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AVILA, Astrid B. - UFPR, PPGE/CED/UFSC – [email protected]
CIÊNCIA, RAZÃO E CONHECIMENTO: CONTRIBUIÇÕES DE
GEORG LUKÁCS E MAX HORKHEIMER
AVILA, Astrid B. - UFPR, PPGE/CED/UFSC – [email protected]
MORAES, Maria Célia M. - PPGE/CED/UFSC
VAZ, Alexandre F. - PPGE/CED/UFSC
GT: Filosofia da Educação / n. 17
Agência Financiadora: CNPq/BR
Este plano de pesquisa é parte de projeto de tese de doutoramento, cujo objetivo
é o de analisar a produção do conhecimento em Educação Física, privilegiando a
produção bibliográfica veiculada pelos programas de pós-graduação na área, no Brasil.
Procura-se compreender essa produção à luz das várias facetas e opções filosóficas e
científicas contemporâneas decorrentes do debate entre as perspectivas realistas e antirealistas. Nesse contexto, buscamos as raízes de uma das tendências vinculadas ao
pensamento crítico da Educação Física, introduzido com a formação de pesquisadores
na pós-graduação na área de Humanas no Brasil – principalmente, em Educação –, e em
programas de pós-graduação da Alemanha. Tais tendências rivalizam com o
conhecimento produzido na área até o início dos anos 1980, orientado unicamente pelo
prisma das Ciências Biológicas.
O recorte proposto enfoca a questão do conhecimento, particularmente o
conhecimento científico, que orienta as diversas práticas profissionais tanto no campo
da Educação como da Educação Física. O conhecimento é um aspecto fundamental da
vida humana e refletiu-se sobre ele no decorrer da história em perspectivas que
oscilaram entre a ontologia, a gnosiologia e a epistemologia. Nos dias atuais de
ceticismo ontológico e epistemológico no campo da Filosofia e no das Humanidades,
focalizar o conhecimento, em particular aquele produzido pela ciência, é tarefa
necessária, pelo menos para aqueles que consideram a possibilidade do conhecimento
objetivo e do agir humano, creditando valor ao pensamento racional e à pesquisa
científica.
Priorizamos dois autores do campo do realismo ligados ao Marxismo Ocidental,
Georg Lukács e Max Horkheimer, que tematizam a ciência de forma crítica e
apresentam importantes contribuições à teoria social contemporânea. Pretendemos
verificar o lugar da ciência em sua obra a partir dos argumentos que subsidiam suas
críticas ao conhecimento e à razão. Se há afinidades entre eles, há também profundas
diferenças. Ambos concordavam, nas décadas de vinte e trinta do século XX, que a
2
“mudança de estrutura científica depende da transformação da situação social: a clareza
no pensamento efetivamente crítico significa não apenas um processo lógico, mas um
processo histórico concreto.” (CHIARELLO, 2001, p. 56). Contudo, o desenvolvimento
subseqüente de suas teorias os levou a um distanciamento conceitual sobre a atividade
científica.
Um dos pontos polêmicos na relação entre Horkheimer e Lukács é a influência
de História e consciência de classe de Lukács (1923) no pensamento do primeiro
Horkheimer, dos artigos da década de 1930 (Chiarello (2001), Musse (1996) e Nobre
(1996, 2005)). Alguns estudos tratam de parte ou todo da obra de Horkheimer em
relação a essa obra de Lukács. Outros1, vinculados à perspectiva lukacsiana, consideram
que estes estudos não levam em conta o todo da obra de Lukács – inclusive a sua
autocrítica no pósfacio de História e consciência de classe, na edição de 1967. Ignoram
a virada de Lukács de 1929, com As tese de Blum, e em 1930, com sua leitura dos
Manuscritos econômicos filosóficos de Marx, momento em que rompeu definitivamente
com os preconceitos idealistas presentes em sua obra até então (LUKÁCS, 2003, P.4546). Para Lessa (1996, p. 73), há entre História e consciência de classe e Para uma
ontologia do ser social uma “efetiva ruptura”, e é justamente a ontologia que permite a
Lukács tornar-se um crítico do marxismo ortodoxo e do próprio Partido Comunista. Por
outro lado, autores2 vinculados à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, consideram que
o Lukács tardio deixa a desejar em comparação com o primeiro, menos afeito aos
interesses do Partido Comunista Húngaro e Soviético. O próprio Horkheimer
compartilha dessa posição. Nesta polêmica, há consenso de ambas as partes sobre a
importância de História e consciência de classe para o Marxismo Ocidental, mas há
discordâncias quanto à posição que a obra assume em relação às suas obras posteriores.
As obras privilegiadas são: de Georg Lukács, História e consciência de classe
(1923), A destruição da razão (1954), Introdução a uma estética marxista (1956) e os
capítulos sobre o Neopositivismo, o Trabalho e a Reprodução de Para uma ontologia
do ser social (1976) – publicada após sua morte; de Max Horkheimer, os seguintes
ensaios da década de trinta: Observações sobre ciência e crise (1932), Materialismo e
metafísica (1933), Materialismo e moral (1933), Do problema da previsão nas ciências
sociais (1933), Da discussão do racionalismo na filosofia contemporânea (s/d), Sobre o
1
Nicolas Tertulian (2002) em seu artigo Lukács Hoje trata dessa polêmica mostrando-nos as diferentes
posições teóricas em relação à trajetória de Lukács dentro do marxismo.
2
Como Chiarello (2001, p. 38) e Nobre (1996, p. 74).
2
3
problema da verdade (1935), Teoria tradicional e teoria crítica (1937), Filosofia e
teoria crítica (1937). E a sua obra Eclipse da razão (1946). Não nos deteremos no todo
da Dialética do esclarecimento (1944/1947), escrita com Theodor W. Adorno, mas
apenas em seu primeiro capítulo, escrito principalmente por Horkheimer3, que trata do
conceito de razão. Não desconhecemos, porém, que esta obra, somada a Eclipse da
razão, marca o início do que os estudiosos denominam de “Horkheimer tardio” ou o
“último Horkheimer”. A ênfase nos trabalhos da década de trinta deve-se ao fato de
serem eles vinculados ao intento da construção do “materialismo interdisciplinar”,
abandonado pelo autor na década de quarenta (Chiarello, 2001).
Os dois autores oferecem elementos para pensarmos a problemática científica
nos dias de hoje4, mais particularmente, as críticas lukacsianas ao neopositivismo e ao
existencialismo e à supressão da ontologia, subsumida no debate meramente
epistemológico ou gnosiológico; em Horkheimer, em suas críticas à metafísica e ao
positivismo, principalmente em suas versões neotomista e no pragmatismo americano.
Interessa-nos em Lukács, sua reflexão ontológica sobre o conhecimento,
centrada na categoria trabalho (categoria fundante do ser social) e sua ênfase ontometodológica na particularidade, totalidade e historicidade. A partir dessas categorias,
focalizamos a crítica de Lukács ao neopositivismo e à sua concepção sobre a relação
essência e fenômeno, ponto nodal para discutir a questão do conhecimento.
Em Horkheimer, convergimos nossos estudos à crítica à razão formalizada – que
mais tarde se expressará como razão instrumental – substanciada pelas críticas à razão
subjetiva e à razão objetiva. Nesse movimento de crítica à razão, a relação entre
3
Acompanhamos aqui a sugestão de Seligmann-Silva (2003).
Se ao longo de quase todo o século XX a discussão situava-se entre algumas poucas iniciativas em
defesa da ontologia (Heidegger, Hartmann e Lukács) e a gnosiologia ou a epistemologia – com franca
vantagem para essas últimas –, a partir da segunda metade do século o debate ganha novos contornos. A
derrocada da epistemologia positivista – anunciada por Kunh, Feyrabend e Lakatos, entre outros –, a
proclamada crise da modernidade e de seus subprodutos – razão, conhecimento, sujeito, verdade,
realidade, emancipação etc – e o sucesso da agenda “pós-moderna” (WOOD, 1999; MORAES, 1996)
vaticinaram a morte do sujeito, a fragmentação do real, e afirmaram a verdade como construção humana,
uma crença socialmente justificada na cultura ou na política. Neste contexto, a temática da ontologia cai
em desuso. No entanto, como afirmam Bhaskar e Lukács, na medida em que todo conhecimento pauta-se
por uma visão de mundo, ele carrega em si uma ontologia, mesmo que na maioria das vezes sequer se
aperceba deste fato. Para Netto (2002, p.88) “a ambiência dominante hoje na cultura de oposição é
visceralmente avessa às preocupações ontológicas” o que torna o pensamento lukacsiano uma
necessidade teórica para a renovação do marxismo – embora contra o modismo intelectual em voga. A
atualidade de Horkheimer se expressa para aqueles interessados em refletir o valor da atividade cientifica
e do progresso tecnológico nos dias de hoje, sendo sua obra instigante para compreender a ciência
moderna.
4
3
4
filosofia e ciência toma diferentes contornos no desenvolvimento de sua teoria5, e entre
esses, enfocaremos os de sua fase inicial. Outro ângulo, necessário para a compreensão
dos argumentos que sustentam suas críticas, é a relação entre imanente e transcendente6,
fundamental para a compreensão de sua crítica à razão.
Referências:
BENJAMIN, W., HORKHEIMER, M., ADORNO, T. W., HABERMAS, J. Os
pensadores. Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
CHIARELLO, M. G. Das lágrimas das coisas: estudo sobre o conceito de natureza em
Max Horkheimer. Campinas, SP: Editora da Unicamp, São Paulo: FADESP, 2001.
294p.
HORKHEIMER, M. Teoria crítica: uma documentação. Tomo I. São Paulo:
Perspectiva e EDUSP, 1990. 236 p.
______ Eclipse da Razão. São Paulo: Centauro, 2002. 187 p.
HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos
filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. 254 p.
LESSA, Sérgio. Para uma ontologia do ser social: um retorno à ontologia medieval? In:
ANTUNES, R. & RÊGO, W. L. Lukács: um Galileu no século XX. São Paulo:
JINKINGS Editores: 1996 (p. 62-73)
LUKÁCS, G. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. São
Paulo: Martins Fontes, 2003.
______ Der Zerstörung der Vernunft. Berlim, 1953. 244 p. [A destruição da razão]
______ Introdução a uma estética marxista: sobre a categoria da particularidade. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. 298 p.
______ Zur Ontologie des gesellschaftlichen Seins. Georg Lukács Werke, vols. 13 e 14,
Frankfurt, Luchterhand Verlag, 1986.
MORAES, M. C. M. Os “pós-ismos” e outras querelas ideológicas. Perspectiva,
Florianópolis, UFSC/CED, n. 24, p. 45-59, 1996.
5
Chiarello (2001, p. 75) faz uma crítica dura aos últimos trabalhos de Horkheimer apontando que a
“filosofia tardia de Horkheimer perderá os pontos de contato com a práxis histórica, oscilando, sem
perspectiva concreta de reconciliação, entre uma verdade idealista apartada da realidade histórica e uma
racionalidade positivista fadada a reiterar sistematicamente o existente. Em uma palavra, ela perderá a
esperança revolucionária da realização da razão na história.”
6
Nessa relação podemos ressaltar um dos aspectos, que segundo Chiarello (2001, p. 18) confere unidade
à obra Horkheimeriana, pois “a crítica da razão tradicional ou instrumental não se deixe dissociar da
dimensão teológica de seu pensamento e, mais ainda, a articulação que entre elas se estabelece atravessa
de ponta a ponta a obra de Horkheimer, conferindo-lhe uma incontestável unidade.”
4
5
MUSSE, R. Marxismo: ciência revolucionária ou teoria crítica? ? In: ANTUNES,
Ricardo & RÊGO, Walquiria Leão. Lukács: um Galileu no século XX. São Paulo:
JINKINGS Editores: 1996 (p. 84-90)
NETTO, J. P. Georg Lukács: um exílio na pós-modernidade. In: LESSA, Sérgio &
PINASSI, Maria Orlanda. Lukács e a atualidade do marxismo. São Paulo: Boitempo
Editorial, 2002 (p. 77-102)
NOBRE, M. Lukács e o materialismo interdisciplinar. In ANTUNES, R. & RÊGO, W.
L. Lukács: um Galileu no século XX. São Paulo: JINKINGS Editores: 1996 (p. 74-83)
______Sobre a relevância da distinção entre teoria tradicional e teoria crítica na
atualidade. In: Anais do XXIX Encontro Anual da ANPOCS, 2005 (p. 1-14)
TERTULIAN, N. Lukács hoje. In: LESSA, S. & PINASSI, M. O. Lukács e a
atualidade do marxismo. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002 (p. 27-48)
WOOD, E. M. O que é a agenda “pós-moderna”? In: WOOD, E. M.; FOSTER, J. B.
Em Defesa da História: Marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1999. (p.7-22).
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Adorno. São Paulo: Publifolha, 2003. 104 p.
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