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PERTURBAÇÃO DE HIPERACTIVIDADE COM DÉFICE DE
ATENÇÃO
Miguel Palha – Pediatra do Desenvolvimento
Centro de Desenvolvimento Infantil DIFERENÇAS
As crianças com Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA)
apresentam um padrão comportamental caracterizado, essencialmente, por um
excesso de actividade (hiperactividade) ou de impulsividade e por uma persistente
falta de atenção, desproporcionais à fase do desenvolvimento em que as mesmas se
encontram. Estes comportamentos poderão manifestar-se nos primeiros anos de vida
e persistir pela adolescência e mesmo adultícia.
A PHDA é muito frequente na infância, atingindo, de acordo com os mais recentes
estudos, cerca de 4-6% da população das escolas primárias. Prevalências superiores
a 20% têm sido descritas em crianças oriundas de meios sócio-económicos menos
favorecidos. Esta perturbação é, segundo a maioria dos autores, seis vezes mais
frequente no sexo masculino do que no sexo feminino.
Muitos dos especialistas na matéria pensam que, na génese desta perturbação,
poderão estar implicadas múltiplas causas, como factores genéticos (há uma muito
maior incidência deste síndrome nos familiares próximos das crianças atingidas),
como factores orgânicos adquiridos ou constitucionais (por exemplo, é bem conhecida
a propensão que os grandes prematuros têm para este distúrbio comportamental) e
como factores ambientais (há, em algumas casuísticas, uma muito maior incidência
desta perturbação nas crianças com problemas relacionais, bem como nos elementos
das famílias com índices sócio-culturais mais baixos).
O diagnóstico de PHDA baseia-se, fundamentalmente, numa descrição rigorosa e
exaustiva das manifestações típicas (ver adiante), efectuada por múltiplos
observadores em diferentes ambientes (casa, escola, associação recreativa ou
desportiva, rua) e num determinado período de tempo (seis meses, por exemplo). Os
comportamentos poderão não ser anómalos em si mesmos, mas terão de ocorrer com
uma grande intensidade e frequência, claramente de uma forma não convencional
para o estadio de desenvolvimento em que a criança se encontra. As informações
colhidas junto do professor assumem uma importância crucial, uma vez que as
manifestações da PHDA são mais evidentes e frequentes na sala de aula (além do
mais, os professores, pela natureza das suas funções, sabem, melhor do que
ninguém, o que é, ou não, um comportamento convencional).
Existem diversos sistemas classificativos para a PHDA. Um dos mais utilizados é o
DSM IV da Associação Americana de Psquiatria.
Como já foi dito, uma das principais características da PHDA é a falta de atenção (ou
desatenção ou défice de atenção), expressa por alguns dos seguintes
comportamentos: frequentemente, as crianças com PHDA não prestam atenção aos
detalhes e cometem erros na escola ou em outras actividades por desatenção ou
descuido; têm dificuldade em manter a atenção durante as tarefas ou jogos; muitas
vezes, parecem não ouvir o que se lhes diz, mesmo quando interpelados de uma
forma directa; com frequência, não seguem instruções e não terminam os trabalhos
escolares, as tarefas caseiras ou os deveres profissionais (a causa não é um
comportamento opositivo ou a incompreensão das instruções); poderão ter uma
manifesta dificuldade na organização de tarefas e de actividades; frequentemente,
evitam, não gostam ou são relutantes em iniciar tarefas que requeiram concentração
(como trabalhos escolares, em casa ou na escola); muitas vezes, perdem objectos
importantes ou imprescindíveis a um adequado desempenho em tarefas ou em jogos
(brinquedos, livros, material escolar); não raras vezes, distraiem-se facilmente com
estímulos desinteressantes e irrelevantes; amiúde, esquecem-se de executar as
tarefas diárias comuns.
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PERTURBAÇÃO DE HIPERACTIVIDADE COM DÉFICE DE
ATENÇÃO
Miguel Palha – Pediatra do Desenvolvimento
Centro de Desenvolvimento Infantil DIFERENÇAS
Outro grupo de manifestações está relacionado com a hiperactividade (ou excesso de
actividade): mexem as mãos e os pés e não se mantêm sentados; frequentemente,
levantam-se na sala de aula ou em outras situações em que é exijida a posição de
sentado; correm, saltam e trepam de uma forma excessiva, em situações
inapropriadas; frequentemente, têm dificuldade em participar em jogos ou em
actividades de uma forma calma; parecem ter uma energia inesgotável e estão sempre
na disposição de mudar; amiúde, falam demasiado.
O terceiro grupo de manifestações enquadra-se naquilo a que se convencionou
chamar de impulsividade: facultam respostas a perguntas que não foram completadas;
podem ter dificuldade em esperar pela sua vez; frequentemente, interrompem ou
intrometem-se nas actividades dos outros (por exemplo, interrompem conversas ou
jogos).
De uma forma simples, para que o diagnóstico de PHDA possa ser formulado, é
necessário que algumas das manifestações de desatenção (pelo menos seis) e de
hiperactividade/impulsividade (pelo menos um total de seis destes dois grupos),
persistam por um período superior a seis meses. Alguns comportamentos são notados
antes dos 7 anos de idade. As manifestações devem ocorrer em dois ou mais
ambientes (escola, trabalho, casa, rua) e terá de haver uma evidência clinica de
alteração significativa do comportamento a nível social, académico ou ocupacional.
Deve-se procurar, no exame físico, sinais de doenças que podem apresentar
manifestações sobreponíveis às da PHDA. Um exemplo paradigmático é o do
hipertiroidismo (excesso de produção de hormonas tiroideias). Outros exemplos de
doenças mais ou menos frequentes: a intoxicação pelo chumbo (saturnismo), a
anemia por falta de ferro (anemia ferripriva) e os défices auditivos. Para muitos
autores, as perturbações emocionais não são uma das causas de PHDA, mas, antes,
um dos seus diagnósticos diferenciais (ou seja, são perturbações que podem
apresentar algumas manifestações comuns, mas as causas, os mecanismos
patológicos, a evolução e o prognóstico, entre outros, são consideravelmente
distintos).
A intervenção terapêutica tem por objectivo o desenvolvimento de um adequado
equilíbrio emocional e, também, a optimização do desempenho académico e
ocupacional. Embora as manifestações de desatenção e de impulsividade se reduzam,
geralmente, com o tempo, o sentimento de uma má auto-estima poderá agravar-se,
como resultado da reacção negativa dos companheiros, dos pais e dos professores,
entre outros. É fundamental que as famílias aceitem e compreendam as crianças com
os comportamentos típicos da PHDA. Há um grupo de medicamentos com excelentes
resultados. Refiro-me aos psico-estimulantes.
O mais conhecido e utilizado é o metilfenidato (Ritalina; Concerta ; e Rubifen),
utilizado desde a década de 40 do século passado. Com a administração criteriosa
destes medicamentos, consegue-se obter, em 70-80% das crianças, melhorias
significativas, notadas pelos familiares e pelos professores.
A aquisição deste medicamento, por motivos que se prendem com a possibilidade de
uma utilização indevida, designadamente para dopping, obedece a normas
excessivamente rígidas e desajustadas (prescrição em receitas especiais). Felizmente,
estes medicamentos são muito seguros, com raros efeitos secundários indesejáveis (o
mais frequente é a falta de apetite nas primeiras semanas de terapêutica). A par da
terapêutica medicamentosa, algumas intervenções psicológicas (como a terapia
cognitivo-comportamental e a terapia familiar, por exemplo) e sociais (como os
esclarecimentos aos familiares, aos professores, aos companheiros) devem ser
dinamizadas.
Num grande número de casos, os sintomas atenuam-se à medida que a idade avança
e, na idade adulta, só uma pequena minoria apresentará manifestações enquadráveis
na PHDA.
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Miguel Palha – Pediatra do Desenvolvimento
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O QUE É O METILFENIDATO?
É um fármaco psicoestimulante, do grupo das anfetaminas, que actua ao nível do
Sistema Nervoso Central, aumentando a atenção e a concentração e reduzindo os
comportamentos impulsivos.
É uma substância utilizada há mais de 60 anos com eficácia cientificamente
comprovada nos casos de défice de atenção.
Como actua o metilfenidato?
É um potente inibidor da recaptação de alguns neurotransmissores (como a
dopamina) ao nível do cérebro. As crianças com défice de atenção têm uma
diminuição da dopamina cerebral. O Metilfenidato repõe os seus valores, para que as
células responsáveis pela concentração possam funcionar.
Desta forma, o fármaco eleva o nível de alerta do sistema nervoso central e
incrementa os mecanismos excitatórios do cérebro resultando numa melhor
concentração.
Efeitos secundários
A redução de apetite e a insónia são os principais efeitos colaterais do metilfenidato.
Salientam-se, também, dores abdominais e de cabeça, que desaparecem
habitualmente após a primeira ou segunda semana de terapêutica.
Algumas crianças podem ficar excessivamente sonolentas e outras mais irrequietas
ou irritáveis. O ajuste da dose diminui estes sintomas.
Não estão comprovados efeitos secundários a longo prazo que possam ser atribuídos
ao medicamento (nomeadamente ao nível do crescimento).
Antes de se iniciar uma terapêutica farmacológica, mormente nas idades pediátricas,
e por mais segura que a mesma seja, constitui boa prática clínica a avaliação do
funcionamento de alguns órgãos e sistemas, designadamente da função renal,
hepática, tiroideia, hematológica, cardíaca e metabólica.
Uma vez que o Metilfenidato pode aumentar, ainda que de uma forma muito ligeira, a
Frequência Cardíaca e a Tensão Arterial, constitui uma boa prática, por nós também
recomendada, a realização de uma consulta de Cardiologia Pediátrica antes de se
iniciar a administração da substância, com o objectivo de se detectar uma cardiopatia
estrutural ou funcional que, por ausência de manifestações clínicas significativas,
tivesse passado, até então, despercebida.
Sabe-se, actualmente, que em crianças e adolescentes com perturbação de
hiperactividade e défice de atenção existe um maior risco de ocorrência de problemas
de abuso/dependência de drogas, sobretudo no final da adolescência. No entanto,
está demonstrado que, quando eficazmente tratados, designadamente com
metilfenidato, o número de casos de abusos de substâncias e de comportamentos
anti-sociais destes jovens diminui, já que os mesmos poderão abandonar o círculo
vicioso de insucesso e de problemas pessoais, familiares, escolares e sociais.
O metilfenidato não provoca dependência.
Qual a eficácia do metilfenidato?
É o fármaco mais eficaz no tratamento do défice de atenção, alcançando 80% de
sucesso.
Na maioria dos casos, é utilizado em crianças em idade escolar, mas é eficaz em
todas as idades.
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Miguel Palha – Pediatra do Desenvolvimento
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O medicamento pode ser suspenso em qualquer altura sem necessidade de redução
da dose.
Diferenças entre as Formulações Comerciais
Existem vários nomes comerciais para esta substância química: Concerta® (18, 36 e
54mg) ; Ritalina LA ® (20, 30 e 40mg) ou Rubifen® (5; 10; e 20 mg). A diferença
entre as formas comerciais consiste no tempo de duração de acção respectivamente
10 a 12 h, 6 a 8h e 4 horas.
O Rubifen ® (comprimidos), pela sua duração de acção, tem de ser administrado
várias vezes ao dia e pode ser esmagado para facilitar a deglutição.
A Ritalina LA ® é comercializada em cápsulas, pelo que a mesma pode ser aberta e o
seu conteúdo misturado em água, leite, iogurte ou outro alimento, desde que à
temperatura ambiente ou fria.
O Concerta ® deverá ser administrado a seguir ao pequeno-almoço. Os comprimidos
têm de ser engolidos e não podem ser esmagados ou divididos, devido ao mecanismo
de libertação prolongado inerente à própria estrutura do comprimido.
O medicamento pode ser tomado conjuntamente com outros fármacos, como
antibióticos, analgésicos ou antipiréticos.
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