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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DA AMAZÔNIA
Revista de Ciências Agrárias
Journal of Agrarian Sciences
Esta publicação foi financiada pelo Department for International Development – DFID,
no âmbito do Projeto de Fortalecimento Institucional da UFRA – ProUFRA
ISSN - 1517-591X
Rev. ciênc. agrár.
Belém
n. 40
p. 9-186
jul./dez.
2003
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Ministro: Cristovam Buarque
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DA AMAZÔNIA
Reitor pro tempore: Manoel Malheiros Tourinho
Vice-Reitor pro tempore: Waldenei Travassos de Queiroz
COMISSÃO EDITORIAL
Edilson Rodrigues Matos
George Rodrigues da Silva
Haroldo Francisco Lobato Ribeiro
Manoel Malheiros Tourinho
Marly Maklouf dos Santos Sampaio
Virgilio Ferreira Libonati
Waldenei Travassos de Queiroz
CONSELHO CIENTÍFICO
Carlos Wilson Lopes (UFRRJ)
Sérgio Carmona de São Clemente (UFF)
Nicolau Maués de Serra-Freire (FIOCRUZ/RJ)
Ricardo Ralisch (UEL)
Roberto Toyoshi Osokawa (UFPr)
Jean Clement Laurent Dubois (REBRAF)
Maria Angélica Miglino (USP)
Archibald O. Haller (Univ. Wisconsin)
Carlos Azevedo (Universidade do Porto - Portugal)
Lee Russell McDowel (University of Florida)
EDITOR
Manoel Malheiros Tourinho
EDITORES-ADJUNTOS
Paulo de Paula Mendes, Luiz Antonio de Oliveira, Otávio Mitio Ohashi,
José Natalino Macedo Silva, Jonas Bastos da Veiga
EQUIPE EDITORIAL
Virgilio Ferreira Libonati
Nazaré Maria Araújo de Matos
Francisco Ilton de Oliveira Moraes
SECRETARIA
Socorro de Fátima da Silva Sampaio
REVISTA DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS, n. 31 , jan./jun. 1999 . Belém:
UFRA, 1999Semestral
Títulos anteriores: Boletim da Escola de Agronomia da Amazônia, n. 1-4, 1971;
Boletim da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, n. 5-30, 1972-1998.
ISSN - 1517-591X
1. Agronomia. 2. Medicina Veterinária. 3. Ciências Florestais. 4. Engenharia de
Pesca. 5. Zootécnia. I. Faculdade de Ciências Agrárias do Pará
CDD - 630.509811
CDU - 631.378.096(811)(05)
INFORMAÇÕES GERAIS
A Revista de Ciências Agrárias é editada semestralmente pelo Serviço de Documentação e
Informação da Universidade Federal Rural da Amazônia, sediada em Belém (PA), destinando-se à
divulgação de artigos originais nas áreas de Agronomia, Engenharia Florestal, Medicina Veterinária,
Engenharia de Pesca e Zootecnia. Indexado por:
- Agroforestry Abstract
- Index Veterinarius
- Soil and Fertilizers
- Agris
- Agrobase
(CAB)
(CAB)
(CAB)
(FAO)
(Base de Dados da Agricultura Brasileira)
GENERALINFORMATION
The Journal of Agrarian Sciences is published twice a year by the Documentation and Information
Service of the Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA located in Belem, Pa. Its purpose is to
disseminate original research in Agronomy, Forestry, Veterinary Medicine, Fishing and Zootecny.
The journal is indexed by:
- Agroforestry Abstract
- Index Veterinarius
- Soil and Fertilizers
- Agris
- Agrobase
(CAB)
(CAB)
(CAB)
(FAO)
(Brazilian Agricultural Data Base)
ASSINATURAS
BRASIL
Assinatura anual (2 números): R$ 20,00 • nº avulso: R$ 10,00
COMO ASSINAR A REVISTA
Enviar cheque nominal à Universidade Federal Rural da Amazônia.
Serviço de Documentação e Informação, ou depositar em conta bancária
enviando comprovante de depósito (Via Fax ou Carta) para:
Universidade Federal Rural da Amazônia
Banco do Brasil – Agência 3602-1 – Conta nº 170500-8
Código identificador: 15303415241210-4
Endereço para correspondência:
Universidade Federal Rural da Amazônia
Serviço de Documentação e Informação
Av. Tancredo Neves S/N - cx. postal 917
CEP 66.077-530 - Belém-PA
e-mail: biblioteca @ufra.edu.br - Fone: (0xx) 91274-4518
Revista de Ciências Agrárias, n.40, jul./dez. 2003
SUMÁRIO
p.
ANÁLISE DA DIVERSIDADE GENÉTICA EM GERMOPLASMA DE Piper spp COM ÊNFASE
PARA PIMENTA-DO-REINO (Piper nigrum L.): ESTUDO PRELIMINAR POR MARCADORES
ISOENZIMÁTICOS .....................................................................................................................................
José Maria Demetrio Gaia, Milton Guilherme da Costa Mota, Maria Rosa Costa, Carlos da Silva Martins,
Marli Costa Poltronieri
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHElRAS CONSORCIADAS COM
DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS, NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS,
BARCARENA, PARÁ ..................................................................................................................................
George Duarte Ribeiro, Leonilde dos Santos Rosa, Fernando Cristóvam da Silva Jardim
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA
EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL ..............
Arlem Nascimento de Oliveira, Luiz Antonio de Oliveira
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, MATÉRIA SECA E ACUMULAÇÃO DE MINERAIS
NAS RAÍZES DE ADUBOS VERDES, EM RESPOSTA AO CALCÁRIO E AO FÓSFORO ................
Antonio Rodrigues Fernandes, Lilian Cristiane Fernandes Linhares, Francisco Ilton de Oliveira Morais,
George Rodrigues da Silva
9
21
33
45
CARACTERIZAÇÃO GENÉTICA DA IPECA (Psychotria ipecacuanha Stokes) POR MEIO DE
MARCADORES RAPD ..............................................................................................................................
Maria Rosa Costa, Osmar Alves Lameira, Isabela Guerreiro Diniz
55
COMPARAÇÃO DE PROCEDIMENTOS PARA DESCONTAMINAÇÃO DE EXPLANTES DE
MOGNO (Swietenia macrophylla King) .......................................................................................................
Sebastião da Cunha Lopes, Osmar Alves Lameira, Gerson Renan Luces Fortes
63
CULTURA IN VITRO DE EMBRIÕES ZIGÓTICOS DE CUPUAÇUZEIRO (Theobroma grandiflorum
Schum.) ..........................................................................................................................................................
Ana da Silva Ledo, Osmar Alves Lameira, Abdellatif Kemaleddine Benbadis, Sebastião Medeiros Filho,
Ilmarina Campos de Menezes
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS JOVENS E NAS PROPRIEDADES
QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA) ......
Cíntia Alves Chaves, Ismael de Jesus Matos Viégas, George Rodrigues da Silva, Maria Alice Alves Thomaz,
Dílson Augusto Capucho Frazão
73
81
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA
AMAZÔNIA CENTRAL .............................................................................................................................
Ralfh João Ribeiro, Niro Higuchi, Gil Vieira, Joaquim dos Santos, Maria Naélia Silva Ribeiro
93
A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DA PRODUÇÃO DE FRUTOS DO AÇAIZEIRO (Euterpe oleracea
Mart.) PARA AS POPULAÇÕES EXTRATIVISTAS DO ESTUÁRIO AMAZÔNICO ........................
João da Luz Freitas, Marcelo Augusto de Brito Malheiros, Paulo César Silva Vasconcelos
111
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA
ORIENTAL ....................................................................................................................................................
José Augusto da Silva Santana, Luciana Karla V. dos Santos Sousa, Wanderléa da Costa Almeida
119
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO
COM N P K EM LATOSSOLO AMARELO .............................................................................................
Carlos Alberto Costa Veloso, Anna Cristina Malcher Muniz, Walcylene Lacerda Matos Pereira, Francisco
Ronaldo S. de Souza, Eduardo J. Maklouf Carvalho
SAZONALIDADE, COLONIZAÇÃO RADICULAR E ESPORULAÇÃO DE FUNGOS
MICORRÍZICOS ARBUSCULARES EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E DE PUPUNHEIRA NA
AMAZÔNIA CENTRAL .............................................................................................................................
Arlem Nascimento de Oliveira, Luiz Antonio de Oliveira
USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA ESTIMATIVA DA DEMANDA
BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO
COM VINHAÇA ..........................................................................................................................................
Marília Regina Costa Castro Lyra, José Antônio Aleixo da Silva, Mario Monteiro Rolim
VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM SISTEMA DE
AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ) ...........
Rogério Ferreira da Silva, Eduardo Lima, Maria Elizabeth Fernandes Correia, Rogério Ribeiro de Oliveira
133
145
155
167
RELATO DE CASO
OSTEOPATIA HIPERTRÓFICA EM UM CANINO, ASSOCIADA À ESPIROCERCOSE,
FIBROMA ESOFÁGICO E DIROFILARIOSE ..........................................................................................
Washington Luiz Assunção Pereira,Ernö Túry
181
Journal of Agrarian Sciences, n.40, jul./dez.2003
CONTENTS
p.
ANALYSIS OF THE GENETIC DIVERSITY IN GERMPLASM OF Piper spp: A PRELIMINARY
STUDY FOR ISOZYME MARKERS
José Maria Demetrio Gaia, Milton Guilherme da Costa Mota, Maria Rosa Costa, Carlos da Silva Martins,
Marli Costa Poltronieri ..................................................................................................................................
9
EVALUATION OF THE INITIAL GROWTH OF PEACH PALMS INTERCROPPED WITH
DIFFERENTS VARIETIES OF BANANA PLANTS, IN THE “AGUA VERDE” PROJECT, ALBRAS,
BARCARENA, PARA
George Duarte Ribeiro, Leonilde dos Santos Rosa, Fernando Cristóvam da Silva Jardim ........................
21
SOIL CHEMICAL PROPERTIES ASSOCIATED WITH MYCORRHIZAL FUNGI ESPORULATION
AND COLONIZATION OF CUPUASSU AND PEACH PALM PLANTS IN CENTRAL AMAZONIA
Arlem Nascimento de Oliveira, Luiz Antonio de Oliveira .............................................................................
33
SOIL CHEMICAL PROPERTIES ASSOCIATED WITH MYCORRHIZAL FUNGI ESPORULATION
AND COLONIZATION OF CUPUASSU AND PEACH PALM PLANTS IN CENTRAL AMAZONIA
Antonio Rodrigues Fernandes, Lilian Cristiane Fernandes Linhares, Francisco Ilton de Oliveira Morais,
George Rodrigues da Silva ............................................................................................................................
45
GENETIC CHARACTERIZATION OF IPECA (Psychotria ipecacuanha Stokes) BY RAPD ANALYSIS
Maria Rosa Costa, Osmar Alves Lameira, Isabela Guerreiro Diniz ..........................................................
55
COMPARISON OF DECONTAMINATION PROCEDURE OF MAHOGANY (Swietenia macrophylla
KING) EXPLANTES
Sebastião da Cunha Lopes, Osmar Alves Lameira, Gerson Renan Luces Fortes .......................................
63
IN VITRO CULTURE OF CUPUASSU ZYGOTIC EMBRYOS (Theobroma grandiflorum Schum.)
Ana da Silva Ledo, Osmar Alves Lameira, Abdellatif Kemaleddine Benbadis, Sebastião Medeiros Filho,
Ilmarina Campos de Menezes .......................................................................................................................
73
EFFECT OF LIMING ON THE GROWTH OF OIL PALM SEEDLINGS AND IN THE CHEMICAL
PROPERTIES OF A YELLOW LATOSOL FROM SANTA BARBARA, PA, BRAZIL
Cíntia Alves Chaves, Ismael de Jesus Matos Viégas, George Rodrigues da Silva, Maria Alice Alves Thomaz,
Dílson Augusto Capucho Frazão ..................................................................................................................
81
TAPER FUNCTION STUDIES IN LOWLAND TREE SPECIES OF CENTRAL AMAZÔNIA
Ralfh João Ribeiro, Niro Higuchi, Gil Vieira, Joaquim dos Santos, Maria Naélia Silva Ribeiro ...............
93
THE ECONOMICAL IMPORTANCE OF THE PRODUCTION OF FRUITS OF AÇAÍ PALM TREE
(Euterpe oleracea Mart.) FOR EXTRATIVIST IN THE FLOOD PLAIN OF THE AMAZONIAN
ESTUARY
João da Luz Freitas, Marcelo Augusto de Brito Malheiros, Paulo César Silva Vasconcelos ......................
111
ANNUAL LITTERFALL PRODUCTION IN A SECONDARY FOREST OF EASTERN AMAZON
José Augusto da Silva Santana, Luciana Karla V. dos Santos Sousa, Wanderléa da Costa Almeida ..........
119
YIELD AND QUALITY OF PERA ORANGE FRUITS ON A YELLOW LATOSSOL OF PARA STATE
AS A FUNCTION OF NPK FERTILIZERS
Carlos Alberto Costa Veloso, Anna Cristina Malcher Muniz, Walcylene Lacerda Matos Pereira, Francisco
Ronaldo S. de Souza, Eduardo J. Maklouf Carvalho ....................................................................................
SEASONALITY OF ROOT COLONIZATION AND MYCORRHIZAL ESPORULATION IN PLANTS
OF CUPUASSU AND PEACH PALM AT CENTRAL AMAZONIA .....................................................
Arlem Nascimento de Oliveira, Luiz Antonio de Oliveira
USING LINEAR AND NON-LINEAR REGRESSION ANALYSIS FOR ESTIMATING THE
BIOCHEMICAL OXYGEN DEMAND (BOD) IN SUGAR CANE PLANTATIONS FERTIRRIGATED
WITH VINASSE ............................................................................................................................................
Marília Regina Costa Castro Lyra, José Antônio Aleixo da Silva, Mario Monteiro Rolim
QUANTITATIVE CHANGE OF EDAPHIC ARTROPODS IN AN SHIFTING CULTIVATION SYSTEM
IN AN SECONDARY VEGETATION, ILHA GRANDE, RJ
Rogério Ferreira da Silva, Eduardo Lima, Maria Elizabeth Fernandes Correia, Rogério Ribeiro de Oliveira
133
145
155
167
CASE REPORT
HYPERTROPHIC OSTEOPATHY ASSOCIATED WITH SPIROCERCOSIS, FIBROMA OF
ESOPHAGUS AND DIROFILARIOSIS IN A DOG
Washington Luiz Assunção Pereira,Ernö Túry .............................................................................................
181
ANÁLISE DA DIVERSIDADE GENÉTICA EM GERMOPLASMA DE Piper spp COM ÊNFASE PARA PIMENTA-DO-REINO (Piper
nigrum L.): ESTUDO PRELIMINAR POR MARCADORES ISOENZIMÁTICOS
ANÁLISE DA DIVERSIDADE GENÉTICA EM GERMOPLASMA DE
Piper spp COM ÊNFASE PARA PIMENTA-DO-REINO (Piper nigrum L.):
ESTUDO PRELIMINAR POR MARCADORES ISOENZIMÁTICOS1
José Maria Demetrio GAIA2
Milton Guilherme da Costa MOTA3
Maria Rosa COSTA4
Carlos da Silva MARTINS5
Marli Costa POLTRONIERI4
RESUMO: Foi estudada a similaridade genética de setenta e oito clones de pimenta-do-reino (Piper
nigrum L.), incluindo algumas espécies do gênero Piper, para estabelecer semelhanças e diferenças
entre os clones. Foram utilizados oito sistemas enzimáticos para gerar dados a partir de variáveis de
duplo estado (ausência ou presença de bandas enzimáticas) e os dados foram analisados através do
programa de computador chamado Fitopac. A análise da similaridade pelo fenograma gerado mostrou
que a maioria dos clones foi encontrada no intervalo de 90% a 100% de similaridade, sendo observado
somente três clones no intervalo de 70% a 80% de similaridade. O estreito intervalo de variação
observado dentro de grupos (72% a 100%) demonstra que os clones analisados de P. nigrum L.são
bastante similares, confirmando o que já era esperado em função da reduzida base genética da
espécie e da homogeneidade dos clones cultivados.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Pimenta (Piper spp), Clones, Similaridade Genética, Marcadores
Moleculares, Melhoramento Genético.
ANALYSIS OF THE GENETIC DIVERSITY IN GERMPLASM
OF Piper spp: A PRELIMINARY STUDY FOR
ISOZYME MARKERS
ABSTRACT: Genetic diversity of seventy eight clones of black pepper (Piper nigrum L.), including
some species of the genus Piper, was studied in order to get new knowledge for the genetic
improvement of the crop. Eight isozymic systems were utilized to get variables of double state
(absence or presence of isozymic bands). Analysis of the similarity through phenogram showed that
most of the clones displayed a similarity range from 90 % to 100 %.. Only three clones had a
1
2
3
4
5
Aprovado para publicação em 25.11.2003
Engenheiro Agrônomo, aluno do curso de mestrado em Biologia Vegetal Tropical da Universidade Federal Rural da
Amazônia – UFRA. E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor do Departamento de Biologia Vegetal e Fitossanidade da UFRA.
Engenheira Agrônoma, Pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental.
Engenheiro Agrônomo, Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
9
JOSÉ MARIA DEMETRIO GAIA, MILTON GUILHERME DA COSTA MOTA, MARIA ROSA COSTA, CARLOS DA SILVA MARTINS,
MARLI COSTA POLTRONIERI
similarity range from 70 % to 80 %. The narrow similarity range observed in the groups (72% to
100%) demonstrated that the clones of P. nigrum L. were quite similar, as a result of the reduced
genetic base of the species and of the homogeneity of the cultivated clones.
INDEX TERMS: Pepper (Piper spp), Clones, Genetic Similarity, Molecular Marker, Genetic
Improvement.
1 INTRODUÇÃO
A pimenta-do-reino é um arbusto
trepador, perene, da família das Piperáceas,
sendo uma das espécies cultivadas mais
antigas do mundo (MARTIN; GREGORY,
1962; ZEVEN, 1974). Seu centro de origem
é, presumivelmente, nas florestas
localizadas no Sudoeste da Índia, Western
Gaths, Malabar, de onde se espalhou,
inicialmente, para o Sudeste da Ásia por
meio de estacas, sendo muito
posteriormente introduzida na África, ilhas
do Pacífico e Américas do Sul e Central
(GENTRY, 1955; ZEVEN, 1974).
A reduzida base genética, devido aos
poucos clones cultivados e a
susceptibilidade à fusariose (Fusarium
solani forma sp piperis), tem causado graves
prejuízos aos pipericultores no Brasil.
Assim, falta de variabilidade genética e os
limitados conhecimentos sobre a genética
da espécie constituem-se os principais
problemas para a obtenção de genótipos
superiores (ZEVEN, 1974; PILLAY, 1995).
Métodos de melhoramento
genético, tais como hibridação (WAARD;
ZEVEN, 1969), polinização controlada e
indução de mutantes por radiação gama
(OBTENÇÃO..., 1978), plantio de sementes
de polinização aberta seguida de seleção de
10
matrizes para obtenção de novos cultivares
(ALBUQUERQUE; DUARTE, 1983) e
indução de variabilidade genética por
cultura de tecidos (MOTA et al., 1991;
LEMOS et al., 1996) têm sido utilizados
para contornar o problema, porém com
resultados pouco satisfatórios.
Martins et al. (1996) detectaram
diferenças genéticas (polimorfismo) entre
os clones de pimenta-do-reino do banco de
germoplasma da Embrapa Amazônia
Oriental pela análise de isoenzimas, como,
também, um grande número de clones em
heterozigose.
As isoenzimas, como outros
marcadores moleculares, podem ser
utilizadas para a definição de grupos
heteróticos e associações genômicas que
afetam a heterose, assim como identificar
genótipos, o que permite que seja realizada
a seleção de indivíduos superiores e
cruzamentos dos mesmos, em apenas uma
geração (FERREIRA, 1993), originando
variabilidade e economizando o tempo
empregado no melhoramento, particularmente para espécies perenes.
Este trabalho objetivou o estudo
analítico da similaridade genética de
pimenta-do-reino, que proporcionará maior
conhecimento sobre sua genética e permitirá
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
ANÁLISE DA DIVERSIDADE GENÉTICA EM GERMOPLASMA DE Piper spp COM ÊNFASE PARA PIMENTA-DO-REINO (Piper
nigrum L.): ESTUDO PRELIMINAR POR MARCADORES ISOENZIMÁTICOS
otimizar o uso dos genótipos disponíveis
para a obtenção de híbridos inter e intraespecíficos, no sentido de aumentar a
variabilidade.
2
MATERIAL E MÉTODOS
2.1 MATERIAL
Foi utilizada a coleção de
germoplasma da EMBRAPA Amazônia
Oriental (CPATU) existente no campo
experimental de Belém, mantida sob cultivo
com uso de tutores, sob condições de
sombreamento, a partir do qual foram
tomados 78 clones (Quadro 1), utilizando
um indivíduo (ramete) por clone. Amostras
unitárias foram adotadas levando em conta
que as plantas cultivadas de pimenta-doreino são: 1) autógamas (MARTIN;
GREGORY, 1962; WAARD; ZEVEN,
1969); 2) os clones cultivados apresentarem
homogeneidade genética, bem como a
espécie apresentar uma reduzida base
genética (ZEVEN, 1974; PILLAY, 1994) e;
3) serem propagadas vegetativamente por
estacas. Muitos destes clones são
procedentes da Estação Experimental
Federal de Mayaguez, Porto Rico, e muito
provavelmente provenientes da última
introdução da espécie nas Américas,
ocorrida na ilha de Guadalupe, em 1942
(RODRIGUES, 1967). De acordo com
Albuquerque6, a grande maioria dos clones
é originária da Índia ou derivada dos clones
indianos, com somente alguns clones
6
originários de outros países do Oriente
(comunicação pessoal).
2.2 MÉTODOS
A metodologia e os procedimentos
utilizados para coleta de tecido vegetal,
extração de proteínas, formulação dos
tampões e do sistema de géis (separador e
concentrador), eletroforese, tempo de
corrida, condições de migração e revelação
das enzimas foram baseados por Tsumura
et al. (1990), com as seguintes adaptações
para pimenta-do-reino (Piper nigrum L.):
1) utilizaram-se 50 mg de tecido foliar
jovem por ocasião da maceração sob
nitrogênio líquido e, simultaneamente,
cerca de 75 mg de PVPP adicionado a 1 mL
do tampão de extração; 2) a eletroforese foi
realizada sob condições de 16 mA durante
cerca de cinco horas; 3) as soluções corantes
de fosfoglucoisomerase (PGI) e fosfatase
ácida (ACP) foram modificadas para 50 mL
de Tris-HCl, 50 mM, pH 8; 1 mL de Dfrutose-6-fosfato (20 mg/mL); 1 mL de
NADP (6,6 mg/mL); 2 mL de MTT (5mg/
mL); 1 mL de PMS (5mg/mL), 1 mL de
cloreto de magnésio (10,17 g/100 mL) e 10
unidades de G6PDH (PGI); 50 mL de “ACP
buffer” (1,6 g de acetato de sódio trihidratado, 4,83 mL de ácido glacial acético
e 500 mL de água destilada); 100 mg de anaftil fosfato, sal dissódico e 12 mg de “Fast
garnet GBC salt” (ACP).
ALBUQUERQUE, F.C. de. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Belém, 1998.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
11
12
1
Mutante
Malásia
Índia
Indonésia
Índia
Derivado*
Índia
Índia
Índia
Índia
Índia
Índia
Índia
Indonésia
Indonésia
Índia
Índia
Índia
Malásia
Índia
Derivado*
Índia
Índia
Índia
Índia
Índia
C01
C02
C03
C04
C05
C06
C07
C08
C09
C10
C11
C12
C13
C14
C15
C16
C17
C18
C19
C20
C21
C22
C23
C24
C25
C26
C27
C28
C29
C30
C31
C32
C33
C34
C35
C36
C37
C38
C39
C40
C41
C42
C43
C44
C45
C46
C47
C48
C49
C50
C51
C52
Origem
Piper colubrinum Link Brasil
Kottanadan–2
Índia
Karimunda–3
Índia
Piper attenuatum-F
Índia
Diemberg (Ac. 3, ind-2) Índia
Iaçará-2
Índia
Q.B. 5x10-S
Derivado*
Papari
Índia
Diemberg (Acesso 2) Índia
Cz-4X11 (Acesso 1)
Derivado*
Chumala-S
Índia
Bragantina (Acesso 1) Índia
Iaçará–1
Índia
Kuching
Malásia
Piper attenuatum-X
Índia
Kudaravalli
Índia
Pimenta-da-terra
Índia
Diemberg (Ac. 2, ind-2) Índia
F1-PL8
Derivado*
Bragantina (Acesso 2) Índia
Cz-4x11 (Acesso 2)
Derivado*
Kaluvalli (Acesso 2)
Índia
X1
Cruzamento
X26
Cruzamento
X3
Cruzamento
B
Derivado*
Código Acesso
C53
C54
C55
C56
C57
C58
C59
C60
C61
C62
C63
C64
C65
C66
C67
C68
C69
C70
C71
C72
C73
C74
C75
C76
C77
C78
Origem
X18
Cruzamento
X32
Cruzamento
45
Mutante
132
Mutante
Cz-5X10
Derivado*
P3
Derivado*
Mangueira
Derivado*
Kovt (kottavally)
Índia
239
Derivado*
U.T. (Uthirankotta)
Índia
1558
Derivado*
Trang
Tailândia
Diemberg (Acesso 3)
Índia
Uthirankotta (progênie) Índia
Uthirankotta (mãe)
Índia
Guajarina (acesso 2)
Índia
Karimunda–S
Índia
Uthirankotta-S (Apra) Índia
Iaçará–S
Índia
S–2
Índia
Balankotta Jones
Índia
Guajarina–INATAM
Índia
Pan-1-CEN (Pannyiur-1) Índia
BAG 16x13
Derivado*
Kaluvalli (Ac 2, ind-2) Índia
Kudaravalli (ind-2)
Índia
Código Acesso
Notação adotada para as análises nos programas de computador; *: Derivados de programas de melhoramento genético do CPATU.
0697
Cingapura
Diemberg (Acesso 1)
Djambi (Acesso 1)
Balankotta (Acesso 1)
Q.D.S. PL.-F6
Perunkoide-S
Piper Attenuatum-M1
Piper Attenuatum-M2
Piper Attenuatum-M3
Guajarina (karimunda)
Karimunda
Chumala
Belantung
Djambi (Acesso 2)
Balankotta (Acesso 2)
Espírito Santo
Bragantina 6.3.92
Cingapura 6.3.92
Iaçará-1 (ind-2)
F6–PL1
S–1
G–1
Piper betle
Karimunda–2
Kottanadan–1
Origem
Código1 Acesso
QUADRO 1 – Relação dos acessos de pimenta-do-reino e outras espécies de do gênero Piper da coleção de germoplasma do
CPATU analisados, com seus respectivos nomes e origens. Belém (PA), 1999.
JOSÉ MARIA DEMETRIO GAIA, MILTON GUILHERME DA COSTA MOTA, MARIA ROSA COSTA, CARLOS DA SILVA MARTINS,
MARLI COSTA POLTRONIERI
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
ANÁLISE DA DIVERSIDADE GENÉTICA EM GERMOPLASMA DE Piper spp COM ÊNFASE PARA PIMENTA-DO-REINO (Piper
nigrum L.): ESTUDO PRELIMINAR POR MARCADORES ISOENZIMÁTICOS
Além de fosfoglucoisomerase (PGI,
5.3.1.9) e fosfatase ácida (ACP, 3.1.3.2),
foram utilizados mais seis sistemas
enzimáticos: aconitase (ACO, 4.2.1.3), 6fosfogluconato desidrogenase (6PGDH,
1.1.1.44), fumarase (FUM, 4.2.1.2),
glucose-6-fosfato desidrogenase (G6PDH,
1.1.1.49), glutamato oxaloacetato
transaminase (GOT, 2.6.1.1) e xiquimato
desidrogenase (SKDH, 1.1.1.25).
variabilidade. Este coeficiente atribui o
mesmo peso para a ausência de uma banda
e à presença da banda correspondente entre
dois indivíduos, portanto, a ausência de uma
banda possui o mesmo peso que sua
presença (PERONI, 1998).
Foi utilizado o programa de
computador Fitopac, de autoria de George
Shepherd (UNICAMP), para o cálculo do
coeficiente de semelhança simples (“simple
matching”) e fenograma gerado pelo método
hierárquico UPGMA, de agrupamento aos
pares (média de grupo), o qual foi avaliado
pelo coeficiente de correlação cofenética
(CCC), que considera os agrupamentos
satisfatórios aqueles superiores a 0,8
(PERONI, 1998).
Os padrões de bandas revelados no
géis (fenótipos) tiveram suas enzimas
identificadas e desenhadas em papel
milimetrado para preparar os zimogramas,
conforme Cheliak e Pitel (1984), a partir dos
quais foram obtidas planilhas para
elaboração da matriz de entrada das
variáveis de duplo estado (presença e
ausência de bandas).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela 1 apresenta as bandas
isoenzimáticas e o número de indivíduos em
que foram observadas e, na Figura 1, encontrase o fenograma de agrupamento dos 78 clones
analisados. Segundo Curi (1983), não existe
concordância absoluta sobre o que constitui
Para descrever os padrões de
similaridade foi adotado o índice de
concordância de Sokal e Michener (1958),
conhecido como coeficiente de semelhança
simples ou simplesmente “simple matching”,
que é amplamente utilizado em estudos de
Tabela 1 – Número de bandas por sistema enzimático e número de vezes em que foram
observadas nos 78 clones examinados. Belém (PA), 1999.
%DQGDV
% % % % % % % % % % % % % % % % %
*27
3*,
$&3
$&2
3*'
*3'+
6.'+
)80
1
34
7
2
8
69
12
65
54
3
21
8
7
3
38
6
5
3
17
1
71
2
69
5
22
3
59
13
5
73
4
35
75
20
29
21
66
4
23
24
51
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MARLI COSTA POLTRONIERI
um agrupamento e que o importante é que os
agrupamentos formados reflitam informações
coerentes. Assim sendo, de modo semelhante
à divisão de Faraldo (1994), o fenograma foi
dividido em 12 grupos.
Nos quatro primeiros grupos à direita
do fenograma, ilustrado na Figura 1, se
encontram os grupos de clones mais
divergentes (G1, G2, G3 e G4), e à esquerda
se encontram os grupos de clones mais
similares (G6 a G12). O quinto grupo,
constituído por um só clone, pode ser
tomado como divisor entre os menos e os
mais similares.
Os valores de similaridade dentro de
grupos variaram de 72% a 100 %, sendo que
a grande maioria dos clones apresentou
valores de similaridade entre 90% e 100%
e, dentre estes, 16 ficaram com similaridade
muito próxima de 100% (aproximadamente
98%). Por outro lado, somente 17 clones
apresentaram similaridade entre 70% e
90%, grande parte destes se encontra na
faixa de 80% a 90%, e somente três se
encontram na faixa de 70% a 80% de
similaridade. Estes resultados estão em
coerência com o que foi descrito para a
espécie por Zeven (1974) e Pillay (1995),
segundo os quais a pimenta-do-reino é uma
espécie que possui uma base genética
reduzida, e cujos clones cultivados são
muito semelhantes entre si.
Média de grupo (UPGMA)
Figura 1 – Fenograma de agrupamento de 78 acessos de pimenta-do-reino da coleção de germoplasma da Embrapa Amazônia
Oriental, gerado pelo método UPGMA, com similaridades calculadas pelo coeficiente de semelhança simples (“simple
matching”). O fenograma foi dividido em 12 grupos G1, G2. G3. G4, G5, G6, G7, G8, G9, G10, G11, e G12). Belém (PA),
1999.
14
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
ANÁLISE DA DIVERSIDADE GENÉTICA EM GERMOPLASMA DE Piper spp COM ÊNFASE PARA PIMENTA-DO-REINO (Piper
nigrum L.): ESTUDO PRELIMINAR POR MARCADORES ISOENZIMÁTICOS
Os clones mais divergentes dentro dos
grupos em que figuram foram três de
espécies selvagens, a saber, P. colubrinum
Link. (C27), com 72% de similaridade,
P. attenuatum (C10), com 74% de
similaridade, ambos no grupo G2 e P. betle
(C24), com 77% de similaridade, no grupo
G1; e dois de pimenta-do-reino (P. nigrum
L.), que foram os clones Kotavally (C60),
no grupo G3, e Chumala-S (C37), no grupo
G5, ambos com, aproximadamente, 80% de
similaridade. Os mais dissimilares em
relação ao conjunto foram S-1 (C22), G-1
(C23) e P. betle (C24) no grupo G1.
Alguns clones atingiram o nível 100%
de similaridade, porém, isto não significa
que estes clones sejam precisamente iguais,
pois os marcadores isoenzimáticos cobrem
uma pequena parte do genoma, quando
comparados com marcadores de maior
precisão, como os marcadores de DNA
(DUDLEY, 1994). Estes clones foram 45
(C55) e 132 (C56), no subgrupo G4ac;
Djambi (C04) e Belantung (C14), no
subgrupo G4aa; P3 (C58) e 239 (C61), no
grupo G5. Os clones 45 (C55) e 132 (C56)
são clones do CPATU e são mutantes
induzidos por irradiação gama. Os clones
Djambi (C04) e Belantung (C14) são
variedades de pimenta-do-reino originárias
da Índia. Os clones P3 (C58) e 239 (C61)
são clones atribuídos ao CPATU que são
derivados dos clones indianos.
Os clones Cingapura (C02 e C19) e
Kuching (C40) originários da Malásia;
Djambi (C04 e C15) e Belantung (C14),
originários da Indonésia e Trang (C64),
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
originário da Tailândia, figuraram no grupo
G4, porém separados em subgrupos
dissimilares, sendo que o nível de ligação
entre subgrupos diminui gradativamente dos
clones da Indonésia (C04, C14), no
subgrupo G4aa, passando pelos clones da
Malásia (C19, C40) no subgrupo G4ab e
atingindo o menor valor no clone da
Tailândia (C64), no subgrupo G4ac. Os
subgrupos G4aa, G4ab e G4ac se ligam ao
nível médio de 85% de similaridade. Dentro
de grupos, os clones Djambi (C04) e
Belantung (C14) tiveram 100% de
similaridade, e os outros tiveram
similaridade superior a 95% em seus
respectivos subgrupos. A separação destes
clones em subgrupos não foi rigorosa, uma
vez que o clone Cingapura (Malásia)
ocorreu no mesmo subgrupo (G4aa) dos
clones da Indonésia (C04, C14 e C15), além
disso, nestes três subgrupos também
figuraram clones de origem indiana, tais
como Chumala (C13), no subgrupo G4aa,
Kudaravalli (C42), no subgrupo G4ab e
Balankotta Jones (C73), no subgrupo G4ac.
Deste modo, apesar destes clones de P.
nigrum L. apresentarem diversidade
geográfica, nestas condições estão
demonstrando a alta similaridade da espécie,
o que pode ser reforçado pelo fato de alguns
países em que se têm clones originários serem
ilhas ou arquipélagos, como é o caso da
Indonésia, fato que pode favorecer maior
diferenciação e especiação devido ao
isolamento geográfico próprio das ilhas, e isto
pode estar acontecendo em pimenta-do-reino,
pois estes dados são concordantes com os de
15
JOSÉ MARIA DEMETRIO GAIA, MILTON GUILHERME DA COSTA MOTA, MARIA ROSA COSTA, CARLOS DA SILVA MARTINS,
MARLI COSTA POLTRONIERI
Inoue e Kawahara (1990), que estudaram a
diferenciação e a estrutura genética em
populações continentais e insulares, no Japão,
de Campanula punctata e observaram que a
diversidade genética total nas ilhas decresceu,
enquanto que a similaridade aumentou com o
aumento do distanciamento das terras
continentais. Em clones de pimenta-do-reino
atribuídos à Indonésia, isto pode ter sido
causado pelo efeito do isolamento geográfico,
porque algumas estacas de terras continentais
(Índia e/ou Tailândia) poderiam ter sido
levadas para a Indonésia mediante imigração
humana.
A distribuição dos clones de origens
geográficas diferentes da Índia em
subgrupos distintos no grupo G4 do
fenograma, também pode ser um indício da
tendência de paralelismo entre diversidade
genética e origem geográfica observada em
muitas espécies autógamas como arroz e
pimenta malagueta (PEREIRA, 1989;
BARROS, 1991).
Segundo Barriga (1982), os clones S1 (C22) e Cingapura (C02) não diferiram,
citologicamente, pela análise de cariótipo.
No entanto, estes clones se situaram em
subgrupos dissimilares, à direita do
fenograma (G1 e G4aa, respectivamente),
estando ligados ao nível de 65% de
similaridade. Dentro dos subgrupos em que
figuram, estes clones apresentaram valores
de similaridade de 90% para o clone S-1e
94% para Cingapura (C02).
Os clones pimenta-da-terra (C43),
Espírito Santo (C17) e Diemberg (C44)
16
constituíram um só subgrupo (G8aa), todos
com similaridade superior a 95%. Segundo
Barriga, Albuquerque e Sumida (1975), os
clones pimenta-da-terra (C43) e Balankotta
(C05, C06) são similares. No entanto, se
situaram em grupos dissimilares, à esquerda
do fenograma (G8aa e G10,
respectivamente), ligados ao nível de 85%
de similaridade. Dentro de seus respectivos
grupos, tais clones apresentaram valores de
similaridade muito próximos com 94% para
Balankotta e 96% para pimenta-da-terra.
Os padrões de migração das
isoenzimas do clone pimenta-da-terra,
também conhecido como pimenta caiena,
foram os mesmos padrões de migração da
grande maioria dos clones originários da
Índia, assemelhando-se particularmente
com os clones de mesma origem referidos
acima, sendo, em razão disto, pimenta-doreino verdadeira, tanto quanto a pimentado-reino que se estabeleceu em cultivo,
procedente de Cingapura e introduzida no
estado do Pará pela imigração nipônica,
considerada por Homma (1969) como a
pimenta-do-reino verdadeira.
Os cultivares Bragantina (C38),
Guajarina (C11) e Cingapura (C02), apesar
de se apresentarem em grupos dissimilares
no fenograma (G12, G7 e G4aa,
respectivamente) estando ligados os dois
primeiros ao nível de 84% de similaridade,
e, estes, ligados com G4aa ao nível de 78%
de similaridade. A maior similaridade entre
os clones Bragantina e Guajarina pode ser
devido à mesma origem geográfica (Índia),
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
ANÁLISE DA DIVERSIDADE GENÉTICA EM GERMOPLASMA DE Piper spp COM ÊNFASE PARA PIMENTA-DO-REINO (Piper
nigrum L.): ESTUDO PRELIMINAR POR MARCADORES ISOENZIMÁTICOS
que difere da origem geográfica do clone
Cingapura (Malásia). Quando comparados
dentro dos grupos em que figuram, os
valores de similaridade foram muito
próximos (95%, 96% e 94%, respectivamente).
O valor do coeficiente de correlação
cofenética (CCC) gerado para o fenograma
foi de 0,8713, resultando, portanto, em
agrupamento satisfatório.
4 CONCLUSÃO
a) A faixa de similaridade observada
no fenograma variou de 65% a 100% e a
faixa observada considerando os clones
dentro dos grupos e subgrupos em que
figuram variou de 72% a 100%;
b) a grande maioria dos clones
apresentou similaridade variando de 90% a
100%;
c) os clones S-1 (C22), G-1 (C23) e
Piper betle (C24) foram os clones mais
divergentes da coleção, seguidos dos clones
P.
colubrinum
Link
(C27),
P. attenuatum (masculino) (C08 e C10) e ,
P. attenuatum (feminino) (C30);
d) os clones de pimenta-do-reino
(P. nigrum L.) mais divergentes dentro do
grupo em que figuram foram Kotavally
(C60) e Chumala-S (C37);
e) os clones de pimenta-do-reino
(Piper nigrum L.) originários da Malásia,
Indonésia e Tailândia formaram um só
grupo, porém figurando em subgrupos
gradativamente dissimilares entre si;
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 9-19, jul./dez. 2003
f) a alta similaridade observada nos
clones originados da Indonésia pode ser
conseqüência do isolamento geográfico
resultante de condição insular aliado à
reduzida base genética da espécie;
g) a identidade citogenética observada
nos clones S-1 (C22) e Cingapura (C02) não
correspondeu com o nível de similaridade
genética observada em grupos relativamente
distantes no fenograma.
h) O clone pimenta-da-terra (C43)
também pode ser considerado pimenta-doreino verdadeira em função da grande
similaridade com os padrões de bandas dos
clones de pimenta-do-reino originários da
Índia;
i) os clones de pimenta-do-reino mais
cultivados no estado do Pará: Bragantina
(C38), Guajarina (C11) e Cingapura (C02)
alcançaram valores de similaridade na faixa
de 94% a 97% dentro dos grupos em que
figuram;
j) dentre os clones mais cultivados no
estado do Pará, o mais similar foi o clone
Bragantina (C38) (Índia) e o menos similar
foi o clone Cingapura (C02) (Malásia).
AGRADECIMENTOS
À JICA (Japan International
Cooperation Association) pelos materiais,
equipamentos e reagentes doados durante o
convênio de cooperação científica e
tecnológica com a EMBRAPA Amazônia
Oriental e ao FUNTEC, que complementou
este estudo.
17
JOSÉ MARIA DEMETRIO GAIA, MILTON GUILHERME DA COSTA MOTA, MARIA ROSA COSTA, CARLOS DA SILVA MARTINS,
MARLI COSTA POLTRONIERI
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19
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHEIRAS CONSORCIADAS COM DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS,
NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS, BARCARENA, PARÁ
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHElRAS
CONSORCIADAS COM DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS,
NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS, BARCARENA, PARÁ1
George Duarte RIBEIRO2
Leonilde dos Santos ROSA3
Fernando Cristóvam da Silva JARDIM4
RESUMO: O presente trabalho teve por objetivo avaliar o comportamento inicial do consórcio
pupunheiras x bananeiras, de 32 meses de idade, implantado no Projeto Água Verde, da Alumínio
Brasileiro S. A. – ALBRÁS, Barcarena, Pará. No referido projeto, que tem como finalidade
desenvolver alternativas de exploração, em nível de agricultura familiar, para servirem de modelos
às comunidades do entorno da ALBRÁS, visando contribuir para o desenvolvimento sustentável e a
preservação da biodiversidade, foi estabelecido um módulo agroflorestal em área de,
aproximadamente, 1 ha. Nesse módulo, entre outras ações de pesquisa, foi implantado um arranjo
de pupunheiras consorciadas com cinco variedades de bananeiras, no qual foram definidos cinco
tratamentos e quatro repetições, para serem analisados no delineamento de blocos ao acaso, sendo
as variáveis, altura total, diâmetro à altura do peito (DAP) e número de perfilhos de pupunheiras.
Buscou-se avaliar se houve diferença significativa no crescimento inicial destas palmeiras quando
consorciadas com diferentes variedades de bananeiras. A análise de variância demonstrou que, ao
nívelde a = 0,05, não houve diferenças significativas no crescimento inicial das pupunheiras, e
portanto, na escolha das variedades de bananeiras para implantação desse tipo de consórcio, devem
ser preferidas aquelas melhores adaptadas, mais produtivas e mais valorizadas no mercado local.
Das diversas variedades de bananeira cultivadas, a Prata-anã apresentou melhor desempenho ao se
mostrar mais produtiva e produzir frutos que têm maior demanda no mercado local. A opção por
utilizar espécies nativas ou exóticas bem adaptadas, que se desenvolvem bem nas condições de
solos ácidos e fracos, e temperaturas e umidades elevadas da Amazônia, e a boa condução das
atividades agrícolas no Projeto Água Verde, por certo estão na origem da perspectiva de sucesso
que se desenha para o consórcio avaliado.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Consórcios Agroflorestais, Desenvolvimento Agrícola
Sustentável, Pupunheira, Bananeiras.
1
Aprovado para publicação 29.8.2003
Extraído da Dissertação de Mestrado apresentada pelo primeiro autor para obtenção do grau de Mestre junto a FCAP
em 1997.
2
Engenheiro Agrônomo, M.Sc., Pesquisador da Embrapa – CPAF / Rondônia.
3
Engenheira Florestal, Dra., Professora Assistente da UFRA.
4
Engenheiro Florestal, Dr., Professor Adjunto da UFRA.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
21
GEORGE DUARTE RIBEIRO, LEONILDE DOS SANTOS ROSA, FERNANDO CRISTÓVAM DA SILVA JARDIM
EVALUATION OF THE INITIAL GROWTH OF PEACH PALMS
INTERCROPPED WITH DIFFERENTS VARIETIES OF BANANA
PLANTS, IN THE “AGUA VERDE” PROJECT, ALBRAS,
BARCARENA, PARA
ABSTRACT: This paper has the objective of evaluating the initial behaviour of a peach palm
(Bactris gasipaes H.B.K) x banana (Musa spp. ) intercrop at an age of 32 months, established at the
“Agua Verde” Project, of the ALBRAS Company, Barcarena, State of Pará. At the “Água Verde”
Project, which has the goal of developing altematives for economic activities, at the level of family
agriculture, to serve as models for the community which lives in areas surrounding ALBRÁS, seeking
to contribute to sustainable development and preservation of biodiversity in the Amazon region, an
agroforestry module was established in an area of approximately one hectare. In this module, among
other research options, peach palms were intercropped with five varieties of banana, in which tive
treatments and four repetitions were defined, to be analysed in the delineation of random blocks.
The variables employed were total height, DBH and number of peach palm runners. The effort was
made to evaluate if there were significant differences in the initial growth of these peach palms when
intercropped with different varieties of banana plants. The analysis of variance demonstrated that, at
the level of a = 0.05, there were no significant differences in the initial growth of the peach palms,
and therefore, in the choice of varieties of bananas for implanting this type of intercropping, there
shou1d be a preference for those which are best adapted, most productive and most valued in the
local market. Of the severa1 varieties of banana plants cu1tivated, the “Prata-an㔠variety presented
the best performance, by showing itself to be the most productive and by producing fruits which
have a better demand in the local market. The option of utilising native or well adapted species,
which develop well in the conditions of acid and weak soils and humid and elevated temperatures in
the Amazon, and the good direction of the agricultura1 activities in the “Água Verde” Project, are
certainly the reason for the perspectives for success which can be forecast for the agroforestry module
evaluated.
INDEX TERMS: Agroforestry Intercroppings, Sustainable Agricultural Development, Peach palm,
Banana Plants.
1 INTRODUÇÃO
A expansão da agropecuária na
Amazônia brasileira tem sido uma atividade
econômica muito controversa, devido à
complexidade que envolve a região e aos
diferentes interesses de segmentos da
sociedade, que se colocam em posições
antagônicas, tendo como extremos, aqueles
que nas décadas de 70 e 80 pensavam que a
região devia ser desbravada e domesticada
pela “pata do boi” e hoje a vêem como um
22
manancial de recursos naturais sempre
disponíveis aos anseios de enriquecimento
fácil, de locupletação econômica,
incentivados por uma legislação anacrônica
e desastrada, que considera floresta
derrubada como beneficiamento para
regularização da propriedade da terra, e, do
lado oposto, os que entendem que a região
deve permanecer intocada, como um
santuário, preservada em sua grandeza
continental. Entre essas posições
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHEIRAS CONSORCIADAS COM DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS,
NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS, BARCARENA, PARÁ
extremadas, há um meio termo que aponta
para a exploração sustentada dos recursos
naturais renováveis da Amazônia.
Neste último aspecto, o cultivo de
fruteiras nativas ou exóticas bem adaptadas
se constitui em atividade agrícola muito
promissora na Amazônia, devido ao enorme
potencial qualiquantitativo das espécies que
predominam na região. Dentre estas,
destaca-se a pupunheira (Bactris gasipaes
H.B.K.), que é a palmeira mais largamente
cultivada pelas populações amazônidas,
oferecendo uma série de produtos como
palmito, frutos, óleo, farinha, usados na
alimentação humana e no preparo de ração
animal, e folhas e estipes usados na
confecção de artesanatos, utensílios
domésticos e de caça e pesca, e para fechar
paredes, fazer coberturas e pisos de
habitações e construções rurais, essenciais
para a subsistência dessas populações
autóctones. Por sua vez, a bananeira se
constitui em importante fonte de alimentos
para o colono na Amazônia, sendo muito
utilizada em sistemas agroflorestais para
promover sombreamento provisório para as
espécies umbrófilas, devido ao seu rápido
crescimento e a importante produção que
propicia, podendo também toda a planta,
praticamente, ser empregada na alimentação
animal. Devido a este amplo aproveitamento, as perspectivas atuais mostram
a pupunheira como uma das culturas mais
promissoras e em significativa expansão na
Amazônia brasileira, e o cultivo de
bananeiras, com demanda sempre crescente
na região. Neste contexto, a ALBRÁS -
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
Alumínio Brasileiro S / A, localizada no
município de Barcarena, Pará, buscando
interagir com as comunidades do seu
entorno, desenvolve o Projeto Água Verde
que visa contribuir para alcançar modelos
de exploração agrícola sustentável ao nível
de agricultura familiar. No mencionado
projeto, entre outras ações propostas, foi
implantado um módulo agroflorestal, onde
se encontram dois arranjos de Sistemas
Agroflorestais, em um dos quais está o
consórcio avaliado preliminarmente neste
trabalho, que tem por objetivo, “avaliar o
crescimento inicial de pupunheiras,
cultivadas para produção de frutos, quando
associadas com diferentes variedades de
bananeiras”.
2
MATERIAL E MÉTODOS
2.1. LOCALIZAÇÃO DO MÓDULO
AGROFLORESTAL
O módulo agroflorestal, com os
arranjos de sistemas agroflorestais que
contém o conjunto de plantas analisado
neste trabalho, está localizado no Projeto
Água Verde, desenvolvido pela ALBRÁS Alumínio Brasileiro S.A. - no município de
Barcarena, Pará, município este que está
inserido na microrregião geográfica de
Belém (IBGE, 1981). A Figura 1 mostra a
localização da cidade de Barcarena que está
situada a 14m de altitude e apresenta as
seguintes coordenadas geográficas:
01°30’21" de latitude sul e 48°37’33" de
longitude oeste de Greenwich (IBGE, 1981;
RODRIGUES, 1986).
23
GEORGE DUARTE RIBEIRO, LEONILDE DOS SANTOS ROSA, FERNANDO CRISTÓVAM DA SILVA JARDIM
Figura 1 – Situação geográfica do município de Barcarena-PA, onde está localizado o Projeto Água Verde desenvolvido
pela assessoria de Programas Ambientais da ÁLBRAS.
Fonte: Rodrigues (1986).
24
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHEIRAS CONSORCIADAS COM DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS,
NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS, BARCARENA, PARÁ
O Projeto Água Verde tem como
objetivo principal desenvolver modelos
exploratórios visando a sustentabilidade
econômica e ambiental da atividade agrícola
em nível familiar, e contribuir para um uso
mais racional dos recursos naturais no
entorno da ALBRÁS. A avaliação dos
experimentos de SAF’s do Projeto Água
Verde é uma atividade que faz parte do
Convênio de Parceria e Cooperação
Técnico-científica celebrado entre a
ALBRÁS – através do Programa de
Assessoria Ambiental – e a FCAP.
2.2 CLIMA, VEGETAÇÃO E SOLO
O clima dessa microrregião, segundo a
classificação de Köppen, é do tipo Afi, que
se caracteriza por apresentar pluviosidade
anual superior a 2000 mm, com um regime
de chuvas durante praticamente todo o ano,
e totais mensais iguais ou superiores a 60 mm
(BASTOS, 1972). A média das temperaturas
máximas é de 31,4 °C e das mínimas 22,4
°C. O total de horas de insolação por ano
fica em torno de 2 389 e a umidade relativa
do ar, em média, é de 86% (BASTOS, 1972;
SUDAM, 1984).
distróficos, textura leve e média, e
concrecionários lateríticos ou lateritas
hidromórficas. Análises feitas pelo
Departamento de Ciência do Solo da FCAP,
antes de ser implantado o módulo
agroflorestal, indicavam ser o solo do campo
experimental da ALBRÁS pobre em
fertilidade natural, com baixos teores de Ca
(0,3 meq / 100mL), Mg (0,2 meq / 100mL),
K (0,02 meq / 100mL), P (0,7 ppm), M.O.
(0,9%) e com alto teor de AI (1,2 meq /
100mL). O solo do projeto Água Verde foi
classificado como Latossolo Amarelo álico,
A moderado, de textura média, fase floresta
ombrófila densa e relevo plano. Vieira,
Oliveira e Bastos. (1971) mencionam que é
de médio a baixo o nível de produtividade
da microrregião, com potencial médio para
cultivos anuais, e baixo para cultivos perenes.
2.3 IMPLANTAÇÃO E MANUTENÇÃO DO CONSÓRCIO
De acordo com Falesi (1972) e Brasil
(1974), predominam na microrregião os
solos do tipo Latossolos Amarelos
No arranjo “B” do módulo agroflorestal
do Projeto Água Verde, entre as linhas
compostas de essências florestais e
cupuaçuzeiros, foram plantadas pupunheiras
(Figura 2), inicialmente no espaçamento de
10 m x 6 m, mas, depois de um ano, devido à
finalidade de também explorar palmito, as
linhas de pupunheiras foram adensadas,
ficando as plantas no espaçamento de 10 m
x 1,5 m. As pupunheiras foram consorciadas
com cinco variedades de bananeiras
(Yangambi, Chifre-de-boi, Prata-maçã,
Pacovan e Prata-anã). No início da
implantação do módulo agroflorestal
cultivou-se milho (Zea mays), como forma
de melhor aproveitar, inicialmente, a área
imobilizada com o consórcio.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
25
Barcarena situa-se em região de
floresta ombrófila densa aluvial, sendo
integrante do ecossistema de floresta
hileiana, mas, hoje, seu revestimento
florístico se caracteriza, principalmente, por
florestas secundárias em diferentes estágios
de desenvolvimento (BRASIL, 1974;
FALESI, 1984).
GEORGE DUARTE RIBEIRO, LEONILDE DOS SANTOS ROSA, FERNANDO CRISTÓVAM DA SILVA JARDIM
Figura 2 - Esquema de plantio do Arranjo “B” no Módulo Agroflorestal, de aproximadamente 2,7 anos de idade, do
Projeto Água Verde, ALBRÁS, Barcarena (PA), onde cupuaçuzeiros são sombreados com paricá, jenipapo e
bananeiras; e pupunheiras são consorciadas com bananeiras.
No plantio das pupunheiras e
bananeiras, foram feitas adubações
fosfatada e orgânica, consistindo, por cova,
de 200g de fosfato da Carolina do Norte
(FCN); 200g de cinza de madeira (como
fonte de K) e 6 litros de esterco de galinha.
Ademais, foram programadas adubações
orgânicas nas seguintes proporções por
cova: 1º ano : 42g FCN e 1,5 litro de esterco
de galinha; 2º ano : 90 g de FCN e 2,4 litros
de esterco de galinha; 3º ano :120g de FCN
e 3,0 litros de esterco de galinha; 4° ano :
176g de FCN e 4,0 litros de esterco de
galinha; 5º ano : 240g de FCN e 7 litros de
esterco de galinha. Constam, também, da
programação de manutenção do consórcio,
práticas de podas, desbastes e limpezas
periódicas da área.
26
2.4 DELINEAMENTO
EXPERIMENTAL, VARIÁVEIS, COLETA
DE DADOS E ANÁLISES FEITAS
O delineamento experimental
utilizado foi em blocos ao acaso, com cinco
tratamentos e quatro repetições. Os
tratamentos foram: 1) pupunheiras + banana
Yangambi; 2) pupunheiras + banana Chifrede-boi; 3) pupunheiras + banana Pratamaçã; 4) pupunheiras + banana Pacovan;
5) pupunheiras + banana Prata-anã. Foi feita
análise de variância, com o uso do programa
SAEG (GOMES, 1992), para avaliar o
desenvolvimento
vegetativo
das
pupunheiras, sendo para isto tomadas as
variáveis de altura total, DAP e número de
perfilhos. Também foram tomadas medições
das variedades de bananeiras (altura total,
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHEIRAS CONSORCIADAS COM DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS,
NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS, BARCARENA, PARÁ
diâmetro da base do pseudocaule e nº de
perfilhos), para análise de seus
comportamentos.
A Figura 3 mostra como estão
definidas as parcelas, tratamentos e blocos
do consórcio em questão.
Figura 3 - Esquema de blocos, tratamentos e parcelas no conjunto de plantas do arranjo “B” do Módulo Agroflorestal do
Projeto Água Verde, ALBRÁS, Barcarena, Pará.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
consorciadas (Figuras 4 e 5).
Os resultados da análise de variância,
feita para avaliação do crescimento inicial
das pupunheiras, mostraram não existir
diferença significativa entre os tratamentos
do consórcio com as diversas variedades de
bananeiras, ao nível de 5% de probabilidade
(Tabela 1). Neste conjunto de plantas, as
pupunheiras mostraram um bom
desenvolvimento
inicial
quando
comparadas a outros experimentos
desenvolvidos em condições parecidas
(Tabela 2), apresentando crescimento inicial
uniforme, independentemente das
variedades de bananeiras com que estavam
As pupunheiras destinadas à extração
de palmito, que adensaram as linhas de
pupunheiras no ano seguinte à implantação
do módulo agroflorestal, como forma de
enriquecê-lo, apresentaram desenvolvimento
satisfatório e, aparentemente, embora
estejam tão próximas nas linhas de
pupunheiras (à distância de 1,5 m uma da
outra), não estão causando maiores prejuízos
às pupunheiras mais velhas ( de 32 meses de
idade ), destinadas à exploração de frutos,
que apresentam desenvolvimento inicial
muito bom, sem maiores problemas de
qualquer ordem.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
27
GEORGE DUARTE RIBEIRO, LEONILDE DOS SANTOS ROSA, FERNANDO CRISTÓVAM DA SILVA JARDIM
Tabela 1 –
Resultados da análise de variância e estatísticas simples aplicadas à associação
de pupunheiras de aproximadamente 2,8 anos com diferentes variedades de
bananeiras do Projeto Água Verde, ALBRÁS, Barcarena, Pará.
Fonte de
Variação
G.L
Tratamentos
Bloco
4
3
12
Média geral
Coef. de variação
ALTURA
PERFILHOS
DAP
QM
F
QM
F
2,0057
0,7853
1,2190
1,64NS
3,7632
3,8579
3,9359
0,956NS
6,44m
17,145
QM
F
6,1750 1,895NS
0,2166
3,2583
16,21cm
12,239
7,05unid
25,604
NS = não significativo ao nível de 5% probabilidade
G.L. = graus da liberdade
DAP = diâmetro à altura do peito
QM = quadrado médio
UNID = unidade
Tabela 2 – Crescimento inicial de pupunheira (Bactris gasipaes) em alguns experimentos
desenvolvidos na Amazônia e em São Paulo.
EXPERIMENTO
(fonte)
LOCAL
Fonseca,
Corrêa e Escobar (1983)
Bovi, Godoy Junior
e Saes (1987)
Arévalo, Szott
e Perez (1993)
Deus et al. (1993)
Este trabalho
Manaus - AM
35
-
2,39
Ubatuba - SP
36
-
-
AT
IMA
~
–
DAP
28
=
=
=
=
IDADE ALTURA (m) DAP (m)
PER(meses) AT
IMA DAP IMA FILHOS
Yurimáguas
36
(Peru)
Rio Branco - AC 36
Barcarena - PA 32
–~ 4,0 ~
– 1,33
–~ 7,0
6,44
-
-
12,48 4,2
9,0
3,0
–~ 2,33
2,38 16,21 6,0
6,3
8,0
7,0
altura total
incremento médio anual
aproximadamente
diâmetroà altura do peito
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHEIRAS CONSORCIADAS COM DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS,
NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS, BARCARENA, PARÁ
Figura 4 - Valores médios de crescimento inicial em altura total de pupunheiras de 2,7 anos de idade consorciadas com
diferentes variedades de bananeiras, no Projeto Água Verde, da ALBRÁS, Barcarena (PA), Tratamentos:
1 - pupunheira + banana Yangambi; 2 - pupunheira + banana Chifre-de-boi; 3 - pupunheira + banana Prata-maçã; 4 pupunheira + banana Pacovan; 5 - pupunheira + banana Prata-anã.
Figura 5 - Valores médios de crescimento inicial em diâmetro à altura do peito (DAP) de pupunheiras de 2,7 anos de
idade consorciadas com diferentes variedades de bananeiras, no Projeto Água Verde, da ALBRÁS, Barcarena (PA),
Tratamentos: 1 - pupunheira + banana Yangambi; 2 - pupunheira + banana Chifre-de-boi; 3 - pupunheira + banana Pratamaça; 4 - pupunheira + bana Pacovan; 5 - pupunheira + banana Prata-anã.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
29
GEORGE DUARTE RIBEIRO, LEONILDE DOS SANTOS ROSA, FERNANDO CRISTÓVAM DA SILVA JARDIM
4 CONCLUSÃO
A avaliação do consórcio demonstra
que o crescimento inicial das pupunheiras
não foi influenciado diferentemente pela
associação com as diferentes variedades de
bananeiras, e, então, para este tipo de
consórcio, em condições semelhantes às que
esse foi desenvolvido, deve-se optar pelas
variedades de bananeiras mais adaptadas,
mais produtivas e mais valorizadas no
mercado local. As pupunheiras apresentam
desempenho muito bom, sem maiores
problemas de qualquer ordem.
A opção por trabalhar com espécies
nativas ou exóticas bem adaptadas que se
desenvolvem bem nas condições de solos
ácidos e fracos e temperaturas e umidades
elevadas da Amazônia, como a pupunheira
e a bananeira, e os bons cuidados
dispensados aos SAF’s do Projeto Água
Verde, por certo estão na origem do bom
desempenho que o consórcio tem
apresentado, abrindo perspectivas de, com
alguns ajustes, evidenciar modelo bem
sucedido.
Recomenda-se que seja feito
acompanhamento sistemático da produção
das espécies componentes do consórcio para
que, estabelecendo-se a relação custos/
benefícios, seja possível ter uma melhor
idéia sobre a viabilidade econômica do
modelo proposto.
30
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(1ª aproximação). Belém, 1972. (Boletim
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Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
AVALIAÇÃO DE CRESCIMENTO INICIAL DE PUPUNHEIRAS CONSORCIADAS COM DIFERENTES VARIEDADES DE BANANEIRAS,
NO PROJETO ÁGUA VERDE, ALBRÁS, BARCARENA, PARÁ
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Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 21-31, jul./dez. 2003
31
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E
DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO
E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO
E DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL1
Arlem Nascimento de OLIVEIRA2
Luiz Antonio de OLIVEIRA3
RESUMO: A ocorrência e a quantidade dos fungos micorrízicos arbusculares (FMA) dependem
das características da planta e dos fatores ambientais. Esta pesquisa avaliou a influência das
características químicas de um Latossolo sobre a ocorrência de FMA associados às raízes de plantas
de cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum Schum) e pupunheira (Bactris gasipaes). Selecionaramse cinco plantas de cada espécie como repetições, das quais coletou-se amostras de raízes e solos
para avaliações, respectivas, dos níveis de colonização micorrízica, fertilidade do solo e número de
esporos. Na estação seca, os teores de Al e K exerceram influência negativa sobre a colonização por
FMA no cupuaçu. Já na chuvosa, houve aumentos correlatos com o pH e os teores de Ca e Mg,
sendo esses dois últimos também importantes para a colonização radicular pelos FMA na pupunha.
Os esporos de FMA nos solos rizosféricos do cupuaçu e pupunha mostraram aumentos relacionados
com os teores do K e P, respectivamente, durante o período seco. Na estação chuvosa, as concentrações
de Al e K reduziram as quantidades de esporos no solo. De uma forma geral, os fungos micorrízicos
arbusculares foram favorecidos pela elevação do pH e redução do Al trocável, nas condições edáficas
avaliadas.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Ecologia Microbiana, Latossolo, Theobroma grandiflorum,
Bactris gasipaes.
SOIL CHEMICAL PROPERTIES ASSOCIATED WITH MYCORRHIZAL
FUNGI ESPORULATION AND COLONIZATION OF CUPUASSU AND
PEACH PALM PLANTS IN CENTRAL AMAZONIA
ABSTRACT: The occurrence and the amount of arbuscular mycorrhizal fungi (AMF) depend on
plant characteristics and environmental factors. This work determined the effect of the chemical
properties of an Oxisol in the presence of arbuscular mycorrhizal fungi associated to root systems of
cupuassu and peach palm trees. Soil fertility, number of spores and levels of mycorrhizal colonization
1
2
3
Aprovado para publicação em 29.8.2003
Engenheiro Agrônomo, M.Sc., aluno do curso de Doutorado em Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas
– UFAM. Av. Gal. Rodrigo Otávio, 3000 – Coroado. Manaus, AM. E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, Ph.D., Pesquisador da Coordenação de Pesquisas em Ciências Agronômicas – CPCA/INPA e
professor dos cursos de pós-graduação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Univ. Federal do
Amazonas (UFAM) e Univ. do Estado do Amazonas (UEA). E-mail: [email protected] – C. Postal 478 – 69011970 – Manaus – Amazonas.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
33
ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
were determined in samples of roots and soil collected from five selected plants of each specie in the
dry and rainy season. Levels of Al and K decreased root colonization of cupuassu in the dry season.
Mycorrhizal colonization of cupuassu root systems increased with increases in pH and levels of Ca
and Mg of the soil during the rainy season. Ca and Mg content of soils were also important for MAF
colonization of peach palm roots. Rhizosphere spores of cupuassu and peach palm increased with
increases in K and P contents of soil, respectively, in the dry period. Levels of Al and K reduced the
amounts of spores in the soil during the rainy season. In general, arbuscular mycorrhizal fungi were
favored by increases in pH and reduction of exchangeable Al of the soil.
INDEX TERMS: Microbial Ecology, Oxisol, Theobroma grandiflorum, Bactris gasipaes.
1 INTRODUÇÃO
Os fungos micorrízicos arbusculares
(FMA) têm sido bastante estudados,
mostrando-se importantes para a absorção
de nutrientes pelas plantas, especialmente
o fósforo (BONETTI, 1984; MARSCHNER; DELL, 1994). Na Amazônia,
vários autores (ST. JOHN, 1980; BONETTI; NAVARRO, 1990; FIGUEIREDO,
1994; OLIVEIRA; OLIVEIRA; MOREIRA, 1998, OLIVEIRA, 2001) reportam a
ocorrência natural desses fungos em muitas
espécies nativas da região.
Apesar da importância prática e
econômica do uso destas associações para
as plantas tropicais, são necessárias mais
informações quanto às suas ocorrências
naturais e dos efeitos das características
químicas do solo sobre o estabelecimento e
funcionamento da simbiose. Alguns estudos
já foram realizados neste sentido
(GUITTON, 1996; TRINDADE; SIQUEIRA, 1998; OLIVEIRA, 2001). Guitton
(1996) e Oliveira (2001) observaram a
influência de algumas características do solo
sobre as colonizações micorrízicas em
34
espécies florestais e frutíferas da Amazônia
Central.
Devido à diversidade de espécies
vegetais, fungos micorrízicos e condições
edáficas da região, este tipo de estudo deve
ser intensificado, para que se compreenda
melhor a ocorrência e dinâmica desses
microrganismos, permitindo, através do
manejo controlado desses fungos nativos,
aumentar a eficiência da associação plantas
x fungos em solos ácidos e de baixa
fertilidade da Amazônia.
O presente trabalho objetivou avaliar
a influência de algumas características
químicas de um Latossolo Amarelo sobre a
esporulação e o os níveis de colonização
micorrízica em plantas de cupuaçu e
pupunha na Amazônia.
2 MATERIAL E MÉTODOS
Foram selecionadas, ao acaso, cinco
plantas de cupuaçu e de pupunha de uma
plantação experimental da Faculdade de
Ciências Agrárias da Fundação
Universidade do Amazonas, localizada na
Rodovia BR 174, km 38, Manaus –
Amazonas, cultivadas sobre Latossolo
Amarelo de textura argilosa.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E
DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
Ribeiro (1976) define o clima de
Manaus como Afi, no esquema de Köppen,
com médias anuais de 2 418 mm de
precipitação; 26,7ºC de temperatura e
87,5% de umidade relativa.
No período de agosto de 1996 a maio
de 1997, foram coletadas amostras de raízes
e solos da rizosfera de cada espécie, para
quantificar, respectivamente, os níveis de
colonização micorrízica, contagem de
esporos e fertilidade do solo; os meses de
avaliação foram divididos em duas estações:
agosto, setembro e novembro de 1996,
estação seca, e dezembro, fevereiro, abril e
maio de 1997, estação chuvosa
(FIGUEROA; NOBRE, 1990).
(CPCA/INPA), cujas análises encontram-se
no Tabela 1.
Procedeu-se ainda, uma análise
quantitativa dos esporos micorrízicos em
30 g de solo em cada época de amostragem,
seguindo a técnica proposta por Gerdemann
e Nicolson (1963).
Realizaram-se as análises estatísticas
dos dados, bem como das correlações,
segundo Ferreira (1991), entre as taxas de
colonização radicular ou número de esporos
(variáveis dependentes) e os parâmetros
químicos dos solos rizosféricos (variáveis
independentes) em cada uma das espécies
estudadas.
As amostras de solo foram retiradas à
profundidade de 0 – 10 cm, formando, por
espécie, dez amostras compostas em cada
mês de coleta. Em seguida, essas foram
analisadas quimicamente (VETTORI, 1969;
EMBRAPA, 1997) no Laboratório Temático
de Solos e Plantas da Coordenação de
Pesquisas em Ciências Agronômicas
As correlações foram analisadas de
forma pontual, correlacionando-se os teores
de nutrientes da rizosfera de cada espécie
em cada época de amostragem, com os
níveis de colonização micorrízica e número
de esporos observados no mesmo dia de
coleta, resultando para as plantas de
cupuaçu e de pupunha, totais de 15 e 20
pares ordenados, respectivamente. Em
seguida, relacionaram-se as mesmas
variáveis, porém, independente dos meses
de coleta ou estações, gerando 35 pontos
para cada espécie. E, por fim, uma
correlação global entre as variáveis
estudadas, dispondo-se de 70 pontos de
correlação, visando obter informações
quanto à influência das características
químicas do solo, sobre a ocorrência natural
dos fungos micorrízicos nas condições
edáficas avaliadas.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
35
Os FMA foram clarificados com KOH
(10%) e corados em lactoglicerol e tryphan
blue, segundo a técnica de Kormanick,
Bryam e Schultz (1980). As taxas de
colonização micorrízica foram avaliadas
com auxílio de lupa e microscópio,
adotando-se o método da lâmina para
quantificá-las, conforme Giovanetti e Mosse
(1980). Neste trabalho, utilizaram-se 50
segmentos de raízes por planta, divididos
em cinco séries de dez.
ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
Tabela 1 – Características químicas do solo das rizosferas das plantas de cupuaçu e de
pupunha cultivadas na Amazônia. Manaus (AM), 1996 a 1997.
Características
Amplitude de variação
Valores médios
Rizosfera do cupuaçu
pH (H2O)
Al (cmolc kg-1)
Ca (cmolc kg-1)
Mg (cmolc kg-1)
K (mg kg-1)
P (mg kg-1)
2,4 – 4,4
0,9 – 2,0
0,6 – 1,5
0,2 – 1,0
44 – 82
0,8 – 3,4
3,9
1,5
0,9
0,5
61,0
2,1
Ac
AN
B
B
A
B
Rizosfera da pupunha
pH (H2O)
Al (cmolc kg-1)
Ca (cmolc kg-1)
Mg (cmolc kg-1)
K (mg kg-1)
P (mg kg-1)
3,8 – 4,6
0,8 – 1,8
0,6 – 1,8
0,3 – 1,7
56 – 100
1,7 – 3,4
4,1
1,3
1,1
0,8
78,0
2,5
Ac
AN
B
B
A
B
Nota: Convenções utilizadas: Ac = ácido; AN = Altamente nocivo; B = Baixo e A = Alto
(Cochrane et al., 1985).
Houve oito correlações significativas
do total de 28 entre as colonizações por
fungos micorrízicos e as características
químicas do solo, ao analisá-las dentro das
estações estudadas. Através dos valores de
r, pode-se verificar que as colonizações
radiculares do cupuaçu apresentaram seis
correlações linearmente significativas,
sendo duas negativas na estação seca e uma
na chuvosa, e três linearmente positivas na
estação chuvosa (Tabela 2). Comparando
as duas estações, nota-se que, em ambas,
o K relacionou-se inversamente com as
colonizações micorrízicas, confirmando os
resultados de Figueiredo (1994), porém,
diferentes das observações de Oliveira e
Oliveira (2000), segundo as quais a
elevação dos teores de K em solos
deficientes pode favorecer à micorrização
dessa espécie. Por outro lado, o resultado
neste estudo deve-se, possivelmente, à alta
disponibilidade desse elemento na
rizosfera dessa planta (COCHRANE et al.,
1985), onde a faixa de 44 a 82 mg kg-1 de
K
disponível
estaria
atuando
favoravelmente sobre a esporulação de
algumas espécies de fungos micorrízicos
arbusculares (OLIVEIRA; OLIVEIRA,
2000).
36
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E
DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
Na rizosfera do cupuaçu, pode-se
observar ainda que a colonização radicular
dessa espécie é reduzida pelos altos teores
de Al trocável (Tabela 1), corroborando com
outros trabalhos (LOPES; SIQUEIRA;
ZAMBOLIM, 1983; SIQUEIRA;
FRANCO, 1988, OLIVEIRA, 2001) que
consideram o Al como um dos elementos
que influenciam negativamente a
colonização micorrízica. De acordo com
esses trabalhos, os fungos micorrízicos são
muito sensíveis à toxidez por esse cátion,
com este elemento atuando diretamente
sobre os propágulos fúngicos. Com a
redução dos propágulos no solo, também
poderá ocorrer diminuição na colonização
radicular. Além disso, o Al inibe o
crescimento radicular e a formação de raízes
finas, onde se formam as micorrizas.
O efeito fungistático do Al sobre os
fungos micorrízicos e/ou sobre as raízes
ajudaria a explicar a correlação negativa
verificada neste estudo, principalmente
depois de se ter constatada a redução
correlata também no número de esporos na
mesma estação avaliada (Tabela 3).
As colonizações radiculares das plantas
de cupuaçu e guaraná foram influenciadas
positivamente pelas concentrações de Ca e
Mg no solo (Tabela 2). Siqueira e Franco
(1988) mencionam que a acidez do solo
influencia, qualitativa e quantitativamente,
as micorrizas; a calagem dos solos ácidos
elimina os fatores fungistáticos, estimulando,
com isso, a formação e o estabelecimento da
associação. Rheinheimer et al. (1993)
observaram que a adição de CaCO3 e MgCO3
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
proporciona melhor estabelecimento dos
fungos micorrízicos no sistema radicular de
trevo nativo. É provável que aumentando as
concentrações de Ca e Mg no solo através
da calagem, provoque não somente a redução
do Al trocável, mas, também, melhorias do
ambiente rizosférico e, conseqüentemente, as
relações ecológicas dessas associações
(OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2000).
Os números de esporos rizosféricos do
cupuaçu relacionaram-se de forma positiva
com o K na estação seca, confirmando
parcialmente o resultado registrado por
Oliveira (2001), que observou essa mesma
correlação, porém, na estação chuvosa.
Foram observadas ainda relações inversas
entre o mesmo nutriente e o Al nas estações
chuvosa e seca, respectivamente (Tabela 3).
Conforme discutido anteriormente, a alta
concentração de K pode estar reduzindo a
população de certas espécies fúngicas
através da esporulação, ao mesmo tempo
que poderá estar estimulando a colonização
das raízes por outras espécies, à medida que
ocorre variação no conteúdo de água na
rizosfera das plantas. Essa observações
ajudam a explicar, pelo menos em parte, as
correlações positivas (Tabela 3) e negativa
encontradas (Tabelas 2 e 3). Em relação à
pupunha, os esporos micorrízicos
correlacionaram-se da maneira positiva com
o P e negativamente com o Al, Ca e K
(Tabela 3), indicando que tanto as baixas
concentrações de P e Ca quanto as altas de
Al e K podem estar estimulando a produção
de
esporos
nessas
condições
edafoclimáticas.
37
ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
Tabela 2 – Relações entre os fungos micorrízicos arbusculares (FMA) e as características
químicas do solo das rizosferas das plantas de cupuaçu e de pupunha na
Amazônia. Manaus, Amazonas, 1996 a 1997.
Espécies
Equações
Valores de r
Estação seca (agosto, setembro e novembro)
Cupuaçu
FMA = 1,933 pH + 11,285
FMA = - 6,397 Al + 8,967
FMA = 0,589 P + 20,178
FMA = -0,241 K + 34,620
FMA = -9,260 Ca + 26,944
FMA = 4,380 Mg + 16,426
0,208 ns
0,637 *
0,085 ns
0,850 **
0,477 ns
0,078 ns
Pupunha
FMA = -0,198 pH + 25,334
FMA = -1,557 Al + 26,619
FMA = -1,868 P + 29,040
FMA = 0,050 K + 28,311
FMA = 4,156 Ca + 20,211
FMA = 1,946 Mg + 22,925
0,208 ns
0,020 ns
0,420 ns
0,405 ns
0,674 *
0,527 *
Estação chuvosa (dezembro, fevereiro, abril e maio)
Cupuaçu
FMA = 4,279 pH + 3,515
FMA = 0,545 Al + 19,586
FMA = 0,626 P + 19,221
FMA = -0,173 K + 30,281
FMA = 4,076 Ca + 24,144
FMA = 5,202 Mg + 23,152
0,580 *
0,067 ns
0,164 ns
0,580 *
0,487 *
0,630 *
Pupunha
FMA = 1,791 pH + 16,786
FMA = -3,928 Al + 29,385
FMA = 1,101 P + 21,324
FMA = 0,042 K + 20,856
FMA = -3,340 Ca + 28,061
FMA = 2,831 Mg + 21,885
0,157 ns
0,415 ns
0,228 ns
0,186 ns
0,372 ns
0,406 ns
Nota: Convenções utilizadas: ns, não significativo. * , ** significativos a 5% e 1%, respectivamente.
38
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E
DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
Tabela 3 – Relações entre os números de esporos de fungos micorrízicos arbusculares
(NEFMA) e as características químicas do solo das rizosferas das plantas de
cupuaçu e de pupunha na Amazônia. Manaus, Amazonas, 1996 a 1997.
Espécies
Estação seca
Cupuaçu
Equações
Valores de r
NEFMA = -10,880 pH + 134,510
NEFMA = -29,960 Al + 138,340
NEFMA = 5,699 P + 78,619
NEFMA = 1,018 K + 25,596
NEFMA = 43,300 Ca + 53,919
NEFMA = -21,040 Mg + 103,680
0,330 ns
0,566 *
0,156 ns
0,680 *
0,446 ns
0,300 ns
NEFMA = -31,360 pH + 236,730
NEFMA = 16,572 Al + 87,393
NEFMA = 33,705 P + 28,257
NEFMA = -0,514 K + 148,680
NEFMA = -42,260 Ca + 153,560
NEFMA = -24,770 Mg + 129,670
0,234 ns
0,170 ns
0,580 *
0,321 ns
0,525 *
0,504 ns
Cupuaçu
NEFMA = 85,426 pH – 170,900
NEFMA = -30,020 Al + 216,620
NEFMA = 14,291 P + 145,250
NEFMA = -5,441 K + 483,250
NEFMA = -80,810 Ca + 246,390
NEFMA = -81,530 Mg + 215,260
0,340 ns
0,154 ns
0,157 ns
0,766 **
0,406 ns
0,415 ns
Pupunha
NEFMA = 65,769 pH – 71,190
NEFMA = -191,300 Al + 453,270
NEFMA = -55,160 P + 346,830
NEFMA = -3,843 K + 507,050
NEFMA = -85,880 Ca + 300,520
NEFMA = -90,980 Mg + 276,810
0,172 ns
0,604 *
0,342 ns
0,505 *
0,286 ns
0,390 ns
Pupunha
Estação chuvosa
Nota: Convenções utilizadas: ns, não significativo. * , ** significativos a 5% e 1%, respectivamente.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
39
ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
Quando se relacionaram as mesmas
variáveis, porém independente dos meses
de coleta ou estações, do total de doze
correlações, seis foram negativas e duas
linearmente positivas (Figuras 1 e 2). As
correlações registradas para as plantas de
cupuaçu mostram que o baixo pH e o alto
teor de K no solo influenciam a colonização
radicular dessa espécie independente dos
meses de avaliação (Figura 1). Já na
rizosfera da pupunheira, além de ratificar a
relação positiva da colonização radicular
com o Mg, notou-se uma tendência negativa
do Al trocável sobre a associação
micorrízica. Essa tendência confirma alguns
trabalhos na região (GUITTON, 1996;
OLIVEIRA, 2001), que também
observaram essa relação inversa entre os
fungos micorrízicos arbusculares e os teores
de Al.
Todas as correlações envolvendo as
características químicas do solo e os
números de esporos micorrízicos foram
negativas. A baixa concentração de P
disponível reduziu significativamente a
esporulação micorrízica, independente da
espécie avaliada (Figura 2).
(c)
(c)
26
24
FMA = 6,992 pH - 8,106
r = 0,617 **
Colonização por FMA (%)
Colonização por FMA (%)
26
22
20
18
16
14
3,3
3,5
3,7
3,9
4,1
4,3
22
20
18
16
14
40
4,5
FMA = -0,209 K + 32,423
r = 0,769 **
24
48
56
64
Colonização por FMA (%)
Colonização por FMA (%)
88
1,4
1,7
2,0
30
28
26
24
FMA = -4,222 Al + 29,92
r = 0,500 *
20
18
0,7
80
(p)
(p)
30
22
72
-1
K (mg kg )
pH
0,9
1,1
1,3
1,5
-1
Al (cmolc kg )
1,7
1,9
28
FMA = 3,781 Mg + 21,23
r = 0,692 **
26
24
22
20
18
0,2
0,5
0,8
1,1
Mg (cmol c kg-1 )
Figura 1 – Relações entre as colonizações por fungos micorrízicos arbusculares (FMA) e o pH, teores de K, Al e Mg nas
rizosferas das espécies estudadas. c = cupuaçu; p = pupunha. * e ** significativos a 5 e 1% respectivamente. As linhas
tracejadas indicam o intervalo de confiança de 95% de confiança da reta de correlação.
40
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E
DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
(c)
Nº
o esporos por 30g de solo
NEFMA = -56,330 P + 257,58
r = 0,576 **
N esporos por 30g de solo
NºNoesporos
desolo
solo
esporos por
por 30g
30g de
(c)
310
265
220
175
130
85
40
0,6
1,1
1,6
2,1
2,6
3,1
3,6
280
NEFMA = -3,588 K + 356,50
r = 0,604 **
240
200
160
120
80
40
40
48
Nºo esporos por 30g de solo
NEFMA = -229,700 Al + 467,3
r = 0,742 **
N esporos por 30g de solo
o esporos por 30g de solo
Nº
N esporos
por 30g de solo
(p)
400
280
220
160
100
40
0,7
0,9
1,1
1,3
64
72
80
88
K (cmol c kg )
P (mg kg )
340
56
-1
-1
1,5
1,7
1,9
-1
Al (cmolc kg )
400
(P)
340
NEFMA = -72,720 P + 346,97
r = 0,426 *
280
220
160
100
40
1,4
1,8
2,2
2,6
3,0
3,4
3,8
-1
P (mg kg )
Figura 2 – Relações entre os números de esporos de fungos micorrízicos arbusculares (NEFMA) e os teores de P, K e Al
nas rizosferas das espécies estudadas. c = cupuaçu; p = pupunha. * e ** Significativos a 5 e 1% respectivamente. As
linhas tracejadas indicam o intervalo de confiança de 95% de confiança da reta de correlação.
Estudos envolvendo teores de P e
colonização micorrízica mostraram que nos
níveis de 3 a 100 mg kg-1 ocorrem benefícios
da simbiose para a planta. Entre 100 e 300
mg kg -1 há inibição da associação
(SIQUEIRA; COLOZZI-FILHO, 1986).
Então, é possível que em solos escassos de
P, como os amazônicos, as plantas
desenvolvam mecanismos para estimular a
germinação dos esporos. Com a esporulação
sendo estimulada, a colonização radicular
das plantas também será favorecida,
aumentando, com isso, a habilidade
exploratória das plantas em condições
ambientais adversas.
número de esporos dos fungos micorrízicos
arbusculares, e as características químicas
(pH, Al, Ca, Mg, K e P) dos solos
rizosféricos das espécies estudadas em
ambas as estações de coleta (Figura 3).
Realizaram-se ainda correlações
globais envolvendo o conjunto total dos
dados das colonizações radiculares ou
Os fungos e os esporos micorrízicos
relacionaram-se positivamente com o pH e
inversamente com o alumínio trocável
(Figura 3). Esses resultados mostram
claramente a importância da acidez do solo
sobre o estabelecimento e o sucesso da
associação fungo-plantas, independente da
estação e espécie avaliada. Os valores de r
na figura 3 foram menores, indicando que
outros fatores não analisados estão
influenciando mais essas características dos
fungos micorrízicos, o que é esperado numa
análise globalizada como essa.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
41
ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
32
FMA = 6,095 pH - 3,09
r = 0,417 **
28
Colonização por FMA (%)
Colonização por FMA (%)
32
24
20
16
12
3,2
3,5
3,8
4,1
4,4
FMA = -3,696 Al + 27,246
r = 0,297 *
28
24
20
16
12
0,6
4,7
0,9
1,5
1,8
2,1
400
N esporos por 30g de solo
NEFMA = 99,329 - 251,40
r = 0,324 *
240
160
NEFMA = 183,130 Al + 267,69
r = 0,322 *
320
240
160
80
o
80
o
N esporos por 30g de solo
400
320
1,2
Al (cmolc kg-1 )
pH
0
3,2
3,5
3,8
4,1
4,4
4,7
pH
0
0,6
0,9
1,2
1,5
1,8
2,1
Al (cmolc kg-1 )
Figura 3 – Relações globais entre os FMA ou NEFMA e a acidez nas rizosferas das espécies estudadas. * e ** significativos
a 5 e 1% respectivamente. As linhas tracejadas indicam o intervalo de confiança de 95% de confiança da reta de correlação.
Muitos autores (HEPPER, 1984;
SIQUEIRA; MAHMUD; HUBBELL,
1986; SIQUEIRA; FRANCO, 1988)
ressaltam o pH como sendo o fator mais
evidente no desenvolvimento das
micorrizas arbusculares, influenciando na
disponibilidade de nutrientes e no
comportamento quantitativo e qualitativo
das espécies; as variações na acidez do
solo são fatores de grande relevância,
tanto para a ecologia quanto para a
distribuição dos fungos micorrízicos
(SIQUEIRA, 1994).
4 CONCLUSÃO
42
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 33-44, jul./dez. 2003
a) A redução da acidez do solo e a
elevação dos teores de Ca e Mg disponíveis
tendem a favorecer as colonizações
radiculares por fungos micorrízicos das
plantas de cupuaçu e de pupunha.
b) Os números de esporos dos fungos
micorrízicos arbusculares nativos foram
inversamente relacionados com os baixos
níveis de P do solo.
c) As altas concentrações de Al e K
trocáveis afetam negativamente as
associações micorrízicas independente das
espécies ou épocas de avaliação;
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, ESPORULAÇÃO E COLONIZAÇÃO MICORRÍZICA EM PLANTAS DE CUPUAÇUZEIRO E
DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
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CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, MATÉRIA SECA E ACUMULAÇÃO DE MINERAIS NAS RAÍZES DE ADUBOS VERDES, EM
RESPOSTA AO CALCÁRIO E AO FÓSFORO
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, MATÉRIA SECA
E ACUMULAÇÃO DE MINERAIS NAS RAÍZES DE ADUBOS
VERDES, EM RESPOSTA AO CALCÁRIO E AO FÓSFORO1
Antonio Rodrigues FERNANDES2
Lilian Cristiane Fernandes LINHARES3
Francisco Ilton de Oliveira MORAIS4
George Rodrigues da SILVA5
RESUMO: Pesquisas com leguminosas utilizadas como adubos verdes se intensificaram nos últimos
anos, no entanto, estudos do sistema radicular como fornecedor de biomassa e de nutrientes têm
sido escassos. Com o objetivo de avaliar o efeito da calagem e do fósforo sobre as características
químicas do solo, a produção de biomassa e nutrição mineral do sistema radicular de espécies de
adubos verdes, realizou-se um experimento num Latossolo Amarelo de Belém (PA). Utilizou-se um
delineamento em blocos ao acaso com 4 repetições, em esquema fatorial 3x3x3. Os fatores
constituíram de três espécies, três doses de P (0, 25 e 45 mg dm-3) e três doses de calcário (0; 4 e 8
t ha-1). Foram semeadas quatro sementes por vaso, procedendo-se o desbaste para duas plantas dez
dias depois do semeio. Colheram-se as plantas 60 dias após a germinação. A calagem aumentou os
valores de pH, a disponibilidade de P, Ca e Mg no solo e seus teores nas raízes, bem como as
quantidades acumuladas dos nutrientes estudados e a produção de biomassa do sistema radicular e
diminuiu o Al trocável do solo. Aumentos expressivos na disponibilidade de P foram proporcionados
pela interação das doses de fósforo com a calagem, se refletindo em maiores teores e acúmulos no
sistema radicular das leguminosas.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Calagem, Adubação Fosfatada, Sistema Radicular, Nutrição
Mineral, Stizolobium atterrimum, Stizolobium cochinchinensis, Canavalia ensiformes.
SOIL CHEMICAL PROPERTIES ASSOCIATED WITH MYCORRHIZAL
FUNGI ESPORULATION AND COLONIZATION OF CUPUASSU AND
PEACH PALM PLANTS IN CENTRAL AMAZONIA
ABSTRACT: The occurrence and the amount of mycorrhizal arbuscular fungi (MAF) depend on
plant characteristics and environmental factors. This work determined the effect of the chemical
properties of an Oxisol in the presence of arbuscular mycorrhizal fungi associated to root systems of
1
2
3
4
5
Aprovado para publicação em 4.11.2003
Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor da Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA. E-mail:
[email protected]
Engenheira Agrônoma, aluna do curso de Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas da UFRA
Engenheiro Agrônomo, PhD., Professor Visitante da UFRA. E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Adjunto da UFRA. Departamento de Ciência do Solo. E-mail: [email protected]
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 45-54, jul./dez. 2003
45
ANTONIO RODRIGUES FERNANDES, LILIAN CRISTIANE FERNANDES LINHARES, FRANCISCO ILTON DE OLIVEIRA MORAIS,
GEORGE RODRIGUES DA SILVA
cupuassu and peach palm trees. Soil fertility, number of spores and levels of mycorrhizal colonization
were determined in samples of roots and soil collected from five selected plants of each specie in the
dry and rainy season. Levels of Al and K decreased root colonization of cupuassu in the dry season.
Mycorrhizal colonization of cupuassu root systems increased with increases in pH and levels of Ca
and Mg of the soil during the rainy season. Ca and Mg content of soils were also important for MAF
colonization of peach palm roots. Rhizosphere spores of cupuassu and peach palm increased with
increases in K and P contents of soil, respectively, in the dry period. Levels of Al and K reduced the
amounts of spores in the soil during the rainy season. In general, arbuscular mycorrhizal fungi were
favored by increases in pH and reduction of exchangeable Al of the soil.
INDEX TERMS: Microbial Ecology, Oxisol, Theobroma grandiflorum, Bactris gasipaes.
1 INTRODUÇÃO
Na Região Amazônica há a
predominância de duas classes de solo, os
Latossolos e os Argissolos, que, juntos,
representam cerca de 70% da região
(RODRIGUES, 1996). Tais solos se
apresentam, na grande maioria, com elevada
acidez, elevada saturação em Al e Mn
trocáveis, associados à baixa concentração
de nutrientes, principalmente P disponível,
Ca e Mg (SANCHES, 1981; VIEIRA;
SANTOS, 1987).
Estes solos têm sido submetidos a um
manejo inadequado com conseqüente
deterioração das qualidades físicas,
químicas e biológicas, levando à perda de
sua capacidade produtiva. Uma das formas
de reverter esta situação será o uso de
sistemas conservacionistas, nos quais
integre uma eficiente cobertura do solo
mediante o estabelecimento de sistemas de
rotação ou consorciação de culturas que
envolvam espécies capazes de proteger o
solo pela exuberante capacidade vegetativa
e pela reciclagem dos seus nutrientes
(DERPSCH, 1984). As leguminosas
destacam-se entre estas espécies, pois
podem ser utilizadas como coberturas e
adubação verde, possibilitando o aumento
do rendimento das culturas que as sucedem,
pela redução da erosão, conservação de
água, reciclagem de nutrientes e melhoria
das características químicas do solo.
Muitos têm sido os trabalhos
mostrando a importância das leguminosas
como adubos verdes, no entanto, estes foram
voltados, quase que exclusivamente, a
avaliar a produção de matéria seca da parte
aérea e a quantidade de N imobilizada por
estas espécies (AMADO; MIELHICZUK;
FERNANADEZ, 2000; FAVERO et al.,
2000; GONÇALVES; CERETTA; BASSO,
2000; ALVARENGA et al., 1995;
TEIXEIRA; TESTA; MIELNICZUK, 1994;
CERETA et al., 1994; OLIVEIRA, 1994),
esquecendo a importante contribuição do
sistema radicular. Este tem grande
importância pela quantidade de matéria
orgânica e de nutrientes que se soma à parte
aérea, e, também, por ser a fonte primária
de agentes estabilizadores da estrutura do
solo (McVAY; RADCLIFF; HARGROVE,
1989; PERFECT et al., 1990).
46
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 45-54, jul./dez. 2003
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, MATÉRIA SECA E ACUMULAÇÃO DE MINERAIS NAS RAÍZES DE ADUBOS VERDES, EM
RESPOSTA AO CALCÁRIO E AO FÓSFORO
As leguminosas quando cultivadas em
solos de baixa fertilidade natural não têm
apresentado bom desenvolvimento
(FORESTIERI; DE-POLLI, 1990), embora
tenham conseguido aumento da
produtividade da cultura subseqüente
(DE-POLLI; CHADA, 1989). Portanto, há
necessidade de correção da acidez dos solos,
bem como uma adubação balanceada,
principalmente a base de fósforo, para que
possam expressar todo o potencial produtivo.
Para otimizar o uso das leguminosas, é
necessário identificar as espécies mais
adaptáveis às condições edáficas da região e
adequá-las a melhor forma de manejo. Desta
forma, tem-se na calagem a prática de manejo
do solo que mais aumenta o rendimento das
culturas de expressão econômica, em solos
ácidos, pois eleva o pH do solo, diminui ou
elimina a fitotoxidez do Al e do Mn, fornece
Ca e Mg, além de aumentar a disponibilidade
de P (ERNANI et al., 1996; ERNANI;
NASCIMENTO; OLIVEIRA, 1998).
Entretanto, a recomendação de calcário, bem
como de doses de P no cultivo de
leguminosas para adubação verde tem sido
objeto de poucos estudos.
Neste sentido, o presente trabalho teve
como objetivo avaliar o efeito de doses de
calcário e de fósforo na produção de matéria
seca do sistema radicular, acumulação de
nutrientes e nas características químicas de
um Latossolo Amarelo, cultivado com
leguminosas para adubação verde.
2 MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi instalado e conduzido em casa de vegetação, no Departamento de Ciência do Solo da Faculdade de
Ciências Agrárias do Pará (FCAP), no
período de julho a setembro de 1994.
O solo foi coletado na profundidade
de 0 a 20 cm, numa área de vegetação
secundária, com mais de 40 anos de idade,
situada à margem esquerda da estrada de
acesso à FCAP, ao lado de um dendezal
pertencente ao CPATU/EMBRAPA e
classificado como Latossolo Amarelo
distrófico, textura média, fase relevo plano
(SANTOS et al., 1983).
Depois de seco ao ar, destorroado,
homogeneizado e passado em peneira de
malha de 2 mm, foram tomadas amostras
de terra, em triplicata, para as análises
químicas no laboratório do Departamento
de Ciência do Solo da FCAP. A
determinação do valor médio de pH em água
(1:2,5) e das concentrações de K, Ca, Mg,
H e Al e de P disponível do solo (Mehlich
I) seguiu os métodos descritos por Silva
(1991), enquanto o carbono orgânico foi
determinado conforme preconizado por
Embrapa (1979). Os resultados analíticos
encontram-se na Tabela 1.
Tabela 1 - Caracterização química das amostras de 0 a 20 cm de profundidade de Latossolo Amarelo
distrófico utilizado no experimento.
Ca2+
Mg2+
H+
Al3+
-3
0,05
5,99
P
-3
-------------- cmolc dm -------------0,05
K+
--- mg dm --2,11
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 45-54, jul./dez. 2003
261
3,5
C
pH
-3
H2 O
29,7
3,7
g dm
47
ANTONIO RODRIGUES FERNANDES, LILIAN CRISTIANE FERNANDES LINHARES, FRANCISCO ILTON DE OLIVEIRA MORAIS,
GEORGE RODRIGUES DA SILVA
O delineamento experimental foi o de
blocos ao acaso, com quatro repetições. Os
tratamentos arranjados em um esquema
fatorial de 3x3x3, sendo três espécies de
leguminosas, três doses de superfosfato
triplo e três doses de calcário.
Foram utilizados vasos de plástico
com capacidade para 3,3 dm 3 de terra,
apresentando furos no fundo, de modo a
permitir o escoamento do excesso de água,
que era recolhido nos pratos e devolvido aos
vasos.
Para a calagem foi utilizado o calcário
dolomítico com as seguintes características
químicas: 35,9% de CaO, 19% de MgO e
61,7% de PRNT, nas doses de 0; 4 e 8 t ha-1,
permanecendo incubados durante 88 dias.
As duas últimas doses corresponderam a
uma e duas vezes a necessidade de calagem
para neutralizar o alumínio trocável do solo
(KAMPRATH, 1967).
Como fonte de fósforo, foi usado o
superfosfato triplo, com 46,5% de P, que foi
distribuído na terra, uniformemente, a uma
profundidade de 4cm, nas doses de 0; 25 e
45 mg dm-1 por vaso, de acordo com os
tratamentos, logo após o período de
incubação.
Foram semeadas quatro sementes por
vaso de Stizolobium aterrimum (mucuna
preta), Stizolobium cochinchinensis
(mucuna cochinchinensis) e Canavalia
ensiformes (feijão-de- porco), procedendose um desbaste para duas plantas, no décimo
dia após o semeio.
A umidade dos vasos, tanto no período
de incubação quanto no experimental, foi
mantida em torno de 70% do VTP, aferida
mediante pesagens periódicas dos vasos,
completando-se o peso com água
desmineralizada.
A colheita das plantas foi realizada 60
dias após a germinação das sementes. Nesta
ocasião, o material vegetal foi separado em
parte aérea e sistema radicular, em seguida
lavado em água corrente desmineralizada,
colocado em sacos de papel devidamente
identificados e levados para a estufa com
circulação forçada de ar a 65oC.
Após a determinação do peso seco do
material, as amostras das plantas foram
moídas em moinho tipo Wiley, com abertura
de malha em 1 mm. No extrato obtido por
digestão nitroperclórica do material vegetal
foram obtidos os teores de P por
colorimetria, de K por fotometria de chama
e de Ca e de Mg por espectrofotometria de
absorção atômica (MURPHY; RILLEY,
1962). O teor de N total foi determinado
pelo método semimicro Kjeldahl segundo
Muller (1961).
As características químicas do solo,
depois de cultivado com as leguminosas,
foram determinadas de acordo com a
metodologia descrita anteriormente.
Os resultados foram submetidos à
análise de variância, e como ocorreram
diferenças significativas pelo teste F
(P<0,05), foram submetidos ao teste de
Tukey (P<0,05) ou a análises de regressão
utilizando o sistema de análises estatísticas
NTIA. Testaram-se diversos modelos para
as equações, sendo a escolha baseada no
maior coeficiente de determinação e na sua
significância.
48
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 45-54, jul./dez. 2003
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, MATÉRIA SECA E ACUMULAÇÃO DE MINERAIS NAS RAÍZES DE ADUBOS VERDES, EM
RESPOSTA AO CALCÁRIO E AO FÓSFORO
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 ALTERAÇÕES QUÍMICAS DO SOLO
A interação do fósforo com a calagem
aumentou a disponibilidade de P no solo,
após o cultivo de leguminosas (Figura 1).
O aumento da concentração de P
proporcionado pela calagem, quando não se
aplicou fósforo, foi significativo até a dose
de 4 t ha -1 , enquanto que o aumento
provocado pela aplicação do fósforo foi
linear e significativo (p<0,05). De acordo
com Ernani et al. (1996) e Mendez e
Kamprath (1978), a calagem aumenta a
disponibilidade de P. Porém os maiores
aumentos na disponibilidade de P foram
conseguidos na presença do calcário e do
fósforo, se ajustando a funções lineares. Tal
efeito é devido ao deslocamento do fósforo
ligado a Al e Fe pelo aumento da atividade
de íons OH, bem como a maior
mineralização do P em função da aceleração
na decomposição da matéria orgânica
(SILVA; VALE; GUILHERME, 1994).
Ca8? Y =18,641 + 0,7434X R 2 = 0, 94 20
C O NC EN TR AÇ ÃO D E P, mg d m- 3
60
Ca4¦ Y = 15,16 + 0,6342X R 2 = 0,99*
50
40
30
20
Os efeitos da calagem sobre as
concentrações de Ca, Mg e Al3+, bem como
sobre os valores de pH, após o cultivo de
leguminosas, estão apresentados na Tabela
2. Pode-se observar aumentos significativos
do Ca e Mg trocável no solo e dos valores
de pH e uma redução significativa do Al
trocável, porém até a dose de 4 t ha-1. A dose
de calcário de 8 t ha -1, embora tenha
aumentado o pH do solo para 5,97, não foi
suficiente para neutralizar todo o alumínio
trocável e nem promover aumento
significativo da produção de matéria seca
do sistema radicular, em relação a dose de
4 t ha -1 . A não neutralização total do
alumínio trocável pela dose mais elevada
de calcário pode estar relacionada ao
alumínio que estava complexado por
ligantes orgânicos (ANGHINONI; SALET,
2000), cuja mineralização da matéria
orgânica promove uma liberação gradual de
alumínio trocável para a solução do solo.
Os resultados demonstram que as
leguminosas em estudo são capazes de
expressarem o seu potencial produtivo em
um pH do solo de 5,4 e uma concentração
de Al trocável de 0,19 cmolc dm-3, atingido
com a dose de calcário de 4 t ha-1.
3.2 MATÉRIA SECA DE RAÍZES
10
Concentração de P no solo, cultivado com
leguminosas, em função da interação fósforo
e calagem. Ca0, Ca4 e Ca8 são
respectivamente, 0; 4; e 8 t ha-1 de calcário. 20
e* significativos a 20 e 5%, respectivamente,
pelo teste F.
As doses de calcário influenciaram
significativamente, de forma distinta, o
crescimento do sistema radicular das
leguminosas, sendo que apenas as mucunas
foram beneficiadas (Tabela 3), com ganhos
que atingiram 94% para a mucuna preta e
56% para a mucuna cochinchinensis, até a
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 45-54, jul./dez. 2003
49
Ca0? Y =8,12 + 0,4064X R2 = 0,99*
0
0
15
30
45
DO SES DE P, m g d m -3
Figura 1 -
ANTONIO RODRIGUES FERNANDES, LILIAN CRISTIANE FERNANDES LINHARES, FRANCISCO ILTON DE OLIVEIRA MORAIS,
GEORGE RODRIGUES DA SILVA
dose de 4 t ha-1 de calcário. A não resposta
do feijão-de-porco deve estar relacionada a
características genéticas da planta, visto que
ocorreu ganho de produção da matéria seca
da parte aérea (FERNANDES, et al., 1996).
Carvalho, Saraiva e Oliveira (1988)
mostram um efeito positivo da calagem
sobre o sistema radicular de várias
leguminosas.
Tabela 2 - Concentrações de Ca, Mg e Al
trocáveis e valores de pH do solo,
depois de cultivado com leguminosas,
em função de doses de calcário.
Calcário
(t ha-1)
Ca
Mg
Al3+
-3
---- cmolc dm ----
pH
0
0,33c
0,46c
2,27a
4,02c
4
3,43b
2,54b
0,19b
5,40b
8
4,97a
3,63a
0,17b
5,97a
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras nas colunas
não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5%.
Tabela 3 - Matéria seca do sistema radicular de
leguminosas, em função de doses de
calcário. Duas plantas por vaso.
Espécies
0
Calcário, t ha-1
4
8
-------- g vaso-1 --------
Mucuna preta
2,05bAB
3,97aA
4,45aA
M.cochinchinensis
2,86bA
4,46aA
4,68aA
Feijão-de-porco
1,71aB
1,74aB
1,92aB
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras, maiúsculas
nas colunas e minúsculas nas linhas, não diferem entre si
pelo teste de Tukey a 5%.
calcário: 2 050 a 4 450 kg ha-1 para a mucuna
preta, 2.860 a 4.680 kg ha-1 para a mucuna
cochinchinensis e 1 710 a 1 920 kg ha-1 para
o feijão-de-porco. Não obstante, a
contribuição com a biomassa, as raízes estão
envolvidas na estabilização da estrutura do
solo, diretamente por aproximar e proteger
os agregados do solo, e indiretamente por
fornecerem materiais orgânicos estabilizantes e deposições de carbono que são da
maior importância para manutenção da
estrutura do solo (McVAY; RADCLIFF;
HARGROVE, 1989; PERFECT et al., 1990).
As leguminosas em estudo não
nodularam na ausência da calagem, mesmo
com a adubação fosfatada. Já nos
tratamentos que receberam calagem a
nodulação atingiu 76% das plantas, não
havendo diferenças entre as espécies. Fato
justificado pela importância do cálcio para
a infecção das raízes e formação dos nódulos
(MUNS, 1978). Por outro lado, no
tratamento em que não foi realizada a
calagem, a ausência de nodulação pode ser
justificada pelo baixo pH e o elevado teor
de alumínio trocável do solo (CARVALHO;
SARAIVA; OLIVEIRA, 1988; MURPHY;
EDUARDS; ASHER, 1984), demonstrado
na Tabela 1.
3.3 TEOR E ACÚMULO DE NUTRIENTES NAS RAÍZES
A contribuição do sistema radicular
em matéria seca que seria incorporado ao
solo, se estabelecido para este experimento
um estande de 200 000 plantas ha-1, variou
entre as espécies em função das doses de
Os teores e acúmulos de nutrientes
variaram entre as leguminosas (Tabelas 4 e
5), o que pode estar relacionado à diferença
entre as espécies na eficiência de absorção
de íons (MENGEL; KIRKBY, 1987).
O feijão-de-porco apresentou menores
50
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 45-54, jul./dez. 2003
CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS DO SOLO, MATÉRIA SECA E ACUMULAÇÃO DE MINERAIS NAS RAÍZES DE ADUBOS VERDES, EM
RESPOSTA AO CALCÁRIO E AO FÓSFORO
teores de N, K e Mg e maiores de Ca, sendo
que acumulou menor quantidade de
nutrientes em relação às mucunas.
Ao extrapolarem-se os dados de
acúmulo de nutrientes para um hectare, onde
normalmente o estande destas leguminosas
atinge 200 000 plantas, ter-se-ia uma
contribuição do sistema radicular de: 55; 8;
10; 6 e 7 kg ha-1, de N, P, K, Ca e Mg,
respectivamente, para a mucuna preta; 76;
8; 12; 8 e 7,5 kg ha-1, de N, P, K, Ca e Mg,
respectivamente, para a mucuna
cochinchinensis; e 33; 4,5; 4,6; 5 e 2,8 kg
ha-1, de N, P, K, Ca e Mg, respectivamente,
para o feijão-de-porco. Nas condições de
campo, os resultados poderão apresentar
diferenças em função da maior variação dos
fatores ambientais.
A interação do fósforo com a calagem
elevaram os teores e acúmulos de P nas
leguminosas (Tabelas 6 e 7), sendo que
foram significativos até às doses
intermediárias de fósforo e de calagem.
Embora os aumentos proporcionados pela
calagem, na ausência do fósforo, nos teores
de P não tenham sido significativos, os
acúmulos o foram, o que está relacionado
ao aumento da concentração de P no solo
(Figura 1), do pH e redução do Al trocável
(Tabela 2), o que favoreceu a expansão do
sistema radicular. Efeitos da calagem,
aumentando a resposta a fósforo, por
leguminosas, foi também observado por
Carvalho, Saraiva e Oliveira (1988) e
Snyder, Kretschmer e Sartain (1978).
Tabela 4 - Teores de nutrientes nas raízes da
mucuna preta (MP), mucuna
cochinchinensis (MC) e feijão-deporco (FP)
Tabela 6 - Teores de P nas raízes das
leguminosas, em função da
interação fósforo e calagem.
Espécies
N
P
K
Ca
Mg
-1
------------- g kg -------------
MP
MC
FP
25,54ab 3,20a 4,08b 2,69b 2,83a
27,45a 2,81b 4,71a 2,70b 2,59b
23,62b 3,17a 3,36c 3,73a 2,13c
Fósforo
(mg dm-3)
0
25
45
0
4
8
---------- (t ha-1) ----------1,42bA
1,66bA
1,86bA
2,12aB
4,17aA
4,40aA
2,58aB
4,51aA
4,84aA
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras nas colunas
não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5%.
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras minúsculas nas
colunas e maiúsculas nas linhas não diferem entre si pelo
teste de Tukey a 5%.
Tabela 5 - Acúmulos de nutrientes pelas raízes
da mucuna preta (MP), mucuna
cochinchinensis (MC) e feijão-deporco (FP)
Tabela 7 - Acúmulos de P nas raízes das
leguminosas, em função da
interação fósforo e calagem.
Espécies
N
P
K
Ca
Mg
------------ mg vaso-1 -----------
MP
MC
FP
55,24b 8,20a 10,06b 6,44ab 6,82a
75,96a 8,25a 12,18a 8,16a 7,51a
33,45c 4,46b 4,59c 5,16b 2,81b
Fósforo
(mg dm-3)
0
25
45
0
4
8
---------- (t ha-1) --------1,98bB
4,11bA
4,33bA
3,99aB
10,00aA
10,74aA
4,56aB
10,66aA
12,36aA
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras nas colunas
não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5%.
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras minúsculas nas
colunas e maiúsculas nas linhas não diferem entre si pelo
teste de Tukey a 5%.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 45-54, jul./dez. 2003
51
ANTONIO RODRIGUES FERNANDES, LILIAN CRISTIANE FERNANDES LINHARES, FRANCISCO ILTON DE OLIVEIRA MORAIS,
GEORGE RODRIGUES DA SILVA
Os teores de N diminuíram nas
leguminosas em função da calagem,
enquanto que os acúmulos aumentaram
(Tabelas 8 e 9), considerando a adubação
fosfatada. Tais resultados se justificam pelo
aumento da produção de matéria seca das
raízes, principalmente nas mucunas (Tabela
3). Por outro lado, tanto os teores quanto os
acúmulos de P, Ca e Mg aumentaram com a
calagem, enquanto que para o K não houve
alteração significativa.
Tabela 8 - Teores de nutrientes nas raízes das
leguminosas, em função das doses de
calcário, considerando a adubação
fosfatada.
Calcário
N
P
K
Ca
Mg
------------ g kg-1 ------------(t ha-1)
0
29,05a 2,04b 4,22a 1,54c 1,57b
4
22,79b 3,44a 3,70a 3,46b 2,97a
8
24,78b 3,70a 4,23a 4,12a 2,99a
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras nas colunas
não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5%.
Tabela 9 - Acúmulo de nutrientes nas raízes das
leguminosas, em função das doses de
calcário, considerando a adubação
fosfatada.
Calcário
N
P
K
Ca
Mg
-1
----------- mg vaso-1 ----------(t ha )
0
49,85b 3,51b 8,66a 2,58b 2,53b
4
55,52ab 8,26a 8,76a 7,74a 7,35a
8
59,28a 9,15a 9,41a 9,63a 7,25a
Nota: Médias seguidas pelas mesmas letras nas colunas
não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5%.
4 CONCLUSÃO
pela interação das doses de fósforo com a
calagem, se refletindo em maiores teores e
acúmulos de P no sistema radicular das
leguminosas.
A calagem proporcionou aumentos na
produção de biomassa do sistema radicular,
nos teores de Ca e Mg, bem como nas
quantidades acumuladas destes nutrientes
estudados.
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calagem
aumentou
a
disponibilidade de P, Ca, Mg e os valores
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CARACTERIZAÇÃO GENÉTICA DA IPECA (Psychotria ipecacuanha Stokes) POR MEIO DE MARCADORES RAPD
CARACTERIZAÇÃO GENÉTICA DA IPECA
(Psychotria ipecacuanha Stokes) POR MEIO DE MARCADORES RAPD1
Maria Rosa COSTA2
Osmar Alves LAMEIRA3
Isabela Guerreiro DINIZ4
RESUMO: O objetivo deste trabalho foi analisar a divergência genética entre 14 acessos de ipeca
(Psychotria ipecacuanha Stokes) provenientes do Banco Ativo de Germoplasma (BAG) da Embrapa
Amazônia Oriental. A extração de DNA foi feita conforme o protocolo de Nelson (1993), modificado,
e para as amplificações utilizou-se o protocolo de Williams et al. (1990), modificado. Os fragmentos
foram analisados em gel de agarose 1,5 % e a presença ou ausência de bandas determinou a construção
da matriz binária. Utilizaram-se 11 primers, e todos geraram polimorfismo. Foram analisadas 129
bandas polimórficas de um total de 150 bandas amplificadas. A análise de divergência genética foi
realizada a partir do programa NTSYS-pc 2.02, utilizando o coeficiente de Jaccard. Na análise do
dendograma, foram observados dois grupos principais. No primeiro grupo, que se subdividiu em
dois subgrupos com coeficiente de similaridade variando de 15% a 56%, incluíram-se 11 acessos
oriundos de diferentes localidades. O segundo grupo, com quatro acessos, dividiu-se em dois
subgrupos com similaridade genética variando de 11 % a 35 %. Os acessos 695, 827 e 808 foram
distintos do restante, constituindo subgrupos isolados dentro do seu grupo. Os resultados obtidos
mostraram variabilidade genética potencial para o programa de melhoramento genético e produziram
informações úteis para o direcionamento de coleta de germoplasma de ipeca para enriquecimento
do BAG.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Ipeca (Psychotria ipecacuanha Stokes), Divergência Genética,
RAPD, Coleção de Germoplasma.
GENETIC CHARACTERIZATION OF IPECA
(Psychotria ipecacuanha Stokes) BY RAPD ANALYSIS
ABSTRACT: The objective of this work was to analyze the genetic diversity of 14 ipeca accesses
from the germplasm of Embrapa, Eastern Amazon. DNA extraction was made by the modified
Nelson (1993) protocol and the PCR analysis by the modified William et al (1990) protocol. PCR
1
2
3
4
Aprovado para publicação em 4.11.2003
Engenheira Agrônoma, M.Sc. em Genética e Melhoramento de Plantas, Pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental.
Cx. Postal 48. CEP 66.017-970-Belém, PA.
Engenheiro Agrônomo, Dr. em Biotecnologia, Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. Cx. Postal 48. CEP 66.017970-Belém, PA.
Aluna do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará - Ufpa, estagiária da Embrapa Amazônia
Oriental. Cx. Postal 48. CEP 66.017-970-Belém, PA.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 55-61, jul./dez. 2003
55
MARIA ROSA COSTA, OSMAR ALVES LAMEIRA, ISABELA GUERREIRO DINIZ
(Polymerase Chain Reaction) products were visualized by electrophoresis in agar gels (1,5 %) and
interpreted as a binary system (presence or absence of bands). All eleven RAPD primers utilized for
DNA amplification produced polymorphic fragments. One hundred and twenty nine polymorphic
bands were analyzed from the total of one hundred and fifty. Genetic divergence analysis was made
by NTSYS–pc 2.02 software using the Jaccard coefficient. Results showed the accesses were
organized in two sub clusters. The first sub cluster, splited into two groups with genetic similarity
from 15 % to 56 %, had eleven accesses originated from different regions and the second sub cluster,
also splited into two groups, with genetic similarity from 15 % to 35 %. The accessions number 695,
827 and 808 had the greatest divergence and were grouped separately. These results showed the
occurrence of genetic diversity that can be used in breeding programs and to develop strategies to
manage the germplasm collection of ipeca.
INDEX TERMS: Ipeca (Psychotria ipecacuanha Stokes), Genetic Diversity, RAPD, Germplasm
Collection.
Psychotria ipecacuanha pertence à
família Rubiaceae, sendo conhecida
popularmente como ipeca ou poaia, e
preconizada pela farmacopéia brasileira como
emético, amebicida e expectorante devido à
presença de alcalóides (emetina, cephalina
entre outros) em suas raízes (PINTO;
SANTIAGO; LAMEIRA, 2000). Nativa da
Região Amazônica, tem sido considerada no
mundo todo como uma importante espécie
medicinal devido às suas propriedades
curativas, sendo incluída nas farmacopéias
indiana, japonesa, inglesa, americana e
portuguesa (TREASE; EVANS, 1989).
Segundo Husain (1991), a demanda de
fitoterápicos a base de ipeca no mundo tem
aumentado porque o contínuo uso de drogas
sintéticas tem promovido resistência em
raças de amebas que provocam desenterias
graves.
O uso de marcadores moleculares
RAPD (polimorfismos de DNA amplificados ao acaso) constitui-se em uma
poderosa ferramenta na caracterização de
germoplasma (FERREIRA; GRATAPAGLIA,
1996). Tais marcadores poderão ser
empregados para identificar e auxiliar a
seleção de genótipos promissores
(STUBER, 1992). Os marcadores moleculares de DNA possuem a vantagem de não
sofrer influência ambiental. A caracterização molecular associada aos dados de
produção de biomassa e de alcalóides irá
auxiliar a escolha do material para a
constituição dos bancos de germoplasma e
a preservação racional da espécie em estudo.
Os estudos de caracterização através de
marcadores moleculares em associação com
avaliação da divergência genética nesta
espécie são bastante limitados ou inexistem.
O presente trabalho é considerado
prioritário, devido à necessidade de se
quantificar a variabilidade genética dos
acessos de ipeca para verificar a
similaridade entre eles, a fim de sanar
dúvidas quanto à origem e uso nos
cruzamentos, além de auxiliar na escolha
de acessos potenciais para o enriquecimento
56
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 55-61, jul./dez. 2003
1 INTRODUÇÃO
CARACTERIZAÇÃO GENÉTICA DA IPECA (Psychotria ipecacuanha Stokes) POR MEIO DE MARCADORES RAPD
da variabilidade genética no próprio Banco
Ativo de Germoplasma. Apesar da
reconhecida variabilidade fenotípica
existente nesses bancos, o germoplasma de
ipeca tem sido pouco estudado sob o ponto
de vista genético. O uso combinado de
marcadores morfológicos e moleculares
subsidiará os trabalhos de melhoramento,
na busca de cultivares mais produtivos e
com características de qualidade que
atendam demandas do setor produtivo,
contribuindo, ainda, para o intercâmbio de
material caracterizado e de informações
entre instituições de pesquisa.
A avaliação de produtividade de
diferentes acessos de ipeca permitirá
conhecer genótipos superiores que poderão
no futuro ser multiplicados e utilizados em
plantações de larga escala gerando
dividendos para o País.
Assim, o objetivo deste estudo foi
examinar o polimorfismo gerado por
marcadores RAPD e analisar a diversidade
genética entre acessos de ipeca pertencentes
ao Banco Ativo de Germoplasma (BAG) da
Embrapa Amazônia Oriental.
2 MATERIAL E MÉTODOS
Os materiais analisados foram 14
acessos de ipeca (Tabela 1) provenientes do
Banco Ativo de Germoplasma da Embrapa
Amazônia Oriental, em Belém (PA)
O DNA genômico foi obtido através
de folhas em estádio médio de
desenvolvimento, recém-coletadas que,
após desinfecção, foram maceradas com
nitrogênio líquido. Cerca de 200 mg de pó
foram transferidos para tubos Eppendorf.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 55-61, jul./dez. 2003
Adicionou-se em seguida 700 mL de
solução extratora (10mL de CTAB 20 % ;
28mL de NaCl 5M; 4mL de EDTA 0,5 M
pH 8; 10 mL de Tris-HCL 1M pH 8,0 e 1 g
de PVP para 100mL). Os tubos foram
agitados e colocados em banho-maria a
60 0C, durante 60 minutos. O extrato foi
misturado com 700 mL de clorofórmioálcool isoamílico (24:1) para formar uma
emulsão. Após centrifugar por 10 minutos
a 4 0C e 12 000 rpm, a parte superior aquosa
foi cuidadosamente retirada e misturada a
álcool 95 %, o que ocasionou a precipitação
do DNA. O material foi colocado em
“freezer” (-20 0C) por 20 minutos, sendo,
em seguida, centrifugado por 10 minutos a
4 0C e 12 000 rpm, lavado com 1000 mL de
Tabela 1 - Identificação dos acessos
analisados. Embrapa Amazônia
Oriental. Belém (PA). 2001.
Código
Origem
Localidade
695
MT, Brasil
Barra do Bugres
767
802
BA, Brasil
RO, Brasil
Bicaraí
Rolim de Moura
595
712
808
MT, Brasil
MT, Brasil
RO, Brasil
Mirassol
Rio Branco
Rolim de Moura
812
RO, Brasil
Rolim de Moura
834
RO, Brasil
Costa Marques
836
RO, Brasil
Costa Marques
590
607
827
MT, Brasil
MT, Brasil
RO, Brasil
Salto do céu
Vila Bela
Costa Marques
803
700
RO, Brasil
MT, Brasil
Rolim de Moura
Tangará da Serra
57
MARIA ROSA COSTA, OSMAR ALVES LAMEIRA, ISABELA GUERREIRO DINIZ
etanol 70 % para remover sais e,
posteriormente, seco à temperatura
ambiente por, aproximadamente, 12 horas.
O DNA foi ressuspendido com 100 mL
RNAse/ TE (10 ug.mL-1). A concentração
de DNA foi estimada em gel de agarose 1%,
pela comparação do DNA total com três
concentrações do DNA íntegro do
bacteriófago Lambda. As amostras
utilizadas no RAPD, após a quantificação
total, partiram de diluições da amostra total
em água estéril, de modo a conter 5 ng/mL
de DNA. As soluções de DNA foram
armazenadas a -20 0C.
2.1 ANÁLISE RAPD
método utilizado para a separação dos
produtos amplificados foi a eletroforese
horizontal em gel de agarose (1,5 %), corado
com brometo de etídio (1mg/mL).
Utilizaram-se 13 mL de cada reação,
acrescidos de 2 mL de uma solução de azul
de bromofenol mais sacarose (40 %). Foi
utilizado TBE (Trizma base 0,1 M; ácido
bórico 1M e EDTA 0,5M) como tampão do
gel e de corrida.
Após a eletroforese, os géis foram
visualizados e fotografados em equipamento
de foto documentação por transiluminação
em ultravioleta.
2.2 ANÁLISE DOS DADOS
Os primers utilizados foram: OPAZ
03, OPAZ 11, OPAZ 14, OPAZ 16, OPN
02, OPN 09, OPN 15, OPN 18, OPS 03,
OPS 09, e OPO 06.
As reações foram desenvolvidas de
acordo com o protocolo de Williams et al.
(1990) com pequenas modificações, num
volume final de 13 mL contendo água
destilada autoclavada; 20 mM Tris-HCl (pH
8); 50 mM KCl; 2 mM MgCl2; 200 mM de
cada dNTP; BSA purificada (2,5 mg/mL);
1,3 mM primer arbitrário; 1U.I Taq DNA
polimerase e 15 ng de DNA genômico,
cobertos com duas gotas de óleo mineral.
As amplificações foram realizadas em
termociclador de DNA Thermolyne
Amplitron II modelo DB.80225, sendo
realizados 40 ciclos de 1 minuto a 94 0C, 1
minuto a 37 0C e 2 minutos a 72 0C, seguidos
de mais 7 minutos a 72 0C para a completa
extensão dos produtos amplificados. O
Aplicou-se em cada gel um marcador
de peso molecular conhecido, o ladder de 1Kb
(Gibco-BRL) no início e no final do gel para
definir o tamanho aproximado dos fragmentos
gerados nas PCRs.
Inicialmente, foi construída uma matriz
para os fragmentos polimórficos amplificados
com (1) significando presença e (0)
significando ausência de banda. Somente
foram consideradas as bandas que não davam
margens a dúvidas. Bandas muito fracas, de
difícil resolução, não foram incluídas. Para
análise dos dados, utilizou-se o NTSYS-pc
(Numerical Taxonomy and Multivariate
Analysis System), versão 2.02. A similaridade
entre as amostras foi estimada pelo coeficiente
de Jaccard, e resultou em uma matriz de
similaridade. A partir dessa matriz foi gerado
o “cluster” pelo método UPGMA
(“Unweighted Pair-Group Method Using
Arithmetic Average”), apresentado sob a
forma de um dendograma (Figura 3).
58
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 55-61, jul./dez. 2003
CARACTERIZAÇÃO GENÉTICA DA IPECA (Psychotria ipecacuanha Stokes) POR MEIO DE MARCADORES RAPD
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Um total de 150 fragmentos RAPD,
com tamanhos variando de 300 pb (pares de
bases) a 2200 pb, foi amplificado pelos 11
primers utilizados, dos quais 129 eram
polimórficos, gerando 86% de polimorfismo.
O número de fragmentos amplificados
variou de 10 (OPAZ 03 e OPAZ 16) a 21
(OPAZ 11). O número de fragmentos
polimórficos por primer variou de 7 (OPAZ
03; OPS 03 e OPS 09) a 21 (OPAZ 11).
Observou-se, dentre os fragmentos
amplificados, a ocorrência de bandas
específicas aos acessos (Figura 1). Foram
estimados os índices de similaridade entre
todos os acessos (Figura 2). A similaridade
genética média foi de 32 %. A maior
dissimilaridade genética foi obtida
comparando-se o acesso 834 com o 607 e
com o 700 (11 %). A segunda maior
dissimilaridade foi entre o acesso 695 e o 834
(15 %). Isso indica que estes acessos são
candidatos potenciais como fonte de
variabilidade no programa de hibridização
desta espécie, visando o melhoramento
genético. Estes dados podem monitorar os
cruzamentos com grande potencial de
aumento de variabilidade no germoplasma
de ipeca. Por outro lado, a maior similaridade
genética foi entre o acesso 595 e o 712 (56%).
Na Figura 3, encontra-se o dendograma
gerado pelo método UPGMA, através do
programa NTSYS-pc, 2.02. A clusterização
provocou a a separação dos acessos em dois
grupos principais. No primeiro grupo, que
se subdividiu em dois subgrupos, com
coeficiente de similaridade variando de 15%
a 56 %, incluem-se 11 acessos oriundos de
diferentes localidades. O segundo grupo, com
quatro acessos, dividiu-se em dois subgrupos,
com similaridade genética variando de 11 %
a 35 %. Os acessos 695, 827 e 808 foram
distintos em relação ao restante, constituindo
subgrupos isolados dentro do seu grupo.
Figura 1 - Eletroforese do RAPD em ipeca gerado pelo primer OPS 03. A primeira e a última colunas correspondem ao
marcador ladder e as demais aos acessos analisados. Embrapa Amazônia Oriental. Belém (Pa), 2001.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 55-61, jul./dez. 2003
59
MARIA ROSA COSTA, OSMAR ALVES LAMEIRA, ISABELA GUERREIRO DINIZ
695
767
802
595
712
808
812
834
836
590
607
827
803
700
695
1.00
0.43
0.45
0.45
0.39
0.19
0.25
0.15
0.32
0.36
0.30
0.30
0.36
0.27
767 802 595 712 808 812 834 836 590 607 827 803 700
1.00
0.50
0.41
0.42
0.19
0.31
0.23
0.33
0.35
0.26
0.35
0.35
0.28
1.00
0.49
0.44
0.20
0.37
0.25
0.48
0.35
0.27
0.30
0.44
0.25
1.00
0.56
0.28
0.25
0.18
0.47
0.32
0.36
0.30
0.38
0.30
1.00
0.25
0.27
0.16
0.44
0.42
0.38
0.31
0.41
0.37
1.00
0.34
0.20
0.22
0.23
0.21
0.19
0.22
0.22
1.00
0.35
0.23
0.23
0.17
0.20
0.23
0.18
1.00
0.18
0.17
0.11
0.20
0.18
0.11
1.00
0.43
0.50
0.36
0.51
0.42
1.00
0.53
0.48
0.50
0.53
1.00
0.37 1.00
0.50 0.36 1.00
0.52 0.40 0.43 1.00
Figura 2 - Matriz de similaridade genética estimada pelo índice de Jaccard para todos os acessos analisados. Embrapa
Amazônia Oriental. Belém, (Pa). 2001
Ip1=695
Ip2=767
Ip3=802
Ip4=595
Ip5=712
Ip12=827
Ip9=836
Ip13=803
Ip10=590
Ip14=700
Ip11=607
Ip6=808
Ip7=812
Ip8=834
0,22
0,31
0,39
0,48
0,57
Coeficiente
Figura 3 – Dendograma gerado pelo método de análise UPGMA para o coeficiente de Jaccard, a partir das 129 bandas
polimórficas geradas pelo RAPD. Embrapa Amazônia Oriental Belém, (Pa). 2001.
60
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 55-61, jul./dez. 2003
CARACTERIZAÇÃO GENÉTICA DA IPECA (Psychotria ipecacuanha Stokes) POR MEIO DE MARCADORES RAPD
4 CONCLUSÃO
Os marcadores RAPD mostraram-se
eficientes para detectar de maneira rápida
a variabilidade genética apresentada pelos
acessos da coleção de germoplasma de ipeca
da Embrapa Amazônia Oriental e a obtenção
de informações úteis para o seu manejo.
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Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 55-61, jul./dez. 2003
61
COMPARAÇÃO DE PROCEDIMENTOS PARA DESCONTAMINAÇÃO DE EXPLANTES DE MOGNO (Swietenia macrophylla King)
COMPARAÇÃO DE PROCEDIMENTOS PARA DESCONTAMINAÇÃO
DE EXPLANTES DE MOGNO (Swietenia macrophylla KING1)
Sebastião da Cunha LOPES2
Osmar Alves LAMEIRA3
Gerson Renan Luces FORTES4
RESUMO: O trabalho teve como objetivo comparar diferentes procedimentos para descontaminação
de folhas, segmentos apical e nodal de mogno (Swietenia macrophylla King) provenientes de plantas
crescidas em casa de vegetação. Na descontaminação dos segmentos apical e nodal foram testados
nove procedimentos, duas soluções de NaClO, uma com o pH ajustado para seis, em duas
concentrações 1 e 2%, e outra com o pH não ajustado na concentração de 2%; termoterapia a 400C
por uma hora; álcool a 70% por 2 e 30 minutos, e diferentes antibióticos como kanamicina,
estreptomicina e ampicilina na concentração de 0,1mg.mL-1. Na descontaminação de folhas foram
utilizados álcool a 70 % por dois minutos; soluções de NaClO, por 15 minutos, a 0,5 ;1 e 2 % e 2%
com adição de benomyl a 0,6%. Os segmentos apical e nodal foram cultivados posteriormente em
ágar e as folhas em meio MS. Foi avaliada a percentagem de contaminação e diferenciado entre a
contaminação por fungo e bactéria. Nos segmentos apical e nodal foi verificado, também, a
percentagem de oxidação após sete dias de cultivo. A termoterapia associada ao óleo de copaíba e
NaClO a 1% reduziu até 50% a contaminação por bactéria em segmento apical e nodal de mogno. A
kanamicina foi o antibiótico mais eficiente para o controle de fungos, tanto em segmentos apicais
quanto nodais, e ampicilina foi eficiente somente para segmentos apicais, todos com 0% de
contaminação. Todos os procedimentos utilizados para a descontaminação de folhas de mogno foram
eficientes, exceto o NaClO a 0,5% no controle de fungos.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Swietenia macrophyla, Segmento Nodal, Assepsia, Cultura de
Tecido.
COMPARISON OF DECONTAMINATION PROCEDURE OF MAHOGANY
(Swietenia macrophylla KING) EXPLANTES
ABSTRACT: The objective of this work was to compare different procedures for the decontamination
of leaves, apical and nodal mahogany plants grown in greenhouse. Nine procedures were tested for
1
2
3
4
Aprovado para publicação 4.11.2003
Extraído da Dissertação apresentada pelo primeiro autor ao curso de mestrado em Fisiologia Vegetal da Universidade
Federal de Pelotas em 2000, financiada com recursos da Embrapa Amazônia Oriental.
Engenheiro Agrônomo, M.Sc., Bolsista do CNPq
Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador da Embrapa Clima Temperado, CEP 96001-970 – Pelotas (RS)
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 63-71, jul./dez. 2003
63
SEBASTIÃO DA CUNHA LOPES, OSMAR ALVES LAMEIRA, GERSON RENAN LUCES FORTES
segment decontamination: two solutions of NaOCl, one with the pH adjusted for six, in two
concentrations 1 and 2%; other with the pH non adjusted in the concentration of 2%; heat therapy
for 1 hour at 400C; 70% alcohol, 2 and 30 min; 0,1 mg.mL-1 kanamycin, streptomycin and ampicillin
cultivated in 0,7% agar. In the decontamination of leaves was used 70% alcohol for 2 min; solutions
of 0,5; 1 and 2% of NaOCl and 2,0% NaOCl added to 0,6% benomyl for 15 min. The apical and
nodal segments were later cultivated in agar and the leaves in MS medium. Heat therapy associated
to the copaiba oil and 1% NaOCl reduced the contamination of bacteria in mahogany apical and
nodal segments up to 50%. The kanamicyn was the most efficient antibiotic for the control of fungi
in mahogany apical and nodal segment and ampicillin for the apical segment, both with 0% of
contamination. All, but 0,5% NaOCl, procedures used for leaves decontamination were efficient in
the fungi control.
INDEX TERMS: Swietenia macrophylla; Asepsis, Nodal Segment, Leaves Disc, Tissue Culture.
1 INTRODUÇÃO
O mogno, nome comum dado as espécies Swietenia spp, pertence à família
Meliaceae. A espécie que ocorre no Brasil
é a Swietenia macrophylla King. Esta espécie está distribuída naturalmente entre os
paralelos de 180 Sul e 200 Norte de latitude
(LAMB, 1966).
O mogno, além de apresentar problemas de regeneração natural, tem a produção de mudas comprometida, visto que a
disseminação de sementes ocorre apenas
num período do ano e a coleta se torna difícil, devido às árvores estarem localizadas
no meio da mata e serem muito altas. Estes
problemas têm levado a procura de alternativas para a propagação da espécie.
A intensa pressão de exploração gerada pela grande procura por parte do mercado externo está ocasionando a redução cada
vez mais acelerada da espécie. Hoje em dia
o mogno no Brasil está localizado principalmente na Região Amazônica, em reservas indígenas e em áreas protegidas por lei,
principalmente, em terras indígenas, visto
que cerca de um terço da área de
abrangência do mogno está dentro destas
áreas, ocasionando, desta forma, conflitos
e invasões de terras, além de grande perda
de recursos genéticos (VERÍSSIMO
et al., 1995).
A utilização das técnicas de cultura de
tecido e células tem auxiliado a multiplicação de muitas espécies lenhosas florestais
que têm problemas para propagação (MELO
et al., 1998).
64
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 63-71, jul./dez. 2003
A descontaminação é uma das etapas
do processo de micropropagação, fazendo
parte da fase um, preconizada por
Murashige, (1974). As plantas provenientes de campo estão sujeitas à infestação por
fungos e bactérias, na grande maioria não
patogênicas. Contudo, ao se cultivarem tecidos vegetais in vitro o crescimento destes
microorganismos pode ser acelerado a tal
COMPARAÇÃO DE PROCEDIMENTOS PARA DESCONTAMINAÇÃO DE EXPLANTES DE MOGNO (Swietenia macrophylla King)
ponto que passa a interferir no desenvolvimento dos explantes (GILADI; ATMAN;
GOPEN, 1979).
Muitos tipos de explantes têm sido
utilizados na tentativa de propagação de
inúmeras espécies, entre eles: pecíolo; segmento internodal; fruto; eixo embrionário;
raiz; cotilédones e folhas (FORTES,1992).
As dificuldades para o cultivo in vitro de
plantas lenhosas, em relação às plantas herbáceas segundo relato de Young, Hutchins
e Canfield (1984), está na baixa resposta a
reguladores de crescimento aplicados
exogenamente, na produção de compostos
fenólicos e, principalmente, na ineficácia
das técnicas tradicionais de desinfestação.
Desta forma, protocolos de assepsia precisam ser desenvolvidos para que se possa
utilizar explantes provenientes de campo,
visto que a literatura sobre o assunto para o
mogno ainda é escassa.
Este trabalho teve como objetivo comparar diferentes procedimentos para
desinfestação de folhas, segmentos apicais
e nodais de mogno provenientes de plantas
crescidas em casa de vegetação.
2 MATERIAL E MÉTODOS
destilada. No laboratório foram lavados com
sabão líquido comercial, sendo enxaguados
com água em abundância. Este experimento constou de dois ensaios, um para assepsia
de segmentos apical e nodal de plantas de
cinco meses de idade, outro para folhas de
plantas de 12 meses de idade.
Os seguintes procedimentos de
assepsia foram aplicados para os segmentos apical e nodal em câmara de fluxo
laminar:
A- 1) Imersão em hipoclorito de sódio
(NaClO) a 2% por 15 minutos.
2) Quatro lavagens com água destilada
e autoclavada.
B- 1) Imersão em NaClO a 2% por 15 minutos.
2) Quatro lavagens com água destilada
e autoclavada, seguido da imersão
em kanamicina (0,1 mg/mL) por 30
minutos.
C- 1) Imersão em álcool a 70% por dois
minutos e lavagens com água destilada e autoclavada.
2) Imersão em NaClO a 2% por 15 minutos, seguido de quatro lavagens
com água destilada e autoclavada.
D- 1) Termoterapia por uma hora a 40 0C.
2) Imersão em NaClO a 2% com pH
ajustado para 6 por 15 minutos, seguido de quatro lavagens com água
destilada e autoclavada.
Os explantes foram provenientes de
plantas crescidas em casa de vegetação coberta com tela de sombrite a 50%. As sementes foram postas para germinar em
substrato contendo torta de dendê e terra
preta na proporção de 1:1. Os explantes foram coletados com auxílio de tesoura de
poda e bisturi, em seguida foram imediatamente colocados em becker contendo água
E- 1) Termoterapia por uma hora a 40 0C.
2) Imersão em álcool a 70% por dois
minutos e lavados com água destilada e autoclavada.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 63-71, jul./dez. 2003
65
SEBASTIÃO DA CUNHA LOPES, OSMAR ALVES LAMEIRA, GERSON RENAN LUCES FORTES
3) Imersão em NaClO a 2% com pH
ajustado para 6 por 15 minutos, seguido de quatro lavagens com água
destilada e autoclavada.
F- 1) Termoterapia por uma hora a 40 0C.
2) Imersão em álcool a 70% por dois
minutos e lavados com água destilada e autoclavada.
3) Imersão em NaClO a 1% com pH
ajustado para 6 por quinze minutos,
seguido de quatro lavagens com água
destilada e autoclavada.
G- 1) Termoterapia por uma hora a 40 0C.
2) Imersão em óleo de copaíba
(Copaifera spp) por 15 minutos e
lavagens com água destilada e
autoclavada.
3) Imersão em NaClO a 1% com pH
ajustado para 6 por 15 minutos, seguido de quatro lavagens com água
destilada e autoclavada.
H- 1) Imersão em álcool a 70% por 30 segundos, seguido de lavagens com
água destilada e autoclavada.
2) Imersão em NaClO a 2% por 15 minutos, seguido de quatro lavagens
com água destilada e autoclavada.
3) Imersão em ampicilina (0,1 mg/mL)
por 30 minutos.
I- 1) Imersão em álcool a 70% por 30 segundos, seguido de lavagem com
água destilada e autoclavada.
2) Imersão em NaClO a 2% por 15 minutos, seguida de quatro lavagens
com água destilada e autoclavada.
3) Imersão em estreptomicina (0,1 mg/
mL) por 30 minutos.
66
A inoculação, após secagem dos
explantes em papel estéril, foi realizada em
meio contendo somente ágar a 0,7%. Os
explantes foram mantidos em sala de crescimento com temperatura de 25 ± 10C e
fotoperíodo de 16 horas, e intensidade luminosa de 52 mmol.m-2s-1 de irradiância
fornecida por lâmpadas fluorescente brancas. Foram avaliados, visualmente, o
percentual de contaminação causada por
fungos e bactérias e o percentual de oxidação.
As folhas passaram por assepsia que
constou de imersão em álcool a 70% por
dois minutos e em diferentes soluções de
NaClO a 0,5; 1 e 2% por quinze minutos e
NaClO a 2%, adicionado de benomyl a
0,6%. Em seguida, foram retirados discos
foliares com 0,8 cm2 de área com auxílio de
um vazador metálico, previamente
autoclavado. O meio utilizado neste ensaio
foi o MS (MURASHIGE; SKOOG, 1962),
com 3% de sacarose e ágar a 0,7%. Os discos foliares foram inoculados individualmente em tubos de ensaio (100x20mm) com
a superfície abaxial em contato com o meio.
Estes foram mantidos no escuro por duas
semanas, quando se fez a avaliação através
de observações da percentagem de contaminação de fungos e bactérias.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os percentuais de contaminação em
segmentos apicais e nodais de mogno são
apresentados na Tabela 1. Foi observado que
percentagens menores que 50% de contaminação por bactéria em segmentos apical
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 63-71, jul./dez. 2003
COMPARAÇÃO DE PROCEDIMENTOS PARA DESCONTAMINAÇÃO DE EXPLANTES DE MOGNO (Swietenia macrophylla King)
e nodal ocorreram nos procedimentos que
envolveram o uso de termoterapia, óleo de
copaíba e NaClO a 1% e uso de
estreptomicina no segmento nodal. Percentagens de contaminação em segmento
apical acima de 50% foram observadas nos
demais procedimentos. Enquanto que as
contaminações por fungo em segmento
apical superior a 15% somente foram observadas no procedimento envolvendo a
termoterapia, óleo de copaíba e NaClO a
1%. Para o segmento nodal, contaminações
superior a 15% foram observadas nos procedimentos envolvendo termoterapia, óleo
de copaíba e NaClO a 1% e os tratamentos
contendo os antibióticos ampicilina e
estreptomicina.
A termoterapia por uma hora a 40 oC
para controlar fungos foi eficiente em
todos os tratamentos que os explantes
foram imersos somente em NaClO, ou em
tratamentos nos quais os explantes foram
imersos em álcool e, posteriormente, em
NaOCl. Para o controle de bactéria a
termoterapia apresentou melhor resposta
quando os explantes foram imersos em óleo
de copaíba, em seguida no NaClO a 1%.
A utilização de antibióticos
kanamicina, ampicilina e estreptomicina
surtiu pouco efeito sobre a incidência de
bactérias nos dois segmentos utilizados,
Tabela 1 – Percentagem (%) de contaminação em segmentos apical e nodal de mogno
(Swietenia macrophylla) e o agente causador. Embrapa Amazônia Oriental,
Belém (PA), 1999.
Procedimentos
Nº frasco
Inoculado
Segmento
Apical
NaClO 2%
NaClO+kanamicina
Álcool+NaClO 2%
T+NaClO 2%
T+álcool+NaClO 2%
T+álccol+NaClO 1%
T+copaíba+NaClO
Álcool+NaClO+Amp.
Álcool+NaClO+Estr.
40
40
40
40
40
18
19
23
22
100
100
100
70
75
55
78
80
100
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
Nodal
100
100
95
100
85
100
100
92
86
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
(n=2)
Agente
Fundo (%)
Bactéria (%)
Apical Nodal Apical Nodal
5
0
5
0
5
0
33
0
12
0
0
15
5
5
0
60
23
50
100
100
95
70
70
55
44
80
87
100
100
80
100
80
100
40
69
36
Nota: sinais convencionais utilizados
n – número de explantes
T - termoterapia
Amp. – ampicilina
Estr. – estreptomicina
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 63-71, jul./dez. 2003
67
SEBASTIÃO DA CUNHA LOPES, OSMAR ALVES LAMEIRA, GERSON RENAN LUCES FORTES
exceto a estreptomicina em segmento nodal,
onde o percentual de contaminação foi de
36% (Tabela 1). Enquanto que, para o controle de fungos, a kanamicina foi a mais eficiente para os dois segmentos e a ampicilina
no segmento apical, ambas com 0% de contaminação. Embora a eliminação de bactérias por antibióticos não tenha sido a mais
eficiente, Kritzinger et al. (1998) verificaram que pré-tratamento com fungicida e
combinações de antibióticos deram bons
resultados na desinfestação de rizomas de
Zantedeschia aethiopica.
A alta incidência de bactérias de coloração esbranquiçadas, que se localizavam
ao redor dos explantes, provavelmente, tenha ocorrido devido as plantas fornecedoras de explantes estarem em condições semelhantes a de campo, pela falta de tratamentos na casa de vegetação. Pelo fato de
que em alguns explantes o surgimento da
contaminação ocorreu após algumas semanas da inoculação, acredita-se que eram
endógenas. Para Grattapaglia e Machado
(1998), a condição fitossanitária da planta
matriz é importante, pois irá facilitar a
descontaminação durante o isolamento, devendo-se ter cuidado durante a irrigação,
molhando-se exclusivamente o substrato
sem atingir as folhas.
Maene e Deberg (1987), ao manterem
plantas de Araucaria exelsa em condições
secas durante seis meses, antes da coleta dos
explantes em casa de vegetação, reduziram
a contaminação bacteriana de 70 para 20%.
Os procedimentos envolvendo a presença do NaClO demonstraram que no processo de assepsia de explantes de mogno,
podem influenciar na oxidação dos
explantes (Tabela 2). Foi observado que os
segmentos utilizados nos diferentes proce-
Tabela 2 – Percentagem de oxidação em segmentos apical e nodal de mogno (Swietenia
macrophylla) após sete dias da inoculação. Embrapa Amazônia Oriental, Belém
(PA), 1999.
Procedimentos
NaClO 2%
NaClO+Kanamicina
Álcool+NaClO 2%
T+NaClO 2%
T+álcool+NaClO 2%
T+álcool+NaClO 1%
T+copaíba+NaClO
Álcool+NaClO+Amp.
Álcool+NaClO+Estr.
N0 explantes observados
Apical
Nodal
20
20
11
17
13
9
9
10
8
20
20
15
8
9
9
10
13
14
Oxidação %
Apical
Nodal
10
30
27
94
85
33
66
70
75
15
15
73
87
78
56
30
62
21
Nota: sinais convencionais utilizados:
T – termoterapia, Amp. – ampicilina, Estr. – estreptomicina
68
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 63-71, jul./dez. 2003
COMPARAÇÃO DE PROCEDIMENTOS PARA DESCONTAMINAÇÃO DE EXPLANTES DE MOGNO (Swietenia macrophylla King)
dimentos foram oxidados, sendo observado os menores percentuais de oxidação nos
tratamentos contendo o NaClO a 2% isoladamente para os dois tipos de segmento, ou
quando associado à kanamicina em segmento nodal. Apesar de McCOMB (1978) relatar que é comum o escurecimento de
explantes por oxidação de polifenóis logo
após a retirada da planta mãe, isto não ocorreu porque durante a retirada dos explantes
das plantas em casa de vegetação não foi
observado o escurecimento desses no local
do corte. Entretanto, GEORGE (1993) verificou que em ápices caulinares de Pistacia
coletados em casa de vegetação ocorriam a
maior frequência de oxidação.
Nos discos foliares desinfestados não
houve o surgimento de bactérias; apenas a
presença de fungos foi observada na menor
concentração de NaClO (Tabela 3). Estes
resultados são similares com aqueles de
Fortes (1992), visto que em seu experimento, utilizando diferentes concentrações de
NaClO, foram observados o surgimento de
agentes contaminantes principalmente fungos nas menores concentrações.
Os discos foliares, após as duas semanas em que permaneceram no escuro, mantiveram-se verdes, exceto os inoculados no
meio que continha NaClO a 2%+benomyl
a 0,6%, que se apresentavam despigmentados. Acredita-se que está despigmentação
seja devido ao efeito fitotóxico do benomyl
ao tecido foliar de mogno, apesar dos discos foliares estarem sem agentes
contaminantes. Fortes (1992) também observou uma tendência para diminuição na
contaminação fúngica de explantes foliares
de macieira ao se adicionar benomyl a 0,6
mgL-1 ao meio, porém não fez nenhum comentário a respeito do surgimento de efeito
fitotóxico nesta espécie. Enquanto que Del
Ponte (1999) sugeriu que as plantas matrizes de Eucalyptus mantidas em casa de vegetação que serviram como fornecedoras de
explantes devem receber um pré-tratamento com benomyl, por um período anterior à
coleta. Para o mogno, a utilização de
benomyl deve ser feita de forma cautelosa
observando sempre o surgimento de algum
efeito fitotóxico às plantas.
Tabela 3 – Percentagem de contaminação de discos foliares de mogno (Swietenia
macrophylla) e agentes contaminantes, sob concentrações de NaClO e benomyl.
Embrapa Amazônia Oriental, Belém (PA), 1999.
NaClO
(%)
0,5
1
2
2 + benomyl 0,6
Contaminação
(%)
25
0
0
0
(n=20)
(n=20)
(n=20)
(n=20)
Agente
Fungo (%)
Bactéria (%)
25
0
0
0
0
0
0
0
Nota: n - número de explantes
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 63-71, jul./dez. 2003
69
SEBASTIÃO DA CUNHA LOPES, OSMAR ALVES LAMEIRA, GERSON RENAN LUCES FORTES
4 CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Os resultados obtidos no presente trabalho permitem concluir que:
DEL PONTE, E.M. Micropropagação de
Eucalyptus globulus ssp. Globulus Labill. 1999.
47p. Dissertação (Mestrado em Produção Vegetal). – Universidade Federal de Pelotas,
Pelotas, 1999.
a) a termoterapia associada ao óleo de
copaíba e NaClO a 1% reduz até 44% a contaminação por bactéria em segmento apical
e nodal de mogno;
b) a termoterapia associada a NaClO
isoladamente ou ao álcool a 70%, seguido
do NaClO a 1% reduz até 0% a contaminação por fungos para os segmentos apical e
nodal de mogno;
c) a estreptomicina associada ao álcool a 70% e NaClO a 2% reduz até 50% a
contaminação por bactéria em segmento
nodal de mogno;
d) a kanamicina é o antibiótico mais
eficiente para o controle de fungos em segmento apical e nodal de mogno, e a
ampicilina para o segmento apical, ambas
com 0% de contaminação;
e) os segmentos utilizados nos diferentes procedimentos são oxidados, sendo
observado os menores percentuais de oxidação nos tratamentos contendo o NaClO a
2% isoladamente para os dois tipos de segmento ou quando associado à kanamicina
em segmento nodal;
f) todos os procedimentos utilizados
para a assepsia de discos foliares de mogno
são eficientes, exceto o NaClO a 0,5% no
controle de fungos;
g) a redução do pH do NaCIO não deve
ser uma prática recomendada para assepsia,
pois induz o aumento da oxidação nos segmentos apicais e nodais de mogno.
70
FORTES, G.R.de L. Calogênese e
organogênese “in vitro” de macieira (Malus
spp.) afetada por fatores físicos, químicos e biológicos. 1992. 163p. (Doutorado em
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71
CULTURA IN VITRO DE EMBRIÕES ZIGÓTICOS DE CUPUAÇUZEIRO (Theobroma grandiflorum Schum.)
CULTURA IN VITRO DE EMBRIÕES ZIGÓTICOS
DE CUPUAÇUZEIRO (Theobroma grandiflorum Schum.)1
Ana da Silva LEDO2
Osmar Alves LAMEIRA3
Abdellatif Kemaleddine BENBADIS4
5
Sebastião MEDEIROS FILHO
Ilmarina Campos de MENEZES6
RESUMO: Este trabalho teve como objetivo estabelecer o protocolo para a obtenção de plântulas a
partir da cultura in vitro de embriões zigóticos de cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum Schum.).
Os embriões zigóticos foram excisados, sob condições assépticas, de sementes obtidas de frutos maduros,
e inoculados em dois substratos: ágar e vermiculita, na ausência e presença de meio de cultura MS e ½
MS. O substrato ágar a 0,6% promoveu maior percentagem de conversão de embriões em plântulas
(100%) quando comparado com a vermiculita (83,33%). As plântulas em ágar, na ausência de meio de
cultura, apresentaram maior comprimento da parte aérea (13,56 cm), sendo que a adição de meio MS
não proporcionou aumento no crescimento da parte aérea em ambos os substratos.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Cultura de Embriões, Theobroma grandiflorum, Meio de Cultura,
Substrato.
IN VITRO CULTURE OF CUPUASSU ZYGOTIC
EMBRYOS (Theobroma grandiflorum Schum.)
ABSTRACT: This work had as objective to establish protocol for the obtaining of seedlings starting from the in vitro culture of cupuassu zygotic embryos (Theobroma grandiflorum Schum.). The
zygotic embryos were excised under aseptic conditions, starting from seeds of mature fruits, and
cultivated in two substrates: agar and vermiculite, in the absence and presence of MS e ½ MS
media. The substrate agar at 0,6% promoted larger percentage of conversion of embryos in seedlings (100%) when compared with the vermiculite (83,33%). The seedlings in agar, in the absence
of medium of culture, presented larger shoot length (13,56 cm), and the addition of MS medium
didn’t provide an increase in the shoot growth in both substrates.
INDEX TERMS: Culture of Embryos, Theobroma grandiflorum, Culture Medium, Substrate.
1
2
3
4
5
6
Aprovado para publicação em 4.11.2003
Parte da tese de Doutorado apresentada pelo primeiro autor ao curso de pós-graduação em Fitotecnia da Universidade
Federal do Ceará-UFC, financiada com recursos da Embrapa Amazônia Oriental.
Engenheira Agrônoma, D.Sc., Pesquisadora da Embrapa Tabuleiros Costeiros CP 44, CEP49025-040, Aracaju, SE.
E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, D.Sc., Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, CP 48, CEP 66017-970, Belém,PA.
Engenheiro Agrônomo, PhD, Professor Visitante do Departamento de Fitotecnia da UFC, Av. Mister Hull, s/n,
CEP 60020-181, Campus do Pici, Fortaleza, CE.
Engenheiro Agrônomo, D.Sc., Professor do Departamento de Fitotecnia da UFC, Fortaleza, CE.
Engenheira Agrônoma, M.Sc., Técnica de Nível Superior da Embrapa Amazônia Oriental.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
73
ANA DA SILVA LEDO, OSMAR ALVES LAMEIRA, ABDELLATIF KEMALEDDINE BENBADIS, SEBASTIÃO MEDEIROS FILHO, ILMARINA
CAMPOS DE MENEZES
O cupuaçuzeiro (Theobroma
grandiflorum Schum.) é uma espécie frutífera
da família Sterculiaceae, ocorrendo,
espontaneamente, nas matas de terra firme e
várzea alta, na parte sul e leste do Pará,
abrangendo as áreas do médio Tapajós, rios
Xingu e Guamá, alcançando a pré-Amazônia
maranhense (CAVALCANTE, 1991;
VENTURIERI, 1993). Atualmente, o
cupuaçu está disseminado por toda a bacia
amazônica e Norte do Maranhão, sendo
cultivado na Bahia, Espírito Santo, São Paulo
e em outras regiões do país. O maior
potencial de exploração da cultura é a
produção de polpa para a fabricação de
sorvetes, doces, geléias, néctar, licores,
compotas, doces, bolos, biscoitos, iogurte e
sucos. Das sementes pode-se obter o
chocolate e, também, extrair uma gordura
semelhante à manteiga de cacau, de alta
digestibilidade (VENTURIERI, 1993).
Plantios desuniformes associados à
falta de material genético melhorado têm
sido apontados como os principais fatores
que limitam a expansão da cultura do
cupuaçuzeiro na Amazônia (SOUZA;
GUIMARÃES; NUNES, 1992). Para
atender esta demanda, instituições de
pesquisa na região, nos últimos anos, têm
implementado programas de melhoramento
com ênfase à seleção de materiais com
características de alta produção de frutos,
rendimento de polpa e resistência à
vassoura-de-bruxa (Crinipellis perniciosa),
principal enfermidade da cultura.
A cultura de tecidos, em especial a
micropropagação, quando integrada a um
programa de melhoramento, torna-se uma
técnica auxiliar muito valiosa para
clonagem, em curto prazo, de genótipos
superiores e para acelerar programas de
melhoramento genético. Dentre as técnicas
de cultura de tecidos, a cultura de embriões,
por tentar reproduzir in vitro o normal
desenvolvimento de embriões, apresenta-se
como uma ferramenta para o controle da
embriogênese, o resgate de embriões
interespecíficos quando apresentam alguma
incompatibilidade, a produção de haplóides,
a quebra de dormência, a produção de
plântulas assépticas, elucidar alguns
problemas como nutrição do embrião no
óvulo, entre outras aplicações (COLLINS;
GROSSER, 1984; HU; FERREIRA, 1998).
A terminologia cultura de embriões,
segundo Rappaport citado por Hu e Ferreira
(1998), tem sido empregada para descrever
os processos de crescimento e desenvolvimento do embrião zigótico in vitro,
independentemente da idade, tamanho e
estádio de desenvolvimento em que o
embrião foi excisado. A importância da
cultura de embriões se deu devido à
descoberta de que poderiam ser cultivados
separadamente do tecido maternal e de
reserva, quando condições assépticas e
nutricionais eram fornecidas (ANDREOLI,
1985). No cultivo asséptico, os embriões
transpõem facilmente a fase de
desinfestação por estarem protegidos dentro
do fruto e semente. Devido a este fator, ao
alto poder regenerativo e à natureza juvenil,
embriões têm sido usados como explantes
para a propagação clonal e organogênese
(HU; FERREIRA, 1998).
74
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
1 INTRODUÇÃO
CULTURA IN VITRO DE EMBRIÕES ZIGÓTICOS DE CUPUAÇUZEIRO (Theobroma grandiflorum Schum.)
Os objetivos do presente trabalho
foram avaliar o efeito de diferentes
substratos e da adição de meio de cultura
na conversão in vitro de embriões zigóticos
e estabelecer um protocolo de obtenção de
plântulas in vitro de cupuaçuzeiro.
As atividades foram conduzidas no
Laboratório de Recursos Genéticos e
Biotecnologia da Embrapa Amazônia
Oriental, Belém (PA). Os embriões zigóticos
foram excisados de sementes, despolpadas
manualmente com auxílio de tesoura,
provenientes de frutos maduros de plantas
da coleção de germoplasma de cupuaçuzeiro
da Embrapa Amazônia Oriental. As
sementes foram lavadas em água corrente e
imersas em NaClO a 2% por 24 horas. Após
a lavagem das sementes com água
autoclavada e destilada, procedeu-se à
excisão dos embriões com a retirada do
tegumento sob câmara de fluxo laminar.
Os embriões zigóticos foram
submetidos ao procedimento de
desinfestação em câmara de fluxo laminar,
com a imersão em álcool etílico a 70 % por
um minuto e, em seguida, em solução de
NaClO a 2 % por 15 a 20 minutos sob
agitação e lavados cinco vezes em água
destilada e autoclavada.
Foram testados como substratos o ágar
e a vermiculita combinados com a ausência
de meio de cultura MS (MURASHIGE;
SKOOG, 1962) e com a presença de 30 mL
de ½ MS e MS, suplementados com 1,5 e
3,0 % de sacarose, respectivamente. Após
a desinfestação, os embriões zigóticos foram
inoculados em frascos de vidro com
capacidade de 200 mL, contendo os
seguintes tratamentos: 0,6 % de ágar; 0,6%
de ágar + meio ½ MS; 0,6 % de ágar + meio
MS; vermiculita + água destilada;
vermiculita + meio ½ MS e vermiculita +
meio MS, totalizando seis tratamentos.
O pH dos meios de cultura foi ajustado
para 5,8 e a vermiculita foi previamente
autoclavada por 30 minutos a 120 ºC. Todos
os tratamentos foram submetidos à
esterilização em autoclave a 120 ºC durante
15 minutos.
As culturas foram mantidas em sala
de crescimento com temperatura variando
de 26 ºC ± 2, umidade relativa do ar média
em torno de 70 % e fotoperíodo de 16 horas
de luz branca fria (52 µmol.m -2 .s -1 de
irradiância) oito horas de escuro.
O delineamento estatístico utilizado
foi o inteiramente casualizado, em esquema
fatorial 2 x 3 (dois substratos e três meios
de cultura), com cinco repetições. Cada
unidade experimental foi constituída de 10
frascos, contendo um embrião cada.
Aos 45 dias da inoculação, as variáveis
analisadas foram: a percentagem de
conversão de embriões zigóticos em
plântulas, os pesos da massa fresca da parte
aérea (g), do sistema radicular (g) e dos
cotilédones (g) e o comprimento da parte
aérea das plântulas (cm). Como plântulas
anormais, foram consideradas as que
apresentavam o crescimento da parte aérea
e do sistema radicular atrofiado.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
75
2 MATERIAL E MÉTODOS
ANA DA SILVA LEDO, OSMAR ALVES LAMEIRA, ABDELLATIF KEMALEDDINE BENBADIS, SEBASTIÃO MEDEIROS FILHO, ILMARINA
CAMPOS DE MENEZES
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na primeira semana, após a
inoculação, os cotilédones apresentavam-se
intumescidos e com coloração esverdeada.
Aos sete dias, observou-se o lançamento da
radícula com rápido crescimento, e,
posteriormente, o desenvolvimento de
raízes secundárias (Figura 1A). A partir da
terceira semana ocorreu a emergência do
epicótilo e dos nós cotiledonares, e a
formação do gancho epicotilar (Figura 1B).
A elongação do gancho epicotilar e a
formação do primeiro par de folhas, que se
apresentavam cobertas com pêlos e com
coloração roxo-avermelhada, foram
verificadas a partir da quarta semana após
a inoculação (Figura 1C). Aos 45 dias após
a inoculação, as plântulas apresentavam o
primeiro par de folhas com limbo bem
desenvolvido e com coloração esverdeada.
Em todos os embriões inoculados não houve
a formação de plântulas anormais. As fases
descritas anteriormente concordam com as
observadas por Venturieri (1993),
entretanto, devido à ausência do tegumento
e as condições ambientais controladas, o
desenvolvimento das plântulas in vitro foi
mais rápido. Resultados semelhantes foram
obtidos por Castro et al. (2001) que
observaram maior velocidade de
germinação e de crescimento e
desenvolvimento de embriões de murici
(Byrsonima intermedia A. Juss)
desprovidos de tegumento.
FIGURA 1 - Desenvolvimento in vitro de embriões zigóticos de Theobroma grandiflorum. A- lançamento da radícula e
desenvolvimento de raízes secundárias; B- emergência do epicótilo e nós cotiledonares e formação do gancho
epicotilar; C- elongação do gancho epicotilar e emissão do primeiro par de folhas. Embrapa Amazônia
Oriental, Belém (PA) 2000
76
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
CULTURA IN VITRO DE EMBRIÕES ZIGÓTICOS DE CUPUAÇUZEIRO (Theobroma grandiflorum Schum.)
De acordo com as análises de variâncias
(Tabela 1), houve efeito significativo da
interação substrato x meio de cultura para o
peso da massa fresca da parte aérea. Não
foram detectadas interações significativas
para a percentagem de conversão de embriões
zigóticos em plântulas, pesos da massa fresca
do sistema radicular e dos cotilédones e
comprimento da parte aérea. Houve efeito
significativo do substrato para a percentagem
de conversão de embriões zigóticos, peso da
massa fresca dos cotilédones e comprimento
da parte aérea e do meio de cultura para o
peso da massa fresca dos cotilédones e
comprimento da parte aérea. Não foram
detectados efeitos significativos dos fatores
estudados sobre o peso da massa fresca do
sistema radicular.
O substrato ágar a 0,6 % promoveu
maior percentagem de conversão de
embriões zigóticos em plântulas (100 %),
quando comparado com a vermiculita
(83,33 %), conforme a Tabela 2. Estes
resultados discordam dos obtidos por Lessa
(1998) e Lopes (2000) que obtiveram
maiores percentagens de germinação em
sementes de mogno (Swietenia
macrophylla) e de macieira (Malus
domestica), respectivamente, em
vermiculita quando comparado com o ágar.
A incidência de 10 % de contaminação,
quando os embriões foram inoculados em
vermiculita, contribuiu para a menor
emergência das plântulas.
As plântulas em vermiculita e na
ausência de meio de cultura apresentaram
maior acúmulo de massa fresca na parte
aérea (1,9 g) e a adição de meio de cultura
em ágar não influenciou significativamente
o peso da massa fresca da parte aérea.
TABELA 1 - Resumo das análises de variâncias para médias da percentagem de conversão de
embriões zigóticos em plântulas (%CEZ), dos pesos da massa fresca da parte aérea
(PMFPA), do sistema radicular (PMFSR) e dos cotilédones (PMFCO) e do
comprimento da parte aérea (CPA) de plântulas de Theobroma grandiflorum, em
função do tipo de substrato (SUB) e do meio de cultura (MC). Embrapa Amazônia
Oriental, Belém (PA) Brasil, 2000.
4XDGUDGRV0pGLRV
)RQWHVGH
9DULDomR
*/
&(=
30)3$J
30)65J
30)&2J
&3$FP
68%
1
2083,33**
0,0790ns
0,2253ns
9,3856**
52,4041**
0&
2
333,33ns
0,7189**
0,0883ns
2,5527**
33,3241**
68%;0&
2
333,33ns
0,9963**
0,1959ns
0,3090ns
16,5115ns
5HVtGXR
24
&9
291,67
0,1360
0,1016
0,3449
5,0819
18,63
28,04
25,47
9,81
18,42
** - significativo ao nível de 1 % pelo teste F.
ns - não significativo ao nível de 5 % pelo teste F.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
77
ANA DA SILVA LEDO, OSMAR ALVES LAMEIRA, ABDELLATIF KEMALEDDINE BENBADIS, SEBASTIÃO MEDEIROS FILHO, ILMARINA
CAMPOS DE MENEZES
Os embriões zigóticos inoculados em
ágar originaram plântulas mais vigorosas,
que apresentaram, em média, 13,56 cm de
comprimento da parte aérea, sendo que a
adição de meio de cultura não proporcionou
um aumento no crescimento em ambos os
substratos (Tabela 2). A pressão osmótica é
um fator a ser considerado, uma vez que
elevadas pressões osmóticas reduzem o
crescimento e afetam o metabolismo celular
(NICKELL; MARETZKI, 19697 citados por
CALDAS; HARIDASAN; FERREIRA,
1998). Provavelmente, os sais presentes no
meio de cultura promoveram um aumento
do potencial osmótico, conseqüentemente
diminuindo o potencial hídrico, o que pode
ter influenciado o crescimento e
desenvolvimento das plântulas.
Os embriões mantidos em ágar e na
ausência de meio de cultura apresentaram
maior peso de massa fresca dos cotilédones
(6,62g). Considerando que os cotilédones
têm a função de armazenar substâncias de
reservas até a plântula tornar-se autotrófica,
a presença de meio de cultura torna-se
dispensável para o crescimento inicial de
plântulas cultivadas in vitro. Conforme
relatado por Hu e Ferreira (1998), embriões
excisados no estádio maduro ou próximos
a este são quase autotróficos e, em geral,
dependendo da espécie, não há necessidade
7
de suplementação de fonte de energia,
podendo germinar e crescer num meio
inorgânico, e os reguladores de crescimento
tornam-se dispensáveis. Entretanto, LlanoAgudelo, Gonzales-Rosas e Salazar-Garcia
(1995) e Ledo et al. (2001) obtiveram a
conversão in vitro de plântulas de Persea
americana Mill cv. Americana e de Euterpe
oleracea Mart., respectivamente, a partir de
embriões zigóticos maduros cultivados em
meio MS suplementado com reguladores de
crescimento.
Apesar da vermiculita umedecida com
solução nutritiva favorecer a formação de
raízes pelo maior grau de aeração
(CALDAS; HARIDASAN; FERREIRA,
1998), não foram verificadas diferenças
significativas entre os substratos e entre a
ausência ou presença de meio de cultura
sobre o peso da massa fresca do sistema
radicular das plântulas de cupuaçuzeiro.
Este resultado discorda dos obtidos por
Soares et al. (2001) que, estudando a cultura
de embriões de jenipapo (Genipa americana
L.), observaram maior desenvolvimento do
sistema radicular de plântulas em meio de
cultura WPM. Provavelmente, os
requerimentos nutricionais no cultura in
vitro de embriões zigóticos dependam da
espécie e do estádio fisiológico dos
embriões.
NICKELL, L.G.; MARETZKI, A Nutritional and metabolic studies with sugarcane cell suspensions. In: SYMPOSIUM
ON CONFINOUS OF MICROORGANISMS, 4., 1969. Proceedings... p. 373-382.
78
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
CULTURA IN VITRO DE EMBRIÕES ZIGÓTICOS DE CUPUAÇUZEIRO (Theobroma grandiflorum Schum.)
Tabela 2 –
ÈJDU
9HUPLFXOLWD
0pGLD
ÈJDU
9HUPLFXOLWD
0pGLD
ÈJDU
9HUPLFXOLWD
0pGLD
ÈJDU
9HUPLFXOLWD
0pGLD
ÈJDU
9HUPLFXOLWD
0pGLD
Médias da percentagem de conversão de embriões zigóticos (%CEZ) em
plântulas aos 10 dias de cultura, dos pesos da massa fresca da parte aérea
(PMFPA), do sistema radicular (PMFSR) e dos cotilédones (PMFCO) e do
comprimento da parte aérea (CPA) de plântulas de Theobroma grandiflorum
aos 45 dias de cultura, em função do tipo de substrato e do meio de cultura.
Embrapa Amazônia Oriental, Belém (PA) Brasil, 2000.
$XVrQFLDGH06
&(=
ò06
100,0
100,0
100,0
100,00a
90,0
90,0
70,0
83,33b
95,0A
95,0A
$XVrQFLDGH06
30)3$J
ò06
0pGLD
06
85,0A
0pGLD
06
1,31Ab
1,58Aa
1,20Aa
1,37
1,90Aa
0,93Bb
0,96Ba
1,26
1,61
1,26
$XVrQFLDGH06
30)65J
ò06
1,08
0pGLD
06
1,14
1,25
1,10
1,33a
1,58
1,13
1,30
1,17a
1,36A
1,19A
1,20A
$XVrQFLDGH06
30)&2J
ò06
0pGLD
06
7,00
6,15
6,71
6,62a
6,22
5,07
5,23
5,51b
6,61A
5,61AB
5,97B
$XVrQFLDGH06
&3$FP
ò06
06
0pGLD
14,03
14,45
12,20
13,56a
14,25
9,70
8,80
10,92b
14,14A
12,08AB
10,50B
Nota: Médias seguidas por letras minúsculas na coluna, e por letras maiúsculas na linha, não diferem estatisticamente
entre si ao nível de 5 % pelo teste de Tukey.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
79
ANA DA SILVA LEDO, OSMAR ALVES LAMEIRA, ABDELLATIF KEMALEDDINE BENBADIS, SEBASTIÃO MEDEIROS FILHO, ILMARINA
CAMPOS DE MENEZES
4 CONCLUSÃO
a) é possível a conversão in vitro de
embriões zigóticos, isolados de sementes
em completo estádio de maturação
fisiológica, em plântulas completas e
normais;
b) o substrato ágar é adequado para a
cultura de embriões de cupuaçuzeiro;
c) não é necessária a presença de meio de
cultura para a conversão de embriões
zigóticos e para o crescimento inicial de
plântulas cultivadas in vitro.
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Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 73-80, jul./dez. 2003
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS JOVENS E NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO
AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA)
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS
JOVENS E NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO
AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA)1
Cíntia Alves CHAVES2
Ismael de Jesus Matos VIÉGAS3
George Rodrigues da SILVA4
Maria Alice Alves THOMAZ2
Dílson Augusto Capucho FRAZÃO5
RESUMO: A cultura do dendezeiro apresenta-se como excelente alternativa para a ocupação de
áreas desmatadas no Nordeste do estado do Pará, pelo ótimo retorno econômico e benefícios sociais,
como a fixação da mão-de-obra no campo e pela baixa agressividade ao meio ambiente. Com o
objetivo de avaliar o efeito da calagem no crescimento de dendezeiros jovens (Elaeis guineensis
Jacq.) e nas propriedades químicas de um Latossolo Amarelo, textura média, instalou-se um
experimento em casa de vegetação da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA) no período de
outubro de 1998 a março de 2000. O delineamento experimental foi inteiramente ao acaso, com
cinco tratamentos (0; 0,2; 1,5; 2,7 e 4,0 t/ha de calcário dolomítico), com seis repetições, sendo cada
unidade experimental constituída por uma planta por vaso. As quantidades de calcário foram
calculadas para elevar a porcentagem de saturação em bases (V%) do solo para 20%, 40%, 60% e
80%, respectivamente. De acordo com os resultados das variáveis de crescimento estudadas, a calagem
só influenciou significativamente a matéria seca do bulbo radicular, demonstrando ser a espécie
utilizada, aparentemente, tolerante a solos ácidos. A calagem promoveu modificações significativas
no pH, cálcio e alumínio trocáveis, fósforo disponível e soma de bases do solo.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Calagem; Dendê; Crescimento; Propriedades Químicas.
1
2
3
4
5
Aprovado para publicação em 29.8.2003
Trabalho desenvolvido pela parceria entre a Embrapa Amazônia Oriental e Funtec, e extraído da Dissertação apresentada
pelo primeiro autor ao curso de Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas da FCAP em 2001
Engenheira Agrônoma, M.Sc. em Solos e Nutrição de Plantas
Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Professor Visitante da UFRA, Caixa Postal
48. CEP: 66017-970 Belém, PA. E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Adjunto da UFRA. Departamento de Ciência do Solo, Caixa Postal 917.
CEP 66077-530, Belém, PA. E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92, jul./dez. 2003
81
CINTIA ALVES CHAVES, ISMAEL DE JESUS MATOS VIÉGAS, GEORGE RODRIGUES DA SILVA, MARIA ALICE ALVES THOMAZ,
DILSON AUGUSTO CAPUCHO FRAZÃO
EFFECT OF LIMING ON THE GROWTH OF OIL PALM SEEDLINGS
AND IN THE CHEMICAL PROPERTIES OF A YELLOW LATOSOL
FROM SANTA BARBARA, PA, BRAZIL
ABSTRACT: Oil Palm is an excellent alternative for deforested areas in the northeastern region
of Para state, Brazil, because of its economic profitability and low impacts on the environment.
The objective of this work was to determine the effect of liming in the chemical properties of the
soil and in the growth of oil palm (Elaeis guineensis) seedlings on a yellow latosol. The experiment
was made in the greenhouse of Embrapa Amazônia Oriental in Belém, state of Para, from October
1998 to March 2002. A randomly experimental design with five treatments (0; 0.2; 1.5; 2.7 and
4.0 t/ha of dolomitic limestone) and six replicates was used. Lime needs were based on the
method to raise base saturation (V%) of the soil to 20, 40, 60 and 80%. Results showed that
liming only increased dry matter production of the root bulb, suggesting that oil palm is tolerant
to acid soil. Liming also increased pH, sum of bases, available P and decreased exchangeable
aluminum of the soil.
INDEX TERMS: Limestone, sum of bases, exchanegeable aluminum, root bulb, tropical soil
1 INTRODUÇÃO
A espécie Elaeis guineensis Jacq., da
família Arecaceas, conhecida no Brasil
como dendezeiro, é originária do continente
africano e se desenvolve em clima quente e
úmido das regiões tropicais, podendo ser
cultivada em várias classes de solos dessas
regiões, preferencialmente em solos
profundos, bem drenados e planos,
evitando-se os muito arenosos ou muito
argilosos.
O conhecimento da fertilidade natural
do solo é um dos critérios que deve ser
considerado para o estabelecimento de um
plantio de dendezeiros, pois o uso de solos
com diferentes reservas naturais em
elementos minerais terá diferentes
82
implicações econômicas, tanto pelas
variações nos níveis de produtividade da
cultura quanto pelos níveis de aplicação de
fertilizantes (MACÊDO; RODRIGUES,
2000).
A cultura do dendezeiro desponta
como uma das mais importantes para o
Estado do Pará, uma vez que existe uma
área de aproximadamente oito milhões de
hectares com condições edafoclimáticas
favoráveis para o desenvolvimento dessa
oleaginosa. A área plantada atualmente
no estado está em torno de 50 mil
hectares com produção de óleo de 100
mil toneladas, sendo responsável por
85% da produção nacional (VIÉGAS et
al., 2000).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92 jul./dez. 2003
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS JOVENS E NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO
AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA)
Os solos representativos do estado do
Pará são ácidos, com pH variando entre 4,0
e 5,5 e fertilidade natural muito baixa, em
função dos baixos teores de nutrientes
essenciais às culturas. Portanto, como
medida conveniente para o desenvolvimento
adequado às atividades agropecuárias
nesses solos, devem ser efetuadas práticas
de calagem e de fertilização dos solos, a fim
de eliminar os efeitos deletérios ao
desenvolvimento do sistema radicular
causados pelo alumínio em excesso, e
elevar os teores dos nutrientes essenciais às
plantas a um nível satisfatório.
O principal efeito da calagem decorre
da neutralização de alumínio e manganês,
fornecimento de cálcio e magnésio e
aumento da disponibilidade de nutrientes,
principalmente de fósforo para as plantas
(RAIJ, 1991).
Assim, realizou-se esta pesquisa em
condições de casa de vegetação, com o
objetivo de avaliar a influência da calagem
em dendezeiros jovens e nas propriedades
químicas de um Latossolo Amarelo do
município de Santa Bárbara (PA).
2
MATERIAL E MÉTODO
2.1. LOCALIZAÇÃO DO EXPERIMENTO E SOLO ESTUDADO
O experimento foi instalado e
conduzido em casa de vegetação da Embrapa
Amazônia Oriental, em Belém (Pa) no
período de outubro de 1998 a março de 2000.
7
O substrato utilizado foi coletado na
profundidade 0 cm a 30 cm em área próxima
aos dendezeiros com sintomatologia do
amarelecimento fatal (AF) do dendezeiro,
na quadra E2D de plantação da Denpasa
(Dendê do Pará S/A), localizada no
município de Santa Bárbara (PA). O solo
foi classificado, segundo Rodrigues 7
(informação verbal), como Latossolo
Amarelo, distrófico, de textura média,
possuindo baixo nível de fertilidade natural;
apresentando-se com coloração brunado,
profundo e bem drenado. Os resultados da
análise química do substrato antes da
instalação do experimento encontram-se na
Tabela 1.
Tabela 1 – Resultados das análises
químicas do substrato, antes da
instalação do experimento.
Determinação
Alumínio (Al)
Cálcio (Ca)
Magnésio (Mg)
Potássio (K)
Fósforo (P)
pH em água
H + Al
Concentração
0,8 cmolc/dm3
0,7 cmolc/dm3
0,2 cmolc/dm3
30 mg/dm3
22 mg/dm3
4,7
5 cmolc/dm3
O clima do município de Santa
Bárbara é do tipo Afi, segundo a
classificação de Köppen, com precipitação
pluviométrica média anual (de 1968 a 2000)
de 3 255,6 mm, e a temperatura média
anual é de 26,2 ºC.
RODRIGUES, T.E. Engenheiro Agrônomo da Embrapa Amazônia Oriental, Belém. E-mail: [email protected]
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92, jul./dez. 2003
83
CINTIA ALVES CHAVES, ISMAEL DE JESUS MATOS VIÉGAS, GEORGE RODRIGUES DA SILVA, MARIA ALICE ALVES THOMAZ,
DILSON AUGUSTO CAPUCHO FRAZÃO
2.2. DELINEAMENTO EXPERIMENTAL
E TRATAMENTOS
O delineamento experimental
utilizado foi inteiramente ao acaso, com
cinco tratamentos e seis repetições,
perfazendo 30 unidades experimentais.
Cada unidade experimental constou de uma
planta cultivada em vaso de plástico com
capacidade para 20 kg de substrato de um
Latossolo Amarelo.
As análises estatísticas foram feitas
utilizando-se o programa de computador
SOFTWARE – SAS (Sistema de Análise
Estatística). Os dados das variáveis
estudadas foram submetidos às análises de
variância e regressão (GOMES, 1973), em
função dos tratamentos aplicados.
Os tratamentos constaram de uma
testemunha sem calagem e de quatro doses
de calcário dolomítico (0,2; 1,5; 2,7 e 4,0
t/ha) com PRNT = 95%, tendo na sua
composição 32% de CaO e 14% de MgO,
necessárias para elevar a porcentagem de
saturação em bases (V%) do solo para 20%,
40%, 60% e 80%, respectivamente, baseada
na necessidade de calcário (N.C) calculada
pela expressão : N.C.= (V2 - V1) T/100, em
que:
T = capacidade de troca de cátions (CTC);
V2 = porcentagem de saturação de bases
desejada;
V1 = porcentagem de saturação de bases
indicada pela análise de solo.
As quantidades de calcário aplicadas
(g/vaso) e valores de pH atingidos 30 dias
após a incubação do solo, de acordo com os
tratamentos, encontram-se na Tabela 2.
2.3 CONDUÇÃO DO EXPERIMENTO
O calcário foi misturado homogeneamente ao solo, nas quantidades
estabelecidas, de acordo com os
tratamentos. A mistura foi acondicionada
em vasos com capacidade para 20 kg de
substrato e incubada por período de 30 dias,
suficiente para tornar constantes os valores
de pH determinados em água. Após a
incubação, fez-se o plantio, colocando-se
Tabela 2 – Doses de calcário aplicadas em função dos tratamentos e valores de pH do solo
após 30 dias de incubação
Saturação em bases
––––– (V%) –––––
Testemunha
20
40
60
80
84
Tratamento
Quantidade de calcário
––––– Calcário (t/ha) –––––
por vaso (g/20kg)
0,0
0,2
1,5
2,7
4,0
0
2
15
27
40
pH
(H2O)
4,5
4,7
5,0
5,3
5,3
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92 jul./dez. 2003
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS JOVENS E NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO
AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA)
em cada vaso uma muda de dendezeiro com
quatro meses de idade do híbrido comercial
Tenera (Dura x Psífera), proveniente da
Estação Experimental do Rio Urubu,
pertencente à Embrapa Amazônia
Ocidental, em Manaus (AM). Após 30 dias
do plantio, efetuou-se a adubação mineral
em todos os vasos, baseada nas doses
recomendadas por Malavolta (1980), para
experimentos conduzidos em vasos, sendo:
N = 200 mg/kg de solo, tendo com fonte a
uréia; P = 200 mg/kg de solo, tendo como
fonte o superfosfato simples; K = 100 mg/
kg de solo, utilizando-se como fonte o
cloreto de potássio; Mg = 60 mg/kg de solo,
utilizando-se o sulfato de magnésio; B = 0,5
mg/kg de solo, tendo como fonte o ácido
bórico; Cu = 1,5 mg/kg de solo, utilizandose o sulfato de cobre; Mo = 0,1 mg/kg de
solo, na forma de óxido de molibdênio;
Mn = 4 mg/kg de solo, utilizando-se o
sulfato de manganês e o Zn = 5 mg /kg
de solo, tendo como fonte o sulfato de zinco.
As adubações nitrogenadas, potássicas e
magnesianas foram parceladas em três
aplicações.
do dendezeiro, na falta da folha 9 ; raiz e
bulbo radicular), separadamente, foram
acondicionadas em sacos de papel e
colocadas em estufa de circulação forçada,
com temperatura de 70 0C, até a obtenção
do peso constante. Posteriormente, o
material foi pesado para obtenção do peso
da matéria seca de cada parte da planta.
2.4 ANÁLISE QUÍMICA DO SOLO
Foram realizadas análises químicas do
substrato antes da instalação do experimento
para pH em água, P, K, Ca, Mg, Al e H +
Al, no Laboratório de Análise de Solos da
Universidade Federal de Lavras - UFLA.
Durante todo o experimento, mantevese nos vasos a umidade do solo próximo de
60% da capacidade máxima de retenção de
água, através da pesagem diária dos mesmos
e reposição da água perdida por evaporação.
A coleta das plantas ocorreu 15 meses após
o plantio das mudas. As diferentes partes
de cada planta (aérea - representada pelo
ráquis, folíolos, pecíolos e flecha; folha 4 indicada para avaliar o estado nutricional
Ao final do experimento foram
retiradas amostras de solo de cada vaso, de
acordo com os tratamentos, utilizando-se
uma sonda. As amostras de solo foram
analisadas no Laboratório de Solo e Planta
da Embrapa Amazônia Oriental para pH em
água, fósforo disponível (P) e potássio (K),
cálcio (Ca), magnésio (Mg) e alumínio (Al)
trocáveis, conforme Embrapa (1997). Com
base nos resultados, calculou-se a soma de
bases (SB). O pH em água foi determinado
usando-se eletrodo de vidro, em suspensão
na proporção solo: líquido 1: 2,5; Ca e Mg
foram extraídos utilizando-se solução de
KCl 1N e determinado por absorção
atômica; o P foi extraído com solução de
H2SO4 + HCl 0,025N e determinado pelo
espectrofotômetro (comprimento de onda –
660 nm); o K, através do fotômetro de
chamas; e o Al, por titulação usando-se o
NaOH 0,025 N.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92, jul./dez. 2003
85
CINTIA ALVES CHAVES, ISMAEL DE JESUS MATOS VIÉGAS, GEORGE RODRIGUES DA SILVA, MARIA ALICE ALVES THOMAZ,
DILSON AUGUSTO CAPUCHO FRAZÃO
2.5 VARIÁVEIS ESTUDADAS
Os efeitos dos tratamentos foram
avaliados através das modificações
ocorridas no valor do pH (H 20), teores
trocáveis de K, Ca, Mg e Al, de P disponível
e soma de bases trocáveis (SB), do substrato
utilizado e nas seguintes variáveis de
crescimento: a) Altura: considerada a partir
do coleto até o ápice da folha, tomada com
auxílio de uma régua graduada; b)
Circunferência do coleto: medida a 5 cm do
colo; c) Produção de matéria seca: parte
aérea (ráquis, folíolos, pecíolos e flecha);
raízes, bulbo radicular e matéria seca total;
d) Contagem do número de folhas.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A calagem corrigiu a acidez e
provocou o aumento do valor do pH do solo
utilizado, traduzido por uma equação do
primeiro grau, demonstrando relação linear
ascendente com coeficiente de determinação
da equação de 96% (Figura 1).
Estes resultados estão consistentes
com os obtidos por Viégas et al. (1988) que,
ao conduzirem trabalho sobre a calagem e
parcelamento da adubação fosfatada em
porta-enxertos de seringueira em Latossolo
Amarelo na região de Belém, constataram
que os índices de pH foram mais elevados
com as maiores doses de calcário aplicado.
Forestieri e De Polli (1990) verificaram que
na cultura do milho a calagem promoveu
também um aumento significativo do pH do
solo de 5,0 para 5,9.
Com relação à acidez do solo, o
dendezeiro adapta-se a solos ácidos e se
desenvolve normalmente em faixa de pH
entre 4 a 6 (Ng, 1972). De acordo com
Macêdo e Rodrigues (2000), o dendezeiro
na Amazônia é cultivado em solos com pH
variando de 4,4 a 6,2.
86
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92 jul./dez. 2003
p H (2O
H
Figura 1 – Efeito da calagem sobre o pH em substrato de
Latossolo Amarelo na camada de 0 cm a 30 cm.
A aplicação do calcário dolomítico não
provocou diferenças significativas sobre as
concentrações de K e Mg no solo. Esses
resultados diferem dos obtidos por Ben
(1974), que constatou que a calagem reduziu
a concentração de K e provocou aumento no
teor de Mg hidrossolúvel nos solos de Santa
Maria, São Gabriel e Júlio de Castilhos, no
estado do Rio Grande de Sul. Entretanto,
Neves (1991) também não obteve efeito
significativo da calagem sobre a
concentração de K de um Podzólico
Vermelho-Amarelo, do estado do Amazonas,
em pesquisas desenvolvidas com caupi. De
acordo com Raij (1991), a calagem propicia
vários efeitos benéficos, entretanto essa
prática agrícola diminui a disponibilidade
de potássio e micronutrientes.
2
y=4,1455 + 0,1447x - 0, 0044x
2
R =0,96 **
4,7
4,6
4,5
4,4
4,3
4,2
4,1
4
0
1
2
3
4
Calcár i o ( t / ha)
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS JOVENS E NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO
AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA)
Os valores de SB e as concentrações
de Ca, P, Al no solo variaram
significativamente com as doses de calcário.
Na Figura 2, verifica-se o comportamento do
efeito da calagem sobre a concentração de
Ca no solo, mostrando uma análise de
regressão quadrática, com coeficiente de
determinação da equação de 98%. Com base
nessa equação, obteve-se a dose máxima de
3,6 t/ha de calcário, a qual propicia a
concentração máxima de 1,6 cmolc/dm3 de
Ca no solo. Os valores de Ca variaram de
0,42 cmolc/dm3, sem a calagem, a 1,63 cmolc/
dm3 com a dose de 2,7 t/ha, correspondente
a 60% de saturação em bases. Viégas et al.
(1988), pesquisando o efeito da calagem em
porta-enxertos de seringueira, constataram,
também, que houve aumento nos teores de
Ca trocável em Latossolo Amarelo da região
de Belém, Estado do Pará.
y = 0,4447+0,6378x-0,0872x2
r = 0,98
2
3
Ca (cmolc/dm )
O fato da calagem não ter influenciado
de forma significativa nas concentrações de
K e Mg no substrato do Latossolo Amarelo
coletado na quadra E2D pode ser explicado
pela concentração desses nutrientes
existentes no solo, proveniente do efeito
residual das adubações fornecidas aos
dendezeiros ou pelo adequado suprimento
dos mesmos, através da adubação efetuada
para aquela cultura, propiciando equilíbrio
satisfatório entre os cátions Ca, K e Mg.
2
2
**
y = -0,0872x + 0,6378x
+ 0,4447
2
R = 0,98 **
1,5
1
0,5
0
0
1
2
3
4
Calcário (t/ha)
Figura 2 – Efeito da calagem sobre a concentração de cálcio
em substrato de Latossolo Amarelo na camada de 0 cm a
30 cm.
Struchtemeyer et al. (1971)
ressaltaram que a correlação entre pH e Ca++
+ Mg++ foi positiva, ao desenvolverem o
trabalho sobre a necessidade de calcário em
solos da Zona Bragantina, localizada no
Nordeste do estado do Pará.
Na Figura 3, encontra-se a equação de
regressão do segundo grau, que traduz o
efeito das doses de calcário sobre a
concentração de P disponível do solo.
Observa-se que a calagem reduziu a
concentração de P disponível do Latossolo
Amarelo estudado, em relação à testemunha
(sem calagem), que apresentou 19,33 mg/
dm 3. Essa redução na concentração de
fósforo, com a aplicação de calcário pode
ser explicada principalmente pela interação
entre o cálcio e o fósforo, este último
proveniente tanto do solo quanto do
fornecimento, através da adubação aos
dendezeiros, quanto da adubação fosfatada
aplicada durante a condução do
experimento. Segundo Carvalho, Carvalho
e Assis. (2000), a calagem, quando feita em
doses elevadas, pode diminuir a
disponibilidade de P no solo, pela formação
de fosfatos de cálcio pouco solúveis. Singh
e Singh (1980) constataram, também, que
houve decréscimos na absorção de P pelo
arroz com a adição de CaCO3 em solos
inundados, atribuindo-os à fixação do P
nativo em presença do CaCO3, devido à
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92, jul./dez. 2003
87
CINTIA ALVES CHAVES, ISMAEL DE JESUS MATOS VIÉGAS, GEORGE RODRIGUES DA SILVA, MARIA ALICE ALVES THOMAZ,
DILSON AUGUSTO CAPUCHO FRAZÃO
formação de fosfatos de cálcio de baixa
solubilidade. Os mesmos autores
levantaram ainda a hipótese para a redução
na absorção de P, pelo fato do Ca ser um
nutriente absorvido preferencialmente
através do fluxo de massa e, não havendo
limitação para tal processo em solos
inundados, um excesso deste na rizosfera
do arroz poderá ocasionar, também, uma
precipitação do P nesta região.
O efeito da calagem na concentração
de Al do solo é representado por uma
equação do segundo grau (Figura 4),
mostrando progressiva redução da
concentração deste elemento no solo. A
dose de 2,7 t/ha, correspondente a 60% de
saturação por bases, foi suficiente para
provocar a máxima redução do Al no solo,
correspondente a 0,47 cmolc/dm3.
Lima Filho (1995), ao estudar os efeitos
do calcário e gesso no solo e na produtividade
da Laranjeira Hamlin e do limoeiro cravo,
observou que os teores de Al na segunda
época de amostragem (safra 93/94), no geral,
foram menores do que aqueles obtidos na
primeira época de amostragem (safra 92/93).
Esses resultados mostram a eficiência dos
corretivos aplicados, tanto na forma
exclusiva quanto através de misturas de tipos
de calcário, ou, ainda, na mistura de calcário
dolomítico com gesso.
Os teores de Al trocável em solos
ácidos são reduzidos através de mecanismos
de neutralização da acidez e da velocidade
das reações do calcário com o solo
(COLEMAN; THOMAS, 1977).
Pereira e Pereira (1987) conduziram
experimentos com mudas de seringueira
desenvolvidas em sacos de plástico e
verificaram, após as analises de solo
realizadas três meses após o plantio, que a
espécie é bastante tolerante a solos ácidos,
com altos teores de Al trocável.
Observaram, também, que os teores de Al
trocável reduziram com a calagem,
alcançando níveis muito baixos com doses
de 6 e 8 t/ha de calcário, e o pH elevou-se,
atingindo valores de 5,0 a 5,4.
2
25
3
Al (cmolc/dm )
y =17,184 - 2, 515 x + 0, 6466 x
2
R =0,34*
P (mg/dm 3)
20
15
10
5
0
0
1
2
3
4
Cal cár i o ( t / ha)
2
y = 1,1003 - 0,3441x + 0,0539 x
1,4
1,2
1
0,8
0,6
0,4
0,2
0
2
R = 0,86 **
0
1
2
3
4
Calcário (t/ha)
Figura 3 – Efeito da calagem sobre a concentração de
fósforo em substrato de Latossolo Amarelo na camada de
0 cm a 30 cm.
Figura 4 – Efeito da calagem sobre a concentração de
alumínio em substrato de Latossolo Amarelo na camada
de 0 cm a 30 cm.
88
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92 jul./dez. 2003
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS JOVENS E NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO
AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA)
Algumas plantas de importância
econômica na Amazônia necessitam de
concentração mínima de Al para estimular
o seu crescimento, como é o caso da
seringueira constatado pelas pesquisas
desenvolvidas por Santana et al. (1977);
Carvalho, Viégas e Bueno, (1985); Bueno
(1987) e da pimenta-do-reino por Veloso
(1993). Em função dos dados desta
pesquisa, supõe-se que o dendezeiro
também se beneficia de pequenas
concentrações de Al para estimular o seu
crescimento, necessitando de pesquisas para
comprovar ou descartar essa suposição.
Pode-se constatar, através da Figura 5,
que a aplicação das doses de calcário
dolomítico aumentaram a soma de bases
(SB), sendo explicada por equação de
regressão quadrática, com coeficiente de
determinação de 0,99. De acordo com essa
equação, a dose máxima de 3,5 t/ha
propiciou a concentração máxima de
2,6 cmolc/dm3 de SB no solo.
2
y =1, 4655 + 0,6768 x - 0, 0943 x
2
R =0, 99**
3
SB (cmol c/dm3)
2,5
2
Dentre as variáveis altura da planta,
circunferência do coleto, número de folhas,
produção de matéria seca do bulbo radicular,
das raízes e total em dendezeiros jovens, a
única influenciada pela calagem foi a matéria
seca do bulbo radicular, que variou de 98,50g
sem a calagem, a 152,67g com a máxima dose
de calcário aplicada (Tabela 3). Esses
resultados indicam ser o dendezeiro uma
planta tolerante a solos ácidos, fato também
observado por Ng (1972) verificando que
essa planta adapta-se a solos ácidos e se
desenvolve normalmente na faixa de pH,
entre 4 a 6. De acordo com Macedo e
Rodrigues (2000), na Amazônia o
dendezeiro vem sendo cultivado em solos
com pH variando de 4,4 a 6,2.
Na Figura 6, pode-se verificar o efeito
da calagem sobre a matéria seca do bulbo
radicular, mostrando análise de regressão
com comportamento linear, com coeficiente
de determinação da equação de 90%.
Ao desenvolverem o trabalho em
condições de casa de vegetação, sobre o
efeito da calagem na produção de matéria
seca em gravioleira e aceroleira em Latossolo
Amarelo barro areno-argiloso, no estado do
Pará, Oliveira et al. (2002) constataram
resposta somente para a aceroleira.
Figura 5 – Efeito da calagem sobre a concentração de soma
de bases em substrato de Latossolo Amarelo na camada
de 0 cm a 30 cm.
A altura da planta, a circunferência
do coleto e o número de folhas das plantas
do dendezeiro, conforme mencionado, não
foram afetados significativamente com o
aumento das doses de calcário dolomítico.
Este fato pode ser devido à ausência de
influência significativa dos níveis
crescentes de calagem sobre o estado
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92, jul./dez. 2003
89
1,5
1
0,5
0
0
1
2
3
4
Cal cár i o ( t / ha)
CINTIA ALVES CHAVES, ISMAEL DE JESUS MATOS VIÉGAS, GEORGE RODRIGUES DA SILVA, MARIA ALICE ALVES THOMAZ,
DILSON AUGUSTO CAPUCHO FRAZÃO
Tabela 3 – Valores médios do efeito da calagem sobre a altura, circunferência do coleto,
número de folhas e produção de matéria seca da parte aérea, do bulbo radicular,
da raiz e total em plantas jovens do dendezeiro.
Saturação Calcário Altura da Circunferência Número Matéria Matéria Materia Materia
em bases
planta
do coleto de folhas seca da seca do seca da seca
parte
bulbo
raiz
total
aérea
----------cm---------(V%)
(t/ha)
----------g/planta---------0
20
40
60
80
0
0,2
1,5
2,7
4,0
CV(%)
170,17
168,83
164,67
173,33
179,50
22,33
19,50
22,83
20,50
20,33
10,50
10,50
10,17
10,17
10,83
437,45
474,33
452,33
411,00
444,32
98,50
117,00
127,17
147,33
152,67
240,00
233,00
276,67
217,83
221,83
775,80
824,33
856,17
776,12
818,68
7,73
10,82
12,04
13,16
20,89
32,31
11,87
MSBR (g/planta)
200
y=107, 59 +12, 46x
2
R =0, 9 0**
150
100
50
0
0
1
2
3
4
Cal cár i o ( t / ha)
Figura 6 – Efeito da calagem sobre a matéria seca do bulbo radicular (MSBR) em substrato de Latossolo Amarelo na
camada de 0 cm a 30 cm.
90
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92 jul./dez. 2003
EFEITO DA CALAGEM NO CRESCIMENTO DE DENDEZEIROS JOVENS E NAS PROPRIEDADES QUÍMICAS DE UM LATOSSOLO
AMARELO DO MUNICÍPIO DE SANTA BÁRBARA (PA)
nutricional de Ca nas raízes do dendezeiro,
uma vez que, segundo Howard e Adams
(1965), para que ocorra o crescimento
radicular, o Ca tem que estar presente no
meio ambiente da extremidade da raiz, já
que as plantas não são capazes de translocar,
satisfatoriamente, o Ca absorvido do solo
superficial corrigido pela calagem, para os
pontos radiculares de crescimento.
Os resultados desta pesquisa também
se assemelham com os obtidos por Pacheco
et al. (1987) que, ao estudarem respostas
de N, P, K e Mg no desenvolvimento de
mudas de dendezeiro em Latossolo Amarelo
textura média, na região de Manaus (AM),
constataram que a aplicação de Ca, tendo
como fonte o calcário dolomítico, não
influenciou no crescimento das plantas.
Conforme Coelho (1990), a aplicação
de 1 200 kg/ha de calcário em Latossolo
Vermelho-Amarelo proporcionou uma
pequena neutralização da acidez do solo,
reforçando a idéia de que a calagem em porta
enxertos de seringueira tem como principal
função suprir a planta de cálcio e magnésio.
CONCLUSÃO
De acordo com os dados obtidos nesta
pesquisa, conclui-se que:
a) No Latossolo Amarelo, o pH, o P
disponível, o Ca, o alumínio trocável e a
soma de bases sofreram modificações com
a calagem, enquanto Mg e K trocáveis, não
foram influenciados significativamente com
a respectiva prática.
linearmente com a aplicação do calcário,
enquanto as outras variáveis de crescimento
não foram influenciadas.
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amarelecimento fatal. In: REUNIÃO
BRASILEIRA DE FERTILIDADE DO SOLO
E NUTRIÇÃO DE PLANTAS – FERTBIO, 25.,
2000, Santa Maria (RS). Resumos expandidos...
Santa Maria (RS), 2000. CD-ROM.
92
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 81-92 jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS
DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL1
Ralfh João RIBEIRO2
Niro HIGUCHI3
Gil VIEIRA3
Joaquim dos SANTOS3
Maria Naélia SILVA RIBEIRO4
RESUMO: O planejamento adequado do uso dos recursos florestais pressupõe a utilização de
métodos mais precisos e acurados para quantificar a produção volumétrica. Portanto, o objetivo
principal foi mostrar que é possivel utilizar função de forma, a despeito do grande número de espécies
existentes na Amazônia. O presente trabalho foi desenvolvido na região de Manaus, floresta tropical
úmida, com amostra contendo 265 árvores, cujos volumes foram obtidos pelo método de Smalian.
Métodos estatísticos multivariados foram utilizados não apenas como métodos exploratórios, mas,
também, para tentar agrupar as espécies por características quantitativas. Dentre as variáveis estudadas
(diâmetro à altura do peito, altura comercial, fator de forma e componentes principais), os grupos
que melhor ajustaram os modelos propostos foram os que tiveram o fator de forma como variável
classificatória. A análise de componentes principais, apesar de mostrar que forma e tamanho podem
ser explicados, respectivamente pelo primeiro (PC1=85%) e segundo componente principal
(PC2=8%), não apresentou um bom desempenho para ajustar os modelos através da análise de
regressão. Considerando-se a excelente performance alcançada em florestas plantadas no Sul, os
modelos lineares e polinomiais apresentaram menor rendimento volumétrico. A equação de volume
normal quando comparada a equação de forma, esta última apresentou melhoria na precisão e
acuracidade. Os modelos:
9 =
π E 02
−2
' 2 K 2 ( K + 1,3 )
40000 ( − 2 E 2 + 1)
E1
E3
E
2 +1
L
+ε
L
e
9 =
πE02
' 2 K 2 (K + K ) −2
40000(−2E2 + 1)
E1
E3
E2
+1
L
+ ε foram os que produziram as melhores
L
estimativas volumétricas para os dados analisados.
1
2
3
4
Aprovado para publicação em 4.11.2003
Pesquisa financiada pelo convênio MCT- Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Fundação Universidade do
Amazonas e Projeto Biomassa e Nutrientes – BIONTE/ODA.
Engenheiro Florestal, M. Sc., Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, CPST, Cx. Postal 478-69011-970
Manaus (AM) Brasil. E -mail: [email protected]
Engenheiro Florestal, Ph.D., Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, CPST.
Engenheira Florestal, B. Sc., Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, CPBO.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
93
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Manejo Florestal, Forma do Tronco, Fator de Forma, Modelos
Matemáticos, Determinação Volumétrica.
TAPER FUNCTION STUDIES IN LOWLAND TREE SPECIES
OF CENTRAL AMAZÔNIA
ABSTRACT: This study was carried out in Manaus region in a site covered by a typical dense
Amazonian tropical moist forest on “terra-firme”. The objectives of the work were to test different
statistical models to estimate standing tree volume and to develop taper functions for group of
species using multivariate techniques. The data set used was composed of 265 trees and the volumes
of trees were obtained directly using Smalian approach. The component analysis showed that form
and size of trunk could be explained through the first (PC1=85%) and second (PC2=8%) principal
components. Both hierarchical and non hierarchical clustering routines were used to identify tree
groups from various sets of initial variables such as diameter at breast height (dbh), commercial
height, form factor and principal components. Form factor showed the best performance as a
classification variable for group formation. Linear, non-linear and polynomial taper equations were
used to fit the observed data of each group; but the first two equations were found to be inadequate
for describing the shape of the whole stem. Finally, it was shown that volume estimation using taper
functions gives a better estimate of bole volume than that from classical allometric equations using
dbh and height (Schumacher’s model, for example).
The best volume functions obtained were:
9 =
and
9 =
π E 02
' 2 K 2 ( K + 1, 3 ) − 2
40000 ( − 2 E 2 + 1)
E1
E3
E2
L
πE02
' 2 K 2 (K + K ) −2
40000(−2E2 + 1)
E1
E3
E2
L
+1
+1
+
+ε
ε
L
L
INDEX TERMS: Forest Management, Stem-Form, Form-Factors, Mathematical-Models, VolumeDetermination.
1 INTRODUÇÃO
A floresta amazônica continua sendo
um dos ecossistemas mais complexos e
cobiçados do mundo, devido à sua
biodiversidade e carência de informações
cientifícas que permitam utilizá-la
adeqüadamente.
Os recursos florestais da Amazônia,
apesar de parecerem inesgotáveis,
94
necessitam ser manejados de modo
sustentável para evitar as agressões ao meio
ambiente e, conseqüentemente, o
desequilíbrio dos ecossistemas da região.
A exploração florestal só pode ser bem
planejada com base num sistema eficiente
de quantificação. Portanto, pesquisas para
melhorar a acuracidade e precisão das
estimativas volumétricas podem tornar mais
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
eficiente o planejamento da produção.
Esta preocupação surgiu no Sul do país
através da utilização de novas técnicas de
estimação volumétricas (AHRENS, 1982b)
e estas técnicas objetivam otimizar o uso
da árvore contribuindo para um
planejamento mais eficiente da produção
florestal (COUTO, 1982).
As equações volumétricas, geralmente,
são usadas para cálculos totais, não sendo
utilizadas em estimativas parciais. Sendo
assim, não existe a possibilidade de
sortimento da produção florestal.
Apesar de recentes no Brasil, os
estudos da expressão matemática da forma
do tronco têm adotado diferentes funções,
variando entre polinomiais, exponenciais,
logarítmicas etc., segundo Veiga (1976);
Hosokawa (1978); Fupef (1978); Péllico
Netto (1980); Burger, Hasokawa e Machado
(1980) e Ahrens (1980).
A hipótese central deste trabalho é que
existe função de afilamento (taper function)
para grupos de espécies amazônicas. Para
testar esta hipótese procurou-se:
a) definir grupos distintos de espécies
através de parâmetros biométricos
amplamente conhecidos: diâmetro à altura
do peito (DAP), altura comercial (HC) e
fator de forma (FF);
b) desenvolver e ajustar modelos
estatísticos para a seleção de uma equação
de afilamento para cada grupo;
c) comparar as estimativas
volumétricas obtidas pela equação de
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
afilamento com o volume real e com as
estimativas obtidas por equações de volume
tradicionais.
2 MATERIAL E MÉTODOS
Os dados analisados originaramse da exploração florestal realizada para o
projeto de Manejo Ecológico e Exploração
da Floresta Tropical Úmida (INPA –
Coordenação de Pesquisas em Silvicultura
Tropical), CPST-INPA, onde, simultaneamente, realizou-se a cubagem das 265
árvores abatidas.
A área estudada (Figura 1) é
denominada Bacia 3 e faz parte da bacia do
rio Tarumãzinho, situada entre os
quilômetros 21 e 24 da estrada vicinal
ZF-2/BR-174, aos 2° 37' e 2° 38' de latitude
’
’
Sul e 60o 9’ a 60o 11’ de longitude Oeste
(JARDIM; HOSOKAWA, 1986/87). Uma
descrição completa sobre clima e solos deste
sítio pode ser encontrada nos trabalhos de
Bastos et al. (1986); Vieira (1996) e Chauvel
(1982).
A determinação do volume real das
árvores amostradas foi feita pela fórmula
de Smalian, que fornece o volume em
relação ao comprimento da árvore e as áreas
transversais das duas extremidades.
Neste trabalho foram utilizados a
análise de componentes principais e
análise de agrupamentos, sendo
obedecidos os critérios e as
recomendações descritas nos trabalhos de
Marriot (1974); Morrison (1976); Everitt
(1980); Ahrens (1982a) e Riboldi (1986).
95
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
Figura 1 – Localização e distribuição espacial da área do projeto BIONTE/INPA, no Distrito Agropecuário da Suframa,
Manaus (AM).
Fonte: Santos (1996)
Com base na análise de componentes
principais, verificou-se a variação existente
entre as variáveis estudadas, a utilização dos
dois primeiros componentes principais na
análise de regressão e como variável
classificatória na análise de agrupamento.
A seguir, para a definição dos grupos
de indivíduos procedeu-se a análise de
agrupamento através do procedimento
hierárquico e não-hierárquico para as
variáveis estudadas.
Aos grupos formados pela análise de
agrupamentos ajustaram-se os parâmetros
dos modelos apresentados na Tabela 1 pela
96
análise de regressão. No processamento
estatístico dos dados foi utilizado os
procedimentos do SAS (Statistical Analysis
System, 1987).
Os critérios adotados para a escolha da
melhor equação de forma foram os propostos
por Cao, Burkhart e Max (1980); Campos,
Zarconi e Ribeiro (1982); Soares (1993) e
Moura (1994) que utilizaram o coeficiente
de determinação ajustado (R2a), erro padrão
da estimativa absoluto (Syx), erro padrão da
estimativa percentual (Syx%), teste F de
significância e análise gráfica dos resíduos
do diâmetro, da altura e do volume.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
Tabela 1 – Modelos utilizados na definição da forma do tronco das árvores.
MOD
1
AUTORES
DESCRIÇÃO
1
2
K ⎞
K
⎛
G = '⎜ D 0 + D1 + D 2 ⎟ + ε
K
K⎠
⎝
L
L
L
Munro (1968)
L
1
2
⎛
⎛ K2
⎞⎞ 2
⎛K
⎞
− 1⎟⎟ ⎟ + ε
G = ' 2 ⎜ D + D1 ⎜ − 1⎟ + D 2 ⎜⎜
⎟
⎜
⎝K
⎠
⎝ K
⎠⎠
⎝
2
3
4
5
G
⎛K ⎞
⎛K ⎞
⎛K ⎞
⎛K ⎞
⎛K ⎞
= D 0 + D1 ⎜ ⎟ + D 2 ⎜ ⎟ + D 3 ⎜ ⎟ + D 4 ⎜ ⎟ + D 5 ⎜ ⎟ + ε
'
⎝K⎠
⎝K⎠
⎝K⎠
⎝K⎠
⎝K⎠
L
L
3
Kozak, Munro e Smith
(1969)
L
R
L
L
L
L
L
L
4
G = D 0 + D1 K + D 2 K 2 + D 3 K 3 + D 4 K 4 + D 5 K 5 + ε
5
⎛ 1 ⎞
⎟⎟ K 3 + ε
G = D 0 ' ⎜⎜
1
,
3
K
+
⎠
⎝
L
L
L
L
Prodan5 (1965, apud
PÉLLICO NETTO, 1980)
Hosokawa (1980)
D2
D1
D
L
Moura (1994)
L
L
6
⎛ 1 ⎞
⎟⎟ K 2 + ε
G = D 0 ' ⎜⎜
⎝ K + 1,3 ⎠
7
G
⎛K−K ⎞
/Q = D 0 + D1 ./Q⎜
⎟ +ε
G
⎝ K ⎠
8
⎛ 1
G = D 0 ' ⎜⎜
⎝K+K
D1
D
L
Moura (1994)
L
L
L
L
⎞ 2
⎟⎟ K
⎠
D
D
1
L
L
D
3
+ε
Moura (1994)
L
Moura (1994)
L
Onde:
G= diâmetro da seção i;
'= DAP;
K= altura da seção i;
K = altura comercial;
DDDQ coeficiente da agregração.
i = erro
As estimativas volumétricas foram
feitas a partir da integração da função de
afilamento ao quadrado, para os modelos
que apresentaram melhor desempenho.
Ajustou-se, então, a equação de
Schumacher, para que se pudesse efetuar a
comparação das estimativas através dos dois
métodos.
5
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
O ajustamento de função de forma por
espécie tem sido constantemente utilizado
em monocultura, principalmente, no Sul do
País. Sua utilização na floresta amazônica
pressupõe uma abordagem diferente, por
causa das peculiaridades apresentadas por
esta floresta. Neste trabalho, optou-se pela
PRODAN, M. HolzmBlehre. Frankfurt: Sauerlanger’s Verlag, 1965. 644 p.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
97
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
utilização de modelos de forma para grupos
que apresentassem características
semelhantes. Portanto, torna-se difícil
comparar os resultados obtidos neste
trabalho com os de outros autores em face
da abordagem utilizada.
Dentre as três variáveis apresentadas
na Tabela 2, observou-se que a altura
comercial apresentou o maior coeficiente de
variação seguido pelo DAP e fator de forma.
Moura (1994), trabalhando com 14 espécies,
encontrou para altura comercial, DAP e
fator de forma, coeficientes de variação na
faixa de 9,80 a 27,78%; 9,09 a 33,80% e
9,21 a 17,41%, respectivamente. O fator de
forma médio para árvores amazônicas de
acordo com Sudam (1973) é em torno de
0,71; Moura (1994) estimou o fator de forma
em 0,75, para 710 indivíduos.
A média da altura comercial foi 17m
para um coeficiente de variação de 24,22%.
Moura (1994) encontrou os seguintes
resultados em nível de espécie: altura
comercial média variando de 13,97 a
28,18m, com coeficientes de variação de
25,64 e 9,80%, respectivamente. Pode-se
verificar também que o tamanho de amostra
calculado apresentou-se satisfatório para
todas as variáveis estudadas.
A baixa correlação linear da altura
comercial com as variáveis utilizadas
indicou não haver tendência linear entre
estas variáveis (Tabela 3). Todavia, a
variável DAP, apesar de ter apresentado
baixa correlação com a altura, possuiu alta
correlação positiva para com os demais
diâmetros avaliados, com pequena variação
(0,84 a 0,93), facultando a utilização de
qualquer destas variáveis.
Tabela 2 – Estatística descritiva do banco de dados.
Parâmetros
n Observado
Média
Variância
Desvio padrão
Erro padrão
Coef. de variação
Máximo
Mínimo
n mínimo
DAP (cm)
265,00
66,58
250,49
15,83
0,97
23,77
132,00
45,00
22,00
Altura comercial
(m)
265,00
17,00
16,95
4,12
0,25
24,22
28,00
6,00
23,00
Fator de forma*
265,000
0,650
0,010
0,120
0,007
18,130
0,990
0,300
13,000
* Com base em altura comercial.
98
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
Tabela 3 – Matriz de correlação linear do banco de dados
DAP
HC
D1
D2
D3
D4
D5
D6
D7
D8
D9
D10
D11
DAP
HC
D1
D2
D3
1
0,0075
0,9299
0,9388
0,9304
0,9334
0,9224
0,9189
0,9128
0,9016
0,8872
0,8677
0,8403
1
-0,0208
-0,0247
-0,0240
-0,0317
-0,0594
-0,0859
-0,1105
-0,1372
-0,1762
-0,2165
-0,2282
1
0,9614
0,9451
0,9410
0,9260
0,9187
0,9105
0,8940
0,8762
0,8557
0,8325
1
0,9858
0,9766
0,9600
0,9518
0,9422
0,9273
0,9078
0,8838
0,8596
1
0,9898
0,9697
0,9611
0,9512
0,9361
0,9180
0,8930
0,8664
D4
1
0,9826
0,9729
0,9616
0,9490
0,9309
0,9095
0,8860
D5
1
0,9930
0,9818
0,9693
0,9504
0,9278
0,9063
D6
1
0,9917
0,9776
0,9603
0,9395
0,9156
D7
D8
1
0,9862
0,9720
0,9547
0,9262
D9
D10
D11
1
0,9844 1
0,9649 0,9830 1
0,9375 0,9541 0,9676 1
HC = altura comercial; DAP = diâmetro à altura do peito; D1 = diâmetro do início da seção 1; .... ; D11 = diâmetro do final
da seção 10.
3.1 ANÁLISE DE COMPONENTES
PRINCIPAIS (ACP)
Os autovalores correspondentes a cada
componente principal são apresentados na
Tabela 4. Além de sua contribuição para
com a variação total dos dados, verificouse que os dois primeiros componentes
explicam até 93% da variabilidade
existente. Os outros componentes
contribuem com menos de 7% da variação
e, por esta razão, foram desconsiderados.
Estes resultados indicam que a variabilidade
na forma de árvores é maior em relação aos
dois primeiros componentes principais,
sendo, portanto, traduzidos biologicamente
como a forma dos fustes. Isto concorda com
as interpretações feitas por Fries (1965);
Fries e Matern (1966); Isebrands e Crow
(1975) e Liu e Keister (1978).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
Quanto aos auto vetores, o primeiro
componente principal está associado à área
dos diâmetros (Tabela 5). Observa-se que
não existe uma tendência quanto à sua
participação com as variáveis estudadas,
ficando a variável altura com o menor peso
(0,16). Em relação ao segundo componente
principal, verificou-se uma influência muito
alta da variável altura (0,92), enquanto que
as outras variáveis apresentam pesos
variando de -0,15 a 0,16.
As curvas do primeiro e segundo
componentes principais, em relação à altura
relativa, comprovam que o primeiro
componente principal representa o diâmetro
das árvores (Figura 2). Esta forma é
característica de floresta tropical e sua
fisionomia é diferente dos padrões
encontrados nas florestas temperadas. O
99
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
segundo componente principal não apresenta
uma definição, dificultando a sua
interpretação. Resultados semelhantes foram
apresentados por Ahrens e Holbert (1981),
que desenvolveram função de forma através
de componentes principais em Pinus taeda.
Pela ánalise do gráfico obtido com os
dois primeiros componentes principais,
verificou-se uma dispersão em torno do
primeiro componente principal com
desvios, variando de ± 6, possibilitando a
formação de, pelo menos, cinco grupos
distintos (Figura 3). Portanto, partiu-se do
pressuposto que cinco era o mínimo de
grupos que poderiam ser utilizados na
classificação dos dados.
Tabela 4 – Autovalores obtidos pela Análise de Componentes Principais.
Comp. Prin.
PRIN1
PRIN2
PRIN3
PRIN4
PRIN5
PRIN6
PRIN7
PRIN8
PRIN9
PRIN10
PRIN11
Autovalor
Diferença
Proporção
9,36826
0,82008
0,47549
0,15558
0,08112
0,03378
0,02547
0,01697
0,01132
0,00693
0,00500
8,54817
0,34460
0,31990
0,07447
0,04733
0,00831
0,00849
0,00565
0,00440
0,00193
–
0,851660
0,074553
0,043226
0,014144
0,007374
0,003071
0,002315
0,001543
0,001029
0,000630
0,000455
Proporção
acumulada
0,85166
0,92621
0,96944
0,98358
0,99096
0,99403
0,99634
0,99789
0,99892
0,99955
1,00000
PRIN1 = primeiro componente principal
PRIN11 = décimo primeiro componente principal
Tabela 5 – Auto vetores estimados pela análise de componentes principais.
Variáveis
D1
D2
D3
D4
D5
D6
D7
D8
D9
D10
D11
D1,D2, ..., D11 = seções diamétricas
100
PRIN1
0,300884
0,312061
0,315934
0,318842
0,320561
0,321392
0,318877
0,318162
0,302151
0,290385
0,161343
PRIN2
-0,156063
-0,157504
-0,139507
-0,111747
-0,076327
-0,063291
-0,072124
0,009780
0,162765
0,144724
0,925376
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
1
0,8
VH
UR
WH
Y
RW
X$
0,6
prin1
prin2
0,4
0,2
0
0
20
10
30
40
50
60
70
80
90
100
$OW5HODWLYDV
-0,2
Figura 2 – Formas assumidas por espécies de floresta tropical com o primeiro e segundo componente principal
(PRIN1, PRIN2).
14
12
10
8
6
&3
4
2
-8
-6
-4
0
-2
0
2
-2
4
6
8
10
12
14
&3
Figura 3 – Agrupamentos formados pelos dois primeiros componentes principais.
3.2. ANÁLISE DE AGRUPAMENTO (AA)
3.2.1 Componentes principais
A composição dos grupos formados
pela análise de agrupamento utilizando os
dois primeiros componentes principais é
apresentado na Tabela 6. A preferência pela
utilização da variável DAP e não
componente principal foi para melhorar a
compreensão da composição dos grupos.
O desempenho de todos os modelos
testados para os grupos formados pelos
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
dois primeiros componentes principais
apresentaram coeficientes de determinação
menores que 0,7. Em face disto, somente
os resultados obtidos para os modelos 5 e
8 (Tabela 7) são apresentados. Observa-se
que os coeficientes de determinação para
os grupos de maior representatividade (1,
2, 3 e 6) ficaram abaixo de 0,61,
inviabilizando sua utilização. Evidenciase, portanto, a ineficiência da utilização de
componentes principais para os modelos
testados.
101
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
Tabela 6 – Estatística dos grupos formados com os dois primeiros componentes principais.
Grupos
N
DAPmin
DAPmax
DAPmédio
1
2
3
4
5
6
82
55
58
11
11
48
54
70
45
45
93
57
68
112
60
61
132
96
56,5
82,7
54,1
49,3
111,6
69,1
Tabela 7 – Ajustamento dos modelos 5 e 8 por grupos pelos componentes principais.
Coeficientes
Grup Mod
1
1
2
2
3
3
4
4
5
5
6
6
5
8
5
8
5
8
5
8
5
8
5
8
b0
b1
b2
b3
1,496287
1,564353
0,843888
0,904876
1,552656
1,631810
1,015773
1,102489
0,848150
0,917865
1,444320
1,532704
0,108550
0,109048
0,576147
0,575700
0,054018
0,054267
0,472086
0,477010
0,641315
0,638329
0,197473
0,192856
0,114885
0,400725
0,101930
0,346797
0,131744
0,475018
0,149023
0,532276
0,111329
0,373894
0,128113
0,464384
0,088272
0,002953
-0,017775
-0,093817
0,082033
-0,014311
-0,093140
-0,206761
-0,08049
-0,162563
0,048182
-0,046993
3.2.2 Fator de forma (FF)
Apesar de terem sido utilizados DAP
e altura comercial na tentativa de encontrar
uma variável classificatória que melhor
atendesse as expectativas deste trabalho, o
fator de forma apresentou um melhor
desempenho na formação de agrupamentos.
São apresentados na Tabela 8, as
amplitudes, médias e a composição destes
grupos.
102
Ra2
Syx
Syx%
F
0,3708
0,3636
0,6199
0,5965
0,5306
0,5481
0,6849
0,7026
0,7064
0,6901
0,5745
0,5862
0,0500
0,0502
0,0352
0,0363
0,0416
0,0407
0,0377
0,0366
0,0351
0,0360
0,0379
0,0374
2,95
2,97
1,92
1,98
2,55
2,50
2,70
2,33
1,78
1,83
2,16
2,13
179,947
174,483
329,311
238,600
240,625
258,095
79,963
86,854
97,246
90,074
238,648
250,286
Para a escolha do grupo que explique
a maior variação dos dados, levou-se em
consideração a Tabela 8, onde observou-se
que os grupos 4 a 6 são formados por um
número reduzido de indivíduos (<6% do
total da amostra), o que compromete a
precisão dos parâmetros calculados,
provavelmente, pela violação da
normalidade. A comprovação disto é o fato
destes grupos apresentarem constantes
negativas nas suas equações.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
Tabela 8 – Estatística dos grupos formados com fator de forma.
Grupos
N
1
2
3
4
5
6
157
74
41
8
4
4
Ffmin
0,60
0,44
0,77
0,27
0,93
1,04
Ffmax
Ffmédio
0,76
0,59
0,90
0,42
0,99
1,18
0,65
0,51
0,81
0,38
0,97
1,10
Portanto, os grupos de 1 a 3 foram
considerados representativos da amostra.
Destes, o grupo 3 representa apenas 14%
do total da amostra, enquanto que os grupos
1 e 2 representam 80%. Como o grupo 1 é
formado por 55% do total da amostra e,
ainda, pelo fato de ser possível, através de
visualização, verificar a similaridade entre
seus parâmetros, optou-se pela escolha do
grupo 1 como sendo o que absorve a maior
variação.
de variação para este modelo são 0,84 e
3,12, respectivamente. Verificou-se,
também, que o modelo 5 possui as mesmas
estatísticas apresentadas para o modelo 8,
ou seja, existe um padrão muito forte de
similaridade entre seus parâmetros.
Observando-se a estrutura e a natureza
destes modelos (Tabela 1), pode-se entender
melhor ao constatar-se que a diferença
existente entre ambos deve-se apenas à
transformação de variáveis.
O ajustamento dos modelos propostos
para os agrupamentos obtidos pela variável
fator de forma são apresentados na Tabela
9. Observou-se que os modelos polinomiais
e lineares, que apresentam robustez e
excelente desempenho no ajuste de dados
em plantios florestais, foram os que
obtiveram menor rendimento, com seus
coeficientes de determinação ficando abaixo
de 32%, com erros superiores a 13%.
A escolha dos modelos não-lineares 5
e 8, como os que explicam melhor a variação
dos dados foi devido, principalmente, pela
amplitude apresentada nos seus coeficientes
de determinação, variando de 0,91 a 0,74,
bem como por apresentarem coeficientes de
variação menores que 4%. A utilização de
modelos não-lineares em florestas tropicais
visa aumentar a precisão e a acuracidade,
como pode ser observado nas estimativas
de biomassa e volume feitos por Higuchi et
al. (1998) e Moura (1994), respectivamente.
Observou-se que para o modelo 8, o
menor coeficiente de determinação (0,74)
foi localizado no grupo 2 e o maior (0,97),
no grupo 3 (Tabela 9). As estimativas das
médias dos coeficientes de determinação e
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
Apesar do fator de forma apresentarse como a melhor variável classificatória,
sua utilização fica limitada, uma vez que
103
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
não é uma variável pura. As restrições
quanto ao seu uso baseia-se no fato de que
para sua obtenção existe a necessidade de
se utilizar métodos de cubagem, ou seja,
métodos destrutivos. Uma alternativa viável
pode ser a adoção do uso de tabelas de fator
de forma, onde as variáveis podem ser
espécie, DAP e altura, conforme sugestões
feitas por Moura (1994), em estudos
comparativos de estimativas volumétricas
e forma de fuste na Floresta Nacional do
Tapajós.
Tabela 9 - Ajustamento dos modelos para o grupo 1 com a variável fator de forma.
Mod
1
2
3
4
5
6
7
8
Coeficientes
b0
b1
1,003774
0,751518
1,014270
63,229098
0,036830
0,142508
-0,014234
0,112110
-0,485512
-0,019000
-0,757335
-3,350342
0,926078
0,932824
0,441104
0,925811
b2
b3
b4
Os modelos que tiveram melhor
desempenho foram os modelos 5 e 8. Para
efeito de comparação das estimativas
volumétricas, ajustou-se a equação de
Schumacher para o total de dados, a qual
apresentou coeficiente de determinação (R2)
igual a 0,9170 e coeficiente de variação
(CV) igual a 15,97.
Equação diamétrica para o modelo 5
⎛
log(G L ) = 0,03683 + 0,926 log( ') + 0,12461log⎜⎜
⎝
⎛ 1 ⎞
⎟⎟ + 0,103261 log(K)
⎜⎜
⎝ KL + 1,3 ⎠
^
Equação volumétrica para o modelo 5
9 = 0,0001239473 3 * '1,852156
* K 0 , 206522 (K + 1,3) 0 , 75078
L
R2 = 0,8789 e sy.x %= 2,84
104
Ra2
Syx
Syx%
F
0,233256
0,3301 0,1172604 13,91500 404,578
0,233256
0,3301 0,1172604 13,91500 404,578
1,401210 -1,655025 0,722401
0,026870 0,3305
0,1172 13,91077 162,729
0,517574 -0,051025 0,002408 -0,000041156 0,0885 15,1482 28,57368
32,803
0,124610 0,103261
0,8786
0,0485 2,85104 3950,735
0,115942
0,8716
0,0498 2,93116 5561,975
0,4153
0,1139 -62,30493 1164,505
0,441101 0,011546
0,8789
0,0484 2,84690 3963,798
3.3 EQUAÇÃO DE VOLUME
^
b5
Equação diamétrica para o modelo 8
⎛
log(G ) = 0,11211 + 0,925811 log( ') + 0,441101 log⎜
⎝
⎛ K ⎞
⎟ + 0,011546 log(K)
⎜
⎝K+K ⎠
L
L
Equação volumétrica para o modelo 8
9 = 0,0011173056 * '1,851622
* K 0 ,905294* ( K + K ) 0 ,117798
L
Onde:
Ln = Logaritmo neperiano
Log = Logaritmo na base 10
V = Volume
D = DAP
h = altura comercial
hi = altura da seção i
βo,β1,β2,β3 = coeficientes estimados
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
As estimativas volumétricas para os
grupos 1, 2 e 3 classificados pelo fator de
forma através das equações obtidas pela
função de forma encontram-se na
Tabela 10, as quais são comparadas com a
equação volumétrica de Schumacher e
volume real obtido pela cubagem
tradicional.
Tabela 10 – Ajustamento dos modelos para o grupo 2 com a variável fator de forma.
Mod
1
2
3
4
5
6
7
8
Coeficientes
b0
b1
0,952793
0,698688
0,968211
63,163265
0,035484
0,142326
-0,073996
0,120469
-0,509287
0,001077
-0,858133
-2,904999
0,930997
0,924362
0,480972
0,931241
b2
b3
b4
b5
Ra2
0,255182
0,2071
0,255182
0,2071
1,588402 -1,729782 0,710611
0,009538 0,2064
0,216836 -0,006321 0,0000107 0,000000324 0,1241
0,132846 0,078242
0,7415
0,129150
0,7390
0,3299
0,480973 -0,022645
0,7406
Pode-se observar que no grupo 1, para
os três modelos analisados, a média dos
erros foi menor que 6%. No grupo 2,
verificou-se que todos os modelos
apresentaram tendência a superestimativas
com percentagem média de erros variando
de 12 a 18%. No grupo 3, apesar de uma
diminuição dos erros médios percentuais,
as equações de forma apresentam-se
inversamente proporcionais à equação de
Schumacher, ou seja, as equações de forma
apresentam tendência a superestimativas, já
a equação de Schumacher, subestimativas.
Por outro lado, a constatação da existência
de apenas desvios negativos ou positivos nas
classes diamétricas dos grupos 2 e 3 devese, provavelmente, ao tamanho destas
unidades amostrais.
Através da análise dos resíduos
volumétricos, estas afirmativas podem ser
melhor observadas nas Figuras 4, 5 e 6,
onde evidencia-se que os volumes obtidos
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
Syx
0,1626
0,1626
0,1627
14,6724
0,0643
0,0646
0,1491
0,0644
Syx%
F
20,66021 118,675
20,66021 118,675
20,66935
47,869
28,44790
26,520
3,79659 862,702
3,81514 1276,649
-57,84029 444,612
3,80355 858,453
pelas funções de afunilamento e os obtidos
pela equação volumétrica de Schumacher
(Figura 6) apresentam, de um modo geral,
boa distribuição residual. Verifica-se,
também, no grupo 1, que os volumes
obtidos pela funções de afunilamento
apresentaram uma percentagem de erro
menor que 25%.
Porém, na Figura 6, os volumes
obtidos pela equação de Schumacher
apresentaram uma concentração maior de
resíduos positivos, o que sugere a evidência
de subestimativas de volumes para estas
árvores. A diferença apresentada pelos
modelos pode ser, em parte, explicada
pelas transformações de variáveis, uma vez
que os modelos de afunilamento utilizaram
ponderação, e para o modelo de
Schumacher foi utilizado logaritmo
neperiano, o que pode provocar uma
pequena diferença nas estimativas
volumétricas.
105
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
20
15
10
5
0
VR
XG -5
tV -10
H5
-15
0
20
60
40
80
100
120
140
-20
-25
'LkPHWURFP
-30
Figura 4 - Distribuição dos resíduos, em percentagem para o modelo 5, grupo 1 pelo fator de forma.
20
15
10
5
V 0 0
RX -5
tGV -10
H5
-15
20
40
60
80
100
120
140
-20
-25
'LkPHWURFP
-30
Figura 5 - Distribuição dos resíduos, em percentagem para o modelo 8, grupo 1 pelo fator de forma.
25
20
15
10
5
VR 0
XG -5
tV
H5 -10
0
20
40
60
80
100
120
140
-15
-20
-25
-30
'LkPHWURFP
Figura 6 - Distribuição dos resíduos, em percentagem para a equação de Schumacher, grupo 1 pelo fator de forma.
106
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
ESTUDOS DE FUNÇÃO DE FORMA PARA ESPÉCIES FLORESTAIS DE TERRA FIRME DA AMAZÔNIA CENTRAL
Apesar dos modelos de afunilamento
apresentarem desvios superiores a 20%,
estas estimativas podem ser consideradas
aceitáveis, considerando-se que se tratava
de um sistema biológico com nenhum tipo
de condução ou tratamento e, também,
quando se compara com as estimativas
obtidas por Moura (1994).
hierárquico, com utilização da variável fator
de forma que apresentaram os melhores
desempenhos foram:
4 CONCLUSÃO
9 = 0,0001239473 3 * ' 1,852156
Conclui-se, pela Análise de
Componentes Principais, que os dois
primeiros componentes principais explicam
92% da variação dos dados observados. O
primeiro componente principal está
associado ao diâmetro, enquanto que o
segundo componente principal está
relacionado com a altura das árvores.
* K 0 , 206522 ( K + 1,3) 0, 75078
Para a análise de agrupamentos, o fator
de forma foi considerado a melhor variável
classificatória. Porém, ainda são necessários
mais estudos, porque o fator de forma não é
uma variável pura e depende de métodos
destrutivos para sua determinação.
A utilização das variáveis altura
comercial, DAP e componentes principais na
formação de grupos não apresentou
resultados satisfatórios no ajuste dos modelos
estudados. Apesar disto, para a variável DAP,
deve-se levar em consideração que esta ainda
continua sendo a mais importante em
trabalhos dendrométricos, por sua facilidade
de determinação.
As equações diamétricas e
volumétricas para o grupo 1 obtidas pela
análise de agrupamentos, método não
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 93-109, jul./dez. 2003
Equação diamétrica para o modelo 5
^
⎛
log(G L ) = 0,03683 + 0,926 log( ') + 0,12461 log⎜⎜
⎝
⎛ 1 ⎞
⎟⎟ + 0,103261log(K)
⎜⎜
⎝ KL + 1,3 ⎠
Equação volumétrica para o modelo 5
^
L
R2 = 0,8789 e s
y.x %= 2,84
Equação diamétrica para o modelo 8
⎛
log(G ) = 0,11211 + 0,925811 log( ') + 0,441101 log⎜
⎝
⎛ K ⎞
⎜
⎟ + 0,011546 log(K)
⎝K+K ⎠
L
L
Equação volumétrica para o modelo 8
9 = 0,0011173056 * '1,851622 *
K 0 ,905294* ( K + K ) 0 ,117798
L
R2 = 0,8786 e Sy.x %=2,85
Estas equações podem ser usadas em
inventários florestais, tanto em estimativas
diamétrica para diferentes alturas do tronco
ou vice-versa quanto em tabelas de
sortimento, uma vez que a utilização de
volumes parciais possibilita o planejamento
do abate e do desdobramento na serraria e,
conseqüentemente, diminui os custos de
produção. A utilização destes modelos
requer a determinação do fator de forma,
variável esta importante para a calibração
destes, a qual pode ser obtida pelos métodos
tradicionais de cubagem.
107
RALFH JOÃO RIBEIRO, NIRO HIGUCHI, GIL VIEIRA, JOAQUIM DOS SANTOS, MARIA NAÉLIA SILVA RIBEIRO
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Sr. Paulo Ary
da Silva Santana pela edição do texto, a
Profa. Vania Palmeira Varela, Pesquisadora
do INPA pela amizade, preciosas sugestões
e correções do texto.
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109
A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DA PRODUÇÃO DE FRUTOS DO AÇAIZEIRO (Euterpe oleracea Mart.) PARA AS POPULAÇÕES
EXTRATIVISTAS DO ESTUÁRIO AMAZÔNICO
A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DA PRODUÇÃO DE FRUTOS
DO AÇAIZEIRO (Euterpe oleracea Mart.) PARA AS POPULAÇÕES
EXTRATIVISTAS DO ESTUÁRIO AMAZÔNICO1
João da Luz FREITAS2
Marcelo Augusto de Brito MALHEIROS3
Paulo César Silva VASCONCELOS4
RESUMO: Foram selecionadas e visitadas três comunidades nos municípios de Gurupá e Afuá no
Estado do Pará e Mazagão no Estado do Amapá, que, juntos, são os maiores responsáveis pelo
abastecimento dos principais centros consumidores (Macapá e Santana) do Estado do Amapá. Foram
identificados e avaliados os períodos de produção de frutos e a importância do açaizeiro na economia
das comunidades. As informações foram obtidas seguindo o modelo da pesquisa participativa por
meio de questionário. O período de maior produção em fase comercial (safra) no município de
Gurupá ocorre de janeiro a março com 93% de indicação, enquanto que em Mazagão o registro de
menor produção comercial de frutos foi de janeiro a julho com 9%. Durante a safra, o preço médio
do saco (60 kg) comercializado no local de extração foi de R$ 13,00 (Gurupá e Mazagão) e
R$ 11,00 (Afuá). A comercialização dos principais produtos do açaizeiro (fruto e palmito) é a
principal fonte de renda para 44% dos extrativistas de Mazagão, 63% de Gurupá e 65% de Afuá. A
primeira fase da comercialização de frutos é realizada no local de extração, sendo a mais comum
entre os extrativistas: 68% (Mazagão), 91% (Afuá) e 100% (Gurupá). A sazonalidade da produção
de frutos varia de acordo com o local de produção, sendo o principal fator que interfere na flutuação
dos preços. Na safra, os preços dos frutos são baixos, porém na entressafra os preços ganham
dimensões superiores a 200% em relação à safra.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Açaí, Consumidores, Economia das Comunidades.
THE ECONOMICAL IMPORTANCE OF THE PRODUCTION OF FRUITS
OF AÇAÍ PALM TREE (Euterpe oleracea Mart.) FOR EXTRATIVIST IN
THE FLOOD PLAIN OF THE AMAZONIAN ESTUARY
ABSTRACT: There were selected and visited three communities in the districts of Gurupá (1) and
Afuá (1) in the State of Pará and Mazagão (1) in the State of Amapá, that together they are the
largest responsible for the provisioning of the main consuming centers (Macapá and Santana) of the
1
2
3
4
Aprovado para publicação em 25.11.2003
Engenheiro Florestal, M.Sc., Tv. do Chaco, 2453, CEP 66.902-260 Belém, PA; E-mail: [email protected]
Meteorologista, M.Sc., Av. Tancredo Neves, 2501, Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA. Departamento
de Ciências Florestais, Caixa Postal 917, CEP 66.077-530, Belém, PA; E-mail: [email protected]
Engenheiro Florestal, M.Sc., Professor Adjunto da UFRA, Av. Tancredo Neves, 2501, Universidade Federal Rural da
Amazônia – UFRA. Departamento de Ciências Florestais, Caixa Postal 917, CEP 66.077-530, Belém, PA; E-mail:
[email protected]
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 111-117, jul./dez. 2003
111
JOÃO DA LUZ FREITAS, MARCELO AUGUSTO DE BRITO MALHEIROS, PAULO CÉSAR SILVA VASCONCELOS
State of Amapá. Was identified and it was evaluated the periods of production of fruits and the
importance of the açaí palm tree in the communities’ economy. The information was obtained
following research participation model from interview forms. The period of larger production of
fruits in commercial phase (harvest) in the municipal district of Gurupá occurs from January to
March with 93% of indication, while in Mazagão the smaller commercial fruits production registration
was from January to July with 9%. During the harvest the medium price of the sack (60 kg) trading
in the place extraction was R$ 13,00 (Gurupá and Mazagão) and R$ 11,00 (Afuá). The main products
commercialization of açai palm tree, fruit and palm heart, are the main incomes for 44% of the
extrativist of Mazagão, 63% of Gurupá and 65% of Afuá. The first phase of commercialization
fruits is accomplished at the extraction place, being the most common among the extrativist: 68%
(Mazagão), 91% (Afuá) and 100% (Gurupá). The fruits production seasonality varies according to
the production place, being the main factor that interferes in the prices flotation. In the harvest the
prices of the fruits are low, however, between harvests the prices win high dimensions to 200% in
relation to the harvest.
INDEX TERMS: Açaí, Consumers, The Communities’ Economy.
1 INTRODUÇÃO
O açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.)
é uma palmeira que ocorre principalmente
nas áreas de várzeas e margens dos rios da
Região Amazônica e, ocasionalmente, em
terra firme. Na várzea, o açaizeiro pode ser
encontrado em formações quase puras
associado ao buriti (Mauritia flexuosa),
destacando-se na fisionomia da paisagem
(CAVALCANTE, 1988).
O açaizeiro é uma palmeira que
apresenta grande potencial para os mercados
interno e externo, tanto na fabricação de
suco como na industrialização do palmito,
sendo considerado a principal fonte de
alimento e renda das populações que
habitam as margens do estuário do rio
Amazonas (CALZAVARA, 1972; JARDIM;
ANDERSON, 1987; LOPES, 1982;
ROGEZ, 2000; NOGUEIRA; HOMMA,
2000), assim é muito expressivo na
economia das populações ribeirinhas do
estuário amazônico. É um produto de
112
exportação que teve um crescimento de 20%
nos últimos três anos (NOGUEIRA;
HOMMA, 2000). Os principais produtos
desta palmeira (fruto e palmito) são obtidos,
na sua maioria, de forma extrativista, de
grandes áreas de ocorrência da espécie.
Os produtos oriundos do açaizeiro,
principalmente fruto e palmito, aparecem na
pauta das exportações regionais, com
significativa participação e com perspectivas favoráveis, quando comparados a
outros produtos tradicionalmente exportados pela região amazônica (LOPES;
SOUZA; CALZAVARA, 1982). Por essa
razão, a finalidade atribuída ao açaizeiro
apenas como fonte para extração de “vinho”
está hoje superada, face ao interesse
despertado pelos estudos que demonstram
excelentes oportunidades para o seu
aproveitamento integral nas indústrias
alimentícias, celulose e papel (LOPES;
SOUZA; CALZAVARA, 1982). Dessa
forma, é premente tornar o açaizeiro um
investimento atrativo e seguro para médios
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 111-117, jul./dez. 2003
A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DA PRODUÇÃO DE FRUTOS DO AÇAIZEIRO (Euterpe oleracea Mart.) PARA AS POPULAÇÕES
EXTRATIVISTAS DO ESTUÁRIO AMAZÔNICO
e pequenos produtores, a fim de fortalecer
a geração de renda das comunidades
ribeirinhas que fazem dele sua principal
fonte de sustentação econômica e alimentar,
pois gera 25 mil empregos diretos, sendo
movimentados, anualmente, R$ 40 milhões
(NOGUEIRA; HOMMA, 2000).
Durante o período máximo da
produção do açaizeiro (safra), o fruto passa
a funcionar como moeda corrente para todos
os tipos de transação comercial, estimulando
o comércio local. Embora frutifique durante
o ano inteiro, o período da safra pode variar
entre 3 a 6 meses. A carência de frutos
provocada pela sazonalidade da espécie
acarreta um empobrecimento momentâneo
para a maioria dos extrativistas que
dependem do açaizeiro para se manter,
levando-os muitas das vezes a optar pela
exploração do palmito para obter renda
(LOPES, 1982; NOGUEIRA, 1997).
Segundo Uhl et al. (1990), vários fatores
contribuem para a exploração do palmito,
tais como: exploração constante, maior
durabilidade pós-colheita e, principalmente,
a distância entre a área explorada e os
centros consumidores de frutos.
Este trabalho tem como objetivo
diagnosticar, por meio de uma pesquisa
interativa, o conhecimento dos ribeirinhos
quanto aos períodos de produção de frutos
e a importância econômica que o açaizeiro
exerce sobre sua renda. Para isso, foram
entrevistados os produtores das comunidades do rio Maniva, município de Afuá
(PA); Ajará dos Alegres, município de
Gurupá (PA) e Vila Nova, município de
Mazagão (AP).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 111-117, jul./dez. 2003
2 MATERIAL E MÉTODOS
Para o alcance dos objetivos propostos
no trabalho, foi o mesmo realizado nos
estados do Pará e Amapá, nas comunidades
que abrangem os municípios de Gurupá
(Ajará dos Alegres) e Afuá (nos rios Maniva
e Corredor) e Mazagão (furo do Mazagão e
adjacências, no rio Vila Nova), respectivamente, que juntos formam os principais
corredores de abastecimento dos centros
consumidores de frutos, que são Macapá e
Santana. São abordados o período de
produção e a importância econômica do
açaizeiro para as comunidades ribeirinhas
do estuário amazônico.
As informações foram obtidas seguindo
o modelo da pesquisa participativa por meio
de questionários, que foram respondidos por
64 proprietários de terra das três
comunidades localizadas no estuário
amazônico, que abordaram dados
agronômicos e econômicos, no que se refere
à forma de manejo dos açaizais,
comercialização, produção e mercado,
respectivamente. Foi utilizada uma
linguagem simples e conhecida das
comunidades sobre o conhecimento empírico
dos entrevistados com relação à cultura do
açaizeiro. A análise dos dados absolutos foi
transformada em percentagem para melhor
expressar as informações dos resultados.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 PERÍODO DE COMERCIALIZAÇÃO
O açaizeiro apresenta épocas distintas
de produção de frutos nos locais estudados.
113
JOÃO DA LUZ FREITAS, MARCELO AUGUSTO DE BRITO MALHEIROS, PAULO CÉSAR SILVA VASCONCELOS
pequenas quantidades de um a três sacos
por semana (Figura 1a).
Na comunidade dos rios Maniva e
Corredor, ambos no município de Afuá
(PA), 84% dos entrevistados comercializam
o açaí em proporções elevadas de maio a
outubro (oito a doze sacos por semana)
caracterizando o pico de produção (safra)
(Figura 1b). O período da entressafra
indicado foi de novembro a abril com 9%
de produção comercial (um a quatro sacos
por semana) (Figura 1b).
Na comunidade Ajará dos Alegres, no
município de Gurupá, 93% dos entrevistados afirmaram, que de janeiro a março
comercializam o fruto do açaizeiro,
período que define a safra local. De junho
a agosto, 54% indicaram que
comercializam em proporções satisfatórias
de três a seis sacos por semana, o que
equivale a safra intermediária. A
entressafra é caracterizada de setembro a
dezembro, quando apenas 17% conseguem
se manter comercializando o açaí em
a
b
c
Figura 1 - Período de comercialização de frutos do açaizeiro nas comunidades: Ajará dos Alegres (a), rios Maniva e
Corredor (b) e rio Vila Nova (c).
114
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 111-117, jul./dez. 2003
A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DA PRODUÇÃO DE FRUTOS DO AÇAIZEIRO (Euterpe oleracea Mart.) PARA AS POPULAÇÕES
EXTRATIVISTAS DO ESTUÁRIO AMAZÔNICO
Para os produtores da comunidade do
rio Vila Nova e adjacências, no município
de Mazagão, a comercialização acontece
entre julho e dezembro, o que é indicado
por 79% dos entrevistados com média de
seis sacos por semana (Figura 1c). A
entressafra é caracterizada de janeiro a
junho, quando somente 9% de produtores
comercializam o fruto do açaizeiro em
pequenas quantidades, com média de dois
sacos por semana (Figura 1c).
O pico de produção de frutos nas
comunidades varia entre três e seis meses.
Estudo realizado por Rogez (2000) verificou
que a coleta dos frutos para comercialização
se concentra, principalmente, durante quatro
meses do ano, independente da situação
geográfica, sendo que a produção de frutos
comercial encontrada em Gurupá, duas vezes
ao ano, foi também verificada por Calzavara
(1972), com períodos do pico de produção
diferenciados no estuário amazônico
(JARDIM; KAGEYAMA, 1994).
3.2 IMPORTÂNCIA ECONÔMICA
A comercialização de frutos do
açaizeiro é a principal fonte de obtenção de
renda para 63% dos entrevistados na
comunidade Ajará dos Alegres (Gurupá),
65% para os ribeirinhos dos rios Maniva e
Corredor (Afuá). Já na comunidade do rio
Vila Nova (Mazagão), o açaizeiro foi
considerado como prioritário para 36% dos
moradores. Esse baixo percentual decorre
da proximidade, do referido local de
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 111-117, jul./dez. 2003
extração, da sede do município e o elevado
número de sítios particulares sem fins
produtivos (Figura 2).
Os dados encontrados em Gurupá e
Afuá estão em conformidade com os citados
por Anderson e Jardim (1989) na Ilha das
Onças, próximo de Belém, e acima do
encontrado (50%) por Hiraoka (1993) no
município de Abaetetuba.
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Figura 2 - Importância do açaizeiro como principal fonte
de renda por município.
3.3 COMERCIALIZAÇÃO X PREÇO
Na comunidade de Ajará dos Alegres,
a primeira transação comercial (extrativista
x comprador) é realizada na sua totalidade
(100%) no local de extração, enquanto que
nos rios Maniva e Corredor é de 91%. Isso,
possivelmente, decorre devido à carência de
estruturas básicas, como transporte e
armazenamento que são os principais
fatores que contribuem para a dificuldade
de escoamento da produção de frutos que é
verificada na medida em que aumenta a
distância entre os locais de produção e os
centros consumidores, fazendo com que os
proprietários dos açaizais deixem de agregar
maior valor ao seu produto. Calzavara
(1972); Brabo (1979); Lopes, Souza e
115
JOÃO DA LUZ FREITAS, MARCELO AUGUSTO DE BRITO MALHEIROS, PAULO CÉSAR SILVA VASCONCELOS
Calzavara (1982) e Anderson et al. (1985)
mostram a importância do açaizeiro para as
populações que habitam as várzeas do
estuário amazônico, como sendo o alicerce
principal na geração de renda dos
ribeirinhos.
No rio Vila Nova, a comercialização
no local de extração é de 56%, esse fato
ocorre, possivelmente, pela proximidade do
local de produção com os mercadores
consumidores (Macapá e Santana), o que
poderá favorecer o aumento de renda devido
à venda direta, eliminando a atuação dos
atravessadores. Outro aspecto importante a
ser observado é que a comercialização de
frutos do açaizeiro, nesse referido local, não
é a principal fonte de renda dos
comunitários, o que permite deduzir que
eles podem ter outras fontes de renda, isso
pode ser observado na Figura 2, pois a
importância do açaizeiro como fonte de
renda tem um baixo percentual nesse local.
A unidade de medida mais comumente
usada pelos atores da cadeia é a “lata” de
20 litros, que equivale, aproximadamente,
a 15 kg, no entanto, na maioria das vezes é
comercializado em sacos que, por sua vez,
comportam quatro latas. No início da cadeia
(extrator x comprador), o preço é muito
variável, sendo que essa oscilação depende,
principalmente, de fatores quantitativos e
qualitativos, como alta produção e qualidade
do fruto, que é muito variável entre as
regiões. A comercialização dos frutos é feita
de acordo com a oferta e demanda do
produto sobre os mercados, que, por sua vez,
sofrem constantes flutuações de preços. Em
Ajará dos Alegres, durante o período da
safra do ano 2000 o preço médio do saco
comercializado no local de extração foi de
R$ 13,00 (treze reais), enquanto que na
entressafra o saco alcançou R$ 31,50 (trinta
116
e um reais e cinqüenta centavos) com ágio
de 242% em relação à safra. Nos rios
Maniva e Corredor o preço médio do saco
na safra foi de R$ 11,00 (onze reais) e
R$ 27,00 (vinte e sete reais) na entressafra,
com ágio de 245% em relação à safra. No
rio Vila Nova e adjacências, o preço médio
do saco na safra foi de R$ 13,00 (treze reais)
e na entressafra de R$ 28,00 (vinte e oito
reais), com ágio de 215% em relação ao
período da safra.
A sazonalidade produtiva do açaizeiro
está associada aos padrões fenológicos da
planta, ou seja, o período de entressafra
corresponde na maioria das vezes ao pico
de floração da espécie (JARDIM, 1996).
Pesquisas com populações de açaizeiros têm
mostrado que os intervalos na produção de
frutos podem ser diminuídos quando
manejadas corretamente (ANDERSON et
al., 1985; NOGUEIRA, 1997), no entanto,
não garantem aumento na produção de
frutos (JARDIM; RAMBOLD, 1998).
4 CONCLUSÃO
a) A comercialização dos frutos de açaí é
a principal fonte de renda para os
entrevistados das comunidades de Ajará
dos Alegres, rio Maniva e rio Corredor;
b) a venda da produção é feita quase que
exclusivamente no local de coleta;
c) a dificuldade de transporte e
armazenagem impede a agregação de
valores à produção;
d) na comercialização não é considerada
a qualidade dos frutos (rendimento da
polpa), mas, sim, a lei de oferta e
demanda;
e) nas localidades de rio Maniva e rio
Corredor (Afuá) e Vila Nova
(Mazagão), o período de safra ocorre
durante seis meses contínuos;
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 111-117, jul./dez. 2003
A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DA PRODUÇÃO DE FRUTOS DO AÇAIZEIRO (Euterpe oleracea Mart.) PARA AS POPULAÇÕES
EXTRATIVISTAS DO ESTUÁRIO AMAZÔNICO
f) a sazonalidade da produção de frutos
varia de acordo com o local de
produção, sendo o principal fator que
interfere na flutuação dos preços;
g) a localidade Ajará dos Alegres
(Gurupá), por apresentar duas safras
durante o ano, poderá obter melhor
renda na entressafra com boa estrutura
de transporte;
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mimeografado.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 111-117, jul./dez. 2003
117
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM
FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL1
José Augusto da Silva SANTANA2
Luciana Karla V. dos Santos SOUSA3
Wanderléa da Costa ALMEIDA4
RESUMO: Estudou-se durante doze meses a produção de serapilheira em uma parcela permanente
de um hectare, localizada na Estação Experimental de Recursos Genéticos do Cacau José Haroldo,
pertencente à CEPLAC, no município de Marituba, Pará. A vegetação é constituída por uma floresta
secundária, que foi explorada de modo seletiva há, aproximadamente, 45 anos, situada sobre um
Latossolo Amarelo de baixa fertilidade e com pH ácido. Para coleta de material utilizaram-se 24
bandejas de madeira medindo 1m x 1m x 0,2 m, com tela em fundo de nylon, à altura de 0,5m do
solo. As coletas foram realizadas quinzenalmente, no período de junho de 1996 até maio de 1997,
separadas em material foliar e miscelânea (galhos finos<2cm de diâmetro, ramos, cascas, flores,
frutos e sementes), secas em estufa à temperatura de 65-70 ºC por 48h e pesadas, sendo depois
agrupadas mensalmente. Ao final do estudo, foram coletadas 9,33 t ha-1 de biomassa seca, com as
folhas respondendo a 77,17% do total e a miscelânea ao restante. As taxas de deposição mensal dos
dois materiais variaram em função do índice de precipitação pluviométrica. O maior período de
deposição de folhas ocorreu entre os meses de junho e agosto, com 47,97% da biomassa foliar total
decídua, época em que ocorreram baixas taxas de precipitação mensal na área. Para a fração
miscelânea, as maiores taxas de deposição se observaram nos meses de janeiro e fevereiro, coincidindo
com a fase inicial da estação chuvosa na região. Em janeiro ocorreu o maior pico de deposição de
miscelânea, com 0,53 t ha-1, e o menor em maio com 0,69 t ha-1. Reunindo-se as duas frações,
obteve-se a maior deposição em junho, com 1,64 t ha-1, e a menor em dezembro com 0,27 t ha-1.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Biomassa, Capoeira, Floresta Tropical, Folhedo.
ANNUAL LITTERFALL PRODUCTION IN A
SECONDARY FOREST OF EASTERN AMAZON
ABSTRACT: It was studied for twelve months the litterfall in the 1 ha permanent plot placed in the
CEPLAC Station of Cacao Genetics Resources at Marituba, near Belém, Pará State. The flora was
constituted by a secondary vegetation, which suffered selective exploration 45 years ago, located on
a Yellow Latossol of low fertility and pH acid. For material collection it was used 24 wooden litter
traps, measuring 1m x 1m x 0.20m, located about 0.50m of the soil surface. The collections were
1
2
3
4
Aprovado para publicação em 29.8.2003
Convênio FCAP/CEPLAC
Engenheiro Florestal, MSc., Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Doutorando em
Agronomia da Universidade Federal da Paraíba-Areia. E-mail: [email protected]
Engenheira Florestal, MSc., Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (AP)
Engenheira Florestal, IBAMA (PA).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
119
JOSÉ AUGUSTO DA SILVA SANTANA, LUCIANA KARLA V. DOS SANTOS SOUSA, WANDERLÉA DA COSTA ALMEIDA
accomplished fifthly, from June/1996 to May/1997, separated in foliate material and miscellany
(branches<2cm diameter, twigs, barks, flowers, fruits and seeds), dried at 65-70 ºC during 48h, and
obtained dry heavy, being later contained monthly. At the end of the period 9.33 ton.ha-1 of dry
material was collected, with the material foliate being responsible for 77.17% of the total. The rates
of monthly litterfall of the two materials varied in function of the precipitation rates. The largest
deposition values foliate happened among the months of June to August, with about 47.97% of the
foliate biomass total, period in those happen low rates of precipitation monthly medium pluviometric
in the area. The largest rates of deposition of the miscellany happened in January and February,
period with high precipitation rates. In January, it happened the largest rate of deposition of miscellany, with 0.53 ton.ha-1 and the smallest happened in May with 0.69 ton.ha-1. It was obtained a larger
deposition of the foliate biomass total in June with 1.64 ton.ha-1 and the smallest in December with
0.27 ton.ha-1.
INDEX TERMS: Biomass, Capoeira, Litter, Tropical Forest.
1 INTRODUÇÃO
Os solos que suportam a vegetação da
floresta amazônica são, em grande parte,
caracteristicamente ácidos, com reduzidos
níveis de fertilidade, e possuem baixo
potencial de nutrientes para suprir as
necessidades das plantas, como o Ca e K.
Essa baixa capacidade é decorrente dos
efeitos das altas temperaturas e fortes
chuvas que ocorreram e ainda ocorrem na
Amazônia, juntamente com a história
geológica da região, e, em decorrência disso,
o intenso intemperismo e a lixiviação
durante milhões de anos removeram, e ainda
removem, nutrientes dos minerais que
formam o material parental desses solos. Os
nutrientes perdidos do sistema através da
lixiviação ou erosão não podem ser repostos
por meio do intemperísmo da rocha matriz,
como acontece em outros solos do mundo.
Para desenvolver-se nesses solos de
baixa fertilidade, a vegetação criou
mecanismos de conservação de nutrientes,
reduzindo, assim, a demanda de elementos
dos solos fortemente lixiviados. Esses
120
mecanismos, segundo Jordan (1982) são
muito eficientes e ajudam a diminuir o
problema de escassez de grande parte dos
nutrientes, compensando, em parte, o
distrofismo do solo. A fechada e eficiente
ciclagem de nutrientes é um desses
mecanismos, e é a mais importante fonte de
transferência de nutrientes da vegetação
para o solo, através da queda de detritos, o
qual vai constituir a serapilheira.
Por ser um fator chave na manutenção
dos nutrientes no ecossistema, o processo
de deposição da serapilheira, incluindo as
taxas anuais de queda do material decíduo
e o processo de decomposição desse
material, deve ser mais amplamente
estudado e conhecido, especialmente nas
condições dos trópicos, onde há uma grande
ocorrência de solos com níveis baixíssimos
de nutrientes.
Estudos sobre os fatores relacionados
à produtividade têm mostrado serem
importantes no entendimento de como os
ecossistemas funcionam, e, nesse contexto,
uma avaliação quantitativa da deposição de
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
serapilheira oferece uma excelente
oportunidade para entender melhor os
processos que ocorrem no ecossistema
através dos índices de produtividade
primária, fenologia das espécies e taxas de
decomposição do material decíduo
(SANCHEZ; ALVAREZ-SANCHEZ, 1995).
Alvarez-Sanchez e Sada (1993)
citaram que é possível usar os resultados
obtidos no estudo de deposição do material
decíduo, como um estimador da taxa de
produtividade primária de uma comunidade
florestal, e os acompanhamentos temporais
da deposição da serapilheira podem também
fornecer informações importantes sobre a
fenologia de espécies.
Para Prittchet (1979), a importância da
formação da serapilheira é destacada como
sendo, após o processo de mineralização, a
base principal da nutrição da vegetação
florestal. Isto porque, a superfície composta
por estes detritos orgânicos é o traço mais
distintivo do piso florestal, além de
contribuir significativamente para as
características particulares do solo florestal.
Apesar de ser considerado de
fundamental importância para se entender
os processos de nutrição e crescimento das
florestas tropicais sobre solos distróficos e
álicos, as pesquisas sobre deposição e
decomposição de serapilheira no Brasil são
relativamente limitadas. Silva (1984)
afirmou que, de uma maneira generalizada,
pode-se dizer que na Amazônia os estudos
sobre ciclagem de nutrientes são muito
reduzidos e na Amazônia Oriental, então,
as investigações são praticamente
inexistentes.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
Nas condições edafoclimáticas e
agrícolas da Amazônia, onde o uso do
sistema tradicional de derrubada e queimada
é largamente utilizado para fins agrícolas, a
geração de informações sobre a deposição
de serapilheira e a ciclagem de nutrientes é
muito importante, por poder fornecer dados
que orientem na tomada de decisões sobre
uma utilização mais racional da floresta.
Além disso, com o atual modelo de
ocupação e uso das áreas ocupadas por
florestas nativas, em que estas estão sendo
aceleradamente transformadas em
vegetação do tipo capoeira, sem nenhum
valor econômico, torna-se necessário gerar
informações básicas sobre a produtividade
e a dinâmica das florestas secundárias, para
que possam ser manejadas adequadamente
e se tornem novamente produtivas e
promovam retorno econômico.
Nesse estudo, realizado em uma área
de vegetação secundária, pertencente à
CEPLAC, no município de Marituba (PA),
coletou-se e quantificou-se durante doze
meses, a deposição de serapilheira com o
objetivo de melhor conhecer o ciclo do
processo de deposição do material orgânico
em florestas secundárias sobre solos de
baixa fertilidade.
2 MATERIAL E MÉTODOS
A Estação Experimental de Recursos
Genéticos do Cacau José Haroldo pertence
à CEPLAC e possui área de 269 hectares,
estando situada às margens da Rodovia BR316, no município de Marituba, distando
cerca de 17 quilômetros de Belém (PA)
(Figura 1).
121
JOSÉ AUGUSTO DA SILVA SANTANA, LUCIANA KARLA V. DOS SANTOS SOUSA, WANDERLÉA DA COSTA ALMEIDA
Figura 1 - Mapa de localização da Estação Experimental de Recursos Genéticos do Cacau José Haroldo, no município de
Marituba (PA) e a posição da parcela permanente.
Geologicamente, a área da Estação
está incluída na Formação Barreiras, a qual
é constituída por arenitos finos, siltitos e
argilitos cauliníticos com lentes de
conglomerado e arenito grosseiro, pouco
consolidados até friáveis; em geral maciços
ou horizontalmente estratificados,
apresentando ocasionalmente estratificação
cruzada, de cores vermelha, amarela e
branca (BRASIL, 1974).
De acordo com a classificação de
Köppen (NEVES; BARBOSA, 1982), o
clima da área é do tipo Af, que corresponde
ao clima tropical de floresta, constantemente
122
úmido, onde a pluviosidade do mês mais
seco atinge índices superiores a 60mm,
ocorrendo pequena variação nas taxas anuais
de temperatura e precipitação. A temperatura
média anual é de 26,4 ºC, com a média
máxima mensal de 31,4 ºC em abril, e a média
mínima mensal de 22,4 ºC em setembro. Os
valores de temperatura durante o período de
coleta de dados foram obtidos da Dendê do
Pará S/A (DENPASA), cuja estação meteorológica situa-se a, aproximadamente, 10 km
de distância da área estudada e mostrou uma
variação média mensal de temperatura
sempre inferior a 1 ºC (Figura 2).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
Precipitação
Temperatura
27,2
600
27
500
26,6
400
26,4
300
26,2
26
200
Temperatura (ºC)
Precipitação (mm)
26,8
25,8
100
25,6
0
25,4
jun/96 jul/96 ago/96 set/96 out/96 nov/9 dez/97 jan/97 fev/97 mar/97 abr/97 mai/97
maio/97
Meses
Figura 2 - Distribuição mensal de precipitação e temperatura na Estação Experimental de Recursos Genéticos do Cacau
José Haroldo, no município de Marituba (PA).
A pluviosidade da área é bastante
elevada, uma das mais altas da Amazônia
Oriental, e durante o período de doze meses
de coleta do material decíduo atingiu
3515,91 mm, com um período chuvoso
estendendo-se de meados de dezembro ao
fim de maio, concentrando cerca de 73,20%
da precipitação total anual, com a
pluviosidade máxima atingindo 510,86 mm
em janeiro e a mínima de 135,52 mm em
setembro (Figura 2). Os valores de
precipitação pluviométrica foram obtidos
através de uma rede de pluviográfos do
Projeto SHIFT (Studies of Human Impact
on Forests and Floodplains in the Tropics),
montada a 1000m da parcela permanente.
O relevo da parcela estudada varia de
plano a suave ondulado, com um pequeno e
estreito igarapé passando a cerca de 10m
além da extremidade Este da mesma, e o
solo foi classificado como Latossolo
Amarelo distrófico, álico, de textura média,
bem desenvolvido e profundo, baixo pH e
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
reduzida soma de bases (NEVES;
BARBOSA, 1982).
A cobertura vegetal, da qual foram
retiradas as espécies de valor econômico
com volume comercial, apresenta um
revestimento extremamente heterogêneo,
com vários estágios de desenvolvimento,
estando em repouso há, aproximadamente,
45 anos, havendo predominância
significativa de espécies consideradas
secundárias. A composição florística da
parcela permanente é formada por 44
famílias botânicas, 94 gêneros, 135 espécies
e 1262 indivíduos com DAP maior ou igual
a 5cm (ALMEIDA, SOUZA; SANTANA,
1997). A relação das espécies com 20
indivíduos ou mais ocorrentes nas 100
subparcelas de 10m x 10m da parcela
permanente, classificadas segundo o
número de indivíduos (NI), com nome
comum, família botânica e área basal (A.B.)
encontra-se na Tabela 1.
123
JOSÉ AUGUSTO DA SILVA SANTANA, LUCIANA KARLA V. DOS SANTOS SOUSA, WANDERLÉA DA COSTA ALMEIDA
Tabela 1 - Espécies com 20 indivíduos ou mais em 1 ha de vegetação secundária na Estação
Experimental de Recursos Genéticos do Cacau José Haroldo, Marituba (PA).
(VSpFLH
1RPHFRPXP
)DPtOLD
$%
P 1,
3RXURXPDORQJLSHQGXOD Ducke
Embaubarana
Cecropiaceae
5,42
156
(VFKZHLOHUDRGRUD Miers.
Matá-matá branco
Lecythidaceae
1,03
63
6WHUFXOLDSLORVD Ducke
Achichá
Sterculiaceae
1,29
61
,U\DQWKHUDMXUXHQVLV Warb.
Ucuubarana
Myristicaceae
0,63
58
&RXVVDUHDSDQLFXODWD Standl.
Caferana
Rubiaceae
0,82
51
3RXURXPDJX\DQHQVLV Aubl.
Embaubão
Cecropiaceae
1,79
49
0DEHDWDTXDUL Aubl.
Taquari
Euphorbiaceae
0,20
46
3URWLXPLQVLJQH Engl.
Breu preto
Burseraceae
0,39
32
3RXWHULDJXLDQHQVLV Aubl.
Abiurana
Sapotaceae
0,23
30
9RFK\VLDJXLDQHQVLV Aubl.
Quaruba vermelha
Vochysiaceae
1,57
28
0LFRQLDVXULQDPHQVLV Gleason
Tinteiro
Melastomataceae
0,42
26
6WDFK\DUUKHQDVSLFDWD Spruce
Bacabinha
Rubiaceae
0,12
25
$SHLEDDOELIORUD Ducke
Pente de macaco
Tiliaceae
0,50
21
,QJDYHOXWLQD Willd.
Ingá vermelho
Mimosaceae
1,11
20
(VFKZHLOHUDFRULDFHDMori
Matá-matá preto
Lecythidaceae
0,21
20
68%727$/
2875$6
727$/
Para realizar as coletas de serapilheira,
utilizaram-se 24 bandejas coletoras de
resíduos construídas em madeira, medindo
1m x 1m x 0,2 m, com fundo em tela de
nylon, suspensas a 0,5 m do solo, as quais
foram aleatoriamente distribuídas na área
da parcela permanente, que possuía área de
um hectare, com as dimensões de 100m x
100m. Quinzenalmente, o material coletado
era recolhido para evitar ataques de animais
e reduzir as perdas por decomposição na
própria bandeja, identificado por bandeja,
separado em fração foliar e fração
miscelânea, a qual era composta por galhos
124
finos<2cm de diâmetro, ramos, flores,
frutos, cascas e sementes. Este material foi
seco ao ar durante 72 horas e, posteriormente, em estufa de ventilação forçada
a 65-70 ºC por 48 horas, até atingir peso
constante. O material foi coletado no
período de junho/1996 a maio/1997.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Observou-se acentuada e nítida
relação entre os parâmetros climáticos,
notadamente a precipitação e o ciclo mensal
de deposição do material, o qual, após os doze
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
77,17% e 22,83%, respectivamente, em
peso seco, valores próximos aos obtidos por
Bernhard-Reversat (1975), em floresta
tropical na Costa do Marfim.
meses de coleta, foi estimado em 9,33 t ha-1,
com a fração foliar sendo responsável por
7,20 t ha -1 e a fração miscelânea pelo
restante (Figura 3), o que corresponde a
Folhas
Total
Miscelânea
Precipitação
600
1800
1600
500
1400
1200
400
DK 1000
J
N
300
600
200
800
P
P
Rm
oD
WL
SL
FH
U
3
400
100
200
0
0
maio/97
jun/96 jul/96 ago/96 set/96 out/96 nov/96 dez/96 jan/97 fev/97 mar/97 abr/97 mai/97
0HVHV
Figura 3 - Deposição mensal de material orgânico (kg/ha) e precipitação pluviométrica (mm) em uma floresta secundária,
na Estação Experimental de Recursos Genéticos do Cacau José Haroldo, no município de Marituba (PA).
Como aconteceu em vários
levantamentos realizados em área de
florestas tropical (KLINGE; RODRIGUES, 1968; SILVA, 1984; KLINGE,
1977; FRANKEN; IRMLER; KLINGE,
1979; SILVA; LOBO, 1982 e SANCHEZ;
ALVAREZ-SANCHEZ, 1995), o processo
de deposição de serapilheira foi
ininterrupto durante todo o período de
coleta e mostrou um padrão de deposição
mensal semelhante ao de deposição do
material foliar, visto que essa fração
contribuiu majoritariamente para a
primeira em quase todos os meses de
coleta, exceto no mês de janeiro, quando
os teores da fração miscelânea foram
superiores em quase 6% aos valores
obtidos pela fração foliar.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
Os maiores picos de deposição do
material foliar ocorreram nos meses de junho,
julho e agosto, coincidindo com o período
de menor pluviosidade no ano de estudo,
havendo depois uma redução progressiva até
dezembro, quando atingiu o menor valor,
aumentando novamente em janeiro, início do
período chuvoso, mantendo-se praticamente
constante até maio, época na qual ocorreu a
transição entre o período chuvoso e o seco.
Esses resultados são concordantes com os
obtidos por Dantas e Phillipson (1989) em
Capitão Poço, Pará; Scott, Proctor e
Thompson (1992) na Ilha de Maracá,
Roraima, e Klinge e Rodrigues (1968) que
evidenciaram a deposição máxima de
material decíduo entre os meses de maio e
agosto, período de baixa pluviosidade.
125
JOSÉ AUGUSTO DA SILVA SANTANA, LUCIANA KARLA V. DOS SANTOS SOUSA, WANDERLÉA DA COSTA ALMEIDA
Semelhante padrão de deposição ao
deste trabalho foi também observado por
Diniz e Pagano (1997) em uma área de
floresta mesófila semidecídua situada em
São Paulo, onde ocorreu maior produção de
folhedo nos meses de julho a outubro, com
os autores sugerindo a existência de uma
estratégia utilizada por esse tipo de
ecossistema, que implica em alta produção
de folhedo no período seco, independente
das variações climáticas de um determinado
ano, e afirmam, ainda, que esse comportamento é característico para esse tipo de
floresta, salientando, entretanto, que foi
observada ausência de correlação entre
fatores abióticos e a produção de
serapilheira.
Bonnevie-Svendsen e Gjems5 (1957
citados por BRAY; GORHAM, 1964)
usaram a relação entre a produção de litter
(kg ha-1) com a área basal (m2 ha-1) em uma
série de florestas de Gimnospermas e
Angiospermas, com os valores variando de
70-75 kg m-2 de área basal. Nas condições
da floresta secundária da CEPLAC, o valor
da relação atingiu 329,68 kg.m-2, sendo muito
superior aos dados fornecidos pelos dois
autores, que não citaram dados de florestas
tropicais secundárias, e por Silva (1984), a
qual demonstrou uma queda de detritos
equivalente a 189,7 kg.m-2, em vegetação de
floresta primária em Tucuruí (PA).
O número de trabalhos relacionados à
deposição de serapilheira em florestas
secundárias na Amazônia é considerado
reduzido, portanto é difícil fazer uma análise
5
comparativa especifica para esse tipo de
vegetação na região. Os valores obtidos de
deposição de serapilheira na vegetação da
Estação da CEPLAC foram superiores aos
encontrados por outros autores na Amazônia,
mesmo trabalhando com tipologias florestais
diferentes das desse estudo, como Klinge e
Rodrigues (1968), que quantificaram a
produção de serapilheira numa floresta de
terra firme próximo de Manaus (AM), e
concluíram que a mesma produziu cerca de
7,4 t.ha-1.ano-1, com a folhagem respondendo
por 75,7% do total e os outros detritos
orgânicos por 24,3%.
Silva (1984) estudou a deposição de
material orgânico e a concentração de
nutrientes em uma vegetação nativa de terra
firme na região, que foi, posteriormente,
inundada pela represa da Hidrelétrica de
Tucuruí, Pará, e estimou a massa de material
decíduo em 6,656 t.ha-1.ano-1, com as folhas
contribuindo com 71,5% do total, os
gravetos com 21,1% e a fração flor+fruto
com o restante, mostrando, portanto, valores
inferiores aos obtidos na vegetação
secundária da Estação da CEPLAC.
Conforme se observa, os resultados de
deposição anual e acúmulo de serapilheira
exibem uma grande variabilidade. Segundo
Reis e Barros (1990) essa variabilidade pode
ser decorrente de variações nas condições
climáticas, na qualidade do sítio, na idade
da floresta ou do povoamento, nas
características intrínsecas das espécies e do
BONNEVIE-SVENDSEN, C.; GJEMS, O. Amount and chemical composition of the litter from larch, beech, Norway
spruce and Scots pine stands and its effects on the soil. Medd. Norske Skogsforsoksv, v. 48, p.111-174, 1967
126
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
grau de estabilidade da floresta, o que
incluiria, tempo após ocorrência de fogo,
ataque de insetos e interferência humana, seja
pela remoção da serapilheira ou pelo cultivo.
Entre os vários fatores que exercem
influência na qualidade e quantidade de
material orgânico decíduo, a fertilidade do
sítio se apresenta como um dos mais
relevantes. Em um estudo realizado com
vegetação de florestas tropicais, Proctor et
al. (1983) observaram uma taxa de
deposição de 11,5 t/ha/ano na vegetação de
uma floresta aluvial, 12 t/ha/ano em uma
vegetação de floresta sobre um solo com
altos teores de calcário e 8,8 t/ha/ano em
uma floresta de Dipterocarpus no Sarawak,
evidenciando a importância da qualidade do
sitio sobre a produção da serapilheira.
Os solos da Estação onde se situa a
parcela estudada são profundamente
intemperizados, submetidos à constante e
elevada temperatura, e alto nível de
precipitação pluviométrica, que retira do
sistema, através do processo de percolação
ou/e de infiltração, os poucos nutrientes que
a intemperização da rocha matriz e a
decomposição da manta orgânica liberam.
Um outro fator que contribui para os
baixos níveis de fertilidade do solo da área
é o material que formou essas rochas que
deram origem a esses solos. O material
formador das rochas sedimentares da
Formação Barreiras é quimicamente pobre
em nutrientes (CUEVAS; MEDINA, 1986),
sendo constituído, principalmente, por
arenitos finos, siltitos e argilitos (NEVES;
BARBOSA, 1982), daí a origem dos
reduzidos teores de nutrientes nos solos
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
originados dessa formação, o que, em última
instância, pode refletir na taxa de
produtividade da vegetação, e acentua a
importância da manutenção do processo de
ciclagem de nutrientes para esse tipo de
vegetação em solos distróficos.
Klinge e Rodrigues (1968) afirmaram
que a baixa produção de matéria orgânica
da floresta amazônica tem sido atribuída à
sua baixa produtividade primária
comparativamente a outros ecossistemas
florestais de zona tropical, e, indiretamente,
à pobreza dos solos em que se assentam. É
provável que a quantidade de nutrientes no
material orgânico seja fortemente
relacionado com os níveis de fertilidade do
solo da área da Estação, entretanto, o
processo de deposição não parece ter sido
influenciado por esta característica do solo.
As características da vegetação estudada
têm sido também correlacionadas com a
produção de serapilheira por alguns autores.
Em uma vegetação florestal, situada na base
de uma montanha do México, Williams-Linera
e Tolome (1996) estu-daram a deposição de
litter por um período de três anos e a mesma
foi quantificada em 8,45 t.ha-1.ano-1, com as
folhas respondendo por 70% do material
coletado, o material lenhoso por 15%, as flores
e frutos por 3% e a fração miscelânea por 12%,
concluindo que a produção de litter está
positivamente relacionada com a temperatura
máxima e a afinidade fitogeográfica das
árvores tropicais.
Nesse aspecto, Sanchez e AlvarezSanchez (1995) afirmaram que a variação
mensal da queda de folhas foi determinada pela
contribuição de poucas espécies e essa
127
JOSÉ AUGUSTO DA SILVA SANTANA, LUCIANA KARLA V. DOS SANTOS SOUSA, WANDERLÉA DA COSTA ALMEIDA
contribuição foi diferente de local para local.
Em condições de floresta estacional
semidecídua Montana na região de LavrasMG, Dias e Oliveira Filho (1997) observaram
que a produção de serapilheira pela
espécie Xylopia brasiliensis atingiu 0,637 t.ha1
.ano-1, correspondendo a 8,11% da produção
total, apesar de apresentar densidade de apenas
2,3% e dominância em área basal de 4,11%.
Do mesmo modo, esse padrão de
produção de serapilheira na Estação da
CEPLAC parece estar relacionado ao
comportamento fenológico das espécies
mais abundantes na vegetação estudada,
como algumas daquelas relacionadas na
Tabela 1. O inventário florístico realizado
na parcela por Almeida, Souza e Santana
(1997) mostrou que a espécie Pourouma
longipendula estava representada por 156
indivíduos com DAP acima de 5 cm,
distribuídos em 63 das 100 subparcelas e
uma dominância em área basal de 19,15%.
Pourouma longipendula, além de ser uma
espécie com elevado número de indivíduos nas
classes de DAP acima de 5 cm e ampla
distribuição na parcela, apresenta também
muitos representantes regenerando, os quais
não superam o diâmetro mínimo considerado
no levantamento florístico, mas atingem altura
superior às bandejas coletoras, contribuindo,
portanto, para aumentar a participação de
material decíduo da espécie no total coletado.
Do mesmo modo, apesar da espécie,
normalmente, não apresentar um número
considerável de folhas na copa, as mesmas
possuem o pedúnculo muito comprido,
128
atingindo valores em torno de 35cm, o que lhes
confere alta biomassa por folha.
Levantamentos posteriores, realizados
na mesma parcela permanente, também
mostraram que P. longipendula apresentou
grande mortalidade de indivíduos adultos,
e como se apresentaram bastante dispersos
na parcela, o material morto pode facilmente
ter caído no interior das bandejas coletoras.
De qualquer modo, para melhor definir a
participação das espécies mais bem
distribuídas na vegetação estudada no
processo de deposição de litter, é necessário
reconhecer e separar os diferentes
componentes, principalmente folhas, flores
e frutos, o que não foi possível neste
trabalho devido às dificuldades na
identificação dos materiais nos momentos
das coletas.
O padrão de deposição da fração
miscelânea mostrou certa sazonalidade,
evidenciando nítida correlação com a
precipitação da área, atingindo cerca de
2,129 t.ha-1.ano-1, com a maior deposição
ocorrendo entre os meses de janeiro e
fevereiro, no período de transição do fim
do período seco para o início do período
chuvoso, ocorrendo em março uma redução
de quase 50% em relação ao mês anterior,
seguindo-se, depois, um padrão de
deposição mensal sem picos significativos
de biomassa decídua nos meses mais secos
do ano.
Esse pico de deposição de miscelânea
na transição entre os períodos seco e
chuvoso são concordantes com o observado
por Scott, Proctor e Thompson (1992) na
floresta de terra firme da Ilha de Maracá
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
(RR), com um pico de flores e frutos
ocorrendo no início da estação úmida na Ilha
de Maracá, em Roraima, e Jackson (1978)
em Santa Teresa (ES), o qual observou um
padrão de sazonalidade semelhante ao da
vegetação da área da CEPLAC, com maior
deposição de flores e número de espécies
florindo do final da estação seca ao início da
chuvosa, e concluiu afirmando que esse
padrão é bem típico de florestas tropicais.
Segundo Cesar (1993), vários autores
têm observado um aumento significativo da
floração a partir do período de transição
entre a estação de baixa pluviosidade e
início da estação de elevada precipitação,
para regiões tropicais e subtropicais. Na área
onde esse trabalho foi desenvolvido,
observou-se que várias espécies com ampla
distribuição na parcela estavam em processo
de floração e frutificação (Pourouma
longipendula, Brosimum guianensis,
Theobroma speciosum, Cecropia
sciadophylla, Cecropia leucoma, Carapa
guianensis, Pourouma guyanensis,
Jacaranda copaia, Sterculia pilosa, além de
várias espécies do gênero Eschweilera) no
período entre o fim da estação seca e o inicio
da estação chuvosa, o que certamente
contribuiu para aumentar a biomassa da
fração miscelânea nesse período de
transição entre a estação de maior e a de
menor precipitação, com a deposição no
mês de janeiro sendo inclusive superior à
produção da fração foliar.
Esse padrão de maior deposição de
miscelânea em relação às folhas no início
do ano ocorrido na vegetação da CEPLAC
foi também observado por Portes, Korhler
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
e Galvão (1996), em floresta ombrófila
densa altomontana no Paraná, os quais
comentam que o aumento verificado no mês
de fevereiro foi devido à grande deposição
de galhos e ramos e, principalmente, de
frutos e sementes, com as flores atingindo
o pico no mês de dezembro, contrastando
com o baixo valor da deposição total.
Em condições de floresta mesófila
semidecídua na região de Araras (SP), Diniz
e Pagano (1997) observaram que a
participação das flores foi de 15,33
kg.ha-1.ano-1, com as maiores produções
ocorrendo em julho e agosto (inverno), e
afirmaram, ainda, que esse valor pode ser
creditado as Compositae que florescem nessa
época do ano; em relação aos frutos, os
maiores valores de produção ocorreram no
final do inverno (agosto) e início da primavera
(setembro), provavelmente em função dos
frutos carnosos das espécies de Myrtaceae que
se caracterizam por um florescimento
abundante logo no início das primeiras chuvas
e uma frutificação muito rápida.
Na vegetação secundária da CEPLAC,
não se observou a presença de espécies da
família Compositae e da família Myrtaceae,
apenas Myrcia falax ocorreu no inventário
florístico, com 16 indivíduos em 14 parcelas
e área basal de 0,1212 m2. É provável que as
espécies relacionadas na Tabela 1,
principalmente Pourouma longipendula, é que
tenham desempenhado papel mais importante
na deposição da fração miscelânea,
notadamente em relação aos frutos.
Silva e Lobo (1982), estudando a
deposição de detritos em floresta de terra
firme, várzea igapó, mostraram que frações
129
JOSÉ AUGUSTO DA SILVA SANTANA, LUCIANA KARLA V. DOS SANTOS SOUSA, WANDERLÉA DA COSTA ALMEIDA
como madeira, flores e frutos não
apresentaram padrão definido de deposição,
o que talvez possa ser explicado por tratarse de pequenas frações e que possam, por
exemplo, ter sofrido perdas no intervalo
entre uma coleta e outra nos períodos mais
chuvosos.
Em uma floresta semidecídua
Montana de Jundiaí (SP), Morellato
(1992) encontrou uma produção de 400
kg.ha-1.ano-1 de frutos, correspondente a
4,65% da serapilheira total, evidenciando a
necessidade de detalhar a participação
isolada de cada fração, já que elas são muito
importante na composição final da biomassa
da serapilheira, além de fornecer
informações valiosas sobre a fenologia das
espécies.
Mostrando a importância da mensuração e a participação da biomassa das
demais frações, Custódio Filho et al. (1996)
observaram que a fração ramos contribuiu
com 16,09% para a constituição da
serapilheira, provavelmente em função das
fortes trovoadas na área. Já na fração outros,
a queda de inflorescências de Euterpe edulis
foi um fator decisivo que afetou sua variação
durante a fase do estudo.
Os resultados da deposição da fração
miscelânea da vegetação secundária
estudada sugerem a existência de um padrão
fenológico comum a um conjunto de
espécies arbóreas que compõem a vegetação
local, reunindo, principalmente, aquelas
com maior número de indivíduos adultos
130
distribuídas na área. É provável, também,
que nos meses de janeiro e fevereiro, quando
ocorreram maiores taxas de deposição da
fração miscelânea, e observou-se vários
indivíduos em processo de floração, as
árvores tenham reduzido parte do volume
das folhas, renovando-as nos meses
antecedentes, resultando, portanto, em
elevada biomassa de flores e frutos nos
meses mais quentes e chuvosos, sobretudo
em janeiro e fevereiro.
4 CONCLUSÃO
A deposição do material orgânico foi
ininterrupta e sazonal, variando em função
da precipitação pluviométrica ocorrida no
período do estudo, situando-se próximo dos
valores encontrados em outros trabalhos
para florestas tropicais, alcançando 9,33
t.ha -1 .ano -1 , com o maior valor sendo
observado em junho, atingindo 1,64 t.ha-1 e
a menor em dezembro com 0,27 t.ha-1.
A maior deposição de material foliar
ocorreu em junho, com cerca de 1,43 t.ha-1
e a menor em dezembro com 0,17 t.ha-1,
coincidindo, portanto, com o fim e inicio
do período das chuvas na área,
respectivamente.
Para a fração miscelânea, as maiores
taxas de deposição ocorreram nos meses de
janeiro e fevereiro, período em que se inicia
a estação chuvosa, com a maior taxa de
deposição acontecendo em janeiro
(0,53 t.ha-1) e a menor em maio (0,07 t.ha-1).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
PRODUÇÃO ANUAL DE SERAPILHEIRA EM FLORESTA SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
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Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 119-132, jul./dez. 2003
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO COM N P K EM LATOSSOLO AMARELO
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA
LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO COM
N P K EM LATOSSOLO AMARELO1
Carlos Alberto Costa VELOSO2
Anna Cristina Malcher MUNIZ3
Walcylene Lacerda Matos PEREIRA4
Francisco Ronaldo S. de SOUZA2
Eduardo J. Maklouf CARVALHO2
RESUMO: O objetivo deste trabalho é avaliar o efeito da aplicação de doses de N, P e K sobre a
produtividade e a qualidade de frutos de laranjeira, num Latossolo Amarelo distrófico, no município
de Capitão Poço (PA). Os tratamentos no primeiro ano corresponderam a quatro doses de nitrogênio
(75; 150; 225 e 300 g de N por planta) na forma de uréia, quatro doses de fósforo (70; 110; 150 e
190 g de P2O5 por planta) na forma de superfosfato simples e quatro doses de potássio (75; 150;
225 e 300 g de K2O por planta ) na forma de cloreto de potássio. A partir do segundo ano agrícola,
foram elevadas as doses de N, para (100; 200; 300 e 400 g de N por planta), as doses de fósforo
para (80; 130; 180 e 230 g de P2O5 por planta ) e as doses de potássio para (100; 200; 300 e 400 g de
K2O por planta ). Utilizou-se o delineamento em blocos ao acaso, com os tratamentos dispostos num
esquema fatorial fracionado do tipo (4x4x4) 1/2. Foram avaliados o número e o peso de frutos, teor
de suco, sólidos solúveis totais(SST), acidez total (AT), relação SST/AT e espessura da casca. Houve
resposta positiva de nitrogênio e fósforo com relação à produção de laranja pêra e na qualidade do
fruto com a aplicação de 333 g de N por planta e 288 g de P2O5 por planta . Os teores de N, P e K nas
folhas aumentaram com aplicação dos adubos nitrogenados, fosfatados e potássicos.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Citros, Fruteira, Adubação, Nutrição Mineral, Fertilizante.
YIELD AND QUALITY OF PERA ORANGE FRUITS
ON A YELLOW LATOSSOL OF PARA STATE AS A FUNCTION
OF NPK FERTILIZERS
ABSTRACT: The objective of this work was to determine the effects of nitrogen, phosphorus
and potassium fertilizers on the productivity and fruit quality of orange trees in a paleudult soil
(Yellow Latosol, dystrophic) of Capitão Poço, PA, Brazil. A randomized block experimental design
1
2
3
4
Aprovado para publicação em 4.11.2003
Extraído da Dissertação de Mestrado apresentada pelo segundo autor para obtenção do título de Mestre em
Agronomia na Faculdade de Ciências Agrárias do Pará – FCAP
Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.
Engenheira Agrônoma, aluna do Curso de Mestrado em Agronomia da FCAP.
Engenheira Agrônoma, aluna de pós-graduação da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” –
ESALQ.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
133
CARLOS ALBERTO COSTA VELOSO, ANA CRISTINA MALCHER MUNIZ, WALCYLENE LACERDA MATOS PEREIRA, FRANCISCO
RONALDO S. DE SOUZA, EDUARDO J. MAKLOUF CARVALHO
with treatments arranged in an incomplete NPK 43 factorial, with three replicates, was used.
Treatments were 75; 150; 225 and 300 g/plant N, as urea; 70; 110; 150 and 190 g/plant P2O5, as
single superphosphate; 75; 150; 225 and 300 g/plant of K20, as potassium chloride, in the first
year and 100; 200; 300, 400 g/plant N; 80; 130; 180 and 230 g/plant P2O5, 100; 200; 300 and 400
g/ plant K2O in the second year. Results showed increases in the fruit yield and quality of juice due
to application of 333 g/plant N and 288 g/plant P2O5. Leaf N, P and K levels were increased by the
NPK fertilizers.
INDEX TERMS: citrus, fruit crop, fertilization, tropical soil, Amazon basin
1 INTRODUÇÃO
Os citros são cultivados em mais de
noventa países, mas 80% da produção
mundial está no Brasil, Estados Unidos,
Espanha, Itália e México. É importante
ressaltar, que em 1992/93 foi produzido no
Brasil 27,2% da produção mundial, ficando
em 1º lugar (FAO, 1993). A citricultura no
Brasil tem apresentado marcante expansão
ao longo dos últimos anos, em função da
excelente demanda dos mercados nacional
e internacional, voltados ao consumo “in
natura” e/ou à fabricação de suco
concentrado.
No estado do Pará, a produção de
laranja atingiu índices elevados de
crescimento nos últimos dez anos,
principalmente na microrregião do Guamá,
onde se concentram os principais
municípios produtores, como Capitão Poço,
Garrafão do Norte, Irituia e Ourém,
constituindo o chamado pólo citrícola, que
juntos contribuíram com, aproximadamente,
68% do total produzido no Pará (VELOSO
et al., 1999). Com o avanço conseguido pela
citricultura nesse período, o estado do Pará
passou a assumir posição de destaque,
ficando entre os seis maiores produtores de
134
laranja no Brasil. Entretanto, a
produtividade dos pomares comerciais,
utilizando a laranjeira como principal
fruteira, ainda é baixa, com um rendimento
médio de 300 frutos/planta (ANUÁRIO
ESTATÍSTICO DO BRASIL, 1997).
Uma série de fatores pode ser
responsável pela baixa produtividade, dos
quais se podem destacar: existência de
laranjais que ainda não atingiram a plena
produção; falta de tratamentos
fitossanitários; práticas culturais
inadequadas; adubação e correção de acidez
do solo inadequadas (VELOSO et al., 1999).
A adubação assume relevante importância
quando se constata a existência de grandes
áreas citrícolas, em solos de baixa
fertilidade, como os da Região Amazônica.
Brasil e Veloso (1999), numa avaliação das
propriedades químicas dos solos dessa
região, observaram que 80% deles
apresentavam níveis baixos de saturação por
base, indicando necessidade de calagem
nessas áreas. Esses solos são muito pobres
em macro e micronutrientes, necessitando
maiores quantidades de fertilizantes para
condicionar boa produtividade das
plantas.O nitrogênio está muito
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO COM N P K EM LATOSSOLO AMARELO
correlacionado com o desenvolvimento
vegetativo, principalmente com o de plantas
novas (MALAVOLTA, 1983). Segundo
Smith (1969), a aplicação de N propicia
aumento do número e tamanho das folhas,
bem como sua longevidade.
A resposta das plantas cítricas ao
aumento de N parece estar de acordo com a
lei dos rendimentos decrescentes (COHEN,
1976). Esse fato fica evidente no trabalho
realizado por Rodrigues e Moreira (1969),
iniciado com plantas de sete a oito anos,
onde utilizaram doses de 250 e 500 g de N/
planta/ano. O efeito do N na produção é
marcante, entretanto na qualidade do fruto
é menos eficaz. Smith (1969) afirma que
doses, fontes e época de aplicação de N têm
pouco efeito sobre a palatabilidade do fruto.
Alguns trabalhos (SHORTER; CRIPPS,
1970; MAGALHÃES, 1987) evidenciaram
os efeitos do N sobre a qualidade do fruto.
Segundo Malavolta (1983), os períodos
fisiológicos de maior exigência de N são:
antes da vegetação da primavera, floração,
queda prematura de frutos e maturação dos
frutos. Respostas acentuadas a nitrogênio
foram observadas em cinco locais estudados
por Cantarella et al., (1992), com
produtividades crescentes em função de
doses de N até quase 200 kg/ha.
Por outro lado, o efeito do fósforo foi
demonstrado por Cohen (1976), que
recomenda, para a produção de 20 t/ha, que
se adube com doses de 100 a 120 kg/ha,
sendo que em São Paulo, Cantarella et al.,
(1992) sugerem a aplicação de 140 kg/ha
de P2O5, para locais em que a análise de solo
mostrou teores baixo de fósforo.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
O fósforo atua na fotossíntese, na
respiração, no armazenamento e
transferência de energia, na divisão celular,
no crescimento das células, além de outros
processos. O nutriente favorece a formação
e crescimento do sistema radicular e está
intimamente relacionado à formação das
sementes, onde a concentração é maior do
que em qualquer outra parte da planta
(MALAVOLTA; VITTI; OLIVEIRA,
1989). A deficiência de fósforo retarda o
crescimento de raízes, mas pode, também,
afetar orgãos reprodutivos, retardando a
iniciação floral, reduzindo o número de
flores e comprometendo a formação de
sementes (MARSCHNER,1995).
Quanto ao efeito do potássio no
desenvolvimento vegetativo é menos
acentuado que o N. Entretanto, o efeito do
K na produção e qualidade dos frutos é
facilmente notado. No Brasil, Rodrigues e
Moreira (1969), aplicando 200 e 400 gramas
de K2O por planta, verificaram aumento
substancial na produção, para plantas com
idade acima de oito anos. A absorção
máxima de K ocorre na primavera e no
verão, quase cessando no inverno. Durante
a maturação ocorre uma diminuição no teor
foliar, provavelmente pela migração das
folhas para os frutos e tecidos lenhosos
(COHEN, 1976).
O objetivo deste trabalho é avaliar o
efeito da aplicação de doses de nitrogênio,
fósforo e potássio sobre a produtividade e
qualidade de frutos de laranjeira em
formação, no município de Capitão Poço
(PA).
135
CARLOS ALBERTO COSTA VELOSO, ANA CRISTINA MALCHER MUNIZ, WALCYLENE LACERDA MATOS PEREIRA, FRANCISCO
RONALDO S. DE SOUZA, EDUARDO J. MAKLOUF CARVALHO
2 MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido na área
da fazenda da CITROPAR - Cítricos do Pará
S.A., situada na mesorregião do Nordeste
Paraense, no município de Capitão Poço,
no período compreendido entre fevereiro de
1996 e dezembro de 1999, em solo
classificado como Latossolo Amarelo
distrófico, textura franco-arenosa (Oxisol),
cuja amostragem, antes da instalação do
experimento, foi efetuada na camada de 0–
20 cm de profundidade, para caracterização
química e física (Tabela 1). O clima do
município é do tipo Ami da classificação
de Köppen, com precipitação pluviométrica
de 2 502 mm anual, temperatura média
anuais de 26,9ºC e umidade relativa média
de 80% (BASTOS, 1972).
Utilizou-se o delineamento em blocos
ao acaso, com os tratamentos dispostos num
esquema fatorial fracionado do tipo (4x4x4)
1/2, correspondendo a quatro doses de
nitrogênio, quatro doses de fósforo e quatro
doses de potássio. Cada parcela foi
composta de seis plantas da variedade Pêra
(Citrus sinensis L. Osbeck) sobre limão
Cravo (Citrus limonia L. Osbeck),
espaçadas 6,8 m entre fileiras e 4,3 m entre
plantas.. Os tratamentos no primeiro ano
corresponderam a quatro doses de
nitrogênio (75; 150; 225 e 300 g de N por
planta ) na forma de uréia, quatro doses de
fósforo (70; 110; 150 e 190 g de P2O5 por
planta ) na forma de superfosfato simples e
quatro doses de potássio (75; 150; 225 e 300
g de K2O por planta) na forma de cloreto de
potássio. A partir do segundo ano agrícola,
quando as plantas completaram três anos de
idade, elevaram-se as doses de N, para (100;
200; 300 e 400 g N por planta), as doses de
fósforo para (80; 130; 180 e 230 g de P2O5
por planta ) e as doses de potássio para (100;
200; 300 e 400 g de K 2O por planta).
A adubação fosfatada foi realizada
anualmente de uma única vez. A adubação
nitrogenada e potássica foram aplicadas
parceladamente de três vezes, em intervalos
de 45 dias, em cobertura. Como adubação
complementar, todos os tratamentos
receberam por planta: 10 g de sulfato de
zinco, 4 g de bórax, 3 g de sulfato de cobre
e 6 g de sulfato de manganês.
Tabela 1 - Características químicas e físicas do solo da fazenda CITROPAR
pH
(H2O)
4,9
M.O.
P
g kg-1
mg kg-1
16,9
1,3
Ca
Mg
K
Al
H+Al
------------------- mmolc dm-3----------------
5,0
2,0
1,5
19,0
54,0
Areia
grossa
Areia
fina
Silte
Argila
-------------------- g kg-1---------------
120,0
530,0
100,0
250,0
Nota: Análises realizadas no Laboratório de Solos da Embrapa Amazônia Oriental.
136
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO COM N P K EM LATOSSOLO AMARELO
A amostragem de folhas foi efetuada
no início de março de 1998, ocasião em que
as plantas apresentaram frutos com 2 a
4 cm de diâmetro. A coleta de amostra
consistiu em retirar quatro folhas recémmaduras por planta, a partir do fruto, sendo
uma em cada quadrante do terço médio da
copa da laranjeira.
As amostras de folha foram colocadas
para secar em estufa com circulação forçada
de ar, com temperatura entre 60 e 65 ºC por
cerca de três dias. Depois de secado, o
material foi moído em moinho tipo Willey
com peneira de 20 malhas e acondicionado
em saquinhos de papel para análises dos
teores de N, P, K, Ca e Mg. Para
determinação de N foi feita a digestão por
oxidação sulfúrica, enquanto o P e o K foi
utilizada a mistura nitro-perclórica na
proporção 2:1 (MALAVOLTA; VITTI;
OLIVEIRA, 1989).
O N foi determinado pelo método
microkjeldahl, o P por colorimetria de
molibdato-vanadato, o K por fotometria de
chama, o Ca e o Mg por espectrofotometria
de absorção atômica, segundo metodologia
descrita por Sarruge e Haag (1974).
Os frutos das plantas úteis foram
contados, pesados e feita análise qualitativa
em amostra de cada planta útil da parcela,
para determinação do peso médio, teor de
suco, acidez total titulável, sólidos solúveis
totais, relação sólidos solúveis totais/acidez
total e espessura da casca.
Os dados obtidos foram submetidos à
análise estatística utilizando-se o programa
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
estatístico SAS - Statistical Analysis System
(SAS INSTITUTE, 1993). Efetuou-se
análise de correlação e regressão para a
produção de frutos/planta, produção de
frutos (t ha-1), teor de suco, acidez total
titulável, sólidos solúveis totais, relação
sólidos solúveis totais/acidez total e
espessura da casca em função das doses de
N; P2O5 e K2O.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise de correlação linear mostrou
correlação positiva e altamente significativa
entre a produção de frutos, número de
frutos/plantas com o teor de suco e a
espessura da casca. Não houve correlação
significativa entre a produção de frutos com
sólidos solúveis totais, acidez total e a
relação sólidos solúveis/acidez, conforme
os dados apresentados na (Tabela 2).
3.1 PRODUÇÃO DOS FRUTOS
Os resultados acumulados de três anos
indicaram pela análise da variância efeito
significativo do nitrogênio, fósforo e
ausência de resposta do potássio, para a
produção de frutos/planta e t/ha, conforme
(Tabela 3) e (Figuras 1 e 2), o que coincide
com os dados obtidos por Magalhães (1987)
e Rodrigues e Moreira (1969) em outras
áreas cultivadas com citros no Brasil, onde
uma adubação nitrogenada adequada tornase necessária para obtenção de altas
produtividades.
137
CARLOS ALBERTO COSTA VELOSO, ANA CRISTINA MALCHER MUNIZ, WALCYLENE LACERDA MATOS PEREIRA, FRANCISCO
RONALDO S. DE SOUZA, EDUARDO J. MAKLOUF CARVALHO
Tabela 2 - Matriz de correlação linear para produção de frutos (PF), número de frutos/
planta (NFP), teor de suco (TS), sólidos solúveis totais (SST), acidez total (AT),
relação sólidos solúveis totais/acidez total (RSST/AT) e espessura da casca (EC),
Belém, PA. 2000.
9DULiYHLV
1)3
76
667
$7
5667$7
(&
3)
0,3131 *
- 0,0517 ns
0,0247 ns
-0,0126 ns
0,4976 **
1)3
BBBBB
0,3131 *
- 0,0517 ns
0,0247 ns
-0,0126 ns
0,4976 **
76
BBBBB
BBBBB
0,2911 *
0,1868 ns
0,0731 ns
- 0,1622 ns
667
BBBBB
BBBBB
BBBBB
0,1279 ns
0,5529 **
- 0,2565 ns
$7
BBBBB
BBBBB
BBBBB
BBBBB
- 0,6797 **
- 0,0302 ns
5667$7
BBBBB
BBBBB
BBBBB
BBBBB
BBBBB
- 0,1367 ns
* Significativo ao nível de 5% de probabilidade
** Significativo ao nível de 1% de probabilidade
Tabela 3 - Efeitos do N, P e K sobre o número de frutos/planta, peso médio dos frutos,
produção de frutos (t/ha), teor de suco (%), sólidos solúveis totais (SST), acidez
total, relação sólidos solúveis/acidez e espessura da casca (mm).
138
Tratamento
Número
frutos/planta
Peso de
frutos (g)
Produção
(t/ha)
Teor de
Suco (%)
SST
(o Brix)
Acidez
Total
SST/Acidez
(RATIO)
Espessura da
casca (mm)
N1
459
229,60
40,693
39,40
8,79
0,78
11,22
2,72
N2
530
215,39
43,035
38,71
8,88
0,80
11,10
2,67
N3
672
230,44
58,694
40,84
9,02
0,81
11,29
2,66
N4
637
229,17
54,685
42,76
8,88
0,78
11,45
2,68
P1
507
225,18
44,078
41,08
8,94
0,80
11,35
2,63
P2
566
225,99
48,763
39,72
9,05
0,80
11,28
2,75
P3
587
221,44
49,390
39,10
8,87
0,79
11,06
2,78
P4
638
232,01
54,877
41,87
8,70
0,78
11,26
2,57
K1
632
224,22
54,399
39,48
8,91
0,78
11,55
2,73
K2
542
224,71
46,257
41,76
8,95
0,81
11,05
2,68
K3
563
227,59
48,051
40,37
8,99
0,79
11,64
2,60
K4
561
228,12
48,400
40,11
8,72
0,79
10,82
2,72
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO COM N P K EM LATOSSOLO AMARELO
1200
1350
(B)
(A)
1000
y=308,89-1,38 x+0,0048 x2
900
Nºfrutos/planta
Nº frutos/planta
y=148,91+0,46 x-0,00053 x2
R2 = 0,63
y=279,04+0,73 x+0,00024 x2
R2 = 0,99
2
y=391,64+4,81 x-0,00768 x
R2 = 0,64
Ano 97
Ano 98
Ano 99
R2 = 0,78
y=298,95+0,89 x+0,00161 x2
800
Ano 97
Ano 98
Ano 99
2
R = 0,99
2
y=673,83+3,82 x-0,00906 x
R2 = 0,93
600
400
450
200
100
200
300
60
400
120
180
240
Doses de P2O5, g/planta
Doses de N, g/planta
Figura 1 - Efeito das doses de nitrogênio (a) e das doses de fósforo (b) sobre o número de frutos/planta de laranjeira pêra,
no período de 1997 a 1999, Belém (PA) 2.000.
120
120
(B)
(A)
100
80
60
y=11,02+0,021x-6,975E-6 x2
R2 = 0,91
y=20,94+0,032 x+0,00007 x2
Produção (t/ha)
Produção (t/ha)
100
Ano 97
Ano 98
Ano 99)
2
R = 0,98
y=48,83+0,36 x-0,00054 x2
R2 = 0,52
40
y=21,05-0,093 x+0,00034 x2
R2 = 0,82
y=23,49+0,03 x+0,00023 x2
60
R = 0,99
y=77,62+0,19 x-0,00033 x2
R2 = 0,87
Ano 97
Ano 98
Ano 99
2
40
20
20
100
80
200
300
400
Doses de N, g/planta
60
120
180
240
Doses de P2O5, g/planta
Figura 2 - Efeito das doses de nitrogênio (a) e das doses de fósforo (b) sobre a produção (t/ha) de laranjeira pêra, no
período de 1997 a 1999, Belém (PA) 2.000.
Os dados de produção de laranja em
t/ha apresentaram comportamento similar
aos de número de frutos/planta, verificandose, entretanto que as maiores produções
máximas estimadas de 109 t/ha, para o ano
de 1999. Levando-se em conta que a
produção ótima seria atingida com 90% da
máxima produção com as doses testadas, a
análise de regressão possibilitou estimar que
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
os melhores resultados foram obtidos com
a aplicação de 333 g/planta de nitrogênio,
para a laranjeira Pêra (Figura 2).
A nutrição nitrogenada adequada,
segundo Malavolta (1983), não havendo
outros fatores limitantes, é evidenciada no
desenvolvimento rápido, no aumento da
ramificação dos galhos frutíferos e na
formação de folhas verdes e brilhantes. Por
139
CARLOS ALBERTO COSTA VELOSO, ANA CRISTINA MALCHER MUNIZ, WALCYLENE LACERDA MATOS PEREIRA, FRANCISCO
RONALDO S. DE SOUZA, EDUARDO J. MAKLOUF CARVALHO
outro lado, Kiehl (1985) observou que a
utilização agrícola de um solo promove queda
exponencial do teor de matéria orgânica mais
rápida no início e em proporção cada vez
menor, buscando um novo equilíbrio. O
suprimento de nitrogênio decresce em
conseqüência deste fenômeno, sendo em geral
insuficiente para as culturas. De acordo com
Sanchez (1981), além da fixação biológica,
um aporte importante de N em solos tropicais
é devido às chuvas, podendo ser superior a 10
kg de N/ha. Segundo este autor, nas regiões
com estação seca definida pode haver
acumulação de nitratos neste período,
explicada pela nitrificação.
Cohen (1976) indica que as plantas
maduras requerem, aproximadamente, 100
a 300 kg de N/ha, dependendo da situação
dos fatores naturais do meio que afetam o
crescimento das plantas, pois doses de
260 kg de N/ha são utilizados apenas em
pomares com alta produtividade
(SMITH,1969).
No que diz respeito a fósforo, observase na Figura 2 que as equações de regressão
possibilitaram estimar que os melhores
resultados foram obtidos com a aplicação
de 288 g/planta de P2O5, para a laranjeira
Pêra no ano de 1999. Também Cohen (1976)
demonstrou que em alguns países foram
estabelecidas doses de adubação para uma
produção de 20 t/ha, na Espanha 100 a 120
kg/ha, no Japão com 150 kg/ha e em Israel
com 100 kg de P/ha. Smith (1969)
comprovou que a aplicação de 1,9 kg/planta
aumentou a produção de limão de 9 a 60%.
Em Matão e Botucatu, respostas a P foram
observadas por Cantarella et al. (1992).
140
Nestes locais, a análise de solo revelou
baixos teores de P, em ambos os casos a
resposta foi linear, com tendência de
produção da laranja Valência era de
estabilizar próximo da dose máxima usada
(140 kg/ha de P2O5).
Observaram-se (Tabela 3) reduções da
produção com a elevação das doses de K2O.
Os efeitos de doses de K aplicadas sobre a
produção de frutos/planta e t/ha não
apresentavam respostas como o N e P. As
respostas ao potássio têm sido pequena e,
segundo Smith (1969) e confirmados por
Magalhães (1987) e Cantarella et al. (1992),
são necessários vários anos para caracterizar
o baixo nível de K da folha com reflexos na
produção de laranja. Assim, embora os
efeitos de potássio não tenham ocorrido, os
resultados indicam a necessidade de se
manter uma adubação equilibrada.
3.2 QUALIDADE DOS FRUTOS
Os dados de rendimento de suco,
sólidos solúveis totais, acidez total e
espessura da casca são apresentados na
Tabela 3. A análise de variância revelou
efeito significativo para as doses de
nitrogênio e fósforo sobre o rendimento de
suco e acidez total titulável com pequena
influência do fósforo sobre a relação sólidos
solúveis totais e espessura da casca.
De acordo com a análise de regressão
dos dados de rendimento de suco, observase que a elevação das doses de nitrogênio e
das doses de fósforo estudadas provocou
aumento do teor de suco de laranja,
indicando resposta quadrática para N e P,
segundo (Figura 3a) e (Figura 3b).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO COM N P K EM LATOSSOLO AMARELO
50
50
Teor de suco (%)
45
y=48,19-0,093 x+0,00027 x2
(B)
y=46,74-0,060 x+0,00012 x2
2
R = 0,95
y=35,58-0,0062 x+0,00004 x2
R2 = 0,90
y=39,57+0,0047 x+0,00004 x2
45
Teor de suco (%)
(A)
R2 = 0,82
40
35
2
R = 0,85
y=56,01-0,29 x+0,00095 x2
R2 = 0,96
y=41,18+0,014 x+5E-6 x2
R2 = 0,99
Ano 97
Ano 98
Ano 99
40
35
Ano 97
Ano 98
Ano 99
30
100
200
300
30
60
400
120
180
240
Doses de P2O5, g/planta
Doses de N, g/planta
Figura 3 - Efeito das doses de nitrogênio (a) e das doses de fósforo (b) sobre o rendimento de suco (%) de laranja pêra, no
período de 1997 a 1999, Belém (PA), 2000.
Os teores de sólidos solúveis totais dos
frutos de laranja diminuiu com o aumento
das doses de nitrogênio, no entanto, cresceu
com as doses de potássio. Esses resultados
concordam com Magalhães (1987).
Com relação à acidez total titulável,
observa-se que a equação quadrática é a que
melhor explica os resultados obtidos, para
os nutrientes N e P em função das dosagens
utilizadas. Os efeitos de doses de nitrogênio
e de fósforo sobre a acidez total da laranja
pêra são apresentados na Figura 4. Observase que a aplicação das doses de nitrogênio
promoveu decréscimo na espessura da casca
com o aumento das doses, demonstrando,
também, que as plantas foram bastante
nutridas na fase de formação dos frutos,
provocando com isso redução na utilização
do N, demonstrando pouca eficiência no uso
de adubos nitrogenados.
0,90
0,85
(B)
(A)
0,85
0,80
y=0,87-0,00012 x-3E-7 x
Acidez total
Acidez total
0,80
2
R2= 0,98
y=0,76-0,00032 x+6,75E-7 x2
0,75
R2 = 0,09
y=0,56+0,002 x-3,92E-6 x2
2
R = 0,86
0,70
0,65
100
0,75
0,70
Ano 97
Ano 98
Ano 99
200
300
400
Doses de N, g/planta
y=0,76+0,00088 x-2,51E-6 x2
R2 =0,77
y=0,93-0,0022 x+5,5E-6 x2
R2 = 0,88
y=0,65+0,0026 x-8,38E-6 x2
0,65
60
R2 = 0,66
Ano 97
Ano 98
Ano 99
120
180
240
Doses de P2O5, g/planta
Figura 4 - Efeito das doses de nitrogênio (a) e das doses de fósforo (b) sobre a acidez total de laranja pêra, no período de
1997 a 1999, Belém (PA), 2000.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
141
CARLOS ALBERTO COSTA VELOSO, ANA CRISTINA MALCHER MUNIZ, WALCYLENE LACERDA MATOS PEREIRA, FRANCISCO
RONALDO S. DE SOUZA, EDUARDO J. MAKLOUF CARVALHO
3.3 COMPOSIÇÃO DOS TEORES
FOLIARES
Com relação aos teores de nitrogênio,
fósforo e potássio encontrados no tecido
foliar da laranjeira pêra (Tabela 4), revelaram
que a adubação nitrogenada foi adequada
para as doses 3 e 4, encontrando-se dentro
da faixa ótima de nutrição da laranjeira pêra,
ou seja 23 a 27 g kg-1 de N indicada pelo
Grupo Paulista de Adubação e Calagem
(1994). A aplicação de doses crescentes de
N correspondeu ao maior teor na matéria seca
do tecido foliar, os tratamentos em que foram
utilizados as doses 1 e 2 mostraram teores
foliares baixos, como conseqüência de baixo
suprimento no solo revelado pela matéria
orgânica, 16,9 g/kg.
Os teores de fósforo e de potássio se
mantiveram dentro de uma concentração
estreita, porém dentro da faixa ótima
considerada pelo Grupo Paulista de
Adubação e Calagem (1994). Com a
aplicação de doses crescentes de fósforo e
de potássio no solo, houve aumento na
concentração destes nutrientes no tecido
foliar, isto também foi comprovado por
Magalhães (1987) e Dechen et al. (1981).
Para os demais nutrientes verificaram
algumas modificações, assim é que para o
Ca os teores encontrados são considerados
baixo, enquanto os teores de Mg na faixa
Tabela 4 - Influência das doses de nitrogênio, fósforo e potássio sobre os teores foliares de
N, P, K, Ca, Mg, Cu, Fe, Mn e Zn em laranjeira pêra.
N
P
K
Ca
Mg
Tratamentos
_________________________
142
g/kg _____________________
Cu
Fe
Mn
Zn
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBB
PJNJ
N1
19,3
1,3
15,2
14,9
2,8
8,0
99
26
18
N2
21,6
1,3
15,6
19,8
2,5
9,5
98
29
28
N3
23,4
1,4
15,9
20,2
2,6
13,1
86
32
24
N4
24,5
1,3
14,8
22,4
2,7
15,8
85
28
22
P1
20,6
1,4
15,8
22,6
2,4
11,8
106
28
22
P2
21,4
1,4
15,2
23,4
2,6
10,9
102
27
20
P3
21,8
1,5
14,6
24,2
2,6
8,9
110
29
21
P4
22,6
1,8
14,2
26,2
2,7
9,2
105
28
18
K1
21,5
1,4
10,8
28,4
2,7
9,3
103
34
19
K2
21,8
1,4
17,6
26,6
2,8
8,4
110
35
21
K3
20,9
1,5
18,4
25,8
2,8
11,5
112
28
23
K4
21,8
1,3
19,2
24,6
2,9
10,8
120
38
21
CV (%)
12
14
18
40
25
36
12
32
19
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 133-144, jul./dez. 2003
RENDIMENTO E QUALIDADE DE FRUTOS DA LARANJEIRA SUBMETIDA À ADUBAÇÃO COM N P K EM LATOSSOLO AMARELO
de suficiência adequada segundo o Grupo
Paulista de Adubação e Calagem (1994). O
balanceamento entre K, Ca e Mg é de
fundamental importância na nutrição de
plantas e para citros é um caso especial em
razão da absorção preferencial de Ca,
diferente do que ocorre para outras espécies.
Com relação à influência dos
fertilizantes N, P e K, encontrados nos
teores dos micronutrientes, na Tabela 4,
verifica-se que os teores de Cu e Fe estão
dentro da faixa de suficiência adequada,
enquanto os teores de Mn e Zn estão abaixo
da faixa de suficiência, de acordo com o
Grupo Paulista de Adubação e Calagem
(1994), talvez tenha influência das doses
de adubos fosfatados utilizados. Segundo
Smith(1969), aplicações elevadas de P
podem ocasionar deficiência de Fe, Zn e Cu.
4 CONCLUSÃO
Há resposta positiva de nitrogênio e
fósforo com relação à produção de laranja
pêra (frutos/planta e t/ha) e na qualidade do
fruto (teor de suco e acidez total) com a
aplicação de 333 g/planta de N e 288 g/
planta de P2O5.
Os teores de N, P e K nas folhas
aumentaram com aplicação dos adubos
nitrogenados, fosfatados e potássicos.
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SAZONALIDADE, COLONIZAÇÃO RADICULAR E ESPORULAÇÃO DE FUNGOS MICORRÍZICOS ARBUSCULARES EM PLANTAS DE
CUPUAÇUZEIRO E DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
SAZONALIDADE, COLONIZAÇÃO RADICULAR E ESPORULAÇÃO
DE FUNGOS MICORRÍZICOS ARBUSCULARES EM PLANTAS DE
CUPUAÇUZEIRO E DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL1
Arlem Nascimento de OLIVEIRA2
Luiz Antonio de OLIVEIRA3
RESUMO: As micorrizas arbusculares compreendem um sistema simbiótico de grande importância
na absorção de nutrientes pelas plantas tropicais. Visando estudar a sazonalidade na colonização e
esporulação de fungos micorrízicos arbusculares associados às plantas de cupuaçuzeiro (Theobroma
grandiflorum Schum) e pupunheira (Bactris gasipaes), foram efetuadas avaliações quantitativas
dos níveis de colonização radicular e número de esporos desses fungos em sete épocas de coleta,
entre agosto de 1996 e maio de 1997. As colonizações micorrízicas variaram significativamente
entre as espécies e épocas de avaliação. A pupunheira apresentou média de colonização radicular de
24% e o cupuaçuzeiro 19%. Quanto às épocas, a coleta de setembro, com 20,1% de colonização, foi
estatisticamente inferior à encontrada em fevereiro, com 24,1%, com os demais meses apresentando
colonizações intermediárias. Houve diferenças significativas no número de esporos fúngicos, com a
maior esporulação sendo observada na rizosfera da pupunheira, com média de 159 por 30 g de solo;
as maiores quantidades de esporos foram registradas nos meses de fevereiro e abril, com 282 e 166
esporos, respectivamente.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Micorrizas Arbusculares, Latossolo Amarelo, Frutíferas da
Amazônia, Theobroma grandiflorum, Bactris gasipaes.
SEASONALITY OF ROOT COLONIZATION AND MYCORRHIZAL
ESPORULATION IN PLANTS OF CUPUASSU AND PEACH PALM
AT CENTRAL AMAZONIA
ABSTRACT: Arbuscular mycorrhizae is a symbiotic system of great importance in the nutrients
absorption of tropical plants. Quantitative evaluations of root colonization and number of spores
between august 1996 and may 1997 were made to determine the seasonal colonization and mycorrhizal
sporulation associated with plants of cupuassu and peach palm. The results showed that there was a
significative variation in mycorrhizal colonizations between species and time. The average root
colonization of peach palm was 24% and of cupuassu 19%. Highest root colonization was observed
in the month of February, 24.1%, and lowest in the month of September, 20.1%. Other months had
intermediate root colonization. There were statistical differences in the fungi spores number between
1
2
3
Aprovado para publicação em 29.8.2003
Engenheiro Agronômo M.Sc., Bolsista DTI, Coordenação de Pesquisas em Botânica – CPBO. Av. André Araújo,
2936 – Petrópolis. CEP 69083 000 – Manaus, AM. E-mail: [email protected]
Engenheiro Agronômo, Ph.D., Pesquisador da Coordenação de Pesquisas em Ciências Agronômicas – CPCA/INPA e
Professor de cursos de Pós-Graduação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, Universidade Federal
do Amazonas (UFAM) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). E-mail: [email protected]
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 145-154, jul./dez. 2003
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ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
species and months with the highest sporulation observed in the rhizosphere of the peach palm
plants, an average of 159 spores for 30g of soil, and the largest number of spores in the months of
February and April, 282 and 166 spores, respectively.
INDEX TERMS: Arbuscular mycorrhizae, Theobroma grandiflorum, Bactris gasipaes, Tropical
Soil, Amazon Basin.
1 INTRODUÇÃO
As plantas de cupuaçu (Theobroma
grandiflorum Schum) e pupunha (Bactris
gasipaes Kunth) constituem duas das mais
promissoras espécies frutíferas de interesse
econômico para a Amazônia. Seus frutos
representam fontes importantes de
vitaminas A e C para a dieta regional
(CLEMENT; MORA URPÍ, 1987;
YUYAMA et al., 1999).
No entanto, apesar de extensivamente
cultivadas, essas plantas carecem de
insumos agrícolas para serem mais
produtivas. Nesse caso, torna-se necessário
adubá-las para se obter altas produtividades.
Considerando-se as condições de alta
acidez, toxidez de alumínio e baixa
fertilidade dos solos (NICHOLAIDES et al.,
1983; OLIVEIRA; SMITH; BONETTI,
1992), aliada á descapitalização dos
produtores regionais, a ênfase deve ser dada
à tecnologia de baixos insumos autosustentáveis e ecologicamente compatíveis
(NICHOLAIDES et al., 1983). Uma das
alternativas visando o desenvolvimento de
tecnologias adequadas à utilização
sustentável dos recursos vegetais tem sido
a quantificação dos benefícios nutricionais
que os fungos micorrízicos arbusculares
podem propiciar às plantas.
146
Desde sua descoberta que os fungos
micorrízicos têm demonstrado efeitos
benéficos no estabelecimento e
desenvolvimento das plantas em solos de
baixa fertilidade (SCHENCK, 1984). Este
fato deve-se, na maioria dos casos, ao
aumento do volume de solo explorado pelo
sistema radicular da planta através das hifas
fúngicas que crescem além da rizosfera,
interceptando nutrientes fora da zona de
esgotamento (MOSSE, 1981; HARDIE,
1986; SIQUEIRA, 1996).
Revendo a literatura, observou-se que
são muitos os trabalhos (ST. JOHN, 1980;
St. JOHN; UHL, 1983; BONETTI;
NAVARRO, 1990; FIGUEIREDO, 1994;
GUITTON, 1996) que mencionam as
ocorrências naturais dos fungos
micorrízicos arbusculares em várias
espécies nativas da Amazônia. No entanto,
estudos envolvendo a influência da
sazonalidade na ocorrência desses fungos
em plantas de cupuaçu e de pupunha ainda
estão fragmentados e são insuficientes
(OLIVEIRA et al., 1998, 1999; OLIVEIRA,
2001), devendo-se intensificá-los para que
estas espécies possam ser beneficiadas de
forma plena pela associação micorrízica.
Assim, o trabalho objetivou avaliar a
sazonalidade nas ocorrências naturais dos
fungos micorrízicos em plantas de cupuaçu
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 145-154, jul./dez. 2003
SAZONALIDADE, COLONIZAÇÃO RADICULAR E ESPORULAÇÃO DE FUNGOS MICORRÍZICOS ARBUSCULARES EM PLANTAS DE
CUPUAÇUZEIRO E DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
e de pupunha, como forma de dar mais
subsídios para suas utilizações em sistemas
agroflorestais.
2 MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi conduzido em condições
de campo, na Fazenda Experimental da
Fundação Universidade do Amazonas,
situada a, aproximadamente, 38 km de
Manaus (BR-174, Estrada ManausPresidente Figueiredo), em Latossolo
Amarelo de textura argilosa. O clima é
definido como Afi, no esquema de Köppen,
com médias anuais de 2 478 mm de chuva e
temperatura de 25,6ºC (RIBEIRO, 1976). Os
dados de precipitação (Figura 1) referentes
ao período de estudo (agosto de 1996 a maio
de 1997) foram obtidos na Estação
Meteorológica do Ministério da
Agricultura, em Manaus.
Foram selecionadas, ao acaso, cinco
plantas de cupuaçu e de pupunha, das quais
coletou-se, em cada amostragem, uma
quantidade suficiente de raízes e solos para
as avaliações respectivas dos níveis de
colonização micorrízica, fertilidade do solo
e número de esporos em cada época de coleta.
As raízes foram transportadas ao
Laboratório de Microbiologia do Solo
(CPCA/INPA), onde foram lavadas de
forma rápida e cuidadosa em água corrente,
a fim de evitar perda de material para, em
seguida, serem clarificadas em KOH (10%)
e coradas em lactoglicerol (KORMANICK;
BRYAN; SCHULTZ, 1980; SCHENCK,
1982). Adotou-se o método da lâmina
(GIOVANETTI; MOSSE, 1980) para
quantificar os níveis de colonização
radicular, dispondo-se de 50 segmentos de
raízes por planta.
600
pitação (mm)
500
400
300
Figura 1 – Épocas de coleta dos dados e curva de precipitação na região de Manaus (AM).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 145-154, jul./dez. 2003
147
ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
As amostras de solo foram retiradas da
rizosfera de cada espécie, à profundidade de
0-10 cm, formando três amostras compostas
para determinações químicas (EMBRAPA,
SNLCS, 1997) no Laboratório Temático de
Plantas e Solos (CPCA/INPA). Procederamse as avaliações de pH (H2O), Al, Ca, Mg
(KCl 1 N), P (Mehlich 1, colorimetria), K,
Zn, Mn e Fe (Mehlich 1, absorção atômica),
cujas análises químicas encontram-se na
Tabela 1.
Foi adotado o delineamento
inteiramente casualizado em esquema
fatorial 2 x 7, sendo os fatores representados
por duas espécies de plantas (cupuaçuzeiro
e pupunheira, ambas com, aproximadamente, 15 anos) e sete épocas de avaliação
(agosto, setembro, novembro, dezembro de
1996; fevereiro, abril e maio de 1997), com
cinco repetições, perfazendo 14 tratamentos
e 70 unidades experimentais.
As avaliações quantitativas de fungos
micorrízicos nativos nas amostras de 30 g
de solo foram efetuadas mediante a
recuperação dos esporos fúngicos, pela
técnica de peneiramento úmido
(GERDEMANN; NICOLSON, 1963),
utilizando-se peneiras de 0,205, 0,105 e
0,04 mm. Após a extração, os esporos foram
quantificados com auxílio de lupa, com
aumentos de 1,5 a 4 vezes.
Os resultados foram analisados
estatisticamente pelos procedimentos do
ESTAT 1.0. As análises das variâncias
foram executadas, sendo as interações
desdobradas e as médias comparadas pelo
teste de Tukey a 1% de probabilidade
(FERREIRA, 1991). Os dados de
colonização radicular foram transformados
em y = arc sen (x/100)0,5 e os de esporos em
y = (x + 0,5)0,5.
Tabela 1 – Características químicas do solo das rizosferas das plantas de cupuaçuzeiro e
de pupunheira cultivadas em Latossolo da Amazônia Central. Manaus (AM),
1996 a 1997.
Características
rizosféricas
Cupuaçuzeiro
Pupunheira
148
pH
(H2O)
3,5
3,7
Al
2,0
2,0
H + Al Ca
cmolc kg-1
2,8 1,0
2,8 1,1
Mg
0,3
0,5
K
0,1
0,1
P
17,2
12,6
Zn
Mn
Fe
mg kg-1
4,5 1,7 214,0
3,4 2,0 129,0
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 145-154, jul./dez. 2003
SAZONALIDADE, COLONIZAÇÃO RADICULAR E ESPORULAÇÃO DE FUNGOS MICORRÍZICOS ARBUSCULARES EM PLANTAS DE
CUPUAÇUZEIRO E DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os níveis médios de colonização
micorrízica variaram significativamente
entre os fatores espécies e épocas de
avaliação (Tabela 2). A pupunheira foi a
espécie mais densamente colonizada,
diferindo estatisticamente do cupuaçuzeiro.
Comparativamente, os níveis de
colonização das plantas de cupuaçu e
pupunha ficaram abaixo dos índices
registrados por Oliveira et al. (1999), porém,
acima dos observados por Oliveira et al.
(1998), Oliveira e Oliveira (2000) e Oliveira
(2001), que verificaram valores médios de
11,2; 15,2 e 14,7%, respectivamente, em
plantas de cupuaçu. A média geral de
colonização ficou em 22% das raízes
avaliadas.
Quanto às médias das épocas de
coleta, a colonização radicular do mês de
fevereiro foi estatisticamente superior à de
setembro, com os demais meses de
avaliação sendo intermediários. Estes
resultados corroboram com os observados
por Guitton (1996), Oliveira et al. (1998,
1999), que registraram, respectivamente,
maiores índices de colonização micorrízica
durante a estação seca (agosto e novembro)
em oito espécies florestais, e chuvosa
(fevereiro e maio) em frutíferas da
Amazônia. Recentemente, Oliveira (2001)
confirmou parcialmente este comportamento sazonal dos fungos micorrízicos em
plantas de cupuaçu e guaraná de um Sistema
Agroflorestal em Manaus (AM),
verificando maiores níveis de colonização
das raízes no mês de fevereiro.
Tabela 2 – Colonização por fungos micorrízicos arbusculares em plantas de cupuaçuzeiro
e de pupunheira cultivadas em Latossolo Amarelo da Amazônia Central.
Manaus, (AM).
Meses de coleta
Espécies
Médias/
ago/96
set/96
nov/96 dez/96
fev/97
abr/97 maio/97 espécie
Cupuaçuzeiro 19ab B
Pupunheira
24a A
16b B
25a A
%
21a A 20ab A
24a A 21a A
22a A 20ab A 18ab B
26a A 25a A 25a A
19b
24a
Médias/coleta 21,6AB
20,1B
22,5AB 20,3AB 24,1A 22,5AB 21,6AB
22
Nota: As médias seguidas de mesma letra minúscula na horizontal e maiúscula na vertical não diferem entre si a 1% de
probabilidade pelo teste de Tukey.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 145-154, jul./dez. 2003
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ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
Baseado em seus estudos e de outros
(REID; BOWEN 4 , 1979 citados por
PAULA; SIQUEIRA, 1987; OLIVEIRA et
al., 1998, 1999), Oliveira (2001), sugere que
a associação micorrízica pode estar
diretamente relacionada com a quantidade
de água do solo. De acordo com o autor,
com a formação de novas raízes primárias
diante do aumento do teor de umidade do
solo, ocorrerá de forma simultânea maior
absorção de nutrientes e liberação de
exsudatos na rizosfera, estimulando, com
isso, a germinação dos esporos (SILVEIRA,
1992) e a colonização radicular das plantas.
Oliveira et al. (1998) mencionam que quanto
mais jovem for o tecido radicular das
plantas, mais susceptível será à colonização
pelos fungos micorrízicos arbusculares.
Constatou-se ainda, uma interação
significativa entre as espécies e épocas de
avaliação (Tabela 2). A colonização radicular
da pupunheira variou de 21 a 26%, porém,
não proporcionando variação significativa
entre os meses de avaliação. Com relação ao
cupuaçu, observou-se maior colonização
radicular por fungos micorrízicos no período
de novembro/96 a abril/97, época de maior
precipitação pluvial na região (RIBEIRO,
1976; FIGUEROA; NOBRE, 1990),
confirmando
evidências
recentes
(OLIVEIRA et al., 1998, 1999; OLIVEIRA,
2001) de que o estabelecimento e o
funcionamento da simbiose podem ser
favorecidos pelo maior conteúdo de água do
solo nas condições climática da Amazônia.
Dentro de uma mesma época de coleta,
houve diferenças significativas entre as duas
4
espécies nos meses de agosto, setembro e maio,
enquanto nas demais, as colonizações fúngicas
foram estatisticamente iguais (Tabela 2).
A amplitude de variação no número
de esporos foi de 79 a 324, proporcionando
diferença significativa entre espécies e
épocas de avaliação (Tabela 3). No solo
rizosférico da pupunheira foi observada a
maior quantidade de esporos, com 159 por
30 g de solo. Nas coletas de fevereiro e abril,
meses de maior precipitação registrada,
verificaram-se as maiores quantidades de
esporos nas rizosferas das culturas. Estes
resultados confirmam outros estudos
(MIRANDA, 1981; GUITTON, 1996;
MIRANDA;
MIRANDA,
1997;
OLIVEIRA et al., 1998; MARTINS et al.,
1999; OLIVEIRA, 2001), conforme os
quais ocorrem acréscimos gradativos no
número de esporos micorrízicos a partir do
início do período chuvoso, seguido de
decréscimo no período seco.
Os fungos micorrízicos têm
adaptabilidade para colonizarem áreas que
apresentem condições físicas, químicas e
biológicas adversas, e dependem da
umidade para a sua multiplicação
(MASCHIO et al., 1992). Daniels e Trappe
(1980) afirmam que a esporulação e o
processo germinativo estão vinculados às
condições de maior umidade do solo, o que
fica, de fato, evidenciado na Figura 2, que
mostra aumentos no número de esporos nas
rizosferas das plantas durante as épocas de
maior precipitação do ano.
REID, C.P.; BOWEN, G.D. Effects of soil moisture on VA mycorrhiza formation and root development in Medicago.
In: HARLEY, J.L.; SCOTI, T. (Ed.). The soil-root interface. London: Academic Press, 1979. p. 211-219.
150
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 145-154, jul./dez. 2003
SAZONALIDADE, COLONIZAÇÃO RADICULAR E ESPORULAÇÃO DE FUNGOS MICORRÍZICOS ARBUSCULARES EM PLANTAS DE
CUPUAÇUZEIRO E DE PUPUNHEIRA NA AMAZÔNIA CENTRAL
Tabela 3 – Esporos de fungos micorrízicos arbusculares nas rizosferas das plantas de
cupuaçuzeiro e de pupunheira cultivadas em um Latossolo Amarelo da Amazônia Central.
Manaus (AM), 1996 a 1997.
Meses de coleta
Espécies
ago/96
Cupuaçu
Pupunha
Médias/coleta
92
89
90C
set/96
nov/96 dez/96
fev/97
Médias/
abr/97 maio/97 espécie
102
127
115BC
30 g solo-1
79
130
107
165
93C 147BC
239
324
282A
164
166
166B
140
133
137BC
135b
159a
147
esporos/30g de solo
Nota: As médias seguidas de mesma letra maiúscula na horizontal não diferem entre si a 1% de probabilidade pelo teste de
Tukey.
350
300
250
200
150
100
Figura 2 - Comportamento sazonal dos esporos micorrízicos associados às rizosferas das plantas de cupuaçuzeiro e
pupunheira nas condições experimentais avaliadas.
Allen e Allen (1980) explicam que
a
variação
sazonal
decorre,
principalmente, das flutuações de
precipitação pluvial. A alternância entre
ciclos de umedecimento dos solos são
condições que estimulam a esporulação
dos fungos micorrízicos (SIQUEIRA,
1993), e que os níveis de umidade do solo
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 145-154, jul./dez. 2003
variam para diferentes fases do processo
germinativo dos esporos (TOMMERUP,
1984). Essas observações contribuem na
explicação
do
comportamento
marcadamente sazonal dos esporos
micorrízicos nas rizosferas dessas
plantas nas condições experimentais
avaliadas.
151
ARLEM NASCIMENTO DE OLIVEIRA, LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA
4 CONCLUSÃO
a) As plantas de cupuaçu e pupunha
diferem significativamente quanto à
intensidade de colonização radicular e
esporulação rizosférica dos fungos
micorrízicos arbusculares.
b) As condições nos meses de
avaliação não influenciam estatisticamente
as colonizações radiculares das pupunheiras
por fungos micorrízicos arbusculares
nativos.
c) As colonizações radiculares dos
cupuaçuzeiros por fungos micorrízicos
foram proporcionais aos aumentos nos
níveis de precipitação pluviométrica.
d) A esporulação micorrízica
apresentou variação sazonal bem acentuada,
com as maiores quantidades de esporos
sendo observadas nos meses mais chuvosos
do ano.
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USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA ESTIMATIVA DA DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM
PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO COM VINHAÇA
USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA
ESTIMATIVA DA DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM
PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO COM VINHAÇA1
Marília Regina Costa Castro LYRA2
José Antônio Aleixo da SILVA3
Mario Monteiro ROLIM4
RESUMO: O uso da vinhaça na fertirrigação de canaviais se constitui uma fonte de elevado potencial
poluidor dos solos e das águas subterrâneas. Portanto, faz-se necessário o seu monitoramento para
avaliar as condições de qualidade dessas águas. Entre os componentes da vinhaça, a demanda
bioquímica de oxigênio (DBO) se constitui no parâmetro mais importante em termos de indicadores
da poluição. Porém, a determinação da DBO em laboratório é uma operação complexa e que leva
alguns dias para sua realização, tornando-se importante a sua modelagem matemática para que a
mesma possa ser estimada em um menor espaço de tempo, em função de variáveis independentes de
determinações mais simples. Os dados utilizados neste estudo provêm de uma área de 12 ha, onde
ocorrem duas classes de solos. Foram instalados 30 poços de observação com profundidades de
3 m, distribuídos em transectos paralelos, distanciados entre si de 100 m. Efetuaram-se três coletas
de água do lençol freático e 13 parâmetros de qualidade foram analisados. Modelos matemáticos
lineares e não-lineares foram utilizados para estimar a DBO. Nas condições do experimento
pode-se concluir que a DBO pode ser estimada matematicamente através de sua relação com outras
variáveis químicas de procedimentos analíticos mais simplificados.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Modelos Matemáticos, Análise de Regressão, Água, Poluição.
USING LINEAR AND NON-LINEAR REGRESSION ANALYSIS FOR
ESTIMATING THE BIOCHEMICAL OXYGEN DEMAND (BOD) IN
SUGAR CANE PLANTATIONS FERTIRRIGATED WITH VINASSE
ABSTRACT: The use of the vinasse as a fertilizer through fertirrigation for sugarcane plantations
represents a high potential pollutant source of soils and ground water. Thus, it is necessary to monitor it with the purpose of assess the quality of those waters. Among the components of the vinasse,
the biochemical oxygen demand (BOD) is the most important parameter in terms of pollution indicators. However, the laboratory analysis of BOD is a complex operation and can last some days for
1
Aprovado para publicação em 29.8.2003
2
Engenheira Agrônoma, MSc., Técnica da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.
3
Engenheiro Agrônomo, PhD., Professor Adjunto da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE. Departamento
de Ciência Florestal.
4
Engenheiro Civil, Dr., Professor Adjunto da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE. Departamento de
Tecnologia Rural. Rua Dom Manoel de Medeiros, S/N - Dois Irmãos. 52171-900 – Recife – Pernambuco.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
155
MARÍLIA REGINA COSTA CASTRO LYRA, JOSÉ ANTÔNIO ALEIXO DA SILVA, MÁRIO MONTEIRO ROLIM
its determination. Thus, it is important to model it mathematically so that the BOD can be estimated
faster through independent variables of simpler determinations. The data for this research came
from an area of 12 ha, with two types of soils. Thirty 3 m deep observation wells were installed,
distributed 100 m apart in parallel transects. Three water samples were collected from the water
table and 12 quality parameters were analyzed. Linear and non-linear mathematical models were
used to estimate the DBO. Under the conditions of the experiment, the BOD can be mathematically
estimated through the relationship with other chemical variables of simpler analytical procedure.
INDEX TERMS: Mathematical Models, Regression Analysis, Water, Pollution.
1 INTRODUÇÃO
Resíduo líquido resultante do
processamento do álcool, a vinhaça, pela
grande quantidade de volume produzido, é
o principal de todos os subprodutos da
indústria sucroalcooleira.
Os primeiros estudos científicos sobre
a vinhaça datam de 1950, realizados pelos
pesquisadores da ESALQ (VIEIRA, 1986).
Após o advento do Pró-álcool (1975), a
indústria sucroalcooleira teve um grande
impulso ocasionando maior produção de
álcool e, conseqüentemente, uma grande
produção de vinhaça. Como a prática
corrente na época era o acúmulo e descarte
nos cursos de água, iniciou-se uma forte
pressão dos órgãos ambientais, dentre eles
a CETESB do estado de São Paulo,
proporcionando a mudança de estratégia das
usinas acarretando na disposição do total de
vinhaça no solo (BENKE, 1998).
Para comprovar que a vinhaça era a
principal causadora da intensa poluição dos
cursos d'água, Lima 5 (1955 citado por
FREIRE; CORTEZ, 2000), coletou
amostras de água ao longo de 12 km do rio
Piracicaba e afluentes e, após analisá-las,
verificou que antes do início da safra
alcooleira de 1953/54, os valores
encontrados para a DBO giravam em torno
de 1,0 a 2,5 mg/L. Ao se iniciar o
funcionamento das usinas canavieiras, o
número começou a se elevar, atingindo, dois
meses depois, o valor de 25 mg/L,
continuando a subir e, ao final de mais dois
meses, a DBO foi igual a 400 mg/L,
superando de muito esse nível no mês
seguinte, mesmo após o término da safra
alcooleira.
Entre os componentes da vinhaça, a
demanda bioquímica de oxigênio (DBO) se
constituí no parâmetro mais importante em
termos de indicadores da poluição. A
quantidade de matéria orgânica indicada
pela determinação da DBO é importante
para se conhecer o grau de poluição de uma
água residuária, servindo para se
dimensionar as estações de tratamento e
medir sua eficiência. Quanto maior o grau
de poluição orgânica, maior a DBO do corpo
de água; paralelamente, à medida que ocorre
a estabilização da matéria orgânica,
decresce a DBO (PAGANINI, 1997).
Na Tabela 1, encontram-se alguns
dados que possibilitam uma avaliação do
poder poluidor da vinhaça, representado
pela demanda bioquímica de oxigênio
(DBO) em relação a diferentes tipos de
águas residuárias (NIKAIDO, 1995).
5 LIMA, U.A. A vinhaça e a bacia do rio Piracicaba. Referata e Seminários do Instituto Zimotecnico, Piracicaba, v.2,
n.6, p. 4-5, 1995.
156
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA ESTIMATIVA DA DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM
PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO COM VINHAÇA
Tabela 1 - Valores da demanda bioquímica
de oxigênio (DBO) para diferentes tipos de águas residuárias.
(AMERICAN PUBLIC HEALTH
ASSOCIATION - APHA, 1995).
1.2 ANÁLISE DE REGRESSÃO
Águas residuária
Efluente de destilaria de álcool
(vinhaça)
Esgotos sanitários
Efluente de enlatados - alimentos
Efluente de cervejarias
Efluente de processamento de óleo
Percolado de aterros sanitários
(chorume)
Efluente de laticínios
Fábrica de papel
Efluente de matadouros
DBO (mg/L)
15 000
200
500
500
15 000
- 20 000
600
- 2 000
- 2000
- 20 000
15 000 - 20 000
30 000
500
30 000
Fonte: Nikaido (1995).
1.1
DEMANDA BIOQUÍMICA DE
OXIGÊNIO (DBO)
Durante o processo de decomposição
da matéria orgânica presente nas águas
residuárias, se forma uma gama de
substâncias orgânicas. No entanto, não se
faz necessário caracterizar cada uma dessas
substâncias, uma vez que a multiplicidade
de formas e compostos em que as mesmas
podem se apresentar traria uma grande
dificuldade nas análises laboratoriais. Dessa
forma, são adotados métodos diretos ou
indiretos para avaliar a matéria orgânica
presente na amostra (PESSOA;
JORDÃO, 1982).
A forma mais utilizada para se medir
a qualidade de matéria orgânica presente é
através da determinação da DBO. O teste
indica a quantidade de oxigênio (em mg de
02 /L) necessária para a oxidação biológica
de substâncias na água poluída presente em
um litro da mesma, numa dada temperatura
e pressão, retratando a quantidade de
oxigênio requerido para estabilizar, através
de processos bioquímicos (atividade
microbiana), a matéria orgânica carbonácea
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
Segundo Spadotto (2002), quando não
existem informações em termos de modelos
matemáticos para uma determinada
situação, formulações devem ser feitas
baseadas em princípios teóricos e
informações disponívies.
O emprego de técnicas de regressão
tem sido freqüente no uso de processos
estimativos, principalmente, quando se têm
variáveis de difícil determinação em termos
de procedimentos metodológicos ou mesmo
em relação a custos. Por exemplo, a
determinação da DBO em laboratório pelo
método padrão leva cinco dias. Portanto, a
análise de regressão é um procedimento
matemático que pode ser usado nessas
situações, onde se estima uma variável
(dependente) mais difícil de se determinar,
em função de outra(s) variável(eis)
independente(s) mais fácil(eis) de ser(em)
mensurada(s). Essas variáveis independentes podem ser de natureza quantitativa
ou qualitativa (variáveis indicadoras).
Lima (2001) usou o modelo linear
simples para estimar a DBO em função da
porcentagem de urbanização. Matos et al
(2003) estimaram a DBO em função da
condutividade elétrica usando um modelo
não-linear simples.
Quando a estimativa da variável
dependente pode ser feita em função de uma
única variável independente, tem-se o
modelo linear simples ou não-linear
simples. Nos casos em que se usam mais de
uma variável independente, tem-se o
modelo linear múltiplo ou não-linear
múltiplo.
157
MARÍLIA REGINA COSTA CASTRO LYRA, JOSÉ ANTÔNIO ALEIXO DA SILVA, MÁRIO MONTEIRO ROLIM
Nos modelos múltiplos, a seleção das
variáveis independentes que permanecem na
equação final pode ser feita através do
procedimento stepwise (passo a passo), que
se baseia nas correlações existentes entre a
variável dependente e as independentes e
entre as próprias variáveis independentes
(DRAPER; SMITH, 1981).
Entretanto, alguns requisitos básicos,
tais como: distribuição normal e
independência dos erros, variância
constante e não colinearidade entre as
variáveis independentes devem ser
considerados (KELLY; BELTZ, 1987).
Quando algum(ns) desses requisitos é (são)
violado(s), o uso de transformações dos
dados se faz necessário (NETER;
WASSERMAN; KUTNER, 1990).
Box e Cox (1964), desenvolveram
uma família de transformações que pode ser
usada em qualquer conjunto de dados onde
a variável dependente seja positiva, sendo
representada por:
(Y ë − 1)/ë
Wi =  i
ln Yi
para ë ≠ 0
para ë = 0
(1)
Wi = variável dependente transformada
Yi = variável dependente na forma original
Essa família depende diretamente do
parâmetro l que é o coeficiente de
transformação dos dados.
O valor de l que maximize:
n
n
 SQR 
 + (λ - 1) ∑ ln Yi (2)
Lmax λ = - . ln 
2
 n 
i =1
Em que:
SQR = Soma de quadrados dos resíduos,
158
Yi = variável resposta.
é o estimador de máxima verossimilhança
de l (SILVA; BAILEY, 1991).
Quando o intervalo de confiança para
l incluir a unidade, os dados não precisam
de transformação alguma e a equação
resultante deve ser considerada.
Tal transformação pode ser ajustada
por métodos matemáticos iterativos da
seguinte forma (SILVA et al,1994).
n
 
 
Y = ë  â +â ∑ Xi  +1
  o i i =1  


1
ë
i
+ åi (3)
Em que:
Yi = variável dependente;
l = coeficiente de transformação dos dados;
b0 e bi = parâmetros do modelo;
Xi = variáveis independentes;
em que:
n = número de observações,
ln = logaritmo neperiano,
ei = erro aleatório.
O principal objetivo do presente
estudo foi utilizar modelos matemáticos
lineares e não-lineares múltiplos através da
análise de regressão na estimativa da
demanda bioquímica de oxigênio (DBO)
em função de variáveis de água mais
facilmente determináveis em laboratório.
A escolha das variáveis independentes se
baseou no fato de serem usualmente
consideradas na avaliação da poluição
ambiental e qualidade de água, o que,
necessariamente, não implica em estarem
correlacionadas com a DBO.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA ESTIMATIVA DA DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM
PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO COM VINHAÇA
2
2.1
MATERIAL E MÉTODOS
ÁREA MONITORADA
O experimento foi conduzido em área
situada a 250 metros da sede da Usina
Salgado, localizada no município de Ipojuca
(7º 10' e 7º 25' S, 39º 10' e 39º 30' W) no
estado de Pernambuco, a 53 km da capital.
A sede do município de Ipojuca está inserida
na zona fisiográfica da Mata Sul de
Pernambuco, caracterizando-se por
apresentar um clima do tipo Ams', segundo
Köppen, tropical chuvoso de monção com
verão seco, com estação chuvosa entre os
meses de março a agosto. A precipitação
anual média na área é de 1 800 mm e a
temperatura anual média é de 25,2 °C.
A área de monitoramento possui 12 ha,
onde ocorrem duas classes de solos:
Espodossolo Ferro Cárbico (textura
arenosa) e Gleissolo Háplico (textura muito
argilosa). Foram instalados 30 poços de
observação com profundidades de 3 m,
distribuídos em transectos paralelos,
distanciados entre si de 100 m. Três poços,
por se localizarem juntos à lagoa de
estabilização da vinhaça, portanto, com
características diferentes dos demais, não
foram considerados neste estudo. Três
coletas de água do lençol freático foram
efetuadas e, além da DBO, mais 11
parâmetros de qualidade de água foram
analisados e utilizados nas análises de
regressão como variáveis independentes.
Foram eles:
a) Demanda química de oxigênio (DQO):
mede a quantidade de oxigênio (em mg
de O 2 /L) consumida pela matéria
orgânica e inorgânica existente na água
e oxidáveis por um agente químico
oxidante forte. É uma medida
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
b)
c)
d)
e)
f)
g)
importante no controle de qualidade de
rios e plantas de tratamento de esgotos.
O valor obtido é, portanto, uma
indicação indireta do teor de matéria
orgânica presente.
Condutividade elétrica (CE): a
condutividade representa a habilidade
de um sistema aquoso em conduzir
corrente elétrica e irá depender da
presença e concentração de íons,
temperatura, quantidade de sais
dissolvidos, mobilidade e valência dos
íons. É um parâmetro muito empregado
no monitoramento da qualidade de
águas e de águas residuárias, porque
pode ser relacionada com o teor de
sólidos dissolvidos.
Sólidos dissolvidos totais (SDT): é a
quantidade de material sólido
dissolvido na água.
Bicarbonatos (BICAR): representa a
capacidade que um sistema aquoso
possui de neutralizar ácidos.
Cloretos (CLORE): íons resultantes da
dissolução de minerais e intrusão de
água salina. Por origem antropogênica,
pode ser oriundo de despejos
domésticos, industriais e águas
utilizadas em irrigação.
Sódio (Na): um dos íons mais
importantes nos cursos de águas e
contribui para a salinização dos solos.
Potássio (K): apesar de não ser um
elemento comumente analisado na
determinação da qualidade de água, foi
incluído em função da dose da aplicação
da vinhaça usada na fertirrigação ser
definida a partir do teor de potássio na
mesma.
159
MARÍLIA REGINA COSTA CASTRO LYRA, JOSÉ ANTÔNIO ALEIXO DA SILVA, MÁRIO MONTEIRO ROLIM
h) Cálcio (Ca) e Magnésio (Mg):
principais íons que contribuem para a
dureza da água.
i) Nitrato (NITRA): é a mais alta
forma de oxidação dos compostos
nitrogenados. É comumente encontrado
em águas de superfícies e subterrâneas,
em virtude de ser o produto final da
decomposição aeróbica de matéria
orgânica nitrogenada.
j) Nitrito (NITRI): é um íon instável e
corresponde a um estágio intermediário
do ciclo do nitrogênio, sendo formado
na água pela oxidação da amônia ou
redução do nitrato.
k) Potencial hidrogeniônico (pH):
representa a concentração de íons
hidrogênio, em escala antilogarítmica,
indicando a condição de acidez,
neutralidade ou alcalinidade da água.
As definições acima estão em Von
Sperling (1996) e Bartram e Ballance
(2001). Todas determinações das variáveis
independentes foram realizadas segundo
American Public Health Association APHA (1995), e os códigos entre parênteses
correspondem aos utilizados nos modelos
matemáticos.
Quanto à demanda bioquímica de
oxigênio (DBO), que corresponde à
concentração da matéria orgânica
biodegradável, foi determinada pelo teste
dos frascos padrões com incubação a 20ºC
durante 5 dias (APHA, 1995). Para cada
amostra foram calculados os percentuais de
concentração para proceder às diluições
levando em consideração os valores da
DQO já determinados.
Em quatro frascos, com capacidade de,
aproximadamente, 300 mL, foram colocadas
alíquotas das amostras e preenchido o
restante com água de diluição. Para cada
amostra foram efetuadas duas diluições. O
oxigênio dissolvido foi, imediatamente,
determinado em dois frascos e os dois
restantes foram levados à incubadora de
DBO a 20º C por um período de cinco dias.
A concentração de oxigênio dissolvido foi
determinada pelo método de Winkler com a
modificação da azida (APHA, 1995).
Realizadas as determinações
referentes às demandas bioquímicas de
oxigênio (DBO), por classe de solo, nem
todos os pontos monitorados obtiveram
resultados em virtude de algumas amostras
terem sido desconsideradas tendo em vista
a quantidade de diluições realizadas nas
determinações não serem suficientes ou
ficarem com a porcentagem de oxigênio
consumido abaixo de 30% ou acima de 70%
(BRAILE; CAVALCANTI, 1979). Ao final
das três coletas, após análises laboratoriais,
foram consideradas 29 amostras para o
Espodossolo Ferro Cárbico (textura
arenosa) e 27 amostras para o Gleissolo
Háplico (textura muito argilosa).
2.2 ANÁLISE ESTATÍSTICA
Os modelos testados foram:
a) Modelo linear múltiplo
n
DBO = â 0 + â i ∑ X i + å i (4)
i =1
b) Modelo não-linear múltiplo com a
transformação de Box e Cox (1964)
n
DBO = [ë(â 0 + â i ∑ X i ) + 1](1/λ ) + å i (5)
i =1
160
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA ESTIMATIVA DA DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM
PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO COM VINHAÇA
c) Modelo não linear múltiplo
n
DBO = â 0 ∏ X âi i å i (6)
i =1
Em que:
DBO = variável dependente (resposta);
b0, bi = parâmetros dos modelos;
Xi = variáveis independentes;
l = coeficiente de transformação dos dados;
ei = erro aleatório;
i = 1,.., n.
A seleção das variáveis independentes
nas equações finais foi processada através
do método Stepwise (passo a passo),
considerando o nível de 1% de
probabilidade para que a variável fosse
incluída na equação final.
As comparações entre os modelos
foram feitas pelo coeficiente de
determinação (R2) e através do Índice de
Ajuste (IA) (SCHLAEGEL, 1981), que é
expresso por:
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 ESPODOSSOLO FERRO CÁRBICO
(TEXTURA ARENOSA)
Primeiramente, foi ajustado o modelo
linear múltiplo (1), considerando todas as
variáveis independentes, sendo que os
resultados para as estimativas dos
parâmetros do modelo estão na Tabela 2.
Tabela 2 - Coeficientes do modelo linear
múltiplo e respectivos níveis de
probabilidade para o Espodossolo Ferro Cárbico.
2
^


 Yi − Yi 
∑

I.A. = 1 − i =n1 
2
−

 (7)
 Yi − Y 
∑

i =1 
n
variável indicadora (S). Quando o solo era
Espodossolo Ferro Cárbico (textura
arenosa) recebia o valor 1 e, no caso
contrário, 0.
O programa computacional SAS Statistical Analysis System (SAS
INSTITUTE, 1999), versão 8.0 foi utilizado
para realização das análises estatísticas.
Em que:
Yi = valor observado da variável resposta;
Yi = valor estimado pela equação;
Yi = média aritmética da variável resposta.
Nos modelos lineares o I.A.= R 2
(coeficiente de determinação).
Primeiramente, os modelos foram
ajustados para cada classe de solo,
isoladamente. Em seguida foram ajustados
para todos os dados em conjunto,
considerando as classes de solos como
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
Variáveis
Coeficientes
Nível de
probabilidade
Constante (ß0)
3,10062
0,65706
DQO
0,09012
0,00001
CE
0,07468
0,00044
SDT
-0,13696
0,00056
BICAR
-0,06221
0,00075
CLOR
-0,00009
0,94183
Na
-0,02997
0,15572
K
0,02033
0,04825
Ca
-0,00782
0,89042
Mg
-0,50126
0,07893
NITRA
4,36007
0,25896
NITRI
-11,84461
0,42807
pH
0,81724
0,57508
R2 = 0,97153
161
MARÍLIA REGINA COSTA CASTRO LYRA, JOSÉ ANTÔNIO ALEIXO DA SILVA, MÁRIO MONTEIRO ROLIM
Com a aplicação do Stepwise no
modelo (4), resultou a seguinte equação:
3.2 GLEISSOLO HÁPLICO (TEXTURA
MUITO ARGILOSA)
DB0 = 5,03088 + 0,08114DQO + 0,05357CE 0,10372SDT - 0,04453BICAR + 0,02039K
Considerando todas as variáveis
independentes no modelo linear múltiplo
(4), foram observados os resultados para as
estimativas dos parâmetros do modelo
apresentados na Tabela 3.
(8)
2
R = 0,95724
e com a transformação de Box e Cox, a partir
do modelo (5), foi:
DB0 = [1,35863 (1,94602 + 0,23493DQO +
0,17936CE - 0,35890SDT - 0,11754BICAR +
0,06539K) + 1](1/1,35863)
(9)
Tabela 3 - Coeficientes do modelo linear
múltiplo e respectivos níveis de
probabilidade para o Gleissolo
Háplico.
Variáveis
Coeficientes
ou
DBO = (3,64392 + 0,31918DQO + 0,24368CE
- 0,48761SDT - 0,15969BICAR +
0,0888K)0,73604
Constante (ß0)
(10)
I.A.= 0,96165 e 1,00199 ≤ l ≤ 1,71528
Como a estimativa de l, não inclui o
valor 1, indica que a transformação foi
significativa, mesmo que o incremento no
I.A. foi de apenas 0,441%.
Aplicando-se o modelo não-linear (3),
resultou a seguinte equação:
DBO = 0,09048DQO0,62979CE 2.10303SDT -1,79798
BICAR-0,30429K0,04427
(11)
I.A.= 0,95464
Observa-se que os três modelos
testados apresentaram excelentes ajustes. No
entanto, para o Espodossolo Ferro Cárbico
(textura arenosa) a equação (10) por
apresentar o maior Índice de Ajuste deve ser
usada, onde se observa que a DBO é
diretamente proporcional a DQO, CE e K e
inversamente proporcional a SDT e BICAR.
162
Nível de
probabilidade
1,75663
0,75442
DQO
0,08358
0,00001
CE
0,01581
0,15626
SDT
-0,02527
0,21270
BICAR
-0,01043
0,35194
CLOR
0,00064
0,69207
Na
-0,00173
0,83250
K
-0,01198
0,41735
Ca
0,16713
0,00398
Mg
-0,61273
0,00821
NITRA
-0,96719
0,55121
NITRI
9,98119
0,45047
pH
0,07597
0,95113
2
R = 0,93628
Com a aplicação do stepwise a
equação linear múltipla resultante foi:
DBO = 3,51253 + 0,08781DQO + 0,14973Ca
– 0,45917Mg
(12)
2
R = 0,91899
e com a transformação de Box e Cox:
DBO = [0,94756(2,76842 + 0,07505DQO +
0,12999Ca – 0,40375Mg) + 1](1/0,94756)
(13)
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA ESTIMATIVA DA DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM
PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO COM VINHAÇA
DBO = (3,62324 + 0,07111DQO + 0,12317CA
– 0,38258MG)1,05534
(14)
I.A.= 0,91919 e 0,44616 ≤ l ≤ 1,44895
O intervalo de confiança de l inclui o
valor 1, mostrando que não há necessidade
do uso da transformação de Box e Cox aos
dados.
Aplicando-se o modelo não-linear (6),
resultou a seguinte equação:
Tabela 4 - Coeficientes do modelo linear
múltiplo e respectivos níveis de
probabilidade, conjuntamente
para o Espodossolo Ferro
Cárbico e Gleissolo Háplico.
Variáveis
Constante (ß0)
DQO
Coeficientes
Nível de
probabilidade
5,15365
0,30529
0,07287
0,00001
CE
0,02383
0,00156
SDT
-0,04529
0,00133
BICAR
-0,02271
0,00034
CLOR
0,00041
0,66896
I.A.= 0,89924
Na
-0,00019
0,98153
K
0,00995
0,06565
Então, para o Gleissolo Háplico
(textura muito argilosa), a equação (12) é a
selecionada, uma vez que o incremento
proporcionado pela transformação de Box
e Cox não foi significativo.
Observa-se que só a variável DQO está
presente nas duas classes de solos, sendo que
as demais quando presentes na equação final
de uma classe de solo estão ausentes na outra.
Ca
0,11933
0,00031
Mg
-0,38893
0,00665
NITRA
0,26642
0,84577
0,71547
DBO = 0,38211DQO
Ca
0,18253
Mg
–0,15678
(15)
3.3
ANÁLISE CONJUNTA PARA AS
DUAS CLASSES DE SOLOS
Considerando todas as variáveis
independentes no modelo linear múltiplo,
incluindo as classes de solos (S),
observaram-se os resultados para as
estimativas dos parâmetros no modelo
apresentados na Tabela 4.
Com a aplicação do stepwise a
equação linear múltipla resultante foi:
DBO = 5,06784 + 0,07147 DQO + 0,02332 CE
– 0,04047 SDT – 0,01873 BICAR + 0,14416
Ca – 0,50106 Mg
(16)
R2 = 0,90823
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
NITRI
6,13365
0,46451
pH
-0,07112
0,094459
S
R2 = 0,92117
-1.05633
0,36267
Aplicando-se a transformação de Box
e Cox a equação não linear, obteve-se:
DBO = [1,04205 (3,94257 + 0,08081 DQO +
0,02627 CE – 0,04587 SDT – 0,02024 BICAR
+ 0,16549 Ca – 0,56319 Mg) + 1](1/1,04205)
(17)
ou
DBO = (5,10836 + 0,08421 DQO + 0,02737
CE – 0,04780 SDT – 0,02109 BICAR + 0,17245
Ca – 0,58987 Mg)0,95965
(18)
I.A.= 0,90835 e 0,70275 ≤ l ≤ 1,38135
Mais uma vez o intervalo de confiança
de l incluiu o valor 1, indicando a não
necessidade do uso da transformação de Box
e Cox.
163
MARÍLIA REGINA COSTA CASTRO LYRA, JOSÉ ANTÔNIO ALEIXO DA SILVA, MÁRIO MONTEIRO ROLIM
Assim, a aplicação do modelo não
linear resultou em:
DBO = 0,12443 DQO0,67628 CE1.41482 SDT –1,22930
BICAR–0.17227 Ca0,17237 Mg–0,15863
(19)
I.A.= 0,91203
Para a análise das classes de solos em
conjunto, constatou-se que a variável
indicadora S, que se refere exatamente à classe
de solo, não foi significativa, selecionando-se
a equação (19). Em todos os casos estudados
com os dados em conjunto, os ajustes foram
inferiores aos considerados individualmente
por classe de solo.
Observa-se que as variáveis DQO, CE,
SDT, BICAR, K, Ca e Mg que foram
selecionadas nas diferentes equações,
apenas a DQO esteve presente nas três
situações consideradas, uma vez que é uma
medida de toda matéria presente na amostra,
isto é, orgânica e inorgânica, possuindo,
portanto, um alto grau de associação com a
DBO que representa a parte biodegradável
da amostra.
Segundo Esteves6 (1988 citado por
LIMA, 2001), a condutividade elétrica (CE),
por fornecer informações sobre o
metabolismo do ecossistema aquático, em
relação à produção primária (redução de
valores) e sobre decomposição (aumento de
valores), pode justificar sua presença nas
equações de forma diretamente
proporcional a DBO, tendo em vista que
aumentos em seus valores indicam processo
de decomposição da matéria orgânica pelos
microorganismos, resultando em maior
6
consumo de oxigênio do meio aquático, o
que proporciona um incremento na DBO.
Com relação ao potássio (K), sua
presença de forma diretamente proporcional
com a DBO, pode ser em virtude da vinhaça
possuir em sua composição média 74,85%
dos constituintes sólidos formados por
substâncias orgânicas e 63,97% dos
constituintes minerais serem constituídos
por potássio (HOROWITZ, 1988). Isto
indica que, em virtude da presença do
efluente, o teor de potássio evidencia
indiretamente a presença de elevado
porcentual de matéria orgânica, na forma
biodegradável, e, conseqüentemente,
aumento da atividade microbiana. O fato
desta variável não ter sido selecionada na
equação do Gleissolo Háplico pode ser
decorrente da mudança de textura do solo,
que provoca maior retenção do efluente
pelos colóides do solo.
Com relação às diferenças nas
presenças das outras variáveis nas diferentes
situações, pode-se inferir que essas também
dependem das características das classes de
solos e associação com a atividade
microbiana. Por outro lado, justificativas
puramente estatísticas são muito complexas,
pois o processo de seleção de variáveis
utilizado (stepwise) leva em consideração
todas as correlações existentes entre as
variáveis dependente e independentes e
entre essas últimas, o que pode resultar em
seleção de variáveis difíceis de serem
explicadas quimicamente, e que vem a
corroborar as afirmativas de Bollmann e
Marques (2000).
ESTEVES, F.A. Fundamentos de limnologia. Rio de Janeiro: Interciência/Finep, 1988. 575p. (Oecologia Brasiliensis, v. 1).
164
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 155-166, jul./dez. 2003
USO DA ANÁLISE DE REGRESSÃO LINEAR E NÃO-LINEAR NA ESTIMATIVA DA DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO) EM
PLANTIO DE CANA-DE-AÇÚCAR FERTIRRIGADO COM VINHAÇA
4 CONCLUSÃO
A DBO pode ser estimada com boa
precisão através de modelos matemáticos
que incluam variáveis independentes de
fácil mensuração quando comparadas com
as determinações usuais realizadas em
laboratório.
Os modelos não-lineares mostraramse mais eficientes na estimativa da DBO.
A análise conjunta das classes de solos
mostrou-se menos precisa quando
comparada às análises realizadas para cada
classe de solo.
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VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM SISTEMA DE AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO
SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ)
VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM
SISTEMA DE AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO
SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ)1
Rogério Ferreira da SILVA2
Eduardo LIMA3
Maria Elizabeth Fernandes CORREIA4
Rogério Ribeiro de OLIVEIRA5
RESUMO: O estudo tem como objetivo avaliar os efeitos de um sistema de agricultura tradicional
na vegetação secundária sobre a densidade e diversidade de artrópodes edáficos. A área estudada
está localizada na Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul, sudoeste da Ilha Grande, litoral sul
do estado do Rio de Janeiro, onde 0,4% da reserva é utilizada para plantio de subsistência por uma
comunidade de pescadores artesanais. As avaliações foram feitas, entre 1996 e 1997, em quatro
momentos: capoeira, antes do plantio, 45 dias após o plantio e depois da colheita. Os resultados
mostraram variações na comunidade de artrópodes edáficos ao longo do período de avaliação,
evidenciando o caráter de sazonalidade dos organismos. Ao analisar a comunidade de artrópodes
edáficos depois da transformação da vegetação secundária (capoeira) seguido de cultivo, foram
observados efeitos drásticos sobre a densidade e diversidade na comunidade de artrópodes edáficos,
pois, além da eliminação direta dos principais grupos responsáveis pela decomposição, eliminouse, também, a serapilheira.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Vegetação Secundária, Agricultura Itinerante, Artrópodes
Edáficos.
QUANTITATIVE CHANGE OF EDAPHIC ARTROPODS
IN AN SHIFTING CULTIVATION SYSTEM IN AN SECONDARY
VEGETATION, ILHA GRANDE, RJ
ABSTRACT: The study had as objective evaluates the effects in a shifting cultivation system in an
secondary vegetation about density and diversity of edaphic arthropods. The studied area at located
in Reserva Estadual Biologica da Praia do Sul, Southwest of the Ilha Grande, south coast of the Rio
de Janeiro state, where 0,4% of the reservation are used for subsistence planting by a community of
1
2
3
4
5
Aprovado para publicação em 29.8.2003
Parte da dissertação de Mestrado apresentada pelo primeiro autor ao Dep. de Solos da Univ. Fed. Rural do Rio de
Janeiro.
Engenheiro Agrônomo, MSc., Doutorando em Agronomia na Universidade Estadual de Londrina (PR), Pesquisador
Bolsista/CNPq da Embrapa Agropecuária Oeste, CEP 79804-970 – Dourados (MS). E-mail: [email protected]
Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Adjunto do Departamento de Solos, Instituto de Agronomia, Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro, CEP 23851-970, Seropédica (RJ).
Bióloga, Dra., Pesquisadora da Embrapa Agrobiologia. CEP 23851-970, Seropédica (RJ).
Comunicólogo, Dr. em Geografia, Professor Assistente da PUC-Rio, Departamento de Geografia, CEP 22453-900, Rio
de Janeiro (RJ).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
167
ROGÉRIO FERREIRA DA SILVA, EDUARDO LIMA, MARIA ELIZABETH FERNANDES CORREIA, ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA
handmade fishermen. The evaluations were made, between 1996 and 1997, in four moments: secondary vegetation, before the planting, 45th days after the planting and after the crop. The results
showed variations in the community structure of the edaphic arthropods in the secondary vegetation
along the evaluation period, demonstrating seasonal influence to the organisms. We observed the
behavior of the edaphic arthropods after the transformation of the secondary vegetation (“capoeira”)
followed by cultivation, and drastic effects were detected on the density and diversity of the edaphic
arthropods. The principal causes were the elimination of principal saprophagous groups and also
the litter.
INDEX TERMS: Secondary Vegetation, Shifting Cultivation, Edaphic Arthropods.
1 INTRODUÇÃO
O sistema tradicional de derrubada e
queima ainda é a alternativa mais econômica
do agricultor familiar preparar a área para
o plantio das culturas na Ilha Grande, estado
do Rio de Janeiro. Conhecida também como
agricultura itinerante (Slash-and-burn ou
Shifting cultivation) é a mais extensiva do
mundo, apresentando numerosas denominações próprias como milpa na América
Central, conuco no Caribe, roça de toco em
numerosos pontos do Brasil e burara no Sul
da Bahia (VALVERDE, 1995). No estado
do Amazonas e no Sudeste brasileiro
também é conhecida por roça de toco ou
coivara. Entre a população caiçara estudada,
é conhecida simplesmente por rocinha de
toco. É característica de áreas não
urbanizadas do litoral Sul do Rio de Janeiro
e Norte de São Paulo, em locais onde a
economia é baseada na pesca e em roças de
subsistência (OLIVEIRA; COELHO
NETO, 1996).
No sistema de agricultura itinerante,
após o cultivo da área por um certo período
de tempo, esta é abandonada devido à
redução de produtividade, provavelmente,
decorrente da diminuição dos teores de
168
nutrientes disponíveis. A partir desde
momento, se processa uma sucessão
ecológica, com o aparecimento de uma
capoeira ou tingüera, como é chamado no
local este tipo de formação secundária. A
capoeira emergente, após um período de
pousio, pode ser derrubada e queimada para
novo plantio. O pousio é uma prática
integrante desta técnica e que consiste no
crescimento de uma capoeira com vistas à
recuperação do solo exaurido pelo cultivo.
Segundo Ewel (1976), a restauração da
fertilidade que ocorre no período de pousio
é feita em grande parte pelo retorno da
matéria orgânica e nutrientes para a
superfície do solo via produção e
subseqüente decomposição da serapilheira.
O tempo médio de pousio na região em
estudo é em torno de 4,8 anos, enquanto que
o tempo médio de cultivo é de 3,7 anos
(TOFFOLI, 1996).
A serapilheira representa importante
parâmetro ecológico, sendo considerada
como reservatório de nutrientes e energia
e, conseqüentemente, potencial fornecedor
de nutrientes para as plantas. A biodisponilidade dos nutrientes a partir da
mineralização da serapilheira é um processo
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM SISTEMA DE AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO
SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ)
eminentemente biológico. Os artrópodes do
solo estão intimamente ligados aos
processos de fragmentação da serapilheira
e estimulação da comunidade microbiana do
solo, desempenhando um papel fundamental
na regulação da decomposição e ciclagem
de nutrientes (LAVELLE et al., 1993;
CANTO, 1996), sendo, provavelmente, os
maiores reguladores da decomposição em
muitas situações tropicais (LAVELLE et al.,
1992). Portanto, a mudança do ecossistema
natural para o agroecossistema provoca
alterações profundas nas propriedades
químicas, físicas e biológicas dos solos. Esta
mudança ocasiona a redução ou a
eliminação da serapilheira, o que contribui
para a degradação e compactação do solo,
com a conseqüente destruição de
microambientes, resultando na modificação
da população dos artrópodes edáficos que
estão intimamente associados aos processos
bioquímicos, tanto qualitativa quanto
quantitativamente (MELO, 1985; LEITÃO
et al., 1999). As variações na abundância e
na diversidade das espécies desses animais
constituem-se reflexo de mudanças no
sistema (CORREIA, 1997). No entanto, este
componente tem sido ignorado quanto à sua
importância no aspecto funcional do
ecossistema, ainda que estes organismos
sejam bastante sensíveis em relação às
perturbações. Trabalhos de Oliveira (1983),
Melo (1985), Oliveira e Franklin (1993),
Canto (1996) e Leitão et al.(1999),
efetuados em ambiente terrestre da
Amazônia Central, reportam os efeitos das
perturbações antrópicas sobre a
funcionalidade dos ecossistemas.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
O presente trabalho tem como objetivo
avaliar os efeitos de um sistema de
agricultura tradicional na vegetação
secundária sobre a densidade e diversidade
de artrópodes edáficos.
2 MATERIAL E MÉTODOS
O presente estudo foi desenvolvido em
uma floresta atlântica secundária (capoeira)
abandonada após cinco anos de cultivo, num
solo classificado como Cambissolo, com
declividade média de 60%, localizada numa
altura média de 90 m de altitude, na Vila do
Aventureiro situada na Reserva Biológica
Estadual da Praia do Sul (RBEPS). A
reserva está na porção Sudoeste da Ilha
Grande, litoral Sul do estado do Rio de
Janeiro, nas coordenadas geográficas 23o
10’S e 44o 17’W, voltada para o mar aberto.
A RBEPS foi criada pelo Decreto Estadual
nº 4972, de 02/12/1981, e abrange uma área
total de 3 800 ha, o que corresponde a quase
1/4 de toda a Ilha e se encontra sob a
responsabilidade da Fundação Estadual de
Engenharia do Meio Ambiente do Estado
do Rio de Janeiro.
O clima é quente e úmido, sem estação
seca definida e a temperatura média anual é
de 24oC, atingindo um máximo de 27oC e
um mínimo de 20oC, e a sua caracterização
climática se enquadra na descrição do tipo
climático Tropical Úmido Af de Köppen.
Apresenta um total pluviométrico elevado,
geralmente entre 2 000 e 4 000 mm anuais,
com maiores precipitações ocorrendo nos
contrafortes da serra, onde a umidade
relativa do ar situa-se em torno de 80%
durante todo o ano. Ao longo das épocas
169
ROGÉRIO FERREIRA DA SILVA, EDUARDO LIMA, MARIA ELIZABETH FERNANDES CORREIA, ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA
adaptação ao experimento, mas segundo o
costume dos caiçaras é comum a utilização
de policultura, onde normalmente cultivamse as culturas de feijão, inhame, melancia
e/ou abóbora, que se desenvolvem junto às
cinzas e restos de galhos (TOFFOLI, 1996).
A cultura instalada durante a fase de estudos
foi a cultura do feijão (Phaseolus vulgaris),
cultivado no dia 22/02/1997 em covas feitas
com auxílio de uma enxada a uma densidade
de cinco sementes por cova, com bordaduras
de 1,5 m nas extremidades e colhida
manualmente no dia 21/05/1997.
As amostragens para a avaliação da
comunidade dos artrópodes do solo foram
realizadas em quatro épocas: dezembro/
1996, na vegetação secundária (capoeira)
antes da derrubada e queima; fevereiro/
1997, 20 dias após a queima e antes do
plantio; abril/1997, 45 dias após o plantio;
e maio/1997, após a colheita. Foram
amostrados dez pontos aleatórios de
serapilheira e solo através de um quadrado
das avaliações foram realizadas medidas da
pluviosidade mensal através de pluviômetro
instalado na sede da RBEPS (Figura 1).
Uma pequena porção da Reserva
(0,4%) é utilizada atualmente para plantio
de subsistência por uma comunidade de
pescadores artesanais que habitam a praia
da Vila do Aventureiro cerca de 150 anos,
totalizando uma população de cerca de 100
pessoas. Em função do tipo da agricultura
praticada, as encostas a montante da vila são
compostas por um mosaico de florestas em
diferentes estágios de regeneração. Com
auxílio de moradores da comunidade, foi
demarcada uma área de capoeira de 640 m2
(40 m x 16 m), dividida em oito parcelas de
80 m 2 (10 m x 8 m). Em seguida, foi
implantada uma roça caiçara sob orientação
dos mesmos, de forma a se reproduzir
fielmente todas as etapas de implantação e
de manejo (derrubada, secagem e queimada
da floresta secundária). Na lavoura foi
utilizada apenas uma cultura, devido à
300
P re cip ita çã o (m m )
250
200
150
100
50
97
z/
97
e
d
o
n
o
u
t/
v/
97
97
t/
o
g
se
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0
M e se s
Figura 1 - Precipitação mensal da estação meteorológica da RBEPS (1996/19997), litoral Sul do estado do Rio de Janeiro.
170
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM SISTEMA DE AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO
SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ)
metálico de 25 x 25 x 5 cm, entre 9 a 11
horas para efeito de comparação. No
laboratório, estas amostras foram
submetidas a uma bateria de extratores do
tipo Berlese-Tullgrën por um período de 15
dias, utilizando uma lâmpada de 40W como
fonte de calor, provocando ressecamento
superficial; em seguida, procedeu-se a
triagem dos artrópodes do solo. Com auxílio
de lupa binocular, iniciou-se a identificação
e contagem dos organismos, ao nível de
grandes grupos taxonômicos atuantes no
conjunto serapilheira-solo (Diptera,
Heteroptera, Homoptera, Hymenoptera,
Diplopoda, Isopoda, Coleoptera, Chilopoda,
etc.). Sabendo-se da influência da
sazonalidade neste tipo de estudo, escolheuse uma floresta contígua que tivesse a
mesma idade inicial, situação climática, solo
e topografia, para efeito de acompanhamento do comportamento da população
dos artrópodes edáficos durante as fases do
estudo.
Em todas as fases de avaliação,
coletaram-se amostras de solo compostas de
oito repetições, nas profundidades de 0-5 e
5-10 cm, as quais foram enviadas ao
Laboratório de Física e Química do Solo da
Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro, Seropédica-RJ, para a
caracterização química de acordo com
Embrapa/SnPcs (1997) (Tabela 1). Para
avaliação da massa de serapilheira da
vegetação secundária (capoeira) utilizou-se
uma moldura de madeira de 0,25 m2, com
dez lançamentos aleatórios, em seguida, o
material foi secado em estufa a 60ºC e
pesado.
Tabela 1 – Caracterização química do solo nas camadas de 0-5 cm e 5-10 cm de
profundidade sob a vegetação secundária e agricultura tradicional, na RBEPS,
litoral Sul do estado do Rio de Janeiro.
Uso do solo
Profundidade
cm
pH
P
H2O mg.dm-3
K
Ca
Mg
Al
-3
................. cmolc.dm .............
MO
g.kg-1
Vegetação secundária
0 - 5
5 - 10
5,8
5,5
5,1
3,6
0,5
0,4
4,0
2,8
2,2
1,7
0,3
0,5
50,6
42,5
Antes do plantio
0 - 5
5 - 10
5,4
5,2
4,6
4,0
0,7
0,5
3,2
2,3
1,9
1,5
0,3
0,5
44,5
39,0
45 dias após o plantio
0 - 5
5 - 10
5,9
5,8
7,8
6,0
0,8
0,6
3,9
2,9
2,0
1,5
0,3
0,3
47,4
40,6
Depois da colheita
0 - 5
5 - 10
6,0
5,4
11,1
3,9
0,7
0,5
3,6
1,7
1,9
1,2
0,2
0,7
47,2
37,9
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
171
ROGÉRIO FERREIRA DA SILVA, EDUARDO LIMA, MARIA ELIZABETH FERNANDES CORREIA, ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA
As comparações do dados foram feitas
mediante a estimativa da abundância,
diversidade e riqueza das comunidades dos
artrópodes edáficos nos dois sistemas
estudados. Os dados de densidade (e), dado
à sua heterogeneidade, foram transformados
em (e + 0,5) ½ (GERARD; BERTHET,
1966), e depois submetidos à análise de
variância (teste F), e as medias comparadas
pelo teste Tukey a 5% de probabilidade.
Os grupos taxonômicos foram submetidos
ao método de multivariada, análise de
agrupamento (“Cluster”), utilizando o
programa Statistica, descrever a
similaridade entre o sistema cultivado e o
sistema da vegetação secundária.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para que a produção de biomassa
ocorra nos ecossistemas naturais, é
necessário que estejam disponíveis
nutrientes minerais que são provenientes da
humificação e mineralização da serapilheira. A produção anual da serapilheira
(“litterfall”) varia com o tipo do ecossistema
e com o estádio de desenvolvimento do
mesmo, além de constituir o principal
caminho para o retorno dos nutrientes ao
solo (TEIXEIRA;SHUBART, 1988).
A Figura 2 mostra os estoques médios de
serapilheira da vegetação secundária
(capoeira) durante o período de estudo.
Observou-se que houve diferenças
significativas (p<0,05) dos referidos
estoques entre os períodos de dez/1996 e
maio/1997. O menor estoque foi no mês de
dez/1996, com 5,92 t/ha, apresentando um
acréscimo de produção no decorrer dos
períodos de avaliação, chegando a 10,56 t/ha
no mês de maio/1997, demostrando o caráter
sazonal da produção de serapilheira na
vegetação secundária. Coincidentemente, a
12
a
10
ab
peso seco (t./ha)
P e s o s e c o (to n./ha )
ab
8
b
6
4
2
0
de z e m br o/1 9 9 6
fe ve re ir o/1 9 9 7
a b ril/1 9 9 7
m a io /1 9 9 7
Meses
Figura 2 - Produção de serapilheira, em quatro épocas de avaliação, no ecossistema de vegetação secundária (capoeira),
na RBEPS, litoral Sul do estado do Rio de Janeiro. Colunas com a mesma letra não diferem significativamente
entre si pelo teste de Tuckey (p>0,05).
172
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM SISTEMA DE AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO
SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ)
menor produção de serapilheira, conforme
os períodos estudados, foi em dez/1996
com a maior precipitação pluviométrica
(Figura 1). Há um número considerável de
estudos sobre produção de liteira em
capoeiras, indicando quantidades médias
anuais em torno 6,52 t/ha (CUNHA;
PAGGIANI; GRENDENE, 1996; QUISER;
SOUZA; CASTILLA, 1996 e SOUZA;
DENICH, 1996), 8,2 t /ha (LUIZÃO et al.,
2000) e 3,83 t/ha (TEIXEIRA; OLIVEIRA;
MARTINS, 2001).
A manta de serapilheira sobre o solo,
com as condições ideais de umidade e
temperatura, sofre contínuo processo de
degradação da matéria orgânica e
mineralização, pela ação dos organismos do
solo, disponibilizando compostos que
contribuem para aumentar o nível de
fertilidade da superfície do solo e nutrir as
plantas (TOLEDO; SERRÃO, 1982). Estes
organismos compõem a fauna do solo das
florestas e pertencem a numerosos grupos
de invertebrados, cujas densidade e
diversidade das populações são reguladas
por variantes abióticas (REDDY;
VENKATAIAH, 1990). A Tabela 2 mostra
a variação da densidade e diversidade
populacional dos artrópodes do solo sob
vegetação secundária em diferentes épocas.
Considerando-se os quatro períodos de
amostragem, não foram detectadas
diferenças significativas (p>0,05) na
densidade de artrópodes edáficos. Contudo,
observou-se que no mês de dezembro/1996
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
ocorreu a maior densidade de artrópodes de
solo, com 5 434 ind./m2, enquanto que a
menor densidade foi registrada no mês de
fev/1997, com 2 974 ind./m 2. Segundo
Correia (1997), os artrópodes edáficos
podem sofrer influência de uma
heterogeneidade vertical, ocasionada por
diversos micro-habitats na serapilheira e no
perfil do solo e da heterogeneidade
horizontal, gerada por um mosaico de
condições microclimáticas e de qualidade
de recursos, geralmente associada a uma
maior complexidade da vegetação. Portanto,
pode-se identificar mudanças de preferência
dos artrópodes edáficos, mediante a
quantificação dos indivíduos presentes na
serapilheira e no primeiro horizonte organomineral do solo ao longo da época da
avaliação (Figura 3). Os artrópodes achamse inicialmente predominantes no solo (dez/
1996), passando a dominar na serapilheira
a partir do mês de fev/1997, aumentando
progressivamente ao longo do período de
avaliação. No mês de maio/1997, esta
predominância em relação ao solo foi acima
de 80%, provavelmente devido à umidade
e pelo aumento da adição do estoque de
serapilheira, propiciando, assim, condições
favoráveis aos artrópodes edáficos, os quais
tornam mais rápida e eficiente a reciclagem
dos nutrientes no ecossistema de vegetação
secundária. Essa correlação também foi
constatada por Vasconcelos (1990), Van
Vliet, Brare e Coleman (1995) e Sautter
et al. (1997).
173
ROGÉRIO FERREIRA DA SILVA, EDUARDO LIMA, MARIA ELIZABETH FERNANDES CORREIA, ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA
100%
90%
80%
70%
60%
S e rra p il h e ira
Serapilheira
50%
S o lo
40%
30%
20%
10%
0%
d e z e m b ro /1996
fe ve re i ro /1997
a b ril /1997
m a i o / 1997
M e se s
Figura 3 - Distribuição relativa de artrópodes edáficos na serapilheira e solo sob vegetação secundária (capoeira) em
diferentes épocas de avaliações.
A riqueza da comunidade dos
artrópodes edáficos deste ecossistema
sofreu pequeno decréscimo, de 23 grupos
nos meses de dez/1996 e fev/1997 para 20
grupos nos meses de abril/1997 e maio/1997
(Tabela 2), conseqüentemente, o índice de
diversidade (índice de Shannon) teve o
mesmo comportamento, o que evidencia a
estabilidade do ecossistema ao longo das
quatro épocas de avaliação, correspondente
às duas estações anuais: verão/outono.
Contudo, esse resultado está na faixa dos
valores observados em outras regiões
brasileiras, constatado por Oliveira e
Franklin (1993), Oliveira (1995), Teixeira
e Schubart (1988) e Azevedo et al. (2000).
A Tabela 3 mostra os grupos de
artrópodes edáficos de maior expressão nas
diferentes épocas de avaliação no
174
ecossistema de vegetação secundária
(capoeira). Os Diptera representam 23,7%
de toda a população de artrópodes edáficos
no mês de dezembro, enquanto que os
Homoptera participam com 23,8 % no mês
de fevereiro e os Formicidae com 50,5 e
50,9% nos meses de abril e maio,
respectivamente. Entende-se que Diptera e
Homoptera utilizam a camada da
serapilheira apenas como refúgio, não
contribuindo de maneira direta nos
processos de decomposição, enquanto que
Formicidae é um dos grupos mais
importantes da fauna do solo sob florestas
(DAJOZ, 2001), pois participa da
decomposição da matéria orgânica e da
ciclagem de nutrientes (PANIZZI; PARRA,
1991). Segundo estes autores, esse grupo é
ativo somente durante períodos definidos do
dia e apresenta comportamento sazonal.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM SISTEMA DE AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO
SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ)
Tabela 2 - Densidade, riqueza especifica e diversidade da comunidade de artrópodes
edáficos presentes no ecossistema de vegetação secundária e sistema de
agricultura tradicional em diferentes épocas, na RBEPS, litoral Sul do estado
do Rio de Janeiro.
Densidade
Épocas
Riqueza especifica
Diversidade
Nº de grupo
Índice de "Shannon"
-2
Ind.m
---------------------------------------------- Vegetação secundária -------------------------------------------Dezembro/1996
5434 a*
23
1,04
Fevereiro/1997
2974 a
23
0,90
Abril/1997
3984 a
20
0,84
Maio/1997
4702 a
20
0,76
------------------------------------------------Agricultura tradicional -----------------------------------------Capoeira
5434 a*
23
1,04
Antes do plantio
338 b
16
0,94
45 dias após o plantio
1037 b
14
0,80
Depois da colheita
397 b
17
1,03
Nota: Médias seguidas da mesma letra não diferem significativamente entre si pelo teste de Tukey (p>0,05)
Tabela 3 - Composição (%) da comunidade de artrópodes edáficos no ecossistema de
vegetação secundária e sistema de agricultura tradicional em diferentes épocas,
na RBEPS, litoral Sul do estado do Rio de Janeiro.
Grupos sistêmicos
Épocas
Diptera Homoptera Coleoptera Collembola Formicidae Larvas Outros
----------------------------------------------------- Vegetação secundária ------------------------------------------------Dezembro/1996
23,73
12,25
9,86
5,21
18,40
6,71
23,82
Fevereiro/1997
16,89
23,83
20,98
3,39
20,01
3,66
11,24
Abril/1997
9,68
8,96
6,02
4,86
50,52
3,33
16,63
Maio/1997
2,08
2,55
7,86
15,14
50,94
5,27
16,16
-----------------------------------------------------Agricultura tradicional -----------------------------------------------Antes do plantio
13,73
13,73
26,51
14,67
12,31
5,21
13,73
45 dias após o plantio
24,69
8,33
13,11
9,57
33,33
3,09
7,87
9,67
11,28
6,85
22,97
12,49
14,51
22,17
Depois da colheita
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
175
ROGÉRIO FERREIRA DA SILVA, EDUARDO LIMA, MARIA ELIZABETH FERNANDES CORREIA, ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA
Ao analisar a comunidade de
artrópodes edáficos depois da transformação da vegetação secundária
(capoeira) em agroecossistema, através da
derrubada e queima, foram observados
efeitos drásticos sobre a densidade e diversidade de artrópodes edáficos (Tabela 2),
pois, além da eliminação direta dos
principais grupos decompositores da
matéria orgânica que vivem na superfície
do solo (SANCHÉZ; REINÉS, 2001), a
eliminação da serapilheira subtrai a fonte
de alimento e desestrutura o habitat,
provocando, assim, a prevalência das
condições edafoclimáticas desfavoráveis
para estes organismos. Neste sentido,
Mateos (1992) destaca que ambos os fatores
podem limitar bastante a vida do solo.
A coleção dos organismos encontrados
indicou considerável diversidade de grupos
de artrópodes edáficos, alcançando 23
grupos na vegetação secundária (capoeira)
e 17 grupos na ultima etapa de avaliação da
lavoura que corresponde à fase subseqüente
à colheita da cultura de feijão (Tabela 2). A
perturbação exercida no ambiente resultou
no desaparecimento de vários grupos de
artrópodes edáficos, principalmente nas
etapas iniciais da implementação da lavoura.
Em amostragem efetuada na etapa de
avaliação precedente ao plantio da cultura de
feijão encontrou-se um total de 338 ind./m2,
distribuídos em 16 grupos (Tabela 2), sendo
que o grupo mais expressivo foi Coleoptera,
com 26,6% (Tabela 3). Já na etapa de
avaliação aos 45 dias após o plantio,
verificou-se uma rápida recolonização
faunística, um total de 1 037 ind./m 2
176
(Tabela 2), com a dominância de Formicidae
(33,4%) seguido de Diptera (24,7%) (Tabela
3), sendo que neste período de avaliação foi
encontrado o menor número de grupos e,
conseqüentemente, um baixo índice de
diversidade (Tabela 2). O aumento na
densidade de Diptera na fase adulta pode
ser considerado um caráter oportunista, pois
o papel funcional deste grupo na
decomposição de serapilheira é de pouca
importância, apenas utilizando as condições
favoráveis da cobertura vegetal da cultura
de feijão como refúgio, embora seja
importante no ecossistema, como um todo.
Enquanto que Coleoptera e Formicidae são
organismos de alta mobilidade, sendo que
a necessidade do novo habitat é capaz de
vencer as mudanças associadas ao cultivo e
ainda aproveitar-se da nova situação. Na
última etapa de avaliação (depois da
colheita) foram encontrados 397 ind./m2
(Tabela 2), com a dominância de
Collembola com 22,9% (Tabela 3),
provavelmente devido à matéria orgânica na
camada de 0-5 cm de profundidade
(Tabela 1), propiciando disponibilidade de
alimento e habitat favorável para esses
organismos (SAUTTER et al., 1997). Notase que certos grupos desapareceram e outros
tornaram-se dominantes, isto pode ser
conseqüência de como a vegetação foi
desmatada, pelo tempo do fogo, pelo tempo
de utilização do solo e o tempo de pousio
da capoeira (BARROS et al., 1996).
O dendograma representativo da
análise de agrupamento com base na
estrutura da comunidade de artrópodes
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VARIAÇÃO QUANTITATIVA DE ARTRÓPODES EDÁFICOS EM UM SISTEMA DE AGRICULTURA TRADICIONAL NA VEGETAÇÃO
SECUNDÁRIA, ILHA GRANDE (RJ)
edáficos sob vegetação secundária
(capoeira) e agricultura itinerante, avaliados
em diferentes épocas, é mostrado na
Figura 4. No dendograma, verifica-se que
foi possível a formação de três grupos: o
primeiro grupo (G1), constituído pelo Cdez/1996 e C-fev/1997 (capoeira avaliada
em dezembro/1996 e fevereiro/1997,
respectivamente) com um nível de
similaridade de até 32%; o segundo grupo
(G2), considerando-se um nível de
similaridade de até 65%, formado pelo Cabr/1997 e C-mai/1997 (capoeira avaliada
em fevereiro e maio de 1997,
respectivamente); o terceiro grupo (G3),
com 74% de similaridade, constituído pelo
AP (antes do plantio), 45 DAP (45 dias após
o plantio) e DC (depois da colheita).
A formação dos G1 e G2 foi em decorrência
da influência da sazonalidade sobre a
comunidade de artrópodes edáficos. Já o G3,
que corresponde às etapas da lavoura (antes
do plantio, 45 dias após o plantio e depois
da colheita), são mais similares entre si
devido ao impacto drástico na estrutura da
comunidade dos artrópodes edáficos, não
mais se recuperando ao longo do ciclo da
cultura.
110
100
Euclidean distances (Dlig/Dmáx)*100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
C-mai/1997
45º DAP
C-abr/1997
AP
DC
C-dez/1996
C-fev/1997
Figura 4 - Dendograma ilustrativo da similaridade da comunidade de artrópodes edáficos entre os sistemas de vegetação
secundária e agricultura tradicional, com base nas distâncias euclidianas médias. Dados obtidos em diferentes
épocas: vegetação secundária - C-dez/1996, C-fev/1997, C-abr/1997 e C-mai/1997 e agricultura tradicional antes do plantio (AP) - 45 dias após o plantio (45º DAP) e depois da colheita (DC).
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 167-180, jul./dez. 2003
177
ROGÉRIO FERREIRA DA SILVA, EDUARDO LIMA, MARIA ELIZABETH FERNANDES CORREIA, ROGÉRIO RIBEIRO DE OLIVEIRA
4 CONCLUSÃO
a) A maior deposição de material vegetal
(serapilheira) na vegetação secundária
foi verificada no mês de maio/1997.
b) Para a vegetação secundária, não foram
observadas diferenças significativas nos
valores de densidade de artrópodes
edáficos entre as épocas de avaliação.
c) A comunidade de artrópodes edáficos
reduziu significativamente após a
conversão da vegetação secundária
(capoeira) em um sistema de agricultura
tradicional.
d) Entre as etapas de avaliação do sistema
cultivado, não foram verificadas
diferenças significativas nos valores de
densidade de artrópodes edáficos.
Agradecimentos
Os autores agradecem o Conselho
Nacional de Desenvolvimento Cientifico e
Tecnologico-CNPq pelo suporte financeiro
que possibilitou a execução deste trabalho.
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OSTEOPATIA HIPERTRÓFICA EM UM CANINO, ASSOCIADA À ESPIROCERCOSE, FIBROMA ESOFÁGICO E DIROFILARIOSE
RELATO DE CASO
OSTEOPATIA HIPERTRÓFICA EM UM CANINO,
ASSOCIADA À ESPIROCERCOSE,
FIBROMA ESOFÁGICO E DIROFILARIOSE1
Washington Luiz Assunção PEREIRA2
Ernö TÚRY3
RESUMO: Registrou-se a ocorrência de um caso de osteopatia hipertrófica em canino, macho,
mestiço, de quatro anos de idade. O trabalho descreve os aspectos clínico-patológicos e radiográficos
de proliferação óssea e fibrosa periostal, com alargamento no perímetro da extremidade distal dos
membros torácicos. No exame anatomopatológico, observou-se no coração exemplares de Dirofilaria
immitis e, no esôfago, formação tumoral (fibroma), responsável pelo quadro de disfagia e dos
episódios eméticos. Consideram-se as lesões de esôfago importantes na fisiopatologia do processo
de osteopatia.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Canino, Osteopatia Hipertrófica, Fibroma, Espirocercose,
Dirofilariose.
HYPERTROPHIC OSTEOPATHY ASSOCIATED WITH
SPIROCERCOSIS, FIBROMA OF ESOPHAGUS AND
DIROFILARIOSIS IN A DOG
ABSTRACT: A case of hypertrophyc osteopathy in a canine, male, mixed, four years old was
registered. This work describes the clinical-pathological aspects and radiographic of bone proliferation
and fibrous periostal with enlargement in the perimeter of the distal extremity of the thoracic members.
In the anatomopatological exam it was observed species of Dirofilaria immitis in the heart and
tumoral formation in the esophagus responsible for the dysphasia picture and the emetic episodes.
The lesions in the esophagus were considered important in the physiopathology of the osteopathy
process.
INDEX TERMS: Dog, Hypertrophyc Osteopathy, Spirocercosis, Fibroma, Dirofilariosis
1
Aprovado para publicação em 4.11.2003.
2
Médico Veterinário, Dr., Professor Adjunto da Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA. Departamento de
Patologia e Medicina Veterinária Preventiva. Caixa Postal, 917 - 66.077-530. Belém, Pará. E-mail: [email protected]
3
Médico Veterinário, Ph.D., Professor da UPIS - Faculdades Integradas. Departamento de Medicina Veterinária. Brasília,
DF. E-mail: [email protected]
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 181-186, jul./dez. 2003
181
WASHINGTON LUIZ ASSUNÇÃO PEREIRA, ERNÖ TÚRY
1 INTRODUÇÃO
Dentre as doenças de ossos que
acometem caninos, a osteopatia hipertrófica
possui baixa incidência, e muitos casos
passam despercebidos ou não são bem
diagnosticados (ZÚÑIGA et al., 1997). Essa
patologia é observada principalmente em
animais adultos, constatada por Túry,
Casseb e Santos (1997) em um Pastor
Alemão de cinco anos de idade. Entretanto,
Filgueiras et al., (2002) registraram essa
enfermidade em um animal na faixa de onze
anos, e Brodey (1971) verificou maior
ocorrência em animais entre sete e oito anos;
sendo mais incidente em raças grandes e
gigantes (ZÚÑIGA et al., 1997).
A osteopatia hipertrófica representa
uma neoformação óssea periostal,
particularmente nas extremidades distais
dos ossos longos (SANTOS et al., 1998).
A doença recebe outras denominações como
osteoartropatia pulmonar e acropaquia óssea
(BLOOD; RADOSTITS, 1992). No cão,
não há o comprometimento articular,
portanto, osteopatia é o termo mais
adequado (SANTOS et al., 1998).
Clinicamente, a doença caracteriza-se por
dor, inchaço e aumento da temperatura
na região metafisária distal dos membros
(DOIGE; WEIBRODE, 1998; FILGUEIRAS et al., 2002), emagrecimento
progressivo (TÚRY; CASSEB; SANTOS,
1997), desenvolvendo quadro de caquexia
(HESSELINK; TWEEL, 1990).
Ao que parece, a doença é
multifatorial, representando uma
manifestação secundária de certas
182
patologias torácicas como processos
inflamatórios abscedativos crônicos
(HESSELIN; TWEEL, 1990) e,
freqüentemente, está associada à neoplasia
pulmonar (STEPHENS, 1983; TÚRY;
CASSEB; SANTOS, 1997). Moulton
(1990) e Disclaimer (1998) consideram que
caninos acometidos de espirocercose podem
desenvolver neoplasia de esôfago e
osteopatia hipertrófica (TÚRY; CASSEB;
SANTOS, 1997). Spirocerca lupi é um
nematelminto que, normalmente, provoca
inflamação granulomatosa no esôfago
distal, podendo causar estenose e dilatação
na porção anterior ao granuloma com
disfagia, regurgitação de alimento
(PALMER, 1993). Além do Spirocerca lupi,
Brodey (1971), Túry, Casseb e Santos
(1997) e Zúñiga et al. (1997) apontam a
Dirofilaria immitis como causa da
osteopatia hipertrófica, porém não
esclareceram a fisiopatologia do processo
na dirifilariose.
A patogenia da enfermidade ainda não
está esclarecida, entretanto, Doige e
Weisbrode (1998) comentam que as lesões
pulmonares estimulam o nervo vago,
exercendo ação reflexa vasomotora que
aumenta o fluxo sangüíneo nas
extremidades. A vagotomia unilateral pode
causar a regressão das lesões ósseas
(BLOOD; RADOSTITS, 1992). A teoria
hormonal é considerada por Filgueiras et al.
(2002), os quais sugeriram haver a formação
de anastomoses artério-venosas na
circulação pulmonar, propiciando que
substâncias vasoativas passem para o
sangue arterial e não sejam metabolizadas.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 181-186, jul./dez. 2003
OSTEOPATIA HIPERTRÓFICA EM UM CANINO, ASSOCIADA À ESPIROCERCOSE, FIBROMA ESOFÁGICO E DIROFILARIOSE
Este trabalho objetiva relatar os
aspectos clínico-patológicos e radiográficos
da osteodistrofia hipertrófica no cão e suas
associações com certas parasitoses e
neoplasia de esôfago.
2 RELATO DE CASO
Um canino, macho, mestiço, de quatro
anos de idade, foi atendido em domicílio.
A anamnese referenciou que o animal
apresentava vômitos freqüentes e uma
progressiva perda de peso. Relatou-se que
após algumas semanas destes sinais
apareceu um edema no membro esquerdo
e, posteriormente, de forma mais branda, no
membro direito.
Ao exame clínico, o animal
demonstrava magreza e secreção ocular
muco-purulenta. Verificou-se espessamento
difuso, sobretudo no segmento distal do
membro anterior esquerdo. A região
apresentava consistência sólida, sem
aumento de temperatura e ausência de
sensibilidade dolorosa à palpação.
Levantou-se a suspeita de osteopatia
hipertrófica, e o animal foi submetido ao
exame radiográfico do membro anterior
esquerdo: terço distal do rádio e proximal,
médio e distal da ulna, do carpo e metacarpo,
nas posições antero-posterior e laterolateral. Na análise, evidenciou-se
proliferação óssea irregular no periósteo
com radiopacidade e alargamento da
metáfise (Figura 1), além da presença de
áreas de rarefação óssea com mieloesclerose
no rádio e ulna e edema de partes moles do
membro. O exame confirmou o diagnóstico
clínico de osteodistrofia hipertrófica.
Figura 1 - Exame radiográfico: região rádio-ulnar e metacarpiana mostrando com proliferação periostal (setas).
Membro abaixo com normalidade e para comparação.
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 181-186, jul./dez. 2003
183
WASHINGTON LUIZ ASSUNÇÃO PEREIRA, ERNÖ TÚRY
2.1 ACHADOS DE NECROPSIA
A pedido da proprietária, procedeu-se
o sacrifício e necropsia do animal. No
exame necroscópico, observou-se, na parede
do esôfago distal, neoformação irregular de
consistência firme e coloração acastanhada,
medindo, aproximadamente, 7 cm de
diâmetro (Figura 2). O neoplasma ao corte
apresentava um aspecto sólido, homogêneo
e ausência de cavitações. O esôfago neste
segmento e cranialmente apresentava
dilatação. Verificou-se, ainda, nas
proximidades do tumor, a presença de
alguns nódulos medindo de 1 cm a 2,5cm,
estando os mesmos ulcerados na face da
mucosa esofágica, e estes nódulos
continham espécimes de Spirocerca lupi.
Dentre outros achados, observaram-se
formas adultas de Dirofilaria immitis na
cavidade auricular e ventricular do coração
direito e, na artéria aorta, irregularidade na
íntima e pequenas dilatações na parede
desse órgão.
Fragmentos do tumor esofágico e de
tecido ósseo do membro anterior esquerdo
foram colhidos e fixados em formol a 10%,
encaminhados e processados no Laboratório
de Histopatologia da Universidade Federal
Rural da Amazônia.
2.2 ACHADOS HISTOPATOLÓGICOS
Observou-se a proliferação no
periósteo de tecido ósseo trabecular de
matriz mineralizada. As margens desse
crescimento apresentavam-se irregular e
desorganizada e com atividade osteoblástica. O tecido fibroso periostal mostrouse proliferado. O tumor esofágico
constituía-se de um fibroma, com células
fibroblásticas diferenciadas e poucas figuras
de mitoses.
Figura 2 - Esôfago apresentando formação tumoral projetando no lume (1). Presença de nódulos de Spirocerca
lupy (2).
184
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 181-186, jul./dez. 2003
OSTEOPATIA HIPERTRÓFICA EM UM CANINO, ASSOCIADA À ESPIROCERCOSE, FIBROMA ESOFÁGICO E DIROFILARIOSE
3 DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
O presente caso de osteopatia
hipertrófica manifestou-se em um canino
adulto de quatro anos de idade. Stephens,
Glaiser e Jardine, 1983, Túry, Casseb e
Santos (1997) e Santos et al. (1998) também
descreveram a enfermidade em animais
adultos. Em estudos retrospectivos, Brodey
(1971) verificou que a maioria dos casos
ocorre em animais adultos, com idade media
de sete e oito anos.
Neste estudo, o engrossamento das
extremidades distais de ossos longos
constituiu o principal sinal clínico. Túry,
Casseb e Santos (1997), Santos et al. (1998)
e Filgueiras et al. (2002) mencionam este
aspecto em animais com osteopatia
hipertrófica. Clinicamente, outros sinais
como manifestações de dor e sensibilidade
dolorosa na região afetada, observada pelos
autores, não foram demonstradas neste caso.
Túry, Casseb e Santos (1997), Santos et al.
(1998) e Filgueiras et al. (2002) reportaram
casos com comprometimento dos quatro
membros, entretanto, este aspecto clínico
não foi verificado neste relato de caso, em
que a enfermidade se manifestou somente
nos membros torácicos.
As
alterações
radiográficas
caracterizadas pela proliferação periostal e
alargamento na metáfise de ossos longos são
semelhantes às descritas por Hesselink e
Tweel (1990) e Túry, Casseb e Santos
(1997). Entretanto, não descreveram a
esclerose óssea e a presença de hemorragia
subperiostal. Os resultados da análise
Rev. ciênc. agrár., Belém, n. 40, p. 181-186, jul./dez. 2003
histopatológica, de neoformação óssea e
fibrosa subperiostal, assemelham-se às
descrições de Santos et al. (1998) e
Filgueiras et al. (2002) e da mesma forma,
com os aspectos descritos por Túry, Casseb
e Santos (1997), de neoformação de osso
lamelar e tecido mesenquimatoso, com
poucos fibroblastos e hemorragias. Portanto,
o diagnóstico de osteodistrofia hipertrófica
foi estabelecido com base no resultado
radiográfico e anátomo-histopatológico.
No exame anatomopatológico as
lesões de esôfago foram nódulos contendo
espécimes
de
Spirocerca
lupi
(DISCLAIMER, 1998) e de neoformação
tumoral: fibroma, responsável pelos sinais
apresentados de disfagia e vômitos
(PALMER, 1993).
Na espirocercose esofágica, incide,
principalmente,
o
fibrossarcoma
(MOULTON, 1990). Entretanto, neste caso,
descreveu-se a formação neoplásica de
histogênese benigna (fibroma) e sua
participação no processo osteopático deve
ser considerada segundo a hipótese referida
por Doige e Weisbrode (1998), de
estimulação do nervo vago, considerando
que a distenção verificada no esôfago pode
ter promovido reflexos mecânicos nesse
nervo situado no mediastino, com
ramificações no esôfago (FILGUEIRAS
et al., 2002).
A participação da Dirofilaria immitis
deve ser avaliada conforme referem Brodey
(1971), Zúñiga et al. (1997) e Túry, Casseb
e Santos (1997).
185
WASHINGTON LUIZ ASSUNÇÃO PEREIRA, ERNÖ TÚRY
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Bibliográficas.
5 -
Referências bibliográficas - As referências devem ser apresentadas em ordem alfabética pelo sobrenome
do autor, sem numeração. Consultar a ABNT-NBR 6023 - 2000. A seguir, alguns exemplos são
apresentados.
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visando a colheita mecanizada direta. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.32, n.9, p.919-922, set.1997.
Livros
BRASIL, Heliana Maria Silva. Caracterização da arborização urbana: o caso de Belém. Belém: FCAP.
Serviço de Documentação e Informação, 1995. 195p.
Capítulo de livro
ASHDOWN, R.R.; HANCOCK, J.L Anatomia funcional da reprodução masculina. In: HAFEZ, E.J.E. (Ed.).
Reprodução animal. 4.ed. São Paulo: Manole, 1988. cap. 4, p.731-839.
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Os autores receberão gratuitamente 10 separatas de seu artigo e um fascículo completo.
7 -
Os artigos deverão ser encaminhados ao Presidente da Comissão Editorial da UFRA, para o seguinte
endereço:
UFRA/SDI
Comissão Editorial • Av. Tancredo Neves S/N
cx.postal 917 - CEP: 66.077-530 - Belém-PA
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CONSULTORES DA REVISTA DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
ANO 2003
ADRIANA ANTONIETA DO NASCIMENTO RIZZO – UNESP/SP
AKIHIKO ANDO – ESALQ-USP/SP
ANA GABRIEL POLARO SERRA – SAGRI/PA
ANTENOR PEREIRA BARBOSA – INPA/AM
ANTONIO FERNANDES DIAS – UFC/CE
APARECIDA DAS GRAÇAS CLARET – EMBRAPA AMAZÔNIA OCIDENTAL/AM
BEATRIZ MONTE SERRAT PREVEDELLO – UFPR/PR
BENEDITO ROCHA VITAL – UFV/MG
CARLOS BUENO – SESMA/AM
CLARA FERREIRA DE MELO – CEPNOR/PA
CLÁUDIO APARECIDO SPADOTTO – EMBRAPA MEIO AMBIENTE/SP
CLÁUDIO SANZONOWICZ – EMBRAPA CERRADOS/DF
CLÓVIS MAURÍLIO DE SOUZA – EPAMIG/MG
DENISE BOTELHO DE OLIVEIRA BRAGA – UFF/RJ
DINALDO TRINDADE – EMBRAPA AMAZONIA ORIENTAL/PA
ELIAS SILVA – UFV/MG
EURICO DA CRUZ MORAES – UFRA/PA
FLÁVIO GILBERTO HERTER – EMBRAPA CLIMA TEMPERADO/RS
GLÁUCIA SALLES C. BUSO – EMBRAPA CENARGEN/DF
GUSTAVO SOUZA VALLADARES – EMBRAPA CNPM/SP
HAMILTON PINTO DA SILVA – UFRA/PA
IRENICE MARIA DOS SANTOS VIEIRA – UFRA/PA
ISOLDE FERRAZ – INPA/AM
JAIME DUARTE FILHO – EPAMIG/MG
JANICE GUEDES DE CARVALHO – UFLA/MG
JOÃO FERDINANDO BARRETO – EMBRAPA AMAZÔNIA OCIDENTAL/AM
JOSÉ ANTONIO ALEIXO DA SILVA – UFRPE/PE
JOSÉ CARLOS CORRÊA – EMBRAPA CERRADOS/DF
JOSÉ EDMAR URANO DE CARVALHO – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
JOSÉ GABRIEL DE LELLES – UFV/MG
JOSÉ NATALINO MACEDO SILVA – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
LUIZ EDUARDO CORREA ANTUNES – EMBRAPA CLIMA TEMPERADO/RS
LUIZ SEBASTIÃO POLTRONIERI – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
MARCELO GUIMARÃES – EMBRAPA CNPM/SP
MARIA DE LOURDES PINHEIR RUIVO – MPEG/PA
MARIA DO ROSÁRIO L. RODRIGUES – EMBRAPA AMAZÔNIA OCIDENTAL/AM
MÁRIO AUGUSTO GONÇALVES JARDIM – MPEG/PA
MOACYR BERNARDINO DIAS FILHO – EMBRAPA/PA
NAZARÉ FONSECA DE SOUZA – UFRA/PA
NICOLAU MAUÉS SERRA-FREIRE – FIOCRUZ/RJ
OSCAR LAMEIRA NOGUEIRA – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
OSMAR ROMERO DE AGUIAR – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
PEDRO ROBERTO ALMEIDA VIÉGAS – UFSE/SE
RAIMUNDO FREIRE DE OLIVEIRA – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
RINALDO LUIZ CARACIOLO FERREIRA – UFF/RJ
SIDNEY ITAURAN RIBEIRO – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
TARCISIO EWERTON RODRIGUES – EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL/PA
VICENTE PAULO SOARES – UFV/MG
WATERLOO NAPOLEÃO DE LIMA – UFPA/PA
YGOR DA SILVA COELHO – EMBRAPA MANDIOCA E FRUTICULTURA/BA

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