sumário - RoyalCanin.br

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sumário - RoyalCanin.br
SUMÁRIO
# 18.1
© Monika Linek
VETERINARY
2008 - 10$/10€
A revista internacional para o Médico Veterinário de animais de companhia
A Veterinary Focus é publicada em inglês, francês, alemão, chinês, holandês, italiano, polaco, português, espanhol,
japonês, grego e russo.
Ilustração da capa: Hiperqueratose epidérmica e infundibular severas.
Conhecimento e Respeito... Pelagens felinas e caninas:
diversidades raciais na textura e no comprimento
p. 02
Pascale Pibot
Como abordar... O prurido no gato
p. 04
Andrea Cecilia Wolberg e Alejandro Blanco
Como tratar... Adenite sebácea em cães
p. 12
Monika Linek
Avanços na abordagem de feridas em pequenos animais
p. 17
Steven Swaim e Mark Bohling
Utilização da serologia em dermatologia canina e felina
p. 24
Pascal Prélaud
Abordagem da dermatite atópica
p. 32
Tim Nuttall
Ponto de vista Royal Canin... Nutrição, saúde da pele e qualidade da pelagem
p. 40
Fabienne Dethioux
Guia destacável... Interpretar lesões cutâneas primárias
p. 47
Richard Harvey
ALEMANHA ARGENTINA AUSTRÁLIA ÁUSTRIA BAHREIN BÉLGICA BRASIL CANADÁ CHINA CHIPRE COREIA CROÁCIA DINAMARCA EMIRADOS ÁRABES UNIDOS ESLOVÉNIA ESPANHA ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA ESTÓNIA FILIPINAS FINLÂNDIA
FRANÇA GRÉCIA HOLANDA HONG-KONG HUNGRIA IRLANDA ISLÂNDIA ISRAEL ITÁLIA JAPÃO LETÓNIA LITUÂNIA MALTA MÉXICO NORUEGA NOVA ZELÂNDIA POLÓNIA PORTO RICO PORTUGAL REINO UNIDO REPÚBLICA CHECA REPÚBLICA DA
ÁFRICA DO SUL REPÚBLICA ESLOVACA ROMÉNIA RÚSSIA SINGAPURA SUÉCIA SUIÇA TAILÂNDIA TAIWAN TURQUIA
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da Veterinary Focus
CONHECIMENTO E RESPEITO
Veterinary Focus, Vol 18 n° 1 - 2008
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Consultores Editoriais
• Drª Denise A. Elliott, BVSc(Hons), PhD, Dipl. ACVIM,
Dipl. ACVN Comunicações Científicas,
Royal Canin, EUA
• Drª Pascale Pibot, DVM, Directora de Publicações
Científicas, Royal Canin, França
• Drª Pauline Devlin, BSc, PhD, Directora-Assistente
Veterinária, Royal Canin, RU
• Drª Karyl Hurley, BSc, DVM, Dipl. ACVIM, Dipl. ECVIMCA Assuntos Académicos Globais, WALTHAM
• Drª Franziska Conrad, DVM, Scientific
Communications, Royal Canin, Alemanha
• Drª Julieta Asanovic, DVM, Dipl. FCV, UBA, Scientific
Communications, Royal Canin, Argentina
Editor
• Dr. Richard Harvey, PhD, BVSc, DVD,
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Ilustração
• Youri Xerri
Revisão editorial para outras línguas :
• Drª Imke Engelke, DVM (Alemão)
• Drª María Elena Fernández, DVM (Espanhol)
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• Prof. Dr. R. Moraillon, DVM (Francês)
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92100 Boulogne – França
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Impresso na União Europeia
ISSN 0965-4577
Circulação: 100,000 cópias
Depósito legal: Março 2007
Publicado por Aniwa S. A. S.
As autorizações de comercialização dos agentes terapêuticos para uso em animais de companhia variam muito a nível mundial. Na ausência de uma licença específica, deve ser considerada
a publicação de um aviso de prevenção adequado, antes da administração de tais fármacos.
CONHECIMENTO E RESPEITO
© Y. Lanceau
Pelagens felinas e
caninas: diversidades
raciais na textura e no
comprimento
Por Pascale Pibot, DVM
A raça Bosque da Noruega possui uma
pelagem muito densa que oferece um
bom isolamento e impermeabilidade.
P
ara um gato ou um cão, a • Os pêlos secundários mais finos e
leves são dominantes na pelagem
pelagem serve como isoladum Caniche. Colocados topo a
mento térmico, barreira de
topo, um grama de pêlos secundáprotecção da pele (contra a desidrarios alcançaria até 980 metros
tação e ataques externos) e como
enquanto que um grama exclusivameio de comunicação. Para um dono,
mente de pêlos primários, que são
a pelagem do seu animal é claramente
muito mais espessos, alcançariam
um dos seus mais belos atributos. Ao
até apenas 690 metros.
fazer selecções de raças, o Homem
contribuiu para produzir uma maior • Pelo contrário, o Yorkshire Terrier
não apresenta pelagem secundária
variedade de diferentes pelagens.
ou sub-pêlo. Apenas um único
Uma pelagem específica pêlo longo sai de cada folículo.
• O Schnauzer possui uma pelagem
para cada raça
dura que consiste numa protecção
As raízes dos pêlos originam-se
rígida que é longa o suficiente para
em cavidades designadas folículos
a sua textura ser percepcionada, e
pilosos. Normalmente, a pelagem
uma pelagem secundária densa.
consiste numa mistura de pêlos
longos e relativamente espessos • A opulência da pelagem é o maior
trunfo da raça Shih Tzu. A sua
(pêlos primários), que é a pelagem
pelagem é densa e longa, com um
de cobertura, e de pêlos curtos e
denso sub-pêlo.
mais finos (pêlos secundários), que
constituem o sub-pêlo. Nos gatos, • Apesar de existirem gatos/cães
‘nús’ com apenas uma fina lanugem,
existem cerca de 10 a 15 pêlos
como o Sphinx ou o Xoloitzcuintle
secundários para cada pêlo primário,
(raça Mexicana), a grande maioria
enquanto que nos cães existem, por
das raças é classificada como de
norma, 3 a 5 pêlos secundários. A
pêlo curto, pêlo semi-longo e pêlo
maioria dos gatos possui pêlo liso,
longo.
embora haja alguns – como o Cornish
Rex – que possui pêlos ondulados
ou encaracolados.
Densidade da pelagem
Em comparação com outras espécies,
Nos cães, existem muito mais varia- os gatos apresentam uma pelagem
ções. Por exemplo:
densa, possuem entre 800 a 1600
2 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
pêlos por centímetro quadrado, o
que é quase o dobro em relação
aos cães. As raças adaptadas aos
climas frios (como o gato Bosque da
Noruega) possuem uma pelagem
particularmente densa que oferece
um bom isolamento e impermeabilidade.
De entre os exemplares caninos, a
estrutura da pelagem do Labrador
Retriever é única. É uma pelagem
forte e densa, permitindo ao Labrador
suportar águas geladas. Quando
recolhem a caça no campo, os Labradores têm de enfrentar arbustos e
matas que podem cortá-los e, deste
modo, a sua densa pelagem ajuda-os
a prevenir estas lesões.
Comprimento do pêlo
Os Persas representam um exemplo
extremo do crescimento piloso. Os
seus pêlos podem crescer até um
comprimento de 20cm ao nível do
pescoço. Se colocados em linha
recta, a soma dos pêlos de um Persa
poderia medir até cerca de 370km!
Entre as outras raças caninas, o
Yorkshire Terrier é também admirado
pela sua impressionante longa pelagem: normalmente de 12 a 22cm
de comprimento e, por vezes, acima
© Y. Lanceau
© Y. Lanceau
de 37cm em cães de exposição,
comparado com 1 a 2cm num cão
de pêlo curto.
Qual a velocidade de
regeneração de um folículo?
Existem três fases principais durante
o ciclo do folículo piloso, cuja duração é geneticamente determinada:
• fase de crescimento (anagénese):
os pêlos crescem a uma taxa de
7.5 - 9mm por mês.
• fase intermédia (catagénese): o
bulbo piloso regride gradualmente.
• fase de repouso (telogénese): o
pêlo está ancorado apenas por
umas raízes de queratina antes de
cair.
Os cães e os gatos expostos à luz
natural estão sujeitos ao ciclo natural
da muda, com o máximo de perda
de pêlo no início do Verão e mínimo
no início do Inverno. Este ciclo
permite ao animal apresentar a
pelagem mais comprida e densa
possível quando está muito frio e
a mais leve possível quando a
temperatura está realmente elevada.
Os gatos que passam a maior parte
do seu tempo dentro de casa, em
interior, estão, consequentemente,
expostos a uma temperatura e luz
praticamente constantes, perdendo
os seus pêlos de modo constante ao
longo do ano. Um gato de interior
despende cerca de 30% das suas
horas activas à higiene da sua pelagem. Consequentemente, eliminam
os pêlos ingeridos através das fezes.
A quantidade de pêlo eliminado
durante o ano é, no mínimo, de
100g para um gato adulto de pêlo
curto de 4kg.
O Yorkshire Terrier é uma das raras
raças, juntamente com o Bichon
Maltês, o Caniche Miniatura, o Shih
Tzu e o Lhasa Apso, que não faz a
muda do pêlo e cujos pêlos crescem
continuamente (de 10 a 15mm
por mês). A fase de anagénese é
dominante: o que significa que os
pêlos são similares aos cabelos
dos humanos e necessitam de ser
cortados regularmente.
Graças à sua longa pelagem, o Yorkshire Terrier
apresenta um comprimento de pêlo cerca de
3 vezes superior (medido de topo a topo) a
um cão com pêlo semi-longo com a mesma
massa corporal.
© Y. Lanceau
Segundo os padrões felinos, os Persas são a única raça de gatos com pêlo longo.
A pelagem de um Caniche necessita de ser
cortada regularmente devido ao seu
crescimento contínuo.
Porque motivo os cães e os gatos
eriçam os pêlos?
Os pêlos podem ser er içados
através da contracção dos pequenos
músculos erectores dos pêlos que
conectam os folículos pilosos à
superfície inferior da epiderme.
Ao eriçar os seus pêlos, o gato/cão
adopta um aspecto ameaçador de
modo a intimidar o seu adversário,
sendo este um Homem, um gato ou
um cão. Num gato, a pelagem eriçada torna-se mais impressionante
quando este arqueia o dorso e se
posiciona de lado.
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 3
COMO ABORDAR...
O prurido no gato
Andrea Cecilia Wolberg, DVM
Alejandro Blanco, DVM
Cidade Autónoma de Buenos Aires, Argentina
Cidade Autónoma de Buenos Aires, Argentina
A Drª Andrea Cecilia Wolberg licenciou-se em Medicina
Veterinária na Universidade de Buenos Aires (UBA)
em 1984. Completou um curso de pós-graduação na
universidade onde leccionava simultaneamente e
licenciou-se como oradora autorizada da UBA em 1995.
Trabalhou como Professora Assistente na Clínica de
Pequenos Animais na Faculdade de Ciências Veterinárias
da Universidade Nacional no Centro da Província de
Buenos Aires (UNCPBA). Trabalha actualmente como
Professora Assistente na Clínica de Pequenos Animais na
Faculdade de Ciências Veterinárias da UBA, onde é
Regente do Departamento de Dermatologia no Hospital
Universitário anexado à mesma faculdade. A Drª Andrea
Wolberg exerce igualmente clínica privada e, em
particular, dermatologia de pequenos animais.
O Dr. Alejandro Blanco licenciou-se em Medicina
Veterinária na Faculdade de Ciências Veterinárias na
Universidade de Buenos Aires (UBA) em 1986.
Completou um curso de pós-graduação na
universidade onde simultaneamente leccionava e
licenciou-se como orador autorizado da UBA em 1996.
Tem leccionado no Hospital Veterinário da UBA desde
1987 e é Responsável pelas Nomeações Práticas na
Clínica de Pequenos Animais na Faculdade de Ciências
Veterinárias da UBA. Desde 2001, o Dr. Alejandro
Blanco é o Responsável pelo Departamento de
Pacientes Externos de Dermatologia na Faculdade
Veterinária de Buenos Aires.
Introdução
O prurido em gatos é um verdadeiro desafio diagnóstico. Em concordância com as suas características
comportamentais, os gatos tendem a coçar-se quando
não estão a ser obser vados pelos seus donos,
tornando-se difícil determinar com exactidão se o
gato se tem lambido ou não. É igualmente difícil
diferenciar entre hábitos de higiene intensa e
lambedura excessiva devido a prurido. Para complicar
ainda mais, as reacções cutâneas em gatos podem
ser o resultado de estados afectivos. Em resumo, as
afecções cutâneas apresentam uma miríade de
causas.
O objectivo deste artigo é o de apresentar uma
abordagem diagnóstica desenvolvida para auxiliar
os clínicos a estabelecer diagnósticos definitivos, ou
praticamente definitivos, de prurido em gatos e
4 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
determinar a terapêutica mais apropriada para os
seus pacientes.
Padrões de reacção cutânea
associada ao prurido em gatos
Existem 4 padrões clássicos de reacção cutânea em
gatos pruríticos (Tabela 1):
1. Complexo do granuloma eosinofílico felino
2. Alopecia bilateral simétrica
3. Prurido na cabeça e no pescoço
4. Dermatite miliar felina
1. Complexo do granuloma eosinofílico felino
O complexo do granuloma eosinofílico felino manifestase sob 3 formas:
- Úlceras indolores
- Placas eosinofílicas
- Granulomas eosinofílicos
Tabela 1.
Padrões de reacção cutânea em gatos e possíveis
causas no gato prurítico
Padrões de reacção
cutãnea
Possíveis causas
Complexo do granuloma
eosinofílico felino
- Dermatite alérgica à picada
da pulga - Alergia alimentar
- Hipersensibilidade por
picada de mosquito
Alopecia simétrica
bilateral
- Dermatite alérgica à picada
da pulga - Alergia alimentar
- Atopia felina - Dermatofitose
- Alopecia psicogénica
Prurido na cabeça e no
pescoço
- Sarna notoédrica
- Sarna otodécica
- Alergia alimentar
- Atopia felina
- Dermatite alérgica à picada
da pulga - Dermatofitose
- Pênfigus foliáceo
Dermatite miliar felina
- Dermatite alérgica à picada
da pulga - Dermatofitose
- Alergia alimentar
- Atopia felina
- Demodecose
As manifestações supracitadas estão agrupadas sob a
designação de complexo do granuloma eosinofílico por
partilharem determinadas características, incluindo
uma resposta positiva ao tratamento com corticosteróides e etiologia desconhecida (embora tenham
tendência para serem associadas com reacções de
hipersensibilidade). Contudo, nem todas são pruríticas.
O prurido é uma característica principal das placas
eosinofílicas e das picadas de mosquito.
As placas eosinofílicas são caracterizadas por lesões
granulomatosas avermelhadas focais ou múltiplas,
redondas ou ovais e que ulceram com frequência.
Ocorrem na superfície cutânea do abdómen, zonas
interiores das coxas, axilas e espaços interdigitais.
As áreas afectadas tendem a ficar húmidas devido à
lambedura intensa, pois as lesões são altamente
pruríticas. Os diagnósticos diferenciais devem incluir
doenças cutâneas neoplásicas e granulomas de origem
infecciosa (Figura 1). As evidências histológicas são
diagnósticas (infiltrados eosinofílicos no tecido).
A hipersensibilidade à picada de mosquito é caracterizada pela presença de pápulas crostosas e diversos
graus de edema na superfície do nariz, orelha e zonas
Figura 1. Placa eritematosa em relevo na axila esquerda dum
gato atópico de raça indeterminada.
Figura 2. Pápulas crostosas no nariz de um gato com
hipersensibilidade à picada de mosquito.
pré-auriculares. O prurido é moderado a severo e os
sintomas desaparecem uma vez bem sucedida a eliminação dos mosquitos do ambiente do gato (Figura 2).
Um estudo alérgico deve ser o primeiro teste a realizar
para determinar a etiologia das lesões. As alergias mais
comuns em gatos são a dermatite alérgica à picada da
pulga, a alergia alimentar e a atopia felina.
Dermatite alérgica à picada da pulga
A dermatite por alergia à picada da pulga é uma
reacção alérgica induzida pelos antigénios presentes na
saliva da pulga Ctenocephalides felis. A condição é
classificada como hipersensibilidade de tipo 1 e de tipo 4,
embora as reacções de hipersensibilidade não tenham
ainda sido completamente definidas nos gatos (1). A
alergia à pulga pode ocorrer em gatos de qualquer idade,
sexo ou raça (2,3) e as lesões cutâneas resultantes são
variáveis. Está associada a prurido moderado a severo.
O diagnóstico é feito por associação dos sinais clínicos,
pela presença quer de pulgas, como de fezes de pulga
no corpo do gato (embora estas sejam por vezes difíceis
de encontrar, uma vez que o prurido induz excessiva
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 5
COMO ABORDAR...
Figura 3. Alopecia nas regiões lombares e sagradas de um
gato com dermatite alérgica à picada da pulga.
Figura 4. Eritema, descamação e crostas num gato com prurido
intenso devido a alergia alimentar (o gato foi tosquiado antes
da fotografia).
lambedura), e pelo desaparecimento de sintomas
quando o controlo das pulgas é conseguido. A
resposta à corticoterapia é favorável (Figura 3).
Alguns exemplos:
Proteínas
•borrego
•veado
•porco
Alergia alimentar
A alergia alimentar é causada por uma reacção
imunológica a determinadas proteínas presentes no
alimento. Os principais tipos de reacções de hipersensibilidade envolvidos são os do tipo 1, tipo 3 e tipo 4.
É a segunda alergia mais comum em gatos e pode
ocorrer em animais de qualquer idade ou sexo, embora
os gatos Siamês e Burmês exibam uma certa predisposição (4). O principal sinal clínico é um prurido
ligeiro a severo e, em determinados casos, podem
surgir reacções dermatológicas e gastroenterológicas
(diarreia e vómito). Pode apresentar-se como qualquer
uma das formas agrupadas sob a designação de
complexo do granuloma eosinofílico, como prurido
na face, cabeça e pescoço, alopecia simétrica autoinduzida, ou dermatite miliar (Figura 4). As lesões
aparecem como resultado da fricção de coçar e, ao
contrário dos cães, as infecções por bactérias e leveduras
são raras. Estima-se que 20 a 30% das alergias alimentares estão associadas à atopia e à alergia à picada da
pulga. A resposta ao tratamento com corticóides é
variável (5).
O diagnóstico é confirmado através de testes alérgicos
alimentares, que consistem na eliminação de todos os
alimentos e suplementos conhecidos que o animal
tenha consumido ao longo da vida e na prescrição de
uma dieta de eliminação (caseira ou comercial) que
deve ser cumprida de modo rigoroso durante um
mínimo de 8 semanas e, por vezes, até às 10 semanas.
A dieta deve consistir de 2 ingredientes (uma fonte
proteica e uma fonte de carbohidratos) aos quais o
paciente nunca tenha sido exposto.
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Carbohidratos
•batata doce
•batata
•tapioca
Uma opção diagnóstica é uma dieta comercial com
proteína hidrolisada, caso uma dieta de preparação
caseira não seja possível. Apesar das dietas comerciais
com proteína hidrolisada não serem a ferramenta
diagnóstica de primeira escolha, por não permitirem a
detecção de reacções adversas aos aditivos alimentares,
são sempre uma excelente opção para o tratamento (6)
(Nota do editor: na realidade, as reacções adversas ao
alimento, são uma ocorrência extremamente rara). Se
o prurido se resolveu no final da dieta de eliminação,
deve ser realizada uma dieta de provocação até o
alergénio responsável ser identificado. Os testes
alérgicos intra-dérmicos e in vitro não têm valor
diagnóstico para as alergias alimentares. As evidências
histológicas podem apontar para uma reacção de
hipersensibilidade mas não confirma as reacções
adversas ao alimento. O padrão observado é uma
dermatite perivascular superficial ou profunda com
predominância de mastócitos e eosinófilos (7). Nalguns
casos, tem sido observada uma foliculite mural (8).
Atopia felina
A atopia felina é uma condição hereditária que é
caracterizada pela predisposição para as reacções de
hipersensibilidade seguidas da exposição aos alergénios
ambientais (9). Os alergénios que afectam os gatos
O PRURIDO NO GATO
Figura 5. Gato atópico com prurido intenso na cabeça e no
pescoço que causou lesões ulcerativas.
Figura 6. Alopecia bilateral severa num gato com alopecia
psicogénica.
com maior frequência são os ácaros do pó, particularmente o Dermatophagoides farinae (10) e, numa menor
extensão, o pólen, as escamas cutâneas e o bolor. Os
mecanismos imunológicos envolvidos na patogénese
da atopia felina são as células de Langerhans, os
eosinófilos, os mastócitos, os linfócitos T CD4+ e vários
tipos de anticorpos de imunoglobulina (Ig) E (11). A
afecção pode ocorrer em gatos com idades compreendidas entre os 6 meses e os 3 anos, e o principal sinal
é o prurido moderado a severo (Figura 5). Pode causar
quaisquer uma das reacções descritas acima, bem
como, edema dos lábios e do mento. Os sinais não
dermatológicos como rinite, tosse e dispneia (asma)
podem igualmente ser observados nalguns pacientes.
tratamento com corticóides, o próximo passo é o
controlo dos diferentes factores de predisposição
às reacções de hipersensibilidade (contaminantes
(bactérias), ecto e endoparasitas).
Os testes alérgicos de diagnóstico não apresentam
utilidade em gatos, e os testes intra-dérmicos são
difíceis de interpretar devido à natureza da pele do
gato e aos fracos resultados positivos observados. Os
testes serológicos não foram aprofundados em gatos e
os seus resultados não se correlacionam com os dos
testes intra-dérmicos. Contudo, a eficácia da terapêutica de hiposensibilização, embora baixa, é similar
quando baseada em testes intra-dérmicos e in vitro.
Os níveis de IgE específica não variam entre gatos
saudáveis e gatos atópicos (12). A atopia é essencialmente diagnosticada com base nas evidências clínicas
(anamnese, sinais, resposta aos corticosteróides). Uma
vez que a atopia felina coexiste frequentemente com
outras alergias, é necessário excluir todas as alergias
antes de estabelecer um diagnóstico definitivo.
Procedimento a adoptar quando um gato apresenta
prurido e uma forma de complexo do granuloma
eosinofílico
Se a placa eosinofílica é confirmada por sinais
histológicos e as lesões cutâneas respondem bem ao
Se a causa subjacente é a dermatite alérgica à picada da
pulga, as lesões serão eliminadas por completo se
for implementado com sucesso um programa de
controlo de pulgas (que trate o paciente, o ambiente e
qualquer outro animal que viva no mesmo ambiente).
Caso os sintomas regressem, é necessário realizar o
diagnóstico de alergia alimentar para confirmar ou
excluir a hipersensibilidade alimentar.
Do mesmo modo, é necessário realizar uma dieta de
eliminação durante 8 a 10 semanas, após as quais
existem 3 cenários possíveis:
• Desaparecimento do prurido e das lesões, confirmando que o gato apresenta uma alergia alimentar. Neste
caso, deve ser prescrita uma dieta de provocação.
O que envolve a reintrodução gradual de alimentos e
suplementos alimentares que faziam parte da dieta
normal do gato. A reintrodução de um novo alimento
ou suplemento é feita isoladamente a cada 2 semanas
até ser identificado o alergénio responsável (regresso
de prurido) e eliminado da dieta do gato.
• Melhoria parcial do prurido e das lesões, indicando
que o gato é alérgico a algo de outra origem que não a
alimentar (por exemplo, atopia felina).
• Nenhuma melhoria clínica, indicando que o gato ou
apresenta outro tipo de alergia (atopia felina) ou possui
um complexo do granuloma eosinofílico idiopático.
2. Alopecia simétrica bilateral
Os gatos com alopecia simétrica apresentam perda de
pêlo em ambos os flancos. De um modo geral, não
existem causas subjacentes para estas lesões e o
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 7
COMO ABORDAR...
Figura 7. Pápulas crostosas na cabeça e na orelha de um
gato com sarna notoédrica.
Figura 8. Alopecia, eritema e descamação no pescoço de um
gato com demodecose.
principal sinal é o prurido. O diagnóstico diferencial,
neste caso, deve incluir alopecia psicogénica (Figura 6),
neurodermatite e alopecia simétrica felina (idiopática).
Sarna notoédrica
Procedimento a adoptar quando um gato apresenta
prurido e alopecia simétrica
Uma vez excluída a presença de pulgas e revistos os
hábitos sanitários e alimentares, deve ser instituído o
mesmo procedimento como o descrito acima para o
complexo do granuloma eosinofílico para descartar a
dermatite por alergia à picada da pulga, alergia alimentar
ou atopia. Este procedimento é necessário porque a
alopecia simétrica tende a ser causada por reacções de
hipersensibilidade. O diagnóstico de alopecia psicogénica
ou neurodermatite pode ser confirmado com base na
história e na resposta ao tratamento (o prurido persiste
apesar do tratamento com corticóides).
A sarna notoédrica é uma doença contagiosa que
causa prurido intenso. É causada pelo ácaro Notoedres
cati, que afecta maioritariamente gatos. A lesão
primária consiste numa pápula crostosa na cabeça
e no pescoço (Figura 7), mas as lesões podem
dispersar-se para zonas mais distantes do corpo, tais
como os dígitos anteriores e posteriores devido ao
contacto através do acto de coçar. As lesões podem
também surgir no períneo, isto porque os gatos têm a
tendência para dormir enrolados. As manifestações
secundárias incluem alopecia, crostas e escoriações,
variando de níveis de severidade. É relevante obter
informação acerca dos hábitos do animal e possível
contacto com outros gatos. Quando ácaros e/ou ovos
são observados em esfregaços cutâneos pode ser feito
um diagnóstico definitivo.
3. Prurido na cabeça e no pescoço
Sarna otodécica
O prurido na cabeça e no pescoço pode estar presente
com diversos graus de severidade, variando desde
alopecia ligeira e eritema até lesões erosivas, ulceradas
ou crostosas na fronte, zonas pré-auriculares, orelhas,
cabeça e pescoço. Dependendo da causa, pode tratar-se
duma lesão primária.
A sarna otodécica é uma condição contagiosa e
prurítica causada pelo Otodectes cynotis. Não é
específica dos gatos. Afecta frequentemente animais
provenientes de criadores ou de vida em comunidade.
Manifesta-se como uma otite externa e produz uma
secreção ceruminosa escura, cuja cor pode variar de
ambar a preto. A lesão primária é uma pápula crostosa,
mas devido à sua localização (dentro do canal do
ouvido externo) e ao coçar pelo gato, existe frequentemente perda de pêlo na orelha, pescoço e cabeça.
Podem igualmente estar presentes lesões noutras
partes do corpo para onde os ácaros tenham migrado.
O diagnóstico é confirmado quando é observado um
ácaro (a olho nú, através de lupa ou microscópio óptico)
nos exsudados ou raspagens de pele (caso o gato
tenha desenvolvido lesões).
As possíveis causas incluem:
- Parasitas: sarna notoédrica, sarna otodécica,
demodecose;
- Alergias: dermatite alérgica à picada da pulga,
alergia alimentar, atopia, hipersensibilidade à picada
de mosquito;
- Infecções: dermatofitose;
- Afecções auto-imunes: pênfigus foliáceo;
- Distúrbios psicogénicos.
8 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
O PRURIDO NO GATO
clínicas são variáveis e pleomórficas (14) e, embora
pouco comum, o prurido pode existir. As lesões podem
ser localizadas ou difusas e podem caracterizar-se por
vários níveis de alopecia, eritema e descamação. Em
gatos, a doença afecta normalmente a face, a cabeça, o
pescoço e os membros, apesar do tronco poder estar
igualmente envolvido, com alopecia simétrica ou uma
erupção de pequenas pápulas crostosas (dermatite
miliar) (Figura 9). Um diagnóstico definitivo pode ser
feito quando se obtém o resultado positivo de uma
cultura fúngica ou quando as lesões recuperam após
terapêutica específica. O exame histológico da pele
utilizando colorações especiais (ácido-Schiff periódico
(PAS), prata metenamina de Gomori) é, por vezes,
necessário para observar os esporos de dermatófitos.
Figura 9. Eritema, crostas e descamação num gatinho com
dermatofitose.
Demodecose felina
A demodecose felina pode ser causada pelo Demodex
cati ou Demodex gatoi. O Demodex cati, vive nas
estruturas pilosebáceas e causa lesões cutâneas
localizadas que podem afectar a face (áreas préauriculares, áreas perioculares e mento) e o pescoço.
As lesões podem, no entanto, ser também generalizadas e envolver o tronco e os membros, para além da
cabeça e do pescoço (Figura 8). A forma generalizada
da doença tende a estar associada a doença sistémica
grave. As lesões incluem alopecia, eritema, descamação
e crostas. A intensidade do prurido é variável. As
manifestações clínicas causadas pelo Demodex gatoi,
um ácaro de cauda curta que vive à superfície da pele,
são semelhantes às observadas na sarna notoédrica ou
nas afecções de hipersensibilidade com prurido severo e
com lesões secundárias (alopecia, crostas, descamação).
As áreas mais frequentemente afectadas são a cabeça,
o pescoço e os cotovelos. A alopecia simétrica pode
também ser observada em determinados casos. Esta
condição é contagiosa. A observação de ácaros em
esfregaços de pele confirma a demodecose devido quer
a Demodex cati ou Demodex gatoi.
Procedimento a adoptar quando um gato apresenta
prurido e um padrão lesional que afecta a cabeça e o
pescoço
Tendo em conta as possíveis causas de dermatofitose e
depois de obtida uma anamnese rigorosa focando nos
sinais clínicos, nos factores ambientais, nos hábitos
alimentares, etc., é essencial investigar a presença de
ácaros em raspagens cutâneas superficiais e profundas,
de pulgas e fezes de pulgas no corpo do gato. Quando se
suspeita de dermatofitose, devem obter-se amostras de
pêlos e escamas de pele para exame directo e cultura
fúngica. Se os resultados forem positivos, o animal
afectado, o seu ambiente e quaisquer outros animais que
vivam nesse ambiente devem ser tratados com agentes
anti-fúngicos específicos. Se os resultados forem
negativos, deve ser implementado um programa de
controlo e de prevenção de pulgas e devem ser tratados os
sintomas. Caso existam, as infecções secundárias devem
também ser tratadas e administrados medicamentos
antipruríticos (corticóides e anti-histamínicos) até
desaparecimento dos sintomas. Caso haja remisssão
das lesões, mas recidiva da condição, está indicado o
Dermatofitose
A causa mais comum de dermatofitose em gatos é o
Mycrosporum canis (13). A infecção ocorre como
resultado do contacto directo com um animal afectado
ou com o seu ambiente (cama, jaula, escova, etc.).
Os esporos de dermatófitos conseguem sobreviver no
ambiente durante muitos meses. A condição é altamente
contagiosa e pode afectar humanos. As manifestações
Figura 10. Pápulas crostosas num gato com dermatite miliar.
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 9
COMO ABORDAR...
Anamnese
Exame físico
CGE
ASB
Confirmar com sinais
histológicos
Tricograma
Controlar factores de
predisposição (bactérias,
pulgas, endoparasitas)
DMF
PCP
Raspagens cutâneas
(Notoedres, Otodectes,
Cheyletiella, Demodex)
Pêlos partidos
Citologia (bactérias)
Controlar factores de
predisposição (bactérias,
pulgas, endoparasitas)
Controlo de pulgas
Persistência de prurido
Tratar os sintomas
pruríticos
Persistência de prurido
Persistência de prurido
Tratar os sintomas
de prurido
Suprimir os sintomas de
prurido*
Se recidivar
Se recidivar
Persistência de prurido
Dieta de exclusão
Dieta de exclusão
Alopecia psicogénica
(+)
(-)
(+)
Atopia
Alergia
alimentar - Teste CGE idiopático
intradérmico
Teste serológico
Alergia
alimentar
(-)
Atopia
*ex: com 5-10mg prednisolona em dias alternados durante 7 a 10 dias. Se o prurido é transitório este tratamento é curativo.
Se, como a tabela sugere, o prurido recidiva, despistar alergia alimentar, etc., e se a resposta falhar considerar doença psicogénica.
Figura 11. Abordagem diagnóstica para um gato com prurido. Abreviaturas: CGE, complexo do granuloma eosinofílico; ASB,
alopecia simétrica bilateral; PCP, prurido na cabeça e no pescoço; DMF, dermatite miliar felina.
procedimento diagnóstico de identificação de alergias
(ver a secção: “Procedimento a adoptar quando um
gato apresenta prurido e um complexo de granuloma
eosinofílico’’ na página 7 deste artigo).
4. Dermatite miliar felina
A dermatite miliar felina (Figura 10) consiste num
padrão de reacção cutânea que apresenta uma grande
variedade de diferentes causas (Figura 11). Apresentase como uma erupção de lesões pápulo-crostosas no
dorso do animal, na área lombar, na região caudal
dos membros posteriores e no pescoço. As afecções
secundárias incluem alopecia, escoriações e crostas
cuja severidade varia com a intensidade do prurido
(o qual depende da causa subjacente).
10 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Causas de dermatite miliar felina:
- Alergias: dermatites por alergia à picada da pulga,
alergia alimentar, atopia
- Parasitas: sarna notoédrica, sarna otodécica, queiletiose
- Infecções: dermatofitoses, pioderma
- Distúrbios nutricionais: deficiência em ácidos gordos
essenciais
- Desordens idiopáticas
Queiletiose
O ácaro mais frequentemente responsável por queiletiose
é o ácaro Cheyletiella blakei. Vive na camada de queratina
da epiderme e não penetra no folículos pilosos. O curso da
doença é geralmente mais lento em gatos do que em cães,
uma vez que uma grande quantidade de escamas
O PRURIDO NO GATO
infectadas são eliminadas pela higiene realizada pelos
gatos. Uma vez contraída, a doença parece ser altamente
prurítica, causando alopecia e descamação severas.
Alguns gatos desenvolvem pápulas crostosas difusas no
dorso (dermatite miliar). O diagnóstico baseia-se na
identificação de ácaros em esfregaços cutâneos
superficiais ou exame microscópico de pêlos e escamas
obtidos utilizando um pente para pulgas. Podem ser
igualmente utilizadas impressões por fita adesiva
transparente para detectar ácaros adultos ou ovos. O
método de identificação mais fiável parece ser o pente
para pulgas, embora possa falhar em 58% dos gatos (15).
Pioderma superficial felino
O pioderma superficial é raro em gatos. É geralmente
secundário a distúrbios pruríticos (dermatite por alergia
à picada da pulga, alergia alimentar, atopia felina,
sarna notoédrica), doenças sistémicas (vírus da
imunodeficiência felina), ou terapia imunossupressora
(tratamento oncológico, corticóides, etc.) (16).
As bactérias mais frequentemente isoladas são o
Staphylococcus intermedius, S. stimulans e S.aureus. As
lesões características variam desde alopecia localizada
(com ou sem eritema) a pápulas, pústulas, erosões,
úlceras e crostas. O diagnóstico é baseado no exame
citológico de lesões bacterianas. As amostras devem
ser obtidas por esfregaços de aposição no caso de
lesões erosivas e fita adesiva transparente no caso de
pápulas crostosas.
Procedimento a adoptar quando um gato apresenta
prurido e o padrão lesional é consistente com dermatite
miliar felina
Como referido anteriormente, a dermatite miliar felina é
multifactorial. Deste modo, é necessário obter uma
anamnese rigorosa que inclua informação dos sinais
clínicos e sistémicos, do ambiente do animal, do
contacto com outros animais, da dieta (qualidade),
dos tratamentos prévios e respectivas respostas, da
condição geral de saúde e do controlo de endoparasitas e
de ectoparasitas. Como a principal causa de dermatite
miliar felina é a dermatite por alergia à picada da
pulga, as primeiras etapas do diagnóstico devem incluir a
verificação da presença de pulgas e a observação da
resposta às medidas de controlo das pulgas. Os esfregaços
cutâneos devem também ser realizados nas primeiras
consultas para despistar a presença de ácaros. Se
necessário, a dieta do animal deve ser corrigida. Com
a existência de determinadas lesões, devem ser
realizados exames citológicos para determinar se
existe um pioderma superficial, uma vez que requere
terapêutica antibiótica específica (tal como mencionado
anteriormente, o pioderma é raro nos gatos). Caso se
suspeite de dermatofitose, devem ser realizados uma
série de testes diagnósticos (observação directa de
pêlos e escamas, exame com lâmpada de Wood, cultura
fúngica). Isto é importante mesmo se o prurido não
pareça ser particularmente problemático. É igualmente
essencial ter em conta que a dermatofitose é uma
condição altamente contagiosa e que pode afectar
humanos. Se a condição recidivar, se o prurido persistir e
se todas as condições anteriores foram excluídas, é
indicado o procedimento para identificação de alergias
(ver a secção: “Procedimento a adoptar quando um gato
apresenta prurido e uma forma de complexo granuloma
eosinofílico’’ na página 7 deste artigo).
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Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 11
COMO TRATAR...
Adenite sebácea
em cães
Monika Linek, DVM, Dipl. ECVD
Tierarztliche Spezialisten, Hamburgo, Alemanha
A Drª Linek licenciou-se em 1983 na Unversidade de
Medicina Veterinária de Hanover, Alemanha. Dirigiu,
juntamente com o seu esposo, uma pequena clínica de
pequenos animais durante 14 anos. Desde 1996 o seu
principal interesse tem sido a dermatologia veterinária e
desde 2001 exerceu numa clínica privada de referência
dermatológica em Hamburgo. Estudou para o seu
Diploma em Dermatologia Veterinária e depois da sua
residência em Zurique obteve o Diploma em 2005.
A Drª Linek publicou diversos artigos e é uma oradora
de renome nacional.
A
adenite sebácea é uma doença cutânea
pouco comum que tem sido descrita mais
frequentemente nos cães, embora tenha sido
relatada a sua ocorrência noutros animais, tais como
gatos e coelhos (1,2,3). As descrições de uma doença
similar em humanos são escassas. A característica
principal da doença é uma infiltração inflamatória
associada a uma destruição das glândulas sebáceas.
As glândulas sebáceas são glândulas holócrinas
alveolares (Figura 1), que estão ligadas a cada
folículo piloso e presentes nos mamíferos em toda a
pele coberta por pêlos. As glândulas abrem através de
um ducto no infundíbulo do canal folicular (unidade
pilosebácea). A secreção oleosa (sebo) forma uma
emulsão de superfície juntamente com a secreção
sudorípara e os lípidos epidérmicos e difunde-se por
toda a superfície do estrato córneo. As principais
funções desta emulsão são a manutenção da suavidade
12 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
e flexibilidade da pele, retenção da humidade e
manutenção de uma hidratação adequada. Actua,
igualmente, como barreira física e química contra
potenciais patogénios. O conteúdo difere entre os
mamíferos. Nos cães e nos gatos os lípidos epidérmicos são predominantemente colesterol livre,
ésteres esteróis e diésteres de cera, e contêm menos
triglicéridos e esqualeno do que nos humanos (4).
Etiologia
A adenite sebácea, in senso stricto, é uma doença
cutânea idiopática rara. É mais frequentemente
observada em Caniches e Akitas, para os quais foi
proposta uma hereditariedade de tipo autossómico
recessivo (3,5). É também encontrado em Vizslas,
Pastores Alemães e Hovawarts e tem sido diagnosticada em várias outras raças, bem como em cães de
raça indeterminada (6,7). A patogénese exacta é
ainda desconhecida. As explicações recentes incluem:
• um defeito estrutural primário nas glândulas
sebáceas (e no seu ducto) responsável por derrame
e, consequentemente, reacção do tipo corpo estranho.
• uma anomalia no metabolismo lipídico que afecta
igualmente a produção de sebo.
• um defeito primário de cornificação conduzindo a
inflamação e atrofia da glândula sebácea e do ducto
(4).
Figura 1. Glândula sebácea, histopatologia com coloração HE.
(Ampliação de 400x)
Figura 2. Hiperqueratose epidérmica e infundibular severas.
(Ampliação de 400x)
Figura 3. Cilindros foliculares: queratina aderente às hastes
dos pêlos.
Estudos imunohistoquímicos demonstraram que a
maioria da população celular envolvida na adenite
sebácea (AC) são células dendríticas MHC-Classe II
positiva e Células T CD4+CD8+, que são conhecidas
por serem células efectoras nas doenças auto-imunes
de mediação celular (7,8). Não foram detectadas
células B nem autoanticorpos contra as glândulas
sebáceas. A hipótese de que a AS é uma doença autoimune de mediação celular é ainda mais confirmada
pela diminuição de células T e macrófagos durante o
tratamento imunomodelador com ciclosporina (8).
branca prateada e as escamas que aderem às hastes
dos pêlos, formando os designados cilindros foliculares
(Figura 3). Os cilindros foliculares são, muito
provavelmente, o resultado da escassez de sebo na
zona infundibular do folículo piloso onde ocorre a
queratinização epitelial da baínha externa da raiz.
A destruição secundária da glândula sebácea com
hiperqueratose clínica semelhante (Figura 2) pode
ocorrer na demodecose generalizada, leishmaniose,
granulomatose severa, foliculite histiocítica e outras
condições (9).
Sinais clínicos
São mais afectados os cães jovens adultos de meia-idade
e não foi ainda relatada qualquer predisposição
sexual (2,5). As características clínicas, distribuição e
severidade da AS variam entre as diferentes raças de
cães. Contudo, são característica constante a caspa
Nos cães de pêlo longo, sendo os exemplos mais
extensivamente estudados o Caniche, o Akita e o
Samoyedo, o primeiro sinal de doença é a projecção
de um cilindro queratinoso de tipo ramificado a partir
do folículo piloso, cobrindo a haste do pêlo com
detritos queratinosos aderentes (3,5).
Nos Caniches, a doença começa, mais frequentemente, na zona dorsal do focinho e na região temporal,
disseminando para a zona dorsal do pescoço e tórax.
Nos Akitas e nos Hovawarts surge uma alopecia
multifocal simétrica e mais extensa (Figura 4) (3,8).
Caracteriza-se pela quebra das hastes dos pêlos e está
associada a um aspecto generalizado de pelagem
baça e quebradiça. As lesões começam na cabeça,
pavilhão auricular, zona dorsal do pescoço e cauda
(Figura 5) estendendo-se até à linha média dorsal.
a
Figura 4a e 4b. Cão de raça Hovawart com adenite sebácea.
a. antes do tratamento com ciclosporina.
b. após o tratamento com ciclosporina.
b
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 13
COMO TRATAR...
matosa em redor das glândulas sebáceas. Os sebócitos
são destruídos e podem já não ser detectados nas
secções histológicas. Contudo, tanto os folículos pilosos
como as glândulas sudoríparas apócrinas não são
afectados pela inflamação. O infiltrado inflamatório
consiste de histiócitos, linfócitos e neutrófilos (7,8).
Figura 5. A designada «cauda vermelha» com placas aderentes
e alopecia no Hovawart da Figura 4.
Nesta fase existe pouco prurido. À medida que a
doença progride, pode generalizar-se sendo frequente
nesta fase a foliculite bacteriana secundária com
prurido e mau odor. Os Pastores Belgas e os Hovawarts
(observações do autor) têm frequentemente otite
externa (Figura 6) com descamação seca e aderente
no canal auricular. O curso clínico pode piorar e
melhorar sem sazonalidade aparente.
Os cães de pêlo curto, como os Vizslas, têm uma
apresentação clínica notavelmente diferente. As
lesões tendem a ser nodulares com áreas arciformes e
coalescentes de alopecia conferindo à pelagem uma
aparência de ‘comido de traça’ e descamação fina e
não aderente predominantemente no tronco (2,6).
Ocorre, igualmente, edema facial cíclico, sendo que
alguns autores sugerem que esta forma de AS
constitui uma doença independente (2).
A adenite sebácea felina apresenta-se como alopecia
anular multifocal e escamas aderentes. Um estudo
descreveu a condição em coelhos domésticos (2).
Diagnóstico
Nas raças de pêlo curto as alterações histiocíticas são
menos descritas (9). Em fases avançadas da doença, as
glândulas sebáceas são completamente destruídas e a
reacção inflamatória torna-se dispersa. Pode ocorrer
telogenização dos folículos pilosos ou atrofia folicular. Se
estiver presente uma infecção estafilocócica secundária
pode observar-se foliculite supurativa ou furunculose.
Tratamento
Considerando que a AS é uma doença cutânea que
não tem impacto na condição geral, caso o pioderma
secundário seja evitado, o tratamento deve ter em
conta os aspectos individuais da facilidade, segurança,
necessidades de monitorização e custos.
O objectivo do tratamento é a restituição da funcionalidade da barreira cutânea. O que inclui a remoção do
excesso de escamas, evitar infecções secundárias,
melhorar a qualidade da pelagem e promover o
crescimento do pêlo. Actualmente, a AS não pode ser
curada sendo necessário tratamento a longo prazo.
Têm sido publicados uma variedade de protocolos de
tratamento (6,8,10-13).
Na opinião do autor, consegue-se um tratamento bem
sucedido com o uso regular de champôs anti-seborreicos
seguidos de banhos de óleo tópicos alternando com
sprays umectantes.
O diagnóstico de AS pode ser suspeitado com base nos
sinais, na história e no exame físico. Os diagnósticos
diferenciais incluem seborreia primária e dermatite
seborreica, dermatite responsiva à vitamina A e
ictiose, mas também demodecose e dermatofitose
generalizada. Nas formas mais nodulares deve ser
considerada a foliculite bacteriana e a furunculose.
Para o diagnóstico é necessária uma biopsia cutânea.
As anomalias histopatológicas nos cães com AS são
variáveis, e o seu carácter difere de acordo com a
cronicidade da doença. Na fase inicial, existem células
inflamatórias perifoliculares discretas ao nível do
istmo dos folículos pilosos (2,9) (Figura 7). Numa
fase posterior, encontra-se mais frequentemente uma
reacção inflamatória ganulomatosa a piogranulo-
14 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Figura 6. Escamas secas na zona côncava da orelha e do canal
auricular externo.
ADENITE SEBÁCEA EM CÃES
• A administração de corticóides em dosagens antiinflamatórias ou imunossupressivas tem sido descrita
como eficaz nalguns cães de pêlo curto, apesar de
não demonstrar efeito nos outros (2,11).
• Os retinóides sintéticos têm sido utilizados pelas
suas propriedades anti-inflamatórias, pelos seus
efeitos de diferenciação nos queratinócitos e inibitório
nas glândulas sebáceas (6,10). Foram também
apontados como eficazes nos Vizslas, mas menos
noutras raças. A dose recomendada é de 1mg/kg
administrada por via oral uma ou duas vezes por
dia, com melhoria constatada ao fim de cerca de 6
semanas. A partir deste momento a frequência de
administração pode ser reduzida.
Figura 7. Infiltrado inflamatório perifolicular que obstrui a
glândula sebácea. (Ampliação de 400x)
O protocolo típico de tratamento seria o seguinte:
Etapa 1:- Banho aplicando um produto combinado de
enxofre e ácido salicílico;
- Deixar o champô actuar durante um mínimo
de 10 minutos;
- Durante este tempo, realizar uma ligeira
massagem para ajudar a remover uma parte
significativa das escamas;
- Enxaguar abundantemente e secar bem por
contacto com uma toalha.
Etapa 2: - Banho com qualquer óleo de banho suave
contendo óleo mineral (genericamente óleo
para bébé). Este é friccionado na pelagem e
deixado a actuar durante 2 horas (os cães
podem usar uma t-shirt durante este tempo
para evitar a conspurcação do ambiente).
Etapa 3: - Remover o óleo com um banho final de um
champô de limpeza e antimicrobiano, ex.
Sebomild® (Virbac).
Etapa 4: - Aplicação final de amaciador ou de uma
mistura de propilenoglicol e água (concentração final de 50-70% de propilenoglicol), que
actua como umectante. Esta mistura pode ser
adicionalmente aplicada no tempo entre os
banhos de óleo mais intensos. Os intervalos
de tratamento no início são de uma a duas
vezes por semana, mas podem ser alargados
para uma vez a cada 2 semanas após a
recuperação clínica.
Os tratamentos sistémicos foram seleccionados para
travar o processo inflamatório ou para melhorar o
processo de diferenciação.
• A vitamina A foi experimentada num estudo,
administrada por via oral numa dose de 10,000 até
30,000UI resultando em melhorias clínicas visíveis
ao fim de 3 meses (12).
Os clínicos devem ter em conta que tanto os corticóides,
como os retinóides estão associados a efeitos adversos
quando administrados a longo prazo e, por isso, não
devem constituir o tratamento de escolha, particularmente se forem apenas parcialmente eficazes.
• A administração de óleo de peixe em doses elevadas
parece melhorar os sinais clínicos (13).
• O tratamento da AS com ciclosporina, na dose de
5mg/kg uma vez por dia, foi descrito como um
tratamento eficiente, bem tolerado e seguro (8).
A ciclosporina reduz com sucesso o infiltrado
inflamatório perifolicular, que destrói as glândulas
sebáceas e aumenta a percentagem de folículos
pilosos com glândulas sebáceas. O tratamento parece
ser mais eficaz na fase inicial, enquanto ainda existe
inflamação (Figura 8), do que nos casos crónicos em
que todas as glândulas sebáceas já desapareceram
e já não persiste inflamação. O que sugere que as
glândulas sebáceas só podem ser regeneradas quando
ainda não sofreram destruição completa.
O quadro clínico, a descamação, a alopecia e a
qualidade da pelagem melhoram ao fim de 4 meses
sem qualquer tratamento tópico adicional. Após este
período a frequência de administração pode ser
reduzida. A ciclosporina pode também ser adjuvante
na melhoria clínica através da indução da anagénese,
ou crescimento piloso (8).
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 15
ADENITE SEBÁCEA EM CÃES
Os resultados preliminares de um estudo ainda não
publicado demonstram que a recuperação clínica é
acelerada por determinado tratamento tópico.
Curiosamente, o tratamento tópico intenso (como o
descrito anteriormente) parece ser capaz de induzir
resultados clínicos similares ao tratamento sistémico
com ciclosporina.
Uma vez que é necessário o tratamento a longo termo,
é importante garantir que o protocolo terapêutico não
seja demasiado exigente, ao ponto de haver escasso
cumprimento (como pode ser o caso dos donos
defrontados com o protocolo de tratamento tópico
descrito) e garantir que não provoque efeitos
secundários graves, como no caso de tratamentos por
longos períodos de tempo com doses altas de glucocorticóides.
Figura 8. Microfotografia ilustrando um infiltrado inflamatório
denso na glândula sebácea (linfócitos, macrófagos, neutrófilos).
(Ampliação de 400x)
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Mark Bohling, DVM, PhD, Dipl. ACVS
Centro de Investigação de Scott-Ritchey e
Departamento de Ciências Clínicas, Colégio de
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Alabama, EUA
Colégio de Medicina Veterinária, Universidade de
Tennessee, Knoxville, Tennessee, EUA
O Dr. Swaim licenciou-se na Universidade Estatal do
Kansas. Exerceu clínica privada de pequenos animais em
Wichita, Kansas, antes de ingressar o Corpo Veterinário do
Exército dos Estados Unidos num serviço de investigação
médica. Após 2 anos no Exército, ingressou numa clínica
privada de pequenos animais em Denver, Colorado. Desde
1969 até à data presente, o Dr. Swaim progrediu de
Investigador Associado para Professor Jubilado do Colégio
de Medicina Veterinária de Auburn. Obteve nomeação
conjunta com o Departamento de Ciências Clínicas e o
Centro de Investigação Scott-Ritchey. O seu trabalho
recente incidiu em neurologia e neurocirurgia. Desde 1975
até à data actual, o trabalho de investigação do Dr. Swaim
tem sido dedicado à abordagem de feridas em pequenos
animais.
Introdução
À semelhança de todas as áreas da medicina e da
cirurgia, a abordagem das feridas tem assistido nos
últimos anos, a avanços quer na ciência, como na arte
dos cuidados de feridas. Estes avanços passam pelas
terapêuticas, materiais e métodos que são utilizados
no tratamento e na reconstrução de tecidos lesados.
Quando considerada do ponto de vista da medicina
comparativa, alguns dos avanços aplicam-se à
abordagem de feridas tanto nos animais como nos
humanos. Não será possível abranger todos os
avanços no maneio de feridas; assim, o presente
artigo apresenta alguns dos mais significativos
aspectos nesta área.
O Dr. Bohling licenciou-se na Universidade da Califórnia,
Davis e trabalhou em prática alimentar animal (vacas e aves)
até 1992, quando começou a exercer clínica privada de
pequenos animais. Realizou um internato em medicina e
cirurgia de pequenos animais em 1999. Em 2001, o
Dr. Mark Bohling iniciou a sua residência em cirurgia
de pequenos animais na Universidade de Auburn, onde
se tornou estagiário do Dr. Swaim. Desde 2005 está na
faculdade da Universidade do Tennessee na secção
de cirurgia de pequenos animais. Os interesses clínicos e
de investigação do Dr. Bohling são a cirurgia reconstrutiva
e o tratamento de feridas, particularmente na espécie felina.
Terapêuticas
Ao longo do tempo, tem havido o instinto de colocar
substâncias em feridas com o objectivo de melhorar a
sua cicatrização. Recentemente, tem-se assistido ao
reaparecimento da utilização e da compreensão dos
mecanismos de acção de alguns antigos substitutos de
tópicos vulnerários, sendo estes a aplicação de açúcar e
de mel nas feridas (1). Têm sido desenvolvidas outras
terapêuticas para aumentar o processo de cicatrização
em animais e pessoas. Estes incluem um composto de
tripeptídeo de cobre; acemanano, um derivado do
açúcar manose; um polissacarídeo D-glucose; produtos
derivados de plaquetas e quitosano, uma substância
derivada do exosqueleto de crustáceos (1) (Tabela 1).
Açúcar e mel
O açúcar tem uma grande osmolalidade e afecta a
cicatrização ao reduzir o edema, atrair os macrófagos,
acelerar a formação da crosta necrótica, fornecer energia
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 17
às células e promover o tecido de granulação saudável.
O mel tem acção semelhante no tratamento de feridas,
com actividade antimicrobiana proveniente do peróxido
de hidrogénio. As propriedades hidrofílicas destes 2
compostos justificam a monitorização reservada dos
níveis de hidratação, electrólitos e de proteína quando
utilizados em feridas de grandes dimensões (1).
Complexo de tripeptídeo de cobre
Um complexo de tripeptídeo de cobre parece estimular
a neurovascularização, epitelização, deposição de
colagénio e contracção de feridas. Investigações de tipo
caso-controlo demonstraram o aumento da cicatrização
de feridas abertas em cães e feridas isquémicas abertas
em ratos (1,2).
Acemanano
Um derivado do açúcar manose, o acemanano, parece
actuar como factor de crescimento na estimulação dos
Tabela 1.
Selecção de estimulantes de cicatrização de feridas (1)
Ingrediente
Açúcar
Nome da marca
Acção
Osmolalidade, redução
do edema, atracção de
macrófagos, crosta
necrótica, energia
celular, promoção do
tecido de granulação
Redução de edema,
atracção de macrófagos,
crosta necrótica, energia
celular, promoção do
tecido de granulação
Mel
Complexo
tripeptídeo de
cobre
Iamin
Neovascularização,
epitelização, deposição
de colagénio, contracção
Acemanano
CarraVet,
Carrasorb
Estimulação de
macrófagos, proliferação
de fibroblastos,
Neovascularização,
epitelização, deposição
de colagénio
MaltodextrinaPolissacarídeo
D-glucose
Intracell
Atracção de células
polimorfonucleares,
linfócitos e macrófagos,
energia celular,
hidrofílica, crosta
necrótica
Epitelização,
neovascularização,
contracção
Produtos de
plaquetas
Quitina
Ultrasan
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Melhoria da função
celular inflamatória,
aumento dos factores de
crescimento, incremento
dos fibroblastos,
aumento do tecido de
granulação
macrófagos para produzir a interleucina 1 (IL-1) e o
factor de necrose tumoral (TNF-α ) (1). O resultado é a
maior proliferação fibroblástica, o aumento da neovascularização, o incremento do crescimento epidérmico e a melhoria da deposição de colagénio. (3)
Um estudo caso-controlo demonstrou que as feridas em
almofadas plantares tratadas com acemanano eram
significativamente menores ao fim de 7 dias do que as
feridas tratadas com antibioterapia tripla ou as feridas
sem qualquer tratamento (1).
Maltodextrina - Polissacarídeo D-glucose
A maltodextrina é um polissacarídeo D-glucose com
ácido ascórbico. Está disponível sob a forma de pó
hidrofílico e gel, que funciona como quimiotáctico para as
células polimorfonucleares, linfócitos e macrófagos,
as quais aumentam o nível de factores de crescimento
necessários na cicatrização (1,3). Pode também fornecer
energia às células para promover a cicatrização (3). Esta
terapêutica tem sido responsabilizada por atenuar o
tecido necrótico, penetrar nas irregularidades das feridas,
não ser tóxico, não apresentar absorção sistémica e ser
eficaz em feridas infectadas e não infectadas (1).
A investigação de um autor (SFS) demonstrou que se
algo tem efeito na cicatrização, tem o seu efeito mais
pronunciado nos primeiros 7 dias de utilização. Fazendo
uso deste facto, os autores utilizaram um regime
alternado durante 7 dias de três das terapêuticas acima
descritas (acemanano, polissacarídeo D-glucose e
complexo tripeptídeo de cobre) no tratamento de feridas
difíceis, ex: feridas profundas e extensas, feridas extensas
com exposição de osso e feridas crónicas. O tratamento
inicia-se com uma forma congelada e desidratada de
acemanano, seguida de tratamento com polissacarídeo
D-glucose e depois o complexo tripeptídeo de cobre. Caso
o tratamento se extenda para além de 21 dias, os últimos
2 são utilizados em padrão de alternância durante 7 dias.
Quando utilizado numa ferida crónica, é imperativo
que a causa da não cicatrização seja determinada e
resolvida antes da utilização de estimulantes da
cicatrização de feridas. Empiricamente, o regime teve
tendência para manter a cicatrização das feridas a
progredir rapidamente. A questão surge no que respeita
ao hipotético efeito produzido por 1) utilização de ambas
as terapêuticas e 2) combinação de outras terapêuticas
(uso alternado ou simultâneo). Constituindo, deste
modo, potenciais projectos para investigação futura.
Produtos de plaquetas
Os produtos derivados de plaquetas apresentam
AVANÇOS NA ABORDAGEM DE FERIDAS EM PEQUENOS ANIMAIS
potencial na cicatrização de feridas devido ao elevado
número de factores de crescimento existentes em
elevadas concentrações nas plaquetas activadas. A
aplicação tópica de produtos derivados de plaquetas em
feridas não cicatrizantes em pessoas, conseguiu
aumentar a epitelização, contracção e neovascularização.
A aplicação experimental em feridas de equinos de um
gel plasma homólogo rico em plaquetas produziu efeitos
semelhantes (1). É possível que as terapêuticas derivadas
de plaquetas sejam igualmente eficazes em cães e gatos.
Existe uma relação fisiológica de proteases, de inibidores
das proteases, de factores de crescimento e de citoquinas
presentes a cada fase da cicatrização. Os glóbulos
brancos, juntamente com as suas enzimas, permanecem
na ferida sem serem absorvidos e podem realizar a sua
Tabela 2.
Selecção de tipos de pensos
(1,2)
Penso
Teor de exsudado
para utilização
Quitosano
Espuma de
poliuretano
(MRD)*
Moderado a
elevado
O quitosano é um polissacarídeo que contém a glucosamina como um ingrediente activo. É derivado da
quitina, extraído do exosqueleto de crustáceos. Quando
aplicado em feridas, aumenta a função celular inflamatória, fornece diversos factores de crescimento e estimula
os fibrobalastos. O resultado é a promoção de tecido
de granulação e aceleração da cicatrização, tal como
verificado num grupo experimental de cães (1,4).
Absorvente; pode
administrar-se
medicamento se préhumidificado; não
adesivo; pode ser
utilizado na cicatrização
inicial e final; estimula o
desbridamento autolítico,
tecido de granulação e
epitélio
Película de
poliuretano
(MRD)*
Nenhum a
muito reduzido
Não absorvente;
não adesivo; utilizado
em cicatrização final;
estimula o epitélio
Hidrocolóides
(MRD)*
Reduzido a
moderado
Absorção limitada;
estimula o
desbridamento autolítico,
angiogénese, síntese de
colagénio, epitélio;
aderência perilesional
Hidrogéis
(MRD)*
Nenhum a
moderado
Podem fornecer
(feridas secas) ou
absorver fluidos (feridas
com drenagem baixa a
moderada); estimula o
desbridamento autolítico,
tecido de granulação e
epitélio
Colagénio
hidrolisado de
bovino
Moderado a
elevado
Hidrofílico; estimula
o epitélio; pode ajudar
a limpar o interior da
ferida com antibióticos
sistémicos
Pensos de
matriz
extracelular
Reduzido
Quimiotáctico para
células de reparação;
antibacteriano; promove
o tecido de granulação;
substituído por tecido
sítio-específico
Pensos antimicrobianos
biguanida de
polihexametileno
Moderado
Antibacteriano;
os organismos
não desenvolvem
resistência
Materiais
Esta secção será dedicada a alguns dos avanços
experimentados nos materiais de penso de feridas
(Tabela 2). De um modo geral, a filosofia de «ocultar
para curar» (do inglês, «conceal and it will heal») já não é,
de todo, aplicável. Os materiais de penso actualmente
disponíveis interagem com os tecidos das feridas para
aumentar a sua cicatrização. Serão descritos três pensos/
materiais/ técnicas – pensos de retenção de humidade,
pensos de colagénio e pensos de matriz extracelular.
Pensos de retenção de humidade
O processo cicatricial é melhorado quando a humidade é
retida por um penso numa ferida. O mecanismo está
relacionado com a taxa de transmissão de vapor de água
(MVTR – moisture vapor transmission rate). Concluiu
-se que quando a MVRT é baixa, i.e. quando há
retenção de humidade, existe uma forte correlação com
uma evolução positiva da cicatrização da ferida, estando
as outras variáveis constantes. As taxas de infecção
tendem igualmente a ser menores com uma MVRT
menor (5). Assim, os pensos de retenção de humidade
(MRD – moisture retention dressings) estão indicados
na abordagem de feridas abertas.
Iões de prata
Alguns dos motivos pelos quais os MRD apresentam um
efeito positivo no processo cicatricial devem-se ao facto
de induzirem proliferação e função celular nas fases de
inflamação e de reparação, as quais são melhoradas por
um ambiente húmido.
Acção
Amplo espectro
de actividade
antimicrobiana,
incluindo alguns
fungos
*Pensos de retenção de humidade
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 19
função de desbridamento autolítico. A oclusão da ferida
fornece uma barreira contra as bactérias exógenas,
previne a dissecação tecidular e permite uma melhor
concentração na ferida de antibiótico administrado por
via sistémica. A baixa tensão de oxigénio num penso
oclusivo diminui o pH, detém o crescimento bacteriano,
favorece a síntese de colagénio e a neovascularização. Os
pensos de retenção de humidade não aderem à superfície
da ferida, e assim não são dolorosos na remoção.
Adicionalmente, graças à sua natureza impermeável,
previnem a entrada de urina e doutros fluidos (5).
Uma potencial desvantagem dos MRD é o facto de o
excesso de retenção de humidade poder resultar na
agressão dos tecidos perilesionais sob a forma de
maceração (amolecimento da pele) e escoriação (lesão
cutânea devido ao excesso de enzimas proteolíticas
no fluido lesional) (5).
Alguns MRD incluem espumas e películas ou filmes de
poliuretano, hidrocolóides e hidrogéis. Cada um tem
propriedades conducentes à melhoria do processo
cicatricial.
As espumas de poliuretano são altamente absorventes e
foram desenvolvidas para feridas com níveis moderados
a elevados de exsudado, prevenindo assim, a maceração
e a escoriação (6). Absorvem o excesso de fluido,
enquanto mantêm um ambiente húmido. A sua propriedade absortiva pode ser utilizada para absorção de
medicamentos líquidos a serem administrados directamente na ferida (5). Estes pensos têm a vantagem de
poderem ser utilizados tanto na fase inicial (inflamação)
como na fase final (reparação ou epitelização) da
cicatrização. Não aderem à ferida e promovem a
formação de tecido de granulação saudável.
As películas de poliuretano são finas, semi-oclusivas
flexíveis e não absorventes. Como tal, estão indicadas
para feridas com pouco ou nenhum exsudado, ou seja,
feridas na fase de reparação do processo cicatricial para
promover a epitelização. Deve ter-se o cuidado de
verificar se não há acumulação de fluidos passíveis de
causar danos na pele perilesional. Uma desvantagem
deste tipo de pensos é que o crescimento do pêlo interfere
na aderência do perímetro do penso (5,6).
Uma forma comum de penso colóide é um filme ou
película feita de uma combinação de componentes absorventes e elastómeros. Estes interagem com os fluidos da
ferida para formar um gel adesivo que confere um
20 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
ambiente húmido à ferida. Estão indicados em feridas
com teor baixo a moderado de exsudado. Os hidrocolóides estimulam o desbridamento autolítico durante a fase
inflamatória da cicatrização e promovem a angiogénese,
síntese de colagénio e a epitelização na fase de reparação
(5,6). Aquando da remoção do penso de hidrocolóide
surge um gel amarelo purulento que se forma sobre a
ferida e cuja aparência e odor fazem recear uma infecção.
Contudo, quando este é removido, surge o tecido saudável
subjacente (1,5). Embora os hidrocolóides sejam inicialmente recomendados para a fase de reparação, num
estudo com cães comprovou-se de certa forma que a
porção do penso aderente à pele perilesional pode
retardar a contracção da ferida. Assim, a sua utilização na
fase final da cicatrização deve ser feita com cuidado (5).
Os hidrogéis são géis de água ou à base de glicerina que
podem absorver o fluido da ferida enquanto fornecem
água para rehidratar os tecidos. São benéficos no
tratamento de escaras e tecidos desidratados com
formação de crosta. Nas feridas necróticas, promovem
desbridamento autolítico, tecido de granulação e
epitelização. A utilização primária dos hidrogéis é nas
feridas com teor baixo a moderado de drenagem, por
exemplo, nas feridas nas fases finais de cicatrização (1,5).
Estudos com canídeos demonstraram que os hidrogéis
melhoram a contracção de feridas nos membros, mas
atrasam a contracção das feridas no tronco (5).
Pensos de colagénio
O colagénio é um componente normal da fase de
reparação do processo de cicatrização. No entanto, a
colocação de colagénio exógeno sob a forma de películas,
pós e géis é utilizada no tratamento de feridas. Um estudo
sobre cicatrização em cães avaliou os efeitos de um penso
de colagénio bovino hidrolisado, sob forma de pó, em
feridas abertas (7). As feridas tratadas com o colagénio
apresentaram significativamente mais epitelização ao
fim de 7 dias do que as feridas de controlo. Este facto foi
atribuído à natureza hidrofílica do colagénio captando
fluidos que atravessam a ferida e assim a mantêm limpa e
fornecem um ambiente húmido. Tendo isto em conta,
este tipo de tratamento pode ser benéfico nos tratamentos iniciais de feridas contaminadas ou infectadas
para captar os fluidos antibióticos ao longo da ferida
quando o animal está a receber antibioterapia sistémica.
Pensos de matriz extracelular
Os pensos de matriz extracelular (ECM – extracellular
matrix dressings) são pensos estéreis biodegradáveis e
acelulares derivados da matriz da submucosa do intes-
©Cook Biotech, Inc.
Photos courtesy of Smiths Medical PM, Inc. SurgiVet®, exclusive worldwide distributor of Vet BioSISt™.
AVANÇOS NA ABORDAGEM DE FERIDAS EM PEQUENOS ANIMAIS
Figura 1. Micrografia electrónica de varrimento do esqueleto
duma matriz extracelular dum penso de cicatrização derivado
de submucosa intestinal suína.
tino delgado (Figura 1), ou da bexiga de suínos (1,5).
Estes pensos fornecem proteínas estruturais, factores de
crescimento, citoquinas e seus inibidores em proporções
fisiológicas numa ultraestrutura tridimensional. Este
esqueleto actua como uma estrutura indutora de tecido
de substituição (8). À medida que o esqueleto dos pensos
ECM é destruído pelas células mononucleares, os
produtos de degradação são quimiotácticos para as
células de reparação; estimulam a angiogénese e
possuem propriedades antibacterianas (5). O resultado
final é o desenvolvimento de tecidos sítio-específicos (8)
(ou seja, tecidos que se encontram do mesmo modo
como foram colocados), com a maioria das células
endoteliais e fibroblastos a surgirem da medula óssea
dos animais, i.e. células estaminais (9).
A utilização de pensos ECM requere algumas técnicas
especiais. A superfície da ferida deve ser cuidadosamente
desbridada. Deve estar limpa de medicamentos tópicos,
agentes de limpeza e exsudado. Os pensos EMC podem
ser fenestrados para permitirem alguma drenagem.
Coloca-se um penso de retenção de humidade (MRD)
não-adesivo ou absortivo sobre o penso ECM, seguido da
aplicação secundária e terciária de camadas de gaze.
Quando os pensos são removidos, ao fim de 3-4 dias, o
penso ECM é deixado no local com o seu centro em
degradação sobre a ferida e é colocada uma outra porção
sobre este, seguida da colocação externa de gaze. Após 2
a 3 aplicações deste modo o penso ECM é descontinuado
(o tecido sítio-específico já foi estabelecido) e o tratamento da ferida continua com o penso apropriado (1,5).
Pensos antimicrobianos
Os pensos que contêm agentes antimicrobianos estão
cada vez mais a ser utilizados e avaliados na Medicina
Veterinária. Dois destes pensos são o polihexametileno
biguanida (PHMB – polyhexamethylene biguanide) e os
pensos de iões de prata. O polihexametileno biguanida
Figura 2. Existem disponíveis várias combinações sofisticadas de
pensos para o tratamento de feridas abertas. Exemplificação da
composição de um penso que consiste numa almofada de espuma de
poliuretano com impregnação de prata e revestimento de alginato de
cálcio. A combinação de diversos pensos como este permite abranger
as necessidades da ferida num só produto.
é um agente da mesma família da clorhexidina que
destabiliza as membranas citoplasmáticas das bactérias.
Os organismos não conseguem desenvolver resistência a
estes químicos. Um estudo in vitro avançou que pensos
impregnados com PHMB diminuíram ou eliminaram a
proliferação de bactérias patogénicas, isoladas de cães e
gatos num hospital veterinário universitário, quer no
interior como por baixo do penso impregnado (5). Os
autores têm tido sucesso no tratamento de feridas infectadas com pensos primários ou secundários de PHMB.
Os iões de prata estão a ser utilizados no tratamento de
feridas infectadas (10). Apresentam um espectro de
actividade antimicrobiana muito amplo incluindo alguns
organismos fúngicos. Os pensos libertadores de prata
estão disponíveis sob a forma de gazes, rolos de gaze,
adesivos fracos, hidrocolóides, hidrogéis e alginatos
(Figura 2) (5).
Métodos
À semelhança do que aconteceu com os medicamentos e
os materiais, existiram também desenvolvimentos nos
métodos utilizados para tratar e reconstruir as feridas dos
animais. A informação que se segue é relativa a quatro
destes métodos – uso de omento para melhorar a
cicatrização, técnicas para transpor pele, técnicas para
esticar a pele e oclusão assistida por vácuo. Devido ao
limite de espaço não é possível entrar em detalhe
quanto ao aspecto técnico destes procedimentos; assim,
apresenta-se um sumário de cada.
Flaps de omento
Os flaps de omento podem ser utilizados para contribuir
para a drenagem e circulação, cobrir defeitos de
tecidos moles, incrementar a cicatrização, controlar as
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 21
Estes flaps são especialmente úteis para feridas nos
membros distais e nas patas. Contudo, têm 3 principais
desvantagens. São consumíveis com o tempo, requerem
cirurgia microvascular especializada e requerem
instrumentos específicos (13).
Expansão de pele
Figura 3. Flap de padrão axial na zona toracodorsal para
oclusão de uma ferida grande no antebraço. Após uma semana
de pós-operatório a cicatrização decorreu sem incidentes.
aderências e combater as infecções. Estimulam a
formação de tecido de granulação e permitem antecipar a
oclusão da ferida com enxertos ou flaps de pele. Estes
flaps são especialmente úteis para feridas crónicas não
cicatrizantes nas zonas do tórax, do abdómen, inguinal e
axilar (11). Depois de expor o omento e criar um flap
de omento, ele é transposto por via subcutânea para o
local da ferida. A técnica de oclusão da ferida mais
apropriada (oclusão directa, enxerto, flap) é utilizada
em combinação com este flap para a oclusão.
Transposição de pele
A oclusão cirúrgica de feridas envolve sempre, de algum
modo, a transposição de pele. O que implica mover pele
local, ou utilizar enxertos ou flaps de pele. Os flaps de
pele têm a vantagem de permanecerem com suporte
sanguíneo através de um pedículo durante todo o tempo
de cicatrização. Duas técnicas que têm sido benéficas na
transposição de grandes quantidades de pele como flaps
têm sido a utilização de flaps de padrão axial e a cirurgia
microvascular, que fornece um suporte vascular à pele
transposta.
Os flaps de padrão axial são flaps de pele que possuem
uma artéria e veia cutâneas directas e ao longo do
comprimento do flap de modo a assegurar o suporte
sanguíneo duma porção extensa de pele, enquanto
cicatriza uma ferida (Figura 3). Existem inúmeros flaps
de padrão axial e as referências e indicações destes flaps
têm sido bem descritas na literatura (12).
A cirurgia reconstrutiva microvascular requere a
colheita do(s) tecido(s) autogéneo(s) com um pedículo
vascular persistente de um local dador. É transferido para
um leito receptor e a circulação é restabelecida por
anastomose microvascular da artéria e veia dadoras para
a artéria e veia da área receptora. Assim, é criado um flap
microvascular livre.
22 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Os cães e os gatos apresentam a vantagem de possuírem
pele abundante nas porções superiores do corpo. É
extremamente benéfico na oclusão de feridas grandes no
tronco. No entanto, há situações em que existe grande
escassez de pele no tronco e existem grandes feridas nos
membros, onde aqui a pele é mais escassa. Têm sido
desenvolvidas técnicas através das quais a pele pode ser
expandida para fechar estas feridas. As bandas de expansão podem ser usadas para expandir pele em volta de
uma ferida, de modo a poder fechá-la. São fixadas almofadas de pele autoadesivas com VelcroTM na pele em volta
da ferida. Num dos lados da ferida anexam-se correntes
de ligação elásticas que se conectam ao VelcroTM e são
estiradas até se ligarem às almofadas de pele do outro
lado da ferida. Estas correntes são ajustadas a cada 6
a 8 horas durante 24 a 96 horas até ter sido recrutada
pele suficiente para a oclusão da ferida. Estas são
geralmente utilizadas para feridas no pescoço e no
tronco (11,12).
Outra técnica para o estiramento da pele no pescoço e
tronco é a utilização de suturas «andantes». Suturas
absorvíveis são colocadas sob a pele em cada lado da
ferida de modo a que gradualmente avance/«ande» com
a pele sobre a ferida (11,12,13). Esta técnica estica a pele
e fecha a ferida no mesmo período de tempo.
Duas técnicas para expandir a pele no membro distal são
as pré-suturas e a sutura contínua de colchoeiro, ou em
‘U’, horizontal ajustável. São colocadas suturas de tipo
Lambert na pele em volta da ferida, com pré-suturas, de
modo a que atravessem a ferida. Os nós são feitos sob
tensão e deixados durante 12-24 horas. Depois da pele
esticar, a pele expandida é utilizada para fechar a ferida
(12,13,14). A sutura de colchoeiro ou ‘U’ horizontal
ajustável (Figura 4) é uma sutura contínua intradérmica
com mono-filamento que percorre todo o comprimento
da ferida. Em cada extremidade coloca-se um dispositivo
composto por um botão de coser e um pequeno chumbo
de pesca. A cada intervalo de 24 horas aumenta-se a
tensão nas extremidades da sutura para aproximar os
bordos da ferida. Após a aplicação da tensão, esta é
suportada pelos pequenos chumbos de pesca contra
os botões (11,13,14).
AVANÇOS NA ABORDAGEM DE FERIDAS EM PEQUENOS ANIMAIS
A oclusão assistida por vácuo tem recebido considerável
atenção na abordagem de feridas em humanos, estando
também a ser utilizada na Medicina Veterinária (15). É
utilizada em feridas agudas traumáticas, feridas crónicas
não cicatrizantes, úlceras de pressão, feridas com avulsão
de pele (degloving), enxertos de pele, flaps de pele,
abdómens abertos, feridas complexas perineais e ginecológicas, fístulas enterocutâneas e defeitos do crânio (15).
Neste tratamento é criado um sistema fechado sobre a
ferida com um tubo ligado a um aparelho de vácuo.
Aplica-se sucção contínua ou intermitente sobre a ferida
(16). Este tipo de tratamento promove a formação do
tecido de granulação e neovascularização com aumento
do fluxo sanguíneo. Remove, também, o excesso de
fluido e o edema, e reduz a contagem bacteriana. As
forças micromecânicas aplicadas na ferida podem ser um
factor igualmente importante na indução da proliferação
celular e na cicatrização da ferida (17).
No futuro
A área da abordagem das feridas e da cirurgia
reconstrutiva continuará, indubitavelmente, a avançar
quer na Medicina Humana, quer na Medicina Veterinária.
À medida que as investigações na engenharia de tecidos e
na medicina celular aumentam, encontrarão aplicação
no tratamento de feridas. Continuarão a existir estudos
de natureza de medicina comparativa, com descobertas
em animais que beneficiarão tanto os animais como os
©(Scardino MS, Swaim SF, Henderson RA, et al.. Enhancing
wound closure on the limbs. Comp Cont Educ Pract Vet
1996; 18: 919-933) Veterinary Learning Systems,
Yardley, Pennsylvania.
Oclusão assistida por vácuo
Figura 4. Pode utilizar-se uma sutura de colchoeiro ou em ‘U’
horizontal ajustável para reduzir mais rapidamente a área de
ferida aberta e assim acelerar a oclusão final por cicatrização
de segunda intenção.
humanos. Um dos autores (SFS) tem estado envolvido
neste tipo de estudos, focando-se numa proteína
vasodilatadora recombinante encontrada na saliva da
mosca preta que se demonstrou promissora por causar
vasodilatação local e assim melhorar a cicatrização de
feridas (18). Noutro estudo realizado, investigaram os
efeitos da redução da pressão de partículas de gel de
silicone subdérmicas no alívio da pressão palmar/plantar
(19). Respectivamente, estes estudos podem ser aplicados no tratamento de feridas crónicas em animais e em
pessoas (por exemplo, úlceras diabéticas em humanos),
(18) e na prevenção de calosidades digitais dolorosas em
galgos, bem como na prevenção de calosidades plantares
e úlceras em diabéticos humanos (19).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Swaim SF, Krahwinkel DJ (eds). Wound Management, Elsevier/WB Saunders.
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Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 23
Utilização da serologia
em dermatologia
canina e felina
Princípio das técnicas serológicas
São utilizadas inúmeras técnicas (Tabela 1, Figura 1).
Os principais testes feitos em clínica são baseados no
ensaio imuno-enzimático em fase sólida (ELISA) e
imunocromatografia (IC) (Figura 2), e as técnicas de
laboratório baseiam-se no ensaio de imunofluorescência
indirecta (IFA), ELISA e aglutinação (látex ou GV,
glóbulos vermelhos) (Figura 3).
Pascal Prélaud, DVM, ECVD, DESVD
Podem ser detectados diferentes isotipos de imunoglobulinas, dependendo da técnica ou anti-soro utilizado.
O Dr. Prélaud licenciou-se na Escola Veterinária Nacional de
As IgM são normalmente detectadas na técnica IFA,
Toulouse. Fundou e geriu um laboratório de patologia clínica
utilizando um anti-IgM-FITC, e em todos os casos de
em Paris durante 20 anos (CERI). Exerce a sua prática numa
aglutinação por látex. As IgG são detectadas pela
clínica de referência (dermatologia), desde 1987, em Paris
maioria das técnicas. Para a detecção de IgE, as técnicas
e em Nantes e é agora associado duma nova clínica
mais sensíveis são utilizadas com ELISA ou com o
veterinária de referência, em Paris. O Dr. Pascal Prélaud é
sistema biotina-avidina. O ensaio radio-imunoabsorvente
presidente honorário do Grupo Francês de Dermatologia
(RIA) e a bioluminescência não são utilizados na prática
(GEDAC). A maioria do seu trabalho é dedicada às doenças
veterinária para serologia, mas principalmente, para
imunológicas, otologia e dermatologia felina. É membro do
doseamentos hormonais.
Clínica Veterinária de Referência, Paris, França
grupo de trabalho internacional sobre dermatite atópica
canina. O Dr. Prélaud é autor de inúmeros artigos e livros
em dermatologia canina e felina.
A
serologia baseia-se na utilização de anticorpos
para detectar anticorpos circulantes (imunoglobulinas) ou antigénios. Amplamente utilizado
no diagnóstico de doenças infecciosas é, actualmente,
substituído com frequência pela detecção de ADN e
ARN de agentes infecciosos através de técnicas de
biologia molecular, como a reacção em cadeia de
polimerase (PCR, rt-PCR). Contudo, a detecção de
anticorpos pode ter algumas vantagens face às técnicas
de PCR, e muitas avaliações diagnósticas recorrem às
técnicas serológicas especialmente para o diagnóstico
de doenças imunomediadas.
24 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Figura 1. São comercializados inúmeros kits de diagnóstico serológico
de doenças infecciosas para utilização em clínica e em laboratório.
Tabela 1.
Técnicas serológicas
Técnica
Vantagens
Limitações
Exemplo
Imunofluorescência
indirecta (IFA)
Simples, vários antigénios,
adaptabilidade a diferentes
espécies
Variações entre laboratórios,
não adaptável a trabalho
de grande escala
Leishmaniose, ANA*,
toxoplasmose, erlichiose,
anaplasmose, neosporose,
borreliose
Ensaio imuno-enzimático
em fase sólida (ELISA)
Pode ser desenvolvido como kit
comercial ou de uso em clínica
Limitado a alguns antigénios
FeLV, FIV, leishmaniose,
erlichiose, dirofilariose,
Sarcoptes scabiei
Imunocromatografia
Simples
Ausência de controlo positivo, não
adaptado a amostragem múltipla
FeLV, FIV, leishmaniose,
erlichiose, dirofilariose
Aglutinação látex
Simples
Leitura por vezes difícil
Criptococose, factores
reumatóides, brucelose
Electrosinerese
Especificidade
Laboratório especializado
Aspergilose
*Anticorpo anti-nuclear
Interpretação
A presença de anticorpos circulantes indica exposição
prévia a um antigénio. Não é um marcador de doença
sistemático. A imunização pode ser observada em cães e
gatos saudáveis e a serologia não apresenta um bom
valor diagnóstico se não existir uma clara diferença
entre a população saudável e a população doente (ex:
toxoplasmose, borreliose, neosporose). Quando existe
uma sobreposição entre ambas as populações, é
necessário definir um limiar de positividade, o qual
consiste num compromisso entre a sensibilidade e a
especificidade (i.e. leishmaniose, IgE alergo-específica).
Se existe uma notória diferença entre ambas as
populações, a serologia é uma ferramenta diagnóstica
muito eficaz (ex: criptococose, aspergilose, anticorpos
antinucleares, sarna sarcóptica). Os resultados falsosnegativos podem ser observados na sequência de um
tratamento de corticosteróides a longo prazo.
PCR, cultura ou serologia?
Actualmente, existem três formas de diagnosticar uma
doença infecciosa:
- isolamento directo: citologia, histologia, cultura;
- isolamento do ADN ou ARN por técnicas de PCR ou
rt-PCR;
- isolamento de anticorpos específicos: serologia.
Quando o isolamento directo é fácil (fungos, bactérias,
maioria dos parasitas) não é útil a utilização de técnicas
como a serologia ou PCR. No entanto, se o isolamento
for difícil, estas técnicas são primordiais. As técnicas de
PCR são muito sensíveis se utilizada a sonda correcta.
Contudo, esta elevadíssima sensibilidade pode limitar a
interpretação quando a presença de determinado agente
infeccioso não é patológica (i.e. leishmaniose numa área
endémica). A técnica de PCR requer um laboratório
especializado e os seus custos são maiores do que a
Positiva
Figura 3.
Aglutinação látex de
Cryptococcus
positiva.
Negativa
Figura 2. Teste positivo com utilização da técnica de
imunocromatografia (leishmaniose).
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 25
Tabela 2.
Indicações para PCR e serologia em dermatologia
canina e felina
Exame directo ou
cultura
PCR
+
+
+
+
+/+
-
+
+
+
+
+
Ectoparasitas
Fungo
Bactéria
Micobactéria
Rickettsia
Protozoário
Vírus
burgdorferi (IFA) não apresentam valor diagnóstico na
dermatologia. Quando há suspeita de manifestação
cutânea desta doença deve utilizar-se a técnica PCR.
Serologia
Malassezia
-*
- **
+
+
-
* Excepto para a sarna sarcóptica.
** Excepto para a criptococose.
maioria dos testes serológicos. É por este motivo que os
testes serológicos constituem as principais técnicas para
diagnosticar muitas doenças na dermatologia canina
e felina (Tabela 2).
Doenças infecciosas e fúngicas
Têm sido estudadas em cães com dermatite atópica
ou com dermatite por Malassezia recorrente, as IgG e
IgE específicas para Malassezia. Estes cães apresentam
níveis superiores de anticorpos para Malassezia,
quando comparados com uma população de cães
saudáveis. Foram desenvolvidas diferentes técnicas
ELISA utilizando extractos alergénicos de Malassezia
pachydermatis. No entanto, as técnicas serológicas
não parecem ser tão fidedignas como os testes intradérmicos (1). Para além disto, as indicações para este
tipo de ensaio ainda não são muito claras, na medida
em que a imunoterapia da Malassezia, com base nos tais
testes, ainda não foi estudada. Os testes intradérmicos
com extracto imperfeito podem constituir uma abordagem mais simples e segura para a identificação de cães
com forte reacção alérgica a estas leveduras.
Viral
Foram desenvolvidos inúmeros kits de utilização em
clínica e no laboratório para o diagnóstico de infecções
retrovirais no gato. Estes baseiam-se em técnicas ELISA
ou imunocromatografia para a detecção de anticorpos
circulantes (FIV) e antigénios (antigénio p27 do FeLV).
As suas especificidade e sensibilidade são muito altas.
Podem ser utilizados para diagnosticar infecção retroviral associada a uma dermatite infecciosa. Contudo,
quando se suspeita de uma dermatite viral, as técnicas
de PCR aplicadas a biopsias cutâneas são mais exactas
para as infecções retrovirais e outras infecções virais,
incluindo a calicivirose e herpesvirose felinas, o papilomavírus, a esgana e a parvovirose caninas.
Erlichia, Anaplasma
Raramente a serologia é utilizada na Europa para a
infecção por Rickettsia, excepto nos casos de suspeita
de imunodeficiência adquirida (ex: celulite bacteriana
generalizada, demodecose generalizada adulta). As
técnicas IFA são as técnicas mais exactas desenvolvidas
para o diagnóstico de formas crónicas da doença. Os kits
de ELISA desenvolvidos para a serologia de Erlichia canis
são suficientemente sensíveis para serem utilizados em
áreas endémicas, onde a reinfestação está frequentemente associada a uma elevada resposta de anticorpos.
Bartonella, Borellia
Apesar de terem sido desenvolvidas técnicas de
diagnóstico para infecção por Bartonella sp. e Borellia
26 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Dermatofitose
Mesmo que as técnicas serológicas tenham sido
desenvolvidas para o diagnóstico de infecção por
dermatófitos, esta abordagem não é nem eficiente
(falta de sensibilidade, seropositividade persistente),
nem recomendada (2,3). Um diagnóstico definitivo
de dermatofitose é conseguido através de cultura
fúngica, pois constitui a única forma de identificar os
dermatófitos prejudiciais.
Micose profunda e subcutânea
Podem ser utilizados diversos testes serológicos no
diagnóstico de micoses subcutâneas e sistémicas (ex:
detecção antigénica para Crytococcus sp.) (Tabela 3).
Contudo, o diagnóstico definitivo destas micoses em
dermatologia é melhor conseguido por citologia,
histopatologia e cultura (laboratório especializado em
micologia) e, nalguns casos, por técnicas de imunohistoquímica ou de PCR. Nos casos de criptococose e
aspergilose sistémicas, as técnicas serológicas semiquantitativas podem ajudar a monitorizar animais
tratados (ex: diminuição de títulos) (Figura 4).
Protozoários
Leishmaniose
A Leishmaniose é uma causa frequente de doença
cutânea na área Mediterrânica e a serologia é a técnica
mais amplamente utilizada para a obtenção dum
diagnóstico definitivo. A maioria dos laboratórios utiliza
UTILIZAÇÃO DA SEROLOGIA EM DERMATOLOGIA CANINA E FELINA
Tabela 3.
Testes serológicos utilizados no diagnóstico de micoses
Sensibilidade Especificidade
Micose
Teste serológico
Aspergilose
Electrosinerese (soro)
baixa
elevada
TC – tomografia computorizada
Criptococose
elevada
elevada
Citologia, histopatologia, cultura
PCR para C.neorformans
Esporotricose
Aglutinação látex
(soro, CSF – fluido cerebroespinhal, urina)
-
Blastomicose
ELISA (Ag ou Ac)
elevada
baixa
Citologia, histopatologia,
imunohistoquímica, cultura
Histoplasmose
Aglutinação látex
baixa
baixa
Citologia, histopatologia,
imunohistoquímica, cultura, PCR
Coccidioidomicose
Imunoprecipitação
baixa
baixa
Citologia, histopatologia, cultura
Pitiose
ELISA
elevada
elevada
Citologia, histopatologia, cultura, PCR
Lagenidiose
ELISA
baixa
baixa
Citologia, histopatologia, cultura, PCR
Melhores métodos diagnósticos
Citologia, histopatologia, cultura
clínicos forem amplamente sugestivos, pode ser realizada a serologia para confirmar o diagnóstico; noutros
casos, podem ser realizadas as biopsias cutâneas de modo
a encurtar o diagnóstico diferencial (Figuras 5 e 6).
A elevada sensibilidade da técnica PCR é interessante
para estudos epidemiológicos, mas é demasiado elevada
para ser utilizada como primeira escolha no diagnóstico
de leishmaniose clínica. Os resultados falsos-positivos
são raros com a serologia, uma vez que não há
reacções cruzadas com outros organismos. A serologia
negativa pode ser observada quando os organismos
são facilmente isolados, como na forma papular e
nodular da doença.
Neosporose
Figura 4. Electrosinerese positiva de uma serologia de
Aspergillus fumigatus. Notar os múltiplos arcos.
técnicas IFA, ou ELISA, fornecendo resultados semiquantitativos. Os kits para realização na clínica
baseiam-se em ELISA e em IC, detectando títulos
elevados de anticorpos. Assim, um resultado negativo
neste tipo de testes num animal que apresenta sinais
compatíveis com leishmaniose deve ser sempre
verificado por técnica laboratorial.
Os sinais clínicos de leishmaniose são variados e a serologia pode ser positiva em cães duma zona endémica, sem
leishmaniose clínica. É por este motivo que, se os sinais
A serologia da neosporose no cão pode ser conseguida
através de técnicas IFA (VMRD) ou técnicas ELISA
adaptadas (proveniente de kits de bovino). Estas técnicas
são extremamente sensíveis e específicas. No entanto, a
interpretação não pode ser realizada fora do contexto
clínico, na medida em que inúmeros cães saudáveis
podem ser seropositivos (10 a 20% na maioria dos países
Europeus). A forma cutânea da neosporose é diagnosticada na sequência do isolamento de taquizoítos nas
biopsias de pele ou na aspiração por agulha fina. A
diferenciação dos taquizoítos de Toxoplasma gondii
pode ser conseguida através da imuno-histoquímica
ou PCR em biopsias cutâneas.
Toxoplasmose
Os sinais cutâneos de toxoplasmose podem dever-se
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 27
Ectoparasitas
Sarna sarcóptica
Figura 5. Leishmaniose num Yorkshire Terrier: o diagnóstico
diferencial inclui, no mínimo, linfoma epiteliotrófico,
dermatofitose, leishmaniose e demodecose.
directamente à infecção da pele (dermatite nodular) ou a
infecção secundária (úlceras causadas por vasculite,
acessos parciais mimetizando o prurido). A serologia é
útil, na medida em que um resultado negativo apresenta
um elevado valor preditivo negativo. Contudo, os
elevados níveis de IgG não apresentam valor diagnóstico.
O diagnóstico de toxoplasmose pode ser conseguido
através de serologia IgM positiva e/ ou isolamento do
organismo (citologia, histopatologia, PCR).
A sarna sarcóptica é uma das principais causas de prurido
severo e, por vezes, de prurido moderado a crónico. A
serologia pode constituir uma alternativa diagnóstica
útil, uma vez que é difícil o isolamento do organismo. As
técnicas serodiagnósticas para a sarna sarcóptica foram
desenvolvidas para suínos na Suécia, onde a doença é
endémica. A adaptação deste teste serológico à espécie
canina conduziu à comercialização de um kit ELISA. As
suas sensibilidade (85%) e especificidade (90%) são
elevadas quando se comparam cães saudáveis com cães
acometidos com sarna sarcóptica (4). Porém, na prática,
este teste é utilizado em casos de prurido crónico como
diagnóstico de exclusão de sarna sarcóptica (Figura 7).
Estes cães são, frequentemente, tratados com corticóides
e diversas terapêuticas acaricidas. Nestes cães, a eficácia
desta técnica é desconhecida e observam-se frequentemente resultados na zona cinzenta. No entanto, mesmo
após um longo período com corticoterapia, a serologia é
ainda positiva quando há bastantes parasitas.
Doenças imunológicas
Doenças cutâneas auto-imunes
Anticorpos antinucleares
Os anticorpos antinucleares são observados em níveis
Lesões moderadamente
sugestivas
Lesões bastante sugestivas
Biopsias cutâneas (citologia)
Serologia
Não sugestivo
Sugestivo
Positiva
Negativo ou
zona cinzenta
Isolamento do organismo
PCR
Pele, linfonodo,
medula óssea
Negativa
Positiva
LEISHMANIOSE
Figura 6. O papel da serologia e PCR no diagnóstico de leishmaniose cutânea no cão.
28 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Figura 7. Sarna sarcóptica. Caso
não se consigam isolar os parasitas,
a serologia para Sarcoptes scabiei
pode ajudar a definir um
diagnóstico de sarna sarcóptica.
UTILIZAÇÃO DA SEROLOGIA EM DERMATOLOGIA CANINA E FELINA
elevados em 97 a 100% dos casos de lúpus sistémico, e
este teste constitui o pilar fundamental da doença (5).
Observam-se, na maioria dos casos severos, títulos
elevados que diminuem durante o tratamento. Estes
anticorpos apresentam diferentes especificidades antigénicas (Tabela 4) conduzindo a diversas vertentes da
imunofluorescência. Os anti-ADN são raros e os anti-Sm
e anti-tipo 1 são extremamente sugestivos de lúpus
sistémico. A principal técnica serológica utilizada é a IFA
que utiliza o fígado de rato ou células Hep 2 como
substrato (Figura 8). De um modo geral, os títulos
superiores a 1/160 são considerados como elevados. O
diagnóstico de lúpus sistémico baseia-se na observação
de, pelo menos, 4 critérios diagnósticos (Tabela 5),
uma vez que os anticorpos antinucleares podem ser
observados noutras doenças com estimulação policlonal
do sistema imunitário (i.e. leishmaniose, dirofilariose),
ou nalguns cães saudáveis (Pastor Alemão).
Tabela 4.
Especificidade de anticorpos anti-nucleares
observada no lúpus sistémico canino (5)
100%
<3%
66%
40%
16%
8%
20%
9%
4%
0%
Anticorpos anti-nucleares totais
Anti-ADN
Anti-histonas
Anti-ANE*
Anti- Sm
Anti-RNP
Anti-tipo 1
Anti-tipo 2
Anti-SSA
Anti-SSB
Outros anticorpos anti-nucleares
6%
18%
Anti-HMG 1
Anti- HMG 2
*ANE: antigénios nucleares extraíveis.
(ENA: extractible nuclear antigens).
Anticorpos anti-desmogleína
Os auto-anticorpos envolvidos no desenvolvimento de
pênfigus foliáceo (anti-desmogleína 1) e pênfigus vulgar
(anti-desmogleína 3), podem ser utilizados como
ferramenta diagnóstica. Têm sido desenvolvidas várias
técnicas, desde IFA em pele e esófago até ELISA
altamente específica. No entanto, estas técnicas estão
consagradas aos princípios da investigação laboratorial e
a sensibilidade desta abordagem é fraca até à data.
Endocrinopatia auto-imune
A detecção de anticorpos anti-tiroxina e tiroglobulina
pode ser interessante no diagnóstico de tireoidite autoimune, uma vez que se trata da principal causa de
hipotiroidismo no cão. Muitas técnicas são baseadas em
ELISA ou hemaglutinação e são específicas do cão. Estes
testes podem ajudar a classificar o hipotiroidismo,
mas não são úteis na prática clínica. Não podem ser
considerados no diagnóstico precoce de hipotiroidismo.
A principal indicação deste tipo de serologia é a
observação de grandes discrepâncias entre a tiroxinemia
e os sinais clínicos: níveis elevados de T4 livre (FT4) com
sintomas de hipotiroidismo. Estas discrepâncias podem
ser devidas a anticorpos anti-T4 quando se usa uma
técnica competitiva. Os anticorpos anti-T4 do paciente
bloqueiam os anticorpos marcados conduzindo a um
resultado que revela um nível elevado de FT4. Nestes
casos, a dosagem de FT4 deve ser controlada com uma
técnica de equilíbrio de diálise.
Doenças cutâneas alérgicas
É vastamente utilizada a dosagem de IgE alergo-
Figura 8. IFA positiva para anticorpos anti-nucleares em
fígado de rato (cão com lúpus eritematoso sistémico).
específica, mais comumente designada por teste alérgico
in vitro. Contudo, as suas indicações e limites reais
são, com frequência, desconhecidos e os laboratórios
comerciais prometem, frequentemente, um desempenho
diagnóstico nem sempre realista.
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 29
Tabela 5.
Critérios AAR* adaptados ao diagnóstico do lúpus canino (5)
Definição
Critérios
Eritema
Localizada na pele exposta à luz (face)
Lúpus cutâneo
Despigmentação, eritema, úlceras (face, nariz, lábios, pálpebras)
Fotosensibilidade
Agravamento das lesões após exposição solar
Úlceras bucais
Boca e faringe
Artrite
2 ou mais articulações sem deformação
Inflamação grave
Efusão pleural e pericárdica estéril
Sinais renais
a) proteinúria >0.5g/L ou b) cilindrúria ou hematúria microscópica ou hemoglobinúria
Sinais do sistema nervoso central
a) convulsões ou b) alterações comportamentais
Sinais hematológicos
a) anemia hemolítica com reticulose ou b) leucopenia (<3,000/mm3) ou
c) linfopenia (<1,000/mm3) ou d) trombocitopenia (<100,000/mm3)
Sinais imunológicos
a) anticorpos anti-histona ou b) anticorpos anti-Sm ou anti-tipo 1 ou c) linfopenia CD8+
Anticorpos anti-nucleares
Títulos IFA elevados
*Associação Americana de Reumatologia (American Rhematoide Association).
A única indicação do teste alérgico em dermatologia é
a selecção de alergénios para imunoterapia aero-alergoespecífica no cão (6). Não apresenta valor diagnóstico
para outros alergénios (alimentar (7,8)), não permite
o diagnóstico de doença alérgica e não tem valor
diagnóstico no gato nem no cavalo. Os níveis de IgE
felinos são, de facto, idênticos em gatos saudáveis e
em gatos com doenças cutâneas alérgicas em todas as
técnicas utilizadas (anti-IgE policlonal, anti-IgE
monoclonal ou Fcε rI) (9,10). Na prática, o diagnóstico
das doenças cutâneas alérgicas é baseado em critérios
epidemiológicos e clínicos, e não no resultado de testes
alérgicos (Tabela 6) (11). Por exemplo, a observação de
prurido e lesões dorso-lombares é mais eficiente para o
diagnóstico de hipersensibilidade à picada da pulga
do que qualquer teste alérgico!
anti-IgE é habitualmente discutida, apesar de não ser o
principal critério de qualidade duma dosagem de IgE.
Na realidade, a sensibilidade e especificidade analíticas
da técnica não apresentam correlação com a sensibilidade e especificidade diagnósticas. Por exemplo, a IgE
monoclonal ou a Fcε rI recombinante humana (hα Fcε rI)
são reactivas com baixa afinidade (22). Dado que a
ligação com a IgE é fraca, é necessário recorrer a um
maior tempo de incubação ou a uma menor diluição do
soro. Estes procedimentos podem aumentar o risco de
ligação inespecífica e de menor especificidade da
técnica. Por estes motivos, em termos práticos, um
policlonal pode ser tão eficaz como um reactivo
monoclonal ou FcεrI. A qualidade da técnica depende
do modo como estes reactivos são utilizados.
Limites técnicos
Anti-IgE canina
As técnicas de Ig baseiam-se no mesmo princípio e
utilizam um soro anti-IgE canino (Figura 9) com
elevada sensibilidade técnica (i.e. avidina-biotina), uma
vez que a concentração de IgE é muito baixa, em
comparação com outros isotipos. A especificidade da
30 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
As principais dificuldades na determinação de IgE
alergo-específicas são: a qualidade dos extractos
alergénicos, a necessidade de controlos para cada
alergénio e a definição de um limiar de positividade para
cada alergénio. De facto, muitos laboratórios utilizam
um controlo negativo (conjunto de soros provenientes
UTILIZAÇÃO DA SEROLOGIA EM DERMATOLOGIA CANINA E FELINA
Tabela 6.
Principais critérios de diagnóstico da dermatite
atópica
1. Idade de instalação entre os 6 meses e os 3 anos
2. Prurido sensível a esteróides
3. Otite externa bilateral
4. Eritema perioral ou queilite
5. Pododermatite anterior bilateral
de cães saudáveis ou de cães atópicos com testes
cutâneos negativos) e um controlo positivo até 3
alergénios. No entanto, a fixação de IgE é extremamente
variável, dependendo de cada alergénio. Esta é a razão
pela qual, é possível a interpretação para os aeroalergénios comuns para os quais se utiliza controlo
positivo, mas não para os outros.
Os níveis de IgE aero-alergoespecífica são superiores em
cães atópicos, mas existe uma grande diferença entre a
população saudável e a população atópica. Se o limiar de
positividade é demasiado baixo, a técnica é demasiado
sensível e o valor preditivo do teste é fraco. Se o limiar é
elevado o suficiente para limitar resultados falsospositivos, o valor preditivo positivo do resultado é
correcto, mas na maioria dos casos, a sensibilidade é
baixa (70 a 40%, dependendo dos alergénios).
Figura 9. Os reactivos anti-IgE utilizados nas técnicas in vitro
não são o fundamental da qualidade da dosagem.
Conclusão
À semelhança de qualquer outro teste laboratorial, os
testes serológicos devem ser utilizados quando existe
suspeita de uma doença específica. A interpretação será
sempre difícil quando a serologia é utilizada como teste
de rastreio avaliado fora do contexto clínico e das
informações epidemiológicas. A serologia não deve ser
abandonada em preferência das técnicas PCR, uma vez
que as duas são complementares.
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Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 31
Abordagem da
dermatite atópica
mais agressiva e são mais susceptíveis de causar
dermatite crónica.
2. As infecções moderadas e superficiais podem ser
controladas através de tratamento anti-inflamatório.
A redução da inflamação está associada à redução
da adesão microbiana e infecção.
Tim Nuttal, BSc, BVSc, CertVD, PhD, CBiol,
MIBiol, MRCVS
Hospital Universitário de Pequenos Animais,
Universidade de Liverpool, Leahurst, Cheshire, RU
O Dr. Tim Nuttal licenciou-se na Universidade de
Bristol, em 1992. Após três anos a exercer clínica
geral, integrou a Universidade de Edimburgo, onde
obteve o seu RCVs CertVD e um doutoramento
em dermatite atópica. O Dr. Nuttal integrou a
Universidade de Liverpool, em 2001, e é Orador
Sénior em Dermatologia Veterinária. A clínica de
dermatologia na Universidade de Liverpool tem um
programa de investigação activo na dermatite
atópica e nas infecções microbianas.
A
dermatite atópica (DA) é uma doença multifactorial que envolve alergias, defeitos da
barreira cutânea, infecções microbianas e
outros factores predisponentes. Obtêm-se melhores
resultados se for utilizada mais do que uma abordagem terapêutica. No entanto, o tratamento deve ser
especificamente adaptado aos problemas clínicos
individuais, temperamento, possibilidades económicas,
etc. Os donos devem ser informados de que o
tratamento é, provavelmente, para toda a vida do
animal, sendo importante confirmar o diagnóstico
(consultar em baixo). Foram recentemente aceites
duas teorias para o tratamento a longo prazo:
1. O tratamento deve manter um animal em remissão e
não deve ser utilizado de modo intermitente para o
controlo das recidivas. As recidivas que afectam a
qualidade de vida, necessitam de uma terapêutica
32 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Diagnóstico da dermatite atópica
- Anamnese – dermatite responsiva a esteróides, de
carácter recidivante e crónico. A maioria dos casos
inicia-se entre os 6 meses e os 3 anos de idade.
- Sinais clínicos – prurido e eritema difuso que afecta as
orelhas, focinho, olhos, superfícies flexoras, extremidades podais e parte ventral do corpo. São comuns as
infecções recorrentes bacterianas e por Malassezia.
As lesões crónicas incluem alopecia, liquenificação e
hiperpigmentação.
- Exclusão de ectoparasitas através de pêlos depilados,
fitas adesivas, raspagens cutâneas, ensaio terapêutico
e/ou serologia de Sarcoptes scabiei.
- Ausência de resposta durante um ensaio alimentar de 6
semanas, com uma dieta comercial ou caseira com
selecção duma proteína nova para o animal ou com
uma dieta hidrolisada hipoalergénica.
- Os testes alérgicos não são necessários para o
diagnóstico. Na verdade, cerca de 10 a 20% dos cães
atópicos apresentam resultados negativos para os testes
intradérmicos e serológicos. O que foi recentemente
designado por dermatite tipo-atópica.
Factores predisponentes
Ectoparasitas
A DA é habitualmente complicada por pulgas e
Neotrombicula. Os cães atópicos podem também
infectar-se por Sarcoptes. A demodecose pode estar
associada a imunossupressão, particularmente no
hiperadrenocorticismo iatrogénico.
Infecções microbianas
As infecções secundárias devem ser identificadas e
tratadas com prontidão. A terapia tópica pode reduzir as
populações microbianas e as recidivas de infecções. A
imunossupressão pode resultar em infecções, mas o
controlo da inflamação geralmente reduz a colonização
e infecção por Malassezia e estafilococos. Contudo, os
cães mais susceptíveis ao pioderma, podem beneficiar
duma terapêutica antibiótica intermitente a longo prazo.
Stress
O stress pode exacerbar as dermatites inflamatórias
humanas, e o mesmo pode ser verdade para os animais.
Existem evidências que indicam que a terapêutica
comportamental e as feromonas possam ser adjuvantes.
Efeitos ambientais
As doenças de pele podem ser pioradas por temperaturas e humidades excessivas, superfícies irritantes
e soluções de limpeza, etc. Os donos mais atentos
comentam, com frequência, estas associações.
Melhorar a barreira cutânea
A dieta e a pele
Muitos animais atópicos melhoram de modo inespecífico
após os ensaios alimentares. Provavelmente, devido às
dietas utilizadas que apresentam elevada qualidade,
são enriquecidas em ácidos gordos essenciais (AGE) e
possuem uma única fonte proteica. Como é o caso das
dietas de controlo de sensibilidades e das dietas
hidrolisadas hipoalergénicas, afectando assim a barreira
cutânea e/ ou o sistema imunitário cutâneo. Os
nutrientes que se consideram mais importantes são:
• Zinco – diminui a inflamação;
• Ácidos gordos essenciais de cadeia longa ómega 3 –
alteram os eicosanóides e diminuem a inflamação;
• Inositol, colina, histidina, ácido pantoténico, nicotinamida – melhoram a formação da barreira lipídica;
• Aloé vera e curcumina – aumentam a regulação dos
fibroblastos, a síntese dos proteoglicanos, a produção
de TGF-β‚ e diminuem a inflamação.
Na opinião do autor, a informação não publicada
proveniente de estudos aleatórios cruzados demonstra
que as dietas Eukanuba Dermatosis FP e Royal Canin Skin
Support melhoram significativamente os sinais clínicos
em cães atópicos.
Terapêutica tópica
O tratamento tópico apresenta inúmeras vantagens,
apesar de requerer muito tempo. A remoção física dos
alergénios é provavelmente adjuvante. A hidratação
pode ser prolongada através da utilização de champôs e
amaciadores humidificantes. Estes podem, igualmente,
melhorar a barreira lipídica da pele. A aveia coloidal
pode também exercer uma acção anti-prurítica directa.
A gama Allermyl® da Virbac contém ácido linoleico (que
melhora a barreira lipídica da pele), vitamina E e monooligossacarídeos (que podem reduzir a produção de
TNF-α e prevenir a adesão microbiana) e piroctona
olamina (que modula a flora da pele). Os quitosanos e os
micro-esferulitos ajudam a prolongar a retenção e a
actividade da pele e da pelagem. Outros produtos tópicos
que podem ser adjuvantes em casos individuais
incluem os produtos de limpeza auricular e os champôs
antimicrobianos ou anti-descamação. O equilíbrio exacto
dos efeitos desejados varia entre indivíduos, assim, é
de prever a necessidade de experimentar diferentes
produtos e/ ou alternar entre champôs antimicrobianos e
emolientes.
Ácidos gordos essenciais
Inúmeros ensaios clínicos e estudos avaliaram os AGE
ómega 3, em particular o ácido eicosapentaenóico (EPA)
e o docosahexaenóico (DHA), e o AGE ómega 6 ácido
gama-linolénico (GLA). A suplementação pode resultar
em níveis plasmáticos alterados e incorporação nas
membranas celulares, que por sua vez, pode conduzir à
formação de menos leucotrienos e prostaglandinas
inflamatórias e à melhoria da barreira lipídica cutânea.
No entanto, estudos recentes não verificaram alterações
consistentes no plasma, gordura subcutânea ou AGE
cutâneos na sequência da suplementação em cães
atópicos e saudáveis, não tendo também verificado
nenhuma correlação com a resposta clínica (1-3).
Os resultados clínicos têm sido variáveis em ensaios
controlados e não se provou nenhuma relação entre a
eficácia e o rácio AGE ómega 3/ ómega 6, embora as
doses superiores pareçam ser mais eficazes. Estudos
recentes demonstraram que as dietas de elevada
qualidade, enriquecidas com AGE são benéficas na DA
canina, apesar de ainda se desconhecer quanto deste
efeito se deve à actividade anti-inflamatória e à melhoria
da barreira cutânea (4).
Terapêutica alergoespecífica
A terapêutica alergoespecífica é apenas apropriada em
animais com sensibilidades identificadas. O objectivo
dos testes alérgicos não é a confirmação do diagnóstico,
mas a identificação dos alergénios para os poder evitar e
realizar a imunoterapia.
Evitar os alergénios
As medidas para evitar os alergénios podem resultar
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 33
numa redução significativa da exposição aos ácaros
do pó das casas (5). Se o evitar dos alergénios resulta
em melhoria clínica significativa ou não, é ainda
controverso, embora um estudo não controlado tenha
demonstrado que o evitar do alergénio se revelou
benéfico na DA canina (6).
Imunoterapia alergoespecífica (ASIT – allergen
specific immunotherapy)
A ASIT envolve a administração gradual de quantidades
crescentes de alergénio por via subcutânea. O mecanismo de acção é desconhecido, mas crê-se que a
administração de doses elevadas de alergénio através
de uma via não habitual (i.e. subcutânea, em vez de
O protocolo exacto varia muito, mas geralmente, implica
administrações repetidas durante alguns dias até 1 a 2
semanas. Uma vez atingida a dose completa, o intervalo
entre administrações pode ser alargado. Um protocolo
rápido, em que a evolução inicial de indução é feita num
único dia, demonstrou recentemente num pequeno
grupo de cães, ser tão eficaz como a ASIT convencional
(7). Relatórios recentes descrevem também o início
com uma dose completa (tratamento mono-dose). Não
foram observados efeitos secundários em nenhum dos
casos, apesar dos cães terem sido pré-medicados com
um anti-histamínico.
As vacinas de precipitado de alumínio apresentam um
efeito de depósito e requerem administração menos
frequente. Os adjuvantes de alumínio potenciam as
respostas da IgE em animais experimentais, mas não
foram demonstradas em cães diferenças de eficácia
entre as vacinas de precipitado de alumínio e as aquosas.
Existem relatórios de eficácia melhorada com dose baixa
de ASIT, mas um estudo controlado não encontrou
contudo qualquer diferença na eficácia entre dose baixa
e o precipitado de alumínio convencional de ASIT (8).
Se a ASIT se revela bem sucedida, o intervalo entre
as administrações pode ser alargado. O aumento do
prurido antes da administração seguinte indica que
o intervalo é demasiado longo. O intervalo deve
igualmente variar ao longo do ano, especialmente em
animais com sensibilidade ao pólen. Alguns cães podem
ser afastados do tratamento, mas a maioria requer a
manutenção das administrações a cada 1 a 2 meses.
Figura 1. Um caso raro de angioedema na sequência de
imunoterapia alergoespecífica num Boxer atópico.
intra-dérmica) possa induzir tolerância. Vários estudos
(se bem que na maioria abertos ou retrospectivos)
demonstraram que 50 a 60% dos cães apresentam
melhoria superior a 50% na sequência de ASIT. Os
resultados mais favoráveis parecem ocorrer com o
tratamento precoce, apesar de ser necessário um ensaio
de 9 a 12 meses para avaliar a resposta em cada caso. Os
animais que realizam ASIT requerem monitorização
cuidada, de modo a controlar infecções microbianas e
outros factores predisponentes, a receber tratamento
anti-inflamatório sempre que necessário e ajustar a
dose e/ou frequência de acordo com a resposta clínica
(Figura 1).
34 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
A realização de um novo teste pode revelar novas
sensibilidades em cães com testes iniciais negativos, cães
com idade < a 12 meses no momento do teste original,
se houve resposta fraca à ASIT ou se uma boa resposta
não é mantida.
Os efeitos adversos são raros. As reacções no local de
injecção e o choque anafilático são extremamente
raros, embora alguns dermatologistas aconselhem a
administrar as primeiras 5 a 6 doses na clínica. O prurido
após a administração indica que a dose é demasiado
elevada, apesar de reacções moderadas poderem ser
controladas através de anti-histamínicos.
Terapêutica anti-inflamatória
A terapêutica anti-inflamatória é utilizada quando há
necessidade de controlar prurido residual e inflamação.
Praticamente todos os atópicos requerem tratamento a
ABORDAGEM DA DERMATITE ATÓPICA
Figura 2a e 2b.
Um Pastor Alemão
severamente
atópico antes (a)
e depois (b) do
tratamento com
ciclosporina.
a
curto e médio prazo, mas a dose, frequência e/ ou
potência dos medicamentos podem ser reduzidos, caso
outros tratamentos sejam bem sucedidos a longo prazo.
Ciclosporina
A ciclosporina suprime as células T, que têm sido
implicadas na patogénese da DA canina. Inibe, também,
outras células fundamentais nas reacções inflamatórias
alérgicas, como os mastócitos e os eosinófilos. O
que resulta em efeitos profundos na apresentação
antigénica, produção de IgE, actividade das células
mononucleares e desenvolvimento de lesões inflamatórias. Apesar das doses utilizadas na DA canina, a
ciclosporina é mais imunomoduladora do que propriamente imunossupressiva (Figura 2).
A ciclosporina é rapidamente absorvida e distribuída.
Nos cães, a sua biodisponibildade varia entre 15 a 60%
para cada indivíduo e não é afectada pela ingestão de
alimentos. Existe uma pequena correlação entre os níveis
baixos e a eficácia, e os ajustamentos das dosagens são
feitos mais de acordo com a resposta clínica do que
através da monitorização dos níveis plasmáticos. O metabolismo processa-se via sistema citocromo P450. Várias
drogas podem diminuir o metabolismo, nomeadamente,
o itraconazol e o cetoconazol, os quais aumentam as
concentrações plasmáticas, eficácia e probabilidade dos
efeitos adversos (Figura 3). O fenobarbital aumenta o
metabolismo e diminui os níveis plasmáticos.
b
A ciclosporina é administrada na DA canina numa dose
de 5mg/kg SID. Os estudos controlados demonstram
que é pelo menos tão eficaz como a prednisolona
(9,10), embora possa demorar 2 a 3 semanas para ser
visível. Podem ser inicialmente co-administrados
glucocorticóides para atingir uma remissão mais rápida.
Aproximadamente, um terço dos cães tratados requer
dosagem diária, um terço em dias alternados, e um terço
duas vezes por semana de modo a manter a remissão.
Utilizar a ciclosporina integrada num programa de
abordagem pode ser mais rentável do que considerá-la
isoladamente.
O efeito nos resultados dos testes intra-dérmicos e
serológicos é considerado mínimo, apesar das informações disponíveis serem ainda escassas. Dados sugerem
que a ciclosporina não afecta a resposta à ASIT mais do
que qualquer outro glucocorticóide, embora ainda não
tenham sido realizados estudos controlados.
A ciclosporina é bem tolerada pela maioria dos cães.
Os problemas mais frequentes são a anorexia transitória
e o vómito. O vómito persistente é pouco comum,
mas pode ser evitado através da administração do
medicamento com alimento e/ ou administrando um
protector gastrointestinal, como o sucralfato ou os
agentes bloqueadores do receptores H2, como a
ranitidina. Outros efeitos adversos menos frequentes
Figura 3a e 3b.
Efeitos adversos
da ciclosporina:
hirsutismo (a)
e hiperplasia
gengival (b).
a
b
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 35
b
linfoma e neoplasias cutâneas. A dermatite linfoplasmocítica tem sido observada na sequência de doses
>20mg/kg e existe apenas um registo de linfoma num
cão mais idoso após o tratamento de furunculose anal.
Estes não foram, no entanto, registados em cães atópicos
(11). A inibição sobre a função das células T-helper e a
activação das células-β‚ pode afectar a resposta à
vacinação. Alguns autores defendem a suspensão do
tratamento até 2 semanas antes e depois da vacinação,
embora possa conduzir ao agravamento da condição
cutânea. Os prós e os contras, para cada caso individualmente, devem ser discutidos com o dono.
Tacrolimus
a
Figura 4a e 4b. Um West Highland White Terrier antes (a) e
depois (b) do tratamento com Phytopica™.
incluem hirsutismo, aumento da queda de pêlo e
alopecia transitória, hiperplasia gengival, papilomatose,
diarreia, claudicação e tremores musculares, bem como
eritema e edema das orelhas. Estes efeitos são extremamente dependentes da dose e são reversíveis. A
nefropatia, hepatopatologia e hipertensão observadas
em humanos não têm sido registadas em cães, excepto
com doses >20mg/kg.
A imunossupressão é uma preocupação potencial. Em
particular, a inibição da imunidade de mediação celular
pode resultar em infecções de bactérias e protozoários,
dermatofitose e demodecose. Contudo, na prática, o
risco parece ser muito pequeno e a maioria dos cães
atópicos sofrem menos infecções secundárias, do que
seria de esperar, durante o tratamento. Os pacientes
felinos e humanos em tratamento a longo prazo,
apresentam um pequeno risco de desenvolverem
36 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
O tacrolimus tem um mecanismo de acção semelhante
ao da ciclosporina. Em dois ensaios, a utilização de
um unguento de tacrolimus a 0,1% conduziu a uma
melhoria na ordem dos 50%, em 70-75% dos cães
atópicos com lesões localizadas (12, 13). Os níveis
plasmáticos permaneceram constantemente baixos
e não se observaram efeitos adversos, senão o apenas
ligeiro auto-trauma imediatamente após a aplicação.
Phytopica™
A Phytopica™ consiste num composto derivado da
Rehmannia glutinosa, Paeonia lactifora e Glycyrrhiza
uralensis que quando utilizada num estudo preliminar,
melhorou a DA canina (14). Num recente ensaio
aleatório, duplo-cego e controlado por placebo com
120 cães, a aplicação de Phytopica™ (200mg/kg/dia)
demonstrou ser um tratamento não-esteróide eficaz,
seguro e palatável para a DA canina. Contudo, o efeito foi
modesto, com a maioria dos cães a atingir uma melhoria
de 20-50% dos sinais clínicos (15). As respostas são
tipicamente visíveis ao fim de quatro semanas (Figura 4).
Os efeitos adversos traduzem-se por distúrbios gastrointestinais auto-limitantes, como diarreia e vómito.
ABORDAGEM DA DERMATITE ATÓPICA
Representa um melhor perfil de segurança do que os
que têm sido descritos com outras terapêuticas antiinflamatórias (16).
Glucocorticóides
Os corticosteróides, sintetizados no córtex da adrenal,
possuem actividade glucocorticóide (anti-inflamatório e
gluconeogénico) e mineralocorticóide (equilíbrio ácidobase e hídrico). Os glucocorticóides são, em simultâneo,
as drogas mais utilizadas e mais abusadas na dermatologia veterinária. São económicos, fáceis de administrar e
de elevada eficácia, mas estão associados a uma enorme
abundância de efeitos colaterais (17,18). Em doses
farmacológicas inibem a expressão de genes que
codificam uma variedade de moléculas envolvidas na
imunidade e na inflamação, resultando numa rápida e
profunda imunossupressão e diminuição da inflamação.
A maioria das doses citadas dizem respeito à prednisolona (Tabela 1); a dose para os outros esteróides é
calculada de acordo com a sua potência relativa. Os
esteróides variam, igualmente, na sua actividade
mineralocorticóide e duração de actividade, mas essa
supressão sobre o eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal
(HPA) pode permanecer mais tempo do que o efeito
terapêutico. Apenas a prednisolona e a metilprednisolona são adequadas para tratamento a longo-prazo e em
dias alternados, uma vez que a duração da sua
actividade implica uma recuperação do eixo HPA de pelo
menos 12 horas. A formulação tem também impacto: os
ésteres solúveis (como os succinatos e os fosfatos) têm
uma actuação e uma duração de acção rápidas; os
acetatos possuem um tempo de actuação e duração
moderados; os acetonidos e dipropionatos são preparações depósito de longa duração.
Os glucocorticóides são extremamente eficazes na DA
canina, mas devem ser utilizados com precaução e,
idealmente, como último recurso. A exploração de
abordagens alternativas permite minimizar a dose e a
frequência necessárias. Porém, a DA sazonal que requer
3 a 4 meses de tratamento a cada ano, pode ser
normalmente controlada com sucesso resultando em
poucos problemas. Podem ser administrados como
programas rápidos (0.5-1.0mg/kg SID durante 3-5dias)
no tratamento de recidivas inflamatórias em cães bem
controlados com outra terapêutica.
O tratamento tópico direcciona os esteróides para a pele
afectada e evita a necessidade de tratamento sistémico.
Os glucocorticóides tópicos podem ser utilizados quando
a inflamação se restringe a zonas de pele relativamente
nuas, dermatites piotraumáticas (‘’hot-spots’’) ou nas
orelhas e nos olhos. Podem ser utilizados produtos mais
potentes contendo betametasona, etc. inicialmente uma
ou duas vezes ao dia, mas a hidrocortisona é
preferível a longo-prazo em dias alternados. O
Fuciderm® (contém betametasona) é uma boa escolha,
uma vez que a formulação em gel permite uma rápida
penetração e secagem.
A terapêutica sistémica é necessária no caso de lesões
mais severas ou dispersas. É administrada prednisolona
na dose 0.5-1.0mg/kg SID até à remissão dos sintomas.
Pode depois ser reduzida para a mesma dose em dias
alternados (dia sim, dia não) e depois reduzir a dose em
50% a cada 7 a 14 dias decorridos, até estabelecer a dose
mínima de manutenção; ou retirar gradualmente as
doses dos dias alternados até estabelecer a dose mínima.
As únicas drogas adequadas para tratamento a longo
prazo são a prednisolona e a metilprednisolona, porém a
Tabela 1.
Potências relativas dos agentes glucocorticóides de utilização frequente
Esteróide
Dose relativa à
prednisolona
Efeito mineralocorticóide
relativo à prednisolona
Actividade (horas)
Tratamento em
alternância de dias
Prednisolona
1
1
12-36
Sim
Metilprednisolona
0.8
Mínimo
12-36
Sim
Hidrocortisona
4
1.25
8-12
Não
Cortisona
5
1
8-12
Não
Triamcinolona
0.8
Nenhum
24-48
Não
Dexametasona
0.13
Nenhum
36-72
Não
Betametasona
0.13
Nenhum
36-72
Não
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 37
triamcinolona, betametasona e dexametasona podem
ser utilizadas para conseguir a remissão em casos
severos. As preparações injectáveis não devem ser
utilizadas, excepto se absolutamente necessárias, uma
vez que não podem ser retiradas, a dose não pode ser
alterada, nem o eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal
(HPA) pode recuperar.
Os glucocorticóides suprimem as reacções dos testes
alergénicos intra-dérmicos, embora o efeito na
serologia se acredite ser menos marcado. Actualmente,
recomenda-se que sejam retirados antes do teste alérgico
os glucocorticóides tópicos até pelo menos duas
semanas, os glucocorticóides orais de acção rápida até
no mínimo três semanas e os glucocorticóides injectáveis
de longa duração até seis semanas no mínimo. Os cães
com tratamento a longo prazo ou com hiperadrenocorticismo iatrogénico podem requerer tempos de
suspensão superiores (Figura 5). Os glucocorticóides
são frequentemente administrados com o intuito de
controlar a inflamação durante a fase de indução da
imunoterapia. O que não parece afectar a taxa de
resposta, embora não hajam estudos controlados.
Os efeitos adversos resultam da actividade glucocorticóide e mineralocorticóide, bem como da supressão
do eixo HPA e da produção endógena de esteróides. Os
efeitos colaterais mais frequentes incluem poliúria e
polidipsia. O risco do desenvolvimento destes problemas
pode ser reduzido através da metilprednisolona, que
apresenta actividade mineralocorticóide muito menor.
Outros efeitos secundários agudos incluem polifagia e
aumento de peso (o qual pode ser controlado através
duma dieta hipocalórica), polipneia e alterações
comportamentais (incluindo apatia e, raramente,
agressão). O estabelecimento de hiperadrenocorticismo
a
iatrogénico depende da dose e da duração, mas há uma
enorme variação de tolerância entre indivíduos. A
imunossupressão e as infecções secundárias são muito
comuns no tratamento a longo prazo. A inibição da
imunidade por mediação celular pode resultar em
demodecose, dermatofitose e infecções por organismos
intracelulares. A imunossupressão e as alterações na
função da barreira cutânea resultam frequentemente em
pioderma superficial. A produção de urina diluída é um
factor que contribui para a cistite.
Algumas destas infecções podem ser clinicamente
inaparentes, uma vez que o tratamento com esteróides
pode mascarar alguma da inflamação associada e sinais
clínicos característicos, como prurido ou disúria. Sendo
que a imunidade humoral é menos afectada, os animais
podem desenvolver títulos adequados de anticorpos na
sequência da vacinação. Por esta razão, o tratamento a
curto prazo pode ser utilizado para controlar os sinais
clínicos, caso a ciclosporina tenha de ser suspendida
devido à vacinação de rotina.
Aceponato de hidrocortisona
O aceponato de hidrocortisona é um novo glucocorticóide diéster tópico para o tratamento de prurido
em cães. Os glucocorticóides diésteres ultrapassam
muitos dos efeitos adversos tradicionalmente associados
ao tratamento com glucocorticóides sistémicos ou
tópicos. São rapidamente absorvidos e exercem efeitos
anti-inflamatórios potentes na epiderme e na derme
superficial. O metabolismo da derme garante, contudo,
que muito pouco composto activo atinja os tecidos mais
profundos e a circulação, minimizando o adelgaçamento
da pele e os efeitos sistémicos. A formulação tópica
facilita cada vez mais a administração tópica. O volume
reduzido da dose, o tamanho muito pequeno da gota e o
b
Figura 5a e 5b. Hiperadrenocorticismo iatrogénico na sequência de prednisolona sistémica (a) e betametasona tópica (b).
38 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
ABORDAGEM DA DERMATITE ATÓPICA
veículo volátil ajudam a garantir a aplicação rápida e
fácil, a penetração mesmo na pele com pêlos e secagem
rápida com efeitos secundários cutâneos mínimos. O
spray está formulado de modo a que dois sprays a 10cm
de distância penetrem a pelagem e exerçam efeito
terapêutico numa área de 10 x 10cm (i.e. área de pele do
tamanho de um palmo).
Estudo precoces (não publicados) demonstraram boa
eficácia e segurança no tratamento a curto prazo de
várias afecções pruríticas no cão, incluindo dermatite
piotraumática e dermatite alérgica à picada da pulga.
Um estudo piloto aberto e as evidências preliminares
dum estudo aleatório, duplo-cego, controlado por
placebo descobriram que Cortavance® foi eficaz e bem
tolerado no controlo da DA canina. Um cão sofreu
reacção de contacto, mas não se notaram efeitos
adversos. Uma administração diária foi suficiente
para induzir remissão, após a qual, uma proporção
de cães pode ser mantido em tratamento em dias
alternados. Contudo, a administração duas vezes por
semana resultou em recidiva, na maioria dos cães.
Anti-histamínicos
Uma revisão alargada de ensaios clínicos (16) concluiu
que não existe mais do que a evidência duma eficácia
média para os anti-histamínicos de primeira-geração
clemastina e uma combinação de clorfeniramina e
hidroxizina, e a droga de segunda-geração (não sedativa)
oxatomida. Pode, no entanto, existir alguma actividade
sinérgica com os AGE e os glucocorticóides. Os efeitos
adversos das drogas de primeira-geração são pouco
frequentes e estão, geralmente, relacionados com
sonolência. Os efeitos adversos das drogas de segundageração são mais frequentes e incluem distúrbios do
tracto gastrointestinal e arritmias cardíacas.
Outras opções terapêuticas
Os inibidores da fosfosdiesterase melhoram a circulação
sanguínea e a oxigenação periféricas e são imunomoduladoras. Há clara evidência da eficácia média da
pentoxifilina (10mg/kg, BID ou TID) e eficácia média a
alta da arofilina (1mg/kg BID) (16). A arofilina causou
vómito frequente, mas não foram registados nenhuns
efeitos secundários com a pentoxifilina.
O misoprostol é uma prostaglandina E1 análoga que
inibe a activação dos basófilos, mastócitos e eosinófilos,
contornando a fase tardia das reacções inflamatórias.
Dois estudos forneceram evidência de eficácia média na
DA canina a 6-10µg/kg TID (16). O misoprostol foi bem
tolerado com apenas sinais gastrointestinais menores.
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Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 39
PONTO DE VISTA ROYAL CANIN
Nutrição, saúde da pele
e qualidade da pelagem
Fabienne Dethioux, DVM, MRCVS
Centro de Investigação Royal Canin,
Aimargues, França
A Drª Fabienne Dethioux licenciou-se em 1983 na
Universidade de Liège na Bélgica. Em 1984 iniciou a
sua própria clínica veterinária na Bretanha onde
exerceu durante 12 anos. Em 1996, a Drª Fabienne
Dethioux partiu para a Inglaterra onde se tornou
Directora Clínica de uma Associação de clínicos.
Trabalhou depois como consultora independente
enquanto se ocupava das emergências num hospital
veterinário próximo de Windsor. Desde 1991,
trabalhou como jornalista para diversos jornais
veterinários Franceses e Ingleses e traduziu muitos
artigos, livros e CD-Roms. Em 2003, integrou a equipa
de comunicação científica da Royal Canin. O seu
principal tema de interesse é a Dermatologia.
Introdução
A pelagem dum animal é o verdadeiro reflexo do
equilíbio alimentar e do seu estado de saúde: quaisquer
deficiências ou excessos terão, mais tarde ou mais cedo,
consequências na aparência da pelagem. De facto,
ouvimos muitas vezes as pessoas comentar: ‘pode
dizer-se que é um cão saudável pela sua bela pelagem’,
como resultado da sabedoria popular que faz o elo
directo entre o estado geral de saúde do animal e o
aspecto da sua pelagem. Qualquer que seja o critério
para avaliar a beleza do pêlo (brilho, suavidade,
40 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
flexibilidade, oleosidade, etc.), a nutrição ajuda a
manter as suas qualidades naturais, que são parte da
herança genética do animal.
Para além de fornecer de modo fisiológico as necessidades nutricionais relacionadas com o metabolismo
cutâneo, a nutrição ajuda também a melhorar as defesas
cutâneas contra as agressões externas e a restringir
quaisquer processos inflamatórios, em determinadas
patologias.
Manutenção das qualidades naturais
da pelagem
Actualmente, as deficiências nutricionais estão raramente relacionadas com dermatoses. Esta é uma
das vantagens da generalização de alimentos para
animais produzidos de modo comercial e nutricionalmente equilibrados. Contudo, um desequilíbrio
alimentar relacionado com a qualidade insuficiente
dos ingredientes utilizados pode ainda, por vezes,
ser responsável por determinadas deficiências em
aminoácidos essenciais ou ácidos gordos essenciais.
Crescimento do pêlo
Função da proteína
Cada pêlo, individualmente, é composto por cerca de
90% de proteínas: uma deficiência em proteínas ou uma
deficiência em determinados aminoácidos pode acelerar
a perda de pêlo, retardar o crescimento e conduzir a pêlo
frágil e pelagem baça. Tem sido alegado que os processos
metabólicos responsáveis pela síntese das proteínas
necessárias para o crescimento piloso e a renovação
celular podem atingir os 30% das necessidades proteicas
diárias de um cão adulto (1). As proteínas mais críticas
são as que fornecem maior quantidade de aminoácidos
sulfurados (metionina, cisteína) que são vitais para
a síntese de pêlo, e a principal proteína da pele, a
queratina. Estes aminoácidos são abundantes nas fontes
proteicas de origem animal e, raramente, estão ausentes
dos alimentos de cães e de gatos, com excepção dos
Fenilalanina
Tirosina
É igualmente importante ter em atenção a qualidade
da proteína: primeiro, devido ao seu valor biológico,
que está relacionado com uma ingestão suficiente
de aminoácidos essenciais, e depois, devido à sua
digestibilidade, da qual o animal depende para os seus
benefícos nutricionais actuais.
Feomelanina
Função dos oligoelementos
Se forem adicionados numa forma orgânica (i.e.
quelados com aminoácidos) a absorção de minerais é
significativamente melhorada. Assim, no caso de uma
refeição contendo excesso de cálcio, que inibe a absorção de zinco, aumentam as perdas de zinco pelas
fezes. Contudo, se o zinco se encontra na sua forma
quelada, a assimilação permanece inalterada (2).
Tirosinase
Dopaquinona
Cobre
Eumelanina
Os gatos albinos sofrem duma deficiência de
tirosinase, o que explica a falta de melanina.
Figura 1. Métodos de síntese de melanina através da fenilalanina.
© Encyclopedia of Canine Clinical Nutrition, Royal Canin.
Os oligoelementos são substâncias que actuam em
concentrações muito baixas no organismo. Os mais
directamente relacionados com as sínteses cutâneas
são: o ferro, o zinco, o cobre e o iodo. A quantidade
de oligoelementos adicionada à alimentação não
corresponde à quantidade verdadeiramente disponível
para o corpo. A taxa de absorção dos oligoelementos,
frequentemente abaixo de 30%, depende do ambiente
alimentar, uma vez que ocorrem interações entre os
diferentes elementos: por exemplo, a absorção de cálcio
compete com a absorção de zinco, cobre e iodo.
Dopa
a
Síntese dos pigmentos do pêlo
A cor do pêlo é o resultado duma acumulação de
pigmentos designados por melanina no córtex piloso.
Estes pigmentos são produzidos pelos melanócitos,
que se desenvolvem durante a vida do embrião. Estão
presentes na epiderme e na base do pêlo, próximo da
papila dérmica. Os melanócitos produzem dois tipos
de pigmentos:
- eumelanina, uma família de pigmentos cuja cor varia
entre preto a castanho;
- feomelanina, variando de amarelo a vermelho.
A melanogénese envolve diferentes aminoácidos: a
fenilalanina e a tirosina são precursores da melanina
(Figura 1). A cisteína é necessária para a produção de
feomelanina (3).
Um aporte insuficiente de tirosina resulta na alteração
da cor: um gato preto adquire reflexos vermelhos e os
© Encyclopedia of Canine Clinical Nutrition, Royal Canin.
alimentos vegetarianos não suplementados. O cão
parece ser menos susceptível a estas deficiências do
que o gato.
b
Figura 2a e 2b. Influência do nível de tirosina alimentar na
intensidade da cor numa pelagem preta.
a. Uma dieta que não contém quantidade suficiente de tirosina
e/ou fenilalanina para garantir uma síntese óptima de melanina
torna a cor do pêlo avermelhada em gatos de pelagem preta.
b. Estes cães consumiram a mesma alimentação durante 6 meses,
na qual apenas variaram os níveis de tirosina e de fenilalanina
(Tyr+Phe). Da esquerda para a direita, o nível (Tyr+Phe) é
equivalente a 3.2vezes, 2.6vezes e 1.9vezes as necessidades
estimadas pela AAFCO para o crescimento. O impacto da dieta
é visível; existe uma intensidade preta marcada no animal da
esquerda, enquanto que no da direita, o pêlo que agora cresce
na zona tosquiada, apresenta-se com uma coloração avermelhada.
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 41
PONTO DE VISTA ROYAL CANIN
gatos ruivos tornam-se mais claros (4,5) (Figura 2a). O
mesmo fenómeno é observado em cães (6) (Figura 2b).
pelagem brilhante (8). Uma deficiência resulta em
pele seca e uma pelagem oleosa ao toque.
O cobre é um factor vital que contribui para a estimulação de tirosinase, a enzima chave na síntese da melanina. A cor da pelagem requere, deste modo, a presença
de cobre em quantidades suficientes para se manifestar.
Minimizar o conteúdo em gordura de um alimento,
na tentativa de prevenir ou tratar a obesidade, não
deve significar a privação do animal de ácidos
gordos essenciais, os quais o organismo é incapaz de
sintetizar. A sua acção é processa-se em três níveis:
recuperam o equilíbrio da composição do filme lipídico
superficial, minimizando deste modo a desidratação
da pele, desempenham uma função estrutural nas
membranas celulares e modelam a síntese de mediadores inflamatórios.
Qualidade do sebo
O brilho da pelagem de um animal está relacionado
com a composição do sebo, sendo o sebo uma mistura
variável de ceras e lípidos segregados pelas glândulas
sebáceas. O sebo actua, também, na prevenção do
emaranhamento dos pêlos, ao facilitar a eliminação das
escamas e tornar os componentes do pêlo mais
flexíveis e elásticos. Contribui, igualmente, para a
barreira epidérmica.
Função dos ácidos gordos essenciais
© Encyclopedia of Canine Clinical Nutrition, Royal Canin.
Os lípidos que integram a composição do sebo são
específicos das raças e das espécies, mas a produção e a
qualidade do sebo são influenciadas pela dieta (7).
Determinados nutrientes ajudam a melhorar significativamente a beleza da pelagem do cão. Este é
notavelmente o caso dos ácidos gordos polinsaturados
(PUFA – polynsaturated fatty acids) da série ómega 6,
que existem em abundância nos óleos vegetais, e dos
quais é precursor o ácido linoleico (Figura 3). Estes
ácidos gordos são fulcrais para a manutenção de uma
pele elástica e para a eficácia das defesas contra as
agressões externas. O ácido linoleico em sinergia com o
zinco e o ácido gama-linolénico (GLA) promove uma
O equilíbrio correcto de PUFAs é obtido através da
combinação de gorduras animais (por exemplo,
aves), óleos de peixe e óleos vegetais (borragem e
soja). A sua vulnerabilidade para a oxidação obrigou
os fabricantes a monitorizar cuidadosamenre as
fontes de PUFAs e a sua resistência à oxidação, bem
como a melhorar os níveis de vitamina E na dieta de
modo a protegê-los da agressão natural causada pelos
radicais livres.
Função da vitamina A
A vitamina A (ou retinol) é uma vitamina lipossolúvel,
que ajuda a regular a produção de sebo, apresenta uma
enorme influência na queratinização e reduz a produção
de escamas. É adjuvante no combate à seborreia e na
descamação cutânea que frequentemente se forma após
o acto de coçar (prurido). Actua em sinergia com o zinco
e os aminoácidos sulfurados.
ÁCIDOS GORDOS ÓMEGA 6
ÁCIDOS GORDOS ÓMEGA 3
Ácido linoleico C18:2 (n-6)
Ácido α-linolénico C18:3 (n-3)
Ácido γ-linolénico C18:3 (n-6)
Ácido eicosatetraenóico C20:4 (n-3)
Ácido dihomo γ-linolénico C20:3 (n-6)
Ácido eicopentaenóico (EPA) C20:5 (n-3)
Ácido araquidónico C20:4 (n-6)
Ácido docosahexaenóico (DHA) C22:6 (n-3)
Figura 3. Síntese hepática de ácidos gordos de cadeia longa ómega 3 e ómega 6 a partir dos seus respectivos precursores.
42 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
NUTRIÇÃO, SAÚDE DA PELE E QUALIDADE DA PELAGEM
500microns
25microns
Célula
(queratinócito)
Lípidos intercelulares
As setas demonstram que
para uma molécula de
água escapar através da
pele, o trajecto em volta
das escamas é muito mais
longo do que o trajecto
directo, caso este existisse.
© Encyclopedia of Canine Clinical Nutrition, Royal Canin.
Epiderme
exterior
© P. Prélaud
A barreira cutânea é composta por células sobrepostas
contidas nas camadas lipídicas (ceramidas, ácidos gordos,
colesterol), que inibe a perda excessiva de água e previne a
entrada de agentes infecciosos e alergénios no organismo.
Figura 5. A importância dos lípidos intercelulares para a função
de barreira cutânea.
Figura 4. Lesões escamosas formando placas aderentes num
Coker Spaniel com dermatite responsiva à vitamina A.
A dermatose responsiva à vitamina A é uma afecção
rara observada exclusivamente no Cocker Spaniel
(Figura 4). Os cães afectados apresentam uma pelagem
baça, crostas espessas e cheiro nauseabundo. A pelagem
apresenta-se oleosa, existe prurido e é frequente a otite
externa. O exame histopatológico das amostras de
biopsia revela hiperqueratose folicular exuberante. De
um modo geral, esta afecção responde favoravelmente
em poucas semanas a um tatamento por via oral
contendo elevados níveis de vitamina A.
Estudos recentes demonstram que em cães atópicos, a
barreira cutânea é deficiente (9). Se esta evidência é
análoga ou não à deficiência total ou parcial de filagrina
que se verifica nos humanos é algo ainda desconhecido. O que se sabe é que a pele afectada possui um
componente lipídico inadequado organizado entre
as células (Figura 5). Como resultado, a pele não
pode funcionar como uma barreira adequada e a água
atravessa para o exterior enquanto que os micróbios e os
alergénios atravessam mais facilmente para o interior.
A função do Complexo ‘’Skin Barrier’’
TM
A causa desta afecção é desconhecida, uma vez que cães
que estão afectados não sofrem na maioria dos casos
de carência alimentar em vitamina A.
Reforço da eficácia da barreira cutânea
Os lípidos intercelulares da epiderme, maioritariamente compostos por ceramidas, desempenham
um papel fundamental na função da barreira cutânea.
O estrato córneo canino apresenta uma espessura média
de alguns 25microns. Estes lípidos e esta barreira celular
não servem apenas para manter a hidratação ao limitar
as perdas de água transepidérmicas, mas ajudam igualmente a proteger o organismo de químicos, alergénios e
micróbios.
A nutrição ajuda a melhorar a produção de ceramidas e,
assim, a reforçar a função de barreira cutânea. Foram
minuciosamente estudadas, pelo Centro de Investigação
da Waltham, vinte e sete substâncias passíveis de
apresentarem efeito benéfico sobre a função de barreira
cutânea. Os critérios de selecção basearam-se na
minimização das perdas de água transepidérmicas e na
síntese de lípidos cutâneos (10).
Foram finalmente escolhidos quatro vitaminas do
complexo B e um aminoácido para a patente do complexo
(Skin BarrierTM) (Tabela 1). O efeito benéfico da administração deste complexo a cães pode ser observado ao
fim de, aproximadamente, 2 meses (11).
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 43
PONTO DE VISTA ROYAL CANIN
Tabela 1.
Composição do complexo Skin BarrierTM
• Niacina (ou nicotinamida) é sintetizada a partir do
triptofano, no cão. Em casos de deficiência, causa dermatite
pruriginosa no abdómen e nos membros posteriores do cão.
• O ácido pantoténico está envolvido como uma co-enzima
em inúmeras vias de síntese, para além da síntese dos ácidos
gordos.
• A colina e o inositol trabalham em sequência e
desempenham a função de construção de membranas
celulares. A colina forma fosfolípidos quando combinada
com o fósforo.
• A histidina é vital para o crescimento e maturação das
células epidérmicas.
Tabela 2.
Principais vitaminas hidrossolúveis do grupo B
Tiamina
B1
Riboflavina
B2
Ácido patoténico
(B5)*
Piridoxina
B6
Biotina
(B8)* ou H
Ácido fólico
(B9)*
Cobalamina
B12
Niacina
PP
Colina
*Abreviatura por vezes utilizada.
Outras vitaminas do grupo B
As vitaminas do grupo B constituem um família muito
ampla de vitaminas hidrossolúveis (Tabela 2). Muito
poucas são armazenadas pelo corpo sendo necessário um
consumo regular. Em geral, uma alimentação equilibrada
e uma flora bacteriana intestinal saudável garantem um
aporte suficiente. O efeito pode, contudo, ser reduzido
em casos de enterite severa ou crónica ou em casos de
antibioterapia por períodos prolongados de tempo.
Todas as vitaminas do grupo B ajudam, em diferentes
níveis, a aumentar o lustro da pelagem do animal. Por
exemplo, a biotina é essencial para a integridade da
pele. Do mesmo modo, o ácido fólico é necessário
para a produção de sub-unidades de ADN. Dada a
multiplicação celular intensa nos folículos pilosos, um
aporte insuficiente de ácido fólico conduz a uma perda
de pêlo anormal. As leveduras de cerveja constituem
uma fonte natural de vitamina B.
Ácido gama-linolénico (GLA)
O GLA é essencial para a produção de precursores na
cascata de biossíntese progressiva de ácidos gordos
ómega-6 que resultam na síntese de moléculas antiinflamatórias. Uma vez que os gatos são relativamente
deficientes numa enzima particular, a delta-6 desaturase, cuja actividade consiste em converter o ácido
linoleico em GLA, é importante introduzir uma fonte de
GLA na sua dieta. O óleo de borragem é o único óleo que
contém mais de 20% de GLA. A suplementação com
óleo de borragem demonstrou ter aliviado alguma da
inflamação associada às dermatites alérgicas (12).
A eficácia do óleo de borragem é ainda melhorada
quando é utilizado em combinação com óleos de peixe
(13). Estes são fontes concentradas de EPA e de DHA,
cujas propriedades inflamatórias são largamente
utilizadas na dermatologia humana e veterinária.
Ácidos gordos ómega 3 de cadeia longa
Modulação da actividade inflamatória e
minimização das suas consequências
A inflamação e a automutilação subsequente podem
danificar a integridade da epiderme e deteriorar a sua
função de barreira, destacada anteriormente. De modo
a influenciar este processo, as dietas com indicação
dermatológica devem fornecer nutrientes que inibam
a síntese do ácido araquidónico e dos seus derivados
eicosanóides, os quais são responsáveis pelas manifestações inflamatórias. Entre estes merecem menção dois
tipos de ácidos gordos (Figura 3):
- Ácido gama-linolénico (GLA), da série ómega 6;
- Ácidos gordos de cadeia longa ómega 3: ácido
eicosapentaenóico (EPA) e ácido docosahexaenóico
(DHA).
44 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
O valor do EPA e do DHA é explorado na abordagem da
dermatite atópica e em gatos, nos casos de dermatite
miliar felina (14).
Após suplementação oral, a sua presença é detectada na
pele (15). A suplementação ajuda a reduzir o prurido e
melhora o índice clínico de cães atópicos (16). Outro
estudo demonstrou que a administração de EPA/DHA
ajuda a reduzir os níveis de corticóides necessários para
o tratamento de cães atópicos (17). Contudo, a resposta
clínica não depende do rácio ómega 6/ómega 3;
contrariamente ao que por vezes se alega (18).
As propriedades anti-inflamatórias dos ácidos gordos
ómega 3 podem aumentar as preocupações quanto à sua
NUTRIÇÃO, SAÚDE DA PELE E QUALIDADE DA PELAGEM
capacidade de inibição da cicatrização de feridas,
não sendo este o caso (19).
Prevenir reacções alimentares indesejáveis
O termo geral ‘’reacção cutânea adversa ao alimento’’
utilizado em textos ingleses refere-se aos sintomas
cutâneos seguidos da ingestão dum alimento (ou dum
aditivo alimentar, embora estes casos sejam muito
raramente descritos na Medicina Veterinária).
Definição de uma alergia alimentar
O termo ‘’alergia alimentar’’ deve estar reservado
para as reacções alimentares mediadas pela imunidade, enquanto que ‘’intolerância’’ alimentar se refere
a uma resposta anormal à ingestão dum alimento, que
não é imunológica (20) (Figura 6). Os alergénios
alimentares são glicoproteínas hidrossolúveis com um
peso molecular entre 10,000 e 60,000 daltons. São
estáveis, excepto ao calor, ao tratamento com ácidos
e à actividade proteásica. Qualquer fonte proteica
actualmente presente nos alimentos de cães e de
gatos (vaca, ave, peixe, ovo, leite, soja, etc.) pode
conter alergénios.
Soluções nutricionais para os alergénios
alimentares
A única forma fidedigna para excluir um componente
alimentar numa reacção cutânea é colocar o animal
numa dieta de eliminação. Embora alguns especialistas
estipulassem que o diagnóstico se deveria basear numa
alimentação de preparação caseira. Esta consistia
numa fonte única de proteína e numa fonte única de
carbohidratos, nenhuma das duas jamais ingeridas
pelo animal (21). Actualmente, muitos especialistas
aceitam que esta abordagem tem muitos obstáculos:
antecedentes nutricionais do animal que nem sempre
são conhecidos, dificuldade na obtenção de uma dieta
equilibrada, falta de palatabilidade, constrangimentos
de tempo para o dono do animal, etc. Os alimentos
comerciais completos constituem, assim, uma solução
amplamente preferível.
A escolha faz-se entre alimentos baseados em proteínas
raramente encontradas na alimentação de cães e gatos, e
em dietas baseadas em proteínas hidrolisadas. Neste
último caso, as proteínas são quebradas em pequenos
polipéptidos, que não activam uma reacção/intolerância
Hipersensibilidade
Hipersensibilidade
alérgica (mecanismo
imunológico determinado
ou fortemente suspeitado)
IgE mediado
Hipersensibilidade não
alérgica (mecanismo
imunológico excluído)
Não IgE mediado
Intolerância
alimentar
Atopia
Sem atopia
Picada de
insecto
Helmintes
Indiscrição
alimentar
Células T; ex: dermatite
de contacto
Eosinófilos; ex:
gastroenteropatia
Envenenamento
Idiossincrático
Reacção
farmacológica
Medicação
Outros
Figura 6. Classificação das reacções de hipersensibilidade definidas pela Academia Europeia de Alergia e Imunologia Clínica
(EAACI – European Academy of Allergy and Clinical Immunology).
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 45
NUTRIÇÃO, SAÚDE DA PELE E QUALIDADE DA PELAGEM
alérgica, uma vez que os epitopos não são reconhecidos.
Cães experimentalmente sensibilizados a uma proteína
(soja) não apresentaram reacção quando ingeriram a
mesma fonte proteica hidrolisada (22).
Uma dieta de eliminação deve ser administrada durante
6 semanas no mínimo e, por vezes, até 12 semanas de
modo a atingir a remissão dos sintomas. O desafio
subsequente com alimentos prévios (e recompensas do
tipo biscoitos, etc.) deve resultar no relapso dos sinais
clínicos algures entre algumas horas a 2 semanas mais
tarde. O regresso a uma dieta de eliminação resulta
novamente na resolução dos sinais clínicos e demonstra
que a melhoria não foi apenas uma coincidência ou o
resultado de uma alteração sazonal na exposição ao
alergénio.
Embora muitos donos de animais sejam relutantes à
realização desta dieta de provocação, o conhecimento
dos alergénios envolvidos na alergia permitirá ampliar
as opções de escolha de alimentos que serão tolerados a
longo prazo. A dieta de eliminação pode ser administrada a longo termo, apesar desta ser geralmente uma
opção mais dispendiosa. No caso de alimentos
preparados em casa, é preferível consultar um veterinário com conhecimentos em nutrição, de modo a
garantir uma dieta completa e equilibrada.
Conclusão
A dieta desempenha uma função primordial no tratamento de muitos casos de dermatites. Em dermatologia,
um exame ao animal deve assim incluir informações
rigorosas acerca do alimento administrado. A correcção
de quaisquer desequilíbrios alimentares (especialmente
em relação aos ácidos gordos essenciais) é um factor da
maior importância na abordagem terapêutica dum caso
de dermatite.
O tratamento de muitos casos de dermatite inclui a
utilização de nutrientes que reforçam a barreira cutânea
ou regulam o sistema imunitário ao actuarem como
agentes anti-inflamatórios ou imunoestimulantes.
No futuro, os avanços no conhecimento nutricional
atribuirão indubitavelmente uma função cada vez mais
importante à dieta, quer seja na prevenção, como na
terapêutica das afecções cutâneas.
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GUIA DESTACÁVEL
Interpretar lesões
cutâneas primárias
Por Richard Harvey
N
a maioria dos casos, os cães não surgem no
veterinário nas fases iniciais de doença de
pele. Mais frequentemente, a doença já está
presente durante algum tempo. Assim, os efeitos da
auto-mutilação e a natureza da evolução da doença,
resulta em lesões secundárias como crostas e
escamas, alopecia e auto-traumatização. Considerando
o Cocker Spaniel na Figura 1a, este cão apresentava
uma história de 6 meses de dermatite progressiva
com prurido moderado. Na consulta, os sinais mais
óbvios eram a quase total alopecia e crostas – ambas
lesões secundárias e de pouca ajuda diagnóstica.
Contudo, a investigação cuidadosa, revelou a
existência de algumas pústulas, como na Figura 1b.
Estas pústulas eram lesões primárias de dermatite,
neste caso, uma erupção causada por medicamento.
Nalguns casos, o padrão das lesões secundárias pode
sugerir um diagnóstico, apesar de não ser propriamente de valor diagnóstico definitivo. Neste sentido, as
escoriações bilaterais no Rotweiller da Figura 2 foram
consequência de hipersensibilidade por picada de
pulga.
hiperadrenocorticismo. As máculas podem preceder
as pápulas em casos de pioderma. Em cães atópicos
podem ser encontradas máculas eritematosas nas virilhas ou nos espaços interdigitais palmares e plantares.
Pápulas
As pápulas definem-se como pequenas elevações
sólidas palpáveis e discretas na superfície da pele
(Figura 4a). Algumas pápulas podem ser neoplásicas
(Figura 4b). Mais frequentemente, e em particular nas
virilhas, precedem as pústulas. As pápulas crostosas
podem seguir as vesículas ou as pústulas. No cão com
pioderma superficial, as pápulas crostosas ultrapassam
numericamente as pústulas. O pioderma superficial
é raro no gato e, nesta espécie, a causa subjacente mais
comum de dermatite papular incrustada é a hipersensibilidade à picada da pulga (Figura 5).
Nódulo
Elevação sólida bem definida (Figura 6), superior a 1cm
de diâmetro. Os nódulos estão tipicamente, embora não
de modo exclusivo, associados a neoplasia.
Pústula
Lesões primárias
Máculas
Áreas de descoloração da pele, com menos de 1cm
de diâmetro. São tipicamente eritematosas, embora
possam ser hiperpigmentadas. A Figura 3 mostra
máculas eritematosas convergentes num cão com
Definida como uma pequena elevação bem definida
contendo uma acumulação de pús. As pústulas
(Figura 7) são as lesões primordiais do pioderma
superficial, (apesar de frequentemente superadas em
número por pápulas e pápulas crostosas) (Figura 8) e
colaretes epidérmicos (Figura 9). As pústulas são
Figura 2. Crostas
mais ou menos
simétricas e alopecia
linear num Rotweiller
com hipersensibilidade
à picada da pulga.
a
b
Figura 1a e 1b. Alopecia quase total e crostas num Cocker Spaniel com história
pregressa de 6 meses. O exame cuidadoso do animal revelou a existência de
algumas pústulas (Figura 1b).
Vol 18 No 1 / / 2008 / / Veterinary Focus / / 47
INTERPRETAR LESÕES CUTÂNEAS PRIMÁRIAS
também lesões primárias do pênfigus foliáceo mas
raramente são acompanhadas por colaretes epidérmicos
nesta afecção. As pústulas são igualmente encontradas
em associação com infecção secundária, como a
demodecose.
Erosão e úlcera
As erosões são consideradas como superficiais,
enquanto que as úlceras provocam erosão abaixo da
camada basal, expondo a derme. Os granulomas acrais
(Figura 11) apresentam-se como erosões características
do membro distal.
Comedões
Os comedões (Figura 10) resultam da obstrução
do orifício folicular por detritos e material sebáceo. De
aspecto tipicamente negro, estão associados à acne felina,
demodecose e hiperadrenocorticismo, em particular.
Fístula
A fístula (Figura 12) é uma manifestação de uma infecção profunda que atravessou a camada basal, ou de uma
lesão dérmica (como a paniculite) que atravessou a pele.
LESÕES PRIMÁRIAS
Figura 3. Máculas eritematosas
na região dorsal do pescoço dum
cão com hiperadrenocorticismo.
Figura 5. Pápulas crostosas no
dorso dum gato, a apresentação
mais comum de hipersensibilidade à picada da pulga.
Figura 9. Colaretes epidérmicos,
tipicamente associados a
pioderma superficial.
48 / / Veterinary Focus / / Vol 18 No 1 / / 2008
Figura 4a. Pápula eritematosa na orelha dum
cão, neste caso, um tumor mastocitocitário.
Figura 6. Nódulo solitário que
é típico, embora não em
exclusivo, de um tumor.
Figura 4b. Pápulas eritematosas no ventre dum
cão com dermatite de contacto alérgica.
Figura 7. Pústula solitária, bem
formada. Geralmente associada
a infecção bacteriana. As
pústulas podem também seguirse à lesão por vegetação
pontiaguda ou serem as lesões
de doenças auto-imunes.
Figura 11. Erosão é uma lesão na
qual o epitélio é reduzido até à
camada basal, se mais profundo
trata-se de uma úlcera. Os
Figura 10. Comedões num
caso de hiperadrenocorticismo. granulomas acrais apresentam-se
frequentemente como erosões do
membro distal.
Figura 8. Pioderma superficial
num Pastor Alemão jovem que
se caracteriza por presença de
máculas e pápulas eritematosas,
algumas pústulas e pápulas
crostosas pós-inflamatórias.
Figura 12. A formação de
fístulas é frequentemente
um sinal de pioderma
profundo, paniculite,
infecção micobacteriana
atípica ou infecção fúngica
profunda.

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