Em Cartaz - Ricardo Xavier Recursos Humanos

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Em Cartaz - Ricardo Xavier Recursos Humanos
Em
Cartaz
Aprendendo com as
emoções do cinema
Ricardo de Almeida Prado Xavier
São Paulo
Agosto/2003
 Copyright, 2003
Autor
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Editor
José Antônio Rosa
Coordenação editorial
Fernando Augusto Santos Rosa
Diagramação
Editora STS
Revisão
Edna Luna
Capa e ilustrações
Eduardo Baptistão
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Xavier, Ricardo de Almeida Prado
Em cartaz / Ricardo de Almeida Prado Xavier : (revisão Edna Luna; capa
e ilustrações Eduardo Baptistão; coordenação Fernando Augusto S. Rosa). -- São
Paulo: Editora STS, 2003.
1. Empregados - Treinamento 2. Filmes cinematográficos - História e crítica I.
Baptistão, Eduardo. II. Rosa, Fernando Auguto S. III. Título.
03-4120
CDD-658.3124078
Índices para catálogo sistemático:
1. Filmes cinematográficos: Uso em treinamento de recursos humanos: Administração
de pessoal 658.312078
Editora STS Publicações e Serviços Ltda
Al. dos Guaramomis, 846 - Moema
Cep: 04076-011 São Paulo/SP
Fone/Fax: (11) 5051-0868
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Sumário
Introdução, 5
Vivendo com arte na aposentadoria, 9
Kramer vs. Kramer – trabalho e família com equilíbrio, 15
Quem está disposto a pagar o preço da ambição, 23
Pantaleão consegue organizar o serviço de visitadoras, 29
Grandes momentos em um domingo qualquer, 35
Qual é a senha para entender os fatos?, 39
Decisões, ação e emoções no limite, 45
Sempre é tempo de recomeçar, 51
Sem espaço para a concorrência desleal, 55
Quando a coisa aperta, é tudo ou nada, 59
Quem está no comando entre os suspeitos, 63
Quem faz as regras da vida, 67
A força da mente brilhante vencendo a limitação, 73
Em Cartaz
Como enlouquecer seu chefe, 79
Desenvolva o seu sexto sentido, 83
Emoções trazem uma lua de fel, 87
Grande Hotel chama para a ação, 93
Jerry Maguire – Trabalhar e viver com sentido, 99
O preço do sucesso a qualquer preço, 109
Praticando a arte de viver, 119
A fraude mostra a queda do homem e da organização, 123
K-19 mostra os dilemas da liderança, 129
Nada é mera coincidência, na arte de inventar o real, 135
Lista de filmes, 141
Introdução
Mais de 30 anos interagindo com pessoas
Recentemente participei de mesa-redonda no 9º Encontro Regional
de Recursos Humanos de Campinas e Região. Fizeram parte da mesa
Diretores de Recursos Humanos de renomadas empresas: Luiz Roberto
Corvini (Diretor de RH da Motorola), Silvio de Macedo (Diretor de
RH da Benteler) e Valéria Sepúlveda da Costa (Diretora de RH da
EMS – Grupo Sigma Pharma).
Durante as exposições, o Sr. Corvini dirigiu-se à platéia dizendo
que estava sentindo o mesmo que sentem os artistas quando estão
atuando no palco, ou seja, recebendo no rosto as luzes dos refletores,
que os impedem de enxergar o público. Quando me foi passada
a palavra, reforcei o mesmo sentimento, adicionando que mais
importante que enxergar as pessoas é poder “ver” a alma delas.
Terminada a nossa participação, precisei voltar rápido a São
Paulo, pois todas as segundas e quartas-feiras, à noite, tenho um
dos mais importantes compromissos da semana: “jogar” futebol de
salão.
Em Cartaz
O palestrante que me sucedeu, o consultor Maurício Gois, havia
assistido à mesa-redonda e durante sua exposição indagou se eu ainda
me fazia presente pois desejava saber como eu conseguia “ver” a
alma das pessoas.
Fiquei devendo a resposta e aproveito a oportunidade para
registrar alguns indícios. Alguns profissionais, depois de muito
tempo de atuação, conseguem ver coisas que nem todos conseguem.
Conheço médicos, por exemplo, que apenas conversando com os
pacientes conseguem diagnosticar a doença, com excelente taxa
de sucesso. Conheci também um delegado de polícia que de longe
conseguia identificar quem era ou não delinqüente, com grande dose
de acerto.
Essa sensibilidade ocorre com alguns profissionais e tenho
certeza de que o Sr. Maurício Gois, com sua vivência e experiência
nas áreas Comercial e de Marketing, possui também o poder aguçado
para enxergar fatos dentro de seu campo de atuação que muitos outros
não conseguem identificar.
O profissional de RH preocupa-se com motivações, sentimentos,
intenções das pessoas no trabalho. Boa parte desses conteúdos está
apenas na mente das pessoas. Assim, um esforço permanente para
entender anseios e motivos leva o profissional da área a procurar
“enxergar” a alma das pessoas. Um esforço diuturno dentro desse
propósito torna tais profissionais habilitados a conhecer, se não a
plena verdade interior de cada um, pelo menos um pouco mais do que
a pessoa é, pensa e sente além do que seu comportamento manifesto
apresenta. A sobrevivência e o sucesso de um profissional de RH
depende de sua habilidade para ver além da pessoa real e material
que está na sua frente. Precisa ver a alma dessa pessoa, para orientar
melhor as relações de trabalho.
O tema deste livro
Essa questão tem tudo a ver com a escolha do tema deste livro. Os
filmes usualmente procuram apresentar as almas das pessoas, aquilo
Ricardo de Almeida Prado Xavier
que está na origem e situa-se além dos comportamentos visíveis. Tendo
uma qualidade razoável, o filme enfoca pessoas e acontecimentos
verossímeis ou reais, em histórias dignas de narração, apresentando
inevitavelmente motivos, razões, impulsos, sentimentos que dão
origem aos fatos. Com isso, oferece caminhos por meio dos quais
podemos aprender mais sobre aquilo que está além do comportamento.
Se tem alguma qualidade, torna-se bom instrumento de reflexão e
aprendizagem.
Este livro apresenta filmes e os comenta sob a perspectiva do que
têm a ensinar. O autor reflete aqui os ensinamentos que obteve do filme
e coloca em discussão tudo o que se pode aprender com ele. É evidente
que o autor focaliza apenas uma pequena parte do aprendizado que
se pode extrair de cada filme, principalmente centradas, essas lições,
no interesse para o trabalho.
O objetivo do livro não é outro se não o de mostrar o cinema
como um excelente instrumento de desenvolvimento individual e
de equipe. Ao focalizar alguns filmes, o autor os sugere como úteis
ao aprendizado, indicando ensinamentos que um observador atento
pode extrair deles. Esses filmes, e uma infinidade de outros, podemse fazer presentes nas sessões de reflexão do profissional preocupado
com seu autodesenvolvimento, bem como em sessões de treinamento,
organizadas e dirigidas. As possibilidades são inúmeras para um uso
eficiente.
Filmes apresentados
Os títulos aqui apresentados mostram exemplos de como
podemos extrair ensinamentos de filmes os mais diversos. Refletem
diversidade em gostos, interesses, temas, e até mesmo em níveis de
qualidade. São filmes de que gostei e que julgo terem uma mensagem
digna de ser assimilada.
Há filmes engraçados, filmes consagrados pela crítica, outros
para os quais a crítica provavelmente torce o nariz, premiados, de
qualidade estética, de qualidade comercial. Em síntese, filmes de
Em Cartaz
muitos tipos diferentes. Contudo, uns poucos elos comuns têm entre
si: o filme tem de ter algum potencial de ensinamento, algum valor,
e tem de tratar de coisas positivas, alinhar-se, por assim dizer, com o
Bem. O julgamento de cada um fica por conta do leitor.
O autor e sua relação com o cinema
Em minha vida de empresário e consultor de Recursos Humanos,
a busca do aprendizado deve ser constante. Como gosto muito de
cinema e percebi seu potencial como instrumento de aprendizagem,
sempre cultivei o hábito de aprender ao mesmo tempo em que tinha
agradáveis horas de diversão, em meu tempo livre, por meio de bons
filmes.
Meu gosto é variado. Todos os filmes que apresento me
agradaram, uns mais, outros menos. Há muita coisa boa a aprender
com cada um.
Espero contribuir para que o leitor também descubra, se já não o
fez, o cinema como instrumento de aprendizado e que passe a usá-lo
com mais intensidade para esse fim.
Vivendo com arte na
aposentadoria *
Assim como os atletas se submetem a treinamentos específicos
para enfrentar as competições, os trabalhadores devem estar
preparados para o dia-a-dia nas empresas. Para tanto, existem em
algumas companhias que oferecem desde cursos de preparo físico,
propriamente dito, como ginástica para combate direto à ociosidade,
até exercícios específicos para se evitar as famosas lesões por esforço
repetitivo (LER) ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao
Trabalho (DORT).
Há, em muitas empresas, ambientes com equipamentos de
academias, além de planos médicos de incentivo à boa saúde e
qualidade de vida, tudo enfim, demonstrando que há uma grande
preocupação enquanto as pessoas estão na ativa, mas nenhuma com
relação a após a aposentadoria.
Existe esse aparato de fórmulas para “preparar” o colaborador
para o exercício do trabalho, ajudando-o a construir a carreira enquanto
leva vida saudável, e no entanto são escassas as providências para
orientar o trabalhador no terço final da vida profissional. O filme As
confissões de Schmidt mostra bem o que isso significa. Embora o autor
* Este capítulo é a transcrição de artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em
1º -06-2003, sob o título “O Filme e a Aposentadoria”.
Em Cartaz
Alexander Payne tenha chamado seu filme de “comédia dramática”,
ele tem muito a ver com a realidade.
História
Em resumo, o filme mostra a história de Warren Schmidt que,
aos 66 anos, no cargo de assistente do vice-presidente de uma grande
companhia de seguros, se aposenta, com direito a jantar de despedida,
discursos e tudo o que caracteriza um “bota fora”. Logo que chega
em casa, após as despedidas dos amigos, a esposa lhe entrega um
roupão, símbolo máximo do ócio, presente da única filha e do futuro
genro, que moram longe.
Schmidt, livre das tarefas na empresa, não dorme direito e fica
sem saber o que fazer. “Zapeia” a televisão, lembra das chatices do
casamento que já dura 40 anos como, por exemplo, sua mulher tirar
da bolsa a chave do carro muito antes de chegar ao veículo. Num
dos primeiros dias de aposentado, a esposa lhe faz uma surpresa.
Serve o café da manhã no interior do “motor-home”, uma espécie de
ônibus- casa, estacionado ao lado da residência, novo em folha, que
compraram para viajar quando ele estivesse desimpedido do serviço.
Schmidt reage com indisfarçável tédio.
Seu sucessor na empresa, um jovem seguro de si, porém
pretensioso e arrogante, agradeceu durante o jantar de despedida a
tranqüila “passagem de bastão”, e disse que Schmidt poderia ir ao
escritório quando bem desejasse. Tomando o convite ao pé da letra,
e acreditando que ainda seria útil, logo na primeira semana Schmidt
vai ao antigo emprego, mas é recebido com frieza pelo sucessor.
Volta para casa e diz à mulher que esteve no escritório. Conta, porém,
que foi chamado lá para ajudar o jovem sucessor a resolver alguns
problemas.
A situação do recém-aposentado fica ainda mais problemática
com a súbita morte da mulher, vítima de mal fulminante. Viúvo,
Schmidt tenta se aproximar de sua única filha Jennifer, da qual sempre
esteve distante.
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Ricardo de Almeida Prado Xavier
Boa parte da história vai sendo narrada em cartas que Schmidt
escreve para Ndugu, uma criança africana, órfã, que ele “adotou”
mediante o pagamento mensal de 22 dólares, depois de ver um
programa de ajuda humanitária exibido na televisão. O menino tem
apenas seis anos, mas Schmidt escreve a ele, contando suas agruras
como se falasse a um adulto. Sente profunda saudade da companheira,
a ponto de abrir seus vidros de perfume para sentir o odor da mulher
amada. Cheira até os vestidos que ela usava, em dramáticas cenas de
tristeza. Mostra toda sua fúria, porém, ao descobrir entre os achados
da falecida, um maço de cartas de um amante, num caso passado há
30 anos. Vai à procura do amante, seu melhor amigo, e dá-lhe um
soco de vingança. Esta é a terceira perda de Schmidt em menos de
um mês.
Desnorteado, sem amor e sem trabalho, Schmidt decide viajar
até outro Estado para visitar a filha. Seu carro enguiçou e, por isso, ele
viaja no motor-home. Envolve-se em peripécias até que chega à casa
da mãe do noivo e tenta ali demonstrar à filha sua insatisfação com
o casamento. Jennifer explica que ele sempre foi “um pai ausente”
e que estaria na igreja no dia seguinte para casar-se, com ou sem a
presença do pai. Sem alternativa, Schmidt vai à cerimônia e à festa.
Faz discurso em prol da união da filha com o vendedor de carros e até
elogia a família do noivo, contrariando tudo o que vinha pregando.
Volta para casa e encontra em meio a sua correspondência uma
carta da freira responsável pelos cuidados a Ngudu. Nela, a religiosa
explica que o menino, de apenas seis anos, não sabia ler, mas entendia
o drama do “padrinho”. Por fim, comunica que o órfão havia feito para
Schmidt um desenho, anexo à carta. Ao abrir, lá está, com rabiscos,
um adulto segurando uma criança pela mão. O filme termina aí, com
Schmidt tomado de forte emoção ao ver “um pai segurando a mão
de um filho” no desenho do pobre Ngudu.
Mensagem
O filme chama a atenção para fatos que nós, como consultores,
estamos acostumados a testemunhar: muitas pessoas se deixam
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Em Cartaz
absorver pelo trabalho, sem perceber que o mundo à sua volta continua
girando. Schmidt exercia como poucos sua função: era exímio
calculador de prêmios de seguro; não tinha, porém, a menor idéia de
como conviver com a família. Passou 40 anos entre as quatro paredes
de um escritório e, assim, não percebeu que sua função também
foi “aposentada” pelo mercado. Tanto é que, ao ser substituído por
um jovem, não restou a Schmidt ensinamento algum que pudesse
transmitir ao sucessor.
Lições de qualidade de vida além trabalho
São muitos os ângulos pelos quais se pode interpretar a história.
Fica evidente, porém, que ainda temos no mundo contemporâneo
pessoas sem o devido preparo para o fim da longa jornada marcada
pela aposentadoria. Preferem imaginar que cabe à empresa tomar
alguma providência para que, quando ocorrer a aposentadoria, tudo
se encaixe de forma mágica.
Por isso, além de trabalhar bem conforme os preceitos da
empresa, é preciso estar preparado não apenas para o fim da longa
jornada que culmina com a aposentadoria, mas, principalmente, para
o término da jornada de cada dia. É a arte de “recarregar baterias”.
Isso passa pelo convívio familiar, pelo bate-papo descompromissado
com os amigos, e até por idas ao teatro e ao cinema para assistir a
filmes como As confissões de Schmidt. O sucesso está em conseguir
compatibilizar dedicação tanto ao trabalho quanto à família, evitando
as surpresas do personagem principal.
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Ficha Técnica
Título: As confissões de Schmidt (About Schmidt)
Gênero: Drama
Duração: 124 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2002
Estúdio: New Line Cinema/Avery Pix
Distribuição: New Line Cinema
Direção: Alexander Payne
Roteiro: Alexander Payne e Jim Taylor, baseado em livro
de Louis Begley
Produção: Michael Besman e Harry Gittes
Música: Rolfe Kent
Direção de Fotografia: James Glennon
Desenho de Produção: Jane Ann Stewart
Direção de Arte: T.K. Kirkpatrick
Figurino: Wendy Chuck
Edição: Kevin Tent
Elenco: Jack Nicholson (Warren Schmidt); Hope Davis
(Jeannie); Dermot Mulroney (Randall Hertzel); June
Squibb (Helen Schmidt); Kathy Bates (Roberta Hertzel);
Howard Hesseman (Larry); Len Cariou (Ray); James
Crawley (Dave Godberson); Tung Ha (Phil Choi); Cheryl
Hamada (Saundra); Christine Belford; Josh Geller; Jim
Kay; Robert Kem.
Premiações
 Duas indicações ao Oscar: Melhor Ator (Jack Nicholson)
e Melhor Atriz Coadjuvante (Kathy Bates).
Ganhou dois Globos de Ouro: Melhor Ator - Drama
(Jack Nicholson) e Melhor Roteiro. Teve também três
indicações: Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor e Melhor
Atriz Coadjuvante (Kathy Bates).
Uma indicação ao BAFTA, na categoria de Melhor Ator
(Jack Nicholson).
Kramer vs. Kramer –
trabalho e família com
equilíbrio
Introdução
Quando uma pessoa quer efetivamente conquistar um emprego,
ela se torna muito mais capaz de consegui-lo. Uma forte pressão
interna faz com que o indivíduo não só fique mais apto a localizar
oportunidades de trabalho, mas também se torne mais eficiente em
lidar com potenciais empregadores. Alguém que realmente quer o
emprego torna-se mais persuasivo, firme e confiável.
Nem sempre, porém, essa força está presente. Freqüentemente
ela depende de algo mais – demanda que a pessoa esteja realmente
“resolvida” e saiba o que quer na vida. Gente que conhece bem seus
valores, que tem convicção interior, que sabe o porquê de suas buscas
tem a motivação necessária para lidar com as decisões e ações da
carreira mais eficientemente.
Em Cartaz
Muitas vezes a pessoa não tem nada disso porque está no caminho
errado, pegou “o barco errado”, como se diz. Esse barco errado tem a
ver com relacionamentos. Quantas pessoas efetivamente se dão conta
de como seu comportamento afeta os demais? Muitos não fazem a
menor idéia do que são, para os outros, e do impacto, às vezes negativo,
que seu modo de ser traz sobre a vida alheia. Tomar consciência
disso é um primeiro passo para uma mudança verdadeira, que afete
positivamente não só as relações mas também a própria qualidade da
vida de quem muda.
Eventualmente um choque é benéfico, por ocasionar uma crise
que leve o indivíduo a questionar quem é, qual é o seu papel, quais são
os valores que têm orientado sua vida, a que tais valores levam, como
seus valores e comportamento afetam aqueles com quem convive.
Esse questionamento produz mudanças comportamentais
significativas e profundas. Se conduzida com sabedoria, a crise cria
uma nova pessoa, com novos valores, novos papéis, maior equilíbrio,
relações mais verdadeiras e espontâneas. Enfim, uma pessoa mais
verdadeiramente feliz e não apenas uma pessoa pretensamente
feliz.
Viver com mais equilíbrio, espontaneidade, autoconsciência
produz resultados positivos em cada atividade específica da vida
social e do trabalho, como a busca de um novo emprego. Quem é que
se apresenta pretendendo um emprego, qual o grau de convicção que
há por trás dessa busca, que nível de determinação tem o candidato,
por que ele quer o emprego e o que esse significará para ele? Tudo
isso conta muito.
O filme Kramer vs. Kramer, que recebeu 5 Oscars em 1980, traz
ensinamentos valiosos sobre todas essas questões.
Uma história moderna
O modelo antigo dizia: o homem trabalha fora, concentra-se em
ganhar o pão, e a mulher cuida do lar e da educação dos filhos. No
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Ricardo de Almeida Prado Xavier
decorrer dos anos 70 os papéis masculino e feminino entraram em
processo de revisão, com a ampliação da participação feminina na
força de trabalho. A história de Kramer vs. Kramer é muito oportuna
nesse contexto.
O publicitário Ted Kramer (Dustin Hoffman) vive de tal modo
concentrado no trabalho que não consegue manter contatos afetivos
espontâneos com a mulher Joanna (Meryl Streep) e o filho, o garoto
Billy (Justin Henry). De repente, justamente quando sua carreira
profissional atingia o ponto mais alto, é surpreendido pela mulher, que
o abandona com o filho. Passa então a viver como profissional com
responsabilidades domésticas, no início completamente despreparado
para as atividades do lar e para evitar o impacto dessas no trabalho. A
tarefa de cuidar do filho, que se torna central em sua vida, compromete
a sua produtividade no trabalho, mas propicia um rico aprendizado
emocional. Inicialmente, além de suportar a carga emocional do
abandono pela mulher e das dificuldades em lidar com as tarefas
domésticas, tem problemas de harmonização emocional com Billy, que
vem tendo dificuldade também para lidar com o abandono pela mãe.
A fase de adaptação à nova vida de dupla responsabilidade apresentou
conseqüências sérias no emprego: após inúmeras e ineficientes
advertências, como Ted não conseguia efetivamente dar conta do
recado na agência publicitária em que trabalhava, é demitido pelo
chefe. Por uma infeliz coincidência, o desemprego chegou justamente
quando a ex-mulher Joanna reapareceu, oito meses após o abandono do
lar, pleiteando a custódia do filho que, negada por Ted, levou a disputa
para o tribunal, em que o desemprego contaria significativamente
contra ele e sua pretensão de ficar com o filho. Nesse ínterim já vinha
tendo uma significativa melhora de desempenho como pai e “donode-casa”. Ele faz um esforço extraordinário e consegue um emprego
em um dia, uma véspera de Natal, mas, devido ao apelo emocional do
suposto amor maternal, ao final da disputa no tribunal Joanna ganha
a causa. Ted comunica o fato ao filho, que o recebe com tristeza e
apreensão quanto ao futuro – em demonstração de que a essa altura
já se sentia feliz, adaptado à sua nova “família” composta apenas de
filho e pai-mãe. Quando Joanna se apresenta para retirar o filho da casa
de Ted, uma nova surpresa: ela decide que não o levará; abriu mão do
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Em Cartaz
direito que lhe conferiu o tribunal, por ter concluído que o filho tem
efetivamente uma família, uma casa, e que está feliz assim.
Mensagens
Para o interesse mais específico de orientação de carreira, a
mensagem básica é a seguinte:
- A busca de um emprego, como qualquer outra atividade voltada
para o sucesso no trabalho, depende da energia interior, que vem de
uma vida equilibrada e com sentido.
Para interesses mais genéricos, a mensagem é:
- Papéis masculinos e femininos, como os relacionados com a
paternidade, são culturais e podem evoluir para adequar-se melhor à
realidade do mundo moderno.
Recomendações
Especialmente recomendado para profissionais em transição
profissional e em processo de mudança no ambiente familiar. Nas
empresas, pode ser encaixado em eventos sobre orientação de carreiras,
em preparação para mudanças organizacionais, em seminários sobre
gerenciamento, particularmente na discussão sobre impacto da vida
privada sobre a produtividade.
Principais lições do filme
A imersão do espectador na história de Kramer vs. Kramer traz
sete lições que queremos destacar, entre outras também relevantes:
- É possível e fácil cair na armadilha de viver burocraticamente, isto
é, viver de modo mecânico e inconsciente. Isso se dá particularmente
quando o indivíduo concentra-se excessivamente em algumas metas
(como o trabalho) e perde contato com outras facetas de sua vida. O
publicitário Ted Kramer, perseguindo o sucesso profissional, vivia
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Ricardo de Almeida Prado Xavier
assim e por isso não conseguia entrar em verdadeira empatia com
sua esposa, não conseguia nem ao menos ouvi-la, perceber que ela
era infeliz. Viver de modo burocrático, ainda que a curto prazo possa
aparentemente trazer resultados, não é produtivo, pois mais cedo ou
mais tarde a crise virá, afetando todas as áreas da vida, inclusive o
trabalho.
- Todos somos orientados por valores, mas nem sempre os
valores que nos orientam são bons. Ao privilegiar excessivamente o
sucesso profissional, vivendo em desequilíbrio, Ted Kramer não só
se achava mais vulnerável como também era menos feliz, sem se dar
conta disso. A crise permitiu uma revisão de seus valores, com base
na qual ele renovou-se para a espontaneidade e a maior felicidade.
- Aquilo que somos é produto de escolhas. Se alguém não
tem tempo para o filho é porque escolheu usar o tempo com outra
coisa. Muitas vezes não nos damos conta de que nossa vida é feita
das escolhas que nós mesmos fazemos. Certamente as pressões
externas existem, mas cabe ao indivíduo escolher, respondendo de
um jeito ou de outro a elas. Boas escolhas são fruto de reflexão e
não meramente de ir “empurrando com a barriga” sem uma maior
consciência da própria vida que se leva. Diante da crise, Ted Kramer
foi forçado a fazer escolhas – e fez boas escolhas. Ao final do processo
já apresentava ótimo desempenho no lar e mostrava sinais de ter
superado as deficiências no trabalho (que haviam sido ocasionadas
pelo trauma da separação). Em uma cena significativa, levou o filho
a ver o novo escritório – isto é, harmonizou família e trabalho.
- Equilíbrio – eis a palavra-chave para o profissional moderno.
Não pode esquecer-se de seu papel familiar e também não pode deixar
que os problemas familiares comprometam sua eficiência no trabalho.
Com sabedoria pode-se harmonizar 110 % de dedicação, como queria
o chefe de Ted Kramer, com relações efetivamente qualitativas no lar.
É um desafio a ser superado.
- A outra palavra-chave é aprendizado: deve-se aprender a viver
no lar e aprender a viver produtivamente no trabalho sem prejuízo
das relações familiares. Igualmente deve-se aprender as emoções: a
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Em Cartaz
senti-las, expressá-las, administrá-las. Ted Kramer vivia apenas no
“modo” racional e isso acabou complicando sua vida.
- Está mais que em tempo de assumir que os papéis tradicionais
de homem e mulher há muito deixaram de ser eficientes. É preciso
reinventar esses papéis e as relações entre eles. Mais de 20 anos depois
de Kramer vs. Kramer, que levou à consolidação de um processo de
revisão das idéias sobre papéis masculinos e femininos, ainda há gente
não só pensando, mas também agindo com idéias que já não servem
ao mundo atual.
- A pessoa, por assim dizer, resolvida é mais eficiente nas coisas
específicas, como na busca do emprego. A pessoa resolvida é a que vive
de acordo com valores refletidos e assumidos conscientemente, que
mantém a espontaneidade nos comportamentos, que sabe o que deseja
e por que. Ted Kramer, quando teve de conquistar um novo emprego e
decidiu conquistá-lo em 24 horas, imbuiu-se de extraordinário poder
de realização. Isso transmite energia, entusiasmo, firmeza e segurança
aos demais; portanto, possibilita a verdadeira liderança. Diante da
hesitação do assessor de recursos humanos que não queria enviá-lo
ao potencial empregador na véspera do Natal, foi assertivo e firme,
superando a barreira da acomodação e do conservadorismo. Diante
da hesitação dos potenciais empregadores em admiti-lo em processo
sumário e rápido, igualmente mostrou a firmeza da convicção, impôs
uma regra do jogo baseada na pureza das intenções e na firmeza
de propósitos. Os futuros empregadores perceberam que o mesmo
empenho demonstrado na entrevista refletir-se-ia na vontade de dar
tudo de si, de acertar no trabalho, algo que por si só já justificava a
contratação.
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Ficha Técnica
Título: Kramer vs. Kramer
Gênero: Drama
Duração: 101 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1979
Estúdio: Columbia Pictures Corporation
Direção: Robert Benton
Roteiro: Robert Benton, baseado em livro de Avery
Corman
Produção: Richard Fischoff e Stanley R. Jaffe
Música: Herb Harris e John Kander
Direção de Fotografia: Nestor Almendros
Desenho de Produção: Paul Sylbert
Figurino: Ruth Morley
Edição: Gerald B. Greenberg
Elenco: Dustin Hoffman (Ted Kramer); Meryl Streep (Joanna
Kramer); Jane Alexander (Margaret Phelps); Justin Henry
(Billy Kramer); Howard Duff (John Shaunessy); George
Coe (Jim O’Connor); JoBeth Williams (Phyllis Bernard);
Bill Moor (Gressen); Howlard Chamberlain (Juiz Atkins);
Jack Ramage (Spencer); Jess Osuna (Ackerman); Ellen
Parker (Professora)
Premiações
Cinco Oscars, em 1980: Melhor Filme, Melhor Diretor,
Melhor Ator (Dustin Hoffman), Melhor Atriz Coadjuvante
(Meryl Streep) e Melhor Roteiro Adaptado.
Recebeu ainda outras quatro indicações, nas categorias
de Melhor Fotografia, Melhor Ator Coadjuvante (Justin
Henry), Melhor Atriz Coadjuvante (Jane Alexander) e
Melhor Edição.
Obteve ainda quatro Globos de Ouro: Melhor Filme
- Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator - Drama (Dustin
Hoffman) e Melhor Atriz Coadjuvante (Meryl Streep).
Teve quatro outras indicações, nas categorias de Melhor
Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Justin Henry), Melhor
Atriz Coadjuvante (Jane Alexander) e Melhor Revelação
Masculina (Justin Henry).
Quem está disposto
a pagar o preço da
ambição
A ambição não é uma boa conselheira. Quando levada ao
extremo, pode conduzir a um caminho que, ainda que inclua o
sucesso, traz a infelicidade. Os personagens de O preço da ambição
são infelizes bem-sucedidos. O filme mostra a evolução do jovem
sonhador até o bem-sucedido, mas amargo e cético executivo da
indústria do cinema. Vale a pena? É uma questão a ser respondida à
luz dos valores pessoais.
Todavia, mesmo as escolhas mais éticas e qualitativas requerem
plena adesão do indivíduo para que levem a realizações de natureza
superior. Os personagens centrais do filme, deixando-se de lado
o julgamento moral, mantiveram a coerência com suas escolhas e
atingiram o sucesso meritoriamente nesse aspecto.
Se, por um lado, a ética duvidosa não é uma lição boa para
ninguém, por outro, a força em aceitação de seus compromissos é.
Nesse aspecto os personagens ensinam.
Em Cartaz
Uma história de ambição na escolha
pessoal
O jovem Guy (Frank Whaley), recém-saído de uma faculdade
de cinema, está iniciando aquilo que se imagina ser o emprego ideal:
a posição de assistente do famoso diretor de um grande estúdio,
Buddy Ackerman (Kevin Spacey). Logo nos primeiros minutos do
novo emprego ele tem uma visão clara de como as coisas serão.
Percebe que terá de aturar os caprichos absurdos do chefe, aceitar
humilhações, realizar tarefas desnecessárias e estafantes, “entregar
a alma” ao chefe, abandonar qualquer plano de vida pessoal. Como
compensação, após alguns anos de trabalho pulará para uma posição
importante na indústria do cinema, como aconteceu com os outros
assistentes de Buddy.
Guy conhece Dawn Lockard (Michelle Forbes), que havia ido
entregar um roteiro a Buddy e tentar convencê-lo a filmá-lo. Interessada
no apoio do assistente Guy, que julga relevante para seus objetivos,
Dawn convida-o para saírem e acaba surgindo um romance entre os dois.
Com a evolução dos acontecimentos no estúdio e no relacionamento
entre chefe e assistente, Guy convence Buddy a transformar o roteiro
de Dawn em filme e ele e ela passam a trabalhar nos ajustes finais do
roteiro. A vida amorosa de ambos, entretanto, vem sofrendo devido à
dedicação integral de Guy aos caprichos do chefe, o que lhe tira todo
o tempo que poderia dedicar à namorada.
Após uma briga entre Guy e Dawn, ele resolve telefonar para ela
propondo ir à sua casa, mas ela diz que não pode recebê-lo. Marcam
para depois e ele tenta dizer que a ama, mas igualmente hesita e
deixa para depois. Assim que desliga, ele liga para o chefe que o
vinha chamando insistentemente pelo bip. No meio da conversa,
humilhante e tensa como sempre, Buddy interrompe para atender
uma ligação, mantendo Guy ao fone, pretensamente sem ouvir. Como
Buddy se atrapalha ao fazer a conexão com o terceiro telefone (era
Dawn) chamando, Guy ouve a conversa. Nesta, Dawn está pedindo
para conversar com Buddy e propõe-se a ir à casa dele à meia-noite.
Nessa conversa, Buddy diz que demitirá Guy. Logo a seguir, ele volta
24
Ricardo de Almeida Prado Xavier
na linha com este e, sem saber que ouvira tudo, continua a conversa
e o demite.
Após a ligação, decepcionado e em uma descarga de ira pela
humilhação e estresse acumulados em decorrência do tratamento que
recebia do chefe, Guy vai à casa dele, invade-a, aponta uma arma
para ele, amarra-o e começa a torturá-lo e humilhá-lo, esperando pela
namorada. Quando ela chega estabelece-se um intenso diálogo e ela,
acusada de traição, alega que iria à casa de Buddy para defender Guy,
mas este diz que esta era sua parceira de sexo já há muito. Desesperado
com a intensidade crescente que o diálogo toma, chamado a ver os
vários ângulos da situação, Guy atira, mas em Dawn... Nas cenas
seguintes, ele está colocado em uma sala nova, promovido, cuidando
do lançamento do filme escrito por Dawn. Buddy continua seu chefe,
mas agora o vê como parceiro que está crescendo para posições de
comando.
O filme joga com a seguinte questão: Guy é levado a escolher entre
o caminho da dedicação integral ao trabalho, que no caso inclui abrir
mão de sentimentos e ética, ou o caminho dos sentimentos humanos
mais puros e da vida pessoal com maior peso. Por sua ambição, ele
opta pelo primeiro, apresentado no filme como uma condição de
crescimento e sucesso na indústria do cinema, aqui focalizada como
palco de intensas e intrincadas intrigas e jogos de poder, no qual os
parceiros estão dispostos a tudo para atingir o sucesso.
Há uma frase que é inúmeras vezes repetidas a Guy, durante
seu duro aprendizado de assistente, e depois ele aparece repetindo-a
a aspirantes ao sucesso. É a seguinte: “Você tem de saber bem o que
você realmente quer.” Quer dizer: ou um caminho, ou outro. Não há
meio-termo.
Mensagem
O filme é rico em mensagens, principalmente de crítica à
ideologia do sucesso dominante, mas quero destacar aqui uma que
também pode ser extraída dele: o sucesso na carreira implica definição
25
Em Cartaz
muito clara dos próprios valores e tomada de posição firme quanto a
eles. No caso de Guy, podemos dizer que os valores assumidos são de
ética duvidosa, mas não se pode contestar o fato de que ele fez a sua
parte naquele jogo, ao assumi-los, e portanto merece o sucesso que o
jogo promete.
Pode-se extrair lições para as carreiras de ética inquestionável
também. Por exemplo:
- Defina-se com clareza sobre o que você realmente quer.
- Quer atingir o sucesso? Está disposto a pagar o preço? Está disposto
a trabalhar duro, a abrir mão de outros objetivos, para atingi-lo?
- Aceita submeter-se ao desgaste necessário (por exemplo, aturar
um chefe caprichoso)?
Recomendações
O filme pode servir de instrumento de reflexão e análise em
treinamentos gerenciais, por exemplo. Pode levar a discussões sobre
missão pessoal, escolhas, preço a pagar por elas. Igualmente pode ser
bem usado em discussões sobre relacionamento entre o gerente e o
subordinado, os eventuais processos neuróticos que aí se estabelecem,
como evitá-los, os limites éticos do uso do poder.
Lições: defina sua missão, aceite-a,
assuma-a
- O profissional não precisa trilhar o caminho da ambição
desmesurada que traz a cegueira ética. Mas tem de definir com clareza
sua missão pessoal – “O que você realmente quer?” – e pagar o preço
para a sua realização.
- Muita gente deseja o sucesso, mas poucos pagam o preço
necessário.
Em quase todas as áreas o sucesso exige compromisso e
envolvimento, o que acarreta fortes pressões e muita dedicação.
26
Ficha Técnica
Título: O preço da ambição (Swimming With Sharks)
Gênero: Drama
Duração: 95 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1994
Estúdio: Cineville
Direção: George Huang
Roteiro: George Huang
Produção: Steve Alexander e Joanne Moore
Música: Tom Hiel
Direção de Fotografia: Steven Finestone
Desenho de Produção: Cecil Gentry e Veronika Merlin
Direção de Arte: Karen Haase
Figurino: Kirsten Everberg
Edição: Ed Marx
Elenco: Kevin Spacey (Buddy Ackerman); Frank Whaley
(Guy); Michelle Forbes (Dawn Lockard); Benicio Del Toro
(Rex); T. E. Russell (Foster Kane); Roy Dotrice (Cyrus
Miles); Matthew Flint (Manny); Patrick Fischler (Moe); Jerry
Levine (Jack); Sabryn Genet.
Premiação
Uma indicação para o Independent Spirit Award - Melhor
Ator (Kevin Spacey).
Pantaleão consegue
organizar o serviço de
visitadoras
Tudo pode ser organizado
Uma nova tarefa, um meio pouco propício ao exercício da
rigorosa ética dos quartéis, um oficial perfeccionista que aceita uma
missão informal que o coloca na fronteira da ética. De um lado, um
forte senso de responsabilidade; de outro, a descoberta de um universo
que contraria bastante o mundo organizado do trabalho racional e
disciplinado dos quartéis. Eis que o capitão Pantaleão Pantoja aceita
a missão e põe-se a executá-la com sua habitual eficiência.
A missão sui generis de Pantoja é organizar um serviço de
atendimento sexual. Mas será que se pode organizar o impulso
sexual? Até que ponto? Quais os riscos? Conciliando dois lados de sua
personalidade, o capitão cumpre o seu dever, não sem experimentar
os conflitos decorrentes da situação.
Em Cartaz
No exercício da missão, começa a desagradar sua jovem esposa
e sofre de culpa por isso, mas não deixa que tais culpas o impeçam
de fazer o que deve ser feito. Segue em frente. A seguir, encontra-se
com suas próprias tentações, ao apaixonar-se por uma bela prostituta,
que o leva a tomar decisões menos objetivas e racionais no trabalho,
agravando seus conflitos interiores.
De certa forma, Pantaleão sai do mundo asséptico da mais
rigorosa moral, entra no mundo dos instintos e impulsos mais
íntimos e poderosos, e emerge do outro lado intacto, conciliando
cumprimento do dever e expressão da natureza humana. Originário de
interessante romance homônimo de Mario Vargas Llosa, “Pantaleão
e as Visitadoras” traz a lição da tensão entre a responsabilidade e o
instinto, entre o dever e a vontade. De certa forma, mostra que a virtude
acha-se no equilíbrio e que nas duas dimensões há espaço para um
exercício profissional digno e ético.
Um profissional e uma tarefa sui generis
Um dedicado oficial do exército peruano, o capitão Pantaleão
Pantoja (Salvador del Solar) é convocado para uma missão especial
secreta. Com um histórico de excelentes serviços prestados ao exército,
foi escolhido por sua competência para criar e implantar – com a
identidade encoberta – um Serviço de Visitadora para Guarnições,
Postos de Fronteiras e Afins (SVGPFA). Na verdade, prostitutas para
saciar os desejos carnais dos jovens e vigorosos soldados.
A missão originou-se do seguinte problema: na região de Iquitos
estavam ocorrendo muitos estupros atribuídos a soldados do exército.
O alto comando teve, então, a idéia de providenciar visitas regulares
de prostitutas com a finalidade de satisfazer as necessidades fisiológicas
dos homens, evitando os ataques a mulheres sérias.
Pantaleão, casado com a bela Pochita (Mónica Sánchez), tem
a cabeça mais voltada ao dever e menos às demandas sexuais da
jovem esposa. Ele começa a organizar o serviço de visitadoras com
a tradicional disciplina e aplicação que caracterizou seu histórico de
30
Ricardo de Almeida Prado Xavier
servidor do exército. Conhece e passa a contar com a ajuda inestimável
de uma velha cafetina de um bordel que estava prestes a fechar, a
meretriz Chuchupe (Pilar Bardem), que passa a ser sua associada
no serviço. Extremamente organizado e perfeccionista, começa a
enfrentar o desafio de providenciar 104.712 “atendimentos” mensais
aos soldados, o que necessitaria de 2.271 prostitutas. Acontece que
ele só dispunha inicialmente, por restrições orçamentárias, de cinco,
mas perfeccionista e responsável, procura fazer o melhor possível
com o que tem à mão.
A eficiência do serviço revela-se logo e a atividade começa a
chamar a atenção, não só dentro das fileiras do exército, mas também
de um batalhão de homens civis sem mulheres que moram na região
Amazônica, por onde o barco colorido das “visitadoras” desfila com
regularidade. Na organização do serviço, a que Pantoja dedica-se de
corpo e alma, ele encontra-se com sua própria sensualidade e ela passa
a expressar-se integralmente na relação com a mulher. Conduzindo suas
tarefas com absoluta objetividade, ele vem a conhecer a Colombiana
(Angie Capeda), legendária e bela prostituta da região, que passa a
atrair seus olhares, levando-o a perder o foco e a disciplina. Pantoja
acaba apaixonando-se por ela, vivendo um intenso conflito de valores
em relação às suas responsabilidades de oficial e de culpa em relação
à sua esposa então grávida.
Começam a vazar aqui e ali notícias de que o exército peruano
está oferecendo serviço de prostituta a seus homens. O radialista
Sinchi (Aristóteles Picho), malandro que comanda o programa
radiofônico “A Voz do Sinchi”, oportunisticamente procura Pantoja
para chantageá-lo, sendo atirado ao rio por ordem deste. Isso enfureceu
o chantagista, levando-o a revelar nas ondas do rádio tudo o que estava
por trás do serviço das visitadoras. A mulher de Pantoja o abandona,
para sua tristeza, e ele passa a tentar reconquistá-la ao mesmo tempo
que mantém sua dedicação ao serviço que, com ajuda dos oficiais
do exército, tenta levar avante abafando as notícias do rádio (acaba
pagando suborno a Sinchi).
Um incidente trágico viria a pôr fim ao serviço de visitadoras:
um grupo de civis ribeirinhos tarados, após tentar em vão obter apoio
31
Em Cartaz
do alto comando do exército para usar o serviço, ataca o barco das
visitadoras. Militares aparecem em socorro e na confusão um dos
agressores acaba atirando em Olga, a Colombiana, que morre.
Entendendo que ela morreu a serviço da nação, Pantoja assume
sua identidade militar, enterra-a com honras e declara em público
a existência do serviço de visitadoras. Com o escândalo que se
estabelece ele é aconselhado a pedir baixa, mas recusa-se a fazê-lo,
sendo enviado para uma região longínqua como oficial responsável
pela alfabetização em uma área de alta porcentagem de analfabetos.
O amor ao exército e ao dever dão-lhe força para aceitar o serviço.
Para lá vai com a esposa e o filho recém-nascido. Ali volta à sua
antiga objetividade e racionalidade, empenhando-se de corpo e alma
na execução eficaz da nova tarefa. Mas, lembranças da Colombiana
fazem-no recordar daquele outro lado da vida.
Mensagem: disciplina, flexibilidade,
empenho
Pode-se destacar uma mensagem para aprendizagem: a disciplina,
somada à flexibilidade e ao empenho vence as tarefas mais desafiadoras
e inovadoras. O capitão perfeccionista teve de aprender as regras de
um mundo com o qual nunca convivera – usou sua vontade e seu
empenho para aprendê-las e fazer uma síntese positiva.
Recomendações
O filme pode ser usado para questionamento do que é eficiência,
as fronteiras entre o comportamento eticamente correto ou não no
mundo da direção, o conflito entre a vontade e o dever etc.
Também pode servir a uma discussão sobre fatores que levam
ao sucesso na realização de uma missão, sobre missões sui generis,
sobre aceitação de desafios.
32
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Lições de profissionalismo em ambiente de
impulsos
- A tarefa conduziu Pantoja ao mundo sem controle da sexualidade.
Ali ele se manteve profissional e bem direcionado à sua missão.
- Todos estão sujeitos à hesitação entre a vontade, as emoções e
o comando racional. Pantoja caiu e quase perdeu sua racionalidade,
mas soube recuperar-se.
- A dedicação ao trabalho é uma condição de sucesso, mas o
excesso pode levar à vivência exclusiva de uma dimensão da vida
que aliene coisas importantes. É necessário equilíbrio.
33
Ficha Técnica
Título: Pantaleão e as visitadoras (Pantaleón y las
visitadoras)
Gênero: Comédia/drama
Duração: 137 minutos
Ano de lançamento (Peru): 1999
Estúdio: America Producciones /Tornasol Filmes S.A.
Direção: Francisco J. Lombardi l
Roteiro: Giovanna Pollarolo, baseado em livro de Mario
Vargas Llosa
Música: Bingen Mendizabal
Direção de Fotografia: Teodoro Delgado
Edição: Danielle Fillios
Elenco: Angie Cepeda (Colombiana); Salvador del Solar
(Pantaleão Pantoja); Pilar Bardem (Chuchupe); Mónica
Sánchez (Pochita); Tatiana Astengo (Pechuga); Norka
Ramírez (Vanessa); Patty Cabrera (Lalita); Maricielo Effio
(Salomé); Gianfranco Breros (General Collazos); Gustavo
Bueno (Coronel López); Carlos Caniowski (Capelão
Beltrán); Sergio Galliani (Tenente Bacacorso); Aristóteles
Picho (Sinchi).
Premiações
Uma indicação ao Goya, categoria de Melhor Filme
Estrangeiro em Língua Espanhola.
Sete Kikitos de Ouro, no Festival de Gramado, nas
categorias: Melhor Filme, Prêmio da Audiência, Prêmio
do Júri, Melhor Diretor, Melhor Ator (Salvador del Solar),
Melhor Roteiro e Melhor Edição.
Melhor Ator (Salvador del Solar), no Festival de
Cartagena.
Grandes momentos em
um domingo qualquer
O que orienta o comportamento dos líderes? Dinheiro? Às vezes,
sim, principalmente – é óbvio – no mundo empresarial. Mas, nem só
de dinheiro vivem os líderes. Há ainda espaço para uma liderança
baseada em valores não mercantis. Essa tem uma força maior e,
se é possível ter o sucesso com a liderança baseada em dinheiro é
igualmente possível ter sucesso com a liderança calcada em valores.
Com um prêmio extra: uma vida mais rica e gratificante.
O filme Um domingo qualquer traz uma história de liderança
contrapondo três líderes: uma dona de equipe de futebol americano,
o técnico e um novato que se revela grande astro e líder informal.
Uma história de liderança orientada por
valores
Uma equipe de futebol americano vem passando por uma
campanha ruim. A dona da equipe, a herdeira Christina Pagniacci
(Cameron Diaz), anda insatisfeita, desejando mudanças para reverter
os resultados. Entre os focos da mudança acha-se Tony D’Amato (Al
Em Cartaz
Pacino), o técnico, pretensamente ultrapassado. Eis que o principal
artilheiro da equipe, Jack Rooney (Dennis Quaid), machuca-se em um
jogo e em seu lugar entra o estreante reserva William Beaman (Jamie
Foxx). Beaman logo se mostra espontâneo e diferente (vomita antes
de iniciar sua atuação na partida), chamando a atenção da imprensa.
Contudo, começa a revelar-se um grande jogador e torna-se o astro
da equipe. Sobe para a fama rapidamente e expressa em público um
pouco do que ele realmente é: alguém brilhante, líder, mas revoltado
e sedento de agressão, uma reação contra sua condição de negro e
segregado quando estava por baixo. A liderança de Beaman se faz
presente no campo, opondo-se à do técnico D’Amato, que ele julga
ultrapassado. No entanto, o estilo ácido de Beaman o leva a uma linha
de confronto com a equipe e D’Amato, empenhado na construção da
equipe e na defesa do time, reconstrói as relações, com um trabalho
de bastidores. O time acaba vitorioso no campeonato, com o capitão
Rooney, que contundido vinha-se achando em fim de carreira, tendo
logrado um feito memorável em um jogo, habilitando-se a aposentar-se
com honra e glória. A herdeira Christina Pagniacci, dando seqüência a
seus planos de renovação, substitui D’Amato no comando da equipe,
tendo preparado o terreno para ele sair com glória e, pretensamente,
“pendurar a chuteira”. Mas, na cerimônia de despedida, D’Amato
anuncia, para surpresa geral, que assumirá o comando de uma outra
equipe, que lhe dará amplos poderes para fazer o que acha correto.
E leva consigo o agora famoso e consagrado campeão Beaman,
com quem veio a estabelecer uma relação de parceria construtiva e
sólida.
O comportamento de D’Amato e o de Beaman formam um sólido
contraponto ao de Christina. E enquanto essa, diferentemente do pai,
é uma herdeira voltada e orientada para a manutenção da fortuna e
toma decisões com forte tônica mercantil, o técnico e o artilheiro
orientam-se por valores. O filme deixa um espaço para a sobrevivência
de todos e o sucesso de todos, mas deixa explícito que o sucesso de
maior valor é o dos que se mantêm fiéis e resgatam os valores reais
do jogo, da equipe, da competição.
36
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Mensagens para a correta orientação da
liderança
Três lições sobre liderança a considerar:
- Uma visão exageradamente mercantil não convém ao sucesso,
pois tende a afastar o líder das bases mais sólidas de sustentação do
empreendimento.
- Um líder formal que passa longa data na posição tende a adquirir
vícios. Em situação de crise, esses são confrontados e o líder pode
crescer, se adquirir a coragem de superá-los.
- Um líder informal, espontâneo, eventualmente tem na própria
força da espontaneidade um risco. Quando impulsos mais naturais
não são adequadamente controlados eles podem pôr tudo a perder.
Havendo um adequado gerenciamento, entretanto, tais impulsos
tornam-se poderosos suportes ao desenvolvimento organizacional.
Recomendações
Especialmente recomendado para reflexões sobre liderança:
- orientações e motivações do líder;
- forças e fraquezas decorrentes das diversas orientações;
- liderança formal x liderança informal;
- estilo do líder e eficácia.
37
Ficha Técnica
Título: Um domingo qualquer (ANY GIVEN SUNDAY)
Gênero: Drama
Duração: 165 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1999
Estúdio: Warner Bros. / Illusion Entertainment
Distribuição: Warner Bros.
Direção: Oliver Stone
Roteiro: John Logan e Oliver Stone, baseado em história
de Daniel Pyne e John Logan
Produção: Dan Halsted, Lauren Shuler Donner e Clayton
Townsend
Música: Richard Horowitz, Paul Kelly e Robbie
Robertson
Direção de Fotografia: Salvatore Totino
Desenho de Produção: Victor Kempster
Direção de Arte: Derek R. Hill e Stella Vaccaro
Figurino: Mary Zophres
Edição: Stuart Levy, Thomas J. Nordberg, Keith Salmon
e Stuart Waks
Elenco: Al Pacino (Tony D’Amato); Cameron Diaz (Christina
Pagniacci); Dennis Quaid (Jack Rooney); James Woods
(Dr. Harvey Mandrake); Jamie Foxx (William Beaman);
LL Cool J (Julian Washington); Matthew Modine (Dr.
Alie Powers); Jim Brown (Montezuma Monroe); Charlton
Heston (Comissário); Ann-Margret (Margaret Pagniacci);
Aaron Eckhart (Nick Crozier); Lauren Holly (Cindy
Rooney); Elizabeth Berkeley (Mandy); James Caviezel
(James D’Amato); Oliver Stone (Comentarista de TV);
Tom Sizemore.
Qual é a senha para
entender os fatos?
Introdução
O que é real? O que é apenas imaginação? Quem é “mocinho” e
quem é bandido? A vida oferece situações que nos levam a perceber
que essas certezas são frágeis. Muitas vezes aquilo que parece ser é
apenas a sombra da realidade. Igualmente muitas vezes condenamos
ou aprovamos comportamentos, mas nossa convicção para isso,
quando fatos novos aparecem, poderá não ter a mesma força.
Assim como precisamos de uma senha para entrar em um site de
computador, precisamos de uma para acessar a verdadeira realidade.
Nem sempre estamos preparados. Um hacker superqualificado pode
quebrar a senha, os níveis de segurança, e descobrir um mundo novo.
Quantos o conseguem.
O filme A senha joga com o conceito de realidade e realidade
aparente e as fronteiras frágeis entre uma e outra.
Em Cartaz
A história das “ilusões de óptica”
Gabriel Shear (John Travolta) é um espião a serviço do governo
americano, mas segue suas próprias normas e está disposto a proteger
o american way of life a seu modo. Não tem nenhum conflito ético
ao planejar e executar atos terroristas em todo o mundo, contra
forças igualmente terroristas que ameacem o país. Acima dele,
acha-se o senador Reisman (Sam Shepard). E em seu encalço está
permanentemente o agente A. D. Roberts, do FBI, comprometido com
a lei, que rejeita os métodos de Shear.
Shear planeja realizar um grande roubo, para usar o dinheiro
em financiamento de suas campanhas militares secretas. Para isso,
o caminho é a Internet, a invasão de um site bancário e a retirada de
milhões de dólares de contas de empresas de fachada. São empresas
que a DEA (organismo americano de combate às drogas) criou décadas
atrás e que hoje se acham desativadas, mas continuam tendo contas
milionárias acumulando juros.
O problema é: quem tem competência para quebrar a senha e
invadir o site? A linda associada de Shear, Ginger (Halle Berry), fica
encarregada de contatar e atrair para a operação um grande hacker,
Stanley Jobson (Hugh Jackman), que se acha em liberdade condicional
por ter invadido o site do FBI. Mostrando intenção de manter-se
incorruptível, até mesmo de manter-se afastado dos computadores
conforme decisão judicial, Jobson primeiramente rejeita qualquer
aproximação com Shear. Entretanto, tem um ponto fraco que Ginger
usa para seduzi-lo: sua filha Holly (Camryn Grimes) acha-se sob
guarda da mãe, ex-esposa de Jobson, hoje casada com um produtor
de filmes pornô que a usa nos filmes. Jobson hoje não tem a menor
condição de mover uma ação judicial para retomar a guarda da filha
e é obrigado a manter-se afastado dela, por decisão judicial que foi
obtida pelos advogados bem pagos do padrasto da menina. Ginger
oferece cem mil dólares a Jobson para uma mera entrevista com Shear.
Movido pelo dinheiro que seria usado em causa nobre, ele vai, porém
em circunstâncias especiais do encontro vê que não terá como não ser
o agente hacker de Shear, mas terá uma compensação de dez milhões
40
Ricardo de Almeida Prado Xavier
de dólares para quebrar o código e invadir o site do banco. Um nível
de aproximação e intimidade estabelece-se entre ele e Ginger, que
apresenta-se sigilosamente como agente da DEA infiltrada na equipe
do espião para proteger as contas e pegar o chefe de Shear. Durante
todo o tempo ele se mantém em profundo conflito de valores: ora
colaborando com Shear, fazendo algo que não aceita, para ver a filha,
ora fazendo o que Shear manda para sobreviver, ora colaborando para
salvar Ginger que pretensamente seria morta pelo espião.
Para a invasão do site é necessário acesso a computadores da rede
bancária. Shear planeja então a simulação de um roubo espetacular
a uma agência bancária, durante o qual Jobson faria o seu trabalho,
transferindo o dinheiro das empresas desativadas da DEA para contas
de fantasmas na Suíça. O lado menos romântico do charmoso terrorista
“do bem” Shear se revela então, com a disposição de aceitar a morte de
reféns e policiais para a realização da meta. Jobson, trabalhando dentro
da agência dominada pelo grupo, pretensamente faz as transferências,
e está livre para ficar com a filha, como Shear prometeu. No entanto,
tentou aplicar um golpe no espião, fazendo com que a transferência
seja só aparente, o que é descoberto por Shear. Este manda seus agentes
pegarem Ginger e pendurá-la pelo pescoço para morrer caso Jobson
não consiga reverter imediatamente o mecanismo de transferência
falsa e efetuar as reais. Para salvar Ginger, Jobson o faz, mas mesmo
assim Shear atira nela, dizendo que havia descoberto que ela era agente
da DEA. Agora o grupo vai abandonar a agência, que está cercada
pela polícia e por agentes chefiados por Roberts, e fugir. Há um
confronto espetacular e uma batalha de táticas para a fuga do bando,
incluindo a elevação de um ônibus por um helicóptero. Nas cenas da
fuga, Shear e seus aliados deixam o ônibus no topo de um prédio, e
tomam o helicóptero, mas Jobson consegue fazer justiça, explodindo
a aeronave com um tiro de bazuca.
A história caminha para o fim, com Jobson e o agente Roberts
reconhecendo o cadáver de Shear no necrotério. Lembranças de
palavras do detetive sobre a ilusão, mencionando que se acredita no
que se vê e ouve, fazem soar um sinal de alerta e dúvida na mente do
ex-hacker. Contudo, ele segue sua vida, agora com a filha (o padrasto
e a mãe foram assassinados, supostamente pelos aliados de Shear).
41
Em Cartaz
A figura de Ginger então aparece em um banco, consumando as
transferências. Nas cenas seguintes ela encontra-se com Shear em um
iate. Aparecem notícias de jornal de que um grande terrorista árabe
foi morto quando seu navio foi destruído por bombas.
O jogo das ilusões levou à cena das mortes de Shear, Ginger e
aliados, mas acham-se bem vivos e atuantes.
Mensagem
Nem sempre se pode confiar no que se está vendo ou ouvindo.
Uma realidade aparente encobre, eventualmente, os fatos reais.
Recomendações
Esse filme pode ser usado para alertar sobre a ilusão, para
desenvolver o senso de observação e o senso crítico, para treinar o
profissional a não ter “certezas” vulneráveis.
Todo profissional pode beneficiar-se com o acompanhamento
cuidadoso da história, mas em algumas profissões os benefícios serão
ainda maiores. Aqui incluem-se:
- auditores;
- pessoal de segurança;
- advogados;
- pessoal de compras e negociações.
Lições contra a vulnerabilidade da
percepção e visão pessoal
- O paradigma com que cada um opera é uma fonte de erro. Ele
traz um modo de perceber e julgar que eventualmente não representa
uma melhor avaliação e entendimento dos fatos.
42
Ricardo de Almeida Prado Xavier
- Primeiro, o paradigma nos ensina a ver e ouvir, mas nesse
ensinamento há limitações. Às vezes vemos e ouvimos o que não
existe e deixamos de assimilar os fatos reais. A Senha é um quebracabeças que nos leva a perceber que nossa percepção falha. Segundo,
o paradigma inclui julgamentos sobre o certo e o errado, o justo e
o injusto, mas esses são complexos. Se nos ativermos às primeiras
e mais simples respostas, podemos falhar na verdadeira justiça.
Pode-se cometer ataques terroristas para salvar um nação contra
ataques terroristas? Pode-se sacrificar algumas pessoas para evitar
que milhares morram? É correto aceitar um suborno para garantir a
presença da filha? Essas questões estão em jogo no filme.
43
Ficha Técnica
Título: A senha (Swordfish)
Gênero: Thriller
Duração: 100 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2001
Estúdio: Warner Bros/Jonathan Krane Group/Silver
Pictures/ Village Roadshow Productions
Distribuição: Warner Bros
Direção: Dominic Sena
Roteiro: Skip Woods
Produção: Jonathan D. Krane, Joel Silver e Paul Winze
Música: Paul Oakenfold e Christopher Young
Direção de Fotografia: Paul Cameron
Desenho de Produção: Jeff Mann
Direção de Arte: Geoff Hubbard e Jeff Wallace
Figurino: Ha Nguyen
Edição: Stephen E. Rivkin
Efeitos Especiais: Frantic Films
Elenco: John Travolta (Gabriel Shear); Hugh Jackman
(Stanley Jobson); Halle Berry (Ginger); Don Cheadle
(Agente A. D. Roberts); Vinnie Jones (Marco); Camryn
Grimes (Holly Jobson); Zach Grenier (A. D. Joy); Angelo
Pagan (Torres); Sam Shepard (senador Reisman).
Decisões, ação e
emoções no limite
Introdução
De onde vem a determinação que leva alguém a vencer grandes
desafios, como a escalada de uma montanha perigosa, em situação
de alto risco? Tudo começa em uma real compreensão da missão
pessoal. Depois, isso passa pela decisão – a firmeza para escolher o
certo, mesmo que a escolha seja muito difícil.
A vida impõe decisões difíceis e há necessidade de agir para
que elas se concretizem, por mais dolorosas que sejam. O indivíduo
não tem como evitá-las, mesmo que sejam aquelas decisões mais
angustiantes, envolvendo pessoas queridas, situações de perda
potencial séria. A tomada de decisões dessa natureza necessariamente
traz um potencial colapso emocional, que poderá agravar os males
resultantes da situação inevitável. É necessário decidir, por maior que
sejam o estresse e a angústia da decisão.
E, mais que isso: é imprescindível agir, para executar aquilo
que foi decidido, apesar do medo, da dor da perda e da dúvida. A
determinação leva ao sucesso.
Em Cartaz
Uma história de sentimentos e ação
Peter Garrett (Chris O’Donnell) e Annie Garret (Robin Tunney)
presenciaram a morte do pai, Royce Garret (Stuart Wilson), quando
os três estavam escalando e ocorreu um acidente que os colocou
em situação dramática. Royce, o terceiro na fila de uma corda de
segurança, a centenas de metros de altura, pediu ao filho Peter que
cortasse a corda, deixando-o cair, mas preservando Peter e a irmã
Annie, já que a corda não aguentaria o peso dos três. Peter se viu
diante de uma decisão das mais difíceis e optou por obedecer o pai,
cortando a corda.
A partir desse incidente, ele e a irmã seguiram caminhos
diferentes. Ele abandonou o alpinismo e tornou-se fotógrafo da
National Geographic. A irmã tornou-se jornalista, mas não abandonou
o alpinismo, destacando-se no esporte. Afastaram-se, com dificuldade
para a convivência em decorrência da lembrança traumática.
Um encontro se dá quando Peter, fotografando animais no
Paquistão, soube da presença da irmã na área e vai procurá-la. Ela
estava a serviço de um milionário excêntrico e “marqueteiro”, Elliot
Vaughn (Bill Paxton), que decidiu escalar a K2, montanha de 8.611
metros, na Cordilheira Karkoram, para lançar sua companhia aérea.
A escalada, para a data prevista, apresentava condições climáticas
completamente desfavoráveis, mas Vaughn decide ir assim mesmo,
contrariando conselhos dos maiores conhecedores de alpinismo. Annie
vai junto. Ocorre um acidente e eles se vêem presos a milhares de
metros de altitude, sob intensa tempestade. Peter organiza então uma
excursão de salvamento, voltando à prática do alpinismo.
Mensagem
Decisão e determinação formam a base de sucesso vencendo
grandes desafios.
46
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Recomendações
O filme é útil não só para profissionais da área gerencial, mas
também para profissionais de áreas como segurança ou que realizam
trabalhos que implicam decisões de risco.
Lições das dificuldades
Entre outras, pode-se atentar para as seguintes lições:
- Um dos grandes desafios para o ser humano é a tomada de
decisões. Nem sempre as decisões são adotadas em situação favorável,
agradável, amena. Muitas decisões envolvem perdas, dificuldades de
relacionamentos, riscos. Agradáveis ou não, a pessoa tem de decidirse. Peter Garret teve de tomar uma decisão das mais angustiantes:
cortar a corda e lançar o próprio pai à morte, para salvar a irmã e
a si mesmo. Neste momento, não decidir já é uma decisão – o que
poderia significar a morte dos três. Não obstante as enormes emoções
envolvidas, ele conseguiu ser racional e cortou a corda.
- As emoções estão sempre na base das decisões difíceis. Entre
elas, podemos destacar a frustração, a tristeza, o medo, a culpa. Um
administrador tem de decidir freqüentemente em situações de intenso
quadro emocional – a demissão de um funcionário, por exemplo. O
domínio das emoções, o aprendizado das decisões eficazes no quadro
emocional, são coisas imprescindíveis ao sucesso. Com o mesmo
quadro emocional, a morte do pai, Annie e Peter tomaram decisões
diferentes – ela continuou alpinista; ele abandonou a atividade. Os
caminhos diferentes levam não só a conseqüências, mas também a
resultados diferentes, tanto em termos subjetivos quanto em termos
objetivos.
- As emoções impulsionam à ação. A própria origem da palavra
emoção, o sentido etimológico, já diz isso. Emoção é algo que leva ao
movimento. Domínio emocional é usar as emoções “boas” (alegria,
amor) para impulsionar ações positivas e tirar das “ruins” (tristeza,
mágoa) decisões positivas e adequadas também. Montegomery
47
Em Cartaz
Wick (Scott Glenn) odiava o milionário Vaughn porque o via como
responsável pela morte de sua esposa – e desejava matá-lo. Contudo,
quando houve a oportunidade para consumar sua ação, decidiu não
fazê-lo, mantendo sua integridade.
- Emoções também “derrubam”. Dependendo de como o indivíduo
lida com elas, elas podem travar. Peter abandonou o alpinismo após
a morte do pai. Annie, por sua vez, relutava em pensar sobre o pai e
o incidente – negativa que a prejudicava. Há necessidade de evitar
essa “barreira” criada pelas próprias emoções. A pergunta é: “Você
não está fazendo isso ou aquilo porque decidiu não fazê-lo ou porque
tem medo (ou outra emoção que barra)?”
- O que deve comandar o ser humano: o coração (emoções)
ou a cabeça (racional)? As emoções são fundamentais, elas podem
fornecer a necessária energia, mas têm de ser acionadas a partir da
mente. O racional fica no comando, digamos assim, mas não deixa de
considerar as emoções. Decisões no limite (deixar uma pessoa morrer
para salvar duas, por exemplo) têm de ser racionais. No filme, vários
dos personagens tomam decisões no limite e fica uma lição de que os
genuinamente profissionais mantêm a racionalidade. Um profissional,
antes de mais nada, tem de ter controle emocional.
Nem tudo na vida são tarefas fáceis. Tarefas em situação limite,
quando o desafio é levado ao extremo trazem um forte estresse, mas
também trarão um extraordinário aprendizado.
48
Ficha Técnica
Título: Limite vertical (Vertical Limit)
Duração: 111 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2000
Estúdio: Columbia Pictures
Distribuição: Columbia Pictures / Sony Pictures
Entertainment
Direção: Martin Campbell
Roteiro: Robert King, baseado em roteiro de Robert King
e Terry Hayes
Produção: Martin Campbell, Robert King e Marcia
Nasatir
Música: James Newton Howard
Direção de Fotografia: David Tattershall
Desenho de Produção: Jon Bunker
Direção de arte: Nick Bassett, Jill Cormack e Kim
Sinclair
Figurino: Graciela Mazón
Edição: Thom Noble
Elenco: Peter Garrett (Chris O’Donnell); Elliot Vaughn (Bill
Paxton); Annie Garret (Robin Tunney); Montegomery Wick
(Scott Glenn); Monique Aubertine (Izabella Scorupco);
Rasul (Temuera Morrison); Royce Garret (Stuart Wilson);
Tom Mclaren (Nicholas Lea); Kareem Nazir (Alexander
Siddig); Taylor (Robert Taylor); Coronel Amir Salem (Roshan
Seth); Frank Williams (David Hayman); Malcolm Bench
(Ben Mendelsohn); Cyril Bench (Steve Le Marquand).
Sempre é tempo de
recomeçar
Há um bom princípio comportamental que diz que nunca é
cedo demais e nunca é tarde demais. A hora para fazer a coisa certa
é agora e o lugar é aqui. Não importa que o passado tenha sido uma
experiência de erros e nem importa que o futuro seja curto, pela
aproximação da morte. O personagem de Tempo de recomeçar acordou
para a necessidade de fazer algo significativo com sua vida justamente
quando, tendo tomado conhecimento de que estava com câncer, foi
demitido do emprego sem sentido ao qual se dedicava.
A casa, em termos simbólicos, é a representação do self, da psique
humana. Destruir uma casa e construir outra, o que faz o personagem
do filme, é mudar os conteúdos da própria mente. Mudando-se a mente,
muda-se a própria vida – o jeito de ver o mundo e os reflexos que o
mundo traz em função do que somos.
A casa é a vida
George Monroe (Kevin Kline) é um arquiteto que detesta o
trabalho, no qual está há 20 anos. Em algum momento de sua vida,
as coisas perderam a beleza e ele deixou que tudo se deteriorasse.
Em Cartaz
Divorciou-se, afastou-se do filho amado, abandonou os sonhos e
simplesmente ia levando a vida. Eis que agora descobriu que tem
poucos meses de vida, pois um câncer fora do controle consome seu
estômago. Coincidentemente, é demitido por resistir à modernização
de seu trabalho, construção de maquetes, que deveria passar a usar
intensivamente o computador. Então, algo acontece. Decide que
dedicará o tempo que lhe resta a construir uma casa, algo que sempre
sonhou.
A construção da casa começa a juntar os personagens centrais
da sua vida. A ex-esposa Robin (Kristin Scott Thomas), agora casada
e com dificuldade em lidar com o filho dos dois, Sam (Hayden
Christensen), um adolescente viciado radical, revoltado e difícil, que
odeia os pais e, por más companhias, vem correndo o risco de tornarse um traficante de drogas. George leva o filho para a casa velha em
que morava, que pretende demolir e colocar uma nova no lugar. Sua
idéia é aproximar-se do filho, nas férias de verão, enquanto se dedica
à demolição da casa que lhe foi deixada pelo próprio pai, que ele
igualmente detestava.
A princípio, George é o único a apostar em seu sonho de construir
a casa, mas aos poucos a ex-esposa passa a ajudá-lo e também o filho.
Na construção da casa todos acham o caminho para a reconstrução
de suas vidas.
Um apelo à busca da mente saudável, esta
é a mensagem
A mensagem central do filme é a necessidade de se buscar uma
mente saudável. A mente doentia leva à morte, em sentido figurado e
até em sentido literal. O personagem deu um basta na visão negativa e
passiva da vida e no lugar dela criou uma mente saudável, que salvou
o que restava da sua vida.
52
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Recomendações
O filme pode ser usado para discutir o impacto da mente negativa
sobre o trabalho e a vida da pessoa e também sobre o impacto do
trabalho sem sentido sobre a mente. O que vem primeiro?
Também é válido como inspirador de questionamentos sobre os
papéis que vivemos e até que ponto cada um está sendo adequado
ao seu papel. O que é um bom pai? Um bom marido? Um bom
funcionário? Um bom profissional?
Por fim, ele leva também a boas discussões sobre a mudança de
vida e a preservação da qualidade de vida. Por que as pessoas deixam
sua vida deteriorar-se? O que fazer para impedi-lo?
Lições da casa
- Sua mente é uma casa, sua vida é a casa. Que tipo de casa é?
Quem a construiu? Com que critérios?
- Quem não tem uma mente saudável não pode ter prazer e nem
produzir qualidade no trabalho, assim como não pode ter relações
saudáveis – com esposa, filhos, colegas.
O personagem morava em uma casa horrível, herança de seu
pai que jamais conseguiu ter uma mente saudável. Ele mudou esse
destino trágico, de repetir a vida do pai. Embora tenha mudado quando
a morte se aproximou, ele o fez e nunca é tarde demais. O ser humano
saudável muda, reconstrói a sua casa.
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Ficha Técnica
Título: Tempo de recomeçar (Life is a House)
Gênero: Drama
Duração: 145 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2001
Estúdio: Winkler Films
Distribuição: New Line Cinema
Direção: Irwin Winkler
Roteiro: Mark Andrus
Produção: Rob Cowan e Irwin Winkler
Música: Mark Isham
Direção de Fotografia: Vilmos Zsigmond
Desenho de Produção: J. Dennis Washington
Direção de Arte: Thomas T. Taylor
Figurino: Molly Maginnis
Edição: Julie Monroe
Elenco: Kevin Kline (George Monroe); Kristin Scott Thomas
(Robin); Hayden Christensen (Sam); Jena Malone (Alyssa);
Mary Steenburgen (Coleen); Mike Weinberg (Adam);
Scotty Leavenworth (Ryan); Ian Somerhalder (Josh);
Jamey Sheridan (Peter); Scott Bakula (Kurt Walker); Sam
Robards (David Dokos); John Pankow (Bryan Burke); Kim
Delgado (Bob Larson).
Premiação
Indicação ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Ator
Coadjuvante (Hayden Christensen).
Sem espaço para a
concorrência desleal
Fazer negócios, concorrer, tentar vencer a concorrência – tudo
isso é legítimo, mas tudo isso refere-se apenas a uma dimensão
limitada da vida. Nem todos são capazes de perceber, aceitar ou colocar
em prática esse valor. Açoitados pelas dificuldades da vida ou pela
ambição, muitos são os que transformam concorrentes em inimigos
e passam a linha divisória dos valores humanos mais sagrados para,
em lances oportunistas, levar vantagem.
Imaginemos uma situação dramática em que o concorrente
está prestes a ser vítima de uma grande injustiça. De um lado, a
solidariedade humana dos bons chama a uma ação de apoio; de outro,
eventualmente impulsos oportunistas ganham terreno. Os homens se
tornam conhecidos efetivamente nesta hora – quem se alinha com o
bem? E quem se mantém orientado pelo oportunismo vil?
Eis um filme comovente de Ettore Scola, que mostra o
comportamento de um comerciante simples da Itália, que diante da
situação de ameaça a valores humanos mais fundamentais soube
colocar os negócios em seu devido lugar, ou seja, subordinados a
algo maior que eles.
Em Cartaz
Mensagem: quando a dignidade é
ameaçada, a concorrência torna-se menos
importante
Roma, 1938, com as tristes figuras do facismo começando a
mostrar as garras. Umberto (Diego Abatantuono) tem um pequeno
negócio, uma alfaiataria, mas vem perdendo terreno para o vizinho
concorrente, Leone (Sergio Castellitto), que vende roupas prontas, a
preços mais baixos. Voltado para as características substantivas do
negócio – o conhecimento de tecidos, a tradição, a sustentação do
nível de qualidade –, Umberto é um empreendedor avesso à inovação,
mas ensaia umas alternativas aqui e ali, à medida que seu faturamento
cai.
A disputa mantém afastados e formais os dois comerciantes,
mas as famílias vivem próximas, com laços de amizade, a começar
pelos filhos garotos de ambos. Com o esquentamento da disputa
comercial, eis que Umberto perde a cabeça e acaba revelando que
Leone é judeu.
Chamados os dois à delegacia, abre-se uma diferença significativa
entre ambos quando o comissário de polícia, ligado ao facismo,
tenta atrair a colaboração de Umberto, procurando fazer com que se
dispusesse a delatar fatos comprometedores sobre o concorrente judeu.
Nesse momento, começa a surgir no alfaiate a forte consciência de
que disputas de negócio são algo menor diante da ameaça a valores
humanos mais fundamentais que vinha rondando a todos.
Em pequenos mas significativos gestos, Umberto mantém-se ao
lado do concorrente que começa a ser perseguido. Vai visitá-lo quando
este cai doente, reconciliam-se, Umberto apresenta sua verdadeira
face, recusando-se a comprar o negócio do concorrente que se dispôs
a vendê-lo a qualquer preço. O apoio mais moral e social de Umberto
não foi, naturalmente, suficiente para deter o mal que estava em curso:
Leone acaba vendendo o negócio e a família muda-se para um local
pretensamente mais protegido contra o facismo.
56
Ricardo de Almeida Prado Xavier
No ambiente de perseguição de judeus que a Itália vivia, a
viagem da família de Leone não deixa muito para trás, nem tem
muito horizonte à frente. Entretanto, o pouco que fica do episódio é
a esperança, que pode ser sustentada enquanto houver dignidade e a
vida não se resumir a manipulações de negócios e poder.
Recomendações
É um excelente filme para reflexão sobre:
- limites éticos da concorrência;
- escala e hierarquização de valores pessoais;
- visão da concorrência e seu impacto sobre os negócios;
- tomada de decisões éticas em situações de pressão;
- negócios e vida, seu entrelaçamento .
Umberto mudou seus sentimentos em relação ao concorrente
quando a situação mudou. Contudo, ele foi submetido a pressão e
risco, por alinhar-se com o judeu perseguido. Os personagens são
testados aqui quanto à solidez de seus valores.
Lições fundamentais de hierarquia de
valores
Todos somos orientados por valores. De onde eles vêm? Vêm
de uma reflexão adequada sobre o que realmente importa na vida, ou
entraram em nossa mente de modo irrefletido? É fundamental que a
pessoa conheça bem seus valores e os coloque em uma hierarquia
capaz de dar a melhor resposta quando se está em situações-limite.
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Ficha Técnica
Título: Concorrência desleal (Concorrenza Sleale)
Gênero: Drama
Duração: 110 minutos
Ano de lançamento (Itália): 2001
Estúdio: Medusa Produzione/Filmtel/Telepiù
Direção: Ettore Scolal
Roteiro: Fulvio Scarpelli, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli,
Ettore Scola e Silvia Scolla
Produção: Franco Committeri
Música: Armando Trovajoli
Direção de Fotografia: Franco Di Giacomo
Desenho de Produção: Cinzia Lo Fazio e Luciano
Ricceri
Figurino: Odette Nicoletti
Edição: Raimondo Crociani
Elenco: Diego Abatantuono (Umberto); Sergio Castellitto
(Leone); Gérard Depardieu (Angelo); Jean-Claude Brialy
(Nonno Mattia); Claude Rich (Conde Treuberg); Claudio
Bigagli; Anita Zagaria; Antonella Attili; Augusto Fornari; Elio
Germano; Gioia Spaziani; Sabrina Impacciatore; Rolando
Ravello.
Premiação
Melhor Diretor, no Festival Internacional de Moscou.
Quando a coisa aperta,
é tudo ou nada
Quem disse que precisa ser sexy para montar um show de
strip-tease? O que é necessário, isto sim, é coragem para mudar. O
desemprego chega e é necessário achar alguma solução criativa. Seis
desempregados de uma pequena cidade inglesa acharam a sua solução
– um tanto ousada, mas uma solução.
O desemprego, principalmente o desemprego prolongado
causado por dificuldades econômicas (caso do filme), traz resultados
perversos sobre o quadro emocional e comportamental das pessoas.
Abala a auto-estima, compromete a motivação, causa ansiedade e
apreensão, alimenta o pessimismo e as idéias catastróficas. Em alguns
casos, leva ao suicídio.
Como reagir diante dele? A primeira regra básica é reagir – e
não se entregar. Isso quer dizer, adotar posturas proativas de busca
de solução. Tentar um caminho ou outro, por si só, já traz resultados
positivos. Os operários ingleses retratados nessa comédia interessante
e gostosa, optaram por uma solução radical – tornar-se strippers.
Podemos não concordar com a alternativa, mas somos obrigados a
concordar com a idéia de buscar alternativas, o que eles fizeram.
Em Cartaz
Uma história de mudança pessoal
O desemprego em uma cidade decadente da Inglaterra, Sheffield,
outrora um centro de economia pujante impulsionada pela produção
de aço, causa um conjunto de dramas pessoais na vida de operários
de chão de fábrica.
Gaz (Robert Carlyle) é o pai amoroso e envolvido com o garoto
Nathan (William Snape), mas com dificuldade em encontrar um
emprego com o qual se identifique e, por isso, com as pensões atrasadas
e com o risco de ser afastado do filho. Gerald (Tom Wilkinson), um
ex-supervisor de fábrica, orgulhoso de seu cargo, com padrão de
vida elevado e uma esposa exigente, há seis meses vem escondendo
dela sua condição de desempregado e falido. Dave (Mark Addy),
amigo e cunhado de Gaz, também é um marido com a auto-estima
abalada, atormentado pela impotência, pelas cobranças da esposa e
pelo medo de ser traído por ela. Lomper (Steve Huison) mora com a
mãe, tem um emprego sem sentido, sofre de solidão e tenta o suicídio.
Todos acabam, juntos com Horse (Paul Barber) e Guy (Hugo Speer),
formando um grupo que decide fazer um espetáculo de strip-tease
para ganhar dinheiro e resolver seus problemas mais imediatos.
Um detalhe simples: não são homens bonitos ou fisicamente em
ordem, não sabem dançar, não têm nenhuma experiência artística.
Apesar de todos os problemas, a idéia toma conta de todos, dando
um sentido às suas vidas tão devastadas pelo desemprego – e eis que
põem em prática a idéia.
Mensagem: just do it!
As dificuldades chegam, muitas pessoas paralisam-se. É
importante reagir, buscar alternativas. Então, vem o medo do
desconhecido e o desconforto de passar pelas mudanças pessoais que
a visada alternativa exige. É nessa hora que as pessoas dão um salto
para o desconhecido, “reinventam-se” e sobrevivem com capacidade
de retomar sua auto-estima.
60
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Recomendações
O filme é recomendado para discussões sobre o desemprego
e seu impacto corrosivo, sobre os efeitos do desemprego nas vidas
familiares, sobre como cada um está preparado para a eventualidade do
desemprego. E também para a discussão sobre a busca de alternativa,
a reação diante da situação adversa.
Pode ser usado também para a discussão sobre auto-estima e
suas bases de sustentação.
Lições de mudança
- Ser aquilo que nunca se foi – eis o que é, em última instância,
mudar.
- Isso requer coragem e aceitação do risco – vencer o medo é
fundamental.
- O prêmio é alto, porém, para quem efetivamente aceita mudar
seu modo de pensar, sentir e agir para encontrar soluções para sua
vida.
- Ao mudar, a auto-estima volta, a alegria de viver é retomada, e
a pessoa acha-se mais preparada para vencer seus desafios.
- Diante de idéias novas e nunca imaginadas a tendência natural
é dizer “não” sem pensar, mas aí pode estar uma boa solução.
Uma grande quebrança de paradigmas: operários comuns
tornam-se strippers. Por que não tentar uma grande mudança, quando
o mundo a pede?
61
Ficha Técnica
Título: Ou tudo ou nada (The Full Monty)
Gênero: Comédia
Duração: 90 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1997
Estúdio: 20th Century Fox / Channel Four Films / Redwave
Films
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation
Direção: Peter Cattaneo
Roteiro: Simon Beauford
Produção: Uberto Pasolini
Música: Anne Dudley
Direção de Fotografia: John de Borman
Desenho de Produção: Max Gottlieb
Direção de Arte: Chris Roope
Figurino: Jill Taylor
Edição: David Freeman e Nicholas Moore
Elenco: Robert Carlyle (Gaz); Mark Addy (Dave); William
Snape (Nathan); Steve Huison (Lomper); Tom Wilkinson
(Gerald); Paul Barber (Horse); Hugo Speer (Guy); Leslay
Sharp (Jean); Emily Woof (Mandy); Deirdre Costello
(Linda); Paul Butterworth (Barry); Dave Hill (Alan); Bruce
Jones (Reg); Andrew Livingstone (Terry).
Premiações
Oscar de Melhor Trilha Sonora - Comédia/Musical, com
indicação em outras três categorias: Melhor Filme, Melhor
Diretor e Melhor Roteiro Original.
 Indicação ao Globo de Ouro - Melhor Filme - Comédia/
Musical.
 Indicação ao Cesar, na categoria de melhor filme
estrangeiro.
 Melhor Filme Europeu, no Goya Awards.
Melhor Filme - voto público - Festival de Edimburgo.
Quem está no comando
entre os suspeitos
Cinco homens são suspeitos de um crime. Um é o líder e pretenso
articulador de um estratagema espetacular. Contudo, no mundo da
estratégia, as informações são sempre incertas, os riscos grandes, as
oportunidades e ameaças vêm e vão. Nesse contexto, que pode ter
analogia com outros campos da vida humana, como o mundo dos
negócios, é necessário estar atento.
Esse filme traz uma história eletrizante de crime intelectualmente
arquitetado. Pode-se aprender por meio dele a desenvolver a atenção
para identificar pistas e oportunidades.
A história: a hora e o lugar criam a
oportunidade
Um navio ancorado sofre uma explosão. Quando a polícia chega,
percebe que ele foi arena de uma sangrenta batalha de gangues da
qual sobraram 27 corpos e duas testemunhas vivas. Uma delas é
um húngaro agonizante e a outra um ladrão inexpressivo portador
de defeito físico. Diante da suspeita de que a batalha teria uma
importância significativa e que um marginal da pesada teria alguma
coisa a ver com tudo, o ex-tira Dean Keaton (Gabriel Byrne) interroga
Em Cartaz
os sobreviventes. Nos depoimentos ao policial Dave Kujan (Chazz
Palminteri), que anda há vários anos no encalço de Keaton, emerge a
figura de Keyser Soze, um legendário marginal húngaro consagrado
pela crueldade. Mas existe mesmo Keyser Soze? Kujan não acredita
e suspeita que Keaton é ele, na verdade. As revelações do húngaro
agonizante não passaram de menção ao nome de Soze, mas as do
aleijado Verbal Kint (Kevin Spacey), o pretenso ladrão barato, trazem
uma história mirabolante.
Tudo teria começado quando Keaton – agora passando-se por
bandido reformado e namorado de uma bela advogada, Edie Finneran
(Suzy Armis) – e integrantes de seu antigo bando foram detidos,
suspeitos do roubo de um caminhão de armas, pretensamente desculpa
da polícia para chegar no caso mais significativo. Kint foi colocado
com eles para reconhecimento de testemunhas, simplesmente, na sua
visão, para confundir eventuais testemunhos do reconhecimento. A
advogada solta Keaton da cadeia logo a seguir, porque não há provas
contra ele, e Kint – que também sai – é envolvido pelos integrantes
do antigo bando do ex-tira e é escalado a convencê-lo a praticarem em
grupo um novo assalto. A partir daí começa o envolvimento do ladrão
barato Kint com Keaton, seu bando e outros marginais da pesada. O
bando é recrutado mais ou menos à força pelo advogado Kobayashi
(Pete Postlethwaite), pretensamente a mando de Kyser Soze, para
invadir um navio argentino, retirar de lá um carregamento de cocaína
de 91 milhões de dólares, reter o dinheiro e entregar a droga ao famoso
marginal. Segundo Kint, na batalha todos os outros integrantes do
bando de Keaton e também ele morrem. Durante a batalha se percebeu
que não havia cocaína nenhuma e que tudo havia sido simulado por
Soze para pegar um desafeto. Um detalhe significativo: antes de seu
depoimento ao tira Kujan, já ficara patente para o último que Kint
estava gozando de proteção de alguém da pesada. Kujan não teve
como retê-lo e ele sai. De repente, Kujan percebe que ele poderia estar
vinculado a Soze e corre para encontrá-lo na rua, mas ele já havia
pegado o carro dirigido pelo advogado Kobayashi e partido!
Concluindo: Kint, o ladrão barato e insignificante, com defeito
físico (que na verdade não tinha), saiu vivo e bem da complicada
64
Ricardo de Almeida Prado Xavier
história e da carnificina. Quem é ele? Aproveitou a oportunidade ou
a criou? Isso não fica claro.
Mensagem
Mesmo focalizando o mundo do crime, o filme mostra algumas
lições que podem ser trazidas para a vida prática de gente do bem
– nosso interesse nesse livro. A primeira delas é que aproveitar as
oportunidades é o melhor caminho para o sucesso (o sucesso do
bandido Kint o mostrou). A segunda é que as oportunidades estão nas
pessoas. Mais: há pessoas que criam oportunidades – seria o caso de
Kint?
Recomendações
- Pode-se usar o filme para refletir sobre oportunidades e seu
aproveitamento ou sua criação, por exemplo. Especial atenção ao
personagem Verbal Kint ajudará nisso.
- Pode-se também usar o filme para treino da atenção. Como é uma
história das mais intrincadas e complicadas, tem de ser acompanhada
com absoluta concentração. Muitas situações de trabalho exigem igual
comportamento – e a analogia pode ser feita nesse sentido.
Lições sobre o mundo da estratégia
Estratégia implica competição, forças adversárias, uso de
informações e permanente tentativa de esconder essas informações
das partes em oposição – um jogo complexo. Pelo menos quatro lições
podemos tirar das reflexões sobre o filme:
1. Informação é o recurso-chave da estratégia. Toda atenção a
qualquer mínima pista é fundamental.
2. As oportunidades apresentam-se e devem ser aproveitadas no
momento certo.
3. As oportunidades vêm por meio das pessoas.
4. Nunca se deve subestimar ninguém e nem fechar a mente por
meio de idéias preconcebidas.
65
Ficha Técnica
Título: Os suspeitos (The Usual Suspects)
Gênero: Policial
Duração: 105 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1995
Estúdio: Polygram
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Christopher McQuarrie
Produção: Michael McDonnell e Bryan Singer
Música: John Ottman
Direção de Fotografia: Tom Sigel
Desenho de Produção: Howard Cummings
Figurino: Louise Mingenbach
Edição: John Ottman
Elenco: Gabriel Byrne (Dean Keaton); Stephen Baldwin
(Michael McManus); Benicio Del Toro (Fred Fenster); Kevin
Pollak (Todd Hockney); Kevin Spacey (Verbal Kint); Chazz
Palminteri (Dave Kujan); Pete Postlethwaite (Kobayashi);
Suzy Armis (Edie Finneran); Giancarlo Esposito (Jack
Baer); Dan Hedaya (Jeff Rabin); Christine Estabook (Dra.
Plummer).
Premiações
Dois Oscars: Melhor Roteiro Original e Melhor Ator
Coadjuvante (Kevin Spacey).
 Uma indicação ao Globo de Ouro - Melhor Ator
Coadjuvante (Kevin Spacey).
Recebeu ainda dois prêmios no Independent Spirit
Awards - Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante (Benicio
Del Toro), e foi indicado como Melhor Fotografia.
Quem faz as regras da
vida
Trabalhadores temporários habitam uma “cider house”, a casa
em que as maçãs da fazenda, colhidas por eles, são transformadas em
sidra. Na parede há um conjunto de regras, como, por exemplo, a de
que não se deve fumar na cama. As regras não dizem nada para eles,
não foram feitas por eles, mas por quem não percebe suas necessidades
e aspirações.
Esse episódio é emblemático neste filme artístico de alto poder
de emocionar. O filme trata da questão que todo ser humano vive: a
escolha entre seguir as regras ou não. Quem faz as regras? São justas?
Levam ao bem?
Nem tudo que é legal é justo. Para promover o bem ou para
serem felizes os personagens centrais de Regras da vida – todos
– transgridem. Seriam condenáveis?
Todos vivem a necessidade conflitiva de
decidir entre o certo e o errado
O Dr. Wilbur Larch (Michael Caine) é um dedicado médico de
um orfanato de uma cidadezinha do interior, onde atua como uma
Em Cartaz
espécie de pai de todos para as crianças. Entre seus pupilos está o
favorito Homer Wells (Tobey Maguire), adolescente para o qual Larch
vem ensinando a medicina “na prática”, na esperança de que ele possa
auxiliá-lo e até mesmo substituí-lo na missão de olhar pelas crianças.
Além de ensinar medicina, o médico procura mostrar a Homer a
diferença entre o certo e o errado. Fica subjacente em suas lições a
idéia de que nem tudo que é legal é justo e bom – Larch transgride
para melhorar a vida das pessoas, fazendo abortos.
Eis que Homer quer mais que os ensinamentos de Larch e a
experiência limitada do orfanato e vai embora com um casal cuja
jovem tinha vindo fazer aborto. Instala-se e começa a trabalhar na
fazenda da família do jovem, um piloto da força aérea americana,
que parte em seguida para uma missão.
Homer capta excitado todas as emoções da nova vida e constrói
para si um lugar no mundo da fazenda, morando na “cider house”, a
casa da sidra, onde as maçãs colhidas são transformadas em suco. Ele
divide o teto com um grupo de trabalhadores temporários colhedores
de maçã, entre os quais destacam-se dois personagens: Mr. Rose
(Delroy Lindo) e sua filha.
Surge um romance entre Homer e Candy (Charlize), a garota
que fora buscar o aborto na clínica, filha de um vizinho da fazenda e
namorada do aviador ausente. Paralelamente, Homer vai conhecendo
a vida dos trabalhadores temporários, suas dificuldades. Ao mesmo
tempo, Larch continua fazendo manobras com o objetivo de atrair
Homer de volta para o orfanato, onde tem planos para ele, isto é,
substituí-lo como médico, usando um diploma falso.
Homer é um puro. Enquanto estava no orfanato, não aceitou
a idéia de atuar como médico, auxiliando Homer. No entanto,
acontecimentos vieram a precipitar decisões que mudaram sua vida.
Na “cider house”, a filha de Mr. Rose aparece grávida – do próprio
pai, que é apaixonado por ela e a violenta. Envolvido com o contexto
em que o nascimento do filho traria muitos problemas, Homer decide
fazer o aborto.
68
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Recuperada, ela foge, tendo antes esfaqueado o pai que tentava
impedi-la. Na verdade, os golpes desferidos por ela decorrem de uma
interpretação errônea do gesto do pai que, vendo que não poderia
demovê-la da fuga, tentou dar-lhe de presente uma faca, para que
ela se defendesse quando não estivesse por perto. Rose completou o
trabalho feito pela filha, isto é, cravou mais algumas facadas em seu
próprio estômago, desgostoso com a partida da filha. Mortalmente
ferido, pede a Homer que apresente uma versão do incidente que
inocenta a filha à polícia, o que o jovem prometeu fazer.
Desenvolve-se paralelamente a história do aviador namorado de
Candy, que é ferido em serviço, ficando paralisado da cintura para
baixo e voltará em breve à casa da mãe. A namorada decide ficar com
ele e ajudá-lo.
De repente, em meio às emoções dessas histórias, morre o
médico Larch. Homer decide então pegar a maleta de médico que
ganhara de presente dele e voltar ao orfanato, assumindo seu lugar.
Mensagem principal
Pessoas efetivamente comprometidas com o bem eventualmente
transgridem, porque o legal nem sempre é justo ou bom. Toda pessoa
vive um conflito entre seguir regras que não criou e a realização
daquilo que seu coração manda fazer. Viver implica correr os riscos
dessas escolhas.
Recomendações
O filme se aplica bem a discussões sobre ética no trabalho. Pode
ser usado para ilustrar conflitos éticos profissionais, necessidade de
decisão, definição de missão pessoal, conceito de responsabilidade.
Lições sobre a vida como ela é
- As pessoas têm de decidir entre o certo e o errado e nem sempre
a lei é orientação suficiente.
69
Em Cartaz
- Condenar os outros por suas ações é uma freqüente fonte de
injustiça.
- A ação transgressora eventualmente é o meio de resolver um
problema, evitando que outros maiores surjam.
- Quando as decisões transgressoras são guiadas pela consciência
e pelo coração, é difícil condená-las.
- Ninguém consegue atirar a primeira pedra, pois todos sofrem
a tensão de fazer suas escolhas.
- Uma dose excessiva de idealismo, que leve a pessoa a ver a
vida como ela deveria ser e não como ela é, provavelmente levará a
condutas que farão mais mal que bem.
70
Ficha Técnica
Título: Regras da vida (Cider House Rules)
Gênero: Drama
Duração: 130 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1999
Estúdio: Miramax Films
Direção: Lasse Hallström
Roteiro: John Irving, baseado em livro do próprio John
Irving
Produção: Richard N. Gladstein
Música: Rachel Portman
Direção de Fotografia: Oliver Stapleton
Desenho de Produção: David Gropman
Direção de Arte: Karen Schultz Gropman
Figurino: Renee Ehrlich Kalfus
Edição: Lisa Zeno Churgin
Elenco: Tobey Maguire (Homer Wells); Charlize Theron
(Candy Kendall); Delroy Lindo (Mr. Rose); Paul Rudd
(Wally Worthington); Michael Caine (Dr. Wilbur Larch); Jane
Alexander (Enfermeira Edna); Kathy Baker (Enfermeira
Angela); Kieran Culkin (Buster); Kate Nelligan (Olive
Worthington).
Premiações
 Oscars de Melhor Ator Coadjuvante (Michael Caine) e
Melhor Roteiro Adaptado. Indicações em cinco categorias:
Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor
Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora.
 Duas indicações ao Globo de Ouro: Melhor Filme em
Drama e Melhor Ator Coadjuvante (Michael Caine).
 Indicação ao Leão de Ouro de Melhor Diretor do Festival
de Veneza.
A força da mente
brilhante vencendo a
limitação
De repente, uma doença avassaladora registra sua presença onde
há um talento excepcional. Tudo pode perder-se. No entanto, uma
mente brilhante às vezes tem também a percepção correta e a força
vital para lutar contra o mal – e a limitação é superada.
Todos somos resultados de forças e fraquezas. O que faz a
diferença é como usamos adequadamente os talentos que temos e
como lidamos com nossas fraquezas.
Este filme é baseado no caso real do brilhante matemático
John Forbes Nash Jr., que aos 21 anos formulou a teoria dos jogos
não cooperativos, que viria a ter ampla influência nos estudos da
Economia. Por sua contribuição, Nash recebeu o Prêmio Nobel de
Economia em 1994. Esse homem brilhante teve de lutar contra a
esquizofrenia, doença de seiva muitas carreiras promissoras.
Em Cartaz
Uma história de luta contra o mal
O brilhante e jovem professor de Matemática John Forbes
Nash Jr. (Russell Crowe) se vê enredado em uma teia de forças em
competição: os russos desenvolveram uma rota de ataques nucleares
contra os EUA e o Pentágono, o que convoca para ajudar a decifrar
códigos que revelariam tal rota. Considerado o mais capaz decifrador
conhecido, passa a trabalhar com a interpretação de conteúdos
que os soviéticos supostamente estariam divulgando por meio de
revistas e jornais de grande circulação. Esse trabalho, de altíssima
confidencialidade, é levado a cabo paralelamente às suas atividades de
professor que, freqüentemente, parecem ser muito pouco em relação
ao seu enorme potencial intelectual. Nesse quadro, conhece Alicia
(Jennifer Connelly), uma aluna que seria tão “esquisita” quanto ele
e que se torna sua esposa, abrindo a porta da emoção para aquele
homem que até o momento se ocupara só de atividades intelectuais
das mais abstratas.
De repente, Nash, já casado com Alicia e futuro pai, é internado
como doente mental. Conspiração dos russos que querem afastá-lo
de seu importante trabalho? Assim ele vê os fatos.
Contudo, uma outra realidade revela-se: tudo aquilo não passava
de alucinações decorrentes da esquizofrenia, doença que Nash
manifestara já desde os tempos de estudante, quando convivia de modo
ímpar com seu companheiro de quarto, Charles (Patul Bettany), que
veio a revelar-se inexistente. Eram inexistentes também seu elo de
ligação com o Pentágono, William Parcher (Ed Harris), a garotinha
por quem Nash nutria especial carinho, Marcee (Vivien Cardone),
sobrinha de Charles e outros personagens.
Após a saída de Nash do hospital, e tendo ele apresentado recaídas,
o psiquiatra Dr. Rosen (Christopher Plummer) e a fiel esposa Alicia
tentam fazê-lo tomar consciência de que está doente e de que toda
aquela parte excitante de sua vida não passa de alucinação. Foi
justamente a figura da garotinha Marcee que levou Nash subtamente
a perceber que realmente vinha tendo alucinações – porque ela não
envelhecia.
74
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Quando dessa constatação, Nash começa uma luta racional
contra a doença. Ajudado pela força da mente e contando com o
inestimável apoio da dedicada esposa e de amigos e admiradores da
universidade, ele vai aos poucos retomando a vida – sem nunca perder
totalmente o contato com as alucinações. Até que passa a desempenhar
brilhantemente e sem problemas funções importantes no contexto
acadêmico, apesar da doença.
Então, recebe o Prêmio Nobel, que foi a consagração de sua
vitoriosa carreira. Ele venceu a esquizofrenia.
Mensagem
A vontade de vencer produz milagres. Uma força interior
poderosa pode ajudar sobremaneira o indivíduo a superar limitações
das mais sérias, como a esquizofrenia.
Recomendações
O filme pode ser usado em programas motivacionais, destinados
a profissionais de todos os níveis e de todas as áreas.
A lição: nunca desista!
Este filme traz uma lição básica: nunca desista! Quantos não
são derrubados pela esquizofrenia? John Forbes Nash Jr., que se acha
produtivo em sua carreira até hoje, resolveu vencê-la. Vencer um mal
dessa natureza, entre outras coisas, requer três ingredientes:
Tomar consciência – Enquanto há negação, não há solução. O
reconhecimento do mal abre o caminho para a luta contra ele. Quando
Nash descobriu que realmente estava tendo alucinações, tudo mudou
em sua forma de ser.
Ter crença e esperança – É a crença e a esperança de vencer o
mal que trazem a força para lutar-se contra ele.
75
Em Cartaz
Aceitar apoio – Ter a humildade de aceitar o apoio necessário.
Nash teve o feliz apoio de Alicia, usou-o bem e baseou-se nele para
sair do inferno da esquizofrenia. Teve a humildade também de aceitar
o apoio dos amigos, de conviver com eles expondo sua fraqueza.
76
Ficha Técnica
Título: Uma mente brilhante (A Beautiful Mind)
Gênero: Drama
Duração: 135 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2001
Estúdio: Imagine Entertainment
Distribuidora: DreamWorks Distribution/Universal
Pictures
Direção: Ron Howard
Roteiro: Akiva Goldsman, baseado no livro de Sylvia
Nasar
Produção: Brian Grazer e Ron Howard
Música: James Horner
Fotografia: Roger Deakins
Desenho de Produção: Wynn Thomas
Direção de arte: Robert Guerra
Figurino: Rita Ryack
Edição: Daniel P. Hanley e Mike Hill
Elenco: Russell Crowe (John Forbes Nash Jr.); Ed Harris
(William Parcher); Jennifer Connelly (Alicia); Paul Bettany
(Charles Herman); Adam Goldbergn (Sol); Judd Hirsch
(Professor Helinger); Josh Lucas (Hansen); Anthony
Rapp (Bender); Christopher Plummer (Dr. Rosen); Vivien
Cardone (Marcee).
Premiações
Recebeu quatro Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor,
Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly) e Melhor
Roteiro Adaptado. Foi também indicado em outras quatro
categorias: Melhor Ator (Russell Crowe), Melhor Edição,
Melhor Maquiagem e Melhor Trilha Sonora.
 Obteve ainda quatro Globos de Ouro: Melhor Filme
- Drama, Melhor Ator - Drama (Russell Crowe), Melhor
Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly) e Melhor Roteiro.
Teve mais duas indicações: Melhor Diretor e Melhor Trilha
Sonora.
 Ganhou duas prêmios no BAFTA, nas seguintes
categorias: Melhor Ator (Russell Crowe) e Melhor Atriz
Coadjuvante (Jennifer Connelly) e obteve indicação em
três categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor
Roteiro Adaptado.
Teve também indicação ao MTV Movie Awards, categoria
Melhor Ator (Russell Crowe).
Como enlouquecer seu
chefe
Trabalhar com envolvimento é possível? Ou o trabalho na
verdade é um chatice a ser suportada? Como uma empresa poderia
premiar o funcionário por bons serviços? Não seria o caso de deixálo trabalhar menos, como sugere Scott Adams (Dilbert). O que é
um bom chefe? Por que um funcionário de uma empresa de repente
resolve partir para a fraude, lesando seu empregador? Por que chefes
“motivadores” não funcionam?
Todas essas perguntas têm discussão nesse filme interessante
sobre a vida de funcionários de uma empresa. O filme Como
enlouquecer o seu chefe tem o nome original, em inglês, de Office
Space (Espaço do Escritório), e não é por acaso. Na verdade, o que
pode e o que não pode ser feito no espaço do escritório? A empresa
tem o direito de exigir que um funcionário use uma roupa ridícula?
E é legítimo o espaço do escritório invadir a vida? Eis um filme rico
de questionamentos sobre a vida do trabalho moderna.
Em Cartaz
Uma história de tortura gerencial e suas
conseqüências
Peter Gibbons (Ron Livingston) tem um “bom” emprego, um
“bom” chefe e uma “boa” namorada. Por isso, vive no inferno sem
se dar conta. O chefe é um tirano de escritório que fala manso, mas
administra pelo capricho e pelo cansaço. Odiado por todos, sem se
dar conta disso. A empresa é uma máquina de fazer loucos, com
seus processos, métodos, sistemas improdutivos e desgastantes. A
namorada é uma carreirista alucinada pela idéia de sucesso.
Seus colegas de trabalho também são vítimas de uma organização
massacrante, “motivadora”, maquiavélica, como muitas que existem
por aí. Um dia, na busca incessante pelo elixir da motivação e do
sucesso, tão comum em nossos dias, ele vai parar com a namorada
em uma sessão de hipnoterapia. Dali sai com um insight que viria a
mudar sua concepção de mundo e sua vida.
Começa por romper com a namorada irritante e passa a adotar
uma atitude totalmente espontânea no trabalho, o que é um choque
em relação à organização a que estava ligado. Acontece que essa
organização está justamente sofrendo um processo de consultoria
com a atuação de consultores para lá de incompetentes, que seguem
“receitas de bolo” ingênuas. Nesse clima, o jeito irreverente de
Gibbons cai bem e ele é promovido, quando à sua volta seus amigos
estão sendo demitidos de maneira injusta e desumana.
Atuando de modo cínico, ele se junta a dois amigos, Ajay Naidu
(Samir Nayernanajar) e Michael Bolton (David Herman), para dar o
famoso golpe informático de retirada de centavos da conta da empresa
para lançamento em uma conta da qual viriam a apropriar-se. O golpe
dá errado, mas os amigos criminosos são salvos pelo gongo quando
um funcionário tripudiado por anos de humilhação na empresa toca
fogo no prédio, queimando todas as provas do crime.
Os amigos, demitidos pelos consultores, encaminham-se para
novos empregos. Gibbons deixa o cargo de chefe no escritório da
80
Ricardo de Almeida Prado Xavier
empresa e vai trabalhar em um serviço que faz sentido para ele, como
operário da construção. Fica a mensagem final de que a vida alienada
no trabalho não é uma contingência, uma necessidade absoluta
do mundo empresarial moderno, mas uma patologia de algumas
organizações.
Não há vida inteligente em algumas
empresas
A idéia central aqui é de que em muitas empresas não há
vida inteligente. Por quê? Porque elas são podres. Têm estruturas
burocratizadas, impessoais e massacrantes, têm chefes robotizados,
torturam seus funcionários, que se tornam cínicos e enroladores.
Organizações com essa patologia pagam caro por isso.
Recomendações
Esse filme pode ser muito útil para estimular discussões sobre:
- estilo gerencial e eficiência;
- motivação dos funcionários;
- discursos motivadores;
- razões que levam à fraude;
- mudanças na empresa e seu impacto;
- processos ineficientes e suas conseqüências.
Enfim, um filme rico em idéias e reflexões sobre todos os aspectos
relevantes do mundo do trabalho.
Lição: abrir o diálogo de verdade é o
caminho da saúde
Quando não há uma comunicação verdadeira, a organização se
deteriora e as conseqüências nefastas aparecem.
81
Ficha Técnica
Título: Como enlouquecer seu chefe (Office Space)
Gênero: comédia
Duração: 89 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1999
Estúdio: Cubicle Inc.
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation
Direção: Mike Judge
Roteiro: Mike Judge, baseado nos personagens criados
pelo autor
Produção: Mike Judge, Daniel Rappaport e Michael
Rotenberg
Música: John Frizzell
Direção de Fotografia: Tom Suhrstedt
Desenho de Produção: Edward T. McAvoy
Direção de Arte: Adele Plauche
Figurino: Melinda Eshelman
Edição: David Rennie
Elenco: Ron Livingston (Peter Gibbons); Jennifer Aniston
(Joanna); Ajay Naidu (Samir Nayernanajar); David Herman
(Michael Bolton); Gary Cole (Bill Lumbergh); Stephen Root
(Milton Waddams); Richard Riehle (Tom Smykowski);
Alexandra Wentworth (Anne); Joe Bays (Dom Portwood);
John C. McGinley (Bob Slydell); Paul Willson (Bob Porter);
Diedrich Bader (Lawrence); Kinna McInroe (Nina); Michael
McShane (Dr. Swanson); Mike Judge; Orlando Jones.
Desenvolva o seu sexto
sentido
Como disse Shakespeare, há mais mistérios entre o céu e a
terra do que sonha nossa vã filosofia. Toda forma de conhecimento é
invisível. Com os nossos limitados sentidos, ninguém vê os átomos,
as estrelas distantes, a composição das coisas que nos cercam,
os processos da vida. Mas tudo isso está lá, existe e é real e se o
conhecimento humano já chegou até determinado processo, ele pode
ser previsto e os resultados aparecem. No entanto, aquilo que ainda
não conhecemos é muito mais do que podemos sonhar.
O terapeuta Malcolm Crowe via uma pequena parte da realidade
e esta era insuficiente para lidar com problemas mais sérios de alguns
pacientes. À medida que tomou consciência de que suas certezas não
eram tão legítimas, passou a olhar com mais profundidade os eventos
e um mundo novo foi-se abrindo lentamente aos seus olhos.
No dia-a-dia todos temos nossas limitações de conhecimento
e as barreiras que nos auto-impomos. Elas vêm principalmente da
inabalável certeza que temos em torno das frágeis verdades que
aprendemos. Quem quiser penetrar nas camadas mais profundas da
verdade tem de abrir a mente e o coração, perceber com o sexto sentido.
Em Cartaz
Um filme bonito e instigante, que ensina com a força da
emoção.
A história daquilo que os sentidos não
percebem
Malcolm Crowe (Bruce Willis) é um consagrado psicólogo
infantil que acaba de ser agraciado com uma premiação por mérito
pela cidade. Na noite em que receberá o prêmio, prestes a sair com
a esposa, Anna, recebe uma inesperada visita de um adolescente
angustiado, o qual ele não teria conseguido ajudar quando fora seu
terapeuta, na infância. O jovem doente está armado, atira em Crowe
e a seguir suicida-se.
Meses depois, Crowe acha-se tentando ajudar o garoto Cole
Sear, de 8 anos, que vive paralisado pelo medo. Estabelece-se uma
relação de profunda confiança, na qual Crowe dá um adequado
encaminhamento ao seu próprio trauma, decorrente de ter vivenciado
o suicídio do ex-paciente.
O terapeuta toma contato com uma realidade que não se revela
facilmente aos sentidos. Para percebê-la é preciso abrir os canais do
sexto sentido.
Mensagem vem da ficção
Ficção e realidade se misturam e pode-se aprender com a ficção.
A mensagem fundamental aqui é: há uma realidade além daquilo que
você está percebendo imediatamente. Abra a mente para captar cada
vez mais.
Recomendações
Pelo menos em dois sentidos esse filme pode gerar discussões
de interesse profissional:
84
Ricardo de Almeida Prado Xavier
1. A idéia da limitação do saber, dos preconceitos pessoais, da
“segurança” profissional que fecha a mente. Pode-se usar o filme para
discutir como uma pessoa pode abrir mais os canais da percepção,
como pode evitar que o condicionamento a afaste de conhecimentos
mais adequados etc. Até que ponto sabemos e qual é o limite ideal da
crença em nosso próprio saber?
2. A idéia de ouvir o outro sem pensar que sabe o que está
acontecendo. A tragédia de Crowe, no filme, começou quando ele
não aceitou ouvir o suplicante paciente.
Lição: abrir a mente é essencial – e
possível
- Prescrição antes de um bom diagnóstico não é uma boa
prática. É preciso observar as coisas cuidadosamente, entender
em profundidade, evitar as certezas fáceis. Crowe recusou-se, por
mera questão de hábito e conhecimento de causa, a ver coisas muito
relevantes para uma prescrição mais adequada.
- As pessoas têm informações valiosas sempre, mesmo quando
tudo indica que são alucinadas. É preciso ouvi-las com os ouvidos e
o coração.
- Perceber mais e de modo mais profundo é o segredo da
eficiência em toda esfera da vida. O executivo que vê o que os outros
não conseguem ver tem uma enorme vantagem estratégica.
É fundamental ampliar a capacidade de perceber o que não se
revela aos sentidos imediatos. O conhecimento real não se revela a
olhos nus.
85
Ficha Técnica
Título: O sexto sentido (The Sixth Sense)
Gênero: Suspense
Duração:106 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1999
Estúdio: Hollywood Pictures
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry
Mendel e Sam Mercer
Música: James Newton Howard
Direção de Fotografia: Tak Fugimoto
Desenho de Produção: Larry Fulton
Figurino: Joanna Johnston
Edição: Andrew Mondshein
Elenco: Haley Joel Osment (Cole Sear); Bruce Willis
(Malcolm Crowe); Toni Collette (Lynn Sear); Olivia Williams
(Anna Crowe); Glenn Fitzgerald (Sean); Mischa Barton
(Kyra Collins); Donnie Wahlberg (Vincent Gray); M. Night
Shyamalan (Dr. Hill).
Premiações
Seis indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor,
Melhor Ator Coadjuvante (Haley Joel Osment), Melhor
Atriz Coadjuvante (Toni Collette), Melhor Roteiro Original
e Melhor Montagem.
Duas indicações para o Globo de Ouro: Melhor Ator
Coadjuvante (Haley Joel Osment) e Melhor Roteiro.
Emoções trazem uma lua
de fel
Introdução
As emoções aproximam as pessoas, ligam-nas umas às outras e
dão a tônica dos relacionamentos. Mais que isso, elas colorem a vida
e trazem a força motivacional de que precisamos para o trabalho, a
solução de problemas da vida, o empenho solidário, a superação dos
desafios.
Entretanto, as emoções também provocam a destruição. O
espectro emocional de um indivíduo diz muito a respeito de seu futuro.
Algumas emoções jamais levam a coisas boas. Há aquelas emoções
que não só corroem as relações, mas também dão acidez à vida, tiram
todos os estímulos para a ação, lançam à lama a auto-estima da pessoa,
provocam reações de destruição.
Lua de fel (Bitter Moon) é um filme que lida, como o nome
diz, com emoções corrosivas e amargas. Situadas no contexto do
relacionamento amoroso, mostra como emoções destrutivas se
formam com a atração, interesse e paixão. Embora o quadro focalize o
Em Cartaz
encontro amoroso, muito se pode aprender também sobre outros tipos
de relações. Basta para isso incluir as regras e o contexto adequados
dos relacionamentos que se queira analisar.
Um filme bonito, para refletir e emocionar-se.
A história da deterioração emocional
O casal inglês Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott
Thomas) acha-se em um cruzeiro para uma viagem de segunda luade-mel à Índia. As relações entre eles apresentam-se burocráticas, o
relacionamento afetivo e sexual é previsível e morno.
Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) são um casal
de ingleses que, ao fazer um cruzeiro, conhecem Mimi (Emmanuelle
Seigner), uma francesa casada com Oscar (Peter Coyote), um
americano que vive preso a uma cadeira de rodas. Ao notar o interesse
que Nigel sente por Mimi, Oscar conta como eles se conheceram e
como se amaram loucamente até esta paixão doentia se transformar
em um ritual de humilhação. O casal encontra um outro passageiro,
o indiano Sr. Singh (Victor Banerjee), com seu jeito natural de ver
as coisas e que questiona diretamente, sem cerimônias, o casal sobre
a idéia de ir à Índia para salvar o casamento. Este personagem, sem
nenhuma participação no drama central que se desenrolará no filme,
faz uma espécie de contraponto na busca emocional do casal – ele
vem de outra cultura, com outros modos de sentir, pensar e agir. Sua
filhinha Amrita (Sophie Patel), em horas apropriadas do filme trará
para o cenário a idéia da inocência, das emoções simples, diretas e
verdadeiras.
Entra em cena o americano Oscar (Peter Coyote), um paraplégico
casado com a linda e sexy Mimi (Emmanuelle Seigner), jovem e
provocativa loira que exerce grande atração sobre Nigel. Percebendo
essa atração, Oscar aproxima-se de Nigel e começa a contar a este (em
várias sessões) a história de sua tórrida e amarga relação com Mimi.
Hesitante e ao mesmo tempo preso à estranha relação, Nigel ouve
os relatos. A história do casal começou com uma paixão decorrente
88
Ricardo de Almeida Prado Xavier
de amor à primeira vista nas ruas de Paris. Evoluiu com intensidade
amorosa e sexual das mais elevadas. O casal entrou no mundo das
práticas sexuais pervertidas, incluindo o sadomasoquismo. Chegando
ao cume da experimentação sexual, Oscar começou a perder o desejo
pela mulher. Mas esta o amava com paixão e sujeitou-se para ficar
com ele a qualquer custo. Manteve-se ao seu lado apesar de as provas
humilhantes a que era exposta no dia-a-dia, como a traição explícita,
os destratos em público etc. Para ver-se livre de Mimi, Oscar simula
uma viagem, deixa-a só no avião, e volta à sua vida de boêmio e
mulherengo livre. Eis que é atropelado e hospitalizado. Recebe, então,
uma única visita, de Mimi, que no primeiro momento simula carinho
apesar de a traição. No entanto, num ato de extrema violência, puxa
o marido da cama, derrubando-o e causando a lesão que o levaria
para sempre à cadeira de rodas. A partir daí, ela passa a cuidar dele
– estranhamente com ódio.
O interesse de Nigel por Mimi evolui e ele, a cada sessão, mais
vislumbra a possibilidade de vir a ter um relacionamento sexual com
ela, sabedor de que Oscar era impotente. Paralelamente, a relação
de Nigel com a esposa Fiona caminha fria e frustrante. Fiona vem
apresentando cenas de ciúmes de Mimi e ao mesmo tempo provoca
ciúmes em Nigel por sua proximidade com um jovem passageiro
italiano. Eis que, no momento crucial em que Nigel imagina que teria
a conquista de Mimi (um baile de réveillon), esta o rejeita. Para sua
perplexidade, quem a conquista é sua esposa Fiona.
No baile, Nigel presencia atônito a cena em que a mulher e
a pretendida amante dançam de rosto colado e beijam-se na boca.
Embebeda-se e cai em um canto qualquer, acordando com os restos
do baile sendo recolhidos pelo pessoal da faxina. Vai buscar a esposa
no quarto de Mimi, e lá encontra as duas adormecidas nuas, após
passarem um noite de amor, e Oscar amargo a observar em sua cadeira
de rodas. Oscar saca uma arma, presente de Mimi, atira nela e mata-se
também. O casal Nigel e Fiona retorna à vida normal.
89
Em Cartaz
Mensagem
A mensagem central do filme, para quem almeja aprender com
ele, é: mantenha-se no controle de suas emoções. Não caia no conto da
sereia de sentimentos que parecem doces, mas trazem em si a semente
da destruição. E não se deixe levar pelos sentimentos destrutivos, que
corroem a auto-estima, a confiança, a alegria de viver, e colocam um
verdadeiro fel nas relações, destruindo também outras pessoas.
Recomendações
O filme provoca boas discussões sobre as emoções e como elas
impactam nossas vidas. Além do contexto imediato, o amoroso,
ele pode trazer discussões e ensinamentos sobre outros contextos
como:
- relações entre chefes e subordinados no trabalho;
- relações entre pares;
- sentimentos e auto-estima;
- sentimentos e comportamentos destrutivos nas relações.
Usado em uma sessão de treinamento, o filme pode suscitar boas
discussões. Eis algumas perguntas que ajudam nessas discussões:
- Quais são os sentimentos destrutivos nas relações chefesubordinado?
- Como se deterioram as relações com base nos sentimentos?
- O que é comportamento saudável nas relações e como proceder
para mantê-lo?
- Por que as emoções às vezes dominam e como precaver-se
contra isso?
Lições para a inteligência emocional
- As pessoas são responsáveis por suas emoções – e podem
gerenciá-las.
90
Ricardo de Almeida Prado Xavier
- Deixar-se levar por sentimentos destrutivos é algo possível
– manter-se alerta contra esse mal é fundamental.
- A tônica das relações é dada pelos parceiros. Cada um pode e
deve contribuir para a criação de encontros saudáveis.
- Ao destilar fel nas relações pode-se esperar um retorno de
ações destrutivas.
- As emoções são perigosas justamente porque podem fugir ao
controle. Devem ser tratadas com cuidado.
- Tanto no relacionamento amoroso quanto no trabalho ou em outros
setores da vida, relações simbióticas não são construtivas. (Relações
simbióticas são aquelas em que os envolvidos complementam-se com
suas emoções destrutivas. Alguém com impulsos sádicos ligado a
alguém com impulsos masoquistas é o exemplo típico).
Por meio da comunicação há a formação de sentimentos,
que poderão ser construtivos ou destrutivos. Cuidado com a
comunicação.
91
Ficha Técnica
Título: Lua de fel (Bitter Moon)
Gênero: Drama
Duração: 139 minutos
Ano de Lançamento (França/Inglaterra): 1992
Estúdio: Columbia Pictures
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e
Roman Polanski, com base no livro de Pascal Bruckner
Produção: Roman Polanski
Música: Vangelis
Direção de Fotografia: Tonino Delli Colli
Desenho de Produção: Willy Holt e Gérard Viard
Figurino: Jackie Budin
Edição: Hervé de Luze
Elenco: Hugh Grant (Nigel); Kristin Scott Thomas (Fiona);
Emmanuelle Seigner (Mimi); Peter Coyote (Oscar); Victor
Banerjee (Sr. Singh); Sophie Patel (Amrita); Stockard
Channing (Beverly); Patrick Albenque (Steward); Luca
Vellani (Dado).
Grande Hotel chama
para a ação
Pessoas que fazem, pessoas que não fazem. Os limites éticos têm
de ser considerados sempre, naturalmente, mas não fazer muitas vezes
é uma crônica tendência acarretada pelo medo, pela acomodação, pela
mera distração. Os acontecimentos estão ocorrendo no palco à sua
volta: vai entrar no jogo ou ficará assistindo?
O mensageiro do Grande Hotel entrou no jogo e fez o que devia
ser feito, à luz de seus valores. Alguém pode questionar esses valores,
mas ninguém pode dizer que ele ficou fora do jogo. Mesmo quando
as decisões são duras e difíceis, é preciso tomá-las e agir!
Este filme é um bom motivo para discutir oportunidades que o
mundo traz, seu aproveitamento, ação individual.
Uma história de iniciativa e participação
Na passagem do ano, em Los Angeles, um novo mensageiro e
recepcionista, Ted, assume sozinho o comando do Hotel Mon Signor,
outrora destacado e hoje decadente. Responde as chamadas dos
quartos, além de recepcionar os novos hóspedes.
Em Cartaz
As chamadas colocam-no diante de situações bastante inusitadas,
um reflexo da diversidade e do frenesi da sociedade moderna. Ele fora
advertido pelo ex-recepcionista (que acabara de se aposentar) para
manter-se longe de sexo, crianças, prostitutas, mas a vida o chama a
participar. E ele entra no jogo.
São focalizados quatro episódios: o primeiro deles mostra um
grupo de bruxas lésbicas que se instalam na suíte nupcial e darão
curso a um cerimonial para trazer de volta uma deusa que morreu no
local. De repente elas se dão conta de que falta um ingrediente para a
bruxaria, esperma, que uma bruxinha inexperiente responsável por
trazê-lo não o fez. Neste momento, lembram-se de Ted...
No segundo episódio, um marido doentiamente ciumento mantém
a esposa amarrada, sob ameaça de arma, quando Ted engana-se de
quarto e entra para trazer gelo... Seria ele o amante que o marido
procurava?
Terceiro episódio: Um bandido chique e sua esposa resolvem
sair para festejar o ano novo e deixam o casal de filhos crianças aos
cuidados de Ted. As crianças não estão nem um pouco dispostas a ser
exemplos de obediência.
Quarto episódio: um diretor de cinema e dois parceiros e
uma mulher pedem champanhe. Quando Ted se apresenta acabam
envolvendo-no em um jogo que consistiria em cortar o dedo de um
dos jogadores, caso o diretor vença um desafio. Ted é escalado para
executar o corte.
Os episódios trouxeram para Ted sexo, oportunidade de ganhar
polpudas gorjetas, envolvimento emocional e, principalmente, muito
estresse. Ele teve uma dose de participação, entrou nos jogos, fez o
que deveria fazer à luz de seus valores, mas igualmente saiu de cena,
abandonou o hotel. Ficam as seguintes idéias:
- algumas vezes é impossível não participar, logo a pessoa não
tem escolha a não ser agir.
94
Ricardo de Almeida Prado Xavier
- algumas vezes a participação e aceitação da tarefa é opcional
– aceitar ou não aceitar é a questão.
- algumas vezes o comportamento do indivíduo o leva a entrar no
jogo; outras vezes ele resolve abandoná-lo, mas sempre há questões
éticas.
Mensagem fundamental – chamada à
participação
A vida coloca-nos diante de relações e acontecimentos inesperados
e surpreendentes. É impossível não participar; então, entre no jogo e
faça sua parte. Não se esqueça das considerações éticas, mas não se
esqueça de agir.
Recomendações
É um filme divertido e movimentado, que pode trazer uma rica
discussão sobre situações estranhas que o mundo moderno traz e
que comportamento assumir diante delas. Entre outros tópicos para
reflexão, podemos apontar:
- limites éticos para a ação individual, como estabelecê-los;
- como lidar com clientes com exigências e pedidos estranhos;
- a necessidade de fazer o que deve ser feito, ainda que em situ
ação de difícil decisão.
Pode ser bem aplicável a treinamento na área hoteleira, por
exemplo, para criar clima para discussões sobre serviços, atendimento
ao cliente, conduta ética etc.
Questões para discussões:
- Quando se deve entrar no jogo?
- Quando se deve evitá-lo?
- Qual é a conseqüência de não se fazer o que deve ser feito?
95
Em Cartaz
Lições sobre a força dos acontecimentos
Dificilmente alguém consegue escapar da arena dos
acontecimentos. É fundamental, então, estar preparado para agir de
modo ético e adequado diante das situações novas que surgem.
96
Ficha Técnica
Título: Grande Hotel (Four Rooms)
Gênero: Comédia
Duração: 98 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1995
Estúdio: Miramax Films
Direção: Quentin Tarantino, Alexandre Rockwell, Alison
Anders, Robert Rodriguez.
Roteiro: Allison Anders
Produção: Lawrence Bender
Música: Combustible Edison
Desenho de Produção: Gary Frutkoff
Figurino: Susan Bertram e Mary Claire Hannan
Edição: Robert Rodriguez; Elena Maganini; Sally Menke;
Margie Goodspeed.
Elenco: Tim Roth, Antonio Banderas, Quentin Tarantino,
Bruce Willis, Ione Skye, Tamlyn Tomita, Lili Taylor, Marisa
Tomei, Alicia Witt, Sammi Davis, Amanda de Cadenet,
Madonna.
Jerry Maguire – Trabalhar
e viver com sentido
Introdução
O trabalho tem um peso significativo não só sobre a auto-estima
da pessoa mas também sobre o nível de gratificação que ela obtém da
vida. Será, no entanto, que as pessoas sempre trabalham com sentido,
com consciência da razão-de-ser do que estão fazendo, com integração
genuína entre suas vocações, valores, interesses e as atividades que
estão a realizar?
Nem sempre – e essa é uma fonte de angústia consciente ou
inconsciente para muita gente. À medida que vai evoluindo na carreira,
muitas vezes a pessoa vai vinculando-se a metas, processos, rituais,
sistemas e estruturas externas que não têm muito a ver com aquilo
que idealiza. Com o passar do tempo há um divórcio entre os valores
pessoais e a vida profissional que se leva. O processo de divórcio
entre valores e atuação no trabalho costuma propagar-se para outras
esferas da vida, afetando relacionamentos, que tendem a construir-se
também sobre bases nem sempre sólidas e espontâneas.
Em Cartaz
O sucesso pode chegar sem que a pessoa saiba exatamente o
que ele significa para ela. Muitas vezes o sucesso vem acompanhado
de um vazio.
Nesse quadro, todo profissional é levado a refletir, a questionar
o que é, o que faz, como faz as coisas. Tais interrrogações, comuns,
apresentam-se mais freqüentemente em ocasiões especiais (a chegada
a uma idade marcante, a vinda de um filho, uma perda, um prêmio etc.).
Quando advém uma forte tomada de consciência sobre o divórcio entre
vida profissional e pessoal e valores, se a pessoa adquire a necessária
coragem, ela busca a mudança.
A mudança, entretanto, tem um risco e um preço. Quantos estão
dispostos a aceitá-los? Quem assume uma postura proativa e muda
produz uma reorientação em sua vida. De imediato há uma perda, mas
ela é apenas aparente. A pessoa sente seu mundo desabar, sente dó
de si mesma, julga-se fracassada, questiona seus valores, tem abalos
na auto-estima. À medida que a poeira vai-se assentando, entretanto,
vai percebendo que em geral é possível voltar ao mesmo grau de
sucesso obtido anteriormente. Dessa vez, porém, um sucesso sólido
e verdadeiro em que a integração entre valores e comportamento se
manifesta.
Jerry Maguire passou pela experiência da mudança e dela saiu
renovado. Por isso, ensina e inspira.
Uma história de mudança com base no
trabalho
Trabalho e vida se confundem. Trabalhar sem sentido
freqüentemente se associa a viver sem sentido. Se uma mudança se
inicia na esfera do trabalho, ela propaga-se para outras facetas da vida.
O que muda é a pessoa total.
Jerry Maguire (Tom Cruise), um jovem talentoso e bemintencionado, atingira o sucesso como agente de atletas em uma grande
firma do ramo. Sucesso financeiro, fama, vida movimentada, noiva
bonita e bem-sucedida – eis o que caracterizava sua vida.
100
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Um evento, entretanto, viria a provocar um questionamento
profundo sobre toda essa estrutura. Ao visitar um atleta ferido, ouviu
do garoto, filho desse, uma súplica – a de que Maguire convencesse o
pai a parar, pois era a quarta vez que se acidentava e aparentemente sua
atuação marchava para o desastre. Maguire respondeu mecanicamente
ao garoto, dizendo que o pai dele era o maioral e que voltaria aos
jogos, sem problemas, com muito sucesso. Foi quando o garoto lhe
disse um palavrão, com expressão de quem diz “não fui ouvido, você
não se importa”.
Desse fato, desencadeia-se um processo de revisão de valores,
que leva Maguire a escrever um projeto de como a empresa de
representação de esportistas deveria funcionar. Entre outros pontos,
propõe maior humanização no trato com atletas, maior proteção aos
clientes, redução do tamanho da empresa para uma atuação mais
qualitativa, menor preocupação com o faturamento e com o lucro.
Dessas idéias, Maguire produz um relatório, imprime e distribui
a todas as gerências da empresa. No dia seguinte, é aplaudido na
chegada ao escritório: o relatório provocara atitudes de admiração em
todos. Contudo, idéias e vida prática nem sempre andam juntas e o
que Maguire colhe com suas propostas revolucionárias é a demissão.
Sua proposta de redução do faturamento, particularmente, foi recebida
como ameaça. A postura conservadora falou mais alto e não houve
nem possibilidade de diálogo antes da demissão.
Maguire decide que é hora de mudar e seguir suas convicções
mais profundas. Resolve abrir uma nova empresa de representação de
atletas, para efetivamente seguir os moldes do que havia projetado.
Vai então em busca de atletas para representar, convidando os que já
vinha atendendo. Colhe apenas negativas – ninguém está disposto a
arriscar com ele. Ao final desse processo, acaba ficando com um único
representado, o jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba
Gooding Jr.). Chegou a ter uma outra promessa de representação, fez
um bom trabalho para um futuro astro do futebol, mas foi traído por
este e seu pai, que assinaram contrato com o concorrente, a firma de
onde Maguire havia saído.
101
Em Cartaz
Na dramática saída da empresa, perguntara quem queria
acompanhá-lo para a nova organização. Os mesmos que o aplaudiram
mantêm-se calados e ele é seguido apenas por Dorothy Boyd (Renée
Zellweger), uma jovem da contabilidade a quem o relatório de Maguire
havia efetivamente inspirado e que tivera a coragem de seguir seus
próprios valores, assumindo os riscos da mudança.
Maguire começa na nova atividade com apenas um cliente. Com
as dificuldades do início acaba rompendo com a noiva, que passou a
considerá-lo um fracassado. Sua relação com a noiva era fria e sem
sentido, embora ele não se desse conta do fato. Do ponto de vista
comportamental, tudo parecia às mil maravilhas, mas faltava um elo
afetivo mais espontâneo e verdadeiro. Seu relacionamento profissional
com Dorothy intensifica-se, incluindo um nível de afeição, que
resulta em namoro e depois em casamento, com ela desempenhando
importante papel na consolidação da nova carreira de Maguire. A
sua ligação emocional a Dorothy e o garoto filho dela já mostram a
presença de um novo homem em Maguire.
Apesar de as dificuldades iniciais e até das dificuldades de
relacionamento de Tidwell com seus próprios eventuais patrocinadores,
o atleta torna-se um campeão no campo e na mídia, levando Maguire
de volta ao pódio do sucesso. Já dentro de um relacionamento em
que dinheiro é tudo, em que há uma real ligação emocional e um
compromisso entre atleta e representante.
Mensagem
Quando o trabalho não faz sentido e não se consegue mudá-lo, é
preferível e possível mudar de trabalho e dar nova força à carreira.
Recomendação
O filme é recomendado para pessoas que estão precisando de
inspiração para dar um novo alento à sua carreira e é muito útil
também para discussões sobre emprego e negócio próprio. Pode ser
bem aplicado em cursos sobre empreendedorismo.
102
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Lições e inspiração
Destacamos algumas lições fundamentais e comportamentos
inspiradores:
- trabalho sem sentido traz sucesso vulnerável;
- o ideal inspira, mas nem todos conseguem a coragem de buscá-lo;
- a busca de uma ocupação com sentido tem custo e risco;
- há necessidade de escolher;
- as escolhas maiores reorientam o trabalho e a vida;
- é possível atingir o sucesso com real sentido.
Trabalho sem sentido traz sucesso
vulnerável
É possível a pessoa trabalhar, realizar coisas notáveis, atingir
(pelo menos parcialmente) o sucesso sem uma ligação valorativa e
emocional com tudo isso. Essa desvinculação a curto prazo parece
não acarretar maiores problemas. Pessoas inteligentes e esforçadas,
eventualmente valendo-se só do seu “modo” racional, operam
eficazmente. Podem até mesmo ter melhores resultados, a depender
do ângulo que se olhe. Por exemplo, se um executivo é insensível
o bastante para não considerar os sentimentos dos subordinados,
pode pressioná-los impiedosamente e ter maiores resultados a curto
prazo.
Todavia, a longo prazo, o problema é a vulnerabilidade a crises.
Operando de modo alienado, o executivo de repente pode “acordar”
e entrar em crise. Quem convive com executivos em busca de novas
oportunidades de mercado freqüentemente observa a decepção, a
mágoa, o sentimento de frustração que muitos trazem. São levados
a observar que o “sucesso” era imaginário – no trabalho, na família,
nas relações. Esses tendem a culpar antigos empregadores por suas
desventuras emocionais, mas os culpados em última análise foram
eles próprios.
103
Em Cartaz
Já os que procuram dar sentido ao seu trabalho, fazer as coisas
do modo como julgam correto, estabelecer relações profissionais
espontâneas, não têm maiores problemas diante de uma crise. Não
tendem a culpar terceiros, a fixar-se nas mágoas, a ter pena de si
mesmos – e vão à luta para renovar-se.
Jerry Maguire é a história de todos os que vinham pelo caminho
da vida sem sentido e têm a bênção de entrar numa crise que os leva
à mudança. Perdeu o sucesso falso e chegou ao sucesso verdadeiro,
esse não sujeito a chuvas e trovoadas. No fundo, é a diferença entre
ter um cargo, estar num cargo, respondendo às demandas desse sem
questionamento e ser empregável, construindo seu ganha-pão com
bases genuínas e reais.
O ideal inspira, mas nem todos têm a
coragem de buscá-lo
É normal que muitos tenham lido com emoção o relatório do
projeto inovador proposto por Maguire. É normal também que ele
tenha sido aplaudido ao entrar na empresa, no dia seguinte. Atos
de espontaneidade, de tomada de posição, de busca da verdadeira
qualidade no que se faz inspiram. Por isso, a sociedade tem seus heróis
e anda para a frente inspirada neles.
É normal também que nem todos tenham a coragem de abandonar
os postos confortáveis e sair em busca da mudança. É preciso enfrentar
o risco, a perda quase que inevitável a curto prazo. Quem é proativo
o suficiente para buscar isso? As pessoas são diferentes: algumas
mudam, outras “são mudadas”.
O filme deixa claro que aplauso e decisão de ser aquilo que se
aplaude são coisas diferentes. Mudaram Maguire, Dorothy Boid, Rod
Tidwell, mas quantos foram os que optaram por não mudar diante do
chamado da oportunidade?
104
Ricardo de Almeida Prado Xavier
A busca de uma ocupação com sentido
tem custo e risco
O indivíduo às vezes é conduzido de fora para dentro. Isto é, o
ambiente (a empresa, o chefe, a família) molda suas decisões. É o
processo de acomodar-se, um processo passivo por meio do qual a
pessoa obedece aos ditames do meio e recebe o que o meio lhe dá em
troca dessa obediência.
O que acontece quando a pessoa resolve fazer ela própria suas
escolhas? Freqüentemente ela entra em confrontação com o ambiente,
por não querer obedecer e não querer contentar-se com o prêmio pago
pela obediência. Então, como resultado dessa confrontação, o prêmio
é cortado e além disso muitas vezes advêm castigos pela ousadia de
ter resolvido ser autêntico.
Acomodação passiva ao ambiente, porém, traz conforto mas
dificilmente traz plena realização. Jerry Maguire resolveu pagar o preço
de tentar algo diferente do que estava previsto para ele. Após o turbilhão
da mudança certamente virá uma nova acomodação ao ambiente, mas
já não é mais uma acomodação passiva e sim uma acomodação ativa,
comandada e aceita pelo indivíduo.
Há necessidade de escolher
Não escolher já é escolher. Manter-se passivo, conviver com o
desconforto de ser obrigado a agir de modo que se julga inadequado,
“deixar como está para ver como é que fica” – tudo isso reflete
escolhas. As pessoas sempre escolhem – e às vezes a escolha é a
acomodação.
O medo de decidir, que paralisa a pessoa, é, de certa forma, nesse
quadro, um medo insensato, pois a decisão é inevitável. O problema
então é escolher certo.
Cada um é responsável por aquilo que é, porque fez suas
escolhas.
105
Em Cartaz
As escolhas maiores reorientam o trabalho
e a vida
Há grandes decisões a serem tomadas: um novo emprego, a
abertura de um negócio próprio, a escolha de um curso de doutorado,
um casamento, a mudança de país. Essas têm um peso significativo
sobre o trabalho e a vida – e o que podemos obter deles.
Para tomar as grandes decisões é fundamental um aprofundamento
na própria estrutura de valores. Muitas vezes as pessoas desconhecem
os próprios valores. Jerry Maguire, por assim dizer, “acordou”, teve
a sorte de descobrir o que efetivamente importa para ele.
É muito importante para um profissional que ele reflita
profundamente sobre si mesmo: suas emoções, reais interesses,
vocação, valores. Com base nisso as escolhas serão mais eficazes.
É possível atingir o sucesso com real
sentido
Ao fazer escolhas verdadeiras e perseguir seus ideais o indivíduo
provavelmente encontra maiores dificuldades e riscos. Mas o prêmio
é o sucesso em que trabalho e vida passam a fazer sentido.
Jerry Maguire tinha sucesso sem sentido e passou a ter sucesso
com sentido. Valeu a escolha e o risco assumido.
106
Ficha Técnica
Título: Jerry Maguire
Gênero: Comédia
Duração: 135 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1996
Estúdio: TriStar Pictures/Gracie Films
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe
Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence
Mark e Richard Sakai
Música: Nancy Wilson
Direção de Fotografia: Janusz Kaminski
Direção de Arte: Clayton Hartley e Virginia L. Randolph
Desenho de Produção: Stephen J. Lineweaver
Figurino: Betsy Heimann
Edição: Joe Hutshing e David Moritz
Efeitos Especiais: Cinesite Hollywood
Elenco: Tom Cruise (Jerry Maguire); Cuba Gooding Jr.
(Rod Tidwell); Renée Zellweger (Dorothy Boyd); Kelly
Preston (Avery Bishop); Jerry O’Connell (Frank Cusham);
Jay Mohr (Bob Sugar); Bonnie Hunt (Laurel Boyd); Regina
King (Marcee Tidwell); Jonathan Lipnicki (Ray Boyd);
Todd Louiso (Chad); Mark Pellington (Bill Dooler); Jeremy
Suarez (Tyson Tidwell); Jared Jussim (Dicky Fox); Eric
Stoltz (Ethan Valhere); Lucy Liu
Premiações
Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.);
foi indicado em outras quatro categorias: Melhor Filme,
Melhor Ator (Tom Cruise), Melhor Roteiro Original e Melhor
Edição.
O preço do sucesso a
qualquer preço
Introdução
A receita do fracasso empresarial é conhecida. Freqüentemente
ela inclui um mundo que mudou, uma organização que se recusa
a aceitar a mudança externa e insiste em uma fórmula que já não
funciona, um processo de gerenciamento autocrático e inflexível, uma
estratégia inviável e pessoas despreparadas para esse contexto.
E a que esse quadro de falência leva sabe-se também. Leva ao
desaparecimento da auto-estima, ao surgimento de atitudes céticas, à
passividade, à degradação moral, no plano individual. No plano social
leva à inveja, à competição disfuncional, ao conflito, à expressão
daquilo de pior que o ser humano é.
Quando o quadro de fracasso se estabelece, as pessoas têm duas
alternativas saudáveis: mudar o contexto em que vivem ou abandonálo. Se, paralisadas pelo medo, não adotam nem uma nem outra dessas,
tornam-se sobreviventes – aqueles cuja motivação única é continuar
existindo – e então fazem qualquer coisa que for necessário para
Em Cartaz
atingir essa meta. Esse “sucesso” é buscado a qualquer preço, sendo
que usualmente o preço pago é alto demais.
O sucesso a qualquer preço (Glengarry Glen Ross) focaliza
de modo tragicômico, com todas as cores, um quadro de falência
institucional e individual e suas conseqüências. A lição da falência nos
ensina como manter-nos alertas e eficientes para não nos tornarmos
meros sobreviventes.
A história: empresa, pessoas e planos
errados
O filme traduz fielmente a peça teatral de Daviv Mamet, que
recebeu o prêmio Pulitzer como a melhor peça londrina do ano de 1983.
Focaliza uma firma fracassada, planos inviáveis e pessoas perdedoras,
mas sugere uma falência maior, no âmbito da sociedade.
A história gira em torno de quatro corretores de imóveis, seu
gerente e um novo executivo enviado pela matriz para melhorar
os resultados de vendas da unidade. Dos quatro gerentes, três vêm
tendo crônicas dificuldades para fechar negócios e um, Ricky Roma
(Al Pacino), é, por assim dizer, um sobrevivente bem-sucedido, uma
vez que vem apresentando bons resultados, porém sempre à custa de
métodos de vendas de ética duvidosa.
Na visão dos corretores, o fracasso se deve à má qualidade das
fichas de clientes potenciais que a imobiliária lhes passa. Apresentam
um quadro de atitudes céticas altamente negativas – em relação ao
trabalho, à empresa, ao cliente, às possibilidades de vendas, o que
por si só leva ao fracasso em vendas. Entretanto, são incapazes de
perceber que são, no mínimo, co-autores de seu próprio fracasso,
buscando causas externas para ele. No caso, concentram-se na crítica
às fichas de clientes.
Eis que surge um novo executivo enviado pela matriz para
ampliar as vendas. Na primeira reunião de vendas, estabelece-se
uma nova dinâmica na organização. O que antes era um ambiente de
110
Ricardo de Almeida Prado Xavier
acomodação sustentado pelo gerente John Williamson (Kevin Spacey),
passivo e imaturo, agora tornou-se uma arena competitiva das mais
cruéis. Com um discurso extremamente agressivo, que desrespeita
flagrantemente a dignidade dos corretores, o novo executivo, Blake
(Aleck Baldwin), apresenta as novas regras do jogo: os corretores terão
uma semana para apresentar resultados ou... rua! Usando vocabulário
de baixo calão, xingando, ofendendo pessoalmente os ouvintes, ele
apresenta um plano de vendas que premia com um Cadilac Eldorado
o primeiro colocado em vendas, um mero faqueiro para o segundo
e... demissão para os demais colocados. Um detalhe: ninguém terá
direito às novas fichas de clientes, supostamente boas, enquanto
não apresentar resultados, isto é, os corretores terão de continuar
trabalhando com as fichas que julgam ruins.
Estabelecido o clima de terror, os corretores passam a apresentar
suas reações. O drama central é protagonizado por Shelley Levene
(Jack Lemmon), um corretor com mais de 60 anos, que tem uma
filha doente no hospital, aparentemente em situação de penúria.
Desesperado para atingir resultados, ele tenta seduzir o gerente a
dar-lhe fichas boas, quando os dois se acham sozinhos. O gerente
acaba aceitando suborno – 50 dólares por ficha, mais porcentagem
dos resultados obtidos, negócio que não é concluído porque Shelley
não dispõe do dinheiro necessário.
Ainda na mesma noite, enquanto Shelley faz o possível e o
impossível para fechar uma venda, usando seus mesmos métodos
velhos e ineficientes, alguém está tramando um crime. Dave Moss
(Ed Harris), um corretor jovem, raivoso e passivo que vive sonhando
com a possibilidade de abandonar a imobiliária, tenta corromper e
transformar em comparsa o colega George Aaronow (Alan Arckin),
um profissional passivo, limitado, de baixíssima auto-estima, que não
consegue ter nenhuma reação diante do quadro de fracasso. Moss
propõe que Aaronow invada o escritório da imobiliária e roube as
fichas de clientes boas que lá estão guardadas, para que sejam vendidas
a Jerry Graf, um corretor aparentemente desonesto que já pertenceu
à empresa, mas hoje atua por conta própria – e é visto como modelo
por Moss.
111
Em Cartaz
No dia seguinte a polícia se acha no escritório logo cedo,
quando os corretores vão chegando. A imobiliária foi assaltada e
alguém roubou as fichas. No ambiente de tensão que se estabelece,
ocorre um diálogo crítico e agressivo entre Shelley e Williamson, o
primeiro arrogando-se a sabedoria de vendedor (porque pretensamente
conseguira fechar uma boa venda na noite e estava salvo da demissão)
e humilhando o segundo. Shelley tenta “ensinar” Williamson a lidar
com os clientes, quando fala demais e mostra saber de algo que apenas
alguém que tivesse ido ao escritório à noite estaria sabendo. O gerente
imediatamente percebe que Shelley invadira o escritório – o que o
corretor acaba confessando. Ele, em parceria com Moss, tinha roubado
as fichas, para vender a Graf.
Mensagem
Em termos gerais: estrutura e processos gerenciais inadequados
comprometem não só o desempenho das pessoas e equipes mas
também os padrões éticos.
Em termos específicos: para vencer em vendas é necessário,
além das condições externas adequadas, atitudes positivas.
Recomendações
Especialmente recomendado para uso em treinamento de
gerência, supervisão ou força de vendas. Por apresentar um quadro
rico de modos errados de se comportar em vendas – da empresa,
gerente, vendedor – permite boas discussões.
Lições do fracasso
Deixando de lado a crítica social mais ampla que David Mamet
faz por meio da peça que virou filme, queremos destacar os seguintes
ensinamentos que podem ser extraídos de O sucesso a qualquer
preço:
- a empresa “errada” não tem salvação;
112
Ricardo de Almeida Prado Xavier
- a gerência pelo terror não funciona;
- com planos inviáveis, esforços extras trazem apenas mais fracasso;
- a pessoa constrói seu próprio caminho para o fracasso;
- pessoas “sobreviventes” podem perder os limites morais.
A empresa errada
O que é uma empresa errada? É aquela que tem uma adequação
básica em produto, processo, estrutura, cultura ou estratégia. A
empresa que não se adaptou às mudanças do ambiente e insistiu
em uma fórmula que já não traz mais resultados. Essa empresa não
tem salvação, isto é, se ela não passar por uma drástica mudança,
inexoravelmente marchará para a falência.
Muitas vezes, aqueles que estão no comando não percebem
que sua empresa está errada e ficam tentando salvá-la, mas sem
promover as necessárias mudanças. Multiplicam-se os planos, esforços
intensivos são feitos, freqüentemente há a queima de recursos valiosos
– e ao final do processo o que sobra? A frustração.
A imobiliária focalizada em O sucesso a qualquer preço está
fadada ao fracasso. Embora não haja uma referência mais clara à sua
matriz e aos métodos, processos e estratégias dessa, pela unidade se
depreende a idéia de que a empresa tem de fazer um enorme esforço
para vender – o que, por si só, usualmente é sintoma de inviabilidade.
Aparentemente sustenta-se baseada em pessoas que adotam métodos
no mínimo vulneráveis, incapazes de construir solidez a longo prazo.
É o caso de Blake, o executivo agressivo e desumano, e Roma, o
corretor cético e esperto – ambos querendo vender a qualquer preço,
e do gerente desonesto e passivo, buscando a sobrevivência pessoal
por meios escusos.
Blake poderia, sim, representar os ventos da mudança para
bons caminhos, se se apresentasse como líder verdadeiro, com um
paradigma modernizante.
113
Em Cartaz
A gerência pelo terror não funciona
Quando se exerce a gerência pelo terror, as pessoas são motivadas
pelo medo. Usualmente elas se desvinculam emocionalmente da
liderança, pois ninguém que faça terrorismo é legítimo. Assim, fingirão
seguir as regras impostas, e até as seguirão em certa medida, mas
terão planos alternativos individuais, que podem até mesmo conspirar
contra os da direção. A curto prazo, os resultados podem aparecer, mas
é impossível sustentar um processo desses a longo prazo.
Entre os vícios da gerência pelo terror, encontramos:
- Imoralidade – a gerência pelo terror contraria frontalmente os
princípios de dignidade humana.
- Resultados eventuais insustentáveis – se algum resultado
aparece a curto prazo, provavelmente será melhor não confiar na
sustentação.
- Formação de conspiradores – grupos ou indivíduos vão
mobilizar-se contra.
- Riscos – incluem desde os danos por meio de fraudes até os
provocados por ações judiciais, problemas de imagem, destruição de
ativos etc.
No caso da imobiliária Mitch & Murray, o novo executivo trouxe
o terror e com ele a conspiração, a degradação moral, o crime contra
a empresa, a lesão à imagem, a perda irreparável de profissionais que
teriam potencial se adequadamente orientados.
Com planos inviáveis, esforços extras
trazem apenas mais fracasso
Como lembrou Peter Drucker, antes de fazer as coisas certas, é
necessário fazer a coisa certa. Um plano inviável trará inevitavelmente
o fracasso, ainda que os executores sejam eficientes. O esforço
extra só resulta em frustração extra, perda de energia, de tempo e de
dinheiro.
114
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Vender a clientes que não querem ou não podem comprar é
tarefa inglória. Igualmente vender com métodos ultrapassados,
como o discurso de Shelley e as artimanhas de Roma, a que poderá
levar? Igualmente não pode dar certo a ampliação intempestiva e não
planejada da meta de vendas, o plano de motivar pelo medo, recursos
adotados por Blake.
A pessoa constrói seu próprio caminho
para o fracasso
Quer fracassar em vendas? A receita é simples:
- Passe a olhar só os problemas e não as oportunidades.
- Construa idéias falsas sobre clientes e seu potencial – e aja de
acordo com essas idéias.
- Seja cético e lacônico.
- Invente boas desculpas para não vender.
- Insista em métodos ultrapassados.
Os corretores do filme, exceto Roma, o malandro, apresentam
um pouco de tudo isso. Por terem deixado o fracasso entrar em sua
alma, corroendo sua auto-estima, perderam a capacidade de ser
proativos, respondendo de modo padronizado e inadequado ao desafio
de vender.
Ninguém pode culpar a imobiliária, a gerência ou quem quer
que seja por seu fracasso. Porque a qualquer um seria possível reagir
positivamente – abandonar a imobiliária quando ela se mostrasse
contexto inadequado para o sucesso profissional. É mais confortável
não fazer nada e reclamar, mas é por esse caminho que um vendedor
constrói o seu fracasso.
Pessoas “sobreviventes” podem perder os
limites morais
É ingênuo dizer que todo homem é corruptível. Igualmente
é ingênuo esperar a santidade de todos. Gente honesta e bem-
115
Em Cartaz
intencionada pode atravessar a fronteira da ética e da moral,
dependendo das circunstâncias. Um contexto inadequado, que inclui
a competição, a luta pela sobrevivência, um quadro de dificuldades,
a presença de uma forte emoção podem derrubar as defesas de quem
sempre foi honesto.
A instituição e a gerência, por exercerem poder, têm uma
responsabilidade social séria quanto a isso. Essa consiste em preservar
o ambiente saudável para que apenas as expressões do que o ser
humano tem de melhor possa aflorar.
116
Ficha Técnica
Título: O sucesso a qualquer preço (Glengarry Glen
Ross)
Gênero: Drama
Duração: 100 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1992
Estúdio: New Line Cinema
Direção: James Foley
Roteiro: David Mamet, baseado em sua peça original que
estreou em Londres em 1983, daí seguindo para Chicago
e finalmente estreando na Brodway, com enorme sucesso,
tendo recebido o Prêmio Pulitzer em 1984.
Produção: Jerry Tokofsky; Stanley R. Zupnik
Música: James Newton Howard
Direção de Fotografia: Juan Ruiz Anchia
Desenho de Produção: Jane Musky
Figurino: Jane Greenwood
Edição: Howard Smith
Elenco: Al Pacino (Ricky Roma); Jack Lemmon (Shelley
Levene); Alec Baldwin (Blake); Ed Harris (Dave Moss);
Alan Arkin (George Aaronow); Kevin Spacey (John
Williamson); Jonathan Pryce (James Lingk); Bruce Altman
(Mr. Spannel); Jude Ciccolella (Detective); Paul Butler
(Policial).
Praticando a arte de viver
O jeito americano de viver, embora tenha inegavelmente trazido
muita realização material, nem sempre tem as melhores alternativas
no plano pessoal. O consumo desenfreado com a ausência de sentido
na posse dos objetos, a abundância e a busca permanente da perda de
peso, a organização eficiente e a falta de laços efetivos – eis algumas
contradições do american way of life.
O diretor desse filme elegante, leve e envolvente vale-se de uma
história simples para propor uma reflexão sobre os modos de viver
americano e chinês. Um velho mestre de tai chi chuan aposentado
deixa Pequim e vai morar com o filho, a nora e o neto. Nesse contexto,
sua presença vai ensinar a arte de viver.
Uma história, duas culturas
Um mestre de tai chi chuan, Mestre Chu (Sihung Lung), vai
morar com o filho em Nova York, após a aposentadoria, em Pequim. O
filho, Alex (Bo Z. Wang), casado com uma jovem escritora americana,
Martha (Deb Snyder), e pai do garoto Jeremy (Haan Lee), é um bemsucedido profissional de informática. A presença do Mestre Chu na
casa traz um permanente estresse para Martha, de natureza ansiosa. Por
seu lado, o mestre tem vivido descontente, isolado na casa, sem saber
falar inglês. Seus raros momentos de prazer resumem-se às aulas de
Em Cartaz
tai chi chuan que ministra em uma escola chinesa aos sábados, onde o
neto vai tomar aulas da língua. Com dificuldade para escrever e para
aceitar de bom grado a presença do sogro, Martha pensou em comprar
uma casa maior, mas o marido tem outros planos.
Na escola chinesa, o mestre conhece a senhora Chen (Lai Wang),
professora de culinária, que tem uma vida parecida com a dele – ela
também veio da China, está na mesma faixa etária, mora em casa da
filha, tem uma neta e sente-se deslocada no mundo dos parentes. O
encontro resulta em imediata simpatia.
A presença do mestre na casa do filho começa a trazer problemas,
como o ocorrido no dia em que o ancião saiu para um passeio e
perdeu-se. Na seqüência da crise causada por esse fato, o filho tem a
idéia de promover um encontro do mestre com a senhora Chen, mas
Chu acaba por descobrir que o encontro fora arranjado e que tanto ele
quanto Chen têm sido manipulados pelos filhos, que têm planos para
eles. Chu abandona a casa do filho, que passa a viver intensa angústia,
pois, criado na tradição chinesa, sente-se responsável por cuidar do
pai, a quem ama. Tenta em vão localizar o pai, até que este aparece
na TV, como herói que dominou um grupo de jovens agressores,
capangas de seu patrão no restaurante em que trabalhava. O filho
reencontra Chu, mas este decide morar só, em Chinatown, e deixar o
filho seguir sua vida. Chu acaba reencontrando a senhora Chen, com
quem inicia um namoro.
A história é o pano de fundo para uma comparação dos estilos de
vida americano e chinês. O primeiro, representado por Martha e por
outros personagens como o patrão de Chu, um chinês já plenamente
acostumado ao jeito americano, é essencialmente objetivo, utilitarista,
voltado para a eficiência, para resultados, marcado pela busca do
consumo e das realizações materiais. O jeito chinês, personificado
por Chu e pela senhora Chen, está essencialmente preocupado com a
substância da vida, com a atribuição de sentido aos comportamentos
fundamentais (comer, exercitar-se, relaxar), preocupado com qualidade
de vida e pouco com bens materiais. Alex é um personagem em
conflito, que, vivendo pelo padrão e valores americanos, consegue
reter valores fundamentais da cultura chinesa.
120
Ricardo de Almeida Prado Xavier
O Mestre Chu sugere que nem na China há mais o jeito chinês
de viver. Em conversa com a senhora Chen, que foi sempre vítima
da perseguição dos comunistas, sugere que a Pequim que ela
conheceu não existe mais. No entanto, os dois mantêm-se vivos, são
a representação de uma cultura que prima pela harmonia, a delicadeza
e o equilíbrio, e vivem nos EUA. O filme deixa a mensagem de que
o jeito harmônico de viver pode ser praticado aqui e agora.
Mensagem de sentido na vida
Viver de modo apressado, “objetivo” e mecânico provavelmente
não vai levar a grandes coisas em termos de satisfação pessoal. É
necessário viver com sentido. Eis uma das mensagens que esse filme
traz.
Recomendações
O filme pode trazer boas reflexões sobre a diferença entre ser
e ter, sobre viver com sentido e viver de modo mecânico, sobre o
porquê de se buscar a realização material, sobre impulsos insensatos
da vida moderna.
Lições de vida
- Antes de buscar resultados externos, é fundamental o indivíduo
cuidar de seu autodesenvolvimento. Por que alguém perde o controle
sobre seu estado de espírito? Por que se vive ansioso? Quem cuida
bem de si mesmo tem mais controle sobre esses males.
- A intolerância a estilos de vida diferentes, ela própria, é sintoma
de que o estilo que adotamos não é satisfatório. A nora do Mestre Chu
tinha dificuldade de tolerar a presença dele, simplesmente porque ele
era diferente. Será que ela estaria “resolvida”?
A China que a senhora Chen conheceu não existe mais. Em
compensação os EUA, com toda a sua pujança material, não tem
todas as respostas que demanda um ser inteligente que busca a vida
com qualidade. Contudo, fazendo uma síntese, pode-se viver uma
vida qualitativa aqui e agora.
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Ficha Técnica
Título: A arte de viver (Pushing Hands)
Gênero: Comédia/Drama
Duração: 88 minutos
Ano de lançamento (Taiwan/EUA): 1992
Estúdio: Cinepix
Distribuição: Filmes do Estação
Direção: Ang Lee
Roteiro: Ang Lee e James Schamus
Produção: Ted Hope, James Schamus, Ang Lee, Emily
Liu
Música: Xiao-Song Qu
Direção de Fotografia: Jong Lin
Desenho de Produção: Scott Bradley
Direção de Arte: Michael Shaw
Figurino: Elizabeth Jenyon
Edição: Tim Squyres
Elenco: Sihung Lung (Mestre Chu); Lai Wang (Senhora
Chen); Bo Z. Wang (Alex Chu); Deb Snyder (Martha Chu);
Haan Lee (Jeremy Chu).
A fraude mostra a
queda do homem e da
organização
Pessoas tornam-se vulneráveis e podem fazer aquilo que não legal
ou ético – por que e como isso ocorre? Igualmente as organizações,
feitas por pessoas, derrapam na moral e são levadas ao desastre – qual é
o processo que o causa? O filme A fraude (Rogue Trader) mostra como
um profissional e uma organização são levados ao comportamento
inadequado e, conseqüentemente, ao desastre. Baseado no livro
autobiográfico de Nick Leeson, o filme mostra como se arquitetou o
desastre que levou à falência o Barings Bank, da Inglaterra, o banco
mais antigo do mundo.
Ambição e tolerância com o erro são os dois ingredientes
principais da história, que tem muito a ensinar a qualquer pessoa
que almeja crescer na carreira e a qualquer organização que pretende
manter sua saúde.
Em Cartaz
Uma história de deterioração moral e
profissional
O jovem e ambicioso Nick Leeson (Ewan McGregor) é admitido
para trabalhar no Barings Bank, tradicional casa bancária britânica,
considerado o banco mais antigo do mundo. Persuasivo e voltado
para a carreira, longo encontra sua grande chance, quando é enviado
para Cingapura, para executar um trabalho operacional e árduo, que
exigia responsabilidade e bom nível profissional. Dá conta da tarefa
magistralmente, auxiliado por Lisa (Anna Friel), uma bela jovem que
o banco enviou para ajudá-lo e por quem imediatamente se apaixona.
Tarefa cumprida, Leeson começa sua carreira ascendente na instituição
e casa-se com Lisa.
Tendo migrado para a área de seu maior interesse, a bolsa,
Leeson recebe uma jovem equipe e começa a imprimir no setor seu
modo próprio de administrar, muito voltado para a lealdade, para a
amizade, para o relacionamento interpessoal. Eis que uma de suas
subordinadas comete um erro simples e perde uma quantia nada
significativa para um banco. A perda, entretanto, custaria a demissão
da moça. Na tentativa de salvá-la, Leeson realiza uma operação para
cobrir o referido valor. Esse valor de erro é transitoriamente jogado
em uma conta, a 88888, para não chamar a atenção. No entanto, a
operação de salvamento dá errado e novas quantias são perdidas e
novas operações são feitas no sentido de cobri-las, até que se chega
a um valor realmente significativo quando, em uma operação em que
foi ajudado pela sorte, Leeson consegue recuperar tudo.
Os erros ficariam encobertos, tudo voltaria à normalidade, ele
voltaria à boa vida com a linda mulher, o conforto e a prosperidade que
o cargo vinha trazendo. Contudo, eis que entra em cena a ambição e
ele passa a acreditar que se a coisa funcionou uma vez, vai funcionar
outras. Recomeça a vida de jogadas que, de repente, começam a dar
errado novamente, e vão abrindo um rombo nas contas do banco,
sempre com a cobertura da famosa conta 88888.
124
Ricardo de Almeida Prado Xavier
Um dia, com valores astronômicos, que podem ter chegado
aos bilhões de dólares, o rombo aparece. Lesson vai para a cadeia, a
apaixonada esposa acaba casando com outro, o banco vai à falência
e é vendido pela quantia simbólica de uma libra.
Mensagem
A lição fundamental que fica é que a tolerância com o erro, seja
em outros, seja em si mesmo, nunca leva ao bom caminho. Aqui houve
uma profusão de erros – operacionais, de raciocínio, morais e em todas
as instâncias, no plano individual e no organizacional, observou-se a
negligência e a tolerância em relação a eles.
Recomendações
Excelente filme para discussões sobre temas empresariais os mais
diversos. Por exemplo, pode ser usado para reflexões sobre:
- papel da gerência;
- limites éticos da lealdade entre profissionais a serviço de uma
empresa;
- confiança e confiabilidade nas relações funcionais;
- negligência com os controles;
- erro de ser “bonzinho”, de querer agradar a todos, cometendo
erros por isso;
- diferença entre aceitação inteligente do risco e mero jogo com
dinheiro de terceiros;
- surgimento de teorias malucas e sua aplicação na
administração;
- discursos entusiásticos que motivam, mas levam ao caminho
errado.
Enfim, o que não falta nesse filme é tópico de observação para
estudo de situações empresariais.
125
Em Cartaz
Lições
- O impulso de querer agradar aos outros traz riscos. Muitos
profissionais sentem dificuldade de dizer “não” e de tomar decisões
dolorosas envolvendo terceiros. Com isso, acabam fazendo mais mal
que bem.
- A complacência com procedimento errado é inaceitável no
mundo empresarial, principalmente quando se trata de operações
financeiras. O descuido em auditorias leva a fraudes, quase sempre.
- Executivos ausentes deixam de cumprir seu papel. Há os que
olham as coisas “muito por cima”, de modo superficial, e entregamse a atividades cerimoniais agradáveis, fugindo do contato com
os problemas reais do dia-a-dia. Isso é perigoso do ponto de vista
empresarial.
- Lealdade ao grupo, a colegas, a chefes não implica compactuar
com erros e fraudes. Os limites da lealdade são estabelecidos pela
ética e pelo profissionalismo.
- É fundamental compreender bem o que é aceitar riscos no
mundo empresarial. Arriscar é desejável e louvável, mas dentro de
um prisma racional de avaliação de riscos, de comunicações claras,
de operações legais e racionais.
- Tomar atalhos no caminho da carreira, querer apressar as
promoções, derrapar na ilegalidade – tudo isso leva ao desastre.
- Pessoas e empresas são vulneráveis. O controle e a racionalidade
são fundamentais para a manutenção da saúde e produtividade.
Quando as pessoas enfrentam problemas sérios, freqüentemente
adotam “postura de avestruz”, isto é, enfiam a cabeça no buraco, para
não ver o que está ocorrendo. Isso é um erro fatal.
126
Ficha Técnica
Título: A fraude (Rogue Trader)
Gênero: Drama
Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (Inglaterra): 1998
Direção: James Dearden
Roteiro: James Dearden (a partir da autobiografia de Nick
Leeson)
Produção: Janette Day, James Dearden, Paul Raphael
Direção de Fotografia: Jean-François Robin
Desenho de Produção: Alan McDonnald
Figurino: Raphael Fleming
Edição: Catherine Creed
Elenco: Ewan McGregor (Nick Leeson); Anna Friel
(Lisa Leeson); Yves Beneyton; Betsy Brantley; Caroline
Langrishe
K-19 mostra os dilemas
da liderança
Um líder toma decisões que envolvem diferentes realidades.
Uma delas é a realidade política – o que é politicamente adequado
em uma determinada situação? Outra é a realidade técnica – o que é
tecnicamente adequado? Há ainda a realidade estratégica – qual é a
opção de menor risco e maior probabilidade de êxito na incerteza?
Há ainda o contexto ético – o que é certo e o que é errado?
O problema não seria muito complicado se essas realidades
não tivessem demandas contraditórias. De um momento para outro,
justamente na condição da decisão mais crítica, o líder se vê na
necessidade de decidir e tendo à sua frente um conjunto de necessidades
que se chocam. O que fazer? Eis a grande responsabilidade da
liderança.
Uma história da situação em que a política
compromete a razão
O filme é inspirado em um fato real.
Em 1961, em plena Guerra Fria, quando EUA e URSS mantinham
uma delicada paz armada baseada no medo recíproco, o Capitão
Em Cartaz
Alexei Vostrikov (Harrison Ford) recebe a missão de tomar o comando
do submarino nuclear K-19 do Capitão Mikhail Polenin (Liam
Neeson). Na visão do poder central, o Capitão Polenin não tinha a
necessária visão política para comandar o submarino e colocava seus
homens acima das responsabilidades da missão. Vostrikov não tinha
a qualificação técnica de Polenin, nem a experiência estratégica na
condução de um submarino desse porte, construído para demonstrar
força perante os americanos e demovê-los de eventuais tentações de
ataque. O submarino deveria fazer um teste de lançamento de um
míssil nuclear.
Eis que, para cumprir as metas estratégicas e políticas da missão,
Vostrikov vai além dos limites técnicos recomendados para a condução
da operação. Por infortúnio, um problema técnico coloca o submarino
em perigo, o que poderia trazer impactos inimagináveis, tratando-se
de um submarino nuclear carregado de mísseis, aproximando-se
da Europa e dos EUA. Com problemas técnicos e situação de alto
perigo, o K-19 é abordado por um barco de guerra americano, que se
comunica na faixa de emergência oferecendo ajuda. Vostrikov, preso
à esfera política, recusa e tenta fazer o submarino submergir para
que a equipe repare os problemas, mas estes se agravam e ele se vê
diante de uma difícil decisão – deixar que todos morram ou aceitar
a ajuda dos americanos. Ante o dilema moral, acaba decidindo-se a
aceitar a ajuda, mas é salvo pela chegada de um submarino soviético
que veio socorrê-lo.
Vostrikov é a voz da política. Ele acata a orientação do poder
central, assimila os objetivos estratégicos dessa, amolda-se ao que
o comando superior acha correto. Daqui surgem muitas fraquezas.
Na URSS a política contagiava de tal modo as decisões técnicas
e estratégicas que essas acabavam por apresentar tal inadequação
que comprometia até mesmo os objetivos maiores, políticos.
Qualquer decisão era orientada pela pergunta: o que é melhor para o
comunismo e para o partido? Daí se o certo do ponto de vista técnico,
estratégico ou até ético contrariasse os interesses do comunismo ou
do partido, prevalecia a decisão política. O comandante assumiu o
submarino imbuído da missão política e levou-a até onde deu, tendo
130
Ricardo de Almeida Prado Xavier
tido a sabedoria de romper com ela quando se mostrou patológica
e inadequada. Teve o bom senso de ouvir seus comandados e
particularmente seu comandado principal, o Capitão Polenin.
Polenin representa a pureza técnica e ética. Conseguia manterse isento do contágio político das instâncias superiores. Um ponto
que facilitava a adoção dessa postura é que de certa forma ele, mais
embaixo na hierarquia do partido comunista, era vítima das decisões
irracionais e iludidas da turma de cima, que desconhecia a realidade
dos fatos ao decidir sobre os outros.
A tripulação do submarino mostra como as pessoas percebem
os líderes, seus papéis e suas condutas. Liderados efetivamente
por Polenin, os homens acataram responsavelmente o comando de
Vostrikov, até o limite, sem aceitar de alma e coração suas ordens.
Uma reversão se deu no momento em que Vostrikov percebeu a falácia
da política e resolveu entrar em empatia com todos, percebendo
os problemas reais e reagindo com responsabilidade e cabeça de
ser humano digno e não como defensor de interesses partidários ou
ideológicos duvidosos. A partir desse momento, todos – porque tinham
compromisso com sua própria responsabilidade de solidariedade
humana – acataram a direção do comandante efetivamente.
Mensagem – equilíbrio na liderança
A política pode contagiar negativamente o quadro decisório e
levar a desastres, incluindo a ruptura com a ética e com os valores mais
sagrados da solidariedade humana. Um líder tem de partir da política,
mas saber dizer não a ela ou tentar mudá-la quando as circunstâncias
mostram que ela deteriorou-se e, em vez de oferecer orientação
adequada, torna-se um instrumento irracional de autodestruição.
É fundamental considerar todos os aspectos envolvidos nas
grandes decisões: os políticos, os estratégicos, os técnicos, os éticos.
Julgamento adequado e sensibilidade tornam-se fundamentais para
o líder.
131
Em Cartaz
Recomendações
O filme pode ser usado para uma análise dos conflitos das
decisões das pessoas que têm poder.
Entre outras questões a discutir com base nele, podemos mencionar
as seguintes:
- O que fazer quando o chefe está errado?
- Até que ponto o enfoque exclusivamente técnico pode levar a
decisões inadequadas?
- Nem tudo que é tecnicamente bom é politicamente bom. Como
resolver esse problema?
- O que fazer para que a política não contagie inadequadamente
as decisões técnicas e estratégicas?
Uma lição para os líderes
Entre outras excelentes lições do livro, podemos destacar a
seguinte:
Um líder tem de ter a firmeza de propósito para fazer a política
justa orientar as decisões, mas também precisa de flexibilidade para
mudar quando o politicamente correto mostra-se inadequado.
132
Ficha Técnica
Título: K-19: The Widowmaker
Gênero: Drama
Duração: 138 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2002
Estúdio: Intermedia Films / First Light Production / IMF
Internationale Medien un Film GmbH & Co. 2 Produktions
KG / National Geographic Society / New Regency Pictures/
Palomar Productions
Distribuição: Paramount Pictures / UIP / 20th Century
Fox
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Christopher Kyle, baseado em história de Louis
Nowra
Produção: Kathryn Bigelow, Edward S. Feldman, Sigurjon
Sighvatsson e Chris Withaker
Música: Klaus Badelt
Direção de Fotografia: Jeff Cronenweth
Desenho de Produção: Karl Juliusson e Michael Novotny
Direção de Arte: Arvinder Grewal e William Ladd Skinner
Edição: Walter Murch
Elenco: Harrison Ford (Capitão Alexei Vostrikov);
Liam Neeson (Capitão Mikhail Polenin); Sam Spruell
(Dimitri Nevsky); Peter Stebbins (Kuryshev); Christian
Camargo (Pavel Loktev); Roman Podora (Lapinsh);
Sam Redford (Vasily Mishin); Steve Nicolson (Yuri
Demichev); Ravil Issyanov (Igor Suslov); Tim Woodward
(Konstantin Partonov); Lex Shrapnel (Mikhail Kornilov);
Shaun Benson (Leonid Pashinski); Kristen Holden-Reid
(Anton Malahov); Dmitry Chepovetsky (Sergei Maximov);
Christopher Redman (Kiklidze); Joss Ackland (Marshal
Zalentsov); John Shrapnel (Almirante Bratyeev); George
Anton (Konstantin Poliansky).
Nada é mera
coincidência, na arte de
inventar o real
Até que ponto aquilo que vemos e ouvimos traduz a verdade dos
fatos? Até que ponto os fatos são reais e até que ponto não passam de
ficção criada com a finalidade de propaganda? Muita gente acredita
firmemente na chamada teoria da conspiração, uma idéia de que a elite
manobra maquiavelicamente para atingir seus objetivos, apresentando
uma realidade falsa ao povo. Este filme eleva ao quadrado a idéia da
teoria da conspiração – é uma comédia, ficção. O título que o filme
tomou no Brasil (Mera coincidência) não tem nada a ver com o título
em inglês (que significa algo como “balançar o cachorro” em vez de
o cachorro balançar o rabo, num trocadilho que quer dizer mudar a
realidade). Foi criado em alusão a um fato real, o relacionamento do
ex-presidente Bill Clinton com a estagiária Monica Lewinski. Isso
quer dizer que a realidade (caso Clinton/Monica) imita a arte, porque
o caso ocorreu após o filme, e que a ficção do filme tem algum fundo
de verdade.
O caso é que pessoas no poder agem de tal modo a sustentá-lo.
Para isso, trabalha-se a sério a imagem, constroem-se as versões
Em Cartaz
da mídia. A mídia, por sua vez, é vulnerável. E a opinião pública?
Importante, mas frágil e nem sempre disposta a encarar os fatos
mais duros, a ver as coisas como elas são e não como se gostaria que
fossem.
História de coincidências entre o real e a
ficção
O presidente norte-americano, em campanha para reeleição,
comete um deslize ao molestar sexualmente uma adolescente que
vai em excursão visitar a Casa Branca. O escândalo está prestes a
estourar, com o presidente em visita à China, quando chamam Conrad
“Connie” Bean (Robert De Niro), um experimentado articulador, para
dar um jeito na situação e evitar o escândalo e o desastre político
resultante. Bean imediatamente começa a trabalhar, auxiliado pela
assessora de imprensa Winifred Ames (Anne Heche), que fica como
observadora atenta dos fatos, mais que como agente. Stanley Motss
(Dustin Hoffman), um destacado e milionário produtor de Hollywood,
é convocado para auxiliar na tarefa de desviar a atenção da imprensa
do escândalo. Aceita pelo prazer de estar no meio dos acontecimentos,
de exercer o poder de sedução da multidão, de fazer um trabalho
digno de nota. Começam, ele e Bean, a construir uma guerra fictícia
que colocará o presidente no centro do palco como herói nacional e
abafará o caso da jovem molestada. A tarefa é realizada com brilho,
tendo o presidente conseguido reeleger-se.
Mensagem: a comunicação cria a
realidade
A comunicação descreve a realidade, mas também cria a realidade.
De um lado, aprender a comunicar-se adequadamente, ter zelo para
com a imagem, dar atenção à opinião pública e trabalhar para que
essa seja favorável é uma estratégia válida e necessária para qualquer
empresa ou profissional. De outro, a busca da imagem adequada traz
o perigo do desvio ético, eventualmente se procura parecer aquilo que
136
Ricardo de Almeida Prado Xavier
não se é, vendendo uma imagem negativa que engana a todos. Por
fim, como vítimas que eventualmente somos da manipulação, é bom
ficar esperto para não nos deixar enganar.
Recomendações
É um bom filme para discutir questões como imagem corporativa,
opinião pública, comunicação com a mídia etc.
137
Ficha Técnica
Título: Mera Coincidência (Wag the Dog)
Gênero: Comédia
Duração: 97 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1997
Estúdio: New Line Cinema / Tribeca Productions / Baltimore
Pictures / Punch Productions
Distribuição: New Line Cinema
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Hilary Henkin e David Mamet, baseado em livro
de Larry Beinhart
Produção: Robert De Niro, Barry Levinson e Jane
Rosenthal
Música: Mark Knoffler
Direção de Fotografia: Robert Richardson
Desenho de Produção: Wynn Thomas
Direção de Arte: Mark Worthington
Figurino: Rita Ryack
Edição: Stu Linder
Elenco: Dustin Hoffman (Stanley Motss); Robert De Niro
(Conrad “Connie” Bean); Anne Heche (Winifred Ames);
Denis Leary (Fad King); Willie Nelson (Johnny Dean);
Andrea Martin (Liz Butsky); Kirsten Dunst (Tracy Lime);
William H. Macy (Sr. Young); John Michael Higgins (John
Levy); Suzie Plakson (Grace); Woody Harrelson (Sargento
William Schumann); Michael Belson Presidente); Suzanne
Cryer (Amy Cain); David Koechner (Diretor); James
Belushi (James Belushi); Jay Leno (Jay Leno); Craig T.
Nelson (Senador John Neal).
Premiações
Duas indicações ao Oscar: Melhor Ator (Dustin Hoffman)
e Melhor Roteiro Adaptado.
Três indicações ao Globo de Ouro: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator - Comédia/Musical (Dustin
Hoffman) e Melhor Roteiro.
Uma indicação ao BAFTA, na categoria de Melhor
Roteiro Adaptado.
Ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Berlim.
Lista de Filmes
As confissões de Schmidt
Kramer vs. Kramer
O preço da ambição
Pantaleão e as visitadoras
Um domingo qualquer
A senha
Limite vertical
Tempo de recomeçar
Concorrência desleal
Ou tudo ou nada
Os suspeitos
Regras da vida
Uma mente brilhante
Como enlouquecer seu chefe
O sexto sentido
Em Cartaz
Lua de fel
Grande Hotel
Jerry Maguire
O sucesso a qualquer preço
A arte de viver
A fraude
K-19: The Widowmaker
Mera Coincidência
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