A influência do Facebook nos relacionamentos off

Transcrição

A influência do Facebook nos relacionamentos off
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES
PATRÍCIA CAROLINA FLEISCHMAN DE ALMEIDA
Reflexos Sociais da Cibercultura:
A influência do Facebook nos relacionamentos off-line da geração Y
São Paulo
2014
1
PATRÍCIA CAROLINA FLEISCHMAN DE ALMEIDA
Reflexos Sociais da Cibercultura:
A influência do Facebook nos relacionamentos offline da geração Y
Monografia
apresentada
à
Escola
de
Comunicações e Artes da Universidade de
São Paulo como requisito básico para
obtenção de título de Especialista em
Comunicação Digital.
Área de Concentração:
Comunicação Digital
Orientador: Prof. Dr. Mauro Wilton.
São Paulo
2014
2
Autorizo a reprodução total ou parcial deste trabalho por qualquer meio convencional ou
eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
Almeida, Patrícia Carolina Fleischman de. Almeida
Reflexos Sociais da Cibercultura: A influência do Facebook nos relacionamentos
offline da geração Y. Patrícia Carolina Fleischman de Almeida: orientador Mauro Wilton.
Monografia (Especialização Lato Sensu) – Escola de Comunicação e Artes,
Universidade de São Paulo, 2014.
1. Facebook. 2. Indivíduo. 3. Sociedade em rede. 4. Pós-modernidade. 5. Redes sociais
6. Relações humanas. 7. Política. 8. Economia. 9. Trabalho.
Nome: ALMEIDA, Patrícia Carolina Fleischman de.
Título: Reflexos Sociais da Cibercultura: A influência do Facebook nos relacionamentos
offline da geração Y.
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Monografia apresentada à Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo como requisito
básico para obtenção de título de especialista em
Comunicação Digital.
Aprovado em:
Banca Examinadora
Prof. Dr.
Instituição:
Julgamento:
Assinatura:
Prof. Dr.
Instituição:
Julgamento:
Assinatura:
Prof. Dr.
Instituição:
Julgamento:
Assinatura:
4
DEDICATÒRIA
Às minhas filhas Alice e Sophia e ao meu filho do coração Pedro Paulo, aos meus pais,
Emanuel e Ida por me motivarem e compreenderem a ausência e os dias sem poder dar a
merecida atenção e também ao meu companheiro Otávio, que desde o início me apoiou e
teve paciência durante a conclusão deste trabalho.
5
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a Deus, pela oportunidade.
À Monique, Genève e Pedro Paulo Carvalho Neto que me deram suporte para realização
desta jornada.
Ao meu orientador professor Mauro Wilton e a Bianca Dreyer por esclarecerem minhas
dúvidas e pela generosidade de compartilharem seus conhecimentos e experiência.
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RESUMO
ALMEIDA, Patrícia Carolina Fleischman de. Reflexos Sociais da Cibercultura: A
influência do Facebook nos relacionamentos offline da geração Y. 2014. 44f.
Monografia (Especialização) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2014.
As pessoas nascidas entre os anos 1977 e 1997, fazem parte uma faixa etária diferente na
história da humanidade. Eles nasceram e cresceram circundados de dispositivos
tecnológicos, viram o alvorecer da internet e tiveram mais acesso à Educação e a informação
que os nascidos em gerações anteriores. Por estes motivos transformaram a sociedade de
uma forma geral: a economia, a politica, o emprego e os relacionamentos pessoais por meio
da participação marcante dentro redes sociais e desta forma, modificaram as relações fora do
ambiente digital. Os Millenials que também podem ser denominados de integrantes da
Geração Y ou Geração Net - terminologias utilizadas pelo pesquisador americano Don
Tapscott, são colaborativos e gostam de partilhar informações por meio das mídias sociais.
Mas a sua presença é mais notável no Facebook, a principal plataforma social digital do
ocidente, com mais de um bilhão de usuários em todo mundo. (Facebook, 2012). Esta
pesquisa acadêmica faz um estudo sobre a influência do Facebook nos relacionamentos
sociais da Geração Y fora do ambiente digital, observando a sua participação na sociedade e
como esta rede social modificou as relações afetivas, cívicas e econômicas fora do ambiente
digital tendo como fundamentação teórica os conceitos de Manuel Castells, Pierre Levi e
André Lemos, entre outros pesquisadores da Cibercultura.
Palavras-chave: Facebook, Indivíduo, Sociedade em rede, Redes sociais, Relações
humanas.
7
ABSTRACT
ALMEIDA, Patrícia Carolina Fleischman de. Reflexos Sociais da Cibercultura: A
influência do Facebook nos relacionamentos offline da geração Y. 2014. 44f. Monografia
(Especialização) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo,
2014.
People who were born between 1977 and 1997 are part of a different age group in history of
mankind. They were born and grew up involved with technological devices, watched the
dawn of the internet, and have had more access to education and information than those who
were born in previous generations. Because of this, they transformed the society in general:
the economy, politics, employment and personal relationship through a marked participation
inside the social networks, thus, modifying the relationships outside of the digital
environment. The Millennials, who are also known as Millennial Generation or Generation
Y - terminology used by the American researcher Don Tapscott -, are collaborators and
enjoy sharing information through social networks. However, their presence is more notable
on Facebook, the main digital social platform in the West, with over one billion users
worldwide (Facebook, 2012). This academic research aims to study the influence of the
Facebook in the social relationship of the Generation Y outside the digital environment,
observing their participation in the postmodern society; how this social network has
modified affective, civic and economic relations outside the digital environment; and lastly,
the changes in the employment world when assessing how corporations, employees and
Justice are adapting to this new reality, having as theoretical foundation concepts of Manuel
Castells, Pierre Lévy and André Lemos, among other cyberculture researchers.
Keywords: Facebook, Subject, Network society, Social networks, Human relations.
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LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Pesquisa Especial Conectividade/Consumo Líquido
21
Figura 2 - Quais são as gerações do Brasil
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Figura 3 – Página de Causas no Facebook que recebe na primeira semana 1.311
membros
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Figura 4 - Grupo realiza ato por transparência nas investigações da morte da estudante de
direito Viviane Wahbe
34
Figura 5 - Porta do Banheiro Feminino
36
Figura 6 - Comentário Preconceituoso
36
Figura 7 – Facebook - /Reclame Aqui
38
Figura 8 – Página Me ADD Geral
42
Figura 9 – Quatro Graus de Separação-Anatomia do Facebook
43
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LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Brasil é a Segunda audiência global do Facebook
29
Tabela 2 - Usuários do Facebook por país e região no mundo 2011 -2017
29
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SUMÁRIO
Introdução
12
Capítulo 1: Uma geração digital nasce em uma sociedade pós-moderna
14
Capítulo 2: Do pequeno Thefacebook para o país Facebook, o Grande Irmão está de olho
em você
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Capítulo 3: Como a empresa de Mark Zuckerberg afetou a vida das demais empresas,
governo, relações sociais e mercado de trabalho
32
Considerações finais
44
Referências Bibliográficas
46
11
Introdução
A tecnologia permitiu que seus os usuários da internet escolhessem as várias formas
[1] Comentário: Falta palavra.
de emissão de mensagens dentro do universo digital, que podem ser remixadas, enviadas de
forma autoral, emitidas por meio de avatares ou anônimas e também possibilitou também
possibilitou a disseminaçãoa segmentação da da informação para determinados tipos de
público. ,de forma segmentada. Esse fluxo acontece, em grande parte, dentro das redes
sociais, especialmente dentro dona ambiência do Facebook, principal plataforma social, rede
com mais de um bilhão de usuários em todo mundo.
O próprio Facebook própria rede social divulga em seus relatórios que em sua
históriajá alcançou 140,3 bilhões de conexões e que seus usuários fizeram o upload de 219
bilhões de imagens e fizeram realizaram 17 bilhões de check-ins. De acordo com o Faceboo
Dentro das milhares informações que são espalhadas no ambiente digital, existe um
esforço para que empresas e indivíduos se destaquem dentro da principal plataforma social
do mundo ocidental. Diariamente são publicados bilhões de posts sobre diversos assuntos:
fatos políticos, memes, selfies, momentos de ostentação, alegria, tristeza ou de
sensibilização cívica que inundam os perfis e páginas que integram a rede. A participação
efetiva efetivano na rede social criou a necessidade do indivíduo de não só pertencer a um
grupo, mas de ser reconhecido como um ser especial e destacar-se em seu núcleo de
amizades virtuais.l
Por ser um algoritmo social, há indícios de que a efetiva participação ativa de em
grupos com os mesmos ideais e afinidades no Facebook Facebook influencie os demais pelo
no modo de consumir, protestar e, principalmente, relacionar-se socialmente, apesar dos
frágeis laços existentes no ambiente digital. Na rede social criada por Mark Zuckemberg,Na
rede social, amizades que podem ser feitas ou desfeitas apenas com um toque, e vidas
podem ser melhoradas ou destruídas com apenas uma postagem;, bandeiras solidárias são
levantadas ao mesmo tempo que boatos são espalhados. Usuários das redes sociais
mergulham neste mundo onde as notícias e as novidades são repassadas em frações de
segundos e onde dados particulares são expostos. Para eles, é mais importante estar
conectado do que se ater às consequências de ter sua intimidade exibida para os demais.
Em cima dessa conjuntura, elaboramos uma pergunta como base para pesquisa: a
presença constante de adultos jovens e adolescentes no Facebook afetou
as relações
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[2] Comentário: ?
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interpessoais fora da
presença constante de adolescentes e adultos jovens, internet?
utilizamos a Metodologia de
Em cima dessa conjuntura, elaboramos uma pergunta como base para pesquisa: a
presença constante de adolescentes e adultos jovens, os chamados
Formatado: Recuo: Primeira linha:
1,25 cm
Millennials, no
Facebook, afetou as relações interpessoais fora da web?
Esta pesquisa faz parte do campo do conhecimento da Comunicação Digital e tem
como temática central o indivíduo no contexto digital contemporâneo, a cultura digital e
outros fenômenos do ambiente virtual. Para a sua realização, utilizamos a Metodologia de
estudo exploratório de natureza bibliográfica e de estudo de casos.
Será que o fato do indivíduo estar por trás de um dispositivo eletrônico e dentro de
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um grupo com ideias afins influencia suas relações sociais fora da web? Não pretendo
pretendemos encontrar soluções para esta questão, porém pretendo iremos analisá-ala por
meiotendo como referência as obras de
dos estudos de pesquisadores como Manuel
Castells, Pierre Lévy, André Lemos, entre outros autores da Cibercultura.
No primeiro capítulo, apresentamos um perfil da Geração Y, à luz da sociologia,
tendo como base os estudos de Don Tapscott sobre as características deste grupo e
identificamos esse perfil de indivíduo como resultado da sociedade pós-moderna.
No Capítulo 2, destacamos a história do Facebook e como ele está presente nas
relações políticas e sociais fora do ambiente virtual.
As relações humanas, trabalhistas, econômicas e institucionais e suas modificações
são temas abordados no terceiro capítulo.
Em alguns momentos da pesquisa, exemplificamos alguns casos ocorridos no Brasil,
sobre a influência do Facebook entre o público-alvo do estudo dentro e fora da rede social,
como esforço de buscar referências empíricas sobre o tema.
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Capítulo 1 - Uma geração digital nasce em uma sociedade pós-moderna
A evolução da humanidade é caracterizada por importantes marcos históricos,
políticos e sociais. Entre eles, destacamos a escrita, na Antiguidade; na idade Moderna, os
Meios de Comunicação de Massa; e na contemporaneidade, a sociedade em rede, advinda
das tecnologias de comunicação.
A transição entre a Idade Moderna e a Pós-Moderna teve como característica a
redução da distância geográfica entre as nações devido aos avanços tecnológicos, com
ênfase no desenvolvimento dos transportes, telecomunicações e, posteriormente, pelo
lançamento do Modem, do BBS – Computer Bulletin Board System –, que permitia aos
computadores armazenarem e transmitirem mensagens, e também do primeiro Personal
Computer (PC), na década de 1980, que permitia possibilitava ao consumidor comum ter em
sua casa ou escritório um equipamento que iria abrir uma nova fronteira para as
comunicações e para a inovação tecnológica.
A explosão comunicacional aconteceu com o advento da World Wide Web e, mais
recentemente, com o maior acesso à banda larga e dos dispositivos mobile, eventos que
resultaram em mudanças definitivas nas relações entre indivíduos.
No período de 20 anos, que compreendeu as décadas de 70 e 90, em nenhuma outra
época da humanidade a tecnologia desenvolveu-se com tamanha rapidez. A conexão
generalizada permitiu um passo largo para o avanço das sociedades. A sua democratização
já era proposta pelos acadêmicos, cientistas e estudantes californianos dos anos 1970.
14
Se os radicais que criaram os microcomputadores na década de 70 propunham a
informática para todos, os internautas da década de 90 propõem a conexão
generalizada. A microinformática, berço da cibercultura, surge na sinergia da qual
falávamos entre a sociedade e as tecnologias digitais. (LEMOS, 2002. p. 116)
Já em sua origem, a internet já apresentava em seu DNA a característica de ser um
ambiente colaborativo e livre.
A relação entre avanço tecnológico e avanço social foi destacada pelo sociólogo
Manuel Castells ao comparar o avanço tecnológico com o nível de cultural e econômico de
uma sociedade. Fato é que podemos constatar esta afirmação ao compararmos a inclusão
digital em países desenvolvidos como a Suécia e qualquer outra nação subdesenvolvida do
chamado “Terceiro Mundo”, onde há pouco acesso a equipamentos computacionais e da
comunicação mediada por computadores.
A habilidade das sociedades dominarem a tecnologia, em especial, as decisivas
para cada período histórico, traça o seu destino [...] A tecnologia não determina a
sociedade: incorpora-a. Mas a sociedade não determina a inovação tecnológica:
utiliza-a. (CASTELLS, 2000, p.43).
As mensagens que antes eram apenas impostas verticalmente pelos meios de
comunicação impressos, radiofônicos e de broadcast, de acordo com interesses de políticas
empresariais vigentes até a primeira metade do século XX, passaram a ser emitidas de forma
horizontal, onde qualquer pessoa que tenha um computador ou smartphone torna-se um
disseminador de conteúdo.
Esse processo evolutivo culminou com uma mudança nos tradicionais meios de
comunicação e é marcado por formar uma sociedade com poder de mobilização autônomo e
descentralizado, amplificado pela Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). A
comunicação digital refletiu nas relações interpessoais mediadas por computadores onde
seus usuários buscam a interligação entre seus pares e a aceitação social.
A internet tornou-se instrumento ideal para a organização de movimentos sociais,
recrutamento e de revoluções que foram transmitidas para o mundo por meio das
ferramentas de comunicação digital. As redes sociais foram o principal canal de mobilização
15
que resultou em mudanças de hábitos de consumidores e, na política, mudaram as regras do
jogo influenciando inclusive na queda de chefes de estado.
“A computação social aumenta as possibilidades da inteligência coletiva, e por sua
vez a potência do povo. ” Na verdade, esta espantosa disponibilidade das
informações, de toda a espécie, respeitantes à vida política, assim como o
frequentar de fóruns de discussão civilizados e bem organizados, tornam o debate
político cada vez mais “transparente” e preparam uma nova era do diálogo político
que conduz a democracia a um estágio superior: a Ciberdemocracia. (LEMOS,
LÉVY, 2003, p. 14)
A liberdade permitida foi o estopim para mudanças na democracia, sendo a ponte
para que pessoas de culturas diferentes, porém com as mesmas aspirações, se encontrassem
em comunidades virtuais, viabilizadas pelas
Tribos globais conectadas- Astecnologias de comunicação digital.
novas formas de interações entre indivíduos, resultando
permitiram
no surgimento de grupos
interligados por interesses comuns.A aldeia global conceituada por McLuhan foi
multiplicada em centenas de milhares de tribos globais unidas por conexões em que a
informação trafega, sem os obstáculos de fronteiras geográficas, linguísticas ou políticas.
Trata-se de uma nova Era, em que a sociedade em rede é marcada por uma inteligência
coletiva, baseada na democratização e construção do conhecimento pelas comunidades
globais e pela cultura participativa, que através de sua influência, derruba as barreiras ao
conhecimento e estimula o compartilhamento de dados.
Desde os primórdios da ARPANET, organização que foi semente da internet, seus
usuários difundiram outros usos para a rede, além de pesquisas militares e acadêmicas, como
envio de mensagens, salas de bate-papo e sistemas de conferência, encontros de gênero,
pessoas interessadas em sexo e drogas. Também surgiram as primeiras listas de
correspondências temáticas, como a SF-Lovers, grupo formado por amantes da ficção
científica. “Assim enquanto a cultura hacker forneceu fundamentos tecnológicos da internet,
a cultura comunitária moldou suas formas sociais, processos e usos”. (CASTELLS, 2001, p.
47)
Se as comunidades, no mundo real, são agrupamentos humanos dentro de uma base
territorial, no universo online, os internautas reúnem-se por afinidade ou objetivos comuns
em comunidades virtuais, independentemente do espaço geográfico que os separam. Nesta
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ambiência, o território é delimitado pelos tópicos de interesse e pelo sentimento de
pertencimento de grupos específicos.
As ações de compartilhar e remixar o conteúdo informacional criaram uma cultura
baseada na tecnologia digital. Para Pierre Lévy, a cibercultura “é ainda mais ampla: reúne as
técnicas, práticas, atitudes, modos de pensamento e de valores que se desenvolvem
juntamente com o crescimento do ciberespaço”. (LÉVY, 1999, p. 17)
Brotaram
quenovas maneiras de produzir artes, a exemplo da arte eletrônica e
surgiram inovações na ciência, com as próteses nano tecnológicas. A tecnologia também
modificou profundamente as relações trabalhistas e comerciais, seja pela possibilidade do
home office e de fazer compras por meio de e-commerce. A forma de protestar contra
políticas divergentes também teve reflexos da Cibercultura cofoi modificada a partir do
ciberativismo e pela ação dos hackers. Em Fragmentos da cena cibercultural:
transdisciplinaridade e o “não conceito”, a pesquisadora Beth Saad apresenta o crescente
poder e liberdade de conteúdos, informações e conhecimentos por parte dos cidadãos
conectados. Segundo ela, “a liberdade de expressão e a agregação de opiniões em grupo
caracterizam a diversidade do momento atual.” (SAAD, 2010, p.14). Porém, a Cibercultura
não é universal. A exclusão digital e a falta de acesso à internet para grande parte da
população mundial ainda são barreiras para a sua expansão.
O conceito de comunidade funda-se em qualquer tipo de ligação emocional, afetiva
ou tradicional. No caso da sociedade pós-moderna, as comunidades reúnem indivíduos
independentes de sua origem, cultura ou poderio econômico. O laço que os une é a afinidade
de ideias e ideais. Nesta conjuntura, as funções dos indivíduos na sociedade de rede, e/ou em
comunidades em rede, são descentralizadas e cada um é produtor e emissor de conteúdo.
Boyd & Ellison (2007 apud RECUERO, 2009) definem as redes sociais como sistemas que
permitem a construção de uma persona através de um perfil ou página pessoal, de interação
através de comentários e finalmente da exposição pública na rede social de cada ator. Os
ciberindivíduos, agrupados em comunidades virtuais, potencializam a informação
personalizada de acordo com os interesses de cada grupo, e a repercutem globalmente, como
explica Lévy.
Uma comunidade virtual pode, por exemplo, organizar-se por uma base de
afinidades por intermédio de sistemas de comunicação telemáticos, seus membros
estão reunidos pelos mesmos grupos de interesse, pelos mesmos problemas [...]
essa comunidade está repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades.
(LÉVY, 1996, p.20)
17
O desenvolvimento dos dispositivos mobile, o acesso mais facilitado à banda larga e
as redes wi-fi foi o que possibilitou a comunicação livre, independente de intermediários e
sem ruídos. Clara, transparente e multimídia. Fato alertado por Castells:
com a difusão da sociedade em rede e com a expansão das novas tecnologias de
comunicação, dá-se uma explosão de redes horizontais de comunicação, bastante
independentes do negócio dos media e dos governos, o que permite a emergência
da comunicação de massas auto comandadas, cujas informações são difundidas de
forma massiva em toda internet. (CASTELLS, 2012, p.162)
Inicia-se por indivíduos ou grupos, sem a mediação do sistema de media, porém
conectados pela tecnologia da informação podendo emergir fora das redes, nas ruas e praças
públicas do mundo real.
Os rápidos acessos à informação e transparência tornam-se movimentos de formação
para uma opinião coletiva que passou a produzir conteúdo e a pressionar a esfera pública em
cadeia internacional. Por exemplo, destacam-se eventos como a “Primavera árabe”, período
de protestos ocorridos inicialmente na Tunísia, posteriormente emergiu no Egito e em outros
países da região, entre 2010 e 2012. As suas imagens foram rapidamente compartilhadas
pelo mundo que tomou conhecimento sobre os regimes ditatoriais sofridos pela população
desses lugares.
Após a movimentação político-social ocorrida nos países árabes, foi a vez do
governo brasileiro sentir o poder de fogo de uma população conectada em rede. Em junho de
2013, grupos saíram do mundo virtual para as ruas no intuito de protestar sobre os
problemas reais enfrentados pelo povo: transporte, saúde, educação de qualidade e mais um
grande leque de reivindicações. A pauta estava à vista de todos nas redes sociais sob forma
de posts, tweets e de fotografias no Instagram, porém os governantes não estavam em
sintonia com o que acontecia no ambiente digital. Na época, o número de citações sobre os
protestos ocorridos no Brasil atingiu 136 milhões de usuários da internet, segundo
monitoramento da empresa Scup. Na ocasião, as palavras-chave #passelivre, #vemprarua e
#ogiganteacordou ultrapassaram as hashtags da Copa das Confederações, um dos principais
campeonatos de futebol, que acontecia paralelamente.
Os dois movimentos ocorridos em países de culturas distintas têm pontos em
comum: nasceram entre as camadas jovens da população, que detinham o conhecimento
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tecnológico e participavam de redes sociais como o Facebook e expandiram-se para o
universo offline, mobilizando outros grupos de gerações diferentes. Pierre Lévy (1996, p. 24)
define essa movimentação dos acontecimentos do ambiente virtual para o mundo real como
efeito Moebius, que é a passagem do interior para o exterior, declinando entre o que é
privado e o que é público, próprio e comum, subjetivo e objetivo.
O povo estava comunicando-se em 2.0 enquanto as autoridades vigentes não
compreendiam os ecos vindos da internet, nem davam importância ao movimento que
acontecia dentro das redes sociais. Em ambos os casos, não houve rapidez por parte das
autoridades em responder ao chamado das ruas, ou seja, das redes, um canal que foi
completamente ignorado pelo sistema político.
O acesso às redes sociais não apenas provocou mudanças coletivas, como deu voz
aos cidadãos em busca de seus direitos fora do ambiente digital. Amplificou também a busca
de ligações de amizade e de conexão entre indivíduos. Essa aproximação possivelmente
seria muito mais difícil ou provavelmente não existiria a partir dos meios tradicionais de
comunicação. Eventos ocorridos inicialmente nos Estados Unidos mobilizaram autoridades e
educadores na busca de entender o que levavam jovens afrodescendentes e de origem latina,
moradores da periferia, a reunir-se em shopping centers e lanchonetes. Os encontros muitas
vezes terminavam em confusão, ou por brigas entre gangues, ou pela ação da polícia para
evitar uma brincadeira muito comum entre eles: o knockout, que consistia em esmurrar com
apenas um soco uma pessoa até deixá-la desfalecida.
De acordo com a jornalista Luiza Leme, em dezembro de 2013, um grupo de 400
jovens reuniram-se no Kings Plaza Mall, na periferia do Brooklyn, correndo e causando
tumulto. Depois de acionada, a New York City Police Department (NYPD) dispersou os
jovens do local (LEME, 2014). Outras cidades americanas já viveram situações similares.
Um estudo denominado Youth Flash Mobs in Kansas City: Causes, Consequences and
Recommendations promovido pelo Kansas City Area Education Research Consortium (KCAERC) foi desenvolvido para fornecer um perfil dos jovens participantes desses encontros e
“achar soluções para desordem social, violência na comunidade, e flash mobs jovens
violentos”. (KCAERC, 2012, livre tradução)
A versão nacional – Entre dezembro de 2013 e janeiro de 2014 esse tipo de evento,
que no Brasil passou a se chamar Rolezinho, espalhou-se para diversas capitais brasileiras e
reuniu milhares de jovens em busca de diversão em shopping centers. Nascidos na internet e
com centenas de comunidades no Facebook, onde possuem diversas páginas, os Rolezinhos
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reúnem um público com idade entre 13 e 25 anos, das classes C e D, que ao se reunirem em
centros comerciais, levam à estes locais um público diferente do usual, e que culminam no
embate entre empresários e consumidores das classes mais abastadas, que os acusam de
tumultuar o ambiente. Essa mescla ‘indesejável’ de classes sociais, repelida pelos críticos
dos Rolezinhos, nos remete a Balman (2005), que no livro Confiança e Medo das Cidades,
comenta sobre as fortalezas territoriais construídas pelas classes dominantes em busca de
independência física e isolamento espiritual, como reflexo da mixofobia, que significa o
medo de misturar-se.
Segundo os participantes dos Rolezinhos, eles só queriam “se divertir” em um
ambiente “descolado”. Uma pesquisa netnográfica e de sentimento realizada in loco dos
eventos, revelou que “o uso das redes sociais também ampliou o alcance da convocação para
participação” (BIZ, 2014). O Twitter e, em especial, o Facebook foram os canais de
mobilização por uma liderança descentralizada, porém ativa.
A conexão de pessoas interligadas na rede social, especialmente entre os jovens,
descrentes dos poderes públicos e de valores relacionados à família e à religião,
proporcionou a eles a possibilidade de não só pertencer a um grupo, mas de serem
reconhecidos como especiais, com possibilidade de destacar-se em seu núcleo de amizades
virtuais. Os líderes desses eventos são jovens de classes mais baixas, mas que usam com
eficiência os dispositivos digitais e que por meio dessas ferramentas gratuitas, tornaram-se
referência em suas comunidades virtuais, tornando-se celebridades acompanhadas por
legiões de fãs no ambiente real. Ao produzir conteúdo próprio, inédito e criativo, eles
conseguiram notoriedade graças à tecnologia.
Outro fator importante para a atual conjuntura brasileira e emergência dos grupos
virtuais foi um maior acesso da população à internet de banda larga, às redes de 3G e a
aparelhos como tablets e smartphones, além de uma maior inclusão digital da parcela jovem
da população.
Somente no primeiro semestre de 2013, foram vendidos 216,2 milhões de
smartphones e o país alcançou um índice de 33% de pessoas na rede, tornando-se o 63º entre
as 154 nações analisadas pela Fundação Getúlio Vargas, para o Mapa da Inclusão Digital
2012. O Brasil está exatamente acima da média mundial de acesso à internet. De acordo
com a pesquisa, a liderança é da Suécia, com 97% de conectados. Comparado com os
demais países dos Brics (grupo econômico formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e
África do Sul), o Brasil supera a África do Sul (108º) e Índia (128º).
20
Internet móvel no Brasil e no mundo
Em se tratando de jovens que têm internet móvel, o Brasil ocupa a 4ª posição global,
com 22 milhões de indivíduos conectados através de seus aparelhos mobile. O país fica atrás
dos EUA, China e Índia. São 25,5 milhões de internautas brasileiros com mais de 10 anos de
idade (IBOPE, 2013), o que equivale a 15% da população nacional. Outra pesquisa sobre os
hábitos dos jovens com faixa etária entre 15 e 24 anos, realizada pela Telefônica e Folha de
S. Paulo, constatou que, além dos aplicativos sociais, esse grupo utiliza com mais frequência
aplicativos de música, vídeos e fotos (93%), mapas (91%) e jogos (90%).
Apesar de ganharem menos que o grupo da Geração X, os Millennials brasileiros
consomem muito, conhecem marcas, bebem cerveja e frequentam fastfoods. Para eles, os
telefones celulares e o computador conectado à internet são seus itens indispensáveis no seu
dia a dia. (IBOPE Mídia, 2013).
Figura 1 – Pesquisa Especial Conectividade/Consumo Líquido Gerações Y e Z: Juventude Digital (IBOPE MÍDIA)
21
Figura 2 – Quais são as gerações do Brasil - Gerações Y e Z:
Juventude Digital (IBOPE MÍDIA)
Poder Jovem na rede – O poder de comunicação da geração de jovens que cresceu
no limiar da revolução tecnológica chamou a atenção de vários autores, porém existe a
resistência de alguns em adotar nomes para identificar as características e tendências
divergentes entre as gerações ao longo de um período histórico e demográfico. Nesta
pesquisa, optamos pela classificação sociológica e cronológica das gerações, como forma de
identificar o processo evolutivo dos indivíduos na sociedade contemporânea, e preferimos
não enfocar o papel dos “veteranos”, que são os nascidos antes da 2a Guerra Mundial.
Essas características diferenciam-se pelo momento histórico, político e econômico de
cada época. Devido a essas variações cronológicas referentes a cada geração, alguns autores
como Don Tapscott, classificam os indivíduos nascidos antes e depois da revolução
tecnológica em três perfis: os que nasceram antes do advento das novas tecnologias, os que
nasceram no limiar das TIC’s e as pessoas que nasceram cercadas de aparelhos conectados à
internet. São eles:
Geração Baby Boom ou Boomers – Expressão nascida nos Estados Unidos para
caracterizar os nascidos entre 1946 e 1964, após a explosão na taxa de natalidade ocorrida
após a segunda grande guerra, resultado de um período de esperança, prosperidade
financeira e euforia consumista pelo qual passava aquele país. Apesar de serem filhos de
pais conservadores, e muitos seguirem as suas características culturais, os Boomers foram
responsáveis por um debate mais enfático sobre o papel da mulher e dos negros na
sociedade.
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Liberais, saíram cedo das casas dos pais e viveram em uma fase de engajamento
contra regimes ditatoriais, pregando a paz, o amor e o sexo livre, influenciados pelas ideias
do beatnik Jack Kerouac, que se opunha à sociedade de consumo vigente. Sofreram o
impacto da popularização da televisão que apresentava la dulce vita dos ricos e famosos. Foi
uma época marcada pela Guerra Fria, travada pelos Estados Unidos e União Soviética, pela
corrida espacial e pelo gosto por livros de ficção científica. A cultura teve como marca a
irreverência da pop arte, que teve como ícones Andy Warhol e Roy Lichtenstein e na
música, os Beatles, Rollings Stones e Elvis Presley, que arrebatavam multidões e vendiam
milhões de LPs e discos compactos.
Geração X ou Baby Bust – Após a explosão da taxa de natalidade da década anterior
e da retração na economia, houve uma diminuição no tamanho das famílias, o que refletiu no
comportamento dos nascidos entre 1965 e 1976. Por volta da década de 1970, os
microcomputadores foram desenvolvidos, nasceu Louise Brown, o primeiro bebê de
proveta, a Sony inventou um ícone do individualismo, o leitor miniatura de fita cassete,
TPS-L, mais conhecido como walkman e o consumismo combatido pela Beat Generation
dos anos 60 abriu espaço para o consumo ostentatório dos novos ricos.
A própria criação da Apple Macintosh foi resultado da contracultura vigente na
Califórnia, que lutava contra gigantes do sistema, como a IBM. Para Douglas Coupland, que
escreveu em 1991 o livro Generation X, trata-se de um grupo que passou uma crise de
identidade e sentia-se excluído da sociedade. Os indivíduos da Geração X são considerados,
por Tapscott, comunicadores agressivos e extremamente centrados na mídia.
Geração Y – No período entre 1977 e 1997, o mundo passou pela crise no petróleo,
foram desenvolvidas outras formas de energia e a sociedade começava a se interessar pelas
causas ambientais. Nesta época, foram criadas as primeiras interfaces gráficas
computacionais e aconteceu a popularização dos CDs e dos BBSs, que permitiam a conexão
via telefone. Nos anos 90, a internet era de conteúdo e baseava-se em linguagem HMTL.
Na música surgia o punk rock. David Bowie chamava a atenção por sua androgenia e
Pink Floyd fazia sucesso ao juntar a música erudita ao rock. É uma geração caracterizada
pelo seu antagonismo. Para Tapscott, a geração Y é formada por indivíduos egoístas e
autocentrados, que ao mesmo tempo possuem tendência à conexão e ao compartilhamento
mútuo através das redes sociais. Podem ser comparados ao deus Janus da mitologia romana.
23
Um corpo e duas faces. Para alguns cientistas, o fato destes jovens crescerem estimulados
pela tecnologia, modificou parte de suas funções cerebrais.
Há muitos motivos para acreditar que o que estamos vendo é o primeiro caso de
uma geração que está crescendo com conexões cerebrais diferentes das da geração
anterior. Há cada vez mais evidências de que os integrantes da Geração Internet
processam informações e se comportam de maneira diferente porque de fato
desenvolveram cérebros funcionalmente diferentes dos de seus pais. Eles são mais
velozes do que os pais, por exemplo, no processamento de imagens em movimento
rápido. (TAPSCOTT, 2010, p.42)
Geração Z ou Geração Next – Nascidos entre 1998 até os dias atuais. São os
nativos digitais, grupo formado pelos atuais adolescentes que são considerados os
verdadeiros multitelas e multitarefas. Conseguem, enquanto estudam, assistir televisão,
navegar na internet e trocar mensagens com os amigos pelo smartphone por meio de
aplicativos como o WhatsApp. Também tem forte tendência para jogos eletrônicos.
A tecnologia e a interconexão resultaram em um contingente populacional de hábitos
globais com semelhanças na forma de ver o mundo e agir socialmente. São jovens que têm
em comum a forma de se vestir, se comunicar e consumir tecnologia, independente de
estarem localizados em Tóquio, São Paulo ou Nova Iorque. É a globalização e a conexão
influenciando na identidade cultural dos ciberindivíduos. Dan Tapscott (2010), em sua
pesquisa sobre a Geração Y, constatou que o cérebro desses jovens sofreu alterações
positivas devido ao uso contínuo da tecnologia.
Os dados da International Communication Union (ITU) reforçam o pensamento de
Jenkins, que “se informação é poder, então essa nova tecnologia – a primeira a distribuir
informação de forma justa – está realmente distribuindo o poder” (2009, p. 290). Outro
pensador da sociedade pós-moderna, Manuel Castells, também comentou a importância do
aparato tecnológico para o desenvolvimento das nações.
A habilidade ou inabilidade das sociedades dominarem a tecnologia e, em especial,
aquelas tecnologias que são estrategicamente decisivas em período histórico, traça
o seu destino [...] a tecnologia, (ou sua falta) incorpora a capacidade de
transformação das sociedades, sempre em um processo conflituoso, decidem o seu
potencial tecnológico. Foi assim com o fogo, o metal e a pólvora. Quem dominava
suas armas, detinha o poder. (CASTELLS, 1999, p. 53)
24
Quando analisamos a força motriz desta sociedade atual, a Geração Y, nascida em
plena ebulição digital, e compararmos seus integrantes com os jovens dos anos 1960 e 1970,
notamos que eles também são marcados pela contracultura: romperam paradigmas e são de
forte espírito transgressor ao se apropriarem do conhecimento para que este fosse livre,
democrático e universal, possibilitando a descentralização e a desmilitarização das
informações tecnológicas. As duas gerações compartilham a vontade juvenil de romper com
os valores tradicionais através da colaboração, customização e da mobilização, com um
adendo: são capazes de customizar e produzir seus próprios produtos. Se nos anos 60 o
lema era “É proibido proibir” (KRUGER, p. 139-145, 2010), os nascidos no final dos anos
90 seguem a filosofia do “faça você mesmo”.
Apesar do otimismo apresentado por autores como Castells e Lévy sobre as
qualidades da comunicação em rede, para alguns teóricos apenas uma minoria usa a internet
de forma colaborativa e positiva. Para esses pesquisadores a internet além de induzir seus
usuários ao isolamento social, afasta as relações familiares face a face. Um dos críticos da
web, o jornalista e pesquisador da Universidade da Harvard, Evgeny Morozov, afirma que os
jovens ainda preferem o sexo, o lazer e a pornografia, ao invés de participar de causas
sociais e humanitárias no ambiente web. Morozov é enfático ao dizer que a internet é o novo
ópio das massas.
Para cada renegado digital que protesta nas ruas de Teerã, existem dois nativos
digitais que fazem sua revolução no game World of Warcraft. Não há nada de
errado nisso, pois a Internet desempenha um papel social completamente diferente
para eles (TED, 2009).
Viciados em Conexão
25
Por outro lado, cientistas já estudam a problemática do excesso de conexão e da
dependência tecnológica de jovens e adolescentes como causa de novos transtornos
psiquiátricos. A dependência da internet tem como principal sintoma o uso excessivo da web
e de redes sociais, como forma de aliviar a tensão e como ferramenta de satisfação social.
Uma pesquisa realizada pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, relacionou o
uso do Facebook como um dos motivos para o surgimento da depressão entre jovens
americanos.
No Brasil, o Hospital das Clínicas (HC) da Universidade de São Paulo criou um
grupo de apoio para atender a dependência tecnológica originada pelo excesso de uso da
internet e de games. Para os psicólogos e psiquiatras do HC, a dependência conduz a uma
perda progressiva de controle e aumento do desconforto emocional e pode ser causada pela
baixa autoestima, depressão, fobias e solidão. A equipe de psicólogos e psiquiatras
regularmente oferece apoio aos pais através de grupos de orientação e alerta para o conjunto
de sintomas que caracterizam esse tipo de dependência, que está ligada a baixa autoestima,
solidão ou depressão.
O site dependenciadeinternet.com.br, que pertencente ao grupo de estudos do
Hospital das Clínicas de São Paulo, apresenta uma lista de critérios para diagnosticar os
transtornos. Caso a resposta seja cinco das oito opções, o indivíduo pode ser considerado um
netdependente.
(1) Preocupação excessiva com a internet;
(2) Necessidade de aumentar o tempo conectado (online) para ter a mesma satisfação;
(3) Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da internet;
(4) Apresentar irritabilidade e/ou depressão;
(5) Quando o uso da internet é restringido, apresenta labilidade emocional (internet como
forma de regulação emocional);
(6) Permanecer mais conectado (online) do que o programado;
(7) Ter o trabalho e as relações familiares e sociais em risco pelo uso excessivo;
(8) Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas conectadas.
A página do HC não apresenta dados referentes ao uso de internet por trabalhadores
brasileiros, porém mostra dados uma pesquisa realizada pela instituição YouGov, entre
26
trabalhadores britânicos, informando que 70% dos 34 milhões de internautas do país perdem
seu tempo online em buscas sem objetivo definido. Os homens seriam os mais afetados pelo
problema batizado como WILF – What was I Looking For (O que eu estava procurando?,
tradução livre), que causa além da improdutividade, problemas de relacionamento entre os
homens e suas parceiras, devido à navegação em sites de compras e de conteúdo sexual.
Capítulo 2 – Do pequeno Thefacebook para o país Facebook
Uma das primeiras experiências em redes interativas foi o THE WELL, uma
plataforma criada em 1985, nos Estados Unidos, para que seus usuários se encontrassem
27
pessoalmente para conversar sobre seus principais interesses em comum, como por exemplo,
o rock. Na França, o Minitel Oficial popularizou-se a partir do Mensageries Roses, um ponto
de encontro virtual de pessoas interessadas em amor livre. Movimentos sociais e políticos
também utilizaram a tecnologia para disseminar suas ideias e reunir seguidores de suas
aspirações civis, democráticas ou não. (CASTELLS, 2000, p. 368)
Em 1991, a América Online (AOL), passou a fornecer ferramentas para que as
pessoas criassem perfis virtuais e também participassem de comunidades para troca de
informações e fóruns sobre os mais variados assuntos e logo depois de dois anos, criou um
dos pioneiros bate-papos, o Messenger. Outras plataformas sociais surgiram, cresceram,
definharam e até desapareceram, como o Geocities, o The Globe, o Classmates, o Friendster
e mais recentemente o Orkut que foi encerrado pelo Google.
Hoje elas podem ser segmentadas, como o Linkedin para fins profissionais, o Hi5
para amizades internacionais e o Trippics para quem quer trocar impressões sobre viagens.
Porém, uma delas conquistou o maior número de usuários por reunir todas as utilidades em
uma só, o Facebook, que marcou espaço no mercado online global e que, em 2013, chegou a
faturar US$ 7,87 bilhões e reunir 1,23 bilhão de usuários ativos em todo mundo. (Exame,
2014).
Criado pelos estudantes da Universidade de Harvard, Mark Zuckerberg e seus
colegas de quarto, Dustin Moskovitz e Chris Hughes, e também pelo brasileiro Eduardo
Saverin, a rede social passou por vários estágios até se transformar na plataforma gigante de
hoje. O sistema foi criado por Zuckerberg, que era um exímio programador, e tinha o
objetivo inicial de classificar os alunos e alunas sexualmente mais interessantes do campus
universitário. (TEIXEIRA, 2012)
Zuckerberg já fazia pesquisas sobre o uso de redes sociais e desenvolvia
secretamente um projeto seu, o Facemash, que reunia todas as características dos demais
sites de relacionamento existentes. Ele também criou vários aplicativos voltados para os
alunos da universidade. A história da criação do Thefacebook é marcada pela polêmica
acusação dos estudantes veteranos Divya Narendra e dos irmãos gêmeos Cameron e Tyler
Winklevoss, que anteriormente haviam contratado o calouro Zuckerberg para o
desenvolvimento de uma rede social que eles pretendiam lançar, a Harvard Connection. Os
três o acusaram de roubar a ideia para criar o Facebook, resultando em uma batalha judicial,
que custou ao co-fundador do Facebook um acordo em um valor milionário. Faz parte da
essência humana a sociabilidade à comunicação. Baseada nessa premissa, a ideia inicial do
28
Thefacebook era a interação entre grupos de estudantes universitários. No decorrer de sua
evolução, o Facebook passou a calcular que quando um novo usuário faz amizade com dez
pessoas, o indivíduo se tornaria um elemento ativo, e suas redes começariam a se expandir.
“Para incentivar isso, adicionou o recurso ‘pessoas que talvez você conheça’, que logo
começou a gerar dividendos, aumentando o coeficiente viral da rede”. (PENEMBERG,
2010. p.182)
Ao atrair o maior número de pessoas em todo mundo para a plataforma social, tornao não só padrão global de rede social, mas um novo sistema operacional. “Quem controlar o
padrão, ganha”, afirma Penemberg, que também sentencia que o Facebook poderá
futuramente tirar do Google a ação de pesquisa, ao incorporar uma grade informativa de
seus membros, na qual os usuários exploram a perícia daqueles fora de seu círculo. “Desta
forma, o Facebook poderia não só se tornar a Microsoft da Web.2, como também um novo
Google”, afirma o pesquisador.
Ao abrir o site para a participação dos demais centros universitários dos Estados
Unidos e posteriormente para o mundo, o ex-estudante de Computação iniciou um negócio
que atualmente conecta mais de um bilhão de pessoas, o que representa um sétimo da
população mundial. São usuários que gastam ao todo 405 minutos por mês acompanhando
as postagens em seus perfis (ComScore, 2013), publicam diariamente 4,75 bilhões de
conteúdo, curtem 4,5 bilhões de posts e que, desde o ano de 2005, compartilharam 400
bilhões de imagens (Facebook, 2014).
No Brasil, ocupa a preferência de 97,8% do tempo total utilizado em redes sociais. O
Instagram, aplicativo que permite troca de vídeos e fotos entre amigos, totalizou 4 milhões
de interações em abril de 2014, contra 82 milhões do Facebook, no mesmo período.
(ComScore, 2013).
Ao compararmos o número total de usuários do Facebook ao número de habitantes
de um país, a rede social teria o tamanho equivalente a Índia, com uma população composta
em sua maioria formada por jovens com faixa etária entre 13 e 35 anos, trocando 4,75
bilhões de informações virais diariamente. No Brasil, a audiência do Facebook é maior do
que o tempo gasto por argentinos e mexicanos juntos.
Se imaginarmos que esta população de Millenials está em plena idade produtiva,
física e intelectual, e se o fato de que a geração de conhecimento e processamento de
informação são fontes de valor e poder na Era da Informação, a nação Facebook seria uma
das maiores potências do mundo.
29
Facebook – Dados do ComScore 2013
(usuários únicos)
134 milhões
1o
EUA
83 milhões
2o
Brasil
57 milhões
3º
Índia
32 milhões
4º
Alemanha
Tabela 1 – Brasil é a segunda audiência global do Facebook - 2013 (ComScore)
De acordo com dados do eMarketer, em 2017, a Índia irá ocupar a primeira posição no
número de usuários.
Usuários do Facebook por país e região no mundo 2011 -2017
Em milhões
2017 2016 2015 2014 2013 2012 2011
616.0
277.8
108.1
27.5
13.9
9.4
177.3
307.1
103.9
57.1
21.7
124.4
318.9
180.5
162.0
18.5
182.7
33.6
26.9
25.9
23.8
22.1
12.0
6.2
3.5
3.4
537.4
235.9
97.6
24.9
13.2
8.8
156.0
285.0
97.3
52.2
20.9
114.7
281.9
176.8
158.7
18.0
177.0
33.0
25.9
25.2
22.6
21.3
11.8
6.1
3.4
3.3
459.2
195.7
86.5
22.3
12.4
8.1
134.3
260.5
89.4
47.2
19.7
104.2
243.6
172.7
155.1
17.6
170.4
32.2
24.9
24.4
21.3
20.3
11.5
5.9
3.3
3.1
379.6
152.4
74.5
19.7
11.4
7.3
114.3
229.5
81.4
41.9
18.2
88.1
203.3
168.2
151.1
17.1
162.8
31.4
23.6
23.4
20.0
19.3
11.1
5.7
3.2
3.0
305.1
114.8
63.2
16.6
10.4
6.5
93.7
196.8
69.0
35.7
16.3
75.8
167.9
163.4
146.8
16.6
153.0
29.9
22.1
22.0
18.3
18.0
10.8
5.4
3.0
2.8
227.0
78.1
49.2
11.6
9.4
5.6
73.1
151.9
46.5
29.2
14.2
62.0
127.4
157.7
141.6
16.1
140.5
28.3
20.0
20.4
16.4
16.3
10.0
4.9
2.8
2.6
153.7
44.5
32.3
7.7
8.4
4.6
56.3
111.9
28.1
22.0
12.3
49.5
86.6
147.5
132.1
15.4
119.5
25.6
16.7
17.6
12.8
12.9
9.2
4.5
2.6
2.3
Ásia-Pacífico
Índia
Indonésia
Japão
Austrália
Coréia do Sul
Outros
América Latina
Brasil
México
Argentina
Outros
Oriente Médio & África
América do Norte
EUA
Canadá
Europa Ocidental
Grã Bretanha
Alemanha
França
Espanha
Itália
Holanda
Suécia
Noruega
Dinamarca
Tabela 2 – Facebook Users Worldwide, by Region and Country (eMarketer)
O Grande Irmão está de olho em você – Como o Big Brother escrito no livro
“1984”, pelo autor britânico George Orwell, o Facebook sabe tudo que seu usuário faz por
meio de cookies, arquivos que ficam gravados no computador e que guardam informações
por um determinado período. Os cookies gravam o navegador utilizado, os links clicados e a
versão operacional do computador, dentro do ambiente da rede social, até os posts
autocensurados são arquivados.
30
Ao utilizar os aplicativos sociais disponibilizados gratuitamente no Facebook, o
usuário praticamente autoriza a rede social a guardar suas informações pessoais. O crítico
Evgeny Morozov chama esta prática de “compartilhamento sem fricção”, ou seja, a rede
social registra automaticamente suas escolhas e a partir disso oferece itens que estejam de
acordo com o seu perfil, sem que o internauta se dê o trabalho de curtir ou de compartilhar
essa seleção. Para Morozov, o pior do compartilhamento sem fricção é que , “os usuários
não são imaginados como críticos prontos para discriminar entre tipos diferentes de
conteúdo, mas sim, como robôs sem alma cuja função única é consumir conteúdo e produzir
gráficos, tendências e banco de dados para que mais conteúdo lhes possa ser vendido”
(MOROZOV, 2011).
Em defesa de seus dados, internautas europeus criaram a organização Europe vs.
Facebook, que entrou com uma ação na Irlanda acusando a rede social de violação de
privacidade. De acordo com a entidade, as políticas de privacidade da empresa são vagas
quanto ao uso de dados pessoais. A rede social também sofreu processo no Brasil pelo uso
de imagens de seus usuários na divulgação de produtos e marcas no serviço “Histórias
Patrocinadas”. (Europe Vs.Facebook, 2014).
Ciente da acessibilidade das informações pessoais pelos organismos governamentais
e econômicos, Pierre Lévy sustenta que ao invés de endurecer contra essa tendência, é
necessária uma cobrança recíproca de transparência entre os participantes da comunicação
pública, que conduz a um “transcrecimento da democracia”. (LÉVY, 2011)
Porém, a grande preocupação de pais e educadores é a exposição de crianças e
adolescentes nas redes sociais. Eles são maioria entre os usuários de sites de relacionamento.
De acordo com uma pesquisa com 2.261 jovens com idade entre 15 e 17 anos, descobriu-se
que eles gostam de postar fotos, vídeos e músicas nas redes sociais, especialmente no
Facebook, em que 94% dos entrevistados possuem perfis que mostram o rosto claramente e
apresentam seus nomes e sobrenomes (CETIC.BR, 2013). A estudante Yasmin Oliveira, de
15 anos é uma dessas jovens que usa a rede social frequentemente e virou webcelebridade,
com 275 mil amigos no Facebook.
Segundo ela, apenas com uma simples selfie “e de repente apareciam mil curtidas”.
Dava bom dia, “e mais duas mil curtidas”. Em sua página pessoal não há privacidade e o
acesso às suas fotos pessoais é público. A fama ficou tamanha que virou a musa dos
Rolezinhos e foi destaque para reportagem em jornal de circulação nacional (MENEZES,
2014).
31
A adolescente Yasmin é um exemplo de personalidade influenciadora dentro do
Facebook. Para explicar a necessidade de exposição de alguns tipos de usuários, os
psicólogos desenvolveram o que chamam de “modelo decisório de revelação” como forma
de elucidar o que motiva uma garota de 15 anos a revelar tantas informações pessoais a
outros. A suposição básica é que as pessoas decidem sobre o quê, como e a quem vão
revelar seus dados, baseadas na avaliação das possíveis compensações versus possíveis
riscos. Segundo esse modelo, a revelação de informações pessoais como hobbies, nome de
escola, viagens ou ainda compartilhamento de seu número de telefone ou fotos íntimas para
a sua rede de amigos, seriam expostas de acordo com o estado emocional do indivíduo. O
meio eletrônico é uma porta aberta para uma vida de fantasia, emoção e de sentimento
narcísico de adolescentes e jovens no ambiente virtual.
Essa necessidade de exposição entre os indivíduos mais jovens foi analisada por
Castells. Segundo ele, a representação de papéis e a construção da identidade como base da
interação online foi concentrada entre adolescentes. “De fato, são os adolescentes que estão
no processo de descobrir sua identidade, de fazer experiências com ela, de descobrir quem
são ou gostariam de ser” (CASTELLS, 2012, p. 99).
Um dos maiores desafios enfrentados pelas pessoas na sociedade contemporânea no
meio digital é saber lidar com a liberdade permitida na casa de vidro que se tornou a
internet, sem ausência de uma regulamentação explícita de comportamento. Além disso,
toda a euforia libertária esbarra nas regras sociais existentes no mundo real, em que a
conduta dos indivíduos é interpretada de acordo com os padrões existentes em âmbito social
e no mundo do emprego.
Capítulo 3 – Como a empresa de Mark Zuckerberg afetou a vida das demais empresas,
governo, relações sociais e mercado de trabalho
Se por um lado, a Geração Y cresceu em uma sociedade que usa as redes sociais
como plataformas de mobilização e recrutamento da população em ambiente virtual contra
32
poderes políticos e como ferramentas de defesa do consumidor, por outro, as empresas
incorporaram esta prática como estratégia de marketing e relacionamento.
De acordo com o estudo “Latin America Social Media Check” (2013), 52% das
grandes companhias nacionais fincaram sua marca no Facebook, com uma média de
515.000 seguidores de suas Fan Pages e que 88% das empresas brasileiras utilizam pelo
menos uma das mídias sociais existentes como plataforma de comunicação. Porém, setores
tradicionais da economia ainda veem a presença nas redes sociais com desconfiança e de
pouca importância, muitas vezes só criando seu perfil corporativo, sem se preocupar com o
conteúdo postado por seus seguidores.
A Sociedade em Rede permitiu a emergência de um novo tipo de movimento social
que sai das tramas da net e emerge para rua de forma rápida e descentralizada. Esta nova
forma de mobilização estava fora da cartilha vigente dos poderosos da política e do mundo
capitalista, que ainda não interpretaram os ecos vindos do ambiente digital. Segundo
Castells, essa movimentação substitui “o vazio” dos partidos políticos e sindicatos. Além
disso, o acesso à tecnologia permitiu que qualquer um com um smartphone na mão torne-se
um fotógrafo, juiz ou jornalista amador, publicando e comentando suas opiniões nas redes
sociais.
Um dos casos estudados foi a crise de imagem passada pelo escritório Machado,
Meyer, Sendacz e Opice Advogados, depois do suicídio de uma estagiária, após uma festa
de confraternização da empresa. Criado em 1972, a firma de Direito é considerada uma das
mais importantes do país por ter atuado em casos de recuperação financeira de empresas
nacionais e multinacionais.
Na década de 1980, por exemplo, assessorou o processo de renegociação da dívida
externa brasileira e, nos anos 1990, teve participação na recuperação de inúmeras
instituições financeiras no âmbito do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao
Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional – PROER. Na mesma década, participou
ativamente de diversos processos de privatização, em setores como os de mineração e
telecomunicações.
O escritório possuía uma Fan Page aberta no Facebook, porém esta estava
desatualizada e sem acompanhamento por parte dos setores responsáveis. Após o suicídio da
estagiária Viviane Wahbe, de 21 anos, estudante de Direito da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC- SP), o perfil corporativo foi inundado de posts que acusavam o
escritório pela morte da jovem. Em um caso de convergência midiática, a morte da estudante
33
foi noticiada pelos veículos de comunicação, sites e blogs e a página de Machado, Meyer,
Sendacz e Opice Advogados no Facebook passou dias sendo bombardeada de comentários
negativos. Aparentemente não houve acompanhamento das redes sociais por parte do
escritório durante vários dias que se seguiram aos noticiários.
Dias depois, a assessoria de comunicação soltou uma nota oficial nos veículos
tradicionais de comunicação, mas esqueceu de incluir a página do Facebook como canal de
relacionamento corporativo.
Não há indícios de qualquer relação, direta ou indireta, entre o evento
comemorativo do escritório do qual a jovem participou com os colegas de trabalho
e sua morte. Estamos contribuindo com as autoridades para a elucidação de
qualquer dúvida que possa existir a respeito. Viviane era excelente estagiária e
querida por todos. Lamentamos profundamente sua perda e o modo como surgiram
ilações sem fundamento acerca das circunstâncias de sua morte, o que só fez
aumentar nossa dor e nosso luto. Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados
(MMSO, 2013).
Da primeira postagem no Facebook contra o escritório até o dia 15 de janeiro de
2013, quando as postagens foram apagadas, passaram-se treze dias, tempo suficiente para o
movimento surgir do núcleo de amigos da jovem, tomar corpo dentro da rede social,
viralizar para outros sites, blogs e imprensa e terminar em uma passeata em frente à sede de
Machado, Meyer, Sendacz e Opice, em São Paulo.
A honra da estagiária foi resguardada por estudantes da PUC-SP, que criaram o
Grupo Mobilização Pela Transparência – caso da Estagiária Viviane Viviane Wahbe, com
485 membros no Facebook e que tem como administradores o Coletivo Feminista Yabá e a
Frente Feminista da PUC-SP. (Caros Amigos, 2013).
A estudante de Direito, de 21 anos, teve em sua defesa jovens pertencentes a mesma
geração, que se uniram emocionalmente e que utilizaram as redes sociais como objeto de
ataque contra possíveis adversários.
34
Figura 3 – Página de Causas no Facebook que recebe na primeira semana 1.311 membros.
Figura 4 – Grupo realiza ato por transparência nas investigações da morte da
estudante de direito Viviane Wahbe.
Ao ocultar os comentários em sua página do Facebook, o escritório não se ateve à
atemporalidade e a rapidez do processo comunicacional dentro da ambiência digital. Além
disso, a sua política de silêncio foi contestada dentro do Facebook e posteriormente em
blogs, sites e finalmente apareceu nos veículos tradicionais de comunicação, resultando em
um movimento externo à internet, que teve seu ápice em um protesto realizado na frente da
35
sede da empresa. Levy, explica como os usuários das tecnologias digitais trafegam dentro da
esfera pública.
Cada emissão de informação, cada retransmissão de dados, cada registro em uma
memória pessoal (que agora está contida em "nuvens" coletivas), cada envio de
links de um site para outro, tudo isso contribui para informar e transformar a
memória coletiva. Os participantes da nova esfera pública não são apenas autores,
eles também são potenciais editores, bibliotecários, curadores e críticos. Por meio
de cada uma de suas ações online, eles contribuem para a orientação dos outros
participantes (LÉVY, 2011).
Após investigação da polícia paulista foi constatado que Viviane tomava remédios
contra depressão e que esse teria sido o motivo do suicídio, mas até então a imagem da
banca de advocacia foi manchada.
Este exemplo e outros movimentos maiores ou menores que surgiram no Facebook e
nas demais redes sociais aconteceram por meio das tecnologias de comunicação,
especialmente dos smartphones. A conexão, segundo Castells, é multimodal ao incluir redes
sociais online e offline. No caso da estagiária Viviane, houve a participação de vários
grupos feministas, amigos e colegas da universidade e que se uniram em uma causa por um
determinado período, porém, logo após o resultado da investigação policial os laços se
afrouxaram. Para evitar a dispersão, os grupos feministas passaram a discutir a temática da
violência contra a mulher dentro da página de Causas anteriormente criada como fórum
sobre o possível estupro de Viviane.
Qualquer pessoa que queira um espaço de discussão e mobilização pode criar uma
página de causas no Facebook. Existem outros aplicativos para o mesmo fim, porém o
Causes, criado em 2007, agrega aproximadamente 500 mil campanhas, criadas por
ambientalistas ou em defesa do movimento gay ou para causas menos nobres como a busca
de fundos para festas de aniversário.
Os perfis pessoais também podem se transformar em fonte de discussões públicas
sobre questões ligadas à politicas de gênero, sociais e de educação. Um exemplo de luta pela
cidadania é o de uma menina de apenas 13 anos, que chamou a atenção da sociedade ao
denunciar no Facebook a precária situação na escola pública onde estudava. Este é o caso de
Isadora Faber, aluna da Escola Municipal Maria Tomázia Coelho, em Florianópolis, Santa
Catarina.
36
Ela criou uma página intitulada “Diário de Classe”
(facebook.com/DiariodeClasseSC) para divulgar fotos e vídeos sobre o abandono da unidade
de ensino. A página recebeu em poucos dias 42 mil curtidas de pessoas que também
estudavam em escolas públicas e que se identificavam com os problemas levantados por
Isadora. Na ocasião, ela chegou a perder amigos e ser perseguida por professores; sua casa
foi apedrejada e ela chegou a ser vítima de ciberbulling.
Figura 5 – Porta do banheiro feminino (Facebook /
Diário de Classe).
Figura 6 – Comentário Preconceituoso (Facebook/Diário de Classe)
Após o caso ter chegado à opinião pública e Isabela ter sido fonte para diversas
reportagens nacionais, a Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis chamou a
direção e a coordenação responsável pela unidade de ensino e a situação na escola foi
modificada, para vitória de Isadora e demais colegas. Em um comunicado oficial, a
Secretaria comentou a iniciativa da menina:
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ASSESSORIA DE IMPRENSA
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO
PREFEITURA MUNICIPAL DE FLORIANÓPOLIS
28/08/2012
Prefeitura toma providências na Escola Básica Maria Tomázia
A Secretária de Educação, Sidneya Gaspar de Oliveira, determinou uma nova reforma no estabelecimento.
Defende a liberdade de expressão da aluna que criou Facebook para falar sobre as condições da unidade.
A iniciativa é brilhante, é saudável. A manifestação é da Secretária de Educação de Florianópolis, Sidneya
Gaspar de Oliveira, em relação à página na internet da aluna Isadora Faber, 13 anos, matriculada na Escola
Básica Maria Tomázia Coelho, no Santinho, Norte da Ilha de Santa Catarina. O Facebook, intitulado Diário de
Classe, reivindica melhorias no estabelecimento de ensino. “Essa página veio inclusive nos auxiliar no
monitoramento da escola. É uma espécie de ouvidoria”, frisa.
A Secretária lembra que a prefeitura vem fazendo a manutenção física da unidade desde o início do ano e já
começou outros serviços. Quanto à parte pedagógica, Sidneya destaca que houve incompatibilidade entre duas
turmas da sétima série, numa das quais Isadora frequenta, e um professor temporário de matemática. “Após a
análise da comissão avaliadora, formada por membros da escola e da Secretaria, o parecer final sobre o
professor está previsto para a próxima segunda-feira”. Se assim a comissão decidir, o docente poderá ser
substituído [...] (Fonte: https://www.facebook.com/DiariodeClasseSC)
Nesta nova ordem mundial, as empresas também tiveram que correr para atender o
cliente usuário das redes sociais, seja usando suas Fan Pages como SAC (Serviço de
Atendimento ao Consumidor), ou tornando-as canais eficazes para conhecer seus hábitos de
consumo.
Entidades como a “Proteste”, ONG que defende os direitos dos consumidores, abriu
uma página no Facebook onde são feitos exames comparativos de produtos e preços, além
de orientar as pessoas sobre seus direitos. Já o site “Reclame Aqui” que possui um perfil
corporativo no Facebook e também desenvolveu um aplicativo onde o usuário procura uma
determinada empresa, faz uma reclamação e ainda pode espalhar o problema ou a solução
para seu grupo de amigos.
Figura7 – Facebook / Reclame Aqui
38
As empresas também usam o espaço na rede social para estreitar relações com seus
clientes que acabam virando fãs das marcas, e assim elas podem e tê-los como parceiros na
criação de um novo produto a ser lançado no mercado. Após o lançamento dos sanduíches
“Hot Pocket”, da Sadia, vários consumidores comentaram na internet que o produto teria um
melhor sabor se fosse acompanhado por um molho. Em sintonia com os apelos de seus
clientes/fãs, a companhia criou uma ação por meios de jogos no Facebook onde os próprios
fãs escolheriam sabores para o molho. Saindo do mundo virtual, a empresa também
promoveu ações de marketing no evento tecnológico Campus Party.
O fato é que tanto as empresas e o poder público devem estar preparados para estas
mudanças, onde o consumidor/cidadão atua como consultor e seguidor, participando do
desenvolvimento de novos produtos e de iniciativas públicas.
Embate trabalhador e empregadores – O mundo globalizado e sem fronteiras
alterou a forma de fazer negócios e de relacionamento entre empregados e patrões. O home
office, a flexibilidade de horários, a força de trabalho individualizada e global além da
diminuição na jornada de trabalho mudaram também a economia, que no mundo moderno,
girava em torno de produtos, e que na pós-modernidade passou a fortalecer o setor de
serviços. (Castells, 1999. Pg.250)
A virtualização da mão de obra também pode causar alguns problemas, como a
indagação sobre o que é espaço privado e espaço público e qual a postura a ser tomada pelo
trabalhador dentro da rede social fora do expediente. Este tem sido um desafio para os
imediatistas e questionadores integrantes da Geração Y que cresceram circundados em
tecnologia e são conectados pelos meios digitais.
As empresas tiveram que se adaptar à esta realidade. O gerenciamento dos
funcionários, que antes era feito de forma hierárquica e que tinha o Departamento de
Recursos Humanos ou de Marketing e até mesmo os sindicatos como mediadores entre
patrão e empregados, sofreram transformações a partir da tecnologia e da comunicação
horizontal. Essa nova ordem social permite que chefes e empregados se encontrem no
mesmo palco – o Facebook.
É comum trabalhadores insatisfeitos com seus patrões usarem seus perfis para
comentarem situações de âmbito profissional, ou ofenderem a empresas ou empregadores.
Este novo cenário das relações trabalhistas criou uma nova testemunha processual: a prova
eletrônica e também uma nova especialidade jurídica, o Direito Digital.
39
A 1ª vara do Trabalho do município de Jundiaí, em São Paulo, por exemplo, manteve
uma demissão por justa causa para um funcionário que comentou no Facebook
posts ofensivos à sócia da empresa.
Para a especialista em Direito Trabalhista, Andrea Giamondo Massei, o Poder
Judiciário está mais atento aos impactos que a má utilização das redes sociais pelos
empregados pode gerar ao empregador e ao ambiente do trabalho. “De fato, os empregados
precisam ter em mente que há canais apropriados para manifestação de sua insatisfação ou
críticas ao empregador, superiores hierárquicos ou colegas de trabalho, alguns deles
previstos em lei – a utilização das redes sociais para essa finalidade não é a conduta
recomendada”, alertou a advogada. Para ela, as empresas tornam-se mais vulneráveis e
muitas vezes se veem expostas diante de seus clientes e fornecedores com a divulgação de
assuntos confidenciais e estratégicos que podem partir até mesmo de seu público interno.
A especialista destaca ainda que os empregados têm deveres de confidencialidade e
de lealdade para com o empregador, que não se esgotam com o final do expediente de
trabalho. “A depender do teor de publicações lançadas pelos empregados em redes sociais,
tais deveres podem ser desrespeitados, expondo-os a medidas disciplinares”, afirma.
Existem casos registrados de processos ganhos por empregadores contra empregados
que usaram o Facebook em horário de trabalho, curtiram posts ofensivos contra seus patrões
e até criaram páginas contra seus antigos empregos, como a página “Senzala Zest”, cuja
autora foi uma ex-funcionária que criou um espaço para “todos aqueles que são ou foram
escravos do restaurante Zest”. Na comunidade ela ainda fazia menções à homossexualidade
do filho de um dos sócios do restaurante. A empresa entrou com uma ação por danos morais,
ganhando na primeira e segunda instância e baseada no código civil, a trabalhadora foi
condenada a pagar uma indenização aos sócios.
Para justificar sua sentença a juíza usou argumento do Desembargador Lorival
Ferreira dos Santos em despacho do Tribunal do Trabalho – 15a Região:
Na esfera trabalhista, a internet vem sendo largamente utilizada, podendo
representar um genuíno instrumento de trabalho, mas o seu uso indevido por parte
dos empregados tem ocasionado discussões, principalmente porque não há ainda
uma legislação específica regulando a matéria. Como medida patronal preventiva,
o que se tem observado hoje é a fiscalização, a restrição ou até mesmo o bloqueio
total de acesso à internet para fins particulares durante o período de trabalho, o que
é perfeitamente cabível dentro do poder diretivo e regulamentar do empregador.
Porém, a monitoração do uso da internet no ambiente organizacional tem se
tornado cada vez mais difícil, pois a tecnologia da telefonia móvel, por exemplo,
acaba rompendo a barreira eventualmente imposta pelo empregador. Nos casos em
que restar provado que a empresa proibia a navegação na internet durante o horário
de trabalho e o empregado desafiava os limites impostos para acessá-la
40
habitualmente por meio de seu celular pessoal, é inegável a ocorrência de justa
causa para a dispensa, ficando evidente a prática de desídia e mau procedimento.
Se, além disso, ficar demonstrado que, através da internet, o trabalhador ofendia
colegas de trabalho, clientes da empresa ou a própria organização, é possível ainda
enquadrá-lo nas situações previstas pelas alíneas “j” e “k” do art. 482 da CLT. É
que todo empregado deve saber que está inserido no contexto da empresa, de
modo que seu comportamento inadequado pode causar sérios danos ao
estabelecimento, e o que é postado através da conexão universal da internet pode
afetar a segurança, a produtividade e até mesmo a reputação de uma organização
consolidada. Portanto, o trabalhador tem que se portar nas redes sociais com o
mesmo zelo sob o qual se mantém no ambiente de trabalho, pois no mundo virtual
o meio é diverso, mas as ações e consequências são as mesmas do mundo real. A
má ação do empregado no âmbito virtual equivale àquela adotada no mundo
tangível, afinal, seu perfil, seja ele real ou eletrônico, é único. Recurso a que se
nega provimento no aspecto. (TRT 15ª R. Proc. 0001843-84.2012.5.15.0018
ROPS. 5ª C. 3ª T. Rel. Des. Lorival Ferreira dos Santos DEJT 14/06/2013).
A postura adequada do profissional nas redes sociais podem também garantir uma
vaga no mercado de trabalho. As empresas de Recursos Humanos estão utilizando sites
como o Linkedin e o Facebook para conhecer melhor o candidato a um emprego. Saber o
que o candidato comenta, o que curte e o que faz quando está no universo online. As
empresas também apresentam as suas vagas abertas em suas páginas do Facebook, em busca
de profissionais mais jovens. “Postamos todas as vagas, especialmente para os níveis de
analista, supervisão, coordenação e gerência inicial”, explica o diretor de RH da
construtora Tecnisa, Marcello Zappia (VAGAS, 2010).
Voltamos à questão sobre o que é público e o que é privado no Facebook. Se o
empregado não pode comentar nada da empresa em seu perfil, qual é o direito da empresa
em entrar em um ambiente que seria particular de alguém, e que hipoteticamente seria um
espaço lúdico e social? A liberdade de expressão passa por uma crise de identidade, “Essa
exposição pode nos levar a um eu esquizofrênico, divididos entre o que somos offline e a
imagem que temos de nós mesmos offline”, sentencia Castells. (2003,Pag. 148)
Sexo e Amizade na Rede – A necessidade de comunicação e de estabelecer laços
entre indivíduos faz parte da essência do ser humano. A internet ampliou o potencial de
aproximação virtual entre as pessoas, independentemente de sua localização geográfica,
bastando apenas que tenhamos domínio das ferramentas tecnológicas.
Antes da criação dos Bate-Papos do UOL, jovens e adolescentes brasileiros, da
década de 1980, costumavam usar um serviço telefônico em que a ligação era redirecionada
para um bate-papo com grupos formados por várias pessoas desconhecidas. O número 145,
“Disque Amizade”, era motivo de muitas brigas entre pais e filhos após a chegada da conta
41
telefônica que vinha com cifrões a mais graças aos pulsos cobrados pela chamada. O serviço
também era uma ferramenta para quem estava à procura de fazer novas amizades ou para
encontros amorosos.
No início da mesma década, funcionava na Fração Minitel, um serviço de videotexto
em que os usuários conseguiam com rapidez números de telefone, informações bancárias e
compras antecipadas para eventos e que fez muito sucesso após o surgimento de bate-papos
eróticos (CASTELLS, 2001).
Se na década de 80 os contatos nos chats e nas salas de bate-papo telefônicos
poderiam ser anônimos, permitindo em que o indivíduo se escondesse por trás do
equipamento tecnológico, na sociedade pós-moderna, as redes sociais são um espaço de
conversação na busca de interação entre seus iguais. Por meio da internet, essas conexões
são realizadas independentemente do local em que seus nós estejam localizados ao redor do
globo. As redes sociais aproximaram estas distâncias ainda mais.
O Facebook tem no seu DNA a conexão entre jovens em busca de novos amigos e
parceiros. Os primeiros usuários utilizavam a rede para fazer novas amizades e marcar
encontros, tal qual o Disk-Amizade dos anos 80. Páginas como “Me Add Geral” ou a versão
em inglês “Add Me” são exemplos que ilustram como a tecnologia muda, mas a busca por
pessoas afins continua.
Figura 8 – Página Me ADD Geral.
A ferramenta sofisticou-se e permitiu o desenvolvimento de aplicativos para paquera,
como o Tinder e o Blendr, que apresentam interesses em comum entre o usuário e os demais
assinantes, além do polêmico BangwithFriends, que promove sexo casual entre amigos.
Todos eles podem ser baixados em smartphones e o Tinder se diferencia ao possuir um
42
dispositivo de geolocalização, que permite saber se há alguém interessado em fazer amizade
por perto. Para Recuero, os aplicativos oferecidos pela rede social e apropriados pelos
usuários possibilita novas formas de conexão.
Essas ferramentas criaram novos contextos para a interação social, e o estudo das
apropriações coletivas dessas ferramentas fornece algumas pistas dos novos
valores que são gerados nelas. Assim, os sites de rede social proporcionam o
surgimento de tipos diferentes de rede social, bem como de formas de capital
social (RECUERO, 2009).
O Facebook estimula a criação desses aplicativos por terceiros. A empresa calcula
que quando um novo usuário fazia amizade com dez pessoas, ele tornar-se-ia um elemento
ativo no site e suas redes de amigos continuariam a se expandir (PENEMBERG, 2009).
Pela teoria dos seis graus de separação, criada pelo psicólogo Stanley Milgram, em
1967, é necessário que existam seis laços de amizade para que duas pessoas estejam ligadas
por meio destas conexões. A partir desta premissa, a equipe do Facebook Data Science em
conjunto com a Universitá degli Studi di Milano, desenvolveu uma pesquisa chamada
“Small World”, que utilizou algoritmos para comparar as conexões de 721 milhões de
usuários ativos e constatou que a tecnologia transformou o mundo em um lugar cada vez
menor, com apenas 4,74 intermediários separando duas pessoas.
O estudo descobriu também que 84% de todas as conexões são entre as pessoas de
um mesmo país e que tendem a ter características similares com os demais integrantes de
seu grupo, como, por exemplo, a mesma idade, especialmente entre os usuários com mais de
60 anos. (Facebook, 2011)
Figura 9 – Quatro graus de separação (Anatomia do Facebook)
43
Um dos opositores à amizade criada no ambiente do Facebook é o sociólogo
Zygmunt Bauman. Para ele, os laços humanos são diferentes das ligações na rede social e
que no Facebook as conexões são mais fáceis de cortar do que offline. “Os laços humanos
são satisfatórios, o que é indisponível para as amizades do Facebook”, sentencia. Enquanto
os laços existentes no mundo real são construídos por meio de afeição e intimidade, as
amizades formadas nas redes sociais são frágeis e são criadas independentes da convivência
física. Recuero define essa ligação como nós que não se desgastam com o tempo, nem
necessitam de investimento, para ter um amigo basta adicioná-lo na rede e o sistema o
manterá conectado ao ator. Assim, é possível milhares de conexões em um mundo cada vez
menor. Trata-se de uma nova forma de se relacionar, sem profundidade, porém constante,
apesar da ausência física de seus pares.
Considerações finais
Ao estudar as obras de Manuel Castells e Pierre Lévy, entre outros autores, em busca
de respostas sobre a influência do Facebook nos relacionamentos sociais da Geração Y no
universo off-line, percebemos que a presença na rede social, não só afetou os
relacionamentos pessoais, mas também modificou as relações entre empregados e
empregadores; governos e cidadãos; empresas e consumidores; e a forma de fazer marketing
e negócios dentro e fora da ambiência virtual.
Integrantes da Geração Y, especialmente os que possuem faixa etária entre 25 e 34
anos fazem parte da maior fatia de audiência do Facebook, rede social criada em 2004 para
integrar alunos universitários e secundaristas dos Estados Unidos. São jovens cuja principal
característica é nascerem e crescerem durante o advento da internet e serem habituados a se
conectarem por meio de tecnologia digital.
Dez anos depois, a rede social alcançou um público 1,23 bilhão de usuários em todo
mundo que a utilizam para fazer negócios, trocar informações, mobilizar grupos e se
44
relacionar. Ao pesquisarmos o assunto, não buscamos soluções para a problemática dos
reflexos do uso intenso do Facebook entre os adultos jovens da Geração Y, mas estudamos
a influencia da rede social no cotidiano este público. Ao exemplificarmos situações comuns
a utlização da rede social na busca de referências empíricas e constatamos que apesar da
tecnologia fazer parte do dia a dia dos Millenials o uso da plataforma criada por Zuckeberg,
a ainda é uma faz aprendizado para eles, que também estão se adaptando entre as realidades
dos mundos on e off-line. Trafegar dentro deste limiar entre o real e o virtual resulta em um
preço a ser pago por adolescentes ávidos por superexposição e para jovens trabalhadores, de
perfil contestador.
No Capítulo 1 foram apresentadas as particularidades da Geração Y e como este
grupo se tornou força motriz dos fluxos comunicacionais existentes redes sociais. Algumas
Também constatamos que o excesso de conexão causa doenças e que o mundo virtual, de
acordo com os usuários da rede, pode parecer muito mais bonito do que ele realmente é.
Essa tendência à exibição coloca em cheque a questão sobre o que é público e o que é
privado no Facebook. Para Castells, exposição pode nos levar a um eu esquizofrênico,
divididos entre o que somos offline e a imagem que temos de nós mesmos offline.
No capítulo seguinte, o Facebook foi enfocado como principal plataforma social
digital da atualidade e seu uso como ferramenta para a liberdade de expressão e denúncia
contra os problemas políticos e sociais enfrentados pela população.
No terceiro capítulo, a rede social foi apresentada como um local onde todos se
encontram, e onde seus atores sociais desfilam seu prestígio ao exibir o seu ranking de
curtidas e seguidores, deixando transparecer sua vida íntima, sem intimidações.
Se para McLuhan o mundo virou uma aldeia global, ousamos em dizer que o
Facebook é uma grande praça onde todos se encontram e que amigos possuem amizades em
comum. Se tornou um ambiente virtual de encontros e desencontros, onde ideias são
trocadas e negócios são realizados e amizades são feitas por um toque e relacionamento são
desfeitos com um deslike.
45
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