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Transcrição

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MANUAL OPERACIONAL
VOL. IV
COMO TRABALHAR A COMUNICAÇÃO
Este trabalho é dedicado às pessoas que têm coração de beija-flor* e, em especial,
àquelas que, à exceção de sinais de fumaça, desejam aprimorar o uso de diferentes instrumentos de
comunicação, na defesa da maior floresta tropical do planeta: a nossa Amazônia.
*O Beija-Flor, também chamado de colibri, uma das menores aves do mundo,
tem um coração que ocupa do tamanho total do seu corpo.
Agradecimentos
Queremos, no volume mais alto do nosso rádio coração, dizer muito obrigado aos/às 430 participantes das quinze Oficinas de
Comunicação realizadas pelo Proteger, de junho a dezembro de 2002, no âmbito da Rede GTA.
Agradecimentos especiais aos/às amig@s da natureza que se dispuseram a navegar os rios da Amazônia nas ondas de várias emissoras
de rádio e serviços de auto-falantes para divulgar as ações do Proteger nos campos da mobilização social e da educação ambiental.
Agradecemos igualmente às parcerias que nos possibilitaram a produção de programas de rádio e a prática de exercícios de gravação,
sonoplastia e edição. Destaque para a hospitalidade da equipe das rádios de Nova Ipixuna, Rádio Rural de Santarém, Rádio Arawete de Vitória
do Xingu e da Rádio Regional de Conceição do Araguaia. Mas, do Pará ao Estado do Tocantins, passando pelo Amapá, tivemos a oportunidade
de romper também com os limites da academia e ocupar o laboratório de rádio da ULBRA – Universidade Luterana do Brasil. Em contrapartida,
também tivemos a chance de experimentar o improviso e a criatividade d@s alun@s da RAEFAP – Rede das Associações das Escolas Família
do Amapá. Com material reciclado elas/es foram capazes de “entrar no ar” ao som de um microfone feito com copinho de plástico e cabo de
papelão.
02
Registramos, ainda, reconhecimento aos veículos de comunicação que transformaram o trabalho do Projeto Proteger em notícia por
meio do rádio, TV, jornais, revistas e internet.
Por fim, queremos, num abraço agradecido, hipotecar nossa gratidão à Rede de Repórteres Beija –flor que foi criada a partir das Oficinas
de Comunicação.
Que, de bico em bico, de flor em flor, mesmo usando meios rudimentares, como pequenos gravadores, eles/as continuem coletando e
difundindo informações capazes de sensibilizar para o cuidado com as questões ambientais.
Apresentação
Desde maio de 2001, quando o GTA retomou as atividades do
Proteger, sabíamos que, entre inúmeros desafios, o maior deles seria o de
criar uma estratégia de comunicação capaz não só de dar visibilidade à
segunda fase do Projeto, o Proteger II, como também de multiplicar suas
ações nos três eixos temáticos:
O significado da lenda do beija-flor acabou sendo reforçado pela
frase do monitor Ibanês Pereira Marinho, do município de Estreito (MA),
e transformado em slogan do Projeto: “A gente vai trabalhar uma nova
consciência”.
Mas era preciso ampliar horizontes. Tínhamos que pensar,
também, nas peças publicitárias de disseminação da nossa proposta de
trabalho: folhetos, boletim, página na internet, campanha para o rádio
e produção de um vídeo institucional que fosse capaz de introduzir as
mudanças e a nova cara do Projeto. Para tanto, convocamos uma reunião
em Brasília, com tod@s @s coordenadores/as estaduais do Proteger.
Diante de tamanha responsabilidade, a Coordenação Nacional
do Proteger optou por compartilhar, com @s beneficiári@s diretos O resultado não poderia ser melhor. Afinamos de tal maneira nossa
e indiretos do Projeto, a tarefa de escolher os meios e os materiais sintonia que, ao final, elegemos o rádio como a principal estratégia de
capazes de implementar o nosso “marketing”. Como primeiro passo, comunicação do Projeto.
fomos chamad@s a escolher uma logomarca que traduzisse a missão do
Proteger. Dentre várias sugestões, o beija-flor foi o escolhido em função Por que o rádio?
do apelo à solidariedade que a sua lenda inspira.
As razões para esta escolha serão fartamente ilustradas nas
páginas deste Manual IV por centenas de participantes das Oficinas
“Um beija-flor, diante de um grande incêndio na de Comunicação que, com seus testemunhos e depoimentos, deram
origem a um Banco de Vozes que dinheiro nenhum no mundo é capaz
floresta, tenta desesperadamente apagá-lo. Vai ao rio várias de comprar. São mais de 300 horas de gravação, documentadas em 170
vezes, molha seu pequeno bico e, lá do alto, lança tímidas mil caracteres, encadernados em 900 páginas. Um patrimônio que, nas
gotinhas de água contra as chamas. Sua atitude passa a ser palavras da coordenadora Toinha de Altamira, no Pará, representa a
recriminada pelos outros animais, com o argumento de que vitória da voz e a memória viva do nosso Projeto.
-mobilização social
-educação ambiental
-produção sustentável
sua tentativa é vã diante do fogo. Indiferente às críticas, o
beija-flor se limita a dizer: estou fazendo a minha parte”.
@
Ao longo das próximas páginas, você vai encontrar este recurso gráfico que nós escolhemos para reforçar a
questão de gênero. Ou seja, a necessidade de identificar o masculino e o feminino em condições de igualdade. Por
exemplo: seringueir@ significa seringueiro homem e seringueira mulher.
Sílvia Nicola
03
Ficha Técnica
Proteger II – Uma realização do Grupo de Trabalho Amazônico – GTA
SAIS Lote 08, Galpão 01 - Canteiro Central do Metrô
CEP: 70602-900 - Brasília - DF
Presidenta: Maria Araújo de Aquino (FETACRE/AC)
Suplente de Diretoria: Rosenilde Gregória dos Santos (COOPPAV/MA)
Secretário-Geral: José Adilson Vieira de Jesus (CPT/AM)
Tesoureiro: Lourenço Boução da Silva
(Colônia de Pescadores Z - 40 - Aranaí/PA)
Fone/fax: (61) 346-7048
www.gta.org.br
Apoio: Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais do
Brasil (PPG7), através do fundo fiduciário fornecido pela
USAID e administrado pelo Banco Mundial.
04
Manual Operacional do Projeto Proteger II
Volume IV: Como Trabalhar a Comunicação
Coordenadora Nacional: Sílvia Maria Costa Nicola
Técnico de Projeto: Júlio César Magalhães de Almeida
Técnica Contábil/Financeiro: Elisa Duarte Almeida
Assistente Contábil: Jaqueline Almeida Paz
Apoio Administrativo: Patrícia Bello Sampaio Pinto e
Bruno César Borges Modesto
Caixa Postal 10.860 - CEP 70324-980
Brasília - DF - Tel.: (61) 346-7048
www.proteger.org.br
Coordenação dos trabalhos: Sílvia Maria Costa Nicola
Realização das oficinas, pesquisa e texto: Mara Régia Di Perna
Apoio à realização das oficinas e fotografias: Júlio César M. de Almeida
Revisão e degravação do Banco de Vozes: Michelle Lopes
Projeto gráfico e arte final: Frederico Miotto e Álvaro Artur Ribeiro
Colaboração: Dario Miotto
Bordados elaborados por: Antônia Zulma Diniz Dumont, Ângela, Martha,
Marilú e Sávia Dumont sobre os desenhos de Marilú Dumont, inspirados
na Cartilha do Plano Diretor da Floresta Nacional do Tapajós.
Foto: Rui Faquini
Ficha catalográfica
M294
Manual operacional do Projeto Proteger II. – Brasília : GTA,
2004.
4v. ; il. ; Color. ; 21 cm.
Conteúdo: v.1. Instruções gerais -- v.2. Plano de trabalho e atividades -- v.3. Como
trabalhar com mulheres -- v.4. Como trabalhar a comunicação.
ISBN 85-88898-01-2
1. Amazônia - defesa. 2. Educação ambiental - Brasil. 3. Desenvolvimento sustentável
– Amazônia. 4. Comunicação 5. Rádio I. Título. II. Grupo de Trabalho Amazônico (GTA).
CDD 363.7098114
Sumário
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Carta sonora aos beija-flores do Proteger
Querid@s amig@s,
Mais do que ninguém, vocês bem sabem que me expresso melhor ao microfone. Contudo, na tentativa de dizer muito obrigada
a vocês que são a razão maior dessa publicação e a melhor expressão do nosso trabalho, resolvi tomar emprestado os versos do
saudoso Gonzaguinha para dar um tom musical a essa nossa conversa. Aliás, a música é um dos mais eficientes meios de comunicação
e de transporte também. Por exemplo, se quisermos dar um pulinho até Altamira (PA) – estação de pouso de tant@s beija-flores que
participaram das oficinas de rádio do Proteger, bastam algumas notas musicais:
“Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...”
MARAVIDA!
06
De Altamira à Conceição do Araguaia, passando por João Lisboa no Maranhão, Rio Branco no Acre, Ouro Preto D’Oeste em Rondônia
e outras tantas estações no Mato Grosso,
“Eu apenas queria que vocês soubessem que aquela alegria ainda está comigo...”. E ela será cada vez mais feliz se soubermos
colocar os meios de comunicação a serviço da liberdade de expressão.
“Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando...”
Abraço fraterno,
Mara Régia*
* Mara Régia é carioca. Nasceu em 1951, justo no dia da criação da Rádio Nacional do Rio de Janeiro: 12 de setembro. É publicitária e jornalista,
formada pela Universidade de Brasília (UnB). Desde 1990, desenvolve projetos de capacitação para o uso do rádio nos temas ligados à cidadania, com
ênfase nas questões de gênero e meio ambiente. É professora universitária e foi responsável pela condução das Oficinas de Comunicação, realizadas
pelo Projeto Proteger.
Por sua atuação no radiojornalismo, recebeu o Diploma de “Jornalista Amigo da Criança”, concedido pela Agência de Notícias dos Direitos da
Infância (ANDI), foi finalista do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, nas edições de 2000 e 2001, e Prêmio Cláudia 2003, entre outros.
Em reconhecimento aos seus relevantes trabalhos de mobilização social, na capital da República, foi condecorada com a medalha do mérito
Alvorada e o título de cidadã-honorária de Brasília.
Acorda, corpo: o despertar da comunicação através dos sentidos
A exemplo do que fizemos durante as dinâmicas que antecederam a realização das Oficinas de Comunicação
do Projeto Proteger, nosso bate-papo por escrito começa com um bocejo e uma bela espreguiçada! Hannn... Como
é bom poder dar voz ao corpo levantando os braços como um gato manhoso que faz da preguiça estilo de vida. E
o bocejo? Ah! o bocejo é quase um desabafo! Aprendi com Glorinha Beuttenmüller, fonoaudióloga considerada no
meio artístico como o “pronto-socorro da voz”, que o bocejo mostra a nossa nudez interior. É por isso que a gente
sempre coloca a mão na frente da boca para encobrir o som que revela tamanha intimidade. De qualquer forma, é
importante saber que o bocejo é um excelente exercício para abertura da voz.
Há outras práticas igualmente eficazes para quem deseja fazer uso saudável da voz. A começar pelos bons pensamentos. Toda vez que
a sombra da dor emocional bater à porta do seu coração ferido pela ingratidão, pela mágoa ou ainda pela rejeição, coloque um holofote de
luz em cima desses sentimentos e mande a sombra embora para junto do pôr-do-sol mais bonito que você encontrar. Depois disso, relaxe
porque a voz tem uma relação direta com mente quieta, espinha ereta e coração tranqüilo.
O ideal é que a sua respiração se pareça com a dos bebês recém-nascidos que usam apenas o diafragma para movimentar o ar que
entra e sai dos pulmões. Barriguinha pra cima, barriguinha pra baixo. Aliás, os nenéns, quando um pouco mais crescidos, costumam nos dar
uma outra aula importante para soltar a língua, que funciona como a chave da voz. Atenção ao exercício:
Como as crianças, tente cuspir uma colherada de sopa ou de papa com a mesma careta e som característico: thruuuuuuuu...
thruuuuuuuuu.
Uma leve coceirinha no nariz deve acompanhar a “má criação”. Ela é um sinal inequívoco de que o exercício foi feito corretamente. Se
depois dele você for capaz de soltar uma gargalhada, melhor ainda, porque gargalhar provoca a expansão sonora do corpo e do coração: HA
HA HA HA. Quanto mais franca e aberta melhor para a saúde da voz. Aproprie-se deste som que vibra nas cordas ou pregas vocais e deixe
sua comunicação vocal falar mais alto: do choro ao soluço, do suspiro ao espirro, valha-se, sempre que possível, do sorriso que costuma ser
a porta de entrada do coração das pessoas. Sim, o universo da comunicação é tão vasto quanto os sons que podemos criar a partir de uma
escala musical.
07
Abracadabra
O que é, o que é?
Talvez, por isso, seja tão querido.
Ele é parente próximo do telefone.
Pertence à geração das grandes invenções
da primeira metade do século XX.
Popular, como ele só, costuma
conquistar a simpatia de todo mundo. Não é
à toa que @s polític@s vivem grudad@s nele
e costumam se aproveitar de sua fama pra
transformá-lo em palanque.
O que é, o que é?
Como um anjo, ele vive ao nosso lado.
É, também, mensageiro. Adora
mandar recados.
08
Incansável, ele está sempre pronto
a prestar serviço, a qualquer hora e,
principalmente, nas situações em que
só a Polícia e o Corpo de Bombeiros são
chamados.
O que é, o que é?
Apesar de dar asas à
imaginação, ele está
longe de ser um
super herói, mas é
um super amigo.
Não é de guardar
segredos,
mas entra na
intimidade e
no coração das
pessoas com a
maior facilidade.
As igrejas, em geral, também vêem
nele um aliado para suas pregações e
estão sempre à espera dos milagres que,
porventura, ele venha a operar.
O que é, o que é?
No que pese ele não ter o sentido da
visão, toca de ouvido as mais belas canções
e, nos mesmos tons, deixa sempre o cenário
mais bonito, seja no campo ou na cidade.
Ele tem complexo de piloto de
Fórmula 1. Adora sair na frente, com as
primeiras notícias do dia, e gosta de ser uma
espécie de co-piloto d@s motoristas.
O que é, o que é?
Na maior pilha, trabalha até sem
energia elétrica. De fácil manuseio, ele
dispensa senhas e códigos. Ninguém
precisa ter curso superior, nem tampouco
de digitação para acessar os seus comandos
que são simples como o Bê-a-bá. Entretanto,
ele é um instrumento de promoção da
educação, em todos os níveis. É perfeito
para introduzir as noções mais elementares
de português, ciências e história, até os
conceitos mais sofisticados de economia,
política e cidadania.
O que é, o que é?
Longe dos salões da burguesia,
é considerado o primo pobre das
comunicações. Por isso, não freqüenta as
colunas sociais dos jornais, nem os jantares
e as festas da família Marinho, jamais foi
motivo de oferta do dízimo de Edir Macedo,
nem ganhou um só centavo na Telesena do
Baú de Sílvio Santos. Contudo, não perde a
pose. Parece filósofo grego, quando discursa
em defesa da democracia, como ideal de
igualdade, de justiça e de direito.
Eu sou o Rádio
Minha melhor tradução foi feita pel@s participantes das Oficinas de Comunicação do Proteger. Eles traçaram o meu perfil como se
fosse um retrato-falado. Vejam, por exemplo, o que @s amig@s de Araguaína e Vanderlândia, no Tocantins, falaram sobre as minhas principais
características.
Para começo de conversa, eles/as me acham um barato! E eu sou mesmo. Por quaisquer 30 reais, estou à venda nas melhores lojas do
ramo. Confira!
09
01
Como vêem, eu sou barato de comprar e de vender. Os custos do espaço publicitário para a
veiculação de comerciais são bem menores do que os preços dos demais veículos.
Mas, em torno das minhas qualidades, vejam agora o que Virgínia, relatora do Grupo de
Trabalho da Oficina de Comunicação de Vanderlândia (TO), listou como principais.
•
Sou popular. Tô na boca do povo. Falo para as massas. Não importa a classe social. D@ executiv@ ao/à operári@, tod@s estão ligad@s
na minha programação. E isso até aos domingos, principalmente por causa da transmissão dos jogos de futebol. E não é que tem gente que,
mesmo estando no estádio, ao vivo e em cores, não abre mão da minha companhia?
•
Sou portátil. Como o ar, estou em todo lugar. Da cozinha ao banheiro, tem gente que me escuta até debaixo do chuveiro. Sem
falar do pessoal que me faz de rádio-despertador. Olha a hora, olha a hora!
•
Sou ágil. Não é à toa que as academias de ginástica usam e abusam de mim. Me botam para falar a todo volume e, graças ao meu
grande preparo físico, consigo acompanhar não só a velocidade d@s atletas, como o fôlego das notícias que correm. Além disso, eu consigo
interagir com o público que está na escuta das emissoras de qualquer ponto do país. Basta ter um telefone por perto que a comunicação se faz
em mão dupla. Como diz a vinheta que abre a programação das emissoras Radiobrás:
“De repente, estamos mais perto - De repente, o céu mais aberto - De repente, as distâncias sumiram”.
Encurtar distâncias e fazer as pessoas cada vez mais próximas é uma das funções mais importantes do meu trabalho.
10
01
•
Sou serviço. Como as farmácias, estou 24 horas de plantão. Minha presença é cotidiana na vida da maioria das pessoas. Mesmo
as famílias mais pobres, em todas as regiões do Brasil, não dispensam o meu trabalho e a minha companhia.
Além de notícia e informação, meu forte é prestar um real serviço de utilidade pública, passando recados como estes, do Programa de
Mensagens da Rádio Difusora Acreana, mais conhecida como “A voz das selvas”.
Atenção, senhor João da Silva, no seringal Bom Destino, colocação Vai-quem-Quer. Sua esposa avisa que o negócio do cavalo só entrou a
metade, mas amanhã fará todo o esforço para ver se entra a outra metade. Abraços e beijos nas crianças, de seu amigo Sabá Comboieiro.
Atenção, senhor Severino, na colônia Ganso de Ouro. Seu sobrinho José avisa que ao pular do caminhão no qual veio de carona quebrou
os ovos. Por isso, está impossibilitado de enviar seu numerário. Abraços, do mesmo.
Atenção, senhor Manduca, na colônia Santa Fé. Seu irmão avisa que a vaca da sua sogra morreu. Ela foi levada ao veterinário, mas a bicha já
estava sem jeito. Peço se conformarem com isso. Abraços do seu irmão Tonico. Pede-se a quem ouvir esta mensagem retransmiti-la ao destinatário.
Atenção, Maria José, no seringal Pau Caído, colocação Sovaco da Onça. Peço que avise ao compadre Chico Preto, que pegue o periquito que
você tem aí e mande pro Zeca da Paca, na colocação Oco do Mundo. Abraços do Chico Môco.
Fonte: Revista sobre a história da Rádio Difusora Acreana, em seus 55 anos – 1999.
Minha lista de serviços é longa. Da previsão do tempo à situação do trânsito, estou sempre alerta. Existem até emissoras que se valem da
ajuda d@s ouvintes, via telefone celular, para me auxiliar a ser ainda mais eficiente no atendimento aos/às motoristas que querem se livrar dos
congestionamentos.
Como uma agenda eletrônica, estou sempre lembrando à minha audiência o último dia de pagamento das contas, o calendário da vacinação
infantil, o número do Procon, o rendimento da poupança etc. Adoro divulgar, também, campanhas de utilidade pública, principalmente as que se
destinam à mobilização social. Gosto muito de veicular as mensagens do Proteger por uma nova atuação ambiental. A lenda do beija-flor acaba
inspirando o meu romantismo.
•
Sou imaginação. O beija-flor coloca água na minha boca e música nos meus ouvidos toda vez que põe a Rede GTA para falar em alto e bom
som dos seus projetos e lutas. Vesti a camisa contra a biopirataria quando o Japão tentou patentear um dos frutos mais importantes para a economia
da Amazônia brasileira: o cupuaçu é nosso.
Quando ouço as quebradeiras de coco, fico a imaginar as palmeiras e já aprendi a cantar o xote com Ely Querubina e Rosenilde Gregório dos
Santos, mais conhecida como Rosinha. Estou com elas na luta pelo babaçu livre.
Com a ajuda de algumas trilhas sonoras e efeitos especiais, imprimo maior força, ainda, às palavras de ordem que fazem parte das
reivindicações dessa categoria. Contudo, chego mais facilmente à emoção das pessoas quando produzo radionovelas e dramatizações tendo, como
pano de fundo, as histórias da nossa Amazônia. É lindo poder ouvir o canto dos pássaros, acompanhando a conversa d@s parteir@s, d@s seringueir@s,
das comunidades indígenas, pescadores(as) e ribeirinh@s. Enfim, é muito bom ampliar a voz dos povos da floresta, que são a razão maior do trabalho
da Rede GTA: “Em vez de internacionalizar a Amazônia, vamos amazonizar o mundo”.
11
Rádio Mulher
Nas Oficinas de Gênero do Proteger, realizadas nos meses de junho e julho de 2003,
as lideranças femininas do nosso Projeto foram convidadas a elaborar uma definição
sobre o que é gênero e a descobrir o sexo do dinheiro. Ao final, elas chegaram à conclusão
que o chamado vil metal é masculino por força do machismo que ainda impera nas
relações de trabalho e poder.
Neste Manual de Comunicação, um novo desafio se impõe. Vamos junt@s descobrir
qual é o sexo do rádio?
Gramaticalmente ele é masculino. Mas, numa sociedade onde homem que é homem
não chora, o rádio é “MULHERZINHA” porque é pura emoção. Quando transformado em
novela, a cada capítulo, ele se mostra ainda mais dramático e sentimental.
12
Como veículo, também é super sensível a ruídos e interferências. Qualquer
transmissão, dentro ou fora do estúdio, tem que ser cercada de muitos cuidados. Até
mesmo o vento pode comprometer a qualidade da emissão. Ar condicionado ligado também interfere nas gravações. Todo cuidado é pouco
com a proximidade da boca junto ao microfone. Além de um choque, você pode fazer um “PUF”. Esse é o chamado ruído na comunicação.
O “PUF” compromete o conteúdo da sua mensagem. Por isso, mesmo que você seja um locutor de rodeio, que costuma usar o microfone
como quem chupa um sorvete, mantenha a sua boca à uma distância de cinco dedos do bocal e, por favor, também evite gargalhar ou tossir
diante dele. Na hora daquela risada, vire o rosto para o lado e afaste-se, assim, do microfone para que você não perca a sintonia. @s ouvintes
agradecem!
O rádio é sempre mais gostoso quando é conversado ao pé do ouvido, como se fosse um bate-papo ao telefone. Afinal, ele é considerado
o veículo da intimidade e, por isso, consegue falar mais perto à alma da gente.
A privação do sentido da visão parece aguçar a audição de quem está ligad@ nele. Na TV, por exemplo, um pequeno cisco pode roubar
a atenção d@s telespectadores/as. Mas, no rádio não. Por tudo isso, renda-se, entregue-se à imensidão dessas ondas sonoras, de preferência
numa sonífera ilha.
“Não posso mais ficar aqui ao seu ladinho - por isso colo meu ouvido num radinho de pilha - pra te sintonizar sozinha numa ilha...
Sonífera ilha - descansa meus olhos - refresca minha boca, me enche de luz”. (Titãs)
Da solidão de uma sonífera ilha à solidão do trabalho diário das donas-de-casa, o rádio é o parceiro de todas as horas.
“Meus brigadeiros ficam ainda mais doces, ouvindo o Viva Maria, pela Rádio Nacional! Às vezes, até passa do ponto”. (ouvinte Terezinha
Barreto, doceira de Brasília).
É por essas e por outras que o sexo do rádio, ao contrário do que muita gente pensa, é mulher. E isso se reflete na audiência: 74% das
pessoas que sintonizam o rádio são mulheres. É ele quem nos coloca em movimento e amplia nossa sintonia com os mais diversos segmentos
sociais, que só têm esse veículo como canal de expressão e reivindicação.
Que o diga a radioapaixonada Maria Meire, que é amiga do Proteger. “Escutem” só o depoimento dela depois de ter colocado no ar o
programa Voz da Natureza, que produziu na Oficina de Comunicação, realizada no município de Conceição do Araguaia (PA).
“O rádio é muito gratificante porque a gente começa a trabalhar a multiplicação, a consciência das mulheres trabalhadoras do nosso
município, do Estado e por aí afora para que as mulheres também venham participar da luta, da organização e da vida do nosso país. Isso é muito
importante e, cada vez mais, a gente vem engrossando essa corrente de homens e mulheres lutando por um Brasil mais justo, de igualdade. Um país
onde todo mundo possa viver feliz”.
13
Assim como Meire, muitas outras vozes femininas, estimuladas pelo Proteger a se
apropriarem do poder da palavra, estão pouco a pouco resgatando até sua auto-estima e
ampliando sua participação na esfera do espaço público, conquistando reconhecimento
como cidadãs de plenos direitos, sem precisar da intermediação de ninguém.
Zélia Carvalho dos Santos, do município de Anapu (PA), apesar de achar mais fácil
pegar na agulha e na linha para fazer um bordado bonito, como a capa deste Manual,
do que segurar o microfone, conseguiu vencer o medo e a timidez para participar do
programa Mãe Natureza, produzido na Oficina de Comunicação do Proteger, em Altamira
(PA).
14
Já na Oficina do Maranhão, realizada no município de João Lisboa, o tom do programa foi dado pelo canto das quebradeiras de coco
babaçu. Na oportunidade, Ely Querubina, monitora do Proteger, além de cantar a música que anima suas companheiras de luta na defesa do
babaçu livre, fez questão de entoar o Hino do Proteger, que é de autoria do compositor Raimundo Oliveira:
“Nós somos do Proteger, nós somos do Proteger, de segunda a segunda, todo dia, toda hora, nós somos do Proteger...
Nós somos do Proteger, fazemos nosso trabalho com amor e união, ajudando e defendendo o estado do Maranhão...”
Que cantando ou discursando, as vozes femininas assumam, de vez, os microfones da vida e que o nosso rádio mulher possa estar
sempre a serviço de uma comunicação que privilegie a cidadania plena para homens e mulheres, a eqüidade de gênero.
Rádio & Cidadania: um compromisso social
“Aqui não falta sol, aqui não falta chuva - A terra faz brotar qualquer semente - Se a mão de Deus protege e molha o nosso chão Por que será que está faltando pão - Se a natureza nunca reclamou da gente - O corte do machado, a foice, o fogo ardente - Se nessa terra
tudo que se planta dá - Que é que há meu país, que é que há?
Tem alguém levando lucro, tem alguém colhendo fruto sem saber o que é plantar - Tá faltando consciência, tá sobrando paciência,
tá faltando alguém gritar - Feito um trem desgovernado, quem trabalha tá ferrado nas mãos de quem só engana - Feito um mal que não
tem cura, estão levando à loucura o país que a gente ama”.
Esta música foi fundo musical nas Oficinas de Comunicação do Proteger. A maioria d@s participantes emprestou sua voz à canção
de Zezé Di Camargo e Luciano. Em coro, transformaram os versos de “Meu país” em uma pauta de reivindicações. Dentre elas, a liberdade de
expressão e o direito à uma comunicação voltada para os anseios da comunidade. Porque ser cidadã/ão, entre outras coisas, é ter voz ativa. É
poder falar e ser escutad@.
Nesse sentido, nenhum outro veículo é tão democrático quanto o rádio. É nele que todo mundo tem a chance de se ouvir e ser ouvid@,
embora nem sempre essa experiência seja muito agradável. Jair Fonseca, que participou da Oficina de Comunicação do Proteger, em Alta
Floresta (MT), não gostou do resultado, quando se ouviu pela primeira vez:
“No primeiro momento que eu ouvi a minha voz no rádio, eu tive estranheza porque a minha voz saiu diferente. Eu achei que não era eu quem
estava falando. Mudou alguma coisa na minha voz. Então, é essa sensação de estranheza. Depois, a gente vai se auto-avaliando, o que tem para
melhorar, algumas coisas assim”.
Angelita também participou da Oficina e compartilhou, com Jair, do mesmo sentimento de “estranheza”:
“Eu fiquei muito decepcionada porque, quando comecei a falar no rádio, o pessoal falava que minha voz era boa. Então, eu pensava que
minha voz era igual a sua, Mara, ou igual a voz da Artemisa Azevedo, da Rádio Nacional. Quando eu ouvi, fiquei decepcionada. Não queria pegar
mais o microfone porque eu achei que minha voz era muito diferente do que eu imaginava, na minha cabeça. Mas acho que, aos poucos, vou me
acostumando com a idéia”.
Com certeza, Angelita vai se acostumar com a própria voz ao microfone, nem que seja preciso se exercitar como o comunicador
Malaquias, que é beija-flor de Balsas, no Maranhão. O homem tem 35 anos de vida e, desde os 29, fala ao microfone, seja cantando na Igreja,
seja militando no sindicato. Palavras dele: “Posso não gostar do companheiro microfone. Mas, quando fico de frente pra ele, eu sei pronunciar
tudo o que eu tenho pra dizer”.
15
Malaquias é um exemplo cidadão de quem se percebe como sujeito da história de seu país, pleno de direitos e deveres. Quando, em
nome de sua categoria, rompe com suas limitações, frente ao microfone, na prática ele está fazendo o que entendemos por rádio social, o rádio
que coloca o bem comum em primeiro lugar. Com isso, nosso amigo se torna um agente da mudança e se habilita a colocar as pessoas em
movimento.
Mulheres em ação
Na Oficina de Conceição do Araguaia (PA), a amiga do Proteger, Maria
Meire, comandou o programa Mulheres em Ação e, com isso, realizou um
sonho das trabalhadoras rurais de sua comunidade. Há muito tempo,
elas queriam produzir um programa de rádio só para as mulheres e para
os homens que gostam muito delas. Ao final da transmissão, pela Rádio
Regional do Araguaia, Meire avaliou a experiência em nome do grupo:
16
“Foi muito rico saber que tinham milhares de trabalhadoras/es
naquele momento, ouvindo a nossa mensagem. Pra nós, foram vários
sonhos realizados. Primeiro, trazer Mara Régia para fazer uma Oficina
onde a gente poderia capacitar as mulheres e os jovens para ocuparem
as rádios comunitárias da região. Foi uma emoção muito grande e, com
certeza, esse programa vai trazer muitos frutos porque já têm muitas
pessoas trabalhando de fato para que nós possamos colocar a nossa rádio no ar. Estamos lutando aqui para o processo avançar e, com
certeza, essa Oficina foi um grande primeiro passo. O segundo será criar um programa onde a gente possa usar o espaço para conscientizar as
mulheres, para que elas possam sair da opressão, lutar contra a violência, contra a questão do machismo que ainda é grande em nosso país.
Nós, mulheres, merecemos uma sociedade igualitária, onde todas possam ter o mesmo direito que os homens têm”.
“Mulheres querem um mundo mais justo pros filhotes crescer sem susto - Mulheres querem um mundo de paz sem elite, - sem capataz.
Amigas, vamos marchar - Chega de fome, pobreza e violência - Amigas, vamos marchar - Cantando pro mundo a nossa irreverência”.
(Trecho do hino da Marcha das Margaridas 2000 - versão das Loucas de Pedra Lilás, Recife/PE)
A Marcha das Margaridas é um marco na história de mobilização das mulheres, no Brasil e no mundo. Em agosto de 2003, mais de
20 mil trabalhadoras rurais conseguiram chegar em Brasília com uma extensa lista de reivindicações: reforma agrária, um novo modelo de
desenvolvimento, meio ambiente saudável etc. O direito à comunicação, por meio do fortalecimento das rádios comunitárias, acabou se
transformando num dos pontos mais importantes da pauta e do discurso do amigo beija-flor Valdivino Cunha da Silva, em Belém, durante a
realização da Primeira Plenária Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais, no Pará, entre os dias 14 e 16 de fevereiro de 2003.
“É importantíssimo as mulheres estarem plantando o fortalecimento das rádios comunitárias, porque nós entendemos que a
apropriação da mídia pelos trabalhadores é tão importante quanto as outras lutas que a gente vem na batalha, há muitos anos. Portanto,
nós entendemos que o poder de comunicação é estratégico para o movimento das mulheres porque, através dele, temos condição de
expressar a nossa ideologia, as nossas propostas como trabalhadores rurais. A gente sabe que os meios de comunicação estão nas mãos de
um monopólio, um grupo muito fechado e as mulheres não fazem parte desse grupo. Se estamos num governo democrático, é necessário
que a democratização dos meios de comunicação também se faça. A comunicação não pode ser instrumento do capital. Nós, trabalhadores e
trabalhadoras, temos que nos apoderar desta ferramenta. Por isso, reafirmamos o papel das rádios comunitárias dentro das ações do Proteger
e da FETAGRI (Federação dos Trabalhadores na Agricultura) como uma proposta da Marcha das Margaridas em Brasília. Muito obrigado!”
O discurso de Valdivino não deixa dúvidas: o rádio é um senhor porta-voz dos movimentos sociais e da cidadania. Na defesa dos
direitos humanos das mulheres ou na promoção da educação ambiental, ele é indispensável para a divulgação de projetos e campanhas
como as que o Proteger vem disseminando com o propósito de evitar as queimadas descontroladas e os incêndios florestais.
Júlio César Magalhães, técnico da coordenação nacional do Projeto, fez questão de registrar o valor do rádio na divulgação das
experiências de produção sem fogo do Proteger no CD que foi produzido para mobilizar beija-flores nos limites da Amazônia Legal composta
pelos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Roraima, Rondônia, Tocantins e parte do Maranhão.
17
“Nós contamos com esse grande elemento de difusão das nossas experiências, que é o rádio. A gente sabe que ele é um meio importantíssimo
de comunicação na Amazônia. Por isso, a gente está privilegiando esse veículo. Estamos contando com as rádios comunitárias. Para isso, estamos
nos mexendo para produzir o material necessário para essa divulgação, para que esses assuntos passem a fazer parte da programação das rádios
locais. Estamos preparando spots, recolhendo informações nos nossos seminários, entrevistas porque nós queremos ouvir e dar voz ao agricultor
para que, juntos, nós possamos tentar construir um futuro melhor para nós, nossos filhos, para os jovens e as mulheres, enfim para toda a população
da Amazônia”.
(Júlio César Magalhães, técnico da coordenação nacional do Projeto Proteger)
Assim como Júlio César, muit@s beija-flores emprestaram suas vozes e testemunhos à Campanha do Proteger. É o caso de seu José
Balduíno, do município de São Miguel (RO):
“Hoje, a gente acompanha os grupos porque tem que levar para mais pessoas tudo aquilo que a gente sabe e tentar fazer a cabeça de alguém
para ter o companheirismo. A proteção ao meio ambiente, ela é comunitária, ela é geral. Eu faço a minha parte e tento ajudar as pessoas”.
18
Trecho usado no spot radiofônico sobre a lenda que inspira as ações do Projeto Proteger
17
A força de depoimentos como esse faz com que @s beija-flores do Proteger sempre estejam sendo chamad@s a participar de vários
programas de rádio. Principalmente do Natureza Viva, que vai ao ar pela Rádio Nacional da Amazônia. O programa é um projeto do WWF-Brasil,
desenvolvido em parceria com a Rede GTA e a Radiobrás. Por uma coincidência histórica, o Natureza Viva, assim como o GTA, nasceu em 1993
como desdobramento e “eco” da Conferência Mundial do Meio Ambiente, em 1992.
Natureza Viva: o rádio da floresta
Sob o signo da vitória-régia, o programa Natureza Viva destina-se às comunidades ribeirinhas e florestais da Amazônia. Pioneiro no
campo da educação ambiental, consolidou-se como uma referência. Tanto assim que foi matriz e inspiração para a produção da série dos
programas que foram criados a partir das Oficinas do Proteger. Em Macapá, Natureza Viva virou Viva Natureza. Em Palmas, Natureza Vida. Em
Altamira, Amazônia Viva... Numa prova inequívoca de que há uma sintonia entre as mais diferentes comunidades que têm o compromisso
de PROTEGER o meio ambiente. Esse é, também, o objetivo maior do Natureza Viva. Mas há outros, mais específicos, como o intercâmbio de
experiências; dar voz às lideranças rurais; e divulgar os eventos ligados ao desenvolvimento sustentável da região.
Seu formato de rádio-revista tem seções voltadas para a valorização dos produtos agroflorestais, o trato das plantas e ervas medicinais
e outros temas relacionados com a saúde. É nessa área que a dimensão do rádio é vital para a população amazônida.
“Querida Mara, meu nome é Gilda. Moro na roça e você é minha companheira de todas as manhãs. Quero parabenizar você por esse trabalho
tão maravilhoso. Quero também te agradecer muito porque você me fez descobrir que eu tinha um caroço no seio. No começo, fiquei desesperada.
Mas meu marido me deu força e fez tudo para que eu pudesse ver o que era. Fui para São Paulo, fiz uma cirurgia, retirei o caroço e, graças a Deus, era
benigno. Nem sei como te agradecer. Mara, muito obrigada por tudo”.
(Gilda Luiz Batista – Virgem da Lapa / MG)
“Olhe, amiga, estou desesperada. Por favor, me ajude. Tenho 52 anos. Tenho um tal de corrimento e uma coceira que me perturba muito. Estou
tomando remédio caseiro: alho com sumo de mastruz de folha grossa e malva do reino. Outra coisa: agora estou sentindo uma dor no fundo da
virilha. Gostaria que mostrasse essa carta para uma doutora”.
(Rosa Vermelha, de algum lugar da Amazônia)
19
Os conteúdos dessas cartas são o
lado mais sensível do Natureza Viva: Natureza
Mulher, um quadro que se transformou em
projeto de pesquisa sobre saúde, sexualidade
e diretos reprodutivos, com o apoio da
Fundação MacArthur, no período de 1997 a
2000.
20
D
iz a lenda que as índias moravam ao
pé da serra mais alta e mais bonita do rio
Amazonas: a serra da Lua. Em noite estrelada,
banhavam-se num pequeno poço que ficava
no topo da montanha. Era uma festa! Até que,
um dia, a índia guerreira, que era a líder do
grupo, se afogou no lago e a tristeza tomou
conta da aldeia. As índias saudosas passaram
a fazer um culto à índia guerreira. Um belo dia,
ou melhor, numa bela noite, o rosto da índia
guerreira aproveitou-se do brilho da lua no
espelho das águas do lago para aparecer com
um sorriso nos lábios e a promessa de muita
sorte para tod@s. A alegria voltou a reinar na
aldeia e o lago entrou para sempre no coração
das pessoas que, carinhosamente, passaram a
chamá-lo “Espelho da Lua”.
Mas o Natureza Viva é, ainda, Natureza
Criança porque dedica grande parte do seu
espaço aos meninos e meninas da floresta.
Embalad@s pelos sons da natureza, usam
a magia do rádio para contar as mais belas
histórias e lendas amazônicas: a do boto,
do curupira, da Iara, da vitória-régia. Através
desse mundo encantado, Natureza Viva
reflete e, ao mesmo tempo, promove o
resgate da cultura regional. Para tanto, conta
também com a colaboração d@s beija-flores
do Proteger. O Íris, por exemplo, gravou uma
participação especial falando da lenda que (Depoimento de Íris durante a Oficina de
batiza a rádio comunitária onde ele trabalha: Comunicação, realizada em Santarém – PA,
para o programa Natureza Viva)
a Rádio Espelho da Lua.
Relatos como esse, de Íris, rapidamente se
transformam em indicadores de sucesso
do programa. Mas há outros dados que
comprovam os altos níveis de audiência do
Natureza Viva. De acordo com a pesquisa
domiciliar do WWF-Brasil e do ISER – Instituto
de Estudos de Religião, realizada no Acre,
Rondônia e Pará, o programa é conhecido
por 24% da população em geral e por 47%
da população nas áreas rurais, sendo que
16% declararam ter escutado o Natureza Viva
na semana em que foi feita a sondagem, em
setembro de 2000. A pesquisa ouviu, ainda, 90
formadores/as de opinião e comprovou sua
popularidade entre lideranças ambientalistas
e movimentos sociais.
Natureza Viva tem coordenação e apresentação de Mara Régia. É transmitido em ondas curtas pela
Rádio Nacional da Amazônia, a única capaz de atingir simultaneamente os nove estados da Amazônia Legal.
Vai ao ar aos domingos, das 9h às 10h (horário de Brasília), nas freqüências 11.780 kHz, faixa de 25 metros
e 6.180 kHz, faixa de 49 metros. No Acre, o programa é retransmitido em FM pela Rede Aldeia de Rádios
Educativas do Estado e, de 8h às 9h – hora local – pela Rádio Difusora Acreana – AM, 1.400 kHz.
Foto:Marcelo Corrêa
Metodologia das Oficinas de Comunicação do Proteger
Não há receita que garanta o sucesso de uma experiência radiofônica. Até porque os momentos históricos não se repetem. Mas,
de qualquer forma, o acúmulo de uma experiência pode ser determinante para a consolidação de um projeto. Natureza Viva é um bom
exemplo disso. Independentemente do volume de cartas e prêmios que tem recebido ao longo de sua trajetória, o programa é, antes de
tudo, um laboratório experimental de práticas e redescobertas. Isso foi fundamental para que seu processo de produção se transformasse em
metodologia para as oficinas de comunicação de várias entidades ambientalistas.
Contudo, graças ao Projeto Proteger, esse “modelo” pôde ser testado e aprovado. Durante a capacitação das lideranças comunitárias,
monitores/as do Projeto e pessoas envolvidas com o trabalho em rádios comunitárias, pudemos melhor dimensionar a eficácia de nossa
comunicação. Destaque para a desenvoltura das lideranças femininas e d@s jovens do meio rural que, em função do potencial que têm como
multiplicadores/as sociais das ações do Proteger, deram um show de competência.
As oficinas privilegiaram exercícios práticos sobre formatos radiofônicos, técnicas de radiojornalismo e produção de programas
especiais. Também foram utilizadas dinâmicas de socialização e dramatização com o objetivo de aumentar a integração entre @s participantes
e fixar o conteúdo temático.
A seguir, disponibilizamos o roteiro e os eixos principais da nossa dinâmica de trabalho.
1º Dia
Boas-vindas e socialização do grupo;
Elaboração das regras de boa convivência;
Apresentação dos objetivos da Rede GTA e do Projeto Proteger;
Trocando experiências relevantes no trato das questões que fazem a pauta temática do Proteger;
O programa Natureza Viva na disseminação das boas práticas ambientais;
Discussão temática dos eixos da Campanha de Divulgação do Proteger;
Avaliação dos impactos e desdobramentos que ela tem nas comunidades locais;
Redescobrindo o rádio: estudos da linguagem, formatos e análises dos temperos que podemos usar para a potencialização do veículo rádio
na promoção da educação ambiental;
21
Trabalho de pesquisa junto aos/às participantes da Oficina com o objetivo de identificar experiências que possam fazer parte do Banco de
Vozes do Proteger e de outras produções radiofônicas;
Noções básicas de entrevista. Dramatização de situações e tipos de repórteres;
Definição das várias funções de uma equipe de rádio;
Formação de grupos de trabalho com base no talento e no perfil d@s participantes;
Avaliação do dia.
22
2o Dia
3º Dia
Acorda, corpo;
Audição do que foi produzido;
Dinâmica de sons;
Ensaio geral para revisão e finalização do trabalho;
Técnicas vocais e de interpretação de texto;
Visita à rádio local para o exercício final;
Oficina da Palavra: o bê-a-bá da produção de textos - os Qs do radiojornalismo;
Navegando nas ondas do rádio, ao vivo – o programa
no ar;
Exercício prático de criação de texto tendo como fonte a Folha Proteger;
Trabalho livre de produção radiofônica em qualquer um dos formatos estudados;
Criação e roteirização de um programa de rádio;
Apresentação do script para ser devidamente avaliado pela equipe técnica;
Divisão dos grupos para os trabalhos práticos de gravação, edição e sonorização;
Avaliação do dia.
Avaliação da Oficina;
Encerramento com entrega dos certificados;
Despedidas.
A metodologia das Oficinas de Comunicação do Proteger vem
sendo replicada pel@s beija-flores espalhad@s pela Amazônia Legal. Em
Santarém (PA), o comunicador popular Marcos Mota, do Projeto IARA,
recentemente ministrou uma oficina de comunicação que teve por
base as dinâmicas e os temas que o Projeto Proteger privilegia, em sua
estratégia.
Jéferson Lobato, da Rádio Educadora FM de Gurupá, também do
Pará, depois da Oficina, prometeu fazer uma revolução na sua emissora:
“Vou reunir os locutores, a direção, os coordenadores, os sonoplastas e
plantar esta semente que eu vim colher aqui em Altamira. Tenho certeza
que, depois dessa reunião, nós vamos ficar com uma nova cara, uma nova
proposta para nossa emissora”.
Faça você também a sua parte e ajude seu grupo ou sua
organização a divulgar, da melhor forma possível, o trabalho que vem
fazendo. Não se esqueça que informação é poder! Ao final, esperamos
que seu esforço seja coroado com uma avaliação tão positiva quanto a
que foi feita pel@s participantes da Oficina do Proteger, em Altamira (PA).
Eis o que eles/as gravaram para o Banco de Vozes do Projeto.
Ana Cássia, companheira de trabalho de Jéferson, também falou
em mudanças: “Com certeza, muita coisa vai ser mudada. A gente aprendeu
sobre o que é uma verdadeira programação de rádio comunitária. Mais
informação para as pessoas, principalmente para o povo do interior que
não tem muito acesso a outros meios de comunicação. Temos que facilitar a
comunicação voltada para a zona rural”.
Entrevista da beija-flor Tânia Sena com Maria do Amparo Leite, de
Placas (PA), do movimento de mulheres, no encerramento da Oficina:
Todos esses relatos são indicadores que comprovam a eficácia
da estratégia das Oficinas e, ao mesmo tempo, são uma prova de
que “quem não se comunica, se trumbica”. Esta é a tese do saudoso
José Abelardo Barbosa de Medeiros, popularmente conhecido como
Chacrinha. O apelido vem da época do rádio. A emissora onde o Velho
Guerreiro trabalhava ficava numa chácara pequena: a chacrinha. Apesar
de ser médico por formação, esse pernambucano de Surubim começou
a trabalhar em Rádio no Recife. Em 1941, foi para o Rio de Janeiro, onde
ganhou fama na Rádio Clube de Niterói, com o programa “Cassino do
Chacrinha”. Sua irreverência não demorou a se transformar em marca
registrada. Costumava recepcionar seu público de cuecas e um lenço
tipo bandana na cabeça. Não é à toa que Chacrinha é considerado o
primeiro comunicador do Brasil.
Em que essa oficina vai ajudar lá, no seu trabalho, na Rádio
Comunitária de Placas?
“Agora, nós vamos lutar para fazer o nosso programa e divulgar o
nosso trabalho”.
Tânia Sena com Rosemeire Oliveira da Silva, da Rádio Comunitária
Floresta FM, de Medicilândia (PA):
“Vou passar para as comunidades dicas pra gente se comunicar
melhor. Além disso, vamos tentar trabalhar mais a educação pra evitar que o
pessoal jogue lixo no chão e polua a natureza com outras coisas também”.
Avaliação de Cristiane Moreira Brasil, da Fundação Antena Livre
FM, de Uruará (PA):
“Eu aprendi muito e, com certeza, vou levar todas as informações
para os ouvintes. Vamos trabalhar mais a consciência de que preservar é
importante”.
23
Teresiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinha, uuuuuuuuuuu!!!
Falando para as massas e balançando a pança, Chacrinha teve o privilégio de participar do grande show de
inauguração da televisão, no Brasil, em 18 de setembro de 1950. Daí para frente, o seu cassino e as suas chacretes
nunca deixaram de fazer sucesso, tampouco de faturar grandes patrocínios. Quando fechou contrato com as Casas
da Banha, uma rede de supermercados que fez muito sucesso nos anos 60, no Rio de Janeiro, Chacrinha acabou
transformando o seu programa numa feira das mais animadas: “Vocês querem bacalhau? Quem quer pepino?
Quem vai ganhar o troféu abacaxi?” E assim seguia carreira com seus bordões e frases antológicas: “Eu vim para
confundir e não para explicar”.
Abelardo Barbosa jamais abandonou o rádio, mas foi para a televisão que ele deixou sua maior herança.
Como diz a música de Gilberto Gil, o “velho palhaço” soube, como ninguém, dominar as câmeras e comandá-las com
o seu dedo indicador em riste: “Roda, roda, roda e avisa – um minuto pro comercial, alô, alô Teresinha, é um barato a
Discoteca do Chacrinha”.
Quem quiser se aventurar na telinha, como o “homem da buzina”, além de talento, vai precisar ter alguns
cuidados. Até porque o olho da TV enxerga tudo e sua linguagem é muito particular.
24
A socióloga especialista em comunicação, Fátima Jordão, costuma dizer que televisão rima com rapidez.
Além disso, exige uma série de precauções. Quando for aparecer, cuide minuciosamente da apresentação:
roupa e maquiagem sem espalhafato (a menos que você seja a reencarnação de Chacrinha), cabelo bemarrumado, adereços discretos. Entonação e gestos também comunicam. É a chamada comunicação
não-verbal. Sempre que possível, escolha um local que lhe seja familiar, onde se sinta segur@, para
amenizar o incômodo das luzes, câmeras e microfones.
Por mais longa que seja a entrevista, provavelmente seu tempo no ar,
editado, não passará de 15 ou 20 segundos. Portanto, não se estenda. Exponha
com clareza e em poucas palavras os pontos importantes a comunicar. Não
perca tempo falando da sua instituição porque, normalmente, o editor
corta esse trecho para não parecer propaganda gratuita. Se fizer mesmo
questão que sua instituição apareça, coloque um boné ou uma camiseta
com a logomarca do seu projeto. O Proteger aposta nessas ferramentas
e seus/suas beija-flores estão sempre bem na foto.
Se você for convidad@ para entrevistas em estúdio, assista antes
ao programa para conhecer bem seu mecanismo e as manhas d@
entrevistador/a. Cuide bem da sua vestimenta para que ela não entre em
choque com as cores do cenário. De modo geral, prefira os tons pastéis: o
bege e o cinza sempre caem bem.
Procure, depois da entrevista, a produção e @ entrevistador/a
para agradecer novamente, comentar a repercussão, elogiar a produção
(isso vale também para imprensa e rádio). Coloque-se à disposição para
agendar futuras intervenções suas ou de outras pessoas ligadas ao tema.
Como no rádio, grave sua participação para poder avaliar, com outras
pessoas, o seu desempenho.
Informe-se antecipadamente da pauta da entrevista. Mas, nem
O secretário-executivo do GTA, Fábio de Andrade Abdala, quando
em sonho, pergunte ao/à jornalista o quê ele/a vai lhe perguntar. Ofereça,
à produção, subsídio sobre o tema a ser tratado, enviando material de convidado a participar da Semana de Sustentabilidade Ambiental e
informação, resumido, bem mastigado, editado de forma favorável a seus Social do Banco Mundial (ESSD WEEK), realizada em Washington, nos
Estados Unidos, em 2004, aproveitou o material sobre comunicação, que
pontos de vista, ainda que contenha opiniões divergentes.
foi distribuído durante o evento, para melhorar o seu desempenho e o
Cheque o tempo disponível e, de acordo com ele, organize as de sua organização junto aos meios de comunicação. De volta ao Brasil,
idéias no papel e as informações que quer passar. É sempre eficiente traduziu as dicas que recebeu lá fora e distribuiu para @s coordenadores/
contar casos, “personalizar” a informação. Todo mundo adora ouvir as da Rede GTA. Vale a pena conferir!
história.
25
Dez dicas da Rede GTA
01 - Seja um/a tradutor/a – tente sempre ficar
mais próximo das pessoas. Baseie seu discurso em
fatos científicos, mas evite jargões técnicos ou um
vocabulário muito elaborado. Isto confunde as pessoas
e o público reage negativamente.
02 - Seja confiante – lembre-se de que você sabe
o assunto, então relaxe e passe uma sensação de
conforto.
03 - Seja honesto – se você não sabe a resposta para
uma pergunta, aceite isso. Sua credibilidade é a chave
para o seu sucesso.
04 - Seja conciso e claro – vá direto ao ponto.
05 - Seja humano – use humor, conte uma história
que reforce sua mensagem. Seja você mesmo.
06 - Seja próximo e pessoal – histórias pessoais e/ou
piadas sempre ajudam a passar um conceito, enfoque
ou idéia e têm um efeito marcante no público.
07 - Seja consistente – tenha seu roteiro em mente
e passe sua mensagem de uma maneira positiva, com
uma idéia de compromisso.
08 - Seja atencioso – ouça as perguntas com atenção
e responda com consistência. Diga o que você quer
dizer.
09 - Use linguagem corporal – gestos, expressões
faciais etc. para dar energia e consistência às suas
palavras.
10 - Seja humilde – lembre-se de que você trabalha
com parceir@s e que, sem eles/as, não há sucesso.
Fonte: Semana de Sustentabilidade Ambiental e
Social do Banco Mundial (ESSD WEEK – 2004)
Oficina da palavra: a linguagem do rádio
No manual operacional do Proteger vol. III, aprendemos a dobrar a língua, ou seja, a abolir do dicionário palavras e expressões que
tenham um conteúdo preconceituoso e discriminatório. Exemplo: denegrir, que significa tornar negro – o verbo é claramente racista; idem para
judiar, que também faz alusão ao tratamento dado aos judeus antigamente. No capítulo da Oficina da Palavra, tentamos ainda desnaturalizar
o masculino como sinônimo da condição humana. Nesse sentido, nossa proposta foi deixar de lado o uso de frases e palavras que escondem
as mulheres por trás dos homens. Em vez de os “Direitos do Homem”, usar “Direitos Humanos”. No lugar de “os jovens”, para rapazes e moças,
porque não dizer “a juventude”?
Neste Manual IV , queremos compartilhar algumas dicas sobre a linguagem radiofônica com o objetivo de melhorar a sua comunicação
nas ondas do rádio.
1º recado: Falar no rádio é quase uma conversa telefônica. O tom do bate-papo, precisa ser íntimo e amigável. Lembre-se que até o
programa mais tradicional do rádio brasileiro – A Voz do Brasil - abandonou o ar sisudo e a formalidade para ser a “nossa voz”. É o que diz a
vinheta de abertura:
26
“Está no ar a sua voz, a nossa voz, a voz do Brasil”.
Fique à vontade ao microfone. Imagine que quem está na escuta de seu programa é um/a velh@ e querid@ amig@. Converse com
ele/a. Evite o palavrão – as palavras de difícil compreensão. Quanto àquelas que doem no ouvido, nem pensar. Evitar a baixaria nos meios de
comunicação é um compromisso ético.
2º recado: Como o dinheiro, ninguém tem tempo a perder. Portanto, não enrole. Vá direto ao ponto. Mas é bom lembrar de uma regra
básica da comunicação: desperte a atenção. De preferência, com uma frase atraente que aguce a curiosidade de quem está navegando com
você nas ondas do rádio.
“Escute esta canção que é pra tocar no rádio, no rádio do seu coração.
Você me sintoniza e a gente então se liga nessa estação”. (Sintonia – Moraes Moreira)
3º recado: O que se diz no rádio deve ser curto e grosso. Prefira palavras breves e simples. Vocabulário pomposo é coisa para os
imortais da Academia Brasileira de Letras. Aposte no que é mais conhecido e popular. Numa nota de falecimento, diga “fulano morreu” em vez
de faleceu. Para os momentos felizes, ao invés de dizer o matrimônio, as bodas, as núpcias, prefira simplesmente o casamento.
4º recado: Tenha voz ativa. Ela é mais vigorosa, concisa e direta. A voz passiva como o próprio nome diz, tem metade da força. Veja os
exemplos:
•
Voz ativa - Um tiro provocou a correria.
•
Voz passiva - A correria foi provocada por um tiro.
5º recado: Leia sempre. Se possível, em voz alta para treinar a respiração e a pausa. Mas, além disso, a leitura enriquece o vocabulário.
Um bom leitor quase sempre é um bom comunicador. Sabe dizer o que é, e não o que não é. Quer exemplos:
Não ser honesto é ser desonesto; não lembrar é esquecer; não dar atenção é ignorar; não comparecer é faltar; não pagar em dia é atrasar
o pagamento.
6º recado: No rádio, os erros de ortografia não existem. Você pode escrever hora sem h, Brasil com z, berinjela com g, que ninguém vai
perceber. Iiii. Rimou. Na prosa, evite que isso aconteça. Mas, com rima ou sem ela, o fato é que, hoje, graças às novas tecnologias, ninguém precisa
queimar pestanas consultando o dicionário. Nas emissoras informatizadas, o computador corrige os erros ortográficos automaticamente.
Contudo, máquina nenhuma no mundo é capaz de elaborar uma redação sozinha, tampouco resolver o problema da falta de conhecimento
de uma pessoa.
A seguir algumas “pérolas” colhidas por um professor que corrigiu as provas de redação do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM,
sobre o tema “ecologia”.
“O problema da poluição no mundo
é grande por causa da camada Diozoni”.
“O maior problema da floresta
Amazonas é o desmatamento dos peixes”.
“Por isso eu luto para atingir os
meus obstáculos”.
“A natureza foi discuberta pelos
homens a 500 anos atrás”.
“O fenômeno Euninho provocou um
grande incêndio em Roraima”.
“Os lagos são formados por bacias
esferográficas”.
27
Campanhas de Proteger a natureza
A beija-flor Toinha, monitora do
Proteger em Altamira (PA), acha que as
pessoas fazem as coisas erradas porque,
muitas vezes, não aprenderam a fazer
certo. Para mudar velhos hábitos e atitudes,
Toinha acredita no poder das campanhas
educativas e sugeriu que este Manual
de Comunicação privilegiasse algumas
informações sobre o tema que dá título a
este capítulo.
28
“Às vezes, uma palavra, uma frase,
tipo: não jogue lixo na água, é capaz
de mudar comportamento. Gostaria de
aprender, por meio desse Manual, a fazer
campanha e a entender o verdadeiro papel
do rádio. Tem muita gente que pensa que
rádio é só comercial, música e pronto. Os
locutores precisam se capacitar pra prestar
um bom serviço pra comunidade”.
O tipo de campanha a que Toinha
se refere é educativa e deve ser usada com
o objetivo de mudar comportamento. O
desafio é grande e leva tempo. Afinal, a
maioria das pessoas resiste até em mudar
de cadeira em sala de aula.
A escritora Clarice Lispector sabia
disso quando escreveu o texto:
M U D E
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a
velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da
mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da
rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras
ruas, calmamente, observando com atenção os
lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus. Mude por uns tempos o
estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos. Procure andar
descalço alguns dias.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão
esquerda.
Durma no outro lado da cama. Depois, procure
dormir em outras camas.
Assista a outros programas de TV, compre
outros jornais, leia outros livros.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a
novidade.
Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já
conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento,
o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda!
Repito, por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!
Em sua instigante provocação,
Clarice Lispector só faltou mandar a
gente mudar de pele. Mas, normalmente,
as pessoas só conseguem mudar hábitos,
atitudes e, principalmente, estilo de vida
na medida em que aumentam seu
conhecimento a respeito de um assunto
ou diante das insatisfações da vida.
O impacto dessa mobilização foi tão grande que chegou ao Congresso Nacional e conseguiu sensibilizar @s parlamentares.
O informativo da Rede – InfoGTA registrou o fato, na edição de abril de 2003:
INFORMATIVO
CONGRESSO NACIONAL PREPARA EVENTO ESPECIAL SOBRE CAMPANHA
Diversos parlamentares dos estados da Amazônia Brasileira estão acompanhando a campanha da Rede GTA contra a biopirataria e se
pronunciando sobre o assunto. O tema será aprofundado num importante evento na segunda quinzena de maio: uma sessão especial vai reunir
comissões do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, onde recentemente foi concluída a CPI da Biopirataria.
O ato solene deverá abordar os temas da campanha lançada pela Rede GTA, Amazonlink e CIITED que tratam da reformulação das leis
brasileiras sobre biodiversidade e as posições diplomáticas do Brasil nas negociações internacionais sobre a revisão do acordo internacional de
Propriedade Intelectual da Organização Mundial do Comércio – mais conhecido pela sigla TRIPS – e, ainda, a implementação da Convenção
da Diversidade Biológica.
Foto: Arquivo GTA
As campanhas em geral estão associadas à promoção de vendas e
consumo de produtos, o chamado marketing. Contudo, nos dias de hoje, elas têm
um novo significado, principalmente para o movimento social. São as campanhas
de mobilização, voltadas para uma ação quase sempre cidadã e política. A própria
Rede GTA, quando precisou dizer ao mundo que O CUPUAÇU É NOSSO, fez uma
grande campanha com desdobramentos muito positivos. Consolidou novas e velhas
parcerias, com Amazonlink, Instituto Brasileiro de Direito Internacional (CIITED) e até
com o Museu Paraense Emílio Goeldi. Conseguiu, também, dar uma dimensão maior à
campanha, ampliando seu eixo de atuação no combate à biopirataria. Para isso, além
de potencializar o uso do rádio na divulgação da campanha, através do programa
Natureza Viva, distribuiu farto material promocional: camisetas, bonés, bottons etc.
Cuidou, também, de aproveitar a tradicional Festa do Cupuaçu, no município de
Presidente Figueiredo, no Estado do Amazonas, para fazer um abaixo-assinado gigante:
uma faixa de 20 metros que foi totalmente preenchida com palavras de ordem e apoio
explícito das pessoas que aderiram à campanha.
29
Quando uma campanha de mobilização, como esta da Rede GTA, consegue um número tão grande e diversificado de apoios, seu
sucesso é inevitável. E a vitória que o Brasil conquistou nos tribunais internacionais, anulando a patente que o Japão pretendia fazer do NOSSO
CUPUAÇU, é prova disso. As pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para o final feliz desta história, devem se sentir encorajadas
para a elaboração de novas campanhas que tenham como objetivo maior a democracia participativa, ou seja, o direito que tod@ cidadã/o
brasileir@ tem de interferir nas políticas públicas do nosso país. A começar pelo voto. Mas, por favor, não se aventure a fazer campanha eleitoral
porque isso é tarefa para @s profissionais da publicidade, @s chamad@s marketeir@s. Gente que passa a vida estudando uma estratégia para
colocar no poder inclusive aqueles(as) candidat@s que a gente sabe que são mentiros@s e corrupt@s. Mas você pode e deve fazer campanhas
menos pretensiosas para sua comunidade não ser enganada nas eleições ou para apoiar as candidaturas femininas que, infelizmente, ainda
não conseguiram ocupar o seu lugar no cenário político nacional.
Dicas para quem quiser testar sua vocação publicitária na criação de uma campanha
Em primeiro lugar, você precisa saber responder as seguintes perguntas:
30
•
Aonde quero chegar?
•
Qual o prazo que tenho?
•
Quanto posso gastar?
O passo seguinte é escolher as melhores ferramentas para alcançar o público que se quer atingir. Cada caso é um caso. Mas,
obrigatoriamente, toda campanha precisa cumprir os seguintes desafios:
1Ser criativa - o suficiente para chamar atenção e despertar curiosidade. Mas cuidado! Isso não significa que se tenha que apelar
para a melancia na cabeça.
2Ser festiva – uma campanha deve começar com força total! Bolas, balinhas e balões. Se tiver dinheiro para fazer faixas e folhetos,
melhor ainda. Não esqueça de aproveitar as datas comemorativas como uma chance de tirar proveito da mídia espontânea. Ex: se você quer
lançar uma campanha em defesa dos povos da floresta, por que não aproveitar o Dia da Amazônia (5 de setembro)? A mídia, em geral, está
sempre de olho em eventos desta natureza.
3Ser simbólica – o rubro-negro da bandeira do Flamengo é tão forte que a torcida do time é uma das maiores do Brasil. Assim
como as cores, marcas e personagens têm um significado tão grande que se confundem com o próprio produto ou com a instituição a que
pertencem.
Uma campanha-símbolo: o beija-flor do Proteger
A escolha de uma ave ou qualquer outro bichinho como símbolo de um projeto ou uma campanha é
sempre bem-vinda porque estabelece rapidamente uma empatia entre o emissor e o receptor da mensagem,
além de humanizá-la.
A idéia do beija-flor para o Proteger não poderia ter sido mais feliz porque esta minúscula ave está
associada ao sentimento de satisfação que traduz a participação e o engajamento de uma pessoa em qualquer
campanha de mobilização: “Eu estou fazendo a minha parte”. Essa é a grande frase da lenda do beija-flor que
traduz o espírito de solidariedade e o amor à natureza. Por uma dupla felicidade, além deste símbolo, o monitor
Ibanês Pereira Marinho, do município de Estreito (MA), cunhou uma frase que reforça a mensagem do colibri:
“A gente vai trabalhar uma nova consciência”. A partir daí, ficou fácil para a coordenação nacional do Projeto
escolher o slogan do Proteger.
O que é um slogan?
Segundo o Dicionário Aurélio, slogan é a palavra ou frase usada com freqüência, em geral, associada à propaganda comercial e campanhas
publicitárias. Mas, para fazer uma campanha, você vai precisar conhecer outras palavras que têm significados importantes no mundo da propaganda.
A seguir, um breve glossário:
A maioria das palavras desse glossário está em inglês porque a propaganda é uma invenção americana. Milo O. Frank, o mais importante
consultor dos Estados Unidos em assuntos de comunicação, descobriu até uma fórmula para garantir que uma mensagem seja 100% eficaz.
Para conhecê-la, você só vai precisar de 30 segundos.
31
O período de atenção
Segundo pesquisa de Milo O. Frank, a mente dos seres humanos só pode absorver informações novas por meio de um fluxo contínuo
e breve. Por quanto tempo você pode prestar atenção ao que alguém está dizendo sem deixar o pensamento escapulir para o campo do
dinheiro, do sexo e de outras coisas boas da vida? O período de atenção d@ indivídu@ médi@ é de 30 segundos.
Milo O.Frank propõe o seguinte teste:
Olhe ao redor da sala e concentre-se numa lâmpada. Você perceberá que, dentro de 30 segundos, sua mente fugirá para outro objeto.
Se a lâmpada pudesse se mexer ou falar, ou apagar e acender sozinha, tornaria a capturar sua atenção por outros trinta segundos. Mas, sem
movimento ou alteração, ela não conseguirá prendê-l@. Se quiser, então, que alguém preste total atenção ao que você tem a dizer numa
campanha publicitária, use apenas 30 segundos. Esse é o período de atenção do gênero humano.
“O pensamento parece uma coisa à toa - Mas como é que a gente voa - Quando começa a pensar”. (Felicidade, de Lupicínio Rodrigues)
32
Para vender “essa tal felicidade”, a propaganda comercial faz uso de apenas 30 segundos para dar o seu recado. O rádio e a TV também
não ficam atrás. Devido ao período de atenção, @s repórteres se utilizam de um minuto e meio para desenvolver uma reportagem.
Eis o esquema:
•
30 segundos para definir a história;
•
30 para desenvolvê-la por meio de uma entrevista sobre o que está acontecendo;
•
e outros 30 para a conclusão.
Normalmente, as pessoas acham que é impossível conseguir expor um pensamento num tempo tão curto. Mas este é o desafio para
quem quiser dominar a arte do convencimento.
Recado final
Se você precisa de um espaço comercial para divulgar uma campanha da sua organização, seja no rádio ou na TV (sem ter que pagar por
isso), é importante produzir uma mensagem de 15, 30 ou, no máximo, 60 segundos. Se a produção tiver qualidade e a temática for relevante, é
bem provável que a sua mensagem seja aproveitada. Qualquer empresa de comunicação negocia com facilidade o tempo de 30 segundos.
Antenas parabólicas: fragmentos do Banco de Vozes
“Instalem uma antena - E lancem um sinal - Nada no radar - Procuro no dial - Aviso aos navegantes, tem mais alguém aí? “
(Música “Aviso aos navegantes”, de Lulu Santos)
A equipe “antenada” do Proteger, que acompanhou a realização das Oficinas de Comunicação do Projeto, desde o início, tratou de registrar
os melhores momentos dessa experiência numa grande caixa de sons, um arquivo repleto de fitas cassetes que compõem um verdadeiro mapa das
vozes da Amazônia. Em cada uma das estações de pouso ou de rádio, visitadas durante o processo de produção dos programas, não houve um só
ruído que escapasse ao ouvido atento do beija-flor: Muuuuuuuuuuu... Croac-croac...
A turma de Marabá (PA), por exemplo, gravou uma entrevista com o seu Antônio sobre adubo folicular com urina de vaca. Já na Oficina de Alta
Floresta (MT), durante reportagem na Chácara Esteio, noss@s radiapaixonad@s gravaram até o estresse das pacas e o grunhido da criação do porco
light, que produz um bacon com índices de colesterol bem baixos – um sucesso no mercado exterior.
De posse de tantas entrevistas interessantes e efeitos sonoros, o beija-flor logo percebeu que tinha, em mãos, um tesouro incalculável. Tanto
assim que foi transformado num Banco de Vozes, um patrimônio que, hoje, é o maior capital do Projeto: o capital humano.
São mais de 300 horas de gravação, documentadas em 170 mil caracteres, um trabalho de degravação e escuta atenta da jornalista Michelle
Lopes, encadernado em 900 páginas.
O Banco serve não só como um documento histórico e antropológico das lideranças da região, como também é fonte de informação multiuso
para o público interno e externo. As vozes, a entonação d@s participantes das Oficinas e, principalmente, a troca de experiências que se estabeleceu
em cada encontro deram origem a dezenas de programas de rádio, três CDs temáticos sobre gênero e meio ambiente e inúmeras reportagens da
Folha Proteger que criou até um Box para divulgar os “causos” contados pel@s participantes.
Causos da Folha Proteger - por Maria Helena, agricultora irmã do Ibanês, monitor do Proteger II.
“Esse trabalho do Proteger abriu muito os olhos da gente. Eles ensinaram como salvar uma pessoa afogada,
machucada. No treinamento, eu fiquei até com medo deles carregando aquela pessoa de mentirinha.
Um dia, uma criança caiu na água de verdade. A mãe estava lá lavando roupa, descuidou um pouco, quando
caçou a criança, cadê? A criança saiu lá na frente mortinha em cima da água. O moço pegou ela, fez respiração e ela
voltou. Ainda hoje está bem, graças a Deus. Então, eu achei que foi muito ótimo. Eu queria até que repetisse novamente
o curso de salvamento, para ir conscientizando as pessoas que não acharam que era importante e quando acordaram
já tinha passado feito um sonho. As mulheres têm participado, direitos iguais, eu mesma gosto de tudo”.
33
CDs do Proteger: os sons da natureza da gente
34
Esses CDs são mais um desdobramento do Banco
de Vozes do Projeto Proteger. Ao mesmo tempo, são
testemunho da criatividade, da alegria e da coragem de
centenas de pessoas que encararam o desafio de enfrentar
o fogo na luta contra os incêndios florestais. Não contentes
em fazer a sua parte, também tentaram influenciar outras
tantas peças engajando-as numa Campanha que foi
lançada no primeiro CD da série. Além de ser veiculada por
mais de 15 dias pelas ondas sonoras da Rádio Nacional da
Amazônia, a Campanha também foi divulgada em centenas
de rádios comunitárias, nos limites da Amazônia Legal.
Mais uma vez, a ação d@s coordenadoras/es e monitoras/
es do Projeto foi determinante para que os objetivos da
Campanha fossem plenamente cumpridos.
Teve gente que conseguiu fazer isso com um sorriso estampado nos lábios. Para outr@s, abraçar a proposta do Proteger trouxe sérios
enfrentamentos com forças políticas que se contrapõem à conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável, como foi o caso do
coordenador Nilfo Wandscheer, de Lucas do Rio Verde (MT).
No plano pessoal, alguns beija-flores fêmeas antes de vencerem o fogo tiveram que vencer o medo de falar ao microfone. Como isso
não bastasse, tiveram que fazer uma “revolução” no próprio lar para convencer seus pares a adotarem os ideais da mobilização e da educação
ambiental em nome de uma nova consciência. Algumas, como a beija-flor Ely Querubina, foram derrotadas pela intolerância e pagaram um
alto preço familiar: a separação do marido. O relato dessa brava quebradeira de coco está no CD que foi inteiramente dedicado à ala feminina
da família beija-flor.
Conheça agora algumas das experiências relatadas no CD que apresenta um programa especial
sobre produção sem uso do fogo, feito a partir do trabalho de criação coletiva d@s participantes das
Oficinas do Proteger em Macapá (AP), Marabá (PA), Santarém (PA), Altamira (PA), Palmas (TO), Rio
Branco (AC), Balsas (MA) e Alta Floresta (MT).
A voz da natureza se misturou ao canto dos pássaros na Oficina de Alta Floresta. Graças a uma
visita de intercâmbio à Chácara Esteio, @s participantes puderam conhecer uma infinidade de técnicas
agroecológicas muito bem sucedidas.
Destaque para a piscicultura, para a criação de pacas e do porco light, responsável pela
produção de um bacon com índices de colestol bem baixos.
Sabemos que muitos são os caminhos pelos quais podemos
transformar informação em ferramenta de trabalho para a construção de práticas mais eficazes de
conservação do meio ambiente, nas comunidades da Amazônia. No caso do Proteger, a produção de uma
série de CDs serviu não só para promover a troca de experiências entre @s vári@s atores do Projeto, como
também para fortalecer o rádio social através das ondas das rádios comunitárias. Vale a pena investir nessa
estratégia de comunicação porque, dentre outras coisas, ela reforça a auto-estima do grupo. Um monitor do
Pará, ao receber o CD, com o seu depoimento sobre práticas agroecológicas chegou a dizer: “Bom, agora a
gente já pode até morrer porque o testemunho do nosso trabalho está registrado aqui pra todo sempre”.
35
Técnicas de Radiojornalismo
Nem só de emoção vive o rádio nosso de todo dia. Há um lado que é quase incompatível com a intimidade que caracteriza o veículo: o
radiojornalismo. Ele é feito de uma matéria-prima de natureza fria e imparcial - a notícia.
A notícia
Uma extinta rede de rádio, revista e tevê tinha um slogan que dizia assim:
“Aconteceu, virou MANCHETE”.
Mas, o certo é que existem alguns pré-requisitos para que um fato se transforme em notícia.
Atualidade - Nada mais velho que o jornal de ontem. Por outro lado, nada mais excitante do que ter acesso a uma informação em primeira
mão. Portanto, “a notícia tem que ser o mais recente possível em relação ao momento de sua transmissão ao público”.
36
Proximidade - o escritor russo Tolstoi já dizia: se queres falar com o mundo, canta primeiro tua aldeia. Em resumo: quanto mais próxima
da sua comunidade mais importante é a notícia.
Interesse Público - para ser relevante, um assunto precisa interessar ao maior número possível de pessoas.
1
Com base nesses critérios é que é feita a pauta diária das emissoras de rádio, jornal, TV etc.
A pauta
Ela não se difere muito daquele roteiro que a sua associação ou organização de base costuma fazer antes de uma reunião. Ponto a ponto, por
ordem de importância, vários assuntos são listados e discutidos pela chefia de reportagem que é sempre muito bem informada. Para que um tema
venha a merecer uma cobertura jornalística, ele tem que ser relevante. Jornalistas estão sempre atrás de uma novidade. Portanto, se você descobriu
uma forma de salvar sua lavoura da praga usando urina de vaca como o seu Antônio, da Oficina de Marabá (PA), não tenha dúvida, esse assunto
é uma boa semente para ser plantada na mídia. Mas há outros que costumam render pauta, como: datas comemorativas, morte de personalidades,
congressos, seminários e até oficinas de comunicação.
Vejam só o aviso de pauta elaborado para a divulgação do primeiro laboratório de rádio realizado em Santarém:
(1) Rádio, o veículo e a técnica, Porto Alegre, Sagra Luzzatto, 2001.
AVISO DE PAUTA
Santarém (PA) – 12/09/2002
o Amazônico
Rede GTA – Grupo de Trabalh
Projeto Proteger II
s da natureza
cação do Proteger II “Amig@
O QUÊ: a Oficina de Comuni
ialistas profissionais e
io” vai reunir e capacitar rad
rád
do
as
ond
nas
ndo
ega
nav
queimadas e incêndios
uso do rádio na prevenção das
o
a
par
as
tári
uni
com
ças
ran
lide
florestais.
cultural. Sua
a Amazônica é uma prática
POR QUÊ: o fogo na Florest
a constante à
eaç
am
a
ânea ou criminosa, tornou-se um
de produção
ocorrência, que pode ser espont
as
nci
eriê
que seja dada visibilidade às exp
e, por meio
região. É primordial e urgente
ade
ied
soc
a
, o Proteger II quer mobilizar
sem o uso do fogo. Neste sentido
s.
lar as boas práticas agroflorestai
da educação ambiental, estimu
ro de 2002.
QUANDO: 16 a 18 de setemb
A / Centro de
de Defesa da Amazônia – GD
ONDE: Auditório do Grupo
unitária – CEAPAC.
Apoio aos Projetos de Ação Com
é - Santarém
de Matos, 203 – Bairro do Sal
Travessa Professora Agripina
(PA).
do Grupo de
iativa do Projeto Proteger II,
QUEM: a Oficina é uma inic
voltados para
s
jeto
pro
a Rede que, desde 1992, realiza
da Amazônia
Trabalho Amazônico (GTA), um
o,
ent
tam
nos limites do Arco do Desma
o desenvolvimento sustentável,
Legal.
MAIS INFORMAÇÕES:
ha
unta Colares Roc
Projeto Proteger II – Maria Ass
– Coordenadora Regional
-5552
Telefone: 3063-4413 / Fax: 523
Assessoria de Comunicação:
ail.com
griproteger@hotm
Ligia Kloster Apel - E.mail: feta
37
Apuração da notícia
O verbo apurar, por si só, já diz tudo: apurar é tornar puro, livrar das impurezas, mais conhecidas como ruídos.
Durante as oficinas do Proteger, costumávamos fazer a dinâmica do Telefone sem fio que é muito utilizada pel@s educadores/as
ambientais.
O objetivo é observar de que forma a transmissão de uma notícia ou informação pode ser distorcida.
38
Eis o procedimento: @s participantes da “brincadeira” devem se colocar em círculo, distantes o suficiente do ouvido d@ companheir@do
lado para receber a mensagem. A pessoa que vai comandar a dinâmica deve escrever uma frase qualquer num pedaço de papel e guardá-la para
comprovação posterior. A seguir, dá início à “chamada telefônica” sussurrando no ouvido direito de um d@s participantes a frase que ele/a tem que
passar pra frente. O recado tem que ser dado rapidamente e não pode ser repetido. Se @colega do lado não escutar ou não entender a mensagem,
deve repassá-la assim mesmo. Ao final, depois de circular por todo o grupo no sentido horário, o recado tem que voltar aos ouvidos de quem está
comandando a dinâmica. Nesse momento, @ instrutor/a divulga a mensagem passada e a mensagem recebida. E a gargalhada é inevitável porque,
normalmente, a mensagem final não tem nada a ver com a que foi passada.
Confira:
Mensagem inicial: O planeta Terra, na verdade é água. São 30% de terra para 70% de água.
Mensagem final: A Terra vai perder 70% de suas águas.
Com esse simples exemplo, é fácil perceber que uma notícia não pode ser passada de “orelhada”, ou seja , de ouvir falar, até porque segundo
o ditado, “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Portanto, antes de levar qualquer informação adiante, seja no rádio, no jornal ou na TV, procure
investigar bem a procedência do assunto, ou seja, a fonte.
A fonte
Quando a fonte é boa, ela jorra notícia como uma cachoeira. Sem fonte, não há como se dar um banho de reportagem. Tal e qual como
acontece na natureza, existem várias fontes e elas podem ter as mais diferentes origens. Uma boa matéria precisa ser feita com base em várias
fontes.
Vamos conhecê-las melhor:
Toda e qualquer pessoa que forneça uma informação ao/à jornalista é fonte. A chamada fonte eventual. Mas, quando a notícia vem da parte
de assessores/as ou representantes de governos, ela é oficial. Nesse caso, é preciso ter cuidado para não estabelecer relações incompatíveis com o
Código de Ética dos Jornalistas. Troca de presentes e de favores podem transformar a fonte em caso de polícia e comprometer, para sempre, o maior
capital que um profissional pode ter: a credibilidade.
Existe ainda a fonte documental que presta uma grande ajuda ao jornalismo investigativo. Normalmente, esta fonte está nas bibliotecas,
nos documentos históricos, nos arquivos dos jornais e nas páginas dos livros. Mas nem por isso essa fonte é absolutamente confiável. Como as
demais, ela precisa ser checada sistematicamente para que os dados e informações possam ser transformados em notícia.
A redação da notícia
O Bê-a-bá - O começo é sempre mais difícil. Principalmente quando somos chamad@s a redigir um texto. As idéias se embaralham às
letras, o pensamento parece entrar num labirinto. Mas, quando o desafio é escrever uma notícia, há um caminho que é quase um atalho: o lide.
Mais uma palavrinha de origem inglesa que vem do verbo “to lead” que quer dizer “guiar”. Portanto, toda vez que você estiver desorientad@ ou
aflit@ diante de uma folha em branco à espera de uma luz, apele para o lide, composto por seis perguntas clássicas do jornalismo: Quem? O
Quê? Quando? Onde? Por quê? Como?
Se você conseguir resposta para todos esses Qs, pelo menos a abertura da matéria está pronta. Daí pra frente, é só desenvolver a história,
de preferência obedecendo algumas regras gerais que facilitam o entendimento de quem vai receber a informação por meio do jornal, da revista,
do rádio e da TV.
Previsão do tempo - Evite nublar o seu texto com o excesso de adjetivos.
O que é belo, bom e gostoso pra você pode não representar nada para uma outra pessoa.
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Mesmo com os chamados adjetivos pátrios, não pode haver exagero. Observe um “mau exemplo”: Tchecos construíram, poloneses
reformaram e brasileiros estão visitando o Museu Asas de um Sonho. É preciso ter cuidado, também, com os adjetivos denotativos na hora de
descrever uma determinada situação.
Para dizer que Xuxa é mais informal do que a filha ao se vestir, será que é preciso usar quatro adjetivos?
De um lado, XUXA de calça toda esburacada. De outro, a filhona SASHA, de vestido tafetá azul, sapatos e meias brancas e tiara
dourada.
Não deixe que seu texto se transforme numa árvore de Natal por causa dos adjetivos.
Quando quiser fazer um texto ensolarado use e abuse dos substantivos e verbos.
40
“Um texto limpo não cai do céu. Nem salta do inferno. Nasce de trabalho, humildade, desapego. E muita faxina. Como diz o outro, 10% de
inspiração e 90% de transpiração”.
(Dicas da Dad, português com humor, Brasília, Correio Braziliense, 2001)
O rádio, por sua natureza ágil, mais do que qualquer outro veículo de comunicação exige verbos no presente.
Ex: A Rede GTA recebe hoje a visita d@s coordenadores/as estaduais do Projeto Proteger.
O gerúndio também pode ser usado: A Rede GTA está recebendo hoje a visita d@s coordenadores/as estaduais do Projeto Proteger.
Olho Vivo!
Leia atentamente estas outras exigências da redação de notícias para o rádio:
Vocabulário
Tem que ser simples de entender e fácil de pronunciar. Evite os termos técnicos e as palavras que travam a nossa língua. Quer ver só:
“Uma fã da Seleção Tricampeã, em 1970, resolveu homenagear os jogadores brasileiros registrando o filho como TOSPERICAGERJA.
Para a inusitada criação, usou as iniciais de Tostão, Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Gerson e Jairzinho”.
Brincadeira? Que nada. Essas e outras histórias estão no livro Loucuras do Futebol do jornalista Marcelo Duarte. Em meio a 288 histórias
reais e absurdas, uma tem a ver com o nosso rádio. Vale a pena conferir!
Na Copa de 1958, Garrincha encantou-se com um rádio da marca Telefunken. Na loja, o companheiro Orlando Peçanha brincou: “Não
compra, não. Esse rádio só fala em alemão”. Garrincha ligou e ouviu uma língua ininteligível. Desistiu da compra.
Hora de ouvir Elza Soares:
Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões... Minha pátria é
minha língua, fala Mangueira!!!!
Apesar de rica, a Língua Portuguesa é uma das mais difíceis do mundo. Para não errar,
quando tiver que escrever, use frases curtas, construídas, de preferência, na ordem direta: sujeito +
verbo + complemento. Com isso, você ganha em objetividade e ritmo. Sem contar que facilita a vida
d@ locutor/a. Duvido que ele/a seja atropelad@ pelas vírgulas, traços, dois pontos etc.
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Release
Mais uma palavra que não se lê como se escreve. “Re-li-se”. É assim que se diz o nome dessa ferramenta que faz o dia-a-dia das assessorias
de imprensa. Seja nos gabinetes da política, seja no escritório das organizações não-governamentais, o release está sempre na boca do fax ou no
correio eletrônico (e-mail), pronto para entrar em ação, divulgando fatos ou versões dos assuntos que fazem a pauta da cena brasileira. O release é
um aviso de pauta mais completo. Quando acompanhado de fotos de boa qualidade, pode se transformar numa reportagem rapidinho. Redatores/as
preguiços@s costumam fazer “cola” do release, sem mudar sequer uma vírgula. Mas a função do release não é essa. No máximo, ele pode ser uma
sugestão de pauta. Veja mais um exemplo do Proteger:
OFICINA DE COMUNICAÇÃO DO PROTEGER
42
O Proteger II é um projeto da Rede GTA que, há mais de
10 anos, reúne diversas entidades e instituições que têm atuação
“Amig@s da natureza navegando nas ondas do rádio”
na Amazônia, na busca do desenvolvimento sustentável. Um dos
Entre os dias 16 e 18 de setembro de 2002, a Rede GTA objetivos do Proteger II é disseminar experiências de produção sem o
– Grupo de Trabalho Amazônico, por meio do Projeto Proteger II, vai uso do fogo mostrando que é possível fazer roçados e plantações sem
realizar uma Oficina de Comunicação, voltada para a elaboração de utilizar queimadas. “A gente vai trabalhar uma nova consciência”, diz o
um programa de rádio que possa divulgar experiências de sucesso monitor Ibanês Pereira Marinho, do município de Estreito (MA).
na defesa do meio ambiente, a partir de práticas agroecológicas.
O Proteger II vem desenvolvendo uma série de ações que
Depois do Amapá, do Acre e do Tocantins, agora é a vez da equipe potencializam o uso do rádio na disseminação de suas experiências.
do Proteger compartilhar seu aprendizado junto aos/às comunica- O projeto tem uma coordenação nacional, com sede em Brasília, sob a
dores/as populares de Santarém.
responsabilidade da engenheira agrônoma Sílvia Nicola. O Proteger II
Graças à uma parceria com o GDA - Grupo de Defesa da
Amazônia, os trabalhos teóricos da Oficina serão realizados na sede
da entidade. Os exercícios práticos serão feitos na Rádio Rural, sob o
comando da experiente jornalista Mara Régia Di Perna. A Oficina está
aberta à participação do público, em geral, mas as inscrições que dão
direito ao certificado estarão restritas às pessoas que trabalham pela
democratização dos microfones nas rádios comunitárias, às mulheres
que são o eixo forte do Proteger e à juventude.
recebe apoio do PPG7, da USAID, do Banco Mundial, do Subprograma
de Política de Recursos Naturais – SPRN, do Ibama/Proarco e do
Ministério do Meio Ambiente / Secretaria de Coordenação da
Amazônia.
INFORMAÇÕES:
Projeto Proteger II – Maria Assunta Colares Rocha – Coordenadora Regional
Telefone: 9652 3499
Local da Oficina: sede do GDA – Telefone: 522 6852
A matemática do rádio
No rádio, os números precisam ser escritos com todas as letras. Use a lauda - que é o espaço que você tem para escrever - como se fosse a
folha do seu talão de cheques. Datas (dia, mês e ano), quantias, porcentagens e valores devem ser escritos por extenso.
Já com as horas, melhor dividi-las pelos três grandes períodos do dia: manhã, tarde e noite. Dispense a precisão dos segundos. Quando
alguém na rua pergunta: Que horas são? Você diz que são 15 minutos e 22 segundos para as 15 horas ou, simplesmente, 15 para às 3?
A lógica da matemática do rádio é parecida com o pensamento da beija-flor Maria D’Arc, do município do Bujari, no Acre: “Uma emissora
precisa aumentar o número de vozes que se revezam ao microfone, diminuir distâncias, multiplicar a audiência e dividir a responsabilidade social
da comunicação com um número cada vez maior de veículos”.
Tipos de reportagem
Durante as Oficinas de Comunicação do Proteger, sempre tivemos a oportunidade de transpor os limites das salas e auditórios que foram
transformados temporariamente em emissoras de rádio. Saímos em bando para fazer reportagens externas, como essas feitas pela amiga Maria, na
Praia do Sossego, no município de Altamira (PA).
Aqui é a repórter beija-flor, da Praia do Sossego, uma das praias mais bonitas do Rio Xingu, onde está acontecendo um puxirum,
que quer dizer mutirão, onde vamos entrevistar o chefe dos escoteiros Drico. E aí, Drico? Como é que você está vendo esse trabalho, aqui
na Praia do Sossego?
Pra começar, eu quero agradecer todo o apoio que a gente recebeu do Proteger e das pessoas que também colaboraram com a gente.
Como as pessoas estão recebendo vocês nas praias?
Eu acho que a população quer mudar, mas não tem coragem. Às vezes, ela vê a gente trabalhando, até que vai lá, pega uma sacolinha, pega
o lixo e põe dentro. No projeto passado, aconteceu isso. A gente chegou nas praias, realmente estava imundo. De uma praia só, a gente chegou a
tirar quase uma tonelada de lixo, misturando garrafa, lata e saco, tudo isso.
As pessoas aqui sempre são mais conscientes do problema. Iam lá, pegavam a sacolinha e nos devolviam o lixo. Professoras que já deram
aula pra mim falam que esse trabalho é legal. Nas praias, o pessoal recebe a gente muito bem, respeita. É assim, tratam a gente super bem.
Ok, Drico. Obrigada! Repórter beija-flor, da Praia do Sossego, para o Proteger II.
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A experiência de Maria, como Repórter por um dia, no programa Mãe Natureza, é um exemplo de REPORTAGEM EXTERNA, onde
a notícia sai da rua para os estúdios. Nunca é demais lembrar o cuidado em manter @ ouvinte bem informad@ sobre a pessoa que está sendo
entrevistada, com o nome, o cargo e a função que ocupa. O mesmo procedimento deve ser usado com a REPORTAGEM INTERNA que, geralmente,
é feita por telefone ou com a presença d@ entrevistad@ nos estúdios da emissora para ser transmitida ao vivo.
Nas muitas Redações improvisadas, montadas para a produção dos programas, pudemos experimentar essa situação contando, inclusive,
com a visita de personalidades e artistas que são amigos da natureza, como Zé Valdir, de Conceição do Araguaia (PA) e Deuzamar Santos, cantor e
compositor maranhense que, além de uma canja, nos concedeu uma entrevista coletiva. Foi um sucesso! Mas isso custou muito trabalho ao grupo
da Oficina de Balsas (MA). A começar pela construção do conceito: o que é uma entrevista?
A entrevista
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Entrevista é uma conversa de perguntas e respostas. Mas, para que ela seja bem-sucedida, é necessário cumprir três etapas:
•
Conhecer a fonte, ou seja, pesquisar a vida d@ entrevistad@;
•
Pensar as perguntas com antecedência;
•
Conferir a qualidade dos equipamentos – microfone, gravador, pilha, fita cassete etc. para não se transformar num Repórter Confuso,
que mereceu uma dramatização da turma das Escolas Família Agrícola do Amapá, na Oficina de Macapá.
Bom dia ouvintes da Rádio. São 9h45 e, nesse momento, entra em nosso estúdio a professora Telma Rainha.
Bom dia! Só que o meu nome não é Telma Rainha. Meu nome é Telma Reis.
Tanto faz, Telma Rainha, Telma Reis, tudo mora num palácio. O que importa é que você é uma grande professora da Raefap do
Carvão (Rede das Associações das Escolas Famílias do Amapá).
Eu sou professora, mas não da Efa do Carvão. Sou professora da Escola Família Agrícola do Pacuí.
Ô Telma, tanto faz! Do Pacuí ou do Carvão, são todas Escolas Famílias Agrícolas! O que interessa é que você trabalha muito bem
a disciplina com os seus alunos, né Telma Rainha?
Telma Reis! Sim, eu trabalho Educação Familiar e sou ex-aluna da Escola Família Agrícola do Pacuí.
Telma Rainha, mas como é que você está fazendo essa disciplina valer a pena?
Porque a disciplina vale a pena a partir do momento que haja uma interação professor-aluno e a dinamização também do trabalho.
Além da performance do Repórter Confuso, a turma encarnou também muitos outros tipos: @s repórteres estrelas, que sempre querem
aparecer mais que @ entrevistad@; @s metralhas, que fazem várias perguntas de uma só vez; @s atrapalhad@s, que conseguem se enroscar até no
fio do microfone. Enfim... estamos falando d@s maus/más profissionais. Portanto, mesmo que você não pretenda chegar às grandes redações de
jornal, rádio e TV, faça a sua parte no papel de repórter popular.
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Tipos de Entrevista
•
individual - entre entrevistador/a e entrevistad@;
•
de grupos - muito usada nas enquetes e pesquisas de opinião, quando @ comunicador/a questiona várias pessoas sobre um
mesmo assunto, com o objetivo de saber o que a sua comunidade está pensando sobre um determinado tema;
•
coletiva - uma espécie de berlinda, quando uma pessoa é o centro das atenções e, em torno dela, há vári@s repórteres.
Todo veículo de comunicação dispõe de um determinado espaço para divulgar informações. E todos, invariavelmente, são escravos do
tempo. O grande desafio, portanto, é preparar e adequar uma notícia bem ao gosto desses dois senhores implacáveis. Eles não perdoam excessos.
Cortam sem dó nem piedade até discurso de Presidente. Não respeitam hierarquia nem patente. Se a matéria que tem de ir ao ar com um minuto
e meio, e @ entrevistad@ falou dez minutos, @ editor/a não pensa duas vezes, joga no lixo nove minutos e quarenta segundos. É por isso que a
gente quase sempre se frustra com o resultado da nossa participação numa reportagem. Depois de assistir, ouvir ou ler o que foi dito sobre o nosso
trabalho ou a nossa organização, a reação é: Puxa! Só saiu isso?
Há casos onde a frustração vem acompanhada de indignação:
Mas não foi isso o que eu disse!!!!! Eles vão ter que desmentir!!!!
Calma! Nessas horas, guarde as armas. O mais recomendável é deixar a raiva passar, já que o pedido de retificação deve ser feito com
elegância. Agora, se o que foi divulgado sobre você ou sua instituição é uma inverdade ou difamação, a saída é apelar para a justiça por meio de
um processo de perdas e danos morais.
A edição
Há edições que entram para a história do jornalismo pelos estragos que elas são capazes de fazer. A maneira tendenciosa com que foi editado
o último debate entre Collor e Lula pela Rede Globo de Televisão, em 1989, é um dos mais significativos exemplos de manipulação da informação
que se tem notícia no Brasil e no mundo. Deu no que deu.
Edição de áudio
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Houve um tempo em que as edições no rádio eram feitas quase
artesanalmente, com gilete e durex. Os operadores e sonoplastas tinham que
ser verdadeiros cirurgiões pra cortar na “carne” o trecho da fita magnética
que estava fora da matéria. Faziam uma espécie de lipoaspiração no
texto d@ repórter e na fala d@s entrevistad@s, muitas vezes recheadas
por espirros, tosses, risadas e erros. De rolo para rolo, a edição de uma
reportagem ou de um programa poderia demorar horas para ficar pronta.
Em tempos de internet, editores/as e operadores/as de áudio
ganharam uma eficiência e uma rapidez comparável às conquistas espaciais.
Através de um bom programa de edição, já é possível transformar uma
atividade outrora maçante num trabalho prazeroso. Aliás, dá pra fazer até
música, já que o computador nos dias de hoje só falta falar.
A linguagem começa pelo WWW. COM e passa pelo DELETE, pelo
CONTROL - CTRL + C+ M + V... Ave Maria! Parece código de religião secreta. A cabala de Madonna. Mas acredite! Essas letras e códigos são a
senha da entrada no paraíso das comunicações. Por favor, mesmo que você não queira acertar as contas com Deus, dê um jeito de fazer um curso
de informática.
A Locução
“...Por isso essa voz , essa voz tamanha”.
(Força Estranha – Roberto Carlos e Caetano Veloso)
Ninguém precisa ter voz de Rei para ser locutor/a de rádio. O sucesso de uma boa locução reside na capacidade que a pessoa tem para
transmitir simpatia e confiança.
Tais requisitos são conquistados por meio de alguns cuidados:
Quem não tem vocação para ser ator ou atriz de teatro, não deve arriscar encenar o texto radiofônico. O ouvido sensível do rádio capta
facilmente o que é falso e o que é verdadeiro. Além disso, ninguém consegue passar credibilidade se não sabe o que está falando ou não acredita
no que está sendo lido. Dá pra imaginar um fumante convicto aconselhando sua audiência a parar de fumar?
A seguir, cinco práticas que devem se tornar rotina na vida d@ comunicador/a:
1 - Ler o texto que vai ser apresentado com antecedência;
ênfase;
2 - Aproveitar o momento da leitura prévia (feita em voz alta, de preferência), para marcar as palavras que devem ser lidas com maior
3 - Distinguir a pausa da vírgula com uma barra / e a pausa do ponto com duas barras //. Esta técnica faz a sinalização do texto e dá
excelentes resultados;
4 - Dar especial atenção à leitura de nomes estrangeiros. Procurar saber como é que eles devem ser pronunciados pra não tropeçar na hora
que estiver no ar;
5 - Respeitar o tom da notícia. Uma nota de falecimento, por exemplo, não pode ser lida com um sorriso nos lábios.
Outro fator que merece especial atenção é a dicção. As palavras têm que ser bem articuladas. É necessário, também, respeitar o comprimento
das frases. Nada de abreviar o texto comendo as letras e as sílabas finais do enunciado.
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Formas de apresentação da notícia
O boletim está sempre dando cobertura às inaugurações. Ele
é uma espécie de Relações Públicas do rádio. Costuma fazer das
Desde os tempos do histórico Repórter Esso, em 1941, o jornal autoridades e das pessoas da comunidade um flash. E, assim, entra na
falado é uma das mais tradicionais formas de apresentação das principais programação para que @s ouvintes possam acompanhar, ao vivo, a
notícias do dia. Ele sempre começa com a leitura das manchetes, a transmissão de uma solenidade.
escalada feita com frases de apenas uma linha sobre os assuntos que
são os destaques do dia. A duração do jornal falado pode variar de três Comentário
a 30 minutos. Quanto ao formato, quase sempre o noticiário é divido
O comentário faz parte da edição da maioria dos grandes jornais.
em blocos temáticos sobre política, economia, esportes e serviços como:
previsão do tempo, informações sobre o trânsito etc. A apresentação Longe da neutralidade, ele sempre exprime opinião sobre um dos temas
deve ser feita, preferencialmente, em dupla para dar mais ritmo e apresentados. Normalmente, os mais polêmicos. Por isso, o comentário
agilidade à leitura do jornal e, ao mesmo tempo, evitar a monotonia. Por só deve ser feito por pessoas de renomada competência, colunistas com
uma questão de gênero, uma voz feminina e uma masculina é sempre uma vasta experiência em economia, política, sociologia etc.
mais adequado e politicamente correto.
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Nota
Edição extraordinária
Ela não pede licença a ninguém porque tem caráter de urgência.
Interrompe
a programação no melhor da radionovela e entra no ar, quase
A nota é parente próxima da manchete, só que um pouco mais
compridinha. Seu texto não deve ir além de cinco linhas. Às vezes, ela sempre acompanhada por uma vinheta que traduz a pressa com que a
é apenas um complemento de uma reportagem que acabou de ir ao ar: notícia precisa ser dada. Esse tipo de vinheta é mais associado às más
a chamada nota-pé. Sempre muito rápida e objetiva a nota é a cachaça noticias, mas isso é um assunto para a sonoplastia.
das FMs. Essas emissoras têm por hábito intercalar a nota nos intervalos
da programação musical, como uma forma de colocar @ ouvinte a par
dos últimos acontecimentos.
Boletim
Assim como a nota, o boletim também é breve, mas se diferencia
pela característica de acompanhar, com regularidade, um tema ou a
programação de um evento.
hummmmm
A sonoplatia
Rádio sem sonoplastia é como amor sem beijo e macarrão sem queijo. Não tem a menor graça.
A sonoplastia habita o mundo dos sons e aguça nossa sensibilidade auditiva. É ela quem faz as vinhetas
cantadas que anunciam a abertura e o encerramento dos programas de uma emissora. Quando usa música,
é forte como a ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, e acaba entrando para a história do rádio.
A sonoplastia procura entrar em sintonia com o coração d@s radioapaixonad@s através de trilhas e
efeitos sonoros. Ela também é responsável pela beleza da paisagem que a gente só consegue enxergar por
meio do rádio. A sonoplastia “enche” os nossos ouvidos como uma gostosa sobremesa enche os nossos
olhos. Ela é o principal tempero do rádio. Uma simples pitadinha faz um senhor banquete.
W
O
P
ZAP
tic-tac
Programas interativos
Uma das características que mais diferenciam o rádio dos demais veículos é a interatividade, ou seja, a possibilidade real de se ter uma participação
direta d@ ouvinte, seja por telefone, carta, e.mail ou até pessoalmente, já que a popularidade do rádio estimula esse comportamento. A audiência está
sempre marcando presença na porta de entrada das emissoras. O público ora quer mandar recado, ora quer conhecer @ comunicador/a de sua preferência
e, não raras vezes, consegue mudar a pauta de um programa ao colocar, no ar, uma denúncia, uma reclamação, um caso de polícia.
Ao contrário da televisão que, em nome da interatividade, consegue, no máximo, pedir ao público que escolha um, entre dois roteiros de viagem,
ou um entre dois finais de uma teledramaturgia qualquer, como Você Decide, Big Brother 1, 2, 3, 4, 5..., o rádio é o veículo de todas as possibilidades. No
Brasil, essa vocação vem desde os tempos de ouro da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Cauby Peixoto, o Rei do Rádio, costumava ser agarrado pelas fãs que queriam tirar pedaços de seu paletó, sua camisa. O assédio era tão grande
que ele resolveu apenas alinhavar as mangas dos ternos para que, ao ser agarrado, ele pudesse salvar sua pele, deixando apenas a roupa como recordação
para o seu fã clube.
Mas, além dos programas de auditório, existem outros que, igualmente, apostam na participação direta d@s ouvintes: o debate e a mesa redonda.
Nas Oficinas do Proteger, @s beija-flores sempre gostaram mais do choque das pedras, ou seja, do confronto de opiniões na discussão de um tema que
esquentasse a temperatura dos estúdios. Por pouco, em algumas estações de pouso do beija-flor, o debate não provocou um incêndio. Mas é assim que tem
que ser. Debate que não divide opiniões, que não gera polêmica é mesa redonda, um bate-papo que tem, por objetivo, reunir especialistas para aprofundar
um determinado assunto. Por exemplo: a importância das Delegacias de Atendimento à Mulher, no combate à violência; poluição das nascentes e dos
rios; e os direitos d@ consumidor/a.
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Rádio-revista
O tipo de programa que mais se adapta à espontaneidade e ao humor das mulheres é o rádio-revista. Como sugere a própria palavra, tratase de um programa que é dividido em várias seções, por assunto. Assim como as publicações que são comercializadas pelas bancas de jornal, elas
têm um espaço para um mundo de variedades: entrevistas, reportagens, moda, saúde, cozinha... mil coisas! É por isso que este gênero radiofônico
também é muito bem-aceito pelo público jovem.
Documentário radiofônico
Esse é um gênero especial de programa e exige, da produção, um grande trabalho de pesquisa, pois se baseia na investigação de momentos
históricos e pessoas, cuja trajetória de vida merece registro. Isso custa tempo, dinheiro e talento, pois não é qualquer um/a que tem a capacidade de
dominar uma técnica que mistura textos, entrevistas, músicas, efeitos sonoros e, ainda, a direção da figura d@ narrador/a, que precisa ter vocação
para ser um/a contador/a de histórias. Em função dessa complexidade, a presença do documentário, no rádio brasileiro, não é muito comum.
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Programa de entrevista
Mesmo que @ apresentador/a seja a desanimação em pessoa ou muito falante a ponto de não deixar @ entrevistad@ abrir a boca, esse
tipo de programa quase sempre faz sucesso e sua fórmula não poderia ser mais simples: basta um/a radialista + um/a entrevistad@ + um tema
de interesse do público. Eventualmente, poderá haver a participação da audiência na formulação das perguntas que poderão ser feitas para @
entrevistad@, por telefone. Esse gênero de programa pode ser diário ou semanal.
Radiodrama
Janeiro 2000
Radionovela “A vida pede passagem - Uma história de luz”
Capítulo nº 1
Informações para o sonoplasta: Ambientação da radionovela: Casa da Vera // Fica numa comunidade do interior do Pará // Zona
rural: som característico, mato e passarinhos, chão de folhagem
TÉCNICA// SOM DE BATIDAS NA PORTA
Cai em BG (BACKGROUND - SOM DE FUNDO)
Vera: Quem é ?
Gilda: (de fora) Sou eu, tô entrando, tem mais alguém com você? (surpresa !!!) Ô Sonia! Como vai? Mas que barrigão mulher! Pra
quando vai nascer esse bebê?
Sonia: (com voz meio agoniada) Ah! Eu penso que é por esses dias. Mais uma semana... no máximo.
Gilda: (voz aflita) Ah! Sonia, até arrepio de pensar... Meu Deus do Céu, que pavor que eu tenho de parto... Acho que eu nunca quero
engravidar. Nossa! Se eu tivesse como você, com essa barrigona, acho que eu morria.
Sonia: (voz chorosa) Pois é, eu vim justamente aqui conversar com a Vera porque eu tô ficando agoniada. Não durmo mais à noite só
imaginando a hora... Já imaginou quando começarem as dores... Vera, por favor, você que já teve três, me explica como é que essas dores começam,
vai! Porque meu marido é tão nervoso quanto eu, e eu tô achando que na hora H a gente não vai dar conta.
Vera: (voz tranqüila) Calma, meninas, vamos conversar direitinho sobre essa história. Afinal, Sonia, você tem medo de quê?
A partir de um roteiro como esse, o rádio é capaz de dramatizar os problemas ou situações que fazem parte do cotidiano de uma comunidade.
O radiodrama tem os mesmos elementos da radionovela, mas não precisa ser feito em capítulos. Ele pode e deve ser usado para ilustrar situações
comuns do dia-a-dia. O importante é contar com a ajuda profissional de um/a diretor/a e um/a sonoplasta que toque de ouvido, como @s maestros
e maestrinas, os efeitos e as trilhas sonoras.
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Brevissíma história do rádio
Era uma vez...
A história do rádio data de 1887, quando o físico Heinrich Hertz, comprova a existência
das ondas eletromagnéticas, que são responsáveis não só pelo rádio, mas também pela luz,
pelas cores e, hoje em dia, por uma infinidade de novos equipamentos eletrônicos. O fenômeno,
também conhecido como rádio freqüência, faz parte da natureza desde que o mundo é mundo.
Mas só foi descoberto pelo cientista alemão no fim do século XIX, como uma espécie de fio
invisível capaz de transportar códigos de som através de uma antena. Hoje, Hertz é medida de
freqüência.*
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O nome do nosso amigo está sempre presente na identificação de todas as emissoras
de rádio do planeta. Já o nome do italiano Guglielmo Marconi, considerado o pai do rádio, não
é citado com a mesma “freqüência”. Se bem que merecia já que, na verdade, foi ele quem deu
impulso à descoberta de Hertz, criando o telégrafo sem fio.
Em 1901, Marconi conseguiu o que parecia impossível: fazer uma transmissão da Inglaterra chegar ao Canadá, atravessando o Oceano
Atlântico sem uso de fios. A luta de Marconi, feita com coragem, obstinação, pipas e balões, é digna de uma festa que entre para a história,
como a que marcou o Centenário da Independência do Brasil.
*Abreviações:
Hertz – Hz
Quilohertz (1000 hertz) KHz - usado nas rádios AM
Megahertz (1 milhão de hertz) - MHz, usado nas FMs
Gigahertz (1 bilhão de hertz) – GHz, usado pelo celular forno microondas, internet, TV por assinatura, radar de velocidade.
Como diz o pesquisador italiano Franco Montelone: “Depois dos antibióticos, o rádio foi a descoberta do século XX que causou
maior impacto na vida das pessoas”.
O Rádio no Brasil
A data de nascimento do rádio, em nosso país, é 7 de setembro de
1922. Seu berço foi a cidade do Rio de Janeiro. Mais precisamente o morro
do Corcovado, onde foi instalada uma possante estação transmissora. O
discurso inaugural foi do então Presidente da República, Epitácio Pessoa,
seguido da transmissão de trechos de “O Guarani”, de Carlos Gomes, diante
d@s convidad@s para festa no centro da cidade, onde acontecia a Feira
Comemorativa do Centenário da Independência.
Roquete Pinto, criador da Rádio MEC, afirmou, certa vez, que “durante a
Feira, pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais da radiotelefonia” e que “a causa desse desinteresse foram os alto-falantes instalados na Exposição”. O barulho devia ser infernal. Apesar dos pesares, foi o
próprio Roquete Pinto que resolveu investir na compra dos equipamentos
para fundar, em 20 de abril de 1923, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro,
considerada a emissora pioneira no Brasil. Mas há controvérsia. Ou melhor,
existe uma disputa pelo título.
A Rádio Clube Pernambuco, fundada em Recife por Oscar Moreira Pinto, de acordo com documentos que comprovam o fato, foi inaugurada em
6 de abril de 1919, com um transmissor importado da França. Portanto, sete
anos antes da emissora de Roquete Pinto, hoje Rádio MEC. Injustiças históricas à parte, o certo é que, apesar das Rádios Sociedade serem reduto da elite
dominante, Roquette Pinto sempre acreditou que a principal função do rádio era educar. Nos 13 anos em que dirigiu a Rádio Sociedade, Roquette
sempre priorizou a transmissão de palestras, aulas e cursos como base da
programação da emissora. Naquela época, o rádio ainda não era comercial.
O Governo autorizava a transmissão pelo rádio para clubes e sociedades.
A partir dos anos 30, o rádio começa a não depender mais da ajuda d@s
ouvintes para sobreviver. Até porque o Brasil começa a fabricar seus próprios aparelhos receptores e, dessa forma, inicia-se o processo de popularização do veículo. Isso porque, até então, só tinha receptor de rádio em casa
quem podia pagar caro pela mensalidade, já que o aparelho era importado
da Europa ou dos Estados Unidos.
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O Rádio comercial
@s comerciantes não tardaram em perceber a força e a audiência do rádio, a partir dos anos 30, e passaram a anunciar seus produtos
por meio do veículo.
“Seu padeiro não se esqueça, tenha sempre na lembrança, melhor pão é o da padaria Bragança”.
(Composição de Antonio Nássara)
Este foi o primeiro jingle do rádio brasileiro, produzido em 1932, adaptado de um fado bem ao gosto do anunciante português. Nesse
mesmo ano, as emissoras foram autorizadas oficialmente a veicular anúncios e o Governo Federal começou a distribuir concessões de canais
particulares.
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A Era Vargas – o Rádio palanque
O presidente Getúlio Vargas, certo da importância que o rádio teria para difundir as propostas de seu Governo, não tardou a fazer uso
do veículo como palanque. Investiu, inclusive, na criação de um programa que fosse canal oficial do Governo Federal: a Hora do Brasil, criado
em 1937. Mais tarde, em 1940 assumiu o controle da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e fez dela a maior emissora do país, graças às generosas
verbas federais e ao reforço de patrocinadores estrangeiros.
Os anos dourados
A Rádio Nacional do Rio de Janeiro foi matriz dos modelos de produção cultural, artística e
de comercialização que se praticam até hoje, tanto no rádio como na televisão brasileira.
Nas décadas de 40 e 50, foram criados os programas que entraram para a história desse
período de ouro. Os musicais consagraram nomes como as cantoras Marlene, Emilinha Borba, Dalva
de Oliveira e Ângela Maria que, ao lado de Cauby Peixoto, Orlando Silva e Francisco Alves, o Rei da
Voz, fazia estremecer as estruturas do Edifício “A Noite na Praça Mauá”, centro do Rio de Janeiro.
Tuuuuummmm! Tuuuuummmm! Tuuuuummmm!
Assim ecoava o gongo com três badaladas. Esta era a “senha” para colocar a emissora no ar,
ao som da música Luar do Sertão. Nesse momento, ouvia-se a voz do locutor: “Alô, alô Brasil! Aqui fala
a Rádio Nacional do Rio de Janeiro - PRE–8. “
Na condição de líder de audiência, a Nacional ditou os rumos da comunicação no esporte,
humor, radionovelas e noticiários. Destaque para o famoso Repórter Esso, que inaugurou uma
nova linguagem radiofônica para o jornal falado, em nosso país. Graças à locução firme de Heron
Domingues, profissional exigente que fazia questão de uma pronúncia impecável e de uma interpretação de texto que conseguisse conquistar @ ouvinte, o radiojornalismo evoluiu enormemente,
no Brasil. O Repórter Esso foi responsável pela criação do primeiro guia de orientação para @s radialistas na preparação do noticiário.
A prova maior do prestígio alcançado pelo Repórter Esso se deu no fim da Segunda Guerra
Mundial. Apesar de a Rádio Tupi ter sido a primeira emissora a anunciar o pacto de paz, a população só saiu às ruas para comemorar depois de ouvir a confirmação da notícia pela voz de Heron
Domingues, em edição extraordinária.
55
Do apogeu à decadência
Depois de viver dias de glória e escrever os melhores momentos da história do rádio no Brasil, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro
conheceu o abandono e o descrédito. Vinte anos de ditadura, associados ao descompromisso das instituições com a manutenção das emissoras públicas em nosso país, acabaram por sucatear completamente os equipamentos e corroer a memória de um patrimônio que pertence
ao povo brasileiro.
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SOS Radiobrás
A Radiobrás – Empresa Brasileira de Comunicação S.A., criada em 1975 para centralizar a administração e as operações das emissoras
de rádio e televisão do Governo Federal, viveu um processo de desprestigio semelhante ao da Nacional do Rio, só que no campo da credibilidade jornalística. A versão “oficial” que se dispôs a fazer dos fatos, acabou transformando-a numa emissora “chapa branca”. Felizmente, os
novos rumos da política brasileira, pouco a pouco, retomam o caráter público das emissoras Radiobrás fazendo com que o foco de sua programação agora seja @ cidadã/ao.
A reinauguração da Nacional do Rio
Fotos: Marcelo Casal Filho / Ana Nascimento/ABr
A festa de reinauguração da Rádio Nacional do Rio
de Janeiro, em julho de 2004, é reflexo de um tempo de
respeito aos valores da cultura brasileira. Tanto assim que,
além da modernização do auditório Radamés Gnatalli, com
capacidade para 150 pessoas, camarim e palco apto a receber peças teatrais e apresentações musicais, o 21 º andar
do Edifício “A Noite”, no centro da Cidade Maravilhosa, está
prestes a se transformar no Museu do Rádio.
Contudo, mais do que as reformas físicas patrocinadas
pela Petrobrás, por meio de um convênio com a Radiobrás, o
sinal mais eloqüente das mudanças estruturais da emissora
está no seu novo plano editorial que quer cumprir com o
seguinte objetivo: recuperar o prestígio de seu radiojornalismo com uma cobertura que não se curve às influências
comerciais, informando o público sobre os fatos da vida
local, nacional e internacional e, ainda, sobre campanhas
públicas e iniciativas da sociedade organizada. Como empresa estatal, o compromisso assumido é o de noticiar atos
do Governo de forma imparcial e não burocrática.
Esses ideais são a base do
que entendemos por uma
empresa pública de comunicação.
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comerciais, educativas, públicas,
Diferenças entre rádios: livres
e comunitárias
Empresas de radiodifusão como rádio e TV são fruto de concessões do Governo e, como tal, estão submetidas a uma legislação que
privilegia a ética, a educação, a cultura e a responsabilidade social da informação. Na prática, sabemos que a teoria é outra.
Rádios comerciais
A ideologia dominante na maior parte das emissoras comerciais se orienta pelos princípios liberais de defesa do capitalismo: livre concorrência e busca incessante do lucro. Dessa forma, dedicam seu trabalho a uma clientela que se divide em dois segmentos: de um lado @s
ouvintes, transformad@s em consumidores/as em potencial, de outro @s anunciantes, interessad@s em conquistar uma fatia cada vez maior
do mercado. A partir dessa lógica perversa, passam a explorar as fraquezas e carências humanas sem nenhum pudor. Esse é, inclusive, o pano
de fundo da Campanha contra a Baixaria na TV que tem um slogan muito sugestivo: “Quem financia a baixaria é contra a cidadania”.
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As pessoas e organizações que fazem o monitoramento do conteúdo da TV e da internet ainda não tiveram “olhos” para o rádio. Mas
deveriam porque, diferentemente das emissoras de televisão, as de rádio não se submetem sequer à classificação etária do Governo Federal.
Com trânsito livre, a baixaria nada de braçada nas ondas do rádio e isso representa uma ameaça à formação do público infanto-juvenil. Segundo pesquisa realizada em 2003, pelo Instituto Multifocus, especializado em consumo de mídia na infância, 86,5% das crianças de seis a
11 anos, das classes A, B e C, escutam rádio regularmente e, por isso, estão expostas aos palavrões e à violência generalizada de programas
“humorísticos” cuja fórmula de sucesso se pauta pela exploração de piadas de sexo. Na contramão da história, as rádios comerciais em AM e
FM não investem em programas infantis, deixando assim de utilizar o veículo rádio como ferramenta de educação.
Rádios Educativas
Dois grandes e bons exemplos de emissoras educativas têm sede, respectivamente no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte: a Rádio
MEC e a Rádio Favela, cuja trajetória inspirou o filme Uma Onda no Ar. A outorga desse tipo de emissora não depende de licitação. As emissoras
educativas estão sempre ligadas às universidades, aos governos federal/estadual ou, ainda, às fundações da sociedade. Seu ideal de comunicação se aproxima da missão das emissoras públicas.
Rádios Públicas
Mais do que quaisquer outras emissoras públicas de comunicação, as rádios públicas têm por objetivo a universalização do conhecimento e a promoção da cidadania. Além disso, devem priorizar o compromisso com a verdade e com a qualidade da informação. Por fim, têm
que ser caixa de ressonância dos valores culturais do nosso país e fórum dos diálogos nacionais.
Rádios Livres
A matéria-prima dessas emissoras é a liberdade de expressão. Não se enquadram em legislação alguma. Normalmente, são instaladas
por um grupo de pessoas que não têm coloração partidária, tampouco interesses comerciais. Dedicam-se em fazer valer o que diz a Constituição Brasileira:
Capítulo I – Dos direitos e deveres individuais e coletivos
Art.5º, IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença.
Rádios Comunitárias
Graças ao que diz a nossa Lei Maior, as rádios comunitárias têm conseguido cumprir seus ideais democráticos, muito embora estejam
submetidas à Lei 9.612/98. Uma lei menor que parece ter sido feita para diminuir a importância de uma comunicação plural voltada unicamente para os interesses da comunidade. Mas esse assunto merece um capítulo à parte.
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O modelo de comunicação no Brasil
Nosso país é um dos poucos no mundo a garantir vez e voz
a um grupo muito pequeno de pessoas. Os meios de comunicação
estão entregues a famílias que, sozinhas, controlam a maioria das
rádios, TVs, jornais, revistas... Enfim, controlam tudo o que a gente vê,
escuta e lê!
Com a promulgação da chamada Constituição Cidadã, em
1988, nasce o Movimento Nacional pela Democratização da Comunicação, com a participação de vários segmentos sociais: artistas, estudantes, parlamentares, profissionais liberais etc. Cidadãs e cidadãos
brasileir@s dispostos a exercerem, na prática, os direitos que lhes são
assegurados constitucionalmente:
-É assegurado a todos o acesso à informação;
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-É inviolável a liberdade de consciência;
daqueles que têm o poder político e poder econômico. Nós, na luta por
uma comunicação comunitária, fomos derrotados. Em maio de 2004,
nossa rádio foi fechada pela Polícia Federal e pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), e nós não pudemos fazer nada, só ficamos lá
olhando eles lacrarem nossa rádio e ainda bem que não levaram nossos
computadores. Mas eles disseram que, na próxima, vão levar...
Eu pensei que, nesse Governo, as coisas iam ser diferentes porque
Lula sabe que as coisas estão funcionando assim porque o próprio Ministério não legaliza. Nós não temos culpa da burocracia do Estado. O mínimo que a gente esperava é que legalizasse rápido ou então, enquanto
não legalizasse deixasse a gente funcionando porque são rádios que não
fazem mal a ninguém. Só faz o bem. Inclusive a gente divulgava o Fome
Zero, a lista de quem é beneficiado, programas do próprio Governo Federal. Isso nos deixa muito tristes porque nós ajudamos a construir e eleger
esse Governo. O movimento social tem a sua parcela de colaboração na
eleição do Lula. “
O depoimento de Toinha sensibilizou radioapaixonad@s
-A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a
informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão como Tais Ladeira, representante da Associação Mundial de Rádios
Comunitárias no Brasil, que nos deu uma entrevista especial. Mas,
qualquer censura.
antes, deixou uma mensagem de força e resistência aos povos da
O direito à comunicação nas ondas da Rádio Comuitária Amazônia:
e na tela da TV Comunitária ainda não saiu do papel! Aqui e ali,
ainda estamos à mercê da arbitrariedade! São milhares de transmissores lacrados, equipamentos apreendidos, pessoas processadas e pedidos de concessão engavetados no Ministério das
Comunicações. Apesar de estarmos num governo democrático e
popular, esta é a realidade da radiodifusão comunitária no Brasil.
Como diz o beija- flor fêmea Toinha, do município de Altamira, (PA)
“infelizmente neste país muita gente acha que a comunicação deve ser
“Eu quero deixar uma saudação à toda essa gente, quero dizer
que o coração da Amazônia é capaz de suportar estas ações de arbitrariedades e violência porque resistir é preciso. Um abraço solidário e
fraterno às pessoas da Transamazônica, ribeirinh@s, quebradeiras de
coco, indígenas, quilombolas... à toda essa gente maravilhosa”.
Entrevista sobre o processo de legalização das rádios comunitárias
Mara – Para que tipo de público são destinadas as rádios comunitárias?
Taís - As rádios comunitárias se destinam a tod@s de uma mesma comunidade. Difícil mesmo é definir o que é comunidade. Muitas
vezes, nossa comunidade é um bairro, que se limita geograficamente. Outras vezes, a comunidade pode ser de estudantes, em uma universidade, por exemplo. Este é um tipo de comunidade de interesses comuns.
Mara - Quem pode se candidatar a uma rádio comunitária?
Taís - Entidades organizadas juridicamente, ou seja, com estatuto e ata de fundação, sede e contabilidade em dia, que seja sem finslucrativos e que não esteja relacionada às igrejas ou partidos políticos.
Mara - Existe um sistema de cotas para cada comunidade ou por região?
Taís - Não. O que existe é o que chamamos de “plano básico” de cada região. O plano básico é feito pela ANATEL (Agência Nacional de
Telecomunicações), que é o órgão que regula e fiscaliza o espectro eletromagnético, ou seja, o conjunto de freqüências usadas pelos canais
de rádio e TV. É pelo plano básico que a ANATEL autoriza a abertura de canal para rádio ou TV. É como se fosse um mapa onde estão marcadas
todas as freqüências que já são usadas, e os “espaços” da onda eletromagnética (responsável por transportar sons e imagens) que ainda podem
ser usadas.
Mara - Quais são os primeiros passos para a concessão de uma emissora comunitária?
Taís - Se não existe uma entidade para solicitar e administrar o canal de radiodifusão, o primeiro passo seria criar esta entidade. Em
seguida, deve ser solicitado formalmente à ANATEL a “abertura de área” para aquela comunidade. Ou seja, a partir do pedido da entidade, a
ANATEL vai fazer um estudo para saber se há espaço para uma emissora comunitária naquela comunidade. Se houver, a ANATEL tornará este
fato público, por meio de publicação no Diário Oficial da União. A partir daí, as entidades interessadas (se houver mais de uma) entram com
o pedido formal junto ao Ministério das Comunicações, solicitando a ele permissão para usar aquela freqüência. Na página do Ministério na
internet (www.mc.gov.br), estão as informações de como deve ser formalizado este pedido. Depois de toda a documentação exigida ser entregue, o pedido é encaminhado à Casa Civil, que o envia para o Congresso. O processo é longo, mas a partir daí, passados 90 dias, da chegada
do pedido ao Congresso, a entidade que pleiteou a rádio comunitária já pode requisitar ao Ministério das Comunicações uma licença de funcionamento até que o processo seja avaliado nas comissões competentes da Câmara e do Senado, e aprovado em plenário.
Mara - Como organizar a comunidade para fazer pressão e monitoramento do processo?
Taís - A comunidade pode se organizar em torno de um projeto mais amplo, para criar, por exemplo, o Conselho Municipal de Comunicação. Como os conselhos municipais de saúde ou educação, o Conselho de Comunicação será formado pela sociedade organizada, iniciativa
privada e poder público, para que juntos possam elaborar e sugerir políticas públicas para a comunicação do município, bem como fiscalizar
os veículos de comunicação local.
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Mara - Para ser comunitária e não “picaretária”, como deve ser a programação?
Taís - A mais ampla possível, com participação de pessoas e entidades da comunidade. Ela não deve fazer proselitismo político ou religioso, ou seja, a programação não pode favorecer esse ou aquele político ou igreja. A programação de uma rádio comunitária valoriza a cultura
da comunidade; veicula músicas de artistas independentes e não apenas daqueles/as que são de grandes gravadoras ou as músicas que fazem
sucesso na novela. A rádio deve ter jornalismo comunitário e informações diversas por meio de debates e boletins periódicos. Deve discutir os
problemas da comunidade JUNTO COM a comunidade, e não apenas “para” ela.
Mara - Quais são as penalidades para quem não cumpre as normas sobre a instalação, programação, administração e transmissão de uma rádio comunitária?
Taís - A entidade que solicitou a permissão para usar aquele canal de rádio comunitária perde esta permissão, que voltará para o Ministério das Comunicações.
Mara - A quem recorrer em caso de apreensão dos equipamentos?
Taís - Ao Ministério Público local e à entidade, no Estado, que representa os interesses das rádios comunitárias.
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Taís Ladeira tem 35 anos. É jornalista por formação, mas radialista por opção. Estudou na Universidade Federal Fluminense (UFF) e, foi com o Movimento
Estudantil de Comunicação Social, que descobriu a militância pela democratização da comunicação.
Foi fundadora e fez parte da Diretoria da AR LIVRE 1 de 1994 a 1996. Produziu o programa Fala Mulher, projeto do CEMINA,2 e colaborou com a criação do
Núcleo de Capacitação em Rádio, realizando – junto com Mara Régia Di Perna – mais de 60 laboratórios de rádio em vários estados brasileiros.
3
Fundou, pelo INDECS, a “Revolução FM, a rádio que e louca por você”, emissora comunitária que integra o Centro Comunitário do Instituto Municipal de
Assistência à Saúde Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.
Atualmente em Brasília, gerencia a Rádio Nacional da Amazônia, emissora pública que integra o sistema Radiobrás.
1 AR LIVRE – Associação de Radiodifusão Comunitária do Rio de Janeiro, fundada em dezembro de 1994. A AR LIVRE foi a segunda associação de rádios de baixa potência no Brasil. Foi extinta
em 2000, dando lugar à Federação das Associações de Radiodifusão Comunitária do estado do Rio de Janeiro.
2 CEMINA – Comunicação, Educação e Informação em Gênero, ong do Rio de Janeiro.
3 INDECS – Instituto de Estudos e Comunicação em Sociedade, ong do Rio de Janeiro.
A sua voz no Congresso Nacional
Estes/as são @s parlamentares que estão em sintonia com a democratização dos meios de comunicação e, em particular, com o fortalecimento da
comunicação comunitária. Se você depositou a confiança do seu voto neles/as, parabéns! Sempre que possível, manifeste, por telefone, e.mail ou carta, o
reconhecimento pelo trabalho que eles/as vêm realizando em nome do direito à comunicação.
Parlamentares aliad@s
Deputado Federal Adão Pretto (PT/RS)
Gabinete: 271 – Anexo: III – Fone: (61) 215-5271 – Fax: (61) 215-2271
E.mail: [email protected]
Deputado Federal Edson Duarte (PV/BA)
Gabinete: 535 – Anexo: IV – Fone: (61) 215-5535 – Fax: (61) 215-2535
E.mail: [email protected]
Deputado Federal Fernando Ferro (PT/PE)
Gabinete: 427 – Anexo: IV – Fone: (61) 215-5427 – Fax: (61) 215-2427
E.mail: [email protected]
Deputada Federal Iara Bernardi (PT/SP)
Gabinete: 360 – Anexo: IV – Fone: (61) 215-5360 – Fax: (61) 215-2360
E.mail: [email protected]
Deputado Federal Walter Pinheiro (PT/BA)
Gabinete: 274 – Anexo: III – Fone: (61) 215-5274 – Fax: (61) 215-2274
E.mail: [email protected]
Deputado Federal Zezéu Ribeiro (PT/BA)
Gabinete: 571- Anexo III – Fone: (61) 215-5571 – Fax: (61) 215-2571
E.mail: [email protected]
Conte com esses/as amig@s da democratização da comunicação para fazer valer o artigo 5º da nossa Constituição e, com base no que ele determina, acabar com a absurda Lei 9.612/98, que normatiza o serviço de radiodifusão comunitária em nosso país. Como diz Ismael Lopes, radialista e jornalista,
presidente-fundador da Rádio Novos Rumos – a primeira comunitária do Brasil, essa é a Lei dos DEZ(s)mandamentos.
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Os DEZ(s)mandamentos da Legislação Comunitária
Absurdo nº1
Cobertura de 1km de raio - Essa limitação não é real e exclui comunidades rurais do serviço de radiodifusão comunitária. No caso das cidades, não
é possível definir uma comunidade urbana meramente pelo critério físico. Outros critérios deveriam ser apontados, tais como: a área administrativa,
identidade cultural ou social de cada localidade. Essa limitação é inferior, inclusive, ao alcance da potência de 25 watts. Segundo especialistas, para
01 Km bastariam 10 watts em condições topográficas muito adversas.
Absurdo nº 2
Freqüência Única - É tecnicamente impossível com uma só freqüência atender a todas as comunidades existentes no país. Mais de uma emissora
instalada em uma mesma localidade ou região urbana utilizando uma mesma freqüência fará com que aconteçam muitas interferências de sinais e
isso, fatalmente, haverá dividir a comunidade e criar conflitos internos incompatíveis com os ideais de fraternidade que a comunicação comunitária
pressupõe.
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Absurdo nº 3
Não há proteção contra as Rádios Comerciais - Caso uma emissora comunitária provoque interferência no sinal de emissoras comerciais
poderá ser advertida, multada ou ter interrompida a sua concessão. A legislação, no entanto, não protege as rádios comunitárias de eventuais
interferências das rádios comerciais. A lei 9.612/98 estabelece no artigo 22 que "as emissoras do Serviço de Radiodifusão Comunitária operarão sem
direito à proteção contra eventuais interferências causadas por emissoras de quaisquer Serviços de Telecomunicações e Radiodifusão regularmente
instaladas..."
Absurdo nº 4, que é quase covardia
Entidade na área de cobertura - De acordo com a norma nº 2/98 do Ministério das Comunicações, a entidade mantenedora da rádio comunitária e
@s seus/suas diretores/as devem residir na área de cobertura da rádio. Essas limitações obrigam as entidades a mudarem os seus estatutos, estabelecendo a base territorial ao raio de 1 km. Isso exclui sindicatos, federações, associações de moradores, fundações ou qualquer outra entidade com
base maior que 1 km de obter a concessão de uma rádio comunitária.
Absurdo nº 5
Exigência descabida e extemporânea de documentação - Obriga as entidades candidatas a mudarem de forma precipitada e muitas vezes inutilmente seus estatutos.
Absurdo nº 6
Comunicados do Ministério em desacordo com as Normas do Serviço - Trazem confusão e prejuízo para entidades legitimamente interessadas em
participar do processo de habilitação.
Absurdo nº 7
Distorção do critério de representatividade originalmente estabelecido na Lei – Favorece manobras políticas na definição das autorizações.
Absurdo nº 8
Proibição de Publicidade - A legislação limita a possibilidade de veiculação comercial apenas aos casos de patrocínio sob forma de apoio cultural feita
por anunciantes localizados na área de cobertura da emissora. Dificilmente, pequen@s comerciantes, que são potencialmente @s mantenedores/as
das rádios comunitárias, terão interesse em fazer anúncios que apenas veiculem o nome da empresa sem poder divulgar produtos, serviços, preços,
promoções e tampouco o endereço de seu estabelecimento.
Absurdo nº 9
Proibição de operar em rede - Ao contrário do que acontece com as emissoras comerciais, as rádios comunitárias são proibidas de operar em rede.
A restrição impede troca de informações, veiculações simultâneas de assuntos de interesse comum e mantém as emissoras comunitárias isoladas.
Absurdo nº 10
Morte anunciada - As emissoras comunitárias podem funcionar por até seis anos*. As concessões e permissões de rádio comercial e TV aberta têm
duração maior e a renovação é ilimitada.
Para acompanhar o andamento dos processos de legalização das rádios, na Câmara dos Deputados, consulte a internet, na página: www. camara.gov.br
Para saber dos avisos e outras decisões do Ministério das Comunicações e Anatel, consulte os seguintes sítios eletrônicos: www.mc.gov.br / www.anatel.gov.br
Denuncie os abusos da Polícia Federal nos seguintes telefones da Corregedoria:
(61) 311 8719/8219 – [email protected]
Para denunciar as arbitrariedades da Anatel, fale com a ouvidoria da própria Agência:
(61) 312 2081 – [email protected]
*Felizmente, houve uma modificação nesse artigo da Lei e as rádios comunitárias, como as comerciais, já podem funcionar por dez anos e sua renovação também é ilimitada.
65
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Ela é doce como as flores que alimentam com seu néctar o beija- flor do Proteger! Sua fala mansa traduz sua alma generosa e solidária.
Seu rádio coração sempre aumenta de volume quando expressa o amor que sente pela filha Fernandinha e pela sua amiga e líder, Antônia Melo.
Contudo, quando teve que enfrentar a Polícia Federal nos estúdios da sua RCA (Rádio Comunitária de Altamira), nossa heroína não se acovardou
nem por um minuto. Mesmo sabendo que poderia ser levada junto com os equipamentos lacrados para a delegacia, soltou o verbo. O mesmo que
se transforma em palavra de ordem para colocar sua comunidade em movimento. Toinha é uma liderança transformadora que, ao lado de um bando
de beija-flores, é capaz de abrir novos caminhos para a conquista do exercício pleno da nossa cidadania.
Nesta luta, quem também se alia à Toinha é Maria Meire, de Curral de Pedra, no município de Conceição do Araguaia (PA). Essa radioapaixonada, junto com seus/suas companheiros e companheiras de luta, vem tentando legalizar a Rádio Comunitária Zumbi do Araguaia. O processo teve
início em 2000. Passados três anos, cansada de esperar pela burocracia do Ministério das Comunicações, Meire resolveu entrar no ar, em caráter
experimental, e dar voz à sua comunidade. Quando tudo parecia caminhar bem, a Anatel chegou à cidade e, com seu poder de polícia, lacrou os
equipamentos que, desde então, dormitam no mais profundo silêncio. Mas Meire continua falando pelos cotovelos na Rádio Regional do Araguaia,
emissora que também sofre com a oposição do poder político local. Tanto assim que, em 2002, foi vítima de um incêndio criminoso. Ainda bem que
fogo não é problema para @s beija-flores do Proteger que, além de água no bico, têm sempre uma mensagem bonita para encorajar o trabalho das
pessoas em prol da justiça e da democracia.
À Meire, Toinha e a todas as heroínas do Proteger nossas homenagens!
Queremos homenagear, também, os heróis que correm como o amigo Antonio Silva que participou da Oficina de Vanderlândia, no Tocantins, e enriqueceu o Banco de Vozes do Proteger com o seguinte relato*:
Antônio, vem cá contar a sua experiência. Como é que você faz acontecer a comunicação na sua comunidade, até hoje ?
A minha experiência no rádio, em Parauapebas, pra mim foi das melhores que eu já tive... Eu trabalhava como garçom em um restaurante e a
Fe-deral vinha sempre almoçar e jantar por lá. Daí , rapidinho eu corria no telefone e dizia: “Corre para o transmissor que a Federal está aqui”. Nossa
rádio era
subterrânea, funcionava no quarto de um amigo, a gente puxava a cama e o cabra tava lá dentro. E pra sair? Nossa nós ficava (sic) lá de
baixo, fazendo a rádio funcionar, todo mundo suado. É real. Tinha um programa Juventude em Ação. O Programa ia das sete da noite às 10 e eu ficava
no restaurante até às nove. Era sair do restaurante, direto pra a rádio, para participar do programa. A maioria dos ouvintes não sabia onde a rádio
ficava porque era proibido. A gente pedia carta, bilhete, recado, mas o com endereço trocado. Sempre um lugar diferente. O pessoal escrevia muito e
dizia assim: a gente tem uma vontade tão grande de conhecer o Tonho Silva, o cara tem uma voz linda, ele deve ser um homem muito grande (risos).
Muitos me agradeciam pelo meu talento, por eu ter essa garra... E outros “Tu é uma desgraça”! É desse jeito, obrigado!
*Depoimento
registrado
no Banco
de no
Vozesbico
do Projeto
Protegerde
II - estarem
Disquete I - Arquivo
M- Proteger
Obrigad@ a você, Tonho, e a toda a rede de repórteres
beija-flores
que
levam
a alegria
fazendo
a sua Araguaína
parte na– Vanderlândia.
defesa da
Rede de repórteres Beija-flor
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Rede de repórteres Beija-flor
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Bibliografia sugerida e consultada
ÉTICA E LEGISLAÇÃO EM JORNALISMO
BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. Ed. Companhia das Letras.
Código de Ética da Associação Nacional de Jornais (ANJ).
Código de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).
Códigos e Manuais de Redação “O Globo”, “O Estado de São Paulo”,“Folha de São Paulo”,“Jornal do
Brasil”,“Correio Braziliense” e outros.
Constituição da República Federativa do Brasil.
Cap. V – Da Comunicação Social.
NOTICIA, ENTREVISTA, REPORTAGEM
KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem.
LUSTOSA, Elcias. O texto da notícia.
MEDINA, Cremilda. Notícia – um produto à
venda.
TÉCNICAS DE ENTREVISTA, APURAÇÃO E REPORTAGEM
COIMBRA, Oswaldo – O texto da reportagem impressa, Ed. Ática, São Paulo, 1993.
LAGE, Nilson – A reportagem: teoria e técnica de
entrevista e pesquisa jornalística, Ed. Record, São
Paulo 2001.
NOBLAT, Ricardo – A arte de fazer um jornal diário,
Ed. Contexto, São Paulo, 2002
EDIÇÃO E COBERTURA JORNALÍSTICA
ARRUDA, Roldão. Dias de ira. São Paulo, Editora
Globo, 2001.
CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto – A imprensa e Fernando Collor. São Paulo, Companhia
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TALESE, Gay. O reino e o poder – Uma história do
New York Times. São Paulo. Companhia das Letras,
2000.
RADIOJORNALISMO
BARBOSA, Moacir. Dicionário de rádio e som. João
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SAROLDI, Luiz Carlos e MOREIRA, Sonia Virgínia.
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REDAÇÃO PARA MÍDIA IMPRESSA
FARIA, Maria Alice. Como usar o jornal na sala de
aula. Ed. Contexto, SP, 1999.
KOTSCHO, Ricardo. A Prática da Reportagem.
Ática, SP, 1986.
REDAÇÃO PARA AUDIOVISUAL
BONASIO, Valter. Televisão: Manual de Produção e
Direção. Belo Horizonte, Editora Leitura, 2002 (www.
editoraleitura.com.br)
MACIEL, Pedro. Jornalismo de Televisão. Porto Alegre,
Sagra-Luzzatto, 1995.
PATERNOSTRO, Vera Íris. O Texto na Televisão: manual
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FOTOJORNALISMO
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de Brasília, impressões e vivências.
GURAN, Milton. Linguagem fotográfica e informação. Rio de Janeiro, Rio Fundo, 1992.
JORNALISMO DE ENTRETENIMENTO
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Práticas. Porto Alegre. Sagra/ DC Luzzatto, 1995.
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revista. Summus, S. Paulo, 1996.
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UNESCO, 2000.
Lei das Rádios Comunitárias
LEI Nº 9.612 DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.
atenderão, em sua programação, aos seguintes princípios:
Institui o Serviço de Radiodifusão Comunitária e dá outras
providências.
I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e
informativas em benefício do desenvolvimento geral da
comunidade;
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a
seguinte Lei:
Art. 1º Denomina-se Serviço de Radiodifusão Comunitária a
radiodifusão sonora, em freqüência modulada, operada em
baixa potência e cobertura restrita, outorgada a fundações e
associações comunitárias, sem fins lucrativos, com sede na
localidade de prestação do serviço.
§ 1º Entende-se por baixa potência o serviço de radiodifusão
prestado a comunidade, com potência limitada a um máximo
de 25 watts ERP e altura do sistema irradiante não superior a
trinta metros.
§ 2º Entende-se por cobertura restrita aquela destinada ao
atendimento de determinada comunidade de um bairro e/ou
vila.
Art. 2º O Serviço de Radiodifusão Comunitária obedecerá aos
preceitos desta Lei e, no que couber, aos mandamentos da Lei
nº 4.117, de 27 de agosto de 1962, modificada pelo DecretoLei nº 236, de 28 de fevereiro de 1967, e demais disposições
legais.
Parágrafo único. O Serviço de Radiodifusão Comunitária
obedecerá ao disposto no art. 223 da Constituição Federal.
Art. 3º O Serviço de Radiodifusão Comunitária tem por
finalidade o atendimento à comunidade beneficiada, com vistas
a:
I - dar oportunidade à difusão de idéias, elementos de cultura,
tradições e hábitos sociais da comunidade;
II - oferecer mecanismos à formação e integração da
comunidade, estimulando o lazer, a cultura e o convívio social;
III - prestar serviços de utilidade pública, integrando-se aos
serviços de defesa civil, sempre que necessário;
IV - contribuir para o aperfeiçoamento profissional nas áreas de
atuação dos jornalistas e radialistas, de conformidade com a
legislação profissional vigente;
II - promoção das atividades artísticas e jornalísticas na
comunidade e da integração dos membros da comunidade
atendida;
III - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da
família, favorecendo a integração dos membros da comunidade
atendida;
Radiodifusão Comunitária as fundações e associações
comunitárias, sem fins lucrativos, desde que legalmente
instituídas e devidamente registradas, sediadas na área da
comunidade para a qual pretendem prestar o Serviço, e cujos
dirigentes sejam brasileiros natos ou naturalizados há mais de
10 anos.
Parágrafo único. Os dirigentes das fundações e sociedades civis
autorizadas a explorar o Serviço, além das exigências deste
artigo, deverão manter residência na área da comunidade
atendida.
§ 1º É vedado o proselitismo de qualquer natureza na
programação das emissoras de radiodifusão comunitária.
Art. 8º A entidade autorizada a explorar o Serviço deverá
instituir um Conselho Comunitário, composto por no mínimo
cinco pessoas representantes de entidades da comunidade
local, tais como associações de classe, beneméritas, religiosas
ou de moradores, desde que legalmente instituídas, com o
objetivo de acompanhar a programação da emissora, com vista
ao atendimento do interesse exclusivo da comunidade e dos
princípios estabelecidos no art. 4º desta Lei.
§ 2º As programações opinativa e informativa observarão os
princípios da pluralidade de opinião e de versão simultâneas
em matérias polêmicas, divulgando, sempre, as diferentes
interpretações relativas aos fatos noticiados.
Art. 9º Para outorga da autorização para execução do Serviço
de Radiodifusão Comunitária, as entidades interessadas
deverão dirigir petição ao Poder Concedente, indicando a área
onde pretendem prestar o serviço.
§ 3º Qualquer cidadão da comunidade beneficiada terá direito
a emitir opiniões sobre quaisquer assuntos abordados na
programação da emissora, bem como manifestar idéias,
propostas, sugestões, reclamações ou reivindicações, devendo
observar apenas o momento adequado da programação para
fazê-lo, mediante pedido encaminhado à Direção responsável
pela Rádio Comunitária.
§ 1º Analisada a pretensão quanto a sua viabilidade técnica, o
Poder Concedente publicará comunicado de habilitação e
promoverá sua mais ampla divulgação para que as entidades
interessadas se inscrevam.
Art. 5º O Poder Concedente designará, em nível nacional, para
utilização do Serviço de Radiodifusão Comunitária, um único e
específico canal na faixa de freqüência do serviço de
radiodifusão sonora em freqüência modulada.
I - estatuto da entidade, devidamente registrado;
Parágrafo único. Em caso de manifesta impossibilidade técnica
quanto ao uso desse canal em determinada região, será
indicado, em substituição, canal alternativo, para utilização
exclusiva nessa região.
III - prova de que seus diretores são brasileiros natos ou
naturalizados há mais de dez anos;
Art. 6º Compete ao Poder Concedente outorgar à entidade
interessada autorização para exploração do Serviço de
Radiodifusão Comunitária, observados os procedimentos
estabelecidos nesta Lei e normas reguladoras das condições de
exploração do Serviço.
V - declaração assinada de cada diretor, comprometendo-se ao
fiel cumprimento das normas estabelecidas para o serviço;
IV - não discriminação de raça, religião, sexo, preferências
sexuais, convicções político-ideológico-partidárias e condição
social nas relações comunitárias.
V - permitir a capacitação dos cidadãos no exercício do direito
de expressão da forma mais acessível possível.
Parágrafo único. A outorga terá validade de três anos,
permitida a renovação por igual período, se cumpridas as
exigências desta Lei e demais disposições legais vigentes.
Art 4º As emissoras do Serviço de Radiodifusão Comunitária
Art. 7º São competentes para explorar o Serviço de
§ 2º As entidades deverão apresentar, no prazo fixado para
habilitação, os seguintes documentos:
II - ata da constituição da entidade e eleição dos seus
dirigentes, devidamente registrada;
IV - comprovação de maioridade dos diretores;
VI - manifestação em apoio à iniciativa, formulada por
entidades associativas e comunitárias, legalmente constituídas
e sediadas na área pretendida para a prestação do serviço,
e firmada por pessoas naturais ou jurídicas que tenham
residência, domicílio ou sede nessa área.
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§ 3º Se apenas uma entidade se habilitar para a prestação
do Serviço e estando regular a documentação apresentada, o
Poder Concedente outorgará a autorização à referida entidade.
§ 4º Havendo mais de uma entidade habilitada para a
prestação do Serviço, o Poder Concedente promoverá o
entendimento entre elas, objetivando que se associem.
§ 5º Não alcançando êxito a iniciativa prevista no parágrafo
anterior, o Poder Concedente procederá à escolha da entidade
levando em consideração o critério da representatividade,
evidenciada por meio de manifestações de apoio encaminhadas
por membros da comunidade a ser atendida e/ou por
associações que a representem.
§ 6º Havendo igual representatividade entre as entidades,
proceder-se-á à escolha por sorteio.
Art. 10. A cada entidade será outorgada apenas uma
autorização para exploração do Serviço de Radiodifusão
Comunitária.
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Parágrafo único. É vedada a outorga de autorização para
entidades prestadoras de qualquer outra modalidade de
Serviço de Radiodifusão ou de serviços de distribuição de sinais
de televisão mediante assinatura, bem como à entidade que
tenha como integrante de seus quadros de sócios e de
administradores pessoas que, nestas condições, participem de
outra entidade detentora de outorga para exploração de
qualquer dos serviços mencionados.
Art. 11. A entidade detentora de autorização para execução do
Serviço de Radiodifusão Comunitária não poderá estabelecer
ou manter vínculos que a subordinem ou a sujeitem à
gerência, à administração, ao domínio, ao comando ou à
orientação de qualquer outra entidade, mediante
compromissos ou relações financeiras, religiosas, familiares,
político-partidárias ou comerciais.
Art. 12. É vedada a transferência, a qualquer título, das
autorizações para exploração do Serviço de Radiodifusão
Comunitária.
Art. 13. A entidade detentora de autorização para exploração
do Serviço de Radiodifusão Comunitária pode realizar
alterações em seus atos constitutivos e modificar a composição
de sua diretoria, sem prévia anuência do Poder Concedente,
desde que mantidos os termos e condições inicialmente
exigidos para a outorga da autorização, devendo apresentar,
para fins de registro e controle, os atos que caracterizam as
alterações mencionadas, devidamente registrados ou
averbados na repartição competente, dentro do prazo de trinta
dias contados de sua efetivação.
Art. 14. Os equipamentos de transmissão utilizados no Serviço
de Radiodifusão Comunitária serão pré-sintonizados na
freqüência de operação designada para o serviço e devem ser
homologados ou certificados pelo Poder Concedente.
Art. 15. As emissoras do Serviço de Radiodifusão Comunitária
assegurarão, em sua programação, espaço para divulgação de
planos e realizações de entidades ligadas, por suas finalidades,
ao desenvolvimento da comunidade.
Art. 16. É vedada a formação de redes na exploração do
Serviço de Radiodifusão Comunitária, excetuadas as situações
de guerra, calamidade pública e epidemias, bem como as
transmissões obrigatórias dos Poderes Executivo, Judiciário e
Legislativo, definidas em leis.
Art. 22. As emissoras do Serviço de Radiodifusão Comunitária
operarão sem direito a proteção contra eventuais interferências
causadas por emissoras de quaisquer Serviços de
Telecomunicações e Radiodifusão regularmente instaladas,
condições estas que constarão do seu certificado de licença de
funcionamento.
Art. 17. As emissoras do Serviço de Radiodifusão Comunitária
cumprirão tempo mínimo de operação diária a ser fixado na
regulamentação desta Lei.
Art. 23. Estando em funcionamento a emissora do Serviço de
Radiodifusão Comunitária, em conformidade com as
prescrições desta Lei, e constatando-se interferências
indesejáveis nos demais Serviços regulares de
Telecomunicações e Radiodifusão, o Poder Concedente
determinará a correção da operação e, se a interferência não
for eliminada, no prazo estipulado, determinará a interrupção
do serviço.
Art. 18. As prestadoras do Serviço de Radiodifusão Comunitária
poderão admitir patrocínio, sob a forma de apoio cultural, para
os programas a serem transmitidos, desde que restritos aos
estabelecimentos situados na área da comunidade atendida.
Art. 24. A outorga de autorização para execução do Serviço de
Radiodifusão Comunitária fica sujeita a pagamento de taxa
simbólica, para efeito de cadastramento, cujo valor e condições
serão estabelecidos pelo Poder Concedente.
Art. 19. É vedada a cessão ou arrendamento da emissora do
Serviço de Radiodifusão Comunitária ou de horários de sua
programação.
Art. 25. O Poder Concedente baixará os atos complementares
necessários à regulamentação do Serviço de Radiodifusão
Comunitária, no prazo de cento e vinte dias, contados da
publicação desta Lei.
Art. 20. Compete ao Poder Concedente estimular o
desenvolvimento de Serviço de Radiodifusão Comunitária em
todo o território nacional, podendo, para tanto, elaborar
Manual de Legislação, Conhecimentos e Ética para uso das
rádios comunitárias e organizar cursos de treinamento,
destinados aos interessados na operação de emissoras
comunitárias, visando o seu aprimoramento e a melhoria na
execução do serviço.
Art. 21. Constituem infrações na operação das emissoras do
Serviço de Radiodifusão Comunitária:
I - usar equipamentos fora das especificações autorizadas pelo
Poder Concedente;
II - transferir a terceiros os direitos ou procedimentos de
execução do serviço;
III - permanecer fora de operação por mais de trinta dias sem
motivo justificável;
IV - infringir qualquer dispositivo desta Lei ou da
correspondente regulamentação;
Parágrafo único. As penalidades aplicáveis em decorrência das
infrações cometidas são:
I - advertência;
II - multa; e
III - na reincidência, revogação da autorização.
Art. 26. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 27. Revogam-se as disposições em contrário.
Brasília, 19 de fevereiro de 1998; 177º da Independência e
110º da República.
Mobilização e Capacitação para a Prevenção de
Incêndios Florestais na Amazônia.
“A gente vai trabalhar uma nova consciência...”
Ibanês Pereira Marinho - Monitor do Munícipio de Estreito - MA
Em vez de internacionalizar a Amazônia, vamos amazonizar o mundo...
Grupo de Trabalho Amazônico - GTA - SAIS Lote 08 - Galpão nº 01
Canteiro Central do Metrô - BRASÍLIA-DF
Fone: (61) 346-7048 - E-mail: [email protected]
Apoio:
Ministério do
Meio Ambiente