USP Juliana Silva Carvalho Análise sócio-cultural e

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Transcrição

USP Juliana Silva Carvalho Análise sócio-cultural e
Universidade de São Paulo
Centro Universitário Maria Antonia - USP
Juliana Silva Carvalho
Análise sócio-cultural e educacional do Corpo
a partir do documentário Latcho Drom
São Paulo
2008
Juliana Silva Carvalho
Análise sócio-cultural e educacional do Corpo
a partir do documentário Latcho Drom
Monografia apresentada ao Centro Universitário Maria Antonia da
Universidade de São Paulo para obtenção do título de especialista em
Linguagens das Artes.
Linha de investigação: Materiais, recursos e fontes de pesquisa para o
ensino de arte – Análise de imagens de segunda geração, vídeos e sites
de arte.
Orientador: Luciana Mourão Arslan
São Paulo
2008
Análise sócio-cultural e educacional do Corpo
a partir do documentário Latcho Drom
Resumo
O projeto a seguir tem como intuito buscar entender a arte e a educação em espaços formais e não-formais, propondo uma análise comparativa sobre a concepção de corpo e a sua relação com o mundo em
que o cerca nas sociedades tradicionais e na sociedade contemporânea
ocidental.
Juliana Silva Carvalho
Formada em Desenho Industrial com Habilitação em Programação Visual pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo. Há
quatro anos atua como designer gráfico na área de criação e direção de
arte. Há três anos estuda Ballet clássico com metodologia cubana.
Sou um Guardador
de Rebanhos | Alberto Caeiro
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe
o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo
o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
1.
INTRODUÇÃO
Apropriando-se de conceitos sociológicos, antropológicos e filosóficos, em busca de
um melhor entendimento da arte e da educação em espaços formais e não-formais, a investigação a seguir propõe uma análise comparativa sobre a concepção de corpo e a sua relação
com o mundo em que o cerca nas sociedades tradicionais e na sociedade contemporânea ocidental.
Mas por que falarmos de corpo para entender arte e educação? Concordando com o
educador Marcos Ferreira Santos, entendemos que educar significa também “dar vazão à potência que se inscreve na corporeidade das pessoas”, e é no fazer artístico, ou seja na liberdade de expressão e no exercício da criação, que atualizamos o nosso humanitas. E por que contrapor a nossa sociedade às sociedades tradicionais? Ao ampliarmos o olhar, nos permitimos
perceber outras possibilidades de relação homem-mundo que vão além de nossa visão ocidental moderna fragmentada.
Para ilustrar esta investigação selecionamos o vídeo-documetário Latcho Drom, do diretor Tony Gatlif, que prestará de forma alegórica durante todo o estudo, como exemplo e
justificativa para os pontos de discussão e análise.
Abriremos a investigação com uma leitura-descritiva sobre o vídeo-documentário Latcho Drom. Em seguida, traçamos uma breve linha histórica da relação entre o corpo e a filosofia e para o embasamento teórico desta investigação recorremos às idéias dos filósofos Platão, Descartes e Merleau-Ponty. Sob uma perspectiva antropológica e sociológica do corpo,
nos apoiaremos nos estudos de autores como David Le Breton e Medina. Abriremos uma discussão entre a relação corpo-arte-educação tendo como ponto de partida a maiêutica socrática.
E, por fim, analisaremos a seqüência de Latcho Drom a partir dos conceitos apresentados anteriormente.
A investigação proposta destina-se a professores, arte-educadores e interessados na área de cultura, socialização e educação em espaços não-formais.
Latcho Drom!1
1
“Boa viagem” em Romani.
5 2.
BOA VIAGEM!
Paris Du Nord-Ouest de I’Inde, il ya prés de 1000 ans pour des raisons encore inconnues, lês gitans ont silloné lês routes d’ Europe, d’ Egypte, d’ Afrique Du Nord...
Au cours de CE Long périple hors des frontières de I’Inde, lês termes gitan, halab,
tsigane, bohémien, gypsy... Ont été donnés au peuple ROM.2
Nossa viagem começa no passado. Um passado que não se curvou ao presente. Um
tempo e espaço que estão à margem da nossa consciência contemporânea. O vídeodocumentário Latcho Drom mostra a trajetória dos povos nômades que resistiram ao tempo e
preservam suas tradições culturais até hoje.
Latcho Drom em Romani significa “Viagem segura” ou “Boa viagem”. Romani é a
língua falada pelos ciganos, também conhecidos como Rom (cigano em Romani). Tony Gatlif, diretor e roteirista do documentário em questão, respeitando a mesma linha histórica de
propagação territorial dos primeiros povos ciganos, transporta o espectador pela mesma caminhada. Tendo como ponto de partida o oeste da Índia (suposta origem dos primeiros povos
nômades) passando pela Turquia, Hungria, República Tcheca, Alemanha e França para culminar na Espanha.
Pelo período de um ano, representado através das quarto estações do ano (apresentadas
no documentário na seguinte ordem: verão, outono, inverno e primavera), a viagem acompanha uma rica diversidade de povos nômades em cenários naturais.
Durante todo o documentário não ocorre nenhuma narração, texto explicativo ou diálogos contextualizando as imagens apresentadas. Ao espectador não é apresentada nenhuma
informação geográfica ou data que revele quando ou onde foram feitas as cenas, este faz suas
próprias relações e conclusões através das imagens, das músicas e do seu repertório pessoal.
Uma miscelânea de ritmos, sons, cores e gestos ilustram Latcho Drom e é o que torna a sua
comunicação inevitável e universal.
2
Texto introdutório do documentário Latcho Drom: “Paris do noroeste da Índia, há aproximadamente 1000 anos,
por razões ainda desconhecidas, os ciganos traçaram as rotas da Europa, do Egito, da África do Norte. Ao curso
deste longo périplo fora das fronteiras da Índia, os termos ciganos, halab, tsigane, boêmio, gypsy foram dados ao
povo Romani”.
6 Temas como discriminação, exclusão e perseguição também são abordados pelo diretor, que utiliza o documentário como veículo de denúncia contra a condição de marginalização imposta pela sociedade contemporânea.
Os Rom são ágrafos (não possuem a língua escrita) e, sendo assim, todas as suas tradições culturais, hábitos sociais e educacionais são transmitidos através da oralidade. Para as
sociedades tracionais, como estas retratadas em Latcho Drom, a Arte – a música e a dança –
são condutores essenciais para a transmissão e preservação de suas culturas.
Latcho Drom em diversas passagens nos revela através do olhar da criança como o
processo de socialização e a educação se dão permeados pela experiência artística em espaços
não-formais, onde o mais novo aprende através da observação dos gestos, costumes, ritmos e
hábitos do seu povo com os mais velhos do grupo.
3.
O CORPO EM ESTUDO
Território tanto biológico quanto simbólico, processador de virtualidades infindáveis, campo de forças que não cessa de inquietar e confortar, o corpo talvez seja o
mais belo traço da memória da vida. Verdadeiro arquivo vivo, inesgotável fonte de
desassossego e de prazeres, o corpo de um indivíduo pode revelar diversos traços de
sua subjetividade e de sua fisiologia mas, ao mesmo tempo, escondê-los.3
Um emaranhado de definições, pontos conflitantes, que ao mesmo tempo em que se
mostra concreto também se revela abstrato. Inúmeras são as vias de compreensão do significado do corpo (através de estudos históricos, biológicos, estéticos, antropológicos, etc.), e
inúmeras são as suas definições.
Tão necessário quanto buscar entender o que é o corpo é compreender a relação vital
entre identidade e memória corporal, relação esta muitas vezes esquecida no tempo ou simplesmente ignorada. No trecho abaixo, o antropólogo David Le Breton atribui ao corpo o valor de “cepa da identidade do homem”. Podemos considerar assim que o corpo carrega em
seus nós toda a memória cultural de um povo que se reflete em gestos, palavras, rituais, manifestações corporais, etc. justificando assim a sua importância na análise antropológica de um
povo.
3
SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. É possível realizar uma história do corpo? In SOARES, Carmen Lúcia.
Corpo e história. Campinas: Autores Associados, 2001, p. 3.
7 El cuerpo es un tema que se presta especialmente para el análisis antropológico ya
que pertenece, por derecho propio, a la cepa de identidad del hombre. Sin el cuerpo,
que le proporciona un rostro, el mundo al cuerpo, a través de lo simbólico que este
encarna.4
Segundo Bernuzzi, quando se pesquisa o corpo dentro de suas inúmeras vias surge a
seguinte questão: “Como uma dada cultura ou um determinado grupo social criou maneiras de
conhecê-lo (o corpo) e controlá-lo?”. O que se obtém como resposta, segundo a autora, não
são apenas informações sobre as formas de fortificar o organismo e melhorar as aparências
físicas inventadas, atualizadas e esquecidas historicamente. Juntamente a elas, são desvendados momentos de grande descontrole e de total surpresa diante de reações do corpo, presentes
tanto no passado quanto na atualidade.5
Neste sentido podemos entender que a forma como cada cultura concebe o mundo se
relaciona com a sua historicidade corporal. Sendo assim, quando pesquisamos o conceito de
corpo de uma dada cultura que não a nossa, precisamos antes considerar quais são as suas
concepções de mundo e de ser humano, pois estas são indissociáveis e determinantes. Ao
permitir-nos ampliar o olhar para o novo, automaticamente fazemos comparações, e a partir
daí podemos fazer conexões que nos ajudarão a entender melhor nossa própria cultura.
Com o intuíto de compreender alguns questionamentos na área da arte-educação através da observação e da análise comparativa da corporeidade das sociedades tradicionais e
modernas que escolhemos o vídeo-documentário Latcho Drom como objeto de estudo. Um
registro cinematográfico de uma sociedade sem tempo e espaço definido para os olhos do
ocidente.
4.
O CORPO E A FILOSOFIA
Eu sou um corpo? Ou eu tenho um corpo? Meu corpo me pertence, este braço que estendo à minha frente é meu, sou eu... Penso e o corpo reage a comandos da mente e estímulos
externos. Penso, logo existo? Eu me confundo com o meu corpo... Eu sou o meu corpo. Nem
sempre verbalizada, mas sempre presentes na história da humanidade, estas questões alimen 4
LE BRETON, David. Antropología del cuerpo y modernidad. Buenos Aires: Nueva Visión, 2006, p 7.
SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. É possível realizar uma história do corpo? In SOARES, Carmen Lúcia.
Corpo e história. Campinas: Autores Associados, 2001, p. 4.
5
8 taram e alimentam o nosso imaginário. Assim, a filosofia aparece como forma do homem
entender o mundo que o cerca.
Apoiado nos estudos de Medina6, traçaremos uma breve linha no tempo apresentando
algumas concepções de corpo ao longo da história, tendo como pano de fundo a filosofia. Para
tanto, iniciaremos nossa história na Grécia Antiga (Clássica). Por muito tempo a idéia do corpo como instrumento da alma foi alimentada. Dentre os muitos filósofos que defenderam esta
doutrina estavam Órficos, Platão, São Tomás de Aquino, entre outros.
Para Platão o mundo se dividia entre o “mundo real” (mundo da matéria, uma cópia do
mudo ideal) e “mundo ideal” (mundo verdadeiro, plano dos pensamentos e do espírito). Sendo assim, o nosso corpo real (matéria) pertenceria ao “mundo real”, ou seja, o corpo era uma
cópia do corpo ideal no plano das idéias. Os sentidos do corpo são responsáveis pela distorção
do mundo real e o racional é supervalorizado. O dualismo, corpo e alma, segregaram o corpo
para o plano meramente substancial, atribuindo a este um valor negativo, o Bem (alma) x o
Mal (corpo).
No período Medieval com Sto. Agostino, o corpo retoma a idéia Platônica (bem x
mal), em outras palavras, o Corpo cristão ainda mantém a função de instrumento da alma. A
matéria orgânica é considerada como uma forma ou substância diferente, está associada à
escuridão e ao pecado, e o seu flagelo é um canal para a evolução da alma.
Com o Renascimento, vem a busca do homem pelo conhecimento de si mesmo, é o
Antropocentrismo. Concomitantemente, o advento da burguesia traz a noção de indivíduo: o
corpo do indivíduo burguês adquire fronteiras, limitações e atributo de posse, “eu tenho um
corpo, não sou um corpo”.
Mas foi com o pensamento de Descartes (1596-1650); penso, logo existo; que o mundo separou o corpo e a alma em duas substâncias diferentes e independentes. Abandonando,
assim, o conceito de instrumentalidade do corpo em função da alma. Podemos traçar uma
nova relação, corpo e substância em oposição à mente e à essência. Neste momento o homem
tem necessidade de controlar suas paixões à razão e à vontade. Abaixo, Capra, citado por João
Paulo S. Medina em “O Brasileiro e seu corpo”, fala como se deu esta divisão e diferenciação
de valores entre corpo e mente e qual foi o impacto que este novo pensamento causou à sociedade ocidental:
6
MEDINA, João Paulo S. O Brasileiro e seu corpo. Campinas: Papirus, 1990, p 50.
9 O cogito cartesiano, como passou a ser chamado, fez com que Descartes privilegiasse a mente em relação à matéria e levou-o a conclusão de que as duas eram separadas e fundamentalmente diferentes. Assim, ele afirmou que ‘não há nada no conceito
de corpo que pertença à mente, e nada no conceito de mente que pertença ao corpo’.
A divisão cartesiana entre matéria e mente teve um efeito profundo sobre o pensamento ocidental. Ela nos ensinou a conhecermos a nós mesmos como egos isolados
existentes ‘dentro’ dos nossos corpos; levou-nos a atribuir ao trabalho mental um valor superior ao do trabalho manual; habilitou indústrias gigantescas a venderem produtos – especialmente para mulheres – que nos proporcionem o ‘corpo ideal’; impediu os médicos de considerarem seriamente a dimensão psicológica das doenças e os
7
psicoterapeutas de lidarem com o corpo de seus pacientes.
Ainda hoje o pensamento cartesiano prevalece em várias áreas de conhecimento da
sociedade ocidental. No entanto, alguns filósofos da modernidade e contemporaneidade tentaram, e ainda tentam, “quebrar” esta hegemonia do conceito cartesiano no mundo. Dentre estes
filósofos destacaremos Maurice Merleau-Ponty (1908-1961).
Merleau-Ponty nos atenta para o conceito de corporeidade, entendendo este como
“um nó de significações vivas e vividas, sua textura, tecido, entre-tecido, trama e urdidura que
são, ao mesmo tempo, culturais, sociais, biológicas, psicológicas e ontológicas; dão-se na relação de um eu-com-o-Outro-no-mundo”8. Temos assim, uma visão ampliada sobre o corpo
que ao mesmo tempo em que é material (biológico) também se mostra simbólico-imaginário
(individual e social), um corpo biopsicosocial.
Merleau-Ponty analisa o corpo como forma de experiência (existo, logo penso): “Quer
se trate do corpo de outrem, ou quer se trate do meu, não tenho outro modo de conhecer o
corpo humano senão o de vivê-lo, isto é, de assumir por minha conta o drama que me atravessa, e confundir-me com ele”.9
No mais cabe a nós finalizarmos este item com a seguinte questão de Medina: “Entende-se mais o corpo vivendo-o ou discursando sobre ele?”10
7
Ibidem, p. 50.
FERREIRA SANTOS, Marcos. Música, Memória & Espaço no Cortiço Vivo. In:
http://www.editorazouk.com.br/textos_complementares_001.html
9
MEDINA, João Paulo S. O Brasileiro e seu corpo. Campinas: Papirus, 1990, p. 52.
10
Ibidem, p. 49.
8
10 5.
O CORPO E A ANTROPOLOGIA
Desde o Período Neolítico, o ser humano tem a mesma constituição biológica, segundo Le Breton. Nossos corpos não mudaram desde então. No entanto, Pavis afirma que os corpos não são os mesmos. Como podem os corpos não serem mais os mesmos e não terem mudado? O que parece um conflito de significados, na verdade, nos mostram duas concepções
diferentes e complementares sobre o corpo.
A ciência natural e a medicina (saber oficial sobre o corpo) atestam pelo princípio da
não-contradição, afirmando que biologicamente somos o mesmo organismo até os dias de
hoje. A construção cultural do corpo ocidental adotou o pensamento fragmentado que associa
o corpo somente à sua construção biológica (organismo). No entanto, a representação de corpo como organismo-biológico não deve ser a única adotada.
Se pensarmos o corpo humano do ponto de vista biológico, e analisarmos a sua constituição ao longo do tempo, ele é o mesmo. No entanto, se considerarmos a concepção de corpo
de um modo integral, este é indissociável aos aspectos sócio-culturais e à história individual
de cada pessoa – daí a diferença indubitável entre o corpo do homem neolítico e do homem
contemporâneo.
No trecho abaixo, Le Breton nos atenta sobre a importância de uma concepção do corpo mais ampla para a compreensão existencial, cultura e social do homem:
A existência do homem é corporal. E a análise social e cultural do que é objeto, as
imagens que falam sobre sua densidade oculta, os valores que o distinguem, nos falam também da pessoa e da variação que sua definição e seus modos de existência
tem, em diferentes estruturas sociais...
Nada é mais misterioso, para o homem, que a densidade de seu próprio corpo. E cada sociedade se esforça, em um estilo próprio, por proporcionar uma resposta singular a este enigma primário no que o homem se enraíza.11
As diferentes representações do corpo se relacionam às diferentes representações de
mundo. A maneira como pensamos o mundo determina como pensamos o ser humano e o
corpo. No livro “Antropologia do corpo” Le Breton diz: “Cada sociedade esboça, no interior
de sua visão de mundo, um saber singular sobre o corpo: seus constituintes, seus usos, suas
11
LE BRETON, David. Antropología del cuerpo y modernidad. Buenos Aires: Nueva Visión, 2006, p. 8.
11 correspondências, etc. Atribui-lhe sentido e valor. As concepções de corpo são derivadas das
concepções da pessoa.”12
5.1
SOCIEDADES TRADICIONAIS
Nas sociedades tradicionais ou tribais o corpo e o homem não se distinguem, segundo
Le Breton, as matérias-prima que compõem a densidade do homem são as mesmas que dão
consistência ao cosmos e à natureza. Entre o homem, o mundo e os outros se tece o mesmo
pano, com motivos e cores diferentes que não modificam em nada a trama comum.13
A concepção de mundo e corpo nas sociedades tradicionais é holística. O corpo e o
mundo se relacionam. Os sentidos corporais são receptores para a comunicação com o mundo.
O ser humano é uma parcela do cosmo que mantém sua identidade substancial com o resto do
universo, pois é constituído pelas mesmas substâncias do mundo que o acolhe.
Para entender o mundo, a sociedade tradicional busca explicações em seus mitos. Estes são os primeiros questionamentos, as primeiras construções de hipóteses sobre a criação
do mundo. Os rituais são a concretização e a atualização do mito. Neste, o corpo volta a passar por situações míticas, ancestrais na prática, atribuindo, assim, ao indivíduo a identidade do
grupo.
5.2
SOCIEDADE MODERNA OCIDENTAL
A sociedade moderna ocidental regida pelo pensamento dualista coloca a razão acima
dos sentidos. O corpo moderno adquire limites, as fronteiras guardam o ser individual. Isso
porque o sujeito rompe o elo com o mundano. Como diz Le Breton:
(o corpo moderno) implica na ruptura do sujeito com os outros (uma estrutura social
de tipo individualista), com o cosmos (as matérias-prima que compõem o corpo não
encontram nenhuma correspondência em outra parte), consigo mesmo (possuir um
corpo mais que ser seu corpo). O corpo ocidental é o lugar da censura, o recinto ob-
12
Ibidem, p. 8.
LE BRETON, David. Antropología del cuerpo y modernidad. Buenos Aires: Nueva Visión, 2006, p. 8.
13
12 jetivo da soberania do ego. É a parte indivisível do sujeito, o ‘fator da individualização’ (E. Durkheim) nas coletividades em que a divisão social é a regra.14
O corpo tradicional busca por explicações existenciais nos mitos, experienciando-os
durante as práticas ritualísticas, usando os sentidos como canal de comunicação com a natureza, hoje; já o corpo moderno não se satisfaz com este tipo de explicação sensível, esse busca
respostas racionais para explicar sua realidade. Segundo Medina: “É a consciência (a subjetividade) assumindo o seu papel no desenvolvimento do homem, da cultura.”15
Com a ascensão do individualismo e do pensamento racional a concepção de mundo
ocidental moderno modifica-se, conseqüentemente, reflete-se no corpo moderno que se fragmenta, especializa-se e desconecta-se. Sobre isso, diz-nos Fontanella, citado por Medina: “O
eu, o sujeito, se separou e se tornou todo-poderoso em relação ao mundo. E o corpo, conjunto
biológico, material, mundano, cheio de humores e excreções ficou relegado, mais ainda que o
mundo. Os sentidos são portas, janelas, passagens, receptores, etc. O corpo, os sentido, passaram a ter um papel secundário, infelizmente necessário, nessa transição”.16
6.
CORPO-ARTE-EDUCAÇÃO
Considerando o significado da palavra educação – do latim ex ducere, que significa
“trazer para fora” e remetendo-nos a maiêutica socrática de Sócrates, que atribui ao mestre o
mesmo valor da parteira, isto é, o mestre teria como função instigar o seu pupilo a buscar dentro de si o conhecimento (remetendo a idéia do nascimento, parto) –, a citação de Le Breton
de que o corpo é a “cepa da identidade do homem” – que carrega em sua composição a herança biológica, psicológica e sociológica do seu povo (biopsicosocial) – e a idéia de corporeidade – “um nó de significações vivas e vividas, sua textura, tecido, entre-tecido, trama e urdidura que são, ao mesmo tempo, culturais, sociais, biológicas, psicológicas e ontológicas; dão-se
na relação de um eu-com-o-Outro-no-mundo” do filósofo Merleau-Ponty –, entendemos que,
concordando com o educador Marcos Ferreira Santos, educar significa também “dar vazão à
potência que se inscreve na corporeidade das pessoas”.
14
Ibidem, p. 8.
MEDINA, João Paulo S. O Brasileiro e seu corpo. Campinas: Papirus, 1990, p. 53.
16
Ibidem, p. 54.
15
13 E é no exercício da criação que atualizamos o nosso humanitas17, no processo do fazer
artístico que temos a oportunidade de explorarmos nossos receptores corporais - tocar, falar,
dançar – e nos expressarmos.
Com a vigência da sociedade fragmentada, o corpo moderno, impossibilitado de se
auto-conhecer integralmente, torna-se assim um corpo frágil, partido e vulnerável. Segundo
Marx citado por Medina: “A divisão é um instrumento de dominação. Temos o pensamento, o
trabalho, a educação, a vida divididos”.18 Neste sentido, Medina diz:
...a fala, a linguagem, apoiadas pelo raciocínio lógico-formal, como já vimos, parece
mais bloquear do que abrir perspectivas para a compreensão do Universo como um
todo. Nesse raciocínio dinâmico, dialético. Daí a extrema dificuldade em compreendermos o real enquanto “síntese de múltiplas determinações”. Talvez o mundo tornarse-á mais compreensível quando formos todos capazes de transcender a razão formal
que caracteriza o nosso pensamento convencional através da linguagem falada e escrita.19
7.
ANALISANDO LATCHO DROM
Para facilitar a análise do vídeo Latcho Drom, optamos por trabalhar com apenas um
trecho que julgamos ser o mais relevante ao tema, servindo-nos deste como exemplo elucidativo. A cena selecionada sugere ao expectador inúmeras leituras, o que nos permite ampliar a
discussão apontando aspectos sociais, históricos, culturais, educacionais e filosóficos. Daremos início à análise com uma breve leitura da seqüência de quadros selecionados.
Comparemos a seqüência de Latcho Drom selecionada (página 17 e 18) com o texto
descritivo abaixo:
Partindo do olhar da criança como protagonista desta história, a cena inicia-se com um
menino e uma menina correndo lado a lado por entre as árvores. O filme não deixa claro geograficamente o local onde se passa o trecho em questão, sendo apresentadas ao espectador
algumas pistas. Provavelmente estamos no norte da África neste momento.
17
FERREIRA SANTOS, Marcos. Arte-educação, imaginário e comunidade: as faces do mesmo rosto. In: http
http://www.editorazouk.com.br/textos_complementares_001.html
18
MEDINA, João Paulo S. O Brasileiro e seu corpo. Campinas: Papirus, 1990, p. 63. In ALVES, Rubem. Sacerdotes Travestis, Folha de S. Paulo, Jul, 1986.
19
MEDINA, João Paulo S. O Brasileiro e seu corpo. Campinas: Papirus, 1990, p. 63-64.
14 As duas crianças são guiadas por um jovem com vestes brancas. Ele os leva a uma pequena vila que à primeira vista mostra-se aparentemente abandonada, com construções que
fazem lembrar a estética arquitetônica árabe.
A música guia nossas personagens e o espectador ao recinto de uma dessas habitações.
A janela revela uma festa (cenas 8 e 9). Música e danças tomam conta do espaço. As crianças
à espreita observam e acompanham a música através da dança (menina-aprendiz) e do instrumento musical (menino-aprendiz).
São muitas pessoas participando deste encontro festivo. Enquanto uma mulher dança
em cima de um improvisado “tablado”, músicos a acompanham e homens, mulheres, velhos e
crianças cantam ao seu redor. Palmas e vozes entram em uma perfeita sincronia. Enquanto
isso, do lado de fora, as crianças curiosas também participam desta grande festa, repetindo os
gestos e movimentos, tanto no dançar quanto no tocar dos adultos do interior da casa.
Snujs (espécie de castanholas em metal), palmas, batidas com os pés descalços, uma
senhora que acompanha o ritmo enquanto fuma, lenços na cabeça, homem e mulher dançando
juntos, músicos e seus instrumentos de corda e percussão são alguns dos vários signos que
este pequeno grupo de pessoas nos mostra (cenas 10, 15, 17, 20 e 21).
No percorrer deste trecho o diretor mostra por duas vezes uma mulher carregando um
bebê no colo, acompanhando a festa em pé um pouco à distância (cenas 18 e cena 23). No
final desta seqüência de cenas, somos surpreendidos quando a mulher em questão entrega o
bebê que segurava para a mulher que anteriormente estava dançando no centro da sala. A
dançarina pega o seu bebê e, sentada, agora participando como espectadora, amamenta-o enquanto participa cantando da festa que continua sem interrupções.
O trecho termina com mais uma cena do menino-aprendiz compenetrado na música
que vem de dentro da casa enquanto a acompanha tocando o seu instrumento de corda.
7.1
O CORPO EM LATCHO DROM
Partindo de uma análise interpretativa subjetiva e fazendo conexões com alguns dos
conceitos anteriormente apresentados, peguemos o recorte de Latcho Drom acima (crianças
15 espiando festa) para refletirmos como acontece a educação, a arte e a socialização na cultura
Rom e como esta reflexão pode contribuir para melhorar nossos aspectos sócio-educacionais.
Os Rom são originários de uma sociedade matriarcal. Diferentemente da sociedade ocidental os nômades tem seus valores culturais e estruturas sociais enraizados na natureza, no
feminino. A árvore é um símbolo feminino em quase todas as culturas do mundo e foi destaque em algumas cenas de rituais de celebração ao seu redor em Latcho Drom. O acolhimento
e união indissociável (a natureza que recebe o homem e o homem que acolhe a natureza) são
princípios que regem este tipo de sociedade matriarcalista.
Coerente com a sua organização social, o corpo nômade responde ao mundo externo
como um ser integral, interligado com a natureza que o cerca. Ao contrário do corpo da sociedade ocidental contemporânea, que criou o conceito da “bolha imaginária” para proteger o seu
corpo (corpo visto como posse) do contato/violação dos outros indivíduos sem a sua prévia
permissão, o corpo nômade tem uma relação de contato muito mais próxima uns dos outros.
Todos juntos (adultos, velhos, jovens e crianças) viajam em grupos e dependem um do outro
formando um coletivo, um único corpo colaborativo. A relação de contato tátil acontece com
naturalidade.
Considerando o pensamento do filósofo Merleau-Ponty, podemos relacionar o conceito de corporeidade às sociedades tradicionais nômades (objeto de estudo em questão), onde a
concepção de corpo é holística (não-fragmentada) e a experiência do corpo em contato com o
mundo e o outro que o cerca são responsáveis pela sua auto-percepção e percepção de mundo.
Para ilustrar este ponto da análise, consideramos a cena da mãe-dançarina e seu bebê.
Notamos neste pequeno destaque que a mãe termina sua dança e logo recebe o seu bebê do
colo de uma outra mulher que a assistia um pouco mais afastada. A música e a dança não cessam. A mãe ali mesmo, próxima aos músicos e à dança, começa a amamentar seu filho. As
vibrações sonoras da música, o chacoalhar da mãe que acompanha o ritmo desta através do
seu corpo enquanto amamenta seu filho, atestam para uma diversidade de percepções culturais, biológicas e psicológicas percebidas através do corpo. Esta criança que suga o seio desnudo de sua mãe em meio ao evento festivo já está mergulhada no universo cultural do seu
grupo social e inevitavelmente aprende os seus códigos de relacionamento que ficam registrados no seu corpo biopsicosocial (corpo biológico, indivíduo e meio social). É neste momento
que educação, cultura, arte e socialização penetram (pelo corpo) no inconsciente desta criança.
16 O corpo ocidental, apesar de também ter sido originário de uma sociedade matriarcal,
perdeu o caráter de acolhimento, passando a exibir características masculinas (patriarcais) nos
seus códigos sociais e, conseqüentemente, na sua concepção de corpo. Acompanhando este
movimento, o corpo burguês (“eu tenho um corpo”) passou do coletivo ao individual, intensificado pelo pensamento cartesiano.
A cena selecionada tem como ponto de vista o olhar externo das crianças que observam o foco da cena (a festa dentro da casa). O expectador, assim como as crianças, espiona
curioso o que acontece atrás daqueles muros. As crianças de fora se colocam em pontos estratégicos para melhor observarem. Observando o músico de longe, o menino o imita tocando o
seu instrumento de corda o músico que vê ao longe e a menina que dança, copiando os movimentos da dançarina que assiste participam de maneira lúdica da festa mesmo à distância .
A imitação dos mais velhos pelas crianças, com a intenção de participar e se divertir,
garante a perpetuação da cultura, e este recurso é inerente à cultura nômade. Dança e música
são transmitidos naturalmente, organicamente, em espaços não formais. A educação é experienciada na prática pelo corpo, todos os sentidos são explorados.
É impossível dividir educação, cultura e socialização neste exemplo, todos estes conceitos estão interligados. Ao mesmo tempo em que estas crianças absorvem a cultura do seu
povo (tradições, passagem de valores, hábitos...) elas também estão percebendo e refletindo
sobre as regras sociais que o cerca.
Ágrafos, os povos nômades preservam e registram a sua história através da oralidade,
da palavra cantada, das danças e dos seus rituais. Como vimos anteriormente, o antropólogo
David Le Breton atribui ao corpo o valor de “cepa da identidade do homem”. O corpo carrega
em seus nós toda a memória cultural de um povo que se reflete em gestos, palavras, rituais,
manifestações corporais, etc.
A dança e a música tocada e cantada são as linguagens da arte que identificamos no
trecho selecionado. Neste caso o fazer artístico não tem um fim cênico. Arte é lúdica, tem um
fim nela mesma. No livro Pedagogia da cultura corporal de Marcos Neira, o autor, citando o
professor e historiador holandês Johan Huizinga (1971), explica que a palavra “lúdico” deriva
do latim illudere, que significa “ilusão”. Além disso, Neira, ainda a partir dos estudos Huizinga, fala que: “em seus relatos (Huizinga), aponta as concepções de ‘jogo’ em diversas línguas
17 e, em todas, o lúdico é ‘ter a ilusão de que vale a pena estar no jogo’, nele permanecer, seguir
suas regras e buscar os resultados”.20
Porém, não podemos desconsiderar os momentos significativos que as práticas lúdicas
agregam ao praticante através das suas próprias regras e linguagem. Neira explica que o jogo
(lúdico), no entanto, nos proporciona momentos significativos de aprendizagem. Nele, aprendemos sua própria lógica, sua linguagem e, quem sabe, seus sentidos e significados. Em outras palavras, jogando aprendemos a jogar.21
Brincadeiras, danças, ginásticas, esportes, lutas, etc. são manifestações da cultura corporal de uma sociedade e são manifestações que validam os significados das práticas sociais
de uma dada cultura. Assim, cada grupo cultural cria sua própria expressão artística. A arte,
segundo Marcos Ferreira Santos, carrega a aura da comunidade, é partilha estética e criadora,
entendendo a partilha ‘como esquema vivencial fundamental da comunidade’, verificando-se
a primeira como indispensável nesta passagem do social ao comunitário.22
O processo de socialização e a educação se dão permeados pela experiência artística
lúdica (a dança e a música neste caso) em espaços não-formais (um bosque, uma festa e em
cima de uma árvore). Neste processo gestos, costumes, ritmos e hábitos de um povo são
transmitidos e preservados de geração para geração organicamente pela cultura corporal.
20
NEIRA, Marcos Garcia e NUNES, Mário Luiz Ferrari. Pedagogia da cultura corporal: crítica e alternativas.
São Paulo: Phorte, 2006, p. 229-230.
21
Ibidem, p. 231.
22
FERREIRA SANTOS, Marcos. Arte-educação, imaginário e comunidade: as faces do mesmo rosto. In: http
http://www.editorazouk.com.br/textos_complementares_001.html
18 23
23
Imagens capturadas a partir do vídeo-documentário Latcho Drom.
19 20 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com a modernidade, o homem ocidental está cada vez mais dividido. O conhecimento
tornou-se cada vez mais profundo e especializado. A ciência e a tecnologia evoluem a passos
largos e são elas que validam nossas práticas sociais através das suas práticas discursivas.
Na educação ocidental contemporânea espera-se que o aluno faça suas conexões entre
os conteúdos apresentados e o mundo, mas não leva em consideração que estes conteúdos são
expostos de forma fragmentada, especializada, tornando-se distante para a criança esta conexão entre um saber e o outro, como se um não dependesse do outro. Além disso, o corpo em
sua totalidade biopsicosocial é ignorado. Os sentidos da visão e da audição são os mais valorizados. E a teorias vem à frente da prática, atestando assim a divisão cartesiana.
Hoje, o currículo do corpo nas instituições educacionais (espaços formais) raramente
nos conduz à expansão deste. O corpo ficou limitado, enrijecido e padronizado em cadeira de
sala de aula. Neste contexto o corpo discente torna-se um simples conjunto biológico subordinado e subestimado pela aprendizagem puramente racional, anulando assim as diversas potencialidas do educar através dos nossos próprios receptores corporais.
Ao analisarmos Latcho Drom através do olhar antropológico, repensamos nossos próprios valores sociais. Repensamos qual é a nossa visão de mundo e como podemos nos colocar nele como um ser integral. Vemos como o processo de educação e socialização acontece
de forma orgânica e indissociável, apoiado pela sensibilidade e potencializado pelas práticas
artísticas. Vemos como estas são como um veículo autônomo, ou seja, a arte por si só carrega
valores educativos, para o desenvolvimento sensível e intelectual.
Felizmente, notamos hoje que muitos projetos educacionais estão sendo desenvolvidos
para a inserção e/ou aprimoramento do currículo do corpo nas escolas. Percebe-se uma crescente preocupação entre os educadores e arte-educadores em considerar a diversidade da cultura corporal de cada um, atentando para a não padronização das experiências apresentadas
aos seus alunos.
É no exercício de ampliar o olhar que nos permitimos perceber e compreender o outro
e a nós mesmos.
21 REFERÊNCIAS
FERREIRA SANTOS, Marcos. Música, Memória & Espaço no Cortiço Vivo.
In: http://www.editorazouk.com.br/textos_complementares_001.html
FERREIRA SANTOS, Marcos. Arte-educação, imaginário e comunidade: as faces de um
mesmo rosto. In: http://www.editorazouk.com.br/textos_complementares_001.html
LE BRETON, David. Antropología del cuerpo y modernidad. Buenos Aires: Nueva Visión,
2006.
MEDINA, João Paulo S. O Brasileiro e seu corpo. In Campinas: Papirus, 1990.
NEIRA, Marcos Garcia e NUNES, Mário Luiz Ferrari. Pedagogia da cultura corporal: crítica e alternativas. São Paulo: Phorte, 2006.
SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. É possível realizar uma história do corpo?
In SOARES, Carmen Lúcia. Corpo e história. Campinas: Autores Associados, 2001
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