Vitório Sens - Meu Irmão, por Nelson Sens

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Vitório Sens - Meu Irmão, por Nelson Sens
Estado de Santa Catarina
Município de Ituporanga - SC
Família Jacob Mathias Sens
Nelson Sens
Vitório Sens – meu irmão
Ituporanga - SC
2012
Vitorio Sens meu irmao-Rev05.doc
NELSON SENS
Vitório Sens – meu Irmão
Relatos de contos familiares repassados verbalmente aos
sobrinhos, por ocasião das festividades do Centenário da
Colonização de Ituporanga, estado de Santa Catarina, Brasil.
Relator: Márcio Antônio Sens
Niterói - RJ
2012
Vitorio Sens meu irmao-Rev05.doc
VITÓRIO SENS - MEU IRMÃO
por Nelson Sens (Nelo)
Centenário da Colonização
Palhoça – SC – 1912 – 2012 – Ituporanga – SC
Vitorio Sens meu irmao-Rev05.doc
SUMÁRIO
1
Introdução ............................................................................................................................................6
2
Vitório Era Fraquinho ...........................................................................................................................8
3
Vitório Era um Líder Nato .....................................................................................................................8
4
Estudos das Primeiras Letras ................................................................................................................9
5
Atividades Profissionais do Vitório .....................................................................................................10
5.1
Lida com Madeira para Serrarias – Bela Vista ...........................................................................10
5.2
Cargas Pesadas – Bela Vista .......................................................................................................11
5.3
Carpintaria e o Salão Sete de Setembro ....................................................................................12
5.4
Marcenaria – Fabricação de Bochas em Angico ........................................................................13
5.5
Construção de Casas ..................................................................................................................14
5.6
Técnico em Eletrônica – Rádio a Baterias ..................................................................................14
5.7
Contabilidade da Estância Jacob Sens – Guarda-Livros .............................................................16
5.8
Barbeiro .....................................................................................................................................17
5.9
Construtor ..................................................................................................................................17
5.10
Tropeiro – Gado de São Joaquim para a Charqueada ...............................................................17
5.11
Madeireiro – Jaraguá do Sul ......................................................................................................18
5.12
Cartório – Colaborava com o Escrivão .......................................................................................19
5.13
Construtor da Ponte Pênsil ........................................................................................................20
5.14
Iapetc – Paglioli Quem Arranjou para Vitório. ...........................................................................21
5.15
Consultor da Família ..................................................................................................................22
5.16
Cadeira para o Papai ..................................................................................................................22
5.17
Lavoura de Fumo e Arroz ...........................................................................................................23
5.18
Lavoura de Tomate ....................................................................................................................23
5.19
Pintos e Frangos .........................................................................................................................23
6
Conclusão ...........................................................................................................................................24
7
Referências Bibliográficas ...................................................................................................................25
Vitorio Sens meu irmao-Rev05.doc
Tabela e Figuras
Tabela 1 – Família Jacob M. Sens em Números e Datas ...............................................................................6
Figura 1 – Família Jacob Mathias Sens e Cecília Clasen [ 6 ]
7
Figura 2 – Foto do Casamento de Vitório com Carmen Neves de Sá
8
Figura 3 – Padre Augusto Schwirling (1872 – 1961) [ 1 ];[ 2 ]
9
Figura 4 – Fotografia de um Carretão com Juntas de Boi
10
Figura 5 – Sete Juntas de Boi Puxando uma Tora [ 5 ]
11
Figura 6 – Locomóvel Típica, para Geração de Luz e Força
11
Figura 7 – Foto do Salão Mostrando o Nelo e Vitório no Alto
13
Figura 8 – Esquema Elétrico do Carregador de Baterias
15
Figura 9 – Antena de Rádio Vitório Sens
16
Figura 10 – Esta Cerca de estaquetas Espeta
17
Figura 11 – Anopheles o Mosquito Transmissor da Malária Ou da Sezão
18
Figura 12 – Transporte Típico de Madeira em Caminhão
19
Figura 13 – Madeireira Típica da Época
19
Figura 14 – Ponte Pênsil de Ituporanga – SC
21
Figura 15 – Cadeira de Vime com Rodas
22
Figura 16 – Nelson Sens – Filho de Jacob Mathias, no Centenário da Colonização de Ituporanga – SC
24
Vitorio Sens meu irmao-Rev05.doc
Vitório Sens – meu Irmão
1 Introdução
Eu sou Nelson Sens, mais conhecido por Nelo Sens, nasci em 1932 em Salto Grande - Bom
Retiro - SC, local hoje denominado de Ituporanga, e sou um dos 15 irmãos de Vitório Sens
(1917-1968). De fato, sou o número 14 da lista e o Vitório era o quinto, pois temos três irmãos
mais velhos, filhos de meu pai – Jacob Mathias Sens, com a primeira esposa, Cecília Schmitt,
como mostrado na Tabela 1. Minha mãe chamava-se também Cecília – Cecília Clasen. Vovô
Mathias era brasileiro, catarinense e filho de imigrantes alemães. Os pais de meu avô Mathias
Gil chegaram ao Brasil ainda criança, com apenas com 7 e 2 anos de idade, e foram fundadores
da então Colônia de São Pedro de Alcântara – em São José – SC. Meu pai falava e escrevia o
idioma alemão, assim como minha mãe. Nos primeiros tempos, quando chegaram às novas terras
recém-adquiridas por vovô Mathias Gil, eles falavam entre si em alemão e também rezavam em
alemão. Nossa bíblia também era em alemão. Naqueles tempos, nosso sobrenome era
pronunciado com “tz” no final – Sentz, mas sempre foi escrito do mesmo modo – Sens, salvo
enganos. Meus pais e meus irmãos são mostrados na Figura 1.
TABELA 1 – FAMÍLIA JACOB M. SENS EM NÚMEROS E DATAS
N
Nome
Jacob Mathias
A
1
Maria Hilda
2
Leonildo SENS
3 Ermelinda Rainildes
Cecília Schmitt
B1
Cecilia Clasen
B2
4
Levino
5
Victório
6
Rogário
7
Isidório Aloisius
8
Adelaide
9
Wictalina
10
Oswaldo José
11 Hildeberto Libertino
12
Ubaldino
13
Nilvo Jacob
14
Nelson
15
Gemma
16
Lieselote
Data
Apelido
Nascimento
04/05/1884
Mariquinha
17/11/1909
1911
Linda
17/4/1913
07/1/1889
02/12/1896
16/9/1916
28/9/1917
Roque
18/12/1918
Isi
17/5/1920
Laide
17/4/1921
Metcha
26/9/1923
Dinho
2/11/1925
Detcha
20/2/1927
29/3/1928
Ite
30/8/1931
Nelo
12/10/1932
21/8/1934
Lote
10/11/1936
Data
Casamento
28/11/1908
12/1/1929
28/11/1908
2/10/1915
30/5/1942
6/3/1943
4/11/1944
18/10/1941
30/9/1944
30/10/1948
23/2/1952
Data
Falecimento
23/1/1962
17/5/2002
1919
3/11/1999
1/5/1915
10/10/1977
29/6/1936
6/7/1968
22/9/1988
15/10/1993
5/1/2001
7/8/2006
1/11/2007
19/11/1999
18/12/1928
Diferença
78,0 anos
92,5 anos
8,00 anos
86,5 anos
26,0 anos
81,0 anos
19,8 anos
50,8 anos
69,8 anos
73,4 anos
79,7 anos
82,9 anos
82,0 anos
72,7 anos
8,7 meses
18/5/1957
26/9/1959
12/4/1958
24/10/1959
6
Família Jacob & Cecília Sens
FIGURA 1 – FAMÍLIA JACOB MATHIAS SENS E CECÍLIA CLASEN [ 6 ]
Nos tempos em que aqui era Salto Grande, papai lidava com comércio varejista, suprindo as
necessidades do povo local, e também com hotel e estância, madeira, gado, ovelhas, charqueada,
olaria e couro. Enfim, papai lidava com tudo o que se necessitava para o surgimento de um
povoado, de uma vila e de uma futura cidade.
Quando nasci meu vovô Mathias já tinha morrido, em 1930 e quem conviveu um bom tempo
com ele foram meus irmãos Vitório e Levino. O irmão Levino (1916-1936) faleceu muito cedo,
quando eu tinha quase quatro anos. Por ocasião do Centenário da Colonização de Ituporanga, em
19/08/2012, tive a oportunidade de relatar algumas das façanhas de meu falecido irmão,
orgulhosamente, a dois de meus sobrinhos, ao Mauri e ao Márcio. Eles me ouviram em minha
casa, em Ituporanga – SC, por um bom tempo, das 18 horas até quase uma hora da manhã do dia
seguinte, e nos impediram de assistir por completo à Santa Missa, pela televisão. O que contei
aos meus sobrinhos foi aqui transcrito e, posteriormente, eu conferi. Algumas fotografias eu
forneci a eles cópias de meu acervo particular e de minha irmã mais velha, a Linda (Ermelinda,
1913-1999), que morou comigo até seus últimos dias. Outros detalhes e ilustrações foram eles
que encontraram, pesquisando aqui e ali.
7
2 Vitório Era Fraquinho
Meu irmão sempre foi fisicamente muito fraco. Desde os sete anos de idade ele apresentava
problemas de respiração pela contração da asma. Desta forma, tanto para o trabalho quanto para
as brincadeiras ele deveria ser poupado de muitos esforços e todos sabiam disto. Quem não
sabia, bastava reparar na magreza dele para concluir. Os amigos de infância, como o Gilberto
Philippi (1916) contam que sempre tinham que esperar e ajudar o Vitório no retorno das decidas
de morros em folhas de coqueiro, pois ele sempre chegava ofegante. Em contra partida, o mano
mais velho era de muita inteligência, sobressaía entre todos da época.
FIGURA 2 – FOTO DO CASAMENTO DE VITÓRIO COM CARMEN NEVES DE SÁ
Na fotografia do casamento do Vitório, Figura 2, eu apareço de terno branco. Eu era o único
menino de terno branco.
3 Vitório Era um Líder Nato
Vitório em tudo que fazia sobressaía e todos o respeitavam. Os irmãos, papai, mamãe – que
mandava em todos, os amigos - todos o consultavam para brincadeiras ou para qualquer outra
atividade. Sempre o Vitório era o líder, pois nasceu com esta habilidade, sempre sem fazer muita
força. Mas não lhe faltavam iniciativas e gosto pelo trabalho e para ajudar a todos. Sempre
estava pronto para colaborar e coordenar as mais variadas atividades. Assim que casei e me vi
pronto para enfrentar o trabalho fora de casa, consultei ao irmão mais velho sobre meus
empreendimentos na fabricação de óleo de madeira, o sassafrás. Queria fazer sociedade com
outro irmão e pedi ao Vitório que me orientasse. Mamãe dava ordem em todos, nos empregados,
8
nos filhos, em papai e orientava que, em caso de dúvidas, consultassem ao Vitório.
Acostumamos a fazer isto naturalmente, mesmo sem as ordens de mamãe.
4 Estudos das Primeiras Letras
Naqueles tempos, não havia professores e escolas por estas regiões das margens do Rio Itajaí do
Sul. Assim, Levino e Vitório tiveram aulas particulares com os padres que por aqui chegaram.
Vitório, que era mais fraco, ficou logo sendo o sacristão e ajudante de missas e de outras
atividades religiosas dos padres que vinham para cá. A paróquia era a de Theresópolis,
localizada próxima da sede do município de Palhoça – SC. O caminho era longo e de difícil
acesso até aqui. O religioso, em aranha de um cavalo, tinha que sair das proximidades de São
José – SC e dirigir-se para a nascente do Rio Itajaí do Sul, próximo da Colônia Militar de Santa
Tereza, conhecida também por Barracão e atualmente sede do município de Alfredo Wagner,
para então margear o rio até o lugar, na época, denominado Rio Abaixo do Itajahy. Lá estavam
os primeiros colonizadores descendentes de alemães que necessitavam de assistência moral e
religiosa. Os padres faziam os batismos, os casamentos e ministravam a extrema-unção aos
enfermos. Dificilmente eles estavam presentes nos enterros. A fotografia do padre alemão é
mostrada na Figura 3.
FIGURA 3 – PADRE AUGUSTO SCHWIRLING (1872 – 1961) [ 1 ];[ 2 ]
O Padre Augusto Schwirling era alemão, nascido em Lichtenau, Westphalia, em 25 de fevereiro
de 1872, na diocese de Paderborn, na época sob o domínio da Prússia, foi ordenado presbítero
em 22 de março de 1895. Na Alemanha foi capelão em Guterslach, Halle e Langendreer. Chegou
ao Brasil em 1907, destinado a percorrer as regiões distantes onde se fixavam os colonos
alemães. Em 18 de dezembro de 1916, Padre Schwirling cita os núcleos coloniais assistidos por
ele. Eram três: Anitápolis (Colônia Federal), Rio Abaixo do Itajahy (Companhia Colonizadora
Catarinense) e Rio Novo (Rio Alferes – Alto Porto de Boa Vista).
Em relatório de 1918 o Padre Schwirling cita mais detalhadamente as igrejas e capelas a que
atendia: Matriz do Curato de Theresópolis; Capela de Santa Theresa do Itajahy do Sul, Capela de
Bom Jesus do Barracão; Capela de Santa Brígida do Rio Novo; Capela de São Paulo do Braço do
Norte – Pinheiro; Capela de Nossa Senhora da Assunção de Löffelscheidt; Capela de Nossa
Senhora da Conceição de Rancho Queimado; Capela de São Bonifácio de Taquaras; Capela de
Santa Isabel do Rio dos Bugres. Além desses espaços construídos, Pe. Schwirling celebrava
missas em 30 casas particulares, como na casa de papai – Jacob Mathias Sens, e em outros locais
9
onde hoje se situam os municípios de Rancho Queimado, Anitápolis, São Bonifácio, Ituporanga,
Vidal Ramos, Rio Fortuna, São Martinho e Armazém.
Deve-se ao Pe. Schwirling o início do povoamento das regiões que hoje constituem Ituporanga,
Vidal Ramos e Presidente Nereu, no período de 1912 a 1928 [ 1 ]; [ 2 ].
Por ser o professor de origem alemã, meu irmão Vitório aprendeu primeiro a ler e a escrever no
idioma alemão e assim se comunicava com os demais descendentes alemães da região. Quase
todos falavam o alemão, inicialmente, mas já no meu tempo, havia escolas em português e não
cheguei a aprender a falar. Às vezes eu rezava em alemão, acompanhando mamãe, mas sem
saber muito bem que eu dizia.
Vitório, após o aprendizado das primeiras letras com o os padres, passou a ter aulas particulares
com Dona Ruth Mendonça, que se hospedava no Hotel de papai, vinda de Lages. Assim meu
irmão passou a ter conhecimentos também no idioma nacional e saiu-se muito bem. Com a
chegada das Escolas Estaduais, Vitório deve ter dado continuidade aos estudos, mas não sei se
chegou a ter algum diploma de conclusão de curso.
5 Atividades Profissionais do Vitório
5.1 Lida com Madeira para Serrarias – Bela Vista
Papai tinha muitas atividades ligadas à extração da madeira e chegou a ter em atividades vinte e
um carretões com seis ou sete juntas de boi em cada um. Quando Vitório já era moço, papai
passou a dividir com ele estas atividades. Colocou sob sua responsabilidade seis juntas de boi e
um carretão, para extrair e entregar toras de madeira em uma serraria no Alto Bela Vista. Meu
irmão Ize também ajudava nesta lida e claro que Vitório não manipulava pesos daquela
envergadura, mas comandava os empregados e os bois muito bem. Esta atividade exige muito
cuidado e planejamento, para não colocar em risco a equipe, os bois e a carga, já que o local era
de muitos peraus e pirambeiras.
Uma amostra do que era um carretão pode ser visto na Figura 4 e na Figura 5 onde uma tora de
madeira era movimentada com a força de seis a sete juntas de boi. Ou seja, quatorze bois.
FIGURA 4 – FOTOGRAFIA DE UM CARRETÃO COM JUNTAS DE BOI
10
FIGURA 5 – SETE JUNTAS DE BOI PUXANDO UMA TORA [ 5 ]
5.2 Cargas Pesadas – Bela Vista
Eu lembro que quando a então Colonizadora Catarinense, sob o comando de José Domingos
Paglioli, precisou de energia nos empreendimentos de extração da madeira na Bela Vista, onde
não havia absolutamente nenhuma estrada, compraram uma locomóvel, que veio de trem até Rio
do Sul de lá para cá em carretão. Mas para chegar até Bela Vista, saindo de Salto Grande, não
era uma tarefa simples. Foi ai que entrou o Vitório. Como os carretões normais, para transporte
de madeira pareciam inapropriados, Vitório desenhou uma carreta especial e acompanhou a
fabricação nas oficinas mecânicas de José Kurtz, genro do tio Adão, que posteriormente foram
assumidas pelo ilustre Júlio Kurzhals. A Figura 6 ilustra uma típica máquina mecânica a vapor,
denominada de locomóvel, utilizada para gerar força e eletricidade a partir de lenha e água [ 9 ].
FIGURA 6 – LOCOMÓVEL TÍPICA, PARA GERAÇÃO DE LUZ E FORÇA
11
O carretão fabricado especialmente em Salto Grande, puxado por sete juntas de bois, sob o
comando de Vitório e um time de bravos rapazes, foi capaz de levar por trilhas que se iam
abrindo à medida que se avançava na mata, até Bela Vista. A locomóvel passou então a produzir
força motriz para a serraria e a gerar eletricidade, queimando lenha, cavacos de madeira e restos
de madeira da serraria. Foi uma aventura bem-sucedida. Portando, deve-se ao Vitório o
surgimento da estrada entre a atual Gabiroba e a Bela Vista, aqui em Ituporanga, pois foi aberta
para dar acesso ao transporte da locomóvel, a pedido da então Colonizadora Catarinense.
5.3 Carpintaria e o Salão Sete de Setembro
Numa certa ocasião os padres da então Capela de Santo Estevão recomendaram ao papai a
construção de um salão para festas e atividades recreativas, pois o povo precisava de diversões.
Foi assim que Vitório participou do planejamento e das obras do grande salão Sete de Setembro.
Meu irmão já tinha alguma experiência com marcenaria, pois vivia ajudando o vovô Mathias.
Com as obras da construção do salão, pegou logo o traquejo na marcenaria e logo liderava as
obras mais refinadas. O Vitório desenhou a ornamentação interna do salão, o palco, as cadeiras e
as mesas, assim como os arranjos em madeira das diversas divisórias do salão de bailes.
Participou de tudo e acabou sendo o administrador do salão, para as mais variadas atividades
festivas, incluindo bailes e concursos de rainhas. Durante as obras do salão, eu tinha apenas
cinco anos e acompanhei a movimentação e a subida dos barrotes e ouvi o bater dos martelos.
Durante a construção, era-me proibido brincar nos andares superiores, mas apenas no pavimento
térreo, por medida de segurança. Ali alguém tirou algumas fotografias e posso me reconhecer em
uma nelas, conforme Figura 7.
O salão ia muito bem, com o povo se divertindo e com muitos bailes e concursos de rainhas e
princesas, como se fazem atualmente, nas festas da cebola e agora, nas comemorações do
Centenário da Colonização. Entretanto, a diversão passou a tomar um vulto que parecia interferir
com as atividades religiosas. Os padres, que antes haviam sugerido a construção do lugar para
diversão, passaram a criticá-lo e levaram ao conhecimento de mamãe. Mamãe, que como já citei
antes, mandava em tudo, determinou o fechamento das atividades do salão. O Vitório ficou
muito chateado com esta medida e abandonou a administração do mesmo. Meu irmão Ize
(Isidoro, 1920-1993) passou então a administrar o salão, que mantinha uma série de lojas ao
redor, incluindo cabeleireiros, alfaiates e sapatarias. Para desconsolo e tristeza geral dos
Ituporanguenses, no final do ano de 1958 ocorreu a demolição do salão Sete de Setembro, ou
salão do Jacob Sens, como também era conhecido. Quando me casei, em 1959, a festa não foi no
salão, mas sim na casa de meu sogro. Na ocasião, o Márcio era um piá, e lembra que presenciou
a fuga do Vitório por sobre as mesas da festa, com pratos e talheres ainda sobre a mesa, quando
alguém cutucou o Vitório nas costelas – coisa que ele não podia suportar, tamanha eram as
cócegas que sentia, assim como papai.
A madeira do antigo salão foi dividida entre os irmãos, mas o Vitório não aceitou nem uma
tábua. A casa do meu irmão Ite (Nilvo, 1931), que casou em maio de 1957, foi totalmente
construída com as madeiras do salão e ainda hoje está de pé, próxima do Hospital Bom Jesus.
Mais três outras casas construí em Bom Retiro com o material do salão e quase toda a minha
casa, onde todas as janelas eram do salão.
Quando minha irmã Gemma se casou, no início 1958, e a festa não foi no salão, pois já estava
fechado. A festa do casamento da Gemma foi na casa de papai, para os padrinhos e amigas de
colégio – não houve festa de despedida para aquela que fora, até então, a maior construção
particular de Salto Grande – o Salão Sete de Setembro, como mostrado na Figura 7.
12
A Gemma se casou, mas nem casa ela tinha e foi morar numa casa de Waldemar Andreola, de
aluguel, até que a casa dela ficou pronta.
Vitório
Nelo
FIGURA 7 – FOTO DO SALÃO MOSTRANDO O NELO E VITÓRIO NO ALTO
A casa da Gemma foi a reconstrução da primeira casa de madeira do Vitório, e foi construída na
atual Travessa Jacob Sens. Depois a Gemma fez uma casa nova, na Rua Emiliano Sá, com
desenhos feitos pelo sobrinho Moacyr, já quase engenheiro. A primeira casa de Gemma acabou
sendo minha, pois a comprei assim que me mudei de Bom Retiro para Ituporanga. Tudo gerava
em torno de familiares.
5.4 Marcenaria – Fabricação de Bochas em Angico
Próximo da Igreja Matriz havia uma marcenaria que atendia toda a região. Vitório era
encarregado, com frequência, de desenhar e mandar construir artefatos em madeira, como rodas
para carroças, mesas, cadeiras e peças torneadas. Foi assim que acompanhou, inicialmente, a
construção de bolas de bochas (botchas), em madeira de angico vermelho. Papai se embrenhava
nos matos a procura de cernes de angico com diâmetro útil de pelo menos 27 cm, para permitir a
retirada de uma bola sem incluir o brancal e o centro da madeira. Eram raras as toras de angico
com estas medidas mínimas. As bolas precisavam ser de 5 polegadas (12,7 cm) de diâmetro, e ter
entre 1,2 e 1,4 kg – precisavam ser de angico. Pela falta da madeira, outras madeiras foram
utilizadas para a fabricação das bochas, mas se gastavam logo e não afundavam na água.
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As bolas, para não racharem com o ressecamento, eram guardadas imersas em um tanque de
água, no mesmo que servia para dar de beber aos animais, principalmente aos cavalos que
chegavam à estância. As bolas de angico eram pesadas e afundavam na água. Posteriormente, o
Vitório passou a tornear as bolas ele mesmo, utilizando os tornos das oficinas da marcenaria
próxima da Matriz. Com isto, ele passou a entender de tornearia e passou a construir outros
artefatos torneados. O torno da oficina estava quase sempre com baixa demanda de uso, e o
Vitório podia chegar a qualquer momento para utilizá-lo. Foi assim que Vitório construiu a
antena do rádio para a casa de papai, imitando a construção de um grande balão, todo em peças
de madeira torneada. Mais tarde, já casado, o Vitório fabricou para ele mesmo usar um torno de
quase dois metros de comprimento, que foi também utilizado pelos filhos Moacyr, Mauri,
Márcio e Maurício.
5.5 Construção de Casas
Com a vasta utilização dos animais como força motriz, seja para tração de cargas ou montaria,
quanto para a movimentação de engenhos de açúcar, de farinha, e de olarias, também se faziam
necessárias correames, feitas com o couro de boi. Assim, necessitava-se de estabelecimentos
para o curtume e para a acomodação do pessoal envolvido no mesmo. Foi assim que papai
solicitou ao Vitório, agora experiente em construções, considerando as obras do grande salão
Sete de Setembro, para construir três casas em madeira. Uma delas deveria servir para o curtume
de couro, que foi construída na beira do rio, na linha da casa do Prof. João Carlos Thiesem.
Outras duas casas foram construídas entre a atual sede do Banco do Brasil, em Ituporanga e a
Rua Mathias Gil Sens, sempre na beira do rio, para facilidades do sistema de esgoto sanitário.
Uma das casas acabou sendo do próprio Vitório, ao se casar, em 1942, que depois ficou com a
Gemma, mas em outro local.
5.6 Técnico em Eletrônica – Rádio a Baterias
Naqueles tempos, já tínhamos uso da eletricidade no salão Sete de Setembro e também no Hotel,
onde o Vitório aprendeu e se treinou em mais este ofício. Nosso rádio era apenas tocado a
baterias, ou seja, em corrente contínua, como os dos vizinhos, e não podia ser ligado em
tomadas, como os atuais. As baterias eram como as atuais, utilizadas em automóveis, mas
precisavam ser levadas para carregar nos dínamos da serraria do tio Fernando Sens, na Freguesia
de Baixo, que giravam pela força da passagem da água do rio Itajaí do Sul. O uso da energia
elétrica passou a crescer e logo a geração do tio Fernando não deu mais conta. Daí surgiu a
fábrica de papel, que também tinha geradores elétricos e rodas d´águas maiores. A Vila de
Ituporanga passou a ser energizada pelos geradores da fábrica de papel. Entretanto, este leva e
traz das baterias era bastante trabalhoso. As baterias deviam ser levadas em lombos de cavalo e
eram frequentes dos ternos e das roupas serem danificados pelo ácido sulfúrico das baterias. O
ácido vazava nas roupas e nem se percebia. Depois que se ia lavar as roupas, surgiam os buracos
nas mesmas. Foi aí que o Vitório teve a ideia de recarregar as baterias sem tirar do lugar,
utilizando a própria energia elétrica utilizada para a iluminação do salão de jantar do Hotel.
Vitório pegou alguma experiência com o pessoal que instalou as máquinas de cinema no salão
Sete de Setembro e, vivo como era para tudo, logo aprendeu que precisava de um retificador de
óxido metálico de selênio, inventado em 1933[ 5 ][ 4 ] e de um resistor, para recarregar as baterias
sem movê-las até a Freguesia de Baixo, como mostrado na Figura 8.
Todos queriam ouvir o rádio em ondas curtas, pois já em 1937 era inaugurada em São Paulo a
Rádio Bandeirantes, a primeira emissora a divulgar notícias durante toda a programação e em
14
1938 – Surge a Rádio Globo do Rio de Janeiro. Em 1941 – surge a Rádio Nacional que lança o
Repórter Esso, primeiro rádio jornal brasileiro, e também entra no ar a primeira novela
radiofônica do país: “Em Busca da Felicidade” [ 3 ].
Rádio valvulado – parte frontal
Rádio valvulado – parte interna
Antena
REDE ELÉTRICA
Retificador
de selênio
Resistor
Bateria
Chave
reversora
Philips
Retificador de selênio
Circuito elétrico
FIGURA 8 – ESQUEMA ELÉTRICO DO CARREGADOR DE BATERIAS
O sistema descrito de antena de rádio foi recentemente restaurado por um dos netos do Vitório, o
André, e constitui peça de decoração na residência dele, em Rio do Sul, como mostrado na
Figura 9.
Como a carga elétrica da cidade se elevava, principalmente com o surgimento de pequenas
indústrias movidas a motor, como a marcenaria, a usina elétrica da fábrica de papel já não foi o
suficiente. Então surgiu a Companhia de Hidrelétrica Águas Negras [ 17 ], sob o comando do Sr.
Kurt Klein. Quando a nova energia surgiu, ainda na frequência de 50 Hz, o sistema de recarregar
as baterias do Vitório não aguentou e queimou.
Foi então que meu irmão Ize levou o Vitório, com rádio e tudo, de carroça até Rio do Sul, onde
ele apanhou o trem para Blumenau. Lá ele ficou o dia todo numa oficina eletrônica, onde foi
adaptado um transformador de 220-12V e um retificador moderno, com filtros capacitivos, tudo
dentro do próprio compartimento do rádio, para ligar o mesmo diretamente na tomada de 220V,
sem captar os ruídos e zumbidos. Ficou uma beleza e estes rádios já estavam em uso em
Blumenau. Vitório tomou conhecimento destas novidades pelos jornais e revistas que lia. Para
15
voltar, Vitório apanhou novamente o trem até Rio do Sul e aguardou uma carona de uma carroça
vazia, que com frequência se deslocavam entre Salto Grande e Rio do Sul com madeira e
produtos agrícolas.
FIGURA 9 – ANTENA DE RÁDIO VITÓRIO SENS
Assim o rádio do salão de jantar do Hotel Jacob Sens passou a funcionar sem as pesadas e
perigosas baterias, mas ainda com a longa antena, para captar sinais muito fracos das longínquas
estações de rádio do Rio de Janeiro e de São Paulo, em ondas curtas.
5.7 Contabilidade da Estância Jacob Sens – Guarda-Livros
Meu irmão era entendido em números e passou muito bem nas provas finais de matemática
aplicada pelo Padre Augusto Schwirling. Numa das andanças pelas capelas ao redor de Salto
Grande, o Padre recebera de presente uma grossa cana-de-açúcar. Para avaliar o aluno em
matemática, lhe pediu que calculasse o volume, em metros cúbicos, do objeto que recebera de
presente. Não foi uma tarefa muito simples, na época, já que calculadoras não haviam, mas o
aluno saiu-se muito bem. Estes ensinamentos foram-lhes úteis no cálculo de cubagem de madeira
que vendiam para as serrarias e também para fazer a contabilidade da empresa de papai. Assim,
papai o nomeou seu guarda-livros e toda a contabilidade da casa de comércio e de prestações de
serviços eram efetuados pelo Vitório. Sei que também a Olaria do Samuel Bennert contava
com estes serviços de contabilidade de meu irmão. Filhos não recebiam salário, mas em troca
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dos serviços de contabilidade, papai cedeu um cômodo frontal da casa para o Vitório instalar
uma barbearia.
5.8 Barbeiro
Não sei onde o Vitório aprendeu o ofício de barbeiro, mas de súbito passou a cortar cabelos e
fazer barbas de homens. Ele cortava cabelos dos irmãos e de todos ao redor. Conta o filho mais
velho do Joaquim Boeing, Álbio, casado com Mafalda Pereira, filha do ilustre Professor Antônio
de Souza Pereira (padrinho do Moacyr) com Maria Lolita Coelho, que para o casamento dele,
ocorrido em novembro de 1958, foi na barbearia do Sr. Vitório que se preparou para o
evento [ 15 ]. E também, conta Álbio, que o salão ainda estava de pé, mas com os dias contados
para a demolição. O aluguel da barbearia, ao papai, ficava por conta dos serviços de guardalivros. Mais tarde o Vitório arrendou a barbearia para os Borges e repartia os lucros, pois todos
os equipamentos de operação eram dele.
5.9 Construtor
Quando houve necessidades de ampliar as instalações do Hotel e Estância Jacob Sens de papai, o
Vitório tomou a frente e providenciou um anexo, aproveitando para criar uma sapataria isolada
da casa para o senhor Schwartz, que já praticava estas atividades num canto do hotel, mas
totalmente inapropriado. Além disto, o Vitório providenciou toda a rebocadura das paredes
antigas, em tijolos aparentes, inclusive sobre o vigamento de madeira, que foi todo preparado
com preguinhos tortos interligados por arames, para permitir a adesão da argamassa. Desta
forma, a aparência antiga da casa de papai somente aparece, atualmente, nas fotografias das
bodas de ouro de vovô Mathias.
5.10 Tropeiro – Gado de São Joaquim para a Charqueada
Outra atividade do Vitório foi como tropeiro. Ele e o Ize, com frequência, iam para os lados de
Lages e de São Joaquim - SC em busca de gado para as charqueadas. Isto supria a região de
carne e de couro. Numa das vezes em que Vitório não participou da aventura, eu fui junto com o
Ize. Eu ainda era muito pequeno. Não gostei nada da experiência. Ocorreu que estávamos ao
redor da fogueira, para pernoitar, e um dos nossos tropeiros saiu para apanhar água numa casa
distante. Como ele estava demorando muito, fui procurá-lo. Para meu espanto e angústia, o vi de
pescoço espetado nas estaquetas pontiagudas da cerca da casa onde foi pedir água. Ao gritar para
pedir água, ele se elevou dos pés e ao descer ficou espetado. Chamei por socorro e tiramos o
capataz do espeto, todo ensanguentado, mas ele sobreviveu. Os cortes não foram profundos, pois
ele ficou quietinho no lugar, sem poder pular para se soltar e sem gritar. Nunca mais fui
acompanhar boiadas e nunca me esqueci daquela cena, e das estaquetas, como na Figura 10.
FIGURA 10 – ESTA CERCA DE ESTAQUETAS ESPETA
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5.11 Madeireiro – Jaraguá do Sul
Assim que casou, o Vitório, influenciado pelo amigo José Domingos Paglioli, adquiriu terras
para a extração da madeira em Jaraguá do Sul, na área de Jaraguá Alto. O plano era extrair e
beneficiar no local, para vender já pronta para construção de casas. Os sócios do
empreendimento, desta vez, eram os amigos J. D. Paglioli e Francisco Gottardi. Compraram as
terras em 26/10/1943 de Nestor Gonçalves da Luz e de Paulo Horongoso e também um
caminhão Dodge e se embrenharam na mata virgem. Lá em Garibaldi, distrito de Jaraguá do Sul,
já havia uma serraria movida a água. Mas era pouco. A madeira lá era muita e construíram mais
duas serrarias para o corte da madeira, todas em quedas de rios que cortavam as propriedades.
Em épocas de chuva era difícil a extração de toras na mata. O Vitório então teve a ideia de colher
os restos de madeira que o antigo proprietário tinha jogado fora, numa ribanceira do rio, ao lado
da serraria. Era uma pena ver tanta madeira desperdiçada e Vitório recolhia as meias-canas para
recortar e transformá-las em ripas finas para cercas, ou estaquetas, como também eram
denominadas, e para ripas tipo mata-junta. Isto mantinha a equipe ocupada e gerava lucros. Com
a abundância de água, também eram abundantes os mosquitos. Com os mosquitos transmissores
da malária - Figura 11, ou da sezão, o Vitório contraiu a doença e teve que ser tratado em
Florianópolis, ficando hospedado na casa de tio Defendente Rampinelli, em São José, por longos
períodos. Chegou a melhorar e voltar para o batente, mas a doença reapareceu e, por indicação
médica, teve que abandonar o empreendimento. Numa das vezes, o Vitório teve que ser
internado no Hospital Santa Izabel de Blumenau – SC. Escapou por pouco.
FIGURA 11 – ANOPHELES O MOSQUITO TRANSMISSOR DA MALÁRIA OU DA
SEZÃO
Os sócios, Paguioli e Gottardi nada entendiam do assunto de extração de madeira e o
empreendimento foi abortado. Gottardi chegou a oferecer a parte dele para vender ao Vitório,
mas não sei se chegou a comprar, de fato. Nestas aventuras, a Carmen ficou em Salto Grande e,
numa das vindas em casa, o Vitório encontrou o Mauri, que já tinha nascido, em 1945. No
batismo, o amigo Paglioli esteve presente, em Salto Grande, e foi o padrinho. O Vitório com isto,
criou a empresa Vitório Sens e Companhia Limitada, com sede em Rio do Sul e registrou as
terras mais tarde, em 1946, já se intitulando de industriário. Mas ainda em fevereiro de 1947 o
Vitório estava por Garibaldi e também não participou da aventura de ter sua primeira menina. A
Ezir nasceu em casa com os cuidados da Dona Júlia – parteira, que era tia de minha esposa
Lindi. As terras de Jaraguá do Sul, agora abandonadas à própria sorte, eram de área por volta de
dez milhões de metros quadrados. As torar de madeira e as serrarias eram tipicamente como
mostradas na Figura 12 e na Figura 13.
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FIGURA 12 – TRANSPORTE TÍPICO DE MADEIRA EM CAMINHÃO
FIGURA 13 – MADEIREIRA TÍPICA DA ÉPOCA
5.12 Cartório – Colaborava com o Escrivão
Já restabelecido da doença da malária, o Vitório retornou de Jaraguá do Sul para Salto Grande e
passou a colaborar com o cartório do sogro, A. Emiliano Sá, ou mais precisamente com a sogra,
Dona Clarinha, que influenciou no nome do primeiro filho - Moacyr. Neste período se
encontram inúmeros registros de nascimentos no Cartório do A. Emiliano Sá com o nome e
assinaturas do Vitório, como testemunha.
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5.13 Construtor da Ponte Pênsil
Vitório gostava de desafios e, unindo-se ao seu amigo Frei Artur Kleba, nomeado vigário em
janeiro de 1945, com quem se comunicava sempre em alemão, logo realizaram grandes obras.
Assim, em maio de 1948 foi inaugurada a Gruta Nossa Senhora de Lourdes em terras doadas por
tio Adão, e em dezembro de 1948 foi inaugurada a ponte pênsil sobre o Rio Itajaí do Sul para
acesso à Gruta.
Eu tinha 16 anos e acompanhei de perto o Vitório na coordenação de todos os trabalhos da
construção. Durante as obras, era frequente de minha irmã Gemma ser flagrada se equilibrando
sobre a linha de tábuas que atravessava o rio. Mesmo antes de fixar a última tábua no assoalho da
ponte o Vitório já iniciava os testes de resistência, passando com um caminhão lotado sobre a
mesma. Neste momento, não pude participar da aventura e tampouco aparecer nas fotografias,
pois fui incumbido de acompanhar o comportamento da ponte pelo lado de baixo e depois relatar
ao Vitório. Quando ela ficou pronta, passou a ser o mais novo ponto turístico e de encontro, ao
lado do Salão Sete de Setembro. Todos os casais de namorados queriam tirar fotos sobre a ponte
ou na entrada dela.
Na inauguração oficial, que eu tanto queria ver, também não pude participar, pois papai não
queria perder e eu tive que ficar cuidando de nosso boteco em frente à ponte. De qualquer modo,
pude muito bem ouvir os vigorosos fogos de artifícios lançados com canhões de aço. Um destes
disparos vitimou meu irmão Dinho no olho e tivemos que levá-lo para os hospitais de Blumenau
às pressas. O Dinho acabou perdendo um olho e lhe colocaram um olho de vidro. Com isto,
mamãe determinou que todos os canhões fossem jogados no rio – dezenas deles. Assim foi feito
e nunca mais se ouviram estes artefatos explosivos. Vitório ainda ficou com um deles, mas
colocou um cabo de madeira no furo e o utilizou como soquete de lajotas e para fincar mourões
de madeira em fundações e alicerces.
As despesas para a construção da ponte pênsil foram todas pagas pelo povo saltograndense, que
participou de sucessivas festas da gruta, também organizadas pelo Vitório, por delegação de Frei
Artur. Como os compromissos com os fornecedores dos materiais, sobretudos dos cabos de aço e
de ferragens, precisavam ser cumpridos de imediato, a Igreja adiantou os recursos, para posterior
reposição.
A contabilidade da movimentação financeira das obras também ficou a cargo do Vitório,
chegando à cifra de Cr$ 49.876,00, dos quais Cr$ 32.676,00 foram adiantados pela caixa da
Matriz [ 10 ], [ 11 ]. Atualizando estes valores para os dias atuais, significa que a ponte custou cerca
de cinquenta mil reais [ 13 ], sendo que a madeira foi praticamente toda doada pelo povo.
Papai doou a maioria da madeira para a ponte e os quatro mastros principais, de oito metros
acima da ponte, foram também doados pelo povo. Os dois mastros do lado da Matriz vieram de
Santa Teresa, da família Andreola. Um dos mastros do lado da Gruta veio das matas do tio João
André Clasen e o outro veio do Faxinal da Vila Nova, das matas do senhor Pedro Momm. De
fato, o custo maior seria o da retirada e da movimentação das imensas vigas, já falquejadas a
machado, até a obra, que também ficou a cargo do Vitório. Esta ponte, posteriormente ao
falecimento do idealizador, passou a chamar-se, por força de Lei Municipal [ 12 ], de Ponte Vitório
Sens. Recentemente eu soube que meu amigo Álbio Boeing foi quem recebeu Frei Artur,
chegando de ônibus, na frente da casa de papai [ 16 ].
A Figura 14 mostra o ensaio de resistência na conclusão das obras da ponte, onde o caminhão
do Vitório, lotado de pessoas, para no centro do vão e posa para a fotografia histórica. Como
disse, eu não estava lá, mas sim sob a ponte, atento a qualquer comportamento suspeito da
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estrutura. Vi e ouvi bem que tudo estalava, mas nada se quebrou com a passagem do caminhão
lotado de pessoas, entre funcionários e curiosos que por ali se achavam.
FIGURA 14 – PONTE PÊNSIL DE ITUPORANGA – SC
5.14 Iapetc – Paglioli Quem Arranjou para Vitório.
Com a impossibilidade de se manter como industriário da madeira, o mano Vitório se viu
obrigado a abandonar a lida no mato e ficou na cidade de Ituporanga. Com a ajuda do amigo
Paglioli, arranjou um serviço público federal, não sei bem como, e se deu muito bem em servir o
povo local nos cuidados com aposentadorias, carteiras de trabalho, salários-família, seguros de
vida. Foi assim que ficou representante do governo no IAPETC e no IAPI e em outros institutos.
Vitório foi nomeado por Getúlio Vargas como funcionário público federal, que foi um cargo
político, já que ele havia fundado o comitê do partido dos trabalhadores - PTB em Ituporanga, e
era o presidente. Na época ele fez também o concurso para o Ministério do Trabalho e passou a
emitir Carteiras de Trabalho, substituindo, às vezes, a regional de Rio do Sul. Foi assim que o
primeiro funcionário do Banco do Brasil de Rio do Sul teve a carteira emitida por Vitório Sens,
já com a ajuda da filha mais velha – da Ezir.
Mencionei que o Vitório se saiu bem nestas atividades, porque chegou até a receber prêmios.
Muitos anos depois de atuar junto ao INPS ganhou um prêmio de desempenho e eficiência que
foi buscar em Florianópolis. O prêmio consistia de duas chaves de fenda que o filho mais velho Moacyr - guarda com carinho até hoje. Não eram duas chaves de fendas quaisquer: elas tinham
mais de meio metro de comprimento e poderiam suportar tensões de até 20.000 volts. Uma delas
era de seção quadrada e outra de seção circular.
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No governo de Getúlio Vargas, de fato, foram criados os seguintes institutos de pensão e
previdência que acabaram sendo representados por meu irmão em Ituporanga: IAPI - Instituto de
Aposentadorias e Pensões dos Industriários; IAPC - Instituto de Aposentadorias e Pensões dos
Comerciários; IAPB - Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários; IAPETC - Instituto
de Aposentadorias e Pensões dos Empregados de Transportes de Cargas. Posteriormente, estes
institutos foram unidos pelo INPS - Instituto Nacional de Previdência Social.
5.15 Consultor da Família
Lá em casa nada se fazia sem consultar o Vitório, como eu já disse. Papai e mamãe o
respeitavam com muito carinho e assim recomendavam aos demais irmãos que o tivessem como
orientador. Meus empreendimentos em madeira e em fabricação de óleo de sassafrás foram
sempre precedidos de consultas ao irmão mais velho. Eu decidi me associar com o Dinho na
fabricação de óleo de sassafrás, já visando posteriormente comprar a parte dele. Não que o Dinho
tivesse muita experiência no assunto, mas era um companheiro para as atividades no mato. O que
o Dinho fazia bem era atirar. Assim, ele caçava, outros preparavam a boia e todos comiam. A
lida com os carroções era mesmo comigo e depois acabei, de fato, comprando a parte do Dinho.
O Vitório tinha ficado preocupado com esta sociedade, mas não sabia de minhas intenções
prévias de comprar a parte do irmão caçador. Acabou dando certo, felizmente.
5.16 Cadeira para o Papai
Vitório tinha preocupações com todos e muito mais com papai, que ia envelhecendo. Papai já
tinha 77 anos e andava com dificuldades, arrastando uma das pernas. Em uma das idas do
Vitório para a capital, retornou com um conjunto de rodízios grandes, de borracha de cor bege,
sem câmeras de ar. Foi quando vi que ele tinha adaptado aqueles rodízios em uma cadeira de
vime, muito leve, para papai ser movimentado em casa. O sobrinho Márcio lembra que aos dez
anos de idade ele era capaz de empurrar com facilidades o vovô naquela cadeira, que era
razoavelmente pesado, como eu. A cadeira era mais ou menos como esta da Figura 15.
FIGURA 15 – CADEIRA DE VIME COM RODAS
Não lembro para quem foi aquela cadeira de vime, tão leve. Hoje quase serviria para mim, que
estou para completar meus oitenta anos, estou com mais idade que papai chegou.
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Foi uma pena o papai ter falecido tão cedo, nem viu as comemorações do Ciquentenário da
Colonização de Ituporanga, e o empenho do Vitório em colocar todas as ferramentas de uso
pessoal de vovô Mathias Gil na vitrine do farmacêutico Ulrich Müller - casa que vovô construiu
e viveu entre 1925 e 1930. Agora, tive o prazer de ajudar a fixar lá uma placa metálica, pela
passagem do Centenário da Colonização, junto com um amontoado de netos e bisnetos do vovô.
5.17 Lavoura de Fumo e Arroz
Vitório era muito dinâmico. Atuava em tudo. No início se associou com o cunhado, marido da
Laide, no cultivo e comercialização do tabaco, nas Águas Negras, entre 1945 a 1950 [ 7 ]. Depois
construiu uma casa nas Águas Negras, próximo da casa da fazenda do irmão Roque. Lá preparou
uma lavoura de arroz na água. Primeiro teve que aplainar tudo, com uso de troles que mesmo
fabricou, em madeira, sobre trilhos também de madeira. Depois teve que canalizar a água ao
redor das quadras. Por muito tempo colheu de lá o arroz para o sustento da família, já bem
numerosa.
5.18 Lavoura de Tomate
Um dos últimos empreendimentos do Vitório foi com a lavoura de tomate. Esta experiência foi
nas terras próximas ao atual Hospital Bom Jesus, e logo acima da casa do Ite. O Vitório
associou-se com o senhor Valdomiro Andrade – Miro, casado com Nadir Schaeffer Hock, filha
da ilustre dona Alvina. Eles passaram a plantar e comercializar tomates. Quando faltou água,
Vitório instalou uma bomba de cinco cavalos no arroio próximo ao atual cemitério de Ituporanga
e, de lá, bombeava água para o alto da colina, onde tinha uma casa e a lavoura de tomates. Para
fixar os pés de tomates, eram necessários bambus em cruzetas, fincados no solo, que eram
obtidos junto ao riacho das Águas Negras, que passava ao lado da casa do Senhor Schwartz - o
sapateiro - que era casado com uma parenta da vovó Catharina Gorges. O Vitório se entendia
sempre muito bem com eles, e conversava em alemão. Os bambus eram sempre um presente, e
eram levados na carroça, com o cavalo marujo. Creio que o Márcio já contou esta história [ 8 ].
Para embalar os tomates e comercializá-los eram necessárias caixas de madeira, que eram
fabricadas pelo amigo de Vitório, José Irlandi Cipriani ou Diepe, como era mais conhecido, lá no
Rio Batalha, e vinha em pacotes de tábuas desmontadas para serem pregadas em casa, pela
rapaziada de fronte a antiga fabrica de balas do Roberto Schuhmacher. O Diepe tinha uma
fábrica de caixaria para latas de banha [ 14 ], que tinha dimensões semelhantes às caixas para os
tomates e o Vitório somente as aproveitou.
5.19 Pintos e Frangos
Era impressionante a diversidade de empreendimentos que o Vitório se metia. Certa vez resolveu
investir em pintos e frangos. Construiu umas três ou quatro chocadeiras, com uso de lâmpadas
incandescentes como fonte de calor e, comprando ovos de qualidade, transformava-os em pintos
e, com muita ração, em gordos frangos. Estes eram comercializados nos restaurantes da cidade.
Estes empreendimentos duraram o tempo que os rapazes estavam em casa. Mas logo o Márcio
foi para a Capital, o meu sobrinho Mário foi para o Seminário e, só com o Maurício – muito
pequeno – a coisa caiu no esquecimento.
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6 Conclusão
O Vitório, que era fraco dos pulmões acabou novamente doente e hospitalizado em
Florianópolis, onde faleceu em 1968. Após o falecimento precoce de meu irmão, os doze filhos,
todos ainda solteiros e sem formação escolar, completaram os estudos, cada um com a ajuda do
mais velho. Alguns acabaram ainda de crescer, e todos casaram e constituíram outras famílias,
todas descritas na atual árvore da família Sens. As vacas também envelheceram. O último a
falecer foi o cavalo Marujo. E acabou esta história. De minha parte. Daqui em diante, outros
podem contar melhor. Que contem.
Além do que aqui contei, também passei aos meus sobrinhos cópias das histórias escritas por
mim, e também impressas em minha tipografia em 1974, que foram distribuídas em dezembro de
1974 na cidade de Ituporanga, como mostrado na Figura 16. As histórias, entretanto, são
bastante distintas. Isto aqui, é uma história de família.
FIGURA 16 – NELSON SENS – FILHO DE JACOB MATHIAS, NO CENTENÁRIO DA
COLONIZAÇÃO DE ITUPORANGA – SC
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7 Referências Bibliográficas
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Besen, Pe. José Artulino; “Padres da Igreja Católica de Santa Catarina”;
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Contato telefônico de Márcio com o senhor José Irlandi Cipriani e esposa, senhora
Hermínia Schell, em 28/10/2012, às 21h30min.
Boeing, Álbio; mensagem eletrônica De: [email protected], Enviada em: 2 de
abril de 2012 15:15 Para: Marcio Antonio Sens, Assunto: Victorio Sens, meu pai.
Boeing, Álbio; “Coroinhas” em “Homenagem a Ituporanga”, de Nilson José Boeing,
Nova Letra, 2012.
Decreto 30.393, de 15 de janeiro de 1952, assinado por Getulio Vargas, que outorga à
companhia Hidrelétrica Águas Negras, concessão para o aproveitamento de energia
hidráulica do salto Águas Negras, em Ituporanga, Estado de Santa Catarina.
C:\Documents and Settings\Sens\Desktop\Genealogia\OS- Sens\Vitorio Sens\Vitorio Sens meu irmao-Rev05.doc-m.a.s – 10/11/2012.
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