A Legião Estrangeira

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Transcrição

A Legião Estrangeira
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LEGIAO ESTRANGEIRA
SE ME perguntassem sobre Ofelia e
seus pais, teria resp.ondido com 0 decoro da honesti­
dade: mal 'Os conheci. Diante do mesmo jUri ao qual
l'esponderia: mal me cpnhego - e para cada cara
de jurado diria com 0 mesmo limpido olhar de quem
se hipnotizou para a obediencia: mal vos oonhe.;o.
Mas as vezes acordo do longo sono e volto-me com
docilidade para 0 delicado abismo da des.ardem.
Estou tentando falar sobre aquela familia que
sumiu hit anos sem deixar tra.;os em mini, e de quem
me ficara apenas uma imagem esverdaada pela dis­
tancia. Meu inesperado consentimento em saber foi
hoje pl'ovocado pelo fato de ter aparecido em casa
urn pinto. Vei.o trazido por mao que queria ter 0
gosto de me dar coisa nascida. Ao desengradarmos
I) pinto, sua graga pegou-nos em flagrante. Amanha
mas 0 mom2uto de sil1~ncio que espero 0 ana
nteiro veio um dia antes de Cristo nascaI'. Coisa
pOl' 8i propria despeda a 8uavlssima cUl'io­
delade que junto de uma manjedoura e adora.;ao.
Ora. disse men marido, e cssa agora. Sentira-se
demais. Snjos, de boca aberta, os meninos
:oB apr0ximaram. Eu, urn pouco ousada, fiquei fe~
-iz. 0 pinto, esse piava, Mas. Natal e amanha, disse
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)
acanhado 0 menino mais velho. SO'rtiamos desam.­
parados, curiosos.
Mas sentimentos saO' agua de um instante. Em
breve - como a mesma agua ja e -autra quandO' 0
SO'I a deixa muito leve, e ja O'utra quandO' se enerva
'tentando morder uma pedra, e outra ainda no pe
que mergulha - em breve ja naO' tinhamO's no rosto
apenas aura e ilumina~a.(). Em tOrno dO' pinto afli­
to, estiivamos bons e ansiO'sos. A meu marido, a bon­
dade deixa rispido e severo, ao que ja nos habitua­
mos; ele se crucifica um PO'Uco. Nos meninos, que
sao mais graves, a bondade e um ardor. A mim, a
bondade me intimida. Dai a pouco a mesma agua
era outra, e olhavamos contrafeitO's, enredados na
falta de habilidade de sermos bons. E, a agua ja
()utra, pO'uco a pouco tinhamos nO' rosto a responsa...;
biIidade de uma aspira~ao, .0 cora~aO' pesado de um
amor que ja nao era mais livre. Tambem nos de~
sajeitava 0 merlo que 0 pinto tinha de nos; ali estii­
vamO's, e nenhum merecia comparecer a um pinto;
a cada piar, ele nos espargia para fora. A cada piar,
reduzia-nos a naO' fazer nada. A constancia de seu
'pavor acusava-nos de uma alegria levi ana que' a
essa hora nem alegria mais era, era amol~ao. Pas­
sara 0' instante do pinto, e ele, cada vez mais ul'­
gente, expuIsava-nos sem nos largar. Nos, os adul­
to's, ja teriamos encerradO' 0 sentimento. Mas nos
meninos havia uma indignagao silenciosa, e a acU­
s~ao deles e que nada faziamos pelo pinto ou pela
humaniaade. A nos, pai e mae, 0 piar cada vez
ma.is ininterrupto ja nos levara a uma resignagao
constrangida: a B coisas sao assim mesmO'. S6 que
nunea tinhatnos contado isso aos meninos, tinhamos
vergonha; eadiavamO's indefinidamente 0' momenta
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chama-los e falar claro que as coisas sao assim.
Cada vez ficava mais difieil, 0 siH~neio crescia, e ~Ies
empurravam um pouco 0 afa com que queriamos
Ihes dar, em troca, amor. Se nunca havlamos con·
versado sobre as c,oisas, muito mais tivemos naquele
instante que esconder deles 0 sorriso que terminou
nos vindo com 0 piar desesperado daquele bico, urn
sorriso como se a nos coubesse aben-;oar 0 fato de
as coisas serem assim mesmo, e tivessemos acabado
de aben<;,oit-Ias.
o pinto, esse piava. Sabre a mesa envernizada
ele nao ousava urn passo, urn movimento, ~le piava
para dentro. Eu nao sabia sequer onde cabia tanto
terror numa coisa que era so penas. Penl:j.s encobrin­
do 0 que? meia duzia de ossos que se haviam reunido
fracos para 0 que? para 0 piar de urn terror. Em
silencio, em respeito a impossibiIidade. de nos com­
preendermos, em respeito a revolta dos meninos C011­
tra n6s, em silencio olhavamos sem muita pacien­
cia, Era impossivel dar-Ihe a palavra asseguradora
que 0 fizesse nao ter medo, consolar coisa que por
tel' nascido se espanta. Como pr.ometer-Ihe 0 habito?
Pai e mae, sabiamos quae breve seria a vida do pinto.
Tambem este sahia, do modo como as coisas vivas
sahem: atraves do susto profundo.
ltJ enquanto isso, 0 pinto cheio de gra<;a, coisa
breve e amarela. Eu queria que tambem ele sentis­
se a g;ra<;a de sua vida, assim como ja pediram de
nos, ele que era a alegria do's outros, nao a propria.
Quesentisse que era gratuito, nem sequer neces­
sario
urn dos pint'Os tem que ser inutn - s6 nas­
cera para a gloria de Deus, entao fosse a alegria
dOB homens. Mas era amar 0 nosso amor querer
q Lle ~) pinto fosse feIi-z somente porque Q amava~os.
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Eu sabia tamMm que
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s6 mae resolve 0 nasciIriento,
e 0 nosso era amor de quem se compraz ern amar:
eu me revolvia na gra<;a de me ser dado amar, sinos,.
sinos repicavam porque sei ad.orar. Mas 0 pinto tre­
mia, coisa de terror, nao de beleza.
o menino menor noo suportou mais: - Voce quer ser a mae dele? Eu disse que sim, ern sobressalto. Eu era a enviada junto aquela coisa que nao compreendia a
minha unica linguagem: eu estava amando sem ser
amada. A missao era faUvel, e os olhos de quatro
meninos aguardavam com a intransig~ncia da es­
perant;a 0 meu primeiro gesto de am.or eficaz. Re­
euei urn .pouco, sorrindo tOda solitaria, olhei para
m~nha familia, queria que ~les sorrissem. Um ho­
.mem e quatro meninos me fitavam, incredulos e con­
fiantes. Eu era a mulher da casa, celeiro. Por que
a impassibilidade dos cinco, nao entendi. Quantas
vezes teria eu falhado para que, na minha hora de
timidez, l€ Ies me olhassem. Tentei isolar-me do de­
safio dos cinco homens para tambem eu esperar de
mim e lembrar-me de como e a amor. Abri a bOca,
ia dizer-Ihes a verdade: nao sei como.
Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela
segurasse no 0010 0 filho. E dissesse: cure meu fi­
lAO. Eu diria: como e que se faz? Ela responderia:
cure meu filho. Eu diria: tambem nao seL Ela
responderia: cure meu filho. Entao - enta~ por­
que nao sei fazer nada e porque nao me lembro de
nada e porque e de noUe - entao estendo a mao
e salvo uma crian<;a. Porque e de noite, porquees­
tou sozinha na noite de autra pess'Oa, porque sste
silencioe muito gr~nde para mim, porque tenho duas
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maos para sacrificar a melhor delas e porquc nao
ienho escolha.
Entao 0C'tendi a mao e peguei 0 pinto.
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Fo! nesse instante que revi Ofelia.E nesse ins­
tante lembrei-me de que fora a testemunha de uma
menina.
:'>fais tarde lembrei-me de como a vizinha, mae
de Ofelia, era trigueira como uma hindu. Tinha
olheiras arroxeadas que a embelezavam muito e da­
vam-Ihe urn ar fatigado que fazia os homens a .olha­
rem uma segunda vez. Urn dia, no banco da pra!;a,
enquanto as crianc;;as brincavam, ela me dissera com
aquela sua cabe<;ia obstinada de quem olha para 0
deserto: "Sempre quis tirar urn curso de enfeitar
bOlos." Lembrei-me de que 0 marido - trigueiro
tambem, como se se tivessem escolhioo pela secura
da cor -- queria subir na vida atraves de seu ramo
de negocios: gerencia de hoteis ou dono mesmo, nun­
ea entendi bern. 0 que the dava uma dura polidez.
Quando eramos for<;iados no elevador a contato mais
pro}.ongado, ele aceitava a troca de palavras num
tom de arrogancia que trazia de lutas maiores. Ate
chegarmos ao decimo andar, a humildade a que sua
frieza me forc;;ara ja 0 amansara urn pouco; talvez
chegasse em casa mais bern servido. Quantoa mae
de Ofelia, ela temia que a for<;ia de morarmos no
mesmo an dar houvesse intimidade e, sem saber que
tambem eu me resguardava, evitava~me.A unica
intimidade f6ra a do banco do jardim, onde, com oIheiras e bOca fina, falara sobre enfeitar Mlos.
Eu nao soubera 0 que retrucar e terminara dizendo, para que soubesse que eu gostava dela, que 0 curso i
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\. ....-..-:;""~;:..~.~...,:::;.::::;;;;;;;;;;..:;",.~ ........"'" dos bOlos me agradaria. Ssse unieo mOlnento mutuo
afastara-nos ainda mais, por receio de urn abuso de
compreensao. A mae de Ofelia chegara mesmo a
ser grosseira no elevador: no dia seguinte eu estava
com urn dos menioos pela mao, 0 elevador descia
devagar, e eu, opressa pelo silencio que, a outra,
fortificava - dissera num tom de agrado que no
mesmo in stante tambem a mim repugnara:
_ Estamos indo para a casa da av6 dele.
E ela, para meu espanto:
_ Nao perguntei nada, nunea me meto na vida
dos vizinhos.
- Ora, disse eu baixo.
o que, ali mesmo no elevador, me fizera pensar
que eu estava pagando por te1 sido sua confidente
de um minuto 00 banco do jardim. 0 que, por sua
vez, me fizera pensar que ela talvez julgasse me ter
confiado mais do que na realidade confiara. 0 que,
por sua vez, me fizera pensar se na verdade ela nlio
me dissera mais do que n6s duas perceberamos. En­
quanto 0 elevador continuava a descer e parar, eu
reconstituira seu ar insistente e sonhador no banco
do jardim - e .olhara com olhos novos para a beleza
altaneira da mae de Ofelia. "Nao contarei a nin­
guem que voce quer enfeitar bolOS", pensei olhan~
do~a rapidamente.
o pai agressivo, a mae se guardando. Famflia
soberba. Tratavam~me como se eu jii. morasse no
futuro hotel deles e ofendesse-os com 0 pagamento
que exigiam. Sobretudo tratavam-me como se nem
eu acreditasse, nem eles pudessem provar quem eles
eram. E quem eram eles? indagava-me as vezes.
Por que a bofetada que estava impressa no rosto
,deles, por que a dinastia exilada. E tanto nao me
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perdoa vam que eu agia nao perdoada: se os ertcort·
na rua, fora do setor que me era circunscrito,
~·.)ih c;,:,,,U1GicVic-fne, sLlrp-c8enctlLta ern (1e111;0: recuava
]J2ll'U etes passarem, dava-lhes a vez os tres tri­
g-uell'OS e bem vestidos passavam como se fossem a
aquela familia que vivia sob 0 signo de um
ou de um martiri,o OCUlto, arroxeados como
fwxes ria £'alX~to. j;'ami11a antiga, aquela.
Mas 0 contato se fez atraves da filha. Era uma
menina nelisslma, com longos cachos duros, Ofelia,
com oweH'as 19ualS as aa mae, as mesmas gengivas
urn pouCO l'uXdS, a mesma boca fma de qut:m se
(;OnOil. lVUiS es",a, a boc:::., falava. Deu para apare­
(;cr em casa. 'l'oca va a campaml1a, eu abna a por­
nao VIa nada, OUVIa uma voz decidida:
--- >::lou eu, Ofelia Maria dos·Santos Aguiar.
Desalhmada, eu abrla a porta. OfelIa entrava.
A visna era para mim, me us dois meninos daquele
tempo eram pequenos demais para sua sabedoria
era grande e ocupada, mas era para
lYlnTI a visita: com uma atengao toda interior, como
8e para tud.o houvesse um tempo, levantava com cui­
dado a saia de babados, sentava-se, ajeitava os ba­
bados -- e so entao me olhava. Eu, que entao co­
o arquivo do eseritorio, eu trabalhava e ouvia.
Ofelia, el.a dava-me eonselhos. Tinha opiniao for­
mada a respeito de tudo. Tud,o 0 que eu fazia era
n111 pouco errado, na sua opiniao. Dizia "na minha
em tom ressentido, como se eu lhe devesse
tel' pedido conselhos e, j/\ que eu nao pedia, ela
c\HY<:1. Com seus oito an,os altivos e bem vividos, di­
;;:j;;l que na sua opiniao eu nao criava bem os meni­
1l0S;
meninos quando se da a mao querem subir
cabe<;u. Banana nao se mistura com leite. Mata.
Ll'3. va
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Mas e claro a 'senhora faz 0 que quiser; cada uM
sabe de si. Nao era mais -hora de estar de robe; sua
mae mudava de roupa l.ogo que saia da cama, mas
cada um termina levando a vida que quer. Sa eu ex­
plicava que era porqUe ainda nao tomara banho,
Ofelia ficava quieta, olhando-me atenta. Com algu­
ma suavidade, entao, com alguma paciencia, acres­
centava que nao era hora de ainda nao ter tomado
banho. Nunca era minha a ultima palavra. Que
ultima palavra~oderia eu dar quand,o ela me dizia:
empada de legume nao tem; tampa. Uma tarde lluma
padaria vi-me inesperadamente diante daverdade
inutil: Ia estava sem tampa uma fila de empadas
de legumes. "Mas eu the avisei", ouvi-a como se
ela estivesse presente. Com seus eaehos e babados,
com sua delieadeza firme, era uma visitagao m~ sala
ainda desarrumada. 0 que valia e que dizia muita
tolice tambem, () que, no meu desalento, me fazia
sorrir desesperada.
A pio'l' parte davisitac;ao era a do silencio. Eu
erguia os olhos da rruiquina, e nao saberia ha quanto
tempo Ofelia me olhava em sileneio. 0 que em mim
pode atrair essa menina? exasperava-me eu. Uma
vez, depois de seu longo siIencio, dis sera-me tran­
qtiila: a senhora e esquisita. E eu, atingida em
cheio no rosto sem cobertura - logo no rosto que
sendoo nosso avesso e c.oisa tao sensi'vel - eu, atin­
gidaem cheio, pensara com raiva: pois vai ver que
e esse esquisito mesmo que voce procura. Ela que
estava toda eoberta, e tinha mae coberta, e pai eo­
berto.
Eu ainda prefyia, pois, conselho e critica~ J Ii
menos tolerlivel era 0 seu habito de usar a palavra
pO'f'tam;bo com que ligava as frases numa concatena­
1.18
que nao falhava, Dissera-me que eu comprara
legumes demais na feira - portanto - nao .iam
caber na geladeira pequena e - portanto - mur­
chariam antes da proxima feira. Dias depois eu
olhava as legumes murchos. Portanto, aim. Outra
vez vira menos legumes espalhados pela mesa da
cozinha, eu que disfal'<;;adamente obedecera. Ofelia
olhara, olhara. Pareda prestes a nao dizer nada. Eu
esperava de pe, agressiva, muda. Ofelia dissera sem
ilenhuma enfase:
E pouco ate a feira que vern.
Os legumes acabaram pelo meio da semana.
Como e que ela sabe? perguntava-me eu curiosa.
"Portanto" seria a l'esposta talvez. POI' que eu nun­
ea, nunea sabia? POI' que sabia ela de tudo, POI' que
era a terra tao familiar a ela, e eu sem cobertura?
Portanto? Portanto.
Uma vez Ofelia errou. Geografia - disse sen­
Lada defronte a mim com os dedos cruzados no colo
e urn modo de estudar. Nao chegava a ser erro,
era mais urn leve estrabismo de pensamento - mas
para mim teve a gta<;;a de uma queda, e antes que
o instante passasse, eu POl' dentro Ihe disse: e assim
mesmo que se faz, isso! va devag,ar assim, e um dia
vai ser mais facil ou mais diflcH para voce, .mas
assim, va errando, bern, bern devagar.
Uma manha, no meio de sua oonversa, avisou­
-!lie 8utoritaria: "Vou em casa vel' uma coisa mas
volto logo!' Arrisquei: "Se voce esta muito ocupa­
nao precisa voltar." Ofelia olhou-me muda, in­
quisitiva. "Existe uma menina muito antipatica",
pensei bem claro para que ela vi sse a frase toda ex­
posta no meu rost.o. Ela sustentou 0 olhar. 0 olhar
nnde ..- com surpresa e desola<;ao - vi fidelidade,
4­
paciente eonfian~a em mim e 0 silencio de quem
nunea falou. Quando e que eu the jogara um osso
para que ela me seguisse muda pelo resto da vida?
Desviei os olhos. Ela suspirou tranqiiila. E disse
com maior decisao ainda: ''Volto logo." Que que
'~la quer? - agitei-me - por que atraiopessoas que
nem sequer gostam de mim?
Uma vez, quando Ofelia estava sentada, toea·
ram a campainha. Fui abrir e deparei com a mae
de Ofelia. Vinha protetora, exigente:
- Por acaso Ofelia Maria esta ai?
- Estil, escusei-me como se a tivesse raptado.
- Nao fa~a mais isso - disse ela para Ofelia
num tom que me era dirigido; depois voltou-se para
mim e, subitamente ofendida : - Desculpe 0 inco­
modo.
- N em pense nisso, essa men ina e tao inteli­
gente.
A mae olhou-me em leve surpresa - mas a sus­
peita passou-lhe pelos olhos. E nales eu Ii :.que e
que voce quer dela?
- J a proibi Ofelia Maria de incomodar a se­
nhora, disse agora em del'!confian~a aberta. Ese­
gurando firme a mao da menina para leva-la, pa­
reeia defende-Ia contra mim. Com uma sensa~ao de
decad.eneia, espiei pela portinhola entreaberta sem
ruidos: la iam as duas pelo corredor que 1evava 0.0
apartamento delas, a mae abrigando a filha com
mUrDlur:i:os de repreensao amorosa, a filha impas­
slvel a fremir cachos e babados. Ao fechar a por­
tinhola pereebi que ainda nao mudara de roupa e,
portanto,assim fora vista pela mae que mudava de
roupa ao sair da cama. Pensei com alguma desen·
e
,
-
;
~.
115
-
_-.1ll:
c:SlUU
lJem, agora a mae me despreza, portanto
Mas voli;ava, sun. Eu era atraente demais para
U'litllj;a. 'l'inha defeitos bastantes para seus
ll:O,,"iiUS, e.ca cerreno para 0 desenvolvlmento de sua
'l~rlUd,",e, Ja me tornara 0 domimo daquela mmha Q
tact v01LaVa, sun, levan~ava os lJalJad.os, sen­
i'ljUdct
!
.
\,
\
eSsa ocasiiio, sendo perto da Pascoa, a fei­
~"""".c/a elleia ue pintos, e eu trouxe um para os (~;"""ih~;:;. DI'.,ih;.amos,
aepois ete ficou pela eozinha, lV~ais tarde Ofelia aparecia ',~;L:\ ;'l, ,:3i [.a. £.; t.l oaLli", a mliquma, de vez em quan­ "1l(U.,GSCla disLl'aida. A voz igual da menina, voz hlla (1e cor, me entontecia um pouco, en­
pu" entre as paiavras escritas; ela dizia, ela Ll<;"W103
pe1a rua.
c(: ;.~_l~~,"
me pareceu que de repente tudo pa­
:,e"U"ldo falta do supHcio, olhei-a enevoada.
')12,':lL.a estava de cabe~a a prumo, com os ca­
"'(il
Hr.ceital11ente imobilizados. e isso, disse. A?
1.380 0 que. 1"80! disse inflexiveI. Isso? I"ieari'amos indefinidamente numa roda de
e "isso 1", nao fosse a for<;a excepcional da­
c,ia
;a:m;a, que, sem uma palavra, apenas com a
':'.
autoridade do olhar, me obrigasse a ouvir
cIa propria ouvia. N 0 siU~ncio da aten<;i'io a
.,: me 10r<;ara, ,ouvi finalmente 0 fraco piar do
cozinha.
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E
0
Pinto '? disse desconfiadissima.
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"'a=-,,",~--'''''''. ==~
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,ivre (te a menina voltar.
,"l-t~d, "~"',"<:!.I""l='.-.·i.:",:::r:r-"'=.::;..
f. Comprei um pinto, respondi resignada. Pinto! repetiu como se eu a tivesse insultado. Pinto. nisso ficariamos. Nao fosse certa coisa que vi antes nunca vira.
o que era? Mas, 0 que fosse, nao estava mais
ali. Um pinto faiscara urn segundo em sens olhos
e neles submergira para nunca ter existido. E a som­
bra se fizera. Uma sombra profunda cobrindo a
terra. Do instante em que involuntariameute sua
boca estremecendo quase pensara "eu tambem gue­
ro", desse instantea escuridao se aden sara no fun­
do dos oJnos num desejo retratil que, se tocassem,
mais se fecharia como falha de dormideira. E que
recuava diante do impassivel, 0 impossivel que se
aproximara e, em tenta<;ao, fora quase de'a: 0 es­
curo dos olhos vacHou como um .ouro. Uma astucia
passou-Ihe entao pelo rosto - se eu nao estiv€l'lse ali,
por astucia, ela roubaria qualquer coisa. Nos olhos
que pestanejaram a dissimulada sagacidade, nos
.oIhos a grande tendencia a rapina. Olhou-me ra­
pida, e era a inveja, voce tem tudo, e a censura, por-­
que nao somos a mesma e eu terei um pinto, e a
cobi~a ela me queria para ela. Devagar fui me
reclinando no espaldar da cadeira, sua inveja que
desnudava minha pobreza, e deixava minha pobreza
pensativa; nao estivesse eu ali, e ela roubava minha
pobreza tambem: ela queria tudo. Depois que 0
tremor da cobi'l(a pass.ou, 0 escurodos olhos sofreu
todo: nao era somente a um rosto sem cobertura
que eu a expunha, agora eu a expusera ao melhor
do mundo: a um pinto. Sem me verem, seus olhos
quentes me fitavam numa abstrac;ao intensa que se
punha em intimo contato com minha intimidade.
117
"""~."""","-."--~-'.~
f.J
COIsa acontecia que eu nao conseguia enten­
del' , 1 alho nu. E de novo 0 desejo voltou. Dessa
vez as olhos se angustiaram como se nada pudessem
fazer com .0 resto do corpo que se desprendia inde­
E mais sealargavam, espantados com 0
ffsico da deCOrnp.8si~ao que dentro dela se
lazw. A boca delicada ficou um pouco infantil, de
urn roxo pisado. Olhou para 0 teto - as olheiras
davarn-Ihe um al' de martiri.o supremo. Sem me
mexer, eu a olhava. Eu sabia de grande incidencia
de mortalidade infantil. Nela a grande pergunta me
envolvia: vale a pena? Nao sei, disse-Ihe minha quie­
tude eada vez mai~r, mas e assim. Ali, diante de
l'neu silencio, ela estava se dando ao process-a, e se
me perguntava a grande pergunta, tinha que ficar
gem resposta. Tinha que se dar - por nada. Teria
que ser. E por nada. Ela se ag,arrava em si, nao
qucrendo. Mas eu esperava. Eu sabia que nos so­
mas aquilo que tem de acontecer. Eu s6 podia ser­
\lir,·lhe a ela de silencio. E, deslumbrada de desen­
L€mdimento, ouvia bater dentro de mim um cora~ao
que nao era 0 meu. Diante de meus olhos fascina­
ali diante de mirn, como um ectoplasma, ela es­
java se transformando em crian<;a.
Na.o sem dor. Em silencio eu via a dor de sua
alegria dificil. A lent a colica de um caracol. Ela
passon devagar a lfngua pelos labios finos. (Me
disse seu corpo na biparti~ao penosa. Estou
ajudando, l'espondeu minha imobiUdade.) A agonia
lenta. Ela estava engrossando toda, a deformar-se
com Jentidao. Por momentos os olhos tornavam-se
1I1U'OS cllios, numa avidez de ovo. E a boca de uma
trernula. Quase sorria entao, como se esten­
dicta numa mesa de opera<;ao dissesse que nao es­
~
tava doendo tanto. Ela nao me perdia de vista:
havia marca de pes que ela nao via, por ali alguem
ja tinha andad.o, e ela adivinhava que eu tinha an­
dado muito. Mais e mais se deformava, quase iden­
tica a si mesma. Arrisco? deixo eu sentir? per­
guntava-se nela. Sim, respondeu-se por mim.
E 0 meu primeiro sim embriagou-ine. Sim, re­
petiu meu silencio para 0 dela,. sim. Com#'na hora
de meu filho nascer eu the dis sera : sim. Eu tinha
a ousadia dedizer sim a Ofelia, eu que sabia que
tambem se morre em crian~a sem ninguem perceber.
Sim, repeti embriagada, porque .0 perigo maior nao
existe: quando se vai, se vai junto, voce mesma
sempre estara; isso, isso voce levara consigo para
o que for ser.
A agonia de seu nascimento. Ate entao eu nun­
ca vira a coragem. A coragem de ser 0 outro que
se e, a de nascer do proprio parto, e de largar no
chao 0 corpo antigo. Esem the terem resp.ondido
se valia a pena. "Eu", tentava dizer seu corpo mo­
lhado pelas aguas. Suas nupcias consigo mesma.
Ofelia perguntou devagar, com recato pelo que
Ihe acontecia:
- :E urn pinto?
Nao olhei para ela.
-:E um pinto, sim.
Da cozinha vinha 0 fraco piar. Ficamos em si­
lencio como se Jesus tivesse nascido. Ofelia respi­
rava, respirava.
- Um pintinho? certificou-se em duvida.
- Um pintinho, sim, disse eu guiando-a com
cuidado para a vida.
- Ah, um pintinho, disse meditando.
1.l9
~::"
- Urn pintinho, disse eu sem brutaliza-Ia.
J a ha alguns minut.os eu me achava diante de
uma crian<;a. Fizera-se a, metamorfose.
Ele esta na cozinha.
Na cozinha'? repetiu fazendo-se de desenten­
elida.
Na cozinha, repeti pela primeira vez autod­
sem acrescentar mais nada.
Ah, na cozinha, disse Ofelia muito fingida,
C olhou para 0 teto.
Mas ela sofria. Com alguma vergonha notei
afinal que estava me vingando. A outra sofria, fin­
o'havn para 0 teto. A boca, as olheiras.
Voce pode ir pra cozinha brincar com 0 pin­
tinho.
-- E u ... '? perguntou sonsa.
-. ]\![as s6 se voce quiser.
Sei que deveria ter mandado, para na.o expo-Ia
a humilha<;ao de querer tanto. Sei que n&o Ihe de­
veda tel' dado a escolha, e entao ela teria a des­
culpa de que fora obrigada a obedecer. :Mas naque­
Ie moment.o nao era pOl' vinganc;a que eu Ihe dava
o tormento da liberdade. Ii: que aquele passo, tam­
bem
passo ela deveria dar sozinha. Sozinha
agora Ela e que 'ceria de ir a montanha. Por - .. confundia-rne eLl ' - pOl' que estoutentando sopral' minha vida na sua boca roxa? por que estou
1he dando uma respira~ao? como ouso respirar den­
t1'O
Be e~.l mesma ... somente para que ela an­
ck. es[;on lhe cl.ando ·:::3 PB,SSOS penos03? sopro-Ihe mi­
nha vida s6 para que um dia, exausta, ela por um
sinta com.o se a montanha tivesse caminha­
f) ate ela?
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Teria eu 0 direito. Mas nao tinha escolha. Era
uma emergencia como se os labios da menina es­
tivessem cada vez mais roxos.
- S6 va ver 0 pintinho se voce quiser, repeti
ent&o com a extrema dureza de quem salva.
Ficamos nos defrontand.o, dissemelhantes, cor­
po separadp de corpo; somente a hostilidade nos
unia. Eu estava seca e inerte na cadeira para que
a menina se fizesse dor dentro de outro ser, firme
para que ela lutasse dentro de mim; cada vez mais
forte a medida que Ofelia precisasse me odiar. e
precisasse que eu resistisse ao sofriment.o de seu
odio. Na.o posso viver isso por voce -disse-lhe
minha frieza. SUa luta se fazia cada vez mais pro­
xima e em mim, como se aquele individuoque nas­
cera extraordinariamente dotado de for~a estivesse
bebendo de minha fraqueza. Ao me usar ela me ma­
chucava com sua forc;a; ela me arranhava ao ten­
tar agarrar-se as minhas paredes lisas. Afinal sua
voz soou em baixa e lenta raiva:
- Pois you ver 0 pinto na cozinha.
- Va sim; disse eu devagar.
Retirou-se pausada, pr.ocurava manter a digni­
dade, das costas.
Da cozinha voltou imediatamente - estava es­
pantada, sem pud~r, mostrando na mao 0 pi:r:to, e .
numa perplexidade que me indagava tOda com os
Qlhos:
- :E um pintinho! disse.
Olhou-o na mao que se estendia, olhou-me, olhou
de novo a mao - e de subito encheu-se de urn ner­
voso e de uma preocupaeao que me envolveram au­
tomaticamente em nervoso e preocupaC;ao.
Mas e um pintinho! disse, e imediatamente
1$1
_ _---_ ­
...
...
a censura passou-lhe pelos olhos como se eu nao lhe
tivesse dito quem piava.
Rt Ofelia olhou-me, ultrajada. E de repente
de repente riu. Ambas enta~ rimos, urn pouco
agudas.
Depois que rim os, Ofelia pas 0 pinto no chao
para andar. Se ele corria, ela ia atras, pareeia s6
deixa-l0 autonomo para sentir saudade; mas se ele
se encolhia, pressurosa ela .0 protegia, compena de
ele estar sob 0 seu dommio, "coitado· dele, ele e
meu"; e quando 0 segurava, era com mao torta pela
deIicadeza - era 0 amor, sim, 0 tortuoso amor. l!::le
e muito pequeno, p.ortanto precisa e de muito trato,
a gente nao pode fazer earinho porque tern 'os peri.
gas mesmo; nao deixe pegarem nele it toa, a se­
nhora faz a que quiser, mas milho e grande demais
para 0 biquinho aberto dele; porque ele e molezinho,
coitado, tao novo, portanto a senhora nao po de dei­
xar seus filhos fazerem earinho nele; s6 eu sei que
carinho 131e gosta; iHe eseorrega it too, portanto chao
de cozinha nao e lugar para pintinho.
Ha muito tempo eu tentava de novo bater a
maquina procurando recuperar ,0 tempo perdido e
Ofelia me embalando, e aos pOUCOs falando so para
o pintinho, e amanda. deamor. Pela primeira vez
me largara, ela nao era mais eu. Olhei-a, toda de
auro que ela estava, e 0 pinto todo de ouro, e .os
dois zumbiam como roea e fuso. Tambem minha
Hberdade afinal, e sem ruptura; adeus, e eu sor­
da de saudade.
Muito depois percebi que era comigo que Ofelia
falava.
- Acho - acho que YOU botal' ele na eozinha.
-'. Pois va.
:22
:!
~
,. /?
,~
Nao vi quando foi, nao vi quando voltou. Em
algum momento, POl'· acaso e distraida, senti ha
quanto tempo haviasi1encio. Olhei-a um instante.
Estava sentada, de dedos cruzados no colo. Sem
saber exatamente pOl' que, olhei-a uma segunda vez:
- Que e?
- Eu ... ?
- Esta sentindo alguma coisa?
- Eu ... ?
- Quer ir no banheiro?
- Eu ... ?
Desisti, voltei it maquina. Algum tempo depois
()uvi a voz:
- Vou tel' que ir para casa.
- EstS. cert().
. - Se a senhora deixar.
Olhei-a em surpr~sa:
- Ora, se voc~ quiser ...
- Entio, disse, enmo eu you.
Foi andando devagar, cerrou a porta sem rui­
do. Fiquei olhando a porta fechada. Esquisita e
voce, pensei. Voltei ao trabalho.
Mas nao conseguia sair da mesma frase. Bem
- pensei impaciente olhando 0 relogio - e agora
.0 que e? Fiquei me indagando sem g6sto, procuran­
do, em mim mesma 0 que poderia estar me intel'rom·
pendo. Quando ja desistia, revi uma cara extre­
mamente quieta: Ofelia. Menos que uma ideia pas­
sou-me entao pela cabe~a e, ao inesperado, esta se
incIinou para ouvir melhor 0 que eu sentia. Deva­
gar empurrei a maquina. Relutante fui afastando
devagar as cadeiras do caminho. Ate parar devagar
a porta da cozinha. N.o chao estava () pinto morto.
Ofelia! chamei num impulso pela menina fugida.
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A uma distancia infinita eu via 0 chao. Ofelia,
tentei eu inutilmente atingir a distancia 0 corac;ao da
menina calada. Oh, nao se assuste muito! as ve'zes
mata par amor, mas juro que um dia a
esquece, juro! a gente nao ama bem, ouc;a,
repeti como se pudesse alcanc;ii-la antes que, desis­
tin do de servir ao verdadeir.o, ela f6sse altivamente
servir ao nada. Eu que nao me lembrara de lh~ avi­
sal' que sem 0 medo havia 0 mundo. Mas juro que
iS80 e a respira<;ao. Eu estava muito cansada, sen­
i:ei-me no banco da cozinha.
Onde agora estou, batendo devagar 0 bOlo de
amanha. Sentada, como se durante todos esses anos
eu tivesse com paciencia esperado na cozinha. Em­
baixo da mesa, estremece o pinto de hoje. 0 ama­
reIo e 0 mesm0', ·0 bieo e 0 mesmo. Como na Pasco a
nos e prometido, em dezembro ele volta. Ofelia e
que nao voltou: cresceu. Foi ser a princesa hindu
pOl' quem no deserto sua tribo esperava.
1.24 ;­
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PARTE II FUNDO DE GAVETA 

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