açúcar - JM Madeira

Transcrição

açúcar - JM Madeira
À CONVERSA COM...
D'Alva, a banda de
que todos falam
P. 3
O VIAJANTE
Nápoles, pelo menos
uma vez na vida
Por Diogo Correia Pinto
P. 12
BOCA DOCE
16 perguntas
ao cantor Franco
açucar 19 | este suplemento não pode ser vendido separadamente do JM | ilustração capa - JM
P. 15
Entrevista a Ivan Lins
«Sou um romântico
e um sonhador»
a
2 | açúcar | SÁB 25 JUNHO 2016
ideias de quase nada
Voar com cedilha
As minhas explicações anglófonas CRÓNICA
não a convenciam.
Gonçalo T. Teixeira
Chamou a colega,
uma morena [email protected]
espanhola.
Mas aquilo não
era um “el”;
era um “o”.
Pela minha
insistência, a loura
bochechuda lá me
fez o favor de me
deixar depositar
a mala sem
pagar um tostão
mais.
Fui de imediato á uma década atrás manpara a primeira dei-me para Cardiff e por
barreira de lá andei durante três
Enquanto lá estive
segurança, onde anos.
a segurança nos aeroporme verificaram, tos britânicos era dracocom aturada niana, ou assim o faziam
Não deve ser muito
minúcia, o talão de crer.
mais leve agora, com os
embarque contra o sustos de atentados a
passaporte. apertar o medo a toda a
h
gente.
Numa viagem de regresso a Portugal, de férias,
escolhi o aeroporto de
Bristol para
levantar vôo com uma
conhecida companhia de
preços baixos. Estremunhado, depois de uma
viagem de comboio e autocarro para ali chegar,
dirigi-me ao balcão de
check-in. Não tinha
imprimido a passagem,
pelo que entreguei, sonolento, o meu passaporte à rosada loura que
me
recebia. Gonçalo Teixeira. Confirmou-me a reserva, mas olhou, desconfiada, para a minha
bagagem. Declarou-me
que o transporte a mala
que eu arrastava atrás
de mim não estava pago.
Engano, assegurei-lhe. O
nervoso miudinho ia-me
despertando devagar enquanto eu acordava o
meu computador. Ia
mostrar-lhe o meu bilhete em formato digital,
provando que a mala tinha
passagem. Ao abrir o documento, adivinhei confusão; tinha feito a reserva em português. Logo a
seguir à imagem da
mala o luso artigo de o
passageiro, em maiúscula, convencia a britânica
loura
de que eu teria pago
zero peças de bagagem.
As minhas explicações
anglófonas não a
convenciam. Chamou a
colega, uma morena espanhola. Mas aquilo não
era um “el”; era um “o”.
Pela minha insistência, a
loura bochechuda lá me
fez o favor de me deixar
depositar a mala sem
pagar um tostão mais.
Fui de imediato para a
primeira barreira de segurança, onde me verificaram, com aturada
minúcia, o talão de embarque contra o passaporte. No segundo filtro
de segurança, onde por
uma
vez não quiseram abrirme a mochila, voltaram
a verificar-me os documentos, sem queixa.
Senteime
na sala de embarque
com um par de horas de
espera pela frente.
Mal me sentei, olhei para
o talão de embarque.
Algo estava errado. O
meu estômago deu
umas voltas a si mesmo
e eu acordei de vez.
Aquele era o cartão de
embarque de um Pedro
Gonçalves. Não era eu.
Verifiquei o meu passaporte. Não. Eu continuava Gonçalo Teixeira. Um
gon, uma cedilha, está a
confusão feita.
Na hora de embarcar, fizme de parvo. “Noooo…!
Really?!” A minha amiga
espanhola
informava-me que nomes nos documentos
não coincidiam. Riu-se
quando se lembrou que
ele, o
Pedro, é que não tinha
pago bagagem de porão
— a sério?… E eu, aterrorizado com potenciais
revistas abusivas da minha inocência, embasbaquei-me ao vê-la resolver
o problema. Pega na
caneta, risca o nome que
invadira o meu talão de
embarque, e escreve
Gonçalo Almeida — à
espanhola.
Sentado no avião, reparei
que havia muita conversa à porta. Pensei logo na
minha mala,
no nome de outra pessoa. “Mr Pedro Gonsálvech”, chamou o intercomunicador. Um jovem
levantou-se e foi conduzido porta fora. Voltou
com um olhar que não
entendi se era um sorriso de
alívio, se um esgar de reprovação. “Mr Almêda”,
chamou de seguida a voz
feminina. Fui a tremer,
sem desmanchar o sorriso de falsa descontracção. Pediram-me que
confirmasse que aquela
era a
minha mala, escoltada
na pista por três senhores de colete reflector,
mãos fechadas na cintura.
Confirmei, cabeça de
fora e mãos bem presas
ao interior da fuselagem.
Já dentro do avião, perguntei à hospedeira se a
mala viria connosco. “It
is now,” sorriu-me,
condescendente. a
a
SÁB 25 JUNHO 2016 | açúcar | 3
à conversa com...
Alex D'Alva Teixeira nasceu em
1980, dez anos
depois de Ben
Monteiro, mas a
diferença de idades entre ambos
não impediu que
se encontrassem.
Deste encontro,
que é o resultado
de muitos, incluindo entre as próprias origens,
nascem os D'Alva,
a banda pop portuguesa de que toda
a gente fala – e
percebe-se porquê
- Esta noite,
a Madeira dá as
boas vindas ao
duo do momento,
naquele que será
o seu primeiro
concerto fora do
continente. Os
D'Alva abrem a
edição de 2016
dos Concertos L,
às 22h, na Estalagem da Ponta do
Sol, e ao público
prometem muita
«energia e diversão», mas não só...
© DR
«Ninguém esperava
que fizéssemos a música
que fazemos» D'Alva
ENTREVISTA
o
Susana de Figueiredo
[email protected]
vosso registo é, assumidamente, pop, mas é um pop
com uma identidade muito própria, muito audível.
Como é que se constrói
algo tão novo numa era
em que praticamente
tudo já está inventado?
De facto, não sentimos
que tenhamos inventado
nada, e provavelmente a
resposta está justamente
na pergunta. Talvez emprestarmos a nossa identidade à música que fazemos seja a chave.
Ambos somos filhos de casais com pais de países e
culturas diferentes, ambos
temos uma paixão por
música forte e enérgica,
assim como íntima e emocional, e tentamos atravessar o espectro todo, com
bastante ritmo, mas talvez
o segredo seja a busca de
boas canções.
Procuramos sempre uma
boa canção, e tentamos
respeitá-la, não lhe impomos algo que ela não
quer! Aliás, ultimamente
temos tido oportunidade
de escrever para outros ar-
tistas ,algo que já queríamos fazer há algum tempo, e os resultados têm
sido ótimos, independentemente dos estilos, que
são bastante diferentes.
Um duo separado por 10
anos de diferença é, à partida, pouco provável, mas
a verdade é que há muitas
outras coisas que vos
aproximam, nomeadamente as vossas origens.
Essa "raiz" foi determinante no vosso encontro?
Ambos aprendemos a tocar um instrumento porque alguém no seio da
nossa família também o
fazia, temos pais africanos
e as nossas mães nasceram no Rio de Janeiro. En-
quanto estávamos a escrever este disco percebemos
que, ao contrário de outros
projetos em que tínhamos
participado no passado,
neste tínhamos espaço
para incluir livremente
muitas referências às nossas origens, e foi um trabalho interessante, de encontro a essas mesmas raízes.
Um duo improvável, que
cria um pop improvável. A
fórmula parece ter resultado na perfeição…
Se existe uma fórmula,
essa talvez derive da relação que temos um com o
outro e com os restantes
membros da banda e equipa técnica, baseada, acima
de tudo, na honestidade
a
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Nas vossas casas sempre
houve música...
Sim, de maneiras diferentes, mas talvez o ponto de
referência que partilhamos seja mesmo o facto de
termos crescido em igrejas
protestantes (nome pouco
católico, é certo). Nesse
contexto é comum haver
música em qualquer reunião, todos cantam, todos
aprendem a tocar instrumentos com uma sensibilidade particular. Há uma
relação com a música bem
para além de utilitária, é
uma relação espiritual, ora
de contemplação ora de
celebração de vida, e esses
dois lados estão presentes
no que fazemos.
Quais foram as vossas primeiras grandes referências musicais?
Provavelmente, para ambos, Michael Jackson e Spice Girls, mas somos melómanos e ouvimos música
de imensos géneros diferentes.
Vocês nutrem uma forte
admiração um pelo outro.
Que características mais
admiram um no outro?
A principal talvez seja o
respeito que temos pelo
que nos distingue, e a
abertura ao input um do
outro, quer seja na música,
na vida, ou no par de ténis
que um de nós está a pensar comprar [risos].
Já tiveram "desavenças
musicais"? Se sim, como as
resolveram?
Não... O nosso processo
criativo fun,ciona muito
como uma procura pela
melhor forma de servir as
canções, e estamos sempre
a tentar descobrir a melhor solução para cada
parte, quer seja na altura
de escolher as palavras
para cada verso, quer no
momento de compor e fazer arranjos. O que acontece na maioria das vezes é o
surgimento de algumas
questões, e procuramos
sempre a melhor forma de
dar resposta a isso, tendo
em conta que existem inúmeras formas de o fazer
corretamente.
Até hoje, nunca nos desentendemos.
A vossa narrativa musical
surge intimamente ligada
a nova era das redes so-
nas natural. Utilizamos as
redes sociais de D’Alva
como utilizamos as nossas
pessoais, por isso não é de
admirar que as nossas redes sociais sejam tudo menos informativas. Let’s be
honest - ninguém tem paciência para saber a data X
do concerto Y!
E como definem a vossa
linguagem?
Simples, descomplexada e
desprovida de preconceitos. Crescer numa casa
multi-cultural, num ambiente em que mais nin-
guém é como nós, “meios
brancos, meios pretos”, faznos aprender a comunicar
com uma diversidade particular. Há uma maneira
para falar em casa, com a
mãe, com o pai, com o irmão, com o resto da família, na escola, com os amigos, na igreja… É tudo muito diferente, e sentimos
que isso nos confere a capacidade de comunicar
com mais pessoas.
Os nossos concertos, sobretudo os que damos em
Lisboa, são reflexo disso,
temos pessoas do rock, do
© Luís Filipe Catarino
com que fazemos até a
canção mais corriqueira,
sobre jogar raquetes de
praia (Frescobol). Tentamos não ter pretensão nenhuma, a não ser o que se
vê. Se isso torna o que fazemos improvável, que assim seja.
ciais. Acham que é importante os músicos adaptarem-se às novas formas de
comunicação?
É importante os músicos,
ou quaisquer outros artistas, estarem ligados ao que
os rodeia, pelo menos
numa perspetiva de melhor comunicar com o público que quer alcançar,
educar ou fazer questionar, e, nesse sentido, estar
por dentro do que acontece na Internet, neste momento, é estar vivo! As dinâmicas sociais mudaram
definitivamente, goste-se
ou não, e não há como voltar atrás.
Ignorar isto é viver com a
cabeça enfiada na areia.
Não sentimos que seja intencional ou calculado da
nossa parte fazê-lo, é ape-
A banda já atuou
para multidões,
em festivais como
o Nos Alive
e Bons Sons, e foi
nomeada para
os Portugal Festival Awards,
na categoria
de Melhor
Atuação ao Vivo.
hard-core, do indie, do hip
hop, da EDM, tudo no fundo. E parece que criámos
uma linguagem que todas
estas pessoas, tão diferentes entre si, entendem ou
na qual, de algum modo,
se reveem. E ainda bem, o
mundo é melhor justamente pela diversidade.
Nunca tiveram receio desse arrojo criativo que vos
caracteriza?
Sim, por vezes receamos
que o que fazemos possa
ser “autista” demais, até
porque tentamos que tudo
o que criamos seja o mais
inclusivo possível, mas o
risco faz parte de questionar o status quo.
Sabemos que ninguém esperava que fizéssemos a
música que fazemos, é
algo sistemático, e preferimos que assim seja, que
as pessoas esperem que os
D’Alva façam sempre coisas inesperadas, como fazer uma versão de Linda
Martini ou da Lena
D’Água ou do Justin Bieber. Se algo nos move, vamos fazê-lo!
Há quem considere que a
música, hoje, surge por vezes demasiado "compartimentada", rotulada? Qual
é a vossa opinião a este
respeito?
O ser humano precisa de
catalogar e compartimentar coisas, é assim que a
nossa mente funciona,
portanto é natural que assim seja. Os rótulos surgem, sobretudo, pela necessidade, quanto mais
não seja a de organizar
discos numa loja ou de facilitar a procura num Spotify. Quando o “shuffle” se
torna uma realidade e
uma possibilidade, quando as pessoas abrem serviços de streaming ou o youtube, fazem play numa
qualquer canção e deixam
tocar o dia todo em modo
aleatório, isso mostra que
os rótulos já não têm tanta
força, salvo alguns nichos.
Se nós fizéssemos musica
mais “compartimentada”
os nossos concertos seriam uma seca! Na nossa
música queremos várias
cores, não apenas vários
tons de uma cor.
No concerto de hoje à noite, na Estalagem da Ponta
do Sol, que tipo de emoções esperam provocar no
público?
Queremos oferecer ao público uma experiência que
envolva bastante energia e
diversão. Este concerto
não passará apenas pela
apresentação do nosso
disco. Quando tocamos ao
vivo experimentamos outras dimensões que também pertencem ao nosso
universo. Mas não será só
extroversão, por certo haverá espaço para momentos mais íntimos, mais introspetivos. a
a
SÁB 25 JUNHO 2016 | açúcar | 5
feliz com menos
Casas grandes e casas pequenas
Débora G. Pereira
www.simplesmentenatural.com
C
erta vez, alguém
me disse que, apesar de muito agradável, o meu apartamento caberia na sua
casa, apenas dentro da sua
sala. Não me senti ofendida, pelo contrário, achei
engraçada a observação.
Muitas pessoas gostam de
coisas em grande, carros
grandes, casas grandes e
se não forem grandes em
tamanho, que o sejam
pelo menos no preço ou
estejam muito na moda.
Não sei bem porque isto
acontece, talvez pelo facto
de nos querermos sentir
grandes também, talvez
porque com as ditas coisas
grandes queiramos intimidar os outros e assim, diminuímos o nosso próprio
desconforto e fazemos
com que aquele ser peque-
nino que temos dentro de
nós se sinta mais forte,
mais protegido. Quiçá seja
apenas um resquício dos
nossos instintos primitivos
que agora se traduz numa
moderna questão de sobrevivência em que os
mais fortes se medem assim.
As casas grandes podem
também ser uma resposta
a uma outra época, outros
tempos em que tudo o que
existia era uma casa de
dois quartos para uma família de 17 ou mais pessoas. Antigamente, as casas eram diferentes, sobretudo, mais pequenas e não
era comum a existência de
corredores. Neste âmbito,
um quarto dava diretamente para outro quarto,
havia menos privacidade
e, apesar das suas reduzidas dimensões e de a casa
estar sempre cheia, assim
se criavam inúmeras famílias numerosas. Hoje em
dia, é diferente, as casas
estão maiores e na sua ge-
neralidade existe um quarto para cada um. A necessidade de privacidade é tão
grande que, mal nascem,
muitos bebés são colocados a dormir sozinhos no
seu próprio quarto. O espaço que cada um de nós
ocupa também aumentou,
porém o que se verifica é
que estas casas de ampliadas dimensões estão cada
vez mais vazias. Cada vez
mais se passa o dia fora de
casa, cada vez menos há
disponibilidade para receber os amigos em casa,
cada vez mais fazemos as
refeições fora de casa e
cada vez mais cada um de
nós permanece mais tempo no seu próprio espaço,
pouco interagindo com o
do outro. Nesta busca por
privacidade, nesta vontade
de se obter as coisas grandes, estamos, na verdade,
cada vez mais sós.
Embora a tendência esteja
a inverter-se nas grandes
cidades, devido ao aumento da população e à redução do espaço disponível,
existe um pequeno movimento que, na realidade,
se está a crescer. São pessoas, famílias que escolhem eliminar o supérfluo
“A resistência aos antibióticos
assume contornos de catástrofe”
Bruno Olim
Farmacêutico
[email protected]
O
antibiótico é ainda visto por uma
parte importante
da sociedade
como o medicamento
mais poderoso e que cura
todo o tipo de maleitas,
sendo esta uma conceção
errada e distante da realidade, mas que, pelo nível
de iliteracia em saúde, leva
a pressões no sistema para
aquisição dos mesmos,
seja diretamente na farmácia ou junto do Médico.
Os antibióticos são fármacos que se utilizam para
tratar as infeções bacterianas, logo, infeções virais
como gripes e constipações, e infeções fúngicas,
não se resolvem com estes
fármacos.
Infelizmente, a resistência
aos antibióticos assume
contornos de catástrofe, é
estimado que 10 milhões
de pessoas morram, por
ano, até 2050, de infeção
resistente aos antibióticos
(o equivalente à população
portuguesa). Esta é uma
luta que estamos a perder,
como demonstra o incremento nos casos de tuberculose, que aumentaram
de letalidade.
No relatório elaborado por
Jim O’Neill, salienta-se que
os riscos associados à resistência aos antibióticos,
são semelhantes ao terrorismo. O padrão de causas
de morte vai mudar, sendo
que as mortes por resistência a antibióticos ultrapassará as mortes por cancro.
Soluções? Campanhas de
sensibilização e alerta para
a população, criar fundos
de investigação de novas
moléculas, uso de vacinas,
acesso a água potável e
hospitais limpos. Mais critérios na comunidade médica no que concerne à
prescrição (PPCIRA regional é um exemplo positivo
da gestão competente de
antibióticos, com resulta-
numa tentativa de ficar
apenas com o essencial.
Preferem viver em casas
pequenas, simples e funcionais. E para se viver assim, é necessário abdicar
de muitos objetos que já
temos e de evitar de cair
na tentação de adquirir
mais, já que não existe
propriamente um grande
espaço para os guardar.
Nestes casos, aquilo que se
tem, é aquilo que se usa, é
aquilo que faz falta no dia
a dia.
Quando diminuímos aquilo que se possui, conseguimos ver melhor e mais
além. Subtrair as distrações, permite-nos olhar
noutros ângulos mediante
uma nova perspetiva. Nessa altura, deixamos de ver
coisas e vemos as pessoas.
É possível nos ligarmos a
elas novamente. Acreditem, aquilo que recebemos
é muito melhor do que
qualquer coisa que tenhamos comprado. Conectemse e uma semana feliz. a
saúde
dos muito promissores),
sendo também importante
que o medicamento apenas seja dispensado mediante receita médica.
Outro dos pontos mais relevantes prende-se com a
pecuária. É urgente impedir a utilização de antibióticos em animais para consumo humano.
A deteção, no rio Ave, de
bactérias multi-resistentes,
e nos hospitais de Gaia,
Coimbra e de S. João, no
Porto, representam sinais
de alarme que não podemos desprezar. a
6 | açúcar | SÁB 25 JUNHO 2016
«Gosto de imaginar
as minhas músicas
nas bocas das pessoas»
Ivan Lins
Cinco dias antes de
completar 71 anos,
Ivan Lins fez
magia no palco
do festival Raízes
do Atlântico.
Nada que não
fosse esperado,
mas, ainda assim,
a lenda viva da
música brasileira
impressiona.
Continua
a impressionar.
a
a
ENTREVISTA
Susana de Figueiredo
[email protected]
Conquistou o
Brasil ao colocar
"Madalena" na
boca de Elis Regina, mas não era só
um país que lhe
estava destinado
a cair aos pés.
Armado da sua
música, de mãos
postas no piano
e no coração, Ivan
Lins não tardou
a conquistar o
mundo. A cantora
Ella Fitzgerald e
o célebre músico
e produtor Quincy
Jones foram dos
primeiros a gabarlhe o talento, e
muitos outros se
lhe seguiram.
Ganhou 4 grammys e foram inúmeras as estrelas
internacionais que
gravaram músicas
suas, mas o músico e compositor
carioca garante
que o sucesso não
o transformou.
SÁB 25 JUNHO 2016 | açúcar | 7
c
omo é que alguém que reconhece ter nascido com
um dom para a música vai
parar a um curso de Química Industrial?
Durante muito tempo,
nunca pensei ser músico.
Na verdade, só reconheci
esse dom depois de entrar
na Universidade. Fiz Química Industrial erradamente, antes de querer ser
músico, o meu sonho era
ser arquiteto. Ingressei em
Química para ir atrás da
maioria dos meus amigos,
queria ficar perto deles,
era um “Maria vai com as
outras”… Que imbecil eu
fui [Risos].
Ainda tive a ilusão de que
poderia criar algo com a
Química, mas claro que
nunca consegui criar coisa
nenhuma [risos].
Mas já tinha esse desejo de
criar.
É verdade. Eu sempre fui
muito criativo, em criança
inventava os meus próprios brinquedos, consertava as minhas coisas, era
muito bom a encontrar soluções, a ter ideias novas.
Gostava muito de ir pelos
caminhos onde as ciências
exatas falham, usava a
ciência como uma ferramenta para desenvolver
novos conceitos.
Vejamos o exemplo de Oscar Niemeyer, que desenhou este hotel [Pestana
Casino Park - local onde se
realizou esta entrevista].
Através do seu traço, destas curvas lindas, conseguimos perceber a sua ousadia. Niemeyer servia-se
da ciência para materializar o seu desenho. Posso
comparar esse processo
criativo com o meu, porque a minha música sempre foi nessa direção também.
Da estética?
Sim. Eu vou atrás da beleza
em tudo, na Natureza, no
design, nas artes plásticas.
Sempre desenhei muito
bem, aliás, todos na minha
família desenhavam bem,
por isso, ainda hoje me
questiono – Como é que alguém que tinha tão bons
resultados em disciplinas
como o desenho técnico, a
matemática, a geometria, a
trigonometria, decide licenciar-se em Química?!
Que imbecilidade... Coitado
de mim [Risos].
mãe ficava até assustada
com isso. A música dominava a minha vida, e ela
controlava-me muito através da música.
Arrepende-se de não ter estudado arquitetura?
Sim, se tenho um arrependimento é esse.
A sua mãe também tocava
piano.
Sim. Os meus pais aprenderam ambos piano, mas por
tradição educacional, na
primeira metade do século
XX, era comum os professores de piano irem às casas das famílias dar aulas.
Eram daqueles que batiam
com o ponteiro nas mãos
dos alunos quando eles não
tocavam bem. Havia também aquelas tias solteironas, muito exigentes, que
replicavam o método [risos], as minhas irmãs passaram por essa aprendizagem.
Mas se tivesse sido arquiteto, se calhar não teria sido
músico…
Existe essa corrente. Algumas pessoas defendem
que eu só cheguei à música porque não estudei arquitetura. Tenho amigos
que me dizem: “Ivan, você
fez bem ter feito Química,
porque assim você ficou na
música. Se você tivesse feito arquitetura, talvez não
tivesse ficado na música,
mas sim na arquitetura”.
Acredito nisso, sim. Deus
escreve certo por linhas
tortas e, de facto, no final,
deu tudo certo. A música
era o meu destino.
Uma vez que ser músico
não era um sonho de infância, o que queria ser quando era criança?
Quando era criança pensei
em ser muita coisa. Como
morei dos 2 aos 5 anos nos
EUA, em Boston, porque o
meu pai foi fazer uma pósgraduação no M-ITI, sonhava ser bombeiro ou
cowboy. Era apaixonado
pelos filmes americanos de
cowboys e pelos “fire rangers”, achava todo aquele
universo o máximo [risos].
Porém, a música já o fascinava.
Sim, a música esteve comigo o tempo todo, eu era extremamente musical, desde muito cedo, e a minha
Como assim? Tornou-se rebelde por causa da música?
Pois… Criava problemas na
família por causa da música. Ia atrás das bandas, das
paradas, e desaparecia. A
Polícia de Boston já conhecia o meu pai, quando ele
chegava à esquadra, os
agentes já sabiam que ele
ia à minha procura [risos].
E o Ivan, escapou a essas
aulas?
Escapei [risos]. Comecei a
tocar tarde porque não
queria passar por aquilo,
enfrentar aquelas tias, acho
que o piano é um instrumento que tem de se
aprender decentemente,
não daquela forma, dando
pancadinhas nas mãos [risos]. Então, só comecei aos
18 anos, ouvindo os músicos brasileiros de jazz, bossa-nova, e fiquei absolutamente fascinado.
Foi um autodidata do piano.
Fui. Aprendi a tocar sozinho, cheio de defeitos, porque desenvolvi a minha
própria técnica. Depois,
quando quis aprimorá-la,
procurei uma excelente
professora de piano, mas
ela recusou-se a ensinarme, ficou apavorada! [Risos].
Com a sua técnica?
Sim, eu tocava com uma
técnica perfeitamente errada, e ela achava aquilo
monstruoso [risos]. Lembro-me de ela me dizer:
“Quando eu fecho os olhos,
adoro aquilo que ouço,
mas quando os abro, é horrível”. Ela disse-me que,
para me ensinar a tocar
piano, teria de me desconstruir todo, para começar a
reconstruir-me do zero.
O problema é que se eu tivesse cedido, ao retirar os
meus vícios, ela teria retirado toda a personalidade
da minha música.
Ela entendeu a sua decisão?
Entendeu, aliás, ela já era
minha fã, e foi muito sábia.
Ainda me recordo das palavras dela: “Não vou ensinar-te nada, continua a tocar dessa forma. O que eu
posso fazer é ensinar-te alguns exercícios, mas não te
vou dar aulas”.
Então, essa professora apenas o ajudou na parte teórica do piano?
Exato. Eu era muito fraco
em teoria e no arranjo, foi
com ela que aprendi a escrever para orquestra. Tornei-me um músico muito
mais sábio, com esses ensinamentos, mas mantive os
meus defeitos técnicos [risos].
E ao mantê-los salvaguardou a personalidade da sua
música, esse modo de tocar
tão peculiar, tão “Ivan
Lins”…
É um facto, as pessoas reconhecem, de longe, a minha forma de tocar piano e
o modo de construção da
minha música. Desenvolvi
características muito próprias.
O seu timbre de voz é
igualmente peculiar. Tem
pelo canto a mesma paixão
que nutre pela música e
pela composição?
Cantar começou por ser a
forma que eu tinha de me
expressar quando ainda
não tocava nenhum ins-
a
8 | açúcar | SÁB 25 JUNHO 2016
trumento. Até aos 18 anos,
eu apenas cantava, não tocava. Tentei tocar trompete no Colégio Militar, aos 11
anos, mas fracassei, não
era o meu instrumento…
Eu era obrigado a aprender teoria musical, algo
que eu achava muito chato. Mas, como eu era muito criativo, desenvolvi uma
técnica para decorar, fazendo umas bolinhas dos
pistões do instrumento. Só
que o sargento descobriu e
disse que se eu não aprendesse música, teria de sair
da banda. E eu saí, a experiência nem durou um
ano. Depois disso, não toquei mais nenhum instrumento.
Mas a música “continuou a
tocar”…
Claro que sim. Nesse período, era só ouvido, torneime um colecionador de
discos, passava seis horas
por dia ouvir música. Comprava, sobretudo, discos de
orquestra [tinha me apaixonado pela sonoridade daquela banda marcial do Colégio Militar], e acabei por
descobrir essa mesma sonoridade no jazz, no bebop,
nas big bands americanas,
fiquei fascinado pelos cantores que tinham grandes
orquestras por trás, como
Frank Sinatra, Nat King
Cole e, mais tarde, por alguns artistas brasileiros
que começaram a gravar
com bandas. Aquela construção harmónica aproximava-se muito do jazz, então, comecei a ligar a harmonia e a melodia dessas
bandas com o jazz e a bossa-nova.
Descobre, assim, uma nova
dimensão da música?
De certo modo, sim. Apaixonei-me por algo mais
profundo do que simplesmente tocar música. Comecei a tocar de ouvido, punha o disco na “vitrola” e
tocava. Em dois anos, já es-
tava a tocar na noite, em
festas, shows amadores.
Era apenas música instrumental, abandonei o canto,
porque tudo começou a ser
transmitido para a mão,
para o piano.
Não sentiu falto do canto?
Não, nenhuma. E só voltei
a cantar quando me tornei
compositor. Até lá, limitava-me acompanhar as cantoras de bossa-nova e a tocar temas instrumentais.
O seu percurso como compositor começa nos festivais universitários.
Sim, comecei a compor as
minhas canções quando
comecei a participar nos
festivais universitários.
Como tinha que apresentar
as músicas que iam a concurso, gravava em fitas de
rolo, e claro, tinha obrigatoriamente que cantar,
para mostrar as minhas
canções.
Não tencionava ser, também, cantor?
Não. Cantava sem nenhuma ambição de me tornar
cantor, o canto era tão somente um meio para chegar a um fim: dar a conhecer às pessoas as minhas
canções, até que um dia al-
guém achou que eu tinha
um timbre interessante e
me convenceu a gravar um
disco.
Nunca arriscou escrever letras para as suas músicas?
Escrevia letras muito raramente, embora eu sempre
tenha gostado bastante de
escrever, e escrevia bem,
desde a época da escola.
Mas, a poesia é uma coisa
mais complexa, preferia
não arriscar, e então, tinha
alguém que escrevia por
mim.
A canção “Madalena”, eternizada na voz de Elis Regi-
a
na, foi o seu primeiro grande êxito. Considera que é a
partir daí que o seu nome
fica, definitivamente, inscrito na história da música
brasileira?
Sim. A Elis foi a minha mãe
artística, foi ela quem me
colocou no mundo. “Madalena”é, talvez, a música
mais gravada a nível mundial.
Efetivamente, o Ivan não
tardou a conquistar o mundo. Como acontece a sua
projeção internacional?
Aconteceu muito através
das visitas de artistas estrangeiros ao Brasil, eles
ouviam as minhas músicas
na rádio e iam atrás dos
meus discos. Finalmente,
um percussionista brasileiro, Paulinho da Costa, que
tinha ido trabalhar para os
EUA, apresentou os meus
discos ao Quincy Jones,
que era o “Midas” da indústria americana, já na época
era produtor de Michael
Jackson e de George Benson, dois cantores que estavam a despontar no mercado pop americano. Então,
ele se apaixonou pela minha música e fizemos um
pré-contrato, no qual ele
me abriu todas portas [nesse pré-contrato era tudo lindo, maravilhoso…]. Mas, no
dia de assinar o contrato
que era “para valer”- Michael Jackson ia gravar um
tema meu, “Novo tempo”,
no seu disco -, o advogado
dele queria praticamente
tudo o que era meu, ou
seja, noventa por cento. Era
um contrato padrão que
eles usam para os artistas
latino-americanos que, em
busca do estrelato, estão
dispostos a tudo.
O advogado achou que eu
era otário [risos]… Tive de
contratar um advogado à
altura, porque aquele contrato era uma ofensa [gastei
um absurdo em dinheiro].
No entanto, não chegámos
a acordo, o Michael Jackson gravou o disco, mas a
minha música não entrou.
Não podia imaginar que o
disco ia fazer tamanho sucesso... [Risos]
SÁB 25 JUNHO 2016 | açúcar | 9
Lamenta que não tenham
chegado a acordo?
Bom, o disco vendeu 54
milhões de cópias… Hoje,
poderia estar a morar nas
Ilhas Fiji, mesmo tendo assinado aquele contrato vagabundo [risos]. A vida é
assim, a gente não tem que
olhar para trás. E eu tenho
que rir desse episódio, tal
como riem todos a quem
eu conto essa história.
Estou feliz da vida com o
caminho que eu construí
através das minhas opções.
Não me arrependo de
nada… Com exceção daquilo que já falámos, a questão da arquitetura [risos].
“O meu sonho
é ter um
passaporte
português.”
Como é que se explicam
mais de quatro décadas de
carreira, sempre no topo?
Eu considero-me um privilegiado, porque tornei-me
conhecido num período
muito favorável, em que
havia nos media muita
abertura para a música
que eu fazia. Hoje, é muito
mais difícil para as novas
gerações chegarem ao nível que eu cheguei. Tocavase muito na rádio, na TV,
os discos vendiam muito.
O meu nome ficou inscrito
na música brasileira, e a
minha música foi passando de pais para filhos, de
geração para geração.
E como se vai alimentando
a paixão pela música ao
longo dos anos?
Mantendo o entusiasmo
pela música. Uma parte
importante do meu sucesso deve-se a este sentimento que eu tenho em relação
à música. Por isso, eu nunca parei de produzir e, ao
mesmo tempo, nunca discriminei nenhum tipo de
música. É preciso estar
sempre de portas e janelas
abertas para o que aparece
de novo, eu preciso de ou-
vir constantemente coisas
novas para manter a minha criatividade em alta.
A que ritmo continua a
produzir?
Eu tenho um “cofre”musical que vale uma fortuna
[risos]. Como o mercado,
hoje, está muito refratário
e eu não tenho onde colocar todas as músicas que
vou produzindo, guardo
todo esse material. Você
nem imagina as coisas maravilhosas que estão nesse
“cofre”! De vez em quando,
eu vou lá, ouço essas composições e penso “Que coisas lindas eu fiz!”[Risos].
Pode parecer falta de modéstia, mas não é. Quando
você se envolve com beleza, é assim que funciona, a
beleza está sempre viva,
dentro do seu corpo, da
sua memória. E eu gosto
de ouvir as coisas bonitas
que fiz, que têm a minha
assinatura, tal como gosto
de ouvir a beleza dos outros, porque a minha beleza também se alimenta da
dos outros, e é desta forma
que a vida continua.
Nem todos os artistas revelam esse altruísmo…
Mas é, também, por isso
que eu dou muitos workshops dirigidos a músicos,
precisamente para falar da
importância de manter a
mente aberta, dando à música essa continuidade de
que ela precisa. Quero passar para os outros esta visão. Há muitos artistas que
envelheceram e se tornaram rancorosos porque
não se renovaram. Ora, eu
não tenho o menor interesse em envelhecer, nem
penso nisso. Trabalho, essencialmente, com gente
mais jovem, que refresca a
minha vida, trazendo algo
de novo, e eu adoro novidade na música, é quase
como gostar de uma “fofoca” [risos].
O Ivan tem ascendência
portuguesa. A sua declarada paixão por Portugal
vem das suas raízes?
Sim, começa por aí. Meu
bisavô, Avelino Guimarães,
era do norte de Portugal
[quanto à minha bisavó,
não sei], de uma aldeia próxima da cidade de Guimarães, isso é a única coisa
que eu sei, o resto, estou à
procura. Os meus familiares brasileiros fizeram o
“milagre” de desaparecer
com esses registos. Ninguém sabe onde estão as
certidões.
O meu sonho é ter um passaporte português... Portugal, para mim, é uma segunda terra, mesmo!
Recorda-se da primeira vez
que pisou terra portuguesa?
Perfeitamente. Vim a Portugal pela primeira vez em
1981 e, sobrevoando Lisboa,
comecei a chorar, não sei
porquê. Foi uma coisa misteriosa… Senti que estava a
chegar ao meu lugar, e a
verdade é que para eu voltar ao Brasil tiveram de me
colocar à força no avião.
Falo a sério! Foi o Adriano
Oliveira, meu compositor
na época, que me pôs à força dentro do avião [risos]…
Eu não queria partir…
Acho que esse sentimento
está ligado a vidas passadas.
“Sou um
romântico
e um sonhador.”
Acredita nisso?
Sim, acredito. Há alguma
coisa que se reconhece,
que ficou impregnada
numa energia. Eu acho
que a vida… Espere, será
que você tem mesmo tempo para ouvir isso? [risos]
Tenho todo o tempo…
Acredito que quando morremos fisicamente, essa
energia não morre, dissipa-se e vai para um nível
onde se equilibra. Isto é
bem explicado pela ciência, digamos que eu sou
um religioso que aceita
muito bem a ciência, porque a ciência explica tudo,
até o espiritual.
O espírito, de uma certa
maneira, começa quimicamente e transforma-se
numa série de energias.
Eu tenho uma energia
portuguesa poderosíssima. Não é brincadeira,
não [risos]. Por exemplo,
no futebol eu torço mais
pela equipa de Portugal do
que muitos portugueses.
Sofro mesmo!
É, então, essa «energia
portuguesa» que não o
deixa ficar muito tempo
longe de Portugal...
É. Passo seis meses em
Portugal e seis meses no
Brasil. Tenho uma casa,
muito pequena, entre a
Ajuda e Belém, junto ao
Centro Cultural de Belém
e ao Tejo. É um sonho poder morar ali.
O que é que Portugal tem
que o Brasil não tem?
O Brasil é governado há
décadas por uma classe
política medíocre, corrupta. Os políticos destruíram
um país lindo, estão a destruir a Amazónia e estragaram o humanismo da
cidade. A situação ambiental é gravíssima, a violência continua, o preço das
coisas é exorbitante…
Um dos meus irmãos costuma dizer que o Rio de
Janeiro é lindo para ver de
helicóptero [risos].
E Portugal?
Vocês têm coisas maravilhosas, lugares incríveis, o
meio ambiente é muito
mais saudável e não existe
a violência que temos lá.
Uma vez, quando vim a
Portugal com a minha família, fomos todos dar um
passeio de carro. O Carlos
do Carmo foi connosco e, a
dada altura, ele perguntou
à minha neta Catarina, de
10 anos, “O que é que gostaste mais no passeio?” E
ela responde “O que eu
gostei mais foi de andar de
carro com a janela aberta”. Ele ficou desconcer-
a
10 | açúcar | SÁB 25 JUNHO 2016
tado, e confesso que nem
eu esperava aquela resposta. Creio que este episódio
explica bem a diferença
entre os dois países.
Tem esperança num Brasil
melhor?
Só através da intervenção
da Polícia Federal, como
está a acontecer agora, se
pode mudar alguma coisa.
As pessoas já começam a
acordar, os jovens já vão
incorporando a ética, mas
ainda é cedo para enfrentar a mentalidade da classe política. É um cenário
muito angustiante…
Consigo perceber no seu
tom, também, alguma revolta…
Só quem ama se indigna, e
eu sinto mesmo uma revolta enorme contra esses
políticos medíocres. Mas
eu ponho a boca no trombone, sem vergonha nenhuma, ficam chateados
comigo, mas eu abro a
boca, inclusive uso a minha música para reclamar
e intervir.
“Temos que andar
em cima dos
sonhos, senão
a vida perde
a graça.”
Acha que a música também deve ter esse propósito?
Tem que ter, porque a música é reflexo de quem a
produz, por isso, se eu sou
uma pessoa consciente, se
me indigno diante de algo,
então eu sou repórter do
meu tempo, usando a minha música para falar do
que eu sinto em relação
àquilo que se passa ao
meu redor.
A sua música é um espelho honesto de si? Uma extensão do Ivan enquanto
ser humano?
A música é totalmente
uma extensão de mim. Eu
sou completamente transparente através dela, as
pessoas sabem quem eu
sou através da minha música. Se você gosta de mim
como pessoa, você vai gostar da minha música.
Interessante… Há vários
artistas que negam essa
unicidade, essa fusão entre
o homem e a sua obra.
Muitos admitem até criar
uma espécie de alter-ego.
Não resultaria comigo. Eu
não posso usar minha música para me camuflar, ela
perderia todo o sentido se
eu me escondesse nela.
Não poderia ser músico,
teria de mudar de profissão.
É um romântico?
Ah, eu sou um romântico,
mesmo! Sou um sonhador,
e o sonhador é chato [risos]. Eu fico bem atento, à
espera de ver o sonho realizar-se, pode ser apenas
um pedacinho, um milésimo do sonho, mas eu fico
ali, a vigiá-lo de perto [risos]. Tem que ser assim,
temos que andar em cima
dos sonhos, senão a vida
perde a graça.
O contacto com o público
continua a ser fundamental para si? Nos concertos,
mantém o entusiasmo dos
primeiros tempos?
Mantenho, o contacto com
o público é absolutamente
fundamental, afinal, eu
faço música para as pessoas, não para mim.
Então e aquelas músicas
que guarda no cofre?
[Risos] Ah, meu Deus… É
um sofrimento, para mim,
mantê-las lá.
E são muitas?
Muitas, muitas… De vez
em quando, eu abro o cofre e ouço-as, só para renovar o meu entusiasmo por
elas. E, ao mesmo tempo,
fico a imaginar essas músicas nas bocas das pessoas,
pelas ruas.
Eu preciso que as pessoas
gostem de mim.
Gosta de todas as suas músicas?
Nem de todas [risos], mas
adoro a maioria, cerca de
noventa por cento.
Os seus grandes êxitos correspondem às suas músicas preferidas?
Basicamente sim, mas claro que tenho músicas que
eu acho que foram “injustiçadas”, tanto que o meu
mais recente disco, “América Brasil”, são canções
que não chegaram ao
grande público como eu
acho que deveriam ter
chegado.
Se pararmos para pensar,
percebemos que nem todas as músicas podem ser
êxitos, eu não sou os Beatles, não tenho aquela capacidade de fazer 8 sucessos em 10 faixas. Não temos mercado nem media
para isso, logo, tenho de jogar de acordo com a minha realidade - em cada 10
ou 12 faixas, 3 sobressaem.
O segredo é fazer regressar
sempre as canções e misturá-las com coisas novas.
Por falar em novidades,
que projetos novos aí vêm?
Vem aí um disco de fados,
mais de metade deles inéditos, e no final deste ano
sairá ainda um disco de
música sertaneja sofisticada, também este com muitos temas inéditos, é um
projeto meu e do Rafael Altério. E talvez surja um
“América Brasil nº 2”.
Não há quem o pare…
[Risos] Tem razão, eu não
paro, tenho muita música
por fazer ainda. Não tenho
tempo para ficar a pensar
no passado ou se estou ou
não velho. Isso não me importa, tenho de fazer o que
a minha intuição e o meu
prazer mandam. E assim a
vida vai [risos].
Ainda se emociona quando
um cantor interpreta uma
canção sua?
Ah, emociono-me muito.
Então quando o intérprete
percebe bem a intenção da
música… É mortal! E há
grandes intérpretes por aí,
não só no Brasil, mas em
todo o mundo.
“Não tenho
o menor
interesse em
envelhecer.”
Recorda-se de alguma interpretação que o tenha
emocionado de forma
particular?
Sim. Quando o Carlos do
Carmo gravou um fado
meu chamado “Três sílabas de sal”, sobre um poema de Manuel Alegre,
que eu musiquei, pedi-lhe
que não desse muita importância à forma como
eu havia apresentado o
fado na gravação, porque
era muito pessoal, tinha o
meu cunho. O que eu pretendia era que o fado
soasse a português puro,
não queria ouvir aquele
fado como Ivan Lins, queria ouvi-lo como um português.
Quando ele me ligou e
pôs o fado a tocar para eu
ouvir, pela primeira vez…
[pausa] Chorei durante
uma meia hora, não conseguia parar de chorar.
Ao escutar aquele fado, finalmente senti-me um
português legítimo. O
Carlos ficou até constrangido, dizia-me“para de
chorar”[risos].
Mas graças a Deus que eu
choro! É importante que
a emoção sobreviva.
Será esse um dos grandes
poderes da música, manter viva a emoção?
É. A música faz coisas
que até Deus duvida [risos]. Eu digo sempre que
só existem três coisas
que, se acabarem, a vida
acaba no planeta: o ar, a
água e a música. A música salva, faz autênticos
milagres [Os políticos, até
agora, não entenderam
isso].
Não basta salvar o meio
ambiente, é preciso salvar
a música e, principalmente, os músicos. São eles os
nossos anjos da guarda.
Os músicos e a música estão em risco?
Acho que sim, porque a
música está a transformar-se numa outra coisa,
numa espécie de ruído cibernético, até chegar o
momento em que ninguém vai prestar atenção
à música, e os únicos a
ganhar dinheiro serão essas empresas da Internet
- Itunes, Youtube, Spotify,
etc.
Há um desrespeito enorme pelos músicos, a situação é preocupante.
E os músicos estão conscientes dessa realidade?
Os músicos, na generalidade, são muito aéreos,
não têm muita noção do
quão grave é a situação,
então, não lutam pela sua
própria sobrevivência.
A música pode ser muita
alienante, mas é preciso
colocar os pés no chão.
Precisa de um ambiente
específico para compor?
Normalmente gosto de ficar sozinho, porque o ato
de compor é uma viagem,
eu transporto-me para
outro nível. É como estar
num sonho lindo do qual
não quero que me acordem, por isso não gosto
de ser perturbado. Mas
também já compus em situações muito estranhas,
uma delas foi durante
uma entrevista com o Jô
Soares e outra num programa de televisão holandês. Quando me desafiam, componho, mas claro que é preciso estar
num bom dia para a inspiração vir.
E o que é que povoa a sua
mente enquanto compõe?
Quando componho já estou a ouvir o som… Um saxofone a tocar, normal-
a
SÁB 25 JUNHO 2016 | açúcar | 11
mente ouço um instrumento de sopro.
se um hino feminino, e até
feminista.
fantástica, uma devoradora
de livros, uma humanista.
A canção “Vitoriosa”, que
compôs para a sua mulher, surgiu de um modo
inesperado...
É verdade. A melodia dessa canção começou a ser
composta num avião,
num voo entre São Paulo
e Rio de Janeiro [aí valeram-me os exercícios da
tal professora de piano].
Desenhei a pauta num pedaço de papel e, no dia seguinte, enquanto passava
som num espetáculo no
Canecão, peguei nesse papel e fiz o resto da música.
Foi saindo e o técnico de
som gravou.
A sua música é muito voltada para o universo feminino.
Adquiri um respeito enorme pelas mulheres, porque eu era muito tímido,
tinha medo delas, talvez
por ter tido muito medo da
minha mãe. Ela era difícil.
Apaixonava-me platonicamente, por várias. Tinha
medo de ouvir um “não”, e
isso fez-me prestar mais
atenção às mulheres, passei a admirá-las imenso.
No Brasil, faço parte do
grupo “Homens pelo fim
da violência contra a mulher”.
Eu sou casado com uma feminista [estamos juntos
desde 1983], e ela aprofundou muito esse meu lado.
A Valéria é uma mulher
E esse seu lado é bem evidente na sua música...
É, até porque eu e o Vítor
Martins [letrista] pensamos
de forma muito idêntica,
ambos tivemos mulheres
que marcaram as nossas vidas, por isso escrevemos
tantas canções femininas.
Está a ser feito um documentário, que será concluído este ano, sobre essas
canções, com a participação das cantoras que as interpretaram. É um trabalho
muito interessante, centrado nessa força de superação da mulher.
E nasce, assim, um dos
seus grandes êxitos…
Pois é, “Vitoriosa” fez um
sucesso enorme, tornou-
“Eu era tímido, apaixonava-me
platonicamente.
Tinha medo de ouvir um “não”,
e isso fez-me prestar mais
atenção às mulheres.”
Mais de 40 anos de carreira, tanto reconhecimento
em todo o mundo, quatro
grammys ganhos, o que é
que ainda lhe falta?
Falta-me o que a vida ainda
tem para me dar, e eu acho
que ela ainda tem muito
para me dar. Quanto aos
prémios, vivo cada um intensamente, naquele momento. Depois, a vida continua, “do mesmo jeito”.
O sucesso não mudou nada
em si?
Não. Nunca permiti que o
sucesso me mudasse. Sou o
mesmo Ivan que cresceu
na rua com os amigos, e até
hoje, tudo o que eu faço de
genial, tenho de partilhar
com eles, não consigo guardar as coisas para mim
[Sou perigoso… Não me
conte um segredo] [Risos]
Sou assim, não consigo ser
diferente, e isso faz de mim
uma pessoa feliz.
Vou fazer-lhe uma pergunta ingrata. Se o mundo aca-
basse amanhã e só pudesse
salvar uma das suas músicas, conseguiria escolher?
[Gargalhada] Não seria capaz. Se só sobrasse uma
música, ia ter que ficar a
ouvi-la para o resto da minha vida, já imaginou? Eu
morreria. Preferia não salvar nenhuma, compunha
outra.
Faz 71 anos no próximo dia
16 [junho]. Que desejos vai
pedir quando soprar as velas?
Quero apenas que a vida
continue boa para mim e
para os meus familiares Sou pai de cinco filhos, avô
de seis netos – De resto, não
sou ambicioso. Queria ter
um apartamento um pouco maior em Lisboa, para
poder receber a família.
Ah... E o meu passaporte
português! [Risos]. a
a
12 | açúcar | SÁB 25 JUNHO 2016
o viajante
Nápoles
Diogo Correia
Pinto
[email protected]
t
odas as convenções de
convivências e conveniências, esboroam-se no
primeiro táxi que apanhamos. Temos um prenúncio na aterragem quando
não vemos a pista, entende-se, a reta foi banida
aqui . Vive-se na
curva e no improviso,
sempre em movimento.
Entro no carro,o taxista
carrega acelerador, ele
pragueja, vocifera aos deuses do futebol, reza
a San Gennaro, dá-me as
boas-vindas. Ao ver-me
numa prova de desvio de
obstáculos, vou-me agarrando como posso. A meio
do circuito ele trava de repente, o seu rosto transforma-se, tomado por
uma expressão de contemplação sussurra: “Era
aqui que o Maradona vinha comprar coca!”. Deixa-se ficar uns segundos
em silêncio reverente de
quem pisa solo sagrado.
Num ápice , um impulso
brusco da sua perna conclui a solenidade da oração. Prego a fundo. Entro
por ruas sinuosas , com o
carro a serpentear peões e
veículos e os peões e os
veículos a serpentear-nos.
Bailamos.
Tudo indisciplinarmente
perfeito. Eu, cada vez mais
"atarantellado", não entendo os sinais e as regras
de trânsito. A cada dia inventa-se uma nova gramática urbana, em que tudo é
expelido de jacto, sem
pontuação. Cada napolitano tem um Vesúvio na
boca.
Chego ileso ao hotel e o
condutor pergunta-me fraternalmente se quero
ir ver o jogo com o At. Bilbau, digo-lhe que não posso, que me vou
embora entretanto e subo
atordoado.
Recomposto, jogo- me na
cidade, "Venha o que vier",
penso a medo.
Desço pela Via Duomo e
sou assaltado por uma galeria de personagens.
Tipos com caras familiares, latinos, que poderiam
muito bem ser meus
primos ou tios , mas que
vivem em exaltação, esbra-
Deveria ser
obrigatório vir
a Nápoles, nem
que fosse por
decreto, deveria
ser imposto, uma
vez na vida,
limparmo-nos na
sujidade desta
cidade e vivermos
livremente
as nossas
contradições.
cejam, falam alto,
desconhecem o comedimento. Viro para o Centro
Histórico e assisto da
plateia. Comparados com
as criaturas extraordinárias da Via Dei
Tribunalli, a Sophia Loren
e Mastroianni amam-se
com recato no "
Matrimónio à Italiana" do
De Sica.
À noite vou ao Di Matteo,
uma pizaria bastante antiga, com fama na cidade.
Logo à entrada, a frase "
Bill Clinton já comeu
aqui", com uma foto a confirmar. Até na piroseira
eles são enormes.
Entro e sento-me numa
mesa, observo o espaço
em pormenor e deparo-me
com um misto de tasca,
Clube Caça e Pesca e ponto
de tráfico de droga.
Algumas taças de latão
, forram avulsamente as
paredes velhas
carcomidas pela humidade, as mesas despejadas ao
acaso pelos vários
compartimentos minúsculos e os empregados, com
um ar esgazeado de
heroinómanos, levitam
freneticamente pelas salas,
bradando
impropérios com as suas
vozes arranhadas pelos
anos de vício. O sabor das pizas é inefável.
Deveria ser obrigatório vir
a Nápoles, nem que fosse
por decreto,
deveria ser imposto, uma
vez na vida, limparmo-nos
na sujidade desta
cidade e vivermos livremente as nossas contradições. a
a
SÁB 25 JUNHO 2016 | açúcar | 13
na moda
A serenidade do rosa
Laura Capontes
[email protected]@gmail.com
nat-a-porte
Calça e stilettos:
ra
Za
top e mala:
foto © Laura Capontes
Jumpsuit e mala:
sandália: Zara
landsend.com;
Zara;
Top e sandálias:
op.com
flare jeans: topsh
O rosa aparece
em várias
tonalidades,
em diversos
tecidos e diferentes peças,
vestidos, tops,
camisas, calças
malas e sapatos.
é
das cores mais femininas, trendy e uma das
que dominam esta temporada. Vem nos acompanhando ao longo das
estações e o facto é que
nunca deixou realmente
de estar na moda, mas
reaparece agora com
mais evidência, é a cor
de eleição, e é impossível ficar-lhe indiferente.
O rosa aparece em várias tonalidades, em diversos tecidos e diferen-
r.com;
Look total: Zara;
mala: Mango
.com; top: H&M;
Calções: farfetch
.com
clutch: accessorize
ra;
Za
s:
ata
alperc
m;
e bolsa: topshop.co
Top: Zara; jeans
m
.co
ch
fet
far
s:
sapatilha
tes peças, vestidos, tops,
camisas, calças, malas e
sapatos. É uma cor que
se adapta a todos os estilos, do mais feminino ao
mais desportivo, e incorpora-se na perfeição. No
entanto, se não é muito
fã do tom, aposte numa
tonalidade menos óbvia e
marcante e deixe-se influenciar pelo rosa
quartz, que foi eleita a
cor deste ano. De fácil
combinação, harmonizase facilmente com outros
tons, quer com os tons
pastel, quer com os mais
quentes. Não tenha receio do brilho, sem exageros, o rosa e o brilho
coordenam-se na perfeição.
Renda-se ao rosa e dê um
toque de cor, suavidade,
frescura, serenidade e leveza aos seus outfits.
Inspire-se nos looks! a
a
14 | açúcar | SÁB 25 JUNHO 2016
horas vagas [livro, filme, música]
Sandra Sousa
livro
http://estrelasnocolo.wordpress.com
Razões para Viver
azões para viver” é
uma obra autobiográfica do autor
Matt Haig, onde
conta como começou a sua
depressão e como a ultrapassou. Com apenas 24
anos não sabia o que fazer
com a sua vida e como encarar o futuro. Aos poucos
apercebe-se que tudo o
que sente não é normal, os
seus sentimentos parecem
levados ao extremo e levam a que ele sinta emoções fortes e debilitantes.
Com a ajuda da namorada,
volta para a casa dos pais e
tenta enfrentar a sua doença. Tudo começou com os
ataques de pânico e uma
extrema ansiedade. Descobre, mais tarde, que sofre
de depressão e ansiedade.
R
Virgílio Jesus
[email protected]
V
encedor do Óscar
de melhor ator
secundário para
Christopher
Plummer, o ator mais velho de sempre a ser galardoado com a estatueta
para interpretação, Assim
é o Amor é um belíssimo
drama familiar complexo,
É
sabido que James Wan é o
mestre do terror
– foi o criador da
série Saw e de Insidious , sendo que até calha
bem ter um artista visceral assim tão dedicado a
um género que, por vezes, parece estar morto.
Por E.V.
W
Matt Haig
Matt descreve como se sentiu nos seus piores momentos ao enfrentar esta
doença, conta como muitas pessoas não entendiam
o que ele estava a sentir e
como ele próprio chorava
de frustração quando não
conseguia enfrentar simples afazeres do dia-a-dia.
A namorada de Matt e os
seus pais têm uma grande
importância na recuperação e na forma como ele
enfrentou a doença. No
fundo este é um livro brilhante que conta como é
se sentir aprisionado dentro de uma mente que
simplesmente não consegue parar de pensar. É
principalmente ideal para
compreendermos como é
estar no lugar do outro. a
televisão & cinema
mas que não deve impedir a sua visualização,
com uma mensagem bastante peculiar. Depois do
seu pai falecer, Oliver
(um sempre carismático
Ewan McGregor) conhece
a irreverente Anna (Mélanie Laurent de Sacanas
sem Lei). Este novo amor
inunda Oliver de memórias do seu pai que com a
morte da mulher, resolveu assumir-se homossexual. Um drama que desmistifica a percepção que
temos dos nossos pais,
que nem sempre conhecemos como pensávamos. a
Em The Conjuring 2, é
provável que feche os
olhos mais vezes, do que
aquelas em que está a
tentar adormecer. Existe
uma freira horrenda, um
idoso com uma voz
grave e um monstro apelidado de O Homem Torto que não lhe vão deixar
quieto, nem por um segundo. Cada partida que
o filme nos prega é de
uma destreza total do
ponto de vista da realização e da forma como se
concilia com o argumento, num sentido profundamente lógico e
até emocional. a
Assim é o Amor
TV Cine 3
Sábado, 25 de junho - 22h30
Realizado por: Mike Mills
Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer,
Mélanie Laurent, Goran Visnjic
Género: Drama
The Conjuring
2: A Evocação
(já nos cinemas)
Realizado por: James Wan
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances
O’Connor, Simon McBurney e Franka Potente
Género: Horror
música Whitney – Light Upon the Lake, o álbum com vista sobre o Atlântico
hitney chegam-nos de
Chicago após
a rotura dos
Smith Westerns, na sequência da qual Max Kakacek se junta com Julien
Ehrlich, baterista de Unkown Mortal Orchestra.
Ora, para quem já ouviu
alguma coisa das bandas
já mencionadas sabe o
que poderá esperar destes
Whitney e o seu álbum de
estreia Light Upon the
Lake. Para os outros, temos uma banda que faz
um rock bastante capaz e
orelhudo, com toques de
Beach Boys, em que as
músicas deixam o pretensiosismo de parte e seguem o caminho simples.
A música que dá nome ao
álbum é a simplicidade
conjugada com a guitarra
de Max Kakacek. Golden
Days é a faixa do disco,
dito isto, é aquele que ouvimos e fica, como uma
boa música deve ficar, no
ouvido. É a banda sonora
para o verão de junho a
setembro, para quando
chegarmos aos primeiros
dias de outono fecharmos
os olhos ao som de Golden
Days e relembrarmos os
dias dourados deste verão.
No Matter Were We Go
abre com a guitarra a soar
ao rock sulista dos Lynyrd
Skynyrd e continua na
mesma senda de Golden
Days. Light Upon the Lake
é um álbum que, como o
nome indica, deverá ser
consumido numa noite de
verão quente com vista so-
bre o lago, como não há
muitos por cá contentemo-nos com a vista sobre
o Atlântico. a
a
SÁB 25 JUNHO 2016 | açúcar | 15
boca doce
Franco
Cantor
1
13
Que opinião tem dos
madeirenses que
escondem o sotaque?
Não vejo nisso um
problema, até porque
muitas vezes esse facto
é inconsciente e resultado de alguns deles
viverem ou trabalharem muito tempo
noutras paragens.
Três características
da sua personalidade
que melhor o definem?
Organizado, trabalhador e frontal.
2
A crítica mais
construtiva que já
lhe fizeram?
E a mais injusta
ou absurda?
A mais construtiva:
“Vives numa ilha linda
e cantas e tocas muito
bem, mas ficando aqui
não irás mais longe!”
A mais injusta e absurda: “És falso e cínico...”
3
A decisão mais
importante que teve
de tomar?
Decidir ser pai,
especialmente num
mundo como o de hoje.
4
A sua dúvida mais
persistente?
Antes de dormir gosto
de me perguntar se fui
justo e verdadeiro
com todos os que
me rodeiam.
14
5
Um arrependimento?
Não gosto de me arrepender de nada porque
tudo o que faço ou digo
é sempre de acordo
com a minha consciência e educação.
6
Um ato de coragem?
Tentar ser o mais
justo no meu dia a dia,
nem que para isso,
por vezes, tenha de
“enfrentar” algumas
“mentes mais negras”.
7
Uma atitude
imperdoável?
Faltar com a palavra
dada.
8
A companhia ideal
para uma conversa
metafísica?
Um professor de
História que tive no
secundário, que muito
me inspirou.
9
Qual é a sua maior
extravagância?
Gadgets.
10
Quem são os seus
heróis na vida real?
A minha mãe, a minha mulher e o meu
filho.
11
Uma doce memória
da infância?
Passar horas no
calhau de Câmara
de Lobos a brincar
com barcos de lata e a
apanhar caranguejos
e pequenos camarões.
12
O que distingue um
madeirense de um
continental
(além do sotaque)?
Não noto grandes
diferenças mas…
Talvez a simpatia
e a amizade fácil do
madeirense para com
quem nos visita.
Que expressões
madeirenses usa com
maior frequência?
“Pira-te”, “Despescame”, esta “canalha”
tira-me do sério, “baza
daqui”, “Chavelha”…
15
A quem gostaria
de pagar uma poncha?
Ao Papa Francisco,
mas teria de ser
em Câmara de Lobos.
16
Segredos da Ilha…
Local: Londres
Hotel: Crown Plaza
Glasgow
Restaurante: Vila do
Peixe em C. Lobos
Atividade ao ar livre:
Fazer mergulho
e apanhar lapas
e caranguejos
Loja: Fnac e Zara

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