01 - Memórias Literárias - JOSÉ RODRIGUES LOUZÃ

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01 - Memórias Literárias - JOSÉ RODRIGUES LOUZÃ
Memórias
sociedade brasileira de médicos escritores
literárias
JOSÉ
RODRIGUES
LOUZÃ
em prosa e verso
01
Memórias literárias
Escritor da
SOBRAMES
São Paulo
José Rodrigues Louzã nasceu no dia 1º de
janeiro de 1929, em São Paulo. É filho do dr.
Mario Rodrigues Louzã e de Jéssia Macuco
Louzã. Estudou até o 3º ano primário no colégio
Elvira Brandão e depois concluiu ginásio e
científico no Colégio São Luiz. Desde criança
quis seguir a carreira do pai e bem jovem
ingressou na Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (FMUSP), onde se
formou em 1952. Iniciou sua vida profissional
no Hospital São José do Brás, onde manteve seu
consultório e realizou cirurgias até 2005,
especializando-se em ginecologia e cirurgia.
Em 1954 concluiu o curso de administração
hospitalar na antiga Faculdade de Higiene,
hoje, Faculdade de Saúde Pública. José
Rodrigues Louzã foi médico assistente
administrativo no Instituto de Reabilitação, no
período de 1954 até 1978. O Instituto de
Reabilitação era autarquia, criado com o apoio
do Comitê de Reabilitação da OMS /ONU .
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José Rodrigues Louzã
Ao perder o apoio da ONU, passou a ser
Instituto Nacional de Reabilitação da FMUSP
(atual Divisão de Medicina de Reabilitação).
Nessa época foram criados os cursos de
fisioterapia e terapia ocupacional em nível
universitário na USP. Em 1960, a convite da
Organização Mundial da Saúde, participou de
um curso sobre reabilitação, na cidade do
México. Implantou os cursos de fisioterapia e
terapia ocupacional na Universidade de São
Carlos, onde foi professor durante alguns anos.
José Rodrigues Louzã foi médico do Instituto
Oscar Freire da FMUSP e presidiu a Academia
de Medicina de São Paulo no biênio 1991-1992.
Tem inúmeros trabalhos científicos publicados
na Revista Paulista de Medicina; Revista Paulista
de Hospitais; Revista Brasileira de Reabilitação;
Carisma; e Revista Cultura e Saúde.
Participou dos livros “Grande Escritores de São
Paulo”, “Florilégio Poético” volume II, “Todas as
Formas de Amar”, “O Beijo”, “O Amor na
Literatura”, “O Sonho”, “Escrevendo Mulheres”,
antologias literárias da Editora Casa do Novo
Autor. É membro fundador da SOGM Poetas (RS)
e membro titular da Sociedade Brasileira de
Médicos Escritores – Regional de São Paulo
(Sobrames – SP) desde 1991.
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Memórias literárias
Participou como coautor de diversas antologias e
coletâneas dessa entidade, sendo também
colaborador da Revista Brasileira de Médicos
Escritores (RBME), publicação da Sobrames
Nacional, além do jornal “O Bandeirante”,
publicação da regional paulista.
José Rodrigues Louzã faleceu em 27 de janeiro de
2015.
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José Rodrigues Louzã
Alvorecer!
Clareia o dia muito lentamente...
Pássaros pouco a pouco a se agitar...
Ouvimos o sabiá alegre a trinar,
os canários a dobrar jovialmente,
os bem-te-vis, muito alto a assobiar,
e as maitacas em bando a chilrear.
Todos eles começando a voar
nas árvores, jubilosos, a cantar.
Música de aves ao alvorecer.
Mesmo nas cidades em que vivemos,
com tão pouco verde na natureza,
ainda conseguem nos oferecer
e com elas, felizes convivemos
a saudar o amanhecer com beleza!
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Memórias literárias
Um amor platônico
Durante algumas décadas utilizei o automóvel para me
locomover de um bairro para outro, a fim de poder chegar aos
vários locais onde exercia minhas atividades profissionais. Assim,
durante muitos anos passei pelas mesmas ruas e avenidas e tive
a oportunidade de acompanhar o crescimento vertiginoso de
São Paulo. Vi ruas estreitas, sem calçamento, transformarem-se
em grandes avenidas asfaltadas. Vi grandes viadutos nascerem e
atravessarem vales, unindo pontos da cidade que pareciam
inacessíveis. Vi bairros operários serem ocupados por gigantescos
arranha-céus – enormes pilares de concreto – sem o calor das
pequeninas casas que foram substituindo. Vi favelas nascerem
tímidas, rapidamente crescerem e também, num instante,
desaparecerem ocupadas pelos diversos e sempre insuficientes
projetos habitacionais. Acompanhei, como alguém que passa e
observa, pessoas irem enriquecendo – carros novos na garagem
– e também outras aos poucos empobrecendo. Negócios irem
prosperando, acrescidos de novas portas e outros
melancolicamente encerrarem suas atividades. Passei a fazer
compras durante o meu percurso: o jornal, as revistas.
Aproveitava quando havia tempo, para tomar um lanche, sempre
em locais pelos quais passava e onde era permitida, por alguns
momentos, a parada do meu carro. Precisava aproveitar os poucos
minutos gastos no trânsito ensandecedor da nossa capital!
Nesta rotina, durante tanto tempo, muitas coisas curiosas,
estranhas, engraçadas e por que não também românticas, me
aconteceram. Uma delas voltou-me recentemente à memória...
e vou lhes contar como.
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José Rodrigues Louzã
Numa bonita tarde de primavera, como estava com o
horário mais folgado, alterei um pouco a minha rotina, tomando
outras ruas. Era uma forma de me distrair e conhecer melhor o
bairro. Entrei em um loteamento novo, com árvores
recentemente plantadas nas calçadas e muitas casas em
construção. Fui passando com calma, observando os edifícios
novos, já terminados. Residências típicas de classe média, de
operários qualificados, de chefes de seção, a maioria delas bem
cuidadas, com um pequeno jardim. Algumas delas com hortaliças
e especiarias plantadas e outras com jardins floridos.
Foi então que subitamente vi, defronte a uma delas,
passeando na calçada - e trazendo na coleira um saltitante Cocker
Spaniel preto - uma garota bonita que chamou minha atenção.
Deveria ter seus dezoito ou vinte anos. Trajava uma roupa
esporte, clara e simples, cabelos compridos, castanhos, presos
em um “rabo-de-cavalo” ; olhos claros, brilhantes; pele morena;
caminhar airoso; nem magra, nem gorda, mas bastante elegante.
Irradiava juventude, beleza e alegria.
Fixei meu olhar nela durante os poucos momentos em
que passava lentamente pela rua, enquanto ela brincava com o
seu cachorro. Não sei se ela notou a insistência com que eu a
observava. Mas eu guardei a imagem da jovem bonita que me
impressionou e que por alguns instantes iluminou a minha tarde.
Uns dias depois, não sei porque, resolvi passar pela mesma
rua, na esperança de vê-la uma vez mais. Fui surpreendido pelo
fato de encontrá-la novamente. Brincava com seu cachorro no
jardim de sua casa. Quase parei o carro para poder observá-la
bem. De fato, a minha primeira impressão tinha sido real, ela
era linda e encantadora, com seus longos cabelos soltos,
emoldurando um rosto delicado. Olhei-a insistentemente e ela
reparou no meu olhar e também fitou-me brevemente.
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Memórias literárias
Procurei então, sempre que podia, demorar mais alguns
minutos para chegar ao serviço e passar na porta de sua casa.
Talvez em função do horário – fim de tarde – ela frequentemente
estava ou no jardim ou na calçada, quase sempre com o cãozinho.
Eu passava com o carro, parando e a fitava fixa e insistentemente.
Aos poucos ela passou a corresponder ao meu olhar. Depois
começou a sorrir alegremente para mim.
Assim ficamos bastante tempo, nesta brincadeira – quase
um namoro. Mais ou menos uma ou duas vezes por semana
escolhia o trajeto que permitia cruzar pela sua casa e quase
sempre lá estava ela, e nossos olhares se encontravam e
sorríamos...e só.
O que será que ela pensava de mim? E eu o que pretendia?
Será que aquela linda menina se imaginava uma Cinderela do
século vinte, esperando o seu príncipe encantado que em sua
carruagem vinha vê-la às escondidas, de vez em quando,
procurando-a com seu olhar apaixonado? E eu, o que pensava,
o que pretendia, vindo à sua porta, mais ou menos uma vez
por semana e irregularmente, apenas para vê-la, sem nunca
ter sequer parado o carro, sem nunca ter sequer tentado trocar
com ela uma só e única palavra? Será que sabia que o seu olhar,
ao corresponder, sorrindo ao meu, acendia uma fogueira em
meu coração?
Porém a vida toma os rumos mais diversos, eu mudei meu
local de trabalho...outro bairro...outra direção...novos caminhos
e novos itinerários a seguir.
Não passei mais naquela rua, que fora por algum tempo
meu encanto. Ficou-me apenas a lembrança, daquela linda
menina morena que havia trazido um pouco de ilusão a
algumas de minhas tardes e durante um breve período!
Esqueci-me dela!
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José Rodrigues Louzã
Passaram-se muitos anos, até que um dia voltei novamente
a passar, mais ou menos no mesmo horário – fim de tarde – pela
rua que eu já tinha esquecido.
São Paulo muda muito, mas alguns bairros mantêm-se com
a mesma aparência por décadas. Era este o caso. As árvores
estavam muito maiores e faziam bastante sombra. A maioria das
ruas estava asfaltada, mas seguramente era esta a rua. Procurei a
casa, passando devagar e subitamente senti um calafrio. Avistei
a residência e no jardim uma menina, brincando com um
cachorro...só depois de alguns momentos, em que parei o carro
sob o impacto daquela imagem é que me lembrei que já se haviam
passado quinze ou vinte anos. Era a mesma casa, mas noutro
tempo...duas décadas depois... outro cãozinho. Este era um
Poodle... e outra menina e outra realidade!
Senti por uns instantes as mesmas sensações do passado...
e comecei a pensar...
Que teria acontecido com a minha Cinderela? Teria sido
feliz como eu o fui durante todos estes anos? Será que ainda
estava morando no mesmo lugar? É claro que estas perguntas
ficaram sem resposta...Foram porém motivo de recordação, de
lembrança e de saudade de um tempo que já passara!
Despertaram também na minha memória os sonhos
felizes e inocentes de um amor platônico vivido na minha
juventude!
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Memórias literárias
Marulho
Tarde... mesmo quando longe da praia
ouvia-se o ruído calmo do mar,
sentia-se dos sapos o coaxar,
notava-se o silêncio da baía.
Esta quietude só era quebrada
pelo constante gorjear dos pássaros
com seus formosos garganteares claros,
a alegrar das árvores a florada.
Veio o progresso, a civilização,
as áreas livres foram sendo tomadas.
Casas, edifícios, muito barulho
Tirando-nos os sons e a visão
da praia... agora só vemos fachadas,
e do mar nem se percebe o marulho.
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José Rodrigues Louzã
Soneto triste
Está muito triste, hoje, o meu soneto!
A mesma fachada, a mesma doceira
na rua, olhei a menina faceira,
e ouvi novamente os sons do coreto.
Parei frente ao prédio onde as minhas férias
eu passava com filhos e parentes.
Recordei-me dos amigos ausentes,
dos jantares, dos chopes, das pilhérias,
das prazenteiras noitadas de sábado,
brincando com os de nossa amizade.
Passa o tempo... A vida, de dedo em riste,
aponta o caminho que está traçado.
E eu recordei... E veio uma saudade...
E o meu soneto ficou triste...
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Memórias literárias
Depois do trabalho
Entardecer de inverno. Estou voltando do serviço para
casa, a pé, como faço todos os dias.
Ainda são seis horas da tarde mas já é quase noite fechada.
As luzes das ruas estão se acendendo e desenham na paisagem –
eu estou no alto de um morro – o mapa do bairro. Está um frio
não muito intenso, mas corre um vento úmido e cortante que
me leva a apertar o casaco contra o peito. Apesar da temperatura
a noite é clara, a lua já apareceu e as estrelas começam a surgir,
pontilhando o céu como pirilampos.
Já estava assim de manhã bem cedo, quando saí de casa
para vir ao trabalho, numa tecelagem onde ganho o meu sustento
há mais de dez anos. Não é um emprego brilhante. Bastante
serviço, o horário é puxado – eu faço duas horas-extras por dia
– mas os colegas de trabalho são bons e não me queixo dos
patrões.
Dá para ir vivendo, razoavelmente, com o que ganho.
Hoje, infelizmente, não foi um dia bom para mim. A noite toda
passamos acordados, eu e minha mulher – o nosso filhinho teve
muita febre. Quando saí de casa pedi a ela que se encarregasse
de levá-lo ao médico.
No meu serviço também tive dificuldades. Os teares não
estavam muito bem e os fios arrebentavam constantemente,
levando-me a correr de um lado para outro a emendá-los e a
controlar a qualidade e a produção do setor sob meus
cuidados.
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José Rodrigues Louzã
Pedi para falar com o médico a respeito do meu filho.
Ele me disse para ter paciência e aguardar o que seu colega
iria dizer, mas provavelmente era apenas uma “virose” tão
comum em crianças com a idade dele, no início do inverno.
Porém a sua imagem, muito jururu, quando saí, não me
deixava um instante.
A lembrança da minha família – mulher e filho – fezme recordar de como há uns dez anos tudo começou, ali bem
perto.
Também era frio – noite de junho – festa de Santo Antônio,
organizada pelo clube dos operários da firma em que trabalho
e que diziam era sempre animada.
Não havia ninguém que me acompanhasse, mas também
não tinha nada para fazer em casa, portanto resolvi ir. Arranjei
um velho chapéu de palha e enfeitei-o, pintei um bigode - que
mais tarde deixei crescer de verdade - e fui, como mais um caipira,
para tomar quentão e dançar um pouco.
Logo na entrada havia um grupo de moças, batendo papo,
entre as quais estava uma que eu conhecia de vista.
Cumprimentei-a e às outras e ficamos um pouco na prosa. A nossa
turminha aos poucos se dispersou. Os pares se formavam para
ir dançar. Quando percebemos, restava somente eu e uma das
mocinhas, que como eu, não tinha companhia e também viera
sozinha para a festa. Convidei-a para entrar e dar uma espiada
melhor nos divertimentos que os organizadores tinham
preparado: as comidas, os jogos que distribuíam prendas, os
sorteios, as danças, a quadrilha que ia começar, o pau de sebo e
a fogueira que ardia, muito alta, no meio do pátio, aquecendo o
ambiente.
Ela era uma menina muito bonita, um pouco mais baixa
do que eu, cabelos aloirados, olhos claros, um nariz levemente
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Memórias literárias
arrebitado, pernas bem torneadas, enfim as curvas certas, no
lugar certo e acima de tudo tinha uma voz e uma conversa
agradáveis e um sorriso encantador.
Era um pouco tímida, mas à medida que fomos visitando
a área toda do clube e conhecendo os brinquedos, pudemos jogar
alguns jogos – eu ganhei um ursinho, no tiro ao alvo, que lhe
ofereci e chegamos ao local do baile. Convidei-a para dançar.
Ela a princípio recusou, mas com um pouquinho de insistência,
aceitou. Foi um prazer sentí-la em meus braços e dançamos um
bom tempo.
Fiquei sabendo que seu nome era Maria, que morava
numa rua do bairro, ali bem perto do clube e era auxiliar de
escritório, numa loja na cidade.
Cedo, logo após o escurecer, ela precisou ir para casa.
Exigência dos seus pais, que tinham sido categóricos: - “Não
volte muito tarde”.
Insisti para que ficasse um pouco mais, mas ela
argumentou que depois não teria licença para outras saídas à
noite.
Eu lhe disse - “Que pena, mas tudo bem, então a festa
também terminou para mim. Posso acompanhar você até perto
de sua casa. Assim nós ainda conversamos um pouquinho mais.
Você concorda que nós marquemos um encontro outro dia? Hoje
ele foi tão agradável. Que tal na festa de São Pedro, que é daqui
a pouco mais de uma semana, aqui mesmo e neste mesmo
horário... Conto com você”
- “Ótimo, também gostei muito destes momentos que
passamos juntos ...até lá”.
Voltei para casa muito alegre e feliz. Uma festa que eu
imaginava fosse ser muito chata, tinha se transformado numa
ocasião deliciosa. Conhecera uma garota bonita, um pouco
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José Rodrigues Louzã
tímida, mas com uma prosa inteligente e agradável e que parecia
ter simpatizado comigo. Será que concordaria em ser minha
namorada?
Passei do dia de santo Antônio em diante com o coração
amargurado, pensando na próxima festa e com a dúvida: virá
ou não virá ao nosso encontro? Era uma grande preocupação...
quando se tem apenas vinte anos... Passaram-se os dias e eu
contava as horas, os dias e os minutos, à medida que a festa de
São Pedro se aproximava.
A ocasião chegou e eu vesti a minha roupa melhor,
coloquei camisa e gravata, me arrumei bem. Queria
impressioná-la. Fui para o clube, bem antes da hora. E fiquei
sofrendo com a espera.
Pouco antes do horário que havíamos combinado vi-a
chegando. Ela também tinha se embelezado, cabelo bem
arrumado, discretamente pintada e vestindo uma saia e blusa e
um casaquinho por cima. Estava encantadora.
“- Boa tarde. Estava com medo que você não viesse. Como
você está linda”.
“- Boa tarde. Claro, se eu pudesse, viria mesmo. Achei você
muito simpático e um bom companheiro para uma festa”.
Fomos entrando e logo começamos a dançar. Era muito
agradável tê-la, novamente em meus braços. À medida que
continuávamos a dançar, fui estreitando-a mais em meus braços,
fui correspondido, e até o fim da noite estávamos com os nossos
rostos colados.
É claro, conversamos muito e ficamos nos conhecendo um
pouco melhor – quais as nossas preferências, cinemas, festas,
encontros com os amigos, como eram nossas famílias, onde
morávamos. Na hora da despedida trocamos nossos números
de telefone para podermos conversar e acertar outros encontros.
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Memórias literárias
Foi uma tarde deliciosa e combinamos que, em outra ocasião em
que tivéssemos uma folga, iríamos ao cinema.
Assim passamos vários meses nos encontrando, às vezes
para ir ao cinema, para dançar nos bailes do clube ou
simplesmente para darmos uma volta. Eu telefonava sempre e já
nos sentíamos namorados. Eu a acompanhava, às vezes até sua
casa e fiquei conhecendo a sua família. Ela sempre foi muito
tímida e reservada e apesar de carinhosa, nunca tínhamos ido
além de abraços e de passearmos de mão dada. Combinamos ir
um dia com alguns amigos, passear na Praia Grande.
Combinei com dois casais de namorados, amigos e
companheiros nossos de festas e um domingo fomos para a Praia
Grande. Nenhum de nós tinha carro, então fomos de Metrô até a
estação Jabaquara e no terminal rodoviário para o litoral tomamos
o ônibus do Expresso Brasileiro, com destino à Praia Grande.
O passeio foi muito bonito, a manhã estava clara e a
Serra do Mar toda florida, principalmente de Manacás da
serra, com flores de cores diversas e muito coloridas.
Chegamos ao redor de dez horas, pois havíamos saído de casa
de madrugada. O dia quente e ensolarado convidava a um
banho de mar. Arranjamos um lugar para vestirmos os maiôs,
brincamos e andamos na areia macia da praia e fomos para o
mar, de mãos dadas. Na água eu a segurava para que não
caísse, abracei-a e beijei-a, ela correspondeu. Não saímos da
praia para almoçar, comemos ali mesmo, uns sanduíches,
tomamos uns refrigerantes e assim passamos o dia.
Ficamos na praia até às cinco horas, quando voltamos para
São Paulo. Fora um dia maravilhoso. A companhia dos amigos,
muito gostosa, e para nós que tivemos o mar azul e violento como
testemunha dos nossos primeiros beijos de amor, foi um dia
inesquecível.
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José Rodrigues Louzã
Assim continuamos o namoro e depois o nosso noivado.
As duas famílias já se conheciam e foi possível fazer uma reunião
simples, mas muito agradável, para comemorá-lo.
Com o passar do tempo, com os compromissos assumidos,
aumentei a minha dedicação no serviço e fui sendo promovido.
Pude comprar um Fusca e adquirir uma casa, aquela onde hoje
moramos. Casamo-nos numa igreja do bairro, fizemos um
almoço, apenas para os mais íntimos e, lá pelas quatro horas,
saímos no nosso carrinho, muito felizes, para Santos, para uma
semana de lua de mel.
Fizemos uma extravagância: fomos para um dos melhores
hotéis da praia e num quarto de frente para o mar – que vista
maravilhosa se tinha da nossa janela!
Lembrar o nosso casamento e a viagem de núpcias é
sempre muito bom, e também recordar o passeio que fizemos.
Além do hotel que curtimos muito, é evidente, fizemos com o
nosso carrinho, algumas excursões próximas e fomos conhecer
alguns locais de Santos.
Na cidade fomos ao Aquário Municipal, em frente ao
mar, na Ponta da praia, onde há cerca de uma centena de
espécies aquáticas e é muito curioso, conhecer os peixes vivos
– ver como nadam com elegância. Alguns pinguins, vestindo
as suas casacas, pareciam estar em trajes de gala para nos
receber. Um urso marinho também estava todo agitado,
nadando de um lado para o outro, sem parar. Relativamente
perto, também na Ponta da Praia há o Museu da Pesca, com
miniaturas de barcos de pesca, de várias origens, grandes
peixes empalhados e o esqueleto de uma enorme baleia, de
mais de vinte metros.
No centro fica o Monte Serrat local onde há uma igreja Nossa Sra. do Monte Serrat – de 1609, e à qual se chega com um
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Memórias literárias
“bondinho” funicular. De lá se tem uma vista bonita de toda a
cidade e do porto santista.
No lado oposto da praia, em outro município – São
Vicente – fica o Horto Municipal e na cidade fica o Orquidário
Municipal. Muito curioso o mercado de peixe, com uma fartura
e variedade de produtos marinhos. Ele fica em frente ao local
de onde saem as balsas que fazem a travessia do canal, para o
Guarujá, que é um outro município.
Um dia fomos passear lá, conhecer e tomar banho nas
suas bonitas praias e visitar o forte da Barra. Grande, edificado
em 1584, ao qual se tem acesso de barco, partindo de Santos ou
pela estrada Santa Cruz, partindo do Guarujá. Essa fortaleza,
onde se passaram muitas aventuras e tragédias e ocorreram
curiosos fatos da nossa história, é uma relíquia.
Vinha assim pensando e recordando dias felizes, quando
me voltou a lembrança do meu filho doente – como estaria?...
Não tinha conseguido falar com minha casa e estava, de fato,
muito preocupado. Fora bom ter relembrado o nosso romance,
pois passou mais depressa o tempo que sempre ando a pé, do
serviço para casa e quando percebi já estava a poucas quadras
do meu destino. Assustei-me quando vi a casa às escuras...que
teria acontecido? Entrei e vi no quarto de meu filho uma luz
muito fraca acesa. Fiquei aterrado, mas Maria me ouviu chegar,
veio ao meu encontro depressa, sorrindo e dizendo: “Não se
preocupe, o médico disse que não é nada grave, é só uma
amidalite. Medicou-o e disse para deixá-lo descansar”.
Abraçou-me, beijou-me e também fiquei aliviado das
minhas preocupações. Mais uma vez recordei-me do nosso
romance, tão simples e banal, mas tão belo.Tanto amor, dedicação
e carinho, transformaram o sonho que começou numa noite de
Santo Antonio, em uma realidade muito feliz.
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José Rodrigues Louzã
Uma carta
Quatro amigos ao redor de uma mesa
bem alegres e jogando valentemente.
As cartas na mão e um jogo pendente.
Estão a jogar com muita frieza,
é preciso ser assim no pôquer.
Já discutiram todos os problemas,
resolveram os mais complexos teoremas.
As paixões, os amores e a mulher
foram abordados com muito ardor.
Mas voltando ao jogo. Dadas as cartas,
perguntaram-me quantas, por favor?
Tão somente uma carta, estando nela
meu sonho... Não posso voltar atrás...
Minha ilusão numa carta singela!
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Memórias literárias
A tempestade
Meio dia, as nuvens escurecem
o céu. O vento, cada vez mais forte,
arranca as árvores do seu suporte.
Começa a chover os raios se abatem
com a violência dos trovões que rugem,
e apavoram a todos pela rua.
Aumenta a chuva que não se atenua
e não permite que escape ninguém...
Pouco a pouco ela vai diminuindo.
A tormenta e os relâmpagos passam.
No céu, lentas, as nuvens vão sumindo
e o sol, indolente, volta a brilhar.
E as cores fortes do ocaso pintam
o firmamento, de novo a clarear.
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Esperança
A vida - alcova cheia de surpresas,
Algumas muito boas, outras não.
Pode nos recordar doce paixão
ou trazer então infindas tristezas
com momentos bons ou desagradáveis.
Ocasiões em que ela nos é triste,
sempre nos recebendo de arma em riste.
Temos que aproveitar os agradáveis
instantes que ela pode oferecer.
Lembrar sempre com bastante pujança
que a tristeza não vai nos abater.
Rogar e com muita perseverança
por um amanhã de feliz viver.
Que nunca nos deserte a esperança !
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Memórias literárias
As porteiras do Brás
Uma das lembranças da minha infância que sempre
permaneceu muito viva – talvez por ter acompanhado de perto
o grande progresso porque passou a zona leste – foi a das
porteiras do Brás.
Na segunda metade do século XIX São Paulo assumiu
uma posição de destaque no cenário nacional. O avanço da
cultura cafeeira nas terras roxas, o solo ideal para o plantio do
café, trouxe a necessidade de se providenciar transporte para
nosso principal produto agrícola.
Assim, entre 1862 e 1867, por um consórcio inglês, que
tinha como um dos maiores acionistas o Barão de Mauá (Irineu
Evangelista de Souza – 1813 a 1889) foi construída a S.P.R. – São
Paulo Railway – a Inglesa, como era popularmente chamada.
Esta estrada de ferro atravessava a cidade de São Paulo,
separando a zona leste por porteiras, em alguns dos pontos em
que havia cruzamentos por ruas. Dois destes cruzamentos ficaram
na memória de São Paulo e na minha: o cruzamento da via férrea
com a rua do Gasômetro e com a Av. Rangel Pestana, onde
porteiras se fechavam toda a vez que passava um trem. Já em
1912, jornais levantavam o problema da interrupção do trânsito
na Av. Rangel Pestana, várias vezes por dia e em muitas ocasiões
por mais de 10 minutos – quando o trem que passava era
cargueiro, e seguia a sua viagem, muito lento.
Eu era pequeno e minha família morava além das
porteiras, o que queria dizer que toda a vez que se ia para a
cidade precisávamos cruzá-las na ida e na volta e eu torcia para
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José Rodrigues Louzã
encontrarmos as porteiras fechadas ou tocando a campainha
para avisar que iam fechar, pois assim podia ver de perto os trens.
Enquanto os adultos resmungavam e reclamavam a perda
de tempo, eu me imaginava como “maquinista” daqueles trens,
manobrando-os para frente e para trás apitando e pedindo
passagem.
Às vezes as composições eram muito longas – para
desespero dos adultos e para minha alegria – um trem de carga
muito extenso ou um comboio manobrando para mudança de
linha, e então a composição ia e vinha bem vagarosa.
Os trens cargueiros eram muito variados, desde os vagões
abertos e descobertos a fechados, com a carga que precisava ser
protegida das intempéries, ou vagões para o transporte de
gado, cobertos, mas bem ventilados, com os animais em pé.
Outras vezes longas composições só com carros tanques para
o transporte de gasolina, ou óleo diesel, os carros trazendo
os logotipos das importadoras – Texaco, Esso, etc. Em outras
ocasiões trens de passageiros ou o rápido para Santos, uma
moderna composição de três vagões, o Cometa, que eu
admirava muito.
E foi assim por muitos anos...
Nós mudamos de bairro, fomos morar do outro lado das
porteiras, o que nos facilitava, a mim e à minha irmã para ir ao
colégio, mas papai continuou trabalhando no mesmo lugar –
para lá das porteiras – e ele continuou a enfrentar o mesmo
problema.
Somente em 1948 – eu já estava entrando para a
Universidade – a prefeitura “criou vergonha”, construiu e
inaugurou o viaduto do Gasômetro, o que facilitou e amenizou
bastante o trânsito – via largo da Concórdia e rua do
Gasômetro.
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Memórias literárias
Vinte anos depois, apenas em 1968, é que foi construído
o viaduto na Av. Rangel Pestana, que recebeu o nome de Viaduto
Alberto Marino – homenagem ao autor da música “Rapaziada
do Brás”. Nascido no Brás (1902 – 1967), descendente de
italianos, foi regente, compositor, violonista e professor. A letra
da bonita valsa foi posteriormente escrita – 1960 – por seu filho
Alberto Marino Junior. “Lembrar, deixe-me lembrar meus
tempos de rapaz, no Brás”.
Finalmente foi aberta, por volta de 1960 e sendo
construída e inaugurada aos poucos – um trecho e depois o
seguinte – a Radial Leste.
Ficou, assim, definitivamente superado o problema que
acompanhei desde a minha infância e juventude, mas que eu
ainda recordo com a saudade e a nostalgia das dificuldades, dos
tempos das porteiras abrindo e fechando e dos trens que eu via
passar...
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José Rodrigues Louzã
Paraíso perdido
O paraíso está sempre escondido,
passamos toda a vida a procurá-lo
mas é muito difícil encontrá-lo
e ele para nós parece perdido!
Paraíso, por que fazes assim?
Por que na vida nunca te alcançamos?
Por que nunca obtemos o que almejamos?
Por que esta procura eterna, sem fim?
Procurei-te muito, em casas e lares
em escolas e hospitais, a esmo,
em toda religião e toda grei,
procurei-te por todos os lugares,
mas estavas, só, dentro de mim mesmo,
“paraíso perdido que eu achei!” *
*O verso em itálico é de Guilherme de Almeida,
do livro “Poesia Vária” - As chaves de ouro
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Memórias literárias
Castelo de areia
Dia de verão! O sol muito brilhante!
O garoto vai à praia brincar.
Quer um castelo de areia plantar,
que seja um porto para o navegante.
Lança-se à obra com dedicação,
surgem torres, fossos, pontes, muralha,
canhões para a defesa com metralha.
Mas nada vence do mar a ação,
que aos poucos abate o frágil castelo.
Triste, ele ouve as estrelinhas do mar
que estão a lhe dizer: “Jovem! coragem...
refaça com amor. Seja mais belo
e maior... trabalhe sem se queixar.”
Num devaneio, criou nova imagem!
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José Rodrigues Louzã
Na porta da escola
Foi numa tarde quente de verão.
Despreocupados, jovens estudantes
desciam a Rua Augusta, elegantes.
Irão ver as alunas no portão
da escola por onde devem passar.
É a mesma rotina de todo o dia.
As meninas com grande simpatia,
ansiosas, estão a nos esperar.
Vi-te: os olhos verdes e brilhantes,
fixos nos meus... irradiando paixão.
Nesse dia cálido de verão
os olhares se cruzaram... distantes.
Desde então - minha vida - meu olhar
ficou, para sempre, a te acompanhar!
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Memórias literárias
Os meus quadros
Noite muito fria. Após o jantar,
Atentei para os quadros pendurados.
Notei que eles trazem muitos recados.
Recostei-me na sala a meditar...
Perguntei-me – que mistério se esconde,
Se disfarça, por trás de cada tela?
Para onde irá aquela branca vela?
A bela pintura não me responde.
Indaguei ao mar. Que pensaria o pintor
Ao retratar-te assim tão forte e violento?
Seria uma queixa triste de amor?
Porque ás vezes, mostras tanto ardor?
Sei apenas que todo este seu lamento
Representa do artista o seu clamor.
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José Rodrigues Louzã
Árvore amiga
Ela assinalava, da casa em frente.
com sua altura, a nossa moradia.
Braços abertos, solene guia
e amiga, ouvinte do adolescente.
que à tarde recostado na escada,
conversa com a velha araucária,
contando sua tristeza e alegria
e os belos sonhos da sua jornada.
Os estudos e lições eu narrava,
chorava meus amores, à mercê
do chuvisco, a ouvir o sabiá.
Agora que tanto tempo passou
que saudades eu sinto de você
amigo – pinheiro do Paraná.
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Memórias literárias
A vida
Nossa infância é uma brincadeira constante:
jogos, festas, sonhos, aventuras sem par.
As preocupações vão chegando devagar
e ocupam toda a nossa vida de estudante.
Depois a mocidade com os seus amores,
suas obrigações, prazeres e alegrias,
seus desenganos, desamores, fantasias...
Rapidamente nos dominam os temores
da velhice, que se aproxima de mansinho.
Tristes, com ela seguimos nosso caminho
enquanto recordamos as coisas passadas.
Sentimos então que o tempo passa veloz.
Ate que um dia, igualando todos nos,
cai o pano final das pálpebras fechadas*.
(* O verso em itálico é de Guilherme de Almeida,
em “As chaves de ouro”, no livro Poesia Vária.)
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José Rodrigues Louzã
Anoitecer na mata
Na bela paisagem vislumbra-se a serra.
E ao cruzar lindo trecho da mata
o encanto do mistério arrebata.
O sol triste despede-se da terra
enquanto pouco a pouco o poente
vai tingindo o céu de vários tons rosa.
E sombras, devagar, na nebulosa
Enfeitam toda a paisagem dormente.
Há riqueza nas flores dos arvoredos
ipês rosa e amarelos, roxos manacás,
E na penumbra dançam as palmeiras.
A lua desponta atrás dos rochedos
revelando à noite que chega fugaz
o encanto das matas brasileiras!
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Memórias literárias
Memórias literárias
da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
Fascículos virtuais com seleção de textos de autores da
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - SOBRAMES
Rumo Editorial Produções e Edições Ltda.
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Editor: Marcos Gimenes Salun
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