O 80 fESTIval PalcO gIRaTóRIO/POa vEM aí

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O 80 fESTIval PalcO gIRaTóRIO/POa vEM aí
o 8 festival Palco
giratório/POA
vem aí
0
Também nesta edição
caderno de teatro:
Ilo krugli fala de suas
andanças pela américa latina
Cacá Carvalho completa
a trilogia de Pirandello
13
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
ISSN 1984-056X
DESCENTRALIZAÇÃO
DIVERSIDADE E
ABRANGÊNCIA
08
34
22
artes cênicas
caderno de teatro
música
08 A Cia. Mungunzá retorna ao Festival Palco
22 O ator, diretor, dramaturgo, educador, artista
34 Artigo da pesquisadora Ermelinda Paz
Giratório com o impactante espetáculo
plástico e bonequeiro argentino radicado
homenageia o crítico, produtor musical e
Luis Antonio-Gabriela
no Brasil desde 1961 Ilo Krugli, homenageado
compositor Edino Krieger, autor do projeto da
no circuito nacional do Festival Palco
Bienal de Música Brasileira Contemporânea
Giratório 2013, conta episódios de sua
(BMBC), o mais antigo, importante e regular
itinerância pela América Latina
evento do gênero, realizado desde 1975
12 Patricia Fagundes aborda o 14º Simpósio
da International Brecht Society no artigo
A Cena em Trânisto – Cruzando fronteiras
15 Cacá Carvalho completa a trilogia de
Pirandello com umnenhumcemmil
20 Guarda-chuvas invadem a paisagem no
projeto {pingos&pigmentos}
DIRETORIA
O conteúdo dos
artigos assinados
são de inteira
responsabilidade de
seus autores.
Zildo De Marchi
Presidente do Sistema Fecomércio-RS, Sesc e Senac
Everton Dalla Vecchia
Diretor Regional Sesc/RS
www.sesc-rs.com.br
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Hotel SESC Torres R. Plínio Kroeff, 465 51 3626.9400
38
48
58
CINEMA
ARTES VISUAIS
literatura
38 Luis Rubira no artigo Por que realizar ciclos
48 Museu de Arte Contemporânea do Rio
58 Thiago Cruz, no artigo A Descoberta do
de filosofia e cinema? faz uma reflexão
Grande do Sul (MACRS) completa 21 anos
Mundo, faz uma homenagem ao escritor
a partir do projeto que desenvolve na
e comemora a conquista de uma nova sede
francês Albert Camus no ano do centenário
Universidade Federal de Pelotas (UFPel), pelo
e de importantes aquisições para o acervo
de seu nascimento
qual já foram exibidos ciclos relacionados
61 Rubem Braga, o cronista que veio da lágrima
a cinema político, cinema religioso, cinema
52 Artigo Itinerâncias: As produções infantis
psicológico e, em 2013, o cinema existencial
em constante movimento analisa os
é o artigo de Rubem Penz que marca
resultados do projeto Chinelos Itinerantes,
os 100 anos do escritor
desenvolvido pela equipe de Educação
Infantil da Escola de Ijuí
65 Leitura
54 O projeto Cartografias infantis: a cidade pela
criança / a fotografia pela infância em artigo
de Luciano Bedin da Costa e Larisa Bandeira
BALCÕES SESC/SENAC
Alvorada Av. Getúlio Vargas, 941 51 3411.7750
Cachoeirinha Av. Flores da Cunha, 1320 Sala 805 51 3438.3249
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Guaíba R. São José, 433 Sala 01 51 3402.2106
Itaqui R. Dom Pedro II, 1026 55 3433.1164
Jaguarão R. XV de Novembro, 211 53 3261.2941
Lagoa Vermelha Av. Afonso Pena, 414 Sala 104 54 3358.3089
Nova Prata Av. Cônego Peres, 612 Sala 107B 54 3242.3302
Osório Av. Jorge Dariva, 941 51 3663.3023
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Quaraí R. Baltazar Brum, 617 8º andar 55 3423.1664
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São Gabriel R. João Manuel, 508 55 3232.8422
São Sebastião do Caí R. 13 de Maio, 935 Sala 04 51 3635.2289
São Sepé R. Coronel Chananeco, 790 55 3233.2726
Sobradinho R. Lino Lazzari, 91 51 3742.1013
Três Passos Rua Don João Becker, 310 55 3522.8146
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Projeto Gráfico e Edição de Arte
Clarissa Eidelwein (MTb nº 8.396) Edição e Reportagem
Grace Prado
Revisão de Texto
Ideograf
Impressão de 1.000 exemplares
CAPA
Foto de Bob Souza do espetáculo Luis
Antonio-Gabriela, da Cia. Mungunzá
primeiro
SEMESTRE
2013
6
primeiro
SEMESTRE
2013
7
Jorge Menna Barreto,
Poemas no Chão
Foto: Acervo MACRS
democratizar
o acesso
à cultura
Propor uma reflexão sobre o cenário cultural gaú-
também são temas de artigos publicados nesta
cho e brasileiro é uma das finalidades da Revista
Revista Arte Sesc.
Arte Sesc, que é editada semestralmente e difun-
Com as ações do Arte Sesc – Cultura por
dida junto à classe artística e demais formadores
toda parte, o Sistema Fecomércio-RS tem estado
de opinião da área cultural.
presente nos 497 municípios gaúchos, levando as
O Caderno de Cultura desta edição é com
Ilo Krugli, do Teatro Ventoforte, que é o grande
mais variadas manifestações artísticas e fomentando a economia das localidades.
homenageado do Palco Giratório 2013. E falan-
Ampliar o acesso dos gaúchos à produção ar-
do em Palco Giratório, o destaque desta Revis-
tística e promover a troca de experiências entre os
ta Arte Sesc é o 8º Festival Palco Giratório Sesc/
artistas e produtores estão preconizados no planeja-
POA, que acontecerá de 3 a 28 de maio, na Capi-
mento do programa cultural da instituição. Por meio
tal gaúcha. A Cia. Mungunzá e o seu espetáculo
de apresentações de dança, artes cênicas e música,
‘Luis Antonio-Grabriela’, assim como o projeto
exposições de artes visuais, sessões de cinema, ofi-
Pingos e Pigmentos, estão entre as pautas desta
cinas e debates, temos procurado seguir os eixos da
edição. Simpósio Brecht na América Latina, Edino
transversalidade, diversidade e acessibilidade.
Krieger, reflexões filosóficas no cinema, fotografia e infância, itinerâncias de produções infan-
Boa leitura!
tis, centenário de Albert Camus e Rubem Braga
Zildo De Marchi
Everton Dalla Vecchia
Presidente do Sistema Fecomércio-RS, Sesc e Senac
Diretor Regional Sesc/RS
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
8
Luis
Antonio-Gabriela
Aclamada como a mais
Meados de 2010. Depois de circular pelo país por
tamento e os dois passaram a se corresponder. “A
impactante atração do
dois anos e ganhar 38 prêmios com o espetáculo
partir de documentos, dos relatos e das cartas, foi
de estreia Por que a criança cozinha na polenta,
desenvolvida a dramaturgia do espetáculo. Tudo
7º Festival Palco Giratório
adaptado de um romance romeno sobre uma me-
que é falado no palco foi dito por alguém em
de Porto Alegre em 2012,
nina de uma família de circo que cresceu no perí-
algum momento”, diz o ator que interpreta Luis
o espetáculo da Cia.
odo autoritariamente trágico da cortina de ferro
Antonio-Gabriela, Marcos Felipe.
do leste europeu, a Cia. Mungunzá, de São Pau-
Para o ator, havia um risco muito grande de
lo, decide que chegou a hora de entrar na sala de
encenar a história, junto com alguém que estava
ensaio para fazer um segundo trabalho. O diretor
no seio do problema e decide expor isso, sem cair
pessoal envolvendo a
Nelson Baskerville, de 17xNelson, Camino Real e
em clichês. O resultado, porém, é surpreendente,
família do diretor nelson
também do primeiro espetáculo, conta ao grupo
ousado, ora faz rir, ora faz chorar. Todo o espetá-
a sua própria história, em que o irmão mais ve-
culo foi concebido na sala de ensaios. O diretor
lho Luis Antonio, desde criança identificado com
musical Gustavo Sarzi compôs a trilha durante o
à capital gaúcha na
situações femininas, desafia as convenções de uma
processo de pesquisa e a executa ao vivo no pia-
edição 2013 do evento,
família conservadora na cidade de Santos dos anos
no. Os atores aprenderam a tocar instrumentos
de 1960 e vai para Espanha como Gabriela. Ence-
para o espetáculo. A atriz Day Porto é a figura
nar a história era como um pedido de desculpa ao
emblemática que canta, quase uma performer.
irmão de quem não teve notícias por 30 anos – e
Pedro Augusto é o técnico performático em cena.
nem se importou com isso –, até a sua morte na
O artista visual Thiago Hattnher acompanhou
Europa. Para a companhia, era uma oportunidade
os ensaios para criar 20 telas inspiradas no es-
de pesquisa e de provocar o debate sobre um tema
petáculo com a intenção de reproduzir o Museu
que ainda divide a sociedade contemporânea.
Guggenheim Bilbao. “Não nos prendemos a um
Mungunzá realizado
a partir de uma história
baskerville retorna
no mês de maio
A partir do argumento de Nelson, posterior-
dispositivo estético. Se precisar de um vídeo para
mente ampliado em um longo relato, o grupo
que a história seja mais bem contada, usamos o
coletou depoimentos dos principais envolvidos: a
vídeo, se precisar cantar uma música para passar
irmã, a madrasta e uma travesti de Santos, con-
a informação com mais emoção, cantamos a mú-
temporânea de Luis Antonio. Depois do boato de
sica, então é uma mistura de todas as linguagens:
sua morte na Espanha, a fim de resolver questões
artes visuais muito forte, música muito forte,
burocráticas, a irmã tenta localizá-lo, em vão em
performance, projeções de vídeo como se fosse
um primeiro momento, até que a embaixada bra-
cinema”, destaca o ator. “Já havíamos feito isso
sileira o encontra vivo, porém debilitado pela aids.
no primeiro espetáculo, mas neste verticalizamos
Ela chegou a visitá-lo depois de 30 anos de afas-
ainda mais.”
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
Foto: Bob Souza
9
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
10
A
construção
do
espetáculo
recebia um calhamaço de textos. Tínhamos que
Brecht. “É muito claro que seguimos esta referên-
defender o personagem se não ele não existiria
cia, mas têm cenas que é o avesso, uma coisa de
no espetáculo. E eu só tinha as cartas, não tinha
realismo, Stanislawski. Saímos um pouco do que
o relato.”
Brecht propõe. Tem cenas de um teatro muito
Os ensaios se estenderam por um ano. “Precisa-
Embora Luis Antonio-Gabriela seja conside-
narrativo, muito inspirado no teatro alemão, em
rado um documentário cênico, para Marcos Fe-
companhias de dança, de performance, Constan-
lipe, o trabalho da Mungunzá não se enquadra
za Macras, a companhia belga Need Company,
em nenhum gênero específico de teatro, já que
bastante ligada à estética que procuramos, que
mos de muito tempo pra fazer, pra errar, pra re-
tem todas as características de um drama, todas
é essa piração visual para levar ao público uma
fazer e acertar. Saímos do nada, só do argumen-
de comédia, de musical, têm cenas lindas outras
história bem contada.”
to, todo mundo junto, improvisando, e o Nelson
tristes. “Acho que conseguimos quebrar uma coi-
O ator admite que, de certa forma, o espe-
foi interligando as histórias, alinhavando, tiran-
sa careta do teatro, aquela parede, teatro quase
táculo é uma poluição visual. São cinco cenas
do o que estava demais”, conta Marcos Felipe.
como uma obrigação cult, chato, surpreendemos
acontecendo ao mesmo tempo, de maneira dife-
Com os depoimentos transcritos, o grupo come-
a todo momento, divertimos, fazemos chorar, que
rente, todas falando do mesmo assunto. “A gente
çou a trabalhar as cenas mais plásticas, funda-
são funções primordiais do teatro”, avalia. O gru-
entende que arte é um reflexo da realidade, então
mentais para contar a história, a trilha foi sendo
po também não se prende a uma estética, embora
joga toda a balbúrdia que vemos no mundo atual
inserida, os vídeos, até que o diretor dividiu os
tenha sido criado em 2006 por meio da união de
pra cena, com pouquíssimos diálogos, quase tudo
personagens. “Ele disse: a partir de agora você
atores recém-formados, motivados a aprofundar
narrado.” A Cia. Mungunzá, formada ainda por
é responsável por encaixar esta pessoa dentro
as técnicas aprendidas a fim de desenvolver, em
Sandra Modesto, Verônica Gentilin (que interpre-
da estrutura que a gente inventou, e cada ator
especial, um estudo detalhado do Teatro Épico de
ta Nelson e assina com ele a dramaturgia), Virgí-
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
11
nia Iglesias e Lucas Breda, mostra em cena fotos,
O documentário cênico
desenvolvido a partir do
argumento do diretor Nelson
Baskerville sobre a história
de seu irmão Luis Antonio,
foi eleito o melhor de 2011
pela Associação Paulista de
Críticos de Arte (APCA)
documentos, trabalha com luz fria, operada pelos
atores do palco, deixando de lado a iluminação
convencional. “A gente dança, toca, vai apagar a
luz, acende a luz, uma loucura!”
Fotos: Bob Souza
A Cia. Mungunzá, que tem uma estrutura de
cooperativa em que cada integrante assume uma
tarefa – assessoria de imprensa, editais, logística,
trâmites burocráticos –, estreou Luis Antonio-Grabriela em março de 2011, no Centro Cultural
São Paulo. Depois de cinco temporadas, passou a
circular pelo Brasil, chegando a Portugal no ano
seguinte. Com três indicações, o espetáculo foi
eleito o melhor de 2011 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), recebeu cinco indicações para o Prêmio Shell SP e venceu como
melhor diretor, entre outros reconhecimentos. Em
dois anos, foram mais de 250 espetáculos com
um público de 38 mil pessoas.
Aventura “almodovariana”
POR Nelson Baskerville
Em 2002, recebi uma ligação
de minha segunda mãe, Doracy
– segunda mãe porque minha
primeira faleceu após o meu
parto, fazendo meu pai, Paschoal,
viúvo com seis filhos, casar com
a Dona Doracy, viúva com três
filhos, quando eu tinha dois
anos – ela me ligou pra dizer que
Luis Antonio havia morrido na
Espanha. Luis Antonio, pra mim,
era aquele irmão, oito anos mais
velho, que sempre mantive na
sombra. Só alguns poucos amigos
sabiam da sua existência, ele era
aquele que, além de me seduzir,
e abusar sexualmente, fazia com
que muitos dedos da cidade de
Santos fossem apontados pra nós,
os “irmãos da bicha”, “a família do
pederasta” e outros nomes. Sou
obrigado a confessar que a notícia
da morte dele não me abalou nem
um pouco. Eram quase 30 anos
sem saber nada dele, sem saber se
ele estava vivo ou morto, enfim,
liguei pra minha irmã, Maria
Cristina, advogada para passar a
notícia pra frente e a preocupação
imediata dela foi com os papéis,
atestado de óbito, documentação
para o espólio, etc. Mas não
sabíamos nada do fato e nem ao
menos o local exato de sua morte.
Maria Cristina empreendeu então
uma jornada fadada ao fracasso
que era saber notícias do paradeiro
dele. Depois de alguns meses,
através da embaixada brasileira
na Espanha ela o encontrou. Mas
não exatamente da forma que
esperava. Luis Antonio estava
vivo, morava em Bilbao e a partir
disso começamos a tentar formar
e entender aquela lacuna de 30
anos que nos separavam dele.
Minha irmã, numa aventura
“almodovariana” foi encontrá-lo.
Luis Antonio chamava-se agora
Gabriela, tinha sido uma estrela
das noites de Bilbao, era viciada
em cocaína e a aids era a menor
das suas doenças. Através da
Maria Cristina, passamos então
a ter notícias dele até sua morte,
agora verdadeira, em 2006.
As perguntas mais frequentes
dos amigos ao saberem da
história eram: mas vocês nunca
mais se viram? Resposta: nunca.
Por que não o trouxeram de volta
ao Brasil quando o encontraram
doente? Resposta: porque não.
Você não foi nem ao enterro?
Não. Fiz esse espetáculo.
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR Patricia Fagundes
12
Diretora da Cia. Rústica de Teatro e
professora de Direção Teatral no
Departamento de Arte Dramática da UFRGS
A CENA EM TRÂNSITO
cruzando fronteiras
Frente às distâncias e fronteiras impostas de for-
lítica, vida e arte, corpo e mente, popular e erudito.
entre “nós” e “eles”, eu e o outro, arte
ma mais ou menos evidente pelo poder corporati-
Nas últimas décadas, tais divisões foram questio-
e vida, passa a ser difusa e indefinida.
vo, o imaginário de nossa época reage afirmando
nadas e profanadas de inúmeras formas dentro do
(Gómez-Peña, 2005:24) [1]
o desejo de fazer conexões, como evidenciam os
contexto das artes cênicas, que ampliou de manei-
conceitos recorrentes de rede, comunidade, rizo-
ra intensa e significativa os seus próprios limites
Atuando dentro do contexto da performance
ma; uma espécie de reivindicação da importância
de ação. No tecido artístico contemporâneo, dis-
art, declara-se um intelectual interdisciplinar, pós-
de relações entre o mundo, as pessoas e as coi-
seminam-se propostas de habitar fronteiras como
-mexicano, performer, ativista, escritor e pedago-
sas. Mesmo que esse desejo esteja longe da pos-
territórios nômades onde as dicotomias redutoras
go; em travessia por perigosas zonas de fronteiras,
sibilidade de realização plena, sua potência e sua
perdem o sentido e o que importa não é mais a
por exemplo, a cisão entre “alta” e “baixa” cultura.
extensão não podem ser negadas. Ainda que os
“essência”, e sim as relações, “criar espaços livres,
Andreas Huyssen denomina a Grande Divisão “o
limites geográficos entre países estejam cada vez
durações cujo ritmo se contrapõe ao que impõe a
tipo de discurso que insiste em uma distinção ca-
mais controlados e disputados, fortalecem-se os
vida cotidiana, favorecer um intercâmbio humano
tegórica entre arte elevado e cultura de massas”
movimentos de trânsito e busca de dissolução de
diferente das ‘zonas de comunicação’ impostas”
(Huyssen, 2002:7), que predominou especialmente
fronteiras tanto físicas como subjetivas.
(Bourriaud, 2006: 16).
no final do século XIX e no período entre guerras
do século XX, mas permanece infiltrado no contex-
Na arte, com frequência, pretende-se diluir
Guillermo Gómez-Peña é um artista que
limites, não apenas entre linguagens e especiali-
se propõe precisamente a trabalhar em espaços
zações, mas também entre velhas dicotomias que
fronteiriços entre culturas, idiomas, pessoas, lin-
insistem em manter-se: ética e estética, arte e po-
guagens artísticas, nacionalidades, gêneros, con-
…o dogma do alto modernismo se fez
ceitos. O trânsito permanente afirma-se como
estéril e nos impede de entender os atu-
uma escolha política, artística e vital, que celebra
ais fenômenos culturais. Os limites entre
contradições, ambiguidade e paradoxos, evitando
arte elevado e cultura de massas se tor-
homogeneizar diferenças.
naram cada vez mais nebulosos, e deve-
to cultural contemporâneo.
mos começar a considerar esse processo
Talvez meu trabalho seja abrir espaços
como uma oportunidade no lugar de la-
temporais de utopia/desutopia, uma zona
mentar a perda de qualidade e a carên-
“desmilitarizada” na qual um compor-
cia de veia. Muitos artistas incorporaram
tamento “radical” significativo e pen-
exitosamente em suas obras formas da
samentos progressistas são permitidos,
cultura de massas, e certas seções da
mesmo que apenas durante o tempo da
cultura de massas adotaram estratégias
apresentação. Nessa zona imaginária,
da alta. (Huyssen, 2002: 9-10)
tanto artistas como espectadores recebem permissão para assumir múltiplos e
Hoje, é praticamente impossível rejeitar toda
mutantes posicionamentos e identida-
interação com a “cultura de massas”, dado que ela
des. Nessa zona de fronteira, a distância
está onipresente em nosso cotidiano e se infiltra
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
1 Definição institucional retirada do blog da Escola Sesc de Ensino Médio.
Fonte: http://www.escolasesc.com.br/. Acesso: jun.12
Todas as traduções são da autora.
em todos os poros de nosso corpo; sem precon-
nos perder facilmente em esta casa de
ceitos como o que possa ser considerado “eleva-
atrações de espelhos virtuais, inversões
do”, provocador ou inovador, ao contrário. A cul-
epistemológicas e percepções torcidas –
tura pop é sedenta de novidades, o que antes era
uma zona onde todos os desejos e me-
marginal vira tendência, o mainstream devora as
dos são imaginários e o “conteúdo” é só
margens, quanto mais “radical”, “exótico” ou “alter-
uma memória vaga. Se isso acontece, os
nativo” é um evento ou artista, mais atraente pode
artistas da performance art podem aca-
parecer. O conteúdo televisivo (ao qual somos ex-
bar sendo apenas outro show “extremo”
postos desde a infância), por exemplo, é generoso
de variedades, no extensivo e em cons-
em escândalos, violência, sexo perverso, apelações
tante transformação cardápio da cul-
variadas – caracterizando uma oferta que G. Gó-
tura globalizada. Que tempos perplexos
mez-Peña denomina como o mainstream bizar-
para aqueles que pensam criticamente.
re. O artista denuncia a devoradora presença do
(Gómez-Peña, 2005: 51)
13
“multiculturalismo das grandes corporações”, que
absorve e comercializa a diversidade, transforman-
São tempos em que as estratégias de controle
do a diferença em produto fashion. Em resposta a
social não ocorrem tanto pela repressão direta, a
este corporate multiculturalism, Gómez-Peña ar-
cultura de massas é permissiva, hipersexualizada
ticula justamente “extravanganzas épicas que re-
e “ousada”, um tentáculo fundamental da socie-
produzem suas próprias práticas de representação”
dade farmacopornográfica (Preciado, 2008) a
(ibid: 50), na forma de extreme fashion-shows, por
qual corresponde, onde a vida “está exposta a e é
exemplo. Como reação à colonização devoradora,
construída por um aparato de autovigilância, pu-
outras práticas de canibalismo. No entanto, o artis-
blicidade e midiatização globais”, “formando parte
ta alerta sobre os perigos de tais trânsitos:
de um bordel-laboratório global integrado multimídia, no qual o controle de fluxos e afetos se leva
O bizarro hegemônico borrou efetiva-
a cabo através da forma pop excitação-frustração”
mente as fronteiras entre cultura pop,
(ibid:44), em que a sexualidade, o corpo e os de-
performance e “realidade”. A nova locali-
sejos são hiperexpostos e transformados em mer-
zação de outras fronteiras, entre público
cadoria. Em reação, B. Preciado propõe “inventar
e performer, entre a superfície e o sub-
outras formas públicas, compartilhadas, coletivas
terrâneo, entre identidades marginais e
e copyleft de sexualidade que superem o estreito
tendências fashion é ainda incerta. Uma
marco da representação pornográfica dominante
coisa é clara para mim: os artistas que
e o consumo sexual normatizado” (ibid). Ou seja, a
exploram as tensões entre estas fron-
autora também defende uma estratégia antropo-
teiras devem estar atentos. Podemos
fágica de resistência, que reproduza, reinventadas,
Guillermo Gomez-Peña (ao
centro) em La Pocha Nostra
Foto: Ana Diez
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
14
as próprias práticas de representação hegemônica,
cruzando limites impostos.
Ao pensarmos as relações entre ética e estéti-
sacreditadas. Brecht e Gómez-Peña se encontram
ca, assim como entre arte e política, não podemos
em um evento que atravessa fronteiras e que en-
Outra divisão questionada no contexto da
deixar de considerar o legado de Bertold Brecht,
foca o tema do “espectador criativo”, transitando
arte e do pensamento contemporâneo se encontra
que em seu tempo articulou propostas cênicas
entre arte e política.
entre ética e estética. Considerando a ética como
como ação no mundo e estratégia de transforma-
Podemos pensar que onde haja uma frontei-
o fator que une um grupo, a “argamassa social”, e
ção social; sem dissociar a crítica e a reflexão do
ra que se pretenda ser rígida, os artistas cênicos
a estética como “a faculdade de experimentar em
prazer ou entretenimento, ou a cultura popular da
poderiam fazer festas: entre países ricos e pobres,
comum”, M. Maffesoli (2007) propõe uma “ética da
“seriedade” de propósitos.
entre bons e maus, entre corpo e mente, popular e
estética”, definida pela “compreensão do vínculo
erudito, ética e estética, entre santas e putas, entre
social a partir dos parâmetros não racionais que
Desde o princípio, o negócio do teatro
tu e eu. Dançar até que os limites estreitos se dilu-
são o sonho, o lúdico, o imaginário e o prazer dos
foi entreter as pessoas, assim como de
am, até que o corpo diga a verdade sensível e tro-
sentidos” (ibid: 57) e por uma perspectiva que de-
todas as outras artes. É essa função
pecemos exaustos de toda rigidez. Como o próprio
fende a importância do sensível na rede de rela-
que lhe confere sua dignidade parti-
conceito de relacional sugere, é tempo de cruzar
ções sociais, salientando que o ato de experimen-
cular; não necessita outro passaporte
limites e ampliar as redes de relações – a arte pode
tar algo juntos é fator de socialização.
que a diversão, mas esta tem que ofe-
ocupar um importante papel em necessários mo-
recer. Não devemos transformá-lo em
vimentos de conexão.
Assim, pois, em um movimento circular
uma fonte de moralidade se queremos
sem fim, a ética, o que congrega e une o
elevar seu status, nos arriscaríamos a
grupo, se faz estética, emoção comum
provocar o efeito contrário, degradá-
e vice-versa. Há uma simetria entre es-
-lo. […]. O teatro deve permanecer in-
ses dois polos, e é a corrente que pas-
teiramente supérfluo, ainda que seja o
sa entre eles o que determina a maior
supérfluo pelo qual vivemos. Nada ne-
ou menor intensidade da existência.
cessita menos justificativa que o prazer.
(Maffesoli, 2007:17).
(Brecht, 1964: 180-181)
Desde a estética, N. Bourriaud encontra a so-
No 14º Simpósio da International Brecht So-
ciologia de M. Maffesoli em sua proposta de uma
ciety, que acontecerá em Porto Alegre de 20 a 23
arte relacional como o lugar de produção de uma
de maio de 2013, o “legado brechtiano” será consi-
sociabilidade específica, que estabelece espaços
derado a luz das práticas e das reflexões contem-
concretos, microterritórios criados a partir de inter-
porâneas, em uma programação que inclui confe-
câmbios sociais. Em sintonia com esta perspectiva
rências, mesas de comunicações e apresentações
relacional, que identifica a prática artística como
artísticas, articulando trânsitos entre teoria e prá-
invenção de relações entre sujeitos e estratégias de
tica, tradição e inovação, diferentes nacionalidades
BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Buenos Aires:
Adriana Hidalgo, 2006.
criação de universos possíveis, O. Cornago (2008)
e pontos de vista. Outra divisão que as diretrizes
BRECHT, Bertold. Brecht on Theatre. Edited and translated by
Jonh Willett. Londres: Methuen, 1964.
desenvolve a ideia de uma ética do corpo, baseada
do simpósio claramente ignoram se situa entre
na situação real, concreta e física do encontro, que
teatro e performance art: tanto na programação
CORNAGO, Óscar. Éticas del Cuerpo.
Madrid: Fundamentos, 2008.
parte da unidade mínima do corpo e condiciona
acadêmica como na cultural, a multiplicidade das
“uma política em tom menor que começa pelo eu.
práticas cênicas contemporâneas é reconhecida,
A ética remete a um espaço de proximidades […]
em seus atravessamentos polifônicos e fecunda-
na qual o espaço do privado fica ligado ao social”
mente impuros. Gómez-Peña, um dos artistas que
(ibid:52). Nesse contexto, a cena contemporânea
participará da programação por meio do coletivo
trataria de “recuperar o corpo como um modo de
La Pocha Nostra, considera a fronteira entre tea-
pensar e estar frente ao outro” (ibid), em uma di-
tro e performance art como especialmente difusa,
nâmica em que o discurso ético é gerado “desde o
evitando colocá-los em oposição binária. De forma
interior da própria obra” (ibid:53).
geral, as oposições binárias são formações hoje de-
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GÓMEZ-PEÑA, Guillermo. Etcno-techno. Writings on
performance, activism and pedagogy.
London and New York: Routledge, 2005.
GÓMEZ-PEÑA, Guillermo, SIFUENTES, Roberto. Exercises for
Rebel Artists. Radical Performance Pedagogy. London and
New York: Routledge, 2011.
HUYSSEN, Andreas. (1986) Después de la gran división:
modernismo, cultura de masas, posmodernism. Buenos Aires:
Adriana Hidalgo, 2002.
MAFFESOLI, Michel. (1990) En el crisol de las apariencias.
Para una ética de la estética. Madrid: Siglo XXI, 2007.
PRECIADO, Beatriz. Testo Yonqui. Madrid: Espasa Calpe, 2008.
www.pochanostra.com
www.brechtportoalegre.com
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
15
Cacá Carvalho
completa a trilogia
de Pirandello com
umnenhumcemmil
Ator
apresenta o
espetáculo
no 8o Festival
Palco
Giratório
realizado no
mês de maio
em Porto
Alegre
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
16
A relação do ator Cacá Carvalho com o dramaturgo italiano Luigi Pirandello iniciou com a montagem da peça teatral O Homem com a Flor na Boca
por sugestão do diretor Roberto Bacci, com quem
trabalha há 25 anos na Fondazione Pontedera de
Teatro, na Itália. Isso foi há duas décadas. Com
a mesma equipe, 10 anos depois, Cacá estreou
A Poltrona Escura, inspirado em três novelas cedidas pelo herdeiro legal da obra do vencedor do
Prêmio Nobel de Literatura de 1934. Com a encenação do romance Um Nenhum e Cem Mil, que
no espetáculo virou umnenhumcemmil, previsto
para o último final de semana do 8º Festival Palco
Giratório de Porto Alegre, em maio, o ator encerra
a trilogia pirandelliana. Em entrevista concedida à
revista Arte Sesc por telefone, Cacá Carvalho fala
sobre a trilogia, em especial o último espetáculo,
a obra de Pirandello e outras histórias.
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
17
Neste ano, você está se apresentando com
as três peças simultaneamente
pela primeira vez. como está sendo
esta experiência?
Agora, é um momento particular porque fiz
O Homem com a Flor na Boca, que é uma
peça teatral do Pirandello, há 20 anos;
A Poltrona Escura, com base em três novelas, há 10, e no ano passado umnenhumcemmil, que é um romance. Todos os
espetáculos com a mesma equipe. O que
acontece é que estou, desde fevereiro, vivendo a experiência de fazer as três peças
juntas. Faz um, desmonta, faz outro e depois
o outro e depois descanso. São 125 páginas
de texto no total, um dura 1 hora, outro 1
hora e 25 minutos e outro 1 hora e 15. São 3
horas e meia de discurso, de presença. Com
esta voz deste homem que é muito partiComo foi que Luigi Pirandello entrou na
estudar toda a obra do autor, tinha que dar
cular, porque agora estou me dando conta
sua vida?
respostas àquela ali.
do que foi que nós fizemos, tá nascendo um
Minha experiência com texto do Pirandello
Então, fui começar de fato a me interessar
sentido para um trabalho que foi sendo feito
foi há 20 anos, quando por sugestão de meu
e conhecer, no sentido de ver afinal de que
sem o propósito de juntar um com o outro.
diretor, Roberto Bacci, nós encenamos O Ho-
gigante é este texto, quando eu já estava
Quando nos demos conta no ano passado,
mem com a Flor na Boca. Naquele momento,
no Brasil com o espetáculo. Porque o espe-
tínhamos três trabalhos, um espetáculo em
a minha cultura sobre a obra do Pirandello
táculo estreou na Itália, com a Pontedera,
cada gênero distinto. E pensamos como seria
era muito curta. Sabia dos textos clássicos:
centro de pesquisa teatral com o qual tenho
fazê-los e vimos que o espaço, casualmente,
Seis Personagens à Procura de um Autor,
relação há 25 anos. Hoje, passados 20 anos
não foi pensando, é um desdobramento para
Esta Noite Improvisa-se. Não sei nem dizer
de convívio com a obra te digo que não sei
o outro e para o outro, as cadeiras de um
hoje, à distância, se eu tinha lido ou se eu sa-
o que é para outros atores, mas eu nunca
espetáculo servem para o outro, a poltrona
bia de tão famosas, sabe aquelas obras que
me imaginei fazendo um mesmo autor por
de um, encapada vira de outro, é como se
você já conhece sem ler? Ou se tinha conta-
tanto tempo da minha vida. Hoje tenho 60
esse terceiro fosse uma evolução natural de
to, era muito superficial para saber como era
e faço desde os 40, um terço da vida. E isso
duas coisas que o precedem, como se fosse
a dramaturgia.
significa, não para minha carreira, isso sig-
uma pessoa mais adulta resultado de um
Quando começou o trabalho sobre O Homem
nifica no meu discurso, no que penso, bem
processo de maturidade que chega ao esta-
com a Flor na Boca, era tão estranha pra
ou mal, é um mantra que você repete por
do de um homem de 60 anos. Como se você
mim a forma como aquele diretor italiano
20 anos. Não é um play que você dá e parte
passasse a vista de um fragmento de vida,
me pedia para produzir material, o esquema
a coisa, que se repete em cena. Para que um
quase que fisicamente. Não sou mais a mes-
de trabalho era tão particular, a encenação
texto saia, ele sai de um poço que tá dentro
ma pessoa com 60 anos, quando comecei eu
era tão diferente para o meu modo de inter-
de mim, que são acionadas tantas coisas que
tinha 40, outra energia, requer outro tipo de
pretar que eu tinha muita tarefa para fazer
eu não sei quais são que fazem com que ele
disposição, mas um aprendizado incrível que
e me dediquei unicamente para aquele texto
se mantenha crível ou não. Eu sei te dizer
a experiência teatral me dá. Não é só Piran-
e não para o contexto em que o texto se in-
como ele entrou na minha vida, mas não sei
dello que me dá, é essa coisa que o Roberto
seria, a obra do autor como um todo. Nem
dizer tudo o que ele está provocando porque
Bacci montou onde eu me confronto com os
enquanto me preparava tinha tempo para
estou vivendo isso.
espectadores.
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
18
Cenicamente, no primeiro espetáculo, eu o
faço entre os espectadores, há 20 anos. Então a relação direta com o público estabelece
um desnudamento do personagem. Alguns
comportamentos, movimento particulares,
algumas características são reforçadas no
trabalho de interpretação para que o espectador imagine os personagens, mas é meu
corpo, a minha voz. Na primeira, não requer
nenhuma interação do espectador, eu fico
entre eles, mas eles não precisam fazer nada,
não é interativo. Na segunda, eu vou até a
plateia, numa relação de palco italiano, desço
e faço uma longa ação na área chamada zona
do espectador. Também não é uma situação
de interatividade, mas é uma situação que eu
vou para a rua e a rua do espetáculo é a plateia. No terceiro, a plateia tem uma função
diferente, ela é a zona da memória do ator,
do personagem. É como se ele olhasse para
a plateia e visse todas aquelas pessoas que
são fragmentos de uma memória, então ele
pode se reconhecer em um espectador da fila
identidade, não precisa de dinheiro, de família,
e ele disse: “Imagina quantas montagens de
B, da fila J, da H, determinada pessoa que ele
viver como uma pessoa que vive para servir
Um Homem com a Flor na Boca já assisti...”
imagina ser, alguém que fez parte de seu per-
aos outros, uma pessoa que quer simplesmen-
Eu e o Roberto Bacci nos olhávamos, nos
curso, então este espectador vai sendo con-
te passar pela vida, este é nenhumcemmil.
abraçávamos, e foi um momento de muita
alegria, comoção, porque era um trabalho
duzido, de uma forma muito bonita com esse
Como foi apresentar O Homem com
nosso, feito de um modo muito particular, o
especial, uma cadeira do espetáculo, que vai
a Flor na Boca na sala da casa em que
Roberto era um grande diretor, mas ser re-
acontecendo como se eu tivesse refazendo
vivia o autor?
conhecido por um homem que entende do
trabalho do Roberto Bacci, para uma cadeira
O Homem com a Flor..., que faço entre os
Estava vivo Alessandro D’Amico, era o her-
corpo do Pirandello como poucos, foi criado
espectadores. Então, desta vez, vai sendo
deiro, não de família, o herdeiro legal porque
por Pirandello na casa do Pirandello. Fomos
remontado o espaço para voltar ao primei-
era casado com a neta do Pirandello, a Maria
jantar e ele disse: “Vocês precisam conhecer
ro para que eu faça o espetáculo entre as
Luisa, e fazia a gestão de toda a obra, que
obras que normalmente não são reconheci-
pessoas escolhidas, eleitas ou reconhecidas
ainda não era de domínio público. Eu estava
das porque têm um teor de crueldade, um
como parte da história de alguém. Isto coloca
fazendo O Homem com a Flor na Boca no
humor cáustico, uma visão de mundo muito
para o público e para o ator uma situação de
teatro que fica dentro da Universidade de
poética e cruel que são as novelas. O univer-
desnudamento absoluto, onde não há inter-
Filosofia de Roma. Eu vi aquele senhor, no
so das novelas é a fonte de toda a obra.” E
pretação, não tem interatividade, pergunta e
meio da plateia – lotava muito –, que me
nos indicou para ler 10 novelas consideradas
resposta, de jeito nenhum, imagina. Como se
olhava com um brilho molhado nos olhos,
malditas, de poética cruel, e dentre elas es-
fosse uma radiografia da pessoa, eu me des-
havia um homem naquela plateia de anôni-
colhemos três e usamos para fazer A Poltro-
nudo no sentido poético para que a história
mos, era um brilho particular. Entre os es-
na Escura.
se faça clara. A história de um homem que
pectadores era um espectador comovido de
Encontrar com este homem que depois me
deseja, que afirma que não quer ser ninguém,
um modo particular. E ele veio falar conosco,
levou pra fazer o espetáculo na casa dele para
um nenhum, um anônimo, sem história, sem
identificou-se como herdeiro de Pirandello,
a mulher dele que estava acamada foi muito
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
19
No espetáculo
umnenhumcemmil,
o terceiro da trilogia de
Pirandello, a plateia a plateia
tem uma função
diferente, ela é a zona da
memória do ator,
do personagem
Foto: Lenise Pinheiro
comovente. Ele me deu de presente a última
Como você avalia a temática da obra de
dioso e é breve. E essa condição o teatro,
página escrita por Pirandello, e ela está emol-
Pirandello?
a arte como um todo, tem como obrigação
durada e pendurada lá na Pontedera, uma
É o tempo que faz um clássico.
primeira colocar em questão. Entender o
conquista nossa de um grupo que está junto
Não apenas as características literárias
que de fato me diferencia de um elemento
há 20 anos trabalhando sobre a obra de um
maravilhosas, mas pelo argumento, pela
outro que vive e que não teme esta coisa
autor. Motivo de orgulho para Roberto Bacci
visão que nos coloca onde nos reconhe-
que eu chamo de consciência ou inteligên-
e todo o grupo, iluminador, figurino...
cemos. Esse reconhecimento provoca uma
cia. O que me difere de uma pessoa ou um
espécie de abismo dentro, uma espécie de
animal que não tem isso? Como sou capaz
Fale sobre suas parcerias, em especial, com
silêncio, ou uma espécie de um sorriso no
de viver e ser tão bárbaro como um outro
a Fondazione Pontedera de Teatro.
canto dos lábios por reconhecer que ali está
que não tem esta consciência ou inteligên-
Esta trilogia do Pirandello é resultado de um
retratado um hóspede que habita dentro de
cia? Será que com 2 mil anos o homem não
trabalho em que a Pontedera é fundamental.
todos nós.
evolui e não aprende a viver em harmonia
Eu não faria, simplesmente não faria. Mas
Este hóspede é este elemento no estranho
com o todo, e não digo só o homem que
também um espetáculo não se faz somente
que está dentro da obra.
está do lado, mas com o todo que é isso
porque ele é bom, porque o ator é bom, ele se
Os clássicos são todos assim, você reconhe-
tudo.
faz porque ele pode cativar a plateia e quem
ce não apenas o retrato de uma sociedade
É esse tipo de coisa que torna uma obra
pode viabilizar a continuidade, como o Sesc
daquele tempo, retrata o homem que por
clássica, ela é um refletor sobre a minha re-
de Porto Alegre, são parceiros que ajudam
mais que o mundo mude, é este homem
alidade, que me expõe quando leio, me re-
na estrada, na vida, esta coisa que só vive,
perdido que tenta se achar, o homem que
vela, me iguala a todo mundo, além de toda
se apresenta se é viabilizada. Não é só meu
se desencontra, acerta e erra no mesmo
a beleza literária, toda a beleza da compo-
talento ou a qualidade do trabalho. Se o espe-
momento, é este homem que ainda não en-
sição das frases, das palavras, das ideias, é
táculo chega a algum lugar é graças a quem
tendeu o sentido de estar aqui, de viver este
um refletor sobre a minha realidade.
viabiliza a sua chegada até lá.
período aqui, acreditando que é um gran-
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR Rita Aquino
20
Artista, educadora e doutoranda em artes cênicas na UFBA.
Integrante do Coletivo Construções Compartilhadas (BA),
é responsável pela concepção de {pingos&pigmentos}, que
inaugura o Circuito Intervenção Urbana do Palco Giratório 2013
Em uma brecha
no meio do dia,
guarda-chuvas invadem a paisagem
Cada cidade organiza-se como um campo de ten-
que em nome da conquista do capital, implemen-
mendigos, prostitutas e idosos. As crianças por ve-
sões. Um campo composto por um arranjo de pes-
tam um regime de produtividade que “coloca tudo
zes sequer têm a oportunidade de frequentá-las,
soas (nós!) onde cada um ocupa determinada posi-
em seu devido lugar”. Disseminam-se assim pres-
pois os adultos não se dispõem a lhes acompanhar
ção na disputa de capital – simbólico, econômico,
crições de uso do espaço urbano e de existência
devido a sua falta de tempo decorrente do exces-
cultural. Por posição, podemos compreender aqui
dos próprios sujeitos: por onde andar, o que fazer,
so de trabalho ou ao medo de uma violência que
pontos no espaço – o local de moradia, a escola, o
como se comportar, quais opiniões emitir etc.
parece rondar os espaços urbanos “desocupados”.
trabalho e tudo o mais que integra a rede pela qual
A relação com o tempo parece exemplificar
Outro exemplo é o fenômeno da espetacu-
nos movimentamos, sempre em busca de melhores
bem a questão. Somos cobrados para chegar antes,
larização, que igualmente atravessa a cidade e os
condições de vida. É a partir destas posições, do lu-
mais rápido, primeiro, principalmente em termos
corpos. Uma exposição exacerbada à informação,
gar onde estamos, que estabelecemos nosso ponto
profissionais. Esta aceleração se traduz na trans-
predominantemente publicitária, que apela cons-
de vista, nossa visão de mundo. Ou seja, nesse jogo,
formação dos espaços de permanência da cidade –
tantemente aos nossos sentidos em escala macro
ao mesmo tempo que as relações entre nós estrutu-
como praças e parques – em espaços de passagem,
e na direção da idealização da imagem. O espetá-
ram a malha da cidade, esta nos pressiona de volta,
vias, caminhos para chegar a algum lugar. Isto é,
culo normatiza e reduz nossa experiência sensível,
influenciando nossos hábitos, afetos e memórias.
embora praças sejam construídas para uma efeti-
criativa e crítica na vida privada e na relação com o
Como campo de tensões, a cidade nunca será
va ocupação pública e indiscriminada, seu uso na
coletivo. É assim que, em coro, legitimamos a ima-
homogênea ou consensual. Contudo, parecem
prática se restringe àqueles que estão à margem
gem da moça bonita que posa no grande outdoor
prevalecer as práticas de ordenação e objetivação,
do movimento acelerado da produtividade, como
da marca famosa e desvalorizamos qualquer corpo
ARTES CÊNICAS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
21
Projeto integra a
programação do
8º Festival
Palco Giratório/POA
que desvie deste padrão consensual, independen-
{pingos&pigmentos} é uma das propostas
temente de que se aproxime mais de nós mesmos,
que desenvolvemos no Coletivo Construções Com-
de nossa família, quiçá do conjunto de pessoas
partilhadas (BA) para indisciplinar o modo como
com quem cruzamos em nosso dia a dia.
praticamos a cidade. Trata-se de um conjunto de
Foto: Paulo Lima
Pois bem, a arte, em sua condição de ques-
seis trabalhos, denominado Poéticas de Multidão,
Foto: Tiago Lima
tionamento de uma determinada realidade, pos-
em que, através de ações simples, mobilizamos um
sui um grande potencial de interpor-se a estas re-
grande contingente de pessoas para intervir em
lações. Não por se tratar de um elemento externo
sua própria cidade.
ao jogo, ao contrário, a arte também faz parte da
{pingos&pigmentos} tem início com uma con-
cidade e das disputas pelas formas de capital que
vocatória para interessados em participar de uma
compõem suas tensões. Contudo, por natureza,
oficina onde são abordadas questões relacionadas à
tem a capacidade de explicitar tais conflitos e for-
percepção, composição e ao sentido de coletividade
mular outras relações possíveis entre os sujeitos e
presente em fenômenos de multidão. A oficina, que
o espaço urbano. Incluindo aí críticas a si mesma.
possui 8 horas de duração, não apresenta pré-re-
O lugar da intervenção urbana é, portanto,
quisitos. A partir dela, os participantes tornam-se os
de atuar neste campo de tensões, reinventando
próprios performers, conjugando, assim, formação
o estabelecido, provocando o cotidiano em seu
artística, criação e apreciação estética.
Foto: Paulo Lima
matiz habitual. Não se trata de levar uma obra
Portando guarda-chuvas de cor vibrante,
de arte concluída para ruas e largos, mas de
nossa pequena multidão pontilha, satura e dissolve
atualizar a relação com tais espaços produzindo
na paisagem, irrompendo o espaço urbano de for-
outros sentidos para seus habitantes através da
ma poética, onírica e estranha. Uma plasticidade
proposição artística. Uma espécie de infiltração
que penetra o campo de tensões para sublinhar o
na malha urbana que refaz alguns pontos de sua
ordinário na cidade e em seus habitantes, exerci-
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
tessitura, que propõe outros “nós”. Por isso, não
tando uma forma de esculpir o tempo a favor da
se pode ignorar a dimensão política contida nesta
presença e da percepção.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Lisboa: Difel e Bertrand
Brasil, 1989.
reinvenção do espaço coletivo.
JACQUES, P. B.; BRITTO, F. D. (orgs). Corpocidade: debates,
ações e articulações. Salvador: EDUFBA, 2010.
caderno de teatro
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
22
#10
O Caderno de Teatro é uma seleção de artigos
e entrevistas com artistas que nos últimos anos
participaram do Festival Palco Giratório no Arte Sesc
– Cultura por toda parte. Sua edição desempenha um
papel fundamental na difusão e no conhecimento. Nas
próximas páginas, o ator, diretor, dramaturgo, educador,
artista plástico e bonequeiro argentino radicado no
Brasil desde 1961 Ilo Krugli conta episódios de sua
itinerância pela América Latina. Uma história de
vida que se mistura com a arte e que dividiu o teatro
infanto-juvenil em antes e depois da criação do Teatro
Ventoforte, grupo que já foi agraciado com mais de uma
centena de prêmios, incluindo os principais do Brasil.
Em 2013, o artista, homenageado do projeto Palco
Giratório Nacional, está circulando pelo país com
História de Lenços e Ventos, montado pela primeira
vez em 1974, com grande impacto, e remontado
recentemente, além de As Quatro Chaves. À Vitória
e ao Recife, a trupe leva Ladeira da Memória ou
Labirinto da Cidade, que concorre a melhor espetáculo
jovem de 2012 pelo Prêmio Femsa. O texto foi
transcrito a partir da fala de Ilo Krugli, por telefone,
à Revista Arte Sesc, em março de 2013.
caderno de teatro
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
23
Por Clarissa Eidelwein
Jornalista
Ilo
Krugli
da infância ao
teatro ventoforte
Fotos: Divulgação Teatro Ventoforte
CADERNO DE TEATRO
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
24
chegavam da Europa. Teatro era uma linguagem
O Mistério do Fundo do Pote ou
Como Nasceu a Fome
próxima, mas eu também desenhava, pintava,
Foto: Divulgação Teatro Ventoforte
tudo era brinquedo.
Na escola primária, eu era um aluno considerado especial porque aproveitava qualquer cantinho do caderno para fazer figuras. Minha professora me iniciou em bonecos, ela vinha de uma
tradição – em 1934, 1935, Federico García Lorca
esteve por Buenos Aires e, após as apresentações
de suas peças, com vários atores, músicos, bailarinos, poetas, subia no palco, era apaixonado por
bonecos, fantoches, títeres e fazia improvisações.
Meu primeiro teatro era feito com bola de
Desta história, sobrou todo um grupo, um movi-
gude. Cada bola tinha significado assim como se
mento que ficou meio órfão quando ele foi em-
fossem personagens, pela cor, pela transparência,
bora, e continuou a história. Entre eles, tinha um
tamanho, a bola mais quebrada e machucada fa-
poeta, Javier Villafañe, que deu continuidade e fa-
zia papel de velho, as mais transparentes eram
zia oficinas, ensinou minha professora do primário,
príncipes e princesas, as bolas parecidas, com a
Helena, a fazer bonecos, e foi ela quem me iniciou.
mesma cor, formavam um exército. Isto dentro
Anos mais tarde, eu já fazia bonecos e pen-
da tampa de uma lata de doce de marmelo, la-
sava em criar um grupo. Eram bonecos de mão,
tas grandes retangulares, a bola se movimentava,
a cabeça feita em cima de cuias modeladas com
corria, e eu as descartava quando acabava a par-
papel machê. Às vezes, na pressa de fazer o es-
atravessando fronteiras
ticipação do personagem. Era um teatro sem pú-
petáculo com as crianças brincando no quintal
A primeira fronteira que atravessei foi a rua em
blico, às vezes o pessoal de casa, da família, para-
da casa, não esperávamos secar e durante a peça
frente a minha casa para a calçada do outro lado.
va para olhar o meu brinquedo. Lembro que uma
os bonecos perdiam a bochecha e outras partes.
Claro que recebi um pequeno castigo da minha mãe,
prima do meu pai que estava com problemas fa-
Mas também fazíamos com a técnica correta.
ela tentava me proteger, sem dúvida, mas eu esta-
miliares comentou sobre o que daria isso que eu
Ainda uso muito boneco de mão, que aqui no
va sempre interessado em descobrir espaços novos.
estava fazendo sem perceber toda a contradição
Brasil chama fantoche ou títere, e o pessoal do
Teve outras vezes. Uma vez fugi de casa na periferia
e as dificuldades da vida. Mas eu estava ligado,
Mamolengo usa muito. Eu, depois de adolescente,
de Buenos Aires dizendo que ia procurar outra mãe,
escutei e guardei esta colocação que ela fez em
jovem, encontrei com Javier algumas vezes, sem
não sei que informação eu tinha, tinha ouvido falar
cima do meu brinquedo, eu relacionava também.
falar que ele havia iniciado minha professora. Ele
na Praça de Maio, e corria pelas ruas de pedra, bem
Eu morava num bairro com muitos imi-
tinha uma história coincidente com o Brasil, pra
periferia. Me virava para ver se alguém me seguia ou
grantes de muitos lugares. Só tinha argentino
não, minha mãe e minha irmã me seguiam, até que
de segunda, terceira geração. Na minha rua ha-
Javier esteve no Rio de Janeiro, em 1949, e
me alcançaram e levei até uma palmada. Eu sabia
via polonês judeu e polonês católico, que são
deu aula na casa da Maria Clara Machado, para
que queria ir longe, mas ao mesmo tempo não que-
diferentes. Nós éramos poloneses judeus. Tinha
ela e outras pessoas de teatro, entre elas, Tônia
ria perder totalmente o núcleo familiar.
ucranianos, armênios, italianos, muitos galegos,
Carrero, para brincar com bonecos. E saiu viajan-
Mas desde criança brinquei muito, acho que
de quem eu era muito amigo. Daí começa mi-
do até o Nordeste com um artista plástico e jor-
a origem da linguagem, da expressão, vem através
nha iniciação próxima do português. Falavam-se
nalista, Augusto Rodrigues, também autodidata,
do brinquedo com o ser humano, com a criança,
várias línguas, era uma troca muito grande, foi
e quando o espetáculo acabava, colocava papéis
o resto que vem depois é ampliação de criações
muito rico. Havia um centro cultural onde se fazia
no chão e desenhava com as crianças do público.
espontâneas com o imaginário, com os outros que
muito teatro, era muito importante. Em Buenos
Também fiz por um tempo esta intermediação
estão em volta. O princípio da expressão através do
Aires, só havia quatro teatros, com espetáculos de
com as crianças, que desenhavam suas lembran-
brinquedo, de improvisação, de dar vida ao imagi-
terça a domingo, na língua que o grupo oriental
ças do espetáculo. Javier voltou para Buenos Ai-
nário, aos objetos.
falava. Isso antes da guerra, com companhias que
res. E Augusto Rodrigues era mais uma pessoa
onde viajava com seus bonecos.
CADERNO DE TEATRO
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
25
a se interessar por arte-educação. Ele fundou a
Escolinha de Arte do Brasil, um projeto que em
determinada época se estendeu por todo o país.
Eu cheguei em 1958. A verdade é que eu estava
viajando pelo norte da Argentina, Bolívia e Peru. Na
Bolívia, fiz amizade com o pessoal da embaixada
brasileira, estava pensando em seguir com meus
bonecos até o México, mais tropecei com os adidos
culturais brasileiros, um deles era Thiago de Melo,
o poeta, de quem fiquei muito amigo. Encontrei
também um jornalista que era assessor de Juscelino Kubitschek, fazia os discursos, Carlos Davi. Ele
me disse: você deveria ir para o Rio de Janeiro, lá
tem um grupo que tem tudo a ver com você.
Fronteira Bolívia-Brasil
Nessa época, viajávamos, éramos vários, foi diminuindo até ficarmos apenas eu e Pedro Domingues, argentino também, com o Teatro Cocuyo,
que é um bichinho parecido com um vaga-lume
gigante. Nos lançamos nesta aventura de pegar o
“trem da morte”, atravessar a fronteira (Bolívia-Brasil), pegar outro trem até São Paulo, outro
trem para o Rio de Janeiro. Carregávamos muitos
livros de arte, bonecos, desenhos, pintura – eu
desenhava, pintava e era ceramista. Com o estímulo que recebemos, chegamos ao Brasil e nos
encontramos com o mesmo Augusto Rodrigues
que havia trabalhado com Javier. Ele disse: “Estava esperando por vocês.” Não sei se já sabia
da nossa existência ou se, no fundo, os bonecos
eram muito bons para trabalhar arte-educação,
para o desenvolvimento do imaginário. Fiquei 12
anos trabalhando na escolinha, no Rio de Janeiro,
mas viajávamos muito, íamos para Recife, Porto
Alegre. A escolinha era ao lado do Teatro São
Pedro e tinha várias pessoas que estavam neste
movimento de arte-educação, artistas plásticos.
Curiosamente, pouca gente fala disso, a própria educação através da arte dentro das universidades lembra muito a escolinha. Eu era autodidata e num momento da vida fiz um poema que
falo que saí de Buenos Aires viajando, parti para
o mundo, para América Latina, com Herbert Read
de baixo do braço e Lorca no coração.
CADERNO DE TEATRO
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
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Meu interesse pela educação foi muito gran-
meu pulso! E sempre sobrevivemos fazendo estes
de e por meio das escolinhas, nos comunicamos
espetáculos e atividades com crianças, oficinas e
frequentemente com projetos de escolas, espaços
por aí vai.
universitários e viagens também. Depois, com al-
Em Cuzco, no Peru, fizemos um trabalho mui-
guns dos colegas, ainda do Cocuyo, que se trans-
to especial com crianças, artes plásticas, desenho,
formou em São Paulo no Teatro de Bonecos de Ilo e
pintura, modelagens, colagens. Em 1962, 1963, ini-
Pedro, viajávamos para o Nordeste, Alagoas, e nos
ciaram os cursos de educação através da arte, de
apresentávamos para um público ligado a escolas
setembro a dezembro, todos os anos. No primeiro,
em espaços bem populares. Na América Latina,
fui aluno, depois professor de boneco, trabalho
sempre apresentávamos em aldeias de índios, al-
com desenho, cerâmica, construção com madeira
Meu ponto de partida
deias populares, em diversos lugares. Sobreviví-
e escultura. Participava de todas as atividades do
Durante muitos anos, trabalhamos com bonecos.
amos fazendo teatro. Uma vez me perguntaram
curso. Sobre eu ser chamado autodidata, talvez
Lá no Rio de Janeiro, teve um ano que criamos um
quem financiava isso. Eu tirei o relógio do bolso e
isso ajude a exprimir: Eu sempre falo que todas as
teatro de bonecos no Parque do Flamengo, que
mostrei: é o seguinte... – Quando chegava a algum
crianças do Brasil são autodidatas, estou queren-
ainda existe. Trabalhamos com uma montagem
lugar – trabalhei muito nas minas de prata e outras
do dizer que entram num processo instintivo, es-
muito bonita de uma ópera, O Retábulo de Mestre
minas da Bolívia, começávamos a nos apresentar e
pontâneo de lidar com as informações, com a arte
Pedro, em cima de um tema de Dom Quixote de
divulgar na rádio, nos sindicatos. Parávamos junto
e com a comunidade, até mesmo a partir de seu
Cervantes, quando ele vai ao teatro e brinca com
do lugar onde dormíamos, pensão, hotel, pousa-
brinquedo. Fiz algumas oficinas no Brasil e com
bonecos. Fizemos na inauguração da Sala Cecília
da, e já dizia: “Estou hospedado aqui e estamos
algumas outras pessoas em Buenos Aires, como
Meireles, no Rio, por volta de 1966, com a orques-
fazendo um trabalho para o sindicato, vamos nos
Cecilia Markovich, que tinha trabalhado até com
tra do Teatro Municipal do Rio e cantores que fa-
apresentar sábado e, se tiverem interesse, deixo
Segall. Um grupo que vinha lá dos anos de 1920,
ziam os personagens.
meu relógio aqui”. Nosso produtor era o relógio do
1930, do movimento da Semana de Arte Moderna.
CADERNO DE TEATRO
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
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Trabalhei numa oficina, me interessava por tudo
que acontecia em volta.
que da Bahia e quase foi ministro, Anísio Teixeira.
Depois desta etapa, em 1963 ou 1964, mon-
No Rio de Janeiro, comecei a trabalhar muito
tamos um espetáculo que ainda faço: Um Rio que
com a Escolinha de Arte e junto tinha o Conserva-
Vem de Longe, com textos e versos meus e uma
tório Brasileiro de Música, onde se iniciaram todos
forma de representar que é um teatro de bonecos
os trabalhos de iniciação musical com as crianças
quase sem bonecos. Utilizo apenas as mãos e um
e nos anos de 1970 originou a primeira faculdade
ou outro objeto, algumas canções de origem popu-
de musicoterapia. Eu fazia parte desse grupo que
lar, outras minhas, nessa época comecei a compor.
criou a faculdade. Fizemos um trabalho integrado
Nos anos de 1970, criamos uma escola chamada
em cima das crianças com várias linguagens, entre
Núcleo da Atividade Criativa.
elas, música e artes plásticas. A proposta era que,
Em 1973, viajei ao Chile, na época do Allende.
como as linguagens são espontâneas, inatas no
Fiquei quase 10 meses, passei pelo golpe do Pino-
ser, tinham que ser desenvolvidas simultaneamen-
chet. Havia muitos brasileiros. Fazíamos espetácu-
te. Como o teatro estava no centro das atividades,
los no Museu de Belas Artes, fui preso, muita gen-
quem originou este movimento foi Liddy Mignone,
te foi presa, alguns foram mortos. Consegui sair
a mulher do maestro Francisco Mignone. Também
acompanhado por gente das Nações Unidas, senão
participei de um grupo de estudos com a Nise da
nem sei se teria conseguido sair. Peguei um avião
Silveira no Museu de Imagens do Inconsciente.
para Buenos Aires. Voltei ao Brasil ainda no fim do
Sempre digo que fui um homem de sorte, porque
ano, ainda não era cidadão brasileiro – como ti-
aquele adido cultural me indicou para trabalhar
nha estado no Chile, tive que entrar pela fronteira
come esta gente da escola. Trabalhei com Darcy
como turista argentino. Eu queria voltar ao Brasil e
Ribeiro, com aquele outro que criou a Escola Par-
voltei a trabalhar com toda essa gente.
O Mistério do Fundo do Pote ou
Como Nasceu a Fome
(fotos 1, 2 e 4)
Ladeira da Memória ou
Labirinto da Cidade
(foto 3)
Fotos: Divulgação Teatro Ventoforte
CADERNO DE TEATRO
PRIMEIRO
SEMESTRE
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História de Ventos e Lenços
situações, acontecimentos que normalmente não
humanidade ao mesmo tempo. De alguma forma,
No início de 1974, me convidaram para partici-
se fala às crianças, perseguições políticas, mas com
sempre falavam da fabulação do imaginário, de um
par de um festival de teatro de bonecos e teatro
uma linguagem muito acessível.
quase mitológico simbólico, mas coisas que esta-
infanto-juvenil em Curitiba. E eu disse pelo te-
Estamos fazendo este espetáculo de novo e
vam no nosso dia a dia, de alguma coisa presente.
lefone: “Acabei de chegar, é uma história com-
vamos viajar pelo Sesc. Já fizemos várias vezes,
Este espetáculo interessou muito às crianças, mas
plicada, eu não tenho nem grupo, meu grupo se
mas agora estamos esquentando para viagem. Tem
também, sem dúvida, aos adultos.
dissolveu”. A pessoa do outro lado da linha disse:
um momento que tem dois personagens Manoel –
A minha arte se alimenta de tudo isso, da ex-
“Ah, Ilo você tem um boneco...” e me convenceu.
aquele que depois se fecha numa mala e não quer
periência libertária do boneco, porque ao boneco
Em 10 dias, junto com um aluno da musicotera-
mais trabalhar – e Manoela. Ela vai passear amea-
se permite tudo, tanto que quando ainda estava no
pia, um fotógrafo e mais duas moças que eram da
çada por um perigo, e ela não quer obedecer, tem
Peru, nos apresentamos numa sala da prefeitura
escola de teatro da UNIRIO, criamos o espetáculo
um lugar que há um poço e ela pode cair, mas os
em Cuzco e fazíamos o espetáculo de bonecos tra-
Histórias de Lenços e Ventos. Todo mundo gostou,
outros personagens dizem pra Manoel deixá-la ir,
dicional, com painéis, e em determinado momen-
voltamos pro Rio de Janeiro, ensaiamos um pou-
pra se despedir dela. Dizem: Dá um beijo nela. E eu
to girávamos os painéis e ficávamos trabalhando,
co mais e estreamos em maio daquele ano, no
digo: Já dei. Quando? Ainda continuo improvisan-
fazendo o espetáculo numa sala imaginária, e o
Museu de Arte Moderna. O espetáculo realmente
do, agora na temporada do Sesc Pompeia, o perso-
público assistia a que? Nós brincando com os bo-
foi uma explosão.
nagem disse: Ah, faz tempo. Mas quando? Ah, na
necos, esta linguagem à vista. Quando chegamos
caída do muro de Berlim.
ao Rio de Janeiro, na primeira vez que fizemos
Era um espetáculo que parecia criado frente ao público. O meu boneco iniciava, mas alguns
Então é nossa fábula desse século que pas-
um espetáculo, as crianças se divertiram muito.
falavam que estava dizendo com isso que muita
sou, parece uma coisa de um nível especificamente
Havia três painéis e saímos de um painel para o
gente se fechou, se sentiu proibido de trabalhar
político. No domingo passado, me contaram que
outro, tirávamos os bonecos, então essa linguagem
e o boneco se fechou dentro de uma mala e não
um garoto disse: Pai que muro é este que caiu?
aberta, próxima do brinquedo interessou muito às
queria mais sair. E tentava mostrar um teatro feito
Sempre coloco alguma coisa assim. Gosto quando
crianças e a todo público. É isso que coloca uma
de outra forma, um espetáculo que era feito com
as crianças voltam pra casa e perguntam para os
liberdade no improviso, na relação com o público.
lenço, pedaço de papel, de metal, jornais, bem co-
adultos que a acompanharam o que é guerra? O
Nesse espetáculo de 1963, Um Rio que Vem
lorido. Mas dentro do espetáculo tinha todo um
que é fome? O que é perseguição? Disse: Que bom
de Longe, tem o ator que faz um barquinho e nos
processo que recorria um pouco à história do que
isso. Este menino daqui a pouco vai brincar com
últimos anos sou eu que faço. O barquinho está
estava acontecendo no país e na América Latina.
isso, com o muro que caiu. E não sei como esse pai
amarrado e não pode sair porque está ancorado e
E ao mesmo tempo, com linguagem que era de
deve ter falado para ele que era esse muro. Mas
nunca havia navegado. Ele não sabe como se sol-
grande influência popular, canções... e com uma
sem dúvida é muro que divide sempre uma coisa
tar, até que alguém retira esta corda, e ele se lan-
relação com a criança diferente, um teatro com
do lado e do outro. São grandes brincadeiras da
ça numa aventura porque viu uma flor. Ele gosta
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PRIMEIRO
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História de Ventos e Lenços
Fotos: Divulgação Teatro Ventoforte
tanto desta flor que queria ir atrás dela, e ele vai
com a correnteza do rio, vai parar no oceano, enfrenta tempestade e quase vai desaparecer quando
aparece um marinheiro que tenta ancorá-lo novamente. Ele resiste, ele não quer. Então deixo os
atores em cena, vou até a plateia e digo que não
quero mais, porque eu já fiquei preso. E pergunto:
Alguém aqui já ficou preso alguma vez? Vinte anos
atrás tinha gente que balançava com a cabeça
tece algumas vezes. Eu detesto quando puxam no
mais que atualmente. Porque era preso não apenas
público este “começa”. Se o público se manifesta
por roubo ou atentando ao pudor, era outra coisa,
espontaneamente, tudo bem. Tem muito estereóti-
era porque se manifestava publicamente. Hoje, as
po em cima do trabalho pra criança. É minimizado,
crianças dizem: Eu fiquei preso. Mas quem foi que
transformam tudo numa coisa muito simplória,
te prendeu? Minha mãe que me botou de castigo
com muito diminutivo. Tudo é pequeninho e não
no quarto e disse que não podia sair. Ou fiquei pre-
sei o que mais. E a gente se coloca para a crian-
so no elevador. O ator não quer mais voltar à cena
ça quase como para o adulto, a gente enxerga a
e o público pede que volte. Ele só volta quando
criança, esse espetáculo no Sesc Pompeia está
lembram pra ele que não pode desistir desta flor
sendo muito interessante. O público sentado num
que viu passar e achou tão bonita e se apaixonou.
lugar que é de convivência, e a gente percebe a
Então, ele volta pra retomar a cena com o perigo
criança sentada com alguns adultos em cima de
até de ficar amarrado, ancorado. Já me encontra-
almofadas no chão e em cadeiras. Mas também há
ram na rua e falaram que levaram a questão para
jovens. Vi jovens de 17, 18, menos de 20 anos, sen-
o psicanalista, que fala: Você é igual ao barquinho
tados e chorando, emocionados. É a história de um
e se você não se arriscar, nunca se desamarrar, não
personagem que se chama Papel e que vai sendo
enfrentar a correnteza e a tempestade, não vai po-
criado diante do público. Pega-se um jornal com
der ser você, não vai poder ser livre.
notícia do dia a dia e então um lenço sai voando
Essa linguagem que mexe com a história,
e é preso pelo Rei Metal Mal na cidade medieval.
pra mim, é história pra criança também. O que eu
Claro que é uma espécie de alegoria, e o persona-
rejeito é que as crianças, puxadas por um adulto,
gem que vai libertar a Azulzinha (um lenço) é uma
iniciem um coro “Começa! Começa!”, como acon-
folha de jornal. Esta folha depois será perseguida
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CADERNO DE TEATRO
CADERNO DE TEATRO
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Ladeira da Memória
ou Labirinto da Cidade
Foto: Divulgação Teatro Ventoforte
de uma linguagem também. O rei quer fazer um
torneio e quem ganhar vai casar com a protagonista que é um lenço azul, a Azulzinha, que está
presa no castelo. Os outros lenços também estão
todos presos, e na época que fizemos havia muitos
presos realmente na América Latina. Mas eu diria
que em algumas situações ficamos presos de outra
forma, presos ao sistema.
Ele entra no castelo, mas como enfrentar o
rei? Através de um jogo de sombras. O rei luta ima-
e queimada, isto faz alusão a muitas situações e
ginariamente com a sua sombra, talvez lembre um
em nível simbólico continua acontecendo. A gen-
pouco a cena de Chaplin imitando Hitler que brin-
te desenha na folha de jornal uns olhos, um nariz
ca com o globo terrestre, que cai na bunda dele.
e uma boca e o ator vai andando com isto numa
O personagem Papel projeta sua sombra. Estamos
mão. E a identificação é muito forte, essa emoção
dizendo que enfrentar certas forças é muito difícil.
do público jovem para mim é importante, os adul-
Só podemos enfrentar através do que nós falamos
tos também, claro, e crianças, mas o jovem... De
com nossa arte. E a sombra é nossa arte e é assim
alguma forma a gente tenta colocar ainda que se-
que podemos enfrentar, podemos influenciar. E um
jam histórias de nível histórico que já aconteceram.
ator desliga o foco do rei, e a sombra desapare-
Tem uma canção que fala:
ce. Ele se sente vencido e procura colocar que só
assim conseguimos, retirando a luz de cima deste
Se é de papel voa no céu
personagem. Então, o Papel resgata a Azulzinha, e
Se é de metal brilha na mão
eles voltam para o quintal. Com muita música e
E se é de jornal me faz chorar
poesia – a poesia também é uma linha emocional
me traz notícias preciso andar
que alcança as pessoas tanto a criança, como o
adulto e o jovem.
Então, o momento que estávamos viven-
Eu faço os textos das músicas, o poema. Tem
ciando 40 anos atrás, mas que de alguma forma
uma equipe que por anos trabalha comigo, alguns
continuamos vivenciando, essa identificação que
desde a primeira montagem. Eles colocam meus
a gente faz com a possibilidade, com o sonho de
versos na música. Nossos cancioneiros do Vento-
todo ser de se mover, de amar está presente no
forte passam de 200 pessoas. Cantamos músicas
texto na forma de representar. O público vê que o
nossas e algumas populares que inserimos dentro
ator se transforma no personagem, e este diz: Não
do espetáculo. Em História de Lenços e Ventos, há
vou mais continuar, acabou, nosso herói foi quei-
uma citação de um sambista do Rio de Janeiro,
mado. E alguém, criança ou adulto, diz: faz outro.
Candeia: “deixe me ir preciso andar vou por aí a
Mas vai ser queimado novamente. Até que a gente
procurar”. E pra quem conhece dá uma mexida...
faz outro, porém mais forte e com mais elementos
posso mexer e reviver e continuar com a memó-
e até com possibilidade de entrar na cidade me-
ria, a grande saída pra enfrentar toda a questão
dieval, mas daí ele tem que ter elemento da cidade
cultural social é que a criança tenha memória, me-
medieval, muito metal por cima, um escudo. Mas
mória cultural, tudo isso nos fortalece. Há 40 anos,
por baixo fica escondido um coração transparente
por repressão política, agora por uma situação de
de celofane. Tudo isso como contradição de duas
sistema social, a nossa memória é anulada, joga-
atitudes. Daí decide entrar, mas assim mesmo não
da fora, não é queimada, é escondida, desaparece,
enfrentamos os soldados diretamente, enfrenta-
apenas somos manipulados por uma cultura de
mos o Rei Metal Mal através de um jogo teatral,
produtos de vendas.
CADERNO DE TEATRO
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Teatro Ventoforte
ser uma figurinha e inventei um personagem, o
are, Lorca. Quando são meus textos, já surgem
Nos anos de 1980, nos transferimos para São
Mané. E o Mané nunca fala, ele só fala com o pa-
mais ou menos esboçados e vão se complemen-
Paulo e depois, numa aventura continuada até
lhaço. Cada vez que há um problema, o palhaço
tando na montagem. O último acréscimo de
agora, ocupamos um espaço no Parque do Povo,
coloca a figurinha no ouvido e diz ao público: o
Histórias de Lenços e Ventos, por exemplo, foi
onde tinha uma comunidade da cidade de Pal-
Mané disse que esperança é para esperar, se fa-
o beijinho final do Manoel na Manoela, a his-
meira dos Índios, em Alagoas, a qual teve Gra-
lou em ter esperança, se quer esperança tem que
tória do muro, eu como personagem coloquei
ciliano Ramos como prefeito. Inclusive estamos
saber esperar. Este personagem, nos presídios,
na hora, acontece na espontaneidade. Às vezes,
preparando uma homenagem a ele e a obra Vi-
criava muito impacto. A gente conclui que esses
surgem situações novas. Há 40 anos, quando o
das Secas. Esta comunidade foi retirada – ainda
espectadores são personagens de uma história
espetáculo foi montado, e o Papel era queima-
há pessoas de lá colaborando com a gente –
e que ninguém pergunta, ninguém os escuta, é
do, alguns atores levantavam a folha de papel
para a criação de um grande parque. Tudo foi re-
tudo no silêncio. Então, se identificavam muito
e diziam: Eu sou Papel, eu sou Papel... Mas não
tirado, e apenas o Teatro Ventoforte permaneceu
com este personagem que nunca se escutava
dá, vão ser queimados, não adianta, estão quei-
porque os políticos disseram que era patrimônio
falar. Ao final, quando cumprimentávamos com
mando todos os papéis em volta do castelo. Fora
cultural do Brasil. Estamos há 28, 29 anos no
todos em cena, eles diziam “Mané! Mané!” Então
isso, dentro do castelo só entra ouro prata renda
espaço realizando trabalhos com diferentes co-
colocávamos o boneco no alto para cumprimen-
veludo brilhantina botox, não sei o que mais...
munidades da cidade, centrando em produções
tar e eles ovacionavam o Mané. Aquele que nun-
E agora acontece de novo que os atores levantam
e apresentações continuadas no Parque do Povo.
ca era ouvido, mas de tanto em tanto dava sua
o jornal querem ser o personagem pra resgatar a
opinião através do clown.
Azulzinha, mas não é tão fácil resgatar o prisio-
Apresentamos o espetáculo infanto-juvenil
O Mistério das Nove Luas nos presídios, em São
Nesses anos, também fizemos espetáculos
Paulo um pouco e muito no Rio, tanto masculino
para adultos, como Victor Hugo, Onde Você Está?,
como feminino. É uma espécie de folguedo, um
inspirado na literatura do escritor francês. E tam-
casamento de duas grandes figuras em cena, e
bém vários espetáculos de Lorca. No último ano,
a cada cena é colocada uma saia na boneca, que
fizemos Ladeira da Memória, chamamos de teatro
vai ganhando uma grande barriga e no final ha-
infanto-juvenil, mas é muito para jovens e talvez
verá um parto. – (Neste momento, cai a ligação e
até para adultos. Falamos da história da coloniza-
Ilo Krugli atende ao telefone rindo). Estou rindo
ção dentro de um sonho que tem um engraxate
porque no Lenços e Ventos tem um momento
que sonha um dia cavalgar, um cavalo com asas...
que o personagem é um guarda-chuva quebra-
mas tudo dentro de um espaço de interferências
do que fica dançando com um observatório do
históricas de colonização, escravatura. Coloca-
tempo, e os atores seguram a latinha com duas
mos para todas as idades, de 8 a 80. Mas, por lei,
pontas. O telefone de um lado e central telefô-
toda criança pode entrar no teatro acompanhada
nica no outro. E vai passando pelos personagens
de adultos, mesmo que tenha menos de 8. São 2
até que uma está em cima da cadeira com a lati-
horas e 15 minutos, e as crianças pequenas ficam
nha da ponta, e ela cai e se interrompe a ligação.
ligadas o tempo todo, dificilmente queram ir em-
E a telefonista diz: caiu a ligação. Ela se arruma
bora. Pelo tipo de linguagem também, tem esta
toda na cadeira e a ligação se restabelece. – Mas
coisa visual que vai falando em alguns momentos
voltando ao espetáculo O Mistério das Nove
brincadas pelo ator, esta linguagem do folguedo
Luas, parte é escrito anteriormente e parte é
popular, o imaginário e a ficção também estão
elaborado durante a peça. Eu fazia uma espécie
se mexendo no espetáculo. Não é um espetáculo
de clown, me chamava Não Sei. Pensava que ele
apenas formativo, com linguagem específica para
teria um cachorro que vai puxando – palhaços
o adulto. É linguagem do grupo que viajava não
antigos sempre carregavam um cachorro que
sei quantos séculos atrás, acontecia em praça pú-
era um boneco de pano e puxavam pra cima e
blica, na frente da igreja, pra todo mundo.
diziam fala fulano, fala. Quando fui experimen-
Nossos espetáculos vão sendo criados no
tar, vi que não podia ser um cachorro, tinha que
dia a dia. Ou fazemos adaptações de Shakespe-
neiro do sistema, não é. É isso mais ou menos.
Ladeira da Memória
ou Labirinto da Cidade
Foto: Divulgação Teatro Ventoforte
CADERNO de
caderno
DE teatro
TEATRO
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
33
1 Fragmento de um artigo de Ilo Krugli extraído da
publicação do projeto nacional do Palco Giratório,
que em 2013 homenageia o artista.
flores preciosas que renascem
e as parcerias, eternas?[1]
POR Nelson Baskerville
Em nossas itinerâncias giratórias
abriram-se espetáculos acontecendo
em calçadões, ruas interditadas, para
aproximar a utopia até onde o fluxo do
trânsito será ocupado pelas emoções
tragicômicas, sensíveis e atemporais
das invenções teatrais poéticas,
seduzindo para que algum dia “ser ou
não ser” (seremos) o herói imaginário
do sonho e do desejo, podendo ser
encarnado com jogos, brinquedos
reinventados, sem medo, sem
repressões que sinalizem moralidades e
condicionamentos sociais.
Que repetem: Vocês não são mais
crianças! Estão brincando de novo?
Sim, somos “brincantes” do teatro
popular e do teatro essencial;
que se renova no movimento da
espontaneidade onde choramos ou
rimos com qualquer idade.
De todas essas experiências podemos
recolher falas e considerações... dignas
de deixarem de ser anônimas... Sempre
nos espetáculos, em que a criança
tem em seu não pudor e vergonha de
interagir com a realidade, uma licença
eterna para indagar e perguntar
ao outro. Nesse universo colhemos
algumas pérolas que fazem parte de
nosso trabalho, que nos levaram a
dramaturgias, a títulos de peças e até
mesmo ao nome de nosso grupo.
Depoimentos apontam caminhos
Uma criança vai se aproximando até a
cena e pergunta: “Isso é de verdade?”
Outra menina, de cinco anos, em
um parque, se aproxima do ator
que abandonou a cena e não quer
continuar na história. Porque na trama
ele estava ancorado, e se voltar ao
palco voltará a ficar preso. E a menina
pergunta ao ator desertor: “Pode‑se
mudar uma história?”
Ator: “Claro que pode. Não quero ficar
preso!..
Menina: “Mas é de verdade?”
Ator (tenta ser sincero. É a primeira
vez que lhe fazem esta pergunta):
“É, no começo, se não é muito
verdadeiro, cada vez será mais de
verdade...”
Outra menina discute com os
soldados que estão perseguindo
os poetas em uma de nossas
peças que, em determinado
momento, todos podem se aliar
aos que prendem (os soldados que
perseguem artistas) ou aos poetas
(os que são fuzilados). E com uma
lógica ingênua e ao mesmo tempo
corajosa, a criança de oito anos diz
aos soldados:
“Vocês não podem matar todos
os poetas! Porque não podem
matar os poetas que ainda não
nasceram.”
Outra criança (que emoção! Que
exigência!): “Quando vocês riem ou
choram, é de verdade?”
Uma mulher chorando: “Esta é a
história da minha vida!” Nesse
espetáculo colocamos quatro
grandes painéis pintados com
figuras diversas com o rosto e as
mãos recortados, de modo que
tanto atores como público podiam
ficar atrás dos painéis assumindo
esses personagens. E assumindo
também seus desejos! Que atores
e público ajudam primeiro a
adivinhar e depois a realizá-los,
durante a peça.
Outra mulher (com uma sacola de
supermercado, que estava na rua
fazendo compras e se juntou ao
público): “Eu nunca fui ao teatro... é
a primeira vez. Eu gostei, parecem
histórias antigas as que vocês
contam... Eu acho que esta noite
vou sonhar...”.
MÚSICA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR Ermelinda Paz
34
Professora e pesquisadora na área de música
popular, folclórica e erudita brasileira
(http://www.ermelinda-a-paz.mus.br)
Edino Krieger,
um compositor
brasileiro
Edino iniciou os seus estudos de violino aos sete
elas fazem parte da recente publicação intitulada
O Projeto Memória Musical Brasileira (mais
anos com o seu pai, compositor e regente Aldo
Edino Krieger: crítico, produtor musical e compo-
conhecido como Promemus): editou par-
Krieger. Hans Joachim Koellreutter foi seu principal
sitor, disponibilizada pelo Sesc Nacional no ende-
tituras, publicou livros e coleções, abriu con-
professor. Estudou com ele harmonia, contraponto,
reço www.sesc.com.br/publicacoes/edinokrieger.
cursos monográficos e de interpretação de
fuga, análise, estética musical e composição. Teve
Suas críticas o colocam entre os grandes de seu
música brasileira, além de gravar um número
uma formação complementar com Aaron Copland
tempo, ao lado de Andrade Muricy, Ayres de An-
significativo de discos recuperados de arquivos
no Berkshire Music Center de Massachussets e, ain-
drade, Eurico Nogueira França, João Itiberê da
fonográficos oficiais e particulares (Paz, Vol. II,
da, na Juilliard School of Music e na Henry Street
Cunha, Ondina Ribeiro Dantas, Renzo Massarani,
Anexo IX, p. 247 - 263) e os Festivais de Música
Selttement, nos Estados Unidos. Em Londres, reali-
para citar apenas alguns.
da Guanabara (Paz, Vol. I, p. 226 – 233).
zou um estágio com Lennox Berkeley. Sua carreira é
Dentre suas grandes realizações como pro-
A realização do I e o II Festivais de Música
coroada de prêmios, distinções e homenagens (Paz,
dutor musical destacamos:
da Guanabara (1969 e 1970) se transfor-
Vol. II, Cap. V, p. 173 – 176).
Os Concursos Corais do Jornal do Brasil:
maram no grande palco para os novos valores
Realizou um trabalho sistemático como
contribuíram sobremaneira para o cresci-
que surgiam. O evento foi criado pela Secreta-
crítico musical nos jornais Tribuna da Imprensa
mento do número de corais, bem como o
ria de Educação e Cultura da Guanabara, cujo
e Jornal do Brasil produzindo aproximadamente
aumento da produção do coral em nível na-
titular era o professor Gama Filho, e suas duas
700 críticas de grande valor documental, todas
cional (Paz, Vol. I, p. 224).
realizações foram promovidas pelo Museu da
Imagem e do Som (MIS) e pelo seu diretor, Ricardo Cravo Albin, sob a coordenação geral do
compositor Edino Krieger.
O crítico Antonio Hernandez, em O Globo, de
5 de maio de 1970 (p. 6), sob o título “Um milagre
de ativação do meio musical do Rio”, afirma que:
A principal garantia da seriedade da realização repousa no nome do maestro
Edino Krieger, responsável pela iniciativa
e a quem a Secretaria de Educação confiou a coordenação geral do certame que
será prestigiado pelas presenças de autoridades respeitadas no mundo inteiro.
O incentivo à criação musical sempre mereceu especial atenção por parte de Edino Krieger.
MÚSICA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
35
Segundo ele, a criação musical de qualquer país
como compositor das VII, X, XI, XIV, XV, XVI e XVII
em 8 de novembro de 1985, às 21h. Kenneth Au-
se apoia em três fatores básicos:
edições. Em depoimento datado de 29 de agosto
bouchon, Sebastião Gonçalves e Paulo Roberto
de 2012, ele assim se pronunciou sobre esse fato:
Mendonça, trompetes; Barbara Nokes, Joel de
1º O talento criador dos seus compo-
Souza Coutinho, Roberto Crispin e Ismael de Oli-
sitores; 2º O interesse do mercado de
Sempre entendi as BMBC como um es-
veira, trompas. VIII BMBC Três imagens de Nova
consumo interno e externo, represen-
paço para os outros apresentarem as
Friburgo. Regente: Norton Morozowicz, Orquestra
tado pelo público e pelas organizações
suas obras e, não, necessariamente para
de Câmara de Blumenau. Sala Cecília Meireles, 30
musicais; e 3º A organização do sistema
mim. Às vezes, estava na comissão de
de novembro de 1989, às 21h. Foram compostas
de apoio da produção, como elo inter-
organização e de seleção e preferia não
por encomenda das secretarias de Cultura de
mediário entre a criação e o consumo.
participar; em outras ocasiões, os intér-
Nova Friburgo e do Município do Rio de Janeiro.
pretes me procuravam querendo tocar
IX BMBC Imagens – visão coreográfica das Três
A Bienal de Música Brasileira Contemporâ-
alguma obra minha; em determinado
imagens de Nova Friburgo. Atores bailarinos: Ta-
nea (BMBC), o mais antigo, importante e regular
momento considerava que não tinha
bla Rasa. Coreografia: Henrique Schüller e Regina
evento no gênero (I BMBC - 8 a 12 de outubro de
obra que julgasse relevante; e aconte-
Miranda. Organização: Coordenadoria de Dança /
1975; II BMBC - 15 a 23 de outubro de 1977; III
ceu, inclusive, de esquecer o prazo de
Museu de Arte Moderna (terraço superior), 27 de
BMBC - 12 a 19 de outubro de 1979; IV BMBC -
inscrição por estar trabalhando muito!
outubro de 1991, às 17h30. XII BMBC Concerto
23 a 30 de outubro de 1981; V BMBC - 4 a 12 de
para dois violões e orquestra de cordas. Violões,
novembro de 1983; VI BMBC - 8 a 17 de novem-
Aduzimos, a seguir, as participações de Edino
Sérgio e Odair Assad. Regente: José Pedro Boés-
bro de 1985; VII BMBC - 5 a 14 de novembro de
como compositor, a saber: I BMBC Estro armonico.
sio. Orquestra de Cordas da Unisinos. Sala Cecí-
1987; VIII BMBC - 22 a 30 de novembro de 1989;
Intérpretes: Orquestra Sinfônica da Rádio MEC.
lia Meireles, 2 de novembro de 1997, às 21h. XIII
IX BMBC - 18 a 27 de outubro de 1991; X BMBC
Regente: Alceo Bocchino. Sala Cecília Meireles,
BMBC Fanfarra e sequências. Orquestra Sinfônica
- 15 a 23 de outubro de 1993; XI BMBC - 23 a 30
em 12 de outubro de 1975, às 21h. Escrita sob
do Paraná. Regente: Roberto Duarte. Theatro Mu-
de novembro de 1995; XII BMBC - 25 de outubro
encomenda do VIII Festival de Música do Paraná,
nicipal do Rio de Janeiro, 20 de outubro de 1999,
a 4 de novembro de 1997; XIII BMBC - 20 a 29 de
onde teve a sua primeira audição. Para o musi-
às 21h. XVIII BMBC Pequeno concerto para violino
outubro de 1999; XIV BMBC - 22 a 31 de outubro
cólogo Vasco Mariz, é a obra mais bem realizada
e cordas. Violino, Daniel Guedes e naipe de cordas
de 2001; XV BMBC - 9 a 16 de novembro de 2003;
do compositor. II BMBC Variações elementares.
da Orquestra Sinfônica da Escola de Música da
XVI BMBC - 4 a 13 de novembro de 2005; XVII
Intérpretes: Paulo Moura, sax alto; Nelson Melin,
UFRJ. Regente: André Cardoso. Sala Cecília Mei-
BMBC - 21 a 30 de outubro de 2007; XVIII BMBC
celesta. Com participação especial da Camerata
- 23 de outubro a 1 de novembro de 2009; e XIX
da Universidade Gama Filho. Regente: Isaac Kara-
BMBC - 10 a 19 de outubro de 2011), indo para
btchevsky. Sala Cecília Meireles, em 17 de outubro
a XX edição em 2013, cujo projeto, de autoria
de 1977, às 21h. Primeira audição Washington,
de Edino Krieger, foi descoberto pela professora
EUA. West Auditorium, 8 de maio de 1965. III
Myrian Dauelsberg, que se desincumbia em 1975,
BMBC Canticum naturale. I – Diálogo dos pássa-
da direção da Sala Cecília Meireles, e que, com
ros. II – Monólogo das águas. Intérpretes: Solista
sua sensibilidade e competência, tratou de en-
Maria Lúcia Godoy, soprano. Orquestra Sinfôni-
campá-lo para benefício da música e do músico
ca Nacional. Regente: Eleazar de Carvalho. Sala
brasileiro. As bienais acolheram compositores de
Cecília Meireles, em 12 de outubro de 1979, às
todas as tendências e gerações, abrindo espaço
21h. Obra composta por encomenda da Orquestra
para talentos jovens e desconhecidos e assegu-
Filarmônica de São Paulo para o Sesquicentenário
rando ainda espaço para os compositores já re-
da Independência. IV BMBC Sonâncias II. Violino,
conhecidos nacional e internacionalmente. Edino
Jerzy Milewski, e piano, Aleida Schweitzer. Sala
trabalhou em diferentes frentes – como membro
Cecília Meireles, 23 de outubro de 1981, às 21h. V
da comissão organizadora, de seleção e como co-
BMBC Três miniaturas. Piano Maria Teresa Madei-
ordenador – revelando-se como um dos pilares
ra. Sala Cecília Meireles, 7 de novembro de 1983,
de sustentação dessa comissão. Não participou
às 21h. VI BMBC Fanfarra. Sala Cecília Meireles,
Edino Krieger e Ermelinda Paz
no lançamento da publicação
Edino Krieger: crítico,
produtor musical
e compositor
Foto: Cesar Duarte
MÚSICA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
36
Estamos convencidos da importância que as
BMBC representam para a música e o músico brasileiro ao longo de seus ininterruptos 36 anos, como
um espaço político, cultural e democrático, capaz
de assegurar um lugar de destaque para a criação
musical contemporânea brasileira, independentemente de escolas, estilos ou linguagens, reafirmando-se como um palco ímpar para abertura de portas aos novos talentos da criação musical brasileira
contemporânea, reafirmando, ainda, o potencial
criador de nossos artistas. Deixemos que o crivo do
tempo ajuíze o caráter de permanência das obras.
Do compositor Edino Krieger podemos dizer
que suas obras figuram nos programas de concerto de orquestras, conjuntos camerísticos, corais e
reles, 30 de outubro de 2009, às 20h. XIX BMBC
Em 1997, as dificuldades na montagem da
intérpretes solistas, tanto no Brasil quanto no ex-
Trio tocata para violino, violoncelo e piano. Rio de
BMBC cresceram proporcionalmente, propulsio-
terior, sendo longa a lista de intérpretes nacionais e
Janeiro, 4 de julho de 2011. Violino, Ricardo Amado;
nadas pela burocracia que se coloca sempre na
internacionais. (Consultar op. cit. Vol. II, Anexo VIII,
violoncelo, Ricardo Santoro; piano, Flávio Augusto.
contramão da arte. Ainda, Ripper, acrescenta que:
p. 238 – 246). Segundo Paz (2012, Vol. II, p. 17), sua
Encomenda da Funarte para a XIX BMBC.
“Com a tenacidade e experiência que concreti-
obra aparece referenciada em diversos textos mu-
Como gestor das BMBC, sua atividade tam-
zaram tantos outros projetos, Edino Krieger fez
sicológicos, verbetes de enciclopédias e dicionários
bém ocorreu de modo ímpar. Alguns depoimen-
dessa edição da bienal uma grande celebração da
de música, sendo ainda alguns títulos de sua pro-
tos por nós colhidos evidenciam a grandeza dessa
música brasileira”. O depoente revela que o evento
dução alvo de elogiosas críticas nos mais diversos
doação em prol da música brasileira. Dentre eles,
contou com a presença da maioria dos composi-
periódicos do país. Sua obra, apontada como não
ressaltamos:
tores, transmissão ao vivo pela Rádio MEC e ex-
muito extensa em razão da excepcional dedicação
celente presença de público.
à causa pública, não impede o julgamento do perfil
João Guilherme Ripper revela que o con-
O compositor Rodrigo Cicchelli Velloso, tam-
do compositor, apontados por muitos como pos-
tato mais frequente com Edino levou-o
bém nos fala um pouco desse Edino criador e coor-
suidor de grande equilíbrio formal, além de fino
a apreciar ainda mais o compositor e a
denador de várias bienais:
acabamento que lhe é peculiar.
figura humana, dono de uma personali-
Várias de suas obras foram alvo de efusivas
dade afável, mas fortemente direcionada
Qualquer depoimento sobre Edino se-
críticas como: Brasiliana para viola e cordas, Di-
aos seus objetivos.
ria incompleto se não mencionasse a
vertimento para cordas, Estro armonico, Ludus
Edino transpôs obstáculos que ame-
profunda contribuição que ofereceu ao
symphonicus, Ritmata, Sonatina para piano, Suíte
açavam a realização das bienais. Em
idealizar e coordenar as Bienais de Mú-
para cordas, Variações elementares e Canticum
ambas as ocasiões, a burocracia fez
sica Brasileira Contemporânea e tantos
naturale. Seu catálogo de obras abarca composi-
com que recursos fossem liberados no
outros eventos e iniciativas ao longo de
ções escritas para cravo, flauta, percussão, piano,
último minuto; ainda, greves inopor-
sua carreira na Funarte. De fato, não
trombone, viola de arame, violão, violino, violonce-
tunas fizeram com que a coordenação
fosse seu esforço, a música brasileira
lo, banda, música de câmara, orquestra de câmara,
do evento ficasse reduzida a poucos
estaria muito empobrecida. Devemos a
orquestra sinfônica, coro e orquestra, coro misto,
voluntários e alguns concertos fossem
ele a manutenção exemplar e tenaz de
coro infantil, canto e piano, música incidental para
mesmo cancelados. Entretanto, em
um dos poucos eventos em que a pro-
teatro, cinema e bailados, sendo algumas delas pre-
momento algum não realizar a bienal
dução de diversos compositores brasi-
miadas. Vasco Mariz citado por Paz (2012, Vol. II, p.
foi uma opção. (Comunicação pessoal,
leiros pode ser ouvida. (Comunicação
18) revela que: “Ludus symphonicus e as Variações
11 de janeiro de 1998)
pessoal, em 20 de agosto de 2000)
elementares seriam os trabalhos mais meritórios
MÚSICA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
37
dos últimos anos e obtiveram êxito inclusive no ex-
Paz (2012, p. 22), falando sobre as diferentes
terior. Edino Krieger é um dos poucos compositores
facetas da obra de Edino Krieger, revela que elas
brasileiros com reais possibilidades de se projetar
estão em consonância com o meio musical criador
no campo internacional”. José Maria Neves referen-
de sua época, assim como a forma de sua obra está
ciado por Paz (Idem) afirma que “dentre os compo-
alicerçada, relacionando as vivências resultantes de
sitores da segunda geração ‘Música Viva’ destaca-
sua rica história musical familiar e comunitária, so-
-se especialmente o nome de Edino Krieger”. Luiz
mando a elas seus estudos, em especial, com Koell-
Paulo Horta no Jornal do Brasil de 19 de novembro
reutter – responsável por sua sólida base teórica –,
de 1986 afirma que:
e ainda com Copland, Peter Mennin e Ernst Krenek,
Lançamento do livro em
Brusque/SC
Foto: Nubia Abe
que colaboraram para o enriquecimento de sua forSua evolução artística, entretanto, nun-
mação ao trabalharem com ele as mais avançadas
ca ficou presa a injunções de época ou
técnicas de composição.
de estilo. Produziu obras de denso ar-
Ainda é Paz (2012, p. 23 - 24) quem nos fala:
tesanato, como o Ludus symphonicus
(1965) e o Estro armonico (1975); e a
Sua obra apresenta-se dividida em três
verdadeira ‘Sagração da Primavera’ bra-
períodos. O primeiro período – de 1945
sileira que é o Canticum naturale (1972).
a 1952 – foi predominantemente expe-
O produto de suas críticas enseja novos estudos e
A obra de Edino não é volumosa; mas é
rimentalista e universalista, devido ao
formas de repensar a música e tudo o que ela en-
um modelo de realização.
contato com as técnicas novas da música
volve (Paz, Vol. I, p. 75- 215). O produtor musical
serial. [...] No segundo período – de 1953
nos deixou um grande legado em forma de livros,
Do ponto de vista acadêmico, o compositor
a 1965 – prevalecem as formas tradicio-
partituras, gravações e eventos (Paz, Vol. II, p. 247-
também foi por diversas vezes cotejado, ensejan-
nais da sonata e da suíte – todavia sem
263). Quanto ao compositor, deixo que falem os
do a realização de importantes trabalhos em nível
rigor, com total liberdade tanto harmô-
inúmeros programas de concursos, festivais, con-
nacional e internacional. Dentre eles ressaltamos:
nica quanto formal –, dentro de uma
certos e recitais no Brasil e no exterior. Oxalá pos-
a obra 36 Compositores Brasileiros – obras para
linguagem em que conviviam os idiomas
samos ter outros Edinos nos caminhos da música e
piano da professora Saloméa Gandelman, que
tonais e modais. [...] Dessa terceira fase
da educação musical brasileira.
reservou um capítulo para a obra pianística do
em diante – de 1965 aos nossos dias –
compositor e, ainda, três dissertações de mestra-
o compositor não mais se preocupa em
do orientadas pela citada professora no Programa
privilegiar determinadas técnicas, formas
de Pós-Graduação em Música da UNIRIO, a saber:
ou processos de composição. Vanguarda
A questão da afinação no coro infantil discuti-
e tradição caminham harmoniosamente.
da a partir do Guia Prático de Villa-Lobos e 20
Percebe-se uma busca intencional do
Rondas Infantis de Edino Krieger, da professora
nacional, porém dentro de um contexto
Maria José Chevitarese; a Sonata para piano nº 1
mais universalista.
de Edino Krieger: aspectos estruturais e interpre-
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HERNANDEZ, Antonio. Um milagre de ativação do meio musical
do Rio. O Globo, 5 de maio de 1970, p. 6.
tativos, do professor José Wellington dos Santos,
Para Paz (2012, Vol. II, p. 35), “a obra de Edino
e Obras dodecafônicas para piano de composito-
Krieger é excelente representante das práticas mu-
HORTA, Luiz Paulo. Edino Krieger: 50 anos de Música. Jornal
do Brasil. Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1986, Cidade, p. 6.
res do Grupo Música Viva: H. J. Koellreutter, Cláu-
sicais da segunda metade do século XX e primeira
dio Santoro, Guerra-Peixe e Edino Krieger – uma
do século XXI, tanto no Brasil quanto no exterior”.
KRIEGER, Edino. Comunicação pessoal em 29 de agosto de
2012.
abordagem interpretativa do professor Roberval
Segundo a autora, o compositor tem assegurado,
Linhares Rosa. Destacamos, ainda, a tese de dou-
de forma inequívoca, um lugar de destaque no pa-
torado do pianista Alexandre Dossin na Univer-
norama musical de nossos dias.
sity of Texas, em Austin, sobre a obra pianística
Esse breve ensaio teve como objetivo mos-
de Edino Krieger sob a orientação do musicólogo
trar a grande contribuição de Edino Krieger para a
professor Gerard Behágue.
música e sua importância como músico brasileiro.
PAZ, Ermelinda A. Edino Krieger: crítico, produtor musical e
compositor. Rio de Janeiro: SESC, Departamento Nacional,
2012. Volume I
PAZ, Ermelinda A. Edino Krieger: crítico, produtor musical e
compositor. Rio de Janeiro: SESC, Departamento Nacional,
2012. Volume II
RIPPER, João Guilherme. Comunicação pessoal, 11 de janeiro
de 1998.
VELLOSO, Rodrigo Chicchelli. Comunicação pessoal em 20 de
agosto de 2000.
CINEMA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR Luís Rubira
38
Doutor em Filosofia pela USP,
professor do Departamento de
Filosofia da UFPel e autor dos ciclos
de Filosofia e Cinema, no Centro de
Integração do Mercosul
POR QUE
REALIZAR CICLOS DE
FILOSOFIA E CINEMA?
Reflexão
filosófica
e arte
rerum: ensaios sobre o cinema moderno). Surgi-
ambiente acadêmico e, pelo contrário, fosse capaz
ram, também, obras didáticas sobre o tema e, den-
de romper com os muros da academia, voltando-
tre elas, a de Julio Cabrera, argentino radicado no
-se para a comunidade em geral.
Brasil, 100 años de Filosofía. Una introducción a la
Já em sua quarta edição, os Ciclos de Filosofia
filosofía a través del análisis de películas (O Cine-
e Cinema tornaram-se um fenômeno de público,
ma pensa. Uma introdução à filosofia através dos
consolidando-se como um dos projetos mais bem-
No período em que Jean-Paul Sartre atuou como
filmes), bem como o livro de Ollivier Pourriol Ci-
-sucedidos da UFPel – esta universidade localizada
professor no Lycée du Havre, a partir de 1931, ele
néphilo. Les plus belles questions de la philosophie
no extremo sul do país que, nos últimos anos, por
discutia cinema em muitas de suas aulas de filo-
sur grand écran (Cinefilô: as mais belas questões
meio de uma expansão sem precedentes em sua
sofia. Afora o apreço dos alunos pela jovem arte
da filosofia no cinema).
história (ela conta hoje com 101 cursos de gra-
cinematográfica (a “sétima arte”, termo inventado
Por essas e outras razões é que, atualmente,
duação, 39 de mestrado e 14 de doutorado), vem
na França pelo escritor Riccioto Canudo, em 1919),
a análise de determinadas obras cinematográficas
permitindo que Pelotas sofra uma verdadeira revo-
Sartre sofreu duras críticas e a incompreensão por
torna-se cada vez mais corrente em aulas de fi-
lução cultural por meio de seus mais de 25 mil alu-
parte da direção do Liceu, dos pais dos alunos e
losofia. Proliferam também mostras e, mais timi-
nos e professores das mais diversas partes do país.
mesmo de outros professores de filosofia. No en-
damente, ciclos de cinema, sobretudo dentro dos
tanto, é na própria França, onde os irmãos Lumière
departamentos de filosofia. Nesse cenário, todavia,
inventaram o cinematógrafo (em 1895), que, qua-
faltava uma abordagem da vasta filmografia exis-
se 100 anos depois, o cinema vem a ser objeto de
tente a partir dos temas de grande envergadura da
densa reflexão filosófica por parte de Gilles Deleu-
reflexão filosófica: a política, a religião, a psicolo-
ze, através da obra L’image-mouvement (Cinema:
gia, a arte, a ciência, dentre outros. E foi visando
a imagem-movimento).
suprir esta lacuna que surgiu em 2010 o projeto de
A partir de então se propagaram livros abor-
ciclos anuais de cinema promovidos pelo Departa-
dando o cinema a partir da filosofia, tal como o
mento de Filosofia da Universidade Federal de Pe-
ensaio de Slavoj Žižek Lacrimæ rerum: Essais sur
lotas, realizados no Centro de Integração do Mer-
Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski et Lynch (Lacrimae
cosul. Projeto este, aliás, que não se restringisse ao
CINEMA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
39
Terra em Transe;
Che 2 – A Guerrilha;
A Batalha de Argel; Che; Z;
Memória do Saqueio;
Hotel Ruanda
Fotos: Divulgação
A Filosofia
e o Cinema
Político:
do muro de Berlim com o bloco “Do fim da Guerra
Os grandes conflitos da
humanidade em 28 obras
cinematográficas
(I Ciclo de Cinema, 2010)
cinema político. Além disso, a guerrilha, em Argel,
Fria aos nossos dias”.
O filme de abertura não poderia ser outro senão A Batalha de Argel. Isto porque Gilo Pontecorvo
é o grande estopim, o cineasta-mestre do chamado
terá um papel decisivo sobre aquilo que Ernesto
Guevara de La Serna, o “Che”, pouco depois chamará de “A guerra de guerrilhas”. Como o ciclo deveria
iniciar em junho e terminar em dezembro, apresen-
As interpretações do pensamento de Karl Marx
tando um filme a cada sexta-feira, de modo ininter-
dividiram o século XX em dois grandes blocos
rupto, tínhamos então 28 sessões – critério para a
políticos. Acontecimento sem par na história da
escolha de 28 obras cinematográficas.
humanidade, cujas consequências se fazem sentir
Iniciar por A Batalha de Argel, entretanto,
no alvorecer do século XXI, o tema central do ciclo
significava pensar a França colonialista e a liber-
“A Filosofia e o Cinema Político” não poderia ser
tação que a Argélia imporá ao jugo imperialista.
outro senão a Guerra Fria (1945-1989). Mas como
Voltar para a Revolução Francesa e apresentar
entender o conflito que dividiu o século XX sem
Danton e o Processo da Revolução supunha
compreender a Revolução Francesa, o liberalismo,
pensar a própria França como aquela que, um
a Revolução Russa de 1917, a primeira e a segun-
dia, buscou libertar-se da monarquia e da reli-
da guerras mundiais? Então se impôs um corte no
gião (Voltaire mesmo havia escrito: “O homem
programa: primeiro abordar o tema “O mundo du-
só será livre quando o último rei for enforcado
rante a Guerra Fria”, depois retornar no tempo e
com as tripas do último padre”). Então, como a
mostrar “Da Revolução Francesa ao fim da década
França estava em questão, caberia terminar o
de 1940” e, por fim, pensar a atualidade pós-queda
ciclo com um filme que tivesse a França como
CINEMA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
40
Batismo de Sangue;
Netto Perde sua Alma;
Os Amantes Constantes;
Estado de Sítio;
O Ovo da Serpente; Kedma;
Bom Dia, Noite; A Chinesa
Fotos: Divulgação
foco. Imediatamente, então, veio à lembrança
guerrilha, revolução, guerra, totalitarismo, fun-
uma obra de Mathieu Kasowitz. Um filme que
damentalismo, terrorismo, genocídio, intolerân-
aborda o conflito nos subúrbios de Paris, nos
cia. A intolerância, aliás, parece estar na base de
quais a antiga França libertária e colonialista
todos os conflitos políticos. Não se pode deixar
acabou por aprisionar, dentro de seus próprios
de dizer, então, que é um privilégio pensar tantos
muros, àqueles que um dia estiveram sob sua
temas em tão pouco tempo. E, sobretudo, abordar
colonização (como o mundo árabe, africano),
um determinado tema, em sua multiplicidade, em
ou seja, aqueles que hoje estão no interior dos
apenas duas horas. Que capacidade de síntese
subúrbios, “Banlieue”, onde vivem, também, os
possui, por exemplo, um cineasta como Andrzej
próprios franceses. O ciclo, portanto, deveria ter
Wajda, para montar uma obra-prima como Dan-
a França como pano de fundo. Neste sentido,
ton, colocando-nos por dentro de acontecimen-
nada melhor para compor o cartaz — a chama-
tos determinantes da Revolução Francesa (e de
da para o Ciclo do Cinema político —, do que a
seu rumo catastrófico para o regime do terror),
pintura de Delacroix: La liberté guidant le peu-
em pouco mais de duas horas, tendo Robespier-
ple (A liberdade guiando o povo), cujo quadro,
re como o fio condutor. Temos, então, através do
em grandes dimensões, encontra-se no museu
cinema, a possibilidade de pensar o processo re-
do Louvre. Compreender “O mundo durante a
volucionário, a democracia, a ditadura, o regime
Guerra Fria” e também a busca do homem pela
do terror, o totalitarismo, o fim da monarquia, a
liberdade. Eis os móveis do Ciclo “A Filosofia e o
descentralização entre religião e estado. Prova-
Cinema Político”.
velmente, nenhum professor de filosofia conse-
A partir disso, os subtemas começaram a
guiria fazer melhor em duas horas, até porque
ser delineados: ideologia, imperialismo, ditadura,
lhe falta justamente o recurso de colocar todos
diante das mesmas imagens, dos mesmos argumentos, da temporalidade que é própria do cinema e que captura o espectador pela audição e
pela visão (que os antigos gregos definiam como
o órgão central para o processo de conhecimento
no corpo humano).
Alinhar os filmes, em seguida, em ordem
cronológica, de modo a poder ver o que aconteceu no mundo durante a Guerra Fria. Tendo na
memória a lembrança de Herbert Marcuse e seu
CINEMA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
41
“Prefácio Político” para o livro Eros e Civilização,
Costa Gavras), algo que levou ao próprio golpe
que ainda está longe de alcançar a mesma qua-
era preciso perceber como o mundo inteiro esta-
de Estado no Chile (Chove sobre Santiago). Mas
lidade de um Danton e o Processo da Revolução)
va sendo incendiado por conflitos, pela “guerra
também levantar voo e ir compreender reali-
busca, mesmo assim, abordar o espinhoso tema
de guerrilhas”, cujos efeitos explodiriam, como
dades distantes como o Camboja (Os Gritos do
da Revolução Farroupilha. Do mesmo modo, era
ele mesmo previu em 1966, sobre a própria
Silêncio), o Líbano (Valsa com Bashir), O Afega-
preciso tomar contato com os conflitos que fo-
França — onde aconteceria a revolta dos jo-
nistão (A Caminho de Kandahar), a África do Sul
mentarão a formação do comunismo na Rússia
vens contra pais, professores e outros censores
(Hotel Ruanda); e ainda deter-se, novamente, na
(Os Possessos); dos 10 anos de instauração do
do “establishment”. Então iniciar pelos aconte-
América Latina para compreender a ditadura mi-
comunismo na União das Repúblicas Socialistas
cimentos ocorridos na Argélia (1954 e 1956);
litar na Argentina (A História Oficial), bem como
Soviéticas (e aí preferimos colocar no programa
depois ir para Cuba (1956 a 1959, com o filme
tudo o que a Argentina (e a América do Sul)
a obra Outubro, de Eiseinstein, em vez do clássico
Che); pensar os efeitos destes acontecimentos,
colheu após as ditaduras militares (Memória do
O Encouraçado Potemkin), bem como alguns dos
sobretudo no âmbito latino-americano, para o
Saqueio, de Pino Solanas).
elementos que estariam na base da formação da
assassinato de Kennedy, nos Estados Unidos (JFK
Mas não poderia faltar, em meio a sobrevoos
primeira e da segunda guerra mundiais (A Fita
– A pergunta que não quer calar); ver também
por países tão distantes, um olhar sobre nosso
Branca e O Ovo da Serpente). Por fim, era ne-
como todos estes eventos vão estourar na pró-
próprio processo revolucionário regional. Então,
cessário ver como os Estados Unidos colheriam,
pria Europa, com a morte de um político liberal
no bloco histórico, que tratava “Da Revolução
inevitavelmente, o resultado de todos os seus
na Grécia, em 1965 (Z, de Costa Gavras); retor-
Francesa ao fim da década de 1940”, e que incluía
anos de imperialismo com o atentado de 11 de
nar para América Latina, mas desta vez para
filmes que iam da União Soviética à formação do
setembro (Fahrenheit – 11 de setembro) e como
pensar a catástrofe na Bolívia, em 1967 (Che
Estado de Israel, foi imprescindível colocar um fil-
a própria França, outrora o gigante imperialista,
2 – A Guerrilha); analisar como estes e outros
me rio-grandense como Neto Perde sua Alma, o
continua a fazer também a dolorosa colheita dos
movimentos políticos conduziram os jovens ale-
qual de modo corajoso (em vistas da precariedade
processos políticos de especulação econômica e
mães a formarem o Grupo Baader-Meinhof na
orçamentária e mesmo de uma pesquisa histórica
de intolerância racial (O Ódio).
Alemanha, em 1967; e, antes de adentrar Maio
de 68, ver como a Terra estava em transe nestes
anos todos (pensar o próprio Brasil pelas mãos
de Glauber Rocha na sua obra-prima de 1967,
que influenciará cineastas do mundo inteiro).
E assim por diante: acompanhar as barricadas
francesas (Os Amantes Constantes) em 68; penetrar no regime militar brasileiro (Batismo de
Sangue); entender como a CIA armou as ditaduras na América do Sul (Estado de Sítio, de
CINEMA
PRIMEIRO
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2013
42
A Filosofia
e o Cinema
Religioso:
O percurso espiritual do homem em
40 obras cinematográficas
(II Ciclo de Cinema, 2011)
No final do século XIX, Nietzsche diagnosticou a
“morte de Deus”. O laudo estava assinado não por
um inimigo de Deus, mas, ao contrário, por um filósofo preocupado com o niilismo e os rumos da
civilização ocidental. Como bem observou Martin
Heidegger, Nietzsche não era um ateu comum. O
ateísmo, aliás, mostrara todo o seu desenvolvimento e força entre os séculos XVI e XIX, tendo o
seu germe no período da revolução industrial, na
Inglaterra, alastrando-se depois com a Revolução
Francesa e, por fim, encontrando desenvolvimento na reflexão filosófica dos pensadores alemães,
dentre eles Schopenhauer e Feuerbach. É, porém,
lhares de pessoas dedica(ra)m suas vidas? Qual
nomeada: “A convicção religiosa”, sendo que nela
permite ao físico, matemático e astrônomo francês
é a diferença entre o Deus cristão e o Deus dos
reluzem temas como “crença, dogma, heresia, fa-
Pierre Simon Laplace responder, quando interroga-
judeus ou dos muçulmanos? Ou seria um único
natismo”, e a última denominada “O percurso in-
do por Napoleão sobre qual o papel de Deus no seu
Deus e diferentes interpretações e poderes ecle-
terior”, momento em que aprofundamos temas
Sistema do Mundo (1796): “Senhor, eu não tenho
siásticos? E de outra parte: como os indivíduos
caros ao desenvolvimento espiritual tais como
necessidade desta hipótese”. O mesmo estágio que
experimentaram o contato com o divino? Temos
“a impermanência, o sofrimento, a aceitação e a
leva Marx, no século seguinte, a sentenciar que “a
um destino ou tudo é fruto do acaso? A religião
transcendência”.
religião é o ópio do povo”.
somente um estágio avançado de ateísmo que
é um fenômeno humano? Como compreender a
Os dois primeiros blocos de filmes buscam
Após séculos de ateísmo, Nietzsche estaria
mística de homens como São João da Cruz e os
compreender, fundamentalmente, a tradição cris-
certo em seu diagnóstico e preocupação? Tra-
diferentes caminhos espirituais? Pode a fé ser
tã. Não somente porque esta é a tradição que está
tar-se-ia do Deus transcendente judaico-cristão
compreendida sob a ótica da razão? As pergun-
na base do processo ocidental, mas também pelo
ou do Deus imanente de Espinosa? Ou de am-
tas multiplicam-se.
fato de que inúmeros cineastas trataram dela,
bos? A constatação também atinge as formas
Para nos ajudar a compreender algo desses e
sendo o número de obras cinematográficas, por-
de religiosidade do Oriente e do continente pré-
de outros temas (no Ciclo “A Filosofia e o Cinema
tanto, mais expressivo. O último bloco de filmes
-colombiano? Como pensar o monoteísmo em
Religioso”), convocamos consagrados diretores
dedicou-se a apresentar filmes que tratam de
relação, por exemplo, a Buda e suas manifesta-
da história do cinema, como Bergman, Scorsese,
outras tradições religiosas, tais como o budismo,
ções seculares ou mesmo à tradição védica de
Buñuel, Dreyer, Tarkovski, Rossellini, Bresson, den-
o hinduísmo, o judaísmo, as tradições religiosas
Brahma, Shiva, Vishnu? Estaria Max Weber com
tre outros. Em seguida, considerando as diferen-
no Brasil, e ainda realizar abordagens específicas,
razão ao dizer, em sua obra A Ética Protestante e
tes abordagens que cada cineasta fez da religião
por exemplo, a questão da relação entre religião
o Espírito do Capitalismo, que, quanto mais a so-
ou da religiosidade, separamos os filmes em três
e sexualidade. Neste sentido, foi selecionado um
ciedade foi envolvendo-se no mundo do traba-
linhas principais: a primeira intitulada “O conflito
filme para pensar a sexualidade no judaísmo (Ka-
lho e dos bens de consumo, mais ela se afastou
espiritual”, na qual abordamos temas como “pre-
dosh), outro na tradição cristã (O Anticristo) e
de Deus? E mais: que Deus é esse ao qual mi-
destinação, renúncia, expiação, ascese”, a segunda
também na tradição budista (Samsara).
CINEMA
PRIMEIRO
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Pasolini vem acentuar o aspecto revolucionário de
A Última Tentação de Cristo;
Persépolis; Coração Satânico;
O Sétimo Selo; De Olhos Bem
Fechados; Baraka
Jesus, fazendo referências à filosofia marxista. Mesmo sendo um ateu, o cineasta não somente realiza
Fotos: Divulgação
um filme sobre Cristo, mas o dedica ao papa João
XXIII, tendo a obra, aliás, sido escolhida pelo Vaticano como um dos melhores filmes religiosos de todos
os tempos. É importante, então, notar que, no caso
do filme de Scorsese, o cineasta parte de uma obra
literária para discutir o lado humano de Cristo, as
dificuldades que ele teria atravessado como homem
Embora todos os filmes tratem de religião,
a fim de realizar seu destino; já Pasolini opta por ser
nem todos abordam o tema do mesmo modo. To-
fiel ao Evangelho, colocando o foco não nas dúvidas
memos, como exemplo, duas obras constantes na
existenciais de Cristo, mas no caráter revolucionário
programação. No caso de A Última Tentação de Cris-
de sua mensagem.
to, Martin Scorsese não parte dos evangelhos. Sua
Esta diferença de abordagem de um mesmo
visão de Cristo está baseada num livro homônimo
tema acentua um dos aprendizados em filosofia:
de Nikos Kazantzakis. O escritor grego, ao realizar
o de saber que um mesmo texto ou um mesmo
seu polêmico livro, não o fez sem fundamento. Ele
acontecimento podem ter diferentes interpreta-
partiu de uma tese religiosa sobre a dupla natureza
ções. Levando isto em consideração, optamos por
de Cristo (a humana e a divina, aceita no Concílio
trazer três versões do mesmo filme, todas baseadas
da Calcedônia em 451). Escritor e cineasta, então,
no mesmo documento, mas que tiveram aborda-
exploram o conflito espiritual que Jesus teria su-
gens completamente diferentes. Tal é o caso das
portado, desde jovem, para vencer a tentação de
distintas obras cinematográficas em torno do
ser um homem comum, de modo a realizar seu
processo que resultou na condenação da mártir
destino messiânico. De outra parte, bem diferente
francesa Joana d’Arc. Em 1928, o cineasta Carl Th.
é a abordagem que o cineasta italiano Píer Paolo
Dreyer realizou o filme O Martírio de Joana d’Arc.
Pasolini realiza com sua obra O Evangelho Segundo
A melhor tradução para o título em português
São Mateus, pois se trata de uma reconstrução fiel
desta obra seria A Paixão de Joana d’Arc, pois o
do Evangelho de São Mateus, da anunciação à pai-
foco do diretor era abordar o tema da paixão (um
xão de Cristo. Obra concluída em 1964, momento
conceito caro à religião, que nada tem a ver com
em que o mundo estava mergulhado na Guerra Fria,
o modo como é compreendido cotidianamente)
que a jovem teria vivenciado, desde o instante em
que começa seu julgamento em 14 de fevereiro de
1431, até ser queimada na fogueira em 31 de maio.
Para realizar o filme, Dreyer baseou-se no documento original que registrou o processo contra a
donzela de Domrémy. Em sua abordagem, então,
ele concentra o foco para mostrar a força da fé e
o estado de graça de uma mulher que foi radicalmente incompreendida por teólogos ortodoxos e
que foi levada à fogueira pela sentença de juízes
que não estavam isentos de interesses políticos.
Trinta e quatro anos depois, ou seja, em 1962, outro cineasta, desta vez o francês Robert Bresson,
faz uma reconstituição rigorosa do interrogatório
CINEMA
PRIMEIRO
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e das acusações contra Joana d’Arc. Para mostrar
sellini. Em Francisco, Arauto de Deus, obra datada
grande sensibilidade, na qual Rossellini apresenta
que ela foi injustamente condenada por teólogos da
de 1950, Rossellini penetra na simplicidade mística
a vida interior daquele que, para ele, foi o único
Universidade de Paris aliados à Inglaterra, Bresson
de Francisco de Assis (1182-1226). Ele tem como
homem que aderiu inteiramente à mensagem de
estudou os autos do processo de condenação anu-
tema, então, não toda a vida do santo, mas o recor-
amor deixada por Cristo. Já em sua obra Santo
lados pelo papa em 1456, bem como a canonização
te compreendido entre o momento que ele regres-
Agostinho, o diretor italiano também se concentra
de Joana d’Arc em 1920. O foco de Bresson, reali-
sa de Roma e aquele em que, tempos depois, irá
no último período da vida de Agostinho, o qual,
zando um filme menos espiritual e místico, e mais
separar-se de seus discípulos. Não se trata de um
convertido ao cristianismo e vivendo na África do
agudo na defesa de convicções religiosas e com teor
filme baseado em obra biográfica, mas, sim, cen-
Norte, é consagrado bispo de Hipona, no ano de
político, foi o de mostrar a resistência da fé contra
trada nos episódios de um livro anônimo do século
395. Todavia, no caso de Agostinho, Rossellini está
a pressão das instituições. Trinta anos mais tarde,
XIV. O resultado é uma obra cinematográfica de
preocupado em abordar não a vida de um homem
em 1992, outro cineasta francês volta ao tema. Luc
místico que peregrinava pelo mundo, mas, sim, a
Besson, desta vez, buscou reconstituir a trajetória
do sacerdote que realizou a síntese entre o pensa-
da Virgem de Órleans, de sua infância até à morte.
mento antigo e o cristão, um dos principais nomes
Reconstruindo com primor as cenas de batalha, ele
da história da Igreja na consolidação do cristianis-
mostra a jovem que, com 17 anos, levou as tropas
mo ocidental.
francesas à vitória contra os ingleses no momento
A programação do ciclo, portanto, pode ser
em que a França atravessava o período mais difícil
vista não apenas de modo cronológico, nos dois
de sua história. Luc Besson, então, ao contrário dos
primeiros blocos, mas também na transversalidade.
outros dois cineastas, busca, também, concentrar-se
Ao final de cada bloco, ademais, buscamos aportar
no fervor religioso, nas dúvidas interiores e na salva-
determinados documentários. O primeiro, bastan-
ção pela fé da mártir francesa. Três obras, portanto,
te raro, é O Grande Silêncio; o segundo, também
bastante distintas: algo que educa o olhar do espec-
difícil de obter no Brasil, saldo em VHS, é Fé, de
tador a perceber diferentes abordagens a partir dos
Ricardo Dias; e, por último, um filme-documentá-
mesmos documentos.
rio, Baraka (cuja capa mostra um índio brasileiro),
Do mesmo modo, buscamos trazer para o
que representa uma abordagem do fenômeno
espectador as diferenças da experiência religiosa
religioso, pensado a partir do próprio significado
entre os santos da Igreja Católica, tal como ao
da passagem do tempo, da história humana, da
apresentar duas obras que partiram de um mesmo
existência do homem no cosmos. O espectador
cineasta, a saber, do diretor italiano Roberto Ros-
encontrará, também, obras cinematográficas baseadas em clássicos da literatura (Fausto, Diário de
um Padre, A Religiosa), da vida de pintores religiosos (Andrei Rublev), de filósofos (Giordano Bruno).
A programação inclui, do mesmo modo, obras de
diversos países, destacando-se, no Brasil, o clássico
Deus e o Diabo na Terra do Sol, obra que pode ser
também estudada à luz do tema da religiosidade
no sertão brasileiro. Quanto ao último bloco de filmes (“O percurso interior”), que não segue ordem
cronológica, já indicamos algo sobre as obras que
o compõem, mas deixamos ao espectador a sugestão de percorrer a senda e, nela, formular suas
próprias conclusões.
O processo de Joana D'arc;
A Via Láctea;
O Anti-Cristo; Laranja Mecânica
Fotos: Divulgação
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A Filosofia
e o Cinema
Psicológico:
A insanidade e o psiquismo humano,
em 40 obras cinematográficas
(III Ciclo de Cinema)
psicanálise destacam-se, sobretudo, Gilles Deleu-
internet, nas quais existem centenas de filmes de
ze, em especial com sua obra O Anti-Édipo, bem
baixa qualidade classificados como “psicológicos”.
como, mais recentemente, Michel Onfray. Intensi-
Aliás, é evidente que nem toda a obra cinemato-
ficam-se, também, movimentos antipsiquiátricos,
gráfica é, tão somente, de ordem psicológica (cada
em que se destaca, por exemplo, o filósofo Michel
cineasta intensifica, ao seu modo, abordagens de
Foucault. E prosseguem as batalhas contra o do-
outras esferas da dimensão humana, tais como a
mínio da psiquiatria, sendo Elisabeth Roudinesco
política, a religião, a arte, a ciência etc.) Por fim,
um dos principais nomes que saem, contempora-
não se trata, também, de um ciclo que está preocu-
neamente, em defesa da psicanálise.
pado em mostrar como diferentes cineastas foram
Em 1965, o filósofo francês Paul Ricouer definiu
Longa e permanente é, portanto, a relação
tratando da psicologia, de modo cronológico, ao
Marx, Nietzsche e Freud como mestres da suspeita.
entre a filosofia e a psicologia. Mas são, sobretudo,
longo da história do cinema. Nosso foco é outro:
O que os três pensadores teriam em comum seria
as novas ferramentas conceituais aportadas pela
partir da sentença do filósofo e psicanalista Corne-
uma crítica radical a concepção de “sujeito” cons-
psicologia que nos permitem, hoje, analisar a influ-
lius Castoriadis, “o homem é esse animal louco cuja
truída por Descartes. Para Marx, não existe um eu
ência da sociedade sobre o indivíduo e, ao revés, do
loucura inventou a razão”, e concentrarmo-nos na
autossuficiente e isolado do processo das relações
indivíduo sobre a sociedade. Neste sentido, o Ciclo
insanidade e no psiquismo humano.
histórico-sociais; para Nietzsche, ele é o resultado
“A Filosofia e o Cinema Psicológico” busca tomar
A insanidade de algumas pulsões que pro-
das pulsões e, mais profundamente, expressão da
contato com os distúrbios e transtornos causados
movem a guerra (Apocalypse Now, Nascido para
vontade de potência; e, para Freud, o resultado de
na psique pelos pais, pelo estado, pela cultura,
Matar, Ran, Katyn); que criam um aparelho de
processos inconscientes. A noção de inconsciente,
pelas guerras, enfim, por todas as instâncias da
estado que visa condicionar ou permite o condi-
é preciso dizer, não foi criada pelo investigador
vida em coletividade, bem como, inversamente,
cionamento de seus cidadãos (Laranja Mecânica,
do “complexo de Édipo”. Por certo, ele aprimorou
pensar nas patologias individuais que, embora
Assassinos por Natureza, 1984); que tratam a
o conceito, retirando-o do domínio da filosofia, e,
hiperdimensionadas pela indústria dos fármacos,
mente das pessoas como uma latrina, banalizan-
com base na análise dos sonhos, fundou um novo
possuem a sua realidade, causando sofrimento no
do a maior parte dos temas, entre eles a violência,
campo do saber no século XX: a psicanálise. Na
indivíduo ou trazendo sérios problemas e riscos
através dos meios de comunicação (Assassinos por
filosofia, por sua vez, a investigação de Schope-
para a vida em sociedade.
Natureza); que transformam o estado em uma bu-
nhauer seria decisiva para pensar a soberania da
Não se trata, portanto, de contar a história da
rocracia interminável, impessoal (O Castelo, Katyn,
vontade sobre o eu. Discípulo de Schopenhauer,
psicanálise. Levou-se em consideração a densidade
1984); que lutam autodestrutivamente pelo poder
Eduard von Hartmann, em sua obra Filosofia do
das obras cinematográficas, tendo em vista uma
(Ran); que levam a sociedade gregária ao desprezo,
Inconsciente (1869), foi um dos precursores do
oposição às longas listas de filmes existentes na
à incompreensão e à violência sobre determinados
tratamento do inconsciente como tendo uma dimensão autônoma em relação à consciência. Freud
foi, ademais, aluno do filósofo Franz Brentano, que
com seu conceito de intencionalidade, visava fundar a psicologia como ciência empírica.
Após a inauguração da psicanálise freudiana, Alfred Adler funda a psicologia individual,
enquanto Carl Gustav Jung, a psicologia analítica. Jung, além disso, considera o inconsciente
não somente como algo individual, mas como
repositório das experiências humanas: o chamado inconsciente coletivo. A partir de então,
a psicologia passa a ser uma das ciências mais
importantes do século XX. Surgem dissidências e
outras correntes, trazendo nomes como Melaine
Klein, Willhelm Reich, Lacan. Dentre os críticos da
CINEMA
PRIMEIRO
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2013
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indivíduos (Taxi Driver, Dogville); que vivem tão so-
é preciso perguntar se as pulsões são núcleos fi-
ficas tomem a nossa reflexão. Afinal, é preciso a
mente da ganância dos bens, espoliando culturas
xos no psiquismo ou se foram construídos pela
escuta interior para que um novo conteúdo psí-
ou países alheios, na forma do colonialismo e do
espécie e em circunstâncias histórico-sociais. De
quico possa garantir seu espaço no processo de
neocolonialismo ou, mais recentemente, da dilace-
todo o modo, é inegável que em algumas pessoas
expansão da consciência.
ração das próprias pátrias, deixando para as gera-
acentuam-se determinadas patologias. O proble-
ções do presente ou àquelas do futuro o “retorno
ma no seu tratamento consiste em que, para além
do recalcado” (Aguirre: a cólera dos deuses, Caché,
do cuidado com a saúde que todo o profissional
O Pântano, Edukators, Watchmen, O Dinheiro); que
em psicologia deve ter, outros interesses entram
exigem das pessoas uma adequação ao status quo,
em jogo: a formação e os limites do analista, a
às exigências de classe e posição social (O Adversá-
classe social, o processo cultural, a visão de mun-
rio); que, no seio familiar, de trabalho ou artístico,
do da sociedade e da época, os interesses da in-
destroem a individuação (Lavoura Arcaica, Gritos e
dústria e do mercado etc.
Sussurros, Cisne Negro) ou mesmo desrespeitam os
Estamos, portanto, diante de um dos temas
limites individuais (Cisne Negro). Isto para ficar em
mais instigantes, polêmicos, complexos e essen-
apenas alguns exemplos e possibilidades de abor-
ciais desenvolvidos no campo do conhecimento
dagem do tema e das obras.
A Filosofia
e o Cinema
existencial:
“O homem a sós consigo” em 30
obras cinematográficas
(IV Ciclo de Cinema, 2013)
e do autoconhecimento a partir do século XX.
O IV Ciclo de Cinema do Departamento de Fi-
Complexo é o psiquismo humano. Via de
A bibliografia sobre o tema é farta e altamente
losofia da UFPel vem com o tema “A Filosofia e
regra, um dos grandes debates em filosofia é a
recomendável. Mas deveríamos, também, voltar
o Cinema Existencial”. Ao longo de 2013, serão
relação entre destino/determinismo/necessidade
àquela antiga frase de Heráclito (“eu me busco a
exibidas 30 obras cinematográficas, divididas em
e liberdade. Se o homem fosse tão somente de-
mim mesmo”) ou a de Sócrates (“Conhece-te a
dois blocos temáticos e cronológicos: I - Do início
terminado por suas pulsões e condicionamentos,
ti mesmo”). Evitemos, assim, as nossas próprias
ao fim; II - Do fim ao início.
então estaria abolida a possibilidade de mudança,
projeções sobre os outros e sobre as coisas e dei-
O IV Ciclo de Cinema do Departamento de
a responsabilidade e a imputabilidade. Ademais,
xemos que as projeções das obras cinematográ-
Filosofia da UFPel parte da ideia do “O homem a
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Assassinos por Natureza;
Taxi Driver; 1984;
Watchmen; A Ilha do
Medo; Uma Simples
Formalidade; Dogville;
Um Corpo que Cai;
Cisne Negro; A Dupla Vida
de Veronique; Zellig
Fotos: Divulgação
sós consigo” (Nietzsche), bem como de pensadores da chamada corrente “existencialista” da filosofia, para pensar o valor e o sentido da existência, as vivências que imprimem singularidade e
autenticidade, a finitude humana, bem como os
caminhos para romper com a solidão existencial.
Ao longo de 2013, serão exibidas 30 obras cinematográficas, de cineastas como Michelangelo
Antonioni, Louis Malle, François Truffaut, Valério
Zurlini, Alain Resnais, Vittorio de Sicca, Andrei
Tarkowski, Luchino Visconti, Ingmar Bergman,
Michael Haneke, Béla Tarr, Francis Ford Coppola, Walter Salles, Jean-Jacques Beineix, Leos
Carax, Karim Aînouz, Krzystof Kieslowski, Carlos
Gerbase, Lars von Trier, Denys Arcand, Bernardo
Bertolucci, Wim Wenders, Jean-Jacques Brissau
e Claude Lelouch.
Fica registrado o convite ao leitor para que
visite nossa página no Facebook, de modo a
conferir a programação e acompanhar os próximos ciclos, tornando-se um amigo do CineFilo:
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ARTES VISUAIS
ARTES VISUAIS
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Saint Clair Cemin,
sem título (2010)
Jorge Menna Barreto,
Poemas no Chão
Fotos: Acervo MACRS
A maioridade
do MACRS
Dois mil e treze é um ano emblemático para o
arte contemporânea, estará inserido nos Cami-
Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do
nhos Culturais do Centro, assim como o Espaço
Sul (MACRS). É o ano da maturidade – a insti-
Cultural da Santa Casa, Centro Cultural do IPE-RS,
tuição está completando 21 anos –, da definição
o Cais do Porto e a Fundação Iberê Camargo. “Es-
sobre a sua sede, que será junto ao novo Centro
tamos indo para a porta de entrada da cidade”, diz
Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência
André Venzon, diretor do MACRS.
e Tecnologia (IFRS), no prédio da antiga loja Mes-
Apesar da importância de ampliar os espaços
bla, no centro histórico de Porto Alegre, e também
para arte contemporânea – depois de algumas difi-
o da aquisição de importantes obras para o acer-
culdades, de sua quase extinção e de danos ao acer-
vo por meio do Projeto MAC 21. Ainda em 2013,
vo, atualmente o MACRS está instalado na Casa de
o MACRS está dando início à itinerância da expo-
Cultura Mario Quintana –, o diretor lembra que mu-
sição A Medida do Gesto pelo interior do Estado,
seu é sede, mas também acervo. E nesta área é que
em uma parceria com o Sesc.
a instituição mais vem investindo. Nos últimos dois
Com inauguração prevista para o mês de
anos, o acervo triplicou. Grande parte é proveniente
março do próximo ano, o IFRS-MACRS, que tem
de doações de artistas que participaram de exposi-
como propósito unir a cultura, a educação e a
ções no museu e até mesmo de outras instituições
ARTES VISUAIS
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como o Santander Cultural e o Instituto Estadual de
zer parte do acervo do museu. E da geração 2000,
A exposição A Medida do Gesto, realizada en-
Artes Visuais (IEAVi), bem como de artistas e colecio-
os representantes são Denise Gadelha, Henrique
tre o final de 2011 e o começo de 2012 em Porto
nadores. “A arte contemporânea é uma coisa viva,
Oliveira, Jorge Menna Barreto, Rodrigo Braga e
Alegre e que agora está circulando pelo interior do
porém o presente hoje, amanhã é memória, então
Rommulo Conceição. As obras adquiridas por meio
Estado por meio da parceria com o Sesc, também
ao mesmo tempo em que estamos fazendo expo-
do projeto com o objetivo de estender o acervo da
é vista pelo diretor do museu como um projeto
sições e adquirindo obras também estamos catalo-
instituição ao século 21 serão expostas ao públi-
pedagógico, primeiro no nível universitário, já que
gando e conservando”, afirma André Venzon.
co em uma exposição no Santander Cultural, logo
estudantes do Laboratório de Museografia do Ins-
após a 9ª Bienal de Artes do Mercosul.
tituto de Artes (IA/UFRGS) acompanharam todos
A Associação de Amigos do Museu de Arte
os passos para ver como se faz uma exposição. Na
Contemporânea do Rio Grande do Sul (AAMACRS),
criada em 2003 com o objetivo de incentivar e cap-
Projeto Pedagógico
segunda etapa, de itinerância, o objetivo é reunir
tar recursos às atividades do MACRS, tem colabo-
O MACRS tem como proposta pesquisar, preser-
professores de artes das redes de ensino para dis-
rado fortemente para a realização de exposições,
var e divulgar um acervo de arte contemporânea
cutir em centros regionais o que é uma exposição
programas educativos, palestras, cursos, visitas
regional, nacional e internacional, e também de-
de arte, desde a curadoria, pesquisa de acervo,
guiadas com curadores, todas atividades que pro-
senvolver propostas educativas que visem a sua
convites e divulgação. “Queremos abordar todas as
porcionam a milhares de pessoas oportunidades
compreensão em suas várias modalidades. Neste
etapas. Este projeto, ao difundir e valorizar o acer-
de crescimento pessoal. A associação convida o
contexto, a parceria com o IFRS possibilita a rela-
vo do MACRS, revela como fazer uma exposição,
público a ser contemporâneo participando ativa-
ção entre os campos da educação, ciência e tec-
como fazer uma curadoria”, diz o diretor.
mente do desenvolvimento do museu, e contri-
nologia com a arte contemporânea. André Venzon
buindo assim para torná-lo nacionalmente uma
explica que no centro cultural do instituto existirá
referência artística e cultural, motivo de orgulho
uma biblioteca, um laboratório de conservação de
para o Rio Grande do Sul.
papéis, um cineclube, entre outros espaços que
Prova deste envolvimento da AAMACRS é o
ampliam a esfera de presença da arte contemporâ-
Projeto MAC 21. Contemplado com o Prêmio Mar-
nea na formação educativa do público. “Será muito
cantonio Vilaça da Funarte/MinC, possibilitou ao
mais relevante para a educação esta interação. O
Museu fazer a inédita aquisição de importantes
MACRS não será apenas uma galeria, continuare-
obras de 21 artistas contemporâneos. Da geração
mos a fazer parcerias com os espaços disponíveis,
de 1960 e 1970, o MACRS buscou obras de Paulo
da rua à sala de aula, através da possibilidade de
Bruscky, Nelson Leirner, Cildo Meireles, Carlos Pas-
cursos técnicos na área de gestão cultural, mu-
quetti, Regina Silveira e Carlos Vergara. Da geração
seologia, montagem de exposições e conservação
de 1980 e 1990, Alfredo Nicolaiewsky, Elaine Te-
e restauração de acervos no IFRS. Os estudantes
desco, Gil Vicente, Lucia Koch, Maria Lucia Cattani,
poderão estagiar no museu. Além disso, já estamos
Rochelle Costi, Saint Clair Cemin, Rosângela Ren-
elaborando o projeto de um curso técnico em arte-
nó, Teti Waldraff e Walmor Corrêa passaram a fa-
-educação para o público infantil.”
ARTES VISUAIS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
51
Rodrigo Braga, Leito
(2008)
Foto: Acervo MACRS
Foto Montagem: espaço da nova
Sede do IFRS-MACRS
(2013)
Foto: Walter Karwatzki
ARTES VISUAIS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR Andrea de Souza
52
Especialista em Educação Infantil
e coordenadora da Educação Infantil do Sesc/RS
Loide Pereira Trois
Doutora em Educação pela UFRGS na Linha de Pesquisa
Estudos da Infância e gerente de Educação e Ação Social do Sesc/RS
Larisa da Veiga Vieira Bandeira
analista da Gerência de Educação e Ação Social do Sesc/RS
e mestranda da Linha Filosofia da Diferença no PPGEDU – UFRGS
A arte contemporânea permite às crianças diver-
configuram imagens que permitem compartilhar a
sas experimentações e outras formas de interação
experiência e, ao conversar sobre o realizado, isso
com as imagens e os objetos. Os objetos corriquei-
favorece o deslizar do pensamento sobre o que re-
ros produzem conteúdos que são ressignificados
alizaram. Nesse sentido, é o ato de desenhar que
constantemente, e a relação com a obra, com os
provoca o pensamento conceitual, e não o contrá-
acervos e com o próprio artista agora é atravessa-
rio. (Barbosa e Richter, 2010, p. 29)
da por um olhar interativo. A contextualização da
Foi nessa perspectiva que a equipe de Educa-
produção artística e a leitura de imagem perpas-
ção Infantil da Escola de Ijuí/RS iniciou sua itine-
sam os currículos da educação infantil.
rância convidando as crianças a tecerem diversas
É importante criar experiências e atividades
em que a arte não seja pensada como passatem-
experiências usando como suporte ou tela o modelo dos chinelos de dedo.
po e transcrita por meio de atividades em que o
desenhar, o colar, o pintar são destituídos de sig-
O currículo aqui é compreendido a
nificados, de contextos de interpretação e de apro-
partir das intenções evidenciadas nas
priação. Ou ainda, usada para ilustrar temas com
ações e nas interações constituídas no
datas comemorativas ou de decoração das paredes
cotidiano. Toda a vida na instituição
das salas de aula.
transpira este modo de compreender o
Pensar a arte como elemento constituinte do
currículo. O currículo, portanto, não é
fazer pedagógico é pensar num currículo atraves-
compreendido neste texto como pres-
sado e interpelado pelo cotidiano, pelos fazeres e
crição, mas como ação produzida pelos
pelas infâncias que acontecem e habitam a escola.
educadores em parceria com as crian-
Ao desenharem, as crianças não reproduzem
ças. (Trois, 2012, p.49)
uma cópia do mundo, utilizando os princípios
conceituais do desenho, mas produzem traços e
Os Chinelos Itinerantes nascem da ideia de reaproveitamento de um material aparentemente des-
ITINERÂNCIAS:
As produções infantis
em constante movimento
A vinculação da vida é,
cartável que seria inutilizado. Assim, os chinelos que
não servem mais para calçar os pés abrigando-os
e protegendo-os, passam a abrigar novas possibilidades e novos fazeres criados pelos corpos infantis.
Constituiu-se uma série de ações articuladas
em que o primeiro passo foi uma campanha de
arrecadação de chinelos velhos entre os familiares,
os comerciários e a comunidade que utilizava os
programas e serviços da unidade do Sesc. Após a
arrecadação dos chinelos, iniciou-se o manuseio, a
pois, com um itinerário.
exploração das possibilidades que estes ofereciam
O que importa é o constante
para a interferência e a criação. Cunha (2012, p.44)
caminhar, que abre os
poros, alivia os pulmões,
lembra que, “assim como os artistas contemporâneos aproveitam e exploram qualquer material em
suas produções, as crianças também podem fazer
permite que o sangue flua,
o mesmo quando se expressam. Para isso, tanto os
dá energia e disposição para
usos dos materiais como dos suportes e instrumen-
continuar a caminhar.
(VIEIRA, 2009)
tos devem ser reinventados”.
Utilizando diversos materiais, como cola colorida, cola dimensional, lantejoulas, espelhos, boli-
ARTES VISUAIS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
53
Fotos: Paulo Hoeper
nhas de gude, tinta PVA, barbante, verniz e muitos
crianças receberam seus convidados e conversaram
diferentes passos coloridos, brilhantes, molhados
outros e inspirados em artistas já conhecidos e cujas
sobre suas produções. A integração da comunida-
de mar, empoeirados de estrada, passos que serão
obras circulam nos espaços da escola, as crianças
de em muitos momentos desse processo garantiu
dados em cada uma das regiões do Rio Grande do
começaram as transformações dos chinelos. A es-
a acolhida e o compartilhamento das experiências,
Sul com suas muitas crianças. Em cada uma das
colha do material que desejavam utilizar, explorar,
das descobertas e das produções infantis.
escolas do Sesc em que a exposição era instalada,
aplicar nas suas intervenções propiciou às crianças
O que se iniciou como possibilidade de reuti-
novos chinelos eram incorporados ao acervo, pro-
o manuseio de um suporte com contornos, textu-
lização de um material descartável apresentou-se
duzidos pelas crianças e também pelos seus pais que
ra, dimensões bem distintas das que são oferecidas
como possibilidade de transformação, criação de
utilizavam espaços das escolas para a produção de
pelo suporte da folha de papel. Previa-se nesse mo-
novos usos para a forma conhecida anteriormente
outros chinelos.
mento, que houvesse uma exploração até o esgota-
como chinelo. Agora, os chinelos eram telas para
A itinerância aqui foi tomada como um modo
mento das possibilidades que se ofereciam e que se
diferentes cores, tear para diferentes texturas, su-
de operacionalizar a circulação da produção das
desdobravam em outras tantas. O desenvolvimento
porte sinuoso e tridimensional para novos passos. E
crianças como território. Para as crianças, a noção
desses momentos foi gradativo, ou seja, os chinelos
os novos passos foram dados com a circulação dos
de território ampliou-se e deu visibilidade às trocas
não entraram na escola para dar “passos isolados”,
chinelos produzidos em Ijuí para o interior de todo o
que são possíveis entre os que o habitam. Expandir
tudo que deles decorreu foi interligado e sequen-
Estado. Deste modo, a coleção de chinelos foi sendo
o território, chegar através dessa itinerância em ou-
cial. E essa sequência foi também de “passos” que
acrescida de novas produções feitas pelas crianças
tras escolas é explorar a potência desse movimento,
avançavam e retornavam, “passos compassados”,
de diferentes cidades como Tramandaí, Santo Ân-
das linhas que foram produzidas nesse deslocamen-
rítmicos, com pulsos e repousos de um tempo de
gelo, Santa Rosa, Cachoeirinha, Porto Alegre, Ca-
to, nesse campo de criação. Pensar uma escola que
espera, de um tempo de observação, de um tempo
choeira do Sul, Santa Maria, Lajeado, Santa Cruz do
não apenas privilegia as produções infantis, mas
de repetição. A cada dia, as crianças queriam mudar
Sul, Novo Hamburgo, Rio Grande, Carazinho, Bagé e
também as coloca em movimento, em relação de
algo ou desenhar mais algum detalhe realizando
Alegrete. Cidades que constituem a rede de escolas
interação. Sendo assim, é pensar em espaços em
novas leituras de suas produções.
infantis do Sesc e que colocaram em movimento
que a sensibilidade está ancorando as relações de
As novas leituras, o retorno ao material uti-
o conceito de arte e infância. Uma itinerância em
convivência, de interação e troca.
lizado, a criação de novas possibilidades e a ob-
um mapa de infâncias, percorrido pelos muitos e
servação dos processos que eram acompanhados
atentamente, como o tempo de fixar da cola, o secar da tinta, a transformação de materiais colados,
a aplicação da tinta em diferentes texturas fez com
que fossem aproveitadas as relações entre causa e
efeito. Cunha (2012, p.51) aponta que a combinação entre as diversas modalidades das artes visuais, como colagem, pintura, desenho e montagem
tridimensional, provoca as crianças no vivenciar
das diferenças e das semelhanças de cada modalidade, descobrindo as possibilidades particulares de
cada uma delas.
Quando os chinelos ficaram prontos, foi acordada a montagem da exposição, ou seja, era necessário a partilha, o confronto de outros olhares que
complementassem as produções e legitimassem a
itinerância, o movimento. Esse momento da exposição foi pensado junto com as crianças que atuaram
como protagonistas em todo o processo. Foi organizado um vernissage, convidando familiares, amigos e a comunidade para apreciarem as obras. As
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CUNHA, S. (Org) As artes no universo infantil. Porto Alegre:
Editora Mediação, 2012.
BARBOSA, M. C. E RICHTER, S. Os bebês interrogam o currículo.
In: Revista da Educação da Universidade Federal de Santa
Maria, v.35, nº.1, janeiro/abril, Santa Maria, 2010.
TROIS, L. P. O privilégio de estar com as crianças: o currículo
das infâncias. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, Tese de Doutorado, 2012.
VIEIRA, Rafael A. K. Os modos contemporâneos de gestão do
espaço urbano e a invenção de si. Dissertação de Mestrado.
Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Universidade Estadual
Paulista, 2009.
ARTES VISUAIS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR Luciano Bedin da Costa
54
psicólogo, doutor em Educação
e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Larisa da Veiga Vieira Bandeira
analista da Gerência de Educação e Ação Social do Sesc/RS
e mestranda da Linha Filosofia da Diferença no PPGEDU – UFRGS
Cartografias
infantis:
a cidade pela criança
a fotografia pela infância
(…) a grama só existe
O que se passa quando uma criança pega uma
espaços de circulação pública. Neste sentido, a
entre os grandes espaços
máquina fotográfica e se põe a registrar a ci-
cidade se apresenta como espaço estriado, um
dade em que vive? Este texto se propõe a apre-
rugoso tecido que coloca as ações cotidianas à
sentar o projeto Cartografias infantis: a cidade
mercê desta organizada engenharia. Falamos da
preenche os vazios. Ela
pela criança / a fotografia pela infância, financia-
cidade como um corpo urbano funcional (ainda
brota entre – entre as
do pela Fundação Nacional das Artes (Funarte)[1].
que por vezes aparentemente caótico), no qual
O nome dado ao projeto é resultante da escolha
os lugares são demarcados para que a vida possa
pela prática de um olhar cartográfico, o qual se
se efetivar com uma suposta segurança. Circula-
propõe a apresentar a cidade de Porto Alegre a
-se, habita-se, trabalha-se, diverte-se, brinca-se.
a tulipa endoidece.
partir da multiplicidade de narrativas, olhares fo-
O corpo organizado torna estas atividades possí-
Mas a grama é
tográficos, escritas e desenhos das crianças que a
veis, ainda que trabalhe para o esmagamento do
habitam. Tomamos como dispositivos duas ofici-
campo de possíveis que se abre sempre que estas
não-cultivados. Ela
outras coisas. A flor
é bela, o repolho útil,
transbordamento, é uma
nas realizadas em janeiro e março de 2011, além
são colocadas em movimento. Para cada movi-
lição de moral.
da oficina germinal, realizada em junho de 2010
mento-criação um código é oferecido. Então,
Gilles Deleuze
no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Todas as foto-
circula-se pelos espaços destinados à circulação
grafias apresentadas no decorrer do texto fazem
(institucionalmente criados para tal): trata-se de
parte destas três experiências.
praças, calçadas, ciclovias e avenidas. Falamos
de sobrecodificações dimensionais e direcionais:
Partindo (de) um corpo organizado
os espaços se oferecem como espaços ópticos
“Somos segmentarizados por todos os lados e em
(garantindo-nos a suposta ideia de dimensão)
todas as direções”, escrevem Deleuze & Guattari
e direcionados (reforçando-nos a crença de que
(1996). Esta rede de segmentaridades se volta a
estamos sempre entrando-saindo de algo). O
todos os estratos que compõem a vida, introdu-
Projeto Cartografias Infantis (PCI) assume este
zida no seio da vivência privada e ampliada aos
corpo organizado como suporte, tomando a geo-
ARTES VISUAIS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
1 Os registros cartográficos das oficinas estão disponíveis no site do
projeto CARTOGRAFIAS INFANTIS, http://cartografiasinfantis.com.br
55
Crianças registram seu
olhar em espaços de
circulação pública
Fotos: Divulgação do projeto
grafia urbana de Porto Alegre como plano inicial.
riência cartográfica ganha força em sua coletivi-
Elencamos cinco lugares majoritariamente cons-
dade, em agenciamentos coletivos de enunciação
tituídos na história e cultura de nossa cidade:
que maquinam entradas e saídas, compondo um
Parque da Redenção, Usina do Gasômetro, Cais
mapa com escalas de propagação, um mapa de
do Porto, Jardim Botânico e Parque Moinhos de
lugares, percursos e deslocamentos multiplicados
Vento (Parcão). Falamos de cinco espaços extre-
em cada um de seus infantis (nem por isso menos
mamente conhecidos, achatados pelos sentidos
“políticos”) enunciados.
dados, sobrecodificados pelos discursos familiares e pedagógicos. Nossa cartografia partirá dos
Anotações num diário de bordo
clichês oferecidos pela própria cidade.
Quando começamos não imaginávamos tanta
preparação. No início, nos primeiros movimentos
A escala
do PCI, sabíamos muito pouco, talvez pistas do
Na ciência cartográfica, quando se projeta um
que seria um trabalho de escuta, de prospecção,
mapa é preciso informar quantas vezes o terreno
de atenção e de observação das crianças no exer-
real (no caso a cidade de Porto Alegre ou parte
cício de registrar alguns pontos da cidade. Agen-
dela) foi reduzido. A cartografia mantém uma
cia-se um grupo de crianças para algo que não se
relação estreita com as dimensões geográficas
sabe ao certo, que se faz de desejos e de algumas
propriamente ditas. No caso do PCI, a geografia
capturas. Antes, ainda, preparam-se as máquinas,
será assumida através dos perceptos (Deleuze &
as pessoas que acompanham, e, ainda assim, toda
Guattari, 1992) atiçados pelos registros fotográ-
a preparação necessária para iniciar demanda ou-
ficos e pelos enunciados infantis. A escala – em
tras preparações. Para as intensidades que procu-
vez de dimensional e direcional – torna-se afeti-
ram expressão, a preparação já é um início e um
va, embaralhando os códigos comuns e abrindo
ato disparatório. [A cartografia definitivamente
a cidade para linhas quiçá novidadeiras. A expe-
não nos parece um manual de instruções].
ARTES VISUAIS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
56
Oficina 1
bairro Cidade Baixa (Porto Alegre) aproximou o PCI
O grupo que participou da primeira oficina, realiza-
de um grupo de crianças não previsto no breve cro-
da no dia 17 de janeiro de 2011, era formado por 32
nograma traçado para o início do ano. As previsões
crianças que frequentavam uma colônia de férias. O
iniciais não determinavam um padrão nos grupos
local escolhido pelas crianças foi o Jardim Botânico,
que participariam, mas sabíamos que os desvios ne-
pela proximidade deste com o grupo e possibilidade
cessários implicariam outras formas de aproximação
de deslocar-se entre dois bairros (Petrópolis e Jardim
e que cada uma das novas oficinas demandariam
Botânico) sem a necessidade de transporte. O des-
outros fazeres e procedimentos práticos. As crianças
locamento realizado pelo grupo envolveu algumas
desse grupo residem no Quilombo do Areal da Baro-
ruas e avenidas. Estávamos (crianças e oficineiros)
nesa, localizado no bairro Cidade Baixa. No local, são
atentos ao novo que se entranha no já visto muitas
aproximadamente 80 famílias que vivem em uma
vezes. Uma espécie de estranhamento do óbvio, de
das últimas “avenidas” da região, a Luís Guaranha,
uma suspeita diante das linhas duras que se atra-
historicamente ocupada por famílias negras. A as-
vessam na vivência cotidiana da cidade. As crianças,
sociação de moradores mantém um projeto musical
portando máquinas digitais ou celulares com câme-
de ritmistas, composto por 70 crianças e jovens de
ra, percorreram o Jardim Botânico sem a mediação
5 a 16 anos. Após contatos telefônicos, fomos con-
da escola – e sem fazer uso do percurso pedagógico
vidados a participar do “aquecimento” e assistir ao
que o próprio local oferece. O grupo enveredou-se
desfile das crianças no carnaval de rua. Esse primei-
por trilhas que não as demarcadas no mapa dispo-
ro encontro resultou na combinação de uma oficina
nível aos visitantes.
que aconteceria no Parcão. Este aparente “desvio”
marcou o que seria a oficina 2 do projeto.
O procedimento cartográfico
As fotografias resultantes dessa visita foram pré-
A oficina 2
-selecionadas pelas próprias crianças, utilizando os
A oficina 2 foi realizada no dia 4 de março de
dispositivos de suas máquinas, celulares e computa-
2011. O grupo de 18 crianças, entre 4 e 12 anos,
dores. Cada uma escolheu cinco fotografias. A sele-
partiu do Quilombo com um transporte esco-
ção exigiu a atenção e a concentração das crianças,
lar, deslocando-se pelos seis quilômetros que
tendo em vista a grande quantidade e densidade do
separam a comunidade quilombola do Parcão.
material produzido.
O trajeto foi marcado por conversas animadas,
fotografias e filmagens. Esse grupo não possuía
Tomando carona numa linha de fuga
máquinas digitais ou celulares. A experiência de
Em fevereiro de 2011, um convite veiculado na mí-
uso coletivo foi organizada com as crianças, um
dia-web para um carnaval de rua que acontece no
procedimento metodológico foi se criando a par-
ARTES VISUAIS
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
57
tir da necessidade de compartilhamento. As foto-
zer obras, ser artistas. A minha mãe disse
grafias resultantes desta oficina foram reveladas
que eu sou um artista, que estou sempre
e apresentadas num segundo encontro, em que
fazendo arte. Os cegos não podem fazer
o grupo de crianças pôde olhar e escolher os re-
por que não enxergam e os débeis men-
gistros que gostariam de ver publicados no site.
tais também não, porque não podem
A primeira oficina foi
realizada no Jardim
Botânico, local escolhido
pelas próprias crianças
Fotos: Divulgação do projeto
pensar. Eu acho que os cegos podem
A oficina germinal
fazer, eles só não vão poder ver depois.
No dia 9 de julho de 2010, um grupo de 14
Eu vi um cara sem as mãos que pinta-
crianças foi visitar uma exposição de arte que
va com os pés. Os surdos podem fazer
acontecia no Hospital Psiquiátrico São Pedro
por que não precisa ouvir para fazer
(Porto Alegre). Foi solicitado que as crianças
arte. Têm umas obras tri loucas. Louco
levassem suas máquinas para registrar a visita.
pode fazer arte? Pode, tem um monte de
Foi feito também um pedido para que não se fa-
artista tri loucão. E o que é ser louco?
lasse para as crianças sobre o local. O espaço
É atravessar a rua correndo sem olhar
que seria visitado faz parte de um imaginário
para os lados. É chegar num guarda que
urbano conectado a loucura e práticas de en-
tá de cavalo e bater no guarda. Eu sou
clausuramento; as crianças, destituídas de tais
louco, a minha mãe sempre diz: – “tu tá
sobrecodificações, visitariam um espaço de ex-
louco, guri?” e eu sou artista também. As
posição localizado num conjunto arquitetônico
obras de arte ficam nos museus, nas es-
antigo e grande. Antes de sair fizemos uma roda
colas, nos teatros, nos museus, nos hos-
para conversar sobre algumas questões: O que
pitais. Pintura é arte, cinema e música
é arte? Quem faz arte? Quem é artista? O que é
não, fotografia é.
uma obra de arte? Onde ficam as obras de arte?
O material produzido no dia, aparentemen-
Polifonias infantis
te desconexo e caótico, resultante desta inva-
O que se segue é a tentativa de transcrição da
são naquele lugar também chamado de castelo,
polifônica conversa que tomou conta do grupo:
cadeia, prisão, e que ainda assim seria um bom
lugar para uma escola foi germinal; ele nos in-
A arte é o que está nas obras, no papel,
dicou o que necessariamente seria a cartografia:
nas telas dos museus. Mas pode estar
uma prática de intenso rastreamento, conexões
nas ruas, nas estátuas, e tem obras nas
desejantes, exploração, tentativas e invenções
ruas também. Pode estar no desenho
estratégicas.
dos tênis e das roupas. Todos podem fa-
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Mil Platôs: capitalismo e
esquizofrenia (vol.3). Rio de Janeiro: Ed.34, 1996.
DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. O que é a filosofia? Rio de
Janeiro: Ed.34, 1992.
DELEUZE, Gilles. PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta,
1998.
literatura
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR THIAGO CRUZ
58
Professor de Filosofia no ensino médio
E mestrando em Filosofia pela UFRGS
A DESCOBERTA
DO MUNDO
O ano de 2013 marca o centenário do nascimento
teratura. Não que não tivesse lido outros livros. O
bairro de Belcourt, teve na figura da mãe a princi-
de Albert Camus, um dos maiores escritores do
fato, porém, é que somente com as desventuras de
pal expressão da vida familiar (embora convivesse
século XX, agraciado com o prêmio Nobel de Li-
Meursault, o anti-herói desse romance, compre-
com o irmão, o tio e a avó na mesma casa): seu pai
teratura em 1957 por obras, como O Estrangeiro,
endi que a ficção literária pode tirar-nos o sono,
fora morto em combate durante a Primeira Grande
A Peste e O Mito de Sísifo.
inquietar-nos ao extremo, dificultar-nos a respi-
Guerra ainda em tempos de sua primeira infância.
ração. Minha adesão à obra foi tão visceral que,
Não tendo a vida intelectual no horizonte de suas
***
mesmo sendo a amizade uma relação recíproca,
expectativas – com efeito, nada além do convívio
Há alguns dias, fui surpreendido por um con-
sentira-me então impelido a situar tanto Camus
escolar –, o destino de Camus fora decisivamente
vite cujo conteúdo diz respeito muito intimamen-
quanto Meursault entre os meus melhores amigos.
marcado pela influência de seu professor primá-
te ao que ora escrevo: produzir um artigo sobre a
De parte esse ardor juvenil, mas em função
rio, Louis Germain, que antevira naquele jovem
vida e/ou a obra de Albert Camus, escritor franco-
daquilo que me tocara tão fortemente, dedicar al-
pied-noir algum potencial, orientando-o nos es-
-argelino que completaria cem anos em novembro
gumas horas a pensar e escrever sobre Camus e
tudos. Abria-se, pois, a porta para sua educação
próximo. Tal proposta não poderia vir em pior mo-
sua obra maior – entre nós também a mais conhe-
secundária, um caminho bem diferente daquele
mento. Compromissos acadêmicos, profissionais
cida – fez-se impositivo, algo de que não poderia
a que o curso comum dos eventos o teria levado
e pessoais formavam um quadro nada invejável,
me furtar. O móbile deste artigo, portanto, não é
– um trabalho na oficina de seu tio, um tanoeiro.
circunstâncias que se afigurariam mais do que su-
senão um sentimento de gratidão.
Indo adiante nos estudos, conhece então Jean
ficientes para me demover de um interesse inicial
Grenier, professor cujos ensinamentos e incenti-
nessa empreitada não fosse o enorme sentimento
***
de dívida que carrego com a figura e com a obra
Albert Camus nasceu em Argel, Argélia, em 7 de
Igualmente importante para sua biografia
camusiana: há aproximadamente 10 anos, sendo
novembro de 1913. Nessa época, o país não era
foi a crise de tuberculose que lhe acometeu pela
então um adolescente, a leitura de O Estrangeiro
mais do que uma colônia francesa no norte da
primeira vez aos dezessete anos de idade. Expos-
significou para mim a porta de entrada para a li-
África. De infância pobre, residindo no operário
to à fragilidade de sua existência, impedido de
vos levaram-no a graduar-se em Filosofia.
literatura
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
59
tomar sol ou desfrutar dos banhos de mar, algo
as qualidades apresentadas pelo protagonista de
Sartre, de um grupo de intelectuais, muitos dos
que lhe era tão caro, sua convalescença trouxe
O Estrangeiro. O horror à morte, o conhecimen-
quais escritores, interessados em questões relati-
consigo uma grata surpresa: o contato com a li-
to de um só tipo de felicidade, inseparavelmente
vas à igualdade, à promoção da justiça. Contudo,
teratura. Para recobrar a saúde, Camus ficara um
ligada à natureza; certo asco pelas convenções
à medida que o mundo tomava conhecimento do
tempo na casa de seu tio Acault, um açougueiro
sociais, uma exasperação ante a atitude sectária,
genocídio praticado pela URSS, consciente de que
cujo mérito maior (ao menos para a posteridade)
tudo isso dificulta a correta interpretação daquela
fazia parte de um regime tão criminoso quanto
fora possuir uma biblioteca em casa. O fascínio que
obra como uma mera ficção – parece haver ali um
aquele que pretendia derrubar, Camus sentira-se
certas leituras exercem sobre o jovem Camus leva-
toque autobiográfico. Com efeito, embora não fos-
impelido a afastar-se do Partido. Com a publicação
-o a esboçar alguns escritos. Não demora muito,
se muito pobre, Meursault nem de longe desfruta
de A Peste dera um passo nessa direção.
publicam-se seus primeiros ensaios (O Avesso e o
das comodidades da vida; e como o próprio Camus
Para muitos, o ponto alto do romance, a
Direito - 1937); em 1938, atua, então, como jorna-
fizera questão de marcar, longe de ter lhe impedido
conversa travada entre Rieux e Tarrou apresen-
lista no Alger Républicain. Inicia-se uma carreira
uma vida feliz, sua condição social predispusera-o
ta a clareza com a qual Camus passara a ver as
promissora como escritor.
à apreciação da natureza, ao gozo dos prazeres do
disputas políticas de sua época. No “momento da
É nesse momento que a história universal
mar e do sol, bens acessíveis a todos os argelinos.
amizade”, tal como é descrito pelo narrador, em
assume contornos os quais, em grande medida,
Assim enraizara-se nele um desapego sincero pe-
que pela primeira vez falam de um assunto pesso-
determinariam o futuro de Camus: é declarada a
las comodidades da vida como algo essencial para
al (até então a peste tomava-lhes todo o tempo),
guerra. Por questões políticas, o periódico do qual
uma verdadeira felicidade.
Tarrou confessa a Rieux que na tentativa de com-
Camus é colaborador é fechado. Desempregado e
Esse culto à natureza, indissociável do Ca-
bater assassinatos deliberados por parte do Estado
impossibilitado de alistar-se no exército a fim de
mus histórico, será marcante em toda a sua obra,
acabara participando de um movimento político
participar dos combates (em função de sua doen-
um traço que extrapola e muito a narrativa de
que repousava igualmente em execuções, as quais
ça), muda-se para Paris à procura de um local no
O Estrangeiro. Cada um a seu modo, tanto o jovem
aparentemente poderiam ser justificadas em nome
qual pudesse seguir trabalhando. Os frutos colhi-
ensaísta de Núpcias quanto o escritor mais madu-
de um futuro melhor, da busca por uma sociedade
dos por essa opção não tardam a aparecer. Em
ro de A Peste consideram o contato com o mundo
mais justa. Propondo então uma resistência limpa,
1940, confinado voluntariamente num pequeno
sensível indispensável à dignidade humana. Uma
sem armas, a toda forma de legitimação do assas-
hotel de Montmarte, estando em uma cidade
das maiores desgraças de A Peste, aliás, é anuncia-
sinato, Camus recebera críticas de todos os lados
que lhe proporcionara a solidão necessária para
da no começo do romance: Orán, a cidade vitimada
na publicação do livro: a esquerda comunista, a ex-
produzir, escreve seu primeiro e mais enigmático
pela epidemia, fora construída “de costas para o
trema direita e mesmo os niilistas acusavam-no de
romance: O Estrangeiro. Publicado pela primeira
mar”; aos olhos de Camus, uma negação da vida
uma ou de outra coisa. Não obstante, essa atitude
vez em 1942, essa obra dá uma enorme proje-
que, de maneira nada surpreendente, corrobora
de repudiar o assassínio e rechaçar as tentativas
ção a seu autor, recebendo críticas favoráveis de
a visão do homem como um ser essencialmente
de justificá-lo em nome seja do que for aparece-
intelectuais de grande monta, como o então con-
histórico, alguém que, portanto, pode matar ou
ra de forma definitiva em 1952, com a publicação
sagrado filósofo e romancista Jean-Paul Sartre.
morrer por uma ideia: a peste descrita no romance
de O Homem Revoltado, obra que rendeu a Camus
Como toda grande obra, embora tenham se pas-
não é senão uma alegoria da guerra que assola a
fortes críticas da revista Les Temps Modernes, da
sado muitos anos desde sua primeira aparição,
Europa nos anos de 1940.
qual Sartre era diretor, em função do que ambos
O Estrangeiro continua lido e relido em nossos
Tal visão do homem como meio para a obten-
dias, sua atualidade não se perde: os problemas
ção de uma felicidade futura, a qual se mostrara
que mais intimamente tocam a natureza humana
tão arraigada nas principais ideologias do entre-
Abatido por encontrar-se numa época de
não mudam com o passar do tempo.
trocaram acusações cujo resultado, sabe-se bem,
não foi senão o rompimento da amizade.
guerras, recebera especial atenção de Camus. É
excessos, na qual qualquer diálogo tornava-se im-
De maneira particularmente interessante, é
fato que ainda na década de 1930 Camus ligara-se
possível e cujo fio condutor não era senão a des-
tarefa difícil dissociar as figuras de Camus e de
ao Partido Comunista. Preocupado com a condição
medida; triste pelo episódio com Sartre, cuja con-
seu principal personagem, Meursault: em vários
das minorias na Argélia (cujo quadro era extrema-
tenda viera a público, o ânimo de Camus sofreu
aspectos, há uma notável coincidência entre as
mente delicado), esta lhe afigurava uma alternati-
outro revés quando fora escolhido para o Nobel
disposições, predileções e angústias do escritor e
va disponível. Mais tarde, fizera parte, ao lado de
de Literatura em 1957. Tal como expressou em seu
literatura
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
60
discurso de agradecimento, fora agraciado com
direito de as pessoas sentirem e pensarem como
momento independentemente do que fizesse.
um prêmio tão distinto por uma obra ainda em de-
quiserem e, contudo, censura-se a expressão des-
Desse modo, o toque das sirenes anunciando-lhe
senvolvimento, em grande medida inacabada. Sem
ses sentimentos e pensamentos. Tal perplexidade
o derradeiro momento significa, paradoxalmente,
julgar o mérito da escolha, parecia a Camus que
assume um aspecto cômico quando na prisão, in-
um pouco de paz.
sua obra se encerrava prematuramente.
terrogado pelo juiz de instrução sobre um possível
De maneira geral, parece-me que Meursault
De forma prematura, também, perdera sua
arrependimento em razão do crime que cometera
tenderia a suportar mais tranquilamente (embora
vida. Três anos mais tarde, em 4 de janeiro de 1960,
(objetivamente, Meursault assassinara um árabe
não absolutamente) sua condenação se durante o
viajando com amigos rumo a Paris, o carro em que
na praia sem qualquer motivação), ele responde
julgamento o principal argumento da promotoria
Camus se encontrava colidiu com uma árvore, viti-
que, em vez de arrependimento, sentia na verda-
não apontasse para sua insensibilidade. No enterro
mando-o imediatamente. Eis o que lhe reservara o
de tédio por ter assassinado um homem, e o tédio
da mãe, por exemplo, Meursault não chorara um
destino. Uma fatalidade.
advinha tanto do fato de estar preso, apartado
momento sequer e, no dia seguinte, fora ao cine-
das coisas que lhe faziam feliz, quanto do caráter
ma assistir a uma comédia com uma ex-colega de
maçante que assumiam todos os interrogatórios a
escritório. Segundo a leitura que o próprio Camus
que era submetido.
faz da obra, trata-se da história de um homem que
***
Se me indagassem sobre o que confere a O Estrangeiro um lugar entre as grandes obras da li-
Notadamente, ao mesmo tempo em que
é condenado à morte por não chorar no enterro
teratura, ficaria tentado a dizer que isso se deve à
carece de alguns sentimentos requeridos social-
da mãe. Não penso que Camus estivesse disposto
construção psicológica que Camus concede a seu
mente, Meursault revela muitas das qualidades
a sustentar, neste ou noutro lugar, que ninguém
protagonista, personagem cuja verossimilhan-
que elogiamos em nossos discursos: ele é edu-
pode ser responsabilizado pelo que faz, que Meur-
ça convence-nos de imediato, impedindo-nos
cado, solícito, assíduo no trabalho. Além do mais,
sault deveria ser visto como um exemplo de virtu-
de classificá-lo em tipos ou de emitirmos juízos
gosta de ir à praia, ao cinema; entedia-se aos do-
de. O ponto central de O Estrangeiro, no entanto,
acerca de seu caráter. Trata-se da apresentação
mingos, enoja-se por ter que secar as mãos em
é mostrar-nos o absurdo que há em basear uma
nua e crua de um indivíduo que carece de sen-
toalhas úmidas. Tais características, que acabam
condenação – e uma condenação à morte – no
timentos tidos na conta de virtudes sociais (ca-
por conquistar nossa simpatia, impedem que o
fato de uma pessoa ser mais ou menos sensível
rência com a qual facilmente nos identificamos) e
classifiquemos como um monstro moral mui-
aos eventos que a cercam, é pensar que temos o
que, não obstante (e aí está um traço distante de
to embora ele tenha, efetivamente, assassinado
dever de nos sentir deste ou daquele modo, uma
nós), jamais se permite mentir sobre as próprias
uma pessoa. Ademais, dada a maestria com a
exigência que assume contornos exasperantes a
emoções, mesmo quando sua vida está em jogo.
qual a narrativa é apresentada, somos conven-
quem recusa mentir para si mesmo. A obra propõe
É a postura coerente de Meursault – cujas ações
cidos do caráter fortuito daquele homicídio, que
que reconheçamos uma verdade sobre o que nós
invariavelmente expressam sentimentos e desejos
é um divisor de águas na vida do personagem:
somos, uma verdade sobre o que e como sentimos.
reais – que nos afronta desde o início do livro:
após interrogatórios preliminares, durante um
Meursault é um estrangeiro não por carecer dos
estivéssemos igualmente comprometidos com a
julgamento magistralmente descrito por Camus
sentimentos que se lhe exigem, mas por ser inca-
verdade, nossa identificação com seus atos seria
no qual salta aos olhos o aspecto surreal de uma
paz de dissimular, uma qualidade tão essencial à
quase completa.
das mais importantes instituições da sociedade –
vida em sociedade. Sua relação com o mundo é,
No entanto, observamos perplexos (e não se
o sistema judiciário – Meursault é informado de
por isso, de todo indiferente. Não há ninguém que
sabe até que ponto uma perplexidade genuína)
que, em nome do povo francês, sua cabeça será
o entenda e que possa oferecer-lhe certa sensa-
a reação de todo indiferente demonstrada por
cortada. Daí por diante, padecemos com as refle-
ção de pertencimento, o que já seria uma trégua.
Meursault ante a notícia da morte da mãe: “Hoje,
xões de um indivíduo cuja sina é viver com a cer-
Isso talvez explique a atualidade da obra: em maior
mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Re-
teza da própria morte, que busca refazer mental e
ou menor grau, sentimo-nos todos estrangeiros.
cebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida. Enterro
sistematicamente cada passo de seu julgamento
Ler Camus, portanto, talvez signifique encontrar
amanhã. Nossos pêsames’. Isso não diz nada. Talvez
a fim de vislumbrar uma mudança no destino.
um elo com este mundo – um mundo que nos é
tenha sido ontem”. Enunciadas publicamente, essas
Infortunadamente, todo esse empreendimento
singularmente estranho –, algo que sucedera ao
palavras fariam de seu autor um alvo de censuras
especulativo não passa de distração, algo de que
adolescente que há aproximadamente dez anos
as mais variadas não apenas à época em que o li-
Meursault se ocupa por não ser capaz de conce-
tomara casualmente em suas mãos as páginas de
vro fora escrito, mas também em nossos dias, nos
ber por muito tempo, em virtude do terror que
O Estrangeiro.
quais, por assim dizer, concede-se verbalmente o
isso lhe causava, que seria executado a qualquer
literatura
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
POR RUBEM PENZ
61
ESCRITOR
Rubem
Braga,
o cronista
que veio
da lágrima
E a lágrima, de homem e de mulher,
de alegria ou de tristeza,
é sempre reveladora indiscreta,
tradutora inconsciente dos segredos
d’alma.
RB
literatura
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
62
Ainda conhecido por Rubinho, último filho homem
O modo de melhor conhecer Rubem é co-
te, herda mais: o precioso círculo de amizades que
do casal Francisco Braga e Rachel Coelho Braga, o
meçar pela linhagem dos Braga. João, Joaquim,
Newton deixa para trás ao retornar para Cachoeiro
rapazola de quatorze anos incompletos chama a
Francisco e Maria da Graça Marques de Carva-
e, principalmente, o posto de jornalista. Afinal, não
atenção de seu professor com uma surpreenden-
lho deixaram Braga e vieram ao Brasil. Porém,
tinha pendores para o Direito e sequer o diploma
te redação. Assim, em dezembro de 1926, o jornal
mantiveram a cidade consigo, adotando-a como
de advogado o jovem Rubem busca: não desejava
O Itapemirim, órgão oficial do Grêmio Domingos
sobrenome. Ao ficar viúva com uma filha no colo
outra vida senão a de repórter – escrever sempre
Martins, do Colégio Pedro Palácios, publica A Lá-
e outro filho no ventre, Anna Joaquina, a irmã
foi seu sacerdócio.
grima, primeira das incontáveis crônicas que mu-
que havia permanecido em Portugal (e que vi-
Porém, se por um lado na maturidade é bas-
dariam o gênero no Brasil para sempre. Nascia no
ria a ser a avó de Rubem) não tem alternativa
tante protetor das manas mais novas Yedda e Anna
menino tímido e taciturno, cuja aparência e rotina
a não ser juntar-se à família. Então, nasce em
Graça, por outro Rubem é menos generoso com
pouco o distinguiam dos demais amigos de Ca-
Guaratinguetá o pequeno Francisco. Crescendo,
sua pequena família. Casa-se jovem com a ainda
choeiro do Itapemirim, os traços daquele que seria
ele encontra um bom motivo para visitar sua tia
mais jovem Zora Seljan, pouco mais que uma ado-
um dos mais influentes escritores de língua portu-
Maria da Graça em Cachoeiro do Itapemirim:
lescente e já comunista muito engajada. Ambos
guesa do século 20, além de atuar como jornalista,
uma moça chamada Rachel, a Neném do Frade,
têm um único filho, Roberto, mas não conseguem
tradutor, editor e pensador de seu tempo.
nome da fazenda de sua família. Casam-se. Arti-
construir aquilo que se possa definir como lar tra-
culado, culto, informado e com dotes claros para
dicional. Ambos sofrem muito com a inconstância
Laços de família
os meandros da diplomacia política, Francisco
de trabalho de Rubem e com a severa perseguição
(...) parece que toda minha vida fora
Braga é indicado para ser o primeiro prefeito da
política do governo Vargas, o que impõe mudanças
daqui foi apenas uma excursão confusa
cidade. Ao receber um cartório, estabelece-se no
constantes para diversas cidades, sempre em bus-
e longa;
casarão onde nasceriam seus filhos mais novos.
ca de trabalho e paz, quando não passagens pela
moro aqui. Na verdade, onde posso
Entre eles, Rubem Braga.
prisão e por outros países. Crianças, aliás, nunca
morar senão em minha casa?
RB
Tal como os laços de sangue determinaram o
fizeram parte da vida do cronista: não tinha prazer
destino da avó, Rubem Braga costura os caminhos
nem paciência com elas e impunha muito medo
de sua vida com grande envolvimento entre os ir-
aos pequenos.
mãos – guiado pelos mais velhos, paternal com as
meninas caçulas. Ainda no tempo em que precep-
Rubem e seus amores
toras iniciavam a educação formal, é a mana Car-
Este homem esqueceu, grande mar,
mozina quem ajuda em sua alfabetização; é no jor-
muita coisa que aprendeu contigo.
nal aberto pelos manos Armando e Jerônimo que
RB
inicia sua vida de cronista regular (estudando em
Niterói, publicaria no Correio do Sul suas Cartas do
O maior cronista de seu tempo foi um homem
Rio); é seguindo os passos de Newton Braga que
de múltiplos amores, o que poderia levar à conclu-
conclui o curso de Direito em Belo Horizonte. Des-
são de que era um homem infiel. Engano: Rubem
Braga foi alguém fidelíssimo, dedicado e ciumento
com suas paixões. A maior delas, e a mais constante durante a vida, foi o mar: desde criança na
casa de verão na praia da família em Marataízes,
até fixar residência em Copacabana. Assim descreve o mar da infância que conheceu em companhia
dos maratimbas (pescadores da região capixaba):
“Mar! Grande e triste mar onde o rio despejava
suas águas barrentas, mar branco de espumas,
azul, verde ou cor de aço, mar incessante, infinito e
eterno, mar de todos os adjetivos e todas as areias,
ventos e solidões!” Nutriu o sonho de ter um barco
literatura
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
63
e nele passar longos períodos, uma vida inteira de
movimentos repressivos, não importando o matiz,
socorrido e socorreu amigos em apuros: fez parte
suave vadiagem, o que nunca aconteceu.
mantendo-se firme em seus propósitos à custa de
da verdadeira teia de auxílio que buscava garantir
A natureza, especialmente as plantas, pás-
muito sacrifício, inclusive prisões. Segundo Otto
integridade física de quem exercia a integridade de
saros e estrelas também fizeram parte de suas
Lara Resende, foi “o homem mais livre do Brasil”.
pensamento.
preferências. Desde o pé de fruta-pão defronte ao
Dedicou toda sua juventude combatendo de modo
sobrado na meninice, passando pela observação
incessante o governo Vargas: “ser adversário do Sr.
Escrever para sobreviver
atenta de pássaros, ventos e astros, até o ponto de
Getúlio Vargas é uma boa escola de derrotas”, es-
A crônica é sempre pessoal.
receber do amigo Augusto Ruschi o nome de uma
creveu quando da morte do presidente.
RB
orquídea (Physosiphon Bragae Rucshi), Braga foi
Sua proximidade com os comunistas – a pon-
um defensor feroz do meio ambiente. Quem sabe
to de se casar com uma militante – foi insuficiente
Genial. Com que outra palavra se pode definir
venha daí sua extrema sensibilidade ao observar
para deter seu senso crítico: sempre achou mui-
quem começa a escrever aos treze, torna-se cro-
as artes plásticas e, claro, o comportamento dos
to estranhas as alianças de conveniência e nun-
nista regular aos quinze e correspondente de guer-
homens – segundo Nélida Piñon “Rubem não es-
ca aceitou que cerceassem a liberdade do pensar.
ra aos dezenove anos de idade? Por isso, Rubem
crevia sobre aspectos visíveis da cidade e sim sobre
Talvez por isso tenha sido considerado subversivo
Braga jamais abandonou o ofício – mesmo nos
o que há de delicado e ambíguo”.
pela direita e inconfiável pela esquerda. Sua breve
momentos em que esteve embaixador. Ou quando
Com relação às mulheres, Rubem Braga foi
passagem pela política partidária se dá no nas-
precisou ser um repórter anônimo, especialmente
bastante além da observação: esteve no papel de
cedouro do PSB (Partido Socialista Brasileiro), na
quando apelou a pseudônimos e, com grande bri-
profundo apreciador – dedicado e incansável con-
qualidade de fundador e organizador do partido.
lho, até os últimos dias de vida. Não considerava
quistador. Andava sempre envolvido com uma ou
Mas pouco permanece. A atividade política mais
um trabalho fácil, mas era o que gostava e sabia
mais mulheres, todas belas e instigantes. O caso
qualificada ocorre nos momentos em que repre-
fazer como ninguém. Ainda hoje, ao apanhar uma
mais tórrido talvez tenha sido com Tônia Car-
senta o país no exterior: durante o governo Café
crônica escrita na década de 1930, 40 ou 50, fica-
reiro que, para a irmã Yedda, fora o pivô de seu
Filho, ocupa importante cargo na Embaixada Bra-
mos encantados com a clareza, fluidez e carga de
desquite com Zora. Possessivo com suas paixões,
sileira no Chile; mais tarde, assume como Embaixa-
subtexto contidas nas palavras. Um trânsito perfei-
Rubem nutria ciúmes tardios com antigas namo-
dor em Rabat, Marrocos.
radas e competia arduamente com outros grandes
Na maturidade, Rubem Braga se torna uma
conquistadores: viveu numa época com muitos
voz tão clara e respeitada que pouco sofre durante
amigos galanteadores. Motivo para sua eterna an-
os anos de Regime Militar pós 1964. Jamais deixa
tipatia com Tom Jobim que, além de ter aliciado Vi-
de ser contundente no que escreve (e passa por
nícius de Moraes para a música, era imbatível pela
quase todos os principais veículos da imprensa
bela figura e manejo do violão. Mas, na verdade,
escrita), mas o fato de ter sido companheiro de
poucas resistiram aos encantos do velho Braga.
muitos oficiais durante a campanha da FEB durante a Segunda Grande Guerra o deixa menos
Um homem político
Que Deus e Vargas estejam convosco.
A mim ambos desamparam;
mas o momento não é de queixas, e sim
de luta.
RB
Considerando a imprensa como um quarto
poder em nossa sociedade, teremos em Rubem
Braga, com sua coerência e integridade, um raro
exemplo aos homens públicos. Solidamente identificado com o que há de mais justo e puro no
ideário da esquerda, soube ser crítico a todos os
vulnerável. Durante toda sua vida, o cronista foi
literatura
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
64
to entre o coloquial e o sofisticado, entre o super-
contrato com a Rede Globo. A adaptação ao ve-
ainda mais somando ao grupo Sérgio Porto e
ficial e o profundo, entre o original e o consenso.
ículo que se tornava hegemônico no jornalismo
Nelson Rodrigues (fora os escritores já citados).
Uma luz rara sobre os acontecimentos cotidianos.
não foi muito fácil, o que fez dele alguém pouco
Uma geração de ouro no gênero. Rusgas, quando
Até mesmo quando foi correspondente de guer-
presente nas redações televisivas.
houve, talvez tenham sido motivadas por alguma
ra – único repórter que cobriu a rendição alemã
Reconhecendo-se “apenas um cronista tri-
no Monte Castelo –, tratou de oferecer uma visão
vial lírico variado”, Rubem Braga se transformou
surpreendente do que vira, presente no livro Com
em algo muito maior do que o quieto homem
Interessante lembrar que Rubem Braga era
a FEB na Itália, crônicas.
que, segundo o próprio, se satisfaria em ser um
alguém de raros sorrisos e poucas palavras, um
maratimba: simples pescador. Tornara-se um dos
carrancudo (mais tarde um ranzinza) cercado de
intelectuais mais influentes de seu tempo.
pessoas. Alguém cuja personalidade se compu-
Braga foi cronista e repórter em todas as cidades em que morou – e não foram poucas até
se estabelecer definitivamente no Rio de Janei-
mulher, uma vez que todos, além de Rubem, eram
homens sedutores e orgulhosos disso.
nha de paradoxos: num só tempo desorganizado
ro, em Copacabana. Esteve em redações de Belo
Uma vida entre amigos
e produtivo, ensimesmado e popular, urbano e do
Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Recife etc.,
Éramos três velhos amigos e cada um
mato, conservador e revolucionário, melancólico
algumas cidades em mais de uma oportunida-
estava tão à vontade junto dos outros
e engraçado, canalha e terno, desapegado e ciu-
de. Enquanto escrevia para os veículos de Assis
que não tínhamos o sentimento de estar
mento... Fiel a si, antes de tudo. E transformava
Chateaubriand, suas crônicas eram reproduzidas
juntos, apenas estávamos ali.
este compromisso em generosidade.
em todas as cidades onde houvesse jornais dos
RB
Diários Associados, algo que o fez reconhecido
Uma personalidade tão complexa, aliada a
uma mente inquieta e a um corajoso senso de
em todo o território nacional. Editou revistas
Rubem Braga descobriu muito cedo o sig-
liberdade forjaram o cronista mais respeitado,
culturais e políticas de maior e menor expressão,
nificado das amizades e da boemia: Sérgio Buar-
seguido e amado do Brasil recente. À crônica,
além de contribuir para periódicos dessa nature-
que de Holanda, que vivera um curto período em
por ser um gênero ambíguo desde a sua gênese,
za. Esteve na revista Manchete desde o primeiro
Cachoeiro do Itapemirim, lá formou entre os Ca-
é natural ter em Rubem Braga seu nome maior:
número, também na Revista Senhor, e escreveu a
choeirenses o Clube do Alcatrão (nome dado por
ele nasceu para ser cronista. E, tramando para
coluna Trivial Variado no Caderno B do Jornal do
causa do conhaque São João da Barra). O incrível
sua vida um final digno de uma costura perfeita,
Brasil, para citar publicações bem representativas.
é que entre eles já estava o filho do prefeito, rapa-
ao adoecer, ele contrata sua cremação e pede
Nem suas estadas no exterior, por Paris, Santiago,
zola ainda chamado de Rubinho. Por toda a vida,
que as cinzas sejam atiradas no rio da infância,
Rabat, o afastaram de seu público leitor. Leitores
o cronista estaria cercado de amigos e ocupando
sem fotos ou discursos. É o velho Rubinho de
que, por sua vez, transformaram seus livros de
mesas de bar, dividindo apartamentos e redações,
volta ao Itapemirim. E a lágrima ali despejada
crônicas em grandes sucessos editorias.
frequentando jantares. Seria uma boa tarefa de
foi, segundo suas próprias e inaugurais palavras,
Sempre atrás do dinheiro que tanto lhe
gincana descobrir, entre os escritores, jornalistas,
“talismã encantado”.
faltava, Rubem Braga atuou também como tra-
artistas, músicos, artistas plásticos e personalida-
dutor. Mais tarde, em sociedade com Fernando
des representativas no século 20, quais não eram
Sabino, abriu a Editora do Autor, empresa que
ou gostariam de ter sido amigos do ranzinza Bra-
nasceu publicando Sartre com enorme sucesso
ga. De Clarice Lispector a Rachel de Queiroz, de
e, de êxito em êxito, marca a história em sua
Álvaro Moreyra a Chico Anysio, de Carlos Scliar
época. Depois de vendê-la à Editora José Olym-
a Di Cavalcanti, de Dorival Caymmi a Vinícius de
pio, casa que abriga muitos dos seus títulos,
Moraes, de Drummond a Bandeira, de Carlos Re-
como O conde e o passarinho, O homem rouco
verbel a João Cabral, de Jorge Amado a Ferreira
e A borboleta amarela, a dupla Braga e Sabino
Gullar, de Carlos Prestes a Monteiro Lobato, todos
lançaria a Editora Sabiá. Esta, reforçando o bom
e muitos mais foram próximos de Rubem Braga.
olho de ambos para autores em ascensão, trouxe
Claro que alguns foram mais achegados.
para o Brasil, por exemplo, Cem anos de solidão,
Entre eles, os jornalistas Otto Lara Resende, Pau-
de Gabriel García Marques. Ao final, com mais
lo Mendes Campos, Moacir Werneck de Castro,
de cinquenta anos de crônica na bagagem, ain-
Antônio Maria e o sócio Fernando Sabino. Aliás,
da aceitou o desafio de escrever para a TV, em
formaram uma estirpe de cronistas inigualável,
LEITURA
PRIMEIRO
SEMESTRE
2013
65
Criança Pensa
Jogo de Varetas
Lya Luft e Eduardo Luft
Manoel Ricardo de Lima
The Pedro
Almodóvar Archives
The nature of
photography
Editora Galerinha Record
Editora 7 letras
Paul Duncan e Bárbara Peiró
Stephen Shore
Taschen
Editora Phaidon
Criança pensa é um livro que tenho
Quem nunca brincou de jogo de
Lançado paralelamente ao seu
No livro The Nature of
um carinho especial, pois em 2010 a
varetas? Eram coloridas, feitas
último filme, A Pele que Habito, The
Photography, o artista americano
Cia. Teatro Novo adaptou esse texto
de madeira e não raramente
Pedro Almodóvar Archives revisita
Stephen Shore propõe uma
de Lya Luft e seu Filho Eduardo
espetavam a parte inferior da
a colorida e subversiva carreira
reflexão através de imagens
Luft para o teatro, sob direção de
unha. Hoje, as varetas são feitas
do espanhol Pedro Almodóvar em
e textos sobre a natureza da
Ronald Radde, em que interpretei
de plástico e têm as pontas
uma viagem aos bastidores de
fotografia nos dias atuais. De
três personagens bem diferentes,
arredondadas. Jogo de Varetas,
seus 18 filmes (longas). Em um
que modo olhamos as imagens
Tio Bruno, Gigante Dandão e o
de Manoel Ricardo de Lima,
remix de referências de Douglas
hoje e quais as características
Filósofo da Floresta, o que me
é um convite à leitura afiada.
Sirk até John Waters, o universo
pertinentes às mesmas, pergunta
rendeu um Tibicuera de melhor ator
Como as antigas varetas, os contos
"almodovariano" experimenta,
o artista. Shore descreve aspectos
coadjuvante. Essa história mostra
que compõem o livro insinuam
provoca, perpassando por temas
formais de diversas fotografias
aos pequenos que Pensar é ótimo!
relações, estas sempre abertas
difíceis como gênero – assunto
buscando encontrar instrumentos
Pensar com os outros, com os
e oferecidas ao pontiagudo e
recorrente em seus filmes – de
e estratégias utilizadas por
amigos, com os pais, professores e,
perigoso jogo de leitura. Suspensos,
uma forma pouco usual. Com
fotógrafos para a construção e
principalmente, consigo mesmo. É
os personagens erram por um
personagens fortes e complexos,
interpretação de imagens.
maravilhoso crescer questionando
cotidiano que não oferece saídas
prostitutas, travestis, freiras, o
Para tal, o artista agrupa
o mundo, fazendo as perguntas
prontas e arredondadas, como o
olhar de Almodóvar tornou-se uma
fotografias de diversos autores
essenciais, mesmo que nem sempre
próprio cotidiano. O leitor, ao final,
referência cinematográfica, e o
em quatro grupos distintos,
encontremos a resposta. Nesta
dirá que os contos versam sobre
espanhol abre seus arquivos com
produzindo relações de tensão e
busca, filósofos e crianças não
amor (ou abandono).
fotos inéditas acompanhadas de
aproximação entre as imagens.
poderiam ser mais próximos. Com
Eis a delícia do livro. Ninguém sai
textos escritos por reconhecidos
Infelizmente, o livro ainda não
sensibilidade e bom humor, Lya
deste 'Jogo de Varetas' ileso, sem
autores espanhóis e pelo
foi lançado no Brasil, mas está
Luft e Eduardo Luft, que é filósofo,
entregar-se um pouco (ou muito).
próprio diretor.
disponível na Amazon.
abrem um espaço para a filosofia e
Destaque para a bela capa da artista
mostram que criança pensa, sim!
portuguesa Rachel Caiano.
Leonardo Barison
Luciano Bedin da Costa
Camila Franco Monteiro
Romy Pocztaruk
Ator e produtor cultural
psicólogo, doutor em Educação
Jornalista e mestre em Mídia,
Identidade e Tecnologia
Artista visual
DESCENTRALIZAÇÃO
DIVERSIDADE E
ABRANGÊNCIA