UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA Faculdade de

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UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA Faculdade de
UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA
Faculdade de Arquitetura e Artes
Mestrado Integrado em Arquitetura
Os mercados no século XXI: novas perspetivas
de apropriação do espaço público
Realizado por:
Mariana Marques Henriques
Orientado por:
Prof. Doutor Arqt. Joaquim José Ferrão de Oliveira Braizinha
Constituição do Júri:
Presidente:
Orientador:
Arguente:
Prof. Doutor Horácio Manuel Pereira Bonifácio
Prof. Doutor Arqt. Joaquim José Ferrão de Oliveira Braizinha
Prof.ª Doutora Arqt.ª Helena Cristina Caeiro Botelho
Dissertação aprovada em:
13 de Janeiro de 2016
Lisboa
2015
U
N I V E R S I D A D E
L
U S Í A D A
D E
L
I S B O A
Faculdade de Arquitetura e Artes
Mestrado Integrado em Arquitetura
Os mercados no século XXI:
novas perspetivas de apropriação do espaço público
Mariana Marques Henriques
Lisboa
Novembro 2015
U
N I V E R S I D A D E
L
U S Í A D A
D E
L
I S B O A
Faculdade de Arquitetura e Artes
Mestrado Integrado em Arquitetura
Os mercados no século XXI:
novas perspetivas de apropriação do espaço público
Mariana Marques Henriques
Lisboa
Novembro 2015
Mariana Marques Henriques
Os mercados no século XXI:
novas perspetivas de apropriação do espaço público
Dissertação apresentada à Faculdade de Arquitetura e
Artes da Universidade Lusíada de Lisboa para a
obtenção do grau de Mestre em Arquitetura.
Orientador: Prof. Doutor Arqt. Joaquim José Ferrão de
Oliveira Braizinha
Lisboa
Novembro 2015
Ficha Técnica
Autora
Orientador
Mariana Marques Henriques
Prof. Doutor Arqt. Joaquim José Ferrão de Oliveira Braizinha
Título
Os mercados no século XXI: novas perspetivas de apropriação do
espaço público
Local
Lisboa
Ano
2015
Mediateca da Universidade Lusíada de Lisboa - Catalogação na Publicação
HENRIQUES, Mariana Marques, 1992Os mercados no século XXI : novas perspetivas de apropriação do espaço público / Mariana Marques
Henriques ; orientado por Joaquim José Ferrão de Oliveira Braizinha. - Lisboa : [s.n.], 2015. Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura, Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade
Lusíada de Lisboa.
I - BRAIZINHA, Joaquim José Ferrão de Oliveira, 1944LCSH
1. Mercados
2. Mercados - História
3. Espaços públicos
4. Universidade Lusíada de Lisboa. Faculdade de Arquitetura e Artes - Teses
5. Teses - Portugal - Lisboa
1.
2.
3.
4.
5.
Markets
Markets - History
Public spaces
Universidade Lusíada de Lisboa. Faculdade de Arquitetura e Artes - Dissertations
Dissertations, Academic - Portugal - Lisbon
LCC
1. NA6275.P6 H46 2015
Dissertação apresentada à Faculdade de
Arquitectura da Universidade Lusíada de
Lisboa para a obtenção do grau de Mestre
em Arquitectura.
Área de especialização: Espaço público,
mercados, reabilitação
Orientador:
Prof. Doutor Joaquim José
Ferrão de Oliveira Braizinha
Esta dissertação é dedicada a minha família,
ao meu pai, à minha mãe, à minha irmã, à
minha avó e aos “meus tios”.
AGRADECIMENTOS
Agradeço em primeiro lugar aqueles que são os alicerces da minha família e da minha
vida, os meus pais.
Principalmente ao meu pai André Henriques, que mesmo estando longe sempre
esteve à distância de um telefonema quando precisei dos seus preciosos
conhecimentos na minha área de estudo académico.
À minha mãe e à minha irmã, pelo apoio incondicional, compreensão, sobretudo nos
momentos mais críticos e ainda pela dedicação e força que me deram ao longo destes
cinco anos para que eu caminhasse dia a dia rumo ao meu sucesso pessoal e
profissional.
À minha avó, agradeço apenas com um simples olhar, que entre nós e pela nossa
cumplicidade tem a dimensão do Universo.
Aos meus tios adoptivos João e Graça; por toda a maravilhosa colaboração, pelas
longas conversas de sorrisos e lágrimas que tantos ensinamentos me trouxeram.
Ao Professor Doutor Joaquim José Ferrão de Oliveira Braizinha, meu orientador, pela
sua disponibilidade incansável, pelo seu encorajamento e críticas construtivas, mas
também pela sua dimensão humana e formativa que esteve sempre presente ao longo
da orientação deste estudo.
A todos os professores da parte curricular deste curso da Universidade Lusíada de
Lisboa, bem como aqueles que conheci em Espanha durante o meu ano de Erasmus
2014-2015 na Universidade Politécnica de Madrid.
Ao meu professor José Manuel López-Peláez que muitas vezes me ajudou naqueles
momentos de maior dúvida na resolução de projetos e nos momentos de maior
ansiedade dizia a sua celebre frase: “ ajajaj….. no te preocupes ya lo veremos. Animo,
animo!”
A todos eles agradeço pelo facto de me terem incentivado, encorajando a alimentando
incansavelmente o gosto contínuo pela descoberta fantástica do mundo da
Arquitetura.
Sem grandes enquadramentos linguísticos mas com um enorme sentimento de
gratidão pela disponibilidade e colaboração aos seguintes colaboradores:
ARX Portugal Arquitectos – Arq. José Mateus
Atelier Aires Mateus – Francisco Aires Mateus
Souto Moura Arquitectos – Arq. Luís Peixoto
Câmara Municipal de Lisboa
Câmara Municipal de Abrantes:
Dr. João Gomes (Vice-Presidente Câmara Municipal de Abrantes)
Arquiteta Sara Morgado.
De um modo geral a todos os que de alguma forma sempre manifestaram o seu apoio,
encorajamento e disponibilidade, não só no meu percurso académico mas também no
meu percurso de vida, e aos quais não aludi individualmente, o meu muito obrigada.
Por último dedico este trabalho ao meu pai, que foi, é, e será sempre o meu modelo
ideal de “ser”; apenas olvidando de me ensinar como lhe posso agradecer por tudo
isto!!!
Architecture
is
the
will
of
an
epoch
translated into space. (Mies van der Rohe)
APRESENTAÇÃO
Os Mercados no Século XXI: Novas Perspetivas
de Apropriação do Espaço Público
Mariana Marques Henriques
O Mercado é uma parte integrante deste grande organismo vivo que é a cidade.
Um membro do espaço público, que o dinamiza e qualifica. Ele é um revitalizador da
vida de uma cidade.
Um dos mais antigos qualificadores do espaço, acompanhou a cidade desde os
tempos da antiguidade. Foi um dos principais integrantes da Ágora, do Fórum, do
Souk, da Loggia e, finalmente conhecido como Mercado, passou a ter um lugar
privilegiado na praça Medieval e, mais tarde, na cidade do Renascimento. Por fim,
encontrou um lugar nas construções de ferro e vidro da Era Industrial e nas linhas
sóbrias do Mundo contemporâneo. Objeto de uma sociedade de massas, o Mercado
acabará por conhecer o seu declínio e a decadência no século XIX, vítima de
abandono e esquecimento. O mercado deixou de servir uma sociedade consumista.
Todavia, atualmente assistimos a um retorno à tradição, numa realidade em que as
perspetivas contemporâneas e a tradição coexistem harmoniosamente.
É pela mão do arquiteto que se reabilitam estes espaços esquecidos entre ruas, entre
edifícios, na memória da cidade. Atualmente, o mercado já não é visto apenas como o
local de compra da fruta, dos legumes, do peixe ou da carne. O mercado é mais,
oferece mais, dá mais. Mas, sobretudo, o mercado de hoje vive mais!
Os espaços de restauração, os grandes pátios centrais repletos de cadeiras e mesas
contínuas proporcionam a convivência e troca de cultura entre as gentes.
Este é o mercado do século XXI: um lugar físico com um novo funcionalismo que se
abre para o espaço público e o domina, de forma controlada, e que com ele
estabelece uma relação, através de uma linguagem própria.
O Mercado do século XXI é um espaço físico público que dinamiza e revitaliza a
cidade.
Palavras-chave: Mercado,
Revitalização, Reabilitação.
Espaço
Público,
Cidade,
Novo
Funcionalismo,
PRESENTATION
Markets in the XXI Century: New Perspectives
about the Public Space Appropriation
Mariana Marques Henriques
The Market is an integral part of this great living organism which is the city. A member
of the public space, that energizes and qualifies it. The Market revitalizes the life of a
city.
One of the most ancient space qualifiers, the Market has been a constant in the city
since antiquity. It was one of the main integrant parts of the Agora, the Forum, the
Souk, the Loggia and finally known as Market became a privileged spot in the Medieval
square and afterwards in the city of the Renaissance. Eventually found a place in the
iron and glass constructions of the Industrial Age and in the clean and sober lines of
the contemporary world. Object of a mass society, the Market will ultimately meet its
decline in the 19th century, victim of neglect and oblivion. The Market failed to serve a
consumer society. However, currently we are witnessing a return to tradition, in a
reality where contemporary perspectives and tradition coexist harmoniously.
It is the hand of the architect that rehabilitates these forgotten spaces between streets,
between buildings, dormant spaces in the city´s memory. The Market today is no
longer seen only as the place where to buy fruit, vegetables, fish or meat. The Market
is more, offers more, gives more. But above all, today´s Market lives more!
The dining outlets, the large central courtyards continuously filled with chairs and tables
promote acquaintanceship and cultural exchanges.
This is the Market of the 21st century: a physical place with a new functionalism and the
capacity to dominate the public space, in a controlled manner, establishing a new
relationship with it through its own special language.
The Market of the 21st century is a public physical place that dinamizes and revitalizes
the city.
Keywords:
Market,
Rehabilitation.
Public
Space,
City,
New
Functionalism,
Revitalization,
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Ilustração 1 – As primeiras ideias de troca de bens e produtos, Balage Balogh. (Biblical
Archaeology Society, 2015). ....................................................................................... 35
Ilustração 2 - Paleolítico Superior, Stephen Alvarez, 2015. (National Geographic,
2015). ......................................................................................................................... 36
Ilustração 3 – "This is the oldest hand stencil in the world," Aubert, Pedro Saura. (Than,
2012). ......................................................................................................................... 37
Ilustração 4 - "This is the oldest hand stencil in the world," Aubert, Kinez Riza. (Bryner,
2014) .......................................................................................................................... 37
Ilustração 5 – “Process is our most important product”. (Charles, 2014). .................... 39
Ilustração 6 – “Plan and restored drawing of the Agora at the height of its development
in ca. A.D.150”, (American School of Classical Studies, 2015). .................................. 40
Ilustração 7 – O mercado da Ágora, Jan van der Crabben, 2013. (Ancient History
Encyclopedia,2015). ................................................................................................... 40
Ilustração 8 – Planta de Mileto, Antonio Giuliano, 1996. (2015). ................................. 44
Ilustração 9 - “Forum”, Max Barry, 2015. (Max Barry, 2015). ..................................... 46
Ilustração 10 – Mercado Romano, Carole Raddato, 2014. (Carole Raddato, 2015). ... 47
Ilustração 11 – Planta dos vários Fóruns, Sarah Swisher, 2012. (Sarah Swisher, 2015).
................................................................................................................................... 49
Ilustração 12 - The Roman Empire, Henri Stierlin, 1996, p. 46. ................................... 49
Ilustração 13 - Interior do Fórum Trajano, Carlos Zeballos, 2011. (Carlos Zeballos,
2015). ......................................................................................................................... 49
Ilustração 14 – o antigo mercado Islâmico – Souk ou bazar, Edward Dodwell, 2013.
(Ios minaret, 2013). ..................................................................................................... 51
Ilustração 15 – A cidade de Gardaia na Argélia, Benevolo, 1993, p. 230. ................... 52
Ilustração 16 – Marrakech, theplanetD, 2013. (Theplanetd, 2015). ............................. 53
Ilustração 17 – Mercado medieval, Peter Aertsen, 2013. (Barbara Wells Sarudy, 2015).
................................................................................................................................... 55
Ilustração 18 – Plantas de 14 cidades da Europa Setentrional, com os sucessivos
cinturões de muros até ao século XIV. (Benevolo, 1993, pag.259). ............................ 57
Ilustração 19 - Mercado medieval, Pieter Aertsen. (Barbara Wells Sarudy, 2015). ..... 57
Ilustração 20 – “Praças em Paris, segundo os desenhos em perspectiva do Plan de
Turgot.” 1. Place Vendôme. 2. Place Dauphine. 3. Place Royale. 4. Place des
Victoires. (Lamas, 1993, p.173). ................................................................................. 60
Ilustração 21 - A Loggia do Mercato Nuovo. Massimo J. De Carlo, 2011. (Massimo J.
De Carlo, 2015). ......................................................................................................... 60
Ilustração 22 – A Loggia do Mercato del Pesce. (Mattia Lattanzi, 2015). .................... 60
Ilustração 23 – Praça de São Marcos, Gaspar Van Wittel, 1697. (Gaspare Armato,
2015). ......................................................................................................................... 63
Ilustração 24 – Plaza Mayor. (Pedro Pabón Fernández, 2015). .................................. 64
Ilustração 25 – “Ensanche de Barcelona ideado en 1860 por Ildefonso Cerdá.”.
(Antonio G. Acevedo., 2015). ...................................................................................... 66
Ilustração 26 – “Esquema dos grandes trabalhos de Haussmann em Paris: em preto as
novas ruas, em tracejado quadriculado os novos bairros, em tracejado horizontal os
dois grandes parques periféricos”. Benevolo, p. 592................................................... 66
Ilustração 27 – “Marche St. Germain”, B. Ferry Delt, 1828. (Antiqua Print Gallery,
2015). ......................................................................................................................... 68
Ilustração 28 – “Quincy Market, Boston, 1825-6”. (Howe, 1998). ................................ 68
Ilustração 29 – The great stove (a grande estufa). (Cris, 2011). ................................. 70
Ilustração 30 – Interior do Palácio de Cristal. (Jane Dzisiewski, 2014). ....................... 71
Ilustração 31 – Covent Garden, Londres. (UNIVERSITY OF LONDON, 2014). .......... 72
Ilustração 32 – Les Halles, Paris. (Laurent Luft, 2014) ................................................ 72
Ilustração 33 – Planta do Covent Garden. (Samuel Pepys, 2015)............................... 73
Ilustração 34 – New Market of Covent Garden, 2015. ([Adaptado a partir de:] Loudon,
2015, p. 268 – 269). .................................................................................................... 73
Ilustração 35 - Les Halles, Aimé Dartus / Ina,1967. (Nicolas Bonnell, 2015). ............. 74
Ilustração 36 - Abattoirs de La Villette. (Boursier, 2015). ............................................ 74
Ilustração 37 – Mercado de Santa Clara, Eduardo Portugal. (Arquivo Municipal de
Lisboa, 2015). ............................................................................................................. 75
Ilustração 38 - Mercado da Praça da Figueira, J. C. Alvarez, 1949. (Arquivo Municipal
de Lisboa, 2015). ........................................................................................................ 76
Ilustração 39 – Mercado de Santa Clara, Vaco Gouveia de Figueiredo,1967. (Arquivo
Municipal de Lisboa, 2015). ........................................................................................ 77
Ilustração 40 – Mercado da Praça da Figueira, Eduardo Portugal, ant. 1949. (Arquivo
Municipal de Lisboa, 2015). ........................................................................................ 77
Ilustração 41 – Exterior do mercado Ferreira Borges e o seu interior. (Daniel Silva,
2015). ......................................................................................................................... 78
Ilustração 42 – Cruzamento da R. De Sá da Bandeira e Rua Formosa, Colecção de
Postais, 1920. (Gisa 2015).......................................................................................... 82
Ilustração 43 - Cruzamento da R. De Sá da Bandeira e Rua Formosa, 15 lugares para
(re)visitar no Porto, 2014. (Wone, 2015). .................................................................... 82
Ilustração 44 – Cobertura do pátio central no mercado, Ula Fiedorowicz, 2014. (The
adamant wanderer, 2015). .......................................................................................... 82
Ilustração 45 – Produtos tradicionais vendidos no mercado, Ula Fiedorowicz, 2014.
(The adamant wanderer, 2015). .................................................................................. 82
Ilustração 46 – Lojas no interior do mercado, Ula Fiedorowicz, 2014. (The adamant
wanderer, 2015).......................................................................................................... 82
Ilustração 47 – Mercado de Matosinhos fotografia do interior e do projeto exterior,
respetivamente. (A Voz de Leça, 2010). ..................................................................... 84
Ilustração 48 – Perspetiva do mercado. (A Voz de Leça, 2010). ............................... 85
Ilustração 49 – Fachada principal do mercado. (A Voz de Leça, 2010). ...................... 85
Ilustração 50 - Interior do mercado do Bom Sucesso, Pedro Sarmento, 2009. (Pedro
Sarmento, 2015). ........................................................................................................ 87
Ilustração 51 - Interior do mercado do Bom Sucesso, Pedro Sarmento, 2009. (Pedro
Sarmento, 2015). ........................................................................................................ 87
Ilustração 52 - Fotografia aérea do mercado, Patrícia Carvalho, 2011. (Público, 2015).
................................................................................................................................... 87
Ilustração 53 - Mercado de Ovar após a reabilitação em 2012, Carlos A. Castro, 2013.
(Carlos A. Castro, 2015) ............................................................................................. 89
Ilustração 54 – imagens exteriores do mercado com o pormenor da cobertura, 2011,
Carlos A. Castro. (Carlos A. Castro, 2015). ................................................................ 90
Ilustração 55 – imagem do exterior e do interior do mercado respetivamente, 2011,
Carlos A. Castro. (Carlos A. Castro, 2015). ................................................................ 90
Ilustração 56 – Umas das coberturas do mercado, Nuno Filipe Ferreira, 2008. (Nuno
Filipe, 2015). ............................................................................................................... 92
Ilustração 57 – Diferentes perspetivas do mercado, S72. (Space 72, 2015). .............. 92
Ilustração 58 – Vista do mercado e planta do mercado, S72. (Space 72, 2015). ........ 92
Ilustração 59 - Cortes do mercado A e B, S72. (Space 72, 2015). .............................. 92
Ilustração 60 – Mercado da Comenda, José Manuel Rodrigues. (ORDEM DOS
ARQUITECTOS, 2015). .............................................................................................. 96
Ilustração 61 - Mercado Municipal de Atarazanas, Aranguren & Gallegos Arquitectos.
(Archdaily, 2015)......................................................................................................... 96
Ilustração 62 – Mercado de ferro, Hufton+ Crow. (Archdaily, 2015). ........................... 96
Ilustração 63 – Mercado do peixe, Alp Eren. (Archdaily, 2015). .................................. 96
Ilustração 64 – “Mercado do Caranda”, Duccio Malagamba, 1997. (Duccio Malagamba,
2008). ......................................................................................................................... 97
Ilustração 65 – Interior de algumas das salas de ensaio, 2012, Iduna. (Iduna) ........... 98
Ilustração 66 – Fachada de Salas de ensaio da escola de música, 2012, Iduna. (Iduna)
................................................................................................................................... 98
Ilustração 67 – Mercado do Carandá, 2013, Solaz. (Wordpress, 2015). ................... 100
Ilustração 68 – Pátio interior, 2013, Solaz. (Wordpress, 2015). ................................. 101
Ilustração 69 - Mercado no seu entorno, Giulia. (archidiap, 2015). ........................... 102
Ilustração 70 – Mercado, 2005, Roland Halbe, Alex Gaultier. (architizer, 2015) ........ 102
Ilustração 71 – Imagem da entrada pela Avenida Francesc Cambó, Giulia. (Archidiap,
2015). ....................................................................................................................... 104
Ilustração 72 – Cobertura do mercado, Giulia. (Archidiap, 2015). ............................. 105
Ilustração 73 – Alçado da Avenida Francesc Cambó, Giulia. (Archidiap, 2015). ....... 105
Ilustração 74 – Planta do mercado, Giulia. (Archidiap, 2015). ................................... 106
Ilustração 75 – Implantação das diferentes partes do projeto, 2015, Roland Halbe.
(Archdaily, 2015)....................................................................................................... 107
Ilustração 76 – Corte pela zona de acessos aos diferentes níveis do mercado, 2015,
Roland Halbe. (Archdaily, 2015). .............................................................................. 109
Ilustração 77 – Corte pela zona de acessos aos diferentes níveis do mercado, 2015,
Roland Halbe. (Archdaily, 2015). .............................................................................. 109
Ilustração 78 - o polidesportivo, atrás o mercado e à direita a biblioteca, 2015, Roland
Halbe. (Archdaily, 2015). .......................................................................................... 110
Ilustração 79 – à esquerda o complexo mercado-polidesportivo-biblioteca e à direita o
mercado temporário, C. Rosillo. (El Pais, 2013)........................................................ 110
Ilustração 80 – O mercado temporário de noite, Diego. (Photo bucket, 2015)........... 110
Ilustração 81 – O mercado temporário ligação entre diferentes espaços, exterior,
Diego. (Photo bucket, 2015). .................................................................................... 110
Ilustração 82 – CML, plantas do antigo mercado de campo de Ourique, arquivo
fotográfico, 1993. (CML, 2015) ................................................................................. 111
Ilustração 83 – Mercado de campo de Ourique, Vasco Gouveia de Figueiredo. (CML,
2015) ........................................................................................................................ 112
Ilustração 84 – Mercado de campo de Ourique, Vasco Gouveia de Figueiredo. (CML,
2015) ........................................................................................................................ 113
Ilustração 85 – Proposta de reabilitação do mercado com os novos espaços
gastronómicos. (Joana e Manel, 2015). .................................................................... 113
Ilustração 86 – Planta esquemática do mercado e posição na envolvente. Legenda: 1.
Rua Coelho da Rocha | 2. Rua Francisco Metrass | 3. Rua Padre Francisco | 4. Rua
Ten. Ferreira Durão. ([Adaptado a partir de:] Microsoft Corporation ; Mercado de
Campo de Ourique, 2015)......................................................................................... 114
Ilustração 87 – Interior do mercado de campo de Ourique, MERCADO DE CAMPO DE
OURIQUE, 2014. (MERCADO DE CAMPO DE OURIQUE 2015). ............................ 115
Ilustração 88 – Antigo mercado da Ribeira em 1771, João Portugal. (Arquivo Municipal
de Lisboa, 2015). ...................................................................................................... 116
Ilustração 89 – Novo mercado 24 de Julho de 1882, Joshua Benoliel, 1912. (Arquivo
Municipal de Lisboa, 2015). ...................................................................................... 116
Ilustração 90 – Fotografia aérea do mercado da Ribeira. (Ilustração nossa, 2015). .. 118
Ilustração 91 – Interior da nave correspondente ao mercado tradicional. (José Leite,
2015). ....................................................................................................................... 119
Ilustração 92 - Interior da nave correspondente ao mercado Time Out, (José Leite,
2015). ....................................................................................................................... 119
Ilustração 93 – Planta do mercado da Ribeira. (AIRES MATEUS, 2015). ................. 120
Ilustração 94 – Exterior do mercado Municipal de Abrantes, Fernando Guerra |
FG+SG. (Archdaily, 2015)......................................................................................... 121
Ilustração 95 – Escadaria de acesso da rua à cota inferior para a rua na cota superior.
(Ilustração nossa, 2015). .......................................................................................... 122
Ilustração 96 – Perspetivas interiores do mercado. . (Ilustração nossa, 2015). ......... 123
Ilustração 97 – Fotografia aérea do mercado Municipal de Abrantes, Fernando Guerra
| FG+SG. (Archdaily, 2015). ...................................................................................... 123
Ilustração 98 – Esquema sintese da evolução do mercado ao longo da História.
(Ilustração nossa, 2015). .......................................................................................... 127
LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS
a.C
-
After Dead (em português: D.C - Depois de Cristo)
CE
-
Comunidade Europeia
CML
-
Câmara Municipal de Lisboa
Ex.
-
exemplo
SUMÁRIO
1 Introdução .............................................................................................................. 27
1.1 Motivações associadas à escolha do tema. ..................................................... 29
1.2 Enquadramento Geral ..................................................................................... 31
1.3 Objetivos ......................................................................................................... 33
2 Contextualização histórica – Origem e evolução do mercado na Cidade ............... 35
2.1 Da Arte primitiva à Mesopotâmia. .................................................................... 36
2.1 Ágora – Grécia Clássica .................................................................................. 42
2.2 Fórum - Roma Clássica ................................................................................... 46
2.3 Souk – Mercado Islâmico ................................................................................ 51
2.4 Mercado Medieval ........................................................................................... 54
2.5 Do Renascimento ao Barroco – Praça Pública ................................................ 61
2.6 Neo-Classicismo – Mercado Coberto .............................................................. 69
2.6.1 Mercado de Santa Clara ........................................................................... 75
2.6.2 Mercado da Praça da Figueira .................................................................. 76
2.6.3 Mercado Ferreira Borges .......................................................................... 78
2.7 Movimento Moderno Português ....................................................................... 79
2.7.1 Mercado do Bolhão................................................................................... 83
2.7.2 Mercado Chaves | Matosinhos | Bom Sucesso ......................................... 83
2.7.3 Mercado de Ovar | Amarante .................................................................... 88
2.7.4 Mercado Municipal de Santa Maria da Feira ............................................. 91
3 Ponto da Situação .................................................................................................. 93
4 Casos de Referência .............................................................................................. 95
4.1 Mercado do Carandá ....................................................................................... 97
4.2 Mercado de Santa Caterina ........................................................................... 103
4.3 Mercado Barceló ........................................................................................... 107
5 Casos de Estudo .................................................................................................. 111
5.1 Mercado Campo Ourique .............................................................................. 111
5.2 Mercado da Ribeira ....................................................................................... 116
5.3 Mercado Municipal de Abrantes .................................................................... 121
6 Conclusão ............................................................................................................ 127
Referências .............................................................................................................. 131
Bibliografia ................................................................................................................ 151
Lista de apêndices .................................................................................................... 157
O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
1 INTRODUÇÃO
Ao longo dos séculos, a cidade tem-se vindo a transformar, uma metamorfose que
ocorre discretamente dia após dia, ano após ano, quase imperceptível aos olhos de
quem passa.
O antigo e singelo edifício, de outrora, onde viviam famílias, amigos e vizinhos.
comungando de um ambiente familiar, partilhando conhecimentos, vivências,
memórias, deu hoje lugar ao edifício que se ergue bem alto e imponente, sede de uma
multinacional. É assim que a vida corre, passa singela, corre ao lado do tempo, corre
ao lado das vivências e vai aceleradamente percorrendo o caminho, deixando
desvanecer costumes e tradições que fizeram parte da cultura, de hábitos e costumes
de um povo.
Nas antigas pedras da calçada portuguesa, utilizadas no calcetamento das áreas
pedonais, alia-se o conceito de funcionalidade e arte. Arte esta que nascia do saber dos
calceteiros, dos verdadeiros artistas que colocavam minuciosamente cada pedra lado
a lado, originando autênticas obras primas. Eram elas que ouviam o caminhar das
gentes, eram elas que ouviam os pregões dos feirantes, eram elas que ouviam o bater
do martelo para montar a banca.
Com o passar dos anos, o mercado envelheceu, desvaneceu-se, acabando por
morrer, e o freguês deu lugar ao cliente. A Dona de casa de outrora hoje não tem
tempo de ir ao mercado pelo seu o horário curto que contrasta com o dia de trabalho
longo. A grandeza da dimensão chegou e veio acompanhada com novas designações
linguísticas, mais modernas e mais pomposas passando os mercados a ser
designados de híper, super e minimercados com horários mais apelativos e versáteis,
que se adaptam à realidade da nova clientela.
As frutas e legumes assentes numa produção agrícola tradicional e saudável, eram
vendidos no mercado no meio de gritos e de palmas, de eco e de gentes, isto perdeuse! Deu lugar a uma corrida de carrinhos de plástico com rodas, empurrados
silenciosamente pelos modernos clientes que os enchem, alegremente, com produtos
frescos, produzidos na “horta fábrica” e vendidos dentro de uma lata de conservas.
Não nos apercebemos, mas a nova era dos híper veio mascarada, escondendo uma
economia gananciosa e desmesurada que oferece “qualidade de vida” em forma de
embalagens, latas e garrafas.
Mariana Marques Henriques
27
O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Esta nova realidade é pujante e vence os negócios tradicionais. Os que ainda resistem
parecem ter os dias contados, mas com resiliência e esperança vão aguardando a
chegada do turista, que continua a alimentar e valorizar o gosto pela tradição.
Pelo conhecimento adquirido ao longo desta pesquisa, entre conversas e risos,
recordações e projetos futuros. Numa atitude consciente e sincera vou partilhar que a
cada momento que passa, as gentes de hoje alimentam o desejo de reviver a tradição,
os rostos, os cheiros, os sabores, os sons, os ecos... reviver o mercado.
À primeira vista parece que o mercado morreu e se perdeu na memória das gentes.
Não obstante, esta morte é apenas uma “passagem”, pois, a arquitetura nos espaços
de mercado, durante os últimos anos, tem vindo a reinventar-se, os conceitos e
pressupostos que associávamos à ideia de mercado, de praça, caíram por terra.
Geram-se novas ideias e novas filosofias que aportam um novo dinamismo e se
consubstanciam em novos conceitos.
Na segunda década do século XXI, um pouco por toda a Europa, assistimos ao
nascimento de um novo tipo de mercado, que se reabilitou, que se reconstruiu, em
suma, um mercado que renasceu. Surge a era dos mercados “time out”; dos mercados
de “cañas” e tapas, é o momento dos mercados cheios de turistas, pejados de
“engravatados” e “miss’s” que param após um dia de trabalho para relaxar, tomar algo,
antes de voltar para casa. A nova vida dos mercados é o mote para o convívio, para
uma requalificação do espaço público e para voltar a dar sentido a este mesmo
espaço onde antigamente se faziam trocas de bens-de-consumo e hoje se fazem
trocas de culturas e puros momentos de lazer.
Esta dissertação sobre a requalificação dos mercados e por consequência do espaço
público tem como propósito demonstrar a importância que este novo conceito de
mercado tem vindo a ganhar ao longo do século XXI nas cidades. A forma como hoje
se encara o mercado e como este se tornou num dinamizador de espaço-público,
permitindo uma ligação entre o passado e o presente na vida que um edifício teve,
algures “lá atrás” e que, hoje pela mão dos arquitectos se recupera, se transforma e se
torna num ponto de interesse para a cidade, percorrendo transversalmente os níveis
social, político e económico.
Em suma, a arquitetura hoje mais do que nunca, procura novos meios de não só
construir o novo, mas também de reconstruir e recuperar o passado devolvendo aos
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
mercados carisma e potencial, tornando-os atrativos e dinamizadores do espaço
público.
1.1 MOTIVAÇÕES ASSOCIADAS À ESCOLHA DO TEMA.
Este tema foi escolhido no inicio de Abril de 2015. Quando fui com uns amigos da
faculdade até ao mercado de San Miguel em Madrid. Sabia que o mercado havia
sofrido uma reabilitação em 2009 e que agora era um mercado com um novo tipo de
conceito. Um mercado de “tapas y cañas”. Quando o conheci percebi de imediato o
que era este novo conceito. Inserido numa estrutura de ferro, como o Covent Garden
em Londres, era um mercado transformado, que reservava um pouco do tradicional
mas que contemplava uma série de novas lojas e espaços gourmet onde a maioria
das pessoas se deliciavam com tapas, cañas e gin, mas acima de tudo conviviam e
disfrutavam de verdadeiros momentos de lazer.
Regressada a Portugal tomei conhecimento de que havia um novo mercado no Cais
do Sodré, que tal como o mercado de campo de Ourique, seguia o modelo do
Mercado de San Miguel.
No início do mesmo mês de Junho visitei Mercado da Ribeira. Conhecia o espaço que
anteriormente aí existia, um edifício aparentemente fechado que sabia ter sido um
antigo mercado.
Agora, após meses de funcionamento, notei a dinâmica que o mesmo havia trazido
para aquele espaço, desde o jardim a toda a restante envolvente. Havia uma nova
essência. Turistas e mais turistas foi o que inicialmente vi no mercado. Uns deliciados
com os sabores da cozinha portuguesa, outros nas “tapas portuguesas”, havia aqueles
que estavam simplesmente a beber um Gin ou a comprar os “souvenirs”. Circulavam
também os curiosos que se passeavam de câmara na mão fotografando maravilhados
a exuberância do espaço. As mesas repletas de gente davam vida ao mercado que
renasce como uma fénix das cinzas.
Alguns dias após a visita na plataforma P3, do Jornal Público, mais precisamente na
edição de 18/06 do corrente ano era publicada a noticia: “Estudantes de arquitectura
querem dinamizar mercados municipais de Lisboa”. Foi nesse momento que decidi
convictamente avançar com a dissertação sobre os mercados reabilitados do século
XXI como dinamizadores do espaço público.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
A noticia:
Estudantes de arquitectura querem dinamizar mercados municipais de Lisboa.
Projecto de alunos de mestrado de arquitectura do ISCTE-IUL reúne propostas de
intervenção para os mercados de Arroios, de Campo de Ourique, da Ribeira e 31 de
Janeiro
Um espaço multicultural para concertos, uma cobertura ajardinada com esplanadas ou
a organização de feiras temáticas que promovam os produtos regionais são algumas
das propostas de estudantes de arquitectura para dinamizar os mercados municipais
de Lisboa.
O projecto M&M's Lx — Mercados Municipais de Lisboa, desenvolvido por alunos em
mestrado de arquitectura do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa
(ISCTE), do Instituto Universitário de Lisboa (IUL), reúne propostas de intervenção para
os mercados de Arroios, de Campo de Ourique, da Ribeira e 31 de Janeiro.
Na apresentação do projecto, que decorreu quarta-feira no Centro de Informação
Urbana de Lisboa, a professora responsável do ISCTE-IUL, Paula André, explicou que
a ideia surgiu de "um despacho da Câmara de Lisboa que pretendia chamar à atenção
para a salvaguarda dos mercados municipais, que estavam em risco".
"Hoje, a cidade não usa o mercado da mesma forma como quando foram criados. É
preciso pensar num novo uso, numa refuncionalização", disse à agência Lusa Paula
André. Segundo a docente, que lecciona a unidade curricular de "Lisboa: rupturas e
continuidades", os estudantes foram desafiados a investigar a história de cada
mercado e a apresentar propostas de intervenção nos espaços, mantendo a zona de
venda ao público e juntando uma nova função ao edifício ou à área envolvente.
Degradação e falta de dinamismo.
No Mercado de Arroios, inaugurado em 1942, os problemas identificados foram "o
estado de degradação e as bancadas vazias", reflexo de haver cada vez menos
comerciantes, devido à perda de clientes, disse Rita Cosme, uma das estudantes de
arquitectura. Os alunos propõem a criação de uma cobertura com espaços verdes e um
espaço multicultural na cave do Mercado de Arroios, continuando o piso térreo com
bancadas para venda ao público.
Inaugurado em 1934 e com uma reabilitação em 2013, o Mercado de Campo de
Ourique precisa de "organizar o funcionamento e a ocupação do espaço, facilitando a
circulação das pessoas", disse o aluno João Borges. Entre 2012 e 2014, parte do
Mercado da Ribeira, inaugurado em 1882, foi convertida em espaços de restauração e
entregue a sua concessão à empresa “TimeOut”, porém existem "problemas a nível do
estacionamento e de organização do mercado", explicou o estudante Luís Ferreira.
A proposta "o Mercado sai à rua" pretende dinamizar o espaço exterior do Mercado da
Ribeira, na Praça Dom Luís I, através da implantação de quiosques onde decorrerão
feiras temáticas que divulguem e promovam a venda de produtos regionais, criando
relações mais próximas entre vendedores e clientes, aumentando o fluxo de turismo e
as receitas de vendas. "O pouco uso e a pouca dinâmica no interior" do Mercado 31 de
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Janeiro, inaugurado em 1996, na freguesia de Arroios, foram os principais problemas
apontados pela estudante de arquitectura Bárbara Constantino, que sugere a criação
de uma zona com restaurantes, cafés e esplanadas com áreas ajardinadas no segundo
piso, que actualmente não está a ser utilizado.
Para a docente Paula André, "a gestão municipal deveria, eventualmente, associar-se
mais ao ensino académico, quer da arquitectura, quer do urbanismo", porque apesar
de tratarem apenas de propostas de estudantes, "mostram também que muitas vezes
há possibilidade, há alternativas, há soluções para aquilo que se pode pensar que é um
espaço que já não tem utilidade". O Mercado de Alcântara, o Mercado de Belém, o
Mercado de São Bento e o Mercado da Praça da Figueira são alguns dos
equipamentos que não resistiram ao surgimento das grandes superfícies em Lisboa,
referiu a professora do ISCTE-IUL. (Lusa, 2015)
1.2 ENQUADRAMENTO GERAL
O mercado enquanto espaço público integrante de uma cidade está intimamente
vinculado ao urbanismo. Assim, torna-se imperativo conhecer a História que começa à
milhares de anos atrás, desde as pinturas em cavernas às civilizações na
Mesopotâmia, passando pela antiguidade clássica e chegando até hoje.
O caso de estudo que será abordado ao longo desta dissertação, centra-se no
território Nacional, que em pleno século XXI vive uma conjuntura de crise política,
económica e de valores que se refere na arquitetura e implica a construção de um
novo paradigma. Todavia, continuam a existir casos de sucesso. Casos onde a
arquitetura se torna um motor de desenvolvimento, um dinamizador de espaço público,
reafirmando o seu valor perante a cidade.
Um exemplo de sucesso é esta nova perspetiva de aproveitamento dos mercados, que
me motivou a escrever e opinar sobre este conceito, esta ideia dos mercados
“TimeOut”. Uma nova perspetiva de intervenção nos equipamentos que constituem
espaço público, nomeadamente os mercados.
Os mercados na sua organização tradicional perderam o seu “lugar” numa sociedade
de massas. (a ideia de mercado de bairro já não existe, “foi roubada” pela economia
dos super, híper e minimercados que detêm o monopólio dos bens de consumo das
famílias).
Deste modo, o espaço permanece de portas fechadas mas o edifício continua a existir.
Um edifício com um passado, sem presente, sem quaisquer perspetivas de futuro,
mas ainda assim, vivo.
Mariana Marques Henriques
31
O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Recentemente a Universidade Politécnica de Madrid, promoveu uma conferência dada
pelo arquiteto, Pepe Illinás, onde este falava da identidade de um projeto na
arquitetura, ao longo do tempo, mais concretamente o pavilhão de Barcelona de Mies
dizendo: “Fazes uma obra; um arquiteto faz um edifício e depois retira-se, nesse
momento o edifício começa a existir, começa a ser história, a ser usado. Antes disso, o
edifício não existe. No momento em que este é entregue o relógio começa com o seu
tic-tac tic-tac, percorrendo o caminho do tempo.
É como um fetiche cultural, não existe tempo antes do edifício começar a ser usado. O
pavilhão do Mies está no limbo, congelado no tempo.
Com o passar do tempo todas as obras encontram o mesmo sitio, o mesmo momento.
O tempo atua, e leva-as para esse limbo temporal. (São obras vinculadas ao tempo,
nascem mas não morrem, ficam no tempo, paradas e congeladas. O tempo como
qualidade, como promessa.)
Transpondo as palavras do arquiteto sobre o “limbo temporal” para o caso dos
mercados que se encontram abandonados, fechados e caminhando para o
esquecimento, podemos ver que também os mercados são “obras vinculadas ao
tempo, nascem mas não morrem, ficam no tempo, paradas e congeladas”. Então
podemos colocar a questão sobre “o tempo como qualidade, como promessa” e no
modo como manejar o tempo, recuperar o edifício, preservando a sua história
guardada ao longo da sua existência, mas atribuindo-lhe uma nova identidade, uma
nova funcionalidade.
Assim, a ideia de reabilitar o espaço do mercado afim de lhe conferir um novo uso,
impõe-se pelo conceito que envolve e pela capacidade que tem de conseguir
transformar a sua organização, de mercado, com uma determinada malha, num
espaço de lazer. (Em suma, a confirmação da hipótese de que os mercados
funcionam como dinamizadores e regeneradores do espaço público e da cidade).
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
1.3 OBJETIVOS
Esta dissertação tem como objetivo provar que a nova perspetiva de apropriação dos
mercados do século XXI, com recurso à reabilitação, é um modo de dinamizar e
revitalizar o espaço público da cidade.
Iniciamos esta dissertação com uma introdução relativa ao progresso dos mercados,
começando pela existência do homem e pela consequente necessidade de troca de
bens até aos mercados do presente.
Num segundo momento pretende-se examinar a dinâmica de alguns dos mercados
portugueses que surgiram no final do século XIX e durante o século XX,
correspondendo ao movimento moderno e ao modo como o Estado Novo, o ICAT, a
ODAM e a escola de Belas Artes no Porto influenciaram este movimento.
Após uma breve reflexão, no capítulo 4º será feita referência aos casos selecionados
como modelos que cumprem os princípios de reabilitação e revitalização do espaço e
por conseguinte, do espaço público como mobilizador da dinâmica da cidade. São
casos de sucesso que se espalham um pouco por todo o mundo, respondem perante
diferentes cidades, culturas, gentes, espaços, arquitetos mas todos estes modelos de
mercado têm um objetivo comum dinamizar uma cidade através da inserção de um
equipamento público. Estes 3 casos de referência: Mercado do Carandá (cuja a
reabilitação é analisada em entrevista pelo colaborador do atelier Souro Moura
Arquitectos, o Arq. Luís Peixoto)1, Mercado de Santa Caterina e Mercado Barceló
formulam a hipótese que sustenta a dissertação, são a corroboração dos casos de
sucesso que temos vindo a assistir em Portugal nos últimos 5 anos.
Será com base nos casos de referência que passarei para o 5º e último capítulo onde
abordo, interpreto e justifico os três casos de estudo: Mercado de Campo de Ourique,
Mercado da Ribeira e o Mercado Municipal de Abrantes.
No caso do Mercado Municipal de Abrantes o mercado per-si não é uma reabilitação
mas sim uma construção de um novo espaço, que inicialmente terá a função de
mercado e que prima pela sua multifuncionalidade. Neste sentido o mercado em si não
foi objeto de uma reabilitação, apenas foi utilizado como veículo condutor da
1
Apêndice A
Mariana Marques Henriques
33
O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
reabilitação da zona envolvente, promovendo um maior dinamismo do centro histórico
de Abrantes.
Tanto a reabilitação do Mercado da Ribeira2 como a do Mercado Municipal de
Abrantes3 são fundamentadas com entrevistas feitas ao arquitetos responsáveis por
cada um dos projetos. Arq. Francisco Aires Mateus do atelier Aires Mateus e o Arq.
José Mateus do atelier ARX Portugal Arquitectos respetivamente. A abordagem ao
mercado de Abrantes conta ainda com um texto da Arqª Sara Morgado da Câmara
Municipal de Abrantes4, onde através de pensamentos conta o processo evolutivo das
antigas oficinas da ferroviária do Tejo até ao novo Mercado Municipal.
A meta é alcançar, é provar que existe, uma correlação positiva e dinamizadora entre
o mercado e o espaço público. Este é o desafio para o século XXI onde o objetivo já
não se foca na construção do novo mas sim na reabilitação do antigo. Todavia, não
são desprezíveis os caos excepcionais, como o do mercado de Abrantes que senda
uma nova construção dá corpo a um princípio de dinamização e renovação (trata-se
pois de um reforço da hipótese colocada, mesmo construindo de raiz, o mercado
cumpre a sua função dinamizadora e agrega sinergias que despoletam uma nova
energia promotora do centro da cidade).
2
Apêndice B
Apêndice C
4 Apêndice D
3
Mariana Marques Henriques
34
O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
2 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA – ORIGEM E EVOLUÇÃO DO MERCADO
NA CIDADE
Nas palavras de Goitia:
O estudo da cidade é um tema tão sugestivo como amplo e difuso; a sua abordagem
por um só homem é impossível se tivermos em conta a massa de conhecimentos que
ele teria de acumular. Pode estudar-se uma cidade sobre um número infinito de
ângulos. O da história: «a história universal é a história de cidades», disse Spengler; o
da geografia: «a natureza prepara o local e o homem organiza-o de maneira a
satisfazer as suas necessidades e desejos», afirma Vidal de la Blanche; o da
economia: «em nenhuma civilização a vida das cidades se desenvolveu
independentemente do comércio e da industria» (Pirenne); o da política: a cidade,
segundo Aristóteles, é um certo número de cidadãos; o da sociologia: «a cidade é a
forma e o símbolo de uma relação social integrada» (Mumford); o da arte e
arquitectura: «a grandeza da arquitectura está ligada à da cidade, e a solidez das
instituições costuma avaliar-se pela dos muros que as protegem» (Alberti).” … E não
são estas as únicas perspectivas possíveis, porque a cidade, a mais compreensível
das obras do homem, como disse Walt Whitman, engloba tudo, e nada do que se
refere ao homem lhe é estranho. Não devemos esquecer que a própria vida se alberga
no seu seio, até ao ponto de nos confundir e nos fazer crer que são as cidades que
vivem e respiram. (Chueca Goitia, 2014, p. 9)
Ilustração 1 – As primeiras ideias de troca de bens e produtos, Balage Balogh. (Biblical Archaeology Society, 2015).
Por conseguinte a cidade é, assim, o palco onde se mesclam os diversos universos de
estudo. Desde a política à economia, passando pela história, chegando à sociologia.
Mariana Marques Henriques
35
O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Todos se relacionam de maneira direta ou indireta e todos são indispensáveis para o
estudo da cidade enquanto entidade.
Deste modo, para entender o funcionamento do mercado é premente compreender, a
cidade, na sua génese e na evolução ao longo da História, no modo como se efetivou
uma simbiose inabalável geradora de desenvolvimento.
O Mercado que foi conhecido como: Fórum, Ágora, Stou, Loggia, constitui-se como um
elemento materializado da cidade, justificando-se a necessidade de entender a cidade
como um todo, ao mesmo tempo que destacarmos a posição que o mercado ocupa:
quais as suas funções, a sua estrutura, morfologia e até o modo como o homem
desfrutava desse espaço.
Parte-se do todo para depois entender uma parte desse todo, o mercado, com o
objetivo de compreender as relações que se estabelecem entre o espaço
materializado e a cidade organismo.
2.1 DA ARTE PRIMITIVA À MESOPOTÂMIA.
““A arte começa no momento em que o homem cria, não como uma intenção utilitária
como fazem os animais, mas sim para representar ou expressar”” (René Huyghe apud
Navarro, 2006, p. 40).
Ilustração 2 - Paleolítico Superior, Stephen Alvarez, 2015. (National Geographic, 2015).
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
De acordo com J.J.A. Arruda a evolução do homem pode ser organizada em 3
grandes fases: a Pré-história (dividindo-se esta em dois períodos: o Paleolítico Inferior
de 500000 – 30000 a.C e o Paleolítico Superior de 30000 – 18000 a.C; a segunda fase
marcada pelo Período Neolítico 18000 – 5000 a.C, culminando na Idade dos Metais de
5000 – 4000 a.C Não obstante, é importante recordar a transição da Pré-História para
a História que ocorre com a invenção da escrita, por volta de 4000 a.C.
É durante o Paleolítico Inferior, também conhecido como “Idade da Pedra” que se
deram as primeiras manifestações artísticas, sempre relacionadas com o tema da
caça. Pinturas rupestres de animais e do homem ainda figuram nas paredes das
grutas.
Estas são algumas das pinturas encontradas em locais como: Espanha, o sul de
França e o sul de Itália. Possivelmente as pinturas mais antigas do mundo encontra-se
no Norte de Espanha, na comunidade de Cantábria a Caverna de El Castillo,
estimando-se que têm mais de 40800 anos.
““this is currently Europe's oldest dated art by at least 4,000 years”, said the study’s
lead author Alistair Pike, an archaeologist at the University of Bristol in the U.K.” (Than,
2012). Outro exemplo são as pinturas que podemos ver nas grutas de Sulawesi na
Indonésia “"human artistic activity, such as cave painting and other forms of image
making, including figurative art, around 40,000 years ago," said study leader Maxime
Aubert”. (apud Gannon, 2014)
Ilustração 3 – "This is the oldest hand stencil in
the world," Aubert, Pedro Saura. (Than, 2012).
Ilustração 4 - "This is the oldest hand stencil in the world," Aubert, Kinez Riza.
(Bryner, 2014)
Estas manifestações rupestres são um marco na era do Homem nómada. Um Homem
coletor que não vive num local mais do que o tempo necessário para efetuar as
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
colheitas silvestres. Assim, os povos nómadas viviam em constante movimento na
busca de água e alimento, da pesca e caça. Quando estes elementos começavam a
escassear moviam-se novamente para um outro local, repetindo este ciclo
consecutivamente. Todavia, uma das maiores conquistas deste período paleolítico é a
descoberta do fogo.
Mas será no Paleolítico Superior, perante a diminuição dos bens de subsistência que o
homem se vê obrigado a caçar animais de maior porte e a desenvolver armas de
arremesso bem como armadilhas para capturar esses animais como são disso
exemplo os mamutes. Os povos nómadas passaram a povos sedentários. Isto é, estes
povos deixam de se mover de local para local e passam a viver num local
geograficamente favorável.
Mas será durante o Neolítico que o homem abandona o estágio das colheitas
silvestres, e inicia-se assim um período marcado pelo cultivo da terra, pelo
aparecimento da agricultura, pela manutenção de pequenas manadas. Na agricultura,
surgem instrumentos como a pedra polida, a enxada, entre outros, por eles
manufaturados.
Surge o conceito de civilização, a construção começa a ser executada com recurso à
pedra, criam-se centros de comércio e defesa. Deste modo, as primeiras vilas
aparecem, sempre perto de locais de fácil acesso à água, como rios ou lagos, sendo
esta o principal meio de subsistência. O mercado é então apenas uma palavra que
simboliza uma prática comum necessária. Não existe um local físico de mercado. Este
é apenas visto como um ato que visa a sobrevivência do Homem, que troca alimentos,
animais e matérias conforme a sua necessidade.
Todavia é importante referir que:
no fim do Paleolítico Superior existiu uma fase de transição para o período Neolítico,
chamada Mesolítico. Nesse período aumentou a precisão dos trabalhos em osso,
preparando a verdadeira revolução que ocorreria na época neolítica. (ARRUDA 1993).
(Kenya Abiko, Plácido de Almeida e Ferreira Barreiros, 1995, p. 4).
Esta passagem é um momento marcante na história, uma evolução a nível social e
económico do Homem que de acordo com MCEDEDY é “comparável, em importância,
às revoluções industrial e científica dos séculos XIX e XX. O contraste entre um
acampamento mesolítico e uma aldeia de camponeses do Neolítico é tão frisante que
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
justifica perfeitamente o termo revolução neolítica.” (Peter McEvedy apud Kenya
Abiko, Plácido de Almeida e Ferreira Barreiros, 1995, p. 4).
É entre os rios Nilo, Tigre, Eufrantes e Indo, que surgem os primeiros grandes
impérios. Nomeadamente uma região a que os gregos chamaram Mesopotâmia. Uma
zona constituída por várias cidades estado onde a sua principal característica eram as
grandes fortificações.
Era uma região fértil, abundantemente regada pelos rios no Sul, sendo fácil para os
povos nómadas aí encontrarem as condições por eles entendidas como necessárias
para o desenvolvimento assente numa perspetiva sedentária.
Com a evolução da aldeia as atividades agrícolas e pecuárias passam a ser
incomportáveis num mesmo espaço. É necessária uma separação entre agricultura e
o pastoreio. Dá-se o advento de uma divisão social onde passa a existir a profissão do
agricultor e do pastor. Uma vez que o pastor necessita dos produtos do agricultor e o
inverso também se verifica, começa a existir a necessidade de troca de bens.
Ilustração 5 – “Process is our most important product”. (Charles, 2014).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 6 – “Plan and restored drawing of the Agora at the height of its development in ca. A.D.150”, (American School of Classical
Studies, 2015).
Ilustração 7 – O mercado da Ágora, Jan van der Crabben, 2013. (Ancient History Encyclopedia,2015).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Começa a configurar-se o conceito de mercado que na Mesopotâmia. Todavia, estas
trocas ainda não se podem considerar, no sentido lato da expressão “um mercado”,
uma vez que carecem de uma estrutura económica, que não possuem um sistema
monetário estruturado.
Contudo, e embora não existisse uma economia baseada num conceito mais apurado
de mercado, o comércio, era uma das principais atividades praticadas na
Mesopotâmia.
Deste modo o comercio de produtos depressa começou a alastrar-se. As trocas entre
produtores começaram então a ser feitas não só entre os locais mas entre produtores
de aldeias longínquas. Através da ajuda das caravanas, os comerciantes nómadas
percorriam extensas áreas para trocar as suas mercadorias e adquirir outras que não
existiam na Mesopotâmia.
Com o continuo aumento populacional, a evolução e estruturação da economia, as
novas ordens sociais aliadas a um novo estilo de vida contribuem para a gradual
transformação da aldeia em cidade.
No livro de Goitia, Breve história do urbanismo, podemos ler um excerto do livro de
Oswald Spengler, A decadência do Ocidente, onde entre outros temas existe uma
abordagem à alma de uma cidade:
o que distingue a cidade da aldeia não é a extensão, nem o tamanho, mas a presença
de uma alma da cidade. O verdadeiro milagre é quando nasce a alma de uma cidade.
Subitamente, sobre a espiritualidade geral da cultura, destaca-se a alma da cidade
como uma alma colectiva de nova espécie cujos fundamentos últimos permanecerão
para nós envoltos em eterno mistério. E, uma vez desperta, forma-se um corpo
invisível. A coleção de casas aldeã, cada uma com a sua própria história, converte-se
num todo conjugado. E este conjunto vive, respira, cresce, adquire um rosto peculiar,
uma forma e uma história internas. A partir deste momento, além da casa particular, do
templo, da catedral e do palácio, a imagem urbana na sua unidade constitui o objecto
de um idioma de formas e de uma história estilística que acompanha no seu curso todo
o ciclo vital de uma cultura. (Chueca Goitia, 2014, p. 17)
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
2.1 ÁGORA – GRÉCIA CLÁSSICA
Nos poemas de Homero, a palavra aparece referindo um lugar de encontros cívicos.
Dela derivam dois sentidos: o de comprar e o de conversar/discursar. Inicialmente a
Ágora surge como um espaço plano e aberto com funções comerciais e de encontro
público, evoluindo aos poucos para áreas de espaço fechado por edifícios, mantendose, todavia, numa forma irregular dominada por condicionantes geográficas até ao
século V a.C, altura em que passa a obedecer a uma certa lógica no seu desenho,
adotando a forma retangular, como decorrência do próprio traçado viário das cidades.
(Alexandre Portugal, 2014, p. 9)
A Ágora é o culminar de uma evolução gradual dos mercados que se formavam como
parte integrante da Acrópole5. Inicialmente com bancas ao ar livre o comércio
depressa evolui passando a ser executado em locais próprios para o efeito, as Ágoras.
Se a arqueologia clássica pode ser definida como o estudo da História e da cultura
antigas através de vestígios materiais, então a descoberta da Ágora de uma grega
deveria ser um dos objetos principais do escavador, pois assim aprenderá muito sobre
história, instituições sociais, comércio, arte, tecnologia e cultos de um local. (M. Camp,
1986, p. 14)
A Civilização Grega é, assim, tida como a primeira Antiguidade clássica e como aquela
que tem expressão na Europa.
Classical Athens saw the rise of an achievement unparalleled in history. Perikles,
Aeschylus, Sophokles, Plato, Demosthenes, Thucydides, and Praxiteles represent just
a few of the statesmen and playwrights, historians and artists, philosophers and orators
who flourished here during the 5th and 4th centuries b.c., when Athens was the
foremost city-state in Greece. [...] Even when her power waned, Athens remained the
cultural and educational center of the Mediterranean until the 6th century a.C.
Throughout antiquity Athens was adorned with great public buildings, financed first by
its citizens, and later with gifts from Hellenistic kings and Roman emperors. Nowhere is
the history of Athens so richly illustrated as in the Agora, the marketplace that was the
focal point of public life.
A large open square, surrounded on all four sides by buildings, the Agora was in all
respects the center of town [...] The use of the area as a marketplace is indicated by the
numerous shops where potters, cobblers, bronzeworkers, and sculptors made and sold
their wares. (M. Camp, 1986, p. 4)
Deste modo, a Ágora é vista como o espaço público mais valorizado em toda a cidade
Grega. Entendida como uma “praça” pública, permanentemente fixa, um ponto de
reunião do povo. De acordo com Caldeira (2007) era um local amplo e privilegiado,
onde os cidadãos se reuniam para discutir a vida e a política, local de assembleias,
5
Acrópole: é a parte mais alta da polis, onde eram construídos os templos.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
festivais, eleições, competições atléticas, desfiles. Delimitado, normalmente, por
colunas e estátuas. Rodeada pelos edifícios públicos, em pouco tempo, a Ágora
tornou-se o centro da Pólis6.
De origem grega, a palavra Ágora deriva do verbo agorien, que no século VIII a.C
significava discutir, deliberar, tomar decisões. Este era o nome dado às praças
públicas, na Grécia Antiga, onde os cidadãos se reuniam para, além de outras coisas,
com o intuito de discutir assuntos relacionados com a Pólis. Era, pois, um espaço
público de debates e representava, acima de tudo, a democracia como regime político.
Cada cidadão tinha o direito à participação direta na vida política, conferindo-lhes
assim o poder de decisão.
Com o passar dos séculos o sentido da palavra agorien foi mudando e, já no século IV
a.C, significava comprar. Assim, a Ágora passou a ter um significado de praça pública
e local de comércio.
Ainda relativamente ao espaço da Ágora, Goitia menciona que:
Com o desenvolvimento da democracia nas cidades-estado da Grécia, aparecem aí
novos elementos urbanísticos que denunciam uma participação muito maior do povo
nos assuntos da comunidade. Além dos templos (...) surgem na cidade vários edifícios
dedicados ao bem público e ao desenvolvimento da democracia. Estes edifícios
estavam geralmente situados à volta da Ágora ou praça pública, na qual, em principio
se encontrava o mercado, e que passou logo a constituir o verdadeiro centro político da
cidade. (Chueca Goitia, 2014, p. 47)
É também na Grécia que se irá desenvolver a primeira teoria racional da cidade;
“como organização ideal que resolveria as deficiências da cidade natural ou histórica
que se tinha criado através dos anos.” (Chueca Goitia, 2014, p. 48).
Tarefa levada a cabo por Hipódamo, arquiteto grego e urbanista, natural de Mileto,
“que podemos considerar como o primeiro urbanista com critério científico rigoroso
que o mundo conheceu. Aristóteles atribui-lhe o mérito de nos ter deixado a teoria e de
ter posto em prática a doutrina de uma organização lógica da cidade.” (Chueca Goitia,
2014, p. 48) com a criação da cidade em quadrícula com ruas retas que se cruzam a
90º.
6
Conhecida também como cidade-estado. A Pólis, na Grécia Antiga, era um pequeno território localizado
geograficamente no ponto mais alto da região, e cujas características eram equivalentes a uma cidade. O
seu aparecimento foi um dos mais importantes aspectos, no desenvolvimento da civilização grega.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Hipódamo poderá não ter inventado a quadrícula, todavia o modo como a combinou
com a teoria social de urbanismo conferiu-lhe essa visão sem ímpar.
Como exemplo temos o caso de Mileto:
o traçado ortogonal adapta-se bem ao contorno sinuoso do promontório que avança
pelo mar dentro, local onde se implantou a cidade, que consta de duas partes: uma, de
quadrícula menor, na parte mais estreita, e outra maior na base da península. No meio,
como que a reuni-las, está a Ágora, ou conjunto de edifícios representativos e o grande
espaço do famoso mercado. É uma composição arquitectónica muito inteligente e
contrastada, na qual as praças estão ligadas com uma lógica subtil, rompendo a
monotonia da quadrícula. (Chueca Goitia, 2014, p. 49)
Ilustração 8 – Planta de Mileto, Antonio Giuliano, 1996. (2015).
A cidade ideal, segundo Hipódamo, deveria ter 10.000 habitantes, divididos em três
classes: artesãos, agricultores e soldados. Relativamente ao espaço urbano, este
também deveria dividir-se em três conjuntos: a área sagrada, a pública e a privada.
Assim, a cidade apresenta uma planta regular, de malha ortogonal, onde os
quarteirões medem cerca de 30x52 metros apresentando a “planta hipodâmica”. Já
não era suficiente projetar o edifício como um elemento único mas sim incorpora-lo no
conjunto, na malha, procurando perspetivas e adoptando conceitos como a praça e o
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
espaço público. Todos os edifícios públicos ou religiosos têm um lugar nessa malha
que é pensada e estudada de forma a favorecer o espaço público. É por via da malha
que surgem os chamados blocos habitacionais (insulæ).
Hipódamo trabalhou também no planeamento de cidades como: Pireu (450 a.C) e
Locres (443 a.C). O seu sistema foi utilizado por Alexandre, o Grande, na construção
de Alexandria.
É durante o século II a.C que a Ágora sofre uma evolução passando a ser construída
em forma de U ladeada por colunatas que albergavam as Stoas (lojas).
Existe uma maior permeabilidade do espaço público que deixa de ser fechado e
confinado a um retângulo rodeado por edifícios com uma topografia desfavorável, o
que torna o plano desordenado e sem qualquer tipo de malha orientadora do espaço
público e privado. A malha orientada por um plano axial tem o objetivo de dar uma
maior monumentalidade ao espaço público e por conseguinte à Ágora. Um pouco por
toda a Grécia e ocorrendo em diferentes alturas, a Ágora entra em declínio. Durante
os séculos III e II a.C assiste-se, de acordo com Aristóteles, a uma divisão da Ágora
em dois espaços:
a Ágora pura da Ágora utilitária, exclusivamente ligada a funções de abastecimento
alimentar e comercial. (...) exemplos ilustram os propósitos do filósofo, verifica-se nos
fora a tendência a expulsar as lojas, as tabernae7, para a extremidade do fórum político
e situá-las no macellum8, mercado especializado sob forma de edifico fechado e
independente. (Portugal, 2014, p. 31)
Todas estas modificações urbanísticas deram lugar a um espaço mais aberto, um
espaço de descompressão. Surgem os primeiros núcleos urbanos, onde os diferentes
equipamentos eram adaptados às diferentes funções.
Assim, geram se espaços qualificados. Que veem criar uma maior coerência de
espaços. Estes princípios arquitetónicos e urbanísticos, prolongam-se até ao fim da
antiguidade.
7
Os Tabernae eram estabelecimentos comerciais das casas romanas que se abriam para a rua,
geralmente, sem acesso à casa principal. Poderiam ter um ou dois andares, onde o andar superior era
usado como um armazém dos produtos da taberna. Os seus usos mais comuns eram: padaria, com
forno, lavandaria ( fullonica ), sitio de venda de bebidas e refeições quentes ( thermopolium ), calçado ou
até para a fabricação de peças de vestuário .
8 (em latim: Macellum; em italiano: Macello) foi, na Roma Antiga, o nome dado a um mercado de
provisões frequentado por cozinheiros, pescadores, açougueiros, confeiteiros e homens de ocupação
similar. Mais tarde os macellum dariam origem aos matadouros.
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2.2 FÓRUM - ROMA CLÁSSICA
Ainda durante a antiguidade Clássica surgiu outro tipo de Praça – o Fórum Romano.
Ilustração 9 - “Forum”, Max Barry, 2015. (Max Barry, 2015).
A cidade de Roma ao contrário de Atenas não era produto de uma tribo mas sim de
um conjunto de tribos estrangeiras, lideradas pelos Romanos. Inicialmente
fundamentado na platea9 grega, depressa o Fórum se desenvolveu abandonando o
“agregado de cidades gregas, italianas e províncias” (Chueca Goitia, 2014, p. 53) onde
cada uma representava uma antiga cidade-estado grega ou romana. Possuidoras de
um governo autónomo e uma vida política local, eram cidades independentes, de
acordo com Rostovtzeff.
O Império Romano do século II foi, assim, uma curiosa combinação de uma federação
de cidades autónomas com uma monarquia quase absoluta, que se sobrepunha àquela
federação, e com o monarca como magistrado da cidade soberana. (Rostovtzeff apud
Chueca Goitia, 2014, p. 53).
Tendo por base os princípios básicos do urbanismo grego, as cidades romanas
possuíam todos os “refinamentos técnicos: esgotos, aquedutos, água corrente,
balneários, pavimentos, serviços de incêndio, mercados, etc.” (Chueca Goitia, 2014, p.
53)
9
Nome dado à praça grega.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 10 – Mercado Romano, Carole Raddato, 2014. (Carole Raddato, 2015).
Com um traçado baseado nos princípios dos acampamentos militares; à malha urbana
faltava da beleza dos traçados Helénicos que eram substituídos por soluções simples
e claras, de uso pratico e organizado. Vitruvio no primeiro livro da sua decalogia
explica como se organiza o espaço público romano:
Distribuídas as vielas e dispostas as praças, há que proceder, de acordo com a
utilidade pública e o interesse comum, à escolha das áreas para os templos sagrados,
para o foro e restantes espaços comuns.
Se o recinto fortificado se encontrar junto ao mar, a zona onde se implantará o foro
deverá ser escolhida próximo do porto; mas, se estiver no meio das terras, deverá ser
implantado no meio do ópido10. (Vitrúvio, 2006, p. 53-54)
Inicialmente também era no Fórum que ocorriam as disputas atléticas. Todavia, o seu
uso como mercado, tornava este lugar sagrado, um local onde tinha de existir “a paz
de mercado”, tornando sagrada a própria área. (Mumford, 1998, p. 244)
O Fórum era o local onde acontecia “a vida” da cidade, semelhante ao que ocorria na
Ágora, mas com um maior número de atividades institucionais e comerciais.
Verificava-se, igualmente um contraste acentuado entre a densa malha urbana com o
seu espaço amplo, característico do Fórum, delimitado por edificações homogéneas e
10
Ópido (em latim: oppidum) termo latim para a principal povoação em qualquer área administrativa do
Império Romano.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
edifícios de carácter institucional, religioso e comercial, envolvidos por colunatas. Este
espaço era adornado por esculturas, colunas e arcos. Os edifícios eram desenhados
recorrendo aos princípios arquitetónicos e geométricos. Discordante com a tipologia da
Ágora onde não existia disciplina geométrica nem uma malha urbana que definisse os
edifícios, estes relacionavam-se visualmente.
Num aspeto mais técnico, e a respeito das proporções o mesmo Vitruvio afirma:
Os gregos dispõe os foros num quadrado com amplíssimos pórticos duplos e colunas
cerradas […] Todavia, nas cidades de Itália não se deve proceder desse modo, porque
nos foi deixado pelos nossos maiores o costume de apresentar jogos de gladiadores no
foro […] há toda uma conveniência em que as medidas sejam calculadas tendo em
conta a quantidade de habitantes, a fim de que o foro não pareça nem espaço pequeno
para as necessidades, nem largo em demasia pela falta de povo. A sua largura será
definida, de modo que tenha duas partes das três em que for dividido o comprimento.
(Vitrúvio, 2006, p. 176-177)
O Fórum apresenta-se como, um espaço pensado, onde tudo tem uma razão, uma
posição um lugar devido. Afigurar-se como um espaço artificial.
Podemos ainda afirmar que será com os Romanos e com a sua organização espacial
que surgiu a divisão entre espaço público e privado. Uma noção onde se estabelecia o
espaço que pertence ao individuo enquanto pessoa unitária e o espaço que pertence
ao conjunto dos indivíduos enquanto sociedade.
O Fórum Romano era um núcleo definido por vários fóruns, nomeadamente: o Fórum
Republicano, onde existia a função de venda. Em todos os locais com pórticos
existiam comerciantes que vendiam as suas mercadorias. Era um espaço-público de
multifuncionalidade. Por sua vez, o Fórum de César estava destinado à glorificação
do líder do estado romano, como um símbolo do seu poder político e religioso. No
Fórum de Augusto, um espaço fechado de 125m x 85 m.
O seu ponto culminante, ou seja o lado oeste albergava a estátua de Augusto, como o
novo símbolo do poder imperial. Por fim, o Fórum de Trajano, cronologicamente é o
último dos fóruns imperiais da Roma Antiga. Mandado construir pelo imperador
Trajano11, a Apolodoro de Damasco12. De planta retangular, 300m x 185m, é um dos
Marco Úlpio Nerva Trajano Foi imperador romano de 98 a 117 (18 de Setembro de 53 — 9 de Agosto
de 117).
12 Apolodoro de Damasco foi um dos maiores arquitetos do Império Romano (Damasco, 65 — Roma,
125).
11
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mais grandiosos Fóruns Imperiais, marcando acima de tudo a celebração da tomada
de Dácia e consequente conquista da paz.
Ilustração 11 – Planta dos vários Fóruns, Sarah Swisher, 2012. (Sarah Swisher, 2015).
Ilustração 12 - The Roman Empire, Henri Stierlin, 1996, p. 46.
Ilustração 13 - Interior do Fórum Trajano, Carlos Zeballos, 2011. (Carlos Zeballos, 2015).
O Mercado de Trajano: foi construído no Monte Quirinal, no século II a.C. O seu autor,
Apolodoro de Damasco, era um arquiteto que sempre seguiu Trajano.
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De acordo com Stierlin o mercado é um conjunto arquitetónico definido por 150 lojas:
oficinas, armazéns e tabernae. O piso inferior era dedicado ao grande espaço central,
conhecido como o salão, é usado possivelmente para concertos, discursos ou
educação. Os outros dois pisos eram usados como um conjunto de pequenas lojas, as
tabernae. A cobertura do telhado foi pensada com a finalidade de gerar um espaço
amplo, luminoso e protegido.
O restante espaço inferior estava adstrito ao comércio. Os vários espaços comunicam
entre si através de corredores e átrios centrais. Existe ainda uma relação entre pisos
estabelecida através de espaços com dupla altura. Por sua vez os 3 últimos pisos
eram zonas dedicadas à parte administrativa, à qual estava anexa um armazém.
É importante referir que ao longo dos séculos o Fórum Romano foi sofrendo
alterações; e já no século IV a.C o comércio e os jogos foram afastados do mesmo. Os
jogos e provas atléticas passaram a ser realizadas em locais próprios como é o caso
do coliseu e do circo. Por sua vez, o comércio foi levado para uma zona afastada do
centro da cidade devido a questões relacionadas com a higiene, o barulho e o cheiro
característico do mercado.
A decadência do império Romano iniciou-se por volta do século III d.C., um período
marcado pela crise económica, que foi agravada pelo fim das conquistas e pela
consequente quebra no número de escravos, o que por inerência conduziu a uma
queda na produção agrícola.
Por sua vez, estas quebras de produção fragilizam o exército que deixava as fronteiras
desprotegidas e à mercê dos povos bárbaros.
No inicio do século IV d.C., dá-se a divisão do Império Romano em dois: o Império
Romano do Ocidente, sendo Roma a capital e o Império Romano do Oriente (Império
Bizantino), sendo a capital em Constantinopla.
Um século mais tarde, por volta de 476 d.C., assistimos ao fim do império Romano do
Ocidente, após a invasão pelos povos bárbaros. Nomeadamente pelos povos árabes
que invadem as costas do Mediterrâneo.
Dava-se a transmissão da Antiguidade para uma nova época, a Idade Média.
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2.3 SOUK – MERCADO ISLÂMICO
É com a queda do Império Romano, que a unidade do mundo mediterrâneo é
interrompida em prol da expansão islâmica. Os seus limites estendem-se para o
Ocidente e para o Oriente, chegando à Índia.
Ilustração 14 – o antigo mercado Islâmico – Souk ou bazar, Edward Dodwell, 2013. (Ios minaret, 2013).
Durante o segundo quartel do século VII, Maomé, o «último» dos profetas, levantou um
movimento confessional nos desertos da Arábia com tal força expansiva que envolveu
no seu impulso todo o Oriente mediterrânico até à Índia, todo o Norte de África, Sicília e
Sardenha e quase toda a Península Ibérica. Mais de metade do Império Romano de
Justiniano caiu nas suas mãos. A extensão do Islão no seu conjunto e no período do
apogeu (séculos VIII, IX e X) superava, em virtude do seu enorme desenvolvimento
para oriente, o Império Romano nos dias do seu maior esplendor. (Chueca Goitia,
2014, p. 58).
A sua conquista e expansão é fomentada pelo crescente aumento populacional que
incentiva à procura de novas terras e a uma unificação do mundo Árabe, aliadas a
uma fácil adaptação e miscigenação com o povo dominado.
Não obstante, devemos ter em conta que a conquista muçulmana trouxe para a região
do mediterrâneo não só uma nova religião, como também novos produtos agrícolas e
novas técnicas de cultivo. Apoderando-se das cidades, o povo muçulmano
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transformava o modus operandi das mesmas, criando um novo conceito para o que
viria a ser a cidade muçulmana.
“Entre a cidade pública, a polis grega, a civitas romana e a cidade doméstica do
mundo germânico, temos outro tipo de cidade que não se pode confundir com os dois
primeiros: a cidade islâmica, a que chamaríamos privada.” (Chueca Goitia, 2014, p.
66). Assim, a cidade islâmica carece de um modelo de organização espacial, não
existindo qualquer relação com as cidades anteriormente existentes. É uma cidade
profundamente religiosa onde os elementos surgem conforme a necessidade,
adaptados a um estilo de vida privado e bastante religioso.
Com uma total ausência de malha urbana ou qualquer tipo de ordem espacial, a
cidade islâmica vive “sem ruas”. Este conceito, de rua, não se aplica a este tipo de
cidade. Por sua vez, o que existe é sim um conjunto de vias privadas cuja função
reside na distribuição dos seus habitantes pelas casas.
Ilustração 15 – A cidade de Gardaia na Argélia, Benevolo, 1993, p. 230.
Ao invés do que acontece nas cidades gregas ou romanas, a cidade islâmica constróise de dentro para fora. As casas são blocos mais ou menos regulares que vivem para
o pátio central e, é nele que reside a fachada, para ser adorada pelo seu dono. Tal
ação é vista como um sinal de respeito para com aqueles que não têm as mesmas
possibilidades económicas.
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Não existe uma ostentação de riqueza, nem monumentos de adoração, marcos ou
estátuas. O espaço público desaparece: foros, estádios, teatros, anfiteatros, basílicas
e ginásios deixam de fazer parte desta cidade. O único elemento público que resiste à
cultura Islâmica são os banhos públicos, um local de higiene necessário à população.
Constroem-se várias mesquitas e minaretes13 destinados ao culto a Alá. Bem como o
Souk, ou bazar, “onde se estabelecem as principais atividades comerciais, a
apropriação do espaço é feita de forma espontânea e caótica. Aqui movimentam-se
comerciantes, artesãos, mercadorias e animais domésticos, que se acotovelam num
burburinho de cores e odores. A imagem que resume esta tipologia de cidade, ausente
de cenários edificados, é-nos dada simplesmente pelo ambiente vivencial único do
espaço partilhado e que, ainda hoje, encontramos em cidades como Marraquexe ou
Luxor.” (Mota, 2006, p. 25).
Ilustração 16 – Marrakech, theplanetD, 2013. (Theplanetd, 2015).
13
Torre da mesquita.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
2.4 MERCADO MEDIEVAL
É na Idade Média que se começa a esboçar o conceito de praça europeia, que atingirá
o apogeu a partir do Renascimento. A praça medieval é um largo de geometria irregular
mas com funções importantes de comércio e reunião social. Assim as praças
medievais dividem-se geralmente na praça do mercado e na praça de igreja (adro), ou
o parvis medieval. As suas funções são diferentes e a sua localização na estrutura
urbana, também. (Lamas, 1993, p. 154)
Com o fim do império Romano a Europa sofre um declínio abrupto provocado pelas
invasões bárbaras que levam a uma crise de valores e de crenças aliadas a uma fuga
das cidades. As populações deslocavam-se para as zonas rurais e procuram asilo
junto dos conventos, palácios e zonas amuralhadas, o que explica o aparecimento de
uma hierarquia e de um sistema feudal.
Baseada numa economia agrária, depressa o sistema económico mercantil colapsa.
“A Idade Média europeia começa a nível de uma sociedade agrária rudimentar que
será a base da sua economia e do seu desenvolvimento posterior.” (Chueca Goitia,
2014, p. 77).
É com a diminuição das guerras, no século XI que se irá gerar um ambiente de maior
paz e segurança que conduz uma revolução económica, tornando-se a atividade
comercial mais consistente. Não obstante, só no século XII e XIII é que assistimos a
um retorno da população à cidade, “a estabilidade política e o ressurgimento do
comércio voltaram a dinamizar as estruturas urbanas.” (Lamas, 1993, p. 151). Os
excedentes provenientes da prática agrícola começam a ser comercializados,
alavancados por novos conhecimentos e métodos de cultivo que aceleram a produção.
Mas o principal impulsionador de crescimento da cidade Medieval “é originado
principalmente pelo desenvolvimento de grupos específicos, do tipo mercantil e
artesão.
[...]
mercadores
viajantes,
mas
também
por
outra
gente
fixada
permanentemente nos centros onde o tráfico se desenvolve: portos, cidades de
passagem, mercados importantes, vilas de artesãos, etc.” (Chueca Goitia, 2014, p. 7980)
Deste modo, existe uma mudança no tecido urbano que reflete o poder da Igreja. Com
uma malha concêntrica, a praça era o centro, o ponto de encontro. Onde existia um
edifício central, geralmente, a igreja. A praça medieval desempenha a função de
regulador da vida pública. Todo o espaço passa a ser orientado em prol da praça e do
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poder religioso que aí se encontra. As ruas são criadas com o objetivo de ligar os
espaços e de aproveitar a morfologia do terreno, tendo como principal objetivo a
defesa da cidade, orientando o espaço, uma vez que delimitam os vários quarteirões e
até os próprios edifícios. No entanto, elas ainda acumulam a função de mercado,
apresentando um carácter mercantil. “A rua é também extensão do mercado e nela se
negocia, compra e vende.” (Lamas, 1993, p. 152)
Ilustração 17 – Mercado medieval, Peter Aertsen, 2013. (Barbara Wells Sarudy, 2015).
Portugal, não é uma excepção e também os espaços de mercados e feiras estão na
maioria das vezes relacionados com o poder religioso. Não obstante era normal que a
zona de transito comercial fosse feita pelos caminhos romanos existentes. Exemplo
disso são os caminhos de peregrinação de Santiago de Compostela.
O contraste espacial criado pela praça na malha urbana, justifica a tendência para que
este local exteriorizasse as práticas e comportamentos sociais da cultura medieval,
tais como: festejos, feiras, representações teatrais, mercado, procissões e celebrações
ocorriam na praça, consoante a época do ano.
As feiras que surgem na época medieval funcionavam como um impulsionador do
crescimento
económico.
Estas
ocorriam
semanalmente,
quinzenalmente
ou
mensalmente, não tendo um sítio predestinado para a sua ocorrência.
As feiras são uma das instituições mais curiosas do período medieval; a sua função
económica – no dizer do Prof. Amzalak – consistia fundamentalmente na localização,
em prazos e termos determinados, de produtores, consumidores e distribuidores,
corrigindo assim a falta de comunicações fácies e rápidas. Quase todas as feiras se
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realizavam em épocas relacionadas com festas da Igreja; no local onde se faziam
existia uma paz especial, a paz da feira. (Joel Serrão, 1985, p. 539-540)
Além de impulsionarem o comércio local também proporcionavam a troca de culturas,
conhecimentos e de notícias entre as populações. A primeira feira portuguesa de que
se tem conhecimento, de acordo com Joel Serrão, ocorreu em 1229 em Castelo
Mendo, distrito da Guarda.
As feiras tradicionais darão origem a um outro tipo de feiras nomeadamente, durante o
reinado de D. João I, surgem as feiras francas que isentavam os feirantes de pagar
portagens, uma vez que estas se realizavam dentro das muralhas, na praça.
A praça pública no fim da Idade Média e no Renascimento formava um mundo único e
coeso onde todas as “tomadas de palavra” (desde as interpretações em altos brados
até os espetáculos organizados) possuíam alguma coisa em comum, pois estavam
impregnadas do mesmo ambiente de liberdade, franqueza e familiaridade. [...] Um tipo
especial de comunicação humana dominava então: o comércio livre e familiar. (Bakhtin,
1987, p. 132-133)
Além destas, outra atividade que ocupava o espaço da praça eram os julgamentos e
as execuções públicas. Para além de um espaço de sociabilidade e religião, a praça
era o lugar onde se demonstrava o poder da lei.
Também a muralha desempenha um importante papel para a cidade, esta estabelece
os seus limites, ao mesmo tempo que a protege contra os invasores. Feitas de pedra,
as muralhas eram compostas por torres, pórticos e fossos.
Este clima de paz e evolução faz-se acompanhar de um aumento demográfico e de
uma sociedade medieval extremamente hierarquizada dividida entre: Nobreza, Clero,
Burguesia (ainda insípida) e o povo.
Todavia, a migração das pessoas do campo para a cidade aliada ao aumento
demográfico fez com a cidade se torne demasiado pequena para tanta gente. Perante
isto, a construção desenvolve-se para fora dos limites da cidade. Segundo José
Lamas, “A muralha delimita a cidade e caracteriza a sua imagem e forma.” (Lamas
José, 1993, p. 152). Podemos comprovar esse fenómeno na ilustração 18, que retrata
14 cidades europeias setentrionais, com os sucessivos cinturões de muros até ao
século XIV.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 18 – Plantas de 14 cidades da Europa Setentrional, com os sucessivos cinturões de muros até ao século XIV. (Benevolo,
1993, pag.259).
Ilustração 19 - Mercado medieval, Pieter Aertsen. (Barbara Wells Sarudy, 2015).
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Como já mencionado a localização dos mercados era feita nas praças centrais. Por
conseguinte, e ao contrário do que se verificava na Ágora ou no Fórum, o comércio na
Era Medieval não se realizava num edifício mas sim no espaço público, a rua.
Desenvolvia-se na rua principal ou então nas ruas direitas, é o caso das cidades
portuguesas, temos como exemplo: a Rua dos Sapateiros, a Rua do Ouro e a Rua da
Prata. No exterior das lojas, os comerciantes colocavam objetos como sapatos, ou até
alimentos, para indicarem qual o tipo de venda que se processava no interior das
mesmas.
Consequentemente, todo o desenho da cidade se altera de modo a que exista uma
maior rentabilização do espaço. A malha molda-se às edificações existentes, que
passam a desenvolver-se em altura. Existe uma nova organização dos edifícios; no
rés-do-chão a loja e nos pisos superiores habitação.
Se por um lado a habitação é ordenada e estruturada, o mesmo não acontece com a
cidade que cresce de um modo orgânico e natural. A falta de ideias e estudos prévios
faz com que as estas careçam de uma malha definida, ordenada e planificada.
Deste modo, surgem inúmeros esquemas de cidades medievais, que de acordo com
Piccinato14 podem ser definidas, quanto à sua planimetria em: cidades lineares, em
cruz, em esquadria, de estrutura nuclear, de estrutura binuclear, em espinha de peixe,
em acrópolis e radiocêntricas.
Luigi Piccinato, animado pelo intuito de fazer uma espécie de classificação, a qual não
deixa de ser ingénua mas que pode ajudar, metodologicamente, e ordenar a multiforme
expressão planimétrica da cidade medieval. (Chueca Goitia, 2014, p. 87)
É durante o reinado de D.Afonso III e ainda no reinado de D.Dinis que vão surgir os
rossios15, nomeadamente em Lisboa, como uma consequência da implantação do
poder político e de uma acentuada política de povoamento.
No que respeita à localização dos mercados desta altura, estes eram realizados até
então na maior parte das vezes, nos espaços intra-muros, no castelo, cercas ou praças
do aglomerado urbano, tendo sido um ritual que perdurou até finais do século XIV.
Devido à exiguidade dos espaços, por vezes era necessário o derrube de alguns
Luigi Piccinato foi um arquitecto italiano (30 Outubro 1899 – 29 Julho 1983) was an Italian architect and
town planner.
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É o primeiro espaço público ou praça que se encontra ao passar as muralhas e entrar na cidade.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
edifícios ou o aproveitamento de alguns espaços junto às muralhas, fora do perímetro
deste amuralhado, o que originou os chamados rossios. (Costa, 2011, p .31)
Assim, o espaço de mercado e o consequente comércio passa a ser feito nestes
locais. Não existia um espaço próprio nem qualquer tipo de equipamentos de suporte
como bancas ou edifícios. Deste modo, os comerciantes utilizavam panos que
colocavam no chão onde os seus bens para venda.
Na cidade medieval Portuguesa coabitavam várias minorias étnico-religiosas e será
ainda durante o século XIII que surgem as mourarias e as judiarias, uma consequência
direta da forma como foi ocupado o território. Verifica-se uma evasão da cidade
original por parte de judeus e mouros, que se vêm confinados a novos espaços com
características diferentes, quer do ponto de vista físico, social e funcional.
No caso das judiarias estas ocupavam posições privilegiadas do ponto de vista
funcional, adjacentes ao núcleo de maior densidade comercial. A sua população era
mais letrada do que a maioria dos comuns cristãos, o que acabava por representar um
simbolismo de poder económico. Todavia, viviam em bairros alheios à comunidade
cristã.
Nas mourarias normalmente centravam-se as atividades de agricultura e artesanato,
ficavam em lugares menos atrativos e tinham a sua própria administração.
As cidades medievais em Portugal, quando estruturadas eram vistas como: “Os
quarteirões eram de forma rectangular, alongados, compostos por um número idêntico
de lotes. Cada um dos lotes fazia frente para a rua principal e para uma rua de
traseiras, que alternadamente de sucediam no plano. ” (Teixeira, 1999, p. 26)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 20 – “Praças em Paris, segundo os desenhos em perspectiva do Plan de Turgot.” 1. Place Vendôme. 2. Place Dauphine. 3.
Place Royale. 4. Place des Victoires. (Lamas, 1993, p.173).
Ilustração 21 - A Loggia do Mercato Nuovo. Massimo J. De Carlo, 2011. (Massimo J. De Carlo, 2015).
Ilustração 22 – A Loggia do Mercato del Pesce. (Mattia Lattanzi, 2015).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
2.5 DO RENASCIMENTO AO BARROCO – PRAÇA PÚBLICA
O renascimento é, a cima de tudo, um movimento intelectual. No campo do urbanismo,
as suas primeiras contribuições são insignificantes se as compararmos com a
arquitectura do mesmo período e com as realizações cenográficas, com os grandes
panos de fundo do final do barroco. (Stewart apud Chueca Goitia, 2014, p. 95).
A praça renascentista é uma experimentação da antiguidade clássica. Um reviver dos
temas e das ordens clássicas. Existe não só uma redescoberta como também uma
revalorização dos saberes. As ruínas são objeto de um estudo profundo bem como os
textos de Vitrúvio,
porque o velho deve ser superado pelo antigo. O antigo, a antiguidade clássica é, para
o homem do Renascimento, qualquer coisa que não tem idade, porque representa um
absoluto, um ideal inacessível e sempre válido. [...] o homem vivera na obscuridade.
Agora, regressava à luz. (Chueca Goitia, 2014, p. 95-96).
Este movimento surge em Florença por volta do século XIV, propagando-se pelo resto
de Itália e consequentemente pela Europa.
Etimologicamente, Renascimento significa «voltar a nascer», ou seja, voltar às formas
de arte da antiguidade romana e grega, como motivos de inspiração.” (Lamas, 2010, p.
167).
O renascimento é influenciado pelo aparecimento de uma nova classe, a burguesia,
que é portadora de uma nova mentalidade e de uma melhor forma de expressão
perante o espaço citadino, o espaço público. Este período marca uma revolução nas
artes como a pintura, a escultura, a arquitetura e o urbanismo. Com o período
renascentista a praça surge como um espaço urbano e um motor de desenvolvimento
da cidade. É fortemente adornada com “monumentos (obeliscos, estátuas ou fontes), e
também lugares de vida social e de manifestações do poder” (Lamas, 1993, p.176). É
finalmente entendida como um elemento que integra a estrutura urbana sendo vista
como núcleo da cidade e perdendo o lugar de “espaço vazio”. Adquire um carácter
monumental e até cénico, é o palco de todas as atuações.
Existe uma nova relação entre a praça e o modo como esta se enquadra no espaço
urbano, ambos aliados a uma forte geometria, regularidade e até simetria de ruas e
avenidas. A praça é o culminar do espaço público onde ocorre a união entre
arquitetura e urbanismo.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Todos estes ensinamentos e evoluções contribuem para que no século XIV o mercado
adquira um papel de maior destaque. As lojas conquistam uma dupla funcionalidade
combinando a venda de produtos com a manufatura dos mesmos. Ou seja, a loja além
de ponto de venda era também oficina de produção, onde os produtos por vezes além
de serem vendidos na loja eram vendidos também no mercado.
Esta elevada produção leva à criação de excedentes que posteriormente tinham de
ser armazenados levando à necessidade de criar locais próprios para o
armazenamento dos excedentes, o que se constitui como mais um fator que acaba por
estimular a economia de mercado nas cidades.
Sendo Itália o berço do renascimento é ai que se encontram alguns dos mais
emblemáticos mercados e praças que deram a grandiosidade e magnificência às
cidades italianas.
No decorrer do século XVI surgem em Itália as loggia, estruturas arquitetónicas
influenciadas pelos fóruns romanos. Podemos descreve-las como pórticos cobertos,
sustentados por colunas e com forma retangular.
Dois exemplos de loggias, são o Mercato Vecchio de Vasari16 e o Mercato Nuovo de
Giovanni del Tasso17.
La Loggia del Mercato Nuovo (Lonja del Mercado Nuevo) fue construída a mediados
del siglo XVI por el arquitecto Giovanni Battista del Tasso. Antiguamente era el empório
central de la seda y otras mercancias de lujo; en cambio hoy alberga un multicolor
mercado de produtos de la artesanía florentina. (Cavadas, 2012, p. 109)
Existem ainda outras praças de forte influência durante este período. Um ponto de
comércio chave em Veneza, era a praça de São Marcos que se transformou num porto
de mercadorias que chegavam por mar através de uma das principais rotas mercantis
da época. “A praça de São Marcos, em Veneza, completa-se durante o Renascimento
com a contribuição decisiva de Sansovino18.” (Chueca Goitia, 2014, p. 104).
Giorgio Vasari foi um pintor e arquiteto italiano (Arezzo, 30 de Julho de 1511 – Florença, 27 de Junho
de 1574)
17 Giovanni Battista del Tasso foi um escultor e arquiteto italiano (Florença, 1500 – 8 Maio 1555)
18 Jacopo d’Antonio Sansovino foi um escultor e arquiteto da Renascença italiana (Florença, 2 de Julho de
1486 – Veneza, 27 de Novembro de 1570)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 23 – Praça de São Marcos, Gaspar Van Wittel, 1697. (Gaspare Armato, 2015).
Posteriormente também surgem em França e Espanha grandes desenhos para o
planeamento das praças. Todavia, França não corresponde positivamente aos
grandes trabalhos de Brunelleschi19, Miguel Ângelo20 ou Vasari.
“A Espanha, no entanto, em fins do século XVI e devido à dedicação constante de
Filipe II à ideia de elevar a arquitetura a um plano de grandeza severa e de rigor
conceptual, consegue levar a cabo algumas criações de grande originalidade.”
(Chueca Goitia, 2014, p. 105).
As praças maiores, regulares, são uma constante na história do urbanismo espanhol.
A Plaza Mayor de Madrid, é um modelo exemplar do urbanismo renascentista e
subsequente urbanismo barroco.
“Aparentemente, só a partir do século XV é que a ideia de “praça” foi desenvolvida
segundo princípios estéticos, com o aparecimento da Plaza Mayor, Espanha”.
(Teixeira, 1999, p. 37).
Filippo Brunelleschi foi um escultor e arquiteto da Renascença italiana (Florença, 1377 – Florença,
1446)
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20
Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni foi um pintor, escultor, poeta e arquitecto italiano (Caprese,
6 de Março de 1475 – Roma, 18 de Fevereiro de 1564)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
No inicio do século XIV surgiram dois arrabaldes fora da cidade madrilena. Um perto
da Igreja de San Ginés e outro, em torno da igreja da Santa Cruz que serviam como
local de troca e ponto de encontro entre mercadores. Será em prol desta afluência de
gentes que no Reinado de Juan II no século XV se constrói uma praça, a praça do
Arrabal. Com um traçado irregular e muito mais pequena do que a praça atual, tornouse igualmente um local de trocas comerciais.
No século XV a praça recebe finalmente um mercado, uma consequência que se deve
à realização mensal de uma feria na praça do Salvador e que obriga à passagem do
mercado para a praça do Arrabal. (inicialmente conhecida como Plaza del Arrabal que
mais tarde se passará a chamar Plaza Mayor). Não obstante esta carece de uma zona
amuralhada para que se pudessem controlar as operações mercantis bem como o
pagamento dos impostos pelos vendedores. Assim, o ajuntamento de Madrid
construirá uma muralha que dá origem a novas portas de entrada na praça do
mercado: Puerta de Toledo, a Puerta de Atocha e a Puerta del Sol.
Ilustração 24 – Plaza Mayor. (Pedro Pabón Fernández, 2015).
“El Ayuntamiento amplía la muralla, construye una cerca de mampostería que envuelve
los arrabales. Así, pudo mantener la recaudación del portazgo. Se crearon nuevas
puertas: La Puerta de Toledo, en el camino que iba a Toledo; la Puerta de Atocha en el
Camino a Vallecas y Atocha; La Puerta del Sol en el Camino de Alcalá. Tras estas
ampliaciones, se consolida el mercado de Madrid en la Plaza del Arrabal,
convirtiéndose el mercado más popular de la villa a finales del siglo XV. A principios de
este mismo siglo, se edifica una primera casa porticada, o lonja, para regular el
comercio en la plaza. Por este motivo, empezó a cimentarse su suelo.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
En ella se organizaron todo tipo de celebraciones y actos como paradas militares,
recibimientos de reyes, corridas taurinas y actos musicales.” (FUNDACIÓN
MANANTIAL, 2013).
Desta forma, o mercado de Madrid na praça do Arrabal ficou consolidado tornando-se
no mercado mais popular no final do século XV. É nesta altura que a ideia de praça é
cimentada e desenvolvida segundo os modelos renascentistas. Inicia-se a
pavimentação da praça que depressa se torna num local multifuncional, onde
ocorriam: touradas, danças, festejos, execuções públicas e cerimónias.
Em Portugal as praças com a função de mercado tinham a mesma localização que as
praças espanholas, nos limites exteriores das muralhas. Encontravam-se assim “em
espaços que muitas vezes tinham a sua origem em campos e em terrenos alheios
localizados à margem das muralhas urbanas e que posteriormente se transformavam
em praças urbanas.” (Teixeira apud Caldeira, 2001, p. 76)
Todavia, não é displicente lembrar que muitas das ideias e princípios que orientaram o
pensamento urbanista do renascimento não passavam de utopias. Foram meras
experiências que ocorreram um pouco por toda a Europa sem que a sua
materialização perdurasse.
Contrariamente a cidade Americana é o culminar de princípios urbanísticos Europeus
conjugados com a malha militar, proveniente da idade Média e das experiências supra
citadas. Existe uma relação pratica que se traduz num desejo claro que tem apenas
como objetivo a aplicabilidade imediata desses princípios. A beleza e a teatralidade
Italianas não existem nas praças hispano-americanas. Assim:
devemos reconhecer que muitas das ideias urbanísticas do Renascimento, que não
passaram de teoria, utopia ou exercício intelectual nos países da Europa onde tiveram
origem, encontraram o seu campo de realização concreta na América, na obra ingente
da colonização espanhola. (Chueca Goitia, 2014, p. 111)
Todas estas modificações na cidade medieval são uma consequência direta “do
requinte artístico imposto por aquelas elites” (Chueca Goitia, 2014, p. 119). Em suma a
cidade é orientada por pequenas cidades que distam umas das outras não mais que
um dia de caminho, sendo um reflexo de
“um poder municipal forte, uma vida
mercantil livre e um artesanato organizado em sólidas corporações.” (Chueca Goitia,
2014, p. 119).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 25 – “Ensanche de Barcelona ideado en 1860 por Ildefonso Cerdá.”. (Antonio G. Acevedo., 2015).
Ilustração 26 – “Esquema dos grandes trabalhos de Haussmann em Paris: em preto as novas ruas, em tracejado quadriculado os
novos bairros, em tracejado horizontal os dois grandes parques periféricos”. Benevolo, p. 592.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
A cidade barroca difere da cidade renascentista na sua génese política, social e
económica. Deixa de existir uma rei com uma corte que se move de cidade em cidade
a fim de garantir a ordem e cria-se uma estrutura burocrática imparcial responsável
pela gestão da cidade. É o renascer de uma cidade burocrática organizada, cria-se o
organismo do Estado barroco, responsável pela ordem e pelo “desenvolvimento do
capitalismo mercantil.” (Chueca Goitia, 2014, p. 121)
A praça perde o lugar de mercado e o espaço público passa a ser entendido como um
espaço puramente social e de convívio, uma Ágora pública.
É em pleno século XVIII que o mercado também sofre transformações a nível dos
produtos, nele comercializados: “os mercados públicos e as lojas dos produtores da
cidade medieval estavam sendo convertidos em lojas especializadas, em continuo
funcionamento.” (Mumford, 1998, p. 473)
Mas o maior alvo de mudança no barroco além da praça é o quarteirão. Planeia,
divide, subdivide, incorpora e exclui. É um medidor e orientador do desenho e espaço
urbano sem igual.
“A partir do Barroco, o quarteirão vai atingir maior refinamento [...] O quarteirão vai
assumir formas, dimensões e volumes diferentes, consoante o seu posicionamento na
estrutura urbana.” (Torres, 2006, p. 26)
Em Portugal um exemplo desta planimetria é o caso do bairro alto onde o quarteirão é
um “resultado intersticial ou resíduo «ocasional» dos traçados, assumindo formas
irregulares.” (Lamas, 1993, p. 188)
Também o espaço verde, a árvore, é um elemento que passa a coexistir na cidade
criando novos espaços “o recinto arborizado, o parque, o jardim o passeio e a
alameda, como espaços de recreio e novas práticas sociais” (Lamas, 1993, p. 194).
O barroco será assim o impulsionador de planos e utopias que perdurará até ao século
XX quando surge o movimento moderno.
Este conjunto de princípios irá perdurar no urbanismo europeu até ao século XX. O
período barroco será o mais marcante, já pelas suas vastas realizações, já pela
influência decisiva que terá na cidade burguesa dos finais do século XIX, como na
Paris de Haussmann ou na Barcelona de Cerdá. (Lamas, 1993, p. 200).
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Ilustração 27 – “Marche St. Germain”, B. Ferry Delt, 1828. (Antiqua Print Gallery, 2015).
Ilustração 28 – “Quincy Market, Boston, 1825-6”. (Howe, 1998).
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2.6 NEO-CLASSICISMO – MERCADO COBERTO
Geist refere que, apesar das inúmeras tipologias de edifícios comerciais surgidas ao
longo da história, foi a partir do século XIX que se revolucionou a atividade comercial,
tanto na função das novas tipologias emergentes, como, no surgimento de novas
técnicas de comercialização, circulação e transporte. (Teixeira, 2013, p. 34)
No principio do século XIX surge um novo tipo de mercado, o mercado coberto onde a
praça que antes era um espaço ao ar livre, delimitada pelas imediações, envolvente
imediata, passa agora a ser parte integrante do espaço coberto, o mercado. Estas
inquietações estão relacionadas com questões de ventilação, iluminação e
salubridade.
Normalmente de planta quadrada, o mercado apresenta um espaço fortemente
racionalizado quer nas suas plantas quer nos seus alçados. Com um pé direito
suficientemente elevado que permita a utilização da cobertura para ventilação e
iluminação é normalmente sustentado por pórticos e galerias horizontais.
Como exemplo temos o mercado de Saint Germain, desenhado por Blondel21 na “Rue
du Four”. Iniciado em 1813 e com mais de 400 lojas, ficou terminado em 1816. Este
mercado representa um modelo neoclássico de pátio encerrado.
Outro exemplo é o mercado desenhado por Alexander Pari’s Granite entre 1825 e
1826 em Boston. O Quincy Market apresenta uma planta retangular, adoptando um
estilo de mercado grego com as suas colunas e frontões a marcarem cada uma das
suas entradas, presentes nas extremidades do edifício. Na zona central uma grande
semi-cúpula de cobre enaltece o mercado.
Todavia se por um lado surgiam os mercados encerrados baseados numa arquitetura
clássica, empregando frontões, entabelamentos, pórticos e semi-cúpulas, por outro
lado, a Revolução Industrial e os avanços tecnológicos proporcionaram uma nova
visão dos mercados. Materiais como o ferro e vidro, normalmente dedicados a pontes
e fábricas também passam a ser utilizados nas estruturas dos mercados.
A estufa em Chatsworth de Joseph Paxton22 é uma das primeiras peças a
experimentar a arquitetura do ferro e vidro. Construído entre 1836 e 1840 era uma
21
22
Jacques-François Blondel foi um arquitecto e professor francês (8 Janeiro 1705 — 9 Janeiro 1774)
Sir John Paxton foi um horticultor inglês (1801 - 1865)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
estrutura retangular de 60 por 37 metros e com uma cobertura elíptica que chegava
aos 20 metros. Desenhada e medida de acordo com as necessidades de Paxton, a
estufa era uma combinação perfeita de ferro fundido e peças de vidro que se
traduziam num espaço onde era possível experimentar condições de iluminação e
ventilação naturais.
Ilustração 29 – The great stove (a grande estufa). (Cris, 2011).
A estufa em Chatsworth uma estrutura pré-fabricada, funcionou como uma
experiência, utilizada no Palácio de Cristal construído em Londres, para a primeira
exposição Mundial realizada a 1851 no Hyde Park.
“O Palácio de Cristal é a pedra de toque dos meados do século XIX, se se quiser
descobrir o que pertence inteiramente ao século XIX e o que aponta em direção ao
XX.” (Pevsner, 1968, p. 11)
Começou assim a era do ferro fundido e do vidro, das peças pré-fabricadas e das
estruturas leves. Os novos materiais e as novas técnicas de fabrico abrem a porta
para o campo construtivo e para a evolução das cidades, fomentando pelo aumento
massivo da população nas mesmas, fruto de um êxodo rural sem precedentes, que
atraí multidões para as grandes metrópoles do século XIX.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 30 – Interior do Palácio de Cristal. (Jane Dzisiewski, 2014).
Os mercados tornam-se pequenos, velhos e sem condições (salubridade, iluminação e
ventilação) para receber as massas. É necessário inovar e criar novos mercados para
uma população em franco crescimento e desenvolvimento.
Existe uma mudança na conceção destes, os novos materiais aliados às novas
técnicas levam a uma construção luminosa, ventilada e em grande escala. A cobertura
com grandes paneis envidraçados (lanternins), passa a ter uma dupla função de
proporcionar iluminação zenital e funcionar como estrutura de ventilação natural. Outra
vantagem destas estruturas é a capacidade de vencerem grandes vãos além da
capacidade para resistirem a altas temperaturas, em caso de incêndio.
É neste contexto de evolução que surgem dois grandes mercados que marcam
indiscutivelmente o inicio da construção neste campo; o Covent Garden em Londres e
Les Halles em Paris.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 31 – Covent Garden, Londres. (UNIVERSITY OF LONDON, 2014).
Ilustração 32 – Les Halles, Paris. (Laurent Luft, 2014)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
No início de século XVII o Covent Garden era uma praça construída pelo arquiteto
Inigo Jones23. Mas será durante o século XIX, mais propriamente em 1830 que esta
praça é transformada num mercado de frutas e vegetais de Londres. O projeto da
autoria de Charles Fowler24 era o mercado dos mercados, abastecia todos os
mercados londrinos. Com uma planta limpa é um complexo que liga três edifícios
paralelos entre si, por pilares e arcadas. As lojas eram abertas para o público e existia
um local de armazenamento na parte superior do mercado.
Ilustração 33 – Planta do Covent Garden. (Samuel
Pepys, 2015).
Ilustração 34 – New Market of Covent Garden, 2015. ([Adaptado a partir de:]
Loudon, 2015, p. 268 – 269).
Por sua vez, Vitor Baltard projeta Les Halles Centrales, entre 1852-1858 em Paris. O
mercado compreendia um conjunto de 12 pavilhões separados por corredores de 15
metros de largura.
No fundo eram “avenidas cobertas com abóbodas, formando ruas, quarteirões e
praças que lhe davam características urbanas, como se de elementos urbanos se
tratassem.” (Albuquerque, 2011, p. 47). As estruturas dividem-se em quatro pavilhões
de 54 por 54 metros e oito pavilhões de 54 por 42 metros. Estes encontravam-se
divididos em secções, deste modo cada pavilhão vendia um tipo de produto. A nível
estrutural o mercado adquiria uma escala monumental, “a sua composição estrutural é
em ferro fundido, colunas e arcos, com as superfícies verticais de vedação de tijolos e
vidro.” A cobertura é constituída por vigas de treliças de ferro.” (Coelho, 2013, p. 55)
Inigo Jonnes é reconhecido como o primeiro arquiteto inglês (Londres, 15 de julho de 1573 – Londres,
21 de junho de 1652).
24 Sir John Fowler foi um engenheiro inglês, (1817 - 1898)
23
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
com painéis de vidro tal como acontece no Palácio de Cristal o que permite boas
condições de iluminação e ventilação.
Ilustração 35 - Les Halles, Aimé Dartus / Ina,1967. (Nicolas Bonnell, 2015).
Surge ainda uma nova realidade na área dos mercados, os matadouros, que com a
Revolução Industrial aliada à nova perspetiva de cidade, torna impensável a existência
dos matadouros nos mercados. Não só pelas condições higiénicas mas também pelas
questões sensoriais nomeadamente o seu cheiro e ruídos característicos, levam a que
estes sejam deslocados para a periferia das cidades. Um exemplo desses matadouros
é o Abattoir25 du Roule ou o Abattoir La Villette, ambos franceses.
Ilustração 36 - Abattoirs de La Villette. (Boursier, 2015).
25
Abattoir é a palavra francesa para matadouro.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Em Portugal os mercados oitocentistas procuram, tal como no caso de Les Halles, em
Paris, responder às questões de salubridade, iluminação e ventilação.
Este período corresponde a um momento de transformação urbanística em território
Nacional. Questões de funcionalidade e salubridade são a principal preocupação. Este
novo modelo de mercado construído com recurso ao ferro e ao vidro correspondia a
essas necessidades. As próprias mercadorias tinham assim melhores condições de
conservação, distribuição e arrumação.
2.6.1 MERCADO DE SANTA CLARA
Assim, em 1877, em frente ao Jardim Botto Machado (1865), foi construído um
mercado, o Mercado de Santa Clara, de estética romântica, sob o domínio de uma
arquitectura verdadeiramente inovadora, que estava a ser ensaiada, por engenheiros,
no ramo das obras públicas, a arquitectura do ferro. (Serol, 2012, p. 82)
Ilustração 37 – Mercado de Santa Clara, Eduardo Portugal. (Arquivo Municipal de Lisboa, 2015).
Com uma área de 1250m2 o mercado de Santa Clara, ainda em funcionamento, é um
edifício de planta retangular simétrica que marca a introdução do ferro na arquitetura
Portuguesa, onde é utilizado sobretudo em estruturas públicas como pontes,
armazéns, estufas, estações de caminho-de-ferro e mercados.
Encontra-se na parte poente do Campo de Santa Clara e é o mercado coberto mais
antigo de Lisboa, tem uma nave única que cria uma “rua” coberta, com lojas de ambos
os lados. A sua estrutura e relação de coberturas permite aberturas entre estas de
forma a ventilar o espaço. Iluminação natural também é característica no mercado.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Foi inaugurado pela Companhia de mercados e de edificações urbanas em 1877, sob
proposta do Conde de Penamacor e António Pães de Sande e Castro.
2.6.2 MERCADO DA PRAÇA DA FIGUEIRA
Ilustração 38 - Mercado da Praça da Figueira, J. C. Alvarez, 1949. (Arquivo Municipal de Lisboa, 2015).
Desenhado e construído com base em novas técnicas e materiais, nomeadamente o
tijolo industrial, o ferro, o vidro, o Mercado de Santa Clara fez parte da fase de
introdução da arquitectura do ferro em Portugal, a qual à semelhança da restante
Europa, utilizou o conceito sobretudo na construção de estações de caminho-de-ferro,
mercados, pontes, armazéns, estufas e outros edifícios públicos. (Serol, 2012, p. 83)
Por volta de 1882 é transferido para as imediações do mercado a feira da Ladra, que
hoje ainda em funcionamento é considerada uma das feiras mais antigas de Lisboa. A
junção da feira ao mercado foi importante pela troca de produtos e pela atração de um
maior fluxo de gente para o mercado.26
Em 1882 surge o mercado da Figueira também conhecido como praça da Figueira. O
mercado emergiu inicialmente no terreno das ruínas do “Hospital Real de todos
Santos” em 1755. Foi primitivamente uma praça tradicional, sofrendo sucessivas
alterações até que em 1882 foi aprovado o novo projeto para a execução da nova
praça. O autor do projeto foi Manual Faria Ricardo Correia.
26 Renovado pela Câmara Municipal de Lisboa em 2011 o mercado de Santa Clara abriu as suas portas com um novo rosto e novas funções. O mercado
desapreceu e hoje oferece desde exposições, workshops, atelier e oficinas como um mote para a dinamização do espaço.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
“Inaugurado em 1885 apresentava quatro cúpulas, três naves e uma área de 8000
metros quadrados permanecendo assim durante 64 anos após os quais se procedeu à
sua demolição definitiva.” (Leite, 2014).
Em 1949, o mercado foi demolido, devido aos problemas sociais e à atividade noturna
típica desta zona circundante ao mercado.
Ilustração 39 – Mercado de Santa Clara, Vaco Gouveia de Figueiredo,1967. (Arquivo Municipal de Lisboa, 2015).
Ilustração 40 – Mercado da Praça da Figueira, Eduardo Portugal, ant. 1949. (Arquivo Municipal de Lisboa, 2015).
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2.6.3 MERCADO FERREIRA BORGES
O Mercado Ferreira Borges no Porto foi construído entre 1885 e 1888 e é tido como
um dos principais ícones da arquitetura do ferro da cidade Portuense. Obra do
arquiteto João Carlos Machado está classificado como um imóvel de interesse público.
Ilustração 41 – Exterior do mercado Ferreira Borges e o seu interior. (Daniel Silva, 2015).
Surgiu perante a precariedade das instalações do Mercado da Ribeira, Porto, e pelas
sucessivas inundações ocorridas. Uma vez que este era na altura, o principal mercado
abastecedor portuense, foi perentória a necessidade de cria um novo mercado
afastado da zona ribeirinha.
Construído sob uma base em cantaria de granito o mercado apresenta uma planta
longitudinal com várias escadarias de acesso ao edifício, composto por 3 naves sendo
a central mais estreita. As fachadas respeitam o modelo das Halles parisienses
compostas com ferro e vidro, sendo o espaço interior amplo e com um pé-direito
elevado. Existe uma relação visual entre as fachadas deste mercado e as fachadas do
pavilhão de exposições do palácio de Cristal também no Porto.
Por volta de 1904 o mercado era um espaço desvalorizado. Assim, foram inúmeras as
tentativas de manter o espaço “ocupado” com armazéns, jardim de inverno, atividades
culturais, feiras artesanais ou até mesmo como mercado abastecedor de fruta
“sofrendo os efeitos da degradação aquando a cessação destas diversas actividades”
(Portugal, 2014, p. 51).
Em 2008 o mercado foi restruturado e revitalizado pelo atelier Aires Mateus que
manteve inalterado o exterior criando no seu interior um espaço de lazer e diversão
noturna, encontrando-se atualmente a ser explorado pelo grupo Hard Club.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
2.7 MOVIMENTO MODERNO PORTUGUÊS
A crise na Revolução Industrial provocou no arquiteto um sentimento de perda de
identidade, existe uma estagnação nos modelos arquitetónicos e o arquiteto usa o
historicismo, como uma nova corrente de arquitetura. Dedica-se a uma cópia dos
estilos do passado.
O movimento moderno pode assim ser entendido como um período na história da
arquitetura em que o arquiteto procura uma nova identidade, na sua profissão, que
havia sido desqualificada durante o século XIX, perante os claros avanços da
engenharia.
Os ideais, a história e as conquistas da arquitectura moderna foram expostos por
Pevsner, Behrendt e Giedion de maneira exaustiva e satisfatória, e reelaborados, na
Itália, na excelente obra Verso un’ architettura organica (História da arquitectura
moderna). Poderemos, assim, nos limitar a indicar as características do espaço
moderno. (Zevi, 2011, p. 121)
A idade moderna, opondo-se ao historicismo, é uma redescoberta do arquiteto e do
seu papel na sociedade. Aproveitando os novos materiais da Revolução Industrial é o
momento de fazer frente à produção em massa recuperando a especificidade do
trabalho e a sua identidade. O arquiteto torna-se um reformador do mundo industrial e
da sociedade em si.
A orgânica social é outro dos problemas do movimento moderno; é a ideia da
arquitetura como um “condensador social”, questões ligadas ao urbanismo e à
sociedade perfeita, têm as suas origens nas utopias e obras dos socialistas utópicos
do século XIX
O século XX é um século de mudança. A partir dos anos 20 a forma de pensamento
caracteriza-se por novas ideias, uma maior plasticidade e uma nova energia.
Depressa se torna num movimento para uma sociedade de massas. Com o
crescimento exponencial da população a cidade vê-se obrigada a crescer na mesma
medida e para isso tem de crescer de forma súbita ao mesmo tempo que responde às
preocupações sociais e urbanísticas. Assim, o arquiteto tem a função de proporcionar
ao Homem melhores condições de vida e respostas para os novos paradigmas, sem
nunca perder a sua identidade.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Surgem “duas grande correntes espaciais da arquitetura moderna” (Zevi, 2011, p. 124)
o funcionalismo de Le Corbusier, o movimento orgânico de Frank Lloyd Wright, a
arquitetura social de Walter Gropius ou até a arquitetura pura de Mies Van der Rohe.
Em Portugal, a partir dos inícios do século XX vão passar a conviver dois países num
só. O país mais profundo e tradicionalista, que é também o que se revê nos gostos
naturalistas. E o país urbano e moderno, que, ainda sem plenamente o ser, se revê nas
revoluções estéticas, que andam associadas ao culto da velocidade, da era mecânica:
o modernismo fazia a sua entrada em cena. (Pereira, 2011, p. 801)
O movimento moderno em Portugal, nos anos 20, segue um pouco os parâmetros de
exaltação e modernidade que já tinham ocorrido na restante Europa.
Os anos 30 marcam claramente um período de arquitetos que seguem os princípios
do estilo moderno, “todos eles tiveram um forte aliado num tecnocrata moderno:
Duarte Pacheco (1900-1943).” (Pereira, 2011, p. 805)
A partir do golpe militar em Maio de 1926 e a resultante ditadura na década de 30, o
Estado Novo via no sistema ditatorial alemão e italiano um modelo de sistema de
referência. Assim, numa busca de identidade com o sistema ditatorial, o estado
português nega as correntes arquitetónicas do regionalismo e historicismo,
substituindo-os por um modelo modernista e colossal, subjugado à vertente patriotista
e nacionalista do regime.
Nos anos 40/50 a situação portuguesa ao nível da arquitetura sofre uma cisão, entre
arquitetos da escola de Belas Artes do Porto e os arquitetos Lisboetas. Tornam-se
evidentes as diferenças ao nível projetual manifestando estes dois grupos visões
distintas de “como fazer” arquitetura. Assim, nesta mesma década são criados em
Portugal dois grupos culturais: a ICAT (Iniciativas Culturais Arte Técnica), criada em
1946 em Lisboa e a ODAM (Organização Dos Arquitectos Modernos) no Porto em
1947.
Ambos defendiam princípios distintos, os seus modelos de referência eram
incompatíveis. Foi aquando da realização do Primeiro Congresso de Arquitetura em
Portugal que ficaram patentes as divergências entre Lisboetas e Portuenses. Se por
um lado os arquitetos lisboetas primavam pela arquitetura regional e tradicional os
arquitetos portuenses estavam mais ligados às correntes modernistas estrangeiras,
influenciados pela escola de Belas Artes no Porto.
Mariana Marques Henriques
80
O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Tal influência foi encabeçada por Marques da Silva, aluno bolseiro que estudou em
Paris, na École dês Beaux-Arts e que influenciado pelos princípios aí estudados,
defendia e acreditava que a remodelação do curso de arquitetura no Porto era
benéfica, pois iria constituir uma mais valia na formação dos arquitetos e
consequentemente nas suas futuras obras.
Sucederam assim, nomes como:
Mário Morais Soares, Fernando Cunha Leão ,
Fortunado Cabral Januário Godinho e mais tarde Fernando Távora que formaram a
segunda geração de arquitetos que vieram revolucionar a arquitetura Portuense.
Só na década de 50/60 é que Portugal deixa entrar definitivamente a arquitetura
moderna no pais, juntamente com novas questões sociais que pediam uma interação
entre arquiteto, cidade e sociedade, diferente.
Os anos de 1950 a 1960 corresponderam ao verdadeiro arranque da arquitectura
moderna, representando o momento em que se começou a pensar o acto de projectar
como transformador da vida da sociedade. A arquitectura aparecia sempre associada à
questão da dialéctica modernidade versus nacionalidade.
Apesar da pequena propagação da arquitectura moderna nas construções em Portugal,
comparativamente com outros países europeus, o tema estava presente na
arquitectura portuguesa: “Tardio e filtrado pelas inevitáveis distâncias culturais da
condição de periferia, o Movimento Moderno na Arquitectura portuguesa teoriza-se e
vai praticar-se só nos anos 50. (Tostões, 1997, p. 177)
Não obstante, em 1957 com o aparecimento da revista “Arquitectura 10” os arquitetos
do Porto e Lisboa iniciaram uma relação de maior convergência e proximidade em prol
da arquitetura portuguesa. Aparecendo assim uma nova geração de arquitetos,
apostados em projetar para o lugar, com preocupações culturais e territoriais, o
homem é o mais importante e a arquitetura deve ser adequada a si.
A arquitetura portuguesa sofre com este período, sendo invadida por um turbilhão de
modelos arquitetónicos, passando pela corrente da arquitetura funcional e organicista,
interferindo inclusivamente com o próprio sentimento de tradição, memória e
patriotismo.
Perante isto, conclui-se que foram vários os fatores que impulsionaram a evolução do
sentido da arquitetura rumo à criação de um “mundo” novo; em Portugal “a
transformação da “arquitectura e da vida”, a transformação do tempo e do espaço, que
se começava a viver na mais recente arquitectura, na moderna “Cidade Nova””.
(Tostões, 1997, p. 205)
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 42 – Cruzamento da R. De Sá da Bandeira e Rua Formosa, Colecção de Postais, 1920. (Gisa 2015).
Ilustração 43 - Cruzamento da R. De Sá da Bandeira e Rua Formosa, 15 lugares para (re)visitar no Porto, 2014. (Wone, 2015).
Ilustração 44 – Cobertura do pátio central no mercado, Ula Fiedorowicz, 2014. (The adamant wanderer, 2015).
Ilustração 45 – Produtos tradicionais vendidos no mercado, Ula Fiedorowicz, 2014. (The adamant wanderer, 2015).
Ilustração 46 – Lojas no interior do mercado, Ula Fiedorowicz, 2014. (The adamant wanderer, 2015).
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
2.7.1 MERCADO DO BOLHÃO
Executado à escala do homem, o mercado do Bolhão construído em 1914 pelo
Arquiteto António Correia da Silva, tinha como objetivo encerrar a antiga praça do
Bolhão, promovendo assim a unidade do quarteirão.
É uma expressão franca da arquitetura neoclassicista, dos mercados Italianos, ao
mesmo tempo que promove uma aplicação direta dos conceitos de Julien Guadet27
que defende uma busca pela composição arquitetónica, pela proporção e pela
construção/execução de um projeto.
De caráter modernista o mercado do Bolhão conjuga novos materiais como o betão
armado, o vidro e as estruturas metálicas. Com um grande pavilhão central que
funcionava como um pátio e que possuía uma cobertura em ferro forjado não contínua,
a qual conferia uma melhor ventilação do espaço, tinha no entanto a desvantagem de
ser um espaço exterior estando deste modo sujeito à ação das chuvas.
As lojas relacionavam-se da seguinte maneira com a envolvente: num primeiro nível
viradas para a rua, e no segundo nível distribuiam-se em galerias viradas para o
interior do mercado, mantendo o caráter das feiras com bancas que possuíam a sua
própria cobertura, conferindo-lhe assim uma continuidade de tradição e um fluir do
projeto.
2.7.2 MERCADO CHAVES | MATOSINHOS | BOM SUCESSO
O Mercado de Chaves, o Mercado de Matosinhos e o Mercado do Bom Sucesso são 3
projetos concebidos pelos ARS Arquitetos, os quais se impõem na história da
Arquitetura Portuguesa nomeadamente entre os anos 30 e 50.
Formado pelos arquitetos Fortunato Cabral (1903), Morais Soares (1908) e Cunha
Leão (1909), em 1930 fundam o “ARS Arquitectos” gabinete de arquitetura. O mercado
de Chaves que não passou do papel, o mercado de Matosinhos (1936) e o mercado
do Bom Sucesso (1949) são alguns dos projetos feitos por este gabinete de arquitetos.
Julien Guadet foi um arquitecto e professor da Beaux Arts de Paris (Paris, 23 Dezembro 1834 –
Lugano, 17 Maio 1908)
27
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
São verdadeiros testemunhos que traduzem a influência pelos ideais do estilo BeauxArts.
Refletindo a arquitetura rigorosa e coerente, os espaços são pensados para o público
e para o próprio local onde se inserem, os seus programas são funcionais e
ambiciosos. São “praças públicas” locais onde existem trocas, saberes, bens,
conhecimentos, memórias.
MERCADO DE CHAVES
Proposto pelos ARS arquitetos, o mercado nunca chegou a ser construído. Negado
pelo Ministério das obras públicas na década de 40;
De acordo com Duarte Soares, citado por Sara Albuquerque, o mercado tinha uma
proposta inovadora e moderna. Todavia, a excessiva manutenção, a falta de
iluminação numa das partes, e falta de condições de higiene e salubridade e a
ventilação deficiente, foram alguns dos pontos apresentados para a rejeição do
projeto.
MERCADO DE MATOSINHOS
Embora menos visíveis que no mercado do Bom Sucesso, essas influências notam-se
“ainda ao nível da composição, marcadamente simétrica, nalgumas formas de
composição dos alçados e na hierarquia das fachadas.” (Ribeiro apud Albuquerque,
2011, p. 57). Foi entre a Rua de Conde S. Salvador e a Avenida Marginal que se
construiu o mercado de Matosinhos (1939 - 1952).
Ilustração 47 – Mercado de Matosinhos fotografia do interior e do projeto exterior, respetivamente. (A Voz de Leça, 2010).
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 48 – Perspetiva do mercado. (A Voz de Leça, 2010).
Ilustração 49 – Fachada principal do mercado. (A Voz de Leça, 2010).
Assim, num gesto orgânico o projeto adotou a mesma leitura do terreno, aproveitando
sabiamente o seu desnível. Outra mais-valia deste desnível foi a possibilidade de fazer
a separação entre o espaço público e o privado, “conciliando-o ainda com um
atravessamento transversal automóvel de serventia aos dois pisos que permitindo a
carga e a descarga de todas as mercadorias a partir do interior.” (Lemos, 2010)
Dotado de uma fabulosa plasticidade orgânica, o mercado de betão surge imponente
na cidade. Com dois pisos e de planta retangular, joga com várias entradas para o
peão que se pode movimentar pelo espaço através de um percurso ortogonal.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
A cobertura parabólica é o culminar da obra que unifica o mercado, tornando-o num
elemento coeso. Os rasgos existentes são preenchidos por lanternins de vidro o que
proporciona ao espaço a ilusão de um céu fictício além de uma forte iluminação. Na
cintura exterior o mercado tem lojas que são independentes e numa tentativa subtil
estabelecem uma conexão entre espaço de mercado e espaço público, rua.
Entre 2006-2009, o mercado é objeto de um processo de reabilitação, levado a cabo
pela Câmara Municipal de Matosinhos.
O projecto de execução contempla, para além da reabilitação da envolvente exterior
(vertical e horizontal) e das zonas interiores mais degradadas em consequência dos
defeitos da envolvente, acções de reabilitação complementar dos espaços interiores,
considerados convenientes pela entidade promotora – Câmara Municipal de
Matosinhos. (Abrantes, 2007)
MERCADO DO BOM SUCESSO
Com o crescente aumento populacional em finais do século XIX e o desaparecimento
do mercado do Anjo, tornou-se imprescindível a construção de um novo mercado para
o abastecimento da população. A falta de infraestruturas de apoio à população tornou
inevitável a expansão da cidade e de um novo plano para esta. Talvez por isso a
localização do mercado do Bom Sucesso tenha sido tão escrutinada, “”para outros
equipamentos com maior importância na representação do estado, (...) ditaram (...) a
decisão de implantar o novo mercado próximo do centro dessa nova zona de
expansão, que era a Rotunda da Boavista.”” (Ribeiro António apud Albuquerque, 2011,
p. 61).
Contrariamente ao mercado de Matosinhos o mercado do Bom Sucesso afirma-se
como uma peça arquitetónica libertando-se da tipologia de quarteirão. O seu percurso
interior é feito em conformidade com os eixos de simetria. Tal como no mercado de
Matosinhos as lojas que rodeiam o mercado abrem-se para a rua, estabelecendo uma
forte relação entre interior e exterior. A entrada imponente assinala o meio do edifício,
marcada pela presença de uma pala que sobressai perante a fachada do corpo
curvilíneo.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 50 - Interior do mercado do Bom Sucesso, Pedro Sarmento, 2009. (Pedro Sarmento, 2015).
Ilustração 51 - Interior do mercado do Bom Sucesso, Pedro Sarmento, 2009. (Pedro Sarmento, 2015).
Ilustração 52 - Fotografia aérea do mercado, Patrícia Carvalho, 2011. (Público, 2015).
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Organizado em 3 pisos o mercado divide-se assim: fachada sul, piso inferior, zona de
peixaria; fachada nascente e poente, piso intermédio, zona de carnes à esquerda,
zona de produtos agrícolas à direita; fachada norte, piso superior, zona de
armazenamento e zona privada.
Em 2009 o mercado passa a ser explorado pelo setor privado acabando por encerrar
em 2011. Dois anos mais tarde, 2013, o mercado sofre uma reabilitação projetada pelo
atelier Ferreira e Almeida Arquitectos.
Concluindo, os dois mercados, Matosinhos e Bom Sucesso, refletem a perfeita
integração entre estrutura espacial e construtiva. A sua naves monumentais e a beleza
das suas formas aliadas a uma racionalização dos meios, faz destes mercados um
exemplo de compreensão dos valores da sociabilidade e da urbanidade.
2.7.3 MERCADO DE OVAR | AMARANTE
Os mercados de Ovar e Amarante são da autoria do arquiteto Januário Godinho (1910
– 1990).
São dois mercados estruturados e pensados para funcionarem como dinamizadores
do espaço público. Assim, procuram estabelecer uma relação entre o mercado e a rua.
MERCADO DE OVAR
O mercado de Ovar foi construído 1950. É um espaço que apela à memória local,
deixando um pouco de lado a tipologia de mercado encerrado e criando uma relação
rural com o espaço público.
Era necessária a construção de um mercado em Ovar, este deveria dissimular-se na
malha urbana, requalificando o espaço público e dinamizando-o. O mercado seria
também um conector entre a vila e a costa marítima. Assim, a proposta inicial foi
abandonada pois não correspondia aos ideias de cidade-jardim.
Januário Godinho escolheu os terrenos baldios na zona tardoz da capela de Nossa
Senhora da Graça. O arquiteto utilizou a Capela como um elemento integrante do
mercado bem como a rua que se tornou parte integrante da proposta. Com uma
estrutura porticada e uma cobertura a duas águas o edifício em betão pré-esforçado,
requalifica o espaço exterior.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
O mercado distribui-se assim em quatro pavilhões (hortaliça, carne, peixe e fruta) que
se organizam mediante uma hierarquia interna e que por sua vez redesenham o
espaço público e criam uma unidade de cheios e vazios, perante uma malha
construtiva quadrada de 4,25 metros. Estes distanciam-se da rua o suficiente para que
esta possa respirar sem ser subjugada pelas lojas que têm uma zona de recepção.
Não obstante as lojas possuem um acesso duplo quer seja pela rua ou pela zona do
pátio interior, local onde se encontram as bancas. Deste modo, as bancas de produtos
agrícolas e animais vivos passam a estar viradas para o pátio, criando um espaço
venda unificado que se relaciona com o pátio. A circulação pelo mercado passa a ser
livre criando uma dinâmica própria entre o espaço de mercado e a rua.
Ilustração 53 - Mercado de Ovar após a reabilitação em 2012, Carlos A. Castro, 2013. (Carlos A. Castro, 2015)
Por sua vez, a zona de talho e peixaria, devido à necessidade de refrigeração,
encontram-se anexas às arcas frigorificas.
Em 2012 o mercado reabre após uma reabilitação, nomeadamente a nível do espaço
de feira, dos acesos e dos espaços de venda.
MERCADO DE AMARANTE
Localizado junto ao rio Tâmega o projeto unifica-se com a envolvente ao contrário do
que acontece no projeto do mercado de Ovar que visa separar a frente fluvial e a
frente urbana com recurso ao edificado.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Devido à topografia do terreno o mercado responde na mesma linguagem,
desenvolvendo-se em dois níveis. Assim, o piso superior fica reservado para a venda
de carne e peixe, enquanto que o piso inferior é a zona de venda dos produtos
agrícolas.
As lojas estabelecem uma relação entre o interior e o exterior, num espaço que além
de não ser hierarquizado, não apresenta uma distinção entre os diferentes conteúdos
programáticos. O mercado apresenta uma forma longitudinal com inúmeras aberturas
para a ventilação e iluminação interiores.
Deste modo, o projeto resolve-se pela cobertura contínua em módulos de face lateral
trapezoidal que unificam o programa e consequentemente todo o espaço interior.
Como exemplo temos o caso de Les Halles, em Paris.
Ilustração 54 – imagens exteriores do mercado com o pormenor da cobertura, 2011, Carlos A. Castro. (Carlos A. Castro, 2015).
Ilustração 55 – imagem do exterior e do interior do mercado respetivamente, 2011, Carlos A. Castro. (Carlos A. Castro, 2015).
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
2.7.4 MERCADO MUNICIPAL DE SANTA MARIA DA FEIRA
Iniciado em 1954 o mercado de Vila da Feira vai contra o movimento moderno. O
projeto de Fernando Távora evoca, assim, a tradição, a população e a identidade do
lugar. Foi inaugurado em 1959 e é tido como um ícone da cidade, sem precedentes.
Implantado no centro histórico de Santa Maria da Feira, numa zona residencial, o
projeto adapta-se ao desnível existente, criando duas entradas, uma em cada uma das
diferentes altimetrias, adquirindo todavia um carácter mais urbano na fachada virada
para a rua.
É um projeto feito à escala do homem, onde existe uma continuidade entre o exterior e
o interior, relacionando-se com a envolvente imediata. De traços tradicionais o projeto
prima pela decoração portuguesa como é o caso, por exemplo do recurso a azulejos
visíveis em alguns pontos do mercado. Outro exemplo é a utilização das janelas e
portas numa disposição que nos remete para a casa tradicional Portuguesa.
O projeto relaciona 4 estruturas que se distribuem em torno de um pátio e que se
inserem num quadrado de 50 por 50 metros subdividido numa malha quadrangular de
1metro.
O mercado de Santa Maria da Feira traduz assim uma proposta coesa e de traços
tradicionais e ao mesmo tempo modernos, relativamente à data da sua construção.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 56 – Umas das coberturas do mercado, Nuno Filipe Ferreira, 2008. (Nuno Filipe, 2015).
Ilustração 57 – Diferentes perspetivas do mercado, S72. (Space 72, 2015).
Ilustração 58 – Vista do mercado e planta do mercado, S72. (Space 72, 2015).
Ilustração 59 - Cortes do mercado A e B, S72. (Space 72, 2015).
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
3 PONTO DA SITUAÇÃO
O mercado apresenta-se como interessante objeto de pesquisa, não somente como
um importante observatório de variadas manifestações socioculturais condizentes com
o lugar em que se desenvolveram, mas também pelo caminho que percorreram ao
longo da cronologia deixando o seu testemunho na expressão arquitetónica,
traduzindo as suas diretrizes de influência relativamente a cada período da sua
história.
O mercado teve o seu início em espaço aberto, onde se desenvolviam múltiplas
atividades, pois era aí que ocorriam a maioria das trocas de bens de diversa natureza.
No entanto e num passado não muito distante, quando comparado com o inicio do
aparecimento dos mercados, verificamos que desde meados do século XIX e nas
primeiras décadas do século XX, se opera uma mudança no conceito de mercado,
apresentar-se como uma estrutura independente e autónoma.
Sensivelmente nas duas últimas décadas do século XX, assistimos também a uma
mudança a nível económico e sociocultural que conduziu a uma alteração na
mentalidade das pessoas relativamente ao conceito de mercado.
Convém ainda referir, que aliada a essa nova mentalidade se começou de modo mais
sério e objetivo a dar importância à obsolescência dos mercados face às outras
morfologias alternativas de mercado que começaram a surgir.
No entanto, e como tudo tem uma dinâmica associada, começamos a assistir no início
do século XXI a uma mudança de paradigma relativamente aos mercados
“Municipais”. Começaram a ser vistos como locais apetecíveis para alguns
consumidores que valorizam a variedade, a qualidade e essencialmente a
apresentação luxuosa de produtos que conciliam apresentação, distinção e status.
Estes são encarados como uma mais valia sendo considerados como um dos
“espaços–âncora” para a revitalização e requalificação dos centros urbanos,
conferindo-lhes uma modernidade captadora dos novos anseios do Homem urbano.
O aparecimento desta nova etapa na história dos mercados relativamente à
reabilitação dos mesmos, responde aos requisitos definidos pela nova urbanidade e
continua a correlação positiva entre reabilitação do espaço mercado e revitalização do
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
espaço público envolvente, vendo-se esta tendência reforçada pelo movimento de
apoio financeiro alocado à área da reabilitação, dinamizado pela CE.
Do meu ponto de vista o processo de reabilitação para ser bem implementado e
consequentemente bem sucedido, tem que ter uma relação sólida e coerente ao nível
comercial, funcional, dos serviços complementares de administração e gestão. Com
tudo isto, revela-se necessária uma ação planeada, organizada, executada e
controlada que garanta a eficiência dos projetos, quer sejam de pura reabilitação dos
mercados ou num misto que contemple a requalificação do espaço urbano.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
4 CASOS DE REFERÊNCIA
Os casos de referência são a pedra basilar na formulação da hipótese: a reabilitação
como motor dinamizador do espaço público. Assim, apresentam-se dois projetos de
reabilitação de mercados: o mercado do Carandá (Braga) e o mercado de Santa
Caterina (Barcelona) e um terceiro caso de referência o mercado de Barceló (Madrid),
que associa outros dois equipamentos públicos: uma biblioteca e um polidesportivo
para a revitalização e dinamização do bairro madrileno Centro.
Não descurando não a importância de outros casos neste estudo sob a reabilitação de
mercados e de centros históricos, sempre com o objetivo de colocar em perspetiva a
apropriação do espaço público numa tentativa de enriquecimento da cidade, podemos
definir alguns exemplos como: o mercado da Comenda que não é um caso de
reabilitação mas sim uma requalificação do espaço público tornando o mercado numa
zona “semi-rural”, em parte influenciado pela sua localização na Comenda, Portalegre.
Um projeto dos arquitetos: Maximina Almeira, Telmo Cruz e Pedro Soares, 2006. O
mercado Municipal de Atarazanas em Málaga, Espanha; um projeto de restauro e
remodelação, desenvolvido pelo atelier Aranguren & Gallegos Arquitectos, 2010. A
reconstrução do mercado de Ferro em Port-au-Prince no Haiti, uma estrutura que foi
pré-fabricada em França fazendo lembrar Les Halles, reconstruída e requalificada em
2011 pelo atelier John McAslan + Parteners. O mercado do peixe em Beşiktas em
Istambul, Turquia, uma remodelação que ficou a cargo do studio GAD (Global
Architectural Development), em 2013.
Concluindo, são variadas as reconstruções de antigos mercados que recriam o espaço
público e revitalização centros históricos um pouco por todo o mundo, comprovando a
existência de uma nova realidade nesta fase transversal da arquitetura contemporânea
do século XXI.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 60 – Mercado da Comenda, José Manuel Rodrigues. (ORDEM DOS ARQUITECTOS, 2015).
Ilustração 61 - Mercado Municipal de Atarazanas, Aranguren & Gallegos Arquitectos. (Archdaily, 2015).
Ilustração 62 – Mercado de ferro, Hufton+ Crow. (Archdaily, 2015).
Ilustração 63 – Mercado do peixe, Alp Eren. (Archdaily, 2015).
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4.1 MERCADO DO CARANDÁ
Embora seja um mercado antigo atendendo às restantes obras de referência o
mercado do Carandá é um caso de Reabilitação que aproveita o espaço pré-existente
do mercado e confere-lhe uma nova vida, um novo caráter, que neste caso, transforma
o mercado tradicional num mercado cultural.
Ilustração 64 – “Mercado do Caranda”, Duccio Malagamba, 1997. (Duccio Malagamba, 2008).
O mercado do Carandá é uma obra do Arquiteto Souto de Moura, projetado entre 1980
e 1984. Com dois pisos e organizado em 3 partes o mercado denota uma simplicidade
clássica, uma apropriação da identidade do local e uma relação sublime com a
envolvente. Uma estrutura linear nascida num lugar vazio entre duas porções da
cidade Braga (Avenida 31 de Janeiro e o Bairro do Carandá). “O sitio era aquele e só
aquele (...) era o encontro entre dois caminhos, eixos ortogonais do terreno (...) o
mercado pousou lá.” É assim que Souto Moura justifica a escolha do lugar, para
construir o mercado do Carandá.
Uma laje de betão suspensa que liga dois pontos, suportada por duas filas de pilotis e
muros de betão. Deixa todo um espaço amplo iluminado e bem ventilado.
O mercado denota claramente os modelos da arquitetura de Mies Van der Rohe.
Traduzindo-se num projeto leve que dissimula a sua complexidade resultando numa
sensação de algo soberbo.
Se por um lado os muros e pilotis apontam uma direção longitudinal o muro central
adquire a direção oposta, propondo-se transversalmente, uma força que faz rodar o
muro 90º marcando aí uma das entradas do edifício, fortemente assinalada não só
pelos planos como também pela transição de cotas aí existente.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 65 – Interior de algumas das salas de ensaio, 2012, Iduna. (Iduna)
Ilustração 66 – Fachada de Salas de ensaio da escola de música, 2012, Iduna. (Iduna)
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Todavia, o mercado acabou por não ser apoiado pela população que via naquela obra,
um local de passagem que unia o ponto A ao ponto B, condicionado pelas correntes
de ar que se produziam, tornando o espaço impróprio para desenvolver a função de
mercado. Deste modo,. Assim, a população continuou a utilizar o antigo mercado
municipal para fazer as suas compras. Inevitavelmente o mercado do Carandá
degradou-se mas o percurso pedonal permaneceu.
E aquele percurso que está por base, isto é, o projecto inicial do mercado Carandá está
inserido num plano antigo do Manuel Fernandes Sá e no qual havia um percurso
pedonal que recriava e mantinha aquilo porque é uma zona periférica a cidade. E esse
percurso de certa maneira era o percurso do mercado. O mercado que se desenvolve
nessa rua pedonal que era toda aquela zona debaixo da cidade que liga o polo de São
João, que na altura já estava desenvolvido em Carandá, eu acho que era o polo de São
João, aquela zona que agora acabou por ser a faculdade. Só que há uma coisa
engraçada nisso, é que a cidade cresceu brutalmente e cresceu nessa zona do
mercado não como serviços mas como uma zona residencial as pessoas continuaram
a utilizar esse percurso que nunca deixou de existir. (Peixoto, 2015)
Decorridos 20 anos, entre 1997-2001, Souto Moura requalificou o espaço a pedido da
Câmara que lhe forneceu um novo programa. “Neste projeto proponho retirar a
cobertura, desenhar um jardim, uma rua e construir o programa "cultural" no pouco
que ainda sobra.” (Reis, 2012). Acrescenta ainda dizendo: “«Nas várias visitas que fiz
à ruína, constatei que o mercado era usado como ponte, como rua, atravessamento
necessário entre dois eixos da cidade»” (Monteiro, 2013)
Habilmente reconverteu o mercado degradado num espaço cultural. Uma escola de
dança, um jardim e uma escola de música. Assim, o projeto foi organizado em duas
fases:
Na primeira fase da intervenção, foi edificado um novo corpo, encostado à antiga banca
do peixe, para acolher a escola de dança. Foi também redesenhado um percurso
pedonal que lhe serve de cobertura.
Com a intenção de “manter o testemunho da pré-existência”, Souto de Moura propôs
ainda um espaço para eventos culturais temporários, aí construindo uma nova bancada
e um expositor, à semelhança da banca do peixe.
Numa segunda fase, registou-se a demolição parcial do edifício existente, mantendo
apenas alguns dos elementos construtivos, nomeadamente as escadas e alguns
pilares. Foi igualmente construído um novo bloco, em dois pisos, destinado à escola de
música, um edifício que se destaca pela grande fachada envidraçada. (LUSA, 2013).
Em suma, o lugar foi redesenhado e reabilitado, perdeu a função de mercado
tradicional e ganhou a função de mercado cultural. Foram inseridas novos espaços
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como pátios e jardins e adquiriu a função imposta pelos moradores como local de
passagem.
Ilustração 67 – Mercado do Carandá, 2013, Solaz. (Wordpress, 2015).
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Ilustração 68 – Pátio interior, 2013, Solaz. (Wordpress, 2015).
“Do ponto de vista da implantação, o edifício apresenta uma forma rectangular, com
um comprimento de cerca de 70 metros orientado a Poente/Nascente e uma largura
com cerca de 22 metros. O edifício tem 2 pisos, sendo um deles enterrado onde se
encontram a cave e galeria técnica. Ao nível do piso térreo, apresenta um corredor
central que separa salas de aulas e gabinetes de um auditório, desenvolvendo-se este
desde o piso -1 até ao piso térreo.” (GOP, 2013).
Todavia, existe algo curioso nesta reabilitação, pois o arquiteto que construiu o edifício
foi o mesmo que o reabilitou e nesse caso a memória do autor é mantida na totalidade.
Existe assim uma memória da pré-existência como refere inúmeras vezes o arquiteto.
Também o seu colaborador Luís Peixoto tem uma opinião sobre estas memórias:
o que era essencial era o tal jardim das colunas e esse jardim das colunas precisava de
dois alçados. E esses alçados ficaram como se fossem memória e essa bancada ficou
como memória, atrás da qual se constrói um edifício. Para além dessa fachada para
além dessa memória, o edifício não aparece ele está sempre escondido atrás de préexistências. Mesmo a escola de música está sempre escondida atrás de paredes que
eram as que lá existiam. O que há de novo é o muro de granito, mas esse muro de
granito vai buscar uma parede típica daquela região. É uma coisa com textura
densidade, diferente daquela parede de reboco liso.
O cenário está lá constrói-se portanto atrás desse cenário. (Peixoto, 2015)
Uma das intervenções que marca o projeto é o jardim que surge, como local de
passagem, uma promenade.
As pessoas passam por ele, até porque lá há uma questão muito polémica no dia a dia
porque ele se fecha. Há um portão interior que abre e fecha e as pessoas querem fazer
o percurso por dentro, acham agradável aquele jardim que agora parece uma ruína. E
por exemplo se passar lá um dia, aconteceu-me isso, um dia fomos lá fotografar o
edifício e é curioso que aquilo continua com um percurso superior e o que passa agora
pelo jardim que é o jardim das colunas.
O mercado do Carandá reflete assim, um entendimento de uma arquitetura em
evolução. O mercado social não pede mais edifícios, pede a reabilitação dos edifícios,
a sua requalificação e a sua multifuncionalidade. O caso do mercado do Carandá
reflete isso mesmo, um mercado que perante o abandono e a degradação procura um
novo lugar no deambular do século XXI, encontrando-o efetivamente no compasso de
uma escola de dança e música.
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Ilustração 69 - Mercado no seu entorno, Giulia. (archidiap, 2015).
Ilustração 70 – Mercado, 2005, Roland Halbe, Alex Gaultier. (architizer, 2015)
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4.2 MERCADO DE SANTA CATERINA
Ciutat Vella, unlike other quarters of Barcelona, is a city in itself… this city within a city
seems to be the main feature of historical centers starting from this point everything
gets complicated. The present planning is unable to manage the complexity of the
situation and looking for short-term results, has unbearably limited the rules of the
game. To repeat. To make it again. The project must not exsist in a particular moment
in time, but in inhabiting it.
Our projects starts by criticising the actual planning and proposes a model that allows
for adaption to the area's complexity. Planning rules which contemplate something more
than the street width and the building height. (EMBT, 2015).
Localizado no centro histórico de Barcelona, em Ciutat Vella, o Mercado de Santa
Caterina foi construído sobre as bases do antigo mercado de estilo neoclássico.
É importante referir que antes de existir um mercado neoclássico existia o convento
dominicano de santa Caterina que datava do século XIII, destruído em 1835 para dar
lugar ao mercado Neoclássico.
Inaugurado em 1848 é uma obra de Francisco Vallés e Josep Mas i Vila, sendo mais
tarde construída a cobertura por Joan Torres. Considerado por muitos como a “Eiffel”
catalã, é o mercado coberto mais antigo de Barcelona, com uma área de cobertura de
9000m2, com 90 postos de venda e um pátio central.
Em 1997 Enric Miralles e Benedetta Tagliabue, EMBT Associates, ganham o projeto
para a reabilitação do mercado de Santa Caterina. O objetivo era a dinamização e a
regeneração da zona velha da cidade aliado a outros projetos como um bloco de
vivendas sociais, um parque de estacionamento e o prolongamento da avenida
Francesc Cambó. A reabilitação do mercado foi a peça chave para a recuperação de
una zona muito degradada.
Construído entre 1998 e 2003, o mercado foi inaugurado em Maio de 2005,
constituindo assim um novo “ícone arquitetónico” e uma atração turística. Podia ler-se
nos folhetos distribuídos aquando da construção do mercado: “uno de los ejemplos
más exitosos de arquitectura contemporánea en Barcelona.”
Os muros exteriores do antigo mercado foram mantidos e recuperados e sobre estes
sobrepõe-se uma cobertura irregular que cobre ¾ do terreno de implantação.
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Este projeto culmina com a dinâmica da sua magnifica cobertura, a qual resulta num
potencial contraste com o meio envolvente conferindo-lhe em simultâneo uma
simbiose de perfeita harmonia no conjunto. Projetada pelo artista Toni Comella, é um
elemento singular. Feita com betão, aço e madeira, de onde sobressai o mosaico feito
de 200.000 peças hexagonais de 15 centímetros cada uma. Numa gama de 67 cores o
mural é o desenho de várias frutas e legumes que se dispersam no movimento da
cobertura.
Dedicado a produtos exóticos e difíceis de encontrar, o mercado oferece uma enorme
variedade de produtos donde podemos destacar os ovos de avestruz, os vinagres
selecionados ou frutas exóticas. O mercado conta ainda com uma zona dedicada a
bares e a um supermercado.
Existe ainda o museu MUHBA (Museu d´História de Barcelona) que conserva parte
das ruinas do antigo mercado onde se descobriram vários objetos com mais de 4000
anos, provenientes da idade do bronze.
É uma peça arquitetónica que criou uma ponte entre o passado e o presente, um elo
de ligação entre o antigo e novo mercado que prima pela excelência do espaço
nomeadamente pela sua cobertura que visualmente nos conduz a uma ilusão de
ondas flutuantes, que sobressaem por entre a malha urbana edificada.
Ilustração 71 – Imagem da entrada pela Avenida Francesc Cambó, Giulia. (Archidiap, 2015).
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Ilustração 72 – Cobertura do mercado, Giulia. (Archidiap, 2015).
Ilustração 73 – Alçado da Avenida Francesc Cambó, Giulia. (Archidiap, 2015).
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Ilustração 74 – Planta do mercado, Giulia. (Archidiap, 2015).
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4.3 MERCADO BARCELÓ
“On the boundary between the historic center of Madrid and its later expansion,
surrounded by historical buildings and contemporary structures, narrow streets, plazas
and extensions, the market -whose interior fittings were not designed by the architectsexpresses itself as an autonomous volume, located at the confluence of the Mejía
Lequerica and Beneficencia streets. Separated by a narrow interior gallery-street of
marked vertical proportion, the sports pavilion juts out over the market, whose roof is
actually a large raised public terrace from which one sees the Madrid roofscape. The
library, located on the opposite side of the longitudinal plaza, hovers over the
schoolyard, to which it is attached to create a complex that is formally related to the
other buildings.” (Sobejano, 2007)
Ilustração 75 – Implantação das diferentes partes do projeto, 2015, Roland Halbe. (Archdaily, 2015).
Inaugurado em 2014, o complexo hoje existente o número 6 da Calle Barceló, Madrid,
veio substituir o antigo mercado que aí existia. Desenvolvido pelo atelier Nieto
Sobejano Arquitectos, o complexo envolve um conjunto edificado de 3 volumes
independentes: mercado, polidesportivo e biblioteca, que se conectam através de uma
praça pública e ainda, a resolução das praças de Alonso Martinez e Barceló bem
como das ruas adjacentes cuja pavimentação e mobiliário urbano respondem numa
mesma linguagem. Contudo, existe um último espaço que unifica o projeto e lhe
confere este caráter contemporâneo, funcional e plástico. Neste momento funciona
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
como mercado temporário (inaugurado em 2009, como elemento de apoio ao bairro)
enquanto o mercado não estava pronto.
O mercado, volume autónomo, é o núcleo e a origem de toda esta operação. Abre-se
para uma galeria que conecta com a rua e desenvolve aí as circulações verticais e
horizontais chegando ao corpo superior, o polidesportivo.
Apresenta-se como uma elevada galeria onde escadas rolantes sobem e descem até
à cobertura passando pelos destintos níveis do comércio. Grandes planos de vidro
deixam ver o interior recheado com as suas lojas de comércio onde, loja a loja, a
variedade de produtos e oferta é variada, desde os produtos agrícolas, ao pão caseiro
ou até mesmo às frutas cristalizadas que se vendem ao quilo.
Fora deste jogo de formas e percursos fica o núcleo de monta cargas, elevadores e
instalações sanitárias que se repete piso a piso, comunicando também com os
armazéns e com o estacionamento subterrâneo.
Por sua vez, o polidesportivo assoma-se ao mercado num gesto de envolvimento sob
este, criando uma segunda cobertura que na realidade funciona com uma praça
elevada de onde se vislumbra Madrid.
O corpo da biblioteca pública sobrevoa o pátio do colégio ao qual se une de modo a
criar um conjunto urbano, mas sem nunca abandonar a materialidade e carácter
unitário do polidesportivo e de mercado.
É um espaço público que através dos seus componentes e elementos estruturais cria
um âmbito coletivo e social. A praça que de um lado tem o mercado e o polidesportivo
cria um âmbito uma zona de distribuição de convívio e lazer antes do corpo da
biblioteca, paralelo ao mercado e polidesportivo.
O mercado temporal é uma estrutura reciclável que compreende um conjunto de 6
hexágonos de planta também ela hexagonal com diferentes dimensões e altura. Teve
a principal função de albergar os postos de venta que mais tarde se transladariam
para o novo mercado. Feito do mesmo material que as restantes peças este conjunto
deixa a luz natural entrar durante o dia convertendo-se numa mancha de 6 lanternas
durante a noite, que iluminam a zona envolvente.
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É um complexo de espaços públicos interiores e exteriores que transformam a cidade
madrilena criando espaços de passagem, espaços de permanência como os espaços
de estudo, lazer, ensino, desporto e consumo. É um puzzle no qual cada elemento
embora distinto do próximo estabelece uma relação, uma união e coesão que
justificam a escolha do lugar, material e forma.
Ilustração 76 – Corte pela zona de acessos aos diferentes níveis do mercado, 2015, Roland Halbe. (Archdaily, 2015).
Ilustração 77 – Corte pela zona de acessos aos diferentes níveis do mercado, 2015, Roland Halbe. (Archdaily, 2015).
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Ilustração 78 - o polidesportivo, atrás o mercado e à direita a biblioteca, 2015, Roland Halbe. (Archdaily, 2015).
Ilustração 79 – à esquerda o complexo mercado-polidesportivo-biblioteca e à direita o mercado temporário, C. Rosillo. (El Pais, 2013)
Ilustração 80 – O mercado temporário de noite, Diego. (Photo bucket, 2015)
Ilustração 81 – O mercado temporário ligação entre diferentes espaços, exterior, Diego. (Photo bucket, 2015).
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5 CASOS DE ESTUDO
Como referenciado anteriormente os casos de estudo visão a comprovação da
hipótese formulada no capítulo anterior.
À semelhança do capítulo anterior apresentam-se dois projetos de reabilitação de
mercados: o mercado de Campo de Ourique e da Ribeira e um terceiro caso de estudo
o mercado Municipal de Abrantes.
São três casos de estudo em território Nacional que comprovam a dinamização das
cidades e centros históricos com recurso à reabilitação delineada pela mão do
arquiteto.
5.1 MERCADO CAMPO OURIQUE
Campo de Ourique é um bairro projetado pelo Arquiteto Frederico Ressano Garcia,
que após o terramoto de 1755 inicia a sua apressada construção devido ao aumento
demográfico. Assente numa malha ortogonal, o bairro Lisboeta guia-se por linhas
retas, ruas largas e quarteirões pensados. Podemos afirmar que é uma franca
aplicação da malha Hipódamica como no caso de Mileto na Grécia antiga, já abordado
nesta dissertação.
O “Mercado Municipal de Campo de Ourique”, localizado na Rua Coelho da Rocha no
bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, foi mandado construir por iniciativa de José
Dionísio Nobre, empresário e residente no bairro, sob o projecto do arquitecto António
Couto Martins. Foi inaugurado a 14 de Abril de 1934, depois do espaço ter sido
concessionado, ao construtor e seus herdeiros, por um período de 40 anos, findo o
qual, a gestão passaria para a tutela da Câmara Municipal de Lisboa em 1973. (Leite,
2015).
Ilustração 82 – CML, plantas do antigo mercado de campo de Ourique, arquivo fotográfico, 1993. (CML, 2015)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Trata-se de um edifício de desenho simples, a sua forma trapezoidal insere-se num
quarteirão, permitindo uma leitura unitária com o resto da envolvente. De fachada lisa,
a monotonia é cortada pelas pilastras e balanço de cimalha.
Nos anos 80 sofre uma intervenção como resposta à crescente população que via no
mercado de campo de Ourique o local para fazer as compras do quotidiano. O projeto
fica entregue aos arquitetos José Daniel Santa-Rita, Alberto Oliveira e Rosário
Vernade. O seu principal objetivo era: a ampliação, a remodelação e reparação do
mercado. Alteram o desenho da fachada sul através de uma ampliação de modo a
ocupar a totalidade do terreno do mercado.
Apostam na remodelação e reparação do espaço interior, substituindo elementos e
recuperando valores estilísticos.
Ilustração 83 – Mercado de campo de Ourique, Vasco Gouveia de Figueiredo. (CML, 2015)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 84 – Mercado de campo de Ourique, Vasco Gouveia de Figueiredo. (CML, 2015)
Ilustração 85 – Proposta de reabilitação do mercado com os novos espaços gastronómicos. (Joana e Manel, 2015).
Em meados de 2007 o mercado sofre uma reabilitação a cargo do município de Lisboa
e mais tarde, em 2011, uma nova reabilitação, pelo atelier Profico. Com a introdução
de 4 novos quiosques semelhantes aos que encontramos no mercado de San Miguel,
em Madrid.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Estas 4 novas estruturas vieram dinamizar a zona que antigamente dava lugar às
bancas de hortofrutícolas. Forma-se, assim, o espaço gastronómico do mercado.
Ancorado à malha pré-existente, cada pórtico funciona como uma banca gigante que
se divide em várias mini bancas. Estas expõem os produtos para o exterior utilizando
vitrines paralelepipédicas de vidro. Estas permitem utilizar a face superior como
balcão; tendo ainda dissimulada a função de permitir uma visualização dos produtos
dando enfâse à expressão “os olhos também comem”.
Foi assim criada uma nova envolvência um novo âmbito. O espaço de mercado
tradicional converge com o espaço de mercado gastronómico através da malha e dos
equipamentos, o culminar destes espaços está repleto de mesas e cadeiras e é o sitio
ideal para apreciar a magnificência deste mercado, dando largas às horas de convívio
e lazer, cada vez mais apreciados e valorizados por cada um de nós.
Ilustração 86 – Planta esquemática do mercado e posição na envolvente. Legenda: 1. Rua Coelho da Rocha | 2. Rua Francisco
Metrass | 3. Rua Padre Francisco | 4. Rua Ten. Ferreira Durão. ([Adaptado a partir de:] Microsoft Corporation ; Mercado de Campo de
Ourique, 2015).
Damos conta de que o mercado pelo seu exterior é uma casca que envolve a
verdadeira essência do espaço interior.
Pelo exterior observamos uma forma mais ou menos regular, composta por 5
entradas, a entrada principal na Rua padre Francisco, que se abre para o jardim que
circunda a Paróquia De Santo Condestável, num contínuo de paredes brancas onde
janelas e portas apresentam uma métrica formal e regular, um típico mercado
neoclássico. (As lojas abrem-se para o exterior onde cafés, lavandarias e restaurantes
deixam espreitar para o interior. Outras como talhos e peixarias mantêm a porta
fechada sendo o seu acesso feito pelo interior do mercado.) mas que recorre a uma
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
cobertura típica dos mercados modernos. (utilizando uma estrutura em aço e madeira,
revestida a telha marselha, os três telhados de duas águas respiram nos “entretelhados” com a introdução de lanternins que além de iluminarem os espaço lhe
proporcionam uma excelente ventilação e climatização.)
Quando entramos no mercado o exterior é guardado numa memória. Agora a vivência
é outra, os olhos percorrem as bancas repletas de cor, cheiros e sensações trazidas
pelos diversos produtos que ali se encontram. Ficamos rendidos à energia que o
espaço interior nos transmite, levando-nos à sensação de lugar ideal.
D. Aurora, com 73 anos, conhece o caminho para o Mercado de Campo de Ourique
desde os 12 quando a sua tia, que já aqui vendia, a foi buscar a Trás-os-Montes para a
trazer para “estas andanças”. Desde então, não mais a esqueceram – “Sou como uma
herança nas famílias dos meus fregueses, passo de geração em geração” – diz com
um sorriso orgulhoso. Para a D. Aurora os clientes são como família e, por isso, fazlhes o gosto de lhes levar a fruta arranjada a casa, sempre que precisam. [...] “Juntos
vamos vencer” é o lema da D. Aurora para este novo projeto. (Mercado de Campo de
Ourique, 2013)
Em funcionamento desde 2013 o mercado tem vindo a crescer continuamente, é um
espaço com identidade e dinâmica que promove o convívio e reunião entre gerações.
Ilustração 87 – Interior do mercado de campo de Ourique, MERCADO DE CAMPO DE OURIQUE, 2014. (MERCADO DE CAMPO DE
OURIQUE 2015).
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5.2 MERCADO DA RIBEIRA
O mercado da Ribeira bem como o mercado da Praça da Figueira, anteriormente
abordado, foram os dois mercados que constam nas plantas de reconstrução de
Lisboa na consequência do terramoto de 1755.
Da autoria de Carlos Mardel, os mercados eram uma demonstração clara da
necessidade de assegurar a existência de estruturas comerciais alimentares.
Era um mercado provisório, inaugurado em 1771 como “Mercado da Ribeira Nova” e
que se manteve ativo por 100 anos, em frente à casa dos bicos. Sem qualquer
estrutura, o espaço quadrangular não era mais do que um aglomerado de bancas ao
ar livre para venda de peixe.
Ilustração 88 – Antigo mercado da Ribeira em 1771, João Portugal. (Arquivo Municipal de Lisboa, 2015).
Ilustração 89 – Novo mercado 24 de Julho de 1882, Joshua Benoliel, 1912. (Arquivo Municipal de Lisboa, 2015).
É em 1882 que abre ao público o novo mercado da ribeira, obra do arquiteto Frederico
Ressano Garcia, ficando conhecido como Mercado 24 de Julho.
À semelhança do mercado do Bolhão era um muro de lojas com uma praça interior, a
céu aberto. O mercado foi sofrendo sucessivas ampliações e remodelações sendo
parcialmente destruído por um incêndio em 1893.
Demolido em 1926, “a sua reconstrução ficou a cargo do arquitecto João Piloto tendo
sido concluída em 1930, com a instalação da cúpula, com um lanternim, revestida por
azulejo por fora e com um tecto pintado por dentro.” (Leite, 2014)
Dedicado sobretudo à atividade do comércio grossista, o mercado de estilo moderno
português continha elementos tradicionais como os azulejos e a sua entrada
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
monumental com a cúpula que se destacava na Avenida 24 de Julho. Alvo de várias
reformas era um mercado luminoso, ventilado e com condições de salubridade.
No ano 2000, é desmantelada a atividade de comércio grossista, sendo esta
transferida para o M.A.R.L., e procede-se à reconversão para um mercado retalhista.
Em 2001 com a inauguração do piso superior o mercado experimenta “uma nova
vertente social, cultural e recreativa.”
O espaço foi-se degradando, os clientes eram poucos ou nenhuns. Tornou-se num
mercado adormecido numa das avenidas mais movimentas da cidade. Desvirtuado
pela “crise dos mercados” que foram abandonados, caminhava para o destino de
tantos outros, fechar as portas.
Todavia em 2014 dá-se um “volte-face” quando a empresa “Time Out” ganha a
concessão sob o direito de exploração deste espaço de 3000m2, durante 20 anos.
Aproveitando a sua localização, o fácil acesso e a própria imagem imponente do
edifício que se destaca na 24 de Julho, o espaço que se abre mostra o novo conceito
de mercado do século XXI numa mistura de tradição, cultura e gastronomia.
A Time Out propõe a reabilitação do mercado ao atelier Aires Mateus, cujo conceito de
intervenção visava a recuperação e o restauro do edifício do Mercado da Ribeira
através da intervenção arquitetónica. “Houve um concurso internacional e nós fomos
convidados pela Time Out para fazer parte da equipa.” (Aires Mateus, 2015) Ao
programa proposto pela CML procurou responder através de uma linguagem de
restauro ténue que não perturbasse o existente, de modo a preservar as
características pré-existentes.
Ao lado do mercado o jardim D. Luís também foi alvo de uma profunda reabilitação
através de um plano de pormenor executado pelo arquiteto João Luís Carrilho da
Graça. O jardim contou com uma profunda restruturação e com a introdução de um
parque de estacionamento a nível subterrâneo. Um projeto que veio dar apoio ao
mercado e a toda a zona envolvente.
Identidade cultural, memória coletiva e referencia patrimonial e urbana são alguns dos
valores defendidos neste projeto que propõe uma integridade arquitetónica além de
uma clareza formal. “Funcionalidade, mas sobretudo uma certa ideia de festa e
comunhão. Criar possibilidade de partilha.” (Aires Mateus, 2015)
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
O mercado organiza-se em dois espaços, duas naves ligadas por um corredor central.
De um lado apresenta-se a nave que corresponde ao mercado tradicional e do outro a
nave correspondente ao “espaço Time Out” no corredor central lojas de floristas,
peixaria e talhos rematam a união das naves.
Ilustração 90 – Fotografia aérea do mercado da Ribeira. (Ilustração nossa, 2015).
Não obstante se as noites são de “festa e comunhão”, o mesmo não se pode dizer do
dia onde o mercado tradicional encontra os mesmos desafios e problemas do
passado. Os feirantes sentem que a reabilitação do mercado não foi suficiente para
dinamizar o comércio, e deste modo a parte do mercado tradicional não evidência
grande diferença no volume de clientela que por ali passa, nas pacatas manhãs.
Existe até quem pense que o objetivo desta reabilitação é “expulsar” os comerciantes
do mercado.
Não é uma decisão que dependa da nós. No entanto penso que as duas funções
podem e devem coexistir, penso até que ambas ganhariam em estar menos
segmentadas fisicamente. Acontece que a morfologia do espaço (2 grandes naves
separadas por um corredor central) e a separação decidida pela C.M. de Lisboa em
parte concessionada e mercado tradicional resultaram assim. (Aires Mateus, 2015)
Nas noites é “a nave do mercado Time Out” que reina e se converte num aglomerado
de gentes que enfatizam a versatilidade do espaço e a sua constante inovação. É local
de paragem obrigatório para muita gente que ali descontrai após um dia de trabalho
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antes de seguir viagem até casa. Um contraste bastante acentuado que mais uma vez
reforça a descredibilização do mercado tradicional no século XXI.
Ilustração 91 – Interior da nave correspondente ao mercado tradicional. (José Leite, 2015).
Ilustração 92 - Interior da nave correspondente ao mercado Time Out, (José Leite, 2015).
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Ilustração 93 – Planta do mercado da Ribeira. (AIRES MATEUS, 2015).
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5.3 MERCADO MUNICIPAL DE ABRANTES
Este projeto é um caso particular de reabilitação. Não existiu, como já referido, a
reabilitação de um mercado tal como no caso de referência do mercado de Barceló em
Madrid. Todavia o conceito base de reabilitação e dinamização encontra-se presente;
a reabilitação da cidade e do espaço público continua a responder a esses mesmos
princípios. O espaço arquitetónico expande-se para lá das paredes do mercado e
passa para as ruas para a cidade e o processo inverte-se. Das ruas da cidade do
vazio do lote surge o projeto de mercado.
“O Mercado Municipal de Abrantes localiza-se na transição para o centro histórico, no
espaço das antigas oficinas da Rodoviária do Tejo, cujo avançado estado de ruína
recomendou a sua total demolição.” (ARX Portugal Arquitectos, 2015).
Assinado pelo atelier ARX do qual fazem parte os arquitetos Nuno Mateus e José
Mateus, o novo mercado de Abrantes vem substituir o antigo e não reabilitá-lo.
Ilustração 94 – Exterior do mercado Municipal de Abrantes, Fernando Guerra | FG+SG. (Archdaily, 2015).
Não obstante verifica-se própria a reabilitação do centro da cidade; com o intuito de
revitalizá-la. Como nos explica a Arqª Sara Morgado, da Câmara Municipal de
Abrantes:
“Como é do conhecimento geral, os mercados eram, no passado, pontos de encontro
que, além da função comercial, eram uma representação cultural e a tradução da
produção agrícola no estabelecimento de novas urbanidades.
O mercado de Abrantes foi sempre um mercado dinâmico, embora modesto. Durante
décadas comerciantes e população reivindicaram uma intervenção urgente no mercado
diário municipal, por se encontrar na generalidade bastante degradado e desadequado
em termos de utilização prática e de condições higio-sanitárias, pelo que foi opção do
executivo municipal proceder à construção de um novo edifício, no local das oficinas da
Rodoviária do Tejo, com linguagem contemporânea e dotado de todas as
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
infraestruturas necessárias ao seu funcionamento e de condições de segurança e de
meios que permitissem a acessibilidade para pessoas com mobilidade condicionada.
A opção em tornar, com carácter mais permanente, o antigo mercado num ponto de
confluência de culturas ou de construir um novo, pensado especificamente para a sua
função mais nobre de abastecimento de produtos, foi consciente e reveste-se hoje,
nesta inauguração, de uma afirmação de liberdades e de colocar ao serviço das
populações um novo espaço, funcional, digno, vivo, dinâmico e apelativo, que fidelize
cidadãos ao comércio tradicional.
Assim, o novo mercado assume-se na cidade como um corpo moderno e
contemporâneo. Situa-se num lote urbano entre duas ruas com cotas distintas: “em
baixo (a poente) o Largo do Tribunal, e em cima a nascente, a rua Nossa Senhora da
Conceição. É um lote extraordinariamente estreito para o programa em causa, que
marca decisivamente o projecto desenhado.” (ARX Portugal Arquitectos, 2015)
Ilustração 95 – Escadaria de acesso da rua à cota inferior para a rua na cota superior. (Ilustração nossa, 2015).
O mercado vem resolver os problemas de acessos existentes e permite ligar as
diferentes cotas...
Mas aquilo que consegui verificar foi que o mercado era muito usado, de uma maneira
que nós tínhamos como um dos aspectos centrais do projecto. A ligação das ruas a
cotas completamente diferentes ou seja, antes da construção do mercado as pessoas
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
tinham que dar uma grande volta para ir de baixo em frente ao tribunal para aquelas
cotas mais altas. E depois há muita gente com dificuldades de mobilidade pessoas
mais idosas, há pessoas que têm carinhos de bebé, miúdos, etc..
E um dos primeiros objetivos era o mercado ser também uma rua, portanto há a grande
escadaria mas também há o elevador também, que é muito importante para quem
dificuldades de mobilidade. E isso é algo que para além do funcionamento em si o lado
comercial e o encontro das pessoas ali, era algo que estava na nossa mente e que
funciona plenamente. (Mateus, 2015)
Ilustração 96 – Perspetivas interiores do mercado. . (Ilustração nossa, 2015).
Ilustração 97 – Fotografia aérea do mercado Municipal de Abrantes, Fernando Guerra | FG+SG. (Archdaily, 2015).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
O mercado é um corpo de betão aparente pintado de branco que destoa na rua de
casa com telha portuguesa. Assume-se como novo, como sinal de mudança. No
coroamento do edifício existe um interrupção do betão que subtilmente se converte em
vidro translúcido e deste modo permite a iluminação dos restante pisos, através das
sucessivas interrupções nas lajes; criando aquilo a que poderíamos chamar um
corredor vertical de luz, permitindo a observação dos vários pisos em diversos pontos
do mercado. É um espaço contínuo que nos remete, um pouco para as trocas
mercantis de rua. Existe uma simbiose perfeita entre o espaço de mercado e a rua.
Citando novamente as palavras da Arqª Sara Morgado:
“No limite, como ainda acontece em diversas civilizações, o mercado acontece na
própria rua onde os comerciantes vendem a quem passa os seus produtos em
bancas e coberturas improvisadas, numa diluição ou coincidência total do espaço
‘mercado’ no espaço urbano.
O novo Mercado de Abrantes é simultaneamente edifício e rua. Através dele passa-se
de uma rua para outra, seja de forma directa através da escada que se abre no limite
norte, ou deambulando entre bancas e a escada em espiral situada no limite sul. (ARX
Portugal Arquitectos, 2015)
O corpo do mercado prima pela sua multifuncionalidade e lógica. Se hoje aquele corpo
de betão é um mercado amanhã poderá ser uma escola de dança, como acontece
com o mercado do Carandá.
Refere-se ainda que foi opção estratégica, assumida pela Câmara Municipal de
Abrantes, conferir uma nova função ao local, numa lógica de articulação de diversas
zonas do centro histórico de Abrantes e de ligação da cidade baixa com a cidade alta,
designadamente o Vale da Fontinha, o Largo 1º de Maio, e o Jardim da República.
Assim, integrado numa estratégia global, oferecemos um novo percurso pedonal dentro
da cidade, através de um elemento tradicional dos centros históricos, uma escadaria de
usufruto público, entre o Largo 1.º de Maio e a Rua de Nossa Senhora da Conceição,
onde está a ser construída futura Unidade de Saúde Familiar de Abrantes. Este
percurso pedonal terá continuidade futuramente, através da ligação pedonal prevista na
Unidade de Saúde Familiar de Abrantes, também através de uma escadaria que
permitirá estabelecer a ligação pedonal, ao Jardim da República. Paralelamente foi
prevista a acessibilidade a utentes com mobilidade condicionada neste novo percurso,
através de uma ligação vertical efetuada por elevadores.
É urgente pensar que da mesma maneira que a sociedade se transforma a arquitetura
também se transforma, é uma metamorfose à qual devemos corresponder. A
arquitetura deve cada vez mais ver na reabilitação dos espaços um mote para avançar
no tempo, ver mais à frente e procurar o que está por descobrir.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 98 - Planta do último piso do Mercado Municipal de Abrantes, ARX. José Mateus (2015).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Ilustração 99 – Corte pelas escadas em orgânica no interior do Mercado Municipal de Abrantes. José Mateus (2015).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
6 CONCLUSÃO
Ilustração 100 – Esquema sintese da evolução do mercado ao longo da História. (Ilustração nossa, 2015).
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
O gráfico a cima ilustrado mostra o processo evolutivo do mercado na História da
cidade e do Homem. “Vivemos numa sociedade urbana, que mudou muito nas últimas
dezenas de anos e que está ainda, como é evidente, em processo de evolução”.
(Ascher, 2012, p. 99)
Neste momento, vivemos uma terceira revolução urbana, é na cidade que se aplicam
os novos princípios do urbanismo definidos por Ascher. “Conceber os lugares em
função das novas práticas sociais” (Ascher, 2012, p. 86)
A cidade é a mãe, o mercado o filho primogénito arrogando-se este como ponto de
partida para esta metamorfose arquitetónica. Transforma a cidade através da criação
de espaços de gastronomia, de cultura e lazer. O arquiteto tem uma vez mais um
papel fundamental no desenvolvimento da cidade, reinventando os mercados,
apresentando-os como um espaço multifuncional, versátil e identitário.
O mercado é a rocha, esculpida e identitária, o interior é o espaço que nasce,
recriando-se à imagem de uma “sociedade hipertexto”. Os laços não desapareceram,
as pessoas é que os vivem de uma nova maneira. O papel que outrora o mercado
ocupava na vida dos nossos avós e bisavós hoje já não pode ser “um papel” é um
“whatsapp”. Assim, do mesmo modo que as relações mudam o espaço, também muda
o mercado e o seu conceito tradicional deixará de existir num futuro próximo. Este é o
momento de ver o mercado não como um “muribundo” mas como um espaço que
deve e pode ser revitalizado, reabilitado.
Os casos do mercado de Campo de Ourique e da Ribeira demonstram exatamente a
aplicação destes princípios. Espaços que se constroem baseados nos mesmos
princípios dos mercados como: San Miguel em Madrid, La Boqueria em Barcelona ou
até mesmo o mercado central em Budapeste. São mercados que refletem o modo
como a arquitetura intervém no espaço sem destruir a identidade pré-existente e
implementando conceitos contemporâneos.
Para se apresentar como um espaço reversível é importante manter fresco o espírito
de mudança. “A estagnação é a morte do artista”. O mercado tem de se apresentar
como um espaço reversível e que procura incessantemente à sociedade e às
expectativas de quem o procura.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
O mercado tem de se apresentar como um convite, uma imagem do melhor que uma
cidade pode oferecer, tanto a nível de gastronomia como de cultura e artesanato. Ele é
uma montra do que podemos oferecer à população e aos turistas.
A época do «señorito satisfecho» terminou ou existe ainda em sectores que vivem em
regime de artificial felicidade ; o momento é de consciencialização e de revisão, de
acerto de valores e também de reencontro, não podendo esquecer-se que os
problemas são vastos porque a rapidez da evolução e o desejo crescente de um
mundo melhor não permitem a sua cómoda mas impossível limitação. (Távora, 2007, p.
33)
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspetivas de Apropriação do Espaço Público
Mariana Marques Henriques
154
APÊNDICES
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
LISTA DE APÊNDICES
Apêndice A
-
Entrevista Arq. Luís Peixoto, Souto Moura - Arquitectos –
Mercado do Carandá
Apêndice B
-
Entrevista Arq. Francisco Aires Mateus, Atelier Aires Mateus –
Mercado da Ribeira
Apêndice C
-
Entrevista Arq. José Mateus, ARX arquitectos – Mercado de
Abrantes
Apêndice D
-
Texto redigido pela Arqª Sara Morgado, Câmara Municipal de
Abrantes – Mercado de Abrantes
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Mariana Marques Henriques
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APÊNDICE A
Entrevista Arq. Luís Peixoto, Souto Moura - Arquitectos – Mercado do Carandá
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
A respeito do mercado do Carandá.
Ao longo desta última década a reabilitação dos mercados, em Portugal, tem vindo a
reconquistar a população. Existe uma revitalização deste espaço público que, por sua
vez, se relaciona com a envolvente imediata, acabando por influenciar a dinâmica da
cidade.
[M.H.] - 1. Entre 1997-2001 o referido mercado foi reconvertido num “Mercado
cultural”. O que é que o levou a fazer esta alteração no programa?
[Arq. L.P.] - Foi a própria câmara que pediu ao arquiteto Souto Moura para reformular
o projeto que na altura tinha problemas sérios de conservação e de funcionamento.
Este mercado deixou de funcionar porque o mercado antigo28 continuou a funcionar
muito bem em termos económicos. As pessoas continuavam a ir, fazer as compras,
até há por hábito uma feira, que é à terça-feira.
E é aquele percurso que está por base, isto é, o projeto inicial do mercado Carandá
está inserido num plano antigo do Manuel Fernandes Sá e no qual havia um percurso
pedonal que recriava e mantinha a ligação, de uma zona periférica para a cidade. E
esse percurso de certa maneira era o percurso do mercado. O mercado que se
desenvolve nessa “rua” pedonal e que liga o polo de São João, que na altura já estava
desenvolvido em Carandá, aquela zona que agora acabou por ser a faculdade.
Só que há uma coisa engraçada nisso, é que a cidade cresceu brutalmente e cresceu
nessa zona do mercado, não como serviços, mas como uma zona residencial as
pessoas continuaram a utilizar esse percurso que nunca deixou de existir. E esse
percurso pedonal, é uma coisa engraçada, é que mesmo durante a obra, na ultima
fase em que tivemos de fechar parte do percurso. Mesmo assim as pessoas
continuavam a fazer esse percurso pedonal. Noutra altura, em que tivemos de
substituir uma escada, as pessoas encontravam uma outra forma de subir. É um
percurso de memória de ligação dois pontos da cidade, que pedonalmente funcionou e
continua a funcionar.
28
Mercado Municipal de Braga
Mariana Marques Henriques
161
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
E aquele percurso de reconversão é uma escada que sobe por cima do museu cultural
liga ao centro de saúde e existe lá ao fundo e à zona de habitação social e serviços do
outro lado da cidade, isso continua a existir.
E o que acontece, voltando à primeira questão foi mesmo um pedido da câmara que
pediu ao arquiteto Souto Moura que reformulasse o projeto, surgiu esta história do
edifício cultural, embora a cidade se tenha desenvolvido muito a nível de habitação e
de serviços, faltava uma outra componente à cidade de Braga, que é uma coisa que
ainda hoje, se vai colmatando, esse défice, que é a cultura. Braga é uma cidade muito
virada para trabalho, muito virada para construção civil e que se viu pouco a si própria
dedicada à cultura.
O que havia eram alguns sítios onde existiam escolas de bairro de música e de dança
que não tinham condições, portanto essa sugestão veio do autarca29, da autarquia. Já
que tinham essas actividades que funcionavam como: escolas que funcionavam,
actividades que funcionavam mas que não tinham um espaço com condições o
mercado veio criar essa oportunidade. Mantemos o percurso, mantemos o sítio, mas
dar-lhe uma outra função já que a função para a qual foi projetado inicialmente de
mercado, deixou de funcionar.
É curioso porque é uma coisa de própria cidade, das pessoas que ainda hoje, não
aderem muito aos shopping’s da periferia, continuam sempre a ir ao centro, À baixa
fazer as suas compras. É uma coisa de memória, que ali resulta muito bem.
Bom, mas o que levou mesmo à alteração foi o pedido da autarquia. Que também
tinha haver com a degradação do edifício. Eles tinham duas hipóteses, ou
recuperavam o edifício ou o deixavam a degradar-se. Mas ao recupera-lo nunca seria
como mercado, portanto tinham de arranjar outro uso, a escola.
[M.H.] - Acaba por ser curioso porque em Lisboa perdeu-se um pouco essa memória.
Mesmo com o projeto que houve no mercado da Ribeira. Eu à pouco tempo estive lá e
os próprios lojistas dizem que, mais dia menos dias vão fechar porque efetivamente há
muita gente no mercado mas lá está: essa gente frequenta o novo mercado numa
questão cultural, gastronómica, lazer etc. Mas no caso do mercado tradicional, os
comerciantes dizem que se antes não tinham clientes que agora independentemente
29
Mesquita Machado.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
da intervenção e das obras não sentem que haja mais clientes. O que há é o turista
pontual que comprar numa questão de “curiosidade” do que numa questão de
necessidade.
[Arq. L.P.] - Sabe que aqui a cidade de Braga, pós 25 de Abril, o que se vê é uma
cidade teve momentos estratégicos distintos ligados a uma pessoa que é o autarca e
que esteve ligado à autarquia durante 38 anos. Numa primeira fase havia um
problema de habitação, de construir. Numa segunda fase a universidade, eles queriam
atrair pessoas novas numa perspetiva de crescimento. E o crescimento trouxe
construção civil muito forte, para Braga. De repente temos a universidade cheia de
apartamentos, cheia de habitação tudo igual. Tinhas muita gente jovem da
universidade do Minho mas cultura zero. Portanto, isto tem haver também com a
evolução da própria cidade e o mercado atravessa esses mesmos momentos.
Esse autarca também acompanhou todo este processo e é o mesmo que pede ao
Souto Moura para fazer o mercado nos anos 70, numa perspetiva, numa ideia de visão
da cidade que depois com o bum da construção dos anos 80 se alterou
completamente. E ao alterar-se é a mesma pessoa, o autarca, que vai pedir ao mesmo
arquiteto, o autor do mercado e dizer: “temos que reformular isto!” E é a autarquia que
diz possivelmente isto tem de ir para a cultura, porque há um défice de cultura na
cidade. E portanto edifício reformula-se, reformula-se o seu uso o que ajuda a própria
cidade.
Portanto, eu sou daquela zona e a história dele é de certa maneira também a história
da própria evolução que aquela cidade teve. E que tem duas pessoas, dois
protagonistas, que é o autarca que perante a situação pega no edifício e um arquiteto,
na altura um arquiteto jovem, que também é o mesmo arquiteto que vai fazer o
equipamento que se tornou o mais emblemático da cidade, o estádio de Braga. E que
por sua vez estabelece uma relação de identidade com as pessoas, o estádio acaba
por transmitir a ideia de: “Este é o nosso estádio!” é um meio de orgulho, quase! E
portanto é como pegar naquelas duas paredes e naquele percurso e faz-se ali a
história da cidade de Braga de 78 aos 2000.
E pronto é isso. Segunda questão.
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163
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
[M.H.] - Segunda questão, pronto a verdade é que a segunda questão, perante todo o
discurso já foi respondida. Porque era: “O que é que tinha levado à mudança de
atitude perante o mercado?” Mas no fundo já me explicou.
[Arq. L.P.] - Eu vou-te ser franco, na minha humilde opinião eu não concordo muito
com isto. Porque isto pressupõe que “se faz um edifício para ser visitado” e não é.
Acho que não, isto é, um pouco como quando se está a atuar numa ópera e se chega
ao fim e se pede para que os espectadores nos aplaudam ou pedir para depois de
atuarmos em palco que nos aplaudam. Não, faz-se a ópera, faz-se o nosso trabalho e
depois isso há-de trazer alguma reação.
Não se deve ter como ponto de partida os aplausos; imagina estás num platô, tens
uma função para desempenhar, ora a pessoa não está à partida à espera que o
aplaudam. Por isso, quando eu vi esta questão, a 2, eu acho que é, não é o arquiteto
Souto Moura não é esse o pressuposto. Não é o pressuposto de pôr-se em bicos-dospés e dizer às pessoas está ali o edifício. Até porque lá o edifício acaba por ser muito
discreto, ou seja é o edifício correto para aquele sítio. Que tem haver com uma coisa
que talvez seja mais urbana que propriamente o objeto em si, por isso é que ele se
esconde atrás do murro.
[M.H.] - Exato, o próprio edifício acaba por se enquadrar. A terceira questão: Perante a
“não aceitação” do anterior programa para o mercado é possível, hoje, percebermos o
motivo da mesma?
[Arq. L.P.] - Foi um pouco, o que estivemos já a falar relativamente a todo este
percurso que a própria cidade atravessou e que por sua vez, acabou por influenciar o
mercado.
É, por isso que eu tenho a ideia da referência. Se eu quisesse fazer... Imagina que eu
sou do exterior, não sou do exterior porque sou de lá, eu sou daquela zona. Mas se
pegar no tema do percurso pedonal que é o que faz o edifício, bom na verdade a
cidade que o faz. Porque ele de certa maneira é um equipamento não é um edifício,
não é uma habitação, é um edifício estação, um equipamento. Equipamento que num
dia era uma coisa e depois se transformou porque a cidade também se transformou.
Mas uma coisa que se tornou perene é o tal percurso, ou seja, e o percurso faz
daquele edifício estação um equipamento urbano. Ele é uma coisa mais urbana que
um objeto, as pessoas não vão vê-lo, as pessoas passam por ele, até porque lá há
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
uma questão muito polémica. É que existe um portão que se fecha e deixa de ser
possível o percurso interior. Porque as pessoas acham muito mais agradável fazer o
percurso por dentro, acham agradável aquele jardim que agora parece uma ruína.
Por exemplo, aconteceu-me isso um dia fomos lá fotografar o edifício e é curioso que
aquilo continua com um percurso superior mas as pessoas agora passam pelo
percurso interior, que é o percurso que se faz pelo jardim, conhecido como o jardim
das colunas.
Mas mercado tradicional continua a existir e está a funcionar no primeiro sitio. A
questão 430! O mercado existe e está a funcionar no mercado antigo. Braga é uma
cidade rural, é uma cidade com muitas aldeias com muita população à volta. É um
concelho muito pequeno cujas aldeias à volta têm muita gente. E o antigo mercado
tem uma coisa bestial porque é ao lado da central de camionagem que é onde toda a
gente chega e parte.
E dali chega muitas vezes a fruta que vêm dessas aldeias, dessa periferia que é logo
ali. Também, é uma das razões pelo qual o antigo continua a funcionar. Mesmo com
poucas condições e com pouco espaço. Mas agora está em concurso transformar uma
parte em mercado, transformá-lo numa zona gourmet. Mas eu como sou de lá,
gourmet em Braga, não acredito muito, a gente gosta é de bacalhau e de coisas
pesadas!
[M.H.] - Não é propriamente o gourmet aquilo que vos identifica gastronomicamente.
Questão 5, Este novo projeto conservou algumas partes do mercado antigo.
Incrementou novos elementos, nomeadamente um expositor relembrando a antiga
banca do peixe. O que o motivou?
[Arq. L.P.] - A questão é muito colocada para o arquiteto Souto Moura, isto tem muito
haver com a memória do próprio autor. Quando se reabilita um edifício cabe ao autor
da reabilitação o critério para saber o que fica e o que transforma. Eu sou apenas o
colaborador e assim devia ser mesmo o arquiteto Souto Moura a responder.
Mas eu acho que existe um texto sobre isso, deve haver textos sobre isso. Devem
estar por aqui algures mas falta-me é tempo para os procurar.
30
Podemos concluir que o mercado tradicional já não tem lugar na cidade? Porquê?
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Mas existem critérios, e o que era essencial era o tal jardim das colunas e esse jardim
das colunas precisava de dois alçados. E esses alçados ficaram como se fossem
memória tal como essa bancada, ficou como memória.
Para além dessa fachada para além dessa memória, o edifício não aparece ele está
sempre escondido atrás de pré-existências. Mesmo a escola de música está sempre
escondida atrás de paredes que eram as que lá existiam. O que há de novo é o muro
de granito, mas esse muro de granito vai buscar uma parede típica daquela região. É
uma coisa com textura densidade, diferente daquela parede de reboco liso.
O cenário está lá constrói-se portanto atrás desse cenário. O essencial era esse
cenário de ruína e que não se vai fazer de novo! O essencial era o que já estava e o
que vai ficando. Lá está tem tudo haver com a primeira pergunta, o que é que fica? Ele
agora está um pouco degradado está a precisar de manutenção por existe ali ao pé
uma discoteca e um bar, que pertence ainda ao primeiro mercado, e traz algumas
complicações.
[M.H.] - Próxima questão, acha que a reabilitação do mercado foi importante para
mostrar às pessoas o valor do lugar e o seu potencial?
[Arq. L.P.] - O potencial já lá existe, já lá está. O que se fez foi fazer algo que já era
evidente fazer.
[M.H.] - Considera que a revitalização do mercado, aliado ao facto de ter ganho o
prémio IHRU, foi um fator importante para que começassem a ser feitas mais
intervenções deste tipo?
[Arq. L.P.] - Não. Porque há obras mais importantes do arquiteto Souto Moura na área
de reabilitação. Essa é uma questão em que temos um caso particular, o arquiteto faz
um projeto, o projeto que se transforma e cria a ruína, e depois pega na ruína e
adapta-se à ruína, e volta a transforma-la. O arquiteto Souto Moura tem muita obra em
reabilitação e essas sim é que têm trazido reconhecimento, está não tanto.
[M.H.] - Eu achava que poderia haver alguma relação até porque o arquiteto Souto
Moura é um dos pioneiros no campo da reabilitação de mercados.
[Arq. L.P.] - Ele reabilita o seu próprio projeto, isso é verdade e é algo muito particular
que não se repete e não se vai repetir. Porque esta a reabilitar na memória daquilo
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
que já fez, naquilo que o próprio autor já fez. É uma coisa muito particular. Porque há
intervenções que são reabilitação, são edifícios feitos por outras pessoas feitos à 100
anos ou mais e que depois são reabilitados. E é essa aproximação e abordagem ao
edifício que muda. As memórias, os critérios de como intervir, são diferentes porque o
edifício não foi feito pelo mesmo autor. É uma coisa muito diferente, esta é uma
intervenção que não é tipificável é uma coisa muito individual.
[M.H.] - Sim de facto é algo individual. Por fim, estando a arquitetura num período de
crise, acha que o setor da reabilitação vai abrir a porta para um nicho de mercado?
[Arq. L.P.] - Este edifício é um pouco à parte disso. Mas agora a reabilitação é o tema
das cidades. É reabilitar o que existe, já se acabou com a vertigem do novo, com o
ocupar a periferia. Agora é uma arquitetura um pouco ecologista de parques e jardins
e de reabilitar o que temos.
[M.H.] - No fundo, parou aquele “bum dos anos 80” como referiu, e agora estamos a
virarmo-nos para esta questão da reabilitação.
[Arq. L.P.] - Agora o paradigma é outro. O paradigma social é outro neste momento
de crise há uma reflexão, há uma paragem mesmo em termos sociais políticos e tudo.
O que se pensava é que o caminho que era aquele da frente, a crescer a periferia, a
construir, construir, construir de repente não há mercados, depois isto está tudo ligado
e depois como se pára de crescer as pessoas voltam a olhar para o seu próprio
umbigo, e veem as memórias da cidade antiga e voltasse a intervir, na cidade antiga,
que entretanto ficou abandonada porque as pessoas foram todas para a periferia. E
isto é tudo um fenómeno social é um fenómeno onde toda a gente volta para o centro.
Por imensos motivos; Portanto isto não é bem o “nicho de mercado” é o mercado! Que
se vai alterando e nós vamos acompanhado não só como as arquitetos mas como
pessoas também.
Agora está um pouco em vogue as baixas e a reabilitação. Já é chique viver numa
casa antiga, dantes não era, era um paradigma social em que o que era interessante
era ter uma grande casa com um jardim e uma piscina. Hoje em dia já é capaz de ser
mais interessante viver no centro histórico, com umas vistas brutais sobre o rio.
Mesmo numa casa mais pequena mas talvez com ideia diferente de conforto, as
perspetivas sociais vão-se mudando.
Mariana Marques Henriques
167
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
No entanto, agora falamos sobre reabilitação, reabilitação, reabilitação, mas nós
próprios temos de nos reabilitar enquanto cidade, é uma coisa geral num momento de
crise. Portanto agora o paradigma também é construir com menos recursos e é
reconstruir.
[M.H.] - Mas de facto a crise na construção, foi o propulsor que nos levou a este
estado de reconstrução e reabilitação.
[Arq. L.P.] - A crise é uma coisa má, arranjamos-lhe uma conotação má, mas a crise
obriga as pessoas a reagirem. A política de expansão das cidades parou, é uma coisa
geracional.
Isto é uma coisa muito pessoal nem é como colaborador nem nada, mas as pessoas,
deste nosso Portugal. As nossas famílias vieram de uma geração em que as pessoas
tinham muito a ideia de pobreza porque viviam muito mal e portanto tudo o que
queriam fazer era negar as casas em pedra das aldeias rústicas nas quais passavam
muitas dificuldades, passavam muito frio, passavam fome e queriam nem que fosse ao
lado fazer uma casa nova e dizer: “eu estou bem na vida construi uma casa nova”.
Hoje em dia perdeu-se a memória desses tempos, porque a geração já é outra e já se
olha para esse edifício antigo que é a ruína e diz-se: “ai que engraçado, voltarmos aos
tempos antigos!” Porque agora também temos outras condições meios financeiros e
técnicos para pegarmos neste edifício e com alguns meios dar-lhe conforto.
Já podemos ter uma casa rústica quente, com água, com tudo e já não estamos
associados aquele paradigma de: “era uma casa pobre”. Não! É uma outra casa, mas
depois temos se quisermos também o conforto da cidade e estamos num hotel 5
estrelas e estamos muito bem.
É um pouco social, nós somos um produto vivo, não somos nós que vivemos com o
nicho do mercado, é a sociedade com as suas movimentações. Isto até é giro, intervir
nesta casa de pedra, rústica, na casa dos anos 70 ou intervir na que temos agora até
não ser assim tão diferente.
E depois há esses critérios, que não posso falar porque são os critérios do autor, que
é: “o que é que se preserva?”.
Qual é o ponto de partida para a casa nova, pode ser um terreno. E em tempos era um
tema muito em vogue: “O Lugar.” Uma coisa que se falava muito há 15 anos, quando
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
eu andava no curso, eram os “não lugares” e agora é a reabilitação. Onde temos as
pedras, temos os edifícios antigos, temos a memória dos outros, já não é nossa
porque nós não a presenciámos e até achamos engraçado ou romântico pegar nessa
memória dos outros, na memória coletiva da cidade.
Isto pode levar a um perversão que é a da Disney Land, de repente a cidade antiga é
uma cidade extremamente interessante para vermos um desfile de fim de tarde lá dos
ratos Mickey e tudo em que temos as cidades muito coloridas. Mas será que as
pessoas estão mesmo a viver nelas? Porque muitas vezes o que fazemos é uma
cidade cheia de turistas em que vêm cá passam dois dias, mas aquele fervilhar das
famílias das crianças na rua não existe, são pessoas de passagem. Mas isto pronto, é
o nicho, são as casas que já estão recuperadas e que os turistas num dia enchem e
depois vão-se embora, mas também temos boas casas e os turistas até vão para lá
viver.
[M.H.] - Sim porque isso está a verificar um pouco a questão do turista que já não
vem só de passagem mas que vem e efetivamente e fica! Compra uma casa e instalase em Portugal.
[Arq. L.P.] - Primeiro vem cá o turista e depois as pessoas vão-se fixando, vão
tomando o gosto pelas cidades antigas. Agora aquela coisa da recuperação do
comércio tradicional vai criando o saborzinho e as pessoas vão-se fixando e vão
aderindo.
Eu não percebo nada de economia, mas isto do nicho de mercado, não é bem
apelidado não é o nicho é o mercado. É o mercado em si, é o que as pessoas
esperam ter e nós respondemos a isso, socialmente e politicamente. Mas é
interessante ver porque no fundo o mercado acompanha esta própria evolução da
cidade.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
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APÊNDICE B
Entrevista Arq. Francisco Aires Mateus, Atelier Aires Mateus – Mercado da
Ribeira
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Entrevista realizada via email pelo Arq. Francisco Aires Mateus, do atelier Aires
Mateus no dia 8 de Setembro.
Ao longo desta última década a reabilitação dos mercados, em Portugal, tem vindo a
reconquistar a população. Existe uma revitalização deste espaço público que, por sua
vez, se relaciona com a envolvente imediata, acabando por influenciar a dinâmica da
cidade.
[M.H.] – Perante a reabilitação do mercado da ribeira, qual o motivo de manter uma
parte dedicada ao mercado tradicional?
[Arq. F.M.] - Essa era uma premissa que fazia parte do programa, não foi uma
decisão nossa. Todo o processo tem origem na decisão da C.M. de Lisboa em
concessionar por 20 anos parte do M. da Ribeira. Houve um concurso internacional e
nós fomos convidados pela Time Out para fazer parte da equipa.
[M.H.] – Num breve estudo que fiz o mercado tradicional não tem público. Coloca a
possibilidade de num futuro restruturar essa zona?
[Arq. F.M.] - Não é uma decisão que dependa da nós. No entanto penso que as duas
funções podem e devem coexistir, penso até que ambas ganhariam em estar menos
segmentadas fisicamente. Acontece que a morfologia do espaço (2 grandes naves
separadas por um corredor central) e a separação decidida pela C.M. de Lisboa em
parte concessionada e mercado tradicional resultaram assim.
[M.H.] – Após um ano de funcionamento a receptividade do público correspondeu às
expectativas?
[Arq. F.M.] - As nossas sim, claramente. Penso que superou também as expectativas
do resto da equipa, de acordo com informação da Time Out.
[M.H.] – Qual o seu fundamento ideológico para a organização do espaço interior?
[Arq. F.M.] - Funcionalidade, mas sobretudo uma certa ideia de festa e comunhão.
Criar possibilidade de partilha.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
[M.H.] - Acha que a reabilitação do mercado foi importante para mostrar às pessoas o
valor do lugar e o seu potencial?
[Arq. F.M.] - Sim. Esse valor sempre lá esteve, talvez a intervenção, pelas suas
premissas de restauro e recuperação o tenha permitido revelar de uma forma mais
clara, sobretudo ao nível do piso 1, onde anteriores intervenções não regradas tinham
ocultado parcialmente o carácter e a beleza daquele espaço.
[M.H.] - Estando a arquitetura num período de crise, acha que o setor da reabilitação
vai abrir a porta para um nicho de mercado?
[Arq. F.M.] - Não é uma porta para um nicho. Corresponde atualmente a um grande
volume de trabalho, talvez metade (ou mais) do trabalho dos ateliers de arquitetura em
muitos países da Europa.
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APÊNDICE C
Entrevista Arq. José Mateus, ARX arquitectos – Mercado de Abrantes
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Entrevista realizada presencialmente com o Arq. José Mateus, do atelier ARX
Arquitectos no dia 9 de Setembro a respeito do Mercado de Abrantes.
[M.H.] - O mercado, enquanto espaço, como é que ele foi aceite pelas pessoas?
[Arq. J.M.] - O modo como as pessoas o aceitam eu ainda não tenho uma ideia muito
clara, porque não vivo lá. A última vez lá estive que foi pouco depois da inauguração
por causa de uma reportagem fotográfica e também para verificar alguns detalhes.
Mas aquilo que consegui verificar foi que o mercado era muito usado, de uma maneira
que nós tínhamos como um dos aspetos centrais do projeto. A ligação das ruas a
cotas completamente diferentes ou seja, antes da construção do mercado as pessoas
tinham que dar uma grande volta para ir de baixo em frente ao tribunal para aquelas
cotas mais altas. E depois há muita gente com dificuldades de mobilidade pessoas
mais idosas, há pessoas que têm carinhos de bebé, miúdos, etc..
E um dos primeiros objetivos era o mercado ser também uma rua, portanto há a
grande escadaria mas também há o elevador também, que é muito importante para
quem dificuldades de mobilidade. E isso é algo que para além do funcionamento em si
o lado comercial e o encontro das pessoas ali, era algo que estava na nossa mente e
que funciona plenamente.
Portanto diria, não é algo que tenha ouvido dizer “as pessoas gostam do mercado
porque o usam” mas o lado funcional o lado de trazer novas possibilidades há cidade,
sem duvida. Ele seguramente já estava funcionar muito bem no inicio, naturalmente
que é um edifício que trás histórias pouco correntes numa tipologia de mercado, é um
edifício que funciona em vários pisos e os mercados mais comuns têm um piso ou dois
máximo mas aquele era o terreno que existia, não fomos nós que o escolhemos, mas
também nos pareceu interessante poder ao ser um edifício público de referência, ser
um edifício que reflete o encontro das tipologias mais tradicionais de introdução de
símbolos da cidade e de pontos de encontro da cidade, ser aquele que de facto
introduzia uma nova ligação na cidade, em direção ao castelo, e portanto ao futuro
museu que estava projetado na altura em que desenhamos.
[M.H.] - Relativamente ao facto de terem desenvolvido o mercado em vários pisos,
quando estive no mercado, durante um dia de semana, verifiquei que não havia muita
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
gente no mercado. E falei com alguns dos comerciantes que diziam que sentiam que o
mercado só funciona a nível do piso que se abre para a rua Nossa Senhora da
conceição e que os restantes pisos não eram utilizados. Inclusivamente verifiquei que
o ultimo piso estava encerrado?
[Arq. J.M.] - Está vazio! Está vazio porque na verdade não há comerciantes em
número suficiente, eu visitei o mercado anterior que estava em funcionamento e na
verdade são poucos os comerciantes. Este mercado tem uma capacidade superior em
termos de comerciantes relativamente aquilo que era a realidade anterior. No fundo, é
um mercado que se estivesse já completamente ocupado tinha uma outra dinâmica
mas é também um mercado que abre a possibilidade de outras pessoas entrarem e
estabelecerem ai a sua atividade. Aliás os preços para a sua utilização são
extremamente baixos. No fundo é isso, é um mercado que trás também novas
possibilidades em termos de capacidade, não é! É bom que não se esgote logo no
primeiro momento mas é também um mercado que pouco a pouco vai ser absorvido
pela população. Naturalmente que passando a ser um espaço que as pessoas visitam,
que os comerciantes começam a conseguir ter bons resultados etc.. que pronto, vai
ser mais preenchido.
De qualquer forma tem um lado que é importante, quando o desenhámos não
pensamos que tivesse que ser forçosamente um mercado para sempre. Foi
desenhado para ter espaços, plataformas quase como se fossem dilatações da rua ou
prolongamentos da rua; com uma luz zenital suave que pudesse inclusivamente
permitir a organização de eventos. Portanto como há um grande empilhar de pisos
aqueles vazados possibilitam a partir das grandes claraboias fazer chegar aos pisos
mais baixos alguma luz. Eu até admito que pudesse ser um edifício com uso misto, ser
mercado e ser outras coisas. No entanto aquilo que nos foi dito é que agora há aquele
número de comerciantes, fica preparado para mais e aos poucos pensasse que irão
ser preenchidos os espaços que ainda estão ainda por ocupar.
[M.H.] - Relativamente ao tema da reabilitação. A câmara quando vos adjudicou o
projeto, defendeu que a reabilitação não era viável. Além de que o mercado era um
espaço chave para o plano de reabilitação fazendo as ligações entre as várias ruas.
Todavia, gostaria de saber qual é que é a sua opinião sobre a reabilitação dos
mercados que se tem vindo a verificar nesta ultima década?
Mariana Marques Henriques
178
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
[Arq. J.M.] - Para mim a opinião que tenho sobre a reabilitação dos mercados é igual
à que tenho sobre qualquer outro tipo de edifício. Aliás quase totalidade dos trabalhos,
projetos que temos atualmente no atelier, (basta ver ai na parede) são edifícios antigos
a serem renovados. Não recordo já quantos projetos é que temos aqui em simultâneo,
atualmente, em projeto e construção em termos de reabilitação mas creio que são
neste momento uns 9 ou 10. E tratam-se de edifícios entre o final do século XVIII até
ao principio do século XX. E acho que é muito bem vindo porque de facto o nosso país
foi um país que cronicamente construiu novos edifícios investiu excessivamente mas
muito pouco em renovação, éramos o país da Europa tanto quanto sei que menos
investia na recuperação do existente e dos centros históricos. E atualmente essa
realidade é muito diferente. Sobretudo em Lisboa é muito diferente com o investimento
estrangeiro vindo de França, vindo da China, vindo até de Israel de uma série de
países, também derivado às vantagens fiscais que se oferece a estrangeiros, temos o
caso dos vistos Gold. E portanto vem dar uma nova oportunidade aos ateliers mas
também uma nova oportunidade à sociedade de se renovar de dentro para fora.
Agora no caso dos mercados eu diria exatamente o mesmo, mas também diria que tal
como o nosso edifício não foi criado para ser exclusivamente um mercado pode vir a
ser outras coisas acho que aqueles que existem e que são renovados também podem
passar a ser outras coisas. Aliás, eu acho que um dos aspetos mais interessantes da
arquitetura é quando nós conseguirmos desenhar algo que tem um potencial muito
para além daquele que é o seu primeiro programa funcional. Acho que isso é a melhor
forma de encarar.
Não é a arquitetura flexível a todo o gosto a todo o custo porque isso muitas vezes dá
resultados péssimos. É conseguir e ter a capacidade para desenhar algo que é muito,
muito eficaz para aquele programa que se coloca no momento do seu desenho e que
em termos patrimoniais tem o máximo valor arquitetónico possível mas que consiga ter
a inteligência de poder ser outras coisas num futuro sem revoluções em se possível
sem intervenções posteriores.
E portanto acho que tal como tentamos desenhar este assim, também acho que o
mercado antigo também deveria ser abordado a câmara, todavia esta entendeu que o
antigo mercado não reunia condições para ser um mercado contemporâneo. Mas pode
ser muitas outras coisas; seja-lhe reconhecido valor arquitetónico! Eu tenho algumas
dúvidas mas penso que sim, que com uma intervenção muito inteligente e bem
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
documentada, bem orientada, pode ter os usos mais diversos, o que significaria uma
mais valia para a cidade.
[M.H.] - A nível da materialidade do edifício, como é que foi pensada a questão da luz?
O edifício tem desde logo tinha uma presença que contrastava bastante com os
edifícios vizinhos, mas isso a mim não me perturba minimamente no sentido em que
aquele edifício é público e os edifícios públicos desde logo, durante muitos séculos,
foram as igrejas e com certeza os mercados também. Mas hoje em dia são muitos
outros como centros culturais, museus e outros. São edifícios que têm escala e uma
presença superior aos restantes. Não gosto do termo “pactuante” ou isso, mas são
edifícios que têm de ter presença têm de ter dignidade, são edifícios do coletivo e que
têm que ter uma importância no tecido urbano e perceptiva para quem circula na
cidade, acho que isso é inquestionável.
Naquele caso, no entanto, achamos que sobretudo visto de baixo, notamos desde logo
os edifícios ao lado têm uma escala muito mais pequena, muito frágil. Aliás alguns até
estão em estado de ruína e pareceu-nos que funcionaria melhor se nós
fragmentássemos aquele volume que viria a ser o mercado. Por acaso, até apareceu,
subitamente aquela ideia a partir de uma escultura que vimos do Pedro Cabrita Reis,
que é assim um bloco vertical em perfis de alumínio, pintado de cor de laranja nos
lados em que ele produz um corte no volume e desloca a metade de cima sobre a
metade de baixo. De facto há um bloco de uma grande escala que subitamente ao
cortarmos em volumes mais pequenos, esses volumes mais pequenos são mais
próximos da escala dos edifícios vizinhos, e consegue de certo modo diluir essa
dimensão. E assim de algum modo construir uma ponte e aproximar a escala das
várias partes do edifício da escala da envolvente.
Depois curiosamente e posteriormente à construção do mercado, cheguei à conclusão
que também não era muito diferente, por exemplo, do museu de Nova Iorque dos
SANAA, da Kazuyo Sejima e do Nishizawa que no fundo acaba por ter também assim
um empilhado volumes sendo que estes se deslocam uns relativamente aos outros
acabando por surgir uma claraboia que ilumina o piso de baixo. O nosso caso não é
diferente, mas o corte é de lado, não é uma grande invenção nem pretendíamos que
fosse pretendíamos era que resolvesse aquele caso concreto.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Porque é que aparece, bom o betão aparece por duas razões: uma delas é porque era
um material que estávamos a trabalhar muito aqui no atelier noutros projetos e que
queríamos continuar a explorar o seu potencial e sobretudo tentar perceber como é
que nós poderíamos ir reduzindo a matéria até à mínima expressão possível. Portanto
não introduzimos muitas variações de matéria, para assim reduzir a expressão
daquela arquitetura na maior medida possível ao espaço e à luz.
Isto é um pouco como a poesia, em que quando reduzimos ao máximo os vocábulos,
o poema consegue atingir uma beleza extrema pela sua economia de palavras. E ali
nós que não somos uns arquitetos particularmente interessados numa ideia de
minimalismo, o que nos interessava era não baralhar aquilo que pretendíamos. E o
que pretendíamos era que aqueles espaços interiores que depois acabam por ser
bastante expressivos. Mas também os volumes em si vistos por fora como aquela
frase do Corbusier que todos conhecemos: “A arquitetura é o jogo sábio, correto e
magnífico dos volumes dispostos sob a luz.” E assim pretendíamos que o potencial
expressivo do edifício se reduzisse ao espaço e à luz.
A matéria mais óbvia que nos parecia como escolha para produzir essa síntese era o
betão, constrói paredes, constrói coberturas, constrói chão, o caso do cimento
afagado. Tivemos duvidas se seria o betão no seu estado bruto em cinza ou se
deveria ser pintado e acabamos por optar pela pintura, porque nos pareceu que
quando estava em construção que se tornava muito pesado face às casas muito
delicadas envolventes que são brancas ou beges, tons muito claros, meio ocre mas
predominantemente são tons muito claros. Esse betão branco também permite puxar a
luz mais a baixo por entre aqueles vazados até aos pisos inferiores. Depois
obviamente se nas fachadas revestidas a azulejo ou a pedra temos a expressão dos
blocos ou das peças individuais ali temos o tabuado que nos parece que funciona bem
e as juntas de betonagem que normalmente estão alinhadas com acontecimentos de
cérceas e de volumes vizinhos, se as pessoas olharem atentamente descobrem essas
continuidades. Mas passam despercebidos na maior parte dos casos, eu acho
interessante essa coisa de se ir descobrindo esse outro layer que existe num volume
aparentemente um bocado bruto.
[M.H.] - E o facto de no ultimo piso haver um único ponto, que permite aquela
janelinha que surge no fim, a vista. Porque motivo o fizeram assim?
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Eu acho que é relativamente fácil de se perceber, há dois aspetos que são chave, um
deles é que essa parede que é orientada para poente e se nós abríssemos ali grandes
janelas viradas para a vista, eu penso que ninguém ia gostar. Porque o Sol em
Abrantes e então no Verão! Eu nasci em Castelo-Branco portanto não sou de muito
longe daquela zona e o clima é brutalmente quente e portanto uma vez que sou beirão
sei o que é, o calor no Verão, e pensámos que o Sol de poente poderia ser arrasador
em termos do espaço interior. E depois com a cor branca tornava-se de uma dureza
de uma “acutilância” que as pessoas quase que teriam de andar de óculos escuros
dentro do mercado. Mas não há dúvida de que a vista é incrível!
Por outro lado também nos interessou essa neutralidade, ao fazermos esse
fechamento conseguimos que o interior pudesse ser utilizado. Ainda para mais sendo
um mercado interessa que o sol não incida sobre o peixe e sobre as hortaliças e sobre
as próprias pessoas que estão lá a vender. Mas interessou-nos também que pudesse
funcionar como um museu, uma galeria de arte ou outra coisa. Portanto esta espécie
de caixas, empilhadas, de luz solar indireta funciona para muitas coisas. Por outro lado
como a área não é muito generosa, quer dizer não há muito espaço e nós ainda
iriamos comprometer mais esse pouco espaço com janelões, não fazia sentido. O
mercado é um local para ter bancas e vender bens não é um local para fruir a vista. E
se virmos uma boa parte dos mercados normalmente estes são completamente
introvertidos, claro que depois têm lojas no perímetro mas são completamente
introvertidos.
Naquele caso depois achamos que seria interessante no cimo daquela espiral,
daquela escada espiral, as pessoas puderem ir lá e espreitar para a vista a vista
fantástica. Por fora gostamos da ideia que seja assim uma espécie de sinal, não quer
dizer que seja como o da Marilyn Monroe, mas é uma espécie de sinal quase
imperceptível que só alguém mais atento vê.
[M.H.] - Isso faz-me lembrar uma cadeira de composição arquitetónica que tive
quando estive fora, em Erasmus. Estávamos a ter uma aula sobre massa e volume e o
Flores (professor) explicou-nos que quando temos um volume muito denso e de
repente surge algures um buraco ele está lá para mostrar que o edifício tem presença
e tem massa. É o facto de ter o buraquinho mostra a ideia de massa, densidade. A
expressão do volume.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
[Arq. J.M.] - É porque é uma pequena furação naquela massa pesada de betão,
nesse aspeto concordo inteiramente. Mas havia quem opinasse que éramos um
bocado exagerados a esconder a vista porque durante a construção, tínhamos uma
vista incrível. Só que na verdade, temos desenhos com grandes janelões ali, e temos
perfeita noção de que o mercado iria ser arrasado com o Sol de poente.
[M.H.] - Eu sou Abrantina, pertenço à zona e de facto era o que iria acontecer caso
tivessem mantido a hipótese dos janelões e rompessem com a fachada virada a
poente.
[Arq. J.M.] - Sabe que quando eu sai da faculdade achava que iria desenhar coisas
que as pessoas compreenderiam e iriam gostar muito e etc. Mas essa ingenuidade
rapidamente passou por que estudei e trabalhei em ateliers ao mesmo tempo e o que
realmente interessa é acreditarmos naquilo que fazemos, nas propostas e muitas
vezes à coisas que fazemos depois são absorvidas aos poucos. Mas é impossível
agradar a todos e não estou particularmente interessado em ir ao encontro da media
aritmética dos gostos locais dos sítios onde desenho as coisas. Normalmente quando
desenhamos é uma coisa muito pessoal, nossa e com os nossos clientes, e da leitura
que fazemos através dos dados que recolhemos e da investigação que fazemos e
daquilo que estamos a experimentar num momento qualquer.
Mas tentamos faze-lo com seriedade e não para satisfazer, digamos: “caprichos” de
uma carreira pessoal. Mas claro que há uma ética que temos de observar e que é
fazer o melhor possível. E fazemo-lo dentro daquilo que para nós é culturalmente
interessante.
[M.H.] – Sim concordo consigo. Penso que neste momento tenho uma ideia clara do
projeto dos objetivos e dos motivos que vos levaram a tomar certas decisões, assim
penso que é tudo e não tenho mais nada a perguntar relativamente ao mercado.
[Arq. J.M.] - Eu estava a tentar perceber assim outros aspetos daquele edifício, foi
uma obra complexíssima porque o espaço no levantamento era mais largo e depois
durante a obra encolheu subitamente. Não só porque se percebeu que o levantamento
tinha lá desvios, mas por outro lado porque tivemos de afastar um pouco mais dos
edifícios da envolvente, por causa da sua fragilidade e então o espaço interior foi-se
comprimindo progressivamente.
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Depois tivemos um lado que também foi difícil que foi o aparecimento do welcome
center lá em baixo. Portanto aquilo não é um mercado. É um mercado, um welcome
center e uma rua. E depois houve uma falência do empreiteiro, a meio do processo. A
obra esteve parada depois tivemos que explicar tudo ao novo empreiteiro e depois a
relação entre as coisas que o novo empreiteiro fazia com as que o antigo empreiteiro
fez. Bom às vezes a ligação é problemática entre as duas partes.
E portanto eu acho que , foi uma obra muito complexa mas pessoalmente gosto muito
do facto de ser uma rua. E acho que à noite a luz funciona bem, é assim uma luz
suave. Gostava que essa ligação estivesse permanentemente aberta, dessa rua. E
gostava que as pessoas de Abrantes, pensassem, se não há comerciantes suficientes:
“então o que é que se pode fazer naqueles espaços que estão disponíveis?” e de levar
para lá vida, porque não é muito complicado de pensar.
[M.H.] - Eu na altura quando estive em Abrantes com a Arqª Sara, estivemos
exatamente a falar um bocadinho dessa multifuncionalidade que o edifício pode vir a
ter inclusivamente para pequenos ateliers mesmo a nível de produtos artesanais, ou
seja no fundo puxar um pouco mais a terceira idade que, no fundo, é o que temos
mais em zonas de interior. O que era uma hipótese e que inclusivamente a câmara
estava a começar a estudar esse tipo de situações, no caso de não haver a procura
por parte das pessoas para o mercado, no fundo como é que se poderia continuar a
dinamizar e dar uso ao espaço.
[Arq. J.M.] - Claro. Há um aspeto sob o qual já me questionaram: “O edifício tem uma
térmica complicada porque é todo ventilado naturalmente.” É verdade, mas os
mercado tradicionalmente sempre foram muito ventilados tinham aquelas grelhas nas
claraboias para circular bem o ar e por questões de saúde, ou de higiene, etc. Por
outro lado também é bastante mais económico, tudo aquilo não funciona com
instalações mecânicas. É uma ventilação, uma convecção portanto uma ventilação
natural. E portanto, há ai uma economia não só na obra mas também na manutenção.
Que são brutais, eu também desenhei coisas, pelo menos uma escola que ficou
atafulhada de instalações mecânicas e o orçamento para as instalações mecânicas
em obra e depois na manutenção é elevadíssimo. Depois que paga a fatura são os
contribuintes, na obra, e depois quem tem de gerir a manutenção disso durante a vida
do edifício. E portanto o que ali se tentou foi aliviar o edifício ao máximo das
instalações mecânicas e tentar assegurar que ele tinha umas boas condições de luz,
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
de ventilação e em termos higiénicos. E tentar que a ASAE não colocasse questões.
Pronto provavelmente no verão é muito cómodo, no Inverno não é tão cómodo, mas
também admito que as pessoas, que havia vem os seus bens, não estão ali
demasiado tempo. Acabam por não estar tanto tempo como isso. Mas são pessoas
que vivem num meio mais rural e ter sobretudo esta economia e simplicidade pareceunos que era importante e que existia nos mercados antigos. Gosto da experiência e
estou curioso para ver o feedback ao longo da utilização do edifício mas também é um
edifício que permite adaptações posteriores sem grande complexidade.
[M.H.] - Por acaso a nível da parte funcional a única coisa que eu achei digamos
“engraçada” foi uma senhora com quem falei, que lá trabalhava, e que dizia que para
ela era complicado subir as escadas mas que não conseguia utilizar o elevador por
nunca tinha utilizado um e lhe fazia muita confusão meter-se numa caixa fechada
parte ter de subir, e o carregar no botão e que era todo um mecanismo que estava
para lá das suas vivências.
[Arq. J.M.] - Eu acho que isso é normalíssimo, eu como nasci em Castelo Branco e
vivi em Évora, mas bom de facto sou Lisboa embora tenho família no mundo rural
onde passei grandes temporadas de férias portanto sei que a realidade não é o centro
de Lisboa ou o centro do Porto, é uma realidade diferente. Mas acho que as pessoas
vão lidando com isso, aquele edifício de facto tem duas escadas completamente
diferentes e um elevador. Agora, as pessoa, cada uma há-de encontrar a sua forma de
melhor utilizar aquilo não é! Eu vi casos divertidos ou divertidos-chatos. Pessoas que
entravam dentro do elevador encostavam-se ao lado da porta oposta e quando o
elevador chegava ao piso de baixo e a porta oposta se abria as pessoas quase que
caiam para o chão por causa dessa porta que se abria subitamente. Mas isso é a
primeira vez, a partir daí já sabem.
[M.H.] - É uma questão de hábito, no fundo é o inserir de novas maneiras de vivenciar
o espaço e utilizar coisas, o elevador por exemplo, que até à data não tinham sido
necessárias ou não se tinham proporcionado. Por lá está, de facto no meio rural a
questão de elevadores ou até mesmo a inserção de uma escada rolante são coisas
que ficam um pouco aquém do normal, que vivenciam portanto o piso térreo ou uma
escadinha para um piso superior.
[Arq. J.M.] - É, mas eu gosto da ideia de as pessoas vão compreendendo o edifício e
o assimilando, eu sei que houve e nós ouvimos criticas acutilantes mais do que uma
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
vez, também ouvimos elogios fantásticos, também ouvimos criticas muito acutilantes
ao museu do Arq. Carrilho da Graça que eu gosto imenso mas que não foi construído.
Eu acho que, estes novos edifícios e há vários lá desenhados por outros arquitetos
que são património e que trazem outro tipo de referências à população local e acho
que podem ser interessantes para aquelas pessoas que se calhar vivem ali; para
quem tem uma vida, quem estude e viaje, não são grandes novidades. Mas para quem
está ali mais fechado para além de os ajudar na vida do dia-a-dia pode-lhes trazer
outras referências.
[M.H.] - Uma perspetiva de evolução, sem dúvida.
Mariana Marques Henriques
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APÊNDICE D
Texto redigido pela Arqª Sara Morgado, Câmara Municipal de Abrantes –
Mercado de Abrantes
O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Como é do conhecimento geral, os mercados eram, no passado, pontos de encontro
que, além da função comercial, eram uma representação cultural e a tradução da
produção agrícola no estabelecimento de novas urbanidades.
O mercado de Abrantes foi sempre um mercado dinâmico, embora modesto. Durante
décadas comerciantes e população reivindicaram uma intervenção urgente no
mercado diário municipal, por se encontrar na generalidade bastante degradado e
desadequado em termos de utilização prática e de condições higio-sanitárias, pelo que
foi opção do executivo municipal proceder à construção de um novo edifício, no local
das oficinas da Rodoviária do Tejo, com linguagem contemporânea e dotado de todas
as infraestruturas necessárias ao seu funcionamento e de condições de segurança e
de meios que permitissem a acessibilidade para pessoas com mobilidade
condicionada.
A opção em tornar, com carácter mais permanente, o antigo mercado num ponto de
confluência de culturas ou de construir um novo, pensado especificamente para a sua
função mais nobre de abastecimento de produtos, foi consciente e reveste-se hoje,
nesta inauguração, de uma afirmação de liberdades e de colocar ao serviço das
populações um novo espaço, funcional, digno, vivo, dinâmico e apelativo, que fidelize
cidadãos ao comércio tradicional.
Estamos na presença de um edifício público que se pretende que venha a constituir
uma marca identitária da cidade de Abrantes pela sua singularidade formal em relação
à envolvente, e como um motor de dinamização do seu centro histórico.
Esta obra arquitetónica perceciona-se, antes de mais, como uma “arca” de betão
fragmentada, que se ergue para o céu, enfatizando a sua presença e mostrando o seu
carácter.
O aparente carácter elementar, abstrato, austero e despojado exterior deste objeto
arquitetónico contrastam com o interior de carácter dinâmico, que se identifica de uma
forma inteiramente original, através de um grande vazado desalinhado que percorre o
edifício em toda a sua altura, possibilitando a leitura imediata da distribuição funcional
e o contacto visual com as diversas atividades desenvolvidas em todos os pisos do
mercado, permitindo ainda a captação de luz natural para os diversos pisos por meio
de uma sucessão de claraboias que marcam fortemente um ritmo no espaço e criam
uma modelação subtil da luz natural para o interior do edifício.
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
Construído essencialmente com dois materiais, Betão e Vidro, onde prevalece o
branco, é um edifício que contrasta com a identidade típica atribuída a estes
equipamentos, quer em termos sensoriais com no domínio da perceção física e visual.
Os arquitetos contemporâneos buscam, de forma incansável, surpreender através do
inesperado, do não óbvio. Será, por isso, uma obra de referência na arquitetura
contemporânea portuguesa.
Do ponto de vista funcional esta obra, para além de atender às exigências legais e
regulamentares aplicáveis a este tipo de equipamentos e de ser dotada de todas as
infraestruturas necessárias ao seu funcionamento, foi pensada com soluções
construtivas versáteis e flexíveis que permitem a adaptação à evolução do tempo e
uma utilização multifuncional do edifício, que se traduzirão em ocupações pontuais do
espaço com eventos ou atividades diversas.
Refere-se ainda que foi opção estratégica, assumida pela Câmara Municipal de
Abrantes, conferir uma nova função ao local, numa lógica de articulação de diversas
zonas do centro histórico de Abrantes e de ligação da cidade baixa com a cidade alta,
designadamente o Vale da Fontinha, o Largo 1º de Maio, e o Jardim da República.
Assim, integrado numa estratégia global, oferecemos um novo percurso pedonal
dentro da cidade, através de um elemento tradicional dos centros históricos, uma
escadaria de usufruto público, entre o Largo 1.º de Maio e a Rua de Nossa Senhora da
Conceição, onde está a ser construída futura Unidade de Saúde Familiar de Abrantes.
Este percurso pedonal terá continuidade futuramente, através da ligação pedonal
prevista na Unidade de Saúde Familiar de Abrantes, também através de uma
escadaria que permitirá estabelecer a ligação pedonal, ao Jardim da República.
Paralelamente foi prevista a acessibilidade a utentes com mobilidade condicionada
neste novo percurso, através de uma ligação vertical efetuada por elevadores.
“Para expressar-se é necessário movimento, e quando você quer dar algum valor ao
seu movimento, você deve consultar a natureza.
E é desta consulta que o projeto nasce.
Se você pensa no tijolo, por exemplo. Você diz para o tijolo "O que você quer ser,
tijolo?" E o tijolo responde "Eu gostaria de ser um arco."
Mariana Marques Henriques
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O Mercado no Século XXI: Novas Perspectivas de Apropriação do Espaço Público
E você diz para o tijolo "Veja, arcos são caros e seria mais fácil eu usar concreto
armado, o que você pensa disso, tijolo?" E o tijolo simplesmente responde, "Eu ainda
gostaria de ser um arco".
E quem sou eu para contrariar a natureza?”
(Louis Kahn)
"Sempre procuro inserir o elemento surpresa, o inusitado, a descoberta (...) Arquitetura
tem de causar infartos."
(Isay Weinfeld)
"A arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz."
(Le Corbusier)
"A intenção plástica (...) é precisamente o que distingue a arquitetura da simples
construção"
(Lúcio Costa)
"Arquitetura deve falar de seu tempo e lugar, porém anseia por atemporalidade."
(Frank Gehry)
“A Arquitetura faz-se de Matéria, Luz e Espaço. São estas as condições essenciais de
uma obra singular e subtil.”
(João Sousa)
Mariana Marques Henriques
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