formação profissional em odontologia: revisão de literatura

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FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM ODONTOLOGIA: REVISÃO DE
LITERATURA
Fabiane Alves Farias Guimarães1
Ana Lucia Schaefer Ferreira de Mello2
Rodrigo Otávio Moretti Pires3
RESUMO
O objetivo deste estudo é discutir as questões relativas à formação profissional em Odontologia a
partir de trabalhos publicados sobre o tema. Realizou-se a pesquisa nas bases de dados Lilacs e
SciELO, utilizando os descritores Odontologia, Educação, Ensino e Formação. Após a busca, leitura
dos títulos e resumos, e aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 23 artigos.
De forma a sistematizar a análise, os artigos foram organizados em três categorias temáticas
elaboradas após a leitura dos textos na íntegra: A formação ética (4 artigos), A integração ensinoserviço (9 artigos) e O ensino em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais (10 artigos).
O contexto de mudanças curriculares está em um momento de transitoriedade, evidenciando alguns
avanços como a incorporação dos valores éticos à formação profissional dos cirurgiões-dentistas e a
criação de novos cenários de prática para os estudantes, por meio da integração ensino-serviço. Alguns
problemas enfrentados foram percebidos tais como deficiências quanto a conteúdos relacionados à
formação cultural, humanística e política; o professor universitário privilegiando os saberes técnicos;
grande força do modelo biomédico de ensino; os acadêmicos têm dificuldades em demonstrar
sensibilidade social e preocupação com os problemas da população, dificuldades para atuação em
Saúde Coletiva e deficiência no conhecimento das atribuições dos membros da equipe de Saúde da
Família.
Palavras-chave: Educação Profissionalizante. Estudantes de Odontologia. Recursos Humanos em
Odontologia.
1
Graduada em Odontologia- Universidade Federal de Pelotas. Especialista em Saúde Coletiva- Universidade
Federal de Santa Catarina. Mestranda Programa de Pós Graduação em Odontologia- Universidade Federal de
Santa Catarina. E-mail: [email protected]
2
Graduada em Odontologia- Universidade Federal de Santa Catarina (1998), mestrado em Odontologia - Saúde
Bucal Coletiva pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2001), doutorado em Enfermagem pela
Universidade Federal de Santa Catarina (2005) e Doutorado em Odontologia em Saúde Coletiva também pela
UFSC (2009). Pós-Doutorado no Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração e Gerência do Cuidado em
Enfermagem e Saúde (GEPADES/ PEN/UFSC). É professora do Departamento de Odontologia UFSC. E-mail:
[email protected]
3
Graduado em Odontologia- Universidade de São Paulo. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em
Saúde Coletiva da UFSC (2012-2015). Editor Chefe do Periódico Saúde & Transformação Social/Health &
Social Change" (ISSN 2178-7085). Docente do quadro permanente do Departamento de Saúde Pública da
Universidade Federal de Santa Catarina. Especializado em Saúde da Família- USP. Mestre em Saúde Pública
pelo Departamento de Medicina Social- USP. Doutor em Enfermagem Psiquiátrica pela EERP/USP. PósDoutorado em pesquisa na temática do uso de Álcool e Drogas pela CICAD/Organização dos Estados
Americanos. E-mail:[email protected]
Rev. Saúde Públ. Santa Cat., Florianópolis, v. 7, n. 3, p. 75-87, set./dez. 2014.
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1 INTRODUÇÃO
Vivendo a pós-modernidade, um momento histórico de tensão paradigmática
decorrente dos desdobramentos de um mundo globalizado, o contexto educacional atual se
caracteriza por movimentos de mudança, nos quais a concepção tradicional se torna obsoleta
frente aos desafios instalados no campo da educação. O panorama atual da educação impõe
novos rumos a serem trilhados na construção do conhecimento que, certamente, torna fácil
dimensionar o problema e difícil solucioná-lo a contento (SCORZONI; BUENO;
COSCRATO, 2013).
As universidades também vivem um momento especial, em busca de ampliar sua
relevância social. Estas não ocupam o mesmo lugar do passado na produção do conhecimento,
nem em sua difusão. Entretanto, a produção de conhecimento e a formação profissional ainda
seguem marcadas pela especialização, pela fragmentação e pelos interesses econômicos
hegemônicos. Encontra-se assim limitada a potência das respostas produzidas pela academia
em relação a temas complexos e contemporâneos, como os do campo da educação. Há,
portanto, a necessidade de redefinir referenciais e relações com os distintos segmentos da
sociedade no sentido de as universidades ocuparem um novo lugar social, mais relevante e
comprometido com a superação das desigualdades (FEUERWERKER, 2003).
O ensino superior em saúde tem sido palco de muitas discussões acerca das demandas
por novas formas de trabalhar o conhecimento dentro de uma perspectiva crítica e reflexiva,
centrada na integralidade. Nas últimas décadas, referenciais inovadores, dentro de uma
concepção crítica da Educação, vêm mudando de cenário, para a adesão pedagógica
progressista, evidenciando o ser humano sob o prisma da qualidade de vida e promoção da
saúde, acompanhando as políticas públicas da Educação e da Saúde. Partindo desses
pressupostos, entende-se como fundamental a superação da tendência pedagógica tradicional,
que se torna inadequada frente aos novos desafios de formação/atuação profissional que se
instalam no campo da educação e da saúde (SCORZONI; BUENO; COSCRATO, 2013).
Na área da Odontologia, até alguns anos, a prática privada predominava de maneira
absoluta como alternativa de ocupação para os cirurgiões-dentistas e sua inserção no sistema
público de saúde era limitada. Mais recentemente, entretanto, perceberam-se os limites do
mercado privado: o cirurgião-dentista, racional e maximizador de lucros relacionados com os
modelos de economia capitalista voltado para o mercado e a comunidade odontológica
integrada pela competição desenfreada, como também pela necessidade de sobrevivência
individual. Diante da concorrência acirrada, as estratégias para conseguir vantagens dentro do
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mercado têm sido baseadas na especialização e na incorporação tecnológica. Essas estratégias,
no entanto acarretam aumento de custos, que levam por sua vez a uma progressiva
institucionalização das práticas profissionais, em decorrência da existência de um segmento
social ainda mais restrito que segue com capacidade de compra privada dos serviços.
Coexiste, nessa arena, a outra face do mercado, da saúde pública no Brasil, que se consolidou
com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) nos anos 1990, revelando o desafio da
formação de um profissional apto para trabalhar na área da saúde bucal coletiva
(EMMERICH; CASTIEL, 2009).
Existem alguns desafios a serem enfrentados para pensar e construir as mudanças na
formação e, consequentemente, no perfil dos egressos, pois durante um longo tempo a
formação em Odontologia, privilegiou a especialização, o uso intensivo de tecnologias e os
procedimentos de alto custo, enquanto acumulavam-se as necessidades básicas de saúde de
grande parte da população brasileira (REGO; SIQUEIRA-BATISTA, 2007).
As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de graduação em
Odontologia definiram princípios, fundamentos, condições e procedimentos da formação de
cirurgiões-dentistas. Constituem atualmente a referência em âmbito nacional na organização,
desenvolvimento e avaliação dos projetos pedagógicos dos Cursos de Graduação em
Odontologia das Instituições do Sistema de Ensino Superior (BRASIL, 2002). Essas diretrizes
substituíram o antigo currículo mínimo, de 1982, a partir de uma necessidade apontada e
emanada da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996.
As DCN para os cursos de graduação em Odontologia assinalaram um perfil
generalista do profissional a ser formado no Brasil, enunciando habilidades e competências a
serem desenvolvidas pelo cirurgião-dentista. Assim, novos caminhos foram almejados para
responder ao desafio proposto, incluindo a construção de novos projetos pedagógicos nos
cursos e mudanças curriculares (TOASSI et al, 2012). Diante do exposto, o objetivo deste
estudo é discutir as questões relativas à formação profissional em odontologia a partir de
trabalhos publicados nacionalmente sobre o tema.
2 MÉTODO
Trata de uma revisão de literatura de publicações que proporcionam uma análise da
literatura recente, abrangendo o assunto com base na análise dos resultados das pesquisas
incluídas. Para tanto, realizou-se a pesquisa nas bases de dados Lilacs e SciELO, cruzando os
descritores odontologia com educação, ensino e formação. A busca foi delimitada pela
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abrangência temporal entre os anos de 2010 e 2013, publicados na América Latina, com
idioma em português, a fim de oferecer um panorama das pesquisas realizadas recentemente.
Para a presente revisão, foram selecionados apenas artigos inéditos de pesquisa
empírica, sendo excluídos, então, artigos de revisão de literatura e reflexão teórica,
dissertações, teses, resenhas, livros e capítulos. Seguindo esses critérios, foram encontrados
73 trabalhos na base de dados Lilacs e 59 no SciELO. Desses documentos foram
selecionados, a partir do título e leitura dos resumos, um conjunto de 18 publicações da base
de dados Lilacs e 19 publicações da base de dados SciELO. Excluindo os artigos que se
repetiam nas duas bases de dados, foram analisadas, neste trabalho, 23 publicações (Figura 1).
Figura 1: Esquema metodológico da revisão de literatura
Fonte: Dos autores (2014)
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A maioria dos 23 artigos foram publicados durante os anos de 2011 e 2012 (35% em
cada ano) e o menor número de publicações ocorreu no ano de 2013 (13%), provavelmente
em conseqüência da busca dos artigos ter sido realizada em setembro de 2013, antes do
término do referido ano.
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De forma a sistematizar os resultados encontrados, a discussão e análise dos artigos,
apresentada a seguir, organiza-se a partir de três categorias temáticas que foram elaboradas
após a leitura dos textos na íntegra: A formação ética, A integração ensino-serviço e O ensino
em consonância com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais.
3.1 FORMAÇÃO ÉTICA
Dentre os artigos selecionados, quatro tinham como objetivo avaliar diretamente a
formação ética na graduação em Odontologia. O artigo de Finkler et al (2011) objetiva
delinear, por meio de uma metodologia qualitativa, um panorama da formação ética dos
cursos de graduação em odontologia, apresentando-se como principais resultados a existência
de um comprometimento pontual dos cursos com a dimensão ética na formação profissional,
avanços em relação à capacitação docente, ao perfil do egresso e ao processo de integração
curricular; foram identificadas deficiências quanto aos conteúdos relacionados à formação
cultural, humanística e política, em relação à orientação didática, ao processo avaliativo e aos
cenários de ensino-apredizagem e à incipiente presença da bioética como disciplina. Este
estudo traz como conclusões que o contexto de mudanças curriculares indica a transitoriedade
das situações reveladas, os principais avanços foram em relação à capacitação docente e os
atrasos mais evidentes foram identificados em relação aos conteúdos.
Junqueira et al (2012) buscam verificar qual a percepção dos alunos acerca da
proposta de visitas supervisionadas às atividades realizadas na clínica para seu processo de
aprendizagem do estudo de bioética. Por meio da avaliação dos registros dos alunos feitos nos
fóruns de discussão da plataforma Moodle, os autores apontam que a incorporação dos
conteúdos de bioética nos currículos dos cursos de Odontologia atende aos pressupostos das
Diretrizes Curriculares Nacionais e que a atividade de visita supervisionada à clínica realizada
como estratégia pedagógica adotada pela disciplina de bioética foi bem avaliada pelos alunos.
Os autores concluíram que a percepção dos alunos sobre essas atividades clínicas permite aos
docentes aprimorá-la como estratégia pedagógica para as turmas futuras e servir de modelo
para outras instituições.
O artigo de Matos e Tenório (2010) tem por objetivo analisar a percepção que alunos,
professores e usuários dos ambulatórios têm acerca da formação profissional em sua
dimensão ética por meio de uma metodologia qualitativa, realizando a aplicação de
questionários, entrevistas e observação participante. Para Matos e Tenório, a maioria dos
alunos percebe que o seu curso estimula a dimensão ética, entretanto, alguns deles se remetem
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a comportamentos não éticos de colegas e professores; a maioria dos professores considera
que tem trabalhado a dimensão ética na formação dos alunos e essa valorização, para alguns
deles, é mais comum na prática docente atual do que no passado e ainda que os professores
relatem estarem trabalhando a dimensão ética no cotidiano dos ambulatórios, muitos revelam
as dificuldades e tentativas frustrantes para concretizar a intenção de formar profissionais com
valores éticos. Concluem que mesmo tendo ficado evidente, em muitos momentos, um
distanciamento entre o ideal dos discursos e o real do cotidiano dos ambulatórios e de
algumas percepções e experiências relatadas pelos sujeitos envolvidos, os valores éticos têm
sido incorporados à formação profissional, mostrando queo discurso já não é o mesmo do
passado, e essa mudança é um avanço a ser registrado.
3.2 INTEGRAÇÃO ENSINO-SERVIÇO
Com base na leitura sistematizada dos nove artigos que compõem o conjunto de
trabalhos que versavam sobre a integração ensino-serviço, alguns dados foram extraídos e
detalhados no Quadro 2.
A metodologia qualitativa foi a mais utilizada pelos autores ao realizarem seus
estudos, ainda que alguns autores tenham utilizado a metodologia qualitativa e quantitativa
concomitantemente.
A população estudada pelos trabalhos que compõem esta categoria incluem:
acadêmicos de Odontologia, Gestores, Preceptores Cirurgiões-Dentistas, cursos de graduação
em Odontologia e egressos dos cursos de Odontologia.
Souza e Carcereri (2011) evidenciam que a população estudada compreende a
integração ensino-serviço como potencial auxiliar no processo de mudança de práticas na
formação em saúde, que se desenvolveu ativamente a partir da reestruturação curricular,
apesar de existir grupos resistentes a essa integração. Toassi; Davogli; Lemos (2012)
corroboram com essa ideia, apontando que a presença de estudantes nos serviços é decisivo
para o avanço da proposta curricular, aproximando a universidade, o serviço e a comunidade.
Contudo, segundo Finkler; Caetano; Ramos (2011), para que as novas mudanças
curriculares sejam, de fato, capazes de favorecer o aperfeiçoamento do SUS, os cursos
necessitam de um grande avanço nas alianças e ações estratégicas com base na educação
permanente em saúde.
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Quadro 2: Informações sobre autores, objetivos e principais conclusões das publicações da Temática:
Integração ensino-serviço. Florianópolis, 2013.
Autores
Objetivo
Identificar o perfil dos pacientes e os tipos
Reis; Santos;
de procedimentos odontológicos realizados
Leles (2011)
na Clínica Integrada da FO.
Investigar o desempenho clínico de
Ferreira et al.
estudantes na perspectiva da integralidade
(2012)
de uma clínica integrada.
Souza;
Carcereri
(2011)
Investigar a integração ensino-serviço entre
uma universidade pública do sul do Brasil e
os serviços públicos de saúde.
Finkler;
Caetano;
Ramos (2011)
Analisar como ocorre a integração dos
cursos de Odontologia com a rede pública
de saúde.
Compreender sobre a percepção do
estudante da graduação em Odontologia em
relação à vivência da prática em saúde nos
serviços de Atenção Básica.
Analisar o papel do ensino nos serviços de
Toassi et al. atenção primária do SUS para a formação
(2012)
do cirurgião-dentista em uma universidade
pública no sul do Brasil.
Toassi;
Davoglio;
Lemos (2012)
Silva et
(2012)
Conhecer a situação dos cursos de
Odontologia no Brasil envolvidos com o
a1. Programa Nacional de Reorientação da
Formação Profissional em Saúde, em
relação aos diferentes espaços de
aprendizagem.
Badan;
Marcelo;
Rocha (2010)
Conhecer a percepção e utilização dos
conteúdos de saúde coletiva na prática dos
egressos de 2000 a 2002, do curso de
odontologia da UFG.
Apresentar a experiência de um grupo PETRodrigues A et Saúde da UEFS, na Bahia, em Unidades de
al. (2012)
Saúde, em uma perspectiva crítico-reflexiva
da interação ensino-serviço-comunidade.
Principais conclusões
A combinação de especialidades odontológicas
em muitos casos não é recomendada, o que
sugere maior aprimoramento no processo de
triagem de pacientes.
Os estudantes da nova matriz curricular
apresentaram maior produtividade de atividades
preventivas, enquanto os estudantes do currículo
antigo
apresentaram
caráter
curativo.
Apontaram a formação científica e o processo
organizacional como os principais fatores
relacionados aos seus desempenhos.
O processo de mudança de práticas se
desenvolveu
ativamente
a
partir
da
reestruturação curricular. A integração ensino
serviço é um dos eixos que busca solidificar a
proposta curricular, por meio de ações diversas
na interface do ensino com o serviço.
Os cursos precisam avançar em muito nas
alianças e ações estratégicas com base na
educação permanente em saúde, a fim de que as
novas
mudanças
curriculares
sejam
efetivamente capazes de colaborar com o
aperfeiçoamento do SUS.
A presença de estudantes nos serviços tem sido
determinante para o avanço da proposta
curricular, aproximando a Universidade do
serviço e da comunidade.
Há necessidade da problematização permanente
sobre as práticas e que se assegure infraestrutura
e profissionais qualificados para o ensino nos
serviços.
Mostra a disposição dos cursos em formarem
melhor seus graduandos, preparando-os para
responderem às demandas da população;
carecendo, avançar na diversificação dos
cenários de prática centrados nos cuidados
primários de saúde, distanciando-se da prática
mutiladora do ambiente hospitalar, e, na escala
de complexidade da atenção à saúde, diminuir
as necessidades secundárias e terciárias pela
resolução dos problemas primários.
Há necessidade de maior clareza, durante a
graduação, sobre o que sejam práticas em
saúde coletiva e maior integração curricular na
graduação em odontologia.
A experiência dos diferentes atores no PET
caracterizou-se como uma vivência inovadora,
desafiadora e complexa, uma vez que exigiu
articulação entre instituição de ensino, serviços
de saúde, profissionais e comunidade.
Fonte: Dos autores (2014)
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3.3 ENSINO EM CONSONÂNCIA COM AS NOVAS DIRETRIZES CURRICULARES
NACIONAIS
O conjunto de publicações categorizadas na temática de Ensino em consonância com
as novas Diretrizes Curriculares Nacionais é composto por 10 artigos. São detalhados no
quadro 2 os dados extraídos a partir da leitura dos trabalhos (Quadro 3).
Em relação à metodologia utilizada pelos pesquisadores, não houve grande diferença
entre a abordagem qualitativa e quantitativa, sendo ambas utilizadas amplamente. Dentre as
populações estudadas, os acadêmicos de odontologia foram incluídos na maioria dos estudos.
Quadro 3: Informações sobre autores, objetivos e principais conclusões das publicações da Temática:
Ensino em consonância com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais. Florianópolis, 2013.
Autores
Objetivo
Sanchez et al
(2012)
Avaliar concepções
relacionadas à APS.
de
dimensões
Cavaca et al
(2010)
Analisar a relação professor-aluno no
curso de Odontologia e discutir os
possíveis reflexos dessa relação no
processo ensino-aprendizagem.
Toassi et al
(2012)
Analisar o processo de mudança
curricular no curso de Odontologia.
Avaliar as representações sociais de
estudantes dos cursos de odontologia e
Torres; Carvalho; ciências sociais no processo saúdeMartins (2011)
doença e o papel do profissional de saúde
na sociedade para a formação social dos
estudantes de odontologia.
Caracterização do lugar da pesquisa na
organização curricular em instituições de
Maltagliati;
ensino superior de Odontologia na cidade
Goldenberg
de São Paulo, com vistas à identificação
(2011)
de tendências de reformulações no
contexto imediato à aprovação das
Diretrizes Curriculares Nacionais.
Lazzarin;
Nakama;
Cordoni Júnior
(2010)
Principais conclusões
Os alunos pesquisados apresentam algumas
posturas adequadas para o trabalho em APS. Por
outro lado, demonstram que o modelo
biomédico de ensino possui força significativa
na sua formação profissional.
Considera-se imprescindível a revisão da
formação didática dos docentes, para que estes
estejam preparados para implementar as
mudanças requeridas, de forma a valorizar o
papel do aluno na construção do conhecimento,
tornando-o capaz de exercer sua função social
como cirurgião-dentista no futuro.
Há necessidade de repensar o processo de
reforma curricular, reconstruindo continuamente
esse
currículo.
É
fundamental
tratar,
especificamente, da mudança no projeto
pedagógico e nas práticas curriculares.
Ao fim de seu curso, os estudantes de
odontologia não demonstram sensibilidade
social nem preocupação com os problemas da
população,
diferenciando-se
dos de ciências sociais.
Ao lado dos limites institucionais relacionados à
prática da pesquisa nas instituições (públicas e
privadas),
estas
disposições
atestam
movimentos de revisão curricular em atenção às
recomendações legais, sem alcançar, entretanto,
a estruturação de um currículo fundamentado no
ensino pela pesquisa.
Há uma necessidade de rever tanto a formação
Analisar a percepção de docentes do
quanto a atualização didático-pedagógica do
curso de graduação em odontologia da
professor universitário para que se possa buscar
UEL a respeito do papel do professor no
uma formação generalista, humanista, crítica e
processo ensino-aprendizagem.
reflexiva do estudante.
Continua...
Rev. Saúde Públ. Santa Cat., Florianópolis, v. 7, n. 3, p. 75-87, set./dez. 2014.
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Continuação
Autores
Lima; Pereira;
Drummond
(2013)
Noro; Torquato
(2011)
Moretti; Lima;
Machado (2011)
Araújo; Mello
(2011)
Objetivo
Principais conclusões
Verificar a percepção dos acadêmicos do Os acadêmicos de Odontologia da UNIFAL/MG
último período do curso de Odontologia consideram-se aptos a atuarem Saúde da
da UNIFAL, quanto a sua formação em Família.
Saúde da Família.
A formação em Odontologia deve aprofundar
sua discussão e na perspectiva da clínica
Apresentar
a
visão
de
alunos
ampliada, permitindo que as conquistas do SUS
concludentes de curso de Odontologia
tragam benefícios concretos tanto para os
sobre o aprendizado na área da Saúde
profissionais de saúde, no desempenho de sua
Bucal Coletiva e conhecer sua percepção
função de transformador da realidade social,
sobre o SUS.
quanto para a população, na conquista de seus
direitos constitucionais.
Falta de formação no trabalho em equipe
multiprofissional, existência de dificuldades
Investigar a percepção de acadêmicos de para atuação em Saúde Coletiva, assim como
Odontologia sobre a atuação dos ACS deficiência no conhecimento das atribuições dos
junto ao trabalho de Saúde Bucal.
membros da equipe de Saúde da Família, em
especial sobre as atribuições dos ACS junto à
Saúde Bucal.
O ensino da Odontologia demonstra atenção
profissional suficientemente adequada; a
formação do docente privilegia os saberes
Apresentar e discutir a formação do técnicos em detrimento dos pedagógicos; a
odontólogo à luz do exercício da expansão
deficiente
do
atendimento
docência em seis cursos de graduação.
odontológico através da rede pública se
contrapõe ao aumento no número dos cursos de
graduação, e a ênfase dada à prevenção e
promoção da saúde é limitada.
Fonte: Do autor (2014)
Sanchez et al (2012) evidenciam que os acadêmicos participantes do estudo
apresentam algumas posturas adequadas para o trabalho em atenção primária à saúde, porém
o modelo biomédico de ensino ainda possui grande força na formação dos estudantes,
podendo ser um impedimento para a conformação de novas práticas em saúde. Os acadêmicos
participantes do estudo de Lima; Pereira; Drummond (2013) consideram-se preparados a
atuarem em Equipes de Saúde Família. Contudo, conforme Torres; Carvalho; Martins (2011),
os acadêmicos de Odontologia não demonstram sensibilidade social nem preocupação com os
problemas da população. Segundo Moretti-Pires; Lima; Machado (2011), os estudantes têm
deficiente formação no trabalho em equipe multiprofissional, dificuldades para atuação em
Saúde Coletiva e deficiência no conhecimento das atribuições dos membros da Equipe de
Saúde da Família, especialmente sobre as atribuições dos agentes comunitários de saúde junto
à saúde bucal.
No que concerne aos docentes, Cavaca et al (2010) e Lazzarin; Nakama; Júnior (2010)
consideram importante a revisão da formação didático-pedagógica dos docentes a fim de que
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estejam preparados para implementar as mudanças curriculares necessárias e valorizar o papel
do aluno na construção do conhecimento, na busca de uma formação generalista, humanista,
crítica e reflexiva dos futuros cirurgiões-dentistas. Araújo e Mello (2011) apontam que a
formação do professor universitário privilegia os saberes técnicos em detrimento das
metodologias pedagógicas e que a ênfase dada à prevenção e promoção da saúde por parte dos
docentes é limitada, evidenciando a relevância da integração entre as dimensões técnicas e
ético-humanísticas em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais.
4 CONCLUSÕES
A formação profissional em Odontologia é objeto de pesquisas realizadas
recentemente, que se caracterizam pela diversidade metodológica, predominando a utilização
de metodologias qualitativas. A população de estudo das pesquisas inclui acadêmicos de
odontologia, docentes, equipe diretiva da Universidade, gestores, cirurgiões-dentistas,
preceptores dos serviços e os próprios cursos de graduação em odontologia.
Uma limitação deste estudo foi o fato de incluir artigos de um período determinado,
restringindo, assim, a possibilidade de uma análise histórica, representando um recorte
temporal dos fatos.
Com a presente revisão pode-se observar que o contexto de mudanças curriculares está
em um momento de transitoriedade, evidenciando alguns avanços como a incorporação dos
valores éticos à formação profissional dos cirurgiões-dentistas e a criação de novos cenários
de prática para os estudantes por meio da integração ensino-serviço. Alguns problemas
enfrentados também foram percebidos, tais como: deficiências quanto aos conteúdos
relacionados à formação cultural, humanística e política; o professor universitário
privilegiando os saberes técnicos em detrimento dos pedagógicos, ainda com grande força do
modelo biomédico de ensino; os acadêmicos de Odontologia possuem dificuldades em
demonstrar sensibilidade social e preocupação com os problemas da população, dificuldades
para atuação em Saúde Coletiva e deficiência no conhecimento das atribuições dos membros
da equipe de Saúde da Família.
Espera-se que essa revisão contribua para a produção do conhecimento, para a criação
de novos espaços de discussão sobre a formação em Odontologia, corroborando com a
contribuição que a Odontologia e a Saúde Coletiva podem dar à sociedade.
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VOCATIONAL TRAINING IN DENTISTRY: LITERATURE REVIEW
ABSTRACT
The aim of this study is discuss issues relating to vocational training in dentistry from published works
on the subject. The research was conducted in Lilacs and SciELO databases, using as descriptors the
words Dentistry, Education, Teaching and Training. After the search, reading the titles and abstracts
and application of inclusion and exclusion criteria, 23 articles were selected. In order to systematize
the analysis of the articles were organized into three themes: Ethics (4 articles); The teaching-service
integration (9 articles); and Training and teaching in line with the National Curriculum Guidelines (10
articles). The context of curricular changes are in a moment of transience, showing some advances as
the incorporation of ethical values on vocational training of dentists and creating new scenarios
practice for students through the teaching-service integration. Some problems were encountered such
as perceived deficiencies regarding content related to humanistic, cultural and political education; the
professor focusing on technical knowledge; the biomedical model of teaching; students have
difficulties in demonstrating social sensitivity and concern for people's problems, difficulties to work
in Public Health and lack of knowledge of the duties of the staff of Family Health.
Keywords: Education Professional . Dental Students. Human resources in dentistry.
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Submetido em: 16/09/2014
Aceito para publicação em: 18/12/2014
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