Ingênuos, Pobres e CatólICos

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Ingênuos, Pobres e CatólICos
Ingênuos, Pobres e Católicos
Alfredo da Mota Menezes
Ingênuos, Pobres e Católicos
A História da Relação dos EUA
com a América Latina
© Copyright
Alfredo da Mota Menezes
Coordenação Editorial
José Carlos Junior & Luciene Franco
Editoração Eletrônica
Rejane Megale Figueiredo
Revisão
Lara Alves
Capa
Rejane Megale Figueiredo
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
Editora FUNDO DE CULTURA
Site: www.fundodecultura.com.br
E-mail: [email protected]
Tel.: (21) 3624-7189 / (21) 9514-9714
Sumário
Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Capítulo I – Crença na Superioridade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Capítulo II – A América Latina Criada pelos EUA. . . . . . . . . . . . . . . . 31
Capítulo III – Expansão dos EUA para a América Latina. . . . . . . . . . . 51
Capítulo IV – Boa Vizinhança . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Capítulo V – Na Guerra Fria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
Capítulo VI – Novos Tempos e Práticas Antigas. . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
Capítulo VII – Estereótipos em Filmes e na Mídia. . . . . . . . . . . . . . . . . 149
Capítulo Final. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161
Notas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183
Introdução
N
uma aula no curso de doutorado em história da América Latina nos
EUA, num Centro de Estudos Latino-Americano, uma professora, especialista em países andinos, colocou um tema para discussão. Perguntou o que
a América Latina tinha feito, no plano do conhecimento, para a evolução
da humanidade, que não se encontra nada ou nenhuma ação concreta da
região que ajudasse a melhorar a qualidade de vida no mundo ou que colaborasse em simples avanços no cotidiano da raça humana. Que a região é
também dependente em tudo o que diga respeito a descobertas na ciência.
Levamos um susto, deu o que pensar e muita discussão. A colocação daquela professora tem base na crença histórica norte-americana sobre a América
Latina. A crença de inaptidão da região não é somente no meio intelectual,
é talvez mais forte ainda entre as pessoas comuns. E vem de longe. É o tema
deste livro.
O fato de o norte-americano acreditar que professava uma religião superior foi o primeiro passo para se criar naquele povo a convicção da diferença
entre as duas Américas. A religião católica era cheia de erros e se preocupava com a outra vida e não com esta. A protestante queria riqueza nesta vida
e defendia uma ética que não havia no catolicismo, e que moldaria a maneira
de ser dos dois povos. Raça seria outro elemento de diferença entre os EUA
e a América Latina; impressiona como aparecem teorias raciais para mostrar
essa superioridade. Ou, em palavras diferentes, a herança colonial iberocatólica estaria por trás do comportamento equivocado da América Latina.
Em certos momentos a América Latina é considerada pela maioria do
povo norte-americano como uma criança, ainda precisando de apoio para
crescer, principalmente no mundo da política. Em outras situações a região
abaixo do Rio Grande é vista como um símbolo feminino, emotiva e precisando de suporte para viver. E num terceiro momento a América Latina
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é negra. Tópicos e charges neste livro mostram como os EUA olhavam a
região como criança, mulher, de gente negra e mestiça.
A expansão inicial dos EUA na América do Norte teve como base a
crença na superioridade daquele povo em contato com outro mais atrasado.
Tomam uma porção do território do México apoiado no Destino Manifesto,
ou que Deus os empurrava para além das fronteiras para civilizar outros povos – seria uma missão divina. Até hoje as bases teóricas daquele movimento
são parte da alma nacional daquele povo. Só se pode entender as andanças
dos EUA pelo mundo dentro da moldura histórica e inspiração do Destino
Manifesto ocorrido no século XIX.
O que pensava a maioria da nação influencia a política externa daquele
país; o que estava no imaginário da população é o caminho seguido pelos
formuladores da política externa dos EUA para com a América Latina. Começa lá atrás, com a Doutrina Monroe, e mais tarde seu Corolário que cria a
política expansionista para a região, dominam a América Central e o Caribe.
Quando da Depressão econômica e da II Guerra, precisando da América Latina por questão de segurança e comércio, mudam o discurso para a região,
e cria-se a política da Boa Vizinhança. Parecia que haveria um novo tipo de
relacionamento entre os dois lados da América. Foi fugaz, durou até o término do conflito mundial. Volta-se ao que era antes.
Aliás, ficou até pior na Guerra Fria. Os EUA darão suporte a ditaduras na
América Latina durante o período, acreditando que esse é o caminho político
natural do povo da região. Que está entranhado na alma do latino-americano,
como legado colonial, o aceite a governos fortes. Diplomatas e acadêmicos
escreveram sobre essa tendência que influencia o governo dos EUA no tratamento da região. Como a América Latina é vista como inocente em política
internacional a preocupação norte-americana durante a Guerra Fria foi que
países da área se bandeassem para o lado de Moscou, fossem manipulados por
comunistas de fora. Terminada a Guerra Fria e mais o avanço tecnológico a
questão da segurança hemisférica tem menor influência na política externa
daquele país. A América Latina tem hoje menos importância para os EUA.
Ao entrar nas páginas deste livro o leitor se espantará com a maneira
como a América Latina é vista e tratada pelos EUA. Não é nunca um tratamento entre iguais, a cultura dali não aceita isso, perde votos quem tratar
país da área como igual. A região é também vista pelos norte-americanos
de forma monolítica, o que ocorre num país seria igual para qualquer outro.
Não adianta o Brasil achar que pelo seu tamanho físico e populacional e por
uma economia mais diversificada que seria visto ali diferente de outro país
da região. O comportamento e as ações das pessoas da região seriam iguais
na mente do norte-americano.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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Num mundo moderno, cheio de acontecimentos novos e diferentes, o
norte-americano não teria tempo para destrinchar a notícia sobre esse ou
aquele país. Pela economia de esforço, como explica Walter Lippmann, ele
já tem uma fotografia mental da América Latina, e a olha sempre daquela
forma. É aquela criada pela história e relacionamento entre os dois lados da
América sobre raças e costumes, pelos escritos de viajantes e missionários,
por livros, filmes e jornais, pelas vitórias que tiveram nas guerras e invasões
da área, pelo crescimento da economia deles e não da América Latina, e
ainda pela superioridade de uma religião e de um povo. É uma fotografia
montada numa moldura histórica difícil de mudar.
Há uma quase unanimidade na maneira, mesmo em momentos do politicamente correto, como os norte-americanos tratam a América Latina.
Atuam assim porque acreditam numa superioridade entre os dois povos da
América. E não se vê no horizonte sinais de mudanças nesse tipo de olhar;
os estereótipos estão arraigados na alma daquele povo. Não se cria estereótipos do nada, ele precisa ter gancho em algum fato ou acontecimento.
Algumas ações de gente da região, agora mostradas pelos diferentes meios de
comunicação, sedimentam ainda mais nos EUA a crença de que a América
Latina é a mesma, não muda, é o retrato do legado espanhol e português
ou ibero-católico. Com essa herança é quase impossível um povo ter bases
democráticas e prosperar economicamente, é a ideia e fotografia mental que
prevalecem nos EUA sobre a América Latina.
Quando agem dessa ou daquela forma com a região, quando invadem
ou fazem comércio mais agressivo, a culpa não é deles, é do outro, o erro
está aqui e não lá. Eles estariam levando progresso e tentam tirar povos da
escuridão religiosa e política. Um lado tem as virtudes, o outro está com os
erros. O caminho para esse outro seria copiar o modelo de gente e nação que
deu certo mais ao norte.
Este livro procura contar a história do relacionamento entre as duas
bandas da América dos contatos iniciais até os dias atuais, e como se criou
essa América Latina que os EUA veem. É baseado em fontes secundárias, a
intenção foi justamente buscar o que se escreve nos EUA sobre o assunto.
Pelas publicações de lá ter-se o que eles pensam sobre a região. Impressiona
como aquele país olha da mesma forma para a América Latina em mais de
150 anos de relacionamento. Essa imagem é a mesma que os governos dali
têm para sua política externa, que a mídia também segue ou que Hollywood
tem para criar seus filmes sobre coisas da área. O mundo mudou e os estereótipos sobre a América Latina nos EUA continuam praticamente os mesmos
do início do contato entre os dois povos da América.
Capítulo I
u
Crença na Superioridade
Religião
T
alvez esteja na religião o foco maior dos ataques dos norte-americanos no
século XIX e início do seguinte ao comportamento dos latino-americanos.
Associam a busca e o acúmulo de riqueza como um prêmio pela virtude que
um lado possuía, e que a pobreza ou subdesenvolvimento era uma consequência ou punição pelos vícios e erros de uma religião que não era a verdadeira. O lado bom seria o protestantismo, o ruim a igreja católica. Se a América
Latina era pobre, com revoltas e guerras, seria uma punição de Deus. Se, por
outro lado, o país do norte demonstrava ser mais capaz e trabalhador, com
aumento de riqueza do seu povo, seria o prêmio pelo seu comportamento e
virtudes. Naquela época era comum associar desastres naturais como punição divina, e se havia terremotos ou vulcões na América Latina seria a ira de
Deus a um povo que vivia sob uma religião não verdadeira. (1)
Muitos dos imigrantes para os EUA foram da Inglaterra. Neste país já
havia a separação entre essas religiões, não aceitavam o catolicismo e atacavam o Papa e sua base romana; a América Latina era uma região de papistas.
(2) Quando chegam ao Novo Mundo e encontram grupos que professam a
religião “errada”, eles tomam aquilo quase como uma guerra santa, uma cruzada contra o erro. O protestante comum do século XIX foi treinado “desde
o nascimento” para odiar o catolicismo – seus livros de infância e juventude
traduziam essa intolerância, o Papa era um perigo para essas pessoas. O norte-americano fora instruído que os católicos são falsos e cruéis, até mesmo os
poucos católicos nos EUA eram vistos dessa forma. Não foi difícil estender
isso para o outro lado da fronteira, para a América Latina inteira, onde o
catolicismo seria a fonte de corrupção e ineficiência dos governos e culpado
ainda pelas constantes lutas e turbulências entre pessoas e países.
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Os habitantes dos EUA no século XIX não tinham grau elevado de estudos e escolaridade, sua base de conhecimentos era limitada. Se havia alguns
escrevendo, baseado em textos bíblicos, com interpretações adaptadas para
certas circunstâncias, falando em púlpitos sobre uma realidade, mostrando
erros de um grupo e acertos do outro, e que Deus estaria por trás disso tudo,
claro que haveria uma tendência de os habitantes do país ao norte aceitarem
que estavam no caminho correto e não o outro lado da fronteira. E, para
completar essa crença, o norte do continente estava ficando mais rico e próspero que o sul, e também havia menos problemas ou infortúnios naturais. Se
assim acontecia, é porque havia um Deus que assim fazia, premiava um povo
que estava no caminho correto e não o outro. Também a errada religião na
América Latina levava a governos ineptos e se tinha um povo politicamente
passivo. (3) Teve gente dali propondo que qualquer tratado de comércio
que se estabelecesse entre os EUA e uma república latino-americana tivesse
artigo para garantir a liberdade religiosa. Com isso os protestantes poderiam
evangelizar ou ajudar no crescimento dos povos da região, acreditavam que
as nações católicas no mundo estavam atrás das que professavam o protestantismo. (4) Acreditavam ainda que possuíam uma cultura superior. (5)
Com tudo isso, o norte-americano teria mais respeito e atitude positiva
para o trabalho, a frugalidade, a educação, o mérito, o trabalho comunitário e o senso de justiça, influência do protestantismo anglo-saxônico. A
América Latina, influenciada pela igreja católica, não dá prioridade àqueles
valores, e ainda a região é filha da Espanha e de Portugal. A Espanha, desde
a expulsão dos mouros da Península Ibérica, se colocou como a defensora da
fé católica. O mundo caminhava em outra direção com as reformas protestantes, e a Espanha se volta mais ainda para o catolicismo. A igreja católica,
em reação aos avanços do protestantismo na Europa, quer o retorno à época
de ouro do catolicismo, que ficara lá atrás, e são essa postura e vontade que
virão para a América Latina. Parte da igreja católica na Europa vai se adaptar aos novos tempos no confronto com os protestantes. Para as colônias,
no entanto, vieram as ideias de uma igreja que já estava sendo mudada até
mesmo na Europa.
Foi até criado um paralelo para tentar explicar os motivos por que a
América do Norte protestante se desenvolveu e a América Latina não. (6)
A sociedade norte-americana, filha do protestantismo, é considerada progressista e a católica tradicional. A primeira acredita no futuro, a outra dá
mais valor ao presente e ao passado. Na de lá o trabalho é uma arma que
levaria ao autorrespeito e à satisfação pessoal. Na outra o trabalho é um mal
necessário e a satisfação pessoal se daria fora do trabalho. O paralelo procura
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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mostrar ainda que o povo norte-americano consome menos e poupa mais,
na América Latina seria o inverso. A educação na sociedade progressista é
fundamental, ajudaria a pessoa a ler e interpretar a Bíblia. No catolicismo
isso não é incentivado, o padre é que vai interpretar a palavra de Deus na
Bíblia. Na sociedade protestante o mérito pelo trabalho realizado é reconhecido e premiado. Na outra isso não teria muito valor, funcionariam mais os
laços familiares, compadrio, amigos e conexões diferentes. Outra diferença
entre os dois lados da equação é que nos EUA haveria um senso comunitário
mais consistente que na América Latina, onde a união maior é em torno
dos membros da família. Sem espírito comunitário, próprio da religião católica, daria espaço para o crescimento do autoritarismo, do nepotismo, da
corrupção, do não pagamento de impostos e até a não obediência a horários
combinados. Sociedade tradicional como a católica tende a ser autoritária,
dificulta o pluralismo político e institucional. A aceitação de modos éticos e
do espírito comunitário leva à aplicação melhor da justiça. Segundo o ponto
de vista, a falta de espírito comunitário estaria na base de tantos e diversos
equívocos na América Latina, até nos dias atuais.
Como os católicos acreditam mais na outra vida, transferem quase tudo
para esse ideal distante, a questão da ética nesta vida não estaria em primeiro
lugar, diferente do que ocorreria nos EUA. Criticam duramente a maneira
católica de perdoar os pecados no confessionário, e que a pessoa possa voltar
a pecar outra vez. Um fato que provocaria frouxidão na aplicação de leis e
normas. Se alguém pode ser perdoado para ir para outra vida julgar delitos
por leis humanas teria menor valor. Uma sociedade que funciona desse modo
acaba atrapalhando o crescimento econômico, impede a crítica e o ponto
de vista contrário, machuca a criatividade e não daria valor ao mérito. Em
alguns lugares da América Latina, ainda hoje, onde a iniciativa privada engatinha e os empregos e cargos são dados mais pelo setor público, em que as
conexões políticas e de compadrio são fundamentais, o mérito seria colocado
em lugar secundário.
É ainda citado como uma das características de sociedade progressista
o afastamento da religião dos assuntos seculares, na católica haveria uma
aproximação maior. Como a América Latina não crescia economicamente e
os EUA prosperavam, as afirmações de que a fé religiosa ajudava um lado e
não o outro se firmaria. Mais tarde, nos círculos mais esclarecidos dos EUA,
sabia-se que outros fatores estavam por trás desse não crescimento da economia regional. Mas o homem comum daquele país, embebido em religiosidade,
com um menor horizonte intelectual, a crença no fator religião como base de
progresso material continuou determinante. Afirmavam que a América La-
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tina atuava errada no aspecto político e econômico por causa de sua crença
religiosa, não teria o suporte no verdadeiro Deus. Não haveria na região base
para o desenvolvimento dos princípios democráticos e econômicos.
A diferença entre as religiões foi também trabalhada por Max Weber
em The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism, de 1904. (7) Ele mostra
que a ética protestante enfatiza o trabalho, a honestidade, a racionalidade e
a austeridade, principalmente a corrente calvinista que acreditava que Deus
abençoava ou estava ao lado daqueles que têm ganhos materiais nesta vida.
Por outro lado o catolicismo acredita mais na outra vida e não estaria muito
preocupado com as questões éticas. Os católicos podem pecar quantas vezes
quiserem e o perdão viria com a confissão. Fato inconcebível para os protestantes, deveriam se aperfeiçoar nesta vida e não somente esperar a outra.
Condenava a crença católica de acreditar que a vida na Terra era uma passagem de sofrimento na espera de se ir para outra e que ser pobre seria um dos
meios para a salvação eterna. Nada mais anticapitalista. Se a pessoa nesta
vida não consegue crescer materialmente é porque Deus não quis, e se não
quis é que há alguma coisa errada com ela. Se, por outro lado, alguém cresce
materialmente, é porque Deus assim quis, e se quis seria lógico admitir que
Ele a levaria para a outra vida, mais até do que aquele que não adquiriu nada
nesta vida porque Deus não lhe dera suporte. Max Weber (8) liga a questão
da racionalidade e da ética aos protestantes calvinistas com o capitalismo e a
prosperidade econômica e que o catolicismo (e outras religiões) ficaram para
trás por sua crença fatalista em outra vida.
A crença religiosa de outra vida na América Latina, numa região em
que não havia classe média, talvez tenha sido para colocar a maioria da população numa posição de resignada contemplação e aceite desta vida como
ela é. (9) Até mesmo se glorifica a pobreza, uma criação divina às avessas do
pensamento norte-americano. No período colonial na América Latina ou
até mesmo depois da independência a crença regional era de que tudo o que
se ganha é porque Deus quis, nem adianta se esforçar ou trabalhar muito.
E se havia união íntima entre Estado e igreja, a elite não ia contrariar ensinamentos religiosos para se criar riqueza, tendem a se acomodar com o que
têm. A elite torna-se subserviente e ligada aos políticos, (10) acaba havendo
uma troca de favores nesse arranjo, e quem está no governo tira também a
sua parte na rapina aos cofres públicos. O patrimonialismo entra nessa história, onde grupos entendem que têm direito de tirar nacos econômicos do
poder público.
Os contatos das pessoas nos EUA com os latino-americanos se davam
no momento de mudanças naquele país. Crescimento econômico, associado
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a vitórias militares, mais aquisição de novos territórios por compra ou guerra, tudo estribado em grande mobilidade social. Um povo em crescimento
e com perspectiva de aumentar riqueza pessoal e nacional, o outro sem essa
possibilidade. (11) A impressão negativa sobre a América Latina foi ainda
aumentada por livros escritos por missionários protestantes sobre a região
que tinham enorme aceitação nos EUA. Eram pessoas que viveram aqui,
tementes a Deus e, na opinião local, não teriam por que mentir. Falam que a
igreja católica levou o povo da região ao estado que se encontrava. (12) Para
esses escritos a religião no norte, criação dos puritanos ingleses, fez nascer
um povo livre. O outro, ao sul, foi escravizado por ensinamentos errados da
religião e por uma elite que não queria nenhuma mudança, ganhava sua parte material naquele motim montado entre igreja e poderes espanhol e português. Viajantes pelo México escrevem que os espanhóis forçavam os índios
a abandonarem suas práticas de moralidade e religião para aceitarem erros
da igreja católica como sensualismo e superstição (13) ou, em outras palavras, até mesmo a religião pagã dos índios seria melhor que os ensinamentos
católicos. A postura contra o catolicismo do fim do século XIX nos EUA
continua também no século seguinte, e não ficou limitado somente aos protestantes. O país fora contaminado pela crença de que a igreja católica tinha
sido um dos pilares do atraso da América Latina. Essa é a visão da maioria
do povo norte-americano sobre a América Latina: aceitam outros aspectos
da diferença entre os dois povos, mas a religião tem lugar de destaque. Não
tanto como no passado, mas os fatos indicam que isso ainda existe até hoje,
imagine como seriam décadas atrás. Ou, como escreveu Alexis de Tocqueville, que o norte-americano ouvia constantemente de seus dirigentes (14)
que ele era o único povo religioso, esclarecido e livre no mundo, e por isso
as instituições democráticas prosperavam enquanto fracassavam em outros
lugares. Ou, ainda Tocqueville, que o povo “não estava longe de acreditar
que forma uma espécie sem igual no gênero humano”. (15)
Eram contínuos os ataques à religião católica. O norte-americano, por
exemplo, não aceita a fé na Virgem Maria, no protestantismo isso não existe.
Há a mãe de Jesus, mas não é venerada como no catolicismo. Uma prática
dessas já demonstraria que algo estava errado com o povo que habitava o
Novo Mundo mais ao sul. Ao lado do erro de aceitar o culto à Virgem Maria os protestantes do norte também atacam a crença regional nos santos,
acham um erro colocar um intermediário de sua ligação com Deus. Que as
pessoas da região, ao invés de buscar crescimento na vida, se colocam atrás
de um santo esperando que este o ajude a conquistar recompensas ou pedidos materiais. Recorrer a santos ou intermediários leva ao acomodamento,
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não seria possível florescer bases sólidas tanto na política como na economia. Se o catolicismo adora ídolos chegavam a associá-lo aos ritos pagãos de
religiões do passado ou os colocava ao lado do paganismo dos índios que o
norte-americano estava conquistando na América do Norte. (16)
Os protestantes do período fazem também ataques ferozes sobre a atuação dos padres na América Latina. Os pastores protestantes tinham força
nas comunidades do norte, mas não na proporção que tinham os padres mais
ao sul. Só a instituição do confessionário já seria uma demonstração dessa
diferença, ficavam sabendo o que acontecia no cotidiano e no íntimo das
pessoas e famílias. Com esse tipo de informação, associado a outros aspectos
de conhecimento da vivência de uma comunidade, o poder do padre era
catapultado para o alto. Os protestantes, mais uma vez, não concordam que
um ser humano possa perdoar outro de seus pecados, e que o perdoado pode
voltar a pecar novamente. Tudo, depois de confessado, estaria perdoado.
Cria-se uma sociedade quase sem obrigações, mais tolerante com erros e vícios, que era só errar, ajoelhar frente a um padre, penitenciar-se, que estava
limpo outra vez. Missionários e homens de negócios que viajavam pela região
também mostravam a licenciosidade dos padres, tendo alguns deles amantes
e filhos. Num clima de desconfiança criado desde a Europa na luta entre
protestantes e católicos, até mesmo os padres virtuosos ou que cumpriam
suas obrigações religiosas com zelo desapareciam no meio dos erros dos outros. (17) A força do padre na América Latina levaria as pessoas da região a
vê-los, pelo menos lá atrás em sua história, como gente de alto calibre moral,
virtudes e sabedoria. Associado à sua força sobre as ações espirituais ter-se-ia
alguém com uma presença desproporcional perante os outros de uma comunidade. E se uma figura assim estava ligada ao Papa e a Roma a coisa seria
complicada para um país. E, para piorar, essa ligação era forte também com
a coroa espanhola ou portuguesa, uma situação nada boa para os habitantes
da América Latina. Aceites e crenças que vão se firmando no imaginário das
pessoas nos EUA.
Nos seus ataques à fé católica os protestantes condenavam também a
quantidade de entidades de caridade que a igreja mantinha. Diziam que o
excesso com essas ações acaba amolecendo o espírito de competição que
o indivíduo deve possuir, cada um deve buscar na competição o que lhe é
de direito. Uma crença como essa sugere que o sentido capitalista já estava na base daquela sociedade. O protestante norte-americano não aceitava
também a quantidade de festas religiosas, procissões e dias santos que havia
na América Latina. Seria quase barbarismo adorar santos em procissões e
cânticos pelas ruas de uma cidade. Achavam que os gastos com as festas
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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eram exagerados. Afirmam, com algum exagero, que isso seria um dos motivos para o não acúmulo de capital na região, as festas drenavam os poucos
recursos da área. Pagavam os ricos e também os menos ricos, e no final um
dinheiro que poderia ser aplicado em coisas mais produtivas para o progresso
da comunidade desaparecia nas festas aos santos. Para pessoas do protestantismo, seja da Europa ou dos EUA, era um absurdo povo na rua em procissão
ao lado da estátua de um santo numa festa religiosa que durava dias e ainda
com abuso de bebidas. Coisa de um mundo pagão, quase selvagem, agindo
assim a região seria contra o progresso material. (18)
O norte-americano defendia ainda que povo desenvolvido conquistava
o meio ambiente, derrubava florestas e construía riquezas. Não podiam aceitar um povo de religião que acreditava em forças da natureza, e, que se colocava perante ela com veneração. Essa atitude, levada por crença religiosa,
criaria um povo contemplativo, esperando que as coisas acontecessem. Não
se vai à luta para buscar na natureza, com suporte num Deus verdadeiro,
o que fosse necessário para o crescimento humano. (19) Dominar o meio
ambiente seria uma exigência de Deus; conquistar terras, matar animais,
tentar civilizar índios e, se não der certo, tirá-los do caminho da civilização.
A conquista da natureza a qualquer custo, que hoje seria condenada, estava estribada em arraigada crença religiosa. Essa maneira de encarar a vida
era aceita pela elite, e muito mais ainda pelo homem comum. Dominar o
meio ambiente seria uma espécie de renascer para a vida, característica do
protestantismo; que no catolicismo o batismo da pessoa já resolve isso, ela
renascia ali, não precisava mais de outro renascer. Os protestantes veem de
forma diferente, acham que renascer (born again) é um retorno às origens e
que, nessa conquista interior, o indivíduo pode caminhar para a perfeição, e
dominar o meio ambiente seria um dos instrumentos nessa busca. O latinoamericano, por sua incapacidade de conquistar e dominar terras, não teria a
chance de renascer outra vez. (20) Espichavam essa interpretação além da
conquista da terra: esse fato inculcaria no indivíduo deveres morais e senso
de propriedade. Sem esses valores não se chegaria à civilização.
Há ainda a ligação entre religião e avanço tecnológico. (21) Os protestantes, livres de ritos, santos, magias religiosas, aceitariam o progresso tecnológico. Seria, outra vez, desejo de Deus, e com esses instrumentos se podia
conquistar a natureza, o que daria acúmulo de riquezas e avanços na vida.
Deus queria que as pessoas vencessem nesta vida, não ficassem esperando
pela outra. Imagine um pastor protestante pregando que na Bíblia, nessa ou
naquela passagem, Deus estava dizendo que o que eles estavam fazendo seria
o correto. Quem não fizesse assim não estaria se fazendo merecedor de Deus
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nesta Terra e, como consequência, teria dificuldades para a outra vida. Era
um incentivo monumental ao avanço sobre novas terras.
Há, no caso, uma diferença entre o que pensava a gente da América
Latina e a dos EUA. A religião teria dado base para o que as duas partes
da América sejam até hoje. A colocação ou interpretação é dura e direta: a
religião na América Latina atrapalhava o progresso, o avanço tecnológico,
a conquista da natureza, o acúmulo de riqueza e propriedade. Não era uma
região que se desenvolveria economicamente. Daí muitos protestantes acreditarem que seria quase uma missão divina ajudar o povo deste pedaço do
mundo. Não fizeram nada disso, mas alguns alimentaram essa ideia de que
a igreja católica fracassara em ajudar o ser humano nesta vida, e que a saída
seria abraçar o protestantismo e suas supostas virtudes.
Continuam as diferentes análises sobre as religiões nas duas Américas.
Alexis de Tocqueville que, com seu livro, Democracia na América, virou
uma espécie de sumo sacerdote da interpretação dos EUA do século XIX,
(22) diz que a América do Norte foi povoada por pessoas que sacudiram antes a autoridade do Papa, e levou para aquele lugar uma forma nova de cristianismo que trazia bases de democracia. Essa forma nova contribui para se
criar a República e a democracia. Thomas Jefferson dizia (23) que a América
Latina tinha sido dominada pelo catolicismo, e que isso faz o latino-americano não estar preparado para governos representativos. Em 1817, momento
em que a América Latina se emancipava da Espanha e de Portugal, escreveu
que a região não estava preparada para a independência, eram incapazes de
se autogovernar e que os países cairiam nas mãos de militares déspotas.
Simon Bolívar tinha quase igual pensamento pelo que escreveu em 1830,
ano de sua morte. Achava que a região não estava preparada para governarse e que cairia em mãos de pequenos tiranos. Bolívar também acreditava nas
virtudes da cultura anglo-protestante e nos graves problemas da herança
ibero-católica. (24) Autores latino-americanos, como Domingo Faustino
Sarmiento, Francisco Miranda e Salvador Mandieta, ajudam na montagem
de uma América Latina complicada porque sua base cultural era católica,
não estaria preparada para ter bons governos se não mudasse seus costumes
e atitudes. Falavam que, quando na Inglaterra nascia a liberdade religiosa,
renovando as coisas do espírito, a Espanha estava fazendo o contrário, com
mais intolerância, inquisição e a forte presença dos jesuítas, e tudo em íntima relação com poderes seculares despóticos. Esses comentários eram lidos
e ouvidos nos EUA. Se muitos intelectuais da América Latina criticavam a
região, aumenta a percepção nos EUA de que se estava diante de um fato
verdadeiro, um caso quase perdido.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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James William Park também cita esses latino-americanos e outros como
o brasileiro Manoel José Bomfim, o argentino Carlos Octavio Bunge, o boliviano Alcides Arguedas e, o mais influente deles, o peruano Francisco Garcia Calderón. (25) Todos falando contra os males da América Latina, botando a maior parte da culpa na igreja católica e no tipo de colonização que
para cá veio, e fazendo paralelos com o que havia no norte do continente.
As ideias liberais entraram na região e já não havia tanto receio de se falar
da igreja; associado a essas mudanças havia ainda a aceitação dos princípios
positivistas que dominaram parte do período, e também o crescimento da
maçonaria na área. Os ataques ao atraso da América Latina centravam-se
no legado espanhol, que teve como suporte a igreja católica. Ela era o alvo.
O venezuelano Carlos Rangel dizia que a igreja católica é a maior culpada
pelo que a América Latina se transformou. (26) Faz comparação com a ética
protestante e a lassidão que ocorreu na região e reclama que isso não combinava com o mundo novo que surgia. Os protestantes defendiam a atuação
e o comportamento dos seus fiéis no dia a dia da vida, bastante diferente
daquele pregado pelo catolicismo. Cria na América Latina uma sociedade
de aparências, há uma permissividade que não há na outra religião. O ponto
de vista de Rangel contraria a teoria da dependência, a culpa pelos erros da
América Latina estava aqui mesmo. (27) Cita ainda a falta de estabilidade
política, a repressão, a presença de ditaduras, o enorme crescimento da população e as relações externas complicadas. Esses autores latino-americanos
escrevem que o período colonial foi uma época ruim na história regional.
Um lugar que tinha terras boas, mas que faltou orientação das pessoas que
saíram da Europa. Que, apanhados pela mistura de raça, clima e principalmente pelo domínio da igreja, não conseguiram fazer com que a América
Latina encontrasse um caminho que outros povos conseguiram. Falam em
“povo enfermo”, doença que não iria desaparecer facilmente. Usam quase os
mesmos argumentos que usavam os viajantes, missionários ou escritores dos
EUA sobre a região. Não tinha como o norte não ver a América Latina como
algo complicado mesmo.
O Destino Manifesto, um movimento que dominou os EUA nas décadas de 1830 e 1840, que deu a base teórica ao país para conquistar gente
e terras, como se verá mais à frente, mostra também a força da religião na
formação da crença de superioridade dos EUA sobre a América Latina. O
Destino Manifesto dizia que os anglo-saxões eram uma raça superior, a religião protestante a verdadeira e única e o caminho para o paraíso, governo
republicano dava liberdade civil aos seus cidadãos e com instituições liberais,
e o individualismo se chega ao sucesso. O Manifesto dá o toque “legal” de
20
Alfredo da Mota Menezes
que o povo branco norte-americano tem a obrigação cristã de regenerar povos atrasados, (28) uma justificativa para a expansão territorial. Buscava-se
na religião o instrumento legalizador da ação daquele país e, na crença do
período, seria um desejo de Deus. Se colocado no contexto da época, com
um povo que tinha a religião como parte íntima de vida, não é difícil perceber como agiriam para ocupar novas terras dentro e fora do país, e como isso
também ajuda a criar a imagem de diferença entre as duas partes da América
e que, apesar do tempo, ainda permanece na mente da maioria das pessoas
daquele país.
Raça
O índio na história dos EUA tem lugar de destaque, já estava ali quan-
do chegaram os brancos colonizadores. Foram deixados de lado por muitos
anos, depois houve a expansão para o oeste e veio o choque, uma civilização
conquistou a outra. Houve, por algum tempo, uma discussão nos EUA sobre
esse contato entre povos diferentes, uns achando que a cultura indígena,
sem malícia e ganância, era pura e mais perto do que queria Deus. A maioria, ao contrário, os vendo como barreira ao progresso. Os índios deviam ser
civilizados ou dizimados. Prevalece a ideia da conquista e afastamento deles
do caminho do desenvolvimento. Eram considerados pagãos e não preparados para crescerem economicamente, seres humanos de segunda categoria.
(29) Também os índios não gostam de trabalhar e as tarefas mais duras do
dia a dia seriam feitas pelas mulheres. O índio não acumulava riqueza e
isso estava em suas crenças religiosas. (30) São pobres mesmo vivendo em
lugares que poderiam fazê-los ricos por terem minérios ou terras boas para
plantios. Isso, na visão do norte-americano do período que acreditava no
princípio do homem dominar a natureza e se enriquecer dela, não era aceito.
Mas, para se chegar ao que ficou depois, houve antes choques e guerras, e
em algumas delas os índios levaram vantagens. Era até pior para eles quando
isso acontecia.
Os norte-americanos acham ainda que tiveram sorte em não encontrar
em seu território civilizações indígenas mais avançadas ou sedentárias, seus
índios eram nômades. Não se teve no norte que se conquistar um povo com
uma cultura maior e mais sedimentada, o que é mais complicado. Nos EUA
havia menos índio que no sul do continente, até isso é debitado como bênção divina. Em parte da América Latina ocorreu o contrário e os coloniza-
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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dores usavam essa mão-de-obra para a agricultura e minas, criaram a ligação
de dependência entre elite e trabalhadores.
Os índios e suas práticas foram associados com os latino-americanos.
A figura do mexicano da fronteira, com sua face índia, é a imagem dessa
associação. Ao associar os índios que estavam sendo conquistados nos EUA
aos latino-americanos põem, outra vez, a culpa na religião católica pelo que
acontecia na América Latina. Santos, divindades, festas religiosas, ídolos pagãos, seriam comuns a índios e latino-americanos. Com tudo isso e ainda
a proximidade racial colocam os dois povos praticamente no mesmo nível.
Foi no século XIX, na época da corrida do ouro nos EUA, que ocorreu um
contato maior de gente desse país com uma parte da América Latina, basicamente com os mexicanos. Estavam na fronteira, reagiam às vezes, havia
choques e lutas. Havia, como ocorreu depois com os negros no sul dos EUA,
linchamento de mexicanos, um fato normal, não havia punição. Como destruíam os índios, os norte-americanos se achavam no direito de fazer o mesmo com os mexicanos. Daí a colocar todos os latino-americanos no mesmo
patamar não foi difícil.
Na Califórnia antiga os recém-chegados ainda distinguiam entre os californianos mais abastados, de ascendência espanhola, daqueles mais pobres.
Não demorou muito e o norte-americano daquela época, com alguma ascendência inglesa, estendeu seu tom pejorativo para os donos de minas ou
para os californianos “brancos”. Os que chegavam queriam tirar o poder
econômico e político deles, apropriar-se de tudo naquela área, e nada mais
conveniente do que colocar nos habitantes dali estereótipos até mesmo raciais. Começa a saga de discriminar os mexicanos, e isso vai se estender aos
poucos para o resto da América Latina. Desvalorizar a pessoa e seu comportamento ajuda os objetivos políticos e econômicos desse ou daquele grupo,
nesse ou naquele lugar. Para a maior parte da população dos EUA tudo seria
feito com suporte num suposto apoio de Deus que seria a favor de progresso
e transformador do meio ambiente, e não o contrário, como nos casos dos
índios e latino-americanos.
Outro ataque aos mexicanos extensivo aos latino-americanos de forma
geral foi contra o mestiço. O norte-americano logo apelida gente da região
de fronteira como greaser ou, além de raça misturada, sujo e gordurento. (31)
Nos primeiros filmes de Hollywood, ainda no cinema mudo, em que aparecem mexicanos, todos os títulos originais tinham a palavra greaser. A mistura
de raça ou o mestiço seria uma degeneração racial, acreditava o norte-americano. As colocações sobre essa “gente de cor”, não brancos, são sempre depreciativas. Praticamente todos os escritos daquele período também punham
22
Alfredo da Mota Menezes
os latino-americanos, no caso os mexicanos, como um povo indolente, sem
vontade de crescer na vida, feio, com moral baixo e não confiável. (32) Imagine o que pensaria da região o homem comum daquele país lendo os escritos
de gente que viajou ou teve contato com os mexicanos. O norte-americano
não entendia também o abandono com as fronteiras, pouco habitada e sem
estradas, o que demonstraria um povo despreparado para enfrentar o progresso e levar riqueza para sua gente. Carimbam os latino-americanos como
primitivos; se comparado com a gente do norte, era a civilização contra os
bárbaros mais ao sul.
Escritos da época (33) pintam um monte de características para mostrar que índios, mestiços e latino-americanos seriam iguais. Eram contra o
progresso, deviam dar espaço a povos mais competitivos e trabalhadores.
Esse aspecto depreciativo nos escritos sobre os mexicanos, com base índia e
mestiça, que se estende aos latino-americanos, será reforçado com os relatórios feitos por norte-americanos viajando por outros lugares da área. Cria-se
a imagem de que a América Latina era mesmo atrasada. Uma preocupação
que eles deveriam ter ou poderiam ser levados a se nivelar com o povo mais
primitivo ao sul. Tem autor que levanta a hipótese de que talvez os EUA
não tenham tomado todo México na sequência da guerra entre os dois países de 1848 porque a maioria da população dali era mestiça. Poderiam ser
regenerados? Quanto tempo isso tomaria? Nesse meio tempo, qual seria o
status dessa gente dentro dos EUA? Quais as consequências que a absorção
desse povo teria nas instituições norte- americanas? O mestiço ou latinoamericano nunca mais se recuperou nos EUA dessa antiga vitimização. (34)
A questão de raça, o desprezo pelo mestiço, empurra os EUA para longe
das coisas da América Latina. A pergunta se os mestiços poderiam ser ou
não regenerados é muito forte nas relações entre os dois povos. Olhado por
esse ângulo não será fácil haver entendimento maior dos norte-americanos
com os latino-americanos. Os anos básicos para a formação dos estereótipos
sobre a América Latina nos EUA vão de 1830 a 1860, há mais de um século
e meio, portanto.
Há uma quantidade enorme de livros, artigos de jornais, peças de teatro, poemas, relatórios de viajantes e diplomatas para mostrar como os EUA
naquele momento olhavam para a América Latina. (35) O mestiço, base
da população latina americana, foi caracterizado como preguiçoso, ingovernável e que aceita tirania. Motivos, entre outros, que impediam a América
Latina de se modernizar e ter uma sociedade mais estável. No final do século
XIX e início do XX, é preciso reforçar, se falava muito nessa questão de mistura de raça. (36) Não havia ainda a preocupação de hoje em disfarçar esse
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
23
tema. Havia lugares nos EUA que proibiam em lei que houvesse união entre
raças diferentes. O pouco que houve ali foi na longínqua fronteira entre alguns brancos e índios, fato considerado anormal. Talvez possa ser dito que o
mestiço tenha sido mais vitimizado pelos EUA que o índio. Ao redor deste,
depois de sua quase dizimação, ainda se levantam alguns pontos positivos.
Sobre o mestiço o ataque é constante. Teses “científicas” (37) diziam que
crianças que nasciam de pais mestiços herdavam as piores qualidades deles
e sepultavam suas virtudes. Pessoas nos EUA, mais tarde, se recusavam a
ver como igual gente que eles classificam como resultado de mistura de raça
(38). Apareciam livros que pregavam verdades absolutas sobre a questão da
raça e que influenciavam o governo dos EUA e a maioria da nação. Falam da
mistura de raça na América Latina como gente de classe inferior e dominada
por uma igreja católica corrupta. (39)
A imigração nos EUA estava crescendo e como uma reação a esses novos habitantes o assunto racial se mostrou ainda mais agudo. Alguns arguiam
que os EUA estavam recebendo gente nada melhor do que os mexicanos,
ou que o norte-americano estaria perdendo sua pureza, degenerando-se por
causa do grande número de imigrantes inferiores. Como não estavam gostando da qualidade dos imigrantes que chegavam ali, colocavam-nos na escala
dos mexicanos, que para muitos estava no pé da pirâmide racial. (40) Gente
dali não acreditava que Brasil e Argentina, que estavam recebendo grande
número de imigrantes, pudessem melhorar a situação social desses países. E,
para piorar, esses imigrantes seriam de qualidade europeia inferior, (41) portugueses e espanhóis não poderiam ser comparados com os anglo-saxônicos,
não tinham a energia e a força de vontade do outro. Na união desse povo de
qualidade inferior da Europa com índios e negros tem-se a fotografia como
os EUA viam os povos abaixo do Rio Grande, foi cristalizando na mente das
pessoas dali como verdade. Em certos círculos nos EUA a mistura de raça
foi vista de forma pior que o índio puro ou mesmo o negro sem mistura. O
futuro do México estaria mais na pureza do sangue índio do que na mistura
racial, pois pessoa de sangue misturado não tinha condições nem mesmo de
governar a si mesmo. (42)
A Revolução Mexicana (1911) engolfou o país em longa luta. Havia
também em países da América Central e do Caribe acontecimentos revolucionários paralelos, em tamanhos e calibres diferentes. Fatos que levam
os norte-americanos a acreditarem que gente com mistura de sangue não
conseguia se autogovernar. Ao descrever a Revolução Mexicana para uma
revista dos EUA, alguém dizia que o mexicano era descendente de aventureiros espanhóis e índios, onde pontua a falta de coragem de um, a traição
24
Alfredo da Mota Menezes
do outro e a crueldade de ambos. (43) A situação do mexicano nos EUA se
mostrava complicada desde o início do contato entre os dois povos e não diminuiu muito ao longo dos anos. Em 1928, por exemplo, fez-se uma pesquisa
de opinião pública naquele país sobre eles. (44) Somente 28% concordavam
de casamento entre os dois povos, mais de 15% opinavam pela total exclusão da entrada de mexicanos nos EUA. Isso quando o país recebia muitos
estrangeiros e precisava de mão-de-obra em abundância. Entre 23 grupos
étnicos citados, o México ficou em 17º lugar, à frente somente dos chineses,
dos japoneses, dos negros, dos mulatos, dos índios e dos turcos.
Não ficavam apenas nos escritos de viajantes e diplomatas as histórias
negativas sobre a América Latina, também as revistas nos EUA as contavam.
Jovem norte-americana, descrita quase como uma santa, foi estuprada por
um mexicano na época da Revolução Mexicana. A maneira como é descrito
o tal ato é de fazer qualquer norte-americano querer matar qualquer mexicano que encontrasse pela frente. (45) Pior ainda foram os romances sobre
a região. A ficção ou as histórias contadas sobre um caso aumentavam ainda
mais os estereótipos sobre a América Latina na mente dos norte-americanos.
Numa ficção cabe tudo, e esse tudo quando se falava da região era aumentado ao máximo para se criar uma imagem de algo quase fora da realidade do
homem branco. E se repetiam, agora em forma de algum conto, as falas sobre
um povo preguiçoso e cruel, voltado para bebidas e sexo, dominado por igreja
e governos corruptos. Não se apaga uma imagem dessas do dia para a noite.
Há uma ascendência do homem na sociedade norte-americana. A América Latina também, mas não havia nem nesse aspecto nenhuma possibilidade de aproximação ou identidade. Eles viam aquela superioridade do homem
da região com olhos diferentes, eram indivíduos de origem europeia misturados com índios ou negros. Havia o domínio do homem, mas o tipo que
o norte-americano não aceitava. (46) Os espanhóis e os portugueses eram
considerados os mais atrasados da Europa na visão anglo-saxônica, caracterizados como autoritários, e não professavam os princípios do liberalismo
econômico. Na América Latina, devido à quantidade de índios e depois de
negros, houve enorme miscigenação. Os norte-americanos achavam que os
portugueses, os espanhóis e até os franceses aceitavam a miscigenação, e que
a mistura de raça gera outra mais feia fisicamente, intelectualmente inferior
e com tendência à degradação moral. Diziam ainda que mesmo os brancos
colonizadores da América Latina tinham amantes índias ou negras, e que
as esposas permitiam. Se o latino-americano não controla essas paixões e
emoções seria uma demonstração de que não dominava a si mesmo. Essa
irresponsabilidade seria contrária aos preceitos de um povo civilizado. (47)
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
25
Muitos americanos aceitavam a mistura cultural e não racial, (48) culturas diferentes em contato podem influenciar uma a outra, e seria normal
e aceito. O negro ou o índio teriam coisas boas que seriam assimiladas pelos
brancos e formando uma só cultura dentro do país, mas nada de incentivar
a união sexual ou o casamento entre raças diferentes. Seja por essas criações
do século passado ou desde o início da colonização dali, seja por discriminação em lei, nos EUA, até os dias atuais, é pequeno o número de casamentos
entre brancos e negros ou índios, há poucos mestiços ou mulatos na sociedade daquele país.
Não se circunscreve ao mestiço e ao índio as ideias raciais nos EUA, o
negro foi também visto de forma torta. Como em parte da América Latina
a presença negra era forte criam-se naquele país mais distorções raciais entre os dois lados do continente. Falas discriminatórias com outras raças são
também dirigidas aos negros. (49) Teorias raciais mostravam que os negros
tinham inteligência inferior, não aptidão para a educação, propensão para
corrupção e uma tendência para comportamento violento. (50) Não foi difícil transferir essa ojeriza do negro dali ao da América Latina. Nas charges
sobre a América Latina (51) o nosso negro, quando falava, usava os termos
do quase dialeto negro do sul dos EUA. Juntaram tudo num só.
É interessante essa oscilação interna dos EUA para caracterizar a América Latina. Num momento o índio, quando o país estava concluindo a conquista desse povo, foi alcunhado de todo o mal que havia na espécie humana. Nos contatos com os mexicanos na fronteira, o mestiço, parte maior do
país vizinho, é vestido das piores qualidades, culpa-o por praticamente todos
os males da humanidade. Quando a questão racial está no auge dentro dos
EUA, em que o negro é o centro do mal, a América Latina passa a ser caracterizada como “república de negros”. (52)
A ação racial nos EUA contra os negros baseava-se em estranhas descobertas científicas. Aceitavam-se teorias que dão base ao racismo ou que
uma raça é superior à outra. Testes usados pelo Exército dos EUA durante a I
Guerra mostravam a disparidade entre os grupos étnicos (53) com os brancos
tendo uma superioridade inata. Outro estudo foi sobre o tamanho do crânio.
O dos brancos era maior, seria mais inteligente, (54) e o do negro era menor,
sinal de inferioridade dessa raça. Pela teoria do tamanho do crânio a supremacia branca passou a ser indiscutível. Havia, no caso, uma prova científica.
Aumentou o racismo contra o negro e a América Latina tinha população
negra, a transferência dessa suposta superioridade passou os limites da fronteira daquele país. Com tal suporte, associado ao momento econômico dos
EUA, tinha-se a base para o expansionismo externo que ocorreu entre 1898,
26
Alfredo da Mota Menezes
fim da guerra contra a Espanha, até o final da década de 1920, pouco antes
da Depressão Econômica por que passou o país. (55) Antes, na conquista do
oeste e do território mexicano, a base tinha sido o Destino Manifesto. Mais
tarde, estribados em teorias raciais do período, marcharão para a América
Latina de negros, índios e mestiços.
Outros fatores ainda ajudam na discriminação contra os latino-americanos nos EUA. A Lenda Negra, que nasceu na Inglaterra e foi exportada para
sua colônia no Novo Mundo, é um deles. Essa criação foi destinada na Europa
à Espanha católica, havia uma disputa entre as duas nações e a Lenda Negra
servia aos interesses britânicos. A atuação dos espanhóis na América Latina
com os índios foi mostrada como ato de um povo cruel. As cartas do jesuíta
Bartolomeu de las Casas denunciando a ação dos encomenderos ou grandes
proprietários rurais contra os índios ajudaram na montagem da equação de
que os espanhóis eram bárbaros. Foi fácil transferir essa concepção para os
EUA colonial e até pós-colonial no seu relacionamento com a Espanha e suas
possessões na América. E, mais tarde, na guerra contra a Espanha pela independência de Cuba, o aspecto negativo levantado lá na Europa foi aumentado e passado para as colônias espanholas. Não atacava só os descendentes de
índios, a Lenda Negra atacava também a elite espanhola na região.
Como mais um resultado da Lenda Negra, os norte-americanos dizem,
com ou sem razão, que o povo e até mesmo a elite da área não tem firmeza
ideológica. (56) Muda de opinião perante fatos políticos muito rapidamente,
não haveria uma definição clara na região sobre qual é a forma de governo
correta e definitiva, fica-se pulando de um sistema para outro. E que também
não haveria firmeza na escolha do modelo econômico a seguir. Essa indefinição sobre modelo ou sistema político e econômico gasta tempo e energia
da nação, um dos motivos dos tantos desacertos da América Latina. Tudo
isso fazia parte do caráter espanhol que emigrou para a América Latina. A
Lenda Negra (57) dizia ainda que se tratava de um povo sem responsabilidade, contra o progresso, aceitava governos autoritários e taxas e impostos
criados de cima para baixo. Que deveria haver sempre alguém com mão
forte para governar, e los de abajo aceitavam e algumas vezes se revoltavam,
provocando desassossego político constante. A elite para tirar proveito do
Estado aceita governos fortes, com suporte nas forças armadas e ataques
às liberdades individuais. Que os espanhóis nunca acreditaram no trabalho
árduo, outros fariam os serviços para eles. A Lenda Negra ia, portanto, além
da crueldade do povo espanhol.
O latino-americano tem ainda a mania de transferir para amanhã suas
obrigações. É um dos estereótipos que mais ficou sobre o povo da região,
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
27
sempre se fala que vai resolver as coisas “mañana” ou amanhã. É a terra do
amanhã, (58) ou que nada se resolve na hora, protela-se para outro dia e
esse outro dia pode não chegar nunca. Não seria nunca, na interpretação
levantada, um povo próspero.
Com criações como as da Lenda Negra e tantas outras, mostradas para um
povo ainda não muito educado, percebe-se o enorme fosso que abrirá entre
o norte e o sul do continente. O latino-americano seria totalmente diferente
do que eles eram. Não dava liga, portanto. Começou a diferença entre “nós”
e “eles”. Os norte-americanos são mostrados como honestos, trabalhadores,
pragmáticos, frugais ou a lista completa das “virtudes” da ética protestante.
O “outro” praticaria o inverso dela. Sempre a disputa entre as religiões: uma
correta, a outra cheia de erros e vícios. A crença era que os anglo-saxônicos
sabem controlar e ditar seu destino, o latino-americano não. (59)
Mais tarde pessoas nos EUA começam a fazer distinção entre os latinoamericanos: que nem todos eram iguais àqueles no imaginário da maior parte
da população daquele país, havia diferenças. Haveria na América Latina
gente com educação e conhecimentos acima da média dos estratos mais
baixos da sociedade. Até mesmo diferença entre países da região apareceu.
Theodore Roosevelt, em suas andanças pelo Brasil e pelo Chile, dizia que
esses países se mostravam diferentes dos do Caribe e da América Central. Ele
foi o criador do corolário à Doutrina Monroe, que previa, entre outras coisas, “educar” povos atrasados naquelas regiões mais próximas dos EUA. Ele,
Roosevelt, apenas para não perder a oportunidade de um gancho com uma
personalidade importante daquele país, e também para mostrar como as pessoas e até países se adaptam a circunstâncias novas, no início do século XX,
defendia a não destruição do meio ambiente. Num estágio da vida dele fora
o contrário: defendia o domínio do homem sobre a natureza. Depois de ter
sido presidente e de ter criado alguns parques nacionais nos EUA, e ter feito
viagens pela África e pela América do Sul, começou a defender o contrário
do que pensava antes. (60) Aceitava até mesmo que o nascer outra vez,
tão falado na religião protestante, seria a defesa do meio ambiente. Numa
mudança de rumo interessante passou a defender que futuras gerações se
renovariam espiritualmente dessa maneira.
O ponto de vista, como o de Roosevelt, de que havia diferenças entre
pessoas e também entre países na América Latina ficava circunscrito a certos
círculos dos EUA, não foi regra nacional. A maior parte da população dali
olhava a América Latina da maneira de sempre. E mesmo os que olhavam a
região de forma diferente, fazendo distinção entre elite e massas e entre países, logo perguntavam se essa elite estava fazendo seu dever de casa. É que os
28
Alfredo da Mota Menezes
EUA cresciam economicamente, aumentando sua classe média e na América Latina não ocorria o mesmo. A pobreza era uma característica marcante,
aliás, até hoje. A maior igualdade da região está na impressionante similitude
na pobreza. Quando se pensava que alguns nos EUA iriam influenciar outros
de que havia duas Américas Latinas, uma mais culta e que deveria ser respeitada e outra maioria pobre, lá cresciam no mesmo momento os ataques à
ineficiência da elite regional. Sua única “sabedoria” seria manter os pobres
em seus lugares com o auxílio da igreja católica. As massas, no geral, eram
obedientes às regras criadas pela elite, nem mesmo lutavam para ter ganhos
materiais maiores. Ser pobre não seria problema, o que importava era a outra
vida. A ligação povo-elite foi no sentido paternalista, do compadrio, de que
os de cima ajudam os mais pobres se estes cumprirem atos de lealdade ao
patrón. Era a região do sin senõr, patrón.
A classe dominante na América Latina sabia como controlar e manter
em situação quase de servo os mestiços, índios, negros e mulatos da região.
Ascender socialmente não era uma tarefa fácil, chocava com o ponto de
vista dominante nos EUA de que o ser humano tem que crescer na vida, ser
bem sucedido. Esta busca é que faria o país melhorar economicamente, e não
uma sociedade estática como se via mais abaixo do Rio Grande. Tem autor
(61) que diz, exagerando um pouco, que a elite latino-americana conseguia
convencer pessoas de que deveriam se libertar de ganhos materiais e para se
preocuparem com outras virtudes da vida como arte, literatura ou música
clássica. Que essas conquistas não materiais fariam as pessoas ser mais perfeitas e até mesmo felizes. No lado mais prático da vida regional, se isso ocorresse, a elite teria sempre um povo que não a contestava, tendia a aceitar uma
situação que era benéfica, como ainda é, aos mais afortunados da vida.
Como ocorrera no final do século XIX, depois da I Guerra, já no outro
século, os EUA receberam um número grande de imigrantes, como antes continuam a aparecer teorias que procuravam mostrar a superioridade da raça
branca. Negros, índios, latinos e povos eslávicos seriam de segunda categoria,
o racismo naquele país subiu para outro patamar. Crescem ainda o antissemitismo e anticatolicismo. Se a maior parte dos imigrantes não era mais de
ingleses ou nórdicos, se eram italianos do sul ou judeus, juntaram todos num
mesmo barco, e apoiados em teses raciais atacavam esses imigrantes e suas
bases religiosas. Como já acontecera em outras manifestações locais, colocase o latino-americano dentro dessa nova onda nacional. Se havia alguns que
achavam que havia alguma diferença entre pessoas na região, que havia uma
elite culta, a maioria não pensava assim. E quando ocorriam fatos negativos
nos EUA não seria culpa do homem branco, sempre culpavam os outros pelos
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
29
erros. Droga e álcool são coisas de negros, latino-americanos e imigrantes,
os verdadeiros EUA não. Houve até proibição do álcool no país, e quando
voltaram atrás culpavam os estrangeiros pelo fracasso da tentativa e não o
norte-americano. (62) Os de fora é que ameaçavam os valores do país.
O que se percebe nas publicações, sermões em igrejas, discursos no
parlamento ou em diferentes manifestações daquele período é que se foram
criando as bases para a expansão externa dos EUA. Deus, religião, progresso,
tecnologia, dominar a natureza, criar e acumular riqueza, ter propriedade
privada, ajudar povos atrasados a crescer, ganhar mais dinheiro e, mais tarde,
entra o aspecto da segurança, fatores que empurram aquele país à sua conquista externa. A raça superior, na visão local, tinha o direito de se impor às
outras, expandindo a teoria de Charles Darwin para o plano das nações. Na
era intervencionista (63) na América Latina, os EUA acreditavam que o país
poderia ajudar a civilizá-la. Uma atuação planejada e de longo prazo, acreditavam alguns, poderia melhorar esse povo. Mas logo surgem comentários
que iam em direção diferente. Se os EUA não tiveram sucesso em civilizar
os índios do país depois de anos de conquistas, como é que queriam fazer
isso com povo diferente e longe de casa? Como fazer a tal americanização
de outros povos? Além disso, o chamado “imperialismo civilizador” deveria concordar com um período de protetorado paternalista, mais educação
formal para o povo desse ou daquele lugar. Não faz parte da cultura daquele
país ser paternalista, é contra o comportamento da nação. Gastar dinheiro,
tempo, educação, ação militar para segurar movimentação social e ser ainda
dócil e paternalista não está escrito no livro que guia o país.
Clima
O clima é também citado como motivo para maior ou menor desenvolvi-
mento dos EUA e da América Latina. Argúi-se que a maior parte dos países
ricos está em clima temperado, o contrário ocorre com os países pobres, quase todos estão em clima tropical. Os habitantes de climas mais frios teriam
que trabalhar mais porque têm menos tempo para plantar e colher. O frio
encurta esse tempo, precisam encontrar meios para se aquecer no inverno.
Só com trabalho duro e poupança se pode ter isso, e que, ainda, por enfrentar situação climática adversa, a cooperação se dá entre os habitantes de
uma mesma região. Cresce o sentido comunitário, diferente do que ocorre
na América Latina em que falta essa cooperação. O clima na América Latina
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não incentivaria o trabalho duro, poder-se-ia ter colheita quase o ano todo
e até mesmo se poderia encontrar alimento que cresce naturalmente sem
plantar. Um fato que ajudaria a aumentar a indolência e esse tipo de meio
ambiente ainda facilita no aparecimento de doenças. Mas e os países que
possuem clima temperado como o Chile, a Argentina e o Uruguai? Esses não
passaram para um patamar maior de crescimento econômico porque, além
do clima, outros motivos, como a cultura de cada povo, os puxariam para o
subdesenvolvimento. (64)
O clima teria sido mais favorável aos imigrantes do norte, (65) que
chegavam numa terra que tinha um clima mais parecido àquele a que estavam acostumados na Europa, diferente dos portugueses e dos espanhóis
que encontram um clima tropical e diverso do que viviam na mãe pátria.
A produção econômica também ajudaria mais aos que foram para os EUA,
iriam produzir bens no campo mais parecidos com o que haviam produzido
antes na Europa. Os portugueses e os espanhóis tiveram que se adaptar a
uma região com clima diferente e, no caso, tinham que produzir aquilo que
era possível em tal situação climática. A comida dos dois lados também se
mostrava mais favorável aos que chegavam aos EUA, ali se produzia e consumia o que era comum na Europa. Na América Latina a adaptação alimentar
foi mais acentuada com a aceitação do que se poderia produzir numa região
climaticamente diferente da Europa.
James William Park cita inúmeros estudos e relatos de viajantes sobre
a questão do clima na América Latina. Argúem que a maioria dos latinoamericanos vive nos trópicos, e por causa disso não tinha condições para o
progresso. Aparece sempre o argumento de que o clima ajuda na estagnação
da América Latina, e que a vida era tão fácil que pouco esforço seria suficiente para se viver em tal região. O autor cita viajantes que escrevem que as
casas não tinham conforto, usava-se pouca roupa, não se precisava de fogo
para aquecer, e com a facilidade de conseguir alimentos dava para entender
por que o povo da área não se preocupava tanto em trabalhar. Se colocado
diante da ética protestante do trabalho, necessário para crescer nesta vida,
mesmo querendo dizer que a América Latina seria quase um paraíso, o que
depreende dessas colocações é o inverso, a região criaria indolentes. O clima
também influenciaria no modo de fazer política. O clima quente e úmido da
América Latina criava um povo incapaz de se autogovernar. Clima, beleza
natural e falta de vontade de trabalhar produzem, portanto, um povo ineficiente, se comparado com aqueles de climas temperados. O clima também
levava a população local para uma espécie de degeneração moral, afirmavam
que havia evidências de que o organismo humano era afetado nos trópicos e
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
31
que isso influía nos aspectos morais de uma sociedade. Que a busca por sexo
por parte dos homens quase desde a adolescência é porque o clima tropical
leva a isso. Afirmam que o homem branco seria bastante afetado pelo clima
dos trópicos. Quando na região, por mais que quisesse manter seu estilo do
exterior, passa a beber mais e trabalhar menos.
Em 1915, um professor de Yale, Ellsworth Huntington, publicou um livro, Civilization and Climate, (66) onde defende bases “científicas” de que
quem vive nos trópicos não tem jeito de crescer na vida. Ele argúi que clima não é o único fator para o atraso, mas é um dos mais essenciais para se
entender essa situação. Ele pontua que o clima uniforme através do ano é
enervante, não tem meio-termo em dizer que a raça branca era superior
às outras e que as raças nativas dos trópicos são lentas para pensar e agir.
Assevera que o homem branco, quando vive nos trópicos, tende a ser mais
irascível, desejar mais sexo e trabalhar menos. Se o homem branco quisesse
trabalhar duramente como faz em sua terra acabaria tendo problemas graves
de saúde. Escrito por alguém de uma universidade de respeito, passa a ser
visto como verdade.
A análise do clima como um dos motivos para o atraso da região e não
propício para o crescimento da raça humana tem colocações estranhas. Há
na América Latina áreas temperadas nos Andes, por exemplo. Mas a alta
altitude traria outros problemas para o homem, principalmente o branco.
O ar rarefeito em cidade como a Cidade do México levaria à preguiça, à
não vontade de trabalhar. Também lá, por causa do clima diferente, ter-seira uma população fraca que aceitava governos opressivos e sem os valores
cívicos. (67) Nesse país, como também na Colômbia, no Chile, no Equador,
no Peru, na Bolívia, na época do verão, a transformação das pessoas seria tão
grande que nada que fizessem de extravagante era julgado errado. Tudo por
causa do clima e, no caso, de uma região não tropical, mas temperada. Mas
a altitude também levava as pessoas a uma situação humana pior que em
outros lugares. Não havia escapatória para a região nesse tipo de análise: se
tropical ou se temperada.
Continuam as interpretações sobre a região e o clima. O ar rarefeito das
cidades em alta altitude ataca quem trabalha mais de quatro horas por dia,
sintomas aparecem como falta de apetite, insônia, inexplicável nervosismo,
podendo chegar até à loucura. (68) A crença que fica com tantos entendidos
falando sobre o assunto é que o clima na América Latina não ajuda em nada
no crescimento do ser humano. O clima, nessas interpretações, traz tudo
o que não presta ou, em outras palavras, tudo o que era contrário à ética
protestante que dominava a cena norte-americana. É impressionante como
32
Alfredo da Mota Menezes
o contraponto do que era correto lá é citado como incorreto na América
Latina. Um oposto ao outro, um lado com o bem o outro com o mal. E até
o clima ajudava a fazer essa diferença na visão dos norte-americanos. É o
“outro” até mesmo na questão climática.
Doenças tropicais também foram uma preocupação, mas, depois que
os EUA aprenderam a se defender em Cuba e na construção do Canal do
Panamá, ela não entra no imaginário popular de maneira tão forte como o
clima tropical em si. O que fica mesmo é a questão do clima. O calor excessivo, a monotonia da temperatura o ano inteiro e a exposição constante ao
sol seriam um perigo que o homem branco deveria evitar. E como os latinoamericanos viviam numa região como essa, seu futuro seria complicado.
Capítulo II
u
A América Latina Criada pelos EUA
São variadas as causas encontradas nos EUA para justificar as diferenças entre
os dois povos da América; pouca coisa prestava na América Latina. Nessas
circunstâncias não é difícil criar uma imagem distorcida do povo e da região.
Primeiro os mexicanos, depois todos latino-americanos. Um autor mostra com
mais detalhes (1) o que o país do norte pensava a respeito do tabaco, do álcool,
do sexo, das emoções, da classe média e outros ingredientes que, na visão daquele povo, os diferenciava do outro mais ao sul do continente. Quando se fala
no “outro” sempre se tem como base a tese de Edward Said sobre esse assunto.
Uma das diferenças entre os dois povos, no século XIX e início do seguinte, é que os EUA eram o que eram porque tinham uma classe média.
Acreditavam que o homem de sucesso nasce numa classe média, o problema
da América Latina é que não havia essa classe. Tinha gente nos EUA achando que um dia a América Latina mudaria, quando crescesse sua classe média.
(2) Livros naquele país mostravam que um dos graves problemas da América
Latina estava na inexistência dessa classe ou aquele ingrediente crucial para
a democracia. (3) Na América Latina, de acordo com essa teoria, havia os
ricos e a massa pobre. Não havia praticamente nada no meio, e que esse
meio é que dava o tempero social a um país. Também o norte-americano, diferente dos europeus, não teve que lutar contra algum tipo de aristocracia ou
temer as pessoas mais pobres, ficou mais fácil a mobilidade social no país. Os
norte-americanos daquele período, muitos escolados com os acontecimentos
sociais na Europa, se colocavam contra atitudes aristocráticas, característica
de parte da elite da América Latina. Também olhavam enviesados para a
classe mais baixa com receio de que houvesse, como houve na Europa, levantamentos que lhes tirassem bens e propriedades. Essa indisposição se encaixa no modelo que estavam mentalmente criando para a América Latina:
uma pequena elite controlando uma enorme massa de despossuídos.
34
Alfredo da Mota Menezes
Outra diferença com a gente mais ao sul, como já mencionado, é que
o norte-americano dava valor a conquistar a natureza ou o meio ambiente.
Falavam que os latino-americanos vivem em contemplação com a natureza,
não a conquista, não a transforma em riqueza. Chegavam a dizer que a democracia só pode florir no lugar de povo que tem o poder e o desejo de conquistar
a natureza. Não seria o caso da América Latina e suas luxuriantes florestas e
áreas ainda não conquistadas. Essa teoria de conquistar a qualquer preço da
natureza, de derrubar selva e florestas, hoje, com um mundo em defesa do
meio ambiente, se mostra estranha. Mas não naquele tempo. Sobrepor-se à
natureza era uma crença de engrandecimento de um povo. Mais um ponto a
favor deles e, na interpretação de lá, negativo para a região mais ao sul.
O norte-americano estava influenciado pelo rigor puritano da era vitoriana, e um dos atos defendidos seria a sublimação sexual, que se deveria
ter sexo para a procriação, não com licenciosidade, do prazer da carne, seria
contra os ensinamentos religiosos. Homem e mulher deviam controlar esse
instinto, se a pessoa não podia ter esse controle não podia controlar-se em
outras coisas da vida. Chegavam a dizer que atividade sexual excessiva resultaria em degeneração da raça e caminho para o barbarismo. Alguém que só
pensa em sexo, ao abusar dele, poderia ter atingido seu crescimento intelectual, retardaria o aperfeiçoamento interior de uma pessoa. Se isso era dito a
respeito do sexo pelo lado do homem, imagine como uma sociedade puritana
via tal ação por parte das mulheres. Elas deviam ser puras, não lascivas, fazer
sexo, se possível sem prazer, apenas, como queriam Deus e a natureza, para
procriação. Mesmo dentro dos EUA haveria distinção, mais para o sul do país,
onde estava a maioria dos negros escravos, havia uma tendência maior para
o sexo que levava o povo dali mais para o atraso social e econômico. Colocar
mais essa qualidade nos latino-americanos não foi difícil. Mais para o sul do
continente a licenciosidade fazia parte do aspecto selvagem da região. Povo
educado, era a ideia, controlava seus instintos, povo atrasado vivia disso.
Faziam também comparação da América Latina com os índios que estavam sendo conquistados nos EUA pelos brancos mais civilizados. Nas tribos
seria comum o sexo além do limite. Não entendiam por que crianças mexicanas andavam peladas em suas comunidades, atitude ultrajante na visão
do puritano norte-americano, sinal de decadência. As mulheres mexicanas
se vestiam com roupas leves e coloridas. Os viajantes, soldados, escritores,
missionários não olhavam se a temperatura, diferente do frio do norte, seria
adequada para se estar daquela maneira. O que se via era um suposto povo
bárbaro estimulado para o sexo nos seus menores gestos e atitudes, um povo
assim não podia progredir material e moralmente. Até mesmo o corpo das me-
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
35
xicanas, por serem mais corpulentos, foi motivo de críticas, a obesidade seria
característica da mulher dali e de toda a América Latina quando chegavam
à meia idade. Criam estereótipos e põem quase sempre que Deus protegia as
pessoas do norte por causa de suas crenças, comportamentos e atitudes.
Para os puritanos da época, fumar, ser possuído pela nicotina, não seria
correto. Associavam nicotina com sexo: uma mulher fumar seria o mesmo
que se oferecer como prostituta. Chocolate, pimenta, cafeína, outros produtos da América Latina, os também seriam coisas ruins, ajudavam na degradação da população regional. Visto pelo prisma atual, mesmo norte-americano,
parece até um deboche. Tomando a questão da cocaína como exemplo, outra
produção da área, o norte americano passou a ser o maior consumidor do
mundo. Se nicotina e cafeína ajudavam na depravação de povos e os tornavam mais lascivos sexualmente, imagine o uso hoje pelos jovens do país do
norte da quantidade de cocaína e também de cafeína ou chocolates.
Outro ataque no comportamento latino-americano foi sobre o consumo
de álcool. Apesar de nos EUA ter muita gente que o usava, eram considerados de categoria humana inferior. Os puritanos de lá achavam que tinham
o controle sobre esse mal, quem não o controlasse não demonstraria ter a
força necessária para controlar outras coisas da vida, não estaria em condições de sobrepor-se à natureza, ganhar dinheiro e merecimento perante
Deus por essas conquistas. Na visão das pessoas daquela época o consumo de
álcool pelos mexicanos, seja homem ou mulher, seria quase um fato natural.
Associam esse consumo aos costumes dos indígenas nos EUA, e traçam um
perfil negativo da região. Álcool leva ao sexo em demasia, ao jogo, às brigas e querelas e a comportamentos inadequados em público. A pessoa tem
que ser recatada, ter ojeriza a exibições públicas, não pode extrapolar seus
sentimentos na frente dos outros. O álcool levaria a perder esse pudor. Os
escritos da época também condenavam os norte-americanos que jogavam e
bebiam. Deixavam, porém, uma porta aberta em favor deles ao dizerem que
com o tempo e pela influência das pessoas de maior estatura moral até aquele
norte-americano mais atrasado cresceria. Diziam que a maior parte desses
norte-americanos estava nas fronteiras, e agiam assim por falta de estudos,
ignorância e também pelo contato com índios e mexicanos.
Além de controlar sexo e álcool a classe média deveria ter controle sobre
suas emoções. Explosões de raiva, gente sem controle emocional, os que se
comportam assim são pessoas de classe inferior. Quanto maior controle de si
mesmo mais cresceria alguém no seio de uma comunidade. Alguém que não
domina a emoção é quase um selvagem, está associado à natureza bruta, não
dominada ainda. Achavam também que os latino-americanos são imprevisí-
36
Alfredo da Mota Menezes
veis, é ruim para o relacionamento se não se sabe o rumo correto que aquela
pessoa ou grupo pode tomar. Essa imprevisibilidade não seria recomendável
em gente superior, e os latino-americanos são pessoas impulsivas, mudam
facilmente de direção. Os habitantes da região se alteram emocionalmente
com facilidade e gostam de brigas, jogos e festas. Não acreditavam que os
latino-americanos estavam prontos para progredir materialmente porque não
dominavam suas paixões, não possuíam disciplina. Só com isso se poderia
crescer na vida. Que a região era dominada por gente que fazia as coisas quase
de forma impensada, levada pelo impulso, não seria como o norte-americano
com autocontrole e, racionalidade nos seus atos, a América Latina seria uma
região movida por paixão e emoção. O norte-americano, com seu princípio
de moralidade um tanto quanto calvinista, com seu autocontrole e trabalho
duro, teria sucesso econômico com absoluta certeza. Seria quase que automático, e que até mesmo a virtude e a pureza da pessoa viriam se ela seguisse
essas normas não escritas nas quais se baseava a cultura local. Fazendo um
resumo dessas diferenças criam até um paralelo entre Simon Bolívar, o herói
da independência em algumas repúblicas nos Andes, e George Washington, o
homem que conduziu a independência dos EUA. O resultado é desfavorável
a Bolívar. Ele é elogiado no campo de batalha, mas no comportamento como
pessoa a diferença chega a ser abissal. Um bebia, outro não. Um gostava demais de mulheres e sexo, o outro tinha controle sobre isso.
Os norte-americanos criticavam também a falta de desejo pela maior
parte da população da região por propriedade ou bens. Não entendiam a
falta de respeito à propriedade privada, da não obediência à lei, do não pagamento de impostos e da atuação venal das autoridades. Seria difícil para o
homem do norte entender e manter um relacionamento adequado com povo
que atuava dessa maneira. Escreve-se muito naquele país sobre a não obediência às leis na América Latina. Gostam de citar o caso dos encomenderos
ou grandes proprietários de terra nas colônias espanholas que, ao receberem
ordens da coroa, para, como exemplo, tratar de forma diferente os índios,
criam a famosa frase: obedezco pero no cumplo. Obedece mas não cumpre
seria a maneira que a maior parte da população da área atuaria perante as
leis. Não obedecer as leis seria sinal de caos, de algo sem controle, de atraso
de um povo. Associam ainda a falta de vontade de acumular bens ao não
respeito pelo conceito de tempo. O homem trabalhador tem o tempo em
grande consideração, não seria o caso dos latino-americanos, sem esse fator
o capitalismo e suas regras não entrariam na região. Como não obedecem ao
conceito de tempo, uma marcante característica de gente da América Latina é jogar tudo o que se tem que fazer hoje para um remoto amanhã ou, a
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
37
famosa palavra em espanhol, mañana. (4) Enfim, os latino-americanos eram
ineptos e caóticos em sua vida econômica, e democracia não combina com
pobreza e ignorância.
Não aceitam que um povo seja pobre em região que oferece condições
para que se cresça na vida. O latino-americano não tem essa força e vontade,
os puritanos teriam isso dentro de si, seria algo inato e os transforma em seres
superiores. Associam essa não vontade de crescimento material da região à
preguiça: a população regional gosta de beber, dançar, jogar e não trabalhar
com ardor. Que um povo que não luta para subir na vida não está em condições de criar raízes democráticas, acabam sendo subjugados por ditaduras,
são aceitas com certa normalidade. Faziam até comparativos entre a renda
de um norte americano ou mesmo do país com a renda dos mexicanos ou
do México e chegavam à conclusão da superioridade do homem organizado,
de valores da classe média, que obedecia a certas regras, acumulava riqueza,
respeitava a propriedade privada e que estava léguas de distância de gente da
qualidade dos latino-americanos.
uuu
Continuam as interpretações nos EUA sobre os motivos que deixaram a
América Latina para trás. Outra característica da área seria a forma centralizada de governo, e que a união de governo e igreja suprime a iniciativa individual. (5) Frente a essa situação o setor mais alto da sociedade não investe
recursos para criar mais riquezas. A alternativa seriam os acordos com os governos, os dois interesses ganham dinheiro. Extraem riqueza não criando empreendimentos ou dominando o meio ambiente, mas com as concessões conseguidas junto aos governos, cria-se uma situação de dependência mútua. E o
setor empresarial, que deveria buscar meios para produzir, fica dependente da
boa vontade do governante de plantão. O sucesso da elite na América Latina
seria medida pelo que ela conseguia tirar de governos e não por ter criado
riquezas ao arriscar seu capital. Um fato que viria desde a península ibérica
com concessões para minas, sal, madeira ou outras atividades e uma parte do
ganho seria distribuído com alguém de influência na corte europeia.
Outro aspecto que mostraria a diferença entre os dois povos que vivem
na América estava na mobilidade social, (6) uma estática, a outra faz da
mobilidade uma arma para o crescimento. Na América Latina, como uma
tradição vinda da Europa, o nascimento já colocava a pessoa em boa ou má
posição na vida de uma comunidade. Nos EUA a mobilidade social tinha
38
Alfredo da Mota Menezes
que ser uma busca constante, ninguém estava amarrado ao que determinava
o nascimento de alguém. Se em certo lugar existem dificuldades para se crescer na vida o caminho é procurar outra localidade e ali, com esforço próprio,
procurar se fazer merecedor de Deus nesta vida e não ser aqui contemplativo
na espera da outra.
O latifúndio é visto também como um modelo de economia atrasada,
impede a mobilidade social. É um fato que também ocorreu no sul agrário
dos EUA, é aceito que a luta civil entre o norte e o sul daquele país na guerra
civil (1861-65) foi também de conquista do norte urbano, mais desenvolvido, industrial e capitalista, sobre o sul agrário, escravocrata, latifundiário e
de produção monocultural. Para a crença local isso não ajudaria no crescimento de um país. O latifúndio na América Latina ajudou no atraso econômico, ou se poderia dizer que a “herança colonial mais significativa deixada
pelo colonialismo ibérico foi a tradição da grande propriedade”. (7) No Brasil
os engenhos, na Argentina a produção de couro e carne, no México também
carne, couro e milho. Tudo dirigido por um núcleo familiar no qual gravitava uma massa de dependentes, essa dependência se estenderá para o lado
político. No latifúndio a mobilidade social é diminuta, as distâncias entre as
propriedades de terra gigantescas, pessoas de uma mesma região tinham pouco contato entre si. A elite latino-americana criou o domínio político local
dominando o acesso à terra, fato que não diminuiu depois da independência.
Quanto mais terra, mais prestígio, mais poder político e controle da maioria
despossuída: possuir terras seria o caminho para riqueza e do poder. Essa foi
a luta no período colonial, também depois da independência, e durou ainda
em muitos países da região. Mas havia terra em abundância nos dois lados
do Atlântico. Tocqueville (8) dizia que o espanhol na América do Sul não
poderia reclamar da quantidade de terras que tinha, mas mesmo assim não
havia “na face da Terra” nações mais miseráveis que aquelas da América do
Sul, e concluía, que os habitantes da região parecem obstinados em destruir
um ao outro. Terra para plantar havia aqui e lá mas que, outra vez, o legado
ibero-católico não ajudou a população regional a crescer economicamente.
O latifúndio na América Latina é um fato da vida regional extremamente mal visto pelos norte-americanos. Ele gerou acomodação na elite que,
com pequeno ganho frente a uma sociedade quase miserável, tem poder e
ascendência sobre a maioria da população. Vive da exploração do trabalho
braçal de outros e estes, quase como uma sina divina e reforçada por uma
igreja determinista, se acomoda na posição social que está, pouco lutaria
para sair dela. Essa acomodação das massas até mesmo com a miséria chega a
ser quase incompreensível não só para os norte-americanos, mas para tantos
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
39
outros povos do mundo. Daí as ditaduras, o controle econômico por poucos
e a não reação das pessoas para exigir outros ganhos da vida.
A falta de espírito comunitário seria outra característica regional negativa. Leva ao autoritarismo e, como consequência, liga-se muito à família
e, para aumentar esse abraço, surge o compadrazgo ou compadrio. Quem
abençoa essa relação? A igreja católica, o ritual é dela, o batismo ainda tira
o pecado do batizado. O compadre deve ser escolhido num estrato social
se possível mais elevado para que o padrinho possa, se necessário, ajudar
o batizado em outros momentos. Se o padrinho for o dono da terra até o
tratamento de señor muda para compadre, surge uma dependência mútua
entre os lados, aumenta-se o tamanho da “família”. Ações numa localidade
se dão em torno de fatos assim e não da comunidade ou, como escreveu
alguém, que os espanhóis não queriam só garantir o céu para eles, mas que
precisavam garantir também o inferno para seus vizinhos (9) ou quem não
pertencesse ao círculo familiar.
Na América Latina foram encontrados ouro e prata em abundância, o
mesmo não se deu nos EUA. Ao não existir metais preciosos as pessoas que
foram para o norte deveriam trabalhar mais a terra para tirar dali sua riqueza.
O trabalho direto e não a exploração escrava nas minas teria ajudado mais
no crescimento dos EUA do que da América Latina. Nesta, porque precisavam da mão-de-obra para explorar a terra ou as minas, há a escravização dos
índios, com choques entre dominador e dominado, criando uma situação de
conflito. No norte os índios eram nômades e praticamente foram eliminados
ou encostados em reservas em poucos anos, não foram escravizados ou levados
a trabalhar em terras ou minas. Não encontrar grandes civilizações indígenas
também ajudaria mais o norte do que o sul do continente. Se encontrasse,
por mais que fossem dizimadas, ainda ficariam restos culturais que manteriam
aquele povo em determinado rumo. A conquista assim fica mais difícil do que
em regiões onde a cultura indígena é menor e vivem como nômades do que
aquela outra com seus templos, cidades e vida mais sedentária.
Não encontrar metais preciosos, portanto, ajudou mais a colonização
nos EUA. Se os encontra talvez não tivessem dado tanta força à produção
no campo e depois na industrialização na busca de ganhar dinheiro. Portugal
e Espanha encontram metais preciosos e, com essa facilidade, descuidaram
de criar outras riquezas. Era mais fácil comprar o que outros produziam, se
desindustrializam e diminuem o trabalho no campo também. Sofreram da
moderna teoria da “doença holandesa”. A Holanda descobriu muito petróleo
em tempos mais recentes, sua moeda se fortaleceu e foi mais fácil comprar
bens fora do que produzir internamente, começou um processo de desin-
40
Alfredo da Mota Menezes
dustrialização daquele país. Talvez o mesmo possa ser dito de praticamente
todos os países hoje produtores de petróleo, é mais fácil comprar bens industriais do exterior do que produzi-los internamente. No caso anterior também
a Espanha e Portugal não se industrializam, e nem os países da América Latina, nem tanto por causa da riqueza em minerais, pouco ficava na região, mas
pela política restritiva do pacto colonial. Os EUA, como quase não tinham
metais preciosos, fato citado como um benefício, tiveram que buscar riqueza
na produção da terra, e mais tarde na industrialização.
Outro ingrediente que diferenciaria os dois lados da fronteira, mostrado
por viajantes pela América Latina ou quem escrevia sobre ela, foi que as pessoas da região não olham para o futuro, querem o dia presente. Não pensam
em acumular bens, gastam o que têm agora mesmo. Que isso seria também
característica dos índios nos EUA, e associam o fato aos latino-americanos.
Esse desprendimento com coisas materiais, que poderia até ser visto como
uma conquista do homem por outro ângulo, era considerado um atraso pelos
norte-americanos. Se a pessoa não ganha dinheiro e não o aumenta não
melhora na vida, não melhoraria também o avanço do país. Por causa do
comportamento do povo da região não viam como a área poderia sair do
atraso econômico em que se encontrava. Até hoje a América Latina tem
problemas, mas no século XIX e nas décadas iniciais do seguinte o fato foi
visto de forma ainda mais ampliada. Governos caíam por causa do descontrole na economia, tudo passado para os EUA ajudava a cimentar a ideia de
que a economia da região era um desastre. Reforça mais ainda os estereótipos. A área só podia viver em “rebelião crônica” por causa das tantas forças
e contrastes que faziam parte da vida das nações. (10)
Há mais fatores, na visão norte-americana, sobre a diferença entre as
duas bandas da América. O externo, por exemplo. As colônias inglesas desenvolveram atividades na construção náutica e mercantil, ação proibida
pela política colonial espanhola de ganho somente para a metrópole. Os
EUA estabelecem comércio perto de casa, ali pelo Caribe. Na América Latina a agricultura dominou, e era para exportação, a maior parte do que se
ganhava com esse comércio ficava fora. Nos EUA, desde o período colonial,
em algumas atividades econômicas e com mais liberdade de atuação que na
América espanhola, houve pequeno acúmulo de capital. Aos poucos se estendeu aquele comércio para outras áreas de domínio espanhol na América,
como a Flórida, e a partir de 1783 aumentou o comércio dos EUA com a
antiga metrópole. (11) Outro fato que ajudou na expansão do comércio dos
EUA foram a Revolução Francesa e as guerras trazidas por ela. Os EUA se
colocavam como neutros nos conflitos na Europa e vendiam para o lado que
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
41
queria o algodão e o arroz, reexportando o que compravam para o Caribe.
Ganhos que reforçam a estrutura financeira, mais acúmulo de capital para
posteriores investimentos em infraestrutura física e industrial no país. O ganho do comércio na América Latina quase não ficava nas colônias, ia para
as metrópoles. Houve, portanto, pouco acúmulo de capital na região para se
investir em diferentes atividades posteriormente. As metrópoles exerciam
um controle colonial muito forte, deixando pouco espaço para que os que ali
habitavam acumulassem riqueza. O caso cubano é até citado como exemplo.
A Espanha deu um pouco mais de liberdade econômica à pequena ilha do
Caribe. Gente dali acabou ganhando dinheiro, o que não ocorria na maior
parte da América espanhola, com certa satisfação econômica interna a independência de Cuba veio mais tarde que em outros lugares da região (1898).
A herança colonial ibero-católica, mais latifúndio, escravismo e pouca
renda acabam criando novas crises nas ex-colônias após a independência. A
luta no período foi constante, não havia entendimento. Guerra civil atrapalhava o andamento dos novos países. Não havia unidade econômica interna,
e sem isso as decisões na economia não alcançavam objetivos imaginados.
As brigas pelo espaço novo que surgia provocam novas lutas, aparece a força
das capitais no domínio do resto da nação, o que irá provocar desentendimentos com outras regiões do país nascente. (12) Um caso exemplar é o da
Argentina, a luta entre Buenos Aires e as províncias do interior. Três guerras civis aconteceram entre os lados, até que na última, em 1852, Buenos
Aires se impôs ao resto do país. Portanto, mesmo depois da independência,
interesses da elite ou regionais estavam ainda fazendo os países enfrentarem
borrascas até militares, o que viria a atrasar o crescimento econômico ainda
mais. Um tanto diferente do que acontecera no protestante EUA.
Essa indefinição, ou melhor, a consequência do que surgiu na América
Latina pós-independência, abriu espaço para que a Inglaterra se beneficiasse do colonialismo imposto pela Europa. Sem a Espanha e Portugal, com
independência ocorrendo em todo lugar, o espaço novo foi ocupado pela
Inglaterra e por seu comércio. Têxtil, ferrovias, artigos de ferro, empréstimos
e incentivo à produção regional na agricultura, pecuária e mineração, bens
primários contra os industrializados e de capital. Nos EUA, apesar de não
poderem nem de longe competir com os ingleses na produção industrial, já
existia uma incipiente indústria, principalmente têxtil e náutica, que ajuda
o país a manter capital internamente. O da América Latina, como resultado
da colonização e do que aconteceu depois da independência, foi em parte
drenado pelo comércio inglês. O atraso da Espanha e de Portugal em finanças e tecnologia abriu a porta da região para a Inglaterra. (13)
42
Alfredo da Mota Menezes
Outra característica diferente entre as duas partes da América é que um
lado defende mais, como já mencionado, o individualismo, o outro tendia
ao coletivismo. As propriedades comunais de índios e camponeses foi uma
realidade regional, não geraria riqueza. Uns trabalham, outros não, e no final
todos têm direito aos mesmos benefícios extraídos da terra. Na exploração
da terra no norte não havia a presença do poder público para tirar sua parte
e regulamentar o que se deve fazer ou não. Muitas vezes na América Latina
era o Estado que financiava um agente para conquistar terras de fronteiras,
nos EUA não havia essa relação, a iniciativa privada tomou a dianteira. Mais
tarde o poder público fez concessões a construtores de linhas férreas das
terras à margem delas. A empresa procurava vendê-las para inclusive se capitalizar para ajudar no empreendimento em que estava envolvida. (14) Não
foi o que aconteceu na América Latina.
Os norte-americanos achavam até que ser um agressivo caçador de animais era uma virtude, estavam conquistando e dominando o hostil meio
ambiente, mataram milhões de búfalos, dos quais usavam apenas o couro.
Vangloriam-se de nomes da época, como Bufalo Bill, que, ganhando cinco
dólares por mês de uma companhia de linha férrea matou em um ano e meio
mais de quatro mil búfalos. Estima-se (15) que tenham matado mais de três
milhões de búfalos entre 1872-74. Ato até glorificado. Imagine isso nos tempos atuais, com a ênfase que se dá hoje à defesa do meio ambiente lá ou em
qualquer lugar. Conquistar a natureza, dominar ou dizimar animais selvagens
seria quase uma missão divina. Claro que não havia uma preocupação com
o meio ambiente como se tem agora. Todos na nave Terra têm quer ter essa
preocupação, mas é até cinismo a atuação hoje da maioria dos norte-americanos contra ações de outros povos na questão de meio ambiente. Poucos
falam que estão condenando em outros lugares aquilo que foi feito ali quase
como uma determinação de Deus. No caso da conquista da Amazônia (16)
um viajante americano na região lá por 1840 dizia que ela não poderia ser colonizada por um “povo imbecil e indolente”, deveria ser por um povo tivesse
energia e determinação para derrubar a floresta e buscar suas riquezas. Dizer
isso na atualidade beira ao delírio até mesmo nos EUA.
Outra diferença citada entre as duas regiões ainda sobre a conquista
de fronteiras era que nos EUA se criavam fortes militares para segurar os
“selvagens” índios, tomar suas terras e deixar passar o progresso. Na América Latina, ao invés de fortes, tinham as missões religiosas para ensinar aos
índios e pobres da fronteira uma subordinação às coisas divinas. A riqueza não é desta terra, deve-se preparar para a outra vida. Eles acreditavam
que a conquista de novas terras, principalmente nas fronteiras, sem ajuda
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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de governos, cria o sentido individualista e de independência, características
defendidas pelo espírito capitalista, que falta tal ação aos latino-americanos,
daí se submeter muitas vezes a governos autoritários sem reagir. Acham que
na América Latina, como consequência da herança da Europa, o conquistador só age, incluindo conquistar fronteiras, para ter a boa vontade da coroa.
Se ocorresse, as coisas seriam facilitadas para ele. Um lado querendo distância de governos e favores, o outro o desejando como um meio de se fazer
na vida. Adquire-se na região (17) uma mentalidade voltada para cargos
e benefícios reais. Sempre encontrando explicações na religião, quando as
pessoas conquistam a atenção da coroa já seria um ato divino, o resto viria
na esteira, incluindo fortuna e prestígio.
Existe algum exagero em tais interpretações, mas se olharmos com cuidado o que ocorre em certas localidades do Brasil hoje, lugares onde são
pequenas as ofertas de empregos na iniciativa privada, e onde os favores dos
governantes são importantes para ganhos e prestígio, pode-se dizer que não
é de toda equivocada a interpretação daquele tempo sobre a região, pessoas expressam obediência e lealdade aos chefes na busca de ganhos futuros.
Não é somente com o esforço pessoal que se conquista bens e posições, mas
também através de ligações especiais. A habilidade da pessoa se mostra mais
nesse particular do que se fossem fazer conquistas na competição aberta. O
que, no fundo, não deixa de ser um dom, e quando ganha espaço, com essa
habilidade própria da região, a sociedade local o olha como vencedor. Quase
não precisa se esforçar mais, seu trabalho de ascensão, através de ligações
especiais, já foi feito. É admirado e cria em outros o interesse em fazer a
mesma coisa. Isso existe até hoje em lugares do Brasil em plena economia
globalizada e com tênues ligações com o capitalismo. A lição viria lá de trás,
é a tradição do favor, da ajuda a grupos e pessoas independente de sua capacidade. Um fato regional, que é o inverso daquele que prega a conquista
por méritos próprios, sem encostos e apoios, como seria do tradicionalismo
ibero-católico.
A América Latina é também criticada pela falta de um empenho maior
na construção, por exemplo, de ferrovias. (18) Houve, mas não no tamanho
da necessidade regional. Os EUA foram conectados de um mar ao outro,
maneira para se conquistar terras e levar riqueza a longas distâncias. Lá praticamente tudo foi feito por eles. Na América Latina não havia meios técnicos e grande parte das ferrovias foi construída pelos ingleses ou até mesmo
por norte-americanos. Não há crescimento econômico, é a afirmação, sem
transportes adequados, e se na América Latina isso não ocorreu, seria mais
uma demonstração de atraso de um povo sem ambição para conquistar ri-
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Alfredo da Mota Menezes
quezas. Como a crença nos EUA era que Deus estaria por trás disso tudo, dá
para perceber a distância em que eles colocavam uma América da outra.
Outro aspecto negativo da região na visão dos norte-americanos são as
instituições políticas. (19) Eles acreditam em democracia, seria o caminho
para um melhor governo, que isso não ocorre na América Latina, não haveria uma aceitação normal da população da área aos princípios democráticos.
Ao longo do tempo até houve mudança nessa direção, mas o comum seria
países da região tenderem para lados diferentes e não previstos nos cânones
democráticos. Ditaduras, populismos e comunismo fariam parte do arsenal
político regional. Na visão deles não haveria firmeza ou convicção de que
a democracia seria o modelo maior de governos, chegavam até a querer a
americanização da América Latina nesse aspecto. (20) Na época do chamado imperialismo cultural do governo Woodrow Wilson (1913-1921) falavam
que os EUA eram o guardião da decência e da justiça na região, poderiam
ensinar modos e democracia. Essa suposta americanização começaria pelo
México, depois pelas nações do Caribe e poderia chegar até a América do
Sul. A América Latina só tinha uma saída, seguir o modelo vitorioso, (21) o
centro de tudo estava nos EUA. Recentemente o governo George Bush, na
derrubada do regime de Saddam Hussein no Iraque, chegou a acreditar que
a partir dali os EUA influenciariam toda aquela região, bases democráticas
e do capitalismo liberal espalhariam para o Oriente Médio. Continua no
âmago daquele povo a ideia de uma missão civilizatória, não se sabe se divina
ou na busca de ganhos materiais, ou se ambas as coisas. Lá atrás os norteamericanos achavam que se poderiam espalhar pela América Latina as boas
coisas da suposta superior civilização anglo-saxônica.
Existem muitas diferenças entre as duas Américas, mas se percebe nas
interpretações e colocações que a herança ou legado colonial seria a base
maior dos acertos de um lado e de erros do outro. As instituições e as políticas formuladas na América Latina não eram consistentes, por exemplo.
Os EUA escolheram melhores rumos políticos e por isso deram certo. A
América Latina, outra vez por causa de suas raízes, não as escolheu e sofre
as consequências até hoje. (22) A evolução dos EUA e da América Latina
difere desde o início por causa das instituições trazidas ou adotadas da mãepátria, onde os modelos coloniais foram concebidos. Os colonizadores ingleses saíram de uma Inglaterra mais moderna, com mais tolerância à censura,
mais ênfase à educação, aceitava a busca pelo conhecimento, mais liberdade
econômica, e que a poupança e o investimento visando o futuro ajudavam a
transformar qualquer sociedade. A América Latina, sob influência da Península Ibérica, por tradição local, e a ligação com os princípios católicos, via o
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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mundo de forma diferente. Não tanta ênfase na educação, pouca mobilidade
social, mais censura ao conhecimento, mais restrições econômicas e sem a
preocupação de poupar para se construir um amanhã diferente. O amanhã
está em outra vida. Clamam que a colonização espanhola provavelmente foi
o pior estilo de se fazer governo que o mundo já viu, o modelo colonial atrasou a região. Péssimo ensinamento colonial e mistura de raça, só se poderia
imaginar um futuro opaco para a América Latina. (23)
Ainda como consequência do legado colonial há nos EUA um claro
federalismo onde os estados detêm muitos poderes. Na América Latina a situação seria inversa, com mais poderes na mão do governo central. As colônias anglo-saxônicas já davam mais liberdade ao indivíduo e às localidades,
a América Latina herdara a hierárquica e centralizada organização da igreja
católica. (24) A região, em consequência, apresenta uma forma mais centralizada de governo que os EUA e o Canadá. O ponto mais forte, portanto, das
diferentes interpretações do atual estágio da América Latina em contraste
com os EUA estaria na colonização que houve nas duas partes da América.
E, como base maior, coloca-se sempre a força de uma e outra religião. Não
talvez porque um Deus seria superior ao outro, mas porque a tradição do catolicismo diferia do protestantismo. E que, como consequência, uma religião
era mais liberal em política, economia, censura, abertura ao conhecimento,
e a outra não. Se aceito o ponto de vista, estaria aí parte da explicação para
a distância entre os dois lados.
Autores latino-americanos, como o venezuelano Carlos Rangel, (25)
em seu livro Del Buen Salvaje al Buen Revolucionario, também critica a América Latina por causa do seu passado ou legado ibero-católico. Rangel traça
um paralelo entre o sucesso dos EUA e o contrário que ocorreu na América
Latina, o problema regional estaria na tradição cultural regional herdada
da Espanha e de Portugal. A América Latina foi colonizada por países que
rejeitavam o espírito do modernismo que surgia no mundo, criou-se uma
muralha contra o racionalismo e o livre pensamento, fatos que ajudaram
no desenvolvimento capitalista. Que a região adquiriu do legado europeu a
aversão pelo trabalho e uma afinidade com violência e autoritarismo, o trabalho era feito por escravos em encomiendas, e depois nas fazendas. O sistema
mercantilista, em que as colônias deveriam fazer comércio somente com a
metrópole, foi outro impedimento, desencorajou a industrialização regional.
Daí surgia o monopólio, privilégios e diferentes restrições ao individualismo
criador que atrapalhava o crescimento das colônias. Uma sociedade assim só
podia viver sob a tutela do autoritarismo, surgem os caudilhos ou caciques
ou coronéis que mandam numa região, e são obedecidos pelas massas. É co-
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Alfredo da Mota Menezes
mum aceitar que um dos motivos para surgir o populismo na América Latina
foi a migração dos camponeses para os centros urbanos em momento de industrialização. Ali as massas não encontravam o antigo patrón ou chefe político, apegam-se às figuras populistas que prometem resolver seus problemas,
transferem do campo para a cidade aquela mesma ligação que havia antes.
Continuam os ataques ao modelo colonizador ibérico na América Latina. Falam ainda que a cultura espanhola passou para sua colonização aspectos básicos da vivência dali como fatalismo, ou que a vida está além do
controle humano; hierarquia, a sociedade é naturalmente hierárquica, as posições dependem de nascimento; dignidade, que não tem nada que ver com
direitos, iniciativa ou igualdade de oportunidades e, por fim, a superioridade
do homem do qual originaria o autoritarismo, o paternalismo e o conhecido
machismo regional. Faltava, ainda, como já dito, o espírito comunitário, o
que levou Ortega y Gasset a dizer que essa falta leva os espanhóis a odiarem
novidades e inovações, aceitar qualquer coisa nova que chegue de fora humilha o espanhol. (26)
Um autor (27) tem uma pergunta instigante: por que os políticos, burocratas e intelectuais da América Latina, mesmo sabendo que os países da
região não estavam se desenvolvendo, não encontraram respostas adequadas
para mudar de direção? Por que esses líderes, até recentemente, vieram com
respostas não apropriadas para problemas antigos e já detectados? Por que
a Espanha e Portugal continuaram no mesmo caminho já detectado como
errado até Diz que outros países, cita-se o caso do Japão, quando perceberam
que podiam sair do que eram e abraçaram novas e sadias alternativas assim
o fizeram. Que na América Latina o erro de interpretação e julgamento dos
rumos a seguir permaneceu sem encontrar a saída correta.
Continuemos na trilha da América Latina criada nos EUA. Ali a região
é vista de forma igual, fala-se em América Latina, não em países diferentes.
(28) Marta Cottam, (29) ao trabalhar com a imagem que os propositores da
política externa dos EUA têm da América Latina, também concorda que
ali se vê a América Latina como uma entidade única. Argúi ainda que os
norte-americanos, mesmo nos tempos atuais, não se preocupam em mudar a
imagem que têm da América Latina desde outros tempos. Entre os países da
América Latina há diferenças de costumes, comportamentos, clima, história,
em crescimento ou estabilidade econômica, mas na visão norte-americana
seria tudo igual. Ou como diz o antropologista George Foster, (30) que a
cultura ibérica moldou a América Latina de tal forma que as similaridades
entre as nações da América espanhola são mais importantes que as diferenças, todos os países constituem uma área cultural única. E sempre se pontua
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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que a herança cultural ibero-católica foi o maior de todos os obstáculos para
o progresso regional.
A América Latina para o norte-americano é vista como monolítica,
portanto. De descendência hispânica, católica, mestiça e negra, pobreza,
governos autoritários, desordem na vida econômica e política. Não se olha
os países da América Latina de forma individualizada, e é um dos grandes
problemas para um entrosamento maior entre os dois interesses. Um fato
acontecido em El Salvador o homem comum dos EUA, associa a toda a
região. Se a Nicarágua tem um tipo de problema, é como se fosse igual e
comum para toda a área. É, guardadas as proporções, como o brasileiro olha
para a África, quando ocorre ali um fato, a maioria das pessoas não vê que é
nesse ou naquele país, pela lei do menor esforço o toma como um problema
da África, como se fosse um só país. O norte-americano faz a mesma coisa
com a América Latina. Não se leva em conta o tamanho físico, a população,
o PIB, a diversificação na exportação de um país como o Brasil, tudo é como
se fosse uma grande Guatemala. Governos dali dedicaram tempo, dinheiro e
atenção aos problemas de combate aos movimentos de esquerda no Caribe
e na América Central, e a mídia norte americana dava total cobertura ao
assunto. No mesmo período na mídia do país quase nada se falava sobre o
Brasil ou a Argentina que, comparados com a pequena República centroamericana, estaria léguas de distância em economia, população e comércio
internacional. Nada disso importa ao homem comum nos EUA, abaixo do
Rio Grande é tudo igual para eles. Por outro lado, não estar nas manchetes
nos EUA poderia ser visto até como benéfico. Quando ali se dá atenção a
algum país da América Latina é, no geral, um assunto negativo. Os fatos sugerem que não está nas manchetes seria até sinal de que o país está passando
por boa situação.
Mais estereótipos nos EUA sobre a América Latina. Do finalzinho do
século XIX até tempos mais recentes a região passa a ser vista nos EUA como
um símbolo feminino. Apesar de já haver avanços na condição da mulher
naquele país e no mundo, a América Latina foi vista como, digamos, a antiga mulher nos EUA: dependente, emotiva, sem condições de dirigir grandes
coisas na vida. Precisava de suporte e apoio do sexo masculino, não estaria
preparada para enfrentar a vida. Essa imagem colou na América Latina. Em
páginas deste livro estão charges tiradas da imprensa dos EUA que mostram
essa visão norte-americana da América Latina. A região é sempre mostrada
como uma mulher, e muitas vezes sendo conduzida ou instruída por um galante e atencioso Tio Sam. Se comparada com as outras imagens de antes (negro,
mestiço, índios, preguiçosos, atrasados) essa nova invenção do imaginário po-
48
Alfredo da Mota Menezes
pular dali parecia até mais “simpática” que as anteriores. A mulher, no ponto
de vista norte-americano, devia ser sedutora para atrair o homem ou, em outras situações, seria virtuosa, meiga, sem defesas, fisicamente frágil, buscando
simpatia e benevolência, e precisando de proteção. (31) Essa foi a imagem
associada à América Latina da época: fraca, dependente, sem condições de
crescer sozinha sem o suporte de algum país forte e preparado como os EUA.
James Park (32) também escreve que a região passa a ser vista nos EUA
com um caráter essencialmente feminino que requeria orientação e suporte.
O caso do momento fora a separação do Panamá da Colômbia, e como tinha
sido fraca a resposta dos colombianos se comparada à forma como agiram
os norte-americanos. A força maior do outro, a decisão em fazer o Canal do
Panamá e enfrentar a resistência da Colômbia, separando a área daquele país
de forma fácil, aumenta a impressão de que a região era muito fraca, como
uma mulher que precisaria de suporte para crescer e enfrentar desafios. A
América Latina não estava, portanto, qualificada para ser parceira dos EUA
nesse hemisfério. São características como essas que, ao longo do tempo,
criam a imagem que se tem antes e agora da América Latina naquele país.
Até hoje, apesar de alguns interlúdios e palavras diferentes no discurso dali,
a região é vista como parceira não confiável, não estaria preparada e em condições de ajudar os EUA em grandes empreendimentos na cena mundial.
No mesmo período em que a América Latina era caracterizada nos EUA
como um símbolo feminino, também o foi como uma criança (childlike) ou
imatura, e que os EUA, como um guardião, deveriam se preocupar e ajudar
a crescer o povo da região. (33) Quase tudo que se referia à América Latina
naquele país estava conectado a fatos acontecendo na vida interna daquele
povo. Houve a I Guerra, a forte imigração e a industrialização, e os EUA
passavam por transformações e, nesse mundo diferente, discutia-se muito ali
como criar uma criança, como deveria ser educada para o futuro. O aceite
maior era que ela deveria ser orientada sobre as influências negativas desse novo mundo, ser protegida para crescer física e emocionalmente. Sarah
Sharbach também dá destaque ao fato de a América Latina ser vista nos
EUA como criança. (34) Uma criança no início do seu crescimento político
deveria ser cuidada para se chegar mais à frente e tomar conta de si mesma.
As charges da época mostram como essa versão pegou nos EUA. Um era
o adulto com todas as qualidades, o outro seria inocente e politicamente
imaturo. A criança necessita de guia, uma babá, para sair daquela situação e
caminhar para a fase adulta e responsável. Um país visto como criança não
podia tomar conta de seus assuntos internos, criava-se a justificativa para a
intervenção até armada dos EUA.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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O estereótipo de um povo é criado por outro, quem o faz passa a ressaltar suas próprias qualidades. O outro, no caso a América Latina, sempre
está errado, faz as coisas erradas. O que justifica qualquer ação do país que se
imagina civilizado para com o outro povo. Este precisaria daquele para que
o ajudasse a sair da situação em que se encontram. Justifica-se qualquer tipo
de ação e o povo do país invasor ou em suposta missão civilizatória aceita
e concorda com qualquer ato praticado contra a outra nação. Se o fizeram
foi para ajudar e a culpa, se houver algum problema, é do outro. Ele deve
aproveitar aquilo que se está levando para lá, se não aproveitar também
a culpa é dele. Países que desafiassem ou causassem problemas para essa
intenção civilizatória dos EUA eram vistos como crianças malcriadas. As
charges neste livro e dezenas de outras no livro de John Johnson mostram
isso também. Viam também as brigas e os desentendimentos entre países
latino-americanos, como a guerra do Chaco entre Paraguai e Bolívia, como
atos de crianças se comportando de maneira inadequada. (35)
Também Martha Cottam, que estuda as ações de quem planeja a política
externa dos EUA para a América Latina, escreve que a percepção lá era que
na região os países são como crianças, e estando sempre precisando de conselhos e direção. (36) Diz ainda que povo ou países não são tratados como
iguais porque não são vistos como iguais. (37) É a frase mais clara e direta para
se entender o comportamento dos EUA com a América Latina até nos dias
atuais. Não tratam como iguais porque não consideram ninguém da região
como igual. Se assim é não há diálogo sincero entre partes e interesses. Não
existem condições de trocas políticas iguais ou o que eles chamam em inglês
de compromise, em que um lado cede algo e o outro também para se chegar a
um denominador comum. No caso do relacionamento dos EUA com a América Latina nunca se ouviu a palavra mais usada em política naquele país.
Talvez possa ser citado um único caso: o dos mísseis em Cuba. Houve um
acordo, os lados cederam para não se chegar a um confronto nuclear. Mas,
mesmo aquele caso, não foi um acordo ou compromise entre Cuba e os EUA,
foi entre este país e a União Soviética sobre um assunto latino-americano. Os
EUA não estavam preocupados com Fidel Castro ou algum tipo de rebeldia
de líderes regionais, sua única preocupação é que esse ou aquele país caísse
para o lado de algum adversário maior dos EUA na arena internacional.
James Park, (38) ao comentar como o norte-americano via a América Latina como uma criança, cita uma carta de Theodore Roosevelt, de 1911, que
fala que o povo latino-americano age muitas vezes como crianças e tentam
impressionar outros de coisas que eles não são de fato. Ou, como mostram as
charges naquele país, a região vista como uma criança emburrada, malcriada,
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Alfredo da Mota Menezes
que precisa de apoio para crescer como um ser humano normal. Em outros
momentos essas crianças aparecem de forma dócil ou que já estão aprendendo
a se comportar. Mais à frente na história elas aparecem como crianças negras.
Como o negro nos EUA naquele momento estava em sua pior situação interna a imagem de criança e negro que se fazia da América Latina era a pior que
podiam imaginar ali. Crianças eram inocentes e inexperientes, e deveriam ser
protegidas. Nesse caso, a criança deveria, era uma das perguntas da época,
(39) ser tratada com mais rigor na educação para aprender, ou não se poderia
ser tão drástico e deveria apelar para a racionalidade dela? Ou, em palavras
diferentes, puxar a orelha da criança quando ela errar ou o diálogo, a conversa
franca a ajudaria a achar o melhor caminho na vida? Sem muito esforço em
responder à pergunta, na interpretação dos EUA, a associação com a América
Latina daquele período é inevitável. John Johnson diz que o método de punição e humilhação era uma forma de criar as crianças ali. (40) Passam isso para
o plano internacional quando os EUA defendem paciência e premiações para
pequenas conquistas conseguidas por países latino-americanos. Como uma
criança que faz uma boa ação e é recompensada. A recompensa é o estímulo
para que outros fatos como aquele ocorram e desse modo a criança ou o país
vai crescer no caminho pressupostamente correto. Assim deveria ser com a
América Latina. Premiar e incentivar as pequenas conquistas para que a região seguisse o modelo adequado para crescer como nações.
Nas charges mostradas por John Johnson as crianças, como a América
Latina foi vista na época, eram divididas em duas vertentes. O desenho da
charge representava, no geral, um país frente a alguma situação interna ou
externa. Já o desenho em si dessa criança era um tanto quanto anormal
como figura humana. As crianças que os norte-americanos aprovavam como
boas eram mostradas arrumadinhas, socialmente aceitáveis e dóceis, claro
que desenhada numa forma depreciativa. As crianças ruins ou que precisavam de corretivos, retratadas como nações da área, foram pintadas com
barbas por fazer, intratáveis, impulsivas, indisciplinadas, contestadoras e naturalmente com pele escura própria dos mestiços e não estavam preparadas
para aprender e ter autocontrole.
Essa questão do autocontrole é citada à exaustão como característica
positiva da cultura anglo-saxônica. A pessoa, frisa-se uma vez mais, deve
se comportar em situações externas, nunca mostrar seus sentimentos ou ser
emotiva. Quem age assim, quem não controla seus sentimentos e emoções,
não seriam pessoas civilizadas. Um povo que tem isso como base de sua cultura e comportamento em contato com pessoas que agem diferentes já cria um
choque quase instransponível para se ter um maior entendimento. O tem-
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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peramento latino-americano era visto também como motivo de seu atraso.
Um comedido, o outro quase irracional, levado por raivas súbitas e propensão para a violência. (41) Espontaneidade, abraçar, emotividade não faziam
parte da maneira de ser dos anglo-saxônicos e sim dos latino-americanos. O
temperamento latino-americano, acreditam os norte-americanos, é um dado
que mostra a inabilidade da região para se ter instituições democráticas. (42)
O tempo e o ensinamento de outros povos ajudariam a modificar esse comportamento também. A América Latina é filha da Península Ibérica onde a
expansividade das pessoas é maior e mais aberta que aquela da Inglaterra ou
de sua afilhada na América, os EUA. No caso, está na Europa a raiz desse distanciamento. Associado ao índio, ao meio ambiente diferente, deu um povo
que nunca seria a imagem do outro acima do Rio Grande. Não foi e não é.
A Inglaterra, mãe dos EUA, estendeu seus tentáculos econômicos, políticos e culturais em largas porções do mundo na época do Império Britânico,
um espaço político e econômico que se abriu aos poucos, depois da derrota
de Napoleão Bonaparte em Waterloo, em 1815. Andou pela América Latina,
teve presença na região do Prata, principalmente na Argentina. Andou também pela costa da América Central, não se firmou em lugar em que a cultura
fosse católica e de povo de descendência espanhola e portuguesa. Nas Ilhas
Falklands foi longe da presença e influência argentina. Jamaica e Bahamas,
que não tinham aquela forte tradição colonial, são exceções na região. Claro
que fez comércio, que fez tratados vantajosos para o país, que emprestou
dinheiro, mas não fincou raízes como fez na Índia, no Egito, no Oriente Médio, na África e até mesmo na diferente China. Se a mãe-pátria assim agia
e sentia, não é difícil entender que sua colônia e depois país independente
também se comportasse de forma quase igual com os povos da região.
Outra característica da América Latina que povoa a mente dos norteamericanos é que a maior parte do latino-americano vive em condições humanas ruins e precisa de assistência de nações civilizadas. (43) Ou de forma
mais direta: a América Latina é composta de gente mal nutrida, casas de
condições péssimas, sem água tratada e outros avanços básicos que possuem
outros países em outros lugares do mundo. Povo assim teria dificuldade de
chegar à modernidade, um fato que até ajudou a justificar, principalmente
na década de 1920, a invasão econômica dos EUA na região. (44) Estava ali
para ajudar a melhorar a qualidade de vida do povo, só com avanços materiais
diminuiria as ações revolucionárias e quedas de governos na região. A ideia
que se vende é que a presença norte-americana seria útil e salvadora para
aqueles povos invadidos. Tudo isso tem influência na ação política dos EUA
na região, (45) e até mesmo para os proponentes de sua política externa.
Capítulo III
u
Expansão dos EUA para a América Latina
A Doutrina Monroe nasceu na presidência de James Monroe, em 1823.
Um posicionamento daquele país contra a presença e influência de países
europeus no continente, ela irá traçar as linhas do relacionamento futuro
dos EUA com a América Latina. A região se declarava independente da Espanha e de Portugal, os EUA se posicionaram como árbitro e nação superior
em toda a América. Não tinha poder militar ou econômico para dar suporte
a tal pretensão, mas assim mesmo criou a doutrina que balizou seu relacionamento com a área. E isso ocorria de acordo com o que sentia sua população,
acreditavam numa superioridade em relação aos países da América Latina,
agora independentes. A Doutrina será invocada nos anos à frente para justificar a questão da segurança dos EUA.
Lars Schoultz abre o primeiro capítulo do seu livro com uma frase escrita
num diário por John Quincy Adams, com a idade de 12 anos, dando suas impressões sobre os espanhóis numa viagem à Espanha: “eles são preguiçosos,
desagradáveis, sujos, em síntese, eu os comparo a um bando de porcos”. (1)
É o homem que estará como Ministro das Relações Exteriores na administração James Monroe em 1823 quando foi formulada a Doutrina Monroe e foi,
na sequência, presidente dos EUA entre 1825 e 1829. A doutrina, ao longo
dos anos, irá tirar os EUA do isolacionismo que caracterizou sua política
externa desde a independência em 1776. Um isolacionismo que, na verdade,
se referia mais aos acontecimentos europeus.
O assunto que deu base para nascer a Doutrina, que criaria uma espécie de legalização futura de intervenções dos EUA na América Latina, foi
a Santa Aliança nascida na Europa em 1815, após a derrota de Napoleão
Bonaparte. A Santa Aliança formada por Rússia, Áustria, Prússia e França
no Congresso de Viena queria restabelecer a legitimidade monárquica na
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Alfredo da Mota Menezes
Europa, muitas derrubadas na era napoleônica, diante do avanço das ideias
liberais do período. Havia, também, no momento da formulação da Doutrina, receio dos EUA de um expansionismo da Rússia que reclamava parte do
território daquele país. A Inglaterra, o maior poder naval e econômico do
momento, não fazia parte da Santa Aliança, e temia que ela se expandisse
para a América Latina que já estava, desde antes mesmo da independência,
sob sua influência econômica. Tentam uma união com os EUA para impedir
uma ação maior da Santa Aliança na América Latina. Os EUA não aceitam
o acordo proposto, atuam sozinhos nessa formulação, sem a presença dos
ingleses. (2)
A Doutrina dizia que qualquer tentativa de potências europeias em
estender seu poder na região ou contra os países que surgiam na América
Latina seria considerada perigosa para a “paz e a segurança dos EUA”, ou
vistos como “manifestação não amiga com os EUA”. (3) O bordão que ficou será aquele de a “América para os americanos”. Os EUA, de forma até
arrogante, garantiam, em contrapartida, que não interfeririam nos assuntos
europeus. Não tinham à época força maior para isso, mas já falavam grosso.
Talvez possa ser especulado que a crença das pessoas do país em uma inata
superioridade dada por vários fatores, incluindo o religioso, estava por trás
dessa arrogância inicial. Mesmo sem força militar e econômica adequada
acreditavam ser mais fortes que os seus vizinhos ao sul do continente. A base
clara da Doutrina seria a separação entre os interesses das Américas com os
do velho mundo, não permitir que houvesse a extensão daquele poder por
aqui, e defendia o princípio da não intervenção.
Os EUA não tinham como garantir independência ou impedir a presença de potências da Europa na região. Governantes de diferentes países europeus desdenharam da Doutrina, e é importante ressaltar que não há nenhuma prova de que potências europeias realmente armaram um esquema para
mandar força militar para a América Latina para restaurar o poder espanhol
na região. (4) Não seria de interesse de outras potências, principalmente das
duas maiores, França e Inglaterra, que a América Latina voltasse aos tempos
do domínio espanhol. Isso diminuiria o comércio e outros interesses numa
região que acabara de se tornar independente. Quem proclamou a Doutrina
foi o Executivo dos EUA, o Congresso não participou em sua elaboração
e discussão, não poderia ser considerada parte da lei internacional. Ela foi
também unilateral, não houve nenhuma consulta com os países latino-americanos, os EUA eram o criador e o único dono da Doutrina. Em fevereiro de
1824 o Brasil propôs uma aliança com os EUA. No mesmo ano a Colômbia
tentou coisa idêntica com o país do norte, e em 1825 o México recebeu a
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
55
mesma resposta que os outros dois receberam. O governo norte-americano
se escudava na própria Doutrina que dizia que os EUA ficariam neutros no
conflito entre a Espanha e suas colônias agora em revolta. (5) Nem mesmo
lá no início, quando os EUA não eram nenhuma potência, houve uma aproximação mais consistente, segura e clara entre as duas partes da América.
Não eram, desde aquele tempo, tratados como iguais. Estava na cultura e
comportamento daquele país desde o início da colonização. Fatores como
religião, raça, comportamento impediam que houvesse um entendimento
maior e igual entre os lados. Até hoje, por sinal.
A Doutrina Monroe, escreveu de forma crítica Gaston Nerval, (6) não
teve intenção de beneficiar a América Latina, nunca criou uma união panamericana, era unilateral e exclusiva para beneficiar os EUA. Ela foi violada pelas potências europeias várias vezes com a complacência dos EUA. Só
serviu para dar base à expansão dos EUA na região, ajudando a legalizar as
intervenções daquele país na área, principalmente no Caribe e na América
Central. A América Latina via a Doutrina sem muita preocupação ou esperança, na época o grande poder estava na Inglaterra. Tinha capital para emprestar, força militar e já comprava matéria-prima da América Latina, vendia
bens industrializados e fizera muitos acordos comerciais que lhe favorecia. A
América Latina se sentiria mais “segura” com a presença inglesa do que com
uma aparente decisão de um EUA ainda fraco em economia e força militar.
Mas a importância da Doutrina não está no momento de sua formulação,
ela terá vida longa, balizaria a política externa daquele país com a região por
mais de um século. Será invocada em tantos outros momentos, e a base está
na questão de segurança dos EUA. Esta segurança, com o tempo, se expande
além da ameaça direta, e inclui também os investimentos, o comércio ou os
interesses econômicos dos norte-americanos na área.
Para mostrar como os EUA não tinham condições de se opor às potências
europeias haverá intervenções na América Latina em momentos diferentes.
Em 1833 os ingleses põem a mão em parte de Honduras; em 1841 estabelecem um protetorado na costa da Nicarágua e ainda os ingleses tomaram
as Ilhas Falkland dos argentinos. A França interveio em Veracruz em 1838,
e a Espanha anexou de volta Santo Domingo. A mais clara intervenção foi
da França no México entre 1861-1865, (7) na fronteira dos EUA, com uma
tentativa de impor uma monarquia, o que feria de morte o princípio da Doutrina Monroe, que seria na defesa de regimes republicanos. É verdade que
em 1848 o presidente James Polk já fazia ação mais dura para impedir que
a Espanha transferisse Cuba para outro poder europeu, (8) mas foram protestos que não tinham a atenção maior da Europa, os EUA não eram ainda
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Alfredo da Mota Menezes
o que vieram a ser mais tarde na região. Além disso, tinham seus próprios
problemas internos para resolver. Um deles, o maior daquele século, foi a
guerra civil que engolfou o país entre 1861-1865. Mais tarde, no entanto,
ela serviu de base para a expansão dos EUA, principalmente no Caribe e na
América Central. A Doutrina Monroe, mesmo sem passar pelo Congresso,
dava algum sentido legal à política externa do país. Porém, houve nos EUA
um fato que talvez tinha sido até maior que a Doutrina criada em 1823. Foi
o Destino Manifesto.
O Destino Manifesto é um movimento ou ideia para se conquistar novas terras além até do horizonte nacional, deu base moral, cultural e até
ideológica para as conquistas. Cartas, panfletos, discursos falavam em expansão territorial, sempre houve nos EUA a crença de que ali estava um
povo superior ajudado por Deus e a religião, e que tinha o direito de expandir suas fronteiras e conquistar outros povos. A frase é atribuída a um
jornalista, John O’Sullivan, que a colocou em um artigo em 1845 de que era
um “destino manifesto” tomar conta do continente, uma missão dada pela
Providência. (9) Passa a ser ideologia dominante na década de 1840. (10)
Os EUA estavam conquistando as terras indígenas do país, mas já falavam
em ir além e tomar terras de gente de raça misturada. A raça anglo-saxônica
tinha o direito de dominar povos mais fracos. O inglês Rodyard Kipling, que
criou a mística da missão do homem branco, ou como ele chama, “fardo do
homem branco”, para ajudar povos inferiores e colocá-los sob o cristianismo,
dizia que essa seria também missão dos EUA e não só da Inglaterra. Ou como
dizia também o senador de Indiana, Albert Beveridge, que Deus fez da raça
branca os organizadores do mundo, colocar ordem onde existe caos. Deus
os fez aptos a governar para administrar povos “bárbaros e decadentes”, sem
o homem branco o mundo cairia na selvageria. E que “entre todas as raças
Deus designou o povo norte-americano como a nação de Sua eleição para
que conseguíssemos a regeneração do mundo”. (11) Ele defendia ainda que
os EUA assegurassem novas rotas de comércio e tivessem colônias para mandar seu excesso de produção. Atrás daquele discurso de missão divina talvez
seja esse o motivo principal.
O Destino Manifesto surge num momento de orgulho e nacionalismo
que viviam os EUA na metade do século XIX, uma visão idealista na busca
da perfeição social através de Deus e da Igreja. Deus dava suporte à expansão territorial, ir além da última fronteira no continente americano. A base
religiosa do movimento é forte, e quando se referia a raças inferiores, como
índios e mexicanos, ficava mais forte ainda. Mas não era somente Deus que
empurrava a nação para essa missão, o movimento seria uma consequência
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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inevitável da história, e que praticamente estava escrito nas estrelas que os
norte-americanos conquistariam o continente de mar a mar. Essas ideias estavam no auge; quando a expansão para o oeste estava acontecendo, criouse uma filosofia nacional que justificava o Destino Manifesto. (12) A crença
na superioridade racial já estava firme no país, aceitava-se nos EUA que
grande parte dos habitantes daquele continente era incapaz de criar governos capazes e democráticos, deveriam ser conquistados por uma raça mais
preparada. O componente de segurança nacional também fez parte dessa
ideia em movimento: acreditavam que com expansão e aumento de fronteira
os EUA não precisavam temer intervenções de outros países.
O Destino Manifesto coloca a responsabilidade nas pessoas e nações
por seu próprio extermínio, não são os conquistadores que representam o
mal. O mal é o ser inferior. Não tinham o direito de se opor à civilização,
nem direito à liberdade e à terra, cria-se a base para justificar qualquer genocídio. Esta conquista foi feita com base em descobertas “científicas” do
momento que provavam que os euro-americanos seriam superiores a outros
povos. Cientificamente eram mais inteligentes e, mais interessante, estariam
implícitas nessa superioridade física até qualidades morais. Elas seriam inatas a eles e não às raças inferiores. Havia, além de religião e outros ingredientes para dar sustentação àquele movimento, uma base científica. Diziam
até que qualquer avanço que houve nas instituições de povos não brancos
foram por influência deles, ou tinham nascido entre eles. A superioridade
racial justificava qualquer ato, até mesmo extermínio de raças inferiores. A
questão da raça incorporada ao ideal do Destino Manifesto justificava o expansionismo norte-americano, (13) estavam levando liberdade para outros
povos, tirando-os da opressão de tiranos. Nunca seria genocídio, eram os
EUA levando conhecimento, tecnologia, instituições para outros povos. Na
época, e também em tempos mais recentes, esses povos são mostrados como
selvagens e feios fisicamente. Os euro-americanos eram amantes da paz, fisicamente mais bonitos, civilizados e que levam liberdade para povos oprimidos. Naquele período estava estabelecida uma clara hierarquia racial ou a
maior força do branco sobre outras raças. Isso estaria provado pela ciência, e
que o branco era mais apetrechado moralmente. (14) Encontra-se, portanto,
bases científicas, morais e religiosas para conquistar terras e povos. Cria-se
uma justificativa para se ir em frente sem ter dúvida moral ou nenhuma dor
de consciência para o conquistador. O mal estava, e até hoje está, sempre do
outro lado, o bem chegava para ajudá-los a sair da escuridão.
Impressiona como isso faz parte da alma daquele país. Na II Guerra
chegaram à Europa para levar liberdade, acabar com a tirania. Mais tarde a
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Alfredo da Mota Menezes
União Soviética passou a ser o império do mal, deveria ser destruída aquela
ideia maligna, o bem estava com eles e não do outro lado do muro. Quando
o socialismo morreu a crença norte-americana nos valores do país, que vem
lá de trás, cresceu mais ainda. Qualquer conquista ou ação externa é justificada e vendida para o mundo como verdade política e econômica. Escolhem
quem está do lado do bem e carimbam quem não é, criam, como no passado,
as justificativas internas para atuarem externamente. Rotulam, como fizeram com os índios e mexicanos no século XIX, quem presta ou não. E que
os norte-americanos estão indo para ajudar aquele povo a encontrar a luz da
liberdade e do crescimento econômico. O Destino Manifesto é algo que não
sai da vida do país. É uma espécie de missão.
Nessa conquista e expansão territorial, o Destino Manifesto destruiu tribos, culturas e o meio ambiente, nada poderia ficar contra o progresso, e isso
queria dizer trabalhar a terra, tirar riqueza dela. É difícil imaginar os EUA sem
o Destino Manifesto, é parte da alma nacional. A partir dele é que se pode
entender a presença dos EUA pelo mundo. Ele justifica e tira a questão moral da expansão territorial, militar ou econômica. O norte-americano acredita que está levando progresso e liberdade para outros povos. Até mesmo no
recente caso do Iraque, em que acham que levariam progresso econômico e
liberdade àquele povo, e que isso irradiaria pelo Oriente Médio. Não desapareceu com o tempo a ideia de se conquistar lugares e povos, levar conhecimento e progresso, é parte do ideal do país. Não colocam agora de forma
explícita que é uma missão divina como faziam antes, mas está implícito na
ação que eles têm esse dever, mesmo quando invadem terras alheias estariam
fazendo um bem para aquele país ao espalhar sementes de conhecimentos,
de liberdade e da maneira de viver de um povo supostamente superior. Destino Manifesto é uma filosofia nacional sem tempo limitado para acabar. Foi
mais forte no passado, mas continua embutido na alma nacional.
O Destino Manifesto levou os EUA à guerra com o México (1846). A
guerra com o México ocorreu no governo do presidente James Polk (18451849). Foi rápida, (15) em 1847 a Cidade do México já estava tomada; em
fevereiro de 1848 é assinado o Tratado de Guadalupe Hidalgo, (16) que deu
aos EUA 3,1 milhões de quilômetros quadrados de novas terras ou mais um
terço da nação. O México perdeu metade do seu território ou Califórnia, Texas, Nevada, Utah, Arizona, Novo México, Colorado e Wyoming. O Tratado
também acertou a questão do Texas, que se arrastava desde 1836, quando se
separou do México. O México recebeu 15 milhões de dólares na conclusão
do tratado. O custo da guerra para os EUA ficou em torno de 100 milhões de
dólares, uma pechincha pelo que foi conseguido.
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O final da guerra com o México, a superioridade mostrada ali, o tratado
generoso que conseguiram, criou nos EUA a ideia de superioridade cultural e
militar sobre os mexicanos, e por extensão para toda a América Latina. (17)
A guerra com o México deu o tom que os EUA iriam adotar nas suas relações com os vizinhos latino-americanos, não seriam nunca, dali para frente, tratados como iguais. (18) Já havia a crença nessa superioridade racial,
religiosa e cultural, com uma vitória daquele porte isso aumentou na vida
daquele povo. A derrota do México foi acachapante e até humilhante, não
estavam preparados para o enfrentamento com um povo onde existia até
fermentação intelectual para iniciar a expansão externa. A auto estima de
um povo estava nas alturas, momento de orgulho nacional, o outro tinha
seus demônios econômicos e políticos para enfrentar internamente. Sem
essa força interior, sem preparo adequado, perderam quase outra nação para
os vizinhos mais agressivos do norte. Um duro revés para o povo mexicano,
derrota que criou mais ainda nos EUA a mística de superioridade para com
os latino-americanos. Até hoje, por sinal.
O presidente James Polk havia resolvido ainda a situação no Oregon
junto aos interesses ingleses, a área passou a ser também norte-americana.
Os EUA já haviam comprado antes a Louisiana, em 1803, da França por 11
milhões de dólares. Uma área de mais de dois mil quilômetros quadrados e
que incluía Arkansas, Iowa, Oklahoma, Kansas, Nebraska e parte de Minessota. Em 1821 foi completada a compra da Flórida da Espanha. O Destino
Manifesto já estava desde muito tempo no ideário da nação.
Houve nos EUA uma discussão para saber se absorviam todo o México
ou não (“all Mexico”). Um dos pontos de vista era que os EUA deveriam
substituir o despotismo espanhol com a liberdade. Ou, como mostra uma
fonte que alguém escreveu em 1847, que os mexicanos são acostumados a
ser conquistados, e a vitória foi com o intuito de dar-lhe liberdade, segurança
e prosperidade, liberar gente e não escravizar seria a nobre missão do país.
(19) Mas tinha muita gente nos EUA que não queria tomar todo o México
porque isso iria acrescentar uma população ao país diferente em raça, religião e educação, um povo não acostumado a trabalhar e resistente à lei, e
que isso teria um custo muito alto para a nação. (20) Quase a mesma opinião
que tinha Stephen Austin no momento de separar o Texas do México ao
dizer que os euro-americanos desejavam ficar longe dos mexicanos, um povo
que os brancos achavam que fosse “moral, intelectual e politicamente inferior”. (21) A instabilidade política no México levou alguém a proclamar em
1846 que, enquanto os EUA estavam construindo ferrovias para aumentar
o desenvolvimento do país, os mexicanos estavam fazendo revoluções. (22)
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Alfredo da Mota Menezes
Para que ter um povo desse incorporado aos EUA ou, como dizia o senador
John Clay em 1848, que aquela incorporação seria fatal para as instituições
dos EUA. Que havia algo de pestilento naquele povo e que era contagioso.
(23) Não seria possível absorver os sete milhões de mexicanos aos EUA pela
diferença em religião, hábitos e caráter, falava o senador John Calhoun no
momento da guerra entre os dois países. Os EUA deveriam ter internamente
somente a raça livre do homem branco, incorporar o México seria como incorporar os índios, mexicanos são índios, e a outra parte composta de gente
de sangue misturado. Os EUA deveriam ficar o máximo possível sem mexicanos. (24) Coloca-se parte do debate nos EUA para saber se incorporavam
todo o México àquele país para mostrar o tom que norteou o futuro relacionamento e a ação dos EUA com os latino-americanos.
É interessante pontuar que há autor (25) que coloca o expansionismo
norte-americano dentro da disputa política interna entre estados livres de
escravos ou não. A disputa que levou o país para a Guerra da Secessão mais
tarde. E o exemplo dessa discussão mais evidente foi a da anexação do Texas
como mais um estado norte-americano. A conquista de terras do México, no
momento por que passavam os EUA com a questão do escravo, era como se
fosse algo normal e natural. O que se queria saber era para que lado iria esse
ou aquele território no momentoso assunto da escravidão.
Depois que os norte-americanos se expandiram entre o Canadá e o México, e do Atlântico ao Pacífico, cumprida a expansão continental, o Destino
Manifesto olhou para o exterior. O primeiro passo foi a compra do Alasca
em 1867 da Rússia por 7,2 milhões de dólares. Era a internacionalização do
Destino Manifesto. Os EUA tinham, outra vez, o direito de expandir-se para
terras distantes por meios políticos, militares ou econômicos. Para se ver
como o ideário nacional influenciava a política do país o governo investiu
forte na construção de navios de guerra, acreditava que quem controlasse
o mar controlava seu próprio destino. Em 1890 um militar, Alfred Mahan,
publicou um livro, The Influence of Sea Power upon History, que teve influência concreta nas ações de governos dos EUA. (26) Dizia que os EUA não
podiam continuar isolados, à margem dos assuntos mundiais, e que comércio
e o poder militar eram inseparáveis.
Depois de se conquistar o continente, já recuperados da Guerra Civil,
com a economia crescendo e precisando de novos mercados, a nova missão
ou orientação foi para o exterior. O isolacionismo, por motivos de desassossego interno ou pela fraqueza do comércio e da força naval, fora defendido antes. Agora as forças nacionais olhavam para outros horizontes, numa
adaptação rápida, o discurso mudou. É uma característica dos EUA, é só
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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observar nos tempos mais recentes como mudou o ponto de vista do povo e
governo dali frente a certas situações mundiais. Em um dado momento esse
ou aquele país ou personagem no exterior é o inimigo a ser combatido, em
outras circunstâncias muda-se de alvo ou discurso e tenta-se atingir quem
antes parecia ser amigo daquela nação. Parecem, algumas vezes, como as
ações contadas por George Orwell em seu livro, 1984. O bem hoje pode ser o
mal amanhã ou vice-versa. Ou, repetindo a frase conhecida, de que os EUA
não têm amigos, têm interesses.
Em 1890 o setor que geria terras nos EUA declarou que havia terminado
a expansão da fronteira americana, não havia mais terras a serem conquistadas. Um fato aparentemente natural provocou um dilema nacional. Os
norte-americanos haviam sido incentivados a ir para o oeste, ter sua terra,
começar vida nova num lugar novo, como se fosse um nascer outra vez para
a vida, e se falava que não havia mais espaço para ser conquistado no país.
A identidade do país foi formada em torno disso. Não havendo mais terra
a ser conquistada, o país deveria se voltar para uma política externa que
vislumbrasse novas conquistas para que aquele sonho ou maneira de ser do
povo norte-americano ainda encontrasse meios de se revigorar física e espiritualmente. (27)
Em 1885 Josiah Strong publicou um livro, Our Country, que teve enorme influência na política externa nos EUA, vendeu mais de 167 mil cópias.
Ele mistura raça, religião, ciência e imperialismo na sua análise. Defende
que os anglo-saxões devem dominar o mundo, e que esse povo defendia
dois aspectos imbatíveis da humanidade: liberdade e cristianismo; o protestantismo seria a raça missionária, deveria fazer a evangelização do mundo.
(28) Ele faz contas sobre a população da Europa, da Inglaterra, dos EUA,
compara tudo e chega à conclusão de que o futuro da humanidade estaria
nas mãos dos anglo-saxônicos. Vai ainda mais adiante, buscando explicações
“científicas” da época, diz que os brancos nos EUA eram superiores fisicamente aos ingleses, cita até Charles Darwin para dar suporte a sua versão.
Dizia que ele escreveu que o grande progresso dos EUA e o caráter daquele
povo seriam o resultado da seleção natural, que, com as melhores pessoas
da Europa, o resultado daquela seleção natural daria um povo especial. Dizia ainda que Deus estava treinando a raça anglo-saxônica para sua futura
missão (dominar o mundo), o catolicismo estava perdendo influência sobre
as pessoas educadas, o protestantismo era a religião do homem branco. (29)
Mas talvez o intelectual que mais influenciou a expansão externa dos EUA
tenha sido Frederick Jackson Turner. Em 1893 apareceu seu trabalho Frontier in American History. O oeste já estava conquistado, era preciso descobrir
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Alfredo da Mota Menezes
novas alternativas de expansão, mesmo além-mar, para continuar crescendo
economicamente. (30) Ele dizia que o poder econômico dá suporte ao poder
político. Ele, Josiah Strong e Alfred Thayer Mahan foram os três que, com
suas publicações, mais influenciaram a ida dos EUA para o exterior, primeiro
perto de casa, depois onde ainda hoje se encontra.
Não eram somente os EUA que achavam que conquistar terras seria
missão de uma grande nação. A Europa, na segunda metade do século 19,
acreditava que o vertiginoso crescimento dos EUA tinha sido por causa das
terras adicionadas ao país, deu a base para o crescimento da nação. Quando
os EUA declaravam que não tinham mais onde conquistar terras no seu
território foi o momento em que na Europa se falava que o crescimento do
país fora consequência da adição de novas terras. (31) Falava-se, portanto,
na Europa que o caminho seria ter mais terras e explorá-las para o bem do
seu povo, uma filosofia de crescimento econômico da época. Os EUA, não
tendo mais onde buscar terras em seu território, defendem o expansionismo
além-mar, base da política externa de potências europeias do período. Além
do ganho econômico com essa ação, outro dado foi acrescido à proposta
expansionista: segurança para o país.
E onde poderiam ser encontradas essas novas terras? Onde seria a nova
fronteira para se expandir? Pensou-se em ir para o norte, para o Canadá,
(32) mas havia um bom relacionamento entre os EUA e a Inglaterra naquele
momento, coisa costurada desde as lutas pela independência do país. O bom
senso recomendava não tentar uma aventura no Canadá. Talvez fosse mais
fácil para o sul do continente do que para o norte, tendo em vista uma Espanha enfraquecida e uma região praticamente abandonada. O caminho natural seria a América Latina. E isso deveria ser feito logo, antes que interesses
europeus se movessem para a área. Outra vez entra o aspecto religioso ao
colocarem que, além da conquista em si, eles levariam a palavra correta de
Deus aos povos da região. A questão religiosa está na base da ação expansionista dos EUA dentro do país ou fora. Ela pode ser vista de diferentes formas.
Uma, que o povo dali acreditava mesmo que estava ao lado da verdadeira
religião, e que seria sua missão civilizar outros povos. A outra é que se usava
a Bíblia e a religião para preencher propósitos de satisfação econômica. Ou
ainda a união das duas coisas – ensinar a palavra de Deus e ganhar dinheiro.
Fato, aliás, que seria uma recomendação da própria religião, a pessoa teria
que ser vencedora nesta vida para merecer a outra também. Seja por esse
ou por aquele motivo percebe-se o caminho que toma a política externa do
país vizinho ao norte do continente. Para os EUA continuarem a crescer,
como fizeram até aquele momento com a conquista interna da fronteira para
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o oeste, e indo além na América do Norte com a expansão para o México,
deveriam expandir-se para novas terras.
Era como se jogava o jogo do poder do período. A Europa andava fazendo coisas iguais em outras partes do mundo, os EUA começam pela região
mais ao sul do continente, em que, imitando a Europa, comprava por preço
menor matérias-primas que eram levadas para os EUA, ali se transformavam
em bens industriais que voltavam a ser vendidos na América Latina. Os
norte-americanos se viam como um fator positivo para a região. Achavam
que poderiam ajudar mais a América Latina do que os europeus, a Europa
representava o passado, cheia de lutas internas e vícios, os EUA o futuro,
sem as peias que amarravam a velha Europa. E tudo, claro, se estribava numa
vontade divina, Deus abençoava o que estavam fazendo, falavam claramente
que o expansionismo americano era uma bandeira que Deus dera a eles. (33)
Viam-se como a mola propulsora do progresso para a América Latina, eles é
que iriam levar a região para perto da civilização. Teve gente nos EUA que via
essa conquista como um erro, falavam que, ao fazer aquilo com outros povos,
manchariam o ideal de democracia e liberdade em que os norte-americanos
acreditavam, (34) seria melhor ficar em casa e deixar cada povo cuidar de
si mesmo, contato com o atraso poderia afetar o povo mais desenvolvido.
Um ponto de vista que, frente à realidade local e mundial, não prosperaria.
O entendimento na Europa, principalmente na Inglaterra, base da cultura
norte-americana e também na maior parte da população nos EUA, foi que
se devia ir em frente. Eles pensavam em curar feridas regionais ao dar apoio
para a América Latina. Acham explicação para tudo. Que a região era como
se fosse uma criança que precisa ser guiada e de estímulo, depois ela mesma
continuaria sua caminhada. Usavam quase sempre a ideia de humanismo,
ajudar quem precisa, mas lá no fundo o motivo seria o econômico. Quase a
mesma coisa que fizeram antes no território norte-americano na conquista
das terras dos índios. No início o discurso era para ajudá-los a sair do atraso,
depois que houve choques e mortes, quando os índios reagiram aos avanços
dos brancos, deveriam, em nome de Deus e do progresso, ser eliminados.
Poderiam fazer praticamente o que queriam para levantar a moral e a
economia de outras gentes. Capitalismo e protestantismo de mãos dadas. Não
há talvez melhor exemplo dessa crença do que o discurso norte-americano
nas suas relações com a América Latina. Era uma espécie de cruzada, de luta
religiosa, de sobrepor-se ao catolicismo pelos verdadeiros ensinamentos protestantes. A política externa dos EUA para a região continha praticamente
todos esses elementos. América Latina precisava crescer economicamente
e aprender democracia, e quem poderia fazer isso seria o norte-americano.
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Alfredo da Mota Menezes
Houve gente nos EUA (35) que dizia que a ação dos norte-americanos na
região poderia reverberar ao contrário, mostravam que a tentativa de levar
civilização para os índios nos EUA e colocá-los ao lado do conquistador não
funcionara. Que o mesmo poderia acontecer na América Latina e, pior, poderia colocar o povo contra o norte-americano e forçar a região a se manter
mais arraigada em torno de suas crenças e modo de vida. A bronca regional
talvez tenha suas raízes lá atrás na tentativa norte-americana de “civilizar” a
região. Os que defendiam a expansão além-mar alegavam o contrário, que o
país poderia civilizar povos e colocá-los no caminho do crescimento econômico. Arguiam que isso estava aos poucos ocorrendo com os imigrantes que
chegavam aos EUA com seus vícios e maneiras estranhas da Europa, e com o
tempo estavam sendo assimilados pela cultura e maneira norte-americana.
Naquele momento da criação das bases da expansão para o exterior
a indústria estava em crescimento no país, precisavam de mercados para
vender produtos e comprar matéria-prima. O fator econômico os empurra
para outras regiões, como estava acontecendo com países da Europa e com
o Japão na Ásia. O exemplo do caso norte-americano é até emblemático. O
país passava por grave crise na economia, debitam parte da culpa ao excesso
de produção local, seja agrícola ou industrial. (36) A saída seria encontrar
mercado fora, de preferência perto de casa. Não dava ainda para competir
com os europeus em outros lugares do mundo, o correto, na visão de líderes
políticos do momento, seria na América Latina. Nesse contexto nasceu a
proposta de uma conferência pan-americana a ser realizada em Washington
em 1889. O motivo da conferência seria para encontrar meios para uma
maior penetração comercial na América Latina retirando dali principalmente os ingleses. O encontro começou em outubro de 1889 e terminou em abril
do ano seguinte. Os EUA promoveram uma excursão por lugares que impressionassem os delegados com seu crescimento econômico. Falava-se em
estabelecer tratados de reciprocidades com países diferentes. Não era fácil
para os EUA fazer essas modificações porque o país era ainda protecionista,
tinha altas tarifas contra outros países. Mas no momento em que se sentem
um pouco mais fortes em seu parque industrial seria hora de buscar alternativas externas, e o lugar escolhido tinha sido a América Latina.
Num primeiro momento dessa reciprocidade o Brasil foi um dos poucos
países a aceitar participar de uma troca comercial. Estabeleceu, em 1891, um
acordo com os EUA para a entrada de café e açúcar no território daquele
país em troca de comprar bens manufaturados. Os outros países a participarem desse novo acordo comercial foram os do Caribe e os da América Central, que já compravam produtos dos norte-americanos. O Brasil se punha na
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outra ponta dos interesses da Argentina. Esta tinha uma ligação mais íntima
com a Inglaterra, a economia mais forte do período. A decisão do governo
brasileiro foi aproximar-se da nova potência em ascensão, Rio Branco buscou
ligações maiores com os EUA, isso é bem descrito no livro de Bradford Burns.
(37) Mas não funcionou direito esse momento inicial de reciprocidade. Primeiro, pela política interna dos EUA em que uma administração partidária
se contrapunha a outra nessa matéria. Os Democratas com Grover Cleveland ganham a eleição em 1892, cortaram as ações do governo Republicano
anterior. Outro motivo pela morte dessa iniciante ação de reciprocidade é
que não havia muitas linhas de barcos entre os países da região e os EUA,
não havia também casas bancárias e créditos para ajudar no crescimento dessa relação. A Europa ainda se mostrava mais atrativa para a América Latina
do que os EUA, mas este país continuou sua tentativa de dominar o mercado
regional. O crescimento de sua marinha era um sinal de que outros tempos
estavam para vir no relacionamento entre os lados do continente.
No Chile, em 1891, houve pequeno incidente em que os EUA mostraram sua nova musculatura naval. Morreu um marinheiro de um navio norteamericano e outros foram feridos numa disputa no porto de Valparaíso. O
presidente Benjamin Harrison (1889-1893) queria que o governo do Chile
se desculpasse pelo incidente. Este país, como se encontrava convulsionado,
concordou em pagar uma indenização pelo ocorrido. (38) Grover Clevelandd
(1893-1897) também teve a oportunidade de mostrar essa nova força do país
quando da revolta da marinha no Brasil de 1893-1894, no governo Floriano
Peixoto. Dois navios de guerra foram mandados pelos EUA para proteger os
interesses comerciais do país frente a esse movimento insurrecional, mais
tarde esse número cresceu para cinco navios. Não se precisou de nenhuma
intervenção, mas, para os EUA e a América Latina, havia algo novo no mar,
e não eram mais somente os navios e a marinha da Inglaterra. Mas para mostrar a diferença que havia entre os interesses comerciais uma fonte diz que
os EUA estavam protegendo cinco navios comerciais deles que estavam no
porto do Rio de Janeiro, enquanto da Inglaterra havia mais de cem. (39)
Mas seria num caso com a Venezuela que os EUA mostrariam essa nova
postura para com a região e o mundo. Havia uma disputa desse país sulamericano com a Inglaterra sobre fronteira com a Guiana inglesa. A data
que marca esse novo posicionamento norte-americano é 1895. O Secretário
de Estado da administração Grover Cleveland, Richard Olney, mandou uma
nota para a Inglaterra que teve enorme significado para a relação entre os
EUA e a América Latina a partir dali. Um trecho da nota dizia que os EUA
eram soberanos neste continente e sua vontade era lei na região, (40) era
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invocada a Doutrina Monroe de 1823 para defender o ponto de vista. Antes, quando ainda não tinha força militar e econômica suficiente, ele não se
opôs a ações de países europeus na América Latina, agora a situação mudou
e os EUA falavam que potências europeias não poderiam tomar pedaços de
territórios da América Latina. A partir dali começou o aceite que os EUA
tinham o direito pela sua posição geográfica de intervir nas disputas diplomáticas regionais, mesmo que não fosse parte delas. O que caracterizou o fato
foi a aceitação de potências europeias, principalmente a Inglaterra, para esse
novo posicionamento. (41)
Outro fato daquele momento que, para o bem ou para o mal, empurrou os EUA para dentro dos assuntos da América Latina foi a guerra com a
Espanha em torno da emancipação política de Cuba, em 1898. (42) A luta
pela independência de Cuba começou em 1895, internamente, os EUA já
possuíam investimentos em engenhos de açúcar, minas e ferrovias ali. Cuba
continuava colônia espanhola, mas tinha mais liberdade econômica, um tanto quanto diferente do pacto colonial espanhol para suas antigas possessões,
um dado que talvez tenha feito com que a sua independência viesse bem
depois do que ocorreu com outros países da área. Os EUA, pela proximidade
geográfica, tinham investimentos na ilha do Caribe, a guerra os ameaçava.
Mas o fato imediato que empurrou os EUA para o conflito foi o clamor da
população do país contra a ação dos espanhóis ali. Já havia o carimbo da
Lenda Negra contra os espanhóis que circulava na Europa e nos EUA desde
muito tempo. Fatos novos levaram àquele clamor popular.
A atuação do general espanhol Valeriano Weyler e a criação de espécie
de campos de concentração em Cuba, mostrado à exaustão por jornais dos
EUA, reforçam a imagem de um povo que agia de forma cruel. Em Cuba os
espanhóis acreditavam que havia ajuda do povo e até dos usineiros para os
que lutavam pela independência. Para impedir isso, de forma equivocada,
Weyler obrigou milhares de pessoas a se concentrarem em certos lugares. A
consequência em fome, doenças e mortes foi inevitável. Tudo foi mostrado
pela imprensa de forma dramática; para os EUA da época, reforçava o ponto
de vista de que os espanhóis nunca deixaram de ser cruéis e desumanos. Jornais nos EUA exageravam nas atrocidades dos espanhóis na ilha, chegou ao
ponto, por causa das descrições, de o New York Journal atingir a marca de um
milhão de cópias por dia. (43) Os cônsules mandavam dramáticos comunicados para os EUA que, interessantemente, apareciam nos jornais.
Cito pesquisa feita nos despachos diplomáticos de três cônsules norteamericanos em Cuba entre 1896-1898. (44) Não havia embaixador em uma
colônia, eram os cônsules os encarregados dos assuntos diplomáticos. Os três
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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representantes dos EUA foram Polasky Hyat (Santiago de Cuba), Alexander
Brice (Matanzas) e O. McGarr (Cienfuegos). Cito, entre outros e apenas
como ilustração, dois dos despachos que devem ter ajudado a empurrar os
EUA para a guerra com a Espanha. Eles apareciam na mídia impressa do país
quase com as mesmas palavras empregadas nos despachos dos cônsules.
Escreveu Brice para o Departamento de Estado, em 28 de maio de 1897,
que: “neste preciso momento cinco mulheres com seus filhos morrendo de
fome estão em minha porta pedindo comida. Uma me disse que perdeu três
filhos por falta de comida. Certamente os EUA irão tomar alguma medida
decisiva sobre esse assunto. Os olhos das pessoas famintas estão voltados
para nós. Que Deus oriente o presidente McKinley e nosso Congresso sobre
Cuba”. A outra é mais dramática ainda. Hyat escreveu para o Departamento
de Estado em 6 de fevereiro de 1897: “eu fui acordado esta manhã por um
barulho de multidão em minha porta. Ao olhar para fora eu vi uma face
agonizante e macilenta já fria de morte. O corpo estava de joelhos, cabeça
jogada para trás como num ato de súplica... e o velho chapéu de palha e o
restante de uma calça eram tudo o que cobria esse monte de pele e osso.
Era um caso de morte por fome sem nenhuma dúvida”. (45) E a imprensa
publicando tudo.
Os EUA assim mesmo relutavam em entrar numa guerra com uma potência europeia, apesar de decadente. Exercitar musculatura militar com
países latino-americanos era uma coisa, outra com um país europeu. Em
fevereiro de 1898, de forma não esclarecida até hoje, um navio de guerra dos
EUA, Maine, explodiu no porto de Havana, morreram 226 norte-americanos. Lembra o que ocorreu em Pearl Harbor em dezembro de 1941. O clamor
nos EUA para entrar na guerra aumentou consideravelmente: em abril daquele ano a guerra foi declarada contra a Espanha. Em julho do mesmo ano,
ou 10 semanas depois do início das hostilidades, os EUA batiam a Espanha,
uma antiga colônia batia uma ex-metrópole, criou-se um senso de orgulho
nos EUA no momento em que o patriotismo ali estava em alta. Foi o que
se chamou uma “esplêndida pequena guerra”. Ou seja, os EUA precisavam
de algo sem muita perda humana e material contra um país europeu para
se mostrar como um novo ator na cena mundial, e definitivamente não ter
mais pruridos em seu relacionamento com a América Latina, principalmente
no Caribe e na América Central ou como passou a ser conhecido o mar do
Caribe como o mediterrâneo norte- americano.
Por três anos, entre 1899 e 1902, Cuba foi comandada por força militar norte-americana. Depois foi aprovada no Congresso cubano a chamada
Emenda Platt, que dava o direito de os EUA intervirem em Cuba toda vez
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Alfredo da Mota Menezes
que houvesse qualquer problema social ou político. (46) A emenda cria um
protetorado dos EUA, além de receberem base militar e ter livre abertura
para investimentos econômicos na ilha. Foi o modelo que, a partir dali, os
EUA tiveram para a região. (47) Agiam de forma diferente dos países europeus que exerciam o domínio direto em uma colônia, como faziam Inglaterra
e França por exemplo. Os EUA inovavam: não estariam ali fisicamente com
força militar, mas tomavam conta de toda a vida política e econômica da
nação sob protetorado. E, se necessário, mandava força militar. Uma nova
forma de expansionismo ou imperialismo.
Os países da América Latina, já temendo a força dos EUA, não se mostram muito simpáticos à atuação daquele país contra a Espanha. A exceção
ficou por parte do Brasil, que até permitiu que navios norte-americanos se
abastecessem de carvão e fizessem pequenos reparos no litoral brasileiro.
(48) Outra vez a diplomacia do país tentando se juntar à potência emergente e contra os interesses dos argentinos que sempre estiveram juntos da
Inglaterra. Naquele mesmo momento, como consequência da guerra contra
a Espanha, os EUA se apossam também de Porto Rico e das Filipinas, a tese
expansionista em andamento. Como já dito, a base seria econômica, de segurança e também porque conquistar novas terras revigorava a nação.
Houve uma segunda crise em que esteve envolvida a Venezuela, e que
reforçou ainda mais a presença dos EUA nos assuntos regionais. Inglaterra,
Itália e Alemanha, por causa de dívida do país sul-americano não pagavam,
queriam bloquear a Venezuela em 1902. Apesar de os EUA concordarem
com o princípio de que quem deve tem que pagar, não concordam que potências europeias coletem dívida numa região sob influência direta deles. Os
EUA propõem que o assunto fosse levado para discussão em fórum internacional, os países europeus concordam em levantar o cerco e entregam o
tema para a Liga de Haia, e ali se decide que a Venezuela tem que pagar suas
dívidas. Essa decisão que parecia uma boa coisa para os interesses das partes
envolvidas, incluindo a posição dos EUA, não foi bem vista por esse país.
A partir dali outros países europeus poderiam usar a diplomacia do barco
de guerra para recolher o que lhe era devido, não interessava aos EUA que
isso se transformasse em regra. Sabiam da instabilidade política nos países do
Caribe e da América Central e, frente a situação como essa, poderiam não
pagar dívidas, e haveria outra vez a presença de força militar europeia para
cobrar o que lhes deviam (49) de forma direta ou até mesmo levar, como no
caso venezuelano, à decisão internacional. Não seria interessante, portanto,
para os EUA que disputa em sua área de influência saísse de sua órbita e fosse
ser resolvida em outros lugares.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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Em dezembro de 1904 nasceu o chamado Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe. Dizia a mensagem do presidente Theodore Roosevelt (19011909) ao Congresso dos EUA que os países da América Latina que agissem
com razoável eficiência em matéria política e social, se mantivessem ordem
e pagassem suas dívidas e obrigações, não precisavam se preocupar com a interferência dos EUA. Crônicos problemas internos nos países que ameaçassem os laços que caracterizam uma sociedade civilizada talvez forçassem os
EUA, “mesmo que de forma relutante”, a intervir para acertar as desavenças
internas. (50) A Doutrina Monroe saiu de sua maneira passiva para agressiva
participação nos assuntos da área. A partir dali, qualquer problema político
ou social em um país ou que ele não pagasse suas obrigações financeiras os
EUA teriam o direito de intervir para resolver o impasse interno.
Estava agora justificada a invasão, nascia a diplomacia do dólar (51) ou
do Big Stick ou grande porrete. Aquela que dizia que se devia falar calmamente com o latino-americano tentando levá-lo a entender a coisa lógica,
mas devia-se carregar sempre um grande porrete na mão. Se depois de algum
tempo e tentativa de persuasão nada fosse conseguido, que se desse uma cacetada na cabeça dele para que aceitasse os argumentos, daí o termo big stick
ou grande porrete, que consta nos livros de história daquele país como momento novo da relação dos EUA com a América Latina. Os EUA se transformaram na polícia da região, recolheriam as dívidas do próprio país e, se
potência europeia tivesse que receber algum pagamento, os EUA fariam isso
por ela. Não seria mais permitida a presença armada da Europa em assuntos
da área de influência norte-americana. E fazia isso por motivos econômicos,
políticos, de hegemonia regional, por princípio religioso do homem branco
para levar civilização para outras pessoas e países. Sempre o legado colonial
espanhol a acompanhar a América Latina na visão daquele país.
Houve uma sequência de invasões dos EUA na área: em 1912 na Nicarágua; em 1915 no Haiti, ficando até 1934; em 1916 na República Dominicana, que findou formalmente em 1941; em 1926 outra vez voltam os
marines para a Nicarágua. Cuba e Porto Rico eram praticamente colônias
sob tutelas diferentes. Mais tarde os EUA começam a se afastar militarmente
da área deixando no lugar a Guarda Nacional treinada por eles. Ela serviu a
diferentes ditadores. Esses grupos armados caíram em mãos de famílias como
as de Anastácio Somoza, na Nicarágu,a e Rafael Trujilo, na República Dominicana, que controlaram a ferro e fogo o povo desses países. (52) Os EUA
criticavam a atuação da elite regional em não promover o desenvolvimento
material da maior parte da população, e ao mesmo tempo ajudavam esta
mesma elite a manter a situação que interessava a ela, e o povo ficava mais
70
Alfredo da Mota Menezes
submisso ainda. Como o interesse norte-americano era o lucro este viria de
maneira mais rápida numa união dessa forma. A grande massa nunca teve
atenção dos norte-americanos. Aliás, impressiona essa indiferença deles pelos reais problemas sociais da região. Também apoiavam a elite regional na
luta do fim do século XIX e início do XX em tomar as terras comunais dos
índios e mestiços. Elas existiam desde tempos imemoriais, e de um momento
para outro seus antigos donos passam a ser peões ou trabalhadores braçais
nas fazendas e propriedades dos mais abastados. E estes tinham, muitas vezes, o apoio dos norte-americanos ou de força militar treinada por eles para
controlar manifestação de descontentamento. Mesmo se não mandassem
força militar apoiavam o princípio da propriedade privada e não coletiva,
um suporte moral e até mesmo ideológico para a destruição das terras comunais. O exemplo clássico de destruição desse tipo de propriedade foi o que
aconteceu com os ejidos no México. Em alguns anos, aquilo que existia desde
antes da chegada dos conquistadores vai para as mãos de pouca gente. Mais
tarde, em 1911, explode a Revolução Mexicana que, entre outras promessas,
pretendia devolver a terra tomada dos mais pobres pelos defensores do liberalismo, como o que ocorreu no governo Porfírio Diaz (1876-1911).
Os EUA continuaram a investir e a tomar conta da região que o circundava. Foi ali que exercitou a musculatura militar e econômica para passos
maiores mais tarde na arena internacional. A área do Caribe e a da América
Central foram parte importante da política externa daquele país. Outro fato
que colocou ainda mais os EUA dentro dessa área foi a construção do Canal do Panamá. (53)Uma companhia francesa que tentava construir o canal
teve problemas financeiros, mas mantinha ainda a concessão para aquela
construção. O território do canal era da Colômbia. No governo Theodore
Roosevelt ele comprou a concessão dos franceses e tentou negociar com os
colombianos a construção do canal. Não houve entendimento, onde hoje é o
Panamá resolveu se separar da Colômbia. Este país reagiu, mas foi impedido
de ação militar maior pela presença de navios de guerra dos EUA. A independência veio em 3 de novembro de 1903; no dia 6 de novembro os EUA
já reconheciam o novo governo, e em fevereiro de 1904 assinaram o acordo
para a construção do Canal. Os EUA teriam soberania absoluta no Canal e
nas terras que o cerca. Em 1914 foi inaugurado. Foi muito comemorado esse
fato, mostrava a força da engenharia do país, e também é citado o trabalho
no setor de saneamento no combate a doenças tropicais. A região do Canal
do Panamá para cima ficou praticamente sob protetorado norte-americano,
ou como disse um Secretário de Estado do país, Philander Knox, que aquela
área era muito importante para a segurança dos EUA. (54)
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
71
A relação mais próxima dos EUA, como já mencionado, era com as
pequenas repúblicas do Caribe e da América Central. O único país maior
latino-americano em que houve algum tipo de entrevero no relacionamento
com os EUA foi, outra vez, o México. Woodrow Wilson (1913-1921) atacou
o porto de Veracruz durante o governo de Victoriano Huerta. (55) Também,
depois do ataque de um grupo comandado por Pancho Villa numa cidade
americana da fronteira com o México, em que morreram alguns civis, ele
invadiu o país na chamada “expedição punitiva” para encontrar Villa. (56)
Não encontrou e retornou para casa. Outro fato muito comentado desse período foi o telegrama Zimmermann. Alfred Zimmermann era o Ministro das
Relações Exteriores da Alemanha durante a I Guerra, quando explodiu na
imprensa dos EUA que ele havia instruído o embaixador no México a propor
a esse país que, se entrasse na guerra contra os EUA, receberia de volta os
territórios perdidos na guerra de 1848. (57)
Na I Guerra os EUA buscaram algum tipo de aproximação com a América Latina; falava-se em pan-americanismo outra vez. (58) A guerra acaba ajudando na penetração econômica maior dos EUA na América Latina.
Como a Europa estava conflagrada, tinha comércio menor e vendia menos
na área, na brecha criada, os EUA preencheram o espaço aberto. Bancos
abriam na região melhores linhas de créditos, e também ligação por transportes facilitava a penetração comercial, o que sempre quis aquele país. O
Brasil é o exemplo dessa expansão, dando prosseguimento à tentativa nacional de estreitar relações com os EUA. Até a guerra o Brasil dependia mais
da Inglaterra em suas transações comerciais, principalmente na compra de
carvão mineral. O país passou a importar mais dos EUA. O Brasil, além das
pequenas repúblicas do Caribe e da América Central, ficou também ao lado
dos EUA na declaração de guerra à Alemanha. Mas, mesmo fazendo essas
mesuras, nunca houve maior deferência dos EUA para com o Brasil. Sofreu
até embargo em suas exportações para lá quando, depois da guerra, o café
teve majoração de tarifa porque foi considerado produto de luxo e não essencial. O país até reclamou que o comércio dos EUA com a Argentina durante
a guerra crescera mais do que com o Brasil. (59) São dados que mostram
o rumo das relações dos EUA com a América Latina, não há deferência a
nenhum país. Em determinado momento, por causa de algum fato especial,
pode haver um interesse do governo, da mídia e da população dali. Passada
a situação volta-se ao de sempre, e esse sempre é que os países da região não
podem ser tratados como iguais. Não possuem nada ou quase nada para dar
em troca para se criar um relacionamento mais positivo ou proveitoso para
os dois lados.
72
Alfredo da Mota Menezes
Com a experiência latino-americana de comércio os EUA se abrem para
o mundo, passam a ter presença também na Europa e em outras regiões
do globo, lugares com menos riscos para os investimentos que na América
Latina, por causa da instabilidade econômica e política da região. Passou a
ser claro para o mundo que a América Latina era uma área de influência
norte-americana, ninguém mais desafiava a Doutrina Monroe. As discussões
em Paris depois da guerra mostraram que as potências europeias não davam
importância para os países da área, o diálogo foi com os EUA. O mundo via
e vê assim até hoje. O pior é que talvez a imagem criada pelos EUA sobre a
América Latina tenha se espalhado pelo mundo. Uma crença numa espécie
de inferioridade colada na gente regional. O conceito não muito elevado da
América Latina no mundo tem raízes em seus próprios problemas, mas, associado a isso, a descomunal presença dos EUA nos assuntos da área através
dos anos, quem sabe, ajudou a cristalizar em lugares diferentes a ideia da
pouca importância da região no contexto mundial.
De volta à história. Atos externos dos EUA estavam sempre conectados
ao momento por que passava o país. Sarah Sharbach (60) é outra que mostra
esse fato e, no caso específico, mostra como a política externa dos EUA na
década de 1920 ou durante a diplomacia do dólar ou era intervencionista sofre influências do que ocorria internamente no país. Além do aspecto
econômico, a visão racial do período acaba empurrando ainda mais os EUA
para o Caribe e a América Central, não somente ali mas também para o
seu relacionamento com os latino-americanos até mesmo em sua política
externa. Ela mostra que as teorias raciais “provavam” a superioridade do
homem branco sobre negros, índios e povos de raças misturadas. A imprensa
aceitava esse fato, o homem comum também, e isso determinava a ação de
Washington para a região. Ela comenta o que diziam livros da época sobre o
assunto, todos defendendo que o homem branco era superior, e que os outros
povos não tinham condições de autogoverno. Também é a época em que
havia grande imigração para os EUA, e muita gente ali achava que isso iria
degenerar a raça especial que se pretendia criar no país.
A autora escreve que, como despojo da guerra contra a Espanha em 1898,
os EUA não colocaram Porto Rico como estado por causa dessa visão racial. O
mesmo se poderia dizer de Cuba, que ficou como um protetorado especial sob
a Emenda Platt. Ninguém queria absorver uma República de negros, índios,
mestiça e, pior, católica. É interessante observar que o Havaí virou mais um
estado norte-americano, e que Porto Rico até hoje não atingiu essa posição.
Cuba e Haiti são exemplos dessa atuação dos EUA em contato com a América Latina. No momento do Destino Manifesto, do expansionismo na América
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
73
do Norte, a maioria das pessoas naquele país não queria absorver todo o México com receio de que a raça inferior contaminasse a outra. No caso do Haiti,
Porto Rico e Cuba a associação é a mesma. Se as teorias raciais determinavam
que negros, índios e mestiços eram inferiores, não havia como ter uma aproximação com povos que tinham a maioria de sua população nessas condições.
Com outro agravante, além de serem católicos, os europeus da Península Ibérica eram também inferiores ao povo anglo-saxônico. Não foi difícil, naquela
década expansionista, também associar o latino-americano com os índios e os
negros dos EUA, todos de raça inferior. Sharbach cita a quantidade de artigos
em jornais e magazines, além de livros nos EUA na década de 1920, que mostravam essa diferença de índios e negros em caráter, inteligência, aptidão para
o trabalho e governar a si próprio. Os jornalistas e acadêmicos escreviam sobre
a ligação entre raça e incompetência política, ponto de vista que justificava a
política externa do país. O que queria dizer intervenção militar, (61) os marines levavam civilização. O culpado por aquela situação, na teoria conhecida,
é o povo invadido. O outro está ali para ajudá-lo.
Havia, nesse caso e momento (como em outros), uma união entre o que
pensava a população do país e a política exterior. Na crença arraigada ali, que
vem desde lá de trás, de que o homem branco teria o dever de ajudar outros
povos a melhorarem suas vidas. A ideia prevalente nos círculos do governo em
Washington naquela época era que a América Latina era atrasada mesmo. O
Departamento de Estado tinha até dificuldade em recrutar gente para trabalhar
na área, quem fosse recrutado considerava o recrutamento como castigo ou
como fim de carreira. (62) Havia instruções internas do governo dos EUA para
o corpo diplomático de que estavam na região como missão, para ajudar com
sua experiência, investimentos, empréstimos e melhorar a qualidade de vida da
população regional. Falavam aos futuros diplomatas que eles ouviriam muito
que os EUA eram imperialistas, mas que não dessem ouvidos a isso, sua missão
seria de ajuda e não o contrário. Lá por 1925 os EUA investiam ou emprestaram
11 bilhões de dólares para o mundo, dessa quantia a América Latina recebera
4 bilhões. Era o principal lugar para onde ia o dinheiro deles, depois a Europa
e o Canadá. (63) Com tanto dinheiro na área a política externa tratava de
garanti-lo, defender os interesses dos investidores dos EUA na América Latina,
basicamente no Caribe e na América Central. Os norte-americanos alegavam
que, seja ali ou em outro lugar, os investimentos criavam empregos, geravam
impostos ou se construíam estradas, e que atos como esses é que ajudavam a
população local. Também o exemplo do trabalho duro e planejado acabava influenciando gente e nações. Concorde-se ou não, era o discurso que pregavam
para os países sob protetorado ou com presença econômica forte deles.
Capítulo IV
u
Boa Vizinhança
E
m março de 1933 o presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945),
em sua posse, disse que haveria uma nova maneira de relacionamento com
a América Latina. Uma política regional em que os vizinhos respeitam a si
mesmos e o direito dos outros. Um mês depois, em outro discurso, declara que os EUA não praticariam política de intervenção em países vizinhos.
(1) Nascia a chamada política da Boa Vizinhança. Desaparecia o Corolário
Roosevelt à Doutrina Monroe, que pregava que os EUA tinham o direito de
intervir nos assuntos internos de país latino-americano se houvesse problemas políticos graves ou até mesmo para coletar dívidas de países devedores.
Interpretação que provocou mais de 20 anos de invasões em diferentes países
do Caribe e da América Central, e até do México. No início de uma nova
administração nos EUA, em plena Depressão Econômica, o país entende que
era tempo de enterrar essa prática estranha de política externa.
Não nasceu com Franklin Roosevelt a ideia de acabar com aquela prática. A origem dessa mudança está no governo Calvin Coolidge (1923-1929)
seu Secretário de Estado, Frank Kellog, começou a trabalhar no assunto. (2)
Ele tentava aprovar um sonho, com o pacto Kellog-Briand, (3) para abolir a
guerra no mundo. Depois da destrutiva I Guerra alguns achavam que era hora
de se eliminar esse assunto da vida das nações, sonho nunca foi concretizado.
Se Kellog estava patrocinando um ato que eliminaria a guerra, como é que poderia concordar com o Corolário Roosevelt que queria dizer intervenções ou
atos de guerras contra nações da América Latina? Não fechava a equação.
Ele entrega a missão de estudar essa mudança ao Subsecretário de Estado, Reuben Clark. Seu memorando de 1928 é que deu a base para que, mais
tarde, Franklin Roosevelt criasse a nova política norte-americana para a
América Latina. Clark concordava com a Doutrina Monroe, que defendia a
autodefesa em caso de ataque, previsto no mesmo pacto Kellog-Briand, mas
76
Alfredo da Mota Menezes
fulminava o Corolário que autorizava invasões. O próximo presidente dos
EUA, Herbert Hoover (1929-1933), também pensava assim. Ele fora Secretário de Comércio nos governos Warren Harding e Calvin Coolidge, viajara
pela América Latina e percebera o mal que as invasões faziam na imagem dos
EUA na área, fato que até atrapalhava o aumento do comércio do seu país
na região. Passou a defender também um novo tipo de relacionamento com
os países do continente. Hoover governou sob enorme problema econômico
e, por mais que defendesse um novo tipo de aproximação com a América
Latina, não colocou em prática nenhuma medida maior nessa direção. O
memorando Clark, apesar de aceito, dormiu em gavetas. Franklin Roosevelt
que o ressuscitou, nascia no seu governo uma nova ação diplomática dos
EUA para a América Latina.
Houve outro fator que talvez tenha influenciado para que o norte-americano atuasse de forma diferente com a América Latina na década de 1930
e um pedaço da seguinte. Estava em evidência a teoria do pluralismo cultural, Franz Boas (4) foi seu principal defensor. Esse ponto de vista atacava as
teorias anteriores de que o homem branco, basicamente anglo-saxão, seria
o detentor de virtudes ou do predicado civilizador, uma ideia que prevaleceu naquele país por muito tempo. Franz Boas defendia que a cultura não é
propriedade de uma raça, é o acúmulo de conhecimento de um povo. Não
depende só de um povo especial que achava que tudo o que os outros faziam
estava errado, ou que a cultura seria a propriedade de um grupo de iluminados. Dizia mais a nova teoria, contrariando o que pregavam os teóricos anteriores nos EUA, que um povo civilizado deveria entender os outros povos
como eles são. Contrariava ainda manifestações do social Darwinismo e ia
contra também a tese aceita de que a humanidade cresce em estágios do selvagem para o barbarismo até a civilização. Estava implícita ainda no ponto
de vista do pluralismo cultural a desilusão com os valores do individualismo
e da sociedade capitalista de forma geral. (5) A Depressão fez muita gente
pensar com mais cuidado sobre os solavancos da economia de mercado.
Uma teoria como essa chegou forte na América Latina, pensadores locais a aprovaram e Franz Boas passou a ser um nome admirado na região.
Gilberto Freire, como exemplo, escreveu sobre a mestiçagem e a cultura
própria do Brasil sem receio das teorias anteriores que falavam em superioridade de um grupo humano sobre o outro no aspecto cultural. Reforça
no Brasil e em outros lugares da América Latina o sentimento de orgulho
nacional e surgem resistências maiores a atos de expansão de outro povo na
região. Sentindo o novo momento nos EUA, como era de se esperar, o cinema de Hollywood refletia a situação, apareceram filmes mais palatáveis com
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
77
as coisas da região. (6) Não ficou apenas em Franz Boas essa mudança em
círculos intelectuais nos EUA. Na década de 1920 já havia, internamente,
um movimento em favor da cultura indígena, diferente de como ela era vista
antes, agora mostrada de outra forma, e que os índios por seu contato com
a natureza, sua simplicidade e vida comunitária, estavam acima do modo de
ser capitalista e individualista. Havia algum desapontamento também com o
sistema capitalista, a crise econômica era aguda e alguns achavam que a busca desenfreada pelo lucro trazia problemas diferentes. Frente a uma situação
interna complicada até se encontra características positivas em povos que
sempre mereceram desprezo. Historicamente os índios tinham sido associados com aos latino-americanos, principalmente aos mexicanos. Se os indígenas passam a ser vistos de forma diferente por alguns intelectuais, o mesmo
ocorreu com os latino-americanos. Já se falava em maravilhas do México,
principalmente na arte indígena e na moderna. Falava-se em serenidade,
harmonia com a natureza, uma nova visão. (7)
Houve, ainda, naquele período diferente da história norte-americana,
uma aceitação, pelo menos em certos círculos, do negro e sua maneira de se
comportar. Como visto antes, o negro, o índio e a mulher eram sinônimos
de inocência, não preparados para o capitalismo. Teorias raciais diziam que
mulheres e negros seriam como crianças brancas, por causa de seus cérebros
menores. (8) A mulher seria passiva, não competitiva, diferente do homem
que, nessa análise, tinha todas as qualidades que pedia o mundo competitivo
do capitalismo, como racionalidade e lógica. A América Latina tinha sido
associada naquele país a criança, mulher, negro e índio, as charges do período
traduzem isso com clareza. Como havia uma nova interpretação, aquelas qualidades negativas desapareceram e surgiram outras mais positivas. Passou-se a
aceitar até a mestiçagem, sempre pontuando que isso era aceito não em toda
a população daquele país, mas em segmentos intelectuais. Essas novas tendências, na verdade, influenciaram mais a América Latina do que os EUA.
Sarah Sharbach diz que encontrou pouca evidência dessa inversão ou
mudança de comportamento nos EUA referente à América Latina na década de 1920, (9) e que acabaria influenciando a política externa da Boa
Vizinhança. Discussão acadêmica à parte não se pode negar que havia manifestações diferentes já naquela década sobre os índios do país, e que isso
se estenderia aos mexicanos com sua ascendência índigena também. Começa-se a descobrir a arte local, sua maneira de encarar a vida passa a ser
vista por alguns como algo diferente e até positivo. Aparecem autores como
Waldo Frank, Ernest Hemingway, Frank Tannenbaum escrevendo livros que
punham em outro patamar a cultura latino-americana. Waldo Frank talvez
78
Alfredo da Mota Menezes
tenha sido o intelectual norte-americano que mais teve sucesso na América
Latina. Falava em mistura de raça, união das duas bandas da América em
formar uma nova raça e cultura. Dizia em suas palestras aquilo que a plateia
queria ouvir, ou seja, que não havia abaixo do Rio Grande, como imaginava
a cultura do próprio país dele, um povo indolente, que havia uma cultura
ativa e não anormal. Defendia até que os EUA deveriam colocar recursos do
país para ajudar a criar essa nova América e não tentar reconstruir o velho
mundo. (10) Deveria ser uma música maravilhosa aos ouvidos da classe dominante na América Latina, tem-se dois segmentos em êxtase com o novo
momento: negócio e intelectual. Imagine a influência de pessoas dos EUA
escrevendo livros e fazendo palestras pela América Latina sobre a intelectualidade da região. Fredrick Pike mostra isso, e até trabalha com certos autores
da área que seguem a cartilha de Waldo Frank. (11)
De forma consciente ou não esses intelectuais norte-americanos estavam fazendo o trabalho que queria o Departamento de Estado na conquista
de mentes e corações na América Latina. Falas nessa direção ajudavam a política daquele país, que tentava diminuir a força das ideias fascistas e nazistas
na região. Waldo Frank até aceitou quatro mil dólares do Departamento do
Estado para uma turnê intelectual pela América Latina. (12) O embaixador
dos EUA no México, Josephus Daniels, dizia em 1943, após a visita e palestras de Henry Wallace, também favorável a essa nova visão sobre a América
Latina, que nenhuma outra pessoa poderia fazer um trabalho tão magnífico
em anular a propaganda nazista no país do que o que fez Wallace. Havia
tanta aproximação com as novas ideias que a maior parte da intelectualidade norte-americana aprovou a ação de Lázero Cárdenas no México em
nacionalizar o petróleo, expropriar bens norte-americanos, e ainda a reforma
agrária que ele fez. Estavam vivendo no México intelectuais de esquerda dos
EUA, que aplaudiam a Revolução Mexicana. Durante a Depressão Econômica até o socialismo cresceu nos EUA, muitos acreditando que o regime
capitalista não era apropriado, fazia sofrer parte das pessoas de um país. Era
um tempo diferente, na verdade.
Esse caldeirão cheio de novidades é importante para entender o aceite
da política da Boa Vizinhança nos círculos intelectuais na América Latina,
e também do apoio mais tarde aos norte-americanos na guerra que viria. O
caminho tinha sido aplainado, entre outros, por intelectuais que falavam e
escreviam de forma favorável às coisas da área. Isso teve clara implicação
quando, depois da II Guerra, os EUA abandonaram suas propostas e teses
defendidas na política da Boa Vizinhança. Deixa de se preocupar com a região, volta-se para a reconstrução da Europa e o enfrentamento com Mos-
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
79
cou. O desencanto dos intelectuais da América Latina foi enorme, talvez
esteja aí um dos motivos para a maior aproximação com as teses de Moscou
e o afastamento de Washington no meio intelectual da América Latina.
Há ainda outro fato que ajuda nessa mudança de tom dos EUA para
com a região. Na década de 1930 aparecem no país os problemas no meio
ambiente como consequência da desenfreada conquista do oeste. Não é
demais repetir que a maior parte da população dos EUA acreditava que o
homem civilizado era aquele que conquistava a natureza, dominava o meio
ambiente, dali tirava riqueza. Que outros povos, como os índios e os latinoamericanos, não agiam assim, e por isso estavam lá atrás na escala da civilização. Um ponto de vista com defesa até mesmo nos ensinamentos religiosos,
o homem, com a bênção de Deus, deveria ser dono da natureza. E aí veio a
resposta dela com as grandes secas nos lugares onde se fizera toda derrubada
de florestas para se plantar civilização. Aparecem, naquele interessante momento da vida daquele país, escritos e comentários de que talvez eles estivessem errados na tal conquista da natureza, e quem sabe os latino-americanos
e os índios não estivessem tão equivocados em procurar viver sem a destruir
tanto como ocorrera no norte do continente. Os latino-americanos assim
procederam, não porque eram contemplativos, queriam defender a natureza
ou preservá-la intacta. Mas, seja por esse ou aquele motivo, na América Latina as florestas estavam ainda em pé, e não nos EUA, e havia agora uma resposta dura da natureza frente à ação do homem. A seca no oeste, o problema
na agricultura provocam um quase êxodo do campo para as cidades ou para
estados promissores, como a Califórnia. Livros e filmes norte-americanos refletem aquela situação complicada do país.
A reação ao que aconteceu nos EUA com o meio ambiente e sua nova
(e passageira) visão sobre os latino-americanos vai além ainda. Acreditavam
alguns que na América Latina, pela relação com a natureza, havia mais pureza nas pessoas, menos acúmulo de riqueza, e essa busca exagerada é que
criava outros males nos EUA. O exemplo mais claro seria a Depressão, em
que a ganância de alguns jogara o país naquele abismo econômico. A América Latina estava livre dessa avareza, tinha um povo que poderia ensinar
a eles como viver melhor com menos, e que estavam certos os povos da
região em reagir à exploração capitalista vinda do norte. A pureza regional,
a não avareza ou busca desenfreada pela riqueza não seriam tão ruins assim.
Teve gente nos EUA que achava que o país deveria aprender com os latinoamericanos muitos aspectos da vida.
É preciso ressaltar que, apesar de tantas mesuras novas, (13) o governo
norte-americano não foi atingido por essa movimentação de boa vontade de
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Alfredo da Mota Menezes
alguns intelectuais para com a América Latina. O que interessava à política
externa do país era ter mercado para os produtos dos EUA, e não aceitar
igualdade entre povos e costumes. A região continuou a ser olhada pela
maior parte da população dali e pelo governo como sempre foi. Atrás das
teorias e da retórica nova havia um interesse maior e concreto dos EUA
para dar o novo passo diplomático chamado agora de Boa Vizinhança. (14)
O país entrara em Depressão Econômica desde 1929, e para sair da incômoda situação precisava, entre outras ações, aumentar seu comércio, vender
mais para diminuir o desemprego interno. Um dos lugares com os quais os
EUA tinham um comércio mais ativo era com a América Latina, onde compravam matérias-primas e vendiam produtos manufaturados. Uma área que
estava sob influência daquele país desde o início do século. Com o problema
econômico em casa seria hora de tentar aumentar mais ainda o comércio
regional. Cordell Hull, Secretário de Estado de Franklin Roosevelt, colocou
essa preocupação de forma clara ao dizer que nada da política externa dos
EUA tinha valor naquele momento se as ações econômicas não caminhassem juntas. (15) A Depressão influenciava os passos de qualquer governo
dos EUA naquele período, esse era um dos principais motivos por trás da
nova política. (16)
O Congresso dos EUA, em junho de 1934, passou o Acordo de Comércio Recíproco; este acordo parece com o Acordo Tarifário McKinley de 1890
quando os EUA enfrentavam outra crise econômica. O Executivo ficava autorizado a rebaixar tarifas até 50% sem consultar o Congresso se houvesse
concessões recíprocas. (17) Nos dois casos há abertura comercial maior do
país, que era extremamente protecionista. Nas crises, na busca de maior comércio e tentativa de ajudar nos problemas econômicos internos, surgiam
mudanças. Apesar de ser um ato que atingia o comércio de forma geral,
essa nova liberalização tarifária foi mais direcionada para a América Latina,
lugar onde os EUA tinham sempre superávit comercial. Além disso, essa
liberalização dirigida a países latino-americanos não criaria ações contrárias
nos EUA, que sempre foram protecionistas, porque a região produzia bens
primários que não competiam com os de lá. (18) Também em 1934 foi criado o Exibank ou o banco de exportação e importação dos EUA, um banco
para facilitar e aumentar as trocas comerciais, principalmente com os latinoamericanos. Pareceu para alguns latino-americanos que o banco seria para
ajudar no desenvolvimento regional; só pareceu, porque sua intenção maior
era facilitar as trocas. Municia os compradores com dólares para comprar
bens industriais nos EUA, uma arma do país de ajuda aos atos diplomáticos.
Não havia filantropia, o jogo era capitalismo puro em que um lado tinha o
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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capital para emprestar e cobrar juros e possuía ainda bens industriais, e o
outro lado bens primários.
Os EUA se transformam no maior comprador de produtos latino-americanos, com isso criam uma relação de dependência econômica maior da
América Latina. (19) Tiros e invasões tinham sido substituídos por comércio
de tal forma que, mesmo na Depressão, os EUA tiveram balança comercial
favorável com a área. A região continuou a ser exportadora de bens primários, e a consequência perversa é que não houve diversificação de produção.
(20) Se um ou dois produtos primários tinham boa aceitação no exterior,
no caso um mercado grande como os EUA, a direção da política econômica do país latino-americano exportador, como vinha sendo desde o período
colonial, era manter o mesmo rumo, aprofundar a produção daqueles bens.
Alguns ganham dinheiro, a renda se concentra e a maior parte da população
passa ao largo desses ganhos momentâneos. No caso do acordo tarifário novo
dos EUA para com a América Latina há um aparente ganho econômico de
algum setor exportador de bens primários desse ou daquele país. Não há nenhuma tentativa de agregar valores à produção econômica, o pouco ganho
nacional satisfaz a elite e acalma os ânimos políticos. A atuação da área, do
ponto de vista capitalista, foi de ingenuidade, ou como dizia o escritor peruano, Luis Sanchez, que guerras fizeram alguns ricos na América Latina, no
geral com suporte de capital dos EUA e Inglaterra, mas a maioria continuava
pobre, fazendo apenas para sobreviver. (21)
Há também interesse dos EUA na questão de segurança no novo relacionamento com a América Latina. O tom político na Europa estava crescendo
e os EUA comandaram ações regionais na busca de segurança hemisférica
que não deixasse descoberta sua retaguarda através de países próximos ou,
como chamavam, pela sua backdoor. Os EUA propuseram atos para prevenir
guerras na região e até mesmo eliminar situações que pudessem levar àquilo.
E, como sempre, deram ênfase ao fator comercial, (22) ele fluindo se criaria
condições para acabar com receios de novas guerras como aquela que ocorria entre Bolívia e Paraguai (Guerra do Chaco).
O fator comercial substituiu o antigo discurso do país, que era a invasão
para ensinar modos políticos e civilizados a povos da região. Com um comércio mais forte, principalmente pela dependência que muitos países passam
a ter do mercado norte-americano, a diplomacia dali viu que não precisava
mais do grande porrete na mão. O porrete agora seriam as práticas comerciais, uma maneira mais inteligente e eficaz que a anterior. E, na busca desse
novo passo de entendimento regional, os EUA concordaram com o princípio
de consultas prévias entre as nações do hemisfério. Era uma novidade, nunca
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Alfredo da Mota Menezes
antes aquele país concordara com isso. Agora, frente a uma nova realidade
comercial, econômica e de segurança, mudavam o rumo. Não acontecerá
essa consulta prévia como as nações latinas americanas imaginavam. Mais à
frente os EUA não consultaram ninguém para tomar medidas rumo à guerra
que engolfou a Europa. Mas naquele momento a ação funcionava como mais
uma liga para sedimentar a política da Boa Vizinhança. Se os governos latino-americanos entendessem a história do relacionamento norte-americano
com a América Latina saberiam que é quase impossível os EUA aceitarem
algum acordo com a região em termos iguais, essa igualdade não existe na
cultura deles. Um governante de lá que assim agisse não teria apoio da maioria da nação, perderia votos na próxima eleição.
Num encontro pan-americano em Buenos Aires em 1936 aparecem medidas de segurança hemisférica. Cria-se um pacto de consultas que deveria
ser acionado em caso de ameaça à paz regional, também se houvesse guerra
entre países da própria região e, o mais importante para os EUA, em caso de
guerra de fora da área que pudesse colocar em risco a paz dos países do continente. Defendia-se ainda que não seriam reconhecidos territórios adquiridos
à força. Reforça-se o princípio de não intervenção, aliás, de acordo com a
nova tese da diplomacia norte-americana com a política da Boa Vizinhança.
Aceitava-se ainda que não se poderia coletar débitos com intervenção, era
o que previa a Doutrina Drago, que nunca fora levada em conta antes pelos
EUA. E concordava ainda que se deveria resolver disputas internacionais
com diálogo e não com guerras. (23) Mudara, apesar de momentaneamente,
o tom das ações daquele país. É o primeiro documento regional que falava
em se defender de agressões de países de fora. A Doutrina Monroe tocava
no assunto, mas colocava só os EUA como o defensor contra essa invasão,
agora entravam no pacto todas as nações da área. Os EUA sabiam e sabem
das desavenças históricas entre países da América Latina. Algumas vezes,
na busca de seus interesses, até estimulam isso. Aparecer num documento
que se vai resolver disputa pelo diálogo e imaginar que os EUA estivessem
interessados nisso supõe muita ingenuidade. Os fatos sugerem que ele estava interessado na parte não escrita de que a região não poderia sair de sua
tutela e influência para a de outro país da Europa, por exemplo. Esse foi o
escopo dos novos acordos, o restante entrava como discurso e retórica que os
norte-americanos acham que a América Latina gosta muito. Exploram também outro comportamento latino-americano: a mania de se criar grupos de
trabalhos e arrumar cargos e funções para pessoas de outros países. Quanto
mais comissões e grupos diferentes em discussões entre países em que havia
acrimônia histórica seria melhor para os interesses dos EUA. Colocam nos
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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acordos o que lhes interessa e deixam o restante para o deleite de uma cultura que preza o formalismo, a pompa, cargos, discursos e funções que têm
aparente força de mando.
O caso cubano é emblemático daquele novo momento entre os EUA e
a América Latina. Os EUA tinham Cuba como um protetorado, a Emenda
Platt estava na Constituição daquele país e permitia os EUA a agir militarmente quando houvesse problemas políticos ou sociais. Desde 1924 os EUA
apoiavam o complicado governo de Gerardo Machado, ele é expelido da presidência em agosto de 1933. FDR já estava no governo. A situação econômica de Cuba era dramática, o preço do açúcar caíra no mercado internacional,
fonte principal de divisa do país. A situação política estava imbricada com
a econômica. Frente à incômoda situação muita gente invocou a Emenda
para que os EUA colocassem tropas na ilha para acalmar os ânimos. Ora, o
novo governo dos EUA dissera que não haveria mais intervenções, não só
em Cuba, mas em toda a América Latina. Se interviesse em Cuba matava
a nascente política da Boa Vizinhança. Na América Latina, principalmente
no Caribe e na América Central, cresceu a opinião de que a nova política
dos EUA para a região não funcionaria. FDR deu um passo mais efetivo para
matar esses comentários: em junho de 1934 a Emenda Platt desaparece. Os
EUA manteriam, porém, a base militar em Guantânamo.
O problema social e político em Cuba tinha raízes no fator econômico,
sem resolver essa equação continuaria quase na mesma a complicada situação da ilha. O governo norte-americano precisava mandar uma mensagem
mais concreta à região sobre suas novas intenções. (24) Como a Depressão
era forte e precisavam de mercado comprador, aceitavam que o melhor caminho para ter influência na América Latina não seria mais intervenção
armada e sim aumentar os laços comerciais. Tomam o caso cubano como
exemplo a ser seguido: estabelecem novo acordo com a ilha em que aumentava a cota de venda do açúcar cubano para os EUA, também reduziu a taxa
de importação sobre o produto. Cuba, em reciprocidade, reduzia suas taxas
de importações em grande parte dos bens importados dos EUA. (25) Em 20
anos de acordo, Cuba comprava mais de 70% do que importava do exterior dos EUA, e mandava para lá perto de 70% de sua produção doméstica,
exportava bens primários e recebia produtos industrializados. A indústria
norte-americana vai penetrar em Cuba e praticamente em toda a América
Latina, aos poucos substituindo a presença europeia nas trocas regionais. O
comércio estava na base da política da Boa Vizinhança.
O caso brasileiro também é sugestivo. Brasil foi o primeiro país da América do Sul a assinar o acordo de reciprocidade com os EUA, em fevereiro
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Alfredo da Mota Menezes
de 1935. O venda do café brasileiro para os EUA ficava sem muita restrição
tarifária, o que ajudava a aumentar a produção no país. Mas, interessantemente, o comércio do Brasil com a Alemanha também cresceu no período.
Uma delegação alemã tinha vindo à América do Sul em 1934 para aumentar
as trocas com a região. Um fato que não passou despercebido pelos EUA,
e até dá para aceitar que sua atuação em tantas frentes regionais contra
a Alemanha tinha isso no horizonte: poderia perder parte do comércio da
região para os alemães. A Alemanha oferecia comprar do Brasil produtos
como café, borracha e cacau, e vender bens industrializados e também armamentos. (26) Além disso, havia uma fatia da população brasileira que tinha
ascendência alemã, era interessante para aquele país manter uma ligação
saudável com o Brasil.
Seria interessante especular se essas movimentações externas com alemães de um lado e EUA do outro competindo pelo mercado brasileiro ajudou a cimentar o regime de Getúlio Vargas. Os produtos agrícolas nacionais
tinham dois dos melhores mercados do mundo para serem exportados. Fazia
bem para o bolso do agricultor brasileiro, acomodava até o descontentamento paulista pela forma como Getúlio chegou ao poder. Ali se tinha a maior
produção de café do país, e os mercados externos se ampliavam independente de se ter um paulista ou um mineiro no governo. Quem sabe Vargas
e seu regime não teriam durado tanto se não fosse a abertura que o exterior
naquele momento fazia para os produtos do país. E, em parte, explica também por que Vargas ficou numa aparente indecisão entre os EUA e a Alemanha. Os fatos sugerem que o empurrão final do empréstimo dos EUA para a
construção de Volta Redonda é que puxou Vargas para o lado dos aliados. A
indefinição dele era pragmatismo puro.
Os EUA, portanto, atuaram rapidamente para dissipar dúvidas sobre sua
nova política para a América Latina. Mandou logo recados e praticou ações
para dizer que não haveria mais intervenções armadas. Criou até um clima positivo nas relações, conquistou parte da população regional, apesar da diferença de ganhos entre os lados. No lugar dos marines foi criado o modelo econômico da reciprocidade entre uma economia que produzia bens industrializados
e as outras mandavam matérias-primas, e que ainda por cima não competiam,
com as produzidas naquele país. Os EUA procuraram acabar com antigas intervenções ainda existentes com o Haiti em 1933, apesar de ter alguém ainda
dos EUA no controle da alfândega do país, ato que só findou em 1941. A
República Dominicana entrou também nos acordos, a alfândega voltou para
o domínio do país. No Panamá, um novo tratado dizia que os EUA, apesar de
soberanos no Canal, não interfeririam nos assuntos internos do país.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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Em 1937 houve pequeno entrevero com a Bolívia quando o país cancelou a concessão da companhia de petróleo Standard Oil. Conversações
levam a um entendimento para pagamento das propriedades tomadas. No
México, no governo Lázaro Cárdenas, houve também expropriação de bens
de companhias de petróleo norte-americanas e tudo passava para o governo
mexicano. Houve gritaria nos EUA contra a ação, até mesmo achavam que
seria coisa do comunismo. Mas, outra vez, prevaleceu o diálogo, e o governo
do México pagou indenizações às companhias expropriadas. (27) O novo
momento que viviam os EUA levou o país a aceitar sem muitas reclamações a nacionalização do petróleo feita por Lázaro Cárdenas no México, em
1938. Se isso fosse feito em outra conjuntura histórica talvez os homens de
negócios dos EUA tivessem forçado o governo do país a tomar medidas mais
drásticas contra a ação do governo mexicano.
Veja como é a história. Cárdenas é tido com um dos melhores presidentes do México, a distribuição de terras e a nacionalização do petróleo estão
entre os grandes atos praticados. Ele enfrentou os capitalistas do norte sem
sofrer muitas consequências. Se isso tivesse ocorrido em outro momento talvez a reação fosse diferente, a história de Cárdenas, quem sabe, não fosse a
que é hoje. O ponto de vista de que não há heróis e sim momentos heróicos
ou que não é a pessoa que faz o momento, é o inverso, talvez se aplique àquele caso. A conjuntura nos EUA não era propícia a invasões ou ações mais
drásticas contra outro povo, nesse momento, atuou Cárdenas. Talvez possa
ser dito em sua defesa que o brilhantismo dele foi perceber que o gigante do
norte estava em situação complicada, e resolveu atuar. Não perdeu a oportunidade de agir em favor do interesse do seu país.
Uma das ações da política da Boa Vizinhança que merece atenção foi
a desenvolvida na área cultural. O governo dos EUA criou, em 1938, com
os tambores de guerra já sendo ouvidos, a Divisão de Relações Culturais
praticamente voltada para a América Latina. Em 1940 apareceu o Office of
Inter-American Affairs comandado por Nelson Rockefeller, e que foi extinto
em 1946. (28) Para começar seu trabalho Nelson Rockefeller mandou fazer,
em 1940, uma pesquisa de opinião pública nos EUA sobre a América Latina
queria saber o que o norte-americano pensava da região. (29) Permitia-se
aos entrevistados dar até 19 adjetivos para descreverem os latino-americanos. De 40 a 50 por cento responderam que o latino-americano era emocional, ficava bravo à toa, dominado pela religião católica, atrasado, preguiçoso,
ignorante, e que se devia suspeitar dele. A mais forte das associações ou 80%
era de região de povo de pele escura. Na faixa dos 20% até 30% citam a área
como de gente ignorante, desconfiada, amiga, suja, orgulhosa e imaginati-
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va. Inteligente, honesto, bravo, generoso, progressista e eficiente ficaram na
rabeira ou na faixa de 15% (inteligente) a 5% (eficiente). Nada de novo, é
como o país olha a América Latina desde o início do contato entre os dois
povos. Mesmo num momento especial e complicado por que passavam os
EUA, com Depressão Econômica, precisando de mercados fora, seca prolongada no oeste e guerra na Europa que poderia afetar interesses do país,
a população dali não mudou sua impressão sobre o povo mais ao sul do Rio
Grande. O governo sabia disso, aquela diferente aproximação entre os lados
era conjuntural.
O artigo de Gisela Cramer e Ursula Prutsch (30) explica o que foi e o
que fazia o Office, essa invenção norte-americana para o período da guerra.
A preocupação daquele país era com a possibilidade de o nazismo conseguir
penetrar na região, tinha que haver um trabalho para impedir a penetração
comercial e ideológica. A segurança dos EUA estaria em perigo, acreditavam. Havia ainda a preocupação de que a guerra traria problemas para a
economia latino-americana pela queda no fluxo de comércio com os países
em conflito. Problema econômico poderia trazer instabilidade política, fissura que poderiam aproveitar os alemães para penetrar na região. (31) A
agência criada atuaria para estabilizar a economia da América Latina, para
assegurar e aprofundar a presença dos EUA na região e para combater a
ação de potências do Eixo nos setores cultural e comercial. Nomes de grande
importância nos EUA, em diferentes áreas de atividade, fizeram parte do
staff da agência. Gente de marketing, cinema, comunicação, empresarial e
outras estavam ali. A agência teve 1.100 funcionários, 300 espalhados pela
América Latina. Era uma operação de guerra mesmo, adidos militares se
espalharam pela região. O FBI distribuiu também centenas de agentes pela
América Latina para combater a expansão do nazismo. Essa nova e diferente
presença norte-americana na América Latina foi até certo ponto aceita pelo
clima criado pela política da Boa Vizinhança. Tudo era feito em torno de
uma suposta unidade interamericana. Havia ainda no escritório Rockefeller
grupos para trabalhos nas áreas de transportes, navegação e educação sob
um suposto selo de unidade regional, tudo recebia o carimbo de interamericano. Não só isso, o Office também se preocupava com saneamento, saúde
pública, alimentos, informação, propaganda e atividades culturais. (32) A
América Latina acreditou que havia algo realmente novo no ar naquele
relacionamento.
Como era de se esperar tudo voltaria ao que sempre existiu entre os
EUA e a América Latina quando a guerra terminou. Foi um choque que
pegou a classe intelectual, política e dos negócios despreparados para a se-
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paração rápida e sem nem dizer até a volta. Outra vez se percebe como
faltam estudos na região sobre os EUA. Os acordos ou tapinhas nas costas
são mesuras para esse ou aquele momento. A crença histórica naquele país
sobre os latino-americanos não se muda do dia para a noite. Somente entendendo-os se pode ter um relacionamento mais positivo. Eles fazem isso e
quem sabe país do tamanho dos interesses do Brasil pudesse abandonar esse
receio em estudá-los
Voltando ao trabalho do Office. Um dos primeiros atos da agência foi
criar uma lista negra de gente que tinha simpatia pelo nazismo, quem estivesse nela teria problemas nos EUA e seria considerado como inimigo. O
trabalho da agência foi em consonância com a política externa do país. E
esta, naquele momento, visava o nazismo e não perder para a Alemanha
posição já adquirida na América Latina. Toda a atuação, em qualquer área,
era no caminho dos interesses da política externa daquele país. No setor de
transportes, por exemplo, o esforço foi para criar passagem de suprimentos
ou matérias-primas para os EUA ou aliados usando meios diversos nos países, como as ferrovias no México ou Canal do Panamá. Ficavam de olho
também na questão econômica para que os países não tivessem grandes
problemas para não haver instabilidade política. Se houvesse seria mais fácil
a entrada de gente e ideias que os norte-americanos não queriam. As ajudas
nas áreas de saúde, alimentos e saneamento foram mais dirigidas para as bases militares norte-americanas na região. (33) Era muita inocência acreditar
que seria diferente.
No setor de propaganda já apresentavam as notícias em press release,
trazendo a mensagem pronta para ler que queria a política externa do país.
Havia rádio, artigos em jornais e revistas, fotografias, panfletos, o que fosse
necessário para atingir a população e mostrar como eram positivos a cultura
e o estilo de vida dos EUA e como estava equivocado o lado inimigo. Uma
propaganda eficiente e diuturna na cabeça do povo latino-americano. A
Divisão de Cinema, em cooperação com os grandes estúdios de Hollywood,
incluindo a Disney, (34) produzia comerciais e filmes de acordo com a política da Boa Vizinhança. A propaganda não era somente de lá para cá,
passavam documentários sobre a América Latina nos EUA. Cerca de cinco
milhões de pessoas daquele país em 1944 assistiram essas informações sobre
a região. Os filmes, os documentários e as notícias foram destinados ao povo
de lá e ao de cá, cada caso com um tipo de informação para ajudar num
entendimento sobre os dois povos. A Divisão de Assuntos Culturais patrocinou tradução de livros de autores regionais, exibições de artes, concertos
e conferências. Os EUA sabiam que os intelectuais da América Latina e a
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elite não achavam os norte-americanos um povo envolvido com arte, sim
os europeus. A agência trabalhou também para mostrar um povo um pouco
mais refinado, e que se preocupava com isso também. A intenção era se
tornar palatável em qualquer segmento da sociedade da região, mas sabiam
que a grande arma estava na arte popular do país, expressada no cinema e
na música. Foi, afinal, a que mais ficou no imaginário da população. Foi um
massacre na arte popular, o cinema levou milhões de pessoas a copiar maneiras, comportamento e expressões dos norte-americanos. A música nos
filmes chegava até antes que os discos e atingia gente nos lugares mais longínquos. A conquista regional foi feita de forma subliminar. Praticamente
empurraram para longe da América Latina a presença cultural francesa e
até inglesa de antes.
Artistas de Hollywood embarcaram em excursões pela América Latina,
tornava-se mais fácil mandar pessoas conhecidas por causa dos filmes para
um país para ganhar mentes e corações sem muito esforço. O Rio de Janeiro
na época recebeu alguns deles, praticamente desaparecem depois da guerra.
No lado educacional o Office procurou combater qualquer influência do
Eixo nessa área. Fechar escolas que ensinavam em alemão, como no sul do
Brasil, fazia parte do arsenal de guerra montado. Produzem livros escolares
sobre a região, algumas escolas nos EUA passam a ensinar português e espanhol. Criam revistas em português, espanhol e francês para mostrar como os
EUA eram poderosos, industrializados, militarmente fortes e como poderiam
se defender. Propaganda para valer mesmo.
O setor de cinema foi onde mais atuou a propaganda dos EUA. O inimigo, o outro, era o nazismo ou o fascismo, o lado correto, de todas as virtudes
humanas, estava com os EUA e os aliados. O artigo de Clayton R. Koppes
e Gregory D. Black (35) mostra como atuou a indústria cinematográfica no
período da guerra. O Office of War Information teve força sem precedentes sobre Hollywood. Tinha que passar pela censura dele que tipo de filme
se pretendia fazer. Teria que ser sempre algo que glorificasse a democracia
e demonizasse o adversário na guerra, a intenção era conquistar mentes e
corações interna e externamente. Os autores citam alguém que disse que a
maneira mais fácil de injetar propaganda na cabeça de uma pessoa seria através de filmes, e que ela não percebe que está sendo conduzida para onde a
propaganda quer. O cinema foi o mais poderoso instrumento de propaganda.
(36) Foi criado um Manual para a Indústria Cinematográfica que detalhava
como deveria ser um filme. Deveria, inclusive, ser mostrado que se o fascismo ganhasse a guerra haveria destruição dos ganhos democráticos, dos
direitos políticos, e que haveria discriminação racial. (37)
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É estranha essa proposição tendo em vista a situação nos EUA do negro
e até de certos grupos de imigrantes. Essa discriminação se estendia aos índios e àqueles que pareciam índios abaixo do Rio Grande. A América Latina
era negra, índia e mestiça e, no caso, discriminada. O Manual dizia que os
fascistas é que seriam racistas. Não dá para resistir em fazer mais uma colocação. Quando a Rússia entrou ao lado dos aliados na II Guerra, a indústria do
cinema mudou o foco anterior sobre um Joseph Stalin complicado e inimigo
para um novo que falava em amizade, e que americanos e russos eram irmãos
na luta contra o outro inimigo. (38) Está certo Schoultz quando escreve
que a grande potência faz o que quer e as outras têm que aceitar a situação.
Enfim, Hollywood fez o dever de casa na guerra. No caso da América Latina
seu dever foi criar filmes próprios e estilizados sobre a região. Os assuntos da
área estavam tão bem encaminhados com o escritório de Rockefeller que o
tema cinema nem ficou sob a guarda do Office of War Information, ficou com
a coordenação do Inter-American Affairs mesmo. (39)
É um dado interessante (40) a influência que a música latino-americana
teve nos EUA naquele fugaz namoro da época da Boa Vizinhança. Intelectuais e músicos dali descobriram o mambo, o tango, a rumba, o samba, a salsa,
os ritmos mexicanos. Observam a proximidade nas músicas das raízes negras
de lá e do Caribe, por exemplo. Cuba foi até entronizada como lugar de música que influencia outras nos EUA. A música pode dizer muito da maneira
de ser de um povo. Um antigo filósofo escocês (41) dizia que não estava interessado em quem escreveu as leis de um país, mas queria saber quem e por
que se escreveu as músicas que refletem mais a opinião de um povo do que
se pode imaginar. E, lendo os sinais errados, parte da intelectualidade latinoamericana acreditou que poderia haver um trabalho conjunto entre os dois
lados do continente. Isso não se realizou e provocou mais tarde desânimo e
frustração regional com os EUA. E talvez dure até hoje.
Paralelamente às ações nas áreas econômica e cultural os EUA comandaram outras em matéria de segurança hemisférica. Os acontecimentos na
Europa fizeram aparecer uma série de ações nessa direção. Lá atrás, em 1936,
no encontro pan-americano de Buenos Aires, apareceram propostas para
garantir a segurança da área, também em Lima, em 1938, em outro encontro
de todos os países da América Latina com os EUA. Era como se na Europa
estivesse sendo criada uma nova Santa Aliança que ameaçava a integridade
e a independência dos países da região. (42) Antes apareceu a Doutrina
Monroe, agora, diante de um novo tempo, propunham-se atos de segurança,
incluindo os próprios interessados ou as nações latino-americanas. A Doutrina fora um ato unilateral, agora usavam um caminho diferente. Não foi
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bem assim, os EUA agiram por conta própria mais tarde quando se jogaram
no caldeirão dos problemas que enfrentava o mundo e não ouviu a América
Latina sobre essas ações.
A declaração de Lima dizia que, se a paz ou a integridade de qualquer
nação do continente fosse ameaçada por um poder de fora, a resposta viria
em conjunto na defesa dos interesses de todas as repúblicas da área. A ata
final do encontro continha 110 resoluções, declarações e recomendações.
Num outro momento foi criado um corpo de sete juízes (43) encarregados
de estudar e recomendar atos para que as nações da área ficassem neutras
no conflito que avizinhava na Europa. Uma criação estranha e sem sentido
prático, própria do estilo latino-americano. Mais tarde o chamado comitê
pan-americano de neutralidade foi mudado para o comitê judicial que ficaria
encarregado dos problemas jurídicos nascidos da guerra e também para decisões no pós-guerra. (44) São criações a que os norte-americanos não dão
nenhuma importância, atos mais para satisfazer a maneira peculiar latinoamericana. Cada país teria direito de indicar pessoas para cargos aparentemente importantes, o que acalmava os descontentes. O que interessava
aos EUA era o comprometimento de que não se permitiria invasões ou a
presença de um poder de fora, e que ameaçava a hegemonia dos EUA na
América Latina, fato que levara tempo para se concretizar. Com os novos
atos e encontros, mais acordos comerciais e demonstrações de boa vontade,
incluindo a aproximação cultural, quando veio a guerra com o nazismo, com
raras exceções, os EUA contaram com o apoio da maior parte dos países da
América Latina sem esforço adicional.
Quanto mais fatos aconteciam na Europa mais ocorriam encontros. Um
novo foi no Panamá em outubro de 1939, para reforçar a neutralidade dos países da região no entrevero que crescia na Europa. Outro encontro de Ministros das Relações Exteriores ocorreu em Havana em 1940, e decidiram que,
de forma coletiva ou individual, (45) não permitiriam que países de fora da
região tomassem alguma colônia da França ou da Holanda. A decisão, conscientemente ou não, autorizou os EUA a tomarem medidas militares sozinhos.
Quem tinha condições de fazer algum enfrentamento militar era aquele país.
Vê-se nos encontros e suas diferentes decisões que os EUA permitem um bocado de propostas como se estivessem consultando seus aliados, mas colocam
sempre o seu principal interesse. E a intenção maior naquele momento seria
não perder para outra potência a influência na região que o país tomara tempo para ter e estava ampliando com os novos tratados de comércio.
As decisões sobre neutralidade e também a de consulta prévia, como
era de se esperar, desaparecem com a presença dos EUA no conflito que
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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crescia mais ainda na Europa. Os EUA socorrerão a Inglaterra e outros países contra o nazismo, incluindo a Rússia. Criaram uma série de ações aprovadas pelo Congresso para vender ou emprestar material que ajudasse os
aliados na guerra, como a troca de navios por base militar, o cash and carry
ou ainda o lend lease. Seria feito, era a decisão, por motivo de segurança do
próprio país. Não há uma só ação ou palavra nesses atos que ajudam a socorrer países como a Inglaterra em sérias dificuldades na Europa que tenha
um simples palpite de algum país latino-americano, a consulta prévia entre
as nações do hemisfério nunca foi pedida. Não se está falando nessa consulta
prévia que os EUA iriam submeter suas ações futuras a tratados assinados
na região, mas de pelo menos informar os aliados novos ou de ocasião sobre
passos tomados que poderiam envolver os EUA e levá-los à guerra, um fato
que afetaria a América Latina. O interesse das nações da região estava em
jogo, portanto. A desconfiança histórica dos EUA no latino-americano leva
à especulação de que talvez aquilo não tenha acontecido com receio de que
vazasse algum tipo de informação para lados adversários. O que os EUA queriam e conseguiram nos acordos feitos foi autorização para que aquele país
defendesse seus interesses na América Latina. Não consultaram ninguém
sobre qualquer movimentação rumo à guerra, e os protocolos de neutralidade eram letras mortas. (46) Além disso, os EUA sabiam e sabem que não há
unidade ou posicionamento único entre os países da América Latina, não é
difícil provocar acrimônia entre países da área. Ou, como escreveu um diplomata peruano em 1941, Felipe Barreda, sendo estimuladas as desavenças é
mais fácil para os EUA dominarem a região. (47) Eles agem na defesa de seus
interesses, exploram, se necessário, as desavenças regionais ou entre países
que existem por décadas ou séculos. Discutir se isso é ético ou não, é mais
para o plano filosófico, e não das disputas entre nações.
Não existiria defesa continental se houvesse problemas econômicos graves e na defesa de seus objetivos, e buscando segurança numa guerra que se
aproximava, os EUA tomaram medidas para estabilizar o preço do café, o
assunto era de interesse de 14 nações latino-americanas. Cria-se uma comissão, em 1940, que divide o mercado norte-americano do café em cotas para
cada país. Outras matérias-primas próprias para o esforço de guerra também
recebem incentivos e apoios dos EUA para serem produzidas na região, o
caso da borracha no Brasil. e a história mostra sua influência por um curto
período na economia de parte do país. (48)
Não deixa de ser interessante especular se os diferentes acordos comerciais daquele momento, onde a região fornecia bens do campo para o mercado norte-americano pode ter ajudado a manter governos autoritários e
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Alfredo da Mota Menezes
com pitadas de populismo na América Latina. Os países estavam vendendo
seu principal item de exportação com preços adequados, com taxações menores e com pedidos seguros por causa das cotas. Com a economia de um
país apresentando dados positivos, se não para a maioria da população pelo
menos para parte da elite, provocava certa estabilidade política, e quem sabe
foi bem aproveitada em países diferentes pelo ditador do momento. Durante
a guerra a América Latina vendeu mais de 50% de suas exportações para os
EUA, e recebeu mais de 60% das importações daquele país. O cerco, que
começou em 1928 com a decisão de acabar com a diplomacia do dólar ou
do grande porrete, completou seu círculo. Mais um dado naquele relacionamento de ocasião foi que, com o crescimento da política de exportação, faltaram bens na América Latina, o que provocou alguma inflação, e as pessoas
mais pobres pagavam por isso. E mais: os preços dos produtos primários não
cresceram e, no final, a área latino-americana perdeu mais que ganhou com
aquele aparente crescimento das transações comerciais. (49)
Outro fato sugestivo daquele período promovido pelos EUA foi o trabalho do FBI na América Latina para combater atos de agentes nazistas.
Calcula-se em 360 o número de agentes do FBI na região trabalhando para
conter propaganda nazista. Criavam listas negras de gente daqui que tinha
ligação ou fazia negócios com países do Eixo. (50) Publicaram uma lista de
1.800 pessoas e firmas comerciais da América Latina que supostamente teriam simpatia pelo Eixo, e que seriam tratadas como se fossem nazistas, não
teriam a benevolência dos EUA. (51) Atuavam como se estivessem em casa,
na verdade, uma interferência nos assuntos dos países e contrários ao espírito da política da Boa Vizinhança. Faziam esse trabalho paralelamente ao da
segurança interna de qualquer país. Alemães e italianos, menos na Argentina, foram detidos aos montes.
Houve também um significativo aumento de adidos militares nas embaixadas dos EUA pela América Latina, procuravam manter ligações íntimas
com os militares da área. Em 1938 havia missões militares somente em cinco
países da região, já em dezembro de 1941 havia um adido militar em cada
embaixada dos EUA. (52) Começa um relacionamento mais aprofundado
entre os militares dos dois lados do Atlântico com treinamentos, venda de
material militar, serviço de inteligência. Essa ligação foi além daquele tempo,
aquele trabalho feito lá atrás para conter o nazismo nos países rendeu frutos
maiores durante a Guerra Fria no enfrentamento com o comunismo. (53) A
raiz dessa aproximação foi antes e durante a II Guerra. O resultado político
interno foi visto mais tarde com a chegada dos militares ao poder em quase
toda a região a partir da década de 1960. A ligação entre os militares foi o
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
93
instrumento que substituiu outras formas de pressão externa dos EUA, como
a Emenda Platt ou o Corolário Roosevelt. Essa aproximação e união foi mais
útil e menos custosa em imagem do que as outras. Percebe-se uma linha
mestra na ação dos EUA na América Latina: unir-se a grupos internos. Um
momento é um lado político que quer continuar ou voltar ao poder e pede
o apoio dos norte-americanos para a empreitada. Outro momento se junta
a um segmento como o militar, que busca diferentes tipos de benefícios para
controlar, ter ou aumentar poder.
O Brasil, por se alinhar com os EUA, acabou se beneficiando um pouco com a II Guerra. Do dinheiro do lend lease destinado à América Latina
cerca de 450 milhões de dólares (1% do que foi destinado aos países aliados
na Europa), algo como 70% do total ficaram com o Brasil. (54) Recebeu-se
empréstimo para se construir a usina de Volta Redonda, em troca o país cedeu aos EUA uma base militar no Nordeste, lugar onde os norte-americanos
imaginavam que o nazismo poderia estabelecer um ponto de apoio para suas
ações na África. Outro receio dos EUA foi com a enorme costa nacional,
e que isso poderia facilitar a presença de forças do Eixo por aqui. Com o
alinhamento com os EUA, pelo jogo diplomático na América do Sul e por
ter mandado 25 mil soldados para lutar na Itália, o Brasil acabou se beneficiando um pouco com a guerra. Uma guerra em que os EUA lutaram praticamente sem apoio da América Latina. Nem o Brasil e nem nenhuma nação latino-americana participou em decisões militares maiores que os EUA
tenham tomado mesmo tendo sido criado, em 1942, o Comitê de Defesa
Inter-Americano. Aqueles acordos, reuniões e encontros de antes, tratados
de cooperação e apoios mútuos, de consultas prévias ou neutralidade, nada
foi levado em conta pelos EUA quando decidiu por essa ou aquela ação referente à guerra. Aquilo serviu apenas para aumentar a segurança dos EUA,
para manter abertas as rotas de suprimento desde que as potências do Eixo
não estivessem preparadas para invadir a América Latina. (55) Nunca houve nenhuma intenção de cooperação militar com a região (o caso brasileiro
na Itália foi a única exceção).
Para se ver como era desprezada a presença de latino-americano numa
operação de guerra talvez seja interessante mostrar o que escreveu Lars
Schoultz sobre observações feitas por norte-americanos nessa suposta participação militar de gente da região junto com os EUA. (56) Um membro
do Departamento de Estado pediu aos militares numa reunião que eles aceitassem as ofertas de países da área para colaborar na guerra. Um almirante
falando por todos disse que os latino-americanos não tinham sido úteis em
nada, que ele tinha se esforçado muito para encontrar alguma coisa que eles
94
Alfredo da Mota Menezes
pudessem fazer, mas que ficasse claro que eles fariam somente sugestões, e
que os norte-americanos não tinham nem que prestar atenção nelas. Na
mesma reunião foi proposto que os cubanos tomassem conta das bases aéreas
dos EUA em Cuba; um general disse que o trabalho feito por cubanos seria
até pior do que se nada fosse feito. Continua o autor a levantar dados sobre o
que pensam os militares e não militares nos EUA sobre a atuação militar dos
latino-americanos. Em 1818 perguntaram a John Quincy Adams em que a
América do Sul poderia colaborar com os EUA, ele falou que a região pediria
dinheiro e armas e sua incompetência iria atrapalhar a ação militar deles.
Em 1950, depois da guerra, foi produzido um documento sobre a atuação da
América Latina no conflito, e foi dito que com uma única exceção (Brasil)
não houve nenhuma colaboração da América Latina na defesa do hemisfério
ocidental. Em 1940, durante a guerra, apareceu um memorando que dizia
que não havia nenhuma intenção daquele país em ter os latino-americanos
como aliados concretos na guerra. O que queriam eram bases militares, matérias-primas e combate a agentes nazistas infiltrados na região em troca de
ajuda militar. Conta ainda o autor o que colocou num diário o Secretário de
Guerra, Henry Stimson, questionando a habilidade dos latino-americanos
em realizar qualquer tarefa pequena.
O autor conclui com o óbvio de que a política da Boa Vizinhança não
mudou a imagem que os latino-americanos têm nos EUA. Foi uma ação de
um momento e em benefício de uma situação interna e externa dos EUA.
Espicaça a região ao dizer que foram feitos encontros de alto nível entre as
partes, visitas de chefe de estado com alguma fanfarra e criação de novas
burocracias para institucionalizar ações de pan-americanismo. Sabem que os
latino-americanos gostam disso, e lhes deram o que queriam, mas não passava de ações de superfície, sem nenhuma profundidade e que influenciasse
o povo norte-americano ou até mesmo seus líderes. O que os EUA queriam
com a política da Boa Vizinhança era ganhar dinheiro para ajudar a melhorar
sua economia e depois segurança perante um mundo em efervescência.
O militar e historiador de Atenas, Tucídede, escreveu que as grandes
nações fazem o que querem e as menores têm que aceitar a situação. (57) Parece que ele escrevia sobre a distante América. Este é o princípio que existe
na relação dos EUA com a América Latina. E o caso ficava ainda pior, a força
descomunal dos EUA inibiam outros países, não queriam desafiá-lo na região
que se tem no mundo como área de influência daquele país com receio de
perder negócios com aquele mercado. O que é mais vantajoso, o mercado
latino-americano ou o do gigante ali do norte? Uma presença acachapante
dessas, até sem esforço adicional, isolava mais ainda a região.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
Os vizinhos ainda compram da Europa.
North American, 1902, in John Johnson
Theodore Roosevelt e a política do Big Stick.
New York Herald, 1904, in John Johnson
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Alfredo da Mota Menezes
Alijando a velha Europa. As palavras devem ser lidas ao contrário.
Ohio State Journal, 1916, in John Johnson
Ensinando democracia.
New York Times, 1963, in John Johnson
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
O herói norte-americano protegendo a feminina Cuba contra a vilã Espanha.
Puck, 1896, in John Johnson.
Tio Sam e a feminina América Latina.
Hartford Times, 1963, in John Johnson
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Alfredo da Mota Menezes
Tio Sam dá remédios para acalmar as crianças.
Milwaukee Sentinel, 1907, in John Johnson
Tio Sam corta um galho para educar uma criança rebelde.
Baltimore Sun, 1910, in John Johnson
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
Tio Sam ajudando a crescer a república de negros.
O negro norte-americano pede o mesmo tratamento.
Ram’s Horn, 1903, in John Johnson
Tio Sam fazendo barba e cabelo da “república de negros”.
Washington Post, 1905, in John Johnson.
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Alfredo da Mota Menezes
Ensinando o latino-americano a governar.
Harper’s Weekly, 1898, in John Johnson
O Brasil e seus problemas.
Kansas City Star, 1965, in John Johnson
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
A América Latina não tem classe média.
The Herblock Gallery, 1968, in John Johnson
101
Capítulo V
u
Na Guerra Fria
E
m 1946, em Fulton, Missouri, Winston Churchill fez o famoso discurso em
que falava em “cortina de ferro”, propunha a união de esforços dos EUA e
da Inglaterra para conter a expansão do comunismo. Os norte-americanos
gostam de dizer que meses antes o diplomata George Kennan, baseado em
Moscou, conclamara o governo dos EUA a endurecer o jogo contra a União
Soviética. FDR morreu em abril de 1945, assumiu a presidência Harry Truman (1945-1953). Em julho de 1945 houve o encontro dos “três grandes”
em Potsdam, ali começa a se estabelecer as fronteiras de uma nova Europa.
A América Latina é tratada na conferência como uma região não só sob
influência dos EUA, mas dependente deles, não tem importância nas discussões. Em 1947 surgirá a Doutrina Truman de contenção ao avanço do
comunismo em qualquer lugar do planeta. Começou na prática quando o
governo inglês declarou que não podia ajudar mais o lado político na Grécia que lutava contra insurgentes de esquerda. Os EUA assumiram o lugar
deles, a ex-colônia tomou o lugar da ex-metrópole na arena internacional.
Essa decisão de combater o comunismo onde quer que fosse necessário foi
aprovada em ato bipartidário nos EUA, Republicanos e Democratas concordaram com ela.
Imagine uma decisão nacional dessas surgindo na potência que dominaria uma parte do mundo depois da guerra, e as consequências disso para
a América Latina. Uma área de influência deles, cuja ação, certa ou errada,
vem lá de trás com a Doutrina Monroe e seu Corolário, a diplomacia do dólar
ou do grande porrete, com a política da Boa Vizinhança a as ações durante
a II Guerra, mais investimentos na região e a tese da segurança na época do
nazismo e agora com o comunismo. Será complicada a situação da América
Latina no contexto da Doutrina Truman. A área era (e é) pobre, com instabilidade econômica e política crônica, tendo ainda o exemplo do sucesso
104
Alfredo da Mota Menezes
soviético e o apelo que tem o socialismo para resolver problemas dos mais
pobres. De um lado a contenção à expansão do comunismo criada nos EUA
por decisão bipartidária, do outro a realidade latino-americana. Poderia ser
juntada ainda a frustração dos intelectuais e de parte da classe empresarial
com o abrupto desfecho da política da Boa Vizinhança, em que tudo o que
houve antes desapareceu, com frustração geral. Segmentos sociais caminharam para o lado soviético e encontraram a má vontade dos EUA.
Os EUA, no início de seu expansionismo externo, davam atenção política
e militar para a região, principalmente no Caribe e na América Central; foi a
época do aprendizado em terras alheias. Depois do domínio militar veio o econômico, meio mais eficaz de dominar. Mais tarde, com a II Guerra, jogam-se na
arena internacional, é o novo grande jogador no tabuleiro político que se abre
no mundo no pós-guerra. A América Latina, que já não gozava de prestígio
perante a política externa daquele país desde algum tempo, passa a ter menos
prestígio ainda. Os fatos novos mundiais empurram os EUA para um fogaréu
que se abriu no mundo. Os norte-americanos, desde a guerra, já estavam na
América Latina em ligações estreitas com os militares através de encontros,
conselhos de segurança, treino de pessoal, adidos militares. Como deveriam
dedicar mais atenção ao que acontecia na Europa e em outros lugares, pela
lei do menor esforço, juntam-se aos militares na América Latina na repressão
aos movimentos de esquerda. Usaram as pessoas daqui mesmo na busca de
seus objetivos de política externa. Ajudavam no combate com treinamentos,
dinheiro, serviço de inteligência e, se preciso, derrubavam governos.
Voltando aos passos iniciais da Guerra Fria. No outro lado, os soviéticos
também estendiam sua área de influência, espalhavam sua força e domínio
para o leste europeu na Polônia, Tchecoslováquia, Romênia, Albânia, Hungria e Alemanha do leste. As duas maiores potências militares do pós-guerra,
EUA e União Soviética, se colocavam como líderes dessa disputa que trouxe
consequências dramáticas para a América Latina. Em 1947 os EUA criaram
o Plano Marshall para tentar estabilizar economias da Europa Ocidental,
receio de que, na confusão, algumas caíssem para o lado do socialismo. A
União Soviética não permitia que países do seu bloco participassem do Plano Marshall, e criou um plano alternativo que vai desembocou em 1949
no Comecon ou Conselho para Assistência Econômica Mútua. Os atritos
começaram entre os lados: o bloqueio de Berlim em 1948-1949, a Guerra da
Coréia (1950-1953), o Vietnã (1959-1975|), Cuba indo para a esquerda e
a crise dos mísseis em 1962 e o Afeganistão em 1979-1989. Criaram-se no
lado militar a Nato e o Pacto de Varsóvia: é dentro dessa moldura mundial a
América Latina se viu envolvida, uma era dramática para a região.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
105
A relação dos EUA com a América Latina, como já dito, mudou depois
da Guerra Mundial. A crise econômica acabara nos EUA desde a entrada
do país na guerra em dezembro de 1941, com a produção voltada para o
esforço de guerra a economia embalou outra vez. Depois do grande conflito,
com os EUA passando a ser potência do momento mundial, a fala de ajuda aos latino-americanos, trabalhar juntos na direção do desenvolvimento,
desaparece. A iniciativa privada e o jogo próprio do capitalismo deveriam
conduzir o processo e não ajuda dessa ou daquela forma. Até o argumento
da defesa do meio ambiente praticamente desaparece com a certeza de que a
tecnologia ajudaria a enfrentar o problema da natureza sem destruí-la. Essa
aceitação sobre tecnologia é mais forte depois da explosão da bomba atômica, dominava-se essa se poderia ter outros avanços tecnológicos. O que
prevalece naquele país é a imagem antiga de uma América Latina atrasada, e
continuar assim, não havia classe média, aquela que dava base a tudo, havia
uns poucos ricos e a maioria miserável. Até as falas politicamente corretas
da época da Boa Vizinhança desaparecem. É uma característica interessante
dos EUA: quando está em alta na política e na economia o comportamento
do país é num sentido, quando se está em baixa muda a postura. Lá na frente, se as coisas se ajeitam, volta-se ao que era antes.
Nos EUA, depois da luta contra o nazismo, em defesa da democracia e
da economia de mercado, acende-se no povo norte-americano a certeza de
que estavam ao lado da verdade, os princípios defendidos pela nação seriam
os corretos. Tudo o que havia se falado antes sobre aspectos negativos do capitalismo, de defesa da natureza, de que a América Latina tinha qualidades,
desaparece frente a um novo momento. Passam a acreditar que o crescimento
constante é possível, que o meio ambiente pode ser domado pela tecnologia
e mais ainda nas virtudes da classe média. Prosperidade, lucro, melhora de
qualidade de vida, estilo agressivo para se conseguir isso, passa a ser tônica
da vida nacional outra vez. E, nesse contexto, a intenção de se aproximar da
América Latina, de ajudar a região a crescer, de achar que aqui possuía qualidades interessantes, praticamente desaparece. Entrava-se, depois da II Guerra, num outro patamar de relação com a América Latina. Mais capitalismo,
menos ecologia ou ajuda aos mais pobres, mais ganhos, mais mercados para
comércio, associação com a elite local na busca de negócios, compra de matérias-primas mais baratas, transformá-las para vender bens industrializados na
área. A época da política da Boa Vizinhança desapareceu e afetou o humor
da nascente classe média regional, principalmente do mundo intelectual.
Os filmes de Hollywood voltaram a mostrar quase os mesmos estereótipos, não tão claros como antes porque havia interesse em vender os filmes
106
Alfredo da Mota Menezes
na América Latina e atrapalhava os negócios se fossem repetidas as mesmas
e antigas agressões. Elas agora eram mais sutis, mais elaboradas, mas estavam
lá. E o cinema norte-americano quase sempre segue a tendência da nação
sobre a América Latina. Quando se observa como a imprensa trabalha os
assuntos da área e como o homem comum vê os latino-americanos sabe-se
que Hollywood seguia a mesma trilha. Aceitando o que pensa a maioria dali
é que se faz dinheiro. Fazer filmes altruístas em benefício de uma suposta
união de interesses entre os dois mundos não atraía o espectador que pensava na direção oposta. Faziam-se filmes que agradavam e atraiam gente
para assisti-los e mostrar a América Latina que está no imaginário dali era o
caminho mais fácil.
A América Latina, depois da II Guerra, de forma geral, abraçou os ideais dos ganhadores do conflito, caminhou para governos mais democráticos.
Alguns até acreditaram que haveria apoio econômico que ajudasse a área
a melhorar seus índices sociais e humanos. A população crescia, as grandes cidades recebiam cada dia mais gente, havia problemas de saneamento,
habitação, transporte. Uma expectativa correta, mas fora da realidade do
momento. Os EUA, a maior potência do mundo ocidental, voltava-se para
a estabilização da Europa e da Ásia e contra a expansão do comunismo em
qualquer lugar. A América Latina, mais uma vez, passou a ser secundária
na política externa daquele país. Já dominavam a economia da área e que
precisava de recursos e tecnologia deles, não tinham por que se preocupar
tanto com uma região que estava sob sua influência desde décadas atrás. A
política de Washington passou de regionalismo para internacionalismo. (1)
As reuniões dos EUA, do meio para o fim da guerra, foram com a Inglaterra,
a União Soviética ou até mesmo com a China e não com os supostos aliados
regionais dos norte-americanos. O sonho de ter um Plano Marshall para a
região nada mais era do que sonho. Outro sonho logo desfeito estava na
questão de segurança regional. Nos tempos da guerra falava-se que no sistema interamericano todos os países tinham voz igual numa decisão. Veio a
ONU e ali se estabeleceu que o Conselho de Segurança teria direito de veto
sobre a decisão do corpo inteiro daquele sistema de consulta e segurança. As
decisões regionais anteriores caíram perante uma decisão daquele porte, os
EUA tinham poder de veto naquela instituição maior, e não iria se submeter
a dividir decisão num fórum menor. E mais ainda sendo a única potência em
assuntos militares.
A América Latina, na elaboração dos tratados e acordos, acredita nas
propostas e acenos de cooperação, depois vêm as frustrações, é por isso que
nos EUA se diz que a região é ainda infantil em fazer política. Os norte-
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
107
americanos sabem também da separação e divergência entre países da área
que transcendem acordos ou boa vontade, é quase impossível haver voz única numa decisão. Além disso, uma oferta de ajuda financeira ou de abertura
comercial a esse ou àquele país pode fazê-lo mudar de ideia, aceitar o ponto
de vista dos EUA. Ou ainda a ajuda militar a um ditador ou grupo no poder
pode levar a decisão de um país para o lado que os norte-americanos querem. Um país, EUA, falando uma só linguagem. Os outros sem unidade e
precisando da potência maior para resolver problemas sociais ou econômicos
em casa. Era e é uma situação desigual e complicada, e que os EUA souberem e sabem muito bem como explorar.
Mesmo diante desse quadro houve ainda tentativas incipientes para se
aproximar os lados. Em 1945, num encontro no México, a Ata de Chapultepec (2) fala em segurança continental. No lado econômico a decisão era
óbvia e foi a base do que os norte-americanos fariam na região, os EUA
defendiam livre comércio e atuação de empresas privadas. (3) A região se
beneficiaria economicamente, empregos cresceriam, deveria abrir suas economias para que as forças de mercado encontrassem o melhor caminho. A
América Latina queria suporte para industrialização e preços para seus produtos em patamares aceitáveis; com o fim da guerra, os EUA quase que
abandonam as ações para estabilizar preços ou comprar por cotas, aparece
uma sequência de problemas econômicos regionais. Os EUA deram mais
recursos entre 1945 e 1952 para a Bélgica e Luxemburgo (4) do que todas
as nações da América Latina juntas. Mesmo para país como o Brasil, que
ajudou na guerra, a complacência encurtou, é que se olha a região de forma
igual, não há diferenças, o pacote é um só, incluindo quem mandou 25 mil
soldados para a guerra na Europa. Os EUA também não acreditavam que na
região tivessem governos eficientes e aptos para administrar supostas ajudas.
Até hoje, como desculpa ou acreditando mesmo no ponto de vista, dizem
que não dão ainda mais ajuda à América Latina com receio de que os recursos não sejam aplicados com honestidade, e que não têm meios de impedir
que aconteçam falcatruas. É parte da concepção de lá de que a região, como
não filha da ética protestante, usa meios não republicanos com o dinheiro
emprestado ou doado.
Em 1947, como já se esboçava o combate ao comunismo no mundo,
incluindo a América Latina, aparece uma conferência de interesse dos EUA.
No Tratado do Rio, outra vez, a América Latina concordou com praticamente a única coisa que os EUA buscavam. Ficou estabelecido que um ataque de
potência estrangeira a qualquer nação da área seria tomado como um ataque contra todos os países da região. O tal ataque não teria resposta militar
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Alfredo da Mota Menezes
imediata, dependeria de uma reunião de Ministros das Relações Exteriores
de todos os países, e para se ter a decisão precisava-se de dois terços de
aprovação dos votantes. Um autor (5) interpretou que foi uma boa decisão
para a América Latina, impediria os EUA de invadir países da região se não
houvesse aquela aprovação dos dois terços. Talvez o assunto possa ser visto
por outro prisma. Os EUA não se comprometiam em defender nenhum país
na bucha de um suposto ataque, precisaria consultar e ter aprovação de muitos países da área. Nesse meio tempo analisaria se seria interessante ou não
assumir aquele risco. Era o único militarmente forte, só ele poderia aventurar
numa imaginada defesa dessas. Por outro lado, se quisesse invadir um país,
como veio a ocorrer com a República Dominicana em 1965 ou na derrubada
de Jacob Arbenz na Guatemala em 1954, não precisaria pedir opinião de
ninguém da área. Atuaria, como atuou antes, de forma unilateral. Como
única potência militar era quem estava pronto para fazer invasões.
Tem hora que dá quase para acreditar que falta mesmo amadurecimento
político regional. É verdade que a América Latina dependia do capital, tecnologia e mercado dos EUA, e isso também empurrava a área a aceitar coisas
que não parecem comuns no mundo do relacionamento entre nações. Mas a
Europa, se cabe o paralelo, devastada pela guerra, precisando da mão estendida dos EUA, não ia fazer acertos se a sua diplomacia não pudesse justificar
mais tarde. Há sempre um compromisso com a história. Na América Latina
não funciona assim, fatos mostram que países aceitam tomar lados se houver
uma compensação que satisfaça a uma determinada situação interna. Não
há nem o receio de ser cobrado pela história. Exemplos abundam.
Na luta contra o comunismo, na Guerra Fria que se estabelecia, os EUA
forçaram que a região rompesse relações diplomáticas com a União Soviética, entre 1947 e 1952, com exceção do México, da Argentina e do Uruguai,
todos os outros países tinham rompido com Moscou. Internamente, sempre
na linha proposta pelos novos tempos da guerra contra o comunismo pelos
EUA, os países na América Latina restringiam a atuação dos partidos comunistas, perseguiam seus membros, atacavam os sindicatos. Outra vez a região
se alinhava a uma ação de política externa dos EUA.
Apenas como exercício de imaginação é interessante ressaltar uma vez
mais que quase sempre o Brasil se punha contra o que a Argentina defendia.
Em muitos momentos, desde o início do século XX, quando era forte a economia do país vizinho, o Brasil se alinhou com os EUA e contra a ação dos
argentinos. Era a política criada por Rio Branco de alinhamento quase que
automático com a potência que nascia, e se contrapondo à união da Argentina com a Inglaterra. Mas, apenas para arguir, se o Brasil jogasse junto com os
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
109
argentinos e vice-versa talvez a região tivesse conseguido mais benefícios até
mesmo junto aos EUA. Economias menores juntas poderiam forçar algum
tipo de acerto que fosse vantajoso para os dois países. Mas é sonhar demais
acreditar que naquele tempo haveria, tendo em vista a história e os interesses do Brasil e da Argentina, esse tipo de entrosamento. E os EUA sabiam
da divisão entre eles, nada mais cômodo do que explorar, se necessário, a
situação existente.
Estamos ainda no rescaldo do fim da II Guerra. Os EUA diziam que a
Europa, por causa dos problemas trazidos pela devastadora guerra, deveriam
receber ajuda para sair da miséria (não se falava a mesma coisa para a miséria da América Latina), não dá chance para o crescimento do comunismo.
Toca-se nesse tema mais uma vez porque ele será a base da relação econômica dos EUA com a América Latina naquele longo período. O Secretário de
Estado, George Marshall, traçou o rumo num encontro em Bogotá em 1948,
quando disse que o dinheiro para a América Latina deveria vir da iniciativa
privada, que os EUA (6) estavam concentrados na Europa com receio da
expansão comunista. Por aquela época não estava ainda tão forte o receio de
se espalhar as ideias de Moscou para a América Latina, a área não mereceu
muita atenção. Havia nos EUA o receio de que a França e a Itália caíssem
para o lado comunista e que, se ocorresse, por causa dos muitos italianos na
América Latina, e porque era forte a presença da cultura francesa na área,
poderia a região ser influenciada para o lado comunista. (7) A preocupação,
portanto, continua na Europa e não na região.
No início de 1950 o senador Joseph McCarthy começou os quatro anos
de sua diatribe contra comunismo, e acusava o partido Democrata de ser
leniente com ele. Há uma frase do momento: we lost China (perdemos a China), perdeu para o comunismo um mercado grande que poderia ajudar mais
ainda a economia norte-americana. Não podia perder mais lugar nenhum,
menos ainda um que estava sob direta influência dos EUA: a América Latina. Será um momento de paranóia naquele país contra o comunismo, e é
nesse contexto que a América Latina esperava ajuda dos EUA. Como não
virá, e como os problemas sociais eram enormes, mais os exemplos iniciais
positivos do leste europeu, muitos países tentavam uma saída por outro lado
político para resolver seus problemas, e encontravam a maior potência da
época apavorada com a expansão do comunismo. As consequências regionais nos campos político, econômico e social foram tremendas.
George Kennan, o sempre ouvido diplomata norte-americano, fez uma
viagem de três meses por algumas capitais da América Latina em 1950, e
escreveu um documento para o Secretário de Estado Dean Acheson do go-
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verno Truman, dando suas impressões sobre a região e fazendo ainda recomendações (8). Suas conclusões são aquelas conhecidas e tratadas ao longo
deste livro. Ele culpa a herança espanhola pela incompetência da região, reforça com todas as letras a mesma crença que os norte-americanos têm sobre
a América Latina desde o início do contato entre os dois povos. Fala que a
geografia, o clima, a história e a raça não criaram um povo para a democracia
e a prosperidade, recomenda que os EUA continuem a tomar conta da área
para impedir que os comunistas tomassem países da região. Recomendava
ainda dar suporte a governos fortes por causa da tradição regional em aceitar
esse tipo de atuação política, e para impedir a expansão do comunismo. A
região, por sua tradição e história, continua Kennan, não havia nascido para
a democracia, e apoiar governos autoritários seria um caminho natural. O
erro estava aqui, não trazido de fora.
Impressiona a similitude de pensamento através dos tempos dos formuladores da política externa dali, incluindo pessoas do porte de George Kennan e Dean Acheson. A herança espanhola e indígena seria a culpada pelos
problemas regionais por séculos. Na época da política da Boa Vizinhança,
apesar de a maioria das pessoas dali continuarem a olhar para a América
Latina da mesma forma que antes, a linguagem sobre a região mudou um
pouco. Terminada a II Guerra, acabados a Depressão Econômica e aquele
receio de que o capitalismo podia não dar certo, muda-se o discurso nacional
outra vez. Na mesma linha de raciocínio e de acordo com um novo tempo,
já na década de 1950, o Secretário de Estado de Dwight Eisenhower (19531961), John Foster Dulles, dizia que os latino-americanos não tinham capacidade de se autogovernar, eram como crianças. (9) Ele aconselhava o irmão
de Eisenhwoer, Milton, antes de uma visita dele à América Latina, que, ao
tratar com o latino-americano, lhes desse palmadinhas nas costas, se mostrasse amigo para que pensasseem que ele gostava deles. (10) Chegam a ser
desrespeitosos. Talvez o conselho nem fosse necessário, é só observar como
se comportam alguns dirigentes daquele país hoje em contato com líderes
latino-americanos, continuam dando pequenos tapinhas nas costas ou na
barriga. Se caminhando juntos colocam a mão no ombro para mostrar uma
suposta camaradagem. Sabem que pessoas da região apreciam isso, mesmo
que não faça parte do comportamento deles. E a mídia regional dá espaço
para aqueles gestos ensaiados. Como também a mídia ressalta que o presidente do país é amigo de tal presidente dos EUA, e que o outro presidente
fora mais amigo do que saiu. Eles não vem dessa maneira.
E assim vem através dos anos. Na hora de tirar uma fotografia nova da
região volta-se às antigas e já arraigadas no imaginário popular daquele povo.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
111
Ou, em palavras diretas, aquelas depreciativas sobre raça, religião, clima ou
tradição ibero-católica. Frente a uma crença que não muda, governos dos
EUA não precisam dar muitas explicações em sua relação com a região. Vem
lá de trás a crença de que o povo da América Latina age emocionalmente,
que precisa crescer e amadurecer para ter governos próprios. Se a elite política e diplomática, como Kennan, Acheson ou Foster Dulles, via dessa forma,
imagine como tudo isso se processava na mente de um homem do povo.
Aliás, a equação pode até ser invertida: a política externa tinha como base
a crença da maior parte da população do país sobre a América Latina, e não
somente o que pensava de forma independente a elite política de lá.
O exemplo clássico de como os EUA vão atuar daí para frente na região
aconteceu na Guatemala, essa nova tendência assolaria a América Latina
por décadas. Ali estava a United Fruit Company com milhares de hectares
com plantio de banana. (11) Governava o país Jorge Ubico com mão de
ferro, fazendo o que La Frutera queria. Seu despotismo acaba em 1944 com a
chegada ao poder de um professor, Juan José Arévalo. Começam as reformas
na Guatemala. A United Fruit se viu ameaçada porque no país se criaram
sindicatos, um código do trabalho e caminhou-se para uma reforma agrária. Expropriou-se 40% das terras da companhia norte-americana. Ela pediu
apoio ao governo dos EUA, ali se vê como uma companhia do país tinha
ligações com o governo, e como a política externa se voltava na defesa desses
interesses. O presidente da empresa era irmão de John Moors Cabot, alto
funcionário do Departamento de Estado. Os irmãos Dulles, John e Allen,
um Secretário de Estado e outro diretor da CIA, trabalharam numa firma de
advocacia que tinha ligações com a companhia. A secretaria pessoal do presidente Eisenhower era casada com o principal lobista da companhia. (12) A
pressão será tremenda.
Antes de contar o que ocorreu na Guatemala talvez seja interessante
mostrar como nasceu no Departamento de Estado dos EUA a base intelectual para justificar as ações novas na América Latina. Louis Halle trabalhava
naquele setor do governo norte-americano e ficou encarregado de elaborar
um estudo que justificasse atos posteriores do governo na região. É muito
citado o artigo que escreveu em 1950 para a revista Foreign Affairs, é o fim
do incentivo à expansão da democracia na área. Ele acredita, repetindo a
crença normal naquele país, que a América Latina não tinha bases democráticas. Compara a história dos EUA desde a independência com a da América Latina, e mostra como um lado progrediu na democracia e o outro sem
condições de ter governos próprios e sadios, o resultado era o caos. Que a
região tem uma tradição autoritária e acredita no homem com pulso forte.
112
Alfredo da Mota Menezes
Fala ainda que na América Latina os heróis são colocados em estátuas montados em cavalos em praças públicas, e que o latino americano tem adoração
por isso. É “uma manifestação de imaturidade”, característica de adolescente
que adora o grande herói que destrói seus adversários e se coloca acima da
lei. (13) Uma análise de alguém que mal conhecia a América Latina e que
deu base para a atuação do governo norte-americano na Guatemala, e dali
para frente serviu de mote para outras ações na área. Ou seja, a América
Latina não estava preparada para a democracia, acreditava em governos fortes, e esse foi o caminho que os EUA tomaram com a região. Acabara a Boa
Vizinhança, volta-se ao que sempre fora. Apoio a ditaduras foi um fato normal, estavam fazendo o correto, a América Latina era filha do autoritarismo.
É impressionante como essas crenças sobre a América Latina se fixavam na
mente e no coração daquele povo. O que Halle escreveu nada mais era do
que o quadro histórico que eles tinham da região.
Alguém, Louis Halle, criou a justificativa intelectual para o que viria a
ocorrer na América Latina: para combater o comunismo, entregue os governos a homens com pulso forte em associação com a elite local. Mudanças ou
reformas sociais seriam coisas de comunistas e deveriam ser combatidas. A
imaturidade política da região poderia dar espaço à entrada do comunismo,
e por isso os EUA deveriam agir. Essa é a moldura de toda a Guerra Fria na
América Latina. Medo de que pela inocência política regional a União Soviética se aproveitasse, os EUA deveriam impedir essa suposta ação. Certo ou
errado é o que vai prevalecer na região com implicações históricas até hoje
na vida de cada nação desta parte do mundo. O campeão da democracia,
que ajudara na derrota do autoritarismo na Europa, apoia o inverso na América Latina. É antiga a tese de que o erro está sempre no outro. A culpa da
atuação dos EUA na América Latina seria das pessoas daqui e não de quem
vinha de fora. Este, ao contrário, estava ali para salvar e ajudar aquele povo,
isso justificava perante o povo norte-americano qualquer ação externa. Aliás, ocorre até hoje. Ataque norte-americano no Oriente Médio seria para
impedir que tal governo fosse para um suposto lado errado e que os EUA
estavam levando democracia e desenvolvimento social. Vem lá de trás, faz
parte da história e da cultura do país.
O governo Dwight Eisenhower aceitou a tese de Halle, decidiu apoiar
qualquer ditador que fosse anticomunista e pudesse manter ordem interna.
(14) Uma decisão que trouxe choro e ranger de dentes para a história regional. Já que a América Latina admira o herói forte, aquele que batia nos
seus oponentes e que estava acima da lei, foi esse o caminho escolhido como
modelo a ser seguido por outros governos mais tarde nos EUA. Como se fosse
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
113
para acalmar consciências aceita-se que a região é assim e eles nada poderiam fazer. A Europa, em reconstrução, seria o único lugar que a América
Latina teria para buscar algum tipo de suporte, pelo menos intelectual, para
enfrentar a força descomunal dos EUA naquele momento. Estava prostrada e
precisando da ajuda norte-americana, não seria lugar para se buscar apoio.
Houve, porém, alguns poucos nos EUA que viam que o caminho tomado pela política externa do país para a América Latina era equivocado. O
caminho seria atacar a pobreza regional, ali estava a base para uma suposta
entrada do comunismo. O modelo econômico e até mesmo político que a
região seguia deveria ser mudado. Para os EUA, naquele momento, qualquer
ação nesse sentido seria ato vindo de fora, ajudado por Moscou para desestabilizar governos. E como eles acreditavam que a área vivia em sua adolescência política (com muita simpatia colocando desse modo) não podiam deixar
que agentes de fora agissem na América Latina. Entregaram a região para
governos autoritários ou “delatores amigos”. (15)
Voltando à Guatemala. A ação que ocorreu ali foi o modelo que se teria
na América Latina de maneira geral. Os EUA não invadiriam o país, mas
ajudaram interna e externamente um grupo de descontentes a derrubar o governo que eles entendiam pró-comunista. Os norte-americanos armaram em
1954 Carlos Castillo Armas que, com alguns dissidentes e suporte massivo
dos EUA, derrubou o governo de Jacobo Arbenz. (16) A análise de Martha
Cottam (17) sobre os acontecimentos na Guatemala talvez seja a mais lúcida
sobre como agia a diplomacia dos EUA em cima dos estereótipos criados na
mente norte-americana através da história. A política externa do país trabalhava sempre nessa direção. Não foi somente lá atrás na diplomacia do dólar
ou no Destino Manifesto, aquilo estava arraigado na mente das pessoas dali,
e agia na política externa do país movidos por essa crença histórica. O caso
da Guatemala é emblemático. O país era considerado mesmo uma república
bananeira, ou que só vivia do que produzia no campo, e com a presença da
United Fruit Company a imagem se firmava mais ainda. A imagem nos EUA
era, portanto, de uma área dependente, não tinham condições de autogovernar, menor de idade em sua ação política.
A tática nova foi acusar de comunista todo mundo que queria algum
tipo de reforma. Arbenz tinha apoio da confusa coalizão de esquerda a seu
governo, mas não era comunista no sentido clássico da palavra. Como os
EUA viam comunistas até debaixo da mesa de jantar acusavam qualquer um
de ser agente de Moscou, e porque Arbenz advogava reformas, incluindo a
agrária, foi visto como inimigo. Deveria ser colocado para fora porque sendo
infantil em política seria facilmente manipulado pela União Soviética. (18)
114
Alfredo da Mota Menezes
A autora mostra a maneira simplista como o Departamento de Estado via a
política da Guatemala, não entendia o que ocorria, e, ao não entender, recorria à formula pronta de sempre de que a região era complicada, não tinha
condições de se autogovernar. Nunca é demais citar a tal fotografia mental
que se tira de algo, fixa-se nisso e não muda, a Guatemala se insere nesse
quadro. A autora procura mostrar como a política externa dos EUA estava
eivada de estereótipos que vêm desde muito tempo naquele país.
A ação diplomática dos EUA em tratar o caso da Guatemala é típica
dessa imagem dependente do país. Os EUA estão corretos: o outro é fraco,
inferior e não hábil para fazer as escolhas políticas certas. (19) Para mostrar
como a imagem estava fixada na mente norte-americana sobre um povo
incapaz tomo emprestada a descrição que Cottam faz da decisão do governo
dos EUA para derrubar Arbenz. Este assunto é analisado até com mais profundidade no livro Bitter Fruit de Schlesinger e Kinzer. (20) A ação feita pela
CIA é uma montagem, como se fosse para amedrontar crianças. O exército
invasor praticamente não existia, a ação psicológica era o que interessava,
quase tudo foi feito por rádio, panfletos, barulho para amedrontar o governo,
os militares e até o povo. Ao ler o trabalho feito pela CIA, e que deu certo,
dá para entender como os EUA pensam realmente da América Latina.
O plano previa que os EUA criariam um grupo de exilados contra Arbenz, que iria libertar o país do jugo comunista. Através de rádios e massiva
propaganda a CIA bombardeiam a nação de que o grupo invasor era enorme
e bem equipado (na verdade não conseguiram mais do que 150 guatemaltecos e agregados para fazer a invasão). Parece mesmo que estavam tratando
com crianças. Para criar o clima que queriam jogam algumas bombas em certos lugares do país, foram pilotos mercenários dos EUA recrutados para fazer
o serviço, ações assim amedrontariam o povo e os militares. A intenção era
que Arbenz fosse derrubado por dentro e não pela quase fictícia invasão.
Insiste-se nisso para mostrar como os EUA veem a América Latina,
era como se fosse uma ação para amedrontar crianças mesmo. A operação
da CIA tinha que desmantelar a pequena força aérea da Guatemala. Um
piloto do país fugiu com seu avia,o o que fez Arbenz praticamente esconder
o resto do que lhe restava dessa pequena aviação, com isso não sobrevoou
os lugares para comprovar ou não o tamanho do tal exército da invasão. O
grupo liderado por Castillo Armas não fez avanços militares, não tinha nem
treinamento, ficaram num pequeno povoado esperando que a CIA fizesse
o serviço e Arbenz deixasse o governo. E deixou. Toda a operação norteamericana, escreve Martha Cottam, foi montada em cima dos estereótipos
que se tinha sobre a América Latina. Região dominada por uma pequena
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
115
elite junto com a igreja católica, e que não queria perder o antigo poder. Povo
quase analfabeto para entender o que estava acontecendo. Medo de que a
União Soviética dominasse a política local, porque o povo era despreparado
para se autogovernar. E, no final, funcionou a ação.
A partir da queda de Arbenz, governos autoritários tomaram conta da
Guatemala. Esse foi o detalhe histórico mais doído. A Guatemala teve um
pequeno suspiro de democracia com os governos Arévalo e Arbenz, e os
EUA ajudaram a destruir essa pequena abertura na política local. O governo
norte-americano sabia que Arbenz não era comunista e, com uma escusa
que a história prova o contrário, provoca um futuro banho de sangue naquele país. Em anos subsequentes morreram cerca de 30 mil guatemaltecos na
violenta repressão interna com participação até do Green Beret, uma força
norte-americana treinada em ações de guerrilha. Os EUA interromperam na
Guatemala os avanços criados nos governos Arévalo e Arbenz como liberdade de imprensa e sindical, voto universal, eleições livres e um princípio de
reforma agrária, ações que deram base ao processo democrático. Se os EUA
tivessem dado força às reformas em andamento, com pequeno investimento
na economia teriam influenciado toda uma região. A Guatemala sempre foi
líder naquele pedaço do mundo, se ela se transformasse, transformaria toda
a América Central. E hoje, quem sabe, ter-se-ia mais gente incorporada ao
mercado consumidor. Os EUA ganhariam mais dinheiro ainda.
Também, ao dar força a regime militar e não democrático na Guatemala, os EUA ajudaram a fortalecer os regimes ditatoriais em toda a área. Na
América Central e no Caribe, com exceção da Costa Rica, por muitos anos
nenhum governo professava os cânones democráticos, fato que até reverberou contra os interesses dos EUA mais tarde. Na Nicarágua, como exemplo,
o governo Reagan investiu tempo e dinheiro na tentativa de derrubar os
Sandinistas que assumiram o governo depois da luta contra a ditadura da
família Somoza.
Outro dado que chama a atenção naquele episódio é a crença que todos
na Guatemala tiveram de que o país estava mesmo sendo invadido. Tudo foi
montado pela CIA com mensagens falsas. O que encabula é que até as forças
armadas acreditaram. O Ministro das Relações Exteriores, Guillermo Toriello,
em mensagens para os EUA e para o corpo diplomático, denunciava a tal
massiva invasão. Até mesmo Jacobo Arbenz falou nisso no seu discurso de
despedida antes de se refugiar na embaixada do México. Chega a impressionar
como se ganhou uma “guerra” quase que somente com ações psicológicas.
Sarah Sherbach diz que, para aparecer um estereótipo e para que ele viceje, deve haver alguma coisa de concreto do que se fala ou cria. No caso da
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Alfredo da Mota Menezes
Guatemala, que virou um modelo para toda a América Latina, fixou ainda
mais na mente das pessoas dos EUA que a América Latina era fraca mesmo. E na política externa daquele país também. Ou como dizia o Secretário
de Estado John Foster Dulles, quando surgia na América Latina governos
ditos populares, que a região tinha um povo que não tem o dom de se autogovernar, “são como crianças quando enfrentam um problema”. (21) A
imaturidade dos líderes latino-americanos em política era aceita como uma
verdade histórica pelos que faziam a política externa dos EUA. Ou como disse Richard Nixon, vice-presidente de Eisenhower, que os espanhóis tinham
muitos talentos, mas governar não estava entre esses. (22) Colocam-se essas
afirmações em momentos diferentes para mostrar como o povo norte-americano olha a América Latina e isso é também o ponto de vista dos dirigentes
do país. Seja lá atrás, seja em tempos mais recentes, vê-se sempre alguém
com as mesmas frases que estão no imaginário popular daquele país.
Ainda no governo Eisenhower começa uma discussão nos EUA sobre os
motivos reais dos problemas políticos na América Latina. Alguns arguiam,
entre eles o irmão do presidente, Milton, que nem tudo na região seria coisa
de comunista, que havia pobreza, desnutrição, faltavam reformas que ajudassem os mais pobres a melhorar de vida, precisava-se de capital e tecnologia. Sem isso e com as condições do povo piorando pela urbanização que
ocorria havia manifestações populares e até tomada de governos por gente
que queria algum tipo de mudança. A tumultuada visita do vice-presidente
Nixon à América Latina em maio de 1958 mostrou uma América Latina
diferente para os EUA. (23) Manifestações gigantes contra ele ocorreram no
Peru e na Venezuela, chegaram a cercar seu carro; ele teve que se refugiar
na embaixada norte-americana em Caracas. O governo dos EUA percebeu
que havia algo no ar, o país não era mais bem-vindo como antes. Começa
uma pequena mudança de ponto de vista no governo dali. Continuariam
a combater o comunismo por qualquer meio que fosse, principalmente na
associação com os militares e a elite regional, mas seria preciso fazer alguma coisa para modificar a situação dos mais pobres. Era tempo, como disse
Eisenhower, de ganhar mentes e corações dos pobres da América Latina.
(24) Ajudou nisso o presidente Juscelino Kubitschek com a sugestão de se
criar um plano de desenvolvimento econômico para a região que ajudaria a
diminuir a fricção política e impediria que surgissem regimes de esquerda na
área. O caso cubano mostrava que algo diferente estava acontecendo, e que
os EUA deveriam usar outros meios para acalmar a região. E Cuba estava no
Caribe, perto dos EUA, e era lugar de influência direta do país desde o final
do século XIX.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
117
Com Cuba não ocorreu o mesmo que aconteceu com a Guatemala. É um
pouco diferente, mas serve como modelo de análise dos tempos da Guerra
Fria. Fidel Castro tomou o poder em janeiro de 1959, (25) os EUA, no início,
não ligaram muito. Era um lugar talvez mais dependente deles do que a Guatemala pela compra que se fazia dos bens do país, principalmente do açúcar
cubano. Qualquer arrufo era só não comprar que haveria problemas econômicos com consequências políticas e sociais. Os EUA achavam que Cuba era
dependente, mas a grande diferença entre os dois casos é que ela estaria sob
a influência de um poder de fora da área. Quando os EUA estavam confusos
com alguém no governo na América Latina, e como não queriam entender
o que estava acontecendo. logo criavam a tese de que aquele país estava
sob domínio de uma força de fora. (26) Achavam que a região não poderia
fazer sozinha qualquer política que tivesse êxito, não acreditavam e talvez
não acreditem até hoje que a América Latina chegou à maturidade política.
Quando há um fato que foge da foto mental tradicional que eles têm da área,
uma coisa um pouco mais confusa ou até mesmo sofisticada, não é própria
da América Latina tal ação ou atitude. Tem-se alguém por trás instruindo ou
instrumentalizando aqueles dirigentes. Se não são eles, quem seria?
Na época da Guerra Fria só poderiam ser agentes de Moscou. Não importa se não encontrassem esses agentes, partiam do princípio de que havia
algo errado ou satânico no ar. Deduziam e aceitavam que os dirigentes regionais não tinham capacidade para articular uma ação política mais sofisticada. Deviam ser combatidos porque, com certeza, se descobriria depois uma
mão invisível por trás daquele ato político que naquele momento parecia
incompreensível. Mesmo sendo repetitivo nunca é demais dizer que tudo é
porque se tem uma foto mental da região que não muda. Essa interpretação,
que é regra no país, justificaria qualquer ato do governo dali na América
Latina, seria normalmente permitido pelo povo do país porque todos veem
pela ótica histórica de que o “outro” ou a América Latina sempre está errada, e que os norte-americanos estão ajudando povos ainda adolescentes em
política a passar por esse ou por aquele estágio. Não se vê meios no horizonte para modificar essa maneira de eles verem a região. E, ao mesmo tempo,
não dá para a América Latina, geograficamente perto da maior potência
militar e econômica do mundo, ignorá-la, ou começar a fazer barulhos confusos como fazem alguns dirigentes regionais em momentos diferentes da
história do relacionamento entre os dois lados. A atuação de alguns deles
aumenta mais ainda na cabeça do norte-americano as crenças antigas que
eles têm da área. Agem como eles veem a região e que o tempo se encarrega
de desmontar suas retóricas. Nunca respondem a eles, se fizessem pegaria
118
Alfredo da Mota Menezes
mal junto ao eleitorado nos EUA, a tática é ignorá-los e a tantos outros que
agiriam infantilmente.
Funciona numa democracia a busca pelo voto numa eleição, nenhum
partido no poder nos EUA gostaria de tomar alguma ação na América Latina
que mais tarde tirassem votos, seja nesse momento ou em outro qualquer.
Tem assuntos externos ali que levaram a isso, podem ser citados os casos do
Vietnã, os reféns do Irã ou a “perda” da China, que pesaram na hora de uma
eleição. Com referência à América Latina não tem sido bem assim. Mesmo
o caso cubano da Baía dos Porcos, no início do governo John Kennedy, ou a
crise dos mísseis, não afetaram a eleição de Lyndon Johnson do mesmo partido do presidente assassinado em Dallas em 1963. Em 1988, George Bush,
vice-presidente de Ronald Reagan, apesar do caso Irã-Contras (ajuda aos
“contras” os Sandinistas em território de Honduras) ter explodido em 1986,
se elegeu presidente do país.
De volta ao caso cubano. Os EUA, no início de 1960, começam a pressionar economicamente Cuba na questão de petróleo, e também diminuindo
a compra do seu açúcar na tentativa de enfraquecer o governo Fidel Castro.
Foi um erro, empurraram Cuba para o braço do adversário, a União Soviética assumiu a posição de supridor de petróleo e comprador de parte do
açúcar da ilha. Continuavam aceitando que Cuba, como outras nações da
América Latina, seria aprendiz em política, mas agora sob o domínio do mal
que chegou de fora. Acreditando que Cuba, como outros países da área, não
tinha condições de enfrentar um confronto armando maior, a administração Eisenhower bolou um plano, executado por seu sucessor John Kennedy,
outra vez com o suporte da CIA, para invadir Cuba com exilados cubanos.
Quase o mesmo tipo de ação contra o governo de Jacobo Arbenz da Guatemala, incluindo pequeno bombardeio aéreo sem presença de força militar
dos EUA. Cuba, em 1961, se defendeu e venceu essa tentativa ao derrotar a
despreparada força enviada contra ela na Baía dos Porcos.
O preparo e a ação militar foram um ato típico do pensamento norte americano sobre a região, principalmente com os países do Caribe e da América
Central. Tinham na cabeça que, por infantilidade da área, repetir o que fizeram na Guatemala daria mais certo ainda num país supostamente menos preparado. Foram surpreendidos, atribuíram esse novo fato à presença de agentes
de outros países que ajudaram Cuba a fazer o enfrentamento militar. Não fora
coisa de latino-americano. John Kennedy assumiu a culpa pelo fiasco da operação. Cuba se jogou nos braços da União Soviética, para este país era interessante ter um aliado perto da costa dos EUA. Mais tarde, em 1962, houve a
crise dos mísseis em Cuba, a União Soviética estava colocando mísseis na ilha
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
119
do Caribe voltados para os EUA, fato que quase levou as duas superpotências
a uma guerra nuclear. No último instante estabeleceu-se um acordo, acreditase que sem a aprovação de Fidel Castro, em que os soviéticos retirariam os
foguetes que estavam sendo montados, em contrapartida os EUA se comprometiam a não invadir Cuba, que caminhava mesmo para o socialismo.
Outra vez o momento histórico determinava o que o país iria fazer,
houve nova mudança de rumo nos EUA sobre seu relacionamento com a
América Latina. Os EUA estavam com problemas internos com a luta pelos direitos civis dos negros. Uma superpotência daquele porte, que pregava
democracia e liberdade, tinha parcela de sua população sem a tal liberdade
política e civil. Mandavam também um recado errado para o mundo de que
na região sob sua tutela, a América Latina, não havia liberdade, e a pobreza
crescia cada dia mais. Sua imagem e prestígio em outros lugares do mundo
poderiam ser atingidos. Em situação assim aquela nação mudava de direção.
Passado aquele específico momento retorna ao leito normal de sempre a política externa dos EUA.
O movimento pelos direitos civis crescia nos EUA. Os negros, desde o
início dessa insatisfação, em dezembro de 1955, em Montgomery, Alabama,
quando Rosa Parks se rebelou contra a discriminação em ônibus, queriam
mudar a situação interna deles. Na década de 1960 o assunto entrou em
ebulição. Martin Luther King, com seu sonho de uma América em que a cor
da pele não medisse o caráter de uma pessoa, era a favor de mudanças usando o pacifismo, do outro lado estava Malcolm X, que a queria nem que fosse
a força. Aparecem também no período os Panteras Negras, que apoiavam
mudanças radicais no relacionamento branco e negro naquele país. Foram
emblemáticas as fotos de atletas negros dos EUA nas Olimpíadas do México
de 1968 no pódio quando levantaram a mão com uma luva que representava
os Panteras Negras. A imagem dos EUA no exterior ficou arranhada, o país
que saíra da guerra como campeão em democracia, que pregava liberdade
contra governos autoritários ou totalitários, seja ou não comunista, tinha
uma parcela da população em situação vexatória. Nos governos Democratas
de Kennedy, e depois de Lyndon Johnson, virão mudanças nesse relacionamento. Em 1965, um século depois do final da Guerra Civil (1861-65), em
que pressupostamente o negro seria emancipado, veio a decisão da Suprema
Corte dos EUA de one man, one vote. Também se derruba a barreira de negros
e brancos no setor educacional.
A América Latina também se mostrava indócil, passava por um turbilhão político e intelectual. Além da vitória e do exemplo de Fidel Castro
em Cuba, a imagem externa da União Soviética estava crescendo na região,
120
Alfredo da Mota Menezes
inclusive no campo tecnológico. Lançara o sputnik circundando a Terra, tecnologia que amedrontou o norte-americano, e o astronauta russo Yuri Gagarin, em 1961, foi o primeiro homem no espaço. Tinha-se ainda na América
Latina a igreja católica se envolvendo mais com a política. A Teologia da Libertação pregava que seria dever da igreja lutar para diminuir a pobreza, usar
os meios necessários para isso. Baseada em encíclicas e no Concílio Vaticano
II a igreja tomava a opção pelos mais pobres. Foi um empurrão para que muitos religiosos da América Latina caminhassem para o lado da política, ou até
pregassem a derrubada de governos para melhorar a situação dos segmentos
mais pobres. (27) Momento em que houve um pequeno distanciamento entre
parte da igreja e a elite, fato que não ocorria desde o período colonial, a união
entre os dois interesses vinha desde a colonização ibérica. Agora, empurrado
por um novo tempo, no meio da Guerra Fria, apareceu a encíclica que dizia
que não estava errado pregar que um país ajudasse sua população mais pobre,
e que, na busca desse objetivo, se poderia até se levantar contra governos
autoritários que impedissem reformas para melhorar a vida da maior parte
da população. Já não seria pecado ficar desse lado. Uma instituição secular
e forte como a igreja católica tomar uma posição dessas numa região pobre
foi um incentivo a levantes contra a situação social e econômica estática da
época. Mas, por outro lado, era o momento máximo da Guerra Fria em que
os EUA usavam todos os mecanismos para impedir que a América Latina se
aproximasse de ideologias contrárias ao que aquele país defendia. Era como
se parte da igreja ficasse do lado da União Soviética.
Mais tarde, Karol Wojtyla, ou Papa João Paulo II, nascido num país comunista, Polônia, condenou essa ação da igreja na América Latina. (28) No
governo Ronald Reagan há uma aproximação entre os interesses dos EUA
e os do Vaticano no tiroteio final sobre a queda do comunismo no leste europeu. Os fatos sugerem que um lado acaba ajudando o outro, e a parte que
interessava aos EUA no momento seria a condenação do Vaticano contra a
presença de padres em movimentos de esquerda na América Latina. O Papa
condenou essa movimentação com o argumento de que a igreja não devia
se envolver em assuntos políticos, devia se preocupar e preparar o povo para
outra vida. Mas lá atrás, na década de 1960, a movimentação da igreja católica foi em outra direção, uma que não agradava aos EUA da época.
Outro movimento intelectual daquele fervilhante momento latinoamericano foi a teoria da dependência. Ela tem como expoentes os neomarxistas, que não viam desenvolvimento autônomo regional vinculado ao
capitalismo central, só com um rompimento, só com uma revolução socialista. Segundo Lawrence Harrison muitos intelectuais da América Latina
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
121
acreditavam que a área seria um lugar maravilhoso se não fossem os norteamericanos ou a exploração do mundo capitalista. Que aceitar a teoria da
dependência é aceitar determinismo, ou que a América Latina é impotente
para romper com sua pobreza, e que a história é praticamente escrita por
forças de fora. (29)
O que tratava a teoria da dependência? Ela estudava o relacionamento
das economias periféricas ou não desenvolvidas com os países centrais ou
mais desenvolvidos e considerados hegemônicos. Dizia que há uma relação
de dependência econômica dos países mais pobres com os países mais ricos.
(30) Cria-se, também, a partir do econômico, uma relação de dependência
política que acaba moldando o desenvolvimento político e social dos países
ditos periféricos ou dependentes. A teoria analisa ainda que as economias
menores assentavam sua base econômica na exportação de matérias-primas
ou produtos primários, e que os países ricos impunham o preço nelas, e que
vendiam de volta bens industrializados mais caros, sugando a pouca renda
regional. Que os países centrais acabavam se apropriando do pouco excedente econômico gerado nos países mais pobres pela ação do capital externo,
na compra de matérias-primas por preços impostos e na venda de manufaturados com preços maiores.
Essa dependência maligna limitava a tomada de decisões políticas de
interesse da maioria das populações dos países mais pobres, a força do mercado suplantava a política. Dizia ainda a teoria que havia uma ligação entre
capital externo e um segmento da elite nacional de cada país. Isso deveria
ser rompido, mesmo a força. O atraso latino-americano se dava, portanto,
por causa de obstáculos externos ao desenvolvimento nacional, uma consequência do imperialismo e também de um feudalismo agrário interno que,
combinados, atrapalhavam o crescimento regional. O desenvolvimento dos
países periféricos estava limitado pelo desenvolvimento dos outros países.
Esse era o modelo capitalista que, na tese, beneficiava os países ricos. Essa
herança colonial ou pré-capitalista agroexportadora era a maneira como a
região estava inserida no capitalismo mundial. Para desenvolverem deveriam romper essa dependência. Deveria haver uma aliança entre o povo e a
burguesia mais nacionalista. A teoria da dependência não era somente baseada nas condições pré-capitalistas ou de exportação de bens primários dos
países pobres para os mais ricos, ia além, havia ainda a divisão internacional do trabalho. Um tem capital e indústria, outros exportam a mais-valia,
fornecem ainda mão-de-obra barata, matéria-prima e criavam-se pequenas
indústrias para substituição de importações, criticadas porque tinham pouco
valor agregado.
122
Alfredo da Mota Menezes
Percebe-se o viés marxista na explicação, o momento mundial levava
a isso. Já estava morta a política da Boa Vizinhança, houve frustração no
meio intelectual pelo que veio depois nesse relacionamento entre os EUA e
a América Latina. Inicia-se a Guerra Fria, União Soviética de um lado e os
EUA do outro. O leste europeu dava sinais de crescimento com socialismo
e isso irradiava para os países da América Latina. Fidel Castro, em Cuba,
mostrava uma provável saída também. E a tese proposta era a do rompimento com o sistema capitalista que beneficiava os EUA. Há, também, no
momento, uma onda de industrialização na região, e como consequência
uma urbanização rápida em que os problemas cresceram nos grandes centros
urbanos. O poder público não conseguia responder àquela nova realidade,
o que gerava mais descontentamento social e levava os intelectuais a imaginarem saídas e alternativas para o futuro da região. Os militares chegam ao
poder na maior parte da América Latina e, por algum tempo, as propostas de
mudanças que nasceram no meio intelectual e acadêmico repercutiram em
certas camadas da sociedade. A revolução ou o rompimento com um sistema
equivocado, repressivo, antinacional, estava na dobra da esquina. No meio
acadêmico foi visto como quase certeza. Acreditava-se que a solução mais
apropriada para um povo estava no socialismo, chegaria um momento em
que, sem escapatória, o mundo acabaria abraçando as teses socialistas. O
capitalismo estava se deteriorando e esboroaria.
Na evolução da teoria surge mais tarde a tese da chamada nova dependência. Algumas economias cresceram e passaram a exportar alguns bens industrializados e não somente produtos do campo. As multinacionais estavam
chegando e a dependência nova se dava pela necessidade de tecnologia, capital de fora, pagamento de royalties, endividamento, remessa de lucros. Era,
outra vez, a associação entre o capital externo e uma parte da burguesia interna. E, mais uma vez, o país dependente, mesmo que um pouco industrializado,
não tinha autonomia política real. Estava subordinado às forças do mercado
interno e de fora, nunca haveria uma autêntica autonomia de um país em que
pudesse fazer política voltada para os interesses da maioria da população pobre que precisava de educação, melhor atendimento na saúde, água tratada,
saneamento e moradia, políticas públicas que deveriam ser tomadas, e que
não se podia tomar porque o poder político estava amarrado aos interesses do
capital nacional e do exterior. Sem uma quebra nesse modelo perverso não
se poderia chegar ao desenvolvimento, sem romper com esse ciclo que vinha
desde o período colonial, não dava para educar e esclarecer o povo para que
defendessem seus direitos. Um povo não preparado seria massa de manobra
dos interesses de uma elite preocupada somente com ela mesma.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
123
A teoria da dependência teve ainda outro viés: a América Latina poderia se inserir de forma autônoma no relacionamento com o capitalismo
sem passar por uma revolução socialista. Nem todos os que defendiam a
teoria acreditam na tese nova. Começa a haver, portanto, atritos e interpretações diferentes sobre a teoria, um fato até natural frente à evolução das
forças econômicas e também pelo enfrentamento político e ideológico de
cada momento. A teoria da dependência vai se moldando, portanto. Surgiu
também a tese do subimperialismo, como o caso brasileiro que se expandia
para os países vizinhos e servia de plataforma das multinacionais para se
vender bens industrializados nesses países. Dizia-se em alguns países da área
que havia um acordo entre o Brasil e os EUA, este país deixava o outro como
capataz regional no interesse do jogo capitalista. Até mesmo autores norteamericanos (31) escrevem que o Brasil seria um junior partner dos EUA na
América do Sul.
Na verdade, desde a década de 1950, no governo Juscelino Kubistchek,
já se desenhava essa expansão regional do Brasil, a política externa daquele governo defendia esse novo posicionamento. (32) O lugar onde o Brasil
exerceu primeiro essa tendência foi o Paraguai, governado por um general,
Alfredo Stroessner, em início de mandato. Como a oposição ao seu governo,
os Febreristas, estava exilada na Argentina e ameaçava tomar o poder, ele se
voltou para o Brasil. Ele dizia que o Paraguai era como uma pessoa com um
só pulmão econômico ou a dependência do porto de Buenos Aires para comprar e vender produtos. Queria outro pulmão, surgem a Ponte da Amizade,
no rio Paraná, e a saída pelo Porto de Paranaguá. Como consequência dessa
nova ligação surgem os brasiguaios ou os brasileiros que foram para aquele
país e que, com sua produção econômica, ajudam a manter o regime de Stroessner no poder. Aparece mais tarde, depois de grande polêmica diplomática,
a hidrelétrica de Itaipu em sociedade entre os dois países. O Brasil aceitou
a sociedade com o Paraguai, com receio de que o país voltasse aos braços
argentinos, que acenava em construir com os paraguaios a usina de Yacyreta.
O Brasil já colocara o país guarani como sua entrada no mundo hispânico
regional, tentativa de quebrar a hegemonia argentina na região do Prata.
No período auge da teoria da dependência, a Cepal, ou Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, um órgão da ONU, com sede em
Santiago do Chile, comandada à época pelo argentino Raul Prebish, mesmo
acreditando na tese da dependência, tentou cortar caminho econômico para
o desenvolvimento da América Latina. Aceitava que havia uma dependência na troca de matérias-primas da região com produtos industrializados dos
países ricos, essa equação deveria ser alterada. Apareceram em 1960 duas
124
Alfredo da Mota Menezes
tentativas de integração regional, uma através da Alalc ou Associação Latino-Americana de Livre Comércio, incluía todos os países da América do Sul
e mais o México da América do Norte. Na América Central, no mesmo ano,
foi criado o Mercado Comum Centro Americano. (33) A Cepal dizia que os
mercados latino-americanos eram pequenos para se ter uma industrialização
adequada e competitiva com outros centros. Para contornar o problema a
solução estava em unir os países, através das integrações econômicas, para
ampliar o mercado. Com mercado maior se poderia produzir em economia
de escala e suportar a competição com outros centros produzindo bens de
qualidade e com preço adequado. Mais tarde há um rompimento dentro da
ALALC, e os países andinos criam o Pacto Andino. (34) A separação se
deu, entre tantos motivos, porque os países menores achavam que quem
se beneficiaria com a integração econômica seriam as economias maiores
(Argentina, Brasil e México), que estavam em processo de industrialização.
As economias menores continuariam a vender produtos básicos, bens que as
maiores até produziam, e teriam que comprar bens industrializados dentro
da área. Seria a teoria da dependência num ponto menor e regionalizada.
Faltaram também meios de transportes, havia muita instabilidade política
e econômica, e o mundo vivia a Guerra Fria. As tentativas de integração
econômica regional fracassaram.
A teoria da dependência recebeu muitas críticas. Os que não aceitam a
tese da dependência e exploração externa, sejam autores latino-americanos
ou de outros países, voltam à história regional e ao legado político e econômico que veio da Península Ibérica. A região é fruto do que recebeu da Europa
e de acertos ou erros criados pela sua história interna ou no relacionamento com outros países. Os demônios, no caso, são mais caseiros e devem-se
buscar meios próprios para exorcizá-los e não culpar os outros pelo que se é.
Não aceitam que as causas do não crescimento regional estavam lá fora, que
os países centrais impunham um comércio perverso para a região, teria que
ser quebrado esse círculo maldoso, se necessário com revolução para se criar
uma nova política voltada para os interesses nacionais. Os críticos da teoria da dependência acham que ela foi um erro, atrasou o desenvolvimento
regional. (35) Lá por meados da década de 1970 Coreia do Sul, Hong Kong
e Cingapura estavam mostrando que seria possível ter industrialização para
consumo interno e para exportação em lugares pobres – surgem os chamados
Tigres Asiáticos para contrariar a tese da dependência. A renda per capita da
Coreia do Sul e de Taiwan era menor que a de alguns países latino-americanos em 1950, incluindo o Brasil, em 1987, os dois países asiáticos haviam
passado os latino-americanos. Aquela região, diferente da América Latina,
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
125
de acordo com Lawrence Harrison, segundo os ensinamentos de Confúcio,
acredita em ética do trabalho, dava ênfase ao futuro, à educação e ao mérito
pessoal. (36) Diferente do caso latino-americano, com sua influência católica, portanto.
As exportações da América Latina para o mundo cresceram, mas nunca
comparado com o que ocorreu com aqueles países asiáticos. O centro, no
caso, comprava bens industrializados de países antes periféricos. Um ataque
na teoria da dependência, isso só poderia ocorrer com o rompimento com
o sistema mundial capitalista, que era injusto e sempre beneficiava um só
dos lados. Sem revolução ou rompimento os tigres asiáticos derrubavam um
dos itens mais aceitos da teoria. A Austrália, outro país antes da periferia e
exportador de matéria-prima, sobressaiu e tinham renda per capita tão alta
como qualquer país industrializado. Até o Brasil, como exportador de bens
industriais, inclusive para países desenvolvidos, teria escapado da principal
tese da teoria da dependência.
A teoria da dependência também dizia que o exterior, principalmente
os EUA, tinham mais lucros anuais no comércio com a América Latina. Os
produtos primários, quanto mais se produzia, tinham seus preços achatados.
Os bens industrializados vendidos na região, pelo contrário, cresciam sempre
de preço, e isso acarretava uma sangria anual de recursos da periferia para
os países centrais. Tem gente que não concorda com esse ponto de vista,
(37) alega-se que os que defendem a teoria não olhavam os benefícios que
os investimentos levavam para alguns países como salários, pagamento de
impostos, transferência de tecnologia e consumo de energia. Quando tudo
era colocado numa balança acabavam ficando mais recursos no país do que
saía. No caso de país como o Brasil, que começava a se industrializar, onde
as multinacionais tinham interesses no mercado e também em usar o país
como plataforma para exportar para outros da região, talvez o ponto de vista
possa ser aplicado, mas em países que não recebiam indústrias ou tecnologia
a diferença em recursos entre o que entrava e o que saía se mostrava a favor
da economia mais forte.
Tem autor (38) que diz que a atuação de intelectuais nos EUA e na
América Latina, do início da década de 1960 em diante, acabou atrapalhando o desenvolvimento da região. Cita-se alguns deles dos EUA, como Andre
Gunder Frank, Susane Jones, Richard Fagen com comentários específicos
sobre o que eles propuseram. (39) Até mesmo intelectuais fora da área de
economia e sociologia, como Gabriel Garcia Marques, Pablo Neruda, Miguel
Astúrias, culpavam os EUA pelo atraso da América Latina. (40) A crítica
maior vai para a teoria da dependência, que dominou o debate na América
126
Alfredo da Mota Menezes
Latina por um longo período. Certa ou errada, ela culpava o exterior pelos
problemas enfrentados pela região. Seja por esse ou aquele motivo, a verdade
é que a América Latina ficou para trás em crescimento econômico, se comparada com os EUA. Em 1800 a renda per capita dos EUA era o dobro da do
México e quase a mesma do Brasil. Lá por 1913, ela era quatro vezes maior
que a do México. e sete vezes maior que a do Brasil. (41)
Há uma tradição na América Latina de culpar o exterior pelos seus problemas, não parece que é o caminho correto. (42) Há um passado e um
presente para serem olhados e discutidos. Em 1989, como exemplo, caiu o
Muro de Berlim, há um novo mundo, desde então, a Ásia o abraçou e está
exportando, ficando rica e diminuindo a pobreza, lá é lugar onde as multinacionais buscam mão-de-obra para produzir e vender, e hoje o Atlântico
foi substituído pelo Pacífico no comércio mundial. Na Ásia investiram na
educação de forma clara e com objetivos determinados. Na década de 1950
o Brasil deixava para trás a Coreia do Sul em educação e renda per capita, 20
anos depois a curva começou a mudar para o lado coreano, outros 20 anos e
a Coreia tem uma renda per capita maior que a do Brasil. Todos concordam
que foi o extraordinário investimento em educação a arma nacional para o
desenvolvimento. A Coreia do Sul hoje exporta bens de última tecnologia
para parte do mundo. Era antes um país pobre e, pela teoria da dependência,
nunca sairia daquela condição, os mais ricos a exploravam, como exploravam
a América Latina. O comércio mundial só seria benéfico aos países centrais.
Com alguns países asiáticos a teoria da dependência não se aplica.
Pode-se também fazer outras ressalvas com o caso latino-americano.
Estudos mostram, como um exemplo, que no Brasil (43) fatores locais levaram a uma quase estagnação econômica entre 1822 e 1913. Transporte foi
um deles: o custo do frete era muito alto, tinha situações em que ficava em
até 50% do valor do bem vendido. O interior do país era pouco conectado
por estradas, ferrovias foram poucas também. Em 1884 o país possuía 6.240
quilômetros de ferrovias ou 0,7 km de trilhos por cada mil quilômetros de
território do país. Aumentou-se a construção de ferrovia entre 1890 e 1914,
mas, apenas como comparação, em 1900 os EUA tinham mais de 20 vezes
extensão de linhas férreas que o Brasil. O número que o Brasil atingiu em
1914 de ferrovia os EUA tinham em 1850. Capital de fora para investir era
escasso, e o risco muito grande, o governo deveria assumir esse espaço, fê-lo
devagar e com pouco recurso também. Também não havia facilidade no país
para rotas fluviais, a geografia, no caso, ajudou mais os EUA que o Brasil.
Rios havia, mas em posições geográficas não muito favoráveis, como os da
Região Amazônica.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
127
Outros fatores atrapalharam também o crescimento. A quantidade de
escravo, por exemplo. Com isso teve-se, mesmo depois da emancipação, um
enorme contingente de pessoas quase sem renda para comprar bens. A concentração de renda era inevitável, ela foi aumentada pelo fator terra. Como
o custo do transporte era elevado precisava-se de mais terra barata para
diminuir o custo nessa ponta da produção. O latifúndio aumentava mais
ainda a distância entre o mercado consumidor e o comprador. Nos EUA as
propriedades eram menores, davam escala de produção, trabalhadas em sua
maior parte pela família; cria-se o espírito comunitário que, em tese, ajuda
na formação democrática. Houve mais distribuição de renda, com chances
de mais gente comprar produtos e riqueza circular. (44) No caso brasileiro
havia ainda a tendência, aliás, na América Latina inteira, de se concentrar
em um ou dois produtos de exportação. Enquanto havia preço, bens como
açúcar e algodão, apesar do alto custo do transporte, davam lucros. Qualquer oscilação nos mercados afetava essa não diversificação da produção.
A teoria da dependência ajudou a moldar a formação de tantos jovens
em universidades e outros lugares da vida de cada país da América Latina.
Passa-se o tempo, fatos novos mostram novas interpretações, e é como se
nada tivesse acontecido, parece que não se aprendeu com o exemplo do passado. Setores universitários ainda estão presos a dogmatismos como aquele
que deu base à antiga teoria da dependência. O mundo ficou mais pragmático
e alguns ainda ensinam os jovens a lutarem num campo quase irreal, quando
se vai enfrentar a realidade do mundo do trabalho há um choque. E quando
não se encontra saídas para essa ou aquela situação culpa-se o exterior, este
tem sido um esporte regional para explicar casos da América Latina. Culpase a Inglaterra pela Guerra do Paraguai até hoje, mas a história é outra, a
região estava em conflito desde a independência. (45) Culpou-se a Esso e a
Shell pela Guerra do Chaco entre Paraguai e Bolívia por causa do petróleo
que ali existia; nunca encontraram nada naquele pedaço da América do
Sul. O fracasso da integração econômica na América Latina na década de
1960, através da Alalc, do Pacto Andino ou o Mercado Centro-Americano,
foi culpa dos EUA. Motivos regionais levaram àqueles fracassos. E algumas
vezes até se cria ou se aceita teorias para explicar que o erro não está aqui, o
culpado vem de fora.
Foi nesse momento de ebulição política, econômica e intelectual na
América Latina, mais os próprios problemas internos dos EUA como o movimento pelos direitos civis e ainda a competição com a crescente imagem
do modelo soviético em partes diferentes do mundo, que o governo John
Kennedy entendeu de olhar por outro viés a América Latina. Aceitava agora
128
Alfredo da Mota Menezes
a busca de alternativas para ajudar a maioria da população pobre da América
Latina, aquela mesma intenção que começara no governo Eisenhower que
o antecedeu. A tese defendia, que se não se fizesse algo diferente, os pobres
poderiam ser atraídos para o comunismo. A luta dos EUA foi sempre a de
combater o comunismo, seja por intervenção, ajuda às escondidas, dinheiro,
tapinhas nas costas, estivesse no governo um Democrata ou um Republicano, mas nunca abandonam a ajuda militar na região. Foi uma política de
duas faces: apoio econômico por um tempo e também de ajuda e treinamento dos militares para combater o comunismo. Na presidência de John
Kennedy houve, portanto, uma nova tentativa de aproximação entre as duas
partes diferentes da América.
Kennedy representava o novo, supostamente diferente dos presidentes
recentes daquele país. Falava talvez a linguagem da época. Uma época que
se mostrava diferente na música, no comportamento, no relacionamento, na
família. Os jovens até pensavam que poderiam mudar o mundo com paz e
amor. Como exemplo, Joan Baez ou Nat King Cole cantavam músicas latinoamericanas. A Bossa Nova, música nascida no Brasil, teve boa aceitação em
certos círculos dos EUA. Parecia repetir o que houvera lá atrás no momento
da Depressão por que passou o país quando foi descoberta a música latina
americana, principalmente a do Caribe. Que, como na década de 1960, teve
aceitação razoável em parte da população do país. Mas, é preciso ressaltar
mais uma vez, que mesmo num momento diferente para o relacionamento
entre os dois lados da América a maioria das pessoas dali continuou a ver a
região como cheia de instabilidade política e econômica. No governo e instituições de estudos percebeu-se que o problema social da América Latina
era agudo, ali estava a base do descontentamento contra governos, elite e os
próprios EUA. Foi nesse contexto que nasceu a Aliança para o Progresso, ela
supostamente impulsionou a região para outros patamares.
Capítulo VI
u
Novos Tempos e Práticas Antigas
A hostil recepção ao vice-presidente dos EUA, Richard Nixon, em maio de
1958, em sua visita à América Latina, despertou aquele país para uma nova realidade regional. Achavam que havia uma admiração para o chamado “colosso
do norte”, e não havia mais. Até o diretor da CIA, Allen Dulles, se mostrou
chocado. Em 1959, nascia a agência que foi a base para a criação do Banco
Interamericano de Desenvolvimento, com recursos iniciais de um bilhão de
dólares. Fidel Castro chegou ao governo cubano em janeiro de 1959; em abril
de 1961 as forças paramilitares montadas pelos EUA para derrubá-lo foram
derrotadas na Baía dos Porcos, e Cuba marchou para o lado dos soviéticos. A
pobreza da América Latina era enorme, e forte o apelo para o comunismo. Um
novo presidente do país assumira o governo em janeiro de 1961, John Kennedy
do partido Democrata. Já em março de 1961, antes mesmo do fiasco da invasão contra Cuba, o governo lançou a ideia da Aliança para o Progresso. (1)
Os EUA ainda estavam presos à decisão da época do Plano Marshall
ou que não havia dinheiro público para investimentos na América Latina,
diferente do que se faria na Europa, devastada pela guerra e mais perto dos
fluidos de Moscou. A América Latina não tinha passado por isso e, claro,
estava longe do governo soviético e sob tutela dos EUA. O foco mudou:
os EUA concordaram em colocar recursos para ajudar no desenvolvimento
econômico da região, um Plano Marshall tardio para a área. Além de se falar
em dinheiro para ajudar na industrialização, em estradas e outros setores
para o futuro desenvolvimento da região houve ainda recursos para resolver
o problema imediato da enorme pobreza, a necessidade social demandava
isso. O programa previa ainda reforma agrária, habitação, melhor educação e
saúde para os mais pobres e mais impostos, principalmente o de renda. Seria
modificada a maneira de recolhimento de impostos para que diminuísse a
diferença existente entre ricos e pobres. Deveria ser abolido o analfabetismo,
acabar com a inflação e buscar um equilíbrio fiscal. A América Latina contribuiu também com recursos próprios para ajudar nesse esforço.
130
Alfredo da Mota Menezes
Ao olhar a proposta pelo retrovisor da história já dava para perceber
que ela teria problema. Foi a década de 1960 e falar naquele período em imposto de renda para os mais ricos, para que esse dinheiro ajudasse aos mais
pobres, ou que deveria haver uma distribuição de terras numa região em que
o latifúndio era uma tradição colonial, já dava para antever que o programa
encontraria barreiras. Não gozaria de apoio no meio da elite que não olhava
para o longo prazo dos ganhos, não abriria mão do que lhe pertencia para um
suposto ganho mais tarde quando a população melhorasse sua qualidade de
vida. Os objetivos propostos para a Aliança para o Progresso também eram
irrealizáveis. Um alto assessor do governo Kennedy (2) disse que o projeto
previa levar o latino-americano a ter apreciação pelo trabalho e pelo conhecimento científico e mudar a ênfase regional em estudos humanísticos. Também previa aumentar o senso de responsabilidade pública e mais respeito
pelo bom governo, mais espírito de comunidade, e que a mobilidade social
se fizesse mais pelo valor do indivíduo do que pelo status. Queriam mudar
o comportamento do povo da América Latina. Uma proposta não realista,
nunca foi atingida.
Mas assim mesmo se tentou implantar o programa, previa-se chegar a
uma quase revolução em 10 anos. A quantia em recurso seria de 20 bilhões
de dólares, tanto para o plano de longo prazo como aquele para resolver as
mais imediatas necessidades da população. A renda per capita deveria aumentar nesse período em pelo menos 2,5% ao ano, e o PIB em 5%. Quem
deveria tocar o programa seriam três instituições latino-americanas: a OEA,
o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Cepal ou Comissão Econômica para a América Latina, órgão da ONU com sede em Santiago do
Chile. Foi criado ainda o Conselho Econômico e Social Pan-Americano, que
era gerido por nove pessoas que receberam a alcunha de “os nove sábios”.
Também buscaram o apoio de dois ex-presidentes latino-americanos, Carlos
Lleras Restrepo, da Colômbia e Juscelino Kubitschek, do Brasil.
Criam-se liames burocráticos, muita gente para decidir. As três instituições latino-americanas, como o banco, a OEA e a Cepal, não tinham nenhuma importância para os EUA. Além disso, a América Latina era olhada
pelos norte-americanos como se fosse inferior, nunca tratada como igual, era
uma tradição da cultura e do comportamento daquele povo. Se não concordavam em tratar a região como igual como imaginar que os EUA iriam
se submeter a controles e orientações de instituições regionais? Os norteamericanos entraram com a maior parte dos recursos e não estavam dispostos a aceitar que gente da América Latina orientasse os gastos dos recursos
que estavam colocando à disposição da região. Os fatos sugerem que ou as
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
131
pessoas dos EUA envolvidas no projeto não estavam familiarizadas com a
realidade latino-americana ou a coisa tinha sido feita para não dar certo. O
ideal também seria que o povo da América Latina se envolvesse no assunto,
foi um programa de cima para baixo, sem uma efetiva participação popular, incluindo fiscalização dos gastos. Havia no período muito analfabetismo,
grande parte das pessoas morando no campo, meios de comunicação menos
abrangentes que os de agora. Seria sonhar demais querer que o povo exercesse uma fiscalização mais efetiva num programa tão amplo e complexo.
Também nos EUA a população não estava convencida desse plano. Quem
votaria e liberaria recursos seria o Congresso, e parlamentares sempre estavam de olho na eleição seguinte.
Também as propostas imaginadas no programa atrapalhariam a ação da
esquerda latino-americana. (3) Um programa daquele, se desse certo, tiraria
o discurso das pessoas que militavam naquela área. Recebeu chumbo por
esse lado também, além do receio da elite em mudar uma situação regional
que lhe era favorável desde o período colonial. Outro fator que não ajudou
a proposta foi a desconfiança regional sobre esses novos EUA. Antes eram
invasões, arrogância, morte da política da Boa Vizinhança, e em seguida aparecia outro discurso no país, preocupado com reformas sociais e econômicas,
querendo ajudar os mais pobres. Essa mudança provocou alguma desconfiança. Sem desconfiança já seria difícil cumprir a proposta, com ela pelo
caminho ficaria pior ainda.
Um das ações paralelas do plano foi o envio de milhares de jovens norteamericanos para a América Latina no programa chamado Peace Corps. Parece que o Peace Corps ajudou em duas pontas os interesses dos EUA: o jovem
que veio compreendeu mais a América Latina em sua crua realidade, um
conhecimento que poderia ser positivo ou negativo para o relacionamento;
também diminuíram os protestos dos jovens norte-americanos contra seu
próprio país ao compararem o que ali existia com a dificuldade encontrada
na América Latina. Cresceram também nos EUA os estudos sobre a região,
surgiram, aos poucos, os Centros de Estudos Latino-Americanos (Washington bancou alguns deles, outros receberam recursos de entidades privadas).
Esses centros estudavam a política, a economia, a sociologia, a história, a
antropologia, a literatura, a arte ou o que fosse da região. Esses estudos ajudavam a ter ali, pelo menos em certos lugares, uma visão diferenciada da
América Latina e seus reais problemas. Formavam gente para trabalhar em
multinacionais na América Latina, na CIA ou no Departamento de Estado,
ou mesmo serem professores sobre assuntos da área. Foram criados 24 desses
centros nos EUA (a relação está no capítulo final), e ainda se tem 14 outros
132
Alfredo da Mota Menezes
na Inglaterra e que, tendo a língua inglesa como base, facilita uma troca e
complementação nos trabalhos acadêmicos sobre a América Latina.
Retornando à Aliança para o Progresso. Problemas concretos apareceram nessa nova ação do governo norte-americano para a América Latina.
O crescimento per capita anual desejado nunca foi atingido, também o PIB
de 5%, com exceções, tornou-se difícil de ser alcançado. O crescimento per
capita nos anos iniciais da Aliança ficou em 1,5%. (4) E, para atrapalhar
ainda mais, o pequeno crescimento era anulado pelo aumento populacional.
Inflação foi outro complicador do período. Inflação e população crescendo
anulavam qualquer ganho que os mais pobres pudessem ter. Nos EUA, em
novembro de 1963, John Kennedy foi assassinado em Dallas. Seu sucessor,
Lyndon Johnson, que não participara da montagem desse plano para a América Latina, nunca foi um entusiasta sobre a região. Além disso, tinha seus
próprios problemas, e dois deles de alta envergadura: a guerra do Vietnã e a
necessidade de resolver ou minorar a situação do negro no país cuja população talvez fosse tão pobre quanto a da América Latina. O Congresso também foi diminuindo seu entusiasmo frente aos números que apareciam sobre
a Aliança, e foi cortando recursos para o programa. O novo presidente não
tinha interesse em fazer enfretamento ali para buscar o que se faltava para
complementar o que se propôs lá atrás. Ele destinou recursos para tentar
contornar problemas internos nos EUA, como a pobreza do negro norteamericano naquilo que recebeu o nome de war on poverty, até ajudou a diminuir as reclamações dos mais pobres do país. Ao invés de mandar recurso
da nação para outra gente e região decide-se que seria mais bem aplicado
internamente. Ajudava até nos aspectos político e eleitoral, ajudava ainda
em ganhar a opinião interna num momento em que o país aumentava a
escalada da guerra no Vietnã, uma guerra nunca bem vista pela maioria da
população dali.
Naquela mesma década começou a crescer o número de ditaduras na
América Latina, a Guerra Fria aumentou. O governo Johnson (1963-1969),
seguindo o modelo clássico nos EUA, aceitou governos autoritários amigos
para combater o comunismo. Como ali acreditava que a região tinha essa
tradição, o melhor seria não contrariar a história, não navegar contra. Era
melhor se adaptar à realidade do momento e não provocar mudanças sociais,
econômicas e políticas para um povo que, achavam, não estava preparado
para isso. A Aliança para o Progresso foi mais uma tentativa dos EUA em
momento que o país se encontrava tensionado por fatos internos e externos
que o colocavam numa posição um tanto quanto incômoda. Em situações
assim, mostra a história deles em seu relacionamento com a América Latina,
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
133
há uma tentativa de aproximação. Passada a borrasca volta-se ao de sempre.
As administrações Lyndon Johnson, mais as seguintes, de Richard Nixon e
Gerald Ford, que o substitui depois do caso Watergate, voltam-se para a estabilidade política na América Latina. Volta-se aos tempos anteriores àquele
pequeno momento de otimismo do governo Kennedy. Volta-se praticamente
à época de Eisenhower: ajuda econômica sem o exagero de um programa
como o de Kennedy, investimento da iniciativa privada e armas e treinamentos para os militares.
Na administração Lyndon Johnson, com a guerra no Vietnã e a crescente influência de Cuba na América Latina, fez até pior: mandou, em 1965,
20 mil marines invadirem a República Dominicana (5) e contou até com
apoio militar do Brasil no governo Castelo Branco. Voltou-se à época da
diplomacia do dólar ou do big stick lá da década de 1920, que fora pressupostamente enterrada com a política da Boa Vizinhança. Johnson dizia que não
iria permitir outra Cuba na área; deu apoio a qualquer governo militar que
surgisse na América Latina, partia do princípio de que era a forma comum de
governo aceito na região. Parabenizou e abençoou, por exemplo, a tomada
do poder no Brasil, em março de 1964, pelos militares. Seu governo treinou,
entre 1963 e 1971, na Academia Internacional de Polícia em Washington,
641 militares brasileiros. (6)
Para se ver como não mudou a opinião nos EUA sobre a América Latina, outra pesquisa de opinião pública (Gallup) de 1968 mostrou que a discriminação, distorção ou o que fosse criado pela história continuava o mesmo.
O resultado é quase idêntico àqueles das pesquisas de 1928 e 1941. A pessoa
devia indicar numa escala de importância a colocação de 28 nações, cinco
latino-americanas (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Cuba). Canadá ficou
na frente de todas com 64%, Brasil com 13% ou 15º lugar no grupo de 28
nações. Argentina com 11% ficou em 18º lugar. Chile com 8% (o mesmo
da velha Índia) ou 20º lugar, Uruguai com 7% na 22º posição e Cuba com
menos de 1% junto com a China comunista na última posição. Com exceção de Cuba, os outros países latino-americanos ficaram acima dos países
comunistas Rússia, China e Vietnã, e também de árabes como o Egito e
Iran, mas não ficaram à frente de nenhum país considerado branco ou da
civilização ocidental. (7) Há nas pesquisas de opinião uma clara amostra da
visão norte-americana para com a América Latina. Uma região onde, nessa
interpretação, os povos não estariam em condições de sozinhos crescerem
politicamente e chegarem ao patamar alcançado pelos povos brancos.
Em setembro de 1970 Salvador Allende ganhou a eleição para presidente do Chile, foi o primeiro presidente socialista eleito no mundo ocidental;
134
Alfredo da Mota Menezes
(8) François Mitterrand na França mais tarde. Antes, na eleição, os EUA já
atuaram para impedir sua vitória. Allende no poder amedrontou Richard Nixon (1969-1974) e o seu Secretário de Estado Henry Kissinger. O Chile não
era uma Guatemala ou uma república de banana, mas era visto pelo governo
norte-americano como sem importância e também como uma criança em
política. (9) A imagem de Allende e do Chile na mente dos dirigentes norteamericanos é a clássica: não tem importância, é dependente, mas deve-se
impedir que vá para o lado inimigo, a União Soviética. Kissinger (10) disse
que os EUA não iam permitir que um país fosse para o comunismo por “irresponsabilidade de seu próprio povo”. Mesmo sendo alemão, mas já embebido
da cultura norte-americana, pensava e falava sobre a América Latina como
se fosse um nativo daquele país. É também clássico atribuir a culpa ao “outro”, o erro pela derrubada de um governo, ou o que fosse, seria do próprio
povo do país e não de quem veio de fora. Estaria ali para ajudar aquele povo
que não sabia se relacionar na arena internacional e poderia, porque ainda
inocente em política, ser engambelado por uma potência de fora da área.
O Chile é um país com uma sociedade e atividade política um tanto
quanto evoluída. Quem estuda a história da região sempre viu naquele povo
um passo à frente em posicionamento político e aceite de novas ideias. Tinha
uma tradição democrática até sofisticada, em 40 anos de história não houvera qualquer derrubada de governo por golpe militar. Nada disso tinha importância para o pensamento norte-americano. Como é comum nos EUA, a
América Latina é vista de forma igual, toda a região sofre dos mesmos males
como resultado da herança colonial. A regra, pela lei do menor esforço, era
colocar qualquer país da área dentro da mesma moldura ou estereótipo que
vem lá de trás. Não salva ninguém, nem o Brasil com o seu tamanho físico
e população e nem mesmo o Chile, pensavam Nixon e Kissinger. Os EUA
exerceram pressão econômica sobre o governo chileno, impedindo empréstimos de agências internacionais como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Usaram os mesmos métodos para se derrubar
um governo latino-americano de um país dependente, e se havia problema
de intervenção de um poder de fora a culpa era do próprio país e suas deficiências, os EUA não estariam fazendo nada de mal. Allende foi deposto por
Augusto Pinochet em setembro de 1973, Chile viveu momentos de angústia
política por muito tempo. A repressão foi brutal.
Reitera-se que nos diferentes momentos de intervenção dos EUA em
países da América Latina havia a associação dos interesses norte-americanos
com algum grupo dissidente interno. Os EUA não atuaram sozinhos na Guatemala, nem na tentativa de derrubar Fidel Castro ou ajudando os Contras
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
135
em Honduras para atingir os Sandinistas ou ainda nas diferentes vezes em
que invadiu a Nicarágua ou a República Dominicana. Sempre havia um grupo fora do poder ou querendo se manter nele pedindo o apoio dos norteamericanos. Nessa divisão interna, que é eterna, eles atuam. Seguindo uma
regra quase imutável há a união dos EUA com algum grupo de descontente
que busca o apoio deles para chegar ao poder ou se manter nele. No Chile
não foi diferente. Os casos diferentes do padrão de associação de grupos com
os norte-americanos foram a guerra contra o México, a invasão do porto de
Veracruz, e também, como já mencionado, na chamada “expedição punitiva” entre 1916-1917, em que o general John Pershing com 10 mil soldados
caçou Pancho Villa pelo interior do país.
Aproveita-se este caso para reforçar o ponto de vista de como se foi
criando nos EUA a imagem negativa sobre a América Latina. Imagine o
que pensaria um norte-americano ao saber que há um grupo de soldados
por mais de um ano dentro de um país latino-americano sem que o mesmo
reaja. Nem quer saber se havia ou não revolução no México, forma nele a
convicção de que ali era assim e seria a mesma coisa no resto da região. O
caso da independência do Panamá da Colômbia também pode ser citado. A
separação foi fácil, não houve reação dos colombianos. Nos países invadidos
no Caribe e na América Central a reação era superficial, um tipo de comportamento incompreensível para a cultura anglo-saxônica. Cristaliza mais
ainda nos EUA a imagem negativa sobre a região.
Jimmy Carter (1977-1981), do partido Democrata, ganhou a eleição de
1976 e introduziu mudanças na política externa dos EUA para a América
Latina. Ele não aceitava a automática política da Guerra Fria entre o bem e
o mal, considerava-a muito restritiva; tentou fazer mudanças, também no relacionamento com a América Latina. (11) Por exemplo, resolveu a situação
do Canal do Panamá com a assinatura de um acordo em setembro de 1977,
os panamenhos o assumem em 31 de dezembro de 1999. (12) Isolar Cuba
não havia dado certo, países da área já mantinham relações diplomáticas
com a ilha e crescia a propaganda de que os cubanos tinham uma situação
na saúde e na educação melhor que a maioria dos países da América Latina,
um fato que permanecia escondido para a maior parte dos norte-americanos.
São criados, em 1977, escritórios de representações diplomáticas em Havana
e Washington, maneira de abrir uma pequena porta entre os dois interesses. (13) A aproximação sofreu retrocesso quando, mais tarde, o governo
norte-americano se deu conta do envolvimento militar de Cuba na África.
E, claro, o regime cubano, quando dava, estendia a mão a diferentes países
da América Latina.
136
Alfredo da Mota Menezes
Os fatos mais uma vez sugerem que essa nova política de aproximação
de Carter tinha raiz no que acontecia internamente naquele país, um momento trepidante na vida daquela nação: os assassinatos de Robert Kennedy
e Martin Luther King, em 1968, a derrota no Vietnã em 1975, ou ainda o
desfecho do caso Watergate em 1974. Watergate abalou a política nos EUA,
a democracia dali criticava em governos autoritários as ações encobertas e
comandadas pelo governo Nixon. Teve gente que até achou que a instituição
democrática poderia ser atingida. A economia dos EUA também sofria abalos desde a crise do petróleo que, talvez pela primeira vez, teve filas de carros
em postos de gasolina. Na indústria o país sofria grande competição do Japão
e da Alemanha. Uma capa de uma revista semanal talvez seja o retrato do
momento porque passou o país. Aparecia a palavra the surrender (a rendição)
com o mesmo tipo de letra que escrevera anos antes na rendição do Japão no
fim da II Guerra. Agora quem estava quase se rendendo era quem ganhara
a guerra. A tentativa de mudança dos EUA em seu relacionamento com a
América Latina quando estava em situação interna ou externa complicada
era uma característica interessante, pontua-se mais uma vez. A política da
Boa Vizinhança nasceu num desses períodos, a Aliança para o Progresso
também. Agora Jimmy Carter seguia a cartilha do país em ser mais maneiroso naqueles momentos. Quando a situação se mostrou diferente voltou-se a
atuar como sempre, principalmente na relação com a América Latina.
Acreditava o governo norte-americano que a União Soviética resolvera
expandir-se por áreas do mundo enquanto os EUA estavam ainda atordoados pelos diferentes acontecimentos internos e pela derrota no Vietnã. A
África seria um desses lugares, e Cuba estaria ajudando nessa empreitada.
Não se sabe até hoje se a ação de Castro ali foi uma iniciativa própria ou se
a União Soviética estava por trás. Há interpretações que dizem que até os
aliados soviéticos foram apanhados de surpresa com aquele ato cubano. O
que não se tem dúvidas é que o armamento foi soviético, ajudou a esquerda
a tomar o poder em Angola com Agostinho Neto, por exemplo. Castro, aliás, foi o único dirigente internacional a ser convidado para a posse daquele
presidente. Frente a fatos como esses e outros na América Latina com apoio
dos cubanos, o governo Carter voltou atrás no seu iniciante relacionamento
com Cuba, tratou-se como um caso no auge da Guerra Fria.
O caso cubano serve de gancho para mais uma análise da relação dos
EUA com países latino-americanos. A Cuba de Fidel Castro foge do figurino
clássico criado nos EUA sobre a América Latina: dependente, criança em
política e fácil de ser manipulada. Essa quebra de paradigma é que talvez tenha feito com que os EUA, até hoje, tenham Cuba na alça de mira, ela fugiu
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
137
dos estereótipos de antes. Mas não escapa de outro: tudo aquilo aconteceu
porque os EUA cochilaram e a ilha caiu nos braços de um inimigo de fora da
área. Não foi cochilo, foi equívoco mesmo, acharam que iam fazer no caso
cubano o mesmo que fizeram com Arbenz da Guatemala. Se falhasse a ação
paramilitar a pressão econômica estrangularia o regime de Cuba. Ao jogar
Castro para o lado soviético aconteceu até o apoio econômico na venda de
petróleo e compra de açúcar. Depois, na crise dos mísseis, no acerto final,
é comum aceitar que uma das condicionantes para não se instalar mísseis
voltados para os EUA seria que este país não invadisse Cuba. Não invadisse
e nem patrocinasse, como em tantos outros casos, invasão do país. Talvez
sejam fatos assim, ainda não digeridos, que fazem com que os EUA tratem
Cuba até hoje como um caso no auge de uma Guerra Fria que morreu há
tanto tempo.
Os EUA hoje têm relação comercial com o Vietnã, lugar onde sofreram
uma derrota militar, onde morreram milhares de norte-americanos. Os EUA
têm ligação com a China que era acusada de tantas coisas antes de Richard
Nixon buscar entendimento diplomático e comercial. Os EUA se aproximaram também de outros países que no passado tinham contrariado interesses
norte-americanos. Com Cuba, pequena ilha do Caribe perto dos EUA, com
base católica e espanhola, nada disso ocorre. É um caso curioso. Alega-se
que os norte-americanos não buscaram um entendimento com Cuba porque
os cubanos nos EUA não querem, mas não tem sido assim quando aquele
país precisa enfrentar pressões até maiores que as dos cubanos. No caso do
Oriente Médio os EUA já enfrentaram o lobby judeu, que é superior ao dos
cubanos nos EUA, tem mais dinheiro, força na mídia e votos que eles. Além
disso, os novos cubanos nos EUA, aquela geração depois dos primeiros exilados, não pensam como os mais antigos, querem abertura para Cuba, e mesmo assim o governo norte-americano não faz gesto nessa direção. Pesquisa
de opinião pública nos EUA, da Zogby de 10 de agosto de 2007, mostrou que
58% dos norte-americanos concordam em modificar a relação com Cuba, e
56% que acabe o cerco comercial. Em 2 de outubro de 2008, em outra pesquisa do mesmo instituto, já mostrava uma tendência até maior: 60% para
rever a política para a ilha e 62% para abandonar o bloqueio comercial.
Mesmo com a opinião pública a favor de uma mudança, contrariando
a regra ali de seguir o rumo que a maioria do país quer, o governo norteamericano não mostra vontade em mudar algo que tinha algum sentido nos
anos da Guerra Fria. O que gera desconfiança de que seja uma espécie de
punição porque um país da área se comportou de forma diferente da regra
criada naquele país para os povos da região. Se houver conversação entre os
138
Alfredo da Mota Menezes
dois interesses talvez o problema esteja em que o lado mais fraco da equação
seja tratado como igual. Quem sabe dá para conjeturar que esteja aí a dificuldade do Departamento de Estado em fazer essa mudança. Tem uma história
por trás, teria que modificar a tese antiga aceita ali sobre o que é e como se
comporta a América Latina, e se fizer algo diferente para um país teria que
modificar a maneira de tratar outros países da área também.
Fala-se ainda no governo norte-americano que o impedimento para essa
aproximação é porque em Cuba não há liberdade de imprensa ou pensamento, só um partido e não tem eleições livres, que Cuba deveria primeiro fazer
essas mudanças para depois haver a aproximação. O Vietnã e a China hoje
têm partidos únicos, liberdade de imprensa vigiada e um controle político de
um grupo no poder. Os EUA não exigem mudanças para se ter entendimento
comercial e diplomático com eles. Num passado não distante os EUA ajudaram a manter no poder na América Latina algumas das piores ditaduras do
mundo. Na Argentina, no Brasil e no Chile, como exemplo, os militares e seus
aliados internos e externos praticaram atos que os norte-americanos condenam em Cuba. Augusto Pinochet ficou no poder por anos com suporte e apoio
dos EUA. Não se pediu a ele que libertasse prisioneiros ou tirasse a mordaça
da imprensa para que houvesse entendimentos entre os dois governos. Os
fatos sugerem que essa aproximação não vem, entre outros motivos, porque
alguém na região, agindo certo ou errado, contrariou a tese dominante nos
EUA de que os países da região são dependentes e imaturos politicamente.
Não se está fazendo defesa do regime cubano, já está na hora de se promover ali mudanças e aberturas num mundo diferente desde a queda do Muro de
Berlim. Mas é quase incompreensível os EUA fazerem de Cuba, uma pequena
ilha de 11 milhões de habitantes, ainda um lugar inimigo como se a Guerra Fria
não tivesse terminado. Esse episódio só pode ser entendido dentro do quadro
histórico da relação dos EUA com o Caribe e a América Central. Um aprendiz
em política, com apoio de fora da área, ousou desafiar o gigante perto de casa.
Não é que o caso cubano seja o caminho na relação entre os dois lados da América, não há mais espaço para isso num mundo cada dia mais aberto. Foi citado
como ilustração sobre o relacionamento dos EUA com países da região.
Outro acontecimento da era Carter foi a chegada ao poder dos Sandinistas na Nicarágua em 1979. O governo norte americano, ainda indeciso quanto a sua política para a América Latina, deixou a coisa acontecer. Carter tentou uma aproximação com o novo governo, até ofereceu ajuda econômica,
não queria repetir o erro que os EUA cometeram com Cuba ao antagonizar
Fidel Castro e esse ter se alojado nos braços de Moscou. Os Sandinistas preferiam, no entanto, uma ligação maior com a União Soviética e com Cuba. Se
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
139
aceitassem, perdiam o discurso interno, a luta deles (14) fora contra a família
Somoza, que dominava o país desde que o patriarca da família, Anastácio,
assumira o comando da Guarda Nacional na década de 1930, força criada pelos EUA para tomar conta do país e usada por um grupo se manter no poder.
Os Sandinistas não tinham como dizer à população, da qual dependiam para
controlar o poder, que nada daquilo era verdade, e que os EUA seriam um
país amigo dos que agora chegavam ao governo. A administração Carter foi
considerada culpada nos EUA pela perda da Nicarágua para o lado soviético.
No xadrez da política mundial isso não poderia ocorrer, cada país que caía no
tabuleiro aumentava o poder do outro. Mesmo a pequena Nicarágua entrava
como peça nesse jogo que dominou o mundo por muito tempo.
Frente a um novo momento dos EUA a administração Carter em ênfase
à defesa dos direitos humanos em sua política para a América Latina. (15) A
decisão de política externa foi positiva por um lado e difícil de ser concretizada
por outro. Era momento das ditaduras na área e de defender os direitos humanos quando tanta gente estava sendo torturada, presa, e sem poder político foi
até altruísta. Mas, com militares no poder em quase todos os países, haveria
um choque de interesses. Imagine os governos da Argentina, do Chile e do
Brasil se preocuparem com direitos civis ou com a defesa dos direitos do cidadão. Carter ameaçava cortar ajuda aos governos militares que não obedecessem a suas propostas sobre direitos humanos. Governos como o do Brasil, da
Argentina e do Chile rompem os acordos militares que tinham com os EUA.
Criticam o governo Carter que os condenava, e diziam que ele não condenava
os governos comunistas que infringiam também os direitos humanos.
O candidato a presidente pelo partido Republicano, Ronald Reagan, já
criticava a política externa do governo Carter desde a campanha eleitoral de
1980. Achava que o presidente afrontava governos amigos na região, havia
sido leniente e deixado o grupo comunista tomar o poder na Nicarágua, e que
isso poderia estender para El Salvador, onde a Frente Farabundo Marti estava ganhando terreno. (16) Criticava ainda a atuação do governo para com
Cuba e, mais tarde, aconteceu o momentoso fato em Teerã, quando foram
feitos reféns os norte-americanos que trabalhavam na embaixada dos EUA
no Irã. Um assunto que ajudou na derrota de Carter para Ronald Reagan.
Quem pautou a atuação futura da administração Reagan (1981-1989)
para a América Latina foi Jeane Kirkpatrick. Ela era professora de Ciência
Política da Universidade de Georgetown, Washington, e escreveu artigos em
que condenava o que fizera Carter, e dava aula de como se deveria tratar a
América Latina ou mais precisamente os assuntos em andamento da América
Central e do Caribe. O que ela proclamava e defendia era a essência do pen-
140
Alfredo da Mota Menezes
samento norte-americano sobre a região. Ela dizia que a política externa de
Carter de direitos humanos enfraqueceu os aliados dos EUA na América Latina, quase todos naquele momento com governos militares. Ela faz distinção
entre governos autoritários e totalitários. (17) Defendia que governos autoritários, como os da América Latina, seriam bons para os EUA, eram contra o
comunismo e aceitavam princípios do capitalismo. Governos totalitários não
aceitavam nada disso e, no geral, tinham o domínio de gente da esquerda.
Também fala da importância da região para os EUA no jogo do poder mundial, cair um país na área de influência para o comunismo seria mandar uma
mensagem errada para o resto do mundo. O poder dos EUA era global, a queda de uma Nicarágua mandaria um recado para outros lugares do planeta.
Na continuação da análise, Kirkpatrick mostra como o norte-americano
olha a América Latina da mesma forma desde o início dos primeiros contatos
entre essas duas Américas. Ela não titubeia em aceitar o que o norte americano já aceitava sobre o comportamento latino-americano. Escreve que
a região, pela tradição ibero-católica, estava acostumada a governos autoritários, não havia bases para florescer governos democráticos. A tradição
seria do machismo, estava impregnado na alma regional, a violência é parte
do sistema e da vida dessas nações. Falava sobre El Salvador e o momento
político, e dizia que ali a violência e o golpe de estado são fatos normais, são
parte da cultura do povo. Que a cultura local, como no resto da América
Latina, enfatiza o machismo. Sua tese, altamente elogiada, não tinha nada
de novo. Era como os EUA viam a região e também como atuava a política
externa dali desde a década de 1920. É enorme a semelhança das ideias de
Kirkpatrick com o que escreveu Louis Halle, que pautou também o governo
Eisenhower quando decidiram derrubar Arbenz na Guatemala. Há um padrão seguido quase linearmente. Em alguns momentos muda-se um pouco a
política externa dali devido a alguns fatos novos internos ou externos, mas
a regra era a que Kirkpatrick estava propondo, e que deu a base intelectual
para a atuação do governo Reagan na América Central. Ela fez tanto sucesso
que foi indicada embaixadora do país na ONU.
Formou-se naquela nação, portanto, uma ideia sobre a América Latina
que não muda. O governo Reagan foi na década de 1980, e o que pensam
da região é quase a mesma coisa que pensavam os formuladores da política
externa do país na época da diplomacia do dólar ou do grande porrete. Kirkpatrick, professora de uma universidade, também membro do conservador
American Enterprise Institute, em Washington, como diz Schoultz, nunca estivera em El Salvador ou publicara um trabalho acadêmico sobre o país, dava
aulas e ensinamentos sobre aquele país baseada exclusivamente no que já
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
141
estava no imaginário do norte-americano a respeito do povo abaixo do Rio
Grande. O que escreve Kirkpatrick sobre a América Latina é o mesmo que
escreveram Louis Halle e George Kennan.
São três momentos diferentes, com três personagens também diferentes,
falando de forma impressionante a mesma linguagem sobre a região. Pessoas e
pontos de vista que influenciaram a política externa dos EUA para a América
Latina. Pontua-se uma vez mais que o modelo mental que aquele país tem da
região vem desde o século XIX e permanece inalterado, algo impregnado na
alma daquele povo e governo. Acreditar que isso mudou no atual quadro do
relacionamento entre os dois interesses é acreditar em duendes. Os fatos sugerem que, mesmo sendo repetitivo, é quase impossível a América Latina ser tratada como igual pelos EUA. Se um governo dali pensasse em tal ato teria que
recuar, porque não é aceito pela maioria da nação que aprendeu a aceitar que a
região é complicada, e que isso tem base no legado colonial. Preocupar-se com
problemas da América Latina, além de certo limite, não faz parte da cartilha
de governos dos EUA. Casos raros rendem votos. E se a maioria dos acontecimentos não rende votos é pelo motivo óbvio de que não tem importância, e a
razão disso está na história da relação entre os dois lados da América.
Ronald Reagan modificou a atuação dos EUA na América Central. Não
somente ali, sua relação com a América Latina foi aquela conhecida historicamente. Aceitou, pela economia de esforço, aceitar o que a maioria das pessoas
no EUA aceita sobre a América Latina. Ele dizia que a área era o backyard dos
EUA, não se podia deixar que existissem comunistas à sua porta. O ataque inicial foi sobre a questão salvadorenha, mandou recursos, deu força aos militares
do país e não se preocupou com direitos humanos. Mortes de freiras nortesamericanas, assassinato do Arcebispo Oscar Romero, massacres constantes,
praticamente tudo publicado pela mídia dos EUA, não foram levados em conta. A maior parte da nação aceitava aquilo como um fato natural e normal da
área, na mesma linha de raciocínio de Kirkpatrick. Carter é que tentou atuar,
frente à circunstância interna que o empurra a isso, de forma diferente. Não
agradava aos ouvidos e mentes da maioria do seu país. Não foi reeleito.
Em El Salvador, Reagan acabou tendo sucesso, os guerrilheiros que caminhavam para tomar o poder não chegaram lá. Dá para especular que, se
Carter tivesse ganho a eleição, e como sua ação foi de buscar algum tipo de
acomodação política para a área, atuando diferente da agressiva política de
Reagan para a América Central, talvez a Frente Farabundo Marti tivesse
chegado ao poder. Reagan impediu que isso ocorresse. Seu governo voltou as
baterias também para os Sandinistas na Nicarágua. (18) Retornou aos tempos de Eisenhower na derrubada de Jacobo Arbenz na Guatemala, e criou
142
Alfredo da Mota Menezes
uma força paramilitar, estacionada em Honduras, para atazanar o governo
nicaraguense. Exerceu ainda pressão econômica contra o regime que se
aproximara da União Soviética e Cuba. No mesmo estilo da CIA, em 1954,
no caso da Guatemala, houve também uma guerra psicológica contra os Sandinistas, falava-se em forças monumentais invadindo o país. Como a região
é vista de forma infantil em sua vida política, o caminho, como em outros
casos, seria amedrontar essa gente com uma parafernália de ação psicológica.
Deu certo com Arbenz, teria que dar certo agora também. Foi uma tentativa
não tão forte como antes porque os meios de comunicação acabaram mostrando parte do que estava realmente acontecendo. Reagan não conseguiu
derrubar os Sandinistas apesar da enorme pressão, sendo a maior delas o
embargo econômico. A pressão militar ajudou a enfraquecer os Sandinistas,
gastaram em defesa os poucos recursos da nação. A situação econômica estava também complicada. Além disso, a União Soviética esboroava-se, e dali
e nem de Cuba poderia ter mais ajuda. Os dois lados em disputa, Sandinistas
e os Contras, que tinham o suporte dos EUA, aceitam uma proposta de paz
intermediada pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias. E ela previa, entre
outras demandas, que houvesse eleição no país.
Na eleição de 1990, Daniel Ortega, dos Sandinistas, perdeu a disputa
para Violeta Chamorro. Ela era esposa do jornalista Joaquim Chamorro assassinado pelo regime da família Somoza anos antes. A pressão econômica tinha
sido forte, a União Soviética com seus problemas não ajudou na proporção
que fizera com Cuba, a condição social na Nicarágua piorou, houve inflação,
o preço da comida subiu. Os Sandinistas, que não perderam a disputa armada
com as forças paramilitares estacionadas em Honduras, e pagas pelos EUA,
perdem no voto como resultado da situação econômica interna. A pressão
dos EUA funcionou de maneira indireta. Logo que Violeta Chamorro ganhou,
teve apoio econômico, e o embargo desapareceu no governo George Bush.
No governo Reagam explodiu ainda a crise da dívida externa, que apanharia a América Latina de forma contundente. (19) Anos antes, com a
subida do preço do barril de petróleo, os países produtores se abasteceram
de dólares, os chamados petrodólares. Colocam parte desse enorme capital em bancos europeus e dos EUA. Esses bancos precisavam emprestá-los
para ter algum lucro, o mundo estava cheio de dólares para emprestar. A
dívida da América Latina, que era de 27 bilhões de dólares em 1970, subiu para 340 bilhões em 1984. (20) O serviço da dívida quase estrangula
as economias regionais. O governo Reagan ajudou a minorar a situação da
dívida mexicana (80 bilhões de dólares), depois deixou que o restante fosse
conduzido pelos bancos privados com o suporte do Fundo Monetário Inter-
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
143
nacional. Para ter suas dívidas renegociadas ou minoradas pediam-se ações
de austeridade econômica nos países endividados, fato que atingiu o nível de
vida da população, houve inflação e descontentamento político. É só olhar,
como exemplo, o que houve no Brasil nos governos João Baptista Figueiredo
(1979-1985) e José Sarney (1985-1990). Talvez possa ser dito que se a situação econômica do período não fosse tão ruim a oposição não teria condições
de enfrentar o regime militar num colégio eleitoral criado para eleger alguém
civil de confiança do regime que saía. Com crise econômica, ganho salarial
em queda, inflação acelerando, povo descontente acendeu-se o estopim que
levou a oposição ao governo, a crise da dívida externa ajudara nisso. A crise
econômica e suas consequências sofridas pelo Brasil ou qualquer outro país
da América Latina foram debitadas à região. O culpado era, como sempre,
o outro. Foi um dos fatos e momentos de que mais se falaram nessa tal de
culpabilidade nos EUA e, no caso, com alguma razão.
Reagan invadiu ainda a pequena ilha caribenha de Granada, em 1983,
(21) é parte da tese defendida por Kirkpatrick sobre o prestígio dos EUA no
mundo, não podia perder nenhuma nação sob sua influência. Se perdesse
mandaria um recado errado para outros lugares. Acreditando que ali havia
um governo comunista ligado a Fidel Castro, ele invadiu a ilha. Impressiona
como uma ação daquela fez bem ao ego dos norte-americanos. O país perdera
a guerra do Vietnã e passara por uma série de problemas políticos internos. A
invasão de uma ilha pequena ajudou a melhorar o humor nacional, e Reagan,
grande comunicador que era, soube capitalizar aquele momento. Os EUA
também ficaram ao lado da Inglaterra na guerra com a Argentina pelas Ilhas
Malvinas ou Falklands. (22) Os EUA pressupostamente deveriam dar apoio
a uma nação do continente perante a opinião pública internacional. Reagan
optou por Margareth Thatcher, e a antiga aliança que unia os dois países.
Não houve pressão da OEA ou o que fosse que fizesse os EUA darem suporte
pelo menos aparente a um membro da organização. Uma das alegações dos
EUA foi que o país ficaria ao lado da democracia contra o governo militar e
ditatorial na Argentina. O inverso do que fizera por anos de Guerra Fria ao
dar força aos regimes de exceção em praticamente toda a América Latina.
Em 1991 a União Soviética entrou em colapso. Ela já não dava atenção
aos fatos na América Latina desde algum tempo. Aliás, com exceção do caso
cubano, a presença dela nos assuntos latino-americanos talvez tenha sido
mais invenção dos EUA para justificar uma atuação mais forte na área. O
apoio de Moscou a Cuba pode ser ressaltado, outros nem tanto. Não houve
caso similar com outros países da área. O tiroteio infernal sobre a tal presença dos soviéticos funcionou. Pareceu até, só que num plano maior, com
144
Alfredo da Mota Menezes
o caso da Guatemala de Arbenz, bateram o bombo com vigor, e de tanto
bater passou a impressão de que a coisa era mais real do que realmente foi.
O objetivo era aquele mesmo.
Apesar da “negligência benéfica” por que passava a região desde o fim da
Guerra Fria um caso ainda aconteceu na relação entre os EUA e seus vizinhos
mais próximos. Os EUA tinham ascendência sobre o Panamá desde que o país
foi criado, o Canal era o símbolo mais forte dessa dependência. Na década de
1980 um aliado dos EUA, general Manuel Noriega, começou a mostrar certa
independência, falava em nacionalismo. (23) Como Noriega não podia contar com a elite, a classe média local se voltou para as massas para afrontar os
EUA. Este país, no governo George Bush, o acusava de dar suporte ao tráfico
de drogas. Gente dos EUA foi para o Panamá para dizer ao homem forte do
país que era tempo de abandonar o governo. Ele não ouviu nenhuma dessas
opiniões. George Bush invadiu o país com 25 mil soldados, prendeu Noriega,
mandou-o para os EUA, onde é julgado por tráfico de drogas e condenado à
prisão perpétua naquele país. A OEA fez uma reunião de emergência e condenou a presença dos EUA no Panamá por 20 votos a 1. Um protesto inócuo,
como é inócua a atuação dessa organização em assuntos latino-americanos.
Os EUA não tomam conhecimento de sua existência, nem obedecem a suas
diretrizes ou se preocupam com suas decisões. O caso Noriega é um exemplo,
outro foi o do apoio de Ronald Reagan à Inglaterra na Guerra das Malvinas.
Para se ver como a OEA atua de forma estranha, em 1991, depois da
queda do Muro de Berlim, e de ter Augusto Pinochet abandonado o governo
no ano anterior, em reunião no Chile, decidiu-se que a América Latina não
permitiria mais interrupção no processo democrático, ou não se permitia
mais ditaduras. Dez anos depois, em Lima, com fanfarras, reforçou-se a mesma decisão. Depois de anos de regimes de exceção, em que os EUA davam
apoio, só depois da Guerra Fria a OEA decidiu “criar” um mecanismo contra
ditaduras e a favor de democracia. Imagine a reação das pessoas nos EUA ao
tomarem conhecimento de atos como esses por um órgão de suposta importância regional. Em torno de ações assim aumenta a crença de que o latinoamericano é quase infantil em política externa.
O governo norte-americano, antes de derrubar Noriega, obedecendo
às regras de um novo momento, promoveu uma ação de propaganda nos
EUA, na América Latina e em outros países para justificar o ato armado.
Desde a Guerra do Vietnã, em que a mídia jogou a guerra na sala de jantar
do norte-americano comum, o governo do país aprendeu como lidar com um
evento externo. Prepara-se antes os ambientes interno e externo de apoio à
iniciativa que se vai tomar. Informações, certas ou distorcidas, para a mídia,
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
145
discursos contra tirania, e que se vai levar liberdade e democracia para esse
ou aquele povo. Tantos anos depois é a mesma tese do Destino Manifesto ou
de missão quase divina. Foi o que aconteceu no Panamá onde um presidente
foi deposto, mandado para uma prisão no país invasor, e a maior parte da
América Latina apoiou a medida sem perguntar se fora correta ou não ou
de que lado estava a razão. A razão ficou outra vez com o mais forte com
sua arma militar e de propaganda. A culpa pela invasão foi do invadido, os
EUA estavam ali para restaurar a liberdade a um povo oprimido. Derrubou
o mesmo Noriega que fora antes aliado dos EUA. Martha Cottam diz que o
caso Noriega foi, mais uma vez, aceito nos EUA porque o Panamá era visto
como um país dependente, com um governo cruel e autoritário, na tradição
latino-americana, sua saída seria uma coisa boa para o povo panamenho.
George Bush, presidente dos EUA entre 1989 e 2003, criou (24) a chamada Iniciativa para as Américas, ou a tentativa de integração econômica
do Alaska à Terra do Fogo, todos os países das Américas numa integração
econômica. Essa iniciativa serviu para reavivar as integrações que estavam
adormecidas na região. O Mercado Comum Centro Americano e a CAN, ou
Comunidade Andina, tomaram fôlego novo. Reforça também a vontade de
integração existente entre o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai no
Mercosul. Todas as integrações criando musculatura para uma conversa maior
com os EUA numa suposta integração continental. (25) Depois de muito debate e controvérsia ocorreu a integração econômica da América do Norte
ou EUA, Canadá e México no Nafta (North American Free Trade Agreement)
em 1992. (26) Uma economia menor em contato com duas outras maiores.
Uma das intenções desse acordo de livre comércio visava aumentar o número
de empregos no México, diminuiria a ida de tantos mexicanos para os EUA.
Mais tarde, o Chile foi admitido nessa integração. Funcionaria, em tese, como
um aprendizado para que à frente outros países da área pudessem também
participar de uma integração econômica maior, fato que não ocorreu.
Mais tarde, num encontro em Miami, em dezembro de 1994, já no governo Bill Clinton (1993-2001), foi proposta a criação de uma integração econômica entre todos os países na Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
(27) Encontros e mais encontros, debates no Congresso norte-americano para
aprovar medidas concretas para essa integração, mas não deslanchou. Outros
países da região, como o Brasil, apoiados nos parceiros do Mercosul, queriam
concessões especiais dos EUA, principalmente na abertura de mercado para
produtos agrícolas ou que os EUA acabassem ou diminuíssem subsídios ao
setor. Por seu lado, os EUA queriam que os países da integração abrissem as
portas para, por exemplo, o setor de serviço. Um lado não cedeu aos apelos
146
Alfredo da Mota Menezes
do outro. A proposta de integração econômica, recebida antes com fanfarras,
foi morrendo aos poucos. Seria um instrumento que, se funcionasse em benefício de todos, poderia fazer uma aproximação maior entre os países da área.
O receio regional de ser sufocado pela economia gigante dos EUA fez com
que os países não buscassem com mais força essa integração. Os EUA, por
sua vez, estabeleceram acordos comerciais mais aprofundados com outros
países ou blocos da área. O Cafta, ou Acordo de Livre Comércio da América
Central, inclui os países daquela região, mais a República Dominicana, numa
integração comercial com os EUA. Houve também alguns benefícios tarifários nos EUA para os países produtores de coca, uma abertura do mercado ali
para que supostamente aqueles países possam mudar um pouco a produção
da coca para outros produtos. E, se ocorrer, os norte-americanos comprariam
mais esses bens da Colômbia, do Peru e da Bolívia.
Diminuiu a importância da América Latina para os EUA depois da Guerra Fria. Não havia mais com que se preocupar, não havia mais possibilidade
de um país da região ir se abrigar no guarda-chuva soviético, imagem anterior
verdadeira ou não. Não há mais comunistas ou que um país ao ir para o outro
lado afetava a imagem e o prestígio dos EUA no mundo. A América Latina
não é também uma área estratégica, o Atlântico estava sendo substituído pelo
Pacífico como rota de comércio. A tecnologia moderna, principalmente a militar, (28) em que de longa distância se pode fazer o que antes demandava presença física, acaba fazendo com que a região tenha menos importância ainda.
Satélites fazem observações quase milimétricas em qualquer lugar do planeta.
Quando o Canal do Panamá passou para aquele país, os EUA já sabiam que
não precisavam estar presentes no Canal para defender seus interesses na região. Novas armas e satélites ajudavam nisso. Mas havia ainda alguns itens da
agenda internacional que preocupavam os EUA em seu atual relacionamento
com a América Latina: meio ambiente, drogas, imigração e comércio.
Existem sinais de que o mundo poderia sofrer consequências catastróficas se não mudasse a maneira de tratar o meio ambiente, não seria mais
possível dilapidar esse capital sem restrições. Nem mesmo a tecnologia poderia fazer com que o homem atuasse livremente no meio ambiente. Isso se
choca com a antiga crença naquele país de que o homem devia conquistar a
natureza, princípio até mesmo espiritual. Povo que não conquista seu meio
ambiente é atrasado, pensavam por muitos anos. Agora, com sinais de aquecimento global, com uma juventude mais preocupada com o meio ambiente,
o país pensa diferente de antes, e dá atenção nessa área ao que ocorre na
América Latina. Entidades ambientais fazem um barulho coordenado sobre
o que ocorre, por exemplo, na Amazônia. Talvez possa ser arguido ainda que,
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
147
quando se discutir para valer algum acordo global sobre meio ambiente, país
como o Brasil, por causa da Amazônia, pode ser puxado para a agenda dos
EUA. Até mesmo com discussão econômica sobre comprar ou não comprar
bens não produzidos de forma ambientalmente saudável.
Outro assunto que hoje interessa os EUA em seu relacionamento com
a América Latina é a questão do narcotráfico. (29) Os EUA são o maior
consumidor de drogas do mundo e, como em tantos outros casos, procura-se
mostrar que o culpado pelo fato não é o lado consumidor de droga e sim o
produtor. É uma luta que não depende só do produtor, ou como disse um expresidente da Colômbia no auge do embate do país com o narcotráfico, num
horário nobre da televisão nos EUA, que a culpa pelos problemas por que
passava a Colômbia era dos EUA como o maior mercado consumidor, que o
problema desapareceria se aquele país diminuísse o consumo de cocaína. Os
norte-americanos levaram um susto com aquela fala sincera.
Os EUA ajudam até a combater as Farcs ou Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia dando alguns bilhões de dólares para aquele país com o
intuito de, ao enfraquecê-la ou derrotá-la, diminuir a quantidade de drogas
para os EUA. É que se acredita que há uma ligação entre os traficantes e os
guerrilheiros das Farcs, que é no tráfico que aquele movimento se abastece
para seu enfrentamento político. Mas mesmo com ajuda como essa pesquisa
de opinião pública nos EUA pelo instituto Zogby, em 2 de outubro de 2008,
mostra que 76% dos norte-americanos acreditam que o país está perdendo
a guerra contra as drogas. (30) Esta droga, que atinge milhões de jovens nos
EUA, é como se fosse uma vingança contra a intrusão nas coisas da região,
uma vingança de Montezuma numa alusão à conquista do México pelos
espanhóis. O norte-americano enfraqueceu a cultura dos índios nos EUA
ao vender bebidas alcoólicas a eles, (31) o mesmo foi feito ao introduzirem o
rum entre os negros do país, como fez a Inglaterra com o ópio na China. Hoje
a cocaína é um problema numa sociedade afluente que busca prazeres novos.
O que aconteceu antes com índios e negros talvez esteja acontecendo agora
com uma parte da juventude daquele país.
O comércio dos EUA cresce na América Latina, é maior com o México
do que com todos os outros países da região juntos. O México absorve algo
como 9% das exportações norte-americanas para o mundo, o Canadá recebe
20%, a Ásia 37% e toda a América Latina 7%. (32) A América Latina, entre
1992-2003, foi a região do mundo onde mais cresceu o comércio, 154%,
com os EUA (a maior parte desse crescimento foi com o México), Ásia,
88%, 89% Europa e 78% África. Há um novo competidor na área que é
a China. O comércio da China com a região cresce a uma média anual de
148
Alfredo da Mota Menezes
40%, (33) já anda pelos 100 bilhões de dólares. A China compra cada dia
mais produtos primários da área, a soja brasileira é um exemplo: a China a
compra, os EUA não. O comércio entre Brasil e a China suplantou aquele
com os EUA. A China tem investimentos em minas e refinarias no Peru, na
Costa Rica, na Venezuela e na Argentina. Talvez esteja agora morrendo a
Doutrina Monroe, aquela que dizia que não poderia haver outra potência na
área, seria perigoso para os EUA. Há um novo ator: China. Um dos motivos
dessa aproximação está na negligência que os EUA relegaram à América
Latina desde o fim da Guerra Fria, e mais ainda no governo George Bush
depois do ataque terrorista naquele país. Também podem ser acrescentados
outros fatores próprios da região, (34) há mais independência econômica e
não há tanta crise, as economias estariam mais robustas que antes. O caso
brasileiro talvez ilustre um pouco o novo momento em que, com o comércio
com a China, houve crescimento econômico na venda de mais commodities,
a moeda se fortaleceu, havia menos inflação e os juros caíram.
Os fatos sugerem que a preocupação agora dos EUA na América Latina
seja com a China, e por comércio e não, como no passado, com a ex-União
Soviética, e por ideologia política. Dá até para especular se a China ajudaria na melhoria da logística de transporte em trechos da América do Sul
para facilitar a exportação e a importação entre os dois interesses. Dos EUA,
através de agências de fomento, até saiu dinheiro para infraestrutura, não de
forma estratégica e planejada como essa imaginada aqui para levar e receber
produtos pelo Pacífico. A China precisa de comida, a área pode produzir. Ela
não pode ficar dependente de um só mercado, como os japoneses antes da
II Guerra com alguns itens exportados dos EUA. China precisa diversificar
o mercado comprador, a América do Sul poderia ser um deles. No caso uma
potência investiria na região e não se sabe como reagiriam os EUA, não
seria enfrentamento como nos tempos da Guerra Fria, mas por comércio.
Se houver disputa, quem sabe, surge algo novo num relacionamento antigo.
Seria a segunda vez que um país, desde o longínquo início do século XX, se
posicionaria na região num enfrentamento com os EUA por comércio. Antes
foram a Alemanha e a II Guerra, o desfecho dela eliminou aquela presença.
A falada atuação da ex-União Soviética, com exceção do caso cubano, talvez
tenha sido mais fanfarra do que um fato real. Agora se tem a China depois
daquela quase paranóia regional da Guerra Fria. É um novo momento, bom
para ser observado. Pesquisa de opinião pública da Zogby publicada nos EUA
em 10 de agosto de 2007 (35) mostra que 56% dos norte-americanos acham
que a presença da China na América Latina é uma ameaça para a influência
dos EUA na região. Só 10% entendem que não há ameaça nenhuma. Lá se
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
149
faz até pesquisa para analisar essa nova presença de um ator da política e
comércio internacional na área. Um dado que, se por levado em conta o que
houve antes, acaba influenciando a política externa do país.
Seria interessante perguntar como é que se vai posicionar o Brasil nesse
jogo na América do Sul, onde o país vende uma razoável porção de bens industrializados. Os dois gigantes da economia e comércio mundial se posicionando na região, e seria bom que o Brasil mostrasse também suas armas para
fazer parte desse jogo. Agora é comércio, vender produtos, não tem mais o
viés ideológico que acabava atrapalhando ações mais concretas de atuação
comercial. O tempo mudou, personagem novo e situação nova aparecem,
e seria útil que o Brasil fosse um dos protagonistas também nesta parte do
mundo. Investir em transportes na área, facilitar as ligações do país com os
outros da região, talvez seja uma das saídas. Com meios de transporte mais
adequados, e pela proximidade geográfica, talvez dê para entrar nessa competição entre aqueles dois gigantes da economia mundial.
Na questão da segurança, um fator que empurrava os EUA a se imiscuir
na região para não diminuir seu prestígio no mundo, depois da queda do
Muro de Berlim e das novas tecnologias, faz com que a América Latina tenha menos importância nos EUA. Não será abandonada pela política externa
norte-americana, a proximidade geográfica e os problemas regionais, como
imigração, acabam afetando aquele país. Por causa da imigração, o comércio
e a geografia eles tinham um olho voltado para a região. É, afinal, uma área
da influência deles, e não se abandona uma conquista que começou lá atrás
com a Doutrina Monroe, seguida pela nota de Richard Olney, que definia a
região como de interesse deles, passando ainda pelo Corolário Roosevelt à
Doutrina Monroe, a diplomacia do dólar ou do big stick, ou era intervencionista. A rápida passagem pela Boa Vizinhança, novas invasões, Fidel Castro
e a ex-União Soviética, nova recaída ou a Aliança para o Progresso, a volta
às ações militares e paramilitares, derrubadas de governos, Carter e sua política dos direitos humanos, Reagan não a aceitou e retornou a maneira de
antes ao promover invasões e derrubar governos ditos não amigos dos EUA.
Com a queda do Muro de Berlim desapareceu o receio com o comunismo, as
novas tecnologias fizeram a região ter menos importância na política externa
daquele país, hoje mais voltada para o Oriente Médio, a Europa e a Ásia.
Pesquisa de opinião pública nos EUA pela Zogby, publicada em 26 de
janeiro de 2008, mostra que somente 7% dos norte-americanos concordam
que a América Latina é importante para aquele país. O Oriente Médio aparece com 43% de importância, a Ásia com 20% e a Europa e a Rússia com
12%. (36) Nem precisava de uma pesquisa desse tipo para comprovar um
150
Alfredo da Mota Menezes
fato real do momento da relação entre os EUA e a América Latina. Quando os EUA decidiram tomar conta do comércio regional a América Latina
teve importância para eles. Depois vieram a II Guerra e a Guerra Fria, momentos também de presença mais próxima. Depois da Guerra Fria, na atual
conjuntura, em que não há por parte dos EUA nem receio de país da região
se bandear para regimes diferentes, a região passou para plano menor na
política externa daquele país. Há um fato que pode fazer com que haja uma
modificação nessa atitude: uma competição mais acirrada com os chineses
na área. O que seria até positivo para os interesses da região.
Outro item de interesse na relação entre os dois lados da América é a imigração. Há hoje nos EUA cerca de 33 milhões de imigrantes latino-americanos
legais e ilegais. Os EUA até constroem um muro na fronteira com o México
para tentar interromper o fluxo de imigrantes para aquele país. Haverá fricção
política sobre o assunto, mas nos EUA a decisão está tomada, e até apareceu
corpo de voluntários para caçar imigrantes ilegais em alguns estados da fronteira com o México. Imigração é um dos temas mais fortes da agenda entre os
EUA e a América Latina. A mesma pesquisa de opinião pública da Zogby de
26 de janeiro de 2008 (37) confirma isso: 76% dos norte-americanos acham
que a imigração é uma preocupação “muito importante”. Para diminuir a ida
de tanta gente para os EUA, 36% acreditam que o melhor seria que o país
criasse meios na região para gerar empregos. Chega a 61% dos norte-americanos que são contra os imigrantes latino-americanos mandarem dinheiro de
lá para seus países de origem. Outra pesquisa (38) mostra, interessantemente,
que 48% dos norte-americanos acreditam que os EUA se beneficiam com os
imigrantes da América Latina. Outra (39) dá que 52% dos norte-americanos
são contra se criar meios para legalizar os imigrantes latino-americanos ilegais
lá, e que 58% concordam com a construção do muro na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes da América Latina nos EUA.
A pobreza e a estagnação econômica da América Latina seriam até uma
ameaça à segurança interna dos EUA. Mais pobreza, mais imigração de pessoas com qualificação educacional menor. Daí que talvez, pensando neles,
aquele país até concorde com ações novas que ajudem a melhorar a economia
da região. Dando asas à imaginação, quem sabe, os norte-americanos, ao se
sentirem ameaçados em perder um comércio cada dia mais crescente, modificassem maneiras de ver e atuar na região e aceitassem uma nova realidade
regional. Quando se fala em aceitar é levando em conta que a força da economia norte-americana é tão grande que, frente a alguma ameaça dos EUA de
sanção comercial ou diplomática a outro país se ele não se afastar de interesses deles na América Latina, há uma tendência de que o ameaçado recue.
Capítulo VII
u
Estereótipos em Filmes e na Mídia
O
México é fronteira com os EUA, os primeiros contatos entre os dois
mundos diferentes da América se deram ali. Além disso, houve uma guerra
em que um perdeu parte do seu território e o outro o engrandeceu. Começa
naquele trecho do Novo Mundo a criação dos estereótipos sobre a América
Latina. O cinema e a mídia norte-americana, ao retratar a gente dali, traduziam o que pensavam as pessoas naquele país sobre os latino-americanos. Há
uma conexão entre a crença daquele povo e a ação do cinema e da mídia,
como há também na política externa. O mexicano ou os latino-americanos
em geral eram mostrados nos filmes como ignorantes, barba sempre por fazer,
preguiçosos, praticantes de violências desnecessárias. Era sempre o bandido,
o bom era o homem branco que estaria do lado do bem. O homem latinoamericano nunca poderia ser acreditado, era perigoso e traiçoeiro. As mulheres latino-americanas eram mostradas de forma sensual, mas submissas.
A caracterização inicial da região foi com os mexicanos na época dos
filmes mudos. Entre 1908 e 1915 foram feitos quatro filmes nos EUA em que
havia a presença de mexicanos, todos eles falavam nos greases ou gordurosos
ou oleosos. Foram The Greaser’s Gauntlet (1908), Tony the Greaser (1911),
The Greaser’s Revenge (1914) e The Girl and the Greaser (1915). (1) Era como
os mexicanos eram vistos nos EUA, gordurosos e feios. Toda vez que o mexicano era colocado frente a frente com o norte-americano ele perdia a disputa por causa da qualidade moral superior do outro. (2) Mostram os filmes
que os mexicanos não tinham capacidade militar até mesmo em sua terra,
para ter alguma vitória deveriam ter a orientação de um norte-americano.
Nos filmes o norte-americano pode ter uma mulher mexicana, mas nunca
um mexicano poderia casar ou ter um romance com uma mulher branca dos
EUA. (3) O norte-americano branco sempre ganhava a parada contra a pele
escura ou quase índia do mexicano. Nunca nos filmes mudos houve um em
152
Alfredo da Mota Menezes
que ocorresse o contrário, mesmo que o branco norte-americano fosse um
simples cowboy, ganhava até a mocinha de um grande rancheiro mexicano.
É o caso ainda daquele ser que não cresceu mentalmente e que precisa do
apoio e suporte de uma gente mais civilizada para sair do estágio em que se
encontra. O cinema, como os romances e a mídia, e ainda a política externa,
refletiam isso também.
Veio a Revolução Mexicana (1911) e os personagens do México ficaram
piores ainda, era o indivíduo ou um grupo vagando pelo país com sombrero,
cartucheira atravessada no peito, sempre bebendo, fazendo coisas inadequadas e contra a lei. Os revolucionários do período lutaram para derrubar o
regime ditatorial de Porfírio Diaz (1874-1911), aquele mesmo que pessoas
nos EUA entendiam que seria o governo ideal para o povo mexicano, era característica da região ter governos autoritários e no caso nada melhor do que
aquele de Diaz. Este e outros governos autoritários foram mais aceitos nos
EUA como os corretos para a América Latina do que, por exemplo, Francisco Madero, o homem que começou a revolução e levou o México a outro
patamar político. O embaixador dos EUA no México, Henry Wilson, disse
que Madero era corrupto e tirano, isso mandado para os EUA como verdade
sobre um povo acaba incrustando na mentalidade dali. Mercedes de Uriarte
mostra quantas terras os norte-americanos compraram no México na época
de Porfírio Diaz, lá por 1910 havia 55 milhões de acres de terras mexicanas
em mãos de norte-americanos. (4) E a imprensa do país defendia Diaz e condenava como atrasados aqueles que lutavam por distribuir terras.
Hollywood nunca deixou de caracterizar os latino-americanos em filmes
da forma como eram vistos pelo povo norte-americano, mas vai adaptou a
tempos diferentes. O mercado latino-americano se mostrou apetitoso para
aquela indústria e, se havia reclamações sobre os estereótipos, eles faziam
algumas mudanças para não perder esse ganho. Isso aumentou depois da I
Guerra, a Europa não podia continuar a criar filmes e os EUA preencheram o
espaço aberto na América Latina. A guerra também impedia que Hollywood
distribuísse filmes na Europa, e o mercado latino-americano se mostrava
mais necessário ainda para aquela indústria. Mas, mesmo com esse fator econômico, continuaram as criações sobre as pessoas da América Latina. Allen
Woll escreve que na Conferência Pan-Americana de Buenos Aires, quando
cada dia mais se caricaturava a região nos filmes, ali se falou em tantas coisas
como transportes e bancos, mas ninguém se lembrou de levar o assunto estereótipos no cinema para ser discutido. (5) A imagem do mexicano estava
tão ridicularizada nos filmes que o governo do país, em 1922, decidiu não
permitir a entrada de filmes que tratassem os mexicanos como vinha fazendo
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
153
Hollywood. O mesmo fizeram outros países, como Nicarágua, Panamá e até
mesmo o Brasil, que uma vez não permitiu um filme que falava que o inventor do avião seriam os irmãos Wright dos EUA, e não Santos Dummont. (6)
Mas, independente de ações como essas, nas três primeiras décadas do
século os latino-americanos foram retratados no cinema da forma que estava
no imaginário do norte-americano desde o início do contato entre os dois
povos. No cinema, na mídia, nas propostas de relações exteriores do Departamento de Estado, nos escritos dos viajantes, nos romances havia uma só
caracterização das pessoas da América Latina. Os fatos mostram que não
mudaram essa visão. Sendo assim, voltando outra vez à mesma afirmação,
a região não era tratada como igual por causa da visão histórica que aquele
país tinha sobre o latino-americano, há um bloqueio atravessado no meio de
uma relação mais efetiva entre os lados. Há nos EUA, como diz Schoultz, (7)
uma crença persistente na inferioridade dos latino-americanos. É um fato, é
real e não se muda isso facilmente.
Deixando a desconfiança em uma aproximação entre os dois povos
de lado, volta-se ao cinema e sua maneira de retratar a América Latina.
Hollywood deu destaque ao longo dos anos ao latin lover ou o estilo macho
e sensual latino-americano. O latin lover se referia mais aos italianos como
Rudolph Valentino, muito raramente seria um ator próprio da região nos
filmes. (8) Quando se mostra um ator fazendo o papel de um latin lover no
geral é um italiano ou um espanhol e não alguém da América Latina. Não
há um romance normal entre uma mulher branca e um latino-americano, se
houver deve terminar em tragédia. (9)
No final da década de 1920 muda a tendência dos filmes de Hollywood
sobre a América Latina, como já faziam os norte-americanos nas áreas política e comercial. O país entra em depressão econômica, a seca no oeste revela
uma ferida doída no meio ambiente, chega-se à política da Boa Vizinhança.
A relação e os interesses norte-americanos para a região mudam, e também
no cinema. O primeiro filme a não trazer estranhos estereótipos foi Flying
Down to Rio, de 1933. A família Rockfeller controlava a companhia cinematográfica que fez o filme, e tinha interesses econômicos na América Latina,
principalmente no petróleo na Venezuela, e força que se mudasse a imagem
dos latino-americanos naquele filme. (10) Começam a aparecer também filmes sobre heróis regionais como Benito Juarez e Simon Bolívar. Artistas da
América Latina enchem Los Angeles como Carmem Miranda, Desi Arnaz
ou Cesar Romero. São vários os filmes da era da política da Boa Vizinhança
que mostram outro olhar de Hollywood sobre a América Latina. Ficou ainda
mais diferente quando o Office of the Coordinator of Inter-American Affairs
154
Alfredo da Mota Menezes
chamou Hollywood para o esforço na luta contra o nazismo, em que os filmes deveriam levar para o mundo, incluindo a América Latina, que os EUA
eram a terra da promissão.
Walter Disney foi um dos maiores colaboradores do Office, até criou
personagens regionais, como o Panchito para o México, um galo estilizado
armado de pistolas, dando tiros em todo mundo, típico mexicano na imagem
quase eterna criada naquele país. Joe Carioca ou o nosso Zé Carioca foi outra
invenção dos estúdios Walter Disney, um malandro que nunca queria trabalhar, era a imagem que Disney tinha do Brasil da época. E o país se encantou
com o personagem, até parece que houve uma identificação. Woll diz que
Joe Carioca foi a versão de Disney para Carmen Miranda. (11) O Office
de Rockfeller lutava para encontrar uma espécie de Miss Pan-Americana,
pode-se dizer que a encontrou numa sensual mulher que ajudaria no entendimento regional, Carmen Miranda. Naquele momento se descobria também a música regional como o mambo, o samba e a rumba, e os filmes sobre a
área deveriam sempre trazer músicas exóticas com gente igualmente exótica.
Se olhado com cuidado, mesmo com toda boa vontade de Hollywood, havia
ainda aquela caracterização estranha da região. É o caso de Carmen Miranda
e suas roupas e maneiras estilizadas ou quando ela faz o papel de uma argentina que trouxe reclamações do país vizinho. Uma mexicana poderia fazer o
papel de uma brasileira ou vice-versa porque na crença dali a região abaixo
do Rio Grande era igual. Os filmes viam a América Latina como os EUA
viam a América Latina.
Carmen Miranda é o nome maior do Brasil naquele pan-americanismo
de ocasião. Ela foi contratada da 20th Century Fox de 1941 a 1946, período da guerra e da política da Boa Vizinhança. Ela participou de 14 filmes.
Ela, diz Tânia da Costa Garcia, (12) era a típica representante da América
Latina mostrada pelo cinema norte-americano. Um tanto quanto selvagem,
sexo à flor da pele, não gostava de trabalhar, gosta de festas, riso aberto e
franco, também indolente e com pitadas de malandragem. É o exótico diante
do mundo civilizado. Cores nas roupas, muitos colares, frutas na cabeça, é
quase que os trópicos num personagem só. Aquilo agradava ao público norte-americano, uma visão de algo distante, dançando uma música diferente
que ninguém entendia a letra, mas não importava. O que importava era a
imagem, aquela do estereótipo regional, por mais boa vontade que tivesse a
política de aproximação entre os lados do Atlântico.
Bianca Freire Medeiros comenta um dos filmes de Carmen Miranda de
1941, “Uma Noite no Rio”, em plena efervescência do pan-americanismo. O
Rio de Janeiro aparece de forma estilizada, mas dentro do razoável, agrada à
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
155
capital, e se agradou ali agradava ao resto do país. Carmen é como se fosse a
América Latina, fala muito, é sedutora e ciumenta. (13) O inverso do que se
supõe que sejam os norte-americanos, mais contidos, não extravasando sentimentos, sempre se mostra o outro no inverso do que é o norte-americano.
Só que naquele momento o fazia de forma menos contundente, através de
musicais, onde se passa a mensagem que se quer na ajuda subliminar do
esforço de guerra sem que as pessoas percebam. Não importa para os EUA o
que diz Carmen em português, o que importa é o som, a imagem selvagem,
o exótico. A autora fala que Carmen reinventou (14) a música brasileira em
termos melódicos e coreográficos.
Talvez seja interessante espichar um pouco mais esse detalhe. Carmen
Miranda nunca foi uma verdadeira sambista. Ela espalhou pelo mundo uma
maneira diferente, não autêntica, de dançar o samba. Aqueles trejeitos com
as mãos têm importância tanto quanto o gingado das cadeiras. Não era ou é
comum o samba ser dançado daquela maneira. Como o cinema é uma máquina de divulgação de grande alcance o tipo de samba dançado por ela espalhou pelo mundo, principalmente para os EUA e a América Latina. Muita
gente no exterior acha que aquela é a maneira correta para dançar o samba.
Na verdade, não se vê uma autêntica sambista dançando esse som brasileiro
como Carmen fazia. Para o bem ou para o mal, o que ela fez no cinema naquele período levou um estilo de dançar o samba que era mais dela do que
de autênticos sambistas.
Depois da II Guerra e da política da Boa Vizinhança, como ocorreu em
outras áreas do relacionamento entre norte e sul da América, outra vez mudou o tom do tratamento de Hollywood para com a América Latina. Os filmes mostram caracterizações inadequadas. Houve um fator, porém, que fez
com que não fossem tantas como tinham sido até antes da guerra: dinheiro.
Lá por 1949 o ganho de Hollywood com a América Latina era 20% do total
que fazia no mercado estrangeiro. Uma região com menos de 10% da população mundial dava 20% do ganho daquela indústria no exterior. (15) O dinheiro fala mais alto e, por esse motivo, Hollywood, apesar de não deixar de
criar estereótipos, diminuiu a quantidade deles se comparado com o período
que vai de 1910 até a política da Boa Vizinhança. Para não criar atritos com
a América Latina foi criada uma associação que olharia para que a indústria
do cinema não ofendesse o comportamento de outros países. Mesmo com
isso a imagem latino-americana no cinema não mudou muito, outros filmes
mais tarde mostrariam isso. A imagem que os filmes de Hollywood ajudaram a gravar na mente da população norte-americana pode ser resumida no
seguinte: o povo da região é violento, seja camponês ou patrão a imagem
156
Alfredo da Mota Menezes
sempre apresentada é de um povo que beira ao ridículo e, apesar da inata
violência ou da quantidade de gente para enfrentar, o herói norte-americano
sempre vencerá por ser mais inteligente e ter tecnologia mais avançada que
o latino-americano. (16)
Há um documentário de 61 minutos que traduz muito bem a imagem
que o cinema de Hollywood tem da América Latina. (17) A autora pegou
todos os filmes sobre a região de 1907 até 1963, ainda buscou alguns filmesdocumentários de 1900, como aquele da guerra Espanha-EUA. Praticamente todos os filmes que tratam da América Latina estão ali. O documentário
se chama The Gringo in Mañanaland. Não quer dizer terra do amanhã, o
título já é parte da imagem que se tem da região ou de um povo que não
resolve as coisas agora, sempre joga para um amanhã. Essa é a ideia do título.
É realmente interessante o que o documentário mostra, é a história nua e
crua do latino-americano nos EUA. É a união do cinema com a história da
relação entre as duas Américas, são os estereótipos em sua inteireza. É ainda
o que pensa a política externa do país ou o que pensa o norte-americano.
No documentário mostra-se nos diferentes filmes o povo e a exótica
América Latina, com palmeiras, praias, plantações de café, cacau, cana-deaçúcar, danças estranhas. Até Ronald Reagan, quando ator, aparece em filmes, dá até para imaginar que o conhecimento que teve da região foi daquele
tipo mostrado nos filmes em que trabalhou, e que refletia 100% da visão que
se tinha nos EUA. Mais tarde, reforçado pelo trabalho dito acadêmico de
Jeane Kirkpatrick, nomeada por ele embaixadora na ONU, estava moldada
sua política externa para a América Latina, principalmente para Nicarágua,
El Salvador e Cuba.
Tudo o que existe de estereótipo nos EUA está no documentário: a
América Latina é criança, feminina, negra, índia e mestiça, sensual, revolucionária, católica, cheia de doenças tropicais, insetos, calor insuportável.
Tem hora que se mostra um povo idílico, sem ambição, quase que vivendo
num paraíso. Era daqueles momentos em que alguns ali idealizavam a região
como não gananciosa, principalmente durante a Depressão Econômica em
que supunham que a ganância demasiada quebrara o país. Mas são poucas
essas descrições, a maioria é aquela conhecida. Nos filmes ainda mudos aparecem os escritos na tela de que os EUA estavam invadindo tal país para salvar aquele povo de governos autoritários e errados. O erro estava no outro,
não no invasor; ele estava ali como convidado de um grupo em disputa local.
É impressionante como o cinema reflete o que o país passava na política
externa dos governos também. Em situação diferente mostra o empresário
norte-americano levando progresso a diferentes países, “um progresso com
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
157
humanidade”. Até os presos são mostrados bem tratados, felizes e cantando
todos os dias. A United Fruit Company é retratada como benéfica, levava
progresso e emprego para a América Central. Há vários documentários feitos
por ela de sua ação na área.
Filmes diferentes mostram as norte-americanas brancas vestidas como
mulheres inglesas num mundo exótico e de gente de pele escura; os homens
em ternos bem cortados outra vez imitando os ingleses. Quando começam
as descobertas da arte antiga mexicana aparece o norte-americano de terno
nessas buscas repetindo o que os ingleses estavam fazendo no Egito. Aparecem florestas intactas, erro da região que não a conquistava ou, no outro
extremo, os norte-americanos derrubando árvores para a chegada do progresso. A mesma descrição que faz Fredrick Pike sobre a conquista da terra
e a ligação até com o divino. Além dos pequenos trechos dos filmes daquele
período aparecem ainda documentários feitos sobre acontecimentos especiais como, por exemplo, a construção do Canal do Panamá. A obra seria
resultado da alta tecnologia do país e, a partir dali, os EUA passariam a ser
comprador e vendedor no mundo inteiro. A engenharia do país é colocada
nas alturas. Outro documentário da época é a fala de Herbert Hoover sobre
sua viagem pela América Latina.
Em síntese o documentário mostra a seguinte linha, aliás, descrito no
panfleto que faz a propaganda dele: o bravo gringo explorador descobre uma
terra rica e exótica, elimina a selva e constrói um jardim do éden. A mulher
branca tem algum tipo de problema a resolver nesse paraíso, e a mulher local
é amiga e adorável. O homem nativo é o contrário, não obediente às leis e
regras do trabalho. Quando a coisa se complica, com auxílio de tecnologia
nova, o gringo vence qualquer parada, inclusive rebeliões (outra imagem da
área). Eles são os bons vizinhos. O documentário mostra como uma grande
potência com poderes quase imperiais resume a sua dominação para seu próprio povo e também para o dominado.
Nos filmes atuais, com linguagem aparente menos agressiva, existem
quase as mesmas caracterizações que antes. “Scarface”, como exemplo, traduz como os latino-americanos são violentos. E, nesse filme, como em outros, interessantemente, o latino-americano é quase sempre um cubano. O
papel do personagem principal dificilmente seria dado a um mexicano, por
exemplo. A imagem do cubano nos EUA é mais palatável para o norteamericano do que a do mexicano. A história explica. Outro filme recente,
“Apocalypto”, mostra um cruel povo indígena da região. Aquela cena, quase
no fim do filme, em que os índios que sobram de uma perseguição infernal
observam as caravelas chegando e que, a partir dali, a união de um povo
158
Alfredo da Mota Menezes
autóctone violento com o espanhol, como o define a Lenda Negra, se criaria uma área do mundo em que a crueldade é parte da vida cotidiana. Em
linguagem cinematográfica diferente é nada mais do que a imagem que a
América Latina tem nos EUA
Há nos novos filmes também uma caracterização dos chicanos ou os descendentes de mexicanos nascidos nos EUA. Dominik Lorenz conta que o
cinema acrescentou no seu vocabulário palavras latinas que trazem outra
forma de estereótipo como mañana, hasta la vista ou no problema. O autor é
alemão e carrega nas tintas da descrição do assunto ao dizer que a intenção
subliminar seria mostrar que qualquer um pode falar espanhol, pois até o
latino-americano o fala. Substituir a palavra por outra como buenas noches
por buenos nachos ou hasta la bye-bye ao invés de hasta la vista é chamado
de mock spanish. (18) E, segundo Jane Hill, seria uma forma de racismo encoberto. Lorenz concorda com ela e diz mais que quem controla a língua é
superior, e se controla a sua e ainda domina a outra é mais superior ainda.
No caso dos chicanos eles não estariam preparados nem para dominar a deles. Ao usar a linguagem distorcida dos chicanos ou o mock spanish o branco
norte-americano mostraria ainda ter senso de humor, é uma fala usada como
algo engraçado e depreciativo. No geral aquelas palavras levantadas por Lorenz são usadas para carimbar mais ainda a região. Mañana querendo dizer
que não se decide nada ou se deixa tudo para um longínquo depois. Hasta
la vista é para fazer alguém desaparecer com tiro ou o que seja. Hollywood
continua também a criar a imagem do latino-americano com apetite sexual,
politicamente corrupto e que sofre de incapacidade mental. (19) É o cinema
por outros meios perpetuando os estereótipos. Se antes eram diretos com os
mexicanos e depois com os latino-americanos agora são com os descendentes dos mexicanos nos EUA.
Charles Ramirez Berg (20) diz na introdução do seu livro que a construção da América Latina e seus habitantes no cinema têm a intenção de justificar os objetivos expansionistas dos EUA, que isso foi feito pela Doutrina
Monroe e pelo Destino Manifesto no continente. Os EUA tinham o direito
de controlar todo o hemisfério, que isso era indisputável e que a Doutrina
Monroe desde 1823 foi o instrumento que os EUA usaram para atacar a
região. Hollywood, continua Berg, reflete isso, apoia esse domínio ao criar filmes e propagar ideias para perpetuar essa hegemonia, e na maioria das vezes
sem atentar para a verdadeira história de um país e de sua gente. No caso dos
mexicanos a coisa foi ainda pior: perderam quase metade do território, e os
usam como trabalhadores braçais baratos. Para justificar tudo isso era necessário mostrar que os latino-americanos seriam seres humanos inferiores. Os
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
159
estereótipos nos filmes, diz Berg, são parte do discurso dos EUA sobre quem
deveria dominar o continente americano, uma espécie de Doutrina Monroe
e Destino Manifesto agora ilustrado para cinema.
A mídia também ajudou a criar a imagem que o latino-americano tem
nos EUA, aliás, foi parte importante nessa história. O que pensa a nação está
na mídia, há uma sincronia entre o que diz a mídia nos EUA e o que pensa
o homem comum ou o que existe na formação da cultura e da mentalidade
daquele povo. Mercedes Lynn de Uriarte (21) mostra como a imprensa dos
EUA descreve os mexicanos. O mexicano é típico índio, diz um articulista
norte-americano (22) em 1914, analfabeto, a maioria filhos ilegítimos, ineficiente e emotivo. O problema político do México seria por causa da sua
fraqueza de caráter ou que a causa real dos problemas dali eram o temperamento e a raça. Essas mesmas palavras foram ditas por outros personagens
em outros momentos no relacionamento entre os dois povos. Como a Revolução Mexicana para derrubar Porfírio Diaz estava no auge, para os norteamericanos o que ocorria ali era próprio de um povo bárbaro e atrasado. E,
como escreve Dominik Lorenz, se está na mídia se transforma em verdade
na mente do homem comum. Ele já tem os estereótipos de um povo e fica
muito mais fácil aceitar o que a notícia traz da América Latina. Ele não tem
tempo, num mundo apressado, para refletir sobre o que é correto ou errado,
aceita as colocações como lhe são repassadas. Latino-americanos e negros
são mostrados como não obedientes às leis, os brancos sempre como vítimas.
Se ocorrer um crime o mais fácil e cômodo é atribuí-lo ao outro, reflete o que
o povo pensa do negro e do latino. Se hoje um chicano comete um delito,
todo o grupo é caracterizado como igual. (23) Não é somente aquele indivíduo como indivíduo, que cometeu um delito, é toda a gente parecida com
ele que age sempre desse modo. É porque, mais uma vez, isso está na mente
e no coração das pessoas dali por mais de 150 anos de história de um relacionamento complicado entre povos, ideias e comportamentos.
Na busca de como os mexicanos são vistos na mídia dos EUA a mesma
autora diz que uma pesquisa descobriu que em 34 fontes norte- americanas e
74 mexicanas que trabalhavam com a mídia dos EUA sobre os assuntos do México somente 18 matérias foram positivas, 134 eram negativas. (24) Não é somente lá atrás na época da guerra de 1848, em que o México perdeu um naco
grande do seu território, não é somente na confusa situação política no México
no momento da Revolução Mexicana, isso ocorre em toda ligação histórica
entre aqueles dois países. O mexicano é descrito até hoje quase sem nenhuma
mudança, é a mesma que ele tinha tantos anos atrás. E, pela economia de esforço, é fácil associar toda a América Latina com o que veem nos mexicanos.
160
Alfredo da Mota Menezes
E isso influencia a feitura das ações de política externa daquele país. E, para
piorar a situação, a mídia dos EUA não tem a América Latina como lugar para
mandar bons correspondentes, preocupa-se mais com outros lugares.
Uriarte comenta uma fala em 1986 de dirigente dos EUA no Senado
daquele país que esclarece um pouco como a mídia dali trata os assuntos
da América Latina. A imprensa parte do princípio que os norte-americanos
são superiores e civilizados, e que latino-americanos ou mexicanos são corruptos, traficantes de drogas e não obedecem às leis. Conclui dizendo que,
se os norte-americanos vissem os latino-americanos como eles realmente
são, e não de maneira distorcida, seria impossível para o governo dos EUA
conduzir uma honesta política externa para a região. (25) Ele quis dizer que a
política externa do país é prisioneira dos estereótipos que grassam ali desde o
período colonial. Que se fosse alterado esse rumo, se vissem a região de outra
forma, levaria problemas para quem faz a política externa para a área: teriam
dificuldades para fazer uma nova. No manual do Departamento de Estado
para a América Latina já existem regras históricas claras e praticamente imutáveis sobre a região. Seria enfadonho repeti-las.
O caso da Seleções do Reader’s Digest no Brasil é sugestivo. Mary Junqueira (26) mostra como a Revista Seleções via o Brasil e a América Latina. A revista foi fundada nos EUA em 1922, entrou no México em 1940 e
no Brasil em 1942. Pedido por quem? Nelson Rockffeler outra vez, aquele
mesmo encarregado de ganhar a região para o lado dos EUA no esforço de
guerra contra as potências do Eixo. A revista mostra os EUA como a terra da
promissão, com ordem, progresso, povo trabalhador, todas as qualidades do
homem branco e protestante. Ela atingia nos EUA principalmente a classe
média, como era ainda incipiente essa classe na América Latina imaginavase que a revista não prosperaria, mas pelo esforço de guerra valia até o risco.
E deu certo. Impressiona como a descrição de Seleções sobre a América Latina se encaixa no princípio norte-americano de conquista de terras selvagens,
de vazios que precisavam ser povoados e levados à civilização. Uma região de
territórios vazios, sem leis, sem ordem. (27) Os EUA seriam o contraponto,
deveriam ser imitado. Em quase tudo o que se lê sobre esse relacionamento,
seja na literatura, revistas, descrições de viajantes, jornais, charges, romances, o caminho é idêntico.
O trabalho de Junqueira com a Revista Seleções e o livro de Fredrick
Pike se complementam quando falam da conquista da natureza pelos norteamericanos. Lá como terra de progresso porque conquistam territórios selvagens para produzir de forma ordeira, em obediência às leis, com democracia
e sob a égide da melhor religião, o protestantismo. Quem não se encaixasse
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
161
nesse figurino seria selvagem, caótico, violento e não tinham princípios democráticos. Essa era também a opinião de uma revista de grande circulação
nos EUA e que teria importância no Brasil. Para Seleções a saída para a América Latina seria seguir o modelo norte-americano, deu certo lá daria aqui
também. (28) É interessante perceber que Seleções cria estereótipos sobre o
mundo hispano-americano da região, em que o Brasil aparecia como um país
mais ordeiro e progressista que seus vizinhos. O “outro”, no caso, eram os
vizinhos. Dito por revista norte-americana deve ter agradado a classe média
brasileira que crescia aos poucos.
A revista ataca também os governos autoritários da Alemanha, da Itália
e do Japão. Põe os outros aliados do lado do bem. Mais tarde colocou a União
Soviética na alça de mira, como exportadora de ideias que não coadunavam
com os princípios democráticos. Não importa que a Rússia, aliada na guerra,
fosse antes descrita com palavras simpáticas. Quando virou adversária na
arena internacional, a revista a colocou em tons negativos. A revista atingiu
a classe média urbana que começava a surgir no Brasil, impressionou também o sistema de distribuição dessa revista, chegava longe no país. Em Mato
Grosso, por exemplo, num pequeno lugar de garimpo chamado Poxoréo, lá
pela década de 1950, meu pai nunca a deixou de receber uma vez sequer.
Capítulo final
A imagem da América Latina nos EUA, apesar da estabilidade econômica
e política das últimas décadas, não melhorou quase nada. Mesmo que aquele
país em alguns aspectos esteja parecendo uma América Latina, não há ali
sinais de que esteja mudando o conceito que a região tem no imaginário
popular. Há demasiados estereótipos sobre a América Latina, um fato impregnado na alma daquela nação que não vai desaparecer de maneira fácil,
e fica mais complicado ainda diante de um mundo em rápida transformação.
Com acontecimentos novos todos os dias as pessoas não teriam tempo para
interpretá-los, submetem-se a generalidades, colocam qualidades negativas
em outro indivíduo, grupo ou país, criam-se generalizações sobre o “outro”
(1) numa imaginada disputa “eles” e “nós”. O outro é sempre inferior. Experiência, contatos, estudos mudam estereótipos entre pessoas com algum grau
de educação, (2) o que não é ainda o caso da maioria nos EUA.
Sarah Sherbach (3) comenta o livro de Walter Lippmann, (4) escrito em
1922, que talvez ilustre como os EUA olham para a América Latina através
dos anos. Para ele os jornais eram o que ligava o povo dos EUA com o mundo. As pessoas criam estereótipos mentalmente sobre o que ocorre em terras
e povos distantes, uma maneira de simplificar o complexo mundo. Ele diz
que a pessoa não vê algo primeiro e depois define, define primeiro e depois
é que o vê. Como o mundo é complexo, tem muita coisa para ser olhada e
definida, a cultura dos EUA (ou de qualquer lugar) busca o que a cultura do
país já definiu para a maioria do povo. Se a cultura local criou estereótipos
de outros povos e lugares, o homem comum quando ouve algo sobre aquele
povo o associa com o que o país já definiu culturalmente antes. Há uma economia de esforço do indivíduo para entender e aceitar eventos que ele não
viu ou vivenciou. A fotografia na mente dele será sempre a fotografia que
já existia historicamente. Por que, num mundo cheio de fatos e alternativas
164
Alfredo da Mota Menezes
novas e quase diárias, uma pessoa dos EUA iria criar imagens ou fotografias
diferentes da América Latina? Antes se falou e criou ali a crença de povos
imaturos, pobres, sem condições de autogovernos, atuando como aprendizes
na arena política, disputas territoriais intermináveis, governos autoritários
como consequência de uma herança europeia equivocada. Tudo isso está na
mente do povo dali, é fácil aceitar essas crenças históricas. A teoria criada
por Lippmann se encaixa como uma luva na visão que os norte-americanos
têm da América Latina.
Até hoje ainda é difícil mostrar para um americano comum que a América Latina não tem mais inflação, ou que há eleições normais na maioria dos
países. Basta aparecer algum governante falando o que lhe vier à cabeça, propondo alternativas consideradas equivocadas, que logo esse ato é associado
com toda a região. Não adianta dizer que aquele pronunciamento ou derrubada de governo foi feito naquele país e não no Brasil. É tudo igual, porque,
como mostra Lippmann, já há uma fotografia da região na mente das pessoas
que vêm desde lá de trás. E mesmo nos tempos atuais, pela economia de esforço, as crenças sobre a América Latina continuam nos EUA. E, para ajudar
nessa confusão mental, de tempos em tempos aparece algum dirigente regional mostrando um estilo autoritário ou populista em sua ação de governo, e
isso reforça os estereótipos criados a respeito da América Latina nos EUA.
Não se cria estereótipos do nada, tem que ter base em algum fato ou realidade, (5) tem que ter alguma amarração. Se não tiver um gancho a invenção
logo fenece. E há casos na América Latina que confirmariam parte da realidade, dando suporte ao estereótipo criado. Se não houvesse não duraria. E se é
esse ou aquele país não interessa, é a América Latina. E a imagem que está na
cabeça do norte-americano médio é aquela de uma região confusa, complexa
e com tradições contrárias àquilo que eles acreditam que seja correto.
Algumas tradições ou ações latino-americanas são estranhas ou até absurdas para o norte-americano. No governo Jorge Ubico, em 1935, na Guatemala, como exemplo, fez-se uma votação para modificação constitucional
com a qual ele poderia continuar como presidente, em que se exigia que se
colocasse na cédula de votação o nome de quem votou. A proposta favorável
a ele teve mais de 800 mil votos e 1.227 contra. (6) Um fato desses contado
para o público norte-americano leva aquele povo a criar mais generalizações
sobre a região. E como há a aceitação de que tudo é igual por causa da mesma história, um fato daquele seria comum para toda a área.
Exemplos mais atuais também existem e que ajudam a manter a imagem
antiga da América Latina no imaginário norte-americano. Tem análise do
momento que fala que o comportamento latino-americano é cultural, al-
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
165
guém do mundo acadêmico dos EUA escreveu pequeno artigo em que traz
de volta esse assunto. (7) Conta alguns casos recentes para dar base à sua
hipótese. Escreveu que a Argentina teve problemas de gás para suprir o mercado interno, e que o fato fora provocado pelo governo argentino em não
permitir aumentos no preço do produto para a população. Os investidores
recuaram nos investimentos. Chegou a tal ponto a falta de gás que o governo
argentino quis usar parte do que o Brasil comprava da Bolívia para suprir a
demanda interna. O governo não sabia que isso ia acontecer? Se a consequência era previsível, como entender que a ação do governo fosse tomada?
A Bolívia, outro exemplo citado, desapropriou investimentos da Petrobras
no país. Não tinha recursos para investir em energia e se mostrou surpresa
quando foi ao mercado financeiro buscar empréstimos e os investidores externos se recusaram a colocar dinheiro ali. Se já havia precedente perigoso
com outro investimento era natural que ficasse mais difícil conseguir investidores de outros lugares, seria temeridade investir no país. Se o fato era naturalmente previsível, como é que se toma uma decisão daquela da Petrobras
sem maiores análises? E o mais interessante é que a maioria da população
aceita a decisão do governo. Por que, continua a articulista, ainda hoje, com
a democracia sendo aceita no mundo todo, a região glorifica o caudilho ou o
herói autoritário ao invés do líder democrático? Conclui que há um componente cultural nessas estranhas ações que são seguidas por diferentes países
e povos da região. Não é uma tese de fácil aceitação, mas há algo no ar que
incomoda. Imagine fatos desses, como o de Jorge Ubico da Guatemala antes,
mostrados para o público norte-americano, só pode fortalecer a imagem que
eles têm da região e que vêm lá de longe na história.
As generalizações se espalharam mais ainda nos tempos modernos com
a televisão confirmando fatos considerados comuns no imaginário daquele
povo. Casos como o de Hugo Chávez na Assembleia Geral da ONU quando
discursou depois de George Bush e fez uma teatralização de que satã acabara
de sair dali mostrada para o público norte-americano faz com que as generalizações sobre a área se fortaleçam. Ou na estranha deposição do presidente
Manuel Zelaya de Honduras, em que os EUA praticamente entregaram a
solução do caso aos dirigentes da América Latina. Dirigentes latino-americanos, incluindo os considerados de esquerda, pediam pressão e apoio maior
dos EUA para o retorno de Manuel Zelaya. Um fato que levou o presidente
dos EUA, Barack Obama, a dizer que os latino-americanos pediam sempre
menos ingerência dos EUA nos assuntos da área e naquele caso estavam
pedindo que aquele país mostrasse sua musculatura. Nem mesmo a OEA,
aquele órgão político regional de faz-de-conta, se mostrou operante. Um
166
Alfredo da Mota Menezes
caso daquele mostrado para o público norte-americano, em que a maioria
das pessoas está preocupada com seu dia a dia e não tem tempo para aprofundar a análise do fato, as leva a firmar mais ainda as generalizações de
que a região é ainda aprendiz em política, tem dificuldade para resolver seus
próprios problemas.
E, mais uma vez, não importa onde o fato negativo tinha ocorrido, não
importa se a economia ou população é grande ou pequena, a simplificação
histórica leva o norte-americano a associar toda a região com o caso pitoresco
ou violento, todos os países e toda a gente da área teriam o mesmo comportamento. Uma realidade quase impossível de mudar até mesmo no mundo
acadêmico. Se nos EUA a América Latina é vista ainda engatinhando em política, está implícito que a cultura dali entende que há uma relação de senhor
e de dominado entre os dois lados. (8) Quando algum dirigente latino-americano na atualidade pede que se crie um novo tipo de relacionamento entre
os dois interesses, e não mais de dominador e dominado, está correto. Mas os
EUA não aceitam mudar uma atitude que tem raízes na cultura daquele povo,
dificilmente a região será tratada como igual. Se for, quem o fizer perde pontos
ou votos junto à população dali. Não aceitam o tratamento de iguais em qualquer tipo de discussão ou ação. Não é maldade, a história não deixa.
Não há no dicionário cultural e histórico daquele povo sinal que mostre que a visão nos EUA sobre a América Latina possa mudar num futuro
previsível. O norte-americano não se preocupa nem em analisar o latinoamericano como um povo que trabalha, cria sua família, vai à escola e luta
no dia a dia para sobreviver, como faz também o norte-americano. (9) Os
estereótipos estão tão arraigados que essa visão simples de qualquer povo
encontra-se embotada pela crença local sobre a região. Não há no horizonte
possível sinal de que isso possa ser alterado, o fosso é antigo e deve continuar
como está. A mídia do país reforça isso ao noticiar os acontecimentos regionais, o culpado pela divulgação de uma região caótica seriam os próprios países. A imagem que a América Latina tem ali é de descontrole na economia,
governos ditatoriais, desastres naturais, tráfico de drogas quase sem controle,
pobreza de doer, desigualdade social alta, falta de saneamento, brigas por terras. Fatores que, quando jogados sem filtro e sem maiores explicações para os
EUA, ajudam a criar mais estereótipos sobre o povo ao sul do continente.
Mas, interessantemente, começam a crescer opiniões nos EUA de que
aquele país não pode “civilizar” a América Latina. Tem muitas preocupações
em casa para resolver e derrubar governos, impor vontades, não dá certo mais.
É claro que o contexto mundial é outro, não há mais ameaça de comunismo
na chamada porta dos fundos deles, a questão de segurança hemisférica não
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
167
está em jogo. Para reforçar o ponto de vista de que eles não podem mais dar
aulas à América Latina sobre uma suposta superioridade histórica tem-se hoje
nos EUA, basicamente, nos círculos acadêmicos, a suposição de que estão
surgindo no país fatos que o fazem parecido com a América Latina. Não estariam em condições de dar lições para a região, têm problemas internos a resolverem. Acreditavam numa superioridade cultural que lhes dava condições de
até usar meios não tão éticos para se impor em dada situação. Os problemas
que surgem e crescem ali já não deixam tão clara essa superioridade. Falam
hoje em (10) latim- americanização dos EUA ou, com algum exagero, que o
país estaria se transformando numa grande América Latina. Problemas como
os da América Latina, criticados pela maioria do povo dali, estariam acontecendo nos EUA. Uma interpretação dessas não é entre o homem comum,
é mais aceita e falada no meio acadêmico ou intelectual daquele país. Esses
problemas são levantados pelos próprios norte-americanos, e estão aqui elencados como amostra de um mundo globalizado que cada dia se parece mais.
A análise começa pela religião. Falava-se sempre que os padres católicos
são corruptos e de baixa moralidade sobre sexo. Fazem um paralelo com o
que está acontecendo nos EUA com os pastores protestantes no aspecto de
corrupção e sexo, e chegam à conclusão de que ali a coisa é até pior do que
na América Latina. Referem-se, claro, aos muitos escândalos envolvendo
nomes da igreja local com desonestidade e ações sexuais constrangedoras
e publicadas à exaustão na mídia local. E que, interessantemente, a mídia
latino-americana dá pouca atenção. Na economia a nova interpretação é
também crítica com o que acontece naquele país, setor em que os norteamericanos davam antes lições para a região. As dívidas interna e externa
dos EUA preocupam e drenam recurso do país, os japoneses estavam levando parte desses recursos com o empréstimo que fazem ao tesouro norteamericano. Os norte-americanos reclamam da situação como reclamavam
os latino-americanos com os empréstimos e a presença dos EUA na economia regional. Os EUA sempre criticam o povo latino-americano pela falta de
disciplina para o trabalho, eles, pela ética protestante, estavam preparados
para enfrentar desafios. Os japoneses estão dando aulas sobre como ter mais
disciplina para produzir no trabalho, ganhar e poupar dinheiro. Os japoneses
fazem hoje o mesmo tipo de comentário que o norte-americano fazia sobre a
incapacidade latina americana para o trabalho duro e disciplinado.
Os norte-americanos também criticavam a questão sexual na América
Latina, uma região de lassidão moral. O que está acontecendo nos EUA faz os
acontecimento da América Latina parecerem coisa pequena. Quantidades de
adolescentes como mães solteiras, casamentos desfeitos, adultérios e divórcios
168
Alfredo da Mota Menezes
também. Mantém-se a ajuda social do governo como o food stamp ou o bolsafamília de lá, acreditava-se que o tempo e o mercado absorveriam os mais
pobres, e não seria mais necessário esse tipo de ajuda. Aumenta-se o abuso
e consumo de álcool e droga, é quase uma epidemia. Também criticavam a
América Latina por vício em jogos, os que assim agiam tinham baixa estatura
moral, os EUA talvez sejam o país onde mais se joga hoje. Não é somente o
que ocorre em Las Vegas, são também as diferentes loterias em que milhões se
mostram viciados, e dinheiro da família é drenado para satisfazer essa quase
epidemia. A raiva ou o ato temperamental desproporcional foi sempre associado aos latino-americanos, um povo sem controle emocional. Estudos mostram que os norte-americanos estão cada dia mais com ódio de alguma coisa,
e muitas vezes sem saber por quê. Ódio não somente contra fatos estranhos
de outros lugares do mundo, mas de pessoas e atos do próprio país. O norteamericano está, devido à crescente violência, preso e armado dentro de casa.
O norte-americano dizia que na América Latina os governos taxavam
os mais pobres para beneficiar os mais ricos, ou concediam empréstimos para
realizações que muitas vezes não acontecem, que isso aumentava a desigualdade social. Nos EUA os ricos, ao usarem meios e escapes legais, pagam
menos impostos, e os mais pobres acabam pagando a conta maior do país.
Corrupção parecia ser uma praga latino-americana. Até hoje na mente da
maioria das pessoas dali isso é um fato, aliás, baseado em forte realidade.
Mas supostamente os EUA agiam de forma diferente, não é mais verdade. A
quebra de agências de poupanças na década de 1980, os escândalos com empresas na bolsa de valores em que foi puro roubo de dinheiro dos pequenos
investidores que haviam acreditado nas informações distorcidas das agências
de riscos ou de contabilidades. É quase que dizer que o sistema seria corrupto
se até a bolsa de valores estava contaminada.
A ajuda que os governos estavam dando a empresas no país para enfrentar a concorrência de fora, fato que o norte-americano sempre condenava
na América Latina, também acontecia ali. Lá atrás, nos governos Ronald
Reagan e George Bush, a Chrysler, com Lee Iacoca no comando, foi pedir socorro para enfrentar a competição dos carros japoneses. O governo atendeu;
parece que só ocorria na América Latina. Recentemente a crise começou
no setor imobiliário, espalhou-se pelo resto da economia norte-americana
e mostrou outra face do país. O governo teve que socorrer, no antigo estilo
condenado na América Latina, bancos e fábricas de carros. A injeção de
recursos do contribuinte para salvar o sistema foi enorme, o governo chegou
a ficar com a maioria das ações de empresas privadas. É claro que não deveriam deixar as empresas quebrarem e contaminar o resto da economia. Agiu
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
169
com racionalidade, mas esse tipo de ação por governos latino-americanos
era visto ali como equívoco, o mercado encontraria o caminho correto. A
crítica não serve mais para a região. As agências de risco daquele país deram
notas altas a empresas que estavam em situação crítica, induzindo o pequeno
investidor a perder dinheiro em ações. Essas agências são as que medem os
riscos de empresas e governos da América Latina.
Mas é preciso ficar claro que, apesar dos seus problemas atuais, os EUA
ainda vão dominar por muitos anos a cena mundial, é um equívoco acreditar
no contrário. Ficar na torcida para que os EUA aumentem seus problemas,
como uma espécie de vingança pelo desigual relacionamento entre as duas
bandas da América, não parece o caminho correto. A América Latina, por
proximidade geográfica e até histórica, deveria encontrar meios para melhorar as relações com a ainda maior potência econômica e militar do planeta.
O historiador Arnold Toynbee ensina que, quando duas culturas ou economias têm relações, a maneira mais inteligente para a economia menor
resistir à mais forte não seria ficar numa posição negativista e de resistência
impenetrável, mas, espertamente, procurando usar com eficácia os métodos
e tecnologias da economia e cultura mais forte em seu próprio beneficio. A
América Latina é vizinha do maior marcado do mundo, onde todos os países
querem entrar, e não aproveitar essa vantagem para ter mais presença ali é
quase inexplicável. Há uma espécie de nacionalismo às avessas ou algum
tipo de complexo cultural que inibe e amarra as ações regionais num contato
mais produtivo com os EUA.
Os fatos sugerem que os acordos comerciais dos EUA com países ou
com blocos deles da América Latina seriam um dos caminhos para se ter um
comércio mais efetivo na região. Os EUA já possuem entendimentos com
o México e o Chile através do Nafta. Com a Cafta ou Central America Free
Trade Agreement têm acordo com os países da América Central mais a República Dominicana. Tem dois acordos dependendo de aprovação no Congresso com o Peru e a Colômbia. Não há nada nesse sentido com o Mercosul,
tentaram fazer uma ponte com o Uruguai, um dos membros dessa integração
econômica regional. O Brasil fez concessões especiais ao país vizinho e por
enquanto o assunto não foi em frente. Se a Venezuela for para o Mercosul
torna-se mais difícil uma aproximação econômica com os EUA. Se também
a América Latina se unisse economicamente, criando uma força maior que
a individualidade de cada país, talvez soasse algum sino mais ao norte do
continente. Mas a região, por mais que lute e tente, nunca conseguiu fazer
funcionar de maneira adequada uma integração econômica regional. Há diferenças históricas na área quase tão grandes como existem dos EUA para a
170
Alfredo da Mota Menezes
região. Várias tentativas de integração econômica ocorreram como na América Central, Alalc, Pacto Andino, Mercosul, mas sempre surgem obstáculos
que fazem com que os passos rumo a uma efetiva integração sejam lentos. O
norte-americano sabe disso também.
A América Latina teria também que parar com a antiga mania de esperar
ajuda dos norte-americanos, a vantagem a ser buscada é comercial, não outras.
Para sair ajuda diferente dali o governo tem que mostrar para a população
quais são as vantagens para o país, se não fizer é criticado e perde votos na
eleição seguinte. Tem que haver retorno, é da cultura deles não dar nada de
graça. Qual a vantagem hoje de ajudar a América Latina com algum plano
novo? Como explicar isso ao eleitorado do país? Os norte-americanos poderiam, como exemplo, ajudar a América Latina ou, se não tanto, a América
Central e o Caribe com tecnologia agrícola. O país possui talvez os melhores
trabalhos técnicos para a produção no campo. Poderia ter criado condições
para aumentar a produção agrícola daquela região, preferem dar a comida, mas
não ensinar a produzi-la. Se fizessem isso teriam a má vontade dos produtores de alimentos nos EUA, e seus representantes no Congresso teriam menos
mercado para venderem seus produtos e, outra vez, a cara amuada de muita
gente internamente. Agricultores gaúchos gostam de contar que foi um pastor
evangélico norte-americano, Albert Loehenbauer, que morava na região de
Santa Rosa, Rio Grande do Sul, que, numa viagem ao Missouri, EUA, trouxe
sementes de soja, já plantação comum naquele país, escondidas numa garrafa,
em 1923. Foi a partir daquele quase contrabando que começou a produção ali e
depois no Brasil. E a conversa, verdadeira ou apenas ilustrativa, é para mostrar
que, se não fosse daquela maneira, se fossem esperar a semente da soja ser doada por um suposto santo do governo dali, talvez ela não viesse. E, se for olhado
com cuidado, eles têm razão. Uma razão que é dada pela lógica do negócio.
Um dos fatos marcantes da reação dos EUA sobre acontecimentos e
mudanças na América Latina na década de 1960 foram os Centros de Estudos Latino-Americanos e sua copiosa produção acadêmica. Passaram a
entender com base em pesquisas como agia a região. Não estão errados, buscam o que é de interesse para eles. Errada estaria a América Latina de não
fazer a mesma coisa na busca de entender melhor esse distante e desconfiado
parceiro. Os Centros de Estudos Latino-Americanos nos EUA tiveram grande importância para o entendimento daquele país sobre seus vizinhos mais
ao sul do continente. Talvez no futuro, pela importância menor da América
Latina para os norte-americanos, eles até percam um pouco da força e do
valor que tinham antes. Mas, para mostrar seu atual significado, veja a lista
e os lugares onde eles estão localizados nos EUA: (11)
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
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171
Center for Latin American Studies, Arizona State University.
Institute of Latin American and Iberian Studies, Columbia University.
Latin American Studies Program, Cornell University.
Duke University’s Center for Latin American and Caribbean Studies.
Florida International University’s Latin American and Caribbean
Center.
Harvard University’s David Rockefeller Center for Latin American
Studies.
Center for Latin American Studies, New Mexico State University.
Center for Latin American and Caribbean Studies, New York University.
Center for Latin American Studies, San Diego State University.
Center for Latin American Studies, Stanford University.
SUNY-Albany’s Department of Latin American, Caribbean & US
Latin Studies
Tulane University’s Roger Thayer Stone Center.
Latin American Area Center, University of Arizona.
University of California, Berkeley’s Center for Latin American Studies.
Center for Iberian and Latin American Studies, University of California at San Diego.
Center for Latin American Studies, University of Chicago. University of Florida.
Center for Latin American and Caribbean Studies, Indiana University.
Center for Latin American Studies, University of Kansas.
University of North Carolina’s Institute of Latin American Studies.
Center for Latin American Studies, University of Pittsburgh.
University of Texas at Austin’s Long Institute.
Latin American and Iberian Studies, University of Wisconsin.
Center for Latin America, University of Wisconsin Milwaukee.
Há ainda uma quantidade enorme de publicações em revistas acadêmicas
sobre a América Latina. Não há no mundo um lugar em que se tenha tantos
trabalhos sobre a região como nos EUA. Só a título de ilustração, o Handbook
of Latin American Studies, publicado naquele país desde 193,6 e hoje já on line,
com ênfase nas áreas de ciências sociais e humanas, tem praticamente tudo,
que se publica sobre a América Latina não só nos EUA, mas no mundo inteiro. No Handbook está o livro ou artigo, o autor, a editora e um pequeno comentário feito por um entendido naquele tipo de publicação. É também por
assunto, dá muita facilidade para se pesquisar sobre o que se queira da região.
172
Alfredo da Mota Menezes
Segundo informação da HAPI ou Hispanic American Periodicals Index há 74
jornais ou revistas acadêmicas nos EUA sobre a América Latina. Existem no
momento 285.514 títulos de artigos, de 1970 para cá, de assuntos da região.
Acrescentam mais cerca de 6.200 por ano de artigos novos, não incluindo
revisão de livros. Estão incluídos no index da HAPI artigos de autores não
norte-americanos, apesar de estarem ali indexados somente os melhores artigos de gente de fora dos EUA. Pelas pesquisas e publicações, viagens e mais
os satélites os EUA estudam em minúcias as coisas da região.
Por outro lado, apenas como queixa inócua, no Brasil e na América Latina de forma geral não se estuda os EUA. O que se sabe daquele país talvez
seja pela ótica distorcida do cinema do que se passa ou passou na história
deles, e das notícias que vêm montadas de lá. Através do cinema e da música há um quase massacre cultural de lá para cá. Os jovens, ao assistirem os
desenhos animados, são bombardeados de forma subliminar para supostos
aspectos da superioridade norte-americana, os super-heróis da juventude regional muitas vezes são de lá. E isso passa de geração em geração. E, mesmo
frente a esse quase massacre de cultura popular, a região continua a não dedicar estudos adequados aos verdadeiros EUA. Na América Latina se estuda
com ênfase a história da Revolução Industrial inglesa, e tem que ser estudada
mesmo, mas não se dedica tempo para entender outra que ocorreu mais perto da região, ali nos EUA, e que tem enorme impacto na vida regional. Uma
espécie de complexo cultural, ou o que se queira denominar, faz com que a
América Latina se negue a estudar um país que tem, para o bem ou para o
mal, grande influência em toda a área. Eles estudam a região e a América
Latina, numa postura ainda não bem explicada, recusam-se a fazer o mesmo
com eles. Entendê-los, através de estudos sérios, talvez seja caminho para
buscar alternativas para um relacionamento até mais vantajoso para o lado
de cá. Não tem sido até agora. Estudos sobre os EUA não podem ser somente de diplomatas ou de quem tem interesse direto naquele país, teriam que
ser em lugares que propagam o que se aprendeu com teses e dissertações
sobre variados aspectos da vida norte-americana. Eles fazem isso, a América Latina não. O erro é daqui e não de lá. Ficar esperando aparecer não se
sabe de onde uma ajuda para que a região encontre seu caminho não é uma
decisão sábia, principalmente achar que essa suposta ajuda viria dos EUA.
No mundo dos negócios não há filantropia. Mas, com estudos e entendendo
melhor os EUA, talvez dê para se ter algum tipo de aproximação que seja
mais vantajosa para a região. Não seria uma tarefa fácil, a maioria do povo
norte-americano continua a olhar para os latino-americanos como sempre
olhou, como aquela fotografia descrita por Lippmann.
Notas
Capítulo I
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
Fredrick B. Pike. The United States and Latin America – Myths and Stereotypes of Civilization and Nature. Austin: University of Texas Press, 1992, p. 75.
John J. Johnson. Latin America in Caricature. Austin: University of Texas Press, 1997, pp.
12-13. Além do texto o livro traz 131 charges ou caricaturas sobre a América Latina na
imprensa norte-americana entre 1880 e 1973.
Pike, pp. 76-77.
Ibid. p. 84.
Johnson, p. 13, e Lawrence E. Harrison. The Pan-American Dream – Do Latin America’s
Cultural Values Discourage True Partnership with United States and Canada. Boulder: Westview Press, 1997, p. 4.
Harrison, pp. 32-39. Robin Greir. “The Effect of Religion on Economic Development: a
Cross National Study of 63 Former Colonies”, Kyklos, vol. 50, Fasc. 1, pp. 47-62, 1997.
Esse aspecto religioso recebe hoje outras defesas, agora com análises mais sofisticadas.
Estudos mostram que há uma relação negativa entre catolicismo e progresso econômico. Greir, usando estatísticas, números e gráficos, assegura que as colônias espanholas
tiveram desempenho econômico pior que as inglesas. Analisou 63 colônias entre 19611990, as espanholas e as francesas, com base católica, tiveram desempenhos “significativamente piores” que as inglesas em renda per capita e PIB. Os números apresentados
mostram realmente uma superioridade nas ex-colônias inglesas. Não se pode atribuir a
um só fator essa diferença, há outros componentes, como as instituições políticas e até
mesmo a atuação de governos, como assevera Carlos Benito, “The Causes of Poverty in
Latin America and the Caribbean – The Role of Political Institutions”, paper apresentado em evento na Guatemala em maio de 2000. Mas, para o norte-americano médio, seja
no passado ou agora, a religião protestante era superior à católica. E foi essa visão que
permaneceu no país, independente de novas e sofisticadas análises e interpretações. Mas
é preciso ressaltar também que a França tem base católica e chegou ao patamar de país
desenvolvido, e que a Renascença nasceu numa Itália católica.
Lawrence E. Harrison. Underdevelopment is a State of Mind – The Latin American Case.
Boston: The Center for International Affairs, Harvard University and Madison Books,
pp. 22-23.
174
Alfredo da Mota Menezes
8.
9.
10.
11.
Harrison, The Pan-American Dream, p. 31.
Pike, p. 79.
Ibid. p. 115.
Lars Schoultz. Beneath the United States – A History of U.S. Policy Toward Latin America.
Cambridge: Harvard University Press, 1998, p. 14 Johnson, pp. 12-13.
James William Park. Latin American Underdevelopment – A History of Perspectives in the
United States, 1870-1965. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1995, p. 89.
Ibid. p. 90.
Claude Julien. O Império Americano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970, p. 24.
Ibid. p. 24.
Pike, pp. 77-78.
Ibid. pp. 79-81.
Ibid. pp. 81-83.
Ibid. p. 78.
Ibid. pp. 126-128.
Ibid. pp. 78-79.
Harrison, The Pan-American Dream, p. 24.
Ibid. pp. 28-29.
Ibid. pp. 29-30.
Park, pp. 91-92.
Harrison, Underdevelopment is a State of Mind, p. 32.
Ibid. p. 155.
Johnson, p. 14.
Pike, p. 94.
Ibid. pp. 93-97.
Ibid. p. 100.
Ibid. p. 49.
Sarah E. Sharbach. Stereotypes of Latin America, Press Images, and U.S. Foreign Policy,
1920-1933. New York: Garland Pub., 1993, p. 11.
Johnson, p. 15.
Pike, pp. 44-52.
Ibid. pp. 144-151.
Johnson, p. 210.
Há estudos que diziam que a mistura de raça, com sangue branco, poderia melhorar a
qualidade de um povo. Estranha pesquisa publicada na década de 1920 nos EUA procurava mostrar que havia uma relação positiva entre a qualidade de sangue e o grau de
inteligência de um povo (Sharbach / p. 9).
Park, pp. 83-86.
É interessante notar que há autores, como Josias Strong, que falam, até citando Charles
Darwin, que foram a quantidade e a qualidade de gente que emigrou para os EUA que
ajudaram no crescimento maior daquela nação.
Park, p. 86.
Ibid. pp. 83-84.
Ibid. p.p. 84-85.
Johnson, p. 18.
Park, pp. 93-94.
Johnson, p. 211.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
25.
26.
27.
28.
29.
30.
31.
32.
33.
34.
35.
36.
37.
38.
39.
40.
41.
42.
43.
44.
45.
46.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
175
47.
48.
49.
50.
51.
52.
53.
54.
55.
56.
57.
58.
59.
60.
61.
62.
63.
64.
65.
Pike, pp. 148-149.
Ibid. p. 153.
Johnson, p. 157.
Sharbach, p. 7.
Johnson, p. 158.
Ibid. pp. 157-159.
Sharbach, p. 5.
Johnson, p. 16.
Ibid. p. 17.
Ibid. p. 11.
Ibid. p. 10.
Sharbach, p. 12, e Johnson, p. 12.
Johnson, pp. 311-312.
Pike, pp. 202-208.
Ibid. pp. 200-201.
Ibid. p. 224.
Veja Capítulo III.
Harrison, The Pan-American Dream, p. 20.
Stanley J. Stein e Barbara H. Stein. A Herança Colonial da América Latina – Ensaios de
Dependência Econômica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970, p. 100.
66. Park, pp. 80-81.
67. Ibid. p. 81.
68. Ibid.
Capítulo II
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
Fredrick B. Pike, pp. 44-85.
James William Park, pp. 96-97.
Sarah Sharbach, p. 14.
Lawrence E. Harrison. Underdevelopment is a State of Mind, p. 144.
Pike, p. 114.
Ibid. p. 115.
Stanley e Barbara Stein, p. 107.
Lawrence E. Harrison. The Pan-American Dream, p. 25.
Harrison. Underdevelopment is a State of Mind, p. 143.
Pike, pp. 60-61.
Stanley e Barbara Stein, pp. 100-101.
Ibid. p. 103.
Ibid. p. 119.
Também buscavam investidores na Europa. A iniciativa privada assumindo riscos. Uma
ação praticamente impossível para a América Latina do período.
15. Pike, p. 121.
16. Ibid. p. 125.
17. Ibid. p. 130.
176
Alfredo da Mota Menezes
18. Stephen Haber How Latin America Fell Behind – Essays on the Economic Histories of Brazil
and Mexico, 1800-1914, principalmente o capítulo 4, pp. 93-117.
19. John Johnson, pp. 20-21.
20. Park, p. 97.
21. Ibid. p. 99.
22. Harrison. Pan-American Dream, pp. 21-22.
23. Park, p. 93.
24. Harrison. Pan-American Dream, pp. 22-23.
25. Harrison, Underdvelopment is a State of Mind, pp. 30-32.
26. Ibid. pp. 142-143.
27. Harrison. The Pan-American Dream, p. 23.
28. Johnson, pp. 29-31.
29. Martha L. Cottam. Images & Intervention – U.S. Policies in Latin America. Pittsburgh:
University of Pittsburgh Press, 1994, pp. 14-35.
30. Citado por Harrison. Pan American Dream, p. 26.
31. Johnson, p. 73.
32. Park, pp. 90-91.
33. Johnson, pp. 116-119.
34. Sharbach, pp. 23-35.
35. Ibid. p. 31.
36. Cottam, pp. 22-23.
37. Ibid. p. 25.
38. Park, p. 90.
39. Johnson, p. 116.
40. Ibid. p. 118.
41. Sharbach, p. 40.
42. Ibid. p. 43.
43. Ibid. p. 35.
44. Ibid. pp. 37-39.
45. Ibid. p. 43.
Capítulo III
1.
2.
3.
4.
5.
6.
Lars Schoultz, p. 1.
Federico G. Gil. Latin American-United States Relations. New York: Harcout Brace Jovanovich, 1971, pp. 57-59; Lars Scholutz, p. 3. Michael LaRosa e Frank O. Mora. Readings
in Neighborly – U.S.- Latin American Adversaries Relations. Boulder: Rowan & Littlefield
Publishers, 1999, p. 65.
Gil, 61. Joseph Smith. The United States and Latin America – A History of American Diplomacy, 1776-2000. New York: Routledge Group, 2005, pp. 15-16. LaRosa e Mora, pp. 63-64.
LaRosa e Mora, p. 73 e Gil, p. 63.
Smith, pp. 17-18 e Gil, pp. 62-63.
LaRosa e Mora, pp. 85-89. O livro de Gaston Nerval se chama Autopsy of the Monroe
Doctrine: The Strange Story of Inter-American Relations.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
25.
26.
27.
28.
29.
30.
31.
32.
33.
34.
35.
36.
37.
38.
39.
40.
41.
42.
43.
44.
45.
46.
47.
48.
177
Gil, pp. 64-66
LaRosa e Mora, p. 67.
Smith, p. 28.
Schoultz, p. 25.
Claude Julien, p. 51.
Reginald Horsman. Race and Manifest Destiny – The Origins of American Racial AngloSaxionism. Cambridge: Harvard University Press, 1981.
Schoultz, p. 26.
Sarah E. Sharbach, p. 3.
Smith, pp. 28-29.
Schoultz, p. 34.
Smith, p. 30.
Schoultz, p. 38.
Smith, p. 29.
Ibid. p. 30.
Ibid. p. 27.
Schoultz, p. 15.
Ibid. p. 14.
Ibid. pp. 31-36.
Ibid. pp. 14-38.
Claude Julien, p. 46.
Fredrick B. Pike, pp. 155-156.
LaRosa e Mora, pp. 21-22.
Ibid. pp. 27-29.
Walter LaFeber. The New Empire – An Interpretation of American Expansion, 1860-1898.
Ithaca: Cornell University Press, 1963, pp. 62-80.
Pike, p. 158.
Ibid. p. 159.
Ibid. p. 168.
Ibid. pp. 168-169.
Ibid. pp. 176-177.
Smith, p. 48
E. Bradford Burns. The Unwritten Alliance – Rio Branco and Brazilian-American Relations.
New York: Columbia University Press, 1966.
Smith, p. 55 e Schoultz, pp. 101-105.
Smith, p. 56.
Gil, p. 67; Smith, p. 57 e Schoultz, p. 115.
Schoultz tem a melhor análise dessa disputa da Venezuela, pp. 107-124.
Schoultz, pp. 125-151; Smith, pp. 59-65; Walter LaFeber, pp. 370-406.
Smith, p. 61
Alfredo da Mota Menezes. “Me Estoy Muriendo de Hambre – An Analysis of the Cuban
Situation, 1896-1898”, paper, 1982, 23 páginas, no site: www.alfredomenezes.com em Outras Publicações, p. 16 .
Menezes, p. 17
LaRosa e Mora, pp. 91-92.
Smith, pp. 64-65.
Ibid. p. 68.
178
Alfredo da Mota Menezes
49. Ibid. p. 70.
50. Schoultz, p. 184.
51. Schoultz, pp. 205-219; Lester D. Langley. The Banana Wars – United States Intervention in
the Caribbean, 1898-1934. Chicago: The Dorsey Press, 1985, pp. 53-216; Walter LaFeber.
Inevitable Revolutions – The United States in Central America. New York: W.W. Norton&
Company, 1984, pp. 22-58; Walter V. Scholes e Marie V. Scholes. The Foreign Policies of
the Taft Administration. Columbia: University of Missouri Press, 1970, pp. 40-104.
52. Talvez o melhor livro sobre a presença da Guarda Nacional na vida de algumas nações
da América Central e do Caribe seja o de Richard Millett, Guardians of the Dynastty – A
History of the U.S. Created Guardia Nacional de Nicaragua and the Somoza Family. Maryknoll: Orbis Books, 1977.
53. Schoultz, pp. 152-175; LaRosa e Mora, pp. 95-99; Walter LaFeber. The Panama Canal –
The Crisis in Historical Perspective. Oxford: Oxford University Press, 1979, pp. 3-57.
54. Smith, pp. 74-75.
55. Cole Blasier. The Hovering Giant – U.S. Responses to Revolutionary Change in Latin America.
Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1976, pp. 101-105 e LaRosa e Mora, pp. 101-104.
56. Blasier, p. 107.
57. Ibid. p. 109.
58. Smith, p. 78.
59. Ibid. p. 82.
60. Sharbach, pp. 5-6.
61. Ibid. pp. 12-15.
62. Ibid. p. 81.
63. Ibid. p. 84
Capítulo IV
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
Federico G. Gil, pp. 155-156.
Lars Schoultz, pp. 290-296.
Aristide Briand, Ministro das Relações Exteriores da França. O pacto foi assinado por 15
nações em agosto de 1928.
Fredrick B. Pike The US and Latin America, pp. 262-264, e “Latin America and the Inversion of United States Stereotypes in the 1920s and 1930s – The Case of Culture and
Nature”, The Americas, 42, pp. 131-162, p. 138, 1985.
Pike, The case of culture and nature, p. 138 e Sarah E. Sharbach, p. 5
Pike, The US and Latin America, p. 265.
Ibid. pp. 137-141.
Pike, The case of culture and nature, p. 144.
Sharbach “Introdução”, p. 1. xii.
Pike, The case of culture and nature, pp. 149-152.
Pike, The case of culture and nature.
Ibid. p. 154.
Ibid. pp. 160-161.
James William Park, pp. 132-166.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
25.
26.
27.
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29.
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35.
36.
37.
38.
39.
40.
41.
42.
43.
44.
45.
46.
47.
48.
49.
50.
51.
52.
53.
54.
55.
56.
57.
179
Joseph Smith, p. 97.
Schoultz, p. 303.
Ibid. p. 305.
Smith, p. 97.
Schoultz, p. 305.
Smith, p. 98.
Ibid. p. 108.
Gil, p. 158.
Ibid. p. 159.
Schoultz, pp. 296-301.
Gil, p. 162.
Smith, pp. 98-99.
Cole Blasier, pp. 121-124.
Smith, pp. 108-109, e Schoultz, p. 308.
Pike, The US and Latin America, pp. 291-292, e John Johnson p. 18,
Gisela Cramer e Ursula Prutsch, “Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American
Affairs (1940-1946) and Record Group 229”, Hispanic American Historical Review, vol.
86, número 4, novembro 2006.
Cramer e Prutsch, pp. 785-786.
Ibid. p. 791.
Ibid. pp. 793-794.
Ibid. p. 795. Veja último capítulo que trata do assunto.
Clayton R. Koppes e Gregory D. Black “What to Show the World: The Office of War
Information and Hollywood, 1942-1945”, The Journal of American History, vol. LXIV,
número 1, pp. 87-105, junho 1977.
Koppes e Black, pp. 88-89.
Ibid. pp. 91-92.
Ibid. p. 99.
Ibid. pp. 87-88.
Pike, The US and Latin America, pp. 281-285.
Ibid. p. 359.
Gil, pp. 168-169.
Ibid. pp. 169-171.
Ibid. p. 182.
Ibid. p. 173.
Ibid. p. 178.
Ibid. p. 199.
Ibid. pp. 177-178.
Ibid. pp. 183-184.
Smith, p. 109.
Schoultz, p. 311.
Smith, p. 110.
Schoultz, p. 310.
Gil, p. 183.
Schoultz, p. 313.
Ibid. pp. 314-315.
Citado por Lars Schoultz, p. 315.
180
Alfredo da Mota Menezes
Capítulo V
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
25.
26.
27.
28.
29.
30.
31.
32.
33.
34.
Joseph Smith, p. 112.
Alan McPherson. Intimate Ties, Bitter Struggles – The United States and Latin America
since 1945. Washington: Potomac Books, Inc., 2006, pp. 19-20.
Smith, p. 113 e Lars Schoultz, pp. 332-333.
Smith, p. 114.
Ibid. p. 115.
Schoultz, p. 333.
Ibid. p. 334.
Michael LaRosa e Frank O. Mora, pp. 177-188.
Smith, p. 119.
Schoultz, p. 336.
Stephen Schlesinger e Stephen Kinzer. Bitter Fruit – The Untold Story of the American
Coup in Guatemala. New York: Anchor Book, 1983.
Schoultz, pp. 337-338.
Ibid. p. 341.
Ibid. p. 346.
Ibid. p. 347.
Schoultz, 338-345; McPherson, 34-39; Blasier, 151-210. A melhor análise do assunto
está no livro de Schelesinger e Kinzer.
Martha L. Cottam. Images & Intervention – U.S. Policies in Latin America. Pittsburgh:
University of Pittsburgh Press, 1994
Ibid. 38-39
Ibid. 41-42
Stephen e Kinzer, principalmente os capítulos 11, 12 e 13.
Schoultz, p. 352.
Ibid. p. 351.
McPherson, pp. 41-43.
Schoultz, p. 356.
McPherosn, pp. 46-49; Blasier, pp. 151-210; Schoultz, pp. 356-357.
Cottam, p. 46.
McPherson, pp. 82-83.
Carl Bernstein e Marco Politi. Sua Santidade – João Paulo II e a História Oculta de Nosso
Tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996, pp. 262-276.
Lawrence E. Harrison, Underdevelopment is a State of Mind, p. 162.
Lawrence E. Harrison, The Pan-American Dream, pp. 70-71.
Samuel L. Baily. The United States and the Development of South America, 1945-1975.
New York: New Viewpoints, 1976, capítulo 5, pp. 133-170.
Alfredo da Mota Menezes. A Herança de Stroessner: Brasil-Paraguai, 1955-1980. Campinas: Papirus, 1987, capítulos I e II, pp. 11-68.
Alfredo da Mota Menezes. Do Sonho à Realidade – A Integração Latino-Americana. São
Paulo: Alfa Omega, 1990, capítulo II, pp. 30-135, e Alfredo da Mota Menezes e Pio
Penna Filho. Integração Regional – Os Blocos Econômicos nas Relações Internacionais. Rio
de Janeiro: Campus-Elsevier, 2006, pp. 12-19 e pp. 76-85.
Menezes e Penna, pp. 66-74.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
181
35.
36.
37.
38.
39.
40.
41.
42.
Harrison, Pan-Ameriacna Dream, p. 71.
Ibid.p. 72.
McPherson, pp. 26-28.
Harrison, Pan-American Dream, pp. 88-94.
Talvez possam ser acrescidos outros nomes como de Paul Sweezzy e Leo Huberman.
Harriman, Underdvelopmente is a State of Mind, 162
Stephen Haber, How Latin America Fell Behind , 1
Essa posição de parte da intelectualidade latina americana em culpar o exterior pelos
males regionais faz parte do livro Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, publicado
em 1996, pelo peruano Álvaro Vargas Llosa, pelo cubano Carlo Montaner e pelo colombiano Plínio Mendoza.
43. Stephen Haber, capítulo II, pp. 34-64.
44. Ibid. p. 262.
45. Alfredo da Mota Menezes. Guerra do Paraguai – Como Construímos o Conflito. São Paulo:
Contexto, 1998. Francisco Doratioto. Maldita Guerra – Nova História da Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, pp. 23-59.
Capítulo VI
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
Federico G. Gil, pp. 238-250; Joseph Smith, pp. 123-126; Alan McPherson, pp. 51-54;
James William Park, pp. 204-229.
Lars Schoultz, p. 383.
Gil, p. 245.
Ibid. pp. 245-246.
Cole Blasier, pp. 241-258.
Schoultz, p. 360.
John Johnson, p. 19.
Schoultz, pp. 361-362; Blasier, pp. 262-270; McPherson, pp. 74-79.
Martha Cottam, p. 56.
Schoultz, p. 361.
Smith, pp. 141-149.
Walter LaFeber, The Panama Canal, principalmente o capítulo 6, pp. 160-216.
Wayne S. Smith. The Closest of Enemies – A Personal and Diplomatic Account of U.S.Cuban Relations since 1957. New York: W.W.Norton & Company, 1987, principalmente
os capítulos 4, 5, 6, 7 e 8, pp. 101-237.
LaFeber, Inevitable Revolutions, capítulos 3 e 4, pp. 145-270 e John A. Booth. The End and
the Beginning – The Nicaraguan Revolution. Boulder: Westview Press, 1982, capítulos 7, 8
e 9, pp. 127-214.
Schoultz, pp. 362-363; Cottam, pp. 71-116; McPherson, pp. 79-82
Schoultz, pp. 364-366; Smith, pp. 149-156; Cottam, pp. 117-131; McPherosn, pp. 89-105.
Schoultz, p. 378.
Smith, pp. 146-149.
McPherson, pp. 106-107.
Smith, p. 159.
182
Alfredo da Mota Menezes
21.
22.
23.
24.
25.
26.
27.
28.
29.
30.
Ibid. pp. 157-159.
Ibid. pp. 156-157.
Cottam, pp. 143-162; Smith, pp. 141-144.
Smith, pp. 162-164 e McPherson, p. 113.
Alfredo da Mota Menezes e Pio Penna Filho, Integração Regional, pp. 47-85.
Ibid. pp. 90-105.
Ibid. pp. 105-127.
Schoultz, p. 368.
Smith, pp. 165-167.
Rensselaer W. Lee III. “La Conexión Narco Guerrilla”. Revista Occidental: Estudios Latinoamericanos, ano 7, número 3, 1990. pp. 271-310.
Pike, p. 351.
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Recent Trends”.
The Economist, 13 de agosto de 2009.
Ibid.
Pesquisa de opinião pública da Zogby de 10 de agosto de 2007, “Majority of American
Understand Little about Latino American Neighbors”.
Zogby de 26 de janeiro de 2008, “American Public Sees Latin America through Narrow
Imigration Lens”.
Ibid.
Zogby de 10 de agosto de 2007, já citada.
Pesquisa da Zogby de 2 de outubro de 2008, “Public Views Clash with US Policy on
Cuba, Imigration and Drugs”.
31.
32.
33.
34.
35.
36.
37.
38.
39.
Capítulo VII
1.
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Recíprocas – La Educación en las Relaciones Mexico-Estados Unidos de América, Colegio de
México, México, 1991, p. 236.
2. Allen L. Woll. The Latin Image in American Film. Los Angeles: UCLA Latin American
Center Publications, 1980, p. 9.
3. Carlos Cortés, p. 237.
4. Mercedes Lynn de Uriarte. “Crossed Wires: The U.S. Press and Mexico”. In: Imagens
Recíprocas – La Educación en las Relaciones México-Estados Unidos de América, Colegio de
México, México, 1991, p. 252.
5. Woll, pp. 15-16.
6. Ibid. p. 35.
7. Schoultz, p. 380.
8. Woll, p. 23.
9. Cortez, pp. 236-237.
10. Woll, p. 39.
11. Ibid. p. 65.
12. Tânia da Costa Garcia. “Carmen Miranda e os Good Neighbors”, 5 (internet). É um
resumo do livro It Verde Amarelo de Carmen Miranda. São Paulo: Annablum, 2004.
Ingênuos, Pobres e Católicos: A História da Relação dos EUA com a América Latina
183
13. Bianca Freire Medeiros. “Hollywood Musicals and the Invention of Rio de Janeiro, 19331953”. Cinema Journal 41, número 4, pp. 52-67, 2002. Há um resumo com o título “O
Rio de Janeiro de Hollywood em Quatro Takes”, 5 (internet).
14. Ibid. p. 7.
15. Woll, p. 87.
16. Ibid. p. 108.
17. DeeDee Loleck. “The Gringo in Mañanaland”, DVD, Box 89, Wilow NY 12495
18. Domenik Lorenz. “Stereotypes of Chicanos in US”. Druck und Bindung, Nordertedt Germany , Books on Demand: 2008, p. 7, (internet). Jane Hill. “Mock Spanish: a site for
the indexal reproduction of racism in American English”, Language and Culture Symposium, 2008 (internet).
19. Ibid.
20. Charles Ramirez Berg. Latin Images in Film – Stereotypes, Subversion, Resistance. Austin:
University of Texas Press, 2002.
21. Mercedes Lynn de Uriarte. Crossed Wires: The U.S. Press and Mexico.
22. Uriarte, p. 254.
23. Lorenz, p. 6.
24. Uriarte, p. 259.
25. Ibid. p. 263.
26. Mary Junqueira. “Representações Políticas do Território Latino-Americano na Revista
Seleções”, Revista Brasileira de História, vol. 21, número 42, pp. 323-342.
27. Junqueira, p. 323.
28. Ibid. p. 338.
Capítulo Final
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
Charles Ramirez Berg, pp. 14-15.
Ibid. p. 23.
Sarah Sherbach, pp. 21-23.
Walter Lippmann. Public Opinion. New York: The Macmillan Company, 1947.
Sherbach, p. 1 xvi; Berg, p.16.
Schoultz, p. 337.
Susan Kaufman Purcell, Diretora do Center for Hemispheric Policy, University of Miami, “Cultural Obstacle”. In América Economia, 1 de abril de 2008.
8. John Johnson, pp. 118-119.
9. Ibid. p. 312.
10. Pike, pp. 352-358.
11. Research Institute of Latin American Studies, University of Liverpool.
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