a guerra assimétrica no iraque

Transcrição

a guerra assimétrica no iraque
A GUERRA ASSIMÉTRICA NO IRAQUE
Após o fim da Guerra Fria ( 1947-1991 ) e a emergência inconteste da supremacia
econômica, tecnológica e militar dos EUA, grande parte dos analistas internacionais
assumiram a tese do “fim da história”, que em si mesmo embutia a noção de fim das
guerras. A nova hegemonia americana – baseada em uma amplíssima panóplia militar –
supunha a inexistência de qualquer desafio significativo ao domínio americano, ensejando
no novo século a Paz Americana.
Francisco Teixeira
www.agenciacartamaior.com.br
Após o fim da Guerra Fria ( 1991 ), em assuntos militares, os EUA ainda
mantinham a postura assumida durante a longa Administração Clinton: o uso maciço da
supremacia aérea – aviação+balística – e limitação das tropas de solo, visando a superação
da “Síndrome do Vietnã”( ver artigo anterior ) e o custo político da “contagem de corpos”.
Assim, ao longo dos conflitos na ex-Iugoslávia ( em especial em Kossovo, em
1999 ) os americanos evitaram um contato imediato com as tropas adversárias no solo,
voltando-se para ações de destruição da infra-estrutura logística, militar e econômica dos
sérvios. Vigia a chamada Doutrina Powell: “...nós atiramos e eles morrem!” Assim,
tinham os americanos descoberto a “guerra ideal” ( em comparação com a carnificina do
Vietnã ). Por outro lado, muitos críticos acusavam a Administração Clinton de paralisia
perante os inimigos da América, duvidando mesmo da inteligência e da coragem dos
“generais de Clinton” em perseguir, com meios militares, os objetivos políticos do país.
A superioridade de meios dos EUA prenunciava uma rápida e
inconteste vitória militar.
Como vimos no artigo anterior, Donald Rumsfeld, na linha de frente dos ideólogos
neo-conservadores de George Bush, visavam, ao assumir o governo americano em 2001,
restaurar a confiança americana e explorar, profundamente, a vitória obtida contra os
soviéticos na Guerra Fria. Foi neste contexto que arquitetaram a Guerra no Iraque como o
cenário ideal para testar o novo modelo de guerra e seu corolário, a pretensa “Doutrina
Rumsfeld”.
O Nascimento da Guerra do Futuro
Em 1993 o Governo Clinton decidiu-se por uma intervenção considerada
“humanitária” na Somália, onde um confronto entre diversos partidos e “senhores da
guerra” locais ameaçavam a unidade e soberania do país africano. Para os Estados Unidos
tratava-se de evitar a transformação da Somália em mais um “país falido”, capaz de abrigar
bases e santuários do terrorismo internacional, do narcotráfico e do crime organizado.
Devemos notar que no mesmo ano, em 1993, um comando terrorista islâmico ligado
a, então, desconhecida organização Al Qaeda tentara dinamitar o World Trade Center, em
Nova York. A tentativa, feita através de um carro-bomba colocado na garagem do prédio,
falharia – dessa vez! Contudo, a percepção da inteligência americana acertara em ver na
destruição das instituições estatais somalis um grave risco, ampliando as possibilidades de
enraizamento do terrorismo que já apontava a América como o principal inimigo. Foi neste
sentido que Clinton despachou para Mogadiscio uma força-tarefa, altamente treinada e
formada de comandos especiais ( 100 Army Rangers ), para evitar o controle da cidade
pelos senhores da guerra. A reação foi imediata: com armas precárias, tubos de lançagranadas de US$200, os combatentes irregulares somalis provaram uma larga eficiência,
derrubando os super-helicópteros militares americanos e matando 19 comandos
americanos, num dramático episódio da história militar contemporânea.
O drama de Mogadiscio, a capital somali ( que dará origem a um livro e um filme
de grande sucesso: Black Hawk Dawn, 2001, direção de Ridley Scott ), provaria que
mesmo a hiperpotência americana, que exerceria uma tranqüila hegemonia mundial,
poderia ser desafiada. A tecnologia superior americana, o excelente treinamento dos
soldados e a grande disponibilidade financeira não bastavam para assegurar a vitória do
poder superior num cenário adverso.
Falcão Negro em Perigo ( Black Hawk dawn, filme de 2001,
de Ridley Scott) , onde se procura explicar como a
superioridade técnica e militar americana foi superada pela
ação assimétrica dos combatentes somalis.
O fracasso de uma missão em solo fortalecia, no
governo Clinton, a visão dos oficiais superiores
contrários a qualquer envolvimento direto da
América numa guerra assimétrica. A chegada de
Bush ao poder veio alterar tal concepção
estratégica.
À bem da verdade, a Guerra do Afeganistão, entre 1979 e 1989, com soviéticos
contra a resistência islâmica, já havia mostrado que um poder superior poderia ser
paralisado pela multiplicação de meios, mesmo que inferiores, quando utilizados por um
grupo, partido ou exército bem preparado, aguerrido e com forte coesão ideológica. Da
mesma forma, a evidente superioridade de Israel – inclusive em termos de inteligência,
através de um dos melhores serviços secretos do mundo – não conseguiu, até hoje, abalar a
capacidade de resistência – e de promover ações violentas altamente dolorosas – da
população da Palestina ocupada.
Entretanto, a nova forma de guerra, denominada de “assimétrica” – visto ser a
guerra do fraco contra o forte -, não se ressume numa atualização tecnificada da clássica
guerrilha, como praticada no Vietnã. Embora a extensão do uso de armas anti-mecanização
– contra carros de assalto; transportes; helicópteros, etc... – ao lado da multiplicação de C’2
( Comando & Controle ), com novos meios, como laptops e celulares seja uma ferramenta
básica da guerra assimétrica, o seu conceito estratégico é bem mais amplo. A estratégia
assimétrica, visando à vitória de um poder inferior frente a uma potência superior, implica
em um novo elenco tático, na verdade uma ampla base de instruções, que molda a nova
modalidade de combate.
A Guerra Assimétrica
O eixo mais visível da guerra assimétrica permanece no âmbito clássico da guerra
não-convencional: uma potência militarmente inferior, em posição de auto-defesa, quer
dizer sob ataque ou ocupação, pode recorrer ao que denominamos de “táticas nãoconvencionais”, como ataques surpresa, seguidos de retiradas; recusa em dar combate em
situação de inferioridade; escaramuças; batalhas seletivas, sabotagem, etc... Estaríamos,
ainda aí, no domínio clássico da guerra de guerrilhas, tal como nos textos de Mao Zedong,
Van Giap e Che Guevara. Porém, a guerrilha é apenas uma das mais velhas formas de
combate assimétrico e, de certa forma, já previsto no livro “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu,
escrito no II século antes de Cristo.
Mas, o arsenal de táticas assimétricas não se esgota na atualização tecnológica da
guerrilha.Uma outra dimensão da guerra assimétrica é o uso, em larga escala, de meios nãoconvencionais de combate. Assim, um poder mais fraco, quando atacado em seu território
ou em defesa do que considera seus legítimos interesses, poderia considerar tais métodos
como necessários para sua auto-defesa. Destruir as bases econômicas do adversário, dentro
ou fora do seu território, cortar suas linhas de suprimento, atingir suas instalações sob
forma dissimulada – seja no país ocupado, seja na sede do país ocupante -; impor condições
de stresse permanente para a tropa ocupante, impedir o descanso e semear o pânico entre os
aliados “nativos” dos ocupantes são, todos eles, meios passíveis de uso numa guerra
assimétrica. Claramente a guerra assimétrica visa “quebrar a vontade política” do mais
forte. Assim, a associação com o crime organizado, o uso de meios terroristas contra a
população civil e alvos não-militares são, infelizmente, uma grande possibilidade.
Evidentemente, a maior parte deles pode, claramente, assemelhar-se com atividade
criminosa e estar, literalmente, fora das leis de guerra. Por essa razão a máxima "One man's
terrorist is another man's freedom fighter” parece fazer sentido, por exemplo, para os
combatentes mujahedins no Iraque.
Existem, ainda, outras dimensões da guerra assimétrica, em especial através do uso
maciço de meios eletrônicos, virtuais e da nova economia “de plástico”. Tais métodos
podem, ou não, ser utilizados por grupos autônomos – tais como redes terroristas – ou por
Estados-Nação ( ou seus simpatizantes ), conforme aparece no texto teórico que mais
avançou no debate da guerra assimétrica. Trata-se de “A Guerra sem Limites”, publicado
em 1999, por dois oficiais da China Popular, Qiao Liang e Wang Xiangsui: tratava-se
claramente de tirar o máximo de vantagens de um mundo altamente tecnificado,
globalizado e mediatizado.
O livro chinês, após 11/09/01, passou a causar certo mal-estar, posto que muitos
identificaram em seus ensinamentos as bases de ação da Al Qaeda. Na verdade, tratava-se
de uma manualização de práticas já largamente em curso, inclusive praticadas pela CIA no
Afeganistão contra os soviéticos.
Os ataques terroristas de 11 de setembro
de 2001 estariam contemplados no
âmbito da nova guerra assimétrica,
levando o conflito ao interior do país
mais poderoso da História.
Algumas destas modalidades da nova guerra assimétrica foram colocadas em prática
depois da invasão americana do Iraque em 2003. Forças nacionalistas iraquianas,
denominadas de “insurgentes”, ou “resistentes”, dependendo do ponto de vista, procuraram
atingir o Estados Unidos visando sua retirada do país. Evidentemente sabiam não ter os
meios para vencer a formidável panóplia militar norte-americana.
Assim, começaram uma guerra assimétrica como forma de “libertação”nacional.
Pensando a Resistência:
Os objetivos iniciais dos EUA no país – a criação de um Iraque pró-ocidental no
coração de um Oriente Médio reformatado à luz dos interesses norte-americanos – foram
claramente ultrapassados pelos acontecimentos. De qualquer forma, e sejam quais forem os
desdobramentos militares da guerra, do ponto de vista político, os EUA são, hoje, os grande
perdedores. Devemos ter em mente que os objetivos de uma guerra são sempre políticos –
como já afirmava Clausewitz. Neste sentido, tal qual no Vietnã entre 1964-1975, os
americanos cometeram graves erros, não conseguindo avaliar corretamente o sentimento
nacional iraquiano, a força de coesão da religião islâmica e a possibilidade de caos derivado
da dissolução do Estado baasista, em especial da polícia e das forças armadas. Neste
sentido, faltou aos americanos uma abordagem antropológica e histórica das condições da
guerra, imaginando pura e simplesmente a adesão da sociedade iraquiana aos valores
considerados supremos pela Administração Bush. Da mesma forma, uma série de erros
sucessivos na gestão do país ocupado – do saque de Bagdad até os tremendos abusos da
prisão de Abu Graib – foram habilmente utilizados no âmbito mediático da guerra.
Tal erro de apreciação americana derivava de um contato muito intenso da
inteligência americana com a elite ocidentalizada iraquiana, no exílio há décadas. Boa
parte desta elite não viveu a Guerra Irã-Iraque ( 1980-1988 ), a Guerra do Golfo de 1991
e os anos de bloqueio e bombardeios subseqüentes, não podendo avaliar o ressentimento
anti-ocidental presente na população local.
A estratégia da violência
O ponto central da estratégia da resistência, como praticada no Iraque enquanto
parte de uma guerra assimétrica, reside na questão da segurança – ou melhor, na produção
maciça da insegurança. Com o atual grau de violência no país todos os esforços para a
reconstrução institucional e econômica do Iraque são praticamente inúteis. A resistência
iraquiana – mais de trinta grupos diferentes estão em ação hoje – sabe perfeitamente que é
incapaz de derrotar militarmente a coligação encabeçada pelos EUA. Assim, buscam o que
Clausewitz chamou de “centro de gravidade” do inimigo: a base de apoio de todo o sistema
político-militar que quando tocada desarma o equilíbrio do adversário. Os resistentes
iraquianos, como foi o caso dos Vietcongs entre 1964 e 1975, entendem que o centro de
gravidade dos EUA é político e não militar. Assim, promovem o maior número de ações
possíveis, marcadas por ataques pontuais e retiradas rápidas, evitando uma batalha decisiva
onde a superioridade de meios americanos seria arrasadora. Procuram coordenador dois
objetivos: provocar o maior número de baixas possíveis e evitar a reconstrução econômica
do país, causando grande ônus financeiro aos americanos. Tais objetivos poderiam levar a
população americana, a médio prazo, a exigir a retirada das tropas, mesmo sem uma grande
derrota militar.
A gestão equivocada, e mesmo injusta, da
guerra no
Iraque – em especial os
acontecimentos na prisão de Abu Graib –
espelham a incompreensão dos EUA sobre um
dos aspectos centrais da nova guerra
assimétrica: o uso da mídia globalizada.
Hoje, quando as baixas americanas atingem mais de 1700 soldados, apenas 37% da
população americana considera adequada a condução da guerra pela Administração Bush, o
que aponta claramente para a adequação da estratégia da resistência iraquiana.
É verdade que o país sofre com a falta de luz elétrica, que ocasiona a parada do
sistema de abastecimento de água potável e de escoamento de esgotos, além de atingir o
funcionamento de escolas e hospitais, em razão da estratégia da resistência adotada. Além
disso, as exportações de petróleo caíram abaixo da época de Saddan Hussein, em pleno
funcionamento do bloqueio ocidental imposto ao país, com os constantes ataques ao
sistema de extração e transporte de petróleo. Oleodutos, estações de bombeamento e
mesmo refinarias são alvos constantes da resistência, causando gravíssimo dano econômico
ao país ( a infra-estrutura petroleira do país sofreu 642 ataques em 2004, com prejuízos na
ordem de US$ 10 bilhões ). Este é um dos objetivos da resistência: a guerra deve custar
caro aos contribuintes americanos.
É claro, que custa terríveis sacrifícios ao próprio povo iraquiano.
A idéia inicial da guerra do Iraque como um bom negócio – conforme apregoavam os
neo-conservadores americanos - deve ser paga com elevadíssimo ônus.
Da mesma forma, o ataque a estrangeiros – mesmo civis – em atuação no Iraque é
um objetivo estratégico maior da resistência. Trata-se de tornar o Iraque uma terra
inóspita para estrangeiros, sejam jornalistas, empresários, médicos ou funcionários da
ONU.
É nesse contexto que devemos entender a “indústria dos seqüestros”. O seqüestro
de estrangeiros visa três objetivos simultâneos: estabelecer o pânico entre possíveis
candidatos a empregos nas empresas ocupadas com a reconstrução do país; a produção
de recursos financeiros para a manutenção da resistência ( resgates tem variado, segundo
fontes disponíveis, entre US$100 e US$300 mil dólares para funcionários subalternos,
principalmente de origem asiática, podendo em casos de grande visibilidade política e de
procedência de países membros da coligação atingir valores superiores a US$ 1 milhão );
projetar diretamente a guerra no interior da sociedade do adversário, levando a opinião
pública a questionar a presença dos seus militares num “país remoto do Oriente Médio”.
O uso generalizado da violência
A violência não atinge apenas as tropas de ocupação e os estrangeiros no país. A
própria população iraquiana sofre duramente a ação de segmentos que formam um misto de
criminalidade e insurgência. Assim, por exemplo, centenas e centenas de meninas, entre 10
e 16 anos, são seqüestradas diariamente para serem vendidas ( por US$10 até US$30 mil )
nos estados petrolíferos do Golfo Pérsico, visando arrecadar dinheiro para a resistência ou
por puro banditismo. Um grande número de cristãos iraquianos – normalmente
proprietários de lojas de venda de bebidas alcoólicas ou de diversão – estão sendo
diariamente assassinados, além de um número crescente de ex-funcionários públicos do
regime de Saddan Hussein. Assim, antes de qualquer coisa, a segurança é um ponto central
e neste setor o governo iraquiano e as tropas de ocupação estão sendo diariamente
derrotados.
Até muito recentemente a resistência usava como forma básica de organização
pequenas células de 3 até 7 membros, tendo como base áreas suburbanas e periféricas de
grandes centros urbanos, em especial junto ao chamado Triângulo Sunita, ao centro do país.
A partir do ano passado, tais células expandiram para um média de 11 homens, muitas
vezes ultrapassando vinte homens, o seu quadro de operações.
Desde 2004 a insurgência adquiriu larga mobilidade, para além da minagem de vias
públicas, usando veículos para ações de ataques contra pontos fixos ( quartéis, delegacias )
ou objetivos móveis ( comboios, carros de funcionários ). Percebe-se aí a ampla utilização
de telefones celulares – mais de 200 mil vendidos nos últimos seis meses, além de um
grande número de furtos de carros. Tais ações de logística permitiram ampliar a
capilaridade de C´3 ( “Comando., Controle e Comunicação” ) em ação.
O crescente número de baixas e a
ausência de resultados começam a
criar um clima hostil à guerra nos
EUA.
A partir das eleições de janeiro de 2005, e muito especialmente depois da formação
do novo governo iraquiano, em maio de 2005, a espiral ascendente de mortes no país
acelerou-se.
Neste sentido, a guerra assimétrica no país teria avançado para um novo estágio: a
retirada dos americanos e seus aliados do país não seria mais o “stated aim” da insurgência
e, sim a inviabilização total do sistema, com o “derretimento” das instituições e o
“atolamento” dos americanos no país. Teríamos aqui uma estratégia “anti-Vietnã”: no
Vietnã a Frente de Libertação Nacional do Vietnã ( e o seu aliado do Norte ) aceitaram
condições de diálogo e reconhecimento do governo de Saigon visando a retirada dos USA
( em 1973 ) e só depois disso lançaram um campanha de aniquilamento do governo da
República ( Sul) do Vietnã. Visavam aí separar os americanos de seus aliados em Saigon e
em uma guerra “particular”, entre 1973 e 1975, aniquilar o governo pró-ocidental de
Saigon. O que vemos agora no Iraque é uma estratégia de inviabilizar a tal ponto a
administração de Bagdad, que os americanos ficariam na obrigação de manter a ocupação,
expondo-se a perdas constantes e pesadas, visando uma retirada unilateral humilhante ou
iniciar negociações imediatas com a insurgência.
O anúncio no último fim de semana ( 23/06/05 ) por parte do governo dos Estados
Unidos de negociações secretas com a resistência - com quem Bush havia afirmado não
haver contemporização, posto serem terroristas, criminosos e cavemen irracionais -, soa
como a admissão tardia de que a guerra assimétrica não se vence por meios militares,
mesmo que muito superiores.
Francisco Carlos Teixeira Da Silva
Professor Titular de História Moderna e Contemporânea/UFRJ