Guerra Civil Espanhola

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Guerra Civil Espanhola
 Guerra Civil Espanhola
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Guerra Civil Espanhola
Data
Local
Desfecho
17 de julho de 1936 – 1 de abril
de 1939
Península Ibérica, Marrocos,
Saara, Canárias, Baleares, Guiné
Equatorial e Mar Mediterrâneo
Vitória dos Nacionalistas
Intervenientes
Segunda República
Espanhola
União Soviética
Brigadas
Internacionais
Espanha
Nacionalista
Corpo Truppe
Volontarie
Legião Condor
Principais líderes
Manuel Azaña
Francisco Franco
Julián Besteiro
Gonzalo Queipo de
Lluís Companys
Llano
Francisco Largo
Emilio Mola
Caballero
José Antonio Primo
Juan Negrín
de Rivera
Indalecio Prieto
José Sanjurjo
Vicente Rojo Lluch
Juan Yagüe
José Miaja
Juan Modesto
Juan Hernández
Saravia
Buenaventura
Durruti
José Giral
José Antonio Aguirre
Belarmino Tomás
A chamada Guerra Civil Espanhola foi um conflito bélico deflagrado após um
fracassado golpe de estado de um setor do exército contra o governo legal e democrático
da Segunda República Espanhola. A guerra civil teve início após um pronunciamento
1
dos militares rebeldes, entre 17 e 18 de julho de 1936, e terminou em 1° de abril de
1939, com a vitória dos rebeldes e a instauração de um regime ditatorial de caráter
fascista, liderado pelo general Francisco Franco.
Índice
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
1 Precedentes
2 O fim da monarquia, a eleição da Frente Popular e o golpe
3 O desenrolar das operações: do golpe à vitória franquista
4 A questão religiosa na Guerra Civil
5 Dois contingentes militares
6 O "Movimiento Nacional" de Franco
7 Os apoios internacionais
8 A política de Stalin e a derrota da República
9 A Revolução Social
10 A guerra civil na Galiza
11 Ver também
o 11.1 Filmografia
12 Referências
13 Ligações externas
Precedentes
A derrubada temporária dos Bourbons absolutistas por Napoleão Bonaparte, em março
de 1808, a Guerra de Independência contra a ocupação francesa, a abertura das Cortes
de Cádiz, em 1810, e a proclamação da Constituição liberal de 1812 assinalam o
desaparecimento do Antigo Regime espanhol, que, durante o reinado de Carlos III,
chegou a ser considerado como um exemplo de Despotismo Esclarecido. Durante todo o
século XIX e o início do século XX, no entanto, a Espanha não conseguiu completar,
política e socialmente, a sua revolução burguesa de forma a produzir uma
institucionalidade liberal-democrática estável.
Série
História de Espanha
Espanha na Pré-História
Espanha pré-romana
Hispânia
Visigodos e Suevos
Domínio árabe e a Reconquista
A Reconquista e o Reino das
Astúrias
Reinos de Leão, Castela, Aragão e
2
Navarra
Dinastia de Borgonha
Dinastia de Trastâmara
Reis Católicos
Descobrimentos
Guerra da Sucessão Espanhola
Guerra Peninsular
Governo de Fernando VII
Guerras Carlistas
Revolução de 1868 e Sexênio
Revolucionário
Dinastia de Saboia
Primeira República
Restauração Bourbônica
Ditadura de Primo de Rivera
Segunda República Espanhola
Guerra Civil
Franquismo
Transição Espanhola
O século XIX espanhol foi um período especialmente conflituoso, com lutas entre
liberais e absolutistas, entre membros rivais da Casa de Bourbon (isabelinos e carlistas),
e mais tarde entre monarquistas e republicanos, sobre o pano de fundo da perda das
colônias americanas e filipinas.
A economia espanhola teve um crescimento rápido, desde o final do século XIX até ao
início do século XX. Em especial, as indústrias mineiras e metalúrgicas lucraram e
expandiram-se enormemente durante a Primeira Guerra Mundial, fornecendo insumos a
ambos os lados em disputa.
Entretanto, os resultados desse crescimento não se refletiram em mudanças nas
condições sociais. A agricultura, sobretudo na Andaluzia, continuou em mãos de
latifundiários, que deixavam grandes extensões de terra sem cultivar. Somava-se a isto a
forte presença da Igreja Católica, que se opunha às reformas sociais e se alinhava aos
interesses da elite agrária. Finalmente, a monarquia espanhola apoiava-se no poder
militar para manter o regime. O fim da monarquia e o advento da república, em 1931,
3
em nada mudou esta configuração política básica, com a agravante de que Igreja e
Exército se mantiveram monárquicos e as tentativas de golpe tornaram-se constantes.
Com o crescimento da economia, cresceu também o movimento operário. Após a
fundação da primeira sociedade operária em Barcelona (1840), o movimento cresceu e
se espalhou pelo país. Desde o início, e principalmente na Catalunha, a principal região
industrial de Espanha, o anarquismo tornou-se a tendência política mais difundida entre
os trabalhadores. A principal confederação sindical, a CNT (Confederación Nacional
del Trabajo), sob influência anarcossindicalista, recusava-se a participar na política
partidária.
O choque entre classes é freqüente e violento. Desde o fim do século XIX até o início
do século XX, grupos de extermínio, como o Sindicato Libre, procuram suprimir os
sindicatos através do assassinato dos seus principais militantes. Do outro lado, grupos
de militantes sindicalistas, como o famoso Nosotros, também assassina religiosos e
industriais suspeitos de apoiar o Sindicato Libre. Insurreições armadas, tanto de direita
como de esquerda, ocorrem com regularidade.
O fim da monarquia, a eleição da Frente Popular e o
golpe
Com a renúncia do ditador Primo de Rivera após uma onda de escândalos de corrupção,
o rei Alfonso XIII procurou restaurar o regime parlamentar e constitucional. Foram
convocadas eleições municipais em Abril de 1931 e, embora os monarquistas tivessem
sido vitoriosos, os republicanos conquistaram a maioria nas grandes cidades. Prevendo
uma guerra civil, o rei Alfonso XIII prefere abdicar e é proclamada a Segunda
República.
Novas eleições são convocadas para compor uma assembléia constituinte em Junho, que
institui a separação entre Igreja e Estado. Por este motivo, Alcalá Zamora, chefe do
governo provisório, abdica.
Novas eleições acontecem em Dezembro de 1931, nas quais a esquerda sai vitoriosa.
Alcalá Zamora é eleito presidente da República e encarrega Manuel Azaña de organizar
um governo. O governo da República não consegue avançar na resolução da questão das
autonomias regionais, nem no encaminhamento da questões agrária e trabalhista. Na
questão religiosa, a governo Azaña cedeu moderadamente ao espírito anticlerical que
predominava no parlamento, através da dissolução da Companhia de Jesus na Espanha,
ficando preservadas as demais ordens religiosas, que no entanto foram proibidas de
dedicar-se ao ensino. Comprimido, por um lado, pela direita e a Igreja - que viam a
laicização do Estado e da educação de maneira muito negativa - e, por outro, a esquerda
e os anarquistas - os quais consideravam as mesmas reformas insignificantes - o
governo Azaña é incapaz de agradar a população.
Como economia predominantemente agrário exportadora, a Espanha havia sido pouco
atingida pela crise de 1929: o desemprego era pequeno e o salário médio por dia
trabalhado havia aumentado significativamente nos primeiros anos da Segunda
República. Este aquecimento da economia aguçava as tensões sociais já existentes e,
4
com elas, a aguda divisão político-ideológica da sociedade, que já vinha do século
anterior.
Em maio de 1931, os anarquistas incendiaram a Igreja dos Jesuítas na Calle de la Flor,
no centro de Madrid. Em agosto de 1932, o general monarquista Sanjurjo tenta dar um
golpe, mas fracassa. Condenado à morte, é depois indultado e continua a conspirar na
prisão.
Em 1933, a recusa dos anarquistas em dar apoio aos partidos de esquerda e a sua
propaganda pela "greve do voto" permitem a vitória eleitoral da direita, representada
pela Confederação Espanhola das Direitas Autônomas (CEDA) de José Maria Gil
Robles. Segue-se uma insurreição da esquerda, que foi mal sucedida em toda a Espanha
- menos nas Astúrias, onde os operários dominaram Gijón por 13 dias. Este evento ficou
conhecido como Comuna das Astúrias.
Com milhares de militantes feitos prisioneiros, os anarquistas decidem apoiar a
esquerda nas eleições de 1936. Espera-se que o novo governo lhes conceda anistia. A
esquerda vence em 16 de Fevereiro, com 4.645.116 votos, contra 4.503.524 da direita e
500 mil votos do centro, mas as particularidades do sistema eleitoral - que favorecia as
maiorias - dão à esquerda a maioria das cadeiras no parlamento.[1]
Alcalá Zamora encarrega Azaña de formar um governo. Em maio de 1936, Alcalá
Zamora é destituído e Azaña assume a Presidência da República, tendo como seu
primeiro-ministro o socialista Largo Caballero. A direita então lança-se a preparar um
golpe militar que se concretiza em 18 de Julho.
O desenrolar das operações: do golpe à vitória
franquista
Se os militares rebeldes esperavam resolver a questão com um pronunciamiento rápido
e sem muito derramamento de sangue, à maneira do século XIX, foram surpreendidos
pelo nível de mobilização ideológica da sociedade espanhola da época: de modo geral,
exceto em casos isolados, os militares triunfaram nas regiões onde a direita havia sido
mais votada em fevereiro de 1936, enquanto a esquerda - principalmente pela ação das
milícias armadas socialistas, comunistas e anarquistas - vence nas regiões onde havia
sido mais votada a Frente Popular: em Madrid e Barcelona, a insurreição foi esmagada
quase que imediatamente.
Em 21 de julho, os rebeldes controlavam o Marrocos Espanhol, as Canárias (exceto a
ilha de La Palma), as Baleares (exceto Minorca) e o oeste da Espanha continental. As
Astúrias, a Cantábria, o País Basco e a Catalunha, assim como a região de Madri e
Murcia, estavam nas mãos dos republicanos. Mas os rebeldes conseguem apoderar-se
das cidades mais importantes da Andaluzia: Sevilha - tomada pelo General Queipo de
Llano, que se tornaria tristemente célebre pelas suas atrocidades - Cádiz, Granada e
Córdoba.
As posições rebeldes no Sul da Espanha estando separadas de suas posições mais ao
Norte, realiza-se a Campanha da Extremadura, quando o bombardeio de aviões alemães
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e italianos contra a marinha republicana no Estreito de Gibraltar, o que permite a
passagem de tropas rebeldes do Marrocos para a Espanha.
Um avanço rápido de Sevilha a Toledo, realizado sob o comando do Tenente-Coronel
Yagüe, que aplicava as técnicas alemãs de Blitzkrieg, com avanços rápidos de tropas de
infantaria apoiadas por artilharia e aviação (acompanhada pela eliminação sistemática
de pessoas suspeitas na retaguarda) , possibilitou aos rebeldes nacionalistas tomarem
Badajoz, em agosto de 1936, o que lhes permite organizar um frente coerente contra o
campo republicano - estratégia esta, mais rotineira, adotada por Franco, que preferiu
apoiar-se primeiro sobre a fronteira do Portugal de Salazar a tentar um avanço direto até
Madrid, a partir do Sul.[2]
A morosidade dos rebeldes e a ação das milícias populares na defesa republicana
fizeram com que o conflito assumisse, assim, um caráter ideológico e potencialmente
revolucionário.
Uma vez tendo feito junção as forças rebeldes em Badajoz, inicia-se o avanço sobre
Madrid, buscando-se encerrar a campanha o mais rápido possível. Em 28 de setembro,
as forças rebeldes rompem o cerco republicano ao Alcazar de Toledo, defendido por
José Moscardó desde 22 de julho - uma conquista sem muito significado estratégico
mas que foi logo revestida de características lendárias (o filho de Moscardó teria sido
fuzilado após haver pedido ao pai, ao telefone, que se rendesse) e serviu de mito
fundador do regime franquista.[3]
Em 8 de novembro começa a Batalha de Madrid, mas o lento movimento das forças
rebeldes, que haviam levado três meses deslocando-se a partir de Sevilha, permite ao
governo republicano estabilizar o frente em 23 do mesmo mês. No Norte, os rebeldes
tomam Irún em 5 de setembro e San Sebastián no dia 13, isolando o Norte republicano.
Em inícios de 1937, os rebeldes tentam novamente tomar Madri: uma ofensiva a partir
de Jarama, de 6 a 24 de fevereiro, é apoiada pelo avanço de tropas de voluntários
italianos fascistas na direção de Guadalajara, de 8 a 18 de março. A resistência das
Brigadas Internacionais republicanas frusta os planos das forças italianas e, mais uma
vez, converte o que se pretendia como golpe de estado numa guerra civil de longa
duração, em que o acirramento das paixões políticas internas era potencializado pela
presença de contingentes militares estrangeiros, ideologicamente opostos, numa
verdadeira guerra civil européia, em que voluntários italianos fascistas e alemães
nazistas, por exemplo, enfrentavam voluntários esquerdistas das mesmas
nacionalidades.
A substituição do governo republicano de Largo Caballero pelo de Juan Negrín - que
buscou apoiar-se, internamente, no Partido Comunista, e, externamente, na aliança com
a União Soviética - deu conta do acirramento ideológico do conflito, mesmo no interior
do campo republicano, levando aos incidentes de maio em Barcelona, de enfrentamento
armado entre forças do governo e comunistas contra diversas milícias de Extrema
Esquerda - anarquistas, trotskistas e semi-trotskistas -seguidos por uma cruel repressão
policial à mesma Extrema Esquerda, sob o comando dos comunistas. Neste interím, o
governo Negrín tenta substituir as milícias, tanto quanto possível, por um exército
republicano regular, e lança, em agosto, na frente de Aragão, uma ofensiva em Belchite,
tentando aliviar a pressão sobre a frente Norte.
6
A ofensiva fracassa; o lado republicano tinha menos armas modernas (blindados e
aviões) do que o nacionalista, e, ao invés de combinar ações defensivas com a
infiltração de guerrilheiros na retaguarda franquista (para o que teria que contar com as
milícias anarquistas) preferia tentar vitórias convencionais com ganho propagandístico
para os comunistas que comandavam as unidades de elite do exército regular. Estas
ofensivas, que não tinham um alvo estratégico claro, soldaram-se sempre com enormes
perdas de homens e equipamento, solapando ainda a moral das Brigadas
Internacionais.[4]
Acrescente-se a isso que as dissensões internas e insanáveis no campo republicano,
sobre se convinha primeiro ganhar a guerra militarmente, ou se a guerra deveria ser
combinada com uma revolução socialista, fizeram com que este governo jamais
conseguisse a autoridade indisputada que precisaria para vencer militarmente, ao
mesmo tempo que não possuía uma ideologia coerente que garantisse sua sustentação
política: no verão de 1937, soma-se à ofensiva fracassada em Belchite o avanço dos
rebeldes no Norte, onde é rompido o assim chamado "Cinturão de Ferro" republicano:
Bilbao, Santander e finalmente Gijón, em 20 de outubro, são ocupadas pelos franquistas
e a Frente Norte desaparece, com os prisioneiros republicanos sendo internados no
campo de Miranda de Ebro. A República perde, assim, o apoio do nacionalismo basco,
assim como uma das suas bases industriais mais importantes. No Sul, depois da tomada
de Málaga pelos franquistas em 8 de fevereiro, a frente havia estabilizado-se na
província de Almería.
Situação do frente em outubro de 1937.
Em fins de 1937, os republicanos tomam a iniciativa e fazem uma ofensiva na direção
de Teruel, que é tomada em 8 de janeiro de 1938, apenas para ser recuperada pelos
franquistas em 20 de fevereiro. A contra-ofensiva franquista toma Vinaroz em 15 de
abril, atingindo o Mar Mediterrâneo, e a zona republicana remanescente é dividida em
duas partes, isolando a Catalunha.
Os republicanos contra-atacam em 24 de julho na Batalha do Ebro, e acabaram por
retirar-se em 16 de novembro após uma longa batalha de atrito, que permite aos
franquistas o caminho para a tomada da Catalunha. Em 23 de setembro o governo
republicano ordena a retirada total das Brigadas Internacionais, numa tentativa
7
(fracassada) de modificar a posição de não intervenção mantida pelos governo francês e
inglês pela retirada de uma força militar sob forte influência comunista. Em 23 de
dezembro inicia-se a batalha por Barcelona, que cai nas mãos dos franquistas em 26 de
janeiro de 1939. As tropas rebeldes ocupam a fronteira com a França e cortam a retirada
dos republicanos.
Situação do frente em novembro de 1938.
Em março de 1939, começa uma pequena guerra civil dentro do campo republicano,
quando o Coronel Casado, comandante do Exército do Centro, dá um golpe de estado
em Madri, apoiado pelos oficiais de carreira (que acreditavam que "entre militares nos
entenderemos melhor"[5]), golpe este que tinha como objetivo a ruptura com os
comunistas para facilitar negociações com os franquistas, enquanto o governo Negrín,
partidário da continuação da resistência - e esperando que o estalar iminente da Segunda
Guerra Mundial trouxesse novos apoios aos republicanos - refugia-se na chamada
Posição Yuste.
Os franquistas, no entanto, exigem dos casadistas a rendição incondicional, e Madri cai
em 26 de março. Com a queda de Valencia e Alicante em 30 de março, e de Murcia em
31, a guerra termina em 1o. de abril.
A questão religiosa na Guerra Civil
O liberalismo, na Espanha, tinha, desde os inícios do século XIX, sido violentamente
anticlerical; entre os anarquistas, muito influentes na Esquerda, o anticlericalismo havia
sido sempre particularmente agressivo, ao contrário dos socialistas marxistas. Na
medida em que a Guerra Civil foi a conclusão dos enfrentamentos político-ideológicos
do século XIX espanhol, a identificação da Igreja com a Direita determinou o
anticlericalismo da Esquerda na sua generalidade: Já em 14 de outubro de 1931, no
jornal El Sol, o então primeiro-ministro Azaña equiparara a proclamação da República
com o fim da Espanha católica, e durante a Guerra Civil, como Presidente da República,
teria dito num de seus discursos, que preferia ver todas as igrejas de Espanha
incendiadas a ver uma só cabeça republicana ferida, e o radical catalão Alejandro
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Leroux teria conclamado a juventude a destruir igrejas, rasgar os véus das noviças e
"elevá-las à condição de mães".
A perseguição anticatólica durante a Guerra Civil apenas continuou um padrão já
existente: nos só quatro meses que precederam a guerra civil já 160 igrejas teriam sido
incendiadas. Durante a Guerra, pela repressão republicana, segundo o historiador Hugh
Thomas, foram mortos 6861 religiosos católicos (12 bispos, 4.184 padres, 300 freiras,
2.363 monges);[6] uma obra mais recente, de Anthony Beevor, dá números muito
semelhantes (13 bispos, 4.184 padres seculares, 283 freiras, 2.365 monges).[7] De
acordo com o artigo espanhol, foram destruídas por volta de 20.000 igrejas, com perdas
culturais incalculáveis pela destruição concomitante de retábulos, imagens e arquivos.
Diante disto, é pouco surpreendente verificar que a Igreja Católica, tenha chegado, na
sua generalidade a propagandear a revolta contra o governo e chegado a compará-la,
numa declaração coletiva de todo o episcopado (1 de julho de 1937) com uma cruzada
moderna; note-se, no entanto, que os mesmos bispos espanhóis, numa carta de 11 de
julho do mesmo ano de 1937, mostraram-se ciosos em desmentir à opinião católica
liberal, que via na intransigência conservadora do clero espanhol a razão das
perseguições por ele sofridas, argumentando que a Constituição republicana de 1931 e
todas as leis subseqüentes haviam dirigido a história da Espanha num rumo contrário à
sua identidade nacional, fundada no Catolicismo[1]- ou, nas palavras do Cardeal Segura
y Sáenz: "na Espanha ou se é católico ou não se é nada".[8]
Muito embora houvessem sido realizados esforços de propaganda pelos republicanos no
exterior em favor da liberdade religiosa (o Ministro da Justiça do governo Negrín,
Manuel Irujo, autorizou o culto católico, que, no entanto, na prática realizou-se de
forma semi-clandestina[9]) de forma a não alienar a opinião pública católica
internacional e os próprios grupos católicos no campo republicano (muito notadamente
o principal partido basco, o PNV) o campo republicano era em geral anticlerical e
apoiava a repressão à Igreja. Por outro lado, o escritor e filósofo católico francês
Jacques Maritain protestou violentamente contra as repressões franquistas contra o clero
basco, e teria dito que "a Guerra Santa, mais do que ao infiel, odeia ardentemente os
crentes que não a servem".
Dois contingentes militares
De um lado lutavam a Frente Popular, composta pela esquerda (e extrema esquerda
como o comunismo, anarquismo mas também o governo eleito liberal-democrático) e os
nacionalistas da Galiza, do País Basco e da Catalunha, que defendiam a legitimidade do
regime instalado recentemente no Estado, (a República proclamada em 1931 e os
respectivos estatutos de autonomia).
Do outro lado os nacionalistas (compostos por monárquicos, falangistas, e militares de
extrema direita, etc. O seu referente político (sobretudo para a Falange) era o general
José Sanjurjo, chave da intentona militar de 1932, mas que morreu num acidente aéreo
ao se transladar de Portugal para a zona ocupada pelos nacionalistas. Só durante o
decorrer da guerra, os nacionalistas, chefiados pelo militar Francisco Franco irão aceitar
progressivamente a sua indiscutível liderança.
O "Movimiento Nacional" de Franco
9
10
Estandarte da Legião Condor.
Ver artigos principais: Franquismo e Movimiento Nacional.
A sublevação fascista tentava impedir a qualquer preço que as instituições republicanas
assentassem de maneira estável e permanente o regime democrático, impedindo o
trabalho de um governo real de esquerda que estava para realizar profundas reformas
económicas, jurídicas e políticas no conjunto do Estado. Sob o suposto afã de lutar
contra o perigo do aumento do comunismo e do anarquismo em certos lugares do
Estado, ocultava-se realmente o levantamento contra o regime institucional e
democrático estabelecido, na tentativa de impedir a continuação e assentamento da
democracia e daquilo que os fascistas consideravam intoleráveis experiências de
colectivismo.
Mas outra das claras intencionalidades do chamado "Movimiento Nacional", além de
lutar contra o "perigo vermelho", foi lutar contra o que consideravam o "perigo
separatista" tentando impedir a todo preço a instituição dos governos autónomos nas
nações chamadas históricas.
Aliados à Igreja Católica, Exército e latifundiários, buscavam implementar um regime
de tipo fascista na Espanha,o que consideravam mais condizente com a "originalidade
espanhola (suas tradições políticas de raiz católica e autoritária).No entanto, o
franquismo não foi fascista, se por tal entender-se um regime fundado numa base
política de massa, na mobilização mais ou menos permanente dos seus partidários e no
papel importante atribuído a certos grupos sociais emergentes: mesmo antes da queda
dos regimes efetivamente fascistas, o regime acabou muito cedo por configurar-se como
uma ditadura pessoal apoiada nos grupos dominantes tradicionais, muito semelhante
nisto ao Portugal salazarista.
Os apoios internacionais
Bandeira das Brigadas Internacionais.
11
As tropas do chamado "Movimiento Nacional" foram reforçadas, desde o início da
guerra pela ajuda militar directa da Alemanha de Hitler, expressa no bombardeamento a
Guernica e Madrid, e da Itália de Mussolini, que enviou um corpo de tropas voluntárias
para a frente nacionalista, assim como engajou aviões e submarinos no esforço de
guerra franquista. Portugal de Salazar , embora ocultado sob a capa da neutralidade ,
enviou tropas voluntárias para combater pelos Nacionalistas (a Legião Viriato), permitiu
o abastecimento das tropas rebeldes com armas e logística através de seu território além
de recusar a entrada de refugiados ; a Irlanda tendo embora o seu governo declarado a
participação na guerra como ilegal, cerca de 700 irlandeses combateram pelos
Nacionalistas comandados pelo General Eoin O'Duffy, um veterano histórico do IRA
que na Irlanda presidia os Camisas Azuis, algo entre uma associação de ex-militares e
um partido fascista .[10]
O Vaticano apoiou igualmente Franco, pois a Igreja condenava o comunismo - e
também porque a política anticlerical do governo da República não lhe oferecia outra
alternativa.[11] O papa Pio XI, no entanto, que não tinha simpatias pelo fascismo, e que
em 1937 publicaria a encíclica em alemão Mit brennender Sorge ("Com profunda
preocupação"), condenando a ideologia nazista, não chegou jamais a oferecer um apoio
incondicional ao campo franquista. No País Basco- que ficou isolado do restante da
zona republicana desde o início da guerra - grande parte do clero católico colocou-se ao
lado do nacionalismo basco e pela República, escapando assim à sorte dos seus
análogos no restante do território republicano, onde as igrejas foram saqueadas e os
padres perseguidos como agentes do fascismo. Pelo menos uma figura do alto clero
espanhol, o cardeal-arcebispo de Tarragona Vidal y Barraquer - que havia sido exilado
na Itália pela Generalitat republicana catalã - tentou realizar esforços por uma paz
negociada, o que lhe valeu o desprazer constante do governo franquista, que impediu o
seu retorno a Espanha até à sua morte em 1943, na Suíça. De certo modo, a divisão no
interior do catolicismo mundial encontra-se bem descrita num artigo, muito posterior,
do escritor e católico integrista brasileiro Gustavo Corção que relata como um grupo de
padres bascos, buscando entrevistar-se com Pio XI para conseguirem um protesto seu
contra as perseguições franquistas ao clero basco, teria sido impedido de conferenciar
com o pontífice pelo seu Secretário de Estado, o cardeal Pacelli [2]- que, mais tarde,
como papa Pio XII, seria objeto de fortes controvérsias quanto a sua postura em relação
ao fascismo. O mesmo Pio XII, tendo sido elevado ao papado durante o término da
Guerra Civil, saudou o fim da guerra com a vitória nacionalista no documento Com
imenso gozo e em discurso radiofônico de 18 de abril de 1939.
Em 11 de maio de 2001, o papa João Paulo II procederia à beatificação de 233 vítimas
religiosas da repressão republicana [3]. Uma nova beatificação de outras 498 vítimas
seria proclamada por Bento XVI em 28 de outubro de 2007.Esta última beatificação,
que não foi celebrada pelo próprio papa, não sendo incluída, entre suas celebrações
litúrgicas, foi no entanto, a maior beatificação da história da Igreja Católica[4]. O papa
declarou, na ocasião, a importância do martírio como testemunho de fé numa sociedade
secularizada.[12] Continuam sem solução os protestos dos parentes das vítimas das
repressões nacionalistas ao clero basco contra o que consideram falta de
reconhecimento da hierarquia católica [5]
12
As tropas republicanas receberam ajuda internacional, proveniente da URSS (alguns
assistentes militares e material bélico) e das Brigadas Internacionais composta de
militantes de frentes socialistas e comunistas de todo o mundo e de numerosas pessoas
que a título individual entravam na Espanha a defender o governo da República. Vários
intelectuais europeus e americanos participaram deste esforço, nomeadamente o
romancista americano Ernest Hemingway, o escritor inglês George Orwell, o poeta
também inglês W. H. Auden, os escritores franceses André Malraux e Saint-Exupéry e a
matemática, católica e activista política, também francesa, Simone Weil. Dos brasileiros
que lutaram nas Brigadas - principalmente militares comunistas de prévia militância na
Aliança Nacional Libertadora - celebrizar-se-ia, sobretudo, Apolônio de Carvalho, cuja
atuação nas Brigadas seria seguida, após seu internamento na França, pela sua
participação heróica na Resistência Francesa.
Os governos da Inglaterra e da França, optaram por ficar de fora, impondo um embargo
geral à exportação de armas à Espanha. Oficialmente, este embargo foi furado pela
Alemanha e pela Itália, e não levou a qualquer consequência, na ausência de sanções
impostas pela Liga das Nações).
A política de Stalin e a derrota da República
Assinatura de Franco, anunciando o fim da guerra.
Para os anarquistas e outros críticos de Extrema Esquerda, boa parte da culpa da derrota
do campo republicano espanhol pode ser creditada à política de Josef Stalin, que,
13
desejoso da vitória da República, mas temendo que esta vitória levasse a uma revolução
socialista na Espanha que criasse complicações diplomáticas à União Soviética -pois um
"Outubro Espanhol" criaria uma divisão ideológica na Europa Ocidental que atuaria
contra a política de uma Frente Popular antifascista que era o grande objetivo de Stalin à
época[13] - foi capaz apenas de realizar uma ajuda militar tímida, pelo envio de alguns
militares, aviões e armas (por estas exportações de armas, Stálin fêz-se pagar com a
reserva de ouro do Banco Central Espanhol[14]). Segundo este ponto de vista, instalou na
Espanha uma série de agentes da sua polícia secreta, o GPU, que desencadeou uma
política de repressões indiscriminadas contra militantes de Extrema Esquerda,
anarquistas e trotskistas, visando conter a Guerra Civil dentro de um marco
democrático-liberal. O ponto alto destas repressões foi a prisão e morte sob tortura de
Andreu Nin, dirigente catalão do semi-trotskista POUM - Partido Operário de
Unificação Marxista. Para cúmulo, Stálin ainda encarcerou e matou como traidores os
executantes desta política (tais como o velho bolchevique Antonov-Ovssenko, que havia
comandado em 1917 a tomada do Palácio de Inverno do tsar em São Petersburgo)
quando do seu retorno à URSS, de modo a impedir o questionamento de sua política
espanhola.E Isaac Deutscher sumariza: ao tentar preservar a respeitabilidade burguesa
da Espanha republicana, sem querer antagonizar as democracias liberais européias,
Stalin não preservou nada e antagonizou a todos: a causa da revolução socialista foi
perdida, sem que a Direita européia, por um momento sequer, deixasse de ver em Stalin
o agitador revolucionário.[15]
Teve fim a guerra com a consequência da morte de mais de 400 mil espanhóis e uma
queda enorme na economia, como a morte de mais da metade do gado,a queima de
vários campos e milhões de moradias destruidas. Um abalo financeiro e queda do PIB
que demorou quase 30 anos para se normalizar. Outras fontes ressaltam a dificuldade
em quantificar o número de mortos por causa da guerra originada pelo chamado
"Movimiento Nacional", mas colocam o dado para todo o período do franquismo de
mais de 2 milhões de pessoas mortas sob o regime fascista.
A Revolução Social
Ver artigo principal: Revolução Espanhola
Nas áreas controladas pelos anarquistas, Aragão e Catalunha, somando-se às suas
vitórias militares temporárias, existiu uma grande mudança social na qual os
trabalhadores e camponeses se apoderaram da terra e da indústria, estabeleceram
conselhos operários paralelos ao governo, que estava paralisado, e autogestionaram a
economia. Esta revolução ocorreu à revelia dos republicanos e comunistas apoiados pela
União Soviética. A coletivização agrária obteve um êxito considerável, apesar da
carência de recursos, já que as terras com melhores condições para o cultivo estavam
em poder dos "Nacionais". Esse êxito sobreviveu na mente dos revolucionários
libertários como uma prova de que uma sociedade anarquista pode florescer sob certas
condições como as que haviam durante a Guerra Civil Espanhola.
Mais tarde durante o conflito, o governo e os comunistas receberam armas soviéticas,
com as quais restauraram o controle do governo e se esforçaram por ganhar a guerra
através da diplomacia e do poder bélico. Os anarquistas e os membros do POUM foram
integrados ao exército regular, ainda que a contragosto, e o POUM foi declarado ilegal,
após ser falsamente denunciado como instrumento dos fascistas. Num dos episódios
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mais dramáticos da Guerra, centenas de milhares de soldados comunistas e militantes
anarquistas, ambos antifascistas, enfrentaram-se uns aos outros pelo controle dos pontos
estratégicos de Barcelona, nas chamadas "Jornadas de Maio de 1937". Por trás desse
conflito estava a divergência básica entre PCE de um lado e POUM e CNT de outro:
estes acreditavam que a guerra devia servir para conduzir à vitória na revolução que
tinham iniciado; já o PCE acreditava que a revolução lhes minava os esforços
diplomáticos para ganhar o apoio das potências ocidentais contra o fascismo, assim
como seu esforço de controle sobre a economia e a sociedade de maneira geral.
A guerra civil na Galiza
Na Galiza, zona que ficara na "retaguarda fascista" (militarmente ocupadas logo no
início), a luta republicana encontrou a forma de guerrilhas organizadas que levaram a
luta até depois de 1940.
A resposta através do método das guerrilhas manteve-se na Galiza até 1956 com muita
força, iniciando-se um período de decadência a partir desta data, devida em parte ao
abandono dessa estratégia por parte do PCE, até ocorrerem os últimos assaltos e
combates em 1967, com a morte do último guerrilheiro e o exílio doutros.
Segundo dados fornecidos por diferentes historiadores foram presas ou mortas cerca de
10.000 pessoas relacionadas com a guerrilha galega durante esses anos.
O Franquismo instaurou na Galiza o método dos "passeios" (ir procurar pessoas a sua
casa para "passeá-los", isto é fuzilá-los à noite e deixá-los nas valetas). Através deste
método do "passeio", dos conselhos de guerra realizados contra civis, dos fuzilamentos
maciços dos prisioneiros e dos confrontos armados com a guerrilha morreram 197.000
pessoas galegas (fonte "La Guerra Civil en Galicia" edic. La Voz) durante o regime
franquista, das quais a grande maioria continua em valas comuns. Quanto ao exílio,
cerca de 200 mil galegos fugiram exilados para outros países nesse período.
Por outro lado, os campos de concentração mais conhecidos na Galiza são os de Lubián,
Lavacolla (Santiago de Compostela) e o cárcere de extermínio da Ilha de São Simão
(comarca de Vigo), assim como os respectivos cárceres de cada cidade. Existem ainda
em cada cidade ou vila lugares ainda não reconhecidos de fuzilamento maciço e
continuado de pessoas que foram consideradas "perigosas" para o regime fascista.
Ver também

Cronologia da Guerra Civil Espanhola
Filmografia






A Língua das Mariposas (1999)
Buenaventura Durruti, anarquista (1999)
Durruti en la revolución española (1996)
Libertarias (1997)
Soldados de Salamina (2003)
Terra e Liberdade (1995)



Vivir la utopía (1997)
Por Quem Os Sinos Dobram
O Labirinto do Fauno (2006)
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