Os Contos Completos de Ambrose Bierce

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Os Contos Completos de Ambrose Bierce
Os Contos
Completos
De
Ambrose
Bierce
Tradução de João Reis
Os Contos
Completos
De
Ambrose
Bierce
Título Os Contos Completos de Ambrose Bierce
Autor Ambrose Bierce
Tradução João Reis
Revisão Eucleia Editora
Conceção gráfica Nuno Silva
Impressão Nova Lello
[email protected]
Tiragem 1000 exemplares
© Eucleia Editora, 2010
Eucleia Editora, Lda.
Avenida da República, nº 1326, 6º andar, sala 66
4430-192 Vila Nova de Gaia
T: 922259792 / 223743784
[email protected]
http://eucleiaeditora.com
ISBN 978-989-8443-00-7
Depósito Legal: 316159/10
A presente obra encontra-se registada no IGAC, Inspeção Geral
das Atividades Culturais. De acordo com a legislação vigente,
o uso indevido desta obra constitui crime e está sujeita a coima.
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do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.
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Índice
• A Morte de Halpin Frayser (1891)............................................................................................. 9
• Parker Adderson, Filósofo (1891)........................................................................................... 25
• As Atividades Noturnas em Deadman’s Gulch (1874)....................................................... 33
• O Tordo-dos-Remedos (1891)................................................................................................ 41
• Uma Recordação de um Naufrágio (1874)............................................................................ 47
• Um Pequeno Vagabundo (1891)............................................................................................. 51
• A História de uma Consciência (1890).................................................................................. 57
• Um Habitante de Carcosa (1886)........................................................................................... 65
• Uma Revolta dos Deuses (1886)............................................................................................. 69
• Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek (1890)............................................................ 73
• A Alucinação de Staley Fleming (1906)................................................................................. 83
• O Comandante do Camel (1875)............................................................................................. 87
• Um Cavaleiro no Céu (1889)................................................................................................... 95
• A Casa Fantasma (1889)....................................................................................................... 103
• Óleo de Cão (1890)............................................................................................................... 107
• Morto em Resaca (1887)...................................................................................................... 111
• O Funeral de John Mortonson (1906)............................................................................... 117
• A Corrida em Left Bower (1874)........................................................................................ 119
• O Golpe de Misericórdia (1889)......................................................................................... 123
• Um Jarro de Xarope (1893)................................................................................................. 129
• Um Aviso Providencial (1874)............................................................................................ 137
• A Ilha dos Pinheiros (1888)................................................................................................. 143
• Um Oficial, Um Praça (1889).............................................................................................. 147
• Para Lá da Parede (1907)...................................................................................................... 153
• O Famoso Legado Gilson (1878)....................................................................................... 161
• O Homem Borda Fora (1876)............................................................................................. 169
• A Coisa em Nolan (1891)..................................................................................................... 179
• O Caso em Coulter’s Notch (1889).................................................................................... 183
• Um Encargo Infrutífero (1888) ......................................................................................... 193
• O Ambiente Adequado (1889)............................................................................................ 197
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Os Contos Completos de Ambrose Bierce
• Os Olhos da Pantera (1897)................................................................................................
• A Coisa Maldita (1893).........................................................................................................
• O Hipnotizador (1893).........................................................................................................
• Uma Senhora de Redhorse (1891)......................................................................................
• Chickamauga (1889)..............................................................................................................
• O Viúvo Turmore (1891).....................................................................................................
• Uma Mensagem Sem Fios (1905).......................................................................................
• A Cidade dos que Partiram (1888)......................................................................................
• Uma Corrida Inacabada (1888)...........................................................................................
• O Vale Assombrado (1871).................................................................................................
• Três Mais Um São Um (1908).............................................................................................
• Uma Sepultura Sem Fundo (1888).....................................................................................
• O Amo de Moxon (1899)....................................................................................................
• Haïta, o Pastor (1891)...........................................................................................................
• O Pequeno Conto (1874).....................................................................................................
• Um Carregamento de Gatos (1885)...................................................................................
• Um Incidente nos Postos Avançados (1897)....................................................................
• A Janela Entabulada (1891).................................................................................................
• O Relógio de John Bartine (1893)......................................................................................
• Um dos Desaparecidos (1888) ...........................................................................................
• Um Vigilante Junto ao Morto (1889).................................................................................
• «A Falsa Reputação» (1886).................................................................................................
• Um Tipo de Oficial (1893)...................................................................................................
• O Rastro de Charles Ashmore (1888)................................................................................
• Presente num Enforcamento (1888)..................................................................................
• Uma Mulher Endiabrada (1882).........................................................................................
• Uma Aventura em Brownville (1892).................................................................................
• O Salto Mortal de Mr. Swiddler (1874)..............................................................................
• Mr. Masthead, Jornalista (1874)..........................................................................................
• Uma Conflagração Imperfeita (1886)................................................................................
• Uma Identidade Reassumida (1908)...................................................................................
• A Falência da Hope & Wandel (1874)...............................................................................
• Um Diagnóstico de Morte (1901).......................................................................................
• Uma Emboscada Frustrada (1906).....................................................................................
• Subornando a Imprensa (1874)...........................................................................................
• Uma Detenção (1905)...........................................................................................................
• Um Filho dos Deuses (1888)...............................................................................................
• O Porquê de Não Estar a Editar o The Stinger (1874)......................................................
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Índice
• O Segredo de Macarger’s Gulch (1891).............................................................................
• Em Casa do Velho Eckert (1901).......................................................................................
• O Candidato (1892)..............................................................................................................
• George Thurston (1883)......................................................................................................
• Jupiter Doke, Brigadeiro-General (1885)...........................................................................
• O Reino do Ilusório (1890)..................................................................................................
• Duas Execuções Militares (1906)........................................................................................
• Vaca Escovada (1874)...........................................................................................................
• Um Homem com Duas Vidas (1905)................................................................................
• O Meu Homicídio Favorito (1888).....................................................................................
• A Estrada Iluminada Pelo Luar (1907)..............................................................................
• A Dificuldade de Atravessar um Campo (1888)...............................................................
• Os Outros Hóspedes (1907)................................................................................................
• Um Naufrágio Psicológico (1879)......................................................................................
• O Homem e a Serpente (1890)...........................................................................................
• O Estranho (1909) ...............................................................................................................
• Um dos Gémeos (1888).......................................................................................................
• A História do Major (1890).................................................................................................
• O Batismo de Dobsho (1874).............................................................................................
• Um Cumprimento Frio (1888)............................................................................................
• Uma Luta Violenta (1888)...................................................................................................
• Uma Trepadeira numa Casa (1905)....................................................................................
• O Dedo Médio do Pé Direito (1890).................................................................................
• O Homem que Saía do Nariz (1887).................................................................................
Nota Biográfica...........................................................................................................
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A Morte de
Halpin Frayser
I
Porque pela morte se produz uma maior mudança do que a que foi demonstrada. Se, em geral, o espírito, separado do corpo, regressa em certa
ocasião, sendo, por vezes, visto pelos vivos (ao aparecer na forma do corpo
que o carregava), já aconteceu, no entanto, o verdadeiro corpo, sem espírito,
caminhar. E é assegurado por aqueles que os encontraram e viveram para
falar, que um cadáver assim reavivado não tem sentimentos ou recordações,
mas apenas ódio. Sabe-se, também, que alguns espíritos que eram em vida
bons se tornam completamente maléficos com a morte.
Hali
N
uma escura noite em pleno verão, um homem que acordava,
numa floresta, de um sono sem sonhos, levantou a sua cabeça
da terra e, perscrutando a escuridão durante alguns momentos,
disse: «Catherine Larue». Não disse mais nada e nenhuma razão
era por si conhecida para que tanto tivesse dito.
O homem era Halpin Frayser. Vivia em Santa Helena, mas é incerta a sua atual
morada, uma vez que está morto. Quem dorme em matas sem nada debaixo de si
para além das folhas secas e a terra húmida, e nada acima de si para além dos ramos
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Os Contos Completos de Ambrose Bierce
dos quais caíram as folhas, e o céu do qual a terra caiu, não pode esperar uma grande
longevidade, e Frayser tinha já atingido a idade de trinta e dois. Há pessoas neste
mundo, milhões de pessoas – e, sem dúvida, as melhores pessoas –, que consideram
essa uma idade muito avançada. São as crianças. Para aqueles que veem a viagem
da vida do ponto de partida, a barca que atingiu qualquer distância considerável
parece já muito próxima da margem mais longínqua. No entanto, não é certo que
Halpin Frayser tenha morrido por exposição aos elementos climatéricos.
Passara todo o dia nas colinas a oeste de Napa Valley, à procura de pombos
e outra caça pequena que havia nessa época. Ao fim da tarde, o tempo tornarase nublado e ele perdera os seus pontos de referência. Embora tivesse apenas
de seguir sempre pela colina abaixo – que é sempre o caminho para a segurança
quando se está perdido –, a ausência de trilhos impedira-o de tal forma de o fazer
que foi apanhado pela noite enquanto ainda estava na floresta. Incapaz de, na
escuridão, entrar nas moitas de manzanita1 e outras plantas rasteiras, e estando
completamente desorientado e derrotado pela fadiga, deitou-se junto à raiz de
um grande medronheiro e caiu num sono sem sonhos. Foi horas depois, a meio
da noite, que um dos misteriosos mensageiros de Deus, planando em direção a
oeste, juntamente com a alvorada, pronunciou a palavra despertadora ao ouvido
do adormecido, que se sentou a direito e disse, sem saber porquê, nem a quem
pertencia, um nome.
Halpin Frayser não era um grande filósofo, nem cientista. O facto de, tendo
acordado de um sono profundo, à noite, no meio de uma floresta, ter dito em
voz alta um nome que não recordava e dificilmente teria na mente, não originou
uma curiosidade racional para investigar o fenómeno. Achou-o estranho e, com
um arrepio passageiro, como se por respeito a uma presunção sazonal de que a
noite estava fria, voltou a deitar-se e adormeceu. Mas o seu sono não era mais
um sono sem sonhos.
Pensou estar a caminhar ao longo de uma estrada poeirenta, que surgia
branca na envolvência da escuridão de uma noite estival. De onde e para onde
conduzia a estrada, e porque viajava nela, não o sabia, apesar de tudo parecer
simples e natural, tal como é hábito nos sonhos, pois na Terra Além da Cama as
surpresas deixam de nos perturbar e o discernimento está em repouso. Depressa
chegou a uma bifurcação dos caminhos; havia, partindo da estrada principal, uma
estrada menos percorrida, que tinha o aspeto de ter sido realmente abandonada
Nota do Tradutor: Manzanita é o nome comum dado a várias espécies de plantas pertencentes ao género Arctostaphylos. Este tipo de planta assemelha-se bastante a arbustos e é muito
frequente na costa ocidental dos Estados Unidos.
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A Morte de Halpin Frayser
há muito, porque, pensava ele, conduzia a algo maléfico. Seguiu-a, contudo, sem
hesitar, impelido por alguma necessidade imperiosa.
À medida que avançava, tornou-se consciente de que o seu caminho era
assombrado por seres invisíveis, que não conseguia delinear de forma definida.
Captou, vindos de entre as árvores existentes em ambos os lados, sussurros
interrompidos e incoerentes numa estranha língua que, no entanto, compreendia parcialmente. Pareciam-lhe acusações fragmentadas de uma monstruosa
conspiração contra os seus corpo e alma.
Passara já muito tempo desde o cair da noite. Contudo, a floresta interminável por entre a qual viajava estava iluminada por um brilho sombrio sem
nenhum ponto de origem pois, sob a sua misteriosa iluminação, nada projetava
uma sombra. Uma poça de água pouco profunda num sulco feito por uma
roda velha, como se criada por uma chuva recente, chamou a sua atenção com
uma cintilação carmesim. Dobrou-se e mergulhou nela a sua mão. Manchou os
seus dedos: era sangue! O sangue, reparou então, estava à sua volta por todo o
lado. As ervas que cresciam exuberantemente à beira da estrada exibiam-no em
gotas e salpicos nas suas grandes e largas folhas. Pedaços de poeira seca entre
as marcas de rodas estavam manchados como se tivessem sido molhados por
uma chuva vermelha. Largas manchas de carmesim marcavam os troncos das
árvores, e da sua folhagem pingava sangue como se fosse orvalho.
Observou tudo isto com um terror que não parecia incompatível com a
satisfação de uma expetativa natural. Parecia-lhe que era tudo a expiação de
algum crime que, embora consciente da sua culpa, não conseguia recordar na
totalidade. A consciência era um horror adicionado às ameaças e mistérios que
o rodeavam. Em vão procurou, ao percorrer mental e retrospetivamente a sua
vida, encontrar o momento do seu pecado; cenas e incidentes regressaram
tumultuosamente à sua mente, uma imagem esbatendo outra, ou comungando
com ela em confusão e obscuridade. Mas não conseguia, de nenhum modo,
captar um vislumbre daquilo que procurava. O fracasso aumentou o seu terror:
sentia-se como um assassino no escuro, sem saber quem, nem porque matara.
Tão assustadora era a situação – a luz misteriosa que ardia como uma ameaça
silenciosa e horrível; as plantas daninhas; as árvores que, por comum acordo,
estavam investidas de um carácter melancólico ou maléfico, tão abertamente
conspirando contra a sua paz; de cima e dos lados chegavam sussurros tão audíveis e surpreendentes, e gemidos de criaturas obviamente não deste mundo
– que não pôde aguentar mais e, com um grande esforço para quebrar algum
feitiço maligno que limitava as suas faculdades ao silêncio e inação, gritou
com toda a força dos seus pulmões! A sua voz, fragmentada, ao que parecia,
11
Os Contos Completos de Ambrose Bierce
numa multiplicidade infinita de sons desconhecidos, prolongou-se na forma
de balbuciações e gaguejos até aos limites da floresta e morreu até o silêncio se
instalar novamente e tudo ficar como estava anteriormente. No entanto, Halpin
começara a resistir e estava encorajado. Disse:
– Não me irei submeter sem ser ouvido. Podem existir poderes não malignos
a viajar por esta estrada maldita. Devo deixar-lhes um registo e uma súplica. Devo
relatar os meus erros, as perseguições que sofro – eu, um mortal desamparado,
um penitente, um poeta inofensivo.
Halpin Frayser era tanto um poeta quanto um penitente: apenas no seu
sonho.
Tirando das suas roupas um pequeno caderno de bolso de couro vermelho,
do qual metade fora deixada para anotações, descobriu que não tinha lápis.
Partiu um galho de um arbusto, mergulhou-o numa poça de sangue e escreveu
rapidamente. Mal tocara o papel com a ponta do seu galho quando uma baixa
e louca gargalhada irrompeu a uma distância incomensurável e, tornando-se
cada vez mais alta, pareceu aproximar-se. Uma gargalhada desalmada, sem
sentimentos ou alegria, como a do vagabundo e solitário junto ao lago a meio
da noite; uma gargalhada que culminou, perto de si, num grito sobrenatural e,
de seguida, se extinguiu, com lentas diminuições, como se o maldito ser que
o soltara tivesse voltado para o fim do mundo de onde viera. Mas o homem
sentiu que não era assim: sentiu que estava perto e não se movera.
Uma estranha sensação começou lentamente a tomar conta do seu corpo e
da sua mente. Não conseguiria dizer qual, se algum, dos seus sentidos era afetado.
Sentiu-o mais como uma perceção – uma misteriosa certeza mental sobre uma
qualquer presença avassaladora – alguma malignidade sobrenatural diferente dos
outros seres invisíveis que o circundavam, e superior a todos eles em poder. Ele
sabia que fora esse ser quem soltara aquela gargalhada horrenda. E agora parecia
aproximar-se de si; de que direção, não sabia – e não se atrevia a adivinhar. Todos
os seus medos anteriores foram esquecidos ou submersos pelo terror gigantesco
que então o paralisava. Para além disso, tinha um só pensamento: acabar a sua
súplica aos poderes benignos que, atravessando a mata assombrada, pudessem
a qualquer momento salvá-lo, caso lhe fosse negada a bênção da aniquilação.
Escreveu com uma rapidez terrível, o galho nos seus dedos escorrendo sangue
sem precisar ser molhado de novo. Mas, a meio de uma frase, as suas mãos
negaram à sua vontade a sua utilização, os seus braços penderam para os lados,
o livro caiu no chão. Sem capacidade para se mover ou gritar, deu por si a olhar
para o rosto nitidamente definido e inexpressivo, olhos mortos, da sua própria
mãe, que estava de pé à sua frente, pálida e silenciosa na sua mortalha!
12
A Morte de Halpin Frayser
N
II
a sua juventude, Halpin Frayser vivera com os seus pais em Nashville, Tennessee. Os Frayser eram ricos, ocupando uma boa posição
na sociedade que sobrevivera à destruição causada pela guerra civil.
Os seus filhos tiveram as melhores oportunidades sociais e educacionais proporcionadas pela época e lugar, e responderam às boas associações e
instrução com modos agradáveis e mentes cultas. Halpin, sendo o mais novo e
não muito saudável, foi, talvez, um pouco «mimado». Ele tinha a dupla desvantagem trazida pela dedicação de uma mãe e a negligência de um pai. O Frayser
père era o que nenhum próspero homem do Sul pode deixar de ser: um político.
O seu país, ou melhor, a sua região e Estado, faziam exigências tão excessivas
que era obrigado a virar, às da sua família, um ouvido parcialmente ensurdecido
pelas ordens dos chefes políticos e pela gritaria – a sua própria incluída.
O jovem Halpin era de uma natureza sonhadora e preguiçosa – e, mais corretamente, romântica –, de certo modo mais inclinada para a literatura do que
para o Direito, a profissão para a qual fora criado. Entre os seus parentes que
professavam a moderna crença na hereditariedade, era ponto assente que, em
si, o carácter do falecido Myron Bayne, um bisavô materno, tornara a visitar os
raios da lua2 – pela qual a orbe Bayne fora, durante a sua vida, suficientemente
afetada, de forma a ser um poeta de não pequena distinção na época colonial. Se
não especialmente observado, era observável que, embora um Frayser que não
fosse um orgulhoso possuidor de uma cópia sumptuosa dos ancestrais «trabalhos
poéticos» (impressos à custa da família, e há muito retirados de um mercado
inóspito) era, de facto, um Frayser raro, havia uma relutância ilógica para honrar
o grande falecido na pessoa do seu sucessor espiritual. Halpin era, geralmente,
muito desaprovado, sendo visto como uma ovelha negra intelectual que poderia,
a qualquer momento, desgraçar o rebanho ao balir em versos. Os Frayser do
Tennessee eram gente prática – não prática no sentido popular de dedicação
a ocupações sórdidas, mas tendo um forte desprezo por quaisquer qualidades
que não preparassem um homem para a respeitável vocação política.
Deveria dizer-se, em justiça ao jovem Halpin, que, enquanto nele era
reproduzida bastante fielmente a maioria das características mentais e morais
atribuídas pelas história e tradição familiares ao famoso bardo colonial, a sua
sucessão ao dom e faculdade divina era puramente deduzida. Ele não só nunca
Nota do Tradutor: «revisited the glimpses of the moon»; frase retirada de Hamlet, I, 4, 53,
de William Shakespeare.
2
13
Os Contos Completos de Ambrose Bierce
fora conhecido por cortejar a musa como, na verdade, não poderia ter escrito
corretamente uma linha de verso para se salvar a si próprio da Assassina dos
Sábios. Não havia, porém, forma de saber quando poderia a sua faculdade
adormecida acordar e tocar violentamente a lira.
De qualquer forma, o jovem era, entretanto, sobretudo um inadaptado.
Existia, entre ele e a sua mãe, a mais perfeita compreensão, pois a senhora era,
secretamente, uma seguidora devota do falecido e grande Myron Bayne. Apesar
de o ser com o tato tão generosa e justamente admirado no seu género (embora
alguns ousados caluniadores insistam que isso é essencialmente a mesma coisa
que astúcia), sempre tivera o cuidado de esconder a sua fraqueza de todos os
olhos, exceto dos daquele que com ela partilhava essa mesma fraqueza. A sua
culpa comum relativa a tal assunto era um laço adicional entre ambos. Se na juventude de Halpin a sua mãe o «mimara», ele certamente fizera a sua parte para
ser mimado. À medida que crescia até à idade adulta que é passível de ser obtida
por um Sulista que não quer saber para que lado correm as eleições, a ligação
entre ele e a sua linda mãe – a quem desde a sua tenra infância chamava Katy –
ia-se tornando, a cada ano que passava, mais forte e mais afetuosa. Nestas duas
naturezas românticas era manifesto, de uma forma assinalável que dispensava
qualquer prova, a dominância do elemento sexual em todas as relações da vida,
reforçando, suavizando e embelezando mesmo as da consanguinidade. Estes dois
eram quase inseparáveis e frequente e erroneamente tomados como amantes por
estranhos que observavam os seus modos.
Um dia, ao entrar no quarto de vestir da sua mãe, Halpin Frayser beijou-a
na testa, brincou por um momento com um cacho de cabelo escuro que escapara dos ganchos que a sua mãe usava, e disse, com um óbvio esforço para
manter a calma:
– Importar-te-ias muito, Katy, se eu fosse até à Califórnia por algumas
semanas?
Dificilmente seria necessário para Katy responder com os lábios a uma
questão à qual as suas faces denunciadoras responderam de imediato. Ela,
obviamente, importar-se-ia muito; e afluíram também lágrimas em cascata aos
seus grandes olhos castanhos, como testemunho corroborativo.
– Ah, meu filho – disse ela, olhando para o seu rosto com infinita ternura
–, eu deveria saber que isto estava para vir. Não permaneci acordada, a chorar,
durante metade da noite porque, durante a outra metade, o avô Bayne viera ter
comigo num sonho e, ficando de pé junto ao seu retrato – jovem também, e tão
bonito – apontou para o teu retrato na mesma parede? E quando olhei parecia
que eu não conseguia ver as feições; tu foras pintado com um pano na cara,
14
A Morte de Halpin Frayser
como os que colocamos nos mortos. O teu pai riu de mim, mas tu e eu, querido,
sabemos que tais coisas não surgem sem motivo. E vi, abaixo da borda do pano,
marcas de mãos na tua garganta. Perdoa-me, mas não estamos habituados a
esconder tais coisas um do outro. Talvez tu tenhas outra interpretação. Talvez
não queira dizer que irás para a Califórnia. Ou levar-me-ás, talvez, contigo?
Há que confessar que esta engenhosa interpretação do sonho à luz da prova
recentemente descoberta não se acomodou totalmente à mente mais lógica do
filho; ele teve, pelo menos por instantes, a convicção que isto pronunciava um
desastre mais simples e imediato, se não menos trágico, do que uma visita à
costa do Pacífico. Halpin Frayser tinha a impressão de que seria esganado na
sua terra natal.
– Não há nascentes medicinais na Califórnia? – Inquiriu Mrs. Frayser, antes
que ele tivesse tempo de lhe dar a verdadeira leitura do sonho –, sítios onde
se pode recuperar do reumatismo e nevralgia? Olha: os meus dedos parecem
tão rígidos; e eu tenho quase a certeza de que me provocaram grandes dores
enquanto dormia.
Estendeu-lhe as mãos para as inspecionar. Que diagnóstico do seu caso
terá o jovem pensado ser melhor esconder com um sorriso é o historiador incapaz de dizer, mas sente-se na obrigação de dizer que dedos parecendo menos
rígidos, e mostrando menos sinais de dor, raramente têm sido submetidos a
inspeção médica até pelo mais honesto paciente desejando uma prescrição de
novos ares.
O desenrolar desta situação, para estas duas pessoas estranhas, com igualmente estranhas noções do dever, foi o seguinte: uma foi para a Califórnia, como
o interesse do seu cliente exigia, e a outra permaneceu em casa, satisfazendo
um desejo que o seu marido mal tinha consciência de ter.
Enquanto em São Francisco, Halpin Frayser caminhava, numa noite escura,
ao longo da marginal da cidade, quando, com um ímpeto que o surpreendeu
e desconcertou, se tornou um marinheiro. Ele foi, de facto, «forçado a embarcar» a bordo de um navio esplêndido, esplêndido3, e zarpou para um país
longínquo. Tão pouco acabaram os seus infortúnios com a viagem, pois o navio
naufragou ao largo de uma ilha do Pacífico Sul, e só seis anos depois foram os
sobreviventes resgatados por uma audaz escuna comercial e trazidos de volta
para São Francisco.
Frayser, apesar de pobre na bolsa, não tinha um carácter menos orgulhoso do
Nota do Tradutor: No original, «gallant, gallant ship», retirado do poema Gloucester Moon,
do poeta americano William Vaughn Moody (1869 – 1910).
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