a cultura popular na passagem pedreirinha do guamá em belém

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a cultura popular na passagem pedreirinha do guamá em belém
A CULTURA POPULAR NA PASSAGEM PEDREIRINHA DO GUAMÁ
EM BELÉM-PARÁ MANIFESTA-SE EM EXPERIÊNCIAS DE
“EDUCAÇÃO CULTURAL” E EM FORMAS DE SOCIABILIDADE E
RECIPROCIDADE ENTRE OS SUJEITOS PARTICIPANTES1
Clélio Palheta Ferreira2
Carmem Izabel Rodrigues3
RESUMO
O artigo analisa relações de sociabilidade e reciprocidade em experiências de educação
cultural, junto a crianças, adolescentes e adultos participantes de manifestações de cultura
popular na Passagem Pedreirinha do Guamá, em Belém, considerando a utilização de métodos
especiais ou práticas de transmissão de saberes tradicionais na formação de novos
conhecedores, dentro da perspectiva freireana, com base nos quatro pilares da educação.
Nesse contexto, as formas de sociabilidade e reciprocidade, expressas em eventos
carnavalescos e juninos, além de seus aspectos lúdicos, compreendem ações que ampliam os
horizontes de cidadania dos participantes nos processos em estudo ao expandirem o espaço
em que são realizados, com a inclusão de relações rua/casa ou espaço público/privado,
ocasionando-lhes novas perspectivas educativas, inseridas em seus locais de residência.
Palavras-chave: Cultura Popular; Educação Cultural; Sociabilidade; Reciprocidade.
O objetivo deste artigo é analisar relações de sociabilidade e reciprocidade em
experiências de educação cultural, realizadas junto a crianças, adolescentes e adultos que
participam ou participaram de manifestações de cultura popular na Passagem Pedreirinha,
bairro do Guamá, em Belém-Pará-Brasil. A análise considera os métodos especiais ou práticas
de transmissão de saberes tradicionais e formação de novos conhecedores, num ambiente de
sociabilidade e reciprocidade, dentro de uma perspectiva teórica pautada em conceitos
elaborados por Simmel (1983, 2004) e Mauss (2003). Considera também a perspectiva de
Freire (1983) sobre o compromisso com a transformação da realidade social dos envolvidos,
1
Trabalho apresentado na Divisão Temática “Culturas urbanas: teorias, reconfigurações e discursos”, durante o
Culturas, Linguagens e Interfaces Contemporâneas 2012, realizado no Espaço Benedito Nunes, na Saraiva
MegaStore, de 20 a 23 de novembro de 2012.
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Mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Pará-UFPA/PPGCS-Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais, área de concentração em Antropologia. E-mail: [email protected]
3
Doutora em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Sociais, área de concentração em Antropologia, da Universidade Federal do Pará. Email: [email protected]
2
bem como a proposta interpretativa de Bourdieu (1989,2010) sobre a ampliação do capital
social, cultural e simbólico desses sujeitos, a partir de processos de aprendizagem em que a
transmissão de saberes tradicionais caracteriza-se por comprometimentos que levam a
mudanças de atitudes diante da importância das manifestações culturais registradas no local
de estudo e da realidade social dos participantes.
Nesse sentido, é possível perceber que as formas de sociabilidade e reciprocidade
registradas pela etnografia, expressas em eventos carnavalescos e juninos, ampliam os
horizontes de cidadania de seus participantes ao expandirem o espaço em que são realizadas,
incluindo-se relações rua/casa ou espaço público/privado, ocasionando-lhes novas
perspectivas educativas ligadas aos seus locais de residência, mas em constantes mutações,
haja vista que essas possibilidades se ampliam em espaços situados fora da rua, do bairro, da
própria cidade, etc. Portanto, as características dessas relações não são importantes apenas por
seus aspectos lúdicos, incluem ações geradas a partir delas que buscam a transformação da
realidade num ambiente de diversidade e desigualdade social, destacando-se as referências
com os quatro pilares da educação, estudados por Rubem Alves (2008), ou seja: “aprender a
aprender; aprender a fazer; aprender a conviver; enfim, aprender a ser”.
Breve apresentação da Passagem Pedreirinha do Guamá em Belém-Pará
A etnografia, realizada através de observação direta com entrevistas gravadas ou não
com participantes das manifestações culturais registradas, registra como importantes as
experiências vividas desses participantes no contexto em estudo situado na passagem
Pedreirinha do Guamá, localizada na Av. José Bonifácio, entre as Ruas Silva Castro e Barão
do Igarapé-Miri, em Belém-Pará-Brasil. Esse local, durante o ano todo, apresenta uma série
de práticas da cultura popular, destacando-se um ambiente de convivência muito interessante,
expresso em cortejos carnavalescos, juninos e religiosos, onde se observa relações de
interação entre os participantes, ligados entre si por redes de sociabilidade, especialmente nos
períodos de preparação e realização dos eventos através de atividades que ocorrem tanto na
rua (passagem) propriamente dita quanto nas residências de famílias residentes no local, assim
como nas instalações da Escola de Samba Bole-Bole, incluindo-se atividades e oficinas de
preparação para o desfile oficial promovido anualmente pela Prefeitura Municipal de Belém.
3
É expressivo o envolvimento das pessoas nos eventos registrados na passagem,
principalmente nas atividades da Escola de Samba Bole-Bole; do Boi Bumbá Malhadinho do
Guamá; da Escola de Samba Mirim Frutos do Xequerê e do Bloco Carnavalesco Mexe-Mexe,
destacando-se a participação, nos ensaios, oficinas e desfiles, de moradores no local de estudo
ou oriundos de outras ruas do bairro do Guamá e de outros bairros de Belém que para lá se
deslocam, fortalecendo o estabelecimento de redes de sociabilidade e relações de
reciprocidade que envolve vizinhos, parentes e amigos (MAGNANI, 1996; RODRIGUES,
2008).
As quatro associações existentes, dedicadas às diversas manifestações de cultura
popular, desenvolvem suas atividades principalmente nas residências das famílias Corrêa e
Soares, localizadas na passagem (e que assumiram respectivamente as atividades do Bloco
Carnavalesco Mexe-Mexe, do Boi Malhadinho do Guamá e da Escola de Samba Mirim Frutos
do Xequerê) e no leito da própria rua, pois as residências não preenchem todas as
necessidades de espaço requeridas para os ensaios e oficinas. O mesmo ocorre em relação à
Escola de Samba Bole-Bole que utiliza, com a mesma finalidade, as dependências de sua
própria sede, mas, quando necessário, desloca suas atividades também para o leito da rua.
Assim, nos vários casos, nota-se a utilização mista de espaços privados que se transformam
em espaços públicos.
O espaço interno da Escola de Samba Bole-Bole é utilizado para suas próprias
atividades enquanto escola de samba, mas também, várias vezes, é cedido para a promoção de
atividades relativas às outras associações culturais citadas, especialmente quando estas
objetivam auferir recursos financeiros para suas promoções. Caracteriza-se então o espaço do
Bole-Bole como importante por ser utilizado pelos moradores da passagem e para eventos
gerais sempre que ocupadas suas instalações.
Por outro lado, no conjunto das atividades referidas ligadas às associações culturais
citadas inserem-se as produções de indumentárias usadas nas apresentações dos respectivos
cortejos, assim como a organização de oficinas e ensaios de ritmos e danças, trabalhos esses
que são desenvolvidos pelos moradores e seus familiares, residentes ou não na passagem.
Essas atividades incluem também possibilidades de trocas entre produtores de materiais
necessários à realização dos eventos. Neste sentido, destaca-se a prática e transmissão de
saberes tradicionais, através de métodos especiais, principalmente quando envolvem crianças
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e adolescentes que participam em todas as manifestações citadas, ressaltadas suas
especificidades. Consequentemente, as relações estabelecidas entre os indivíduos envolvidos
pelos processos de trocas no contexto estudado compreendem convivências que se
multiplicam no tempo e no espaço, correspondendo às formas de sociabilidade percebidas.
Além da ligação com os eventos culturais propriamente ditos, as ações deles
decorrentes interferem no desenvolvimento da cidadania dos participantes, especialmente
quando relacionadas com a educação formal oferecida nas escolas do bairro, uma vez que a
participação de crianças e adolescentes nos eventos festivos registrados pela etnografia
relaciona-se de alguma forma com seu desempenho escolar de cada um deles. Foi possível
observar ainda na passagem Pedreirinha que os processos de transmissão de saberes, presentes
nas atividades culturais desenvolvidas, implicam na aprendizagem de uso de instrumentos
musicais e na importância de cada participante no respectivo evento de cultura popular em
que se insere. O aprendizado resultante, certamente, provoca-lhes o interesse em continuar
participando.
Esses processos de transmissão de saberes, relacionados à cultura popular, iniciados
desde a fundação da Escola de Samba Bole-Bole em 1984, continuaram durante a história
dessa agremiação, assim como os que se iniciaram em 1989 com as atividades relacionadas ao
Boi Bumbá Malhadinho do Guamá. Ainda em 1999, com as atividades do Bloco
Carnavalesco Mexe-Mexe, ou a partir de 2000, com as atividades da Escola de Samba Mirim
Frutos do Xequerê, persistindo até o momento, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas
por seus participantes e promotores, envolvendo indivíduos em interação num horizonte
temporal bastante significativo.
Sobre a história da E.S. Bole-Bole, sediada na Passagem Pedreirinha, foram
realizadas entrevistas com Herivelto Martins (Vetinho), Carlos Benedito Soares (Charles
Brown), Nazareno Silva e Kleber Oliveira. Em tais referências percebe-se que essa escola de
samba desenvolve atividades de incentivo e desenvolvimento da cultura popular na passagem
referida, funcionando como um espaço cultural significativo na passagem e no bairro do
Guamá. Cabe destacar também: as primeiras oficinas relacionadas ao chamado “resgate” do
Boi Malhadinho do Guamá, hoje sediado na própria passagem, e assumido pela família do
senhor Raimundo Maciel Soares, sob coordenação de suas filhas Socorro, Lourdes, Doralice
(Dora), Laíde, Teca e Edna Soares, e de seus genros (Agostinho e Francisco das Chagas Filho
5
– Pitico), especialmente Evaldo Gomes (falecido em janeiro de 2012), carnavalesco, artesão e
criador de indumentárias e alegorias do referido cordão junino, além de trabalhar anualmente
no carnaval de rua de Belém e de outros municípios para várias agremiações; a realização de
ensaios e oficinas ligadas à Escola de Samba Mirim Frutos do Xequerê, que iniciou suas
atividades nas dependências do Bole-Bole, voltadas para o atendimento de crianças e
adolescentes, tendo gerado “frutos” significativos no alcance de seus objetivos. Destacam-se
ainda as atividades desenvolvidas nessas manifestações, através da participação, produção e
coordenação, de Nazareno Silva (falecido em setembro de 2009), músico profissional e
pesquisador da cultura popular no Pará, principalmente pelo envolvimento de crianças e
adolescentes, além de Ronaldo Silva, músico e compositor hoje ligado ao Instituto Arraial do
Pavulagem.
Na pesquisa etnográfica, foram acompanhadas todas as atividades aqui referidas,
com registros em entrevistas que versaram sobre a história das pessoas ligadas as respectivas
agremiações. Cabe um registro especial à festa dedicada a São Pedro e São Paulo, realizada
desde 1955 na passagem Pedreirinha e ligada atualmente ao Bloco Carnavalesco Mexe-Mexe,
através de informações coletadas junto à moradora de maior referência na passagem quanto ao
evento, Dona Elza Corrêa, e seu filho Ladeomar Corrêa, conhecido como “Branco”, além de
Kleber Oliveira, neto de Dona Elza, por suas relações atuais com a direção dessa agremiação
e com a própria realização da festa.
Todas as referências citadas demonstram a importância das relações entre a
promoção dos eventos culturais e a geração de formas de sociabilidade e reciprocidade
exercidas pelos envolvidos em processos de interação em redes, que além da ludicidade
inerente às atividades, compreendem ações dos indivíduos envolvidos com a cultura popular
na passagem Pedreirinha, no sentido de suas promoções e consequências. De modo geral, as
entrevistas gravadas permitiram perceber o envolvimento dos moradores com as
manifestações culturais estudadas, sejam carnavalescas ou juninas, considerando os interesses
que essas pessoas demonstraram ter com os eventos culturais registrados na passagem e no
bairro do Guamá e a importância destes para suas próprias histórias de vida.
As entrevistas realizadas com esses moradores e/ou com participantes dos processos
em estudo destacam as práticas culturais contidas nos cortejos ou eventos. Indicam também a
existência do recurso político e econômico, sempre que possível, particularmente quando
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permitem a exposição da passagem perante o bairro do Guamá ou a cidade de Belém. Além
disso, mostram que os próprios moradores se relacionam, sempre que necessário, através de
arranjos associativos baseados na existência dessas práticas culturais para se divertirem, dadas
as características das manifestações citadas, mas também para agirem no sentido do
fortalecimento de suas cidadanias, abrindo espaços nos processos de interação que resultam
em efeitos de inclusão social e de reivindicações como, por exemplo, a melhoria da rua ou de
seu leito perante os órgãos oficiais responsáveis.
Por outro lado, é possível perceber que o local de estudo tem lugar destacado nas
representações sobre o bairro que, por sua vez, apresenta uma série de alternativas para a
pesquisa da sociabilidade, reciprocidade ou qualquer outro assunto que abranja as questões
sociais de modo geral. Trata-se de um bairro considerado como um dos mais violentos da
cidade de Belém, destacando-se os excessos na ênfase, especialmente da imprensa, dada aos
acontecimentos ligados à violência urbana em todas as suas nuances. Porém, ao mesmo
tempo, é um dos bairros mais significativos na expressão da cultura popular e suas
manifestações que, mesmo com uma série de dificuldades, consegue, felizmente, envolver a
maioria da população lá residente. Nesse contexto, a Passagem Pedreirinha é reconhecida por
sua identificação com as manifestações da cultura popular no bairro do Guamá e na cidade de
Belém.
Esses aspectos permitem notar as relações de interação entre os moradores,
especialmente na produção de eventos culturais carnavalescos ou juninos existentes na
passagem. Isso tudo, relaciona-se com o conceito simmeliano de sociabilidade, como “forma
lúdica de sociação” (Simmel, 1983). Segundo Simmel, a “sociação” se configura como um
processo composto de vários microprocessos em um contexto onde os indivíduos estão
interessados em permanecerem e ampliarem relações desse tipo. A sociabilidade, daí
decorrente, caracteriza-se por formas de interação, onde os envolvidos “gostam de estar
juntos”, identificam-se, interferem e marcam suas presenças nos eventos. Estes, ao se
multiplicarem, compõem um conjunto estruturado maior de relações ocorridas em locais de
pertencimento. Nesse ambiente os indivíduos se encontram, convivem, enfim, interagem uns
com os outros.
A passagem Pedreirinha apresenta-se, dessa perspectiva, como um lugar aonde essa
condição associativa é muito forte, aonde os participantes dos eventos festivos parecem estar
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em um mesmo patamar de relações, e daí decorrem novos processos de convivência que lhes
abrem novas perspectivas de vida. Cada indivíduo encontra motivações para criar novos
contatos com “outros” e as relações sociais inseridas tendem a se prolongar infinitamente,
desde que existam interesses para isso. Assim, ocorrem formas de interação ou de
sociabilidade que implicam em mudanças nas trajetórias de vida de cada indivíduo, sendo de
extrema importância a solidariedade e o respeito mútuo nas relações com os “outros” para que
ocorram ações capazes de gerar, no tempo e no espaço, as interveniências dos indivíduos nos
caminhos percorridos em suas vidas.
Conforme Maldonado (1996), para Simmel, existe uma diferença entre o homem e o
animal. Enquanto este “supera distâncias” [...] “o homem opera o milagre do caminho,
percebe tratos de natureza como paisagens, e se dá a processos de associação e dissociação”.
Segundo o próprio Simmel: “só ao homem é dado associar e dissociar” (p.5-9). O interessante
na interpretação de Maldonado sobre o ponto de vista simmeliano são as metáforas da “ponte”
e da “porta”. Segundo Simmel, afirma ela, a “ponte” assemelha-se à “esfera volitiva do
homem no espaço”, pois, “liga partes da paisagem, reaproximando extremidades e compondo
o caminho”. A “porta” liga-se aos mesmos princípios da “ponte”, ou seja, “os movimentos e,
sobretudo, as possibilidades da administração do espaço pelo homem e da construção de
perspectivas associativas/dissociativas [...] características da Sociologia simmeliana”.
Essa metáfora da “porta” é aqui fundamental, pois, sugere concepções ontológicas
entre opostos como “o abrir e o fechar”, “o entrar e o sair”, ligados às “possibilidades e
sentidos”, incluindo-se “processos afetivos” vistos como “exclusivamente humanos” (Idem, p.
5-9). É relevante considerar esses aspectos quando se trata de um tema como o aqui proposto,
pois a pesquisa de campo tem revelado particularmente a importância da afetividade nos
processos de interação registrados no local de estudo, especialmente ao perceber as
construções associativas e dissociativas, conforme expostas acima na perspectiva da “ponte”
ou da “porta”. Além disso, estas proposições estão relacionadas aos conceitos simmelianos de
“fidelidade”, “gratidão” e “reciprocidade”, necessariamente presentes nas redes de
sociabilidade, em constantes processos de mudança, na passagem Pedreirinha do Guamá.
Como referido anteriormente, é importante notar que estas relações estão ligadas a
eventos festivos, mas não se limitam apenas a eles, pois implicam em formas de ações
individuais e coletivas, principalmente quando envolvem crianças, adolescentes e adultos em
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práticas de ações culturais educativas, produzindo mudanças em suas trajetórias existenciais.
Nesse sentido, as práticas da cultura popular interferem nos processos identitários produzidos
entre os moradores e/ou usuários do bairro, oportunizando novas formas de sociabilidade e
reciprocidade, através de processos de interação em redes, envolvimento em ações culturais
educativas e reforço de suas cidadanias.
Na referência a esse contexto de ações e relações, emergem as proposições de
Bourdieu (2010) quanto ao acúmulo de capital social, simbólico ou cultural, que as pessoas
desenvolvem no decorrer do tempo. As transformações daí resultantes, para os envolvidos nos
processos de acumulações desses tipos de capitais, interferem nas mudanças de suas próprias
histórias, bem como na história de suas relações com os segmentos sociais a que pertencem,
considerando a sociedade maior em que vivem. Desse modo, os participantes dos processos e
microprocessos de interação aqui referidos adquirem reconhecimento, notoriedade e respeito
mútuo.
Nessa rede de relações considera-se a produção de “estratégias de investimento
social, consciente ou inconscientemente, orientadas para a instituição ou reprodução de
relações sociais diretamente utilizáveis”, isto é, “orientadas para a transformação de relações
contingentes, como as relações de vizinhança, de trabalho ou mesmo de parentesco, em
relações, ao mesmo tempo, necessárias e eletivas, que implicam obrigações duráveis
subjetivamente sentidas” como “sentimentos de reconhecimento, de respeito, de amizade”.
Isto envolve a “alquimia da troca” [...] como “comunicação que supõe e produz conhecimento
e o reconhecimento mútuos” (BOURDIEU, 2010, p. 68).
Bourdieu chama a atenção para outro ponto importante dessas relações de troca ao
afirmar que “a reprodução do capital social também é tributária do trabalho de sociabilidade”,
a qual corresponde a “uma série contínua de trocas onde se afirma e se reafirma
incessantemente o reconhecimento e que supõe, além de uma competência específica [...] uma
disposição adquirida para obter e manter essa competência”. Isto implica em “um dispêndio
constante de tempo e esforços [...] e também, muito frequentemente, de capital econômico”
(Idem, p. 68).
Segundo o autor, é importante aqui também a noção de capital cultural que,
entretanto, não se restringe apenas a “desempenho escolar” ou a “sucesso escolar”, embora
nestes estejam embutidos toda uma série de benefícios para “as crianças de diferentes classes
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ou frações de classe” nas lutas por competências no “mercado escolar”. Neste sentido, deve-se
considerar “o mais oculto e determinante socialmente dos investimentos educativos, a saber, a
transmissão doméstica do capital social”, assumindo a família um papel de grande
importância. Para Bourdieu “o rendimento da ação escolar depende do capital cultural
previamente investido pela família e o rendimento econômico e social do certificado escolar
depende do capital social – também herdado – colocado a seu serviço” (Idem, p. 73-74).
Para Bourdieu “o capital cultural é um ter que se tornou ser, uma propriedade que se
fez corpo e tornou-se parte integrante da ‘pessoa’ um habitus”. Seu possuidor paga-o com
“sua própria pessoa e com o que tem de mais pessoal, seu tempo”, porém, assim como ele
pode receber por hereditariedade, pode também transmitir através de processos de trocas
(Idem, p. 74). A lógica da transmissão e apropriação do capital cultural, ou do tempo
necessário para realizá-la, depende, dentre outras coisas, do capital incorporado pelo conjunto
da família, sabendo-se que “a acumulação inicial do capital cultural” começa “desde a origem,
sem atraso, sem perda de tempo, pelos membros das famílias dotadas de um forte capital
cultural”. Segundo Bourdieu, “o tempo de acumulação engloba a totalidade do tempo de
socialização”, o que envolve todo um “sistema de estratégias de reprodução”, considerando-se
que “existem diferenças significativas no capital cultural possuído pela família” (Idem, p. 76).
Diante das constatações na passagem Pedreirinha, cabe também uma referência a
Mauss (2003) especialmente quando ele apresenta no “Ensaio” suas conclusões em três
grandes ordens: as conclusões morais; as conclusões ligadas à sociologia econômica e à
economia política; e as conclusões de sociologia geral e de moral.
Considerando as perspectivas de ordem moral, Mauss apresenta uma série de pontos
que envolvem a necessidade de serem considerados “os temas da dádiva, da liberdade e da
obrigação na dádiva, da liberalidade e do interesse que há em dar”, enfatizando que todo fato
constatado traz nele uma prática ou um preceito moral. Segundo ele, “é preciso que [...] os
ricos voltem – de maneira livre e também obrigatória – a se considerar como espécies de
tesoureiros de seus concidadãos”. Dentre outras coisas, “é preciso mais preocupações com o
indivíduo, sua vida, sua saúde, sua educação [...], sua família e o futuro desta”. Defende ele
também que é de extrema importância valorizar “boa fé, sensibilidade e generosidade” nos
diversos tipos de contratos, assim como “limitar os frutos da especulação e da usura”.
Ademais, é preciso “que o indivíduo trabalhe”; deve “ser forçado a contar mais consigo do
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que com os outros”, sendo capaz de defender “seus interesses, pessoalmente e em grupo”
(MAUSS, 2003, p. 298).
De modo geral, o contexto estudado por Mauss apresenta “sistemas sociais inteiros”
(Idem, p.310) que ele descreveu e analisou com muita propriedade e que ajudam a entender as
relações de sociabilidade, reciprocidade, fidelidade e gratidão na passagem Pedreirinha do
Guamá. As contribuições de Mauss sobre os conceitos de troca e reciprocidade envolvem
propostas que permitem o diálogo com os conceitos propostos por Bourdieu e por Simmel,
considerando-se o contexto da passagem Pedreirinha do Guamá e as diversas relações e
interrelações que nela são registradas. Conforme exposto atrás, o ambiente em estudo está
repleto de relações de sociação que compreendem as categorias aqui referidas. Trata-se de um
lugar em que a sociabilidade ou as redes de relações de troca e reciprocidade, voluntárias ou
não, apresentam características destacadas nos estudos de Bourdieu, Simmel e Mauss.
A etnografia sugere a incorporação de formas de sociabilidade e de reciprocidade,
assim como de relações de fidelidade e gratidão no conteúdo das trocas que são realizadas
cotidianamente pelos envolvidos o que interfere em seus processos históricos, terminando por
lhes proporcionar novos rumos aos seus próprios caminhos de vida, ampliando-lhes “pontes”
e abrindo-lhes novas “portas” relacionadas às condições cidadãs dos envolvidos nos eventos
de cultura popular registrados.
Alguns exemplos abordados por participantes dos eventos culturais na Pedreirinha
A passagem Pedreirinha apresenta-se como um espaço privilegiado quanto aos
registros de processos de interação e convivência, entre seus moradores e entre estes e pessoas
residentes em outras partes do bairro do Guamá e em outros bairros da cidade de Belém que
para lá se deslocam com o objetivo de participar das manifestações culturais lá existentes.
Enfim, onde são detectados processos de “sociação” (Simmel, 1983), que resultam em formas
de sociabilidade, troca e consumo de bens simbólicos, particularmente relacionados com as
participações em eventos da cultura popular.
Nesse contexto incluem-se os processos de interação e trocas de saberes
especialmente com referência ao envolvimento de crianças e adolescentes, onde,
necessariamente são utilizadas estratégias de ações culturais educativas através de métodos
especiais aplicados para ensinar e/ou facilitar as aprendizagens nas oficinas promovidas pela
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Escola de Samba Bole-Bole, pela Escola de Samba Mirim Frutos do Xequerê, pelo Boi
Malhadinho do Guamá e pelo Bloco Carnavalesco Mexe-Mexe. Tais oficinas incluem a
aprendizagem em instrumentos de percussão, criação e produção de indumentárias, adereços e
alegorias, por exemplo. Destacam-se aí algumas formas de inclusão enfatizadas pelos
entrevistados, de onde foram extraídas algumas referências, como as apresentadas a seguir:
Um dos interlocutores abordados, que participou ativamente da fundação em 1984 da
Escola de Samba Bole-Bole, é Herivelto Martins, conhecido como Vetinho, que, além de
referir detalhes das atividades carnavalescas da agremiação, como seu presidente de honra,
destacou o desenvolvimento de atividades voltadas para o “resgate” do Boi Malhadinho do
Guamá, um cortejo de cultura popular existente desde a década de 1930, mas que carecia de
uma retomada por sua importância para o bairro do Guamá e para a cidade de Belém, o que
viria ocorrer a partir de 1989 com o envolvimento de crianças e adolescentes e adultos
residentes no bairro e na passagem estudada, muitos dos quais permanecem até o presente.
Trata-se de um trabalho iniciado pelo interlocutor, juntamente com Nazareno Silva, músico,
compositor e pesquisador da cultura popular no bairro e na cidade, falecido em 2009, e com
Ronaldo Silva, músico, compositor e pesquisador da cultura popular na cidade de Belém,
além de moradores da passagem, como é o caso de Doralice Soares e Kleber Oliveira,
pertencentes às famílias Soares e Corrêa, àquela altura ainda bastante jovens.
O destaque dessa iniciativa é importante por incluir um contato direto com o Mestre
Bandeira e sua família, também residentes na passagem, que transmitiu aos interessados e aos
jovens que os acompanhavam as informações importantes acerca da origem e história do Boi
Bumbá Malhadinho do Guamá que seria retomado daí em diante. Trata-se de uma atividade
importante por demonstrar arranjos que foram feitos com o uso de sobras das fantasias do
carnaval, oriundas do Bole-Bole, e que contaria com a participação de Carlos Benedito Soares
(Charles Brown) – um dos fundadores do então bloco carnavalesco –, além de Nazareno Silva
e Vetinho, que informou a inclusão dos “meninos que queriam participar desse trabalho de
educação cultural [...] ainda todos pequeninos”. Interessante também por marcar o ano de
1989 em que o trabalho com o Boi Malhadinho, no chamado “resgate”, começaria com a
transmissão de saberes para crianças e adolescentes residentes na passagem Pedreirinha e no
bairro. Ou seja, esse ano passaria a ser a referência temporal para o cortejo referido cujas
atividades perduram até os dias de hoje.
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Por outro lado, representa um momento em que esse trabalho passaria à
responsabilidade do músico e pesquisador Nazareno Silva, e que contaria também com a
participação do músico e compositor Ronaldo Silva. Depois da morte de Nazareno, em 2009,
essas atividades passaram à coordenação da família do senhor Raimundo Soares,
especialmente suas filhas e seus genros, todos moradores da passagem Pedreirinha.
Atualmente, o trabalho dessa família tem sido fundamental para continuação das
apresentações do Boi Malhadinho, especialmente as atividades das filhas do senhor Raimundo
Soares: Dora, Socorro, Lourdes, Edna, Teca e Laíde Soares; seus genros, Agostinho e
Francisco das Chagas – Pitico e, especialmente, Evaldo Gomes, também falecido
recentemente; além de seus netos, principalmente Juliana e Augusto Lucas, que participam
das atividades do Boi Malhadinho desde suas infâncias, passando para a fase de adolescência,
como é o caso de Juliana.
Outro trabalho desenvolvido, a partir do Bole-Bole e das produções culturais
iniciadas por Vetinho, Charles Brown, Nazareno Silva e Ronaldo Silva, implica na inclusão
de crianças e adolescentes da passagem Pedreirinha e do bairro do Guamá, como o projeto
“Cidadão Xequerê”, a partir de 1999, particularmente quando referenciada a Escola de Samba
Mirim Frutos do Xequerê. Essas atividades alcançaram ótimos resultados quanto às formas de
sociabilidade a que os componentes dos cortejos referidos têm oportunidade de se envolver a
partir de suas participações em ações culturais educativas que começam na infância e
perduram até a idade adulta, do mesmo modo que os trabalhos relativos ao Boi Malhadinho
do Guamá. Entretanto, conforme destaca Carlos Benedito Soares (Charles Brown), trata-se de
uma atividade voltada especificamente para crianças e adolescentes, cujas famílias residentes
ou não na passagem e os próprios participantes se inserem no contexto de aprendizagem por
sempre demonstrarem interesses em participar e em suas continuidades, tanto que alguns
deles começaram e continuam envolvidos até o momento. Como afirma esse interlocutor,
trata-se de:
um projeto interessante, que começou com a proposta de trabalhar com
meninos de rua, mas, o pessoal era contra isso lá na Pedreirinha, a reação era
a de que ‘os meninos não são de rua, aqui todo mundo tem pai e mãe, eles
fazem isso porque eles gostam’ (entrevista realizada em 08/02/2012).
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Percebe-se nesse contexto uma proposta de atividades voltadas para a valorização da
cultura popular do bairro, de Belém e do Pará como um todo, configurando-se como uma das
características que marcam a história do Bole-Bole e sua influência na passagem Pedreirinha.
O entrevistado Vetinho afirma:
[...] A nossa proposta é dar destaque à nossa cultura popular. Eu acredito que
se todos nós [o governo, o pessoal das escolas de samba, etc.] nos
juntássemos para fazer um trabalho sobre a nossa cultura popular, a gente
poderia engrandecer o turismo, engrandecer outras áreas [...]. Então, é
proposta mesmo nossa de fazer sempre isso, de inventar isso (entrevista
realizada em 20/02/2008).
Além disso, cabe destacar aqui as entrevistas realizadas junto a sujeitos que, embora
não residindo na passagem, desenvolveram ou desenvolvem trabalhos diretamente ligados à
formação de novos conhecedores. A primeira dessas entrevistas foi realizada em 14/04/2007
com o músico Nazareno Silva, falecido em 2009, que, contribuiu com um trabalho muito
importante no “resgate” do Boi Malhadinho do Guamá e no projeto Cidadão Xequerê (1999),
de onde surgiu a Escola de Samba Mirim Frutos do Xequerê (2000).
Na pesquisa etnográfica, foram estabelecidas aproximações com os conceitos de
Bourdieu (2010) e Simmel (1983; 2004). No primeiro caso, pelo destaque que Bourdieu dá ao
aumento de capital social, cultural e simbólico, tomando-se em conta o envolvimento dos
participantes nos processos de aprendizagem como os que ocorrem na passagem Pedreirinha,
a partir das atividades de cultura popular. No caso de Simmel, por essas atividades
evidenciarem processos de “sociação” que caracterizam as formas como a sociabilidade se
manifesta na passagem, especialmente a sociabilidade festiva.
Como exemplo disso, registram-se algumas homenagens da família Soares a
Nazareno Silva em documentário exibido aos moradores da passagem no dia 12 de outubro de
2010, data em que o músico faria aniversário de nascimento, e dia consagrado como “dia das
crianças”, quando é realizado anualmente o Festival de Sorvete do Boi Malhadinho do
Guamá. Esse documentário mostra os processos de gratidão e fidelidade que se estabeleceram
no decorrer do tempo em relação ao trabalho do referido músico. Os depoimentos das pessoas
que participaram ou participam dos processos desenvolvidos junto ao Boi Malhadinho do
Guamá demonstram o agradecimento em relação às “portas” e “pontes” que foram abertas a
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partir daí para cada um deles. São depoimentos emocionados e sinceros que evocam o
compromisso dessas pessoas com a continuação das atividades desenvolvidas desde 1989.
Para se entender o desenvolvimento desse trabalho com compromisso e perspicácia
junto a crianças e adolescentes e até de adultos no sentido da educação cultural desses
sujeitos, cabe a referência aqui a alguns aspectos da metodologia usada pelo referido músico.
Com relação à transmissão de conhecimentos para os participantes do cortejo de Boi Bumbá
Malhadinho do Guamá, Nazareno Silva afirmou que chegou à passagem em 1988 e iniciou
juntamente com outras pessoas, entre elas Herivelto Martins (Vetinho), Lourdes Soares e a
família desta, um “trabalho social” considerado como a primeira oficina infantil de cultura
popular realizada na Escola de Samba Bole-Bole. Segundo ele, “um trabalho importante, pois
não havia no bairro nenhum trabalho com essas características” (entrevista realizada em
14/04/2007).
Essas atividades compreendem processos de ensino-aprendizagem voltados para a
transmissão de conhecimentos especialmente pautada na cultura popular, relativa a cada um
dos cortejos, onde a participação de crianças, jovens e adultos é feita de forma cuidadosa, e
está relacionada com o desempenho escolar de cada envolvido, para que não percam a relação
com suas atividades escolares formais. Assim, configuram-se também como complementares
às atividades da educação formal, e proporcionam aos participantes de cada cortejo uma
prática educacional em tempo integral ao incluírem o envolvimento deles com a cultura
popular praticada na rua (passagem), no bairro e na cidade onde residem. Na entrevista,
Nazareno confirma as afirmações de Vetinho mais acima referidas:
Em 1989 nós resolvemos colocar um Boi na rua e de repente a gente ficava
fazendo comparações que a gente corria do Boi quando era moleque e tal e a
grande pergunta que veio foi: se vamos resgatar um Boi, porque não resgatar
o Boi Malhadinho que é um boi com tanta tradição no bairro e na cidade?
Fomos às casas dos últimos remanescentes do boi e começamos a fazer as
entrevistas, a registrar e a resgatar as toadas e passar para a molecada.
Levamos a molecada para fazer a pesquisa junto com a gente, Ricardo,
Nequinha, Marcão, essa moçada todinha e foi feita a pesquisa das toadas e a
gente colocou o boi pela primeira vez nesse ano com restos de fantasias do
Bole-Bole (entrevista realizada em 14/04/2007).
A partir daí foi iniciado um trabalho de transmissão de conhecimentos de cultura
popular, que se prolongava durante o ano todo através de oficinas que não somente envolviam
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conhecimentos acerca do cortejo de boi bumbá. Segundo o interlocutor, “a gente fazia
oficinas de marcenaria, onde o Adelson era o professor, aí tinha oficina de música também:
cavaquinho, violão, que era o Vetinho o professor”. E sobre a forma de transmissão aos
participantes do cortejo do Boi Malhadinho, Nazareno respondia:
Minha experiência em Boi Bumbá, tem a ver com uma pesquisa pessoal que
possui mais ou menos 12 peças de boi bumbá, onde acontece morte e
ressurreição, onde acontece [...] apreensão, onde acontece [...] o ferimento
do boi. No projeto de resgate do Malhadinho, a gente começou com uma
comédia bem pequena para os meninos pegarem logo, depois a gente foi
passando uma mais complicada, etc. (Idem, 14/04/2007).
O sonho do interlocutor era levar o cortejo para exibição nos teatros da cidade de
Belém para mostrar a importância dos trabalhos com crianças e adolescentes, o que não
chegou a se concretizar, pois viria a falecer em 2009. Porém, assume importância a
metodologia muito interessante e esclarecedora proposta por ele e que, de certo modo,
continua sendo aplicada no cortejo atual. Ele trata disso quando refere às “comédias”
(espetáculos do cortejo) que ensinava para as crianças e adolescentes envolvidos:
A gente repassa para eles a questão dos personagens, porque todo boi tem a
sua “comédia”, geralmente uma comédia feita para concurso... E aí, na
comédia, se desenvolve a história: ocorre a morte e a ressurreição do boi.
Tem os personagens da Cabroeira (Fazenda), que é o Nego Chico; o
Cazumbá, a Catirina, e a mãe Guimá; os personagens da fazenda que são “os
rapazes”, entre eles o “rapaz fiel”. Na fazenda tem o Grande Amo que é o
chefe da Fazenda, a mãe Maria que é a esposa dele e ainda tem a Moça
Branca que é a filha dele. Tem também os personagens da floresta que são os
índios; os personagens caboclos que é o pessoal da Cabroeira, que são
empregados da fazenda. [...] Existem também vários tipos de comédias [...] e
vários personagens, como o doutor, o Pajé, o Padre, onde dá para perceber a
parte da ciência – o médico (doutor) tem a parte do espiritismo que é o Pajé,
e a Igreja que é o Padre, e tem a dominação feita pelo Amo que é o
fazendeiro [...]. Os ritmistas, a gente ensina a tocar barrica, ensina a tocar e a
dançar para ser um músico completo. Na parte dos personagens, fazemos um
sistema de falas, por que às vezes têm locais que não dá pra gente apresentar
tudo, não tem tempo para fazer a apresentação completa de uma comédia.
[...] Então eu criei uma sistemática do pessoal fazer a fala para identificar o
personagem; [...] cada personagem faz a sua fala, por exemplo: “eu sou um
grande vaqueiro”, “tomo conta desse boi para que ele não fuja no
mundo”!... É assim, todo mundo vai se identificando, o rapaz, o Amo, o
Negro Chico, a Catirina, o Pajé, o Doutor, o Padre, todos se identificam para
que todo mundo entenda (entrevista realizada em 14/04/2007).
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Como se observa, nessas atividades são aplicados processos de ensino-aprendizagem
que caracterizam os métodos de transmissão de saberes que se desenvolvem na passagem
Pedreirinha desde 1989, importantes por incluírem crianças que começaram bem cedo a
participar desse trabalho. E isto é mais significativo por que alguns desses participantes
permanecem envolvidos, de uma forma ou de outra, até o momento já numa fase adulta no
chamado “resgate” do Boi Malhadinho.
Outro interlocutor abordado pela pesquisa de campo é Luís Augusto, mais conhecido
na passagem e no bairro como Mestre Feijão. Trata-se do atual chefe de bateria da Escola de
Samba Bole-Bole que, ao ser entrevistado, relata como começou a se envolver no processo de
ações culturais educativas na passagem Pedreirinha do Guamá, a partir da escola de samba
Bole-Bole. Afirma ele:
Eu estava jogando peteca na rua e nesse momento passou a bateria do BoleBole que parece estava comemorando um título que havia sido conquistado,
não recordo bem o ano, e aí passou pela rua de casa. Eu escutei aquele
barulho [...]. Eu não tinha conhecimento nem nada de percussão, de nada. E
a partir daí eu vim seguindo o Bole-Bole me encantei com aquilo (entrevista
realizada em 24/02/2010).
Mestre Feijão conta que aprendeu a tocar todos os instrumentos da bateria (repique,
caixa, surdo, etc.), “subindo de instrumento dentro da bateria”. Com um pouco mais de tempo
passou a ensinar para alguns componentes da bateria que tinham dificuldades para aprender a
tocar. Ele marcava encontros com essas pessoas para ensinar-lhes a melhor maneira de usar
seus respectivos instrumentos. Como relata, “hoje na bateria eu tenho um respeito muito
grande porque 80% dos que estão aí foram formados por mim”.
Sobre a representatividade que a escola de samba e essa atividade tem na sua vida,
mestre Feijão afirma: “não sei se o Bole-Bole foi uma saída que eu tive [...], mas foi um
caminho que eu encontrei pra mim – a música – que serviu pra preencher aquele vazio que eu
tinha nesse tempo”. A partir daí ele continuou ensinando e formando novos ritmistas para a
escola de samba que está sempre precisando todos os anos, pois alguns de seus componentes
saem, casam-se, vão para outras escolas de samba e o Bole-Bole não tem como mantê-los. Há
sempre a necessidade de formar um contingente novo para participar da bateria da escola a
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cada ano. O interlocutor, mostra como transmite seu conhecimento para aqueles que desejam
participar da bateria ressaltando-se aqui o trabalho com crianças e adolescentes:
Antes de começar, eu sento com a turma, converso, explico cada
instrumento, a importância dele dentro da bateria, o que ele pode pegar, onde
ele pode fazer. Então, [...], por exemplo, tem cara que não consegue tocar
certo instrumento, mas pode tocar outro. [...] A metodologia que é usada
para ensinar um toque de caixa, já tem que ser modificada quando se ensina
o surdo e aí a gente tem que considerar o talento de cada um dos aprendizes.
Existem aqueles que pegam muito rápido. Bateu, a criança pegou, mas tem
criança que tem dificuldades (entrevista realizada em 24/02/2010).
E sobre a importância de ter se envolvido com esse trabalho voltado para a formação
de novos conhecedores, Mestre Feijão dá uma declaração muito interessante sobre as novas
formas de sociabilidade que a sua participação nas atividades de cultura popular no Bole-Bole
e na passagem Pedreirinha lhe permitiram. Destaca que sua participação interfere no seu
próprio processo de cidadania, na transformação da sua própria realidade. Segundo ele:
O Bole-Bole foi a minha saída. Não sei como te dizer, mas, que eu me achei.
Aqui as portas se abriram muito fáceis pra mim. [...] Eu sempre converso
com todos em relação a isso, porque eu tive arma na mão, eu tive droga na
mão, na porta da minha casa. Então isso é uma opção. Eu moro [...] na [rua]
Paes e Souza aqui no Guamá. Ali eu tive amigos que já morreram com bala;
amigos de infância que estão presos; que estão em cadeiras de rodas; e
amigos de infância que estão em vida do crime ainda. [...] Eu acho assim:
não vou dizer que foi o Bole-Bole, mas se eu não tivesse essa saída, essa
ocupação, eu poderia ter-me “bandado” para o lado do crime, porque era
muito fácil, é muito fácil! (entrevista realizada em 24/02/2010).
Considerações finais
O exposto aqui indica que os trabalhos com a cultura popular desenvolvidos na
passagem Pedreirinha oferecem diversos caminhos etnográficos capazes de registrar a
sociabilidade tal como lá se manifesta. Alguns desses caminhos ajudam a perceber como cada
envolvido nos processos de produção e transmissão de saberes tradicionais tem oportunidade
de ampliar seu capital social, cultural e simbólico, incluindo-se outros processos que
compõem sua história de vida, conforme revelam as narrativas de experiências apresentadas.
A priori, é possível supor alguns acúmulos de experiências que ajudam cada sujeito a
enfrentar os desafios de uma sociedade tão diversa e desigual como a nossa em nossos dias.
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Nesse sentido, cabe destacar as relações que os processos de educação cultural
trabalhados na passagem Pedreirinha podem estabelecer com a educação formal dos
envolvidos, através da transmissão de técnicas de aprendizagem junto aos participantes das
experiências registradas. Em primeiro lugar, por que a participação de cada um requer um
cuidado com o seu próprio desempenho. Em segundo lugar, a atividade de aprendizagem
requer a disciplina dos envolvidos quanto ao cumprimento de determinadas regras que
caracterizam a boa convivência, bem como a necessária aptidão para o aprendizado das
técnicas transmitidas para que isto seja alcançado de modo coletivo. A entrevista de Luís
Augusto – Mestre Feijão – é bastante esclarecedora nesse sentido.
Desse modo, constata-se que o sujeito/participante das manifestações culturais na
passagem Pedreirinha tem a oportunidade de “aprender a aprender”, “aprender a fazer”,
“aprender a conviver”, enfim, “aprender a ser”, conforme destaca muito bem Samuel Sá
(2004), quando chama a atenção para “os quatro pilares” da educação referidos, pautando-se
nas proposições de Rubem Alves (2008), contidas em conferências deste autor publicadas em
mídia eletrônica.
A referência à “educação cultural” é usada por alguns entrevistados – Vetinho e
Nazareno Silva, por exemplo – para caracterizar os processos de transmissão de
conhecimentos ligados à cultura popular na passagem Pedreirinha. Aqui, está ligada à
utilização dos métodos especiais nas ações educativas voltadas para a inclusão de crianças e
adolescentes e até adultos, consideradas suas participações nos eventos culturais existentes na
passagem consistindo isso na transmissão/aprendizagem /retransmissão de saberes
tradicionais aos participantes das oficinas e ensaios dos cortejos carnavalescos e juninos para
que entendam e desenvolvam os seus papéis nesses cortejos, dominem os instrumentos (de
percussão, principalmente) e apreendam os significados e representações do evento em que
estão inseridos.
No contexto em análise, “educação cultural” configura-se como uma categoria nativa
usada pelos interlocutores contatados para referir às práticas de aplicação em processos
utilizados por eles. Nesse sentido, inserem-se as práticas ligadas ao conhecimento da tradição
da cultura popular no bairro do Guamá e na passagem Pedreirinha. E, desse modo, deve ser
vista como não excludente em relação à educação formal dos envolvidos, mas como
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complemento desta, pois os participantes são incentivados em seus processos educativos,
desenvolvidos em suas escolas formais.
O que a etnografia revelou permite classificar como de grande importância as
propostas de análises, considerando várias alternativas, por exemplo: as formas de
sociabilidade e das ações culturais educativas voltadas para a participação de crianças e
adolescentes e até de adultos nos eventos registrados na passagem Pedreirinha do Guamá; os
resultados alcançados em termos do fortalecimento de suas cidadanias; e as oportunidades que
advêm das novas formas de convivência e interação que os processos psicológicos, culturais e
sociais decorrentes lhes abrem como perspectivas de vida, exercício de novas práticas,
vivências e experiências que ampliam seus horizontes de relacionamentos. Por outro lado,
aumentam as expectativas em relação à utilização de conceitos de reciprocidade, fidelidade e
gratidão, bem como as possibilidades de ampliação do capital social, do capital cultural e do
capital simbólico por todos os participantes dos processos registrados na passagem
Pedreirinha do Guamá em Belém-Pará.
Isto permite relacionar as propostas de educação cultural apresentadas com uma
análise interessante de Carvalho (2000) quando esta contrapõe a proposição de uma “escola
em tempo integral” com a de uma “jornada educacional em tempo integral” onde devem ser
aproveitadas as experiências que crianças e adolescentes, e até adultos, vivenciam em
participações nas manifestações de cultura popular como as que ocorrem na passagem
Pedreirinha do Guamá. Por outro lado, é possível supor que essas práticas reforçam seus
horizontes de vida pelas aberturas de novas formas de sociabilidade que lhes proporciona no
sentido de reforços de suas cidadanias. Trata-se de atividades que estão bem próximas de suas
realidades e lhes abrem “pontes” e “portas” pelos novos processos de interação em redes que
a inclusão social aqui referida lhes proporciona. Sem dúvida, isto permite abrir caminhos no
sentido de relações inter e intrasubjetivas, ajudando nos processos de reforço de personalidade
e na mudança de suas realidades.
Nestes termos, direcionam-se nas vias da educação propostas por Freire (1983), ou
seja, no sentido da “mudança de uma sociedade de oprimidos para uma sociedade de iguais”,
onde se destaca o comprometimento tanto dos que ensinam quanto dos que aprendem, em
processos nos quais se ensina-aprendendo e se aprende-ensinando. Com referência a isto,
Freire chama atenção para a relação com a primeira condição de um compromisso da
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mudança da sociedade ou da realidade social que se concretiza quando os envolvidos nesses
processos “agem e refletem”, “estão no mundo e sabem-se neles”, o que parece ocorrer nas
atividades desenvolvidas nas manifestações culturais registradas na passagem Pedreirinha do
Guamá (FREIRE, 1983, p.19).
Esse contexto de ações parece convergir também no sentido das proposições de
Bourdieu (1989) quando este afirma que o sociólogo ou o “trabalhador social” ou ainda o
“educador” devem adotar uma postura de reflexão e ação no sentido de converter problemas
muito abstratos em operações cientificas inteiramente práticas, e assim, adotar uma “práxis”
que possibilite interpretar corretamente a realidade social e suas possibilidades de mudanças.
Como se observa, está presente em Bourdieu, como em Freire, a necessidade de uma dialogia
permanente entre os agentes ou sujeitos de um processo de ensino-aprendizagem, quando
afirma que “numerosos modos de pensamento e ação transmitem-se de prática a prática, por
modos de transmissão totais e práticos firmados no contato direto entre aqueles que ensinam e
aqueles que aprendem (em processos práticos como o ‘faz como eu’)” (BOURDIEU, 1989,
p.22).
Finalmente, permitem compreender a importância dos trabalhos com a cultura
popular, desenvolvidos com compromisso e perspicácia, no sentido da abertura de novos
caminhos de ações e transformações das realidades sociais de seus participantes. Isto é o que
parece ocorrer no local de estudo.
Referências
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FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
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