o papel da análise subjectiva na avaliação da qualidade de vida

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o papel da análise subjectiva na avaliação da qualidade de vida
O PAPEL DA ANÁLISE SUBJ ECTIVA NA AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA URBANA: REFLEXÕES A PARTIR DA EXPERIÊNCIA DO MUNICÍPIO DO PORTO Isabel Cristina Guimarães Martins Câmara Municipal do Porto – Gabinete de Estudos e Planeamento [email protected] Palavras­chave: qualidade de vida, percepção, participação INTRODUÇÃO Desde os anos 60, altura em que se começa a difundir publicamente a denúncia de que o crescimento económico e o próprio desenvolvimento não se traduzem necessariamente na melhoria generalizada das condições de vida das populações, que a avaliação da qualidade de vida constitui objecto de uma grande atenção. Para estudar este conceito complexo, ao qual se associam múltiplas dimensões sociais, económicas e ambientais, duas vias principais têm vindo a ser adoptadas no plano metodológico. Uma dessas vias, é a da caracterização da situação objectiva das condições de vida e de bem­ estar em que se privilegia a utilização de dados de natureza estatística, agregados em indicadores mais ou menos elaborados, geralmente escolhidos após a construção de modelos conceptuais da qualidade de vida em que se identificam e relacionam entre si as diferentes temáticas consideradas pertinentes para a análise em causa. Quanto à segunda via, valoriza a avaliação subjectiva da qualidade de vida, isto é, o grau de satisfação expresso pelos cidadãos relativamente à sua própria experiência. Nos últimos anos, apesar dos custos elevados associados a este tipo de abordagens ­ que envolvem necessariamente a realização de inquéritos de terreno em que as populações são directamente auscultadas e não, tal como frequentemente acontece no caso anterior, o recurso a fontes tradicionais como os recenseamentos gerais e outras estatísticas publicadas ­, as análises baseadas na percepção dos indivíduos têm vindo a multiplicar­se. O reconhecimento da
1 importância crescente de uma forte participação pública ao nível dos processos de decisão relacionados com o governo dos territórios explica, em larga medida, esta valorização crescente da avaliação subjectiva. Com esta comunicação pretende­se confrontar resultados da aplicação das duas vias metodológicas no âmbito de um projecto concreto de implementação de um sistema de monitorização da qualidade de vida para a cidade do Porto e, a partir desta experiência empírica, debater a utilidade do cruzamento de ambas as abordagens, quando o objectivo subjacente à avaliação é, justamente, o apoio à definição de políticas e a tomada de decisão à escala local. 1. UM NOVO CONJUNTO DE PREOCUPAÇÕES : QUALIDADE DE VIDA E POLÍTICAS PÚBLICAS A elevação dos padrões de qualidade de vida dos cidadãos representa, no momento presente, um importante objectivo político, afirmado com clareza aos diferentes níveis de governação dos territórios. Percorrendo a argumentação que vários autores têm desenvolvido, justamente, sobre a posição de destaque assumida pelo tema na actual agenda política (NUVOLATI, 1998; EFILWC, 2003; ROGERSON, 1995), torna­se possível sustentar que, em larga medida, esta é o resultado de dois movimentos conjugados. Por um lado, o crescente reconhecimento da qualidade de vida enquanto valor social, isto é, as condições consideradas pelos indivíduos como fundamentais para o seu bem­estar deixam de estar associadas a um conjunto reduzido de preocupações tais como a alimentação, o alojamento ou o emprego, tendem a alargar­se, e a incluir cada vez mais aspectos como as oportunidades de lazer, o acesso a amenidades, uma vida pessoal e profissional gratificante, (…). E, por outro lado, a constatação de que “velhos problemas” ­ como por exemplo as desigualdades sociais, persistem ­ e que, a estes, se vêm somar “novos problemas”, como a degradação de recursos, a poluição, a insegurança, grandes migrações pendulares,
2 congestionamentos que, no seu conjunto, representam sérios atentados à qualidade de vida quotidiana dos cidadãos, sobretudo ao nível das cidades. Para que seja possível responder com oportunidade e numa base de rigor às necessidades de quem concebe políticas e toma decisões, importa então avaliar a qualidade de vida das populações, isto é descrever as condições de vida e de bem­estar presentes e caracterizar as trajectórias evolutivas, mas também, identificar dinâmicas emergentes que possam configurar novos planos de intervenção, e sobretudo, estimar o impacto que as próprias políticas e medidas de intervenção vão tendo em termos de efectivo progresso da qualidade de vida das pessoas. Nestas suas diferentes vertentes este é pois um exercício complexo, que requer um esforço de natureza analítica e não meramente descritiva, tal como acontece com outro género de medições da qualidade de vida como por exemplo, aquelas que visam a definição de rankings de cidades, regiões ou países. 1 2. A AVALIAÇÃO EMPÍRICA DA QUALIDADE DE VIDA Foi sobretudo a partir dos anos sessenta que a comunidade de investigação passou a dedicar uma especial atenção ao tema da qualidade de vida e a desenvolver esforços no sentido de delimitar o próprio conceito e de conceber e experimentar metodologias tendo em vista a sua avaliação empírica. Se a construção teórica do conceito de qualidade de vida se tem vindo a revelar um processo muito difícil, multiplicando­se na literatura propostas de definição por parte de diferentes autores sem que qualquer delas tenha logrado afirmar­se de um modo consensual (MASSAM, 2002; GRAYSON e YOUNG, 1994), a verdade é que é hoje possível identificar uma relativa unanimidade de posições em torno de alguns aspectos. Três pontos que parecem recolher uma convergência de opiniões parecem ser os seguintes: a) A qualidade de vida é o resultado da interacção de duas esferas de componentes e de processos relacionados, por um lado, com mecanismos psicológicos internos aos seres 1
Tratam­se de trabalhos muito populares nos EUA, mas também na Europa, desenvolvidos com o
objectivo de identificar os “melhores” locais para se viver ou investir, que apresentam hierarquias de
cidades mais ou menos numerosas, estabelecidas na maior parte dos casos com base num conjunto
reduzido de dimensões da qualidade de vida.
3 humanos que regulam o sentimento de satisfação ou de gratificação com a vida e, por outro, com condições externas que caracterizam o meio em que os indivíduos vivem. Por outras palavras, são reconhecidas duas dimensões interrelacionadas do conceito, uma dimensão psicológica, marcadamente subjectiva e uma outra estreitamente ligada às condições do meio físico e social, de natureza objectiva. b) Apesar do seu carácter holístico, aceita­se que o conceito possa ser desconstruído num conjunto de domínios quando se pretende avançar no sentido da sua avaliação empírica. Quando a estes domínios reconhece­se que são múltiplos e de natureza muito distinta, e dizem respeito a condições materiais, quer colectivas – relacionadas com a oferta de serviços de base ao conjunto dos cidadãos tais como a saúde, a segurança pública, a instrução obrigatória ou o comércio de primeira necessidade – , quer individuais, isto é, que se ligam de uma forma mais directa ao nível socio­ económico de cada um, como o rendimento, o nível de instrução ou as condições de habitação. Por outro lado, as condições que condicionam os padrões de vida das pessoas são também de carácter imaterial e estão estreitamente associadas à necessidade que os indivíduos têm em termos de realização pessoal e de interacção, que se desenvolvem igualmente num plano colectivo (oferta cultural, instrução superior, comércio de bens de segunda necessidade,...) e também num plano individual. Neste último caso, tratam­se de condições relacionadas, por exemplo, com a maior ou menor integração na comunidade, com o grau de envolvimento cívico ou com o nível cultural. A todas estas condições somam­se ainda um conjunto de outras que Nuvolati (1998) identifica como condições contextuais, relacionado com o suporte físico local, onde se incluem, designadamente, a paisagem, o clima ou o património histórico e arquitectónico dos lugares. c) Mais do que perseguir uma definição consensual de qualidade de vida, a investigação deve desenvolver­se a partir de “definições operacionais”, isto é, em função dos objectivos da análise e dos fins a que esta se destina, deverão ser seleccionadas e claramente assumidas as vertentes da qualidade de vida a priviligiar como objecto de estudo. No plano metodológico, os estudos sobre qualidade de vida tendem a dividem­se em dois grandes conjuntos (Fig1.).
4 Aqueles que se baseiam na recolha e análise de dados estatísticos referentes a determinadas unidades territoriais – países, regiões, cidades, em que o objectivo mais frequente é o de caracterizar as condições de vida locais (materiais e imateriais, individuais e colectivas), mas que podem igualmente visar a avaliação do quadro de oportunidades que esses territórios oferecem para que os cidadãos façam as suas opções e atinjam os seus objectivos pessoais (MARQUES, 2004). Trata­se, em qualquer dos casos, de uma abordagem eminentemente objectiva 1 E, por outro lado, aqueles que têm por base inquéritos directos à população. Neste caso tratam­se de estudos que procuram medir o grau de satisfação dos inquiridos relativamente à sua qualidade de vida global ou com as diferentes realidades do contexto social, económico e ambiental em que estão inseridos. É também a partir deste tipo de abordagem, habitualmente designada por subjectiva, que melhor podem ser analisados os sistemas de valores e as preferências dos indivíduos. Fig.1 – Medidas e métodos para a avaliação da qualidade de vida 1
Vários autores chamam a atenção para os limites desta “objectividade”, já que a própria escolha
dos indicadores e a sua leitura introduzem necessariamente elementos de subjectividade a estas
análises
5 Nos últimos anos têm vindo a multiplicar­se iniciativas de avaliação da qualidade de vida, às mais diversas escalas, destinadas a apoiar a definição de políticas e a tomada de decisão, grande parte delas, aplicando a abordagem de tipo objectivo, isto é, privilegiando a utilização de baterias mais ou menos extensas de indicadores quantitativos. Neste contexto, tem sido assumida uma atitude de uma certa desconfiança, de receio, relativamente ao uso de medidas subjectivas. VEENHOVEN (2002) sistematizou alguns dos principais argumentos que tendem a ser invocados para explicar a sua menor utilização, nomeadamente: a) Tratam­se de medidas instáveis. As percepções dos indivíduos variam apreciavelmente no tempo, variação esta que está longe de poder ser explicada pela alteração das condições reais. b) Tratam­se de medidas incomparáveis. Os critérios, os valores, as experiências de vida, as próprias escalas mentais são distintos de pessoa para pessoa, daqui resultando uma impossibilidade evidente de comparação das apreciações subjectivas. c) Tratam­se de medidas inintelegíveis. Sendo o processo que determina a apreciação que cada indivíduo faz sobre a sua qualidade de vida global ou relativa a um dado domínio, muito complexo, envolvendo, como demonstraram estudos desenvolvidos no âmbito da psicologia, mecanismos de natureza cognitiva/racional mas também mecanismos afectivos e emotivos, não se torna possível fundamentar essas apreciações. d) Para além deste tipo de limitações verifica­se ainda que muitas vezes as percepções dos indivíduos não estão directamente relacionadas com a situação objectiva com base na qual estes constroem a sua percepção. Um bom exemplo diz respeito aos rendimentos pessoais. O grau de satisfação que as pessoas exprimem relativamente à sua condição financeira não está directamente relacionado com o rendimento real auferido, sendo sobretudo determinado pelas suas aspirações e trajectórias de vida (CUMMINGS, 2000).
6 Não obstante todo este tipo de argumentação permanecer válido, tem vindo a ganhar adesão a ideia de que é a combinação das duas abordagens (objectiva e subjectiva) a perspectiva mais promissora para uma mais completa avaliação da qualidade de vida. Uma primeira vantagem invocada por aqueles que valorizam a participação dos cidadãos, é a de que a obtenção de informação sobre a importância que estes atribuem aos diferentes domínios da qualidade de vida representa um importante suporte para a definição de políticas e para o estabelecimento de objectivos de longo prazo, largamente partilhados pela comunidade. Por sua vez no que diz respeito à avaliação dos impactos que determinadas políticas e intervenções conduzidas com o objectivo de promover uma maior qualidade de vida possam ter gerado, torna­se cada vez mais indiscutível que o exame criterioso de indicadores objectivos, não anula a importância de se recolher um “feed­back” directo daqueles que são os destinatários dessas medidas, isto é, os cidadãos. Para além deste tipo de mais­valias, cabe ainda sublinhar a pertinência da utilização de medidas subjectivas nos casos em que os indicadores objectivos se mostram limitados na sua capacidade de captar os fenómenos e as realidades que se pretende avaliar. Um exemplo interessante é, porventura, o da medida global da qualidade habitacional, a qual pode ser mais facilmente traduzida através de grau de satisfação expresso pelos próprios residentes do que por intermédio de um único ou mesmo de vários parâmetros numéricos. 3. O SISTEMA DE MONITORIZAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA URBANA DO MUNICÍPIO DO PORTO: O CRUZAMENTO ENTRE AS ABORDAGENS OBJECTIVA E SUBJECTIVA Desde 2001 que o Município do Porto, com a assessoria técnica do Centro de Estudos Macroeconómicos e de Previsão da Faculdade de Economia da Universidade do Porto tem vindo a implementar um projecto de monitorização da qualidade de vida na cidade. Trata­se de um instrumento, já operacional, de apoio à actividade interna da autarquia nos domínios do planeamento e gestão urbana que se pretende que, no futuro, possa igualmente
7 funcionar como uma plataforma de informação para o diálogo e concertação com os diferentes agentes urbanos e com a população, dado o contributo que a difusão dos seus resultados poderá dar para uma maior consciência pública sobre os grandes desafios e problemas que a cidade enfrenta em matéria de qualidade de vida. No âmbito desta iniciativa uma das opção metodológica assumidas foi a de avaliar a qualidade de vida na cidade com base numa abordagem de natureza objectiva. Uma etapa inicial cumprida foi a do desenvolvimento de um modelo de análise da qualidade de vida para a cidade o qual elegeu quatro grandes domínos: “Condições ambientais”, “Condições materiais colectivas”, “Condições económicas” e “Sociedade”. Para cada um destes grandes domínios foram identificados os temas­chave a analisar e os correspondentes indicadores quantitativos, tendo­se chegado a uma bateria final de cerca de 70. Tendo em vista a recolha efectiva dos dados estatísticos de base necessários para o cálculo dos indicadores foi estabelecida uma rede de fornecedores, na qual se incluem vários sectores do próprio município mas também diversas entidades públicas e privadas. Com base nestes elementos foi assim possível elaborar um primeiro diagnóstico sobre a situação actual da cidade do Porto face a cada um das temáticas consideradas no âmbito do modelo analítico estabelecido e uma leitura das respectivas trajectórias de evolução. Complementarmente realizou­se um exercício de confronto da realidade do Porto com a de outros territórios de referência à escala nacional (Área Metropolitana do Porto e País) e com outras cidades europeias, para as quais foi possível recolher dados estatísticos comparáveis. Paralelamente foi levado a cabo um trabalho de concepção de um questionário e de uma amostra representativa da população residente na cidade no sentido de serem igualmente obtidas medidas subjectivas sobre a qualidade de vida no Porto. O inquérito domiciliário, que abrangeu 2400 indivíduos com mais de quinze anos, foi estruturado em torno de quatro tópicos essenciais: conceito global de qualidade de vida, avaliação da situação actual e da evolução recente da qualidade de vida na cidade, qualidade de vida pessoal e, ainda, qualidade de vida na área de residência. Com base nesta recolha de dados, a equipa do projecto procedeu a uma leitura global dos resultados da percepção dos cidadãos, elaborando complementarmente uma leitura mais fina
8 das opiniões expressas uma vez que foi possível espacializar os dados segundo uma divisão da cidade em quatro áreas: Zona Histórica, Zona Tradicional, Zona Ocidental e Zona Oriental. Tendo constituído uma aposta clara, desde a fase inicial de concepção do projecto, a adopção destas duas vias metodológicas para medir a qualidade de vida no Porto – objectiva e subjectiva – em que medida é que estas se revelaram, na prática, complementares? Um primeiro plano em que o papel das duas abordagens pode ser equacionado diz respeito à propria conceptualização do conceito de qualidade de vida. O modelo de qualidade de vida delimitado pela equipa multidisciplinar do projecto, em colaboração com técnicos municipais dos diferentes sectores, foi construído com base em orientações que resultaram de uma revisão de bibliografia teórica sobre o tema e da análise crítica de experiências concretas de outras cidades, mas sobretudo, com base numa reflexão aprofundada sobre a realidade específica do Porto. Deste exercício resultou a identificação de um conjunto de temáticas­chave a analisar que, numa perspectiva assumidamente extensiva, cobririam as diferentes vertentes da qualidade de vida. (Fig. 2) Ao contrário do que sucede em outro tipo de projectos aplicados desta natureza (ver , como exemplo, MENDES, 1999) neste caso, não foi à partida, atribuída qualquer ponderação aos diferentes temas. Por outras palavras, toda a avaliação realizada sobre a situação da cidade, a partir dos dados estatísticos, teve apenas em conta o valor obtido – nuns casos absoluto, noutros relativo – para os indicadores considerados e nunca qualquer coeficiente que estabelecesse uma diferenciação da importância, do contributo, dos diferentes domínios para a qualidade de vida dos cidadãos.
9 Fig.2 – SMQVU – Modelo de análise da Qualidade de Vida Urbana Por sua vez, através do inquérito realizado junto dos cidadãos, estes foram interrogados – em formato de questão aberta ­ sobre os aspectos que consideravam mais determinantes para a qualidade de vida numa cidade (Fig 3). No topo da hierarquia resultante da opinião dos inquiridos surgem as condições de mobilidade, mencionadas por cerca de metade dos entrevistados, e o tema da segurança. A importância da componente ambiental ficou igualmente bem patente (espaços verdes, infraestruturas básicas e ambiente não poluído), tendo sido ainda expressiva a invocação da qualidade da habitação e da oferta de postos de trabalho. Todos os outros aspectos mencionados nas respostas recolhidas não atingiram uma representatividade que ultrapassasse 10% dos entrevistados. Neste contexto, os dados referentes à percepção ao estabelecerem uma importância desigual para os diferentes temas da qualidade de vida, fornecem uma grelha de leitura que pode ser sobreposta à analise objectiva. Assim, e na perspectiva da definição de políticas e do apoio à tomada de decisão política, os contributos da avaliação integrada da qualidade de vida não se
10 colocam apenas ao nível da identificação fundamentada de áreas mais e menos problemáticas, mas também ao nível do seu impacto expectável na vida quotidiana dos cidadãos. Ainda neste plano da conceptualização do conceito de qualidade de vida, importa registar que, através da recolha da opinião pública foi identificada uma nova área temática, que os residentes inquiridos consideraram de grande relevância – a qualidade habitacional – e que não se encontrava prevista no modelo de análise pré­construído, para suporte da avaliação objectiva. De facto, a participação da comunidade constitui um passo importante para a própria validação e afinação deste modelo – o qual se revelou, de qualquer modo, bastante eficaz, cobrindo a generalidade dos aspectos considerados pelos cidadãos como fundamentais para a qualidade de vida. Figura 3 – Resultados do inquérito à população residente: Aspectos mais determinantes da qualidade de vida numa cidade (percentagem de indivíduos) Mobilidade
Segurança
Espaços verdes
Infraestr. Básicas
Qualidade da
habitação
Ambiente não
poluído
Oferta de emprego
0
10
20
30
40
50
60
(%) Fonte: CMP
11 Um outro plano particularmente útil de confronto estre as obordagens objectiva e subjectiva diz respeito à caracterização da situação actual. A Fig. 4 apresenta simplificadamente os resultados da avaliação realizada às diferentes áreas temáticas 1 , respectivamente, com base na leitura dos diferentes indicadores seleccionados (eixo das abcissas) e com base nas apreciações expressas pelos indivíduos que responderam ao inquérito (eixo das ordenadas). Para ambos os eixos foi considerada uma escala qualitativa que diferencia as situações em que a qualidade de vida foi considerada favorável (agregaram­ se, neste caso, as classificações de razoável, boa e muito boa) e desfavorável (situações más/muito más). Figura 4 – Avaliação da situação presente da cidade do Porto relativamente às diferentes temáticas da qualidade de vida 1
Nem todas as áreas avaliadas surgem representadas neste esquema uma vez que foram suprimidas
aquelas em que a avaliação da situação, quer em termos dos resultados dos indicadores, quer em
termos da contabilização da opinião dos cidadãos apontou para situações mais indefinidas, de
fronteira entre o favorável e o desfavorável.
12 Uma primeira nota a reter na sequência deste exercício de confronto entre os resultados a que se chega quando se percorre cada uma das vias de forma independente é a de que estes estão significativamente correlacionados. As áreas temáticas para as quais os indicadores estatísticos apontaram para situações favoráveis coincidem em grande medida com as áreas que registaram níveis de satisfação mais elevados, o mesmo acontecendo no caso inverso, isto é, as opiniões mais negativas surgem associadas a domínios que os dados estatísticos mostraram ser problemáticas em termos do seu impacto para a qualidade de vida. Neste contexto não deixa, contudo, de ser interessante explorar o significado que poderão ter as situações em que, justamente, esta tendência de convergência não é mantida. E os exemplos que emergem neste caso mostram bem como as causas que poderão explicar essa divergência de avaliações podem ter orientações bem diversas. Num dos casos, temos que, duas áreas temáticas cuja situação presente foi considerada favorável à luz dos indicadores analisados – mercado de habitação e segurança, foram julgadas negativamente pelos cidadãos. No primeiro caso a divergência decorre da forma distinta como foi encarado o tema do mercado de habitação no contexto das duas abordagens. No âmbito da avaliação objectiva este foi enquadrado no domínio das “Condições Económicas” e a leitura dos indicadores utilizados (“custo médio de aquisição”, “custo médio de arrendamento” e “licenças emitidas de reconstrução”) foi encarada dentro da seguinte perspectiva: “Os custos da habitação constituem indicadores de síntese relativamente a várias componentes da qualidade de vida, reflectindo um conjunto de externalidades benéficas da cidade, ou seja um conjunto de aspectos atraentes da cidade que exercem um papel importante na escolha residencial dos indivíduos; Monitorizar os resultados em termos de reconstrução permite avaliar o esforço levado a cabo na cidade em termos de reabilitação, o qual, por seu lado, se traduz na melhoria do seu parque habitacional” (MARTINS e SANTOS, 2003: 60). Os valores elevados dos dois primeiros indicadores no caso do Porto ditaram uma apreciação globalmente favorável da situação. Já quanto à apreciação dos cidadãos, estes encararam a questão do mercado de habitação sobretudo numa perspectiva individual, e naturalmente, os pesados encargos assumidos com a habitação pelos seus residentes explicaram os níveis de insatisfação registados.
13 Quanto ao tema da insegurança, parece configurar uma realidade distinta. O indicador “taxa de criminalidade” revela um quadro de uma baixa ocorrência de crimes na cidade, sobretudo contra as pessoas (a grande maioria dos crimes registado diz respeito a crimes contra o património, com particular destaque para os furtos de e em veículos sendo, na generalidade dos crimes, muito pouco significativa a utilização de armas) mas os cidadãos sentem­se inseguros. Esta divergência na leitura da situação da cidade que tem já vindo a ser estudada no caso do Porto 1 e que tem a ver com múltiplos factores desde um alargamento dos cenários de medo (espaços da cidade desertificados, mal iluminados, frequentados por grupos ligados à toxicodependência e à prostituição) até à própria veiculação do medo e do crime que é feita através dos media, constitui um importante sinal de alerta para a acção pública. Na verdade, o comportamento dos indivíduos e as suas práticas quotidianas são directamente influenciados por este sentimento de insegurança pelo que esta avaliação, e sobretudo a sua monitorização, se afigura necessária, a par do esforço igualmente necessário de acompanhamento da evolução da criminalidade objectiva. A segunda situação em que se configura uma divergência entre as avaliações objectiva e subjectiva envolve os temas da dotação de equipamentos desportivos e dos equipamentos sociais e de saúde. Neste caso, as capitações calculadas traduzem um cenário de insuficiência, sobretudo ao nível das unidades de proximidade, enquanto que os cidadãos apreciam a realidade como sendo satisfatória neste capítulo, o que poderá levar a admitir que a sua percepção é sobretudo marcada pelo facto do Porto dispôr de importantes equipamentos (grandes hospitais centrais e complexos desportivos ligados ao desporto profissional) e não tanto pela oferta de proximidade de unidades de saúde e de equipamentos para a prática desportiva. 4. NOTAS CONCLUSIVAS A utilização de instrumentos que permitam identificar, medir e acompanhar a evolução da qualidade de vida, com base nos quais seja possível aprofundar o conhecimento sobre as causas e os processos que determinam as situações existentes, reveste­se de uma inegável 1
Trabalhos de investigação do Instituto de Ciências do Comportamento Desviante da Faculdade de
Psicologia da Iniversidade do Porto inseridos no projecto “Crime e cidade”, coordenados pelo Prof.
Cândido Agra
14 importância para técnicos e politicos envolvidos na definição de prioridades para a acção pública. Para que os sistemas de avaliação da qualidade de vida possam cumprir cabalmente a sua missão importa, no entanto, que estes incorporem não apenas os dispositivos mais generalizados baseados em baterias de indicadores quantitativos, mas também, atendam aos aspectos qualitativos e subjectivos, habitualmente apreendidos através de inquéritos à população. Com efeito, a dimensão subjectiva representa uma componente fundamental da qualidade de vida, tanto mais relevante, quanto avaliada e interpretada em confronto directo com indicadores objectivos que permitam aferir sobre o seu significado.
15 BIBLIOGRAFIA BOELHOUWER, Jeroen (2002) "Quality of Life and living conditions in the Netherlands" in Social Indicators Research, Nº 58, pp. 115­140 CUMMINS, Robert A.; ECKERSLEY, Richard; PALLANT, Julie; Van VUGT, Jackie; MISAJON, Roseanne (2003) "Developing a national index of subjective wellbeing: the australian unity wellbeing index" in Social Indicators Research, Nº 64, pp. 159­190 CUMMINS, Robert A. (2000) "Objective and subjective quality of life: an interactive model" in Social Indicators Research, Nº 52, pp. 55­72 CUMMINS, Robert A. (1999) "A Psychometric Evaluation of the Compheensive Quality of Life Scale" in YUAN, Lim Lam; YUEN, Belinda, LOW, Christine (Coord.) (1999) Urban Quality of Life ­ Critical issues and options, Singapore, National University of Singapore, pp. 32­46 EFILWC/EUROPEAN FOUNDATION FOR THE IMPROUVEMENT OF LIVING AND WORKING CONDITIONS (2003) Monitoring quality of life in Europe, Luxembourg, Office for Oficial Publications of the European Communities GRAYSON, Lesley; YOUNG, Ken (1994) Quality of Life in Cities. An Overview and Guide to the Literature, London, British Library/London Research Center. HAGERTY, Michael; CUMMINGS, Robert; FERRISS, Abbott; LAND, Kenneth; MICHALOS, Alex; PETERSON, Mark; SHARPE, Andrew; SIRGY, Joseph; VOGEL, Joachim (2001) "Quality of life indexes for national policy: review and agenda for research" in Social Indicators Research, Nº 55, pp. 1­96 MARQUES, Teresa Sá (2004) Portugal na transição do século. Retratos e dinâmicas territoriais, Edições Afrontamento, Porto MARTINS, Isabel; SANTOS, Luis Delfim (Coord.) (2003) 1º Relatório sobre a Qualidade de Vida Urbana no Porto, Câmara Municipal do Porto MASSAM, Bryan H. (2002) "Quality of life: public planning and private living" in Progress in Planning, nº 58, pp 141­227 MENDES, José (1999) Onde viver em Portugal – uma análise da Qualidade de Vida nas Capitais de Distrito, Coimbra, Ordem dos Engenheiros/Região Centro
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