9 MB 10/07/2013 Semanario 15 Junho 2013

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9 MB 10/07/2013 Semanario 15 Junho 2013
DIRECTOR
SALAS NETO
[email protected]
Kz 250,00
EDIÇÃO 519 ANO VII
w w w. s e m a n a r i o -a n g o l e n s e . co m
SÁBADO • 15 de Junho de 2013
CRÉDITO BANCÁRIO
Grande trafulha
no BPC do Zengá
MIA COUTO, PRÉMIO CAMÕES DE LITERATURA
«A escrita é casa que visito
mas onde não quero morar»
A vez de António Sita no «caldeirão» de Luanda
MAIKE-ALFA-LIMA
Embora seja bem apetitoso, o cadeirão de comandante da Polícia de Luanda acaba por se transformar num «caldeirão», em face da complexidade dos problemas que o seu ocupante tem de
enfrentar, numa cidade em que os níveis de criminalidade são sazonalmente assustadores, como
agora, em que a situação está verdadeiramente «maike-alfa-lima». Não há nenhum que se tenha
saído em grande na senda pela ordem e tranquilidade da capital. Será que António Maria Sita
o conseguirá? É o que vamos ver. «Bravo Tango», Comandante!
2 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Em Foco
Teimosas esperanças
A
selecção nacional de
futebol hipotecou em
grande as suas possibilidades de qualificação ao
Mundial de 2014, no Brasil, depois
de não ter conseguido melhor que
um empate (1-1) na recepção à sua
similar senegalesa, sábado último,
em Luanda.
Neste desafio, os angolanos jogavam a liderança do seu grupo
de qualificação na zona africana
da competição, que integra ainda ugandeses e liberianos, todos
então com possibilidades de chegarem à fase ulterior das eliminatórias regionais.
Em caso de vitória, a selecção
nacional assumiria a primazia no
grupo, desde que os liberianos não
chegassem a um triunfo na sua deslocação à casa dos ugandeses. Os jogos contavam para a quarta jornada
da competição e o desfecho era importante para o início da definição
das eventuais posições finais.
Os angolanos tinham necessidade imperiosa do triunfo no jogo
de Luanda, para dependerem exclusivamente de si no que faltaria
disputar até ao fim desta penúltima fase do torneio africano de
qualificação, mas o melhor que
fizeram foi a repartição de pontos, um resultado favorável aos
senegaleses, já que lhes permitiu
seguir na liderança, com seis pontos, beneficiando da vitória (1-0)
dos ugandeses sobre os liberianos.
Os ugandeses, por seu lado, foram quem melhor tirou proveito
da ronda, descolando da última
para a segunda posição, agora
com cinco pontos. Os angolanos
não se moveram, continuando na
terceira posição, agora com quatro pontos, igual pecúlio dos liberianos, que saíram do segundo
posto para a cauda do grupo.
Embora precisassem vitalmente da vitória diante dos senegaleses, os angolanos pouco fizeram
para consegui-la, ao protagonizarem uma actuação descabelada,
sem tino nem nexo, enfim, desastrada. E isto muito por conta de
erros de concepção graves do próprio selecionador, que continua a
espelhar incompetência para armar uma equipa com algum jeito.
O futebol que a selecção nos tem
apresentado não é muito diferente
do que qualquer do girabairro é
capaz de produzir, passe o exagero. O combinado nacional (se assim se lhe pode chamar, uma vez
que tudo parece descombinado)
continua sem a ligação desejada
entre os três sectores (defesa, meio
e ataque) e denota alguma falta de
ambição e mesmo empenhamento. Os jogadores mais pareciam
estar numa «passarela» ou a tratar
das unhas num salão de beleza.
Em face disso, era impossível
que os angolanos se impusessem
Depois desta ronda, os angolanos
passaram
para
aquela velha condição em que gostam
de estar nos torneios qualificativos
do continente, quer
para provas de âmbito africano, como
para as de cariz
mundial (caso vertente): a depender
de terceiros
a uma equipa bem arrumada
como a dos senegaleses, de longe
superior em todos os capítulos.
No fundo, o empate conseguido
até acabou por ser um resultado
lisonjeiro para os anfitriões.
Depois desta ronda, os angolanos
passaram para aquela velha condição em que gostam de estar nos torneios qualificativos do continente,
quer para provas de âmbito africano,
como para as de cariz mundial (caso
vertente): a depender de terceiros.
E está assim: para reacenderem
as esperanças na qualificação,
além de precisarem de ganhar em
Kampala já neste sábado, os angolanos têm ainda que esperar que
os senegaleses percam pontos na
deslocação à Monróvia.
A situação não está nada simpática. Primeiro, porque Kampala não traz boas recordações aos
angolanos, já que quase sempre
regressam de lá com derrota. Algumas bem pesadas mesmo. E
depois porque não é lógico esperar
que os senegaleses se deixem praticamente morrer na praia, pelo que
é suposto que os liberianos sequer
conseguirão respirar mesmo a
contarem com os benefícios que a
condição caseira lhes oferece.
No entanto, o fundamental,
para já, é ganhar em Kampala.
Sendo possível, não nos parece
provável, mais ainda quando
não acreditamos em milagre.
Mas, como o futebol não quer
saber de lógicas, tudo ainda
pode acontecer.
E lá vão os angolanos (agora em
menor número) ainda com esperanças de irem ao Brasil em 2014.
Sonhos teimosos que alguém continua a querer alimentar, ao invés de
caírem já na real, como diriam os
manos do país do samba.
Nota: mais logo, a situação estará
já mais clarificada – uma derrota
significaria o fim dessas teimosas
esperanças.
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Director: Salas Neto
Editores — Editor Chefe: Ilídio Manuel; Economia: Nelson Talapaxi Samuel
Sociedade: Pascoal Mukuna; Desporto: Paulo Possas; Cultura: Salas Neto; Grande Repórter: joaquim Alves
Redacção: Rui Albino, Baldino Miranda, Adriano de Sousa, Teresa Dias, Romão Brandão, e Edgar Nimi
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Celso Malavoloneke, Tazuary Nkeita, Makiadi, Inocência Mata, e António dos Santos «Kidá»
Correspondentes: Nelson Sul D’Angola (Benguela) e Laurentino Martins (Namibe).
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JES FALOU
São raras a vezes em que o presidente da República fala em publico. Para os jornalistas então!... Neste dia JES falou à SIC e suscitou muitas reacções. A corrupção, pobreza, sucessão
presidencial e manifestações dos jovens foram
alguns do temas abordados.
CAUSAS DE CRIMES
A Polícia Nacional no Huambo apontou
como causas principais da criminalidade, o
consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de
liamba. Revelou-se ainda que ali surgem a cada
dia novos grupos de marginais. É já «epidemia»
nacional o crescimento do fenómeno?
NGONGO DE LUTO
Maria Eulália Leal Monteiro, mãe do deputado e general Roberto Monteiro «Ngongo», faleceu
neste dia, aos 106 anos. A anciã repousa no Alto
das Cruzes. Descrita como optimista, que gostava de viver e sempre transmitiu isso ao resto da
família, teve oito filhos, 20 netos e 34 bisnetos.
«DIMIXIS» EM FORMAÇÃO
O Instituto de Formação da Administração
Local (IFAL) encerrou neste dia um curso sobre contratos administrativos, em que participaram 23 funcionários da Administração
Municipal de Menongue. O curso foi dirigido
a directores das repartições municipais, chefes
de secção e técnicos.
MBANZA CONGO EM ALTA
A classificação de Mbanza Congo como Património Cultural Nacional aconteceu neste dia,
em cerimónia presidida pela ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva. O próximo passo será elevar a localidade a Património da Humanidade.
Para tal, Rosa Cruz e Silva já pediu apoio à Itália.
MENOS IMPOSTOS
A taxa do imposto industrial vai ser reduzida de 35 para 30 por cento, uma das propostas
apresentadas pela equipa que coordena a reforma tributária. O Conselho de Ministros já
apreciou um conjunto de diplomas da reforma
do Sistema Fiscal.
BÓNUS NO BIC
O BIC vai em breve bonificar as taxas de
juros dos créditos aos funcionários públicos,
para permitir que estes adiram massivamente aos financiamentos que esse banco oferece
aos clientes. Fernando Teles, o seu PCA, revelou isso no Huambo.
MANIF DE CENTRALIDADES
Dezenas de pessoas que adquiriram casas nas
centralidades de Cacuaco e o Kilamba manifestaram-se à entrada da Sonangol, reivindicando a
entrega das chaves dos seus apartamentos. «Por
telefone, não explicam as razões do atraso, agora,
a SONIP aguenta-se com as manif’s.»
4 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Em Foco
Para manter-se como de director de gabinete do Governador…
José Filipe diz ter recusado
convite de Isaac dos Anjos
Nelson Sul D’Angola
U
m mês depois de Armando da
Cruz Neto ter visto confirmado
o seu pedido de demissão do
cargo de governador provincial
de Benguela, José Chilonga Filipe, até então
director do seu gabinete, sai a terreiro para
revelar que acabava de declinar o convite
de Isaac Maria dos Anjos, o novo titular,
para se manter no posto.
José Chilonga Filipe reagia assim ao
artigo publicado na nossa última, em
que ele também era referenciado como
um dos «órfãos» Armando da Cruz Neto.
No artigo, referia-se que este coronel das
FAA «emprestado» ao executivo benguelense era uma das figuras que mais se ressentia da saída do general da governação
local, de quem era um dos principais colaboradores.
Interrogávamos-nos igualmente se José
Chilonga Filipe conseguiria fazer corredores
para ser manter como director do gabinete
do actual governador ou se não seria melhor
antecipar-se, pedindo a sua demissão, antes
que fosse afastado por Isaac dos Anjos, cenário apontado como o mais provável.
C
Entre as diversas cogitações, sustentávamos que a melhor saída para ele seria o
regresso ao activo nas Forças Armadas.
E esta foi mesmo a melhor saída que José
ChilongaFilipe encontrou, como ele próprio confirmou ao Semanário Angolense,
Crise na CASA-CE
om apenas dez meses na função de secretario provincial executivo da CASA-CE
em Benguela, Florêncio Canjamba está
em vias de ser exonerado do cargo, por
alegada má gestão financeira e incapacidade para
desempenhar cabalmente o seu papel como representante da coligação na oposição política local,
soube o Semanário Angolense de boa fonte.
Florêncio Canjamba é ainda acusado de violação
dos estatutos da organização, ao proceder a exonerações «anárquicas» dos quadros da coligação, com
base no amiguismo, trocando militantes experientes por figuras próximas a si, apenas por isso mesmo, o que tem causado um mal-estar no seio da
CASA-CE em Benguela, com evidentes prejuízos
para os seus interesses políticos.
O mal-estar é tanto que muitos militantes estão
já a preparar as «imbambas» para baterem com a
porta, com destino ao Galo Negro, o maior partido da oposição angolana, que verá com bons olhos
esta crise entre os «casados» de Benguela.
As fontes do SA dizem ainda que há muito que
o conselho presidencial da CASA-CE vinha protelando a exoneração de Florêncio Canjamba, devido
às noticias publicadas por este jornal, dando conta
da «inoperância» da coligação de Abel Chivukuvuku em Benguela.
Contudo, após um grupo de militantes ter,
alegadamente, enviado a Luanda um dossier que
detalhava o clima de crispação reinante no secretariado de Benguela, o conselho presidencial
da coligação passou a encarar a manutenção de
Canjamba no posto como sendo um risco, dado o
facto de Benguela ser considerada como segunda
praça política do país.
A vinda a Benguela do inspector nacional da
CASA-CE, Rui Isaac, para as nossas fontes, será a
prova mais evidente de que a exoneração de Florêncio Canjamba é uma questão de dias, podendo vir a
ser substituído por um antigo deputado da UNITA
identificado apenas por Caetano.
Contactado pelo SA, Florêncio Canjamba, refutou as acusações sobre as alegadas exonerações
«anárquicas» que procedera, afirmando mesmo
que, à luz dos estatutos, estão proibidas defecções
de quadros por iniciativa do secretário provincial
da coligação.
«A única coisa que os estatutos admitem é
mudarmos um quadro de um sector para outro
e nunca exonerá-lo. Portanto, essa acusação não
corresponde à verdade, até porque não fizemos
sair nenhum comunicado publico que indique
isso», disse.
Questionado sobre as razões que estariam na
base da vinda do inspector nacional da CASA-CE
a Benguela, Florêncio Canjamba afirmou que a sua
visita se enquadrava nas actividades domesticas rotineiras da estrutura de fiscalização da coligação,
para averiguar apenas o funcionamento da sua representação em Benguela, sem ter algo a ver com
supostas crises no seu seio .
■
NSA, em Benguela
reiterando, no entanto, que fora convidado
para manter-se, ao que acabou por declinar, sem apontar as razões da sua decisão.
Antes disso, refutou categoricamente
que estivesse a ressentir no «bolso» com a
saída de Armando da Cruz Neto, como indicáramos no mesmo artigo.
«Não tenho porquê estar a ressentir no
bolso com saída do general Armando, até
porque, se quer que lhe diga, ganho melhor
nas forças armadas do que no governo. E
mais: se há coisas que ganhei durante a
minha passagem pelo governo, gostaria
de destacar as boas amizades que fiz com
as pessoas com quem privei durante esses
anos todos, assim como o prestígio grangeado. Fora disso, nada mais ganhei», disse
José Chilonga Filipe. E confirma: «Irei sim
voltar às Forças Armadas Angolanas, donde havia sido requisitado pelo governador
cessante para que pudesse dar o meu contributo na função executiva do Estado».
José Chilonga Filipe e Armando da Cruz
Neto têm uma relação antiga, tendo já sido director de gabinete do general ao tempo em que
ele era embaixador de Angola em Espanha.
■
(*) Em Benguela
5
Em Foco
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Por alegada campanha difamatória
MPLA de Luanda contra
semanário «O Continente»
O
comité provincial de Luanda do
MPLA distribuiu à imprensa
nesta semana um comunicado
em que se manifesta indignado
com uma alegada campanha de calúnia e
difamação empreendida pelo jornal «O
Continente», para sujar a imagem da instituição, em particular a do seu primeiro
secretário, o «cda» Bento Bento.
Há dias, Bento Bento fora citado pela
publicação como estando a subverter o
processo de renovação das estruturas municipais do partido no poder em Luanda,
referindo que ele estaria mesmo a inibir,
em meio a ameaças, os potenciais candidatos aos postos em disputa, para que eles
sejam ocupados por figuras da sua conveniência.
Mas, a direcção do partido dos camaradas em Luanda contesta as alegações,
considerando-as como absolutamente infundadas, uma vez que o processo assembleário nos diversos distritos da circunscrição estará a decorrer normalmente ao
nível local, sem intromissões de quaisquer
espécies da estrutura partidária provincial
no que toca às candidaturas que se têm
apresentado para a disputa dos cargos em
jogo.
Segundo o comunicado, produzido a
meio desta semana, tão logo foram criadas
as condições procedimentais, conducentes
à realização do processo constitutivo dos
comités dos distritos, as subcomissões de
candidaturas estiveram prontas e disponíveis para receberem as intenções dos concorrentes ao cargo electivo de 1.º secretário
distrital, avaliando-se depois se eles reuniam os requisitos exigidos pelos Estatutos
e demais Regulamentos do Partido, facto
que ocorreu sem qualquer problema.
Entretanto, diz o comunicado, o Comité Central do MPLA, o Bureau Político e o
Comité Provincial trataram desta matéria,
orientando que o processo assembleiario
fosse levado a cabo sob obediência das
normas estatutárias, regulamentos e demais directivas do MPLA, no sentido de
adequar a sua estrutura à nova divisão político-administrativa da província.
Diz ainda o comunicado que o Grupo de
Acompanhamento do Secretariado do Bureau Político à província de Luanda visitou
os comités municipiais e os distritais em
formação, para constatar o seu estado de
organização e processos de candidaturas,
tendo concluido com satisfação que tudo
estava a decorrer bem,
Segundo o comite provincial do MPLA
em Luanda, diante de «factos tão inéquivocos como estes», não restam dúvidas de
que o jornal de Henriques Miguel continua
incessante a sua campanha especial contra a instituição, dirigida especialmente
contra o seu 1.º secretário, Bento Bento,
considerado, ao contrário, como um «fiel
cumpridor das orientações superiores» do
MPLA.
«Quer o 1.º secretário províncial, quer os
demais integrantes da direcção do partido
na província deram autonomia para que as
subcomissões de candidaturas decidissem
por si sobre o processo ao nível das suas
circuncrições territóriais, cabendo apenas
ao respectivo orgão superior o papel de
fiscalizador e aconselhador, ali onde algo
estivesse errado», sublinha o comunicado.
A concluir, garante queo espírito democrático e a transparência no processo de
candidaturas decorreu com a maior normalidade e sem sobresalto algum. «O que
nos leva a caracterizar o comportamento
do Jornal ‘O Continente’ como sendo não
sério, caluniador e (...) nocivo ao estado democrático e de direito, que se quer justo,
equilibrado e eficaz, aonde o cidadão deve
ser informado com verdade», remata o comunicado do «M» de Luanda.
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6 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Capa
Cidadãos estão cada vez mais intranquilos
Bandidos «mijam» em Luanda
A cidade capital está, desde há umas semanas, fortemente policiada, particularmente nas zonas urbanas.
O aparato policial que se vê nas ruas, que incluiu forças especiais, assim como a polícia militar, deixa alarmada
a população, quase se parecendo com uma cidade em estado de sítio
Kim Alves
A
província de Luanda,
nomeadamente as suas
zonas urbana e periférica, tem sido assolada,
nos últimos dias, por uma crescente onda de criminalidade que está
a tomar contornos alarmantes.
A população está assustada e
não sabe ao certo a que se deve tal
situação, que preocupa também
as autoridades. Estas foram, no
entanto, apanhadas de surpresa
quando, há cerca de duas semanas, três agentes policiais foram
mortos por homens armados não
identificados no seu posto de trabalho, ao Kikolo. Uma semana
depois, mais dois policiais foram
igualmente mortos em diferentes
zonas da cidade: um, por atropelamento criminoso, já que os seus
autores acabaram por levar a sua
arma, ao Cazenga, e outro, a tiro,
por ter resistido a uma abordagem
de bandidos que lhe queriam a
sua motorizada.
A população sente que a cidade está militarizada, o que a deixa
apreensiva, por carência de uma
informação concreta.
A preocupação das pessoas que
trabalham no centro da cidade e
habitam na periferia, principalmente em zonas mais distantes,
é regressar à casa tão logo terminem as suas actividades. Diversas
pessoas têm sido molestadas e
algumas mortas em acções de delinquentes que visam, geralmente,
os seus bens materiais ou monetários. Em algumas áreas da cidade, viaturas paradas no engarrafamento têm sido abordadas, em
pleno dia, por bandidos armados,
que exigem dos utentes dinheiro,
telemóveis e joias, entre outros
bens. A resistência pode custar a
vida ou, no mínimo, um ferimento e a destruição dos vidros da
viatura.
Os transeuntes têm sido igualmente alvos de assalto pelos mesmos motivos, tanto nas zonas
urbanas, como na periferia. Com
o cair da noite, a insegurança
aumenta e o perigo espreita em
qualquer esquina ou passagem
menos iluminada. Para além dos
assaltos, há ainda a violação de
mulheres e espancamento quando
alguém assaltado não tenha nada
que interesse aos bandidos.
Transportes nocturnos
A falta de transporte público
de passageiros a noite agrava a
situação, principalmente de trabalhadores e estudantes nocturnos. Ultimamente, muitos trabalhadores e não só aproveitam os
cursos nocturnos para aumentar
o seu conhecimento e quando
saem dos estabelecimentos escolares para regressarem à casa,
não há autocarros ou outro meio
de transporte que facilite o seu
trajecto. Os autocarros públicos
e de empresas privadas similares
recolhem-se com o cair da noite.
Alguns táxis ainda fazem umas
corridas durante a noite e, apesar
do preço elevado, vão ajudando os
que podem. Com o estado de in-
segurança dos últimos dias, também esses vão ficando raros e os
que labutam até mais tarde, assim
como os estudantes, nada mais
podem fazer senão caminhar, enfrentando os perigos da via.
O problema da falta de circulação de transportes públicos de
noite na cidade de Luanda e periferias não é novo e dificulta imenso a vida da população, sobretudo
em caso de uma emergência por
questões de saúde ou outra.
O incremento de crimes diversos em Luanda verifica-se, sobretudo, nas zonas periféricas, onde
diversas jovens têm sido molestadas e violadas, quando não são
mortas também.
Há cerca de duas semanas, entre as 21 e as 22 horas, um jovem
foi morto por espancamento no
bairro das Mangueirinhas, zona
da Caop A, município de Viana,
quando regressava à sua casa.
De acordo com a vizinhança,
os meliantes queriam apoderar-se do seu telemóvel e possíveis
valores que o malogrado teria
em sua posse. Como ele opôs
resistência, seria forte e barbaramente espancado, acabando por
falacer horas depois por obra
da violência que os bandidos
descarregaram sobre ele. Foi o
quarto caso do género no bairro
só neste ano.
A população daquela área atira as culpas para a falta de policiamento nocturno naquele
bairro. «Durante o dia, aparecem
muitos agentes da Polícia aqui só
para ‘pentearem’ os que fazem
táxi e prender as motas, que nem
vão para a unidade; mas, das dezoito horas em diante se, só se vê
agentes por aqui a beberem nesta
ou naquela barraca», acusa um
morador do bairro.
Na mesma esteira, um outro
cidadão foi morto nesta terça-feira, 11 do corrente, no bairro
da Boa Fé, município de Viana,
por meliantes que lhe roubaram
a mota em que se fazia transportar. Moradores locais dizem que
a vítima resistiu ao assalto, o que
derivou na sua morte. ■
7
Capa
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Para contrapor-se à sofisticação
do «modus operandi» dos bandidos
Adaptação policial precisa-se
O
s bandidos, geralmente
armados, estão cada
vez mais destemidos,
ao ponto de enfrentarem os agentes da polícia. Porém,
a população, sobretudo a que reside em bairros de risco, diz que
a corporação faz muito pouco
para conter a situação, apontando
mesmo o dedo acusador a certos
agentes por alegada conivência
com os bandidos.
Actualmente, já se fala de
crime organizado em Angola,
sobretudo em Luanda. Esses
delinquentes estão ligados ao
tráfico de droga e à crimes de
«colarinho branco», em que são
geralmente apoiados por figuras bem cotadas no país. Essa
delinquência, não admite interferências nas suas actividades e
age com extrema crueldade. Ela
está a crescer e a enraizar-se a
uma velocidade estonteante que,
brevemente, será muito difícil
controlar.
Neste contexto, os métodos de
trabalho e actuação da Polícia
Nacional tem que se adaptar à
evolução da própria criminalidade. Hoje por hoje, salvo em alguns
casos, o policial, agente ou oficial,
age como um mero funcionário
público: apresenta-se ao local de
trabalho pela manhã e a meio da
tarde vai-se embora para casa ou
para outros caminhos. Os poucos
que ficam destacados nas unidades, em caso de alguma ocorrência durante a noite, em regra, sob
os mais variados pretextos (não
temos isso, não temos aquilo),
não acodem aos cidadãos, não
patrulham coisa alguma e alguns
até fogem ao choque com os delinquentes.
Os cidadãos questionam esta
postura e comentam: «Actualmente, a polícia já não paga tão
mal assim. É mesmo dos sectores
públicos que melhores ordenados oferece. Em contrapartida, é
só normal ver-se agentes na rua
durante o dia. Depois da hora de
expediente público, eles também
vão desaparecendo e, ao cair da
noite, já não se vê nenhum polícia nas ruas de Luanda, salvo raras excepções. Tudo fica entregue
aos lobos. E na periferia então, já
nem adianta falar. Se aparecem
de dia, é mais para ‘pentear’ do
que outra coisa. E com o seu desaparecimento, os bandidos fazem a festa».
■
Chefe de Estado quer
melhor desempenho
Viana, Cacuaco e Ingombota
Perigo em alta
O
s populares dos bairros da Caop A e B, no
município de Viana, que segundo uma
fonte da Polícia, é um dos mais afectados actualmemente pela criminalidade,
queixam-se dos chamados ralis de motas de duas e
quatro rodas, que fazem um barulho infernal, estendendo-se pela noite e madrugada. Queixam-se
também da poluição sonora causada por inspirados
«dj’s» que não querem saber do sossego dos seus concidadãos, incluindo doentes, que são incomodados
pela barulheira,
Quem reclama é violentado. «A Polícia nunca aparece, nunca vimos um só carro de patrulha nas ruas
deste bairro, nem de dia nem de noite e há mesmo
polícias que aqui vivem e que deviam fazer o chamado trabalho de sector, mas nada fazem, apesar de
conhecerem os delinquentes e prevaricadores», conta Alberto Ngalula, funcionário público. O cidadão
acrescenta que nesse bairro, associada às «rachas» de
motas e de carros, a delinquência fala alto, incluindo
a violação de meninas. «Há dias, mataram aqui um
jovem, junto da entrada para a passagem aérea que
dá para a Vila, passava pouco das 19 horas, mas a
Polícia só apareceu no dia seguinte de manhã», lamentou.
É assim em outros bairros de Viana, mas também
igual acontece no Cazenga, em Cacuaco, no Rangel,
Sambizanga, Prenda, e um pouco por toda Luanda.
De acordo com a fonte da Polícia Nacional já citada,
os municípios de Viana e Cacuaco e o distrito urbano da Ingombota são os mais afectados pela criminalidade. A fonte explicou que há áreas específicas
nessas localidades em que o crime é alto e violento.
Em Viana distinguiu os bairros da Caop A e B, Capalanga e Boa-fé, especialmente na área conhecida
como «Rasta». No Cacuaco, referiu o Kikolo em toda
a sua extensão, o Paraíso e o Mulenvos como zonas
onde o crime é que manda.
Quanto à Ingombota, a nossa fonte diz que há
focos criminosos um pouco por todo o distrito,
embora a Polícia conheça as mais críticas.
■
F
ace ao estado de inquietação e insegurança em Luanda, o
Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, ao exonerar a
comissária-chefe Elisabeth Rank Frank «Bety» do cargo de
comandante provincial de Luanda e nomear para o seu lugar, o agora comissário-chefe António Maria Sita, terá querido implantar uma nova dinâmica no desempenho da Polícia Nacional na
província que alberga a capital do país e, em consequência, as mais
altas instâncias do Governo e do Estado.
Certamente, não terão faltado orientações precisas do Chefe de
Estado ao titular da pasta do Interior, Ângelo Veiga, e ao novo comandante, porque o seu trabalho não será fácil.
É grande a expectativa em torno do eventual desempenho do novo
comandante de Luanda. «A população espera por si para enriquecer
a mensagem de segurança que pretendemos passar (...) e para isso
deverá também interagir com ela», referiu o ministro, realçando que
«os grupos que ousam, de armas na mão, procurar alterar de forma
profunda a ordem e a tranquilidade públicas, para esses a nossa mensagem é clara: devemos ser implacáveis. A corporação será bastante
implacável com os que se dedicam ao crime, ao invés de trabalharem
de forma honesta».
■
8 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Capa
Para, finalmente, colocar ordem em Luanda
Será o comissário-chefe António Sita
o homem de quem se estava à espera?
saber, lembrando-se apenas de um ou outro
nome. Também o próprio site da Polícia Nacional não tem nenhuma referência sobre o
assunto.
Contudo, o SA saber que já chefiaram o
CPL, desde a passagem da corporação para
o Comando-Geral, os seguintes comandantes: Gaspar da Silva, Ferreira Neto, Mussolo,
Panda, António P. J. Candela, Quim Ribeiro
e Elizabeth Rank Frank. Portanto, António
Maria Sita é o oitavo titular da corporação na
«era moderna».
província numa situação de instabilidade social muito grave.
Para acabar ou diminuir com
o alto nível de criminalidade que
se registava na província de Benguela, o agora comandante de Luanda, muito mais do que impor
o uso da força, havia adoptado a
fórmula do diálogo para se alcançar a solução do problema. E uma
das fórmulas encontradas pelo
comissário-chefe, António Maria Sita foi promover a reinserção
social de boa parte dos elementos desses grupos que, um pouco
mais tarde, eles se descompuseram. Alguns chegaram mesmo a
fazer parte da corporação, com
resultados animadores.
Mas, em face das características específicas de Luanda,
a partir da sua grandeza, os
observadores acreditam que a
fórmula aplicada em Benguela
não teria muitas hipóteses de
vingar.
No campo político, o comissário-chefe António Maria Sita
teve um desempenho positivo,
se tivermos em conta as declarações favoráveis ao seu desempenho dos líderes dos partidos
políticos (situação e oposição),
se bem que não tenha conseguido acabar com a instrumentalização da polícia ao nível dos
municípios do interior da província, nos quais os agentes da
corporação mais pareciam activistas do partido no poder ou
criados dos administradores.
Agora nas vestes de novo
comandante da Polícia de Luanda e delegado do Ministério
do Interior, há pouco menos
de 3 semanas, em substituição
da comissária-chefe Elizabeth
Ranque Frank (Bety), os luandenses procuram saber o que é
que António Maria Sita irá fazer para tirar a cidade capital
do sufoco em termos de criminalidade em que se encontra.
Vamos esperar pela concretização dos planos que ele tem preparado, no afã de tentar sair-se
melhor que os seus antecessores,
na sua maioria sem histórias bem
sucedidas para contar. Será que
António Maria Sita conseguirá
quebrar o «enguiço»?
Kim Alves
(*) Em Benguela
Nelson Sul D’Angola (*)
T
ido como um dos melhores comandantes que
já passaram por Benguela, o agora comissário-chefe António Maria Sita, fora
nomeado comandante provincial
da policia nacional e delegado do
Ministério do Interior, no ano de
2007, em substituição do comissário-chefe Mário de Oliveira
Santos, actual Director Nacional
para Ordem Pública da Policia
Nacional. Antes de dirigir a corporação na província de Benguela, António Maria Sita exercera
iguais funções na província mais
a norte do país, em Cabinda.
Quando chegou à Benguela,
a criminalidade apresentava um
quadro preocupante, não apenas
para as autoridades, mas, sobretudo, para a população em geral.
Entre 2007 e 2009, Benguela chegou mesmo a ser considerada a
segunda província mais insegura
do país, em termos de criminalidade, depois da capital.
Assaltos à mão armada e violações sexuais constavam no
topo dos crimes registados pelas
autoridades policiais naquela altura, cujos autores, à semelhança
de outras paragens, eram jovens
de tenra idade. Há 4 anos, o terror fazia parte do quotidiano dos
benguelenses. Se, no centro das
cidades do Lobito e Benguela, os
assaltos eram praticados descaradamente à luz do dia, nas zonas
periféricas o panorama piorava.
Por alguma influência de Luanda, Benguela também já foi morada das chamadas «squad’s», cuja
actividade principal era (é) realizar
acções criminosas nos bairros e comunidades, com os assaltos a resi-
dências a liderarem as estatísticas.
Contudo, em Benguela, foram
prontamente combatidos pela
corporação, então liderada pelo
comandante António Maria Sita,
tido como um policial de boa
competência operativa.
Já na «era moderna»
O 8.º Comandante
O Comando Provincial da Polícia de Luanda (CPL), pela especificidade do território
em que se encontra, é o de maior responsabilidade e consequentemente o que detém o
maior efectivo. Dispõe igualmente de instalações condignas para o seu funcionamento
e que prestigiam a sua condição de mais importante comando do país.
Pelo CPL já passaram diversos comandantes, alguns deles carismáticos oficiais de
carreira policial. O SA tentou por diversos
meios obter o nome e o tempo em que estiveram ao leme do CPL, mas mesmo altos e
antigos oficiais da corporação disseram não
Um dos grupos de delinquentes mais temidos na província de
Benguela e que fora desmantelado
na vigência do agora comandante
de Luanda, respondia pelo nome
de BF. A actuação dessa «squad»
era forte que quase colocava a
9
Capa
Sábado, 15 de Junho de 2013.
O que espera o povo do novo comando policial em Luanda?
Mais formação e menos corrupção
O
Semanário Angolense procurou saber também o que pensa a população à respeito. A
maior parte dos interlocutores, contando com os que não aceitaram
ser identificados, concordou em dizer
que o desafio, de agora em diante, deve
estar ligado à formação de mais agentes
da polícia e a diminuição da corrupção
nesta classe. Entretanto, há, inclusive,
quem corrobora com a ideia de se voltar a formar as brigadas populares de
vigilância como elementos básicos para
o sucesso do combate aos bandidos, que
estao demais.
Celso dos Santos, 26
anos, estudante - Durante os últimos tempos tem-se visto mais polícias nas
ruas, mas em alguns locais
o índice de criminalidade
não reduziu. Com o novo
comandante, esperamos
que haja melhoria. É necessário que se dê formação
contínua aos agentes. Outra coisa, muito importante, seria: nós já não estamos em
guerra, deviam resgatar aquele pessoal que estava a combater e integrá-lo na polícia, de modo com que possa ajudar
também. Não adianta recrutar novos jovens enquanto estes
que combateram, e têm mais tácticas de defesa, ficam sem
emprego. Relativamente aos crimes que estamos a registar,
nos últimos tempos, por mim, não é novidad alguma. O que
se passa é que, com as redes sociais, já não dependemos apenas da TPA para deles termos conhecimento. Por isso é que
quase todo mundo sabe dos crimes que acontecem. A nossa
sociedade está com muitos problemas, começando mesmo
pelo elevado índice de criminalidade, o que faz com que
não consigamos andar seguros. A criminalidade está em
todo sítio, por isso, é preciso que a polícia aja mais e tenha
maior controlo, porque, o que se regista, infelizmente, é ela
estar mais preocupada em parar os carros – já fui parado várias vezes por agentes que não eram reguladores de trânsito,
com a intenção de saberem se estava documentado ou não.
Penso que isto é trabalho da polícia de trânsito. Os demais
deviam preocupar-se com outras coisas. Acho que estes aspectos devem ser melhorados.
Nelson Jacinto (não disse idade), professor - Enquanto existir mudança,
a tendência é sempre a de
melhorar. A mudança só
acontece porque algo está
mal. Espero que o novo
comandante venha dar um
outro alento naquilo que é
o combate à criminalidade
em Luanda, visto que tem
acontecido muitos crimes, sendo que boa parte deles não é
esclarecida, o que não deixa de ser preocupante. A polícia
não trabalha isolada, pelo que é fundamental o apoio da
população na denúncia dos malfeitores. E o programa do
governo no sentido de iluminar as vias deverá fazer também com que diminua a criminalidade. Existem bairros
com muitos becos, o que impede o desempenho da polícia
em termos de patrulhamento. O novo comandante deve
ver os aspectos ligados à educação dos seus quadros. Por
exemplo, este novo recrutamento que está a ser feito, em
que se está a pedir pessoas com um nível de escolaridade
um bocado elevado para um simples agente de rua, pode
provocar que muitos candidatos enveredem pela falsificação de certificados de habilitações, o que pode fazer com
que se possa alistar pessoas com tendências delituosas, em
desfavor da integridade moral que a corporação. Pode ser
um atentado. O polícia deve saber lidar com o munícipe,
deve saber entender quando estiver a interpelar, e para isto
ele deve ter, pelo menos, o médio concluído. E não só: está-se a dar formação em 6 meses , o que, em minha opinião, é
pouco tempo. Então, a polícia deve trabalhar neste sentido:
formar devidamente os seus quadros.
Generosa F. Tomás, 29
anos, independente - Sinceramente, devia haver
mais polícias nos bairros,
para garantirem a nossa
segurança. Actualmente, a
população luandense não
se sente segura, porque há
zonas em que ninguém
consegue circular normalmente no período da noite.
E não precisa ser muito tarde: mesmo entre as 18 e as 19 horas, já constitui um perigo. Então, o novo comandante devia ver isto: colocar mais
agentes em todo e qualquer canto de Luanda, para inibir a
acção dos bandidos. No meu bairro, dificilmente vejo polícia e o índice de roubos tem vindo a aumentar cada vez
mais. A polícia devia estar ali, para que nos sintamos mos
seguros, mas nunca é vista. A população clama por socorro
e ninguém nos dá ouvido. Acredito que com este recrutamento que está a ser feito na polícia, talvez tenhamos este
problema resolvido. Oxalá que assim seja!
Agnelo Augusto, 44
anos, mecânico - Mudam
de comandante, mas nada
sealtera. Para mim, não
tem lógica estarem a trocar
de comandantes e mais comandantes, quando o problema está nos que dirigem
o país. Primeiro, o nosso
governo devia implementar
políticas boas para baixar o
índice de desemprego na juventude, coisa esta que o Estado não faz. Ao contrário, faz vista grossa à penetração de
estrangeiros, que acabam por ocupar os postos de trabalho que deviam ser ocupados pelos nossos jovens, fazendo com que eles se sintam frustrados. que faz com que os
jovens se sintam frustrados,a se preocupar em trazer os
estrangeiros,resultando isso no aumento da criminalidade.
O novo comandante devia primeiramente mudar a rede de
agentes que se encontram na rua, porque há polícias que
não sabem se comportar como polícias: basta verem um
jovem com uma mochila e interprelam-no logo como bandido. Os jovens que conduzem motos passam mal nas mãos
dos polícias, quando muitos deles são estudantes. A polícia
tem agido mal, nos últimos tempos. A delinquência para
mim aumentou 80%, mas eu acredito que com fé isto vai
mudar. Principalmente, se a liderança do nosso país modificar a sua forma de agir.
Fábio António Noélio, 16
anos, estudante - Há tempos fui assaltado atrás do
Jumbo e naquela zona tem
acontecido muitos assaltos
a estudantes: os gatunos
chegam até mesmo a levar
as nossas roupas, caso não
tenhamos dinheiro ou telefone. No meu ponto de vista,
a polícia devia colocar mais
esquadras móveis nas zonas recônditas da cidade, de modo a
diminuir o índice de criminalidade. Eu vivo na FTU e antes a
polícia patrulhava a nossa rua até tarde, mas agora parou. E os
gatunos voltaram a entrar em acção, principalmente a partir
das duas horas da manhã. Espero que o novo comandante venha melhorar estes aspectos. No entanto, tenho conhecimento,
por intermédio da minha mãe (ela é polícia), que a comandante anterior queria mudar muita coisa. Às vezes, as pessoas só
criticam sem saber o que realmente se está a passar e acabam
estragando o bom desempenho dos outros.
Ribeiro Figueira, 42
anos, pedreiro - A realidade
deve ser dita: a delinquência
em Luanda aumentou a 100
por cento. E prova disto são
os últimos acontecimentos
que relatam a morte de polícias. O novo comandante
terá um trabalho tremendo
daqui para frente porque tomou posse numa fase crítica.
É bom que ele tenha boas políticas para minimizar esta situação. Eu sugiro que se forme, tal como antigamente, a defesa
civil - que chamávamos ODP(Organização da Defesa Popular)
para que cada um dos munícipes guarde o seu bairro de modo
com que possa ajudar também a polícia.O comandante devia
se preocupar também em colocar mais esquadras móveis, não
com três polícias apenas, mas sim com mais (15, pelo menos).
Colocando este número ínfimo (3) de polícias, quando o grupo de delinquente é composto por mais de três elementos, os
agentes serão sempre driblados. Três munições contra mais de
7 é demais, pelo que o polícia ou recua ou morre. Recuar não
é fugir, mas sim uma estratégia de ataque. Só para teres noção, caro jornalista, eu estava em Kapanda no 28.º regimento
de infantaria motorizada e aprendi que o tropa nunca pode
ter só uma munição. E acrescento: isto é inadmissível! Então, a
polícia deve ver esta situação. Outra coisa que deve mudar é a
corrupção. A polícia está a brincar com os delinquentes. Então,
você prendeu o delinquente e amanhã solta-o porque deu dinheiro? É claro que depois ele virá contra ti. E os delinquentes
não brincam de matar, como a polícia brinca de prender. Eles
matam a sério. Deste jeito, a delinquência nunca vai acabar. Por
outro lado, deve haver também entendimento entre o agente e
o cidadão. Fico por aqui.
Maura Solange, 23 anos, contabilista - É obvio que o índice
de delinquência aumentou, pois
hoje até mesmo os polícias estão a
ser mortos pelos bandidos, tendo
sido declarada uma guerra entre
eles. Espero que o novo comandante procure fazer o seu melhor,
coisa que acredito que fará. Para
mim, desde que ele subiu, a polícia está mais activa quanto à questão dass rondas nas ruas.
Romão Brandão
(entrevistas e fotos)
10 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Capa
Assaltos à mão armada são o prato do dia
Zonas de alto risco no centro de Luanda
«Quem será a próxima vítima?» - assim se interroga o autor (desconhecido) desse bom trabalho de informação sobre algumas
zonas altamente perigosas da cidade capital, que alguém tem tratado de disseminar via net e que nos pareceu
de extrema serventia pública. Daí que o tenhamos retomado, com a devida vénia
U
m cidadão, certamente, com boas intenções
colocou em circulação
na net um interessante trabalho sobre algumas zonas
perigosas no centro da cidade de
Luanda e em alguns distritos urbanos, nos quais serão frequentes
os assaltos à mão armada, sendo,
portanto, áreas onde se tem de
andar com o maior cuidado.
Será uma campanha de sensibilização sobre os cuidados que devemos tomar quando em circulação pelas zonas enumeradas, que
inclui, pasmem, o parque de estacionamento do «Bela Shopping».
O autor deste projecto sui generis
até lista os bens e equipamentos
que os bandidos mais apreciam:
dinheiro, cartões de crédito, laptops, máquinas de fotografar ou
filmar, telemóveis e outros.
Com a devida vénia do autor,
a quem desde já parabenizamos
pela excelência desse trabalho, o
SA publica-o (com ligeiras adaptações) nessa sua edição, certo de
que terá bastante serventia para o
público.
Pelo que deu a ver, para ele, o
desarmamento da população é
um dos principais passos que se
tem que dar no sentido da «pacificação» da capital do país. E isto é
para ontem.
■
11
Capa
Sábado, 15 de Junho de 2013.
12 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Entrevista
«A escrita é uma casa que visito
mas onde não quero morar...»
Após ter sido atribuído ao «pai» da literatura moçambicana, José Craveirinha, o Prémio Camões consagra agora
a figura central da geração seguinte, Mia Couto, autor de
uma obra que irriga o português com as invenções poéticas
das línguas bantus. Define-se nesta entrevista como um ser
entre fronteiras: «um branco que é africano», «um poeta
que escreve prosa», «um escritor em terra de oralidade»
Luís Miguel Queirós (*)
D
epois de um primeiro livro de poesia, Raiz
do Orvalho (1983), Mia Couto publicou
um volume de contos — Vozes Anoitecidas (1986) — que definiu o seu estilo,
marcado pelo modo como recorre aos idiomas e às
oralidades tradicionais de Moçambique para alimentar uma incessante subversão criativa da língua
portuguesa. Ainda reincidiria no conto, com uma
recolha intitulada Cada Homem É Uma Raça (1990),
antes de publicar, em 1992, o seu romance de estreia,
Terra Sonâmbula, que muitos consideram ser a sua
obra-prima e que dificilmente deixará de ser visto,
no futuro, como um clássico da ficção africana. Escreveu- o no período final de uma sangrenta guerra civil que durava há 16 anos, e quando o livro
se aproximava da sua conclusão, conta nesta
entrevista (feita por e-mail), iniciavam- se as
conversações que conduziriam ao Acordo de
Paz entre a Frelimo e a Renamo. Em 2002,
Terra Sonâmbula era escolhido por um júri
internacional de académicos e políticos
africanos como um dos 12 melhores livros
africanos de sempre, lista que não inclui nenhuma outra obra em língua portuguesa.
Trinta anos após o seu livro de estreia,
Mia Couto recebeu agora o Prémio Camões, tornando-se o segundo autor moçambicano, depois de José Craveirinha, a
ser distinguido com o mais importante prémio literário de língua portuguesa. Se o júri
reconheceu a qualidade de uma obra que já
conta dezenas de títulos nos mais variados
géneros, da poesia ao conto e ao romance,
e da literatura para crianças à crónica, este
reconhecimento coincide também com um
momento alto da criação de Mia Couto,
que em livros como Jesusalém (2009) e o
recente A Confissão da Leoa (2012) consegue, sem atraiçoar a sua voz, libertar-se de alguns efeitos de escrita que ameaçavam se tornar
repetitivos. Filho de um jornalista português,
Fernando Couto (1924-2012), que se tornaria,
como poeta, jornalista e editor, uma figura de
relevo das letras moçambicanas, Mia Couto
já nasceu no país de adopção do pai — mais
precisamente na cidade da Beira, a 5 de Julho
de 1955 —, e era ainda estudante universitário quando se envolveu na luta contra o co-
lonialismo português, militando na Frelimo. Um
passado que não o tem impedido de manter, desde
que Moçambique reencontrou a paz, uma atitude de
autonomia crítica face aos responsáveis políticos do
seu país. Preza tanto a sua independência que chega a
recear sentir-se demasiado preso da sua condição de
escritor. «Não me fascina a ideia de ser escritor a tempo inteiro», garante. E não é este Prémio Camões que
o vai fazer mudar de ideais. Enquanto prepara um
novo romance, baseado na história de Gungunhana, prossegue tranquilamente o seu trabalho como
biólogo e responsável de uma empresa especializada
em estudos de impacto ambiental. No fim de contas,
talvez o escritor e o biólogo façam a mesma coisa:
exaltar a diversidade.
- Já tinha recebido vários prémios importantes,
quer em Moçambique, quer em Portugal. Atribui
uma importância diferente ao Prémio Camões, que
até agora só contemplara um autor moçambicano,
José Craveirinha?
- Sim, atribuo. Cada prémio tem a sua individualidade, a sua geografia. Este traduz uma constelação de
países e sensibilidades que supera os limites do meu
país, do continente africano. Não se tratou apenas de
«mais» um prémio. Mas de um galardão que tinha
um nome e uma carga emocional muito própria.
- O seu pai era poeta e o Mia Couto estreou-se
com um livro de poemas. Embora se possa alegar
que nunca deixou a poesia, já que a sua prosa tem
óbvias dimensões poéticas, o facto de não ter voltado
a publicar poemas durante muitos anos e de ter privilegiado a ficção foi simplesmente algo que aconteceu,
ou sentiu que a ficção era a forma que lhe convinha
para o que tinha a dizer, e designadamente para o
que tinha a dizer sobre e para o seu país?
- Acho que fui conduzido para este tipo de escrita
pela realidade do meu país, onde uma enorme carga
poética está patente nos assuntos da chamada «realidade». Essa carga esbate a fronteira entre o real e o
surreal. As histórias que se contam e que compõem a
oralidade rural e urbana não fazem essa distinção entre poesia e relato factual. Por outro lado, as falas em
português são traduções muito livres e criativas das
línguas bantus de Moçambique. Ao longo do tempo,
fui percebendo como essas distinções entre prosa e
poesia, entre realismo e fantasia eram construções
tão inventadas quanto a minha própria ficção. E isso
me encorajou a caminhar com um pé naquilo que,
13
Entrevista
Sábado, 15 de Junho de 2013.
por comodidade, chamamos
de “mundo mágico” e outro
pé naquilo que se convencionou chamar de «realidade».
A expressão “realismo mágico” foi inventada por quem
não compreendia como magia e realidade se mestiçam
não apenas aqui, em África,
ou na América Latina, mas
em todo o universo humano.
- A geração vista como
fundadora da literatura moçambicana tem como figura
tutelar um poeta, José Craveirinha, e é sobretudo formada por poetas. Embora o
Mia Couto seja já da geração
seguinte, e ainda que Craveirinha e outros autores também tenham escrito ficção,
as futuras histórias da literatura irão inevitavelmente
apontá-lo como um dos fundadores da ficção moçambicana. Sente essa responsabilidade?
- Penso pouco nisso. Aliás, penso-me pouco como
escritor. Os meus melhores momentos na literatura
aconteceram quando não
fui escritor. A escrita é uma
casa que visito, mas onde não
quero morar com receio que
ela me devore. A minha responsabilidade é continuar a
escrever exactamente como
vinha fazendo.
- É filho de um português,
ainda que já tenha nascido
em Moçambique, e escreve
em português, por muito que
se desvie deliberadamente da
norma.
Como é que encara o facto
de ser um autor moçambicano, inserido no contexto de
uma literatura ainda jovem e
em fase de consolidação,
e ao mesmo tempo, escrever na língua de Camões, de
Eça, de Pessoa, e também de
Machado de Assis, Guimarães Rosa, Drummond de
Andrade?
- Em muitos aspectos me
aprendi como um uma criatura entre fronteiras: um
branco que é africano; um
ateu não praticante; um poeta que escreve prosa; um homem que tem nome de mulher; um cientista que tem
poucas certezas na ciência;
um escritor numa terra de
oralidade. No início, esses
mundos que em mim se cruzavam dificultavam uma visão unitária daquilo que pudesse ser a minha identidade.
E isso atrapalhava-me. Depois, fui entendendo que essa
pertença a múltiplos
universos ajudava a me
descobrir na minha condição
plural, contrabandeando
valores entre fronteiras.
«Sou um poeta
que conta histórias»
- Publicou o seu primeiro romance, Terra Sonâmbula, no final da guerra civil, em 1992. Para
narrar esse parto doloroso de uma
nova nação, recorre a uma história dentro da história, com um
constante jogo de espelhos entre
ambos os planos. O protagonista,
Muidinga, é uma criança que perdeu a memória (e com ela o fundamento da identidade), e que de
algum
modo a recupera através dos diários de um morto, que vai lendo
alto a um velho, Tuahir. Noutro
plano, este romance finta o português, criando uma
língua que será ao mesmo tempo pura invenção e recriação da
oralidade popular. É um livro que
parece responder a tudo quanto
se poderia exigir de um romance
nacional «fundador». Foi deliberado?
- Não foi. Nenhum livro meu
obedeceu a um plano ou sequer a
uma intenção que fosse consciente. Até começar a escrever esse livro eu estava convicto que nunca
escreveria sobre a guerra enquanto ela decorresse. Só em paz se
escreve sobre a guerra: era assim
que eu pensava. Mas aconteceu
que fui sendo assaltado, quase visitado por vozes e histórias, e comecei a escrever em finais de 1991.
O romance Terra Sonâmbula foi
o meu único livro que me doeu
escrever. Eu acordava a meio da
noite e era conduzido, como se a
mim mesmo me desconhecesse,
para um quarto onde escrevia de
forma quase sonâmbula. O título
do livro tem também a ver com
essa condição de delírio em que a
trama foi surgindo. Havia mortos
recentes, amigos meus que perderam a vida de forma dramática no
decurso da violência que assaltou
o país. Não posso dizer que houve premonição mas à medida que
eu ia fechando o livro se anunciaram as conversações que conduziram à assinatura do Acordo de
Paz. Quando finalizei o livro, eu
entendi: a escrita daquela história era a minha busca de sobrevivência depois de 16 anos de uma
guerra civil que nos sufocou até à
exaustão. Quem vive uma história
assim sabe que a guerra, enquanto
memória ferida, nunca mais sai de
dentro de nós.
- Terra Sonâmbula teve muito
boa recepção crítica e é tido como
um dos grandes romances africa-
nos. Sentiu, depois de o publicar, a
proverbial ansiedade do segundo
romance?
- Não me recordo. Eu tenho
sempre a ansiedade do próximo
romance. Não existe para mim
carreira quando se trata de escrita literária: começa-se sempre do
zero, desarmado e frágil como um
menino que está no mundo para
ser espantado.
- Em declarações após a atribuição do Prémio Camões, Luís
Carlos Patraquim afirmou que o
considera «sobretudo um grande
contista». De um ponto de vista
apenas quantitativo, parece ter
sido, de facto, mais
contista do que romancista durante os anos 90, mas a tendência
inverteu-se durante a última déca-
da. Acha que Patraquim tem alguma razão?
- Talvez. Mas eu acho que sou,
sobretudo, um poeta. Um poeta
que conta histórias.
- Tem sido aproximado de Guimarães Rosa, com quem partilha,
entre outros aspectos, o gosto pela
invenção vocabular e sintáctica e
a atenção à oralidade popular. No
entanto, apesar destes óbvios sinais exteriores, não lhe parece que
a sua obra terá talvez mais afinidades com a arte de contar histórias,
com certo lirismo e humor, e também com o empenhamento social,
de um Jorge Amado, do que com
o mais estranho universo do autor
de Grande Sertão: Veredas?
- A ambição de um escritor (ou
de qualquer outro artista) é cons-
truir um universo tão próprio e
único que não pode ser comparado a qualquer outro escritor. Eu
tive influências várias e muitas,
confesso, vieram do Brasil. Guimarães Rosa foi uma influência.
Jorge Amado foi uma referência.
Mas ambos me despertaram para
a possibilidade de fazer uma outra
coisa, de outra maneira. O Brasil
convidava- nos para um caminho
que era marcado pela desobediência aos padrões europeus e portugueses num momento em que
nos procurávamos demarcar da
portugalidade. Digo isto e devo
salientar, ao mesmo tempo, que
fui muito marcado pela poesia
portuguesa: de Fernando Pessoa
a Eugénio de Andrade, passando
por Sophia de Mello Breyner, a
Herberto Helder e O’Neill.
14 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Entrevista
«Vivo a condição misturada
de pai e filho desta Nação»
- Talvez possa ver-se Terra Sonâmbula (1992), A Varanda do
Frangipan (1996) e O Último Voo do Flamingo (2000) como
uma espécie de trilogia que acompanha a história recente de
Moçambique, da guerra civil aos problemas e contradições
dos primeiros anos de paz. Com Vinte e Zinco (1999) a funcionar como um flashback ao final do período colonial. Apesar
de muitas características se manterem nos romances posteriores, acha legítimo sugerir-se que, a partir de Um Rio Chamado
Tempo, Uma Casa Chamada Terra, as suas histórias começam
a estar mais soltas da história recente de Moçambique?
- Para alguém que é mais velho que o seu próprio país, para
alguém que combateu pela independência e que, por isso, vive
uma condição misturada de pai e filho dessa nação, torna-se
impossível distinguir a história pessoal da história do país.
E há mais detalhes: eu sou um dos autores da letra do hino
nacional. Quando revelei isto num encontro com jovens do
Canadá, um deles perguntou-me: e o senhor ainda está vivo?
Enfim, em Moçambique é tudo tão recente e tão intenso que
tanto eu como a gente da minha geração sente que a mesma
tinta que escreveu sua ficção é aquela que redigiu essa outra
ficção que é a História nacional com H maiúsculo.
- Quer A Varanda do Frangipani, com o assassinato de
Vasto Excelêncio e subseqüente inquérito, quer, mais parodicamente, O Último Voo do Flamingo, com a investigação
em torno da misteriosa morte dos capacetes azuis da ONU,
aproximam-se do policial, género que hoje em dia parece estar a disseminar-se mais ou menos por toda a ficção. Mas, no
seu caso, parece ter sido uma contaminação mais ou menos
episódica.
- Alguém disse que os romances tinham apenas dois temas:
a viagem e um crime. Não sei se esta redução é correcta. Mas
gosto de pensar que é necessário interrogar a realidade como
se ali estivesse escondido um crime oculto. E esse crime é a
idéia que nos fizeram criar da própria realidade: uma visão
simplista, redutora e mecanicista. Para além disso, disseram-nos que havia apenas uma versão do que são o nosso mundo
e a nossa história. Essa imposição é um crime porque nos impede de viajar para outras dimensões da vida. Que o leitor seja
convidado a perder familiaridade com o seu próprio universo
e passe a actuar como um detective procurando evidências do
que não é visível e apenas pode ser adivinhado: talvez isso seja
um jogo que me apraz criar.
- Um elemento presente em toda a sua obra é a tendência
para nomes que nos dão indicações sobre as personagens que
nomeiam, como o já referido
Vasto Excelêncio. Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa
Chamada Terra é, nesse aspecto, exemplar, com os seus Abstinêncio, Miserinha ou Ultímio. A pergunta é se este expediente
não acaba por condicionar as personagens,
tornando-se eventualmente inadequado para figuras complexas e contraditórias, e se não é por ter consciência disso que
raramente o aplica aos seus protagonistas.
- A ideia que quero transmitir é que esse nome é falso, que
os personagens
estão para lá da realidade de uma identidade simples, que
não podem responder perante um teste de veracidade. Eu estou, à partida, a anunciar que aquilo é mentira, e que não quero ajuizar o que se conta pela sua verosimilhança. Mas devo
dizer também que, em Moçambique, é quase regra as pessoas
terem dois nomes, o de casa e o da rua; o da privacidade e o
nome público. Na maior parte das vezes, esses dois nomes não
têm nada a ver um com o outro. Eu sou um exemplo dessa
dualidade. O meu nome é António, mas eu sou Mia. Como se
essa multiplicidade de nomes autorizasse uma pluralidade de
vidas.
15
Entrevista
Sábado, 15 de Junho de 2013.
«Não há colonialismo
sem racismo»
- Falando agora um pouco
do seu trajecto mais político e
de cidadão. Aderiu à Frelimo
quando era estudante universitário. O que é que o levou à militância?
- Eu nasci e cresci numa cidade em que não foi preciso ninguém vir consciencializarme politicamente. A realidade
era crua e dura e as injustiças estavam à flor da pele do quotidiano. É verdade que os meus pais
nos educaram com princípios
que entravam em choque com
a ideologia colonial e a ordem
fascista. Mas o primeiro sinal
de consciência foi o racismo. Há
quem defenda que a colonização
portuguesa foi menos racista
que as outras colonizações. Não
é verdade, não há colonialismo
sem racismo. Nenhum povo é
«naturalmente» racista. São os
regimes que manipulam e valorizam a discriminação social e
racial. E era isso que sucedia e
eu entrei cedo em conflito com
os sinais dessa desigualdade.
- Vinte anos depois do acordo
que devolveu a paz a Moçambique, parece estar bastante desencantado com alguns aspectos do
rumo que o país tem levado. No
seu livro Pensatempos, que recolhe textos de opinião, critica,
por exemplo, o crescente abismo
entre as cidades e o país rural, o
novo-riquismo ou a corrupção.
Sentese defraudado?
- Defraudado não com o passado de militância mas com o
que se tornou a realidade dominante no país e na Frelimo, onde
combati por valores que me parecem agora esquecidos. Aconteceu com a Frelimo o mesmo
que sucedeu com organizações
revolucionárias que defendiam
mudanças radicais a favor dos
trabalhadores e
dos oprimidos e que, depois
de tomarem o poder, acabaram
por gerir as sociedades que proclamavam querer mudar. Mas
eu estou grato a um processo
longo de aprendizagem. Não
acho que haja culpados e entendo que havia, dentro de mim,
uma grande ingenuidade, não
nas intenções de mudar o mundo mas no entendimento simplificado desse mundo.
- «A maior desgraça de uma
nação pobre é que em vez de
produzir riqueza, produz ricos»,
escreve num texto em que retrata bastante impiedosamente
os novos “endinheirados” do
seu país. Não lhe parece que,
descontadas algumas especificidades menores, a sua descrição
se adaptaria a muitos outros
países que conhece, incluindo
Portugal?
- Não quero comentar sobre a
realidade de um país em particular. Mas vivemos globalmente
um sistema que é fabricador de
miséria e de desigualdades.
- Um dos membros do júri
que lhe atribuiu o Prémio Camões, José
Carlos Vasconcelos, disse que
a sua obra «foi, inicialmente,
muito valorizada pela criação e
inovação verbal», mas que tem
vindo a mostrar «uma cada vez
maior solidez na estrutura narrativa e capacidade de transportar para a escrita a oralidade».
Se pensarmos no seu romance
mais recente, A Confissão da
Leoa, parece haver, de facto,
uma certa atenuação dessa «ino-
vação verbal» mais ostensiva,
talvez secundarizada pelo desejo de contar bem uma história
digna de ser narrada. Admite
que manter o grau de invenção
vocabular habitual na sua obra
poderia levar a um efeito de esgotamento?
- Eu mesmo me esgotaria perante mim mesmo se escrevesse
sempre do mesmo modo. O meu
intuito é que me surpreenda e
coloque em causa algo que possa funcionar como uma zona de
conforto, um estilo acomodado
e previsível. A contenção é uma
das conquistas que o escritor
alcança com o tempo. E isso sucedeu comigo. Só continuarei a
escrever se encontrar modos de
me questionar e ousar novos estilos e narrativas.
- O que é que pensa do Acordo Ortográfico?
- Já respondi a essa pergunta tantas vezes que deixei já de
pensar sobre um assunto que,
para mim, é quase um «não assunto». Eu acho que perdemos
uma oportunidade para debater
assuntos que serão talvez mais
sérios que o acordo ortográfico. Por exemplo: por que razão
ainda nos desconhecemos tanto
entre os países de língua portuguesa? O que podia ser feito
para incentivar a circulação dos
livros e das produções culturais?
- Na literatura de língua portuguesa, quem são os seus autores de referência?
- Já respondi.
- E que autores moçambicanos recomenda aos leitores portugueses?
- Recomendo todos.
«A Biologia não atrapalha
o exercício da Literatura»
- Está a escrever um novo livro, que evocará a figura de Gungunhana. Vamos ter o seu primeiro romance histórico?
- Não será exactamente um romance histórico, mas um texto
que dialoga com a História. Antes, eu já tinha escrito O Outro
Pé da Sereia. Que também não tinha a pretensão de ser um texto
histórico. A minha intenção é mostrar como a História oficial,
enquanto construção social e ideológica, responde a necessidades e interesses de classe. E o caso de Gungunhana é muito
curioso: porque a sua figura foi ficcionada por interesses em
Portugal e Moçambique. No final do século XIX, o regime colonial português precisava confirmar internacionalmente a sua
capacidade de ocupação e domínio dos territórios africanos. Por
isso empolou a importância de Gungunhana num momento em
que este estava em pleno declínio. Quanto maior fosse o inimigo
maior seria a glória da sua vitória. A nova nação moçambicana, por outro lado, procurava heróis que se apresentassem como
“resistentes nacionalistas”. Ora a ideia de nação moçambicana
nunca esteve na mente de Gungunhana que geria com dificuldades um império que, como todos os impérios, se fez com glória e
sangue. E esse império tinha uma geografia e uma narrativa que
em nada coincidiam com a nação moçambicana.
- O sucesso da sua obra nunca lhe pareceu razão suficiente
para se dedicar à escrita a tempo inteiro. É biólogo e gere uma
empresa de estudos de impacto ambiental. Um trabalho que terá
contribuído para esse conhecimento profundo do país que os
seus livros revelam, e que no fim de contas talvez partilhe com a
sua escrita o mesmo propósito de preservar a diversidade…
- Não quero nem levar-me muito a sério como “escritor” e nem
eliminar em mim a diversidade de coisas que gosto de fazer. Sou
o que sou porque me distribuo por afazeres múltiplos. A exaltação da diversidade é algo que me move como cidadão, como
escritor e como biólogo. Na verdade, a capacidade de produzir
diversidade é o segredo maior da sobrevivência da nossa espécie.
Veja-se a amplitude das diferenças entre irmãos e entre gerações
de uma mesma família. Estamos oferecendo à vida alternativas
várias que possam funcionar como resposta a mudanças do ambiente que se verifiquem.
- O biólogo ajuda o escritor?
- Não vejo como a biologia pode atrapalhar o exercício da literatura. O que mais me fascina na biologia é que ela conta uma
história, e possivelmente a mais fascinante de todas as narrativas: a história da vida e da nossa própria espécie. Não me fascina
a ideia de ser escritor a tempo inteiro. Como já disse: gosto de ser
escritor exactamente na mesma medida em que gosto de deixar
de ser escritor. E nesse distanciamento poder olhar a escrita a
partir de fora, com a enriquecedora lonjura de um viajante
antes de iniciar a viagem.
Nota: Entrevista publicada a 7 de Junho. Alguns títulos são da
responsabilidade do SA.
16 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Opinião
Direito de Resposta
BNA contesta «imprecisões»
do colunista Paulo de Carvalho
Prezado Sr. Director,
Antes de mais queira aceitar os
nossos melhores cumprimentos.
Em artigo de opinião publicado na vossa edição de 8 de Junho de 2013, tendo como pano
de fundo uma visita imaginária
ao Banco Nacional de Angola,
são abordadas matérias que, pela
imprecisão e susceptibilidade de
induzir o público leitor em erro,
solicitamos, ao abrigo do direito
de resposta, a publicação desta
breve nota.
O Banco Nacional de Angola
tem procurado manter a sociedade regularmente informada sobre
o conjunto de reformas que vem
introduzindo no sistema financeiro, sobretudo com o sentido
de preservar o equilíbrio entre
os objectivos de crescimento das
instituições financeiras e os direitos dos consumidores de produtos
e serviços financeiros.
Assim, dadas as imprecisões
e descuidos do artigo de opinião
acima referido, capazes de induzir os leitores em erro, gostaríamos de esclarecer o seguinte:
Nova família do Kwanza
Foi preocupação do Banco Nacional de Angola, ao introduzir
uma nova família do Kwanza,
assegurar a melhoria dos padrões
de segurança, tornando a confirmação de autenticidade mais fácil
a todos, mas realçando tanto nas
notas, como nas moedas metálicas, o património e a identidade
cultural do nosso país.
No caso das moedas metálicas,
destaca-se a ornamentação com
elementos de cestaria e de tecelagem que serviram como meios
de pagamento pelos nossos ancestrais. Confundir estes elementos
distintivos da nossa identidade
cultural com os existentes em
qualquer outra moeda, parece-nos exagerado e forçado.
No entanto, se se pretende referir à opção do bimetal, devemos então esclarecer não se tratar
de uma inovação. De facto, por
questões de segurança, a mesma
tem sido adoptada por muitas das
entidades emissoras de moeda.
Na nossa região, podemos citar
os casos actuais da África do Sul,
Botswana, Moçambique, Malawi,
Namíbia e Zimbabué.
Apesar da aceitação bastante
positiva pelos cidadãos, o Banco
Nacional de Angola mantém a
monitorização da reintrodução
da moeda metálica na economia,
avaliando e ajustando o curso e as
opções de colocação, com o sentido de garantir e intensificar o uso
da mesma.
Subsistema
de Pagamento Automático
A rede Multicaixa é, actualmente, uma realidade incontornável e uma das histórias de
sucesso do nosso sistema de pagamentos, não obstante o reconhecimento das possibilidades de
melhoria, algumas dependentes
dos serviços de telecomunicações e do fornecimento de energia
eléctrica da rede pública, e outras
da eficiência dos próprios bancos
comerciais.
No final do mês de Maio, o
sistema contava com 1.330.381
cartões activos, ou seja, com movimentos regulares nos Terminais Automáticos de Pagamento
(TPA) e Caixa Automático (CA).
Somente no mês de Maio último, registámos um aumento
de transacções, em CA, de cerca
de 18,3%, comparado com o mês
homólogo, em 2012, enquanto
que nas transacções em TPA o
aumento foi de 65,5%. Ainda na
rede Multicaixa, o crescimento
em pagamento de serviços foi de
41,8% e nas transferências bancárias, o mesmo foi equivalente a
147,5%.
Não estando em causa a utilidade e a importância do subsistema de pagamentos automático, e não sendo o mesmo
uma preocupação nova, está em
curso a revisão de procedimentos operacionais para a melhoria
dos indicadores de disponibilidade da rede Multicaixa, com o
engajamento do Conselho Técnico do Sistema de Pagamentos
de Angola, órgão de aconselhamento integrado pelos bancos
comerciais e pela Empresa Interbancária de Serviços.
Quanto à designação «Multicaixa», trata-se apenas de uma
marca e não da natureza do serviço de pagamentos. As marcas,
regra geral, são registadas e não
admitem cópias ou réplicas não
autorizadas. Em Cabo-Verde, por
exemplo, a rede de pagamentos
chama-se «Rede Vinti4», em Moçambique «Rede Ponto 24» e no
Brasil «Banco 24 Horas».
Tratamento
de Reclamações
Convindo assegurar a protecção dos direitos dos consumidores de serviços financeiros, o
BNA estabeleceu regras específicas para o tratamento de reclamações, pelas instituições por si
reguladas, de acordo com o Aviso
n.º 02/11 de 1 de Junho, e criou
também uma unidade orgânica
para tratamento das reclamações
apresentadas.
Para além da via escrita, está
disponível o Portal do Consumidor de produtos e serviços
financeiros na página electróni-
ca: www.consumidorbancario.
bna.ao, onde o consumidor pode
apresentar quaisquer reclamações
e ter acesso a um conjunto de elementos com pendor educacional
sobre o funcionamento do sistema financeiro bancário, pelo que
recomendamos a sua consulta.
Os resultados da acção de inspecção comportamental do BNA
podem ser consultados no seu
relatório e contas de 2012 ou nos
relatórios semestrais de estabilidade financeira, disponíveis na
página electrónica www.bna.ao.
Finalmente, e porque os canais
de comunicação do BNA são conhecidos e se mantêm à
vossa disposição, solicitamos
que, em situações futuras, ao invés de viagens e entrevistas imaginárias, sejam contactados os nossos serviços para esclarecimentos
que entendam de interesse público e assim melhor contribuir para
o fortalecimento e melhoria dos
serviços prestados pelo nosso sistema financeiro.
■
Luanda, 12 de Junho de 2013
Gabinete de Comunicação
Institucional
17
Opinião
Sábado, 15 de Junho de 2013.
N
A invasão chinesa à África
a semana passada,
houve uma notícia
que foi manchete em
vários órgãos de comunicação internacionais - a expulsão, pelo governo ganense, de
centenas de chineses que estavam
envolvidos no garimpo de ouro.
Até o «New York Times» fez uma
reportagem em que falava-se de
como muitos chineses que sonhavam fazer fortunas com o ouro
do Gana tinham que regressar
para a sua terra-mãe sem nada. ~
Em certas reportagens, sentia-se certa atitude contra as autoridades ganenses, especialmente as
policiais, que são descritos como
corruptas e ineficientes. O mundo
talvez esteja muito interessado no
relacionamento entre os chineses
e africanos, porque quer se saber
quanto tempo é que a lua de mel
entre a China e a África vai durar.
Felizmente, há muitos africanos que estão conscientes de que
este relacionamento vai ter que
ser na base do respeito dos interesses mútuos. Como vários africanos vão afirmando, a China não
está no continente por uma questão de benevolência. Os chineses
precisam de recursos naturais que
se encontram em abundancia no
continente africano. E os qfricanos precisam do «know-how» e
tecnologia chineses, assim como
o seu capital. Há sempre o risco
da dinâmica dos acontecimentos
favorecer uma parte da equação
- neste caso, a parte chinesa. Os
africanos vão ter que ser capazes
de defender os seus interesses.
O Gana é um país cada vez mais
democrático, onde os cidadãos
comuns têm, cada vez mais, uma
voz de peso na gestão das suas vidas.
Na BBC, ouvi camponeses ganenses na área em questão que
disseram que temiam pelo meio-ambiente da sua região. É que,
segundo eles, , a exploração ilegal
do ouro estava a resultar numa
degradação do solo e das florestas; aqui não era só a existência
de buracos por todo o lado, mas
também a poluição da água pelos químicos que os garimpeiros
usavam para extrair o ouro. Os
ganenses estavam quase desesperados; o que estava em questão
era a sua própria sobrevivência.
Conheço certos casos de países
africanos, como a Tanzânia, onde
a disputa sobre as terras e exploração de ouro resultou na utilização pelas autoridades de mão de
ferro para conter os camponeses.
Ainda na Tanzânia, já vi camponeses africanos a serem agredidos por guardas nepaleses. Eles
queixavam-se das empresas que
estavam a explorar o ouro, mas
estas diziam que lá estavam com
a «bênção» do governo central –
o que é que contava mais. Neste
caso do Gana, felizmente, o governo central parece estar do lado
dos camponeses.
Usualmente, em casos destes,
prefiro sempre imaginar a situação ao contrario. Há alguns anos
atrás, a revista «The New Yorker»
fez uma reportagem sobre pequenos empresários nigerianos
na China. As autoridades chinesas, naturalmente, queriam que
o influxo nigeriano no país fosse
limitado, por uma questão de manutenção da paz social, contenção
do c rime e por aí. Li, recentemente, uma reportagem sobre empresários africanos que se instalaram
na Índia. Estes sofrem com o ra-
cismo mais primitivo que se pode
imaginar: abusos verbais e físicos,
numa constante marginalização.
Mas, o mundo não se inquieta
assim tanto com a sorte destes
africanos. Suspeito que muitos
defenderão que eles devem ser
mesmo deportados para o continente donde saíram e ponto final.
No Iraque, Síria, Líbano e mesmo
em Israel, há imigrantes africanos
que são forçados á regressar às
suas áreas de origem, por causa
do racismo. Há esta noção, bastante errada, de que o africano
tem muito pouco a dar ao resto
do mundo.
Fala-se de um mundo globalizado, no qual as pessoas podem
ir à procura de fortunas seja lá
onde for. Temos, então, o investidor que vai aplicando o seu capital por todo lado. Os chineses
no Gana chegaram depois de toda
a pompa que seguiu ao investimento chinês no sector da eletricidade, fornecimento de água,
estradas, etc.. Kwame Nkrumah,
primeiro Presidente do Gana e
grande panafricanista, sonhava
ter um país industrializado. Desta vez, parecia que os chineses
haveriam de ajudar na realização
deste sonho. Só que o investimento chinês trazia consigo mão de
obra própria; ate os carrinhos de
mão eram operados por chineses.
E estes chineses foram, naturalmente, identificando outras oportunidades – incluindo o garimpo
de ouro.
Segundo a lei do Gana, só os nativos é que podem explorar o ouro
em pequena escala – mas eles podem interagir com estrangeiros
que invistam nas operações. De
repente, passou haver muitos chineses a explorar o preciso metal,
usando ganenses como testas de
ferro. Muitos nativos não viam
isto com bons olhos, tendo havido
atritos que obriaaram os chineses
a armarem-se. De repente, havia
chineses armados até aos dentes –
as armas vinham principalmente
da polícia – a vigiarem o que eles
viam como suas minas de ouro.
Uma da autoridade ganense disse
que se tinha atingido o ponto a
partir do qual se passara a tratar a
coisa como uma questão de segurança. Agora imaginem milhares
de trabalhadores ganenses armados numa região da China!
Quando, no século dezoito,
certos exploradores europeus viajavam pelo o interior de África,
a sua riqueza natural implantava
neles sonhos de imensas fortunas.
Os africanos, claro, serviriam de
um elenco lá no fundo para a realização destes sonhos. O Rei belga
tratou o Congo e os seus nativos
como se fosse propriedade sua: os
africanos que não atingissem as
quotas de produção eram punidos
severamente. Mas isto tudo era
justificado na base de que o soberano, numa missão civilizadora,
estava a espalhar o cristianismo
e o saber. Os estereótipos dos
africanos de então ainda existem
hoje: são tidos como preguiçosos
e não inspiradores de confiança.
Dizia-se que o preto só ia mesmo à chicotada. Há alguns meses
atrás, falando sobre as tensões nas
minas entre gerentes chineses e
trabalhadores zambianos, ouvi
um chinês a dizer que havia uma
questão de cultura: os chineses
e zambianos, segundo ele, não
partilhavam a mesma cultura de
trabalho. Claro que os zambianos
tinham, neste contexto, que se
adaptar à cultura dos chineses, os
santos investidores.
Voltemos, porém, ao Gana. Os
ganenses são pequenos-grandes
comerciantes; eles singram em
toda parte do mundo. Suspeito
que mesmo o capital que fez com
que certos chineses surgissem
para a exploração de ouro existe
no país. O que deve faltar é uma
cultura de transparência. Há ganenses com licenças de exploração de ouro, mas que não estão
minimamente interessados em
saber sobre os pormenores dos
processos – como o seu efeito no
meio ambiente. Para certos possuidores destas licenças, o que
contava mais eram as ligações
com as autoridades políticas no
governo central. O processo da
concessão de licenças para a exploração de minerais está a agora a ser revisto no Gana. Fala-se
actualmente de exploração que
envolve a comunidade, em que
as coisas são feitas propriamente. Os chineses podem lá ir, mas
terão que ser enquadrados num
sistema do qual todos ficam a ganhar. Mesmo tarde, os africanos
comuns estão a despertar!
■
18 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Opinião
A lei da contratação pública
e a fiscalização das obras
O
maior mérito subjacente na publicação da lei da contratação
pública, parece ainda está por
se apurar: a transparência a que
sujeita os agentes da administração pública, ou o enquadramento correcto das obrigações e deveres dos vários «actores» em
obras públicas?
Contudo, julgo haver nesta lei não apenas um mérito, mas notáveis e múltiplos
avanços para o alcance dos objectivos a que
qualquer Estado se deve propor alcançar
em matéria de sã concorrência, transparência e defesa do interesse público. Já algumas
vezes tentei elucidar o público leitor deste
semanário acerca das grandes linhas de
força deste dispositivo legal, que considero mais que perfeito. A sua aplicação, com
competência e sabedoria, pode trazer ao
empresariado nacional novas conquistas e
vantagens, quer económicas como técnicas
e realmente práticas há muito esperadas.
Do ponto de vista meramente prático,
a lei da contratação pública trás enormes
vantagens ao empresariado porque o estimula e oferece garantias de igualdade e
isenção na tomada de decisão para as adjudicações que sempre foram um verdadeiro
quebra-cabeças, um processo gerador de
conflitos e de maus presságios, suspeições
semeadoras de ambientes de insegurança
quanto ao futuro. Tudo, pela forma promíscua em como se processava, em vários
lugares e instituições completamente encobertos por uma medonha escuridão, os
quais deitavam por terra a lealdade concorrencial e afastavam injustamente muitos empresários de boa-fé. Com a lei 20/10
em movimento, o cenário dantesco atrás
descrito toma outro rumo. É agora possível promovermos um cerrado combate à
ineficácia concorrencial e aos desperdícios
financeiros. Mais do que uma simples norma legal, a lei da contratação pública faz
renascer a paz no sector da construção e
endireita a «árvore» que estava torta, dando novo fulgor aos seus «troncos» empresariais mais promissores.
Mas a constatação pode não passar de
simples formulação de princípios. Precisamos agora processar os mecanismos
práticos da aplicabilidade dos seus mandamentos e recomendações, agora mais
destacados, para atingirmos o desiderato.
A recente pronúncia do governo central de
que haverá bolsas de consultores para uma
materialização mais segura dos princípios
e regras, agora melhor reconhecidas, é um
sinal de bom começo, e, para complementar, a fiscalização prévia do Tribunal de
Contas associada à fiscalização das empreitadas com profissionais de fiscalização de
empreitadas de obras públicas, conhecedores da lei, completará de forma exitosa o
quadro.
Ficaríamos todos imensamente gratos à
Assembleia Nacional pela publicação da lei
se na prática ela for aplicada. No caso contrário, seria uma decepção, tal como por
vezes acontece cm determinados diplomas
legais que caem no esquecimento ou em
desuso.
Ao referirmo-nos à central de compras
para uma gestão parcimoniosa e tecnicamente sustentável nos processos de contratação pública, estamos dando um indício
de grande valia para incentivar investidores nacionais e estrangeiros. Ao fazermos
referência às obrigações do dono da obra
pública posta a concurso, estamos a responsabilizar o agente do Estado. Ao procedermos deste modo, podemos agir com
impugnação judicial e proceder em conformidade contra a falta de transparência e
contra a corrupção nos processos de adjudicação de obras. Aqui está um ganho.
Quem tem acompanhado as últimas
palavras, e os actos do Chefe de Estado
angolano, não pode desmentir que as preocupações deste para com o fenómeno da
corrupção aumentaram sobremaneira,
sobretudo no domínio da construção, e
não é por acaso que foi muito recentemente orientado um seminário neste sentido
mais crítico da situação, com reflexos na lei
20/10, de modo a colocarmos os traços nos
tês e os pontos nos seus devidos lugares.
Faço votos de que a luta pela valorização e
inclusão mais substancial do empresariado
nacional no ramo da construção civil e engenharia em Angola seja um facto a breve
trecho.
O país está em festa. Aliás, os construtores estão em festa: ainda mal se procedeu à
remodelação do elenco governativo do sector para dar lugar a novas transformações
sob a liderança de uma plêiade de novos
cérebros, e logo de seguida o governo sublinha e faz eco da lei da contratação pública.
O que pode isto significar? Em primeiro
lugar, a expressão de uma nova vontade de
alterar o rumo do crescimento para caminhos mais sérios e responsáveis. Em segundo lugar reanimar os pequenos e médios
empresários nacionais para aderirem ao
investimento no sector. Em terceiro lugar
conferir aos órgãos da justiça um instru-
mento mais esclarecido em pormenor e no
seu todo, com o claro propósito de garantir
uma responsabilização e sancionamento
mais expedito daqueles que teimarem em
prevaricar e obstruir o desenvolvimento no
sector da construção e obras públicas.
Já me habituei a críticas e ao apontar de
dedos quando me refiro à transparência e à
fiscalização profissionalizada. Algumas vozes discordantes, que me abordam directa
ou indirectamente, referem que o nível de
exigências que defendo com tanto entusiasmo não moverá um único fio de cabelo ao
mais pequeno dos teimosos agentes do Estado daqueles que faltam à palavra e violam
a lei para colherem fabulosos dividendos.
Dizem também que a formação de ilhas
não garante um combate à corrupção de
modo eficaz, e, portanto, só uma acção generalizada de combate combinado ao nível
de toda a extensão multifacetada da vida
social e cultural poderá ajudar a alterar o
quadro no sector.
Eu insisto na esperança de que com
uma lei do calibre a que nos referimos,
pela contratação pública com maior rigor e
responsabilização, é possível sim alcançarmos novos horizontes e novos indicadores
de transparência e eficácia no processo de
adjudicação de obras. A lei da contratação
pública dá pistas e explica os métodos a
adoptar para conduzir com êxito e montar
estratégias de salvaguarda do interesse público como nenhuma outra lei que conheça
o faz. Basta uma consulta às suas alíneas
e artigos para nos darmos conta que tudo
vem devidamente explicado. E é só seguir
a rigor os passos que se apontam à cada
um dos intervenientes: o dono da obra; o
projectista; o empreiteiro e o fiscal, para
atingirmos níveis de eficácia e eficiência
máximos. A cada um destes actores é especificado o seu papel e a cada um é definido um quadro de responsabilidades. A par
disso, a lei explica como podemos guindar
aos maiores patamares os empresários nacionais para que se observem equilíbrios
na defesa dos interesses em jogo, quer para
dar mais fôlego ao desenvolvimento da
nossa classe empresarial, quer para forçar
a aproximação amistosa e salutar entre empresários com disparidades tecnológicas ou
financeiras acentuadas, por vezes colossais
e esmagadoramente inconcebíveis. A ver
vamos se com a sua aplicação, sobretudo
ao nível da fiscalização, a lei da contratação
pública vingará.
■
19
Opinião
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Fundamentos para a educação
dos surdos angolanos (2)
«A identidade surda não se constrói no vazio. Forma-se no encontro com os pares e apartir do confronto com novos ambientes
discursivos. No encontro com os outros, os surdos começam a narrar-se, e de forma diferente daquela através da qual são narrados
pelos que não são surdos», sustenta Nídia de Sá
Nuno Álvaro Dala Jr. (*)
O entendimento sobre a questão das identidades está directamente relacionado com a noção
de linguagem, porque a constituição da subjectividade dã-se pelo
exercício do poder da linguagem.
Para Nídia de Sá (1998, p. 170),
«as principais mudanças […] começaram a se delinear quando o
entendimento sobre a linguagem
e as possibilidades abertas por ela
na criação da cultura passaram
a colocar a intersubjectividade
como categoria epistémica principal».
Segundo ela, «a identidade
surda não se constrói no vazio,
forma-se no encontro com os pares e apartir do confronto com
novos ambientes discursivos. No
encontro com os outros, os surdos
começam a narrar-se, e de forma
diferente daquela através da qual
são narrados pelos que não são
surdos. Começam a desenvolver
a identidade surda, fundamentada na diferença. Estabelecem,
então, contactos entre si e, através
destes, fazem trocas de diferentes
representações sobre a identidade
surda. Assim, autoproduzem significados a partir de informações
intelectuais, artísticas, técnicas,
éticas, jurídicas, estéticas, desenveolvendo, então, certa cultura; é
dessa autoprodução que surgem
as culturas surdas».
Prosseguindo: «Quando as
pessoas surdas se conscientizam
de que pertencem a uma comunidade/cultura diferente […] essa
consciência as fortalece para oferecer resistências às imposições
de outras comunidades/culturas
dominantes […] é dado conhecido que cerca de 96% da população
surda no mundo constitui-se de
de surdos filhos de pais ouvintes.
Diante dessa realidade, o aspecto
fulcral não é tanto o linguístico,
o comunicativo ou o cognitivo,
mas o aspecto identitário, pois
os surdos, desde o nascimento, se
deparam com uma série de cons-
truções identificatórias que se iniciam com as expectativas dos pais
– geralmente ouvintes usuários
de uma língua à qual os surdos
não podem ter acesso natural. A
imagem e as representações sociais sobre a surdez e os surdos
começam a se construir desde as
primeiras experiências na família, e sob forte influência de especialistas. Não é raro em países em
‘desenvolvimento’ verificarmos
diagnósticos tardios e atitudes de
desinteresse e impotência diante
da surdez, expressos por pais e
educadores. Inúmeras crianças
surdas são deixadas à própria
sorte, sem expectativas de obterem educação e sucesso na vida,
principalmente em regiões mais
carentes. A esmagadora maioria dos surdos nasce em famílias
afastadas da sua identidade ‘nativa’ … Isso perturba o estabelecimento da identidade de qualquer
criança».
O caso de Angola
Em Angola, ainda impera a
visão anatómico-físio-patológica
sobre os surdos inseridos na es-
cola, e a quase totalidade dos professores, defectólogos, psicólogos
e sociólogos «ligados» à educação
de surdos nem sequer admite o
conceito de identidade surda.
Apenas alguns surdopedagogos e
linguistas correspondem ao quadro de conhecimentos transversais, amplos e profundos sobre os
surdos como pessoas possuidoras
de identidade própria.
O diagnóstico tardio da surdez
e a visão médico-terapêutica, ou
anatómico-físio-patológica, da
surdez inviabilizam a vida escolar
precoce do surdo angolano, dificultando seriamente a possibilidade de construção da identidade
surda. Por outro lado, o oralismo
e a comunicação total são dois
obstáculos à construção da identidade dos surdos angolanos inseridos na escola (o uso da Lingua
Angolana de Sinais por parte dos
professores é exíguo, pois a quase
totalidade deles não tem sólida e
exaustiva formação académico-científica na LAS, que lhes daria
possibilidades de compreender
os lementos identitários surdos,
pois, tal como já foi apontado, a
língua de sinais é o principal portal de acesso à cultura surda, esta
que é um reflexo material e imaterial da identidade surda).
Por outro lado, «não devemos
ficar plenos de escrúpulos para
reconhecer que os surdos vivem
em condições de subordinação,
como em uma terra de exílio» Nídia de Sá, 2006, p. 129; Perlin,
1998, p. 11.
Língua natural
A língua de sinais é o idioma
natural dos surdos por ser produto da surdez como substrato
cultural e identitário das pessoas
nessa condição.
A língua oral é adquirida através da audição e é articuldada e
desenvolvida por via dos órgãos
da fala (lábios, dentes, língua, palato, etc.). No caso da língua de
sinais, esta é adquirida através da
visão e é articulada e desenvolvida por via dos membros superiores. De modo que a língua oral é
auditivo-oral; a língua de sinais é
viso-gestual.
Assim como pela combinação
de um número restrito de sons
(fonemas) cria-se um leque vasto
de unidades dotadas de signifi-
cado (palavras), com a combinação de um número restrito de
unidades mínimas na dimensão
gestual (queremas) pode-se produzir um grande número de unidades com significado (sinais)’
– Stokoe, W., Sign Language
Structure: a outline of the Visual Communication System of the
American Deaf Studies Linguistics, 1960, V. 8.
«Os trabalhos da linguística
pós-estruturalista avaliaram o
estatuto linguístico das línguas
de sinais como línguas naturais
e como sistemas a serem diferenciados das línguas orais: o uso
do espaço como valor sintáctico
e a simultaneidade de aspectos
gramaticais são das restrições levantadas pela modalidade viso-espacial, que determinam sua diferença estrutural e funcional em
relação às línguas auditivo-orais»
- Skliar, 1998b, p. 24.
Portanto, as línguas de sinais
são idiomas autênticos, dotados de elementos que os definem
como tal, e frise-se que «língua
natural, aqui, deve ser entendida
como uma língua que foi criada e
é utilizada por uma comunidade
específica de usuários, transmitida de geração em geração e que
muda - tanto esrtrutural como
funcionalmente – com o passar
do tempo […] qualquer língua
pode ser considerada natural independentemente da modalidade
que utilize» - Nídia de Sá, 2006,
p. 134.
Concordamos com Nídia de
Sá e Carlos Skliar que alertam
que «se costuma enfatizar que
a dificuldade no uso da língua
de sinais no sistema educacional
reside no facto de esta língua
não ser a língua dos professores.
Mas o questionamento deve vir
exactamente por via contrária:
são os professores ouvintes que
não conhecem a língua de sinais
dos alunos surdos […] a questão
é muito mais ampla: não é o facto de os surdos utilizarem outra
língua que deve ser discutido
com ênfase, mas o poder linguístico que exercem os professores e o consequente processo
de deseducação».
■
(*) Linguista.
Surdopedagogo
20 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Opinião
Nós e o Português que mal
falamos e pior escrevemos!
Isaac Paxe
A
s redes sociais ( particularizamos aqui o Facebook) têm se
revelado numa fonte útil para
questões de estudos. No caso
deste texto, elegemos o Facebook e o uso
que nele se faz da língua portuguesa e toda
«conversa» à sua volta como tema a abordar.
O Facebook tem-nos proporcionado dois
segmentos de análise. O primeiro é o grupo
de pessoas «conscientes» que já andam sem
fôlego devido aos constantes maus tratos
que a língua portuguesa é submetida pelos
utentes angolanos nas suas publicações nas
redes sociais, na imprensa e, a mais extasiante, a pobreza linguística demonstrada
por muitos estudantes universitários e até
licenciados nos seus discursos escritos e/ou
falados. O segundo é a tormenta de erros de
muitos utentes do Facebook. O sistema de
escrita nas redes sociais, via corrector ortográfico automático e outras ferramentas
linguística disponíveis, permite a edição
dos textos. Porque então a publicação de
textos com tantos erros?
Não vamos nos juntar aos coros de lamentações ou de julgamento sobre a qualidade do domínio da língua portuguesa
dos outros. Pelo contrário, como o braço
que recua para dar consistência e eficácia
ao arremesso a fazer, viajaremos na história da língua portuguesa entre nós. É do
conhecimento geral que o Português foi
introduzido em Angola durante o período
da colonização portuguesa, com o seu triste projecto civilizatório. Logo, o Português
chegou entre os povos que antes habitaram
este território que chamamos Angola como
uma língua estrangeira.
E como são adquiridas as línguas estrangeiras numa determinada comunidade?
As línguas estrangeiras podem ser adquiridas por processos formais ou informais.
Os processos informais são aqueles que
resultam da interacção natural dos actores
sociais durante o processo de socialização.
Neste processo, devido às necessidades
imediatas de comunicação, privilegia-se
a aquisição de vocabulário suficiente para
estabelecer a ponte, desde que não se verifique um bloqueio comunicativo. Por isso,
a correcção linguística é substituída pela
imediata necessidade de comunicação para
se levar o negócio adiante. Já nos processos formais, as línguas são estudadas em
estabelecimentos afins, como a escola, e
supervisionada por instrutores que garantem que a sua integridade, em todas as
dimensões, seja salvaguardada. Para além
dos supervisores, o processo é sustentado
por especialistas que concebem os conteúdos do estudo, a didáctica necessária e
também as especificidade de cada grupo
de instruendos. Não é um processo simples
e requer a contribuição de várias áreas do
saber cientifico, como a linguística, a sociolinguística, a psicolinguística, a neurociência, a antropologia, a sociologia, a história,
a fisiologia, a filosofia, etc..
Para o caso do Português em Angola,
ele foi o principal instrumento de discriminação colonial. O estatuto do indígena,
entre outros factores, apoiava-se no não
domínio da língua portuguesa para recusa da outorga da cidadania portuguesa aos
milhões de angolanos. Em 1960, mais de
90% da população negra angolana era indígena e não instruída. Se a população não
era instruída, qual era o processo de aquisição da língua portuguesa? Era o processo
informal resultante da interacção com os
portugueses, com os colonos. Porém, acontece que a maior parte dos portugueses que
povoaram Angola, eram eles próprios analfabetos, logo, com fraco domínio da língua
portuguesa. É assim que em 1975, ano da
independência, os mais de 90% de analfabetos angolanos continuavam presentes
nas estatísticas. Com a independência,
pensamos um novo país, mas a língua portuguesa manteve-se como o instrumento
linguístico oficial, exigindo para isso o seu
uso nos actos oficiais, entre eles a educação.
Na educação, a escola abriu-se para todos angolanos. A massificação do ensino
levou para a escola todos aqueles outrora
segregados. Porém, a imposição da língua
portuguesa colocou outros desafios ao processo de educação. A língua portuguesa foi
o principal factor do fracasso escolar dos
poucos nativos que chegavam à escola. O
que foi pensado, no âmbito da política de
educação de então, para que a língua portuguesa fosse de domínio dos utentes da
escola e, com isso, de melhor domínio da
sociedade no geral?
A ameaça maior veio da própria escola.
Com a saída dos portugueses, os professores nas escolas eram eles próprios limitados no domínio da língua portuguesa.
Em 1977, 52% dos professores tinham a
4.ª classe. A sua limitada formação, geralmente feita no ensino rudimentar paralelo
ao ensino primário oficial da era colonial,
não garantia que, pelo menos para o ensino da língua portuguesa, se auxiliassem os
alunos sob sua tutela a adquirirem as competências necessárias. O ensino livresco e
reprodutor não conferiu as devidas competência e habilidades aos milhões que entusiasticamente buscaram a escola para aquisição de saber científico. A geração que foi
submetida a esta educação é a mesma que
depois assumiu o oficio de professor nos
anos subsequentes à independência. Devido à profunda crise económica da década de 80 em Angola, os professores, como
muitos outros funcionários públicos, eram
mal pagos e ficavam largos meses sem essa
já pobre remuneração. Isso impediu o ingresso ao sistema de ensino de pessoas com
algumas habilitações para o oficio. Como
resultado, em 1991, cerca de 50% dos professores que serviam o ensino primário não
tinha sequer 12 anos de escolarização. Podemos acrescentar o facto de que a maior
parte dos cidadãos (ainda 61% em 2012!)
não tem, como no período colonial, a língua portuguesa como sua língua materna.
Por isso, acreditamos que o que vemos
hoje são os sinais evidentes de erros cometidos, no que a educação diz respeito, ao
longo dos anos. Os falantes do Português
que o atropelam constantemente são, por
atacado e varejo, vítimas duas vezes. São
vítimas porque não se acautelou devidamente as necessidades de aprendizagem
da língua portuguesa, como qualquer sistema formal que se preza busca. Por outro
lado, eles hoje pagam o preço por exporem
o que lhes foi proporcionado, isto é, uma
experiência educativa deficiente, preço este
que resulta na perda de empregos, na não
aceitação social em alguns grupos, entre
outros.
A nossa revolta ou a nossa indignação
não é o remédio para este desafio. É preciso
repensar, para além das reformas badaladas
e politicamente motivadas, os propósitos da
nossa educação. As universidades, mesmo
com as suas limitações, já têm autores com
algum conhecimento que são úteis. Mas, é
preciso também valorizar o homem, aqueles
que têm por missão a produção de saberes
para sustentar a nossa produção material
, imaterial e histórica. Enfim, compete ao
Estado pelo seu capital social conferir ao
cidadão condições para que desenvolva o
seu capital social. Os efeitos do português
mal falado não devem ser simplesmente e
cinicamente arremessados aos «falantes sem
virtude», porque da mesma maneira que
quem padece com a cólera é vitima da falta
de condições de sanidade do meio, estes falantes são também vitimas da falta de sanidade em algum ponto da educação que lhes
foi proporcionada; educação deficiente que
por si só constitui-se numa violação dos seus
direitos de cidadania.
■
Sábado, 15 de Junho de 2013.
21
De avião a bonecas, impressoras 3-D mudam a manufatura
Fabrizio constantini para the wall street journal (2); Associated press (Mattel)
A Ford usa as impressoras para produzir moldes de peças (1 e 2) . Os brinquedos da Mattel também usam a tecnologia (3)
Clint Boulton
The Wall Street Journal
Empresas como a General Electric
Co., a Ford Motor Co. e a Mattel Inc.
estão usando a impressão 3-D com
mais frequência do que as pessoas
imaginam.
Também conhecida como manufatura aditiva, porque os objetos
produzidos dessa forma são
construídos com a adição de uma
camada de material por vez, essa
tecnologia está permitindo que os
fabricantes tenham os produtos
prontos para a entrega de forma
mais rápida.
Ao contrário das técnicas tradicionais, pela qual os objetos são
cortados ou perfurados a partir de
moldes, o que gera desperdício de
material, a impressora 3-D permite
que os trabalhadores projetem o
objeto no computador e o imprimam usando plástico, metal ou
materiais compostos.
“Ela nos permite ser muitos mais
produtivos, eficientes e inovadores
em design”, diz Scott Goodman,
diretor de desenvolvimento global
de produtos da Mattel.
Embora os preços tenham caído, os
materiais usados nas impressoras
3-D são mais caros que os de processos tradicionais de manufatura.
Pete Basiliere, analista do Gartner
Inc., diz acreditar que os preços
desses materiais vão cair à medida
que cresça a demanda por impressoras 3-D.
A receita global com impressoras
3-D deve atingir US$ 3,7 bilhões em
2015. Em 2012, foi de US$ 2,2 bilhões, segundo a firma de pesquisa
Wohlers Associates.
A Ford já vislumbra um futuro
onde os consumidores da montadora serão capazes de imprimir
suas próprias peças de reposição.
Teoricamente, um cliente poderá
se conectar à Web, escanear um
código de barras ou imprimir um
pedido, levá-lo a um local próximo
que tenha uma impressora 3-D e,
assim, ter a peça que precisa em
horas ou minutos.
A Ford já vinha usando impressoras 3-D para produzir protótipos
de peças para veículos de teste
desde os anos 80. Os engenheiros
da montadora no Centro Técnico
Beech Daly, no Estado americano
de Michigan, hoje usam equipamentos de nível industrial que
custam até US$ 1 milhão para
fabricar protótipos de cabeças de
cilindros, rotores de freio e eixos
traseiros em menos tempo do
que pelos métodos tradicionais
de manufatura, diz Paul Susalla,
supervisor da seção de manufatura
rápida da Ford.
Ao usar a impressão 3-D, a Ford
ganha, em média, um mês na produção de um molde de uma cabeça
de cilindro para a sua família de
motores EcoBoost, projetados para
uma melhor eficiência no consumo
de combustível. Essa peça complexa inclui numerosos portos, dutos,
passagens e válvulas para controlar o fluxo de ar e combustível.
A indústria aeroespacial também tira proveito. A unidade de
aviação da GE imprime injetores de
combustível e outros componentes
do sistema de combustão de uma
turbina de avião que está sendo
construída pela CFM International, uma joint venture entre a GE
e a francesa Snecma SA. Em 2016,
o motor Leap deve ser montado
para aeronaves como o Boeing 737
Max e o Airbus A320neo, que ainda
estão sendo desenvolvidos.
Mark Little, diretor do grupo de
pesquisa global da GE, diz que
produzir moldes de uma peça
complexa pelo derretimento de
pó do metal camada por camada
pode ser mais preciso do que fazer
e cortar as partes de um molde de
cerâmica.
A GE também está experimentando produzir um dispositivo
médico, a sonda de ultrassom, por
meio de impressoras 3-D. O equipamento transmite sinais que geram
imagens de ultrassom em exames
de pacientes. Métodos tradicionais
de produção exigem horas de corte
e refinamento da peça para que
ela possa reproduzir as imagens.
Pesquisadores da GE dizem que
a impressora 3-D pode ajudar a
reduzir os custos de algumas peças
da sonda em 30%.
As impressoras 3-D também estão
revolucionando a indústria dos
brinquedos. A Mattel costumava
esculpir protótipos de cera e argila
antes de produzir seus brinquedos
de plástico. Hoje, seus engenheiros
usam uma das 30 impressoras 3-D
para criar partes de praticamente
todo tipo de brinquedo, incluindo
marcas populares como Barbie,
Max Steel e os carros Hot Wheels.
Mas a Mattel diz não ter planos
para vender software a consumidores que permita que eles
imprimam seus próprios brinquedos em impressoras 3-D caseiras.
Um porta-voz diz que a empresa
não pode garantir que brinquedos
impressos em casa sejam seguros
para crianças, “questão essa que
toda indústria terá que enfrentar
e abraçar” à medida que o uso das
impressoras 3-D se amplia.
22 Sábado, 15 de Junho de 2013.
The Wall Street Journal
Multinacionais mudam de tática em países emergentes
Lilly Vitorovich
The Wall Street Journal, de
Londres
A Europa foi a pioneira da tecnologia de telefonia celular 15 anos
atrás. Hoje, ela está atrasada na
implantação de serviços móveis
de alta velocidade e tenta desesperadamente se recuperar.
O continente está atrás dos
Estados Unidos e partes da Ásia
na adoção de tecnologias de
quarta geração como o padrão
LTE (“Long Term Evolution”, ou
evolução de longo prazo), que
tornam mais rápidas a navegação
na internet e a transmissão de
vídeo para computadores, tablets
e smartphones.
As operadoras de celular culpam a
economia fraca e as regras rígidas
da Europa pela falta de investimento em suas redes nos últimos
anos, embora algumas já estejam
lançando serviços mais rápidos à
medida que os governos leiloam
faixas de frequência para a quarta
geração.
Investimentos em redes 4G são
necessários para que a economia
da Europa se mantenha competitiva no cenário global. Eles
também ajudam as operadoras
a reter clientes enquanto lutam
para conter a queda de receita
causada pela redução no número
de ligações das pessoas. Para os
consumidores, a falta de investimento poderia resultar em redes
mais lentas.
“Há um amplo consenso de que
o mercado de telefonia celular
da UE [União Europeia] está com
baixo desempenho em relação
a outras economias avançadas,
inclusive os EUA”, afirmou num
relatório a GSMA, uma associação
do setor.
O documento ilustra o estado precário da Europa: 19% das linhas
nos EUA devem estar em redes
LTE até o fim do ano, comparado
com menos de 2% na UE. As velocidades dos EUA também são 75%
maiores do que a média da UE, e
a GSMA prevê que esta diferença
vai crescer.
“É humilhante — ficamos para
trás”, disse Pierre Louette, vice-diretor-presidente da France Télécom SA. “A internet foi praticamente inventada por um europeu,
mas as grandes empresas são
americanas e as redes mais rápidas estão nos EUA e na Ásia.”
Os EUA tinham cerca de 31 milhões de assinantes em redes LTE
e a Coreia do Sul, 16 milhões no
fim de 2012. Já a Alemanha tinha
570.000 usuários 4G e o Reino
Unido, só 41.000, segundo a firma
de pesquisa Idate.
No Brasil, que começou recentemente a adotar as redes de quarta
geração, a proporção das linhas
com a tecnologia LTE ainda é
pequena, mas está crescendo
rápido. O número de usuários em
redes LTE mais do que triplicou
entre março e abril, de 14.702
para 48.459, ou 0,02% do total de
linhas celulares no país, informou
a Anatel. (Os números de maio
ainda não foram divulgados.)
A agência reguladora brasileira
estabeleceu o prazo de 30 de abril
para que as quatro grande operadoras — Claro, Oi, TIM e Vivo —
implantassem o serviço em 50%
da área urbana das seis capitais
que sediarão os jogos da Copa das
Confederações, que começa no dia
15 deste mês.
As empresas declararam que
cumpriram o prazo, segundo a
Anatel, que acrescentou que a
fiscalização está em andamento e
seus resultados serão conhecidos
em breve.
A Anatel planeja disponibilizar
outras regiões do espectro nos
próximos anos, na faixa de 700
MHz (a mesma usada nos EUA),
que oferece um sinal mais robusto
que a faixa empregada hoje, de 2,5
GHz, segundo a agência.
A GSMA afirmou que a Europa
também deveria reformar suas
políticas de espectro e consolidar
mais o setor.
Neelie Kroes, comissária da UE
para a Agenda Digital, que define
as políticas de tecnologia, se
comprometeu a abordar essas
questões este ano com propostas
para reformar o mercado das tele-
comunicações do bloco e incentivar o investimento.
“Precisamos com urgência tirar
o atraso [...] e dar às pessoas as
ferramentas tecnológicas de que
elas precisam”, disse ela num
congresso este ano.
Num momento em que era necessário investir, os gastos de capital
com infraestrutura de telecomunicações caíram 14% de 2005 a
2009, para 40 bilhões de euros
(US$ 52 bilhões), segundo a consultoria McKinsey, o equivalente
a apenas dois terços dos níveis de
investimento nos EUA.
As operadoras afirmam que não
investiram em redes mais rápidas
devido aos problemas econômicos
da Europa, à concorrência entre
muitas empresas e à regulação
pesada da UE, que afetaram a
receita.
Analistas também dizem que as
empresas desanimaram depois de
pagar um preço alto por espaço no
espectro 3G, no ínicio de 2000, o
que aumentou suas dívidas, prejudicou os resultados e fez com que
quisessem rentabilizar os ativos o
maior tempo possível.
Aquisições de participações em
empresas europeias por estrangeiras — como as que o bilionário
mexicano Carlos Slim fez em 2012
na holandesa KPN e na austríaca Telecom Austria — também
poderiam levar as operadoras
do bloco a investir mais para se
fortalecerem.
(Colaboraram Frances Robinson
e Luis Garcia.)
África é o novo alvo do setor aéreo
Marietta Cauchi
e Daniel Michaels
The Wall Street Journal
A aviação na África, até recentemente
dominada por companhias de ex-potências
coloniais europeias, está se tornando um
mercado aberto para todos, ajudando a tornar o continente um dos mercados aéreos
que cresce mais rapidamente no mundo.
Grandes companhias do Golfo Pérsico
estão liderando esse processo. A Qatar
Airways, a Emirates, de Dubai, e a Etihad
Airways, de Abu Dhabi, veem o mercado
africano como uma presa fácil no seu
quintal.
A brasileira Gol também está de olho no
continente. A empresa anunciou que está
analisando a possibilidade de lançar uma
rota entre o Brasil e a Nigéria, mas a Anac
(Agência Nacional de Aviação Civil) informou que deu, no dia 27 de maio, autorização para três frequências semanais da Gol
rumo ao país africano.
Empresas americanas, que nunca ofereceram voos para a África, estão agora
descobrindo o continente. E num sinal de
renovação da região, um número crescente de companhias aéreas locais está
expandindo suas operações, embora a
competição com gigantes globais esteja se
mostrando difícil.
As potenciais perdedoras são as companhias europeias, que até recentemente
eram as únicas que ofereciam conexões
para muitos países africanos.
“Os europeus, de repente, começaram a
acordar”, disse o presidente da Emirates,
Tim Clark. Enquanto as aéreas europeias
desaceleraram sua expansão na África nos
últimos anos, “nós vimos [a região] como
uma grande oportunidade”. A Emirates
está se aproximando da Air France na posição de empresa não africana com maior número de voos para o continente, segundo a
consultoria Innovata LLC.
A Air France-KLM SA “continua a aumentar voos, rotas e a dimensão das aeronaves
na África para alimentar os seus centros
de conexão da Europa”, diz Pierre Descazeaux, vice-presidente sênior da empresa
para a África e o Oriente Médio. O grupo,
que detém 26% da Kenya Airways Ltd. e
20% da Air Côte d’Ivoire, aumentou sua
capacidade na África em mais de 8% desde
o meio do ano passado.
Companhias aéreas se deram conta do
potencial da África graças ao avanço do
Brasil, Rússia, Índia e China, que representam uma parte crescente do comércio
internacional da África. E esses países
também estão entre os mercados de aviação que mais crescem no mundo.
Apesar de a aviação africana ainda sofrer
com décadas de negligência, sua infraestrutura e histórico de segurança estão
melhorando. O tráfego de passageiros nos
12 meses encerrados em 30 de abril subiu
7,3% ante um ano antes, segundo a AITA,
associação internacional do setor. E a riqueza africana está crescendo. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico prevê que a economia da África
cresça 4,8% este ano e 5,3% no próximo.
“Ao lado dos países do BRIC, esse é o
principal mercado de crescimento, com
economias em rápida expansão, riqueza e
investimentos estrangeiros da China e de
outros países”, diz o diretor-presidente da
Etihad, James Hogan. A operadora ampliou
recentemente a sua presença na África e fechou acordos com a South African Airways
Pty. Ltd. e a Kenya Airways, pelo qual elas
podem vender passagens umas das outras.
Os viajantes se beneficiam, mas a chegada
de companhias globais “coloca as operadoras africanas em desvantagem”, diz Rapha-
el Kuuchi, diretor de assuntos industriais
da Associação das empresas Aéreas em
Nairobi, no Quênia.
As companhias aéreas africanas responderam por apenas 35% do tráfego de aviões
que chegaram e partiram do continente no
ano passado e sua quota de capacidade em
rotas no exterior caiu 16 pontos percentuais nos últimos dez anos, segundo a
associação.
Ainda assim, algumas companhias aéreas
africanas decidiram enfrentar o desafio,
investindo em aviões modernos e adotando estratégias criativas. Várias delas
estão concentrando seus voos dentro do
continente “e para regiões onde a competição não é tão forte e há alto potencial de
crescimento”, como Ásia e América Latina,
disse Kuuchi.
A Europa ainda tem 60% da capacidade de
voos do exterior para a África e as companhias do Oriente Médio detêm 30%, segundo a Innovata. Mas o tráfego com o Oriente
Médio está crescendo 10% por ano e “não
mostra nenhum sinal de desaceleração”,
disse Roeland van den Bergh, analista sênior da consultoria do Centre for Aviation,
de Sydney, Austrália.
(Colaborou Bart Koster.)
23
The Wall Street Journal
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Envelhecimento da população é grande desafio para a China
Tom Orlik
The Wall Street Journal
de Pequim
Os idosos da China são pobres,
doentes e deprimidos em um número alarmante, de acordo com o
primeiro estudo em grande escala
feito com pessoas de mais de 60
anos. Isso é um desafio imenso
para Pequim e umas das maiores
vulnerabilidades de longo prazo da
economia chinesa.
O levantamento sobre as condições
de vida dos 185 milhões de idosos
do país mostra um quadro desolador que desafia os esforços do
governo para construir o que chama de “sociedade harmoniosa”,
dedicada ao bem-estar humano
em vez de somente ao crescimento econômico. Da geração que
construiu o boom econômico da
China, 22,9% — ou 42,4 milhões
de pessoas — vivem na pobreza,
com uma renda de menos de 3.200
yuans por ano (US$ 522).
O medo de ficar velho e pobre,
o que leva muitos chineses a
economizar seus ganhos, também
vai contra outra prioridade de
Pequim: reequilibrar a economia
para um consumo mais forte.
A pesquisa, liderada por acadêmicos chineses e internacionais,
incluiu 17.708 indivíduos de 28 das
31 províncias da China e foi parcialmente financiada pelo governo
chinês através de uma fundação
científica. Sem deixar de cuidadosamente dar crédito ao governo
pelo progresso na expansão da
cobertura de benefícios médicos e
de aposentadoria, o levantamento
também mostrou que deficiências
físicas e doenças mentais são comuns no país. Dos entrevistados,
38,1% relataram dificuldades para
exercer atividades diárias e 40%
apresentaram sintomas fortes de
depressão.
Comparações internacionais se
tornam difíceis por problemas de
definição. Mas as taxas de pobreza,
invalidez e depressão na China
parecem ser todas relativamente
altas. A taxa de pobreza dos americanos com idade superior a 65 anos
é de 8,7%, segundo dados do censo.
O Estudo da Saúde e Aposentadoria dos EUA descobriu que entre
26% e 27% dos idosos americanos
apresentam algum tipo de invalidez e que as taxas de depressão
também são significativamente
menores do que na China.
John Strauss, professor da Universidade do Sul da Califórnia e
um dos líderes do projeto, apontou
o baixo nível de desenvolvimento
da China como parte da explicação para os níveis mais elevados
de pobreza no país. “Precisamos
lembrar que a China ainda é uma
economia em desenvolvimento,
ainda não é um país de alta renda”,
disse ele.
O envelhecimento da população
significa que os problemas se
agravam. O número de idosos para
cada cem pessoas em idade ativa
da população — o chamado índice
de dependência — passará de 11 em
2010 para 42 em 2050, de acordo
com projeções da Organização das
Nações Unidas.
Outros países também verão um
aumento do índice de dependência.
Mas o ritmo do envelhecimento na
China é particularmente alto em
consequência da política de um só
filho.
O levantamento revela que 88,7%
dos idosos que necessitam de
assistência para atividades diárias
a recebem de membros da família.
Mas a política de um único filho
e a migração de muitos jovens
para cidades grandes em busca
de trabalho ameaçam corroer a
tradição dos filhos cuidarem dos
pais idosos.
O problema da China é peculiar
porque a população está envelhecendo enquanto o país ainda é
pobre. “Outros países são velhos e
ricos”, disse Albert Park, professor
da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, outro líder
da pesquisa.
Yu Baihui é uma das idosas que
está enfrentando dificuldades.
Com 73 anos, Yu vive com o marido em uma casa dilapidada em
Rensha, cidade de 31 mil habitantes nas redondezas de Chongqing,
no oeste da China. Como muitos
dos idosos pobres da China, ela é
uma ex-lavradora, velha demais
para se beneficiar do boom econômico que levou as gerações mais
jovens para as fábricas, e ficou de
fora de um sistema de benefícios
que favorece a população urbana.
“Meus pais não têm qualquer pensão ou outro benefício”, disse Luo
Zhengfeng — filho de Yu que vende
guarda-chuvas e mapas para turistas em Chongqing para sustentar
sua esposa, filho e pais idosos.
A turbulenta história da China
também parece ter tido um impacto na geração que a enfrentou. “Os
idosos da China passaram fome
nos anos 50 e enfrentaram as turbulências da Revolução Cultural”,
disse Park. “Essas experiências
deixam uma marca na saúde física
e mental.”
Em teoria, o respeito pelos mais
velhos está profundamente enraizado na cultura chinesa. Confucius, o líder cultural da China, que
tem desfrutado um renascimento
em popularidade à medida que
líderes buscam novas fontes de legitimidade, defendeu a veneração
das pessoas mais velhas.
Em uma visita a um asilo de idosos
em Tianjin, em 2009, o ex-presidente Hu Jintao expressou os sentimentos. “Respeitar e cuidar dos
idosos não é apenas uma tradição
chinesa, mas também um símbo-
lo da civilização e do progresso
nacional”, disse ele.
Mais de 90% da população idosa
possui seguro saúde, mas os custos
extras permanecem elevados.
“Minha mãe teve um derrame no
ano passado, o hospital cobrou 18
mil yuans (US$ 2,9 mil) e o seguro
pagou apenas 1.000 yuans”, disse
Luo, o vendedor de guarda-chuvas
de Chongquing. O saldo de 17
mil yuans ele teve que pagar do
próprio bolso e equivale a quase
metade do seu salário anual.
Colaborou Olivia Geng
Tablet da Sony pode ir da sala à piscina
Katherine Boehret
No mercado atual de tablets, um aparelho
sobressai claramente aos demais: o iPad,
da Apple. Com este tablet, a Apple fez o que
sempre faz: criou um dispositivo inovador e
essencial numa outrora insossa categoria.
Mas isso foi há três anos.
Agora, uma empresa que fez o seu nome com
eletrônicos de consumo de alto nível quer
impor à Apple um desafio real. O tablet Xperia Z, da Sony, usa a última versão do sistema
operacional Android, tem uma tela de 10,1
polegadas e é o tablet mais fino já lançado até
hoje, superando até o iPad Mini, da Apple.
Com um peso 494,4 gramas, esse tablet é
também mais leve do que o iPad — que pesa
653,2 gramas — e tem infravermelho, o que
o transforma num controle remoto universal. E só por diversão, ele funciona mesmo
submerso até três metros de profundidade,
por 30 minutos.
O Xperia, que segundo a Sony chega ao Brasil
em meados de agosto, só está disponível em
modelos com conexão Wi-Fi, assim como o
iPad quando foi lançado. Os preços são similares aos de modelos comparáveis do iPad:
nos Estados Unidos, onde até julho só estão
disponíveis em lojas on-line, o Xperia de 16
gigabites de memória (na cor preta) custa
US$ 499 e o modelo de 32 gigabites (em preto
ou branco), US$ 599.
A
Sony ficou de fora da tecnologia móvel por
um longo tempo, mas o design e o preço do
tablet Xperia Z pode reposicionar a empresa no mercado se ela souber usar as suas
cartas. A Sony também tem um smartphone
com o mesmo nome, o Xperia Z, que está
sendo vendido nos EUA por US$ 630 sem con-
O tablet Xperia Z funciona por meia hora a até três metros debaixo dágua
trato com operadoras (uma versão ligeiramente simplificada do celular, o Xperia ZQ, já
foi lançada no Brasil).
Venho usando o novo tablet por mais de uma
semana e o considero um sério concorrente
do iPad. O design elegante, a velocidade, a
tela, a boa qualidade da câmera e do som,
tudo isso torna fácil gostar do aparelho. O
sistema operacional Android OS, chamado
de Jellybean, funciona sem problemas e é
melhor que outras versões anteriores do
Android. Mas o Xperia Z não se saiu bem no
meu teste da duração da bateria. Algumas
pessoas também podem achar a traseira de
plástico do tablet frágil comparado com a
resistência do alumínio escovado do iPad.
Tenho um tablet Android e já testei vários
outros, mas gostei mais do design físico do
Xperia Z. A sua pequena espessura e leveza
tornam fácil carregá-lo numa bolsa. As aberturas do alto-falante do Z estão inteligentemente situadas nas extremidades inferiores
e laterais, proporcionando um som ambiente
que não é abafado quando o aparelho está
sobre uma mesa.
24 Sábado, 15 de Junho de 2013.
The Wall Street Journal
Testei a resistência do Xperia
Z à água. Primeiro, certifiquei-me que todas as suas entradas
e saídas estavam cobertas com
suas respectivas tampas. Isso
incluiu o compartimento do
cartão de memória Micro SD,
a porta USB e a saída para o
fone de ouvido. Aí, submergi o
tablet numa pia cheia de água
enquanto ele tocava uma música, por dez minutos.
A maioria das pessoas não
vai dar um mergulho com
seu tablet, mas vai usá-lo em
lugares onde líquidos espirram ou são derramados com
frequência, como cozinhas
e banheiros. Mesmo com os
dedos molhados, o Xperia reconheceu comandos por gestos
e seleções na tela, embora de
forma inconsistente.
No uso cotidiano, não notei
nenhum problema no tempo de
duração da bateria do Xperia.
Mas no meu teste, a bateria
deixou a desejar. Ajustei o
brilho da tela em 75%, mantive o Wi-Fi funcionando para
continuar recebendo emails
e coloquei um vídeo que se
repetia automaticamente até
a bateria acabar. O Xperia Z
morreu depois de apenas 5,5
horas meia de uso; o iPad dura
quase 11,5 horas.
Na sala da minha casa, testei
o infravermelho embutido do
Xperia Z abrindo um aplicativo de controle remoto pré-carregado. Selecionei o tipo
de dispositivo e fabricante, os
controles apareceram na tela.
Testei-os para ter certeza de
que estava com a minha TV
LG, TiVo e o sistema de som da
Sony conectados. Isto levou
apenas alguns minutos e é
prático para aqueles acostumados a usar o tablet enquanto
assistem à TV. Para a maioria,
pode ser apenas um interessante truque de mágica.
A câmera traseira de 8 megapixels do Xperia Z e câmera
frontal de 2 megapixels tem
mais megapixels que a câmera
traseira de 5 megapixels do
iPad e câmera frontal de 1,2
megapixels, embora uma
câmera não deve ser julgada
apenas pelo critério de megapixels. Tirei fotos do mar, da
praia e amigos e elas ficaram
bonitas e nítidas. Ao revisar
as fotos, elas demoraram um
pouco para entrar em foco, da
mesma maneira que acontece
com uma câmera digital.
Se você é um fã do sistema
operacional Android e estava
esperando um tablet com um
ótimo design, o Xperia Tablet
Z é uma boa pedida. Só não
espere que a sua bateria dure o
mesmo tanto que a do iPad.
Anglo American ainda espera lucrar com projeto Minas-Rio
John W. Miller e Paul Kiernan
The Wall Street Journal,
de Conceição do Mato Dentro, MG
As montanhas que cercam esta
cidade do interior de Minas Gerais
contêm ricas jazidas de minério
de ferro e as sementes de um dos
maiores estouros de orçamento da
história da mineração.
A Anglo American PLC está gastando US$ 8,8 bilhões numa imensa
mina de ferro aqui — mais que o
triplo do valor inicialmente orçado,
e sequer uma única tonelada foi extraída. O projeto, que foi concebido
por alguns dos melhores geólogos
e engenheiros do mundo e emprega
hoje 12.000 pessoas, está três anos
atrás do cronograma.
“Penso o tempo todo no que poderíamos ter feito diferente”, disse
a ex-diretora-presidente Cynthia
Carroll ao The Wall Street Journal.
Carroll, que ainda acredita que
a mina será lucrativa, deixou o
comando da Anglo American em
abril, cedendo à pressão de acionistas insatisfeitos com estouros de
orçamento, principalmente nesta
mina, batizada de Minas-Rio.
A Anglo American sabia que
extrair minério de ferro nos
subterrâneos de fazendas de gado
— e logo processar e despachar
a produção — seria um desafio. E
ela não é a única mineradora sob
pressão. Com as áreas costeiras
se esgotando, as multinacionais
do setor estão tendo cada vez
mais que explorar áreas remotas,
muitas vezes em países voláteis,
com moedas instáveis e legislação
incerta.
A maior razão para essas apostas
é a forte demanda da China, que
em 2012 importou 745,5 milhões
de toneladas — quase seis vezes
mais que dez anos atrás. Isso fez os
preços do minério de ferro mais do
que triplicarem desde que a Anglo
American comprou a Minas-Rio.
A economia da China, porém, vem
se desacelerando, e economistas
agora preveem que a demanda
por aço vai subir entre 2% e 3% em
2013, ante os cerca de 10% anuais
de 2006 a 2011.
“Ainda acreditamos num mundo em
que [extrair] minério de ferro pode
ser lucrativo ao custo de 50 dólares
a tonelada”, diz o diretor-presidente, Mark Cutifani, que substituiu
Carroll em abril.
A trajetória do projeto vem sendo
uma dura curva de aprendizado.
A Anglo American não previu
completamente a extensão das negociações com dezenas de agências
brasileiras, prefeitos, promotores
locais e perto de 1.600 proprietários de terras em 32 municípios.
Carlos Nogueira da Costa Júnior,
secretário federal de Geologia,
Mineração e Transformação Mineral, diz que poderia ter alertado a
empresa: “A Anglo American nunca
nos consultou antes de fazer o primeiro investimento para entender
o processo de licenças”, diz.
Carroll disse que o Brasil é um país
cujas políticas e regras mudam todo
dia e que não sabe se poderia ter
antevisto alguns dos problemas.
A Anglo American, que tem um valor de mercado de US$ 33 bilhões,
prevê que a mina será lucrativa
depois que entrar em produção,
em 2014. Embora executivos da
empresa reconheçam que vai levar
seis anos só para pagar o preço inicial de aquisição de US$ 4,6 bilhões
mais US$ 8,8 bilhões em gastos de
capital, eles dizem que a mina vai
gerar um forte fluxo de caixa por
pelo menos 45 anos depois disso. A
questão, dizem analistas, é se esse
prazo permitirá aos acionistas
recuperar seu investimento.
O maior problema diante dos engenheiros da Anglo American era
transportar o minério até a costa.
A firma não tinha uma ferrovia no
Brasil. Ela podia usar a da Vale,
mas isso significaria depender de
uma concorrente e talvez pagar
um aluguel alto. A Anglo decidiu,
então, construir um duto para
transportar o minério diluído em
água por 522 quilômetros até um
porto no norte do Rio de Janeiro,
atravessando 32 cidades e 1.555
propriedades privadas. Será o
maior mineroduto do mundo.
A Anglo American, que não quis
revelar detalhes da composição
de custo da Minas-Rio, afirma que
o mineroduto virou a parte mais
problemática do projeto, afetando
350.000 pessoas.
Além da complicada questão da remoção de moradores, os engenhei-
ros, em alguns casos, tiveram que
redirecionar a tubulação devido à
topografia ou a pessoas que não
queriam vender suas propriedades
ou se mudar, diz Paulo Castellari, diretor-presidente da Anglo
American no Brasil. “Em ambos os
casos, esses atrasos nos obrigaram
a gastar com novas estruturas e
equipamentos.”
O secretário Costa Júnior diz que
o governo acha que até agora a
Anglo American agiu conforme a
lei. “Eles estão obtendo as licenças
necessárias, de modo que as comunidades não se sentem enganadas
ou perturbadas.”
Além dos moradores, a empresa
também teve que negociar com
autoridades locais.
“O projeto é o resultado de forças
muito maiores e globais. Houve
um momento em que concluímos
que não podíamos parar uma força
global, então decidimos tentar
impor o maior número de condições possível para conseguir o que
queríamos”, diz Sandro Lage, 31
anos, secretário do Meio-Ambiente
da cidade.
Em março de 2012, Marcelo Mata
Machado, 39 anos, promotor do Ministério Público de Minas Gerais,
uniu-se a quatro outros promotores locais para abrir três processos
contra a Anglo American. Sua lista
de reclamações, compilada em
reuniões com moradores, incluía
a alegação que a Anglo American
não havia feito uma catalogação
adequada das pinturas e artefatos
pré-históricos presentes na área
a ser escavada. Machado apoia o
direito de mineração da empresa
desde que “feito corretamente”. Ele
descreve a ação judicial como “uma
medida preventiva; decidimos
que o projeto não poderia avançar
até que os estudos arqueológicos
fossem concluídos”.
“A legislação ambiental brasileira é bem intencionada e de alta
qualidade”, diz Castellari. “Mas as
infraestrutura, o processo, os sistemas e até as pessoas dificultam a
sua aplicação na prática.”
Castellari diz ter gastado 80% do
seu tempo em 2012 lidando com
liminares que custaram à Anglo
American US$ 1 bilhão em despesas legais, trabalhos arqueológicos
e monitoramento. Em dezembro,
as liminares haviam sido retiradas. A companhia concordou em
construir um museu para abrigar os artefatos arqueológicos e
restaurar a Igreja Matriz, de 211
anos, a um custo de US$ 2 milhões,
segundo a Anglo.
A empresa também foi prejudicada
pela mesma alta dos custos que
atingiu outras grandes do setor.
Os caminhões mineradores, por
exemplo, custam hoje 70% mais
que em 2007, quando a Anglo
começou a orçar o projeto. E os
preços da terra estão dez vezes
mais altos.
O porto apresentou desafios
maiores e mais caros. A empresa
teve que construir um quebra-mar de US$ 400 milhões para
impedir que tempestades e ondas
danifiquem os navios e criou sua
própria pedreira para a obra, que
deve terminar em 2014. “Estamos
gastando bastante agora para
economizar bastante depois”,
diz o gerente geral do porto, Luiz
Pereira Nunes.
anglo american
Atrasos na obra da imensa mina custaram bilhões de dólares, mas a companhia afirma que ela ainda será lucrativa
25
Cronica
Sábado, 15 de Junho de 2013.
O apetite dos ortóperos
A
o fundo da sala, um homem
ainda novo muda o disco na
aparelhagem e volta a sentar-se
comodamente no sofá para fumar o cigarro interrompido. As aspirais de
fumo evoluem graciosamente em direcção
ao tecto, exactamente como costumam ser
descritas na literatura de cordel. Até eu, que
me delicio há mais de meio século com este
perigoso recurso tabagista, vislumbro nas
acrobacias aéreas do tabaco cremado fantasias extraordinárias: pássaros sem pressa,
marés calmas, mulheres esguias e voluptuosas a desafiarem a minha imaginação,
que é vulnerável à beleza e ao inesperado.
Mas, por vezes, também fantasmas grotescos, cuja configuração num balet de fumo
apenas me indica que os monstros, deste
mundo ou da parapsicologia, podem afinal
ser boa companhia. A noção de monstro
é talvez um mito que resulta da manipulação dos medos e preconceitos humanos.
A vida é para viver, desejavelmente em boa
convivência com os mitos sobre monstros,
as malfeitorias do Inferno e os jardins suspensos da Babilónia, que na verdade eram
haréns de plantas.
Mas o homem que escuta a música, calmo e sem exposição visível aos mil e um
problemas do quotidiano, aparenta uma
paz de espírito que lhe permite enfrentar,
sem temor excessivo, as armadilhas e dissabores sociais com que lida no dia a dia.
Vive em Luanda, e isso resolve metade dos
seus problemas: pelo menos, o coração tem
onde se alimentar. Nas cores da cidade, nas
amizades espontâneas.
Senta-se no cadeirão, com a mesma pose.
A exacta eficiência.
Com personalidade.
Não pensemos em deduções muito complicadas. Ele é, nitidamente, o dono da casa
e a sua aparência repousante, satisfeita,
tranquila.
O homem do sofá mantém-se no mais
absoluto silêncio para escutar o cantor do
disco, mas no canto oposto milhares de
pequenas mas voluptuosas antenas da mais
fina sensibilidade, num zumbido estrídulo, quase musical, sibilam, denunciando
a presença de um outro tipo de vida, uma
outra realidade, entre papéis velhos que o
tempo e o esquecimento, aliados, tornaram
inúteis.
Uma sobrevivência subterrânea se agita.
Milhares de olhos de ascendência multissecular, na obscuridade da casa do homem
com música. Bocas famintas que pastam o
possível, o impossível e o inacreditável. O
som alto da música abafa a poluição sonora que chega das resmas de papel, livros e
fotografias dilacerados. Roem, avidamente, rostos fotográficos desconhecidos, sem
qualquer respeito ou reservas. Não são filhos nem filhas dos pais do dono da casa
que preguiçosamente se deixa absorver
pela música, da qual recolhe uma estranha
tranquilidade.
Na realidade, os ruídos partem de uma
tribo de configuração pré-histórica que ali
se reproduz, vive e morre sem outros horizontes que não sejam, regra geral, o apertado espaço entre as quatro paredes de uma
gaveta de excelente madeira.
Baratas!
O homem acende novo cigarro, recosta-se melhor no sofá e a voz do artista, gravada a milhares de quilómetros, retoma um
verso romântico. Contudo, ali mesmo, ao
abrigo da discreta e serena penumbra da
segunda gaveta do armário da sala, uma
ortóptera petisca, insensível e com evidente
apetite, um ângulo mais tenro da inflamada declaração de amor que foi o princípio
de tudo naquele lar.
Sempre foi assim, desde a invenção da
escrita: as palavras de mais apaixonante
grafia enlouquecem com facilidade. E, por
estranho que pareça, na sua voracidade,
estas obscuras e repelentes criaturas jurássicas voadoras ocupam territórios, alheias
à música que perfuma de sons e melodia a
casa que criminosamente invadiram.
A gaveta está cheia, mas desarrumada.
Ali subsistem, quase aprisionados, correspondência vária, misturada com recibos
para liquidação de consumos domésticos,
cachimbos com alguns anos de apagada sobrevivência, quatro ou cinco livros que por
certo já mitigaram a fome a várias gerações
de clandestinos habitantes da penumbra do
armário e, até mesmo, um velho álbum de
fotografias que, como nos filmes medíocres, conta apenas histórias felizes.
Duas pequenas baratas, de antenas
nervosas e velozes, atacam sem grande
convicção as últimas quatro letras de um
amarelado recibo de renda de casa, onde,
sobre um carimbo a óleo, se estende a assinatura de um tal Manuel não sei quê,
feito em Luanda aos tantos de tal. Caso
estranho, pelas razões que a seguir adianto: os ortópteros, embora de apetite voraz,
nunca tiveram grande inclinação para a
escrita comercial ou financeira. Preferem
a caligrafia sentimental. As palavras amáveis. O pudor da ternura. A aventura do
sonho. O amor.
A prova está naquela barata mais exigente e progenitora de várias gerações de
semelhantes e repelentes seres alados, que
ali se atira com compulsiva predilecção a
uma missiva na qual um anterior dono da
casa escreveu frases como se fossem música, prometendo o Céu a alguma mulher,
como se isso fosse fácil, numa folha dobrada manualmente com arabescos a insinuar
paixão.
Esse espécime humano devia ter sido da
mais fina sensibilidade por baixo daquela
capa de aparente competência funcional
durante a juventude. Por isso, a carta de
amor atrai as tenazes articuladas e pré-históricas das baratas de paladar mais afinado,
num banquete de sofisticado menú.
O jovem homem do sofá, impaciente e
com o mesmo indiscutível grau de apetite
dos insectos, acende novo cigarro. Já morderia qualquer coisa. Olha para as paredes
e repara que estão a precisar de pintura
nova. Presta melhor atenção às gravuras
encaixilhadas e, como de costume, não
lhes acha qualquer piada: são resquícios
do colonialismo. Não lhe dizem nada, tem
preferências mais actualizadas: o poder popular, a música da época, os novos rostos
da política nacional.
Por sorte, não lhe custaram dinheiro.
A casa foi ocupada por necessidade social,
quem fugiu, fugiu. Porque é que o antigo
dono nem levou as fotos de família? Vá lá,
ficarem os móveis. O anterior locatário ou
fugiu muito à pressa ou não teve arquitectura financeira para fazer uns grandes caixotes tipo contentor para «exportar» os tarecos, apesar de garantido transporte para
Lisboa a custo zero.
Mas o novo ocupante, qualquer dia, tem
que adquirir novo mobiliário mais a seu
gosto!
É indispensável.
Estes trastes são feios.
As baratas limitam-se, por enquanto, ao
seu limitado território e ainda não viraram
as atenções culinárias para umas velhas
estampas de calendário. Talvez por serem
ásperas e com desagradável sabor a tintas
de tipografia a que nem o salalé se habitua. E têm razão. Enquanto subsistir pasto
fresco e mais mole, essa inebriante frescura
da correspondência sentimental antiga, jamais degustarão outra coisa.
As baratas têm uma personalidade digestiva extremamente rigorosa. São caprichosas e exigentes. Escolhem bem o menú
alimentar, de preferência fotos antigas,
recibos de contabilidade e cartas de amor
com remetente e destinatário desconhecidos. O amor é considerado um bom alimento pelos ortópteros.
De súbito, uma mulher também relativamente jovem entra na sala, liberta um
pequeno suspiro de cansaço e dirige a palavra ao homem refastelado no sofá com a
barriga a dar horas.
- António, vem jantar. A comida está na
mesa.
O tipo levanta-se, lesto e em sobressalto, para atacar um pitéu que estava a
demorar. Mas as baratas, na sua azáfama comestível, prosseguiram na maior
tranquilidade o repasto antes iniciado,
porque, apesar de serem invertebradas,
também possuem estômago...
■
26 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Economia
Giro económico
Nosso Kumbu
Sem escoamento café está a sobrar
A falta de escoamento e investimento está a condicionar a cultura de café na província de Malanje,
reduzindo a produção. Conforme o Departamento
Provincial do Instituto Nacional do Café. Por falta
de escoamento encontra-se armazenado na Estação
de Desenvolvimento Agrário (EDA) do município
de Calandula cerca de 18 toneladas de café, desde
2009.O café armazenado foi adquirido pelo Instituto Nacional do Café aos cafeicultores das comunas
de Kinge, Kateco-Kangola e Kota (Calandula), para
que estimulasse cada vez mais a produção, o que não
aconteceu.
A par da falta de escoamento e comercialização
do café, actualmente verifica-se em Malanje várias
fazendas abandonadas, por descapitalização dos
proprietários e desinteresse na produção. Na província de Malanje existem cerca de 150 toneladas de
café para comercializar, desde 2010, por essa razão
está condicionada, este ano, a abertura da campanha de produção de café.
Investir no mínimo são USD 5.000.000
O valor mínimo para o investimento privado no
país, para empresários nacionais, no entender da
Associação Industrial de Angola (AIA), deveria ser
Angola Invest: só 19 projectos
de 500 milhões de Kwanza. Segundo José Severino,
presidente da entidade, um investimento equivalente ou abaixo dos 100 milhões de Kwanzas não
se compatibiliza com a realidade objectiva do país.
Para ele o investimento de 100 milhões de Kwanzas
está a dificultar a aceleração do desenvolvimento.
Na Lei de Investimento Privado, em vigor no país,
cada investidor fica obrigado a aplicação de 100
milhões de Kwanzas (um milhão de dólares norte-americano), caso o projecto de investimento fique
ao abrigo do regime dos investimentos privados.
Centros logísticos nos «confins»
Os municípios do Moxico (sede), Luau e Alto-Zambeze vão ganhar, a médio prazo, centros de
Logística e de Distribuição de alimentos para ala-
BNA - EXECUÇÃO DOS MERCADOS
Semana de 03 a 07 de Junho de 2013
Venda de divisas ao sistema bancário: USD 400,0 milhões.
Taxa de câmbio média de referência, de venda (USD / Kwz):
96,453.
Operações de mercado aberto (de venda de títulos com acordo de recompra): Kz 13,1 mil milhões.
Para a gestão da despesa corrente do Tesouro Nacional o Banco Nacional de Angola colocou no mercado primário Títulos do
Tesouro no montante de Kz 4,3 mil milhões, sendo Kz 1,1 mil
milhões em Bilhetes do Tesouro e Kz 3,28 mil milhões em Obrigações do Tesouro. As taxas de juro médias apuradas foram de
3,00% e 6,00%, ao ano, para os Bilhetes do Tesouro com 91 e 364
dias de maturidade. Para as Obrigações do Tesouro as taxas de
juro apuradas foram de 7,00% e 7,25%, ao ano para as maturidades respectivas de 2 e 3 anos.
E
vancar a economia da província, refere uma nota
do Gabinete de Estudos e Planeamento do governo
da província do Moxico. Vão ser construídos igualmente um pavilhão para a feira do Luena, infra-estruturas para as estações de desenvolvimento
agrário nos municípios do Alto-Zambeze, Bundas
e Luchazes. Está previsto também a criação de um
Pólo Agro-pecuário no município de Kameia, um
centro de experimentação florestal na cidade do
Luena, um Matadouro, bem como uma unidade de
congelação, conservação e embalagem de pescado.
Segundo a nota, o projecto contempla a construção
de um mercado municipal, laboratório para análises de produtos alimentares (município do Luau) e
uma incubadora de empresas.
Estimular empreendedorismo
O presidente da Associação dos Empreendedores
de Angola (AEA), Jorge Baptista, considerou imprescindível que se estimule cada vez mais o empreendedorismo no país, para haver mais inovadores,
empreendedores e criação de mais emprego aos jovens. Segundo Jorge Baptista, «África tem alguma
dependência na questão da inovação e tudo o que for
inovado e tiver sempre um valor acrescentado acaba
por ser um diferencial para a construção do futuro,
sobretudo agora que os jovens estão nas universidades». A AEA realizou a Feira do Empreendedorismo
na semana passada no Estádio dos Coqueiros.
Lenha e carvão por gás butano
Angola tem um forte potencial para promover
gradualmente a substituição do consumo de lenha
e de carvão vegetal por gás butano e outras fontes
renováveis geradoras de energia segundo a assessora do Ministério da Agricultura, Vitoria Bragança.
Para ela Angola possui uma matriz energética nacional que permite uma visualização do planeamento a longo prazo e uma geração de energia de
acordo com as crescentes necessidades. 60 Porcento
da população angolana que vive no meio rural usa a
lenha e o carvão vegetal como principal fonte energética. A necessidade anual de lenha e de carvão vegetal rode os seis milhões de metros cúbicos/ano, o
que corresponde a aproximadamente 51 bilhões de
kwanzas em desperdício do produto.
■
Centenário da descoberta
de diamantes em Angola
m alusão ao centenário da descoberta dos
primeiros em Angola,
a Empresa Nacional
de Diamantes - ENDIAMA
E.P., vai promover na próxima
semana, nos dias 20 e 21 de
Junho, em Luanda, uma conferência internacional.
Para o efeito, foram convidadas várias entidades e companhias nacionais e estrangeiras
ligadas à indústria diamantífera, nomeadamente ministros
dos Recursos Minerais de países produtores e exportadores e
presidentes das grandes mine-
radores do sector e das bolsas
de diamantes de Nova Iorque,
Xangai (China), Dubai, Bombaim (Índia) e de Antuérpia.
A produção de diamantes
em Angola começou em 1917
com o surgimento, a 16 em
Outubro deste ano, da Companhia de Diamantes de Angola
“Diamang”, uma empresa de
capitais mistos de grupos financeiros de Portugal, Bélgica,
Estados Unidos, Inglaterra e
África do Sul.
Em 1981, as autoridades
angolanas passaram a ter o
controlo total da produção de
diamantes no país e criam a
Empresa Nacional de Diamantes (Endiama).
■
Sábado, 15 de Junho de 2013.
27
Economia
Exploração à serio
Petróleo «Total» em campos de «flores»
Com a exploração nos quatro campos do Bloco 17- que atendem pelos nomes floridos de Cravo, Lírio, Orquídea e Violeta - a empresa
«Total» planeia dar um salto na produção. Os custos operacionais estão acima de um milhão de dólares. O investimento para aumentar a capacidade de produção varia entre os três e quatro milhões por ano.E o resultado esperado é de 160 mil barris por dia.
os próximos 15/20 anos e com
potencial de ir mais longe se a
projecto da bacia do novo kwanza por positiva», desabafou Jorge
Abreu.
A Total produz mais de 600
mil barris de petróleo/dia, o que
representa um terço da produção
nacional.
Adriano de Sousa
A
té ao final do primeiro trimestre do próximo ano a produção
nacional de petróleo
terá uma subida de pelo menos
160 mil barris/dia com a entrada
em funcionamento do CLOV, um
conjunto de plataformas situado
no bloco 17 que engloba o desenvolvimento de quatro campos
(Cravo, Lírio, Orquídea e Violeta). O complexo será operado pela
Total, de acordo com Jean-Michel
Lavergne, director-geral da filial
angolana da empresa francesa.
Os custos operacionais no Bloco 17 estão acima de um milhão.
Ao todo, o investimento para aumentar a capacidade de produção
da Total varia entre os três e quatro milhões/anos. «Estes são investimentos importantes que são
feitos a prazo. Para exemplificar,
as primeiras descobertas no bloco 32 foram feitos no princípio do
ano 2000 e nós estamos a prever o
primeiro retorno do investimento
em 2017/2016. É uma industria de
capital intensivo mas de um ciclo
longo», explicou Jorge Abreu, Director-Geral Adjunto da Total EP.
O projecto CLOV situa-se o
Bloco 17 e é explorado por um
consórcio liderado pela Total
(40%) e que integra ainda a norueguesa Statoil (23,3%), a americana Esso (20%) e a britânica BP
(16,67%).
De acordo ainda com a Total, o
«Jardim petrolífero»
desenvolvimento do CLOV serve-se de tecnologias que já se provaram eficazes no Girassol, Dalia
e Pazflor. Um total de 34 poços
submarinos serão conectados ao
FPSO CLOV, com uma capacidade prevista de produção de cerca
160.000 barris de petróleo por
dia e uma capacidade de armazenamento de cerca de 1,8 milhões
de barris. O FPSO CLOV, através de um único sistema de processamento e armazenamento,
produzirá dois tipos de petróleo
de reservatórios do Oligoceno
(Cravo-Lírio) e de reservatórios
do Mioceno (Orquídea-Violeta).
Actualmente, o Bloco 17 é um
dos que mais produz no mundo e
tem dos desenvolvimentos mais
ambiciosos jamais realizados em
águas profundas, em média a
1500 metros de profundidade. No
passado a Total operou activos no
onshore da bacia do Congo e, durante 25 anos, do prolífico Bloco
3 antes de transferir progressivamente a sua operação para a Sonangol P&P.
O Grupo também é operador
do Bloco 32 no offshore ultra
profundo, no qual detém 30%.
Treze descobertas confirmam o
potencial deste Bloco e estudos
conceptuais de desenvolvimento
estão em curso para o primeiro
projecto na região centro sudeste
do Bloco (Kaombo), com o início
da produção previsto para 2016.
Outros desenvolvimentos estão
previstos na região norte do referido Bloco.
Todavia, a empresa tem depositado esperança e dinheiro pela
via do investimento na Bacia do
Kwanza. «O novo desafio que já
estamos a preparar há cerca de
dois anos é a exploração na bacia
do Kwanza. Nós hoje temos um
portfólio que nos dá uma garantia de actividade em Angola para
As descobertas em águas profundas no Bloco 17 e nos Blocos
vizinhos (Blocos 14, 15 16) marcaram o ponto de virada da produção de petróleo em Angola.
Em 1996, com a descoberta
do poço Girassol – também no
Bloco 17, em águas profundas,
Angola deixou de ser um simples produtor médio de petróleo
para se tornar num dos pontos
principais para busca de novas
reservas.
Com a entrada em produção
do Girassol, os índices de sucesso cresceram. Uma tendência que se previa contínua para
os anos seguintes, a medida que
mais poços em águas profundas
fossem descobertos e entrassem
em produção.
As descobertas em águas profundas da costa Atlântica angolana têm alcançado sucesso. No
Bloco 17, além dos campos da
Total, encontrou-se petróleo em
todos poços ali perfurados - Rosa,
Dália, Orquídea, Jasmin, Tulipa e
Girassol.
■
Pioneiro em África
Á
A Total é o primeiro produtor de petróleo em África e está presente em mais de 33 países.
Cerca de 30% de toda a gasolina vendida em África trazem a sua marca.
frica é o segundo pólo (depois do médio oriente) mais
importante para o grupo. «A
Total foi criada nos anos 1520
para gerir os activos do governo francês
no médio oriente. Nasceu no Iraque, foi
o primeiro lugar de actividade», revelou
Jean-Michel Lavergne, director-geral da
Total EP Angola.
«África é de grande importância para
o grupo e. como Angola é actualmente o
segundo maior produtor no continente
é relevante nas suas considerações. «Em
Angola somos os primeiros em termos de
volume de operações, mas no final dessa
operação, o somatório de óleo que recebemos nos coloca em segundo lugar na
quantidade de petróleo disponível para
vender», continuou.
Esse facto regista-se porque no nosso
país a modalidade de contrato com as
empresa engloba a partilha de produção
com o Estado. «Dito de outra forma, todo
petróleo produzido é repartido com o governo angolano e a parte que recebemos
não nos coloca em primeiro lugar», reforçou Jean-Michel Lavergne.
O nosso interlocutor explicou que na
industria petrolífera um governo tem
dois meios de obter lucros com a actividade de extracção de petróleo. O primeiro é
através de impostos. Isso significa que as
empresas vão ficar com todo óleo produzido mas vão pagar impostos depois das
vendas.
O outro jeito é através da partilha do
óleo produzido. Desse jeito o governo fica
com o lucro físico, ou seja, com o próprio
produto. No caso de Angola a escolha foi
a utilização dos dois métodos ao mesmo
tempo. Há os impostos e a partilha de
produção entre as empresas que operam
no nosso país. É a Sonangol que representa os interesses do Estado. Actualmente,
Angola produz, em média, cerca de 1,75
milhões de barris diários.
■
28 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Economia
«Efeito cascata»
Investimento petrolífero
Fundo Soberano
«escorrega» no OGE
BP-Angola: USD 10 bilhões
em águas profundas
Com a maior infra-estruturas submarina do
mundo e a maior de águas profundas de África a
empresa de petrolífera BP-Angola investiu pesado
no Projecto PSM, no Bloco 31 da costa angolana. A
produção nesse reduto já ultrapassa os 100 mil barris por dia. Novos horizontes se avizinham.
Manuel Filho
A
petrolífera BP-Angola, de origem britânica, acaba de aumentar a sua capacidade de produção e exploração de petróleo,
com a inauguração no passado dia 10 do corrente mês, do
projecto PSM no Bloco-31. O projecto, em águas profundas, possui a maior infra-estruturas submarina do mundo e a maior de
águas profundas de África, segundo declarou Paulo Pizarro, vice-presidente da companhia para a área de comunicação e relações externas.
O projecto que consumiu cerca de dez bilhões de dólares, como calculou o responsável, começou a sua produção e operação em Dezembro
de 2012 e, neste momento, produz mais de cem mil barris/ dias.
«Hoje estamos aqui a celebrar o nosso projecto Bloco-31 em águas
profundas que é a maior infra-estruturas submarina do mundo e que
é a maior de águas ricas profundas de África, ontem, 10, foi a inauguração do offshore pelo Ministro dos Petróleos Botelho de Vasconcelos»,
confirmou o gestor que cuida da comunicação e relações externas da
BP-Angola.
Com representação em Angola a partir dos anos 70, a BP-Angola, segundo Paulo Pizarro, iniciou os trabalhos em meados dos anos 90 com
as descobertas e operações em 2002 e 2004. Desde então a produção já
não parou mais.
«Tivemos acesso a parte de exploração e produção de hidrocarbonetos a partir dos finais dos anos 90 e as primeiras descobertas foram
feitas ainda na mesma década», recordou.
A BP-Angola faz trabalhos de operações e produção e tem parcerias em diversos blocos a destacar: o 18, descoberto em 2007; e 31,
que começou a operar no ano passado, no projecto DSM nas sondas
15,17,19,20,24,25 e 26 em fase de pesquisa. A petrolífera británica trabalha em parceira com varias firmas nacionais e internacionais que em
conjunto fazem pesquisa.
Exposição petrolífera
Com a inauguração do Offshore, a BP-Angola promove uma exposição tecnológica de ponta sobre o ramo petrolífero nas suas instalações
do Museu de Historia Natural, na baixa de Luanda
Contudo, Paulo Pizarro disse que a mostra tem como finalidade dar
a conhecer as imagens, vídeos e simulações do projecto sobre a BP-ANGOLA.
«Temos muita informação sobre a indústria petrolífera, sobre os desafios da indústria petrolífera, temos informações de projectos sociais e
de Angola», descreveu.
O responsável pela comunicação da BP-Angola apela aos pais e encarregados de educação a levarem as suas crianças - principalmente
aquelas que amanha desejem enveredar pelo mundo dos petróleos -a
conhecerem melhor o que é a industria petrolífera e como o petróleo é
produzido.
■
Por causa das eleições gerais que ocorreram no ano passado, o Orçamento
Geral do Estado (OGE) foi aprovado com atraso pelo Assembleia Nacional. A
tomada de posse dos próprios membros do Parlamento e do Executivo também atrasou. E, por consequência, o Fundo Soberano também «escorregou».
A
aprovação da política de investimento
do Fundo Soberano de Angola (FSDEA)
está em atraso, de acordo com o comunicado de imprensa divulgado, na semana transacta, por José Filomeno dos Santos, que
é membro do Conselho de Administração daquela
instituição.
A desculpa pelo facto, apresentada pelo documento, aponta como causas desse atraso
a aprovação tardia do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2013 pelo Parlamento e da tomada
de posse dos membros da Assembleia Nacional e
do Executivo, na sequência das eleições gerais do
ano passado.
De acordo com José Filomeno dos Santos enquanto o Governo revê a estratégia de investimento do Fundo, o FSDEA vai continuar a trabalhar na
consolidação das bases operacionais e prudenciais
necessárias para a gestão profissional da instituição.
«Vivenciamos uma série de ocorrências que,
infelizmente, levaram a um atraso na aprovação
da política de investimento do FSDEA, entre as
quais se destaca a aprovação tardia do OGE/2013
e a tomada de posse dos membros da Assembleia
Nacional e do Executivo, na sequência das eleições
concluídas no ano passado», disse o gestor.
Segundo ele, em conformidade com o compromisso de se operar de forma transparente, vão se
fornecer informações regulares e actualizadas ao
mercado, inerentes à actuação do Fundo Soberano.
«Neste curto prazo, estamos empenhados na fortificação da nossa equipa com a contratação e capacitação de quadros nacionais», salientou.
José Filomeno dos Santos informa, neste contexto, segundo ainda o documento a que a Angop
teve acesso, que se vai continuar a pesquisar também sobre a definição do real papel de um fundo
na sociedade, enquanto promotor de desenvolvimento sustentável, em conformidade com as aspirações dos cidadãos.
Por outro lado, informou que o FSDEA dispõe
de cerca de 500 biliões de Kwanzas (mas de mo-
mento sob o controlo do Banco Nacional de Angola) para serem investidos, maioritariamente, em
infra-estruturas.
José Filomeno dos Santos salientou ainda que
o Executivo Angolano está a trabalhar em estreita
colaboração com os vários órgãos do Fundo para
eleger um novo PCA.
«Uma vez concluída a análise e aprovada a sua
política de investimento pelo Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, o FSDEA definirá
as prioridades específicas em termos de despesas
que irão apoiar o crescimento socioeconómico de
Angola e a geração de reservas adicionais para o
Estado», rematou, sem avançar datas.
O Fundo Soberano de Angola (FSDEA) é um
fundo autónomo pertencente integralmente ao Estado Angolano, tendo sido criado à luz dos padrões
internacionais de governação e deverá diversificar,
gradualmente, a sua carteira de investimentos em
vários sectores e classes de activos.
■
Sábado, 15 de Junho de 2013.
29
Economia
Falta de experiência
Falências assombram o meio empresarial
A dinâmica da nossa economia tem feito com que muita gente procure os caminhos legais para a abertura de empresas. E com isso
uma nova realidade começa a atormentar quem não consegue sair-se bem como empresário. O aumento do número de falências.
O Instituto Nacional de Apoio às Pequenas e Médias Empresas mostra-se preocupado com essa «maka».
A
falta de cultura empresarial e de acesso a financiamentos
constituem algumas
das principais razões que levam
muitas empresas angolanas à falência, na opinião do presidente
do Conselho de Administração
do Instituto Nacional de Apoio
às Pequenas e Médias Empresas
(INAPEM), António Assis.
A propósito das razões que
fazem muitas empresas falir ou
cessar a actividade empresarial
no país, António Assis disse que
existem vários factores que contribuem para tal, entre os quais
inclui-se a necessidade de os empresários estudarem e conhecerem bem o foco do negócio.
O responsável disse que o crédito é um problema real da economia mas não é o único. «Talvez
muitas pessoas classifiquem a
questão do financiamento como
sendo fundamental mas o dinheiro não é tudo, porque se a questão
do posicionamento de uma em-
presa fosse só dinheiro, então há
muitas pessoas que têm dinheiro
e não são empresários de sucesso», justificou.
Afirmou ser claro que uma
empresa quando criada tem objetivos como a obtenção de lucros,
mas chamou atenção para a necessidade de se perceber que os
bancos estão a passar por um processo de reorganização e de reestruturação às novas necessidades
da economia de mercado.
«Temos visto no nosso país
que o que move as pessoas para
algumas actividades são alguns
instintos de sobrevivência e subsistência. Precisamos de cultivar
mais o lado empresarial estudando e interagindo para que as empresas possam consolidar o processo», elucidou.
Realçou também que o modelo
de economia existente no país, o
mercado qualifica as empresas e
as melhores permanecem, entretanto aquelas que não derem resposta às dinâmicas do mercado
abrem falência e desaparecem.
O gestor realçou que ser empresário é uma responsabilidade
muito grande e não consiste em
apenas produzir bens e prestar
serviços aos clientes, mas também com as obrigações com os
trabalhadores e para com o Estado (pagamento de imposto).
«Ser empresário não é uma tarefa fácil que qualquer um pode
fazer desenvolver», acentuou o
PCA do INAPEM.
Referiu que não é de estranhar
o facto de muitas empresas que
desenvolvem a sua actividade em
Angola não resistam no mercado,
por ser também um fenómeno
por que passaram as economias
mais avançadas.
Buscando antecedentes da
economia angolana, a fonte argumentou que para fazer uma análise acerca das falências de muitas
empresas é preciso ver também o
processo empresarial dinâmico
do país.
«Quando se fala em empresariado nacional e local em Angola
é preciso considerar factores de
natureza histórica. A actividade
empresarial privada é nova, disse,
fundamentando que é preciso não
esquecer que durante a fase da
colonização a actividade privada
estava destinada aos colonos. Os
nativos desenvolviam a agricultura de subsistência enquanto o comércio e a indústria estavam nas
mãos dos colonos».
Justificou também que depois
da independência, em 1975, teve-se uma economia centralizada
em que o Estado era providência e
ocupava-se de toda esfera da economia e que com o advento da paz
começou-se a notar um pouco de
mais notoriedade de Angola.
■
Entre a AEA e o Grupo Terrovia
Protocolo promove empreendedorismo internacional
Empresa que actua em Angola, Portugal e Brasil estabelece uma perceria com a Associação dos Empreendedores de Angola
que poderá levar empresas angolanas a internacionalizar-se para o Brasil e a trocar experiências com o empresariado brasileiro.
O
s empresários aliados a
Associação dos Empreendedores de Angola (AEA),
a partir de agora, vão ter
a possibilidade de encontrar muitas
facilidades para internacionalizar-se,
mais precisamente estabelecer negócios com o Brasil e ter um conhecimento mais profundo sobre o mercado daquele país.
Miguel Machado do Grupo Terrovia, citado pela Angop, deu a conhecer
a novidade Angop, após ter assinado um protocolo de cooperação com
Jorge Baptista, presidente da AEA
(Associação dos Empreendedores de
Angola). O protocolo visa dar maior
mobilidade a actuação dos associados
desta agremiação empresarial, que
existe há dois anos.
«A nossa empresa actua aqui em
Angola, através do Grupo Romagest,
estamos também em Portugal e no
Brasil. A estratégia de actuação é operar nos países de língua portuguesa,
em consulta a uma empresa especializada no mercado brasileiro», explicou ressaltando o desenvolvimento da
economia angolana e a potencial dos
empresários nacionais.
Tendo em conta que o Brasil possui a quinta maior economia mundial,
Miguel Machado entende ainda que
a cooperação vai ser uma vantagem
para a projecção da competência empreendedora angolana.
AEA é uma associação com personalidade jurídica, autonomia administrativo-financeira e sem finalidade lucrativa e resulta de uma visão comum
para o empreendedorismo em Angola.
A Associação dos Empreendedores
de Angola tem como objectivo contribuir para o fomento e desenvolvimento do empreendedorismo, a melhoria
da informação e troca de experiências
entre organizações e associações públicas ou privadas, que na sociedade
angolana ou fora dela pugnem pela
busca dos nobres interesses da defesa
e dos empreendedores.
Promover a formação de jovens
e estimular o espírito de liderança e empresarial e a participação do
empreendedor do país, bem como
promover seminários, debates, colóquios, palestras, cursos, conferências
simpósios e outras acções de natureza científica,” com vista a contribuir
para a capacitação dos empreendedores e consequentemente a competitividade nacional da classe, fazem
parte dos objectivos da AEA.
■
30 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Sociedade
ISKA também quer províncias
Uma instituição apostada
na qualidade de ensino
Em cumprimento a uma das exigências do Ministério do Ensino Superior (MES) em relação às instituições de ensino desse nível em
Angola, o ISKA aposta principalmente na qualidade e condições de ensino, assim como na sua expansão da a outros pontos do país.
Kim Alves
Hélder Simões: (Fotos)
O
Instituto
Superior
Kangunjo de Angola
(ISKA) é uma das mais
novas e promissoras
instituições do ensino superior
no país. Situado no município de
Cacuaco, em Luanda, próximo da
autoestrada, começou a sua actividade lectiva em 01 de Janeiro de
2011, precisamente há três anos.
O ISKA conta já com dois laboratórios em pleno funcionamento,
nomeadamente um de engenharia informática e o outro de saúde.
Numa visita efectuada pela
reportagem do Semanário Angolense (SA) àquela instituição,
pode constatar que o laboratório
de saúde reúne todos os equipamentos necessários, como aparelhos de análises, microscópios,
lavatórios, bonecos e esqueletos
para as aulas práticas de anatomia
do corpo humano, entre outros.
Este último laboratório incorpora ainda as salas de esterilização, enfermagem e fisioterapia,
realizando os estudantes aulas
práticas nas respectivas salas logo
a partir do primeiro ano. Quanto
ao de engenharia informática, o
cenário é idêntico: os estudantes
têm igualmente à disposição todos os equipamentos imprescindíveis para aulas práticas, além de
outra sala de Internet em banda
larga para pesquisas.
Falando ao SA, o director do
ISKA, António Ngola, disse que
a academia que dirige tem feito
um esforço muito grande, visando corresponder às exigências dos
órgãos competentes do Estado.
De acordo com a sua explicação, no capítulo da formação, o
instituto superior lecciona treze
cursos, mas actualmente estão a
funcionar apenas doze, excepto o
curso de fisioterapia, porque, este
ano, houve poucos candidatos
inscritos, «razão que nos levou a
primar por outros cursos».
Capacidade da instituição
Neste momento, estão em fun-
cionamento três áreas de formação: a primeira abrange as áreas
de ciências económicas, ciências
jurídico-económicas, sociais de
tecnologia e engenharia. Esta área
absorve uma série de cursos, nomeadamente direito, economia,
gestão, ciências políticas, telecomunicações, informática e relações internacionais.
António Ngola informou ainda
que a segunda área de formação
abarca a saúde, que conta com os
cursos de enfermagem, análises
clínicas, fisioterapia e ciências
farmacêuticas, ao passo que as
ciências de educação incorporam
os cursos de sociologia, psicologia
e pedagogia.
O responsável revelou que a
instituição tem capacidade para
acolher 4.500 estudantes, mas
apenas 2.124 estão a estudar, repartidos pelos turnos da manhã,
tarde e noite. Os turnos da tarde e
noite são os que verificam o maior
número de estudantes.
Em termos de docentes, «estamos bem, temos um total de
120 para todos os cursos, sendo
quatro estrangeiros. Dois estão
na área de saúde, enquanto os outros dois, leccionam nos cursos de
engenharia informática, ciências
jurídico-económicas, sociais e
tecnologia».
O director aproveitou a ocasião
para apelar a todos que se queiram inscrever para a docência no
ISKA, «que o façam, apresentando as suas candidaturas». Relativamente ao processo de selecção
dos estudantes, a instituição obedece, de forma normal, ao calendário do ano académico orientado anualmente pelo Ministério
do Ensino Superior.
Secretário de Estado
aprovou
«A nossa perspectiva visa melhorar cada vez mais a qualidade
do ensino superior», declarou,
frisando que o preço das propinas
é o mesmo praticado por outras
instituições. «Por exemplo, os
cursos de engenharia e ciências de
saúde são 30 mil Kwanzas e para
os restantes cursos 25 mil. No entanto, aguardamos que haja uma
legislação por parte do ministério
de tutela, visando a sua regulari-
zação», acrescentou.
No âmbito da supervisão que
o Ministério do Ensino Superior
tem levado a cabo junto de instituições similares, o ISKA recebeu
recentemente a visita do secretário de Estado para supervisão
do MES, António Miguel, que
avaliou as condições infraestruturais, académicas e pedagógicas,
do instituto. António Ngola considerou positivo, «uma vez que a
visita do dirigente coincidiu com
a altura em que se deu o arranque
das aulas do ensino superior em
todo o país».
O director realçou ainda que
um país só chega ao desenvolvimento quando o Estado aposta
na formação do cidadão. «É esta
a aposta que o ISKA, como instituição privada, criada através do
decreto nº 115, com os cursos que
lecciona, publicados no decreto nº
89, tem. Para tal, primamos pela
qualidade dos quadros formados».
Recordou que há dois anos, a
instituição carecia de algumas
condições em infraestruturas, situação já ultrapassada. Promete
para os próximos anos, mudanças
de vulto, anunciando que haverá
aposta em outras províncias, sendo uma delas a do Bié, onde já foi
erguido um edifício, que, até ao
próximo ano pode entrar em funcionamento. A expansão da instituição é apoiada pelo grupo Manico Henda e Filhos LDA. Apenas
se aguarda pela autorização de
quem de direito.
■
Sábado, 15 de Junho de 2013.
31
Sociedade
Por prática ilícita
BPC vai expulsar funcionário
A troco de comissões, o visado concedia créditos a uma rede de indivíduos, um dos quais se gaba de estar ao serviço da gerente
e de outros funcionários, usando abusivamente o dinheiro dos solicitantes. A mulher desmente, mas o PCA
diz que não tolera irregularidades e que tomará medidas drásticas.
Pascoal Mukuna
O
Banco de Poupança e
Crédito dispensar um
empregado, por ter
praticado um ilícito
que visou obter comissão pessoal
e outros à margem da lei, anunciou o presidente do seu Conselho
de Administração, Paixão Júnior,
em declarações ao Semanário
Angolense.
O gestor bancário falava a propósito de um caso ocorrido na
agência desse banco no edifício
da Administração Municipal do
Cazenga, em que o cidadão Abel
Wilson Chivela, sub-chefe (sargento) da Polícia de Guarda Fronteiras, solicitou dois créditos, um
salário e o outro futuro, através
de um indivíduo, identificado
simplesmente como «Matrix»,
que sequer lá trabalha, mas faz
parte de uma rede com funcionários daquela agência do BPC.
O cliente recebeu um dos créditos, que «Matrix», depois de
ter retirado uma comissão de Kz.
50.000, encarregou um seu amigo
de entregar ao legítimo dono, mas
o outro dinheiro, o indivíduo,
que se mantinha com o Bilhete de
Identidade de Abel Chivela, falsificou a assinatura deste e levantou-o, gastando-o.
«Foi-me dando voltas, recusava-se a dar-me o dinheiro, até que
decidi vir conversar com a senhora
gerente do banco, porque ele se gaba
de trabalhar com a gerente e de ser
o gerente da rua», contou o sargento
da Guarda Fronteiras ao SA
Paixão Júnior adiantou que daria instruções para que a gerente
daquela agência, conhecida como
Elisa, e Fabrício,o funcionário que
concedeu os valores a «Matrix»,
fossem convocados para a sede a
fim de apurar responsabilidades.
«O funcionário que entregou o dinheiro vai ser imediatamente expulso, não podemos permitir que
manchem desta forma o nome do
banco», asseverou o PCA.
«Matrix»: «gerente da rua»
Afirmou que ninguém tem
direito a exigir comissões a um
cliente que peça crédito, que é um
direito que lhe assiste. «Ainda por
cima, falsificaram a assinatura do
cliente, isso é muito grave. Temos
de separar as batatas podres das
boas, esse funcionário vai já para
a rua», reiterou Paixão Júnior.
Abel Chivela, intercedeu junto
da gerente, que chamou Fabrício, a quem pediu que entregasse
ao cliente a quantia de 200 mil
Kwanzas, valor que «Matrix»
tardava a dar ao primeiro. Dona
Elisa declarou que tal valor será
descontado do salário de Fabrício. Acompanharam o homem,
a esposa, Letícia José Martins,
operada a um tumor, intervenção
cirúrgica que seria paga com o di-
nheiro resultante daqueles créditos, e um irmão.
A enferma, que continua a fazer curativo à operação, recebeu
alta no passado domingo, 09, estando a cuidar de um bebé de dois
meses, que às vezes a magoa.
«Matrix», que chefia a rede de
jovens que, segundo ele próprio,
possui conexão com a gerente Elisa, a quem se refere como «Mãe-grande» ou «Velha» e outros
trabalhadores da agência, diz ser
o «gerente da rua» da referida
instituição bancária. «Ainda há
bocado gabou-se de que esteve há
pouco tempo com a ‘Mãe-grande’,
no seu gabinete, toda gente aqui
na rua sabe disso», denunciou
Abel Chivela.
Certa vez, depois de pressionado pelo dono do dinheiro, o
«gerente da rua» desafiou-o nos
seguintes termos: «podes ir queixar à Polícia, todos eles pedem
kilápi, até o comandante.» Ele e o
grupo concentram-se num cadeirão junto a uma casa nas proximidades do banco, sendo solicitados
por quem queira obter créditos ou
outros serviços.
A rede mantém-se intacta
Confrontada com essas alegações, a gerente pediu a comparência de «Matrix», que, numa espécie de acareação, desmentiu tudo
e, cabisbaixo, manifestando-se
arrependido. Facto curioso e que
suscitou suspeitas, foi o de, em diversas ocasiões, dona Elisa ter ordenado a «Matrix» «cala a boca.
O senhor está a sujar o meu nome.
Disse não ser a primeira vez
que recebeu queixas similares
sobre «Matrix», mas, estranhamente, nunca a gerência sancionou um(a) funcionário(a) por tais
actos à margem da lei. Um outro
cliente confirmou a este jornal
que o «gerente da rua» levantou
600 mil Kwanzas de um cliente e 300 mil seus e que reluta em
entregar-lhes, arranjando muitos
subterfúgios.
Alegou que é bancária há já
27 anos, tendo antes sido gerente
da agência da Precol, distrito do
Rangel, depois de ter ocorrido na
Ingombota e que o jovem não lhe
ia estragar o seu «pão». A gerente
adiantou que o funcionário que
disponibilizou o dinheiro, no caso
Fabrício, será responsabilizado
Entretanto, Abel Chivela exige
que «Matrix» o indemnize, pois
para pagar a intervenção cirúrgica
da esposa, no valor de quatro mil
dólares, teve de contrair dívida,
que agora precisa de liquidar.
■
32 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Sociedade
Algo não vai bem em matéria de segurança
O que diz a criminologia
em relação a situações criminais?
Em matéria de crimes, o país tem vindo a seguir e somar significativamente nos últimos dias. São homicídios que culposo
como doloso. Os órgãos competentes perderam o controlo da situação e muita gente vai morrendo de forma cruel.
Baldino Miranda
O
s angolanos têm vindo
a acompanhar, na capital do país e não só, a
um aumento significativo do cometimento de diversos
crimes, particularmente, homicídios, estando até os efectivos da
própria Polícia Nacional também
a ser vitimados.
Ultimamente, parece que matar
tornou-se moda entre os cidadãos
deste país, que ruma para níveis
de criminalidade sem igual. Há
semanalmente mortes por homicídios um pouco por todo o país,
pois, para além daqueles que são
apresentados publicamente pela
Polícia através dos órgãos de Comunicação Social, existem as que
não vêm à superfície.
Um exemplo vivo desta situação foi o facto que ocorreu recentemente no Kwanza-Norte,
onde uma cidadã, que regressava
da lavra, num dos municípios da
província, foi surpreendida por
dois jovens, que a estupraram,
seguindo-se o acto de execução
ou seja, para além de terem cometido o crime de violação, tiraram
também a vida à humilde mulher.
De acordo com informações a
que o Semanário Angolense teve
acesso a partir da província, os
presumíveis autores já se encontram a contas com a justiça.
Vários outros delitos têm sido
cometidos de forma assustadora
na capital do país, onde diária ou
semanalmente há casos de homicídio doloso e culposo. O primeiro caso ocorre quando alguém
tira a vida a outrem de forma dolosa ou com a intenção de matar.
Os crimes e os culposos
O dolo consiste, porém, no
facto de alguém agir com o intuito de, propositadamente, fazer
mal a outra pessoa e, o segundo
caso, que é o homicídio culposo,
é aquele em que um sujeito tira
a vida a alguém, sem a mínima
intenção de matar. Deste modo,
no homicídio culposo, o autor do
crime é dado como culpado no
sentido de ter cometido o crime.
O que se tem vindo a registar
nos últimos tempos é, crimes de
homicídio doloso ou seja, o chamado homicídio qualificado, em
que existe premeditação do crime
cometido, traça-se planos e, consequentemente, os elementos de
execução são esses que resultam
nos chamados crimes hediondos
ou bárbaros.
Independentemente das desavenças políticas que os partidos
possam ter, tais não se devem repercutir de forma alguma na vida
ou na liberdade individual de
cada cidadão, que parece ter sido
o caso dos cinco polícias mortos,
recentemente, por cidadãos, ainda não identificados, que após o
acto, se puseram em fuga.
Realmente, essa não deixa de
ser uma situação criminal, cuja
natureza não se enquadrada nos
homicídios dolosos, porque houve antes de mais uma premeditação, foi projectada e bem planificada pelos autores.
De uma forma geral, existem
motivos que, realmente, concorrem para o aumento dos índices
de criminalidade na cidade de
Luanda, e não só, o que devia
motivar os dirigentes governamentais e estatais a pautarem por
uma profunda investigação e consequentemente aplicarem meios
para a prevenção desses crimes.
O que motiva um indivíduo a cometer crime?
Várias são as causas que levam
um indivíduo a cometer crimes,
fundamentalmente, dos pontos
de vista sociológico, biológico,
psicológico, entre outros ramos
do saber. Dessas motivações, no
âmbito da própria sociologia,
sobressaem as desigualdades sociais, o facto de muitos, a maioria,
terem nada ou pouco e outros,
uns poucos, terem mais, o que
provoca um espírito de revolta no
seio social.
Para percebermos perfeitamente as razões fundamentais do
indivíduo criminoso, numa perspectiva científica, este jornal insere aqui ditos de Cesare Lombroso,
um estudioso italiano, que nasceu
na cidade de Verona, e do qual
pouco se fala, mas cujos escritos,
do ponto de vista do Direito Penal, permanecem actuais.
Cesare Lombroso (1835-1909)
foi um homem polifacético: médico, psiquiatra, antropólogo e
político, com uma extensa obra
abarcando temas médicos (“Medicina Legal”), psiquiátricos (“Os
avanços da Psiquiatria”), psicoló-
gicos (“O gênio e a loucura”), demográficos (“Geografia Médica”),
criminológicos (“L’Uomo delincuente).
Lombroso entendia o crime
como um facto real, que perpassa
todas as épocas históricas, natural e não como uma fictícia abstração jurídica. Como fenómeno
natural que é, o crime tem que ser
estudado primacialmente em sua
etiologia, isto é, a identificação
das suas causas como fenómeno,
de modo a poder-se combatê-lo
na sua própria raiz, com eficácia e
programas de prevenção realistas
e científicos.
Para Lombroso, a etiologia
do crime é eminentemente individual e deve ser buscada no
estudo do delinqüente, sendo
dentro da própria natureza humana que se pode descobrir a
causa dos delitos.
Sábado, 15 de Junho de 2013.
33
Sociedade
Caracterização
dos ctiminosos
Lombroso parte da idéia da
completa desigualdade fundamental dos homens honestos e
criminosos. Preocupado em encontrar no organismo humano
traços diferenciais que separassem e singularizassem o criminoso, Lombroso vai extrair da
autópsia de delinqüentes uma
«grande série de anomalias atávicas, sobretudo uma enorme
fosseta occipital média e uma
hipertrofia do lóbulo cerebeloso mediano (vermis) análoga a
que se encontra nos seres inferiores.»
Assim, surgiu a hipótese, sujeita a investigações posteriores,
de que haveria certas afinidades
entre o criminoso, os animais e,
principalmente, o homem primitivo, que ele considerava diferente, psicológica e fisicamente,
do homem dos nossos tempos.
Aquele cientista empreendeu
um longo estudo antropológico no seu livro «L’Uomo delincuente», acerca da origem da
criminalidade. Professando um
particular evolucionismo, Lombroso procurou demonstrar que
o crime, como realidade ontológica, pode ser considerado uma
característica que é comum a todos os degraus da escala da evolução, das plantas aos animais e
aos homens; dos povos primitivos aos civilizados; da criança
ao homem desenvolvido.
O «crime» teria como característica ser extremamente freqüente, brutal, violento e passional nos níveis inferiores dessas
escalas. Assim, Lombroso teorizou acerca dos equivalentes do
crime nas plantas e nos animais
(«L’Homme Criminel, chapitre
premier»), a morte de insectos
pelas plantas carnívoras («homicídio»), a morte para ter o comando da tribo entre os cavalos,
cervos e touros («homicídio por
ambição»), a fêmea do crocodilo
que mata seus filhotes que ainda não sabem nadar («infanticídio»), as raposas que se devoram
entre si e algumas vezes mesmo
devoram suas progenitoras («canibalismo e parricídio»).
Entre os chamados «selvagens» ou «povos primitivos»,
Lombroso encontra também a
incidência generalizada do crime. O incremento excessivo da
população, comparativamente
aos meios naturais de subsistência, explicaria os abortos e os
infanticídios.
Predisposição infantil
para o crime
São ainda comuns e frequentes,
segundo Lombroso, os homicídios dos velhos, das mulheres, dos
doentes, os homicídios por cólera,
por capricho, de parentes por oca-
sião do funeral de morto importante, por sacrifícios religiosos, os
cometidos por brutalidade ou por
motivo fútil, os causados por desejo de glória etc.. São igualmente comuns entre os selvagens, o
canibalismo, o roubo, o rapto, o
adultério e os crimes contra a autoridade (chefes, deuses ou a própria tribo).
Dentro da idéia evolucionista
lombosiana (de passagem física
ou psíquica do organismo mais
simples para o mais complexo),
os germes da loucura moral e do
crime encontram-se de maneira
normal na infância.Lombroso advogava a existência na infância de
uma predisposição natural para o
crime.
As analogias entre o imaturo e
o criminoso dar-se-iam na fase da
vida instintiva, através da qual se
observa a precocidade da cólera,
que faz com que a criança bata
nos circunstantes e tudo quebre,
em atitudes comparáveis ao compartamento violento criminoso.
O ciúme, a vingança, a mentira, o desejo de destruição, a
maldade para com os animais e
os seres fracos, a predisposição
para a obscenidade, a preguiça
completa, excepto para as actividades que produzem prazer, são,
entre outros, índices que Lombroso apontou, das tendências
criminais na infância. A educação conduziria, porém, a criança
ao período de «puberdade ética»,
submetendo-a a profunda metamorfose.
Identificando pois a origem da
criminalidade, como ontologia,
nessas «fases primitivas» da humanidade, Lombroso entende que
o criminoso é uma subespécie ou
um subtipo humano (entre os seres vivos superiores, porém, sem
alcançar o nível superior do homo
sapiens) que, por uma regressão
atávica a essas fases primitivas,
nasceria criminoso, como outros
nascem loucos ou doentios.
A herança atávica explicaria,
a seu ver, a causa dos delitos. O
criminoso seria então um delinqüente nato (nascido para o crime), um ser degenerado, atávico,
marcado pela transmissão hereditária do mal. O atavismo (produto da regressão, não da evolução das espécies) do criminoso
seria demonstrado por uma série
de «estigmas.» De acordo com o
seu ponto de vista, o delinqüente
padece de uma série de estigmas
degenerativos, comportamentais,
psicológicos e sociais.
O criminoso nato seria caracterizado por uma cabeça sui generis, com pronunciada assimetria
craniana, fronte baixa e fugídia,
orelhas em forma de asa, zigomas, lóbulos occipitais e arcadas
superciliares salientes, maxilares
proeminentes (prognatismo), face
longa e larga, apesar do crânio pequeno, cabelos abundantes, mas
barba escassa, rosto pálido.
■
S. Pedro da Barra
Moradores pedem presença da Polícia
Telma Dias
N
os últimos dias, a
circulação durante o
período das 17 horas
em diante, na zona de
São Pedro da Barra, Distrito Urbano do Sambizanga, pracinha
junto à linha férrea, tem sido encarada como sendo muito crítica
naquela comunidade.
Na noite de quarta-feira,
12, houve três disparos, supostamente feitos dentro de
uma das cantinas de um oeste
africano, vulgo «Mamadou»,
de onde foi assaltado todo dinheiro resultante das vendas
do dia.
Segundo residentes, não tem
sido fácil circular por aquelas
paragens, sobretudo para os
estudantes nocturnos, que têm
visto os seus bens assaltados
pelos amigos do alheio.
Por esse cenário, as vítimas
clamam a quem de direito,
que se crie políticas visando
encontrar soluções para assegurar a integridade física
aos milhares de cidadãos que
circulam pela referida zona,
apontando, sobretudo, os períodos da manhã e noite, em que
permanece mais isolada.
Os af litos pretendem que o
Comando da Divisão do Sambizanga instale uma Esquadra
Móvel no referido local, no intuito de devolver o sentimento
de segurança e paz aos habitantes, e não só.
Meliantes actuam
a bel-prazer
De acordo com o morador
Manuel de Carvalho, durante
os períodos referenciados, os
malfeitores têm tomado de assalto a localidade, tudo devido
à inexistência de iluminação
nas vias do bairro, apesar de
ter melhorado muito. Segundo
contaram as distintas fontes,
os mais visados pelos meliantes têm sido as raparigas, às
quais, retêm e abusam sexualmente, sob pena de serem assassinadas.
Tudo devido ao multiplicar
do número de marginais, que
privatizam a via pública e se expropriam do que não lhes pertence. Os malfeitores preferem,
sobretudo, pessoas que trazem
consigo dinheiro, telefones e outros artigos valiosos, que após
assaltarem, vendem-nos para
comprarem objectos valiosos,
para além de drogas.
Os populares apelaram às autoridades que velem pela ordem
pública a nível do município e
encarem o assunto com muita
ponderação, no intuito de garantirem a ordem e a tranquilidade aos cidadãos.
Orlando de Almeida, munícipe, morador da circunscrição
há mais de 20 anos, contou que,
raramente durante o período da
noite, verifica uma patrulha da
polícia na região, situação que
tem levado inúmeros de jovens a
abraçarem a vida de marginais.
Acrescentou que, o crescimento da delinquência no bairro
tem vindo a forçar os comerciantes a encerarem muito cedo a sua
actividade, devido ao risco a que
são submetidos pelos meliantes.
Não poupam crianças
Isabel Mendes é de opinião
que, com a instalação de um
posto policial ao longo deste troço e da linha férrea, os malfeitores vão retirar-se e procurar uma
ocupação honesta e não virar as
suas atenções para quem procu-
ra algo para alimentar a família.
Durante a sua estada na aludida zona, a reportagem do
Semanário Angolense, constatou uma cena dramática, protagonizada por delinquentes.
Assaltaram uma criança, de
11 anos, quando esta se dirigia
para casa, depois ter sido orientada pela mãe a levar o jantar do
mercado.
Alguns indivíduos circunstantes limitaram-se a assistir,
impávidos e serenos, perguntando depois à vítima: «levaram-te o que?» Antónia Machado salientou que também já foi
vítima dos marginais, em duas
ocasiões, quando os malfeitores
lhe receberam todo o seu comércio que exercia na famosa
praça.
Reiterou que é fundamental
a intervenção das autoridades
da ordem pública no sentido de
melhorar a circulação dos habitantes que, dia e noite, vivem
num estado de perturbação.
As vias de acesso naquela circunscrição, a partir da praça até
ao Instituto Médio Politécnico
do Sambizanga, São Pedro da
Barra, segundo dizem os populares, têm sido as que mais
facilitam o desdobramento dos
malfeitores, pela ausência de
postos policiais.
De acordo os moradores, a
essa situação também se encontra associada a fraca iluminação,
com que se debate a população
residente, para não falar da escassez de água potável, que está
relegada para as calendas gregas.
Saneamento básico inexistente, também tem sido apontado
como o fulcro de bastantes doenças, causadoras de tantas mortes, particularmente de crianças,
que têm sido as mais atingidas
pelas enfermidades.
■
34 U
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Americano tem 22 filhos
com 14 mulheres
m americano de 33 anos de idade tem 22
filhos, o mais velho dos quais a completar
18 anos. Como se não bastasse esse número elevado de filhos, é preciso acrescentar
que eles foram feitos com 14 mulheres diferentes.
Entrevistado pela estação televisiva NBC, Orlando Shaw declarou que ama as mulheres e considera
que não deve ser condenado por isso.
Mas a verdade é que tanto amor custa dinheiro.
As mães dos filhos entraram com uma acção judicial, exigindo o pagamento de milhares de dólares de
pensão. Como não tem como pagar, o mais provável
é que tanto amor o leve à cadeia.
Até agora, o Estado americano gasta mensalmente
cerca de 7 mil dólares (700 mil kwanzas) com os 22
filhos de Orlando.
Casamento cancelado porque
o noivo estava excitado
U
m padre deixou noivos e convidados perplexos, quando decidiu cancelar uma cerimónia
de casamento devido ao facto
de o noivo estar “visivelmente” excitado.
O facto ocorreu numa igreja de Plácido de Castro (estado brasileiro do Acre),
com o pároco Avelino Dalcântara.
O noivo (na foto) confirmou estar realmente excitado, pois ansiava pela chegada da noite de núpcias. É que do namoro de dois anos não resultou qualquer
relação sexual, de modo que era grande a
ansiedade do jovem de 19 anos.
O padre declarou à imprensa que não
pode “dar a bênção a um casal que, ao
invés de pensar na graça do Senhor, está
a imaginar a graça que vai fazer depois
da celebração”…
Por: Makiadi
Sémen humano é saudável
U
m estudo científico demonstra que
o sémen de vários
animais é rico em
enzimas e proteínas, de modo
que o excedente é normalmente consumido por várias
espécies.
O estudo, conduzido por
Benjamin Wegener da Universidade Monash (na Austrália)
e publicado na revista “Biology Letters”, dá conta de (após o
acasalamento) as fêmeas da lula,
sanguessuga e da mosca consumirem o sémen excedentário
como se fosse alimento.
No que respeita ao sémen
humano, está provado que contém água, ácido ascórbico, ácido
cítrico, enzimas, proteínas, fru-
tose e zinco. Mas atenção, que o
investigador não defende o consumo indiscriminado de sémen
humano, tanto que está provado
que isso pode causar dissabores
no momento de tentar engravidar.
Profissões que engordam
D
entre as profissões
com maior probabilidade de provocarem aumento de
peso, contam-se várias profissões sedentárias.
Um estudo feito junto de
3.600 americanos, pelo site
Career Builder, demonstra que
as profissões que mais “engordam” são: secretária, engenheiro, professor, enfermeiro,
gerente ou administrador de
redes informáticas, advogado
ou juiz, operador de máquinas,
cientista, biólogo e sociólogo.
Os autores do estudo recomendam a estes mudança de
hábitos, como ir trabalhar de
autocarro e descer uma ou duas
paragens antes do destino, ganhar o hábito de comer legumes e frutas e manter-se sempre
hidratado.
Tentou ludibriar para não pagar a refeição
U
m inglês de 40 anos foi
preso por fraude num restaurante indiano de Middlesbrough (Inglaterra).
Tentou ludibriar para não pagar a
refeição consumida.
Mas a câmara instalada no local
exibiu a prova de que Lee Tyers terá
introduzido a mão por dentro da calça para arrancar um pelo púbico, que
colocou de seguida sobre o prato com
restos de comida.
A intenção do cliente era não pagar a conta de 39,55 libras (cerca de
6 mil kwanzas). Mas teve o azar de a
cor do seu pelo não colidir com a de
nenhum dos funcionários do restaurante, de modo que se apelou para a
câmara de vigilância.
Para além de ter de pagar a conta,
a tentativa de burla vai custar-lhe 2
semanas de prisão.
Curiosidade
Como surgiu o aperto de mão
O
aperto de mão é
dos mais antigos
cumprimentos em
toda a história da
humanidade. Só que apertamos a mão a outras pessoas,
sem sabermos de onde provém tal hábito.
No início, as pessoas estendiam a mão para mostrar que
não levavam consigo qualquer
arma. Era, portanto, um sinal
de paz numa época em que as
pessoas andavam armadas.
Daí se percebe também a
razão pela qual o aperto de
mão é um hábito tipicamente
masculino. É que eram os homens que andavam armados,
sendo portanto os homens que
tinham de demonstrar que
não estavam armados.
35
Cultura
Sábado, 15 de Junho de 2013.
A propósito do romance de Tazuary Nkeita
O enigma do «Último Segredo»
e a lenda de «Santo Graal»
Carlos Paradona (*)
T
azuary Nkeita surpreende com este seu último
romance. Que palavras
se oferecem dizer para
desvendar este baú, que tem dentro de si a flama de O Último Segredo?
Bastarão algumas palavras, sejam de quem for, para apresentar
a público a mais recente obra deste escritor de mão cheia, que viu
a luz do dia pela primeira vez na
magnífica cidade de Luanda?
Será uma voz do Índico suficientemente audível pata tecer considerações, ainda que breves, sobre esta
proposta literária fermentada em
terrras de Angola, onde o Atlântico
contorna com a sua magia as suas
virgens e donzelas?
É que o escritor Tazuary Nkeita bebeu muito do seu povo para
produzir a presente obra. José
da Costa Soares Caetano, de seu
nome completo, tem um percurso
literário marcado pelo seu tempo,
tempo esse que caracteriza a literatura angolana, uma literatura
pujante e bastante expressiva que
remonta desde época não independente de Angola.
Não se deve esquecer que a literatura produzida em Angola
derivou de uma época contestatária, onde o escritor suscitava as
realidades históricas e sociais do
seu povo. A sua temática variava
desde o amor e a angustia existencial, às vivências do quotidiano
do povo de Angola. Por isso, falar
desta obra de Nkeita constitui um
desafio. E como qualquer desafio
que se preze como tal, impõe-se
apresentar uma incursão pelas páginas deste livro, para dele buscarmos os segredos que se consubstanciam num último segredo.
Começo por referir-me à lenda de Santo Graal. Uma lenda de
mistérios e segredos. Segredos
aglutinados na Taça de José de
Arimateia, do Sangue de Cristo,
que, estando na cruz, jorrou para
o seu interior. Anos mais tarde,
essa taça foi alvo de uma busca
sem precedentes. Foi procurada
por cavaleiros de vários reinos,
precisamente porque nela estava
o segredo. Queriam descobrir os
seus segredos. Transcorridos milhares de anos, Tazuary Nkeita
convida-nos a buscar «O último
segredo», já não propriamente na
Taça de José, mas sim dos mistérios e enigmas de uma família
angolana deste século que vai
simbolizar a passagem de testemunhos de geração em geração.
Esta magnífica obra de Nkeita
começa com Tulu Dibaia, ou Jipata, ou qualquer outro adjectivo a
confrontrar-se com a génese do
enredo por desvendar, escondido
algures, numa espécie de papiros
bíblicos, no fundo da Rua S-12.
Ele próprio confundia-se com
os mistérios da sua vida, com os
enigmas que afloravam do seu
ego, muito incompreendido pela
sociedade que o rodeava. Parecia
um farrapo despregado dele próprio. Era um homem que estava
presente em todos lugares, mas
nenhum desses ia ao encontro
do que ele era, da sua essência e
existência. Dedicado aos seus negócios, conhecia a terra dos seus
ancestrais de lés a lés e era testemunha privilegiada do «modus
vivendi» dos seus concidadãos, do
pão de cada dia que, para muitos,
era distante, das suas vidas inconformadas.
Tulo Dibaia, ou seja quem for,
prosperava nos negócios. A sua
prosperidade distanciava-o da
sua companheira, que se sentia
ofuscada pelas suas constantes
viagens, para expandir os seus
empreendimentos, que chegaram
às terras do Índico e às outras
paragens. A estória desenrola-se
em vários mundos. No primeiro
mundo, Luanda, onde a sua ausência cria fissuras no tecido familiar, abala a coerência e a transparência da gestão empresarial
dos seus negócios, que vai minar
sucessos alcançados com muita
dedicação. Nos outros mundos,
desenrolam-se amizades e devaneios, criam-se amores e incertezas que o afastam do quotidiano
do primeiro mundo.
A figura central da obra apercebe-se do vazio que marca constantemente a sua ausência no primeiro mundo, que cria situações
incontroláveis e decide retomar
as rédeas, aplicando-se mais à
sua família. E um manto de segredos sucede-se como uma areia
movediça, que afunda a tudo e a
todos, e parece recuperar-se uma
harmonia que era ameaçada por
constantes ausências. Mas os segredos vão habitar em todos os
cantos, passam a constituir-se em
inúmeros mistérios. E assim aparece o último segredo que convido a todos os amantes da literatura a descobrir.
É caso para se dizer que em
Angola há uma produção literária muito consolidada, dentro do
conjunto das literaturas africanas
de expressão portuguesa.
Bem haja, Tazuary Nkeita, por
esta esplêndida obra.
Lisboa, aos 25
de Abril de 2013
(*) Carlos Paradona Rufino Roque, escritor, foi Secretário geral
adjunto da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO),
entre 2008 e 2013, e é membro do
Corpo de Jurado do Grande Prémio SONANGOL de Literatura.
A 8 de Junho lançou na conceituada livraria Bertrand, em Lisboa,
o romance Ntsai Tchassassa – A
Virgem de Missangas. O romance da colecção Karingana da Associação dos Escritores Moçambicanos foi editado pela Editora
portuguesa Fonte da Palavra e
teve a apresentação da «Professora Fátima Mendonça da Universidade Eduardo Mondlane. Dentre
os livros publicados, destacam-se A Gestação do Luar, poemas,
1992, e Tchanaze, a Donzela de
Sena, romance, em 2009.
■
36 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Cultura
CCR Kilamba celebra Dia de África
com Francó, Roucheraux & outros
O
■
Fotos Salas Neto
Administrador do Centro Cultural e Recreativo Kilamba teve a feliz iniciativa de celebrar o 50.º aniversário da
fundação da Organização da Unidade Africana (OUA),
antecessora da actual União Africana (UA), com um cartaz recheado de atractivos musicais africanos, sobretudo do vizinho
Congo Democrático e, claro está, de Angola. Se assim pensou o bom
do Estevão Costa, melhor o fez. O último «Muzonguê da Tradição»
foi preenchido com gratas recordações de músicas africanas muito
apreciadas, cantadas e dançadas num passado recente, notadamente
pelas gerações das décadas de 60/70 e 80. A começar com o «monstro
sagrado» da música africana, Francó Lwambu Makiadi, e o não menos fenomenal Roucheraux. De esquebra, mas também muito apreciado, o Dr. Nicó (lembram-se dele?).
Tudo isso, com o competente acompanhamento da «Orquestra
Olímpia», fundada em 1982, pelo saudoso Diana Spray.E com uma
actuação soberba do mestre Pakome, na viola solo. Mestre Teddy (da
Banda Movimento) emprestou também a sua colaboração.
Mas tudo começou da melhor maneira possível e de forma nostálgica. «Os Novatos da Ilha» fizeram uma exibição de encher os olhos.
Em pouco mais de meia hora, reeditando as rodas da rebita de outros
tempos, brindaram os presentes com uma apresentação cheia de cores, ritmo e massembas. Dom Caetano, o apresentador residente do
«Kilamba», afirmou, depois, que a rebita pode estar a correr um sério
risco de desaparecer, se nada for feito no sentido da sua revitalição,
fazendo um apelo emotivo afim à administração da dessa casa de cultura, lembrando que o actual CCRK é o sucessor do Centro de Rebita
Dr. Agostinho Neto, que, por sua vez, é antecessor da antiga «Maria
das Escrequenhas». Então, dançava-se a rebita, regularmente, naquele recinto. A surpresa ficou por conta do histórico Raúl Tulinga, que
«dedilhou» a concertina com mestria e mostrou que tem intimidade
com o instrumento, sem o qual o compasso da rebita não existe. Resta
aqui um apelo ao Ministério da Cultura no sentido de fazer alguma
coisa e tomar iniciativas, ou pelo menos patrocinar a «refundação»
da rebita.
Pelo palco, foram lembradas grandes canções de Francó, Nicó e
Roucheraux, nomeadamente, além do conjunto cabindense Super
Coba, cujo ex-líder, Teddy Muanateca, homenageado pela Administração do Centro Cultural e Recreativo Kilamba, fez questão de questão de exibir alguns números musicais. Coube a honra de atribuir a
distinção (um diploma de mérito), que reconhece o contributo dado
pelo artista no engrandecimento da música angolana, ao sociólogo
Simão Helena. «Desde a minha meninice que cresci a ouvir Teddy
Muanateca», lembrou o também assessor presidencial com uma ponta de nostalgia. Outro homenageado foi o cantor Tony Caetano, que
recebeu o diploma de mérito, pela «promoção e divulgação da música
nacional», das mãos do coronel Camilo, um «habitué» do muzonguê.
Presença ilustre e sempre assinalável do Ministro da Administração Pública, Emprego e Segurança Social, Dr. Pitra Neto. Para esta
edição do muzonguê, constou também o craque do nosso futebol,
Daniel Ndunguidi, uma presença que se tornou já habitual, desta vez
sem os inseparáveis amigos Julião e Vieira Dias, assoberbados com a
da boda de aniversário do Ti Bula, um antigo «marçalista» também
militante do «Muzonguê». Uma malta muito animada esteve igualmente no «Kilamba»:o afável Plácido Van-Dúnem, que esteve ladeado, pelo «inevitável» Ti Borito (agora, sim, em grande forma!) e ainda
pelo Zé Gouveia e muita outro pessoal fixe da «nguimbe».
«Muzonguê» no Brasil?
É uma ideia (ainda) vaga. A princípio, por ocasião dos festejos da nossa «Dipanda», uma «edição
especialíssima» poderá ter lugar no Brasil, com todos os ingredientes característicos e semelhantes ao
que é servido, normalmente, pelo Centro Cultural e Recreativo Kilamba, aos primeiros domingos de
cada mês. Com direito a tudo: as bessanganas, o semba, a rebita, os quitutes da nossa terra, e, claro
está, o nosso rico muzongue. Equacionados os necessários e indispensáveis patrocínios, apoios e ajudas, a ideia poderá ser levada avante. O Semanário Angolense apurou, de fonte segura, que, uma vez
reunidas as condições ideiais, a iniciativa poderá vingar. Que venham os incentivos!
■
37
Desporto
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Apesar de ter dado o litro e mais qualquer coisa pelo país
Jean Jacques da Conceição sem dinheiro
para ir ao «Hall of Fame» da FIBA-Mundo
A federação angolana da modalidade ofereceu-lhe míseros 400 dólares para a deslocação a Lausana,
na Suíca, onde integra um grupo de 12 figuras mundiais desse desporto a serem homenageadas
Paulo Possas (*)
O
maior basquetebolista angolano de todos os tempos,
Jean Jacques da Conceição,
recusou-se a receber um humilhante apoio de 400 dólares oferecido pela Federação angolana da modalidade, para ir à Lausana, na Suiça, onde
será um dos homenageados da edição
de 2013 do «Hall da Fama» da FIBA-Mundo, soube o Semanário Angolense
de fonte próxima do antigo internacional.
Embora não esteja mais ligado oficialmente à federação, quer como jogador ou ainda como dirigente, em
princípio, não há sustentação legal para
exigir «ajudas de custo» da instituição,
mas, por tudo o que ele fez em prol da
modalidade, tendo prestado elevados
serviços ao país como atleta de eleição,
não ficaria nada mal se beneficiasse de
um apoio digno desse nome para se
deslocar à Lausana, até porque o nome
de Angola sempre estará em causa,
numa tribuna prestigiante.
Ao que soube o Semanário Angolense, até quarta-feira, a federação não
havia dado sinais de recuar na sua pretensão de apenas conceder os míseros
400 dólares com que o seu presidente,
o também antigo internacional (e agora
jurista) Paulo Madeira, lhe havia acenado inicialmente, uma atitude tida por
humilhante para alguém da estatura de
Jean Jacques da Conceição, que até já foi
vice-presidente da instituição que rege o
basquetebol em Angola.
Em face disso, algumas pessoas de
boa fé, cientes de que Jean Jacques da
Conceição merece melhor consideração, têm estado a mover-se junto de entidades públicas e privadas no sentido
de conseguirem um apoio efectivo para
que ele se possa exibir em Lausana no
«Hall of Fame» ou «Palco da Fama» da
Fiba-Mundo.
Falava-se que umas das figuras que
já manifestaram a intenção de ajudar
o jogador nesse sentido era o «inevitável» Bento Kangamba, mas fontes que
acompanham o assunto disseram que
isto estava tremido por ausência do país
do patrão do Kabuscorp do Palanca,
embora se esperasse que ele pudesse regressar em tempo útil para dar a mão a
Jean Jacques da Conceição.
Dada a dimensão do acto, jornalistas de alguns órgãos de comunicação
social angolanos irão a Lausana reportar a cerimónia, muito por conta
da inclusão de um angolano entre o
grupo de agentes do basquetebol a homenagear.
De acordo com o site oficial da FIBA-Mundo, Jean Jacques, a maior referência do basquetebol angolano, integra um grupo de 12 personalidades
mundiais de 10 países (entre jogadores,
treinadores e apoiantes da modalidade)
que serão homenageados na edição de
2013 do «Hall of Fame».
O principal objectivo do «Hall of
Fame» da FIBA-Mundo é reflectir
a história da modalidade e das suas
personalidades. O principal critério
de selecção para se figurar entre os
homenageados é a realização proeminente a nível internacional e a contribuição para o desenvolvimento do
basquetebol.
Jean-Jacques Nzadi da Conceição,
nascido em Kinshasa, a 3 de Abril de
1964, mas de nacionalidade angolana
pura, com os seus 2,02 metros, praticou
basquetebol entre 1982 e 2003. Iniciou-se no 1.º de Agosto, passando depois
pelo Sport Lisboa e Benfica (Portugal),
Unicaja Malaga (Espanha), Limoges
(França) e Portugal Telecom, assim nesta ordem, antes de abandonar o activo.
Conquistou com a selecção nacional
de Angola sete Afrobasket’s, designadamente em 1989, 1992, 1993, 1995, 1999,
2001 e 2003. Também representou a selecção nos campeonatos do mundo de
1986, 1990 e 1994 e nos Jogos Olímpicos
de 1992.
Em 2011, em Antananarivo, no âmbito das comemorações do 50.º aniversário da FIBA África, Jean Jacques da
Conceição foi nomeado o jogador de
basquetebol mais valioso do continente.
Além dele, compõem o grupo de antigos jogadores a homenagear no «Hall
of Fame» de 2013 o australiano Andrew Gaze, a brasileira Paula Gonçalves, o servo Zoran Slavnic e os norte-americanos David Robinson e Teresa
Edwards.
Juntam-se a eles, os lendários treinadores Pat Summitt (EUA), bem como o
falecido John ‘Jack’ Donohue (Canadá)
e Cesare Rubini (Itália).
Serão ainda homenageados os oficiais
Valentin Lazarov (Bulgária) e Costas
Rigas (Grécia) e ainda o mecenas Aldo
Vitale (Itália).
O «Hall of Fame» ou «Palco da
Fama» da FIBA-Mundo foi instituído
em 2007.
■
(*) Com Angop
38 Sábado, 15 de Junho de 2013.
Desporto
Palancas Negras, este sábado, em Kampala
Se a vitória fugir, será o fim!
Paulo Possas
O
jogo entre as Palancas
Negras de Angola e
os Cranes do Uganda,
marcado paras as 16
horas deste sábado (15), no estádio Mamboole, em Kampala,
é ainda de grande importância
para qualquer dos contendores,
uma vez que quem o ganhar continua na corrida ao Mundial.
Os angolanos, apesar de tudo,
continuam a sonhar com o Brasil,
algo que se esfumará definitivamente ainda hoje, caso não consigam vencer em Kampala, terreno
em que
normalmente se dão mal, talvez por razões ligadas à elevada
altitude da capital ugandesa.
No entanto, se conseguirem
superar-se, vencendo os Cranes,
as Palancas Negras continuariam
com chances de chegarem à última etapa do torneio africano de
qualificação, mas isto só se os liberianos fizerem o favor de travar
a inspiração senegalesa em Monróvia, não deixando o visitante
ganhar.
Se esta hipótese se concretizar, os angolanos podem mesmo
chegar ainda à liderança do gru-
Arbitragem marroquina
po, com sete pontos, ao lado dos
senegaleses, desde que estes não
se deixem surpreender com uma
derrota, pois isso abriria caminho
a aqueles na primazia absoluta da
classificação do grupo.
Mas, não sendo impossível, é
um cenário pouco provável, em
função do que já se disse acima.
Como está a jogar, já não são muitos os angolanos que ainda acreditam na possibilidade da selecção
vir a ganhar nessa sua dificílima
deslocação à Kampala. No entanto, isso não quer dizer que não
possam surpreender tudo e todos.
E se assim acontecer, até se poderá
dizer que Deus é angolano.
O Comité de Arbitragem da
Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) indicou
uma equipa de arbitragem do
Marrocos para o desafio entre o
Uganda e Angola. Trata-se de Redouane Jied (principal), Adelaziz
Mehrag e Mohamed Lohamid
(assistentes).
Antes, este comité tinha indigitado como chefe o árbitro
egípcio Ghead Grisha, que teria
como assistentes os seus compatriotas Ayman Degaish e Salam Abd El Dorry. O também
egípcio Yasser Younis seria o
quarto árbitro.
O Comité de Arbitragem da
FIFA indicara já para árbitro assessor o marfinense Zeli Sinko e
como comissário Yusuf Ismael
Kemal, da Etiópia.
Não se sabe quais as razões
que estiveram na base destas modificações de última hora, esperando-se então que não tenham
nada a ver com «jogadas de bastidores», que possam prejudicar os
angolanos, como tem acontecido
muitas vezes.
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Uganda abre cordões à bolsa para motivar os seus jogadores
N
a ânsia de vencer as Palancas Negras, a Federação Ugandesa de Futebol premiou os seus jogadores com dois mil dólares pela vitória (1-0)
obtida no sábado passado, 08, contra a Libéria,
com golo de Tonny Mawejje, esperando que façam o mesmo este sábado, 15, contra a equipa orientada por Gustavo
Ferrín.
«Estou orgulhoso por vocês porque animaram o país
cuja selecção pode bater Angola», disse em Kampala, na
terça-feira, 11, o presidente da Federação Ugandesa de Futebol, Lawrence Mulindwa, num encontro com jornalistas
locais.
«O empate de Angola com o Senegal», disse, «dá-nos esperança de ainda podermos avançar à próxima eliminatória. Ainda não podemos celebrar, mas estamos optimistas».
O Uganda concentrou-se logo no domingo, 09, para preparar com cuidado o jogo contra Angola, reunindo o grosso de jogadores que triunfaram diante da Libéria.
Segundo classificado do Grupo J, o Uganda está apostado a não conceder facilidades a Angola, que ainda não
obteve vitória alguma. Tem um guarda-redes muito atento,
Robert Odongkara, que entre os postes frustra as acções
dos adversários.
A defesa também dá boa conta de si, com Dennis Iguma, um atleta que, segundo a imprensa do seu país, joga no
centro de forma discreta, fazendo as coisas básicas como
ordinariamente devem ser executadas.
Godfrey Walusimbi é outro. Actua no lado esquerdo,
mas, segundo as últimas informações, ele não tem esta-
do no seu melhor. À direita, os Cranes contam com Isaac
Isinde, um bom marcador. No último jogo frente à Libéria,
parou bem os avançados Wleh Patrick, Ronaldinho, Oliseh
Sekou e Anthony Laffor.
No meio campo, o pensador do Uganda é Andy Mwesigwa, sendo desde já uma forte aposta do técnico Milutin
Sredojević. Na mesma zona, actua Hassan Wasswa, que
não deixa aos seus créditos em mãos alheias quando se entende com Geoffrey Baba Kizito.
Geoffrey Baba Kizito, no ataque, tem boa leitura de
jogo, bom controlo de bola, passes calculados e certeiros. Está a entender-se bem com Kizito Luwagga, que
ascendeu este ano a sénior. Este jovem está a dar contado recado. Ele corre muito, é muito veloz e nisso bate
muitos adversários. No jogo passado foi substituído por
Martin Mutumba. Outro craque dos adversários das Palancas é Tony Mawejje, que joga bem à frente dos defesas. Dono de uma apurada visão de jogo, é organizador
e distribuidor de jogadas.
Há ainda Geoffrey Massa, um atacante com bom poder
de remate, como se viu ainda contra a Libéria, embora não
tenha marcado. A dúvida para este sábado por estar a contas com uma lesão é Emma Okwi. É lento, mas uma lentidão calculista. Tem sempre a bola colada ao pé e quando a
solta vai para o sítio certo.
O técnico Milutin Sredojevich «Micho» disse, na quarta-feira, 11, ao jornal «Weekly Observer» que estava alegre
com o empate entre Angola e Senegal, por lhes ter aberto o
caminho para continuar a sonhar.
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39
Desporto
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Adeptos sugerem mudanças
A
deptos do futebol na província do Cunene sugeriram terça-feira, em Ondjiva, mudanças no 11 inicial da selecção nacional que sábado defronta o Uganda, em Kampala, para a
quinta jornada do grupo J, qualificativa ao Mundial 2014 no
Brasil.
Em declarações à Angop, defendem ser importante que o seleccionador Gustavo Ferrin escale um conjunto com alterações relativamente ao
que empatou (1-1) no dia 8 com o Senegal, no estádio 11 de Novembro.
Para o estudante Eugénio Chitumba, existem jogadores entre os convocados que tornariam a equipa inicial mais forte do ponto de vista
competitivo, tais como Mabiná, Adawa, Mingo Bille, Gomito e Guilherme Afonso.
Disse ter notado fraca produtividade no meio campo da selecção no
jogo com o Senegal que, em sua opinião, se deveu à pouca experiência
dos jogadores que evoluíram naquela posição e ao esgotamento físico
dado o porte físico dos oponentes.
Janota de Carvalho, funcionário público, defende igualmente mudanças na equipa inicial, acrescentando que, com o empate de sábado
último, Angola perdeu a oportunidade de depender apenas de si, «por
má abordagem do selecionador», ao abdicar de jogadores experientes,
sobretudo no meio campo.
«Nada ainda está perdido, porque a diferença de dois pontos relativamente ao líder Senegal se mantém», disse, acrescentando que com
trabalho, humildade e sorte ainda é possível a qualificação ao mundial
de 2014 no Brasil.
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Suazilândia para o CHAN
Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades...
FAF e jogadores em rota de colisão
A
o que se comenta no «inner circle» do futebol angolano, não é bom o ambiente que
grassa nas hostes da Federação Angolana de
Futebol, que estará a viver uma das maiores
crises de liderança desde a sua criação em 1979.
Fontes que andam pelos corredores da FAF sustentam que a gota de água que fez transbordar o
copo foi lançada depois CAN de 2013 realizado na
África do Sul, onde as Palancas Negras, tal como em
2012, no Gabão e Guiné Equatorial. Um núcleo de
jogadores mais antigos, como Gilberto, Lama, Manucho, Djalma e também Mateus, se insurgiu contra
algumas medidas impostas pelos dirigentes da FAF.
Na altura, muitos dirigentes entraram em choque
com os jogadores por questões ligadas a dinheiro que
estes consideravam prejudiciais a si. Conta a nossa
fonte que antes do jogo contra o Marrocos, já a FAF
tinham o dinheiro para subsídios, mas não o dava
aos jogadores.
Isso levantou vários questionamentos por parte
dos jogadores, depois de saberem que, afinal, o atra-
so no pagamento dos subsídios que lhes eram devidos, era causado por um
Esquema capcioso de aplicação dos dólares no
mercado negro, para depois se pagar aos atletas em
rands ao câmbio oficial, engenharia que rendia chorudos lucros ilícitos a favor de alguém que os tinha
sob sua responsabilidade. E este esquema, segundo
a nossa fonte, vigora até hoje sempre que a seleção
nacional se desloque ao estrangeiro.
Será para não surgirem ondas nestes particulares
que os jogadores chamados de «problemáticos» não
foram convocados.
Ao que diz a nossa fonte, embora conhecedor do
esquema, o selecionador Gustavo Ferrín vai-se «marimbando», preferindo ganhar o «seu» sem complicar, não vá o diabo tecê-las. Alegados problemas de
desorganização têm estado também a desmotivar o
técnico uruguaio.
Ele não entende, por exemplo, por que razão é que,
apesar da Federação ter recebido do Governo 9 milhões
de dólares para a campanha do CAN, a selecção continue
a ter problemas de equipamento. A nossa fonte diz que,
se Djalma Campos vir rasgada a sua camisola 7, não há
outra para substituí-la, o que não deixa de ser anedótico.
A nossa fonte recorda que, no CAN deste ano, ao
fim de um dado jogo, o guarda-redes Lamá, como é da
praxe, trocou a sua camisola com o seu homólogo da
África do Sul, como é da praxe, o guarda-redes Lama
trocou a sua camisa com o guardião da África do Sul,
mas depois, já nos balneários, foi obrigado a desfazer o
«acordo» por não haver mais uma outra da mesma cor
de reserva para si. Para nossa vergonha, o guarda-redes
sul-africano, diante disso, resolveu prescindir da sua,
oferecendo-a a Lamá sem contrapartida alguma.
Enfim, afinal, é este o mau ambiente instalado no seio
da selecção, que tem de ser melhorado, sob pena de se
instalar um caos autêntico. Na última segunda-feira,
houve mais uma: muitos jogadores partiram descontentes por terem recebido os seus subsídios em kwanzas...
É assim que se quer ir ao «Mundial»? Fazer o quê?
■
D
epois do desafio como Uganda, as Palancas Negras jogam
já no sábado seguinte contra a Suazilândia, em partida
pontuável para primeira mão da eliminatória de apuramento à terceira edição do Campeonato Africano das Nações (CHAN), em 2014, na África do Sul.
O CHAN é uma competição africana reservada apenas aos atletas
que actuam nos campeonatos nacionais dos respectivos países.
A Confederação Africana de Futebol (CAF) indicou o árbitro
Achille Madila que será auxiliado pelos seus compatriotas Olivier
Kabene Safari e Martin Mukala. O quarto árbitro é Ignace Mupemba Nkongolo e para comissário foi nomeado o malaui Bester Kalombo.
A 29 deste mês, em Luanda, disputa-se a segunda mão, no estádio nacional 11 de Novembro, com arbitragem de um quarteto
das Ilhas Comores, chefiado por Mohamed Ali Adelaid. Os seus
assistentes serão Soulaimane Amaldine e Mmadi Faissoil. O quarto árbitro é Soulaimane Ansudane e a comissário Kasolo Kunda
Anthony, da Zâmbia.
■
Sábado, 15 de Junho de 2013.
Cdte
Luís
Sita
■
Gustavo
O administrador do «Kilamba», Estêvão Costa, terá
acertado na mosca, ao decidir promover, no último
domingo, um «Muzonguê
da Tradição» diferente dos
habituais, com rumbas e
bolingós no lugar do semba,
o que parecia vir a resultar
em prejuízos para a casa. No
programa constava a lembrança de canções de alguns
«monstros» da música congolesa, como Francó, Rocheraux e Dr. Nicó, em meio a
uma homenagem ao Super-Coba de Cabinda e a Tony
Caetano. Olha, ao contrário
do que se esperava, os bolingós e rumbas acabaram por
cair no goto dos caldistas, ao
ponto de muitos afirmarem
que haviam desfrutado de
um dos melhores «muzonguês». Palmas!
Havíamos dito que Gustavo Ferrín, ao negar-se incluir o «ponta» Manucho
Gonçalves na equipa que
haveria de defrontar os senegaleses, em desafio decisivo,
teria alguma «arma secreta»
capaz de fazer esquecer a
ausência do «capitão». Infelizmente, nada que se viu,
como diria o coiso, apesar
de lançar depois Guilherme
Afonso, o homem que acabaria por marcar o golo salvador de uma derrota que
parecia iminente. Voltou a
inventar, por exemplo, com
Yano, a quem fez jogar mais
como extremo que ponta,
entre outras opções esquisitas, e deu no que deu: um
quase-desastre. A continuar
assim, é melhor acordarmos, que não chegaremos
lá. Nem em sonhos...
Costa
Fernando
Na última edição, o Comandante Sita, novo chefe
da Polícia de Luanda, então
estreante nessa secção (e logo
na sua parte má), fora zurzido
por, alegadamente, ter destratado o líder do Galo Negro,
em declarações que fizera
sobre as estranhas mortes
no «Paraíso» do Kikolo. O
homem garante que isso foi
injusto, uma vez que em momento algum assim procedera. Afirma que não sabe aonde fôramos buscar as palavras
a si atribuídas em como tendo desrespeitado Samakuva.
Lembrou que apenas dissera
que no seu posto haveria de
tratar todos por igual, independentemente de colorações
partidárias. É possível que tenha havido um problema de
interpretação. Pronto já, está
reparado.
Estêvão
«Papy, Angola só vai
avançar com gente como o
senhor, sempre preocupada
em fazer acções filantrópicas e não com essa malta de
fato e gravata que anda por
aí sem nada fazer». Era assim – mais palavra, menos
palavra - como diria alguém
no mural de Luís Fernando,
a propósito de mais uma
campanha a favor de um cidadão desamparado lançada
por este jornalista e escritor,
desta para acudir a um rapazito que padece de anemia
falciforme que nada tinha
para comer na terça-feira.
LF tratou de lançar um «sos»
via facebook e a coisa pegou:
muita gente, incluindo no
estrangeiro, aceitou o repto
e está apoiando o rapazito
com o que pôde. Ó Luís, a
sociedade agradece-te!
■
Paulo
Ferrín
■
Madeira
■
40
ENANA
O melhor basquetebolista angolano de todos os
tempos foi convidado pela
Fiba-Mundo para o «Hall
da Fama», uma cerimónia
de homenagem a figuras da
modalidade que este ano
se vai realizar, quarta-feira,
19, em Lausana, na Suíça.
Não estando, afinal, muito
bem de vida, Jean Jacques da
Conceição precisa de apoios
para a deslocação, tendo para
esse efeito resolvido ir bater
a porta da federação, agora
liderada por Paulo Madeira.
Alguém advinha com quanto a FAB lhe quis apoiar?
Não? Aí vai: 400 dólares para
cinco dias! Pelo que Jean Jacques já fez em benefício do
basquetebol angolano, este
tratamento da FAB não deixa de ser humilhante. Paulo,
Paulo, Paulo...
■
Na quinta-feira da semana passada, aconteceu
um escândalo no aeroporto
internacional de Luanda,
que deve ter atirado o país,
mais uma vez, para a lama:
o complexo não dispunha
de uma única ambulância
para acudir a uma emergência. Um dos tripulantes da
Houston Express chegou a
Luanda em estado crítico. A
tripulação e os assistentes de
terra foram surpreendidos
com a falta de ambulâncias
no local. Uma estava avariada, e a outra tinha sido usada
minutos antes por um casal,
que lá decidira proteger-se
do calor e dos mosquitos,
ligando o ar condicionado.
Assim, quando os assistentes de terra tentaram pôr o
carro a andar, estava sem
gasolina. Isso pode?
■
EUA espionam computadores da China
P
or meses, a China rebate os EUA
pelas suas acusações de que Pequim lança ataques cibernéticos
contra os seus computadores e sistemas. Agora, um ex-funcionário terceirizado da CIA, Edward Snowden, pode ter dado
uma moeda de troca a Pequim. Em entrevista ao jornal South China Morning Post,
Snowden afirma que os EUA têm «hackeado» uma universidade de Hong Kong que
encaminha todo o tráfego de internet dentro
e fora da região semiautônoma da China.
Snowden diz que os 61 mil alvos da
Agência Nacional de Segurança (NSA, sigla em inglês) ao redor do mundo incluem
centenas em Hong Kong e na China, informou o jornal na quarta-feira (12). O
The Post, o principal jornal de língua inglesa em Hong Kong, disse que Snowden
apresentou documentos para apoiar essas
alegações, mas a publicação não os descreveu e disse não ser possível verificar a
sua autenticidade.
Essas foram as primeiras novas revelações de Snowden desde que o americano
de 29 anos afirmou ser a fonte do vazamento de programas de monitoramento
secretos da agência americana. Ele deixou
o Havaí rumo a Hong Kong antes de revelar ao mundo a sua identidade e, segundo
o Post, deve permanecer fora de vista em
meio às especulações de que os EUA tentarão extraditá-lo .
Snowden, que trabalhou para a CIA
e depois como terceirizado para a NSA,
revelou detalhes sobre programas de
monitoramento americanos que co-
lectam milhões de registos telefônicos
americanos e conteúdos de email e actividades online de estrangeiros para
caçar terroristas. As autoridades prepa-
ram um inquérito contra Snowden, mas
ainda discutem as acusações.
Autoridades americanas debatem sobre algumas das afirmações feitas por
Snowden, particularmente uma ao jornal
britânico The Guardian, para o qual ele
afirmou que «tinha autoridade de fazer
escutas de qualquer um».
As afirmações de Snowden sobre a espionagem dos EUA acrescentam uma
nova contenda na longa batalha entre
Washington e Pequim sobre cibersegurança. Os EUA apresentaram uma série
de relatórios acusando o governo chinês e
o seu exército de realizarem invasões nos
sistemas e computadores americanos.
O The Post citou Snowden dizendo que
a NSA «hackeia» computadores em Hong
Kong e na China desde 2009, citando documentos que ele teria mostrado ao jornal, mas que, segundo a publicação, não
poderiam ser verificados. A públicação
não deu mais detalhes sobre os documentos.
Ele disse que entre os alvos estava a
Universidade de Hong Kong, que abriga
a Internet Exchange de Hong Kong, o
principal eixo do tráfego da rede na cidade. Estabelecida em 1995, permite que
os dados entre os servidores locais sejam
encaminhados localmente em vez de ter
que passar pelas comunicações de outros
países, incluindo os EUA.
■