A glória da igreja local

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A glória da igreja local
A glória
da igreja
local
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“The Glory of the Local Church”
Copyright © 2008 by Assembly Testimony,
49 Glenburn Rd, Dunmurry, Belfast, BT 17 9AN, N Ireland.
Tradução: Samuel R. Davidson
Correção: M. Janeta M. Watterson
Primeira edição brasileira — Julho 2015
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
A Glória da igreja local/organização da
Editora. -- Pirassununga, SP : Editora
Sã Doutrina, 2015.
Título original: The glory of the local church.
1. Deus - Amor 2. Deus - Ensinamentos bíblicos 3. Igreja
- Conduta de vida 4. Igreja - Cristianismo 5. Igreja
- Ensino bíblico 6. Jesus Cristo - Ensinamentos.
ISBN 978-85-5510-006-02
15-05849
CDD-262
Índices para catálogo sistemático:
1. Igreja : Ensino bíblico : Cristianismo 262
Publicado no Brasil com a devida autorização, e com todos os direitos reservados.
© 2015 Editora Sã Doutrina — Caixa Postal 241 — Pirassununga - SP
CEP 13630-970 — www.sadoutrina.com
Edição, diagramação e publicação: Editora Sã Doutrina
Impressão: Suprema Gráfica e Editora
A glória
da igreja
local
Abreviações
AT���������������Almeida Revista e Revisada fiel ao texto original. Versão
da Bíblia em Português da Sociedade Bíblica Trinitariana.
ARC������������Almeida Revista e Corrigida. Versão da Bíblia em Português da Sociedade Bíblica do Brasil.
ARA������������Almeida Revista e Atualizada. Versão da Bíblia em Português da Sociedade Bíblica do Brasil.
VB���������������Versão Brasileira.
AV���������������Authorized Version. Versão da Bíblia em Inglês.
JND�������������Versão da Bíblia em Inglês de J. N. Darby.
H. e C.���������Hinos e Cânticos.
N. do T.�������Nota do Tradutor
N. do E.�������Nota do Editor
Todas as Escrituras citadas neste livro são da versão Corrigida e
Revisada Fiel ao texto Original, da Sociedade Bíblica Trinitariana
(AT), exceto quando indicado. O uso de outras versões da Bíblia nesta
publicação não implica o endosso destas versões na sua totalidade.
Índice
Prefácio à edição em inglês..............................................7
Prefácio à edição em português.......................................8
Introdução.......................................................................9
Cap 1 — A Igreja e as igrejas........................................11
Cap. 2 — A igreja local e sua organização.....................21
Cap. 3 — A igreja local e a sua edificação.....................38
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração....................53
Cap. 5 — A igreja local e seu controle............................67
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração...................85
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações................102
Cap. 8 — A igreja local e suas coletas..........................123
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado..........................136
Cap. 10 — A igreja local e sua conduta........................151
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza.........................162
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito.........................176
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação....................205
Prefácio à edição em inglês
Temos grande prazer em lançar este livro, que é o terceiro a ser
publicado nesta série por Assembly Testimony.* Os primeiros dois†, intitulados “A glória da Sua graça” e “A glória do Filho” foram muito bem
recebidos e apreciados pelos leitores. Isto nos incentivou a compilar este
terceiro livro, e esperamos que seja tão útil aos santos quanto os volumes
anteriores.
Como afirmado nos outros livros, o propósito destas publicações
é colocar ensino sadio e Bíblico nas mãos dos salvos mais jovens. Este
volume é publicado com a oração de que tenha um efeito estabilizador
no testemunho de modo geral e que, especificamente, produza convicção nos corações dos salvos quanto à preciosidade e natureza única da
igreja local. Nestes dias de afastamento do ideal Divino, como revelado
na santa Palavra de Deus, consideramos este ensino muito necessário, e
se alguns salvos forem preservados nos caminhos agradáveis ao Senhor,
então todo o trabalho empregado nesta publicação terá valido a pena.
Como no antigo Tabernáculo, os autores têm contribuído com sabedoria e disposição (Êx 35:10, 22). No meio das suas outras ocupações
pessoais na obra de Deus, todos trabalharam com entusiasmo e sem
qualquer remuneração. Obviamente, sem a cooperação destes irmãos,
reconhecidos como homens de capacidade e dom, este livro nunca teria
sido possível. É o seu conhecimento hermenêutico e a sua aceitação
entre os santos que deve dar a este livro um lugar em toda biblioteca.
Outros também trabalharam com paciência e perseverança para
garantir que a excelente qualidade destes livros fosse mantida. O irmão
Roy Reynolds dedicou muitas horas em editar o livro. Mais uma vez o
irmão Walter Boyd foi de grande ajuda em todos os assuntos de apresentação e estilo, e junto com nossa irmã Joanna Currie aceitou o cargo
difícil, e frequentemente tedioso, de revisão e correção do livro. Oferecemos nossos sinceros agradecimentos a todos estes, sabendo que “Deus
não é injusto para se esquecer da vossa obra, e do trabalho de amor que
para com o seu nome mostrastes, enquanto servistes aos santos, e ainda
servis” (Hb 6:10).
Brian Currie, Irlanda do Norte, Março de 2008.
*
Uma revista gratuita publicada por irmãos que se reúnem ao nome do Senhor Jesus Cristo na
Irlanda do Norte. Maiores informações: www.assemblytestimony.org
†
Em português seguimos outra ordem; além dos dois livros mencionados acima, já publicamos
“O Espírito da Glória” e “A glória de Deus o Pai”. (N. do E.)
Prefácio à edição em português
Desde 2011 temos publicado anualmente um livro desta série “A glória …”. Já estão disponíveis “A glória da Sua graça”, “A glória do Filho”,
“O Espírito da glória”, e “A glória de Deus o Pai”. Todos os livros foram
publicados e distribuídos gratuitamente, graças à generosidade dos irmãos
responsáveis pela revista Assembly Testimony, na Irlanda do Norte, que tem
o desejo de ajudar as igrejas locais no Brasil e em outros países de língua
portuguesa.
Dando sequência à série, lançamos agora o quinto volume: “A glória
da igreja local”. Será que realmente apreciamos o privilégio que é pertencer
a uma igreja local? Não simplesmente um ajuntamento de pessoas salvas,
mas um ajuntamento de pessoas salvas que foram atraídas pelo Espírito
Santo ao nome bendito do Senhor Jesus Cristo, e que zelam pela honra,
glória e dignidade deste Nome divino.
Este livro procura destacar a glória que pertence à igreja local como
entidade estabelecida por Deus. Mesmo que igrejas individuais tenham
suas falhas e imperfeições (e todas tem!), o modelo que procuram seguir
é bíblico, divino e precioso. Em dias de relativismo eclesiástico, oramos
que este livro possa ajudar os salvos no Brasil a apreciarem cada vez mais o
modelo de igreja que Deus apresenta na Sua Palavra.
Agradecemos aos responsáveis pela revista Assembly Testimony pela sua
cooperação tão importante nesta obra, e pelos irmãos e irmãs que voluntariamente usaram seu tempo e talentos nas diversas fases de produção deste
livro. Principalmente, agradecemos a Deus pela oportunidade que Ele nos
deu, através dos Seus servos na Irlanda do Norte e no Brasil, de oferecer
este livro gratuitamente aos nossos irmãos e irmãs no Brasil, Portugal e
Angola.
Pirassununga, Julho de 2015
Introdução
Não há dúvida alguma quanto à tremenda preciosidade da Igreja
para Cristo, não somente por causa das ilustrações empregadas para
descrever o relacionamento íntimo entre o Noivo e Sua Noiva, mas por
causa do preço que Ele pagou para conquistá-la (Ef 5:25). Como com
Boaz, o bem conhecido noivo do Velho Testamento, poderia também
ser dito de Cristo que “aquele homem não descansará até que conclua
hoje este negócio” (Rt 3:18). Sua intenção declarada de completar a
obra, apesar de toda a oposição, é enfatizada na primeira menção da
Igreja no Novo Testamento, em Mateus 16:18, e no devido tempo Ele
vai “apresentar a Si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem
coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5:27). O novo convertido é carinhosamente aconselhado a se conscientizar do caráter especial da Igreja, quanto ao seu começo (Atos cap. 2); quanto ao seu lugar
nas dispensações — não há menção da Igreja no Velho Testamento;
também quanto ao seu alcance — incluindo cada salvo desde o dia de
Pentecoste até ao Arrebatamento; quanto às suas ilustrações e sua intimidade. Com que terna afeição o Senhor fala da “Minha Igreja” em
Mateus 16:18.
Nos capítulos deste livro, o terceiro* da coleção de Assembly
Testimony, ensino muito necessário sobre a igreja local encorajará os
cristãos a se dedicarem de todo o coração à sua igreja local, pois uma
compreensão correta do seu caráter distinto é um pré-requisito essencial para um comprometimento completo à igreja local. Compreenda
estas verdades tão importantes, considere as referências bíblicas, e compreenda por que você está, ou deveria estar, reunido ao Nome sem igual
do Senhor Jesus, fora do arraial (Mt 18:20; Hb 13:13).
Observe as semelhanças e também as diferenças notáveis entre a
igreja local e “a Igreja que é o Seu Corpo” (Ef 1:22-23). Por exemplo,
a entrada na Igreja é pelo novo nascimento, mas a entrada na comunhão de uma igreja local é pela recepção. Também, ninguém pode ser
excomungado da Igreja, mas, de acordo com I Coríntios 5, aqueles que
cometem certos pecados precisam ser colocados fora da comunhão da
igreja local.
Somos gratos, novamente, aos autores pela sua disposição em contribuir tão utilmente, apesar das suas muitas ocupações em outras áreas
da obra do Senhor. A ajuda do irmão Brian Currie em comunicar com
*
Seguimos uma ordem diferente no Português. (N. do E.)
os autores, e com a gráfica, e em coordenar o projeto todo, foi de grande
valor.
Recomendamos este livro especialmente a todos os novos na fé,
desejando que o leiam cuidadosamente e em oração, para que possam
descobrir a preciosidade da “casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a
coluna e firmeza da verdade” (I Tm 3:15).
Roy Renolds, Irlanda do Norte, Março de 2008.
Cap 1 — A Igreja e as igrejas
Por David West, Inglaterra
Introdução
Se perguntássemos a qualquer pessoa na rua: “O que é a igreja?”
ou “O que é uma igreja?”, as respostas provavelmente seriam idênticas
às definições encontradas em qualquer dicionário, isto é, uma seita ou
denominação, ou um prédio dedicado ao culto cristão.
Contudo, no Novo Testamento a palavra “igreja” é a tradução da
palavra grega ekklesia, que é composta da preposição ek, que significa
“para fora”, e um verbo, kaleo, que significa “chamar ou convocar”.
Esta palavra ekklesia foi usada por Estêvão na sua defesa, quando ele
se refere a Israel como “a congregação [ekklesia] no deserto” (At 7:38),
pois a nação tinha sido chamada para fora da terra do Egito. Lucas usa
a mesma palavra para descrever uma multidão tumultuosa em Éfeso: “o
ajuntamento [ekklesia] era confuso, e os mais deles não sabiam por que
causa se tinham ajuntado” (At 19:32), e também quando ele descreve o
ajuntamento regular e legal em Éfeso, citando as palavras do escrivão
da cidade: “e, se alguma coisa demandais, averiguar-se-á em legítima
assembleia [ekklesia]” (At 19:39).
A palavra ekklesia nunca é usada no Novo Testamento para descrever um prédio. É uma grande vitória dos poderes das trevas conseguir
influenciar o próprio pensamento das pessoas para dirigir sua atenção a
prédios, e não aos ajuntamentos dos salvos no Senhor Jesus Cristo. Um
exame de certas expressões empregadas revelará como é ridículo tentar
encaixar o significado moderno da palavra “igreja”, como um prédio, no
Novo Testamento:
• “Saudai a Priscila e Áquila, meus cooperadores em Jesus Cristo …
Saudai também a igreja que está em sua casa“ (Rm 16:3, 5).
• “E Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão” (At 8:3).
• “Assim, pois, as igrejas em toda a Judeia, e Galiléia e Samaria tinham paz, e eram edificadas” (At 9:31).
• “E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja em Jerusalém”
12
A glória da igreja local
(At 11:22).
Por causa destas coisas, devemos observar que lamentavelmente
(na opinião do presente autor) há uma tendência em certos lugares do
Reino Unido para mudar o nome Gospel Hall (“Salão Evangélico”), que
descreve um lugar onde as boas novas são pregadas, para Evangelical
Church (“Igreja Evangélica”).
Dois aspectos da Igreja
Lendo o Novo Testamento, fica claro que há dois significados distintos para “igreja”, e que nenhum destes concorda com o uso moderno
da palavra conforme as definições dadas nos dicionários.
É importante observar que a palavra é usada num sentido geral, que
abrange todos os salvos neste dia da graça; é frequentemente chamada
“a Igreja universal”, “a Igreja mística”, ou “a Igreja desta dispensação”,
mas precisamos lembrar que estes títulos não são usados no Novo Testamento. Cada verdadeiro salvo desde o começo da Igreja no Dia de
Pentecostes até o arrebatamento dos salvos, quando o Senhor mesmo
descerá aos ares para receber os Seus, é parte desta “igreja, que é o seu
corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” (Ef 1:22-23). É
usada neste sentido nas seguintes citações:
• “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a
cabeça da igreja” (Ef 5:23);
• “Também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela”
(Ef 5:25);
• “E ele é a cabeça do corpo, da igreja” (Cl 1:18);
• “Mas chegastes … à universal assembleia e igreja dos primogênitos,
que estão inscritos nos céus” (Hb 12:22-23).
Aqueles que constituem a Igreja, tendo sido chamados para fora
deste mundo, estão tão intimamente ligados com o Cabeça no Céu
que, espiritualmente, são o Seu corpo. Esta verdade, desenvolvida nas
epístolas aos Efésios e aos Colossenses, é posicional; inclui cada salvo,
independentemente da sua condição espiritual.
Embora este aspecto da Igreja seja eterno no conceito divino, e os
salvos desta presente dispensação foram eleitos “nele antes da fundação
do mundo” (Ef 1:4), e são descritos como “eleitos segundo a presciência
de Deus Pai, em santificação do Espírito” (I Pe 1:2), a Igreja não é men-
Cap. 1 — A Igreja e as igrejas 13
cionada no Velho Testamento. Contudo, achamos ilustrações e sombras
da Igreja no Velho Testamento. Assim Israel, “a congregação [ekklesia]
no deserto” (At 7:38), era um povo “chamado para fora” do Egito, e
também “colocado em” Canaã. Além disso, Adão e Eva (embora não
mencionados por nome) são vistos em Efésios 5 como uma ilustração
de Cristo e Sua Igreja.
Em Efésios caps. 2 e 3 Paulo desenvolve a grande verdade dispensacional da Igreja como sendo composta tanto de judeus quanto de gentios, reunidos em um corpo; ele fala disto como sendo um mistério, isto
é, uma verdade anteriormente oculta nos pensamentos de Deus, mas
agora totalmente revelada: o “mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo” (Ef 3:9).
O segundo aspecto da palavra “igreja” refere-se a um grupo de pessoas “chamadas para fora”, e que se reúnem regularmente numa localidade específica. Devemos notar que embora haja somente uma Igreja,
há muitas igrejas (locais); isso explica o título deste capítulo. Tais companhias locais são chamadas:
• Igrejas de Deus — “Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não
temos tal costume, nem as igrejas de Deus” (I Co 11:16); isto fala
da sua origem, são de Deus. A expressão “igreja de Deus” sempre se
refere a uma igreja local.
• Igrejas de Cristo — “As igrejas de Cristo vos saúdam” (Rm 16:16);
isto fala de posse, elas pertencem a Cristo.
• Igrejas dos santos — “Porque Deus não é Deus de confusão, senão
de paz, como em todas as igrejas dos santos” (I Co 14:33); isto nos
lembra da sua composição, são compostas de pessoas santificadas,
separadas para Deus.
Também encontramos as seguintes expressões no Novo Testamento:
• Igrejas dos gentios — “Saudai a Priscila e Áquila … os quais pela
minha vida expuseram as suas cabeças; o que não só eu lhes agradeço, mas também todas as igrejas dos gentios” (Rm 16:3-4); embora
a maioria das igrejas era composta de judeus e gentios, havia algumas igrejas compostas somente de gentios salvos.
• Igrejas da Galácia — “Paulo, apóstolo … às igrejas da Galácia” (Gl
1:1-2); Paulo não escreveu à igreja da Galácia*, mas às igrejas da
*
A Galácia era uma região, não uma cidade. (N. do E.)
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A glória da igreja local
Galácia, assim reconhecendo a autonomia de cada uma delas.
• Igrejas da Judeia — Paulo “não era conhecido de vista das igrejas
da Judeia” (Gl 1:21-22).
• As sete igrejas que estão na Ásia — “João, às sete igrejas que estão
na Ásia” (Ap 1:4); note como estas expressões estão todas no plural:
“igrejas da Judeia”, “igrejas na Ásia”, não “a igreja da Judeia”, etc.
nem como hoje em dia, “a igreja da Inglaterra”.
Estes, então, são os únicos dois sentidos da palavra “igreja” nas Escrituras. É interessante notar como o Senhor Jesus fez menção de ambos estes sentidos no relato dado no Evangelho de Mateus, onde lemos:
“Pois também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a
minha igreja” (Mt 16:18). A pedra é a confissão de Pedro, “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16). A palavra “edificarei” também
deve ser notada; mostra que o Senhor Jesus falou de algo ainda futuro.
A Igreja no seu aspecto mais abrangente começou a existir mais tarde,
no Dia de Pentecostes.
O Senhor Jesus, posteriormente, mencionou o que mais tarde seria entendido como sendo a igreja local, quando ensinou que um irmão ofendido, tendo obedecido ao procedimento já ensinado, mas sem
alcançar o resultado desejado, deveria, como último recurso, dize-lo à
igreja (Mt 18:17). Ele realmente somente poderia comunicar isto a uma
igreja local, e somente ela poderia tratar do assunto.
A igreja local
As igrejas locais, ou assembleias, são compostas de cristãos batizados: “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a
sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas” (At 2:41),
e reunidos em Nome do Senhor Jesus Cristo: “porque, onde estiveram
dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt
18:20). Tais grupos se reúnem regularmente: “e perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At 2:42); “não deixando a nossa congregação” (Hb
10:25), numa localidade específica: por exemplo, “a igreja de Deus que
está em Corinto” (I Co 1:2), seguindo o padrão Neotestamentário.
Cada igreja local é uma comunidade espiritual, reunindo-se para
o partir do pão, adoração e oração, e o ensino da Palavra de Deus. Tal
grupo reconhece a autoridade suprema da Palavra de Deus e o controle
soberano do Senhor, através do Espírito Santo que habita neles: “Não
Cap. 1 — A Igreja e as igrejas 15
sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita
em vós?” (I Co 3:16). Os dons espirituais são reconhecidos e exercitados
sob o controle do Espírito Santo para a edificação da igreja. Os membros de uma igreja local exercem, através da adoração e oração, o sacerdócio de todos os cristãos, e por meio de uma vida piedosa e julgando o
pecado, nas suas próprias vidas e na igreja coletivamente, reconhecem a
santidade da igreja local como o templo de Deus.
Figuras da Igreja
A Igreja, no seu caráter dispensacional, que abrange todos os salvos
desta era presente, é descrita por meio de várias figuras; figuras semelhantes são usadas para a igreja local, mas a diferença entre elas é sempre
clara.
Um edifício
A Igreja é comparada a um edifício espiritual, um templo santo,
e um santuário “para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:22). Cristo
mesmo é o Construtor: “sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt
16:18). O alicerce é a rocha firme da confissão feita por Pedro: “Tu
és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16). Nada pode impedir a
construção deste edifício: “… as portas do inferno [hades] não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). Jesus Cristo é a principal pedra da esquina:
“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas [isto é o
fundamento lançado pelos apóstolos e profetas do Novo Testamento,
no seu ensino], de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Ef
2:20). Pedro, tendo escrito: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual” (I Pe 2:5), continua citando a profecia de Isaías:
“Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina” (I Pe 2:6). A pedra da esquina era uma grande
pedra angular que dava força e caráter a todo o edifício. Todas as pedras
vivas nesta construção são edificadas em relação a Jesus Cristo. O fato
desta construção ainda não estar completa, e estar no processo de construção, é bem claro nas palavras: “No qual [ Jesus Cristo] todo o edifício,
bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor” (Ef 2:21).
A igreja local em Corinto é descrita não somente como um campo cultivado, mas também como uma construção: “Vós sois lavoura de
Deus e edifício de Deus” (I Co 3:9). Quando a igreja em Corinto é descrita desta forma, o próprio Paulo é considerado como quem lançou o
16
A glória da igreja local
fundamento: “pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento” (I Co 3:10);
o fundamento era Jesus Cristo: “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (I Co 3:11).
Havia outros construtores em Corinto, como, por exemplo, ensinadores,
que deveriam ter cuidado como construíam sobre o alicerce: “Mas veja
cada um como edifica sobre ele” (I Co 3:10).
A distinção é bem clara: quando Cristo é o Construtor, não pode
existir falha alguma na obra; contudo, quando os construtores são homens, podem existir falhas, e seu trabalho será examinado perante o
Tribunal de Cristo: “se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada
um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será
descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um” (I Co 3:12-13).
Um corpo
A Igreja, no seu aspecto geral, também é comparada ao corpo de
Cristo: “… a igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre
tudo em todos” (Ef 1:22-23); este corpo é espiritual. Embora a escolha e
o propósito de Deus de formar um corpo de judeus e gentios foram planejados na eternidade passada, a escolha se manifestou e o propósito foi
cumprido no tempo. Houve um dia quando o corpo, a Igreja, começou
a existir. A Igreja é vista como o corpo inteiro, que foi constituído como
uma unidade orgânica no Dia de Pentecostes (At 2). Naquela ocasião,
em um Espírito todos os salvos desta dispensação foram batizados formando um corpo, independentemente de nacionalidade, nível social, ou
mesmo do tempo quando foram salvos: “pois todos nós fomos batizados
em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer
servos, quer livres” (I Co 12:13). O verbo “batizado”, no grego, está no
tempo aoristo, indicando que quando Paulo escreveu estas palavras o
batismo já tinha acontecido, e também foi algo que nunca será repetido.
O corpo, na mente de Deus, estava completo no Dia de Pentecostes,
mesmo que milhões tem sido acrescentados à Igreja desde aquele dia.
Esta figura dum corpo deve convencer-nos do fato que aquele batismo
foi algo único e completo. Não seria correto sugerir que um crente é
batizado no corpo no momento da sua conversão. Nunca lemos dum
salvo sendo colocado no corpo, ou acrescentado ao corpo, ou se tornando membro do corpo, quando crê. Ele é um membro dele e foi assim
constituído no Dia de Pentecostes, mas na sua conversão ele começa a
Cap. 1 — A Igreja e as igrejas 17
funcionar como um membro.
Na Epístola aos Efésios o corpo é visto como o complemento da
Cabeça, enquanto que na Epístola aos Colossenses o corpo é visto como
completo na Cabeça: “E ele é a cabeça do corpo, da igreja” (Cl 1:18).
Multidões de salvos que são parte deste corpo já estão no Céu, deixaram
o corpo [físico] “para habitar com o Senhor” (II Co 5:8). Por isso, não é
bíblico dizer que todos os salvos vivos no mundo em qualquer momento são a “Igreja na Terra”. Uma união essencial é revelada entre Cristo, a
Cabeça, e os salvos como membros do Seu corpo.
Contudo, “a igreja de Deus” — uma expressão que descreve um
grupo local de cristãos — também é vista como um corpo; por exemplo,
a igreja em Corinto: “Vós sois [o] corpo de Cristo, e seus membros
em particular” (I Co 12:27). É importante notar que aqui não ocorre o
artigo definido na língua original grega do Novo Testamento, e assim
temos: “Vós sois corpo de Cristo”. Enquanto este corpo é distinto da
“igreja que é o Seu corpo” (Ef 1:22-23), deve, entretanto, ser característico dela na sua união. Lamentavelmente, em Corinto, o contrário era
o caso, pois Paulo disse: “ouço que … há entre vós dissensões” (I Co
11:18).
O relacionamento de cada membro com a “igreja que é o Seu corpo”
é baseado somente na salvação: “pela cruz reconciliar ambos [judeu e
gentio] com Deus em um corpo” (Ef 2:16), e “os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo” (Ef 3:6).
Porém, quando a verdade da igreja local é considerada, descobrimos
que a entrada na igreja local não é pela salvação, mas pela recepção; um
exemplo disto é o caso de Saulo de Tarso, que “quando … chegou a
Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos” (At 9:26). Esta recepção
é feita depois da salvação e do batismo, como vemos na passagem bem
conhecida de Atos 2, onde “foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas”
(At 2:41).
Escrevendo aos cristãos em Corinto, Paulo menciona uma situação
onde “toda a igreja [local] se congregar num lugar … e entrarem indoutos ou infiéis” (I Co 14:23), pessoas que evidentemente não eram parte
da igreja. A identidade dos infiéis (“incrédulos”, ARA) é clara. Porém os
“indoutos” são distintos dos “incrédulos”; a referência é a alguns que são
salvos, mas que precisam de instrução. Tais são membros da “igreja, que
é o Seu corpo”, mas ainda não são membros da igreja local.
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A glória da igreja local
Também, mesmo que a verdade do corpo não seja especificamente
ensinada na Epístola aos Gálatas, Paulo, escrevendo sobre a Igreja no
sentido geral, diz: “Não há judeu nem grego; não há servo nem livre;
não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”
(Gl 2:28). Mas na igreja local certamente há distinções entre os sexos,
por exemplo: “… as vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque
não lhes é permitido falar” (I Co 14:34), e “Quero, pois, que os homens
[varões] orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda” (I Tm 2:8). A verdade sobre o senhorio é apresentada no começo
de I Coríntios 11; ali é ensinado que, nas reuniões da igreja local, a mulher deve cobrir a sua cabeça, mas o homem deve descobrir a sua cabeça.
A Noiva
Não encontramos a expressão “a noiva de Cristo” nas Escrituras.
Contudo, este conceito é claramente indicado em Efésios cap. 5: “Por
isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão
dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de
Cristo e da igreja” (vs. 31-32). O presente autor está convencido que “a
esposa, a mulher do Cordeiro” (Ap 21:9), é “a igreja que é o Seu corpo”.
Ela é vista como absolutamente pura e preparada: “… já a sua esposa se
aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças [atos justos] dos santos”
(Ap 19:7-8). Somente a pureza caracteriza a Igreja no seu caráter como
noiva.
Porém a situação é diferente em II Coríntios 11, onde a igreja local
em Corinto é vista pronta para ser apresentada por Paulo a Cristo como
“uma virgem pura a um marido” (v. 2). Embora a igreja local é vista
como uma virgem esperando o casamento, Paulo teme a possibilidade
dela se corromper: “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva
com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os
vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo” (v. 3).
Cristo não tem este temor quanto à Sua noiva, não há possibilidade de
contaminação nela.
Um rebanho
O Senhor Jesus disse: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco [aule]; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a
minha voz, e haverá um rebanho [poimne] e um pastor” ( Jo 10:16). O
Cap. 1 — A Igreja e as igrejas 19
rebanho mencionado aqui inclui toda a família de Deus, composta de
judeus e gentios salvos. Sob a velha aliança, Israel foi guardada dentro
do aprisco da Lei; mas sob a nova aliança, o rebanho dos verdadeiros
salvos é conservado junto pela sua atração ao Pastor. Nas palavras de
outro, “um aprisco é uma circunferência sem um centro; um rebanho
tem um centro sem uma circunferência” (H.P. Barker).
A igreja local também é chamada de “rebanho”. Paulo diz aos anciãos da igreja local em Éfeso: “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentares
a igreja de Deus” (At 20:28). O “rebanho” aqui obviamente é a igreja
local em Éfeso. Pedro, a quem o Senhor Jesus exortou: “Apascenta as
minhas ovelhas” ( Jo 21:17), escreve a outros presbíteros: “Apascentai o
rebanho de Deus, que está entre vós” (I Pe 5:2).
A nova Jerusalém
O apóstolo João escreve: “E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu” (Ap 21:2). A frase “nova Jerusalém” é
usada aqui simbolicamente da Igreja no seu aspecto geral; não deve ser
confundida com a cidade restaurada de Jerusalém, na Terra, durante o
Milênio. Duas vezes em Apocalipse 21 a cidade santa é vista descendo
de Deus do Céu (o terceiro Céu, intocado pela dissolução das coisas
anteriores). A descida mencionada no v. 2 acontece mil anos depois
da descida mencionada no v. 10. Esta descida no v. 10 é no começo do
Milênio, mas a descida no v. 2 é na eternidade. A palavra “cidade” sugere
o centro administrativo do Senhor onde, do meio da Sua Igreja glorificada, Ele exercitará governo universal. Este simbolismo não é usado
para descrever a igreja local.
Um novo homem
A inimizade que antigamente existia entre judeu e gentio agora foi
abolida em Cristo. O resultado é que não existem mais “os dois”, judeu
e gentio, na Igreja, mas uma nova criação em Cristo: “Para criar em si
mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz” (Ef 2:15). Este simbolismo também não é usado da igreja local.
Contrastes entre a Igreja e as igrejas
Paulo escreveu que “somos membros do Seu corpo, da sua carne, e
dos seus ossos” (Ef 5:30), e visto que o salvo não pode ser separado da
20
A glória da igreja local
“igreja que é o Seu corpo”, isto enfatiza o relacionamento indissolúvel
entre o salvo e Cristo. Contudo, é muito diferente quando chegamos a
I Coríntios 5, e lemos que é possível alguém ser excomungado da igreja
local por causa de pecado moral: “Mas agora vos escrevi que não vos
associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou
idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda
comais … Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (I Co 5:11, 13). Alguém
propagando doutrina falsa também precisa da disciplina da igreja local.
Paulo fala de Himeneu e Alexandre, que eram culpados de blasfêmia,
isto é, falar contra Deus e Sua Palavra, e no exercício da sua autoridade
apostólica, ele acrescenta: “os quais entreguei a Satanás” (I Tm 1:20).
Assim, a disciplina da igreja local poderá exigir excomunhão, mas nada
pode separar um verdadeiro salvo do corpo de Cristo.
Finalmente, “a igreja que é o Seu corpo” tem caráter eterno. Um
dia ela será colocada na Sua presença e apresentada a Ele, glorificada:
“Para a apresentar a Si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga,
nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5:27). Sendo Seu
corpo, a Igreja estará mais perto dEle, e sendo Sua noiva, a Igreja sempre será preciosa a Ele. Contudo, vemos que uma igreja local pode ser
removida em juízo. O Senhor Jesus diz, através do anjo da igreja em
Éfeso: “Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar e
teu castiçal, se não te arrependeres” (Ap 2:5). O fato solene é que esta
possibilidade de remoção do testemunho não é por causa de imoralidade ou falsa doutrina, mas por ter deixado o seu primeiro amor.
Também devemos notar que o testemunho de toda igreja local terminará quando o Senhor Jesus voltar para os Seus; não haverá igrejas
locais no Céu!
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
Por James B. Currie, Japão
A importância da verdade que ela evidencia
A importância e abundância de doutrinas relacionadas com o ajuntamento local de cristãos frequentemente é negligenciada ou mal interpretada por muitos expositores. No entanto, estes tópicos importantes podem ser constatados por dois fatos facilmente discernidos. Em
primeiro lugar, temos a maneira incomum pela qual o Espírito Santo
apresenta o assunto ao leitor da Palavra Divina, e em segundo lugar, a
grande frequência com que é mencionado nos escritos dos vários autores inspirados por Ele.
Sua primeira menção no Novo Testamento
O Evangelho de Mateus, que era o mais apropriado ao leitor judeu do primeiro século, é o palanque escolhido pelo Espírito de Deus
para apresentar as verdades fundamentais sobre o assunto da Igreja. No
entanto, aprendemos posteriormente que as distinções entre o judeu
e o gentio não podem existir na Igreja (Cl 3:11). Ao traçar os acontecimentos que conduzem ao estabelecimento final do “reino na terra”,
Mateus primeiramente apresenta o Rei em toda a Sua capacidade legal,
universal, divina e moral (caps. 1-4). O caráter, a conduta e os interesses
que se esperam dos Seus cidadãos são expostos no que chamamos “o
Sermão da Montanha” (caps. 5-7). Os caps. 8-10, que seguem, mostram a autoridade do Rei sobre os mundos físico, natural, espiritual,
e sobrenatural, nos dez milagres relatados nesta parte do Evangelho.
Todas estas evidências das Suas amplas qualificações são rejeitadas, e a
Nação, instigada pelos seus lideres, rejeita as reivindicações do Rei. Eles,
com desprezo, O repudiam como “glutão e bebedor de vinho” (caps.
11 e 12). Quando a grande multidão se reuniu a Ele, o Senhor “falou-lhes de muitas coisas por parábolas” (13:3), não para esclarecê-los, mas
com verdades ocultas para confirmar a dureza dos seus corações e sua
incredulidade. A explicação dada aos discípulos permite que gerações
posteriores de cristãos apreciem o caráter desta época presente, quando
22
A glória da igreja local
o Reino é expresso na sua forma misteriosa (cap. 13). O que caracteriza
os próximos e culminantes capítulos (14-18) são as várias retiradas do
Senhor Jesus. Repare em 13:53 e 16:4, quando o Senhor visita Tiro e
Sidom, deixando a nação sem outras palavras a não ser o sinal de aviso
do profeta Jonas.
O propósito e programa presente do Senhor, na edificação da Sua
Igreja, é subsequentemente revelado na primeira menção deste glorioso
assunto. O edifício perfeito e eterno, chamado “a igreja que é o Seu
corpo” (Ef 1:22-23), não será edificado sem o pagamento de um grande
preço. Assim, os discípulos são avisados, de maneira clara, que o Senhor
precisa sofrer antes de entrar na Sua glória. Uma previsão daquela glória intrínseca é dada a Pedro, Tiago e João no resplendor no Monte da
Transfiguração. Em seguida somos apresentados àquilo que acontecerá
durante a ausência do Rei, e o que manterá os Seus direitos no meio de
uma “geração incrédula e perversa” (17:17) — “onde estiverem dois ou
três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles” (18:20). Ali, o mandado do Céu sobre “ligar e desligar” é reconhecido e aceito. Isso é o que
será desenvolvido mais adiante nos contextos históricos e doutrinários
de Atos e das Epístolas.
Sua frequente menção no NT
Desde a sua primeira menção em Mateus 16, a palavra “igreja” (geralmente traduzida “assembleia” por J.N. Darby) aparece cerca de cento
e seis vezes no Novo Testamento. Destas, três ocasiões tem a ver com
Israel no deserto, como um povo chamado para fora e remido, ou em
relação aos ajuntamentos municipais sem qualquer conotação religiosa
(At 7:38; 19:39, 41). Sete vezes a palavra se refere à Igreja que o Senhor
mesmo edifica, e da qual todos os salvos de todos os tempos, desde Pentecostes até o Arrebatamento, são parte (Mt 16:18, Ef 1:22, 23; 3:10, 21;
Cl 1:18, 24). O assunto da “igreja que é o Seu corpo” já foi tratado em
maiores detalhes no primeiro capítulo deste livro.
As outras noventa e seis ocasiões onde a palavra “igreja” (ekklesia)
ocorre são diretamente relacionadas ao ajuntamento local dos santos,
que é chamado, entre outras coisas, “a igreja de Deus”. Significativamente esta expressão também ocorre sete vezes no Novo Testamento.
Assim, somos assegurados que ambos os aspectos da verdade sobre a
“Igreja” recebem um lugar notável na revelação Divina. Estas simples
estatísticas, junto com a revelação anterior do assunto feita pelo Senhor,
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
23
mostram que nenhum destes dois aspectos pode ser superestimado.
A autoridade sobre a qual ela é baseada
Vista no relato histórico
Muito cedo no relato histórico, o caráter oficial da congregação
neotestamentária de salvos se torna evidente. Embora houvesse um período de transição no início, Atos 2 mostra que logo no início os ajuntamentos dos salvos foram caracterizados por ordem e autoridade. No
Dia de Pentecostes o Espírito Santo foi dado, cumprindo-se a promessa
do Senhor Jesus, e os discípulos deixaram de ser meramente cristãos
individuais, e se transformaram corporativamente, como resultado do
“batismo no Espírito” em um corpo: “Pois todos nós fomos batizados
em um Espírito, formando um corpo” (I Co 12:13). Notamos o resultado da pregação de Pedro: “… foram batizados os que de bom grado receberam a sua [de Pedro] palavra, e naquele dia agregaram-se quase três
mil almas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos …” (At 2:41-42).
A palavra “agregaram-se” mostra que, embora a congregação em Jerusalém fosse embrionária, havia uma entidade, a igreja, à qual estes três mil
salvos foram acrescentados, e da qual se tornaram uma parte essencial.
No desenrolar dos primeiros capítulos de Atos, esta congregação veio a
ser chamada “a igreja”. Anos depois, Paulo relata “como sobremaneira
perseguia a igreja de Deus e a assolava” (Gl 1:13). A proximidade entre
as duas frases já citadas (“agregaram-se” e “perseveraram na doutrina
dos apóstolos”) indica a autoridade exercida em relação às adições ao
grupo. Esta autoridade é enfatizada de forma negativa, quando, depois
do incidente de Ananias e Safira, lemos que “houve um grande temor
em toda a igreja … dos outros, porém, ninguém ousava ajuntar-se a eles”
(At 5:11, 13). Naquele tempo, “a igreja que é o Seu corpo” e “a igreja em
Jerusalém” eram a mesma coisa, mas isto iria mudar quando outra igreja
local fosse formada. Vemos também a autoridade da igreja em Jerusalém, quando a tentativa de impor condições injustificadas por alguns
legalistas do seu meio foi interrompida pelo edital de liberdade quanto
à Lei, que foi reconhecido em Atos 15.
Reconhecida na explanação doutrinária
Enquanto o livro de Atos traça o estabelecimento e extensão do
trabalho de plantar tais igrejas locais desde Jerusalém até Roma, as
24
A glória da igreja local
Epístolas, especialmente as de Paulo, falam da fonte de onde esta autoridade procede. Logo se torna claro que a autoridade exercida pela
igreja local é, de fato, impressionante. Mas, mesmo antes de qualquer
Epístola ser escrita, as palavras do Senhor Jesus em Mateus 18 deixam
muito claro que a igreja local precisa agir com autoridade, e quando
assim faz, está obedecendo ao mandado celestial dado pelo próprio Senhor. A verdade comunicada aqui pelo Senhor é frequentemente mal
entendida. O contexto imediato é o de um irmão que transgride. Isso
nos ensina como irmãos devem resolver suas diferenças de uma maneira
que agrada o Senhor. Quando a teimosia caracteriza um ou outro, então
o problema escapa do controle e se transforma numa questão para disciplina da igreja, e a igreja local age com toda a autoridade do Céu. “Tudo
o que ela liga (retém como culpável) deve ser o que o céu retém; e tudo
que desliga (considera como perdoável) deve ser o que já foi solto no
céu”. Não se deve esperar que o Céu acrescente a sua sanção a qualquer
decisão da igreja, mas, agindo em completa harmonia com a Palavra de
Deus, a igreja local efetua a disciplina que o Céu exige. Em Mateus 16 o
mesmo princípio opera na pregação do Evangelho. É solene saber que o
pregador do Evangelho para alguns é “cheiro de vida”, mas para outros,
“cheiro de morte” (II Co 2:16).
A autoridade da igreja local ainda vai além até destes fatos já mencionados. Em I Coríntios 5, Paulo menciona seis pecados morais que
merecem a excomunhão da igreja local. Embora tratando diretamente
de um irmão que é descrito como fornicador, Paulo diz que qualquer
pessoa culpada de qualquer um destes seis pecados deve ser “tirado …
dentre vós” como um iníquo (5:13). Não há espaço aqui para dúvida;
isto significa a excomunhão da igreja local. Ao exigir que a igreja efetue
este triste dever, ele os lembra de que ao assim fazerem estão o “entregando a Satanás para a destruição da carne” (5:5). A igreja local é privilegiada por estar sob o poder protetor de Deus. Cada salvo, andando
em obediência à Palavra de Deus, tem esta garantia, mas fora do alcance
da comunhão da igreja local há uma vasta sociedade que está sujeita
somente a Satanás. Alguém que é afastado da comunhão dos santos,
por qualquer uma destas razões especificadas, é entregue àquela esfera
onde o inimigo das almas está extremamente ativo. A razão para esta
disciplina é “para a destruição da carne”. É para que as obras da carne
naquela pessoa sejam aniquiladas, e para que uma obra de restauração
seja iniciada. O erro doutrinário também está incluído nestas instru-
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
25
ções, e o apóstolo João fala disto em II João 10.
Esta autoridade da igreja local, considerada do ponto de vista histórico ou doutrinário, quando exercitada de uma maneira verdadeiramente Bíblica, precisa ser reconhecida como dada por Deus, e assim exige
tanto o respeito e a obediência de cada irmão e irmã, como também o
reconhecimento de todas as outras igrejas locais.
Os títulos pelos quais ela é chamada
O caráter da igreja local é expresso nos vários títulos usados para
descrevê-la, dos quais quatro são notáveis. Como já foi mencionado, o
título “igreja de Deus” é usado sete vezes, e sua primeira menção traz
um ensino muito importante. Paulo relembra os anciãos da igreja em
Éfeso: “… apascentardes a igreja de Deus, que Ele resgatou com seu
próprio sangue” (At 20:28). Aqui a expressão fala de uma possessão que
foi comprada por grande preço. Cada filho de Deus foi “resgatado …
com o precioso sangue de Cristo” (I Pe 1:18-19), mas o único corpo na
terra que pode ser descrito como comprado por Deus pela morte do Seu
Filho é a igreja local dos salvos. Portanto, não é de se admirar que haja
zelo divino em relação à igreja local (II Co 11:2).
Um segundo título usado em relação à igreja local é “igrejas de
Cristo” (Rm 16:16). Estas palavras são usadas somente uma vez, e não
são tão facilmente classificadas. Contudo, é interessante que quando
Paulo estava escrevendo da Acaia, onde havia várias igrejas locais, para
Roma, onde também aparentemente havia algumas igrejas locais (Rm
16:5, 14, 15), ele disse: “As igrejas de Cristo vos saúdam”. Talvez ele
tivesse em mente o amor fraternal dos salvos nas várias igrejas locais,
que é precioso e deve ser apreciado, apesar da sua independência. Todos
os membros de uma igreja local são “santificados em Cristo Jesus, chamados santos”. Esta posição de “separados” é compartilhada “com todos
os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo,
Senhor deles e nosso” (I Co 1:2). Quanto aos salvos que se reuniam em
Corinto, Paulo os exortou: “Não deis escândalo nem aos judeus, nem
aos gregos, nem à igreja de Deus” (I Co 10:32). Assim, uma igreja local
é um grupo separado por Deus e que tem uma existência distinta.
Achamos mais um título em I Coríntios 14:33: “as igrejas dos santos”. Num contexto que exorta-nos à clareza de raciocínio, compreensão e expressão, o apóstolo diz que “Deus não é Deus de confusão”,
como parecia haver na igreja em Corinto, antes, Ele é “Deus de paz,
26
A glória da igreja local
como em todas as igrejas dos santos”. Todos os salvos são chamados
santos, e devem se comportar de uma maneira que combine com o seu
chamado; assim, nas reuniões da igreja, a paz e a harmonia hão de reinar,
e isso deve ser desejado, almejado e cultivado. Alguém que destrói a paz
da igreja está convidando a disciplina de Deus, pois Ele não irá tolerar
aqueles que querem perturbar o Seu povo. Isso é verdade, especialmente
onde há santos orando consistentemente pelo bem estar da igreja local.
Finalmente, temos a frase “todas as igrejas dos gentios” (Rm 16:4).
Priscila e Áquila eram cooperadores muito estimados pelo apóstolo
Paulo. Eles aparecem pela primeira vez como exilados por causa da
perseguição dos judeus por Cláudio César, que obviamente incluiu os
judeus cristãos. Possivelmente estavam entre aqueles que com alegria
permitiram o roubo dos seus bens (Hb 10:34). Eles fugiram para Corinto onde, por razões práticas, Paulo morou com eles por um tempo.
Depois, viajaram com ele para a Síria e em seguida para Éfeso onde,
depois da partida de Paulo, puderam instruir Apolo nos caminhos do
Senhor (veja Atos 18). Paulo e “as igrejas dos gentios” davam graças a
Deus por este precioso casal, que “expuseram as suas cabeças” para salvar Paulo. Quando, onde e como isto aconteceu não é revelado, mas as
igrejas dos gentios, reconhecendo que foram feitos coparticipantes das
bênçãos espirituais com os judeus, não somente contribuíram para as
necessidades materiais dos irmãos em Jerusalém, mas também deram
graças pela integridade destes dois companheiros judaicos do apóstolo.
Sejam “igrejas dos gentios” ou “igrejas da Judeia”, elas compartilhavam
das mesmas bênçãos e liberalidades que sua posição em Cristo lhes proporcionava.
Há também cinco outras expressões que ligam igrejas locais com
suas localidades geográficas específicas. Estas não precisam de explicações, exceto para notar que não há base bíblica para adotar o nome “a
igreja de” qualquer localização geográfica. A igreja é “de” quanto à sua
origem celestial, mas “em” quanto à sua localidade.
As pessoas que a compõe
Crentes
A primeira necessidade, e a mais importante para alguém ser “acrescentado” a uma igreja local, é “a conversão a Deus, e a fé em nosso
Senhor Jesus Cristo” (At 20:21). Lucas relata o primeiro exemplo disso
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
27
em Atos 2:41-42. Havia alguns que “se introduziram furtivamente” ( Jd
4, VB), e alguns que “saíram de nós, mas não eram de nós” (I Jo 2:19),
mas estes eram exceções à regra, e casos lamentáveis. Estas referências
servem para demonstrar a exclusividade da posição de membro numa
igreja local, e a necessidade de cuidado quando alguém deseja ser recebido. Claramente, somente aqueles que reconhecem Jesus como Senhor, e com simplicidade confessam crer nEle para a salvação, podem
ser considerados idôneos para serem recebidos na comunhão da igreja
local. Apesar disto, na esfera de confissão cristã às vezes chamada “cristianismo”, o sistema todo está permeado de homens e mulheres que não
creem nos ensinos bíblicos relacionados a Cristo, e os negam veementemente. Para uma pessoa descrente querendo se ajuntar a um grupo de
salvos reunidos ao nome do Senhor Jesus, seja ele de classe alta ou baixa,
jovem ou ancião, parente de algum membro da igreja ou não, as palavras
de Pedro: “Tu não tens parte nem sorte nesta palavra” (At 8:21), precisam ser aplicadas, carinhosa mas firmemente.
Há outras coisas a serem consideradas quando alguém deseja ser
recebido. É bastante claro que há uma ordem nas palavras de Atos 2,
que não foi corrigida ou revogada em qualquer outra parte do Novo
Testamento. Os versículos simplesmente afirmam que aqueles que
ouviram a Palavra pregada, creram nela e então foram batizados. As
palavras dos vs. 41-42 imediatamente enfatizam duas coisas de forma
negativa. O batismo não é um meio através do qual uma pessoa se torna
cristão, nem algo que misteriosamente abre a porta para a comunhão.
O batismo é um passo básico de confissão para a pessoa salva, que reconhece nele uma figura da sua própria morte, sepultamento e ressurreição com Cristo. A morte do Senhor Jesus na cruz é considerada por
Deus como a morte do cristão. Na avaliação Divina, aqueles que antes
estavam relacionados a Adão e culpados de tudo associado com aquele
relacionamento, agora como salvos, estão “em Cristo”. Eles são vistos
como tendo morrido, sido sepultados e ressuscitados com Ele. Agora,
na prática e no poder desta ressurreição, eles andam em novidade de
vida. Este é o ensino de Romanos 6: “Ou não sabeis que todos quantos
fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De
sorte que fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte; para que,
como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim
andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados
juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na
28
A glória da igreja local
da sua ressurreição” (vs. 3-5).
O batismo não é um rito purificador, como Pedro deixa bem claro quando ele diz: “não do despojamento da imundícia da carne, mas
da indagação de uma boa consciência para com Deus” (I Pe 3:21). O
batismo, como uma instituição, foi ordenada pelo próprio Senhor (Mt
28:19); praticado pelas igrejas primitivas (At 8:38; 10:47-48), e seu significado é explicado nas cartas dos Apóstolos. Assim, os membros de
uma igreja local são pessoas que creram no Senhor Jesus para a salvação, e subsequentemente foram sepultados nas águas do batismo para
proclamar a todos a sua associação com o Senhor Jesus na Sua morte,
sepultamento e ressurreição.
Cristãos
Parece que os salvos na cidade de Antioquia receberam, logo no
início, o que alguns talvez considerassem ser um apelido. Entretanto, é
provável que Deus planejou isto, como sugerido por Atos 11:26: “Em
Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados [“de forma
oracular”, Newberry] cristãos”. Os salvos não recusaram este apelido,
mas antes o receberam com um profundo senso de responsabilidade,
como sendo “o bom nome que sobre vós foi invocado” (Tg 2:7). Ao levarem o nome de Cristo, havia uma expectativa comum a todos de que
se comportariam de uma maneira digna do nome de Cristo, para que
aqueles que os acusassem falsamente ficassem confundidos (I Pe 3:16).
Santos
Da mesma maneira, e com um efeito semelhante, eles eram também chamados “santos”. Este título foi divinamente dado e refletia a
sua posição como “separados”. A opinião comum de que este título,
“santos”, pertence a um pequeno grupo de pessoas piedosas que foram
selecionadas por uma organização eclesiástica e são, portanto, dignos de
serem chamados “santos”, não tem apoio nas Escrituras inspiradas por
Deus. Apesar do fato de ser apoiado nos ensinos e práticas de várias
organizações religiosas, é contra o ensino claro tanto do Velho como
do Novo Testamento. De acordo com a Palavra Divina, ninguém de
nenhuma época foi chamado “santo” por causa de virtude própria. A
“santidade” é uma posição conferida por Deus a cada indivíduo que está
“em Cristo”.
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
29
Fraternidade
Os títulos que já consideramos têm aplicação pessoal, mas há outro
título que Pedro usa na sua primeira epístola: “a fraternidade” (2:17),
que precisa ser entendido como corporativo. Alguns o consideram
como tendo uma conotação mundial, visto que pensam que a igreja
se refere a todos os cristãos no mundo, mas isto não tem apoio nas
Escrituras. Uma igreja local é composta de “crentes”; “cristãos”; “santos”; e daqueles que são parte da “fraternidade” que os une no vínculo
do amor fraternal e amizade. Somente aqueles que têm direito a estes
títulos, pela conversão a Deus, devem ser “acrescentados” à igreja local.
Devemos notar aqui que as palavras “quanto ao que está enfermo na
fé, recebei-o” (Rm 14:1), e “recebei-vos uns aos outros, como também
Cristo nos recebeu” (Rm 15:7), não estão, de forma alguma, ligados com
o assunto de recepção à igreja local, mesmo embora, às vezes, sejam
citadas com recepção em mente. Esta parte da Epístola, entre estes dois
versículos, trata do assunto de comer ou não comer carne, fazer ou não
fazer caso de dias, e do impacto destas práticas nos outros cristãos já em
comunhão nas igrejas locais em Roma.
Os princípios que ela defende
Sem dúvida, a afirmação mais notável sobre a igreja local se encontra em I Timóteo 3:14-16. Por causa das tremendas consequências destas palavras de Paulo, elas frequentemente são aplicadas à “igreja que é o
Seu corpo”. Entretanto, o contexto não permite esta interpretação. Em
primeiro lugar, no cap. 2 temos como pano de fundo as orações públicas
da igreja local, e a participação dos irmãos nos ajuntamentos públicos.
Em seguida vem o ensino sobre as qualificações necessárias para todos
que lideram e todos que servem na igreja local.
O motivo em escrever a Epístola é explicado nos últimos versículos
do cap. 3. “Escrevo-te estas coisas … para que saibais como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da
verdade” (3:14-15). Que um grupo local de cristãos podia reivindicar ser
a “casa de Deus, a igreja do Deus vivo, e coluna e firmeza da verdade”,
parece ir além dos limites do bom senso, mas as palavras de Paulo não
permitem outra explicação.
Quais são os princípios defendidos pela igreja local? Estes estão
inseparavelmente ligados com o grande conjunto de verdades a respeito
30
A glória da igreja local
do nosso Senhor Jesus Cristo. Em 3:16 o apóstolo explica o que é: “E,
sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou
em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória”. O inexplicável grande
mistério da piedade é a encarnação: “Deus se manifestou em carne”; “foi
justificado no Espírito” (isso é interpretado como se referindo ao Seu
próprio espírito ou ao Espírito Santo); “visto dos anjos” (em cada passo
da Sua humanidade); “pregado aos gentios” (como vemos no relato de
Atos); “crido no mundo” (a igreja local em Éfeso era prova disto); e
quarenta dias depois da Sua ressurreição, Ele foi triunfantemente “recebido acima na glória”. A responsabilidade de cada igreja local é manter
e proclamar este grande conjunto de verdades.
As cinco responsabilidades que Paulo coloca sobre Timóteo tem
como propósito dar peso aos princípios que a igreja local defende. Estão de acordo com o conjunto de verdades já traçado. Nenhuma outra
doutrina deveria ser tolerada (1:3); Timóteo deveria militar a “… boa
milícia, conservando a fé, e a boa consciência” (1:18-19). Todas as coisas
ensinadas por Paulo deveriam ser solenemente observadas sem parcialidade, e “diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos”
(5:21). Além disso, Timóteo é convocado a guardar “este mandamento
sem mácula e repreensão até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo”
(6:14), e também advertir os ricos em comunhão na igreja a não confiarem na sua riqueza, mas fazerem o bem, e por assim fazerem entesourarem “para si mesmos um bom fundamento para o futuro” (6:17-19). Os
princípios que a igreja local guarda e proclama exigem de cada irmão e
irmã um padrão de comportamento caracterizado por “justiça, piedade,
fé, amor, paciência e mansidão” (6:11). Assim, todos que têm o privilégio de estar em comunhão numa igreja local têm também a incumbência de demonstrar estes princípios por meio de um andar santo na sua
vida prática.
A ordem que a caracteriza
Se há uma coisa acima das outras que caracteriza uma igreja de
Deus, isto deve ser a sua ordem, ou harmonia. Este conceito, em relação à igreja local, ocupa um lugar proeminente nos escritos de Paulo.
Em relação aos abusos no Partir do Pão em Corinto, ele diz: “Quanto
às demais coisas, ordená-las-ei quando for” (I Co 11:34). No contexto
do exercício dos dons na igreja ele afirma: “Faça-se tudo decentemente
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
31
e com ordem” (I Co 14:40). Para Tito, em relação à responsabilidade
que ele lhe deu no reconhecimento dos anciãos, ele escreve: “Por esta
causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que
ainda restam” (Tt 1:5). Esta ordem na igreja local do Novo Testamento
vem por meio da simples obediência de cada irmão e irmã à Palavra
de Deus. Outra referência às palavras de Atos 2:41-42 confirmam este
fato. Aqueles que receberam a Palavra e foram batizados, foram também acrescentados à igreja e, com isso, tiveram responsabilidades para
exercer e também privilégios para gozar. A primeira responsabilidade
foi “perseverar na doutrina [ensino] dos apóstolos”, que é absolutamente necessário. O privilégio que vem disso é uma plena participação na
comunhão, que significa uma completa participação nas coisas de Deus
com todos os outros irmãos. Nos capítulos que tratam dos dons espirituais na igreja local, a ilustração empregada geralmente é a de um
corpo físico. A igreja local é como o corpo humano, e os receptores
dos dons do Espírito Santo são como os diferentes membros do corpo. Todos têm seu lugar apropriado, e nenhum pode ser desprezado ou
negligenciado sem trazer prejuízo para o corpo. “Deus assim formou o
corpo [físico]” e “assim é Cristo também” (I Co 12:24, 12). Esta última
afirmação, embora tendo um significado mais amplo, pode ser aplicada
à igreja local.
Os anciãos muitas vezes são confrontados com situações em relação
a pessoas que desejam participar com os santos na reunião do Partir do
Pão. Os argumentos geralmente usados são: “Esta é a mesa do Senhor
e eu pertenço ao Senhor; portanto eu tenho o direito de participar”. Interpretar a frase “a mesa do Senhor” (I Co 10:21) como sendo o pão e o
vinho na Ceia do Senhor é muito duvidoso. Quanto à igreja local, cada
um tem responsabilidades e privilégios, mas não temos nenhum “direito”. Nosso lugar entre os santos é somente por causa da graça abundante de Deus. Os privilégios concedidos somente podem ser gozados na
medida em que obedecemos à Palavra de Deus. Nosso único guia são os
ensinos claros das Escrituras. O que a Palavra de Deus diz é o que ela
significa, e a nossa parte é submeter-nos a ela em obediência.
A verdade desta afirmação pode ser apreciada quando lembramos
que desde os dias de Adão e Eva até hoje, o mundo tem sido caracterizado pela desobediência a Deus e uma completa indiferença à Sua
vontade. Num ambiente tão rebelde, tudo o que resulta desta rebeldia é
revertido na igreja local de cristãos, onde o joelho é dobrado em pronta
32
A glória da igreja local
obediência e se confessa que “Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de
Deus Pai” (Fp 2:11). Estas características são demonstradas de forma
simbólica pelas funções diferentes aceitas pelos irmãos e irmãs nas atividades da igreja. Os irmãos participam audivelmente no ensino e nas
orações, enquanto o silêncio das irmãs, juntamente com suas cabeças
cobertas e cabelos compridos, fornecem às hostes de anjos que observam uma ilustração viva da graça salvadora de Deus operando nas vidas
do Seu povo. Quando lembramos que a desobediência no jardim do
Éden é o pano de fundo de toda a destruição e desordem causadas por
homens pecadores, a obediência jubilosa vista numa igreja local é um
verdadeiro hino de louvor ao Deus da nossa salvação.
O propósito para o qual ela existe
As figuras da igreja local, e também da Igreja que é Seu corpo, são
muitas. As figuras da Igreja que é Seu corpo já foram tratadas no primeiro capítulo deste livro. As sete ilustrações consideradas agora tem
a ver com a igreja local, e indicarão o propósito para o qual ela existe.
Nenhuma delas é sem importância.
Uma casa — I Tm 3:15
O desejo de Deus de ter uma morada com o homem é demonstrado
pelo decreto Divino a respeito da Sua criação: “Façamos o homem à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26), e nas atividades que seguiram. Deus tinha plantado o jardim do Éden, colocado
Adão e Eva ali, e lemos que Ele andava no jardim e conversava com o
homem (Gn 3:8). Numa ocasião posterior, está escrito que “andou Enoque com Deus” (Gn 5:22), e concluímos que Deus andava com Enoque.
A primeira das muitas referências diretas à casa de Deus é encontrada
em Gênesis 28 onde, no v. 17, Jacó dá ao lugar o nome “Betel”, porque
era, ele disse, “a casa de Deus”, embora que ele não o soubesse antes.
Para ele era um “lugar terrível, e a porta dos céus”, mas mais tarde ele é
ordenado a subir a Betel, e habitar ali (Gn 35:1). Por conseguinte, as experiências de Jacó com o seu Deus o fazem mudar o nome do lugar para
“El-Betel”, que significa “Deus da Sua própria casa”. Que sentimento
de admiração e reverência envolveu Jacó, como resultado da revelação
sobre a morada de Deus!
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
33
Um templo — I Co 3:16
Como em muitos outros casos, a igreja local é vista aqui com as
características que, na sua perfeição, também são atributos da “igreja
que é Seu corpo”. Na epístola aos Efésios Paulo afirma: “no qual todo o
edifício, bem ajustado, cresce para templo do Espírito Santo no Senhor”
(2:21). É pelo fato do Espírito Santo habitar nos santos que formam o
edifício que ele é chamado um “templo” de Deus, que significa o santuário interior, o santo dos santos. Tal é o caráter santo da igreja local como
“templo de Deus” que qualquer um, crente ou incrédulo, que a destrói
ou corrompe é exposto ao julgamento do Deus que habita ali. Esta santidade é ainda enfatizada pelas seguintes palavras: “porque o templo de
Deus, que sois vós, é santo” (I Co 3:17).
Um corpo — I Co 12:27
O contexto desta figura é o dos dons espirituais e seu uso na igreja
local. Uma lista de oito dons dados por Deus aos homens é dada no
v. 28. Todos estes dons são de uma natureza milagrosa e temporária,
mesmo que, à primeira vista, pode não parecer ser assim. São chamados “espirituais”. Entre eles estava o dom milagroso de “doutores” (ensinadores) que funcionava naquele tempo. No primeiro século, estas
manifestações eram evidências do poder e presença do Espírito Santo
entre o povo de Deus, quando reunidos. Os dons eram variados e dados
a vários indivíduos. Como notamos antes, Paulo usa o corpo humano
para ilustrar a variedade dos dons dados. Em resumir esta aplicação, ele
destaca o fato que “assim como o corpo é um, e tem muitos membros,
e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo” (I
Co 12:12). A distribuição dos dons na sua diversidade era feita pelo Espírito Santo. O ministério ao qual eram aplicados estava sob o controle
do Senhor Jesus, e os resultados visíveis dos dons eram efetuados por
Deus (I Co 12:4-6). Nem a diversidade dos dons, nem o controle que
os governava, nem os resultados do seu uso, fossem muitos ou poucos,
em qualquer maneira interferiram com a unidade da igreja local como
“corpo de Cristo”. Unidade em diversidade e harmonia em variedade
são os princípios enfatizados pelo uso do termo “corpo”. Nenhum dom
é indispensável ou sem valor. A igreja local é “corpo de Cristo” porque
cada cristão é membro em particular do Corpo como visto na carta
aos Efésios. Assim, cuidado, honra e respeito devem ser exercitados em
todas as circunstâncias.
34
A glória da igreja local
Uma lavoura — I Co 3:9
Há vários processos empregados num campo cultivado antes que
ele possa produzir uma colheita. Há a preparação da terra, a semeadura,
o cuidado das plantas ao crescerem, e finalmente a colheita. Mas, acima
de tudo, as bênçãos do Céu precisam acompanhar o serviço de todos
que trabalham na terra. Sem o calor do Sol e a chuva não haverá colheita. Mesmo sendo diligentes e cuidadosos, os olhos dos trabalhadores
estarão muitas vezes voltados para o Céu, porque eles sabem que “nem
o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus que dá o crescimento” (I Co 3:7). É exatamente assim na esfera espiritual. Em relação
à igreja em Corinto, foi Paulo quem primeiramente plantou ao semear
a semente da boa Palavra de Deus. Apolo, poderoso nas Escrituras, ao
convencer os homens que Jesus é de fato o Cristo regou o trabalho com
seu apoio fiel. Estes homens eram “cooperadores de Deus” e ministros
da Palavra de Deus. Mas o crescimento era todo de Deus. Na seara
não deve haver rivalidade entre os servos de Deus, como se fosse uma
competição. Eles são comissionados para trabalhar juntos no campo do
Boaz celestial, como ilustrado em Rute 2. Por enquanto, esperam ansiosos por aquele dia quando “cada um receberá o seu galardão segundo
o seu trabalho” (I Co 3:8). Que graça infinita! Deus chama, comissiona
e dá o crescimento aos Seus servos, e ainda promete uma recompensa
abundante no Dia vindouro, quando Ele examinará o serviço de cada
um.
Um edifício — I Co 3:9
Se a “lavoura” nos lembra que o servo é incapaz de produzir fruto
pelo seu próprio esforço, a igreja local como “um edifício” nos faz pensar no seu projeto e construção. Geralmente, aqueles que lançaram o
alicerce e os que estão envolvidos na construção de um edifício estão
seguindo a planta de outra pessoa. O arquiteto tem a palavra final sobre
“como” e “o que” será feito no prédio que ele projetou. Uma igreja que
é estabelecida de acordo com o padrão das Escrituras tem um fundamento lançado por arquitetos sábios, segundo a graça dada por Deus. O
fundamento só pode ser o ensino sadio sobre nosso Senhor Jesus Cristo.
O tempo necessário pode ser pouco ou muito e o que vem depois do
fundamento pode continuar durante várias gerações, na permissão do
Senhor. Contudo, depois do fundamento ser lançado, homens diferentes, com uma variedade de dons diferentes, estarão construindo sobre
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
35
aquele fundamento. Paulo avisa: “Mas veja cada um como edifica sobre
ele” (3:10). O apóstolo está preocupado com os materiais usados nesta
construção. Chegará o dia quando o “fogo provará … a obra de cada um”
(v. 13). O que foi feito, não para a exaltação própria, mas para a exaltação de Cristo como Senhor no meio dos santos, será como “ouro, prata,
pedras preciosas”, e resistirá à prova do fogo. Mas, se há neste trabalho
de construção autoindulgência ou autoafirmação, será queimado como
“madeira, feno, palha”, sem deixar vestígios. O servo fiel e abnegado de
Cristo receberá o galardão, mas onde o oposto prevalece, o servo sofrerá
perda, embora ele mesmo será salvo. Palavras solenes são acrescentadas,
que poderíamos parafrasear da seguinte maneira: “como se ele tivesse
passado por um fogo e perdido tudo”. O contraste abençoado é visto nas
palavras de Pedro em II Pedro 1:11, onde para o servo fiel será “amplamente concedido a entrada no reino do nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo”. Pensar que compartilharemos com nosso Senhor Jesus Cristo
naquele dia da Sua glória revelada, como resultado de certa fidelidade
ao Seu nome aqui e agora, é um tremendo incentivo.
Uma virgem pura — II Co 11:2
De todas as metáforas usadas nas Escrituras para ilustrar a igreja
local esta, uma virgem pura, é sem dúvida a que expressa mais ternura.
Todas as outras falam de coisas práticas e importantes sobre a igreja
local, mas esta vai direto ao coração do assunto. Em II Coríntios 11
Paulo se vê como o mediador em apresentar a igreja em Corinto como
a noiva pura ao seu único marido, o Senhor Jesus, que pode reivindicar
a sua incondicional e irrestrita afeição e amor. É com zelo santo que ele
contempla a penetração de homens arrogantes, que ele descreve como
“falsos apóstolos”, que podem influenciar os santos da igreja e assim
roubar do Senhor Jesus aquilo que é Seu por direito. O noivado ocorreu
quando o Evangelho foi anunciado a eles, e quando eles aceitaram as
suas condições ao se sujeitarem ao Senhorio de Cristo. A incumbência
desta aceitação era “a simplicidade que há em Cristo”, ou “a singeleza de
coração para com Cristo” (v. 3). O apóstolo fala aqui do caráter, como
noiva, da igreja local. Nos casamentos judaicos, uma das responsabilidades do “amigo do noivo” era garantir a castidade da noiva. Embora
a igreja local não possa ser chamada de “noiva de Cristo”, a pureza da
noiva, em relação ao Senhor, é o que é procurado pelos servos do Senhor
na vida daqueles a quem eles ministram a Sua Palavra. Havia alguns na
36
A glória da igreja local
cidade depravada de Corinto que queriam corromper as mentes dos salvos, desviando-os da simplicidade em Cristo, da mesma forma como a
astuta serpente enganou Eva no jardim do Éden. Tal era a preocupação
de Paulo com estes homens que ele emprega o que ele mesmo considera
“insensatez”, ao parecer exaltar a sua pessoa falando do seu serviço, seus
resultados, e as revelações dadas a ele. Em dias que são tão sedutores
como aqueles em Corinto no primeiro século, precisamos sempre lembrar da aplicação prática deste ensino. Duas coisas são inerentes no seu
uso: o zelo de Paulo em manter a porção do Senhor entre o Seu povo, e
a necessidade do Seu povo de ser totalmente dedicado à Pessoa do seu
Senhor.
Um castiçal — Ap 2 e 3
A palavra traduzida “castiçal” em português seria melhor traduzida
“candeeiro de ouro”. Um castiçal (um suporte para uma vela) depende
da sua própria fonte de energia para iluminar, mas um candeeiro depende de uma fonte externa (óleo, querosene, etc.) para brilhar. A razão
da existência da igreja local neste aspecto é transmitida pelo uso desta
metáfora. Ela deve ser uma luz brilhando num lugar escuro. O Senhor
Jesus ensinou que, para iluminar, uma candeia nunca deve ser colocada
debaixo de uma cama, ou em qualquer outro lugar obscuro, mas sobre
um monte (Mt 5:14-15). Assim Paulo escreveu à igreja local na cidade
de Filipos: “filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Fp
2:15, ARA). Esta exortação para que fossem como luzeiros tem como
pano de fundo o comovente apelo para que fossem unidos. Com a mente de Cristo, e sem murmuração e contendas, eles seriam vistos como
luzes brilhando claramente numa sociedade escura. Também, é notável
que nos planos de Deus, Israel deveria ser uma “luz dos povos” (Is 51:4),
mas cessou de ser esta luz, e por causa desta infidelidade foi deixada de
lado por Deus. A profunda divisão que aconteceu nos dias de Roboão
acelerou este processo.
Seguindo esta analogia, a igreja local em Éfeso foi advertida de que
se não voltasse ao zelo do seu primeiro amor, o seu “candeeiro” seria
removido (Ap 2:5). Nenhuma igreja local pode continuar por muito
tempo se perder o seu amor por Cristo, porque o testemunho se torna
uma mera formalidade. Estar sob o olhar penetrante e judicial do Senhor, enquanto Ele anda no meio das igrejas, não deve ser considerado
Cap. 2 — A igreja local e sua organização
37
algo insignificante. A natureza da igreja local é tal que a declaração
original feita pelo Senhor Jesus sobre ela — “onde estiverem dois ou
três reunidos em Meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20) —
tem permitido que a obediência de incontáveis milhares reflita a antiga
afirmação: “e a ele se congregarão os povos” (Gn 49:10).
Cap. 3 — A igreja local e a sua edificação
Por Tom Wilson, Escócia
O mais comum dos verbos hebraicos que significa “edificar” é usado
nas primeiras páginas da Bíblia, onde lemos de um trabalho que foi
realizado antes de qualquer homem trabalhar em qualquer construção
(Gn 2:22; “formou” na AT). O Construtor era o próprio Senhor Deus,
e Ele trouxe ao homem o que tinha formado (ou edificado). Não era
uma construção material onde Adão poderia se abrigar, pois parece que
não havia necessidade de qualquer abrigo no Éden, mas era a mulher
que o Senhor Deus tinha formado. Ele trouxe a mulher a Adão, que a
chamou “mulher, porquanto do homem foi tomada” (Gn 2:23). A Bíblia termina com cenas que revelam “a cidade que tem fundamentos,
da qual o artífice e construtor é Deus” (Hb 11:10), assim confirmando
que o Construtor que deixou Adão dar nomes à Sua obra, ainda está
envolvido em construir.
No Velho Testamento também achamos muitas coisas que foram
edificadas por homens: a torre nas planícies de Sinar (Gn 11:2-5); as
cidades-armazéns de Faraó, chamadas Pitom e Ramessés (Êx 1:11); o
Tabernáculo e seus móveis (Êx 25-40); o primeiro templo em Jerusalém
e seus móveis (I Reis 5-8, II Cr 2-7); as outras casas que Salomão construiu (I Rs 7:1-12); o segundo templo em Jerusalém (Ed 2-6); e outros
edifícios incluindo, por exemplo, a “grande Babilônia” construída por
Nabucodonosor (Dn 4:30). Sabemos como os discípulos ficaram admirados com o Templo, que tinha sido ampliado e embelezado por Herodes, o Grande (Mt 24:1-2; Mc 13:1; Lc 21:5). O Templo era famoso
pela sua arquitetura magnifica de pedras brancas e fachada de ouro.
O Novo Testamento também está repleto de referências a construções. O Sermão da Montanha (Mt 5-7) termina com o próprio Senhor
Jesus usando a figura de uma construção para destacar a importância de
ouvir e obedecer os Seus ensinos. Ele estava usando figuras para mostrar que Seus ensinos forneciam a única rocha sobre a qual uma vida
pode ser edificada; todos os outros fundamentos eram como a areia, e
não resistiriam à chuva, enchentes e ventos que certamente viriam (Mt
7:24-27). Ele usou a mesma figura para descrever uma obra que Ele
mesmo iria fazer; aliás, uma obra que somente Ele poderia fazer — a
Cap. 3 — A igreja local e sua edificação
39
obra de edificar a Sua Igreja (Mt 16:13-18). O Senhor reconheceu que
outros também estavam construindo, outros que não tinham lugar para
Ele ou para o Seu ensino naquilo que pretendiam estabelecer. Ele expôs
tais planos clandestinos quando declarou: “A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do angulo” (Mt 21:42). Ele
não teria parte naquilo que aqueles edificadores (que Pedro claramente
identificou como as autoridades, os anciãos e escribas de Israel, At 4:5,
11) estavam edificando. Eles não sabiam que a sua construção não teria
futuro, e que em quarenta anos tudo que estavam edificando seria como
o Templo em que se gloriavam — não ficaria pedra sobre pedra que
não seria derrubada (Mt 24:2). Mas o que Ele edificaria seria para a
eternidade, e assim haveria “glória na igreja por Cristo Jesus, em todas
as gerações, para todo o sempre” (Ef 3:21).
O vocabulário relacionado com edificação é frequentemente usado
no Novo Testamento. A metáfora de edificação ocorre em Atos, Romanos, I e II Coríntios, Gálatas, Efésios, Colossenses, I Tessalonicenses,
I Timóteo, Hebreus, I Pedro e Judas. A palavra “edificar” (oikodomeo),
que ocorre com tanta frequência nas cartas de Paulo, é a mesma palavra
grega traduzida em outros lugares do Novo Testamento “construir”. Ele
a usa no sentido de fortalecer a constituição cristã com boa alimentação
espiritual, da mesma maneira que uma alimentação balanceada saudável
fortifica a constituição física (Rm 14:19; 15:2, 20, etc.). Contudo, este
desenvolvimento espiritual pessoal não é o foco da figura de construção
em passagens como Mateus 16:13-18; I Coríntios 3:9-15; Efésios 2:1922; Hebreus 3:1-6; I Pedro 2:4-9. Em quatro destas cinco referências
o contexto não está relacionado com a edificação pessoal, mas com a
edificação da “minha igreja” (Mt 16:18); “um santuário … morada de
Deus” (Ef 2:21-22); “Sua [de Deus] casa” (Hb 3:6); “uma casa espiritual” (I Pe 2:5). Nestas quatro passagens, indivíduos são vistos como as
pedras pelas quais estes edifícios espirituais são construídos. A exceção
na lista de metáforas mencionadas é I Coríntios cap. 3, que não é sobre
o indivíduo sendo edificado na sua santíssima fé, nem sobre ele sendo
uma pedra viva num edifício. Neste tempo presente, e até a vinda do
Senhor para arrebatar Seus santos, como observaremos, pode haver glória a Deus numa igreja local reunida ao nome do Senhor Jesus Cristo,
quando os salvos edificam aquela igreja usando ouro, prata e pedras preciosas. Como já notamos, na Igreja que o Senhor Jesus está edificando,
haverá glória a Deus eternamente, como Efésios 3:21 confirma.
40
A glória da igreja local
Edificação é a terceira metáfora que Paulo usa em I Coríntios 3. A
primeira metáfora foi sobre alimentar bebês num berçário (vs. 1-5); a
segunda é sobre plantar e regar no campo (vs. 6-9a); a terceira é sobre
edificar. O apóstolo deixa bem claro que ele está descrevendo o seu
ministério, e o de outros, metaforicamente, pois ele descreve as crianças
sendo alimentadas como “meninos em Cristo”; o campo é a “lavoura de
Deus” (v. 9); e a construção é o “edifício de Deus” (vs. 9b-15). O propósito destas metáforas é imediatamente evidente: não é para engrandecer
os servos, como o apóstolo deixa muito claro no cap. 4, mas para enfatizar que todos que têm o privilégio de ser crianças na família de Deus, ou
plantas na Sua lavoura, ou edificadores na Sua casa, são responsáveis ao
próprio Deus. Precisamos frequentemente ser lembrados de que a igreja
local numa comunidade é a igreja de Deus (1:2)! Mais tarde Paulo descreverá outro ajuntamento local como “casa de Deus, que é a igreja do
Deus vivo, a coluna e baluarte da verdade” (I Tm 3:15). Que privilégio
santo é estar associado com uma igreja de Deus! Quão impressionante
esta responsabilidade! Quão solene considerar que a igreja local pertence ao próprio Deus!
I Coríntios 3 é, obviamente, sobre edificar no contexto de uma
igreja local; se bem que fortalecer a igreja local traria também bênçãos
àqueles na sua comunhão, pois seriam fortalecidos como indivíduos.
Nos caps. 12-14, e especialmente no cap. 14, onde a palavra “edificar” ou
seus sinônimos ocorre sete vezes, o apóstolo mostrará como a edificação
da igreja local (vs. 4, 12) edifica o indivíduo cujo entendimento não é
infrutífero. Aqui, a ênfase do Espírito Santo não é o cristão individual,
mas o fundamento e os materiais usados pelo construtor.
Devemos novamente enfatizar que os materiais usados na edificação da qual Paulo fala não são santos individuais, que “não são estrangeiros, nem forasteiros” (Ef 2:19), e que conservam “firme a confiança
e a glória da esperança até ao fim” (Hb 3:6). O apóstolo não se refere
a pedras, que são aqueles que já provaram “que o Senhor é benigno” (I
Pe 2:3) e que tem “fé igualmente preciosa” (II Pe 1:1). Em I Coríntios
3:12 os materiais de construção (“ouro, prata, pedras preciosas, madeira,
feno e palha”) não tem o mesmo valor; seria inapropriado falar destas
coisas como sendo “igualmente preciosas”. De fato, “o fogo” provará que
alguns destes materiais são sem valor perante Deus. Quando ouro, prata
e pedras preciosas são edificados naquela estrutura espiritual, isto claramente redundará em glória para Deus.
Cap. 3 — A igreja local e sua edificação
41
I Coríntios — Direção permanente
I Coríntios é uma carta importante por várias razões. Um fato interessante é que Paulo, embora tratando de assuntos que tinham surgido na igreja em Corinto, propositadamente não tinha ido a Corinto,
e comunicou com eles por meio desta carta inspirada. Assim o ensino,
escrito desta forma permanente, estaria fornecendo às igrejas locais os
recursos que precisariam, quando apóstolos como Paulo não estivessem
mais com eles. Os apóstolos foram dons fundamentais dados somente no primeiro século (Ef 2:20). Nunca foi a intenção do Cabeça ressurrecto fornecer outro grupo de apóstolos em qualquer outro período
posterior. Os apóstolos completaram o seu trabalho e nos deixaram
cartas inspiradas para nos guiar depois da sua partida. Entre os salvos
em Corinto, nem todos tinham a maturidade espiritual para reconhecer
que Paulo não estava se ausentando deles por motivos egoístas carnais.
Não poderia se esperar que eles reconhecessem que a ausência de Paulo
legaria à gerações de cristãos mais uma carta inspirada de importância
duradoura. No entanto, era de se esperar que tivessem mais confiança
em Paulo do que estavam evidenciando. Ele não tinha perdido interesse
neles, nem estava tão ocupado com outros que se esquecera deles. Sua
ausência estava testando a prontidão da igreja de manter condições nas
quais Deus seria glorificado entre eles. Foi esta sua ausência que supriu
o que, mais tarde, provou ser direção escrita permanente, tanto para a
igreja em Corinto como para outras que posteriormente procurariam
servir o mesmo Senhor. Além disso, sua ausência lhes deu a oportunidade de tratar das influências corruptíveis que foram permitidas a se
manifestar na igreja local.
O plano de Paulo era visitá-los logo depois de escrever I Coríntios,
apesar das acusações contra ele (I Co 4:18-19). Ele sabia que uma visita
imediata exigiria o uso da vara apostólica: ele seria obrigado a julgar
o pecado que eles não tinham julgado, e que estava agindo entre eles
como o fermento na massa (I Co 5:6-7). Cerca de 1.550 anos antes de
Paulo escrever esta carta, Moisés também chegou num ponto quando
ele não podia entrar no arraial de Israel. Ele estava carregando as tábuas
da Lei que, se apresentadas naquela hora, teriam significado morte para
muitos deles. Interpretando mal as razões da sua ausência, Israel comentou: “quanto a este Moisés … não sabemos o que lhe sucedeu” (Êx
32:1, 19). Talvez alguns dos coríntios estivessem dizendo o mesmo de
42
A glória da igreja local
Paulo. Entretanto, havia entre eles aqueles que não tinham este pensamento, especialmente os da casa de Cloé, que valorizavam o apóstolo,
presente ou ausente. Falando humanamente, foi o contato deles com
Paulo que motivou esta carta, pois tinham comunicado com Paulo sobre
alguns dos problemas que afligiam a igreja local (I Co 1:11).
O apóstolo afirmou, enfaticamente, que esta carta não seria importante somente para Corinto. Nas suas saudações iniciais, Paulo liga a
igreja em Corinto com “todos os que em todo lugar invocam o nome
de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1:2). O mesmo
Senhor era reconhecido por outros naquele dia, como o é também em
nossos dias. O mesmo Deus era, e ainda é, fiel àqueles que foram “chamados para a comunhão de Seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1:9).
Em fidelidade àqueles que invocaram o nome de Jesus Cristo nosso
Senhor, antes que o Novo Testamento estivesse completo, o Cabeça
exaltado deu apóstolos por meio de quem a verdade de Deus podia
ser revelada. Paulo lembrou Timóteo que ele (Timóteo) sabia de quem
tinha aprendido as coisas que o capacitariam a ficar firme perante “homens maus e enganadores” (II Tm 3:13). Timóteo as tinha ouvido de
um apóstolo, portanto tinha a certeza da veracidade de tudo que ele
ouviu. O apóstolo João iria escrever, mais tarde, que o sinal da vida divina é dar ouvidos aos apóstolos. Ele insistiu que crentes genuínos não
duvidavam, e não duvidam do ensino dos apóstolos: nós os apóstolos
“somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é
de Deus não nos ouve” (I Jo 4:6). Hoje, os verdadeiros salvos não duvidam que I Coríntios é Escritura; eles sabem que esta carta aos coríntios
é tão inspirada por Deus quanto, por exemplo, o evangelho de João ou
a epístola aos Hebreus. Eles conhecem e respeitam as Escrituras como
completas (Cl 1:25); inerentemente exatas, sendo inspiradas por Deus
(II Tm 3:16), e com autoridade que não se pode questionar. Paulo dirá
aos coríntios que a autoridade da sua carta não era menor do que as
outras Escrituras: “… as coisas que vos escrevo são mandamentos do
Senhor” (I Co 14:37). Seja em relação ao viver santo ou às responsabilidades cristãs, ou à ordem da igreja, os mandamentos do Senhor não
são tradições passadas de geração a geração, mas são as Escrituras. Concluímos que toda a direção permanente que um filho de Deus precisa
quanto à igreja local está contida no Novo Testamento. O ensino da
epístola é para “todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso
Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (I Co 1:2). É direção permanente
Cap. 3 — A igreja local e sua edificação
43
para o período até a vinda do Senhor. Que glória uma igreja local pode
trazer a Deus quando o único fundamento que já está posto é respeitado
(I Co 3:11).
I Coríntios — Direção permanente sobre edificar
A orientação permanente dada em I Coríntios sobre como edificar
na igreja local pertence à parte maior que trata de várias contendas que
tinham sido relatadas a Paulo pela família piedosa de Cloé. Esta parte
vai de 1:10 a 4:21. Paulo corajosamente começa mencionando o que
ele tinha ouvido: “há contendas entre vós” (1:11). Ele acreditou no que
tinha ouvido pois não era caso de calúnia, como o que lemos em Romanos 3:8. Diferentemente das igrejas em Tessalônica e Filipos, a carnalidade era bem evidente em Corinto, e por isso havia contendas. Paulo
identifica algumas características que não eram produzidas pelo Espírito: partidarismo usando nomes como o de Apolo, Cefas e Paulo, e até
um grupo afirmando partidariamente ter uma associação especial com
o próprio Cristo (1:12-16). Ele continua mostrando que a sua exaltação
da sabedoria mundana e carnal, que tinham antes da sua conversão,
estava fazendo-os desprezar o apóstolo e seus ensinos (1:17-2:16). Seu
orgulho em si mesmos e na sua capacidade os enaltecia, enquanto evitavam a vergonha da cruz (4:1-21). De fato, talvez pensassem que, por
causa dos seus muitos dons espirituais, a igreja de Deus em Corinto
era um modelo para outras igrejas. O cap. 3 certamente não ensina que
eram um grupo especial de santos cuja espiritualidade era reconhecida
desde “Jerusalém até ao Ilírico” (Rm 15:19), ou admirada “em todas as
igrejas dos santos”(I Co 14:33). A Bíblia não justifica a carnalidade,
nem limita os mandamentos do Senhor aos espirituais. Lamentavelmente, numa igreja local reunida ao nome do Senhor Jesus, pode haver
irmãos carnais e também irmãos espirituais. A orientação permanente
sobre edificar dada em I Coríntios 3 deve ser observada por cada membro em comunhão numa igreja local. O primeiro versículo mostra que
Paulo fala também aos carnais: “E eu, irmãos, não vos pude falar como a
espirituais, mas como a carnais” (3:1). Cada irmão e irmã precisa aprender como edificar. Paulo, na direção do Espírito de Deus, vai considerar
como cada um deve edificar, e o que deve edificar: “como edifica” (v. 10);
“qual seja a obra [o material] de cada um” (vs. 12-15).
Devemos enfatizar novamente, aqui, que o contexto é a edificação
espiritual da igreja local. Entende-se que cada salvo estará em comu-
44
A glória da igreja local
nhão numa igreja local, reunida em nome do Senhor Jesus, Senhor tanto dos coríntios como nosso, que somos de Cristo. Que glória havia no
primeiro século quando cada santo, numa localidade, entendia o significado de estar reunido ao nome do Senhor Jesus e valorizava todos que
estavam envolvidos na edificação!
Edificando sobre o fundamento
Quando ele falou da igreja em Corinto como uma lavoura, Paulo
coloca Apolo ao seu lado: “Quem é Apolo, quem é Paulo?” (v. 3). Naqueles versículos ele pôde usar a primeira pessoa do plural “nós”: “… nós
somos cooperadores com Deus” (v. 9). Agora Paulo reconhece que esta
edificação incluía outros, mas a diferença nas responsabilidades era mais
acentuada, portanto no v. 10 ele se refere ao seu próprio trabalho usando
a primeira pessoa do singular “eu”, e para o trabalho que não era seu, ele
usa a palavra “outro”.* Ele escreve na primeira pessoa do singular porque em Corinto ele sozinho lançou o fundamento sobre o qual ele irá
falar. Paulo lançou o fundamento enquanto outro está edificando† sobre
aquele fundamento. Aquele que agora está edificando deve ter cuidado
“como” ele edifica (v. 10), e que tipo de material ele usa (v. 13). Tendo
lançado o fundamento, Paulo estava preocupado em como o outro iria
construir. Ele teve a responsabilidade de lançar o fundamento e, “como
sábio arquiteto”, tinha recebido a sabedoria necessária para esta tarefa.
Em graça, e não por mérito seu, Deus o tinha capacitado para lançar
o fundamento. Devemos lembrar que o lançamento do fundamento
em Corinto é descrito nas passagens históricas do livro de Atos, e em
mais detalhes nesta epístola, para que possa haver, para cada geração
de cristãos que surgir até o Arrebatamento, uma compreensão sobre
o fundamento e como edificar sobre ele. A sabedoria especial dada a
Paulo beneficiou Corinto e todas as outras cidades em que ele lançou o
fundamento de uma igreja local, e ainda beneficia aqueles que procuram
seguir o padrão Divino. Onde esta sabedoria estiver faltando, o construtor pode insensatamente construir sem um fundamento (Lc 6:49).
Ninguém deve duvidar da reivindicação singular de Paulo de ser
um “sábio arquiteto” (v. 10). Ele recebeu sabedoria, como também Bezalel e Aoliabe, que construíram o Tabernáculo (Êx 31:1-6), e como Sa*
No grego, allos.
†
No grego o tempo verbal é o presente contínuo.
Cap. 3 — A igreja local e sua edificação
45
lomão, que edificou o primeiro templo em Israel (I Rs 5:7; II Cr 2:12).
Na cidade de Corinto, conhecida por sua imoralidade, Paulo lançou o
fundamento de uma grande obra de Deus. Contudo, a palavra “arquiteto” pode sugerir mais do que sua capacidade própria. Com a devida
humildade, Paulo usa a frase: “como sábio arquiteto” (v. 10), e com isto
ele pode estar inferindo que ele estabeleceu um padrão que deve ser
seguido em nossos dias. Nenhuma outra pessoa foi levantada por Deus
para nos dar ensino que devemos seguir em relação à ordem e prática
na igreja local.
É evidente que o apóstolo esperava respeito pelo fundamento que
ele lançara (v. 10). De fato pelo Espírito ele acrescenta que “ninguém
pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus
Cristo” (v. 11). Pode ser que as palavras são formuladas para frisar que o
único fundamento que pode ser lançado é aquele fundamento lançado
pelo próprio Deus, “que é Jesus Cristo”. Ao lançar o fundamento da
igreja em Corinto, Paulo pregou Cristo, Sua Pessoa e Sua obra:
•
•
•
•
•
•
“… nós pregamos a Cristo crucificado” (1:23);
“Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1:24);
“Cristo … sabedoria, e justiça, e santificação e redenção” (1:30);
“Cristo nossa Páscoa” (5:7);
“Jesus Cristo Senhor nosso” (9:1);
“Cristo morreu pelos nossos pecados … foi sepultado … ressuscitou” (15:3-4);
• “O Senhor Jesus Cristo” (16:22).
Como estava cada construtor edificando sobre aquele fundamento? Estava construindo com sabedoria, com cuidado e para a glória de
Deus? Que grande glória uma igreja local pode trazer a Deus quando
todos os que constroem respeitam o único fundamento que foi lançado
(3:11).
Mas quem é este “outro” que está edificando sobre o fundamento
que o apóstolo lançou? Paulo não diz que o edificador, o “outro” mencionado, é Apolo (v. 10). Parece improvável que Paulo teria “aplicado estas coisas por semelhança” a si mesmo e Apolo “por amor de vós” (4:6).
Não temos razão para pensar que Apolo, a quem Paulo reconheceu, sem
reservas, como ministro de Deus (v. 5), e a quem estava incentivando a
voltar a Corinto (16:12), edificaria com madeira, feno ou palha. Paulo
não está criticando seu irmão Apolo, mas está admoestando “cada um”
46
A glória da igreja local
(vs. 10, 13); “alguém” (vs. 12, 14, 15). A importância da aplicação deste
seu ensino pode ser especialmente oportuna para aqueles que ensinam
os santos, mas não devemos pensar que somente estes edificam os santos. Talvez edificar seja o trabalho principal daqueles que ensinam, mas
outros edificam, ao usarem os seus diferentes dons de acordo com a
graça que receberam (Rm 12:6). Esta “manifestação do Espírito é dada
a cada um, para o que for útil” (I Co 12:7). Quando o Tabernáculo estava sendo construído, não somente Bezalel e Aoliabe foram capacitados
para o trabalho, mas Deus já tinha “dado sabedoria ao coração de todos
aqueles que são hábeis” (Êx 31:6). De fato, antes que Bezalel e Aoliabe
fossem identificados, Deus já tinha equipado outros com “o espírito da
sabedoria” para fazerem vestes para Aarão (Êx 28:3). O Espírito reconheceu não somente o ministério de Paulo e Apolo, mas também de
outros que seriam os responsáveis por edificar sobre o fundamento já
lançado.
Parece que os santos em Corinto estavam indevidamente ocupados
com os dons mais espetaculares que “pôs Deus na igreja” (I Co 12:28),
especialmente o dom de línguas, tanto que os mandamentos do cap.
14 formaram parte desta primeira carta a Corinto. Não está no âmbito
deste capítulo tratar dos dons temporários listados em 12:7-28 e seu
propósito, todavia, a ênfase no cap. 14 sobre profetizar, edificação e entendimento é notável. Paulo reconheceu a necessidade dos santos serem
ensinados. Ele afirma que o dom do ensinador (doutor) era, e é, para
este fim (12:28; Ef 4:11-16). Seria ir além da evidência desta epístola
sugerir que, quando o dom de línguas era exercido em Corinto, nada
permanente foi edificado sobre o fundamento. Durante aquele período, antes da conclusão do cânon das Escrituras, Paulo reconheceu que
haveria algum benefício limitado no uso do dom de línguas, se fosse
acompanhado pela interpretação, mas “cinco palavras na … inteligência” seriam de valor mais durável “do que dez mil palavras em língua
desconhecida” (14:19). Nós, que vivemos depois da cessação do dom de
línguas, não devemos agora ser distraídos como a igreja em Corinto foi.
Portanto, aqueles que ensinam na igreja de Deus devem ter o cuidado
de edificar os santos; ao assim fazerem precisam edificar ouro, prata e
pedras preciosas sobre o fundamento que está posto. Seu esforço não
será sem recompensa! O Deus que anotou os nomes e o esforço daqueles que edificaram o muro nos dias de Neemias (Ne 3) conhece cada
construtor hoje, e como Paulo mostra aqui, recompensará cada um que
Cap. 3 — A igreja local e sua edificação
47
edifica para a Sua glória.
Edificando sobre o fundamento,
mas com que material?
Paulo agora lista seis tipos de materiais de construção que seriam
achados em qualquer cidade comercial do século I: ouro, prata, pedras
preciosas, madeira, feno e palha. Diariamente os coríntios podiam ver
“edifícios suntuosos de granito e mármore, enfeitados com ouro e prata, e também as favelas dos pobres com paredes de madeira, e telhado
de palha”,* as frestas das quais eram tapadas com feno para proteger
melhor do vento e da chuva. Será que estas são apenas metáforas interessantes, ou elas ilustram uma realidade que devemos notar? Na série
de afirmações que começam com “Se† …” todas têm hipóteses que são
verdadeiras; Paulo está dizendo: “Vamos considerar casos atuais, não
apenas casos hipotéticos. É verdade que alguns edificarão ouro, prata,
pedras preciosas, madeira, feno e palha (v. 12); é verdade que a obra de
alguns permanecerá (v.14), e que a obra de alguns será completamente
queimada (v. 15); que alguns receberão galardão e outros sofrerão dano”.
Divisões econômicas marcavam aquela grande cidade, e sem os esforços
dos pobres não haveria ricos. Mas não deve ser assim entre os santos.
Não havia qualquer necessidade para alguém edificar com materiais que
não “permaneceriam”.
W. E. Vine espiritualiza o ouro, prata e pedras preciosas:
O ouro parece descrever o caráter e atributos morais da Trindade,
a plenitude dos quais habitam em Cristo … a prata, a redenção efetuada por Deus em e por meio de Cristo; as pedras preciosas falam
daquelas verdades que revelam as excelências da Pessoa e caráter
de Cristo.
Schrader, mais fantasiosamente, escreve:
Alguns edificam com o ouro da fé, com a prata da esperança e com
as pedras preciosas e imperecíveis do amor; outros com a madeira
infrutífera e morta das boas obras, com a inútil palha do conhecimento sem vida e pomposo, e com o fraco feno de um espírito
*
CONYBEARE, W. J. e HOWSON, J. S. The Life and Epistles of St. Paul. London: Longman,
Green, Longman and Roberts, 1862; pag. 31.
†
No grego, todas são ei com o indicativo.
48
A glória da igreja local
continuamente em dúvidas.*
Também foi observado que “o homem não pode produzir os primeiros três, e os outros são o produto da natureza”. Há, obviamente,
uma diferença considerável nos valores dos seis materiais. Entretanto, a
diferença mais provável deve ser entre os que são inflamáveis e os que
não são. A lição que o apóstolo ensina desta sua metáfora é sobre o que
“permanecerá” e o que “será queimado” (vs. 14-15).
Nas Suas parábolas sobre as minas e os talentos, o Senhor falou
sobre um dia de prestação de contas. Pedro fala indiretamente deste tempo de prestar contas, que fará com que alguns tenham entrada
abundante no reino (II Pe 1:11); João fala da necessidade de não ser
envergonhado na Sua vinda (I Jo 2:28); enquanto Paulo fala abertamente sobre o Tribunal de Cristo, usando a figura do fogo que examina e
manifesta a obra de cada um (I Co 3:13). Paulo afirma que haverá dois
possíveis resultados naquele dia para o cristão: permanecer ou queimar
(vs. 14-15), ou seja, galardão ou dano.
Quando Roma nomeou Múmio comandante da Guerra da Acáia,
ele facilmente venceu Dieu, que ofereceu pouca resistência. Múmio entrou em Corinto e matou à espada todos os homens; as mulheres e
crianças ele vendeu como escravos, e as estátuas, pinturas e obras de
arte foram enviadas em navios para Roma. Então, em obediência às
ordens do senado romano, “incentivado pelo partido mercantil, ansioso
para acabar com seu perigoso rival comercial”, ele deliberadamente incendiou a cidade de Corinto. O grande fogo deixou em pé somente os
edifícios de pedra dos ricos, mas reduziu à cinzas as moradas dos pobres.
O fogo foi tão intenso, dizem, que os metais se derreteram e se misturaram, e pela primeira vez o bronze foi formado. Mas o uso de bronze na
África e China antes do grande fogo de Corinto anula esta afirmação.
Entretanto, o fato de alguns pensaram que a origem do bronze podia ser
creditada ao Fogo de Corinto realmente mostra que a intensidade do
fogo que destruiu a cidade foi terrível. O Grande Fogo de Londres, em
1666, ainda é lembrado. O Grande Fogo de Corinto em 146 a.C., um
pouco mais de um século antes de Paulo escrever esta carta, certamente
ainda seria lembrado séculos depois de ter queimado tudo que era de
madeira, palha e feno. Assim, cada um dos leitores de Corinto teria al*
Citado por ALFORD, H. Alford’s Greek Testament, Vol.2. Baker Book House, reprinted 1980:
pág. 493.
Cap. 3 — A igreja local e sua edificação
49
guma compreensão da lição que Paulo estava ensinando. Eles saberiam
que ele estava ensinando sobre naquela solene prestação de contas no
Tribunal de Cristo, quando o Senhor manifestará o que permanecerá
e o que será queimado, assim como o grande fogo de Corinto testou o
material de cada casebre e de cada edifício notável que encontrou no
seu caminho.
Três verbos sinônimos enfatizam como será evidente naquele dia o
que não podemos ver claramente agora: “manifestar”, “declarar” e “descobrir” (v. 13). A natureza verdadeira da obra de cada um será vista
porque o fogo naquele dia revelará tudo que talvez estivesse escondido.
Ninguém disputará o resultado daquele Tribunal; todos concordarão
com Aquele que se assenta no Tribunal.
Mas, quem são os descritos nas palavras “alguém” (vs. 12, 14, 15) e
“cada um” (duas vezes no v. 13)? No contexto acima, o dia se refere ao
Tribunal de Cristo e se refere ao cristão. O contexto de edificar sobre o
fundamento deve ter confirmado ao leitor inteligente que o Tribunal de
Cristo é o que está em vista. Os que não têm vida divina são totalmente
incapazes de edificar qualquer coisa na igreja local, e se morrerem sem
Cristo comparecerão perante o Grande Trono Branco (Ap 20:11-15),
e não perante o Tribunal de Cristo. Cada salvo deve entender que o
Novo Testamento não apresenta um julgamento geral onde os salvos e
não salvos comparecerão juntos. No Tribunal de Cristo o discernimento
de Cristo manifestará a natureza dos materiais que o cristão usou na
edificação da igreja local. O ensino do v. 15 deixa bem claro que mesmo
aqueles que usaram madeira, feno e palha, são salvos. Não existe aqui,
nem em qualquer outro lugar na Bíblia, a doutrina do purgatório.
O valor que o Senhor dá à edificação correta da igreja local com
aquilo que permanecerá se tornará evidente quando o fogo do exame
minucioso divino avaliará a obra de cada um. Quem construiu com
materiais que permanecerão, será recompensado (v. 14). A natureza do
galardão não é especificada aqui, mas temos a natureza da avaliação e
um aspecto desta avaliação: a natureza da avaliação é discriminatória;
o aspecto do serviço avaliado é aquilo “que alguém edificou” no fundamento que foi lançado. Em outras partes do Novo Testamento outros
aspectos do serviço que serão investigados naquela ocasião são mencionados: as obras feitas no corpo e nossa atitude para com nossos irmãos
(II Co 5:10; Rm 14:10).
O apóstolo indica que haverá aqueles que receberão galardão, mas
50
A glória da igreja local
também haverá aqueles que sofrerão detrimento (v. 15). A mesma estrutura gramatical tira qualquer possibilidade disto ser meramente um
caso hipotético; ele enfatiza que realmente acontecerão tais casos tristes.
Também, as frases “receberá galardão” (v. 14) e “sofrerá detrimento” (v.
15) são um contraste impressionante. Ambos os indivíduos eram construtores; um recebeu galardão e o outro sofreu detrimento. Para evitar
qualquer possibilidade de criar confusão sobre a segurança eterna dos
salvos, o Espírito moveu Paulo a usar a palavra “salvo”. Também, para
evitar a possibilidade de alguém desconsiderar a seriedade de perder o
galardão, o Espírito o moveu a acrescentar, “todavia como pelo fogo” (v.
15). Que cada um que ensina possa se esforçar para edificar com ouro,
prata e pedras preciosas para a glória de Deus. Que cada um que exerce
o seu dom tenha cuidado de que esteja também edificando sobre o fundamento com aquilo que permanecerá.
A conduta na edificação de Deus
Tendo revelado verdades solenes sobre o Tribunal de Cristo, agora
no v. 16 o apóstolo Paulo imediatamente chama atenção a um edifício
que se sobressai pelo seu título: “templo de Deus”.* Ele o apresenta,
como faz com outros assuntos nesta carta, de tal maneira que os primeiros leitores teriam entendido que em efeito ele estava dizendo: “Vocês,
coríntios, que se gloriam em conhecimento (1:5; 8:1-2, 10-11; 13:2, 8),
não sabem que são o templo de Deus?” Ele não diz que este templo foi
feito pelos que edificavam com ouro, prata e pedras preciosas. O título
“templo de Deus” pode indicar mais do que quem ali habita e deve ser
honrado; pode também sugerir que o Edificador é o próprio Deus. Não
é uma edificação parcialmente construída, onde os construtores ainda
estão construindo. O templo feito por Salomão não foi ocupado por
Deus até que o trabalho fosse completado (I Rs 8:10-11; II Cr 5:13). A
demora para a glória do Senhor encher o Santíssimo lugar não foi por
causa do descuido de Salomão em permitir que seus construtores usassem padrões de comportamento inaceitáveis. Alias, quando aquela Casa
estava em construção não se ouviu o barulho de martelo ou machado
*
Tem sido observado que no texto grego o artigo definido não qualifica “templo” nas três
ocasiões em que a palavra ocorre nos vs. 16-17. O apóstolo está indicando que a igreja
local em Corinto é caracterizada como templo de Deus. Assim também a falta do artigo grego
qualificando “corpo de Cristo” (12:27) e “casa de Deus (I Tm 3:15) identifica o que as igrejas
em Corinto e Éfeso eram caracteristicamente.
Cap. 3 — A igreja local e sua edificação
51
ou qualquer outra ferramenta de ferro (I Rs 6:7). As pedras chegaram
ao local da construção já preparadas e prontas para serem colocadas.
Somente depois da conclusão da obra é que Deus dignou-Se de habitar
no Templo, como quase quinhentos anos antes uma nuvem não cobriu
“a tenda da congregação, e a glória do Senhor” encheu o Tabernáculo até
que Moisés terminasse a obra e levantasse também o pátio ao redor do
Tabernáculo e altar (Êx 40:33-34). Este templo também está completo
e funcionando.
O substantivo “templo” (vs. 16-17) é naos no grego, que indica não a
construção geral do Templo, mas o santuário interior — o lugar Santíssimo — onde somente o sumo sacerdote ousava entrar uma vez por ano,
e não sem sangue (Hb 9:7). Deus não habita mais em edifícios feitos
por mãos humanas, mas entre os santos reunidos ao nome do Senhor
Jesus. (Paulo usa o substantivo mais comum, hieron, em 9:13, para descrever as construções do Templo, e esta palavra também ocorre várias
outras vezes no Novo Testamento, por exemplo, em Mt 4:5; Jo 2:14; At
2:46.) Em I Coríntios 3:16, Paulo faz a pergunta retórica: “Não sabeis
vós que sois o templo [santuário interior] de Deus, e que o Espírito de
Deus habita em vós”? Ele não diz que a igreja em Corinto “cresce para
templo santo no Senhor” (Ef 2:21), antes, ele os descreve como já sendo
“uma morada de Deus em Espírito” (Ef 2:22). Contudo, foi somente
depois da obra de Calvário e da vinda do Espírito Santo que qualquer
grupo de pessoas foi reconhecido por Deus como Seu templo, numa localidade específica. O Espírito Santo não está falando aqui de um lugar
específico onde a igreja de Deus em Corinto se reunia, mas do grupo de
santos que se reuniam. Os coríntios deveriam saber que a presença de
Deus entre eles os tinha constituído templo de Deus.
Como Salomão exigiu reverência na casa que ele estava construindo
para o Senhor, assim também com o templo de Deus em Corinto; Paulo
requereu dos coríntios que ninguém destruísse o templo de Deus (v.
17). No contexto de I Coríntios 3, “destruir” (ou melhor, “corromper”)
refere-se, não tanto à imoralidade e os outros pecados mencionados no
cap. 5, mas à sabedoria humana que se gloriava nos homens (vs. 18-21).
É a sabedoria humana que introduz doutrinas falsas, a fonte das quais
geralmente é o próprio maligno. A gravidade destas doutrinas corruptas, até destruidoras, se torna evidente na retribuição especificada no v.
17: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá, porque o
templo de Deus … é santo”. Deus mesmo vindicará a Sua santidade.
52
A glória da igreja local
Para que ninguém deixasse de perceber que Paulo estava se referindo à
igreja de Deus em Corinto, ele acrescenta: “… que [templo] sois vós” (v.
17). A destruição de Ananias e Safira por causa da sua mentira contra
o Espírito Santo é um exemplo de Deus agindo em poder quando eles
tentaram enganar (At 5:1-11). Também I Coríntios 11:30 pode ser outro exemplo desta retribuição divina sobre os destruidores.
Mas como foi diferente quando a glória de Deus encheu as casas
que Moisés e Salomão edificaram! Enquanto os sacerdotes se comportaram com o devido respeito para com a santidade de Deus, Ele tinha
prazer em habitar entre eles. Eles tinham o privilégio de honrá-lO com
ofertas voluntárias, quando seus corações agradecidos eram exercitados
a agradecer pelas Suas bênçãos. Numa casa espiritual, chamada aqui
por Paulo “o templo de Deus”, o próprio Deus era glorificado. Que este
mesmo privilégio seja estendido a nós até que o Senhor Jesus venha,
para que Deus possa ser glorificado nas igrejas locais do Seu povo, reunindo ao nome do Senhor Jesus.
Até que Ele venha
A orientação dada por Deus sobre o que O agrada está registrada
de forma permanente nas Escrituras. Durante quase dois mil anos o
povo de Deus tem tido acesso a esta orientação, e alguns têm procurado
a graça para colocar em prática o ministério de Paulo, aquele “sábio
arquiteto”. Apesar de muitas falhas, há em todo o mundo manifestações
deste ministério nas igrejas reunidas ao nome do Senhor Jesus Cristo.
Mas estes testemunhos locais que honram a Deus nem sempre serão
achados nos países onde agora resplandecem como luzes num mundo
escuro. No Arrebatamento, todos os salvos desta época serão levados
para encontrar com o Senhor nos ares (I Ts 4:13-17). O período do
testemunho das igrejas terminará. Com certeza Deus não ficará sem
testemunho; Ele levantará aqueles que darão testemunho de Cristo,
mas estes não edificarão como o “sábio arquiteto” nos ensinou. Edificar
com ouro, prata e pedras preciosas para a glória de Deus é o privilégio
dos santos deste período, que começou no dia de Pentecostes e que
terminará com o Arrebatamento. Assim, devemos tomar muito cuidado
para edificar sobre o fundamento e edificar com ouro, prata e pedras
preciosas. Que cada partícula daquilo que edificamos no fundamento
que foi lançado evidencie a Sua glória! (Sl 29:9).
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração
por B. Currie, Irlanda do Norte
Numa igreja local os cristãos frequentemente estão juntos e interagem numa variedade de circunstâncias. Estas circunstâncias incluem a
vida espiritual da igreja local, quando todos estão presentes nas várias
reuniões, a preparação de alimentos quando há reuniões especiais, a preparação de prêmios no trabalho com as crianças, e ocasiões mais sociais
quando visitamos uns aos outros nos seus lares. Em cada uma destas
circunstâncias existe a possibilidade de atos e palavras serem mal interpretados, criando diferenças, contendas e, lamentavelmente, às vezes até
divisões entre os irmãos da igreja. Cada salvo precisa perceber as áreas
sensíveis dos outros e procurar evitar causar ou receber ofensas.
Também, há o contato diário com os descrentes da localidade onde
moramos. Aqui também os salvos precisam ser cuidadosos no seu comportamento perante os incrédulos, para que nada seja feito ou dito que
possa ser interpretado como sendo depreciativo ao testemunho do cristão individual, ou ao testemunho coletivo da igreja local. Os incrédulos
rapidamente julgam até mesmo os comentários ou atos mais insignificantes, e espalham fofocas que poderiam danificar o testemunho.
Assim, como sugere o título deste capítulo, cada salvo precisa dar a
devida consideração ao seu comportamento. Para ilustrar esta necessidade no contexto da igreja local, uma parte da primeira carta de Paulo
aos Coríntios é muito útil.
Esta epístola pode ser dividida da seguinte maneira:
Contenda na igreja..................................caps. 1 a 4
Correção na igreja...................................caps. 5 a 7
Consideração na igreja..........................caps. 8 a 10
Comemoração na igreja................................cap. 11
Comunicação na igreja........................caps. 12 a 14
Clímax na igreja...........................................cap. 15
Coleta na igreja............................................cap. 16
Consideração na igreja — Caps. 8 a 10
A extensa parte que trata deste assunto são os caps. 8-10. Conside-
54
A glória da igreja local
rar todos os versículos seria impossível nesta publicação. Entretanto, a
repetição* da expressão “para que não” permite que a verdade seja explicada e entendida. Notemos as referências:
• Considera teu irmão — 8:9, 13
“Cuidado com essa liberdade, para que não seja de alguma maneira
escândalo para os fracos” (8:9);
“Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não se escandalize meu irmão” (8:13).
• Considera o Evangelho — 9:12
“Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais
justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para que não coloquemos impedimento algum ao evangelho de Cristo”.
• Considera teu galardão futuro — 9:27
“Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que não
venha eu mesmo de alguma maneira a ficar reprovado, depois de ter
pregando aos outros”.
• Considera tua posição presente — 10:12
“Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe para que não caia”.
Considera teu irmão — 8:9, 13
Podemos ver claramente qual é o assunto deste cap. 8 pela repetição
quadrupla que temos nos versículos 1-10 da expressão “coisas sacrificadas aos ídolos” (v. 1, 4, 7, 10). Não há dúvida que Paulo está falando da
atitude dos cristãos quanto às coisas sacrificadas aos ídolos. Este assunto
é tratado duas vezes nesta carta; aqui no cap. 8, onde é considerado
do ponto de vista do meu irmão, e no cap. 10, onde é considerado do
ponto de vista de Deus, o que explica por que não é permitido: “Não
podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis
ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (10:21).
Entretanto, no cap. 8 a possibilidade é considerada do ponto de vista de
como meus atos irão afetar o meu irmão.
O ensino de Paulo gira em torno do conhecimento e das consciên*
O autor se refere à palavra “lest” em inglês; como a tradução para o português usa palavras
diferentes nos diferentes versículos citados, apresentamos os versículos acima numa tradução
livre, procurando enfatizar o paralelo entre os versículos citados. (N. do E.)
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração
55
cias dos irmãos “fortes” e “fracos”. Cada cristão tem conhecimento: “Ora
no tocante às coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos
ciência. A ciência incha, mas o amor edifica” (v. 1). A decisão não deve
ser tomada somente com base no conhecimento intelectual. Isto pode
inchar a pessoa e causar desrespeito para com os sentimentos da outra
pessoa, e assim excluir a esperada demonstração do amor que edifica.
Isto não é uma demonstração da verdadeira ciência cristã, e assim Paulo
escreve: “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como
convém saber” (v. 2).
Sobre os que são fortes na sua fé cristã está escrito: “Sabemos que o
ídolo nada é no mundo” (v. 4). Mas os outros precisam ser considerados:
“Mas nem em todos há conhecimento” (v. 7). Ele está afirmando que
na sua experiência nem todos chegaram a reconhecer este fato, e assim
a consciência do irmão fraco precisa ser respeitada, e não ignorada de
maneira insensível. Nenhum cristão espiritual dirá como Caim: “Sou
eu guardador de meu irmão?” (Gn 4:9). Ele terá cuidado e preocupação
para com o bem estar espiritual do seu irmão, e procurará encorajá-lo e
fazer tudo possível para proteger a comunhão do seu irmão com Deus.
Que a questão aqui não é uma doutrina essencial mas questões de
consciência fica evidente pela repetição da palavra, como vemos: “alguns
até agora comem, no seu costume para com o ídolo, coisas sacrificadas
ao ídolo; e sua consciência, sendo fraca, fica contaminada” (v. 7). “não
será a consciência do que é fraco induzida …” (v. 10); “ferindo a sua
fraca consciência …” (v. 12).
Paulo dá sete razões por que não podemos desprezar a consciência
de outro cristão.
“A sua consciência, sendo fraca, fica contaminada” (v. 7)
O verbo “contaminar” significa poluir. W. E. Vine afirma que o significado da palavra é “sujar com lama ou outra sujeira”, e uma consideração das outras ocorrências da palavra no Novo Testamento ajudará:
“Mas também tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram
suas vestes” (Ap 3:4). “Estes são os que não estão contaminados com
mulheres; porque são virgens” (Ap 14:4).
Estes salvos de Corinto foram libertos da idolatria, mas alguns ainda não tinham sido esclarecidos quanto à superstição ligada àquele sistema. A sua fraqueza estava nesta falta de esclarecimento com relação à
idolatria, e assim, por comer, eles se sentiam culpados, e a sua consciên-
56
A glória da igreja local
cia não estava mais limpa e em paz com Deus; estava poluída, e eles se
sentiam contaminados.
“Escândalo para os fracos” (v. 9)
No v. 8, Paulo reconhece que o alimento e o comer não têm importância: “Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se
comemos nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta”. Isso
deixaria o irmão forte com a autoridade para dizer que podia comer de
tudo, porque a aprovação apostólica fora dada. Mas no v. 9 o apóstolo
diz que há outra consideração — o irmão fraco: “Mas vede que essa
liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos”.
O verbo “vede” aqui, estando no imperativo, é realmente um mandamento apostólico que deve ser obedecido continuamente. Assim, somos exortados a não colocar “escândalo”, ou tropeço, no caminho do
irmão fraco. É uma maneira por meio da qual outros são tropeçados.
No mesmo contexto, Paulo usa a palavra em Romanos 14: “Seja vosso
propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão” (v. 13); “mas mal vai
para o homem que come com escândalo” (v. 20).
“Não será a consciência do que é fraco induzida?” (v. 10)
Paulo continua: “Porque, se alguém te vir a ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do que é fraco
induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos?” Nós vivemos em
dias quando alguns dizem: “Eu posso fazer o que quero”; “Eu não me
importo onde e com quem sou visto”; “Não é da sua conta; a vida é
minha”, etc. Esta atitude é totalmente condenada pelo apóstolo. Ele
começa aqui dizendo “porque, se alguém te vir a ti”, e assim enfatiza
que é importante onde o cristão é visto. Esta pessoa foi vista “sentada à
mesa no templo dos ídolos”. Ele sabia que o ídolo nada era, e assim não
havia nenhuma razão por que não deveria apreciar aquela comida, mas
ele deveria considerar como isso afetaria o seu irmão em Cristo. Ele poderia argumentar que não estava fazendo nada de mal, ou pecando, mas
na realidade ele estava, porque estava prejudicando seu irmão. Estava
fazendo com que a consciência do seu irmão fraco fosse “induzida”, isto
é, encorajada e levada a fazer a mesma coisa, com a qual ele realmente
não concordava.
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração
57
“E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo
morreu” (v. 11)
Que afirmação! Destaca claramente a solenidade das nossas ações.
Paulo faz a pergunta sobre o conhecimento do irmão forte: será que ele
está preparado para usar seu conhecimento para o detrimento do seu
irmão? A palavra “perecer” significa “quebrar” ou “tornar inútil”. Este seria o resultado do irmão fraco imitar as ações do irmão forte, e ser atormentado pela sua consciência. Será que o irmão fraco tem importância?
Vale a pena considerá-lo? Paulo nos informa do seu valor ao dizer que
ele é um “por quem Cristo morreu”. Não existe preço maior do que este.
O irmão fraco tem valor incalculável, e por isso merece a consideração
do seu irmão. O contraste tremendo é entre o amor de Cristo, que morreu por ele, e a insensibilidade do irmão que desconsidera isso.
“Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca
consciência” (v. 12)
Paulo esta chegando ao clímax do seu argumento ao usar estas palavras fortes, “pecar” e “ferir”. São palavras cheias de emoção, e devem
levar o irmão forte a reconhecer a importância de considerar seu irmão
mais fraco quando decisões precisam ser tomadas. J. N. Darby expressa
bem a continuidade indicada por estes verbos quando ele traduz: “pecando assim contra os irmãos, e ferindo sua consciência fraca, pecais
contra Cristo”. Paulo não está falando de um ato isolado, mas sim de
um pecado contínuo, de ferir continuamente o irmão que está num estado contínuo de fraqueza. Também, a palavra “irmão”, singular, agora
foi mudada para “irmãos”, plural, alargando o argumento para abranger
todos na comunidade cristã.
A palavra “ferir” significa “machucar com a mão ou com um chicote”, e ilustra quão pungente e dolorida uma consciência ferida pode ser,
e ninguém, com um mínimo de compaixão cristã, iria desejar expor seu
irmão a isso.
“Pecais contra Cristo” (v. 12)
Esta expressão é o ponto máximo no seu argumento, e sublinha a
seriedade de um ato irrefletido ou egoísta, que poderia causar tristeza ou
dor a um irmão. Quando visto como “pecado contra Cristo”, qualquer
desculpa se torna inválida.
58
A glória da igreja local
Este é um dos versículos que mostra bem a ligação íntima entre
Cristo e o Seu povo — pecar contra eles é pecar contra Ele. Paulo
aprendeu esta lição por ocasião da sua conversão, quando o Senhor disse que quem persegue a Igreja persegue a Ele: “Saulo, Saulo, por que me
persegues?” (At 9:4; 22:7; 26:14).
“Se a comida escandaliza o meu irmão” (v. 13)
Paulo declara qual deve ser o resultado final da ação irrefletida, e a
reação do homem espiritual. “Por isso, se a comida escandaliza a meu
irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize”. Duas vezes neste versículo ele usa o verbo “escandalizar”, que significa “colocar armadilha”. Que cristão desejaria colocar uma armadilha
para seu irmão e fazê-lo cair? Temos que cuidar, não somente do nosso
testemunho pessoal, mas também do testemunho dos nossos irmãos.
A reação do espiritual é simples: “Nunca mais comerei carne, para
que meu irmão não se escandalize”. Consideração para com o irmão,
com o desejo de vê-lo prosperar nas coisas divinas e estar em paz com
a sua consciência, exige que eu não faça nada que possa feri-lo, mesmo
que eu não veja nada de errado nas minhas ações.
Considera o Evangelho — 9:12
“Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais
justamente, nós? Mas nós não usamos este direito; antes suportamos
tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo”
(9:12).
O cap. 9 tem vinte perguntas, pois Paulo quer que os coríntios pensem, e que cheguem à conclusões corretas sobre certos assuntos. Ele
mostra a realidade do seu apostolado, e então lhes dá razões por que
não aceitou ajuda financeira deles. Ele renunciou os seus direitos por
causa do Evangelho.
Ele reafirma seu relacionamento (vs. 1-2)
Ele não era um apóstolo inferior aos outros. “Não sou eu apóstolo?
Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso? Não sois vós a
minha obra no Senhor?” (v. 1). O fato de ter visto o Senhor provou o seu
apostolado. “Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para
vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor” (v. 2). Isso
indica que ele tinha visto a mão do Senhor abençoando o seu serviço.
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração
59
Ele dá razões para o seu direito (vs. 3-14)
Ele dá cinco razões por que poderia ter aceitado sustento deles:
O exemplo de outros (vs. 5-6). “Não temos nós direito de levar
conosco uma esposa crente, como também os demais apóstolos, e os
irmãos do Senhor, e Cefas? Ou só eu e Barnabé não temos direito de
deixar de trabalhar?”
O exemplo das ocupações (v. 7). “Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem
apascenta o gado e não se alimenta do leite do gado?” Aqui ele fala do
soldado, que pode ilustrar um evangelista; depois temos o lavrador, que
pode representar um ensinador, e finalmente um pecuarista, que pode
representar um pastor.
O exemplo das escrituras do Velho Testamento (vs. 8-10). “Digo
eu isto segundo os homens? Ou não diz a lei também o mesmo? Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca do boi que trilha o
grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois? Ou não o diz certamente
por nós? Certamente que por nós está escrito; porque o que lavra deve
lavrar com esperança e o que debulha deve debulhar com esperança de
ser participante”. Aqui ele cita Deuteronômio 25:4: “Não atarás a boca
ao boi quando trilhar”.
O exemplo de serviço no Velho Testamento (v. 13). “Não sabeis
vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto o altar, participam do altar?”
A referência aqui ao Levita e ao Sacerdote do Velho Testamento é óbvia.
As palavras do Senhor (v. 14). “Assim ordenou também o Senhor
aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho”. Provavelmente esta é uma referência a Mateus 10:10: “porque digno é o operário do
seu alimento”.
Ele recusa seus direitos (vs. 15-23)
Ele dá cinco razões por que ele recusou receber sustento deles.
Ele pregava por necessidade: não para receber glória (v. 16). “Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de me gloriar, pois me é imposta
essa obrigação; e ai de mim se não anunciar o evangelho!” Em Atos 9:15
o Senhor, ressuscitado e glorificado, tinha comissionado Paulo. Assim,
ele não tinha motivo para se exaltar, pois tudo era pela soberania de
Deus, e como escravo, a obediência era exigida dele. De fato, era como
um grande peso sobre ele, como sugere a expressão “é imposta”. Isso
60
A glória da igreja local
pode ser confirmado por outros usos desta mesma expressão: “apertando-o a multidão” (Lc 5:1); “e era uma caverna, e tinha uma pedra posta
sobre ela” Jn 11:38); “e caindo sobre nós uma não pequena tempestade”
At 27:20. Ele enfatiza a natureza impulsora do seu trabalho com a frase:
“Ai de mim se não anunciar o evangelho”.
Ele pregava como por servidão: não por ganância (v. 17). “E por
isso, se o faço de boa mente, terei prêmio; mas, se de má vontade, apenas
uma dispensação me é confiada”. Se ele tivesse escolhido ser pregador, como as palavras: “boa mente” e “vontade” indicam, então ele seria
recompensado. Entretanto, visto que isto era um assunto de escolha
soberana, então fora lhe confiada uma mordomia (dispensação). Ele via
o seu ministério como um depósito de Deus que precisava ser guardado
e cumprido.
Ele pregava gratuitamente: não por lucro (v. 18). “Logo, que prêmio tenho? Que, evangelizando, proponha de graça o evangelho de
Cristo para não abusar do meu poder no evangelho”. Sua recompensa
era garantir que o Evangelho fosse pregado gratuitamente, e que ninguém o pudesse acusar de pregar para ganhar, ou por qualquer outro
motivo.
Ele pregava humildemente: não com relutância (vs. 19-22). “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar
ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus;
para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para
ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se
estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da
lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me fraco para os
fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos
os meios chegar a salvar alguns.” Ele estava livre de todos os homens
porque não era devedor a ninguém, não servia nenhuma organização
e era responsável somente ao Senhor. Contudo, ele se aproximou de
todo tipo de homens para que pudesse ganhá-los para o Senhor Jesus, e
pôde fazer isto sem sacrificar qualquer princípio. Ele se fez um escravo
de todos ao renunciar seus direitos de receber sustento deles, e em vez
disso trabalhou com suas próprias mãos. Sua grande preocupação era
seu serviço para Cristo e a salvação de homens.
Ele pregava sabiamente: não levianamente (v. 23). “E eu faço isto
por causa do evangelho, para ser também participante dele”. A tradução
de J. N. Darby é mais correta: “E faço todas as coisas pela causa das boas
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração
61
novas, para que eu possa ser coparticipante com elas”. Tudo que ele fez
e tudo que ele sofreu foi por causa do Evangelho, para que pudesse ser
coparticipante da obra do próprio Evangelho.
Por que ele agia assim? O âmago do assunto está no v. 12: “Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais justamente,
nós? Mas nós não usamos deste direito, antes suportamos tudo para
não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo”. Tal era o
seu amor pelo Evangelho e seu desejo ardente de vê-lo propagado e almas sendo abençoadas, que ele nada faria que impediria esse progresso.
Aqui há uma consideração muito importante para cada pessoa salva; será que a minha vida ajuda ou atrapalha a expansão do Evangelho?
A melhor ajuda ao Evangelho em qualquer lugar é o bom testemunho
pessoal dos salvos naquele lugar, mas, lamentavelmente, nem sempre é
assim! Nossos dias são marcados, em grande medida, por um declínio
no fervor evangélico, que é essencial para a continuação e crescimento
do testemunho. É inegável que igrejas que perdem o interesse em propagar o Evangelho logo começarão a definhar, e finalmente morrerão. É
um bom sinal quando pode ser dito de uma igreja: “Porque por vós soou
a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também
em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou, de tal maneira que já dela não temos necessidade de falar coisa alguma” (I Ts 1:8).
Considera teu galardão futuro — 9:27
“Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado”.
Já vimos no capítulo algumas ilustrações abrangendo as áreas ocupacional (v. 7), agrária (v. 9) e eclesiástica (Levita e Sacerdote, v. 13).
Agora há outras que são baseadas no atletismo: um corredor (v. 24) e
um lutador (v. 26). Nestes versículos Paulo olha à frente para o dia da
recompensa, e para a possibilidade de ganhar o prêmio. Para alcançar
este prêmio várias atitudes ou considerações são necessárias.
É necessário ter singeleza de propósito (v. 24)
Neste versículo Paulo argumenta que, porque o prêmio será ganho
somente por uma pessoa, isto se torna a prioridade, e é de suma importância ao corredor. Assim ele diz: “Correi de tal maneira que o alcanceis”. O atleta não se preocupa com os outros ou como estão correndo,
62
A glória da igreja local
nem tem tempo a perder olhando ao redor e apreciando a paisagem. Ele
tem somente uma coisa em vista — o prêmio.
Isso não está ensinando que somente um salvo receberá o galardão,
nem é dado para encorajar um espírito de competição no serviço cristão,
mas ensina que cada um deve procurar ganhar um prêmio, e não ter a
atenção desviada por assuntos secundários.
É necessário ter abnegação (v. 25)
Cada atleta cuida bem do seu estilo de vida e sua dieta. Coisas que
são legítimas para outros não convém para ele, e assim está escrito: “E
todo aquele que luta de tudo se abstém”. Assim para o cristão espiritual
e sério, as coisas que os outros podem fazer e ter, mesmo que não sejam
pecaminosas, estarão fora dos seus limites. O atleta do mundo vive assim para alcançar uma “coroa corruptível”; o cristão pratica a abnegação
para obter “a coroa incorruptível”.
É necessário ter um único objetivo (v. 26)
O único objetivo do corredor e do lutador é vencer e ganhar o prêmio. Comparando-se a estes atletas, Paulo diz: “Pois eu assim corro não
como a coisa incerta; assim combato, não como batendo no ar”. Ele não
estava em dúvida sobre para onde iria, nem gastava tempo dando golpes
no ar, mas era um corredor sincero e esforçado, e um lutador preciso.
Assim, cada um que participa na corrida cristã precisa se focar no prêmio, e precisa controlar cada desejo que poderia desviá-lo deste alvo.
É necessário ter domínio próprio (v. 27)
Uma vida austera não é atrativa à natureza, e assim ele comenta:
“Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando
aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado”.
Cada instinto natural precisa ser dominado. O atleta não pode viver no
luxo e ficar ocioso, negligenciando o rigor do treinamento. Assim também o cristão. O salvo espiritual estará envolvido no treinamento que
vem através de devoção ao Senhor: Seus “músculos espirituais” serão
desenvolvidos por uma vida de leitura e estudo das Escrituras, dependência em Deus em oração, e comunhão com outros santos do mesmo
pensamento.
Negligenciar isso, ou procurar vantagem por desobedecer as normas, significaria “ficar reprovado”. Isto não significa perder a salvação,
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração
63
que é impossível, mas ser desqualificado e perder a coroa. Se “ser reprovado” era uma consideração séria para o apóstolo Paulo, quanto mais
para nós?
Considera tua posição presente — 10:12
Este versículo traz a todos uma consideração muito solene: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia”. Alguns dirão que nunca
serão reprovados. Os coríntios poderiam ter argumentado que sendo
salvos, batizados, estando em comunhão numa igreja que tinha muitos
dons, e ouvindo ministério maravilhoso, estavam protegidos contra tal
desastre.
Paulo agora ilustra o perigo voltando para um povo do Velho Testamento que, em figura, tinha as mesmas bênçãos. Em 10:1-4 ele usa a
palavra “todos” cinco vezes:
“Nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram
pelo mar” (v. 1), que nos lembra de como provaram a redenção. “E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar” (v. 2), indicando
o seu batismo. “E todos comeram de uma mesma comida espiritual e
beberam todos de uma mesma bebida espiritual” (vs. 3-4), que ilustra
a sua comunhão. Isso está na ordem de Atos 2:41-42: “De sorte que os
que de bom grado receberam a sua palavra [Redenção] foram batizados
[Batismo] … e perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão,
e no partir do pão e nas orações” (Comunhão). Assim, Paulo destaca
um povo que corresponde muito bem com uma igreja local do Novo
Testamento.
Mas o que aconteceu a eles? “Mas Deus não se agradou da maior
parte deles, por isso foram prostrados no deserto” (“eles ficaram espalhados no deserto”, JND — v. 5). Alguém pode perguntar: “Mas o que
isso tem a ver conosco?” É por isso que Paulo enfatiza que eles servem
como exemplos para nós: “foram-nos feitas em figura” (v. 6) e “estão escritas para aviso nosso” (v. 11). Se são exemplos para nos advertir, como
então foi que caíram? Houve cinco fracassos.
Eles “cobiçaram” (v. 6)
Eles se tornaram descontentes com a provisão de Deus — Números cap. 11.
Sua porção. A nação foi tirada do Egito e comeram o cordeiro
assado no fogo, que fala de Cristo na Sua paixão. No deserto a provisão
64
A glória da igreja local
foi o maná, que fala de Cristo na Sua Pessoa. Na terra eles comeram do
“fruto da terra“ ( Js 5:11-12), que fala de Cristo na Sua preeminência.
Paulo enfatiza a provisão do maná: eles se tornaram insatisfeitos com
ele. Não era tanto que estavam insatisfeitos com o maná em si, mas
porque era a única coisa que tinham para comer. Eles queriam algo
saboroso para acompanhá-lo. As razões para isso são dadas.
Suas recordações. Vemos isto em Números 11:5: “… lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; e dos pepinos, e dos
melões, e dos porros, e das cebolas, e dos alhos. Mas agora a nossa alma
se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos”.
Eles se lembravam de tudo que satisfazia seu apetite natural, mas convenientemente esqueceram-se da tirania e das chicotadas do Egito. Ali
eles tinham seis coisas, indicando que era tudo do homem natural e
da terra. Mas na terra, sete coisas lhes foram prometidas, lembrando-nos de plenitude e perfeição: “uma terra de trigo, e cevada, e de vides
e figueiras, e romeiras; terra de azeite de oliveiras e mel” (Dt 8:8, VB).
Quando a nossa leitura, oração e meditação em Cristo se tornam
uma tarefa cansativa, é então que o nosso coração se desvia para as coisas que gozávamos nos dias da incredulidade, e logo estaremos envolvidos novamente nas coisas que não nos satisfaziam naquele tempo. Não
pode haver crescimento para Deus se nós nos alimentarmos das coisas
da carne e da natureza corrupta. Buscar algo além dEle não produzirá
resultado algum. Não pode ser Cristo e o mundo; é necessário que seja
somente Ele.
A instigação. Esta atitude foi instigada pela multidão mista: “E
o vulgo que estava no meio deles veio a ter grande desejo; pelo que os
filhos de Israel tornaram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne
a comer?” (Nm 11:4). Esta é uma advertência importante nestes dias
quando a separação ao Senhor está se tornando coisa rara. Devemos
considerar cuidadosamente com quem andamos. A geração passada nos
dava o seguinte conselho: “Sempre ande na companhia daqueles que são
mais espirituais do que você mesmo”.
Idolatria (v. 7)
Eles se tornaram descontentes com o profeta de Deus — Êxodo
cap. 32.
Moisés tinha subido ao monte e se ausentara por um bom tempo.
Eles o perderam de vista e se tornaram impacientes, esperando a sua
Cap. 4 — A igreja local e sua consideração
65
volta. Eles queriam um deus, e Arão errou gravemente quando fez o
bezerro de ouro. Eles agora tinham um “deus” diante do qual podiam se
divertir, não um Deus que deveriam temer. Quão semelhante aos nossos
dias, quando a reverência e o temor do Senhor estão desaparecendo.
Hoje parece que muitos têm perdido a visão do Homem que subiu
ao Céu, e esperar a Sua volta está se tornando tedioso. Isso conduz ao
“bezerro de ouro”, que sugere, no ouro, o materialismo, e no bezerro, a
juventude. Estas duas coisas têm desviado muitas igrejas.
Fornicação (v. 8)
Eles se tornaram descontentes com o lugar que Deus escolheu —
Números cap. 25.
O lugar de Deus para Seu povo era um de separação das nações
do mundo. Contudo, quando Balaão foi alugado por Balaque, rei dos
Moabitas, para amaldiçoar o povo de Deus, ele descobriu que isto era
impossível. Então outro plano foi traçado para corrompê-los — misturá-los com as nações. O povo caiu nesta armadilha, e logo estavam
se misturando com Moabe e Midiã, que os levou ao pecado terrível de
fornicação. Moabe é figura do mundo na sua luxúria e divertimentos.
“Moabe esteve descansado desde a sua mocidade, e repousou nas suas
fezes, e não foi mudado de vasilha para vasilha, nem foi para o cativeiro;
por isso conservou o seu sabor, e o seu cheiro não se alterou” ( Jr 48:11).
“Ouvimos da soberba de Moabe, que é soberbíssimo; da sua altivez, da
sua soberba, e do seu furor; porém, as suas mentiras não serão firmes”
(Is 16:6). Midiã significa “contenda”, e assim é um grande aliado de
Moabe. A advertência é clara; devemos considerar o impacto da luxúria
e contenda na nossa posição como cristãos.
Tentando Deus (v. 9)
Eles se tornaram descontentes com o caminho de Deus — Números 21.
Lemos que “a alma do povo angustiou-se naquele caminho” (Nm
21:4). Possivelmente, acharam o caminho muito duro e difícil. O povo
queria um caminho mais fácil para a terra prometida, um caminho menos rigoroso. O que o Senhor espera dos salvos, reunidos em Seu Nome,
é que continuem como peregrinos e forasteiros: “Saiamos, pois, a ele
fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade
permanente, mas buscamos a futura” (Hb 13:13-14).
66
A glória da igreja local
Murmuração (v. 10)
Eles se tornaram descontentes com o sacerdócio de Deus — Números 16.
Coré, Datã e Abirão, juntos com duzentos e cinquenta príncipes,
se rebelaram contra a liderança dada por Deus. Eles queriam parte na
intimidade da aproximação sacerdotal a Deus, e Deus milagrosamente
demonstrou Seu grande desagrado. “E a terra abriu a sua boca, e os
tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens. E eles e tudo o que era seu desceram
vivos ao abismo, e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação” (Nm 16:32-33). Em seguida, Deus castigou os príncipes: “Então
saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinquenta homens que
ofereciam o incenso” (v. 35).
Rebelião contra homens que foram colocados por Deus na liderança é muito grave, e precisamos prestar atenção a este aviso.
Este incidente serve para salientar a verdade enfatizada nesta passagem, que não podemos permanecer em pé por própria força ou habilidade natural: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia”.
Conclusão
Temos observado as várias considerações esboçadas nestes capítulos
importantes e práticos de I Coríntios, e cada salvo deve:
Considerar seu irmão (8:9, 13) — Olhar em redor;
Considerar o Evangelho (9:12) — Olhar para fora;
Considerar seu galardão futuro (9:27) — Olhar para frente;
Considerar sua posição presente (10:12) — Olhar para dentro.
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
Por Walter A. Boyd, Irlanda do Norte
Introdução
Como vimos no Cap. 1, a palavra “Igreja”, nas Escrituras, tem dois
aspectos: uma igreja local se reunindo ao nome do Senhor Jesus, e “a
igreja que é o Seu corpo”, composta de todas as pessoas que creem no
Senhor Jesus nesta dispensação presente. Embora haja semelhanças no
controle de ambas, a forma do controle instituído por Deus numa igreja
local é diferente do controle na Igreja que é o corpo de Cristo. Cristo é
a Cabeça de uma igreja local e também da Igreja que é Seu corpo. As
Sagradas Escrituras são o meio pelo qual Cristo, como Cabeça, comunica Sua verdade aos membros do corpo, na energia do Espírito Santo.
Somente Cristo é a Cabeça da Igreja que é o Seu corpo; não há homem,
ou homens intermediários entre Cristo como Cabeça e os cristãos como
membros do Seu corpo.
Cristo é o Cabeça de uma igreja local reunida ao Seu Nome e responsável somente a Ele; não há nenhuma organização ou controle humano. Contudo, a situação numa igreja local é diferente, porque Cristo tem colocado homens numa igreja local que são capacitados pelo
Espírito Santo para os trabalhos de pastorear e cuidar, como será demonstrado no cap. 9 deste livro. A responsabilidade e a autoridade em
qualquer igreja local são colocadas nas mãos destes homens, conhecidos
como anciãos ou presbíteros. Estes homens sabem como exercer a autoridade dada por Deus; toda a informação necessária é encontrada nas
Escrituras do Novo Testamento. As Epístolas às igrejas e as Epístolas
Pastorais são especialmente úteis neste seu trabalho.
Dentro do contexto da igreja local e sua autoridade, mostraremos
que esta autoridade é baseada nos seguintes princípios:
• A autoridade do Senhor Jesus Cristo;
• A autoridade do Espírito Santo;
• A autoridade das Sagradas Escrituras.
Juntos, estes princípios formam uma corrente inquebrável de auto-
68
A glória da igreja local
ridade para o controle que foi confiado aos anciãos de uma igreja local.
Neste capítulo examinaremos esta autoridade e suas consequências práticas numa igreja local. Anciãos são colocados na igreja local pelo Espírito Santo (At 20:28); são responsáveis ao Senhor, o Supremo Pastor
(Hb 13:17); e têm as Sagradas Escrituras para sua direção em tudo que
fazem (At 20:32; II Tm 3:16-17). Vamos agora tratar destas três formas
de autoridade na ordem contrária à lista acima; mencionaremos com
poucos detalhes as duas primeiras, e concentraremos mais na autoridade do Senhor Jesus Cristo como a Cabeça exaltada da Igreja. Quando
falamos do Senhorio de Cristo estamos nos referindo à autoridade do
Senhor Jesus Cristo como estabelecida pelas Escrituras e reconhecida
por cada cristão na igreja local.
É fundamental observar que, ao providenciar direção para o testemunho cristão de uma igreja local, as Escrituras são completas e finais.
Isto lhes investe com a autoridade total da palavra falada de Deus. Nos
assuntos tratados pelas Escrituras, é Deus Quem está falando: portanto,
Seu controle é absoluto. As Escrituras dão aos anciãos o “assim diz o
Senhor” para todas as suas ações e decisões. Na distribuição e uso dos
dons numa igreja local, o Espírito Santo é soberano e está em controle
(I Co 12:1-11). Na administração da graça para as necessidades de uma
igreja local, o Senhor Jesus, como Cabeça Ressurreta, anda no meio dos
sete castiçais de ouro para esquadrinhar a sua condição e providenciar o
que é necessário de correção ou consolação; veja Apocalipse caps. 2 e 3.
A autoridade das Sagradas Escrituras
Quando um assunto é descrito como sendo autoritário, a base da
sua autoridade precisa ser estabelecida. O fundamento para tudo que é
ensinado numa igreja local é a Palavra inspirada de Deus. II Timóteo
3:16-17 deixa bem claro que toda a Escritura é inspirada por Deus e
é útil para vários fins: ensinar, admoestar, corrigir, e para instruir em
justiça. Autoridade é uma das consequências imediatas da inspiração
das Escrituras. Visto que as Escrituras são inspiradas, elas têm a plena
autoridade de Deus que as deu. Nada pode diminuir esta autoridade,
e ela deve ser reconhecida por cada verdadeiro cristão. Com base na
inspiração, Deus tem estabelecido a autoridade das Escrituras: é a nossa
responsabilidade reconhecer este fato. Quando fomos salvos, nos submetemos a esta autoridade ao ouvir e crer na Palavra de Deus ( Jo 5:24;
Rm 10:17). Assim como aceitamos o que as Escrituras nos ensinaram
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
69
sobre a salvação, devemos reconhecer a sua autoridade para dirigir a vida
que recebemos. Os santos em Tessalônica manifestaram esta atitude, e
Paulo os elogiou por isso nas palavras de I Tessalonicenses 2:13: “Por
isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido
de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de
homens, mas (segundo é, na verdade), como a palavra de Deus, a qual
também opera em vós, os que crestes”. Esta deve ser a atitude de cada
salvo numa igreja local: a aceitação da Palavra de Deus como autoritária
e suficiente. Há grande necessidade de manter a autoridade das Escrituras através da nossa aceitação pessoal delas como suficientes no seu
conselho e completas nas suas admoestações.
Não precisamos de nada além da Palavra de Deus para nos guiar
nos assuntos da igreja local. Toda necessidade de direção que uma igreja
local pode enfrentar é suprida plenamente pelas Escrituras por um, ou
mais, dos seguintes métodos de transmitir esta verdade: preceitos a obedecer, princípios a utilizar e práticas a seguir.
Existem certas situações para as quais Deus tem dado preceitos: isto
é, instruções claras e duráveis. Por exemplo, os símbolos que devemos
usar ao nos lembramos do Senhor na Ceia são claramente afirmados,
não somente nos relatos da instituição da Ceia nos Evangelhos, mas
também nas instruções do apóstolo Paulo sobre a Ceia, em I Coríntios
11:23-34. Há outras situações onde não achamos preceitos específicos
na forma de “assim diz o Senhor”; mas um princípio claro é percebido
pela leitura das Escrituras. Por exemplo, uma igreja quer saber que idade
os anciãos devem ter, ou quantos anciãos devem estar cuidando dos santos na igreja local. O Novo Testamento não dá mandamentos específicos sobre estas coisas. Contudo, quando consideramos as referências a
anciãos e seu trabalho, logo vemos princípios para nos guiar: um ancião
não pode ser alguém inexperiente (“não neófito”, I Tm 3:6), e deve haver
mais que um ancião numa igreja (Fp 1:1). Assim, mesmo que não haja
preceitos específicos para responder estas perguntas, não ficamos sem
diretrizes — há princípios claros para nos guiar.
Há também situações onde não há um preceito, mas se lermos cuidadosamente a Palavra de Deus veremos que havia uma prática clara observada entre os apóstolos e os cristãos primitivos. Por exemplo,
quando é que um novo convertido deve ser batizado? Não encontramos
um preceito ou princípio direito sobre este assunto; mas no Novo Testamento o batismo sempre estava intimamente ligado à conversão, e
70
A glória da igreja local
assim a prática seguida pelos Apóstolos era que o batismo acontecia
logo depois da conversão. Não é nosso assunto neste capítulo, mas é
importante que os irmãos responsáveis pelo batismo de convertidos verifiquem cuidadosamente se a pessoa pedindo batismo está mostrando
evidências de salvação e vida piedosa.
Esta aceitação incondicional da autoridade dos preceitos, princípios
e práticas das Sagradas Escrituras era uma das características dos irmãos das gerações passadas. Para eles era suficiente ver que “está escrito”
para tirar todas as dúvidas. Esta mesma atitude entre as igrejas locais
nos nossos dias traria as mesmas bênçãos e favores divinos gozados pelas gerações passadas.
A autoridade das Escrituras conduz uma igreja a uma liberdade
simples que a livra de muitas distrações espirituais modernas. Uma das
distrações mais difundidas hoje é o movimento da Igreja Emergente*.
Os anciãos deveriam conhecer o perigo deste movimento insidioso e
suas várias manifestações. Não é uma denominação específica, mas uma
filosofia de ministério que atravessou as barreiras denominacionais e se
infiltrou nos escritos e livros de autores bem conhecidos. Um dos seus
ensinos básicos é que, desde que vivemos num mundo que está constantemente mudando, precisamos também mudar nossos métodos, ou
vamos rapidamente ficar irrelevantes aos incrédulos.
Para ajudar seus objetivos, a ideia da verdade ser absoluta é completamente rejeitada. Relativismo — a teoria de que os padrões podem
mudar de acordo com as circunstâncias — é a nova ordem do dia. Por
causa desta atitude, há uma grande falta de ênfase na pregação da Palavra de Deus em qualquer forma, mas especialmente na exposição. A
preferência é por algo mais leve, como “um tempo de compartilhar”,
quando cristãos compartilham com outros do seu grupo o que a Bíblia
significa para eles na sua situação atual. Dizem que a pregação bíblica
aliena os incrédulos, e pode até ofendê-los! Você frequentemente ouvirá
tais sentimentos expressados nas seguintes frases: “Bem, é isto que este
versículo significa para mim”, ou “Essa é a sua opinião do versículo,
a minha é completamente diferente, mas também é válida”. Isto cria
um ambiente onde qualquer coisa é válida. Quando os anciãos ouvem
tais coisas não significa, necessariamente, que estão ouvindo alguém rebelar abertamente contra a Palavra de Deus. Talvez cristãos inocentes
*
Uma publicação útil que trata deste assunto é “Becoming Conversant With The Emerging Church
Movement”, por D. A. Carson, Zondervan Books, 2005.
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
71
deixaram-se enganar pelos pretenciosos princípios que este movimento
reivindica. Entretanto, é um sinal de algo muito mais sutil, e igualmente
sério, como uma negação aberta da verdade que as Escrituras ensinam.
A autoridade das Sagradas Escrituras não somente traz liberdade a
uma igreja, mas também traz estabilidade. A Palavra de Deus numa circunstância específica é a espada do Espírito, e uma igreja que reconhece
a sua autoridade terá a capacidade para usá-la como espada em qualquer
situação que exige defesa. Sem hesitação, ou reservas, os santos podem
afirmar: “Está escrito”. Não haverá necessidade de procurar ajuda de
outras igrejas, ou temer o que outras igrejas vão pensar. A igreja que
permite que a Palavra de Deus tenha sua devida autoridade pode andar
num caminho firme de testemunho para o Senhor, sabendo que está
dando prazer ao Senhor.
A autoridade das Sagradas Escrituras também concederá unidade
à igreja local. Se cada cristão na igreja reconhece a autoridade da Bíblia
com a mesma sinceridade, não haverá desunião entre eles. Da mesma
forma, se cada igreja local reconhecesse a autoridade absoluta das Escrituras, haveria comunhão e harmonia perfeitas entre as igrejas vizinhas
enquanto, juntas, se submetem à verdade das Escrituras.
É uma reflexão triste da nossa espiritualidade quando a liberdade,
estabilidade e união não estão tão firmemente estabelecidas na vida das
igrejas, como deveriam estar. A paralização das atividades evangélicas
será inevitável se não mantivermos uma firme aceitação da autoridade
das Escrituras, que dizem: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a
toda criatura” (Mc 16:15).
Se a autoridade das Escrituras não for reconhecida por “conservar o
modelo das sãs palavras” (II Tm 1:13), o resultado será um desvio sério
no testemunho da igreja. Contendas e facções irreparáveis serão o triste
resultado se os santos não reconhecerem a autoridade das Escrituras (I
Co 11:16).
A autoridade do Espírito Santo
Este assunto é tratado detalhadamente no cap. 7, onde é dada uma
explicação do papel do Espírito Santo na distribuição e direção dos
dons espirituais na igreja local.
72
A glória da igreja local
A autoridade do Senhor Jesus Cristo
A autoridade do Senhor Jesus Cristo na igreja local é ensinada por
meio de duas verdades que são distintas, embora intimamente relacionadas: Senhorio e Autoridade*. O Senhorio de Cristo indica posse, propriedade (I Co 7:22), quando Ele exerce autoridade, soberania e poder
(Cl 3:22-23). A Autoridade indica um relacionamento em que Cristo,
como Cabeça, é responsável pelo sustento do corpo (Ef 5:29), pela provisão para o corpo (Ef 5:25-28), e pela proteção do corpo (Ef 5:21-23).
O Senhorio e a Autoridade estão tão inextricavelmente ligados que minha submissão à Autoridade de Cristo está em harmonia com minha
submissão ao Seu Senhorio, e vice versa: um exige o outro.
Cristo, como Cabeça da Igreja que é Seu corpo, é uma das grandes
e repetidas verdades do Novo Testamento (Ef 1:22; Cl 1:18). A palavra
kephale que o Novo Testamento usa para Cristo como Cabeça já foi debatida por séculos, na tentativa de interpretá-la como fonte, ou origem,
em vez de aceitar o significado tradicional com o sentido de autoridade,
direção, liderança e poder. A posição do presente autor é a interpretação tradicional de “Cabeça”, significando autoridade. Alguém querendo
estudar outras razões que defendem esta interpretação encontrará ajuda
num artigo escrito por Wayne Grudem†.
Como o foco deste capítulo é a igreja local, o restante do capítulo
será uma exposição da verdade sobre a Autoridade de Cristo. A nossa
submissão à Autoridade e ao Senhorio de Cristo exige obediência pessoal a Ele. A submissão ao Senhorio de Cristo é demonstrada principalmente de uma maneira pessoal, quando o cristão individual demonstra
sua submissão a Cristo como Senhor da sua vida. Entretanto, a submissão à Autoridade de Cristo é uma verdade que se expressa na igreja local
reunida em serviço e adoração a Ele.
Submissão à Autoridade de Cristo é demonstrada por uma igreja
local de, pelo menos, duas maneiras:
• Nossa obediência no exercício dos dons na igreja;
• Nossa obediência nas diferentes funções entre homens e mulheres
na igreja local.
*
Usaremos “autoridade” para traduzir o termo “headship” (que, literalmente, seria “ocupar a
posição de cabeça”). (N. do E.)
†
GRUDEM, Wayne. “The Meaning of ephale (Head): An Evaluation of New Evidence, Real and
Alleged”. Journal of the Evangelical Theological Society 44:1 (Março 2001) págs. 25-65.
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
73
Reconhecemos que esta é uma área de verdade veementemente resistida. Entretanto, temos de encarar o que as Escrituras ensinam, pois
fazer diferente seria equivalente a desobedecer.
Quando o apóstolo Paulo deu instruções sobre Autoridade à igreja
em Corinto, ele sabia que estava encarando uma possibilidade de oposição (I Co 11:16). Não é diferente hoje; por algum motivo, ensino sobre
senhorio e autoridade muitas vezes não é bem vindo. Para alguém que
tem dúvidas sobre a validade deste ensino, as palavras do Senhor Jesus
em João 7:17 são esclarecedoras: “Se alguém quiser fazer a vontade dele,
pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus …” A confirmação de
que o ensino do Salvador tinha o selo da aprovação do Céu foi achada
em obedecê-lo: obedecer às Suas palavras trazia o conhecimento da Sua
vontade. O mesmo se aplica à submissão à verdade sobre a Autoridade.
Neste assunto, as perguntas importantes são: “O que a Bíblia ensina?”
e “Estou disposto a obedecer este ensino?” Provaremos a validade da
verdade pela nossa obediência a ela.
A autoridade vista no exercício de dons na igreja
Frequentemente pensamos que a única maneira de reconhecer a
Autoridade na igreja local é pela cabeça descoberta e cabelo curto dos
homens, e pela cabeça coberta e cabelos compridos das mulheres. Mas
há mais envolvido na verdade sobre Autoridade do que isto. Reconhecer
Cristo como Cabeça da Igreja também significa submissão a Ele na
esfera em que Ele tem controle. Sendo a Cabeça Ressurreta, Ele tem
controle sobre o exercício dos dons na igreja reunida.
Sem entrar no assunto que será tratado no cap. 7 deste livro, é importante ver que I Coríntios caps. 12-14 ensina que o exercício do dom
espiritual na igreja local, embora executado na energia do Espírito Santo, é na direção do Senhor: é debaixo das Suas ordens. Na opinião deste
presente autor, a frase “a direção do Espírito Santo” está sendo usada
demais nas igrejas, até o ponto de insistir numa prática que prejudica a
igreja. I Coríntios 12:4-7 faz distinções precisas sobre a distribuição e
uso dos dons. Os dons são dados pelo Espírito Santo; um irmão tem um
dom dado a ele pelo Espírito Santo. Mas em I Coríntios 12:5 precisamos observar que a administração do seu dom, isto é, o seu uso na igreja,
está sob a direção e controle do Senhor. I Coríntios 12:6 ensina que o
poder para usar o dom vem somente de Deus, e isso indica que a pessoa
74
A glória da igreja local
usando o dom é responsável a Deus. Portanto, é confundir estes princípios falar de uma reunião sendo “deixada aberta para a direção do Espírito Santo”. O controle dos irmãos capacitados nas reuniões da igreja
está nas mãos do Senhor Jesus Cristo como Cabeça; e o poder para
exercer o dom é dado pelo Espírito Santo. Falhar no reconhecimento
destes princípios é deixar de dar ao Senhor o Seu devido lugar como
Cabeça. Uma reunião pode ser deixada sem qualquer plano prévio sobre
quem vai falar, mas para ser proveitosa para a igreja, aqueles que falam
precisam ser capacitados pelo Espírito Santo para este trabalho, e eles
precisam estar com a mente do Senhor ao se levantarem para falar.
Autoridade vista em funções diferentes dos homens e
mulheres na igreja
Agora vamos considerar I Coríntios 11:2-9 em relação à Autoridade. Nestes versículos as Escrituras mostram como Deus deseja que os
homens e as mulheres mostrem, de maneiras diferentes, sua submissão
à Autoridade de Cristo na igreja local. Paulo começa o assunto falando
de uma maneira conciliatória, ao elogiá-los pela sua obediência às tradições apostólicas que ele ensinara. No cap. 11, Paulo vai tratar de dois
problemas em Corinto, e como é seu costume, ele deixa o problema
mais grave para o fim — a embriaguez e desordem na Ceia. Isto não
quer dizer que o problema em relação à Autoridade não tinha importância. Ele usa quinze dos trinta e quatro versículos para corrigir este
assunto, que ele identifica como uma das “tradições” apostólicas.
Ao descrever o seu ensino como “tradição”, Paulo não está dizendo
que a Autoridade é uma tradição porque eles a tinham guardado por
um período de tempo. A palavra “tradição” é usada para descrever os
ensinos apostólicos que tinham sido entregues por Deus a Paulo, e em
seguida aos coríntios. Os assuntos que Paulo iria corrigir neste capítulo
eram parte da sua mordomia — foram entregues a ele como um tesouro
precioso para ser preservado. Ele informa os coríntios que, mesmo que
tivessem guardado as tradições, ainda há coisas precisando de esclarecimento e correção. É por isso que ele diz no v. 3: “Mas quero que
saibais …” Seu ensino corretivo é sobre a demonstração de Autoridade
na igreja local, e ele usa três argumentos: um baseado na Cristologia, um
baseado na Criação, e um baseado na Decência.
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
75
O argumento da Cristologia (I Co 11:3-6)
Paulo começa seu discurso apresentando o fundamento Cristológico para o assunto de Autoridade em 11:3, isto é, este assunto é baseado numa compreensão da doutrina da Pessoa de Cristo. Ele fala da
hierarquia da Autoridade, afirmando que “Cristo é a cabeça de todo o
homem; e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo”. É
importante observar que ele afirma as implicações da autoridade para o
homem, depois a mulher, e Cristo no final. Talvez nós acharíamos que
ele deveria ter começado dizendo que Deus é a cabeça de Cristo, para
dar mais solenidade ao assunto. Contudo, o fato de Deus ser a cabeça de
Cristo não é o ponto central no argumento do apóstolo nesta questão
de cobrir a cabeça; e por isso ele o menciona por último. A questão a
ser corrigida é a autoridade de Cristo como demonstrada pelo homem
e também pela mulher. Como mencionamos mais cedo, o significado
da palavra “cabeça” no v. 3 é “autoridade e poder”; não se trata de desigualdade ou inferioridade. Cristo é sujeito à autoridade do Pai, como
em Filipenses 2:5-7 e I Coríntios 15:28; mas o Pai não é a “fonte ou
origem” de Cristo, como alguns querem interpretar “cabeça”. Efésios
5:23 reforça esta interpretação, ao ensinar que a esposa deve se submeter
ao seu marido porque ele é sua “cabeça”. Obviamente ele não é “cabeça”
no sentido de ser a sua “fonte ou origem”, mas no sentido de autoridade.
Este versículo também esclarece que submissão à Autoridade não
tem nada a ver com inferioridade das mulheres ou seu domínio pelo homem, pois Cristo não era inferior ao Pai e nem foi dominado pelo Pai.
Está relacionado com a aceitação da função dada por Deus. Também
é importante salientar que, no v. 12, onde Paulo faz um apelo à ordem
criatorial, embora as palavras traduzidas “homem” e “mulher” podem,
em outros lugares, ser traduzidas “marido” e “esposa”, o contexto aqui
mostra que este ensino sobre a Autoridade está relacionado a homem
e mulher, e não somente a marido e esposa. Se a passagem significasse
“marido” e não “homem”, então o v. 12 significaria que a esposa provém
do marido, como também o marido da esposa, que é incompreensível!
Em I Coríntios 3:21-23 Paulo usa esta mesma hierarquia Divina, quando ele afirma que aqueles que ensinam a Palavra de Deus são [estão
debaixo] de Cristo, e Cristo é [está debaixo] de Deus.
Em 11:4-6, Paulo salienta as implicações desta hierarquia dentro
da Autoridade. O homem não deve cobrir a sua cabeça física quando
ele ora ou profetiza. Se ele tiver sua cabeça coberta ele está desonrando
76
A glória da igreja local
sua cabeça (v. 4). Como devemos entender esta palavra “cabeça” no final
do v. 4? Ele está desonrando sua cabeça física, ou sua cabeça figurativa,
que é Cristo? O uso do artigo (no grego) com a palavra “cabeça” sugere
que é sua cabeça física que ele desonra. Contudo, o argumento por extrapolação inclui o fato que ele também desonra sua cabeça figurativa,
Cristo. O homem que ora ou profetiza com sua cabeça coberta desonra
a si mesmo e também desonra a Cristo.
Semelhantemente, o v. 5 afirma claramente: “toda mulher que ora
ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça,
porque é como se estivesse rapada”. A mulher orando ou profetizando
com sua cabeça descoberta desonra sua cabeça física, e assim também
desonra o homem, que é sua cabeça figurativa. Isto indica que se ela
desonra o homem, esta desonra também reflete de maneira negativa em
Cristo, que é a cabeça do homem. Alguns argumentam que a cabeça
descoberta da mulher significa que ela cortou o seu cabelo, porque no
v. 15 lemos que “o cabelo lhe foi dado em lugar de véu”. A razão por
não aceitar esta ideia é que a palavra “coberta” usada no v. 4 vem de
uma palavra grega que significa “tendo alguma coisa sobre a cabeça”. A
mesma palavra grega, na forma substantiva, é usada na LXX em Isaías
47:2, onde e traduzida “remove o teu véu”. Porém a palavra grega traduzida “véu” no v. 15 é diferente*; significa “algo enrolado em torno de”,
e portanto se refere a alguma coisa que encobre, adicional ao cabelo da
mulher.
Agora precisamos considerar o que significa a frase “orando ou profetizando” (vs. 4-5). O espaço disponível não permite apresentar todas
as sugestões que existem sobre este assunto. A explicação mais simples
é que a Autoridade exige que o irmão descubra a sua cabeça, e que a
mulher cubra a sua cabeça durante as orações ou profecias nas reuniões
da igreja. Quando um homem dirige o grupo em oração a Deus, ou dá
instruções da parte de Deus, cada membro do grupo participa nesta
atividade. Assim, cada pessoa está “orando ou profetizando”. Oração é
falar com Deus, e profetizar é falar em prol de Deus. É importante observar que esta foi a interpretação aceita durante toda a época da Igreja,
até que surgiu o Movimento Feminista, na última metade do século XX.
Esta atividade de orar ou profetizar inclui todas as reuniões em que
há oração ou pregação. Entre outras, inclui escolas dominicais, reuniões
para crianças, reuniões evangelísticas. Surge então a pergunta — será
*
Tanto que na ARA é usada a palavra “mantilha” no v. 15. (N. do T.)
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
77
que o assunto do véu se aplica a todas as reuniões, ou apenas às reuniões
da igreja? Neste contexto devemos observar que no v. 1 Paulo está falando sobre “preceitos”: os ensinos e práticas que ele, como Apóstolo,
passou para a igreja. Isto, claramente, sugere as reuniões da igreja. É
improvável que a atividade de profetizar, nos vs. 4-5, acontecesse em
particular. No v. 16, Paulo chega à sua conclusão afirmando que “nós
não temos tal costume, nem as igrejas de Deus”: o que novamente sugere que esta instrução tenha aplicação à igreja. Então, se estas instruções
são para as reuniões da igreja, será que há necessidade de obedecê-las
em reuniões que não são da igreja? É muito fácil fazer perguntas sobre
situações hipotéticas, mas é mais difícil respondê-las. Entretanto, lembrando do que escrevemos na introdução, devemos procurar um preceito, e onde nenhum preceito é dado, devemos procurar um princípio.
Às vezes a pergunta é feita, será que uma irmã deve cobrir a cabeça
num casamento ou enterro? Os preceitos de I Coríntios 11 são dados
para situações quando os cristãos se reúnem. Se num casamento ou enterro os cristãos se ajuntam (11:17, 18, 20, 33, 34) e estão ocupados em
falar com Deus ou em ouvir a comunicação de Deus na pregação, então
a cabeça dos homens estará descoberta e a cabeça das mulheres coberta.
Se um cristão, membro de uma igreja local, é convidado a um casamento ou enterro fora da responsabilidade da igreja local (por exemplo, o
enterro de um parente que não estava em comunhão numa igreja local),
então não podemos esperar achar um preceito para governar esta situação, pois o Novo Testamento não dá ensino para um ajuntamento que
não seja de uma igreja local. Entretanto, há um princípio envolvido:
a mulher não deve trazer desonra sobre a sua cabeça, e assim sobre o
Senhor por ter sua cabeça descoberta onde há oração ou pregação coletiva. A localidade não importa: pode ser dentro de casa ou ao ar livre. A
questão é o reconhecimento da Supremacia do Senhor entre o Seu povo
durante a sua atividade de orar ou pregar. Há outros princípios envolvidos, e com igual importância em tal caso. Há a questão do testemunho
da igreja local onde a irmã se reúne: o que a sua cabeça descoberta vai
mostrar para os outros presentes? Estas são considerações solenes de
princípios que não devemos negligenciar.
Outro problema é causado por aqueles que dizem que um chapéu,
como usado pelas mulheres na cultura ocidental, não serve, e que ela
deve usar um véu. Notamos que Paulo não mencionou nenhuma coisa
específica, mas usa um termo geral (“cobrir”), e assim qualquer coisa que
78
A glória da igreja local
cobre a cabeça é suficiente, independentemente do tipo de material ou
modelo. Um lenço, mantilha ou pano semelhante, que cobre a cabeça, é
o mais perto que podemos chegar ao significado da palavra que Paulo
usa para “cobrir”. Isso não exclui um chapéu, como é usado em muitas
partes do mundo ocidental. Também, devemos notar que o propósito é
cobrir a cabeça, e não o cabelo (vs. 5, 10). Devemos tomar cuidado em
relação ao estilo extravagante, e o custo exagerado, de alguns chapéus. A
função principal de cobrir a cabeça é demonstrar submissão à Autoridade, e não chamar atenção ou estar na moda. Frequentemente é dito que
é o cabelo da mulher, que é a sua glória, que deve ser coberto quando
ela estiver na presença do Senhor na igreja local. Se fosse assim então a
mulher precisaria usar seu cabelo de uma maneira que ficasse totalmente invisível. Mas este não é o significado. O cabelo da mulher é lhe dado
como cobertura, mas não diz que é lhe dada como glória, como alguns
afirmam. O que 11:15 diz é que “… ter a mulher cabelo crescido lhe é
honroso”. A sua glória não é o cabelo em si, mas o fato dela ter deixado
o cabelo crescer em obediência às Escrituras, e em reconhecimento da
Autoridade do homem e de Cristo. É realmente o inverso do v. 6, onde
ter cabelo tosquiado, ou rapado, é coisa indecente para a mulher.
Alguns argumentam que há um argumento cultural inerente no
raciocínio de Paulo, e portanto seu argumento não se aplica à nossa
cultura hoje. Obviamente, este não é o caso. A história revela que entre
os judeus os homens cobriam suas cabeças quando adoravam, e as mulheres descobriam as suas. Entre os romanos, tanto os homens como as
mulheres cobriam suas cabeças quando adoravam seus deuses pagãos.
Entre os gregos, tanto os homens como as mulheres descobriam suas
cabeças quando adoravam seus deuses. Assim, Paulo está confirmando
um ensino que era culturalmente diferente de todo grupo e sociedade
de onde vieram os convertidos para formar a igreja local. Ele baseia seu
ensino num fundamento teológico, e não nos costumes sociais daquele
tempo.
O argumento da Criação (I Co 11:7-12)
No parágrafo anterior observamos que o homem e a mulher têm
responsabilidades diferentes em relação à Autoridade por causa da nossa ligação com Cristo, e por causa da Sua posição de supremacia na
ordem estabelecida por Deus. O Apóstolo agora procede no seu argumento, mostrando que o homem e a mulher têm ligações conjuntas
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
79
dentro da ordem criatorial de Deus, e que a autoridade do homem sobre
a mulher deve ser mostrada por causa da ordem natural das coisas na
Criação. A Criação mostra que a mulher foi criada do homem e para
o homem. Por isso Paulo afirma, no v. 7, que o homem é a imagem e
glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. A mulher não é
imagem do homem; ela também é imagem de Deus (veja Gn 1:26-27).
Por esta razão, o homem não deve cobrir a sua cabeça (v. 7), e a mulher
deve “ter sobre a cabeça sinal de poderio” (v. 10). A Adão, como o primeiro homem criado, foi conferido Autoridade, como podemos ver em
cinco detalhes no relato da Criação em Gênesis caps. 1-3:
i) Adão foi criado antes de Eva;
ii) Adão tinha a autoridade para dar aos animais os seus nomes antes
de Eva ser formada;
iii) Adão tinha a autoridade de dar nome a Eva depois de ser formada
por Deus;
iv) Deus considerou Adão responsável pela Queda, embora Eva desobedecesse primeiro (veja também Rm 5:12);
v) Eva foi chamada por Deus de “auxiliadora idônea” para Adão quando ela foi criada, antes da Queda.
As Escrituras do Novo Testamento enfatizam a Autoridade de
Adão em Romanos 5:12-21, e o fato que Deus criou Adão primeiro
é a base deste ensino sobre Autoridade (I Co 11:8-9; I Tm 2:13). A
verdade sobre Autoridade abrange a responsabilidade do homem para
com Deus e sua autoridade sobre a mulher. A Autoridade do homem
no lar é ensinada em Efésios 5:22-24, e sua Autoridade na igreja local
é ensinada em I Coríntios 11. Tanto a sequência da criação do homem
e depois da mulher (v. 9), como o propósito da criação da mulher para
o homem (v. 8), são usados para ensinar sobre a Autoridade do homem
sobre a mulher. É significante que é neste ponto que Paulo acrescenta
afirmações que qualificam esta autoridade. O homem e a mulher não
são independentes um do outro, nem é o homem superior à mulher por
causa de ter sido criado antes dela (vs. 11-12). A mutualidade do seu
relacionamento não é anulada pela autoridade do homem. O raciocínio
aqui é facilmente entendido, com a exceção das duas frases no v. 10, “sobre a cabeça sinal de poderio” e “por causa dos anjos”, que agora vamos
considerar.
“Sobre a cabeça sinal de poderio” tem sido explicado como um sinal
80
A glória da igreja local
de estar debaixo de autoridade (margem da Bíblia de Newberry). “Portanto” (v. 10) está se referindo aos versículos anteriores como a razão por
que a mulher deve cobrir a cabeça; é símbolo da prioridade do homem
na criação como Cabeça, e do propósito da mulher na Criação, como
sua auxiliadora. Para uma mulher não cobrir a sua cabeça nas reuniões
é como se ela falasse duas coisas: “Eu não estou debaixo da autoridade
do homem, e tenho a minha própria autoridade”. Por outro lado, se
o homem cobrir a sua cabeça nas reuniões é como se dissesse: “Não
tenho autoridade própria e estou debaixo da autoridade da mulher”,
pois, realmente, não há mais ninguém ali a quem ele pode curvar-se em
submissão a não ser Cristo, e sua submissão a Cristo será demonstrada
por não cobrir a cabeça.
“Por causa dos anjos” é mencionado como outra razão por que a
mulher deve cobrir a cabeça. Os anjos são os agentes que cuidam dos
interesses de Deus, especialmente nas atividades espirituais. Os serafins
em Isaías 6, que clamaram “Santo, santo, santo”, cobriram seus rostos
e seus pés porque estavam na presença de Deus. A palavra grega usada
na Septuaginta para “cobrir” em Isaías 6:2 é a mesma palavra que Paulo
usa no v. 6, sobre o cobrir da cabeça da mulher. Se os anjos, que não
são parte da hierarquia mencionada no v. 3, se cobrem na presença de
Deus, então a mulher, que é sujeita à autoridade do homem, de Cristo e de Deus, deve tomar cuidado e não repetir a ação rebelde que os
anjos testemunharam em Gênesis 3. Os anjos testemunharam a queda
do homem por causa da usurpação feminina da autoridade de Deus e
do homem. As consequências tão abrangentes daquela usurpação são
vistas através de toda a existência humana; e agora, é o privilégio da
humanidade redimida demonstrar que a autoridade, divinamente dada
ao homem, foi restaurada na igreja local onde a Autoridade é honrada.
Nesta parte do ensino sobre Autoridade, é útil destacar a estrutura
na passagem em que Paulo ensina:
• 11:7 — Homens não devem cobrir suas cabeças por causa das razões dadas nos vs. 8-9;
• 11:8-9 — As razões que apoiam a ordem sobre cobrir a cabeça;
• 11:10 — As mulheres devem cobrir suas cabeças por causa das razões dadas nos vs.8-9.
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
81
O argumento da decência (I Co 11:13-15)
Até este ponto Paulo tem argumentado usando razões teológicas,
mas agora, no v. 13, ele introduz outro argumento, baseado no que é
“decente” ou “conveniente”. Nos parágrafos anteriores identificamos as
nossas responsabilidades por causa da nossa ligação com Cristo e por
causa da nossa ligação mútua dentro da ordem criatorial. Nos vs. 13-15,
as Escrituras agora mostram que a própria natureza do homem e da
mulher também tem uma influência no assunto, e os convida a julgar
por si mesmos: na ordem espiritual, é decente que a mulher ore a Deus
sem cobrir a cabeça, em vista do que foi dito anteriormente? Ao lembrarmos dos argumentos sobre a Autoridade do homem, da Criação e
dos anjos, seria correto para a mulher orar descoberta? A resposta inferida é — nunca! Paulo argumenta que visto que a natureza deu à mulher
um tipo de cobertura na esfera natural, ela deve estar disposta a usar
outro tipo de cobertura na esfera espiritual. No caso de uma mulher
orar sem cobrir a cabeça (v. 13), e um homem ter cabelo crescido (v. 14),
Paulo apela à natureza como dada pela mão de Deus na Criação. Deus
implantou no homem e na mulher, na Criação, um senso apropriado
do que é certo ou errado. Romanos 1:26-27 é uma passagem paralela,
que apresenta um conceito semelhante daquilo que é certo e errado
sendo identificado pela nossa natureza, gravada pelo dedo de Deus, na
Criação. O cabelo crescido do homem e o cabelo curto da mulher são
contrários ao bom senso natural. Para a mulher usar o cabelo crescido,
de maneira feminina, é um sinal exterior de que ela está entendendo e
cumprindo seu papel na Criação. Semelhantemente, para o homem ter
cabelo curto, de maneira masculina, é cumprir seu papel na Criação.
Como o homem e a mulher usam o seu cabelo é um sinal exterior de
que estão ou não permanecendo na ordem correta da Criação.
Devemos notar que agora Paulo somente menciona orar e não profetizar, como fez no v. 5. Isso enfatiza o fato que profetizar na reunião
era proibido para a mulher (14:34); mas toda mulher participava nas
orações da congregação, e portanto deveria ter a sua cabeça coberta.
Nesta parte, onde ele apela à decência, Paulo então introduz o assunto do cabelo, porque ele está intimamente associado com a cabeça
(vs. 14-15). Também há uma ligação com os vs. 5-6, onde Paulo falou
que é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada. A “desonra”
e “indecência”, dos vs. 5-6 devem ser entendidas à luz do que ele afirma aqui nos vs. 14-15. Paulo faz uma pergunta retórica em relação à
82
A glória da igreja local
ordem aceitável na esfera natural. Ele pede a sua consideração ao fato
que, como a natureza ensina o homem usar cabelo curto e à mulher
usar cabelo crescido como uma cobertura natural, não seria o caso que
a natureza também está ensinando que o homem não deve cobrir a sua
cabeça, e que a mulher deve cobrir a sua cabeça nas reuniões da igreja?
A pergunta é feita de tal maneira que a resposta só pode ser afirmativa.
Quando Paulo fala sobre a natureza, ele está se referindo à maneira
que a sociedade age normalmente. Ele não está dizendo que, fisiologicamente, o cabelo do homem é curto, e o da mulher comprido: ele está
dizendo que os homens normalmente cortam seus cabelos e as mulheres geralmente deixam seu cabelo crescer. Isso não quer dizer que as
mulheres não precisam cobrir suas cabeças, mas que, como ela já tem
uma coisa que a cobre na esfera natural, ela deve também usar outra na
esfera espiritual. Voltando ao v. 6, o argumento agora parece mais claro:
se ela recusa cobrir a cabeça na esfera espiritual, então, para ser consistente, ela deve também recusar a cobertura natural, e tosquiar ou rapar
seus cabelos! A conclusão é que se nenhuma mulher pensaria em fazer
isso, por que então as irmãs devem pensar em fazer algo mais sério, na
esfera espiritual, deixando de cobrir a sua cabeça?
Nos vs. 5-6 a vergonha e desonra da mulher é em tosquiar ou rapar
seus cabelos; porém aqui no v. 15 é a questão do cabelo comprido como
uma glória (o inverso de vergonha). Tem ocorrido muito debate sobre
este assunto durante muitos anos. A única maneira de resolver a questão é aproximar-se do assunto num espírito de submissão e obediência
às Escrituras, e perguntar: “O que este texto diz?” e: “Será que estou
disposto a obedecê-lo?”. O v. 15 ajuda a esclarecer o v. 14, e por isto
começaremos com o v. 15, que diz que é uma glória para a mulher ter
cabelos compridos. Alguns interpretam “comprido” como “não cortado”,
ou no seu comprimento natural, seja este qual for. Uma maneira mais
clara de chegar à interpretação deste versículo é usar o inverso para nos
ajudar a compreender o que “crescido ou comprido” significa. O que é
o oposto de comprido? No contexto da passagem é tosquiar ou rapar, e
não é afirmado quanto cabelo é tosquiado ou rapado. Muitos dizem que
a antiga pergunta “quão comprido é comprido?” não pode ser respondida usando I Coríntios 11, mas devemos deixar a passagem falar por si
mesma. Colocando os vs. 14-15 ao lado dos vs. 5-6, veremos que cabelo
comprido é cabelo que não foi tosquiado ou rapado. Nada pode anular o
raciocínio do Apóstolo aqui — cabelo que foi tosquiado ou rapado não
Cap. 5 — A igreja local e seu controle
83
é cabelo comprido, e é uma vergonha para a mulher. É o oposto do que
traz glória à mulher. Em vista deste argumento de Paulo, não é satisfatório dizer que basta que o cabelo da mulher seja comprido o suficiente
para mostrar sua feminilidade e distingui-la dos homens. A passagem
não trata da demonstração de feminilidade ou masculinidade, mas da
demonstração de submissão aos princípios da Autoridade masculina e
feminina. Uma prova disso é o uso das duas palavras diferentes, “tosquiar” e “rapar”. “Tosquiar” (02751, Strongs) é usar a tesoura para cortar.
“Rapar” (03587, Strongs) é usar a navalha para rapar o cabelo ou barba.
Nada aqui deve ser aplicado como sendo vergonha para uma irmã
que perde seus cabelos devido a um acidente ou enfermidade, ou como
efeito de tratamento de uma doença, ou outra ocorrência anormal.
Também, não deve ser aplicado à irmã cujo cabelo não cresce como o
das outras. Também seria legalismo usar este ensino para dizer que uma
irmã que corta as pontas dos seus cabelos para mantê-los em boa condição esteja em falta. Semelhantemente, somente aqueles que querem
tomar liberdades com a Palavra de Deus usariam esta desculpa de cortar
as pontas para ter cabelos que obviamente não são longos.
O argumento da vida da igreja local (I Co 11:16)
Agora Paulo chega a uma conclusão importante e solene. Ele afirma que o que ele está ensinando não é alguma coisa nova entre as igrejas, ou algo que não era ensinado em outras igrejas locais. Ele afirma que
o que ele ensinou sobre cobrir a cabeça e sobre o cabelo eram princípios
praticados universalmente entre as igrejas locais de Deus. Ao apresentar
seus argumentos da Cristologia, da Criação e da Decência, ele não está
apelando a alguma cultura específica, mas mostra que estes argumentos
doutrinários formam a norma para cada igreja local em qualquer cultura
e em qualquer período desta dispensação. Não é algo inventado por ele
mesmo; é uma tradição apostólica entregue a todas as igrejas. É muito
solene deixar de lado o que Paulo ensinou; de fato, seria desobediência
à Palavra de Deus! Paulo está mostrando que recusar este ensino coloca
uma igreja “fora de compasso” com as outras igrejas de Deus. Para agir
de uma maneira diferente destes ensinos sobre a Autoridade é contrário
ao próprio caráter do que uma igreja é. É um equivoco para um grupo
de santos reivindicar ser uma igreja de Deus e deixar de lado o que Deus
ordenou através de Seus Apóstolos e da Sua Palavra. No seu livro The
Letters of Paul, F. F. Bruce traduz este v. 16: “Nós não temos tal costu-
84
A glória da igreja local
me que vocês estão querendo introduzir, e nem tampouco as igrejas de
Deus em outras partes”.
Alguns interpretam a passagem corretamente quanto ao seu significado, mas depois concluem que a sua aplicação pode variar de acordo
com a sociedade em que se encontram. Isto em si é um método fraco
de exegese, porque a interpretação de qualquer passagem das Escrituras
deve sempre governar a sua aplicação, e não vice-versa. Além disso, se
usarmos este raciocínio para dispensar o uso dos símbolos da Autoridade na primeira parte deste capítulo, pela mesma razão poderíamos também dispensar com os símbolos da recordação do Senhor, na segunda
parte do capítulo! Fazer isto nunca seria aceito em qualquer comunidade de verdadeiros cristãos; e isto revela a insensatez de mudar os símbolos da Autoridade nos vs. 2-16. Estes símbolos que Deus tem escolhido
para manifestar a verdade sobre Autoridade são Seus, e modificá-los
não é somente insensatez, mas imprudência espiritual.
Conclusão
Temos visto que o controle de uma igreja local é manifestado pela
demonstração da verdade da Autoridade. Onde esta Autoridade é reconhecida pelo uso do cabelo curto e cabeça descoberta dos homens, e
pelo cabelo comprido e cabeça coberta das mulheres, isso contribui para
a glória da igreja local.
Por outro lado, será impossível estar em desobediência ao ensino
das Escrituras sobre a Autoridade sem diminuir a glória da igreja local.
Nenhum salvo espiritualmente sensível irá querer ser responsável por
isto!
Um reconhecimento completo dos três princípios com que começamos este capítulo sobre a Autoridade trará prosperidade espiritual à
igreja local e glória a Deus. Assim, devemos sempre nos esforçar para
honrar a autoridade das Sagradas Escrituras, o Espírito Santo, e o Senhor Jesus Cristo.
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
Por J. Paterson Jnr., Escócia
Introdução
São poucos os cristãos que não se lembram da primeira ocasião
em que se reuniram em comunhão com a sua igreja local para lembrar
o Senhor Jesus Cristo. A memória evocativa de estar num ambiente
quieto, com a atenção de todos os reunidos centralizada naquele que
estava no meio, permanece viva na memória da maioria. Embora cada
um foi chamado e reunido por uma força externa (que é o significado de
Mateus 18:20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu
nome, aí estou eu no meio deles”), todos os que se reúnem exercitam
sua disposição de estarem onde nosso bendito Senhor desejaria que estivessem. A grande maravilha de reunir em Seu nome não é o fato que
nos reunimos com Ele, mas que Ele Se reúne conosco: “… estando com
eles” (At 1:4).
Nestas ocasiões sagradas nós participamos da Ceia do Senhor e
O celebramos, e como veremos, temos instruções claras na Palavra de
Deus para assim fazer. Na frase “ceia do Senhor”, assim como na frase
semelhante em Apocalipse 1:10, “dia do Senhor”, o adjetivo “do Senhor” significa “pertencente ao Senhor” e não “Senhoril”. A expressão
“A Ceia do Senhor” enfatiza o Senhorio de Cristo, portanto estar reunido numa igreja local é o grande privilégio daqueles que, separados da
rebelião do mundo e das divisões do Cristianismo, se reúnem para dar
uma confissão corporativa unida daquele Senhorio. Devemos lembrar,
enquanto nos reunimos para recordar do Senhor Jesus Cristo, que nossa
lembrança é uma apreciação viva e essencial, e não uma formalidade
fria. Assim, a nossa recordação dEle constituirá somente uma parte da
vida da igreja.
Enquanto obedecemos esta instrução, que foi dada inicialmente
aos discípulos: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22:19), precisamos sempre reconhecer que temos a responsabilidade de guardar a Sua
Palavra em todas as coisas. Há o perigo de assumirmos uma posição
doutrinária muito clara neste assunto, e destruímos seu significado por
86
A glória da igreja local
causa de uma dureza que em nada se assemelha à mente de Cristo. Vale
a pena mencionar aqui que uma igreja se reúne para participar da Ceia
em “lembrança” dEle, não “em memória” dEle. A palavra grega usada
(anamnesis) indica trazer à mente, e no contexto de lembrar dEle, significa um diligente e carinhoso “trazer à mente” o Senhor Jesus Cristo.
Portanto, reconhecemos a Sua presença espiritual e o que Ele é pela
virtude da Sua obra sacrificial. Não é meramente a memória dEle, mas
nossas mentes sendo acordadas espiritualmente a Ele. Isso produz adoração naqueles reunidos, enquanto consideram as glórias intrínsecas do
Senhor Jesus Cristo.
Aqui, Ó Senhor, nós Ti vemos face a face;
Aqui tocamos e apreciamos coisas invisíveis. (Horatius Bonar)*
Nossa autoridade para praticar
Como a ordenança neotestamentária para o Batismo (veja o cap.
2 deste livro), a Ceia do Senhor também tem três meios distintos de
confirmação.
• Foi instituída pelo próprio Senhor Jesus Cristo;
• Foi praticada pelas igrejas locais nos Atos dos Apóstolos;
• Foi endossada e explicada nas epístolas.
A instituição
Todos os Evangelhos sinópticos dão detalhes quanto à instituição
da Ceia, e Paulo em I Coríntios 11:23-26 dá uma confirmação. Em
todas as quatro narrativas da instituição, todos os pontos principais são
incluídos, mas há uma variedade nos detalhes dados. Os relatos de Mateus e Marcos são bem semelhantes, e as narrativas de Lucas e Paulo são
parecidas. Contudo, não há nenhuma contradição! A diferença principal entre os dois grupos é que Mateus e Marcos omitem as palavras
“fazei isto em memória de mim”, e incluem as palavras: “derramado por
muitos”. Nos Evangelhos sinópticos o Senhor Se refere à Sua reunião
futura com os discípulos na consumação do reino de Deus, enquanto
que Paulo, em I Coríntios 11:26, se refere à proclamação da morte do
Senhor “até que Ele venha”, que prevê uma data anterior à manifestação
do reino.
*
Tradução literal. O original diz: “Here, O our Lord, we see Thee face to face;/Here would we
touch and handle things unseen”. (N. do E.)
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
87
O plano Divino é visto claramente em todos os relatos que revelam
os atos específicos do Senhor Jesus Cristo, que estava em perfeito controle de todas as circunstâncias. Isso inclui o cenáculo sendo preparado
e mobilado, a época correta da Páscoa, as pessoas que estavam presentes,
e todos os acontecimentos ocorrendo exatamente como necessário. Ele
toma, Ele dá graças, Ele parte, Ele dá, e assim Ele dirige a Ceia, e ao assim fazer demonstra a Sua autoridade. Uma coisa que logo percebemos
ao lermos os relatos das Escrituras é a simplicidade da Ceia. Os atos
do Senhor não oferecem nenhuma oportunidade para cerimonialismo
ritual, e no entanto os homens têm usados estes simples atos para criar
rituais e dogmas sem fundamento nas Escrituras. Sempre há o perigo
de formalismo quando nos ocupamos com algo que temos feito durante
bastante tempo, e precisamos sempre tomar cuidado com a possibilidade de transformar um ato tão simples numa cerimônia ritualista. Embora nunca devêssemos agir de uma maneira informal na presença de
Deus, também nunca devemos assumir uma formalidade fria, carnal e
severa como vemos no Cristianismo, quer em linguagem, quer em atos.
Na instrução dada pelo Senhor na instituição da Ceia (Lc 22:19)
temos a autoridade para continuar a lembrar dEle durante toda a época da Igreja, e nas epístolas Paulo confirma que isto continuará “até
que Ele venha” (I Co 11:26). Esta lembrança tem sido preservada para
nós até hoje. Lembramo-nos dEle enquanto consideramos Sua eternidade, Sua Divindade, Sua condescendente humilhação em perfeita
humanidade, Sua vida singular de perfeita impecabilidade, Sua morte
expiatória, Seu triunfo sobre o pecado, a morte, o inferno e o túmulo, e
Sua glória presente e futura. Enquanto isso é somente parte da vida do
salvo, a lembrança do nosso Senhor Jesus Cristo é o que leva os nossos
espíritos a uma apreciação elevada dEle. Com Ele no nosso meio, como
esteve no início, gozamos de comunhão ao lembrar dEle.
Acalma-te, ó coração, enquanto em Seu Santo Nome
Nos prostramos em adoração e Sua promessa reivindicamos —
Onde estiverem dois ou três reunidos ali estarei,
Não visto, mas ao olho da fé, presente. (Eliza E. Hewitt)*
*
Tradução literal. O original diz: “Hush, O our hearts, as in the sacred Name/We bow in worship
and the promise claim —/Where two or three are gathered there am I,/Unseen, yet present to
faith's opened eye". (N. do E.)
88
A glória da igreja local
A prática
No Novo Testamento nunca encontramos a Ceia celebrada fora do
contexto do testemunho permanente de uma igreja local. Nunca é vista
como uma conveniência para pessoas viajando, pois é o privilégio de
uma igreja que se reúne constantemente. Talvez seja a mais importante
expressão de comunhão, e define o caráter das outras reuniões e funções
da igreja local. Nós não recebemos pessoas à Ceia do Senhor, mas à
comunhão da igreja. Esta comunhão é expressa em todas as funções da
igreja local, incluindo a Ceia do Senhor.
Reunir para “partir o pão” é primeiramente mencionado em Atos
dos Apóstolos. É verdade que a expressão “partir o pão” era frequentemente usada nos tempos bíblicos para descrever a participação em
refeições normais. Deus avisou Jeremias que ninguém iria “partir o pão”
para os que estavam de luto ( Jr 16:7). O Senhor Jesus Cristo tomou o
pão e o partiu com os discípulos a quem Ele apareceu no caminho para
Emaús (Lc 24:30). Lemos dos primeiros cristãos partindo o pão em
casa, comendo juntos com alegria e singeleza de coração (At 2:46). Uma
vez Paulo tomou pão e o partiu e instruiu seus companheiros de viagem,
no navio, que o comessem para a sua saúde (At 27:34-35). Contudo, nos
tempos do Novo Testamento, a frase “partir o pão” também foi usada
para descrever a participação na Ceia do Senhor. O Senhor Jesus instituiu a Ceia depois de celebrar a Páscoa com Seus discípulos, pouco antes da Sua morte, “e, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu
corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei
dele todos” (Mt 26:26-27).
Como a frase “partir o pão” se refere às refeições comuns e também à Ceia do Senhor, precisamos examinar o contexto das passagens
para descobrir qual é o caso numa passagem que estivermos lendo. Por
exemplo, em Atos 2:42, “partindo pão” é mencionado junto com as outras coisas que a igreja fazia, como ensinar, orar e ter comunhão, portanto podemos concluir que aqui “o partir do pão” é uma referência aos
primeiros cristãos participando na Ceia do Senhor. O uso do artigo
neste versículo também sugere que um acontecimento específico está
em foco, e não uma refeição normal. Alguns argumentam que porque
até aqui a igreja não é mencionada, que a igreja local não existia ainda
em Jerusalém, mas o uso do artigo indica uma ocasião específica quando
os salvos estavam reunidos para este fim.
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
89
Mais tarde Paulo lembrou os coríntios da noite em que o Senhor
primeiramente instituiu este memorial, dizendo: “Porque, eu recebi do
Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que
foi traído, tomou o pão. E tendo dado graças, o partiu e disse: tomai,
comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória
de mim” (I Co 11:23-24). Visto que parte desta ceia que os cristãos devem celebrar inclui realmente partir o pão, a expressão “partir o pão” era
usada em referência à Ceia do Senhor nos primeiros tempos da Igreja.
Assim a igreja local se reúne com o propósito específico de lembrar-se
do Senhor no partir do pão.
Naquela noite, Senhor Jesus,
Em que foste traído,
Quando sem causa o ódio humano
Contra Ti foi demonstrado,
Ouvimos Tuas palavras graciosas —
Fazei isto; lembrai de Mim;
Respondendo com corações alegres,
Lembramo-nos de Ti. (G. W. Fraser)*
O endosso e explicação
Como já foi mencionado, em I Coríntios 11:23-26 o Apóstolo Paulo endossa a ordenança do Senhor Jesus dada no cenáculo. Ele confirma
o fato que a Ceia deve ser comemorada regularmente, e dá detalhes
sobre a maneira como isto deve ser feito, ao afirmar
A autoridade divina para a Ceia (v. 23)
Paulo afirma que ele recebeu do Senhor o relato sobre a ordenança
da Ceia, que ele está para lhes transmitir. Ao dar os detalhes, ele reivindica a autoridade direta do próprio Senhor. Isto é típico do ministério
de Paulo e da sua maneira de transmitir as doutrinas dadas a ele; ele
não reivindica nenhuma obrigação a qualquer instrução humana, mas
sim à revelação direta do Senhor. “Porque não o recebi, nem aprendi de
homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo” (Gl 1:12). Portanto,
Paulo apresenta aos coríntios o peso de responsabilidade que o salvo
tem, devido à fonte de instrução em relação à Ceia.
*
Tradução literal. O original diz: “On that same night, Lord Jesus,/In which Thou wast betrayed,/
When without cause man's hatred/Against Thee was displayed,/We hear Thy gracious accents
—/This do, remember Me;/With joyful hearts responding/We would remember Thee." (N. do E.)
90
A glória da igreja local
As instruções detalhadas sobre a participação na Ceia (vs. 24-25)
Há uma grande simplicidade na maneira como o Senhor Jesus estabeleceu o padrão no cenáculo, e o subsequente endosso do mesmo pelo
apóstolo Paulo. Os emblemas usados e a sequência dos acontecimentos
dificilmente favorecem uma manifestação cerimonial suntuosa; no entanto, o Cristianismo tem introduzido vários dogmas que reduziram
a recordação a uma “cerimônia religiosa”. Não há razão para imitar o
que os homens inventaram em contradição à clara instrução do Senhor
Jesus: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22:19). Vamos considerar
estas instruções e emblemas mais tarde.
O propósito deleitável da Ceia (v. 26)
Enquanto lembramos e nos recordamos do Senhor, ao participarmos da Ceia do Senhor, isso nos leva também a uma atitude de adoração. Adoração nasce da nossa apreciação de quem Ele é, e evidencia
esta apreciação. Enquanto a lembrança do Senhor produzirá ações de
graças, também fará fluir adoração verdadeira dos nossos corações. Por
exemplo, quando os homens sábios visitaram a criança e Sua mãe, eles
adoraram por causa do reconhecimento de quem Ele era (Mt 2:2,11).
Obviamente, neste estágio da vida da pequena criança Jesus, todas as
Suas obras maravilhosas ainda estavam por se cumprir, como também
a Sua morte na cruz.
Outro aspecto da Ceia é o “anúncio”. O pensamento aqui é uma
“proclamação”. Os atos de partir o pão e beber do cálice constituem uma
proclamação silenciosa do fato, do significado e da eficácia da morte do
Senhor Jesus.
Não há evangelho como esta festa,
Para nós preparada por Ti;
Nenhum pregador ou profeta
Anuncia as boas novas tão livremente. (Elizabeth R. Charles)*
Enquanto nos reunimos, testemunhamos da Sua obra consumada.
Cada salvo, sadio em vida e doutrina (como veremos mais tarde) participa dos emblemas. Não há nada nas Escrituras para apoiar a administração dos emblemas por um sacerdote ou ministro. Esta prática é
estranha ao ensino das Escrituras.
*
Tradução literal. O original diz: "No gospel like this feast,/Spread for us Lord by Thee;/No
prophet nor evangelist/Preach the glad news so free". (N. do E.)
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
91
Também, somos instruídos sobre a atitude esperada daqueles que
se reúnem para partir o pão. Temos a descrição dos emblemas necessários para a ocasião, e da simplicidade manifestada na recordação. O
autoexame necessário quando nos reunimos para lembrar do Senhor é
solenemente enfatizado pelo apóstolo, como também a possibilidade
de juízo divino sobre aqueles que participam de uma maneira indigna.
Faremos mais explicações sobre estas coisas brevemente.
Nossa lealdade aos princípios
Através do Novo Testamento, o Espírito de Deus estabelece princípios com respeito à verdade relacionada com a nossa recordação do Senhor Jesus. Estes princípios têm sido atacados muitas vezes através dos
anos, e alguns têm destruído o significado simples daquilo que foi instituído, criando dogmas espúrios. Mesmo entre algumas igrejas locais,
há um desvio da simplicidade demonstrada no cenáculo. Não há necessidade de tentar fazer a nossa reunião de lembrança mais “eclesiástica”.
Por que devemos conformar ao erro cerimonial do Cristianismo, acrescentando palavras e atos adicionais à Ceia? Embora devamos sempre
agir com reverência na presença do Senhor, há o perigo de, por causa de
um comportamento desnecessariamente “piedoso”, complicarmos um
ato que em si mesmo é encantadoramente simples. Uma consideração
das palavras encontradas nas Escrituras enfatizará esta simplicidade.
“Até que venha”
A escolha do tempo da instituição da Ceia é sugestiva: “na noite em
que foi traído”(I Co 11:23). Enquanto o plano do traidor Judas estava se
desenrolando, o Senhor Jesus Se reúne com os Seus. Não devemos ficar
indiferentes ao fato que esta ordenança sagrada foi instituída na última
noite da vida do nosso bendito Salvador. Mesmo sabendo de tudo que
aconteceria no dia seguinte, Ele fornece, através da Ceia, a maneira pela
qual Seu povo poderia se lembrar dEle “até que venha” (I Co 11:26).
Não é simplesmente o exemplo do apóstolo que nos faz reunir para
lembrar do Senhor, embora somos leais à instrução dada aqui. Antes, é
o exemplo do Senhor Jesus na Sua celebração da Ceia do Senhor, e Sua
instrução: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22:19), que nos apresenta o significado da instituição. Estas são, exatamente, as coisas que nós
fomos ordenados a fazer.
Estas instruções foram dadas inicialmente a homens que não en-
92
A glória da igreja local
tenderam plenamente as circunstâncias em que estavam. Sua consternação pode ser vista nas quatro perguntas que fizeram, no cenáculo,
quando o Senhor falou da Sua saída. Pedro pergunta: “Senhor, para
onde vais?” ( Jo 13:36); Tomé pergunta: “Como podemos saber o caminho?” ( Jo 14:5); Filipe pede: “Mostra-nos o Pai” ( Jo 14:8); e Judas,
não Iscariotes, pergunta: “Senhor, de onde vem que hás de manifestar
a nós, e não ao mundo?” ( Jo 14:22). O Senhor Jesus, entendendo suas
preocupações, institui a Ceia, e desde aquele tempo até que Ele venha,
Seu povo terá o privilégio de recordar dEle. A Ceia tem em vista manter
viva, diante do Seu povo, a esperança da Sua volta, desde Pentecostes até
o Arrebatamento. Este grande acontecimento futuro está ligado com o
grande acontecimento do passado. Assim a recordação do Senhor Jesus
enquanto participamos da Ceia do Senhor durará somente enquanto
durar a “época da Igreja”. A lembrança terminará quando Aquele que é
lembrado voltar. O grande encorajamento para cada salvo é saber que
continuará até que Ele venha. Olhamos à nossa volta e vemos o testemunho das igrejas diminuindo, e até desaparecendo, mas sempre haverá,
de acordo com esta simples afirmação, em algum lugar na Terra, salvos
se reunindo no Seu Nome e lembrando dEle, da maneira como Ele
instituiu, até o tempo do Arrebatamento.
“Isto é o Meu corpo”
Antes de considerar o pão e o cálice, vamos pensar sobre um erro
comum neste assunto. Muitos dos leitores deste livro são membros de
igrejas estabelecidas em aldeias e cidades habitadas principalmente por
pessoas da religião Católica, e assim frequentemente estão em contato com aqueles que praticam e propagam erro. Alguns salvos também
estão ocupados em evangelizar estas pessoas, pessoal e publicamente.
Lembrando que o alvo desta publicação é ajudar principalmente os novos convertidos, não fará mal reforçar o positivo usando o negativo!
Desde 1215 d.C., a Igreja Católica tem propagado o dogma da
Transubstanciação, que foi endossado no século XVI pelo Concílio de
Trento. Hoje, é defendido firmemente pela religião católica, e ensinado às crianças desde pequenas. As crianças na escola já defendem esta
crença errada. Eles creem que o pão e o vinho literalmente se transformam no corpo, alma e divindade de Cristo, e enquanto comem a hóstia
eles creem que ela se transforma realmente na carne e sangue de Cristo.
Esta transformação ocorre quando o sacerdote consagra o pão dizendo:
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
93
“Isto é o meu corpo”, e enquanto o sacerdote distribui o pão ou a hóstia,
ele diz a cada participante: “O corpo e Cristo e o sangue de Cristo”.
Eles tomam as palavras do Senhor Jesus como absolutamente literais nesta ocasião, mas nem sempre em outras ocasiões! Assim, depois
de comerem, eles creem que estão levando o Seu corpo, sangue, divindade e humanidade nos seus próprios corpos. Veremos o verdadeiro
significado dos emblemas daqui a pouco. Contudo, devemos afirmar
que esta doutrina falsa que afirma haver uma mudança material no pão
e no vinho, transformando-os no corpo e sangue de Cristo pela consagração do sacerdote, ou por qualquer outra maneira, é absolutamente
falsa, não somente em relação ao ensino das Escrituras, mas também ao
bom senso. Realmente, é uma tentativa de desfazer das Escrituras, e é
em si a raiz de muitas superstições e muita idolatria.
Além disso, celebram a Missa, e afirmam que este é um sacrifício
constantemente repetido, real, embora sem sangue, para expiar o pecado
e efetuar a propiciação com Deus. Enquanto participam dos sacramentos com suas orações e rezas ritualistas, reivindicam que estão efetuando
“a maior adoração a Deus e a edificação do povo por comer o corpo de
Cristo”. Isto rebaixa o valor do único e eterno sacrifício do Senhor Jesus. As Escrituras claramente provam que isto é errado. “Nem também
para si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada
ano entra no santuário com sangue alheio; de outra maneira, necessário
lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora
na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o
pecado pelo sacrifício de si mesmo. E, como aos homens está ordenado
morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo, assim também Cristo,
oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação” (Hb 9:25-28).
Também: “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do
corpo de Jesus Cristo, feita uma vez. E assim todo o sacerdote aparece
cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios,
que nunca podem tirar os pecados; mas este, havendo oferecido para
sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de
Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos
por escabelo de seus pés. Porque com uma só oblação aperfeiçoou para
sempre os que são santificados. E também o Espírito Santo nô-lo testifica, porque depois de haver dito: Esta é a aliança que farei com eles
depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis em seus cora-
94
A glória da igreja local
ções, e as escreverei em seus entendimentos; acrescenta: E jamais me
lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades. Ora, onde há remissão
destes, não há mais oblação pelo pecado” (Hb 10:10-18).
O que o pão significa para nós? O pão usado na noite em que a
Ceia foi instituída foi aquele pão que estava na mesa depois da refeição
da Páscoa. Naquela primeira ocasião este teria sido pão sem fermento,
entretanto mais tarde os primeiros cristãos usavam o pão normal disponível. Tem havido controvérsia durante anos sobre que tipo de pão deve
ser usado na Ceia, mas devemos notar que o significado da ordenança
não depende do tipo de pão usado, e não há nenhum preceito dado
sobre este assunto, então devemos tomar cuidado e não causar divisão
por causa de preferências pessoais. Embora os emblemas sejam parte
fundamental da ocasião, preocupação com os emblemas significa que
a nossa ocupação com Cristo não é total. O Senhor tomou o pão que
estava ali, convenientemente, naquela ocasião; portanto, os salvos hoje
devem fazer o mesmo sem questionar. A afirmação feita pelo Senhor
Jesus informou aqueles ali reunidos que o pão partido, que Ele segurava
em Suas mãos, era um emblema do Seu corpo. Como mostramos acima,
esta afirmação tem sido tirada do seu contexto para propagar erro. Entretanto, aqui Ele usa a mesma linguagem que, por exemplo, Ele usou
várias vezes no Evangelho de João quando Se compara a várias coisas:
“Eu sou a videira verdadeira”; “Eu sou o pão de Deus”; “Eu sou a porta”.
Parafraseando, Ele diz: “Este pão, que seguro em Minhas mãos e dou
a vocês, representa o Meu corpo”, ou, é um símbolo do Seu corpo. O
Senhor Jesus Cristo, pela encarnação, tomou um corpo físico para que
pelo Seu sacrifício expiatório Ele pudesse entregar Seu corpo à morte
por crucificação. Vemos isto na frase “que é … por vós” (I Co 11:24).
A maioria dos manuscritos omite a palavra “partido” em I Coríntios
11:24, e assim, embora realmente “partimos” o pão como Ele fez depois
de dar graças, precisamos lembrar da Escritura que diz: “Nenhum dos
seus ossos será quebrado” ( Jo 19:36). Semelhantemente, as Escrituras
não sugerem que as feridas em Suas mãos, pés e lado referem-se ao
Seu corpo sendo partido. O fato que Ele Se deu a Si mesmo enfatiza a
natureza sacrificial da Sua obra.
Quando nos reunimos para lembrar dEle, o irmão que parte o pão
não está representando o Senhor Jesus, nem tomando Seu lugar. Em
partir o pão ele está simplesmente agindo como servo dos irmãos reunidos. O pão é partido e cada um participa na celebração por participar
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
95
do mesmo pão.
“Semelhantemente tomou o cálice”
A referência ao “sangue do novo testamento [nova aliança]” (I Co
11:25; Mt 26:28; Mc 14:24; Lc 22:20), é importante porque está em
contraste com a velha aliança, baseada no sangue do cordeiro Pascal.
Em Jeremias 31:31 a promessa foi feita sobre uma nova aliança com
Judá e Israel: “Eis que dias vêm, diz o Senhor, em que farei uma aliança
nova com a casa de Israel e com a casa de Judá”. Contudo, nenhuma
informação foi dada naquele tempo sobre como, ou quando, esta nova
aliança seria estabelecida. Em Hebreus caps. 9 e 10 vemos que a nova
aliança precisava ser ratificada com sangue, isto é morte, e pelo sangue
de Cristo. Foi através das Suas palavras no cenáculo que o Senhor Jesus
revelou que o Seu sangue permitiria que a provisão da nova aliança fosse efetuada. Realmente a aliança está ainda no futuro para Israel, mas já
traz bênçãos para nós, Seu sangue sendo “derramado por muitos, para
remissão dos pecados” (Mt 26:28). Nisto temos o propósito do derramamento do Seu sangue. No relato de Marcos, nós temos as pessoas
para quem o sangue foi derramado — “muitos” (Mc 14:24). Lucas, no
seu relato das palavras do Senhor Jesus, mostra quão pessoal é o ato
— “derramado por vós” (Lc 22:20). Estas são maneiras diferentes de
expressar o caráter sacrificial da morte de Cristo.
Assim Seu sangue ratifica a aliança que foi feita por Deus. Devemos notar que nas quatro referências mencionadas acima, a palavra
“testamento” é usada, mas a tradução melhor é “aliança”. A velha aliança
era ratificada pelo sangue de animais, mas a nova, pelo sangue do eterno
Filho de Deus. Embora Deus tenha feito uma aliança incondicional
com Abraão, a aliança sendo considerada aqui era um acordo mútuo
entre dois lados, Deus e a nação de Israel. Foi um acordo firmado na
obediência. A nova aliança realmente foi feita com os judeus (veja Jr
31:31, acima). Os cristãos, hoje, estão firmados na graça de Deus; nenhuma aliança foi feita com a Igreja — ela foi chamada no propósito
eterno de Deus. Os santos, hoje, entram nas suas bênçãos através do
sangue de Cristo, assim como a nação judaica restaurada entrará nas
suas bênçãos sob a nova aliança. O fato que nós não estamos debaixo de
qualquer aliança não diminui, de forma alguma, a grande verdade de I
Coríntios 11:25. No presente, nós desfrutamos de liberdade espiritual e
de promessas, paz e prosperidade que Israel restaurada desfrutará, lite-
96
A glória da igreja local
ralmente, no futuro.
A Ceia do Senhor é uma comemoração da pessoa, vida, obra e
morte de Cristo, e assim o pão e o cálice são símbolos importantes do
Seu corpo dado e do Seu sangue derramado. Embora o sangue da nova
aliança fosse derramado na morte de Cristo, foi ao mesmo tempo “derramado por muitos” (Mt 26:28), não somente para beneficiar muitos,
mas o objetivo específico sendo “para remissão de pecados” (Mt 26:28).
Portanto, foi uma oferta pelo pecado, que não somente fez expiação
pelo pecado, mas também ratifica a aliança da graça.
Sem entrar em detalhes, devemos notar que em todas as referências
“o cálice” está no singular. Não há base bíblica para o uso de cálices
individuais.
Nossa atitude ao participar
Como já notamos, a Ceia do Senhor é uma recordação, uma apreciação, uma proclamação e uma antecipação. Entretanto, nunca devemos nos esquecer de que também envolve a nossa participação.
Observamos como o Senhor Jesus instruiu, naquela noite, que cada
pessoa presente no cenáculo deveria tomar do pão e do cálice, e assim
participar na Ceia. Mateus 26:26 diz: “Tomai, comei”; v. 27: “Bebei dele
todos”. Também, Paulo confirma isto em I Coríntios 11:24-25: “fazei
isto”. Portanto, é o privilegio de cada salvo se preparar e organizar a sua
vida para que possa estar presente com a igreja local da qual faz parte,
para lembrar do Senhor Jesus. Todas as reuniões são importantes, mas
há algo especial em se reunir no primeiro dia da semana para recordar
do nosso Salvador. Todas as outras reuniões são de serviço e de atividades, mas a Ceia é totalmente sobre Cristo, e a fragrância é doce enquanto exaltamos o Seu valor ao nos lembrarmos dEle. Contudo, isto não
quer dizer que a reunião para nos lembrarmos dEle é o suficiente para o
resto da semana, e que as outras reuniões são insignificantes e sem importância. A Ceia do Senhor é somente uma parte da nossa comunhão
com a igreja local, e devemos estar envolvidos em todos os aspectos da
comunhão; senão, como podemos afirmar que estamos em comunhão?
Usando as palavras de outro: todas as reuniões são para todos os salvos,
e todo salvo é para toda reunião!
Também nesta consideração da nossa atitude em participar, devemos notar que não há regras e regulamentos dados sobre a ordem da
Ceia do Senhor. Isto não significa que podemos agir como queremos
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
97
quando nos reunimos, mas indica que o Senhor Jesus deve dirigir todos
que participam publicamente em adoração e ações de graças. A manifestação espontânea que esta apreciação pessoal produz tem causado
admiração nos descrentes que observam a Ceia do Senhor. O Senhor
Jesus é a única Pessoa que superintende e dirige esta reunião. Pode ser
simples demais, mas é necessário afirmar que o Novo Testamento não
mostra nada de clero ou outra pessoa oficial com a autoridade para dirigir ou administrar oficialmente dentro da igreja local.
Quando e onde participamos?
“Porque todas as vezes …” (I Co 11:26), significa cada vez que o
fazemos. Contudo, a frequência da lembrança não é deixada à discrição individual. Em Atos 20, Paulo chegou a Trôade a caminho para
Jerusalém. Lá ele esperou sete dias para que pudesse se reunir com eles
para partir o pão. Não houve uma Ceia especial para que Paulo e seus
companheiros de viagem pudessem participar, assim facilitando a sua
viagem. Também, Paulo não continuou viagem com o plano de partir
o pão no navio ou em qualquer outro lugar conveniente no caminho.
A recordação do Senhor é sempre associada com uma igreja local. Em
cada ocasião onde lemos do partir do pão no Novo Testamento, sempre
está no contexto de uma igreja local. Portanto, é um exercício coletivo
da igreja local. Assim, lembramo-nos do Senhor Jesus na localidade
onde Seu povo se reúne, e onde Ele Se reúne com Seu povo. Embora
sempre fosse o propósito de Deus estar presente com Seu povo reunido,
ainda traz grande alegria aos corações dos Seus saber que Ele Se reúne
conosco — Mateus 18:20: “Ali estou eu no meio”. O dia para esta reunião é como foi em Trôade — o primeiro dia da semana, quando os
discípulos se reuniram para partir o pão (At 20:7). Isto fala da primeira
atividade da semana. A maioria no mundo ocidental se reúne para partir o pão na parte da manhã, mas devemos considerar as circunstâncias
dos salvos em outros países que, por várias razões, não podem se reunir
coletivamente na parte da manhã. Este escritor, quando trabalhando
em países Islâmicos no Oriente Médio, partiu o pão com as igrejas mais
tarde no dia, devido às exigências locais. Isto não diminuiu, de forma
alguma, o significado da Ceia.
O fato da reunião para lembrar do Senhor Jesus ser uma parte fixa
da vida de cada igreja local significa que devemos fazer todo esforço
para estarmos presentes na Ceia do Senhor. A participação constante é
98
A glória da igreja local
necessária para a saúde espiritual do salvo. Embora sempre haverá circunstâncias anormais que impedirão a presença de alguns, seria errado
alguém habitualmente se ausentar nesta ocasião. Não somente porque a
pessoa que se ausenta da Ceia do Senhor está perdendo algo importante, mas também indica que há uma falta de apreciação de Cristo, e que
Deus não recebe a Sua porção. Devemos lembrar também que quando
viajamos ou estamos de férias em outros lugares, ainda temos a responsabilidade de nos lembrarmos do Senhor e, como já afirmamos, junto
com outros no contexto de uma igreja na localidade visitada. Portanto,
os nossos planos sobre onde passaremos as férias devem ser feitos tendo
em mente uma igreja local perto. Além da alegria de nos lembrarmos
do Senhor Jesus, teremos o gozo adicional de ter comunhão com outros
irmãos de outras localidades, que também estão procurando seguir a
instrução da Palavra de Deus. Em João 20, Tomé perdeu a bênção da
presença do Senhor, e embora aquela ocasião não fosse uma reunião
da igreja, nem a Ceia do Senhor, o princípio é o mesmo. Seria difícil
alguém provar seu interesse na Pessoa de Cristo se habitualmente deixa
de se reunir para se lembrar dEle.
Quem participa?
Como já foi afirmado, reunir-se para se lembrar do Senhor Jesus
é o privilegio somente de uma igreja reunida ao Seu Nome. A igreja
local é especialmente abençoada por Deus em todos os aspectos, seja na
sua proclamação e descrição no Novo Testamento, ou na sua ordem e
função local. Portanto, os que formam parte de uma igreja local devem
conformar com o critério estabelecido pelas Escrituras.
O requerimento básico para participar, e para qualquer outro serviço, é a salvação. Embora seja impossível um descrente fazer parte da
igreja que é o Seu corpo (Ef 1 22-23), é possível que um descrente faça
parte de uma igreja local. Embora isso seja errado e produzirá problemas na igreja, é possível acontecer. Entretanto, aqueles que dizem estar
em comunhão com o Senhor Jesus deveriam ser, todos, salvos. Isso pode
parecer simples, mas precisamos ser realistas. Todos os salvos devem
também ser batizados, pois como já observamos o batismo é uma ordenança do Novo Testamento e um mandamento do Senhor Jesus. Será
que alguém pode afirmar submissão ao senhorio de Cristo sem obedecer esta ordem? Parece incongruente, mas muitos estão deixando de
obedecer esta ordem.
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
99
Pois bem! Se uma pessoa é salva e batizada, será que é o suficiente
para permitir que ela se reúna e participe na Ceia do Senhor? Já notamos que a Ceia do Senhor deve ser celebrada por aqueles que são parte
da igreja local e que estão se reunindo regularmente, como é o significado de Mateus 18:20: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em
meu nome”. O verbo “estiverem” significa estar regularmente reunido,
e assim a Ceia não é um lugar de se reunir ocasionalmente. I Coríntios
11 mostra esta regularidade da igreja em Corinto em se reunir com este
propósito. Portanto, o privilegio de participar na Ceia do Senhor é para
aqueles que fazem parte da igreja local.
A igreja é uma comunhão baseada na doutrina das Escrituras, e assim os que se reúnem precisam ter convicção e ser submissos à doutrina,
e sujeitos à sua administração. Em certos lugares existe o que é chamado
“a mesa aberta”, mas isto é estranho à Palavra de Deus. Alguns deixam a
Ceia aberta para todos que, eles dizem, “amam ao Senhor Jesus”, e todos
são bem vindos, independentemente das suas crenças doutrinárias ou
do seu modo de vida. Isto também é errado, e é a responsabilidade dos
anciãos ver que alguém com doutrinas estranhas, ou vivendo em pecado,
não faça parte da comunhão da igreja, inclusive a Ceia do Senhor. Nos
dias em que vivemos esta questão de pecado na vida precisa ser enfrentada e, se for necessário, investigada, porque a nossa sociedade aceita
práticas pecaminosas, e se estas penetrarem na igreja elas destruirão
os valores espirituais e, provavelmente, destruirão a igreja. “Não sabeis
que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” (I Co 5:6). É
significante que no relato da instituição da Ceia, no cenáculo, Judas, “o
filho da perdição” ( Jo 17:12), tinha saído para a noite. Permitir que tais
se lembrem do Senhor Jesus traz descrédito ao ajuntamento, rebaixa
a pessoa do Senhor Jesus, e abre a porta a muitos perigos para os que
estão em comunhão, especialmente, mas não somente, os novos na fé.
Alguns querem usar a igreja local por conveniência e pedem comunhão
ocasional; eles se reúnem no Cristianismo, mas querem reunir com a
igreja local quando estão visitando naquela localidade. O fato de não se
reunirem numa igreja local onde moram indica que não têm percepção
da verdade sobre a igreja local, e não têm interesse na doutrina ensinada
pela Palavra de Deus e praticada pela igreja local.
Como deve uma pessoa participar?
É a responsabilidade de cada pessoa salva se reunir para se lembrar
100
A glória da igreja local
do Senhor Jesus, e temos notado o critério necessário para participar da
Ceia; a exigência solene para cada cristão é ser digno de participar. Em I
Coríntios 11:27-32, Paulo mostra a necessidade de um autoexame antes
de participar da Ceia. Pecado precisa ser confessado, arrependimento
demonstrado e restituição feita. “Deixa ali diante do altar a tua oferta,
e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão; e depois, vem e apresenta a
tua oferta” (Mt 5:24). Este, talvez seja apenas um lado deste autoexame,
mas o exame sempre é feito com o propósito de estar em condição para
participar dignamente na Ceia do Senhor, e não para se ausentar. Se não
fizermos este exame, e continuarmos na condição carnal com pecado na
nossa vida, com um espírito que não perdoa, ou se recusarmos nos reconciliar, nós nos colocamos na condição de estar agindo indignamente
(I Co 11:27, 29). Temos, portanto, falhado em compreender corretamente a natureza e o propósito desta ordenança, e a nossa atitude para
com os emblemas reflete a nossa atitude para com aquele de quem os
emblemas falam. A participação indigna na Ceia é desonrar o Senhor e
ser culpado de indiferença quanto à Sua pessoa. Ser “culpado do corpo
e do sangue do Senhor” (I Co 11:27) é extremamente solene, porque
olha além dos emblemas para a própria Pessoa do nosso Senhor Jesus. É
notável como o peso desta culpa é demonstrado pelo uso desta mesma
palavra em Mateus 26:66 — “réu de morte”, e em Tiago 2:10 — “culpado de todos”.
Devemos sempre lembrar que o formalismo frio e carnal destruirá
o exercício espiritual da igreja, e assim cada um precisa ter o cuidado de
estar em condição espiritual quando se reúne para recordar do Senhor
Jesus. Temos o exemplo de Corinto, onde muitos praticavam coisas que
não contribuíam para uma lembrança digna, e ainda continuavam a
partir o pão. É possível partir o pão sem recordar do Senhor. Não há
nenhuma bênção em realizar a formalidade de se reunir, simplesmente por costume, sem santidade na vida ou sem a atitude correta que é
necessária. Alguns recusam participar por não fazer este exame de si
mesmos. Isto está errado, pois não temos autoridade das Escrituras para
agir assim. O costume de se retirar da comunhão por causa de pecado
pessoal não tem base bíblica! O processo bíblico é o autoexame e então
comer e beber (I Co 11:28). (Pecado grave será julgado pela igreja, e a
ação bíblica necessária tomada — veja o cap. 11).
Não podemos julgar a disciplina de Deus na vida de um salvo, mas
Paulo afirma que “o que come e bebe indignamente, come e bebe para
Cap. 6 — A igreja local e sua comemoração
101
sua própria condenação” (I Co 11:29), isto é, ele recebe o juízo de Deus.
Havia aqueles que estavam fracos e doentes entre os coríntios e muitos tinham dormido (morrido), por causa da sua falha em discernir o
corpo do Senhor. Estas expressões usadas por Paulo não são usadas figurativamente, e devem ser entendidas literalmente. Paulo sabia que
as muitas doenças e as mortes frequentes entre os cristãos em Corinto
eram um julgamento de Deus por causa da maneira irreverente com que
tinham participado da Ceia do Senhor. Se este foi o caso em Corinto,
nós precisamos ter cuidado para que quando nos reunirmos, o façamos
com a atitude correta e com autoexame. Mesmo com todo o nosso conhecimento e privilégios, seria possível agirmos como os coríntios. Os
caminhos de Deus em julgar Seu povo podem ser muito severos! Isto e
desenvolvido em Gálatas 6 onde, embora a aplicação seja mais geral, a
advertência é dada: “porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará
a corrupção” (v. 8).
É o privilegio de cada salvo em comunhão numa igreja local participar na Ceia do Senhor. Embora seja também nossa responsabilidade
fazer isto em condições espirituais e morais corretas, nunca cessará de
ser um grande privilégio. Para nos reunirmos em simplicidade, como
instruído pelo Senhor Jesus Cristo, e nos lembrarmos dEle, é uma experiência muito além de qualquer coisa que o Cristianismo pode oferecer.
Estar ocupado na celebração da Ceia em comunhão com Ele e com
outros cristãos é algo que deve ser valorizado por cada pessoa salva.
Participar numa ordenança permanente durante a época da igreja, que
nos faz olhar para trás, olhar para cima, e olhar adiante para a Sua vinda
para os Seus, traz uma profunda alegria ao coração do salvo.
Atraídos pela cruz, para trás olhamos,
E pensativos, entoamos;
Para frente, a Sua vinda nos atrai,
Senhor e Rei. (Douglas Russel)*
*
Tradução literal. O original diz: "Backward look we, drawn to Calvary/Musing while we sing;/
Forward haste we to Thy coming,/Lord and King". (N. do E.)
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
Por John M. Riddle, Inglaterra
Introdução
Embora este capítulo seja intitulado “A igreja local e suas comunicações”, seria útil colocar o assunto no seu contexto mais amplo. I
Coríntios 12, que introduz o assunto das comunicações na igreja local, é
o primeiro da trilogia de capítulos que tratam da provisão e do uso dos
dons espirituais na igreja local, e devemos notar a ligação que há entre
os três capítulos. Em termos gerais, o cap. 12 trata da maneira como os
dons foram providenciados; o cap. 13 trata do ambiente pelo qual eles
devem ser permeados; e o cap. 14 trata dos princípios sobre os quais
devem ser praticados.
As mudanças produzidas pela conversão a Deus são vistas individualmente e coletivamente. No caso da igreja em Corinto, isso era visto especialmente na área das comunicações: “Vós bem sabeis que éreis
gentios, levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados. Portanto, vos
quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus
diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é Senhor, senão
pelo Espírito Santo” (I Co 12:2-3). Foi comentado que os coríntios
eram um povo de extremos; antes eles serviam “ídolos mudos”, mas
agora estavam muito preocupados em falar em línguas. Eles foram de
um extremo ao outro. Frequentemente, ainda hoje, podemos ver que extremismo em uma direção tende a criar extremismo na direção oposta!
No passado, antes da sua conversão, os cristãos em Corinto eram
dados à idolatria, e Paulo usa linguagem expressiva quando ele descreve sua condição espiritual naquele tempo: “Éreis gentios, levados …
conforme éreis guiados”. Isso se refere a I Coríntios 10:19-20: “Mas
que digo? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o sacrificado ao ídolo é
alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios”. Contudo, como os tessalonicenses, os coríntios
tinham se “convertido a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro” (I Ts
1:9), e consequentemente se tornaram sujeitos a uma autoridade espiri-
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
103
tual muito diferente. Cristo, não ídolos, se tornou supremo. O Espírito
Santo, não demônios, agora dirigia as suas vidas. O contraste não podia
ser maior: os ídolos em Corinto não comunicavam, e não podem comunicar, com seus devotos (veja Sl 115:4-7), mas os salvos em Corinto
agora eram os filhos de Deus e Ele se comunicava com eles. Não havia
comunhão entre os deuses pagãos e seus seguidores, mas em Corinto,
homens agora falavam “pelo Espírito de Deus”.
É geralmente entendido que as palavras “ora, quanto as”, ou “acerca das” (7:1; 7:25; 8:1; 12:1; 16:1), indicam que os coríntios tinham
perguntado sobre estes assuntos específicos a Paulo, que os trata cada
um por sua vez. É significante que nesta epístola Paulo trata primeiro
de assuntos que não foram mencionados por eles, antes de responder
suas perguntas. Neste caso (12:1), evidentemente perguntaram sobre
a participação oral nas reuniões da igreja. Sabemos disso pela maneira como Paulo, tendo mencionado os dons espirituais, imediatamente
menciona “falar” e “dizer” (v. 3). Temos de lembrar que a palavra “dons”
não está no original, que literalmente diz: “Acerca dos espirituais”. Pelo
que segue, nos vs. 2-3, fica claro que Paulo entende que há poderes benéficos e prejudiciais nesta expressão, por isso ele usa pneumatikos e não
carismata. Portanto, aqui Paulo está se referindo a todo tipo de declarações espirituais, sejam boas ou más, e não somente às manifestações
do Espírito Santo. Com isso em mente, alguns tradutores colocaram a
palavra “manifestações” no lugar de “dons” (v. 1). J. N. Darby, por exemplo, diz: “Acerca das manifestações espirituais, irmãos, não quero que
sejais ignorantes”.
Ao tratar do assunto, Paulo começa com um aviso. Depois de escrever: “não quero que sejais ignorantes” (v. 1), ele continua: “portanto, vos
quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus
diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é Senhor, senão
pelo Espírito Santo” (v. 3). Ele mostra que há dois tipos de manifestações espirituais; aquelas que podem ser atribuídas ao Espírito Santo, e
aquelas que vêm do poder satânico. Portanto, era de suma importância
que os santos em Corinto estivessem numa posição para discernir a verdadeira fonte de tudo que era dito na igreja. Assim, vemos a necessidade
do dom de “discernimento de espíritos” (v. 10). Esta necessidade continua hoje, mas em Corinto havia a necessidade adicional de esclarecer
bem este assunto. O cap. 14 mostra que línguas estavam sendo usadas
excessivamente, e numa situação onde tantos estavam participando se-
104
A glória da igreja local
ria fácil para todos reivindicarem a direção do Espírito Santo, quando
de fato suas contribuições não vinham dEle, de forma alguma.
Ministério na igreja, e especialmente em termos de participação
oral, reconhecerá e manterá o Senhorio de Cristo: “Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo”, ou: “Ninguém
pode dizer Senhor Jesus, senão pelo poder do Espírito Santo” ( JND). É
importante que em Marcos 1:24 o espírito imundo clamou: “Ah! Que
temos contigo, Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem
és: o Santo de Deus”. Sem dúvida, os demônios são seres muito inteligentes. Eles reconhecem e aceitam grandes fatos fundamentais que
geralmente são rejeitados por homens, inclusive por cristãos professos.
Em Marcos 1 o demônio reconheceu a divindade de Cristo, e também
a Sua santidade. Tiago afirma que os demônios creem em Deus (veja
Tg 2:19). Mas o reconhecimento do Seu Senhorio (isto é, submissão
voluntária à Sua autoridade) é totalmente diferente. Os demônios não
O reconhecem como Senhor. Portanto, na igreja, espera-se que não haja
apenas reconhecimento da verdade Divina, mas a submissão voluntária
à autoridade de Cristo. Isto inclui uma aceitação alegre de “todo o conselho de Deus” (At 20:27). O reconhecimento genuíno do Seu Senhorio eliminará a triste censura: “E por que me chamais, Senhor, Senhor,
e não fazeis o que eu digo?” (Lc 6:46).
Resumindo, a fonte espiritual do ministério de um homem é revelada pelo que ele diz sobre Cristo. O critério pelo qual todo ministério
deve ser julgado, e todo caráter pessoal discernido, não é quão atraentes,
cativantes ou educadas as pessoas sejam, nem quão qualificadas profissionalmente sejam para julgar, mas sim, quão fielmente elas honram o
Senhor Jesus. Esta é a prova. Ninguém pode “falar segundo as palavras
de Deus“ (I Pe 4:11), sem honrar o Filho de Deus.
Cessação
Tendo examinado a base sobre a qual esta trilogia de capítulos é
estabelecida, podemos agora examinar nosso assunto mais detalhadamente. Paulo faz uma afirmação muito importante no cap. 13: “Mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo
ciência, desaparecerá” (vs. 8-10). Aqui ele declara que profecia, línguas
e ciência pertencem à infância da Igreja. Assim a referência, no v. 11, à
meninice: “Quando era menino, falava como menino [corresponde às
línguas que cessarão]; sentia como menino [corresponde à ciência que
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
105
desaparecerá]; discorria como menino [corresponde às profecias que
serão aniquiladas]”. Continuando esta analogia de meninice e maturidade, ele enfatiza que chegaria o tempo quando estas coisas não seriam
mais necessárias. A palavra “perfeito” (teleios) significa “tendo chegado
ao seu fim (telos), terminado, completo, perfeito”,* e evidentemente se
refere à conclusão do Cânon do Novo Testamento.
O contraste entre a infância com sua imaturidade (ou para usar a
expressão de Paulo, “conhecer em parte”) e a maioridade com sua maturidade (ou para usar a expressão de Paulo, “perfeito”), continua no v. 12:
“Porque agora vemos por espelho em enigma [“obscuramente”, ARA],
mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido”. Visão ou compreensão parcial
daria lugar à clareza. Lembrando que esta passagem trata da comunicação da Palavra de Deus, as palavras “face a face” (evidentemente se referindo a Nm 12:8) se referem à “visão clara devida à possessão da Palavra
de Deus completa”.† É sugerido que neste contexto as palavras “então
conhecerei como também sou conhecido” indicam que Paulo esperava
compreender melhor as coisas de Deus, até a medida da sua capacidade
dada a ele por Deus. Deus conhecia sua capacidade, e concederia Sua
Palavra de acordo com esta capacidade.
Isso nos leva a observar que no cap. 13 somos informados claramente que as línguas, e outros dons necessários para o bem estar da
Igreja primitiva, cessariam, e que o cap. 14 não trata da sua cessação,
mas do seu controle. Isso explica tais afirmações como “procurai com
zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar” (14:1); “E
eu quero que todos vós faleis com línguas, mas muito mais que profetizeis” (14:5); “Portanto, irmãos, procurai com zelo, profetizar, e não
proibais falar línguas” (14:39). I Coríntios 14, portanto, ensina que o
dom de línguas e o dom da profecia deveriam ser controlados enquanto
existiam. Embora os dois dons fossem temporários, eram bem diferentes. O dom de línguas era falar numa língua estranha à igreja local. O
dom de profecia significava falar na língua da igreja local.
Regulamento
Chegamos agora ao âmago do assunto. I Coríntios 14 trata espe*
VINE, W. E. Amplified Expository Dictionary of New Testament Words. World Bible Publishers,
1991. Traduzido para o português pela CPAD.
†
W.E. Vine. The collected Writings of W.E. Vine – Vol 2. Thomas Nelson Publishers, 1996.
106
A glória da igreja local
cificamente das comunicações na igreja local, e ao examinar o capítulo,
devemos observar princípios governamentais importantes. O capítulo
é muito mais do que uma crítica contra falar em línguas, mas devemos
fazer algumas observações gerais sobre o assunto.
i) Todos os dons são carismáticos. A palavra “dom” (charisma), que
significa “um dom da graça, um dom envolvendo graça”,* é usada com
frequência no Novo Testamento. Por exemplo: “De modo que, tendo
diferentes dons, segundo a graça que nos é dada” (Rm 12:6); “de maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso
Senhor Jesus Cristo” (I Co 1:7); “despertes o dom de Deus que existe
em ti” (II Tm 1:6). É errado chamar alguns dons “carismáticos” e excluir
os outros.
ii) O dom de línguas não foi dado a toda pessoa salva. “Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? São
todos operadores de milagres? Têm todos o dom de curar? Falam todos
diversas línguas, interpretam todos?” (I Co 12:29-30). A resposta é clara – Não! A sugestão que a capacidade de falar línguas é evidência de
salvação verdadeira não tem apoio bíblico e cria muita confusão.
iii) O dom de línguas é de caráter temporário, como já observamos. É mencionado em I Coríntios, que é uma das primeiras epístolas,
mas não em Romanos e Efésios, que foram escritas mais tarde. Isto
mostra como o uso deste dom estava diminuindo mesmo nos tempos
do Novo Testamento. Citando o irmão Harold Bell: “O dom de línguas
cessou depois que o reino cessou de ser oferecido a Israel”.
iv) Os coríntios estavam colocando em primeiro lugar aquilo que
Deus colocou em último lugar. “Uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois
milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas” (I Co 12:28. Veja também I Co 12:10).
v) O dom de línguas era uma língua conhecida no mundo. “E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas
[glossa] conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2:4).
O resultado foi que “ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque
cada um os ouvia falar na sua própria língua [dialektos]” (At 2:6). Lucas
continua: “E todos pasmavam e se maravilharam, dizendo uns aos ou*
VINE, W. E. Amplified Expository Dictionary of New Testament Words. World Bible Publishers,
1991. Traduzido para o português pela CPAD.
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
107
tros: Pois quê! Não são galileus todos estes homens que estão falando?
Como, pois, os ouvimos, cada um na nossa própria língua [dialektos]
em que somos nascidos?” (At 2:7-8). Lucas continua ainda: “Cretenses
e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas [glossa]
falar as grandezas de Deus” (At 2:11). Evidentemente não há diferença
entre as duas palavras (dialektos e glossa) nesta passagem. É como nós
falamos da “nossa língua materna” em contraste com “outro idioma”.
Isso é claro quando comparamos Atos 2:6: “cada um os ouvia falar na
sua própria língua [dialektos]”; mas em Atos 10:46: “Porque os ouviam
falar línguas [glossa]”. Em I Coríntios caps. 13 e 14 a palavra usada é
esta mesma palavra glossa que é usada em Atos, e assim sabemos que se
refere a uma língua conhecida na Terra, e não significa uma expressão
extática. Assim compreendemos “por gente de outras línguas [glossa], e
por outros lábios, falarei a este povo” (I Co 14:21). Devemos notar que
a palavra “desconhecida” na frase “língua desconhecida”, nos vs. 4, 14,
19 e 27, não está no original, que simplesmente diz “língua”. Por isto a
palavra “desconhecida” aparece nestes versículos em itálico.
Também devemos notar que Pedro não pregou em línguas. O uso
das línguas foi para chamar a atenção da multidão, causando a sua admiração: “Pois quê! Não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um na nossa própria língua em
que somos nascidos?” (At 2:7-8).
vi) O dom de línguas era um sinal. Portanto, precisa ser uma língua
conhecida. “Linguagem inarticulada”* seria somente um sinal de loucura. Como vamos ver, era um sinal para os incrédulos. I Coríntios 14:22
se refere a Isaías 28:11-12. O falecido J.H. Large disse:
Devido à desobediência e incredulidade do povo, Deus iria castigá-lo ao enviar o invasor. Eles não deram atenção às mensagens claras
de Deus, entregues na sua própria língua, portanto teriam a experiência incomum de ouvir Deus falando providencialmente a eles,
através de conquistadores estrangeiros vindos ao seu meio e falando
em outras línguas, isto é, não sons ininteligíveis mas um idioma compreensível — muito compreensível! Quando isto acontecesse, eles se
lembrariam dos avisos de Deus, e no entanto nem assim iriam, como
um povo, voltar-se ao Senhor. As “línguas” no dia de Pentecostes
foram um sinal para a nação de Israel, que rejeitara a Cristo, de que
Deus estava cumprindo a Sua Palavra; veja, por exemplo, Atos 2:36.
Neste contexto, devemos notar Marcos 16:17-20: “E estes sinais
*
DAVIES, J. M. The Epistles to the Corinthians. Gospel Literature Services, Bombay, 1975.
108
A glória da igreja local
seguirão aos que crerem: em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa
mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos,
e os curarão … E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes,
cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais
que se seguiram”.
O fato do dom de línguas ser um sinal é confirmado pelo seu efeito
nas três ocasiões em Atos em que o dom foi usado:
• “E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar
noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2:4). O resultado foi que “ajuntou-se uma multidão, e
estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua
[glossa]”. Devemos notar que estas pessoas eram judeus.
• “E os fieis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo
com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se
derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar línguas [glossa], e magnificar a Deus” (At 10:45). A presença de testemunhas judaicas deve ser observada. O dom de línguas, nesta ocasião, foi um sinal para os homens preconceituosos partidários da
circuncisão, mostrando que o Evangelho incluía tanto gentios como
judeus, e nos mesmos termos.
• “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo;
e falavam línguas [glossa], e profetizavam” (At 19:6). Foi um sinal
de algo novo na sua experiência. Eles deixaram de ser discípulos de
João para depositar fé em Cristo, de quem João falava. De novo, devemos observar o cenário judaico: “E, entrando na sinagoga” (v. 8).
Em Hebreus 2:4 temos o mesmo pensamento: “Testificando Deus
com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas e dons do Espírito Santo, distribuídos por Sua vontade”. Assim, lemos em I Coríntios
14:22: “De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para
os infiéis”.
vii) O dom de línguas não era sinal de espiritualidade. A igreja
em Corinto era a igreja mais carnal de todas! Veja I Coríntios 3:1-4: “E
eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais
… porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas
e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens? Porque dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu sou de Apolo;
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
109
porventura não sois carnais?”
viii) O dom deveria ser usado com dignidade e consideração.
Sempre deveria estar sob controle. Não haveria nenhum descontrole
impetuoso ou cacofonia de sons. “E se alguém falar em língua desconhecida faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja
intérprete” (I Co 14:27).
I Coríntios cap. 14
Vamos observar agora como Paulo trata deste assunto em I Coríntios 14. Seu propósito é demonstrar a superioridade e valor da profecia,
isto é, “não necessariamente, nem mesmo principalmente, predizendo
… mas proclamando a vontade de Deus”. A profecia, que evidentemente cessou quando o Cânon das Escrituras estava completo, era “a
revelação direta da mente de Deus para aquela ocasião”, em contraste
à mensagem de quem ensina hoje, que é “tirada da revelação completa,
contida nas Escrituras”.*
O capítulo pode ser dividido na seguinte maneira.
• O proveito relativo de línguas e profecia (vs. 1-19). Aqui Paulo
determina o valor de línguas e profecia na edificação da igreja. O
dom precisa ser regulado pelo teste de edificação.
• O propósito relativo de línguas e profecia (vs. 20-25). Tendo demonstrado que línguas não edificam a igreja, Paulo determina a
razão porque elas existiram. Sua conclusão é clara: o dom de línguas
era um sinal para os incrédulos.
• A participação em línguas e profecia (vs. 26-35). Nesta parte Paulo
estabelece os princípios que deveriam governar o uso destes dons
na igreja local.
• A conclusão (vs. 36-40).
O proveito relativo de línguas e profecia (vs. 1-19)
Esta parte tem três parágrafos, e cada um constitui um teste:
• Qual edifica: línguas ou profecia? (vs. 1-5);
• Qual produz mais clareza na comunicação: línguas ou profecia? (vs.
6-11);
*
VINE, W. E. Amplified Expository Dictionary of New Testament Words. World Bible Publishers,
1991. Traduzido para o português pela CPAD.
110
A glória da igreja local
• Qual produz compreensão clara: línguas ou profecia? (vs. 12-19).
Qual edifica: línguas ou profecia? (vs. 1-5)
Nestes versículos três pares são destacados: “Porque o que fala em
línguas … mas o que profetiza” (vs. 2-3); “o que fala em línguas… mas
o que profetiza” (v. 4); resumindo: “o que profetiza … o que fala em
línguas” (v. 5).
Devemos notar o seguinte:
• O apóstolo não está afirmando que o dom de línguas não existe,
mas que não deveria ser usado isoladamente na igreja. A possessão
do dom não era razão para seu uso indiscriminado. A reunião da
igreja não é lugar onde demonstramos nossos dons para nos exaltar, mas o lugar onde os salvos agem em espírito de consideração
mútua.
• “O que fala em língua [desconhecida] não fala aos homens, senão a
Deus; porque ninguém o entende” (v. 2). Assim, o dom é usado no
lugar errado. Como o dom era um sinal para incrédulos, e não para
o povo do Senhor, ninguém ouviria com entendimento. Somente
Deus podia entender o que era dito.
• “Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação [que fortifica], exortação [que estimula] e consolação [que encoraja]” (v. 3).
Note a ordem: edificação — que se refere à doutrina; exortação
— que se refere à prática da doutrina; consolação — se referindo à
força que a doutrina traz. Devemos lembrar que hoje quem ensina
substituí quem profetizava naquele tempo (os apóstolos e profetas
estavam ligados ao fundamento da Igreja, Ef 2:20), mas mesmo
assim, o princípio neste versículo tem muita aplicação hoje. Os que
ensinam as Escrituras hoje falam, da mesma forma, “para edificação, exortação e consolação”. Suas comunicações têm pouco, ou até
nenhum valor, se este não for o caso.
• “O que fala em língua [desconhecida] edifica-se a si mesmo; mas o
que profetiza edifica a igreja” (v. 4). A frase “edifica-se a si mesmo”
deve indicar que ele entendeu o que falou, pois o que não pode ser
entendido não pode edificar. Isso é confirmado no v. 28: “Mas, se
não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo,
e com Deus”.
• “E eu quero que todos vós faleis em línguas, mas muito mais que
profetizais; porque o que profetiza é maior do que o que fala em lín-
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
111
guas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação” (v. 5). Paulo desejava o melhor para os santos, assim ele disse
em 12:31: “Portanto, procurai [como igreja] com zelo os melhores
dons”. Isto é, aqueles dons que edificariam a igreja, especialmente
profecia. Os resultados da profecia enfatizam a superioridade deste
dom.
As palavras “a não ser que também interprete”, mostram que a capacidade para interpretar faz com que o dom de línguas edifique como
o dom de profetizar. Se as línguas podem ser interpretadas, então a igreja pode ser edificada. Se um homem pode interpretar línguas, e também
falar em línguas, então não havia necessidade de falar em línguas inicialmente. Veja o v. 13 e compare com os vs. 27-28.
Mas, como esta edificação será alcançada? Isso nos leva aos segundo
e terceiro parágrafos, referentes ao valor relativo das línguas e da profecia. Isto será conseguido por clareza de expressão e compreensão.
Qual produz mais clareza na comunicação: línguas ou profecia?
(vs. 6-11)
Paulo responde esta pergunta por mencionar a si mesmo (v. 6); os
instrumentos musicais (vs. 7-8); e os próprios coríntios (vs. 9-11).
i) A referência a si mesmo (v. 6). “E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas, que vos aproveitaria se não vos falasse ou por
meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina?” Não
haveria proveito se falasse em línguas. Note como ele se refere aos meios
de adquirir a verdade: “revelação … ciência”; depois aos meios de comunicar a verdade: “profecia … doutrina”. O profeta do Novo Testamento
estava envolvido com “revelação” e “profecia”; quem ensina a Bíblia hoje
está envolvido com “ciência” e “doutrina” [ensino]. Isso sugere uma transição do ministério temporário do profeta do Novo Testamento para
o ministério permanente do ensinador. Compare II Pedro 2:1, onde
“falsos profetas” do passado dão lugar a “falsos ensinadores” no futuro.
ii) A referência a instrumentos musicais (vs. 7-8). “Da mesma
sorte, se as coisas inanimadas, que fazem som, seja flauta, seja cítara,
não formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca com a
flauta ou com a cítara? Porque se a trombeta der sonido incerto, quem
se preparará para a batalha?”.
Estes instrumentos podem ser divididos em grupos. A flauta e a
112
A glória da igreja local
cítara causam alegria e prazer. A trombeta traz advertência e direção.
Contudo, se não forem tocados claramente, são inúteis. Assim também,
se os santos hão de ser ajudados, de uma ou de outra maneira, eles precisam entender o que é dito.
iii) A referência aos próprios coríntios (vs. 9-11). “Assim também
vós, se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como
se entenderá o que se diz? Porque estareis como que falando ao ar. Há,
por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem
significado. Mas se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim”.
No contexto, Paulo está falando sobre línguas, mas seria bom fazer
uma aplicação aqui. Devemos apreciar o valor de usar palavras facilmente entendidas. Por exemplo, a pregação do Evangelho deve ser simples, mesmo se o assunto for profundo. Precisamos nos lembrar da habilidade e capacidade dos nossos ouvintes. A palavra “sentido” (dunamis)
significa a força ou poder do que é falado.
Ao mencionar as “tantas espécies de vozes” (v. 10), Paulo, evidentemente, está se referindo a línguas humanas. Isso fica claro no v. 11,
onde a palavra “bárbaro” significa “um que fala outra língua ou língua
estrangeira”.* Vine continua: “Mais tarde veio a indicar qualquer estrangeiro que desconhecia a língua e cultura grega … Semelhantemente, na língua dos egípcios berber significava todos os povos não egípcios”.
Resumindo: seja Paulo, sejam instrumentos musicais, sejam os próprios coríntios, nada poderia ser conseguido se não fosse expressado
claramente.
Qual produz compreensão clara: línguas ou profecia? (vs. 12-19)
Estes versículos enfatizam a necessidade de compreensão clara por
parte de quem fala (vs. 13-15), e de compreensão clara por parte de
quem ouve (vs. 16-19).
Clareza da parte de quem fala (vs. 12-15). “Assim também vós,
como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação
da igreja. Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a
possa interpretar. Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu
espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto. Que farei,
pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento;
*
VINE, W. E. Amplified Expository Dictionary of New Testament Words. World Bible Publishers,
1991. Traduzido para o português pela CPAD.
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
113
cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.”
Entusiasmo espiritual deve ser temperado com motivos espirituais.
Os crentes em Corinto eram zelosos de dons espirituais, ou “desejosos
de espíritos” ( JND). Embora a palavra “espirituais” aqui (pnuematon —
talvez signifique “poderes espirituais”) é diferente da palavra empregada
em 12:1 e 14:1 (pnuematikos), não é fácil distinguir entre as duas. Contudo, o sentido geral é claro:
Não pode haver gratificação de si mesmo, tudo precisa ser feito
para o bem estar da igreja toda. O alvo do ministério oral deve ser
a edificação espiritual de todos os que estão presentes.*
Assim, “procurai abundar, para edificação da igreja” (14:12), lembrando da exortação: “Procurai com zelo os melhores dons (12:31). A
palavra “abundar” (perisseuo) significa “exceder”, “superar”, como vemos
pelo seu uso em Lucas 15:17: “têm abundância de pão”.
Visto que devemos sempre nos lembrar da “edificação da igreja”, o
homem que tinha o dom de línguas deveria orar “para que a possa interpretar”. Em seguida, temos a razão para isto: “Porque, se eu orar em
língua desconhecida, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento
fica sem fruto”. Isso é, ao orar numa língua estranha, sua compreensão
pessoal daquilo que falava seria infrutífera para os outros, porque não
entenderiam o que ele dizia. O versículo não ensina que quem falava
não entendia o que dizia — isso o reduziria ao nível de um robô, e
iria eliminar completamente a ênfase na palavra “entendimento” (nous)
que ocorre quatro vezes nos vs. 14-20. Devemos acrescentar que os que
participam publicamente nas reuniões da igreja devem entender o que
dizem, especialmente quando estão citando outra pessoa!
Contribuição à igreja deve ser feita de duas maneiras: “com o espírito”, isso é com alegria, de todo o coração e com entusiasmo espiritual,
e “com o entendimento”, isto é, com entendimento e inteligência espirituais. A não ser que o pregador seja inteligível aos outros, sua participação não terá efeito, como mostram os seguintes versículos.
Clareza na parte de quem ouve (vs. 16-19). “De outra maneira, se
tu bendisseres com o espírito, como dirá o que ocupa o lugar de indouto,
o Amém, sobre a tua ação de graças, visto que não sabe o que dizes?
Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado.
Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos.
*
VINE, W. E. The collected writings of W. E. Vine – Vol 2. Thomas Nelson Publishers, 1996.
114
A glória da igreja local
Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria
inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil
palavras em língua desconhecida.”
O “indouto” (veja também os vs. 23-24) sem dúvida é uma pessoa
salva; a palavra indica alguém “que não tem qualquer meio de entender,
a não ser pela ajuda de interpretação. Portanto, tais pessoas não poderiam participar na adoração”.* Assim, não podiam dizer Amém. Esta
prática bíblica é muito mais do que uma mera cortesia; expressa acordo,
lembrando-nos que oração e ações de graças devem sempre ser dadas
com um senso de representação. Um irmão nunca deve expressar sua
opinião em oração sobre um assunto quando existe discórdia sobre isto
na igreja. Não é desconhecido o caso de um irmão orar no sentido horizontal, e não no sentido vertical. Devemos notar que dar graças edifica
os santos. Paulo era exemplo do seu próprio ministério. O ministério
público dos irmãos na igreja é realçado quando é exemplificado nas suas
vidas pessoais. O Senhor Jesus censurou os religiosos dos Seus dias que
“dizem e não fazem” (Mt 23:1-3).
Resumindo, tudo deve ser feito com amor, para ajudar, com inteligência e com consideração. Tendo considerado o valor relativo de línguas e profecia, Paulo agora muda o assunto para:
O propósito relativo de línguas e profecia (vs. 20-25)
Estes versículos ilustram a maneira como devemos estudar a Bíblia.
Devemos perguntar: o que diz a passagem? (v. 21); o que a passagem
significa? (v. 22); como a passagem pode ser aplicada? (vs. 23-25).
Esta parte do capítulo começa com uma exortação para que fossem maduros. Eles deveriam saber como se comportar melhor. “Irmãos,
não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e
adultos no entendimento” (v. 20). Devemos observar as palavras usadas na frase: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento”. A palavra
“meninos” (paidon) significa “uma criança pequena, ou nova”. É usada
dos discípulos em João 21:5 (talvez de propósito, por causa das circunstâncias naquela ocasião): “Filhos [meninos], tendes alguma coisa de comer?” Depois, no meio do versículo, outra palavra é usada: “… mas sede
meninos em malícia”. Aqui a palavra grega é nepos, que significa “um
bebê”. Isso é alguém que não pensa ou fala maliciosamente. Lamentavelmente, a malícia nas igrejas raramente tem tais qualidades infantis!
*
VINE, W. E. The collected writings of W. E. Vine – Vol 2. Thomas Nelson Publishers, 1996.
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
115
Os cristãos, às vezes, são bem desenvolvidos na malícia! Mas Paulo tem
algo muito diferente em mente: “adultos no entendimento”. A palavra
significa “perfeito”, ou “totalmente crescido”. Isso enfatiza a necessidade
de maturidade na conduta da igreja. A palavra traduzida “entendimento” (phren) se refere à mente, lembrando-nos que a comunhão da igreja
exige maturidade espiritual, e também responsabilidade.
Eles deveriam ter compreendido que “está escrito na lei: Por gente
de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim
me não ouvirão, diz o Senhor” (v. 21). Como já notamos, Paulo se refere aqui a Isaías 28:11-12: “Assim por lábios gaguejantes, e por outra
língua, falará a este povo … porém não quiseram ouvir”. “Este povo” é o
povo judeu. Como havia uma sinagoga em Corinto (At 18:3), podemos
entender por que o dom de línguas tinha sido dado a membros da igreja
ali.
As palavras: “Está escrito na lei” (v. 21) se referem ao Velho Testamento em geral. Veja, por exemplo, João 10:34: “Não está escrito na
vossa lei: Eu disse: Sois deuses?” (que se refere ao Sl 82:6); João 15:25:
“Mas é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem causa” (que se refere a Sl 69:4).
No Velho Testamento a língua que não era interpretada era um
sinal de julgamento. Em Isaías 28, Deus afirmou a Sua intenção de falar
ao Seu povo por meio de um poder estrangeiro, Assíria, assim pronunciando juízo sobre eles, pelas seguintes razões:
i) Porque rejeitaram a Palavra de Deus. Eles ouviram a mensagem: “Este é o descanso, daí descanso ao cansado; e este é o refrigério”,
mas não reagiram: “não quiseram ouvir” (Is 28:12). O “descanso” e o
“refrigério” não são definidos aqui, mas não há dúvida que são explicados em Isaías 8:13-14, que se refere a circunstâncias semelhantes: “Ao
Senhor dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele
o vosso assombro. Então ele vos será por santuário”. O próprio Senhor
seria o seu “descanso” e seu “refrigério”, da mesma maneira que, seiscentos anos mais tarde, o Senhor Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que
estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei … e encontrareis descanso
para as vossas almas” (Mt 11:28-29).
ii) Por causa da sua atitude para com a Palavra de Deus. Para eles,
significava somente uma repetição infantil e irritante: “Assim, pois, a
palavra do Senhor lhes será mandamento sobre mandamento, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, regra sobre regra, um pou-
116
A glória da igreja local
co aqui; um pouco ali” (v. 13).
A invasão pelos Assírios, com sua língua estrangeira, era, portanto, um sinal do juízo iminente. Assim é aqui, línguas como sinal para
Israel eram uma indicação de juízo sobre a nação. Línguas não eram
um sinal de salvação, mas de juízo. Neste contexto é importante diferenciar entre o propósito destas declarações, e seu conteúdo. Embora
não haja menção de línguas em Antioquia, seu propósito pode ser sintetizado pela advertência de Paulo ali: “Vede, pois, que não venha sobre
vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores e espantai-vos
e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, obra tal que não
crereis, se alguém vô-la contar” (At 13:40-41). Quanto ao conteúdo das
manifestações de línguas no livro de Atos, temos somente estas três
pequenas afirmações: “Temos ouvido em nossas próprias línguas falar
das grandezas de Deus” (2:11); “Os ouviam falar línguas, e magnificar
a Deus” (10:46); “E falavam línguas, e profetizavam” (19:6). Em cada
caso é evidente que o dom não foi usado em pregação ou ensino, mas
em louvor. Sobre o primeiro caso, J. M. Davies comenta: “Eles estavam
declarando as obras maravilhosas de Deus, sem dúvida repetindo porções do Velho Testamento nas línguas e dialetos dos judeus e prosélitos
presentes em Jerusalém para a festa”.*
Em vista do fato que Isaías 28 se refere ao judeu incrédulo, Paulo
termina dizendo: “De sorte que as línguas são um sinal [de julgamento], não para os fiéis, mas para os infiéis” (I Co 14:22). O propósito da
profecia é bem diferente: “A profecia não é sinal para os infiéis, mas para
os fiéis” (v. 22). Isso é aplicado nos vs. 23-25, onde Paulo se refere ao
tempo quando “toda a igreja se congregar num lugar”. Veja também o
v. 26. Devemos observar a frase: “Quando vos ajuntais”. Evidentemente, não havia “igrejas em células” ou grupos fragmentários em Corinto.
Compare I Coríntios 11:18: “quando ajuntais em assembleia” ( JND);
I Coríntios 11:20: “quando vos ajuntais num lugar”. Nestas ocasiões
Paulo contempla duas possíveis cenas na igreja:
i) “Todos falarem em línguas” (v. 23). “Se, pois, toda a igreja se
congregar num lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos
ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos”. O significado de
“indoutos” já foi dado no comentário sobre o v. 16. Poderíamos sugerir
que o “infiel” aqui seria um gentio incrédulo, visto que o uso de línguas
*
DAVIES, J. M. The Epistles to the Corinthians. Gospel Literature Services, Bombay, 1975
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
117
era um sinal para os judeus; mas parece mais provável que Paulo esta
descrevendo o efeito das línguas sobre qualquer “incrédulo” se “todos falarem em línguas”. A confusão seria indescritível. Por isso era necessário
que o dom fosse controlado (vs. 7-28).
ii) “Todos profetizarem” (vs. 24-25). “Mas, se todos profetizarem,
e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Portanto, os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim,
lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus
está verdadeiramente entre vós”. Estes versículos enfatizam o poder da
Palavra de Deus. Terá um efeito quádruplo sobre o visitante:
• “De todos é convencido”, ou “ele é convencido por tudo” ( JND); sua
consciência é tocada.
• “De todos é julgado”, ou “ele é julgado por tudo” ( JND); a palavra
“julgado” (anakrino) é traduzida “examinado” em I Coríntios 9:3,
isto é, o ensino esquadrinha e penetra seu coração.
• “Os segredos do seu coração ficarão manifestos”. Isto não se refere
a manifestação pública, mas sim que sua vida e caráter verdadeiro
são manifestos a ele.
• “E assim, lançando-se sobre seu rosto, adorará a Deus, publicando
que Deus está verdadeiramente entre vós”. W. E Vine sugere que
isto indica a sua conversão, e este bem pode ser o caso. Pelo menos,
ele reconhecerá que está na presença de Deus, e não entre um grupo
de lunáticos.
Participação em línguas e profecia (vs. 26-35)
Que tipo de reunião produzirá os resultados acima mencionados?
Vemos a resposta claramente agora nestes versículos: será uma reunião
ordeira. Devemos notar o seguinte, nesta parte: o princípio que regula
tudo (v. 26); a participação em línguas (vs. 27-28); a participação em
profecia (vs. 29-33); a participação das irmãs (vs. 34-35).
O princípio que regula tudo (v. 26)
“Faça-se tudo para edificação”. Este princípio deve governar as contribuições e os contribuintes. Paulo pensa nas reuniões da igreja em
Corinto e pergunta: “Como é então, irmãos”, e continua dando-lhes a
resposta: “Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem dou-
118
A glória da igreja local
trina, tem revelação, tem língua, tem interpretação”. W. E. Vine* sugere
que isso indica que os salvos estavam chegando às reuniões já com planos feitos sobre o que iriam falar e como iriam contribuir, e isso causava confusão. Assim, era de grande importância que todos os irmãos
regulassem as suas contribuições com referência ao bem estar de todos
e da igreja. Este princípio continua hoje — nossos hinos, nossas passagens bíblicas prediletas, nem sempre edificarão e ajudarão nas reuniões.
Também, não ajuda quando alguém chega à reunião resolvido a falar
sobre um determinado assunto, sem considerar se é conveniente naquela ocasião. Tal assim-chamado “ministério” muitas vezes não é conveniente em qualquer ocasião! O princípio sobre o qual a participação
deve ser feita é expresso aqui, e em I Coríntios 12:7: “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil”.
A participação em línguas (vs. 27-28)
“E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, e
quando muito, três, e por sua vez, e haja intérprete”. Aqui Paulo estabelece alguns princípios importantes:
• O uso de línguas não deveria ser excessivo: “dois, e quando muito,
três”.
• Os irmãos deveriam participar um de cada vez: “por sua vez”. A
participação deveria ser ordeira.
• Deveria haver um intérprete: “haja um que interprete”(VB). Isso
pode indicar que um irmão deveria interpretar todos, ou que somente um intérprete deveria interpretar de cada vez; as interpretações não deveriam ser feitas simultaneamente. Como J. Hunter†
observa: “Se o primeiro é o caso, então isso confirmaria que somente um irmão poderia falar de cada vez, e o próximo teria que esperar
o interprete terminar.” “Mas se não houver interprete, esteja calado
na igreja, e fale consigo mesmo e com Deus” (v. 28).
A participação em profecia (vs. 29-33)
“E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro.
Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos
*
VINE, W. E. The collected writings of W. E. Vine – Vol 2. Thomas Nelson Publishers, 1996.
†
HUNTER, J. What the Bible teaches – Vol 4. John Ritchie, 1986. Traduzido por esta editora.
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
119
aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão
sujeitos aos profetas. Porque Deus não é Deus de confusão, senão de
paz, como em todas as igrejas dos santos.” Devemos notar o seguinte:
• Como com línguas, a participação na profecia não deveria ser excessiva: “falem dois ou três profetas”. Notamos também que não
havia um homem controlando tudo.
• A igreja deve ouvir os profetas com discernimento, “e os outros [no
grego, allos, “outro do mesmo tipo”: isto é, outros profetas] julguem”.
• Os profetas deveriam participar com consideração mútua: “se a
outro, que estiver assentado, for revelado alguma coisa, cale-se o
primeiro”. “Ninguém deveria ocupar todo o tempo da reunião, ou
mesmo prolongar a sua contribuição desnecessariamente. Cada um
deveria reconhecer que outros também tinham o mesmo dom”.*
Notemos bem a expressão “se a outro … for revelada alguma coisa”.
O dom de profecia envolvia revelação direta.
• Os profetas deveriam manter ordem na sua participação: “Porque
todos podereis profetizar, uns depois dos outros”. Tal ordem beneficiaria todo o ajuntamento: “para que todos aprendam, e todos sejam consolados [exortados]”. Não precisamos de muita imaginação
para visualizar a confusão numa reunião onde todos querem falar
ao mesmo tempo!
• Os profetas deveriam exercer autocontrole: “E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”. Eles deveriam participar com inteligência e entendimento. Eles não deveriam estar numa condição de
excitação, e certamente não deveriam cair numa condição extática,
fora de si. Seu trabalho era comunicar a Palavra de Deus claramente
e inteligentemente.
Estes princípios importantes refletem a maneira harmoniosa como
o próprio Deus age: “porque Deus não é Deus de confusão, senão de
paz, como em todas as igrejas dos santos” (v. 33). Assim, “faça-se tudo
decentemente e com ordem” (v. 40). Resumindo, uma igreja local deve
ser caracterizada por ordem Divina, reverência, harmonia e consideração mútua. Claramente, nenhuma igreja tem a liberdade para fazer “o
que bem entende”, “porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz,
como em todas as igrejas dos santos”. Veja também I Coríntios 11:16.
*
W. E. Vine. The collected writings of W. E. Vine – Vol 2. Thomas Nelson Publishers, 1996.
120
A glória da igreja local
A participação das irmãs (vs. 34-35)
“As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é
permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se
querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios
maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja”. Esta é
a última de três proibições em relação a participação pública nas reuniões da igreja. Em relação às línguas, Paulo disse: “Mas, se não houver
intérprete, esteja calado na igreja” (v. 28). Em relação aos profetas, ele
disse: “Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa,
cale-se o primeiro” (v. 30). Agora, em relação às irmãs ele diz: “As vossas
mulheres estejam caladas nas igrejas” (v. 34). Somente os homens devem
participar audivelmente nas reuniões dos santos; as irmãs não têm parte
no ministério oral da igreja. Devemos notar:
• “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é
permitido falar”. “Caladas” aqui precisa ser entendido como no v.
28: “esteja calado na igreja”. A palavra “falar”, aqui, tem o mesmo
significado que no restante do capítulo. Não pode significar “tagarelar”, senão os vs. 28-29 se tornariam sem sentido: “Mas, se não
houver intérprete, esteja calado na igreja, e tagarele consigo mesmo,
e com Deus. E tagarelem dois ou três profetas, e os outros julguem”.
Não precisamos comentar mais sobre esta sugestão ridícula.
• “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas”. Notamos que a
palavra “igrejas” está no plural aqui, como também no v. 33, enquanto que no v. 28 está no singular, onde se refere particularmente
à igreja em Corinto, onde o dom de línguas existia. Compare com
11:16, que mostra que “Corinto era a única que permitia que as
mulheres não cobrissem a cabeça ao se reunir”.* Evidentemente,
também somente em Corinto havia irmãs participando.
• “Mas estejam sujeitas, como também ordena a lei”. Esta é a segunda
referência à lei neste capítulo (veja o v. 21), e aqui também indica o
Velho Testamento em geral, com referência especial a Gênesis 3:16:
“E teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”. As razões
são dadas em 1 Timóteo 2:11-14: “A mulher aprenda em silêncio,
como toda a sujeição. Porque primeiro foi formado Adão, depois
Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu
em transgressão”. Também, no contexto da reunião de oração, re*
HUNTER, J. What the Bible teaches – Vol 4. John Ritchie, 1986. Traduzido por esta editora.
Cap. 7 — A igreja local e suas comunicações
121
cebemos mais ensino nesta mesma passagem: “Quero, pois, que os
homens [aner — pessoas do sexo masculino] orem em todo lugar”
(I Tm 2:8).
• “E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus
próprios maridos [“perguntem aos seus maridos em casa”, JND],
porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja”. Vale a pena
citar J. Hunter* aqui:
Liderança é a responsabilidade do homem. Tanto o homem como a
mulher ocupam o lugar de honra dado por Deus, e todas as pessoas
piedosas reconhecem este fato, e se submetem à esta ordem estabelecida pela sabedoria de Deus. As mulheres, se não esclarecidas
sobre qualquer assunto, não devem fazer perguntas publicamente,
mas procurar ajuda dos homens em casa. A palavra traduzida
“maridos” [aner], embora usada para esposos, realmente significa
o sexo masculino. O assunto é concluído com a afirmação solene:
porque “é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.
A palavra traduzida “vergonhoso” significa “inconveniente, indecoroso, indecente”.
Conclusão (vs. 36-40)
Paulo agora dá duas razões porque a igreja em Corinto não deveria
pensar que podia fazer o que quisesse.
A Palavra de Deus não se originou neles
“Porventura saiu dentre vós a Palavra de Deus?” (v. 36.) Visto que
eles não eram os originadores da Palavra de Deus, eles não podiam colocar suas opiniões nos assuntos tratados. Se a Palavra de Deus tivesse
sua fonte neles, então teriam o direito de interpretá-la. Mas este não era
o caso. Não estavam livres para agir como bem entendessem. Novamente, o comentário de J. Hunter† merece ser citado:
Sendo a primeira igreja a afastar-se da Palavra de Deus, especialmente em relação às mulheres participando publicamente, estavam
se colocando no lugar de uma autoridade superior, portanto o
apóstolo os censurou.
A Palavra de Deus não veio somente a eles
“Ou veio ela somente para vós?” Não foi uma revelação especial a
*
HUNTER, J. Ibid.
†
HUNTER, J. Ibid.
122
A glória da igreja local
eles, fazendo-os diferentes de todos. Não receberam nenhum tratamento especial. Como diz J. Hunter*:
Será que eles eram os únicos receptores e guardiões de tal revelação
para poderem introduzir tais práticas? Podiam eles agir por si só e
ignorar as outras igrejas? Isto era realmente arrogância! Eles não receberam autoridade independente para agir assim. Mas hoje existe
a mesma atitude, e a mesma reivindicação para ser progressivos e
liberados. Contudo, este progresso é na direção contrária à Palavra
de Deus; é liberação de obediência a esta Palavra.
O ensino de Paulo sobre a igreja local é tão mandatário como seu
ensino sobre qualquer outro assunto. “Se alguém cuida ser profeta, ou
espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do
Senhor” (v. 37). Como J. Hunter† corretamente observa:
Esta clara reivindicação de Paulo, de que ele está escrevendo a Palavra de Deus, não pode ser ignorada, e todos precisam se submeter
ao ensino que tem a autoridade apostólica, independentemente de
qualquer experiência que possam reivindicar.
Paulo termina dizendo: “Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar, e não proibais falar línguas” (v. 39). O capítulo termina como
começou: “Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas
principalmente o de profetizar” (v. 12). Assim, os dois dons deveriam ser
valorizados e regulados enquanto existissem. O princípio geral é: “Faça-se tudo decentemente e com ordem” (v. 40); isso é: “de uma maneira
decorosa, e de acordo com o plano Divino”.‡
Feliz a igreja cujas comunicações são governadas pelos princípios
ensinados nesta passagem das Sagradas Escrituras.
*
HUNTER, J. Ibid.
†
HUNTER, J. Ibid.
‡
VINE, W. E. The collected writings of W. E. Vine – Vol 2. Thomas Nelson Publishers, 1996.
Cap. 8 — A igreja local e suas coletas
Por Thomas Bentley, Malásia
Uma das características maravilhosas da natureza do nosso Deus é
que Ele é um Deus que dá. Alguém expressou isto da seguinte maneira:
“Deus sempre vive, perdoa, existe, e sempre está de mãos estendidas,
e enquanto Ele vive Ele dá, pois a prerrogativa do Amor é dar, e dar
e dar”. Adão foi a primeira pessoa a usar a palavra, como vemos em
Gênesis 3:12: “Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira”. Assim, de acordo com esta característica louvável da Divindade vista desde Gênesis até Apocalipse, vemos o nosso Deus como um
“Deus que dá” (veja Gn 12:7; Ap 22:12). Israel, como nação redimida e
liberta da escravidão do Egito, quando recebeu a ordem de Deus sobre
os materiais necessários para a construção do Tabernáculo, agiu diligentemente e com devoção, como lemos em Êxodo 35:1-36:7. Esta contribuição foi devida ao seu coração voluntário: “Assim vieram homens
e mulheres, todos dispostos de coração; trouxeram fivelas, e pendentes,
e anéis, e braceletes, todos os objetos de ouro; e todo o homem fazia
oferta de ouro ao Senhor” (Êx 35:22), e os sábios de coração usaram o
que foi trazido para construir o Tabernáculo. Notamos, por exemplo: “e
venham todos os sábios de coração entre vós, e façam tudo que o Senhor tem mandado” (Êx 35:10); “e todas as mulheres sábias de coração
fiavam com as suas mãos e traziam o que tinham fiado, o azul e a púrpura, o carmesim e o linho fino” (Êx 35:25); “assim trabalharam Bezalel
e Aoliabe, e todo o homem sábio de coração a quem o Senhor dera sabedoria e inteligência, para saber como haviam de fazer toda a obra para
o serviço do santuário, conforme a tudo o que o Senhor tinha ordenado”
(Êx 36:1). Eles se sentiram tão impelidos a trazer materiais a Moisés
que foi necessário dizer, como diríamos na nossa língua: “Basta!” Assim,
está escrito em 36:5-7: “E falaram a Moisés dizendo: O povo traz muito
mais do que basta para o serviço da obra do santuário que o Senhor
ordenou que se fizesse. Então mandou Moisés que proclamassem por
todo o arraial, dizendo: Nenhum homem, nem mulher, façam mais obra
alguma para a oferta alçada do santuário. Assim o povo foi proibido
de trazer mais.” Devemos perguntar a nós mesmos: “Será que a nossa
contribuição a Deus chega a este padrão em qualidade e quantidade?”.
124
A glória da igreja local
Para que possamos entender este assunto de contribuição, é necessário, e de fato vital, reconhecermos que seria possível dar dádivas e
bens, e ainda perder a prioridade de Deus neste assunto, e deixar de dar
nossos corpos em devoção completa ao Senhor, como Paulo roga em
Romanos 12:1: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que
apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus,
que é o vosso culto racional”. O Senhor quer mais do que meu dinheiro
e recursos. Ele me quer em consagração total a Ele, e com certeza isto
é muito pessoal, prático e permanente. É só isto? Não! Pois, lemos em
Hebreus 13:15 que nosso Deus está esperando ainda mais alguma contribuição, que é o nosso louvor: “Portanto, ofereçamos sempre por ele a
Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu
nome”. Dizem que o grande C. H. Spurgeon, tendo ministrado sobre
este versículo um domingo, foi achado no dia seguinte caído no chão
depois de ser atacado por um ladrão que conseguiu levar seu dinheiro.
Seu amigo lhe perguntou: “Você pode ainda louvar ao Senhor?”. “Sim”,
ele respondeu, e citou vários motivos por que ele podia ainda louvar ao
Senhor, incluindo o fato do ladrão não lhe ter matado, somente levara
o seu dinheiro; e que embora tivesse sido agredido, ele não revidara.
Ainda outra contribuição pode ser encontrada em Apocalipse 8:3-4,
que é a oração. “E veio outro anjo, e pôs-se junto ao altar, tendo um
incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono.
E a fumaça do incenso subiu com as orações dos santos desde a mão do
anjo até diante de Deus”. Pela graça de Deus, cada recurso possível está
disponível a nós, não importa quais sejam as circunstâncias.
O rei Davi nos dá uma boa ilustração deste conceito de contribuir
com abnegação. Embora ele quisesse construir um templo para Deus,
o Senhor disse que não seria seu privilégio assim fazer. “E disse Davi a
Salomão: Filho meu, quanto a mim, tive em meu coração o propósito
de edificar uma casa ao nome do Senhor meu Deus. Porém, veio a mim
a palavra do Senhor, dizendo: Tu derramaste sangue em abundância,
e fizeste grandes guerras; não edificarás casa ao meu nome; porquanto muito sangue tens derramado na terra, perante mim” (I Cr 22:7-8).
Naturalmente, ele poderia ter parado de pensar neste assunto e deixado
que outros providenciassem para a construção. Mas não, pelo contrário,
lemos que Davi preparou com abundância para o Templo, mesmo que
ele nunca teria o privilégio de se envolver pessoalmente na sua constru-
Cap. 8 — A igreja local e sua coletas
125
ção. “E aparelhou Davi ferro em abundância, para os pregos das portas
das entradas, e para as junturas; como também cobre em abundância,
que não foi pesado; e madeira de cedro sem conta porque os sidônios
e tírios traziam a Davi madeira de cedro em abundância. Porque dizia
Davi: Salomão, meu filho, ainda é moço e tenro, e a casa que se há de
edificar para o Senhor deve ser magnífica em excelência, para nome e
glória em todas as terras; eu, pois, agora lhe prepararei materiais. Assim
preparou Davi materiais em abundância, antes da sua morte … Eis que
na minha aflição preparei para a casa do Senhor cem mil talentos de
ouro, e um milhão de talentos de prata, e de cobre e de ferro que se não
pesou, porque era em abundância; também madeira e pedras preparei,
e tu suprirás o que faltar. Também tens contigo obreiros em grande
número, cortadores e artífices em obra de pedra e madeira; e toda a
sorte de peritos em toda a espécie de obra. Do ouro, da prata, e do cobre, e do ferro não há conta. Levanta-te, pois, e faze a obra, e o Senhor
seja contigo” (I Cr 22:3-5;14-16). Qualquer que seja nossa situação na
vida, nunca devemos deixar de oferecer a nossa contribuição devota a
Deus, mesmo que certos privilégios que esperávamos não cheguem a
ser nossos.
Nos dias de Josias o discernimento que o protegeu verdadeiramente
veio de Deus, senão Atalia, que odiava a realeza, o teria matado. Mas
havia uma pessoa com percepção e inteligência, Jeosabeate, que o reconheceu e o escondeu na casa de Deus, e assim Josias foi preservado por
causa do cuidado sacerdotal. É muito importante para o leitor sincero
das Sagradas Escrituras reparar, em qualquer parte da Bíblia, o uso e
repetição de palavras chaves. Em II Crônicas 23 e 24, uma destas palavras é “pôs”.*
Em 23:20, o rei é visto assentado sobre o trono, sugerindo o controle da casa. No v. 19, “pôs os porteiros às portas da casa”, garantindo
o cuidado da casa. Antes, no v. 10, o sacerdote Joiada “dispôs o povo …
ao lado direito da casa até ao lado esquerdo”, que sugere o esplendor da
casa. Com certeza a glória da casa é vista no resultado final desta notável atividade e na recuperação, como diz 24:13: “e restauraram a casa
de Deus”. O propósito em convidar o leitor interessado a considerar
esta porção especial é para notar que quando o assunto é a contribuição,
*
Na AV a palavra “set” é repetida nos cinco versículos citados no próximo parágrafo, mas
em português (na AT) são usadas as palavras “assentaram”, “pôs”, “dispôs”, “restauraram”
e “puseram”. (N. do E.)
126
A glória da igreja local
que ainda é necessária para a continuação da obra da casa, lemos no v. 8
que o rei mandou fazer um cofre “e o puseram fora, à porta da casa do
Senhor”, que indica a contribuição da casa.
II Reis 11:9 diz que o sacerdote colocou a cofre “ao lado do Altar”.
A aplicação disto é incentivador, porque nos lembra do privilégio que
nós temos de reunir para lembrar do Senhor, e depois desta lembrança,
cumprir com a nossa responsabilidade ao dar a Ele nossa apreciação
prática. Como veremos mais tarde, isso era parte da comunicação de
Paulo com os coríntios. Frequentemente pergunto a mim mesmo: será
que o que tenho separado para oferecer na reunião de recordação do
Senhor seria maior se eu verdadeiramente apreciasse o que o Senhor
Jesus fez por mim? Será que eu daria mais depois da Ceia do Senhor
do que antes?
No Evangelho de Marcos cap. 13 há um resumo dos ensinos proféticos do Senhor, narrados em Mateus caps. 24 e 25. É proveitoso observar como o Senhor exorta Seus ouvintes, quatro vezes, a “olhar” ou
“ver” (vs. 5, 9, 23, 33). Nossa responsabilidade nisso também é muito
importante. É encorajador observar que antes e depois do relato de
Marcos sobre a profusão e confusão dos tempos mencionados pelo Senhor, duas mulheres são mencionadas — veja 12:41-44; 14:1-9. Aqui
achamos duas mulheres que, por causa da sua devoção, deram a Deus os
seus bens e a sua adoração. Amados, observe bem onde o Senhor estava
assentado: “defronte da arca do tesouro”. Também observe como Ele
estava vendo, e ouça o que Ele está dizendo. “E, estando Jesus assentado
defronte da arca do tesouro, observava a maneira como a multidão lançava o dinheiro na arca do tesouro; e muitos ricos deitavam muito. Vindo, porém, uma pobre viúva, deitou duas pequenas moedas, que valiam
meio centavo. E, chamado os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade
vos digo que esta pobre viúva deitou mais do que todos os que deitaram
na arca do tesouro; porque todos ali deitaram do que lhes sobejava,
mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento”
(Mc 12:41-44). “E, estando ele em Betânia, assentado à mesa, em casa
de Simão, o leproso, veio uma mulher, que trazia um vaso de alabastro,
com unguento de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso, lho
derramou sobre a cabeça” (Mc 14:3).
Com certeza quando nós somos levados a dar ao Senhor, Ele está
presente e observa tudo. Ele é ainda o mesmo Senhor. A atitude destas
mulheres era um contraste total à atitude daqueles nos dias de Mala-
Cap. 8 — A igreja local e sua coletas
127
quias; lemos que roubaram a Deus: “Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas
ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais,
sim, toda esta nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que
haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz
o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a
recolherdes” (Ml 3:8-10).
Anos atrás, em outro país, depois que uma igreja distribuiu as ofertas dos santos, eles ficaram com um valor de mais ou menos R$ 15,00.
Os irmãos concordaram em dar este valor a uma irmã que conheciam
muito bem, e um irmão foi designado a levar o envelope com o dinheiro
à sua casa. Pouco tempo depois este irmão encontrou com a irmã que
lhe disse que queria contar-lhe algo interessante. Ela falou que recentemente ela fora a uma reunião, onde ficara sabendo de uma necessidade
muito especial e queria contribuir, mas que só tinha R$ 15,00 na sua
carteira. Ela orou ao Senhor e disse: “Senhor, se eu der este dinheiro,
não ficarei com nada, mas eu quero dá-lo a Ti”, e assim ela fez. Então
ela acrescentou: “Meu irmão, você não vai acreditar o que aconteceu
quando cheguei em casa! Quando voltei daquela reunião, achei um envelope com essa exata quantia no chão, ao abrir a porta da minha casa!”
O irmão ficou comovido, e seus olhos se encheram de lágrimas ao reconhecer como Deus, o Senhor, vê tudo e pode recompensar os fiéis.
Pergunto à minha alma, será que eu, alguma vez, tive esta experiência
de dar tudo quanto tinha?
Contribuição coletiva (I Co 16:1-2)
As diretrizes sobre como contribuir
As exortações dadas por Paulo às igrejas da Galácia eram apropriadas à igreja em Corinto e, de fato, a todas as igrejas. Assim elas são
importantes a todos que têm a mesma prontidão em receber direção
e instrução Divina sobre o assunto de contribuir. Assim, nós que nos
reunimos da mesma maneira, em Seu Nome, devemos estar prontos e
dispostos a obedecê-las.
O dia para contribuir
“No primeiro dia da semana”. Isto enfatiza a regularidade da contri-
128
A glória da igreja local
buição. É contínua. Não poderia haver um tempo melhor do que quando os irmãos estão reunidos para lembrarem do Senhor e do Seu dar
sacrificial. Esta ocasião nos proporciona muita reflexão sobre o valor
infinito do que Ele deu, primeiramente a Deus, e depois por nós.
A determinação de contribuir
Lemos no v. 2: “cada um de vós ponha de parte”, que deixa muito
claro que a contribuição é pessoal, essencial e real. O Espírito de Deus
certamente está nos informando que o exercício de dar é individual,
independentemente do nosso estado, posição ou riqueza. Assim, claramente, não é um assunto familiar onde, como muitas vezes acontece,
um dá por todos. Deve sempre ser afirmado e cuidadosamente praticado que o dar é o resultado de exercício e apreciação pessoal. É tão
pessoal como o comer do pão e o beber do cálice, embora todas estas
coisas sejam atos coletivos.
A diversidade na contribuição
A contribuição deve ser proporcional: “conforme a sua prosperidade”. Não deve ser avaliada ou limitada. Neste ponto seria útil mencionar
o assunto de dar como é entendido pelo uso da palavra “dízimo”, especialmente no Velho Testamento. A primeira menção de dar o dízimo
está em Gênesis 14:20: “E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou
os teus inimigos nas tuas mãos; e Abrão deu-lhe [Melquisedeque] o
dízimo de tudo”. É interessante notar que a última referência à palavra
“dízimo” aparece em Hebreus 7:1-10: “Porque este Melquisedeque, que
era rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão, quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou; a quem [Melquisedeque] também Abraão deu o dízimo de tudo,
e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também
rei de Salém, que é rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não
tendo princípio de dias, nem fim de vida, mas sendo feito semelhante
ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre. Considerai, pois,
quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos
dos despojos. E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio
têm ordem, segundo a lei, de tomar o dízimo do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que tenham saído dos lombos de Abraão. Mas aquele, cuja
genealogia não é contada entre eles, tomou dízimos de Abraão, e abençoou o que tinha as promessas. Ora, sem contradição alguma, o menor é
Cap. 8 — A igreja local e sua coletas
129
abençoado pelo maior. E aqui certamente tomam dízimos homens que
morrem; ali, porém, aquele de quem se testifica que vive. E, por assim
dizer, por meio de Abraão, até Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos.
Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai quando Melquisedeque
lhe saiu ao encontro.” Assim a primeira e a última referência são do
mesmo acontecimento. Embora muito poderia ser escrito sobre esta
importante questão relacionada ao dar, Neemias 10 é instrutivo, pois ali
está relatada a decisão daqueles que voltaram para a Terra, e afirmaram
a sua prontidão de obedecer a vontade de Deus, como revelada pelo
profeta Neemias. Ao prometer cooperar na obra de Deus, eles concordaram em dar os dízimos: “E que as primícias da nossa massa, as nossas
ofertas alçadas, o fruto de toda a árvore, o mosto e o azeite, traríamos
aos sacerdotes, às câmaras da casa do nosso Deus; e os dízimos da nossa
terra aos levitas; e que os levitas receberiam os dízimos em todas as
cidades, da nossa lavoura. E que o sacerdote, filho de Arão, estaria com
os levitas quando estes recebessem os dízimos, e que os levitas trariam
os dízimos dos dízimos à casa do nosso Deus, às câmaras da casa do tesouro” (Ne 10:37-38). Como é triste observar que quando chegamos ao
cap. 13, houve uma falha total no cumprimento dos seus votos: “Também entendi que os quinhões dos levitas não se lhes davam, de maneira
que os levitas e os cantores, que faziam a obra, tinham fugido cada um
para a sua terra” (v. 10). Que lembrete solene a cada um de nós de que é
possível prometer tanto, mas por um motivo ou outro, deixar de cumprir
os nossos votos de dar, de todo coração, ao nosso Deus.
A contribuição recomendada (II Co caps. 8 e 9)
A área abrangida por Paulo nestes dois capítulos, pela direção do
Espírito Santo, sobre o assunto de contribuição, é sem paralelo em termos das palavras empregadas, ilustrações dadas e exortações ministradas. Não é possível, devido à limitação de espaço, oferecer aqui uma
exposição detalhada destes capítulos, mas queremos dar o suficiente
para encorajar o leitor a examinar os grandes detalhes dados aqui sobre
a contribuição.
O último versículo do cap. 9 é grandioso: “Graças a Deus, pois, pelo
seu dom inefável”. A força desta tremenda afirmação se acha na palavra “inefável”, pois é somente aqui no Novo Testamento que achamos
esta palavra. O cap. 8 nos dá uma das referências mais solenes sobre o
preço infinito que o Salvador pagou pela nossa redenção: “sendo rico,
130
A glória da igreja local
por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” (v. 9). A minha profunda preocupação é, qual o sacrifício que eu
estou preparado a fazer para o enriquecimento do testemunho cristão
hoje? Até que ponto os amados irmãos na Macedônia estavam prontos
a se sacrificar? Paulo diz: “Como em muita prova de tribulação houve
abundância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza abundou em
riquezas da sua generosidade” (II Co 8:2).
Para que possamos entender o caráter da nossa contribuição, e não
apenas a sua demonstração de sacrifício e espiritualidade, é útil notar
as sete palavras que Paulo, usado pelo Espírito, emprega. Estas palavras
nos ajudarão a enriquecer o nosso exercício em contribuir, como também em ampliar seu tamanho, alcance e sinceridade. No v. 2 a palavra
que devemos destacar é “generosidade”, que encontramos oito vezes no
Novo Testamento, cinco das quais em II Coríntios, às vezes traduzida
por outra palavra: “com simplicidade e sinceridade” (1:12); “para que
em tudo enriqueçais para toda a beneficência” (9:11); “pela liberalidade de vossos dons” (9:13); “sejam de alguma sorte corrompidos os
vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo” (11:3).
As outras ocorrências são: Romanos 12:8: “o que reparte, faça-o com
liberalidade”; Efésios 6:5 e Colossenses 3:22: “na sinceridade de vosso
coração”. Claramente, esta palavra enfatiza o motivo da nossa contribuição. Cada salvo certamente pode apreciar a primazia de Deus, cuja
vontade e glória é o poder que nos motiva a contribuir.
A palavra “graça” é usada nos seguintes versículos: 8:4, 6, 7, 9, 19;
9:8, 14, e sua intenção é demonstrar gratidão a Deus pela Sua bondade,
manifestada no Seu dom inefável. A bem conhecida palavra “comunicação” aparece em 8:4, transformando o exercício de contribuir em algo
que é a porção e privilégio de todos na igreja local. Uma palavra semelhante, “serviço”, aparece em 8:4 e também em 9:1, 12, 13*. Isso significa a sinceridade e dignidade que este exercício demonstra sempre. Em
8:2 e duas vezes em 8:14 a palavra “abundância” claramente afirma que
a contribuição deve ser ampla, rica e generosa: algo que excede a expectativa e que plenamente satisfaz a necessidade. Muitos anos atrás dois
pregadores estavam concluindo um período de pregação frutífera, e os
irmãos da igreja os agradeceram de coração, mas não ofereceram nada
de ajuda prática. Naquele tempo não havia carros e os irmãos moravam
num trailer que era puxado por cavalos. Assim, ao pegar as rédeas do ca*
Traduzida “administração” nestes três versículos. (N. do E.)
Cap. 8 — A igreja local e sua coletas
131
valo para irem embora, um deles disse: “Mas, não se esqueçam, irmãos,
os cavalos precisam comer capim”. Infelizmente, pode ser necessário alguém dizer hoje: “O carro precisa de gasolina”, e a maioria sabe que ela
está cada vez mais cara. Paulo nos ensina pelo uso da palavra “bênção”
em 9:5, 6* que a benevolência expressada na contribuição, ou o espírito
demonstrado no dar, é transferido ao donativo e certamente se torna
uma bênção. Finalmente, em 8:20 a palavra “abundância” aparece, mas
é diferente da palavra já mencionada. É usada somente aqui, e significa
que, devido ao grande valor desta contribuição, ela não somente exige,
mas merece, uma administração cuidadosa. Infelizmente, nem sempre
tem havido este cuidado, porque os irmãos que cuidam das contribuições da igreja não consideram a sua santidade.
A contribuição corrigida (Gl 6:6-10)
Todos concordam que a carta aos Gálatas é corretiva. Paulo sente
a falta de fidelidade a tudo o que ele ensinara durante o seu tempo de
serviço valioso na Galácia, e ele se refere a isso com várias súplicas.
Obviamente os santos precisam ser relembrados dos seus privilégios e
responsabilidades para poderem corresponder, e assim recuperar o caráter e conduta vital e espiritual das igrejas que seguem a mente e a
vontade de Deus.
Cada um de nós precisa reconhecer que o ensino que Paulo está
apresentando nestes versículos são verdades imperativas. Paulo aplica
a mensagem pessoalmente: “e o que …” (v. 6). Então ele mostra o privilégio continuo de receber instrução das Escrituras: “e o que é [está
sendo] instruído”. Evidentemente as palavras que seguem são diretivas.
O privilégio sempre traz a responsabilidade que, de acordo com esta
exortação de Paulo, pode ser cumprida pela comunicação prática de
uma oferta, de acordo com o exercício pessoal. Assim, temos aqui uma
referência clara à contribuição pessoal.
O próximo versículo (v. 7) geralmente é interpretado como não fazendo parte dos versículos diretivos anteriores — vamos considerá-lo
como corretivo. Claramente, o versículo trata do assunto de semear e
colher: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo que o
que o homem semear, isso também ceifará”. Este conceito também foi
usado por Paulo em I Coríntios 9:11: “Se nós semeamos as coisas es*
Traduzida “abundância” no v. 6. (N. do E.)
132
A glória da igreja local
pirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais?”. Também, mais
tarde, em II Coríntios 9:6, Paulo acrescenta afirmações negativas e positivas: “E digo isso: que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o
que semeia em abundância, em abundância ceifará”. É possível que nós
negligenciemos este conselho de Paulo sobre a contribuição, e pensemos que Deus não tratará conosco por causa desta óbvia negligência da
nossa responsabilidade. Nosso Deus observa tudo, e não devemos desobedecer aos Seus mandamentos diretivos. A habilidade do apóstolo,
guiado pelo Espírito de Deus, para usar tais ilustrações simples, porém
poderosas, para o enriquecimento espiritual dos santos, é educativa. É
o poder e prerrogativa do Espírito lembrar-nos das nossas responsabilidades de obedecer às diretrizes Divinas. Lamentavelmente, se falharmos em fazer a Sua vontade, isto é uma triste evidência da influência da
carne. Sem dúvida, nosso desejo ardente é obedecer aos mandamentos
da Palavra e sempre fazer o bem. O conselho do v. 10: “façamos bem a
todos …”, pode ser considerado como sendo conclusivo.
A contribuição consistente (Fp 4:10-19)
Uma característica notável nas cartas de Paulo às igrejas da Macedônia é que ele nunca exerce seu poder, ou afirma sua posição, como
apóstolo. Como já notamos, quando ele se refere aos santos da Macedônia, ele sempre os elogia (veja II Co 8:1; 11:9). Escrevendo sobre
contribuições, a linguagem e a alegria de Paulo refletem a consideração
e sustento constante que os filipenses tinham demonstrado para com
ele, em todo lugar por onde ele viajava no serviço do Senhor. Este exercício certamente deve ser demonstrado hoje pelos santos que valorizam
a plenitude da graça Divina, e assim são constantes na sua provisão para
o sustento daqueles que servem fielmente a Deus.
v. 10. “Ora, muito me regozijei no Senhor por finalmente reviver a
vossa lembrança de mim; pois já vos tínheis lembrado, mas não tínheis
tido oportunidade”. Aqui, Paulo está ansioso para mostrar a sua verdadeira gratidão, e que esta gratidão não é uma expectativa de favores
futuros. Pode ser descrito como um exercício a ser valorizado. A palavra traduzida “lembrança”, descrevendo o cuidado dos filipenses, é a
mesma palavra que em 2:5 é traduzida “sentimento” de Cristo Jesus, e
certamente engrandece o exercício dos santos em Filipos.
Cap. 8 — A igreja local e sua coletas
133
v. 11. Paulo está muito preocupado com a possibilidade de ser mal
entendido pelos filipenses, pois no v. 11 ele revela claramente um estado
a ser desejado: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho”. Paulo está ansioso para eliminar
qualquer pensamento de que seus agradecimentos sejam interpretados
como uma indicação de que ele está esperando receber mais da sua mão
e coração de amor. Várias formas de aprendizado são mencionadas no
Novo Testamento. Por exemplo, em Atos 26:24, a palavra gramma é
usada para descrever o que o leitor aprende através daquilo que ele lê.
Outra palavra interessante que é usada frequentemente no nosso Novo
Testamento e descreve outro tipo de aprendizado, que é através de ensino, é a palavra didaskalia (Rm 15:8). Entretanto, a palavra que é usada
aqui é manthano, que significa o que é aprendido pela experiência, e
notamos com interesse que é usada do próprio Senhor Jesus Cristo em
Hebreus 5:8. Assim, é na escola da disciplina e experiência que o verdadeiro servo do Senhor pode deixar a sua situação com Deus. Vamos,
portanto, quaisquer que sejam as nossas circunstâncias, certificar que a
nossa alegria e paz, nosso trabalho e amor, sejam totalmente independentes das circunstâncias.
v. 12. Na continuação da sua consideração, Paulo expressa o que
poderíamos descrever como um enigma a ser explicado, pois ele se defronta com dois extremos ao declarar: “Sei estar abatido, e sei também
ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como
a padecer necessidade”. É interessante observar como Paulo muda de
“aprendi” (como discípulo fiel, v. 11), para “estou instruído” (v. 12), sobre
o segredo de como enfrentar todas as circunstâncias pela fé e em total
dependência nAquele que é todo-suficiente.
v. 13. Paulo agora usa uma palavra muito descritiva: “fortalece”, para
informar os santos em Filipos que pela força do Senhor ressuscitado,
ministrada gratuitamente, ele pode enfrentar as mudanças e condições
que a vida no serviço do Senhor pode trazer: assim a definimos como
uma energia a ser provada. A palavra usada aqui no texto é ischus, e
transmite o pensamento de força ou poder (veja Ef 1:19; 6:10).
vs. 14-18. O v. 14 deixa claro que o apóstolo está ansioso para que
134
A glória da igreja local
os santos em Filipos não entendam mal as suas palavras, e cheguem
à conclusão de que não devem mais ser exercitados e mandar a Paulo
sua oferta de comunhão, como faziam anteriormente. Assim temos um
sacrifício a ser encorajado. As palavras são encorajadoras: “Todavia, fizestes bem em tomar parte na minha aflição”. Novamente, no v. 15, com
gozo e gratidão profunda, ele expressa o fato que os santos em Filipos
foram os únicos que cooperaram com ele, depois da sua saída da Macedônia. É interessante notar que Paulo raramente menciona nas suas
epístolas os que se converteram pela sua pregação, como ele faz aqui e
também em II Coríntios 6:11, onde suas palavras são cheias de afeição.
Também em Gálatas 3:1 não é com menos afeição, apesar do epíteto.
Não é fácil saber exatamente quantas vezes os filipenses enviaram donativos a Paulo, mas a frase “uma e outra vez” (v. 16), indica que foi pelo
menos duas vezes. Paulo, novamente, deseja que os santos a quem ele
escreve tenham uma compreensão clara tanto da sua mensagem como
dos seus motivos. O apóstolo mostra clareza no uso da palavra “procuro”
(v. 17), pois o texto poderia ser traduzido: “Não desejo o donativo, eu
desejo o fruto”.
Neste trecho as seguintes palavras importantes são usadas, e devem
ser consideradas: no v. 11, “contente” (autarkes), que significa “independente”; no v. 12, “ter abundância” (chortazo), que significa “estar cheio,
ou satisfeito”; no v. 18, “bastante tenho” (apecho), que significa “tenho
tudo”; novamente no v. 18, “cheio estou” (pleroo), que significa “repleto
ou abastecido”; nos vs. 12 e 18, “abundância” (periosseuo), que significa
“estou transbordando”. Esta última palavra é usada cinco vezes nesta
epístola, e também em Efésios 1:8 e Colossenses 2:7.
Paulo acrescenta que as coisas enviadas por meio de Epafrodito
eram como “cheiro de suavidade”. Antes, em 2:17, ele se refere ao seu
próprio serviço como uma “libação”, e agora se refere ao sacrifício dos
filipenses da mesma maneira.
v. 19. O apóstolo somente pode agradecer os cristãos em Filipos,
sinceramente, mas ele está certo que, acima de tudo, Deus os recompensará. Ele sabe que Deus suprirá todas as suas necessidades em plena
conformidade com a riqueza da glória em Cristo Jesus. Podemos chamar isto de um estoque a ser esgotado.
v. 20. Há também uma exaltação a ser expressa, e aqui Paulo eleva
Cap. 8 — A igreja local e sua coletas
135
a sua voz em louvor ao nosso Deus e Pai, que é digno de toda a gratidão
que oferecemos por causa de tudo que Ele é, e por causa de toda a Sua
rica provisão para nós, agora e para sempre.
O que trarei ao Salvador?
Aos Seus pés o que posso deixar?
Pedras preciosas não tenho,
Nem ouro ou incenso tão doce.
Coro: Ofertas ao Salvador trago,
Tesouros mais ricos do amor coloco
Aos Seus pés com gozo,
Antes do Sol se por hoje.
O que trarei ao Salvador?
Meus lábios para cantar Seus louvores,
Meus pés para andar no caminho
Que conduz a Jesus o Rei.
O que trarei ao Salvador?
O amor mais puro e melhor,
Vida na sua doçura e beleza
Tudo para Seu serviço, bendito. (Lizzie De Armond)*
*
Tradução literal. O original diz: "What shall I bring to the Saviour?/What shall I lay at His feet?/I
have no glittering jewels,/Gold, or frankincense so sweet.//Gifts to the Saviour I'm bringing,/
Love's richest treasures to lay/Low at His feet with rejoicing,/Ere yonder sunset today.//What
shall I bring to the Saviour?/Lips His dear praises to sing,/Feet that will walk in the pathway/
Leading to Jesus the King.//What shall I bring to the Saviour?/Love that is purest and best,/Life
in its sweetness and beauty/All for His service so blest".
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
Por William M. Banks, Escócia
Introdução
O apóstolo Paulo está concluindo sua terceira jornada missionária e
está com pressa para chegar a Jerusalém. Ele quer estar lá para o dia de
Pentecostes. Em Atos 20:16 lemos: “Porque já Paulo tinha determinado
passar ao largo de Éfeso, para não gastar tempo na Ásia. Apressava-se,
pois, para estar, se lhe fosse possível, em Jerusalém no dia de Pentecostes”. Não tendo tempo para ir pessoalmente até Éfeso, ele chama
os anciãos da igreja a virem até ele. A distância era mais ou menos de
quarenta e oito quilômetros. Obviamente, Paulo deve ter algo muito
importante a dizer, quando ele pede aos anciãos que façam esta viagem.
A mensagem que ele dá a estes anciãos é um lindo exemplo do ministério de Paulo a cristãos. Ela pode ser contrastada com seu sermão aos
judeus na sinagoga em Antioquia da Pisídia (At 13:16-41), e também
com seus sermões em Listra (At 14:15-17) e em Atenas (At 17:2231), que foram pregados a auditórios pagãos. Um estudo destes sermões
seria proveitoso para quem prega, mostrando como o apóstolo sempre
apresentava a sua mensagem lembrando-se da educação e cultura dos
seus ouvintes.
A mensagem aos anciãos de Éfeso é de importância fundamental.
É interessante observar como ele menciona aqui quase todos os requerimentos básicos associados com o cuidado de uma igreja local pelos
seus anciãos. Por isto, usaremos esta mensagem como base para a nossa
consideração, embora algumas referências a outras passagens serão necessárias para completar os detalhes.
A mensagem de Paulo aos anciãos de Éfeso
•
•
•
•
Vamos considerar a mensagem da seguinte maneira:
Os nomes dados a eles;
A natureza da sua nomeação;
A esfera da sua ação;
A atitude que deveriam adotar;
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
137
• Os detalhes do seu trabalho;
• Os problemas previstos;
• Os recursos disponíveis.
Os nomes dados a eles
No v. 17 eles são chamados de “anciãos”. Lemos: “De Mileto mandou a Éfeso, a chamar os anciãos da igreja”. A palavra grega traduzida,
“anciãos” aqui é presbuteros. Esta palavra realmente significa “mais velho”, e indica a qualificação fundamental que é necessária naqueles que
cuidam de uma igreja local. Nesta palavra estão incluídas a ideia de
maturidade, respeito, sabedoria e experiência. Há outra palavra usada no
Novo Testamento para mais velho (palaios), mas ela significa “velho” no
sentido de “desgastado”. Esta palavra nunca é usada daqueles que têm o
cuidado na igreja local!
Em Atos 20:28 achamos outro nome usado para estes mesmos irmãos que cuidavam da igreja em Éfeso: “Olhai, pois, por vós, e por
todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para
apascentardes a igreja, que ele resgatou com seu próprio sangue”. A
palavra “bispos”, usada aqui, no original é episkopos. Basicamente, indica quem vigia ou supervisiona. Esta palavra indica o trabalho que o
ancião faz na igreja ao vigiar, cuidar e controlar. Por exemplo, lemos em
I Timóteo 3:1: “Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja”.
A palavra “episcopado”, aqui, vem da mesma palavra episkopos usada em
Atos 20:28.
Assim, há duas palavras usadas para aqueles que cuidam de uma
igreja local: “anciãos”, indicando sua qualificação fundamental de maturidade espiritual, e “bispos”, indicando o trabalho que fazem.
Contudo, há outra palavra usada indiretamente em Atos 20. Ela
não é usada diretamente, mas é certamente sugerida no v. 28, já citado.
Neste versículo o apóstolo se refere ao “rebanho” sendo “apascentado”.
Assim, temos a ideia de um pastor. De fato, a palavra “apascentar” significa “alimentar como um pastor”. A ideia aqui é guiar, guardar e cuidar.
O verbo usado para apascentar é usado três vezes no Novo Testamento
neste contexto de liderança. É usado em João 21:16, onde nosso Senhor
indicou para Pedro que deveria “apascentar” e “pastorear minhas ovelhas”. Pedro também usa a palavra em I Pedro 5:1-2, onde ele mostra
os requisitos necessários para os que “apascentam o rebanho”. Em Efésios 4:11 achamos a forma substantiva da palavra: “pastores”. Alguém
138
A glória da igreja local
expressou isto muito bem ao dizer que “esta ilustração do pastor inclui
as ideias de autoridade, liderança com abnegação, carinho, sabedoria,
trabalho, cuidado amoroso e vigilância constante” .*
Assim, há três nomes dados nesta passagem àqueles que cuidam
da igreja local: anciãos, bispos e pastores. Algumas lições fundamentais
podem ser aprendidas destes nomes.
• Há uma pluralidade de anciãos em cada igreja local. Isto revela
que não existe base para a reivindicação eclesiástica para ter um
bispo responsável por uma igreja, nem um bispo sobre vários bispos.
Alguns sugerem que Tiago era o Bispo da igreja em Jerusalém, e
que João era o Bispo em Éfeso. Contudo, sabemos que havia uma
pluralidade de anciãos na igreja em Jerusalém — veja Atos 15:4.
Também, esta passagem em Atos 20 deixa claro que havia também
uma pluralidade de anciãos em Éfeso.
• Anciãos e bispos são nomes dados à mesma pessoa. Este fato é
confirmado indiscutivelmente quando o apóstolo diz a Tito: “Por
esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as
coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros como já te mandei” (Tt 1:5). Ele continua descrevendo as
qualificações daqueles que seriam estabelecidos e afirma: “Porque
convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa
de Deus” (v. 7). Fica muito claro que o presbítero, no v. 5, e o bispo,
no v. 7, são a mesma pessoa.†
• A responsabilidade de cuidar de uma igreja local. Esta responsabilidade não pode ser considerada levianamente, e certamente não
é para os inexperientes. Maturidade é indicada pelo significado das
palavras empregadas, e também pelas funções envolvidas. De fato,
veremos mais tarde que quando o apóstolo dá instruções específicas
sobre as qualificações necessárias daqueles que têm esta responsabilidade do governo da igreja local, ele expressamente exclui aqueles
que não são maduros.
*
STRAUCH, Alexander. Biblical Eldership — An Urgent Call To Restore Biblical Church Leadership.
Lewis and Roth Publishers, 1995.
†
Na nossa versão a palavra presbuteros às vezes é traduzida “ancião”, e às vezes “presbítero”.
(N. do T.)
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
139
A natureza da sua nomeação
Isto é indicado com clareza em Atos 20:28, onde o apóstolo diz
aos anciãos de Éfeso: “Olhai, pois por vós, e por todo o rebanho sobre
que o Espírito Santo vos constituiu bispos”. Assim, é evidente que é o
Espírito Santo que constitui bispos. Em outros lugares é ensinado que
é um dom dado pelo próprio Deus. Vemos isto em dois capítulos que
tratam dos dons espirituais: “Quem preside, com diligência” (Rm 12:8),
e “a uns pôs Deus na igreja … governos” (I Co 12:28). Assim, os bispos
são um dom do Espírito Santo à igreja local, para encarregar-se do seu
governo. O apóstolo Pedro acrescenta algo interessante quando ele diz:
“Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu … Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele” (I Pe 5:1-2). É
evidente, portanto, que o “Espírito Santo faz e o bispo cuida”. Em relação ao presbítero isso deve ser “… não por força, mas voluntariamente,
nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto”.
A palavra “constituiu” em Atos 20:28, está na voz média (no grego)
indicando que o Espírito Santo faz isto “por causa do seu propósito
único e sábio”. É parte da Sua vontade soberana; longe de qualquer intervenção humana. Portanto a natureza desta nomeação não é baseada
na capacidade em negócios, qualificações acadêmicas ou em reconhecimento do seu muito tempo de serviço na igreja. Também não é por
votação ou vontade própria. Aqueles que se colocaram a si mesmos na
liderança, no Velho Testamento, são exemplos tristes das consequências
terríveis que resultam. Nos casos de Uzias, Coré e Jeroboão, os resultados foram desastrosos.
Às vezes surge a pergunta: “Como pode isso ser praticado na igreja
local?”. W. E. Vine deu este conselho sábio:
Os que já foram constituídos bispos, e que estão cumprindo bem
seus deveres em cuidar da igreja, devem observar a vida dos irmãos
mais novos com o propósito de discernir o que o Espírito de Deus
está fazendo neles em preparação para a continuidade destas responsabilidades na igreja local. E os irmãos mais novos devem buscar ajuda de Deus para viver e andar de acordo com as Escrituras,
em santidade e justiça, em completa devoção a Cristo, em separação
do mundo, para que, se o Espírito Santo lhes der o privilégio de continuar o testemunho da igreja e de agir como anciãos, eles possam
estar prontos para serem reconhecidos pela igreja, de acordo com I
140
A glória da igreja local
Tessalonicenses 5:12-13.*
A esfera da sua ação
A esfera de ação é “o rebanho, sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos” (At 20:28). JND traduz: “o rebanho no qual o Espírito
santo vos fez bispos”. Uma tradução alternativa é: “o rebanho entre o
qual o Espírito Santo vos constituiu bispos”. Pedro enfatiza isso quando ele diz: “Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo
cuidado dele” (I Pe 5:2). Ele ainda enfatiza mais este relacionamento
quando ele diz: “Aos presbíteros que estão entre vós, admoesto” (I Pe
5:1). Assim, o rebanho está “entre” os anciãos e os anciãos estão “entre”
o rebanho e, de fato, o rebanho é a esfera na qual o Espírito Santo os
constituiu bispos. Ajuntando tudo, vemos a intimidade que existe entre
o rebanho e os anciãos. Não há nenhum pensamento de dominar por
causa desta nomeação divina. De fato, seria interessante considerar esta
esfera de três maneiras diferentes.
A natureza da esfera
Aprendemos que é um “rebanho”. Isto concorda com as palavras do
Senhor Jesus: “… haverá um só rebanho” ( Jo 10:16). O cuidado amoroso necessário é assim enfatizado.
A dignidade da esfera
Eles têm de apascentar a “igreja de Deus”. A igreja pertence a Ele.
É Ele que prescreve os detalhes, as funções e a administração. Não pertence a nenhum homem, ou grupo de homens. Eles não podem mandar
nos movimentos da igreja, e a igreja não pode mandar nos movimentos
de um servo.
O valor da esfera
Isto é indicado, de uma maneira linda, no final do v. 28: “A igreja
de Deus, que Ele resgatou com seu próprio sangue”, ou citando JND:
“o sangue do Seu Próprio”. Assim, a igreja é singular — é o centro e
circunferência da afeição Divina, tendo sido comprada por um preço
infinito. Portanto, é o interesse principal de Deus na Terra e, por isso,
*
VINE, W. E. The Future Care of Assemblies em Church Doctrine and Practice. Precious Seed,
1970.
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
141
deveria ser também o nosso.
A atitude que deveriam adotar
O apóstolo indica três atitudes que eles precisam adotar:
Olhar (v. 28)
Em outros lugares a palavra é traduzida “acautelai-vos”. O tempo
do verbo (imperativo presente) indica a necessidade de continuar cuidando. O ancião nunca pode relaxar seu cuidado. É interessante notar
que em outras passagens do Novo Testamento este verbo é usado no
contexto de doutrina falsa. Por exemplo, o Salvador disse: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas,
mas, interiormente, são lobos devoradores” (Mt 7:15). Este versículo vai
nos ajudar na consideração do contexto de Atos 20. Também: “Jesus
disse-lhes: … acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus” (Mt
16:6), e no v. 12 daquele capítulo o significado do fermento como usado
aqui é dado, quando o Senhor indica que eles não deveriam acautelar-se
do fermento de pão, mas da doutrina dos fariseus e saduceus. A necessidade de estar constantemente vigiando é assim indicada. Em Atos
20, entretanto, há duas esferas mencionadas. Em primeiro lugar, devem
olhar por “si mesmos”, e em segundo lugar, “por todo o rebanho”. “Por
vós”, é de suma importância, e a segunda esfera enfatiza que “todo” o
rebanho precisa deste cuidado. Essa não é uma responsabilidade pequena. As ovelhas são de diferentes tipos, naturezas e personalidades, mas o
bispo é exortado a cuidar de todas elas.
Vigiar (v. 31)
Neste caso a ideia é “estar em alerta” mentalmente e espiritualmente. O significado, basicamente, é estar acordado e “não dormir”. Novamente, está no tempo imperativo, indicando que há necessidade de
vigilância constante. Pedro enfatiza esta necessidade quando exorta:
“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pe 5:8).
O adversário sempre está ocupado. O bispo precisa estar sempre alerta.
Lembrar (v. 31)
A ênfase está na disposição de seguir o sábio exemplo de outros;
neste caso o do próprio Paulo. Ele estava sempre olhando. Ele estava
142
A glória da igreja local
sempre vigiando. Ele indica para eles o que devem lembrar. Há várias
coisas; ele não cessou de “admoestar”, indicando a necessidade contínua
de ensino ou exortação, e o fato de que há perigo, e a necessidade de cuidado. Nenhum deles foi excluído. O seu ministério era um ministério
de inclusão; ele avisou a “cada um”. Era um ministério constante “noite
e dia” e também estava associado “com lágrimas”. Talvez este último
aspecto é um dos problemas de hoje, uma falta de envolvimento emocional na administração e cuidado da igreja local.
Os detalhes do seu trabalho
A participação dos anciãos é um trabalho a ser feito, e não uma
posição a ser desejada. Este fato é enfatizado claramente em várias outras passagens do Novo Testamento. Por exemplo: “Esta é uma palavra
fiel; se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja (I Tm 3:1).
Na mesma epístola este pensamento é enfatizado: “Os presbíteros que
governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (I Tm 5:17). A palavra traduzida “trabalho”, aqui, é a palavra usada em outros lugares para
trabalho duro. Também, os santos são exortados a estimar os presbíteros
“por causa da sua obra” (I Ts 5:13). É claro que toda a atividade de uma
igreja local é considerada trabalho, e lemos do trabalho do evangelista
(II Tm 4:5), e da “obra do ministério” (Ef 4:12). Assim, seja supervisionar, evangelizar ou ensinar a Palavra, tudo é um “trabalho”.
O trabalho dos anciãos em supervisionar a igreja é visto numa variedade de esferas e implementado de maneiras variadas.
Apascentar a igreja de Deus (v. 28)
Isso indica a sua esfera primária e fundamental. De fato, a igreja
local é a esfera de importância primária para todos os santos, não somente para os anciãos. O apóstolo indica que haverá uma variedade e
abundância associada com a alimentação espiritual. Ele mostra, também, que os anciãos são responsáveis pela alimentação administrada na
igreja local. É bom quando há uma variedade de ministério, incluindo ministério prático, profético, devocional, doutrinário, etc. Deve ser
como “a árvore da vida que produz doze frutos, dando seu fruto de mês
em mês; e as folhas da árvore são para a saúde das nações” (Ap 22:2).
Havia variedade de mês em mês, e o propósito do fruto era para dar
saúde. É sempre bom quando uma variedade de ministério é dado para
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
143
a edificação da igreja local.
Anunciar todo o conselho de Deus (v. 27)
Vemos isto no exemplo do apóstolo quando ele disse que nunca
deixou de anunciar todo o conselho de Deus. A palavra “anunciar”, no
v. 27, é a mesma que achamos no v. 20, e significa “proclamar”. O apóstolo declarou todo o conselho de Deus. Não havia parcialidade no seu
ministério. Ele anunciou claramente todo o conselho: e “nada que seja
útil, deixei de vos anunciar” (v. 20). Este é um exemplo excelente para
os anciãos hoje.
Dar testemunho do Evangelho de Deus (v. 24)
A palavra “testemunho” é a mesma usada no v. 21 (“testificando”),
onde o apóstolo descreve o ministério do Evangelho, no qual ele estava
ocupado. A ideia em dar testemunho é “testificar solenemente”, que
indica a dignidade suprema associada com a apresentação da mensagem
do Evangelho. Deve sempre ser feito com solenidade, e nunca com frivolidade. Ao mesmo tempo, é necessário ser feito com clareza, e o apóstolo especifica o assunto: “a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor
Jesus Cristo” (v. 21). Assim, os assuntos de arrependimento e fé estão
intimamente ligados. Não são experiências separadas, mas um só ato de
“converter de” e “converter a”. A doutrina do Evangelho de Deus está
incluída no ministério do apóstolo. Deve ser incluído hoje, também. No
v. 24 achamos um detalhe interessante — ele testificava do Evangelho
“da graça de Deus”. Deus toma a iniciativa. Sem a intervenção da graça
Divina na experiência humana, nunca haveria a possibilidade de salvação.
Pregar o reino de Deus (v. 25)
É interessante que o apóstolo indica a necessidade de pregar o Reino de Deus no mesmo contexto que testificar do Evangelho de Deus.
O fato do Reino é fundamental à completa revelação das Escrituras. De
fato, já foi dito que o Reino “é o grande tema de toda a Escritura”, e a
Bíblia já foi descrita como “o livro do Reino vindouro de Deus”. Talvez
erramos hoje por não pregar este Reino como o apóstolo fazia. O Reino
de Deus é muito maior em contexto, e cronologicamente, do que a Igreja de Deus. Todos que pertencem à Igreja também pertencem ao Reino,
mas nem todos que pertencem ao Reino pertencem à Igreja, porque o
144
A glória da igreja local
Reino pode incluir meros professos. Temos de fazer uma distinção clara
entre as duas classes. Contudo, é claro que o apóstolo, ao pregar o Reino
de Deus, estava pregando a majestade e soberania de Deus nos assuntos
dos homens, e que Ele estava em completo controle de tudo que acontecia na Terra. Talvez devemos imitar mais este tipo de pregação hoje, e
compreender melhor o significado profundo da revelação compreensiva
que Deus tem dado na Sua Palavra sobre Sua soberania, eternidade e
majestade sublime.
Ensinar o povo de Deus (v. 20)
Paulo ensinava em duas esferas diferentes: “publicamente” e “pelas
casas”. É importante observar que em I Timóteo 3, entre as qualificações necessárias para o ancião, ele precisa ser “apto para ensinar”, e o
contexto mostra que ele pode fazer isto publicamente e de casa em casa.
Em todos os detalhes já mencionados, é muito evidente que o bispo precisa ser um homem da Palavra. De fato, uma das qualificações
exigidas em Tito 1:9 é: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a
doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes”. Sem um conhecimento
profundo da Palavra de Deus é impossível exortar ou encorajar o cristão
sincero, ou admoestar aqueles que estão seguindo doutrinas erradas. De
fato, a palavra “admoestar”, aqui, significa corrigir pela apresentação clara da base da sã doutrina e do caráter da verdade. Isso não pode ser feito
sem que haja um bom conhecimento da Palavra.
Os problemas previstos
Nos vs. 29-30 o apóstolo prevê coisas que acontecerão depois da sua
partida, e ele indica duas coisas em relação aos inimigos da igreja local.
A certeza da sua chegada
Ele diz: “Eu sei”. Portanto, os anciãos de Éfeso não deveriam ficar
surpreendidos quando surgissem os problemas, mas antes, deveriam se
fortificar para enfrentá-los. É a mesma coisa hoje. Estar prevenido é
estar preparado para enfrentar o problema.
A natureza do seu aparecimento
O falecido A. L. Leckie ensinou que nestes versículos há três tipos
de ministério: ministério espiritual (v. 28), ministério satânico (v. 29), e
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
145
ministério sectário (v. 30).
O ministério espiritual é administrado pelos anciãos; o ministério satânico pelos lobos cruéis penetrando no grupo de anciãos e não
poupando o rebanho, e o ministério sectário por alguns deles mesmos
levantando e falando coisas perversas, para atrair os discípulos após si.
Lobos sempre são predadores de ovelhas. Como citamos antes, o
Senhor adverte: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm
até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores” (Mt 7:15). Ele diz também aos Seus discípulos: “Eis que vos
envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como
as serpentes e inofensivos como as pombas“ (Mt 10:16). Os lobos não
têm compaixão das ovelhas. São devoradores, e os que apanham ovelhas
deixam destruição no seu rastro. Esta é uma das razões porque o pastor
carrega uma vara. Seu cajado é para as ovelhas, mas a sua vara é para os
lobos. A tragédia aqui em Atos 20:29 é que os lobos entrariam entre os
anciãos, e não poupariam o rebanho.
Talvez, pior ainda, haveria ministério sectário vindo de homens que
eram, naquele tempo, anciãos professos na igreja de Deus. Estes iriam
“falar coisas perversas, para atraírem os discípulos após si”. Em outras
palavras, eles iriam deturpar e torcer a verdade com o objetivo de seduzir outros a segui-los como líder, e assim atrair seguidores após si. A
heresia, obviamente, não iria opor-se diretamente aos ensinos sadios;
seria simplesmente uma distorção cuidadosa. Uma negação aberta seria
percebida por todos, mas uma deturpação sutil desviaria muitos. Infelizmente isto acontece até hoje, e podemos perceber que certos ensinadores têm como objetivo aumentar o número de seus seguidores.
Os recursos disponíveis
Estes recursos são indicados no v. 32. Realmente é um recurso duplo, e ambos têm um caráter permanente. O apóstolo diz: “Agora, pois”,
mostrando que estes recursos ainda estão disponíveis a nós hoje. O
primeiro recurso é Deus mesmo: “Encomendo-vos a Deus”. Ele ainda
está em controle. A igreja local ainda pertence a Ele. Há uma provisão
infinita para cada necessidade. O segundo recurso é “a Palavra da Sua
graça”. Uma rica fonte de graça é necessária para vencer os ministérios satânicos e sectários que já foram indicados. Inclui a plenitude do
Evangelho já mencionado no v. 24, o conteúdo do qual é detalhado no
v. 21. A Palavra é capaz de fazer duas coisas: edificar e dar uma herança
146
A glória da igreja local
entre todos os que são santificados. O apóstolo está indicando que há
provisão para o presente e o futuro também está seguro, dando assim
ímpeto para a continuação da obra. O ancião, portanto, não está sem
os recursos apropriados que, quando usados corretamente, dão direção
preciosa agora no presente, e promessa para o futuro, incentivando assim todo aspecto da atividade da igreja local.
Nossa atitude para com os anciãos
Além de tudo que temos estudado acima, que é basicamente um
resumo do ensino de Atos 20, dois assuntos ainda precisam ser destacados. Um é a nossa atitude para com os anciãos, e o outro são as qualificações necessárias para aqueles que vão fazer o trabalho. Vamos agora
considerar estes assuntos. Alguns anos atrás, numa conversa pessoal, o
Sr J. Dickson, da Escócia, plantou os seguintes pensamentos. Há pelo
menos sete exortações que devemos notar.
Reconhecê-los pelo seu trabalho (I Ts 5:12)
A ideia por trás da palavra “reconhecer” é conhecer por observar.
Talvez a palavra “apreciar” não esteja muito longe do significado exato.
Também a palavra “trabalho” é uma palavra forte, indicando “labor e
trabalho árduo, que resulta em cansaço e fadiga”. Além disso, é labor
feito “entre vós”, ou seja, na igreja local. Já foi observado que os anciãos
[…] obterão o verdadeiro reconhecimento se servirem bem aos
santos. Ovelhas instintivamente, sem qualquer necessidade de persuasão, seguem aquele que já conhecem e em quem aprenderam a
confiar.*
As palavras “presidem sobre vós”, no v. 12, vem de uma palavra que
significa “cuidar de, e guiar”. Em I Timóteo 3:4 é usada no contexto do
cuidado de um pai pela sua família, especialmente seus filhos. O fato de
que este cuidado é “no Senhor” indica a esfera do Senhorio em que a
administração deve acontecer.
Estimá-los por causa da sua obra (I Ts 5:13)
Há uma diferença interessante entre a palavra “trabalho”, no v. 12,
e a palavra “obra”, no v. 13. No v. 12 a ênfase está em como o trabalho é
*
CLARK, Arthur G. Government — Overseership em Church Doctrine And Practice. Precious
Seed, 1970.
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
147
feito, mas no v. 13 está no ato feito. Assim, no v. 12 é como eles fazem,
e no v. 13 é o que eles fazem. É evidente, no v. 13, que a estima deve
ser “grande” e “em amor”. O ancião não deve ser desprezado. É muito
fácil reclamar em vez de ser grato, e enfatizar o mal e esquecer o bem. O
verdadeiro amor deve ser demonstrado como a base do respeito.
Honrá-los por causa do seu governo (I Tm 5:17)
Nesta passagem a ênfase está naqueles que “governam bem”. A
honra incluída aqui, provavelmente inclui ajuda financeira quando necessária. Isto é enfatizado pelas duas citações no v. 18. Contudo, não
devemos esquecer o exemplo do apóstolo em Atos 20:34-35. Ele não
receava usar as suas mãos quando necessário! A palavra traduzida “governar” (prostemi) aqui é a mesma que já vimos em I Tessalonicenses
5:12, onde é traduzida “presidir sobre”. O pensamento é o de exercitar
boa “liderança pastoral”.* Também, estes anciãos trabalham na Palavra
e doutrina. Eles estão trabalhando muito para comunicar com eficácia
a Palavra de Deus, em toda a sua plenitude, dando ensino expositivo
apropriado abrangendo todos os aspectos da verdade Divina.
Lembrar-se deles por causa dos seus ensinos (Hb 13:7)
Possivelmente estes anciãos já haviam sido martirizados. Os vivos
deveriam lembrar-se do seu fim triunfante e do motivo da sua conduta,
isto é, a pessoa de Cristo; imitar a sua fé, ou seja, seu exemplo fiel. O
versículo seguinte mostra quem era seu exemplo fiel: “Jesus Cristo o
mesmo, ontem, hoje e eternamente”. A base da sua comunicação era
simplesmente “a Palavra de Deus”. Os pastores tinham partido, mas o
Grande Pastor continuava vigiando as ovelhas e Se comunicando com
elas pela revelação Divina, isto é, pela Palavra de Deus.
Obedecê-los por causa da sua fidelidade (Hb 13:17)
O pensamento nas palavras “aos que vos governam” (VB) claramente é de liderança. JND traduz: “obedecei vossos líderes”. A palavra
grega usada aqui é hegoumenoi. A mesma palavra aparece também nos
vs. 7 e 24. Esta palavra é usada para descrever líderes militares, políticos
ou religiosos. É usada na versão LXX do Velho Testamento para descrever os cabeças das tribos, o comandante de um exército ou alguém
*
STRAUCH, Alexander. Biblical Leadership — An Urgent Call to Restore Biblical Church Leadership.
Lewis and Roth Publishers, 1995.
148
A glória da igreja local
que governava a nação de Israel. A ideia é bem clara: não era alguém
tomando uma posição autoritária e exigindo obediência, mas alguém
indo na frente e mostrando o caminho, como um capitão ou comandante. Assim, o ancião está “entre” as ovelhas, nunca “sobre” elas. Como
disse o falecido irmão A. L. Leckie: “Líderes espirituais são exatamente
isto, sem necessariamente perceber que são”. A obediência exigida aqui
é por causa da fidelidade do ancião.
Submeter-se a eles por causa da sua vigilância (Hb 13:17)
A submissão exigida aqui é “porque velam por vossas almas, como
aqueles que hão de dar conta”. O pensamento por trás da palavra “velam”
é perder sono por causa do seu interesse pelo rebanho. Eles precisam
“dar conta” no final, e o escritor aos Hebreus deseja que possam assim
fazer com alegria, e não gemendo. A verdadeira submissão certamente
beneficiaria aqueles envolvidos, e também traria bênção adicional ao líder, que assim podia dar conta com alegria. A lealdade é assim prescrita
por causa da grave responsabilidade perante o Senhor.
Saudá-los por causa da sua orientação (Hb 13:24)
Seria bom dar aos anciãos uma palavrinha de encorajamento, expressando gratidão por toda a orientação que eles dão ao povo do Senhor. Basta de críticas! Não deveria haver ressentimento, mas sim reconhecimento.
As qualificações necessárias
As qualificações são detalhadas em I Timóteo cap. 3 e Tito cap. 1.
Uma consideração completa não é possível dentro das limitações deste
capítulo. W. E. Vine indica que “o caráter do trabalho é determinado
pelo caráter daqueles que o fazem”,* e dá um resumo excelente de I
Timóteo 3 que, embora extenso, merece ser repetido.
O ancião, em primeiro lugar, deve ser “irrepreensível”; sua vida,
passada e presente, deve ser totalmente livre de tudo que não seja
consistente com a liderança espiritual. Em segundo lugar, sua vida
conjugal (se for casado, não está escrito que ele precisa ter esposa)
deve ser exemplar. Embora seja o evitar de poligamia que está em
vista aqui, devido à situação presente o que é dito inclui a necessi-
*
VINE, W. E. The Future Care of Assemblies em Church Doctrine and Practice. Precious Seed,
1970.
Cap. 9 — A igreja local e seu cuidado
149
dade de pureza absoluta em relação ao sexo oposto, e afastamento
completo de qualquer coisa de natureza impura relacionado com
isto. Em terceiro lugar, ele deve ser “vigilante”, isto é controlado. A
palavra significa a vigilância que preserva contra qualquer tipo de
excesso. Em quarto lugar, “sóbrio”; esta palavra, no original, sugere
a discrição de mente que, por um lado, evita a leviandade, e por
outro lado, evita a gravidade que é caracterizada pelo mau-humor.
Em quinto lugar, “honesto”, decente, não apenas no comportamento
exterior, mas em temperamento e espírito, evitando o orgulho e a
obstinação que causam desordem no temperamento e hábitos.
Estas cinco qualificações estão especialmente ligadas com o ser
interior; as próximas dez estão relacionadas com os efeitos produzidas nas outras pessoas. Em sexto lugar, ele deve ser “hospitaleiro”;
a palavra literalmente significa o amor aos estranhos, e sugere uma
prontidão para hospedar os que não são amigos ou conhecidos
(comparar com Rm 12:3; Hb 13:2; I Tm 5:10). Em sétimo lugar,
“apto para ensinar”, hábil em instruir os filhos de Deus; talvez ele
não tenha o dom de falar publicamente, mas ele deve possuir tal
conhecimento de Deus e das Escrituras que possa instruir os filhos de
Deus, sejam novos na fé ou maduros na vida espiritual. Em oitavo
lugar, “não dado ao vinho”, que geralmente produz uma linguagem
violenta e abusiva que o ancião nunca deve usar. Em nono lugar,
“não espancador”; aquele que usa linguagem violenta também
muitas vezes comete atos violentos.
Em décimo lugar, ele deve ser “moderado”; a palavra sugere aquela
combinação de tolerância e consideração que trata as situações num
espírito bondoso e humano, e não é facilmente ofendido. A décima
primeira qualificação enfatiza esta atitude no sentido negativo, “não
contencioso”, isto é, livre de espírito rixoso e de uma disposição
para discutir, que frequentemente conduz à perda do controle (veja
II Tm 2:24). A décima segunda também é negativa: “não avarento”
(ou amante do dinheiro). Há dois aspectos disto (que no original são
uma só palavra), estar livre da cobiça, quer em relação a dinheiro
ou qualquer outra coisa, e o segundo aspecto é o de generosidade e
liberalidade.
A décima terceira é relacionada com quem tem família; ele deve ser
“alguém que governa bem a sua própria casa, tendo seus filhos em
sujeição, com toda a modéstia”, isto é comportamento conveniente.
Esta qualificação indica a combinação de autoridade, bondade e
benevolência que ajuda os filhos a ter prazer em honrar os seus
pais. A presença de filhos com este comportamento faz um verdadeiro lar. O caráter da sua família tem uma influência importante
sobre o serviço do ancião. “Se alguém não sabe governar a sua
própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?” A mudança no verbo
“governar” para “cuidar” é significante (embora a palavra “governar” seja usada em I Tm 5-17 em relação à igreja). Uma casa bem
ordenada é a prova da capacidade do homem casado de cuidar dos
filhos de Deus. A décima quarta também é negativa, “não neófito,
150
A glória da igreja local
para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo”;
ele deve ter tido anos de experiência nas coisas de Deus, nas verdades ligadas à vida cristã e à igreja local. Se não, há o perigo de
orgulho e ambição, e a condenação que trazem. A décima quinta,
e última, está relacionada com o mundo, “os que estão de fora”.
Estes observam sagazmente a vida moral dos salvos, e estão sempre
prontos a denunciar qualquer mau comportamento, relaxamento e
irresponsabilidade.
Estas qualificações têm em vista o seguinte: que o testemunho da
vida daqueles que têm responsabilidade na igreja local possa ser
consistente com o Nome do Senhor e com as doutrinas da fé. Tudo
isto não deve impedir os irmãos mais novos de buscar a direção
de Deus sobre os elevados e santos privilégios de liderança e suas
consequentes recompensas.
Uma consideração mais detalhada e dada por Strauch*. Este livro
todo merece ser considerado no contexto de cuidar de uma igreja local.
A recompensa aguardada
Há uma excelente promessa para o ancião em I Pedro 5:4. Quando
o Sumo Pastor aparecer, ele alcançará “a incorruptível coroa da glória”.
Esta coroa será dada no dia da prestação de contas no Bema.† O fiel auxiliar do Sumo Pastor não ficará sem recompensa. A árdua, contínua, e
muitas vezes desprezada, contribuição será adequadamente recompensada pelo próprio Sumo Pastor, que dará a “coroa da glória”.
*
STRAUCH, Alexander. Biblical Leadership — An Urgent Call to Restore Biblical Church Leadership.
Lewis and Roth Publishers, 1995.
†
Tribunal de Cristo. (N. do E.)
Cap. 10 — A igreja local e sua conduta
Por Thomas H. Matthews, Brasil
Parece apropriado iniciar um capítulo sobre o comportamento correto numa igreja local com uma referência à primeira igreja em Atos
2. Assim fazendo, o leitor logo se depara com uma característica raramente vista em tempos modernos, mas evidentemente considerada
fundamental nos dias dos Atos dos Apóstolos. Refiro-me ao temor de
Deus e à sua influência sobre cada membro.
A primeira igreja (At cap. 2)
Logo que as práticas básicas da igreja em Jerusalém se iniciaram,
lemos que “em toda a alma havia temor” (v. 43). Esta observação ocorre
antes da relação mais detalhada de suas atividades nos vs. 44-47. Parece
ser a intenção clara do Espírito Santo destacar aquele temor piedoso
tão evidente. Não encontramos, neste capítulo, nenhuma exortação aos
cristãos para andarem cuidadosamente no temor de Deus ao se reunirem. Esta exortação não era necessária. Este temor santo era a reação
espontânea à presença e poder do Espírito Santo. Aqueles em quem
Ele habitava não tinham nenhuma inclinação a agir de outra maneira.
Até mesmo na era neotestamentária parece que houve certo afastamento deste alto padrão de reverência, mas o padrão divino para aqueles que pertencem às Suas igrejas locais jamais mudou. O escritor se
lembra de ouvir o estimado irmão Thomas McKelvey (1896-1983), da
Irlanda do Norte, falar sobre a primeira ocasião quando participou dos
emblemas na Ceia do Senhor. Ele disse que pegou os emblemas com
mão trêmula. Quem o conhecia pôde perceber, durante toda a sua longa
vida, que ele jamais se afastou desta atitude reverente e cautelosa. Ao se
levantar para adorar na Ceia, ele falava do “temor reverencial de Deus
enchendo o nosso ser”. A presença de Deus entre o Seu povo na igreja
requer este temor santo, e é necessário mantê-lo para preservar o ambiente naquele nível elevado que convém a tal ajuntamento.
Um acontecimento solene e grave surgiu naqueles primeiros dias da
igreja, quando Ananias e Safira concordaram em mentir aos apóstolos,
fazendo-os crer que a quantia que entregaram pela venda da sua pro-
152
A glória da igreja local
priedade era o valor total que receberam (At 5:1-11). Parece que não
entenderam que o assunto não era só com os apóstolos, mas sim com
o Espírito Santo. Assim a gravidade do seu pecado foi manifestada. A
morte dos dois produziu uma intensificação do temor já mencionado, e
o leitor atento verá que agora é descrito como um grande temor (vs. 5,
11). Nenhuma leviandade poderia existir naquela igreja. Era bom estar
lá, pois Deus estava lá, e todos devem ter aprendido a andar cuidadosamente para não entristecer o Espírito Santo.
O Espírito ainda habita no ajuntamento do Seu povo (I Co 3:16),
e assim é uma responsabilidade solene pertencer a este ajuntamento.
Com que responsabilidade para a alma lemos as palavras de I Coríntios
3.17: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o
templo de Deus, que sois vós, é santo!” O saudoso irmão William Trew
(1902-1971), de Cardiff, certa vez procurou um irmão idoso, conhecido pela sua piedade e percepção espiritual, sobre um problema sério
que ele estava enfrentando com certos irmãos. O idoso sugeriu diversos
possíveis procedimentos. Mas a cada sugestão, o irmão Trew dizia que
já havia feito aquilo, mas sem sucesso. Ao ouvir isso, o velho experiente
disse, com grande impacto: “Neste caso eles terão que tratar com o Espírito Santo!” Quão solene é pertencer a uma igreja bíblica!
O comportamento na igreja em Corinto
O comportamento da igreja dos coríntios estava em pleno desacordo com a intenção de Deus para o Seu povo. Sem dúvida a referência à
chamada “para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (I
Co 1:9) visava promover a união. Onde há um reconhecimento verdadeiro do senhorio de Cristo, a união não será facilmente comprometida.
Onde há uma verdadeira apreciação da “comunhão de Seu Filho”, todos
que participam dela terão uma afinidade uns com os outros. A carnalidade que conduzia à criação de partidos ao redor do nome de certos
servos de Deus indicava que os crentes não estavam apreciando esta
comunhão sublime (1:12). Tal atividade criou um espírito de rivalidade,
e provavelmente também de amargura, na igreja local.
Ninguém deve deixar de considerar a solene importância do cap. 5,
e sua referência ao comportamento de todos em comunhão numa igreja
local. Quando o v. 8 diz: “Pelo que façamos festa, não com o fermento
velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos
da sinceridade e da verdade”, a referência é à Festa dos Pães Asmos (Lv
Cap. 10 — A igreja local e sua conduta
153
23:6). Esta festa seguia a Páscoa, e sugere a nova vida que a redenção
produz. A maldade e a malícia devem ser consideradas como coisas do
passado, e a sinceridade e a verdade devem caracterizar o cristão, a partir
do dia da sua salvação e até o fim da vida. Vemos a profunda solenidade
de tudo isto na parte final do capítulo, onde certos pecados maliciosos e
perversos exigem a exclusão de quem os cometeu. Todos, que já presenciaram a exclusão de um membro, reconhecem que este acontecimento
é um dos momentos mais penosos na vida de uma igreja.
No cap. 6 vemos que irmãos não hesitavam em levar seus irmãos
ao tribunal. Eles, certamente, devem ter-se sentido repreendidos pelas
palavras do apóstolo no v. 6: “O irmão vai a juízo com o seu irmão,
e isto perante infiéis”. Mais uma vez vemos que muitos não estavam
apreciando a “comunhão com Seu Filho”. Isto também é evidente na
sua indiferença à consciência do irmão fraco, no cap. 8. Parece que ele
era desprezado como alguém com quem não valia a pena se preocupar,
nem ele nem os seus escrúpulos, mas a Palavra de Deus diz que ele
é um “pelo qual Cristo morreu” (v. 11). Estas palavras são enfatizadas
ainda mais pelas palavras: “pecando assim contra os irmãos, e ferindo a
sua fraca consciência, pecais contra Cristo” (v. 12). Paulo está decidido
a elevá-los ao nível mais elevado do v. 13: “Por isso, se a comida escandaliza a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não
se escandalize”.
Uma grave falta de união se manifestou, de outra forma, no Partir
do Pão. Que tristeza! Aquele santo encontro tinha sido profanado e
tratado como se fosse uma refeição qualquer, com o agravo que alguns
passavam fome por falta e outros estavam embriagados pelo excesso.
Certamente quando a carta estava sendo lida, e quando chegaram a
como a Ceia fora instituída “na noite em que foi traído” (v. 23), um
profundo sentimento de vergonha deve ter tomado conta de todos. Seu
comportamento estava em pleno desacordo com o ambiente e a solenidade condizente com a lembrança da morte do Senhor.
“Ao contemplar a maravilhosa cruz
Na qual o Príncipe da Glória morreu,
Meu maior tesouro considero perda,
E lanço desprezo sobre todo meu orgulho.” (Isaac Watts)*
*
Tradução literal. O original diz: “When I survey the wondrous cross/On which the Prince of
Glory died,/My richest gain I count but loss,/And pour contempt on all my pride." (N. do E.)
154
A glória da igreja local
I Coríntios 13, o grande tratado sobre o amor, teve uma aplicação
muito apta às condições em Corinto. Vale a pena citar o comentário de
William Rodgers: o cap. 13
[…] não só produz o óleo para lubrificar o maquinário do cap. 12,
antes deste entrar em ação no cap. 14, mas também fornece o verdadeiro antídoto a todos os males com os quais a igreja de Corinto
foi assolada … A frase: “o amor não é invejoso” (v. 4) se opõe à
inveja de 12:15-16, e “o amor não se ufana” (ARA) ao orgulho de
12:21. De maneira semelhante, podemos acrescentar que o amor
que “não se ensoberbece” não teria dado lugar ao espírito partidário de 1:12, etc. O amor que “não folga com a injustiça” teria
impedido a tolerância complacente do mal no cap. 5. O amor que
“é sofredor, é benigno” teria sido um obstáculo aos processos contra
seus irmãos do cap. 6. O amor que “não busca os seus interesses”
teria evitado que os irmãos ferissem a consciência dos seus irmãos
mais fracos no cap. 8; e o amor que “não se porta com indecência”
teria sido um impedimento tanto à audácia de certas mulheres quanto a embriagues, no cap. 11.*
Os caps. 11-14 apresentam muitos assuntos importantes relacionados ao comportamento que Deus espera do Seu povo quando se reúne.
A primeira parte do cap. 11 apresenta a necessidade da mulher cristã
cobrir a cabeça, pois é o sinal da sua sujeição, e também ter seu cabelo
comprido, entendendo que assim seu cabelo está em pleno acordo com
o simbolismo de cobrir-se. A passagem mostra que a intenção de Deus
é que a distinção entre os sexos deve ser evidente na aparência de cada
um, e que mulheres que temem a Deus manifestarão isso na sua maneira de vestir, tanto nas reuniões como no seu dia a dia.
A segunda parte do cap.11 já foi tratada quando falamos da desunião que manchava a igreja em Corinto. O uso do título “Senhor” nesta parte destaca a autoridade do Senhor Jesus. Respeitar Seu senhorio
quando nos reunimos para nos lembrarmos dEle certamente fará com
que cada um seja muito cuidadoso com o seu comportamento e atos.
No cap. 12 o apóstolo usa o corpo humano para ilustrar o funcionamento dos vários membros de uma igreja. A lição mais importante é a
união, e como já vimos, isto se aplicava de uma maneira especial à igreja
em Corinto. Já que o corpo é composto de muitos membros, deve haver
cooperação (v. 14). Reclamar por não ocupar uma posição para a qual
a pessoa não é idônea é indecoroso. Isto é o que Paulo está ensinando
quando ele visualiza o pé como incapaz de dizer: “Por que não sou mão,
*
RODGERS, William. Bible Notes and Expositions. 1976: publicação particular.
Cap. 10 — A igreja local e sua conduta
155
não sou do corpo” (v. 15). Assim como haveria uma abundância de visão,
mas mais nada, “se todo o corpo fosse olho” (v. 17), assim é errado uma
pessoa assumir todas as funções numa igreja. Aqueles cuja função ou
dom lhes dá menos destaque não podem ser considerados menos importantes: “E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de
ti” (v. 21). O ideal é que “não haja divisão no corpo, mas antes tenham
os membros igual cuidado uns dos outros” (v. 25).
O assunto em destaque no cap. 14 é a edificação. Este é o padrão divino para todas as reuniões da igreja. É a intenção de Deus que os membros sejam instruídos e edificados todas as vezes em que se reúnem. Isto
aconteceria principalmente, mas não exclusivamente, através do uso do
dom de profecia. É evidente que em nossos dias o ensinamento da Palavra de Deus substitui o dom de profecia dos primeiros dias.
Toda esta edificação espiritual deve acontecer num ambiente de
consideração mútua e paz (vs. 20-33). Momentos de confusão ou perturbação não devem acontecer. O escritor se lembra da situação desagradável de ver um irmão sair apressadamente, durante a reunião da
ceia, para atender seu telefone celular. Tais ocorrências devem ser evitadas ao máximo.
O cap. 14 oferece muita instrução e ajuda no que diz respeito à
participação pública nas reuniões. “Faça-se tudo para edificação” (v. 26)
indica a motivação por trás de toda participação pública. “Faça-se tudo
decentemente e com ordem” (v. 40) nos faz lembrar da ordem que se
via no Tabernáculo no Deserto, com seu ministério ordeiro e transporte cuidadoso. Encarar o ministério da Palavra, ou outros exercícios
públicos, com leviandade ou irreverência só pode entristecer o Senhor
e comprometer o ambiente celestial na igreja local. Exortações práticas
e claras são necessárias às vezes, mas se forem apresentadas com falta
de espiritualidade ou com a intenção de humilhar alguém, dificilmente conseguirão algo para a glória de Deus. A palavra “tudo”, no v. 26,
abrange o pedido de hinos ou a oração pública. Nestas coisas o Senhor
pode guiar, e há uma ligação íntima entre a verdadeira espiritualidade
e a direção do Senhor. O bom senso também será consistente com a
direção do Senhor. Antes de pedir um hino o irmão vai se certificar de
que a música é conhecida. Muitos cristãos têm deveres que precisam ser
atendidos depois do partir do pão. Se estiver quase na hora de terminar,
não convém pedir um hino comprido. Isto cria tensão naqueles que têm
compromissos. O mesmo pode ser dito sobre uma oração longa, em tais
156
A glória da igreja local
circunstâncias. A brevidade de uma oração não é sinal de falta de espiritualidade, assim como uma oração longa não é garantia de piedade;
pode sim indicar falta de consideração.
Embora as mulheres devem se manter caladas nas igrejas (v. 34), é
evidente que elas vão estar presentes e que terão um desejo de aprender
(v. 35). A mulher cristã que pensa que o estudo mais profundo da Palavra é somente para os homens, certamente se privará de muita nutrição
espiritual, que por sua vez diminuirá sua contribuição espiritual, tanto
no lar como no seu contato com outros cristãos, de um modo geral.
O comportamento na igreja em Filipos
Os santos da igreja em Filipos apresentam um contraste com os de
Corinto. Há uma diferença evidente na sua vida de oração. A oração
é somente mencionada de maneira geral em I Coríntios, relacionada
com o marido e sua esposa (7:5). Somente na segunda epistola é que
encontramos um pedido de oração (1.11). Que diferença em Filipenses!
Era com alegria que Paulo fazia oração por eles “em todas as minhas
súplicas” (1.4). O grande desenvolvimento do seu amor incentivou o
apóstolo a orar para que abundasse “mais e mais” (v. 9). Não era difícil
para ele instrui-los a não estarem inquietos por coisa alguma, mas “antes
as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração
e súplicas” (4:6). Instruir aqueles que são relaxados em relação à oração
com as palavras deste versículo, é perceber o vazio na vida daquela pessoa. Não era assim com os crentes em Filipos.
O exemplo dos crentes em Filipos em relação à oração tem uma
aplicação prática para todos que pertencem a uma igreja bíblica. É surpreendente quantas vezes os irmãos parecem ter uma relutância para
orar em reuniões de oração. Há tantos problemas atuais na obra de
Deus, um deles sendo a grande preocupação com filhos não salvos, que
este silêncio parece injustificável. Os irmãos deveriam vir à reunião de
oração já com pedidos no coração, e através da oração alívio seria encontrado. Assim, todos voltariam para casa convictos de que Deus ouviu
as súplicas do Seu povo.
Quanto ao assunto de cooperação financeira no trabalho do Evangelho, havia outro contraste entre os filipenses e os coríntios. Paulo, que
recusou ajuda financeira da igreja em Corinto (I Co 9:12), muito se
alegrou ao receber de Filipos (Fl 4:10). Além de receber seus donativos,
ele pôde contar com “sua cooperação no evangelho desde o primeiro
Cap. 10 — A igreja local e sua conduta
157
dia” (1:5). Mesmo em Filipos, porém, o pastor e apóstolo previdente parece ter discernido a possibilidade de alguma forma de desunião. Assim
ele os incentiva a combater “juntamente com o mesmo ânimo pela fé
do evangelho” (1:27). Eles deveriam ter o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa (2:2). Estes ternos apelos, junto com a
apresentação do Senhor Jesus como o grande Exemplo (2:5-11), seriam
provavelmente o suficiente para afastar estes cristãos destas tendências
perigosas.
Refletindo sobre o elevado padrão alcançado pela igreja em Filipos, é importante lembrar que nenhuma igreja, mesmo uma que pareça
muito animada, está isenta do ataque do inimigo e da infiltração pérfida
de elementos que promovem divisão e perturbação. Quando jovem, o
escritor presenciou uma conversa interessante entre dois irmãos experientes. Um deles comentou sobre certa igreja que ele achou ser “uma
das melhores”. Seu companheiro, um homem piedoso respondeu: “Se
realmente for assim terão de se cuidar muito, porque o Diabo vai querer
atacá-los”.
O comportamento na igreja em Tessalônica
O amor, tristemente ausente na igreja em Corinto, mas evidente na
igreja em Filipos, também se manifestou na igreja em Tessalônica, onde
servia de incentivo ao trabalho diligente (I Ts 1.3). Este amor unia-se a
uma fé crescente e uma esperança futura constante na vinda do Senhor.
Seu amor manifestou-se não somente em trabalho para o Senhor, mas
também num cuidado mútuo uns pelos outros. O apóstolo faz questão
de promover isto ainda mais: “Pelo que exortai-vos uns aos outros, e
edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis” (I Ts 5:11). Tal era
o progresso em amor entre os irmãos que o apóstolo declarou em 4:9
que era o resultado de uma obra divina nas suas almas: “… vós mesmos
estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros”. É evidente,
nas Escrituras, que a obra divina e o exercício humano trabalham em
conjunto, portanto o apóstolo os exorta a que “abundeis cada vez mais”
(v. 10).
As referências à “fé” em I Tessalonicenses, especialmente no cap.
3, parecem apresentar a fé como a própria essência da vida cristã. O
apóstolo procurou confortá-los acerca da sua fé (3:2) por causa da perseguição. Mandou saber da sua fé (v. 5), temendo que o tentador os
derrotasse. As boas notícias trazidas por Timóteo o animaram, e assim
158
A glória da igreja local
ele foi consolado pela sua fé (vs. 6-7), e aguardava a oportunidade para
aperfeiçoar o que faltava à sua fé (v. 10).
A fé é realmente o núcleo da vida cristã. Seu poder é estabelecido
pela influência que as coisas cridas têm no coração e na vida. Ela cresce
com o crescimento das convicções relacionadas com as realidades invisíveis e eternas, e assim se transforma no fator predominante da vida.
As duas epístolas aos Tessalonicenses mostram como a perspectiva
da vinda do Senhor era uma esperança sempre viva para os crentes nos
dias difíceis de perseguição. Lemos de sua “paciência da esperança em
nosso Senhor Jesus Cristo” (1:3). O resultado imediato da sua conversão
foi que começaram a “esperar dos céus a seu Filho” (1:10). Assim o bem
conhecido trio de amor, fé e esperança se unem como exemplo para
todos os cristãos.
Como os filipenses, os tessalonicenses estavam sempre dispostos a
levar o Evangelho aos que estavam por perto e aos que estavam mais
distantes (I Ts 1:8). Não há dúvida que esta é uma parte indispensável
da igreja local e sua conduta.
Resumindo os vários aspectos da conduta cristã vistos nas epístolas aos Filipenses e aos Tessalonicenses, podemos concluir que onde as
condições são corretas haverá um ambiente de amor. A fé crescerá. A
esperança da vinda do Senhor estará sempre presente. A oração será
constante, e a atividade evangélica será uma prioridade. Tudo será feito
num espírito de harmonia.
Como convém andar na casa de Deus (I Tm 3:15)
Nenhum estudo sobre a conduta cristã numa igreja pode ser considerado completo sem algum comentário sobre os versículos que antecedem
a grande afirmação em I Timóteo 3:15, que diz: “Mas se tardar, para que
saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a
coluna e firmeza da verdade”.
Os primeiros versículos do cap. 2 deixam bem claro que a piedade e a
seriedade devem caracterizar o povo de Deus em geral. Além disso, espera-se que os que oram publicamente na igreja sejam puros no seu testemunho,
controlados e convencidos do valor da oração (2:8). Nos vs. 9-15 destaca-se
não tanto o que se ouve, mas o que se vê na casa de Deus.
Antes de entrar mais especificamente na seção que trata das vestes e
decoro das mulheres na igreja local, seria proveitoso comparar esta passagem com alguns versículos em Isaías 3:12-24. O que é que Deus indica
Cap. 10 — A igreja local e sua conduta
159
para revelar o estado decadente de Judá? Duas áreas se destacam. Primeiro
os líderes (vs. 12-15), e em segundo lugar as mulheres da nação (vs. 16-23),
com ênfase especial na vaidade do seu caráter como visto no tintilar dos pés,
nos adornos em forma de lua, nos pendentes, nos braceletes, nos brincos,
nos anéis, nas joias do nariz, nos vestidos de festa, etc. Assim I Timóteo
fala do traje e comportamento das mulheres, seguido pelas qualificações
dos anciãos e diáconos. Talvez pudéssemos seguramente afirmar que como
antigamente, também hoje, o comportamento e trajes das mulheres e o caráter dos líderes, juntos, apresentam um quadro relativamente claro quanto
ao verdadeiro estado de uma igreja local.
O traje honesto com pudor e modéstia em I Timóteo 2:9-10, não é
meramente um tipo de uniforme para identificar certo tipo de pessoas. O
ponto crucial se encontra na afirmação: “… mulheres que se dizem piedosas” (v. 10, VB). Embora a palavra traduzida “piedosa” seja um pouco
diferente daquela usada em outros lugares na epistola, o seu significado é
o mesmo. É aquela reverência a Deus que recua diante de tudo que O entristece. Esta simples definição provavelmente trará à memória dos leitores
certas mulheres cristãs de caráter notável. I Timóteo 2 é o que Deus espera
ser o normal entre mulheres cristãs. Esta piedade influi na maneira de pensar, e governa suas escolhas quando fazendo compras.
Alguns talvez não percebam o significado do traje e sua importância
nos tempos bíblicos. O éfode das vestes do sumo sacerdote sendo de ouro,
azul, púrpura, carmesim e de linho fino torcido, de obra esmerada, indicava
sua relação íntima com o Santuário da presença de Deus (Êx 28:6). As vestes de saco das duas testemunhas em Apocalipse 11:3 os identificam como
homens com uma mensagem solene de juízo. A rapidez com que Pedro
vestiu sua túnica em João 21:7, quando soube que o Senhor estava lá, indica
que ele não entraria na presença do seu Senhor sem se vestir adequadamente. Ninguém precisou instruí-lo. Foi instintivo.
Um instinto semelhante, reforçado pelo Espírito Santo, faz com que
a mulher temente a Deus se sujeite alegremente às instruções da Palavra
de Deus. Ela se veste bem, mas com toda a modéstia. A pureza do seu
caráter garante que ela se veste de maneira adequada. O uso de ouro ou sua
imitação, ou pérolas ou vestes que chamam a atenção pelo seu exagero ou
pelo custo, não lhe interessarão. Ela se afasta da vaidade no seu empenho de
fazer a sua vida ser útil, pela prática constante de boas obras.
Diversas passagens dão instrução quanto ao traje das mulheres, mas
parece não haver tantas passagens para a orientação dos homens. Sem ten-
160
A glória da igreja local
tar oferecer uma explicação para isto, é evidente que a piedade de um bom
homem também se manifestará no seu traje! Não se pode, nem por um
momento, dizer que a ostentação proibida às mulheres é permitida aos homens.
Como os homens devem se vestir quando vão às reuniões? Princípios
gerais servem para ajudar. Como Pedro, que já mencionamos, sentia que
não podia se aproximar do Senhor vestido com suas roupas de pesca ( Jo
21:7), assim homens que percebem a natureza sublime da igreja saberão fazer uma distinção entre o que pode ser aceitável em relação a vestes na vida
cotidiana, e como devem se apresentar nos encontros dos santos. O escritor
conhece muitas pessoas pobres que, depois de serem salvos, foram recebidas
na comunhão da igreja. Sem exceção, e quase sem nenhuma orientação, eles
tem se vestido para as reuniões com as melhores roupas que possuem.
Toda pessoa estudiosa fica impressionada com as qualificações elevadas
exigidas daqueles que lideram o povo de Deus. Mas ninguém precisa se
surpreender, já que se trata da igreja do Deus vivo. O alto padrão exigido
daqueles que governam é explicado não apenas pela natureza sagrada dos
seus deveres, mas também para que pelo seu exemplo eles possam mostrar
a todos como devem viver como membros da igreja local. É evidente que
certas qualificações necessárias para o ancião têm a ver com seu serviço. A
hospitalidade, a aptidão para ensinar, a maturidade, são indispensáveis para
uma liderança bem sucedida. Outras qualidades morais na lista devem ser
encontradas em todos os membros na igreja, mas precisam, necessariamente, ser encontradas no ancião. Semelhantemente os diáconos devem guardar o mistério da fé em uma pura consciência. Isto provavelmente indica
que pelo menos alguns diáconos ensinarão. Mas o caráter moral elevado
exigido destes homens servirá como um exemplo, a todos, daquela santidade que convêm à casa de Deus.
A epístola a Tito
Com a boa mão de Deus, o Evangelho muitas vezes penetrou entre
povos cuja cultura deixa muito a desejar. Parece que isto aconteceu em Creta, porque foi um cretense que disse: “Os cretenses são sempre mentirosos,
bestas ruins, ventres preguiçosos” (Tt 1:12). Sem dúvida, este ambiente traria
problemas na vida dos salvos, mas a epístola a Tito não manifesta nenhuma
tentativa de rebaixar o padrão divino da Sua casa para acomodar a cultura
fraca deles. É possível que os novos convertidos fossem mais vagarosos em
perceber o novo padrão de Deus e a se conformar com ele. Muitos proble-
Cap. 10 — A igreja local e sua conduta
161
mas surgiriam, mas a Palavra de Deus não admite nenhum rebaixamento
naquilo que convém àqueles que levam o bendito nome. Assim os homens
velhos precisam ser sóbrios e sãos na fé. As mulheres idosas precisam ser
sérias no seu viver, ensinando as mais novas a serem prudentes, castas, boas
donas de casa etc. Os jovens precisam ser moderados, e os servos precisam
ser obedientes (Tt 2:1-10). Como pode um padrão tão elevado ser produzido nas vidas daqueles que outrora eram “insensatos, desobedientes …”
(3:3)?. A reposta é que, através da “lavagem da regeneração” (3:5), Deus
efetuou uma purificação espiritual que leva os pecadores a desfrutarem uma
nova vida. Pela “renovação do Espírito Santo” (3:5) tudo se fez novo, e como
o Espírito Santo foi derramado sobre nós abundantemente (3:6), há poder
constante para viver como convém aos “herdeiros segundo a esperança da
vida eterna” (3:7).
Salmo 89:6-7
O Salmo 89:6-7 apresenta uma conclusão apta ao assunto de comportamento na casa de Deus: “Pois quem no céu se pode igualar ao Senhor?
Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos dos poderosos? Deus deve
ser em extremo tremendo na assembleia dos santos, e grandemente reverenciado por todos os que O cercam”. A tradução acima torna a aplicação
do v. 7 a uma igreja local muito apta. O peso deste versículo, aplicado desta
forma, tem sido sentido por aqueles que aprenderam a andar reverente e
cautelosamente na igreja.
Quando lemos a Palavra de Deus sempre lucramos se a lermos atentamente. Fazendo isto com estes versículos, pode ser que a tradução da ARA
mostra melhor o significado exato: “Pois quem nos céus é comparável ao
Senhor? Entre os seres celestiais, quem é semelhante ao Senhor? Deus é
sobremodo tremendo na assembleia dos santos e temível sobre todos os
que o rodeiam”. O conselho dos santos parece, portanto, se referir ao conselho dos seres celestes sem pecado. Se for assim, quanto mais Ele deve ser
temido entre pecadores salvos pela graça! Se Ele é realmente “temível sobre
todos os que o rodeiam”, então o privilégio de se reunir na Sua casa deve ser
vista como a honra mais elevada, a responsabilidade mais solene e o maior
incentivo à santidade de vida.
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza
Por James R. Baker, Escócia
Introdução
A importância de pureza em uma igreja local está intimamente e
integralmente ligada à sua santidade. Através de todo o Velho Testamento há uma ênfase clara e definitiva na santidade de Deus, e do lugar
onde Ele habita no meio do Seu povo reunido, tanto no Tabernáculo
como mais tarde no Templo. Também no Novo Testamento há muitas
referências a esta mesma verdade, começando com as palavras do Senhor Jesus nos Evangelhos e mais tarde no ensino das Epístolas. Como
com outros assuntos doutrinários e práticos do Novo Testamento, é importante identificar princípios relacionados encontrados nas Escrituras
do Velho Testamento que têm aplicação a todas as dispensações.
Considerações do Velho Testamento
“Não toqueis coisa imunda; sai do meio dela, purificai-vos, os que
levais os vasos do Senhor” (Is 52:11). Embora o profeta Isaías usasse estas palavras em outro contexto, elas expressam adequadamente a mente
e a vontade de Deus em relação à pureza que deveria caracterizar a tribo
de Levi, cuja responsabilidade era carregar os vasos santos da casa de
Deus. Para conservar a santidade da casa de Deus, os sacerdotes e levitas
precisavam ser puros no sentido moral e cerimonial. Em Levítico cap. 8,
Deus prescreve os aspectos e maneiras de purificação que deveriam ser
aplicados para fazê-los e mantê-los puros. A palavra “santo”, nas suas
várias formas, é usada muitas vezes em Êxodo, Levítico e Números.
Jeová julgava a falta desta pureza de várias maneiras, e havia ocasiões quando o castigo de Deus caiu sobre o Seu povo quando a impureza foi descoberta. A santidade de Deus tinha que ser conservada na
vida diária da nação de Israel. Um exemplo notável ocorreu bem cedo
na jornada pelo deserto, quando a cobiça de Acã foi escondida de todos,
mas não de Deus ( Js 7:10-11, 25-26). A severidade do julgamento que
caiu neste caso revela o alto padrão exigido por Deus na vida do Seu
povo. O pecado de Nadabe e Abiú também revelou este padrão Divino
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza 163
de santidade para aqueles que tinham a responsabilidade sacerdotal na
nação (Lv 10:1-2). O julgamento que caiu sobre eles, naquela ocasião,
revela a severidade com que Deus viu o desvio do padrão que Ele tinha dado para a Sua habitação Divina, e de como o homem deveria
aproximar-se dela.
Considerações do Novo Testamento
Leitores cuidadosos do Novo Testamento sabem que nesta dispensação a maneira como Deus trata o Seu povo remido é caracterizada por
dois aspectos importantes. O primeiro é o de um Homem vivo e exaltado: Jesus, o Filho de Deus, que foi subiu ao Céu e agora está assentado
a destra de Deus. O segundo é o da presença, na Terra, do Espírito
Santo de Deus. O Novo Testamento ensina que cada verdadeiro cristão,
nascido de Deus no presente dia da graça, é habitado pessoalmente e
corporalmente pelo Espírito Santo: “Não sabeis que o vosso corpo é o
templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e
que não sois de vós mesmos?” (I Co 6:19). Também, aprendemos que o
Espírito Santo habita na igreja local: “Não sabeis vós que sois o templo
de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (I Co 3:16).
A presença pessoal de uma Pessoa Divina e santa exige que tanto
o cristão, quanto a igreja local com que está associado, sejam santos.
Qualquer desvio da mente e da vontade de Deus, seja em doutrina ou
na maneira de viver, infringirá na santidade com que são divinamente
investidos: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá;
porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (I Co 3:17). Este princípio se aplica ao aspecto individual e corporativo do templo de Deus
e, portanto, enfatiza a importância do que a Bíblia ensina sobre os padrões morais e doutrinários desejados por Deus, em ambas estas esferas.
Também enfatiza a razão por que é necessário haver autodisciplina na
vida do cristão, e disciplina nos ajuntamentos daqueles que se reúnem
no Nome do nosso Senhor Jesus Cristo.
O alvo de Satanás é estragar e destruir a santidade pessoal e coletiva
do povo de Deus. O Senhor Jesus falou destas coisas no Seu ministério
aos Seus discípulos, e numa conversa com eles revelou que o pecado em
qualquer ajuntamento é como fermento na massa, porque se espalha:
“E Jesus disse-lhes: Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus
e saduceus … Como não compreendestes que não vos falei a respeito
do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos fariseus e saduceus?
164
A glória da igreja local
Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento
do pão, mas da doutrina dos fariseus” (Mt 16:6, 11-12). O Senhor Jesus também falou do fermento de Herodes: “E ordenou-lhes: dizendo:
Olhai, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes”
(Mc 8:15). Destas Escrituras fica claro que o fermento dos fariseus e
saduceus se refere ao potencial de crescimento de falsa doutrina, mas o
fermento de Herodes se refere ao potencial de crescimento da prática
imoral. Todos sabiam, nos dias de João Batista, que Herodes já havia
divorciado de sua esposa e tomado a mulher do seu irmão. Sobre isso
João dissera: “Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão” (Mc 6:18).
João sabia que Herodes estava vivendo uma vida de adultério perpétuo.
O significado destas palavras do Senhor sobre o fermento se espalhando, é desenvolvido em referências posteriores nas epístolas do Novo
Testamento. Na igreja em Corinto havia um homem que tinha pecado
moralmente, e continuava no seu pecado. O ensino de I Coríntios 5 é
sobre este problema, e parte do conselho dado pelo apostolo foi: “Não
sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho” (vs. 6-7), e “tirai, pois, dentre vós a esse
iníquo” (v. 13). Mais tarde, ao escrever aos gálatas, o mesmo apóstolo
sabia que os ventos fortes de falsa doutrina estavam soprando naquela região. Os judaizantes estavam ensinando que os cristãos dentre os
gentios não eram totalmente salvos por não serem circuncidados, e por
não observarem e obedecerem outros aspectos da Lei. Descrevendo esta
doutrina errada, o apóstolo escreveu: “Um pouco de fermento leveda
toda a massa” (Gl 5:9). É muito importante que cada igreja local lembre-se da importância da pureza da sua doutrina, e também da pureza
moral de cada santo em comunhão. Se a presença de impureza moral
ou doutrinária for tolerada, logo se espalhará e prejudicará todo o grupo.
Igrejas do Novo Testamento
“Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te bem depressa. Mas, se
tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a
igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” (I Tm 3:14-15). A
importância de um ambiente santo na igreja local é enfatizada em muitas passagens do Novo Testamento, e a importância de comportamento conveniente em tais ajuntamentos também é ensinado. Na citação
acima, Paulo afirma que sua razão por escrever a primeira epístola a
Timóteo era para que um comportamento conveniente na igreja local
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza 165
pudesse ser visto. No versículo seguinte, vemos que este comportamento poderia ser chamado de “piedade”, e esta é uma palavra chave nesta
epístola. A piedade foi manifestada na encarnação e na vida terrena
do nosso Senhor Jesus Cristo. A implicação clara disso é que todos os
salvos deveriam manifestar este mesmo comportamento piedoso pessoalmente e coletivamente.
O plantio de igrejas locais
O livro de Atos contém o relato da descida e do batismo do Espírito Santo, e do progresso do testemunho pessoal e coletivo durante
os primeiros trinta anos, aproximadamente, deste “Dia da graça”. Um
aspecto especial deste período foi o começo, ou o plantio, de igrejas
locais do Novo Testamento. A diferença entre a Igreja, que é o corpo de
Cristo, e as muitas igrejas locais é descrita em mais detalhes no primeiro
capítulo deste livro. Devemos notar que as igrejas locais mencionadas
eram, todas, o resultado da pregação do Evangelho nas áreas geográficas
alcançadas pela expansão do testemunho. Não há exemplo de nenhuma
igreja sendo começada meramente por conveniência geográfica, ou por
causa de opiniões diferentes sobre assuntos doutrinários. Cada novo
grupo era evidência de que Deus estava trabalhando através dos Seus
servos naquela localidade específica.
O padrão das igrejas locais
“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a
sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão,
e nas orações” (At 2:41-42). No livro de Atos, Lucas começa seu relato histórico com esta primeira igreja do Novo Testamento, que estava
em Jerusalém e que era singular, porque foi o resultado da pregação do
Evangelho por Pedro quando três mil almas foram salvas em um só dia.
Os quatro aspectos em que continuaram são claramente descritos: a
doutrina dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e as orações, e são
tão vitais hoje como quando praticados pela primeira vez. Além disso,
temos as práticas e os princípios das demais igrejas que foram plantadas
mais tarde, e que claramente estabelecem a base para o testemunho das
igrejas locais durante todo o período da Igreja. Muitos destes assuntos são confirmados e consolidados pelos escritos apostólicos que agora
formam parte das Escrituras inspiradas, e são o assunto do ensino e
166
A glória da igreja local
exposição neste livro.
A pureza das igrejas locais
“Vos já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado. Estai em
mim, e eu em vós; como a vara de si mesmo não pode dar fruto, se não
estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” ( Jo
15:3-4). Estas palavras importantes, faladas pelo Senhor Jesus Cristo
aos Seus discípulos, contêm o segredo da pureza na vida pessoal e pública de todos que são filhos de Deus. Embora seja óbvio que o primeiro
requisito para alguém estar em comunhão numa igreja local é que seja
“nascido de novo” e batizado, também é vital que esteja vivendo em
comunhão diária com Deus. O mundo em que vivemos é uma esfera de
contaminação constante, e cada dia traz novas tentações. O assunto tratado mais adiante, sobre a disciplina da igreja, somente será necessário
quando a vida do salvo se torna relaxada naqueles exercícios espirituais
diários que podem dar a vitória sobre as várias tentações do mundo, da
carne e do diabo. A pureza espiritual é possível pelo hábito constante
de ler e se alimentar da Palavra de Deus, de passar tempos cada dia
em ações de graças, confissão e oração. Isso é “permanecer em Cristo”.
O nível espiritual da igreja local depende do nível espiritual de cada
vida individual perante Deus. Em princípio isto está de acordo com as
palavras do Salmista: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu
não pecar contra ti” (Sl 119:11). A Palavra de Deus afastará o cristão do
pecado, e o pecado afastará o cristão da Palavra de Deus.
As formas de disciplina na igreja local
Por causa do ambiente santo exigido por Deus na igreja, lamentavelmente é possível que haja desvio deste santo padrão de Deus. No
Novo Testamento achamos vários exemplos de tal desvio, e como deve
ser tratado. Como na esfera familiar, toda a disciplina é administrada
visando a saúde espiritual e a atividade da igreja, e também dos indivíduos envolvidos.
A disciplina que inclui o afastamento
Esta forma de disciplina frequentemente é chamada de excomunhão, e
as Escrituras mostram que é aplicável a falhas nos aspectos espirituais morais, doutrinários e práticos. Esta disciplina é necessária em todas as situações onde o estado espiritual da igreja tem sido perturbado, e somente pode
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza 167
ser restaurado com arrependimento perante Deus e uma volta às condições
espirituais anteriores. Vamos considerar agora três aspectos diferentes de
falhas encontradas no Novo Testamento.
Falha moral. “Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu
espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, seja entregue a Satanás
para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor
Jesus … Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idolatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; como tal nem ainda comais … Tirai, pois, dentre vós a
esse iníquo” (I Co 5:4-5, 11, 13). Esta situação triste se encontrava na igreja
em Corinto, que tinha sido estabelecida pela pregação do apóstolo Paulo.
Aquela igreja era preciosa ao coração de Paulo, e ele considerava os irmãos
ali como “filhos amados” (I Co 4:14). O apóstolo tinha recebido notícias
da grave falha moral que ocorrera na vida de um irmão da igreja, e os fatos
eram bem conhecidos e estavam espalhando-se rapidamente. O conselho
divinamente inspirado, dado em I Coríntios 5, é muito claro, e ensina que
tal pecado e seus efeitos não poderiam ser permitidos a continuar, senão a
corrupção se espalharia para o prejuízo de toda a igreja. Também é revelado
que a atitude da igreja a estas circunstâncias não fora apropriada, e em vez
de mostrar humildade e arrependimento perante Deus, havia um espírito
orgulhoso e falta de tristeza. Do conselho dado surgem alguns princípios
que ajudarão a guiar qualquer igreja em circunstâncias semelhantes:
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Todos os fatos devem ser conhecidos e considerados.
A culpa precisa ser provada.
Tal pecado pode se espalhar na igreja.
Antes de agir, deve haver humildade, tristeza e uma espera em Deus.
O culpado precisa ser “colocado fora” da igreja local.
Toda a disciplina deve ser administrada visando a restauração, se houver arrependimento.
A verdade da expressão “nem ainda comais” deve ser notada e praticada.
Além destas considerações, é importante observar que o apóstolo estava preocupado porque a igreja não tinha lamentado ou sentido tristeza por
tal pecado ter acontecido. De fato, a linguagem usada parece indicar que se
tivessem lamentado perante Deus, isto poderia ter resultado em Deus agir,
como eles agora foram instruídos a fazer. Também devemos observar que
existem erros tão graves e complicados que não podem ser considerados
168
A glória da igreja local
por todos os salvos, publicamente. Em tais casos a igreja local terá que confiar no relato dado pelos seus anciãos, e apoiar as suas recomendações. Isso
ainda capacitará a igreja toda a cumprir suas responsabilidades de receber
novos salvos na comunhão, e também de afastar alguém quando necessário.
As palavras diferentes usadas em I Coríntios 5:11 descrevem comportamento intensamente pecaminoso na esfera moral. Elas têm causado confusão nas mentes de muitos, e precisam ser cuidadosamente consideradas.
Devasso (ou “fornicário”, VB), é um termo que, quando usado sozinho,
se refere a qualquer tipo de impureza sexual e desvios comportamentais. A
palavra no grego original é porneia, de onde também vêm as palavras “pornografia” e “fornicação”. Inclui todo tipo de prostituição, adultério, incesto,
homossexualidade, lesbianismo, bestialidade, pedofilia, etc., e este é o seu
significado nesta passagem.
Contudo, devemos notar que quando é usada no mesmo contexto que
“adultério”, claramente parece ter o significado específico de intimidade física anterior ao casamento. Adultério sempre se refere à intimidade física
de uma pessoa casada com alguém que não é o seu cônjuge. Uma definição
literal de adultério é dada em Ez 16:38 (AV): “E julgar-te-ei como são
julgadas as que rompem* o laço do matrimônio”. Esta tradução deixa bem
claro o significado da palavra, e enfatiza que ela descreve a infidelidade ao
compromisso do matrimônio.
Avarento descreve aquele que deseja ter mais do que tem. Muitas vezes é difícil identificar e provar a existência desta falha moral, mas o fato
de estar incluído aqui, entre os pecados que requerem um afastamento da
comunhão da igreja, prova que é um pecado grave. Hoje, em dias de loterias e meios semelhantes de obter lucro fácil, é importante que o povo de
Deus dê atenção às palavras de Paulo: “Mas os que querem ser ricos caem
em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que
submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a
raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e
se traspassaram a si mesmos com muitas dores. Mas tu, ó homem de Deus,
foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a
mansidão” (I Tm 6:9-11). Nestes versículos podemos ver o perigo moral
de desejar riquezas. Alguém culpado de roubo precisa ser incluído nesta
categoria, e disciplinado de acordo.
Um idólatra era alguém que adorava ídolos feitos pelas mãos de homens. Muitos da igreja em Corinto tinham sido salvos e libertos desta
*
As versões em português traduzem “adúlteras”. (N. do E.)
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza 169
prática, e o apóstolo Paulo tinha escrito a eles que a energia por trás de
cada ídolo era o poder de Satanás e seus emissários. Voltar aos ídolos seria
deixar de servir, e em efeito renunciar, o verdadeiro e único Deus. Tais atos
mereceriam o afastamento da igreja. Talvez este pecado seja raro em nossa
sociedade, mas há movimentos modernos que exibem algumas condições
semelhantes.
O maldizente é uma categoria que facilmente pode ser mal entendida. A palavra indica alguém que fala injúrias e que usa, com facilidade,
linguagem violenta e abusiva contra outros. Obviamente, isso é totalmente
contrário ao tipo de caráter que o salvo deve demonstrar. Lemos o seguinte
do Senhor Jesus: “O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando
padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” (I
Pe 2:23). Cada salvo deve imitar a atitude de Cristo em tais circunstâncias.
Lamentavelmente, entre os santos podem surgir atitudes de agressão e antipatia uns contra os outros, e nestas condições a carne que existe em cada
filho de Deus pode produzir obras que entristecerão o coração de Deus. É
nestas circunstâncias que o pecado de maledicência pode ocorrer. No contexto de I Coríntios 5, a disciplina mencionada somente seria administrada
se esta maledicência continuasse depois de avisos apropriados serem dados.
Calúnia é outra forma de maledicência que precisa ser julgada quando descoberta e provada.
A palavra beberrão quase não precisa de explicação, e descreve aquele
que habitualmente consome bebida forte. O sentido geral das Escrituras do
Velho e do Novo Testamento apontam claramente para a abstinência total.
As estatísticas atuais revelam que este é um dos problemas mais destacados
em todo o mundo. A bebida forte está ligada com quase toda forma de
maldade moral conhecida, e deve ser rigorosamente evitada por todos que
tomam o Nome de Cristo.
O roubador descreve aquele que tira as possessões de outro, usando
várias formas de decepção. É frequentemente visto no mundo dos negócios,
onde os inocentes que sabem pouco sobre as complexidades dos sistemas
financeiros modernos são enganados por firmas que se declaram falidas,
para que os seus credores não recebam o que devem receber.
Todas estas categorias são mencionadas para que os responsáveis a
Deus por manter a pureza da igreja local estejam divinamente avisados sobre como tratar os problemas que podem surgir.
Falha doutrinária. “Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obe-
170
A glória da igreja local
deçais à verdade? … Um pouco de fermento leveda toda a massa. Confio
de vós, no Senhor, que nenhuma outra coisa sentireis; mas aquele que vos
inquieta, seja ele quem for, sofrerá a condenação … Eu queria que fossem
cortados aqueles que vos andam inquietando” (Gl 5:7, 9-10, 12). Mais cedo
neste capítulo, vimos que o Senhor Jesus usou o crescimento do fermento
na massa como ilustração da facilidade com que o mal pode se espalhar na
igreja local. É de grande importância observar que a afirmação exata usada
em I Coríntios 5:6 sobre o fermento do erro moral, é repetida aqui na Epístola aos Gálatas, no contexto do erro doutrinário. Isto revela a importância
da pureza e poder do verdadeiro ensino bíblico na vida da igreja local.
Também deve ser enfatizado que isso tem aplicação, não somente ao
que é ensinado, mas também ao que é crido por aqueles que ensinam. Há
uma referência a isto nas palavras do Senhor Jesus Cristo à igreja em Pérgamo: “Mas algumas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que
seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços
diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria,
e se prostituíssem. Assim tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu odeio. Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti,
e contra eles batalharei com a espada da minha boca” (Ap 2:14-16). Estas
palavras revelam um aspecto muito importante do perigo associado com
doutrina errada na vida da igreja. Alguns têm sugerido que é permissível receber aqueles que têm doutrinas erradas, se eles prometerem nunca
ensiná-las. Isto é muito perigoso, e contrário a estas palavras do Senhor
Jesus que citamos.
A razão por incluir a falha doutrinária entre os pecados exigindo a
separação da comunhão pode ser questionada, mas devemos observar que
na passagem em Gálatas 5, o conselho inspirado, dado pelo Apóstolo, enfatiza a gravidade do resultado que o ensino errado teve sobre as igrejas
da Galácia. As afirmações usadas devem ser consideradas cuidadosamente:
“quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade? … Um pouco de
fermento leveda toda a massa … aquele que vos inquieta, seja ele quem for,
sofrerá a condenação … Eu queria que fossem cortados aqueles que vos
andam inquietando” (Gl 5:7-12). Evidentemente, a falha de Himeneu e
Alexandre era desta natureza doutrinária, e o veredicto do Apóstolo foi: “os
quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar” (I Tm 1:20).
Comparando isto com as mesmas palavras usadas em I Coríntios 5:5,
vemos indicado o ato de colocar fora da comunhão da igreja local. Mesmo que não usemos estas palavras apostólicas hoje em dia quando alguém
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza 171
precisa ser tirado da comunhão, elas descrevem muito bem o que acontece
neste momento solene. Estar na comunhão de uma igreja local significa
estar numa esfera Divina, onde a presença de Cristo pode ser conhecida
e a bênção de Deus gozada no poder do Espírito Santo. Quando alguém
é colocado fora desta esfera, ele é entregue à esfera de Satanás. Para um
verdadeiro filho de Deus estar em tal lugar causará desconforto e tristeza
contínua, e as palavras que seguem no versículo (“para que aprendam …”, I
Tm 1:20) mostram que logo aprenderão a não continuar nestas coisas que
necessitaram uma disciplina tão séria.
Falha prática. “E se ele não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não
escutar à igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos
digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu” (Mt 18:17-18). Há somente duas
passagens onde encontramos o Senhor Jesus falando da Igreja, e ambas
são distintas uma da outra. Na primeira, em Mateus 16, Ele claramente
Se refere à Igreja que é o Corpo, nesta presente dispensação. Este grande
Corpo, composto de judeus e gentios, começou no dia de Pentecostes e será
completo no Arrebatamento, quando Ele virá aos ares para chamar e levar
a Si mesmo o Corpo, a Noiva do Cordeiro. A segunda passagem é Mateus
18, que se refere a uma igreja local que se reúne em um determinado local
geográfico. Este agrupamento é compostos de santos que se reúnem em, e
ao, nome do nosso Senhor Jesus Cristo. No contexto do ensino do Senhor,
nos vs. 15-20, Ele se referiu a uma situação que poderia facilmente afetar o
ajuntamento local — a transgressão entre dois irmãos.
O Senhor destacou três passos que devem ser tomados na busca pela
restauração do irmão errado. O passo final que o Senhor mostrou seria que
o assunto deveria ser levado à igreja. Isso imediatamente mostra a diferença
entre este contexto e o cap. 16. A igreja local é um corpo tangível composto
de pessoas vivas, em contraste com a Igreja que é o Corpo de Cristo. Se o
ofensor recusasse ouvir o veredicto da igreja local, ele deveria ser considerado “como gentio e publicano”. Esta disciplina tem sido interpretada por
alguns como uma coisa pessoal, mas um tratamento consistente dos pronomes usados no contexto, e continuando no v. 18, indica que a igreja também
está incluída nesta disciplina. Como disse o falecido William Rodgers: “Se
não é a igreja que coloca o homem fora, no v. 17, por que o versículo seguinte diz que tudo que ligardes na terra terá sido ligado nos céus?” Aqui,
portanto, temos a disciplina de colocar fora da comunhão, por causa de uma
172
A glória da igreja local
falha em certo relacionamento pessoal dentro da igreja local.
Os princípios gerais destacados acima, na parte sobre “falha moral”,
são aplicáveis à toda forma de disciplina que inclui “colocar fora da comunhão”, e também devemos lembrar do assunto importante da atitude dos
santos para com o disciplinado. Não é falta de amor obedecer às palavras:
“com esse tal, nem ainda comeis” (I Co 5:11). Esta ordem Divina de não se
associar com aqueles em disciplina tem como finalidade sua possível restauração. É a responsabilidade dos pastores do rebanho mostrar interesse
na pessoa disciplinada, para encorajar o arrependimento e a restauração.
Disciplina que inclui advertência pessoal
“E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e
que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em
grande estima e amor, por causa da sua obra. Tende paz entre vós. Rogamo-vos também, irmãos, que admoesteis os desordeiros, consoleis os de
pouco ânimo, sustenteis os fracos, e sejais pacientes para com todos” (I Ts
5:12-14). É bom saber que o aspecto da disciplina já considerado deve ser
algo raro na vida da igreja local. É uma aplicação extrema da verdade, que
geralmente não será necessária. Outras formas de disciplina são necessárias
ocasionalmente, e há várias passagens no Novo Testamento que dão ensino
para tais ocasiões. A primeira epístola de Paulo à igreja recém-estabelecida
em Tessalônica, contém conselhos sobre o problema de desordem que pode
surgir entre o povo de Deus. Parece que a igreja local era muito nova, e
não tinha indivíduos formalmente identificados que “tomavam a liderança”
entre eles.
Em I Tessalonicenses 5, Paulo está dando conselhos para ajudar estes
novos convertidos a reconhecer aqueles que estavam trabalhando entre eles
e presidindo sobre eles. É bom quando estes irmãos podem ser facilmente
reconhecidos “por causa da sua obra”. Também, é bom notar como nesta
mesma passagem o apóstolo dá conselho a estes irmãos que estavam aparecendo e sendo reconhecidos como os pastores entre o rebanho de Deus.
O conselho dado é resumido, mas muito importante para cada igreja local.
É evidente que houve a necessidade de avisar sobre desordem, embora a
natureza do problema não é mencionado, mas sem dúvida aquela igreja
saberia bem a quem Paulo se referia.
A segunda epístola a esta mesma igreja nos dá a resposta quanto à natureza do problema em Tessalônica: “Porquanto ouvimos que alguns entre
vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza 173
esses tais, porém, mandamos, e exortamos, por nosso Senhor Jesus Cristo,
que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão” (II Ts 3:11-12).
Se as admoestações sugeridas na primeira carta foram dadas, elas não foram
obedecidas, e assim outra ação era necessária. Se mais admoestações fossem
dadas, talvez haveria menos problemas prolongados nas igrejas. Há uma
grande semelhança nas palavras usadas nas duas epístolas, e por isto é evidente que se referem às mesmas pessoas. As advertências dadas na segunda
epístola são um bom exemplo deste tipo de disciplina.
Disciplina que inclui afastamento pessoal
“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais
não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rm 16:17-18).
“Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo,
que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu” (II Ts 3:6). Não é fácil seguir a ação recomendada aqui, mas há ocasiões quando medidas severas são necessárias. O
conselho aos salvos em Roma se refere a alguém que, entre os irmãos, causa
diferenças e divisões, que são odiadas por Deus. Este tipo de pessoa deve
ser identificada e evitada. Amizade e comunhão com tais indivíduos acabará produzindo um espírito semelhante naqueles que os acompanham, e
também os encorajará a continuar na sua prática perigosa. Não é a vontade
de Deus que os salvos promovam qualquer forma de divisão entre o povo
de Senhor. Separação é um princípio Divino que devemos praticar sempre,
mas divisão é um princípio satânico que deve ser evitado. Separação expressa o desejo de Deus para o Seu povo, que embora vivendo neste mundo, não
devem ser deste mundo. A vida do salvo deve ser separada do mundo e em
comunhão com Deus. Por outro lado, divisão expressa o desejo de Satanás
de separar o povo de Deus uns dos outros. Foi visto cedo no reino de Israel,
quando Jeroboão causou este pecado em Israel. Ele não somente introduziu
a idolatria, mas também causou a divisão entre a parte ao norte, chamada
Israel, e a parte ao sul, chamada Judá.
Outro aspecto de afastamento pessoal é mencionado por Paulo quando, escrevendo a Tito, ele diz: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme
a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina,
como para convencer os contradizentes. Porque há muitos desordenados,
faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais
174
A glória da igreja local
convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando
o que não convém, por torpe ganância” (Tt 1:9-11). As igrejas em Creta
tinham sido invadidas por aqueles que ensinavam o judaísmo, e a instrução
dada aqui é para que fossem fechadas as suas bocas. Devemos notar que
antes disto foi dada a exortação aos anciãos da igreja, não somente para
reterem firmemente a fiel palavra nas suas próprias vidas, mas também para
exortar e convencer os contradizentes pela sã doutrina.
O grande poder contra a falsa doutrina em qualquer igreja é o ensino
cuidadoso da Palavra de Deus. Isso não deve ser dado apenas por irmãos
que visitam a igreja. É necessário que os irmãos locais sejam capazes de
ensinar os santos. Contudo, aqui o apóstolo também avisa que “bocas precisam ser tapadas”, portanto há aqueles que precisam ser silenciados e proibidos de participar publicamente se continuarem a apresentar ensino falso.
A persistência nesta prática errada mereceria outra forma de disciplina mais
severa, como vimos anteriormente neste capítulo.
Disciplina que inclui preservação pessoal
“Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa,
vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado” (Gl 6:1). “Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso
Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. E apiedai-vos de alguns, usando de
discernimento; e salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando
até a túnica manchada da carne” ( Jd vs. 21-23). É bom que o Novo Testamento nos dê conselhos sobre situações que não merecem, necessariamente, retribuição. A palavra “encaminhar” em Gálatas 6 descreve o ato de
colocar um osso deslocado de volta no lugar. Homens espirituais sempre
procurarão ajudar, com cuidado e habilidade, os que falharam. A passagem
de Judas citada acima expressa a necessidade de compaixão e ajuda quando
os santos se desviam do caminho certo. É muito bom para a vida da igreja
local quando um irmão, ou uma irmã, que falhou pode ser restaurado para
uma condição espiritual saudável.
Disciplina que inclui serviço público
“Não aceites acusação contra o presbítero, senão com duas ou três testemunhas. Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que
também os outros tenham temor” (I Tm 5:19-20). É importante observar
que todos em comunhão na igreja local estão sujeitos aos padrões e exigên-
Cap. 11 — A igreja local e sua pureza 175
cias de santidade que temos mencionado na primeira parte deste capítulo.
Estas palavras do apóstolo Paulo são parte de uma passagem que trata especialmente com anciãos:
•
•
•
vs. 17-18 — Consideração pelos anciãos e pelo trabalho que fazem;
vs. 19-21 — Acusações que podem ser feitas contra os anciãos;
vs. 22-25 — Cuidado necessário no reconhecimento dos anciãos.
Na primeira parte a ênfase está no valor do trabalho no qual os anciãos
estão envolvidos, e como podem precisar de ajuda prática. A segunda parte
é a razão por esta passagem ser apresentada no presente capítulo.
O v. 19 mostra os perigos que os anciãos podem enfrentar. A história de Israel é marcada por muitas murmurações e reclamações levantadas
contra os que os guiavam na caminhada pelo deserto, e também quando
chegaram à terra de Canaã. Lamentavelmente, este mesmo espírito frequentemente é visto na vida duma igreja local. A proteção Divina para
aqueles que têm a liderança é que nenhuma acusação contra um ancião
deve ser considerada se não tiver base na palavra de duas ou três testemunhas. Isto em si é uma provisão espiritualmente dada àqueles que servem
ao Senhor neste trabalho.
O próximo versículo menciona “os que pecarem”. Pelo contexto e estrutura gramatical, é normal aceitar que o assunto neste versículo ainda se
refere aos anciãos. Assim, vemos aqui a gravidade do pecado praticado por
um ancião. O Velho Testamento dá exemplos de falhas de líderes espirituais, e da gravidade com que Deus os tratou. A repreensão pública dada
a tais é para que a igreja toda seja espiritualmente purificada e corrigida
perante Deus. Não é sem importância que a incumbência dada em seguida
sobre estes assuntos é, também, diante de três testemunhas, a saber: “Deus,
e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos” (v. 21).
A parte final desta passagem fala sobre o cuidado necessário no reconhecimento daqueles realmente capacitados para este trabalho de pastorear
o rebanho. As boas e más qualidades de alguns são facilmente reconhecidas,
mas com outros, estas coisas demoram a ser vistas. Este fato exige cuidado:
“A ninguém imponhas precipitadamente as mãos”.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito
Por Samuel J. McBride, Irlanda do Norte.
A primeira vez que a Igreja é mencionada, tanto no seu aspecto
universal como no seu aspecto local, ela está enfrentando conflitos —
um é contra “as portas do inferno” (Mt 16:16-18), o outro perturbações
por dissensão interna (Mt 18:15-20). No resto do Novo Testamento,
descobrimos que conflitos nunca estão longe duma igreja local, quer nos
exemplos dos incidentes relatados em Atos, nas Epístolas e Apocalipse,
quer no que é predito pelos Apóstolos nos seus avisos sobre problemas
vindouros.
Conflito predito e recursos providenciados
Os últimos dias serão caracterizados pelo aumento de dificuldades
para a igreja, e quando lemos os detalhes desagradáveis podemos esperar que o testemunho das igrejas locais estará envolvido numa luta
constante contra os vários tipos de oposição descritos pelos autores do
Novo Testamento. Esta perspectiva assustadora, de tantas dificuldades,
não nos é apresentada como um impedimento, mas sim para nos incentivar a manter o testemunho da igreja local, sabendo que Deus nos
preveniu destes problemas. Os recursos que nos ajudam a lidar com este
conflito vêm dAquele que também proferiu os avisos. Assim, devemos
ser duplamente gratos ao Senhor, por Ele nos ter avisado com exatidão
do perigo, e por nos ter dado os recursos e a direção sobre como nos
conduzir, apesar dos problemas, para que o testemunho divino possa ser
mantido para a Sua glória.
Assim, somente as Sagradas Escrituras podem nos ajudar, pois não
há nenhuma análise melhor dos riscos que afetam o testemunho da
igreja local, e não há outro manual de instruções para mostrar como
podemos enfrentar e vencer estas dificuldades. Naturalmente, a mente
irrequieta do homem sempre tem muitas sugestões para modificar o padrão divino da constituição e atividades de uma igreja neotestamentária.
Problemas contemporâneos
Temos visto nestes últimos anos um grande crescimento de no-
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 177
vas ideias e organizações para-eclesiásticas* entre as igrejas locais. As
novas tecnologias, junto com pensamentos modernos e contrários ao
tradicionalismo, têm produzido desafios alarmantes para os cristãos
conservadores em igrejas locais. Não é nosso propósito, neste capítulo,
analisar estas mudanças modernas, mas alguns aspectos precisam ser
mencionados.
Em toda parte do Reino Unido† as igrejas locais estão enfrentando
ameaças sérias. Portanto, todos os anciãos espirituais nas igrejas devem
imediatamente rejeitar qualquer complacência, e encarar o fato que cada
um deles tem a responsabilidade de proteger a verdade e os princípios
Divinos na igreja local onde estão em comunhão.
Os jovens
Os jovens em comunhão nas igrejas frequentemente são considerados como um perigo e fonte potencial de problemas. De fato, onde os
jovens são deixados sem ensino e sem nenhuma direção, para fazerem o
que querem, é bem provável que serão uma fonte de problemas. No entanto, precisamos lembrar que sua energia e desejo de estar envolvidos
nas atividades da igreja deve ser uma fonte de poder e vitalidade para
uma igreja que os trata de maneira sábia e de acordo com as Escrituras. É lamentável e perigosa a tendência recente dos jovens se unirem
através de uma agenda social que prioriza cada vez mais o lazer e as
brincadeiras.
Os anciãos que permitem que jovens recém-casados da igreja organizem atividades para outros jovens precisam ter muito cuidado sobre
o que estão aprovando. Reuniões em casas facilmente começam, mas
quem está em controle? Quem decide o que deve ser ensinado? Que
tipo de atividades sociais ou culturais serão promovidas? A que tipo de
padrão estes jovens estão sendo expostos?
A promoção de bandas musicais chamadas “cristãs” — incluindo
“bandas de rock cristãs” — agora está sendo aceita em lugares onde
vinte anos atrás teria sido totalmente condenada. Se tal prática é considerada aceitável para poder segurar nossos jovens, que tipo de discípulo
*
Do grego para, “ao lado de” — indica organizações que funcionam independentemente das
igrejas, geralmente com caráter ecumênico. (N. do E.).
†
Por muitas décadas as igrejas na Irlanda do Norte foram protegidas das influências negativas que prejudicaram o testemunho das igrejas do Reino Unido. Mas este tempo já passou.
(Adendo do editor: as ameaças vistas no Reino Unido estão no Brasil também!)
178
A glória da igreja local
será produzido por estes meios? Será que as igrejas receberão ajuda ou
se beneficiarão do tipo de cristão que provavelmente surgirá deste processo?
Também, a tendência crescente dos jovens das igrejas de participarem em grupos sociais pela Internet* está causando preocupação nos
mais idosos nas igrejas, inclusive nos ensinadores bíblicos e anciãos. O
desenvolvimento e progresso espiritual nas coisas de Deus não serão
ajudados pela multiplicidade de amizades entre outros jovens da sua
idade.
Estas coisas são novas nas igrejas por causa do veloz desenvolvimento tecnológico, que permitiu grandes redes sociais de uma forma
que não era possível anteriormente. Contudo, o retrato básico da natureza humana, revelado na Bíblia, ainda é o mesmo, e a tendência ainda
permanece para grupos de jovens chegarem ao denominador comum
mais baixo. O remédio para o desafio trazido por estes novos fenômenos
sociais precisa ser encontrado na Bíblia. A tentação de participar pode
ser forte para alguns que desejam trazer ensino bíblico a este grande
auditório, pensando que não dariam ouvidos à reuniões tradicionais de
ministério ou estudo bíblico. Embora haja o perigo óbvio de alguém
que ensina a Palavra perder a sua boa reputação por ter se rebaixado a
comportamento frívolo, pode haver um perigo ainda mais sutil, que é
a tendência de permitir que a própria mensagem seja “diluída”. Quem,
entre os mais idosos, não gosta de ser popular e apreciado por um grande
grupo de jovens? Mas será que esta popularidade foi alcançado por diluir “todo o conselho de Deus” durante as sessões de reuniões e ensinos?
Lamentavelmente, há evidência destas tendências em alguns folhetos,
panfletos e web-sites que são direcionados aos jovens das igrejas locais.
Transmissão da verdade de Deus para a nova geração
A transmissão da verdade de Deus de uma geração para a próxima é problemática. Será que podemos saber com certeza que os novos
métodos baseados nas redes sociais eletrônicas trarão benefícios duráveis? Aqui não é o lugar para especular sobre várias consequências não
intencionadas que podem ser prejudiciais para o testemunho das igrejas
locais. Basta observar que o Novo Testamento nos dá o método Divinamente recomendado para garantir que a verdade Divina e a prática
correta da igreja sejam transmitidas às gerações futuras da igreja. Tal*
Bebo e Facebook são dois exemplos.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 179
vez os comitês de irmãos bem intencionados, cujas mentes produzem
estas novidades duvidosas, tiraram seus olhos do alvo principal. Vamos
desafiá-los com algumas perguntas cujas respostas podem ser achadas
facilmente através da leitura das epístolas do Novo Testamento.
• Será que o modelo deixado por Paulo para a transmissão da verdade
se tornou obsoleto?
• Quais os fatores que têm influenciado o desenvolvimento das tendências atuais?
• Quem deu a estes irmãos o direito e a habilidade de mudar as coisas?
Há mais de 50 anos houve uma tentativa organizada* para mudar
a direção futura das igrejas locais no Reino Unido. Foi liderada por
homens profissionais e empresários bem qualificados academicamente,
juntamente com alguns pregadores da Bíblia que sentiam que as igrejas locais da época viviam de uma maneira muito restrita e precisavam
de mais organização humana, com um ministério assalariado e com a
promoção de mais cooperação ecumênica com o cristianismo denominacional. Com isso a identidade das igrejas locais seria diminuída, com
a aproximação a tais organizações não-bíblicas.
Devemos destacar que alguns irmãos fiéis daquela geração logo
viram o perigo e falaram contra o que estava acontecendo. A revista
Assembly Testimony, responsável pela publicação deste livro, foi fundada
como parte da reação contra este liberalismo não-bíblico. O irmão A.
Borland, editor da revista Believer´s Magazine, escreveu editoriais alertando as igrejas sobre este perigo. A. M. S. Gooding, W. Trew, E. A.
Toll, e outros, também escreveram contra as ameaças ao padrão bíblico
para a ordem das igrejas locais. Seus artigos são muito importantes para
*
Por causa das suas tendências subversivas, as “Conferências dos Irmãos” em High Leigh, e
depois em Swanwick, e o movimento Christian Brethren Research Fellowship (CBRF — “Comunhão dos Irmãos Cristãos para Pesquisa”) foram criticados em artigos escritos nas revistas
Assembly Testimony, Believer´s Magazine e outras, por irmãos fieis à doutrina da igreja local.
O CBRF agora é chamado Partnership (Sociedade) e se tornou uma força principal no movimento Brethren Activists and Historians Network (BAHN — “Network de Irmãos Ativistas e
Historiadores”) que produz livros históricos sobre o “O movimento dos Irmãos” dum ponto
de vista que ataca a verdade bíblica sobre o padrão e princípios do Novo Testamento que a
revista Assembly Testimony sempre defendeu.
180
A glória da igreja local
o presente, e devem ser lidos por todos*. O ministério destes estimados
irmãos teve um efeito conservador naquele tempo, e o seu efeito continua ainda neste início do século XXI.† Atualmente, o pensamento entre
os chamados “Irmãos Abertos” que se opuseram às verdades defendidas
pelos irmãos acima mencionados, continua a ser um grande perigo ao
testemunho das igrejas locais hoje. Algumas igrejas, até agora fiéis aos
princípios bíblicos, estão começando a desviar destes princípios e práticas que consideraram preciosos durante muitas décadas. Em alguns
casos parece que o presbitério está dormindo no timão. Talvez, nem
querem ouvir quão perigosa é a situação, pois isso exigiria tomar uma
posição.
O perigo das organizações
As numerosas organizações que têm aparecido entre e ao redor das
igrejas locais nos últimos anos são às vezes chamadas de “organizações
de apoio para-eclesiásticas”. Algumas focalizam na distribuição de fundos para a obra missionária em suas várias formas; outras procuram
beneficiar mais a obra do Evangelho em seus próprios países, oferecendo serviços legais e administrativos, tais como cuidar das propriedades
usadas para a pregação do Evangelho e outras propriedades das igrejas
locais. Nem todas estas apresentam perigos para as igrejas, mas não devemos presumir que todas são inofensivas.
Algumas organizações começaram por uma visão beneficente de
estimados homens que amavam a doutrina da igreja, e cuja prudência
e generosidade financeira permitiu o estabelecimento de organizações
cuja finalidade era promover e facilitar o trabalho das igrejas locais. No
início de tais organizações, os irmãos que sentiam que eram anti-bíblicas foram considerados pedantes, e até intratáveis. Contudo, a história
natural das burocracias é que sempre procuram mais poder e influência,
e assim foi com estas organizações entre as igrejas. Elas demonstram
*
TREW, W. My reasons for not being free to engage in interdenominational service. Kilmarnock:
John Ritchie Ltd. n. d.
Gooding, A. M. S. The editor of Christian Worker reviews “A New Testament Church in 1955”.
Kilmarnock: John Ritchie Ltd, 1956.
Toll, E. A. A conference eand questions arising out of it. Assembly Testimony nºs 16-18, 1955.
†
Comunicação pessoal de Sr. J. Grant, editor da revista Believer´s Magazine em 27/12/2006.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 181
uma “tendência de centralização”.*
Além disso, as qualidades espirituais dos fundadores raramente são
repetidas nos seus sucessores. Geralmente há uma tendência para abrir
e diluir os laços originais com as igrejas locais, nos interesses “de uma
esfera mais ampla de serviço”. Isso naturalmente causa a aceitação de
identidades sectárias e denominacionais. Podemos ver isto acontecendo
mesmo entre organizações de longa data, e seus periódicos, entre as
igrejas locais. Recentemente foi publicado numa revista de uma destas organizações missionárias, que havia um projeto para “reconstruir
a sede dos Irmãos” num certo país. Um comentário como este mostra
até onde alguns têm desviado dos princípios das Sagradas Escrituras.
A localização da “sede dos Irmãos” não é identificada claramente nas
Escrituras? Assim, falar de uma “sede” na Terra é um caso de teologia
floreada e absurda.
A quem a organização presta contas?
Esta pergunta é muito importante, porque todo o serviço cristão
no Novo Testamento† é feito através de, e em comunhão com, a igreja
local. Se os comitês e as organizações não têm de prestar contas a uma
igreja local, então não existe como corrigi-las biblicamente no caso de
desvios dos princípios do Novo Testamento.‡ É triste observar o acumulo de poder de uma organização e o subsequente abuso de poder, especialmente quando a vítima do abuso é uma igreja local. Por exemplo,
certas organizações registradas como instituições de caridade podem
ser proprietárias do local onde a igreja se reúne. Geralmente elas não
são basicamente responsáveis àquela igreja, e assim ela fica à mercê daquela organização, que pode reivindicar ter um dever legal de melhorar
seus rendimentos a fim de executar suas responsabilidades sociais para
com aqueles que ela está legalmente comprometida a cuidar. Pode ser
*
Isso é explicitamente afirmado pelo historiador Tim Grass em “Reunindo ao Seu Nome”, Paternoster Press, 2006. Como era de se esperar de alguém nesse meio, ele não vê problema
algum nesta tendência.
†
Podemos excluir os sete filhos de Ceva o judeu que, como fazem algumas organizações hoje,
tentaram lucrar pela imitação da ordem de Deus (At 19:13-17).
‡
O litígio destrutivo que dividiu o império dos Stewarts (“Stewart´s Ministries” e “Stewart´s
Foundation”) nos Estados Unidos em tempos recentes é um exemplo do que pode acontecer
quando uma estrutura poderosa domina igrejas enquanto afirma que está as ajudando —
mesmo que não exista nenhuma base bíblica para ais assuntos. Veja o cap. 13 de Family
matters, por William W. Conard, Interest Ministries, 1992.
182
A glória da igreja local
que muitas décadas atrás o plano original era ajudar uma igreja fraca
com seus problemas de manutenção. Contudo, agora a situação pode ser
muito diferente. Uma igreja local numa grande cidade precisava consertar o telhado do seu prédio e pediu ajuda à entidade jurídica que era
a proprietária legal do prédio. A resposta foi que poderiam emprestar-lhes o dinheiro, mas teriam que pagar as taxas comerciais de juros. O
ancião incumbido para tratar deste projeto respondeu que a igreja poderia facilmente obter esta ajuda com incrédulos, em qualquer banco na
cidade. Foi sábio o homem que disse: “Deus não tem ministério para a
sustentação de uma Missão, mas Ele tem um ministério para o sustento
de uma igreja local”.*
Se um irmão, membro de algum comitê, tiver problema com seus
irmãos e sair da igreja local (sem carta de recomendação) para ser recebido em outra igreja que concorda com ele, será que este irmão terá de
deixar a sua posição como membro daquele comitê?
O princípio da conveniência — um perigo
“O amor une: a doutrina divide — precisamos derramar uma cascata de amor sobre as pessoas”. Estas palavras foram proferidas numa
reunião de relatórios de trabalho missionário organizada por uma igreja
local. O pregador representava uma nova instituição de caridade cristã,
que tinha um nome e planos pretensiosos. Ele chamou a atenção dos
ouvintes à última edição do seu boletim de relatórios, que mostrava
a foto de um menino que, naquele momento, acabara de receber um
presente durante a visita daquela organização a um certo país em conflito. Ele falou cheio de entusiasmo: “Com certeza, valeu tudo, só para
ver o sorriso no rosto daquele menino!”, sem mencionar nada sobre
a salvação do menino, ou de qualquer outra pessoa naquele país. Não
houve nenhuma menção, na palestra toda, à grande comissão de Mateus
28:16-20, e aquilo que nós conhecemos como “a doutrina da igreja” foi
abertamente menosprezado. Lastimavelmente, esse tipo de coisa está
se tornando mais comum. Mas havia uma partícula de verdade no que
aquele pregador falou. Visto de certa perspectiva, a doutrina realmente
divide. Dois grupos são formados: os que aceitam e os que rejeitam a
verdade de Deus. O pregador do Evangelho logo observa isto, como
quando Paulo pregou “e alguns criam … mas outros não criam” (At
*
John Douglas de Ashgill, conhecido por suas colocações sucintas e lacônicas em suas mensagens. Citado em Kings of Israel e Judá, por John Douglas, n. d. Publicado por Alex Aikman.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 183
28:24). Também no ensino da Palavra de Deus aos salvos, ainda existe
esta linha divisória entre aqueles que aceitam e aqueles que rejeitam.
Quanto ao assunto “princípios de igreja”, há muitos cristãos professos que consideram que a natureza e o funcionamento duma igreja local
é algo que não devemos considerar como assunto de grande importância. Conveniência e, com certeza, a tradição humana pesam muito com
tais pessoas*. Eles rejeitam o ponto de vista apresentado neste livro:
que Deus teve o cuidado de nos deixar um padrão normativo para o
testemunho da igreja nesta era, e que as Escrituras Sagradas são suficientes para este propósito. Tais opiniões “anti-padrão” estão crescendo
entre as igrejas, e causam problemas e desestabilizam as igrejas que estão procurando seguir os princípios bíblicos. Os que promovem estes
pensamentos negativos numa igreja podem começar de uma maneira
bem discreta. Ao se apresentar como alguém preocupado com a falta
de atenção dada aos jovens, eles frequentemente ganham a atenção, e
até o respeito, de irmãos maduros. Mas, ao observar cuidadosamente o
que está sendo ensinado aos jovens e as coisas oferecidas para atraí-los,
provavelmente se descobrirá que há um fomentar da atitude de descontentamento com a posição conservadora da igreja; como o incentivo
por mudanças no presbitério (isto é, acrescentar novos membros que
irão promover a nova agenda, ou pela substituição ou manipulação dos
anciãos existentes). Também ideias estranhas sobre adoração, frequentemente do tipo “carismático”, a falta de preocupação com a maneira
de vestir, a promoção de versões modernas da Bíblia, mais liberdade
para as irmãs nas reuniões (além dos limites estabelecidos pelo Novo
Testamento), a negação ou diluição dos ensinos Bíblicos claros sobre
a moralidade nos assuntos de homossexualidade ou a indissolubilidade
do casamento, a participação em diversões mundanas populares como
teatros, cinemas, danças, etc., ligações com ministérios interdenomina*
Aqueles que defendiam organizações como o Episcopalismo e Presbiterianismo antigamente
procuravam base bíblica para seus sistemas. Mas, hoje, os que se opõem à posição conservadora das igrejas nem procuram uma base bíblica para isto. Assim se torna difícil entrar
em discussão profunda sobre este assunto. Não existe mais comunhão sobre o que significa
“Sola Scriptura”. As igrejas agora enfrentam assuntos que são mais ideias praticadas pelo
movimento “Igreja Emergente” . É muito proveitoso ler o livro “Bishops, Priests and Deacons”
de W. Hoste para obter uma excelente refutação dos sistemas denominacionais (principalmente Episcopalismo e Presbiterianismo) à luz das Escrituras. Ainda esperamos um livro desta
natureza para defender as igrejas locais do movimento moderno da “Igreja Emergente” e
coisas semelhantes.
184
A glória da igreja local
cionais, tanto nacionais como internacionais, são exemplos das inovações que têm infiltrado as igrejas locais durante a década passada. Por
causa desta pressão por mudanças radicais, é obviamente evidente que
as igrejas não podem negligenciar o estudo da Tipologia nas Escrituras
como o elemento básico de como os irmãos se preparam para oferecer adoração pública a Deus, em lembrança do Senhor Jesus Cristo na
Ceia do Senhor. A negligência desta área de doutrina tem levado a uma
linguagem superficial e leviana na Ceia do Senhor, que às vezes é francamente incorreta, frívola e irreverente. A tolerância destas coisas é solo
fértil para a aceitação das ideias ultramodernas de adoração. Frequentemente este processo é irreversível, e resulta na eventual descontinuação
da igreja. Prevenir é melhor do que remediar!
O serviço das irmãs*
A posição das irmãs nas igrejas que procuram observar as Escrituras
sempre foi implacavelmente atacada†. É interessante observar que onde
o silêncio das irmãs nas reuniões da igreja é praticado, o Movimento Carismático não tem conseguido penetrar. Reuniões de irmãs têm
uma longa história em algumas igrejas, e às vezes são defendidas porque
aparentemente não causam problemas. Contudo, devemos reconhecer
que não são mencionadas nas Escrituras. Temos o exemplo de irmãs
que são recomendadas pela sua cooperação com Paulo no trabalho do
Evangelho‡. Paulo escreveu a Tito que as mulheres idosas “ensinem as
mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos … a fim de
que a palavra de Deus não seja blasfemada” (Tt 2:3-4). Este ensino se
refere à esfera doméstica e não às reuniões da igreja. Priscila, que sempre é mencionada junto com seu marido, Áquila, ajudou Apolo a compreender mais precisamente o caminho de Deus (At 18:26), mas isso
também foi em particular. Além disso, nesta ocasião o nome de Áquila
*
Este assunto é bem tratado em dois folhetos:
BORLAND, Andrew. Women´s place in the assembly: an assessment of Bible Teaching. Kilmarnock: John Ritchie Ltd, 1970.
HOSTE, William. The service of Sisters, its sanction and scope. Kilmarnock: John Ritchie Ltd,
1935.
†
“Partnership”, e sua precursora CBRF, sempre se opuseram a Doutrina Apostólica sobre o
silêncio das irmãs nas reuniões da igreja, e a prática de cobrir a sua cabeça (I Co 11). Em
alguns das suas publicações a prática “tradicional” tem sido zombada de maneira excessiva
e injuriosa.
‡
Veja Romanos 16.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 185
é mencionado primeiro, tirando qualquer impressão de que Priscila dominava nesta função. Os que promovem reuniões para as irmãs não podem mostrar qualquer exemplo no Novo Testamento de uma igreja que
tinha tais reuniões, e a introdução desta prática frequentemente traz
problemas para a igreja, pelo menos no sentido de causar sofrimento e
marginalização para às irmãs cujas convicções bíblicas não permitem a
sua presença nestas reuniões.
O rompimento da comunhão e harmonia entre as irmãs numa igreja local é coisa séria. Um exemplo disto precisou de menção específica,
numa das epístolas do apóstolo Paulo. Não sabemos exatamente a natureza do problema que existia entre Evódia e Síntique, mas é evidente,
de Filipenses 4:2, que a correção da situação seria para o bem da igreja
toda.
Separação ou divisão?
Aprendemos claramente nas Sagradas Escrituras que Deus quer
que Seu povo seja separado do mundo ímpio. Assim foi no Velho Testamento e é assim hoje também, e Paulo cita passagens do Velho Testamento para fortalecer o impacto da mensagem. Atualmente, perto do
final da primeira década* do terceiro milênio, é bem óbvio que não há
muita ênfase no ensino ou prática deste chamado Divina para a separação.
O que fazer? Será que podemos impor esta separação àqueles que
anseiam por e preferem as delícias do Egito ou as modas da Babilônia?
Existe a tentação para sugerir que chegou a hora de estabelecer
limites para definir o que é uma igreja local hoje, e cortar vínculos com
qualquer outro grupo. Este pensamento já ocorreu no passado, e foi a
causa da grande divisão em 1848, quando os Irmãos Exclusivistas dividiram as igrejas por causa do assunto que foi chamado Bethesda Question
(“A questão de Betesda”). Entre os chamados “Irmãos Abertos” (isto é,
as igrejas que não aceitaram a opinião eclesiástica de J. N. Darby nesta
questão) havia grande variedade de práticas, que se tornaram evidentes
no final do século XIX. A aceitação crescente, entre estas igrejas, de várias práticas não bíblicas, inclusive o interdenominacionalismo, mulheres pregando, imitação de projetos mundanos para arrecadar dinheiro,
etc., causou grande preocupação em alguns irmãos. Entre estes irmãos
*
Este livro foi publicado em inglês no ano de 2008. (N. do E.)
186
A glória da igreja local
surgiu um grupo impetuoso que defendia uma separação formal das
igrejas existentes, e o estabelecimento (em 1893 aproximadamente) de
uma federação de “igrejas de Deus” ou uma federação de igrejas com
liderança central. Este movimento recebeu o nome de Needed Truth
(“Verdade Necessária”). Um dos seus lemas era a necessidade de uma
“segunda saída”. É fácil reconhecer a precisão do seu diagnóstico sobre
as falhas e os desvios nas igrejas, mas seu remédio (sem base Bíblica) é
tão ruim quanto a doença.
O estimado irmão William Bunting (fundador e primeiro editor
da revista Assembly Testimony) tinha uma compreensão profunda destes
assuntos, e seu último livrete, Spiritual Balance (“Equilíbrio Espiritual”)
é um tratado sábio e criterioso destes assuntos importantes — assuntos
que as igrejas agora enfrentam com o mesmo vigor que anteriormente.
O exclusivismo e o Needed Truth são pesados contra o padrão das Escrituras, e achados em falta. O padrão para a separação bíblica é defendido
como um alvo positivo e recompensador, e também como o resultado
de abandonar práticas e princípios mundanos e antibíblicos. Este livrete
precioso deveria ser lido por todos que buscam o bem-estar das igrejas
hoje.
Uma consideração da profecia de Malaquias deve nos convencer
que qualquer tipo de “segunda saída” é uma ilusão enganosa, e não uma
solução Bíblica. No Velho Testamento, a comunidade pós-exílio já tinha saído da Babilônia e estava separada de tudo que se encontrava ali*.
Nem todos os Israelitas tomaram este passo. Aqueles que o fizeram
enfrentaram muito sofrimento e dificuldades, como vemos claramente
nos relatos de Esdras e Neemias. Os adversários sutilmente tentaram
fingir que eram também seguidores de Deus e que desejavam ajudar
na construção da Casa de Deus. Contudo, esta tentativa foi sabiamente
rejeitada: “Não convém que nós e vós edifiquemos casa a nosso Deus
…” (Ed 4:3). Mas a oposição que isso provocou foi amarga, cruel e
persistente. A chegada de Neemias, mais tarde, para coordenar a reconstrução do muro de Jerusalém, aumentou ainda mais esta oposição.
Pior ainda, agora surgiram elementos entre os próprios judeus — até
mesmo entre os lideres sacerdotais — que se simpatizavam e tinham
afinidade com os inimigos. Em Neemias 13 lemos como Neemias teve
que corrigir esta situação lamentável. O que o preocupava mais era a
tendência crescente de apatia espiritual, e até o abandono da Casa de
*
Veja “Back from Babylon” por W. Rogers, John Ritchie Ltd, Kilmarnock, para mais estudos.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 187
Deus (Ne 13:11).
A profecia de Malaquias veio imediatamente depois de Neemias 13.
O nome do Senhor é enfatizado e ocorre dez vezes em Malaquias. Havia neste tempo uma decadência geral, e poucos dos sacerdotes tinham
o desejo de “dar glória ao Meu Nome”, e havia somente um remanescente do povo que “pensaram no Seu Nome” ou “temeram Meu Nome”.
Apesar da prevalência de padrões de adoração inaceitáveis (cap. 1), e a
decadência na moralidade familiar (cap. 2), nós não achamos nenhuma
exortação para o remanescente fiel sair e formar um grupo separado.
Eles já tinham se separado da Babilônia. Estavam agora no lugar do Seu
Nome. Para onde, ou para quem, poderiam agora se separar? As condições no tempo de Malaquias frequentemente são comparadas com as
condições na igreja em Laodicéia, e com razão. Mas em nenhum destes
lugares temos instrução para a formação de um novo grupo. W. Trew
disse: “O ministério de Malaquias produziu um remanescente entre o
remanescente do povo de Deus”.* Este remanescente era caracterizado
por temor ao Senhor e respeito ao Seu Nome. O Senhor prometeu uma
lembrança e recompensa especial a eles (Ml 3:16-18). Achamos membros deste remanescente fiel no Evangelho de Lucas: Zacarias e Isabel,
Ana e Simeão todos manifestavam amor para com a Casa de Deus e
esperavam pelo Messias.
A resposta para os problemas de hoje não será achada em uma divisão não bíblica, mas na separação exigida pela Bíblia. Isso começa no
nível pessoal. Por exemplo, considere as exortações pessoais a Timóteo
e a Tito: havia coisas para evitar e coisas para seguir. Obediência a estas injunções apostólicas exige exercício individual. A espiritualidade
coletiva de uma igreja nunca pode ultrapassar a espiritualidade pessoal
daqueles que são parte dela.
Também, é muito importante enfatizar o lado positivo desta separação; a que somos separados? Podemos ilustrar este aspecto estudando
a história de Israel no Velho Testamento. O acampamento de Israel era
especial por causa de Quem habitava no meio dele. Assim não podia
existir uma atitude de “qualquer coisa serve” entre o povo de Deus.
Em Números 24:2-5 o impacto desta presença Divina muito impressionou Balaão, e em I Coríntios 14:25 a presença de Deus na igreja
ainda tem este efeito salutar sobre todos que a observam. Assim, até
mesmo alguém de fora sente a verdade de Mateus 18:20. Claramente,
*
W. Trew, 1967. Notas não publicadas de ministério dado sobre Malaquias.
188
A glória da igreja local
há também o lado negativo desta separação; isto e, de que somos separados? Este lado precisa ser enfatizado cada vez mais em nossos dias,
quando em muitas igrejas há pressão para aceitar mistura e amalgamação antibíblica. Contudo, devemos manter o equilibro Bíblico. Albert
Leckie uma vez citou outro irmão idoso que sabiamente disse: “Não se
pode alimentar o povo de Deus com laxantes”.
Problemas relacionados
à disciplina na igreja local
A igreja local do Novo Testamento tem autoridade para administrar a disciplina daqueles que estão em sua comunhão. Hoje em dia,
em toda a esfera de vida, há um espírito de rebeldia contra qualquer
autoridade, e não é diferente nas igrejas. As várias formas de disciplina
são consideradas em outra parte deste livro. Contudo, conflitos podem
surgir quando há uma tentativa de destruir ou anular a disciplina Bíblica numa igreja. Isso pode acontecer quando o infrator tem parentes
na comunhão que mostram lealdade familiar e não lealdade a Deus e à
Sua Palavra — que exigiria uma submissão à ordem divina para que o
resultado feliz pudesse ser uma completa restauração. Esta dificuldade
é mais grave em igrejas pequenas, ou em igrejas grandes onde muitos
membros de uma mesma família manifestam valores baseados na família e não nas Escrituras. Também, a interferência externa, para debilitar
ou subverter o processo da disciplina bíblica necessária, não tem a autoridade das Escrituras e é repleta de perigo, não importa quem é a pessoa,
ou grupo, que está interferindo.
Será que não há uma falta do temor do Senhor em tais casos? Tentar
proteger o culpado da devida investigação e disciplina na Casa de Deus
é muito sério. Obstinação em tal cenário é muito triste aos santos fiéis e
aos anciãos piedosos que têm a obrigação de tratar destas questões. Esta
oposição não pode ser vencida por mera sabedoria carnal. “Porque a ira
do homem não opera a justiça de Deus” (Tg 1:20). O Senhor é capaz de
julgar e agir quando tudo que pode ser biblicamente feito foi tentado.
Portanto, é bom estar sempre do lado da verdade, e não envolvido nas
iniquidades de outros. Uma boa consciência nos assuntos da igreja é de
valor incalculável — mesmo quando significa estar entre a minoria. O
mal escondido contamina e sempre produzirá um mau resultado — se
não resolvido nesta vida, então enfrentará o “fogo” do Tribunal de Cris-
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 189
to naquele dia vindouro (I Co 3:11-17). É o dever solene dos anciãos
apoiar os padrões das Escrituras, qualquer que seja a oposição de dentro
ou de fora da igreja local.
Batalhando pela fé
Se nós cremos que o Novo Testamento revela o padrão e doutrina para o testemunho duma igreja local, então poderemos nos achar
em situações quando somos obrigados a contender por este aspecto de
doutrina. “A fé que uma vez foi dada aos santos” merece ser defendida,
e com toda diligência e vigor.
Quando é necessário defender doutrinas tais como a santa Trindade, a encarnação do Filho de Deus, a expiação, a justificação pela fé,
etc., há acordo quase universal entre os salvos das igrejas locais sobre
qualquer esforço para defender estas doutrinas. Contudo, a impressão
do presente autor é que hoje, quando a verdade bíblica sobre a igreja
local está sendo atacada, existe a difundida tendência de reagir com uma
atitude passiva, ou até derrotista. Além disso, aqueles que procuram batalhar pela boa herança do ensino bíblico sobre assuntos da igreja, frequentemente não recebem agradecimentos ou encorajamento. É fácil
ser mal entendido nestes assuntos. A paz e a unidade entre irmãos deve
ser uma prioridade, mas há somente uma base para este ideal bendito.
Fraqueza e passividade perante os falsos obreiros somente encoraja mais
repetições do ciclo vicioso de agressão-conciliação. Então, como devemos agir? Se for necessário contender, como devemos fazê-lo?
Alguém poderia tentar, com tenacidade stakhanovitiana,* enfrentar qualquer desvio da doutrina ou prática, e no fim falhar — apesar
de conseguir grandes feitos, externamente. A igreja em Éfeso demonstrou zelo recomendável, mas seu problema era que tinha deixado o seu
primeiro amor (Ap 2:4). Era esta combinação ruim de zelo sem amor
que realmente ameaçava até a continuidade daquela igreja. Existe sempre o risco de que “batalhar pela fé” pode se transformar numa mera
contenda legalista. Devemos evitar isso. Lembremo-nos do conselho
a Timóteo em II Timóteo 2:24-26: “Ao servo do Senhor não convém
contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura
Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, e tornarem
*
Dedicação heroica de trabalhadores soviéticos para superar metas de produção — o nome
vem de Stakhanov, um mineiro Russo enaltecido por Stalin pela produção recorde de carvão.
190
A glória da igreja local
a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele
estão presos”. A grande aspiração é batalhar pela fé sem se rebaixar a
brigas.* “Contender” significa brigar ou disputar,† e nunca é usada no
bom sentido no Novo Testamento. Timóteo não deveria se envolver em
tal comportamento, mas deveria ser “manso”,‡ que nos faz pensar na
atitude exigida ao se cuidar de bebês.
Subindo na escala de idades, Timóteo deveria “instruir” com mansidão os que resistem; a palavra “instruir” se refere à educação de crianças,
com a correção necessária.§ “Apto para ensinar” é a palavra de onde vem
a nossa palavra “didática”, e nos lembra que a missão de Timóteo não
era somente baseada na doutrina, mas também era baseada na necessidade de assegurar que a doutrina bíblica fosse inculcada nos salvos entre
os quais ele servia. “Sofredor” é uma palavra que nos desafia. Timóteo
deveria ser paciente e suportar coisas más no cumprimento da sua missão.¶ A inclusão da palavra “mansidão”, nesta passagem, com certeza
nos faz pensar em Moisés, o homem mais manso (com a exceção do Senhor Jesus Cristo), que suportou tanto comportamento mau, ingratidão
e rebeldia durante a grande jornada do Egito a Canaã;** uma história
cheia de instruções em como lidar com os problemas contemporâneos
nas igrejas de Deus.
*
II Tm 2:24-26. As Epístolas a Timóteo e a Tito são os melhores manuais neste assunto. Para
obter conhecimento prático e doutrinário, o leitor deve ler “Spiritual Balance” por W. Bunting.
†
Macheomai é a palavra usada em II Tm 2:24. A palavra “contender” [“strive” na AV] ocorre
quatro vezes neste capítulo. No v5 é athleo [traduzida “milita”], usada para descrever uma
disputa atlética nos jogos olímpios; no v. 14 é logomacheo [traduzida “contendas de palavras”],
que é uma combinação de “palavras” e macheo, e significa “uma disputa de palavras”.
‡
Esta palavra “manso” (epios) é usada somente mais uma vez no Novo Testamento — I Ts 2:7:
”Tornamos carinhosos [epios] entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos”.
§
Paideuo é usada do sistema penal Romano ao administrar um castigo “leve”; por exemplo,
um açoitamento público (Lc 23:16, 22); de Saulo de Tarso sendo rigorosamente treinado na
escola de Gamaliel (At 22:3); da disciplina apostólica de Paulo sobre Himeneu e Alexandre
por causa do pecado de blasfêmia (I Tm 1:10); do efeito instrutivo da graça de Deus sobre
o comportamento e atitude do salvo (Tt 2:11-12); e de Deus disciplinando Seus filhos (Hb
12:5-11).
¶
Anexikakos somente ocorre aqui no NT e nos lembra de um professor controlando um grupo
de alunos mal comportados, enquanto pacientemente segue o currículo e os prepara para as
provas.
** Somos exortados a aprender lições importantes pelo estudo desta narrativa do VT, pois Paulo
diz em I Coríntios 10:11 que, pelo plano soberano de Deus, “tudo isto lhes sobreveio como
figuras, e estão escritas para aviso nosso”.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 191
A perspectiva de Paulo para a carreira de Timóteo, como homem
de Deus, parece muito desanimadora. A tristeza em ver os cristãos se
desviando da doutrina e da prática bíblica; a vergonha ao ver grupos
emergindo* para se opor à verdade apostólica; a chegada iminente de
perseguição; essas são apenas algumas das circunstâncias que Timóteo
enfrentaria no seu serviço para Deus, entre o Seu povo, depois da morte
de Paulo. É suficiente para amedrontar o coração mais forte. As Escrituras não nos prometem condições melhores em nossos dias. Assim,
temos de confiar totalmente nos recursos Divinos para nos ajudar, pois
soluções humanas certamente falharão.
A separação do mundo — estudo da Palavra
Timóteo é chamado para ser separado — este é o tema predominante de II Timóteo 2. Esta separação é essencial se ele vai estar preparado para toda a boa obra. O tema dominante de II Timóteo 3 é
seu conhecimento da Palavra de Deus. O conhecimento detalhado e o
estudo assíduo da Palavra de Deus também são necessários para alguém
ser perfeitamente instruído em toda a boa obra. Note que Timóteo começou cedo. “Desde a meninice” ele tinha sido criado no ensino das
Escrituras. Paulo não faz menção dos amigos de Timóteo, ou do seu
grupo de jovens. A sua criação hoje seria reprovada por muitos cristãos
professos, inclusive alguns entre as igrejas locais, que aparentemente
estão cegos aos perigos das redes sociais contemporâneas, baseadas na
internet ou não.
Estes dois requisitos para seguir o exemplo do serviço de Timóteo
são tão importantes hoje quanto eram nos dias do século I. É melhor
ler estes dois capítulos cuidadosamente e aplicá-los honestamente a nós
mesmos, do que nos ocuparmos em comparar a nossa vida com a vida
de outros irmãos nas igrejas hoje.† Seria melhor comparar-nos com
Paulo e seus companheiros, pois, de acordo com Filipenses 3:17, esta é a
verdadeira medida de comparação. Também devemos ter cuidado para
não cair em qualquer desvio que nos faça semelhantes àqueles mencionados em Tito 1:16, que são descritos como “reprovados para toda a boa
obra”; isto é, sujeitos à reprovação Divina em tudo que fazem.
*
É notável que a moderna “Igreja Emergente” encaixa exatamente em muitas das descrições
adversas dadas a Timóteo e Tito.
†
2 Co 10:12 “estes que … se comparam consigo mesmos, estão sem entendimento”.
192
A glória da igreja local
Satanás e as igrejas de Deus*
A esfera do nosso conflito nesta dispensação é nos “lugares celestiais”. É contra a maldade espiritual de Satanás e suas hostes de principados e potestades. A carta aos Efésios tem como foco “todos os santos”,
e não somente dar ensino específico sobre o testemunho da igreja local,
portanto, para sabermos detalhes sobre os ataques de Satanás contra as
igrejas locais precisamos examinar outras passagens. Contudo, é necessário, como indivíduos salvos, aproveitar os recursos e exortações dados
em Efésios. Por exemplo, não dar lugar ao diabo, especialmente através
de cultivar uma atitude de ira contra outros membros do Corpo de
Cristo (4:26-27); colocar toda a armadura de Deus para que possamos
estar firmes contra as astutas ciladas do diabo (6:11-13).
As Escrituras nos ajudam a identificar erros doutrinários, falhas
humanas e atitudes pecaminosas que produzem conflitos nas igrejas.
Mas elas também revelam que por trás destas causas secundárias está o
Maligno, que sempre procura destruir ou danificar aquilo que glorifica
a Deus. O testemunho Divino sempre foi atacado por Satanás, em cada
dispensação. Nesta dispensação da graça ele ataca a igreja do Deus vivo,
que é a coluna e firmeza da verdade — isto é, o monumento de testemunho à verdade de Deus. Para cada figura da igreja local no Novo Testamento (lavoura, templo, noiva, rebanho, etc.) existe um perigo de ataque
ou dano correspondente. Não somos ignorantes dos seus ardis, diz Paulo em II Coríntios 2:11. Pelo menos, tendo o Novo Testamento completo em nossas mãos, não deveríamos ser ignorantes. Mas infelizmente
temos de admitir que, algumas vezes, falhamos ao não reconhecer a obra
de Satanás pelo que ela é. Sutileza e fingimento são características da
obra satânica. Paulo avisou os coríntios desta sutileza satânica em corromper a sua simplicidade, comparando-a à tentativa de alguém seduzir
uma virgem desposada (II Co 11:1-4). Ele pode, também, se disfarçar
como anjo de luz para conseguir seus maus intentos (II Co 11:14).
Divisão interna causa turbulência na vida da igreja local, e somos advertidos sobre isto em Romanos 16:17-20. Notamos que aqueles que
causam divisões, e de quem devemos nos desviar, estão operando “contra a doutrina que aprendestes”. Não são aqueles que querem manter as
*
Este foi o título duma série de artigos desafiadores a ainda muito relevantes, escritos por W.
Bunting nos dois primeiros anos da revista Assembly Testimony (1952-53).
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 193
doutrinas apostólicas que causam divisões — mas os inovadores, dos
quais diz Paulo: “com suaves palavras e lisonjas enganam os corações
dos simples”. Mas a ação de Satanás, contrária à paz, está por trás de
tais situações. Assim, temos a promessa encorajadora: “e o Deus de paz
esmagará, em breve, Satanás debaixo dos vossos pés”.
Divisão é a marca da carne. Há três palavras diferentes usadas no
Novo Testamento para descrever a divisão entre os santos. Duas destas
palavras são bem conhecidas na nossa língua: heresia (hairesis) e cisma
(schisma). A terceira é dichostasia, que significa “rachar, ou dividir em
dois”.
Estas três palavras são usadas em relação à situação na igreja em
Corinto.
Hairesis indica escolher um tipo de ensino, e a palavra era usada
entre os judeus nos dias do Novo Testamento para descrever as várias
seitas do Judaísmo, por exemplo, fariseus, saduceus, etc. Junto com
dichostasia (traduzida “dissensões”) é chamada “obra da carne” em Gálatas 5:20. Schisma indica rasgar algo em pedaços*, como rasgar pano (Mt
9:16), a divisão entre os fariseus ( Jo 9:16), e também a divisão entre os
judeus, em geral, por causa do ministério do Senhor Jesus Cristo ( Jo
7:43; 10:19).†
A igreja em Corinto é um exemplo destes problemas. Havia a falta de harmonia que produziu contendas‡, ou dissensões, que inicialmente se manifestaram em facções, com grupos diferentes afirmando
sua lealdade a Paulo, Cefas ou Apolo, e outro grupo que se declarava
“de Cristo”, como se tivessem um direito especial de fazer isto. Dissensão é uma obra da carne (Gl 5:20), e, junto com divisões (dichostasia),
é sintomático da carnalidade (I Co 3:3). Dissensão era um problema
persistente em Corinto, pois quando Paulo escreveu novamente (II Co
12:20), ele mencionou as “porfias” (dissensões), como algo que justificaria a intervenção disciplinar apostólica. A divisão em Corinto não tinha
causado saída de irmãos da igreja, mas Paulo apelou: “rogo-vos, porém,
irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma
mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos
*
A mesma raiz é achada no verbo latino scindo-scindere-scissum, e aparece na palavra inglesa
scissors (tesoura).
†
Isso mostra que uma hairesis pode ser subdivida por uma schisma (os fariseus ficaram divididos
em Jo 9:36).
‡
Grego = eris.
194
A glória da igreja local
em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (I Co 1:10). A
divisão iria destruir o cuidado mútuo uns pelos outros que deve caracterizar a igreja local que representa o corpo de Cristo (I Co 12:25).
Em I Coríntios 11:18, as dissensões não eram por causa dos assuntos
mencionados nos caps. 1 e 3, mas entre os ricos e os pobres na hora da
Ceia do Senhor.
A única menção de heresias em Corinto é I Coríntios 11:19. Isso
também é uma obra da carne (Gl 5:20), e parece ser o resultado da dissensão.* O fato que haveria heresias futuramente é profetizado aqui, e
aconteceu mesmo (veja também II Pe 2:1). Isto levou a uma separação
da igreja, como João diz em I João 2:19: “Saíram de nós, mas não eram
de nós, porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que
se manifestasse que não são todos de nós”. Paulo também menciona
a expectativa de que os que causavam problemas na Galácia “fossem
cortados” das igrejas ali (Gl 5:12). Também em Judas v. 19 lemos sobre certos elementos problemáticos: “estes são os que causam divisões,
sensuais, que não têm o Espírito”. Paulo recebeu informação sobre os
problemas em Corinto através da casa de Cloé (I Co 1:11). Isso não foi
maledicência, mas semelhante à boa ação de José, que “trazia más notícias deles a seu pai”, em relação ao mau comportamento dos seus irmãos
(Gn 37:2). Paulo ocupava uma posição especial em relação à igreja em
Corinto. Em primeiro lugar ele foi o pioneiro que levou o Evangelho
até eles e plantou a igreja ali. Também ele, como apóstolo, tinha uma
responsabilidade especial perante o Senhor pelo progresso espiritual
deles nas coisas de Deus. E, além disso, havia a autoridade e a capacidade Divina especial (a vara†) que, se fosse necessário, ele deveria usar.
Tendo em vista o Tribunal de Cristo,‡ encontramos Paulo muito preocupado em como corrigir esta situação; era-lhe pessoalmente muito do*
Arthur Pridham escreveu: “Homens param de ficar em perfeita comunhão e gradativamente
se separam (schisma) por causa da falta do amor Divino e da atividade da vontade própria.
Eles se reúnem em seitas ou partidos pela operação de simpatias particulares; e, porque as
mentes dum poder e capacidade dominante muitas vezes são contaminadas pelo orgulho
que vai contra os limites da Escritura, aconteceu naturalmente que a palavra ‘heresia’, que
realmente significa ‘uma seleção’, veio a ser universalmente conhecida como a descrição
de ensino falso e anti-bíblico”. PRIDHAM, A. Notes and reflections on the First Epistle to the
Corinthians. London: Longmans & Co., 1860, p. 262.
†
I Co 4:21 — uma figura da sua autoridade Divina para os disciplinar. Veja também At 5:1-11.
‡
I Co 4:4-5 — “Pois quem me julga é o Senhor. Portanto, nada julgueis antes do tempo”. Veja
também II Co 13:5-7.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 195
loroso (II Co 2:4). Podíamos pensar que ele teria ido a Corinto naquele
tempo para resolver os problemas, pessoalmente. Mas ele sabia que isto
teria produzido mais infortúnios, e sendo que seu relacionamento era
mais como pai do que instrutor, ele os amava* e queria poupá-los dos
rigores de uma visita disciplinar, e assim resolveu usar outros meios que
produziriam o mesmo resultado positivo.†
Ele enviou Timóteo a Corinto‡ e pediu também que Apolo fosse,
mas ele não foi naquela ocasião (I Co 16:12). Mais importante para
nós, ele lhes escreveu uma epístola. Esta carta logo produziu resultados
positivos (II Co 7:11), mas outros assuntos exigiram a segunda epístola
aos Coríntios para que, na sabedoria de Deus, nós hoje tivéssemos duas
epístolas de grande valor sobre a doutrina e prática da igreja local. Este
valor serve ainda para todas as igrejas em todo lugar, como I Coríntios
1:2 indica: “… com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo”, e também I Coríntios 11:16: “Mas, se alguém
quiser ser contencioso,§ nós não temos tal costume, nem as igrejas de
Deus”. Que estes ensinos servem para todos os tempos é indicado pela
insistência de Paulo de que as coisas que ele escrevia eram “mandamentos do Senhor”, e que o reconhecimento deste ensino é a prova de
espiritualidade (II Co 14:37).¶
Timóteo e Tito tiveram ligações íntimas com a igreja m Corinto
durante este tempo, e sendo colegas de confiança (especialmente Timóteo) Paulo podia lhes delegar assuntos delicados e complicados. Podemos ter certeza que Timóteo nunca esqueceu a sua experiência em
Corinto. Muitos dos últimos conselhos que ele recebeu de Paulo em I e
II Timóteo o teriam relembrado das situações que passou em Corinto.
Contemplando o final da sua vida, Paulo sabia que Timóteo teria de
enfrentar todo tipo de problema, sem aquela autoridade especial que
o Apóstolo tinha. Sua autoridade viria somente através da Palavra de
*
I Co 4:15 “Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos
pais; porque eu pelo vos gerei em Jesus Cristo.
†
II Co 12:21; II Co 1:23; II Co 13:2.
‡
I Co 4:17; 16:10-11 — Timóteo iria lembrá-los “os meus caminhos em Cristo Jesus, como por
toda parte ensino em cada igreja”.
§
“Contensioso” — philoneikos, “quem ama disputar”, encontrado somente aqui, mas o substantivo é usado em Lc 22:24.
¶
II Pe 3:15-16 afirma que as Epístolas de Paulo são como o resto da Escritura — uma confirmação notável.
196
A glória da igreja local
Deus. Timóteo foi instruído a ensinar e identificar outros que viriam
depois dele, para que pudessem fielmente transmitir a Doutrina dos
Apóstolos também a outros (II Tm 2:2). As Sagradas Escrituras seriam
o seu recurso em dependência no Deus vivo (a quem a igreja pertence,
I Tm 3:15) e seu próprio exemplo piedoso lhes daria a autoridade para
guiar o povo de Deus.* Esta é a verdadeira “sucessão apostólica”, não
a sucessão episcopal mítica e mística do cristianismo. Consciente dos
problemas especiais que haveria em estabelecer uma transição efetiva
do período inicial, com a presença e o poder Apostólicos, vemos como
Paulo usou sabedoria providencial em aplicar seus métodos escolhidos
com Corinto, para que tivéssemos estas duas epístolas — que o próprio
Paulo chamou de “os mandamentos do Senhor”, e que eram (como todas as suas epístolas) reconhecidas explicitamente como tais pelo apóstolo Pedro (II Pe 3:16). O fato que Paulo enviou representantes como
Timóteo e Tito para lugares problemáticos também serviu para desenvolver a experiência pessoal deles, e sua dependência em Deus e na Sua
Palavra, em preparação para os dias depois da época dos apóstolos. O
discurso final de Paulo para os anciãos em Éfeso também mostra esta
ênfase. Para resolver os problemas futuros ele os recomenda a “Deus e
à palavra da Sua graça” (At 20:32). Nós temos exatamente o mesmo
recurso hoje. Um mesmo parecer, cuja falta era a raiz de muitos dos problemas em Corinto, é o grande preventivo da divisão e suas consequências. Paulo o coloca como prioridade no começo da primeira Epístola (I
Co 1:10), e termina a segunda Epístola enfatizando a sua necessidade:
“Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados,
sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será
convosco” (II Co 13:11). Assim, tudo que Paulo escreveu aos corintos
vem entre estas duas grandes exortações — ter o mesmo parecer. Com
certeza, isso é de grande importância hoje. Como podemos alcançá-lo?
Não pelos ajuntamentos sociais (que não funcionaram em Corinto),
nem por seguir personalidades dominantes; isto também foi experimentado sem sucesso em Corinto (veja II Co 11:13-20). O mesmo
parecer é gerado pelo mesmo amor para com o Senhor Jesus Cristo —
por isso temos a maldição final sobre aqueles que não amam ao Senhor
Jesus Cristo (I Co 16:22), e no estudo das Sagradas Escrituras se torna
evidente, através da obra do Espírito Santo, que “nós temos a mente de
*
I Tm 4:12 — compare também o conselho de Pedro para os anciãos em I Pe 5:3, para que
sejam ”exemplo ao rebanho”.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 197
Cristo” (I Co 2:16). Que possamos nos conformar a este alvo.
A perseguição externa de uma igreja de Deus pode surgir, e o tentador, Satanás, pode usar a tribulação para tentar desestabilizar a fé dos
santos. Foi isso que aconteceu em Tessalônica (I Ts 3:3-5). Em Esmirna, onde havia “a sinagoga de Satanás”, a perseguição é atribuída
diretamente ao Diabo: “Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão,
para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias” (Ap 2:811). Disto aprendemos que Satanás é a fonte da perseguição, e não os
meros humanos que parecem liderar o ataque; que a provação da fé dos
santos é um aspecto importante da perseguição, mas que Deus mantém
o controle total (os Tessalonicenses sabiam que “para isso fomos ordenados”, e o limite Divino da perseguição em Esmirna era “dez dias”), e
que a recompensa por fidelidade é grande — “dar-te-ei a coroa da vida”.
Os líderes entre o povo de Deus sempre foram um alvo especial de
Satanás em cada dispensação. Um exemplo disso, do Velho Testamento,
é o erro de Davi em contar o povo (I Cr 21:1). A liderança da igreja
local é feita por homens chamados “anciãos”, “bispos” e “pastores”. Estes
enfrentam perigos como “ensoberbecer-se”, especialmente em relação a
irmãos “neófitos”, e um ancião que não tem bom testemunho dos que
estão de fora pode cair em afronta, e no laço do diabo. Veja Atos 20:1735, I Timóteo 3:1-7 e Tito 1:6-9. A primeira parte de I Pedro 5 é usada
para encorajar os pastores das igrejas. Eles são exortados a evitar “ter
o domínio sobre a herança de Deus” e, junto com cristãos mais novos,
são aconselhados a serem sóbrios e vigilantes; “porque o diabo, vosso
adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem
possa tragar” (I Pe 5:1-9).
A vida familiar dos salvos também é um alvo de Satanás. O relacionamento conjugal é mencionado especificamente em I Coríntios 7, e a
função das irmãs em guiar o lar e criar os filhos é tratada em I Timóteo
5. Ambas estas áreas se encaixam no que é chamado hoje em dia de
“minha vida pessoal”, mas mesmo aqui pode haver um impacto adverso
sobre a igreja local se as normas bíblicas forem ignoradas, pois pode
dar a Satanás a oportunidade de obter uma vantagem sobre nós. A tendência atual do mundo de opor-se à Palavra de Deus em todo aspecto
do matrimônio e da vida familiar exige que os cristãos em todo lugar
se apeguem simples e fielmente às palavras sadias das Escrituras sobre
198
A glória da igreja local
estes assuntos. Se nós nos rendermos à doutrina errada nestes assuntos, por exemplo, por ensinar que é permissível que pessoas divorciadas
se casem enquanto o cônjuge original ainda vive, estamos nos aliando
aos ensinos liberais da maioria da cristandade, e trazendo para dentro da igreja pessoas cujas vidas são uma afronta para pessoas decentes
no mundo. A tolerância em permitir que o sofrimento pessoal causado
em tais casos influencie nossa interpretação da ordem do Senhor Jesus
Cristo e dos apóstolos pode parecer compassivo, mas não evita a censura, e realmente multiplica as “brechas” para que todo tipo de relacionamento irregular confuso seja “reconhecido” pelas igrejas. A igreja de
Deus não é governada por carta constitucional de “direitos humanos”.
É preocupante pensar que a legislação contra discriminação pode ser
usada hoje por pessoas mal intencionadas para litigar contra igrejas que
procuram manter o padrão de moralidade exigido pelas Escrituras. Casos recentes de cristãos sendo punidos por terem publicado referências
Bíblicas que testificam contra a homossexualidade predizem um futuro
turbulento para os cristãos, individualmente e como igrejas.
Elementos problemáticos nas igrejas
Falsos irmãos
As igrejas nos tempos do Novo Testamento tiveram problemas com
os desordeiros. Como isso aconteceu? Inicialmente, o temor do Senhor
era tal, devido à maneira soberana como Deus julgou Ananias e Safira,
que lemos que “dos outros … ninguém ousava ajuntar-se a eles” (At
5:13). Mas não demorou muito até Paulo avisar sobre os “falsos irmãos
que se intrometeram” (Gl 2:4). Isso indica que os que já eram membros da igreja foram enganados em relação a quem receberam. Estes
falsos irmãos são passivos, pois, foram recebidos, e também são ativos,
pois “secretamente entraram”; isto é, sabiam exatamente o que estavam
fazendo e tinha um alvo estratégico, que era “espiar a nossa liberdade,
que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão”. Eles estavam
dispostos a aprender os detalhes da doutrina cristã por motivos falsos
— colocar os cristãos em servidão. Este sempre é o caminho dos enganadores entre o povo de Deus. Os que queriam judaizar os gálatas não
tinham tempo para a liberdade cristã incorporada no glorioso Evangelho do bendito Deus, com sua clara proclamação sobre “o problema dos
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 199
homens e o poder de Deus”,* e a abolição de qualquer contribuição de
obras ou outro esforço humano que pudessem ser apresentados a Deus
para se obter a Sua justificação.
O perigo hoje continua o mesmo. A grande verdade liberadora do
Evangelho era a base da Reforma Protestante. Os conceitos chave foram Sola Scriptura, sola gratia, sola fide (“Só a Escritura, só pela graça, só
pela fé)†. Hoje, há muitas vozes entre o cristianismo que se distanciariam desta posição. Não são poucos os que deixam suas igrejas e agora
ocupam posições de liderança na assim chamada “Igreja Emergente”.
Lamentavelmente, existem em algumas igrejas locais aqueles que concordam com esta moderna, ou melhor, pós-moderna moda de abrandar,
ou até negar, estes aspectos básicos da verdade de Deus
No final do período apostólico, Judas avisa sobre alguns que “se
introduziram sorrateiramente” (v. 4). Ele os identifica, não pelas suas
filiações com grupos sectários que existiam naquele tempo, o que dificultaria identificá-los hoje, mas pelas suas características manifestas
pela luz da Palavra de Deus, para que sejam facilmente identificados
quando estudamos a história da Verdade de Deus e seus inimigos em
qualquer época da história das Escrituras.‡
Quando tais pessoas saem da igreja, frequentemente é um sinal de
que falharam na sua tentativa de fazer a igreja aceitar a sua agenda de
erro. Embora a sua saída possa ser amarga, é motivo de ações de graças,
como Paulo mesmo expressou em Gálatas 5:12: “Eu queria que fossem
cortados aqueles que vos andam inquietando”.§
Já mencionamos I João 2:19 e Judas 19, em relação a este assunto.
*“The plight of men and the power of God”. Este é o título dum excelente livro de Martin Lloyd
Jones sobre Romanos 1-3.
†
Eruditos posteriores da Reforma falam dos Cinco Solas, acrescentando Solo Christo e Soli Deo
Gloria (Somente por Cristo, e somente para a glória de Deus). As obras históricas de Merle
d´Aubigne sobre a Reforma ainda são uma introdução excelente. Veja também The Reformers
and the Theology of the Reformation, de William Cunningham — uma obra do Presbiterianismo
Escocês do século XIX que não está manchada pelo liberalismo moderno, e muito feliz em
suas análises teológicas sucintas.
‡
Mais do que um comentário sobre Judas é chamado “Os Atos dos Apóstatas” — que é um
bom título para esta Epístola que nos dá uma galeria divinamente inspirada de inimigos do
Evangelho, para que possamos nos prevenir. Nos caminhos do mal não há nada novo debaixo
do Sol.
§
O verbo na voz média [no grego] indica o desejo de Paulo de que os elementos problemáticos
tomassem a iniciativa em se separar dos salvos na Galácia.
200
A glória da igreja local
Falsos pastores
Mesmo entre as lideranças das igrejas do Novo Testamento, dificuldades foram preditas. Paulo adverte os anciãos de Éfeso, em Atos 20,
que o rebanho ali seria afligido pela entrada de “lobos cruéis”. Notemos
que estes homens foram também chamados “bispos”: “Olhai, pois, por
vós, e por todo o rebanho sobre o que o Espírito Santo vos constituiu
bispos” (At 20:28). Estes anciãos eram bispos, e também pastores. Esta
incumbência de “olhar pelo rebanho” é o trabalho dos pastores.
Pior ainda, ele os adverte sobre dificuldades surgindo do meio deles.
“E que entre vós mesmos”, isto é, dentre os anciãos/bispos, “se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos
após si”. Assim, na identificação de candidatos a anciãos/bispos, um
aviso específico é dado a Timóteo: “a ninguém imponhas precipitadamente as mãos”, pois pode haver o perigo de estar se associando com
homens indignos, cujos pecados “manifestam-se depois” (I Tm 5:22). É
notável que a igreja em Éfeso recebeu aprovação especial por ter cautela
em discernir e rejeitar falsos apóstolos, e em odiar as obras dos Nicolaítas (Ap 2:6). Claramente, eles estavam procurando seguir a advertência
de Paulo, dada em Atos 20 e nas epístolas a Timóteo, que seriam especialmente valorizadas em Éfeso, visto que Timóteo estava ali quando
Paulo lhe escreveu.
O fim do período do Novo Testamento nos dá um triste exemplo de como a advertência de Paulo, em Atos 20, se cumpriu numa
igreja não mencionada por nome. As condições descritas em III João
mostram uma igreja sofrendo por causa de um dominador, talvez até
ditador, chamado Diótrefes. Esta Epístola foi escrita como uma carta
pessoal a Gaio, para encorajá-lo e avisá-lo sobre uma possível visita,
e também para exortá-lo a não reagir àquela situação desleal, fazendo
algo indevido. Gaio precisava lembrar, como nós também precisamos,
que mesmo em circunstâncias frustrantes na igreja, os fins não justificam os meios. O apóstolo João já tinha escrito àquela igreja, mas a
carta foi rejeitada por Diótrefes, que não suportava os Apóstolos. Ele
não somente rejeitou João e outros apóstolos, mas também lançava fora
da igreja aqueles que queriam recebê-los, e proferia palavras maliciosas
contra estes honrados servos de Deus. Diótrefes promovia partidarismo
através de lealdade a si mesmo, e acrescentava a isso intimidação àqueles
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 201
que não concordavam com ele*. Parece que aquela igreja estava dividida,
com Diótrefes na frente duma facção chamada “eles”, enquanto Gaio
e Demétrio e outros são chamados de “nós” — por causa do seu apoio
fiel à doutrina e aos apóstolos. É muito interessante notar que nada é
dito a Gaio sobre como ele poderia interromper a carreira de Diótrefes.
Talvez João pudesse resolver a situação quando ele chegasse ali, mas não
há nenhuma ação prometida, a não ser “se eu for, trarei à memória as
obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas”(III Jo 10).
Gaio é elogiado por ter recebido e encorajado os verdadeiros servos de
Deus, assim se tornando “cooperador da verdade”, mesmo sabendo que
isto desagradaria Diótrefes (III Jo 8).
A tendência moderna
Aprendendo de J. N. Darby e os irmãos Newman
A infidelidade racionalista tem sido um dos principais inimigos da
verdade Bíblica desde os meados do século XVII. Sua ascensão à proeminência coincidiu com a redução na virulência do poder papal para
destruir a Reforma e extinguir a liberdade do Evangelho na Europa. É
interessante notar que no começo do século XIX, quando a verdade sobre a igreja local estava sendo revivificada, J. N. Darby achou necessário
escrever contra o modernismo do seu tempo. Seu livro The Irrationalism
of Infidelity foi uma resposta ao livro Phases of Faith† escrito pelo seu
ex-amigo, F. W. Newman, narrando como ele se tornara apóstata. J. N.
Darby também escreveu uma excelente análise crítica refutando o livro
Apologia pro vita sua de J. H. Newman. Esta obra de J. N. D. ainda é
de grande interesse, porque J. H. Newman ainda é muito popular no
*
Ephraim Venn escreveu um excelente esboço sobre esta Epístola que foi re-publicado na revista
Precious Seed em 1954, edições 5 e 6. Apareceu 50 anos antes disto na revista Witness, e
provavelmente foi escrito por causa das tendências à divisão entre as igrejas naquele tempo,
também mencionadas em outros artigos publicados na mesma revista naquele período.
†
F. W. Newman foi inicialmente muito influenciado por J. N. Darby, reuniu-se com os irmãos
e até viajou com A. N. Groves, Lord Congleton e outros na primeira jornada missionária
dos irmãos para Bagdad. Contudo, ele abandonou a fé e se tornou apóstata. “É notável que
depois de se tornar infiel, o sr. Newman conseguiu ter bom relacionamento com seu irmão [J.
H. Newman, que depois se tornou Cardeal Newman], um legítimo papista, mas não antes.
Isso prova algo que poucos querem acreditar. Também é um sinal dos tempos” (DARBY, J. N.
The Irrationalism of Infidelity, p. 125.
202
A glória da igreja local
Catolicismo Romano Ecumênico contemporâneo*. Com grande discernimento, décadas antes do seu tempo, J. N. D. notou o espírito de
cooperação que poderia existir entre a infidelidade racionalista e a idolatria Romana. Isto ainda existe hoje.
Além do Modernismo
Em 1957, W. Bunting avisou sobre a “confederação final” entre o
Modernismo e o Romanismo que estaria por trás da corrida ecumênica em direção ao surgimento do “Mistério, a Grande Babilônia”, e ele
destacou uma afirmação da American Association for the Advancement of
Atheism† sobre o Modernismo existente nas igrejas: “devemos reconhecer que, por muitos anos, falta somente um passo no caminho para o
Ateísmo”.‡ Cinquenta anos mais tarde, vemos o declínio do Modernismo e o desenvolvimento de uma nova atitude para com o cristianismo,
semi-romântica, subjetiva e irracional. Esta atitude pós-moderna está
no centro do novo fenômeno chamado de “Igreja Emergente”. Já chegou a hora de reconhecer que assim como a Cristandade Modernista
era um passo no caminho ao ateísmo, assim também a Cristandade pós-moderna é um passo no caminho ao paganismo, pois nega as reivindicações da verdade exclusiva das Escrituras Sagradas e aceita qualquer
forma de “espiritualidade”.§ A juventude cristã, e também os cristãos
mais velhos, estão expostos a estes ensinos nos livros e revistas cristãs
populares, e também através de grupos de música cristã que se especializam em promover formas contemporâneas de “adoração”. Sua “adoração”, com sua concupiscência licenciosa e enlevada, é mais parecida
ao culto ao bezerro de ouro¶ do que com o padrão Divino da adoração
*
J. H. Newman foi um dos líderes do movimento de aproximação dos Anglicanos com os
Romanos, conhecido como Oxford Movement. Ele fez uma profissão de fé em Cristo na sua
juventude, mas desviou mais e mais da verdade bíblica até chegar a ser Cardeal da Igreja
Romana. Ele ainda é lembrado pelas autoridades romanas por causa da influência profunda
que teve sobre os pensamentos do Segundo Concílio Vaticano, e agora está perto de ser
canonizado pelo Papa como “santo” .
†
Associação Americana para o Avanço do Ateísmo. (N. do E.)
‡
Assembly Testimony, 1957, Edição nº 30.
§ Veja CARSON, D. A. Becoming Conversant with the Emerging Church. Zondervan, 2005.
Também OAKLAND, Roger. Faith Undone. Lighthouse Trails, 2007.
¶
I Co 10:7: “O povo assentou-se a comer e beber, e levantou-se para folgar”.
Cap. 12 — A igreja local e seu conflito 203
sacerdotal que pertence à Casa de Deus*. Uma tendência preocupante é o declínio no interesse e no estudo sério da Palavra de Deus. Os
muitos “eventos cristãos” organizados não terão resultado proveitoso se
não estiverem focados na doutrina Bíblica. Divertimentos e edificação
não andam juntos. Grupos de cristãos que deixam de entender isto não
manterão a sua identidade como igrejas locais por muito tempo.
A igreja de Deus não é lugar para brincadeiras e divertimento. Contudo, a igreja dá muito mais prazer que as brincadeiras propostas pelo
movimento da “Igreja Emergente”. Nos dias depois do reavivamento de
1859, quando muitos se converteram e foram batizados e se reuniram
em igrejas locais, era comum ouvir expressões de grande alegria por terem o privilégio de se reunir com o povo de Deus de acordo com o Seu
padrão. Irmãos, agora bem idosos, ainda falam das impressões criadas
neles quando, ainda muito jovens, ouviram aqueles irmãos, agora falecidos, falar da sua profunda alegria e gozo por terem sido introduzidos
na Casa de Deus, e como isso lhes era precioso. Será que temos esta
alegria profunda por fazer parte de uma igreja local? Se não, devemos
perguntar: “Por que não?”.
Temos alegria por estar associados
com a casa de Deus?
A alegria está associada com a casa de Deus e com a comunhão dos
santos na Sua casa. Isso não é algum “Hedonismo Cristão” duvidoso
e místico,† como se tornou moda nos nossos dias, mas a reação apropriada de pessoas redimidas que chegam ao único lugar na Terra onde
o Senhor está no meio, isto é, a igreja local — “aí estou no meio deles”
(Mt 18:20). A igreja local é também chamada o Templo de Deus em I
Coríntios 3:16. O mais prestigioso de todos os títulos dados a Jerusalém
restaurada, em Ezequiel, é Jeová-Samá, que significa “O Senhor está
*
Existe agora em Belfast uma assim chamada “Escola de Louvor”, para promover a criatividade
artística e ensinar assuntos práticos (sistemas de som, iluminação, gravação, etc.) para usar
em eventos de “louvor”. Alguém duvidoso pode verificar a edição de Novembro de 2007 da
revista Life Times (Ambassador Productions Ltd, Belfast). Sem dúvida Nabucodonosor (Dn 3)
tinha uma “Escola de Louvor” para a sua “banda”, e “líderes de adoração” para coordenarem
o despertamento do povo na experiência de “louvor tremendo”.
†
Uma ideia contenciosa e enganadora propagada por J. Piper, um pastor Batista pro–carismático dos EUA, cujo livro principal sobre este assunto é Desiring God: Meditations of a Christian
Hedonist (1986).
204
A glória da igreja local
ali” (Ez 48:35). É por causa da presença do Senhor que a habitação de
Deus entre o Seu povo é um centro de alegria e contentamento. Isto
pressupõe um ajuntamento a Ele, separado de todas as influências estranhas e embaraços que podem contaminar e corromper. Contudo, esta
separação é o resultado da atração à pessoa do Salvador, não meramente
repulsa das coisas impuras. Ir à Casa de Deus era a razão de grande
alegria e contentamento para os santos do Velho Testamento; vemos
alguns exemplos disto em Salmos 42:2; 43:4; 122:1.
Nesta privilegiada dispensação da Graça, não é verdade que temos
ainda mais razão para regozijar quando nos lembramos da nossa vocação celestial e do nosso santo centro de reunião? Que sejamos gratos
por todas as bênçãos espirituais com que Deus nos tem abençoado em
Cristo Jesus, e procuremos nos conduzir na Sua casa de acordo com o
padrão revelado na Sua Palavra, para que os anjos que nos observam
possam aprender lições objetivas sobre a ordem Divina (I Co 11:10;
Ef 3:10), e para que até mesmo os incrédulos possam reconhecer que
“Deus está verdadeiramente entre vós” (I Co 14:25).
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
Por James M. Flanigan, Irlanda do Norte
É um fato bem conhecido que os caps. 2 e 3 do livro de Apocalipse
são compostos inteiramente de sete cartas escritas perto do final do século I a sete igrejas locais. As cartas são de Cristo, o Senhor das igrejas,
mas enviadas por intermédio de João, o apóstolo amado. Estas sete igrejas estavam todas localizadas na Ásia Menor, agora chamada Turquia,
e podemos aprender muitas lições delas, não apenas sobre o estado e
condição de cada uma destas igrejas, mas também da maneira e atitude
do Senhor Jesus para com elas, tanto em aprovação como em censura.
Há lições preciosas aqui sobre a centralidade, soberania e autoridade do Senhor no meio das igrejas. Há também ensino sobre a responsabilidade e ministério de cada igreja na sua localidade, e uma demonstração clara da autonomia de cada igreja local. No entanto, também é
importante observar a unidade que existe entre as igrejas, unidade sem
união, associação sem amalgamação, comunhão sem federação e interdependência sem interferência.
Cada uma destas igrejas locais era um castiçal de ouro brilhando
na sua localidade, mas era também desejável que brilhassem juntas para
a glória dAquele que andava no seu meio. Sendo verdadeiramente autônomas, cada igreja é responsável ao Senhor por qualquer falha que
possa haver no seu testemunho, e da mesma forma, o próprio Senhor
recomendará cordialmente o que Ele achar naquele testemunho para o
Seu prazer. Haverá censura daquilo que é errado, mas também haverá a
aprovação do que é recomendável.
Parece que há um princípio nestas cartas, um princípio que Paulo
também adotou nas suas cartas às igrejas, de sempre recomendar primeiro, se houver alguma coisa recomendável, e depois censurar. Quem
pensaria, depois de ler os primeiros versículos de I Coríntios, que haveria tantas coisas reprováveis naquela igreja? Eles eram uma igreja de
Deus; santificados em Cristo Jesus; chamados santos; em tudo enriquecidos; toda a palavra; todo conhecimento; o testemunho de Cristo foi
confirmado neles; nenhum dom lhes faltava; esperando a manifestação
de nosso Senhor Jesus Cristo; chamados para a comunhão de Seu Filho.
Como os coríntios eram ricos! E o apóstolo prontamente reconheceu
206
A glória da igreja local
tudo que tinham e eram. Contudo, havia divisão, doutrina falsa, imoralidade, orgulho, falha em julgar o pecado, e falta de ordem na Ceia do
Senhor. Paulo iria tratar de todos estes desvios, mas primeiro veio a sua
aprovação. Nisso há sabedoria, pois uma lembrança daquilo que somos
por meio de Cristo e do que nós temos nEle deve produzir pesar pelas
nossas falhas e estimular um desejo de melhorar.
Assim, será proveitoso considerar cada uma destas cartas às igrejas
na Ásia, notar as aprovações e censuras que cada uma recebeu, e com
sinceridade decidir qual mensagem pode ser apropriada à igreja onde
reunimos. Esta consideração trará a responsabilidade de reconhecer e
colocar em ordem o que for necessário. Como todos sabem, estas igrejas
estavam localizadas em Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia.
É interessante e importante observar que há uma expressão achada
em todas as cartas, independentemente da condição da igreja. A cada
igreja o Senhor diz: “conheço”, e a importância disso se tornará claro
durante a consideração de cada carta.
Éfeso: onde estava o primeiro amor? (Ap 2:1-7)
Havia muito a ser elogiado na igreja em Éfeso. O Senhor conhecia
e apreciava suas obras, seu trabalho, sua paciência. Eles não podiam, e
não iriam, tolerar homens maus, doutrina falsas ou práticas pecaminosas. Diferentemente dos coríntios, eles tinham a força moral e coragem
para julgar estas coisas, e isto faziam. Também tinham discernimento
para reconhecer os falsos apóstolos e prová-los mentirosos. Eles tinham
trabalhado fielmente no serviço do Senhor, e há um paradoxo interessante nas palavras empregadas. Sugere que tinham trabalhado até o
ponto de exaustão, mas não se cansaram: “trabalhaste … e não cansaste”
(v. 3). A palavra “trabalhar” usada pelo Senhor aqui (kopos no grego,
2872/3) indica fatiga, e até dor, mas eles tinham continuado a trabalhar,
e não desfaleceram. Era como se o seu trabalho não fosse considerado
por eles como trabalho, e tudo isso merecia a aprovação do Senhor a
quem serviam. Ele notou e apreciou o seu ministério fiel para Ele. A sua
paciência, mencionada duas vezes, pode indicar a sua alegre persistência
mesmo ao sofrer afrontas por Cristo.
Também enfrentaram os nicolaítas, que provavelmente eram homens arrogantes que dominavam os santos, como fazia Diótrefes nos
dias de João (III Jo v. 9). A igreja em Éfeso odiava as obras destas pes-
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
207
soas, e nisto recebeu a aprovação do Senhor, que também as odiava. Era
realmente uma evidência de espiritualidade o fato deles odiarem o que
o próprio Senhor odiava.
Feliz a igreja que tem tantas boas qualidades como a igreja em Éfeso tinha. O Senhor das igrejas nunca vai hesitar ou deixar de elogiar
tais igrejas. O nome Éfeso significa “desejável” e, de fato, tudo parecia
desejável naquela igreja. Haveria nesta igreja algo que necessitasse censura? Exteriormente, tudo estava em ordem, mas Aquele que diz “Eu
conheço” logo revela o que estava faltando no seu testemunho.
Há certa tristeza na palavra “porém”. O Senhor não está esquecido
de tudo que era bom naquela igreja, “porém”! Apesar das Suas palavras
de aprovação, havia algo faltando, que provavelmente muitos não teriam
notado. Eles tinham deixado o seu primeiro amor. Isto não se refere,
necessariamente, ao amor que tinham no começo da sua vida cristã,
embora muitas vezes o amor inicial de almas recém-salvas seja mais
fervoroso do que depois de passado algum tempo. A palavra “primeiro”
(protos no grego) é traduzida “melhor” em Lucas 15:22, e “principais” em
Lucas 19:47 e em diversos outros lugares no Novo Testamento. Assim,
mesmo que o seu amor no começo fosse mais intenso, a reclamação do
Senhor é que deixaram o amor de qualidade melhor. Anteriormente
eles O amavam mais, com um amor que Lhe dava prazer. Onde estava
aquele amor agora? Se os homens não pudessem reconhecer o que faltava, note agora a importância daquela Sua palavra: “conheço”.*
O abandono do seu primeiro amor é realmente solene. Foi uma
queda daquela afeição nupcial sobre a qual Paulo tinha escrito, anos
antes, em Efésios 5. Eles eram ortodoxos certamente, e ocupados no
Seu serviço, mas será que não é possível que estejamos ocupados de
uma forma mecânica, e não verdadeiramente motivados por amor pelo
Senhor Jesus?
Tal era a seriedade e tristeza da sua condição, que seria preciso um
arrependimento. Era necessário haver um autoexame do coração, e um
retorno àquele melhor amor pelo Salvador. Sua censura e Seu apelo
amoroso podem ser resumidos em três palavras: “Lembra! Arrepende!
Volta!” Tal arrependimento seria recompensado adequadamente, mas
*
Omitimos duas frases aqui na tradução, onde o autor comenta sobre a necessidade de desconsiderar a palavra somewhat no texto da AV, que foi acrescentada pelos tradutores. Como
ela não aparece nas versões em português, as duas frases são desnecessárias na tradução.
(N. do E.)
208
A glória da igreja local
se não acontecesse Ele poderia decidir removê-los como castiçal, e isto
de fato aconteceu literalmente em Éfeso, onde não há, hoje, uma igreja
local testemunhando dEle.
Que lições há aqui para nós nestes últimos dias. Que possamos
avaliar com franqueza e honestidade o quanto, ou o quão pouco, nós
O amamos. Que possamos nos esforçar fielmente para obtermos a Sua
aprovação, e procurar seriamente evitar qualquer condição ou prática
que justificaria a Sua censura.
Esmirna: sofrendo por Cristo (Ap 2:8-11)
A história desta igreja sofredora é descrita em quatro versículos em
Apocalipse 2, e na verdade o nome “Esmirna” somente é mencionado
duas vezes no Novo Testamento: Apocalipse 1:11 e 2:8. Tudo que sabemos sobre esta igreja encontramos nesta carta em Apocalipse 2, mas
obviamente é uma igreja muito preciosa ao Senhor. Era, de fato, um
castiçal de ouro!
Fiel ao Seu caráter bondoso, o Salvador não censura a igreja em
Esmirna. Não devemos pensar com isso que não havia nada errado, pois
não existe igreja perfeita, mas não era o tempo para correção. Precisavam de conforto e encorajamento. Se houvesse necessidade de correção,
isso poderia esperar por uma ocasião mais apropriada. Que exemplo
para quem ministra a Palavra para os salvos! Paulo fala da mansidão
e benignidade de Cristo (II Co 10:1), e embora o Senhor pudesse administrar correção em outras ocasiões, no entanto Ele é ternamente
judicioso na Sua maneira de lidar com os santos, e isso é muito evidente
na Sua atitude com Esmirna.
Todas as igrejas são preciosas a Ele, mas talvez uma preciosidade
especial seja indicada pelo nome “Esmirna”. A parte central desta palavra é a palavra para “mirra” — “Es - mir - na”. Mirra era um ingrediente
do óleo santo descrito em Êxodo 30, e era uma combinação de doçura
e amargura. Era doce ao olfato, mas amargo ao paladar. A igreja em
Esmirna estava provando a amargura do sofrimento, como também seu
Senhor antes dela, mas era-Lhe doce o fato deles estarem dispostos a
sofrer por Ele. Os sofrimentos deles eram-Lhe fragrantes como o óleo
da santa unção.
Nas Suas palavras iniciais a eles, o Senhor nem menciona as suas
obras, pois a palavra “obras” não se encontra no texto original. Sem dúvida Ele apreciava qualquer serviço feito para Ele, mas há algo ainda
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
209
mais precioso para Ele, e ele vai direto ao assunto, dizendo: “Conheço a
tua tribulação e a tua pobreza” (tradução de JND e outros). Note como
seus sofrimentos estavam vinculados à sua pobreza, e pode ser que a
tribulação que sofriam era a causa da sua pobreza, como foi o caso de
outros santos, sobre os quais está escrito que com alegria suportaram o
roubo dos seus bens (Hb 10:34). Na sua tribulação estavam sob pressão,
como uvas sendo espremidas na prensa. Este é o significado da palavra
“tribulação” no grego (thlipsis, 2346), e o próprio Salvador conheceu
esta angústia no Getsêmani, como também sabia o que era a pobreza.
A palavra aqui traduzida “pobreza” ocorre somente três vezes no Novo
Testamento (II Co 8:2; 8:8; Ap 2:9). É a palavra grega ptochei (4432), e
indica pobreza extrema até ao ponto de destituição ou miséria. Como os
salvos em Esmirna estavam dispostos a sofrer pelo seu Senhor!
Aqui, na carta a Esmirna, podemos ver, novamente, a importância
daquela pequena palavra: “conheço”. Mas será que há uma diferença
agora? Não é apenas o “conheço” da Onisciência, mas o “conheço” da
experiência. Aquele, por Quem estavam sofrendo, tinha passado pela
mesma tribulação e pobreza durante os dias da Sua carne. Assim, de
uma maneira muito carinhosa, Ele reconhece o seu sofrimento, e diz:
“Eu conheço”. Quão pobres eles eram, e Ele diz: “Eu conheço”. Quem
pode confortar os que estão sofrendo melhor do que Aquele que Ele
próprio provou o mesmo?
Como muitos outros santos que sofrem por Cristo, a perseguição
em Esmirna veio de pessoas religiosas. Havia em Esmirna homens blasfemos que professavam ser judeus, mas na realidade eram da sinagoga
de Satanás, o acusador dos santos. Foi desta mesma fonte que seu Senhor tinha padecido, e Ele os encoraja. Deveriam permanecer intrépidos e fiéis. Seu sofrimento seria limitado, porque Ele estava no controle.
Iria terminar, e eles receberiam a coroa da vida, dada aos vencedores por
Aquele que morreu, mas que agora estava vivo. Se seus sofrimentos os
levassem à morte, eles também viveriam, e assim na sua pobreza realmente eram ricos.
É difícil comentar sobre Esmirna sem mencionar o famoso e mui
estimado mártir Policarpo, que com certeza se reunia na igreja em Esmirna quando esta carta foi recebida e lida. Embora ele não é mencionado nas Escrituras, Policarpo era testemunha fiel e companheiro
íntimo do apóstolo João. Sendo um ensinador destacado na igreja, ele
foi especialmente perseguido pelos romanos, que foram instigados pe-
210
A glória da igreja local
los judeus da localidade. Como isso foi semelhante ao seu Senhor! Foi
na ocasião dos grandes jogos públicos, e a cidade estava lotada. O próprio dia foi preservado para nós; foi no sábado, dia 23 de Fevereiro de
155 a.D., quando houve o grande clamor: “Procurem Policarpo”. Ele se
entregou a eles, mas quando o desafiaram, vez após vez, a negar a Cristo
e declarar: “César é Senhor”, ele resolutamente recusou. Sua resposta
final a eles é bem conhecida e frequentemente citada: “Estes oitenta
e seis anos venho servindo a Cristo, e Ele nunca me fez nenhum mal.
Como posso blasfemar contra meu Rei?” Dizem que quando ele estava
sendo levado para o martírio, os que estavam perto dele ouviram uma
voz dizendo: “Policarpo, sê forte, seja homem!” Eles o amarraram a uma
estaca e fizeram uma fogueira, mas por um tempo o fogo recusou queimar, e foram ordenados a matá-lo com um punhal. Assim fizeram. Seu
corpo sem vida foi então queimado. Seus amigos queriam enterrar seus
restos enegrecidos pelo fogo, mas não lhes foi permitido. No final, conseguiram reaver seus ossos, e os sepultaram com reverência. A história
de Policarpo é importante porque é a história e o espírito da igreja em
Esmirna, e traz inspiração a cada igreja sofredora de Deus.
Não há repreensão ou censura aqui, mas a promessa de uma coroa
de vida pela sua fidelidade, e uma segurança eterna com Ele. Que exemplo e encorajamento para os santos hoje: “Sê fiel”! Muitos de nós nunca
teremos de sofrer aprisionamento, açoites, confisco dos bens, ou martírio, como muitos dos primeiros cristãos, mas devemos ser fieis Àquele a
quem amamos e evitar, a qualquer custo, aquelas coisas que Ele acharia
necessário censurar.
Pérgamo: o casamento impuro (Ap 2:12-17)
Se a carta a Esmirna nos entristece, a carta a Pérgamo também é
triste, mas por um motivo muito diferente. Quão sutilmente Satanás
muda a sua estratégia e suas táticas nos seus ataques ao testemunho dos
santos. Ele atacou Esmirna como um leão que ruge, mas parece que sua
violência somente fortaleceu a intrepidez daqueles santos. A Pérgamo
ele aparece como anjo de luz, oferecendo amizade e comunhão com
o mundo em redor. Solenemente, o Senhor Se aproxima desta igreja
com uma espada de dois fios para julgá-la, mas fiel ao Seu caráter, Ele
primeiramente procura algo que é recomendável. Mais uma vez, na Sua
onisciência, Ele diz: “conheço”, e Seu conhecimento é infalível.
Ele conhecia as obras dos santos em Pérgamo, e sabia que muitos
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
211
deles eram fiéis a Ele, mesmo que a cidade era uma verdadeira fortaleza
de Satanás, que tinha ali o seu trono. Havia templos, palácios e universidades do paganismo. Pérgamo foi chamada a Cidade Capital da
Corrupção. Era uma cidade de riqueza, moda e mistério, famosa pelo
seu conhecimento, requinte, medicina e ciência, e tinha uma biblioteca
pública com duzentos mil livros — somente Alexandria no Egito tinha
uma biblioteca maior. Satanás dominava o povo de Pérgamo, e assim era
muito recomendável que a igreja ali tinha guardado o Nome do Senhor
Jesus e não tinha negado a sua fé nEle. O fato que moravam onde Satanás tinha seu trono foi mencionado pelo Senhor como aprovação, e não
como censura, como alguns sugerem. Pérgamo era o seu lar, e ali eles
precisavam dar testemunho do seu Salvador. Como o amado Policarpo
em Esmirna, eles tinham recusado dizer: “César é Senhor”, e tinham
mantido sua lealdade a Cristo, dizendo “Jesus é Senhor”. A fidelidade
dos santos era ainda mais recomendável porque tinham permanecido
leais a Cristo, mesmo nos dias do martírio de testemunhas fiéis como
Antipas, no seu próprio meio.
Em seguida temos o triste “mas”. O Senhor tinha que censurar algumas coisas. Havia entre eles alguns que seguiam a doutrina de Balaão,
que, embora não conseguiu amaldiçoar o povo de Deus, aconselhou
Balaque a levar os homens de Israel a se unirem, de modo profano, com
as filhas de Moabe. O resultado foi a adoração idólatra de Baal e a praga
do Senhor, na qual morreram vinte e quatro mil israelitas (Nm 25:1-9).
Lamentavelmente, a igreja em Pérgamo estava tolerando alguns que
igualmente tinham tal contato com o mundo ao seu redor.
Também, diferentemente de Éfeso, onde os santos não toleravam
as obras dos nicolaítas, aqui em Pérgamo estas obras tinham sido toleradas, e agora estavam sendo ensinadas como doutrina, junto com a
doutrina de Balaão. Era uma mistura com o mundo e seus caminhos, e
um enfraquecimento da linha de separação entre o povo de Deus e os
pagãos ao seu redor.
Era necessário tratar destes ensinadores do erro, e novamente, como
em Éfeso, o Senhor os convoca a se arrependerem por terem tolerado
este mal no seu meio. Ele os lembra da espada de dois fios que empunha, e os avisa que se não houver arrependimento, Ele chegará depressa
e usará Sua espada contra os que ensinam a falsa doutrina. Repare que
Ele não diz “batalharei contra vós”, mas “batalharei contra eles” (2:16).
Sua contenda era contra os seguidores de Balaão e os nicolaítas, mas
212
A glória da igreja local
Sua reclamação era contra a igreja, por tê-los tolerado. Como o Senhor
iria administrar o Seu julgamento não é explicado, mas era um aviso
que não deveria ser ignorado. Poderia até ser um juízo físico. Talvez
eles lembrassem que o anjo do Senhor, com a espada desembainhada,
tinha confrontado Balaão na sua missão ímpia, e que no final o próprio
Balaão foi morto pela espada (Nm 22:23, 31:8). Foi uma advertência
muito solene, mostrando que mesmo havendo coisas recomendáveis na
igreja, eles não deveriam ficar complacentes, pois havia coisas que o Senhor precisou censurar. Complacência nunca é bom. Precisamos sempre
estar vigilantes, sempre atentos aos perigos visíveis e invisíveis.
Tiatira: as profundezas de Satanás (Ap 2:18-29)
Aquele que diz: “Eu conheço”, agora revela o que Ele conhece sobre os santos em Tiatira. Havia muitas coisas louváveis, e novamente
poderíamos pensar que não havia nada que merecesse censura. Quantas
coisas boas podem, às vezes, existir ao lado daquilo que é positivamente
mal! Ele conhecia as suas obras, seu amor, seu serviço, sua fé, sua paciência, e que as suas últimas obras eram mais que as primeiras. Realmente
houve um aumento no seu trabalho para Ele, e o Senhor reconhece e
recomenda tudo que eram, e tudo que estavam fazendo para Ele.
Em Tiatira havia amor, tanto para Cristo como uns pelos outros, e
onde este amor for evidente numa igreja local, Ele sempre o aprovará.
Seu serviço também, seu ministério, foi, como seu amor, para Ele e uns
pelos outros. Não tinham vacilado na sua fé. Havia constância na sua
confiança nEle, e com paciência suportavam, perseverando com um firme e contínuo testemunho para Ele. Todas estas virtudes o Senhor em
graça reconhece e elogia, e, mais uma vez, menciona a natureza copiosa
das suas obras.
Em seguida temos o triste “mas”. É a mesma palavra traduzida “porém” na carta a Éfeso (2:4) e “mas” na carta a Pérgamo (2:14). Havia
tantas coisas boas em Tiatira, mas isso não anulava a necessidade de
censura. Quem escreve a eles é o Filho de Deus, e na Sua onisciência
divina Ele tem olhos como chama de fogo, que podem discernir aquilo que o homem não pode ver. Nada pode ser escondido dEle. Seus
pés, também, são como bronze polido, símbolos de atividade em juízo,
quando este for necessário. Ele tem o conhecimento e autoridade para
isso.
A acusação do Senhor contra eles foi que estavam tolerando a in-
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
213
fluência má de uma mulher, “Jezabel”, no seu meio. Exatamente quem
era esta mulher, ou se este era o seu verdadeiro nome, não se sabe, mas
ela tinha o caráter da Jezabel do Velho Testamento. Aquela Jezabel era a
esposa do rei Acabe e a filha de Etbaal, rei de Tiro e Sidom (I Rs 16:31).
Ela era uma mulher má e sem princípios, que corrompeu Israel ao introduzir a adoração a Baal ao lado da adoração a Jeová, com a intenção,
sem dúvida, de que com o tempo, este sistema idólatra substituiria completamente a adoração a Jeová. Jezabel era uma idólatra, perseguidora,
ladra, assassina, mentirosa e hipócrita; sua intenção era seduzir o povo
de Deus e destruir o seu testemunho para Ele.
Jezabel em Tiatira era, semelhantemente, uma mulher de personalidade dominante. Alguns acham que ela era esposa de um dos líderes
da igreja. Bem pode ser que sim. Se a prostituição promovida por ela
era imoralidade literal, ou comunhão com adoradores de demônios ou
idolatras, não faz muita diferença. Era mau; era terrível que tal mulher
fosse tolerada na igreja. De que valia tudo o que o Senhor elogiara se
o bom nome da igreja e a vida dos santos estavam sendo lentamente
corrompidos pela influência má desta mulher perversa? Era um grande
erro tolerá-la.
Ela estava ensinando também! Era totalmente errado que uma mulher ensinasse na igreja, mas esta mulher, fingindo ser profetisa, estava
ensinando grave erro. Como ela chegou a isso? Foi sua personalidade
dominante? Ou foi pela sua sutil e enganosa maneira de apelar à carne? De qualquer forma, alguns estavam sendo influenciados pela sua
presença, e a igreja estava cometendo um grande erro em tolerá-la. Entretanto, parece ser um princípio que, se o povo de Deus não julga o
pecado no seu meio, então o Senhor mesmo julgará. Isso aconteceu em
Corinto, e o resultado foi que muitos estavam fracos e alguns tinham
morrido (I Co 11:30). Se não houvesse arrependimento, o Senhor julgaria essa mulher e seus filhos, aqueles que ela tinha produzido pelos
seus ensinos falsos. Seu julgamento serviria como uma lição para os
outros, e assim todas as igrejas saberiam que seu Senhor era verdadeiramente onisciente, esquadrinhando os corações e testando os motivos
de todos os homens.
Esta cumplicidade com a idolatria e a imoralidade era uma condição muito triste e solene em Tiatira. Tais práticas eram realmente
“as profundezas de Satanás”. Mas havia um remanescente em Tiatira,
aqueles que não tinham sido influenciados pelo mal. Estes deveriam
214
A glória da igreja local
apegar-se firmemente à verdade até a vinda do Senhor (v. 25). Parece
que temos, aqui, a primeira referência ao Arrebatamento nestas cartas,
e que grande incentivo! O Senhor estava vindo, e enquanto O esperavam, deveriam ser leais e fiéis a Ele, apegando-se com firmeza ao que
sabiam ser verdade. A mesma exortação vem a nós hoje. Quando Ele
vier, Ele julgará o mal e os ímpios, e vindicará aqueles que, no meio da
iniquidade, permaneceram fiéis a Ele. Devemos nos esforçar para que
possamos receber a Sua aprovação, e devemos evitar e temer tudo que
possa causar a Sua censura.
Sardes: profissão sem vida (Ap 3:1-6)
Quase não havia nada que merecesse a aprovação do Senhor na
igreja em Sardes. O Senhor conhecia as suas obras, e Ele sabia que
ainda restavam alguns na igreja que tinham se mantido incontaminados. Ele não menciona os detalhes das obras, mas simplesmente diz:
“Conheço as tuas obras”. Talvez esta forma indeterminada de expressão
os faria pensar: “Quais as obras que Ele conhece? O que realmente há
para saber? O que temos feito para Ele?” Se Ele dissesse à nossa igreja
local: “Eu conheço as tuas obras”, será que não examinaríamos o nosso
trabalho e procuraríamos avaliar, de maneira honesta, exatamente o que
temos feito para Ele?
Uma coisa Ele sabia, suas obras não eram perfeitas, eram incompletas, não chegavam ao padrão desejado. O comentarista Adam Clarke
discerne bem a situação quando escreve:
Eles começavam muitas atividades, mas não completavam nenhuma
delas. Estavam sempre começando, mas nunca terminavam nada.
Suas decisões eram débeis, sua força fraca, e sua luz ofuscada. Provavelmente mantinham sua reputação perante os homens, mas suas
obras não eram perfeitas perante Deus.
Havia pregação sem poder? Formalidade externa? Uma aparência
de verdade, que não afetava a vida e o testemunho dos membros da
igreja?
Talvez o que piorava a condição das coisas em Sardes é que havia
recursos infinitos à sua disposição, e não havia desculpa para sua esterilidade aparente. Aquele que lhes escreveu tinha os sete espíritos de
Deus e as sete estrelas; Ele possuía a plenitude do poder espiritual, e
Ele tinha também o controle soberano dos Seus servos. Se tivessem
aproveitado tudo que Ele era, as coisas teriam sido tão diferentes em
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
215
Sardes. Que lições importantes para as igrejas hoje!
Esses santos tinham um nome, uma reputação de que viviam, mas
era somente um nome, porque quanto ao testemunho efetivo, estavam
mortos. Era uma profissão sem vida, e havia pouco que realmente merecia aprovação na igreja. Os poucos indivíduos na igreja que tinham
permanecido fiéis ao Senhor não seriam esquecidos. De bom grado Ele
aprovará e encorajará estes, mas exortará a igreja a coisas melhores.
Eles precisavam ser vigilantes. Precisavam vigiar seus pensamentos
e palavras, suas afeições e ações. Eles tinham sido apáticos. Eles tinham
sido descuidados e desatentos, como quem dorme. Era necessário que
acordassem e fortalecessem os princípios de boa confissão que ainda
restavam, para que esses também não morressem. Uma recuperação
pode ser conseguida em qualquer igreja pelo reavivamento do interesse
no Evangelho, e atenção ao ministério sadio da Palavra de Deus. Esta
atividade estabeleceria aqueles que talvez estivessem vacilando, e fortaleceria o testemunho debilitado.
O Senhor os encoraja a lembrar de como no início tinham recebido
a mensagem de perdão e paz. Deveriam chamar à mente o gozo e zelo
daqueles dias quando ouviram as boas novas pela primeira vez. A lembrança da alegria daqueles dias certamente produziria arrependimento
da presente condição apática, e os faria apegar-se firmemente ao que
tinham, e voltarem novamente àquela alegria anterior.
A alternativa era triste e muito solene. Se não se arrependessem, o
Senhor viria sobre eles inesperadamente e repentinamente, como um
ladrão. Esta vinda não é a Sua vinda aos ares para buscar os Seus santos.
É a Sua vinda sobre eles. É a vinda em juízo judicial e governamental
sobre a igreja, e é muito solene que o Senhor usa, aqui, a mesma metáfora que usou nos dias do Seu ministério, quando Ele ensinava sobre a
rapidez da Sua vinda em poder e glória, como o Filho de Homem, para
julgar as nações. “Sabei, porém, isto: se o pai de família soubesse a que
hora havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa”
(Lc 12:39). Exatamente como Ele viria sobre Sardes não é explicado,
mas até esta falta de clareza sobre a natureza do juízo anunciado deveria
ter acordado os santos da sua letargia. A sua falha em não se arrepender
bem poderia causar a remoção do seu castiçal.
Mas, com já mencionamos resumidamente, havia alguns poucos em
Sardes que tinham agradado ao seu Senhor. Que lindo tributo Ele lhes
presta quando diz que estas pessoas “são dignas”! Ele apreciava a sua
216
A glória da igreja local
fidelidade a Ele. Ele os recomenda, e promete uma gloriosa recompensa
quando os seus dias de peregrinação e testemunho chegarem ao fim.
Eles não contaminaram as suas vestes, tinham-nas mantido brancas e,
um dia, andariam de branco com Aquele cujas vestes ficaram brancas
e resplandecentes no Monte da Transfiguração. Como teria sido bom
se a aprovação dos poucos pudesse ter sido de toda a igreja, mas lamentavelmente não era assim na igreja em Sardes. Havia somente um
remanescente.
Precisamos perguntar, humildemente e com sinceridade, se há alguma coisa que receberia a aprovação do Senhor na igreja onde nos reunimos, ou há somente, como Ele diz, “alguns nomes”? Se pudéssemos,
com toda a honestidade, avaliar a nossa condição, e então reconhecer
que os mesmos recursos que estavam disponíveis a Sardes também estão disponíveis a nós, as coisas poderiam mudar. Poderia haver um reavivamento da nossa afeição e da nossa atividade para Ele, e uma decisão
de viver para o Seu agrado.
Filadélfia: amor fraternal (Ap 3:7-13)
Se, na igreja em Sardes, havia falta de aprovação, aqui na igreja em
Filadélfia não há nada para censurar. Talvez, como notamos no caso de
Esmirna, seria melhor dizer que se houvesse algo para corrigir, este não
era o momento apropriado, e assim o Senhor, em graça, não menciona
nenhuma falha.
A carta começa com a bem conhecida palavra, “conheço”. O Salvador conhecia as suas obras, e Ele conhecia também a sua fraqueza. Tinham pouca força. Isso pode indicar que eram poucos em número, mas
é mais provável que significa que, em comparação com a sociedade poderosa dos pagãos no meio da qual moravam, eles eram um grupo pobre
e desprezado. O Senhor, em graça, observa este fato, e lhes dá uma porta
aberta de oportunidade para trabalho que ninguém pode fechar. Ele
estava do seu lado! Aquele que lhes escrevia era santo e verdadeiro, e
Ele tinha a chave de Davi. Santidade e verdade O caracterizavam, e Ele
desejava o mesmo dos Seus santos. Ele era Soberano também, e naquela
soberania Ele podia determinar as circunstâncias para o Seu povo obediente. Ele abrirá um caminho para eles no seu testemunho para Ele, e
Ele reconhece quão fiéis estes santos tem sido.
O nome Filadélfia significa “amor fraternal”, e foi neste espírito de
amor que tinham guardado a Sua Palavra. Tinham sido obedientes à
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
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Sua vontade. Eles não tinham negado o Seu Nome. Eles tinham sido
leais à Sua Pessoa. Aparentemente, tinham provado a oposição dos judeus locais que eram, no seu ódio contra Cristo, somente uma sinagoga
de Satanás, assim como aqueles em Esmirna (2:9). O Senhor mesmo
iria julgá-los no tempo certo, e fazê-los saber que Ele amava aqueles
que O amavam.
Até então, eles deveriam continuar com a mesma perseverança e
paciência que já os tinha caracterizado. Na sua fraqueza eles tinham
perseverado em obediência constante à Palavra de Cristo, e por isso Ele
os elogia e lhes dá a promessa de que os guardará em cada provação.
Para o seu encorajamento, Ele os lembra de que Ele está vindo sem
demora! Como Ele exortou a igreja em Tiatira, agora Ele exorta Filadélfia: “guarda o que tens” (2:25; 3:11). Um dia eles receberiam a coroa
do vencedor, e eles deveriam guardar o que tinham com zelo. Se esta
coroa pode ser, como alguns pensam, a coroa do testemunho presente,
então a exortação ainda é importante; eles deveriam manter cuidadosamente o que tinham para a Sua glória. O Salvador recompensaria a
sua fidelidade e firmeza, e um dia seriam colunas no Templo, inscritos
com Seu Nome na Cidade de Deus. Como Jaquim e Boaz, as colunas
na entrada do Templo de Salomão (II Cr 3:17), eles teriam um lugar de
proeminência na Nova Jerusalém. Havia um dia vindouro de glória para
o vencedor, e da sua presente fraqueza os santos em Filadélfia podiam
aguardar aquele dia com alegria.
Quão feliz a igreja que tem a Sua aprovação, Seu encorajamento e
Sua promessa de recompensa, sem nenhuma censura. Que nós também
possamos antecipar o dia da Sua volta, vivendo diariamente na esperança da Sua vinda e com a perspectiva de glória com Ele para sempre.
Esta antecipação fortalecerá o nosso fraco esforço, e nos capacitará a
servi-Lo fielmente.
Laodicéia: nem frio nem quente (Ap 3:14-22)
O nome Laodicéia tem se tornado sinônimo de tepidez. Das sete
igrejas mencionadas em Apocalipse 2 e 3, somente Éfeso e Laodicéia
são mencionadas em outro lugar no Novo Testamento, e encontramos
uma observação interessante na Epístola aos Colossenses, onde Paulo
escreve: “E quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodicéia lede-a
vós também” (Cl 4:16). Muitas das epístolas de Paulo eram cartas gerais,
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A glória da igreja local
e assim é bem possível que a carta que os colossenses iriam receber de
Laodicéia fosse a epístola aos Efésios, que tinha sido enviada a Laodicéia para ser lida na igreja, e que eles deveriam também receber a
epístola que foi escrita aos Colossenses. Se tivessem prestado atenção
a estas duas cartas, Efésios e Colossenses, será que não teriam evitado
a sua condição nauseante e morna? E não seria o mesmo aplicável às
igrejas do presente? A ocupação com o Cristo destas duas epístolas e
o zelo pela Sua glória certamente seriam o antídoto para as condições
de descuido existentes em Laodicéia. Notamos também a preocupação
que Paulo expressou por Laodicéia, em Colossenses 2:1-2: “Quero que
saibais quão grande combate tenho por vós, e pelos que estão em Laodicéia … para que seus corações sejam consolados, e estejam unidos em
amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência”. Ó que seus corações
tivessem respondido a este desejo do apóstolo!
Que censura imediata para os laodicenses, saber que Aquele que
falava com eles era “a testemunha fiel e verdadeira”! Ele tinha vivido no
mesmo mundo que eles, mas durante os anos da Sua permanência aqui
Ele havia sido o “Amém” a tudo que Deus falara e desejara, imutável na
Sua fidelidade e lealdade ao Deus da verdade a quem Ele servia. A Sua
vida e testemunho deveria ter sido um incentivo e exemplo para eles,
mas ao invés disto seria uma censura, ao compararem o seu próprio
testemunho com o do Senhor.
Havia algo que o Senhor podia aprovar nesta igreja? Ele diz que
conhecia as suas obras, mas Ele não as especifica, e concluímos que tudo
que faziam era sem entusiasmo. Não eram nem frios nem quentes, e
ambas estas palavras são interessantes. A primeira indica que não eram
frios como uma água bem gelada, mas a segunda significa que não eram
ardentemente quentes. Eram mornos, tépidos, nem uma coisa nem outra, e sua condição era tão nauseante que o Senhor ameaça vomitá-los
da Sua boca. A palavra “vomitar” (emeo no grego, 1692) é usada somente
aqui no Novo Testamento. É a palavra de onde vem a nossa palavra
“emético”. A condição deles era repugnante, profissão sem convicção,
serviço sem zelo, complacência que era equivalente à duplicidade. Havia
formalidade, autoconfiança, letargia espiritual, e como um cata-vento
eles podiam mudar com o vento predominante, para qualquer direção.
Os laodicenses se orgulhavam da sua riqueza, mas não sabiam que
de fato eram pobres. Será que a própria bênção material causou esta
independência e orgulho? Diziam que não precisavam de nada, e na
Cap. 13 — A igreja local e sua aprovação
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sua vaidade não reconheceram que sua necessidade era realmente muito
grande. Havia uma triste mistura de ignorância e arrogância nesta afirmação de que nada lhes faltava. Aos olhos do Senhor eram patéticos.
Eram dignos de dó. Era uma condição deplorável, e eles estavam cegos quanto à sua condição. Moralmente, também estavam nus, quando
deveriam estar vestidos com a beleza da santidade e vestes de pureza,
como os santos em Sardes que não se contaminaram com o mundo
(3:4).
Não foi por falta de provisão para eles, porque tudo que precisavam estava em Cristo. Ele tinha riquezas para a sua pobreza. Ele tinha
colírio para a sua cegueira. Ele tinha vestes brancas para cobrir a sua
vergonha. Ele tinha tudo que lhes faltava, se somente reconhecessem
esta necessidade e se voltassem a Ele.
Assim o Senhor os aconselhou, e depois Ele faz um apelo, mas
este Seu apelo é para o santo individualmente que está pronto a ouvir:
“Se alguém ouvir a minha voz”. Isso não significa que chegará o tempo
quando o testemunho coletivo da igreja será substituído por um testemunho individual, como alguns sugerem, mas o apelo do Salvador
é para o indivíduo na igreja, para que ele possa ajudar na restauração
espiritual da igreja, pela sua influência piedosa. Para este coração devoto
o Senhor promete doce comunhão agora e, no futuro, participação com
Ele na glória do Seu reino. Lamentavelmente, parece que não houve
a restauração da igreja em Laodicéia, porque, até onde sabemos, não
existe hoje nada para Deus nas ruinas da cidade que antigamente foi
a rica e próspera cidade de Laodicéia, agora chamada Eski Hissar, “o
velho castelo”.
É extremamente tocante achar o Senhor com paciência e graça batendo na porta da Sua igreja. Parece que não havia nada que Ele podia
aprovar nesta igreja. Pelo contrário, havia muito para censurar. No entanto, Ele ainda procura um lugar no seu meio. Como está a igreja onde
nós nos reunimos?
Resumo: censura ou aprovação?
Com que grande sabedoria divina estas sete igrejas foram selecionadas para o nosso ensino! As cartas a eles estão repletas de lições para
nós. Estão cheias de advertências e encorajamentos, de instruções e
direção para o nosso testemunho. O pobre mundo em que vivemos é
escuro e tenebroso. Precisa da luz que estes castiçais podem dar, mas
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A glória da igreja local
há muito que pode obscurecer esta luz e trazer a censura do Senhor.
Quando o Salvador esteve aqui no mundo Ele disse: “Enquanto estou
no mundo, sou a luz do mundo” ( Jo 9:5). Ele não está mais no mundo,
mas diz ao Seu povo: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5:14). Na Sua
última noite na Terra Ele orou: “E eu já não estou mais no mundo, mas
eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome
aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” ( Jo 17:11).
Ele nos deixou aqui para que possamos, em alguma medida, continuar
o ministério que Ele começou, trazendo luz para um mundo em trevas;
e Sua oração é que possamos ser preservados neste ministério.
Individualmente precisamos brilhar como luzes no mundo (Fp
2:15), mas também é a Sua vontade explícita, e o padrão bíblico, que
cada um de nós façamos parte de um grupo local, reunido em Seu
Nome e brilhando para Ele em testemunho coletivo. Cada castiçal de
ouro, precioso a Ele, tem o privilégio e a responsabilidade de manter
esta luz, e a ambição de cada um de nós deve ser brilhar para que tenhamos a aprovação do Senhor. Que possamos evitar tudo, e qualquer coisa,
que enfraqueceria esta luz e motivasse a Sua reprovação. As igrejas de
fato são “a glória de Cristo” (II Co 8:23).

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