Revista Faculdades do Saber - Faculdade Mogiana do Estado de

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Revista Faculdades do Saber - Faculdade Mogiana do Estado de
Revista Faculdades do Saber
Volume 02 / Número 03 / Jul/Dez de 2014
ISSN 2317-0867
Faculdade Mogiana do Estado de São Paulo – FMG
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
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FICHA CATALOGRÁFICA
Revista Faculdades do Saber: Artigos Acadêmicos e Científicos. – Vol. 02
n.03 (jul./dez. 2014). – Mogi Guaçu: FMG – Faculdade Mogiana do
Estado de São Paulo, 2014.
Semestral.
ISSN 2317-0867
1. Artigos Científicos. 2. Iniciação Científica.
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SUMÁRIO
EDITORIAL............................................................................................................
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A QUESTÃO RACIAL NO BRASIL: VISÕES E LEITURAS DO PENSAMENTO SOCIAL
BRASILEIRO...................................................................................................................
Ediano Dionisio do PRADO
247
RELEITURA DA HISTÓRIA BÍBLICA DE JOSÉ DO EGITO COM ENFOQUE EM
RESILIÊNCIA..................................................................................................................
Josiane COUTO, Sergio Fernando ZAVARIZE
261
FOCANDO A EQUIPE PARA OS OBJETIVOS DO SPRINT BACKLOG NA METODOLOGIA
ÁGIL DE DESENVOLVIMENTO ATRAVÉS DO DAILY SCRUM: UM ESTUDO DE
CASO.............................................................................................................................
269
Márcio Tadeu STAFOCHER
SÍNDROME DA ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO EM CÃES E A INFLUÊNCIA DOS
SENTIMENTOS HUMANOS NO DESENVOLVIMENTO DA SÍNDROME E AGRAVAMENTO
DOS SINTOMASSOCIOLÓGICOS ....................................................................................
285
Juliana Dias PEREIRA, Tania Murari MATTEUCI
CARACTERIZAÇÃO DAS LESÕES DECORRENTES DO CICLISMO.......................................
Giovani Arfelli de CASTILHO, Rafael Martins MENDES, Lucas Rissetti DELBIM, Marcelo
Studart HUNGER, Cássio José Silva ALMEIDA, Anderson MARTELLI
297
INSTRUÇÕES E DIRETRIZES PARA PUBLICAÇÃO ............................................................
309
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EDITORIAL
Em sua empreitada de fomentar a produção e democratizar a divulgação de
conhecimentos científicos, a Revista Faculdades do Saber lança sua terceira edição. Abraçando a
interdisciplinaridade como norteadora de sua filosofia, esta revista semestral concebe o
conhecimento como construção sociointerativa. Assume a indissociabilidade entre a liberdade de
pesquisar e o conhecimento com qualidade social, primando pelo pluralismo de ideias, de
concepções e de paradigmas conceituais.
A Revista Faculdades do Saber veicula não apenas a produção teórica de seu corpo
docente e discente, mas também as mais diversas e relevantes contribuições, num escopo
internacional, com ênfase nas áreas da Saúde, Educação, Administração, Direito e temas
relacionados.
Nesta edição são apresentados artigos inéditos, de suma relevância para a reflexão
acadêmico-científica, e sintonizados com múltiplos aspectos da vida contemporânea: A questão
racial no Brasil: visões e leituras do pensamento social brasileiro; Releitura da História Bíblica de
José do Egito com Enfoque na Resiliência; Tocando a equipe para os objetivos do sprint backlog
na metodologia ágil do desenvolvimento através do daily scrum: um estudo de caso; Síndrome
da ansiedade de separação em cães e a influência dos sentimentos humanos no desenvolvimento
da síndrome e agravamento dos sintomas; Caracterização das Lesões Decorrentes do Ciclismo.
Cientes de que as contribuições elencadas referendam em grande medida os propósitos
da Revista, convidamos todos aqueles que reconhecem a importância da pesquisa científica a
participar conosco, envidando esforços para um diálogo amplo e enriquecedor, pautados nos
critérios da objetividade e do pluralismo do conhecimento.
A todos, nossos votos de uma profícua leitura.
Ediano Dionisio do Prado
Conselho Editorial
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A QUESTÃO RACIAL NO BRASIL: VISÕES E LEITURAS DO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO
THE RACIAL ISSUE IN BRAZIL: VISIONS AND READINGS OF BRAZILIAN SOCIAL THOUGHT
Ediano Dionisio do PRADO¹
RESUMO
O presente trabalho percorre, sumariamente, diferentes visões construídas a respeito da questão racial no
Brasil, desde meados do século XIX até a década de 1960. De suma relevância para compreendermos a
dinâmica das relações raciais, tais leituras e visões fornecem diagnósticos da sociedade brasileira e
apontam a profundidade do legado transmitido por mais de três séculos de escravidão. Descortinam
continuidades e apontam críticas à natureza de nosso racismo: velado, covarde, latente. Racismo
imobilizador e mutilador da vítima, baseado em traços exteriores como a coloração da pele, o tipo de
cabelo e o formato do nariz. A compreensão dessas visões e de seu contexto social de mediação possibilita
o deslindamento de práticas e manifestações reincidentes de discriminação racial nas interações em
logradouros públicos, no mercado de trabalho, na mídia, na política, em suma, nas diversas esferas da vida
social.
Palavras-chave: questão racial; pensamento social; democracia racial; sociologia crítica; escravidão.
ABSTRACT
This job runs, briefly, different visions constructed about the racial issue in Brazil since the mid-nineteenth
century until the 1960. Of paramount importance to understand the dynamics of race relations, such
readings provide diagnoses and visions of Brazilian society and indicate the depth of the legacy passed for
more than three centuries of slavery. Continuities unveil critical point and the nature of our racism: veiled,
coward, latent. Racism immobilizer and mutilating the victim, based on external traits such as skin color,
hair type and the shape of the nose. Understanding these visions and their social context mediation
enables the unraveling of practices and relapsing forms of racial discrimination in interactions in public
places, in the labor market, in the media, in politics, in short, in many spheres of social life.
Keywords: racial issue; social thought; racial democracy; critical sociology; slavery.
********
1
Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, Docente nos cursos de
Direito, Administração e Educação Física da Faculdade Mogiana do Estado de São Paulo (FMG), Mogi
Guaçu, SP. E-mail: [email protected]
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1. Metodologia
trabalho
produzia para exportação e a força motriz dessa
produção ainda era o braço escravo; 2) um
aparato administrativo parasitário: o corpo
acadêmico, de natureza descritiva e analítica,
foram efetuadas leituras de pensadores
administrativo era ineficiente e corrompido por
todos os vícios da intromissão do particular
brasileiros que, desde meados do século XIX, se
debruçaram sobre a dinâmica da sociedade
sobre o público; 3) a inexistência de uma opinião
pública esclarecida: uma população minada pela
brasileira e apresentaram relevante contribuição
para a compreensão da questão racial. Além das
prepotência dos poderosos e obscurecida pelo
analfabetismo, incapaz, portanto, de participar
fontes primárias, procedemos à leitura de
comentadores.
Teoricamente, o presente artigo
objetiva contribuir com elementos sociológicos
para a consolidação dos parâmetros estipulados
pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura),
que disciplina a temática interdisciplinar das
Relações Étnico-raciais no Brasil, nos cursos de
graduação. Desta feita, emerge a nítida
preocupação em fornecer subsídios que
contribuam para uma análise crítica da dinâmica,
dos fundamentos e das contradições da questão
racial em nossa sociedade1.
Na perspectiva de Karl Marx2, o
pensamento não é etéreo, não está desvinculado
da realidade social. A compreensão das ideias de
uma época reclama a compreensão de sua
ativamente da definição dos rumos da vida
política; 4) formação clássica (greco-romana) de
nossa elite pensante: a elite pensante era
formada pelos filhos dos grandes proprietários
rurais que estudavam em Coimbra e Lisboa e, a
partir de 1820, nas Faculdades de Direito de São
Paulo e do Recife. Jovens bacharéis que
absorviam avidamente as ideias reinantes na
Europa, com fervor pelo uso de palavras
grandiloquentes (PRADO Jr.,1994).
Secularmente colônia e depois país de
economia dependente, o Brasil importou, junto
com produtos manufaturados e industrializados,
o ideário vicejante na Europa. Cabe, desta feita,
a indagação: ao esboçar e desenvolver um
pensamento social nacional, com o processo de
independência política, até que ponto conseguiu
extirpar essa influência externa e constituir algo
genuíno, original?
Com a proclamação da independência
torna-se patente a necessidade de evitar o
desmembramento territorial, político e cultural
mediação social. A realidade sócio-econômica
mediadora dos ideários desenvolvidos no Brasil,
ao longo do século XIX, diverge muito pouco da
realidade do período colonial.
A realidade socioeconômica continha os
seguintes pilares: 1) latifúndio monocultor e
da nação que se formava. Esboça-se um esforço
para forjar uma identidade nacional. É
justamente nesse momento histórico que se
consolida o movimento literário romântico, no
seu viés de exaltação nacionalista. Como
expressão intelectual desse período, o
escravista: a célula capital da vida econômica e
social continuou sendo a grande propriedade que
romantismo não rejeita por completo o olhar
inicial, lançado pela ótica do europeu. Ao
contrário, absorve muito dos estereótipos
construídos a respeito de nossa sociedade e
cultura, porém, confere-lhes uma coloração
original.
A literatura romântica procurou delinear
uma identidade nacional de acordo com os
interesses predominantes. Nesse esforço
Na
construção
deste
2.
A
identidade
do
Brasil
independente: a idealização do índio e a
ocultação do negro
1
O Conselho Nacional de Educação, por intermédio da
Resolução CP/CNE nº1 de 17 de junho de 2004,
instituiu diretrizes curriculares nacionais para a
educação das relações étnico-raciais no Brasil.
2
Karl Marx (1818 – 1883) é considerado uma das três
matrizes clássicas do pensamento sociológico. Em sua
obra A ideologia Alemã desenvolve o tema da
mediação entre a realidade socioeconômica e as
ideias.
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selecionou o indígena como figura nacional. Por
seu passado nostálgico, de pureza étnica, e pelo
seu futuro promissor, suscetível de ser civilizado
riquezas foi lavrada legalmente. A Constituição
outorgada pelo Imperador D. Pedro em 1824
primou pela inviolabilidade da propriedade,
pelo branco europeu, o índio torna-se o cerne
dessa literatura. Entretanto, romantiza-se esse
defendendo os interesses dominantes da
sociedade da época ao declarar o negro como
índio. Ele é enquadrado pelos moldes da
literatura de cavalaria medieval.
um objeto. Na interpretação crítica de Caio
Prado Jr. (2000), a independência ratificou nosso
O
imaginário
dos
romancistas
românticos (Gonçalves Magalhães, Gonçalves
caráter dependente dos impulsos externos, o
liberalismo apenas como sugestão e não como
Dias e José de Alencar) estava preso ao sistema
latifundiário-escravista. Estava impregnado dos
valores estéticos metropolitanos. Seus heróis e
heroínas foram pautados por moldes clássicos,
privados de sua origem nativa, europeizados. Os
heróis indígenas aparecem envergando valores e
atitudes que se enquadravam nos padrões
europeus. Havia uma preocupação em aproximar
o nativo do cavaleiro europeu, ocultando a
situação de extermínio do índio brasileiro. Nesse
sentido, podemos citar o personagem Peri do
romance “O Guarani” de José de Alencar em que
os embates são travados entre nativos como se
seguissem os códigos de honra típicos das
novelas de cavalaria (MELLO e SOUZA, 2000).
A idealização do índio teve como
contraponto a negação da existência do negro,
quer social, quer esteticamente. Em toda essa
produção romântica nenhum personagem negro
entrou como herói3. A figura do negro estava
associada a trabalhos vis, degradantes. O negro
trazia à tona a imagem da escravidão;
prática de organização das instituições políticas
e a escravidão como relação social. O escravo
permaneceu uma coisa, uma propriedade alheia,
pois sua importância econômica superava toda e
qualquer aspiração de um progresso moral da
sociedade brasileira. Nossos senhores não
ficavam com as faces enrubescidas perante a
vergonha da escravidão: essa mácula de nossa
história e alteração completa da ordem natural
do trabalho (SILVA, 2000).
representava uma figura “perniciosa” para a
imagem da nação jovem que se formava. O
indianismo romântico definiu o negro como
inferior numa estética que o colocava, de um
lado, como negação da beleza e, de outro, como
anti-herói, como subalterno, obediente, quase
domínio da Inglaterra. Sendo esta a maior
potência econômica da época e, sobretudo,
depois da Revolução Industrial urgia a ampliação
do mercado consumidor para seus produtos
manufaturados4.
Não obstante a coação da Inglaterra,
ao nível de animal (MOURA, 1988).
A coisificação do escravo ou a redução
do homem negro a um reles objeto produtor de
inclusive policiando a costa brasileira, o tráfico
grassava com gordos rendimentos, enchendo as
3
Uma exceção entre os autores românticos foi Castro
Alves. Em suas obras procura denunciar as injustiças e
o horror da escravidão, destacando o papel social e
ativo do negro na sua dimensão de rebeldia e na sua
interioridade existencial. O negro aparece como
pessoa que pensa e reivindica, que ama e luta.
3. A condenação da mestiçagem:
teorias raciais de finais do século XIX
Com a proibição do tráfico negreiro, em
1850, a elite local depara-se com novos
problemas de ordem econômica e social. A
proibição do tráfico, segundo alguns
historiadores, representou uma adequação na
letra da lei para corresponder às pressões e
sanções econômicas inglesas. Desde a
Independência, o império esteve submetido ao
4
A liberdade individual de comprar era um requisito
fundamental para a ideologia liberal da economia
inglesa: os escravos não eram remunerados com
estipêndios; recebiam como esmolas as roupas de
tecido rústico e a alimentação que o senhor
determinava. Aos olhos dos capitalistas ingleses esse
era um obstáculo que devia ser superado na expansão
de seus negócios.
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burras dos traficantes e fertilizando os campos
de cana e café. A proibição do tráfico não se
concretizou no término do intolerável cativeiro.
nesse sentido que podemos visualizar a Lei do
Sexagenário e a Lei do Ventre Livre5.
Com resistências, a elite escravocrata
No entanto, o montante desse tráfico,
consideravelmente menor que no passado, não
conscientizou-se, com pavor, da eminente
abolição da escravatura. Repentinamente, os
correspondia às necessidades ampliadas pela
cultura cafeeira do sudeste; o novo veio de ouro
senhores correram o risco de ver seus salões
invadidos por indivíduos que até pouco tempo
chamado café.
Para
agravar
insuficiência
eram seus “animais de trabalho”. Com o enorme
contingente de negros elevados à categoria de
numérica, nesse período, o trabalho escravo já se
mostrava oneroso para o sistema econômico em
transição, estando a produtividade do trabalho
escravo muito baixa para atender às exigências
impostas pelas novas relações da unidade
produtiva com o mercado mundial. “O sistema
escravista em sua fase final não possuía meios
com que preservar e multiplicar a força produtiva
do escravo. Contudo, sem que existisse um
núcleo forte de trabalho livre, assalariado ou
não, a escravidão não estaria com os seus dias
contados” (PRADO, 2001, p. 100).
O premente problema da mão-de-obra
colocou para a dinâmica classe dos cafeicultores
a necessidade de uma reorganização do
trabalho, que consistiu numa substituição do
trabalhador.
Ardorosas
contendas,
nas
assembleias, nos jornais, nos congressos da
oligarquia, efetivaram-se acerca de quais
elementos potencialmente disponíveis no
mercado representariam uma ruptura menos
traumática com o sistema escravista precedente.
cidadãos, como transformar essa pluralidade
cultural, de raças, num único povo? Num país
com amplas potencialidades de civilização e
progresso?
A virtual abolição da escravidão colocou
problemas de ordem econômica e, também,
sociocultural. As preocupações econômicas
foram sanadas pela gradativa implantação das
políticas imigrantistas. Já a resposta à questão
da separação racial ou da identidade processouse pela absorção de teorias relativamente
obsoletas no contexto europeu: as teorias
raciais.
Os “homens de ciência” do Império,
representantes da elite social branca,
importaram o darwinismo social, conferindo-lhe
traços bastante singulares, ao aplicá-lo à
realidade brasileira. O cerne dessas teorias era a
crença na existência de um processo seletivo
entre as raças, classificando-as numa hierarquia:
raças superiores e raças inferiores. O
darwinismo, como teoria biológica, foi
essa
Dentre as possibilidades cogitadas - imigrantes
europeus, trabalhadores nacionais livres,
chineses e os “coolies” da Índia - predominou a
preferência pelos imigrantes europeus. A partir
de
1870
são
desenvolvidas
políticas
imigrantistas, visando à substituição da mão-deobra escrava (PRADO, 2001, p. 101).
Paralelamente à política imigrantista, os
donos do poder, pressionados pela gradativa
conscientização de setores urbanos da sociedade
imperial, efetuam algumas concessões. Essas
trouxeram em si a marca da ambiguidade. É
5
A lei do sexagenário foi a mais dolorosa chibatada
desferida no dorso dos escravos envelhecidos. Devido
às atrocidades do senhor, ao trabalho incessante e
exaustivo, à alimentação precária, à ausência de
cuidados com a saúde, o tempo médio de vida do
escravo era muito pequeno. Um número exíguo
atingia o patamar de 60 anos. Esses geralmente
estavam estropiados – sem uma das mãos, sem
orelhas, sem pernas, adoentados. Assim, a lei
significou completo desrespeito aos indivíduos que
não conseguiam manter-se por conta própria.
Praticamente, a lei concedeu alforria para que o
escravo envelhecido morresse à míngua. Se a Lei do
Sexagenário foi um triunfo dos beneficiados com a
escravidão, a Lei do Ventre Livre ou lei dos nascituros que determinava a alforria de todos os nascidos
depois de 28 de setembro de 1871 – não atuou em
sentido diverso.
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amplamente utilizado no âmbito das ciências
humanas, com a popularização dos seus
conceitos nos jornais e na literatura e com a
um século, para que a civilização deitasse, nesta
exuberante terra, seus sólidos pilares
(AZEVEDO, 1987).
cotidianização dos seus autores. Nos moldes das
ciências biológicas, nossos cientistas sociais
Dentre os representantes principais das
teorias raciais destacamos o médico Nina
debruçaram-se sobre o organismo social
brasileiro, procurando diagnosticar as causas de
Rodrigues. Segundo Nina Rodrigues (1935), a
mestiçagem representava o grande mal, pois
seu atraso, sua patologia, e apresentando a
medicação para os seus males. Era necessário
implicava no enegrecimento da população. Era
uma composição negativa, já que o mestiço
descobrir as enfermidades ou os sistemas
debilitados que se constituíam em empecilhos ao
progresso civilizatório da nação.
O diagnóstico predominante foi de um
corpo social consumido pela chaga da
mestiçagem, dilacerado pela inferioridade dos
mestiços e cujo único medicamento possível
seria a injeção de sangue branco, superior. O
prognóstico mais otimista para a solução seria o
branqueamento6: através da extinção natural das
raças inferiores (indígena e negra) e pela
substituição gradativa da população negra pela
população branca através da imigração europeia
(SCHWARCZ, 1993; MOURA, 1988).
A campanha imigrantista do final do
século XIX esteve baseada numa política de
eugenia; no desenvolvimento de uma raça pura e
superior. Existiu a crença no branqueamento: a
esperança de que assimilando o sangue europeu
haveria uma depuração racial do povo brasileiro,
com o sangue (gene) branco se impondo na
miscigenação e, ao produzir um elemento cada
herdava os vícios da raça negra, considerada
inferior. O cruzamento não favorecia, a seu ver, o
desenvolvimento de uma civilização, pois o
mestiço constituía um tipo sem valor, não
servindo nem para o modo de viver da raça
superior, nem para o modo de viver da raça
inferior, não servindo para nenhum gênero de
vida. A languidez (estado de moleza, falta de
energia), a preguiça e a degeneração seriam os
traços característicos dos mestiços (SCHWARCZ,
1993). Acreditava, também, que o mestiço era
estéril. Tal qual o cruzamento da égua com o
jegue resulta num animal estéril, pois
proveniente de espécies diferentes, o
cruzamento de raças diferentes produziria frutos
estéreis e, por isso, inconstantes, tendentes ao
crime. Resulta dessa crença a denominação de
mulato (mula) (MOURA, 1988).
Nina Rodrigues foi tenaz defensor da
institucionalização e legalização de um código
de Direito diferenciado para cada raça
(RODRIGUES, 1933). Estando os negros
vez mais branco, revertendo os traços morais,
intelectuais e físicos inferiores da raça negra.
Na perspectiva dos pensadores raciais, a
purificação sanguínea seria acompanhada da
purificação cultural: a criminalidade e a
bestialidade “at|vicas” aos mestiços seriam
desprovidos da mesma consciência jurídica dos
brancos e incapacitados de discernir o que era
bom e o que era mal, tornava-se necessário
atenuar os males de sua infantilidade
civilizacional pela aplicação de um código Penal
diferenciado. Os grupos raciais inferiores seriam
suprimidas pela enraizada moral branca. Em
suma, tornava-se preciso branquear o Brasil, em
portadores de predisposições criminais, de
“taras” at|vicas.
Nessa época desenvolveram-se estudos
de criminologia e frenologia (estudo das medidas
dos ossos e do crânio). Tais estudos elegeram os
caracteres sociais, morais e físico-raciais de
negros e mestiços como representativos dos
grupos naturalmente dispostos à marginalidade
e à loucura. Essa nociva estigmatização nos foi
6
A tese do branqueamento foi uma solução local,
encontrada manuseando-se as teorias raciais
europeias, embora em contraste com muitos
princípios das mesmas. Fato que denota a
singularidade de nosso pensamento social,
justamente, por estar atrelado a um contexto social
específico.
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legada, sobrevivendo no âmago de nossa
sociedade. Inúmeras pesquisas realizadas no
âmbito da sociologia demonstram o quão
que o sangue do índio era um fator positivo,
enquanto o africano não era. Isso o levou a
louvar a mistura do branco com o índio e a
enraizada é, no imaginário da sociedade, a
vinculação entre criminalidade e pele escura.
considerar o mulato degenerado (CUNHA,
2000).
O
sociedade
diagnóstico do autor sobre a
brasileira
foi
relativamente
As teorias raciais mantiveram seu vigor
até finais da década de 1920, com amplas
pessimista. O branqueamento seria uma
incógnita. A miscigenação não conduziria,
repercussões na literatura. São exemplares,
neste sentido, as obras de Aluísio Azevedo: O
segundo sua crença determinista, a um
aperfeiçoamento das raças, mas sim a uma
degenerescência da população, dada a
prevalência dos vícios das raças inferiores. Não
havia, segundo ele, saída para uma raça
miscigenada. Nina Rodrigues efetua uma
detração da mestiçagem (SCHWARCZ, 1993).
Outro defensor do determinismo racial
e crítico da miscigenação foi Euclides da Cunha
7
(2000) . Euclides era descrente num único tipo
racial decorrente da miscigenação. Concebia o
mestiço como um desequilibrado, um decaído,
sem a força das raças originais: um intruso, sem
caracteres próprios, oscilando entre duas raças
opostas. O mestiço apresentaria uma hibridez
moral; vigor mental frágil, assim como uma
fragilidade da composição física. Sua
instabilidade decorreria da tendência de regredir
às suas matrizes originais. Uma instabilidade
atávica.
Preso à doutrina racista de sua época,
Euclides acreditava que a miscigenação
Cortiço, O Mulato e Casa de Pensão (AZEVEDO,
2009). Seu último representante foi Paulo Prado,
um dos mecenas da Semana de Arte de 1922. Na
obra Retrato do Brasil, Paulo Prado (2006)
assevera que a escravidão deixou marcas
profundas em nossa formação. O negro teria
sido uma máquina de trabalho e vício; um
elemento pernicioso que perturbou e envenenou
a formação da nacionalidade, não tanto pela
mescla de seu sangue, mas pelo relaxamento dos
costumes e dissolução do caráter social. A
“filosofia da senzala” teria penetrado no seio das
famílias brancas através das mucamas e dos
“moleques” disseminando vícios e lições de
libertinagem.
Em sua interpretação, nesta terra
radiosa vive um povo triste. Seriam duas as
paixões responsáveis pela austera e vil tristeza
de nosso povo: a cobiça (desejo voraz de
acumular ouro) e a luxúria (desenfreado
sensualismo). Essas duas paixões teriam minado
a energia de nosso povo, impedindo-o de cultivar
(especialmente o cruzamento entre brancos e
negros) poderia criar um problema sério ao país.
Apresenta no interior de sua obra uma
contradição: de um lado coloca que o sertanejo
seria o produto nacional e, de outro, que a
miscigenação não resultaria em um tipo
virtudes superiores.
brasileiro. Visualiza uma superioridade do
8
sertanejo em relação ao mulato, acreditando
Nabuco (2000). A escravidão é apresentada
como instituição total enraizando consequências
deletérias à nossa formação. Foi o elemento
mais triste que entrou na envenenada
7
Em sua obra “Os Sertões” o determinismo racial
acompanha-se do determinismo geográfico.
8
Segundo Walnice Nogueira Galvão, em seu prefácio
de Os Sertões (1981, Livraria Francisco Alves Editora
S/A, Rio de Janeiro) em sua leitura, Euclides se baseia
na noção de que no mestiço brigam a raça mais forte e
a raça mais fraca, sendo que, nos momentos de crise,
predominam as características inferiores da raça mais
4. Joaquim Nabuco: O Abolicionismo
No final do século XIX, encontramos,
também, uma análise profunda: Joaquim
fraca. “Então, ao descrever a resistência ímpar dos
rebeldes canudenses, com quem simpatiza, vê-se
atribuindo suas proezas a aleijões raciais. Aí se detém
a análise, quando Euclides se surpreende desservindo
a causa que queria servir”.
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composição da sociedade brasileira. Esta
alteração completa da ordem natural do
trabalho,
umbilicalmente
vinculada
ao
que o escravo foi mártir, mas também a
eliminação dos dois tipos contrários: o escravo e
o senhor. Deveria ser realizado o duplo mandato
colonialismo e, depois, à aurora do capitalismo
dependente, enodoou as sombras da longa e
da raça negra: a plena incorporação do negro
como cidadão, acompanhada pela obra maior de
silenciosa noite do nosso passado com o sangue
inocente. “Uma instituição pesando sobre as
apagar todos os efeitos de um regime que, por
séculos, foi uma escola de desmoralização e
pessoas como corrupção dos costumes,
produzindo não uma ética do trabalho, mas o
inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a
casta dos senhores.
horror ao trabalho. O sistema escravista não
implicava apenas na degradação do escravo, mas
na constituição de uma sociedade totalmente
organizada sobre a escravidão e marcada por
ela. O cancro da escravidão, com sua voracidade
descomunal, produziu nos âmbitos econômicos,
político, institucional, cultural, em cada uma e
em todas as dimensões do Estado e da
sociedade, sua marca profunda.” (PRADO, 2001,
p. 74)
Na leitura de Nabuco, “a escravidão
alienava senhores e escravos: estando os
escravos nas mãos dos senhores, como reféns; e
os senhores, praticamente, à mercê dos
escravos. Essa organicidade gerava uma pressão
constante entre os opostos, o que implicava em
receio, temor e inimizade. O escravo transformase, pela sua própria condição, em inimigo. O
senhor teme o escravo e por isso o castiga
severamente, para salvar sua conservação no
meio dos temores. Como a posição do
proprietário de homens no meio de seu povo
Nabuco foi militante entusiasta do
9
Abolicionismo . Entretanto, entendeu, ao
mesmo tempo, que para o Abolicionismo não se
deformar numa mistificação sem glória precisava
mostrar que seus alvos transcendiam “o
problema do negro”, sem releg|-lo a segundo
sublevado seria a mais perigosa, cada senhor,
em todos os momentos de sua vida, vive exposto
à contingência de ser bárbaro, e, para evitar
maiores desgraças, coagido a ser severo. A
escravidão, portanto, não pôde existir senão pelo
terror absoluto infundido na alma do homem. A
escravidão era má, obrigando o senhor a sê-lo;
não havendo bondade em seu seio. Só poderia
ser ministrada com brandura, não pela bondade
dos senhores, mas pela resignação dos escravos;
quando
estes
renunciavam
a
própria
individualidade, tornando-se cad|veres morais”
(PRADO, 2001, p. 75).
Nabuco afirma que a emancipação não
deveria significar somente o fim da injustiça de
9
Sua verve crítica transmitiu à posteridade imagens de
uma estética trágica ao descrever a escravidão.
Cumpre-nos tentar pincelar algumas passagens. Para
Nabuco, diversamente da escravidão antiga baseada
no apresamento de guerra, em dívidas e sem vínculos
com a origem racial, a escravidão moderna
caracterizou-se pela captura, deslocamento, venda e
subordinação de uma população unicamente com base
no fundamento racial: a cor preta. Os brancos
europeus violaram todos os fundamentos básicos do
direito natural e todas as premissas éticas para
espoliar e submeter ao trabalho compulsório um
enorme contingente de entes humanos. Se lucrativo
para os traficantes, o comércio de carne humana foi
usura da pior espécie, com ganhos descomunais do
senhor sobre a peça adquirida. Uma vez realizada a
compra, o escravo era reduzido a uma máquina de
trabalho e objeto do sadismo dos senhores e senhoras
dos casarões. As mulheres escravas, com os corpos
cansados após exaustivo trabalho, eram violentadas
em suas carnes pela luxúria dos senhores. Os homens
escravos corriqueiramente apanhavam de açoite e
tinham suas mãos, línguas e orelhas decepadas
barbaramente. O escravo era uma propriedade da qual
o senhor podia dispor como de um cavalo ou um
móvel. Estava submetido completamente ao arbítrio
do senhor. Antes de nascer, o escravo estremecia sob
o chicote vibrado nas costas da mãe e não tinha senão
os restos do leite que esta, ocupada em amamentar os
filhos do senhor, podia salvar para o seu próprio filho.
O escravo era o homem negro reduzido à condição de
coisa, sujeito ao poder de um outro; era o homem
tornado morto, privado de todos os direitos. Privado
da esperança, impedido de ter uma afeição, uma
preferência, um sentimento que pudesse manifestar
sem receio, condenado a não se possuir a si mesmo
inteiramente uma só hora na vida. O escravo estava
proibido de levantar os olhos para o senhor e de
reclamar a mínima parte do seu próprio trabalho. Não
tinha nenhum asilo inviolável, só tinha de seu a morte.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
254
plano, integrando-o na questão fundamental do
país, que era do trabalho livre. Reconstruir o
Brasil sobre o trabalho livre e a união das raças
negras escravas. A mestiçagem aparece não
somente no sentido racial, mas cultural; como
assimilação e integração cultural das três raças:
na liberdade, tal era o objetivo de Nabuco.
branca, indígena e negra.
Se a mestiçagem constituiu-se
5. Década de 1930: Gilberto Freyre e a
apologia à mestiçagem
no elemento principal de nosso sucesso, o que
explica, para Freyre, a inferioridade produtiva?
Num contexto nacional de profundas
Dois
fatores
são apresentados
como
explicativos: a sifilização que acompanhou a
alterações políticas, econômicas e sociais,
consolida-se uma mudança no estilo de
pensamento: o eixo das discussões é deslocado,
passando do conceito de raça ao conceito de
cultura. O conceito de cultura consolida-se como
variável explicativa. A partir deste conceito
procura-se explicar o Brasil como um tipo social
específico: a nação é concebida como cultura.
A ideia de que a nação é sinônima de
cultura encontra-se solidificada na obra do
pernambucano Gilberto Freyre (1978-1990). Esse
autor introduz as concepções culturalistas em
voga na Europa e nos E.U.A. desde finais do
século XIX, opondo-se ao evolucionismo,
tecendo uma crítica política ao determinismo
racial. Gilberto Freyre procura descobrir o
car|ter nacional, nosso “ethos”, através de um
estudo sócio antropológico da formação
brasileira. Nesta empreitada, narra a história
social do Brasil escravista10 (desde a colônia),
preocupando-se em demonstrar que a formação
brasileira é sui generis.
aventura da colonização - a sifilização teria
precedido a civilização - e a alimentação precária
- decorrente de uma organização econômica
baseada no latifúndio monocultor. São,
portanto, condições provenientes de fatores
externos e não do nosso “ethos” que explicariam
o atraso. O atraso não decorre da
degenerescência física e moral decorrente da
miscigenação, como acreditavam os teóricos
raciais.
O autor descobre na família patriarcal a
realização mais extrema do “ethos” brasileiro: o
Brasil seria uma grande sociedade patriarcal. A
família patriarcal seria a metáfora da sociedade
brasileira. A organização patriarcal concebida
como relação comunitária primária – que
envolve fusão de pensamento e sentimento,
coesão social baseada num compromisso moral
– teria diluído os conflitos entre raças diversas.
Segundo Freyre, nossa escravidão teria
sido atenuada por um clima de harmonia entre
senhores bondosos e escravos felizes. Nossos
Conclui que o traço principal
dessa singularidade é a miscigenação. A
miscigenação é interpretada positivamente,
sendo a grande responsável pelo fato de um
pequeno número de portugueses ter salpicado
virilmente uma civilização tão vasta. A
senhores não teriam sido malévolos, ao
contrário, inexistia ódio entre senhores e seus
escravos. Se os senhores demonstravam
sadismo (compulsão à aplicação de dores físicas
e psíquicas a outro) era porque encontravam
uma disposição masoquista nos escravos Se os
miscigenação foi para o português a grande
vantagem para sua melhor adaptação aos
trópicos. A aventura da colonização teria sido
uma aventura viril, de intercurso sexual do
homem branco com as índias e depois com as
senhores fustigavam violentamente as carnes
das negras era porque estas o requisitavam
através de uma propensão masoquista. Se o
menino da casa-grande aprendia como mandar e
desmandar aplicando ao moleque todas as
perversidades possíveis era porque havia uma
correspondência de anseios.
Na ótica de Freyre a miscigenação
racial, e também cultural, foi a grande
10
Freyre pontua que a escravidão negra se deu por
contingências econômicas, dada à inaptidão da
população indígena ao trabalho agrícola.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
255
responsável pela inexistência de conflitos étnicoraciais, pela “ausência de ódio”, pelo clima de
harmonia,
pelas
características
de
Porém, como veremos, a tese da democracia
racial escamoteava uma realidade de segregação
e preconceito racial, transformando-se no
democratização das relações; pela nossa
consolidação como a maior “democracia racial”
grande
obstáculo
ao
processo
de
conscientização da existência do racismo no
do mundo.
preconceito,
Brasil.
principalmente,
oportunidades
Sem conflitos
gozando
os
raciais, sem
negros
e,
todas as
ascensão
6. Ciclo de pesquisas da UNESCO ou o
desmascaramento da “democracia racial”
socioeconômica. Há em Freyre a crença na
miscigenação como um instrumento de
igualitarismo. A nossa formação social criaria
mecanismos sociais de ascensão vertical das
classes subalternas, não sendo vedada aos
negros a ascensão. Os mulatos, particularmente,
teriam grande facilidade de se ascender
socialmente. A coloração escura da pele não
implicaria, no seu diagnóstico, em segregação
socioeconômica. Aquilo que Paulo Prado
incorpora como extremamente pernicioso – a
filosofia da senzala introduzida, através do
negro, em maior ou menor escala, latente nas
profundezas inconfessáveis do caráter nacional –
Freyre traduz como o alicerce de nossa
sociedade: a assimilação, o hibridismo, o
sincretismo.
A tese da “democracia racial”
publicizou-se. Foi erigida como imagem
nacional,
vinculada
internacional
e
profundamente enraizada na “psique” de nosso
povo. Transformou-se num mito nacional, em
A questão racial apareceu no pós-guerra
(1945) como uma questão política importante e
central. Alguns intelectuais brasileiros passam a
escrever sobre o tema na revista Anhembi, bem
como a realizar pesquisas sobre o preconceito
racial no Brasil. Essas pesquisas, patrocinadas
pela UNESCO, envolveram, no pólo paulista,
nomes como Roger Bastide, Florestan Fernandes
e seus assistentes da cadeira de Sociologia I da
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo: Maria Sylvia de
Carvalho Franco, Fernando Henrique Cardoso e
Otávio Ianni.
O Brasil foi escolhido para as pesquisas
da UNESCO porque parecia o país que havia
encontrado a melhor fórmula na combinação de
elementos étnicos e raciais distintos. A tese da
democracia racial, de Gilberto Freyre, delineava
nossa imagem internacional e, internamente,
ocultava todo um quadro de segregação e
discriminação.
elemento capital do discurso oficial. Com essa
coloração harmoniosa, o Brasil passou a ser
modelo para as nações onde os conflitos raciais
eram evidentes. O Brasil parecia o país que
melhor tinha resolvido a questão da interação
racial numa sociedade poliétnica. Era o
Correspondendo aos anseios deste
trabalho faremos uma sucinta exposição das
posições de Florestan Fernandes (1972; 1976;
1978) na elucidação do problema do negro.
Florestan Fernandes, procurando explicar os
processos de interação racial na cidade de São
contraponto principal dos Estados Unidos11.
Paulo, promoveu uma mudança de patamar
analítico, abandonando o ensaísmo dos anos
1920/1930. Ao lado dos métodos mais rigorosos
da Sociologia (entrevistas, histórias de vida,
estatística), procurou evitar o obscurecimento
das explicações que nascem da ignorância do
passado, através do esforço de sondagem
histórica, para acompanhar a posição do negro e
do mulato na evolução da economia e da
11
os mulatos de
possíveis
de
Nos Estados Unidos, o racismo é, neste contexto
histórico, explícito. Até meados da década de 1960
vigorou o sistema de segregação que delimitava
bairros de moradia, veículos de transporte, escolas e
direitos políticos e civis diferentes para brancos e
negros. Se, por um lado, o racismo é declarado, por
outro permitiu a mobilização dos negros na luta por
seus direitos, sobretudo na década de 60,
consolidando expoentes como Martim Luther King e
Malcom X.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
256
sociedade paulistanas, do século XVI à década de
40 ou 50 do século XX.
As alterações econômicas promovidas
da miséria ou à condição de párias de uma
sociedade de classes. De um momento para
outro, o negro – que fora sustentáculo exclusivo
pela superação do escravismo não alteraram
substancialmente a situação do elemento de cor
do trabalho na escravidão – passa a ser
representado como ocioso, por ser negro, e
na
organização
social,
processando-se
presumivelmente de modo a mantê-lo nos status
assim por diante. Daí a comum expressão racista
sobre o trabalho: “Preciso descansar, amanhã é
ocupacionais financeira e socialmente menos
compensadores. A desagregação do regime
dia de branco”. O trabalho associado ao branco,
sendo o negro pejorativamente visto e
servil correspondeu à eliminação parcial do
negro no sistema de trabalho. O elemento negro
perdera sua posição, sendo as oportunidades
surgidas aproveitadas pelos imigrantes. Com a
abolição, o negro fora alijado do processo
econômico.
Neste sentido, Florestan mostra o
caráter de instituição total assumido pela
escravidão ao degradar a tal ponto o seu agente
humano de trabalho, que tornava a sua
recuperação econômica extremamente penosa,
difícil e demorada. A abolição teria consagrado
uma autêntica espoliação dos escravos pelos
senhores – aos escravos foi concedida uma
liberdade teórica, sem qualquer garantia
econômica ou de assistência compulsória. Nada
concedeu ao negro além do status de homem
livre. O alijamento do negro do processo
econômico e sua lenta reabsorção a partir das
ocupações mais humildes e mal remuneradas se
explicam pela herança negativa deixada pela
escravidão, pela persistência de critérios de
estigmatizado como vagabundo.
O preconceito de cor aparece como uma
racionalização do branco para justificar um
sistema de posições e vantagens assimétricas e
desiguais. Torna-se um recurso de autodefesa. O
negro é estereotipado como indolente,
cachaceiro, não persistente no trabalho,
enquanto o branco aparece como modelo de
perseverança, honestidade e estabilidade.
A tese da democracia racial é
desconstruída. No Brasil não vigora a plena
harmonia entre as raças, mas um racismo
velado, disfarçado. Um racismo mais cruel do
que aquele existente nos Estados Unidos, pois
acaba inibindo a mobilização dos negros, já que
a grande barreira é justamente o seu não
reconhecimento. Esse racismo tem como
principal e indesejável efeito a introjeção da
negação pelo próprio negro. Este deve assimilar
a imagem que o branco elabora dele, deve ser
um “preto de alma branca”.
Ao negro são reservadas escassas
seleção ocupacional associados à cor.
Florestan Fernandes elucidou a
manutenção da linha de cor como herança da
ordem estamental, como fator de segregação.
Deslindou a permanência de elementos
estruturais arraigados pelo escravismo ao longo
possibilidades de ascensão: a música, o samba, o
futebol. Torna-se um indivíduo circunscrito,
limitado a essas possibilidades, quando não
ocorre sua coisificação como objeto sexual. A cor
negra da pele aparece como uma maldição que
deve ser atenuada. Por exemplo, em relação à
dos séculos. Essas pesquisas demonstram a
falácia da tese da democracia racial,
evidenciando que o preconceito de cor
solidificou-se em nossa sociedade como uma
fronteira para jogar a população negra (nãobranca) para os serviços mais aviltantes e
economicamente menos compensadores. Com a
Abolição, os negros continuaram sujeitos a
outras modalidades de escravidão: à escravidão
mulher negra, quando muito bonita, ela deixa de
ser considerada negra e passa a ser denominada
de “mulata”, “morena”. Pois, a mulata é objeto
de fascínio e admiração estética, pelo seu
exotismo, por sua comemorada sensualidade. Já
a mulher negra aparece, no imaginário coletivo,
como algo a ser degustado, consumido,
“comido”. É apresentada como um objeto
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
257
sexual, situado no derradeiro nível de decência e
respeitabilidade.
Nosso racismo é hipócrita, pois nega a si
quadro de interações é possível falar de relações
entre brancos, de um lado, e “não-brancos”, de
outro.
O preconceito e a discriminação
mesmo. É manifestado em relações tensas entre
um branco e um não-branco. O racismo como
atravessam essas relações inter-raciais de modo
diferente e contrastante no Brasil e nos Estados
barreira
explicita
discrepâncias:
realidade
de
desigualdades
Unidos. Com base no contraste entre as
situações raciais nesses dois países, Oracy
socioeconômicas entre brancos e negros são
visíveis e incontestáveis. Basta recorrermos às
Nogueira apresenta um quadro com dois
conceitos ideais12.
estatísticas. Essas diferenças se devem a um
desigual ponto de partida: a concentração da
riqueza pela elite branca, o acesso aos postos de
trabalho pelos imigrantes europeus e a exclusão
do negro do mercado de trabalho. Ao longo do
século XX ocorreu um acúmulo de desvantagens
pelo negro devido ao expediente da
discriminação racial. Hoje, há diferenças porque
ainda existe discriminação, sendo esta uma
variável determinante da desigualdade. A
discriminação como ação contra os negros e o
preconceito como atitude covarde estão
baseados num sentimento de superioridade que
os brancos alimentam. Através desse sentimento
os brancos se atribuem certos privilégios e
procuram mantê-los. Temem a quebra do gozo
desses privilégios. Através do medo manifestam
sua essência racista. Voltam-se coléricos contra a
possibilidade dos negros alcançarem a igualdade
de direitos: foi esse o sentido impresso, segundo
algumas interpretações, na rejeição das camadas
médias e altas da sociedade ao programa de
No Brasil, a atitude violenta,
preconceituosa e desfavorável para com os
negros manifesta-se tomando como pretexto a
aparência física, ou fenótipo. Esse preconceito
alicerçado nos traços físicos do indivíduo
caracteriza o preconceito de marca. Nos
Estados Unidos, encontra-se, também, uma
disposição desfavorável em relação aos negros.
Porém, o preconceito racial norte-americano
tem como fundamento o pertencimento do
indivíduo a um grupo étnico. Não se discrimina o
indivíduo pelo fato de possuir traços negroides,
mas pelo fato de conter em sua composição
genética sangue africano. Assim, não é incomum
o preconceito se estender a pessoas de pele
branca, olhos verdes e cabelo louro que tenham
ascendentes negros. O preconceito que toma
por base o genótipo da pessoa é o preconceito
de origem.
Os dois “tipos” de preconceito
alimentam gritante diversidade quanto à
natureza. O preconceito de marca, típico do
cotas para negros nas universidades públicas.
Essas pesquisas demonstram que o lado
mais pusilânime de nosso racismo é a
imobilização do negro e a pressão que ele sofre
para interiorizar o modelo de passividade
apregoado pelos brancos.
Brasil, determina uma preterição, com base no
critério do fenótipo ou aparência racial,
enquanto o preconceito característico dos E.U.A.
determina uma exclusão incondicional a partir
do patrimônio genético; da potencialidade
hereditária de pertencer ao grupo racialmente
7. “Preconceito racial de marca” e
“preconceito racial de origem”
discriminado.
As diferenças avançam em múltiplos
sentidos. No que diz respeito à carga afetiva, o
preconceito de marca tende a ser mais
uma
as
Na década de 1950, Oracy Nogueira
(1954) asseverou que os problemas cruciais de
interação étnica, no continente americano,
dizem respeito às relações entre descendentes
de europeus e descendentes de africanos. Nesse
12
Tipos ideais são construções conceituais inferidas
de casos concretos, sendo que todo o caso particular
propende para um ou outro dos dois pólos ideais,
embora nenhum caso coincida, ponto por ponto, com
qualquer destes.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
258
intelectivo e estético, sendo sua intensidade
variável em proporção direta aos traços
negroides. Diferentemente, o preconceito de
momentos de conflito), o que explicita uma
reação individual, procurando o indivíduo
“compensar” suas marcas pela ostentação de
origem tende a ser mais emocional e irracional,
assumindo caráter de ódio intergrupal, com
aptidões que impliquem aprovação social.
Nos E.U.A., o preconceito de origem
intencional exclusão
população negra.
da
condiciona a consciência da própria identificação
racial por parte do negro. Uma identificação
As duas manifestações de preconceito
(origem e marca) utilizam o elemento
permanente, contínua, obsedante que assinala
uma luta coletiva, onde o indivíduo de cor
ideológico. O
preconceito
de
marca,
assimilacionista e miscigenacionista, apregoa o
branqueamento da população, a saber, a
preponderância do fenótipo branco ao longo de
um
século de cruzamento racial
e
homogeneização cultural. Já o preconceito de
origem, cuja ideologia é segregacionista,
alimenta a expectativa de que as minorias se
mantenham
endogâmicas
e
nucleadas,
constituindo cada qual um mundo à parte.
No Brasil, o preconceito de marca não é
incompatível com fortes laços de amizade entre
indivíduos de grupos raciais diferentes, pois as
fronteiras de cor são facilmente transpostas pela
deferência, pela admiração e pela amizade. O
preconceito de origem na América do Norte
restringe severamente, com tabus e sanções de
caráter negativo, as relações entre indivíduos do
grupo discriminador e do grupo discriminado.
A vigência do preconceito de origem
implica uma etiqueta que enfatiza o controle do
comportamento de membros do grupo
assume o papel de representante de seu próprio
grupo.
Uma última diferença entre os dois
“tipos” diz respeito { estrutura social. No
preconceito de marca a probabilidade de
ascensão social está na razão inversa da
intensidade das marcas do indivíduo (quanto
mais clara a pele do indivíduo, maiores serão
suas oportunidades de ascensão). O elemento
ideológico desse preconceito disfarça o
preterimento por raça como preconceito de
classe, inspirando um movimento político dos
não brancos que se confunde com a luta de
classes. No preconceito de origem apresenta-se
nítida a fronteira racial, de modo que se alguns
negros conseguem ascensão social conformam
duas hierarquias, a de classe e a de raça.
discriminado, de modo a conter a agressividade
do grupo discriminador, além de promover a
prevalência da raça sobre a cultura. O
preconceito de marca, diversamente, coloca
ênfase no controle do comportamento de
indivíduos do grupo discriminador, de modo a
Joaquim Nabuco sobre as raízes profundas e
nefastas que a escravidão fincou entre nós, com
toda uma série de influências perniciosas para a
natureza, caráter e organização de nossas
instituições políticas, sociais e econômicas.
Nabuco admoestou que a empresa de anular
evitar a humilhação de indivíduos do grupo
discriminado; além de enfatizar o dogma da
cultura em relação à raça.
O conjunto de particularidades de cada
“tipo” de preconceito, acima expostas,
desenvolve efeitos e reações diferentes dos
grupos discriminados. No Brasil, a consciência da
discriminação tende a ser intermitente (com a
consciência do homem de cor emergida nos
esses efeitos é superior aos esforços de uma só
geração. Para o indignado abolicionista,
enquanto nossa sociedade e cultura acharem-se
envolvidas pelas sombras e tentáculos das
influências com que a escravidão passou
trezentos anos a moldar-nos “o abolicionismo
ter| sempre razão de ser”. Passados 126 anos da
assinatura da Lei Áurea, o cancro da escravidão
se faz presente entre nós, com contundência,
ou
segregação
8. Conclusão
É relevante encerrar essa discussão
sobre a questão racial retomando a denúncia de
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
259
por uma de suas nódoas mais infames: a
discriminação racial. Assim, enquanto não
sepultarmos essa herança funesta do passado,
subsídios para o olhar multidisciplinar sobre o
nosso comportamento nas relações raciais.
toda e qualquer tentativa de construção de uma
comunidade alicerçada na igualdade racial, na
9. Referências
justiça social, na liberdade e harmonia será
malograda. A superação do racismo em solo
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Rio de Janeiro, Revista Estudos Afro-Asiáticos,
nº 31, 1997.
brasileiro reclama como primeiro passo o que a
Lei Áurea não promoveu. Nas palavras de
Nabuco: “a emancipação não significa tão
somente o termo da injustiça de que o escravo é
mártir, mas também a eliminação dos dois tipos
contrários, e no fundo os mesmos – o escravo e o
senhor”.
Portanto, enquanto não eliminarmos o
racismo, a discriminação e o preconceito raciais
como obstáculos à ascensão socioeconômica dos
não-brancos não alcançaremos a real e
verdadeira emancipação. Não concluiremos a
obra da autêntica libertação. Não podemos
abandonar a ciência de que a problemática racial
não está reduzida à questão social. Faz parte
dela e a extrapola. Entretanto, o social e o
econômico são os ditames que a conformaram
ao longo de nossa história.
O contato com diferentes
ideários expressos pelo pensamento social e a
compreensão da natureza, fundamentos e
desdobramentos da questão racial no Brasil
possibilitam-nos superar entraves ao lançar
questões capazes de quebrar o consenso. O mito
da “democracia racial” fincou raízes no
imaginário coletivo, constituindo-se no principal
entrave ao processo de mobilização dos negros
na luta por seus direitos. Esse mito
consubstancializa o nosso racismo disfarçado,
velado, latente, onde se torna indecoroso o
reconhecimento da existência do preconceito
racial, pois tal constatação vai contra uma
“verdade nacional”.
As leituras e autores acima
expostos muito contribuem para a compreensão
crítica de seus contextos sociais, para o
entendimento lúcido da sociedade presente,
bem como para o embasamento das leituras e
políticas encetadas posteriormente. Fomentam
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
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MELLO e SOUZA, Antônio Cândido.
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Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
261
RELEITURA DA HISTÓRIA BÍBLICA DE JOSÉ DO EGITO COM ENFOQUE EM RESILIÊNCIA
A REREADING OF JOSEPH IN EGYPT'S BIBLICAL STORY WITH A FOCUS ON RESILIENCE
Josiane COUTO¹, Sergio Fernando ZAVARIZE²
RESUMO
Considerando a importância da assertividade em situações inesperadas de adversidade, o presente artigo
vem estabelecer uma analogia entre os aspectos importantes da resiliência trazendo uma releitura de uma
situação extrema de conflito familiar ocorrido com o personagem bíblico José do Egito, frente a problemas
familiares e sociais contemporâneos. Para isto, foi realizado um levantamento teórico sobre resiliência e
resiliência familiar em 19 bases de dados eletrônicas. A busca resultou em 44 trabalhos, sendo 30 artigos, 3
teses de doutorado e 11 livros, entre eles a Bíblia. Pôde ser observada em José a capacidade resiliente de
agir buscando assertividade e a capacidade de desenvolver domínio sobre o que pode ser modificado e, em
alguns momentos, a aceitação do que não pode, frente às dificuldades por ele enfrentadas. Os resultados
demonstraram que a história de José, embora antiga, apresenta uma contextualização atual, relacionandose com a teoria da resiliência pela demonstração de assertividade no enfrentamento perante as
adversidades e evidenciando ferramentas eficazes diante das situações de risco. Concluindo, o ser humano
pode ser capaz de superar as adversidades por meio da resiliência, compreendendo seus mecanismos e
desenvolvendo maneiras assertivas de enfrentamento.
Palavras-Chave: Resiliência; Resiliência Familiar; Coping e Assertividade.
ABSTRACT
Considering the importance of assertiveness in unexpected situations of adversity, this article establishes
an analogy between the important aspects of resilience, bringing a rereading of an extreme family conflict
occurred with the biblical character Joseph in Egypt, facing family and contemporary social problems.
Thereunto, a theoretical survey on resilience and family resilience involving 19 electronic databases was
conducted. The search has resulted in 44 papers, comprising 30 articles, 3 PhD thesis and 11 books,
including the Bible. It could be observed in Joseph his resilient ability to act seeking assertiveness and the
ability to develop mastery over what can be modified, and in some moments, acceptance of what cannot,
face the difficulties dealt by him. The results show that the story of Joseph, although ancient, has a current
context, relating with the theory of resilience by demonstrating assertiveness in confronting adversity and
demonstrating effective skills in risk situations. In conclusion, the human being may be able to overcome
adversity through resilience, understanding their mechanisms and developing assertive ways of face-off.
Keywords: Resilience; Family resilience; Coping and Assertiveness.
********
1
Aluna de Iniciação Científica do curso de graduação em Psicologia da Faculdade Municipal
Professor Franco Montoro – FMPFM – SP. E-mail: [email protected]
2
Doutor em Psicologia, Docente dos cursos de Graduação em Psicologia na Faculdade Municipal
Professor Franco Montoro – FMPFM – SP e de Educação Física na Faculdade Mogiana do Estado de São
Paulo – FMG – SP.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
262
INTRODUÇÃO
Rotineiramente o ser humano faz planos
energia, ou seja, capaz de voltar ao estado
anterior. Explica ainda a expansão do termo para
as outras áreas do saber, sendo que no campo da
para sua vida e por vezes, toma como referência
e inspiração aspectos positivos visualizados em
medicina seria a resistência à enfermidade
enquanto capacidade desenvolvida, e na
pessoas resilientes (WALSH, 2005). No decorrer
do tempo, as famílias se estruturam tanto nos
Psicologia e Sociologia, tal capacidade individual
ou de um grupo de resistência a adversidades. O
aspectos culturais quanto em suas experiências,
desenvolvendo crenças e valores subentendidos
autor conclui esclarecendo que a referida
capacidade tem possibilidade de ser ocasionada
no comportamento dos indivíduos, em que cada
um desenvolverá suas particularidades, vindo a
encarar a realidade de maneira singular em cada
situação (FALICOV, 1995; MCGOLDRICK;
GIORDANO; GARCIA-PRETO, 2005; WALSH,
2005). Lidar com o que nos surpreende de forma
negativa exige soluções inesperadas, contudo,
alguns não se deixam abalar agindo de maneira
admiravelmente resiliente (LIFTON, 1993;
WALSH, 2005), podendo inclusive se
desenvolver apesar das situações promotoras de
riscos (DA SILVA et al., 2005), isto, considerando
o comportamento humano diante de
adversidades, em uma sociedade onde a
mudança é constante e a adaptação se faz
necessária (PINHEIRO, 2004; ANTONELLO;
GODOY, 2011; MINELLO; BIRRER, 2012).
O presente artigo vem apresentar a
resiliência como um novo olhar na busca de
compreender o homem que se encontra
constantemente sujeito ao sofrimento. Deste
horizonte, é percebido que alguns apresentam
no
desenvolvimento
de
autoestima,
autoconceito e espiritualidade. Contudo, frente a
circunstâncias de risco, diversas e peculiares
possibilidades de acertos são características da
Resiliência (LACHARITE, 2005; DA SILVA, 2014).
A resiliência pode ser observada na
biografia de José do Egito, um exemplo
histórico-religioso-cultural de um jovem, filho
preferido e mais amado de um pai de família
chamado Jacó com Raquel, a mulher que mais
amava e que também, por isso, foi rejeitado e
menosprezado por seus irmãos (BÍBLIA, Gênesis,
37:3-4) que brutalmente planejaram sua morte
(BÍBLIA, Gênesis, 37:20). Porém, sem coragem
de consumar tal ato, o venderam à Ismaelitas
(BÍBLIA, Gênesis, 37:27), sendo ele levado como
escravo ao Egito e posteriormente comprado
pelo capitão da guarda do palácio (BÍBLIA,
Gênesis, 39:1). A partir daí, passou a viver em
uma terra estranha em condições inesperadas,
refém de um destino impreciso. Na casa de
Portifar, José foi assediado por sua patroa e ao
certa desenvoltura diante de adversidades
apresentada no decorrer de sua existência, assim
como adaptação aos fatores expostos de origem
estressora, capacidade de ressignificação frente
a tais estressores a fim de que estes deixem de
representar negativamente em sua vida e certa
recusar-se de se deitar com ela, foi condenado
ao cárcere por calúnias injustas da mesma
(BÍBLIA, Gênesis, 39: 7-20). Mais tarde, na prisão,
sua boa conduta o promoveu a uma espécie de
administrador da cadeia (BÍBLIA, Gênesis, 39:2023). Passados dois anos, o Faraó passou a ter
habilidade para superação (KOTLIARENKO;
FONTECILLA; CÁCERES, 1997; TABOADA;
LEGAL;
MACHADO,
2006;
SILVEIRA;
MAHFOUD, 2008).
Tavares (2001), citado por Da Conceição
Lettnin et al. (2014), explica que o termo
Resiliência vem da Engenharia e da Física
fazendo referência ao material capaz de não ser
deformado permanentemente ao absorver
sonhos que o deixavam intrigado, ao qual
ninguém conseguia interpretar. Por suas
habilidades, José foi levado até sua presença
(BÍBLIA, Gênesis, 41: 9-13), sugerindo de forma
ousada e confiante uma solução para os
problemas de plantio ocultados nos sonhos. José
pediu que Faraó levantasse um homem capaz de
liderar um trabalho de armazenamento para
suportar o período de escassez que estava por vir
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(BÍBLIA, Gênesis, 41: 17-36), o que foi bem visto
pelo Faraó que o acabou elegendo vicegovernador do país. (BÍBLIA, Gênesis, 41:41).
Trata-se conceitualmente de um
desenvolvimento
favorável
advindo
da
adversidade, que pode desencadear maneiras
Sendo assim, José viveu situações em que
habilidades de enfrentamento podem ser
assertivas de enfrentamentos, antes ignorados.
Condições que proporcionam certa superação de
desenvolvidas por indivíduos que se deparam
com mudanças de origem estressora e
algum momento traumático permitindo que o
indivíduo siga sem consequentes negativos,
modificam essa situação adversa transformando
em uma nova e aprimorada realidade
sendo impulsionado a vivências inesperadas,
levando em conta certa habilidade de resolução
(LAZARUS, 2006; MINELLO; BIRRER, 2012).
Nesse sentido, a psicologia contribui
significativamente no estudo da Resiliência,
estudada também em outras áreas do
conhecimento e entendida como uma
capacidade de enfrentamento e superação de
adversidades (PINHEIRO, 2004; DA SILVA et al.,
2005; RIBEIRO; SANI, 2009). A Resiliência, sendo
então definida de maneira mais formal como um
tipo de adaptação e superação frente aos
eventos adversos, enquanto que o termo coping
estaria mais ligado às maneiras estratégicas da
prática
da
resiliência
(ANTONIAZZI;
DELL’AGLIO; BANDEIRA, 1998; LANGER, 2004;
TABOADA;
LEGAL;
MACHADO,
2006;
MINELLO, 2010).
Diversos autores concordam ao afirmar
que o termo Resiliência não dispõe de uma
definição cientificamente comprovada (RUTTER,
1987; PESCE et al., 2005), tratando-se de um
termo novo (RUTTER, 1987; PESCE et al., 2005;
TABOADA; LEGAL; MACHADO, 2006; DA
de problemas, em que a experiência positiva
pode vir em consequência da negativa (WALSH,
2005; WOLIN; WOLIN, 2010). Dentro da
resiliência,
estão
envoltas
perspectivas
específicas, primeiramente apontando-a como
inata ao ser humano, alargada e aprimorada ao
longo de sua existência. Um conseguir habituarse às situações ou a uma assertiva habilidade de
superação frente ao que não está dando certo
(TIMM; MOSQUERA; STOBÄUS, 2008; DA
CONCEIÇÃO LETTNIN et al. 2014).
A resiliência não se caracteriza somente
por traços individuais, (RICHMAN; FRASER,
2001; RIBEIRO; SANI, 2009) pode ser
desenvolvida com raízes tanto em âmbito
familiar, quanto no convívio com as demais
pessoas inseridas em seu meio, entre eles os
amigos, as figuras cuidadoras e educadoras,
autoridades espirituais de escolha, entre outros.
Neste caso, um indivíduo de uma família
convencional, em que sentimentos de acalanto
que são imprescindíveis no processo de
COSTA et al., 2009), cujo desenvolvimento em
discussão contemporânea se dá a fim de uma
construção fiel de seu real significado para que
não seja confundido com outros termos já
utilizados (PESCE et al., 2005; BRANDÃO, 2011).
Encontra-se inserido na área de ciências
resiliência não provenham dos pais, pode vir a
vivenciar tal aconchego fraterno suprido por
algum desses outros indivíduos, o que
certamente contribuirá no processo de
adaptação, provindo das vivências adquiridas por
convívio social (WERNER, 1993; RUTTER, 1987;
humanas, mais precisamente no campo de
Promoção da Saúde (RUTTER, 1987; PESCE et
al., 2005), abrangendo variáveis envoltas a
situações de adversidade, tanto pessoais, quanto
em âmbito familiar, numa perspectiva de melhor
compreensão desta nova forma de se obter
saúde (DA SILVA et al., 2005; TABOADA;
LEGAL; MACHADO, 2006).
BROOKS, 1994; WALSH 2005; HOCH et al.,
2007; RIBEIRO; SANI, 2009; SCHERER;
MINELLO, 2013).
MÉTODO
Este estudo se desenvolveu através de
levantamento teórico durante os meses de
março e setembro de 2014 sobre a resiliência e a
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resiliência na família no período que englobou os
anos de 1987 a 2014. Foram utilizados para o
levantamento teórico 19 bases de dados
podem vir a abalar a instabilidade por
consequência do comportamento de seus
membros (PTACEK; PTACEK; DODGE, 1994;
eletrônicas: American Psychological Association
– APA, Biblioteca Digital UFP – Repositório
PEIXOTO; SANTOS, 2009). Em consequência
dessa concepção, já no começo da história de
Institucional, Biblioteca Online UAI, Biblioteca
Virtual em Saúde - BVS, Biblioteca Virtual em
José, percebe-se que por Jacó, seu pai, amar
mais a José do que aos demais filhos, sendo este,
Saúde para Psicologia - BVS-PSI, Cambridg Univ
Press, Digital library USP, Google Books, JSTOR,
fruto de seu grande amor por Raquel e ainda, por
ser também filho de sua velhice, gozando de
Literatura Latino-americana em Ciências da
Saúde – LILACS, PEPSIC, Portal de Revistas
Eletrônicas PUC – SP, PsycINFO, PsycNet,
Repositório Digital UFRGS – LUME, Repositório
Institucional UCP, Scientific Eletronic Library
Online - SCIELO, Taylor & Francis, Wiley Online
Library.
Para a busca de artigos, as palavras
chave utilizadas foram: resiliência / resilience,
resiliência familiar / family resilience, coping e
assertividade / assertiveness, que resultou, após
refinamento, em 87 trabalhos encontrados. Após
refinamento, foram selecionados 44 trabalhos,
entre eles 30 artigos, 3 teses de doutorado e 11
livros, sendo um deles o livro da Bíblia de Estudo
Pentecostal, onde foram consultadas as
escrituras de Gênesis, capítulos de 27 à 50, sendo
utilizados apenas os versículos que contavam a
história do personagem selecionado para
pesquisa. Foram eliminados os trabalhos que não
diziam respeito à temática desta pesquisa, os
que não estavam disponíveis na íntegra e os que
mais tempo para dedicar-se a ele, seus irmãos
paternos nutriram um sentimento de ódio pelo
irmão mais jovem (BÍBLIA, Gênesis, 37:2-4, 11;
STAMPS, 1995). Em conformidade com isto, os
autores Trentini et al. (2005) e Peixoto e Santos
(2009) afirmam que acontecimentos mais
significantes podem vir a causar danos
profundos no desenvolvimento das famílias
quando não tratados cuidadosamente.
Diante do que representam os aspectos
de estrutura familiar, tanto culturais quando
advindos de experiências vividas, autores em
diferentes linhas de pesquisa concordam em
afirmar que nos comportamentos tais aspectos
aparecem de forma subentendida, onde cada um
desenvolve suas particularidades, encarando
cada situação de forma singular (FALICOV, 1995;
MCGOLDRICK; GIORDANO; GARCIA-PRETO,
2005; WALSH, 2005). Não obstante, ressalta-se
uma passagem em que os irmãos de José
chegaram ao ponto de pensarem em acabar com
sua vida, planejando sua morte, quando optaram
não possibilitaram download.
por se distanciarem mais de casa, sabendo que o
pai o mandaria procurá-los, podendo então
aproveitar a situação para assim acabar com a
vida do irmão (BÍBLIA, Gênesis, 37:13, 16-18). E
nesse contexto de resiliência, Da Silva et al.
(2009) esclarece que o sujeito carrega em seus
DISCUSSÃO
A família, enquanto unidade funcional é
vista como geradora de resiliência (WALSH,
2005). Sendo assim, seus membros podem vir a
demonstrar manejo adaptativo e resistência
perante
adversidades,
por
processos
imprescindíveis capazes de minimizar seus
consequentes e gerar aprendizado (WALSH,
1996; YUNES; MENDES; ALBUQUERQUE,
2005). Entretanto, é correto salientar que toda
família está sujeita a situações de angústia,
sendo estas corriqueiras ou mais profundas, que
sentimentos e lembranças as marcas dos fatos
ocorridos, que todavia não são apagados. Assim
sendo, o bem estar da família pode vir a ser
abalado tanto no presente como no futuro por
conta de lidar com tais estressores (MECCUBIN;
MECCUBIN, 1988; HAWLEY; DEHAN, 1996;
YUNES, 2003; TRENTINI et al., 2005; PEIXOTO;
SANTOS, 2009).
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
265
Essa ideia é reafirmada e explicada por
Walsh (2005) ao relatar sobre os desafios que
surgem ao longo da vida que podem tirar o
pelas adversidades e se adaptar ao sofrimento,
podendo encontrar maneiras de se fortalecer
diante de tais experiências (WALSH, 2005).
sujeito de sua zona de conforto, tendo que
enfrentar algo novo, confuso e ameaçador. No
Perante o disposto, enquanto estava na casa de
Portifar, José conquistou sua confiança, fazendo
entanto, podem vir a descobrir uma maneira
resiliente de lidar com o ocorrido, que se dará
notar suas habilidades o que o colocou à frente
da administração de sua casa e de seus negócios
conforme cada situação. Deste modo, pode-se
notar que assim que José se aproximou e foi
que vieram a prosperar significativamente
(BÍBLIA, Gênesis, 39:3-5). Essa ideia é reafirmada
violentamente surpreendido pelos irmãos, que
não tiveram coragem de matá-lo e o atiraram em
um buraco de onde não poderia sair. José
permaneceu ali por horas, tentando sensibilizar
os irmãos para que o libertassem (BÍBLIA,
Gênesis,
37:20-24).
Essa
interpretação
construtiva de lidar com o que surpreende o ser
humano de forma negativa como explicam
Lifton (1993) e Walsh (2005) exige dele soluções
inesperadas e fará com que cada indivíduo venha
a reagir conforme suas características. Por sua
vez, alguns tendem a conseguir operar de
maneira consideravelmente resiliente, buscando
manter-se firme e perseverante. Desta forma,
uma característica resiliente para um momento
assim, seria distinguir a dor, moldando seu
sentido a ponto de conseguir suportá-la e
podendo resolver a questão de forma construtiva
(PINHEIRO, 2004), na busca de compreender o
que está acontecendo para poder vir a identificar
os recursos e as opções de solução (WALSH,
2005).
considerando-se que da experiência de
adversidades pode ser desenvolvida a resiliência
que, portanto, pode ser aprendida. De qualquer
forma, saber o momento certo de agir buscando
a assertividade, por mais que se esteja passando
por um momento de dor, encarando os
causadores de medo e as incertezas, contribuirão
no desenvolvimento de habilidades que vão
proporcionar melhor direcionamento frente às
dificuldades (SILVEIRA; MAHFOUD, 2008;
MINELLO, 2010; MINELLO; BIRRER, 2012).
Os estudos de Resiliência configuram-se
como um novo olhar na busca de compreender o
homem constantemente sujeito ao sofrimento.
Como explicam os autores Kotliarenko,
Fontecilla e Cáceres (1997), Taboada, Legal e
Machado (2006) e Silveira e Mahfoud (2008),
onde situam os resilientes como capazes de
apresentar certa desenvoltura e adaptação aos
fatores de risco. Isto pode ser bem observado no
comportamento de José quando, talvez por ser
de boa aparência, a esposa de Portifar veio a
Considera-se que o ser humano pode se
desenvolver, apesar das situações promotoras de
risco (DA SILVA et al., 2005). Em se tratando
disso, os irmãos de José não tiveram coragem de
matá-lo, mas querendo se livrar definitivamente
dele, venderam-no como escravo para
manifestar interesse por ele, chegando ao ponto
de tentar seduzi-lo. No entanto, José recusou-se,
resistindo à mulher e empreendendo fuga, o que
foi tido com afronta para ela, que o acusou
injustamente. Em consequência disso, ela
procurou convencer seu marido de que havia
comerciantes Ismaelitas que por ali passavam
rumo ao Egito (BÍBLIA, Gênesis, 37:25-33). Ele
então foi comprado por Portifar, para quem
trabalhou duramente como nunca havia feito, e
sendo assim, foi se desenvolvendo em condições
adversas, em uma terra estranha e marcado pela
escravidão (BÍBLIA, Gênesis, 39:1). Porém,
conforme demostrado, não há obrigatoriedade
de se estabilizar diante das situações impostas
sido assediada e atacada por José, usando como
prova parte de suas vestes que caíram quando
ele tentou escapar de suas mãos (BÍBLIA,
Gênesis, 39:6-8, 12-19). Neste momento José
mostra características resilientes por saber como
agir diante das situações adversas, sendo
assertivo nas atitudes. Este tipo de
comportamento torna-se uma fator essencial de
resiliência, pois ainda que o indivíduo não esteja
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preparado para o inusitado, ele pode encontrar
forças para o enfrentamento (WALSH, 2005).
O sujeito resiliente consegue extrair o
interpretara nos sonhos como um período de
escassez que estava por vir (BÍBLIA, Gênesis,
41:14, 17-36). Trata-se aqui de um
maior número de possibilidades em que possa vir
a desenvolver domínio sobre o que pode ser
desenvolvimento
resiliente,
vindo
da
adversidade, que pode desencadear maneiras
modificado, ou aceitação para o que não pode
ser modificado (WALSH, 2005). Sendo assim e
assertivas
antes
impulsionado
à
diante dessas
imediatamente
falsas acusações, José foi
mandado
para
prisão.
considerando certas habilidades de resolução de
problemas, em que a experiência positiva pode
Novamente o jovem se via em uma situação
difícil, sujeito a terminar seus dias no interior de
uma cela, sem nenhum direito de recorrer,
restando-lhe a esperança e o instinto de
sobrevivência que o manteve vivo no cárcere
(BÍBLIA, Gênesis, 39:20; STAMPS, 1995). Por
outro lado, mesmo sendo mais uma vez
inocente, José não se deixou entregar,
mantendo a serenidade e sujeitando-se a uma
das mais duras etapas de sua vida. Sua boa
conduta na prisão chamou a atenção do
carcereiro-mor, que o promoveu a uma espécie
de administrador da cadeia (BÍBLIA, Gênesis,
39:21-23). Isso porque suas atitudes destacaram
maneiras claramente assertivas no enfrentar das
demandas da vida por não se submeter a elas, o
que provavelmente abalariam os não tidos como
resilientes (RUTTER, 1999; YUNES, 2001;
YUNES, 2003; CECCONELLO, 2003; PINHEIRO,
2004; DA COSTA et al., 2009).
É possível afirmar que a Resiliência tem
se consolidado como um conceito positivo,
advir em consequência da negativa (WALSH,
2005; WOLIN; WOLIN, 2010). Além disso, as
palavras de José agradaram ao Faraó, que o
elegeu diante de todos para liderar esse trabalho
como vice-governador do país, estando
subordinado apenas a ele, que continuaria como
soberano. Nisso findavam-se os dez anos de
escravidão e outros três anos de prisioneiro para
agora galgar o mais alto cargo político do país,
abaixo apenas ao do Faraó, o que se fez notório a
todos acerca de seu cargo (BÍBLIA, Gênesis,
41:37, 40-46; STAMPS, 1995).
propondo a ideia de que o sujeito é capaz de
construir seu próprio curso, se desenvolvendo de
forma assertiva frente às adversidades, assim
como proposto por Da Silva et al. (2005). Na
história de José, é possível perceber os aspectos
resilientes, quando por dois anos inteiros em que
história, sobressaindo as formas de coping, ou
seja, as estratégias resilientes adotadas por José
frente às adversidades enfrentadas.
Diante do que apresentam os aspectos
teóricos, pode-se ver na biografia de José uma
história antiga, porém de contextualização
ele, como prisioneiro, foi levado à presença do
Faraó, para interpretar os sonhos que deixavam
intrigado o soberano do Egito. Essas
interpretações indicavam para uma previsão do
que iria acontecer num futuro próximo. (BÍBLIA,
Gênesis, 41:1-13). Por conta disso, José, de forma
ousada e confiante, sugere ao Faraó que
escolhesse um homem sábio e capaz de liderar
um trabalho assertivo a fim de lidar com o que
muito atual, que traz questões contemporâneas
enfrentadas por diversas famílias, que vem
sendo estudada e melhor definida.
Sendo assim, é correto afirmar que José
demonstrou
maneiras
assertivas
de
enfrentamento perante os momentos de
adversidade. Com isso, é possível salientar
alternativas resilientes frente a problemas
desconhecidas,
sendo
vivências
inesperadas,
CONCLUSÕES
É possível perceber nesse estudo que a
história de José tem toda uma relação com a
teoria da resiliência nos aspectos de coping,
enfrentamento, superação, assertividade, entre
outros, correlacionada aos artigos encontrados
sobre este construto, demarcando sua
ocorrência em diferentes pontos da referida
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familiares e sociais que não muito se diferem dos
atuais.
Em consequência dessa concepção, a
Resiliência pode trazer diversas ferramentas para
serem trabalhadas diante de situações
promotoras de risco, comprovando grande
eficácia no enfrentamento e resolução de
problemas de adversidades na família, sendo
possível ao ser humano buscar compreender e
fortalecer as maneiras em que
assertivamente superar adversidades.
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269
FOCANDO A EQUIPE PARA OS OBJETIVOS DO SPRINT BACKLOG NA METODOLOGIA ÁGIL DE
DESENVOLVIMENTO ATRAVÉS DO DAILY SCRUM: UM ESTUDO DE CASO
FOCUSING ON TEAM GOALS FOR THE SPRINT BACKLOG IN AGILE DEVELOPMENT
METHODOLOGY THROUGH THE DAILY SCRUM: A CASE STUDY
Márcio Tadeu STAFOCHER¹
RESUMO
O Daily Scrum vem a ser uma das partes mais importantes do Scrum, método usado no desenvolvimento
ágil de software e que objetiva estabelecer foco contínuo da equipe no Sprint Backlog. Este artigo tem
como objetivo explanar uma das partes mais importantes na implantação e utilização do Scrum no
desenvolvimento ágil de software, o Daily Scrum, que são breves reuniões diárias estabelecendo, definindo
ou redefinindo o foco de todos. O Daily Scrum é conhecido também como Standup Meeting, uma vez que
os participantes ficam em pé visando a breve explanação da reunião; e esse, apesar de breve, deve ser
objetivo e obedecido, motivo pelo qual o estudo de caso deste artigo deve ser considerado. Também há
um breve enfoque em alguns conceitos de Scrum e sua relevância na conclusão de projetos de software
dentro do prazo e com o menor custo possível. Scrum tem como objetivo o gerenciamento de projetos de
software, porém, pode ser utilizado em qualquer contexto onde um grupo de pessoas necessite atingir um
objetivo comum. Nas seções do artigo são mencionadas as vantagens de se implantar esse método no
gerenciamento de projetos de software, pontos importantes de um bom Daily Scrum e, ao final, visando
uma demonstração prática, o trabalho apresenta uma ferramenta simples de ser utilizada para auxiliar na
regência das reuniões curtas e diárias que visam administrar o projeto atribuindo foco constante no Sprint
Backlog.
Palavras-chave: Scrum; Dailyscrum; Sprintbacklog; Desenvolvimento Ágil.
ABSTRACT
The Daily Scrum is to be one of the most important parts of the Scrum method used in agile software
development and aims to establish continuous focus team in Sprint Backlog. This article aims to explain
one of the most important parts in the implementation and use of the Scrum agile software development,
the Daily Scrum, which are brief daily meetings establishing, defining or redefining the focus of everyone.
The Daily Scrum is also known as Standup Meeting, since the participants are standing brief explanation
aiming at the meeting; and this although brief, should be objective and obeyed, why the case study of this
article must be considered. There is also a brief focus on some concepts of Scrum and its relevance in the
completion of software projects on time and at the lowest possible cost. Aims Scrum project management
software, however, can be used in any context where a group of people need to achieve a common goal. In
sections of the article mentions the advantages of deploying this method in managing software projects,
important points of a good Daily Scrum, and ultimately seeking a practical demonstration, the paper
presents a simple tool to be used to assist in conducting of short, daily meetings that aim to manage the
project by assigning constant focus on the Sprint Backlog.
Keywords: Scrum; Dailyscrum; Sprintbacklog; Agile Development.
********
1
Administrador de Empresas com ênfase em Sistema de Informações, Analista de Sistemas,
Engenheiro e Arquiteto de Software, Pós-Graduação Lato Sensu em Engenharia e Arquitetura de
Software, Universidade Estácio de Sá – UNIESA. E-mail: [email protected]
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
270
1.
Introdução
Após a Crise do Software de 1970, ponto
Com essa metodologia, há constante feedback
da equipe e de cada membro envolvido, porém
sem dimensionar problemas, devendo então,
na história onde a engenharia de software era
inexistente e havia um crescimento visível pela
caso sejam levantados problemas, ser levadas as
devidas questões a grupos menores e específicos
demanda de software,
desenvolvimento
vêm
as empresas de
tentando
criar,
com autoridade para a resolução dos mesmos.
Com o Daily Scrum, então, a equipe tem uma
estabelecer e documentar métodos de
gerenciamento de projetos visando um
melhor dimensão do projeto, seja no status atual
ou o que ainda deve ser feito, tendo então, cada
desenvolvimento eficiente, com foco constante
e estrutura específica. Como resultado desta
necessidade de organização, surgiu em 1990 o
Desenvolvimento Ágil de Software, estrutura
conceitual de desenvolvimento que visava
substituir os métodos com alta regulamentação
e regimentação, trazendo aos projetos a lentidão
no desenvolvimento, motivo pelo qual se
procurava novas formas e conceitos de
modelagem de software.
O desenvolvimento ágil de software faz
menção a um propósito claro de projetos bem
estruturados e com foco nos objetivos finais com
projetos concluídos no prazo, com qualidade e
com o menor custo possível. Nesse contexto, em
1993 teve início à documentação e utilização da
formação Scrum do Rugby nos desenvolvimentos
de projetos de software. O Scrum no Rugby vem
a ser uma jogada onde todo o time realiza uma
breve reunião em campo, estabelece um
regimento e vai ao jogo em função de realizar o
ponto, objetivo principal. Realizando uma
um, um compromisso assumido perante a
equipe e que pode ser cobrado futuramente por
todos, dando ascensão uns aos outros no
projeto.
Este artigo apresenta um estudo de
caso onde é estabelecida, desenvolvida e
apresentada uma ferramenta de atas diárias para
auxiliar no direcionamento da equipe no foco do
projeto ou de parte do projeto, resultando, ao
final, uma documentação completa do caso e
servindo ainda como base de dados para futuros
projetos, amadurecendo a equipe. São
apresentados os benefícios de uma interação da
equipe com um Daily Scrum bem documentado,
e o autofoco dos stakeholders com casos de
ausência ou desempenhos reduzidos, sendo a
equipe estimulada pela própria equipe.
analogia, a equipe de desenvolvimento de
projetos de software obtém-se o direcionamento
da equipe focando a conclusão do projeto
obedecendo aos parâmetros definidos. Para tal,
essa técnica foi adaptada, tendo como requisito
reuniões diárias curtas e objetivas no início do
De acordo com Steffen (2011), o Scrum
não é uma sigla e não possui uma tradução. É
apenas um nome próprio que indica o momento
do jogo de Rugby em que a equipe está reunida
com um único propósito, em uma formação
específica, preparando uma jogada onde a
expediente denominada Daily Scrum.
O Daily Scrum, também conhecido
como Standup Meeting, foca em reuniões breves
e bem feitas, em pé, fazendo menção ao nome,
colocando em destaque o que cada participante
fez desde a última reunião, o que fará até a
próxima reunião e se há possibilidades de haver
impedimentos para que o objetivo a ser
alcançado possa ser prejudicado ou atrasado.
participação de todos é essencial. O não
comprometimento de um dos membros da
equipe pode comprometer a formação. Logo, a
união e o foco no objetivo (mover a bola em
direção ao gol) são primordiais para o sucesso.
Em TI (Tecnologia da Informação), Scrum,
segundo Schwaber (2011), é uma prática de
desenvolvimento ágil que permite manter o foco
da entrega da maior prioridade do projeto no
2.
Fundamentação Teórica
2.1.
Scrum
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
271
menor tempo possível, permitindo assim a
rápida e contínua avaliação do software em
produção. Possui duração, normalmente, de
significativas e, em alguns casos, transformações
completas na regência e administração de
projetos.
duas a quatro semanas e utiliza um projeto
prático, simples e com poucas regras, sendo
O Scrum possui um ciclo de vida que,
conforme Schwaber (2011), tem o formato
rápido e simples de ser implantado em um
projeto.
baseado em interações com duração de duas a
quatro semanas conhecidos como Sprints. Tem
Scrum pode ser definido ainda como um
framework estrutural que vem sendo usado
como primeiro passo, já no Sprint, o
planejamento inicial (Sprint Planning), onde o
desde 1990 para gerenciar o desenvolvimento de
produtos complexos. Não é um processo ou uma
técnica para construir produtos, mas um
framework dentro do qual você pode empregar
vários processos ou técnicas, deixando em
evidência o status do projeto dando
possibilidade de melhorar as práticas de
desenvolvimento com foco constante no
objetivo (SUTHERLAND, 2011). Deemer e
Benefield (2007) destacam que o Scrum é o
método ágil de desenvolvimento de software
que mais se desenvolve. Apesar de ter sido
formalizado há mais de duas décadas por Ken
Schwaber e Jeff Sutherland, está sendo utilizado
por empresas de pequeno e grande porte, em
projetos de pequeno e grande porte, e por
empresas como Yahoo!, Microsoft, Google,
Lockheed Martin, Motorola, SAP, Cisco, GE e a
Reserva Federal dos EUA. Deemer e Benefield
(2007) afirmam ainda que muitas equipes
conseguem efetuar ajustes que, através de
relatórios Scrum, podem fornecer melhorias
time (Scrum Team), seguidos pelo cliente
(Product Owner), define o desenvolver
administrativo do projeto estabelecendo a
priorização do trabalho a ser feito. Schwaber
continua descrevendo o passo seguinte como a
etapa em que o time detalha as tarefas
necessárias para atender o Sprint Planning dando
início a execução. Durante o Sprint o time realiza
reuniões diárias (Daily Meeting ou Daily Scrum) e
objeto de estudo deste artigo, a fim de obter
feedback constante da equipe gerando relatórios
ou gráficos chamados Burn Down Chart para
melhor acompanhamento. Ao final do Sprint é
realizada uma reunião para entrega (Sprint
Review) onde são verificados se os objetivos
estabelecidos foram atingidos. Terminada a
validação do Sprint Review, é realizada pela
equipe uma reunião para avaliação do Sprint
(Sprint Retrospective) a fim de estabelecer
possíveis estudos de caso para posteriores
projetos. Abaixo segue uma ilustração que
representa o ciclo utilizado pelo Scrum:
Figura 1. Scrum. Fonte: DesenvolvimentoAgil.com
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
273
Schwaber (2011) descreve o Time Scrum
como um time auto-organizável e multifuncional
formado basicamente pelo Product Owner, a
projetos na área de TI. Eu não aguentava mais os
mesmos problemas projeto a projeto, que se
repetiam há mais de 20 anos”.
Equipe de Desenvolvimento e o Scrum Master.
Segue informando que o modelo de equipe no
Conforme a Agile Alliance (2013),
métodos ágeis de desenvolvimento possuem
Scrum é projetado para administrar projetos
com melhorias contínuas.
uma estreita colaboração entre a equipe de
programadores e os especialistas em negócios,
2.2.
Scrum e a Metodologia Ágil de
Desenvolvimento
Conforme Demmer e Benefield (2007), a
metodologia ágil de desenvolvimento surgiu por
haver uma necessidade de melhores resultados,
obtendo resultados mais rápidos onerando,
muitas vezes, custos menores, com equipes em
tamanho reduzido, multifuncionais, com poder
de decisão, ao contrário de grandes hierarquias e
funções excessivas existentes em outros
métodos. Afirma ainda que o método que mais
se desenvolve é o Scrum. Para Pressman (2006),
estamos sempre descobrindo maneiras melhores
de desenvolver software e com a Metodologia
Ágil de Desenvolvimento, a comunicação tornase mais efetiva entre os stakeholders (partes
envolvidas e interessadas no projeto), há uma
melhor visualização do cliente para a equipe,
obtém-se uma equipe com controle sob o
trabalho realizado e a entrega é rápida e
incremental.
A evolução da tecnologia e sua
com comunicação pessoal imediata retirando
burocracias e ocasionando entregas frequentes
de partes utilizáveis do produto em
desenvolvimento. Destaca ainda a presença de
equipes auto-organizadas e com foco constante
no objeto final na maior qualidade possível. O
manifesto ágil possui valores como indivíduos e
interações,
software
funcional,
cliente
participante e rápida resposta a mudanças
(AGILEMANIFESTO, 2013); e Cohn (2005)
destaca que os métodos ágeis possuem
vantagem sob os métodos tradicionais por
demandar documentação simplificada para um
projeto, envolvendo a equipe em um todo. O
Scrum, então, predomina como uma prática ágil
de desenvolvimento que mantém foco na
entrega permitindo rápida e contínua avaliação
do software em produção através de projetos
práticos, simples e com poucas regras, dando
maior facilidade na adaptação de toda equipe
neste método, que é de fácil aprendizagem
(SCHWABER, 2011).
2.3.
Sprint Backlog
utilização em massa como base estratégica
através de sistemas computacionais, aponta
uma necessidade por desenvolvimentos,
adaptações ou implementações em grande
escala e de forma rápida. Para atender a
demanda crescente, a Metodologia Ágil de
O Sprint Backlog é o responsável pela
abertura do time box (tempo limitado para
realização de determinado trabalho da melhor
forma possível) de trabalho da equipe de
desenvolvimento, e será a base de todas as
Desenvolvimento
torna-se
de
grande
importância nos projetos de software, tendo o
Scrum como um de seus frameworks mais
utilizados. Magno (2009) explana a alta
importância
da
Metodologia
Ágil
de
Desenvolvimento dizendo: “Eu encontrei os
métodos ágeis em um momento da minha vida
em que estava refletindo se valia à pena seguir
em frente na carreira de gerenciamento de
reuniões durante o ciclo de vida do Sprint.
Segundo Schwaber (2011), o coração do Scrum é
a Sprint, que vem a ser uma rotina de trabalho de
mais ou menos um mês, que terá como resultado
uma versão incremental potencialmente
utilizável do produto. Sprints têm durações
coerentes no projeto em desenvolvimento,
dando, no ato de sua conclusão, origem a uma
nova Sprint. Ao obter a descrição do produto que
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
274
entrará em desenvolvimento, é realizada a
reunião de planejamento da Sprint, onde a
equipe de desenvolvimento oficializa os itens
após a Reunião Diária, para replanejar o restante
do trabalho da Sprint. Todos os dias, a Equipe de
Desenvolvimento deve estar apta a esclarecer
que participarão do Sprint que será iniciado e
gerando o Time Scrum ou Sprint Backlog. Com o
para o Product Owner e para o Scrum Master
como pretendem trabalhar em conjunto, como
Sprint Backlog definido, abre-se a necessidade
de reuniões diárias apenas para direcionar a
um time auto-organizado, para completar o
objetivo e criar um incremento previsto desejado
equipe.
no restante da Sprint”.
2.4.
Reuniões diárias ou Daily
3.
Materiais e Métodos
Scrum
O Daily Scrum, de forma sintética, vem a
ser reuniões diárias com breve duração, muitas
vezes em pé, de onde vem o nome Standup
Meeting, onde a equipe se auto-organiza para
obter sucesso no objetivo estabelecido pelo
Sprint Backlog. (Schwaber, 2011).
Segundo James (2012), o Daily Scrum
deve ser realizado preferencialmente no mesmo
horário e local, com duração não muito
discrepante do total de 15 minutos,
estabelecendo relatos entre os membros, dando
abertura para o surgimento de tarefas adicionais
necessárias para atingir os objetivos da Sprint.
Schwaber (2011) define a reunião diária do Scrum
como um evento time-boxed a fim de sincronizar
as atividades da equipe e criar um plano para as
próximas 24 horas. Nessa reunião o trabalho é
inspecionado partindo-se da última reunião e
procura-se prever o trabalho que deverá ser
Conforme Barros (2010), até 2020 a
demanda por software crescerá 400%,
destacando a alta necessidade de preparação
tanto
governamental
quanto
na
profissionalização. Lembrando o objetivo da
metodologia ágil de desenvolvimento de
software citado por Demmer e Benefield (2007),
que se resume em obter resultados rápidos e
com qualidade, observa-se a necessidade de
obter o maior número de dados sobre projetos
correntes e concluídos, a fim de possuir um
banco com situações transpassadas e que
servirão como base para a rápida resolução de
situações futuras similares.
Diante deste cenário evolutivo, este
estudo de caso visa desenvolver uma aplicação
que efetue registros das reuniões diárias, ou seja,
Daily Scrum, através de atas digitais, fornecendo
um banco de dados de casos ocorridos, com
situações tratadas e ocorrências, bem como um
realizado até a próxima reunião tendo como foco
a resposta de cada membro da equipe e
desenvolvimento às seguintes questões: o que
foi feito desde a última reunião? O que será feito
até a próxima reunião? Quais os obstáculos que
estão no caminho?
controle nos registros de participações dos
membros, dando maior visualização sobre o que
cada um está fazendo e se realmente está
evoluindo em suas responsabilidades, firmando
uma das características do Scrum, que é a autoorganização da equipe.
Para Schwaber (2011) “A Equipe de
Desenvolvimento usa a Reunião Diária para
avaliar o progresso em direção ao objetivo da
Sprint e para avaliar se o progresso tende para
completar o trabalho do Backlog da Sprint. A
Reunião Diária aumenta a probabilidade da
Equipe de Desenvolvimento atingir o objetivo da
Sprint. A Equipe de Desenvolvimento
frequentemente se encontra imediatamente
3.1.
A Empresa
Para um processo de desenvolvimento e
teste da aplicação, foi escolhida uma empresa
em fase de crescimento, porém com planos de
expansão e organização de suas atividades,
visando aumento de suas fronteiras comerciais
com qualidade e baixo custo; pontos cruciais
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
275
para o estabelecimento do Scrum como
framework.
Estabelecida em 2002, com sede em
atividade a qual será aplicado. Assim, para
futuras atualizações, pode-se observar novas
necessidades e recursos.
Socorro, estado de São Paulo, conta com 13
profissionais diretos e 4 freelancers, possui como
A implantação deste sistema de
registros, em sua fase teste, contou com grandes
atividade principal
aplicações para TI.
de
evoluções em termos de envolvimento da equipe
e interação entre os membros, uma vez que a
Atualmente a empresa conta com
alguns contratos fechados para desenvolvimento
aplicação está disponível para todos a qualquer
momento para consultas. Os membros podem
de aplicações para gerenciamento em seis
empresas de São Paulo e Bragança Paulista,
onde foi efetuada a indicação do sistema de
registro de reuniões, base deste estudo de caso,
para um dos projetos que demanda maior
número de membros.
ainda acompanhar quando será a próxima
reunião através de uma agenda desenvolvida
para melhor organizar e registrar os dados
através do usuário, que por hierarquia, deve ser o
Scrum Master ou algum membro escolhido no
inicia do Sprint para liderar e reger as reuniões.
Para validar este artigo com a implantação deste
método organizacional pretende-se alcançar em
sua evolução e posteriores compilações os
seguintes objetivos:
- Registro frequente das reuniões diárias
a fim de obter dados importantes para estudo de
casos futuros que possam ocorrer e obtenha
similaridade;
- Maior frequência dos membros nas
reuniões, uma vez que a fiscalização por parte
dos membros será mais efetiva e observada com
maior facilidade através de relatórios que serão
desenvolvidos para tais fins;
- Acompanhamento dos prazos para
conclusão do Sprint corrente e melhor mensurar
o status do projeto, melhorando a visão dos
3.2.
o
desenvolvimento
Problema identificado
Com os avanços tecnológicos e o
aumento da demanda de softwares para gestão,
a empresa teve que adotar uma metodologia de
trabalho, framework, que objetivasse a
organização nos processos de desenvolvimento,
mantendo uma linha de produção ativa,
sincronizada e com interação entre os clientes,
os desenvolvedores e o produto final.
Como alguns clientes demandam
softwares específicos, necessitam assim de
personalizações, porém alguns projetos
esbarravam em demoras em entregas de pontos
prontos para utilização, obtendo retornos
negativos por parte do cliente e com relação à
demora. Estudou-se então o método Scrum, que
em descrição teórica supre as necessidades da
empresa.
Estruturação dos dados e
membros sobre o que ainda deve ser feito;
- Diminuir o tempo nas tomadas de
decisões através de casos ocorridos;
- Aumentar a interatividade entre os
membros da equipe, uma vez que o sistema
pode ser acessado via dispositivos móveis e
Para conceituar e estruturar a aplicação
pode-se elaborar uma coleta inicial de requisitos
com base nas bibliografias citadas neste artigo,
contando com estudo detalhado de futuras
necessidades subjetivando os dados que possam
ser necessários para se obter informações
concretas e com grande valia ao ramo de
computadores que apenas possuam internet e
navegadores;
Disponibilidade
imediata
das
ocorrências registradas nas reuniões, tendo em
vista que possíveis faltas podem ocorrer e o
membro poderá, da mesma forma, estar
inteirado aos fatos;
- Controlar a mensuração de prazos
futuros, uma vez que os dados obtidos
3.3.
Implantação
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276
diariamente podem servir de controle sobre a
conclusão dos Sprints;
- Obter registro de visitantes das
obedeçam à necessidade de preenchimento ou
validações estabelecidas através do estudo de
requisitos, nada acontecerá mantendo a
reuniões, controlando os direitos autorais e
méritos dos membros efetivos da equipe.
integridade das informações que possam ser
requisitadas futuramente.
3.4.
Tecnologias
e
linguagens
A
linguagem
utilizada
no
desenvolvimento do banco de dados é o SQL
utilizadas
Firebird. A interface com o usuário possui
desenvolvimento em PHP e mecanismo de
As tecnologias utilizadas possuem base
sólida no desenvolvimento de software atual,
dando base sólida para os dados e acesso
multiplataforma, ou seja, pode ser acessado
através de qualquer sistema operacional e até
por dispositivos móveis como telefones
celulares. Com a maior acessibilidade ao sistema
de registro de atas, o registro do Daily Scrum
pode ser realizado no ato das discussões, sem
limitação de equipamento. Todos os processos
de registros foram estabelecidos e estruturados
para acontecerem no banco de dados através de
procedimentos automáticos e dependentes
conhecidos como Stored Procedures. Tal
tecnologia garante os registros com sucesso e
caso haja problemas ou dados que não
pesquisa otimizada em Ajax responsável por
facilitar a localização de cadastros trocando o
uso de listas de registros cadastrados pela busca
efetiva por qualquer campo ou sequência de
letras dos cadastros efetuados. Na figura 2 podese observar um exemplo de Stored Procedure em
SQL Firebird e, na figura 3, pode-se observar a
interface com o usuário desenvolvido em PHP
estando em foco o mecanismo de pesquisa Ajax.
A figura 4 mostra os dados e mais algumas
tecnologias utilizadas para maior qualidade
visual do sistema, porém sem grande
necessidade para a resolução e conclusão da
aplicação deste estudo de caso. A figura 5
apresenta as tabelas presentes no banco de
dados.
Figura 2. Stored Procedure em SQL Firebird. Fonte: eleborada pelo autor.
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Figura 3. Interface com o usuário em linguagem PHP e mecanismo de busca em Ajax. Fonte: eleborada
pelo autor.
Figura 4. Dados técnicos da aplicação desenvolvida. Fonte: eleborada pelo autor.
Figura 5. Tabelas básicas utilizadas no Banco de Dados. Fonte: eleborada pelo autor.
Com a implantação de tal procedimento
de registro das reuniões, obtêm-se informações
importantes para usos futuros agilizando a
resolução de
problemas
ou
métodos
procedimentais utilizados no desenvolvimento
do produto do Sprint Backlog. Ainda podemos
monitorar a frequência dos membros da equipe,
uma vez que são registrados os requisitos
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
278
estabelecidos pelo Scrum para o Daily Scrum,
que vem a ser obter o que foi feito desde a última
reunião, o que será feito até a próxima reunião e
conhecimentos cooperando para a diminuição
na tomada de decisões pela qual já tenham sido
transpassadas e efetivamente cadastradas em
quais os obstáculos que poderão existir.
Havendo registro destes requisitos, o membro
casos passados de desenvolvimento. Para
auxiliar a implantação e a melhor e rápida
está ativo e participante, tendo um registro
completo dos desenvolvimentos de cada
aprendizagem dos usuários, foi realizada a
modelagem de um tutorial explicativo
membro, participação, cooperação e resolução
de problemas na forma de base de
legendado, como se pode observar na figura 6.
.
Figura 6 – Tutorial filmado e legendado desenvolvido para melhor compreensão de todas as funções do
sistema. Fonte: eleborada pelo autor.
Nos apêndices deste artigo podem ser
visualizadas as principais janelas da interface
com o usuário, inclusive a janela de
agendamentos de reuniões e janela de auditoria,
Para um primeiro momento do estudo
de caso, foi tomado o cuidado de elaborar uma
ferramenta que pudesse ser implantada sem
melhorando o acompanhamento de acessos e
otimizando possíveis relatos de participações e
envolvimento dos membros da equipe.
Tomou-se o cuidado de obter um
produto final sem burocracias em demasia,
garantindo o preenchimento correto. Com a
aplicação do tutorial e o registro sendo realizado
em conjunto com os membros da equipe, o
procedimento de registro pode tornar-se
rotineiro e sem resistência. Porém, deve-se
observar a qualidade dos relatos obtidos, dando
maior ênfase na possibilidade e pontualidade da
resistência, uma vez que o Daily Scrum possui
como característica ser breve, com durabilidade
em torno de 15 a 30 minutos, além de ser
realizado sem acomodações, em pé, dificultando
a presença de aparelhos que facilitem a
implantação de qualquer tipo de sistema de
captura de informações. A escolha de uma
linguagem que funcionasse em navegadores de
internet e que pudesse conter banco de dados
em servidores internos ou internos com acesso
via internet, possui como base a grande presença
de aparelhos móveis como celulares e tablets em
resolução dos pontos levantados em pauta nas
últimas reuniões.
qualquer ambiente social, além de ocorrer
grande incidência de internet móvel ou redes
wireless que disponibilizem qualquer tipo de
conexão de rede.
4. Discussão
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
279
Visando maior sucesso deste estudo,
reduzindo qualquer tipo de resistência na
implantação da ferramenta desenvolvida, foi
conhecimentos para resolução de problemáticas
futuras. Por estar em fase inicial de utilização em
teste piloto, a proposta do Scrum, que tem base
desenvolvido um tutorial filmado e legendado de
15 minutos, aumentando a qualidade na inclusão
na ideia de equipes auto-organizáveis,
demonstra aceitação e estimula o aumento na
do sistema nos procedimentos habituais das
reuniões sem interrupções ou aumento no
frequência de todos os membros da equipe, uma
vez que o sistema oferece recurso de auditoria,
tempo da mesma. Não havendo resistência na
implantação,
há
um
aumento
na
além de um registro de presenças para os
membros que devam estar no Daily Scrum em
cooperatividade dos membros da equipe,
despertando o grande auxílio que um banco de
dados de casos ocorridos e que sirva de banco de
evidência possibilitando ainda o registro de
possíveis visitantes, como mostra a figura 7.
Figura 7. Tela de manutenção de Dailys Scrum. Fonte: elaborada pelo autor.
Conforme demonstra a figura 7, pode-se
observar a flexibilidade e organização com que o
sistema pode capturar os dados, dando ênfase às
abas organizacionais, setorizando a entrada de
dados por Objetivos do Dia, Pontos Positivos,
prazo, com o menor custo e com a maior
qualidade. Futuramente, tal ferramenta pode
partir para possíveis vínculos com sites, a fim de
facilitar o acompanhamento dos clientes frente
ao status do produto, bem como o
Pontos Negativos e a Ata universal, onde pode
ocorrer a descrição detalhada das pautas
discutidas. A captura de tais informações pode,
seguramente, colaborar na evolução de Sprints
sem grandes eventualidades, tendo em vista o
banco de conhecimentos adquirido e
desenvolvimento de aplicações que formatem
uma espécie de rede social da equipe,
aumentando a integração e a discussão iniciada
no Daily Scrum, auxiliando a auto-organização,
demonstração de participações, troca de
informações e alertas de possíveis problemas e
devidamente cadastrado, a mensuração do
tempo decorrido em casos similares, o que pode
colaborar para o objetivo de qualquer projeto,
que vem a ser concluir o produto dentro do
que possam ser identificados e sanados pela
equipe em um todo.
Dos pontos mostrados neste artigo, é
razoável afirmar que o software desenvolvido e
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280
proposto se mostra uma alternativa atraente às
empresas que desejam implantar o método
Scrum como framework estrutural, em especial
puderam ser realizados mais facilmente, não
necessitando de equipamentos específicos como
computadores ou notebooks.
no desenvolvimento de software, porém
podendo ser implantado em qualquer tipo de
Podem-se observar através do registro
de atividades no sistema, maiores consultas aos
ramo de atividade onde existam equipes que
necessitem atingir um mesmo objetivo. Desta
registros, reforçando o trabalho a ser realizado,
evitando dúvidas e aumentando a cobrança
forma, foi possível ilustrar o potencial atual e
futuro deste novo produto que possui grande
entre os membros da equipe a fim de solucionar
ou concluir as atividades registradas no Daily
diferenciação em um tema muito utilizado e com
poucas referências e estudos, que vem a ser o
Scrum.
Scrum. Contudo, torna-se indispensável, com a
evolução tecnológica, o estudo apresentado
neste artigo para que se obtenha o máximo de
cada membro, cada responsabilidade e, o mais
importante, produtos de qualidade, baixo custo
e dentro dos prazos estipulados.
5. Conclusão
O Scrum vem sendo muito aplicado no
mercado de desenvolvimento de projetos de
software ou qualquer tipo de atividade que
envolva equipes de trabalho focadas em um
mesmo objetivo. Através do método Scrum, em
especial nos desenvolvimentos de aplicações
computacionais, as equipes são constantemente
focadas no objetivo, contando muito com as
reuniões diárias chamadas Daily Scrum e que são
muito importantes para que o método obtenha
sucesso ao seu final.
Com este artigo busca-se utilizar
ferramentas tecnológicas para tornar o Daily
Scrum em mais que apenas uma reunião diária
para direcionamento, mas também obter
controles
de
participações,
mensurar
envolvimentos dos membros, obter um banco de
dados com casos resolvidos para consultas
futuras diminuindo a tomada de decisões
baseando-se em casos reais bem sucedidos; mas
além destas características, podemos obter uma
interação entre os membros através de recursos
que possam, futuramente, serem agregados à
aplicação, como uma rede social das equipes
gerando possíveis fóruns de discussões. No ato
da implantação, mesmo que em fase de testes,
pode-se observar aumento das participações no
Daily Scrum e maior efetividade em registrar
cada evento ocorrido, anseios e problemas
resolvidos e pendentes. Contando com o
aumento de dispositivos móveis, os registros
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https://www.ibm.com/developerworks/communi
ty/blogs/rationalbrasil/entry/scrum_basicamente
14?lang=en. Acesso em 20 dez. 2013.
APÊNDICE
APÊNDICE A – Tela de acesso ao sistema. Fonte: elaborada pelo autor.
APÊNDICE B – Área Principal do Sistema Contendo os Menus à Esquerda. Fonte: elaborada pelo autor.
APÊNDICE C – Filtros usados pelo sistema. Fonte: elaborada pelo autor.
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282
APÊNDICE F – À esquerda tabelas principais para cadastro e à direita uma listagem contendo os
productowners cadastrados. Fonte: elaborada pelo autor.
APÊNDICE G – Relatório disponível para impressão contendo um breve resumo dos vínculos stakeholders –
função – projeto. Fonte: elaborada pelo autor.
APÊNDICE H – Tela contendo a agenda dos sprints cadastrados, onde se pode efetuar manutenções ou o
registro das pautas da reunião apenas clicando duas vezes sobre a data desejada. Fonte: elaborada pelo
autor.
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283
APÊNDICE I – Janela de manutenção e registro da agenda, que pode ser acessado como descrito no
apêndice h. Fonte: elaborada pelo autor.
APÊNDICE J – Tela onde é efetivamente registrada a daily scrum. Fonte: elaborada pelo autor.
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SÍNDROME DA ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO EM CÃES E A INFLUÊNCIA DOS SENTIMENTOS
HUMANOS NO DESENVOLVIMENTO DA SÍNDROME E AGRAVAMENTO DOS SINTOMAS
SEPARATION ANXIETY SYNDROME IN DOGS AND INFLUENCE OF HUMAN FEELING IN THE
DEVELOPMENT OF SYNDROME AND ESCALATION OF SYMPTOMS IN ANIMALS
Juliana Dias PEREIRA¹, Tania Murari MATTEUCI²
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo caracterizar a Síndrome de Ansiedade de Separação (SAS) em cães a
partir do entendimento de como as emoções humanas podem interferir no comportamento dos cães de
companhia. Para tanto, foi aplicado um questionário enviado pela internet pelo aplicativo Google Drive a
108 proprietários de cães, foi possível mapear importantes aspectos da personalidade do dono e do cão,
além de sinais clínicos da SAS como vocalização excessiva, destruição de objetos, defecação e micção em
locais impróprios. A análise dos dados permitiu concluir que existe, na atualidade, por diversas razões, um
antropomorfismo exacerbado direcionado aos cães, mediado pela necessidade humana em preencher um
vazio emocional, depositando no cão uma projeção afetiva inconsciente, inibindo o desenvolvimento do
comportamento natural do cão, levando o animal a desenvolver ou intensificar a Síndrome de Ansiedade
de Separação. Assim, existe a real necessidade da realização de um autoconhecimento por parte do dono,
de sua dinâmica psicológica-comportamental para que possa compreender como de fato possa ser um
intensificador da SAS no seu cão.
Palavras-chave: Ansiedade; Cães; Comportamento.
ABSTRACT
This study aimed to characterize the syndrome Separation Anxiety (SAS) in dogs from an understanding of
how human emotions can interfere with the behavior of companion dogs. To this end, a questionnaire was
sent by the internet by Google Drive application to 108 dog owners allowed us to map important aspects of
the personality of the owner and the dog, in addition to clinical signs of SAS as excessive vocalization,
destruction of objects, defecation and urination in inappropriate places. Data analysis showed that there is,
at present, for various reasons, an exaggerated anthropomorphism directed to dogs, mediated by the
human need to fill an emotional void, depositing the dog unconscious affective projection, inhibiting the
development of natural dog behavior, taking the animal to develop or enhance Separation Anxiety
Syndrome. Thus, there is a real need to conduct a self-knowledge by the owner, his psychologicalbehavioral dynamics so you can understand how in fact can be an intensifier of SAS in your dog.
Keywords: Anxiety; Dogs; Behavior.
*******
1
Medicina Veterinária, Faculdade de Jaguariúna – FAJ – SP. E-mail: [email protected]
2
Medicina Veterinária, Faculdade de Jaguariúna – FAJ – SP.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
286
Introdução
O estudo da Síndrome de Ansiedade de
alguma carência emocional do proprietário e não
de fato própria do animal. Diante deste quadro,
muitos cães têm apresentado problemas
Separação (SAS) em cães tem ganhado grande
importância entre os cuidadores, médicos
comportamentais, nem sempre corretamente
diagnosticados (CASTILLO, et al., 2000;
veterinários e pesquisadores do comportamento
animal (BEAVER, 2001; SCHWARTZ, 2003;
SCHWARTZ, 2003; LANTZMAN, 2007;).
A emoção, natureza e sensibilidade do
TELHADO, 2007; SOARES; PEREIRA; PAIXÃO,
2010). Vários são os fatores que se correlacionam
animal compõem um sistema de inteligência em
rede, sendo que seu comportamento e
com o desenvolvimento da SAS nos cães, dentre
os quais merece destaque a dinâmica de vida dos
proprietários frente às demandas da sociedade
moderna e sua relação afetiva com o animal, que
tem a cada dia, um menor tempo de convivência,
em contraste com uma maior dependência
emocional do homem em relação ao cão
(LANTZMAN, 2007; SCHWARTZ, 2003).
Inserida
na
cultura
“self”
e
sobrecarregada de demandas sociais e
profissionais, o homem tem assumido um novo
estilo de vida que geram inúmeras circunstâncias
de desgaste físico e emocional (BEHAN, 2012;
PEREIRA, 2012) ao longo dos anos. Em
momentos como esses, muitos indivíduos
buscam por uma “v|lvula de escape” que
reprima os sentimentos de solidão e carência
vinculados à redução da vida social e acabam por
adquirir um animal de estimação (BEAVER, 2001;
BEKOFF, 2010). Esse animal, na maioria dos
casos o cão, acaba por se tornar a companhia
fundamental dos proprietários, que fazem dos
personalidade são uma manifestação e
expressão de emoções e sentimentos que ele
recebe daqueles aos quais está ligado, sendo um
reflexo da dinâmica emocional do dono, como
um princípio da física, ou seja, os cães são
alimentados por um sistema de energia que
oscila em seu eixo (BEKOFF, 2010; BEHAN,
2012).
Dessa forma, no que diz respeito à interrelação
emocional
homem-cão,
faz-se
necessário conhecer a vida emocional dos cães
com maior profundidade tanto quanto se
conhece ou tenta conhecer a dos seres humanos,
compreendendo que os cães demonstram seu
emocional
através
de
comportamentos
previamente aprendidos, pois somente assim, a
SAS poderá ser realmente compreendida em sua
essência, e o proprietário por sua vez,
compreender melhor a si mesmo e tomar
consciência do tamanho da projeção
inconsciente que faz sobre seu animal,
entendendo que suas questões pessoais devem
animais o centro de suas atenções e conforto
emocional.
Na grande maioria dos casos, essa
atitude de acolhimento e entrega emocional que
o proprietário tem para com o cão é algo que se
desenvolve inconscientemente (TELHADO, et
ser resolvidas para que a vida emocional de seu
cão possa ser a mais sadia possível (PEREIRA,
2012).
Tendo em vista que o estudo do
comportamento dos cães e da correlação
emocional existente entre o animal e seu
al., 2004; BEKOFF, 2010; BEHAN, 2012;
PEREIRA, 2012), sempre na tentativa de
preencher algum espaço emocional, ainda que
pareça, à primeira vista, apenas um ato de
carinho com o animal. Os cães, por sua vez, em
um reflexo estereotipado, demonstram atitudes
semelhantes aos donos, ou seja, transparecem
as necessidades psíquicas dos proprietários
como se fossem suas, passando a compensar
proprietário pode fornecer subsídios para a
compreensão de como se desenvolve a SAS em
cães, este trabalho objetivou identificar cães
portadores da SAS e buscar, através da avaliação
do comportamento emocional de seus
proprietários, possíveis fatores que estejam
relacionados com o desenvolvimento da
síndrome.
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Metodologia
No período de março a junho de 2014,
projeto, informações sobre a SAS e como evitála.
Composto por questões indiretas que
foram enviados a 108 pessoas por meio de redes
sociais como o FACEBOOK, o convite para
envolvem respostas inconscientes, sem indução
tendenciosa, o questionário adaptado foi
participar de forma voluntária desta pesquisa
através do preenchimento via online, por meio
dirigido
à
identificação
de
traços
comportamentais da personalidade humana,
do aplicativo Google Drive, de um questionário
comportamental adaptado do QI-SASA (Quadro
através da observação de emoções, hábitos,
atitudes dos proprietários que podem estar
1), teste desenvolvido e validado pela Clínica
médica da Faculdade Unicastelo, para a
avaliação da síndrome de ansiedade de
separação em cães. Todos os convidados foram
informados sobre o objetivo da pesquisa, de que
seus dados não seriam revelados e de que, após
a participação, todos iriam receber, ao final do
correlacionados ao desenvolvimento da SAS em
seus cães.
O único critério de seleção para
participar da pesquisa correspondeu à
necessidade de ter um ou mais cães como animal
de estimação, independentemente de idade,
sexo, raça e outros fatores.
QUADRO 1: Questões para título de pesquisa orientado para trabalho de conclusão de curso (TCC)
de Medicina Veterinária da Faculdade de Jaguariúna. Objetivo de identificar nos cães aspectos sobre a
SAS, assim como características de perfis de proprietários, de modo a elucidar o desenvolvimento dessa
Síndrome em cães. As questões são direcionadas ao proprietário (pessoal) e sobre o seu cão, na qual o
proprietário não precisa se identificar.
Sexo do proprietário (a)
Estado civil
Onde mora?
Qual a sua idade?
Tem filhos (as)?
Se sim, vivem com você?
Quantas pessoas vivem na casa?
Tem outro animal de estimação além do cão?
Qual a espécie?
Já possuiu outro animal de estimação anteriormente?
Você (proprietário) pratica alguma atividade física?
Se sim, qual atividade física?
Com que frequência pratica atividade física?
Costuma receber amigos ou família em casa? Com que frequência?
Costuma ter vida social?
Por que decidiu adquirir o animal?
Onde o animal foi adquirido?
Sabe se possui irmãos de ninhada?
Quanto tempo o animal tinha quando você o adquiriu?
Costuma comprar muitos presentes para o cão?
Qual é a frequência que compra presentes para o cão?
Qual o tipo de presente que compra para o cão?
Quem manda na casa (tem autoridade) sobre o cão?
Em qual ocasião você oferece petiscos ou agrados para o cão?
Como você se sente quando percebe que o cão sente a sua falta?
Quando você chega à casa, como é recebido pelo seu cão?
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288
Você e seu cão mudaram de casa desde que o adquiriu?
Filhos ou parentes que moravam com você e seu cão faleceram ou se mudaram?
Qual emoção você acha que seu animal transmite com maior frequência?
Dados específicos sobre o animal
Sexo do cão
Idade do cão
Cão é castrado (a)
Se castrado (a), mudou o comportamento depois da castração?
O comportamento mudou de qual forma?
Qual a personalidade do animal?
Qual o tipo de alimento que o animal consome?
Com qual frequência é alimentado?
Onde o animal costuma dormir?
Atividades diárias e rotina do animal
Faz algum exercício físico?
Qual é a frequência que pratica a atividade física?
Qual é a duração dessa atividade física?
Qual o tipo de brincadeira o cão mais gosta?
Quando o animal faz algo errado, como é feita a sua punição?
Comportamento do animal
Quanto tempo ele fica sozinho por dia?
Apresenta comportamento destrutivo?
Quais objetos são normalmente destruídos pelo animal?
Esse comportamento ocorre quando o dono está presente (em casa)?
Esse comportamento ocorre quando o dono está ausente?
Existe reclamação por parte dos vizinhos sobre o comportamento do cão como uivos e latidos?
Animal apresenta micção (fazer xixi) em local impróprio?
Se sim, faz xixi no local errado quando o dono está presente?
Faz xixi no local errado quando o dono está ausente?
Animal defeca em local impróprio?
Se sim, faz isso quando o dono está presente?
Se sim, faz isso quando o dono está ausente?
O cão costuma acompanhar o dono por todos os cantos da casa?
Cão apresenta vômitos na ausência do dono?
Animal apresenta depressão na ausência do dono?
Todos os resultados obtidos foram
avaliados através de gráficos e cálculos de
porcentagens capazes de correlacionar os dados
Com relação à origem dos dados, houve
uma grande amplitude de regiões do Brasil
avaliadas, uma vez que o estudo não se limitou a
comportamentais dos animais com os traços
comportamentais dos proprietários.
nenhuma localidade específica, minimizando
assim a ocorrência de falácia em função das
diferentes culturas regionais. Assim, de forma
imparcial,
como
resultados,
algumas
informações se mostram essenciais através da
observação do comportamento de forma tão
Resultados e Discussão
Ao final do estudo, foram obtidos 108
questionários de voluntários interessados,
abrangendo donos de cães, machos e fêmeas,
que apresentavam ou não as queixas referentes
à SAS.
objetiva quanto possível, isenta de ideias
preconcebidas (FREUD, 1995; CASTILLO, 2000;
RIBAS; MOURA, 2004).
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
289
Para isso, faz-se necessário que o
médico veterinário esteja a par dessas
informações fundamentais a respeito do
tipo de relação social que um animal
estabelecerá com os outros animais e com o seu
proprietário. Quando ainda filhote, vários
comportamento canino e humano de modo a
poder intervir de forma assertiva e significativa
eventos podem levar ao desenvolvimento da
ansiedade de separação. Um deles é ter sido
na promoção do bem-estar dos cães e dos
proprietários. Os resultados obtidos encontram-
tirado da mãe muito jovem, não ter tido contato
suficiente
com
irmãos
de
ninhada,
se descritos nas Tabelas 1 a 5.
Dos 108 voluntários, 77% (80) foram do
amamentação interrompida antes do tempo
correto, mudança súbita de ambiente na qual
sexo feminino, 52% (57) casadas, 36% (39) com
idade entre 25 e 35 anos, 53% (58) possuem
filhos e destes 39% (42) ainda estão convivendo
na mesma casa.
Na maioria das sociedades, a mãe é
responsável pelos cuidados com a criança
estabelecendo as bases para os futuros
relacionamentos
com
outras
pessoas
(MANNING, 1994). A responsividade materna
tem sido considerada como um elemento central
para a compreensão do desenvolvimento infantil
através das relações maternas de apego em
diferentes aspectos (RIBAS; MOURA, 2004) que
se constitui numa clara função biológica de
sobrevivência da espécie e teria se consolidado
no ambiente evolucionário de adaptação, sendo
especificamente efetivo por mulheres na sua
relação mãe-bebê. Isso poderia justificar a
maioria das respostas terem sido apresentadas
por mulheres, com idade mediana e com filhos,
que se preocupariam em manter, da melhor
forma possível, a sua prole, incluindo seus
estava acostumado, entre outros (LANTZMAN,
2007; PEREIRA, 2012).
Os primeiros dias e semanas após o
nascimento constituem um período fundamental
para o estabelecimento de uma ligação afetiva
sadia e reconhecimento entre a mãe e o seu
bebê humano/filhote (LANTZMAN, 2007;
BEKOFF, 2010). A amamentação influi no
desenvolvimento físico e emocional (BEHAN,
2012), e quando é interrompida antes que surjam
outros vínculos de prazer que permitam suportar
a frustração, o sentimento que fica é de carência
e para preencher essa falta, tanto os humanos
quanto os cães passam a buscar relações onde as
pessoas sejam sempre um oferecedor de prazer.
Assim, pode-se supor que a manifestação da
SAS possa estar relacionada com esse
distanciamento físico e na amamentação do
filhote da mãe e irmãos de ninhada antes de um
período sadio de sociabilização, (LANTZMAN,
2007) como também, relacionada a fatores de
frustração da primeira infância dos donos,
animais (FREUD, 1995).
Com relação ao convívio primário dos
cães, 69% (74) deles tinham irmãos de ninhada.
Desses, 50% (54) foram retirados do convívio dos
irmãos antes dos 45 dias de nascimento.
Quanto à origem da Síndrome de
buscando, esses, suprirem a fonte de carência
através da relação estabelecida com seus
animais (FREUD, 1995; MOSS, 1995; SEGATA,
2012).
Dos proprietários, 66% (71) adquiriram
seus cães como forma de companhia, mesmo
Ansiedade de Separação em animais não se sabe
ao certo, porém de acordo com Lantzman
(2007), o período de sociabilização determina o
52% (56) destes já possuindo outro animal de
estimação, como mostra o gráfico 1.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
290
Gráfico 1. Porcentagem de Proprietários
Adquirir mais que um cão de companhia
intensifica a hipótese de que a ansiedade do
dono que foi desenvolvida ao longo do tempo
possua uma válvula de escape (MILLAN, 2007)
que é preenchida no convívio com mais de um
cão, mais de uma companhia. O fruto dessa
relação amenizaria uma ansiedade latente do
dono e supriria a necessidade de atenção do
animal, ao mesmo tempo (RIBAS; MOURA,
2004; TELHADO, 2004), pois o cão demonstra o
afeto que o dono deseja reforçando, assim, o
desenvolvimento do comportamento ansioso
também no cão que passa a sentir-se bem
apenas com a presença do cuidador
excessivamente atencioso (BEHAN, 2012).
Do comportamento dos donos e cães,
66% (71) dos cães acompanham os donos por
todos os locais da casa, 55% (59) dos cães
apresentam depressão na ausência do dono,
22% (24) dos cães apresentam personalidade
ansiosa, segundo os donos, 72% (78) dos donos
dizem que a emoção que o cão transmite com
maior frequência é a alegria, 82% (89) dos donos
disseram que o cão sente alegria quando o dono
chega em casa, como mostra o gráfico 2.
Gráfico 2. Dados de Proprietários e Cães 1
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
291
O cão acompanhar o dono por todos os
cantos da casa demonstra comportamento
ansioso que se traduz em uma reação a uma
ou que dorme o tempo todo na ausência do dono
(SOARES; PEREIRA; PAIXÃO, 2010). Nesse
estudo, 55% dos cães foram definidos pelos
situação de perigo decorrente da natureza social
dos cães domesticados e do seu vínculo
donos como depressivos na ausência destes,
porém na presença do dono, 22% dos cães se
emocional com os humanos (BEAVER, 2001;
SCHWARTZ, 2003; TELHADO et al., 2004;
mostram ansiosos e 72% transmitem como
emoção principal a alegria. De acordo com esses
CARVALHO, 2007; LANTZMAN, 2007; NOVAIS;
LEMOS; FARIA JÚNIOR, 2010), sentindo-se, os
dados, existe uma dificuldade em estabelecer
uma diferenciação entre comportamento que
cães, mais seguros acompanhando seu cuidador
por todos os cantos (BEAVER, 2001;
LANTZMAN, 2007), assim como seus donos se
sentindo menos ansiosos ao perceberem que o
cão depende deles, (MILLAN, 2007; TELHADO,
2007; BEHAN, 2012), intensificando a relação da
teoria do apego (SIMPSON, 2000; RIBAS;
MOURA, 2004; ALTHAUSEN, 2006; BEHAN,
2012). O modo dos donos se relacionarem com
os cães substituindo-os por filhos, numa extrema
humanização (PEREIRA, 2012), não permitindo
que os cães possam expressar sua real natureza
herdada geneticamente faz com que seu
comportamento natural seja oprimido passando
a manifestar um comportamento ansioso e
inseguro de seguirem seus donos por todos os
locais (SOUZA, 2009; SEGATA, 2012). A
depressão em cães é definida pela inatividade
total do cão que não defeca, urina, se alimenta
denomina ansiedade, depressão e alegria,
podendo facilmente se confundirem no ponto de
vista dos donos (MILLAN, 2007), atrapalhando a
identificação da SAS (LANTZMAN, 2007). Assim,
cães que possuam a tendência de manifestarem
a SAS têm seu comportamento incentivado
pelas necessidades psicológicas de apego dos
donos (SEGATA, 2012).
De acordo com o gráfico 3, 44% (48) dos
donos se sentem felizes ao perceber que o cão
sentiu sua falta enquanto estava ausente, 60%
(65)
dos
donos
oferecem
petiscos
ocasionalmente aos cães, 73% (79) dos cães
apresentam comportamento destrutivo quando
o dono está ausente, 51% (55) dos cães
apresentam micção em local impróprio na
ausência dos donos, 67% (72) dos cães
apresentam defecação em local impróprio na
ausência dos donos.
Gráfico 3. Dados dos proprietários e cães 1.2
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
292
Uma condição considerada necessária
para a ocorrência da SAS é a hipervinculação
(SCHWARTZ, 2003; LANTZMAN, 2007), que se
trata da organização da rotina canina em torno
da figura de vínculo, havendo sinais de ansiedade
ou desconforto sempre que essa figura se afasta
(SCHWARTZ, 2003). Ela pode ser reforçada
involuntariamente pelo proprietário quando não
dão aos cães a oportunidade de aprender a lidar
com o tempo longe de seus donos. Esse tipo de
relação torna-se um incentivador no surgimento
da SAS e também um complicador para o
tratamento desta a partir do momento em que a
característica do vínculo é desejável pelo
proprietário (SCHWARTZ, 2003) na qual se
mostra mais satisfeito quando o cão apresenta
maior apego (TELHADO, 2007). Assim, quando o
dono assume que fica feliz ao perceber que o cão
sentiu a sua falta, pode influenciar
negativamente ao tratamento do cão, pois se o
animal passar a não apresentar mais os sintomas
que satisfazem o psicológico do dono, a relação
perde o sentido (FERREIRA, 1998; TARUME,
2004).
Oferecer petiscos ocasionalmente ao
cão como demonstração de afeto, sem que
tenha havido qualquer merecimento por parte
do animal, pode ser interpretado como que
alimentando um sentimento de apego para que
este permaneça. Os donos, na verdade, estão
alimentando a si próprios, aos seus próprios
sentimentos (MILLAN, 2007), lembrando o cão o
quanto ele é amado, temendo perder a
reciprocidade que o cão afetivamente o oferece
(FERREIRA, 1998). Isso confunde o animal, pois
recebe o petisco em qualquer ocasião, não
importando se fez algo correto que deva ser
repetido ou algo errado (TARUME, 2004;
MILLAN, 2007; SEGATA, 2012).
Comportamento destrutivo dos cães,
micção e defecação em local impróprio que são
sinais da SAS junto a outros, num conjunto
maior, são vistos em alta frequência quando os
donos estão ausentes (SCHWARTZ, 2003;
LANTZMAN, 2007). A apresentação desses
comportamentos impróprios faz com que a
atenção do dono se volte para o cão
(LANTZMAN, 2007) e ambos, cão e dono,
acabam ativando mecanismos de proximidade
(BEHAN, 2012), alimentando o sentimento de
satisfação inconsciente no dono em verificar que
tem utilidade na vida do cão através do cuidar
(TARUME, 2004; SEGATA, 2012;), intensificando
o ciclo de comportamento inadequado. O cão
passa a ser um canal de ligação emocional e
afetiva através do qual os sentimentos humanos
podem ser atribuídos e retribuídos como a um
espelho (ALTHAUSEN, 2006; BEHAN, 2012;
SEGATA, 2012).
Em relação à prática de atividade física,
68% (73) dos donos a praticam, destes, 41% (44)
realizam a prática da musculação; 55% (59) dos
cães praticam atividade física, destes, 54% (58)
praticam uma vez ao dia, 41% (44) com duração
máxima de 30 minutos e 78% (84) com a
atividade de pegar objetos e correr, como
mostra o gráfico 4.
Gráfico 4. Dados de proprietários e cães 1.3
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
293
Esses dados mostram que a prática de
musculação pelos donos como atividade física é
algo que não pode incluir o animal, reduzindo um
realmente gastasse sua energia contida, focando
sua atenção ao comportamento de matilha de
um cão (MILLAN, 2007). Isso auxiliaria na
tempo que poderia ser mais bem aproveitado
por ambos. A atividade física dos cães existe, na
diminuição da ansiedade, uma vez que leva o
corpo a um estado de exaustão natural
maioria praticada uma vez ao dia por 30 minutos,
porém
possa
estar
sendo
realizada
(SCHWARTZ, 2003).
De acordo com o gráfico 5, 65% (70) dos
ineficientemente no intuito de diminuição da
ansiedade, pois o ideal seriam caminhadas e até
donos disseram que são eles que exercem o
domínio na casa, porém, 60% (65) destes
mesmo corridas longas com o cão
rotineiramente (RIBAS; MOURA, 2004; BEHAN,
2012), em vez de pegar objetos e correr. A
atividade física deveria fazer com que ele
oferecem petiscos aos cães ocasionalmente, 51%
(55) compram presentes semanalmente, 82%
(89) dos donos são recebidos com alegria pelos
cães, com muitos pulos.
Gráfico 5. Porcentagem de dados dos proprietários
Esses dados mostram a incongruência
do dono seja diferente (SCHWARTZ, 2003). Essa
entre pensar ser e realmente ser líder do cão,
demonstrando que o cão é quem está exercendo
o domínio da relação (MILLAN, 2007) e
refletindo exatamente aquilo que o dono deseja
(BEHAN, 2012). Oferecer petiscos sem que haja
um contexto para o recebimento, assim como
humanização e reforço comportamental por
parte do dono estimulam e contribuem para o
desenvolvimento da SAS (LANTZMAN, 2007;
SEGATA, 2012).
comprar presentes demasiadamente, serem
recebidos com alegria excessiva e incentivarem
esse comportamento, mostra que o dono
estimula
um
comportamento
ansioso
presenteando a atitude do cão, identificando que
o animal é o seu líder (MILLAN, 2007). Essa
dinâmica inconsciente indica ao animal que ele
está agindo da maneira correta e que deve
permanecer dessa forma, mesmo que o discurso
Conclusão
Diante da análise dos dados, pode-se
concluir que na atualidade há a necessidade
psicológica humana inconsciente em estabelecer
relações permeadas de afeto que são mais
claramente alcançadas com sucesso no convívio
com um cão, na tentativa de restabelecer a
sensação de um amor incondicional (BEHAN,
2012) que foi frustrado na primeira infância
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
294
(RIBAS; MOURA, 2004; TELHADO, et al., 2004;
BEHAN, 2012; BEKOFF, 2010; PEREIRA, 2012).
Devido a essa necessidade, o tipo de relação
estabelecida entre donos e cães, na qual ocorre
um antropomorfismo demasiado, culminam no
estabelecimento de alterações psicológicas e
comportamentais nos cães (BEHAN, 2012).
Portanto, existe a necessidade da ocorrência de
um autoconhecimento dos proprietários na
tentativa de compreender as bases da sua
dinâmica
psicológica-comportamental
(ALTHAUSEN, 2006; MILLAN, 2007; PEREIRA,
2012) na qual permeiam suas necessidades
afetivas e impulsos do self que são
influenciadores de todas as suas relações,
inclusive e especialmente com seus animais de
estimação (SEGATA, 2012). É necessário
também que ocorra um conhecimento mais
amplo da etologia dos cães (MILLAN, 2007;
BEKOFF, 2010; CARVALHO, 2012) para que a
compreensão do comportamento natural dos
cães possa ser mais bem compreendida e
respeitada, evitando, assim, diagnósticos falhos
quanto as alterações comportamentais. A
excessiva
humanização
canina
e
o
antropomorfismo exacerbado levam ao
desenvolvimento e/ou exacerbação dos sintomas
ansiosos nos cães, inibindo o comportamento
natural destes, portanto, um novo conceito
sobre a relação homem-cão deve ser analisado,
assim, diversas alterações comportamentais
contemporâneas como a SAS poderão ser
evitadas (SCHWARTZ, 2003; SIMPSON, 2000).
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Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
297
CARACTERIZAÇÃO DAS LESÕES DECORRENTES DO CICLISMO
CHARACTERIZATION OF INJURY ARISING FROM CYCLING
Giovani Arfelli de CASTILHO1, Rafael Martins MENDES2, Lucas Rissetti DELBIM3, Marcelo Studart
4
5
HUNGER , Cássio José Silva ALMEIDA , Anderson MARTELLI
6
RESUMO
Mesmo não sendo um esporte de contato, o ciclismo proporciona muitas possibilidades de lesão, sendo
por acidentes, movimentos repetitivos ou por regulagens mal realizadas no equipamento. Assim, esta
revisão busca identificar os principais locais de acometimento das lesões decorrentes do ciclismo,
incidência e condutas preventivas utilizadas por atletas e dirigentes, buscando uma metodologia de atingir
altos níveis de desempenho sem comprometer o rendimento saudável do atleta. Para a composição da
presente revisão foi realizado um levantamento bibliográfico de artigos científicos publicados entre 1998 a
2013 e adicionalmente a consulta de livros acadêmicos para complementação das informações sobre
lesões no ciclismo. Conclui-se que as principais áreas lesionadas encontram-se na região dorsal e lombar
dos atletas praticantes do ciclismo, muitas vezes a ponto de comprometer a carreira profissional do
ciclista.
Palavras-chave: Ciclismo; Lesões Ortopédicas; Lombalgia.
ABSTRACT
Even it’s not a contact sport, cycling provides plenty of possibilities of lesion caused by accidents, repetitive
motion, or mostly due to bad adjustments of the equipment. This work was conducted through a review of
published articles on the subject of injuries in cyclists, searching for information regarding to the incidence
of injuries in cycling, ways of involvement, and prevention methods used by athletes and officials,
searching for a methodology to achieve high levels of performance without compromising their health. It
aimed to identify preventive procedures, such as stretching, warming up and hydration and also to identify
the main areas of involvement of injuries. After reviewing these studies, it was found that the main areas of
lesions are in the dorsal and lumbar, often to the point of committing the career of the rider.
Keywords: Cycling, Orthopedic Injuries, Prevention, Lumbago.
*******
1
Graduado em Educação Física pela Faculdade Mogiana do Estado de São Paulo – FMG – SP.
2
Graduado em Educação Física pela Faculdade Mogiana do Estado de São Paulo – FMG – SP.
3
Mestre em Sustentabilidade e Qualidade de Vida. Docente do Curso de Educação Física da FMG Faculdade Mogiana do Estado de São Paulo – SP e Faculdade de Jaguariúna – SP.
4
Mestre em Performance Humana. Docente do Curso de Educação Física da FMG - Faculdade
Mogiana do Estado de São Paulo – SP.
5
Mestre em Sustentabilidade e Qualidade de Vida. Docente do Curso de Educação Física da UNIFAE
– São João da Boa Vista – SP.
6
Especialista em Laboratório Clínico - UNICAMP. Docente do Curso de Educação Física da FMG Faculdade Mogiana do Estado de São Paulo – SP. E-mail para correspondência: [email protected]
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
298
INTRODUÇÃO
Desde os tempos mais remotos, o
objetivos e superar seus concorrentes, o
posicionamento adequado sobre a bicicleta é
homem buscou meios para facilitar sua
permanência e transporte no planeta. Dentre
fundamental. Um ciclista que conseguir alcançar
esse posicionamento ideal será eficiente, forte,
muitas invenções que buscaram facilitar seu
deslocamento, a bicicleta a cada dia apresenta
confortável e potencialmente livre de lesões. Se
sentir confortável sobre a bicicleta é permitir que
inúmeras vantagens sobre os outros meios de
transportes e, como esses, sofreu diversas
o peso do ciclista seja distribuído entre o
assento, os pedais e o guidão, de forma que o
adaptações ao longo dos anos (SILVA &
OLIVEIRA, 2002).
O ciclismo está entre as atividades
esportivas com maior número de praticantes no
mundo, com substancial aumento nas últimas
décadas (ASPLUND & ROSS, 2010). Além de ser
utilizada em competições, a bicicleta teve sua
inserção entre os meios de locomoção por ser
um importante meio de transporte para milhões
de pessoas em diversas regiões do mundo
(MARTINS et al, 2007). De acordo com a Agência
Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a
bicicleta é diariamente usada por cerca de quatro
milhões de pessoas, e entre os anos de 1997 e
2008 houve um aumento de 189% no número de
bicicletas circulando nas ruas brasileiras
(KLEINPAUL et al., 2010).
Seja com a finalidade de competir ou
simplesmente por lazer, a bicicleta deve possuir
os ajustes na medida correta para o objetivo
pretendido, levando-se em consideração altura
de selim, posição de guidão e tamanho do
sistema esquelético apoie o peso do corpo, em
vez dos músculos das costas e dos braços
(KLEINPAUL et al.,2010).
Asplund e Ross (2010) afirmam que mais
de 49 milhões de norte americanos utilizam a
bicicleta mensalmente, dos quais mais de 5
milhões pedalam pelo menos vinte dias no mês.
No entanto, a prática do ciclismo, ou mesmo
como meio de transporte, muitas vezes é
prejudicada por lesões devido ao esforço
repetitivo, levando à diminuição da frequência
de seu uso (CLARSEN et al., 2010).
Muitas das lesões crônicas que
acometem os ciclistas são os resultados de um
ajuste incorreto da bicicleta ou de pouco tempo
de ajuste a uma nova posição. Assim, o ajuste
correto e o tempo ideal de adaptação a esses
novos ajustes ajudam a prevenir muitas lesões
(MARTINS et al., 2007).
Silva e Oliveira (2002), dizem que as
lesões no esporte e também nas diferentes
atividades físicas são divididas em típicas e
quadro (DIEFENTHAELER & VAZ, 2008),
favorecendo a redução dos riscos de lesões.
Segundo Kleinpaul et al. (2010) e Abbis
(2005), o ciclismo é considerado um esporte
complexo, com as competições divididas em
provas de pista e estrada, individuais e por
atípicas. As lesões típicas são aquelas mais
comuns a cada modalidade e as atípicas são
acidentais, ou seja, lesões que não são comuns a
uma dada modalidade. Podemos dividir as lesões
em
traumáticas,
que
ocorrem
em
acontecimentos imprevisíveis ou por excesso de
equipes. Dentre as diversas modalidades, temos
o ciclismo indoor ou Bike Indoor, que é a prática
do ciclismo em bicicletas estacionárias, realizado
geralmente em academias de ginástica, com fins
de melhor condicionamento do sistema
cardiovascular (AMBROGI, 1999; BARRY, 1999).
Para o ciclista de longas distâncias, que
busca o conforto para suportar horas em cima da
bicicleta e a performance para alcançar seus
uso repetitivo (RODRIGUES, 2012).
Durante a pedalada, há uma grande
exigência da musculatura postural, que ao ser
realizado de forma inadequada, pode causar
lesões ortopédicas e posturais. As lesões
características dos ciclistas possuem fatores
predisponentes intrínsecos e extrínsecos como
idade,
sexo,
alterações
biomecânicas,
desequilíbrios
musculares,
fraqueza
ou
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
299
encurtamento muscular, frouxidão ligamentar e
histórico de lesões. Os desequilíbrios musculares
podem ser gerados por sobrecarga durante a
critérios de elegibilidade foram estudos que
apresentassem dados sobre a incidência de
lesões na prática das diversas modalidades de
atividade gestual esportiva, posicionamento
inadequado na bicicleta, tipo de aquecimento
ciclismo, tipos de lesões, locais mais acometidos
e formas de prevenção preconizadas entre os
utilizado, excesso de treino ou pouca qualidade
técnica (ANDRADE et al., 2007).
anos de 1998 até o mais atual, 2013.
No ciclismo esportivo, a busca pelo alto
rendimento gera diversas preocupações, o que
LESÕES NO CICLISMO
leva a necessidade da pesquisa científica buscar
respostas para as alterações fisiológicas e
mecânicas decorrentes dessa prática (CARPES,
2005) a fim de evitar novas lesões.
A busca incansável por melhores
resultados leva atletas a utilizarem de
estratégias perigosas que acabam por colocar
em risco sua integridade física. Em relação aos
fatores descritos, o objetivo da presente revisão
é identificar os principais locais de
acometimento das lesões decorrentes do
ciclismo competitivo e de lazer, com
apresentação do nexo causal de algumas lesões
observadas nesta prática esportiva, incidência e
condutas preventivas utilizadas por atletas e
dirigentes, buscando uma metodologia para
atingir altos níveis de desempenho sem
comprometer o rendimento saudável do atleta.
Para a composição da presente revisão
O fator indireto mais indesejado por um
treinador durante um ciclo de treinamento é a
lesão. Uma lesão esportiva pode ser causada por
um desgaste muscular excessivo ou por
sobrecarga. O dano muscular induzido pelo
exercício é um acontecimento comum após
atividades físicas na qual o indivíduo não está
habituado, ou após atividades físicas de alta
intensidade ou longo período de tempo podendo
apresentar rigidez, edema, dor muscular tardia,
além de diminuição de força na contração
muscular (CATELLI et al., 2012).
Um dos fatores que vem sendo
estudado em paralelo à incidência de lesões em
atletas é a relação do tempo de prática
desportiva com os índices de acometimento. O
nível de uma lesão é determinado pela duração e
intensidade do exercício, assim, atividades de
resistência ou de explosão produzem vários
níveis de resposta celular e de lesão muscular (Di
ALENCAR et al., 2011) como habitualmente é
visto no ciclismo competitivo.
foi realizado um levantamento bibliográfico nas
bases de dados Scielo, Lilacs, Portal de
Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a busca
de dados no Google Acadêmico de artigos
científicos nacionais e internacionais publicados
Estudos apontam que 75% dos atletas
jovens já foram diagnosticados com lombalgia e
que a coluna vertebral é o principal local de
lesões em diversas modalidades esportivas. No
ciclismo, a posição da coluna difere muito da sua
posição fisiológica ereta, o que causa um grande
até 2013 utilizando como descritores isolados ou
em associação: Ciclismo, Lesões ortopédicas,
Lombalgia; e, adicionalmente, consulta de livros
acadêmicos
para
complementação
das
informações sobre lesões decorrentes do
ciclismo.
Dos artigos selecionados e incluídos na
pesquisa constituíram ensaios clínicos, artigos
originais, revisões e revisões sistemáticas. Os
estresse mecânico durante a atividade. Esse
estresse, aliado ao longo período de atividade,
tanto profissional quanto amadora, faz com que
as dores na coluna lombar, pescoço e nas costas
sejam frequentes entre os ciclistas (PEQUINI,
2005).
Lesões traumáticas são provocadas por
problemas súbitos, e algumas lesões deste tipo
são mais propensas de ocorrer na atividade
METODOLOGIA
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
300
ciclística do que em outros esportes (CATELLI et
al., 2012).
Quanto mais se pedala, maiores as
relacionado ao aumento da intensidade e
volume de treinamento. Um dos fatores
etiológicos da lombalgia crônica em ciclistas é a
chances de uma lesão ocorrer, e para minimizar
esses riscos e também o grau de uma lesão é
flexão de tronco sustentada por longos períodos,
em especial quando o ciclista assume uma
preciso pedalar numa posição confortável sobre
a bicicleta (BURKE, 2000). A determinação dos
postura visando otimização de
aerodinâmicos (PEQUINI, 2005).
domínios de intensidade do exercício tem
importantes implicações na prescrição do treino
Neste sentido, o ciclismo da modalidade
triathlon é o que apresenta posicionamentos
(CARITÁ et al., 2013).
Porém, a natureza repetitiva do
ciclismo, combinada com horas e horas sobre a
bicicleta, pode levar a vários tipos de incômodos
e lesões (BURKE, 2000). Neste caso, o
posicionamento adequado é essencial não
apenas para o conforto, mas também para
minimizar o risco de lesões (PEQUINI, 2005).
Dentre as lesões típicas, segundo
estudos epidemiológicos, a lombalgia acomete
de 30 a 60% dos ciclistas, representando uma
das queixas mais comuns entre as disfunções
musculoesqueléticas neste esporte (Di ALENCAR
et al., 2011). Clarsen et al. (2010) realizaram um
estudo com cento e nove ciclistas profissionais
do campeonato mundial de ciclismo e do Tour de
France. Sessenta ciclistas participaram do Tour
de France (com idade de 25 ± 4 anos) e quarenta
e nove do campeonato mundial (com idade de
28 ± 5 anos). De acordo com os autores, 58% (n =
63) dos ciclistas apresentaram dor lombar
durante os últimos doze meses antecedentes à
com maior flexão de tronco, sendo composto
por três modalidades realizadas sucessivamente
- natação, ciclismo e corrida, apresentando
especificidades que desencadeiam demandas
fisiológicas e biomecânicas diferentes dos
esportes individuais que o compõem (FRAGA et
al, 2013). Em seguida, temos a modalidade
estrada (road bike) e a de montanha (mountain
bike) apresentando posicionamentos com
acentuada flexão do tronco e riscos aumentados
de lesões.
Pequini (2005) relata que o treinamento
envolve postura específica a cada modalidade
praticada e adaptação corporal ao esforço físico.
Uma postura adequada sobre a bicicleta é
fundamental para não ocorrer redução do
desempenho ou aumentar os riscos de lesão
(SALAI et al., 1999).
De modo geral, a postura de flexão de
tronco utilizada no ciclismo produz uma
retificação da lordose lombar, aumenta a tensão
do complexo ligamentar posterior e altera a
realização da pesquisa, sendo que a incidência
foi distribuída da seguinte forma: 27% com
ocorrência de dor fora de temporada, 41% na
pré-temporada e 43% no início e na alta
temporada. Dos 63 ciclistas apenas 45
procuraram assistência médica, sendo que, em
transmissão da pressão sobre os discos
intervertebrais com aumento da pressão na
porção anterior (comprimida) enquanto a
posterior é distendida (figura 1). A distensão da
porção posterior do disco e do complexo
ligamentar posterior por estimulação mecânica,
um ciclista, a lombalgia foi intensa o suficiente
para obrigá-lo a abandonar o esporte como
carreira profissional.
Os resultados encontrados por Clarsen
et al. (2010) sugerem que o aumento da
incidência da lombalgia está diretamente
resultante da postura adotada, induz à
lombalgia, pois ambas as estruturas recebem
inervação de ramos do nervo sinovertebral que
interpretam esta alteração biomecânica como
estímulo doloroso. (Di ALENCAR et al., 2011).
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
aspectos
301
Figura 1. Flexão de tronco com alteração da transmissão da pressão sobre os discos intervertebrais e
aumento da pressão na porção anterior. Extraído e modificado de Personal Treiner, 2014.
A redução da pressão intradiscal pela
redistribuição da sobrecarga imposta ao disco
durante a posição de flexão de tronco é
alcançada quando o ciclista apoia as mãos sobre
posterior do annulus fibrosos pode sofrer
microlesões cumulativas (Di ALENCAR et al.,
2011).
Os ciclistas geralmente têm problemas
o guidão (PEQUINI, 2005).
Basicamente três mecanismos podem
ser associados à lombalgia em ciclistas (Di
ALENCAR et al., 2011). O primeiro, de acordo
com Burnett et al. (2004), está relacionado ao
fenômeno da flexão-relaxamento, que se
com suas costas, e alguns estudos chegaram a
registrar 60% de reclamações de dores nas
costas em atletas de longa distância. Isso ocorre
porque os músculos da perna são “presos” {
pélvis. Quando esses músculos da perna se
contraem, as forças impressas sobre a pélvis são
manifesta pelo silêncio mioelétrico (não
ativação) dos eretores da coluna ao final da
amplitude de flexão. Quando as forças
musculares são reduzidas, estruturas como
ligamentos e discos intervertebrais são
colocadas em maior risco de lesão. Enquanto
enormes, gerando um abuso aos músculos e
ossos de parte das costas (Di ALENCAR et al,
2011).
Esses problemas são causados por
pequenas e constantes distensões. As
terminações nervosas nas costas são numerosas
vários ligamentos intervertebrais garantem a
estabilização primária das vértebras adjacentes e
e constantemente estimuladas, portanto, não é
raro gerarem dor. Os músculos das costas
limitam os movimentos de flexão da coluna
vertebral, a musculatura intrínseca e extrínseca à
inferiores podem, involuntariamente, ter alguns
espasmos para tentar manter o conjunto das
coluna lombar garante
secundária (ADAMS, 2004).
estabilização
costas rígido para diminuir o desconforto. Os
discos, ligamentos e músculos possuem muitos
Em segundo lugar, a lombalgia crônica
não específica em ciclistas pode resultar em
nervos, e isso torna o problema complexo, pois
permitem que o estresse do dia a dia ou a fadiga
ativação excessiva dos extensores da coluna,
resultando em aumento da tensão muscular de
física e mental exerçam influência sobre o local
(SALAI, 1999).
toda a coluna lombar. Esse mecanismo foi
previamente sugerido como causa da lombalgia
crônica não específica, e em terceiro lugar, a
flexão prolongada pode ser um importante fator
etiológico para a lombalgia, pois a porção
De acordo com Salai (2010), quando o
ciclista começa a ter dores nas costas,
possivelmente ele está com o selim num ângulo
que não seja o ideal e alguns estudos mostram
que ciclistas recreativos que reportavam dores
a
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302
nas costas deixaram de tê-las assim que fizeram
alterações no ângulo do selim.
Embora os músculos das costas não se
A fadiga muscular é outro relato nesse
esporte e pode alterar o bom funcionamento
muscular, devido ao esgotamento de
envolvam em fazer os pedais girarem, eles
apresentam uma tarefa importante de
mediadores
estabelecer
estabilizar o corpo e aumentar a transferência de
força gerada pelos quadris e pelas pernas. Dores
favorecendo o surgimento de lesões. A fadiga
aguda origina-se de esforços musculares
no pescoço em ciclismo geralmente são
associadas a longas distâncias percorridas, ou a
excessivos, sendo resultado de apenas uma
sessão de treino. Esse tipo de fadiga tem uma
um guidão mal ajustado (MESTDAGH, 1998).
A posição do ciclista na bicicleta
geralmente é o fator principal a levar a esse tipo
de dor, j| que a posição “horizontal” que o
ciclista usa é desconfortável se ele não estiver
com a flexibilidade em bom estado e habituado à
posição. O correto tamanho da bicicleta e o
ajuste das posições são imprescindíveis para se
evitar esse tipo de dor. Como exemplo, as
mulheres tendem a usar bicicletas muito
“longas” para elas, j| que grande parte das
bicicletas é desenhada para o corpo masculino.
O corpo feminino tem, relativamente, pernas
maiores e troncos menores que os homens,
assim, é importante que uma ciclista utilize
bicicletas desenhadas especialmente para ela
evitando manifestações álgicas e lesões
(MESTDAGH, 1998).
duração de um ou dois dias e geralmente vem
acompanhada de dores musculares. A
extrapolação de microciclos ou de tempos muito
curtos de regeneração podem causar uma fadiga
transitória com duração de dias ou até semanas.
(BOMPA, 2002)
Outro acometimento em ciclistas é a
lesão patelofemoral, que se caracteriza por um
desgaste da cartilagem existente entre a patela e
o fêmur (figura 2). Normalmente gera dor na
parte de trás ou ao redor da patela. Essa dor
pode ser em virtude do aumento da compressão
da cartilagem entre a patela e o fêmur, que por
sua vez pode ser motivado pelo mau
posicionamento do ciclista sobre a bicicleta
(D’ELIA, 2007).
em
um
vários níveis,
desequilíbrio
podendo
muscular
Figura 2. Síndrome patelofemoral com desgaste da cartilagem articular. Extraído e modificado de Bike Fit,
2014.
As articulações do corpo suportam peso,
são submetidas a cargas produzidas pelas forças
dos músculos e, ao mesmo tempo,
proporcionam uma grande amplitude de
movimento aos segmentos corporais, por isso as
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
303
articulações estão sujeitas a uma diversidade de
lesões (HALL, 2009).
Numa pedalada longa, muitos pequenos
Assaduras nas nádegas e na parte
interna das coxas são as principais lesões que
afligem os ciclistas de longa distância. Muitas
desconfortos podem acontecer. Dores nos
joelhos é sinal de que algo está errado. Isso pode
das suas causas podem ser evitadas usando
equipamento
adequado
e
precauções
ser uma posição incorreta do pé sobre os pedais,
uso demasiado de marchas pesadas, ou um mau
específicas, como bermudas com estofamento
interno e um selim confortável, mas mesmo
posicionamento do assento. Os músculos da
perna também sofrem com treinos exaustivos,
tomando todos os cuidados possíveis elas
podem ocorrer (MARTINS et al, 2007).
fazendo com que o atleta não consiga explorar o
seu potencial máximo (BINI et al., 2011).
As lesões por esforço repetitivo (LER)
ocorrem num período de tempo em que as
forças aplicadas numa estrutura aumentam de
maneira mais rápida do que a estrutura se
adapta, superando em absoluto a sua
capacidade de adaptação. Muita quilometragem,
ou quilometragem muito intensa, como em
subidas e em marchas altas, geralmente tendem
a causar lesões por sobreuso. O ciclismo é uma
atividade extremamente repetitiva, onde se
pode chegar a pedalar cinco mil vezes em uma
hora (ALENCAR et al, 2010).
O ciclista, na prática intensiva, pode
apresentar a percepção de alguns sintomas ou
mesmo lesões em suas mãos. Os principais
problemas que ocorrem com as mãos do ciclista
são:
formigamento,
adormecimento,
enfraquecimento, escoriações ou bolhas. Muitas
horas sobre a bicicleta, excesso de peso sobre as
mãos, pistas muito esburacadas e falta de
Lesões que afetam a virilha são mais
raras, mas também as mais perigosas, pois
afetam uma região anatomicamente complexa,
de difícil diagnóstico e tratamento. A segunda
maior reclamação na área da virilha entre
homens foi de dormência na área genital, e um
estudo revelou que entre 58% e 70% dos homens
num grupo de ciclistas na Alemanha reportaram
sofrer de dormência genital (BURQUE, 2000).
Já a dor testicular em adultos é uma
queixa comum que pode surgir como
complicação após traumas locais ou cirurgias. É
importante ressaltar que alguns tipos de
vestuário em atividades físicas como o ciclismo,
hipismo ou motociclismo também podem ser
responsáveis pela dor local (BAUTZER, 2012).
Quanto às principais lesões atípicas no
ciclismo estão as causadas pelo próprio
movimento das pedaladas e são relativamente
raras quando comparadas a outros esportes. Isso
se dá pelo fato de o ciclismo ser um esporte onde
praticamente não há impacto. Esse tipo de lesão
amortecimento são suas principais causas
(KLEINPAUL et al, 2010).
Outro problema comum enfrentado
pelos ciclistas são as dores e a dormência nos
pés. Isso pode ser causado por um equipamento
mal encaixado ou mal posicionado ou até por um
está relacionado principalmente a erros do
ciclista, como posicionamento, excesso de
treinos e os acidentes, que são os que levam as
lesões mais graves (D’ELIA, 2007).
Se tratando de lesões por acidentes,
podemos nos deparar com fraturas. A fratura é a
calçado muito apertado. Ocasionalmente
pedaladas de várias horas podem resultar em
desconforto para o pé, e sapatos com os clipes
mal posicionados também podem resultar em
desconforto e lesões como bolhas e calos. Unhas
encravadas também são inerentes à prática do
ciclismo (BURQUE, 2000).
perda na continuidade do osso (figura 3), e o
grau da fratura depende de muitos fatores como:
intensidade de carga sofrida, duração da carga
mecânica, direção, assim como a saúde e a
maturidade do osso no momento em que sofre a
lesão (HALL, 2009).
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304
Figura 3. Fratura da clavícula. Extraído de Clube Renove Ciclismo, 2014.
Para o mesmo autor, luxações também
podem ser consequências de uma queda. Os
principais locais das luxações são os ombros,
quando uma carga externa é aplicada nessa
unidade contrátil (McARDLE et al., 1998).
Os
alongamentos
devem
ser
dedos, joelhos, cotovelos e a articulação
temporomandibular. Seus sintomas incluem
sustentados de 10 a 30 segundos em cada
posição. O alongamento realizado ao final da
deformidade articular visível, dor, edema, e
alguma perda na capacidade de realizar
movimentos articulares.
CONDUTAS ANATÔMICAS PREVENTIVAS NA
PRÁTICA DO CICLISMO
aula, treino ou competição tem o objetivo de
alongar e relaxar a musculatura que esteja
edemaciada por água e catabólitos de contração.
O método de alongamento estático deve ser
preferido, pois existe um menor risco de dano
tecidual, a demanda energética é menor, e
No ciclismo, assim como em qualquer
outra prática esportiva, é preciso proporcionar
ao corpo tempo suficiente para sua adaptação
realiza-se a prevenção e/ou consegue-se aliviar
tensão e a dor muscular (SILVA & OLIVEIRA,
2002). Ao alongar, deve-se evitar o bloqueio da
respiração (McARDLE et al., 1998).
aos exercícios. Como conduta preventiva, no
treinamento deve-se aumentar a carga de
exercícios gradualmente e esperar períodos de
descanso e adaptação, por exemplo, alternando
treinamentos pesados com treinamentos leves,
aquecimento e esfriamento, e alongamento
antes e depois dos exercícios pode ajudar.
Silva e Oliveira (2002) afirmam que o
aquecimento deve ser feito por praticantes de
qualquer nível de condicionamento físico. O
aquecimento ajuda o executante a preparar-se
fisiológica e psicologicamente para um evento,
Muitas vezes o ajuste da bicicleta ainda
é realizado numa base de tentativa e erro.
Ajustes incorretos no posicionamento podem
levar à lesão, pois podem acarretar aumento da
sobrecarga musculoesquelética (BURKE, 2000).
O pedalar não é um movimento natural na
ergonomia do ser humano, e como consequência
disso, a menor irregularidade no campo da
simetria física pode levar a uma série de
reclamações (MARTINS et al., 2007).
O ajuste da bicicleta deve ser
individualizado para que se alcance o melhor
podendo reduzir as chances de lesão articular e
muscular. O processo de aquecimento estira a
unidade músculo-tendinosa e, portanto, permite
alcançar um maior comprimento e menor tensão
desempenho, conforto, satisfação e prevenção
de lesões, ressaltando que os ajustes podem ser
baseados apenas nas medidas antropométricas
externas dos ciclistas, ou ainda, a utilização de
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
305
ajustes tanto estáticos quanto dinâmicos.
Porém, quando se trata de ciclistas de elite, as
regulagens do complexo ciclista-bicicleta devem
CONSIDERAÇÕES FINAIS
respeitar
as
características
(MESTDAGH, 1998).
individuais.
durante o ato da pedalada, o tempo empregado
nos treinamentos e as elevadas temperaturas em
As pesquisas científica e empírica têm
mostrado que a posição correta numa bicicleta é
determinadas épocas do ano favorecem as
lesões e os acometimentos dos atletas. A
determinada por vários fatores e que mudanças
na geometria da bicicleta podem melhorar o
utilização correta dos equipamentos para a
referida prática, como também a aquisição de
desempenho do atleta. (BALTAZAR et al., 2011).
Contudo, muitos ciclistas amadores, e até
mesmo profissionais, continuam a adotar
posições incorretas nas suas bicicletas (BURKE &
PRUITT, 2003; MARTINS et al., 2007)
favorecendo o aparecimento de lesões.
É no selim que os maiores erros no
ajuste corporal do ciclista na bicicleta são
encontrados. A altura do banco é um
compromisso
entre
eficiência
aeróbica,
aerodinâmica, força e prevenção de lesões.
Fórmulas como a da distância do períneo ao
chão apenas apontam o resultado aproximado e
não devem ser consideradas rigidamente.
(MARTINS et al., 2007; BURKE, 2003).
Uma alteração comum na geometria da
bicicleta é a utilização de um suporte de selim ou
até mesmo de bicicletas que permitem pedalar
com um Ângulo do Tubo do Selim (ATS) mais
acentuado. O ATS de uma bicicleta é definido na
intersecção do tubo do selim com uma linha
paralela ao solo. Um maior ATS permite mais
produtos que apresentem notória qualidade e
atestada condições de uso se faz necessário
como medida de redução da incidência de
lesões, sendo necessária uma orientação
profissional específica sob pena de prejuízo da
performance e saúde do atleta.
Quando os atletas visam o alto
rendimento, é comum buscarem cada vez mais
cargas elevadas, e não é raro o tempo de
descanso ser reduzido, a fim de atingirem um
nível cada vez maior de condicionamento. Isso
tudo, aliado a ajustes mal feitos, equipamentos
mal posicionados e, muitas vezes, deficiência de
informações a respeito do assunto, tornam a
prática do ciclismo um esporte de risco com
favorecimento do aumento na incidência de
lesões. No ciclismo recreativo, ou de uso
cotidiano, é preciso o auxílio de pessoas
capacitadas na hora da escolha do material, das
regulagens e dos acessórios.
Diversos hábitos simples podem
contribuir para que as lesões sejam reduzidas.
conforto e eficiência em posição aerodinâmica
com antebraços repousados sobre o guidom
(BALTAZAR et al., 2011).
Segundo Diefenthaeler et al. (2008), um
dos grandes causadores do abandono por parte
dos praticantes iniciantes do ciclismo são as
Alongamentos antes e depois da prática
esportiva, a escolha de uma roupa confortável e
uma reposição adequada de líquidos podem
reduzir o número de lesões e desconfortos
durante a prática do ciclismo. Novas discussões e
estudos devem continuar com o objetivo de
dores no corpo provocadas muitas vezes pela má
postura e por desajustes nos equipamentos
utilizados como o ajuste da posição do selim.
Silva e Oliveira (2002) relatam que
existe um potencial de lesão nos diferentes tipos
de treinamento e descrevem que todas as
atividades esportivas possuem um risco inerente
de lesão, seja ela muscular, estresse psicológico
e lesão traumática de menor intensidade.
esclarecer possíveis causas das principais lesões
acometidas por este esporte.
A posição assumida pelos ciclistas
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Prevenção de lesões no ciclismo indoor. Uma
proposta metodológica. Revista Brasileira de
Ciência e Movimento. v. 10, n. 4, p.07-18, 2002.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
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Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
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INSTRUÇÕES E DIRETRIZES PARA PUBLICAÇÃO
I - Missão: A missão da Revista Faculdades do
Saber é contribuir para o aprofundamento e
difusão
de
conhecimentos
científicos,
acadêmicos e filosóficos e tem periodicidade
semestral, publicando artigos originais
resultantes de pesquisa, revisão sistemática,
reflexão, relato de experiência, carta ao editor
e editorial, desde que atendam às suas normas
de publicação.
Textos que não estejam de acordo com os
critérios e características técnicas exigidas
poderão não ser publicados. Após submissão
do manuscrito, uma resposta será enviada ao
autor do artigo num prazo não superior a 90
dias, contado a partir do recebimento pela
Revista Faculdades do Saber.
II - Procedimentos para Submissão de
Artigos:
II.1 - Eixos de abrangência com destaque:
Multidisciplinar com ênfase para Saúde,
Educação, Administração, Direito e áreas
relacionadas.
II.2 - Os artigos enviados devem ser originais,
isto é, não terem sido publicados em outro
periódico ou coletânea no país. O
procedimento adotado para aceitação
definitiva será o seguinte:
Primeira Etapa: seleção dos artigos segundo
critério de relevância e adequação às diretrizes
editoriais.
Segunda Etapa: parecer a ser elaborado por
no mínimo dois consultores “ad hoc”, de forma
cega, isto é, sem o conhecimento dos nomes
por parte dos pareceristas e dos autores. No
caso dos pareceres não serem conclusivos, ou
divergentes, o artigo será enviados a novos
pareceristas. Sendo que a aceitação final é de
responsabilidade do Conselho Editorial e do
Conselho Consultivo.
III - Línguas: Serão aceitos trabalhos redigidos
em inglês, português ou espanhol.
IV - Tipos de Colaborações Aceitas pela
Revista: serão aceitos trabalhos originais que
se enquadrem nas seguintes categorias:
IV.1 - Artigos Científicos: Apresentam,
geralmente, estudos teóricos ou práticos
referentes à pesquisa e desenvolvimento que
atingiram resultados conclusivos significativos.
As publicações de caráter científico devem
conter os seguintes tópicos: Título (Português
e Inglês ou Espanhol e Inglês); Resumo;
Palavras-chave;
Abstract,
Key
words,
Introdução, Material e Métodos, Resultados,
Discussão e Conclusão, Agradecimentos
(quando necessários), Menção de Conflito de
Interesses e Referências.
IV.2 - Artigos de Revisão: Apresentam um
breve resumo de trabalhos existentes,
seguidos de uma avaliação das novas idéias,
métodos, resultados e conclusões, e
bibliografia relacionando as publicações
significativas sobre o assunto. Devem conter os
seguintes tópicos: Título (Português ou
Espanhol e Inglês), Resumo, Palavras-chave,
Abstract,
Keywords,
Introdução,
Desenvolvimento (incluir os procedimentos de
busca e seleção dos artigos utilizados na
revisão), Conclusão, Menção de Conflito de
Interesses e Referências.
IV.3 - Casos Clínicos: Apresentam a descrição
de casos clínicos, seguido de avaliação dos
procedimentos, métodos, resultados e
conclusões, e uma bibliografia relacionando as
publicações significativas sobre o assunto.
Devem conter os seguintes tópicos: Título
(Português ou Espanhol e Inglês), Resumo,
Palavras-chave,
Abstract,
Key
words,
Introdução, Relato e desenvolvimento do caso,
Conclusão, Menção de Conflito de Interesses, e
Referências.
V - Forma de Apresentação dos Artigos
V.I- Os artigos devem ser encaminhados via email
para
[email protected]
ou
[email protected]
digitadas em editor de texto Word no
formato.doc, em espaço 1,5 linha, em fonte
tipo Times New Roman, tamanho 12. A página
deverá ser em formato A4, com formatação de
margens (3 cm), Os textos não devem exceder
20 páginas (atentar para o tamanho do arquivo
que não deverá ultrapassar 3 Mb (Megabytes).
As citações bibliográficas no texto devem
seguir o sistema autor-data, conforme normas
ABNT 10520/2002.
V.II. A apresentação dos trabalhos deve
seguir a seguinte ordem:
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
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V.II.1. Folha de rosto sem identificação dos
autores contendo apenas:
• Título em português ou espanhol
• Título em inglês
V.II.2. Folha de rosto personalizada contendo:
• Título em português ou espanhol
• Título em inglês
• Nome de cada autor, seguido por afiliação
institucional e titulação por ocasião da
submissão do trabalho.
• Indicação do endereço completo dos
autores, telefone e endereço eletrônico. Incluir
também CPF e RG de todos os autores, à
exceção dos autores estrangeiros.
V.II.3. Folha contendo Resumo em português
ou espanhol (máximo de 250 palavras),
redigido em parágrafo único, espaço simples e
alinhamento justificado e Palavras-chave
(mínimo 3 e máximo 5). O resumo deve iniciar
com a problematização, seguido dos objetivos,
metodologia, resultados e finalização com a
conclusão. Entre as palavras-chave coloca-se
ponto e vírgula para separá-las. Cada palavrachave deve ser grafada com o primeiro
caractere em maiúsculo e os demais
minúsculos. O item palavras-chave deve estar
espaçado de duas linhas em branco do corpo
do resumo;
V.II.4. Folha contendo Abstract e Key words.
O Abstract deve obedecer às mesmas
especificações para a versão em português,
seguido de Key words, compatíveis com as
palavras-chave.
V.II..5. Texto de acordo com as especificações
recomendadas para cada tipo de colaboração.
VI - Citações Bibliográficas devem ser de
acordo com as normas da ABNT – Associação
Brasileira de Normas Técnicas 6023. A
responsabilidade pela edição e adequação dos
manuscritos é de responsabilidade do autor,
assim como pelos dados referenciais da obra.
Segue abaixo modelos de referências.
Atividade Física para Saúde Mental. Saúde
Coletiva, v.8, n.50, p.126-130, 2011.
ROCHA, R.T.; LELES, P.S.S.; OLIVEIRA NETO,
S. Arborização de vias públicas em Nova
Iguaçu, RJ: o caso dos bairros rancho novo e
centro. Revista Árvore, Viçosa, MG, v.28, n.4,
p.599-607, 2004.
PARA ARTIGOS DA INTERNET:
QUEIROZ, M.C. O direito como sistema
autopoiético: contribuições para a sociologia
jurídica.
Disponível
em:
http://www.buscalegis.ufsc.br/arquivos/o%20d
ireito%20como%20sistema.pdf. [Acesso em:
02 jul. 2010].
Manual Merck para a família. Disponível em:
http://www.manualmerck.net/images/thumbn
ail/p_116.gif [Acesso em: 14 dez. 2009].
LIVROS ACADÊMICOS
KUMAR, V.; ABBAS, A.K.; FAUSTO, N.
Robbins e Cotran Patologia. Bases
Patológicas das Doenças. 7. ed. Rio de
Janeiro: Elsevier; 2005.
GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de
Fisiologia Médica. 11. ed. Rio de Janeiro:
Elsevier; 2006.
LAKATOS,
E.M.;
MARCONI,
M.A.
Metodologia do trabalho científico. 2.ed. São
Paulo: Atlas; 1986.
TESES E DISSERTAÇÕES
MIYAMOTO, S. O Pensamento geopolítico
brasileiro: 1920-1980. 1981. 287f. Dissertação
(Mestrado em Ciência Política) - Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 1981.
FAGIOLI, M. Relação entre a condutividade
elétrica de sementes e a emergência de
plântulas de milho em campo. 1997. 74f.
Dissertação (Mestrado em Agronomia) Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias,
UNESP, Jaboticabal, 1997.
ARTIGOS CIENTÍFICOS
HERNANDEZ, S.S.S.; VITAL, T.M.; GOBBI, S.;
COSTA, J.L.R.; STELLA, F. Atividade física e
sintomas neuropsiquiátricos em pacientes com
demência de Alzheimer. Motriz, Rio Claro, v.17
n.3, p.533-543, jul./set. 2011.
NERY, R.M. Questões sobre questões
leitura. 2001. 326f. Tese (Doutorado
Lingüística) – Instituto de Estudos
Linguagem, Universidade
Estadual
Campinas, Campinas, 2002.
OLIVEIRA, E.M.; AGUIAR, R.C.; ALMEIDA,
M.T.O.; ELOIA, S.C.; LIRA, T.Q. Benefícios da
EVENTO
(CONGRESSO,
SIMPÓSIO,
REUNIÃO, ENCONTRO, WORK SHOP)
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
de
em
da
de
311
FESSEL, S.A.; FAGIOLI, M.; VIEIRA, R.D.
Tratamento químico e uso de corante em
sementes de amendoim e sua influência na
qualidade fisiológica. In: SIMPÓSIO DE
PATOLOGIA DE SEMENTES, 5., 1998, Ponta
Grossa. Anais... Ponta Grossa, 1998. p.29.
MOREIRA, A.F.B. Multiculturalismo, Currículo
e Formação de Professores. In: SEMINÁRIO
ESTADUAL DE EDUCAÇÃO BÁSICA, 2., 1998,
Santa Cruz do Sul. Anais... Santa Cruz do Sul:
EDUNISC, 1998. p. 15-30.
OBS. Trabalhos com autorias múltiplas e
idênticas deverão ser ordenados na ordem
crescente de data.
VII - Gráficos devem ser acompanhados dos
parâmetros quantitativos utilizados em sua
elaboração, na forma de tabela.
VIII - Ilustrações até 5 (cinco) ilustrações (entre
figuras,
mapas,
imagens,
desenhos,
fotografias, gravuras, tabelas e gráficos),
dispostas o mais próximas possível do texto
aos quais se referirem e acompanhadas das
respectivas legendas, gravados em extensão
*.JPEG, com resolução de 300dpi.
IX - Observações importantes para a
qualidade do artigo:
1. Título: deve ser sucinto e refletir o assunto
discutido no texto. Título e subtítulo (se
houver) devem estar na página de abertura do
artigo na língua do texto e em inglês. O autor
deve evitar sobrecarregá-lo com informação
expressa em forma de abreviatura (salvo casos
em que são universalmente conhecidas ou
nomes de projetos) e entre parênteses.
2. Resumo: texto com quantidade predefinida
de até 250 palavras, onde se expõe o objetivo
do texto, a metodologia aplicada, e as soluções
encontradas. O abstract é o resumo traduzido
para a língua inglesa.
3. Palavras-chave: são palavras características
que devem identificar o artigo em bases de
indexação. Constituem item obrigatório e
devem estar abaixo do resumo, antecedidas da
expressão palavras-chave separadas entre si
por vírgula.
4. Introdução: deve situar o leitor no contexto
do tema estudado, oferecendo uma visão
global da pesquisa realizada, situando o
problema e a metodologia empregada.
5. Desenvolvimento e explanação dos
resultados: é a fundamentação lógica do
trabalho, onde o autor deve fazer uma
exposição e uma discussão das teorias que
foram utilizadas para o entendimento e o
esclarecimento do problema pesquisado e que
devem apresentar um estreita ligação com a
dúvida investigada. Dependendo do assunto
tratado no manuscrito, há a necessidade de
subdivisão em etapas que seguem em seções e
subseções. A divisão do desenvolvimento deve
apresentar a seguinte estrutura:
a) Metodologia: descrição precisa dos
materiais, métodos, técnicas, equipamentos e
outros itens utilizados no decorrer da pesquisa,
devendo estar apresentados com a maior
clareza possível de modo que outros autores
possam contextualizar e empregar em suas
pesquisas.
b) Resultados: apresentação da obtenção dos
dados experimentais, que podem ser
demonstrados através de tabelas, gráficos,
fotografias, dentre outros recursos utilizados.
c) Discussão: comentários cientificamente
fundamentados, restritos apenas aos dados do
trabalho confrontados com os dados da
literatura da área na qual se encontra inserido o
trabalho.
6. Conclusão: apresenta os resultados obtidos
ao longo do manuscrito que foram extraídos da
pesquisa ou apontados por ela, sendo
relacionadas
às
diversas
questões
desenvolvidas ao longo do trabalho,
sintetizando os resultados fundamentais, com
comentários do autor e as contribuições
resultantes da pesquisa. É importante a
observação de que trata-se do encerramento
do trabalho estudado, devendo responder às
hipóteses propostas e aos objetivos
apresentados na introdução, não devendo, sob
condição alguma, que sejam apresentadas
informações novas, que já não tenham sido
apresentadas no desenvolvimento do trabalho.
7. Referências: Conjunto de informações que
devem permitir identificar, no todo ou em
parte, documentos impressos ou produzidos
em diferentes materiais que foram citados no
decorrer do texto, devendo seguir as normas
da ABNT que estão explicadas e demonstradas
no documento de orientação da apresentação
gráfica do artigo.
8. Linguagem do artigo: O artigo é um texto
condensado, é importante que sejam
observados a correção e precisão da
linguagem, coerência das idéias apresentadas,
inteligibilidade, objetividade e fidelidade às
fontes citadas. A análise destas questões inclui
a análise de:
a) impessoalidade: O trabalho é resultado da
investigação cientificamente fundamentada do
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
312
autor sobre determinado assunto, não cabendo
um relato pessoal sobre o trabalho, haja vista
que o estudo deverá ser acessível à
comunidade científica sempre que outro
estudioso necessitar explorar o assunto em
questão, logo deve ser redigido em terceira
pessoa, caracterizando o teor universal da
pesquisa desenvolvida;
b) objetividade: deve ser direto, preciso, sem
expressões que possibilitem interpretações
medíocres, sem valor científico. Sendo assim,
termos como “eu penso”, “eu acho”, “pareceme”, e outros que denotem dúvida ou
desconhecimento de causa devem ser abolidos
do texto;
c) vocabulário técnico: a comunicação
científica deve ser feita com termos comuns,
que garantam a objetividade da comunicação,
sendo, porém que cada área possui seu
vocabulário técnico próprio que deve ser
observado;
d) correção gramatical: a observação da
correção do texto deve ser feita com cuidado,
evitando-se o uso excessivo de orações
subordinadas em único parágrafo, o excesso de
parágrafos, lembrando que cada parágrafo
encerra uma pequena idéia defendida no texto,
logo, encerrada a idéia, muda-se o parágrafo;
e) ilustrações: a Revista Faculdades do Saber
considera gráficos, mapas, fotografias,
desenhos e tabelas como elementos
ilustrativos devendo seguir as normas da ABNT
que estão explicadas e demonstradas no
documento de orientação da apresentação
gráfica do artigo.
X - Comitê de Ética
Em toda matéria relacionada com pesquisa
humana e pesquisa animal, os autores devem
incluir no corpo do artigo, o número do
processo de aprovação pelo Comitê de Ética
em Pesquisa, na qual a pesquisa foi realizada.
XI - Conflito de Interesse
Os autores devem preencher e assinar o
formulário de Conflito de Interesse (Anexo A).
XII - Direitos Autorais
XII.1 - Artigos publicados na revista
FACULDADES DO SABER
Os direitos autorais dos artigos publicados
pertencem à revista FACULDADES DO
SABER. A reprodução total dos artigos desta
revista em outras publicações, ou para
qualquer outra utilidade, está condicionada à
autorização escrita do(s) Editor(es). Pessoas
interessadas em reproduzir parcialmente os
artigos desta revista (partes do texto que
excedam a 500 palavras, tabelas e ilustrações)
deverão ter permissão escrita do(s) autor(es).
O(s) autor(es) deverão encaminhar por
e-mail o Formulário de conflito de interesse
(Anexo A), a Carta de Autorização para
Publicação, juntamente com o artigo (Anexo B)
e Concessão de Direitos Autorais (Anexo C).
O processo de submissão é feito via email, pelo endereço [email protected] ou
[email protected] .
XIII - Endereço da revista FACULDADES DO
SABER:
FMG - Faculdade Mogiana do Estado de São
Paulo
Endereço: Av. Padre Jaime, 2600 – Jardim
Serra Dourada – Mogi Guaçu – SP
Site: http://www.fmg.edu.br/
E-mail:
[email protected]
/
[email protected]
Maiores informações: (19) 3831-3080 ou (19)
3831-3079
XIV - Princípios Éticos a serem Seguidos
pelos Autores:
É importante que os autores que desejam
publicar nesta revista tenham em mente que o
desenvolvimento científico e doutrinário deve
estar
baseado
em
princípios
éticos
fundamentais que contribuem para a própria
qualificação das obras publicadas e servem
como referencial de boa conduta.
Pesquisas com seres humanos devem passar
obrigatoriamente por um comitê de ética.
Por isso, é importante que:
a) Descrição clara e concisa da pesquisa e de
sua importância;
b) Detalhamento da pesquisa, para permitir a
repetição por outros cientistas;
c) Créditos a trabalhos anteriores. Citar fontes
da atual pesquisa;
d) Os originais devem vir com carta de
autorização à revista;
e) Proibida a publicação e submissão múltipla;
f) Co-autoria: todos os autores devem assinar.
É responsabilidade do autor principal:
incluir todos que participaram e excluir os que
não participaram; estabelecer a comunicação
entre editor e demais autores;
O encaminhamento de um original
implica em que os autores aceitam a
autoridade final do editor quanto à avaliação e
edição do texto;
Quem envia um artigo, está fazendo
um contrato com a revista e aceita as regras
impostas.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
313
ANEXO A
DIVULGAÇÃO DE POTENCIAL CONFLITO DE INTERESSE
Título do artigo:
Autor Correspondente:
E-mail:
Em conformidade com a lei do direito civil vigente no Brasil o autor declara não haver (em relação ao
artigo) qualquer conflito de interesse.
Nome por extenso
Assinatura
Caso existam conflitos de interesses, essa condição deve ser redigida no espaço abaixo:
_____________________________________
ASSINATURA do Autor Responsável
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
Data
314
ANEXO B
MODELO DE CARTA DE AUTORIZAÇÃO PARA PUBLICAÇÃO
Ao Conselho Editorial da revista FACULDADES DO SABER
Área:
Título do Artigo:
Nome(s) do(s) autor(es):
O(s) autor(es) do presente trabalho se compromete(m) a cumprir as seguintes normas:
1)
Todos os autores relacionados acima participaram do trabalho e responsabilizam-se
publicamente por ele.
2)
Todos os autores revisaram a forma final do trabalho e o aprovam para publicação na revista
FACULDADES DO SABER.
3)
Este trabalho, ou outro substancialmente semelhante em conteúdo, não foi publicado, nem
está sendo submetido a outro periódico ou foi publicado como parte de livro.
4)
O(s) autor(es) concordam em ceder os direitos autorais do artigo à revista FACULDADES DO
SABER e a reprodução total ou parcial do mesmo em outras publicações requer a autorização por
escrito .
_________________,______/______/__________.
Local / Data
_____________________________
Assinatura do Autor Responsável
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
315
ANEXO C
CONCESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS
(Modelo de Autorização)
Esta autorização, devidamente preenchida, datada, assinada pelo autor principal, deverá ser entregue
e, quando necessário, cópia da aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e cópia do
Consentimento Livre e Esclarecido assinado pelo paciente no caso de utilização de sua imagem.
...............................................................................................................................................................
[(nome, endereço, RG e CPF do(s) autor(es)], doravante denominado(s) Autor (es), elaborou(aram) o
original do artigo “...............................................................................................................................”
(nome do artigo), e por ser(em) titular(es) da propriedade literária do mesmo e em condições de
autorizar(em) a edição de seu trabalho, concede(m) à REVISTA FACULDADES DO SABER a permissão
para comercializar, editar e publicar o citado artigo impresso em papel ou on line na Internet, na
“REVISTA FACULDADES DO SABER”, em número e volume ainda a serem definidos pelo Conselho
Editorial da revista. Essa concessão não terá caráter de ônus algum para o Conselho Editorial da
“REVISTA FACULDADES DO SABER”, ou seja, não será necessário o pagamento em espécie alguma
pela utilização do referido material, tendo o mesmo o caráter de colaboração. O(s) Autor(es)
compromete(m)-se a assegurar o uso e gozo da obra à revista REVISTA FACULDADES DO SABER,
que poderá explorá-la com exclusividade nas edições que fizer e compromete(m)-se também a não
autorizar(em) terceiros a transcreverem ou traduzirem parte ou totalidade da obra sem expressa
autorização do Conselho Editorial da REVISTA FACULDADES DO SABER, cabendo ao infrator as
penas da legislação em vigor.
O Conselho Editorial da REVISTA FACULDADES DO SABER compromete-se a entregar uma revista
ao Autor Principal, caso o artigo seja publicado. O Autor tem ciência de que: 1. A publicação desta
obra poderá ser recusada caso o Corpo Editorial da REVISTA FACULDADES DO SABER, responsável
pela seleção dos artigos, não ache conveniente sua publicação, seja qual for o motivo, sendo que este
cancelamento não acarretará responsabilidade de espécie alguma e nem a qualquer título por parte do
Conselho Editorial da REVISTA FACULDADES DO SABER; 2. Os Editores da REVISTA
FACULDADES DO SABER, reservam-se o direito de modificar o texto, quando necessário, sem
prejudicar seu conteúdo, com o objetivo de uniformizar a apresentação.
Data: ______/______/____________
Nome do(s) Autor(es) e assinatura:
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014
316
ANEXO D
CHECKLIST
Faça uma revisão cuidadosa do texto com relação ao uso correto do idioma e à digitação.
Revise, cuidadosamente, o texto, no que diz respeito às NORMAS de publicação da revista.
Verifique os seguintes itens e ordem de aparecimento:
( ) Folha de rosto identificada
( ) Folha de rosto sem identificação
( ) Resumo (nº de palavras)
( ) Palavras-chave
( ) Abstract
( ) Key words
( ) Texto
( ) Documento comprovando a aprovação do trabalho por Comissão de Ética em Pesquisa (quando
aplicável)
( ) Referências
( ) Ilustrações com resolução de 300 dpi
( ) Tabelas
( ) Gráficos
( ) Menção de conflito de interesse
( ) Carta de autorização para publicação
( ) Concessão dos direitos autorais para a revista.
Revista Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 02(3): 241-316, jul-dez, 2014