editorial - Primeira Linha

Transcrição

editorial - Primeira Linha
UPG, meio
século de
luzes e
sombras 3
Carlos Morais
Lenine e a
emancipaçom
da mulher:
umha
revisom
marxista e
feminista 4
Helena Sabel
Evoluçom da
Economia
Galega: fracasso
do binómio
“EspanhaCapitalismo”
A dous meses sem resposta justa,
5-6
a luita do povo mexicano ascende 7
Óscar Peres Vidal
Vozeiro de Primeira Linha
www.primeiralinha.org | @PrimeiraLinhaGZ
Touradas,
flamenco e
corrupçom 8
José Miguel
Ramos Cuba
Jonathan Hernández
Ano XIX | Nº 74
Terceira jeira | Outubro, novembro e dezembro de 2014
Jornal comunista de debate e formaçom ideológica para promover
a Independência Nacional e a Revoluçom Socialista Galega
Galiza e nós
E D I TO R I A L
C
ada semana que se passa, o governo espanhol do PP fica mais parecido com o dumha
ditadura encurralada. A camarilha encabeçada por Mariano Rajói, incapaz e sem vontade política de mudar as políticas económicas
e sociais que provocam um empobrecimento e
exclusom sociais cada vez mais estendidas, cercado pola corrupçom generalizada, aposta na
adoçom desesperada de medidas autoritárias,
por fortalecer ainda mais o mastodôntico aparelho repressivo.
A aprovaçom da “Lei Mordaça”, os novos
anúncios de reforma do Código Penal, a compra
de sofisticado material repressivo, as operaçons e
medidas constantes contra a liberdade de expressom na rede, as ameaças e intimidaçons contra
toda manifestaçom democrática... som as principais decisons de um Conselho de Ministros que
nada tem que invejar aos que Franco presidia.
A crise do regime de 1978 continua a acelerar
a sua descomposiçom, tornando cada dia mais
complexa a sua recomposiçom ordenada. Mas o
governo opta pola bunquerizaçom, por fechar-se
nos muros da Moncloa e nas atalaias dos ministérios de Madrid, fazendo ouvindo surdos ao
clamor popular que reclama profundas transformaçons e alteraçons do roteiro.
Perante este delicado cenário, o poder económico do Ibex 35 resolve avançar numha dupla
via. Obviamente, continua a apoiar o ilegítimo e
submisso governo de Rajói, que aplica minuciosa
e disciplinadamente os parámetros ultraliberais
e centralistas que exigem os conselhos de administraçom; mas também vê com melhores olhos
e menos receios cada dia a ambígua alternativa
representada por Podemos.
O fenómeno político e mediático encabeçado
por Pablo Iglesias é umha funcional e excecional
saída alternativa para evitar a descomposiçom
do pós-franquismo. À medida que os inquéritos
de intençom de voto aproximam o partido dirigido polos 5 magníficos da presidência do governo
espanhol, a complutocracia que dirige o experimento populista vai permitindo conhecer o seu
verdadeiro rosto.
Podemos nom só pretende susbtituir e ocupar o espaço do PSOE como um dos alicerces do
monopartidarismo bicéfalo, como está a agir já
enquanto principal ferramenta que garante a
unidade do Estado espanhol que reclama e exige a oligarquia. As reveladoras declaraçons dos
seus principais líderes em relaçom ao processo
independentista catalám nom som interpretáveis. Podemos é o principal aríete espanhol para
impossibilitar que a maioritária vontade de construir um Estado soberano catalám atinja o seu
objetivo. A brilhante retórica do partido construído nos tubos de ensaio da torre de marfim da
Universidade Computense e de convencionais e
alternativos programas de televisom, nom deixa
de agir como um letal e certeiro hacker contra o
direito a decidir do povo trabalhador catalám e
contra a eventual luita nacional da Galiza e do
resto de povos oprimidos polo Estado imperialista espanhol.
No nosso caso, perante a fragilidade que carateriza na atual conjuntura histórica o projeto
nacional galego, este fenómeno político/mediático está a minar as bases do movimento popular,
questionando a especificidade e singularidade da
nossa luita de classes, convertendo-se no principal agente espanholizador dos movimentos sociais e das luitas populares.
da esquerda que pensa e age a partir e para a
Galiza, estamos a favorecer que a Pátria de Rosalia e Reboiras caminhe irremediavelmente para a
definitiva liquidaçom como sujeito nacional.
Sem lugar a dúvidas, as responsabilidades
som coletivas, embora umhas forças tenham do
mais que outras.
E referimo-nos a construir a ferramenta
político-social que necessita a maioria
social galega, dotada de um programa avançado e um modelo
organizativo flexível.
As municipais de 2015
teriam sido umha ocasiom
excecional para implementar esta cenário. Tal como o
desenvolvimento e consolidaçom de entidade Galiza
pola Soberania (GpS), como
iniciativa suprapartidária.
Porém, uns optam por
antepor os mesquinhos
interesses imediatistas
de siglas gastas e cada
vez com menos prestígio, às necessidades
da luita de libertaçom
nacional, cada vez
mais ameaçada polo
que semelha avanço
da espanholizaçom
do País em todos os
seus ámbitos.
O Pólo patriótico rupturista que
reclamavamos
no
anterior editorial do
Abrente é umha necessidade ineludível.
O mesmo que a construçom do partido comunista combatente, patriótico
e revolucionário, única garantia
de evitar que a luita de libertaçom
nacional e social de género nom se
desvie dos seus objetivos estratégicos
e acabe dirigida polo oportunismo.
Sem um influente e poderoso partido comunista nom é possível garantir a
plena soberania dumha Galiza independente
porque só o socialismo afiança e reforça a soberania e a independência nacional frente as
ameaças permanentes do imperialismo.
Crise nacional e de classe: a Galiza
em construçom ou deconstruçom?
N
No entanto, o realmente grave e preocupante
é a penetraçom do seu discurso entre setores socias e políticos do soberanismo galego, ingenuamente fascinados polo fulgurante ascenso eleitoral dumha sigla carente de qualquer consistência
para agir como força revolucionária, ou no pior
dos casos genuinamente transformadora.
Perante o desenvolvimento deste fenómeno,
a única resposta possível passa pola unidade das
forças e organizaçons nacionalistas e indepen-
dentistas com prática de esquerda rupturista.
Sem a abertura de um processo criativo e imaginativo, guiado pola generosidade e o patriotismo,
que promova a recomposiçom integral do campo
da esquerda nacional, nom está assegurada a
viabilidade do projeto político da Naçom Galega.
Cada mês que se perde à hora de procurar
espaços comuns de intervençom e luita, de favorecer e ensaiar a mestiçagem política das tradiçons e culturas que conformamos a constelaçom
om é novo apontarmos nestas páginas
para os riscos que o povo galego enfrenta
frente à estratégia histórica de Espanha
pola construçom da sua naçom, que passa pola
liquidaçom das que se veem submetidas à sua
administraçom.
Já durante o século XIX, numerosos povos
conseguírom quebrar a lógica dependente imposta, constituindo sucessivos novos estados ao
longo desse século e do seguinte.
Na atualidade, é o povo catalám aglutinado
polo Principat, muito aquém dos históricos Països Cataláns, que afronta em condiçons mais
favoráveis o desafio assimilacionista espanhol.
Porém, está longe de ver garantida a sua própria
autoconstruçom nacional, apesar de contar com
umha importante maioria social independentista, inclusive um segmento da própria burguesia
nacional.
O povo basco, heroico resistente por todos os
meios possíveis durante as últimas décadas, enfrenta especiais dificuldades derivadas da nova
fase após o abandono da via armada da ETA,
caindo a sua vanguarda política numha indefiniçom que precisa de resolver com urgência.
No caso da Galiza, a ofensiva recentralizadora espanhola apanha-nos numha situaçom de
crise generalizada do movimento sociopolítico
que protagonizou durante o último meio século
a regeneraçom das forças nacionais e populares.
O papel cada vez mais secundário do BNG e
do seu mundo coincide com o enfraquecimento
das luitas sociais, se bem é devido a causas mais
complexas derivadas do seu próprio papel du-
EDITORIAL
2 ABRENTE
rante os últimos quinze anos, atraiçoando o seu
próprio e original perfil rupturista em favor da
integraçom no regime espanhol.
A essa realidade soma-se a incapacidade
política da esquerda independentista para erguer umha alternativa nacional e de classe que
tomasse o relevo para fazer avançar as forças da
Galiza resistente.
Neste cenário, o reformismo movimentista
floresce no conjunto do Estado espanhol, sendo
a Galiza um dos espaços em que isso é mais notório e útil para a causa da oligarquia defensora
da referida e inconclusa construçom histórica de
Espanha.
A quebra da unidade do nacionalismo nucleado pola UPG originou primeiro umha formaçom intermédia, Anova, que ensaiou sem
complexos umha aliança estável com o espanholismo “de esquerda”. O aumento fulgurante
de AGE (Anova+IU) deu passagem ao surgimento de Podemos como referente desse movimentismo de aspiraçons renovadoras e propostas
social-democratas que, pola primeira vez desde
o PSOE de Felipe González, afirma e reivindica
sem complexos a sua espanholidade.
À espera do desempenho eleitoral do novo
partido mediático, a deconstruçom do sujeito político galego continua e a esquerda independentista nom fica à margem.
De facto, o nosso partido enfrentou nos últimos meses a sua própria crise, em parte relacionada com a situaçom descrita, mas sobretodo
devedora das próprias carências do nosso processo de construçom do partido comunista para
a Revoluçom Galega.
A meio ano da realizaçom do nosso 6º Congresso, umha Conferência Nacional (a 5ª) serviu
no passado dia 30 de novembro para pôr sobre
a mesa, com total abertura, as importantes diferenças suscitadas por um setor significativo de
militantes.
O debate saldou-se com o abandono de um
grupo de camaradas do sul da Galiza, os quais
pugérom em questom princípios fundamentais
da própria organizaçom comunista. A suposta
flexibilizaçom da compartimentaçom, a reinterpretaçom do centralismo democrático e a confusom em torno da existência da secretaria-geral
fôrom discutidos e rejeitados pola maioria da
militáncia.
Por trás dos termos concretos em que se manifestou esse conflito, ficou em evidência a escassa
consistência e autonomia militante como causa de
umha crise que expressou também umha evidente frustraçom pola falta de avanços quantitativos
no horizonte estratégico do nosso movimento.
É aí que se enxerga a relaçom profunda entre
as crises periódicas da militáncia do nosso parti-
Nº 74 Outubro, novembro e dezembro de 2014
do ou, mais amplamente, do nosso movimento,
com a tendência histórica de deconstruçom da
Galiza como sujeito político. A evidência de que a
crise vai muito além das nossas fileiras, atigindo
em cheio o conjunto da esquerda nacional, reafirma essa tese, com a qual nom pretendemos
evitar a parte de responsabilidade que corresponde ao nosso partido como escola de militantes comprometidos com a desalienaçom coletiva
através da praxe revolucionária.
A crise que enfrentamos nestes meses, a
maior da nossa história em termos quantitativos e qualitativos, deve servir para aprendermos do que durante anos temos feito mal e para
erguermos um projeto comunista à altura das
necessidades do nosso povo: mais forte, mais
formado e (auto)crítico, com militantes autónomos capazes de o discutirem todo enquanto
se batem pola nova sociedade que queremos
construir.
Para isso, nom chega com a arma do ativismo, da qual temos dados mostras abundantes
em todos estes anos. É imprescindível também
fortalecer a invencível arma da verdadeira autoconsciência, com base na formaçom e no combate a toda forma de fetichismo disfarçada de
prática revolucionária, que tem minado e mina
tantas organizaçons ditas comunistas.
Algumhas das medidas que possibilitem
iniciar o caminho da retificaçom estám aprovadas e com certeza irám ter continuidade no
próximo 6º Congresso. Entre elas, umha renovada aposta a fundo na autoformaçom coletiva
marxista, que logo será visível na prática do
nosso partido, incluídas estas mesmas páginas
da nossa publicaçom periódica, o Abrente.
Da mesma forma, a nossa militáncia defenderá um novo impulso no conjunto do movimento de que nos sentimos parte, junto a outros
companheiros e companheiras independentistas, feministas e de esquerda, no apoio de fórmulas progressivamente mais amplas, unitárias
e abrangentes.
A sucessom de crises que enfrentamos, a começar pola da decadente civilizaçom capitalista
como até agora a conhecemos, continuando pola
do sujeito nacional galego e culminando na do
nosso próprio Movimento de Libertaçom Nacional supom um desafio sem precedentes na nossa
história militante.
A ele responderemos com mais militáncia,
mais estudo, mais política e mais praxe revolucionária, sem esquecer que o comunismo nom é
um ideal nem umha utopia absoluta, e sim um
movimento real, umha utopia concreta que deve
desenvolver-se diante dos nossos olhos pois,
como afirmou Marx, “um passo do movimento
real vale mais que mil programas”.
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Nº 74 Outubro, novembro e dezembro de 2014
OPINIOM
ABRENTE 3
UPG, meio século de luzes e sombras
Carlos Morais
Membro do Comité Central de Primeira Linha
N
umha simples olhadela à exposiçom que comemora o 50 aniversário da fundaçom da UPG é
verificável que a mensagem preponderante que a entidade organizadora do
evento quer transmitir é o orgulho, a
continuidade e a importáncia histórica de ser a primeira força política patriótica constituida após o holocausto
galego posterior a 1936. Eis sem lugar
a dúvidas a grande achega teórico-prática que a UPG tem feito à naçom
galega como sujeito político: a sua
constituiçom e constáncia na defesa
intransigente da auto-organizaçom e
do quadro galego de luita.
Em toda a orientaçom, conteúdos
e linha gráfica da exposiçom “A Naçom
galega em pé”, instalada no Colégio
Fonseca da USC da capital da Galiza,
prevalece a fasquia nacionalista sobre
a de classe. Embora incida no cardinal
papel da UPG na constituiçom do sindicalismo galego, como das entidades
sociais no ámbito cultural, estudantil,
camponês, feminista, que desde finais
dos anos sessenta foi tecendo a organizaçom fundada por pouco mais de meia
dúzia de pessoas há agora meio século,
numha reuniom nas redondezas de
Compostela a 25 de julho de 1964.
A UPG como “partido comunista
patriótico” é um elemento mais, claramente subsidiário da cosmovisom
nacionalista, que submete a luita de
classes à nacional, seguindo a lógica
doutrinal nacional-popular.
Já temos refletido sobre o ecleticismo e a indifiniçom dos “Dez pontos
fundacionais” no terreno nacional,
que goram umha UPG independentista; já temos denunciado as carências
congénitas do seu ADN político1 e o
imenso dano provocado ao projeto de
libertaçom nacional durante décadas
pola criaçom dumha “complexada e
acovardada doutrina nacional a meio
caminho entre um autonomismo radical que defende sem paliativos o direito de autodeterminaçom, e umha
irracional patologia anti-independentista”2.
Porém, nesta ocasiom queremos
abordar umha incógnita derivada das
mudanças na sua linha política acordadas na Conferência Nacional que a
UPG realiza em fevereiro de 2013.
Salvando o período 1975-77, no
qual sim mantivo umha linha discursiva independentista, os trinta anos
posteriores caraterizárom-se –salvo a
exceçom da sua rama juvenil na primeira metade dos oitenta-, por umha
depuraçom integral desta tese e um
ativo combate ao movimento independentista em base a delirantes desqualificaçons gratuitas e justificaçons
absurdas de ligar a reclamaçom da independência nacional com “provocaçom” esquerdista e espanholista. Artigos, discursos e todo o tipo de textos
de dirigentes e da própria UPG estám
ao acesso público nas hemerotecas e
na rede para confirmar a veracidade
desta afirmaçom.
Os acordos dessa Conferência
Nacional facilitárom a viragem soberanista e anti-imperialista do BNG na
XIV Assembleia Nacional do mês seguinte e a posterior abertura do que
semelhava um novo clima de diálogo, respeito e entendimento entre as
forças políticas e sociais da esquerda
patriótica.
Nem na altura, e menos ainda
agora, podemos desconsiderar que a
nova atmósfera a que se incorporava
o nacionalismo maioritário emanava fundamentalmente de umha crise
orgánica que se superpunha a outras
prévias, e que por sua vez derivava
da impossibilidade de cortar a grave
hemorragia eleitoral iniciada em 2001,
e que nom tocou fundo tal como se
constatou há poucos meses e teimam
em confirmar recentes inquéritos.
Se bem é certo que nos quase
dous últimos anos a UPG tem empregado e agitado mais a reclamaçom de
independência no seu relato e interpretaçom da situaçom galega que no
período que abrange o assassinato de
Alameda de Compostela, 25 de julho de 1968
Reboiras e o ano 2013, a realidade é
teimosa e constata as enormes limitaçons no ámbito retórico de um discurso que nom convence nem assume
umha boa parte da sua militáncia e
quadros.
Já nom podemos coincidir com
a leitura de allegro ma non troppo a
que nos referiamos há mais de ano e
meio3, pois a realidade verifica umha
carência de firmeza à hora de defender e aplicar a linha independentista.
À medida que a cisom beirista foi
perdendo paulatinamente o vigor inicial por mor das contradiçons sobre a
política de alianças com o espanholismo, polos abandonos individuais e as
rupturas coletivas por tanta incoerência, pola competência letal de Podemos como produto mais atrativo que
o projeto de AGE e, portanto, foi desaparecendo na direçom da UPG o pánico pola criaçom e desenvolvimento
de Anova, a viragem independentista
ficou reduzida aos discursos nos atos
rituais e aos artigos de opiniom.
Se nom se consolidou Galiza pola
Soberania (GpS) como iniciativa suprapartidária e abrangente, fruto de
um acordo político de meses de consensos, foi porque estava concebida
como umha ferramenta conjuntural
enquadrada no taticismo que carateriza umha corrente política tam versátil
como oportunista, incapaz de superar
e despreender-se das limitaçons congénitas.
Há indícios suficientes para interpretar que a unidade de açom com a
esquerda independentista implementada de forma esporádica durante o
ano passado, que serviu para lavar a
cara, para injetar credibilidade num
projeto e nuns dirigentes desprestigiados, para maquilhar e superar umha
década de políticas autonomistas e
neoliberais que facilitárom a espanholizaçom da Pátria e desarmárom a capacidade de luita do povo trabalhador,
é agora basicamente concebida como
um aditivo subsidiário reduzido a processos eleitorais.
Nom há ruptura de relaçons, mas
tampouco há interesse real em mantê-las mais além do ámbito puramente
diplomático. A ausência de vontade
de chegar a um acordo em chave de
país nas eleiçons europeias de maio,
nas candidaturas municipais da vindoura primavera, ou recentemente na
denúncia da Constituiçom espanhola
6 dezembro, constata que a UPG que
presume de ser umha força que atinge
a madurez do meio século de trajetória, nom aprendeu as liçons e os erros
cometidos neste longo período.
A pulsom pactista segue mui viva
no seu interior. A cultura conciliadora
marca os ritmos de umha força que,
embora elabore um diagnóstico rigoroso e lúcido do presente, é incapaz
de aplicar as medidas imprescindíveis
para avançar estrategicamente, porque o taticismo hipoteca e freia qualquer passo dado na direçom correta.
Esta carência de audácia e vontade
real de superar o eleitoralismo nom se
pode dissociar das causas que estám a
levar o projeto nacional galego à sua
derrota estratégica.
A UPG nom se define com claridom frente à nova transiçom que
setores do esgotado regime espanhol
tentam promover para -igual que na
década de setenta do século passado-, perpetuar o modelo vigorante do
capitalismo espanhol, e salvar a agonizante arquitetura jurídico-política
imposta no pós-franquismo, frente à
desafetaçom generalizada de cada vez
maiores setores populares.
Contradiçons e disputas internas
impossibilitam umha rotunda negativa do nacionalismo galego à reforma
constitucional e ao novo pacto que
reclama o gram capital para garantir
a unidade indivísível de Espanha mediante leves concessons às burguesias
basca e catalá e mudanças cosméticas
que neutralizem o ascenso do malestar popular. A ambigüidade calculada
continua a ser a receita do dia a dia
para tentar recompor desesperadamente o BNG anterior à ruptura, e
desta forma procurar paulatinamente
atingir as quotas eleitorais de 1997.
O fantasma do quintanismo segue
ativo no nacionalismo e, portanto, a
viragem independentista e de esquerda aprovada na Conferência Nacional
continua a aplicar-se contraditoriamente entre decisons espasmódicas
que provocam que os princípios aprovados que gerárom tanta expetaçom
nom dem superado o estado da interinidade e provisoriedade próprios do
taticismo.
A UPG aferra-se em impossibilitar
as mudanças imprescindíveis no campo da esquerda patriótica que permitam a recomposiçom do conjunto do
nacionalismo e do independentismo
galego. Opta por perpetuar a toda custa um BNG que cada vez maiores seto-
res sociais ativos nas luitas populares
e presentes nos movimentos sociais
identificam com umha sigla mais de
um regime que há que transformar.
Em vez de facilitar um processo
aberto e horizontal de refundaçom
integral da esquerda nacional que implique necessariamente a dissoluçom
das organizaçons políticas de massas
do nacionalismo e da esquerda independentista, e umha parcial restruturaçom das entidades setoriais, opta
por marcar distáncias e evitar confluências, primando por tender pontes
ao galeguismo entreguista.
O tempo vai respondendo às múltiplas perguntas e dúvidas da militáncia galega. As sólidas desconfianças
fundadas em décadas de desencontros
nom se dissipárom, estám profundamente ativas entre aquelas e aqueles
que temos historicamente defendido a
confluência, umha ampla aliança em
base a um programa avançado.
Nos dias de hoje nom podemos
responder com clareza às dúvidas e incógnitas que fazíamos coletivamente
há perto de dous anos, mas sim temos
mais certezas e factos constatáveis
para o pessimismo objetivo, embora
nom para o derrotismo.
A reversibilidade das teses da Conferência Nacional é um facto presente,
cada dia mais evidente nas decisons
políticas de fundo que a UPG vai adotando ou facilitando por meio do BNG.
Se bem é certo que neste último
biénio umha nova geraçom militante
do nacionalismo foi educada na cultura soberanista, que fôrom tecidas
muitas cumplicidades entre as bases
militantes, também nom é menos
certo que boa parte dos quadros históricos, basicamente os que detenhem
responsabilidades institucionais, mantenhem reticências e mesmo questionam a linha aprovada, provocando
assim a impossibilidade de aplicaçom.
Gostavamos de poder afirmar com
satisfaçom que neste 50 aniversário
que saudamos, a UPG deu por enterrada a patologia anti-independnetista
praticada desde a segunda metade dos
setenta. Mas a realidade impossibilita
que podamos afirmá-lo, porque a UPG
tem retrocedido à hora de aplicar a
viragem.
Mais tampouco desejamos que
isso aconteça, porque para além das
profundas diferenças táticas e estratégicas com a UPG -as quais provocárom
em 1996 a conformaçom do novo co-
munismo patriótico representado por
Primeira Linha-, o fracasso das achegas plasmadas nos 10 pontos da reuniom da ponte da Rocha no verao de
1964 sobre as quais se edificou a doutrina e programa, facilitaria a derrota
do projeto nacional galego na esfera
política.
Reconhecendo que o primeiro
baluarte defensivo da Pátria está conformado assimetricamente polo nacionalismo e o independentismo, nom
duvidamos que a queda do primeiro
contingente -mais numeroso e com
maior implantaçom social-, no sentido
de renunciar novamente à contraditória linha soberanista acordada na Assembleia de Ámio, capitulando por um
punhado de deputados em ilegítimas
instituiçons alheias, teria conseqüências catastróficas.
E se bem todo aparente que nom
há motivos para umha renúncia, os
factos constatárom que nengumha
escola e corrente político-social, por
muito vigor que transmitir, tem assegurada a sua irreversabilidade doutrinal. Do contrário, como entender
que as cisons políticas independentistas que quebrárom com a UPG em
1976/77, 1986/87 e 2007 defendam e
apliquem a unidade com o espanholismo que deu lugar a constituiçom de
Anova e de AGE, incumprindo o princípio de auto-organizaçom?
A solidez doutrinal de umha força
política nom se garante nos textos e
programas, salvo por umha coerente
açom teórico-prática. O caso galego
nom é umha exceçom. Muitas vezes,
os que mais berram som os mais inofensivos. E os mais fanatizados na
defesa dos princípios os primeiros em
incumpri-los.
A Revoluçom Galega exige grandes doses de generosidade para alterar e gorar o plano de aniquilaçom da
Galiza a que Espanha nos conduz. A
UPG tem o dever histórico de agir com
responsabilidade patriótica. Esta seria
a sua melhor contribuiçom neste 50
aniversário.
1 Carlos Morais, “Crise ou crises no nacionalismo
galego”, Abrente 39 ( Janeiro-março 2006).
2 Carlos Morais, “Quadragésimo aniversário da
UPG: olhar marxista às suas limitaçons congénitas”, Abrente 30 (Outubro-dezembro de
2003).
3Carlos Morais, “Dúvidas e incógnitas sem
resposta sobre a unidade soberanista”, Abrente
69 ( Julho-setembro de 2013).
ANÁLISE
4 ABRENTE
Helena Sabel
Membra da Mesa Nacional de BRIGA
O camarada Lenine falou-me várias vezes
sobre a questom feminina, à qual atribuía grande importância, umha vez que
o movimento feminino era para ele parte
integrante e, em certas ocasions, parte
decisiva do movimento de massas. É
desnecessário dizer que ele considerava
a plena igualdade social da mulher como
um princípio indiscutível do comunismo.
Clara Zetkin (1924),
Lembranças de Lenine1
A opressom de género nom tem
um peso determinante na produçom
teórica de Lenine, mas, se figermos
umha revisom da obra do revolucionário russo, comprovaremos que nom se
trata dumha questom por ele obviada.
É consciente de como a dominaçom patriarcal fai com que a opressom acrescentada que sofrem as mulheres trabalhadoras provoque que certas problemáticas precisem de ser abordadas a
partir da perspetiva de género.
Desde o início da sua atividade revolucionária, Lenine fijo algum que outro esforço por se dirigir especificamente às mulheres trabalhadoras nas suas
campanhas agitativas. Porém, a maior
parte dos panfletos que repartia nas
fábricas de Sam Petersburgo tinham
como destinatário os trabalhadores,
embora haja algumha exceçom2.
Na produçom teórica iniciada durante a sua estadia em prisom em
1896-97, Lenine dedica numerosas reflexons às condiçons socioeconómicas
das camponesas. Um dos seus objetos
de estudo será a sobrecarga de trabalho
que suponhem as tarefas relacionadas
com os cuidados3. Além disso, insiste
nos benefícios que suporia para estas
mulheres a participaçom direta no processo produtivo em grandes indústrias
fabris, pois reduziria a sua alienaçom,
tornando-as mais independentes e,
portanto, ajudando-as a romperem as
cadeias do patriarcado4.
Posteriormente, também analisará
o processo de feminizaçom do setor
agrícola nos países do centro capitalista e como esta feminizaçom está relacionada com as pequenas exploraçons,
agrícolas, sendo estas, precisamente, as
mais pobres. Nas suas reflexons sobre
a precarizaçom das condiçons de vida
das camponesas e da sua sobreexploraçom, retorna de novo à defesa da necessidade imperiosa de que as mulheres se incorporem ativamente ao tecido
produtivo.
Após a vitória da Revoluçom bolchevique, umha das maiores preocupaçons de Lenine é que, ainda que as
mulheres e os homens sejam iguais
ante a lei devido à reforma legislativa
soviética, esta igualdade nom seja real
a efeitos práticos. Daí que dedique notáveis esforços em impulsar a implicaçom ativa das mulheres na política
e administraçom públicas, fazendo
numerosos chamamentos às mulheres
(tanto do partido como nom militantes)
para que se unissem aos sovietes.5
Umha análise muito mais profunda que podemos elaborar aqui seria
precisa para estudar a conceçom que
da família e da sexualidade tinha Lenine. Som poucas as referências diretas
que temos dele a este respeito e, as
que conservamos, desprestigiam em
certa medida os contributos dum revolucionário que tam lúcido foi à hora
de analisar outros aspetos da teoria
revolucionária.
Por umha parte, temos o Lenine que
analisa a família burguesa como a instituiçom que converte a mulher numha
escrava. Na sua defesa do divórcio, denuncia a hipocrisia dos estados burgueses que o legalizam por invisibilizar a
subjugaçom económica da mulher, que
fai do divórcio na sociedade capitalista
um trámite antidemocrático e fútil6.
Também analisa com umha perspetiva de classe a despenalizaçom do
aborto e a distribuiçom de propaganda
sobre métodos anticoncecionais, diferenciando como a classe trabalhadora
reivindica esses direitos em contraposiçom com a defesa covarde de certos
setores da pequena-burguesia que desejam controlar a natalidade para que
as “criança nom sofram” devido ao pioramento das condiçons de vida7.
Lenine também denuncia a hipocrisia burguesa no tocante à prostituiçom,
Nº 74 Outubro, novembro e dezembro de 2014
Lenine e a emancipaçom
da mulher: umha revisom
marxista e feminista
nantes na vida do revolucionário ficam
completamente ensombrecidas por
este e relegadas a meras figuras de encarregadas do trabalho doméstico ou
secretárias. Porém, é preciso insistir
em que a sua companheira, Nadezhda
Krupskaia, e irmás, Anna Elizarova e
Maria Ulyanova, eram revolucionárias
entregues que desempenhárom um
papel fulcral na história da Revoluçom
soviética. Nom só fôrom peças chave à
hora de manter a organizaçom bolchevique durante os duros anos da emigraçom do Lenine, como também realizárom um labor encomiável na construçom do partido durante 1917, centrado-se particularmente nas mulheres e na
juventude trabalhadora. Nom devemos
esquecer que muita da bibliografia que
manejamos sobre a Revoluçom de 17 se
centra em personalidades: em Lenine
como o líder, enquanto as perspetivas
feministas estám centradas na figura
de Alexandra Kollontai. É por isso que,
por vezes, se fai necessário recordar
que Lenine estivo exilado desde julho
até a véspera da Revoluçom de Outubro e que Kollontai estava presa nessa
altura. E mais ainda, fai-se necessário
reivindicar que as mulheres cumprírom um papel determinante no sucesso
da Revoluçom, e que devem deixar de
ser vistas como umhas meras iniciadoras dumha revolta essencialmente
masculina.
Ter presente toda esta bagagem,
este contexto pessoal e sociopolítico, é imprescindível para avaliar as
“mais de quarenta ocasions” (aplaude
Krupskaia) em que Lenine fai umha
mençom explícita à emancipaçom das
mulheres (Kruspakaia, 1933: op. cit.).
Para rematar, queremos recordar
os factos e nom ficar só com as palavras. Queremos recordar que sob a liderança de Lenine se criou o Genotdel,
o primeiro departamento feminino governamental do mundo. Que se aprovou o Código Civil de 1918, polo qual
decretava a proteçom do Estado a maes
e crianças, tornando gratuitos os cuidados nas maternidades. Legalizou-se o
divórcio e fijo-se do casamento um ato
civil, no qual as duas partes assumiam
os mesmos direitos e deveres. Anulou-se a distinçom entre filh@s legítim@s
e ilegítim@s. Aboliu-se a educaçom
religiosa e as instituiçons confessionais fôrom convertidas em centros de
serviços sociais. Há que recordar também que em 1920, pola primeira vez no
mundo, se legalizou o aborto. O trabalho tornou-se obrigatório para homens
e mulheres e criou-se umha rede de
instituiçons de apoio à mulher, desde
infantários, centros de dia, cantinas, lavandarias públicas, cozinhas coletivas,
e um longo et cetera.
O proletariado nunca poderá conquistar a
plena liberdade até que conquiste a plena
liberdade para as mulheres.
Lenine, 1920
Cartaz de Adolph Strakhov, 8 de março. Dia Internacional da Mulher Trabalhadora (1920)
definida por este como umha forma de
opressom sobre a mulher com umha
indissociável condiçom de classe. Critica com dureza as medidas com que a
burguesia pretende erradicar a prostituiçom (religiom e opressom policial)
ao mesmo tempo que evidencia a falsidade burguesa ao falar de erradicar
umha mal que nom só é provocado por
ela, mas que o sustenta, beneficiando-se da sua existência.
Por outra parte, temos o Lenine absolutamente oposto ao amor livre. Censura, por exemplo, que umha das principais temáticas que as comunistas alemás tratam nos círculos de debate com
as trabalhadoras seja a problemática
sexual e o matrimónio. Também considera “perigoso” que seja a sexualidade
umha questom chave entre as juventudes do partido (pois “pode facilmente
levar a excessos sexuais, sobreestimulaçom da vida sexual e ao desperdício
da saúde e vitalidade da gente nova”8).
Algumhas das suas discussons que
a este respeito tivo com Alexandra Kollontai chegárom-nos através de Clara
Zetkin. Zetkin afirma que Lenine criticou o conceito de amor livre defendido
pola feminista russa, definindo-o como
“completamente antimarxista, e, acima
de todo, anti-social” (Zetkin, op. cit.: 7).
Outros trechos desta obra desenham a
conceçom que Lenine tinha sobre a luita pola emancipaçom sexual, que descreve como umha ideologia que nasce
“do desejo de justificar a própria vida
sexual anormal ou excessiva do indivíduo ante a moralidade burguesa e reivindicar toleráncia consigo mesmo”9.
Além de Zetkin e Kollontai, também Inessa Armand foi alvo das suas
críticas, como se pode observar pola
petiçom que lhe fai, em que lhe solicita
que apague um parágrafo dum panfleto
em que Armand tratava a luita das mulheres trabalhadoras polo amor livre
por ser “umha questom burguesa, nom
umha questom proletária”10.
Embora Lenine criticasse com fereza o modelo de família burguês, chega
a apresentar a procriaçom no seio dum
casal monogámico como o contexto
mais legítimo para a sexualidade. Situa, ainda, a “promiscuidade sexual”
como um vício semelhante ao álcool,
pois dumha maneira similar afeta a
consciência de classe favorecendo a
alienaçom.
Nom podemos estudar a presença
da mulher na obra de Lenine, sem analisar as influências femininas na vida
deste, assim como a atividade política
protagonizada polas mulheres da sua
época. Evidentemente, nom podemos
elaborar aqui essa contextualizaçom,
mas sim queremos denunciar, ainda
que de maneira superficial, o pouco
espaço que às mulheres se outorga nos
relatos biográficos de Lenine (veja-se
Service, 1995; Volkogonov, 1994). Em
muitas biografias, mulheres determi-
1 h t t p : // w w w. m a r x i s t s . o r g /p o r t u g u e s /
zetkin/1920/mes/lenin.htm
2Concretamente, um panfleto dirigido aos
trabalhadores e trabalhadoras da fábrica
têxtil Tornton. Também nos consta, segundo
relata Krupskaya (1933), a intençom de Lenine
de redigir um panfleto durante o seu exílio
em 1899 que levaria por título “As mulheres
e a causa do proletariado”. Neste panfleto,
animaria as mulheres a participarem do movimento revolucionário e defenderia como só a
vitória da classe trabalhadora conquistaria a
emancipaçom de género (prefácio escrito para
a coleçom de artigos de Lenine intitulada Sobre
a emancipaçom da mulher de 1934).
3 Para se referir ao trabalho reprodutivo, Lenine
utiliza com freqüência o termo “escravas
domésticas” (Lenine, V.I.U. (1913): “Um grande
avanço tecnológico”. Pravda, 91, 1913, 21 de
Abril).
4 Lenine, V. I .U. (1899): O desenvolvimento do
capitalismo na Rússia, capítulo VII “O desenvolvimento da grande maquinaria industrial”.
5 Lenine, V. I. U. (1920): “Às mulheres trabalhadoras”. Pravda, 40, 1920, 22 de fevereiro.
6 Lenine, V. I. U. (1916): “Caricatura do marxismo
e do economicismo imperialista”. Zvezda, 1-2,
1924.
7 Lenine, V. I. U. (1913): “A classe trabalhadora e
o neomaltusianismo”. Pravda, 137, 1913, 16 de
Junho.
8 Zetkin, C. (1934): Lenin on the Woman Question,
New York: International, p. 5.
9 Zetkin (op. cit.: 4).
10Carta para Inessa Armand, 17 de janeiro de 1915.
ANÁLISE
Nº 74 Outubro, novembro e dezembro de 2014
ABRENTE 5
Evoluçom da Economia Galega: fracasso
do binómio “Espanha-Capitalismo”
Óscar Peres Vidal
Populaçom residente na Galiza (2003-2013)
2.810 miles
6,50%
% Galiza/Espanha
2.740
5,80%
2.730
5,70%
2.720
5,60%
Galiza
2003
2.751.094
2004
2.750.985
2005
2.762.198
2006
2.767.524
2007
2.772.533
2008
2.784.169
2009
2.796.089
2010
2.797.653
2011
2.795.422
2012
2.781.498
2012 - julho
2.765.747
2013 - janeiro 2.761.970
2013 - julho
2.753.960
Dados tirados do IGE*
2013.VII
5,90%
2013.I
2.750
2012
6,00%
2012.VII
2.760
2011
6,10%
2010
2.770
2009
6,20%
2007
2.780
2006
Ano(s)
6,40%
6,30%
2005
O último informe publicado polo Conselho Económico e Social da Galiza (CES) referente à situaçom económica e social no nosso país no ano 2013,
oferece, em traços grossos, a descriçom dumha
naçom que oferece sintomas preocupantes tanto
de presente como de futuro. Umha sociedade envelhecida, na qual diminui a populaçom enquanto a
economia permanece estancada ou em retrocesso.
É umha sociedade em crise tanto do ponto de vista
social como económico.
Frente a essa Galiza idílica que nos querem
vender os diferentes governos do Partido Popular,
tanto na Moncloa como em Rajói, sob a ideia de
que umha mentira contada bem freqüentemente
se torna verdade, a realidade monstra o seu traço
mais terrível e o que é mais dramático, sem quase
sinais de recuperaçom. Ao invés, a exploraçom do
trabalho e a degradaçom da vida da classe trabalhadora se agudiza nos últimos anos, como condiçons
necessárias para o capital se recuperar da sua crise.
Em multidom de ocasions, temos analisado
a dramática situaçom da classe trabalhadora na
Galiza, assim como as causas estruturais tanto do
desemprego como do comportamento diferenciado
do “mercado do trabalho” relativamente ao Estado
espanhol, e como esta situaçom foi piorando nos últimos anos com a nova crise do sistema capitalista
iniciada em finais de 2007.
Se bem a crise tem sacudido praticamente as
economias de todo o mundo e sobretodo a classe trabalhadora dos respectivos Estados, no caso de Galiza
esta situaçom é muito mais marcada pola imposiçom
“espanha – capitalismo”. Sob este binómio oculta-se
precisamente um projeto político-económico, implementado há décadas, consistente em tornar inviável
e economicamente dependente a nossa naçom. Só assim podemos explicar o ataque histórico aos nossos
setores económicos e estratégicos e a transformaçom
imposta na nossa economia desde finais do franquismo. Desde há décadas, os diferentes setores da nossa
economia tenhem sido atacados e desmantelados
por parte do Estado espanhol e da Uniom Europeia.
Apesar de na maioria dos casos continuarmos a ser
referentes, também é evidente que temos perdido
peso especifico em relaçom a quando éramos potência mundial a nível pesqueiro, agro-pecuário e naval,
para pôr alguns exemplos. Assim, a economia galega
de finais dos anos setenta nom tem nada a ver com
a atual. A distribuiçom da ocupaçom por setores da
economia galega nos últimos quarenta anos demonstra esta transformaçom forçada e imposta polos diferentes governos.
Populaçom Galiza 2003-2013
% Populaçom Galiza/Espanha
2.790
2004
Bertol Brecht
Galiza
2.800
2003
“Nos países democráticos nom se revela o caráter de
violência que tem a economia; nos países autoritários,
ocorre o mesmo com o caráter económico da violência.”
2008
Membro do Comité Central de Primeira Linha
Galiza /
Espanha
6,44%
6,37%
6,26%
6,19%
6,13%
6,03%
5,98%
5,95%
5,92%
5,88%
5,91%
5,91%
5,91%
% Populaçom 0-39 anos Galiza (2008-2013)
46,00%
44,79%
4500%
44,31%
43,72%
4400%
43,10%
42,45%
4300%
41,74%
4200%
4100%
4000%
2008
2009
2010
2011
2012
2013
Populaçom 2008-2013: Distribuiçom por grupos de idade (Galiza)
Ano(s)
00 - 14 anos
15 - 39 anos
40 - 64 anos
> 65 anos
Total
Fonte: INE* e CES*
2008
314.539
932.576
934.192
602.862
2.784.169
2009
318.109
920.748
945.411
611.821
2.796.089
2010
321.363
901.863
954.719
619.708
2.797.653
2011
324.119
880.621
961.205
629.477
2.795.422
2012
326.611
854.160
964.848
635.879
2.781.498
2013
329.029
823.893
970.808
638.241
2.761.971
Ocupaçom Setores Económicos Galiza
(Distribuiçom por percentagens. 1976. 1980, 1996 e 2013)
8%
18%
32%
41%
46%
8%
10%
18%
1976. IV trimestre
15%
26%
48%
7%
15%
70%
11%
17%
1980. IV trimestre
1996. I trimestre
2013. II trimestre
A demografia no nosso país, sintoma
da doença da nossa economia
S
em dúvida, umha conseqüência das diferentes
políticas implementadas na Galiza é a perda
continua de populaçom e o envelhecimento da
mesma. Um estudo recentemente publicado polo
INE e o IGE prognostica que a Galiza poderia perder
mais de 205.000 pessoas nos vindouros 15 anos.
Em julho de 2013 (segundo os dados tirados no
relatório do Conselho Económico e Social publicado
em julho de 2014) a populaçom da Galiza situava-se
nas 2.753.960 pessoas, quer dizer, 8.010 residentes
menos do que ao começo do ano, devido a um saldo
negativo migratório (-1.963 pessoas) e a um crescimento vegetativo negativo. A perda de populaçom
é umha constante nas últimas décadas, mas sem
dúvida agravada desde o início da nova crise económica. Assim, no intervalo 2008-2013, a populaçom na Galiza desceu em mais de 30.000 pessoas,
em contraposiçom com o conjunto do Estado, no
qual aumentou em 450.000 pessoas. Todo isto fai
com que a Galiza, além de perder populaçom, perda
peso especifico em relaçom ao conjunto do Estado
espanhol, como se pode ver no seguinte gráfico.
Mas, além disto, existe um problema muito
grave na sociedade galega, já que diminuiçom de
populaçom anda a par e passo de um processo de
envelhecimento que se incrementa em 6,5% no intervalo 2008-2013 e que concretamente na faixa de
idade entre 15 e 39 anos diminui em mais de 13%.
Muito indicativo é que no conjunto do Estado
espanhol e dentro das Comunidades Autónomas
CA, a Galiza ocupe os últimos postos quanto a menor peso da populaçom até os 39 anos e, ao contrário, seja a terceira (CA) com maior peso da populaçom com mais de 64 anos de idade; quer dizer,
pouca juventude num país envelhecido, sintoma
preocupante de cara ao futuro.
Agricultura
e pesca
1976. IV trimestre
1980. IV trimestre
Indústria
Construçom
1996. I trimestre
Serviços
2013. II trimestre
Fonte: INE e IGE
* CES: Conselho Económico e Social. INE: Instituto Nacional de Estatística. IGE: Instituto Galego de Estatística.
Além dos custos que implica para umha sociedade ter umha populaçom envelhecida, também
demonstra, infelizmente, que nom existem setores
nem políticas económicas na Galiza que permitam
criar e manter emprego e, portanto, assentar a
populaçom. Esta situaçom é muito mais marcada
na zona rural, que leva décadas num processo de
despovoamento. Temos que lembrar que, no ano
1980, mais de 40% da populaçom trabalhava em
atividades relacionadas com a agricultura ou as
pescas, enquanto em 2013 mal ultrapassavam os
8% as pessoas ocupadas nestes setores. A política
de imposiçons de Espanha da Uniom Europeia de
cara ao setor primário, ainda que também ao se-
cundário ou industrial, tivo como conseqüência um
crescimento da emigraçom e do despovoamento
das zonas rurais.
A transformaçom e destruiçom dos
nossos setores económicos
A
transformaçom dos nossos setores económicos desde a década dos anos setenta, início da
II restauraçom borbónica, e até a atualidade,
oferece umha informaçom clarificadora sobre como
se tem transformado a sociedade e a economia
galega nos últimos quarenta anos. Nom devemos
esquecer que esta evoluçom é fruto das diferentes
políticas levadas a cabo por parte de Estado espa-
nhol e da Uniom Europeia, seguindo o ditame das
instituiçons económicas e financeiras internacionais, que contribuírom para o desmantelamento
de setores fundamentais para a nossa economia.
Assim como acontece com os sintomas de umha
pessoa doente, a situaçom da demografia na Galiza
é a expressom dumha doença crónica do ponto de
vista económico e político.
Analisando unicamente a composiçom dos diferentes setores económicos no ano 2013, segundo os
dados recolhidos no informe do Conselho Económico e Social de Galiza para 2013, obtemos a seguinte
radiografia:
O setor primário, composto basicamente polos
subsetores agro-pecuário, pesqueiro e silvicultura
– madeira, representa concretamente 7,3% de emprego na Galiza (mais de 75.000 pessoas), duplicando a média estatal, se bem está a se perceber um
retrocesso do mesmo e um abandono progressivo
da atividade, o que tem como conseqüência umha
reduçom do numero de indústrias agro-pecuárias ligada com a descida dos preços de produçom do leite
(devemos lembrar que os preços do leite na Galiza
som dos mais baixos do Estado espanhol, apesar de
suporem 37,4% da quota total leiteira do Estado)
ou umha diminuiçom dos rendimentos do setor
pesqueiro, de mais de 6% no ano 2013, segundo os
resultados obtidos nas lotas do País.
No caso do setor industrial, com cerca de 15%
(151.000 pessoas) da ocupaçom total, a situaçom
nom e positiva. Assim, no ano 2013 a demanda
de produtos petrolíferos na Galiza viu-se reduzido
em 7,2% (4,5% no conjunto do Estado espanhol),
o que reflete uma menor atividade económica e
industrial, mais acusada no caso galego. Tam só
o subsetor da automoçom mostra certos sinais de
melhoria, com 2,7% de crescimento de emprego a
respeito do anterior, se bem com umha muito marcada degradaçom das condiçons de trabalho para o
pessoal empregado no setor.
No entanto, sem dúvida, o subsetor numha situaçom mais delicada é o naval, apesar dos cantos
de sereia de Feijó e do Partido Popular, anunciando
carga de trabalho para os estaleiros galegos. A realidade mostra umha situaçom verdadeira dramática:
no ano 2013, o conjunto do Estado o setor naval assinou um total de 28 contratos e nengum por parte
de um estaleiro galego. No que di respeito à carga
de trabalho pendente, também se viu reduzida, pois
se no ano 2012 havia 13 contratos pendentes de
conclusom, no ano 2013 reduzírom-se até os 6. Uns
dados que som exemplo do que está acontecer na
Galiza e que se pode extrapolar ao abandono noutros setores e a situaçom da comarca de Trasancos,
onde nos deparamos com um setor naval destruído
por decisons políticas e que tivo como conseqüências converter-se na comarca galega com maior desemprego, indo além dos 30%, e a que sofreu umha
maior queda demográfica nas últimas décadas, com
umha perda de quase 20% da populaçom desde a
década de oitenta e até a atualidade na cidade de
Ferrol.
O setor da construçom, com quase 70.000
pessoas, continua com a descida no referente a ocupaçom desde o início da crise. Assim, no ano 2013,
o setor viu reduzido o emprego em 12,7%, se bem a
reduçom que experimentou o setor desde 2007 até
2013 foi de mais de 52%.
Por último o setor serviços que ocupa no nosso país mais de 700.000 pessoas e aporta 65% do
valor acrescentado bruto total da economia galega
no ano 2013, por volta de sete pontos percentuais
menos que a média estatal e que supom quase 33
mil milhons de euros. No ano 2013 houvo umha reduçom do número de ocupados no setor de perto de
14.000 pessoas menos com respeito ao ano anterior.
Logicamente a menor actividade económica e os diferentes cortes aplicados polos governos tivérom
efeito negativo para um setor que engloba atividades de comércio, sanitárias e serviços sociais, hotelaria, educaçom, segurança social e administraçons
públicas
Porém, o mais significativo é vermos como a
inícios dos anos 80 a economia de Galiza estava
assente fundamentalmente no setor primário, o
que tinha conseqüências muito positivas para o
nosso país, já que, além da própria ocupaçom laboral, permitia o assentamento da populaçom no
rural, enquanto na atualidade se converteu numha
economia baseada fundamentalmente no setor terciário, que supom praticamente 70% de ocupaçom
laboral. A estrutura que apresentava a economia
galega estava claramente diferenciada da economia
espanhola naquela altura; assim, a finais da década
dos setenta a ocupaçom laboral da maioria da populaçom estava no campo ou na pesca, supondo a
indústria naval também um suporte importante na
passa à página 6
ANÁLISE
6 ABRENTE
Vem da página 5
economia e no emprego, junto às indústrias siderúrgica, conserveira e têxtil, entre outras. Estes
setores supunham mais de 64% da ocupaçom
total na Galiza, frente a menos de 48% dos mesmos no Estado espanhol.
Precisamente os setores naval, pesqueiro ou
agro-pecuário tenhem sido o alvo dos ataques à
economia galega por parte de Estado espanhol
e da Uniom Europeia desde os anos oitenta até
hoje, padecendo políticas de submetimento da
nossa economia, o que provocou um comportamento diferente do emprego na Galiza. O resultado destas políticas tenhem efeitos evidentes;
assim, durante estes anos, a ocupaçom laboral
no nosso país tem tido umha descida de cerca
de 19%, sendo este dado do ano 2013 inferior ao
que regista a existente no ano 1976. Umha percentagem contraditória, tendo em conta que no
conjunto do Estado espanhol a ocupaçom laboral
aumentou mais de 32% neste mesmo período, o
que pom de relevo o resultado do desmantelamento industrial, pecuário, pesqueiro. A entrada
do Estado espanhol na CEE converteu a Galiza na
saca onde Espanha e a Uniom Europeia pudérom
bater com força para favorecer interesses económicos tanto de poderes económicos e financeiros
como doutras áreas com mais capacidade de tomada de decisons.
Derivado desta situaçom e ligado à ausência
de políticas de intervençom em chave nacional
para o desenvolvimento socioeconómico da nossa naçom a diferentes níveis (industrial, florestal, ambiental, pesqueiro, agrário, energético…)
desenha-se um futuro trágico para o nosso país:
Carecemos de planos de atuaçom próprios nos
diferentes setores que permitam, por um lado,
estabelecer políticas pensadas por e para a Galiza, assim como administrar os nossos recursos e
potencialidades, caminhando para umha economia sustentável e respeitosa com o nosso meio. O
panorama agrava-se por umha degradaçom das
condiçons de vida e trabalho derivada da crise
económica e dos planos e cortes aplicados polo
Estado espanhol.
A situaçom do mercado do trabalho nom deixa de ser extremamente preocupante. Todo isto
fai com que a classe trabalhadora galega e, concretamente, a mocidade nom poda aspirar a trabalhar na nossa terra, sendo a imigraçom umha
triste realidade para o nosso país. Também as
mulheres sofrem muito mais o resultado destas
Nº 74 Outubro, novembro e dezembro de 2014
Evoluçom da Economia Galega: fracasso
do binómio “Espanha-Capitalismo”
Lares com algum grau de dificuldade para chegar a fim de mês 2008-2013*
Percentagem (%) - Fonte INE e IGE
Comunidades
2008 2009 2010
2011
Autónomas
Aragom
41,10 32,70 38,50 32,10
Balears
53,70 57,90 60,10 55,50
Navarra
37,40 37,70 35,80 34,40
Bascongadas
41,70 43,40 39,30 39,20
Galiza
59,60 60,50 59,40 59,20
Cantábria
61,20 46,40 56,10 49,00
C. Valenciana
60,50 60,80 59,60 55,50
Múrcia
67,30 75,00 76,70 69,40
Estremadura
64,40 64,70 66,30 54,40
Canárias
78,30 72,70 72,00 65,80
Castela e Leom
51,60 52,90 51,20 46,40
Madrid
56,60 53,00 54,50 58,30
Andaluzia
69,80 68,70 71,40 67,30
Catalunya
61,40 61,60 58,20 54,00
A Rioja
53,60 50,20 46,40 46,30
Astúries
43,10 47,90 43,40 38,20
Castela A Mancha
65,90 57,80 55,50 41,60
Total
59,90 59,00 58,80 55,30
* Os dados correspondentes a 2013 som provisórios
políticas em setores como a indústria, a agricultura e a pesca, nos quais o aumento do desemprego é muito maior no seu caso. Assim, desde
que se iniciou a crise a finais do ano 2007, o peso
das pessoas assalariadas como contributo para
o PIB desceu em cerca de 4%, enquanto o custo
laboral regista umha queda importante, muito
mais acusado que no conjunto do Estado, e o
comportamento do desemprego é bem pior no
caso da Galiza. De facto, o custo laboral por trabalhador/a e mês na Galiza situa-se 2,4% acima
do ano anterior (face a 0,2% em Espanha), mas
ainda assim situa-se em 11,20% abaixo da média espanhola. Converte-se a Galiza na terceira
Comunidade Autónoma com custo laboral mais
reduzido. Ligado com isto e como exemplo de
degradaçom das condiçons laborais, o aumento
salarial médio na Galiza situava-se, no ano 2013,
segundo recolhia o informe do CES, em 0,57%: a
2012
2013
51,10
41,50
41,70
39,20
61,50
50,90
64,40
75,70
56,30
76,00
46,90
63,20
70,20
61,90
58,20
45,10
60,10
60,90
58,00
67,80
46,90
50,40
71,40
70,80
69,50
77,00
71,40
72,90
55,50
60,40
73,50
62,80
54,60
43,00
63,30
64,90
CES para o ano 2013 e tirados do INE. A Galiza
ocupa a quinta posiçom entre as Comunidades
Autónomas em que entre 2008 e 2013 mais aumentárom as dificuldades para chegar ao fim do
mês e, concretamente, dentro dessas cinco, é a
única que supera umha percentagem de 70% de
populaçom com dificuldades para chegar a fim
de mês.
Conclusons
Diferença 2008-2013
evidente que a transformaçom, por meio da
imposiçom, da nossa economia durante os
últimos quarenta anos, passando de umha
sociedade assente fundamentalmente no setor
primário (pesca, agro-pecuário, florestal...), com
peso importante do setor industrial, a outra
baseada no setor terciário tem sido prejudicial
para o nosso país. Junto a isto, a aplicaçom de
políticas neoliberais supujo umha deterioraçom
das condiçons de vida e trabalho mais do que
evidentes para a classe trabalhadora e, portanto,
para a maioria da populaçom. Daí que podamos
afirmar que a evoluçom da economia galega nos
últimos anos expressa o fracasso do binómio “Espanha – capitalismo” para a Galiza.
Ao longo das últimas décadas, ficou demonstrado que a política neoliberal e centralista por
parte do Estado espanhol, juntamente com a
Uniom Europeia, estám a levar a nossa naçom
à ruína económica e social, cultural e lingüística.
As políticas económicas implementadas desde
meados do século passado, e aceleradas após a II
Restauraçom Bourbónica, atacárom diretamente
os setores em que a Galiza era umha potência
a nível mundial. A ausência de políticas ativas
para o setor primário, ao nom contar com planos económicos e sociais de atuaçom próprios,
desenhados por e para nosso país, junto com o
abandono e a deterioraçom do setor agro-pecuário e pesqueiro provocou também o abandono do
nosso meio rural o que tivo conseqüências nefastas, já que, devido às peculiaridades da nossa
naçom, estas atividades permitiam vertebrar o
nosso país.
A situaçom de urgência nacional em todos
os ámbitos provoca que a rutura com Espanha
e com o capital se converta numha necessidade
inadiável para o povo galego e para a classe trabalhadora, numha tarefa obrigatória à qual dedicar todos os nossos esfoços como comunistas
galegos.
E para isso como sempre, a luita é o único
caminho.
É
41%
26%
25%
21%
20%
16%
15%
14%
11%
-7%
8%
7%
5%
2%
2%
0%
-4%
8%
percentagem mais baixa desde que se tem registo no Conselho Económico de Relaçons Laborais.
Som esses alguns exemplos da situaçom do
mercado do trabalho no ano 2013, mas poderíamos acrescentar muito mais, como: a maior
destruiçom de emprego que no Estado espanhol;
a diminuiçom de quotizantes à Segurança Social;
o aumento das horas trabalhadas e, ao invés, a
diminuiçom salarial; a destruiçom dos setores
públicos; o aumento da temporalidade; a dramática situaçom da juventude e das mulheres, com
taxas de desemprego realmente alarmantes; ou
mesmo o aumento de impostos e bens de consumo, com maior repercussom para a classe trabalhadora se comparado com as grandes fortunas,
a banco ou o patronato...
O custo que está ter a crise para a classe
trabalhadora fica perfeitamente refletido noutra
série de dados publicados no último relatório do
LIVROS
Vários Autores
En defensa d’Afrodita, contra la cultura de la monogàmia
Països Catalans, Tigre de paper | edicions, 2013, 250 páginas
O projeto editorial de literatura crítica em língua catalá, Tigre
de Paper, oferece-nos neste livro um conjunto de textos que analisam de distintas vertentes e posicionamentos ideológicos a monogamia como construçom cultural, convergindo num único ponto:
a crítica radical do padrom de relaçons sexo-afetivas imposto na
nossa sociedade atual e a necessidade de superá-lo.
Com diversos formatos, estilos, enfoques metodológicos e
mesmo desigual interesse e qualidade, recolhem-se análises
marxistas da natureza económica, histórica, social e cultural da
monogamia, mas também estám amplamente representados posicionamentos anarquistas e mesmo ideias próprias da esquerda
pós-moderna.
Desde a conceptualizaçom teórica da cultura da monogamia até ferramentas práticas
para a combater no dia a dia, diversas autoras, na sua maioria ativistas sociais, fam aqui a
sua particular achega a um debate muitas vezes difícil de tratar e longe de ser considerado
de urgente abordagem na maioria das organizaçons da esquerda revolucionária.
En defensa d’Afrodita, contra la cultura de la monogàmia permite introduzir-nos a um
primeiro nível na necessária análise e questionamento do controlo do fenómeno psíquico
social do amor por parte da burguesia em funçom dos seus interesses de classe. Além disso,
é de ressaltar que esteja escrita em positivo, numha tentativa de dotar-nos de ferramentas
para a construçom dumha nova moral sexual afastada da ideologia burguesa baseada na
propriedade privada.
Eva Cortinhas
Tiago Peres
Breve história do reintegracionismo
Galiza, Através Editora, 2014, 165 páginas
Vários Autores
¿Para qué sirve El Capital? Un balance contemporáneo de la principal obra
de Karl Marx
Caracas, Editorial Trinchera, 2014, 191 páginas
O livro é umha antologia das intervençons realizadas no Segundo Encontro
Internacional de “Escuela de Cuadros”, projeto comunicativo para a formaçom
revolucionária marxista surgido na Venezuela.
Um encontro decorrido em 2013 com o objetivo de analisar a vigência d’O
Capital e que contou com a participaçom de inteletuais e militantes como o
cubano Rubén Zardoya, o argentino Néstor Kohan, o basco Iñaki Gil de San
Vicente, o venezuelano Vladimir Acosta ou o espanhol Carlos Fernández Liria.
Recolhem-se, assim, as intervençons apresentadas nas três jornadas de debate sob as epígrafes Ordem/Ênfase n’O Capital, Método de Marx/Dialética e
Horizonte Histórico/Vigência d’O Capital.
Destarte, no primeiro bloco abordam-se questons como ‘qual poderia ser
a melhor maneira de abordar o estudo da principal obra de Marx’, nomeadamente no caso de um primeiro
achegamento à mesma (que se recomenda seja coletivo), considerando o seu caráter de obra que demonstra a
historicidade do capitalismo e que convoca à luita para atingir a sua superaçom.
No segundo bloco, com intervençons de Néstor Kohan, Carlos Fernández e Rubén Zardoya, produz-se um
debate acerca da validez da dialética como ferramenta de estudo do capitalismo e do seu emprego por Marx
n’O Capital, com opinions que vam da sua defesa ao seu rejeitamento total, passando pola análise da sua deformaçom metafísica no “marxismo oficial” soviético.
Finalmente, o encontro fechou-se com a reivindicaçom da validez básica d’O Capital para compreendermos a natureza do capitalismo, para além das suas fases e evoluçons após a época de Marx, entendendo-o
como umha obra aberta que cumpre desenvolver e nunca como um livro meramente científico, mas destinado
a fortalecer a luita revolucionária comunista.
Todo o evento está disponível na rede, no canal de Youtube de “Escuela de Cuadros”.
Anjo Torres Cortiço
WEB
Tiago Peres, veterano ativista pola língua em Ourense e licenciado em História, aborda neste trabalho a primeira tentativa
de sistematizaçom histórica de um movimento socialmente transversal que parte de minorias ilustradas do século XVIII, atravessa
os séculos XIX, XX e chega até os nossos dias.
O percurso é feito de maneira rigorosa polo autor, que inclui
grande número de dados e informaçons relevantes e pouco conhecidas sobre a importáncia da orientaçom reintegracionista
no movimento defensor da cultura e da língua da Galiza. Para
além de expor os termos em que o debate sobre a questom se
deu de maneira peculiar nas diferentes etapas, organizaçons e
autores, o trabalho de Tiago Peres reflete como se verificou, nas últimas décadas, um
importante trabalho de socializaçom das ideias defensoras da unidade lingüística galego-portuguesa.
As organizaçons e entidades que convertêrom as ideias reintegracionistas numha prática social coerente a partir dos anos 80 protagonizam a parte final da obra, com destaque
para o independentismo de esquerda e para o movimento de centros sociais iniciado há
quase duas décadas em diversas localidades do País.
Estamos, nom há dúvida, diante de um importante contributo para o (auto)conhecimento, a reflexom e o debate de um movimento imprescindível para a reformulaçom pendente
da política cultural e lingüística galega. Um desses que nos permitem afirmar, com algum
orgulho, que “a nossa história fazemo-la nós”.
Maurício Castro
Centro de Documentación de los Movimientos Armados
www.cedema.org
Num continente com umha história contemporánea
fortemente marcada polas luitas armadas desenvolvidas
por grande número de organizaçons populares um pouco por todos os países ex-colonias de ámbito hispano e
lusófono, o Cedema constitui um espaço comum para a
abordagem e análise do fenómeno político-militar de raiz
popular.
Criado em 2005, o Cedema oferece umha visom histórica e atual das diferentes expressons armadas latino-americanas, ordenadas por país e por organizaçom, em
constante atualizaçom, já que em vários casos se trata de
processos em desenvolvimento no presente.
Sem fins lucrativos nem ligaçons partidárias, o
Cedema tenciona nom só investigar a matéria, como
também alentar “o seu estudo multi/interdisciplinaria
para dar a conhecer os trabalhos que surgirem ao respeito, através de umha atualizaçom quotidiana do seu
sítio eletrónico na rede de redes.”.
INTERNACIONAL
Nº 74 Outubro, novembro e dezembro de 2014
ABRENTE 7
A dous meses sem resposta justa,
a luita do povo mexicano ascende
Jonathan Hernández
Membro do Buró Político do Partido
Comunista do México (PCM)
P
assárom quase dous meses daquele abominável crime que abalou toda a naçom mexicana e a muitos lugares do mundo: A matança de 6 pessoas e o desaparecimento forçado
de 43 normalistas da escola normal rural Isidro
Burgos de Ayotzinapa, Guerrero. Durante estes
dias temos visto que o oportunismo e a social-democracia jogam um papel muito importante na
lógica da violência, fortalecendo a ultra-direita e
a conformaçom de grupos paramilitares. O Estado de Guerrero tem-se caraterizado por exercer
umha violência exacerbada contra a sua populaçom, sendo que é aí que atualmente se registam
os maiores índices de desigualdade social, além
de ser o terceiro estado mais pobre do México,
por trás de Chiapas e Oaxaca, e sendo o município mais pobre do país e com o menor índice de
desenvolvimento humano.
Os governos da suposta esquerda no México
caraterizárom-se por protagonizarem várias das
repressons mais violentas nos últimos anos, somando aos seus crimes, assassinatos, torturas,
desaparecidos, vexames de todo o tipo e violaçom de direitos humanos. E o caso do governo
PRDista de Guerrero, onde o hoje ex-governador
Ángel Heladio Aguirre Rivero, nas eleiçons de
2011, se armou por completo do oportunismo
que carateriza a política institucionalizada no
México, sendo pré-candidato polo Partido Revolucionário Institucional (PRI) e posteriormente
recusado por dito partido. Ao dia seguinte, renuncia ao PRI e posteriormente é apresentado
como candidato do PRD à governaçom de Guerrero, dando origem a umha aliança entre os três
partidos da suposta esquerda, o Partido da Revoluçom Democrática (PRD), o Partido do Trabalho
(PT) bem como a Partido Convergência, aliança
que foi nomeada Diálogo pola Reconstruçom do
México. Aplaudírom e apoiárom a candidatura
do ex-priista Ángel Aguirre, sem esquecer que
recebeu grande apoio e impulso do líder de MORENA Andrés Manuel López Obrador.
Desde que o ex-governador Ángel Aguirre
Rivero assumiu este cargo em abril de 2012, os
assassinatos contra indivíduos, organizaçons
revolucionárias, líderes sociais... fôrom umha
constante em Guerrero, registando-se diversos
homicídios múltiplos, salientando que esse governo assassino foi assinalado e condenado polas organizaçons revolucionárias, que há contas
pendentes e que tanto Ángel Aguirre como o governo federal do presidente Enrique Peña Nieto
som os causantes dos massacres no Estado, já
que ambos servem e representam os interesses
dos grupos burgueses e de oligarcas na entidade
e o território mexicano.
Durante as últimas décadas desatou-se um
maior ódio para a populaçom de Guerrero por
parte do Estado com um índice de violência de
tipo bárbaro, como a chacina de 17 camponeses
em Águas Brancas, no município de Coyuca de
Benítez, a 28 de junho de 1995, a maos da conhecida entom como Polícia Motorizada e Judicial do
Estado; a matança do Charco, no fim de junho
de 1998, em que o Exército atacou umha escola e morrêrom 11 pessoas; em janeiro de 2004,
um comando armado, que se identificou como
polícia estatal, assaltou o penal no município
de Iguala e assassinou cinco presidiários; entre
abril e maio fôrom encontradas 16 osamentas
em fossas clandestinas no assentamento Ernesto Pineda Vega; a 12 de dezembro de 2011 dous
estudantes da normal rural de Ayotzinapa fôrom
assassinados por polícias federais numha manifestaçom sobre a autoestrada do sol; já durante o gerenciamento do PRIista-PRDista Aguirre,
continuárom a acontecer assassinatos contra a
populaçom; em setembro de 2012, seis pessoas
fôrom assassinadas, com novamente o Exército
a protagonizar um confronto no município de
Tecpan de Galeana, na regiom da Costa Grande; nesse mesmo mês, 11 pessoas mais fôrom
assassinadas noutro tiroteio quando um grupo
se enfrentou a soldados no município de Tepecoacuilco; a 5 de agosto de 2013, foi encontrado
o corpo do dirigente do Partido Comunista de
México (PCM) na regiom de Guerrero, Raymundo Velázquez, quem foi assassinado junto a mais
dous integrantes do PCM de Guerrero, Samuel
Vargas Ramírez e Miguel Solano, cujos corpos
fôrom encontrados com impactos de bala e marcas de tortura nas margens do rio de Coyuca de
Benítez, sendo responsabilizados o governo local
de Guerrero e o governo Federal; em dezembro
58
14
5
foi o número inicial
de desaparecid@s
deles aparecêrom com
vida a 30 de setembro
Loma de
Coyote
Huitzuco
Metlapa
som as fossas comuns
Cocula
clandestinas encontradas Tianquiperto de Iguala, entre os zolco
meses de outubro e dezembro
Lixeira
Depois do seqüestro...
A Polícia detém
o alunado que viajava
de autocarro
Tepecoacuico de Trujano
Santa Teresa
Municipal
de Cocula
Río
San Juan
Coacoyula
de Álvarez
Depois entrega @s
estudantes a pessoas
inculadas a Guerreros Unidos,
por ordem do presidente da
Cámara de Iguala
La Vente
Xochipala
Chichihualco
Zumpango
del Río
Apango
Atliaca
Tixtla de Guerrero
Chilpancigo
de Los Bravo
5 km
de 2013, oito pessoas fôrom assassinadas por um
grupo armado no povoado Mextitlán, município
de Teloloapan; em janeiro de 2014, nove pessoas
morrêrom num confronto que se deu no centro
penitenciário de Guerrero.
O
A idade da maioria dos
desaparecidos situa-se
entre os 18 e os 21 anos
Número de homicídios,
seqüestros e extorsons
acontecidas no México
entre janeiro e setembro
de 2014
Extorsons 4.988
Huiziltepec
A seguir, fraturam os restos
calcinados e metem-nos
em sacos de lixo pretos
O crime de Iguala
18-21
Homicídios 14.219
Río Balsas
Na lixeira, som executados
e os seus restos calcinados
com gasolina e gasóleo
Deitam ao longo do
rio San Juan umha parte
dos restos
Zona onde agentes
da Polícia de Iguala
e Cocula entregárom
o alunado a membros
do cartel Guerreros
Unidos
alunos normalistas
continuam sem
aparecer
Mezcala
Levam os seqüestrados
à lixeira municipal de Cocula,
num camiom de carga
O fogo é mantido vivo
durante 14 horas, desde
a meia-noite até as 2 da
tarde de 27 de setembro
43
Iguala de La
Independencia
Tonalapa
de Río
tam repudiado facto do passado 26 de setembro do ano em curso, no município de
Iguala, Estado de Guerrero, é um acontecimento que conseguiu mobilizar grande parte
da populaçom mexicana e do mundo, um crime
perpetrado e que hoje quer ser silenciado polo
governo mexicano.
Isto conseguiu pôr na mira esse impune e criminoso governo por um lado e, por outro lado,
dá-se um avanço na organizaçom, mobilizaçom
e luita do povo mexicano, que vai em ascenso.
Esses brutais acontecimentos acontecêrom em
vários momentos de 26 e 27 de setembro passado, sendo assassinados integrantes da normal
rural de Ayotzinapa e civis, com disparos realizados por pessoas fardadas de polícias municipais
e outros vestidos de civis.
Julio César Fuentes Mondragón, estudante
normalista, foi torturado, tirárom-lhe os olhos e
esfolárom-lhe o rosto; 20 pessoas mais ficárom
feridas, outro jovem em conseqüência dos disparos encontra-se em estado vegetativo; aconteceu
um desaparecimento forçado de pessoas, a grande maioria normalistas, dos quais ao menos 20,
fôrom subidas a carrinhas da polícia municipal.
No sábado 4 de outubro, encontrárom-se fossas
clandestinas com corpos calcinados e sinais de
tortura, segundo médicos especialistas.
O procurador de Guerrero, Iñaki Blanco,
afirmou que eram os corpos dos estudantes; no
entanto, quase dous meses mais tarde, nom há
provas concretas sobre tal declaraçom e, ao invés, fôrom encontradas mais de 50 fossas clan-
Escola Normal Rural
Raúl Isidro Burgos
Petaquillas
Mochitlán
Mazatlán
Seqüestros 1.529
80.000
som os assassinatos
cometidos entre 2006
e setembro de 2014
22.000
é a estimaçom do número
de desaparecid@s que se
registam desde 2006 até
setembro de 2014
destinas nas redondezas e estados próximos de
Guerrero, além das encontradas noutras muitas
partes do território nacional.
A escola normal para mestres de Ayotzinapa
localizada no município de Iguala historicamente caraterizou-se por empreender a construçom
de espaços de organizaçom e luita, nom há que
esquecer que polas sala de aulas desta escola
passaram os colegas revolucionários Genaro
Vázquez Rojas e Lucio Cabañas Barrientos, desde
entom tanto o governo federal e o estatal quiseram submeter a sangue e fogo a organizaçom
estudantil desta escola e sua vinculaçom com
outras normais rurais e outros espaços educativos. Apesar disso a organizaçom estudantil das
ainda existentes normais rurais para mestres
continuam desenvolvendo métodos organizativos e baixo a lógica do terrorismo de Estado som
umha ameaça para o próprio Estado, já que os
estudantes geram simpatia com a populaçom e
exigem ao mesmo tempo melhores condiçons de
estudo, sociais e de emprego.
Há que entender que nom se trata de umha
simples execuçom criminosa orquestrada pola
polícia municipal. Estamos a falar de umha organizaçom de narco-paramilitares, já que existe
umha relaçom entre governo, polícia e crime
organizado, um facto este muito alarmante, observando-se que existe umha colombianizaçom
dos métodos e formas repressivas no modo de
operar do Estado mexicano.
Nom podemos esquecer que durante mais
de um ano o general colombiano Oscar Naranjo Trujillo (conhecido por seus crimes contra a
insurgência colombiana, contra a organizaçom
urbano-popular, estudantil, sindical, camponesa, indígena e contra a populaçom colombiana
de modo geral e a sua relaçom com os principais
cárteles de narcotráfico e diversos grupos paramilitares, sem esquecer que é corresponsável do
massacre de Sucumbíos, Equador, onde morrêrom ao menos 25 pessoas, entre combatentes e
civis, entre eles, 4 estudantes mexicanos comunistas) foi assessor em matéria de segurança nacional e com isso trouxo aparente tranquilidade
do crime organizado.
O caso deste crime perpetrado no município
de Iguala, Guerrero o passado 26 de setembro
nom é um caso isolado, somando-se aos já vários
crimes em que o Estado mexicano opera contra
a populaçom com suas diferentes forças repressoras, execuçons de maneira extra judicial em
várias partes do México, desaparecimentos forçados, criminalizaçom, perseguiçom e encarceramento dos dirigentes sociais. Salienta ainda o
ênfase na perseguiçom de dirigentes comunistas,
o que fai parte do plano estratégico dos governos
para seguir mantendo a qualquer preço a salvaguarda dos interesses burgueses e monopólicos a
quem representam a partir do parlamento e dos
seus cómodos escritórios.
Hoje podemos observar com maior clareza
aquele prognóstico de K. Marx, quando afirmou
que chegaria o momento em que os governantes
e políticos legislariam unicamente a favor dos interesses privados.
Incremento da luita popular no México
A
s contradiçons da crise capitalista em território nacional mexicano manifestam-se
abertamente na quotidianidade com maior
número de protestos a diário, incremento do
conteúdo político nas palavras de ordem e nas
mobilizaçons, maior descontentamento generalizado na populaçom mexicana, no incremento
das forças repressivas e no seu método de repressom. Parece fácil prognosticar, com base nas
condiçons objetivas de violência por um lado e
de marginalizaçom das camadas médias e da
classe trabalhadora de modo geral, por outro,
um próximo aumento da repressom.
O incremento da organizaçom popular obriga a construir de maneira imediata a unidade do
proletariado e dos setores populares, pois só desta maneira poderá existir umha contraofensiva
real aos brutais atos que se levam a cabo contra
a populaçom mexicana e contra os luitadores
sociais.
Hoje em dia podemos observar que os abomináveis factos acontecidos contra os normalistas
desatárom umha grande onda de organizaçom,
de manifestaçom, de repúdio contra o governo
mexicano, conseguírom mobilizar milhons de
pessoas arredor do mundo. Nom é, pois, umha
situaçom casual nem isolada, as mobilizaçons
tam numerosas que se verificárom. Cada dia, vê-se aumentar a luita do povo mexicano, já nom
só no setor estudantil. Ao longo destes sofridos
dias, começárom a se somar organizaçons camponesas, políticas, sociais, culturais, criando-se
novas formas organizativas, novas organizaçons, que somam os descontentamentos gerados
por várias décadas de crimes e de impunidade.
Se no seu momento tinham sido silenciadas, hoje
a populaçom mexicana começa a sair à luz, a
perder o medo, com muitos setores dispostos a ir
mais longe, a se mobilizar e fazer suas as formas
de luita. Nom podemos perder o norte e pensar
que este momento é o da revoluçom socialista,
mas a tarefa dos revolucionários e comunistas
sim é construir e avançar com a luita generalizada do povo mexicano.
Por outro lado, desde aquele fatídico dia 26
de setembro, a polícia e as forças repressivas
primeiro oferecêrom um espaço onde a organizaçom revolucionária, estudantil e popular
começárom a conquistar espaços organizativos,
abrindo-se um espaço político que logo se soubo aproveitar, mas as últimas declaraçons tanto
do presidente e dos secretários da Marinha e do
Exército afirmárom que abrirám um período de
repressom profunda para restabelecer a ordem,
a paz e garantir o estado de direito. Isso nom é
mais que a agudizaçom das contradiçons dentro
do capitalismo no México, já que os burgueses
vírom afetados os seus interesses em milhons de
pesos os seus lucros roubados aos trabalhadores
e por isso pedírom mao de ferro ao governo mexicano. Isso nom é mais que a comprovaçom de
que o governo unicamente tem a prioridade de
salvaguardar os interesses da classe que representa, a burguesia agonizante que se nega e se
aferrará com todo para manter seu estilo de vida,
apesar do sofrimento e miséria dos milhons de
trabalhadores, pobres e marginalizados do México; há um sentimento de insubordinaçom e de
rebeldia que se tenhem que orientar para a luita
popular, esta é a tarefa imediata.
Jornal comunista de debate e formaçom ideológica para promover a Independência Nacional e a Revoluçom Socialista Galega
Edita: Primeira Linha. Redaçom: Rua Costa do Vedor 47, rés-do-chao. 15703 Compostela. Galiza. Telefone: 616 868 589
Conselho de Redaçom: Comité Central de Primeira Linha. Fotografia: Arquivo Abrente. Correçom lingüística: Galizaemgalego
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Touradas, flamenco e corrupçom
José Miguel Ramos Cuba. Militante de Primeira Linha
Contracapa Insurgente
“E
spanha é umha cousa que com o
tempo encolhe” é umha brilhante
definiçom de um marxista basco sobre a fenomenologia desse projeto
nacional indecifrável se nom fosse pola
opressom que hoje exerce sobre nós. Sinceramente, eu que sempre adorei esta definiçom mudava-a um chisco para algo assim
como “Espanha é onde todo encolhe exceto
a corrupçom”.
Nom há nengumha estrutura do Estado que se encontre limpa do vírus da corrupçom, pois ele nom é no Estado espanhol
umha anomalia pontual e sim a caraterística esencial do normal funcionamento do
sistema. Umha estrutura social regulada
polo dinheiro negro, os contratos falsos,
os conseguidores de concursos públicos e
a submissom. E também é paradoxal que
a salvaçom a todo isto semelhe vir de um
ámbito, o universitário, em que todo isto
acontece com a mais absoluta normalidade. Sim, o mundo universitário em que se
cria Podemos é a expressom máxima do
funcionamento feudal paradigmático da
corruptela.
Temos que concluir que o sistema político espanhol nom é democrático, pois é
incapaz de regenerar-se, ao padecer cada
umha das suas partes a mesma dinámica
clientelar. Espanha é umha particular roda
de favores que limitam a livre determinaçom encadeando-se à propriedade. Porque
se nom fosse assim, cada rede corrupta
seria destapada e higienizada pola capacidade democrática das massas populares
e nom polo exercicio profissional dumha
casta tam antidemocrática como a judicatura. Como nos vamos fiar do zelo profissional em contra da corrupçom, quando
os e as magistradas som as únicas pessoas
que só respondem ante elas próprias?
A corrupçom e o clientelismo som tam
parte de Espanha que é impossível romper
com elas mantendo umha mesma identi-
dade política com o opressor. Nom se trata
de um défice do que avergonhar-se, mas do
eixo básico de reproduçom desse cortelho
identitário que se constrói a sul dos Pireneus. Por pura dignidade, devemos rejeitar
partilhar qualquer tipo de identidade com
esses canalhas malnascidos que vivem
a conta da chantagem e do suor alheio.
Hoje a corrupçom é tam símbolo espanhol
como o flamenco ou as touradas, e exerce-se dentro do mesmo sistema simbólico. Dá
absolutamente igual onde nascesse a casta canalha da corrupçom, seja aquem ou
A corrupçom e o clientelismo
som tam parte de Espanha
que é impossível romper
com elas mantendo
umha mesma identidade
política com o opressor
além Mançanal; fai parte voluntariamente
do único sistema político que lhe garante a
viabilidae política do seu malviver.
FICHA DE SOLICITUDE
nome e apelidos
endereço
localidade
código postal
correio electrónico
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Recebe as publicaçons da Abrente Editora na tua morada preenchendo o formulário
e enviando-o co justificante de pagamento da publicaçom ou publicaçons escolhidas
à rua Costa do Vedor 47, rés-do-chao. 15703 Compostela. Galiza. Número de conta
para o ingresso 2091 0387 423000009169 de Caixa Galiza-Compostela. Ao preço
da publicaçom há que acrescentar 5 e por gastos de envio.
Necessitamos ter o direito a decidir
livremente “cavalgar até enterrá-los no
mar” e isso só será possível a partir do
rompimento com todo laço simbólico que
nos ate a eles. Só poderemos escolher livremente se escolhermos a partir de um
espaço diferente ao deles. Controlam os
mecanismos de representaçom, de contrataçom, de subvençom e de decisom, fagamos como mínimo que nom sejam capazes
de controlar o nosso espaço de decisom e
de imaginaçom. Queremos mudar todo,
menos eles, que queremos destruí-los.

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