Black Magic 01 - Revista Black Rocket

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Black Magic 01 - Revista Black Rocket
www.revistablackrocket.net
Nº 1
Out. 2014
Allana Dilene
Ana Lúcia Merege
Carlos Relva
Charles Dias
Karen Alvares
Marcia Harumi Saito
Melissa de Sá
Pedro Luna
Rodrigo van Kampen
Ubiratan Peleteiro
2
3
Editorial
Número 01 - Outubro 2014
Coordenação e Edição
5
Despertar
Allana Dilene
6
CHARLES DIAS
[email protected]
e
ANA LÚCIA MEREGE
[email protected]
Revisão
DENISE CAMARGO
[email protected]
Editoração
CARLOS RELVA
[email protected]
www.carlosrelva.blogspot.com
Para contatar os autores:
Avatares
Ana Lúcia Merege
14
A Esfera de
Amenethotep
Carlos Relva
22
Além do Reflexo
no Espelho
Charles Dias
38
Lábios de Solidão
Karen Alvares
50
Allana Dilene
[email protected]
Ana Lúcia Merege
[email protected]
Carlos Relva
[email protected]
Charles Dias
[email protected]
Karen Alvares
[email protected]
Marcia Harumi Saito
O Lobo das Portas
Marcia Harumi Saito
56
O Tecer da
Escuridão
Melissa de Sá
68
O Caminho da
Emboscada
Pedro Luna
78
[email protected]
Melissa de Sá
[email protected]
Pedro Luna
Meu Cachorro
comeu uma Fada
Rodrigo van Kampen
96
[email protected]
Rodrigo van Kampen
[email protected]
4
Ubiratan Peleteiro
[email protected]
O Vale do Casal
Ubiratan Peleteiro
Capa: Nick Grey - du1l.deviantart.com
Páginas 2 e 3: Ultima Online.
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iberdade. Você me promete?
Sorriu com a resposta que só ele poderia ouvir. Olhos fechados, os cabelos emaranhados brincando com o vento, agradecendo o afago que recebiam. O corpo frágil parecia também querer ser levado embora, coberto apenas com o
retalho branco que vestia há tempo. Tanto que já não conseguia precisar. Meses, dias,
semanas. Anos, talvez?
Continuou sorrindo diante da própria tolice. Nada daquilo importaria mais. O
céu abria-se diante dos seus olhos, agora abertos, agora capazes de ver. O vento não
apenas acarinhava-lhe os cabelos lisos e compridos, mas parecia abraçá-lo, dandolhe boas vindas. Uma calma real o invadiu, sensação da qual já não lembrava. Carregando uma certeza absoluta, talvez pela primeira vez na vida, lançou o corpo para
fora da janela.
Foi com esforço que se levantou aquela manhã – efeito dos remédios, tinha certeza. Demorava cada vez mais a acordar, e era sempre um sono limpo, apenas ele e a
escuridão. Como um bônus, passava o resto do dia sonolento. Pensava que, qualquer
dia desses, poderia não acordar de novo. A ideia não o desagradava de todo; depois
dos remédios, as visões diminuíram, era verdade. Mas também minguava seu interesse por qualquer outra coisa: leitura, estudo, pessoas. Vivia em um estado que não se
importava se estava ali ou não.
E, se era assim, por que simplesmente não parava de tomá-los?
Paulo tinha medo, esse era o motivo. Medo do que o reflexo lhe guardava, do
que os sonhos lhe reservavam quando voltasse a tê-los. Medo que escondia sob os
cabelos negros, quase sempre desgrenhados. Sob as roupas desleixadas, amassadas e
sem muito cuidado. Sob sua incapacidade de encarar espelhos.
Detestava-os. Evitava encará-los por mais tempo do que o necessário, pois, sempre que se distraía com sua própria imagem, eles estavam lá. Às vezes, de relance,
fortuitos. Em outras, a visão era aterradora demais para que fizesse qualquer sentido.
Os olhos azuis encaravam o computador, exibindo a tela padrão do programa da
loja de sua tia. O toque gelado na sua mão o fez estremecer e voltar a si. Automaticamente, pegou a maquineta de código de barras e efetuou a venda. São R$ 53,29,
senhora. Conferiu o troco duas vezes. – Tenha um bom dia!
Fingiu não notar o olhar preocupado da tia do outro lado do balcão. Sabia que ela
o chamara para trabalhar apenas para tirá-lo de casa, de onde não saía desde que o
tratamento havia começado. Olhou-a e forçou um sorriso rápido. Ela pareceu
constrangida, mas retribuiu o gesto.
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– Como está se saindo, querido?
– Me atrapalhei com os cartões, mas acho que está tudo bem – respondeu, voltando o olhar para o monitor. Gostava da tia, e a semelhança com a mãe até o divertia,
mas não conseguia ver, dentro de si, que se importava com o que ela pensava.
– Não é disso que eu estou falando. Seu empenho eu posso ver, Paulo. Mas... –
parou, como se procurasse as palavras. Inspirou brevemente e continuou. – Mas como
você está se saindo aqui fora?
– Eu estou bem, tia. – olhou-a de volta, o mais normal que poderia parecer. O que
exatamente ela queria dizer com “aqui fora”? – Não precisa se preocupar, eu estou
bem. Quando não estiver, a senhora vai saber.
– E o trabalho? – Léia perguntou depois de algum tempo, sem conseguir disfarçar o constrangimento.
– É chato, repetitivo, mas ajuda a ocupar a cabeça.
Sob chuva, voltaram para casa aquele dia. Os fones de ouvido isolavam-no da
MPB da tia, do barulho do motor e o mantinham acordado. A sonolência chegou
repentina, e a chuva não ajudava. O fone de ouvido também inibia qualquer tentativa
de socialização de Léia, o que já era grande consolo.
Despediu-se quando o carro parou e não esperou a resposta. Correu para o portão,
sacando as chaves do bolso, e entrou em casa meio molhado. Sem se preocupar em
cumprimentar ninguém, foi para o quarto. Tirou os tênis sem desamarrar os cadarços
e desabou no colchão. Logo foi abençoado pela inconsciência do sono.
Os pés roçavam a terra afofada, afundando-se nela sem cerimônia. O cheiro de
solo molhado invadia-lhe as narinas, indicando que devia ter chovido há pouco tempo. A lua erguia-se enorme no céu, banhando em prata as gotas de água na folhagem
espessa da floresta que se abria diante dos seus olhos.
Os sonhos haviam voltado.
Não teve tempo para ponderar. Primeiro, uivos, seguidos de latidos altos e em
diferentes tons. Relinchares altos, trotes desesperado de cavalos e um leve tremor sob
seus pés indicaram-lhe que precisava fugir dali. Sem entender bem o porquê, correu
para a mata.
8
ALLANA DILENE
É um sonho, repetia para si mesmo, enquanto corria desesperado. E sonhos não
precisam fazer sentido. Logo acordaria em cima da cama, e estaria tudo bem. Os
galhos se quebrando sob seus pés, ou machucando seu rosto e braços, faziam-no duvidar dessa certeza tão óbvia. Sentia o suor escorrendo, grudando no corpo inteiro; o
calor abafado no coração da floresta, ausente de vento; a profusão de galhos e folhagens que pareciam querer atrapalhar-lhe a fuga.
Fugia. De quê? Não se atrevia a olhar, não queria constatar o óbvio: estava enlouquecendo. Vozes se juntaram aos relinchos, cada vez mais altos, mais próximos.
Grunhidos, palavras que não conseguia entender. Quase podia sentir o hálito quente
dos animais na nuca. Risadas, gritos. Metal se chocava contra metal, e esse som ia
aumentando, perturbando-o, ganhando formas de um zunido que parecia capaz de
estourar-lhe os tímpanos. Eles estavam vindo, e ele precisava sair dali.
Continuou correndo, adentrando cada vez mais na floresta, que se fechava ao
seu redor. Poucos eram os raios de luz noturna que conseguiam atravessar as folhagens pesadas. Com esforço, Paulo puxava o ar para os pulmões, arfando. O desespero
o impediu de ver as altas raízes de uma árvore enquanto corria. Tropeçou e caiu sonoramente no chão.
Com os olhos arregalados de terror, vislumbrou seus algozes. O líder, uma criatura enorme, com o dorso de um cavalo e o resto do corpo de homem, encarava-o com
um sorriso perverso de ódio. Olhos vermelhos e fumegantes, um rosto quadrado e
largo. Em uma das mãos, uma espada de lâmina larga que emitia um estranho brilho
azulado.
Atrás, seu séquito. Cavaleiros montados, cobertos da cabeça aos pés por um
manto escuro e etéreo, moldado das sombras da noite. Outros vinham a pé, criaturas
de pele esverdeada e cheia de pústulas, mãos desproporcionalmente grandes, com
garras que se arrastavam na areia enlameada. Cães enormes, de patas esquálidas e
olhos de um brilho azul faiscante.
– Finalmente nos encontramos, Alberon! – o líder cuspia as palavras numa voz
retumbante. – Cavalguei por dimensões para encontrá-lo, mas o esforço valeu a pena.
E preso nesta casca mortal, sua magia simplória não o salvará.
– O que quer de mim? – Paulo gritou, a voz esganiçada pelo medo e pelo cansaço. Não fazia ideia do que estava acontecendo, nem do que aquela criatura aterradora
falava. – Me deixe em paz! Saiam daqui!
O pé doía de forma aguda, e sentia o sangue escorrer de um ferimento no calcanhar. A queda havia sido mais grave do que imaginava. As criaturas o encaravam,
cercando-o, aproximando-se lentamente. Um dos cães avançou com um salto, abrindo a bocarra na direção do rosto do rapaz. Por instinto, Paulo levantou o braço e sentiu
as presas arranhando a pele. O líder, porém, tomou a frente, impedindo o avanço dos
outros.
DESPERTAR
9
– Ele é só meu!
Rapidamente, o ser com patas de cavalo brandiu a espada colossal, descendo a
arma na direção do peito do rapaz. Uma outra voz, claramente feminina, proferiu
palavras em um idioma desconhecido, mas estranhamente familiar para Paulo. Um
raio flamejante então cortou o ar, iluminando toda a turba por alguns instantes e atingindo a criatura, que berrou de dor. O golpe, porém, ainda atingiu seu alvo.
Paulo sentiu a lâmina zunir pelo ar e cortar sua carne na altura do abdômen sem
muito esforço. A dor o atingiu de súbito, intensa e incapacitante. Afundou o corpo na
terra suja, gritando de dor. À distância, vislumbrou uma mulher em um vestido vermelho e cabelos compridos vindo em sua direção. Quem seria? Não sabia, mas estendeu-lhe a mão debilmente, antes de cair inconsciente mais uma vez.
Lorde Alberon, líder da Corte Seelie do Norte, brandia sua espada em meio à
horda terrível. Empunhando a lâmina dourada, Alberon proferia encantamentos de
grande poder, dando vida às palavras pronunciadas no idioma tão antigo quanto o seu
povo. O efeito foi imediato: um trovão soou alto, acompanhado de um relâmpago
poderoso, atingindo um grande grupo que cercava ele e seus guardas, derrubando-o.
Aquilo, porém, não bastaria para pôr um fim ao embate.
O conflito entre as cortes Seelie e Unseelie remontava há eras, e como toda
guerra, os verdadeiros motivos que a iniciaram se perderam no tempo e na memória
de seus precursores. Em Arcádia, conhecido entre os mortais simplesmente como
“mundo das fadas”, o confronto já era algo que fazia parte do cotidiano de seus habitantes. Muitas vidas e muitas almas foram perdidas de ambos os lados, e todos os
seres feéricos conheciam a verdadeira forma de destruir verdadeiramente uma fada –
o ferro frio.
O ferro, forjado a uma temperatura mais baixa que a habitual, e levado menos
vezes à fornalha, resultava em armas não tão resistentes, mas capazes não só de ferir
as fadas, como de prender sua alma ao objeto. O corpo de um sidhe pode ser destruído
por meios mundanos, mas com a alma livre, ele não demoraria a retornar à vida. A
ideia desse destino assombrava Lorde Alberon, pois a verdade é que, apesar do conflito constante, a corte Unseelie nunca chegara tão longe.
As hostes assomavam-se às muralhas dos castelos, e as notícias vindas do Sul não
eram animadoras. Ele não tinha dúvida de que aquele não seria o fim do embate, que
perduraria ainda por muitos séculos e milênios, mas as perdas já eram muitas. Ele não
podia simplesmente tombar ali e deixar o seu povo à mercê daquela horda desenfreada.
10
ALLANA DILENE
– Alberon! – o grito se sobressai em meio aos barulhos da batalha. O sidhe de
longos cabelos negros procurou a voz conhecida com os olhos e não tardou a encontrar sua fonte. Sentiu o rosto se contrair e um calafrio descer-lhe pela espinha.
Quíron, a enorme criatura, com rosto e braços como os de um humano e o dorso
forte de um cavalo de pelugem negra, brandia sua conhecida espada larga e empunhava um sorriso diabólico, acentuado pelos olhos que brilhavam como chamas. A lâmina pingava rubro, sangue dos seus outrora semelhantes derramado. Alberon não teve
tempo de se questionar a respeito das motivações daquele que um dia fora seu amigo,
mas sua presença ali explicava o sucesso de tais ataques, pois Quíron conhecia não só
o terreno, mas os pontos vulneráveis e as fraquezas da Corte do Norte. Com pesar, o
lorde sidhe começou a proferir mais um encantamento; um que ele esperava que não
o fizesse recorrer ao Ritual.
O chão sob as patas de cavalo do sidhe estremeceu, e rachaduras começaram a se
abrir. Antes que pudesse perceber o que estava acontecendo, a horda que acompanhava Quíron caiu na fenda que se abriu em segundos sob seus pés. Alberon se concentrava para que a terra atendesse ao seu chamado, mas também para garantir que fadas
seelie não tombassem sob seu próprio feito.
O rugido da terra não conseguiu se sobrepor à voz estrondosa do sidhe corrompido, que, apoiando-se sobre os corpos inertes dos seus soldados, saltou acima da
fenda. Seguindo uma investida colérica, a criatura brandiu sua espada contra Alberon,
atingindo-o em cheio, derrubando-o ao chão.
O lorde sidhe levou a mão ao ferimento no abdômen, os sentidos foram falhando
por um breve instante. Viu seu adversário se aproximar, saboreando antecipadamente
a vitória, e não conseguiu evitar um sorriso dolorido ao ver a expressão do seu rosto
mudar para a surpresa e logo para a ira profunda, conforme a projeção astral de Alberon
desaparecida.
Caindo sem forças sob o próprio peso, o lorde feérico ainda conseguia ouvir os
sons da batalha, agora abafados pelas paredes do castelo. O ferimento no flanco esquerdo sangrava profusamente. O pequeno truque, porém, serviu ao propósito: impedir que seu corpo se perdesse em meio à batalha e sua alma ficasse presa em alguma
arma mundana do inimigo. Aquele golpe, porém, seria fatal. Alberon sentia, com o
sangue, esvair também a sua essência. Era o momento de começar o Ritual.
Foi carregado pelos braços. Sua esposa Thea e um dos magistrados arrastavamno com esforço pelos corredores do castelo.
– Sigam... o plano de fuga. Quíron... está entre eles... e... não vai... parar até que...
DESPERTAR
11
– Já está tudo pronto, querido. Você sabe que ficaremos bem – respondeu-lhe a
esposa arfante, provavelmente mais para si mesma do que para ele. O rosto naturalmente corado na ninfa estava pálido; seus trajes, banhados pelo sangue do marido.
Não tinham muito tempo.
O cortejo debilitado chegou à sala iluminada por chamas azuladas, e no chão um
círculo apinhado de runas estava desenhado. Alberon preparara tudo antes, na esperança de não utilizá-lo. Com esforço, deixou o abraço da esposa e adentrou na área, e
os símbolos emitiram um leve brilho, reagindo à sua presença. Sua alma deixaria
Arcádia, e, um dia, ele deveria retornar. Não sabia precisamente quando ou como,
mas aquela era a única chance que tinha. Se morresse ali, todo o conhecimento que
carregava e toda a magia latente seriam perdidos e, talvez, em algum ritual profano,
até usados contra seu povo.
Seu destino, agora, era o mundo dos mortais. Lá ele estaria seguro dos inimigos
– da corte Unseelie, da vingança irascível de Quíron, da obliteração por uma arma do
gélido metal. Sua alma habitaria um corpo de alguém – algum mortal com quem
partilhasse parentesco de sangue. E lá ele ficaria até o momento em que a batalha o
chamasse novamente.
Olhou mais uma vez para a esposa e viu lágrimas ferirem a beleza de seu rosto.
Quis consolá-la, dizer que se reencontrariam, mas sabia que o tempo era curto. Lutando contra a própria inconsciência, Alberon pronunciou as palavras do encantamento.
Os sons ao seu redor foram esmorecendo, e ele sentiu seu corpo desfazer-se em mil
pedaços, como se forças diversas o puxasse em todas as direções. Não podia ouvir a
própria voz, mas sentiu que gritava de dor. A luz das runas aumentava cada vez mais,
e logo ela tomou toda a sala, cegando-o.
Paulo acordou gritando para o quarto, de dor e de medo. Tudo sonho; não passavam de sonhos. Gargalhou histérico da situação. A floresta, a perseguição, a batalha,
nada além de um sonho perturbado.
A porta foi aberta estrondosamente. Sua mãe, descabelada, olheiras e a camisola
desajeitada no corpo. Viu a expressão de horror crescer no rosto dela, mas não entendia o porquê. Puxou o ar para explicar e sentiu o líquido rubro espalhar-se pelo colchão. Seu sangue, de um ferimento na barriga. O pé esquerdo, definitivamente quebrado. A janela aberta dava para o jardim, e a lua ia alta no céu, indiferente.
12
ALLANA DILENE
Paulo não se dava mais ao trabalho de olhar quem entrava no seu pequeno quarto
de hospital. Na maior parte do tempo, estava tão drogado que quase não reconhecia
ninguém além da família imediata. As enfermeiras o tratavam com condescendência,
e ele já não se importava. Ninguém acreditaria no que quer que ele dissesse. Estava
louco.
No entanto, nunca ficava só. Sempre que estava acordado, via Thea em algum
lugar do quarto. Sua forma esbelta, seus vestidos esvoaçantes, seu longo cabelo
acobreado descendo em cascatas irregulares pelos ombros. Ela sempre sorria para ele,
sempre o chamava, carregando nos olhos uma tristeza tão profunda que quase podia
tocá-la. O que a deprimia tanto?
– Sua condição, meu amor – um dia, ela respondeu, mesmo que ele não tenha
falado uma palavra. Sua voz soava como a mais doce e melancólica das melodias. –
Por que continua aqui? Não percebe que este não é o seu lugar, e sim sua prisão?
Ele virou o rosto apavorado. Quis chamar alguém, quis gritar por ajuda, mas
algo dentro de si o impediu. E se os sonhos com esse tal Alberon fossem verdadeiros?
E se as criaturas que o espreitavam pelos reflexos fossem seus inimigos conspirando
à sua volta? Seus ferimentos, naquela noite, eram bem reais.
Não! Era mentira, era tudo mentira. Ninguém mais os via, eles não existiam, não
havia nenhuma Thea ali. Lágrimas aqueceram o rosto, apenas para que o jovem sentisse os dedos da fada afastá-las.
– Venha comigo, meu amado. E terá a liberdade que tanto deseja. Prometo!
– E... tudo vai parar? – balbuciou. – Os sonhos, os monstros nas sombras quando as pessoas estão olhando?
A ninfa assentiu, presenteando-o com o mais acalentador dos sorrisos. Ele, então, pegou na sua mão, levantou-se do chão gelado e se deixou levar. Antes que percebesse, estava diante da janela aberta, sentindo o vento brincar com seus cabelos escuros. Não era o vento. Agora podia ver. Eram pequenas criaturas, de asas e contornos
transparentes, que brincavam com seu rosto. Agora podia ver. Agora seus olhos estavam abertos. Sorriu, como não fazia há muito tempo, e pulou.
DESPERTAR
13
14
I
Dizem que os deuses morrem quando os homens abandonam suas crenças.
Isso é um engano: os deuses são mutáveis, mas eternos. Destituídos de seu
reino, resta-lhes vagar pelo mundo em novas formas, disfarces sob os quais
ocultam seu poder. E aguardam, às vezes durante eras, o momento em que voltarão a se revelar.
II
Shiva caminha entre os artesãos de uma praça, homens esfarrapados de
quem só se distingue pelo crescente preso ao cabelo. Como eles, usa tranças
grossas cobertas de sujeira, a pele azul do pescoço escondida por um colar de
ossos. São ossos humanos, milenares, colhidos nas piras funerárias de muitas
vidas atrás. Mas passam por uma das joias que os companheiros de agora dispõem sobre a calçada.
Shiva não é artesão. Seus olhos fitam complacentes as pulseiras de miçangas,
os cachimbos de madeira decorados com figuras em resina. Também não é mendigo, embora, uma vez por dia, se apresente nos fundos de um restaurante e estenda
uma vasilha que lhe devolvem cheia de restos de comida. A maior parte do seu
tempo é passada sob uma estátua, a única sombra da praça sem árvores, ou, quando
chove, sob a marquise de um prédio que abriga toda a tribo dos artesãos. Ali, em
meio ao caos urbano, ele medita com as pernas cruzadas, mãos desenhando mudrás,
indiferente às pessoas que se detêm para observá-lo e, não raro, zombar daquele
que consideram apenas mais um louco.
Algumas noites, quando as estrelas somem do céu, uma mulher se esgueira
para junto de Shiva. É Shakti, ou Durga, ou Parvati – sua consorte encarnada
numa dessas moças de saias longas e cabelo emaranhado que trançam pulseiras
de palha. Ela se aperta nele sem nada dizer, solas dos pés contra solas dos pés, o
suor grudando sua pele às cinzas sobre a pele de Shiva. Uma serpente aflora do
sexo de ambos, enrosca-se ao redor de seus corpos, as vozes murmurando um
mantra em meio a gemidos. Depois, a mulher enfim saciada adormece nos braços
de Shiva, sem perceber que o deus permanece imóvel e vigilante até o nascer de
uma nova manhã.
Um dia o sol não surgirá, propiciando aos demônios a escuridão de que precisam para se aventurar fora de seus covis. Uma sombra se espalhará sobre a terra e
os homens gritarão, seus prédios e monumentos em escombros, refletindo o que há
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tanto tempo vêm fazendo de suas almas. Alguns poderão resistir, mas sofrerão com
o caos e o terror antes que a espada de Kalki flameje com a luz de uma nova era; e
é por isso que, nas noites escuras, Shiva se obriga a manter os olhos abertos, apesar
da fome e do cansaço que o acompanham nesta estranha encarnação.
Ele precisa saber quando iniciar sua próxima dança.
III
A noite cai sobre os jazigos quando começa o turno de Anúbis. Poucos o
veem, menos ainda o cumprimentam: é uma figura discreta, o rosto agudo
ensombrado pelo boné. Assim que ele chega, toma o resto já frio de café da garrafa
térmica, depois confere o quadro de capelas, marcando com um sinal quase invisível as que estão ocupadas. Faz parte de suas atribuições visitá-las durante a noite,
dar condolências a parentes enlutados e orientá-los sobre o uso das dependências
do cemitério. As reservadas aos vivos, por enquanto. Não lhe compete antecipar o
que virá depois.
Ele deixa os velórios para mais tarde e envereda pelas aleias onde estão os
jazigos. Alguns têm a intenção de ser imponentes, monumentos encimados por
cruzes e anjos de espadas na mão. Anúbis não se detém para admirá-los. Para
olhos como os seus, acostumados à visão das pirâmides, não passam de grãos de
areia. Também as sepulturas mais humildes lhe são indiferentes. O que procura
não se encontra dentro delas, mas o que porventura tenha ficado de fora: uma
alma separada do corpo, atordoada e perdida em meio ao caminho para o Reino
dos Mortos.
Em tempos como os de agora, isso é cada vez mais raro, mas ainda pode
acontecer. Anúbis não os vê baixar ao túmulo, os enterros são sempre de dia, mas
basta que caminhe devagar entre as aleias para sentir a presença de uma alma perdida. Ele ergue o rosto de perfil pontiagudo e fareja – o odor da morte e do medo
guiando-o até o que buscava – o vulto atormentado de um espírito que se debate
entre dois mundos.
É então que o deus-chacal realiza seu trabalho.
Ele não fala, nem espera que lhe falem. Sabe que os homens esqueceram as
palavras que os aproximam do sagrado. Tudo que faz é acenar para que o espírito o
acompanhe, passando pelo véu invisível aos que ainda habitam seus corpos e caminhando pela trilha que leva ao salão de Maat. Cenas esparsas surgem ao seu redor
enquanto avançam, recordações daquele que se foi deste mundo e que agora treme,
compreendendo o que o espera ao fim da travessia. Anúbis o protege e o consola,
16
ANA LÚCIA MEREGE
encorajando-o a enfrentar o julgamento final: seu coração no prato de uma balança,
tendo como contrapeso uma pluma de íbis.
No início eram muitos os que passavam pelo teste, mas hoje Anúbis os
conta nos dedos, e há décadas vem usando a mesma mão. O veredito é sempre
o mesmo, irrecorrível. Ele recua para o fundo da sala, ouvidos e olhos cerrados
à aproximação de Ammit, o monstro que destrói as almas e devora os corações.
Mesmo assim, não tem como deixar de perceber sua entrada, de se afligir com
o bote e com o grito daquele que deixa de existir para sempre; e é em meio a
esse lamento que se vê, de novo, cruzando o véu e regressando a seu disfarce
terreno.
Seus pés calçados em sapatos grosseiros percorrem o caminho de volta. Nas
capelas do cemitério, famílias esperam o nascer do dia para enterrar seus entes
queridos. Todos têm almas tão escuras que nem sequer chegaram a despertar para a
trilha. Anúbis não pode se impedir de sentir por eles, e a melancolia se traduz em
soluços logo transformados em um hino fúnebre. Sua voz é áspera como um uivo
sob a lua. Ninguém jamais saberá o quanto ele tem tentado.
IV
O dono do morro já não sabe viver sem Hermes.
Ele é mais rápido e mais hábil do que todos os outros. Desde pequeno, encarregado de alertar sobre a chegada da polícia, sua pipa ganhava o céu antes das
demais, e até os rojões que soltava pareciam fazer mais barulho. Agora é um adolescente de cachos negros e sorriso branco, passeando impunemente com a mochila que os patrulheiros não tentam revistar. Lá dentro, CDs piratas, quadrinhos e
livros escolares se misturam a pequenos pacotes que ele carrega sem jamais haver
tocado no que contêm.
A juventude se prolonga no corpo de Hermes. Ninguém pensa em lhe dar mais
poder, nem sequer uma arma, neste lugar em que outros mais novos já carregam
metralhadoras e fuzis. Ele não se importa. Prefere ser o eterno menino, percorrendo
em passo acelerado os degraus que partem do morro e terminam nas portas do
inferno. É lá que vivem aqueles a quem leva as encomendas: uma gente aflita.
Alguns com o olhar perdido, outros irrequietos, mas todos presos a uma fome que
os faz atirar-se sobre Hermes tão logo que o veem chegar. Querem o que ele fornece e ainda mais: o adiamento de uma dívida, o perdão, às vezes tão somente alguém
que os ouça enquanto desfiam suas queixas e problemas. Ele recebe pagamentos,
ouve propostas e súplicas e promete transmiti-las, mas deixa claro que a decisão
AVATARES
17
cabe ao dono do morro. Ele, Hermes, é apenas o emissário. Ninguém pode culpá-lo
pelas más notícias.
Ele se esquiva de tudo que interrompa seu trajeto. Não apenas os clientes, mas
a polícia, as facções, as meninas com quem faz amor e, às vezes, um filho. Quando
lhe cobram o que quer que seja, barganha, negaceia; se o pressionam, diz as palavras certas, acalma-os com promessas e presentes. Os credores hesitam enquanto
ele espera, cabeça baixa a fingir humildade, embora saiba que no fim sairá impune.
É assim desde o início dos tempos, quando apaziguou com uma lira a cólera do
deus do sol.
As encomendas esperam, misturadas às coisas de menino em sua mochila.
Do mirante mais alto, Hermes contempla a cidade. O morro é o centro do mundo
e o mundo está a seus pés. Ele franze a testa, lembrando-se do que ouviu tantas
vezes: que não precisa estar ali, que alguém como ele pode chegar onde quiser e
construir seu próprio futuro. Ouviu de muita gente, por isso lembra e até reflete
por alguns instantes, mas no fim dá de ombros. Não há promessa de futuro que
compense o que tem agora, ali no centro do universo, com o vento nos cabelos e
os pés em tênis da moda, ornados de minúsculas asas. E, embora seja capaz de
voar, o que faz é descer novamente pelos degraus, levando na mochila sua carga
de pó e pedra.
Um mensageiro deve cumprir sua missão.
V
Entre os ruídos ensurdecedores do canteiro de obras, destaca-se o som de um
martelo. É Thor, o senhor do trovão, incansável na tarefa que se prolonga até o
crepúsculo. Aos sábados, ele recebe o pagamento acrescido de horas extras, um
grosso rolo de notas que os outros homens contemplam com inveja. Ele não vê, ou
não percebe, seus olhos de um azul límpido alheios às coisas mesquinhas. Grande,
forte, vasto. Assim é tudo que se refere a Thor.
Ele quase não cabe no apertado chuveiro do alojamento. Nas partes não
expostas ao sol, sua pele é branca como leite, o peito recoberto por pelos tão
vermelhos quanto sua barba. Se escutasse os murmúrios, Thor saberia que é
esse o maior motivo de estranheza entre os companheiros, assim como o sotaque carregado que lhe sai dos lábios sempre que fala. É um acento indecifrável,
mas de alguma forma faz pensar em terras frias, com mares de gelo flutuante
e um céu de perpétua tempestade. Um estrangeiro – é o que todos supõem.
Talvez um marinheiro que aqui desceu do navio. E, embora ninguém a confir-
18
ANA LÚCIA MEREGE
me, a nova lenda se constrói ao perceberem que Thor frequenta os bares do
porto.
Em geral é aos sábados, mas às vezes também em outros dias. Basta que ele
seja tomado pela inquietude e pela saudade de antigas batalhas. Nessas ocasiões,
terminado o trabalho, não se limita a devorar o jantar e ir para a cama, como faz na
maioria das noites. Não esbraveja contra os vários rádios ligados no alojamento.
Sem se lavar, as roupas e os cabelos duros de poeira da obra, dirige-se à zona
portuária, onde se alinham espeluncas frequentadas por marinheiros e trabalhadores. Thor as percorre devagar, observando cada um daqueles homens até sentir, na
atmosfera que os envolve, a vibração que denuncia um velho inimigo.
Gigantes. Eles também estão aqui, mal disfarçados em fardas de várias Marinhas e na pobreza dos estivadores. Aos olhos dos mortais, passam por homens
comuns, barulhentos, beberrões e de físico avantajado. Assim também lhes parece
Thor, e o evitam pelas mesmas razões, deixando-o às voltas com a sede de bebida
e de batalha.
Ele esvazia copo após copo do destilado acre que é servido no bar. O calor
cresce em seu sangue, tornando a espera quase insuportável, a mão crispada sob o
casaco de cotovelos puídos. Os gigantes bebem, gargalham, discutem por motivos
tão fúteis quanto um jogo de bola. Alguns saem do bar acompanhados por mulheres, mas outros ficam até a madrugada, quando as ruas estão escuras e há muitas
esquinas desertas. É nelas, longe de olhares mortais, que Thor prefere enfrentá-los.
Ele os segue pelas ruas vazias, os passos cada vez mais rápidos sobre as pedras gastas do calçamento. Ao alcançá-los, jamais ataca pelas costas: o senhor do
trovão não é um covarde. Ao contrário, posiciona-se diante deles, seja um ou vários, e grita seu desafio. Muitos não o entendem, tentam apaziguá-lo com ofertas de
dinheiro, que ele recusa com um rugido e o rosto cada vez mais rubro de fúria. Isso
afugenta alguns dos gigantes, mas outros se deixam inflamar pela cólera e arremetem sobre Thor com os punhos cerrados, gritando nomes indizíveis. É só então que
ele saca das vestes o martelo forjado pelos anões.
Gritos selvagens ecoam junto ao som dos ossos feitos em pedaços. Ele golpeia sem misericórdia, salta sobre um ferido que procura fugir de rastros e golpeia
de novo. O som das pancadas do martelo ecoa pelas vielas estreitas. Os gigantes se
encolhem no chão, agora não resistem mais, gritos e pragas se tornando débeis
gemidos enquanto ele continua a bater, a quebrar, a esmagar até que a vida se
esvaia daquelas montanhas de carne e sangue.
Gigantes, inimigos de Asgard, agora não mais.
A claridade da manhã se insinua ao longo das ruas sujas. Em poucos momentos, pessoas emergirão de suas casas, humanos cujos olhos e mentes não reconhe-
AVATARES
19
cem a majestade de Thor. Sabendo disso, ele se afasta, embora não resista a olhar
para trás e contemplar sua obra ao mesmo tempo grandiosa e terrível. Então, com o
martelo bem guardado para a próxima vez, mergulha no anonimato das ruas, contente por haver cumprido seu dever, como fazia em outros tempos junto às muralhas de Asgard.
Oito mundos se foram, mas este permanece, e é a Thor que cabe protegê-lo.
Enquanto houver um só inimigo sobre a terra.
Enquanto a sucessão das eras não trouxer um novo Ragnarök.
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ANA LÚCIA MEREGE
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22
A
tlântida está em ruínas! Centenas já pereceram. A lava se espalha
rapidamente, e o que não destrói o mar carrega. Fogo e água! Mas,
afinal, quem sou eu? Sei apenas que estou seguro, pelo menos por
enquanto, no templo de paredes douradas no centro da ilha. Também
sou de ouro. Sim, sim, sou Poseidon! Eles imploram por mim. Os homens, as
mulheres e as crianças! Pedem ajuda e misericórdia. Mas não posso fazer
nada por eles. Não desta vez...
Oh, agora sou Enki! E de E-abzu, meu zigurate nas águas profundas,
vejo os sumérios sobreviverem ao dilúvio de Enlil. A humanidade levantou-se
uma vez mais! E novamente da água... Mas, afinal, o que significa tudo isso?
E por que estou me lembrando dessas coisas?
Nova revelação: sentada em um lótus branco, tocando com harmonia o
meu sitar, observo o lento fluir da cultura humana. Sou Sarasvati, esposa de
Brahma, o criador do mundo. Que a minha música traga a sabedoria! Sabedoria... Percebo uma ligação agora. Uma ligação com as outras duas “existências”. Tudo está conectado. Mas em que isso vai dar?
Interessante! Agora sou Shennong, um dos Três Soberanos e, desta vez,
morrerei. Morrerei pela humanidade! Mas não antes de ensinar aos chineses o
cultivo da terra e a extração dos medicamentos das plantas. Meu povo será
longevo! E tudo está ficando claro para mim. Minha mente se abre. Já sei qual
é o meu propósito. Qual será minha próxima personificação? Thoth, talvez?
Eu sou uma ideia e um ideal. Eu sou um norte a ser seguido; idealizado
pela mente coletiva dos mortais, mas idolatrado como um deus. Sou criador e
criatura, pois do esforço dos homens nascem as culturas, mas a mim essas
culturas são creditadas. Rejeito isso? Não. É um sistema sinergético. Eles desprendem esforço intelectual para me fazer existir e, em troca, lhes dou a energia
para construir civilizações. Sou a base invisível que sustenta suas cidades e,
apesar disso – ou por causa disso –, sou a base mais forte. Mas não sou só
força. Sou também esperança, contentamento e plenitude. Mas, infelizmente,
muitos lutam por mim. Muitos morrem por mim!
Mas as conexões se perdem aqui. Sei que neste ponto sou Thoth, mas o
meu posto está ocupado por outro deus. Um falso deus. Um usurpador! E seu
nome é Amenethotep... Não, usurpador é uma palavra muito forte. Suas intenções são as melhores, mas ele não deveria estar aqui. Nem ele e nem a sua
Esfera. Um artefato de poder, que foi construído muito antes, na era de
Atlântida, e que aguardou pacientemente a sua chegada. Porém, deveria ter
aguardado um pouco mais...
Agora que tudo estava se esclarecendo, voltei à confusão. E por que
minha mente é jogada mais além, no futuro? Talvez porque o tempo não é
uma linha rígida, inflexível. É mais como o mar, cíclico e fluído. Suas ondas
vêm e vão. E como o passado e o futuro estão conectados, eu sinto um ponto
distante no tempo fortemente ligado a esta era, onde estou personificado como
Thoth. Devo investigar essa conexão...
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Pirâmide de Quéops, Egito
15 de março de 1994 - 21h36
– É difícil acreditar que estamos na pirâmide de Quéops, apenas para encontrar
um Olho de Gato de Jade! – surpreendeu-se Penélope, a encantadora assistente e
aprendiz de artes ocultas do Dr. Rafael Enigmus.
– Espero que tudo seja esclarecido pela nossa “anfitriã” – respondeu o doutor,
enquanto entravam na Câmara do Rei.
– Dr. Enigmus! – disse uma bela mulher morena, de cabelos longos e lisos – O
“detetive do insólito”... é assim que o chamam, não?
Enigmus assentiu com a cabeça, apesar de odiar o título.
– Fico muito feliz que tenham vindo – ela continuou, cumprimentando Enigmus
e Penélope – Sou Helen Heltm, egiptóloga do Museu do Cairo, e, apesar de não ter
podido passar maiores informações por telefone, agora vou deixá-los a par de tudo:
homens misteriosos subornaram um dos seguranças da pirâmide e entraram nesta
câmara com uma joia muito especial. Entretanto já vasculhamos tudo e não encontramos ninguém. É como se eles tivessem evaporado no ar!
– Então interrogaram o segurança? – perguntou Enigmus.
– Sim, mas ele não nos passou mais nada. Disse que nunca os tinham visto
antes e, mesmo assim, não pensou duas vezes em sabotar o sistema de segurança
quando lhe ofereceram uma polpuda soma em libras. Na verdade, também desenhou isto aqui.
Helen estendeu um pedaço de papel para o doutor.
– Hum, interessante... – Enigmus analisou o rabisco à caneta. Eram três meiasluas enfileiradas, uma levemente maior que a outra, dando sensação de movimento –
Onde ele viu isso, professora Heltm?
– Lhe diz algo? Estava no prendedor de gravata de um deles.
– É o símbolo do Ruído – ele afirmou.
– Não é uma organização secreta que quer dominar o mundo? – perguntou
Penélope.
– Eles querem dominar a informação e, assim, dominar o Universo – ele esclareceu.
– O Ruído... – pensou alto a egiptóloga. A palavra escapou-lhe da boca, parecendo resgatar lembranças antigas. Percebendo que sua reação ao nome tinha sido notada
pela dupla de ocultistas, pegou o papel das mãos do doutor e tentou dissimular, afastando-se – Espero que vocês possam nos ajudar.
Enigmus e Penélope apenas se entreolharam, desconfiados...
24
CARLOS RELVA
Ó Amenethotep, tu deixou-nos o Sinal!
O Sinal é o Nome, e o Nome é o Vermelho.
E os lugares seguros estarão ligados à tua cor:
a pirâmide d‘O Vermelho’ será o primeiro,
a montanha atlante de oricalco, da cor do fogo, o segundo.
E assim, sucessivamente, até o nome vermelho-brasa
da inalcançável ilha de minas de cinábrio vermelho,
e do misterioso reino de árvores de cerne rubro.
Terras homônimas [Hy Brazil e Brasil?*],
distantes no tempo e no espaço.
– O Cântico Vermelho, extraído do Livro Vermelho do Antigo Egito
* Nota de Rafael Enigmus
Palácio do faraó, Egito: 2570 a.C.
– Montuemhat, conte-me uma história! – disse Hetep-heres II, mais como uma
ordem do que um pedido, entrando de súbito nos aposentos do religioso.
O velho sumo sacerdote, evidentemente, assustou-se com a princesa. Sentavase no chão, de pernas cruzadas, e um papiro descansava sobre o saiote esticado. Era
o enigmático Livro Vermelho de Amenethotep, uma nova cópia, que ele revisava
com atenção.
– Quero uma boa história, daquelas que só você sabe contar – Ela continuou,
indiferente ao estado taquicárdico de Montuemhat.
Mas, na verdade, já era tempo dele estar acostumado com as inesperadas visitas
da pequena e irrequieta menina. Com apenas dez anos, Hetep-heres já dava muito
trabalho à guarda do faraó e aos religiosos do templo, ora se escondendo por entre as
intermináveis colunas do palácio e passagens secretas que ela mesma descobria, ora
fugindo para os templos sagrados. E foi devido a essas peraltices que os lacres do
Santuário dos Santuários, o espaço mais importante do templo, precisaram ser reforçados. Afinal, o local que deveria ser restrito ao faraó e aos altos sacerdotes, vivia
bisbilhotado por ela.
Já recomposto, Montuemhat olhou com reverência para aquela pequena figura
espevitada. A peruca negra, de fios muito finos, emoldurava a bela e delicada face
morena da menina, que tanto se assemelhava à da rainha Meritates, sua mãe. E os
trajes luxuosos, impecáveis, confirmavam as importantes festividades que ocorreriam
no palácio. O sacerdote gostava muito da princesa e tinha-lhe o apreço que se tem a
um filho. Filho que sua esposa nunca pode lhe dar. E apesar da arrogância e con-
A ESFERA DE AMENETHOTEP
25
vencimento comuns aos da família real, sabia que a menina era de bom coração. Chegava a ser difícil imaginar que, em suas veias, corria o mesmo sangue do tirânico e
megalomaníaco Khufu.
– Hum, uma história? – finalmente respondeu Montuemhat – Tenho muitas para
contar. Como a vez que viajei para um tempo distante, encontrando homens estranhos
que falavam línguas desconhecidas. Ou quando conversei com as serpentes de Dendera.
Ou, ainda, quando presenciei as profecias do Oráculo no templo de...
– Não! – interrompeu Hetep-heres, enquanto se empoleirava numa Ísis quase
terminada, ao lado de uma estante de papiros – Quero outra história. Uma nova! Uma
que você nunca tenha me contado!
– Cuidado, princesa, você pode se sujar ou, pior, se machucar! – Ele a advertiu, já
pensando em uma narrativa. Ela estava mais inquieta do que de costume, provavelmente ansiosa pelas festividades que começariam em breve em comemorações a gloriosa
expedição de Khufu à Núbia. Uma grande campanha militar que havia trazido mais
escravos e riquezas ao faraó. Era evidente que Hetep-heres queria uma prosa rápida,
apenas para entreter-se momentaneamente. O papiro em suas mãos lhe deu a inspiração.
– Pois bem, já lhe contei sobre a Esfera Mística de Amenethotep?
– Não – respondeu Hetep-heres, largando a estátua e sentando-se próximo a ele,
com os cotovelos apoiados nos joelhos e o queixo nas mãos – Amenethotep é o deus
morto guardado na pirâmide de meu pai, certo?
– Correto, princesa! – Montuemhat percebeu que já havia conseguido a sua atenção. Os olhos da menina estavam grandes, curiosos! Continuou: – Ele veio de um
lugar distante, além do firmamento, para acompanhar o reinado de seu pai. Infelizmente, na chegada, sua barca voadora teve problemas e caiu ao sul, perto da montanha
Ta Dehent. O acidente destruiu a barca e feriu-o gravemente.
– Como era Amenethotep? É verdade que ele e o Deus-Rei Osíris são um só?
– Isso é tolice de alguns religiosos! E também tem aqueles que o confundem
com Seth! Mas, na verdade, é difícil descrever a aparência de Amenethotep. Tinha a
forma de um homem, mas com três metros de altura. Seu corpo era robusto; e seus
braços e pernas, delgados. As mãos e pés também eram finos e terminavam em dedos
extremamente pontiagudos. A face assemelhava-se a nossa e, assim como todo o corpo, tinha a cor do ocre avermelhado, marcado com símbolos misteriosos. E os olhos,
que pareciam um intrincado jogo de anéis, moviam-se estranhamente, lentamente...
– Por Hórus! – exclamou a jovem princesa – Ele era realmente esquisito!
– Sim. E tenho dúvidas se seu pai realmente o considerava um deus. E, apesar de
tê-lo batizado de Amenethotep, pois seu verdadeiro nome era impronunciável, preferia chamá-lo simplesmente de “O Vermelho”. Aliás, era desejo do próprio Amenethotep
26
CARLOS RELVA
que tudo que provasse sua existência fosse destruído. Até encomendou a construção
da pirâmide para esconder na base os destroços de sua barca e, numa câmara misticamente fechada, os seus restos mortais. É por isso que não há descrição dele nas paredes do gigantesco templo e em nenhum outro lugar.
– E por que ele fez isso, Montuemhat? Por que não quis que as gerações futuras
conhecessem sua história?
A pergunta o divertiu. Fazia Hetep-heres parecer adulta.
– Amenethotep tinha muitos inimigos. Neste e em outros mundos... Por isso, não
queria que descobrissem o seu paradeiro.
– Entendo. Eu acho... – interrompeu a pequena princesa. – Mas, e a esfera mística? O que aconteceu com ela?
Entretanto, Hetep-heres teria que aguardar a resposta para outra hora. Naquele
momento, guardas do palácio vieram lhe buscar. As cerimônias já começariam.
Num supetão, ela levantou-se e correu em direção à porta, deixando o sacerdote
para trás. Lembrou-se dele apenas quando já estava no corredor.
– Montuemhat, depois você continua a história, tudo bem? – voltou para dizer –
Aliás, você não vem?
– Sim, princesa! – ele respondeu com um sorriso – Só preciso terminar algumas
coisas aqui.
Pirâmide de Quéops
15 de março de 1994 - 22h15
Apertando o lóbulo da orelha direita – seu típico cacoete – Enigmus ainda tentava descobrir o destino dos agentes do Ruído.
– O Livro Vermelho, um lendário documento egípcio do qual nós só conhecemos as passagens transcritas em outros livros, parece citar uma câmara mágica nesta
pirâmide. Misticamente lacrada, só poderia ser acessada ao se pronunciar o nome do
Deus Vermelho.
– Seth? – arriscou Penélope.
– Seria outro deus vermelho. Um deus esquecido, pois não consta em nenhum
outro documento egípcio.
– Amenethotep? – disse a egiptóloga, quase sussurrando.
– Sim, esse era o nome que os antigos egípcios lhe deram – disse o doutor – Mas
acredita-se que ele era na verdade um... alienígena! Tinha poderes incomensuráveis e
possuía outro nome, hoje desconhecido.
A ESFERA DE AMENETHOTEP
27
– Shhmotreed´mogoiinht – ela disse.
– Pelo Deus Decapitado! – exclamou Penélope, quando a parede às suas costas
desapareceu.
2570 a.C.
Enquanto finalizava a revisão do livro profético, confeccionado pelos melhores
escribas do faraó, Montuemhat não conseguia tirar a lembrança da esfera mística de
Amenethotep da cabeça.
Ele não teve chance de contar à princesa a parte mais instigante da história: o
desaparecimento do artefato! Tampouco disse a Hetep-heres sobre o medo que assolou a todos quando isso aconteceu. Na ocasião, a sombra da incerteza e do terror
pairou sobre o Egito e muitos temiam o destino daquele poderoso objeto. Como a
esfera havia desaparecido? Perguntavam-se uns. Foi roubada? Indagavam-se outros.
Mas quem faria isso e por quê? Teriam sido os inimigos do faraó?
Buscas foram realizadas à procura da esfera. Recompensas prometidas a quem a
encontrasse. Mais nada. Nem uma pista.
Então, como era de se esperar, o tempo fez sua parte diluindo o medo. E o desagradável pressentimento de um ataque inimigo se dissipou aos poucos. Dia após dia,
lentamente, a vida dos egípcios voltou ao normal.
“Mas que fim levou?”, ainda se perguntava Montuemhat. Provavelmente a
esfera, que tinha o tamanho de uma cabeça humana, estava enfeitando a cabana de
algum chefe tribal do deserto, ignorante dos seus poderes ou de como decifrá-los.
Era essa a ideia que o consolava há algum tempo. “Mas, se tudo iria terminar assim,
por que Amenethotep ensinou-nos o Cântico Vermelho, o código para localização
da esfera?”.
E, ao pensar nele, Montuemhat recordou-se da última vez que o viu vivo. Isso há
mais de dez anos, quando o estranho deus já agonizava por duas longas décadas.
Estava em uma câmara no subsolo do palácio do faraó, provisoriamente hospedado
até que a pirâmide, sua última morada, ficasse pronta. E os religiosos organizaram
uma escala da guarda para protegê-lo. Não que a divindade realmente precisasse dos
sacerdotes, mas assim havia determinado o faraó.
E, naquela noite especialmente fria, quando estava em seu turno da guarda:
– Montuemhat? – disse Amenethotep – Esse é seu nome, não?
O sacerdote hesitou, mas assentiu. Horherwenemef, então o sumo sacerdote,
havia proibido os religiosos de falarem com a criatura-deus. E uma das virtudes de
Montuemhat era a total obediência aos seus superiores e ao faraó.
28
CARLOS RELVA
– Venha, homem! – ordenou Amenethotep – Não tenha medo! Você é uma boa
pessoa. Eu sinto isso em meu coração e quero lhe mostrar algo interessante.
Montuemhat aproximou-se aos poucos, desconfiado. Tinha medo, mas a curiosidade suplantava isso. E quando a única coisa que os separavam era o pedestal com a
esfera, o sacerdote ousou falar:
– Por que nos deixará, grande deus?
Fez a pergunta sem olhar para Amenethotep. Por temor e respeito, manteve a
cabeça baixa, fitando a esfera. E o orbe, que tempos atrás ostentava um brilho vívido,
agora tinha apenas uma luminosidade fraca, tímida.
– Você diz morrer? Não posso evitar – lamentou-se a criatura – Sou poderoso,
mas nem tanto! Mas quem sabe um dia eu volte...
Então, com esforço, apoiando as mãos nas laterais do grande leito dourado, virou-se melhor em direção ao sacerdote.
– Foi uma longa viagem até aqui – continuou, ajeitando a cabeça no encosto de
marfim – E sabe para quê? Para trazer luz e sabedoria a vocês! Infelizmente, por erros
primários, cheguei muito antes. E, por isso, minha missão precisará ser adiada. Talvez
por um tempo considerável. Se é que um dia se comece... Meu castigo por tentar
ocupar o lugar de outro deus?
– Não, meu senhor! – limitou-se a dizer Montuemhat.
O sacerdote percebeu que Amenethotep falava com dificuldade. Queria
interrompê-lo, poupar-lhe as energias, mas temia ser mal interpretado.
– Apesar de estar aqui antes de mim, essa esfera é parte do meu próprio ser –
explicou Amenethotep – E, através dela, um dia, sua espécie será levada a uma nova
era de conhecimentos. A esfera está fraca agora, mas com o tempo voltará ao seu
fulgor. Enquanto isso, deve ser muito bem guardada. Não deve ficar na pirâmide por
tempo demasiado. Precisa ser escondida em outros lugares, aos cuidados de pessoas
sábias, de boas intenções... Entendeu?
Montuemhat fez que sim com a cabeça.
– E, mesmo enfraquecida, ela representa um grande perigo... – completou a criatura.
– Para meu povo?
– Para todo o seu mundo!
O sacerdote engoliu em seco.
– Mas vamos deixar por hora esses assuntos chatos, tudo bem? – Amenethotep
tinha um leve sorriso – Por favor, sacerdote, toque na esfera. Quero mostrar-lhe uma
pouco da magia e do conhecimento que ela guarda.
A ESFERA DE AMENETHOTEP
29
Pela segunda vez, Montuemhat hesitou, e, pela segunda vez, a curiosidade falou
mais alto.
E, quando tocou a esfera, teve a mais fantástica experiência de sua vida! É verdade que ele já havia passado por muitas coisas incríveis, mas nada superaria a experiência de sentir a própria consciência escapar do corpo e, como Bennu, o pássaro
místico, voar ao encontro das nuvens, depois ultrapassar o firmamento e, por fim,
navegar no vácuo, nos alicerces da criação!
Montuemhat supôs que só poderia estar no plano divino. E esse plano, como
tinha aprendido, era dividido em estágios cíclicos e perpétuos, cada um contendo o
anterior e reverberando nos ritos e na vida cotidiana dos mortais.
Se ele estava vivo ou morto, acordado ou sonhando, não sabia. Sua única certeza
era de que se encontrava no quarto estágio: o da criação da Terra e do Céu verdadeiros. Mas podia ver os estágios anteriores: o das Águas Primordiais, onde se formava o
Ovo Cósmico, assistido por uma estranha criatura tentacular, de um único olho, que
só podia ser uma alusão ao Olho de Hórus; o do Pássaro e da Colina primordiais, que
se multiplicavam infinitamente, às vezes emergindo das águas primevas como mundos-irmãos ao seu; e o da Ordem, onde incontáveis pássaros e colinas se entrelaçavam
harmoniosamente, formando o tecido da realidade.
E, logo, Montuemhat transpôs o quarto estágio, alcançando o de Gueb, que,
como sabia, separa o físico do além-físico. Era também a morada de Amenethotep,
e até podia contemplar o seu mundo e os seus semelhantes. Um lugar inexplicável e
de uma harmonia sem fim. De uma paz e luz que nunca havia imaginado em seus
mais belos sonhos, e onde os irmãos da criatura-deus utilizavam a magia com a
mesma naturalidade que um camponês usa a terra, um escriba as palavras e um
sacerdote as orações. E o egípcio sentia apenas bondade e felicidade naqueles seres
bem-aventurados.
Mas a jornada de conhecimento rapidamente prosseguiu. O sexto estágio
inundou-o do saber de civilizações mais desenvolvidas, das quais, provavelmente, os deuses tomaram um pouco da arte que abençoaram a humanidade. E o sétimo era um universo de forças intensas e determinantes, como o assassinato de
Osíris e o nascimento de Hórus. O estágio seguinte, em contrapartida, era morto e
sombrio, como o reinado de Seth. O nono, um templo de paredes brancas e
imensuráveis, onde criaturas semelhantes àquela do primeiro estágio o observavam com curiosidade. O décimo era apenas luz e calor, como o Deus-Sol. E, o
décimo primeiro, o último estágio, era apenas uma ideia... Uma ideia de Fim e
Recomeço...
– Aonde você chegou? – perguntou Amenethotep, surpreso.
– Na coroação de Hórus...?
30
CARLOS RELVA
– Pela Esfera, eu só queria mostrar-lhe o meu mundo! Você foi longe demais!
Poderia ter sido desintegrado, tornando-se apenas um punhado de informações
simples!
Sem entender, e ainda tonto da viagem, Montuemhat apenas deu de ombros.
Por alguns momentos a câmara ficou em silêncio. A criatura-deus esperava o
sacerdote se recuperar da experiência.
– Seu mundo é maravilhoso, apesar de não poder descrevê-lo... – disse o religioso, quase não podendo se manter em pé.
– Eu sei. Sinto muita saudade de lá.
– Acho que o faraó deveria experimentar isso também! – sugeriu Montuemhat.
– Não! Ele não está preparado. Nunca estará... – lamentou-se com a cara fechada. Mas logo o sorriso voltou – Quer experimentar outra coisa inacreditável?
E sem esperar resposta, estalou dois dedos compridos.
Instantaneamente, Montuemhat sentiu uma pressão crescente atrás dos olhos,
como se algo os empurrassem para fora.
Quase não conseguiu pegá-los quando saltaram da face!
Desorientado, com o par de globos brancos nas mãos, pôde ver as próprias órbitas vazias! Não havia dor, sangue ou nervos rompidos. Apenas duas fossas negras.
Amenethotep gargalhou tão alto que ele temeu que os guardas entrassem na câmara.
– Isso é muito engraçado! – disse a criatura-deus, quase sem fôlego – Sempre foi
em todos os mundos que visitei. Em todos que os habitantes tinham olhos, claro.
Entretanto, Montuemhat não achou graça. Tentou recolocar os olhos nas órbitas
e conseguiu com facilidade. E, enquanto testava as articulações, concluiu que até os
deuses se permitem brincadeiras...
Pirâmide de Quéops
15 de março de 1994 - 22h22
Ele virá expor a falsa topografia
As urnas dos túmulos serão abertas
Seita e sagrada filosofia pululam
Negro por branco e novo por velho
– Nostradamus, Centúria VII, Quadra 14
A ESFERA DE AMENETHOTEP
31
No centro da nova câmara, revelada pela magia do verdadeiro nome do Deus Vermelho, havia um leito de pedra, sobre o qual descansava uma gigantesca múmia. E, ao
redor da mesma, junto com inúmeras urnas funerárias, jaziam sete corpos humanos.
Enigmus concluiu que a múmia só poderia ser de Amenethotep. Na cavidade em
seu peito, havia uma esfera esverdeada que emanava uma luz estranha.
– Um pouco grande para um Gato de Jade... – ironizou.
– Essa é a Esfera Mística de Amenethotep – revelou Helen – O Olho de Gato de Jade
foi só um despiste. É um artefato perigoso, que já esteve escondido em vários lugares.
– Pobres coitados! Achavam que podiam absorver todo o conhecimento e poder
da esfera de uma só vez – disse o doutor, enquanto examinava os cadáveres. Todos os
corpos estavam ressequidos, com olhos arregalados e bocas escancaradas. – Quanto
ao artefato, sei muito bem do que se trata: foi construído em Atlântida e levado para o
vale do Nilo após a submersão, ficando lá por longos anos. Entretanto, retornou ao
seu antigo lar em ruínas, até que uma nova ameaça obrigasse seus guardiões a cruzarem o Atlântico, escondendo-o em algum lugar da América do Sul. É onde se acreditava estar até hoje. Mas, de acordo com uma profecia, a esfera voltaria para o Egito
para, junto às pirâmides, presenciar o retorno do Deus Vermelho. Pelo jeito a profecia
se confirmou.
– E agora deverá ser guardada em outro lugar... – lamentou Helen, quase num
murmúrio.
– Deveria ficar com você desta vez – sugeriu Enigmus – Talvez os agentes do
Ruído tenham cumprido, involuntariamente, uma antiga profecia ao trazerem a esfera
de volta ao Egito. E a dádiva de sua imortalidade, professora Heltm, também pode
fazer parte desses desígnios. Ou deveria chamá-la de Hetep-heres?
Surpresa, Penélope encarou-a com seus grandes olhos verdes.
A egiptóloga apenas respirou fundo...
2570 a.C.
Montuemhat se dirigiu apressadamente para o salão principal do palácio. Para
variar, havia se perdido em lembranças por tempo demais. E Khufu odiava atrasos...
Ao chegar, agradeceu aos deuses pelo humilhante desfile dos chefes militares,
exibindo seus novos escravos, já ter terminado. Agora os bedulanis, uma tribo nômade do deserto, que por misericórdia ou ironia divina tinha a simpatia do faraó, exibiam
seus malabaristas, equilibristas e contorcionistas.
Enquanto apreciava o espetáculo, o sumo sacerdote percebeu a aproximação de
Hetep-heres. E a presença da menina causou desconforto entre seus colegas religiosos.
32
CARLOS RELVA
– O que faz aqui, princesa?! – criticou o sacerdote – Seu lugar é ao lado do faraó!
– Por favor, deixe-me ficar um pouco aqui – ela quase implorou – Djedefre está
impossível hoje!
Montuemhat, claro, consentiu. E realmente o irmão de Hetep-heres era insuportável!
Após a apresentação de malabares, foi a vez dos mágicos bedulanis com
seus truques bem elaborados. Tudo divertiu Montuemhat. Isso até o líder da
trupe anunciar o número principal de ilusionismo. Com a promessa de algo realmente espetacular, esse posicionou os demais mágicos em fila, ergueu um braço
e estalou os dedos...
Para o desespero de Montuemhat, os olhos dos mágicos saltaram das órbitas!
Enquanto os súditos do faraó aplaudiam extasiados, Montuemhat sentia um pavor profundo lhe tomar a alma. Aquilo não era um truque, mas a magia real de
Amenethotep! Concluiu que a esfera estava todo esse tempo em posse dos bedulanis
e, certamente, haviam trazido o artefato para o palácio.
Muitos pensamentos tomaram sua mente. Proteger a princesa! Fugir! Avisar a
guarda! Mas algo lhe dizia para esperar um pouco mais...
Os minutos seguintes foram longos. Com o coração acelerado e a boca seca, o
sumo sacerdote acompanhou apreensivo a saída dos mágicos. Esses já estavam restituídos, com os olhos no lugar. Em seguida, como era de costume, o mais velho bedulani
compartilharia seu saber com o público. E Abdallah, um ancião centenário, ficou com
a importante missão.
Com uma voz rouca e cansada, o velho discorreu sobre uma era futura,
quando homens, deuses, ciência e magia viveriam lado a lado, unidos por um
bem comum. Um tempo que ainda tardaria a chegar, suficiente para línguas serem esquecidas e reaprendidas e as areias do deserto se tornarem vastas e
paradisíacas florestas.
Montuemhat achou que o bedulani se arriscava em dizer tais coisas na presença
do faraó. Mas, na verdade, não conseguia se concentrar muito nisso, pois sua mente
ainda estava atordoada com o assustador espetáculo dos mágicos e com a certeza de
que a Esfera de Amenethotep estava relacionada a tudo aquilo.
Entretanto, quando o velho bedulani terminou, sua apreensão já havia diminuído
um pouco. E enquanto as palavras de Abdallah ainda ecoavam fundo no coração dos
egípcios, o sumo sacerdote acreditou que tudo poderia acabar bem. Afinal, em que
melhores mãos poderia estar a esfera do que nas dessa pacífica tribo nômade? Quem
poderia roubar o artefato de um povo que vive errante no deserto e a usa apenas para
apresentações divertidas?
A ESFERA DE AMENETHOTEP
33
Talvez, ele supôs, fosse parte do plano de Amenethotep que o objeto ficasse aos
cuidados dos bedulanis. Algo irônico de pensar, pois um povo que chamava a si mesmo de “os esquecidos dos deuses” havia sido lembrado pelo Deus Esquecido.
“Mas e a promessa de que o protetor da esfera seria um egípcio?”, pensou
Montuemhat. “Houve tempo em que pensei que seria eu. Como fui tolo! Talvez essa
pessoa especial ainda nem tenha nascido...”
– Eu, Montuemhat! Eu serei a escolhida!
– O que disse, princesa? – ele perguntou confuso e surpreso.
– Os mágicos! Eles farão um último número e querem um voluntário – ela disse,
já correndo para a arena do palácio – Tem que ser eu! Tem que ser eu!
– Claro, claro! Por que não você, Hetep-heres?
E o velho coração do sacerdote se alegrou profundamente.
Pirâmide de Quéops
15 de março de 1994 - 23h08
– Eu negaria que sou Hetep-heres, mas isso seria um insulto à sua inteligência –
disse Helen. – Como descobriu?
– Você sabe o verdadeiro e quase impronunciável nome de Amenethotep. Seus
assistentes, que a tratam com reverência divina, são na realidade “guerreiros sagrados”, responsáveis pela proteção dos segredos egípcios. Vi as cicatrizes ritualísticas
em suas mãos. E, há tempos, venho investigando o seu paradeiro, pois sempre suspeitei da humilde mastaba onde seu corpo estaria supostamente sepultado.
– Impressionante! – exclamou Helen – E mesmo sabendo de tudo isso, ainda
pede que eu volte a proteger a esfera?
– Como assim? Não a entendo. Não podemos fugir do que realmente somos e...
– Não?! – ela disse meio irritada, interrompendo-o. – Eu já pensei como você,
Dr. Enigmus. Mas isso foi há muito tempo. Milênios atrás, na verdade. E até houve
uma época em que tudo o que eu mais queria era ser a protetora dessa esfera. Mas
hoje? O que antes considerava um privilégio, agora eu vejo como um fardo. Um fardo
muito pesado. Assim como minha imortalidade também o é. Sabe quantos perigos já
passei para manter esse artefato e o Livro Vermelho em segurança? Aquele livro hermético, quase indecifrável, hum! E quanto às pessoas que amei e perdi? Pode imaginar quantas foram? Quantas vi morrer? E para que tudo isso? Para guardar uma esfera
mística que, de tempos em tempos e sem o menor aviso, magicamente escapa de
minhas mãos e se esconde entre beduínos, índios brasileiros e descendentes de atlantes?
Desculpe-me, mas às vezes tudo isso não parece fazer sentido algum.
34
CARLOS RELVA
– Talvez não faça sentido mesmo. Pelo menos não em nosso plano. Talvez só nos
círculos superiores.
– Será? – continuou Helen no ataque, mas num tom mais ameno – Você acredita
mesmo nisso e que Amenethotep vai retornar para restituir a ordem? A ordem de quê?
Por acaso vivemos realmente no caos?
– Você perdeu a fé, não é? – lamentou-se Enigmus.
– Quatro milênios de espera é muita coisa...
Penélope apenas observava a conversa. Mesmo sendo uma dedicada estudante de ocultismo, aquilo tudo já era demais para ela, fantástico demais. Sua
natureza curiosa queria interrompê-los, fazer-lhes perguntas, mas se mantinha lastimosamente quieta. Um esforço que ela mesma poderia achar engraçado, se tivesse espírito para isso.
– Mas, se você não for a protetora da esfera, quem será? – Enigmus levantou um
ponto nevrálgico.
Helen nada disse e baixou os olhos.
– Se eu não posso convencê-la, talvez um velho amigo seu possa – continuou o
doutor, num “que” de mistério. Em seguida tirou um pequeno e ovalado objeto de
metal do bolso e entregou-o à egiptóloga.
– Este medalhão era de Montuemhat! – Helen arregalou os olhos. E a surpresa
deixou sua fisionomia mais branda.
– Sua face está mais agradável agora – brincou Enigmus, fazendo referência ao
significado do nome Hetep-heres, “A de face agradável”.
– Você tem um humor refinado, Dr. Enigmus – ela disse, deixando finalmente
escapar um sorriso – Onde conseguiu isto?
– Ele me deu.
– Impossível! Montuemhat morreu há...
– Ele esteve em nossa época por algumas horas – cortou-a Enigmus. Penélope,
por sua vez, levantou os braços e suspirou, dando-se por vencida. Encostou-se a uma
parede para descansar e recuperar o fôlego. O doutor prosseguiu: – Foi um experimento na Suíça que não vem ao caso chateá-la com pormenores. Não agora. Alguma
vez ele deve ter comentado com você sobre esse episódio inusitado... E Montuemhat
era uma pessoa extraordinária!
– Sim, realmente era – Helen fechou o medalhão firmemente na mão e encostouo ao peito enquanto recordava de momentos agradáveis de um passado longínquo – E
ele nunca perdeu a fé em Amenethotep...
A ESFERA DE AMENETHOTEP
35
Enigmus apenas assentiu com a cabeça.
– Seria fascinante conversarmos mais, Dr. Enigmus, mas sabe muito bem que
tenho assuntos urgentes a resolver! – disse uma Helen Heltm mais decidida e num
tom de voz revigorado. A última cartada do doutor tinha atingido o efeito desejado –
Fica para outra oportunidade, então? Por hora, apenas posso desejar um bom retorno
para você e para sua simpática assistente.
– Fantástico! – disse Penélope, enquanto seguiam para o Cairo – Aquela mulher
tem mais de quatro mil anos! E, além de conservada, é muito bonita! E pensar que
Cleópatra ficou com toda a fama...
– É porque você nunca viu Nefertiti.
– Está me dizendo que a conheceu pessoalmente? – perguntou surpresa a moça
de cabelos dourados.
– Qualquer dia eu te conto – respondeu o doutor, com um sorriso enigmático.
– Doutor! – O semblante de Penélope se fechou – Acha que ainda iremos ouvir
falar de Amenethotep?
– Tenho certeza que sim, minha jovem.
– Mas quem é ele? E o que ele realmente significa?
– Alguns estudiosos acreditam que de tempos em tempos uma ideia se torna
“carne” – respondeu Enigmus, em tom professoral – Uma ideia tão poderosa que
culmina no surgimento de uma nova civilização ou cultura. Teria sido assim com os
sumérios, com os egípcios, com os babilônicos e...
– Sim – disse Penélope, interrompendo-o – o conceito amplo de Maitreya que
você já havia me falado.
– Exato. O que nunca te disse é que, entre esses estudiosos, existem uns poucos
que acreditam que Amenethotep tinha a missão de substituir um Maitreya ausente.
Misteriosamente ausente... E como o Livro Vermelho parece afirmar que Amenethotep
chegou muito antes do esperado, haveria até hoje uma grande lacuna no desenvolvimento espiritual e cultural da humanidade.
– Por causa da ausência de um Maitreya egípcio? – arriscou Penélope.
– Quem sabe? Talvez até mesmo um contemporâneo...
– Mas, por João Batista, filho de Deus, quem seria esse Maitreya?
36
CARLOS RELVA
Sou Poseidon dos atlantes e Enki, o deus sumério, irmão de Enlil; sou
Sarasvati, e Brahma é minha contraparte masculina; sou Shennong, o Deus
Soberano chinês, e Thoth, o quase-destituído. E eu também sou Marduk
dos babilônicos; Hermes dos gregos; e Hermes Trismegisto, a amálgama
de minhas próprias personificações. E tantos, tantos outros...
E o que faço aqui? Apenas assisto o retorno de Amenethotep, o deus
renascido, o deus que se fez, o deus irmão. Desta vez ele terá êxito onde
antes falhou? Ocupará o trono vazio que me foi vetado? João Batista, meu
querido primo, fez o que pode, mas da minha personificação era a graça!
E isso me foi tirado misteriosamente...
Não sei se Amenethotep terá sucesso, pois deste ponto em diante as
revelações me são negadas. Mas ele tentará de novo e, se não conseguir,
tentará uma vez mais, e outra, e outra se necessário... Pois essa é sua
missão e a de sua Esfera.
Ou, talvez, sua maldição...
A ESFERA DE AMENETHOTEP
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38
L
eon estacionou na garagem subterrânea do prédio como de costume, pegou
a mochila no banco de trás e caminhou sem pressa até o elevador. O interfone
tocou. Era o porteiro avisando de que havia uma encomenda sua na portaria.
No elevador, Leon imaginava o que havia na pesada caixa de papelão quadrada e estreita endereçada para Letícia, já que a etiqueta do remetente não dava pistas
do conteúdo.
Uma hora depois, ouviu da cozinha a voz animada da esposa: “Nossa, chegou rápido! Que bom!”. Continuou preparando o jantar fingindo desinteresse. “Amor, me ajuda
aqui, por favor.” Deixou de preparar e foi para a sala secando as mãos no pano de prato.
Letícia havia cortado fora a lateral da caixa com um estilete. Dentro havia um
grande espelho antigo com moldura de madeira escura, quase preta, cristal bisotado e
o revestimento refletivo de prata todo manchado pelo tempo. “Não é lindo? Comprei
pela Internet de um antiquário no Rio. Tem mais de um século e meio. Ficará lindo no
banheiro!” Disse empolgada.
Por duas semanas, o espelho ficou guardado na caixa até que, numa tarde quente de
sábado, Leon o fixou na parede do banheiro da suíte no lugar que Letícia havia indicado.
Não foi uma tarefa fácil. O espelho era grande e pesado demais para ser facilmente manuseado por apenas uma pessoa, mas conseguiu realizar a tarefa com perfeição.
“Amor, não seria melhor colocar um espelho novo? Esse está todo manchado e
amarelado de tão velho. Fica difícil até pentear o cabelo olhando nele.” Reclamou
Leon numa manhã enquanto se arrumava para o trabalho. “De jeito nenhum. É isso
que dá charme à peça. Além disso, é um legítimo espelho de cristal veneziano com
banho de prata.” Respondeu enquanto mexia na bolsa.
Com o tempo, Leon se acostumou com o velho espelho. Descobriu algumas
áreas onde o reflexo era mais limpo e conseguia se enxergar melhor. No fundo até
gostou do visual sofisticado do banheiro após a custosa instalação da peça. Há tempos
deixara a decoração do apartamento nas mãos de Letícia. Apesar de não ser arquiteta
ou decoradora, ela tinha bom gosto e mesmo as ideias mais malucas resultavam em
ambientes mais agradáveis e bonitos, afinal ela tinha o dom para aquilo.
Um dia Leon comentou com Dionísio, seu melhor amigo no trabalho, sobre o
espelho e como fora difícil instalá-lo e notou que o homem ficou desconfortável.
“Não teria feito isso se fosse você.” Disse em tom grave. “Ué, por quê? Eu que não
sou louco de dizer para a Letícia que não colocaria aquele espelho na parede.” Respondeu Leon sem entender o que o amigo queria dizer. “Porque é um espelho antigo
de prata e madeira, esse é o problema.” Continuou em tom grave. “Mas qual é o
problema disso, homem de deus?! Pelo menos se aparecer um lobisomem lá em casa
basta quebrar o espelho e apunhalá-lo com um caco.” Respondeu fazendo galhofa
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com o amigo supersticioso. “Não faça troça, Leon. Isso é coisa séria. É muito difícil
encontrar um espelho antigo de madeira e prata que não tenha uma alma presa nele.
Não era à toa que antigamente, quando alguém na casa morria, cobriam todos os
espelhos com panos pretos, para que a alma do finado não ficasse presa dentro de
algum espelho. O problema é que muitas vezes não tomavam esse cuidado. Até mesmo usavam propositalmente os espelhos para capturar almas. Não gosto nem de pensar nisso.” Respondeu em tom de voz mais baixo que o normal.
Nos dias seguintes, Dionísio disse várias vezes que Leon deveria se livrar do
espelho o mais rápido possível. “Quebre-o e diga que foi um acidente.” Chegou a
propor. Diante da recusa de Leon de fazer o que propunha, alertou-o para não deixar
que a luz da Lua cheia iluminasse o espelho. Perguntou por que e ele respondeu que
por segurança. Concluiu que o amigo queria apenas assustá-lo e não tocou mais no
assunto, e muito menos se preocupou com os avisos despropositados.
Leon acordou no meio da noite apertado para ir ao banheiro. Detestava quando
isso acontecia. Levantou-se sonolento e foi em direção ao banheiro tateando na escuridão do quarto para não esbarrar em nada e acordar Letícia.
Quando abriu a porta do banheiro, agradeceu pela luz prateada da Lua que entrava pelas largas janelas basculantes no alto da parede. Levantou a tampa da privada e
se aliviou tomando cuidado para não “errar o alvo”. Deu descarga, foi até a pia e lavou
as mãos com os olhos meio fechados. Quando fechava a porta no caminho de volta
para a cama, achou ter ouvido o barulho de água corrente e pensou que não tinha
fechado direito a torneira. Abriu a porta novamente, apertou a torneira e, quando se
virava para sair, viu no espelho o reflexo de um quarto que não era o seu. Virou-se
para verificar o que achou que tinha visto, mas viu apenas seu próprio reflexo. Voltou
para a cama intrigado, mas logo cedeu ao sono.
No dia seguinte, lembrou-se vagamente do estranho acontecimento enquanto
tomava café da manhã e ouvia a mulher contar alguma coisa engraçada do trabalho.
Na sexta-feira, foram à festa de aniversário de uma amiga do casal e voltaram
tarde para casa. Enquanto ele lutava para desfazer um nó cego no cadarço do sapato,
ela colocou a camisola, escovou os dentes e se deitou. “Deixe isso para amanhã, amor.
Vamos dormir.” Resmungou Letícia sonolenta. Leon jogou frustrado o sapato para
próximo da parede dando-se por vencido, tirou a roupa e foi para o banheiro.
Decidiu tomar um banho para relaxar um pouco e, assim, poder dormir melhor.
Acabou demorando mais debaixo da água quente do que planejava, mas pelo menos
se sentia pronto para um bom resto de noite de sono e, assim, acordar tarde aproveitando o final de semana. Secou-se, enrolou a toalha na cintura e foi até a pia. Uma
tênue nuvem de vapor preenchia o banheiro amplo. Quando voltou os olhos para o
espelho, viu uma palavra na superfície de cristal esbranquiçada de vapor, mas as letras
40
CHARLES DIAS
estavam ao contrário. Jogou a cabeça de lado como se isso facilitasse a leitura e pôsse a decifrar a escrita ao contrário de cabeça: ‘CANSADA’. Com certeza era um aviso
mal humorado de Letícia devido ao seu banho. Quando voltou para a cama, sussurrou
um pedido de perdão no ouvido da mulher e tratou de dormir.
“Você sonhou isso, Leon. Não escrevi nada no espelho, muito menos ao contrário. Cheguei acabada, peguei no sono assim que encostei a cabeça no travesseiro.”
Disse Letícia bem humorada respondendo à pergunta do marido enquanto tomavam
café da manhã tardio.
Ao longo do final de semana, Leon tentou diversas vezes fazer a mulher confessar que havia escrito no espelho. Ela, porém, estava firme na decisão de continuar
negando. Enfim, desistiu se convencendo de que hora ou outra ela contaria a verdade
e dariam boas risadas.
Duas semanas se passaram e a palavra no espelho foi esquecida, até que, num
almoço com Dionísio, Leon contou o ocorrido. O homem ouviu arregalando levemente os olhos ao longo do relato. “Leon, esse espelho é assombrado. Livre-se dele o
quanto antes!” Disse o amigo muito sério. “Deixe de bobagem. Foi a Letícia que
escreveu no espelho, mas ela não quer dar o braço a torcer. E o tal reflexo foi tipo um
sonho meio acordado, coisa normal quando se anda pela casa sonolento no meio da
noite. Além disso, aquele padre seu amigo abençoou o apartamento antes de nos mudarmos para lá como você me obrigou a fazer.” Respondeu Leon com ar divertido.
“Mas vocês trouxeram o espelho para sua casa sem saber sua história e a bênção não
deve ser forte o bastante para conter o que está dentro dele.” Continuou Dionísio em
tom grave. “Você imagina o que Letícia faria comigo se eu chegasse em casa falando
que temos de nos livrar do espelho porque você falou que ele é assombrado?! Ela já te
acha meio doido, passaria a ter certeza, além de querer me internar junto. Nada disso,
amigão, não quero arrumar confusão com a ‘patroa’.” Respondeu Leon dando a conversa por terminada, arrependido por ter contado aquilo para o amigo supersticioso.
“Você disse que essas coisas aconteceram no começo do mês. Era Lua cheia. Meu
Deus! Você deixou a luz da Lua cheia recair sobre o espelho! Você não ouviu nada do
que eu disse?! Fazer isso chama a atenção do que está lá dentro. Você não sabe o que
é que está lá. Não entende o perigo?” Alertou Dionísio assustado, passando as mãos
nervosamente pelos cabelos ralos.
Depois de muita insistência de Dionísio, Leon prometeu convencer Letícia a se
livrar do espelho e, enquanto ela não aceitasse, trocaria a peça de lugar, colocando-a
onde não fosse iluminado pela luz da Lua cheia. Claro que não tinha a mínima intenção de fazer uma coisa ou outra, por mais que gostasse de Dionísio e suas esquisitices.
Numa noite enquanto voltava para casa, Leon notou a Lua cheia pairando no
horizonte. Imediatamente veio em sua mente os alertas de Dionísio. Sentiu uma esperança mórbida de que seu amigo estivesse certo e que aquele velho espelho fosse
ALÉM DO REFLEXO NO ESPELHO
41
mesmo um artefato sobrenatural. Não era fanático por assuntos sobrenaturais, mas
não escondia que despertavam sua curiosidade e não acharia de todo mal testemunhar
algo que fugisse às leis naturais que regiam o mundo.
Naquela noite, esperou a mulher dormir, então foi ao banheiro e observou
longamente o espelho. Como não testemunhou nada de anormal, foi dormir. De madrugada, foi arrancado do sono com uma luz ferindo seus olhos; algo incomum já que o
casal estava acostumado a dormir com as portas fechadas e a cortina da janela cerrada,
imersos em completa escuridão. Abriu os olhos e viu a porta do banheiro ligeiramente
aberta deixando entrar uma estreita faixa de luz que incidia exatamente sobre seu rosto.
Resmungou mal humorado consigo mesmo por não ter fechado a porta direito e
por isso teria de levantar-se novamente, já que não conseguiria pegar no sono com
aquela luz na cara como o farol de um caminhão.
Levou a mão à maçaneta e, enquanto a porta fechava, ergueu os olhos em direção ao espelho e viu o reflexo de algo se movendo, o que o trouxe de volta à plena
consciência e, imediatamente, lhe gelou a espinha. Sem tirar a mão da maçaneta, abriu
bruscamente a porta e acendeu a luz, mas o banheiro estava vazio.
“Por que você acendeu a luz do banheiro, Leon? Está passando mal?” Ouviu
Letícia perguntar com a voz sonolenta. Respondeu que não era nada e voltou para a
cama. Só conseguiu pegar no sono novamente depois de se convencer de que não vira
nada além de um jogo de sombras.
No dia seguinte, Letícia nem se lembrava de que Leon havia acordado à noite e acendido a luz do banheiro. Enquanto tomavam café, ele não parava de pensar no que havia
acontecido. Esforçou-se sem sucesso para tentar se lembrar com exatidão o que havia visto.
“Dionísio, me empresta um livro sobre esse negócio de almas aprisionadas em
espelhos?” Pediu Leon casualmente. “Você não está pensando em fazer experiências
com aquele espelho, não é? Esse é um assunto sério e perigoso. Não vá colocar sua
segurança e a da sua mulher em risco por curiosidade.” Respondeu o amigo em tom
preocupado. “Como se devolvemos o espelho já faz duas semanas?! Só estou curioso
mesmo com o que falou”. Replicou Leon fingindo sinceridade.
No dia seguinte, Dionísio trouxe um livro em espanhol publicado há mais de três
décadas com a capa meio solta e o título nada empolgante: ‘Aspectos oníricos y
mediúmnicos de los espejos de plata’. “É um clássico do assunto. Você vai gostar.”
Disse empolgado com a perspectiva do amigo finalmente se mostrar mais interessado
pelos assuntos sobrenaturais que estudava com seriedade.
Leon conseguia ler um pouco de espanhol que aprendeu sozinho nos livros da
faculdade que um professor madrilenho insistia em forçá-los a ler. O livro era bastante
42
CHARLES DIAS
didático, mas muito do que era explicado não fazia sentido sob a luz do bom senso de
alguém acostumado a assistir programas sobre ciências na TV a cabo.
“Como usted sabe la plata es un conocido conductor universal de frecuencias
mediúmnicas. Aunque esto sea viejo y difunda el conocimiento del uso de la plata en
la industria de los espejos, era muy común y se sigue utilizando en algunos lugares.
La combinación de marcos de madera con espejos de cristal y plata es propenso a
atrapar las almas de los recién fallecidos. Esto sucede porque las frecuencias de las
almas de los difuntos es muy similar en forma y duración que las de los espejos de
plata. Como almas, se mantiene a lo largo de sus antiguos cuerpos por algún tiempo
antes de ser enterrado, cuando ellos se exponen a un espejo de plata con marco de
madera, se forma un vórtice sobrenatural que chupa las almas al interior del espejo
atrapándola. También se sabe que hubo espejos diseñados especialmente para atrapar
las almas de los seres queridos que han partido.”
Era exatamente o que Dionísio lhe disse várias vezes, espelhos de madeira e camada
reflexiva de prata poderiam aprisionar almas devido a tal frequência mediúnica, inclusive
foram projetados espelhos exatamente com a finalidade de serem armadilhas para almas.
Leon leu o livro emprestado por Dionísio duas vezes para ter certeza de que havia
entendido tudo o que o autor explicava, lançando mão de um tradutor on-line quando
tinha dúvidas de tradução. Interessou-se em especial pelo capítulo que apresentava um
tipo de teste para saber se havia alguma alma presa em um espelho de prata.
“Esta prueba es bastante consistente en sus resultados, pero es necesario aclarar
que está lejos de ser definitiva. El estudio de las frecuencias mediúmnicas en espejos
de plata es un trabajo en curso y hay muchos aspectos aún no conocidos. Cuando se
prueba un espejo de plata, es necesario tener precauciones con los resultados que el
investigador recibe. A veces los falsos positivos pueden ocurrir pero no presenta ningún
daño. El verdadero problema es cuando los falsos negativos se verifica y la situación
dañina puede ocurrir a partir de trato impropio del objeto de estudio.”
Leon se viu consultando tabelas de ciclos lunares e mapas de alinhamentos celestes a fim de pesquisar a melhor data para descobrir se havia alguma coisa no espelho. Havia, ainda, duas semanas até a próxima Lua cheia, o que demoraria a passar.
Nesse meio tempo, verificou cada milímetro do espelho em busca de alguma coisa
que um espelho comum não teria, como símbolos estranhos ou algo assim. Não encontrou absolutamente nada de anormal na superfície de cristal, na moldura ou na
parte de trás do espelho. Chegou a tirar com cuidado o fundo de madeira procurando
algo oculto ali, mas não encontrou nada.
Leon escolheu uma noite em que Letícia chegaria mais tarde de um curso de artesanato. Sozinho em casa, teria tempo e tranquilidade para fazer o teste que o livro indicava.
ALÉM DO REFLEXO NO ESPELHO
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A luz prateada da Lua entrava pelas janelas basculantes e banhava o velho espelho. Leon estava de frente para ele respirando profundamente. O livro instruía que
deveria atingir um estado de tranquilidade e quietude para que o teste surtisse efeito.
Quando se sentiu pronto, começou a observar com atenção os desenhos formados
pelas manchas no revestimento de prata por baixo do cristal. Por um longo tempo,
ficou olhando para as manchas, mentalizando que queria saber se havia algo dentro
do espelho, mas nada aconteceu. Parou, foi comer alguma coisa, ficou alguns minutos
na frente da TV e voltou para repetir o teste. Ficou mais uma hora naquele jogo de
olhar para as manchas e nada aconteceu, então assumiu que o resultado do teste fora
negativo, que não havia nada lá dentro. No fundo se achou um tanto idiota.
Na tarde do dia seguinte, recebeu uma ligação de Letícia. Sua tia havia sido
internada depois de sofrer um tombo. Encontrou-a no hospital pouco tempo depois,
onde estavam também seus pais e outros tios e sobrinhos. O médico trouxe boas notícias algumas horas depois. Havia sido um incidente de pouca gravidade e ela estava
fora de perigo. Tudo indicava que ficaria bem, mas seria preciso fazer exames complementares na manhã do dia seguinte. Letícia decidiu ficar com a mãe no hospital e
pediu que o marido fosse para casa descansar.
Leon somente se lembrou do espelho enquanto se secava depois de tomar banho.
Assim que se secou, foi até ele, passou a mão sobre o cristal para limpar o embaçamento
causado pelo vapor e o que sua mão revelou não foi seu próprio reflexo, mas o de uma
jovem muito bonita de roupão florido de seda azul que escovava os cabelos pretos muito
compridos com uma escova de aspecto antiquado. Atrás dela, um quarto mobiliado com
móveis pesados, tapeçarias nas paredes, uma grande cama com dossel, iluminado pela
luz bruxuleante de lampiões. Seu olhar parecia perdido em devaneios. Sua expressão
transmitia tristeza. Não havia som algum. Seu roupão estava frouxamente amarrado à
cintura e, quando ela movimentava o braço, se entrevia a curva dos seios.
Naquele momento, Leon não saberia dizer como se sentia: se espantado, amedrontado, temeroso, assustado. Seja como for, não conseguia tirar os olhos do espelho
como se quisesse memorizar tudo o que via, cada detalhe do ambiente, cada linha do
rosto bonito da mulher, cada reflexo em seus cabelos brilhosos. Algum tempo depois,
a mulher pousou a escova em algum lugar que não conseguia ver e se levantou saindo
do campo de visão. A luz dos lampiões não era suficiente para iluminar direito todo o
quarto, mas se percebia que era um lugar antigo e luxuoso.
Por um longo tempo, Leon ficou sem tirar os olhos do espelho aguardando o
retorno da jovem. Nada acontecia naquele cenário fantasmagórico. Então ela cruzou o
quarto. Novamente uma longa espera, até que voltou para diante do espelho, se vendo
de longe. Soltou o laço da fita que prendia o roupão e, com um sutil movimento de
ombros, deixou-o deslizar para o chão, revelando o corpo nu muito branco e bonito:
seios pequenos empinados, cintura, quadril e pernas formando uma ondulação perfei-
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CHARLES DIAS
ta, os pelos púbicos muito pretos num triângulo invertido. Ela tinha estatura baixa,
mas formas graciosas. Olhou-se no espelho, deslizou a mão pelo quadril em direção
ao joelho, depois pelo ventre. Então saiu novamente do campo de visão.
Enquanto esperava novamente pelo retorno daquela mulher misteriosa, pensou
por um segundo em buscar o smartphone para tentar fotografar ou filmar o que via,
mas o receio de que se saísse não encontraria mais o que testemunhava o impediu de
se mover. Não ousava nem mesmo desviar os olhos do espelho.
A jovem voltou vestida com uma antiquada camisola branca com detalhes de
renda, sentou-se novamente diante do espelho, levou a mão ao rosto, passando os
dedos pelo nariz, bochecha, lábios e queixo. Seus olhos marejaram, e algumas lágrimas rolaram por seu rosto. Algo fez com que voltasse a cabeça para trás. Antes de se
levantar, levou a mão à base do espelho, onde, com o dedo indicador, acariciou a
superfície de cristal fazendo com que pequenas palavras se tornassem visíveis. “Serei
o reflexo da tua alma onde quer que esteja.” Num piscar de olhos, Leon viu-se novamente refletido no velho espelho. Não conseguiu dormir aquela noite.
“Todavía no está claro cómo funciona la trampa de la alma en espejo de
plata. La principal línea de pensamiento es que se crea en una copia del ambiente
donde se captura el alma dentro del espejo que funciona como una cárcel sobrenatural para el alma.”
Aquela passagem do livro deixou Leon especialmente perturbado. Se funcionava mesmo daquela forma, aquela jovem morreu num quarto como aquele, cuja cópia
dentro do espelho se tornou sua cela. Arrepiou só de pensar em uma prisão sobrenatural como a sugerida pelo livro.
Pesquisou na Internet por uma forma de contato com o autor. Não foi fácil, mas
descobriu seu endereço de e-mail em uma antiga discussão num fórum desativado.
Enviou-lhe um longo e-mail sobre o assunto com várias dúvidas, já que não queria
conversar com Dionísio a respeito. Alguns dias depois, recebeu uma resposta com um
texto curto enviada pelo filho do autor e um arquivo anexado.
“Mi padre falleció hace tres años, y con él la investigación acerca de los espejos
de plata. Un consejo para llevar cuidado con la experimentación con tal cosa. Tuvimos
una muy mala experiencia después de la muerte de mi padre en una manera que él
nunca pensó que sería posible. Te envío el fragmento de un libro inacabado sobre el
tema que podría ayudarte. Mi consejo es mantener el máximo cuidado cuando se trata
de plata encantada refleja lo antes también fue utilizado para capturar las almas
sospechan estar poseído por entidades demoníacas. La observación es inofensiva,
pero tratando de hacer contacto es extremadamente peligroso mantenerlo en cuenta
para evitar ponerse en los grandes riesgos.”
ALÉM DO REFLEXO NO ESPELHO
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O anexo era um arquivo compactado que continha três dezenas de páginas
digitalizadas originalmente escritas com máquina de escrever. Era um documento
antigo pela aparência do papel, amarelado e repleto de pequenas manchas decorrentes do tempo que ficaram guardadas. O texto era dividido em duas partes: a
primeira basicamente era uma continuação do seu livro; e a segunda, o relato de
experiências de contato com espíritos presos em espelhos. Leon estudou o documento com cuidado, anotou algumas dúvidas e enviou outro e-mail para o autor,
mas não recebeu resposta.
Enquanto o ciclo lunar não chegava ao fim, Leon lutava contra a vontade de
contar tudo para Dionísio e pedir sua ajuda. Sabia exatamente o que queria: descobrir
mais sobre aquela jovem cuja alma estava presa no espelho e tentar ajudá-la a escapar
daquela prisão sobrenatural, principalmente depois de ler uma passagem especialmente abaladora no documento que lhe fora enviado por e-mail.
“Después de una investigación extensa, descubrí que había durante cierto tiempo
la mala práctica de capturar almas como instrumento de venganza. Algunas personas
utilizan el conocimiento de la captura de las almas en el espejo de plata para hacerlo
con el fin de traer el castigo eterno para aquellos que odian. Esa práctica, por alguna
razón, tiene sus efectos secundarios al autor suficientemente malo para que sea olvidado y sólo se utiliza para los que desconocen las consecuencias.”
Apesar da vontade de contar tudo a Dionísio e pedir sua ajuda, decidiu que somente faria isso se testemunhasse alguma outra aparição. Aguardou ansiosamente a
próxima fase da Lua cheia.
Por dias repetiu tudo o que achou que provocaria nova aparição da jovem no
espelho. Acordou no meio da noite para ir ao banheiro diversas vezes, tomou banhos
de madrugada, mas nada surtiu efeito. Todas as vezes que lançou os olhos no espelho
iluminado pela luz da Lua cheia, viu apenas seu próprio reflexo.
Leon novamente programou o smartphone para vibrar no meio da noite, prometendo para si mesmo que seria a última vez que se deixaria levar por aquela história.
Acordou com o ruído baixo do aparelho sobre o criado-mudo. Levantou-se e foi
ao banheiro no escuro. Ao abrir a porta, frustrou-se ao ver o banheiro na penumbra.
Olhou através das janelas basculantes para as nuvens pesadas de chuva que vagavam
lentamente pelo céu e pensou que deveria ter verificado a previsão do tempo antes de
se meter a interromper o sono no meio da noite por algo que provavelmente não
aconteceria. Deu meia volta para retornar à cama, mas uma faixa de luz azulada surgiu
na parede aumentando rapidamente de tamanho, fazendo-o virar-se rapidamente. Então a luz da Lua cheia que passava por uma brecha entre as nuvens iluminou o espelho
e o que viu foi perturbador. A jovem enfurecida arremessava violentamente tudo ao
seu alcance contra as paredes. Por não ser acompanhado de som algum, a cena se
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CHARLES DIAS
tornava ainda mais perturbadora. Um momento depois, ela desapareceu do campo de
visão. Leon se aproximou assustado do espelho inclinando a cabeça como se assim
pudesse vislumbrar algo mais daquele lugar insólito. Então a jovem surgiu diante dos
seus olhos com os cabelos desgrenhados, chorando convulsivamente, e esmurrou o
espelho com os punhos fechados até ferir as mãos no cristal quebrado e ensanguentar
sua imagem distorcida. Leon saltou para trás atemorizado com o coração em disparada. Outra nuvem encobriu a Lua e, imediatamente, a superfície do espelho voltou a
mostrar somente sua expressão assustada. Passou praticamente o resto da noite no
banheiro esperando ver se a jovem estava bem e voltou para a cama apenas quando
começou a cair uma chuva pesada.
Finalmente convencido de que os riscos eram grandes demais para enfrentar
sozinho com seu conhecimento mais que superficial do assunto, Leon procurou
Dionísio mesmo antecipando a reação nem um pouco condescendente do amigo.
“Definitivamente você perdeu a cabeça, Leon. Onde já se viu fazer uma coisa
dessas, e com base apenas num livro. Como se não vivesse te falando dos riscos
envolvidos nessas coisas. E você dizendo que tinham dado um fim naquele espelho.”
Vociferou Dionísio, vermelho como um tomate, depois de ouvir tudo o que Leon
tinha para lhe contar. “Preciso digerir o que me disse com a cabeça fria.” Completou
antes de se levantar da mesa do restaurante e sair sem se despedir.
Na véspera da próxima Lua cheia, Dionísio se sentou diante de Leon depois de
vários dias sumido. Tinha uma expressão cansada: olheiras e cabelo meio desgrenhado. “Você já pensou em como tirar sua mulher de casa por uns dias? Melhor ela não
estar lá para não correr nenhum risco desnecessário.”
Letícia ficou felicíssima quando Leon a presenteou com o tão desejado curso de
artesanato com uma professora famosa em Belo Horizonte. Foi pacote completo com
curso, passagem e hotel. “Você merece, meu amor. Considere um presente antecipado
de aniversário.” Disse Leon enquanto era abraçado pela esposa feliz da vida. “Sentirei
sua falta nesses três dias.” Disse ela antes de lhe dar um beijo de agradecimento.
Letícia embarcou numa manhã de sexta-feira. Leon e Dionísio foram almoçar em
um restaurante mais distante para poderem conversar longe dos colegas de trabalho.
“Descobri algo nada tranquilizador sobre a inscrição que você viu a mulher fazer
surgir no espelho.” Disse Dionísio revirando a salada com o garfo. “É um encantamento
utilizado para tornar um espelho de prata com moldura de madeira em armadilha de
almas.” Leon pousou o copo de suco na mesa com ar de dúvida. “Todos os espelhos de
prata não capturam espíritos? Li sobre isso no livro, mas não entendi direito”. Perguntou
incerto. “Não é bem assim. Deixe-me explicar: espelhos de prata, principalmente de
prata com moldura de madeira, podem capturar espíritos de quem morreu recentemente
ALÉM DO REFLEXO NO ESPELHO
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se estiverem no mesmo cômodo onde permanecer o corpo, mas necessariamente não há
captura, isso somente irá acontecer se ocorrer uma conjunção de fatores mais ou menos
aleatórios. Mas há magias que tornam os espelhos verdadeiros aspiradores de pó de
espíritos, capturando-os na marra, por isso eram usados como instrumentos de vingança. Se você realmente quisesse ferrar alguém até depois de morto, bastava dar um jeito
de mandar um espelho-armadilha desses para o cômodo onde estivesse o recém-falecido para que seu espírito fosse capturado, entendeu?” Explicou Dionísio em voz baixa.
“Você quer dizer que a alma daquela jovem foi propositalmente capturada no espelho
por alguém que queria se vingar dela? Por que alguém faria isso com ela?” Perguntou
Leon perturbado. “A pergunta correta talvez seja o que ela fez para alguém fazer isso
com ela?” Acrescentou Dionísio com ar soturno.
Passava da meia-noite e, no banheiro diante do espelho banhado pela luz da Lua
cheia, Leon observava as manchas no cristal que conhecia tão bem, enquanto Dionísio
acendia as velas nos pesados castiçais de prata que trouxera. Havia dito que aqueles
castiçais haviam sido usados por muito tempo em uma igreja durante missas e as velas
eram bentas. “Segundo os autores que consultei, quando um espelho-armadilha é iluminado pela luz de velas sagradas, os espíritos aprisionados podem se comunicar com
quem está do lado de cá.” Explicou Dionísio um tanto inseguro. “Você acha que há
outros espíritos nesse espelho além da mulher?” Perguntou Leon temeroso. “Como é
que vou saber?!” Respondeu o amigo com sinceridade perturbadora.
Passava das quatro da madrugada, ambos estavam cansados e frustrados por
nenhuma das fórmulas de invocação usadas por Dionísio ter funcionado. “Acho que
sei o que está dando errado.” Resmungou Dionísio sentado num canto do banheiro
com o rosto apoiado na parede. “Alguma coisa com o alinhamento dos planetas ou
algo assim?” Perguntou Leon sem tirar os olhos do espelho que refletia a luz bruxuleante
dos tocos de vela. “Nada disso. O problema é que você sonhou, teve alucinações ou
sei lá o quê. Não há nada aí. É apenas um espelho velho e muito feio.” Respondeu
Dionísio cansado. “Acho melhor irmos dormir. Não tem mesmo nada aqui.” Respondeu Leon irritado com o desânimo do amigo. “Droga, por que você não aparece agora,
sua vadia?!” Gritou enfurecido para o espelho.
Leon acordou confuso. Na escuridão do quarto, levou a mão para o lado, sentiu
o corpo de Letícia e concluiu que tudo não passara de um sonho muito estranho.
Levantou-se sonolento para ir ao banheiro, como sempre detestando cada segundo
daquela interrupção indesejada do sono. Assim que deu descarga, foi até a pia lavar as
mãos. Olhou para seu reflexo e pensou que precisava convencer Letícia a pelo menos
colocar um espelho novo e sem manchas naquela moldura. Voltou para o quarto e, mal
se deitou, a porta do banheiro entreabriu. Sentiu sua mulher virar na cama. Sem paciência para se levantar novamente, virou para o lado e sentiu o sangue gelar ao ver que
não era Letícia que estava ao seu lado, mas a jovem do espelho.
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CHARLES DIAS
REVISTA DE FANTASIA, MISTÉRIO E TERROR
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Q
uando cheguei ao show estava tocando uma música animada e romântica
que não sei por que me encantou. Eu ainda não conhecia aquela banda.
Esse era apenas um dos malditos efeitos colaterais de ficar fora de órbita
por um ano. Mas havia também muitas vantagens: o único problema é que
eu tinha apenas um dia para aproveitá-las, então precisava ser sempre muito rápido.
É claro que eu tinha muita experiência nisso.
“Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar...”
Disseram que fazia um tempo que eles não tocavam em Manaus. Chamavam-se
Skank. Para mim era um nome muito estranho para uma banda. Bem, não importava.
Sabe-se lá se eles estariam nas paradas do ano que vem, não é? Tudo que eu precisava
fazer, no final das contas, era me movimentar com a música e demonstrar que estava à
vontade. No meio de um show, ninguém me perguntaria coisas embaraçosas sobre qual
era o nome do vocalista da banda, por exemplo, que, aliás, eu não fazia a mínima ideia de
quem fosse. Mas tinha cara de mineiro. Eu já conhecera mineiros. Ou melhor, mineiras.
Aliás, precisava encontrar depressa meu... digamos... alvo.
Observei ao redor da pista. As pessoas agora pulavam ao som de um verso esquisito: “Beat it lown! Down down! Beat it lown! Down down!”, ou alguma coisa do
gênero. Eu não fazia a mínima ideia do que significava, mas pelo menos era fácil de
repetir. Foi nesse momento que a vi.
Carolina.
Ah... Carolina. A minha Carolina.
Olha, não vou mentir. A primeira vez que a vi, ali, pulando que nem pipoca,
suada e gritando no meio do show, não a achei nada excepcional. Tantos anos de
experiência que tenho, não é fácil me impressionar, posso lhe assegurar disso. Mas
meu tempo estava acabando e ela era bem bonita, com sua pele morena de sol, os
cabelos pretos feito café, os olhos brilhantes e cheios de energia; tinha curvas belas,
não era esbelta nem cheia, apenas bela.
Ajeitei meu boné branco – eu detestava bonés. Quando foi que os homens perderam o costume de andar de chapéu? Que saudade de um belo chapéu! – e acotovelei
vários jovens tentando me aproximar de Carolina. Eu vestia uma camiseta branca e
um jeans e também detestava jeans. Eles apertam, pinicam, mas bem, eu tinha que me
adaptar, não? São outros tempos, diferentes dos que já vivi. Quando finalmente cheguei perto de Carolina, ela ainda estava pulando, mas a música já era outra. A primeira
frase que ela me disse foi, aos berros:
– É proibido fumar... MACONHA!
Eu não sabia o que era maconha, preferia um bom cigarro de fumo de rolo, mas
eles ultimamente eram difíceis de encontrar, então só fumava cigarros de padaria
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mesmo. De qualquer maneira, não poderia ficar parado como um idiota ali ou ela
jamais me daria bola. Então gritei a mesma coisa:
– É proibido fumar!
(Eu secretamente esperava que não fosse, mas havia muita gente fumando, então
deveria ser só a letra da música mesmo.)
Carolina sorriu. Acho que foi ali que ela começou a me conquistar. Ela tinha um
sorriso mais bonito que todo o resto, ou melhor, um sorriso que a deixava realmente
bela. Ela não sorria com os lábios, mas sim com a alma. Hoje não sei dizer se fiz a
coisa certa nquela noite. Para mim seria apenas mais uma noite, mas para Carolina
não. Na verdade, foi diferente para mim também. Mas eu não tinha direito de tirar a
alma daquele sorriso, tinha? Mas a outra alternativa seria jamais conhecê-la e, mesmo
nessa existência que sei, agora, ser triste, eu ainda agradeço por tê-la conhecido.
Agradeço por ter amado Carolina.
– Pois o fogo pode pegar! – ela retrucou, ainda sorrindo. Estava feliz, suada,
plena. Também estava meio bêbada; segurava um copo de plástico com um líquido
negro lá dentro que eu sabia não ser apenas refrigerante. Olhou-me de cima a baixo,
como se me analisasse, e depois riu, como se aprovasse o que via.
– Qual o seu nome? – perguntei aos gritos sussurrados ao pé de seu ouvido. Ela
deu risada de novo, como se minha pergunta fosse engraçada.
– Você me diz o seu primeiro, depois eu digo o meu. – retrucou, ainda pulando e
gritando.
Engoli em seco por alguns instantes. Teria que inventar um nome. Fazia isso há
tanto tempo que tinha muita prática, mas jamais usava um nome que já tivesse utilizado. Isso quer dizer que eu já tivera no mínimo uns quinhentos nomes na vida. Não
mais, é claro. Tenho muito mais que quinhentos anos. Isso foi só pra você ter uma
ideia da minha situação.
Por algum motivo, porém, fiquei engasgado. Não queria começar aquela noite
com uma mentira – por mais que soubesse que toda minha vida era uma grande mentira.
Algo no sorriso de Carolina me deixava sem jeito. Mas não havia outra maneira, havia?
– Bo... – foi o que deixei escapar. Parecia que minha língua não obedecia ao meu
comando. O que tinha me dado para dizer isso? Para quase dizer a verdade?
– O que você disse? – ela perguntou. Fiquei aliviado por apenas um segundo,
quando ela emendou: - “Bo” o quê?
– Bob! – disse eu. Foi o primeiro nome que veio à minha cabeça. Parecia idiota
dito em voz alta. Parecia ridículo, de fato. Eu nunca tinha usado. É claro que nunca
tinha usado, era estúpido.
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KAREN ALVARES
Ela franziu o cenho, divertida.
– “Bob”? Mas isso é nome de gringo e você parece ser bem brasileiro. – ela riu e
colocou a mão espalmada no meu peito. Senti a pele arder ao seu toque. Arder de um
jeito que não conhecia. Engasguei. – É Roberto. – emendei, sentindo-me completamente envergonhado, um sentimento ao qual não estava acostumado. – Bob é só um
apelido.
– Aaaaaaaaah, então tá. – ela disse, mas não retirou a mão; pelo contrário, apoiou
o restante do seu braço bronzeado nos meus ombros, aproximando-se. Senti seu hálito
de vodca barata quando ela disse. – Meu nome é Carolina, Bob.
Estava bêbada, claro. Era muito mais fácil para mim nesses tempos encontrar
uma garota porque, diferente de tempos passados, era só eu ir a um bar, uma casa
noturna ou um show e certamente encontraria uma mulher que já tivesse passado há
muito tempo do seu limite de álcool. Só agora percebo como esse comportamento era
repugnante. Nunca mais fiz isso, juro. Eu era um cafajeste. Um eterno aproveitador.
Naquele instante, pela primeira vez, com Carolina dançando com uma mão em meu
ombro e a outra segurando uma bebida, questionei-me se estaria fazendo a coisa certa.
Eu sabia muito bem que deixaria uma marca naquela moça. Para sempre. Era o que eu
fazia, era a minha natureza, e ninguém conseguira, jamais, tirar isso de mim.
Exceto Carolina.
Era como tentar apagar o sol ou como roubar o perfume das flores. A criatura que
eu era, algo eterno e sobrenatural, me definia.
Será mesmo?
Naquele momento, eu me perguntei aquilo pela primeira vez.
– Eu curto essa música. – disse Carolina de repente. Quando percebi, ela virou
todo o conteúdo do copo, sorriu e jogou-o para trás. Vi quando atingiu o ombro de um
garoto mais à frente do meu campo de visão; ele xingou, mas depois continuou aproveitando o show. De certa maneira, aquilo me incomodou. Carolina estava sujando a
natureza. Mas eu sabia também que se prestasse atenção na atitude dela, naquele momento, enlouqueceria. Ultimamente os humanos não tinham mais nenhum respeito.
Aparentemente, nem Carolina.
Mas ninguém é perfeito. E, ah, como eu não sou...
Esqueci todas essas coisas quando Carolina colocou os dois braços sobre meus
ombros, enlaçando suas mãos às minhas costas. Tocava uma música rápida, mas bem
romântica. Era gostosa de ouvir. Mas eu não prestava atenção: Carolina estava muito
próxima do meu corpo e, estranhamente, mesmo suada, ela cheirava bem. Eu podia
sentir o cheiro, o real perfume das pessoas. Era um dos meus dons. Eu cheirava ao rio,
sabia disso. Mas Carolina tinha perfume de estrelas.
LÁBIOS DE SOLIDÃO
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– Leva essa canção de amor dançante pra você lembrar de mim, seu coração
lembrar de mim... – Carolina cantou. – Você gosta?
– Gosto. – disse eu, estranhamente hipnotizado. Não conseguia parar de olhá-la.
Ela parecia mais bonita do que quando a vi algumas músicas antes. Havia algo nela,
alguma magia que me atraía como a noite persegue o dia. Eu sabia que era impossível
que ela fosse algo como eu: sabia muito bem reconhecer as outras criaturas mágicas.
Não, não era esse tipo de magia, era outro, mais forte, mais eterno.
Foi quando cometi meu primeiro erro. Um dos que me perseguiria para sempre,
para o bem e para o mal.
Inclinei-me sobre Carolina. Ela ainda tinha os braços enlaçados sobre meus
ombros. Encostei meus lábios aos seus. Os dela tinham gosto de escuridão e mistério.
Ela não resistiu, parecia querer o mesmo que eu. Enlacei com as mãos sua cintura,
apertando-a contra mim. Puxei um pouco a blusa, ansiando por tocar sua pele, por
senti-la. Ela usava jeans apertado e uma blusa rosa-clara, quase branca. Eu sempre era
atraído por garotas que usavam essa cor. Era o destino. Sempre era assim. A natureza
me chamava.
Mas a natureza também cobra seu preço. Às vezes, ele é alto e amargo. Até
aquele momento, eu gostava de como eram as coisas. Sem amarras, sem compromisso. Eu vinha e voltava. Nunca ficava.
Mas ao sentir o beijo de Carolina, pela primeira vez quis ficar.
Quando nos soltamos, ela sorria. Aquele sorriso que alcançava o topo do universo. Éramos apenas nós no meio da multidão. Pela primeira vez, senti que era o suficiente. Mas nunca cometo só um erro. Tenho que ir até o fim. Tenho que ser a criatura
horrível que sou. Não é só um hábito, é uma maldição.
Carolina puxou minha mão. Foi ela, não eu, mas não poderia culpá-la. Seria
ainda mais horroroso da minha parte culpá-la por algo que sei ser somente minha
culpa. Sei que minha magia estava agindo. Sei que ela estava bêbada. Sei que
poderia ter acabado tudo ali, mas minha natureza me impulsionava e eu, fraco,
não consegui resistir. E foi então que cometi o maior erro e o melhor acerto da
minha longa existência.
“Te ver e não te querer... é improvável, é impossível. Te ver e ter que esquecer...
é insuportável, é dor incrível.”
A arena do show fora montada ao lado do Rio Negro. Eu o conhecia muito bem.
Era o meu lar, afinal. E sabia o que aconteceria lá. Ainda conseguíamos ouvir, de
longe, a canção que era tocada. Agora, livres da multidão, Carolina me puxava com
ardor e energia. Ela tirou as sandálias, eu tirei os tênis. De mãos dadas, molhamos
nossos pés na água negra do rio. Senti toda minha energia em seu ápice, como sempre
acontecia nesse momento, quando eu as levava para o rio. Conseguia sentir minha
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KAREN ALVARES
magia correndo por minhas veias. Mas era diferente daquela vez: sentia também outro
tipo de magia e esta emanava de Carolina. Dos seus olhos, do seu sorriso.
Ela me beijou. Ainda segurava minha mão, e a outra pousou em meu rosto. Senti
novamente seu perfume de estrelas, seus lábios de escuridão. Eu senti, naquele momento, que estava fazendo algo errado. Estava destruindo seu futuro, estava deixando
uma mancha para sempre em seu coração brilhante. Sabia, do fundo do meu coração,
que me arrependeria. Naquele momento entendi que, pela primeira vez em séculos,
milênios, eu estava apaixonado. E não havia tempo para que me apaixonasse... Tempo
era algo que não me pertencia, apesar de sua aparente eternidade.
Ainda me beijando, Carolina me puxou para o rio. Ali, não sabia mais se era
ela, se eu, se a magia. Talvez fosse uma combinação das três coisas. Talvez tenha
sido o momento mais belo de toda a minha existência, mas sei que também fora o
mais sombrio.
Nós mergulhamos, beijando-nos. As roupas saíram naturalmente. Logo estávamos nus, embriagados de prazer. Carolina em certo momento quis tirar meu boné. Eu
a impedi, segurando seu pulso, assustado. Mas então ela sorriu e não sei o que me deu,
mas deixei que ela o retirasse. Sei que ela viu o que havia ali, pois seus olhos se
arregalaram por apenas um instante. Eu conseguia enxergar a lua em seus olhos e ela
brilhava. Carolina sorriu, acariciou meu rosto e se entregou.
Deixei Carolina à margem do rio, sozinha e com o coração partido e vazio. Sabia
que ele seria preenchido por outro tipo de amor, por outra pessoa, e aquilo me matava
por dentro. Eu queria gritar, mas não tinha mais voz. Eu estava preso em um corpo que
não queria e sabia que essa era minha vida. Sou o que sou, nada pode me mudar.
Todos os anos eu passo enclausurado nesse corpo cor-de-rosa para então, no
melhor dia do ano, deixar o leito do rio com meus próprios pés. É quando visito
Carolina e nós fazemos amor sob as estrelas. Ela já não tem o mesmo brilho no olhar:
ele se apaga a cada ano e ela culpa a saudade. Seus lábios agora têm gosto de solidão.
Meu menino, Betinho, já tem oito anos. Ele não sabe que sou seu pai. Ninguém sabe.
Todos dizem, no Amazonas, que ele é filho do boto.
Ninguém sabe também que o Rio Negro é feito de lágrimas. Das lágrimas
que eu gostaria de chorar. Elas são doces. As lágrimas doces da saudade que sinto
de Carolina.
LÁBIOS DE SOLIDÃO
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E
m uma floresta densa de aspargos imensos, uma criatura incomum chamava a atenção.
Um animal peludo, que andava arqueado sobre suas fortes pernas, marchava entre as fileiras caóticas da floresta. Seu andar denotava uma determinação que
praticamente ignorava pequenos obstáculos que o luxuriante ambiente atravessava
em seu caminho.
Não havia como ignorar sua figura exótica. Além das peculiaridades físicas,
outras saltavam a quem pudesse ouvir pelos ecos que reverberavam pela floresta.
Essa criatura era comumente conhecida por aquelas terras como Lobo das Portas. Respeitável por sua aparência, era possuidor de uma estrutura física, forte e delgada. Seu longo focinho era adornado pelas laterais por indisfarçáveis dentes afiados,
além de ter o corpo coberto de um pelo grosso e marrom.
Apesar de suas qualidades físicas marcantes, ele carregava algo a mais para sua
figura peluda e delgada.
As portas, de todos os tamanhos, que dependuradas em seu pescoço e na lateral
de seu corpo, batiam umas nas outras, fazendo um barulho ritmado que acompanhava
seu passo pesado e compassado.
Sua trilha sonora de madeira a madeira, pelos com madeira, era o som de determinação de uma pequena banda que soava ecoando pelo vale.
O som pausava em intervalos, que era o momento em que parava para descansar,
por carregar a maior de todas as portas que se incumbira de levar.
Seguia o caminho das suculentas azuis, que serpenteavam pelos morros
amourados de topos e descidas irregulares. Tropeçava nos pequenos troncos das pitayas
rastejantes, que desciam de grandes ramos a despejarem pelo chão.
Suas patas com garras afiadas esmagavam uma fruta roseada, espalhando o sumo
e bagaço como um bicho estraçalhado no passante daqueles que não o apreciavam.
Avistou o monte nebuloso, envolto por cúmulos prateados, imensos e cálidos em
seus tons de cinza chumbo, pesados e dispostos a derramarem-se em águas para afogar quem se aproximasse de lá.
A visão das cercanias não trazia o temor para o Lobo das Portas, que prosseguia
em seus passos esmagadores e ritmo madeiral, a ecoar nos pequenos bosques espinhais.
Insetos alados e coloridos voavam lentos e preguiçosos ao redor do Lobo. Esse
assoprava de canto de boca, para que os insetos não encostassem em sua língua que
derretia e queimava a pele da mais forte e espessa que fosse.
Um ou outro musaranho saltava pelos cantos do chão de cascalhos rajados, fugindo para suas tocas escondidas nos arbustos de filamentos espinhais florados.
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O terreno se tornara íngreme e difícil em se manter o passo. O Lobo não desistia, apesar
do arfar pesado por seu esforço, que extrapolava a resistência de seu corpo mamífero.
Nos últimos metros, os ventos retumbavam sobre a superfície lisa das portas,
que acrescentavam silvos ensurdecedores à sinfonia de batidas mais violentas e abruptas
das portas.
No alto do morro nebuloso, o lobo finca a porta de maior porte, no topo relvado de
trevos tigrados, abrindo um buraco, a escorrer terra e relva. Pequenos vermes pululavam
da terra, que eram furtivamente comidos por pássaros pequenos e pretos como carvão.
Satisfeito pela colocação da porta, afastou-se e, reunindo o resto de suas forças,
soltou o maior dos uivos, a ecoar para além das nuvens do morro. Seus músculos se
retesavam, e a energia corria por entre as fibras de sua carne, que trepidavam a garganta a empurrar todo ar que seus pulmões esvaziavam pelo uivo imenso. Seu corpo
arqueado se desdobrava aos poucos até seus joelhos encontrarem na relva fresca.
Inclinou-se para frente, esgotado pelo esforço do chamamento, que almejava a que
fosse escutado além das nuvens e morros das cercanias.
Por alguns momentos, o vento era o único a se mover, a remexer as folhas da
relva rasgada. O orvalho surgira sobre o pelo castigado do lobo, que sabia que era o
sinal de que fora ouvido por quem ele invocara.
Começou a se remexer as demais portas, pequenas e médias, de todo os tamanhos. Movidas por uma força invisível, elas saltavam do corpo do lobo, que se remexia pela passagem das portas por sobre seu pelo.
Elas se juntaram no entorno da porta maior, como uma revoada de pássaros. Em
formação circular, posicionaram-se cada uma em um lapso vazio, a até se empilharem
e se juntarem- em uma coisa só. Uniram-se solidamente em uma forma arredondada
que lembrava uma noz fechada.
O Lobo, exausto, girou a maçaneta dourada da porta maior e essa se abriu,
escancarando o interior escuro do ambiente que se formara.
Adentrou e, logo que a porta se fechou, o chão estremeceu e, sob a noz de portas,
ergueu-se um caule que elevou-a além das nuvens do morro. No topo do imenso caule
que despontara, elevou-se a casa de noz de portas, do Lobo das Portas.
Esse se aconchegava em sua cama de plumas brancas, envoltas em panos também brancos e suaves. Adormeceu, por fim, embalado pela sua casa de noz, no
morro nebuloso.
As nuvens que perfaziam o nome do lugar vagarosamente descortinavam a visão
da região. Desnudaram a terra que cobriam, revelando um imenso rochedo craquelado
de rochas frisadas. Os musgos verdejantes cobriam frestas e breves planos das falhas
entre as rochas.
Um trepidar das rochas era lento e quase imperceptível aos habitantes locais.
58
MARCIA HARUMI SAITO
Mas essa movimentação era o suficiente para rolar pedras soltas. Fissuras se abriam,
entrecortando-se no ranger do encontro da superfície áspera.
Pássaros negros e de elegantes asas longas revoavam ao longe, assustados com a
repentina ação das rochas que rangiam surdamente, em um contínuo movimento de
algo de grande porte a se remexer.
Nessa movimentação lenta e contínua, todo monte rochoso elevou-se imponente. Tudo que fosse inanimado, e que não estivesse preso de algum modo, rolava pela
imensa altura que se erguia agora.
Pequenos seres permaneciam em suas tocas, impassíveis ao trepidar constante,
os quais acostumaram à notoriedade da ação do lugar incomum. Apenas alguns se
arriscavam a observar a movimentação lenta.
Fugidias e lépidas, as nuvens dispersavam sob o céu que adquirira cores de um dia
ensolarado. A grande massa de rochas ergueu-se sobre o grande mar de areia, singrando
em ondas densas, abrindo um caminho resoluto na imensidão de sílica e poeira.
Eis que a criatura de pedra, de onde o Lobo e demais centenas de criaturas
únicas pegavam carona no mais notável e grandioso ser, que em sua imensidão,
abrigava-os sem ser perturbado. Era um ambiente único em que criaturas e plantas,
em um ecossistema harmônico, conviviam sobre um ser que também pertencia a um
outro universo.
O Mar de Sílica se perdia em sua imensidão, sob o céu arroxeado, agraciado por
nuvens que escondiam o que era o começo e fim desta terra misteriosa e infinita, que
era o mar pertencente ao Universo.
Como toda a passagem por um lugar misterioso e imenso como o Mar de Sílica,
os que ali habitavam estavam sujeitos a todo tipo de sincronicidade de caminhos e
eventos que nem sempre pontuavam em harmonia.
Não seria diferente para a singular criatura-ilha. Apesar de sua imensidão para as
pequenas criaturas que nela habitavam, seu tamanho era comparado a seus pequenos
habitantes ao quase infinito mundo do Mar de Sílica.
A aparente calmaria deste mundo singular escondia eventos proporcionais ao
seu tamanho. A movimentação do próprio universo traria eventos poucos comuns,
onde a repercussão desses refletiria por todo o resto de modo surpreendente. Grandes
tempestades, macroconflitos de gases em trânsito, perfaziam o céu do Mar, um lugar
de beleza e mortalidade inimaginável aos micromundos que se escondiam dentro de
outros mundos, que viviam abaixo deste céu turbulento.
Distantes do caminho da criatura-ilha, grandes massas de nuvens de cores
arroxeadas e negras colidia e lutavam por uma porção do céu quase infinito. Misturavam-se uma às outras, no encontro de gases de cores e composições gasosas conflitantes.
Enquanto movimentavam-se em uma dança agressiva e tensa, arrancavam violentas
O LOBO DAS PORTAS
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faíscas elétricas a cada transposição de suas massas de gases e poeira. Tal dança esparramava resíduos de seus corpos gasosos por toda a cercania.
Uma dessas faíscas, pequena para o grande porte dessas nuvens lutadoras, escapou a esmo. Em sua trajetória lampejante, acertou em cheio uma revoada de VespasAndarilhas.
Impassíveis em sua rota natural memorizada por infinitas gerações, seguiam
tranquilas até o acidente faiscante. O encontro mortal dispersou uma pequena porção
de Vespas do grande bando. Separados, o pequeno grupo voou desnorteado na direção
do mundo do Mar de Sílica.
Algumas, sem muita sorte, mergulharam diretamente na textura de sílica. Debatiam suas fortes asas, mas a superfície do mar não era gentil para qualquer criatura que
tivesse o azar de ir ao encontro dela. Com essas criaturas aladas não seria diferente.
Tragadas pela densa superfície, afogaram-se em um debater frenético e desesperador.
Outras, em voo errático, foram de encontro à criatura-ilha.
Sobrevoavam confusas sobre os montes rochosos, ora desviando das elevações,
ora da vegetação. Acostumadas a transitarem por grandes extensões de espaço aberto,
desviar de obstáculos era algo inusitado para elas. Para complicar, estavam em uma
velocidade elevada, o que tornava difícil realizar manobras rápidas. Inevitavelmente,
uma ou outra Vespa esbarrava em algo, lançando-as para a morte sobre as rochas.
Sobrevoaram na direção do Monte Nebuloso, quando a líder do grupo desesperou-se ao ver o adensamento de nuvens. Confundiu-as como sendo as de fumaça, que
era uma das coisas que evitavam por segurança e temor. Tentou desviar o grupo para
cima, mas a manobra fora brusca demais para que o resto do grupo acompanhasse.
Uma delas passou direto pelas nuvens, deixando o grupo para trás. Logo, o grupo sumiu por detrás das grandes nuvens, perdendo o contato visual.
A Vespa-Andarilha, a mais jovem do grupo, não possuía todos os sentidos desenvolvidos o suficiente para se safar desta situação incomum. Voou a esmo, em meio
às nuvens, sem ter nenhum parâmetro visual para se guiar.
Diminuiu sua velocidade por prudência, mas sua decisão fora tardia. Um espectro surgira repentinamente e a colisão fora inevitável.
Adentrou por algo sólido, mas que se quebrara ao impacto. A Vespa rolou por
dentro do que achava ser um grande casulo e só parou quando uma das paredes suportou o impacto da queda.
Ainda zonza, a Vespa observou o local da queda. Apesar da pouca luz do lugar,
realmente aparentava ser uma habitação de fato. Mas o surgimento de um espectro
grande amedrontou a jovem Vespa.
O Lobo, que momentos atrás se aconchegava em sua macia e quente cama, murmurava algo de um sonho. Nele, sonhava que perseguia pequenas moscas-de-fruta-
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MARCIA HARUMI SAITO
mel. Comia-as em bocadas generosas e, sentindo o delicioso sumo de seus corpos,
sentia-se em plena felicidade de sentidos.
Mas seu sonho fora interrompido bruscamente por um barulho ensurdecedor.
Sentiu lascas de madeira voando por cima de sua cabeça. O impacto de algo que
esbarrara com violência em seu dorso deixou-o confuso.
Acordou com os sentidos alarmados, tal como se estivesse pronto para averiguar
quem o perturbou. Uma nuvem de poeira pairava sobre sua cama desfeita, além de ter
destroços de madeira e terra espalhados sobre a textura macia do cobertor.
Sentiu seu pescoço arder e, ao tocá-lo, percebeu que parte dos pelos nele fora
arrancada.
Vociferou de raiva, pois seu ninho de descanso e sonhos fora violado. Rangeu os
dentes em fúria e pôs-se a procurar quem provocara aquela bagunça toda.
Olhou para a luminosidade que se abrira no ambiente. Normalmente era escuro,
pois seu sono exigia escuridão quase total para que descansasse bem.
Observou a abertura em cima de sua cama. Era grande, de duas braçadas pelo
menos, e parecia um rombo coerente a de uma bala de canhão.
Mas aquele buraco era a evidência que foi engendrado um ataque claro a sua casa.
Furioso pela perturbação e pela destruição, vasculhou pelos montes de lascas.
Ao puxar um destroço maior, algo saltou para cima, assustando-o.
Virou-se rápido e, com o braço, tentou alcançar o fugitivo. Esse escapou da
investidado braço do Lobo e se refugiou no canto mais escuro do lugar.
Antes dela escapar, o Lobo sentira o bater de asas bem próximo a seus pelos do braço.
Por esse fato, sabia que se tratava de uma figura alada. Além disso, era a criatura
que produzia o som mais insuportável que já ouvira. O frenético bater de asas, um
som agudo e execrável para seus ouvidos, irritava-o cada vez mais.
Com a adrenalina pulsando por seu corpo, queria dar uma boa lição ao invasor.
Vociferou, como um sinal de alerta, na tentativa de intimidar seu invasor. Deu
alguns passos na direção do invasor. Arqueado e com os braços a arrastarem seus
longos dedos arrilhando o chão da casa, estava em uma posição de máxima
agressividade. Queria impor sua irritação de ter a casa violada e o sono perturbado.
Pressentindo o ataque iminente a poucos passos dele, o invasor saltou de sua
posição. Em uma manobra evasiva, arriscou voar pela porção interna da casa, passando ao lado do Lobo.
O Lobo jogou habilmente seu braço longo e alcançou o invasor. Mas, devido à
posição em que segurara a criatura, essa escapou a algum custo por entre os longos
dedos da pata.
O LOBO DAS PORTAS
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Com esta tentativa, a criatura voou desnorteada até cair por detrás da cama do Lobo.
Ele procurou-o, mas antes de percebê-lo, esse avançou novamente, investindo
um ataque furtivo. Sentiu uma pontada dolorosa em seu braço. Urrou de dor e, em
uma ação rápida, desferiu um golpe a seu opositor.
Atingida, a criatura rolou pelo chão sem emitir um único som. Ela rolou até um
monte de entulho, parando embaixo de lascas grandes de madeira.
Segurando o braço ferido, o Lobo gania de dor. Não se lembrara em nenhum
outro momento de sua vida de sentir tamanha dor em uma estocada de ataque. Formou-se um grande calombo no local do ataque. A ferida ardia e latejava ao mesmo
tempo, em espasmos musculares dolorosos que contraíam sem parar.
Segurou o braço na tentativa de apaziguar a dor. Misturada à dor, a sua fúria
ganhou força sobre ele. Caminhou a passos duros no local da queda da criatura.
Viu um pequeno corpo caído no meio de alguns destroços. Tirou um pouco dos
resíduos e notou que era uma Vespa. Pelas cores, vermelha e rajada de branco e preto,
por suas longas asas translúcidas, podia dizer que era do tipo Andarilha.
Estranhou o fato, pois sabia que Vespas-Andarilhas pouco ou nunca desciam em
porções de terra sólidas. Quando faziam seus ninhos para fecundar e cuidar dos ovos,
realizavam em grupo, em algum asteroide errante pelos céus.
Percebendo que era uma apenas, se preocuraria, pois era o sinal de que seu
bando o procuraria. Logo, teria problemas maiores e em grande número a avançar
sobre sua casa.
Ela mexia devagar suas antenas, como se tentasse ligar-se ao ambiente em
busca de algo.
Calculou o Lobo que, se uma Vespa jovem fizera aquele ferimento, imagine um
bando de Vespas adultas. Era o tipo de ataque em massa que certamente o mataria.
Ignorando sua dor, pegou a pequena Vespa. Quis jogá-la pelo buraco aberto na
parede, na tentativa de se livrar logo do problema.
Quando a agarrou, ela se remexeu pouco. A cada passada do Lobo na direção do
buraco na parede, ela aumentava seus movimentos. Já na beirada do buraco, se debatia desesperadamente para escapar.
Precisou o Lobo segurar com as duas patas, para que a Vespa não o atacasse
antes de arremessá-la para fora.
Logo mais, escutou um zunido baixo. O som propagava pelas paredes de nuvens, de maneira opaca e pouco precisa com relação à posição de quem fazia aquele
barulho. Aparentava estar a uma boa distância, mas era o tipo de som que incomodava
os brios do Lobo.
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MARCIA HARUMI SAITO
A Vespa se debatia dentro da grande pata, que a segurava com firmeza. Ela zunia
baixo, mas, à medida de que seu desespero aumentava, seu zunido irritante se transformou em guinchos agudos.
O som externo aumentava a cada minuto. Era ensurdecedor e em uma vibração
que ia além do sentido da audição. Não podia cobrir suas orelhas, pois soltaria a Vespa.
O dia estava claro, mas as nuvens do Monte Nebuloso estavam às voltas de sua
casa. Espessas, elas formaram um tipo de muro etéreo de proteção. Portanto, estava
protegido pela pouca visibilidade que as nuvens ofereciam.
Podia-se ver o espectro delas a zanzarem além das nuvens. Realmente aparentavam serem imensas, e, em bando, eram criaturas mortais que atacariam sem dó para
resgatar um membro do bando. Em poucos instantes, o ataque acabaria com ele.
Teria que decidir logo, pois o volume dos ruídos aumentava. Era sinal de que
elas se aproximavam cada vez mais.
Distraído em sua decisão, não percebeu que a pequena Vespa se esgueirou de sua pata.
Ainda presa, ela desferiu outro golpe, acertando o antebraço do Lobo.
Tanto pela dor e pelo susto da ferroada, ele soltou-a.
Sem perder tempo, a Vespa voou lépida e desajeitada para cima da casa, sumindo no paredão de nuvens.
Esfregando o local da segunda ferroada, observou a sombra da pequena Vespa
encontrar as demais. Assim que se juntou a seu bando, sumiram o quão rápido suas
asas permitiam.
Uma lufada de vento afastou um pouco as nuvens, descortinando a paisagem.
Pode ver as Vespas-Andarilhas voando além do Grande Céu. Notou que a pequena
Vespa, voando ao lado de suas companheiras, era perceptível o quanto eram imensas.
Eram quase três vezes maiores que a pequena Vespa.
Pensativo, o Lobo calculou que se uma Vespa jovem fizera aquele estrago todo,
vendo o bando em grande número e de portes consideráveis, certamente causariam
uma morte dolorosa.
Suspirou em alívio, pois era preferível sair ferido a ser morto de uma situação
como essa.
Observou o estrago em seu lar. O buraco aberto no teto era de tamanho considerável. Calculou que era do tamanho de pelo menos umas três portas pelo menos. Se
quisesse ter um lar confortável, teria de fazer uma pequena incursão para a reforma.
Pela posição da luz, o fim da tarde se aproximava. Era o tipo de horário em que
muitas criaturas e seres começavam a se recolher para suas tocas e casas. O fim do dia era
pontuado com o encerramento da luz do sol, que sumia pelo horizonte do Mar de Sílica.
Quem se arriscava a transitar sob a escuridão eram somente as criaturas que,
O LOBO DAS PORTAS
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habituadas a pouca luz, saíam para caçar. Apenas aquelas que tinham a urgência em
sair à noite, se arriscavam por um bom motivo. Ou provido de sua própria luz, garantiria um pouco de segurança.
E uma dessas criaturas, um jovem duende, fazia sua incursão pelo terreno acidentado.
Segurava uma pequena lanterna feita de uma cabaça recortada. Ele se guiava
pela luz fraca da lanterna, querendo acreditar que ela o protegeria na escuridão. Sua
casa, que compartilhava com sua família, não ficava longe.
Seu passo apressado indicava que tinha uma missão um tanto urgente.
Esquecera sua faca favorita no celeiro dos pulgões de cevada. Horas antes, ocupado em uma tarefa enfadonha, esquecera-a espetada no pilar da entrada.
A escuridão trazia uma urgência em que não se arriscaria em ter perigos que nem
sempre a luz afugentaria.
Transpôs as raízes saltadas do velho aspargo e logo visualizou o pátio do celeiro.
Notou algo incomum no lugar.
Sob a luz da lanterna, viu um dos pulgões solto no pátio. Era o menor de todos
que, sempre que podia, escapava de sua baia, dando trabalho para recolocá-lo.
Mas a presença dele não era única.
Viu a velha pulga malhada, que normalmente nem saía de seu lugar. Mas lá
estava ela, a pastorear um tufo de gerânio-seda.
Quando direcionou a luz para o celeiro, percebeu o motivo dos pulgões estarem soltos.
Faltavam as duas portas grandes do celeiro. Os pulgões, percebendo que não
havia obstáculos para o lado de fora, escaparam de suas baias e pastavam pelo pátio.
O curioso é que pulgões não eram dotados de muita inteligência. Apesar de adquirirem uma liberdade inesperada, não saíram além dos limites do pátio.
Vendo a situação inesperada, o duende chuta um pedrisco. Gritou algo indecifrável
em sua língua de duende, tal como blasfemasse os deuses e o mundo.
Pegou o que viera buscar, mas logo retornou correndo para a casa. Bufando de
raiva pela descoberta, teria que dar a notícia ao velho pai, de que ele atacara novamente.
Em uma porção de montanhas não muito distante dali, em um vale formado por
rasgos rochosos, estava ancorada uma pedra-flutuante. Suas formas arredondadas de
pedra polida possuíam pequenas escotilhas de visualização. Rajada de tons que variavam do verde pertencente ao musgo sobrevivente até tons marrons e negros, que
foram as lambidas de fogo de um vulcão em erupção.
O morador e dono da inusitada pedra-casa era um bruxo de Caminhos. Gostava
de transitar entre os mundos em sua pedra-casa. Ancorou por ali para usufruir de um
descanso merecido. Não gostava de deixar sua pedra-casa à deriva, pois, a última vez
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MARCIA HARUMI SAITO
que fizera tal coisa, quase caíra na Grande Fossa dos Mundos. Uma coisa nada boa,
principalmente porque era a morte para todas as coisas vivas que tivessem o azar de
ser capturado pela sua imensa e forte gravidade.
A criatura-ilha era confiável em sua mobilidade lenta e estável. Só em relação ao
lugar que escolhera não fora tão sábia por causa dos eventuais gases malcheirosos que
se erguiam dos rasgos rochosos. Exausto, era o lugar que se podia arranjar, dado ao
cansaço que o exaurira.
Não era muito grande, mas a pedra-casa era o lar que todo bruxo de Caminhos poderia
ter de melhor. Sólida e compacta, mantinha quente e seguro quem se abrigasse em seu interior. Com portas e janelas em locais estratégicos, o bruxo tinha uma visão privilegiada de
paisagens fantásticas em viagens pelos mundos que costuma visitar, de tempos em tempos.
Largado em sua poltrona favorita, saboreava seu cachimbo, relaxando e dando
baforadas circulares para o alto.
Mas percebera que os aros de fumaça se dispersavam rápidos.
O fogo de sua lareira tremulava, indicando que uma corrente de ar circulava por ali.
O bruxo, paranoico em ter brechas em seu lar hermético, procurou a fonte daquela
corrente. Andou pelo andar, vasculhando por toda a brecha que poderia ter pelos cantos.
Verificou as janelas, que estavam bem lacradas. Depois de um tempo, em nada
sugeriria de onde viria aquela corrente.
Foi até a porta do corredor de acesso e sentiu o vento passar por debaixo dela.
Puxou o tapete para um pouco mais perto da porta, tapando a passagem.
Satisfeito, voltou para sua poltrona.
Não se sabe se era por causa do efeito do fumo, o bruxo demorou a se atinar da
razão de existir uma corrente de ar por detrás da porta do corredor.
Quando se deu conta, deu um pulo de sua poltrona.
Ao abrir a porta do corredor, a corrente de ar balançou sua barba e bata que
vestia. Viu as teias de aranha tremularem, denotando que a corrente de ar era mais
forte de que poderia suspeitar.
Desceu correndo pela escada e, antes de pisar no último degrau, viu o hall de
entrada com os tapetes e móveis fora de seus lugares. O vento era mais intenso e
empurrou o que estivesse ali para o corredor interno do piso inferior. Olhou para a
porta principal e percebeu uma ausência.
Sem a porta principal, o vento corria solto pelo piso, revirando e jogando o que
encontrasse pelo seu caminho.
O bruxo, sem entender a princípio o que acontecera com a entrada da casa, examinou toda a porção do vazio da porta. Percebeu que os ferrolhos de tranca e movi-
O LOBO DAS PORTAS
65
mentação foram arrancados.
Andou até o corredor interno e percebeu que a porta da cozinha se fora também.
Mas o que irritou o bruxo foi que até as portas dos armários se foram também.
Puxou uma cadeira e, acariciando sua longa barba, meditou sobre o ocorrido.
Pensou por um tempo e se atinou que fora vítima da ação de uma criatura exótica.
Esquecera que naquela ilha reinava um dos seres de hábitos mais estranhos que
já vira pelos mundos que percorrera. Essa criatura costuma se abastecer de portas
sólidas e tinha a preferência por portas furtadas, principalmente.
Lá estava o bruxo, improvisando uma porta de pano grosso, blasfemando a visita
do Lobo das Portas. Ainda teve a sorte de não topar com ele. Se ele o encontrasse, perder
uma porta era o de menos, comparado a de levar um golpe mortal dessa criatura.
Enquanto suas vítimas se arranjavam para arrumarem as entradas de seus lares,
o Lobo das Portas finalmente podia descansar em sua confortável cama, sob um teto
novo em folha.
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MARCIA HARUMI SAITO
Indicações da
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para seus leitores.
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REVISTA DE FANTASIA, MISTÉRIO E TERROR
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O
mundo estava mudando. Despina podia sentir. Os humanos sempre mudavam, obviamente, mas algumas mudanças eram mais significativas que outras. O virar de uma era, o tropeçar de um novo começo. Essa era uma
daquelas vezes em que tudo ruía no caos para desabrochar outra vez.
Fechou a cortina, levemente irritada. Era uma manhã nublada. O trânsito
estava ruim. O barulho da rua lhe causava dor de cabeça.
Chamou seu criado, um humano de aspecto doentio, mas simpático, e pediu
um chá quente. A cabeça latejava com força, quase acompanhando as batidas de seu
coração. Tentou ignorar aquele ritmo enervante e deitou-se no sofá. Não costumava
sentir-se mal daquele jeito, a não ser quando estava mal-humorada. Era forte, sólida.
Se bem que o mundo do jeito que estava talvez não fosse assim tão estável. Os
humanos eram sempre inconstantes, suas crenças flutuavam. Com suas incertezas e
invenções, os deuses fraquejavam. Até mesmo o deus da cruz andava fraco nos últimos tempos, substituído por apostas financeiras, fé na tecnologia. A influência dos
seres divinos se tornara cada vez mais restrita nas últimas eras.
Despina lembrava-se bem de quando andava pela terra trazendo o inverno.
Lembrava-se da sensação de sair de sua morada no fim do outono e andar pelos
campos deixando atrás de si um rastro de gelo e destruição. Seu nome era dito
apenas em sussurros assustados. Seu culto reunia aqueles que amavam a escuridão.
Senhora. Sim, ela fora a Senhora que escorria pelos dedos o sangue gelado do coração dos humanos.
– Minha senhora, o seu chá.
Ela olhou para seu criado, tão subserviente e hesitante, tão diferente dos devotos
que tivera no passado. Pegou a xícara quente com cuidado e sugou um pequeno gole.
Hortelã. Ótimo.
Não que estivesse tão decadente quanto outros deuses. Se havia uma coisa que
os humanos faziam bem era destruir. E a cada guerra, catástrofe e desgraça havia uma
centelha de Despina, algum humano cujo coração lhe mandava energia. Os humanos
amavam contemplar os destroços em um deslumbramento de sua própria força. E
havia ali o devotamento à Senhora, à deusa da destruição.
Ainda assim estava suscetível a dores de cabeça.
– Mas o que é?
O criado não parava de falar. Às vezes, tinha a impressão de que a voz dele era o
guincho de um rato.
– A senhora tem uma visita. Está na porta. Devo mandá-la entrar?
A curiosidade fez com que Despina deixasse de lado o chá e a dor de cabeça.
A estupefação fez com que se levantasse da cadeira.
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Adentrando sua sala de estar, uma mulher jovem, de cabelos cor de palha. Vestia-se de modo grosseiro, porém aquilo não lhe conferia um aspecto pobre ou frágil.
Ao contrário. Alguma coisa nela lhe era estranhamente familiar, mas a deusa tinha
certeza que nunca antes se deparara com aquela humana.
– Olá Senhora. – ela disse, e Despina notou a inflexão diferente na palavra – Vim
lhe oferecer meus cumprimentos e uma aliança.
A deusa franziu a testa Seus dedos finos e longos apontaram para a mulher à sua frente:
– Uma humana propondo a uma divindade. Esses são mesmo tempos muito estranhos. Como conseguiu chegar até mim?
– Tenho meus meios, Senhora. Percorri um longo caminho até aqui. Mas isso
agora não interessa. O que importa é o que tenho a lhe dizer.
– E o que seria isso?
– Que o mundo está mudando.
– Você não esperava que uma deusa não soubesse disso, esperava?
– Não apenas mudando, Senhora, está acabando.
Despina riu. Sua risada escura e longa.
– Não me venha com as histórias daquele louco. Bestas, anjos, fogo, selos. O
homem era completamente insano e, mesmo assim, todos parecem acreditar naquele
disparate todo.
– Ah, não, Senhora. – falou a mulher, sorrindo de leve – Desta vez será diferente. A Senhora está sentindo, não está? No ar... algo que destoa na ordem das coisas.
Algo poderoso.
Despina lembrou-se de sua dor de cabeça, dos ruídos da rua. Analisou a humana
atentamente, mas não notou nada de especial. Era apenas uma mortal comum.
– E uma humana detém o conhecimento de tal acontecimento. Que interessante.
A mulher pareceu não se importar com a ironia ao responder:
– O tempo dos deuses voltará. A magia mais uma vez andará pela Terra. Será
parte da vida dos humanos. A espera acabou, Senhora. A era antiga será restaurada.
– Que notícia boa. Mas por que você veio me contar? Por que não foi procurar
Zeus e os maravilhosos deuses à sua volta?
Sua voz era de deboche, mas havia uma certa mágoa por detrás dela. A mulher
humana pareceu perceber e Despina sentiu-se incomodada.
– Zeus? – ela escarnou – Quem é que acredita em Zeus? Um deus desprovido de
qualquer crédito dentre os humanos, um deus em completa decadência. Ah, não, Senhora, os deuses que reinarão nesse novo mundo serão os deuses da escuridão.
70
MELISSA DE SÁ
Despina não disse nada, apenas arqueou a sobrancelha.
– Durante todas essas eras, Senhora, quais deuses nunca se enfraqueceram? Quais
deuses nunca perderam toda sua aura energética? – a mulher olhou fundo nos olhos da
deusa – Os deuses do submundo. Hades e Perséfone. Há sempre aqueles que reverenciam a morte, que a temem, que a alimentam. O submundo é forte, Senhora.
– Então, por que você não está lá? – tentou soar imponente, mas soou irritada.
Talvez fosse a dor de cabeça.
– Porque ele será tomado. É isso que proponho. Que tomemos o submundo
antes do fim.
Despina estava quase rindo. Humanos eram tão imprevisíveis, tão obtusos... Em
outros tempos teria consumido a jovem com sua ira, mas agora eras depois, tudo se
tornava quase divertido. Pitoresco.
– Tomar o reino de Hades? O que a faz pensar que isso seria possível?
A jovem riu de leve:
– Os deuses estão se apagando. Os humanos não mais precisam de seus favores
ou interseções. Mas há sempre caos, o que faz a Senhora tão forte. O coração dos
homens é cheio de fé na escuridão, na destruição, no inverno sem fim. Durante todos
esses milênios, a Senhora nunca enfraqueceu. Sempre esteve forte, presente. É a única
deusa que poderia enfrentar Hades.
Era verdade. Despina nunca sofrera a privação energética que causara o fim de
outros deuses. Não era tão forte quanto era nos tempos em que reunia devotos e cultos, mas nunca precisara recorrer a rituais e outras artimanhas para obter vitalidade.
Ainda podia executar magia. Ainda podia sentir as vibrações da terra.
– Quando o fim chegar, estaremos no submundo. A Senhora estará no trono dos
mortos, reinando sobre os vivos.
– E você, humana? Como faria isso? O que obteria em troca?
– Não se preocupe comigo, Senhora. Tenho meus meios, tenho meu lugar.
– Por que deveria acreditar em uma palavra sequer do que diz?
– Porque a Senhora sente a mudança do mundo. Sente no próprio corpo. E porque a Senhora quer se vingar de Perséfone. Essas motivações são mais que suficientes. Minha proposta foi dada. – falou a jovem, devagar – Agora preciso ir.
Despina a observou dar as costas e abrir a porta, mas, antes que ela se fosse,
perguntou numa voz rouca:
– Qual é seu nome?
A jovem olhou para trás, de relance, e disse antes de ganhar a rua:
– Moira.
O TECER DA ESCURIDÃO
71
Despina desceu do carro, segurando a bolsa apertada contra si. A dor de cabeça
não a abandonava, mas essa agora era marcada pelas palavras da moça de cabelos cor
de palha.
Já fazia mais de um milênio que não encontrava aquelas a quem procurava, mas
achava que ainda viviam na mesma região. Concentrou-se para perceber se havia
magia no local e sentiu uma palpitação no peito.
Havia.
Pediu ao criado que esperasse no carro, do lado de fora da propriedade. Entrou a
passos rápidos pelo portão abandonado, seus pés fazendo um som horrendo na lama.
O tempo estava tão úmido... tão sombrio...
A deusa respirou fundo.
Tocou a campainha.
Uma mulher de pele morena abriu a porta de má vontade:
– O que é?
– Procuro as Moiras.
– Não tem ninguém com esse nome aqui – respondeu a outra numa voz arrastada.
– As Parcas. As Fiandeiras. As Tecelãs da Vida. Ou qualquer outra bobagem a
qual elas se chamem. São três irmãs enxeridas. Preciso falar com elas.
A mulher bateu a porta. Despina encheu-se de fúria. Sentiu as pontas dos dedos
formigarem com a magia que convocara inconscientemente.
Já estava pronta para arrombar a porta quando a mulher morena abriu-a novamente. Seu aspecto, no entanto, era outro. Seus olhos estavam em alerta.
– Entre! Eu sou Joan Harper e estava esperando alguém como você chegar.
A casa estava abandonada. Havia poeira em toda parte e aparentemente não havia luz elétrica, pois tudo se encontrava na semiescuridão.
Despina lembrava-se da última vez em que estivera naquele lugar, à procura das
irmãs. Elas estavam amontoadas num casebre, a Roda da Fortuna ocupava toda a sala.
Seus olhos opacos tudo pareciam perceber. Disseram-lhe um monte de coisas sobre
72
MELISSA DE SÁ
sua nova vida na escuridão, sobre como ela poderia sobreviver se ao menos se misturasse aos humanos, sobre como no dia em que procurasse sua mãe teria uma revelação
súbita. Frases entrecortadas, cantos estranhos. A conversa delas sempre fora confusa.
Eram as filhas do Destino, afinal.
A casa, no entanto, era diferente agora. Grande e espaçosa, com traços de um
luxo passado. Quadros pintados a óleo, tapeçarias, lamparinas com adornos. Se não
fosse a magia presente, Despina diria que se tratava da morada de algum banqueiro ou
quem sabe a herdeira da fortuna de uma rede de hotéis do último século. Mas havia
magia forte ali, pulsando, e ela estava ligada à Roda da Fortuna. Podia sentir.
– Estranho. – murmurou.
– Como é? – perguntou Joan Harper.
– Nada.
As Moiras tinham destruído a Roda, alguns séculos antes. Tinham dado aos humanos e deuses o livre arbítrio, o que Despina julgara ser um erro absurdo. Perderam
a força pouco a pouco, as irmãs, e começaram a definhar em vida.
– Eu era uma pesquisadora, professora numa universidade. Quando as universidades ainda significavam alguma coisa. – começou a mulher morena, sentando-se
numa cadeira imunda de poeira e ácaro e tirando do bolso uma garrafa de bebida que
ofereceu a Despina. Essa negou com a cabeça. – Pesquisava o sobrenatural, as coisas
do oculto. Numa de minhas viagens conheci três irmãs de fala estranha. Nunca mais
as encontrei, mas comecei a pesquisar a família. O sobrenome era Parkas. Família
bastante intrigante. Cheia de mulheres. Sempre três irmãs, geração depois de geração.
Eram sempre astrólogas, numerólogas, amantes do tarô. Uma delas foi adivinha, no
século 15.
Despina olhou longamente para Joan Harper. Era uma humana perto de seus
quarenta anos, já frágil por conta da bebida.
– Cheguei até essa casa há alguns anos. O trabalho de quase uma década. Sabe,
deixei tudo para trás por conta dessa busca. Não é uma loucura? – os olhos dela brilharam, sua voz saiu nervosa enquanto era amaciada por outro gole. – Quando cheguei aqui, encontrei uma moça Ela era Parkas também. Mas era filha única. Cabelos
cor de palha, jeito simplório. Disse que estava esperando por mim, que eu era uma
mensageira.
Joan Harper riu novamente, encarou o teto, como que envolta numa lembrança
não muito clara,
– Ela disse para eu ficar aqui até que alguém viesse procurar por ela. Me mandou
dizer a essa pessoa que seu corpo sofrerá as consequências do fim do mundo mas que
ela será a única a sobreviver pois está no coração de todos os mortais. Disse que a
pessoa já tinha ouvido isso no passado, quando havia três irmãs e uma roda de fiar.
O TECER DA ESCURIDÃO
73
A magia no local pareceu pulsar mais forte, e a dor de cabeça de Despina atingiu
seu ápice. Joan Harper estava agora lendo o rótulo de sua própria garrafa, debilmente.
Uma professora do oculto, pesquisadora do sobrenatural, totalmente alheia
ao fato de que se encontrava na presença de uma deusa tão antiga quanto o vento
e as folhas, e que fora peça central em um dos momentos mais importantes de
todas as eras. Despina não costumava sentir pena, mas o que de patético daquela
mulher a impediu de amaldiçoá-la para todo o sempre? Ela já estava presa em sua
própria maldição.
– Preciso ir agora.
Joan Harper sorriu como um cachorrinho que agradara seu dono e levou-a à
porta da frente.
Quando Despina entrou no carro, ainda conseguia divisar a imagem da mulher à
porta do casarão, semiescondida na névoa.
– Para onde vamos, senhora? – perguntou o criado.
– Só siga em frente. – ela falou devagar, pois naquele momento faria o que nunca
tinha feito em toda sua existência divina.
Procuraria sua mãe.
Deméter morava numa cabana no meio da floresta. O mato crescia fora de controle, não havia flores ou árvores frutíferas à vista. Despina andava lentamente, com
cuidado para não prender o pé em alguma erva daninha. Ao que parecia, sua mãe tinha
perdido o jeito.
Sorriu.
Bateu à porta da cabana, que cheirava a madeira molhada.
– Quem é você? – perguntou a deusa que a abriu.
– Não finja que não sabe quem sou, mamãe.
– Qual é seu nome, criatura?
– Tenho muitos nomes. Nenhum deles dados por você.
Deméter deu um passo para trás e Despina entrou sem ser convidada. Durante
muitas eras, imaginara qual seria o rosto daquela que a desprezara quando era apenas
um bebê. Aquela que percorrera todo o mundo em busca da filha favorita, Perséfone,
aquela que fizera um acordo com Hades. Estava decepcionada. Deméter estava velha,
alquebrada. Provavelmente o número de adeptos ao culto da natureza andava meio
baixo naqueles tempos de poluição e efeito estufa.
74
MELISSA DE SÁ
– É uma casa adorável. – falou Despina num sorriso largo.
– O que você quer? – perguntou Deméter, deixando a porta da frente ainda aberta.
– Fazer uma visita. Ver como vão as coisas.
– Você deve saber como andam as coisas. Estamos todos definhando. – a voz de
Deméter era cheia de raiva, mas uma raiva desprovida de magia, percebeu Despina. –
Deve saber que aquele que me fez gerá-la está morto.
Despina franziu a sobrancelha. Poseidon extinto. Essa era uma novidade.
– Seremos os próximos. – prosseguiu a velha – Nem mesmo com a energia das
árvores consigo me manter. Ouço notícias do fim dos deuses a todo momento. E até
Perséfone, a bela Core, minha filha tão amada... – os olhos da velha se encheram de
lágrimas. Despina sentiu nojo. – Até mesmo ela, que trás vida a essa terra, está perdida. Neste mundo de estações não definidas, nem sempre ela consegue deixar seu infernal esposo no tempo certo. E eu fico sem ver minha filhinha...
Deméter chorava, e a dor de cabeça de Despina parecia piorar.
– Mas você... – os olhos da velha se encheram de súbita alegria – você... talvez
você não tenha vindo aqui por acaso... talvez as Filhas do Destino estejam agindo...
– Elas se foram, mãe. As Moiras definharam quando deram o livre arbítrio ao mundo.
Não falou sobre Joan Harper e a estranha história das irmãs Parkas. De qualquer
forma, achava que não faria diferença, pois Deméter parecia não ouvir:
– Sim, é isso! Você, você poderá ajudar a sua irmã! Vocês são forças opostas... ela é a força da vida e você é a destruição. Se você doar a ela sua energia
vital... se você der a ela sua divindade... ela poderá voltar. Minha linda, minha
filha querida, Core...
Despina não conseguiu esboçar qualquer reação quando Deméter se atirou a
seus pés, o nariz escorrendo de tanto chorar, e implorou que ela desse sua vida
para Perséfone.
– Só você pode, só você... vocês estão ligadas pela polaridade do mundo... só o
que é seu pode ser dela...
Quando achou que já bastava, quando sentiu a magia fluir de seus dedos para
expulsar Deméter, sentiu como se seu crânio estivesse sendo rachado ao meio. Sentiu
o ar faltar do peito. Ao longe, escutou alguém adentrar a porta, ouviu Deméter gritar,
mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, caiu em um abismo de consciência.
O TECER DA ESCURIDÃO
75
Acordou com bipes pontuados.
Quando olhou em volta, viu-se num quarto imaculadamente branco. Estava presa numa cama, fluidos ligados a seu corpo. Era um hospital. O ritmo de seu coração
enchia o lugar.
Levantou-se assustada. Nunca estivera em um hospital antes. Era uma deusa. A
deusa da destruição, como é que poderia...
– Bem-vinda à humanidade, Despina.
Seus olhos focaram então a mulher sentada no sofá do quarto. Os cabelos cor de
palha, o jeito simplório...
– Moira. – sua voz saía fraca – Ou Moiras. Como devo lhe chamar?
A outra apenas sorriu de leve:
– Agora somos apenas Uma. Finalmente, depois de séculos e séculos de espera,
pudemos nos unir. Eu sou Moira, Despina. E há séculos atrás eu lhe disse das coisas
que aconteceriam hoje.
Despina se encolheu na cama e sentiu medo. Nunca sentira medo antes.
– A humanidade não é ruim. – falou Moira se aproximando da cama – Foi o que
percebi séculos atrás. Precisávamos mudar o mundo, restaurar os deuses. Mas não os
deuses de antes. Ah não! Não Zeus e Poseidon e seus lacaios... não... Se a ordem dos
deuses voltasse, teria que ser por um outro viés. Os deuses da escuridão. E você, ah
você, Despina, sempre foi parte central.
O sorriso de Moira parecia o de uma moça inocente, mas seus olhos eram os de
uma anciã arguciosa.
– O livre arbítrio. A melhor ideia de todas. Se todos estivessem à própria sorte,
então o mundo poderia seguir seu próprio caminho para a destruição. Os deuses certos sobreviveriam porque o coração dos homens é cheio de sortilégios, a maioria
deles denso e escuro. O submundo estaria ali para ser conquistado e, a partir dele, todo
o resto. Quem reina sob os mortos, reina sob os vivos. Hades nunca percebeu isso.
Mas nós sim. Eu sim.
Despina tentou se levantar da cama, mas estava fraca. O medo invadia seu coração, trazendo um frio estranho para dentro de si. Percebeu, assustada, que era o frio
que ela mesma costumava emanar para suas vítimas.
– Está tudo bem, Despina. – falou Moira, aproximando-se – Sua divindade
retornará. Ela está bem aqui – e Moira tirou um camafeu do pescoço. Um camafeu
negro como a noite. – e eu a devolverei a você. Mas, por enquanto, ficaremos escondidas. Os deuses irão perecer e, então, quando Hades e Perséfone pensarem que o
submundo é o último refúgio... nós seremos novamente deusas. E tomaremos o que é
por direito nosso.
76
MELISSA DE SÁ
– Perséfone... – murmurou Despina – Perséfone e eu...
– Ah sim... essa parte é importante. – por algum motivo, aquele sorriso em Moira
a desconcertava. Talvez isso fosse ser humano. Ter medo do desconhecido. – Você
entendeu. Só você pode tomar o lugar de Perséfone e ser a Rainha da Escuridão.
Então, o mundo voltará a entrar no Eixo da Roda... Pelos opostos. Vamos esperar,
Despina. Esperar na humanidade, desapercebidas dos outros deuses. E quando a hora
chegar, retornaremos. Foi o que fiz ao longo dos séculos, vivendo como as mulheres
da família Parkas até chegar à Unidade. Acredite em mim, Senhora. – e Moira acariciou a face da outra com a ponta dos dedos – O fim do mundo será nosso triunfo.
Despina respirou fundo. Sempre acreditara que a humanidade era limitadora,
mas agora sentia tudo com mais intensidade. Raiva, ódio, desejo de vingança,
desejo de poder... Olhou longamente o camafeu negro que pendia do pescoço de
Moira e disse:
– Esperaremos. Esperaremos nossa hora. A escuridão sempre foi algo que
me apeteceu.
Juntas, as duas encararam o fim pela janela.
O TECER DA ESCURIDÃO
77
78
J
á se contavam muitos anos desde que os últimos homens se atreveram a
percorrer o caminho da emboscada. Um caminho que ligava o norte e o sul,
atravessando a mais alta montanha do continente, e também a mais perigosa. Tinha esse nome devido aos acontecimentos de um século atrás, quando
o povo das sombras investiu contra o maior reino do sul, até então o Reino de Alef.
Vendo o seu reino cair perante a uma violenta ameaça, o rei Alef IV decidiu escapar
para o norte utilizando um antigo caminho secreto, um caminho que atravessava montanhas cinzentas e gélidas. E foi nesse caminho que ele e sua comitiva real acabaram
por sofrer uma emboscada. O povo das sombras não teve piedade, e por mais que
alguns anos depois o reino do norte tivesse descido ao sul e expulsado os malditos
para as terras exiladas, a fama de carniceiros e feiticeiros estariam para sempre com os
sombrios. O rei Alef IV tinha sido o último de sua linhagem, o filho e os parentes reais
também haviam sido assassinados na emboscada da montanha. Os acontecimentos
daqueles dias mudaram para sempre a história. O caminho da emboscada se tornara
maldito. Coisas ruins aconteciam ali. Sempre havia alguém para jurar.
Os dois foragidos já haviam percorrido um longo caminho em sua fuga. Utilizando cavalos roubados, eles tinham escapado da vila das Flores e cavalgado noite
adentro pela floresta das mãos. Quando o dia seguinte ao estupro já havia raiado, eles
se movimentavam discretamente pelas estradas dos camponeses, tentando não chamar atenção e torcendo para que as notícias ruins não tivessem chegado ali ainda.
Quando a tarde chegava ao fim, eles decidiram, após ouvirem um mercador comentar
em voz alta que as tropas do rei estavam descendo para aquelas terras para capturar
dois foragidos, que seria melhor fugir pelo caminho da emboscada. Certamente, não
haveria tropas de soldados ali.
Então, na noite seguinte ao estupro, eles já estavam percorrendo o caminho. Tarek,
o mais velho, sentia medo. O caminho da emboscada se tratava em sua maior parte, de
uma estrada pedregosa e irregular, espremida entre paredões de rocha cinzenta. Um
lugar perfeito para emboscadas, pois não havia para onde fugir. Se o rei Alef IV e seus
asseclas não haviam percebido isso, tiveram um merecido fim. Tarek sabia que aquele
caminho significava estar longe das tropas, mas não longe de perigos.
Whiper, o mais novo, e o culpado por eles estarem ali, não pensava muito no
medo. Ele sabia das histórias sobre o povo dos caçadores de cabeças, eremitas assassinos que, diziam os mais velhos, habitavam as montanhas por onde o caminho passava. Eles viviam em cavernas e não sentiam fome, a não ser, claro, se sentissem cheiro
de carne humana fresca, e, aí sim, seus estômagos começavam a se contorcer, e eles
saíam em busca de suas presas como uma matilha de lobos ferozes. Aquelas eram
histórias antigas, mas que ganhavam força sempre que grupos de homens se atreviam
a passar por aquele caminho e nunca mais eram vistos. Whiper, apesar de ser um tanto
inconsequente, não era isento de medo, mas preferia arriscar a ser preso por estuprar
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uma camponesa da vila das Flores. Aquele era um crime grave no sul, e a punição era
pior do que a morte.
Ambos cavalgavam em silêncio, em parte pelo cansaço e em parte porque Tarek
não tinha nenhuma intenção de manter diálogos com o seu irmão. Whiper havia cometido o pior erro que alguém poderia cometer, e o tornara seu cúmplice. Agora,
ambos estavam amaldiçoados, tudo por causa de uma atitude estúpida.
– Vamos parar aqui, os cavalos precisam descansar – disse Whiper, surpreendendo Tarek em seus pensamentos.
Tarek observou uma pequena clareira que se afastava um pouco do caminho.
Havia uma cobertura de pedra que poderia afastar um pouco o frio e servir de abrigo.
Ele esperou Whiper desmontar e pensou se não seria melhor seguir adiante e deixar o
irmão sozinho ali. Certamente assim ele teria melhores chances de chegar ao norte.
– Não pense em fugir, Tarek – Whiper novamente surpreendia o irmão, com uma
malícia na voz. – Eu o perseguirei até o inferno.
– Dessa vez você foi longe demais, Whiper – respondeu Tarek, finalmente desmontando do cavalo. – Penso se devo continuar a protegê-lo.
Whiper amarrou o cavalo em uma pedra e tirou uma pequena garrafa de vinho
do casaco de peles que vestia. Ele bebeu um pouco e sentou-se.
– Os irmãos devem se proteger. Essa é a lei – respondeu, após refletir um pouco.
– A única lei que existe para estupradores é a lei do rei.
Whiper então abandonou sua calma e arremessou a garrafa com vinho contra
as rochas.
– E por acaso você me impediu, seu sacana? Por acaso me tirou de cima daquela
pobre diaba? O que você fez, Tarek? Além de assistir?
Tarek fechou os olhos e reviu as cenas. Eles estavam de passagem pela vila das
flores, indo para a cidade do Cabo para praticar alguns roubos e furtos, e decidiram
ficar na vila para apreciar a festa de aniversário do prefeito. Quando a noite já estava
bem avançada, ele bebia em uma taverna com alguns outros beberrões e notou o
sumiço do irmão. Foi até o estábulo conferir os cavalos e foi então que viu Whiper em
cima de uma bela camponesa. Primeiramente, ele pensou que o irmão havia conquistado mais uma bela moça com seus dotes de conquistador, mas depois percebeu que
havia algo errado. A moça grunhia, e Whiper tapava sua boca com violência. As pernas da camponesa se agitavam enquanto ela era penetrada. Tarek não teve dúvidas,
era um estupro.
O que se seguiu foi o que ele ainda não conseguia explicar. Deveria ter tirado o
irmão de cima da moça, mas não o fez. Ficou assistindo a tudo, sentado no escuro.
80
PEDRO LUNA
Quando o estupro terminou, ele foi até Whiper e viu que a moça estava morta: sufocada.
Os dois subiram nos cavalos e partiram. Os únicos forasteiros na vila durante aquela
noite. Um erro terrível. Mas ele era cúmplice desse erro. Ele também era culpado. Que
força maligna o impediu de deter o irmão?
Tarek suspirou.
– Não quero mais ouvir uma palavra sua – bradou. – Se vamos fugir, que seja em
silêncio, e, quando chegarmos ao norte, seguiremos por caminhos diferentes.
Whiper recuperou a garrafa com vinho e deu de ombros.
Os dois acomodaram-se como podiam e tentaram dormir. Não fizeram fogueira,
aquilo poderia atrair visitas indesejadas.
Em algum momento, Tarek caiu no sono, mas foi despertado por um barulho
esquisito e viu que Whiper estava de pé ao seu lado, fazendo sinais e apontando para
a escuridão ao redor.
– Tem alguém ali – sussurrou Whiper. – Está rondando a clareira.
Tarek tentou enxergar algo, mas a luz da lua clareava apenas parcialmente os
arredores. Havia picos de escuridão que podiam servir como esconderijos para um
observador.
– Caçadores de cabeças?
– Pode ser.
– Você os viu?
– Não. Mas eu senti a movimentação.
– E se for um animal?
– Então, estamos salvos.
Dito essas palavras, os irmãos começaram a preparar os cavalos para partirem.
Faziam tudo com naturalidade, mas conscientes do perigo e preparados para puxarem
os punhais que carregavam dentro dos casacos de pele.
– Com sorte nos deixam ir – sussurrou Whiper. – Vamos simplesmente seguir
nosso caminho.
Os dois subiram nas montarias e seguiram trotando pelo caminho da emboscada. Após algum tempo, Whiper emparelhou o seu cavalo com o de Tarek e explicou o plano.
O CAMINHO DA EMBOSCADA
81
– Ainda nos perseguem. Você pode ouvir?
Tarek confirmou, afirmando com a cabeça.
– Irei saltar do cavalo na próxima curva. Você o leva consigo e continua nesse
passo. Irei lhe alcançar logo em seguida, mas se por acaso o dia raiar e eu ainda não
der sinais de vida, siga seu caminho.
Tarek entendeu o que o irmão pretendia fazer. Todos os sentimentos que tinha
por Whiper chacoalharam em seu peito. A amizade, o companheirismo, a raiva. Se
fossem os caçadores de cabeças, seu irmão estaria perdido. Ele, como mais velho, era
quem deveria assumir o risco. Abriu a boca, mas dela não saiu nada.
Whiper esperou Tarek se manifestar, mas, quando percebeu que ele nada
falaria, entregou a correia de seu cavalo para o irmão. Quando chegaram na curva
que o caminho fazia, ele saltou do cavalo e se escondeu nas rochas protegidas
pelas sombras.
Tarek continuou em frente, mesmo sabendo que deveria ter feito algo. Sentiu a
mesma paralisia que o impediu de tirar Whiper de cima da moça, na vila das flores.
Mas agora ele sabia. O nome daquilo era covardia.
O caminho serpenteava montanha adentro e a temperatura havia caído ainda
mais. Tarek segurava a correia dos cavalos com uma mão e o punhal com a outra. Já
estava quase amanhecendo e nenhum sinal de Whiper. Será que ele deveria voltar?
Durante toda a sua vida, estivera ao lado do irmão, empenhado em protegê-lo, mas
agora via que na verdade era Whiper quem sempre o protegia. Não era segredo que
seu irmão gostava de se meter em confusões, mas era ele mesmo que sempre achava
uma forma de sair delas.
– Não passo de um covarde. Preciso voltar.
Parou e, quando dava meia volta, viu um cavalo se aproximando. Estava tão
imerso em seus pensamentos que não havia notado o trote. Ergueu o punhal e só
relaxou quando viu que era seu irmão montado no cavalo. Mas havia mais alguém.
Havia uma mulher.
Whiper parou o cavalo ao seu lado e, mesmo com a pouca iluminação, Tarek notou
que ela usava peles de ovelha, típico de camponeses. A mulher estava desacordada.
– Eu a surpreendi. Era ela quem nos seguia, por isso fazia tanto barulho. Quando
eu pulei na frente de seu cavalo, ela desmaiou do susto e caiu, batendo a cabeça –
explicou Whiper.
82
PEDRO LUNA
– Ela está morta?
– Não.
– Uma camponesa. Por que nos seguia?
– Vamos saber quando ela acordar. O dia já vai raiar. Vamos acampar novamente.
Montaram um novo acampamento em uma clareira menor e esperaram o sol
raiar e espantar um pouco o frio.
A camponesa abriu os olhos e viu que os homens dormiam. O dia já havia nascido e fazia menos frio. Sem se mover, ela passou os olhos pelo corpo e notou as mãos
e os pés amarrados com cordas. Pensou que seria capaz de desamarrar os pés e, assim,
fugir, mesmo que não pudesse levar o cavalo (aquilo faria muito barulho). Tinha sido
idiota em se deixar capturar, aquele era o preço a pagar. Inspirou o ar e prendeu a
respiração para iniciar seus movimentos quando percebeu algo esquisito. Uma movimentação estranha no topo das rochas que espremiam o caminho da emboscada. Seriam animais? E, de repente, tudo aconteceu muito rápido. A moça fechou os olhos ao
perceber que o que quer que houvesse em cima das rochas estava descendo. Após
alguns segundos de silêncio e escuridão, ela abriu lentamente os olhos, mas só o
suficiente para deixar entrar um fiapo de visão. O que viu a faria gritar, mas conseguira se controlar.
Eram pessoas, altas e magras. Rondavam o acampamento, e os dois homens
dormindo. Moviam-se silenciosamente, mas tão silenciosamente que nem os cavalos
se incomodaram com suas presenças. A moça não conseguia ver os detalhes nos corpos daquelas pessoas, devido à pequena abertura de seus olhos, mas podia ver que
elas cheiravam os homens, vasculhavam as bolsas, tudo no mais perfeito sigilo. E,
então, uma daquelas pessoas se aproximou dela. Fechou os olhos rapidamente e não
ousou abrir durante muito tempo. Quando, por fim, não aguentou mais ficar de olhos
fechados, os abriu e viu que as pessoas haviam sumido. Os seus captores ainda dormiam, alheios ao presente que o povo das montanhas haviam deixado. No centro da
clareira, havia um crânio humano.
– Estou fugindo para o norte. Fugindo de meu pai – disse a moça. Seu nome era
Kiara e havia dito que morava em uma cidade de camponeses colhedores de arroz. –
Ele queria me casar com o filho de um amigo. Nem morta me caso com aquele gordo.
Tarek e Whiper observavam a mulher amarrada sem saber o que fazer. Ela havia
dito que vira pessoas esquisitas no acampamento, e que essas pessoas haviam deixado
o crânio para eles.
O CAMINHO DA EMBOSCADA
83
– Quantos anos tem? – perguntou Whiper.
– Dezoito.
Whiper coçou o queixo, e Tarek notou um brilho perigoso no olhar do irmão
mais novo. Kiara era bonita, loira, branca, com um nariz afilado que dava personalidade ao seu rosto. Era, sem dúvida, muito atraente. Poderia o irmão tentar estuprá-la?
Até a noite na vila das flores, Whiper nunca tivera aquela atitude. Mas, agora, tudo
havia mudado. Se o irmão tentasse algo, era seu dever impedir. E ele precisaria ter
coragem para isso.
– O que você fazem? – perguntou Kiara.
– Somos criminosos – disse Whiper.
– Fazemos pequenos furtos – Tarek cortou o irmão e recebeu dele um olhar
furioso. – Você não corre perigo.
Kiara refletiu um pouco.
– Eu duvido disso – por fim ela falou.
– Heim?
– Se vocês estão no caminho da emboscada, é porque estão evitando as rotas
normais. Se são bandidos, então acho que fizeram algo muito ruim.
Whiper e Tarek se entreolharam e concordaram que era melhor não falar nada. O
crânio continuava no chão. Branco e limpo.
– Será que esse crânio não é um truque seu? – perguntou Whiper. – Quem sabe
você não é uma bruxa?
– Já disse que foram as pessoa da montanha que o deixaram aí – a moça havia
perdido a paciência.
– E como saberemos que não são seus companheiros?
– Eu acho que se eles voltarem, vocês irão descobrir que eles não são meus
amigos. E acho que não vão gostar nada disso.
Os três ficaram em silêncio, remoendo a situação. Tarek não havia encontrado
vestígios da passagem de pessoas pelo acampamento, mas, mesmo assim, sentia que
Kiara falava a verdade. Era preciso sair dali.
– Por que o crânio?
– Acho que é um tipo de ameaça – murmurou Kiara.
– Acho melhor continuarmos andando. Vamos soltar você – Tarek se aproximou
de Kiara e começou a desamarrar as cordas de seus pulsos.
– Tem certeza disso? – perguntou Whiper, com uma frieza na voz.
84
PEDRO LUNA
– É o certo, Whiper.
Whiper então saltou em cima de Kiara, assustando até mesmo o irmão. Ele sacou
o punhal afiado do casaco e pôs a lâmina na garganta da mulher.
– Antes diga por que estava nos seguindo.
Kiara não demonstrou medo e encarou Whiper com a mesma frieza.
– Eu não sou idiota. Eu conheço a lenda dos caçadores de cabeças que vivem nas
montanhas. Eu seguia vocês para não ficar sozinha. Se as coisas ficassem perigosas,
eu pretendia pedir ajuda para vocês. Mas antes precisava observá-los.
Tarek encarou Whiper, esperando o irmão ficar satisfeito. Whiper estudou Kiara
e retirou a lâmina.
– Não fez um bom serviço.
Ele saiu de cima dela, e Tarek terminou seu serviço. Quando se fez livre, Kiara
bebeu um pouco da água dos irmãos e montou em seu cavalo.
– Vamos embora. Estão esperando o quê?
Os irmãos se entreolharam, confusos e divertidos. Ela percebeu o espanto e tratou de explicar.
– Estamos mais seguros juntos, seus idiotas. Eu vou com vocês.
Até aquele momento, a sensação de perigo ainda não havia se feito tão forte.
Mas, quando Kiara terminara suas palavras, um grito se ouviu pelas montanhas. Um
grito de guerra que os fez congelarem no tempo. Algo estava vindo. Algo ruim.
Os três companheiros de viagem cavalgavam à toda velocidade pelo caminho
da emboscada. Tarek puxava a fila, Kiara seguia no meio e Whiper vinha na retaguarda, preocupando-se em olhar para trás a cada cem metros. Ele podia farejar no
ar que havia algo errado. Só não sabia se o perigo vinha atrás deles, se os aguardava
mais a frente ou se poderia vir de cima e surpreendê-los. Pensava se a garota falava
a verdade, se eles haviam sido visitados por pessoas esquisitas das montanhas, e se
seriam os tais caçadores de cabeças. Pensava em todas as possibilidades, mas esquecera de ficar atento ao chão. O tortuoso caminho de pedras e cascalho, perfeito
para esconder uma armadilha.
Tarek vinha na frente e também não viu a armadilha. O seu cavalo passou por um
pedaço praticamente invisível de barbante e, com a pata, rompeu o fio esticado entre
as duas paredes que cercavam o caminho. Com isso, rapidamente um mecanismo
primitivo, mas eficaz, tomou forma e liberou estacas pontiagudas de madeira que
estavam escondidas por baixo da terra, alguns metros a frente. Tudo feito de uma
maneira calculada. O cavalo passou em alta velocidade, rompeu o fio e avançou al-
O CAMINHO DA EMBOSCADA
85
guns metros só para ser atingido pelas estacas. Elas entraram pelas patas do cavalo e
uma lhe adentrou o peitoral, logo embaixo do pescoço.
Kiara estava atenta e viu tudo acontecer. O cavalo de Tarek parou subitamente
e o condutor foi arremessado para o lado, se chocando com o paredão de pedras.
Kiara conseguiu puxar a rédea de seu cavalo e pará-lo a tempo, torcendo para que
Whiper, que vinha logo atrás, fizesse o mesmo e não se chocasse com ela. Por sorte,
foi o que aconteceu.
O cavalo ferido agonizava relinchando e se debatendo no chão. Kiara e Whiper
desmontaram e foram até Tarek. O mais velho dos irmãos estava acordado, mas sangue fluía do topo de sua cabeça e escorria por seu rosto. A mão esquerda estava ralada
e também ensanguentada.
– Acho que quebrei a cabeça – ele gemeu.
Kiara rasgou um pedaço de pano do braço de seu casaco para pôr na ferida dele,
quando foi puxada violentamente por Whiper.
– Esqueça isso! Ajude-me a quebrar essas estacas, depressa! – ele bradou.
– Mas seu irmão está sangrando.
– Ele não vai morrer. Mas nós vamos se não agirmos depressa. Isso é uma armadilha, então quem a montou está vindo pegar a presa capturada.
Kiara percebeu o perigo que eles estavam correndo e jogou o pano para Tarek,
que gemia e não fez menção de pegá-lo. Ela pegou uma pedra considerável no chão e
se uniu a Whiper para quebrar as estacas pontiagudas. O outro usava seu punhal para
cortar as estacas e apenas interrompeu o processo para enfiá-la na cabeça do cavalo
ferido e matá-lo imediatamente. Por fim, as madeiras cederam facilmente, e eles tiraram metade das estacas do caminho.
– Já podemos passar – disse Whiper. – Me ajude a pôr Tarek no meu cavalo.
Dito isso, Whiper não percebeu a movimentação no alto do paredão de pedra.
Apenas Kiara viu, mas tudo aconteceu tão rápido que não houve tempo para uma reação. Uma flecha foi disparada e atingiu o ombro de Whiper. O fugitivo urrou de dor e se
voltou para o ponto de origem da flecha, sendo atingido por outra, dessa vez na perna.
Kiara permaneceu imóvel, vendo Whiper tombar aparentemente morto, completamente
imóvel, duro como uma pedra. Em seguida, ela sentiu um baque no ombro e foi jogada
ao chão. Quando olhou para o ombro, viu uma flecha fincada em um buraco de sangue.
Ela gemeu e tentou se levantar, mas então sentiu o corpo endurecer e perdeu os sentidos.
86
PEDRO LUNA
Kiara abriu os olhos com dificuldade e notou que havia uma fogueira próxima,
emanando um calor agradável. Sentiu uma pontada de dor na cabeça que a fez fechar
os olhos novamente e rolar para o lado. Quando abriu os olhos, viu que Whiper e
Tarek estavam amarrados juntos, cada qual de costas para o outro. O irmão mais novo
estava acordado e fitava o vazio, enquanto o mais velho estava apagado e encharcado
de sangue devido ao ferimento na cabeça.
A moça fez um esforço para se sentar e notou que tinha o pé esquerdo acorrentado
por uma algema presa a um anel de ferro fincado na parede. Olhou ao redor e percebeu que estavam em uma gruta de tamanho considerável. Na entrada da gruta, havia
uma cerca feita com madeira. Pôde ouvir vozes do lado de fora, mas não conseguia
ver nada além da cerca. Havia muita escuridão atrás dela.
– Ele está vivo? – ela gemeu, apontando para Tarek.
– Ainda respira. Posso sentir – respondeu Whiper, sem tirar os olhos do vazio.
Ele franzia a testa, como se estivesse zangado.
– O que diabos aconteceu? Quem nos prendeu aqui?
Whiper suspirou e enfim olhou para Kiara.
– Usaram flechas com um veneno paralisante. Eu consegui ficar acordado e vi
tudo. São um grupo de homens, e tem algumas mulheres também. Eles usam grossos
casacos de pele de urso e são feios como o diabo. Falavam animosamente em cortar
nossas cabeças e chupar o que tem dentro.
Kiara sentiu uma ânsia de vômito e ao mesmo tempo foi acometida por uma
câimbra na perna presa. Ela se jogou de lado e estirou a perna, gemendo baixinho.
Quando se recompôs, sussurrou:
– São os caçadores de cabeça?
– As lendas estavam corretas – disse Whiper.
– Precisamos fazer alguma coisa – disse a camponesa. – Não quero perder a
cabeça.
Whiper riu e se encostou em Tarek, procurando ficar em uma posição confortável.
– Você acha que não sei disso? Só que ainda não consegui pensar em nada. Pense
você também, duas cabeças pensam melhor que uma.
– Três pensariam melhor – disse a camponesa, olhando para Tarek, que permanecia desacordado e respirando baixinho.
– Não conte com ele – disse o outro. – Eu nunca pude contar.
A cerca de madeira cedeu com violência, assustando Kiara. Um homem enorme,
usando casacos de pele de urso e ostentando uma barba negra que enrolava em cachos, entrou na gruta e sorriu ao vê-los acordados.
O CAMINHO DA EMBOSCADA
87
– Que bom, assim não preciso acordá-los. Será mais fácil – ele disse.
Kiara se encolheu e ficou contra a parede.
– Quem é você? O que quer com a gente? – ela gritou.
O homem gargalhou.
– Me chamo Taurus. E eu imagino que vocês saibam a que tribo pertenço. Sabemos das histórias que contam pelas terras do sul.
– Os caçadores de cabeças – ela gemeu.
Taurus assentiu com a cabeça e se aproximou dos dois homens amarrados. Ele
examinou Tarek e, depois, deu uma olhada em Whiper.
– Sabe, vou contar um segredo para vocês – ele se ajoelhou próximo a fogueira e pôs as mãos para esquentar. – Existe toda uma tradição envolvida na arte
de comer cabeças. E se enganam se acham que o meu povo é o único. A arte de
comer cabeças é milenar.
Whiper gargalhou e tossiu.
– Não precisa explicar seus gostos nojentos.
Taurus sorriu para ele e seus dentes eram pontiagudos e pretos.
– Como eu dizia, é uma arte milenar. Mas o povo dos caçadores de cabeças das
montanhas cinzentas descende de tribos que viviam nos vales dos ossos. Tribos que
saboreavam cabeças desde os tempos remotos. Vieram para cá quando o vale dos
ossos foi tomado por forças malignas dos magos negros.
– Magos negros? Eles existem? – perguntou Kiara e ouviu Whiper desdenhar de
Taurus, rindo sozinho.
– Eles existem, mulher. Ficam escondidos no vale dos ossos, onde os homens
não ousam pisar.
– Você é um comedor de cabeças ou um contador de fábulas? – perguntou Whiper.
– Só quero que entendam o que vai acontecer aqui. Acho que é importante explicar o processo.
Dito isso, ele gritou o nome de alguém e outro homem enorme entrou na gruta.
Tinha uma cicatriz no rosto e trazia outro prisioneiro amarrado. Kiara reconheceu de
imediato que o prisioneiro era uma das pessoas pertencentes ao grupo que ela vira no
acampamento enquanto os irmão dormiam. As pessoas que haviam deixado o crânio.
Era um homem magro, estava nu e a moça pôde ver toda a sua pele ferida e cinzenta.
A sua cabeça era enorme e deformada, alongada para trás.
– Observem essa cabeça – Taurus apontou para o homem cinzento. – Esse homem é um membro da tribo dos homens lagartos. Eles também vivem nas montanhas
88
PEDRO LUNA
cinzentas e se escondem em cavernas e grutas como nós. Não mexemos com eles, e
eles não mexem com a gente. E sabem por quê?
Taurus puxou um enorme machado escondido debaixo de seu casaco e com um
único golpe arrancou a cabeça do homem cinzento. Kiara gritou, escondendo os olhos
com a mão, e Whiper não desviou o olhar. O enorme homem pegou a cabeça do chão
e enfiou a mão por baixo do pescoço. Quando a mão voltou, veio coberta por uma
substância preta e gosmenta. O homem jogou a cabeça no chão e limpou a mão.
– Os homens lagartos são venenosos. Se comermos suas cabeças, vamos morrer.
Por isso os deixamos em paz, a não ser quando eles chegam perto demais de nosso
acampamento, como foi o caso desse pobre infeliz. Na verdade, não sabemos muito
sobre eles, mas já notamos que eles são muito curiosos.
– Posso ver – disse Whiper, com uma frieza na voz. Kiara permanecia encolhida
no canto e sabia que Whiper tentava não demonstrar medo.
Taurus sorriu e manejou o machado de uma mão para outra.
– No entanto, pessoas como vocês...suas cabeças nos agradam. Sorte nossa que
apesar das lendas, as pessoas continuam usando o caminho da emboscada.
Kiara começou a chorar e socou a perna várias vezes.
– Não adianta se lamentar, Kiara – disse Whiper, com firmeza. – Se esse é o
nosso destino, iremos aceitá-lo.
– Você tem coragem – disse Taurus. – Por isso vamos comer sua cabeça por último.
Taurus fez sinal para o outro homem, o da cicatriz. Esse foi até Whiper e esfregou uma planta verde em seu rosto. O mais novo dos irmãos logo fechou os olhos e
adormeceu.
– Essa planta serve como sonífero e paralisante. Usamos-a na ponta das flechas
também – explicou Taurus, percebendo que Kiara prestava atenção, aterrorizada. No
entanto, ao ouvir aquelas palavras, a garota fixou seus olhos nele e cuspiu.
– Você gosta de se explicar, não é?
Taurus ficou sério e saiu da gruta. Kiara acompanhou então o homem da cicatriz desamarrar os irmãos. Em seguida, ele acorrentou o pé de Whiper a outro anel
de ferro na parede e carregou Tarek pelos braços. Ele saiu e fechou a porta de madeira. Kiara olhou ao redor e se desesperou ao ver que aparentemente estavam em
uma situação sem saída.
O CAMINHO DA EMBOSCADA
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Whiper acordou e sentiu lapsos de tontura. Passou a mão na perna e notou que
estava acorrentado. Também podia perceber que seu irmão não estava mais amarrado a ele, o que significava que havia sido levado. Na sua frente, apenas o corpo do
homem lagarto abatido e esquecido. Usou o cotovelo para se apoiar e sentou-se.
Então, pareceu encontrar algo e começou a mexer em algumas pedras que estavam
no chão.
– Eu matei o meu marido – disse a voz de Kiara. Whiper a encarou e deixou que
ela continuasse a confissão.
– Eu disse que estava fugindo da obrigação de casar com ele. Mas na verdade eu
o apunhalei até a morte – ela falava lentamente, como se estivesse se confessando. –
Você acha que eu sou uma assassina?
– O que ele lhe fez? – perguntou Whiper.
– Ele me estuprou – e agora Kiara deixava a raiva fluir, soando agressiva. – O
maldito gordo me estuprou na primeira noite, quando eu me recusei a deitar com ele.
Porco imundo.
– Então você tinha todo o direito.
Kiara não esperava ouvir aquelas palavras e, assim, ficou atônita. Encarando o
também fugitivo, descobriu que queria saber mais sobre ele.
– O que vocês fizeram para fugir pelo caminho?
– Tarek não fez nada. Ele nunca faz nada. É um completo covarde mascarado de
irmão mais velho – disse Whiper, sem ressentimentos na voz. – Eu que errei. Fiz algo
terrível. Estuprei uma mulher. Uma camponesa, assim como você.
Os dois ficaram em silêncio. Kiara deixou a surpresa tomar conta de si, e Whiper
sabia que mil coisas passavam pela cabeça dela. Por fim, ela cuspiu no chão, tirou os
olhos dele e disse:
– Você é outro porco maldito.
– Eu sei disso – disse ele. – E é por isso que vou lhe ajudar a sair daqui. É o
mínimo que posso fazer.
Dito isso, Whiper escolheu um pedaço de pedra no chão do cativeiro. Encontrou
uma com uma borda bem pontiaguda.
– Você sabe que tipo de pedra é essa, Kiara?
Kiara sentiu uma certa loucura na voz de Whiper e preferiu ficar calada. O outro
percebeu e adiantou-se a ela.
– Chama-se Córdatzo. É um mineral muito resistente. Antigamente, os povos
primitivos caçavam animais com essas pedras. Eles escolhiam as pontiagudas e amarra-
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PEDRO LUNA
vam-nas em grossos bastões de madeira. Viravam machados caseiros. Elas laceram
qualquer coisa.
– Por que está me dizendo isso? – perguntou a moça. – Por que essa aula?
Whiper sorriu determinado.
– Porque é assim que sairemos daqui. Acho melhor você não olhar.
E antes que Kiara pudesse gritar para impedi-lo, ou até mesmo fechar os olhos,
Whiper afundou a ponta da pedra em seu pé e começou o longo e doloroso processo
de amputação.
Mas ele não gritou, e nem quando agarrou o resto do pé e o separou do corpo
com um puxão ele gritou. Kiara há muito tempo havia parado de olhar e chorava
encostada no canto. Whiper suava e tinha o rosto vermelho devido ao esforço que
fazia. Quando acabou, ele usou todas as suas forças para se pôr de pé e mancou até a
porta de madeira.
– Tem um homem sentado adiante, acho que é o vigia – sussurrou. E, em seguida, moveu com cuidado a porta de madeira para o lado. Whiper sumiu na escuridão,
deixando Kiara sozinha e cheia de temor.
A camponesa começou a rezar baixinho e ainda chorava, quando ouviu um barulho e permitiu olhar. Nada. A escuridão além da porta não lhe deixava saber de nada.
– Eles o pegaram.
E então Whiper apareceu, e Kiara percebeu que ele não iria durar muito tempo.
Estava pálido e ensopado de suor. Mancava, usando a parede como apoio para não
encostar o toco do pé cortado no solo. Havia sangue, muito sangue. Inclusive em
sua boca.
– Eu mordi o seu pescoço e tapei a sua boca – ele disse. E ela imaginou o que ele
estava falando. – E também peguei isso – era uma chave.
Whiper se aproximou de Kiara e a liberou da algema na perna usando a chave.
Ela sentiu vontade de sair correndo, ao mesmo tempo que queria ficar ali, paralisada, esperando a morte chegar. Talvez fosse melhor do que se iludir achando que
poderiam fugir.
– O que faremos? – ela sussurrou, bastante nervosa.
– Agora você me ajuda. Eu não consigo mais me levantar.
O CAMINHO DA EMBOSCADA
91
Kiara se esforçou ao máximo para levantar Whiper, que passara a mão em seu
pescoço para se apoiar. Quando conseguiram, ela o ajudou a mancar para fora da
gruta.
Do lado de fora, estava tudo escuro, exceto por um lampejo de luz ao fundo.
Kiara levou Whiper até lá e encontrou o corpo do caçador de cabeça com a garganta
mastigada ao lado de uma tocha acessa. Ela achou impressionante que seu companheiro tivesse feito aquilo mancando e ferido.
– Vamos continuar – ele disse, arquejando e sem forças. – Estou quase
apagando.
Ao fundo, havia outro lampejo de luz. Kiara ignorou a tocha no chão, pois jamais conseguiria se abaixar para pegá-la carregando o homem ferido. Eles seguiram
no escuro até chegar ao ponto de onde vinha a luz.
Era uma saída. Um buraco que trazia a luz do sol. No entanto, também se tratava
de uma bifurcação, pois havia outro buraco ao lado que levava para um caminho
escuro, de onde se ouvia barulho de vozes.
Kiara ignorou as vozes e andou para a saída quando Whiper soltou seu pescoço
e caiu no chão. Ela se desesperou e tentou levantá-lo, quando ele agarrou sua mão e a
fez parar.
– Fuja Kiara, essa é sua chance.
– Você vai comigo – ela voltou a tentar agarrá-lo.
– Não, não vou – disse Whiper, com a voz falha. – Preciso encontrar Tarek.
– Mas ele está morto – disse Kiara, quase gritando, e se arrependeu do tom de
voz. Ela olhou para o buraco das vozes e elas continuavam altas, mas distantes. Ela se
voltou novamente para Whiper. – Ele está morto, e você sabe disso.
– Ele é meu irmão. Eu preciso ver para crer.
Kiara olhou para Whiper e, em seguida, para o buraco de saída e vários pensamentos rondaram sua mente, inclusive a de que o homem ferido no chão era apenas
um ladrão estuprador. No entanto, ela sentia uma afeição por Whiper. Não podia explicar, mas sentia. Ou quem sabe, era apenas medo de prosseguir sozinha. Os pensamentos eram muitos e confusos.
– Eu não vou conseguir – ela suplicou. – Não sozinha. Eu só finjo ser corajosa.
Na verdade, eu tenho medo, Whiper.
Whiper passou a mão delicadamente no rosto de Kiara e disse suas últimas
palavras.
– Você vai conseguir, se for agora. Você é forte, Kiara. Só não confia plenamente nisso.
92
PEDRO LUNA
Kiara deixou escorrer uma lágrima e olhou novamente para o buraco e a luz do
sol. Ela então assentiu com a cabeça, beijou a testa de Whiper e caminhou em direção a luz.
Whiper sentia a vida se esvair, mas não podia agir enquanto não desse tempo
para Kiara se distanciar. Não morreria imediatamente, isso ele sabia, mas tinha medo
de apagar. Manteve-se focado, ignorando o pé cortado até o momento que achou que
já não podia esperar mais. Assim, ele se arrastou lentamente pelo buraco das vozes.
Sentia dor e agonia, e um cansaço extremo, mas não podia entregar os pontos. Precisava seguir adiante.
Quanto mais se arrastava, mais as vozes se aproximavam, ao mesmo tempo que
também podia ver um rastro de luz. Quando chegou mais perto, Whiper conseguiu
ouvir as palavras que lhe sugaram as últimas energias do corpo e de sua alma:
– Que cabeça deliciosa.
O irmão mais novo deixou os olhos fecharem ciente de que logo estaria junto do
irmão. Era preciso. Afinal, os irmãos se protegem.
Kiara seguia por um caminho de pedras, completamente perdida e aterrorizada,
indo apenas em frente e pensando que a qualquer momento bateria de frente com um
caçador de cabeças. Mas quem surgiu a sua frente foi um dos homens cinzentos da
tribo dos homens lagartos. Ele pulou de cima de uma rocha e quase a matou de susto.
Kiara caiu de joelhos e se entregou ao choro.
– Me ajude. Por favor, me ajude.
O homem lagarto a estudou e depois fez sinal para que ela o seguisse. Kiara
assentiu e seguiu atrás do homem cinzento. Logo após cruzar paredões e caminhos de
rocha que pareciam não ter fim, ela chegou a uma trilha de terra batida. O homem
apontou, fazendo menção que ela fosse em frente. Kiara estava exausta, mas precisava continuar. Ela tentou se aproximar do homem cinzento, mas ele recuou.
– Só queria dizer obrigado – ela disse. – Vocês tentaram nos avisar.
O homem a estudava curiosamente e, com um movimento inesperado, pulou
para um paredão de rocha e o escalou.
O CAMINHO DA EMBOSCADA
93
Kiara esperou que ele sumisse no topo das rochas e começou a andar, seguindo o
caminho de terra. Enquanto andava, ela deixou que o choro viesse. Chorava pelas
atitudes que a levaram para aquela situação. Chorava pela saudade de casa. Chorava
por não poder voltar para lá. Chorava pelos irmãos Whiper e Tarek que certamente
estavam mortos e chorava principalmente por ainda estar seguindo um caminho. Queria mesmo era chegar em algum lugar seguro.
Qualquer um.
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PEDRO LUNA
O podcast o cial das revistas
Black Rocket e Black Magic!
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96
M
eu cachorro comeu uma fada. Quando percebemos, já era tarde demais.
Saímos correndo em direção a ele gritando “Não! Bolota, não! Solta!”
Ele engoliu e abanou o rabo, colocando a língua para fora. Era época de
aleluias. Bolota passara a última meia hora pulando e comendo essas formiguinhas com
asas. Deve ter confundido a fada com uma mariposa. Bolota adora mariposas.
É um cachorro bonito, um labrador dourado nas raras vezes em que não está
marrom de poeira e lama. Aliás, era um cachorro bonito, isso foi antes.
Prendemos Bolota no fio de arame do quintal e saímos para jantar. Meu marido
me levou àquela pizzaria do nosso noivado, onde o vinho da casa é uma delícia e o
manjericão vem direto da horta nos fundos. Não era uma noite para preocupações.
Tudo bem que o cachorro comeu uma fada, mas ainda achávamos que fadas eram só
mais um tipo de inseto, e que criança nunca comeu um inseto?
Quando voltamos, a noite estava escura. O vinho dançava em minha cabeça.
Jorge e eu fomos ver Bolota, que dormia na casinha, mas abanou o rabo quando chegamos, tamborilando nas paredes. O pote de ração estava vazio; o de água, cheio.
Tudo estava bem. A rede na varanda havia se transformado em um flamingo, mas não
reparamos nisso. Quem repararia?
No dia seguinte, também não percebemos que uma das almofadas do sofá agora
era uma tartaruga. O micro-ondas mostrava as últimas notícias do dia e a tostadeira
tocava uma seleção das músicas pop de maior sucesso nos anos 90, com direito a
Corona e Ace of Base. Não somos pessoas muito inteligentes de manhã cedo, mas
percebemos a ausência da cafeteira, que encontramos algumas horas depois batendo
as asas tentando sair inutilmente por uma janela de vidro.
Na verdade, começamos a dar conta da situação quando a campainha tocou. Na porta
havia um homem muito baixo, vestido de policial. Algum tipo de policial, já que não era nem
militar nem civil, mas o traje era completo, com camisa azul, quepe e distintivo. Meu marido
atendeu a porta. Eu estava logo atrás, curiosa e pensando por que Bolota não latiu.
– Bom dia, senhor. Senhora, recebemos uma denúncia de uso indevido de mágica nas redondezas. Os senhores sabem de alguma coisa?
Respondemos negativamente, mas alguma coisa em seu olhar parecia desconfiado. –
Nada mesmo? Nenhuma planta caminhando, objetos voadores ou mudanças repentinas?
Nossa cara de dúvida e sono pareceu convencê-lo. – Esse flamingo é dos senhores? – Apontou para o animal, pendurado de ponta cabeça pelo gancho de rede, cochilando tranquilamente.
Estranhando tudo aquilo, respondemos que não. O policial disse que teria que leválo para averiguação e carregou o bicho embaixo dos braços, que não se incomodou muito.
– A propósito – disse, já no caminho para a rua – recebemos um relato de uma
fada solta na região ontem à noite. Vocês viram alguma coisa suspeita?
Congelamos. Abri a boca sem pensar no que diria, mas Jorge foi mais rápido:
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– Nós saímos para jantar, não vimos nada. Você viu, amor? – Balancei a cabeça
negativamente. O guarda sustentou o olhar em nós por um bom tempo antes de nos
cumprimentar com um toque no quepe.
– Muito bem, desculpem o incômodo. Se virem algo suspeito ou algum uso de
mágica, por favor, liguem no um-nove-zero-estrela. Tenham um bom dia.
Estávamos encrencados. Tivemos certeza disso assim que voltamos para dentro,
a tempo de ver o tapete comer minha sandália favorita.
Corremos para os fundos quando um latido chamou nossa atenção. Bolota latia
para a cafeteira que tentava fugir pela janela. O cachorro estava bem. E estava roxo.
Totalmente roxo, dos pés à cabeça. Parecia uma experiência malsucedida de um pet
shop maluco, mas veio em nossa direção pulando animado, como todo dia de manhã.
A campainha tocou. Rezando para que não fosse outro guarda ou coisa pior, fui
atender a porta, enquanto Jorge escondia o cachorro no quarto. Era a dona Terezinha,
a vizinha estranha que passava os dias a gastar sua aposentadoria sentada na janela,
vigiando a vizinhança e gritando com os meninos que desciam a rua de skate. Ótimo,
tudo o que eu precisava era daquela velha bisbilhoteira em minha porta.
– Oi, dona Terezinha! A senhora vai ter que me desculpar, mas estamos muito ocupados. – Atendi a porta um tanto grosseira, já fazendo menção de fechá-la novamente.
A velha segurou a porta, enfiando a cara pelo vão para espiar dentro.
– Dona Terezinha, que indiscrição! – Reclamei, bloqueando sua visão com meu
corpo. – Diga o que a senhora deseja e vá, que estamos muito ocupados agora!
– Seu cachorro está roxo. – Respondeu ela fixa nos meus olhos. Engoli em seco.
– E a polícia da magia veio mais cedo na sua porta, eu vi. E algo me diz que a almofada que estava latindo para o meu gato há dez minutos era sua.
Não sabia o que responder. Demorei alguns segundos para retrucar.
– A senhora está maluca! Almofada latindo, cachorro roxo! Precisa dosar melhor
os seus remédios!
– Não brinque comigo, mocinha. Eu sei muito bem que é mágica que está acontecendo aí, e é bom você deixar eu entrar para dar uma olhada. A última coisa que eu quero é a
polícia da magia farejando o meu quintal. Você não sabe com quem está se metendo!
A velha maluca era pior do que imaginávamos. Mas ela sabia de alguma coisa,
então valia a pena tentar. Entramos e gritei para meu marido trazer o cachorro.
Sentamos no sofá e contamos a história desde o começo.
– Temos que sair daqui! – Disse dona Terezinha, já se levantando. – E levar o
cachorro! Eu só preciso pegar algumas coisas... – Ela parou no meio da frase, olhando
para o nada. – Não há tempo, para o carro! Vamos, para o carro, agora!
Corremos até o veículo, que felizmente ainda era um carro, ao contrário da porta
da garagem, que se tornara um caríssimo relógio de pêndulo do século XIX que tivemos que destruir para passar. Bolota latia para as samambaias que tentavam agarrar
meu cabelo como fãs de uma boy-band.
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RODRIGO VAN KAMPEN
Jorge dirigia, Dona Terezinha ao lado dele e eu atrás, com o cachorro laranja
com rabo de burro e orelhas de coelho. Saímos da garagem, viramos a esquina e
passamos por três carros de polícia que seguiam na direção contrária, em direção à
nossa casa. Felizmente não nos viram.
Pelo retrovisor, vi os olhos de meu marido olhando para mim. Ele suspirou, um
suspiro que eu conhecia bem, usado nos seus poucos momentos de desespero. Em vez
de gritar e sair correndo, ele apenas suspirava, controlava-se e fazia uma pergunta.
Quase sempre a mesma.
– O que diabos está acontecendo?
– Vocês não têm licença para usar magia. E a essa hora, provavelmente já analisaram o flamingo.
– E por que estamos fugindo da polícia? Não era mais fácil explicar? Aliás,
explicar que eu não faço a menor ideia do que está acontecendo!
– Sim, se você quiser pagar a multa... E as taxas. Tem a multa por uso não autorizado de magia, que vai aí em torno de uns dois mil reais. Depois tem a licença anual
na prefeitura, que não é cara, mas precisa preencher o formulário em dezoito vias com
assinatura sua e de duas testemunhas autenticadas em cartório. Mais a taxa do sindicato, que não é muito por mês, mas vão te cobrar a mensalidade atrasada desde os 25
anos.
Soltamos o ar desanimados, lembrando que até o pagamento do IPTU estava
atrasado. Jorge refletiu um pouco.
– Três viaturas por causa de uma multa?
Dona Terezinha ficou em silêncio, cerrando a boca e abrindo um pouco mais os
olhos, mas não respondeu. Meu marido pisou no freio bruscamente. O cinto de segurança me prendeu no banco, mas não consegui segurar Bolota, que bateu de leve atrás
do banco com um gemido, no mesmo instante em que os vidros laterais do carro se
tornavam borboletas e saíam voando pela cidade.
– Agora a senhora vai me contar exatamente por que estou fugindo da polícia ou
eu volto para casa, e você vai comigo! – Disse ele, irritado.
– Ok, ok, eles estão atrás de mim também! Mas acelera esse carro, por favor! Com
esse cachorro peidando feitiços eles vão encontrar a gente rapidinho! – Disse dona Terezinha,
acalmando-se quando meu marido entrou na rodovia. Depois continuou:
– Aquela fada que o seu cachorro comeu era uma das minhas. Fugiu da gaiola e
foi parar no seu quintal. Estamos indo para a casa de uma amiga. Ela poderá ajudar.
Acariciei Bolota deitado em meu colo, pensando se ele ficaria bem. Ou se pelo
menos continuaria um cachorro, agora que pequeninas flores brotavam de suas unhas.
– Você tem licença para essas coisas? – Perguntei.
– Eu? Claro que não, tá louca, minha filha? Com meu salário de aposentada? –
Dona Terezinha afundou na poltrona do carro. – Nos anos 60 havia um grupo de
protesto contra o governo que pregava a desregularização da magia. É uma coisa
MEU CACHORRO COMEU UMA FADA
99
natural, acontece o tempo todo, não faz sentido tentar regular uma coisa dessas. Eu
fazia parte desse grupo. Nós organizávamos marchas, entregávamos panfletos e abaixo-assinados, o pacote completo! Mas nada disso deu muito certo. A mídia nos considerava uma piada e todo mundo achava que éramos parte do movimento hippie. – Seu
tom de voz se tornou mais efusivo. – Agora esse cachorro vai mudar tudo! Eu só
preciso levá-lo até o Canal de Vendas, botar a boca no trombone, as coisas vão mudar!
– Que canal de vendas?
– Sabe o 81, que fica o dia inteiro vendendo por telefone aqueles produtos que
ninguém compra? É só fachada. Quem conhece magia mais básica desembaralha o
sinal para ficar por dentro das coisas que são apenas para a gente. Tem um programa
de receitas, menina, que é ótimo!
Eu estava cansada, fugindo da polícia, com um cachorro no colo se transformando
em alguma criatura esquisita, com uma velha louca que acabava de mostrar que magia
existe e fadas não são apenas insetos, mas parte importante desse mundo. Eu queria
minha cama. Ou acordar em um mundo mais normal. Devo ter perdido uns cinco minutos de explicação em devaneios. Quando percebi, dona Terezinha concluía:
– E então, se eu levar o cachorro, vamos poder provar que magia é um recurso
natural e não pode ser regulamentada!
– Ele vai ficar bem? – Perguntei.
Ela me olhou como se eu fosse uma criança com um passarinho morto nas mãos.
– Querida, eles terão que fazer uns testes. O cachorro vai passar por um processo. Mas
é por um bem maior. Podemos mudar o país!
– Então não concordo! – Respondi, abraçando Bolota.
– Você não entende! Isso vai mudar o mundo! Pode fazer a magia chegar a qualquer idiota como vocês! O cachorro vai sim, não vou perder outra chance!
Sirenes. Duas viaturas agora vinham em nosso encalço. Gritei para meu marido parar
o carro, mas Dona Terezinha foi mais rápida e apertou um boneco em sua mão, fazendo
Bolota gritar com um gemido, enquanto sua cauda se tornava uma serpente de pano.
– Pisa fundo ou o cachorro morre! – A velha estava fora de si. Acariciei o animal,
assustado com a dor repentina. Bolota começava a ficar agitado, tentando sair do meu
colo, se remexer e tentar se levantar, enquanto eu o segurava.
Os dois carros de polícia estavam logo atrás, em perseguição. Jorge, com o suor
escorrendo de suas têmporas, alternava a atenção entre a estrada, o retrovisor e a velha
ao seu lado com um sorriso terrível. Dona Terezinha disse algo como “gás de festa
infantil”, num tom tão agudo que seria capaz de impressionar Michael Jackson, e
nosso escapamento soltou uma fumaça densa e colorida, como um sinalizador. Dentre
a nuvem multicolorida, vimos as luzes dos carros de polícia ficarem para trás.
A alegria durou pouco, havia uma cabine de pedágio logo adiante, onde uma
barreira policial nos aguardava. Dona Terezinha cravou ambas as mãos no painel
sobre o porta-luvas e soltou alguns gemidos constrangedores. Eu não podia acreditar
100
RODRIGO VAN KAMPEN
em meus olhos. O carro estava levitando do chão, a três metros da pista! Quando
achamos que passaríamos, o carro parou de ir adiante, flutuando bem acima dos policiais, enquanto os pneus giravam em falso no ar. Eu agarrava Bolota, que tentava
desesperadamente sair pela janela.
– Desgraçado! Porco desgraçado, desgraçado! – Gritava a velha com raiva.
Reparamos em um homem, na casa de seus 60 anos, elegantemente vestido com
sobretudo e quepe, em pé ao lado dos policiais. Olhava fixamente para o carro, enquanto seus lábios se moviam continuamente, dizendo algumas palavras em voz baixa. O carro foi baixado devagar, cercado pelos policiais que nos mandavam erguer as
mãos. Bolota se soltou de meus braços, pulou pela janela e saiu correndo entre os
policiais, que ignoraram o animal, com as armas apontadas para nós três.
Saímos do carro e fomos algemados com as mãos para trás. O homem de sobretudo, que observava a poucos metros, sorriu:
– É como dizem, Melina, é preciso um mago para capturar uma bruxa.
– Melina? – Perguntei, olhando para a velha. A pergunta foi respondida pelo homem.
– Não sei que nome ela contou para vocês. Mas Melina é procurada desde os
anos 60 por terrorismo.
– Nós estávamos certas! – Protestou a velha. – Ninguém dava ouvidos, são todos
imbecis! Tivemos que usar medidas extremas para ver se alguém ouvia! Seus corruptos, vendidos! Não podem controlar a mãe natureza! Porcos desgraçados!
Uma mudança no vento trouxe um cheiro horrível até onde estávamos. Bolota
fez um cocô digno de um tiranossauro. Por isso a agitação toda no carro. Um pequeno
inseto se remexia nas fezes. O homem de sobretudo tirou um pote de vidro de um dos
bolsos e fez um movimento com as mãos. A fada voou direto para dentro do vidro,
fechado com a tampa de metal.
Bolota estava confuso com todo o movimento, mas abanava o rabo ao meu lado.
Bom garoto. Algemada e possivelmente ferrada, eu estava tão feliz que ele não seria
mais vítima de experiências.
Fomos levados para a delegacia, interrogados separadamente, depois nos deixaram ir para casa, quase dez horas depois. Até que foram legais, deram água e um xburguer para o Bolota, que ficou quase todo esse tempo deitado embaixo de um banco
de espera na delegacia.
Pela “ajuda” em capturar Melina, saímos com a ficha limpa e sem dívidas. Claro,
desde que ficássemos longe de encrencas, conselho típico para todo mundo que se meteu em algo maior do que podia lidar. Nos dias seguintes, as coisas foram voltando ao
normal. O tapete comedor de sandálias, a cafeteira voadora, o micro-ondas que passava
notícias, a tartaruga que havia sido uma almofada e os outros objetos estranhos da casa
foram confiscados. Deixaram a gente ficar com a tostadeira musical, pelo menos.
Nunca mais ouvimos falar de dona Terezinha. A vida continua comum, tirando o
fato de que meu marido agora é obcecado pelo canal de vendas e temos o único cachorro da vizinhança com orelhas de coelho.
MEU CACHORRO COMEU UMA FADA
101
102
D
aphne acordou de manhã, virou-se na cama e não viu Tarcísio ao seu
lado. Assustou-se, ainda desnorteada pelo sono. Quando a sonolência
passou, lembrou-se que já era a terceira noite que acordava sozinha. Às
vezes ele dormia na floresta, quando conseguia encomendas grandes. Mas era a primeira vez que ele dormia fora três noites seguidas. Sentiu um aperto no peito.
Foi até a janela e abriu-a. O sol nascia no vale; do bosque cheio de vida emergia
variado chilrear de pássaros. Entretanto, a trilha que levava ao interior da floresta,
vazia, entristecia a bela paisagem. Gostaria de ver Tarcísio surgir ali. Suspirou e cogitou se deveria procurá-lo, ou talvez ir até a vila, pedir ajuda a Horácio, seu irmão. Mas
Horácio mantinha uma estalagem na vila. Vivia tão atarefado que não queria perturbálo com tolices. Provavelmente não ocorrera nada demais, afinal, Tarcísio havia conseguido a maior encomenda de toda a sua vida no ofício de lenhador. Era normal ele
demorar tanto para voltar. Daphne estava apenas com muitas saudades.
Lavou-se e começou a trabalhar. Precisava ocupar a mente. Arrumou a casa,
cuidou da horta e tratou dos animais de criação. Pilou centeio e bateu a massa do pãopreto, que pôs para assar. Remendou algumas roupas. Então viu a solitária panela em
cima do fogão à lenha. Na véspera, matara uma galinha e fizera um ensopado para
quando o marido chegasse, mas acabou comendo sozinha, no almoço e na janta. Agora a comida estava passada, teve que jogar fora. “Não há como ele demorar mais de
três noites”, pensou. Retirou de um grande jarro carne de porco conservada em banha,
fritou, juntou legumes, água e tempero. Quando terminou de cozinhar, o cheiro estava
ótimo. Provou. O gosto estava ainda melhor. Sorriu. Tinha fome, mas resolveu fazer
mais uma tarefa. Talvez desse tempo do marido chegar para o almoço.
Pegou o machado e foi para trás da cabana, onde havia uma pilha de tocos para
lenhar. A floresta do vale onde moravam era densa. Isso forçava as árvores novas a
crescerem rápido, fugindo das sombras das irmãs mais velhas, buscando a luz do sol.
Elas se alongavam finas até a altura da copa das outras árvores, e só então começavam
a engrossar o tronco. Antes disso, eram ideais para serem transformadas em lenha. Era
quando Tarcísio abatia uma pequena parte dessas árvores adolescentes, depois serrava em tocos, rachava e punha a secar. Quando juntava quantidade suficiente para
encher a carroça, levava até a aldeia para vender.
Ali atrás havia a base de um tronco serrado, ainda enraizado no chão. Daphne
colocou um toco sobre ele. Ergueu o machado sobre a cabeça e deu um golpe certeiro,
dividindo o toco em perfeitas metades. Ao ver isso feito com facilidade, lembrou-se
da primeira vez que havia rachado lenha. Foi num dia em que resolveu fazer parte do
serviço do marido. Ele saía cedo e chegava tarde, levando a mula para rebocar os
troncos. E ainda precisava rachar lenha até tarde e carregar a carroça. Quis ajudá-lo,
para aumentar o tempo que passavam juntos. Naquele dia, na primeira tentativa, mal
conseguiu erguer o machado sobre a cabeça, desequilibrou-se, e o golpe nem acertou
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o toco. Na segunda tentativa, acertou de raspão, o toco foi parar longe. Lá pela sexta
tentativa, conseguiu arrancar uma lasca. Mais tarde, quando o marido chegou, encontrou a pilha de lenha mal rachada. Não gostou da ideia. Não queria vê-la lidando com
esse serviço pesado. Mas ela estava resolvida e era teimosa. Não houve como dissuadi-la. Acabou aceitando ensiná-la. E ela acabou se tornando boa nisso.
Após se lembrar desse episódio, Daphne voltou ao trabalho e rachou boa quantidade de lenha. Então ouviu um trote vindo da trilha. Sorriu, devia ser Tarcísio, mas
logo lembrou: ele não levara a carroça, que estava na frente da casa, e a mula estava
no celeiro. Havia levado apenas a junta de bois cedida pelo empreiteiro. E o trote era
de cavalo. Não costumavam receber visitas ali, a não ser do irmão Horácio vez ou
outra. Correu até a porta de entrada. Encostou o machado do lado de dentro, deixando-o à mão. Aguardou apreensiva o visitante surgir na trilha.
Então ele apareceu na curva. Daphne o reconheceu: era o empreiteiro que contratara Tarcísio. Devia ter alguma notícia. Enquanto ele se aproximava, Daphne notou
como o homem era ridículo. Muito gordo, o corpo oscilava para um lado e para outro;
o pobre cavalo se esforçava para equilibrá-lo. O animal era de raça esguia e elegante,
a preferida pelos nobres. Daphne concluiu que seria melhor ele montar um cavalo
mais robusto, daqueles usados para tracionar arado e carroças pesadas.
– Bom dia, senhora! – cumprimentou o empreiteiro, com voz resfolegante e o
rosto vertendo fios grossos de suor.
– Bom dia! – ela respondeu.
O homem tirou o chapéu de abas longas, expondo sua ampla calva, e enxugou o
suor com um lenço de seda.
– Que calor! – disse. – Eu sou Augusto, o empreiteiro. Vim saber do seu esposo.
Onde está o lenhador Tarcísio?
– Como? – perguntou Daphne, perplexa. – Pensei que o senhor tivesse notícias dele.
– A única notícia que tenho é que ele não aparece há três dias. Combinamos uma
carga a cada dois dias. Assim minha obra sofrerá atraso!
– Meu marido não apareceu aqui todo esse tempo. Será que aconteceu alguma coisa?
O homem coçou a barba grisalha, erguendo as sobrancelhas. Olhando para o
chão, disse:
– Bom, nesse tempo todo ele teria feito carga pesada demais para uma única
junta de bois carregar, e eu só lhe forneci uma, como bem sabe. É estranho. Talvez
seja melhor procurá-lo.
Daphne levou as mãos ao rosto, os olhos lacrimejaram. O empreiteiro viu que
ela ia se desesperar e falou:
104
UBIRATAN PELETEIRO
– Calma, senhora! Não vamos nos precipitar. Não há de ser nada. Existe algum
sítio aqui perto onde possamos encontrar ajuda?
– Só moramos nós dois neste vale.
– Então devemos ir à aldeia.
Daphne pensou no irmão. Foi depressa ao quarto trocar de roupa. Estava tão
afoita que não percebeu a janela entreaberta. Através do vão, Augusto viu sua silhueta. Abaixou-se na sela para ver melhor quando ela tirou o vestido. Seu corpo era
bonito, a pele alva de textura aveludada, as curvas bem torneadas. Os longos cabelos
ruivos e crespos escorriam sobre o corpo, numa cascata fulgurante. Ela ergueu os
braços para deixar descer o vestido; os seios esticaram sobre o colo, firmes; as pontas
dos mamilos salientes e rosadas. Augusto imaginou pousar as mãos sobre eles. A boca
salivou, ele engoliu. O pênis intumesceu, apertado, dentro das calças. Então ergueu a
cabeça e a sacudiu, passando a olhar para outro lado. Sabiam que estava ali. Não devia
pensar bobagens. A não ser se ela compactuasse. Voltou-se novamente.
Daphne terminou de se arrumar. Ao sair, assustou-se ao dar de cara com o empreiteiro na soleira. Hesitou, olhando para o machado ainda encostado próximo à
porta. Augusto sorria com indecência, fez um gesto em direção ao cavalo e disse:
– Deixe-me ajudar a senhora a montar.
– Vou na carroça.
– Chegaremos mais rápido no meu cavalo.
“Como poderia o cavalo ser tão rápido com tamanho excesso de peso?”, pensou Daphne.
– Com licença – disse Daphne, ríspida, forçando passagem.
Augusto saiu da frente e ela foi ao celeiro. Soltou a mula e, quando se virou,
novamente o empreiteiro bloqueava a passagem.
– Deixe eu te ajudar – ele falou, o sorriso havia se tornado ainda mais provocador.
Daphne arrastou a mula em direção a Augusto, forçando-o a sair da frente. Ele desequilibrou-se e quase caiu. O sorriso extinguiu-se, restando apenas olhos arregalados.
Ela atrelou a mula na carroça e a guiou até a trilha. Augusto montou e a seguiu,
de cara amuada, entendera o recado. Daphne seguiu adiante, tocando a mula o mais
rápido que podia. Enquanto a carroça rangia e estalava, ela relembrou o dia, algumas
semanas atrás, quando o marido havia trazido a notícia do novo contrato. Ele havia
ido vender lenha na aldeia e quando voltou sorria generosamente.
– O que houve, querido? Por que tanta alegria? Vendeu tudo?
– Não, melhor que isso. Encontrei o empreiteiro. Consegui um serviço excelente!
O VALE DO CASAL
105
O sorriso de Daphne se apagou. Vender lenha na aldeia era o que Tarcísio mais
fazia. Levava a carroça de porta em porta vendendo a carga. O que não conseguia
vender deixava na estalagem de Horácio, irmão de Daphne, que ia vendendo a lenha
dia a dia, para depois dividir a féria com eles. Já o empreiteiro trabalhava com obras.
Às vezes contratava Tarcísio para trazer toras grossas, que eram transformadas em
tábuas ou vigas na serraria. Porém neste tipo de contrato o marido costumava varar a
noite trabalhando, pois, além da nova carga de trabalho, ainda tinha que continuar
dando conta da lenha para não perder a freguesia.
– É o maior contrato que ele já me deu! O governo vai formar milícia na região,
contrataram o empreiteiro para construir um forte. Serão necessárias muitas árvores
das que temos aqui no bosque, altas e finas, para levantar a estacada. E ele passou esta
parte para mim! Com exclusividade!
– É muito serviço, Tarcísio! Ele não contratou mais ninguém?
– Ia contratar, mas fiz uma proposta, cobrando um pouco menos por estaca. Vai
ser trabalho duro. Mas vou dar conta, você vai ver!
– Mas nós já temos tão pouco tempo...
Daphne abaixou o rosto. O olhar de Tarcísio perdeu a euforia e ficou terno, ele se
aproximou e envolveu-lhe a cintura.
– Eu sei, amor, mas é preciso. Poderemos comprar nossa própria junta de bois.
Não vou precisar mais alugar. Poderei até contratar um ajudante. Vai ser o primeiro
passo para montarmos uma serraria na aldeia. Você vai poder morar perto de Horácio,
não é o que você sempre quis?
– Não mais do que ficar com você.
– É para isso nosso esforço. Quando tivermos a serraria, vou contratar outros
lenhadores. Não precisarei mais ir à floresta, pois teremos empregados. Então ficaremos mais tempo juntos – ele pousou a mão carinhosamente sobre o ventre dela e falou
com ternura. – E quando tivermos nosso filho não estaremos a três horas da parteira
mais próxima.
Ela sorriu. Levantou os olhos e fitou os dele. Depois disse:
– Está com fome? Fiz ensopado do coelho que você matou.
– Ótimo, adoro ensopado. – então estreitou o corpo ao dela e disse, sorrindo –
Mas estou com saudade, tem algo que eu adoro muito mais – Aproximaram os lábios
e se beijaram. Fizeram amor o resto da tarde.
– Eu sabia que devia ter contratado mais gente! – disse o empreiteiro, com voz
torpe, resgatando Daphne das lembranças.
106
UBIRATAN PELETEIRO
Olhou para trás e viu a carranca balofa de Augusto. Parecia um porco irritado.
Virou-se e continuou em frente.
Daphne entrou na estalagem de Horácio. Ele atendia no balcão. Era um sujeito
baixo, porém bastante troncudo. Parecia mais um guerreiro a um taverneiro. Sorriu
para a irmã, mas percebeu sua preocupação e perguntou:
– O que houve?
– É Tarcísio, Horácio. Ele desapareceu!
– O quê?
Augusto também entrou e disse:
– Faz três dias que ele não aparece com as estacas prometidas, e a mulher também não o tem visto.
– Vamos fazer uma busca! – Disse Horácio, saltando por sobre o balcão. – Quem
vem comigo? – Gritou para os homens na estalagem.
Vários deles se levantaram dispostos a ajudar. Saíram numa turma de uns quinze
homens. Daphne foi até a porta e os viu montar em cavalos próprios ou emprestados,
alguns inclusive montaram em dupla. Ela foi até a carroça e ia se oferecer para levar
alguns voluntários, quando Horácio a interpelou:
– Onde você pensa que vai?
– Também vou ajudar.
– Nada disso! Pode descer e esperar na estalagem!
– De jeito nenhum, Horácio, eu vou...
– Pode tratar de me obedecer, Daphne! – gritou Horácio, ríspido. – Suas teimosias funcionam com seu marido, não comigo! Tem bastante gente para ajudar, de nada
iria valer você ir.
Alguns dos homens em volta deram risadinhas. Ela virou o rosto para frente e
continuou segurando as rédeas, determinada. Disse:
– Quem quiser ajudar na busca, pode subir.
Então Horácio saltou do cavalo e se aproximou, começou a falar em voz baixa:
– Daphne, por favor! Você está nervosa. Tem bastante gente pra procurar. Fique
aqui com Mirna. Eu prometo achar Tarcísio.
O VALE DO CASAL
107
Ela baixou os olhos, que se encherem de lágrimas. Saltou da carroça e abraçou o
irmão, dizendo:
– Ache-o pra mim, Horácio.
Depois entrou na estalagem, soluçando, enquanto o grupo saía a galope. Não
olhou para trás, olhou para dentro de si, orando que encontrassem Tarcísio.
Já era madrugada. Daphne e a cunhada, Mirna, continuavam sentadas a uma das
mesas da estalagem. Mirna volta e meia cochilava, perdendo o equilíbrio na cadeira e
despertando em seguida.
– Pode ir dormir, Mirna.
– Não vou te deixar sozinha.
Começou a puxar conversa, tentando distrair Daphne. Então ouviram um cavalo
relinchar e estacar na entrada. Daphne levantou e correu para a porta. Quase esbarrou
em Horácio.
– Calma, Daphne. – ele disse.
– Me diga! Vocês o encontraram?
– Já vou te dizer, vamos sentar.
– Não! – ela gritou, a voz desesperada. Agarrou o irmão pela camisa. – Você me
prometeu encontrá-lo! Diga-me o que houve, agora!
Passou a bater com os punhos no musculoso peito do irmão. Ele segurou-a pelos
pulsos. Teve dificuldade para contê-la. Mirna tentava ajudar. Então Horácio encostou
Daphne na parede e a imobilizou. Ela tentou se livrar dele, mas não conseguiu.
– Calma, irmã – disse Horácio, abraçando-a.
– Ele está morto, Horácio? – ela perguntou entre soluços.
– Não sabemos. Nós só encontramos as ferramentas e a junta de bois, que o gordo
Augusto ficou feliz por recuperar. Não havia nenhum sinal dele. No nosso grupo havia
excelentes caçadores. Não conseguiram rastrear sinal de luta ou de feras. Só havia os
rastros de Tarcísio, trabalhando, e de repente eles desaparecem, como por mágica.
Daphne se desvencilhou e disse:
– Me leve até lá.
Horácio não soube o que falar.
108
UBIRATAN PELETEIRO
– Vamos, Horácio! – ela insistiu. – Eu quero ir até lá.
– Agora não, Daphne. Amanhã te levo. Está escuro e é perigoso.
Irresoluta, Daphne permaneceu onde estava. Pensou em ir sozinha à floresta,mas
mudou de ideia. Percebeu que Horácio tinha razão. Desistiu, virou-se e foi para as escadas. Mirna seguiu-a para ajudá-la a se acomodar em um dos quartos da estalagem.
Na garupa do cavalo, Daphne segurava a cintura de Horácio. Volta e meia se
desviava dos galhos, acompanhando os movimentos do irmão. As virilhas doíam,
pois há muito não cavalgava, desde que se casara com Tarcísio. Passara, então, a
andar apenas de carroça quando precisava percorrer distâncias maiores. Lembrouse com nostalgia do tempo da juventude, quando, contrariando o costume geral das
outras moças, pegava escondido o cavalo do pai e saía a cavalgar pelos campos.
Duraram pouco essas lembranças, pois logo a angústia pelo sumiço do marido retomou sua mente.
– Já estamos chegando, Daphne. Há uma clareira ali em frente, foi onde achamos as coisas dele.
As árvores começavam a se afastar, tornando a floresta menos escura naquele
ponto. Desmontaram ao chegar na clareira. Daphne mal podia conter os passos.
– Ali encontramos o machado dele – disse Horácio, apontando para o meio da
clareira. – Perto daquela árvore no centro. A azagaia estava encostada neste tronco,
muito longe se ele precisasse reagir rápido. Ele tinha o machado, é claro, mas...
Horácio fitou a irmã e só então percebeu sua expressão estarrecida. Os olhos
estavam arregalados e a face lívida como se tivesse visto um fantasma. Olhou na
mesma direção e nada viu, a não ser a árvore no meio da clareira.
– O que foi, Daphne?
– Você não está vendo? É cego? Não está vendo Tarcísio, ali?
– Aonde, mulher?
– Na árvore! Preso! Naquela árvore, no meio da clareira! É como se ela o tivesse
engolido! Tarcísio!
Ela correu para a árvore e abraçou-se desesperada ao tronco. Depois começou a
passar as mãos na superfície, como se a procurar brechas. Desistiu e cravou as unhas
a meia altura do tronco, como se quisesse descascá-lo. Algumas das unhas se quebraram, ela levou as mãos à boca e falou, numa voz mais baixa:
O VALE DO CASAL
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– Desculpe! Desculpe meu amor.
Aquilo pareceu loucura para Horácio. Ele só via uma árvore comum. A única
diferença era ser bem mais baixa do que as outras ao redor. E agora a irmã pedia
desculpas à árvore, como se a tivesse ferido.
– Que maluquice é essa, Daphne? É só uma árvore! Não tem mais nada aí!
Ela o fitou como se o visse pela primeira vez.
– Como? Você não está vendo Tarcísio aqui preso nesta árvore? Eu acabei de
arranhar sem querer o rosto dele.
Horácio se aproximou. Colocou a mão sobre o ombro dela e falou:
– Daphne, não adianta fugir da realidade. Eu conversei com os homens ontem.
Todos acham que Tarcísio foi vítima de alguma fera, talvez um monstro. Já houve
ogros por aqui e...
– Mas não há sinais de luta, nem sangue.
– Existem algumas criaturas que podem quebrar facilmente o pescoço de um
homem, mesmo de alguém forte como Tarcísio, e matá-lo sem derramar uma gota de
sangue. Alguns estão achando que um ogro veio viver por estas bandas. Podemos
estar correndo sério risco aqui. Ou, talvez como não há pegadas, um ser alado tenha
capturado Tarcísio. Talvez um grifo ou um roc.
– O que estou fazendo? – ela disse balançando a cabeça. – Por que estou discutindo com você? Não há ogro nenhum, grifo ou qualquer monstro! E se houver, não
matou meu Tarcísio. Não estou louca, eu estou vendo. Ele está aqui, preso nessa maldita árvore!
Virou-se para a árvore, olhou-a por um momento e, em seguida, a abraçou,
chorando.
Horácio não sabia o que fazer. Temia que ela estivesse perdendo o juízo. O desespero dela era tamanho que o comoveu. Será que realmente havia alguma feitiçaria
ali? Segurou a irmã pelos ombros e falou:
– Venha, Daphne. Vamos voltar para casa. Tive uma ideia. Um mago vem a cada
quinzena para nossa aldeia e fica na minha estalagem. Acho que ele virá esta semana.
Talvez ele consiga descobrir o que aconteceu.
Daphne se voltou para ele, com renovado brilho de esperança nos olhos
avermelhados.
– Será? – perguntou.
– É possível. Mas ele vem pra cá para prestar serviços. Talvez saia caro.
110
UBIRATAN PELETEIRO
– Não tem problema. Eu tenho o dinheiro.
Foi em direção ao cavalo, puxando a mão de Horácio com força. Foram até a
cabana, onde estavam escondidas as economias do casal. Eram para investir nos
sonhos deles, mas lançaria mão de tanto dinheiro quanto fosse necessário para
salvar Tarcísio.
Daphne auxiliava o irmão e a cunhada na estalagem, para manter a mente ocupada
enquanto aguardava a chegada do mago. Todo o dia visitava a árvore. No terceiro dia de
espera, ela foi ajudar a cunhada a fazer a feira. Quando voltaram, Daphne viu Horácio
conversando com um estranho. Ele devia ter uns cinquenta anos, de barba e cabelos
grisalhos, ambos bem aparados. Vestia uma bela túnica azulada. Um cinto com fivela de
ouro cingia sua cintura, onde estavam presas uma espada curta e uma adaga, ambas com
bainha e punho ornados de prata; no pescoço, um grande medalhão que também parecia
ser feito de prata, porém brilhava bem mais que as armas, como se tivesse luz própria.
– Esta é minha irmã – falou Horácio. – Daphne, este é Kepler, o mago do
qual falei.
Cumprimentaram-se e Daphne não se conteve, perguntou logo:
– O senhor pode ajudar meu marido?
O mago encolheu os ombros, franziu o cenho e disse:
– Posso fazer uma análise. Investigar o caso e os fatos. Se for algum encantamento passível de contrafeitiço...
– Eu tenho dinheiro – falou Daphne, notando em seguida que o irmão ficara
inquieto, como se ela tivesse cometido um lapso.
– Claro, claro – falou o mago. – Seu irmão já me pôs a par do assunto. Será
uma tarefa trabalhosa, altamente técnica. Por este serviço terei que cobrar... – baixou os olhos e coçou a barba por alguns segundos. Depois encarou Daphne e continuou: – mil peças.
– Eu pago – retrucou Daphne prontamente.
– Só um instante, meu senhor – disse Horácio, afoito. – Preciso falar com
minha irmã.
Pegou-a pelo braço e a levou até um canto. Então murmurou:
– Daphne, é quase todo o dinheiro que você tem. Já pensou se isso não der em
nada? De que você vai viver?
O VALE DO CASAL
111
– E acaso quero viver sem Tarcísio?
– Você diz isso agora, minha irmã. Mas o tempo cura tudo. O que você fará
então? Vai trabalhar para mim, aqui na estalagem, orgulhosa como é?
– Pouco importa. Eu não vou desperdiçar a mínima chance que seja de
reaver Tarcísio.
Desvencilhou-se do irmão e voltou até o mago.
– Como eu disse, meu senhor, concordo com o preço.
– O pagamento deve ser adiantado.
Daphne ficou meio desconcertada, mas foi até o quarto e trouxe uma sacola de
couro. Entregou-a ao mago, que sentiu o peso e depois olhou dentro dela, satisfeito.
– Muito bem, senhora. Vamos nos sentar, temos muito que conversar.
Com gentileza, apontou uma cadeira. Falou para Horácio:
– Uma jarra de vinho, por favor.
Horácio foi atender o pedido, contrariado.
Horácio e o mago iam na frente, cada qual em seu cavalo, enquanto Daphne
guiava a carroça. Fez questão de levá-la, pois, se o mago conseguisse salvar Tarcísio
da árvore, talvez o marido precisasse ser carregado, se estivesse inconsciente ou debilitado. Seguiram a trilha em direção à clareira e, quanto mais se aproximavam, mais
rápido o coração dela batia e a respiração acelerava.
E as árvores se abriram, a clareira surgiu, lá no meio estava a árvore de Tarcísio.
Ela entrou em comoção.
– Lá está meu marido, mago! Consegue vê-lo?
O mago a olhou espantado e depois fitou a árvore. Encarou-a, desconcertado, e disse:
– Não vejo nada. Vamos ver o que os testes de magia dizem.
O mago se aproximou da árvore e a examinou cuidadosamente. Depois examinou o chão e as árvores em volta. Daphne acompanhava todos os movimentos, apreensiva, enquanto Horácio aguardava sentado em um tronco caído. O mago voltou à
árvore e apoiou as duas mãos firmemente sobre ela. Fechou os olhos e se concentrou por alguns minutos. Entoou palavras estranhas e incompreensíveis. As bordas
das palmas de suas mãos emitiram uma tênue luz alaranjada, como se estivessem
incandescentes. Daphne sobressaltou-se, com medo dele estar queimando a árvore.
112
UBIRATAN PELETEIRO
A luz foi diminuindo aos poucos, o mago afastou as mãos, não restou nenhuma
marca no tronco.
O mago segurou com as duas mãos o medalhão que trazia no peito, apontou-o
para a árvore e concentrou-se. A joia iluminou com luz prateada o tronco e as folhas
da árvore, dando-lhe um belo aspecto, mas nada aconteceu. Depois, retirou instrumentos de alquimia do grande estojo que trouxera e começou a fazer testes com folhas
e pedaços de casca da árvore.
Os encantamentos do mago se alongaram por toda a tarde. Daphne só desviou a
atenção do que ele fazia quando Horácio começou a roncar, deitado no chão, usando
o tronco como travesseiro. Então o mago recolheu o material. Parecia ter terminado o
que viera fazer ali. Aproximou-se de Daphne e disse:
– É uma árvore normal. Sinto muito, eu fiz todos os testes de que disponho.
Provavelmente o aspecto diferente em relação às outras se deve ao fato dela ter crescido no centro desta clareira. Não lhe sendo escasso o sol, não teve que crescer rapidamente, por isso não ficou alta e fina como as outras.
Desolada, Daphne falou:
– Não é possível, eu o estou vendo. Será que ninguém acredita em mim?
– Não é questão de acreditar, minha senhora – respondeu o mago. – É que algumas alucinações às vezes são permanentes. Vou lhe dar uma poção que...
– Não quero poção nenhuma. Eu não estou louca! – gritou.
Horácio acordou e, vendo a irmã se exaltar, disse:
– Calma, Daphne. Este senhor está tentando nos ajudar.
– Mas ele não foi capaz. Será que nada mais pode ser feito?
– Minha senhora – falou o mago, ofendido – sou um mago conceituado. Pode
checar minhas credenciais em qualquer salão da Guilda. Tentei todos os encantamentos que conheço, pelos quais a senhora pagou preço justo.
– E quem conhece mais encantamentos que o senhor? – perguntou Daphne.
O mago ficou nitidamente constrangido.
– Daphne – interveio Horácio. – De que adianta isso?
– Não vou aceitar, Horácio! – respondeu. – Deve haver alguém que possa quebrar este encantamento. Alguém com mais conhecimento.
– Neste caso – falou o mago, meio sarcástico – indico o meu antigo mestre. Ele
é o grão-mestre mais sábio que conheço, mas atua na capital. Para fazê-lo vir até aqui
sairá caro.
– Quanto?
O VALE DO CASAL
113
– Só ele pode dizer. Mas será muito caro para você. Talvez umas dez mil peças.
– Tanto assim? – perguntou Daphne, engolindo em seco.
– Talvez mais.
Daphne suspirou, fechou os olhos, oscilou como se fosse desfalecer. Horácio fez
menção de ampará-la, mas ela se equilibrou, voltou-se e foi em direção à carroça.
– Daphne, aonde você vai? – gritou Horácio.
Não respondeu. Saltou para a carroça e chicoteou a mula, que começou a trotar o
mais rápido que podia, levando a carroça em meio à floresta. E Daphne continuou
chicoteando, sem cessar. Chegando à trilha, tomou o rumo de casa.
Daphne percebeu que Horácio não a seguiu. Provavelmente preferiu dar tempo
para ela pensar, refletir sozinha. E era como ela se sentia: sozinha. Nem mesmo o
irmão, a pessoa de quem mais gostava depois de Tarcísio, acreditava nela. Ninguém
iria ajudá-la, ela não sabia o que fazer.
Chegou ao quintal da velha cabana. A última vez que estivera ali foi quando
viera buscar o dinheiro. Ela e o irmão haviam fechado tudo e levado os poucos animais de criação. A casa parecia abandonada. Retirou a chave do cordão no pescoço.
Olhou pensativa para a chave. Quando havia saído da estalagem, em companhia de
Horácio e do mago, estava cheia de esperanças de voltar para casa com Tarcísio. Mas
ainda estava sozinha. Abriu a porta, o interior da cabana estava mergulhado na escuridão. Foi até a mesa e sentou-se, ali mesmo, no escuro. Porém, não chorou mais, estava
cansada de chorar. Queria encontrar uma saída, uma solução para seu tormento.
Viu o machado encostado ao lado da porta. Ele ficara ali desde o dia em que o
empreiteiro trouxera a fatídica notícia. Levantou-se, foi até a porta e pegou o machado. Já sabia o que fazer. Saiu da cabana e embrenhou-se na floresta. O marido já havia
derrubado a maioria das árvores jovens nas proximidades da cabana, ela demorou até
achar uma com as proporções adequadas.
Quando encontrou, parou na frente dela e a examinou. Uma árvore nova. Podia
sentir o anseio por crescer depressa e alcançar a copa das irmãs, onde a luz que lhe
dava a vida era mais farta. Ficou com pena de ferir a árvore. Mas Tarcísio era mais
importante. Ergueu o machado e golpeou.
Quando Daphne adentrou o sítio da obra, os operários pararam de trabalhar.
Eram homens rudes, sujos, suados. Mesmo de longe sentia o cheiro ardido deles.
Olharam-na a princípio com espanto, depois com deboche e malícia. Ela foi até a
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UBIRATAN PELETEIRO
tenda solitária que havia ali. Um homem franzino que estava na frente entrou, como
se fosse avisar alguém, e logo saiu acompanhado de um homem obeso que Daphne
bem conhecia. Era Augusto, o empreiteiro.
– O que a senhora faz aqui? – ele perguntou.
– Vim trazer parte da encomenda do contrato do meu marido – respondeu
Daphne.
Os homens em volta explodiram em mil gargalhadas e galhofas.
– Voltem ao trabalho! – gritou Augusto. – Ou eu corto meio-dia de vocês!
Os homens obedeceram, amuados e resmungando. Augusto se voltou para ela e
a examinou de cima a baixo.
– Aqui está a carga de hoje – falou Daphne, mostrando os poucos troncos.
O empreiteiro olhou de soslaio para os troncos finos e mal cortados.
– Entre – falou, meneando a cabeça em direção ao interior da cabana.
Ela o seguiu. Ele se sentou a uma mesa.
– Poderei trazer mais – disse Daphne – se você me emprestar uma junta de bois,
conforme estava acordado com meu marido.
– Quer se sentar? – perguntou Augusto, apontando uma cadeira. – Quer beber
alguma coisa? Água? Vinho?
– Não, obrigado. Só quero resolver logo essa questão.
– Já contratei outros lenhadores.
– Mas preciso do trabalho! Você tinha um acordo conosco, faz apenas uma semana que nosso serviço foi interrompido.
– Meu acordo era com seu marido, não com a senhora.
Augusto ergueu com dificuldade seu enorme peso da cadeira. Aproximou-se
dela, a gordura balançando sob as roupas, lembrou-lhe um enorme porco andando
enquanto chafurdava a lama.
– A senhora não precisa se prestar a um papel desses. Uma dama tão linda
fazendo trabalho tão duro. A senhora merece vida de princesa. Tenho certeza
que conseguiria facilmente um homem para dar tudo que merece. Para isso,
basta querer.
Ela deu um passo atrás e disse:
– Só o que quero do senhor é o trabalho e a junta de bois.
Augusto torceu o nariz. Foi até a entrada da tenda e chamou o auxiliar.
O VALE DO CASAL
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– Separe uma junta de bois para esta senhora – falou, depois se virou para Daphne
e disse: – pode sair agora. Já tem sua junta. Traga minha carga regularmente ou cancelo o contrato.
– Obrigada – ela disse, enquanto saia.
Augusto voltou à mesa, para continuar a fazer suas contas. Ouviu o ranger da
junta de bois se afastando do acampamento.
– Vamos ver, lenhadora – disse. – Vamos ver até quando você aguenta, cadela!
Quando você voltar se arrastando, com o rabo entre essas belas pernas, vamos ver se
ainda vou te querer!
Horácio não demorou a saber o que a irmã estava fazendo. As notícias sempre
chegavam antes na estalagem. Havia decidido deixar a irmã por uns dias sozinha na
cabana, na esperança dela se conformar por si só. Isso já fazia quatro dias e agora ele
ficara sabendo que ela estava trabalhando feito homem, e que a estavam chamando de
“a lenhadora” por pilhéria.
Decidiu ir vê-la no final daquele mesmo dia, para convencê-la a ir morar com
ele. Porém, quando estava saindo, deu um encontrão em alguém. Um homem muito
gordo. Era Augusto, o empreiteiro, que perguntou:
– Onde está sua irmã?
– O que houve? – retrucou Horácio.
– Ela não apareceu. Eu fui até a cabana dela, como da outra vez. Ela não estava
lá. Então vim aqui na estalagem. Ela veio pra cá?
Horácio não respondeu. Em vez disso franziu o cenho, preocupado.
– Eu concordei com a proposta dela – continuou Augusto – com esse negócio
dela trabalhar para mim no lugar do marido, pois pensei que desistiria logo. Não
pensei que fosse levar a sério. Quero o bem dela. Quando ela começou a trazer as
cargas, não acreditei.
Horácio, que não havia prestado atenção no que ele dissera, falou:
– Eu sei onde ela deve estar.
Foi para o estábulo pegar o cavalo. Montou. Na saída, Augusto o esperava, com
uma expressão solícita.
– Veja bem, meu caro Horácio – começou a falar. – Vim aqui também, pois quero
lhe falar. Tenho pretensões...
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UBIRATAN PELETEIRO
Horácio se debruçou sobre o cavalo, com uma expressão severa, agarrou e torceu a gola da túnica de Augusto e o puxou. Augusto se assustou com a força do
estalajadeiro. Desequilibrou-se para frente e se viu forçado a ficar nas pontas dos pés.
– Fiquei sabendo de suas pretensões, senhor Augusto – disse Horácio. – As
notícias chegam antes à minha estalagem. Tenho algo a lhe dizer: minha irmã é
mulher direita. Não é vadia pra você amancebar-se e cobrir com suas banhas de vez
em quando, como as que você tem por aí que eu sei. Se a desrespeitar, é melhor
contratar alguém pra me matar, pois você não é homem que me faça frente. É um
porco. Um porco depilado, coberto de seda e cheirando a lavanda. E só estou te
avisando porque tenho esposa pra cuidar, não fosse isso já tinha te furado as tripas
onde sangra mais, como eu faço quando quero matar um porco. Mas, na próxima
vez, não paro pra pensar.
Soltou-o. Augusto se desequilibrou e caiu. Havia lama e fezes de cavalo no chão.
Horácio seguiu seu caminho, deixando para trás o homem-porco, com a boca aberta e
os lábios tremendo, estatelado na imundice, sem dizer nenhuma palavra. Do outro
lado da rua, havia um menino sentado num barril. Ele viu tudo e começou a rir baixinho. Mas calou-se e desviou os olhos quando Augusto olhou para ele. Era filho de
uma viúva que devia dinheiro ao empreiteiro.
“A clareira”, pensou Horácio. “Ela desistiu de ser lenhadora e deve estar lá,
chorando por uma árvore!”. Pôs o cavalo a galopar. Primeiro na trilha e depois por
entre as árvores. Volta e meia um galho o atingia. Estava decidido a acabar com tudo
de uma vez. Iria levá-la para a estalagem, nem que fosse a força. Daphne sempre fora
teimosa. Horácio tinha sempre que se esforçar nos argumentos para convencê-la. Mas
não a deixaria se perder na loucura, conservaria sua sanidade a qualquer custo. Enquanto galopava, ficou angustiado, pois sabia no fundo que tudo isso, toda essa decisão, era na verdade medo de perdê-la.
Horácio chegou à clareira. Logo viu a junta de bois. Havia ferramentas no chão.
Quando olhou para o centro da clareira, ficou petrificado com o que viu. Ali, ao lado
da árvore anteriormente solitária, outra havia surgido. Ficou montado, boquiaberto,
por um longo tempo, sem saber em que acreditar. Ficou indeciso se procurava pistas
da irmã ou se acreditava na mesma loucura que a afligira. Ele estava vendo, não era
ilusão. Esfregou os olhos, mas é claro que a árvore continuou ali.
Aproximou-se e desmontou. Apalpou a árvore e então viu algo que o deixou
ainda mais perplexo. De cada uma das árvores saia um galho que se encontrava com o
da outra. Lembravam duas mãos enlaçadas.
O VALE DO CASAL
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Relembrou que Daphne falava que podia ver o marido incrustado na árvore.
Lentamente ele se moveu para olhar o outro lado do tronco. Nada. Não havia nada, em
nenhuma das duas árvores. Só a mesma superfície rugosa e áspera.
Não sabia o que fazer. Caiu sentado no chão, só o que vinha a mente era a própria
impotência diante daquele estranho infortúnio. Ficou ali, desconsolado, até anoitecer.
Depois, montou e foi embora. Cabisbaixo, o cavalo parecia arrastar os cascos, como
se a angústia do dono o tivesse contaminado.
Quando chegou à estalagem, teve uma grata surpresa. O mago estava lá, sentado a
uma mesa, comendo. O mago fez menção de cumprimentá-lo, mas Horácio não lhe deu
tempo. Apoiou-se na mesa e despejou todo o ocorrido numa avalanche de palavras.
Quando falou da árvore, o mago engasgou. Tossiu bastante e Horácio teve que
lhe dar uns tapas nas costas para que se recuperasse. Quando recobrou o fôlego, limpou a boca com um guardanapo e disse.
– Vamos até lá. Agora!
Horácio refez todo o caminho com ele. Chegando na clareira, ergueu a tocha e viu
o mago arregalar os olhos. Ele se aproximou da árvore e examinou o chão, perguntando:
– Será que alguém a replantou aqui?
– Como, homem? – disse Horácio, levando a chama bem rente ao chão. – Não
está vendo como a grama se junta ao tronco? Essa árvore está entranhada no chão
como se ai tivesse nascido! Não há sinal de terra revolvida. E estivemos aqui faz
poucos dias.
O mago ergueu-se e ficou com expressão estarrecida.
– Chamarei meu mestre – disse.
– Não há dinheiro!
– Agora tudo mudou – disse. – Pensei que era apenas loucura de mulher abandonada. Isso é algo que nunca ouvi falar, magia ocorrer assim, provavelmente de forma
espontânea. Meu mestre terá interesse de estudar este caso, sem ônus, pois pode se
tratar de manifestação inusitada do Arcano, informação valiosa para enriquecer os
anais da Guilda.
Saíram da clareira e o mago partiu da aldeia imediatamente, abandonando o que
viera fazer ali. E Horácio teve dificuldade de dormir naquela noite, bem como nas
outras que se seguiram.
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UBIRATAN PELETEIRO
Todos os dias Horácio visitava as árvores na clareira. Temia que alguém fizesse
mal a elas. Talvez algum lenhador resolvesse derrubá-las, apesar de, há muito tempo,
Tarcísio ser o único que trabalhava naquele vale.
Poucos dias depois o mago voltou, acompanhado do mestre, a quem tratava com
todas as honrarias. Era um ancião, mas andava ereto e bem disposto como um jovem.
Usava roupas ricas e trazia um cajado ornado de fios prateados, que brilhavam como
o medalhão do discípulo. Usava longa e fina barba muito branca que descia até o
peito. Tinha um estranho elmo de metal brilhante e fino, que cobria bem rente todo o
couro cabeludo, da nuca até o começo da testa, contornando as orelhas. Dava a impressão de ele ser calvo, pois nenhum resquício de cabelo saía pelas bordas.
– Este é Horácio, mestre. O estalajadeiro de que lhe falei.
O grão-mestre não tinha tempo a perder. Quis ir imediatamente à clareira, o que
deixou Horácio satisfeito, pois, de todos, ele era o mais apreensivo. Mas ainda teve
que ter muita paciência, pois o grão-mestre passou três dias estudando as árvores e
discutindo com o discípulo. Interrogava constantemente Horácio, queria saber tudo
que ocorrera por ocasião do desaparecimento do casal. Fazia magias com o cajado
para examinar as árvores no centro da clareira, o solo, as árvores em volta, a grama, as
folhas, tudo. No final, levou Horácio a clareira e disse:
– São eles mesmo que aí estão. Sua irmã e seu cunhado.
– Como pode ser? Quem fez isso?
– A floresta.
– A floresta?
– Sim. Ela se defendeu. Os cônjuges, cada um por sua vez, cometeram um grande crime contra a floresta. Estavam ceifando a vida de todos os seus filhos ainda
jovens, já que precisavam das árvores finas para as estacas do forte. As árvores cresciam e, quando estavam quase adultas, prontas para expandir as folhagens ao sol, o
casal as ceifou. Para castigá-los, a floresta os transformou em árvores, para que eles
sentissem na pele o que é estar preso ao solo sem poder se defender. É algo que nunca
aconteceu antes, não há nada semelhante registrado nos anais da Guilda dos Magos.
Meus estudos aqui vão render um trabalho original para apresentar aos meus colegas
na próxima convenção.
– Como pode ser isso, árvores fazendo magia?
– O Arcano criou o mundo e até hoje o rege. A tendência da interação entre as
coisas materiais é o equilíbrio estático que os laicos encaram como a realidade, mas o
equilíbrio é tênue. Romper esse equilíbrio é magia, e há várias formas dela se manifestar. Estas manifestações são o objeto de estudo dos magos. O primeiro encantamento foi replicado do estudo da magia espontânea em nosso mundo, quando ele era
jovem, e a magia era farta. Hoje esses fenômenos são raríssimos, mas ocorrem.
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– Minha irmã dizia conseguir ver o marido. Por que nós não conseguimos
ver nada?
O mago colocou a mão em seu ombro e disse:
– Algumas coisas, meu caro, não podem ser vistas com olhos da carne, mas
talvez com os olhos da mente, do espírito ou, quem sabe, com os olhos do coração. Eu
também não os vejo, mas consigo ler o alinhamento das forças arcanas que estão em
volta desta clareira. E elas me disseram isso que agora te informei. Não tenho mais o
que fazer aqui. Adeus.
O mago e seu discípulo foram embora. Horácio continuou na clareira, olhando
para as árvores. Não acreditava que nunca mais veria a irmã, a quem tanto amava.
Baixou os olhos e se pôs a chorar. Um choro doído, como não tinha desde a infância.
Ficaram órfãos de mãe muito cedo, e a irmã sempre cuidara dele enquanto o pai trabalhava duro na lavoura. Era ela quem velava seu sono, cuidava dele quando estava
doente. Quando se machucava, ela o consolava e fazia curativos. Quando estava triste, ela o alegrava. Sempre ocultava suas travessuras do pai, como uma mãe faria. As
lágrimas caíram, manchando as folhas secas, a saudade apertou o coração com mão
impiedosa.
“Os olhos do coração”, ecoaram as palavras do grão-mestre em sua mente. Levantou o rosto e olhou as árvores, ainda com a visão turva pelas lágrimas. Devagar a
imagem se formou, conforme as lágrimas secavam. Viu então as figuras do cunhado e
da irmã, gravadas cada qual em sua árvore. E a irmã sorria, com o sorriso tão singelo
como lhe era próprio. Ele se aproximou vagarosamente. Viu que eles estavam de
mãos dadas. Beijou a irmã e foi embora.
Ela estava feliz.
Décadas depois, Horácio, agora um velho viúvo, ainda trabalhava na estalagem.
Certa tarde, olhava do balcão as duas filhas e o genro atenderem aos fregueses. Um
casal entrou na estalagem. Estavam de mãos dadas e ambos sorriam. Vieram até Horácio
e o rapaz disse:
– É verdade, velho Horácio! Nós os vimos!
– Que beleza. Meus parabéns – respondeu Horácio, sorrindo.
– É como o povo diz – continuou o rapaz. – Quem tem amor verdadeiro pode ver
o casal da árvore.
Abraçou a noiva e a beijou. As pessoas em volta bateram palmas e fizeram ovações. Como sempre, Horácio se perguntou se eles falavam a verdade. Fazia muito
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tempo que o ocorrido com a irmã e o cunhado se tornara notícia e, ano após ano,
casais se dizendo apaixonados peregrinavam até ali. Isso fora bom para os negócios,
principalmente por que era o irmão da mulher da árvore. Sabia que muitos dos casais
mentiam. Muitos deles se separariam depois, ou continuariam juntos por razão outra
que não o amor.
Nesses momentos, sentia nostalgia. Tivera uma vida feliz ao lado da esposa,
sentia saudades dela. Sentia também saudades da irmã. Das suas duas filhas que estavam servindo os fregueses, a mais velha lembrava demais sua saudosa Mirna, enquanto a mais nova por sua vez lembrava Daphne. Duas mulheres que ele amara em
sua vida, cada qual a seu modo.
As pessoas em volta se confraternizavam na estalagem lotada. Ninguém notou
que, lá no balcão, lágrimas umedeciam rugas secas no rosto do velho Horácio.
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