na necrópole neolítica de sepulcros artificiais da Sobreira de Cima
(junto a Alqueva), procedeu-se à avaliação da composição da matéria envolvente a geométricos (relativa à
sua fixação) pertencentes ao espólio votivo da referida necrópole. Face ao resultado negativo das primeiras
análises realizadas pelo INETI (Departamento de Tecnologia de Indústrias Químicas) e destinadas a verificar
a presença de elementos orgânicos, procedeu-se a novo estudo composicional que permitisse avaliar o
carácter inorgânico da amostra, nomeadamente a sua estrutura cristalina (a existir) por difracção de raios-X.
8.2. ABORDAGEM METODOLÓGICA
Procedeu-se à preparação e tratamento laboratorial das duas amostras de material envolvente aos
geométricos, do modo clássico com que se preparam para uma caracterização mineralógica por difracção de
raios-X (DRX). Houve, no entanto, alguma dificuldade, dada a quantidade exígua de material, tendo que se
preparar porta-amostras específicos para quantias tão exíguas, bem como a uma preparação expedita da
fracção fina.
As amostras foram secas em estufa a 30ºC, para evitar possíveis mudanças de fase mineralógica
provocadas pela temperatura.
Para o estudo mineralógico da composição total, foi retirada uma pequena porção da amostra que,
depois de moída, homogeneizada e seca a 30ºC, foi colocada num porta amostras de acrílico, sendo
comprimida para evitar a orientação preferencial dos cristais preparando-se, deste modo, agregados não
orientados. Realce-se que o porta-amostras usado não foi o clássico de vidro, que não interfere na difracção,
pois tal não era exequível, dada a pouca quantidade de amostra. A interferência do acrílico não afecta,
contudo, a interpretação dos minerais presentes na amostra, já que, após efectuadas experiências com
padrões, constatou-se que acrescentava uma “barriga” a cerca de 16º de 2θ, que não foi considerada na
interpretação, não camuflando nenhum pico diagnóstico de qualquer mineral.
No caso da fracção fina, foi realizada a difracção de raios X da amostra em agregado orientado ao
natural (ON). Dada a quantidade exígua de amostra, as lâminas foram preparadas de um modo expedito por
dissolução da amostra em 10 ml de água destilada, com agitação para maior eficiência do processo. Após
dissolução total do material, e com o auxílio de uma pipeta de 2 ml, foi depositada a suspensão em lâmina
de vidro e seca à temperatura ambiente.
___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
1
2
Texto originalmente publicado na revista Apontamentos de Arqueologia e Património, nº 1, 2008.
Instituto Tecnológico e Nuclear
87
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Os difractogramas de raios X das diferentes fracções foram obtidos num equipamento Philips, Pro
Analytical, sendo usada a radiação Kα Cu a 45 Kv de tensão e 40 mA de corrente, e velocidade de
goniómetro de 1º por minuto e com as seguintes condições operacionais:
•
•
amostra total - área explorada de 2º a 70º de 2θ;
agregados orientados ao natural - área explorada de 2º a 30º de 2θ;
Figura 1 – Alguns dos geométricos que preservam a substância de fixação.
8.3. RESULTADOS / DISCUSSÃO
A análise mineralógica por DRX mostrou-se muito útil para o estudo composicional da matéria
envolvente aos geométricos, pois permitiu inferir do seu carácter inorgânico.
As duas amostras analisadas (742 e 972) apresentam o mesmo tipo de associação mineralógica da
amostra total:
Clorite (+ Caulinite?) >> Quartzo ≥ Plagioclases
Realce-se nos difractogramas (1 e 2) a presença da “barriga” do acrílico a 16º de 2 θ, e a
identificação clara dos picos dos minerais de argilas principais presentes nas amostras (reflexões basais da
clorite: 14 Å (001), 7 Å (002); 4,7 Å (003), 3,5 Å (004) e 2,8 Å (005)), bem como dos minerais acessórios
(quartzo: 3,34 Å e plagioclases: 3,20 Å). A presença de caulinite não foi despistada. Para tal teria que ter
sido efectuado um estudo mais exaustivo da fracção fina (dificultado pela pouca quantidade de amostra),
nomeadamente difractogramas dos agregados orientados ao natural glicolados, aquecidos a 550ºC,
saturadas com Mg, pré-tratamentos com compostos orgânicos e inorgânicos.
88
Era Monográfica 1 (2013)
Nos difractogramas dos agregados orientados ao natural das amostras (3 e 4), é bem evidente a
sua clara riqueza em minerais argilosos: Clorite (+caulinite?).
Estamos, portanto, em presença de uma matéria argilosa a envolver os geométricos. Deste modo, a
matéria que funcionaria no processo de fixação destas peças (encabamento) era de cariz inorgânico,
constituída por argilas predominantemente do tipo clorite (provavelmente associada a caulinite).
Figura 2 – Difratogramas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
VALERA, A.C.e COELHO, M., (2007), A necrópole neolítica da Sobreira de Cima. Relatório dos Trabalhos Arqueológicos,
Lisboa, Era Arqueologia SA.
89
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
90
Era Monográfica 1 (2013)
7
A PEDRA POLIDA NA NECRÓPOLE DA SOBREIRA DE CIMA
(VIDIGUEIRA, BEJA)
António Carlos Valera
Nelson Cabaço
Os materiais de pedra polida representam, entre os conjuntos artefactuais presentes nos sepulcros
da Sobreira de Cima, uma das categorias de maior relevância. A sua importância manifesta-se na presença
de machados e enxós depositados no interior das câmaras funerárias, mas também na inédita concentração
de esboços/lingotes de anfibolito que foram ritualmente depositados no encerramento dos acessos dos
sepulcros 1, 2 e 5 ou utilizados na arquitectura da entrada do sepulcro 5. Se o tratamento contextual e
interpretativo destas presenças já foi realizado no capítulo 3, cabe agora desenvolver uma abordagem de
cariz mais tipológico e tecnológico a este conjunto de materiais.
7.1. OS ARTEFACTOS DE PEDRA POLIDA UTILIZADOS COMO MATERIAL VOTIVO
A pedra polida integrada nos conjuntos votivos do interior das criptas é composta por quarenta
peças, às quais se reuniu uma recolhida no corredor do sepulcro 5 (único artefacto polido acabado que não
estava incorporado nas câmaras), formando, assim, um total de quarenta e uma peças.
Do ponto de vista tipológico, este conjunto é exclusivamente constituído por dezoito machados e
vinte e três enxós (Tabela 1).
Tabela 1 – Relação do material de pedra polida e esboços / lingotes da Sobreira de Cima.
Categorias
Enxós
Machados
Esboço / Lingote
Sep. 1
10
9
67
Sep. 2
6
1
8
Sep. 3
0
0
0
Sep. 4
0
0
0
Sep. 5
7
8
44
Superf.
0
0
21
Total
23
18
140
Em termos de matéria-prima existe uma clara diferenciação entre estes dois conjuntos. Dos dezoito
machados, catorze são em anfibolito e apenas quatro são noutro tipo de xistos, menos duros. Nas enxós a
situação inverte-se, sendo uma em anfibolito e vinte e duas noutro tipo de xistos. Existe, pois, uma aparente
vinculação entre a tipologia do artefacto e a matéria-prima, sendo de destacar que o anfibolito está
presente localmente junto à necrópole.
7.1.1 Machados
Os machados, sempre num estado inteiro, são peças de tamanho pequeno/médio, com
comprimentos entre 10,4 e 14,4cm e espessuras entre 2,4 e 4cm. Apresentam secções predominantemente
circulares (oito casos) e elípticas (oito casos), registando-se apenas uma secção sub-rectangular e outra subquadrangular. Já as secções longitudinais são dominantemente biconvexas (quinze ocorrências), existindo
uma convergente no gume, outra sinuosa e outra plano-convexa. Os bordos, por sua vez, são convergentes
no talão em treze casos, em dois casos paralelos, noutros dois convergentes no gume e numa situação são
sinuosos. Doze peças apresentam um bisel convexo simétrico, sendo dissimétrico em seis. O gume
apresentava-se intacto em onze peças, com ligeiras marcas de uso em seis, tendo apenas um caso registado
91
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
um gume lascado. Os talões são predominantemente redondos (doze), sendo truncados em quatro peças e
pontiagudos em duas.
Metade dos machados apresenta o polimento restrito ao gume, sendo o restante corpo das peças
picotado. Na outra metade, cinco peças evidenciam polimento a 1/3 dos flancos, duas até 2/3, uma
praticamente não tem polimento e outra tem polimento nos flancos e bordos até 1/3.
Em quase todas as peças o polimento e o picotado apagaram marcas de prévia configuração, as
quais apenas são ligeiramente perceptíveis em dois casos, onde se notam negativos de alguns
levantamentos, evidenciando uma pré-configuração por talhe.
Assim, o machado tipo da Sobreira de Cima é em anfibolito, de secção transversal circular ou
elíptica e secção longitudinal biconvexa. Os bordos são convergentes no talão e o gume é duplo convexo
simétrico e apresenta-se predominantemente intacto. O talão é redondo e o polimento tende a restringir-se
ao gume, sendo o restante corpo da peça picotado.
7.1.2 Enxós
Tal como os machados, as enxós são peças de pequeno/médio tamanho, com comprimentos entre
7,4 e 18,2cm e larguras entre 3,6 e 6,5cm. São peças inteiras, com excepção de uma que se encontra
fragmentada transversalmente. As secções transversais são sub-rectangulares (oito casos), sub-elípticas
(onze casos) e trapezoidais (quatro casos) e as longitudinais biconvexas (treze peças) sinuosas (cinco),
convexo-côncavas (três) e plano-convexas (uma). Os bordos são predominantemente convergentes no talão
(catorze),registando-se ainda cinco casos com bordos sinuosos, três com bordos paralelos e um caso com
bordos convergentes no gume. Os flancos rectangulares ou ligeiramente trapezoidais equivalem-se. Os
gumes são dominantemente duplos convexos dissimétricos (catorze), sendo simétrico em nove peças. O
estado dos gumes está intacto em doze casos, com ligeiros sinais de uso em cinco e lascado noutros cinco.
Numa peça apresenta-se boleado. Os talões são truncados em quatro peças, redondos em sete, pontiagudos
em três e rectilíneos em seis.
Em relação ao polimento, e ao contrário da preponderância verificada nos machados, apenas duas
enxós apresentavam o polimento restrito ao gume. Na maioria (dezasseis) o polimento é integral ou acima
de 2/3 das peças. As restantes ficam a 1/3 dos bordos e flancos.
Das vinte e três enxós, três apresentam um bolbo de percussão reconhecível e seis evidenciam
sinais de levantamentos, o que revela uma extracção do bloco original por percussão e uma préconfiguração por talhe.
A enxó tipo da Sobreira de Cima é, assim, caracterizada por ser em xistos não anfibolíticos, de
secção transversal sub-elíptica ou sub-rectangular e longitudinais biconvexas, com bordos convergentes no
talão. O gume é em bisel duplo dissimétrico e apresenta-se predominantemente intacto. O talão é variável
(truncado, redondo, pontiagudo ou rectilíneo) e o polimento é tendencialmente integral.
Morfologicamente, as enxós diferenciam-se bem dos machados (Figura 1), apresentando índices de
alongamento tendencialmente mais elevados e correlativamente índices de robustez mais baixos.
Figura 1 – Correlação de machados e enxós nos índices de robustez e alongamento.
92
Era Monográfica 1 (2013)
7.2. OS ESBOÇOS/LINGOTES
Estas peças correspondem a estádios prévios da cadeira operatória da produção
produ
de artefactos de
pedra polida, correspondendo a lingotes, ou seja,
seja blocos extraídos e seccionados em tamanhos pretendidos,
e a esboços, constituídos por blocos desbastados por talhe, gerando uma pré-configuração
configuração ainda muito
rudimentar (Figura 2).
Figura 2 – Aspecto de alguns dos lingotes/esboços recolhidos no poço de acesso do sepulcro 1.
São,, no total dos três sepulcros (sepulcros 1, 2 e 5) e das recolhas superficiais junto ao eventual
sepulcro 6, 140 peças, todas em anfibolito, muito provavelmente local.. Apresentam genericamente
configurações ainda muito irregulares, mas onde predominam secções transversais sub-rectangulares
sub
ou
trapezoidais e secções longitudinais sub-rectangulares,
sub rectangulares, trapezoidais ou sinuosas. Devido à irregularidade, os
bordos são sobretudo sinuosos, embora cerca de ¼ se apresentem paralelos e outro ¼ sejam convergentes.
Os flancos são predominantemente rectangulares ou trapezoidais. É interessante registar que três peças
apresentam já algum nível de polimento (uma num flanco, outra nos dois flancos e outra nos dois flancos e
dois bordos.
Quarenta e quatro peças apresentam-se
apresentam se fracturadas, sendo que algumas dessas fracturas são
intencionais e feitas por flexão (eventualmente com recurso a um apoio central sobre o qual a peça era
pressionada, gerando um negativo e um positivo típicos de fractura por flexão).
A sua obtenção foi feita por percussão em pelo menos cerca de 1/3 dos casos, registando-se
registando a
presença de bolbo de percussão em quarenta e cinco peças. Metade do conjunto
conjunto apresenta marcas de
afeiçoamento realizadas por talhe e alguns apresentavam já algumas evidências de picotado.
Verifica-se,
se, assim, que em alguma medida a morfologia destes lingotes e esboços é já uma
u
conformação do produto final. Se é certo que a tendência
tendência das morfologias dos lingotes/esboços se situa
93
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
precisamente entre as morfologias de machados e enxós (Figura 3: A), indicando um certo nível de
polivalência destes suportes relativamente ao produto final, é certo também que um número significativo de
peças apresenta índices que as colocam claramente dentro do núcleo dos machados ou das enxós (Figura 3
B). Assim, pelo menos algumas destas peças já estariam pré-configuradas para se produzirem machados,
enquanto outras apresentariam morfologias mais propícias à produção de enxós (Figura 3). Trata-se de um
tipo de pré-configuração que já havia sido observada e estudada no Castro de Santiago (Valera, 1997).
A
B
Figura 3 – A. Distribuição dos blocos segundo os índices de alongamento e robustez e respectiva recta de tendência; B. Distribuição
dos machados e enxós segundo os índices de alongamento e robustez e respectivas rectas de tendência.
A presença destas peças nos encerramentos dos sepulcros e na própria arquitectura do sepulcro 5
sugere uma proximidade da necrópole à fonte de matéria-prima, que seria eventualmente palco de uma
prévia configuração da mesma, situação que reforça a possibilidade da “pedreira” em xistos anfibolíticos
identificada a escassas centenas de metros poder ter uma exploração neolítica (ver Capítulo 1: 1.8).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Mondego, Textos Monográficos, 1, CMFA.
94
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 4 – Machados do sepulcro 1.
Figura 5 – Machados do sepulcro 5.
95
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 6 – Enxós do sepulcro 1 (esquerda) e do sepulcro 5 (direita).
Figura 7 – Pedra polida do sepulcro 2 (esquerda); blocos esboçados do sepulcro 1 (direita).
96
Era Monográfica 1 (2013)
8
IVORY FROM SOBREIRA DE CIMA
(VIDIGUEIRA, BEJA)
Thomas X. Schuhmacher
8.1. THE IVORY
The tombs of Sobreira de Cima delivered a total amount of 175 fragments of ivory with a weight of
only 14,4 grams. We are talking almost entirely about little flat fragments which originally formed part of
the outer circle of a disk. Almost all of them are broken concentrically along the growth-rings of the original
elephant tusks, due to the loss of water. At the same time at the outer and inner sides bigger segments are
missing, so that almost no outer and inner sides are conserved in its original state. The high grade of
fragmentation does not allow joining pieces. This makes it quite difficult to define the objects these
fragments once formed and we can not calculate the original number of objects. Besides the disk fragments
a bigger piece of a comb is conserved.
In all these cases, the nature of the concentric cracks and the segments that had broken off, left no
doubt that all these fragments are made of ivory.
8.2. THE BRACELETS
The heights of the disk fragments and therefore of the original disks range between 0,4 cm and 0,7
cm, having the majority a height of 0,6 cm to 0,7 cm. At the same time, as far as the outer and inner side of
these fragments are conserved, their thickness ranges between 0,5 cm and 0,7 cm; but in most cases at least
one of the two sides is missing, often both, due to the very fragmentary conservation of these objects.
Therefore rest some doubts whether we are talking about finished objects or disk matrices. But because in a
few cases it seems like we are able to see that the outer and inner sides of the fragments are polished,
sometimes even the edges seem rounded, I think we are treating with rings that originally formed bracelets.
These bracelets would have had, as far as we are able to reconstruct them, a height of 0,6-0,7 cm,
sometimes less, and a width of 0,5 to 0,7 cm. Their diameter seems to be between 8,0-9,0 cm, as the few
better conserved fragments show. Their cross-section is clearly rectangular or quadrangular with slightly
rounded edges. Taking in mind that the total weight of these possible bracelet fragments is 13,81 g (after
discounting the weight of the comb), that each of the original bracelets should have had a calculated total
weight of some 5 g - 6 g and reconstructing bracelets from the fragments conserved, we might be talking
about a total sum of only three to five bracelets, considering that due to the very thoroughly excavation
methods I do not think we have to reckon with a big loss of material.
The manufacture of bracelets is a quite simple proceeding. First the tusk is cut horizontally in disks.
In the case of Sobreira de Cima the height of these disks is unusually small, what might indicate a shortage
of available raw material. Then the bracelet is cut off concentrically and finally polished.
Similar ivory bracelets with rectangular or quadrangular cross-section and slightly rounded edges are quite
frequent in the Older Bronze Age of South-eastern Spain (Schuhmacher, 2012). Older examples seem to
97
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
come out of some tombs in Valencina de la Concepción (Seville, Spain), but these contexts are still under
study.
8.3. THE COMB
From the comb only one fragment of 1,5 cm to 2,1 cm is conserved. Parts of the upper ending, the
right side and the rudiments of 11 teeth are visible. About three quarters of the head plate are conserved.
The comb therefore originally possessed an almost rectangular head plate with a slightly rounded end line.
In the right corner of the head plate a little incision was made, so that it shows a little appendix pointing till
the centre of the end line. The backside of the comb is almost completely missing. Here a fine lamella is lost.
As the visible cracks show, the comb was cut out vertically from an elephant tusk.
On the conserved front side we can see a fine horizontal incision just at the starting of the teeth.
This shows us that to cut out the teeth, first this horizontal line was incised to get a guideline for the carving
of the teeth. The same procedure could be observed on a comb from the Early Bronze Age Fuente Álamo
(Cuevas del Almanzora, Almería, Spain) (Liesau & Schuhmacher, 2012). But it seems like whereas in Fuente
Álamo this line is almost continuous, in the case of the comb of Sobreira it is discontinuous and rather made
by short consecutive incisions. The difference might be not only in another working procedure but rather in a
difference between the employed tools, in Fuente Álamo we assume that a metal saw was used, in Sobreira
maybe only lithic scrapers.
Combs with rectangular plate and appendices made of ivory we can find in Casainhos (Fanhões,
Loures, Lisboa)1, Huerta de Díos (Casas de Reina, Badajoz)2 and Los Millares tomb 12 (Santa Fé de
Mondújar, Almería)3, but none of these is exactly the same as the one from Sobreira. On the other hand the
combs from Casainhos and Los Millares belong to the first half of the 3rd millennium BC and the one from
the Huerta de Díos is chalcolithic, all are therefore slightly younger than the one from Sobreira de Cima.
8.4. THE SCIENTIFIC ANALYSIS
By Dr. A. Banerjee and his team from INCENTIVS (International Centre of Ivory Study) scientific
analysis of the comb and five bracelet fragments were carried out at the University of Mainz, Germany
(Banerjee et al. 2008; Banerjee et al. 2011; Schuhmacher u. a. 2009; Schuhmacher 2011). These analysis
including study of the Schreger structure and FTIR- (Fourier Transform Infrared) spectroscopy revealed all the
same result, ivory of the African savannah elephant (Loxodonta africana africana). This is in accordance with
the results of other analysis undertaken on Chalcolithic ivory objects from Portugal, as in Leceia Zambujal,
Cova da Moura, Palmela and Nora. And especially we can emphasise that several analysis from the Alentejo
region, Perdigões (Reguengos de Monsaraz, Évora) and Anta da Herdade da Capela (Avis, Portalegre),
coincide with that.
8.5. CONCLUSIONS
The ivory finds from the tombs of Sobreira de Cima seem to confirm a first use of ivory on the
Iberian Peninsula in the second half of the 4th millennium BC (Valera et al. 2008). These are therefore until
now the oldest proofs for a utilization of ivory on the Iberian Peninsula, because it is not until the end of the
4th and the beginning of the 3rd millennium BC when we observe a more widespread use of ivory in Spain
and Portugal.
The nature of the ivory used, African savannah elephant ivory probably imported from the Atlantic
Coast of Morocco might give a hint for the origin of Iberian ivory working too (Daugas 2002; Linstädter,
2004: 53-57).
_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
1
Museu Geologico Lissabon, Inv. Nr. CSH 080. Leisner 1965, 31 Taf. 23, 79; Leisner u. a. 1969, 72 Taf. Q 85; Spindler 1981, 243 Abb.
35, 3; Schuhmacher (in press) Knr 24.
2
Museo Arqueológico Provincial Badajoz, Inv. Nr. 11430. Enríquez 1983, Abb. 3, 2; Castro Curel 1988, 254f Abb. 7, 4; Schuhmacher
(in press) Knr 558.
3
MAN Madrid, Vitrine. Siret 1913, 33f Abb, 6 Taf. 4, 5; Leisner 1943, 25f Taf. 11, 1,26; 160,16; Castro Curel 1988, Abb. 7, 2;
Schuhmacher (in press) Knr 802.
98
Era Monográfica 1 (2013)
But is this a question which is far from being resolved as, although, we do have worked ivory
objects in Morocco which might date to that period, their dating does not seem to be clear at all. So we can
find ivory objects, cylindrical boxes, in the necropolis of Rouazi-Skhirat (Morocco) which Daugas dates to the
middle of the 4th millennium BC, but the relationship between the radiocarbon dates and the tombs with
ivory is not clear at all and a later dating to the end of the 4th or the beginning of the 3rd millennium BC
seems possible too.
On the other hand in the cave of Kehf-el-Baroud (Ziaïda, Ben Slimane, Marokko) we do find a
greater amount of elephant tusk fragments, very rudimentary worked pieces and objects and also some
ivory bracelets. The layer they come from seems to be mingled up or at least not clearly stratified as it
contains materials from the Neolithic, Chalcolithic, Bell Beaker period and maybe Bronze Age. Two ivory raw
material fragments were radiocarbon dated by AMS at the Leibniz laboratory in Kiel (Germany) and belong
to the second half of the 5th and the beginning of the 4th millennium. But we are not sure how to date the
few roughly polished ivory objects, an axe and several points. In any case it does not seem to be possible to
compare this rudimentary ivory working with the objects found in Sobreira de Cima. So we will have to wait
for further data to clarify the beginning of ivory working on the Iberian Peninsula.
BIBLIOGRAPHY
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99
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
100
Era Monográfica 1 (2013)
9
IDENTIFICAÇÃO DE PIGMENTOS VERMELHOS RECOLHIDOS NO
HIPOGEU DA SOBREIRA DE CIMA POR MICROSCOPIA DE RAMAN E
MICROSCOPIA ELECTRÓNICA DE VARRIMENTO ACOPLADA COM
ESPECTROSCOPIA DE DISPERSÃO DE ENERGIAS DE RAIOSRAIOS-X (MEV(MEV-EDX)
Cristina Barrocas Dias1
José Mirão2
7.1. UTILIZAÇÃO DE PIGMENTOS VERMELHOS NA PRÉ-HISTÓRIA
A utilização deliberada de pigmentos pelo homem pré-histórico, e em particular de pigmentos
vermelhos, tem vinda a ser reportada há algumas décadas por diferentes investigadores. As descobertas
mais antigas terão sido feitas em África, em sítios datados de há cerca de 300.0000 anos, existindo, no
entanto, algumas dúvidas no que concerne à sua autenticidade (d’Errico, 2008). Mais certezas têm os
investigadores sobre o conjunto de mais de 8000 fragmentos de ocre, 6000 dos quais com marcas
antropogénicas, recolhidos na gruta de Blombos (África do Sul), e datados de há cerca de 100.000 anos
(d’Errico, 2008; Henshilwood et al. 2011). A gruta de Blombos parece ter sido uma unidade produtiva de
ocre, não existindo, no entanto, quaisquer certezas quanto ao destino e uso dos pigmentos aí produzidos
(Henshilwood et al. 2011).
Existem outros achados na área do Médio Oriente (e.g., no Egipto e Israel) que confirmam que a
utilização de ocre não estaria confinada à África Subsariana durante este período (d’Errico, 2008).
A data da primeira utilização pelo Homem de pigmentos vermelhos enquanto elemento simbólico
também não é consensual, mas análises efectuadas em contas de concha recolhidas numa gruta em
Taforalt, Marrocos, com cerca de 85.000 anos, permitiram concluir que aquelas terão sido deliberadamente
pintadas de vermelho (d’Errico, 2008; Roebroeks et al. 2011). Existe igualmente um conjunto de conchas
recolhidas na gruta de Blombos com cerca de 75.000 anos que fazem parte de um conjunto de artefactos
onde a utilização da cor vermelha ultrapassa a mera funcionalidade do objecto.
A utilização simbólica de pigmentos vermelhos por parte do Homo sapiens, em datas tão recuadas,
na África Subsariana, Magrebe e nas regiões adjacentes do Médio Oriente, e a ausência na Europa de
evidências arqueológicas semelhantes em épocas contemporâneas, têm vindo a ser interpretadas como uma
evidência da inferioridade cognitiva dos Neandertais, que, na altura, a habitavam (Zilhão et al. 2010). No
entanto, foram já identificados cerca de quarenta sítios arqueológicos na Europa, datados com cerca de
60.000 a 40.000 anos, onde são evidentes vestígios da utilização antropológica de pigmentos, sobretudo de
cor preta (d’Errico, 2008; Zilhão et al. 2010). Recentemente, e utilizando critérios científicos semelhantes
àqueles utilizados para a análise dos artefactos recolhidos em África, foram identificadas, em duas grutas
localizadas no sul de Espanha, conchas marinhas pintadas com ocre com cerca de 50.000 anos (Zilhão et al.
2010). De facto, vários achados recentes parecem indicar que, pelo menos no final da sua evolução, os
Neandertais na Europa já estariam a fazer uma utilização simbólica dos pigmentos pretos e vermelhos
(d’Errico, 2008). No entanto, uma utilização mais generalizada de ocre na Europa apenas se verifica desde à
cerca de 35.000 anos e estará associada à colonização desta por parte do Homo sapiens (idem).
_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
1
Laboratório HERCULES e Centro de Química de Évora, Universidade de Évora.
2
Laboratório HERCULES e Centro de Geofísica de Évora, Universidade de Évora.
101
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Num contexto funerário, o primeiro registo conhecido da utilização de pigmentos vermelhos, neste
caso ocre, parece ter ocorrido na gruta de Qafzeh, Israel (90,000 – 100,000 anos) (Hovers, 2003).
7.2. UTILIZAÇÃO DE PIGMENTOS VERMELHOS NA PENÍNSULA IBÉRICA.
Na Península Ibérica, a presença de pigmentos vermelhos em contextos funerários é frequente
durante o Neolítico e Calcolítico, estando estes normalmente, mas não exclusivamente, associados a
materiais osteológicos. Estes pigmentos são geralmente identificados em contexto de escavação, sem
recurso a qualquer técnica analítica, como ocre, e a sua proveniência é sempre considerada local.
Nos ocres, a cor vermelha é conferida principalmente pela presença de hematite (Fe2O3), e a cor
amarelada pela presença de goethite (FeOOH). Além destas fases, a presença de outras fases (aluminosilicatos tais como caulinite ou ilite; quartzo e carbonatos, tais como calcite ou dolomite) contribuem para
modificações no tom final do pigmento (Cronell e Schwertmann, 2003). No entanto, na natureza existem
outros pigmentos vermelhos que podem ser confundidos com ocre.
Em 1995, Martin e Gil e colaboradores (Martín Gil et al., 1995) identificaram, recorrendo a
diferentes técnicas analíticas, um mineral vermelho recuperado na anta de “La Velilla” (3000 anos a.C.) em
Palência, Espanha, como sendo cinábrio (sulfureto de mercúrio, HgS). A presença de cinábrio em contextos
funerários e outros durante o Neolítico e Calcolítico foi posteriormente reportado entre outros sítios
arqueológicos da Península Ibérica, nomeadamente em Zueros (Córdova) (Martínez Fernández et al., 1999),
na Anta de Alberite (Cádiz) (Domínguez Bella e Morata Céspedes, 1995), Anta de Montelirio (Sevilla) (Hunt
Ortiz e Hurtado Pérez, 2010; Rogerio-Candarela et al., 2013), nas sepulturas Calcolíticas de Paraje de Monto
Bajo (Cádiz) (Lazarich González et al., 2009), e nos sítios de Cova de l’Or (Alicante) (García Borja et al.,
2006; Domingo et al., 2012), e de Casa Montero (Madrid) (Hunt-Ortiz et al., 2011), e na região Alentejo,
Portugal, nas Antas do Zambujeiro, Bola da Cera, Horta e Cabeçuda (Dias et al., 2011).
Ao contrário do ocre, o cinábrio é um mineral pouco abundante na natureza, sendo a sua mina mais
importante localizada em Almadén, Espanha. Existem, no entanto, alguns pequenos depósitos de minério
noutras zonas de Espanha, algumas das quais na província de Badajoz. Os estudos da proveniência do
cinábrio identificado nos locais arqueológicos ainda está muito incompleto mas, as primeiras análises de
isótopos de chumbo, parecem indicar que Almadén se pode diferenciar de outros pequenos depósitos
localizados no território espanhol, e que as amostras arqueológicas estudadas (Casa Montero, Monterilio e
La Pijotilla) são provavelmente originárias de Almadén (Hunt-Ortiz et al., 2011). Esta informação é muito
importante porque seria indicativo de que a exploração em Almadén recuaria até ao VI milénio a.C. e de que
existiriam rotas comerciais para o transporte e distribuição do cinábrio numa grande área geográfica,
tratando-se necessariamente de um produto com um elevado valor material.
A utilização de cinábrio por populações pré-históricas noutras partes do Mundo foi já reportada,
nomeadamente na Turquia (Çatalhöyük, cerca de 7000-8000 a.C. – Zararsiz et al., 2008), na Sérvia (Vinča,
cerca de 5000-4000 a.C. - Mioč et al., 2004; Gajiċ-Kvaščev et al., 2012), na China (cerca de 4000-3500 a.C. Liu, 2004), na Grécia (cerca de 2400-2300 a.C. – Hendrix, 1998) e na América do Sul (civilização Olmeca,
cerca de 1500 a.C. – Pool, 2007).
7.3. METODOLOGIA UTILIZADA PARA ANÁLISE DAS AMOSTRAS RECOLHIDAS NA SOBREIRA DE CIMA
Durante a escavação do hipogeu da Sobreira de Cima, datado da segunda metade do 4º milénio
a.C., foram recolhidos pela equipa de arqueologia vários pigmentos vermelhos nos túmulos 1 (4 amostras),
2 (3 amostras) e 4 (2 amostras) que foram identificados como ocres devido à sua cor vermelha.
No primeiro trimestre de 2013 as amostras foram encaminhadas para o Laboratório HERCULES da
Universidade de Évora para que fosse efectuado um conjunto de análises físico-químicas que permitissem a
identificação inequívoca dos pigmentos.
No laboratório as amostras forma sujeitas a uma metodologia analítica que permitiu a identificação
dos pigmentos e que envolveu os seguintes procedimentos:
1. Observação das amostras numa lupa binocular de marca Leica com recurso a ampliações de x65 e
x110. A lupa está equipada com uma câmara fotográfica Leica DC500-2002, que permite o registo
102
Era Monográfica 1 (2013)
fotográfico das observações efectuadas. Foram seleccionadas 3 micro-amostras de cada amostra
para subsequente análise por microscopia electrónica de varrimento acoplada com espectroscopia
de raios X por dispersão em energias (MEV-EDX) e microscopia de Raman.
2. As análises de MEV-EDX foram efectuadas num MEV de marca Hitachi modelo S3700N acoplado a
um detector de EDX de marca Bruker XFlash 5010 SDD. As análises foram efectuadas em alto vácuo
usando uma corrente de 20 kV o que permite a caracterização microestrutural das partículas dos
pigmentos e a determinação da sua composição elementar através de análise pontual ou
mapeamento composicional 2D das partículas individuais.
3. A análise por espectroscopia de Raman das micro-amostras foi efectuada num espectrómetro
confocal de marca Horiba Xplora equipado com um laser de 638nm. Apenas uma pequena parcela
(1-25% dependendo da amostra) da energia de emissão de 25 mW do laser foi utilizada, evitando
desta forma a carbonização da amostra. Para melhorar a razão sinal-ruído, vários espectros são
acumulados durante os cerca de 120s de tempo de exposição das amostras.
7.4. ANÁLISE E TRATAMENTO DOS RESULTADOS EXPERIMENTAIS
O cinábrio e o ocre, apesar de semelhantes à vista desarmada, têm composições químicas muito
distintas. Conforme referido anteriormente, um ocre terá obrigatoriamente óxidos de ferro na sua
composição enquanto o cinábrio é um sulfureto de mercúrio.
Em termos analíticos, a análise por MEV-EDX fornece informação sobre a composição elementar
das partículas, i.e. quais os elementos químicos que constituem as partículas dos pigmentos. Assim,
presença de mercúrio (símbolo químico, Hg) e enxofre (símbolo químico, S) serão indicativos da presença de
cinábrio, enquanto a identificação de ferro (símbolo químico, Fe) será indicativo de um ocre. O mapeamento
elementar 2D de uma área da amostra, envolvendo a análise elementar de várias partículas de pigmento em
simultâneo, pode dar indicações sobre a composição química e pureza do pigmento.
A microscopia de Raman é uma técnica que permite identificar a composição molecular, i.e., a
forma como os átomos estão ligados entre si para formar os compostos químicos. No caso das amostras
estudadas, o ocre e o cinábrio, vão interactuar de forma específica com a radiação incidente emitida pelo
laser e são obtidos espectros Raman que podem ser comparados com espectros existentes em bases de
dados (Downs, 2006) ou obtidos a partir de pigmentos puros.
A título de exemplo são de seguida apresentados e discutidos os resultados obtidos para as
amostras SBC4-1786, SBC1-1593 e SBC2-1879 que foram identificados como ocre, cinábrio e uma mistura
dos dois pigmentos, respectivamente.
Os resultados de MEV-EDX da amostra SBC4-1786 (Figura 1, em cima) demostram que a amostra
contém algumas partículas individuais particularmente enriquecidas em ferro, outras em cálcio, numa matriz
de sílica, alumínio e potássio (aluminosilicatos). O espectro de EDX da zona mapeada indicou a ausência de
mercúrio (Figura 1), sugerindo que o pigmento vermelho seria um ocre.
A análise da amostra por micro-Raman confirmou que o pigmento vermelho é de facto um ocre
(Figura 2). O espectro apresenta bandas a 224 nm; 242 nm; 293 nm; 406 nm e 608 nm que podem ser
atribuídos ao óxido de ferro (Bikiaris et al., 1999). A banda a 1089 nm pode ser atribuída à calcite (Burgio e
Clark, 2001) que é um mineral de carbonato de cálcio (CaCO3). A presença de partículas enriquecidas em
cálcio pode ser facilmente observada no mapa de Ca obtido por MEV-EDX (Figura 1).
O cinábrio foi identificado em todas amostras recolhidas no túmulo 1, amostras SBC1-1307, SBC11526, SBC1-1593 e SBC1-1594 (Tabela 1).
Os espectros de micro-Raman obtidos em diferentes partículas vermelhas da amostra SBC1-1526
são semelhantes àquele apresentado na figura 3. O cinábrio, sulfureto de mercúrio, HsS, apresenta um
espectro de Raman muito característico, com bandas a 252 nm (vs); 282 nm (w); 343 nm (m) [25], e idêntico
aos obtidos na amostra. Apesar das várias tentativas, nunca foi possível obter qualquer das bandas referidas
anteriormente na descrição da amostra SBC4-1786 e indicativas da presença de ocre.
103
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Figura 1 - Imagem de MEV, de electrões retrodifundidos (à esq., em cima), e mapas de distribuição elementar de alumínio (Al), ferro
(Fe), silicio (Si), cálcio (Ca) e mercúrio (Hg, que não está presente) da amostra SBC4-1786. Espectro de EDX referente à área
analisada da amostra (em baixo).
Figura 2 - Espectro de micro-Raman de uma partícula da amostra SBC4-1786.
104
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 3 - Espectro de micro-Raman de uma partícula da amostra SBC1-1526.
Figura 4 - Imagem de SEM, de electrões retrodifundidos (à esq., em cima), e mapas de distribuição elementar de alumínio (Al), ferro
(Fe), silício (Si), cálcio (Ca) e mercúrio (Hg) da amostra SBC1-1526. Espectro de EDX referente à área analisada da amostra (em
baixo).
105
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
Os resultados de MEV-EDX da amostra SBC1-1526 (Figura 4) demostram que a amostra contém
uma matriz de sílica, alumínio e potássio (aluminosilicatos) com algumas partículas ricas em cálcio, e
partículas individuais particularmente enriquecidas em mercúrio, que apresentam, igualmente, uma cor mais
clara na imagem de MEV. O espectro de EDX da zona mapeada confirmou a presença de mercúrio, mas
também algum ferro (Figura 3). A presença de pequenas quantidades de óxidos de ferro nesta amostra foi
interpretada como sendo devida a contaminação de solo local.
Nesta amostra, bem como em todas as outras três referentes ao túmulo 1 (ver Tabela 1), foi
identificado o cinábrio.
Na figura 5 são apresentados dois espectros de micro-Raman obtidos em duas partículas da
amostra SBC2-1880. Enquanto a partícula B apresenta um espectro de Raman do cinábrio praticamente
puro (bandas a 254 nm (vs); 288 nm (w); 342 nm (m)], a partícula A, apresenta, para além das bandas
atribuíveis ao cinábrio, bandas que são, provavelmente, devidas à presença de quartzo (137 nm, 220 nm,
454 nm); hidroxiapatita (432 nm, 625 nm e 1005nm) e calcite (1090 nm).
O espectro de MEV-EDX confirma a presença do cinábrio mas também confirma a presença de ferro
na amostra (figura 6). Quando comparamos o espectro de EDX desta amostra com a obtida para as
amostras do túmulo 1 (por exemplo, espectro de EDX da figura 4), vemos que os picos referentes ao ferro
são mais intensos, indiciando uma maior quantidade deste elemento na amostra
Todas as outras amostras do túmulo 2 analisadas apresentam o mesmo comportamento (Tabela 1).
A hipótese de ter sido deliberadamente misturado ocre ao cinábrio já foi colocada por outros
investigadores quando da análise de pigmentos vermelhos recolhidos em contextos megalíticos na
Península Ibérica (Rogerio-Canderela et al., 2013). As motivações não são óbvias, mas aqueles
investigadores sugerem que dessa forma poderia ser aumentado a quantidade de pigmento vermelho que
era utilizado nos rituais.
A presença de ocre e cinábrio num mesmo espaço geográfico e arqueológico já foi identificada em
outros locais estudados do Alentejo (Dias et al., 2011), mas as razões para tal ocorrência não são claras.
A identificação da natureza química de todos os pigmentos vermelhos recolhidos na Sobreira de
Cima foram efectuados com a metodologia analítica descrita e os resultados obtidos são sumariados na
Tabela 1.
Figura 5 - Espectros de micro-Raman de duas partículas, A e B, da amostra SBC2-1880.
106
Era Monográfica 1 (2013)
Figura 6 - Imagem de SEM, de electrões retrodifundidos (à esq., em cima), e mapa combinado da distribuição elementar de silício
(Si), ferro (Fe) e mercúrio (Hg) (à esq., em baixo), e espectro de EDX (à dir., em baixo) da amostra SBC2-1880.
Tabela 1 - Identificação química de todas as amostras de pigmentos vermelhos recolhidos na Sobreira de Cima.
Pigmento
Cinábrio
Ocre vermelho
Mistura (?) de cinábrio + ocre vermelho
Amostra
SBC1-1307; SBC1-1526; SBC1-1593; SBC1-1594
SBC4-1786; SBC4-1817
SBC2-1878; SBC2-1879; SBC2-1880
7.5. CONCLUSÕES
Com base nas análises efectuadas podemos concluir que os pigmentos vermelhos recolhidos são de
cinábrio nos túmulos 1 e de ocre no túmulo 4. Quanto à natureza dos pigmentos do túmulo 2 pode ser
levantada a hipótese de ter sido deliberadamente misturado ocre ao cinábrio.
A proveniência do cinábrio não pode ser identificada com base nas análises efectuadas. No entanto,
a mina de Almadén, devido à sua importância, pode ser considerada como a hipótese mais provável.
Atendendo à distância em linha recta entre a Sobreira de Cima e Almadén (cerca de 300 Km), podemos
concluir que este pigmento deveria ter, muito provavelmente, um elevado custo material e seria utilizado
apenas por indivíduos diferenciados da comunidade.
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108
Era Monográfica 1 (2013)
10
ANÁLISE DE ISÓTOPOS ESTÁVEIS DE QUATRO INDIVÍDUOS
INDIVÍDUOS DO
SEPULCRO 1 DA NECRÓPOLE DE HIPOGEUS DA SOBREIRA DE CIMA
(VIDIGUEIRA, BEJA): PRIMEIROS RESULTADOS PALEODIETÉTICOS PARA O
NEOLÍTICO DO INTERIOR ALENTEJANO
António Faustino Carvalho1
No presente texto apresentam-se os resultados da determinação de paleodietas através da análise
de isótopos estáveis de cinco amostras osteológicas, correspondentes aos indivíduos #1 a #5 do hipogeu 1
da Sobreira de Cima. Estas análises, realizadas no laboratório de radiocarbono da Universidade de Waikato
(Nova Zelândia), foram obtidas pelo projeto de investigação “O Algar do Bom Santo e as sociedades
neolíticas da Estremadura Portuguesa, VI-IV milénios a.C.” (projeto PTDC/HIS-ARQ/098633/2008, financiado
pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia), através de colaboração com A.C. Valera, responsável pelo
estudo desta necrópole neolítica. Em dois casos (Wk-36003 e Wk-36005), estas determinações fizeram-se
acompanhar também da respetiva datação por radiocarbono, cujos resultados se encontram discutidos
noutro estudo do presente volume, em conjunto com as anteriormente obtidas (as quais se encontravam já
publicadas; ver Valera et al., 2008).
O objetivo principal da referida colaboração era o de obter elementos comparativos entre ambas as
necrópoles — que se localizam em regiões distintas a todos os títulos — no respeitante às suas cronologias
e aos padrões dietéticos dos indivíduos nelas depositados, dados os paralelos que evidenciam ao nível das
culturas materiais e práticas funerárias.
Numa primeira publicação sobre o Algar do Bom Santo (Alenquer), os resultados de δ13C e δ15N
de uma amostragem de 15 indivíduos foram interpretados per se com base em parâmetros interpretativos
globais e concluiu-se então que os valores obtidos seriam típicos de uma população cujo modo de vida
assentaria numa economia agro-pastoril (Carvalho et al., 2012: 87). Porém, um ensaio posterior, em que se
procedeu à comparação sistemática entre diversas necrópoles neolíticas das regiões litorais de Portugal,
obrigou a matizar aquela primeira conclusão (Carvalho e Petchey, s.d.). Com efeito, foi possível verificar que
9 dos 15 indivíduos do Bom Santo — o que corresponde a 60% da população estudada — apresentavam
valores iguais ou superiores a 20% de consumo de alimentos com origem em ambientes ribeirinhos e/ou
estuarinos (isto é, de água doce). Pensa-se que esta tendência poderá encontrar explicação na proximidade
da necrópole — e, por inerência, do/s respetivo/s povoado/s — em relação ao Estuário do Tejo. Com efeito,
considerando as condições ecológico-geográficas do seu sector montante à época (Vis e Kasse, 2009), em
que o limite das águas salobras estaria à latitude da gruta e profundos entalhes flandrianos penetrariam
pelos seus afluentes (em particular, nos rios Ota e Sorraia; ver Vis et al., 2008: fig. 2), a elevada
biodiversidade da região terá proporcionado o acesso a um leque muito diversificado de recursos
espontâneos, aos quais se deveriam somar os provenientes da agricultura e pastorícia. A apoiar
indiretamente esta possibilidade estão outras grutas-necrópole estremenhas coevas do Bom Santo —
sobretudo a Casa da Moura (Óbidos) e o Lugar do Canto (Alcanena), que contam com 12 e 7 indivíduos
analisados, respetivamente — localizadas em maciços calcários e cujos resultados isotópicos indicaram a
quase exclusividade do consumo de alimentos de origem terrestre (Carvalho e Petchey, s.d.).
_____________________________________________________________________________________________________
1
Universidade do Algarve, F.C.H.S., Campus de Gambelas, 8000-117 Faro. E-mail: [email protected]
109
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
A necrópole de hipogeus da Sobreira de Cima constitui-se, pois, como um elemento de comparação
extremo para testar as conclusões apontadas pelo estudo acima referido, uma vez que se localiza no
coração do interior alentejano, junto ao sopé do sector sudeste da Serra de Portel. Isto é:
1. Se o registo isotópico da Sobreira de Cima indicar uma componente aquática (marinha ou de água
doce), poderemos estar a analisar indivíduos oriundos de regiões litorais ou estuarinas (e, nesse
caso, estaremos perante padrões de mobilidade relativamente elevados) ou, alternativamente,
concluir-se-á que o Rio Guadiana — que dista apenas cerca de 500 metros da necrópole — terá
desempenhado um papel economicamente relevante nas estratégias de subsistência desta
comunidade.
2. Se o registo isotópico, por outro lado, indicar apenas uma componente terrestre nos indivíduos
estudados, a hipótese de elevados índices de mobilidade não terá de ser necessariamente
descartada, mas dever-se-á concluir que os territórios desta comunidade não se estendiam até
regiões com aquelas características, e que a comunidade em causa terá praticado uma economia
essencialmente agro-pastoril.
Os resultados brutos obtidos apresentam-se no Quadro 1. A sua interpretação dever-se-á fazer por
comparação com os valores gerais de referência fornecidos pelo estudo a que se tem vindo a fazer menção
(Carvalho e Petchey, s.d.). Estes valores, no entanto, devem ser considerados dentro das suas limitações,
uma vez que foram calculados apenas sobre os restos humanos eles mesmos, ou seja, sem recurso por
exemplo à comparação com valores isotópicos obtidos a partir de animais (carnívoros e herbívoros)
exumados nos mesmos contextos arqueológicos. Para suprir esta limitação de base — aliás, independente
da vontade dos autores do estudo, por incidir essencialmente em contextos funerários onde restos de
animais não são usualmente objeto de datação nem análise isotópica — adotaram-se os dados sobre sítios
mesolíticos e neolíticos dinamarqueses compilados por Fischer et al. (2007: figuras 3 e 4). Este conjunto de
dados tem a vantagem de incluir informação isotópica sobre animais terrestres, marinhos e de água doce, os
quais podem ser adaptados para o caso português se se corrigir as relações isotópicas estabelecidas entre a
Europa setentrional e meridional (Van Klinken et al., 2000) segundo as quais há um gradiente norte-sul em
δ13C, de valor conhecido, causado por variações latitudinais nas condições ambientais (variações no dióxido
de carbono atmosférico e variações climáticas). Para detalhes nas opções metodológicas tomadas, ver o
artigo de Carvalho e Petchey (s.d.). Note-se, a este propósito e a título de exemplo, que o primeiro estudo
paleoisotópico realizado sobre a passagem do Mesolítico para o Neolítico em Portugal (Lubell et al., 1994)
utilizou como valores de referência os então disponíveis para a América do Norte.
Assim, os resultados obtidos para os indivíduos #1 a #4 (os restos ósseos do indivíduo #5 não
continham colagénio suficiente para análise) foram projetados sobre o gráfico de dispersão representado na
Fig. 1. Como se pode observar, esses quatro indivíduos apresentam variações muito ligeiras entre si, sendo
que todos se integram na variação correlacionável com o consumo de recursos terrestres. Dito de outro
modo, o consumo de recursos de outras origens, a ter tido lugar, terá representado sempre percentagens
negligenciáveis.
Quadro 1 - Sobreira de Cima, Sepulcro 1. Determinações isotópicas
Proveniência
Esqueleto 1
Esqueleto 2
Esqueleto 3
Esqueleto 4
Esqueleto 5
Referência de
Laboratório
Wk-36002
Wk-36003
Wk-36004
Wk-36005
Wk-36006
Amostra
C:N
δN
δC
costelas esquerdas
costelas direitas
costelas
costelas
costelas
3.27
3.33
3.36
3.35
(a)
8.98 ‰
9.43 ‰
9.39 ‰
8.78 ‰
—
-19.64 ‰
-19.45 ‰
-19.10 ‰
-19.46 ‰
—
15
(a) Determinação inviável devido ao baixo teor de colagénio da amostra.
110
13
Era Monográfica 1 (2013)
13C atualmente disponíveis para o Mesolítico (signos brancos)
branc
Figura 1 - Gráfico de dispersão dos valores isotópicos de δ15N e de δ13C
e Neolítico (signos pretos) da Estremadura, Alentejo
Alentejo e Algarve, com a correspondência para os padrões alimentares respetivos: M, T,
A = Marinhos, Terrestres, Aquáticos (isto é, de água doce); H, O, C = Herbívoros, Omnívoros e Carnívoros. Os indivíduos #1, #2, #3 e
#4 da Sobreira de Cima estão representados pelos quadrados vermelhos.
O padrão geral obtido para esta amostra da população depositada no hipogeu 1 da Sobreira de
Cima é, em suma, o segundo atrás apontado, ou seja, indicativo de uma comunidade
comunidad cujas estratégias de
subsistência deverão muito possivelmente ter assentado na exploração de plantas e animais domésticos, se
se levar em consideração o seu estatuto neolítico. Não é de todo improvável, porém, que tenham também
sido utilizados recursos selvagens
elvagens de origens terrestres: aliás, uma recente reavaliação das estratégias de
exploração animal durante o Neolítico e Calcolítico do Sul de Portugal indicou que a exploração de animais
selvagens, embora com frequências muito variáveis, é omnipresente (Valente
(Valente e Carvalho, s.d.), o que
permite de facto deixar esta possibilidade em aberto para o período e região em estudo.
Em termos estritamente paleoisotópicos, os contextos com o número mais significativo de
indivíduos analisados, e que se revelaram equiparáveis
equiparáveis à Sobreira de Cima, são as grutas-necrópole
grutas
estremenhas de Casa da Moura (Óbidos) e Lugar do Canto (Alcanena), referidas atrás. Porém, como outros
sítios já demonstraram, não se pode excluir a possibilidade de que se venham a identificar no futuro
indivíduos com padrões alimentares distintos no seio de uma população tendencialmente homogénea.
Situações deste tipo poderão estar a evidenciar, pelo menos, três hipóteses teóricas que deveriam então
merecer aprofundamento:
111
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
1. A exploração de nichos ecológicos distintos por parte de um ou mais segmentos da mesma
comunidade, como poderá ter sido o caso, por exemplo, no Algar do Bom Santo (Alenquer) ou no
Castelo Belinho (Silves) (Carvalho e Petchey, s.d.).
2. Processos de imigração de indivíduos oriundos de outras comunidades, estabelecidas em regiões
onde poderiam ter tido lugar estratégias de subsistência mais heterogéneas: por exemplo, incluindo
recursos provenientes de diversos biótipos ou com pendores distintos no que respeita à relação
entre o consumo de carne e vegetais. Um possível exemplo desta hipótese é o indivíduo #01 do
Algar do Barrão (Alcanena), que exibe 21% da sua dieta composta por proteínas aquáticas. Embora
desta gruta se tenha analisado apenas um total de quatro indivíduos (estão presentemente em
curso outras determinações isotópicas), aquele indivíduo, no entanto, foi inumado juntamente com
membros de uma comunidade cuja economia alimentar estava aparentemente direcionada para o
consumo de recursos terrestres. Pode-se estar assim perante um imigrante originário de uma região
ribeirinha ou estuarina.
3. A existência de diferenciações sociais no Neolítico que impliquem o acesso e/ou consumo
diferenciados de alimentos. Esta hipótese poderá ocorrer estritamente por via de critérios de divisão
do trabalho (em que, entre muitos outros exemplos possíveis de elencar, pastores teriam maior
acesso a alimentos cárnicos ou pescadores a recursos aquáticos), ou por via de qualquer outra
forma de estatuto social (etária, sexual, hierárquica, etc.) a que correspondessem diferentes
padrões alimentares.
A escolha definitiva entre as hipóteses explicativas enunciadas, ou a elaboração de outras
possibilidades, necessitará sempre, porém, de um número maior de amostras analisadas nesta necrópole, e
do alargamento de projetos desta natureza a outras necrópoles neolíticas com preservação orgânica
localizadas neste sector do Alentejo interior. Desde logo, este será o caso dos hipogeus neolíticos do Outeiro
Alto 2 (Serpa), cuja arqueologia foi já objeto de publicação preliminar (Valera e Filipe, 2012) e que deixa
antever um elevado potencial científico para este tipo de abordagens.
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112
Era Monográfica 1 (2013)
11
A NECRÓPOLE
NECRÓPOLE DA SOBREIRA DE CIMA NO CONTEXTO DAS
PRÁTICAS
PRÁTICAS FUNERÁRIAS NEOLÍTICAS NO SUL DE
DE PORTUGAL
António Carlos Valera
11.1. A PONTA DE UM ICEBERG
A descoberta da necrópole de hipogeus da Sobreira de Cima correspondeu, em 2006, à primeira
identificação deste tipo de arquitecturas funerárias neolíticas no interior alentejano, tendo surgido como
uma meia surpresa. Meia, porque a revolução empírica em curso tem vindo a abalar, em ritmo acelerado, as
ideias feitas e instituídas, aconselhando à moderação e à suspeita face à real natureza de certas ausências,
mesmo em áreas há muito trabalhadas pela Arqueologia. Mas surpresa ainda assim, perante a localização
que esta necrópole apresentava, num contexto geológico “inusitado” (xistos) e integrada no limite de uma
das principais manchas do megalitismo do Ocidente Peninsular, quando as suas congéneres estavam
restritas às orlas meso-cenozóicas da Estremadura (no sentido de Orlando Ribeiro) e litoral algarvio (zonas
de mais restrita implantação do megalitismo funerário dolménico).
A realidade dos últimos anos, porém, tem-se encarregado de demonstrar que a Sobreira de Cima
mais não era que a ponta de um iceberg, apenas a primeira evidência de uma arquitectura funerária que,
com uma natural evolução dos rituais, se prolongaria até à Idade do Bronze.
A novidade que este contexto aportava à região começava, de facto, pela arquitectura dos
sepulcros. Os dados recolhidos apontam para dois tipos de soluções, uma consubstanciada nos sepulcros 1 e
2 e outra no sepulcro 5 (os restantes poderiam integrar-se em qualquer das duas ou até mostrar algumas
variantes, mas o seu grau de destruição impede qualquer inferência). Ambas apresentam câmaras com
tamanhos e morfologias semelhantes, residindo as diferenças na estruturação dos acessos. Assim, temos
câmaras integralmente subterrâneas, escavadas no substrato rochoso e com apenas uma abertura de
acesso, localizada a meia altura na parede da cripta. Estas são relativamente baixas (cerca de um metro de
pé direito) e de planta tendencialmente circular, mas irregular. Na primeira solução, o acesso é feito através
de um poço vertical situado numa posição lateral à câmara, sendo a abertura que permite o acesso
localizada na parede junto à base do poço e encerrada por uma laje de anfibolito com as juntas
impermeabilizadas por argila. No final da utilização, o preenchimento ritualizado do poço (com sucessivas
deposições de esboços de anfibolito) funciona como um encerramento do monumento. Na segunda solução,
identificada no sepulcro 5, o acesso à câmara é feito através de um curto corredor parcialmente escavado na
rocha e ladeado por um conjunto de “estelas” em xisto anfibólico. O encerramento comportaria igualmente
a acumulação de sedimentos argilosos e a deposição ritual de blocos/lingote de anfibolito.
Esta arquitectura, enquadrando-se genericamente na categoria dos sepulcros artificialmente
escavados na rocha, afasta-se dos modelos considerados clássicos da Estremadura portuguesa,
concretamente das câmaras altas, com abertura de coelheira e corredor longo e mais horizontal, para se
aproximarem de alguns modelos conhecidos no sul de Espanha. Esta proximidade é sobretudo evidente na
arquitectura dos sepulcro 1 e 2, que se podem enquadrar no Tipo II Variante A da tipologia de hipogeus
realizada por Rivero Galán (1988), o qual é definido como “cuevas cuyo este excavado en un lado de la
câmara, en forma de pozo vertical” (idem). De facto, na Andaluzia existem vários sepulcros que, não sendo
113
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
réplicas perfeitas das sepulturas da Sobreira de Cima, se aproximam tipologicamente destas, casos, a título
de exemplo, dos hipogeus de Haza del Trillo (Jaén), sepulturas 5 e 6 de Archidona (Málaga), Alcantara,
Buena Vista ou Rota-Cueva I (Cádiz) (Rivero Gálan, 1988; Berdichewsky, 1964). Já quanto à tipologia do
acesso apresentada pelo sepulcro 5 da Sobreira de Cima, não conhecemos paralelos directos, embora o
sepulcro de Cerro del Greal apresente um perfil de pequeno corredor de acesso que poderá ser semelhante à
solução adoptada no caso da Sobreira e na descrição do sepulcro de Cabra 1 (Córdova) seja referida a
presença de lajes ortostáticas que cobriam as paredes do corredor (Rivero Galán, 1988).
Em 2007, a quando da elaboração do relatório, escrevia-se que poderíamos ser tentados, face ao
carácter “isolado” da Sobreira de Cima, a considerar uma influência Andaluza para o aparecimento desta
necrópole no contexto do megalitismo regional. Porém, também se advertia para o facto das cronologias
(ainda que relativas) propostas para os contextos andaluzes serem pós neolíticas.
Porém, a revolução empírica na Pré-História alentejana, que ainda hoje se constitui como
verdadeiro PREC científico, encarregar-se-ia de demonstrar que a Sobreira de Cima foi apenas o primeiro
caso conhecido de uma expressão funerária regional situada numa zona de eventual fronteira cultural no
que às arquitecturas funerárias respeita (ver adiante), a qual é sugerida pelos dados actuais, mas que o
futuro pode uma vez mais vir a desmentir. De facto, a necrópole da Sobreira de Cima encontra hoje
paralelos, tanto em termos arquitectónicos como rituais e para o mesmo período cronológico-cultural, em
várias necrópoles ou sepulcros isolados escavados no sul de Portugal (Figura 1), alguns deles muito
recentemente. São os casos do núcleo C do Outeiro Alto 2 (Valera e Filipe, 2012), Vale de Barrancas 1
(Nunes, 2013), Pedreira de Trigaches 2 (Baptista, 2010) no Alentejo ou de Barrada (Barradas, Silvério e Silva,
2012) e Monte Canelas (Silva, 1997; Neves e Silva, 2010; Silva e Parreira, 2010) já no Algarve.
Dos quatro contextos alentejanos, apenas o do Outeiro Alto 2 apresenta uma publicação mais
detalhada. Num contexto situado apenas 18km a sul da Sobreira de Cima, foram intervencionados três
hipogeus e uma fossa funerária que evolviam uma provável estrutura tipo “círculo de postes madeira” ou
henge. Os três hipogeus apresentavam uma tipologia arquitectónica muito semelhante à dos sepulcros 1 e 2
da Sobreira de Cima (apenas com dimensões mais reduzidas ao nível das câmaras funerárias), com criptas
subterrâneas (embora num caso com a abertura posterior de uma coelheira para permitir a continuidade de
utilização da cripta) e poços laterais de acesso. As passagens entre os poços de acesso e as câmaras
estavam encerradas por lajes e pedras revestidas por argilas selantes e, se na Sobreira os encerramentos
foram ritualizados com a deposição de esboços/lingotes de anfibolito, no Outeiro Alto foram-no com a
deposição de uma lamela na zona de fecho de cada um dos sepulcros.
No interior das criptas registava-se uma gestão do espaço funerário também semelhante, com
constituição de ossários e reduções, estando presentes as últimas deposições em conexão anatómica. O
material votivo revela as mesmas prescrições e é, uma vez mais, constituído por utensílios de pedra polida,
lâminas, lamelas, geométricos (trapézios sobre lâmina ou grande lamela, alguns deles também com
substância de fixação, demonstrando que são pontas de projéctil) e pulseiras de Glycimeris. A presença de
falanges de ovinos/caprinos repete-se.
Já em Vale Barrancas I foram intervencionados sete hipogeus atribuídos ao Neolítico. Nos melhor
preservados observava-se uma arquitectura constituída por câmaras tendencialmente subcirculares e por
acessos em poço lateral ou pequenos átrios/corredores igualmente escavados no substrato de caliços. Tratase de sepulcros colectivos com a presença de reduções e constituição de ossários. O material votivo é
relativamente reduzido, estando presentes uma lamela, dois geométricos trapézios, um punção em osso e
pedra polida (um machado e uma enxó). Alguns do hipogeus não forneceram material votivo.
Finalmente, na Pedreira de Trigaches 2 foi escavado um hipogeu, onde se registaram esqueletos
desarticulados pertencentes a pelo menos dois indivíduos, associados a “ocre” a geométricos em sílex.
De momento, e para estes quatro contextos de hipogeus alentejanos, apenas dispomos de datações
absolutas para a Sobreira de Cima, que, como vimos, colocam a sua construção e utilização durante a
segunda metade do 4º milénio a.n.e., com eventual (resultado de uma data pouco consistente) revisitação
do sepulcro 5 já no 3º milénio.
Esta solução funerária, as prescrições rituais que lhe estão associadas, nomeadamente na
composição dos espólios e gestão do espaço funerário, e a sua localização espacial levantam várias
questões relativamente ao posicionamento desta necrópole (e das suas congéneres regionais) no contexto
das práticas funerárias do período no interior alentejano, as quais discutirei de seguida.
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Era Monográfica 1 (2013)
Figura 1 – Localização de monumentos de tipo hipogeu datados da segunda metade do 4º milénio e do 3º milénio a.n.e. no Centro e
Sul de Portugal.
115
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
11.2. QUESTÕES DE CRONOLOGIA E DE CULTURA
Um primeira questão a colocar terá a ver com a cronologia das diferentes arquitecturas e soluções
funerárias: sequência ou diversidade sincrónica é a dúvida.
Alguns investigadores tendem a valorizar cronologicamente a ausência de cerâmica e de pontas de
seta e a presença de geométricos, lâminas/lamelas e pedra polida nos conjuntos votivos como elementos
identificadores de cronologias mais antigas. Uma fase antiga do megalitismo beirão e transmontano tem
vindo a ser definida com base nesse “pacote artefactual” (Senna-Martinez, 1989). De facto, a ausência de
cerâmicas e pontas de seta é uma característica dos primeiros momentos do megalitismo nessas regiões
(monumentos simples ou com corredor curto da fase inicial do megalitismo da Beira Alta - Carapito 1; Orca
1 do Ameal; Orca de Pramelas; Orca de St. Tisco, etc. – ou de Trás-os-Montes – Pena Mosqueira), o mesmo
acontecendo no designado proto megalitismo alentejano. A ausência ou raridade de cerâmica também é
comum em grutas naturais estremenhas (Algar do Bom Santo, Lugar do Canto) atribuíveis ao Neolítico
Médio.
No Algar do Bom Santo (Duarte, 1998; Carvalho et al. 2012), contexto com dados mais sólidos, os
conjuntos artefactuais eram compostos por pedra polida (machados e enxós), lâminas, geométricos
trapézios, furadores em osso, contas de colar em xisto e concha e pulseiras em Glycimeris, sendo a cerâmica
rara (alguns fragmentos e dois recipientes inteiros). Trata-se de um contexto datado entre c. 3800-3400
a.n.e.. Sublinhe-se a raridade da cerâmica, a qual, por exemplo, também está ausente na mais tardia
Câmara Ocidental da Praia das Maçãs (que corresponderia a um hipogeu).
Porém, entre as necrópoles de gruta natural, e a partir de meados do milénio, há as que adicionam
a cerâmica aos conjuntos artefactuais votivos. No Escoural, aos machados e enxós em pedra polida, punções
em osso, lâminas, lamelas e geométricos trapézio, braceletes e contas de colar, juntam-se vários recipientes
de cerâmica, dominantemente esféricos, por vezes com engobe vermelho (Araújo e Lejeune, 1995). As
cronologias obtidas, e aceitando as observações feitas relativamente à fiabilidade da data mais antiga
(Soares, 1995), apresentam um intervalo entre c. 3500-2900, ou seja, sobrepõem-se na perfeição ao
intervalo de que dispomos para a Sobreira de Cima. Situação idêntica ocorre relativamente à camada
vermelha da Lapa do Fumo, que a par da presença de cerâmica acrescenta placas de xisto (as quais, com
escassa cerâmica, estão também presentes nos conjuntos votivos de Monte Canelas). Ambos os contextos
apresentam datações que, uma vez mais, se enquadram dentro da segunda metade do 4º milénio / transição
para o 3º milénio (Soares e Cabral, 1993; Silva e Parreira, 2010).
Por outras palavras, se os contextos funerários atribuíveis ao Neolítico Médio se caracterizam por
conjuntos de materiais votivos onde as cerâmicas são raras ou inexistentes e as pontas de seta estão
totalmente ausentes, a informação disponível revela que na segunda metade do 4º milénio esta situação se
prolonga nalguns contextos e se diversifica noutros, com a presença de cerâmicas em monumentos
megalíticos e em alguns contextos de gruta natural, o mesmo acontecendo com as placas gravadas. É
mesmo interessante registar que se no sul ao “conjunto original” se reúnem cerâmicas e placas gravadas,
na Beira são primeiro as pontas de seta a integrar estes conjuntos (se aceitarmos a seriação artefactual
proposta por Senna-Martinez para a evolução dos conjuntos votivos do megalitismo regional).
Sem dúvida que, devido aos problemas de resolução do radiocarbono (estamos a funcionar com
períodos de dois, três ou mais séculos), não podemos descartar a hipótese de existir alguma diferenciação
cronológica fina nas prescrições relativas aos materiais a integrar nos conjuntos votivos durante a segunda
metade do 4º milénio. Mas a imagem que melhor parece adequar-se aos dados que vão surgindo é a de
uma progressiva diversificação, a qual não se restringe apenas aos materiais votivos, mas abrange
igualmente arquitecturas, gestão dos espaços funerários, número de utilizações funerárias. Diversificação
em crescendo que atinge o seu apogeu durante o 3º milénio e que é precisamente, no meu entender, um
dos fenómenos caracterizadores das dinâmicas sociais de consolidação da visão do mundo Neolítica
(assunto a que voltarei adiante).
Na realidade, recentes datações demonstram que, no Alentejo interior, a par do enterramento em
antas (infelizmente praticamente sem datações utilizáveis para o Neolítico), em gruta natural e em
hipogeus, ocorrem enterramentos em fossa, de carácter individual ou colectivo e praticamente sem espólio
associado, conferindo uma significativa diversidade arquitectónica e ritual às práticas funerárias da segunda
metade do 4º milénio a.n.e. (Figura 2). Se os enterramentos em fossa estão documentados no sul de
116
Era Monográfica 1 (2013)
Portugal na segunda metade do 5º / primeira metade do 4º milénio, por exemplo nas catorze fossas
funerárias de Castelo Belinho (Gomes, 2012) ou no enterramento em fossa sem espólio associado do Monte
do Marquês (Baptista, Oliveira e Soares, no prelo), esta prática prolonga-se pela segunda metade do 4º /
inícios do terceiro milénio. Na Mina das Azenhas (Brinches, Serpa) foi registada a deposição de um indivíduo
em fossa datada de c. 3500-3100 (Valera e Filipe, 2012; Tomé, Silva e Valera, no prelo), no Outeiro Alto 2
um enterramento em fossa aparece ao lado dos hipogeus (Valera e Filipe, 2012) e nos Perdigões registaramse duas fossas com enterramentos múltiplos, praticamente sem espólio (um pendente em concha de
berbigão e duas patas de suídeo), datados entre c.3300-2900 (Valera, 2008a; Godinho, 2008; Valera e
Godinho, 2009; Valera e Silva, 2011).
A construção de hipogeus no interior alentejano inicia-se, assim, num momento (segunda metade
do 4º milénio a.n.e.) que parece ser de diversificação das práticas funerárias, contribuindo decisivamente
para essa mesma diversidade, a qual se intensificará ao longo do milénio seguinte, com a utilização de
monumentos megalíticos, construção de tholoi, construção de hipogeus, deposições em fossa e em fossos, e
por rituais que envolvem deposições primárias, secundárias, complexas manipulações de ossos humanos e
cremações, a que se associam igualmente múltiplas situações contextuais e de oferendas votivas (Valera,
2012a; 2012b).
Figura 2 – Datações de radiocarbono da segunda metade do 4º milénio a.n.e. para contextos funerários em fossa, gruta natural e
hipogeu no interior alentejano.
11.3. A CONSTRUÇÃO DE LUGARES SACRALIZADOS E DE PAISAGENS SIGNIFICANTES
Aspecto interessante das necrópoles de hipogeus que têm vindo a ser intervencionadas no Alentejo
interior é o facto, sinalizado recentemente (Valera e Filipe, 2012), de não apresentarem reutilizações, o que
contrasta, por exemplo, com o que se verifica com algumas necrópoles de hipogeus estremenhas ou com os
próprios monumentos megalíticos um pouco por todo o país. De facto, em nenhum dos hipogeus neolíticos
117
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
alentejanos já intervencionados se registam inequivocamente reutilizações em momentos posteriores (a
datação para o sepulcro 5 da Sobreira de Cima poderá sugerir uma revisitação pontual, mas a data é pouco
fiável e a homogeneidade contextual grande). Esta mesma circunstância tem sido observada nos hipogeus
calcolíticos da mesma região, por exemplo no Carrascal 2 em Ferreira do Alentejo ou Cortes 2 em Brinches
(Valera, 2010a; Valera et al. no prelo), e posteriormente nos atribuíveis à Idade do Bronze. Uma prática
recorrente de reutilização em momentos cronológico-culturais distintos parece não ocorrer nos hipogeus
alentejanos (pelo menos até ao momento), ao contrário do que regionalmente é conhecido para dólmenes
(Mataloto, 2007) e na Estremadura para dólmenes, hipogeus e grutas naturais.
Todavia, se aparentemente não há reutilização dos hipogeus, existe frequentemente uma partilha
através do tempo dos espaços onde algumas destas necrópoles neolíticas se implantam, com a presença de
outras estruturas, funerárias ou não, de cronologias subsequentes.
Não será esse o caso da Sobreira de Cima. Embora existam nas proximidades dois sepulcros
megalíticos (cuja relação cronológica com a necrópole de hipogeus desconhecemos), estes situam-se já a
uma certa distância (300 e 500 metros). Mas em Vale de Barrancas 1, hipogeus da Idade do Bronze foram
escavados ao lado de hipogeus neolíticos. No Outeiro Alto 2 um núcleo de hipogeus da Idade do Bronze é
construído a cerca de 50 metros do núcleo de hipogeus neolíticos, existindo outro hipogeu desse período a
cerca de uma dezena de metros. Acresce, neste último sítio, a presença no mesmo cabeço de um pequeno
recinto de fosso com orientação astronómica ao solstício de Inverno e de cronologia calcolítica (Valera e
Filipe, 2010; Valera e Filipe, 2012; Valera, Filipe e Cabaço, 2013; Filipe, Godinho, Granja e Valera, 2013).
Na realidade, é frequente nos inúmeros sítios com fossas e hipogeus que têm sido intervencionados
nos últimos anos nesta região encontrarem-se estruturas, nomeadamente funerárias, de diferentes
cronologias. Esta situação revela que o desempenho social destes sítios, em especial daqueles que se
constituem como necrópoles, se prolonga muito para além do seu contexto social de origem, funcionando
como pólos catalisadores e marcadores do espaço, interferindo activamente na construção das paisagens e
territórios posteriores e contribuindo para a formação de sítios de forte carga simbólica.
Porém, ao contrário do monumento megalítico, cuja arquitectura em positivo se impõe com maior
ou menor visibilidade, as necrópoles de hipogeus ou as fossas funerárias chegam-nos dotadas de grande
invisibilidade, facto pouco consistente com este fenómeno de partilha diacrónica dos locais em que se
implantam, e que poderá resultar de uma ilusão gerada pelo tempo.
Devemos, antes de mais, contar com a topografia da implantação. Situações como a do Outeiro
Alto 2, em que a necrópole neolítica se localiza no istmo de acesso a um cabeço que é posteriormente
utilizado para a construção de um recinto cerimonial e mais tarde ainda para a construção de uma
necrópole de hipogeus e fossas, podem corresponder a processos em que a própria formação natural (neste
caso o cabeço) retira significado da presença destes espaços e arquitecturas, ganhando ela própria uma
forte carga simbólica, que se enraíza na memória e se perpétua no tempo. Se a colina é sacralizada, a sua
visibilidade compensa a invisibilidade do que nela está escavado e enterrado, à imagem do que acontece
com serras polvilhadas com monumento megalíticos de maior ou menor visibilidade individual. A Sobreira
de Cima também se situa numa pequena colina, a qual não deixa de ser comparável a uma espécie de
mamoa gigante que alberga no seu interior vários sepulcros, como uma espécie de cairn natural (ver
Capítulo 1, figura 8). Paralelo semelhante pode, por exemplo, ser igualmente evocado para a necrópole da
Quinta do Anjo (Palmela).
Mas para além da visibilidade que a morfologia da formação natural pode proporcionar à necrópole
e dos simbolismos que pode assumir, vão progressivamente surgindo evidências que apontam para que
alguns destes sepulcros tivessem marcadores externos que os identificassem. É o caso das estelas,
nomeadamente da que tem mais de dois metros de altura na Sobreira de Cima, que, como pudemos
constatar no sepulcro 5, foram associadas às arquitecturas de entrada de sepulcros. Por outro lado, na
necrópole do Outeiro Alto 2, os hipogeus e a fossa funerária estão em torno de uma muito provável
estrutura positiva em madeira de tipo henge (Valera e Filipe, 2012). Em Vale de Barrancas 1, por sua vez,
recolheram-se alguns pequenos monólitos de pedra que poderão ter funcionado como pequenas estelas que
demarcavam os sepulcros (Nunes, 2013).
Elementos de vária ordem parecem, portando, poder ter estado associados a estes hipogeus
neolíticos, funcionando como marcadores físicos e identificadores. Temos que ter em conta que a pouca
potência de alguns dos solos e a mecanização agrícola (para além de reaproveitamentos que possam ter
118
Era Monográfica 1 (2013)
sido feitos ao longo do tempo) são factores pouco propícios à preservação deste tipo de evidências
exteriores aos sepulcros, os quais, sendo teoricamente prováveis, começam agora a ser documentados.
Existindo estes elementos marcadores, então a não reutilização dos hipogeus em períodos posteriores e a
construção de novos sepulcros e outras estruturas nas imediações terá que ser vista como uma opção
deliberada e não simplesmente resultante da invisibilidade dos primeiros. Trata-se de processos de
necropolização e de sacralização diacrónica de locais que terão funcionado como lugares activos na
codificação e na vivência das paisagens e territórios durante a longa duração, onde o mais antigo atraía e
condicionava o mais recente.
11.4. FRONTEIRA CULTURAL, FRONTEIRA GEOLÓGICA OU ESTADO DA INVESTIGAÇÃO?
Um outro aspecto que tenho vindo a sublinhar desde a descoberta da Sobreira de Cima e,
sobretudo, desde que a real expressão destes contextos no Alentejo se foi tornando mais nítida, é o
contraste que se estabelece ao nível das arquitecturas funerárias entre os territórios a norte e a sul da Serra
de Portel (Valera e Filipe, 2012; Valera et al. no prelo).
Até ao momento não estão publicadas estruturas funerárias de tipo hipogeu datáveis do 4º e 3º
milénios nos distritos de Évora e Portalegre, distritos onde se encontram as grandes concentrações de
monumentos megalíticos do interior alentejano. Para a segunda metade do 4º milénio, e em alternativa às
antas, apenas conhecemos os enterramentos em fossa dos Perdigões (Valera e Godinho, 2009; Valera e
Silva, 2010) e os enterramentos em gruta natural do Escoural (Araújo e Lejeune, 1995), a que podemos
juntar a deposição de ossos humanos em fossos ou de restos de cremações em fossa nos Perdigões (Valera e
Godinho, 2010; Valera, 2012a; 2012b).
Já no distrito de Beja os monumentos megalíticos são bem mais raros, tanto no Neolítico como no
Calcolítico (embora o número de tholoi conhecidos tenha vindo a aumentar significativamente). Aqui, a
realidade que tem vindo a ser revelada nos últimos anos é a de um claro predomínio das estruturas
funerárias negativas, tipo fossa ou hipogeu, e, em alguns casos, também fosso. No distrito de Beja de Portel,
o megalitismo ortostático neolítico parece concertar-se, mas sem grande densidade, sobretudo na margem
esquerda do Guadiana, em áreas já próximas da fronteira ou da Serra de Serpa. Ao localizar-se nos
contrafortes sul da Serra de Portel, e junto a alguns dos monumentos megalíticos mais meridionais do grupo
Portel/Amieira, a Sobreira de Cima localiza-se precisamente nesta aparente “linha de fronteira”,
constituindo-se como o exemplo de “solução hipogeu” mais a norte do Alentejo.
Esta circunstância, a de uma solução arquitectónica predominantemente dolménica a norte da Serra
de Portel e outra predominantemente à base de estruturas negativas a sul, não pode ser negligenciada, nem
diluída em abordagens generalistas de cariz regional. Antes, deve ser explicada.
Naturalmente, que uma primeira hipótese explicativa poderá ser a de uma eventual insuficiência de
investigação e conhecimento. Os contextos negativos são bem mais difíceis de detectar, razão pela qual
praticamente só têm aparecido em contexto de obra (excepção feita aos recintos, que pelas suas
características têm sido identificados a partir de imagens aéreas e de satélite – Valera e Pereiro, 2013). Ora,
os dois grandes projectos de forte impacto territorial que têm proporcionado o maior número de descobertas
de estruturas negativas da Pré-História Recente são a rede de rega de Alqueva e a “defunta” (ou
“hibernada”) auto-estrada A26 (entre Sines e Beja), que abrangem essencialmente o distrito de Beja. De
facto, o regolfo de Alqueva, com abrangência a norte da Serra de Portel, teve um impacto de natureza muito
distinta (Valera et al. no prelo), com a maioria da área afectada a ser submersa e não revolvida
mecanicamente, restringindo-se aos grandes vales, fazendo com que as intervenções de minimização
incidissem sobre contextos identificados a partir de vestígios de superfície, os quais são normalmente raros
ou inexistentes em muitos sítios de estruturas negativas. Não podemos, pois, excluir a hipótese dos distritos
de Évora e Portalegre virem no futuro a revelar uma maior expressão das estruturas negativas, aliás como as
intervenções de parte da rede de rega de Alqueva na zona de Monte Novo e o complexo arqueológico dos
Perdigões demonstram.
Mas se a norte da Serra de Portel a imagem pode estar desfocada por dificuldades de investigação
e por circunstâncias relacionadas com o tipo de impacto de determinados empreendimentos (ou ausência
deles), já a sul dificilmente poderemos imaginar que o futuro nos trará um megalitismo ortostático de
grande expressão. Talvez com a excepção feita, já para o 3º milénio, ao crescente número de monumentos
119
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
tipo tholoi, que, sendo parcialmente escavados na rocha, funcionam como um compromisso entre
arquitecturas positivas e negativas, a imagem de raridade ou total ausência da arquitectura funerária
ortostática pouco ou nada se tem alterado no distrito de Beja, apesar do fortíssimo impacto dos
empreendimentos referidos e de outros, como os da reconversão agrícola em curso (ainda que estes
incompreensivelmente não tenham acompanhamento e minimização arqueológica).
Uma das razões desta circunstância poderá residir, precisamente, na natureza do substrato
geológico regional, nomeadamente na zona dos “barros”, onde a pedra não é particularmente abundante e
a presença frequente de caliços e substratos alterados facilita e convida à construção de estruturas
negativas.
Mas se a disponibilidade/indisponibilidade pode ter tipo intervenção nesta dualidade norte-sul, ela
deve ser entendida mais como condicionante do que determinante. De facto, em regiões onde recursos
litológicos não são propícios à construção de monumentos ortostáticos, como as orlas litorais ou as zonas
xistosas, os monumentos megalíticos estão presentes, ainda que com densidades relativamente baixas. Por
outro lado, a condicionante litológica regional não é absoluta e zonas há onde pedra poderia ser obtida
capaz de ser utilizada em construções megalíticas, nomeadamente se de dimensões reduzidas (como
acontece nas zonas de xistos).
Por outras palavras, a dimensão cultural terá também que ser equacionada na explicação desta
dualidade. Na realidade, a tradição de sepultar em estruturas negativas tipo fossa ou hipogeu parece
percorrer toda a Pré-História do baixo Alentejo interior, com deposições em fossa no Neolítico médio (caso
da já referida fossa no Monte do Marquês datada do terceiro quartel / meados do 4º milénio a.n.e –
Baptista, Oliveira e Soares, no prelo) e em fossa e hipogeu no Neolítico Final, Calcolítico e Idade do Bronze.
Ou seja, constitui-se como tradição de longa duração e eventuais motivos pragmáticos que poderiam estar
presentes na origem (como factores condicionantes) vão progressivamente perdendo força com o tempo e
com enraizamento dos modos de fazer e prescrições ideológicas associadas, os quais vão delineando uma
contingência cultural diferenciadora relativamente a outras tradições vizinhas.
11.5 INSUFICIÊNCIAS DE ENQUADRAMENTO
Mas quem era esta gente que aparentemente construiu a sua necrópole como um “enclave” nos
limites de um território de construtores de antas? O conhecimento destas comunidades está fortemente
condicionado pela reduzida informação de que dispomos sobre outros contextos vivenciais contemporâneos
na região de Beja. Os sítios de habitat e outros contextos não funerários do Neolítico Final, como recintos
cerimoniais, conhecidos neste troço do vale do Guadiana são ainda em número muito reduzido.
Têm sido identificados vários “sítios de fossas”, frequentemente com estruturas de diferentes
cronologias, em que algumas são atribuíveis ao Neolítico Final. Porém, a real natureza desses sítios é
desconhecida (ainda que muitos saltem logo precipitadamente para a designação “povoado”), na medida
em que se tratam de estruturas que são detectadas em alinhamentos de valas de obra, sem que se perceba
exactamente o que representam. Um caso bem evidente é o de Corça 1 (Valera, Nunes e Costa, 2010), onde
apenas se identificou uma fossa com cronologia atribuível ao Neolítico Final e na qual se encontravam
depositados restos de canídeos e material cerâmico. Outro é a fossa com um enterramento da Mina das
Azenhas (Valera et al., no prelo). A natureza geral dos contextos em que estas fossas se integram é, todavia,
totalmente desconhecida.
Por outro lado, no Outeiro Alto 2 (Valera e Filipe, 2012), afastadas do núcleo dos hipogeus do
Neolítico Final e possível henge de madeira, registaram-se várias fossas do mesmo período integradas em
núcleos que apresentavam igualmente estruturas de outras cronologias (Calcolítico no núcleo A e Idade do
Bronze no núcleo B). Trata-se de fossas dominantemente preenchidas com empedrados, com fragmentos
cerâmicos e escassa indústria lítica (com uma excepção), sem que se conheçam estruturas exteriores que
possam ajudar a compreender a natureza do contexto geral. Pertenceriam a uma zona habitacional muito
destruída que existiria nas imediações da necrópole? Ou corresponderiam a estruturas relacionadas com
actividades cerimoniais que decorreriam no cabeço associadas ao espaço sagrado e funerário constituído
pelo binómio henge/necrópole?
Para além dos sítios de fossas, conhecemos três contextos com fossos que são atribuíveis a esta
época: Fareleira 3 (apenas brevemente noticiado – Figueiredo, 2013), o fosso 1 do Porto Torrão (Valera e
120
Era Monográfica 1 (2013)
Filipe, 2004; Valera, 2013a) e um pequeno fosso, sondado numa área diminuta, na igreja de S. Jorge em Vila
Verde de Ficalho (Soares, 1996). Sobre o primeiro, que se situa apenas 18 km a sudoeste da Sobreira de
Cima, pouco há ainda a dizer, a não ser que se trata de fossos aparentemente intermitentes. No Porto
Torrão neolítico apenas que se intervencionou um troço de um grande fosso (Fosso 1) com 3.5 metros de
largura por 3 metros de profundidade, preenchido por depósitos de terra, com abundante cerâmica e fauna
(raridade de líticos), apresentando fossas escavadas nos sedimentos de preenchimento do próprio fosso e
em vários momentos da sua colmatação. A natureza do sítio no Neolítico Final (tamanho, desenho, área,
densidade de estruturas, tipo de estruturas, funcionalidades, etc.) está, contudo, também ainda por definir e
caracterizar.
Outro tipo de contextos referenciados poderão ser interpretados como áreas de habitat atribuíveis
ao período, mas o seu número é igualmente reduzido, estando restritos à margem esquerda do Guadiana
(concelho de Serpa). Um desses casos é Casa Branca 7 (Rodrigues e Martins, 2005), onde foram
identificadas estruturas do tipo buraco de poste, alinhamentos pétreos, pisos argilosos (interpretados como
bases de cabana), algumas (poucas) estruturas escavadas no substrato, estruturas de combustão, as quais
podem ser atribuídas a um Neolítico Final na transição do 4º para o 3º milénio a.n.e.. Outro caso é a Foz do
Enxoé (Diniz, 1999), onde se identificou um empedrado de estrutura de cabana. Em ambos os contextos
sobressai, curiosamente, a total ausência de fossas.
A conjugação desta informação, porém, resulta num quadro interpretativo ainda bastante limitado,
sobretudo porque não é ainda possível perceber o efectivo papel que cada um destes sítios desempenha na
construção das paisagens, territórios, formas de organização social, económica e ideológica destas
comunidades neolíticas no sul do interior alentejano. Não é de momento perceptível a forma como estes
diferentes contextos, nas suas múltiplas funcionalidades e significados, se articulariam na afirmação de “um
mundo neolítico”. Qual a natureza e papel social dos recintos de fossos nesta região na segunda metade do
4º milénio? Os dados disponíveis para o Porto Torrão e S. Jorge de Ficalho são escassos para ensaiar uma
resposta e os da Fareleira 3, bem mais promissores, estão ainda inéditos. E os sítios de fossas? Serão eles
equiparáveis a sítios habitacionais como parecem ser Casa Branca 7 e Foz do Enxoé? Se sim, teremos que
explicar a dualidade de estruturas: onde há fossas não há outro tipo de estruturas; onde há muros, buracos
de poste, lareiras, empedrados, não há fossas. Talvez representem contextos de natureza distinta.
A contemporaneidade destes sítios com as necrópoles de hipogeus parece sugerida pelos conjuntos
artefactuais e é demonstrada pelas cronologias disponíveis. O intervalo de tempo que temos para a Sobreira
de Cima é sobreposto pelas datações existentes para S. Jorge de Ficalho e fosso 1 do Porto Torrão e é
coincidente com as oito datações disponíveis para contextos do Neolítico Final nos Perdigões (Valera,
2013b; Valera e Silva, 2011; Valera, Silva e Marquéz Romero, no prelo), as quatro Juromenha 1 (Mataloto e
Boaventura, 2009) e as duas de Moreiros 2 (Valera, Becker e Boaventura, 2013), os dois primeiros no
distrito de Évora e o último no distrito de Portalegre.
De facto, a vigência temporal do comummente designado Neolítico Final tem vindo a ser bem
balizada dentro da segunda metade do 4º e início do 3º milénio a.n.e. (c. 3400-2900) por um conjunto
alargado de datas (a maioria de recente obtenção). Essa baliza cronológica é definida tanto pela datação de
contextos neolíticos, como pelas datações mais antigas de contextos calcolíticos, quase que exclusivamente
posteriores a 2900 (apenas os limites inferiores do intervalo de algumas datas recuam em algumas dezenas
de anos para além deste limite): no interior alentejano temos os casos de S. Pedro (Mataloto e Boaventura,
2009), dos contextos calcolíticos dos Perdigões (Valera, 2013b; Valera, Silva e Marquéz Romero, no prelo),
Porto Torrão (Valera, 2013a; 2013b) e do Moinho de Valadares (Valera, 2013c), estes três últimos em que as
ocupações calcolíticas se sucedem a outras do Neolítico Final, Torre do Esporão (Gonçalves, 1990/91),
Escoural (Gomes, Gomes e Santos, 1994), Porto das Carretas (Soares, Soares e Silva, 2007) ou Monte Novo
dos Albardeiros (Gonçalves, 1988-89).
Com o panorama que nos é fornecido por este conjunto alargado de sítios datados, muitos deles
com várias datações, contrastam as datas disponíveis para S. Brás (Parreira, 1983) e Sala nº1 (Gonçalves,
1987), bem perto de muitos sítios neolíticos acima referidos, e também para o Monte da Tumba (Soares e
Cabral, 1987), já na transição para a orla costeira. Nestes sítios, para contextos com uma cultura material
claramente calcolítica, existem datações que se sobrepõem claramente ao período 3400-2900. A aceitar a
validade destas datas, teríamos de imaginar uma comunidade calcolítica implantada na Sala nº1 a três
quilómetros da Fareleira 3, três quilómetros e meio da Mina das Azenhas, sete quilómetros de Corça 1 ou 16
121
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
quilómetros da Sobreira de Cima, contextos plenamente neolíticos. Ou então imaginar que a nove
quilómetros do habitat neolítico da Foz do Enxoé existira em S. Brás um outro contexto calcolítico, para
mais murado e com metalurgia.
Em face do número alargado de datas que hoje já dispomos e à percepção que temos da ocupação
do território através de um novo, alargado e diversificado conjunto de sítios, a contemporaneidade de
contextos calcolíticos como os identificados na Sala Nº1, S. Brás e Monte da Tumba com os contextos
neolíticos do Neolítico Final que têm vindo a ser intervencionados na região é insustentável, tanto mais que
as datas destes sítios, todas da década de oitenta do século passado, apresentam sempre elevadíssimos
desvios padrão. Tudo parece indicar que serão contextos do 3º milénio, devendo ser revista a sua cronologia
através de novos programas de datação, com critérios de amostragem apertados.
Assim, de momento temos no baixo Alentejo interior, na segunda metade do 4º / inícios do 3º
milénio, necrópoles de hipogeus, habitats abertos, sítios de fossas (por vezes com enterramentos humanos e
de animais) e recintos de fossos. A forma como funcionam e se inter-relacionam na organização de
territórios e paisagens não é, todavia, clara, mas é precisamente o papel activo dos diferentes contextos na
construção de uma dinâmica social específica que é necessário compreender. Nesse sentido, e tendo em
conta a informação disponível, que o papel social, poderia desempenhar uma necrópole como a da Sobreira
de Cima?
11.6. “O SENTIDO DA MORTE”: PENSAR A SOBREIRA DE CIMA
Uma Arqueologia interpretativa das práticas funerárias das comunidades pré-históricas, e não
simplesmente descritiva e classificadora, não só é possível, como é necessária. A procura de alcançar níveis
de significação dessas práticas remete-nos para patamares estruturantes das comunidades, transformando a
abordagem às atitudes perante a morte numa via para o entendimento de visões do mundo e de concepções
ontológicas que orientam o comportamento humano e sem as quais, a par de outras condicionantes
sistémicas, jamais poderemos aspirar a uma adequada compreensão destas sociedades.
A efervescência que tem acompanhado esta temática nos últimos anos em Portugal alterou
substancialmente a nossa percepção da questão funerária no Alentejo interior durante a Pré-História
Recente. Até há poucos anos esta questão expressava-se através de discursos monolíticos e lineares:
megalitismo ortostático no Neolítico/Calcolítico, necrópoles de cistas na Idade do Bronze, uma irredutível
separação entre espaços funerários e espaços habitacionais e uma concepção de mundo funerário como
espelho do mundo dos vivos. Estas percepções estão hoje em falência acelerada.
Tal, porém, parece nem sempre ser entendido, resultado da dificuldade que esta revolução empírica
tem em se fazer acompanhar, em Portugal, de uma renovação teórica relativa às matrizes de leitura com
que se abordam estas práticas. Não apenas no âmbito da síntese, mas igualmente no momento da
construção dos dados, na medida em que os processos de leitura de campo, gabinete ou laboratório (as
perguntas que fazemos) são profundamente condicionados pelos preconceitos actuais, pela forma como nos
relacionamos e percepcionamos as materialidades, em suma, pelo nosso enquadramento cultural quando o
deixamos manifestar-se de forma acrítica e descontrolada, ou seja, quando funcionamos no modo “senso
comum”.
Face às novas evidências é hoje necessário construir novas matrizes de leitura, para as quais
devemos partir de uma linha de força que os dados insinuam: a diversidade. Diversidade de práticas, de
arquitecturas, de lugares, a qual parece acentuar-se a partir de meados do 4º milénio a.n.e..
Naturalmente, esta diversidade corrói as leituras lineares e questiona, de uma forma que me parece
evidente, a existência de um mundo funerário destacado e isolável, implicando a necessidade de ultrapassar
a sua percepção como reflexo, como espelho. Os contextos funerários devem ser, pelo contrário, entendidos
como activos na construção e vivência do mundo, das suas temporalidades e espacialidades. Na
organização simbólica das paisagens, nas estratégias de apropriação e legitimação, na construção da
memória e das ancestralidades, das próprias noções de tempo histórico. O fenómeno funerário interfere na
construção e modelação da vida social e nos quadros ideológicos destas comunidades. Não se limita a
reflecti-los. Mais do que simplesmente procurar a ordem social reflectida numa sepultura, deveríamos
procurar entender as formas diversificadas como os contextos funerários participam na construção dessa
vida social. E é precisamente porque é uma dimensão activa da organização da vida que a questão funerária
122
Era Monográfica 1 (2013)
não pode ser vista como “um mundo funerário”, como um espaço à parte, destacável e passivo, por
oposição, de um mundo dos vivos. Mais de que falarmos do “mundo funerário” deveremos falar de práticas
funerárias que se articulam com todas as outras práticas sociais na construção de modos culturais de estar
no mundo.
Modos culturais que se suportariam em sistemas cognitivos que são tão complexos como os nossos,
mas provavelmente regidos por outros mecanismos de percepção, análise e ordenação da realidade, os
quais dificilmente serão captados por matrizes de leitura construídas com base em preceitos exclusivamente
modernos. Nas últimas décadas temos assistido à consciencialização de que lidar com estas comunidades
implica um esforço de controlo dos nossos mecanismos cognitivos de raiz cartesiana, os quais se baseiam
em dicotomias do tipo sujeito vs objecto, corpo vs espírito, unidade vs parte, e que frequentemente se
revelam inadequados para a tarefa de entender estes outros.
Neste contexto, um dos aspectos centrais no entendimento das práticas funerárias é a questão
ontológica: não é possível compreender o tratamento concedido aos mortos e aos seus restos sem
questionar a formas como o homem se vê a si próprio no mundo, como se sente, como pensa, experiencia e
usa o seu corpo. Isto é absolutamente óbvio. Assim, vários têm sido os ensaios sobre a noção de indivíduo
na Pré-História, sobre a corporalidade e sobre o maior ou menor destacamento do homem relativamente ao
mundo que o rodeia (Fowler, 2004; Boriċ e Robb, 2009; Valera, 2012c). Por oposição à noção moderna de
indivíduo tem-se reclamado por uma noção de “dividual” (Fowler, 2004), conceito de pessoa
profundamente relacional, condição partilhada por humanos e não humanos, por vivos e inertes, a qual
implica uma categorização diferente do mundo, mais fluida, permitindo o trânsito entre categorias e a
partilha de essências, com os seus próprios mecanismos simbólicos de regulação desse trânsito, gerando
situações de maior paridade ontológica entre o humano e o não humano. Trata-se de um processo cognitivo
próprio de sociedades onde a partição, a segmentação, é um processo estruturante (Chapman, 2000;
Chapman e Gaydarska, 2007; Valera, 2010b): onde se observa a necessidade de separar elementos, de
transmitir e partilhar essências, de as redistribuir como forma simultânea de perpetuação e renovação da
ordem social. São a partição e a relação como princípios estruturantes da pessoa, que assim adquire
propriedades de separação, redistribuição e recomposição, assumindo uma profunda fluidez ontológica.
Processo que não nos é totalmente estranho, mas que é por vezes difícil de compreender.
Nestes esquemas mentais, o vínculo relacional que se pode estabelecer entre pessoas, objectos,
animais, etc. tende a gerar um paralelismo de tratamentos. Tal como o objecto, o corpo (humano ou não
humano) pode ser segmentado e distribuído (é o princípio das relíquias). É cada vez mais frequente, para
diferentes períodos da Pré-história Recente, a argumentação em favor da existência de tratamento e
deposição semelhantes entre restos humanos e animais, a qual admite e investiga formas paralelizáveis de
tratamento de elementos de categorias distintas: como escrevi recentemente, partes de corpos, partes de
ossos, podem desempenhar exactamente a mesma função de ligação ou ter um mesmo estatuto de
elemento íntegro (com trajecto próprio) como um fragmento cerâmico, a metade de uma lúnula ou um
segmento de uma comunidade.
Concepções plurais de corpo e de pessoa, contrárias à visão de unidade fixa e homogénea,
traduzem-se em comportamentos que expressam essa fluidez ontológica e que geram uma aparência de
diversidade. E digo aparência, porque várias destas distintas práticas podem, em determinados momentos,
estar interligadas, seja sob a forma de etapas encadeadas de tratamento dos restos, seja na construção de
uma linguagem específica, como se de um texto escrito com ossos se tratasse. Esta circunstância tem levado
vários autores a sugerir que em determinados contextos, como aqueles em que os restos humanos
aparecem em circunstâncias semelhantes a outros materiais, como acontece em fossos e fossas, mas
também noutras estruturas, os ossos humanos não são um elemento de destaque. Participam na construção
do sentido do contexto como qualquer outro elemento, como qualquer outro fragmento, não sendo
acompanhados por, mas acompanhando numa partilha de circunstâncias e de papeis.
Matrizes de análise assim construídas revelam-se mais adequadas a uma realidade arqueológica
cada vez mais heterogénea, composta por práticas que revelam manipulações dos restos humanos muito
para além da morte e deposição primária de indivíduos, que documentam a segmentação de corpos, a sua
recomposição ou preservação da sua integralidade, a trasladação de restos entre diferentes estruturas, a
sujeição a diversos tratamentos, em muitas situações semelhante ao tratamento concedido a animais e
objectos. Enfim, trata-se daquilo que Julian Thomas designou por morte ubíqua, que mais que tradições
123
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
funerárias paralelas, traduzirá práticas não restritas por contextos particulares, antes movem-se entre
contextos e estabelecem relações entre tempos e espaços.
Neste contexto de problematização, que dizer da Sobreira de Cima? Mesmo sem dispormos ainda
do estudo completo proporcionado pela Antropologia Física, algumas considerações podem ser feitas a
propósito desta necrópole tendo por base as observações feitas acima.
Relembrando resumidamente os contextos, sobretudo os sepulcros mais bem preservados
(sepulcros 1, 2 e 5), estamos perante deposições colectivas de inumação primária, onde ocorrem fenómenos
de remobilização das mais antigas para a incorporação de novos corpos, dando origem a ossários, um dos
quais (sepulcro 5) revelou sinais de uma organização interna específica e com uma associação ritual de
falanges humanas e de ovinos/caprinos. Estão presentes indivíduos de ambos os sexos e de diferentes faixas
etárias, revelando populações naturais. As oferendas votivas, com excepção de alguns, poucos, geométricos
no sepulcro 1 associados a indivíduos concretos, concentram-se nos lados das entradas, sem uma ligação
directa aos corpos, ainda que se possa conceber um carácter cumulativo desses conjuntos artefactuais,
progressivamente constituídos à medida das deposições de novos indivíduos (criando, assim, um certo grau
de relação). A progressiva construção destes conjuntos laterais originou um efeito de espelho, com inversões
do tipo e/ou número de materiais presentes em cada conjunto. Nos encerramentos, o anfibolito, enquanto
matéria-prima, apresenta-se com grande destaque.
A primeira ideia que ser forma é a de que estamos perante uma necrópole formal, ou seja, que
corresponde a um espaço específico onde se reúne um conjunto de sepulcros e onde se praticam rituais
fúnebres. Um local aparentemente individualizado relativamente a outros espaços, nomeadamente
habitacionais, dos quais, contudo, não temos notícia numa periferia bastante alargada.
Todavia, a grande proximidade a um possível local de extracção de anfibolito (ver Capítulo 1, ponto
1.8) e o destaque que esta matéria-prima tem no ritual funerário e nas arquitecturas dos sepulcros
(nomeadamente na utilização de blocos lingote/esboço e de estelas) convidam a relacionar a localização
desta necrópole e da comunidade nela sepultada com a actividade concreta de extracção daquela rocha.
Esta vinculação, como se avançou no capítulo 3, poderá ter sido suficiente forte para que a actividade se
tornasse em factor identitário, emblemático para esta comunidade, a qual reconheceria esta matéria-prima
quase como um dos seus membros, conferindo-lhe especial protagonismo nos rituais e arquitecturas
funerárias, nomeadamente ao nível da demarcação de sepulcros, como que a dizer “aqui jaz gente do
anfibolito”.
Se esta vinculação plausível tem algum grau de correspondência com a circunstância histórica
concreta (o que valeria a pena continuar a investigar), então esta necrópole desempenha um papel social
que vai bem além do de local de enterramento dos mortos ou mesmo de local de culto dos antepassados,
para se assumir como um agente identitário activo e eventualmente como elemento de apropriação
territorial ou de um bem particular, que mais do que simplesmente recurso (que naturalmente o é), seria
“cimento” da identidade grupal. Por outras palavras, esta necrópole não se limita a reflectir uma situação
social, ela participa activamente na sua construção e identificação, na reprodução das suas condições
ideológicas de existência, na sua comunicação e afirmação interna e externa. Trata-se de um papel social
para o qual não conseguimos vislumbrar um papel equiparável nas necrópoles congéneres do Outeiro Alto 2
ou de Vale Barrancas 2 (o que não significa que não existam).
Este papel emblemático, que como acontece com todos os emblemas é unificador, encontra plena
aderência a um ritual funerário que é preponderantemente colectivista, no sentido em que não existe uma
individualização nas práticas funerárias (pelo menos que possa der detectada pela Arqueologia). Quando
muito poderemos discutir se existe uma individualização e eventual diferenciação de grupos. Na realidade, o
facto de os sepulcros se encontrarem longe de estarem esgotados quando foram encerrados, associado à
presença de classes etárias e de sexo que traduzem populações naturais, resulta na ideia de que estamos
perante sepulcros familiares.
Tal aponta para que toda a comunidade, e não apenas uma parte especializada dela, vivesse numa
relativa proximidade (difícil de estabelecer com maior precisão no estado dos nossos conhecimentos), sendo
que os traços das dietas alimentares dos indivíduos do sepulcro 1 analisados revelam o consumo de recursos
terrestres (Carvalho, neste volume), perfeitamente compatível com o contexto local/regional. Os ovinos /
caprinos, representados pelas falanges no interior dos sepulcros, fariam seguramente parte dessa dieta. Mas
se esta comunidade viveria nestes contrafortes sul da Serra de Portel, ou nas terras baixas das suas
124
Era Monográfica 1 (2013)
imediações e a eles se deslocaria regularmente, de forma mais ou menos periódica (o que a ausência nos
sepulcros de crianças com idade inferior a três anos e de idosos poderá sugerir), a sua abertura ao exterior
regional e mesmo transregional é inequívoca.
Tal relacionamento está patente na presença de matérias-primas exógenas nos materiais que
integravam os rituais funerários. Se o anfibolito é a evidente marca local, e o calcário/calcite da pulseira e
recipiente do sepulcro 2 podem ter origem regional, já as grandes lâminas de sílex (e provavelmente
também as grandes lamelas), o marfim das pulseiras do sepulcro 1 e do pente do sepulcro 2 e o cinábrio
teriam origem em áreas bem mais distantes (ainda que provavelmente tenham chegado por meio de
intermediações). A contrapartida para estes produtos exógenos poderia ser, precisamente, o anfibolito, o
que reforçaria o seu papel de agente identitário nesta comunidade e a importância da localização da
necrópole como marco de apropriação.
A incorporação destes materiais nesta comunidade aparentemente não foi utilizada para
reflectir/produzir diferenciação social, pelo menos no âmbito funerário (sabemos que, enquanto discurso
social, este âmbito frequente altera ou inverte a imagem real). Não existe uma associação (com excepção de
três geométricos) entre espólio votivo e indivíduos, sendo os materiais agrupados nas laterais das entradas,
num ritual colectivizador (mesmo que, naturalmente, tenham sido depositados em momentos distintos ao
longo da utilização dos sepulcros). Se alguma diferenciação existe é entre sepulcros e, ainda assim,
relativamente limitada. A presença de artefactos em calcário/calcite apenas ocorre no sepulcro 2 e o
cinábrio é exclusivo no sepulcro 1, o ocre no sepulcro 4, aparecendo misturados no sepulcro 2 (Dias e Mirão,
neste volume), circunstâncias que poderão reflectir sobretudo algumas diferenças entre as dinâmicas
negociais dos grupos familiares e não tanto significativas diferenças sociais internas à comunidade.
Relativamente ao tratamento concedido aos corpos, os dados disponíveis (exclusivamente para os
sepulcros 1 e 5) apontam para deposições primárias que conservavam a integralidade do corpo, o que não
será necessariamente uma regra neste tipo de sepulcros na região (por exemplo num dos Sepulcros do
Outeiro Alto 2 o último indivíduo a ser depositado não tinha cabeça, podendo ali ter sido introduzido já sem
ela ou o crânio ter sido retirado do sepulcro posteriormente). De facto esta parece ser a norma no Neolítico
Final na região, não se conhecendo, entre os contextos intervencionados e publicados desta época (que não
são assim tantos), inequívocos sinais de segmentação dos corpos após a morte, mas tal só poderá ser
descartado depois do estudo exaustivo das colecções osteológicas existentes, o que, no momento em que
escrevo, não está concluído para nenhuma delas. Já a manipulação de restos humanos, o desmantelamento
de esqueletos, a sua reorganização em ossários e a subtracção de partes anatómicas encontram algumas
evidências.
A constituição de ossários é conhecida nas três maiores necrópoles (Sobreira de Cima, Outeiro Alto
2 e Vale Barrancas 1). Para além de uma leitura funcional (que os justifica como meio de obter mais espaço
para novas tumulações), todos eles parecem revelar que a integralidade original do corpo deixa de ser
importante uma vez decomposto, pois não parecem existir agrupamentos de ossos correspondentes a
esqueletos individuais, mas antes misturas de ossos ou partes anatómicas de diferentes indivíduos. Se estas
manipulações respondem exclusivamente a uma necessidade funcional ou estão elas próprias imbuídas de
ritualidade e respondem igualmente a outras motivações, são questões cujas respostas necessitam da
conclusão dos apurados estudos antropológicos. Ainda assim, a organização patenteada pelo ossário do
sepulcro 5 (os crânios a delimitá-lo, a concentração central de ossos de sub-adultos e a associação de
falanges humanas a falanges de ovinos/caprinos), revela um procedimento intencional e certamente
marcado por prescrições rituais e significados simbólicos, nomeadamente a associação de falanges.
Recentemente, em colaboração com Cláudia Costa (Valera e Costa, no prelo), sublinhei a
importância concedida à deposição de patas de animais em contexto funerário, sublinhando que é uma
prática ritual que se inicia pelo menos no final do Neolítico e se estende até à Idade do Bronze,
correspondendo a cerca de 82% dos casos em que é reportada a presença de fauna em contextos funerários
humanos (a discussão sobre a natureza destas presenças foi já realizada no capítulo 4). No Neolítico Final
temos conhecimento da associação de patas de suídeo aos enterramentos em fossa dos Perdigões (Valera e
Godinho, 2009; Moreno e Cabaço, 2009) e as associações de falanges de ovinos / caprinos nos hipogeus da
Sobreira de Cima e do Outeiro Alto 2.
A eleição das falanges como osso de forte carga simbólica é há muito conhecida, mas sobretudo
durante o Calcolítico, com a sua utilização como elemento ideotécnico, seja num estado simples, polido,
125
Sobreira de Cima. Necrópole de hipogeus do Neolítico
gravado ou pintado com uma iconografia bem padronizada e de todos conhecida. Mas trata-se aí de
falanges quase que exclusivamente de cavalo, cervídeo ou, mais raramente, bovino. A escolha do osso terá
a ver com a sua morfologia específica, na qual podemos ver uma forma vagamente antropomórfica. Serão
pois representações ou evocações de algo que assume uma aparência humana. E será assim que poderemos
ler a presença, no Neolítico Final, das falanges presentes nos hipogeus, como que antecipando a prática que
se desenvolveria no Calcolítico.
Mas a associação directa de falanges de ovinos/caprinos a falanges humanas no sepulcro 5 permite
pensar que essa representação ou evocação não é feita apenas através destes ossos de animais, mas é
igualmente realizada através dos humanos. Procurando um sentido para esta circunstância simbólica - o que
terá que ser sempre um exercício especulativo, não demonstrável, mas plausível e teoricamente coerente -,
poderia pensar-se que representariam ou evocariam indivíduos, que seriam reunidos a outros no espaço
sepulcral através da colocação de falanges, podendo a escolha do animal específico relacionar-se com o seu
estatuto social/simbólico na comunidade ou com a relação específica que existiria entre esses animais e
aqueles que representariam ou evocariam. Esta hipótese encontra fundamento teórico precisamente no
problema ontológico da relação parte - todo e no princípio de participação psicológica (Valera, 2007; Valera,
2008b) que permite que o todo seja representado ou esteja consubstanciado na parte. A presença de ossos
isolados ou agrupados em ossários terá, portanto, que começar a ser analisada a partir de diversas
possibilidades, nomeadamente tendo em conta o papel autónomo que podem assumir. E se na Sobreira de
Cima ainda não sabemos se os ossos humanos circularam (de fora para dentro ou de dentro para fora), para
contextos coevos (como a fossa 7 dos Perdigões) a subtracção cuidada de partes do esqueleto está atestada.
Trata-se de uma dimensão do papel social activo desempenhado pelos restos osteológicos humanos ainda
mal explorada pelo discurso arqueológico português. Papel que, durante o milénio seguinte, ganhou
significativa relevância em muitos contextos, expressando talvez de forma mais evidente essa
interpenetração entre vivos e mortos ao ponto destes últimos dificilmente “descansarem em paz”(que não
terá sido o caso dos últimos depositados na Sobreira de Cima).
11.7 – CONCLUINDO
Naturalmente, várias questões ficam ainda em aberto, nomeadamente aquelas que necessitam da
conclusão dos estudos antropológicos (por exemplo, se á introdução ou não de partes de corpos ou de ossos
soltos nos sepulcros, ou se todos os ossos presentes resultam de deposições primárias ali realizadas) ou de
outros estudos arqueométricos. Outras, mereceria a pena aprofundar (como estender a determinação de
dietas outros sepulcros da necrópole). Ainda assim, a Sobreira de Cima constitui-se como um contexto de
referência para o estudo e compreensão das práticas funerárias neolíticas no interior alentejano, num
momento de acelerada mudança da percepção que se tinha destas práticas. Seguramente, novos dados
virão ao debate em breve, não só no que respeita a contextos funerários, mas também relativamente a
outro tipo de contextos com os quais aqueles se articulariam na construção da paisagem neolítica da região.
Revisitar a Sobreira de Cima com novos questionários e propósitos poderá ser, no futuro, um projecto de
inequívoco interesse.
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