Trabalho - Educação

Transcrição

Trabalho - Educação
2
Agradecimentos
Pela confiança, ajuda, amizade e orientação, devo agradecer a Maria Isabel D‟Agostino
Fleming: pessoa sensível que me apoiou em momentos difíceis durante todo o trabalho e teve
paciência em fazer as inúmeras correções dos erros que um aprendiz, como eu, sempre comete.
Para minha família, que soube conviver comigo, com minhas insônias e com minhas pilhas
de livros e papéis espalhados pela casa, e por sempre me apoiarem, mesmo não sendo conhecedores
profundos dos meus estudos.
Para meu amigo Carlos Eduardo, pelas horas de discussão sobre este trabalho, pela amizade
de duas décadas, e pelo incentivo sempre presente.
Para o meu “bardo” amigo Ivan Luís que sempre me apoiou com seus palavrões carinhosos.
Para aqueles que, de alguma forma, tiveram contato com meu trabalho em seu processo de
formação, ouvindo minhas reclamações e minhas ansiedades. Obrigado, pois, especialmente, ao
Antônio Vieira, pelos vários cafés bebidos em conversas acadêmicas, à Daniela La Chioma, amiga
arqueóloga com quem tive o prazer de trabalhar junto, ao Danilo Demarque por sempre me ouvir
em muitas ocasiões, ao Denny Yang por me mostrar que a literatura muda vidas e ao Marcelo
Cândido pelo crédito e incentivos dados a minha pessoa.
Por fim, devo agradecer aos sorridentes olhos de Gláucia. Pelos momentos ótimos ao seu
lado: grande parte deste trabalho é culpa de seu incentivo.
A todos vocês, muito obrigado.
3
SUMÁRIO
Apresentação
5
Introdução
6
I – A) Patrícios x Plebeus
8
I – B) Segunda Guerra Púnica: causas, conseqüências e questão agrária
11
I – C) A Cidade Romana
16
II – A) A Plebe
22
II – B) Plebs Urbana: livres, libertos (e escravos)
24
II – C) Política e Alimentação
28
III – A) Alguns materiais e algumas técnicas
33
III – B) Moradias: Domus e Insula
36
IV – A) O artesão
43
IV – B) O artesanato
45
V – A) A extração e o tratamento dos minérios
52
V – B) O trabalho em metais
57
VI – O trabalho em vidros
77
Conclusão
82
Fontes e Bibliografia
85
Figuras
4
Apresentação
Antes mesmo de entrar na faculdade queria estudar História Antiga e Arqueologia: a paixão
por Roma me acompanha desde a infância. A oportunidade surgiu logo após ter concluído a
disciplina da arqueóloga Maria Isabel D‟Agostino Fleming no Museu de Arqueologia e Etnologia
da Universidade de São Paulo, em 2004. Na ocasião, procurei a professora e pedi orientação para
estudar a moradia da plebe urbana romana. Muito solícita, indicou-me livros sobre a temática e
passei a fazer o levantamento bibliográfico necessário para a formulação de um projeto de Iniciação
Científica. O tema mostrou que poderia ser mais bem abordado se fossem ampliados seus
horizontes, por isso, decidimos que o estudo do artesanato seria profícuo, uma vez que possui
ligação direta com as moradias romanas e a plebe que tanto desejava estudar. A elaboração do
projeto findou em 2006, ano que consegui o financiamento da minha pesquisa pela FAPESP. A
partir daí, redigi quatro relatórios (um por semestre) até o fim do meu trabalho em Junho de 2008.
O que se segue é a totalidade de minha Iniciação Científica. Com o título original de Plebs
Urbana na Roma Antiga (II a.C. – I d.C.): heterogeneidade, vida e trabalho, este trabalho tem
como objetivo caracterizar as diferentes camadas da plebe urbana romana e seus ofícios, bem como
indicar como os serviços dessa plebe chegavam à aristocracia por meio do estudo dos vestígios
materiais que a Arqueologia nos fornece. Com base nas fontes de época e na bibliografia
interpretativa dessas fontes são buscados recursos que esclareçam a relação entre ricos e pobres na
Roma Antiga, tendo como referência a vida de uma categoria plebéia em particular, os artesãos –
seu cotidiano, sua moradia e sua inserção política e econômica na sociedade romana – além da
explicação das principais técnicas empregadas no fabrico dos artesanatos (cerâmicas, metais e
vidros).
5
Introdução
“Que beleza é essa que o artista luta por exprimir nas
lâmpadas de terracota?”
Em 1916, James Joyce publicou o livro do
qual essa frase foi retirada. Proferida por Stephen
Dedalus em Retrato do artista quando jovem, a oração
oriunda do espírito inquieto do rapaz irlandês para o
deão que atiça o fogo da lareira cabe perfeitamente ao
trabalho que se segue. Se a Idade Moderna trouxe a
separação nítida entre artesão e artista, cá não a
tomaremos. Estaremos mais preocupados em lidar com
a visão dos romanos sobre os próprios romanos. Visão
esta que não distingue trabalhos manuais: todos são
inferiores, embora, reconheça-se, são passíveis de
expressar agradabilidade aos olhos do homem. O
artesanato é feito pelo artesão, a arte é feita pelo artista;
o artesão trabalha a arte e o artista fabrica o artesanato
– aqui, são sinônimos, tal como eram na Antiguidade
Clássica. Admitindo a beleza existente em fragmentos
de terracota, devemos, pois, deixar de lado, por ora,
apenas o aspecto estético com o qual está preocupado o
jovem Dedalus (e o senso comum da população):
busquemos, agora, entender os porquês existentes na
ação de o artesão fabricar a lamparina de argila: por
que ele a fabrica? por que usa determinado material?
por que a técnica empregada é esta e não aquela? E
dentro dessas questões precisamos incluir o advérbio
onde: onde moravam os artesãos? onde trabalhavam?
onde comercializavam seus produtos?
O texto que redigimos tenta, em grande parte,
responder a essas indagações, mostrando a todo
instante a beleza advinda do vestígio material nem
sempre formoso com o qual o arqueólogo trabalha: na
maioria dos casos são fragmentos de cerâmica, metais
oxidados e vidros quebrados. Há, também, o concreto
inventado pelos romanos que perdura por séculos,
auxiliando-nos no estudo de suas moradias. Mais: por
se tratar de uma sociedade que possuía escrita
alfabética, acreditamos ser obrigatório o diálogo entre
suas fontes textuais e suas fontes materiais. O leitor
reparará que a dialética por nós estabelecida, por vezes,
tenderá à dicotomia. Textos e cultura material nem
sempre são compatíveis inteiramente entre si. Mas
temos de reconhecer a importância dos dois e saber que
cada conjunto carrega suas características próprias. A
escrita está imersa em ideologias e obedece a
propósitos claros. Talvez o melhor exemplo nesse
momento seja a redação que se lhe apresenta: o nosso
objetivo central é estudar a vida da plebe urbana
romana e o seu trabalho manual. O papel que tem agora
em mãos é a materialidade também fabricada com um
intento, o da venda por parte das indústrias. Ambos
atuam juntos: redigimos sobre o papel para um fim
comum, embora os dois tenham origens distintas.
Sendo assim, é notória a presença de obras de
autores antigos gregos e romanos. Sua importância
reside no fato de fornecerem rastros para o
entendimento do olhar romano sobre o seu mundo,
além de serem os testemunhos escritos mais próximos
que temos dos vestígios materiais escavados pela
Arqueologia. As fontes textuais foram responsáveis por
grande parte da atenção dada a este trabalho:
atentamente, lemos os autores que, de alguma maneira,
pudessem contribuir para o nosso objetivo. Separamos
os excertos e os analisamos, ajudados, também, pelo
levantamento bibliográfico realizado sobre a temática
abordada. Temos, então, formado o nosso arcabouço
para traçarmos o panorama da Parte I e da Parte II, a
preocupação com as origens da plebe romana em
contraposição ao patriciado, seus embates políticos, sua
atuação na política e na economia do mundo romano,
além do papel da alimentação como elemento
regulador dessa grande massa populacional sempre
pronta a reclamar os seus direitos. Ao optarmos por
recuar tanto no tempo, deixamos claro que, para se
entender o auge da produção artesanal – séculos I a.C.
a I d.C. – é necessário estudar o desenvolvimento da
camada social plebéia, ao invés de apenas elencarmos
breves tópicos que dariam conta do porquê de a plebe
urbana possuir determinada particularidade em um
determinado balizamento temporal. A forma como essa
plebe se distribuiu espacialmente em Roma aliou-se à
preocupação de se tentar delinear a figura do plebeu
frente ao liberto e ao escravo para estabelecer o
conjunto, um tanto heterogêneo, ao qual pertencia a
plebs urbana.
Da Parte III em diante, adentramos a cultura
material em si. Primeiramente, enfatizamos as
moradias. Distinguimos a domus da insula a fim de
ressaltar a diferença entre as casas dos ricos e as dos
menos abastados, pormenorizando os locais onde os
trabalhos eram realizados, transformados em oficinas.
A partir das residências, estabelecemos um contato
mais próximo com outras profissões, como a do
arquiteto – uma pessoa que necessitava de um
conhecimento mais abrangente do mundo ao seu redor
– e dos construtores de edifícios, ou seja, os
proletários, os “artesãos de casas” – trabalhadores que
possuíam a sabedoria e a habilidade próprias para erigir
de maneira correta e enfrentar qualquer desafio que se
lhes apresentasse. As diferenças entre as casas das
pessoas mais abastadas e daqueles que pouco tinham
eram um reflexo do quanto de artesanato existiria
dentro de cada tipo de moradia: os que podiam,
compravam artesanatos dos mais variados tipos para
ornamentar a casa e dar maior conforto para a família
que ali habitava; os mais pobres eram obrigados a se
contentar com parcos objetos de – na maioria dos casos
– cerâmica. Num segundo momento (Parte IV), após a
explanação da figura do artesão romano em sua
sociedade, começamos a longa dissertação acerca do
produto artesanal. Sabendo que os produtos fabricados
pelos artesãos ceramistas tinham como destino,
geralmente, o interior das moradias e dos templos,
optamos por fazer desta parte um elo entre o
comprador e o vendedor, o freguês e o fabricante. No
caso do nosso estudo, especificamente, centramo-nos
na descrição pormenorizada dos métodos de fabricação
dos objetos mais comuns em cerâmica – material
abundante em sítios arqueológicos graças ao seu baixo
valor de manufatura e facilidade de ser manuseado – e
percebemos que as trocas de mercadorias e de técnicas
eram abundantes no mundo romano.
A extensa Parte V pretendeu buscar as
minúcias que os artesãos plebeus romanos utilizavam
para construir os objetos em metais. Foi preciso,
inicialmente, centrar em um aspecto que quase não é
mencionado na bibliografia especializada em
metalurgia antiga: a extração mineral. Relacionando
fontes textuais, como a de Plínio, o Velho, com os
vestígios arqueológicos, traçamos um panorama
sobre as dificuldades e soluções encontradas pelos
romanos ao adentrarem poços e minas em busca de
material valioso. Depois, a atenção voltou-se ao
modo como os artesãos transformavam a matéria
prima em mercadoria. Separando-se as técnicas
conforme os minérios empregados, discorremos
sobre os principais métodos usados para o fabrico de
peças em ferro, bronze, prata e ouro (incluindo, entre
os produtos fabricados a partir dessas matérias, as
moedas). Nessa parte também fizemos um breve
exercício reflexivo sobre o diálogo existente entre a
Antiguidade e a Idade Moderna; para tanto,
buscamos
as
releituras,
em
pinturas
do
Renascimento, das obras literárias antigas como as
de Homero e Ovídio sobre a visão do trabalhador de
metais. Por fim, na Parte VI, pormenorizamos a
vidraria romana, que alcançou enormes quantidades
de peças a partir do século I d.C. com a invenção do
vidro soprado.
Dessa maneira, buscaremos mostrar ao leitor
quão rico culturalmente e complexo tecnologicamente
era o mundo romano quando se tratava dos seus
artesãos. Caberá ao julgamento de quem lê se
conseguimos, então, responder à questão formulada por
James Joyce através de sua personagem Stephen
Dedalus.
7
Parte I
A) Patrícios x Plebeus
A distinção entre patrícios e plebeus ficou mais
nitidamente sublinhada durante o período da
Monarquia em Roma (754-510 a.C.). Embora a origem
da diferenciação seja desconhecida, sabemos que
recebeu melhores contornos na época em que Roma foi
governada pelos três reis etruscos (Tarquínio Prisco,
616-578 a.C.; Sérvio Túlio, 578-534 a.C.; Tarquínio o
Soberbo, 534-509 a.C.)1 : a sociedade, a exemplo da
Etrúria, dividiu-se, basicamente, em dois segmentos: a
nobreza de um lado, e o restante da população de outro;
porém, como aponta Géza Alföldy: “A plebe, como
grupo independente, não era (...) uma criação etrusca
mas especificamente romana, uma vez que a
organização social dos etruscos apenas reconhecia na
sociedade, por um lado, os senhores e, por outro, os
seus clientes, criados e escravos”2.
As reformas empreendidas por Sérvio Túlio no
século VI a.C. nublaram os arcaicos agrupamentos
gentílicos: agora a ordem social não dependia tão
somente de laços sangüíneos, era preciso, doravante,
ser classificado em uma das duas categorias, com base
na fortuna pessoal: classis (de calare, “convocar”) –
aqueles que possuíam meios de adquirir os próprios
armamentos e, por isso, passíveis de convocação para o
exército; e a infra classem – os demais, não capazes de
prover os meios necessários. Esse novo ordenamento
envolveu todos os cidadãos, tanto os ligados às
dezesseis tribos rústicas (do campo) como os
pertencentes às quatro tribos urbanas 3. Uma vez na
classis, o soldado4 tinha como recompensa maior, pela
participação nas campanhas de guerra, o butim, que era
distribuído de acordo com a contribuição pessoal no
armamento e equipamento. Do butim vieram os
aumentos nas fortunas pessoais, e, devido ao
enriquecimento das famílias, desenvolveram-se mais as
atividades comerciais não ligadas ao campo, ou seja,
1
Os quatro reis anteriores foram: Rômulo (reinou até 715 a.C.);
Numa Pompílio (715-672 a.C.); Tulo Hostílio (672-640 a.C.);
Anco Márcio (640-616 a.C.). Excetuando-se Rômulo, que possuí
caráter mítico, os demais reis eram sabinos. Assim sendo,
nenhum dos reis de Roma foi, de fato, romano. Os reis podiam
ser estrangeiros, sendo escolhidos pela aristocracia local (a quem
deviam reinar conforme seus interesses) e legitimados por meio
do suffragium (“aplauso”) – no caso dos sabinos – e de auspícios
– no caso etrusco.
2
A história social de Roma, p. 25.
3
Os proprietários de terra (capazes de se equipar) inscritos nas
tribos rústicas eram denominados assidui, já os comerciantes,
artesãos ou homens sem posses eram os proletari (os que
possuíam filhos, ou seja, a prole). Maria Luiza Corassin, A
reforma agrária na Roma antiga, pp. 32-33.
4
A partir de Sérvio Túlio, em Roma se estabelece a tática de
combate hoplita, herança helênica, na qual o combatente é
munido de um pesado equipamento: couraça, capacete, gládio,
lança e escudo. A formação hoplítica consistia em um bloco
(falange) composto por fileiras e colunas de combatentes que ia
de encontro ao inimigo (Philippe Masson, “A batalha de EgosPótamos: um desastre para o exército ateniense”, in: Revista
História Viva Grandes Temas, nº 3, 2004, pp. 61-62). Importante
ressaltar que a reforma serviana é a introdução hoplítica na
sociedade romana, pois, somente era hoplita, quem pudesse
prover o próprio equipamento e armamento, como foi dito acima.
aqueles da infra classem (ou até mesmo alguns
pertencentes à classis) agora tinham mais
oportunidades para trabalhar, produzir e vender seus
artesanatos, tocar seus comércios. A atividade
comercial teve tanta importância na época de Sérvio
Túlio que o rei equipou o porto fluvial de Roma e
reforçou o sistema pré-monetário derivado do aes rude
(bronze informe sem cunho que pesava 330g ou 1
libra).
O aumento da importância econômica dos
patrícios levou ao choque direto com a monarquia:
desejavam gozar de mais poderes políticos. Em 510
a.C., é banida de Roma a monarquia e restrito o termo
rex5. Passa, então, a política a ser exercida por uma
oligarquia aristocrática, no entanto, a “organização
social estabelecida manteve-se em grande parte após a
abolição da realeza, com diferença de a nobreza passar
a desempenhar todas as funções do rei que, como se
sabe, era o chefe militar, o juiz e o pontífice máximo” 6.
Por outro lado, como já mencionado, uma
parcela da plebs urbana conseguiu acumular riquezas
devido ao artesanato e ao comércio, embora ainda não
usufruísse os mesmos direitos que os patrícios. Nas
palavras de Pedro Paulo Funari: “Os plebeus urbanos
preocupavam-se, portanto, com os direitos políticos e
sociais: queriam ocupar cargos, votar no Senado e até
mesmo casar-se com patrícios, o que lhes era vedado.
Em um movimento paralelo, parte da plebe rural teve
as terras confiscadas pelo endividamento e lutava pelo
fim da escravidão por dívida e pelo direito a parte da
terra conquistada de outros povos. Apesar dos
interesses diversos, os plebeus não tiveram dificuldades
em unir-se contra o patriciado na luta pela cidadania” 7.
Junto ao desejo da plebe, Roma, durante o século V
a.C. (até cerca do século III a.C.), enfrentou diversas
guerras com as cidades da Itália8 e viu-se cada vez mais
dependente do contingente plebeu em suas fileiras do
exército9. Essa condição sensível em que se encontrava
Roma foi a principal aliada dos plebeus em sua luta
pelos direitos de cidadania: em duas grandes Secessões
feitas em 494 e 449 a.C., a plebe conseguiu,
respectivamente: que fosse instituído o Tribunado da
Plebe e que o conjunto de leis fosse publicado –
conhecido como Leis das Doze Tábuas (leges
duodecim tabularum)10.
5
Somente é aceito no campo sacerdotal.
Géza Alföldy, A história social de Roma, p. 20.
7
“A cidadania entre os romanos”, in: Jaime & Carla Pinsky
(org.), História da cidadania, p. 52.
8
Desta vez, sem o apoio militar etrusco.
9
Segundo Alföldy, op. cit., p. 30: “A força militar da plebe,
patente na formação das hoplitenpoliteia, reforçou a sua
consciência de grupo social e estimulou a sua actividade política
(...)”.
10
Acerca da Segunda Secessão, Tito Lívio (III, 54) empresta
palavras aos legados que foram buscar os plebeus, afastados, até
então, no Monte Sacro:
6
Para o bem-estar, a felicidade e a prosperidade vossa e da
república, voltai à vossa pátria, para junto de vossos penates, de
vossas mulheres e de vossos filhos. E a moderação, com que
agistes aqui, onde nenhuma propriedade foi violada, apesar de
todas as necessidades de tão grande multidão, trazei-a também
para a cidade. Ide para o Aventino de onde saístes. Naquele local
propício, onde lançastes os primeiros fundamentos de vossa
liberdade, elegereis os tribunos da plebe. Estará presente o sumo
pontífice que presidirá as eleições.
Sobre a instituição do Tribunado da Plebe (que
tanto movimentou a política romana), o verbete
homônimo escrito pelo filólogo Luciano Canfora é
realmente esclarecedor11: “(...) Os poderes dos tribunos
foram selados com um juramento sagrado (a lex
sacrata). Eram eleitos pelas assembléias curiatas;
desde 471 foram eleitos pelos concilia plebis
(chamados também comitia plebis tributa), ou seja,
pela assembléia popular. Na origem eram em número
de cinco, depois dez (já em 449); não eram magistrados
porque não podiam consultar os auspícios; os
sucessores deviam ser designados antes que os atuais
ocupantes deixassem o cargo. Exerciam o ius auxilii
(ou seja, auxilium tribunicium), isto é, tinham a função
de defender pessoas e propriedades da plebe. O poder
deles deriva do fato de serem invioláveis (sacrosancti,
sacrosancta potestas). São precedidos pelos uiatores12.
Exerciam seu poder dentro do pomério13. Valiam-se da
intercessio14, da obnuntiatio15, da coercitio (direito de
impor decretos da plebe e os próprios direitos). O
reconhecimento dos tribunos ocorreu por meio de
plebiscita e de leis (como a Lex Hortensia de 287 a.C.,
que reconhecia validade jurídica nos plebiscita, mesmo
sem a aprovação do Senado). Foram admitidos nas
sessões do Senado e, a seguir, obtiveram o direito de
convocar o Senado e decretar senatusconsulta;
lograram o ius cum plebe agendi (de convocar e
presidir às assembléias populares). Podiam acusar os
magistrados nas reuniões da plebe e perseguir em
segunda instância os condenados nos comícios tributos
(substituíram os questores16 como acusadores
públicos)”.
Com o tribunado plebeu e a redação das leis,
abriu-se o caminho para os diversos embates políticos
que permearam Roma17 entre os séculos IV a III a.C..
Cabe aqui, destacar as principais leis decorrentes desse
período:
▪ leges Licinae Sextiae (Leis Licínias Séxtias),
367 a.C.: anulou parcialmente as dívidas da plebe mais
pobre, e contribuiu para a conquista da igualdade
política da plebe, permitindo o acesso dos líderes do
povo aos cargos mais altos, determinou também que
ninguém podia dispor de mais de 500 jeiras (±1, 25
Km²) de terras estatais (que puderam ser divididas
entre os pobres18).
Note a importância da propriedade e o fato de apenas os homens,
ou seja, cidadãos, terem saído do Centro.
11
Júlio César: o ditador democrático, pp. 493-494.
12
Encarregados de seguirem pelas vias anunciando a passagem
posterior dos tribunos.
13
Limite sagrado imaginário que circundava a cidade de Roma,
onde nada poderia ser construído.
14
Direito de veto de um magistrado a um outro magistrado igual
ou inferior.
15
Quando a assembléia era adiada por iniciativa do áugure
(sacerdote responsável por consultar os auspícios, ou seja, os
sinais da natureza), devido a um mau presságio.
16
Magistrados públicos encarregados do erário (aerarium).
17
Apiano, I, 1.
18
“Mas essa política que previa a atribuição de terras aos pobres
só pôde ser aplicada plenamente depois de 340 a.C., devido ao
rápido crescimento do ager publicus que se verificou em
consequência da expansão de Roma”. Géza Alföldy, A história
social de Roma, p.39. Também ver: Tito Lívio, VI, 35-42.
▪ lex Publilia (Lei Publília), 339 a.C.: restringiu
o direito de veto do Senado sobre as decisões tomadas
na assembléia popular.19
▪ lex Poetelia Papiria (Lei Poetélia Papíria), 326
a.C.: aboliu a servidão por dívidas, como nos conta
Tito Lívio (VIII, 28)20:
Naquele ano a plebe romana teve sua liberdade de
certo modo restabelecida, com a supressão da escravidão por
dívidas. Essa modificação no Direito foi devida à infame
paixão e à crueldade de um usurário chamado Lúcio Papírio.
Caio Públio se havia entregado a Papírio como
escravo para resgatar as dívidas de seu pai. A idade e a beleza
do jovem, que deveriam ter provocado a piedade de Papírio,
despertaram nele uma paixão viciosa. Considerando a beleza
do jovem como um acréscimo de suas riquezas, tratou
primeiramente de seduzi-lo com propostas obscenas. Como
Públio permanecesse surdo e desprezasse aquela indignidade,
passou a amedrontá-lo com ameaças, relembrando-lhe
constantemente sua atual condição. Finalmente, ao ver que
ele pensava mais em sua qualidade de homem livre do que
em sua situação presente, mandou que o desnudassem e
trouxessem as varas. Dilacerado pelos golpes, o jovem
conseguiu escapar e correu pelas ruas da cidade, bradando
contra a infâmia e crueldade do usurário. Uma grande
multidão, comovida pela idade do jovem e indignada com o
ultraje, lembrando-se também de sua própria condição e da
de seus filhos, acorreu ao Fórum e de lá partiu em colunas
para a cúria. Forçados por aquele tumulto imprevisto, os
cônsules convocaram o Senado. À medida que os senadores
entravam, o povo se arrojava a seus pés, mostrando-lhes o
dorso dilacerado do rapaz.
Naquele dia, em virtude da violência de um só
homem, desfez-se um dos mais fortes vínculos do crédito. Os
cônsules receberam ordem de propor ao povo que, no futuro,
nenhum cidadão ficasse sujeito à cadeia ou aos grilhões
enquanto aguardasse o castigo, a menos que tivesse cometido
algum crime. Os bens do devedor, e não seu corpo,
responderiam pelas dívidas. Assim, libertaram-se todos os
escravos por dívidas e tomaram-se providências para que, daí
por diante, nenhum devedor fosse preso.
Lembremos que, até então, uma vez
escravizados, mesmo por um curto período de tempo,
os cidadãos perdiam todos os direitos civis.
Funari aponta mais uma questão que se
desenrolou após a aprovação da lei Poetélia Papíria21.
O censor Ápio Cláudio tomou medidas para que os
libertos fossem distribuídos não unicamente entre as
quatro tribos urbanas, mas, também, entre uma das
dezesseis tribos rurais. Essa distribuição feita por Ápio
Cláudio teve dois efeitos positivos concomitantes:
diminuiu as dificuldades de inserção social enfrentadas
pelos libertos na cidade (entenda-se aqui: o preconceito
quase inerente do homem livre pelos escravos ou já
escravizados e, talvez principalmente, a disputa
econômica que colocava frente a frente livres, libertos
e escravos pelas ruas de Roma, cada qual querendo
comerciar sua produção); e incluiu os libertos na
divisão de terras provenientes das conquistas romanas,
integrando-lhes à vida política camponesa. Ter
partidários políticos libertos foi praticamente uma
19
Pedro Paulo Funari, “A cidadania entre os romanos”, in: Jaime
& Carla Pinsky (org.), História da cidadania, p. 54.
20
Grifos meus.
21
“A cidadania entre os romanos”, in: Jaime & Carla Pinsky
(org.), História da cidadania, p. 55.
9
constante na vida de Roma: quanto mais eleitores do
campo existissem, melhor seria na Capital, pois as
tribos rurais representavam a maioria na hora da
votação.
▪ lex Ogulnia (Lei Ogúlnia), 300 a.C.: abriu aos
representantes da plebe os cargos políticos e também
os cargos superiores sacerdotais (pontífices e augures).
vez devemos atentar para a influência militar nas
questões políticas: as causas das secessões do século V
a.C. tiveram por pano de fundo as guerras com as
cidades vizinhas de Roma, e a reforma do sistema
social por meio da legislação nos séculos subseqüentes
não ocorreu por motivo diferente. A extensão do
domínio de Roma por toda a Itália (sécs. IV e III a.C.)
está ligada intrinsecamente ao processo legislativo: a
necessidade de aumento do território (ager publicus)
para assentamento dos plebeus mais pobres (e,
obviamente, o alargamento das propriedades dos
cidadãos mais ricos). As Leis Licínias Séxtias vieram
após um dos maiores golpes que Roma recebeu durante
sua história, a invasão e a ocupação gaulesa, por um
breve período, da Cidade em 387 a.C.:
▪ lex Ouinia (Lei Ovínia), (± 312 a.C.): de
acordo com Géza Alföldy23, essa lei “determinava que
o Senado devia ser completado periodicamente pelos
censores, o que significava que o Senado podia ser
renovado durante cada censura através da nomeação de
plebeus ricos e influentes. Ao mesmo tempo, essa lei
equiparava os senadores plebeus aos patrícios,
atribuindo aos conscripti o direito de voto pleno que
até aí estivera reservado aos patres24. (...) O Senado
deixou de ser o reduto exclusivo de uma nobreza de
sangue e fundiária privilegiada, como fora até aí”.
Mas parece que nem todos os gauleses
desejavam incendiar a cidade. Talvez seus chefes
tivessem decidido apenas semear o pânico ao atear
fogo em algumas casas, na esperança de que o apego
dos sitiados a seus lares os levasse a render-se, e a
conservar intacto certo número de residências, ao invés
de queimá-las todas, para que pudessem ter um penhor
suscetível de quebrantar a coragem do inimigo.
Realmente o fogo não se propagou logo no primeiro
dia com a rapidez e a extensão com que costuma atingir
as cidades capturadas.
▪ lex Hortensia (Lei Hortênsia), 287 a.C.:
doravante, os decretos dos plebiscitos (plebiscita)
passaram a ser válidos mesmo sem o acordo do
Senado. Citando o historiador do século II d.C. Lúcio
Floro (I, 26):
Embora o incêndio não tenha sido devastador,
como nos explica Tito Lívio (VIII, 28), foi o suficiente
para traumatizar os romanos a ponto de, no século I
a.C., ainda ter destaque dentro da obra do historiador
latino. Ricos e pobres sofreram com o sítio imposto
pelos gauleses, mas, certamente, os que possuíam
menos tiveram as maiores desgraças, aumentando suas
dívidas contraídas com o intento de refazer a vida. A
situação atingiu tal grau, que foi necessário decretar a
lei para a redução das quantias devidas e distribuir
parte do ager publicus entre os mais lastimados – isso,
vinte anos depois do saque gaulês (não podemos nos
esquecer, entretanto, que as situações de dívidas apenas
pioraram após a invasão, pois, a escravidão por dívidas,
já existia há muito tempo, sendo abolida apenas em
326 a.C. com a Lei Poetélia Papíria).
Uma característica marcante para Roma a partir
do século III a.C. foi a formação, no interior da elite
dominante, da nobilitas (“nobreza”): um grupo restrito
consolidado como uma “aristocracia de patrícios e
plebeus, com privilégios, propriedades fundiárias e
fortuna”27. A ligação entre as famílias patrícias e
plebéias teve um início bem anterior ao século III a.C.,
quando da lex Canuleia (Lei Canuléia) de 445 a.C. que
aboliu oficialmente a proibição dos casamentos entre
membros patrícios e do povo28, embora tenha havido
certa resistência por parte de alguns patrícios, como
narra Tito Lívio (IV, 1):
▪ lex Ualeria de prouocatione (Lei Valéria de
Apelação), 300 a.C.: de acordo com essa lei, o cidadão
condenado à pena máxima pelos magistrados tinha o
direito de apelar (prouocatio) para a assembléia do
povo, a qual decidiria o caso em um processo
especial22.
Em meio a essas sedições, esse povo valoroso merece
admiração. Lutou por sua liberdade, por sua honestidade, por
sua dignidade de nascimento e também pelos cargos e honras,
mas, acima de tudo, bateu-se de forma mais valente pela
25
salvaguarda da liberdade.
No entanto, Géza Alföldy oferece-nos um
contrapeso que tira um pouco o brilho do entusiasmo
da conclusão de Floro: “Na base dessa reforma
encontrava-se obviamente a convicção de que os
interesses representados pelo Senado e pela assembléia
do povo eram, em grande medida, os mesmos, pois os
chefes do povo e os da assembléia do povo eram agora,
simultaneamente, os representantes e os elementos de
uma nova aristocracia senatorial”26.
As leis acima mencionadas não foram casos
isolados de brigas entre patrícios e plebeus. Mais uma
22
Tito Lívio, X, 9.
A história social de Roma, p. 41.
24
O conselho dos anciãos, o Senado, era composto, em sua
origem, apenas pelos pais de família patrícios (patres, “pais”),
sendo os únicos que podiam exercer as magistraturas. Após o
século VI a.C., com a modificação do ordenamento social
(baseado na riqueza) e a passagem para a República, plebeus
ricos puderam juntar-se ao Senado, embora não tivessem o
direito de votar até a Lei Ovínia, sendo denominados, então, de
conscritos (conscripti, “inscritos” – nas tribos).
25
Apud Pedro Paulo Funari, “A cidadania entre os romanos”, in:
Jaime & Carla Pinsky (org.), História da cidadania, p. 55.
26
Op. cit., p. 41.
23
Logo no início do ano o tribuno da plebe Caio
Canuléio apresentou ao Senado um projeto de lei que instituía
o casamento entre patrícios e plebeus, o qual, segundo os
27
Pedro Paulo Funari, “A cidadania entre os romanos”, in: Jaime
& Carla Pinsky (org.), História da cidadania, p. 55.
28
Géza Alföldy, A história social de Roma, p. 35.
10
patrícios, iria contaminar-lhes o sangue e confundir o direito
das famílias.
Ao lado dessa nobilitas (as famílias mais antigas
senatoriais) – e também fazendo parte da elite
dominante da sociedade romana – formou-se, graças ao
ordenamento censitário, um novo grupo dentro da ordo
senatorius (“ordem senatorial”), o dos homines noui
(“homens novos”): novos ricos provenientes da ordo
equestre (“ordem eqüestre”) que, apesar de recémpertencerem à ordem senatorial, raramente alcançavam
um cargo mais elevado por causa de sua origem
humilde. Somando-se agora os escravos e os novos
cidadãos romanos advindos das conquistas militares
dos séculos anteriores, o arcaico sistema de,
basicamente, duas ordens, patres e plebs29, cedeu lugar
a um novo modelo social, onde os grandes conflitos
sociais deslocaram-se dessa bipartição para confrontos
entre nobres e homens novos, “dominantes e
subalternos, romanos e não romanos aliados, senhores
e escravos”30.
B) Segunda Guerra Púnica: causas, conseqüências e
questão agrária
Políbio diz em seu Livro III:
[6] Alguns autores que escreveram sobre Aníbal e seu
tempo, querendo apontar as causas dessa guerra entre os
romanos e os cartagineses apresentam como a primeira delas
o cerco de Zacânton31 pelos cartagineses, e como a segunda a
travessia por estes do rio chamado Íber pelos habitantes da
região, contrariamente aos tratados em vigor. Eu admitiria até
que esses eventos marcaram o início da guerra, mas de forma
alguma que tenham sido as suas causas, a não ser que
chamemos a travessia de Alexandre o Grande para a Ásia de
causa de sua guerra contra Pérsia, e o desembarque de
Antíocos em Demetriás a causa de sua guerra contra Roma,
pois nenhuma dessas asserções é razoável ou verdadeira.
Com efeito, quem poderia considerar esses eventos causa de
guerras, tendo eles sido simples planos e preparativos que, no
caso da guerra contra os persas, haviam sido feitos com
antecedência, muitos por Alexandre mas alguns até por Filipe
enquanto vivo, e no caso da guerra dos etólios contra Roma
muito tempo antes da chegada de Antíocos? Essas afirmações
são de pessoas incapazes de distinguir a grande e substancial
diferença existente entre o início, de um lado, e a causa e as
intenções do outro lado; estas constituem a origem de tudo,
enquanto o início vem depois. Por início de qualquer evento
quero dizer a primeira tentativa no sentido de executar e
acionar planos já decididos, e por suas causas aquilo que há
de mais recuado em nossos julgamentos e opiniões, ou seja,
nossas noções das coisas, nosso estado de espírito e as
reflexões provocadas por tudo isso, e tudo que nos leva a
tomar decisões e fazer planos.
[9] Mas, voltando à guerra entre Roma e Cartago, (...)
devemos ver como sua causa primeira a indignação de
Amílcar, cognominado Barca, o verdadeiro pai de Aníbal.
Com o espírito em nada abatido pela guerra da Sicília32,
sentindo que havia mantido o exército sob seu comando em
Êrix combativo e resoluto até o fim, e que havia concordado
com a paz premido pelas circunstâncias após a derrota dos
cartagineses na batalha naval, ele permaneceu decidido e
ficou na expectativa de uma oportunidade para atacar. Se não
houvesse ocorrido a sublevação dos mercenários, tanto
quanto estava em seu poder Amílcar teria criado sem demora
outros meios e outros recursos para reiniciar a luta, mas foi
impedido de fazê-lo pelos distúrbios intestinos que lhe
absorveram toda a atenção.
[10] (...) diante da recusa dos romanos a negociar, os
cartagineses tiveram de ceder em face das circunstâncias, e
embora profundamente humilhados eles estavam impotentes,
e tiveram ainda de evacuar Sardó, além de concordar com o
pagamento de mil e duzentos talentos adicionais à soma
exigida anteriormente, para não serem forçados a aceitar a
guerra naquele momento. Esta, então, deve ser considerada a
segunda e principal causa da guerra subseqüente; de fato,
Amílcar, acrescentando ao seu antigo rancor a indignação
sentida por todos os seus compatriotas diante desse novo
ultraje, logo após haver finalmente esmagado a sublevação
dos mercenários e garantido a segurança de sua pátria
concentrou imediatamente todos os seus esforços na
conquista da Ibéria, com o objetivo de usar os recursos assim
obtidos para empreender a guerra contra Roma. O sucesso
dos cartagineses em seus planos na Ibéria deve ser visto
como a terceira causa da guerra, pois contando com esse
aumento de poderio eles entraram confiantemente nela.
O autor grego do século II a.C., Políbio, nos
aponta a causa maior da segunda guerra travada entre
romanos e cartagineses: não foi tanto pela humilhação
e o sabor da derrota conhecidos na Primeira Guerra
Púnica que Cartago aceitou bater-se contra Roma,
tampouco foi apenas o desejo de vingança do general
Amílcar Barca, o que, de fato, fez com que os
cartagineses combatessem situa-se na pesadíssima
multa exigida por Roma ao tomar posse da Sicília, os
1.200 talentos. A única maneira que Cartago – uma
cidade-estado arrasada economicamente pela primeira
guerra, despendendo ainda mais dinheiro para livrar-se
dos mercenários contratados – encontrou para
conseguir tal montante, foi a de explorar suas
conquistas no território Ibérico.
Para tanto, as tropas comandadas por Aníbal
Barca recolheram tributos das suas cidades aliadas na
Península Ibérica até chegarem a Sagunto (Zacânton,
no texto de Políbio). Essa cidade era aliada dos
romanos e grande possuidora de minérios de cobre,
ferro e prata (como uma parte significativa da
Espanha), além de ter um terreno formado por
derramamento basáltico, o que, nas palavras do mesmo
historiador antigo, “é propício a qualquer espécie de
cultivo e é o mais fértil de toda a Ibéria”33; por fim,
Sagunto era muito bem localizada para o comércio
marítimo na orla mediterrânica. A intenção de Aníbal
era “dispor de fundos e suprimentos abundantes para a
expedição planejada [contra Roma]”, elevar “o moral
de suas tropas graças aos despojos de guerra
distribuídos entre elas” e apaziguar “o ânimo de seus
concidadãos em Cartago enviando-lhes outros
29
Géza Alföldy, A história social de Roma, p. 43.
Pedro Paulo Funari, “A cidadania entre os romanos”, in: Jaime
& Carla Pinsky (org.), História da cidadania, p. 55.
31
Também conhecida como Sagunto. Ver Figura 1.
30
32
A Sicília havia sido tomada pelos romanos na Primeira Guerra
Púnica, 264 a 241 a.C.
33
III, 17.
11
despojos”34. Aníbal sitiou e tomou Sagunto; ainda
mais: infringiu a última cláusula do tratado feito ao fim
da primeira guerra, em 241 a.C., atravessando o rio
Íber (atual Ebro), adentrando no território das
possessões de Roma. Em 218 a.C., houve, então, o
início da Segunda Guerra Púnica, que duraria dezesseis
anos.
O segundo ato das Guerras Púnicas representou
um profundo marco na História Romana: a partir dela,
mudanças econômicas e sociais foram inevitáveis.
Roma aprendeu, combatendo, a conquistar os
territórios fora da Península Itálica. Uma vez findada a
batalha contra Aníbal na cidade africana de Zama (em
202 a.C.), os romanos tiveram o Mare Nostrum livre
para navegar e submeter a orla do Mediterrâneo ao seu
domínio. Segundo Pedro Paulo Funari, ao “saírem da
Península, no entanto, os romanos criaram um novo
conceito: a província, um território administrado pelos
romanos para seu benefício, sujeito a tributação” 35.
Entre as províncias criadas no século II a.C. estão:
Hispânia Citerior e Ulterior, 197 a.C.; Macedônia, 148
a.C.; África, após a destruição de Cartago na Terceira
Guerra Púnica em 146 a.C.; Ásia, 133 a.C.
Para fazer a guerra eram necessários soldados
que pudessem prover o próprio armamento e
equipamento, e os que possuíam essas características
pertenciam ao campo; durante toda a história de Roma
o “ideal” de soldado era o camponês, como nos mostra
Vegécio, escrevendo sua Arte Militar no século IV d.C.
(I, 3):
Creio estar fora de dúvida a melhor disposição, para
as armas, da gente rústica, crescida sob as intempéries e
habituada aos trabalhos grosseiros, capaz de suportar a
ardência do sol sem buscar o alívio da sombra, ignorante dos
banhos, desafeita à preguiça, de alma chã, contente com o
pouco que come, de corpo coriáceo mercê das fadigas, que na
labuta do campo tenha aprendido a manejar o ferro, a escavar
fossos e a transportar fardos pesados.
Embora o soldado-camponês deixe de ser o
único a ir para a peleja a partir do século I a.C. (como
veremos), durante as Guerras Púnicas o exército era
formado essencialmente por pequenos, médios e
grandes proprietários de terra. Segundo a historiadora
Maria Luiza Corassin: “As enormes perdas durante a
segunda guerra púnica (o número de cidadãos
mobilizáveis passou de 270.713 em 233 para 214.000
em 204) afetaram sobretudo os médios e pequenos
proprietários, cujas viúvas e órfãos, arruinados pela
perda do pai de família, eram de uma ou de outra forma
levados a se desfazerem de suas propriedades”36. Os
cidadãos mais ricos foram os que mais se beneficiaram
com as conseqüências da guerra: as terras cultiváveis
abandonadas durante as operações militares eram
vendidas a preço baixo pela família do cidadão morto
em batalha ou até mesmo pelos camponeses que
voltavam da guerra e não possuíam mais meios de
cultivá-las, ou então, simplesmente, as terras eram
usurpadas por um grande proprietário. Nas palavras de
Apiano (Guerras Civis, I, 7):
34
Idem.
“A cidadania entre os romanos”, in: Jaime & Carla Pinsky
(org.), História da cidadania, p. 56.
36
A reforma agrária na Roma antiga, p. 14.
35
Os romanos, à medida em que submetiam pela força
da guerra as diferentes regiões da Itália, apoderavam-se de
parte de seu território e nele fundavam cidades, ou, no mais,
recrutavam seus próprios colonos para enviá-los às cidades já
existentes. Consideravam estas colônias como fortificações e,
da terra por eles conquistada em cada oportunidade,
distribuíam, proporcionalmente, a parte cultivada entre os
colonos, ou a vendiam, ou a arrendavam; entretanto, a parcela
não cultivada devido ao advento da guerra, e que era
precisamente a mais extensa, como não havia tempo para
distribuí-la em lotes, permitiram, por meio de um edital, que
fosse cultivada por aquele que se interessasse em troca do
pagamento de um cânon [modelo, quantia] pela colheita
anual, a décima parte dos produtos da semeadura e a quinta
parte dos cultivos da plantação. Também se fixou um cânon
para os criadores de gado, tanto para as criações maiores
como para as menores. Estas medidas foram adotadas com o
objetivo de multiplicar a raça itálica, considerada por eles a
mais trabalhadora, a fim de ter aliados na pátria. No entanto,
ocorreu o contrário do que se esperava. Pois os ricos,
monopolizando a maior parte da terra não distribuída,
aumentaram com o tempo a sua confiança no sentido de que
já não mais se veriam desapossados dela e comprando, em
parte por métodos persuasivos, em parte se apossando a força
das propriedades vizinhas e de todas as demais pequenas
propriedades pertencentes a camponeses humildes,
cultivavam grandes latifúndios ao invés de pequenos lotes e
empregavam neles escravos como agricultores e pastores,
prevendo que os trabalhadores livres seriam transferidos à
agricultura ou à milícia. Ao mesmo tempo, a posse de
escravos lhes rendeu grandes benefícios dada a sua abundante
descendência, tendo em vista que se incrementavam sem
nenhum risco por estarem isentos do serviço militar. Por estas
razões os ricos se enriqueciam ao máximo e a prática
escravista aumentava muitíssimo nas campinas; tanto que a
escassez e a falta de população afligiam aos povos itálicos,
dizimados pela pobreza, pelos tributos e pela milícia. E,
quando se viram livres destas calamidades, encontraram-se
em uma ociosidade forçada na medida em que a terra estava
nas mãos dos ricos, que empregavam os escravos como
agricultores em lugar de homens livres.
Esse excerto confirma o que dissemos acima
sobre a expropriação de terras. Contudo, devemos ter
em conta que uma enorme parte das terras cultiváveis
adquiridas na expansão militar contra Cartago foram
usadas como meio de pagamento aos cidadãos mais
ricos de Roma, ou seja, senadores e cavaleiros: os quais
haviam emprestado enormes quantias de dinheiro ao
Estado, principalmente, de 216 a 210 a.C., quando a
campanha frente aos cartagineses foi mais acirrada37.
O mesmo trecho de Apiano é significativo em
outra questão: o aumento populacional da plebe urbana
na cidade de Roma, devido ao fato de parte do
campesinato livre transformar-se em proletários. Esse
aumento teve por causa dois motivos principais: a já
referida perda das terras e a entrada de um enorme
contingente de escravos provenientes da guerra.
Os escravos, até então, eram utilizados
geralmente dentro das casas de seus senhores, fazendo
parte das posses, pertencendo à família 38. A partir das
37
Maria Luiza Corassin, A reforma agrária na Roma antiga, p.
15.
38
“Família” deve ser entendida como o conjunto composto pela
mulher, filhos, bens e escravos; o pater familias (“pai da
família”) tinha absoluto controle esse conjunto. O pater não
necessariamente tinha de ser o pai, como compreendemos hoje:
havia a possibilidade de um dos filhos assumir o papel de pater
12
conquistas fora da Itália, o acréscimo no número de
escravos fez com que fossem utilizados com maior
freqüência nas grandes propriedades rurais e também
em empreendimentos manufatureiros. “Esse novo
escravo é tratado como mercadoria, equiparado a
objetos e animais. Em termos jurídicos, houve a
passagem da escravidão de concidadãos para a de
estrangeiros”39; como nos lembra o jurisconsulto do
século II d.C. Gaio (Institutas, 1, 3, 9-12):
A principal divisão no direito das pessoas é esta:
todos os homens são livres ou escravos. Entre os livres,
alguns são nascidos livres, outros são libertos. Nascidos
livres são aqueles que nasceram em liberdade; os libertos são
aqueles que foram libertados de uma escravidão legal. Há três
40
tipos de libertos: cidadãos romanos, latinos ou submetidos.
Ao contrário do que se pode supor a partir da
leitura de Apiano – “... cultivavan grandes latifúndios
ao invés de pequenos lotes...” – o latifúndio41 não foi a
propriedade imperante em Roma. O século II a.C.
observou a difusão de uma nova forma de propriedade,
a uilla (“vila”, “casa de campo”, “quinta”): propriedade
rural com cerca de 500 jeiras calcada na mão-de-obra
escrava e voltada para a comercialização (Figura 2). A
respeito do comércio visado pelas uillae, Maria Luiza
Corassin
escreve:
“Uma
das
características
significativas é que a produção do azeite ou vinho era
dirigida para a comercialização. O trigo e outros
cereais cujos preços eram pouco remuneradores eram
cultivados apenas para atender as necessidades de
consumo do pessoal; se houvesse um excedente, no
entanto, este também seria encaminhado para a
venda”42. A venda de azeite e vinho era a responsável
pelos grandes lucros, porém, colocava Roma em uma
situação delicada: a maioria das propriedades não
cultivava em larga escala os alimentos básicos da
(fraca)43 dieta romana, os cereais; as províncias
romanas eram obrigadas a pagar parte dos tributos em
trigo, mas, quando havia crises, seja por guerra, seja
por problemas de causas naturais, a fome grassava por
todo o Império e afetava profundamente a Capital, que
tanto dependia de importações.
▪ Os Gracos.
[41] O costume dos partidos e facções, daí de todas as
más atitudes, surgira pouco antes em Roma do ócio e da
abundância, gênero de vida mais estimado pelos homens.
Pois antes da destruição de Cartago, o povo e o Senado
romanos administravam a República entre si com placidez e
moderação. A glória e o poder não eram causas de disputas
entre os concidadãos. A ameaça inimiga mantinha o Estado
bem dirigido. Mas quando essa ameaça desapareceu da
memória, a lascívia e a ostentação, conseqüências da
tranqüilidade, vieram à plena luz. Assim, durante a
adversidade, desejava-se o descanso, mas após consegui-lo,
quando do falecimento deste. Importante ressaltar, no entanto,
que o pater familias deveria ser obrigatoriamente um cidadão, ou
seja, maior de idade e do sexo masculino.
39
Pedro Paulo Funari, “A cidadania entre os romanos”, in: Jaime
& Carla Pinsky (org.), História da cidadania, p. 57.
40
Apud Pedro Paulo Funari, ibidem.
41
Propriedade com 1.000 ou mais jeiras de tamanho.
42
A reforma agrária na Roma antiga, pp. 19-20.
43
Peter Garnsey, Alimentação e sociedade na antiguidade
clássica, pp. 20, 42-43.
tornou-se mais áspero e azedo que o próprio infortúnio. Na
verdade, a dignidade da nobreza e a liberdade do povo
tornaram-se luxúria, cada qual buscando o domínio, o poder e
o saque. Dividiu-se, assim, o todo em dois partidos e a
República, antes governada pelas duas partes igualmente,
agora se dilacerava. Por outro lado, a nobreza era mais
poderosa por sua coesão, enquanto que a plebe, dispersa em
grande número, pouco podia. Pela decisão de uns poucos
eram geridos os negócios internos e externos, em suas mãos
estavam os erários, as províncias, as magistraturas, as glórias
e os triunfos, enquanto o povo sofria o serviço militar e a
pobreza, a presa de guerra era monopolizada pelo general e
alguns poucos.
Enquanto isso, os pais e filhos dos soldados,
conforme tivessem suas terras confinantes às de homens
poderosos, eram expulsos de seus lares. Assim, a cupidez
associada a um poder sem medida ou moderação invadiu,
maculou e devastou tudo, nada respeitando até gerar sua
própria destruição. Quando pela primeira vez surgiu dentre a
nobreza alguns que deram precedência à glória e ao poder
iníquo, o Estado abalou-se e a disputa civil ergueu-se como
um tremor de terra.
[42] Depois que Tibério e Caio Graco, cujos
ancestrais muito engrandeceram a República durante a guerra
púnica e em outras, começaram a exigir a liberdade da plebe
e a denunciar os crimes de uns poucos, a nobreza, culpada, e
por isso abatida, através de aliados latinos e de cavaleiros
romanos - os quais atraíra para si e distanciara da plebe pela
esperança de uma aliança - investiu contra a ação dos Gracos.
Assassinaram primeiro Tibério e após alguns anos Caio
(juntamente com M. Fúlvio Flaco), que seguia os passos do
irmão, o primeiro tribuno, o segundo triúnviro para a
fundação de colônias. É certo que o desejo de vitória dos
Gracos não foi suficientemente moderado. Mas é preferível
ser derrotado praticando o bem do que vencer a injustiça por
maus meios. Com esta vitória a nobreza, por sua ardente
paixão, livrou-se de muitos pela morte ou pelo exílio, o que
no futuro lhe causaria menos segurança no poder e maior
temor. Desta forma, a maioria dos grandes Estados fez sua
própria ruína. Vencer a qualquer custo gera, nos vencidos,
um desejo ainda mais forte de vingança.
Os excertos acima, ambos de Salústio (Guerra
de Jugurta), resumem o contexto em que Roma vivia
no século II a.C. e o assassínio dos irmãos Gracos. É
claro que Salústio comete alguns deslizes em seu
capítulo 41: diz que a República era governada
“igualmente” pela nobreza e o povo, quando, por tudo
o que foi mostrado até aqui, percebe-se que não; no
entanto, a afirmação de que “a nobreza era mais
poderosa por sua coesão, enquanto que a plebe,
dispersa em grande número, pouco podia” é bastante
verossímil: a heterogeneidade da plebe (urbana ou
rústica) foi um dos principais fatores que fizeram com
que Roma jamais sofresse um sísmico abalo em seu
interior, a possibilidade (mesmo que pequena) de
enriquecer e inscrever-se no censo da ordem eqüestre
permeava a existência da plebe44. Por outro lado, a
“coesão” da nobreza a que se refere Salústio é
paradoxal: desde o século III a.C., como já vimos, a
ordem senatorial se bipartiu em nobilitas e homines
noui, e, no período em que viveu o autor, século I a.C.,
houve uma nova bipartição dentro da já existente
(motivo de amargura para Salústio logo no início de
44
Assim como não havia uma união entre livres, libertos e
escravos por uma causa comum, mesmo tendo as três categorias
um grau de sobrevivência parecido.
13
sua frase), formando os seguintes partidos: optimates
(“aristocratas”) – os magistrados mais conservadores –
e os populares – magistrados que buscavam apoio no
povo. Os dois partidos não diferiam muito entre si no
plano político, somente na metodologia empregada
para alcançar seus intentos. O próprio Salústio,
partidário de Júlio César, era um popular.
Na época dos Gracos, segunda metade do século
II a.C., começavam a se concretizar esses partidos
políticos. Tibério Graco, nascido em 163 a.C., propôs a
votação de uma lei referente à questão agrária quando
foi eleito tribuno da plebe em 134 a.C.. Ao viajar pela
Península Itálica, Tibério reparou nas conseqüências
oriundas das guerras de conquistas, e percebeu que o
número de assidui – camponeses com condições de se
armamentar – diminuíra drasticamente na Itália frente
às expropriações de terras e o incremento da mão-deobra escrava no campo. Com isso, o número de
cidadãos mobilizáveis caiu, aumentando a preocupação
de Tibério sobre a segurança de Roma. O projeto que
Tibério Graco propôs “limitava o direito de possessio
sobre as terras públicas. Estabelecia que cada indivíduo
poderia ocupar no máximo 500 jeiras (125 hectares) do
ager publicus. Cada pai de família poderia receber
mais 250 jeiras por cada filho; a extensão total
permitida seria no máximo de 1.000 jeiras (250
hectares)”45. As terras que ultrapassassem as 1.000
jeiras estabelecidas seriam divididas em pequenos lotes
e distribuídas aos cidadãos pobres (sendo inalienáveis),
que pagariam anualmente um pequeno imposto. Assim
sendo, havia garantias para os proprietários ricos, que
continuariam detentores de grandes áreas, e para os não
proprietários, que ficariam impedidos de vender suas
parcelas de terras. Também se deve destacar que a lei
agrária de Tibério beneficiava exclusivamente a
população rural, pois, aqueles “que habitavam a cidade
há muito tempo já não tinham mais interesse nem
aptidão pelo trabalho no campo”46.
O grupo que fazia frente à proposta de Tibério
Graco era formado por aqueles que possuíam terras do
ager publicus de forma ilegal. Entre os que iam contra
a lei, estava o outro tribuno da plebe, Otávio. No dia da
votação, Otávio vetou a proposta de Tibério; bastava
um veto de algum dos tribunos para anular todo o
processo. Inconformado, Graco passou por cima da
inviolabilidade de seu colega e fez votar a Lei
Semprônia que, pela primeira vez na história romana,
demitia um tribuno do exercício de seu poder.
Encontramos na obra de Apiano os detalhes do apelo
de Tibério a Otávio para que este desistisse de sua
função antes de ser votado:
Graco se voltou a ele e pediu para que desistisse,
mas, fazendo pouco caso do pedido, colheu o voto das tribos
restantes. Havia nesta época trinta e cinco tribos e, como as
dezessete primeiras votaram no mesmo sentido, de forma
apaixonada, a décima-oitava iria consignar pela aprovação da
proposta, mas Graco, novamente, pressionou Otávio com
firmeza diante do povo, tendo em vista a sua posição de
máximo perigo, para que não conduzisse ao fracasso a obra
de maior nobreza e utilidade de toda Itália, nem frustrasse um
afã tão grande do povo, com cujos desejos convinha que, na
45
Maria Luiza Corassin, A reforma agrária na Roma antiga, p.
46.
46
Ibidem, p. 47.
posição de tribuno, fosse condescendente, e não consentir em
ser exonerado de seu cargo por condenação pública. Depois
de dizer isto, jurou, tendo por testemunhas os deuses, que não
era a sua vontade causar desonra alguma a seu colega e,
como não conseguiu convencê-lo, requisitou o voto. Otávio
se converteu de imediato em um cidadão privado e foi
47
embora da assembléia sem ser visto.
Algumas palavras trarão o entendimento sobre o
sistema de votação por tribos mencionado no excerto.
Em Roma havia, além da assembléia popular48, a
assembléia formada por todos os cidadãos, os comitia
tributa (“comícios por tribos”). Os cidadãos eram
inscritos, pelos censores, em uma das 35 tribos
romanas, sendo 31 rurais e 4 urbanas. Cada tribo
possuía uma votação interna sobre um determinado
assunto onde todos os cidadãos votavam, porém, a
decisão final era tomada como um único voto, e este
apresentado durante o comício. A eleição findava
quando a maioria dos votos pendia a um dos lados, ou
seja, quando se alcançava o número de 18 tribos
votantes favoráveis. Foi o que aconteceu no caso da
deposição de Otávio.
A lei agrária de Tibério Graco foi aprovada e, no
decorrer do ano, uma comissão de três membros
(formada por Tibério, seu sogro Ápio Cláudio e seu
irmão Caio) ficou encarregada de julgar os litígios
acerca da possessão de terras. Ao término do período
de seu exercício, Tibério Graco tentou se reeleger para
dar continuidade ao seu trabalho. O ato de ter dois
mandatos seguidos ia contra o costume romano, pois
temiam que um homem no poder continuamente
desejasse proclamar-se rei. O grupo contrário a Tibério
aumentou depois de ele se apresentar como candidato.
Um outro fator atrapalhou o tribuno na votação:
Era já verão e as eleições para os tribunos estavam na
iminência de ocorrer. Ao se aproximar o dia da votação, era
evidente que os ricos haviam apoiado com afinco para o
cargo os mais intransigentes inimigos de Graco. E este, por
temor à desgraça que se aproximaria caso não fosse eleito
novamente tribuno para o ano seguinte, convocou à votação
seus partidários do campo. Contudo, por ser verão, estes não
teriam tempo livre para lhe acudir, e obrigado pelo exíguo
tempo que restava para o dia marcado para a votação,
recorreu à plebe urbana e, indo de um lugar a outro, pediu a
cada um em separado para que lhe elegessem tribuno para o
ano seguinte como compensação ao risco que por eles
49
corria.
A época da colheita desgraçou o intento de
Tibério: não havia tempo nem condições de reunir o
voto de suas tribos rurais aliadas, e a votação das tribos
urbanas era ínfima, apenas quatro votos possíveis
dentro do total de trinta e cinco. Por fim, Tibério Graco
teve de valer-se de partidários (grupos armados) para
tentar propor a votação. Houve, então, uma escaramuça
no centro da cidade, segundo Apiano (Guerras Civis, I,
15):
Graco se recobrou de seu abatimento, reuniu ainda de
noite os seus partidários e, depois de lhes instruir que daria
um sinal caso houvesse necessidade de luta, ocupou o templo
47
I, 12.
Organizada por centúrias.
49
Apiano, Guerras Civis, I, 14.
48
14
do Capitólio, onde teria lugar o centro da assembléia e a
votação. Impedido pelos tribunos e pelos ricos, que não
permitiam que se celebrasse a votação, deu o sinal.
Despontou de repente um grito por parte dos conjurados e,
em seguida, chegou-se às vias de fato. Alguns de seus
partidários protegeram Graco como guarda-costas, e outros,
depois de apertar as suas indumentárias e tomar os bastões
das mãos dos guardas, destruíram-nos em muitos pedaços e
expulsaram os ricos da assembléia com tamanha desordem e
tantas feridas que até mesmo os tribunos fugiram cheios de
temor do centro da assembléia, e os sacerdotes trancaram as
portas do templo.
Pouco tempo depois, Tibério e grande parte de
seus partidários foi assassinado (133 a.C.)
publicamente, em confronto com os grupos armados
opositores.
Em 124 a.C., Caio Graco se elegeu tribuno da
plebe. As medidas de suas primeiras leis votadas
foram, justamente, a abolição à proibição da reeleição
dos tribunos, e a proibição à condenação à morte de
algum cidadão sem a ordem popular. Outras de suas
leis podem ser lidas no trecho abaixo, do historiador
grego do século I-II d.C., Plutarco:
Das leis que propôs para favorecer o povo e refrear o
senado, uma exigia a partilha das terras públicas entre os
pobres. Outra dizia respeito ao serviço militar e prescrevia
que os soldados fossem vestidos à custa do Estado, sem
desconto no soldo dos que estivessem em campanha; essa
mesma lei proibia o recrutamento de menores de dezessete
anos. Uma terceira concedia aos italiotas o mesmo direito de
voto dos cidadãos. Uma quarta, sobre os cereais, tornava a
compra de trigo menos onerosa para os pobres50. Uma quinta,
relativa à justiça, roubava ao senado a maior parte de suas
prerrogativas judiciárias: como os senadores fossem os
únicos juízes e por isso mesmo se mostrassem temíveis ao
povo e aos cavaleiros, Caio acrescentou aos trezentos
membros do senado igual número de cavaleiros, passando
então os processos a serem julgados pelos seiscentos. Quando
propôs a lei, parece ter tomado disposições cuidadosas,
sobretudo esta: ao passo que antes todos os oradores se
voltavam para o senado e o chamado Comício, foi ele o
primeiro a falar olhando na direção do Fórum, conforme
depois se tornou costume. Graças a essa alteração mínima de
atitude conseguiu fazer uma gigantesca revolução, pois, de
certa forma, transformou o regime político de aristocracia em
democracia ao mostrar que os oradores deveriam ter em vista
o povo e não o senado.
As mudanças feitas por Caio Graco agradaram a
todos, excetuando-se os senadores conservadores.
Serviu à plebe rural ao continuar com a política de
redistribuição das terras e ao prescrever que os
soldados fossem desobrigados a custear o próprio
equipamento e armamento, passando essa função ao
Estado. Quanto aos cavaleiros (equites)51, conseguiu
50
Sobre a distribuição de grãos, encontramos em Apiano (I, 21)
o seguinte:
E, uma vez que se elegeu da maneira mais contundente,
urdiu insídias contra o senado, estabelecendo uma quantidade
mensal de trigo para cada cidadão às expensas do erário público,
partilha que nunca antes se havia tido por costume fazer.
51
Cavaleiros: os ricos não senadores; a ordem imediatamente
abaixo da ordo senatorius. Ao contrário dos senadores, que
estavam proibidos por lei de fazerem negócios públicos, os
cavaleiros não tinham restrição nenhuma em relação ao comércio
um imenso apoio de sua parte ao conceder-lhes o poder
sobre os tribunais, opondo-se aos senadores, até então,
únicos juízes. Caio, ao conceder aos aliados itálicos o
direito de voto, diminuiu as barreiras contra a reforma
agrária em compensação às vantagens políticas 52.
Entretanto, o tribuno da plebe recebeu maior apoio da
plebe urbana com a lei acerca da distribuição de cereais
sob as expensas do Estado: “aliviava a miséria da plebe
urbana, habituada até então a depender de subsídios e
doações das grandes famílias nobres”53. Com essas
medidas favoráveis à plebe, Roma observava a
transferência da clientela, que tradicionalmente
dependia das famílias nobres, para as mãos de um
popularis (“popular”)54.
Das leis de Graco, a que foi utilizada pelos
senadores contra a sua pessoa reside na concessão de
cidadania aos italiotas. Argumentando que os mais
pobres teriam seus direitos ofuscados, o Senado
conseguiu barrar a reeleição de Caio para o tribunado
em 121 a.C., e o acusou de enriquecimento: fato que o
levou a mudar-se de sua residência no Palatino 55. Uma
outra lei que pretendia criar uma colônia em Cartago –
local considerado amaldiçoado – foi posta em votação
pelo Senado para a sua revogação. Os partidários de
Graco recorreram às armas, e o Senado fez instituir,
pela primeira vez, o senatus-consultum ultimum:
concedia plenos poderes ao cônsul para tomar
quaisquer atitudes, suspendendo as garantias dos
cidadãos frente ao poder militar do magistrado. Caio
Graco e todos os seus partidários foram assassinados.
Com a morte de Caio Graco, a reforma agrária
enfraqueceu-se perante as modificações legislativas. A
historiadora Maria Luiza Corassin resume as leis
descritas em Apiano: “Os lotes distribuídos eram
inalienáveis; esta precaução destinava-se a proteger a
pequena propriedade. O primeiro passo contra a
reforma foi abolir esse vínculo; os ricos puderam então
expulsar os camponeses comprando seus pequenos
lotes. Uma segunda lei proibiu novas distribuições de
terras; a maior parte do ager publicus consistia de
terras ocupadas e estas eram deixadas aos que detinham
sua posse desde a lei de Tibério; mas os ocupantes
ficavam obrigados a pagar um imposto cujo
ou empréstimos (que cabiam ao Estado romano). Os cavaleiros
poderiam ser também publicanos (publicani), ou seja, detentores
dos contratos públicos (para construções de ruas e pontes,
reparações de edifícios, abastecimento dos exércitos,
arrendamentos das minas do Estado, cobrança de taxas
alfandegárias e impostos). Porém, deve-se ter em mente que,
apesar da proibição legal do Estado, muitos senadores atuavam
como publicanos.
Tanto a ordem senatorial como a ordem eqüestre eram
responsáveis pelas compras de grandes lotes de terras dos
territórios recém-conquistados no pós-Segunda Guerra Púnica;
territórios que poderiam ter caráter privado (ager priuatus) ou
público (ager publicus).
52
Maria Luiza Corassin, A reforma agrária na Roma antiga, p.
69.
53
Ibidem, p. 58. O dinheiro para financiar as despesas vinha da
exploração das províncias.
54
Também membro de origem aristocrática.
55
Plutarco, Vida de Caio Graco, 12:
De regresso [de Cartago, onde pretendia fundar uma
colônia] mudou-se de sua casa do Palatino para um bairro mais
popular, abaixo do Fórum, onde vivia a maior parte dos pobres.
15
rendimento seria destinado às distribuições de trigo à
plebe. Finalmente, o último passo: este imposto foi
suprimido, declarando-se propriedade privada as terras
já distribuídas e as ocupadas. Apenas as terras que não
estavam ocupadas continuavam sendo consideradas
ager publicus; este foi liberado para o uso como
pastagem; com o tempo, provavelmente terminou
sendo ilegalmente cercado e apropriado pelos ricos”56.
Ao fim, os pobres perderam tudo e foram
obrigados a migrar para a cidade.
C) A Cidade Romana.
Embora a tradição textual antiga relate o ano de
754-3 a.C. como o da fundação de Roma, uma possível
data de uma provável fundação está muito aquém do
que a historiografia dos antigos nos diz.
Existiu na área que viria a ser Roma uma
ocupação contínua desde o século XIV a.C. (Idade do
Bronze Médio), mais precisamente instalada no
Capitólio. A ocupação também se estendeu
primeiramente pelo vale do Fórum, seguindo pelo
Palatino, Esquilino e, por fim, o Quirinal (Figura 3).
Essas ocupações tiveram um processo de assentamento
derivado das exigências de segurança e controle
estratégico do território.
Porém, a urbs somente tomaria seu contorno
com o advento da 1ª Idade do Ferro (séculos X-IX
a.C.). Diferentemente da região etrusca onde nasceram
centros proto-urbanos gerados por um processo de
agrupamento das ocupações chamado sinecismo57, o
Lácio tem em seu ventre ocupações proto-urbanas que
não precisaram ser fecundadas por novos centros, ao
contrário, as ocupações cresceram progressivamente,
sem nenhum indício catalisador. Roma observou na 1ª
Idade do Ferro o já mencionado assentamento no
Palatino. Junto a esse movimento, vemos o vale do
Fórum – que era uma necrópole – passar a constituir
também a malha habitacional das ocupações ao seu
redor (a então necrópole do Fórum foi transferida para
o Esquilino). Todavia, a ocupação proto-urbana
romana durante meados do século IX e todo o século
VIII a.C. adquiriu extensão semelhante aos grandes
centros vilanovianos58 da Etrúria. O arqueólogo Filippo
Coarelli59 nos explica acerca do tema da formação
proto-urbana: é provável que as primeiras tentativas de
urbanização tenham coincidido com o incremento da
produção agrícola, tornando possível, a partir da
acumulação de excedentes, a concentração da
população que antes estava esparsa e o início de
atividades que ultrapassam o grau da simples
subsistência. Não podemos esquecer, entretanto, que,
antes desse incremento da produtividade agrícola,
56
A reforma agrária na Roma antiga, p. 73.
Do grego, sinoikismós (“morar junto”).
58
A cultura vilanoviana deve seu nome à localidade de Vilanova,
próxima a Bolonha, onde foram encontrados os primeiros
vestígios de uma cultura material que mais tarde se revelaria
como típica de toda a Etrúria.
59
Guida archeologica di Roma, pp. 9ss.
57
Roma era caracterizada pelo pastoreio60, como se pode
presumir da existência de grandes bosques, e
corroborar esse fato com o número de cultos e
personagens mitológicos que denotam a figura do
pastor, seu gado e o bosque.
O arqueólogo Massimo Pallotino afirma serem
os contatos com o Oriente e com a Grécia os
responsáveis pela introdução das estruturas de
civilização em Roma61. Em meados do século VIII a.C.
é fundada a ocupação helênica em Cumas na costa
tirrênica, dando início às relações comerciais entre
Roma e a primeiras colônias gregas, como demonstra a
cerâmica grega do século VIII a.C. descoberta nas
últimas décadas no Fórum Boário62. O fato de Cumas
ser um empório facilitou, e muito, a “absorção” da
cultura grega pelos latinos (e etruscos): além do
alfabeto, a arqueologia atesta a importação de
tecnologia, na figura dos artesãos, para as cidades que
rodeavam o empório (não se importavam artefatos,
mas, sim, quem os fabricava). O historiador alemão
Frank Kolb diz sobre o contato de culturas e sua
influência na materialidade: “[Em Roma] cresceu
consideravelmente a importação e a imitação local de
cerâmica etrusca e grega. Afora uma classe dominante
etrusca, estabeleceram-se em Roma artesãos,
comerciantes, construtores e artistas etruscos e
possivelmente também alguns gregos. O „bairro
etrusco‟ (vicus etruscus), que se estendia desde o
Fórum romano até o Fórum Boario, ao pé do Capitólio,
era seguramente o centro de produção artesã do
assentamento em expansão. Roma tinha a função de
mercado com relação a um certo entorno e, ao mesmo
tempo, seria já um ponto de apoio do comércio com
zonas distantes; o Fórum boário e não o romano era o
lugar das transações”.63.
Uma fase deveras importante para o
desenvolvimento de Roma veio no século VII a.C. sob
o reinado de Anco Márcio (640-616 a.C.): o momento
em que Roma controlou a passagem para a margem
oposta do Tibre. Aproveitando-se da localização
afortunada de Roma, Anco Márcio fez erigir sobre o
vau do Tibre a Ponte Sublícia. Essa ponte constituiu a
ligação entre as duas mais antigas – e contemporâneas
– vias da Roma arcaica: a Via Campana e a Via Salária,
encarregadas de transportar o sal da foz do Tibre até o
território romano (o ponto de encontro dessas duas vias
era a Ponte Sublícia, localizada na região do Fórum
Boário). A área do Fórum tornou-se adequada para
troca de produtos tais como sal, gado e produção
agrícola64; além, é claro, de que os contatos entre as
diversas etnias renderam aprendizados culturais
importantes e recíprocos65.
60
Frank Kolb afirma sobre o pastoreio (La ciudad en la
Antigüedad, p. 142): “Com efeito, o solo pobre do Lácio era mais
adequado à pasticultura do que para a agricultura, e Roma se
estendia sobre colinas em torno de uma profundeza junto ao
Tíber, ensandecida pela malária. Ao princípio teve um escasso
papel a fácil comunicação com o mar através do Tíber, que
destacam Lívio [V, 54] e outros autores modernos”.
61
Origini e Storia Primitiva di Roma, pp. 325-343.
62
Filippo Coarelli, Guida archeologica di Roma, pp. 9ss.
63
La ciudad en la antigüedad, pp. 145-146.
64
O Fórum era, pois, o “empório romano”.
65
Foi na 1ª Idade do Ferro que ocorreram as diferenciações
culturais e o surgimento de grupos étnico-lingüisticos na
Península Itálica. Esses agrupamentos tinham em sua origem as
16
Contudo, uma parte dos estudiosos da
Antiguidade marca no século VI a.C. o período em que
Roma se firmou como cidade. Para Géza Alföldy: “O
processo evolutivo de Roma como cidade só viria a
completar-se no século VI a.C., quando estas
comunidades primitivas se organizam em cidadeEstado. É então que Roma se alarga para o sul, para o
leste e para o norte do monte Palatino, absorvendo os
pequenos núcleos populacionais que aí se encontravam
e delimitando-se claramente em relação à regiões
circundantes (pomerium)”66. Também Frank Kolb
compartilha dessa idéia, ao responder o porquê de
Roma ser considerada uma cidade no século VI a.C.:
“Sem embargo, a existência de um centro urbano, que
compreendia o Foro romano, a Assembléia, o Fórum
Boário e o Capitólio, e suas funções de lugar central
político-administrativo e econômico de uma região,
justificavam a consideração de Roma como pequena
cidade a fins do século VI, o mais tardar. (...) As razões
político-militares foram também decisivas para o
nascimento da cidade de Roma, e precisamente estes
fatores determinariam igualmente o crescimento
posterior do assentamento junto ao Tíber”67. Ou seja,
como foi dito no início deste item, a cidade de Roma
não foi “fundada”, ela não teve um “nascimento”, mas,
sim, é o resultado de um processo de assentamento que
seguiu constante desde, pelo menos, o século XIV a.C.
O arqueólogo Paul Zanker em seu ótimo texto
“The city as symbol: Rome and the creation of an
urban image” investiga as características externas de
uma “típica” cidade romana, concentrando-se na
análise dos espaços públicos68. Inicialmente, é
necessário distinguir os dois agentes influenciadores
das mudanças físicas do espaço público: as alterações
anônimas e o planejamento estatal. As alterações
anônimas são aquelas mudanças proporcionadas de
modo individual, independentes umas das outras e do
plano geral da cidade; construções de casas, a difusão
de habitações comuns num determinado distrito, a
adição de tabernas ou outro local arrendável em
algumas casas, são alguns exemplos de alterações deste
tipo. Já o planejamento estatal é a mudança física
refletida na fundação de colônias, na construção de
edifícios públicos (por determinadas comunidades e
patronos), ruas, estradas e muros69.
Antes de centrarmos o foco na “típica” cidade
romana, devemos deixar claro que essa tipicidade não
partiu da Capital, ou seja, Roma, nas palavras do
historiador Martin W. Frederiksen: “A preferência
romana pelos projetos que tivessem simetria e seu
gosto pela simplicidade diagramática é mais evidente
nas novas cidades criadas. Nisso contrastavam
diversas homogeneidades próprias de cada grupo (produção,
relação social, relação de troca) juntamente com ideologias que
expressam a preocupação cada vez maior nos quesitos: segurança
e prestígio econômico. Essas diferenciações culturais formarão
as grandes estruturas étnicas conhecidas do período histórico:
etruscos com sua cultura “vilanoviana”, e os latinos, com sua
formação cultural própria (denominada “cultura lacial”).
66
A história social de Roma, p. 18.
67
La ciudad en la antigüedad, p. 147.
68
A análise do espaço privado, ou seja, as residências, será feita
mais à frente.
69
Paul Zanker, JRA: 38, p. 25.
grandemente com a própria Roma; a capital crescera,
cedo demais para que recebesse qualquer
planejamento, numa complexa localização de sete
colinas e um rio. A maior parte da cidade era um caos
de casas altas e raquíticas, bem como ruas tortuosas e
estreitas, e somente a grandes penas impôs-se ordem
em relação às construções centrais de finalidade
política, para recompensar o gosto romano pela
simetria. (...) Embora, entretanto, os Imperadores
trouxessem muitos melhoramentos e construíssem
suntuosos edifícios, a maior parte de Roma continuava
a apresentar os agudos problemas de seu crescimento
tumultuário”70.
Voltando agora a Paul Zanker, o arqueólogo
afirma que as cidades romanas tiveram seu típico
planejamento urbano calcado, primeiramente, nas
coloniae maritimae (“colônias marítimas”) da costa do
Lácio, fundadas a partir do século IV a.C.: Ostia, 380
a.C.; Antium, 338 a.C.; Tarracina, 329 a.C.;
Minturnae, 296 a.C; Pyrgi, 264 a.C (Figura 4). Essas
cidades tinham uma proporção pequena, acomodando
cerca de trezentos cidadãos romanos 71. As colônias
marítimas prosperaram, embora Cícero, no século I
a.C., maldissesse as cidades litorâneas, elogiando o
local de fundação de Roma (Da República, II, 3,4):
[3] [Cipião disse] “Compreendeu com admirável
prudência aquele excelente varão [Rômulo] que os pontos
próximos às costas não são mais apropriados para fundar
cidades que pretendem alcançar estabilidade e poderio,
porque as cidades marítimas estão expostas, não só a
freqüentes perigos, mas a desditas e acontecimentos
imprevistos. A terra firme denuncia, por meio de mil indícios,
a marcha prevista e até as surpresas do inimigo, que se
descobre pelo ruído de seus passos; e não é atacada tão
rapidamente como se pode supor, sabendo-se por outra parte,
quem é o agressor e de onde vem; por mar, pode desembarcar
uma esquadra antes que se possa advertir a sua proximidade;
sua marcha não denuncia nem sua personalidade, nem sua
nação, nem seu objetivo; não se pode, enfim, distinguir com
sinal algum se é ou não amiga”.
[4] “São também freqüentes, nas cidades marítimas, a
mudança e a corrupção dos costumes, pois os idiomas e
comércios estranhos não importam unicamente mercadorias e
palavras, mas também costumes, que tiram estabilidade às
instituições dessas cidades”.
Zanker aponta três principais características que
diferenciam as cidades romanas das cidades helênicas
(que se equiparam apenas no traçado axial-simétrico
das ruas)72, e que, segundo ele: “Este princípio básico
do planejamento de cidades seria repetido nas
fundações tardias, com muitas variações, mas sempre
aderindo rigorosamente a mesma idéia básica”73.
▪ A cidade não apenas se encontra ao longo das
estradas, como essas estradas formam o seu eixo
70
“Cidades e Habitações”, in: J.P.V.D. Balsdon, O mundo
romano, pp. 152-153.
71
Como dito, os cidadãos eram os homens maiores de idade,
logo, acrescentando-se o número de esposas, filhos e escravos, o
número de habitantes deveria ficar em torno de mil.
72
Embora nem todas as cidades gregas tivessem traçado axialsimétrico.
73
Paul Zanker, JRA: 38, p. 27.
17
principal74, seja o cardo75, seja o decumanus76. As vias
– tão distintas por suas qualidades e durabilidade –
foram, ao longo da história da Roma Antiga,
comissionadas primeiro pelo Senado e, mais tarde, pelo
imperador. As estradas, além de deixarem visível um
senso de segurança e interligarem o mundo romano,
eram também, a concretização da legitimação romana
sobre as terras conquistadas pelo exército, como diz
Paul Zanker: “Elas [as estradas] eram antes de tudo um
símbolo da conquista e organização de um território
recentemente ganho. Sua estrita linearidade,
estendendo-se para o horizonte e parecendo conter as
irregularidades de uma terra natural com um grande
gesto de subjugação, firmou o caráter militar da nova
rede de estradas”77. Ao longo das vias havia os marcos
– pedras que lembravam ao viajante a todo instante a
distância de Roma e a distância entre as cidades; os
santuários – com as frentes voltadas para a estrada, a
fim de o viajante impressionar-se com a arquitetura
mesmo à distância; as tumbas monumentais – também
voltadas ao viajante, que refletiam as particularidades
sociais e econômicas de quem mandava construir; as
uillae – construídas às margens das cidades, antes ou
depois dos muros78 (as melhores evidências
arqueológicas situam-se em Pompéia)79. Por fim,
Zanker aponta os três fenômenos que marcavam uma
cidade na República Tardia: “novos grandes edifícios
públicos nas cidades da Itália central, monumentos
funerários sobre grandes estradas e vilas no topo de
cidade, de novo, preferencialmente, na direção das
estradas”80.
▪ A estrada principal atravessa a área do
Capitólio, situado na interseção do cardo com o
decumanus (Figura 7). Essa interseção forma a região
onde está o principal templo, o Capitolium, e o local de
encontro dos moradores da cidade para a discussão
política e econômica, o Forum. A subordinação desse
espaço ao templo é atestada pelo fato de o Capitólio ser
erigido sobre um podium (“pódio”), ficando acima das
demais construções na região. Paul Zanker afirma ser o
complexo Forum-Capitolium uma especificidade
romana: “Esta ligação próxima, ou interligação, do
espaço sagrado e político é indubitavelmente um
conceito especificamente romano, expressando uma
noção ideológica de importância central. Precisamos
somente relembrar que a Cúria foi inaugurada como
um templum (Varrão, apud, Gell. 14.7.7) e que o
senado costumava se reunir em uma variedade de
templos”81. A maioria das cidades romanas são
imediatamente reconhecidas graças ao complexo
Fórum-Capitólio situado no centro da cidade.
74
Na Figura 5 há o exemplo de uma estrada que passa pelas
cidades.
75
Eixo de sentido Norte-Sul.
76
Eixo de sentido Leste-Oeste.
77
Paul Zanker, Op. cit., p. 29.
78
Os muros, durante o Principado, passaram a ser custeados pela
família imperial, que ornava esse tipo de construção com relevos
narrativos das principais conquistas da família.
79
Paul Zanker, Op. cit., pp. 29-32. Para o exemplo de uillae
construídas próximas aos muros da cidade, ver Figura 6.
80
Paul Zanker, Op. cit., p. 30.
81
Paul Zanker, JRA: 38, p. 33.
▪ O local de encontro da comunidade situa-se em
frente ao Capitólio. Além do complexo já mencionado,
outros dois importantes edifícios marcavam a vida
pública dos romanos: a Cúria, espaço de encontro e
discussão das ordines (“ordens”) – que, com a ascensão
o Principado, perdeu sua importância política,
ocupando um local anexo atrás do pórtico do Fórum ou
estando integrado às basílicas; e a Basílica, um edifício
que se tornou extremamente marcante na urbanização
romana a partir do século II a.C., sendo um local de
negociações políticas e comerciais82. Embora não tão
suntuosos, os horrea (“armazéns de grãos”) também
datam do século II a.C., em decorrência direta da
Segunda Guerra Púnica e as leis dos Gracos, e estão
principalmente localizados nas cidades portuárias, que
recebiam o abastecimento das províncias83.
Afora as três características das “típicas” cidades
fundadas por romanos, durante o Principado (a partir
de 27 a.C.) houve um incremento dos edifícios
públicos de lazer por todo o mundo romano, entre os
mais destacados estão: teatros, anfiteatros e banhos. Os
(anfi)teatros tiveram uma grande difusão devido às
técnicas utilizadas pelos engenheiros na construção de
arcos e abóbadas, e representavam também a
demarcação social existente em Roma, como nos
explica Zanker: “O surgimento da arena como local de
significado social e político também reflete numa
necessidade elementar na sociedade romana. Estudos
recentes têm enfatizado o papel do anfiteatro na
socialização dos romanos da velha República e o
Principado dentro do novo mundo do império e
monarquia. Anfiteatros eram lugares onde a população
inteira de uma cidade, incluindo escravos, mulheres e
estrangeiros, vinham juntos, e , como no teatro, cada
um recebia seu lugar marcado: um microcosmo da sua
extensa sociedade e sua dinâmica social. Enquanto
entretidos, as pessoas estavam inconscientemente se
tornando admiradoras de tudo imbuído pela palavra
uirtus: coragem, iniciativa, falta de medo diante da
morte, e mais. Ao mesmo tempo, pela sua presença em
tamanho número e na sua unidade de exultação no
destrinchar dos inimigos do estado, a audiência
participava na „restauração da ordem‟” 84. Os banhos, a
exemplo dos (anfi)teatros, tiveram uma importância
significativa na cidade imperial, sendo financiados, a
maioria das vezes, pelos patronos, e representando para
os habitantes da cidade uma significativa qualidade da
vida urbana85. O historiador C.R. Whittaker escreveu
82
Ibidem, p. 36.
Ainda acerca das conseqüências da Segunda Guerra Púnica,
Frank Kolb afirma (La ciudad en la antigüedad, p. 156): “Um
historiador estaria disposto a concluir das fontes que a crise
instaurada com o programa de reforma dos Gracos foi,
sobretudo, uma crise da cidade de Roma: a carência de atividade
construtora levou a uma considerável falta de ocupação.
Contudo, um arqueólogo observa uma padronização do material
de construção no século II e deduz disso, com razão, um
considerável aumento da atividade construtora, que se financiou
à custa das províncias. É evidente que desde o século II se
pavimentam as ruas na cidade; temos notícia disto, pela primeira
vez, para o ano 174 [a.C.]”.
84
Paul Zanker, JRA: 38, p. 38.
85
Também Lewis Mumford, sobre os banhos (A cidade na
história, p. 249): “O banho, tal como era conhecido por Cipião, o
Africano, era um tanque de água num lugar abrigado, onde o
83
18
sobre a insalubridade dos banhos e banheiros em
Roma: “Os banhos que ricos e pobres costumavam
freqüentar deviam propagar doenças terríveis, que não
atendiam ao estatuto social ou à riqueza pessoal. As
pessoas da época não pensavam, naturalmente, do
mesmo modo. Os ricos podiam sempre dispor do seu
banho privado e de água depurada (Séneca, Cartas, 86,
11). Os menos pobres podiam isolar-se dos mais
pobres, que estavam doentes, e das prostitutas,
utilizando os banhos em horários reservados (Marcial,
3, 93), e o preço módico das entradas conseguia manter
afastados os deserdados. Os ricos podiam extrair água
dos aquedutos para seu consumo privado, enquanto o
pobre habitante de uma insula tinha de ir buscar água
ao lacus, as fontes públicas, que podiam facilmente
inquinar-se. Uma domus rica podia ter as suas latrinas,
mas os pobres tinham de pagar para utilizar as latrinas
públicas. Todavia, também se serviam de bacios e de
outros recipientes, que eram colocados nas esquinas
das ruas à disposição de todos. Não há dúvida de que
os mais miseráveis deixavam os seus dejectos onde
podiam, já que os excrementos de muitos eram
lançados directamente para as ruas e os recipientes para
as urinas se quebravam (Marcial, 6, 93). Nada prova
que as casas, mesmo as que pertenciam aos ricos,
estivessem ligadas às fossas principais, as cloacae.
Assim, em muitos aspectos, os ricos corriam tanto risco
de infecção como os pobres. Mas quando – como
acontecia amiúde – grassavam epidemias ou
pandemias, os ricos tinham duas vantagens: em
primeiro lugar, dispunham de mais comida e por isso
eram mais resistentes às doenças; em segundo lugar,
podiam evitar o contágio refugiando-se nas suas casas
de campo. Em 189 d.C., enquanto duas mil pessoas
morriam diariamente em Roma – trespassadas por
criminosos com agulhas envenenadas, como se julgava
(tratar-se-ia de malária?) – o imperador e a sua corte
residiam fora da cidade, na casa de Laurentum”86.
É interessante notar que, contrastando com o
complexo Fórum-Capitólio, essas enormes construções
públicas não possuíam lugar fixo para serem instaladas.
Tudo dependia do valor que o patrono iria expender e,
principalmente, do espaço disponível para a construção
do edifício e das necessidades locais onde seria erigido;
por isso, é muito comum encontrar banhos, teatros e
anfiteatros afastados do centro da cidade e também,
algumas vezes, mesmo fora dos muros da cidade
(Figuras 7 e 8). Porém, devemos lembrar que a
construção de edifícios em locais aleatórios é reflexo
do fato de esses ambientes não existirem quando da
fundação da cidade.
fazendeiro molhado de suor ia limpar-se. Sêneca evoca com
saudade aquele momento, antes que o banho de sol e o
amaciamento geral da carne se tornassem elegantes. Mas, já no
século II a.C., o hábito de ir aos banhos públicos estava
implantado em Roma; e, em 33 a.C., Agripa introduziu banhos
públicos gratuitos, na forma pela qual essa instituição acabaria
por tomar: um vasto recinto fechado, capaz de conter grande
quantidade de pessoas, um salão monumental contíguo a outro,
com banhos quentes, banhos tépidos, banhos frios, salas para
massagens e salas para passar tempo e dividir os alimentos,
anexo aos ginásios e campos de esportes, para servir àqueles que
procuravam exercícios ativos, e também bibliotecas, para os mais
reflexivos ou mais indolentes”.
86
“O pobre”, in: Andrea Giardina, O homem romano, pp. 234235.
Auxiliando no trabalho arqueológico, temos as
fontes antigas, que são ricas ao fornecer dados sobre os
aspectos físicos da cidade de Roma, tendo-se em conta
os agentes modificadores expostos por Paul Zanker:
alterações anônimas e o planejamento estatal. Entre
elas, podemos citar a Vida de Caio Graco escrita por
Plutarco, relatando a expansão das vias, sua
pavimentação e a colocação dos marcos no século II
a.C.:
[7] [Caio Graco] Empenhou-se especialmente na
abertura de estradas87, tendo sempre em vista a utilidade, a
funcionalidade e a beleza. Fê-las todas retas e pavimentadas
com pedras polidas, solidamente implantadas em areia.
Mandou atulhar ou atravessar de pontes as depressões
formadas por ravinas ou torrentes, e obteve assim uma altura
igual e paralela dos dois lados, de forma que a obra,
perfeitamente equilibrada, apresentava bonito aspecto por
todos os ângulos. Além disso, mediu as estradas por milhas (a
milha equivale a mais ou menos oito estádios) e erigiu
colunas de pedra indicando as distâncias. Também mandou
cravar dos dois lados pedras menos afastadas umas das
outras, para permitir que os cavaleiros montassem mais
comodamente, sem necessidade de escudeiro.
Os excertos a seguir, retirados de Suetônio,
corroboram o que acima já foi dito: a influência do
imperador e de patronos nas construções públicas das
cidades visando realizar os intentos na política. Eis as
realizações urbanas de Augusto, princeps (“primeiro”)
do Senado, que governou de 31 a.C. a 14 d.C.:
[28] A Cidade, do ponto de vista ornamental, não
correspondia, em absoluto, à majestade do Império e, além
disso, estava exposta às inundações e aos incêndios. Tornou-a
tão bela que se pôde envaidecer, justamente, de ter deixado
88
uma cidade de mármore onde encontrara uma de tijolos .
87
Lembremos que uma das leis de Caio Graco fez instituir a
distribuição de grãos à plebe urbana a preço baixo. Paralelamente
a esse fato, Roma cada vez mais recebia tributos em forma de
alimentos de suas províncias recém-conquistadas. Tudo isso
levou ao imprescindível melhoramento das vias de transporte
terrestre, embora não tenha resolvido o problema de transporte
definitivamente, como aponta o historiador Moses I. Finley (A
economia antiga, p. 177): “A acumulação e a especulação
desempenharam o seu papel, sem dúvida, mas o frequente
fenómeno das fomes, quando havia abundância nas
proximidades, não se pode atribuir apenas à cupidez [já que as
vias e os meios de transporte eram precários]”.
88
A “cidade de mármore” referida no trecho restringe-se aos
monumentos públicos. Roma contrastava sua beleza marmórea
com ruas sujas e depósitos de lixos em quaisquer lugares. Sobre
a insalubridade romana, as palavras ácidas de Lewis Mumford (A
cidade na história, p. 238): “Embora a massa da população
pudesse, durante o dia, freqüentar, por pequena taxa, as
instalações públicas da vizinhança, depositavam seus dejetos
domésticos em buracos cobertos ao pé das escalas de suas
habitações apinhadas, de onde eram periodicamente removidos
pelos estercoreiros e rapinantes. Nem mesmo a remoção noturna
pontual haveria de reduzir muito o mau odor que deveria
impregnar tais edifícios. (A urina, recolhida em vasos especiais,
era empregada, pelos tecelões no preparo de tecidos.) Em
contraste com a remoção de água, aquele recolhimento de esterco
tinha a vantagem de vivificar o solo das fazendas próximas com
um útil composto nitrogenado, pois, então como agora, as
privadas de descarga ao mesmo tempo desperdiçavam
fertilizantes em potencial e poluíam os rios. Contudo, a carga de
excrementos daquela vasta população de cortiço deve ter sido
19
[30] Dividiu o perímetro da Cidade em distritos e
bairros. Estabeleceu que os distritos seriam administrados por
magistrados anuais, por meio de sorteio, e os bairros por
inspetores escolhidos entre a população local. Criou postos e
sentinelas noturnas contra os incêndios. Para evitar as
inundações alargou e dragou o leito do Tibre, que desde
muito estava obstruído pelos resíduos e estreitado pelo
desabamento de edifícios. Procurando facilitar o acesso à
Cidade por todos os lados, encarregou-se de cortar a Via
Flamínia até Arimino e entregar as outras a cidadãos
enobrecidos por triunfos, a fim de que as nivelassem com o
dinheiro das suas presas de guerra. Reconstruiu edifícios
sagrados arruinados pela velhice ou consumidos pelo fogo.
Enriqueceu-os, da mesma forma que outros, com caras
oferendas. Assim, de uma só vez, mandou levar ao santuário
de Júpiter Capitolino dezesseis mil libras de ouro e pedras
preciosas no valor de cinqüenta milhões de sestércios.
lei de Júlio César sobre a proibição do tráfego, durante
o dia, dos veículos que traziam carregamentos
comerciais (tornando a cidade barulhenta à noite);
menciona as ruas da cidade – que mal comportavam a
passagem de um carro, obstruindo, muitas vezes, a via
nos dois sentidos, quando não disputavam espaço com
as liteiras dos nobres; também nos dá idéia de como era
o comércio nas ruas, com vendedores passando de um
lado para o outro carregando madeira ou vasos com
azeite, tentando se manter em pé no chão enlameado:
De sono a falta aqui mata os doentes,
Indigestões causando tais moléstias,
Pois não digere o estômago inflamado.
Das estalagens nossas, foge o sono:
Cara uma alcova retirada custa Das moléstias, escuta agora as causas.
Dos carros o motim, quando não podem
À vontade virar n'alguma esquina;
A de arrieiros gritaria enorme,
Despertaria um Druso, e as Focas mesmo;
Se preciso é sair, topa-se um rico,
Que na liteira, sobranceiro ao Povo,
Que passagem lhe dá, súbito corre,
De Liburnos escravos sobre os ombros:
Lê de caminho, escreve, e dorme dentro,
A liteira cerrada o sono chama,
E sentado anda mais, que a pé andamos.
Do Povo a onda nos suspende os passos;
Pelas costas a turba nos empurra.
Cotovelada de um, bordoada de outro;
Com a tábua a cabeça outro me fere;
De azeite com a talha este me suja;
Cheias de lama vejo as pernas minhas,
Do sapato uma tacha de um soldado,
Com dores mil num dedo se me encrava.
[37] Para que um maior número de cidadãos pudesse
tomar parte na administração do Estado, imaginou a criação
de novos cargos: a curadoria dos monumentos públicos, das
estradas, das águas, do leito do Tibre e da distribuição do
trigo ao povo; a prefeitura da Cidade; um triunvirato para a
eleição do Senado e outro para quando fosse necessária a
revista dos cavaleiros. Nomeou censores que havia muito
tempo não eram nomeados. Aumentou o número de pretores.
[39] Organizou o recenseamento do povo por bairros,
e para que os plebeus não se afastassem dos seus negócios
com a distribuição de trigo, decidiu que o fornecimento seria
feito em quatro partes, a cada três meses. Ao ver, porém, que
o povo clamava pelo antigo costume, consentiu em
restabelecer as distribuições mensais para cada indivíduo.
Ou nas palavras do próprio Augusto (Res
Gestae, 20):
Mandei restaurar o Capitólio e o teatro de Pompeu
com ingente despesa e sem que fosse gravado em lugar
algum o meu nome. Mandei consertar os aquedutos, em
muitas partes desmoronados, e redobrei a carga da água
Marcia, fazendo entrar no seu curso uma nova fonte. Mandei
completar o foro Júlio e a basílica entre o templo de Cástor e
o de Saturno, obras iniciadas e quase completadas por meu
pai [Júlio César]; e quando esta basílica foi destruída por um
incêndio mandei construí-la novamente sobre um terreno
mais amplo, em nome dos meus filhos; e dispus que, se
durante a minha vida não tivesse sido acabada, fosse
completada pelos meus herdeiros [14 a.C.]. Quando fui
cônsul pela sexta vez [29 a.C.], mandei restaurar oitenta e
dois templos dos deuses em Roma por vontade do senado,
não descuidando de algum que naquele tempo precisasse de
reparo. Durante o meu sétimo consulado [27 a.C.], mandei
restaurar a Via Flaminia, da cidade até Rímini e todas as
pontes, salvo a Mílvia e a Minúcia.
Contudo, as fontes mais críticas do modo de
vida, costumes e cotidiano público, encontram-se nas
obras dos poetas satíricos dos séculos I-II d.C. Juvenal
(55-138 d.C.) é um dos melhores exemplos, nesse
sentido. O que se segue é um típico dia numa
conturbada Roma, onde os barulhos e as correrias pelas
ruas estreitas atormentam o autor (Sátiras, III, 319333). O excerto é significativo: aflora a lembrança da
Para terminar o assunto sobre a cidade de Roma,
cabem algumas palavras sobre as cifras populacionais,
ou melhor, os dados de que dispomos para enumerar
essa população. Para tanto, Frank Kolb diz que são três
categorias de dados89:
▪ A quantidade dos que tinham direito a receber
grãos a baixo preço ou gratuitamente. Os cereais eram
distribuídos apenas para os cidadãos – homens com
mais de dez anos de idade. O número dos beneficiados
variou no tempo: Júlio César reduziu o número de
320.000 para 150.000 (Suetônio, César, 41); em 44
a.C., Augusto distribuiu donativos a 250.00090 e, no
ano 8 d.C., a pouco mais de 200.000. Kolb fixa a cifra
média em 250.000 cidadãos o que, enumerando-se
também mulheres, filhos, escravos, soldados e
estrangeiros, deveria ficar em torno de 700.000
habitantes.
▪ A superfície da cidade. Os muros construídos
pelo imperador Aureliano entre 271 e 282 d.C.
abrangiam 1.373 ha. (13,73 Km²), que, depois de
excetuar-se o espaço para os edifícios públicos, poderia
abrigar cerca de 1.000.000 de pessoas 91.
89
maior do que podia suportar o campo vizinho, pois há registros
de fossas abertas e valas de detritos em bairros residenciais, que
acabaram sendo cobertas, embora não removidas, numa época
posterior”.
La ciudad en la antigüedad, p. 164.
Augusto, Res Gestae, 15.
91
Segundo Frank Kolb, se levarmos em conta que a densidade da
população fosse a mesma encontrada em Roma no final do
século XIX, ou seja, 800 pessoas por hectare.
90
20
▪ O número de moradias que constam nos
Regionários da Antiguidade Tardia: Curiosum e
Notitia, ambos compilados no século IV d.C. Essas
listas citam 1.800 domus e 44.200 ou 46.602 insulae92,
assim sendo, o número de habitantes de Roma situa-se
entre 600.000 a 1.000.000 de pessoas.
92
Domus: casa única; insula: bloco de casas (apartamentos).
Esses termos serão discutidos e analisados mais à frente.
21
Parte II
A) A Plebe
“A propriedade não é uma condição necessária
para se ser camponês: a par dos camponeses livres, que
cultivam a sua própria terra, existem grupos muito
consistentes de indivíduos que trabalham terras
pertencentes a outros, a quem estão ligados por
relações mais ou menos estáveis, ou a quem emprestam
eventualmente a sua força de trabalho”93. O historiador
Jerzy Kolendo continua sua exposição mencionando a
terminologia romana para “camponês”: o termo
fundamental era rusticus (derivado de rus – “campo”),
porém também podia ser utilizado como conotação de
“simples”, “modesto”, e até mesmo no sentido de
“grosseiro”, “incivilizado”; todavia, existiam mais dois
termos: agricola (“agricultor”), que designa o
camponês que trabalha a sua parcela de terra e o rico
proprietário; e colonus (“colono”), que, além de ser
sinônimo de agricola, aplica-se ao pequeno agricultor,
ao habitante de uma colônia que recebe terras para
cultivar, e ao camponês arrendatário94. Ou seja, os três
termos diferenciavam-se apenas no contexto em que
eram empregados, pois todos significavam “lavrador”,
“cultivador”95.
Esse grupo de camponeses, homens livres, não
pertencentes à ordem senatorial ou à ordem eqüestre,
formava a plebs rustica (“plebe rural”).
Como foi visto na Parte I deste trabalho, os
embates político-militares internos de Roma tiveram
como causa comum, ao menos desde o século IV a.C.,
a distribuição/possessão das terras de caráter público
(ager publicus) com vistas a aumentar o número de
cidadãos aptos a serem recrutados pelo exército. O
ápice da questão agrária ocorreu no século II a.C. sob o
nome dos irmãos Graco. Contudo, a aristocracia logo
secou as nódoas de sangue deixadas pelos tribunos da
plebe, e interferiu nas leis em voga, abolindo o vínculo
fundamental da inalienabilidade dos lotes de terras
entregues até então.
A partir do século I a.C., as reformas agrárias
tiveram um caráter diferente, segundo o autor acima
citado: “Visavam entregar terras aos veteranos, na
medida em que a maioria dos soldados provinha das
camadas mais pobres da população. Essas entregas
tinham mesmo por objectivo garantir a sobrevivência
dos ex-soldados depois de terminado o serviço militar:
constituíam uma espécie de reforma” 96. Não foi por
mera coincidência que as principais guerras civis de
Roma ocorreram nesse período: o legionário passa a
93
“O camponês”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano,
p. 169.
94
Os contratos de arrendamento eram, em geral, de cinco anos,
mas se prolongavam na maioria dos casos, beneficiando, assim,
colonos e proprietários – que recebiam o pagamento pelo
arrendamento da terra de duas formas principais: dinheiro (pago
anualmente) e em espécie (uma parte da colheita).
95
Havia também um outro tipo de camponês, o assalariado. Era o
camponês mais pobre que não conseguia sobreviver apenas com
o cultivo de sua terra, passando, então, a ser empregado em
massa com outros assalariados durante as épocas de maior
produção agrícola. Esses assalariados formavam grupos dirigidos
por mancipes (“empresários”, “arrematadores”).
96
“O camponês”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano,
p. 175.
apoiar seu general até o fim (ou até que o outro general
ofereça mais garantias), acreditando encontrar nele
uma chance de melhoria de vida depois que se
afastasse dos combates.
Sob os consulados desempenhados por Caio
Mário (107, 104-100 a.C.), o exército romano passou a
ser recrutado, também, entre os que nada possuíam
além da própria força de trabalho, os que não tinham
meios de se armamentar, ou seja, os proletários. Como
podemos observar nos dois excertos abaixo, escritos
por Salústio (Guerra de Jugurta), quando Mário foi
encarregado de comandar o exército na África, no lugar
de Metelo, contra o rei Jugurta:
[84] Convencera, à força de encômios, veteranos a
partirem consigo. O Senado, ainda que lhe fizesse oposição,
não ousava negar-lhe qualquer requisição. Ao contrário,
decretara, de bom grado, uma força suplementar, pois se
considerava que a plebe não desejava servir o exército.
Assim, Mário perderia o que necessitava para a guerra ou
então o favor do povo. Esta esperança, contudo, frustrou-se,
pois uma grande vontade de acompanhar Mário tomara conta
da maioria. Punham-se a pensar que ficariam ricos com os
despojos da guerra, que voltariam para casa vitoriosos e
coisas do gênero. Mário excitava-os muito com sua
eloqüência. Assim, depois que viu decretado o que desejava,
querendo alistar os soldados, convocou uma assembléia do
povo, para encorajá-los e, ao mesmo tempo, criticar a
nobreza, como era de seu costume.
[86] Tendo feito tal discurso, Mário percebeu que o
ânimo da plebe estava fortalecido e de imediato carregou os
navios de mantimentos, com o soldo, armas e outras coisas
úteis. Ordenou a partida do legado A. Mânlio com a frota. No
meio tempo ele próprio alistou os soldados, não segundo o
antigo costume, nem pelas ordens, mas conforme o desejo de
cada um, em sua maioria proletários. Esta sua atitude
atribuída por alguns à falta de homens aptos, por outros, à
ambição do cônsul, já que era apoiado e bem quisto pelos
proletários e para quem busca o poder, o maior apoio vem de
quem nada possui pois, como nada têm, nada estimam e tudo
lhes parece honesto quando envolve dinheiro. Mário partiu
para a África com um número maior de soldados do que lhe
fora decretado e em poucos dias chegou à Útica.
Isso, no entanto, não quer dizer que os soldados
fossem, doravante, necessariamente urbanos; como
dissemos acima, os que trocavam o trabalho por
dinheiro também pertenciam à plebe rural. Porém, seria
difícil
imaginarmos
que
não
houvesse
desentendimentos entre os recrutados, mesmo levando
em consideração a rígida disciplina nos acampamentos
romanos. A plebe rural e a plebe urbana raras vezes se
uniram por algo em comum, no mais, as rixas entre
essas camadas tiveram como plano de fundo a questão
política: ora favorecendo os camponeses, ora
beneficiando os urbanos. Um exemplo desses
desentendimentos, que podiam terminar em violência,
ocorreu em meados do ano 100 a.C., quando o tribuno
da plebe Lúcio Apuleio Saturnino, amigo de Mário,
(...) propôs uma lei para que fosse repartido todo o
território tomado dos címbrios, uma tribo celta, no país que
os romanos chamavam agora de Gália e que Mário, depois de
expulsá-los recentemente, havia incorporado aos romanos
como não pertencente já aos gauleses. Propôs-se, ademais,
22
que se o povo ratificasse a lei, o Senado prestaria juramento
de obediência dentro do prazo de cinco dias, ou que aquele
que não jurasse fosse expulso do Senado e pagasse ao povo
uma multa de vinte talentos. Deste modo pretendiam se
vingar daqueles que se opusessem à lei e de Metelo, que, pela
sua arrogância, não iria aquiescer ao juramento. Desta
natureza era a lei. Apuleio ficou o dia para a sua votação e
enviou emissários aos que estavam em campo, nos quais
precisamente depositava maior confiança porque haviam
servido às ordens de Mário. Em consideração, como na lei
saíam ganhando os itálicos, a plebe urbana estava
97
descontente.
Aqui vemos três temáticas importantes. A
primeira, diz respeito à expropriação de terras na Gália;
a tomada das propriedades gerava nas conquistas
romanas o mesmo problema que permeava Roma: a
proletarização do campesinato, e a migração de uma
grande parte deste para os centros urbanos. A segunda
temática é a que foi analisada quando mencionamos as
propostas de leis por Tibério e Caio Graco, ou seja,
buscar nas tribos os seus partidários e fazer com que
votassem favoravelmente nos comícios (nesse caso,
Saturnino apela às tribos rurais, mais numerosas,
embora, obviamente, mais distantes do local de
votação). A terceira corrobora o que foi falado sobre a
influência dos legionários veteranos: Apuleio busca
sustentação naqueles que serviram sob ordens do
general Mário. O apoio dos veteranos deve ter
preocupado deveras a ala conservadora do Senado (os
optimates) no início, pois o governo romano teve de,
rapidamente, se adaptar a essa nova realidade,
apoiando, por sua parte, no século I a.C., os generais
conservadores em detrimentos dos generais populares.
Continuando com a votação da lei proposta por
Saturnino, a disputa política acabou em pancadaria
pública, segundo Apiano:
[30] No dia da votação se produziu um distúrbio, já
que todos aqueles tribunos que tratavam de se opor à lei, ao
ser objeto de violência por parte de Apuleio, abandonavam o
tribunal. A plebe da cidade gritou que se havia ouvido um
estrondo na Assembléia – caso no qual não estaria permitido
aos romanos tomar nenhuma decisão – mas como, inclusive
nesta circunstância, os sequazes de Apuleio mantinham a sua
coação, os habitantes da cidade apertaram as suas roupas,
empunharam os paus que encontraram à mão e dispersaram a
plebe camponesa. Sem embargo, estes últimos, convocados
de novo por Apuleio, atacaram, a seu turno, com porretes aos
plebeus da cidade e, depois de subjugá-los, aprovaram a lei.
Após a discussão sobre o juramento da lei,
Mário convenceu todos os senadores a jurarem, exceto
Metelo, que teve apoio dos urbanos.
[31] A cólera da plebe urbana era terrível e
escoltavam continuamente Metelo, levando punhaladas, mas
este, depois de lhes agradecer e louvar a sua intenção, disse
que não permitiria que por sua causa sobreviesse perigo
algum à sua pátria. Dito isto, foi embora discretamente da
cidade. Assim sucedeu que o decreto de Apuleio foi
ratificado e Mário proclamou as suas cláusulas.
Metelo foi desterrado para Rodes, e a plebe urbana
encontrou nas eleições para cônsules um meio de coibir as
ações de Saturnino. Apresentaram-se naquele ano Marco
Antônio (o orador, não o triunviro), apoiado pelos urbanos, S.
Gláucia e C. Memmio. Este candidato, também apoiado pela
plebe urbana, foi assassinado à vista de todos por homens a
mando de S. Gláucia e Saturnino no dia da eleição.
[32] A Assembléia se dissolveu presa do medo, pois
já não havia nem leis, nem tribunais, nem o menor sentido de
pudor. O povo, no dia seguinte, acudiu a se reunir, repleto de
cólera, com a intenção de matar Apuleio. Mas este, depois de
reunir uma massa de gente oriunda do campo, apoderou-se do
Capitólio junto a Gláucia e o qüestor Caio Saufeio.
O Senado decretou imediatamente outro
senatus-consultum ultimum (usado já contra Caio
Graco), declarando Saturnino e seus partidários
inimigos públicos, dando poder a Mário para executálos.
Caio Mário, cônsul ainda, conseguiu aprisionar
seu colega dentro da Cúria, mas a plebe urbana fez
valer o decreto do Senado e, retirando e atirando as
telhas do edifício, matou Saturnino e seus homens.
Pouco depois da morte de Lúcio Apuleio
Saturnino, Roma enfrentou sua maior guerra desde as
batalhas com os cartagineses: de 91 a 89 a.C. a
Península Itálica combateu Roma, na chamada Guerra
Social. Um grande número de socii (“aliados”,
“sócios”) itálicos, inflamados pelo tribuno da plebe
Lívio Druso a desejarem o direito de cidadania romana,
e aguçados devido ao assassínio do tribuno, tomaram
armas em mãos contra os romanos. Nas palavras de
Pedro Paulo Funari: “A extensão da cidadania romana
para as comunidades itálicas era uma demanda corrente
no segundo século a.C. e, como resultado, eclodiu uma
revolta armada dos itálicos contra os dominadores pela
cidadania. Druso, um nobre romano partidário dos
populares, propôs, em 92 a.C., que a cidadania fosse
concedida a todos os itálicos. Houve oposição de
diversos setores, a começar por algumas das próprias
elites itálicas, como a etrusca, que tinham já a
cidadania romana e que não estavam interessadas que
camponeses e artesãos obtivessem iguais direitos.
Druso, desaprovado pelo Senado, foi assassinado, o
que desencadeou a guerra entre os aliados itálicos de
Roma contra a República romana, em defesa dos
direitos de cidadania e da manutenção dos costumes
tradicionais de cada comunidade itálica. Ao final do
conflito, em 89 a.C., todos os insurgentes que se
rendessem podiam obter a cidadania romana, o que
significou um grande aumento do número de cidadãos
romanos, agora todos os homens livres na Península
Itálica”98.
Vimos, pelos exemplos citados neste item, que a
plebe urbana e a plebe rural estavam, ambas, sujeitas à
política romana, e que os interesses particulares de
cada segmento foram o suficiente para que não
existisse uma união por causa comum – entenda-se, por
“causa comum”, o enfraquecimento do poder
aristocrático (pois, é óbvio, as diferenças entre a vida
no campo e na cidade eram o bastante para que os
desejos fossem antagônicos).
98
97
Apiano, Guerras Civis, 29.
“A cidadania entre os romanos”, in: Jaime & Carla Pinsky
(org.), História da cidadania, p. 61.
23
A seguir, adentraremos a questão da composição
heterogênica da plebs (em particular, a urbana).
B) Plebs Urbana: livres e libertos (e escravos).
Os parênteses na palavra “escravos” denotam a
dificuldade que é – para o historiador da Antigüidade
mais atento – tentar, ao mesmo tempo, separar e
aproximar os escravos de libertos e de livres. Existem
dois coletivos para “população romana” que devem ser
aqui mencionados, de acordo com as idéias de Nicholas
Purcell99: o primeiro, a plebs urbana, designa um
subconjunto da população urbana, compreendendo os
cidadãos romanos residentes na cidade que não
pertencem à ordem senatorial ou eqüestre, excetuandose os escravos e os estrangeiros (peregrini); o segundo,
populus Romanus, é o conjunto de todos os cidadãos
romanos (plebeus, cavaleiros e senadores).
A barreira entre cidadãos e não cidadãos, neste
caso, entre plebeus urbanos e o resto da população, era
tênue e constantemente ultrapassada por ambas as
categorias: o homem livre convivia com um grande
número de escravos manumissos e uma parcela de
estrangeiros que conseguiam privilégios frente às
ordens; mas esse homem livre também podia, de uma
hora para outra, ver-se na condição de estrangeiro
quando viajasse para outras cidades (no caso de não
possuir cidadania romana)100 ou quando, numa guerra,
caísse presa dos inimigos, sendo vendido como
escravo. Outra característica dessa delicada barreira
entre cidadãos e não cidadãos encontrava-se calcada na
distribuição geográfica das pessoas pela cidade:
embora houvesse determinados “bairros de ricos” e
“bairros de pobres”, com o crescimento da cidade e seu
planejamento adaptado às circunstâncias reais –
principalmente em fins da República –, as fronteiras
existentes entre as construções de moradias de uns e de
outros diminuiu drasticamente: um liberto, por
exemplo, poderia morar e trabalhar em uma taberna
instalada no piso superior de uma grande casa, por
vezes, bastante luxuosa, a domus. Assim, podemos
concordar com o que diz Nicholas Purcell: “Os
problemas de Roma eram os problemas do sucesso” 101.
Entre as atividades, ofícios exercidos pela plebe
urbana (homens e mulheres), pelos libertos e também
pelos escravos urbanos, encontram-se os seguintes,
baseados no estudo das inscrições parietais e nas fontes
de época: argenteiros, artesãos de couro, artesãos de
esteiras, artesãos fabricantes de armas, artesãos de
mármore, carpinteiros, ensacadores, escultores,
fiandeiras, lapidadores, lavradores, oleiros, tecelãs,
tintureiros, sapateiros, padeiros, servidores de bebidas,
taberneiros (as), vendedores de cebola, entre outros102.
A venda de produtos manufaturados ou alimentos foi a
99
“The city of Rome and the plebs urbana in the late Republic”,
in: C.A.H., vol. 9, p. 640.
100
Tratando-se, é claro, de um itálico livre antes da concessão
dos direitos no fim da Guerra Social.
101
Op. cit., p. 647.
102
Pedro Paulo Funari, A vida cotidiana na Roma antiga, pp.
81-82.
ocupação de uma parte significativa dos que habitavam
as cidades romanas.
A circulação de mercadorias pelo mundo
romano foi tamanha, que o historiador Nicholas Purcell
denomina o dinamismo da orla do Mediterrâneo a
partir do século II a.C. de “taberna-world”103. Essas
tabernas eram lojas de tamanhos variados104,
geralmente alugadas. As tabernas estavam intimamente
ligadas com a questão dos alimentos, e dependentes do
trabalho no campo: “Economicamente, é claro, a
proeminência da taberna necessitava somente significar
que uma grande proporção da população (e incluímos
mulheres tais como homens neste estado; alguns
collegia de Minturnae são de mulheres) estavam
envolvidos na redistribuição de produtos de atividades
primárias, abaixo de toda a agricultura” 105. A difusão
das tabernas pós-Segunda Guerra Púnica foi paralela a
todos os problemas de ordem agrária a que nos
referimos anteriormente, o que nos leva à constatação
de que, embora muitos pequenos proprietários tenham
perdido suas terras e migrado para a cidade, a produção
agrícola romana não decaiu, tendo, até mesmo, sofrido
um aumento por causa da demanda – proveniente
desses urbanos – por alimentos106. Houve mais
necessidade de trigo para a feitura de pães e,
conseqüentemente, também foi preciso expandir a
vinicultura ao redor das cidades para dar conta do
vinho bebido pela população; essa necessidade foi
responsável por gerar trabalho para muitos camponeses
assalariados, a quem já nos referimos no item A desta
segunda parte.
Sobre os efeitos das tabernas na agricultura (e no
cotidiano da população urbana), Purcell diz que: “a
taberna era a unidade constituinte de uma nova
agricultura, não somente de uma nova revendedora e de
uma rede de produção: é em muitas maneiras quase um
termo para um tipo de relação entre labor e produção,
mais ou menos envolvido com agricultura. Com os
mercados-jardins [market gardens107] também: as
pessoas que os contratavam ou os possuíam e que
vendiam a produção nas tabernae dos macella108 e
outros pontos de venda, viviam muito como aqueles
que eles alimentavam, mas que estavam envolvidos em
atividades ou serviços que vão além do seu tempo”.
Precisamos mencionar que, além disso, as tabernas
também tiveram importância para a elite romana. Sem
a existência do macellum, das officinae (“oficinas”) e
das tabernae, os ricos não poderiam ter, por exemplo,
os seus suntuosos banquetes. Também a renda dos
aluguéis das tabernas e dos apartamentos das insulae
(“ilhas”) onde a plebe urbana morava ia para os ricos,
os quais eram os responsáveis pelas construções na
cidade. Os mais abastados poderiam patrocinar, dentro
da cidade, um conjunto de tabernas ou oficinas
voltadas para a venda de algum produto específico, os
103
“Taberna-mundo”. “The city of Rome and the plebs urbana in
the late Republic”, in: C.A.H., vol. 9, p. 663.
104
Na maior parte dos casos, possuíam formato retangular.
105
Nicholas Purcell, Op. cit., p. 660.
106
Lembremos que os escravos vindos das guerras se tornaram a
principal mão-de-obra na uillae.
107
Esses “mercados-jardins”, segundo Purcell, eram as zonas de
agricultura ao redor da periferia urbana.
108
O macellum (“mercado”), um centro de vendas de alimentos,
foi mais característico na Itália central e meridional.
24
collegia (“colégios”): associações de ofícios
semelhantes, com regras internas próprias e cultos
particulares das divindades109. Segundo a tradição
romana, esses colégios foram estabelecidos, pela
primeira vez, pelo rei Numa Pompílio (715-672 a.C.),
como observamos no excerto abaixo, de Plutarco
(Numa, 17):
De todas as suas instituições sociais, a mais admirada
foi a divisão do povo segundo as profissões. (...) Numa,
considerando que, quando os corpos são duros e por natureza
difíceis de misturar-se, é preciso quebrá-los em pedaços para
amalgamá-los, pois que assim reduzidos a fragmentos
combinam melhor entre si, resolveu fazer o mesmo e praticar
numerosas secções na massa do povo. Instaurando entre os
grupos novas diferenças, esperava anular a diferença original
e maior pulverizando-a entre as menores. Assim, repartiu o
povo em diversos ofícios, flautistas, ourives, carpinteiros,
tintureiros, sapateiros, curtidores, ferreiros e oleiros. Quanto
às demais profissões, reuniu-as todas num bloco único e
formou com elas uma corporação [collegium]. A seguir
instituiu reuniões e assembléias, bem como cerimônias
religiosas próprias a cada grupo. E foi assim que começou a
banir da cidade aquele espírito partidário em virtude do qual
uns se diziam sabinos e súditos de Tácio, outros romanos e
filhos de Rômulo. A nova divisão teve como conseqüência
uma mescla harmoniosa de todos com todos.
O mais interessante nesses collegia é o seu
caráter plural: havia colégios de homens livres, de
libertos, de escravos, e de livres com libertos e com
escravos trabalhando lado a lado, todos unidos pelo
fator econômico de sua atividade. Esse seria um
exemplo de “subdivisão” dentro da população romana,
mostrando a interação da plebs urbana com os
escravos.
▪ Homens Livres.
“Pobre é uma noção, antes de tudo, relativa.
Alguém pode ser pobre do ponto de vista de um agente
social, mas não para um outro, colocado em ponto
diverso da escala social. Faz parte do próprio jogo de
manutenção da ordem social esta relatividade e
permissividade do conceito de pobre. (...) O pobre é
aquele que ocupa uma posição de inferioridade num
109
C.R. Whittaker discorre sobre os collegia: “Essas associações
excluíam os mais pobres, dado que exigiam uma quota de
inscrição (que podia montar a cem sestércios mais uma ânfora de
vinho) e uma subscrição mensal de alguns asses. Por outro lado,
em muitas delas eram admitidos os escravos, o que demonstra –
mais uma vez – que a pobreza não era classificada de acordo
com o estatuto social. Notemos, por fim, que os collegia eram
controlados pelos ricos. Havia patrões abastados que eram
incluídos na lista dos seus membros e podiam exercer a sua
influência mediante donativos (...); no entanto, em teoria mas
nem sempre na prática, os collegia também eram rigorosamente
regulados pela lei. Lendo Cícero, qualquer romano instruído
podia saber que Roma estava à beira de uma perigosa revolução
proletária no último decénio da República, quando Públio Clódio
organizou os criminosos da cidade em collegia – incluindo
escravos e libertos, que tinham um poder de voto mínimo ou
nulo, mas que podiam pegar em armas – a quem ofereceu a sua
solidariedade servindo-se de suas organizações para distribuições
gratuitas de trigo”. “O pobre”, in: Andrea Giardina (dir.), O
homem romano, p. 237.
quadro de relações diretas de poder, sem que essa
posição seja resultante de uma constituição jurídica,
como é o caso do escravo”110. Homens livres e libertos
estavam reunidos da categoria plebs, justamente por
não possuírem dinheiro suficiente para, no
recenseamento, ascender à categoria de cavaleiro ou
senador. Todavia, havia entre a plebe urbana os
“plebeus pobres” e os “plebeus ricos”. A riqueza, neste
caso, é relativa: um plebeu poderia ser considerado
“pobre” por possuir dentro de casa artefatos em menor
quantidade/qualidade ou ter a roupa do corpo fabricada
com elementos mais baratos, por exemplo.
O historiador Charles R. Whittaker ressalta que
o “problema do vocabulário ligado à pobreza é
conhecer os verdadeiros significados. Normalmente
esse vocabulário refere-se à maioria que não vive na
abastança dos ricos, mas sem ter em conta os seus
ganhos. Palavras como inopes (desprovidos de
recursos), egentes (necessitados), pauperes (pobres),
humiles (humildes), abiecti (rejeitados), eram usadas
com bastante imprecisão e eram-lhes atribuídos
significados políticos e sociais associando-as aos vários
sinónimos de „plebe‟, como vulgus, turba, multitudo,
ochlos (em grego) ou simplesmente plebs. Estes termos
assumiram conotações diversas conforme o povo se
comportava de modo violento ou de acordo com a
lei”111. Do ponto de vista dos ricos, a pobreza estava
intimamente ligada ao status social, devido às riquezas
mínimas que mantinham a ordem senatorial e eqüestre
separadas das multidões; a partir do século II d.C., no
Império, esse status vai se institucionalizar
juridicamente com a bipartição entre honestiores
(“honrados”), os proprietários, e os humiliores
(“humildes”), trabalhadores em geral. A desaprovação
moral da pobreza, tão latente nas obras de Sêneca, não
necessariamente era apenas de um rico para um pobre;
como mostra o grafite112 a seguir, de Pompéia, é bem
provável que o desprezo também ocorresse entre os
pobres, pois essa frase parece poder ser atribuída a
algum comerciante reclamando dos que pedem fiado:
Odeio os pobres. Se alguém quer alguma coisa de
113
graça, é louco. Tem que pagar por ela.
A pobreza também fazia parte da vida da
maioria dos escravos, contudo, existiam aqueles que
moravam e trabalhavam na casa de seus senhores, onde
podiam se considerar bem alojados e alimentados em
relação com os níveis de vida dos indigentes; havia
também os escravos que trabalhavam na cidade como
pequenos artesãos, independentes de seus senhores e
com o seu próprio peculium (“pecúlio”). Juntamente
com os escravos, outro grupo que não gozava de
direitos políticos, mas que poderia viver na mesma
pobreza, era formado pelos estrangeiros (peregrini);
nas palavras de Whittaker: “No entanto, não há
motivos para se acreditar que os estrangeiros fossem
uma classe particularmente subdesenvolvida: é certo
110
Fábio Faversani, A pobreza no Satyricon de Petrônio, pp.
105-107.
111
“O pobre”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, p.
230.
112
Escrita parietal, feita à tinta ou com um canivete.
113
CIL 4, 9839b apud C. R. Whittaker, “O pobre”, in: Andrea
Giardina (dir.), O homem romano, p. 226.
25
que não usufruíam das distribuições públicas de trigo e
de dinheiro de que usufruía a plebe registada em Roma,
mas também é verdade que muitos estrangeiros só
residiam temporariamente em Roma e muitos deles
pertenciam a associações religiosas e comerciais que
tinham bens financeiros no exterior”114. Assim sendo,
percebemos que o único fator diferenciador entre livres
(ingenui), libertos (libertini), escravos (serui) e
estrangeiros (peregrini) é o estatuto jurídico, pois todos
estavam sujeitos à pobreza e às mesmas mazelas que o
centro urbano oferecia.
Por causa da insalubridade, da má alimentação e
das péssimas condições de moradia, a morte era algo
corriqueiro na vida de um habitante de Roma (a
expectativa de vida do romano era de 35 anos quando
ultrapassada a infância): os doentes eram deixados para
morrer ao ar livre, os cadáveres eram jogados na rua, e
os recém-nascidos eram abandonados em montes de
stercus (“esterco”) onde, por vezes, eram salvos e
vendidos como escravos. O alto índice de mortandade
refletia na demografia: cada vez mais, valia-se o
romano de métodos contraceptivos e de um casamento
mais tardio por parte dos homens; isto nos mostra que
“a população de Roma não se reproduzia e tinha de ser
constantemente renovada do exterior [entenda-se,
renovada por escravos e estrangeiros]. Por outras
palavras, a maior parte dos pobres não conseguia
manter os cinco ou seis filhos que eram necessários
para atingir o nível de estabilidade reprodutiva”115.
▪ Libertos.
A principal categoria da plebe urbana identificase socialmente com os libertini. O seu elevado número
é resultado das conquistas romanas do século II a.C.,
pelas quais os escravos vieram a se tornar a principal
mão-de-obra no mundo romano116.
A manumissão para o escravo poderia vir de três
formas principais: sua liberdade deixada em testamento
114
“O pobre”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, p.
229. Cícero, no século I a.C., demonstrou seu desprezo (ou seria
receio?) pelos peregrini ao escrever em sua obra Dos Deveres,
I,34:
Para estrangeiros e peregrinos, seu dever é tratarem seus
negócios sem se imiscuírem nos dos outros, muito menos num
país que não é o seu.
Ou ainda (III, 11):
Fizeram ainda muito mal afastando ou expulsando os
estrangeiros nas suas cidades; foi o que fez Pennus, ao tempo de
nossos antepassados, e o que Papius fez ultimamente. Que não se
queira dar aos estrangeiros o direito do cidadão, nada mais certo,
e temos sobre esse assunto lei expressa feita por dois dos nossos
maiores e sábios cônsules, Crassus e Savola, mas impedir
estrangeiros de habitarem a cidade é ferir os direitos da
humanidade.
115
C.R. Whittaker, “O pobre”, in: Andrea Giardina (dir.), O
homem romano, p. 237.
116
O número de escravos era tamanho, que Sêneca escreveu no
século I d.C. (Da Clemência, 24):
Outrora, decidiu-se por um parecer do senado que um
sinal na roupa distinguiria os escravos dos homens livres. Em
seguida, ficou evidente quanto perigo nos ameaçaria se os nossos
escravos começassem a nos enumerar.
por seu senhor (dominus) ao morrer; a vontade do
senhor em libertar seu escravo, seja por
reconhecimento das capacidades, seja por interesse em
ter um liberto apoiando-o na política, seja pelo custo
que o escravo acarretava (as distribuições de trigo a
partir do século I a.C. ajudaram na manumissão); e a
compra da própria liberdade pelo escravo, através do
seu pecúlio. Sobre este último aspecto da manumissão,
tão complexo, o historiador Yvon Thébert nos diz:
“Para o escravo, o fim último era o resgate da sua
liberdade. No entanto, tratava-se sobretudo de uma
operação de integração, como revela a prática, cada vez
mais corrente, de deixar o escravo, uma vez libertado,
usufruir do seu património. É o que demonstram
também as disposições legais – bastante surpreendentes
– que têm por fim proteger o pecúlio da omnipotência
do patrão, com o objectivo de não lhe fazer perder
nenhum dos seus atractivos: é o caso das medidas que
impunham ao dominus o pagamento dos objectos
produzidos ou vendidos nas oficinas geridas pelo seu
escravo. O património deste era avidamente constituído
a expensas do património do patrão, condição
indispensável para a integração eficaz dos
subordinados. Aliás, passou a ser habitual incluir no
pecúlio dos escravos a empresa gerida ou a terra
cultivada por eles. Ainda com o mesmo objectivo, as
leis do século III [d.C.] distinguiam claramente o
escravo que se tinha resgatado – ainda que em certos
casos a operação fosse apenas fictícia, na medida em
que muitas vezes ele conservava seu pecúlio – do
escravo que devia a libertação à bondade do seu
senhor. Aquele só deve respeito ao seu ex-proprietário,
ao passo que este permanece sujeito a várias prestações
e obrigações, como a de lhe deixar em herança uma
parte dos seus bens”117.
Uma vez libertado, esse escravo passa a gozar
de todas as características de um homem livre, exceto
pelo estatuto jurídico 118; esse fato faz com que o liberto
viva sempre na condição de um “quase”: flutuando
entre a possibilidade de enriquecer igual a um homem
livre (mas nunca podendo ser cavaleiro ou senador) –
como o famigerado caso de Trimalquião no Satyricon
de Petrônio119, escrito no século I d.C. – porém, sempre
impregnado pela mácula de seu passado. Nos dizeres
do historiador Jean Andreau: “[O liberto] não tem a
coerência do aristocrata, seguro da sua superioridade e
protegido por valores que o fortificam, ainda que não
os ponha em prática na vida cotidiana. Não tem a
simplicidade rústica do verdadeiro camponês indígena,
nem a irreverência bem controlada do escravo
doméstico. O liberto encontra-se na encruzilhada de
várias forças divergentes ou mesmo opostas. Por um
117
“O escravo”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, p.
135. Interessante ressaltar que, os escravos da época imperial
principalmente, por sua vez, poderiam possuir escravos, os
chamados uicarii (“substitutos”), que, pelo o que o próprio nome
diz, eram usados para desempenhar as funções de seus escravospatrões. O direito de um escravo sobre o outro não poderia ser
deturpado pelo dominus.
118
Também politicamente, o liberto está sempre excluído das
magistraturas romanas e do Senado. Com a lex Uisellia de 24
d.C., também foi excluído das magistraturas municipais e dos
conselhos dos decuriões.
119
Do que foi escrito acerca dessa personagem, o trabalho mais
lido é o de Paul Veyne, “A vida de Trimalquião”, em sua obra A
sociedade romana.
26
lado, foi escravo, coisa que nem ele nem os outros
podem esquecer. Por outro, o seu estatuto de liberto é
parcialmente contraditório, porque a libertação conferelhe a mesma cidadania do seu patrono, mas sujeita-o a
uma série de obrigações e de costumes que o separam
dos „ingénuos‟. Cada liberto tem ainda uma situação
económica e social determinada e origens geográficas e
culturais que lhe são próprias”120. No entanto, o filho
do liberto já era considerado um romano livre de
nascimento, por isso, a plebe urbana era
constantemente renovada a cada geração de libertos,
embora, devido a sua descendência esse homem livre
sofresse preconceitos, como podemos observar nas
ressentidas palavras do poeta Horácio, do século I a.C.
(Sátiras, VI, 1):
Nem por seres, Mecenas, o mais nobre de quantos
Lídios colonizaram outrora os campos da Etrúria e terem a
teus avós obedecido grandes legiões, olhas com desprezo,
como fazem tantos, obscuros como eu, filho de pai liberto,
tendo antes em conta o mérito pessoal que o nascimento de
cada um. Bem sabes que antes de Túlio, de baixa origem
alçado à realeza, muitos homens sem antepassados viveram
com honra e atingiram as mais altas dignidades, ao passo que
Levínio, descendente de Valério, um dos que expulsaram
Tarquínio Soberbo, não vale um ceitil na opinião pública, a
qual, entretanto, costuma honrar aos indignos, embaída pela
fama e pelo fulgor de títulos e efígies de família.
(...)
Volto, porém, a mim, filho de pai liberto, alvo por
isso da malevolência de muitos, hoje por ser teu comensal,
ontem por ter comandado uma legião romana.
(...)
Muito honrado me julguei por não te haver
desagradado, a ti que escolhes amigos, não pela nobreza do
nascimento, mas pelos costumes e pureza d‟alma.
(...)
Ainda que pobre, vivendo de magra propriedade, não
quis [meu pai] mandar-me para a escola de Flávio, aonde iam
os filhos dos ilustres centuriões, levando ao braço esquerdo a
pasta e a tabuinha e no meado de cada mês o salário do
mestre. Teve antes a coragem de trazer-me a Roma, para
aprender as artes que qualquer cavaleiro ou senador manda
ensinar a seus filhos; e quem me notasse o trajo e a seqüela
de servos, em tão populosa cidade, teria por certo que de boa
herança eram custeadas tais despesas. Ele mesmo com severa
vigilância me acompanhava à casa dos mestres. Em resumo,
protegeu-me a inocência, adorno principal da virtude, não só
de qualquer ação, mas de todo reproche ignominioso, não
temendo ser acusado de não ter feito de mim um pregoeiro ou
exator, como ele fora, do que aliás eu não me queixaria.
Também encontramos na desavença entre
Otávio Augusto e Marco Antônio, narrada por
Suetônio, a desaprovação moral de um liberto, ou de
seu descendente:
O próprio Augusto escreveu que é simplesmente
oriundo de uma família de cavaleiros, antiga e rica, e
na qual seu pai foi o primeiro senador. Marco Antônio
lhe reprova por ser bisneto de um liberto, cordoeiro do
bairro de Túrio, e neto de um argentário. Além disso,
nada mais encontrei a respeito dos antepassados
paternos de Augusto.121
120
“O liberto”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, p.
151.
121
Augusto, 2.
Manumisso (e a libertação, segundo a lei, era
impossível de ser anulada), esse libertus (“liberto”)
passava a dever ao seu ex-senhor uma série de
obrigações morais e/ou jurídicas. Entre elas: o
obsequium (“obediência”), ou seja, o respeito que o
filho deve a seu pai, impedindo o liberto de levar seu
patrono a julgamento (civil ou penal); e as operae
(“trabalhos”), que consistiam num certo número de
dias de trabalho por ano que o liberto devia a seu
patrono. Os ex-senhores também influenciavam na
questão dos casamentos. Os libertos podiam usufruir o
conubium (“casamento”), o direito de contrair um
matrimônio legal, contudo, só o senhor é que poderia
consentir o casamento de sua liberta, pois cabia a ele,
no ato da manumissão, a tutela sobre sua pessoa; já o
homem liberto, quando casado, “não podia defender a
sua honra conjugal, nem contra o seu patrono, nem
contra a mulher, mesmo em caso de flagrante delito; o
patrono, porém, estava autorizado a matar o liberto que
fosse surpreendido em flagrante delito de adultério com
a sua mulher”122. O casamento entre libertos e livres
passou a ser autorizado a partir do principado de
Augusto, mas uma liberta não poderia casar-se com um
senador ou filho de senador (embora nada a impedisse
de ser sua concubina)123. A sucessão por morte também
foi um tema principal na sociedade romana, sobre o
qual Jean Andreau discorre: “O liberto – como todos os
outros – tem o direito de possuir terras, escravos, casas,
rebanhos, ouro, prata, objectos artísticos. Tem o direito
de ter filhos e de lhes transmitir os seus bens. (...)
Antes do último século da República, o liberto do
cidadão romano podia não transmitir nenhum de seus
bens ao patrono, ou aos seus filhos ou netos. A mulher
(desposada cum manu) ou os filhos adoptivos podiam
receber toda a herança do liberto em prejuízo do
patrono. Provavelmente em finais do século II a.C., o
édito do pretor, texto que, anualmente, fixava as
normas segundo as quais era administrada a justiça,
voltou a estipular que o patrono deveria receber metade
dos bens se o liberto, por morte, não deixasse
descendentes directos do seu sangue. Na época de
Augusto, uma lei aumentou ainda mais os direitos dos
patronos, pelo menos no respeitante aos libertos mais
abastados. Todos os libertos que possuíssem pelo
menos cem mil sestércios, e que não tivessem gerado
três ou mais filhos, tinham de deixar uma parte ao
patrono. Se deixavam dois filhos, o patrono recebia um
terço dos bens; se deixavam só um, recebia metade. O
122
Jean Andreau, “O liberto”, in: Andrea Giardina (dir.), O
homem romano, p. 154.
123
O imperador Augusto não foi um dos governantes que tiveram
grande simpatia por parte dos libertos, como podemos deduzir
deste excerto de Suetônio (Augusto, 40):
Acreditando ser muito importante conservar o povo
romano puro de qualquer mistura de sangue estrangeiro ou servil,
foi extremamente parcimonioso na concessão de direitos da
cidadania, restringindo as libertações de escravos.
(...)
Não contente em ter colocado mil obstáculos à alforria
dos escravos e dificultado ainda mais a plena liberdade,
organizou cuidadosamente o número de candidatos, a condição e
a diferença dos que se libertariam e estipulou que nenhuma
espécie de liberdade poderia conferir o direito de cidadania
àqueles que tivessem sido presos ou submetidos a tortura.
27
que era mais grave, porém, é que, se o patrono morria
antes do liberto, os filhos do patrono e os filhos e netos
dos seus filhos conservavam direitos sucessórios iguais
ao do patrono”124.
O libertus também poderia, em raros casos,
servir ao exército romano; como aconteceu durante o
principado de Augusto, quando o príncipe teve de
mandar os ricos comprarem e libertarem um
determinado contingente de escravos. Repare na
preocupação da ordem: Augusto não iguala os libertos
aos cidadãos romanos.
Apenas duas vezes ocupou libertos como
soldados (combatendo incêndios ou revoltas
provocadas em Roma pela falta de víveres): a primeira,
na defesa das colônias limítrofes com a Ilíria; a
segunda, para guardar a margem do Reno. Eram
escravos que pessoas – homens ou mulheres –, entre os
mais ricos, tiveram ordem de comprar e libertar
rapidamente. Colocou-os na primeira linha sem os
misturar com os homens livres, nem os armar da
mesma forma.125
Por fim, alguns libertos mereceram até mesmo o
reconhecimento de Cícero ao velarem por Roma
(Catilinárias, IV, 8):
É preciso, Padres Conscritos, indagar os cuidados dos
homens libertos, que, tendo por sua fortuna conseguido
direito nesta cidade, julgam ser ela sua verdadeira pátria; à
qual alguns aqui nascidos, e nascidos em lugar eminente, não
tiveram por sua pátria, mas por cidade inimiga.
C) Política e Alimentação
A visão da plebe urbana através dos olhos dos
nobres nunca foi positiva.
Ainda creio que, por ter decidido afastar-me da vida
pública, alguns darão a pecha de ociosidade ao trabalho tão
importante e útil ao qual me dedico. Certamente o farão
aqueles que consideram sua maior tarefa curvar-se diante da
plebe e obter suas boas graças através do patrocínio de
banquetes. (Salústio, Guerra de Jugurta, 4).
Pois, ainda que o verdadeiro proveito das ações esteja
em tê-las realizado corretamente e nenhuma recompensa
digna das virtudes seja nada além das próprias virtudes, é
bom inspecionar e andar às voltas com a boa consciência e,
depois, lançar os olhos sobre esta imensa multidão
discordante, sediciosa e descontrolada – pronta para se
precipitar igualmente para a sua perdição como para a alheia,
se romper o seu jugo (...). (Sêneca, Da Clemência, I, 1).
Nos jogos cênicos, intencionando suscitar um motivo
de discórdia entre o povo e os cavaleiros, começou as
distribuições mais cedo do que de costume, para que os
bancos dos cavaleiros fossem ocupados por gente da mais
baixa condição. (Suetônio, Calígula, 26).
124
“O liberto”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, p.
154.
125
Suetônio, Augusto, 25.
Os três trechos acima, o primeiro do século I
a.C. e os demais do século I d.C., têm em comum a
visão da plebe como um bloco homogêneo, que
somente deseja saciar seus desejos materiais e divertirse nos melhores locais do teatro. Contudo, a elite
romana utilizou-se dessa plebs sordida (“plebe
miserável”) para alcançar seus intentos políticos. Desde
o século II a.C., segundo a leitura das fontes antigas, é
comum os patronos valerem-se de seus clientes ou
partidários, formando verdadeiros grupos dentro da
cidade de Roma, cada qual querendo impor a vontade
de seu líder, mesmo que por meio da violência.
Embora no Principado de Augusto as guerras
civis tenham cessado, os conflitos entre grupos de
clientes continuaram ocorrendo, pondo em risco a vida
de muitos com os incêndios comuns praticados por
esse tipo de clientela. Fato que levou o princeps
(“primeiro”) Augusto a pôr à disposição dentro da
cidade de Roma um contingente com cerca de 7.000
soldados, que exerciam, simultaneamente, as funções
de “bombeiros”, para apagar os incêndios, e de
guardiões das ruas (policiais, nos dias de hoje), esses
homens eram denominados uigiles (“vigias”)126.
Contudo, segundo o historiador Peter Brunt, esse
número de soldados não dava conta da imensa cidade
romana e, um dos meios usados pela nobreza para
conseguir manter controlada (em parte) a plebe, era
proibir o uso de armas para essa camada da sociedade:
“A plebe geralmente estava desarmada e se valia de
pedras e de bastões. Portar armas era um delito capital
e, de qualquer forma, os pobres não podiam ter
nenhuma, exceto facas. (...) Os abastados podiam ter
seu próprio equipamento, incluída a armadura, e a
maioria havia feito o serviço militar; e o senado podia
autorizar os seus seguidores a se armarem. Em
determinadas ocasiões os líderes populares distribuíram
ilegalmente armas à plebe, mas, nestes casos, seus
seguidores provavelmente estavam em disparidade com
relação a seus oponentes”127.
Do que foi falado até aqui sobre os grupos de
clientes armados e incêndios provocados por essas
pessoas, a primeira oração das Catilinárias de Cícero é
deveras ilustrativa, mostrando alguns acontecimentos
que se deram no ano 63 a.C., quando da sedição de
Catilina; eis o que Cícero pronuncia:
[2] Enquanto houver quem se atreva a defender-te
[Catilina], viverás, e viverás como agora vives, cercado de
muitas minhas fortes guardas, para que te não possas levantar
contra a República; também os olhos e ouvidos de muitos,
sem tu o sentires, te espreitarão, e guardarão, como até agora
fizeram.
[3] Crê-me o que te digo: muda de projeto, esquece-te
de mortandades e incêndios; por qualquer parte te haveremos
às mãos. (...) Eu mesmo disse que tu deputaras o dia vinte e
seis de Outubro para a mortandade dos nobres; e então foi
quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de
Roma, não tanto por se salvarem, como por atalharem teus
intentos. Poderás porventura negar-me que naquele próprio
dia, por estares rodeado de minhas guardas e das minhas
diligências, te não pudeste mover contra a República, quando,
126
Suetônio, Augusto, 30.
“La plebe romana”, in: Moses I. Finley (ed.), Estudios sobre
historia antigua, pp. 96-97.
127
28
retirando-se os mais, disseste que te contentavas com a minha
morte?
[Cícero] a quem o Senado, o povo e todas as nações
estimavam por conservador da sua cidade e da sua vida.
[4] Estiveste pois, Catilina, naquela noite em casa de
M. Leca; repartiste as regiões da Itália, determinaste para
onde querias que cada um fosse, elegeste os que havias de
deixar em Roma e os que havias de levar contigo; designaste
os bairros da cidade para os incêndios, afirmaste que
brevemente sairias de Roma, disseste que ainda te havias
demorar um pouco, por estar eu ainda com vida; achaste dois
cavaleiros romanos que te livraram deste cuidado, e te
prometeram que pouco antes de amanhecer me matariam em
meu mesmo leito. Tudo isto soube eu, apenas se tinha
acabado o vosso congresso; fortifiquei e municionei minha
casa com maiores guardas; não recebi os que pela manhã
mandaste a saudar-me, vindo os mesmos, que eu tinha predito
a pessoas principais, que me haviam de buscar naquele
tempo.
Também muito corrente nas fontes de época é a
promessa de manumissão aos escravos, caso
participassem dos grupos armados; como vemos na
mesma questão da briga de Cícero com Clódio
(Oração por A. Milão, 33):
[5] Enquanto me armaste traições, Catilina, sendo eu
cônsul destinado, não me defendi com guardas públicas, mas
com diligências particulares; quando nos próximos comícios
consulares me quiseste matar, reprimi teus perversos intentos
com o socorro dos amigos e soldadesca, sem tumulto algum;
enfim todas as vezes que me acometeste, pessoalmente te
resisti, posto que visse andar a minha ruína emparelhada com
grande calamidade da República; agora já acometes
abertamente toda a República, os templos dos deuses eternos,
as casas de Roma, as vidas dos cidadãos, e em uma palavra,
tocas a arruinar e destruir toda a Itália.
Outra característica que encontramos ao estudar
os grupos particulares dos fins da República é o uso de
escravos entre seus membros. Vejamos dois exemplos:
Durante a época de Tibério Graco, quando a
oposição da aristocracia se fazia mais latente (Plutarco,
Vida de Tibério Graco, 18):
Tibério ordenou que a multidão se afastasse. Com
muita dificuldade Flaco chegou até ele e avisou-o de que na
sessão do senado os ricos, não tendo conseguido persuadir o
cônsul, decidiram matá-lo eles próprios; para tanto,
dispunham de muitos amigos e escravos armados.
Cícero, defendendo Ânio Milão, assassino do
popular Públio Clódio (partidário de Júlio César) no
ano de 52 a.C. (Oração por A. Milão):
[14] Pois que, Juízes, quando eu me apartei da cidade,
ficando vós submergidos em luto, temi o rigor das leis ou
seus escravos, armas e violência? Que causa justa teríeis para
me restituir a Roma, se não fosse injusta a de me lançardes
dela? Segundo creio, [Clódio] citou-me pessoalmente,
multou-me, acusou-me de crime de lesa-majestade. Na vossa
má causa, ou na minha não muito decorosa, tive de temer o
Juízo; não quis que os meus cidadãos, resguardados com
meus conselhos e perigos, se expusessem por mim às armas
de servos pobres e facinorosos. Eu próprio vi com meus olhos
a este Q. Hortênsio, lustre e adorno desta República, ficar
quase morto às mãos dos servos a tempo que me defendia,
em cujo reboliço C. Vilieno, homem de notória bondade que
o acompanhava, recebeu tantas feridas que perdeu a vida.
[27] Nem a mim, Juízes, me causa soçobro o
homicídio de Clódio, nem estou tão insensato e falto de
conhecimento do vosso parecer que não conheça o que
entendeis desta morte. Ainda que eu não tivesse justificado a
Milão deste crime, como fiz, sempre a ele lhe seria permitido
clamar em público e mentir gloriosamente. (...) [Aqui, Cícero
empresta palavras a Milão] matei aquele (...) que pôs os
escravos em armas, para desterrar da cidade aquele cidadão
De tudo se apoderaria e tomaria posse pela nova lei
que se achou entre as mais leis clodianas, pela qual dava
liberdade a nossos escravos e os fazia seus libertos; (...).
Ou então nos episódios do início do século I a.C.
narrados por Apiano (Guerras Civis, I), envolvendo
Mário e Cina, que foram declarados inimigos públicos
por sublevar os escravos, prometendo-lhes liberdade:
[60] Desta forma, as sedições; nascidas da discórdia e
da rivalidade, vieram acabar em assassinatos e, de
assassinatos, em guerras cabais, e, em seu tempo, pela
primeira vez, um exército de cidadãos invadiu a pátria como
se fosse terra inimiga. A partir de então, as sedições passaram
a ser decididas por meio de embates de exércitos e se
produziram contínuas invasões de Roma e batalhas sob seus
muros, e quantas outras circunstâncias acompanham as
guerras; pois para aqueles que utilizavam a violência não
existia mais freio algum por sentimento de respeito às leis, às
instituições, ou, ao menos, à pátria. Decretou-se de plano que
Suplício, que ainda era tribuno, junto a Mário, cônsul seis
vezes, o filho de Mário, Públio Cetego, Junio Buto, Cneo e
Quinto Granio, Públio Albinovano, Marco Letorio e quantos
outros, até o número de doze, haviam sido desterrados de
Roma, foram inimigos do povo romano por haver provocado
uma sedição e haver combatido contra os cônsules, e porque
haviam proclamado a liberdade para os escravos, a fim de
incitá-los à sublevação; e se autorizou a quem os encontrasse
que os matasse impunemente, ou os conduzisse até os
cônsules, e suas propriedades foram confiscadas. Alguns
perseguidores, que iam também em seu encalço, pegaram
Suplício e o mataram.
[65] Cina, que havia confiado em seu triunfo
arrebatado, pelo número de novos cidadãos, ao ver que,
diferentemente do que esperava, havia prevalecido a ousadia
da minoria, lançou-se pela cidade reunindo os escravos em
seu auxílio sob a promessa de liberdade. Contudo, como não
conseguiu nenhum, apressou-se em se dirigir às cidades
próximas, que, não havia muito tempo, haviam obtido a
cidadania romana: Tibur, Preneste e quantas se estendessem
até Nola, incitando-as, todas, a se sublevarem – e fazendo
reservas de dinheiro à guerra. Enquanto levava a cabo estes
preparativos e planos, retiraram-se de sua base de apoio
aqueles senadores de seu partido, Caio Milonio, Quinto
Sertorio e outro Caio Mário. O Senado decretou que Cina,
por haver abandonado em perigo a cidade, sendo cônsul, e
por haver proclamado a liberdade para os escravos, não era
há cônsul nem cidadão, e elegeram para seu lugar Lúcio
Mérula, o flamen de Júpiter.
▪ Alimentação.
A plebe, no curso da História Romana, teve
alguns fatores comuns quando falamos do plano
político de Roma. Entre as motivações de
descontentamento, achamos: distribuição de terras,
direitos (vinculados principalmente ao tribunado da
29
plebe), impostos128, recrutamento militar, moradias, e
alimentação. Este último item é tão importante, que a
maioria das fontes antigas faz menção ao tema. A
alimentação e a política caminharam juntas em Roma,
sendo que, por vezes, podemos até mesmo designar
esse processo de “política da alimentação”. Citaremos
alguns exemplos, pois os casos são muito numerosos.
Quando a Conjuração de Catilina foi desnublada
em 65-63 a.C., César teve de buscar apoio no povo,
devido a sua pessoa estar (supostamente) envolvida no
caso. A plebe apoiou Júlio César, um popular, que há
algum tempo havia caído nas graças da população mais
pobre. Temendo a agitação da plebe, Catão persuadiu o
Senado a distribuir grãos mensalmente, como narra
Plutarco, Vida de Catão o Jovem, 26:
nem a Itália era cultivada devido às guerras. E o pouco que se
produzia era consumido pelos exércitos. A maioria vadiava
de noite pela cidade e se produziam altercações ainda mais
violentas do que os roubos, que ficavam impunes e cuja
autoria era atribuída aos próprios soldados. O povo fechou as
lojas e expulsou os magistrados de suas sedes, como se já não
houvesse mais necessidade de magistraturas nem de
profissões artesanais, em uma cidade carente de tudo e
submetida à bandidagem.
Depois que Lêntulo e os outros conjurados foram
mortos, César, que havia sido denunciado perante o senado e
caíra em descrédito, buscou apoio no povo, sublevando e
atraindo a si os numerosos elementos indesejáveis e
corrompidos do Estado. Catão assustou-se. Recomendou ao
senado que tentasse recuperar a massa indigente e
129
despercebida
mediante uma distribuição de cereais no
valor de mil duzentos e cinqüenta talentos por ano.
Comprovou-se que essa largueza, ditada pelo humanitarismo,
dissipou a ameaça de sedição.
[67] A fome oprimia os romanos, pois os mercadores
do Oriente não se atreviam a navegar por temor a Pompeu e
Sicília, nem se atreviam os do Ocidente por causa de Cerdefia
e Córcega, ocupada pelos soldados de Pompeu; tampouco se
lançavam ao mar nas fronteiras da África, por mor dos
mesmos inimigos, que dominavam com as suas frotas ambos
os litorais. Assim, tudo se encareceu, e atribuíram a culpa
deste ocaso à discórdia entre os chefes, àqueles que
vituperavam e urgiam que se firmasse a paz com Pompeu.
Como nem assim cedeu Otávio, Antônio lhe pediu para que
acelerasse a guerra por causa da escassez. Contudo, ao não
existir dinheiro para ela, publicou-se um edital determinando
que os proprietários de escravos aportassem por cada um
deles a metade das vinte e cinco dracmas fixadas para a
guerra de Cássio e Bruto, e que aqueles que desfrutassem de
alguma propriedade por razão de herança contribuíssem com
uma parte proporcional. O povo destruiu o edital com fúria
selvagem, pois os infundiu de cólera que, depois de haver
exaurido o tesouro público, de haver esgotado as Províncias e
de oprimir a mesma Itália com tributos, taxas e confiscos, não
para guerras estrangeiras nem para expandir o império, mas
sim contra inimigos pessoais e em defesa do poder particular
de cada um – pelo que, precisamente, haviam acontecido as
proscrições, matanças e esta penosíssima fome –, ainda
tratavam os triúnviros de lhes pilhar, inclusive, o que lhes
restava.
Uniram-se em bandos gritando, e aos que não se
uniam a eles lhes arremessavam pedras e os ameaçavam de
saquear seus lares e lhes atear fogo. [68] Finalmente, o povo
em sua totalidade se sublevou, e Otávio, com seus amigos e
uns poucos servidores, dirigiu-se ao Fórum com a intenção de
sustentar um encontro com o populacho e expor as razões de
sua censura. Este, já farto, começou a atirar pedras sem
misericórdia, e Otávio não se deteve sequer quando viu que
persistia a enxurrada de projéteis, oferecendo-se a si mesmo,
e se encontrava ferido. Assim que Antônio se inteirou, acudiu
em seu auxílio com presteza. Neste o povo não atirou pedras
enquanto descia pela via Sacra, pois Antônio era favorável a
pactuar com Pompeu, mas pediram para que ele se retirasse e,
como não obedeceu, também lhe lançaram pedras. Ele
chamou um número maior de tropas que estavam fora das
muralhas. Mas, como nem assim lhe abriram caminho, os
soldados se dividiram em duas fileiras pelos cantos da rua do
Fórum e atacaram de sua formação estreita e mataram todos
aqueles que saíam ao corredor. Nesta ocasião, a massa do
povo já não pôde escapar com facilidade, apinhados devido
ao seu grande número, nem teve saída do Fórum, pelo que se
produziu uma matança, feridas e lamentos, e gritos dos tetos
das casas. Antônio avançou com dificuldade e resgatou
Otávio, que se achava em situação de perigo extremo, e o pôs
a salvo em sua própria casa. Uma vez que a multidão foi
dispersa, atiraram ao rio [Tíber] os cadáveres dos mortos para
evitar a sua lacerante visão. E um novo motivo de passar foi
vê-los arrastados pela corrente e os soldados os despojando,
Um pouco antes dos problemas com relação a
Catilina, Pompeu, em 67 a.C., livrou o Mediterrâneo
dos piratas: ao dificultarem o abastecimento de trigo
proveniente das províncias, fizeram o preço dos víveres
aumentarem em Roma. Plutarco escreveu (Vida de
Pompeu):
[25] Essa pirataria infestava praticamente todo o mar
de nossos países, que se tornara impraticável aos navegantes
e fechado a toda espécie de comércio. Essa circunstância,
principalmente, é que forçou os romanos, premidos pela falta
de abastecimento e ameaçados de fome, a enviar Pompeu
para recuperar as vias marítimas aos piratas.
[26] O preço dos víveres baixou imediatamente, o que
levou o povo a dizer, com alegria, que apenas o nome de
Pompeu conseguira terminar a guerra.
Apiano (Guerras Civis, V, 18) relata a dura
situação de Roma durante o período em que Augusto
teve de guerrear contra o filho de Pompeu Magno:
Desta forma, então, tudo desembocava na formação
de facções e os exércitos caíam na indisciplina até os chefes
das distintas facções, enquanto a fome oprimia Roma, já que
o mar não os trazia provisão alguma por causa de Pompeu,
128
Sobre os impostos, destacamos a passagem escrita por
Plutarco em sua Vida de Marco Antônio, 58:
César [Augusto], inteirado da rapidez e importância dos
preparativos de Antônio, receou ser obrigado a lutar naquele
verão, pois muita coisa ainda lhe faltava e o povo resmungava
contra os impostos. Uns eram forçados a entregar um quarto de
sua renda e os descendentes de libertos um oitavo de seus bens.
De sorte que todos gritavam contra ele e a Itália fervia. Por isso
se considera uma das maiores faltas de Antônio o ter adiado a
guerra, porquanto deu assim a César tempo para se preparar e
acalmar os tumultos. É que, quando cobrado, o povo se
exasperava, mas depois de pagar serenava.
129
Note, mais uma vez, o caráter parvo da plebe diante dos olhos
da elite romana.
A fome, somada às taxações por causa da guerra
no exterior, levaram à plebe urbana ao limite. A
violência contra o imperador foi motivo para se
aumentar o contingente de soldados dentro da cidade e,
violentamente, reprimir a manifestação, como escreveu
Apiano nesse rico excerto:
30
junto a certos mal-feitores, que se levaram suas melhores
prendas como se fossem as suas próprias. Assim, pois, essa
revolta foi sufocada à custa do medo e do ódio dos triúnviros,
a fome se tornava cada vez mais aguda, e o povo lamentava,
mas permanecia tranqüilo.
O imperador Cláudio (41-54 d.C.) sofreu
semelhante desgosto por parte da plebs urbana durante
uma época de carestia (Suetônio, Cláudio):
[18] Preocupou-se sempre, com a máxima solicitude,
com a Cidade e seu abastecimento. Durante o longo incêndio
do bairro Emiliano, ficou duas noites no local das
distribuições. E como os soldados e os escravos fossem
insuficientes, apelou para o auxílio, por intermédio dos
magistrados, do povo de todos os demais bairros. Depois,
colocou diante da população cestas cheias de dinheiro e a
incentivou a garantir os socorros, recompensando cada qual
com um salário digno do seu trabalho. Após vários anos de
esterilidade, a escassez de trigo fez com que ele fosse um dia
afrontado pela multidão no meio do Forum e coberto de
injúrias e migalhas de pão. Nesse dia, só a muito custo
conseguiu chegar ao seu palácio, por uma porta de trás.
Desde então, nunca mais deixou de providenciar para que os
gêneros não faltassem, mesmo no inverno. Garantiu,
efetivamente, aos negociantes, lucros fixos, assumindo o
compromisso dos prejuízos sofridos em virtude do mau
tempo. Concedeu ótimas vantagens àqueles que construíssem
navios para o comércio, proporcionando-lhes, [19] segundo
sua condição, algumas vantagens: dispensa da lei PápiaPoéia, para os latinos; privilégios das mães de quatro filhos,
para as mulheres. Essas concessões subsistem ainda hoje.
Tibério (14 -37 d.C.) teve de remediar o prejuízo
dos comerciantes para satisfazer o abastecimento de
trigo em Roma, diz-nos Tácito (Anais, II, 87):
Clamando o povo contra a carestia de víveres, taxou
Tibério o preço do trigo; e para que os negociantes não
perdessem, disse, “que lhes acrescentaria em cada alqueire
dois sestércios”.
Houve também momentos em que o próprio
imperador fez seu povo se esfomear, como Calígula
(37-41 d.C.):
Em repetidas ocasiões, fechando os celeiros, fez o
130
povo passar fome.
Já Nero, distribuía não apenas trigo, mas
diversos mimos:
Distribuía ao povo, todos os dias, presentes de toda
espécie: cada dia mil pássaros de qualidades diferentes,
provisões as mais variadas, vales para aquisição de trigo,
roupas, ouro, prata, gemas, pérolas, quadros, escravos, bestas
de carga e até mesmo feras domesticadas. E, em último lugar,
131
sorteava navios, ilhas de casas e campos.
A lista de passagens encontradas nas fontes
antigas que tenham algum tipo de relação
política/alimentação é imensa, por isso, nos limitamos
aqui a esses poucos exemplos.
Porém, a alimentação do romano não era uma
das melhores no Mediterrâneo, como podem supor
algumas pessoas que estão acostumadas a ver e ouvir
notícias acerca dos extravagantes banquetes na cidade
de Roma.
Segundo o historiador Peter Garnsey, os
problemas da fome podiam ser endêmicos ou
episódicos: “No primeiro caso a fome ocorria a longo
prazo e com um carácter de estabilidade; no segundo,
surgia em períodos curtos e agudos, através de crises
alimentares individuais. Tais crises eram certamente
ocorrências
freqüentes
nas
comunidades
mediterrânicas”132. Essa característica contínua da
fome acarretava um estado nutricional desfavorável.
A dieta mediterrânica era formada por uma
quadríade: cereais, vinha, azeite e leguminosas. Destas
categorias, cerca de 60% da energia total é fornecida
pelos cereais; 30% pelos lipídios, provenientes,
principalmente do azeite; o restante da energia
encontra-se nas frutas e vegetais.
As culturas mais importantes de cereais eram de
trigo e cevada. Em Roma, o trigo sempre teve
importância maior do que a cevada, primeiramente,
devido ao solo propício ao plantio das sementes, em
segundo lugar, o fabrico de pão ganhou os paladares
italianos desde o século II a.C., deixando a cevada
quase que exclusivamente como forragem para animais
ou em momentos de carestia extrema, sendo também
servida em casos punitivos133. A espécie triticum
dicoccum, um trigo com casca, era usualmente
transformada em sopa ou mingau (puls). Os trigos nus,
ou seja, grãos cujas cascas eram facilmente retiradas
durante o processamento, eram os mais empregados
para se fazer pães; entre as espécies, temos a que dava
origem ao pão de melhor qualidade, a triticum
aestiuum (“trigo estival”), e a triticum durum (“trigo
duro”), utilizada para o fabrico de pães ázimos (sem
fermento).
Quanto ao vinho, existiam variedades na
qualidade: “O vinho barato era para os pobres, o vinho
caro para os ricos. (...) O vinho era uma marca das
distinções sociais, mesmo em regiões onde faltasse
uma bebida estimulante alternativa, tal como a cerveja
ou o hidromel. Os preços nas lojas [tabernae] em
Pompeia ou Herculano revelam claramente que os
consumidores pagavam de acordo com a qualidade e a
raridade do vinho. Ainda assim, não é provável que o
melhor vinho estivesse sequer a venda nas lojas
comuns destas cidades. Inversamente, o vinho de pior
qualidade (pouco mais do que vinagre) estaria
disponível em qualquer espelunca. A região da
Campânia produzia não só vinhos excepcionais para os
epicuristas, mas também muita zurrapa de baixo preço
para os mercados freqüentados pela massa do povo. No
topo do mercado, encontravam-se ainda diversos
vinhos gregos que eram importados com certa despesa
para a região de Nápoles e para Roma. Mais uma vez,
132
133
130
131
Suetônio, Calígula, 26.
Suetônio, Nero, 11.
Alimentação e sociedade na antiguidade clássica, p. 5.
Por exemplo, quando Suetônio (Augusto, 24) diz que:
[Augusto] Dizimou as coortes que tinham fugido e as
alimentou de cevada.
31
tais vinhos não poderiam ser comprados pelos
pobres”134.
A oliveira só se espalhou pela orla do
Mediterrâneo. Ela precisa de uma estação seca para os
frutos desenvolverem seu conteúdo em azeite, e um
inverno fresco para o repouso da árvore, não tolerando
geadas e plantios acima de 800 metros. Por isso, na
Itália, a oliveira cresce no sopé dos Apeninos, na região
sul da península. Isso faz com que as regiões mais
distantes da orla necessitassem importar o azeite. Já as
leguminosas, as quais Garnsey chama “carne dos
pobres”, eram muito difundidas nas dietas da
Antigüidade, tendo entre seus principais exemplos as
favas, o grão-de-bico, lentilhas e ervilhas.
As carnes eram pouco consumidas, por causa do
baixo custo/benefício da criação de animais; afirma
Peter Garnsey: “A criação de gado constitui um uso
antieconómico da terra, já que as plantas produzem
bem mais alimento por unidade de área do que os
animais. Os animais transformam os vegetais em carne;
contudo, muita energia é perdida nesse processo,
fazendo mais sentido que os humanos consumam
directamente os vegetais. Nestas condições a criação de
gado em larga escala estava posta de lado. Eram
criados bovinos, mas mais como animais de trabalho
do que pela sua carne ou produtos lácteos. As ovelhas e
cabras existiam em grande número; umas e outras eram
mantidas em primeiro lugar para a obtenção de lã (ou
pêlo) e em segundo lugar para obtenção de queijo ou
de peles”135. O consumo de carne restringia-se à carne
de porco, e o modo habitual dos “romanos comuns
obterem carne, era através da compra de comida précozinhada, de baixa qualidade e a baixo preço, a
vendedores de rua ou em tascas e estalagens; artigos
tais como morcela, paio ou salsichas” 136.
Os cereais representam uma fonte adequada de
energia alimentar. As necessidades mínimas calóricas
para o homem são de 1.625-2.012 Kcal por dia; o trigo
brando (triticum aestiuum) fornece 3.330 Kcal por
quilograma, ou seja, a pessoa satisfar-se-ia com cerca
de 600g diários. Os cereais também fornecem a maioria
dos nutrientes essenciais, incluindo as vitaminas do
grupo B tiamina (importante para o funcionamento do
sistema nervoso, músculos e coração) e niacina
(protege o fígado, os tecidos nervosos e o aparelho
digestivo), além da vitamina E, cálcio e ferro, mas
possuem baixo conteúdo de vitamina B2 (riboflavina favorece o metabolismo das gorduras, açúcares e
proteínas) e são deficitários nas vitaminas A, C e D 137.
Contudo, isso não quer dizer que o romano tivesse uma
boa saúde: “Os cereais, se consumidos em quantidade,
suprirão a maioria das necessidades. Mas o modo como
são ingeridos faz diferença. (..) Assim, esperaríamos
encontrar sérios problemas nas sociedades antigas, na
medida em que, pães ázimos, chapatis, etc., feitos a
partir de farinha de alta extração (isto é, pouco
peneirada) e sem fermento, eram consumidos em
grandes quantidades – e especialmente em locais onde
não fossem consumidas muitas outras coisas. (...)
Quanto mais pobre se fosse, menos farinha de boa
qualidade se podia comprar, e tal farinha seria
peneirada com menos eficácia. A farinha peneirada
ineficazmente teria um conteúdo elevado de fitato138, e
quanto mais elevado o conteúdo deste, mais provável
seria que o organismo fosse privado de minerais
essenciais”139. Como podemos notar, o convívio diário
do romano com as crises de abastecimento de
alimentos (o que poderia ocasionar, por sua vez, uma
negativa situação política), agravava sua mal-nutrição,
não importando, nesse caso, o quão rico fosse, já que a
dieta e o fabrico dos alimentos eram praticamente os
mesmos para toda a população.
134
Peter Garnsey, Alimentação e sociedade na antiguidade
clássica, pp. 115-116.
135
Alimentação e sociedade na antiguidade clássica, p. 16.
136
Idem, p. 123.
137
A falta dessas vitaminas gera avitaminoses que causam, entre
as vitaminas mencionadas (A, C e D): má formação dos ossos,
prejudica o crescimento, é a principal causa de cegueira em
crianças, escorbuto, e raquitismo. Todas essas doenças são
tratadas por Peter Garnsey no capítulo intitulado “A
malnutrição” (pp. 42-59), no livro já mencionado.
138
O fitato é um composto que está naturalmente presente nos
cereais. Esse composto se liga a sais minerais como o zinco,
ferro e cálcio no intestino, impedindo que o corpo aproveite bem
estes nutrientes.
139
Peter Garnsey, Alimentação e sociedade na antiguidade
clássica, p. 20.
32
Parte III
A) Alguns materiais e algumas técnicas
Tácito, historiador do século I-II d.C.,
escreveu em seus Anais (Livro XIII):
[38] [Ano de 64 d.C.] Seguiu-se logo um grande
desastre, o qual se foi casual ou obra da malícia de Nero
ainda hoje não é fato certo, porque uma e outra coisa lemos
nas histórias. Foi um fogo o mais horroroso e o mais
devastador de todos quantos nos tempos passados se tinham
visto em Roma. O incêndio começou na parte do Circo, que
está contígua aos montes Palatino e Célio; e dando nas lojas
aonde encontrou bastantes matérias combustíveis, apareceu
logo com tal violência, ajudado pelo vento, que tomou todo o
espaço do Circo, em que os palácios não tinham pátios em
roda, nem os templos muros alguns, e enfim nada havia que o
pudesse retardar. Estendendo-se depois com grande ímpeto, e
passando ora das planícies às alturas, ora destas aos baixos da
cidade, antecipou com a sua incrível rapidez todos os
remédios que se lhe poderiam aplicar; porque achava todas as
facilidades possíveis dentro de uma capital que, como a
antiga Roma, constava de ruas estreitas, e de quarteirões mui
extensos. Além disto, os alaridos das mulheres assustadas, os
muitos velhos e crianças, e a imensa gente, que corria ou para
salvar-se ou para salvar os outros, e que ou conduzia os
doentes ou esperava por eles, com as suas mesmas pressas,
ou com as suas mesmas demoras aumentavam ainda mais a
confusão e o embaraço. Muitas vezes, só enquanto olhavam
para trás, viam-se cercados por diante e pelos lados; e se
tinham a lembrança de se passarem aos bairros vizinhos já
também os achavam envolvidos nas chamas, não podendo,
ainda que quisessem, buscar os que eram mais retirados,
porque também lá encontravam o mesmo flagelo. Sem
saberem afinal nem que perigo evitassem, nem que asilo
fossem demandar, ficavam em montões pelas ruas ou
deitados pelos campos, de sorte que uns, havendo perdido
toda a sua fortuna, e não tendo já com que se poder alimentar,
e outros com a dor de terem visto morrer os seus parentes,
sem lhes poderem acudir, entregavam-se voluntàriamente à
morte ainda quando tinham meios de evitá-la. Ninguém
mesmo se atrevia a impedir tanto mal, porque ou se ouviam
os gritos ameaçadores de muitos que já estavam preparados
para estorvar quem tal intentava, ou se viam outros aumentar
o incêndio com fachos acesos que publicamente
arremessavam, clamando em altas vozes, que tinham ordem
para isto, ou fosse para assim roubarem melhor e mais à sua
vontade, ou porque realmente as ordens fossem verdadeiras.
[39] Neste mesmo tempo Nero se conservava em
Ântio, e não voltou a Roma senão quando o fogo já se ia
aproximando do edifício que ele havia feito construir para
unir o palácio com os jardins de Mecenas. Mas não se pôde
apagar; e o palácio e o edifício com tudo quanto estava em
roda ficaram abrasados. Para dar algum alívio ao povo
aterrado e fugitivo mandou então abrir o Campo de Marte, os
monumentos de Agripa, e até os seus próprios jardins.
Armaram-se barracas à pressa para recolher a gente mais
pobre; mandaram-se vir de Óstia e dos municípios vizinhos
todos os móveis precisos; e regulou-se a venda do pão pelo
preço mais baixo. Contudo, todas estas demonstrações
populares não produziram o seu efeito, porque se espalhou
um boato de que Nero no momento em que Roma estava
ardendo, fora ao teatro que tinha em sua casa, e nele cantara a
destruição de Tróia, comparando as desgraças antigas com a
calamidade presente.
[40] Afinal, passados seis dias, parou o fogo na
parte mais baixa do monte Esquilino, depois de se ter abatido
um grande número de edifícios, afim de que a sua constante
impetuosidade não pudesse achar outro alimento senão o
espaço dos campos, ou se possível fosse o imenso vácuo dos
ares. Mas ainda o susto bem se não tinha acabado quando se
tornou a atear o incêndio com não menos violência nos
lugares mais descobertos da cidade; o que assim fez que não
morresse tanta gente, porém que fossem consumidos pelas
chamas muitos mais templos dos deuses, e maior número de
pórticos destinados para recreio. Deu contudo este incêndio
ainda ocasião a maiores suspeitas, porque principiou nos
prédios Emilianos que Tigelino possuía. Parecia que Nero
aspirava à glória de edificar uma nova cidade, e de lhe dar o
seu nome. Com efeito, dos quatorze bairros de Roma só
quatro se conservaram inteiros; três ficaram completamente
arrasados; e sete apenas mostravam alguns vestígios de
edifícios abatidos, e meio devorados.
[41] Seria dificultoso enumerar as casas
particulares, os palácios, e os templos que foram destruídos;
contudo direi sempre que os mais antigos monumentos
religiosos, tais como aquele que Sérvio Túlio havia dedicado
à Lua, o grande altar e o templo que o Árcade Evandro tinha
consagrado ao poderoso Hércules, o de Júpiter Estator, obra
de um voto de Rómulo, o palácio de Numa, e o templo de
Vesta com todos os penates do povo romano acabaram neste
incêndio. Não falo das riquezas imensas, fruto das nossas
vitórias, de todos estes primores das artes da Grécia, e dos
riquíssimos manuscritos autênticos, antigos monumentos do
gênio, e que nossos velhos ainda se lembravam ter visto; esta
perda irreparável, apesar de toda a brilhante magnificência da
nova cidade, nunca se poderá esquecer. Houve quem notasse
que o incêndio principiara aos quatorze das calendas de
Agosto [19 de Julho], dia em que os Gauleses também já
tinham entrado em Roma, e lhe haviam posto o fogo. Outros
ainda mais indagadores mostraram, que entre ambos os
incêndios tinham decorrido os mesmos anos, meses, e dias.
[42] Contudo Nero serviu-se das ruínas da pátria
para sobre elas fabricar um palácio em que o ouro e as pedras
preciosas não causavam tanta maravilha, por serem já muito
vulgares, e uma ostentação ordinária do luxo, como os
campos e os lagos, e por uma parte as artificiais solidões e
desertos formados por bosques espessos, e por outra as largas
planícies, e longas perspectivas, que dentro de seu imenso
circuito se viam. Foram seus engenheiros e arquitetos Severo,
e Céler, os quais pelo seu gênio e ousadia tentaram forçar a
natureza, e nenhuma dúvida tiveram em desperdiçar os
tesouros do príncipe. Com efeito, prometeram-lhe abrir um
canal que fosse navegável desde o lago Averno até a
embocadura do Tibre, apesar da aspereza do terreno, e das
altas montanhas que era preciso romper; e de não se
encontrar em todo este longo espaço lugar algum úmido que
pudesse fornecer águas, à exceção das Lagoas Pontinas: todo
o mais terreno era escabroso e árido, de sorte que, ainda
quando fosse possível rompê-lo, não merecia tanto trabalho,
nem despesas. Assim mesmo Nero, que sempre folgava de
empreender coisas da maior dificuldade, se esforçou em
rasgar as alturas vizinhas do Averno; mas ainda hoje se
conservam os vestígios das suas esperanças baldadas.
[43] Todas as casas porém que, depois de feito este
palácio imenso, tiveram ainda espaço para se poderem
reedificar, não foram construídas sem ordem e ao acaso,
como havia acontecido depois do incêndio dos Gauleses; mas
regularam-se os quarteirões, alargaram-se as ruas,
determinou-se a altura dos edifícios, e em frente dos palácios
se fizeram grandes pátios e pórticos que lhes defendiam as
entradas. Nero prometeu construir à sua custa estes pórticos,
de entregar aos proprietários o terreno limpo de entulhos, e de
recompensar, segundo as suas qualidades e riquezas, aqueles
que dentro de um certo tempo tivessem acabado as suas casas
ou palácios. Para despejar os entulhos se destinaram as lagoas
de Óstia, e determinou-se que os navios que entrassem no
33
Tibre carregados de trigo os transportassem para ali na sua
volta. Também se regulou que certas partes dos edifícios não
tivessem madeiras, e só fossem construídas de pedras de
Alba, e de Gábios, que resistem ao fogo. E para que os
particulares não se aproveitassem das águas em prejuízo do
público, e assim deixassem de correr em abundância, e em
diferentes lugares, criou-se inspetores para que cada família
pudesse ter auxílios prontos contra o fogo, e usar deles com
toda a facilidade; ordenando-se ao mesmo tempo que todas as
casas fossem sobre si, sem comunicação com os vizinhos.
Estes regulamentos de utilidade deram também formosura à
nova cidade; contudo, ainda havia alguns persuadidos de que
a antiga forma era mais saudável, porque as ruas estreitas, e
os tetos elevados não davam tanta entrada aos raios do sol, e
agora, pelo contrário, sendo largas e descobertas, ficavam
sujeitas a toda a força do calor.
[44] Tais eram as providências humanas que se
davam; e delas se passou logo às expiações para se aplacar a
cólera dos deuses. Consultaram-se os livros sibilinos, e
conforme as suas respostas se fizeram preces públicas a
Vulcano, a Ceres, e a Prosérpina; e as matronas romanas
foram em procissão implorar o auxílio de Juno,
primeiramente ao Capitólio e depois às bordas mais vizinhas
do mar. Trazendo dali água, aspergiram com ela o templo e a
estátua da deusa; e as mulheres casadas celebraram as
Selistérnias, e vigílias. Mas nem todos os socorros humanos,
nem as liberalidades do príncipe, e nem as orações e
sacrifícios aos deuses podiam desvanecer o boato infamatório
de que o incêndio não fora obra do acaso. Assim Nero, para
desviar as suspeitas, procurou achar culpados, e castigou com
as penas mais horrorosas a certos homens que, já dantes
odiados por seus crimes, o vulgo chamava cristãos. O autor
deste seu nome foi Cristo, que no governo de Tibério foi
condenado ao último suplício pelo procurador Pôncio Pilatos.
A sua perniciosa superstição, que até ali tinha estado
reprimida, já tornava de novo a grassar não só por toda a
Judeia, origem deste mal, mas até dentro de Roma, aonde
todas as atrocidades do universo, e tudo quanto há de mais
vergonhoso vem enfim acumular-se, e sempre acham
acolhimento. Em primeiro lugar se prenderam os que
confessavam ser cristãos, e depois pelas denúncias destes
uma multidão inumerável, os quais todos não tanto foram
convencidos de haverem tido parte no incêndio como de
serem os inimigos do gênero humano. O suplício destes
miseráveis foi ainda acompanhado de insultos, porque ou os
cobriram com peles de animais ferozes para serem devorados
pelos cães, ou foram crucificados, ou os queimaram de noite
para servirem como de archotes e tochas ao público. Nero
ofereceu os seus jardins para este espetáculo, e ao mesmo
tempo dava os jogos do Circo, confundido com o povo em
trajes de cocheiro, ou guiando as carroças. Desta forma, ainda
que culpados, e dignos dos últimos suplícios, mereceram
compaixão universal por se ver que não eram imolados à
publica utilidade, mas aos passatempos atrozes de um
bárbaro.
O longo excerto acima retrata um dos
episódios mais famosos da História Romana; qualquer
pessoa que ouça o nome “Nero” imediatamente se
lembrará de que “ele causou um incêndio em Roma,
enquanto tocava sua harpa”. Contudo o que nos
interessa nesse importantíssimo trecho são as menções
à materialidade romana, entre elas, as residências.
Na Parte II (item B) deste trabalho, aludimos
às tabernae, que se expandiram pelo Império após o
século II a.C.. Essas tabernas ou lojas eram as
principais responsáveis pela distribuição local de
alimentos e artefatos (também produzidos nas
oficinas), e estavam espalhadas por toda a cidade.
Como afirma Tácito, as lojas foram um verdadeiro
catalisador do incêndio de 64 d.C.: “O incêndio
começou na parte do Circo, que está contígua aos
montes Palatino e Célio; e dando nas lojas aonde
encontrou bastantes matérias combustíveis, apareceu
logo com tal violência, ajudado pelo vento, que tomou
todo o espaço do Circo”140. Embora o autor não
mencione quais seriam os materiais combustíveis,
podemos deduzir que não fugiriam do cotidiano
romano, ou seja, eram materiais básicos, que a maioria
da população teria em casa ao comprar, tais como
tecidos, objetos de madeira (usados no mobiliário e
como instrumentos de fabricação de outros artefatos),
couro, e, principalmente, o azeite, que era o principal
combustor na Roma Antiga, utilizado para gerar calor e
luz, seja nos archotes carregados pelos cidadãos
quando saíam à noite pelas ruas, seja dentro das
próprias moradias, onde o óleo era o combustível das
imprescindíveis lamparinas141. As ruas de Roma, como
já estudado no item C da Parte I, colaboraram para a
extensão do fogo: “porque achava todas as facilidades
possíveis dentro de uma capital que, como a antiga
Roma, constava de ruas estreitas, e de quarteirões mui
extensos”142.
Tácito segue dizendo a respeito da utilização
das ruínas da cidade por Nero para a construção de sua
Domus Aurea (“Casa Dourada”, ver Figuras 9 e 10),
que recebeu essa denominação devido às pinturas em
cor de ouro espalhadas pela estrutura 143. Todavia, o
imperador foi responsável pela reestruturação do
planejamento urbano da Cidade, tendo, inclusive,
limitado a altura das residências, como afirma o
historiador antigo: “Todas as casas, porém que, depois
de feito este palácio imenso, tiveram ainda espaço para
se poderem reedificar, não foram construídas sem
ordem e ao acaso, como havia acontecido depois do
incêndio dos Gauleses; mas regularam-se os
quarteirões, alargaram-se as ruas, determinou-se a
altura dos edifícios, e em frente dos palácios se fizeram
grandes pátios e pórticos que lhes defendiam as
entradas”; e também estabeleceu que novos materiais
fossem usados nas construções: “Também se regulou
que certas partes dos edifícios não tivessem madeiras, e
só fossem construídas de pedras de Alba, e de Gábios,
que resistem ao fogo”144. Mas as medidas de Nero,
obviamente, não resistiram ao tempo, e temos, em fins
do século II d.C., um poeta Juvenal um tanto ranzinza:
Que lugar desgraçado, ou solitário
Preferível não vemos à Cidade
Terrível, onde incêndios, e ruínas
145
De prédios são contínuos (...).
140
Anais, 38.
Para maior entendimento acerca do uso e das características
das lamparinas, ver a dissertação de Mestrado da arqueóloga
Maria Isabel D‟Agostino Fleming: Lamparinas na antiguidade
clássica: problemas sociais, econômicos e tecnológicos.
142
Anais, 38.
143
A Domus Aurea foi, posteriormente, soterrada devido à
construção das Termas de Trajano. A notícia mais recente sobre
o palácio de Nero data de Fevereiro de 2007, quando partes das
escavações da estrutura foram re-abertas ao público, depois de
quase dois anos fechada para reparos por causa do risco de
desmoronamento.
144
Anais, 43.
145
Sátiras, III, 8-11.
141
34
Os incêndios em Roma foram uma constante.
Muitas são as passagens nas fontes antigas que
mencionam o crepitar de edifícios. Em algumas delas,
os causadores do fogaréu foram políticos com seus
grupos de partidários, como a mostrada acima, na qual
Tácito fala sobre a suspeita do intento do imperador de
transformar parte da cidade em sua “Nerópolis”146, e
Suetônio o acusa com todas as palavras (Nero, 38):
Simulando descontentamento com a feiúra dos
antigos edifícios, com a estreiteza e a tortuosidade das ruas,
incendiou a Cidade de forma tão acintosa que a maior parte
dos consulares não ousou prender os cubiculários,
surpreendidos nas suas casas com estopas e tochas.
Todavia, a cidade estava propensa a incêndios
e desmoronamentos – além da dificuldade na
distribuição de água vinda dos aquedutos – por causa
dos materiais empregados na construção dos edifícios,
das moradias.
Cabem aqui algumas palavras sobre as
matérias-primas empregadas no fabrico das residências.
Para isso, devemos recorrer ao principal tratado de
arquitetura deixado pelos romanos, a obra Da
Arquitetura de Marco Vitrúvio Polião, escrita no fim
do século I a.C. (ano 25) sob a benesse de Augusto,
constituída de dez livros que discorrem sobre a
edificação de diversas estruturas, monumentais e
residenciais. Em seu “Livro II”, Vitrúvio explana
pormenorizadamente os materiais utilizados nas
construções; vejamos o que o autor nos deixou sobre os
tijolos:
Assim, com relação aos tijolos, falarei em primeiro
lugar sobre a terra com a qual se deve produzi-los. Não
devem ser feitos com terra arenosa, nem pedregosa, nem com
lama arenosa, porque, produzidos desses materiais,
primeiramente tornam-se pesados, após o que, com a
dispersão das chuvas pelas paredes, desmancham-se e fazemse desabar, bem como a palha contida neles não mais se
agrega por causa de sua aspereza. Devem portanto, ser feitos
de terra argilosa branca, ou argila vermelha, ou até mesmo
saibro147. Os desse último tipo, em virtude de sua leveza,
possuem consistência e, por ocasião da obra, não se mostram
pesados, sendo facilmente assentados. Têm de ser produzidos
na primavera ou no outono para que sequem de uma única
vez. Os que são feitos no calor do verão tornam-se, pois,
defeituosos, porque ao cozer completamente a camada
exterior, o sol faz seu interior parecer ressecado apesar de
ainda não estar seco, e depois, secando, contrai-se, trincando
as partes que estavam secas. Produzidos assim fendidos,
tornam-se quebradiços. Serão muitíssimo melhores ainda se
forem produzidos a cada dois anos pelo menos, pois antes
148
desse tempo não podem secar completamente .
A leitura de Vitrúvio torna-se tão fascinante
devido ao seu caráter de manual aos arquitetos
coetâneos a ele; a visão dos antigos sobre um assunto
complexo como a arquitetura mostra-se um tanto
didática quando lemos a obra desse autor. Vitrúvio
146
Suetônio, Nero, 55.
Saibro: rocha resultante da decomposição química de granitos
ou gnaisses.
148
II, 3.
147
alude à qualidade do tijolo que é seco naturalmente nas
estações amenas do ano. Havia, também, os tijolos
queimados, muito empregados nas construções
romanas. De acordo com os arqueólogos Peter
Connolly e Hazel Dodge em seu livro The ancient city,
os tijolos queimados poderiam ser de quatro tamanhos
padrões149 (Figura 11): bipedalis (“dois pés
romanos”), 59 cm; sesquipedalis (“um pé romano mais
sua metade”), 44 cm; pedalis (“um pé romano”), 29,5
cm; e bessalis (“três quartos de pé romano”).
Sobre o tipo de areia apropriada para a
composição da argamassa, Vitrúvio diz que as espécies
de areia fóssil são as melhores porque não apresentam
características de tornarem-se terrosas com a exposição
ao calor do Sol, o que faria a argamassa não segurar os
tijolos e, conseqüentemente, ruir as estruturas 150. Um
outro gênero de argamassa poderia ter em sua
composição o pó extraído da pozolana (pumicita) – ou
a “terra de Vesúvio”, nas palavras de Vitrúvio – uma
rocha vulcânica extremamente eficaz para conferir
firmeza aos edifícios e que se solidifica, inclusive, sob
a água151. Outro componente básico utilizado na
alvenaria das residências (e das demais construções,
geralmente) era a cal, que seria
(...) obtida do cozimento da pedra branca [calcita]
ou da pederneira [sílex]; que extraída de pedra compacta e
mais consistente será adequada à alvenaria, e de pedra porosa
aos revestimentos. (...) Ora, por que motivo a cal, ao
misturar-se à água e à areia, consolida a alvenaria? Parece
que a explicação residiria no fato de as rochas, como os
demais materiais, resultarem de uma combinação de
princípios. Assim, as que encerrassem mais ar seriam moles;
as que encerrassem mais umidade, dúcteis; mais terra, duras,
152
e mais calor, mais frágeis .
A construção de edifícios mais altos foi
possível graças ao desenvolvimento do concreto (opus
caementicium – “obra cimentada”) no século III a.C.,
que conviveu lado a lado com a antiga técnica do opus
craticum (“obra engradada; com formato de grade”). O
concreto foi aperfeiçoado na região da Campânia, e
fazia-se a partir de uma mistura de pedras e/ou tijolos
formando um agregado que era preenchido,
alternadamente, com a argamassa. Porém, a opção mais
barata de edificação era com o opus craticum (Figura
12), muito utilizado quando se desejava construir
algum andar superior: a técnica consistia em preencher
os espaços quadrados deixados pela grade de madeira
com pedregulhos e argamassa. Embora mais
econômico, o opus craticum era frágil e ruía com
freqüência, além de conter matéria inflamável
(madeira), sendo passíveis de causar incêndios 153.
149
Página 138.
II, 4.
151
II, 6. Já Peter Connoly e Hazel Dodge não fazem menção à
areia fóssil como elemento da argamassa, segundo eles (The
ancient city, p. 138): “A argamassa era feita com pozolana
[pozzolana], uma areia vulcânica que dá força extra e coesão ao
material e solidifica-se sob a água”.
152
Vitrúvio, Da Arquitetura, II, 5.
153
Devemos lembrar também que o teto das moradias era feito
de madeira, coberto com telhas (tegulae) produzidas com
terracota e que possuíam, segundo Peter Connolly e Hazel Dodge
(The ancient city, p. 139), geralmente, 45 cm de largura por 60
cm de comprimento (ver Figura 16). Vitrúvio (II, 9) explica
como deixar a madeira ideal para o uso na construção:
150
35
Para as fundações dos edifícios, o concreto era
derramado em camadas entre uma estrutura de alicerce
feita de madeira, que geralmente era deixada no local
após a solidificação do concreto (Figura 13). Para a
construção de muros, os romanos usaram diversas
técnicas (além do opus craticum) que variaram no
tempo: opus quadratum (“obra quadrada”), datada do
início do século VII e século VI a.C., consistia em
colocar blocos de pedras paralelos uns aos outros; opus
incertum (“obra incerta; pouco firme”), datada do
início do século II a.C., um revestimento para o
concreto construído com pequenas e irregulares pedras;
opus quasi-reticulatum (“obra quase reticulada”),
último quartel do século II a.C., revestimento para
concreto feito com pedras quadradas, mas não muito
bem dispostas; opus reticulatum (“obra reticulada”),
início do século I a.C. até o governo de Nero, um
revestimento para concreto feito com pedras quadradas
dispostas diagonalmente, formando o traçado perfeito
de uma rede; opus testaceum (“obra conchada”), muito
usada a partir de meados do século I d.C., consistia em
um revestimento para o concreto feito com camadas de
tijolos queimados dispostos paralelamente; opus
mixtum (“obra misturada; mista”), início do século II
d.C., revestimento que usava tijolos queimados
dispostos à maneira do opus testaceum e/ou
intercalados com opus reticulatum; opus vittatum
(“obra listada”), por volta do século IV d.C., consiste
em camadas alternadas de pedras com tijolos
queimados154 (Figuras 14 e 15).
As rochas utilizadas pelos romanos em suas
edificações variavam em formas e tipos, podendo-se
destacar o tufo155, o travertino156 e o mármore157. As
pedreiras localizavam-se por toda a Península Itálica e
o comércio dessas rochas estendia-se também pelo
território itálico todo, como Vitrúvio atesta por meio de
seu conhecimento material: cita, no capítulo VII de seu
Livro II, as cidades de Tíbure, Anisterno, Soracte,
Fidenas, Tarquínia, e as regiões da Campânia, Úmbria,
Piceno e Venécia.
ordem senatorial), começava o trabalho de composição
de sua obra. O arquiteto era visto realmente como um
compositor, como nos diz o historiador e arqueólogo
Robert Scranton: “O arquiteto (...) é instruído a „fazer
especificações‟. O verbo usado [no mundo grego] é
syngrapsai, do qual provém o substantivo syngraphe,
amplamente usado. O significado do substantivo pode
ser entendido como „composição escrita‟: sendo usado
para designar tanto prosas como histórias ou „escritas‟
em geral; talvez esse substantivo contenha em si uma
idéia de se juntar, na escrita, uma série de dados. De
qualquer maneira, ele é comum no vocabulário antigo
sobre as construções e parece ter sido utilizado de
forma que entendamos como „especificações‟ para uma
edificação, (..) ou „especificações‟ para um contrato
(..)”158. O significado de “compor” também cabia
perfeitamente ao entendimento do verbo “desenhar”:
lendo Vitrúvio (I, 2), percebemos que o arquiteto
deveria de fato fazer os desenhos (das plantas,
elevações e perspectivas) da construção que seria
executada. Trabalho esse realizado também por uma
parcela da plebe urbana proletária (obviamente,
tratando-se aqui de um centro urbano), que recebia
salário em troca dos dias empregados para erigir a
construção (Figura 17), pois nenhuma edificação da
Antiguidade foi erigida por apenas um homem: os
“anônimos” tiveram um papel fundamental na
ampliação da cultura material, como nos lembra Brecht
em seu famigerado poema:
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedras?
E a Babilônia várias vezes destruída.
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros,
Na noite em que a muralha de China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
159
Tinha somente palácios para seus habitantes? (...)
Todas essas técnicas de construção, os
materiais empregados nas edificações e como seriam
esses edifícios eram pensados e formulados pela figura
do arquiteto (architectus). Esse especialista, após os
últimos acertos com a pessoa que o contratava
(geralmente um membro da ordem eqüestre ou da
B) Moradias: Domus e Insula
É necessário que seja cortada fazendo-se uma incisão
na espessura da árvore até a medula intermediária e que se deixe,
para que, gotejando, saia através dela toda a seiva. Desse modo,
o líquido inútil que estiver em seu interior, escorrendo pela
incisão, impedirá que a seiva se transforme em pus e que
comprometa a qualidade da madeira. Destarte, quando a árvore
estiver seca e não destilar mais gota alguma, será derrubada e
estará perfeita para ser utilizada.
154
Para melhor entendimento das técnicas descritas. Sobre a
descrição da alvenaria segundo os romanos, consultar: Vitrúvio,
Da Arquitetura, II, 8.
155
Rocha vulcânica sedimentar, também conhecida por pozolana.
Dela era extraído o pó utilizado no preparo da argamassa
mencionada por Vitrúvio.
156
Rocha calcária sedimentar.
157
Rocha calcária metamórfica.
Após esta breve introdução aos materiais e
algumas técnicas utilizadas nas construções,
analisaremos a moradia romana. Mas qual seria a
importância sobre o estudo da casa e qual a relação
entre a residência dos romanos e o trabalho realizado
pelos artesãos da plebe urbana (questão central que
abordamos)?
158
“Greek building”, in: Carl Roebuck (ed.), The muses at work,
pp. 5-6.
159
Bertolt Brecht, “Perguntas de um trabalhador que lê”, in:
Poemas de Bertolt Brecht. 1913-1956. São Paulo: Brasiliense,
1986, p. 167.
36
A questão mais evidente ao se estudar as
moradias romanas é que os aspectos estruturais das
casas denotam o contraste existente entre as pessoas
mais abastadas e as que possuíam menos recursos
econômicos. Como se verá, a planta de uma casa
pertencente a um rico (domus – “casa”) é geralmente
mais fácil de identificar quando comparada à de uma
insula (“ilha”), embora o problema central não seja o
do tamanho da área ou o da altura da estrutura. As
moradias ricas possuíam elementos arquitetônicos em
comum: características herdadas quando da formação
de uma aristocracia como grupo social, diferenciada
das demais pessoas que habitavam o campo ou a
cidade. Embora houvesse uma tendência ao
agrupamento de moradias de pessoas mais abastadas
em determinados bairros, mesmo assim dificilmente
era possível conter a permeação (e a difusão) das
insulae e dos tuguria pela geografia urbana romana.
A insula, por sua vez, foi reflexo do
crescimento demográfico sofrido por Roma a partir do
século III a.C.: o território urbano ficou pequeno para a
construção de moradias individuais, além do alto custo
de edificação desse tipo de residência. A solução
encontrada foi a mais prática possível: a construção de
“prédios”, com andares variados, por parte dos
membros pertencentes às ordens senatorial ou eqüestre
para fins de locação160. Outra forma rentável era
ampliar uma domus, construindo-se um cômodo
adjacente à estrutura ou até mesmo elevando-se um
andar na casa. Voltando-nos à pergunta inicial, a
resposta está no fato de as moradias serem os locais de
fabricação e venda dos artesanatos. Uma insula (e
também uma casa com algum cômodo locado) podia
contar com várias tabernae (“tabernas”) e officinae
(“oficinas”), ou seja, essas áreas de trabalho da plebe
urbana eram as responsáveis pela distribuição de
alimentos e dos artefatos que serão aqui estudados. O
taberneiro e o artesão normalmente moravam dentro de
seus locais de trabalho, mesclando, dessa maneira, sua
vida pública e sua vida particular em um mesmo
ambiente, acomodando-o de acordo com cada ocasião.
Obviamente, esses artesanatos vendidos eram
acolhidos em inúmeros locais diferentes, por isso, o
estudo da moradia dos ricos também se faz importante:
os produtos fabricados foram, em diversas ocasiões,
encontrados em escavações arqueológicas realizadas
em domus; dessa maneira, é possível analisar quais os
artesanatos mais comuns que chegavam a essa elite da
sociedade. Far-se-á a seguir, portanto, uma breve
descrição das principais características da domus – aqui
entendida como “consumidor” – e da insula onde
morava e trabalhava a plebe urbana – aqui entendida
como “fabricante”.
▪ Domus.
Para o arqueólogo John R. Clarke: “Duas
fontes nos ajudam a reconstruir com certa
verossimilhança a casa urabana patrícia, ou domus.
Uma das fontes é Vitrúvio (Da Arquitetura), escrita
nos anos 20 a.C.. O arquiteto cuidadosamente nomeia
as salas e prescreve as funções dessas salas. (...) Apesar
de sua grande atenção aos pormenores, Vitrúvio nunca
forneceu uma planta clara o bastante para a domus.
Esse problema é resolvido a partir de nossa segunda
fonte: as casas romanas escavadas da Itália. [Assim,
devido às escavações,] é-nos possível reconstruir a
típica planta de uma habitação patrícia descrita por
Vitrúvio”161. Dessa maneira, o estudo das moradias
romanas é realizado com base em duas fontes
diferentes, mas complementares: as fontes textuais e as
fontes materiais.
As melhores evidências materiais – tanto em
quantidade como em qualidade – das moradias nas
cidades romanas encontram-se em Pompéia e
Herculano, graças à erupção do vulcão Vesúvio em 79
d.C., que praticamente soterrou um retrato da vida
romana do século I d.C.162. Embora cada cidade da
Península Itálica contasse com suas particularidades, as
características básicas do que era uma domus
estenderam-se pela orla do Mediterrâneo.
Segundo A. J. Brothers em seu capítulo
“Urban housing” presente na obra Roman domestic
buildings, o desenvolvimento de casas “típicas”
romanas parece ter duas fases: A) uma forma
puramente “itálica”, na qual um conjunto de salas
rodeia um espaço aberto; B) a essa forma “itálica” foi
adicionado um pátio colunado (peristilo) cercado por
demais salas, que segundo o autor: “Esta adição chegou
sob a influência grega e era geralmente construído ao
fundo da casa original (...)”163. A forma “itálica” a que
se refere Brothers deriva principalmente do modelo
etrusco de construção. A junção de características
arquitetônicas etruscas, laciais e helênicas dão mostra
do porquê de as diversas partes de uma casa possuírem
denominações que variam entre o latim (atrium e
tablinum, por exemplo) e o grego (peristylium e
exedra, por exemplo)164.
Os elementos que compunham a casa patrícia
serão a seguir explicitados.
160
Vitrúvio, no século I a.C., escrevia sobre a necessidade das
insulae (II, 8):
161
The houses of Roman Italy: 100 B.C. – A. D. 250, p. 2.
D. S. Robertson escreveu (Arquitetura grega e romana, p.
359): “No tocante às moradias romanas o volume de testemunhos
é avassalador, porém, quanto ao período pré-imperial,
dependemos principalmente de Pompéia, onde as casas eram, em
sua origem, mais oscas que romanas, embora exibam um tipo
italiano claramente definido”. A frase de Robertson é de 1929;
mais construções pré-imperiais foram escavadas até hoje,
contudo, as cidades vesuvianas ainda são as evidências mais bem
conservadas.
163
Página 34.
164
A. J. Brothers, “Urban Housing”, in: I. M. Barton (ed.),
Roman domestic buildings, pp. 34-35.
162
É necessário (...) produzir numerosas habitações na
majestade da Urbe, na infinita aglomeração de cidadãos. Logo,
uma vez que as áreas no rés-do-chão não poderiam conter
tamanha multidão a ocupar a Cidade, por isso mesmo, é
necessário recorrer à ajuda dos edifícios em altura. E, assim,
estruturas em altura com pilares de pedra, paredes de alvenaria,
argamassa de pedrisco e cobertas por numerosos vigamentos nos
andares superiores serão de fundamental importância para a
construção de edifícios. Por conseguinte, com a cidade
multiplicada em altura por muitos pavimentos, o povo romano
terá, sem dificuldades, habitações magníficas.
37
▪ Atrium (“átrio”): principal espaço da sala.
Ao seu redor os demais cômodos da moradia eram
estabelecidos. “Existem muitas sugestões de derivação
para a palavra atrium; uma das mais plausíveis – que
embasa a teoria de um „espaço de vivência‟ – é a que
afirma a palavra vir de ater (“preto”) devido ao
escurecimento das vigas de madeira do teto causado
pela fumaça vinda do fogo sagrado da família, que
ardia no centro do espaço, sob uma pequena abertura
no teto”165. A teoria de o átrio ser um espaço de
vivência é calcada não apenas na origem do termo
atrium, mas também nos dados que as escavações
arqueológicas trouxeram à luz: algumas casas de
Herculano não apresentam implúvio ou o apresentam
como uma adição posterior ao átrio. Uma outra teoria é
a de que o átrio era originalmente um pátio sobre o
qual o telhado era transpassado por uma extensão
gradual de beirais, o que corrobora o escurecimento das
vigas por causa da fumaça do fogo. Vitrúvio nos
apresenta cinco classificações de átrios:
No átrio, além dos retratos168 dos ancestrais da
família, também ficava um elemento importante da
vida religiosa romana: o lararium (“larário”; local de
culto aos lares. Ver Figura 24). “Usualmente colocado
em um dos cantos do átrio ou na área da cozinha, esses
altares incluíam, em adição às estátuas ou pinturas dos
dois lares169 e do genius170, outros símbolos de boa
fortuna [felicidade], como a serpente. Os lares
recebiam uma variedade de oferendas, incluindo
incenso, encantamento, uvas, guirlandas de grãos,
bolos de mel, favos de mel, frutas, vinho, e até mesmo
sacrifícios de sangue. No lararium, o paterfamilias171
regularmente rezava e oferecia sacrifício aos lares da
família”172.
Átrios toscanos são aqueles nos quais as vigas
transversais sustentam ao longo do vão modilhões e calhas,
desde os cantos das paredes até o ângulo do vigamento, bem
como, nos esteios, um escoadouro da água das chuvas para
um implúvio central. Nos átrios coríntios, segundo as
mesmas disposições, são instaladas vigas e implúvios, mas as
vigas que vêm de trás das paredes compõem-se com um
circuito de colunas a sua volta. Tetrastilos são aqueles
colocados apenas sob vigas e colunas cantoneiras que
asseguram a essas vigas utilidade e firmeza, porque elas
próprias nem são obrigadas a suportar tão grandes esforços,
nem são sobrecarregadas por modilhões. Em duas águas
[também conhecido por “despluviado”] são aqueles cujas
calhas, sustentando uma cisterna, remetem para trás a água
das chuvas. Esses átrios são da maior utilidade sobretudo nas
habitações de inverno, porque seus implúvios, uma vez
soerguidos, não prejudicam a iluminação das salas de jantar.
Apresentam, porém, o grave inconveniente de exigir
constantes reparações, porque os dutos ao redor das paredes
que escoam as águas das chuvas são formados por canaletas
que não recolhem das calhas com suficiente rapidez a água
defluente, que, acumulando-se dessa forma, transborda,
arruinando o vigamento dos edifícios nesse gênero. Átrios
abobadados [também conhecido por “testudíneo”], por sua
vez, são executados onde não há grandes vãos a serem
vencidos, e por cima dos quais, sobre um vigamento, podem
166
ser erguidas habitações espaçosas (Figuras 18 a 21).
▪ Fauces (“garganta”): corredor que separava
o átrio da rua; às vezes, entre a ligação da fauces com o
atrium, existia um pequeno cômodo chamado
uestibulum (“vestíbulo”). A. J. Brothers aponta algo
interessante sobre a segurança nas domus: “As portas
eram fechadas por trancas e, às vezes, por fechaduras
de ferro também. À noite, a segurança na porta podia
ser reforçada com o uso de um arrimo de madeira que
era posicionado num encaixe existente na fauces e
colocado contra o centro da porta. Ocasionalmente,
como na Casa do Touro em Pompéia, existia uma
pequena porta na parede lateral do uestibulum que dava
para a fauces, não precisando abrir a porta principal a
cada pessoa sozinha que desejasse entrar. Esses
sistemas de segurança demonstram claramente os
perigos que cercavam as ruas, especialmente à
noite”174.
O eixo fauces-atrium-tablinum era percorrido
todas as manhãs pelos clientes do paterfamilias (nesse
caso, exercendo o papel de patronus – “patrão”) no
ritual da salutatio (“saudação”): um laço não formal de
fidelidade dos clientes aos seus patrões. Para John R.
Clarke, “esse ritual estruturou a domus”175.
O compluuim (“complúvio”) é a abertura na
parte central do teto do átrio, sendo o responsável pela
iluminação, pela ventilação do ambiente e por facilitar
a chegada das águas da chuva a uma bacia retangular
existente no chão do centro do átrio, o impluuium
(“implúvio”). Alguns implúvios continham uma fonte,
uma estátua ou uma cisterna, denominada puteal
(“boca do poço”), que armazenava as águas pluviais
para o uso doméstico da família, como bem explica
John R. Clarke: “O implúvio (...) é um marcador de
eixo [na casa] e um símbolo da independência da
domus em relação ao mundo exterior: no período
anterior à água vinda das ruas, a cisterna providenciava
o fornecimento de água para a família” 167 (Figuras 18,
22 e 23).
165
Ibidem, p. 37.
Da Arquitetura, VI, 3.
167
The houses of roman Italy: 100 B.C. – A. D. 250, p. 4.
166
▪ Tablinum (“sala de recepção”): sala com a
mesma largura do átrio, construída imediatamente após
esse cômodo173. Sua função era a de receber visitantes
e, ao mesmo tempo, a de guardar os documentos
(tabulae) referentes à casa e à família.
▪ Cubicula (“cubículos”): eram quartos
situados ao redor do átrio. Neles, a posição da cama era
168
O retrato romano era bem diferente da noção que temos
atualmente. As famílias encomendavam o retrato de algum
artesão da cidade, e ele era esculpido na rocha; ou seja, o retrato
na Antiguidade era tridimensional, muito diferente do nosso
retrato “plano”. Para mais pormenores sobre os retratos nas
diferentes épocas romanas, ver: W. E. Mierse, Ochos ensayos
interpretativos sobre el arte romano, in: M.I.D‟A. Fleming (ed.)
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo:
Suplemento 1, 1999.
169
Espíritos tutelares da casa, ligado ao casamento também.
170
Gênio: espírito da fertilidade que garantia a continuidade do
clã (gens).
171
O pai da família; o chefe da casa e da família.
172
John R. Clarke, The houses of roman Italy: 100 B.C. – A. D.
250, p. 9.
173
Vitrúvio, VI, 3.
174
“Urban Housing”, in: I. M. Barton (ed.), Roman domestic
buildings, p. 41.
175
Op. Cit., p. 4.
38
geralmente acompanhada por uma mudança no traçado
do mosaico que estava no chão, por uma mudança no
padrão de pintura do teto ou pela construção de uma
plataforma para se apoiar a cama176.
▪ Alae (“asas”): essas alas eram áreas ou
corredores que ficavam entre o átrio e o tablinio, uma
de cada lado. A sua função, o seu uso ainda é incerto
para os pesquisadores.
▪ Peristylium (“peristilo”): cômodo da casa de
origem grega, o peristilo é um pátio ou jardim
colunado com algum dos estilos gregos (dórico, jônico,
coríntio, misto). Construído como um adendo na
moradia, esse pátio foi posicionado atrás do tablinum.
O autor A. J. Brothers chama a atenção: “A velha idéia
de que o átrio de uma casa era somente para os
negócios da família e o peristilo apenas para a família e
para comunicações puramente sociais com os amigos
mais íntimos simplesmente não corresponde ao que
sabemos sobre o modo de vida romano”177.
▪ Triclinium (“triclínio”): sala de jantar cujo
nome é derivado do grego, correspondendo a um
conjunto de três divãs reclinados onde os convivas
deitavam-se para a ceia ou banquete.
▪ Oecus (“salão”): um salão de recepção talvez
usado para o jantar, e freqüentemente um dos cômodos
da casa mais decorados.
▪ Diaeta (“casa de recreio”): cômodo ao ar
livre, usado para lazer e relaxamento.
▪ Exedra (do grego eks – “na parte exterior
de” + hédra – “banco, assento”): pátio colunado ao ar
livre em formato circular ou semicircular que possuía
bancos para reuniões.
▪ Tabernae (“tabernas”): cômodos construídos
na domus com fins de locação para moradia e
comércio. D. S. Robertson afirma que, na casa: “Havia
aposentos superiores, exceto acima do tablino,
iluminados por janelas (Figuras 25 e 26) existentes nas
paredes externas e por vezes dotados de balcões”178.
Alguns desses aposentos poderiam ser alugados para
plebeus, que usariam o espaço para morar e trabalhar,
seja numa taberna, seja numa oficina, porém, esses
locais não eram apenas construídos em andares
superiores (como atesta a presença de escadas ou até
mesmo de andares superiores que sobreviveram ao
tempo), edificando-se a partir da técnica do opus
craticum (bem mais econômica). Muitas tabernas eram
construídas na fachada da casa, ao lado da fauces. A
declaração de A. J. Brothers é bastante esclarecedora:
“Originalmente [esses cômodos] eram provavelmente
quartos de dormir ou quartos de serviço ou para
armazenagem, e em algumas casas eles permaneceram
com essas funções; mas uma característica comum em
Pompéia e Herculano é achar esses cômodos
convertidos em lojas (tabernae) de frente à rua, em
ambos os lados da entrada da casa. Se essas tabernas
ficavam sob o controle do dono da casa ainda não é
uma questão totalmente esclarecida, mas o fato de
serem completamente abertas para a rua, sem qualquer
acesso de dentro da casa, parece indicar que não eram
controladas. Esse desenvolvimento tardio nas
residências é apenas uma das muitas tendências que
indicam o começo de um período de mudança
econômica e social [a partir do século II a.C.]”179
(Figura 27).
▪ Insula.
Em oposição à grande casa particular temos,
em maior número, a pequena casa alugada ou
particular, onde geralmente viviam as pessoas menos
abastadas da cidade.
No entanto, essas moradias não-domus são as
que maior trabalho dão aos pesquisadores da
antiguidade romana. Não é simples identificar o
significado de insula (“ilha”) para os romanos. Os
textos antigos muitas vezes deixam dúbia a questão de
classificar o que realmente são as insulae:
180
Duas vezes apenas [o imperador Tibério ] foi
generoso, publicamente: uma quando emprestou ao povo cem
milhões de sestércios, pelo prazo de três anos, sem juros.
Outra quando indenizou alguns proprietários de “insulas”
[dominis insularum] consumidas pelo fogo, no monte Célio.
(Suetônio, Vida de Tibério, 48).
Os dicionários de latim designam insula como
“ilha”, e essa é a causa do problema. “Ilha” pode
significar tanto um único local – separado dos
circunvizinhos – como pode significar também um
conjunto de locais – novamente, separados dos
circunvizinhos. Uma família romana residente em uma
casa ou em um apartamento constituiria uma insula,
afinal, o núcleo familiar estaria separado das ruas pelas
paredes da construção, além de que uma família
fechada em si mesma também pode ser vista como uma
espécie de ilha. O arqueólogo Glenn Storey – em seu
artigo
“Regionaries-type
insulae
1:
architectural/residential units at Ostia” – faz a relação
entre a palavra insula e sua materialidade: “A
referência terminológica para domus parece
diretamente ligada – e seu correlato arqueológico da
mesma forma relativamente claro – a uma estrutura
sozinha, que toma espaço em um quarteirão inteiro ou
em uma discreta parte dele (especialmente como
observado nas cidades de Pompéia e Herculano). A
referência terminológica para insula não é tão
diretamente ligada às evidências arqueológicas, mas os
dois termos [domus e insula] aparecem freqüentemente
justapostos, sugerindo alguma ligação íntima entre
eles. A ligação poderia sugerir que a insula fora, em
certo sentido, também uma estrutura separada (nesse
176
A. J. Brothers, “Urban Housing”, in: I. M. Barton (ed.),
Roman domestic buildings, p. 43.
177
“Urban Housing”, in: I. M. Barton (ed.), Roman domestic
buildings, p. 45.
178
Arquitetura grega e romana, p. 361.
179
“Urban Housing”, in: I. M. Barton (ed.), Roman domestic
buildings, p. 42.
180
Governou de 14 a 37 d.C.
39
caso, representando uma associação arquitetural), ou
que fora uma família em singular (nesse caso, uma
associação sócio-estrutural). Qualquer que seja a razão
para o paralelo, a insula parece ser uma residência em
uma escala menor (quando comparada à domus), e seu
correspondente arqueológico está mais bem
representado na cidade de Óstia, o porto de Roma” 181.
Para os estudos sobre a definição do termo
insula, Glenn Storey comparou as evidências
arqueológicas com dois importantes documentos do
século IV d.C., o Curiosum e o Notitia, que, em
conjunto, são conhecidos por Regionários. Javier
Arce, arqueólogo, discorre acerca dos Regionários:
“Como é bem sabido, o Curiosum (e também a Notitia
Urbs Romae) são uma descrição, ou melhor, uma
enumeração, dos diversos monumentos da cidade de
Roma por regiões – as velhas XIV regiões do período
de Augusto. Depois da enumeração, o autor [anônimo]
dá conta do número de vici, aediculae, insulae, para
concluir com a referência à extensão, em pés, da região
correspondente. Como conclusão, apresenta um resumo
global: número de bibliotecas, obeliscos, pontes,
montes, campos, foros (...). Resulta evidente que a
numeração dos edifícios contidos em cada região é
completamente arbitrária (...). A seleção é caprichosa
assim como a ordem da enumeração. Ao que se refere
às cifras, possuem um valor acumulativo: sua
finalidade é demonstrar que Roma é a maior cidade de
todas e lembrar o nome de suas ruas, aquedutos, foros,
basílicas, templos. As discrepâncias entre Curiosum e
Notitia, as alterações da tradição manuscrita, não
permitem nenhuma confiabilidade”182.
Contudo, Glenn Storey ameniza as críticas de
Arce aos Regionários. O estudo empreendido por ele
mostra que os números de edifícios não eram
“completamente arbitrários” e que, pelo contrário,
possibilitam, sim, uma verossimilhança com o que é
narrado pelo autor anônimo antigo. Para Storey, um
dos erros mais comuns por parte dos pesquisadores de
Roma Antiga é tomar como verdade os números que
aparecem nos Regionários: a cidade de Roma jamais
comportaria em seu território (mesmo em período
tardio) 1800 domus e 46000 insulas, caso essas insulae
fossem deveras um bloco de apartamentos cada uma. A
análise de Glenn Storey sobre os vestígios materiais já
escavados na região de Roma confirma sua hipótese de
trabalho, ou seja, os números dos Regionários são
daquilo que o autor denomina de “unidade
arquitetural/residencial” (ARU, no original inglês)
(Figura 28): sendo assim, cada unidade da cifra total
que aparece nos documentos é um local habitável por
uma pessoa ou uma família, o que corrobora o uso do
termo insula pelos romanos para designar quaisquer
tipos de moradias (além de domus, obviamente).
Embora a pesquisa do arqueólogo Storey seja feita com
base nas evidências do século IV d.C., os resultados de
seu estudo podem também ser recuados ao período da
República, sem que com isso caia-se em anacronismo,
pois, o que caracteriza as insulae na visão de Glenn
Storey – que retomou uma idéia proposta por Axel
181
American Journal of Archaeology (AJA), vol. 105, nº 3, 2001,
pp. 389-90.
182
“El inventario de Roma: Curiosum y Notitia”, in: Journal of
Roman Archaeology (JRA), nº 33, 1999, pp. 17-18.
Boethius183 em 1951 – é a presença de escadas que
levem ao andar superior, independentemente a que
construção estejam diretamente ligadas.
A construção de andares superiores, dando
origem às insulae, era geralmente feita a partir da
técnica do opus craticum, onde uma treliça de madeira
era preenchida com argamassa e pedras. Deixemos que
o poeta Juvenal introduza a questão da fragilidade da
construção aqui citada:
(...)Uma Cidade
Escorada habitamos quase toda
De madeira, que artífices ignaros
Lhe arrumam, e tapando alguns buracos,
Dizem à gente, que tranqüila durma,
Debaixo de impendentes tais perigos.
Quanto é melhor, daqui viver-se longe,
Onde incêndios não há, nem se receia
De noite o susto? Uma água para o fogo
Pede; de pouca monta uns velhos móveis
Ucalegon salvara; no terceiro
Andar, o incêndio lavra sem saberes,
Se de baixo os vizinhos risco correm,
Que fará quem habita, aonde as pombas
184
Lascivas põem, no brando ninho os ovos?
Incêndios
e
desmoronamentos
eram
freqüentes. A plebe ia dormir sem saber se acordaria
sobre o piso ou sob o teto caído da casa em que
morava. Uma das principais causas dos desabamentos
estava na espessura das paredes levantadas para se
fazer os cômodos. O historiador e arqueólogo Jérôme
Carcopino faz a síntese das palavras escritas pelos
próprios romanos: “A Roma de Cícero está como que
suspensa nos ares sobre os apartamentos [cenacula]
(...). A Roma de Augusto alcança alturas mais elevadas
(...), o imperador proibiu a construção de edifícios de
mais de 20 metros de altura. (...) Em vão Trajano
renovou as restrições de Augusto, tornando-as ainda
mais severas, pois limitou a 18 metros a altura dos
edifícios privados: a necessidade foi mais forte do que
a lei”185. Porém, não é fácil para nós, hoje em dia,
assegurarmos corretamente a altura dos edifícios
antigos. Além de, com raríssimas exceções, a maioria
dos edifícios terem deixado por vestígios apenas o
térreo, os muros que continuam erguidos não ajudam a
estabelecer uma relação entre a largura da parede e a
altura alcançada pela construção, como afirma Glenn
Storey: “Os romanos provavelmente construíam
paredes espessas apenas o suficiente para suportar as
estruturas. Essa prática era razoável, dado que os
engenheiros romanos parecem não terem tido meios de
testar a resistência dos materiais antes de utilizá-los nas
estruturas”186. Já os incêndios, geralmente eram
183
“É típico do sistema romano... que as oficinas, as típicas
tabernae... para comércio, artesanato e também como moradia
dos proletários estivessem espalhadas por toda a cidade. Além
disso, em Roma, andares superiores [armazéns] foram
construídos, acessíveis diretamente por escadarias. Essas
insulae... podem ser seguramente encontradas por volta do século
III a.C.”. A. Boethius apud Glenn R. Storey, in: AJA, vol. 106, nº
3, 2002, p. 414.
184
Sátiras, III, 254-268.
185
Roma no apogeu do Império, p. 44.
186
American Journal of Archaeology (AJA), vol. 105, nº 3, 2001,
p. 396.
40
ocasionados pelo contato de lamparinas, archotes,
“fornos portáteis”, entre outras fontes de calor, com o
material inflamável existente na estrutura da casa
(quase sempre, a madeira) e no mobiliário187 (Figura
29); aliada à propensão de incêndios estava a escassez
de água: os aquedutos (uma vez construídos) forneciam
água para as termas e fontes públicas (lacus) e,
dependendo da quantia de dinheiro paga aos
responsáveis pelas construções do Estado, uma
pequena parte da água das ruas podia ser desviada para
as casas, porém, esse fornecimento nunca alcançava os
andares superiores das residências; sendo assim, era
muito difícil de algum incêndio ser controlado
rapidamente pelos moradores ou pelos “bombeiros”
criados na época de Augusto (os uigiles – “vigias)
(Figura 30).
Cabe frisar aqui, mais uma vez, o caráter de
aluguel presente nas insulae (nesse caso, tomando
insula por oposição a domus). A elite de Roma
construía as habitações e as locava, sendo responsável
também pela manutenção dessas estruturas. Ilustremos
o que foi falado com o exemplo estudado pelo
arqueólogo Felix Pirson sobre a insula Arriana
Polliana, na região VI.6 de Pompéia, datada de II a.C..
Arriana Polliana foi formada a partir de uma domus, a
qual teve acrescidos vários cômodos para locação,
transformando-se, assim, em um bloco de moradias
(insula) (Figura 31). Pirson em seu artigo menciona a
inscrição encontrada no local (CIL IV 138):
Na Insula Arriana Polliana de Cn. Alleius Nigidius
Maius tabernae com suas pergulae e cenacula equestria e
domus serão alugadas a partir de 1º de Julho. Para aluguel,
188
consulte Primus, escravo de Cn. Alleius Nigidius Maius .
A
evidência
arqueológica
para
a
habitabilidade das tabernae citadas na inscrição é
assegurada pelo fato de existirem latrinas, nichos para
camas e alguns altares consagrados às divindades
relacionadas ao trabalho e ao comércio; segundo Felix
Pirson: “A existência de tantos altares indica a
necessidade dos habitantes em definir suas moradias –
mesmo que consistam no espaço ao fundo de uma
taberna – como sendo de uma família independente” 189.
O termo pergula (“varanda”) refere-se aos mezaninos
que ficavam anexados às tabernas; também serviam à
187
Carcopino, sobre o mobiliário (Op. cit., p. 53): “Em todas as
casas romanas o mobiliário consistia essencialmente em leitos,
que serviam como cama à noite, e durante o dia como mesas de
refeições, escrivaninha, etc. Os pobres se contentavam com
catres de alvenaria presos às paredes e recobertos de palha. Toda
a economia era investida na aquisição de leitos, cada vez mais
bonitos. (...) As mesas nada tinham em comum com as que
conhecemos hoje em dia. Só bem mais tarde, por intermédio do
culto cristão, é que se tornaram as mesas maciças de quatro pés.
(...) Quanto aos assentos, seus vestígios nas escavações são ainda
mais raros, e há uma razão convincente para isso. Como as
pessoas comiam e trabalhavam deitadas [sic], constituíam um
móvel supérfluo. (...) Os romanos se contentavam com bancos
(scamna), escabelos (subsellia) ou sellae, sem braço ou encosto,
que levavam consigo para fora (...). O resto do mobiliário, o
essencial, consistia em capas de móveis, tapetes, colchas,
almofadas dispostas nas camas, aos pés das mesas, nos bancos,
nas sellae, e ainda nos adornos e nas baixelas”.
188
“Rented accommodation at Pompeii: the evidence of the
Insula Arriana Polliana VI.6”, in: JRA, nº 22, p. 168.
189
Ibid.
habitação, contudo, possuíam claramente uma
conotação negativa, imbuindo seus moradores de uma
classificação social bem inferior. Outra estrutura que
também denotava inferioridade social (e, por extensão,
econômica) era o cenaculum (“refeitório”): cômodo
acima do térreo (uma espécie de “apartamento”)190. Por
fim, a partir da planta de Arriana Polliana, podemos
concluir que o substantivo domus está no plural, já que
aparecem outras estruturas que contêm os elementos
típicos de uma domus explicitados acima (ex: domus 7
e 10 da Figura 31).
As tabernae, tão mencionadas até aqui, são de
fundamental importância para este trabalho. A plebe
urbana romana – ao menos, a sua maioria – vivia e
trabalhava nessas tabernas. O que foi pesquisado até o
presente momento não nos afirma com exatidão a
diferença entre uma taberna e uma oficina (officina),
por isso, tomaremos ambos os termos como sinônimos:
eram locais de moradia e trabalho, independentemente
se o plebeu comercializasse alimentos (o que nos
aproximaria mais à taberna que conhecemos hoje) ou
artesanatos (algo mais parecido com uma oficina).
O historiador e arqueólogo Joseph Jay Deiss
em seu ótimo estudo sobre a cidade de Herculano
apontou algumas características que podem ser
ampliadas também à cidade de Roma e tomadas como
inerentes às tabernas. Afirma ele: “Em Herculano, as
habitações, lojas, e oficinas da baixa classe média [sic]
e artesãos – a plebs – são fáceis de se reconhecer. Os
pequenos comerciantes tendiam a residir em pequenas
casas que eram conectadas diretamente, ou próximas,
às suas lojas. Os artesãos, por sua vez, inclinavam-se a
morar no fundo do espaço onde trabalhavam, ou no
mezanino de suas oficinas; às vezes, também, o espaço
era utilizado para o trabalho e para a venda” 191. Já os
escravos, podiam trabalhar nas tabernas/oficinas
durante o dia e voltar à noite para dormir na casa de seu
senhor, geralmente em um pequeno aposento ao lado
da cozinha da casa.
O tamanho das tabernas nem sempre é
proporcional às economias de seus donos: uma loja
grande não necessariamente continha mais artesanatos
ou maior luxo do que uma pequena loja. A disputa por
fregueses era acirrada nas grandes cidades romanas: é
comum encontrar-se em um mesmo quarteirão
tabernae que ofereçam os mesmos produtos, e, como
dito, tamanho não era sinônimo de maior ou menor
qualidade de artigos oferecidos. Deiss descreve um
interior comum das tabernas: “A típica loja de vinho,
ou de refeição rápida [thermopolium], possuía um
arranjo padrão. Em quase todas as lojas, o balcão era
revestido com fragmentos de mármore. As ânforas
190
Entretanto, com o passar do tempo, muitos cenacula
adquiriram maior metragem e serviram ao gosto também das
classes mais altas da sociedade romana, embora nem sempre por
vontade própria, como foi o caso da família do imperador
Vitélio, que num momento de dificuldade financeira, teve de
alugar a própria casa e mudar-se para um cenaculum:
Sabe-se perfeitamente que [Vitélio] não tinha dinheiro
para iniciar a viagem [à Germânia]. Estava tão sem recursos que
deixou sua mulher e seus filhos em um ático alugado. (Suetônio,
Vitélio, 7).
191
Herculaneum. Italy’s buried treasure, p. 114.
41
permaneciam com vinho sempre fresco devido à pedra
fria, na qual os jarros ficavam antes de serem servidos.
O balcão dispunha de uma variedade de deliciosos
alimentos: queijos, nozes, amêndoas, tâmaras, figos,
uvas-passas, bolos, e guloseimas similares. Bebidas
quentes também eram servidas, os romanos eram
apaixonados por vinhos bem aquecidos ou temperados
de diversas maneiras, adoçados com mel” 192 (Figuras
32 e 33). A plebe urbana geralmente possuía uma vida
bem mais agitada, não podendo desfrutar do otium
(“ócio”) aristocrático, por isso, a maioria das refeições
do romano era feita nas ruas193, nas tabernae, onde
compravam seu pão ou mingau, tomavam seu vinho e,
quando tivessem um pouco mais de recurso, podiam
degustar algum assado preparado com mel (para realçar
o sabor) (Figura 34). Outro ponto interessante a que
Joseph Deiss chama a atenção é: “Não sem freqüência,
lindos objetos são encontrados nas moradias dos
pobres. Nem é surpresa: os artesãos eram os criadores
dos lindos objetos encontrados [também] nas casas dos
ricos”194.
Discorramos, então, sobre o artesanato
produzido por essa plebs urbana romana.
192
Ibidem, p. 119.
Uma analogia com o fast-food que conhecemos hoje não seria
um erro tão crasso.
194
Op. Cit., p. 126.
193
42
Parte IV
A) O artesão
“Durante o dia havia intensa animação,
atropelos caóticos, um barulho infernal. As tabernae se
enchem assim que abrem as portas, além das quais
expõem as mercadorias. Os barbeiros atendem aos
fregueses no meio da rua. Os bufarinheiros do
Trastevere trocam mechas de enxofre por contas de
vidro. Os donos de botequim, roucos de tanto chamar
uma freguesia que se faz de surda, exibem salsichas
fumegantes em caçarolas. Mestres-escolas e seus
alunos esgoelam-se ao ar livre. De um lado, um
cambista tilinta numa mesa suja moedas com a efígie
de Nero; de outro, um bate-folha golpeia o ouro com o
martelo brilhante sobre a pedra gasta; na esquina, um
grupo de curiosos se maravilha com um encantador de
serpente; por toda parte retinem as marteladas dos
caldeireiros e as vozes dos mendigos que em nome de
Belona ou como lembrança de seus infortúnios se
esforçam por enternecer os transeuntes. Estes escoam
num fluxo ininterrupto que os obstáculos a sua frente
não impedem de tornar-se torrencial. Em ruelas
indignas de uma aldeia, há todo um mundo, à sombra
ou ao sol, que vai, vem, grita, se acotovela e se
empurra.”
O excerto poético acima, de Jérôme
Carcopino195, é rico em dar dinamismo à vida das ruas
romanas. Pela quantidade de vestígios materiais
encontrados, pelo estudo da geografia urbana, pelos
documentos textuais sobreviventes, vê-se que as
cidades romanas, e principalmente a Capital, era um
vai-e-vem infindável de gentes, mercadorias,
transportes, enfim, tudo o que fosse necessário para a
sobrevivência de um grande aglomerado de pessoas.
Uma das categorias da plebe urbana que mais deixou
evidências sobre seu cotidiano é a dos artesãos.
De início, devemos chamar a atenção para o
menosprezo que os artesãos sofriam por parte da elite
da sociedade. Segundo Ivana Lopes Teixeira: “De
forma geral, o artesão era desprezado pela elite letrada
romana, como antes pela grega. Para Cícero, o artesão
não era digno da condição de homem livre e Sêneca
considerava a atividade artesanal vil e vulgar” 196. A
citação de Cícero (Dos Deveres) mencionada:
[42] A respeito das profissões e das vantagens que
trazem, eis, em geral, as que passam por liberais e as que se
consideram servis. A primeira questão a abordar é das
profissões que geram o ódio público, tais como a dos
usurários e coletores de impostos. Deve-se ter como
execrável o lucro dos mercenários e os que compram a
inteligência, porque os que vendem a si mesmos colocam-se
entre escravos. A mesma coisa se poderá dizer dos
comerciantes, que, para vender por preço mais alto, ganham
por força da calúnia, pois nada mais infame que a calúnia.
Todas as profissões de operários são baixas e servis, como a
dos peixeiros, cozinheiros, lenhadores, verdureiros,
195
Roma no apogeu do Império, p. 68.
O discurso narrativo nos baixos-relevos imperiais romanos: a
coluna de Trajano, 2001, p. 50.
196
pescadores, disse Terêncio; pode-se ainda acrescentar os
perfumistas e os dançarinos.
Quanto às profissões que demandam maior
saber, são de grande utilidade, como a medicina e a
arquitetura, e podem ser desempenhadas sem desonra. O
comércio, se é feito a varejo, é desprezível; se é feito por
atacado, traz fartura; se é vantajoso a todos e isento de fraude,
nada dele se pode dizer. Se o comerciante, quando enriquece,
ou quando se satisfaz com o que ganha, se retira do porto
para o campo, como muitas vezes se retira do mar para o
porto, trazendo sua fortuna, parece-me que tem direito a
louvores.
Mas, de todos os meios de se enriquecer, não há
nada melhor, mais útil, mais agradável nem mais digno de
um homem honesto que a agricultura. Disso já tratei
largamente quando escrevi sobre o velho Catão, e ali se
encontra tudo o que se deseja saber sobre o tema.
Para o Orador, a utilidade da profissão está
diretamente ligada ao desenvolvimento intelectual – na
opinião de Cícero – que ela exerce. O médico e o
arquiteto são valorizados, mesmo trabalhando para
outras pessoas, porque deles é exigida uma carga de
conhecimento maior por parte da pessoa; isso,
obviamente,
na
visão
aristocrática
romana.
Dificilmente um médico seria um bom lenhador e viceversa. A opinião de Cícero, como a da maioria dos
textos antigos romanos (e não surpreendentemente),
não é relativista. O comércio só seria louvável quando
ligado ao mar ou ao campo (em maior grau) 197. É
importante frisar que receberia reconhecimento de sua
“louvável profissão” o dono do comércio: os
trabalhadores, aqueles que realmente exerciam toda a
transformação da matéria em produto, esses
continuavam a ser vistos como trabalhadores “servis”,
com pouca capacidade cognitiva.
Embora mencionados negativamente nos
textos romanos antigos, os artesãos – e a plebe urbana,
em geral – não eram “quietos”. Além dos documentos
escritos pela elite, outras duas fontes nos auxiliam no
estudo da vida do artesão: as inscrições feitas por eles e
os vestígios de seus produtos produzidos.
Pedro Paulo Funari, em seu livro Cultura
popular na Antiguidade Clássica, analisa as inscrições
parietais da cidade de Pompéia. Diz ele: “O grafite,
enquanto
manifestação
artística,
exprime-se,
simultaneamente, em três níveis: pelo sentido das
palavras (nível verbal), pelos seus sons (nível fônico ou
sonoro) e pelo de seu desenho na parede (nível visual
ou icônico). No que se refere ao sentido das palavras,
197
“T.P. Wiseman demosntrou que Caio Vibieno e Tito Rufreno,
proprietários de oficinas de cerâmica sigilata em Arezzo,
pertencem a família de senadores. Mas acerca disso somos
informados sobretudo pela indústria de tijolos e telhas: uma
curiosa ficção faz com que os romanos associem esta atividade, a
opus doliare, à agricultura, talvez por estar ligada à argila e,
portanto, à terra. Por isso, os aristocratas não têm dificuldade em
admitir o seu envolvimento nessa atividade e imprimem as suas
marcas nos produtos fabricados. (...) Personalidades como Cícero
ou Asínio Polião produzem tijolos com o seu nome gravado. A
própria família imperial não esconde que se dedica a essa
atividade; assim aconteceu com todos os imperadores desde
Trajano a Caracala e assim accontece, antes deles, com Lívia,
Popéia, Agripa e seu filho, Agripa Póstumo: em Pompéia, foram
encontrados tijolos com o seu nome gravado, quando tinha um
ou dois anos de idade (Pupillus Agrippa)”. Jean-Paul Morel, “O
artesão”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, pp. 1878.
43
caberia distinguir as alterações da forma das palavras
(morfologia) do encadeamento das palavras na frase
(sintaxe). Em termos morfológicos, as palavras
possuem sentidos, origens e flexões. Os sentidos das
palavras são essenciais para que os homens ordenem e
compreendam tanto a natureza quanto a própria
sociedade em que vivem”198. As letras latinas
maiúsculas, como as que se encontram espalhadas por
este trabalho, eram utilizadas apenas em inscrições
oficiais, sendo esculpidas na rocha ou batidas em
metal; já a plebe escrevia com caracteres cursivos,
utilizando, para tanto, estilete (graphium – ponta com
que se escrevia em superfícies duras, fazendo sulco) ou
pincel (penicillus). As inscrições pintadas (tituli picti)
eram, geralmente, feitas por grafiteiros (scriptores ou
pictores) que recebiam por seu trabalho, ornando,
assim, muitas das paredes das tabernae escavadas.
Contudo, pessoas não “profissionais” também
escreviam com seus estiletes ou pincéis, e escreviam
muito: “Para termos uma idéia do ritmo de grafitagem,
basta dizer que as inscrições eram constantemente
apagadas pelos dealbatores (literalmente: „que tornam
a parede branca‟, cf. CIL IV, 3528) que liberavam os
muros... para novas inscrições! As intervenções nas
paredes ou parietais, além de numerosíssimas,
provinham de todos os grupos populares da cidade, de
camponeses a artesãos, de gladiadores a lavradores”199.
Entre as categorias sociais atestadas em grafites está a
dos artesãos: argenteiros, artesãos de coroas, artesãos
de couro, artesãos de esteiras, artesãos fabricantes de
armas, artesãos de marfim, artesãos de mármore,
caldeireiros, carpinteiros, cortadores de pele animal,
curtidores de couro, ensacadores, escultores, fiandeiras,
lapidadores, lavadores, moedores de azeitonas,
mosaístas, oleiros, tecelãs, tecelões, tecedores de lã,
tintureiros, torneiros, trabalhadores das vinícolas,
sapateiros200. As inscrições parietais revelavam todos
os setores possíveis da vida de um romano, citaremos
aqui, a rivalidade de dois homens pelo amor da mesma
mulher:
Severo: o tecelão Sucesso ama a escrava taberneira
chamada Híris, a qual não quer saber dele, mas ele pede que
ela tenha dó dele. Responde, rival! Saudações.
Sucesso: intervéns porque és um invejoso! Não
queiras bancar o engraçadinho, seu mau-caráter galanteador!
Severo: disse e escrevi (a verdade): tu amas Híris,
que não quer saber de ti. De Severo para Sucesso: o que
201
escrevi é exatamente o que se passa. Assinado: Severo.
Embora não seja possível identificar se algum
dos homens é escravo ou não, é interessante notar que a
adjetivação de Híris por “escrava” pode nos dizer que a
taberneira era qualificada inferiormente – Severo
ridiculariza seu rival Sucesso justamente por amar uma
escrava – ou pelo fato de sua condição social pouco
contar no cotidiano popular (ao menos, quando o
assunto é afetivo).
Dentre os artesãos, existiam aqueles que
sabiam exercer seu ofício inteiramente, ou seja, que
sabiam, por exemplo, todas as etapas de fabricação de
um sapato e que eram perfeitamente capazes de
executar uma peça inteira para depois vendê-la, e os
artesãos que acabavam se ocupando em fazer apenas
uma etapa do trabalho total, oferecendo para nós, a
visão de uma divisão do trabalho na Antiguidade
Clássica: quanto mais o produto se destinava ao
consumo das massas, maior era o número de
empregados nas oficinas e, conseqüentemente, maior a
fragmentação da produção (as officinae de cerâmica e
metalurgia são as mais expressivas nessa questão).
Porém, deve-se mencionar que, em uma sociedade na
qual o trabalho do artesão ou do artista é equilibrado na
balança do menosprezo por parte da elite, os produtos
carregam o estigma de sempre serem “crias” de quem
pagou pela sua execução, e não de seu executor.
Sobre a questão do aprendizado do ofício do
artesão, Jean-Paul Morel afirma que “a mão-de-obra
especializada também escasseava em ofícios bastante
simples. Normalmente, a aprendizagem de um artesão
fazia-se lentamente, sob a direção de um mestre.
Porém, na época das grandes conquistas de finais da
República, quando começaram a afluir a Roma
enormes multidões de escravos sem qualquer
qualificação, ou utilizados em tarefas diferentes
daquelas em que eram peritos, enquanto as oficinas
médias e grandes se multiplicavam e o contato entre
mestres e aprendizes diminuía ou acabava por
desaparecer, era inevitável que surgisse o problema da
formação da mão-de-obra”202. As soluções encontradas
foram: grupos de artesãos itinerantes, que levavam suas
habilidades para as cidades do Império; as grandes
famílias de senadores ou eqüestres possuíam tabernas
em suas domus e contratavam artesãos para ali
trabalharem e ensinarem o ofício a quem mais fosse
necessário para o interesse familiar (geralmente,
escravos); a divisão do trabalho, quando elevada ao
máximo, requeria cada vez menos pessoas com grau de
qualificação própria para exercer determinada
atividade, assim, existiam artesãos que sabiam como
produzir pormenorizadamente cada mercadoria sendo
empregados como técnicos nas oficinas, orientando os
demais trabalhadores.
Ao falarmos acerca de os aspectos
econômicos e da vida econômica do artesão cabe
ressaltar, primeiramente, sua distribuição geográfica.
Era nos centros urbanos que os artesãos trabalhavam
para suprir a demanda local da cidade, e, também, era
nesses centros que se encontravam as principais
produções industriais da Roma Antiga: metalurgia,
têxteis, cerâmica, vidro, madeira ou corantes. Como foi
dito, as grandes propriedades possuíam seus próprios
artesãos, encarregados da fabricação e do conserto dos
equipamentos, do vestuário pessoal e da construção e
manutenção dos edifícios, ou seja, o “artesão romano é
fundamentalmente um homem da cidade”203.
A vida econômica do artesão deve ser
examinada sob três aspectos, segundo Jean-Paul Morel,
198
Página 35.
Ibidem, p. 28.
200
Ibidem, p. 29.
201
CIL IV 8258-9 apud Pedro Paulo Funari, Cultura popular na
Antiguidade Clássica, p. 19.
199
202
“O artesão”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, p.
189.
203
Ibidem, p. 193.
44
a saber: A) o que a indústria pode render a uma
comunidade e a uma cidade; B) o que os donos das
indústrias arrecadam; C) quanto ganham os artesãos.
O impacto econômico da indústria nas cidades
antigas é muito discutido. O caso romano convive com
cidades que devem sua prosperidade tanto à agricultura
como ao artesanato. O grande atrativo econômico na
Antiguidade era a agricultura e seus derivados, não a
indústria. Mas algumas cidades são reconhecidamente
pólos de artesanatos, como Cápua, Pozzuoli, Pompéia,
Aquileia, Lyon, Colônia e – na visão de Jean-Paul
Morel – Roma também.
O artesanato podia gerar enormes lucros aos
donos de oficinas. Há casos de plebeus que, devido à
fortuna advinda de suas indústrias, conseguiram
ascender à ordem eqüestre e, até mesmo, à ordem
senatorial. Por outro lado, como já dissemos, os
magistrados também se envolviam com as oficinas de
produção de tijolos, o que demonstra o quão rentável
poderia ser um grande dono de indústrias nas cidades
romanas. Com o aumento do número de escravos a
partir do século II a.C., as oficinas se multiplicaram
pela Península Itálica, e cresceu também a divisão de
trabalho, causando os problemas acima mencionados.
Tratando-se ainda de problemas, o transporte terrestre
era uma das causas do limite de comércio do artesão:
os artesanatos, quando enviados a cidades muito
distantes, encareciam demais, por isso, seus
movimentos eram de poucas dezenas de quilômetros
pelas regiões; complementa Morel: “Para quem quer
exportar, aumentar o número de operários no local de
trabalho não resolve o grave problema dos transportes.
É mais fácil deslocar os homens do que transportar os
produtos, e a verdadeira solução consiste na
mobilidade da mão-de-obra. A criação de filiais mais
próximas dos clientes potenciais do que a matriz talvez
seja um fenômeno mais importante do que se continua
a pensar”204.
O lucro dos artesãos deve sempre ser
relacionado com o quanto despendiam para sobreviver
na cidade. O preço das matérias-primas utilizadas para
o artesanato não era dos mais baixos e, somado ao
trabalho final do artesão, o valor obtido como lucro é
muito modesto, principalmente quando o preço dos
bens essenciais, como alimentação, vestuário e
moradia, era alto se comparado ao valor de venda do
artesanato. Esse caráter “pobre” do artesão certamente
não o favorecia quando visto pela elite, e o
(relativamente) baixo número de inscrições em lápides
atesta a precariedade econômica da maioria dos
artesãos, sendo que muitos sequer possuíam condições
de pagar a um escultor ou a um lapidador a inscrição de
seu nome.
A figura do artesão era ainda mais complicada
porquanto é vista como um elemento perturbador. Sua
atividade o leva a juntar-se à aglomeração que impera
nos centros das cidades, pois o seu intento, obviamente,
é o de ter o maior número de compradores possíveis.
Atuantes também no cenário político romano, esses
artesãos eram motivo de receio e, por isso, cada vez
mais as autoridades romanas se esforçaram em afastálos para a periferia: foram criados macella
(“mercados”) distantes do Forum, local onde as
tabernae eram reunidas para comercializar 205. Nas
palavras do autor citado: “Portanto, de um lado, um
pequeno artesanato e um pequeno comércio
onipresentes, infinitamente fragmentados, sempre
prontos a aumentar, e muitas vezes com prejuízo do
terreno público, um espaço vital que lhes é concedido
com extrema parcimônia. Do outro lado, a tendência do
Estado, ou das municipalidades (já que esse fenômeno
é igualmente detectável em outros locais), para
canalizar, para regulamentar esse dinamismo ou essa
indisciplina, e para atribuir zonas bem delimitadas às
atividades ligadas ao artesanato”206.
Entretanto, as maiores evidências da vida do
artesão estão materializadas na forma de seus
artesanatos. Produtos que chegaram até nós graças à
Arqueologia.
B) O artesanato
Se me pagarão, ó Ceramistas, por minha canção,
Então que venhas, Atena, e sobre o forno ponhas
Tua mão!
Que os cálices e os jarros fiquem bem enegrecidos,
Que sejam bem queimados, e alcancem os preços
207
pedidos...
O Hino dos Ceramistas, composto em Atenas
em algum ponto entre 525 e 350 a.C., mostra-nos um
pouco sobre o cotidiano do artesão que trabalhava com
a cerâmica.
O artesanato dependia de uma boa matériaprima. Cabia ao artesão o domínio correto da queima
das peças, sua habilidade ao lidar com o forno era
essencial. Uma vez o produto acabado, restava torcer
para que os fregueses entrassem logo em sua loja e
comprassem aquela ânfora e aqueles cálices que logo
mais, ao fim da tarde, serviriam para satisfazer os
convivas com vinho durante a refeição, ou que
comprassem então alguns poucos pratos ou, quiçá,
tigelas para que a família não ficasse desamparada
durante a ceia (e que o comprador lembrasse de sua
lamparina quebrada na noite anterior, pelo filho
brincalhão, e resolvesse também levar uma), melhor
ainda seria se, a pedido de um rico, seu escravo fosse
buscar aquele vaso ornamentado, dos mais caros.
O artesanato em Roma foi abundante. Uma
vez tendo em mente o conceito de cultura material
205
A reunião de artesãos com o mesmo tipo de produção deu
origem aos collegia (“colégios”), grupos que tinham a mesma
divindade cultuada e eram possuidores de grande influência na
política romana ao tomarem partido de um ou outro magistrado.
206
Jean-Paul Morel, “O artesão”, in: Andrea Giardina (dir.), O
homem romano, p. 199.
207
Tradução livre do inglês feita pelo autor deste trabalho.
Alison Burford, Craftsmen in Greek and Roman society, p. 122.
If you will pay me for my song, O potters,
Then come, Athena, and hold your hand above the
kiln!
204
“O artesão”, in: Andrea Giardina (dir.), O homem romano, p.
194.
May the cups and cans all turn a goodly black,
May they be well fired, and fetch the price asked…
45
como a concretização da vontade humana, os
artesanatos antigos adquirem proporções gigantescas,
já que praticamente quase tudo o que é “palpável” foi
construído pelas mãos de alguém.
Iremos nos deter, por hora, na categoria do
artesão ceramista, por entendermos que a cerâmica é o
elemento mais abundante nos sítios arqueológicos,
servindo, muitas vezes, como parâmetro para datação
do local escavado.
▪ Origens, mãos e tornos
Segundo Joseph Veach Noble em seu capítulo
“Pottery manufacture” na obra The muses at work: “A
origem das técnicas de modelar a argila [na
Antiguidade] parece ter ocorrido cerca de sete mil anos
atrás, no início do período da cerâmica Neolítica, com
a modelagem – feita a mão – de uma vasilha a partir de
um punhado de argila. Essa argila foi empurrada,
beliscada, e modelada até se obter a forma desejada.
Exemplos dessa técnica mais antiga de modelagem têm
sido encontrados em vários sítios da Ásia Menor”208.
Nos tempos mais antigos da fabricação de
cerâmicas, provavelmente era a família quem produzia
e utilizava os próprios artesanatos. Nesse processo, as
mulheres talvez fossem as que ficavam encarregadas
do fabrico da cerâmica. Contudo, com o surgimento do
torno, houve também a especialização da fabricação,
fazendo com que a produção se tornasse algo rentável e
coubesse, agora, ao profissional ceramista, que se
tornou, doravante, exclusivamente homem, devido ao
fato de o serviço nas máquinas mais pesadas não ser
considerado trabalho para mulheres. (Mas devemos
recordar que em Roma, principalmente a partir do
século II a.C., haverá mulheres trabalhando nas mais
variadas áreas de artesanato, incluindo a cerâmica).
O aparecimento do torno deu-se no fim do
quarto milênio a.C., aparentemente na Ásia Menor
também. A técnica foi sendo exportada lentamente por
todo o Mediterrâneo e temos, em 2500 a.C., o mais
antigo exemplar de cerâmica produzida por torno na
cidade de Tróia209.
Em Roma, o torno era conhecido por rota
figuralis (“forma de roda”) ou orbis (“círculo; disco”),
como aparece mencionado em Plínio, História Natural,
VII, 198. Há pouquíssimas menções textuais aos tornos
no mundo romano, e praticamente inexistem
ilustrações sobre esse objeto. Porém, devido à
proximidade com a cultura grega, podemos fazer uma
analogia com as pinturas dos vasos encontrados na
Grécia, muitos dos quais trazem informações sobre o
trabalho do artesão no torno, como reparamos na
Figura 35.
A Arqueologia já desenterrou peças que
formavam o torno, sendo esses exemplos de objetos
não-orgânicos; as matérias empregadas na fabricação
do torno poderiam ser: a própria madeira (não nos
deixando vestígios algum), ou círculos feitos de argila.
Das evidências, notamos que os tornos eram largos e
planos e giravam por impulsos que eram dados pelo
208
Página 120.
Joseph V. Noble, “Pottery manufacture”, in: Carl Roebuck
(ed.), The muses at work, p. 121.
209
próprio artesão, ou então por algum aprendiz. Com o
passar do tempo, os tornos sofreram um incremento: a
base circular do torno recebeu um eixo de madeira que
sustentava um circulo menor, assim, o artesão ganhava
mais liberdade de trabalho, uma vez que impulsionava
a base com os pés, não precisando mais de aprendizes
para realizar essa tarefa; a produção também tendia a
aumentar devido ao menor esforço físico feito pelo
artesão e porque possuía agora meios de ocupar as
mãos apenas com a modelagem da argila (Figura 36).
Com as mãos centradas unicamente na argila, a
cerâmica passou a ter mais fineza e acabamento, como
é muito comum achar em fragmentos do século I a.C.
O arqueólogo David Brown chama a atenção:
“Um detalhe sobre os tornos vem dos potes fabricados;
as marcas deixadas pelos dedos que corriam sobre a
superfície da argila quando girada, e os sulcos que
podiam aparecer dentro do pote quando o artesão
modelava a sua boca mostram que era normal o torno
ser girado em direção anti-horária, como os tornos de
hoje”210(Figura 37).
▪ Argila
A argila era uma matéria-prima extremamente
abundante no mundo romano, e possuía algumas
características que faziam com que o artesão optasse
por essa ou por aquela determinada argila. Seu material
é formado por contínuas intempéries e erosões da
superfície da terra.
Na crosta terrestre, o feldspato é o mineral
mais encontrado; pertencente ao grupo dos silicatos de
sódio, potássio e cálcio – para citar os comuns –, o
feldspato é subdividido em dois grupos: os alcalinos211
e os plagioclásios212. Durante a erosão há uma
desintegração do mineral feldspato; se a sua
composição alcalina é dissolvida e levada com a água,
a alumina e a sílica restantes, quando em contato com a
água, sofrem o processo de hidrólise e tornam a argila
pura, ou seja, livre de materiais orgânicos ou de outros
minerais. Uma argila que em seu movimento de erosão
entra em contato com outros minerais agregará suas
qualidades, assim, quando há mineral de ferro em sua
composição, por exemplo, essa argila terá uma
coloração avermelhada.
Citando David Brown: “Os ceramistas
romanos deviam saber que a argila é mais facilmente
trabalhada se deixada ao ar livre por um tempo, e
também que ela devia ser sovada para que as bolhas de
ar saíssem e, assim, tomasse melhor consistência” 213.
Se a argila contivesse muitas impurezas, como areia ou
pedras, ela passava por um processo de limpeza que
consistia em: A) misturar água até a sua dissolução; B)
deixar a mistura em repouso para que as impurezas
mais pesadas fiquem no fundo do recipiente, enquanto
os restos orgânicos flutuam na superfície da água; C)
210
“Pottery”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 76.
211
Na Química, a base; na Geologia, rocha ígnea que contém
maior quantidade de sódio e potássio que alumina.
212
Aluminossilicato natural de sódio e cálcio.
213
“Pottery”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 76.
46
retirar as impurezas da superfície e colher a argila
limpa, preparando-a para ser drenada e trabalhada
(Figura 38).
▪ Verniz
O brilho que encontramos na cerâmica romana
também tinha um preparo especial. O verniz, ou
engobo, consiste em uma suspensão de finas partículas
derivadas da argila. Quando a argila diluída em água é
posta em descanso, a fração de argila repousa no fundo
do recipiente, sendo coberta pela água limpa. Se um
agente dispersor é adicionado à argila diluída, uma
proporção de pequenas partículas de argila restarão
suspensas. É essa suspensão que forma a base para o
verniz.
Sobre os métodos de obtenção dessa
suspensão, David Brown cita o trabalho desempenhado
por Adam Winter, um ceramista que experimentou
diversos meios de produzi-la: “Água da chuva pode
ativar a argila: lamaçais escorrendo pelos poços de
argila foram coletados e deixados para assentar, e uma
proporção de excelentes partículas restaram na
suspensão. Alternativamente, uma suspensão pode ser
preparada misturando argila com a potassa [nome
comum de diversos derivados potássicos] derivada da
água despejada sobre cinzas de madeira, ou misturando
argila com soda [uma espécie de angiosperma]. Winter
também descobriu que uma adequada suspensão pode
ser extraída de algumas areias com concentração de
ferro. Todos esses métodos, excetuando-se talvez o que
envolve a soda, parecem ter sido bem utilizados pelos
ceramistas romanos”214. No entanto, nem toda
suspensão extraída de uma argila necessariamente
rende um bom verniz: a suspensão tem de permanecer
bem brilhante após sua drenagem e aplicação na peça
fabricada, com isso, não perderá o brilho depois do
cozimento da argila. A propriedade lustrosa do verniz
normalmente deve-se à presença de illita215 na argila e,
conseqüentemente, na suspensão adquirida desta.
Uma vez a suspensão preparada, ela deve ser
evaporada até ganhar uma consistência pastosa, aí sim
está pronta para o uso. Os romanos, ao contrário dos
gregos, não utilizavam pincéis para aplicar o verniz. As
peças eram banhadas com o verniz ou então
mergulhadas nele, segurados pelas bordas. O uso do
verniz despejado sobre a peça (ou mergulhada nele)
deixava as marcas dos dedos do artesão no produto
(Figura 39).
▪ Fornos e queima
Vestígios de fornos usados para cerâmica são
achados em todas as partes do Império romano.
H. B. Waters na obra History of Ancient
Pottery descreve-nos as principais características dos
214
“Pottery”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 83.
215
Designação geral para os minerais argilosos do grupo das
micas, de cor cinza, verde-claro ou marrom-amarelado.
fornos216: “Os fornos eram construídos parcialmente
com tijolos não queimados, parcialmente com tijolos
queimados, o interior, o piso, e o lado externo do teto
eram cobertos com algum tipo de cimento bem
resistente. Eles eram divididos em duas importantes
porções: a câmara de queima217 com seus adjuntos, e a
abobadada câmara acima218 (Figura 40), na qual os
objetos eram postos para o cozimento. A câmara de
queima era geralmente circular, com uma projeção em
sua frente, o praefurnium [“boca do forno”], que
possuía uma forma abobadada (...) ou uma cumeeira
formada por pares de telhas (...). Através dessa boca do
forno, o combustível era introduzido, sendo usualmente
o pinho. A câmara de queima era separada da câmara
abobadada (forno) por meio de um teto interno.
Aberturas eram feitas nesse teto para que o calor fosse
dissipado para a parte superior (...). O forno onde as
peças eram postas para cozer está destruído na maioria
dos casos encontrados, mas nós sabemos que consistia
em um piso, uma parede com uma entrada, e uma
abóbada. As peças eram arranjadas parte no piso, parte
em pilares internos (...)”.
As peças, de acordo com as evidências, eram
postas para a queima de cabeça para baixo, umas sobre
as outras. A razão para isso não é muito aparente,
parece pertencer a certa tradição das oficinas.
David Brown explica sobre a queima das
peças com verniz vermelho (uma das mais famosas do
mundo romano): a queima dava-se dentro do forno sem
restrições de entrada de oxigênio, assim, a peça
permanecia com sua coloração original; a temperatura
do forno, baseando-se nas peças encontradas na Gália,
deveria ficar em torno de 1050 a 1200ºC. “Essa
descrição (...) da queima da cerâmica com verniz
vermelho é baseada principalmente na evidência das
oficinas da cidade de Arretium [atual Arezzo] e da
Gália. Dos pontos de vista técnico e artístico, essas
oficinas eram as líderes na indústria, e outras oficinas
foram derivadas dessa tradição. Inevitavelmente,
existem diferenças entre os produtos das diversas
oficinas, e até uma mesma oficina apresentava
variações internas: a resistência da cerâmica e a
quantidade de brilho do verniz, bem como sua
coloração, variaram de tempos em tempos. Deste ponto
de vista técnico, algumas das melhores peças foram
produzidas nos tempos neronianos e flavianos nas
oficinas do sul da Gália”219.
▪ Lamparinas
Se as moradias romanas já eram parcamente
iluminadas durante o dia devido à escassez de janelas, à
noite a situação piorava. A cidade mergulhava em um
breu: excetuando-se os raros casos em que algum
imperador resolvia trazer luz às ruas queimando
216
Vol. 2, p. 446.
As câmaras de queima eram construídas no solo, com clara
intenção de prevenir perdas de calor e dar suporte às laterais da
estrutura.
218
Também há vestígios de fornos que não possuíam abóbadas,
sendo cobertos com algum outro material apenas na hora da
queima.
219
“Pottery”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 86.
217
47
pessoas, as vias estavam entregues à escuridão; aqui e
acolá, transeuntes mais corajosos andavam com seus
archotes para resolver assuntos, ou mercadores
iluminavam as passagens de suas carroças, enquanto
poucos lugares de lazer permaneciam abertos,
oferecendo serviços dos mais diversos.
A necessidade de iluminação artificial por
parte dos romanos era imensa, e vital: dentro dos
cômodos para garantir o mínimo de visibilidade, e
dentro dos templos, para agradar aos mortos (e aos
vivos que lá iam ofertar)220. Três são os objetos
utilizados pelos romanos para suprir essa necessidade:
archotes, velas e lamparinas. Os archotes eram feitos
com materiais inflamáveis e usados geralmente nas
ruas ou em ocasiões religiosas: lugares onde a fumaça
não fosse problema. As velas eram feitas com sebo ou
cera de abelha, e muito utilizadas nas partes do Império
onde o cultivo da oliva era escasso. Já as lamparinas
eram comuns em locais onde a produção do óleo de
oliva não era problema ou era importado, como no caso
da cidade de Roma.
As lamparinas (lucernae) eram, em sua
maioria, feitas de terracota e os mais antigos
exemplares encontrados na Itália datam do século III
a.C., e, como frisa a arqueóloga Maria Isabel Fleming:
“As lamparinas são achados tão constantes em quase
todas as escavações de sítios arqueológicos, a ponto de
servirem como marcos cronológicos para os níveis
estratigráficos”221.
Segundo H. B. Waters, as partes de uma
lamparina romana são: A) o reservatório ou corpo
(infundibulum – “local para se derramar”), que contém
o óleo; B) o achatado topo circular, conhecido como
discus (“disco”), algumas vezes possuidor de uma
borda ornamentada; C) o bocal (rostrum – “bico”), com
uma abertura para a entrada do pavio (geralmente feito
com alguma matéria macia e fibrosa com capacidade
de absorver o combustível e ser facilmente inflamada;
usualmente feito de uerbascum, “verbasco” ou linho );
D) a alça (ansa), por onde a lamparina era segurada.
De acordo com as lamparinas encontradas nos
sítios arqueológicos, e para o período que nos interessa
neste trabalho, podemos estabelecer sua tipologia: A)
lamparinas com bocais arredondados, flanqueados de
cada lado por volutas; B) lamparinas com bocais
terminados em ângulos obtusos e com volutas
flanqueando; C) lamparinas com bocais sulcados; D)
lamparinas com bocais semicirculares e pequenos.
Esses tipos de lamparinas variam entre os séculos I a.C.
ao II d.C. (Figura 41).
Além da argila, as lamparinas eram feitas de
diversos materiais, tais como bronze, ferro, prata, ouro,
vidro e pedra. As técnicas de fabricação das lamparinas
mencionadas aqui servem para as produzidas a partir da
argila.
Do século II a.C. em diante as lamparinas
foram, em sua maioria, feitas com moldes. Os
220
As lamparinas eram usadas pelos romanos por três principais
motivos: A) para propósitos de iluminação em casas, edifícios
públicos, ou em momentos de confraternização; B) como
oferendas em templos; C) como mobiliário funerário. H. B.
Waters, History of Ancient Pottery, p. 395.
221
Lamparinas na antiguidade clássica: problemas sociais,
econômicos e tecnológicos, p. 130.
exemplares fabricados em torno ou modelados a mão
são muito poucos, como afirma H. B. Waters: “Os mais
antigos exemplos são feitos no torno, como os do
Esquilino e de Cartago, em que a decoração é apenas
inserida; mas decorações em relevo requeriam uma
técnica diferente. Ocasionalmente, elas eram
modeladas a mão, mas encontramos a partir do século I
a.C. em diante uma grande variedade produzida a partir
de moldes”. Para se fabricar uma lamparina, era
necessário que o artesão, primeiramente, construísse
um arquétipo, ou seja, um modelo ou padrão passível
de ser reproduzido em objetos semelhantes. Esse
arquétipo seria o modelo do molde do qual as
lamparinas viriam a ser fabricadas. O arquétipo podia
ser feito de madeira ou, como é mais comum, de argila
mesmo. Esse “molde do molde” era inteiramente
maciço e ganhava contorno quando a argila, antes de
ser queimada, encontrava-se em um estado sólido
próprio para ser escavada com as ferramentas certas.
Nessa etapa de dar formas ao arquétipo, o ceramista
podia, ou não, aplicar na peça os sulcos que formariam
os relevos das lamparinas. As figuras dos relevos eram
esculpidas a mão ou aplicadas prensando-se uma outra
peça de argila cozida – com os desenhos – ao material;
muitos artesãos optavam por deixar marcado seu nome,
ou o nome de para quem trabalhavam, na parte de
baixo do arquétipo (Figura 42). Terminado, o
arquétipo ia para o forno e estava pronto para que um
molde dele fosse tirado.
Os moldes podiam ser de gesso ou de argila.
No caso do molde de argila, o arqueólogo Donald
Bailey, em seu texto “Pottery Lamps”, explica: “(...)
uma camada de argila úmida era pressionada sobre o
arquétipo e nivelada no ponto onde as duas metades da
lamparina fazem junção. Quando a argila adquire
consistência suficiente (...), a concavidade formada
pode ser retirada do arquétipo e o mesmo processo é
feito com a outra metade do molde. Quando removida
do arquétipo, o molde de argila ainda está maleável e
pode receber as decorações feitas por incisões ou por
prensagem de outros moldes já secos (...). Terminado,
o molde de argila deve ser levado ao forno antes de ser
usado”222 (Figura 43).
Finalmente, uma lamparina, agora, já poderia
ser feita. Uma fina camada de argila era aplicada sobre
uma das metades do molde, sendo bem pressionada
para adquirir todos os contornos e relevos existentes,
deixando as extremidades da argila bem ajustadas e
niveladas. O mesmo processo era feito na outra metade
do molde e, então, ambas as partes eram sobrepostas.
Para saber se a lamparina estava perfeitamente ajustada
para a secagem, o artesão fazia, no molde, sulcos de
modo a perceber o seu alinhamento (Figura 44). Essas
marcas encontradas em praticamente todos os moldes
sobreviventes mostram que as duas metades da
lamparina eram unidas junto com os moldes, não
separadamente após a remoção do molde. “Como as
duas metades do molde eram pressionadas juntas, a
maioria do excesso de argila nas bordas entrava na
lamparina, formando uma aresta de argila ao longo da
junção e atuando como um reforço interno”223.
222
Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 98.
Donald Bailey, “Pottery Lamps”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, pp. 98-99.
223
48
A lamparina é removida do molde assim que
está firme o suficiente para ser manuseada sem
deformações. A lamparina de argila é posta, então, para
secar, e também são feitos os orifícios no bocal e no
corpo (para a entrada do óleo) com o auxílio de uma
ferramenta tubular. Quando uma alça era necessária
para a lamparina, mas ainda não havia sido feita no
molde (como os exemplares do início do século I a.C.
na fronteira do Reno ou no sul da Rússia), ela poderia
ser moldada em argila fresca e adicionada ao corpo;
nesse mesmo estágio, o da argila maleável, o artesão
também fazia os reparos necessários, aplicava as
figuras que queria e estampava seu nome na peça caso
ainda não o tivesse feito no arquétipo.
Após a secagem, a lamparina era mergulhada
em uma solução feita de água e argila, ou engobo
(como podemos deduzir das marcas de dedos
encontradas nas peças). Esse líquido era o responsável
por selar a lamparina, deixando-a impermeável ao óleo
que seria introduzido, e também para dar coloração – a
concentração de ferro na composição da argila diluída
determinava a aparência final, após a queima.
Segundo Donald Bailey: “Normalmente as
lamparinas romanas – com ou sem a camada fina de
argila aplicada – eram queimadas apenas uma vez. Os
fornos variavam nas técnicas de construção, materiais,
tamanhos e de acordo com a demanda local e o
tamanho da própria oficina, no entanto, eram
basicamente o mesmo tipo de forno usado para a
cerâmica em geral. As lamparinas eram empilhadas
umas sobre as outras, as bases sobre os topos, como
mostram as marcas encontradas nas peças (Figuras 45
e 46). Não havia necessidade de apoios nas pilhas das
lamparinas (...), pois não esbarravam umas nas outras.
(...) A temperatura de queima provavelmente ficava
entre 800ºC e 1000ºC; indubitavelmente, a larga gama
de temperaturas dentro do forno fazia com que
lamparinas de uma mesma fornada saíssem com
aparências diferentes”224.
amplo número de oficinas produtoras de lamparinas, a
África continuou importando as peças italianas mesmo
na segunda metade do século II d.C.
As oficinas de artesãos fabricantes de
lamparinas cresciam onde houvesse demanda (embora
as lucernae mais sofisticadas ou de formatos menos
padronizados fossem comercializadas, geralmente, em
locais distantes dos centros de manufatura). Também
era muito comum que as lamparinas importadas pelos
próprios artesãos servissem de arquétipos para se fazer
moldes novos, que se espalhavam por uma determinada
região (Figura 47). Esse processo contínuo de
importação, moldagem e venda freqüentemente
resultava em modificações na peça original: quanto
mais distante a lamparina ficava de seu primeiro
arquétipo, mais fácil era de se tornar menor e alterada.
Deve-se lembrar também que era comum algumas
lamparinas em terracota serem imitações de lamparinas
trabalhadas no metal, devido ao baixo preço que
podiam ser oferecidas, mesmo com mais pormenores.
A Itália foi a grande exportadora de
lamparinas para a orla do Mediterrâneo entre os séculos
I a.C. e I d.C.. As peças foram principalmente levadas
ao oeste da Península Itálica e ao norte e oeste da costa
mediterrânica da África; embora possuidora de um
- Torno:
▪ Cerâmicas em geral
A cerâmica é uma das bases da cultura
material romana. Apesar das possibilidades em se
adquirir produtos fabricados com outras matériasprimas, a cerâmica era a mais acessível
economicamente. Praticamente todos os romanos
possuíam objetos de cerâmica e, ao longo de tudo o que
foi discutido até aqui, também podemos questionar se
não havia entre os plebeus mais pobres, aqueles que
somente possuíam cerâmica entre seus utensílios.
Como dito acima, a cerâmica é abundante em
sociedades sedentárias, e são achadas em praticamente
todos os sítios arqueológicos escavados: a Península
Itálica, ao lado da Hélade, certamente foi um dos
maiores pólos manufatureiros de cerâmica na
Antiguidade.
O desenvolvimento da indústria cerâmica
romana como difusora de produtos começou no século
II a.C., com a cidade dominada por Roma denominada
Arretium (Arezzo). A cerâmica aretina é uma das mais
estudadas pelos arqueólogos e traça o período de
apogeu da cidade que a fabricava: esse tipo de
cerâmica é datado entre 150 a.C. até o fim do século I.
d.C. Segundo H. B. Walters, as características da
cerâmica de Arretium são: (A) a fina argila vermelha
local, cuidadosamente trabalhada e queimada em forno
com entrada de oxigênio, ganhando dessa forma uma
rica coloração; (B) brilho vermelho composto por
sílica, óxido de ferro e substâncias alcalinas; (C) a
grande variedade de formas trabalhadas; (D) as
estampas com os nomes dos ceramistas são geralmente
achadas225.
Como mencionado no início deste item B, o
trabalho com a argila era calcado em três técnicas:
modelagem a mão, torno e molde. A primeira técnica é
a mais antiga de todas e a que menos possui vestígios
quando comparada às demais. O torno e o uso de
moldes foram os mais importantes meios de fabricação
de vasos na Roma Antiga.
O processo de se fazer um vaso a partir do
torno começava com a escolha da argila e a sova para a
retirada das bolhas de ar (que trincariam o vaso caso
fosse levado ao forno assim). O tamanho final de um
vaso, por exemplo, dependia do quanto de argila era
empregada. Para que vários vasos iguais fossem feitos,
bastaria separar proporções iguais de argila: a primeira
parte do dia de trabalho do artesão consistia em medir a
altura e o diâmetro de cada pedaço de argila;
provavelmente, o artesão devia voltar a medir as
proporções dos pedaços de argila a cada três ou quatro
objetos trabalhados. A quantidade necessária de argila
era então colocada no centro do torno. Por impulsos
com as mãos ou os pés, o artesão fazia girar a base do
224
“Pottery Lamps”, in: Donald Strong e David Brown (eds.),
Roman crafts, p. 100.
225
History of Ancient Pottery, p. 480.
49
torno em sentido anti-horário. Com a argila úmida, o
artesão modelava um cilindro e a seguir abria, com os
dedos, um orifício central nessa base, da qual,
habilmente, dava as formas pretendidas ao vaso,
alongando horizontal ou verticalmente o quanto fosse
necessário de argila (Figura 48).
David Brown explica: “Após a modelagem, a
superfície exterior era geralmente alisada com o auxílio
de uma esponja úmida ou um pedaço de graveto para
eliminar as marcas dos dedos. O pote era então cortado
do torno com um cordão que deixa uma curvatura
característica na base”226 (Figuras 49 e 50). No caso da
cerâmica aretina, os vestígios mostram que o
alisamento do pote era feito na superfície interna e
externa, com o auxílio de uma ferramenta de
torneamento. Quando estava com consistência
suficiente para manter-se de pé, o pote era então posto
de cabeça pra baixo no torno. Por meio de ferramentas
de incisão – como facas e espátulas de madeiras de
diversas formas e angulações –, o artesão, ao girar o
torno, fazia o encaixe aonde iria a base do vaso, e
acertava a borda do objeto.
Os elementos que iam ligados ao corpo – o pé,
a(s) alça(s) e o pescoço – do vaso eram feitos
separadamente e depois unidos. O pé do vaso
geralmente era feito de maneira similar ao corpo, mas,
obviamente, com uma quantidade bem menor de argila
no torno (Figura 51). As alças eram formadas a partir
de um punhado de argila puxada entre o polegar e o
indicador; com a argila úmida, o artesão dava a forma
que desejava: achatada ou oval, e deixava a alça
endurecer para depois fazer sua junção ao corpo do
objeto. O pescoço da garrafa ou do frasco era feito no
torno, ganhando aspecto cilíndrico, e o orifício por
onde deveria sair o líquido era produzido de maneira
simples, com o dedo do artesão; quando consistente –
após um tempo de secagem – o pescoço era unido ao
corpo por meio de argila úmida e a junção era, então,
alisada externamente (Figura 52).
Com todas as etapas realizadas, o objeto era
queimado no forno.
- Moldes e decorações:
O artesão fabricava, no torno, o molde do vaso
em que iriam ser aplicados os relevos. Com
ferramentas de marcação, o ceramista rascunhava na
argila a disposição dos desenhos. Nesse momento, os
pequenos moldes ornamentais eram prensados contra a
superfície interna do vaso, e outros detalhes feitos a
mão-livre. Devido à pressão, o molde de argila tendia a
deformar-se, por isso, após todas as impressões, o
molde voltava ao torno e, de cabeça para baixo, era
novamente alisado. Uma vez pronto, o molde secava e
estava em condições de sofrer a queima no forno
(Figura 54).
O processo de preencher o molde queimado
com a argila úmida “apresenta um problema. É
possível colocar a argila no centro do molde e esticá-la
pelas paredes do vaso até cobrir toda a superfície
interna, mas, fazendo-se isso, bolhas de ar entrariam
nos sulcos dos desenhos dos relevos e parece não haver
meios de se livrar delas. Esta dificuldade, nos dias de
hoje, seria resolvida com a ajuda de seladores no
molde; no entanto, não parece existir evidência que
sugira o conhecimento desse método por parte dos
artesãos antigos. Fabricantes de lamparinas e de
terracotas parecem ter passado pelo mesmo problema, e
o resolviam simplesmente forçando a matéria-prima
contra o molde com os dedos. Possivelmente, esse
método também foi empregado pelos ceramistas de
potes modelados, com a argila sendo pressionada no
molde pelos dedos do artesão”227.
O molde com a argila dentro era deixado para
secar. Com a perda de água, a argila contraía-se e
diminuía de volume, sendo dessa maneira, passível de
ser retirada do molde. Essa etapa precisava de uma
grande habilidade por parte do artesão: se não soubesse
tirar o vaso do molde com cuidado, partes dos relevos
podiam ficar grudados na superfície e danificar o
aspecto final da peça (como observamos em muitos
fragmentos que apresentam nítidas falhas nos relevos
por problemas de fabricação, Figura 55). Após sair do
molde, o vaso recebia os acabamentos finais, as
adições das peças restantes (como o pé e a alça, por
exemplo), era, então, deixado para secar, envernizado e
levado ao forno.
Os muitos tipos de vasos fabricados pelos
romanos podem ser colocados em dois grupos: os
pintados ou não pintados sem decoração, e os pintados
ou não pintados com decoração.
Ao se tratar de decoração romana, devemos
ter em mente o significado de relevo. Algumas técnicas
de aplicação de relevo serão, agora, brevemente
explicitadas.
A decoração por meio de moldes era feita da
seguinte maneira: o artesão fabricava um punção, um
modelo de argila com o formato que desejava (Figura
53). O punção possuía um desenho ornamental de um
lado, e um apoio para a mão do outro, sendo que, às
vezes, também continham o nome do ceramista. Esse
desenho era modelado diretamente pelas mãos do
artesão na argila ou então esculpido – com o auxílio de
ferramentas – de modo a imitar alguma outra figura já
vista em outro vaso, e logo em seguida queimado.
Além da aplicação de moldes de relevos, um
vaso podia receber outras decorações superficiais. Um
desses casos é a decoração com barbotina. A barbotina
é um termo usado para descrever a decoração feita
sobre a superfície por meio de um “creme” de argila. O
processo é bem parecido com a maneira como
decoramos nossos bolos hoje em dia. A argila era
diluída em água até obter consistência pastosa e
colocada em sacos feitos de couro com uma abertura
fina para a saída do creme, ou era esparramada
diretamente sobre a superfície do vaso através de
alguma ferramenta tubular, provavelmente uma pena.
Ela também podia ser aplicada ou manipulada com os
dedos para dar um aspecto mais rústico à superfície. A
técnica da barbotina podia trazer efeitos maravilhosos
aos objetos quando aplicada por um artesão habilidoso
(Figura 56).
226
227
“Pottery”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 77.
David Brown, “Pottery”, in: Donald Strong e David Brown
(eds.), Roman crafts, p. 80.
50
Outra técnica é conhecida por nós como
appliqué, termo francês que designa a aplicação de
decorações, feitas em moldes separados, diretamente ao
objeto de argila. Essas figuras ficavam na superfície
externa do pote. Alças, máscaras e rosetas decorativas
eram feitas em moldes e aplicadas em vasos aretinos,
por exemplo. As peças eram pressionadas contra o
corpo do pote e fixadas com argila úmida. Durante o
século II d.C., na Gália central, houve a combinação da
técnica de appliqué com a da barbotina (Figura 57).
Também havia a técnica dos rolos e da
estampa rolada. Os rolos eram peças de cerâmica com
desenhos ao longo de todo o seu corpo cilíndrico; o
vaso era colocado no torno e rolo segurado firmemente
pelo artesão, que fazia girar a base do torno, dando,
dessa forma, uma continuidade à rolagem do utensílio
sobre toda a superfície do vaso (Figura 58). Com a
estampa rolada, era o próprio torno quem recebia os
desenhos em sua base; o pote era segurado pelo artesão
sobre o torno enquanto ele girava; esta técnica foi
comum durante todo o tempo da fabricação de
cerâmica romana (Figura 59).
Ainda sobre os relevos estampados, cabe
frisar o que já foi mencionado: os artesãos podiam
estampar seus nomes nos vasos a partir de peças de
argila moldadas ou esculpidas; o mesmo acontecia com
figuras, que eram pressionadas diretamente sobre a
superfície do vaso antes da secagem e da queima
(Figura 60).
pescoço do pote, e as alças eram anexadas. A
modelagem do corpo da ânfora parece ter sido feita por
uma combinação de torneamento com manipulação,
pois ambas, as marcas de rotação e as marcas de dedos,
são visivelmente vistas na superfície interna do
vaso”228 (Figura 62).
Ainda na obra de H. B. Walters229 há citação
de cerca de 50 tipos de potes de cerâmica, entre eles:
cadus – para armazenar vinho; crater – cratera usada
para misturar água ao vinho; urna – para armazenar e
carregar água; situla – balde para carregar água; cupa e
cumera – com formato tubular, para carregar grãos;
sinus – armazenar água e leite; nasiterna – pote de
água; ampulla – usada para levar o vinho ou a água à
mesa de refeição; cyathus – para despejar vinho nos
copos; poculum – taça, copo; calix – cálice, um dos
objetos mais usados comumente; lanx e patina – pratos
ou travessas para levar comida à mesa; olla – urna
funerária; peluis – bacia para se lavar; cacabus –
caldeirão.
- Formas de vasos:
O principal uso dos vasos de cerâmica era
para o transporte e o armazenamento de vinho, óleo,
frutas, mel, grãos, cereais, entre outros, além do uso em
ritos religiosos (embora os vasos de metal fossem mais
utilizados). As formas mais usualmente empregadas
eram, segundo H. B. Waters, dolium e amphora.
O formato dolium (“tonel”) era muito usado
para a armazenagem, seja de líquidos, como o mel e o
óleo, seja de sólidos, como o milho e as frutas (Figura
61). Os dolia eram os maiores vasos romanos; seu
tamanho poderia conter um homem. Costumavam ser
enterrados no solo dos celeiros, como os vestígios
encontrados na Itália, França e Tunísia nos mostram.
Eram vasos feitos em partes separadas e depois
juntadas, fabricados com argila vermelha ou branca, e
queimados lentamente no forno. Seus fabricantes eram
os chamados doliarii, e há indícios de que o dolium
também era usado com fins ritualísticos de
sepultamento.
A amphora (“ânfora”) também servia para a
armazenagem de líquidos e sólidos, além do transporte.
Donald Brown cita o trabalho desempenhado por
Adam Winter na tentativa de entendimento do processo
de fabricação das ânforas: “Um grande cilindro de
argila era erigido ou era torneado em um torno baixo.
A parte de cima desse cilindro era trabalhada de modo
a que, alargando-a, tomasse a forma da base da ânfora;
as paredes eram afinadas o máximo possível, e o
pequeno buraco que restava no topo era então tapado
com uma rolha de argila. O pote era virado, tendo a
grande base calcada em um colar de argila, para evitar
o contato com a superfície do torno. A parte que
restava para cima era trabalhada a fim de formar-se o
228
“Pottery”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 89.
229
History of Ancient Pottery, pp. 463-473.
51
Parte V
A) A extração e o tratamento dos minérios.
Deixemos o naturalista romano Plínio, o
Velho, que viveu de 23 a 79 d.C., discorrer sobre
alguns pontos referentes à extração de minérios no
Império Romano (História Natural, XXXIII, 21):
Entre nós, o ouro é procurado de três modos
diferentes; o primeiro deles é encontrado em forma de pó nas
correntezas de rios, como exemplos, o Tago na Hispânia, o
Pó na Itália, o Hebro na Trácia, o Pactolo na Ásia, e o Ganges
na Índia; de fato, não há ouro encontrado em mais perfeito
estado do que este, completamente polido devido ao
constante atrito na corrente de água.
Um segundo modo de obtenção de ouro consiste
em abrir poços ou buscá-lo nos escombros das montanhas;
ambos os métodos serão abordados. As pessoas em busca do
ouro, primeiramente, procuram pelo segutilum230, tal sendo o
nome da terra que dá indicação da presença de ouro. Isto
realizado, o bolsão encontrado tem sua areia lavada, e, de
acordo com o resíduo encontrado após a lavagem, uma
conjectura é formada sobre a riqueza do veio. Algumas vezes,
na verdade, o ouro é achado sobre a superfície da terra: um
sucesso, entretanto, raramente experimentado. Por exemplo,
recentemente, no reinado de Nero, um veio foi descoberto na
Dalmácia, o qual rendeu, em peso, até cinqüenta libras de
ouro diariamente. O ouro que é achado assim na crosta de
superfície é conhecido como talutium231, em casos onde há
terra aurífera sob a superfície. As montanhas da Hispânia,
sempre áridas e estéreis, produtoras de quase nada, tornam-se
férteis nas mãos do homem, provendo-os com este artigo
precioso.
O ouro extraído de poços é conhecido por algumas
pessoas como canalicium, e por outras como canaliense232; é
encontrado aderido ao mármore arenoso [ganga233], não da
maneira como brilha na safira do Leste e na pedra de Tebas e
outras gemas, mas, sim, brilhando entre as dobras do
mármore. Os canais desses veios são encontrados correndo
em várias direções de e para os poços, e daí o nome do ouro
produzido ser canalicum. Nesses poços, também, a terra
sobrecarregada é mantida no local graças a pilares de
madeira. A primeira substância extraída é quebrada e depois
lavada; depois, é submetida à ação do fogo, e se transforma
em um fino pó. Este pó é conhecido como apitascudes,
enquanto a prata que é liberada na queima recebe o nome de
sudor (“suor; esforço”). As impurezas que escapam pela
chaminé do forno, como no caso de todos os demais metais,
são conhecidas por scoria (“escória”). No caso do ouro, esta
scoria é quebrada uma segunda vez, e fundida novamente. Os
230
Também conhecido por segullo atualmente na Espanha.
Segundo o Glossário Geológico Ilustrado do Instituto de
Geociências da UnB, o termo corresponde ao inglês gossan
(“chapéu de ferro”): “Capeamento residual (laterítico) de zonas
mineralizadas com sulfetos ricos em ferro, como a pirita, e que se
originam pelo intemperismo químico dos sulfetos com oxidação
do Fe2 para Fe3, formando-se hematita e hidróxido de ferro
limonítico que é muito resistente ao intemperismo químico.
Ocorrências de gossan são importantes pois indicam a possível
existência de minério em profundidade. Moldes limoníticos
(boxworks) de sulfetos ou outros minerais solúveis em suas
formas externas, muitas vezes com indicação de antigas
clivagens e fraturas, podem ser encontradas em certos gossans”.
In: http://www.unb.br/ig/glossario/verbete/chapeu_de_ferro.htm.
Acessado em 28/12/2007.
231
Pepita.
232
Ambos os termos significam “em forma de canal”.
233
Minerais ou rochas sem interesse econômicos associados aos
minérios. Porém, cabe aqui dizer que o “mármore arenoso”
mencionado é, na verdade, quartzo e xisto.
cadinhos usados para esse propósito são feitos de tasconium:
uma terra branca similar à argila usada para a cerâmica; não
há outra substância capaz de opor-se à forte corrente de ar, à
ação do fogo, e ao intenso calor do metal fundido.
O terceiro método de obtenção do ouro ultrapassa
até o labor dos Gigantes: por meio de galerias manejadas para
longa distância, montanhas são escavadas sob a luz de tochas,
a duração das quais forma os turnos de trabalho; os
trabalhadores nunca vêem a luz do dia por vários meses
consecutivos. Essas minas são conhecidas como arrugiae, e
não raramente fissuras são formadas de súbito, fazendo a
terra afundar, soterrando os trabalhadores. Pareceria menos
imprudente ir à procura de pérolas e púrpuras no fundo do
mar, uma vez que tornamos para nós a terra mais perigosa do
que a água! Tanto é verdade que, neste tipo de mineração,
arcos são postos em intervalos freqüentes com o intento de
suportar o peso vindo acima, da montanha. Na extração feita
em poços ou galerias, barreiras de sílex têm de ser
submetidas com a ajuda de fogo e vinagre; como esse método
acaba por encher as galerias com vapores sufocantes e
fumaça, mais freqüentemente usam-se máquinas de impacto
– algumas com peças de ferro que pesam cento e cinqüenta
libras – para quebrar as barreiras em pedaços: os fragmentos
são carregados para fora pelos trabalhadores que, noite e dia,
passam a carga de um para o outro no escuro, pois somente
os que estão na boca da mina vêem a luz. Nos casos em que o
bolsão de sílex é muito espesso para ser atravessado, o
mineiro o contorna e depois retorna. Entretanto, depois de
tudo, o trabalho causado por esse bolsão é tido como
relativamente fácil, já que existe uma terra – um tipo de
argila para cerâmica misturada com cascalho, denominada
gangadia – praticamente impossível de ser penetrada. Esta
terra precisa ser atacada com cunhas de ferro e martelos: não
há nada mais tenaz do que ela a não ser a ganância do homem
pelo ouro.
Quando todas as operações estão completas, por
fim, cortam-se os pilares de madeira no ponto em que
sustentam o teto: o desabamento causa alarme, que é
instantaneamente percebido pelo sentinela posto no pico da
montanha. Por voz e por sinais, ele ordena que os
trabalhadores sejam imediatamente dispensados de seus
afazeres, ao mesmo tempo em que desce o local. A montanha
fissura-se e cai em pedaços, arremessando seus escombros
com um estrondo que é impossível à imaginação humana
conceber; e dentre uma nuvem de poeira, de densidade
incrível, os mineiros vitoriosos contemplam esta derrota da
Natureza. Mas nem assim estão satisfeitos de ouro [...].
Outra técnica, também, muito parecida a esta – e
que requer maior despesa – é a de desviar e trazer rios da
montanha mais elevada (uma distância, talvez, maior de cem
milhas) com o propósito de lavar os escombros montanhosos.
Os canais assim formados são denominados corrugi, de nossa
palavra corrivatio, eu suponho; e até mesmo quando criados,
esses canais necessitam de mil novos trabalhadores. A queda,
por exemplo, deve ser íngreme para a água precipitar-se ao
invés de correr em fluxo – é por isso que deve vir de pontos
mais elevados. Então, vales e fendas de geleiras têm de ser
unidas com a ajuda de aquedutos e, em algum outro lugar
impraticável, pedras devem ser talhadas e forçadas a fim de
abrir espaço às calhas de madeira; a pessoa encarregada de
talhá-las fica suspensa por cordas o tempo todo, então, ao
espectador que a tudo assiste em distância, os trabalhadores
possuem uma aparência não tanto similar à bestas selvagens,
mas pássaros sobre a asa. Assim suspensos na maioria dos
casos, eles pegam os níveis e traçam com linhas o curso que a
água deve tomar, e então, onde não há espaço sequer para o
homem colocar o pé, rios são traçados por suas mãos. A água
passa a ser considerada imprópria para a lavagem caso traga
consigo qualquer lama. O tipo de terra que forma essa lama é
52
conhecido como urium234; sendo encontrado fora dos canais,
os trabalhadores levam a água por sobre sílex ou seixos,
evitando cuidadosamente esse urium. Quando alcançam a
nascente da queda, no cume da montanha, reservatórios são
escavados, com cerca de cem pés de comprimento e
amplitude, e uns dez pés de profundidade. Nesses
reservatórios existem geralmente cinco comportas com cerca
de três pés quadrados; então, no momento em que o
reservatório está cheio, as comportas são retiradas e a torrente
explode à frente com violência sobre quaisquer fragmentos
que possam obstruir sua passagem.
Quando alcançam o nível do solo, outro trabalho os
espera. Trincheiras, conhecidas como agogae, devem ser
cavadas para a passagem da água; e estas, em intervalos
regulares, têm camadas de ulex235 postas na base. Essa ulex é
uma planta parecida com o alecrim, áspera e espinhosa, e
bem adaptada para prender qualquer pedaço de ouro que
surja. Os lados das trincheiras também são fechados com
tábuas, e são suportados por arcos quando passam sobre
escarpas e em locais de precipitação. A terra, levada na
correnteza, chega ao mar ao final, e assim é a esfacelada
montanha lavada; causa que tendeu a estender as costas da
Hispânia. Também é por esses canais aqui descritos que o
material – escavado na costa com grande labor pelo processo
mencionado – é lavado e transportado; do contrário, os poços
logo seriam obstruídos por isso.
O ouro escavado em galerias não precisa ser
fundido, pois é ouro puro. Nessas escavações – e também em
poços – ele é encontrado em pedaços [caroços], muitas vezes
excedendo dez libras de peso. Os nomes dados a esses
pedaços são palagae e palacurnae, enquanto o ouro achado
em pequenos grãos é conhecido como baluce. O ulex
utilizado com o propósito acima citado é secado e queimado,
sendo suas cinzas lavadas sobre uma “cama” de relva
gramínea para que o ouro seja depositado em seguida.
Astúria, Galícia e Lusitânia fornecem desta
maneira, anualmente, de acordo com algumas autoridades, o
peso de vinte mil libras de ouro, sendo o produto da Astúria a
maior parte. Realmente, não há nenhuma parte do mundo que
durante séculos mantivesse tal fertilidade contínua em ouro.
Eu já mencionei que, por um decreto antigo do Senado, o
solo da Itália foi protegido destas pesquisas; caso contrário,
não haveria terra mais fértil em metais. Também há uma lei
censória relativa às minas de ouro de Victumule, no território
de Vercellæ236, pela qual os fazendeiros foram proibidos de
empregarem mais de cinco mil homens nos trabalhos.
As palavras de Plínio denotam a problemática
apresentada na questão da extração de minérios pelos
povos “clássicos”. O estudo preliminar acerca de como
esses minérios eram extraídos e transformados é de
suma importância para o entendimento do que virá
mais adiante: a análise da metalurgia romana.
Se a produção metalúrgica de Roma cresceu
vertiginosamente no período de transição da República
para o Principado, obviamente, é devido a um grupo de
fatores. Plínio – e autores como Diodoro Sículo e
Estrabão – ao mencionar o exaustivo trabalho da
mineração, praticamente fundamenta-se na produção
provinciana. A Ásia já havia sido submetida quase um
século antes da conquista total do território hispânico.
A Hispânia, um dos palcos da Segunda Guerra Púnica,
já era famigerada por seu poder metalífero antes
mesmo da chegada dos romanos; isso pode ser notado
ao lermos, de Políbio (século II a.C.), a intenção de
Aníbal: “(...) dispor de fundos e suprimentos
abundantes para a expedição planejada [contra
Roma]”237. Embora a Hispânia não fosse muito fértil na
visão dos romanos, como apontou Plínio, suas
montanhas “sempre áridas e estéreis, produtoras de
quase nada, tornam-se férteis nas mãos do homem, os
provendo com este artigo precioso [o ouro]”.
Lembremos também que a Hispânia só foi
completamente pacificada no governo de Augusto,
sendo um importante elo entre as terras africanas e as
do norte. O maior período de extração de minérios está,
pois, situado nesse contexto de prosperidade político e
econômico: temos a manutenção da orla do
Mediterrâneo sob as hostes dos legionários e um
intenso itinerário de povos e mercadorias pelas
províncias e a Itália. Porém, como dito acima, e
retornando ao tópico levantado, a mineração na Roma
Antiga era algo muito dispendioso e perigoso.
O arqueólogo John F. Healy, em sua obra
Mining and metallurgy in the Greek and Roman world
238
, discorre sobre a concepção geológica que os
antigos tinham do próprio mundo: “Em Plínio
encontramos alusão esparsa a uma teoria relativa à
formação de pedras transparentes e semi-transparentes,
que provavelmente já havia sido formulada por
Posidônio239: segundo tal teoria, a matéria prima destas
pedras era a água, talvez impregnada de átomo de terra.
Este líquido se condensava seja sob efeito do frio na
atmosfera, seja por efeito de uma das duas exalações,
enquanto as cores das pedras eram geradas apenas pela
exalação seca ocorrida até o seu endurecimento. [...]
Uma outra idéia bastante estranha, recorrente em
diferentes períodos entre gregos e romanos, consistia
em deduzir que os metais cresciam espontaneamente na
terra e, do mesmo modo, regeneravam-se as jazidas que
houvessem sido exauridas pelo desfrutamento do
homem”240. O último caso pode ser conferido nas
palavras do geógrafo grego Estrabão (64 a.C. – 24
d.C.):
Há outra circunstância notável: as exauridas minas
da ilha [de Elba] – com o passar do tempo – tornaram-se
241
novamente cheias [produtivas] .
Os romanos herdaram e aperfeiçoaram as
técnicas de mineração dos gregos e egípcios, contudo,
os métodos de prospecção de metais continuaram a ser
superficiais. A busca por ouro e outros metais em
aluviões talvez fosse um dos meios mais antigos e
simples de pesquisa. Além deste primeiro método,
segundo Plínio, os homens buscavam por sinais sobre o
solo que indicassem a presença de metais a serem
encontrados quando de uma escavação: achada a terra
denominada de segutilum, rica em óxidos de ferro,
portanto, com uma coloração típica, o próximo trabalho
234
Dolomita. Segundo o Glossário Geológico Ilustrado do
Instituto de Geociências da Unb: “Mineral carbonato de cálcio e
magnésio
[CaMg(C03)2]”.
In:
http://www.unb.br/ig/glossario/verbete/dolomita.htm. Acessado
em 28/12/2007.
235
Gênero botânico.
236
Atual província de Vercelli, na região do Piemonte, Itália.
237
III, 17.
Para este trabalho foi utilizada a tradução italiana: Miniere e
metallurgia nel mondo greco e romano.
239
Historiador e filósofo grego que viveu entre 135 a 50 a.C.
240
Página 18.
241
Geografia, V, 2.
238
53
era lavar uma amostra dela com a intenção de observar
se os grânulos de ouro seriam proveitosos
economicamente.
Os dois elementos básicos de uma atividade
de mineração – terra e água – são uma constante no
texto de Plínio. Devemos aos romanos, principalmente,
as técnicas que foram por demais utilizadas até o
século XIX e mesmo nos dias atuais. Pelo documento,
assinalamos as duas maneiras fundamentais de
extração mineral: a céu aberto e sob a terra.
O trabalho executado sobre o solo dependia
quase necessariamente do uso de recursos hidráulicos
(pois havia casos de se encontrar os minérios na
superfície, o que era raro, nos dizeres de Plínio). A
mineração em aluviões, como dita, é a menos
dispendiosa e a que, segundo o autor antigo, traz o ouro
em sua melhor forma. Porém, com a rotina, os minérios
tendiam a desaparecer. Restava, então, aos homens,
manipular a natureza (o que causava a indignação de
Plínio). Outra técnica usada pelos romanos é a que hoje
é conhecida como hushing entre os geólogos. O termo
corresponde, grosso modo, ao método de se separar
minérios preciosos de outros com o uso da água. Nas
palavras de John Healy: “(...) consiste em fazer fluir a
água para separar e transportar o material ao nível
baixo. O controle da operação era assegurado
recorrendo-se à construção de diques e reservatórios
situados no topo e nas costas da zona interessada, a fim
de criar uma bacia de água suficientemente provida.
Depois que a água tivesse removido a camada não
aurífera, seguia-se o procedimento de lavagem dentro
do canal mediante um fluxo mais ou menos contínuo
de água. O material aluvial vinha de tal modo
transportado, e a água cheia de detritos era colhida na
base do sítio e desviada para canais de cultivo, onde se
procedia à extração do ouro utilizando-se um dentre os
numerosos métodos de trabalho”242. Por fim, Plínio
menciona algo que causava arrepios aos que
observavam: o estrondo das águas represadas pelas
comportas. Sem dúvida, essa era a técnica mais
destrutiva da natureza, pois se usava a força da água
precipitada para encontrar e cavar as jazidas, deixando
visíveis as marcas nas montanhas; maneira de trabalho
denominada “abatimento hidráulico”243.
Os segundo e terceiro modos de obtenção de
ouro, como dita Plínio, são realizados sob a terra, por
meio de escavações. Primeiramente, temos os poços.
Os exemplos encontrados pelos arqueólogos mostram,
como no caso do poço grego de Laurion, que
inicialmente abria-se um furo central no local desejado
e depois o alastrava aos quatro lados, sempre atacando
verticalmente, com o auxílio de uma lança (Figura 63).
Os poços romanos geralmente tinham uma seção
regular, dependentes dos materiais utilizados para o seu
revestimento: no caso de poços retangulares, a madeira
revestia as paredes; no caso de poços circulares, a
pedra. As galerias, ao contrário dos poços, tinham o
sentido transversal dentro das montanhas (embora
muitas galerias partissem dos fundos de alguns poços,
cortando horizontalmente as rochas). Como diz Plínio,
as minas adentravam lugares onde a luz do dia não
chegava244 e, apesar dos pilares e arcos postos de forma
a suportar o peso da terra acima, não raramente havia
desmoronamentos e soterramentos dos trabalhadores.
Das minas estudadas pelos arqueólogos (Figura 64),
observa-se que algumas possuíam altura suficiente para
um homem permanecer em pé ao trabalhar; mais ainda,
segundo John Healy, muitas galerias não pareciam
possuir qualquer tipo de planejamento, tornando-se
verdadeiros labirintos245.
Além dos desmoronamentos, o autor romano
menciona asfixia. A ventilação era um empecilho à
mineração. A necessidade de se usar fogo e vinagre
para vencer as barreiras de sílex colocava os
trabalhadores em constante perigo de se sufocarem
pelos gases exalados; os gases naturais encontrados em
altas profundidades eram outro problema. Lucrécio,
poeta e filósofo da primeira metade do século I a.C.,
escreveu em sua obra Da natureza das coisas os efeitos
nocivos dos vapores provenientes das minas de ouro e
prata (versos 1188-1204):
Não vê também como na mesma terra
Nasce o enxofre e o betume que exalam
Um odor penetrante? Finalmente, quando
Com o ferro na mão vão os homens
Rasgando as entranhas da terra
Procurar os veios de ouro e prata,
Que vapores não saem da mina?
Que cheiros tão mortais não se exalam
Deste rico metal que há nela?
Não vê a face e a aparência descolorida
Dos miseráveis que estão condenados
Pela a lei a trabalhos tão penosos?
Você não ouviu como em breve perecem,
E
quão curto é o prazo de sua vida?
Assim, é necessário que a terra exale
Todos estes vapores esparramados.
No lado de fora, nas planícies do ar.
Deveras, o contato do ar e da umidade com o
enxofre contido nas rochas, ao oxidarem produzem: o
SO2 (dióxido de enxofre), que, ao ser inalado, gera
complicações no sistema respiratório e também no
cardiovascular; e o H2S (gás sulfídrico ou gás de ovo
podre), substância terrível que pode causar desde
simples ardência nos olhos e irritação na garganta até
mesmo à inconsciência, à parada respiratória e à morte
em menos de uma hora quando está numa concentração
igual ou superior a 500 ppm (partes por milhão). Para
detectar a presença de gases perigosos, Vitrúvio (VIII,
6, 13) alerta:
Far-se-á descer uma lamparina acesa; se ela se
mantiver a arder, poder-se-á descer sem perigo. Se,
todavia, a chama for violentamente apagada pela força
do vapor, então escavar-se-ão respiradouros à direita e
à esquerda nos lados do poço; assim os gases se
dissiparão, como através de narinas, pelas chaminés de
respiração. Dispostas assim estas coisas e uma vez
alcançada a água, então revestir-se-á em volta do poço
com pedra seca [ou seja, sem argamassa] para não
obstruir os veios.
244
242
243
Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 100.
Idem, p. 101.
A iluminação era feita por tochas, como afirma Plínio, e
também por lamparinas, como atestam os vestígios cerâmicos
encontrados nas escavações em galerias e poços.
245
Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 104.
54
Outra dificuldade séria enfrentada pelos
romanos mineiros era com relação aos alagamentos.
No excerto de Plínio acima mencionado, nota-se a
existência contínua de água em todos os meios de
extração; ora, é fácil imaginar que as montanhas
escavadas sofressem de infiltrações naturais ou não. No
entanto, John Healy diz que “os mineradores antigos
eram de tudo impotentes no confronto com uma
inundação imprevista na mina” 246. O fato das
inundações levava os antigos a explorarem apenas as
jazidas que estivessem ao nível do mar, ou acima dele.
Escavações abaixo desse nível eram praticamente
sinônimos de alagamentos e má sustentação das rochas.
Para tentar contornar os problemas mais freqüentes
oriundos da água, os romanos possuíam três técnicas.
A primeira, e mais simples, consistia em retirar o
excesso de água com a ajuda de baldes, para tanto,
escravos eram empregados; foram encontrados
vestígios de baldes fabricados em cobre em algumas
minas de Cartagena e Sierra de Cordoba247. Construir
galerias transversais que escoassem o excesso de água
era o segundo sistema. Porém, os mais interessantes do
ponto de vista da engenharia eram o Parafuso de
Arquimedes e a roda hidráulica. O parafuso inventado
(ou aperfeiçoado) por Arquimedes, e utilizado pelos
romanos nas minas da Hispânia no século I d.C.,
representou uma grande economia de tempo e esforços
na drenagem de água (Figura 65). O princípio básico
de funcionamento é o de elevar líquidos com o mínimo
de esforço a partir de uma espiral ao redor de um eixo,
que deve estar inclinado (Figuras 66 e 67). Para elevar
a água, o parafuso – construído em madeira – era
apoiado com uma extremidade num reservatório e com
a outra ponta em outro reservatório, posto mais alto; a
capacidade de trabalho da máquina dependia do grau
em que estava inclinada: Em El Centilho, na Espanha,
o ângulo de inclinação era de 35º, enquanto que em
Sotiel Coronada (Portugal) oscilava entre 15º e 20º.
Geralmente, os parafusos eram colocados em série,
formando verdadeiros “elevadores de água”, que
percorriam as extensões das galerias. Seus diâmetros e
comprimentos podiam variar, sendo girados com o
auxílio dos pés248 (Figura 68). É Vitrúvio (X, 6) quem
nos legou uma descrição detalhada sobre a construção e
o funcionamento do parafuso:
[1] (...) Processa-se da seguinte maneira.
Disponibiliza-se um tronco e prepara-se de modo a ficar com
um número de pés de comprimento igual ao número de dedos
de espessura. Arredonda-se com o auxílio do compasso. Nas
pontas, dividir-se-ão por quadrantes e octantes, com o
compasso, os seus contornos circulares, em oito segmentos,
sendo as diagonais de tal modo colocadas que, apoiado o
tronco horizontalmente, as linhas de cada um dos seus topos
se correspondam no nivelamento, devendo ser divididas, no
sentido do comprimento, em segmentos com uma dimensão
igual a um oitavo do contorno circular do tronco. Então,
disposto este plano horizontal, traçar-se-ão linhas de um topo
ao outro, de acordo com o nivelamento. E assim se definirão
espaços iguais, seja à volta seja em comprimento. Deste
modo, no lugar em que forem traçadas, as linhas relacionadas
246
Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 108.
Idem, p.109.
248
John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e
romano, pp. 110-111.
com o comprimento definirão intersecções e pontos nos seus
cruzamentos.
[2] Concluídas na perfeição estas marcações, tomase uma varinha delgada de salgueiro, ou cortada num
agnocasto, que se unta com pez líquido e se fixa no primeiro
ponto de intersecção. Depois, esta varinha será passada
obliquamente pelas restantes intersecções, no sentido do
comprimento e do contorno; progredindo e contornando
ordenadamente de ponto em ponto, ela vai sendo colocada
em cada um dos cruzamentos de linhas, deste modo chegando
e sendo fixada na ponta da linha em que começou por ser
fixada, tendo andado desde o primeiro até o oitavo ponto de
intersecção. Assim, progrediu obliquamente e através de oito
pontos num espaço igual ao que andou em comprimento até o
oitavo ponto. Pelo mesmo processo vão sendo fixadas
varinhas diagonalmente por cada espaço do comprimento e
do contorno, em cada uma das intersecções, dando origem a
canais espiralados ao longo das oito divisões da grossura do
tronco e a uma imitação precisa e natural do caracol.
[3] Fixam-se então, umas sobre as outras, varinhas
revestidas com pez líquido ao longo dessas marcas, e vão se
amontoando até uma espessura total igual a um oitavo do
comprimento. Sobre elas disponham-se e fixem-se em volta
tábuas que recubram estas espirais. Saturem-se também essas
tábuas com pez e prendam-se com lâminas de ferro, a fim de
não serem desconjuntadas pela força da água. Os espigões do
tronco deverão ser de ferro. Também à direita e à esquerda do
parafuso serão colocadas traves que tenham travessas fixadas
numa e noutra parte das extremidades. Encravam-se nestas
travessas chumaceiras de ferro, aí se introduzindo os eixos; e
assim se executam as rotações do parafuso com o peso dos
homens calcando com os pés.
[4] A sua disposição em altura deverá ser executada
com uma inclinação correspondente ao traçado do triângulo
retângulo de Pitágoras, que tenha a seguinte demonstração,
ou seja, dividindo o comprimento em cinco partes, a
extremidade superior do parafuso elevar-se-á em três partes;
assim, será de quatro destas partes a medida entre a vertical e
as aberturas da base do parafuso. Sobre a maneira
conveniente de realizar isto deixa-se no fim do livro
249
desenhado um gráfico, no lugar respectivo (...).
O mesmo autor menciona o uso de rodas
hidráulicas (X, 5):
[1] (...) Em volta das suas testeiras [das rodas] são
fixadas travessas que, avançando ao serem batidas pela
corrente do rio, obrigam a roda a girar, e assim tirando a água
através dos alcatruzes, elevando-a até cima sem a intervenção
de homens calcando, e, movimentadas pelo próprio impulso
do rio, garantem as necessidades do uso da água.
A roda era construída em madeira e usada para
soerguer grande quantidade de água (Figura 69).
Empregada nos mais diversos casos em que se
mostrasse útil, a roda hidráulica era um maquinário
pesado e necessitava de mais homens para ser
construída e operada (pois, dentro das minas, ao
contrário do que Vitrúvio acima disse, cordas eram
utilizadas para a propulsão); além de precisar que se
adaptassem fluxos de água a sua passagem. Contudo, a
quantidade de água processada pela roda hidráulica era
muito superior à do parafuso, rendendo o trabalho de
drenagem dentro das minas. Cabe aqui ressaltar que,
tanto o parafuso como a roda, eram fabricados apenas
nas minas que seguramente fossem lucrativas, uma vez
que o custo de tais máquinas era elevado.
247
249
Desenho perdido.
55
Por fim, Plínio faz menção às ferramentas
cotidianas usadas no trabalho em minas. John Healy,
no texto já citado, nos informa acerca das ferramentas
mais comuns na extração minerária. A matéria utilizada
no fabrico da maior parte dos instrumentos era o ferro.
Os martelos encontrados nas minas da Bética mostram
que o peso variava de 2.2 Kg a 4.5 Kg, e que eram
dotados de cabos de madeira. A picareta de lâmina
curvada também era muito utilizada para o trabalho em
terra e em rochas mais macias; exemplares foram
escavados nas minas de Laurion e Rio Tinto. Para as
rochas duras, utilizava-se, como dito, lanças em ritmo
parecido ao dos martelos. A lança provoca – sendo
visível nas paredes de poços e galerias – a quebra de
pequenas lascas e muito pó oriundo das rochas. Esses
vestígios auxiliam os arqueólogos no estudo sobre os
métodos de perfuração das jazidas na Antiguidade.
Pequenas estacas de ferro completam a gama de
instrumentos fabricados em metal. Os produzidos em
pedra eram em menor número, embora haja martelos
feitos com esse material, e até mesmo instrumentos de
grandes dimensões, com revestimentos em ferro, para
alto impacto250.
Um baixo relevo encontrado em Palazuleos
(próximo a Linares, na Espanha), é de grande valia
sobre o tema das ferramentas usadas pelos mineiros
(Figura 70). Esculpido em pedra de arenito, ele
representa um grupo de trabalhadores de mina. No
fragmento, há nove homens, quatro ao fundo e cinco
em primeiro plano. Destes cinco, o último à esquerda,
o maior, é provavelmente o chefe: em sua mão direita,
carrega uma maça, enquanto na outra parece segurar
um sino ou um recipiente de armazenamento (muito
possível que seja de óleo, para abastecer as
lamparinas). A personagem seguinte carrega uma
picareta. O homem do meio leva uma lamparina. Nos
dois últimos, não é possível identificar os objetos que
levam devido às partes que faltam, bem como não
conseguimos observar seus pés, embora John Healy
afirme que, quase certamente, estariam calçando
sandálias. As cabeças dos homens não estão cobertas,
mas seus corpos parecem vestidos com túnica e com
uma espécie de avental feito em couro, para protegê-los
em caso de queda de pedras ou dos cestos usados para
transportar os minerais251.
Após a extração, os minérios brutos passavam
por um tratamento de separação de componentes e
transformação em matérias para serem usadas por
outros trabalhadores.
chegassem prontos ao consumo dos artesãos. O
processo de trituração e refinamento – com fins a
separar tipos de minérios – foi descrito por Platão em
sua obra Político, e constitui um dos mais antigos
documentos referentes ao tema. Diz, pois, a
personagem do Estranho no texto:
Segundo John Healy, quatro são os prérequisitos necessários a qualquer tipo de operação
metalífera: 1) minerais prontos para a fusão; 2)
combustível (lenha ou carvão proveniente dela); 3) um
forno com abertura natural ou, se necessário, com
entrada para um fole que sustente a temperatura
necessária ao trabalho; 4) um crisol, ou outro tipo de
recipiente resistente ao fogo, juntamente com as
ferramentas e equipamentos precisos252. Era
primordial, portanto, preparar os minérios para que
Porém, o método exposto por Estrabão era
ineficiente quando a monta de rochas era alta. Em
minas onde a extração era intensa, construíam-se mesas
de lavagem (Figuras 71 e 72), como a de Laurion, do
século V a.C. (anterior a 423 a.C.). John Healy aponta
os quatro elementos que constituíam essa técnica: “1)
um amplo fundo rebocado e achatado, (...) circundado
de canaletas em seus quatro lados e dotado de dois
reservatórios circulares nos dois ângulos meridionais;
2) uma “mesa” de dimensão menor, posta
imediatamente no exterior da canaleta norte (também
rebocada com gesso), e dotada de uma discreta
inclinação para o escoamento da água; 3) um grande
reservatório de água construído próximo à mesa
250
John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e
romano, pp. 113-114.
251
Ibidem, pp. 114-115.
252
Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 181.
[303d] Porque os refinadores primeiro removem
terra e pedras e todo o tipo de coisa; [303e] e depois disso, lá
permanecem as substâncias preciosas que estão misturadas
com o ouro e similares e que só podem ser removidas através
do fogo – cobre e prata e, às vezes, adamantium [também
sugerido como platina]. Estes são separados pelos difíceis
processos de fundição, deixando diante de nossos olhos
aquilo que é chamado de ouro não amalgamado, em toda a
sua pureza.
A descrição de Platão é falha ao não citar a
primeira etapa do processo: a trituração. A quebra das
rochas em pedaços menores representa uma tarefa
essencial, uma vez que o poder do fogo não era capaz
de separar os minérios presentes em nacos maiores.
Gregos e romanos utilizavam-se de equipamentos cuja
funcionalidade era calcada no impacto, na percussão;
dentre eles, o pilão e a mó. O pilão era um recipiente
em forma de dedal, em média com 40 a 60 cm de
profundidade, escavado em rocha vulcânica (Kfeldspato), fechado por uma cobertura – também em
pedra – que possuía um orifício ao centro, por onde se
passava o percutor (mão de pilão) de ferro que
quebrava as rochas em grãos menores. Sobre a mó,
Diodoro Sículo escreveu (Biblioteca Histórica, III, 13):
[...] as mulheres e os homens velhos recebem a
rocha [anteriormente já fragmentada] e a jogam no moinho, o
qual possui um número de pessoas postas em fileira; grupos
de duas ou três pessoas trabalham cada moinho, fazendo com
que as rochas adquiram um aspecto de uma fina farinha.
Triturados, os minérios passavam por uma
peneiração. As peneiras eram feitas em pedra, com
aberturas centrais e suspensas graças a um anel de ferro
que as circundavam. Vibrando-se a peneira, separavase o material já tido como ideal para o prosseguimento
no processo e o restante retornava à trituração.
Separados, os grãos eram então lavados, como
descreve Estrabão (III, 2):
[...] o grão de prata arrastado pelos rios é triturado e
peneirado em contra-corrente; se trituram de novo os resíduos
e os lavam novamente [...].
56
inclinada (...); 4) uma grande cisterna ou reservatório
circular, cavada diretamente no declive da colina.
Todas essas quatro estruturas eram feitas em um duplo
quadrado (...)”253. A operação da mesa de lavagem
dava-se quando a água da grande cisterna corria para o
reservatório e deste para a mesa inclinada onde
estavam dispostos os grãos triturados; a água que corria
pelas canaletas levava os fragmentos indesejáveis e
depositava nos fundos dos reservatórios meridionais os
minérios mais pesados (como a prata) que, então, eram
recolhidos e lavados manualmente pelos escravos. Os
materiais encontravam-se, agora, prontos para a fusão.
Obviamente,
a
fusão
dependia
de
combustíveis. E os antigos usaram dos mais variados
tipos. Um dos mais comuns era o lignito. Abundante e
de fácil extração, o lignito – que tem em sua
composição uma quantidade de carbono que varia de
60 a 75 % - é um combustível fácil de queimar, porém,
com baixo grau calorífico. Teofrasto, filósofo grego de
Ereso que viveu entre 322 a 287 a.C., nos fornece um
dos primeiros documentos que atestam o uso de carvão
mineral como combustível (Das Rochas):
menosprezo e preocupação. Seu trabalho, embora
abundante – como demonstram os vestígios materiais –
, não seria “digno” na opinião da elite da sociedade
antiga. O ofício que necessitasse essencialmente do uso
das mãos para ser produzido era tido como menor, pois
as ocupações que demandassem um esforço mais
intelectual (como advogado ou médico) eram mais
valorizadas. Essa interpretação do artesão também se
refletia no caso dos sempiternos deuses, e,
especificamente, em um deus-artesão que obrava sobre
os metais. Hefesto para os gregos. Vulcano para os
romanos. Vejamos sua representação na literatura
antiga.
Na Ilíada, Homero escreveu:
(...) No meio tempo, Tétis,
a deusa pés-de-prata, ao palácio soberbo
de Hefesto chegara, ímpar entre os imortais,
imperecível, estrelado, em bronze ereto
pelo deus coxo. Ei-lo entre os foles, afanoso,
suarento. Uma vintena de trípodes bem-lavradas para o paço forjava, adornando-o
em torno do saguão; (...)257
[16] Entre as substâncias que são escavadas por
serem úteis, aquelas conhecidas simplesmente por carvão são
feitas de terra e, ao serem jogadas no fogo, queimam como
carvão vegetal. São encontradas na Ligúria, onde o âmbar
também é achado (...); e são atualmente usadas por
trabalhadores de metais.
[17] Nas minas de Scapte Hyle [na Trácia], uma
pedra encontrada tem a aparência de madeira podre. Quando
óleo é despejado sobre ela, ela queima, mas quando o óleo
acaba, a pedra pára de queimar como se não tivesse sido
afetada.
Além do lignito, a turfa (carvão fóssil) é citada
por Plínio como uma lama que, ao secar, é capaz de se
inflamar (História Natural, XVI, 1). Porém, a lenha era
um dos combustíveis de maior utilização por parte dos
romanos. Devido a sua composição de celulose e
lignina, a madeira não alcança temperaturas muito
elevadas. Por isso, recorria-se ao carvão de lenha
quando se desejava fogo para processos de fundição 254:
pode chegar aos 900ºC e ir adiante quando auxiliado
por correntes de ar (como as proporcionadas pelos
foles, nos fornos).
Tendo a matéria-prima e o combustível,
passava-se, então, ao processo de refinamento nos
fornos – onde o metal era fundido255 – e ao trabalho do
artesão em si, transformando os metais em objetos
passíveis de compra e venda.
B) O trabalho em metais.
A figura do artesão, como já falamos
anteriormente256, era, na maioria dos casos, vista com
253
Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, pp. 184185.
254
John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e
romano, pp. 190-191.
255
Pormenores serão expostos no próximo segmento deste
trabalho.
256
Parte IV.
(...) disforme ergueu-se, a mancar, da bigorna:
movia os tornozelos frágeis com presteza.
Apartou os petrechos e foles (lavrava
uma arca de preciosa prata). Ambas as mãos
limpou com uma esponja e as faces, o pescoço
rijo, o peito lanudo; (...)258
(...) E retirou-se em direção aos foles.
Voltou-os para o fogo e ordenou: “Ao trabalho!”
Vinte foles soprando nas fornalhas sopro
vário, atiçando as chamas, ora com vigor,
lépidos, ora lentos, a líbito do amo,
Hefesto, para, assim, levar a termo a obra;
lança o ferreiro ao fogo bronze rijo, estanho,
ouro precioso e prata. Dispõe sobre o cepo
uma enorme bigorna, soergue o macromalho,
259
potente, na outra mão segurando as tenazes .
Na Antologia Grega, encontramos o seguinte
fragmento260:
Retirai da fornalha este martelo, estas tesouras, esta
pinça, oferenda que Polícrates dedicou a Hefesto. Foi com
redobrados golpes do seu martelo sobre a bigorna, que
arranjou para os filhos uma fortuna que deles afastará a triste
miséria.
Em um hino escrito pelo poeta grego do
século III a.C. Calímaco há a referência aos ciclopes,
ajudantes ferreiros de Vulcano:
As ninfas empalideceram à vista de tais gigantes
semelhantes a montanhas e cujo olho único, sob espessa
sobrancelha, brilhava ameaçadoramente. Uns faziam gemer
imensos foles; outros, levantando os pesados martelos,
batiam furiosamente o bronze que tiravam da fornalha. A
bigorna estremece, o Etna e a Sicília tremem, a Itália ecoa o
estrondo e a própria Córsega se sacode. Àquele terrível
espetáculo, àquele medonho fragor, as filhas do Oceano
ficam estarrecidas... e trata-se, aliás, de um estarrecimento
257
XVIII, vv. 367-374.
Idem, vv. 410-415.
259
XVIII, vv. 468-477.
260
Apud René Ménard, Mitologia Greco-romana, v. 2, p. 151.
258
57
perdoável; as próprias filhas dos deuses, na sua infância, só
encaram tais gigantes com temor, e quando se recusam a
obedecer, suas mães fingem chamar Arges ou Steropes:
Mercúrio acorre com as feições de um desses ciclopes, de
rosto coberto de cinza e fumaça; imediatamente, a criança,
aterrorizada, cobre os olhos com as mãos e se atira tremendo
261
ao seio materno .
Vulcano é, então, uma figura disforme, feia.
Não só ele: os seus ajudantes, os ciclopes (ou gigantes)
também padecem dessas características. Homero retrata
o deus como um deficiente, que manca, mas que é
capaz de fazer os mais belos trabalhos em metal. Tétis
pede seu auxílio e ele fabrica, dentre as armas de
Aquiles, o seu escudo, belíssimo. Porém, o que se deve
atentar aqui é a impossibilidade de escrever algo que
fuja do aprendizado humano. As tradições orais são
calcadas naquilo que os homens viveram e
conseguiram apreender. Por isso, os deuses são tão
humanos, pois são o reflexo dos homens. Em outras
palavras, lendo Homero conseguimos conhecer o
trabalho exercido pelos ferreiros gregos desde, pelo
menos, o século VIII a.C.: data em que a Ilíada foi
redigida. Tudo o que o aedo262 narra é presente no
cotidiano do artesão. Os instrumentos básicos
utilizados para o fabrico de uma peça em metal estão
nos versos: foles, forno, bigorna, martelo
(macromalho), tenazes. Da mesma forma, há mostras
de um entendimento acerca da operação dos fornos: ora
o fogo está mais forte, ora mais ameno, obedecendo ao
ferreiro. Já no excerto da Antologia Grega, o processo
de se martelar o metal sobre uma bigorna é realçado.
Igualmente, os ciclopes (em Calímaco) – seres que
estão sujos devido às cinzas que saem do forno263 –
obram o bronze.
Porém, a mitologia clássica perpetuou-se e
chegou até a Época Moderna, nas produções dos
artistas. Dois exemplos importantes sobre a
representação do deus Vulcano encontram-se em
Giulio Romano e Diego Velásquez. Na primeira
metade do século XVI, o pintor e arquiteto italiano
Giulio Romano deu vida ao momento em que Vulcano
é solicitado a fazer as armas de Aquiles (canto XVIII
da Ilíada). Na obra do executor do afresco – e um dos
expoentes do maneirismo – Vulcano ganha traços mais
belos do que o narrado nas fontes antigas e, na pintura,
não vemos o forno, apenas o martelo em sua mão e um
apoio para trabalhar o elmo (Figura 73).
Coisa semelhante ocorre no quadro de
Velásquez, pintor espanhol do século XVII, um dos
pilares do barroco. No entanto, devemos, antes, citar o
excerto presente em Metamorfoses – escrita pelo poeta
romano Ovídio (43 a.C. a 17 d.C.):
Terminara; e houve breve intervalo de tempo, e
Leucónoe começou a falar. As irmãs contiveram a voz.
“Também aquele que com sua luz rege todos os astros,
O amor capturou: o Sol; do Sol os amores narraremos.
Julga-se que este deus foi o primeiro
261
Ibidem, p. 159.
Diz François Hartog: “Inspirado pela Musa, o aedo „vê‟ pelos
dois lados. Ele conhece e canta os feitos e os infortúnios de uns e
de outros, ciente de que nada escapa aos desígnios de Zeus”.
“Primeiras figuras do historiador na Grécia: historicidade e
história”, in: Revista de História, pp. 10-11.
263
Observe-se o trecho de Homero sobre o aspecto de Vulcano.
262
a ver o adultério de Vênus com Marte: este deus vê tudo
primeiro.
Condoeu-se do fato e revelou ao marido, filho de Juno,
264
o crime contra o casamento e o local do crime .
O que Velásquez buscou interpretar – em sua
obra de 1630 – foi a desgraça do filho de Juno, ou seja,
Vulcano, quando descobre que sua esposa, a bela
Vênus, o traíra com Marte. Vemos, então, a expressão
de assombro que surge no rosto de Vulcano (o homem
que segura a chapa de metal sobre a bigorna) e de seus
ajudantes ciclopes quando o deus Apolo (o Sol) vai à
oficina contar o ocorrido (Figura 74). Aqui também se
nota que o deus e seus auxiliares estão embelezados.
Mais ainda: os ciclopes ganharam feições humanas,
possuem dois olhos.
Essa breve divagação ficaria sem muito
sentido se não fosse por um fator: tanto a pintura de
Romano como a de Velásquez apresentam objetos
cotidianos a eles. A oficina retratada pelo espanhol é
certamente uma cópia bem próxima da realidade
daquilo que seria uma oficina de ferreiros no século
XVII; basta reparar nos produtos fabricados nela:
armaduras da Idade Moderna. O que se deve
depreender de ambas as pinturas é que a técnica de
fabricação metalúrgica praticamente permaneceu
inalterada em seus princípios durante os séculos
anteriores à Revolução Industrial. Observamos nos
retratos aquilo que os textos antigos nos falam: há os
mesmos martelos, as mesmas bigornas, as mesmas
tenazes e o mesmo forno. E, de acordo com os registros
arqueológicos, deparamos com uma semelhança e
funcionalidade deveras próximas entre as ferramentas
dos romanos e gregos e a dos italianos e espanhóis dos
séculos XVI e XVII. Isso serve para nos ilustrar uma
questão: o arqueólogo também trabalha com analogias
tecnológicas. Tanto no caso da cerâmica como no caso
do metal e do vidro, a experimentação, a tentativa de se
produzir algo parecido com aquilo que foi escavado, é
de muita importância para um entendimento mais
próximo da realidade das sociedades estudadas.
Não é à toa, pois, que nas leituras realizadas
sobre o tema da metalurgia romana, poucos não são os
casos de arqueólogos que tentam reconstituir um objeto
antigo a partir de seu presente. É crucial entendermos
as técnicas empregadas no fabrico de objetos de metais,
que é o foco central nesta parte de nosso trabalho.
Vejamos, agora – e dando prosseguimento ao
processo que vem após a trituração dos minérios –,
como os romanos construíam suas peças em metal.
 Trabalhos em ferro
[39] [O ferro é] ao mesmo tempo o mais útil e o
mais fatal instrumento nas mãos da humanidade. Pela ajuda
do ferro nós preparamos o solo, plantamos árvores,
preparamos nossas parreiras, e forçamos nossas vinhas a
reassumirem seu aspecto juvenil a cada ano cortando seus
galhos deteriorados. É pela ajuda do ferro que construímos
casas, ligamos rochas, e fazemos tantas outras coisas úteis
para a vida. Mas também é com o ferro que guerras,
assassínios e roubos são feitos, e não com as próprias mãos: à
264
IV, vv. 167-175.
58
distância, com o auxílio de projéteis e armas aéreas – agora
lançadas por máquinas, agora arremessadas pelo braço do
homem, e agora providas com plumas. Considero estas armas
como o maior artifício criminal jamais criado pela mente
humana; como uma maneira de trazer a morte mais
rapidamente ao homem, nós demos asas ao ferro e o
ensinamos a voar. Deixemos, portanto, a Natureza se
encarregar de levar o homem.
Realmente houve alguns exemplos nos quais foi
provado que o ferro poderia ser usado somente para
propósitos inocentes. No tratado que Porsena legou aos
romanos depois da expulsão dos reis, nós achamos
expressamente estipulado que aquele ferro só seria
empregado para o cultivo dos campos; e nossos autores mais
velhos nos informam que por esses dias era considerado
inseguro escrever com uma caneta férrea. Há um édito
publicado no terceiro consulado de Pompeu Magno, durante
o tumulto que resultou na morte de Clódio, proibindo
qualquer arma de ser carregada na Cidade.
[41] Minérios férreos são achados quase em todos
os lugares [...], facilmente distinguidos pela cor ferruginosa
da terra. O método de trabalhar o minério é igual ao
empregado no caso de cobre [...].
Há numerosas variedades de minério de ferro [...].
Algumas terras produzem um metal que é macio e quase
similar ao chumbo; outras, um ferro que é frágil e cobreado, o
uso do qual deve ser evitado particularmente ao construíremse polias ou pregos: o tipo anterior serve melhor para estes
propósitos. Há outro tipo que só é estimado quando cortado
em comprimentos curtos e usado para fazer cravos; e outro
que é mais particularmente sujeito a ferrugem. Todas estas
variedades são conhecidas pelo nome de strictura
(“estreitados”): um título que não é usado como para os
outros metais e é derivado do aço que é usado para uma
extremidade. Há uma grande diferença, também, na fundição;
alguns tipos produzem nós de metal, que são especialmente
adaptados para endurecer no aço, ou então, preparados de
outra maneira, para fazer bigornas grossas ou cabeças de
martelos. Mas a diferença principal resulta da qualidade da
água na qual o metal incandescente é mergulhado de vez em
quando. A água, que é melhor em alguns lugares para este
propósito do que em outros, enobreceu algumas localidades
para a excelência de seus ferros [...].
Mas de todos os tipos diferentes de ferro, o melhor
é aquele que é feito por Seres265, que o enviam a nós com os
seus tecidos e peles; próximo em qualidade está o férreo da
Pártia [...]. Em nossa parte do mundo, uma jazida de minério
é ocasionalmente achada para a produção de um metal desta
alta qualidade, como em Nórica266, por exemplo; mas, em
outros casos, deriva seu valor do modo em que é trabalhado,
como em Sulmo267, por exemplo: um resultado devido à
natureza de sua água, como já mencionado. Também será
observado que, dando uma extremidade ao ferro, há uma
grande diferença entre rebolos de óleo e rebolos de água: o
uso de óleo produz uma extremidade muito melhor. É um
fato notável que, quando o minério é fundido, o metal é
liquidificado como água e depois adquire uma textura
esponjosa, frágil [...].
Nesses dois capítulos do livro XXXIV de
Plínio observa-se como o uso do ferro estava
impregnado no cotidiano romano. Serve para lavrar a
terra, erigir edifícios e como arma – para citar as
utilidades que o autor nos diz. A província de Nórica,
como atestada, deveras era a maior exportadora de
ferro semi-pronto para artesanato. A têmpera do ferro
265
Localizada na Ásia Oriental, próximo à China.
Província romana ao sul do Danúbio.
267
Atual Sulmona, em Abruzos, Itália.
266
empregando-se a água também é uma notação
relevante de Plínio, mostrando-nos que, embora não
tivesse conhecimentos específicos sobre os trabalhos
manuais, ainda assim o autor sabia os seus princípios
básicos. Porém, devemos nos centrar nos pormenores
da fabricação do ferro com base na bibliografia recente
sobre o tema; para tanto, o texto do arqueólogo Henry
Cleere, “Ironmaking”, contido na obra Roman crafts é
esclarecedor nesse quesito.
A fabricação de ferro é um método de
fundição no qual se separa o material metálico do nãometálico por meio de reações físico-químicas. “No caso
dos minérios de ferro, a fundição envolve um processo
de redução, desde que o seu composto primário ou
secundário seja um óxido: a técnica de redução envolve
a remoção dos átomos de oxigênio das moléculas de
óxido a fim de liberar o ferro”268. Henry Cleere aponta
que somente os óxidos e os carbonatos de ferro
possuem interesse econômico, uma vez que os
sulfuretos são difíceis de reduzir, além de que, o
enxofre, quando presente no ferro, o deteriora269.
O processo de redução, no caso do minério de
ferro, necessita de uma quantidade enorme de energia
porque os átomos de ferro e de oxigênio têm uma
grande afinidade entre si. Nesse sistema, um agente de
redução é fundamental: no caso, o monóxido de
carbono (CO) – que, durante o processo, reage com o
oxigênio e libera gás carbônico (CO2). As etapas da
redução são as seguintes:
3Fe2O3 + CO → 2Fe3O4 + CO2
Fe3O4 + CO → 3FeO + CO2
FeO + CO → Fe + CO2
A transformação de óxido férrico (Fe2O3) para
óxido ferroso (FeO) e, finalmente, para ferro (Fe)
precisa de muito calor fornecido por uma fonte. Essa
energia é essencial não só para obter-se o ferro puro,
mas, também, para separar o composto de ferro daquilo
que é indesejável, ou seja, a ganga (mencionada por
Plínio em seu capítulo XXXIII). Essa ganga é o
conjunto de materiais não-metálicos e que não possuem
valor econômico, sendo constituída, por exemplo, por
sílica (SiO2), alumina (Al2O3) e cal (CaO). Esses
compostos derretidos durante a fundição, todos juntos,
formam uma borra (mineral artificial) que se solta
fisicamente do material metálico em uma temperatura
mais baixa. Na Antiguidade, devido aos conhecimentos
da época, havia um desperdício de minérios de ferro
junto à borra, praticamente formada de faialita, cuja
fórmula química é 2FeO.SiO2. Segundo Cleere, isso
“significa que para cada molécula de sílica no minério,
duas moléculas de óxido ferroso têm de ser perdidas
para se produzir um material fluido à temperatura em
torno de 1200ºC”270.
Para um melhor entendimento desse processo
todo, é preciso discorrer sobre cada um de seus
componentes.
268
Henry Cleere, “Ironmaking”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, p. 127.
269
Ibidem, p. 127.
270
“Ironmaking”, in: Donald Strong e David Brown (eds.),
Roman crafts, p. 128.
59
- Minério de ferro:
Os óxidos de ferro mais comuns são a
hematita (Fe2O3), a limonita (Fe2O3.H2O) e a magnetita
(Fe3O4); os carbonatos são agrupados geralmente em
sideritas. Os romanos utilizaram, principalmente, os
minérios de limonita e de carbonatos por serem os que
mais facilmente são reduzidos, necessitando de uma
fonte de calor mais baixa e apresentando melhores
resultados de fundição. Por serem minérios com uma
quantidade considerável de água em sua composição,
precisam de calor para, primeiramente, secarem e,
depois, fundirem. No entanto, essa característica úmida
faz com que sua queima se realize em fornos abertos, já
que a entrada de oxigênio é pouco influenciadora nesse
processo, pois o ponto de secagem fica entre 500 e
600ºC. Esses fornos de secagem eram geralmente
abertos no solo e revestidos com pedras e argila; os
minérios eram, então, depositados em seus fundos
juntamente com a madeira usada como combustível.
Após a lenta queima, o material era raspado e as cinzas
peneiradas. Os minérios ficavam estocados para,
posteriormente, irem aos fornos de redução e serem
fundidos. Essa etapa era realizada deixando-se o
material se consumir durante toda a noite (o auxílio de
foles não era satisfatório porque não permitia a queima
total dos minérios). Henry Cleere informa que esse
trabalho de “tostadura” era sazonal: os trabalhadores
recolhiam os minérios, os preparavam e os
armazenavam em um dado período do ano para depois
passarem à fundição271.
feitos em pedra com o revestimento citado (nas paredes
interiores e/ou exteriores). A argila tinha de ser
cuidadosamente enlameada e sovada antes do uso: sua
aplicação nas paredes dos fornos também despendia
uma maior atenção – não poderia haver respiros ou
falhas que acabassem por gerar rachaduras quando o
material secasse. Argila, do mesmo modo, servia para
tapar a abertura frontal do forno; marcas de dedos dos
trabalhadores são encontradas nessas espécies de
tampas273.
Henry Cleere classifica os fornos romanos
para derretimento de ferro em dois grupos 274:
- Combustível:
Para a secagem dos minérios, a madeira verde
era usada: facilmente encontrada na natureza, esse
material fornecia a caloria suficiente para os fornos de
queima. O calor necessário para a fundição provinha de
fontes variadas. Dentre elas, a turfa: embora não possua
um poder de combustão elevado, parece ter sido usada
em locais onde a madeira era escassa; o “uso da turfa
como combustível de fundição em alguns artefatos
antigos tem sido deduzido por meio dos nitridos
encontrados nos metais resultantes (...)”272. Outra fonte
de calor, a mais utilizada, era o carvão vegetal. Tendo
carbono em estado puro, sem impurezas como enxofre,
o carvão vegetal é um ótimo combustível para a
fabricação de ferro. Os vestígios de madeiras no
distrito de Wealden, Inglaterra, mostram que os
romanos usaram uma variedade de madeiras para a
transformação em carvão, sendo o carvalho o elemento
que se destaca. O carvão mineral, por sua vez, era
utilizado apenas no processo de forja do ferro.
- Forno:
Os fornos precisavam de controle de ar
adequado, por isso, a argila era comumente usada para
revestimento das paredes do equipamento. Além de
impermeável, resiste a grandes temperaturas. Existiam
fornos feitos completamente em argila e também os
271
“Ironmaking”, in: Donald Strong e David Brown (eds.),
Roman crafts, p. 130.
272
Ibidem, p. 131.
273
Henry Cleere, “Ironmaking”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, p. 132.
274
Ibidem, pp. 132-133.
60
Observando as Figuras 75 e 76, fica mais
clara a tipologia estabelecida pelo autor (baseada em
vestígios de fornos encontrados na Inglaterra).
Após sua ereção, secagem e revestimento com
argila o forno sofre uma primeira queima – durante a
metade de um dia – com madeira verde (que possui
caloria mais baixa) a fim de se reparar possíveis
rachaduras. O orifício frontal do forno é tapado com
cunhas de argila e na abertura de seu topo é posto um
cilindro de argila onde se apoiará o fole. O forno é
alimentado com carvão vegetal e a temperatura é
elevada a 1300ºC graças à ação do fole. A esta altura,
os minérios são colocados na estrutura, onde começa o
processo de redução: pequenos glóbulos de ferro
metálico são formados e gradualmente coligados; essa
massa de ferro com aspecto de esponja é coletada do
fundo do forno. Ao mesmo tempo, os materiais que se
tornaram fluidos antes do ferro (escórias) são escoados
para fora da estrutura (através de uma abertura feita na
cunha de argila que tapara a entrada frontal),
solidificando-se quando em contato com o ar (Figura
77). Depois dos florescimentos de ferro terem sido
retirados, as escórias presas no interior do forno são
raspadas e a estrutura está pronta para o uso
novamente.
Os florescimentos (lingotes) precisam ser
trabalhados. Usando a técnica de alternar calor com
marteladas, o ferreiro molda e, ao mesmo tempo, retira
possíveis escórias de dentro da massa esponjosa. Isso é
possível somente quando o pedaço de metal está
aquecido a 1100ºC: temperatura na qual a escória fica
semi-derretida e o ferro se torna maleável. Diz Henry
Cleere: “A estrutura do florescimento era,
metalurgicamente, muito heterogênea. Os últimos
metais trabalhados, ao passarem pelas seções mais
baixas da superestrutura do forno onde a temperatura
excede 1200ºC, se tornam amalgamadas com o carbono
pelo contato com o carvão quente e rapidamente são
convertidos em aço. No entanto, o processo é devagar:
em meus experimentos, levei cerca de 8 horas para
produzir algo em torno de 9 Kg de metal” 275 (Figura
78).
O ferro puro é relativamente frágil para
operações cotidianas, como ferramentas e armas. Para
contornar essa situação, geralmente produzia-se aço,
como o mencionado acima pelo autor. A estrutura do
aço é alcançada quando se injeta por volta de 1% de
carbono no ferro. Na Antiguidade, o aço era obtido
diretamente do forno quando se trabalhava o restante
de metal, ou ao se deixar os lingotes de ferro fechados
na câmara do forno, entrando em contato com carbono.
Porém, grande parte do aço romano era fabricado nas
ferrarias, contando com a habilidade do artesão, que
comprava os lingotes de ferro já prontos276.
A organização romana de produção de ferro
estava dividida em dois grupos, baseados nos sítios
escavados: os terrenos com fornos sozinhos, e os
terrenos com múltiplos fornos. Exemplos do primeiro
tipo são encontrados em Wealden, enquanto o outro
pode ser ilustrado com os vestígios de Ashwicken e
Bardown, Inglaterra277.
- Trabalhando o ferro:
Os lingotes comercializados na cidade eram
comprados pelos artesãos trabalhadores de metal. Os
retalhos de ferro também eram fonte importante nas
oficinas, embora o preço desse metal fosse baixo em
toda a época romana.
A atividade do artesão diferia da do ferreiro
que transforma a matéria-prima. Enquanto o último
trabalha principalmente sobre a fundição dos minérios,
o primeiro utiliza-se da técnica da forja: martelando o
metal aquecido a fim de lhe dar formas. É bem
provável que existissem casos em que ferreiro e artesão
se confundiam, tendo uma só pessoa encarregada de
refinar e dar acabamento ao seu material, porém, a
distância das minas dos locais dos grandes fornos de
fundição, aliada ao baixo valor do ferro, faziam com
que os ofícios fossem delineados, tendo especialistas
para extração, para o refinamento e para o acabamento.
Um dos principais equipamentos de que
necessitava o artesão era o fogão, onde aqueceria o
ferro. Segundo o arqueólogo W.H. Manning, os fogões
eram construídos em pedra ou tijolos sobre uma
plataforma278. O fogo ficava coberto por uma semiabóbada, atrás da qual havia abertura para se acoplar os
foles – movidos por um assistente, como podemos
notar na cena presente na catacumba de Domitila, em
Roma (Figura 79). Infelizmente, as evidências sobre
esses fogões elevados do solo praticamente se
restringem a tijolos e alvenaria, o que torna importante,
ao estudioso, a análise da iconografia presente em
pinturas e relevos. O combustível usado para alimentar
o fogo era o carvão vegetal e as ferramentas
empunhadas a fim de trabalhá-lo consistiam em
atiçadores, ancinhos e a pás (geralmente possuindo
uma haste longa e torcida) (Figura 80).
A bigorna era uma das peças fundamentais
para a execução do trabalho. Relevos como o da estela
de Aquileia nos mostram que as bigornas eram um
grande bloco quadrado maciço de ferro posto sobre um
pilar de madeira, regulando-se, assim, a altura ideal
para o artesão (Figura 81). Algumas eram encovadas
em sua base, dando aparência de pernas. Suas
extremidades eram arredondadas para evitar ferimentos
e possuíam um orifício central. Esse orifício servia para
se prender um dos lados do metal incandescido
enquanto, com outras ferramentas, o trabalhador o
puxava para dar forma ao material. O orifício também
era usado quando se pretendia furar o lingote,
apoiando-o entre vão existente e os demais lados da
bigorna, pronto para receber o impacto que causaria
uma abertura. Havia, do mesmo modo, bigornas
“bicudas”, ou seja, que tinham suas extremidades
alongadas e estreitadas, formando, no conjunto, um
formato T (Figura 82)279.
Alicates e martelos eram outras duas
ferramentas indispensáveis ao artesão. Os alicates
surgiram na Grécia por volta do século VI a.C. e foram
muito utilizados no período de expansão romana.
Constituídos de uma longa haste e mandíbulas, os
alicates serviam para segurar o metal aquecido e, ao
mesmo tempo, evitar que o artesão se queimasse. Nas
palavras de Manning: “O ferreiro tinha uma
inestimável vantagem sobre a maioria dos outros
artesãos por serem capazes de fabricar seus próprios
instrumentos, e isso resulta mais claramente na
275
“Ironmaking”, in: Donald Strong e David Brown (eds.),
Roman crafts, p. 137.
276
Henry Cleere, “Ironmaking”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, pp. 138-139.
277
Ibidem, pp. 139-140.
278
“Blacksmithing”, in: Donald Strong e David Brown (eds.),
Roman crafts, p. 143.
279
W.H. Manning, “Blacksmithing”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, pp. 144-145.
62
variedade de mandíbulas encontradas nos alicates”280.
A forma mais comum de mandíbula era a de um arco
que terminava em garras paralelas, parecendo uma pêra
(Figura 83).
O martelo, por sua vez, era o encarregado pelo
cerne da fabricação de objetos em metal. Havia
martelos para serviços pesados (sendo usados com as
duas mãos) até aqueles que executavam com precisão
os acabamentos. A forma do malho praticamente não
mudou da época romana até agora, enquanto que os
martelos de mão sofreram pequenas modificações
(Figura 84). O processo de trabalho com o martelo é
descrito por W.H. Manning: “O metal era aquecido no
fogão e então carregado com o alicate até a bigorna,
onde era martelado para ganhar as características de
uma chapa. Se a peça era grande, dois homens a
trabalhavam: um segurando o alicate, o outro atacando
com o malho; ambas as operações necessitavam de
habilidade: para o ferro, que é movido e virado a fim de
se transformar em uma placa, e para a martelada, que
deveria sempre atacar o mesmo local, com a força
certa, ou o trabalho se perderia. Se a peça era pequena,
o ferreiro podia trabalhar sozinho, usando pequenos
alicates que tinham suas hastes postas em uma presilha
com formato de oito para facilitar o manuseio. Tão
logo o metal começasse a esfriar, deixava de ser
maleável e precisava voltar ao fogo. Um simples objeto
poderia ser feito de uma única peça de metal, mas, na
maioria dos casos, era composta de várias peças
soldadas juntas. Em alguns artefatos as linhas de solda
podem claramente ser vistas, embora seja mais comum
serem visíveis nas radiografias”281. A soldagem mais
usual consistia em afinar as extremidades de duas
peças distintas, aquecê-las, e depois uni-las com o
auxílio do martelo – esse processo deixa como marca
uma linha diagonal que contorna o artefato.
Outras ferramentas faziam parte do rol do
artesão. O mandril de mão era uma barra de ferro que,
ao ser apoiada sobre a peça com uma extremidade e
tendo a outra martelada, podia cortar os objetos
(Figura 85). O cinzel, por sua vez, parece ter sido
raramente usado: um dos exemplos é uma ferramenta
que possuía a aparência de um machado pequeno
(Figura 86). Orifícios eram abertos nas peças com a
ajuda de um furador e depois alargados com
ferramentas semelhantes, porém, menores (Figura 87).
Rebites auxiliavam na junção de placas de metal,
especialmente quando a chapa era tão fina que, a força
necessária para soldá-la, acabaria por danificá-la.
Existiam limas de diversos tipos, sendo utilizadas no
acabamento das peças (Figura 88). Os cravos eram
necessários para muitos trabalhos, e os ferreiros
precisavam dispor de grande quantidade: devido a essa
demanda, foi inventado um suporte que moldava a
cabeça dos cravos, dois de cada vez (Figura 89)282.
Acima já mencionamos o uso do aço pelos
romanos, contudo, W.H. Manning afirma: “[Sobre a
produção controlada de aço] deve-se enfatizar que não
há evidência de uma difundida, regular e intencional
produção no Império Romano (...)”283. O processo de
formação do aço consiste, como foi dito, em deixar o
ferro em contato com um agente que possua carbono,
no caso, o carvão vegetal; porém, o ferro geralmente
permanecia pouco tempo em meio ao carvão, fazendo
com que ocorresse aquilo que é denominado de
cimentação: o artesão, ao trabalhar o metal, o aquecia e
martelava, repetidamente, até obter uma peça
homogênea; durante essa atividade, formava-se uma
verdadeira “camada de bolo”, onde se intercalava uma
faixa de ferro com uma de aço, permitindo uma maior
resistência do metal. O quão os romanos estavam
cônscios sobre esse processo ainda é incerto. Porém, a
produção de artefatos atesta que os artesãos
dominavam duas técnicas básicas da fabricação de
objetos de aço. A primeira é o arrefecimento: o metal
incandescido é mergulhado na água, fazendo com que
sua estrutura química se altere – o resultado é um metal
mais duro, mas quebradiço demais para ser usado.
Então, para contornar essa deficiência, uma segunda
técnica se apresenta, a têmpera: consiste em reaquecer o metal, controlando a temperatura do fogão –
quanto maior a temperatura, mais o metal amolece. Os
artesãos romanos parecem ter tido o mínimo de
conhecimento acerca desse processo, uma vez que
século II d.C. surgem armas feitas a partir de soldagens
trançadas: esse método fazia com que o metal aquecido
fosse dobrado sobre si, formando várias camadas de
ferro e aço; espadas eram comumente fabricadas com
essa soldagem e, no fim do século III d.C., sua
utilização encontrava-se tanto no nordeste da Inglaterra
como na região da atual Dinamarca 284.
280
283
281
284
Ibidem, p. 146.
“Blacksmithing”, in: Donald Strong e David Brown (eds.),
Roman crafts, pp. 147-148.
282
Ibidem, pp. 150-152.
 Trabalhos em bronze
Além
do
bronze,
que
logo
será
pormenorizado, os romanos fabricavam objetos em
duas outras ligas metálicas.
O latão é um amálgama de cobre e zinco que
se distingue do bronze por sua cor dourada e
amarelada. Devido as suas propriedades de
composição, o latão não servia para trabalhos a frio,
sendo principalmente utilizado em processos de
fundição, com o auxílio de moldes, em fabricos de
vasos e moedas. Como os romanos não possuíam a
técnica correta para a extração de um minério de zinco
puro, usavam o seu óxido. O arqueólogo David Brown
descreve em seu artigo “Bronze and Pewter”, da obra
Roman crafts: “O método de se fazer latão consistia em
fundir o minério de zinco junto ao cobre puro ou ao
minério de cobre. Quando derretido sozinho, o zinco
volatiza e se perde; com o cobre, o zinco é incorporado
a ele e resulta no latão”285.
Outra liga era o peltre (pewter, em inglês),
formado por chumbo e estanho. Por causa de seu baixo
ponto de fusão, 300ºC, e sua característica maleável, o
peltre não era aconselhável para trabalhos frios. Sua
Ibidem, p. 148.
W.H. Manning, “Blacksmithing”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, pp. 148-149.
285
Op.cit., p. 26.
63
utilização era principalmente em soldagens e objetos
como pratos e vasos.
O bronze, por sua vez, é uma amálgama que
trabalha perfeitamente bem com técnicas que envolvam
calor ou não. O cobre representa a maior parte da liga,
porém, por ser macio e dúctil quando em estado puro, é
unido – a frio – com mais de 13,2% de estanho. Essa
proporção permite ao metal, uma vez enrijecido, ser
trabalhado por martelamento.
Quando se necessitava de caloria na
fabricação de objetos, essa liga de cobre e estanho
mostrava-se inadequada. Como diz Brown, as
propriedades de derretimento “são incrivelmente
melhoradas pela inclusão de chumbo na amálgama; ele
tem a vantagem de diminuir o ponto de fusão do metal.
Mas o chumbo afeta as propriedades mecânicas
requeridas para o trabalho a frio: então o artesão tinha
de estabelecer um balanço entre o chumbo e o estanho
de acordo com o uso que o bronze teria. Adicionando
2% de chumbo as propriedades mecânicas pouco se
alteram; de 3% em diante, a maleabilidade é
rapidamente afetada; quando a percentagem de chumbo
é acima de 30% fica difícil de manter os componentes
amalgamados e prevenir que o chumbo se separe do
cobre e do estanho. Para todos os propósitos práticos,
essa percentagem é o limite para o bronze”286.
- Métodos de derretimento:
Os romanos possuíam processos de
derretimento para a fabricação de peças sólidas ou
ocas.
Os objetos de menor porte eram, geralmente,
sólidos; para tanto, utilizava-se a técnica da cera
perdida. Inicialmente, fabricava-se um modelo da peça
em cera de abelha. Esse moldelo era, então, revestido
com uma camada de argila e areia; quando seco, o
conjunto de barro com preenchimento de cera era
submetido ao calor: por ter um ponto de fusão baixo, a
cera logo derretia e escoava por um orifício feito
anteriormente no revestimento. O molde oco sofria
uma nova queima para ficar apto a receber o bronze
fundido sem correr o risco de fragmentar-se. O metal
fundido era derramado no espaço em que antes estava a
cera, e, quando estava frio e solidificado, o molde era
quebrado (e descartado), retirando-se a peça de bronze
sólida – que passava por um acabamento onde se
aparavam as saliências e depois ganhava polimento
(Figura 90)287.
Os moldes, como dito, recebiam orifícios para
o escoamento da cera e, também, do bronze derretido.
Segundo David Brown, grande parte dos vestígios que
corroboram um processo de cera perdida encontra-se
nesses moldes. Primeiramente, as aberturas auxiliavam
o escape de ar quando o metal fundido era derramado,
fazendo com que não houvesse falhas na peça,
enchendo completamente o molde de argila. Esse
vazamento de bronze era descartado junto com a
quebra do molde, e poderia voltar ao fogo para uma
nova fundição; porém, nem todos eram re-
aproveitados, sendo comum encontrá-los nos sítios
arqueológicos. Por sua vez, a argila fragmentada,
devido ao seu pouco cozimento (ou seja, é frágil),
praticamente não deixa vestígios. Outra espécie de
vestígio é o resto do cadinho deixado pelos artesãos,
contendo
pouquíssima
quantidade
de
metal
solidificado288.
De acordo com os vestígios materiais, esse
método de cera perdida parece ter sido extremamente
comum em todo o Império.
Porém, quando os artesãos necessitavam
fabricar objetos maiores do que 20 cm, ou peças com
formas bojudas, o processo da cera perdida sofria
alterações de modo a serem feitos objetos ocos pois o
alto custo do material ficaria inviável. O fabrico, como
veremos, pode ser equiparado à estrutura de um bolo
recheado ou a de um sanduíche.
A primeira etapa consistia em fazer, com
argila, a forma, com contornos rústicos, da figura
desejada, tomando o cuidado de que tivesse um
tamanho menor do que o almejado ao final do
processo289. Depois, uma camada de cera era posta
sobre esse núcleo de argila, e os detalhes da peça feitos.
Por fim, a cera era revestida com outra camada de
argila e o conjunto todo era aquecido. A cera derretida
era escoada do molde, deixando espaço para o metal
fundido ser despejado. Quando o bronze esfriava, o
manto era quebrado, deixando aparecer a fina camada
de metal formada entre o núcleo e o revestimento de
argila.
Se a peça não apresentasse aberturas, o artesão
deixava o núcleo de argila dentro da cobertura de
bronze, como podemos notar na estátua de Hórus
Imperador, no Egito (Figura 91). Os vestígios
arqueológicos de mantos encontrados em Essex,
Inglaterra – como analisa David Brown – mostram que
duas camadas de argila formavam essa cobertura
(Figura 92). Primeiro era aplicada uma argila
finamente granulada a fim de que se adaptasse melhor
aos contornos e pormenores da cera. Sobre essa
camada, outra argila mais espessa era aplicada, dando
ao manto resistência ao fogo. No fragmento maior de
Essex, nota-se um orifício através do qual o núcleo era
sustentado: quando a cera derretia, se o núcleo não
estivesse preso ao manto, ficaria solto dentro da
cobertura, tornando o trabalho inútil. Hastes de metal
eram usadas para segurar o núcleo. Os artesãos
optavam por usar hastes feitas do mesmo metal que
logo seria despejado ali dentro; isso significa que o
metal fundido acabava por derreter a haste, não
causando maiores problemas à peça. Depois que o
objeto era removido, cortavam-se as saliências das
hastes290.
Os antigos enfrentavam problemas técnicos na
fabricação de peças maiores, mesmo com o recurso de
objetos ocos. Diz o autor já citado: “Os fatores
limitadores no caso desse tipo de derretimento
288
Idem, p. 27.
David Brown cita o exemplo de uma estátua de bronze:
desejando-se 30 cm finais, a peça em argila possuía cerca de 20
cm. Op. cit., p. 27.
290
David Brown, “Bronze and pewter”, in: Donald Strong e
David Brown (eds.), Roman crafts, pp. 28-29.
289
286
“Bronze and pewter”, in: Donald Strong e David Brown
(eds.), Roman crafts, pp. 25-26.
287
Idem, p. 27.
64
convergem com a quantidade de metal fundido que
pode ser manipulado de uma só vez. Quanto maior o
derretimento, maior a temperatura necessária para a
fundição, e mais rapidamente o metal deve ser usado
antes de esfriar; conseqüentemente, mais o metal deve
estar aquecido. Esses dois fatores combinam para
limitar o tamanho da maioria dos objetos de finas
camadas de metal a dimensões não superiores a 90 cm.
Até mesmo as dificuldades práticas de se ter grande
quantidade de metal fundido não se limita
exclusivamente aos cadinhos. O metal deve ser
derretido em um forno que esteja situado próximo – e
em um nível mais alto – ao molde que será utilizado:
assim, o metal fundido corre pelos canais, enchendo o
molde graças à ação da gravidade, sem precisar de um
transporte para os cadinhos”291.
Além de objetos feitos inteiramente em um só
molde, os romanos fabricavam peças que continham
partes separadas. Exemplo é a estátua de bronze de
uma sacerdotisa achada em Nemi, Itália, do período
tardio etrusco. A figura é composta de oito partes: o
corpo dividido em três segmentos, dois braços e dois
pés, e o topo da cabeça (Figura 93). O artesão
fabricava um molde para cada parte da figura em cera,
argila ou gesso, e depois dava continuidade ao processo
semelhantemente ao método da peça única:
derretimento da cera interior e preenchimento com
bronze fundido. Quando todos os segmentos estavam
prontos, eram unidos por meio de rebitagem ou
soldagem. As soldas envolviam um pouco mais de
complexidade, uma vez que necessitavam de outro
molde, da seguinte maneira: as partes eram colocadas
no local certo, próximas, e um molde de argila envolvia
exterior e interiormente a junção; esse molde possuía
uma abertura por onde o metal fundido escorria, isso
era requerido para que as extremidades das peças
aquecessem-se o suficiente a ponto de unirem-se ao
metal despejado; quando estava na temperatura correta,
a abertura do molde era fechada e a junção era
preenchida com o metal fundido; quando frio, a parte
exterior do molde era retirada, restando a solda. A
soldagem deixava superfícies irregulares em ambos os
lados da peça. Exteriormente, as cicatrizes da solda
eram removidas no processo de acabamento. As marcas
internas nunca sumiam, como aparecem nos vestígios
(Figura 94)292.
- Derretimento para fabricação de vasilhas:
As vasilhas, tal como no caso da prata, podiam
ser marteladas para tomarem forma. Esse método será
analisado quando discorremos sobre as peças em prata.
Por ora, mencionaremos como os romanos faziam
vasilhas de bronze e peltre a partir de derretimentos dos
metais.
Essa espécie de processo ocorria para dois
tipos de objetos: vasilhas abertas – pratos, travessas e
caçarolas, por exemplo – e vasilhas fechadas – garrafas
de gargalo estreito, jarros e lamparinas, entre outros. A
técnica, necessariamente, dependia de um molde. Tanto
para o bronze como para o peltre utilizavam-se moldes
feitos em pedra. Normalmente em calcário, o molde era
cavado e colocado no torno para adquirir o tamanho
correto e o acabamento; o conjunto contava com uma
parte superior e uma inferior que, juntas, constituíam a
forma para a vasilha. O metal fundido era despejado
nesse conjunto através de um orifício feito no molde,
sendo que o ar escapava pela fresta existente entre as
camadas de pedra (Figura 95). A diferença principal
entre o bronze e o peltre trabalhados centrava-se no
ponto de fusão: o último a 300ºC e o primeiro entre
1000 e 1100ºC293. Quando enrijecida, a vasilha passava
ao torno para o acabamento e polimento.
David Brown menciona os pormenores de um
torno reconstruído pelo estudioso Alfred Mutz, a fim
de fabricar objetos em bronze tal qual os romanos
antigos o faziam; diz o autor: “(...) ele construiu um
torno em madeira, incorporando todas as características
que possam ser usadas para o fabrico de vasilhas. Esse
torno requer dois operadores: um para girar a manivela
e fazê-lo funcionar, e outro para segurar a ferramenta
de corte e guiar o trabalho. A roda do torno gera de seis
a sete revoluções a cada volta da manivela. A estrutura
do torno é construída com madeira sólida, o que dá
peso e rigidez necessários à estabilidade. O disco de
trabalho é adaptado ao objeto desejado. (...) Esse disco
é fixado no fim do mandril, sendo preso por três cravos
(...). O outro lado do objeto é suportado por uma haste
– ajustável – que termina em uma ponta estreita; então,
essa ponta de contato é pressionada contra a base do
objeto, fazendo com que sua maior área fique exposta
ao trabalho de torneamento. Um bloco de madeira
abaixo do objeto atua como um descanso para a
ferramenta do artesão” (Figura 96)294. Esse tipo de
equipamento era usado para dar a forma final e para
acabamentos. Era muito comum os pratos, por
exemplo, saírem dos moldes com tamanhos diferentes
devido ao erro do artesão ao juntar as duas partes da
forma, não deixando-a co-axial. Decorações
envolvendo cortes no metal com o auxílio do torno são
típicas da metade do século II d.C. em diante. As
marcas encontradas nas bases e fundos das vasilhas
podem representar tanto a retirada do excesso contido
nessa parte da peça (formando algo decorativo) como
serem sinais dos desenhos feitos com compasso pelos
artesãos – círculos eram desenhados a fim de se
encontrar o ponto correto de rotação, deixando a
vasilha apta a receber cortes iguais em toda a sua
extensão (Figuras 97 e 98)295.
Vasilhas também podiam ser fabricadas
utilizando-se núcleos. Essa técnica aplicava-se a
recipientes fechados, como jarros, garrafas e
lamparinas. Fazia-se o núcleo de argila com o formato
da peça e o revestia-se com um molde de pedra ou
argila em duas partes. Após derramar o metal e esperar
sua solidificação, tirava-se a vasilha e quebrava-se o
núcleo em seu interior. As lamparinas eram fabricadas
de modo semelhante, com um único molde, e tinham
seus núcleos retirados pelos orifícios por onde se
293
291
“Bronze and pewter”, in: Donald Strong e David Brown
(eds.), Roman crafts, p. 29.
292
Idem, pp. 30-33.
David Brown, “Bronze and pewter”, in: Donald Strong e
David Brown (eds.), Roman crafts, p. 34.
294
Ibidem, p. 34.
295
David Brown, “Bronze and pewter”, in: Donald Strong e
David Brown (eds.), Roman crafts, pp. 35-36.
65
despejava o óleo combustível. Porém, em peças que
possuíam gargalos muito estreitos o molde não possuía
base: retirava-se o núcleo e depois se soldava um fundo
preparado no torno (Figura 99)296.
Quando a peça se mostrava difícil de ser
fabricada inteiramente com moldes ou em torno, a
solução era segmentá-la. Os bronzes, assim como a
prataria, poderiam ser construídos com a união das
duas técnicas. O jarro de Lanarkshire, Inglaterra, por
exemplo, teve corpo e pescoço feitos separadamente,
por alçamento, e depois soldados (o que é visível
observando-se a linha na peça); a asa do jarro também
foi fabricada separadamente, em molde, e depois
soldada ao conjunto (Figura 100).
A vasilha pronta recebia, por fim, uma camada
de proteção. Como diz Plínio (XXXIV, 21):
297
O cobre se torna coberto de azinhavre
mais
rapidamente quando limpo do que quando negligenciado, a
menos que seja esfregado com óleo. É dito que o melhor
método de preservação é estanhar o cobre.
A estanhagem de peças de bronze consistia em
se mergulhar o objeto em estanho fundido – que,
devido ao seu baixo ponto de fusão, não oferece risco
algum à vasilha de bronze298.
- Os vasilhames de bronze romanos:
As vasilhas fabricadas pelos artesãos plebeus
podem ser classificadas de acordo com a tipologia
estabelecida pela arqueóloga Maria Isabel D‟Agostino
Fleming em sua tese de doutoramento299:
296
Ibidem, p. 37.
Nome dado à oxidação do bronze, de coloração tipicamente
esverdeada.
298
Ibidem, p. 39.
299
O vasilhame de bronze romano: produção e consumo no
início do período imperial, pp. 72-88; 108.
297
66
As formas das vasilhas podem ser vistas nos
itens da Figura 101.
A técnica de fabricação das formas abertas
simples e das fechadas simples, de acordo com a
autora, partia de uma placa de bronze fundido que era
reduzida a uma folha por martelamento; o aspecto final
das vasilhas era dado de acordo com um gabarito
existente. Esse ato de martelar o bronze, como mostra a
metalografia, era feito a frio, pois, em objetos de
paredes com espessuras inferiores a 1 mm, a
temperatura elevada logo se dissipa. “O resultado final
são vasilhas sem emendas, de paredes finas, lisas ou
com sulcos como os urceola e as formas ou moldes. Os
acessórios como alças, cabos, argolas de sustentação
das alças e pés são fundidos. Alguns deles são
submetidos a martelamento: alças móveis das sítulas,
dos lances ou de grandes vasilhas, cabos de páteras, de
sartagi, de simpula e de cola”300.
As vasilhas de formas abertas complexas são
fabricadas a partir de um esboço fundido feito com
molde que, por martelamento, adquire sua forma final.
Esses esboços podem ter paredes grossas ou finas. Os
de paredes finas implicam em uma temperatura de
fundição mais elevada do que os de parede mais
espessas. Assim sendo, a proporção de estanho da liga
é mais alta, variando de 9 a 12 % (dando maior dureza
à matéria), além de conter chumbo (1 a 2%) para
auxiliar na fluidez do metal líquido colocado nos
moldes. O chumbo também ajuda na hora em que o
artesão leva a peça ao torno para dar o acabamento. O
trabalho de torneamento implicava em uma mudança
na composição das ligas metálicas, conforme o objeto
intentado, gerando dois tipos de esboços: a) esboço
fundido composto por estanho em quantidade de 9 a 12
%, e chumbo de 18 a 20%; b) esboço oriundo de
martelamento e aquecimento, composto apenas por
cobre e estanho (de 9 a 12% em média)301. O
torneamento de peças com espessuras de parede
menores do que 1 mm, só era possível para objetos
com grandes aberturas (peluis, caçarola, páteras leves e
simpula); as vasilhas de abertura mais estreita tinham
suas paredes afinadas por martelamento (as sítulas). Os
esboços com paredes espessas (4 mm ou mais) não
precisavam de uma fundição tão refinada, por isso,
suas composições tinham cerca de 7% de estanho e 13
a 15% de chumbo. Após serem retiradas dos moldes, as
vasilhas sofriam o processo de afinamento no torno.
Diz Maria Isabel Fleming: “As mudanças de técnicas
apresentadas relacionam-se às necessidades impostas
pelos tipos de vasilhas (vasilhas de paredes espessas ou
finas; abertura grande ou pequena em relação à altura
do vaso) ou estão associadas à escolha do artesão
(afinamento de paredes de vasilhas abertas altas
partindo de paredes fundidas espessas ou finas). A
escolha do artesão pode também ser relacionada à
disponibilidade de matéria prima, pois a fusão de
paredes finas depende da presença do chumbo. De
qualquer forma, essas variações significam a
convivência de duas técnicas no mesmo período, talvez
associadas a oficinas diferentes: a de tradição mais
antiga (paredes espessas marteladas) e a característica
do período romano, que é a de paredes finas
fundidas”302.
As formas fechadas complexas basicamente se
centravam em dois tipos de esboços. Esboços
inteiramente fechados, retirados assim, completos, de
seus moldes e depois martelados para acabamento
(embora as paredes não possam ser muito finas devido
à impossibilidade física presente em um objeto
fechado). Outro tipo de esboço, já mencionado acima, é
o que tem molde sem base, deixando uma abertura na
peça que auxiliava no martelamento para se adquirir as
formas finais desejadas. Outra característica desse tipo
de vasilha era a sua segmentação: partes eram fundidas,
marteladas ou torneadas separadamente e depois
unidas, formando o conjunto complexo 303.
O período de transição da República para o
Principado assistiu a um aumento vertiginoso em
relação à produção artesanal. Não só a cerâmica se
tornou abundante: a indústria do bronze expandiu-se
significativamente pela Itália. O maior pólo produtor
foi a região da Campânia, com suas peças mais
refinadas; contudo, a partir da segunda metade do
século I d.C., sua produção de bronze entra em crise
devido à substituição de peças importadas por
fabricações locais utilizando-se as antigas vasilhas
adquiridas como moldes para novas cópias. Cabe
ressaltar que as vasilhas de bronze, nesse período
tiveram suas funções estendidas: o que antes se
limitava a serviços de mesa e da parte social das casas,
agora atende também à cozinha (fato que nunca
ocorreu para os bronzes gregos e etruscos – arcaicos e
clássicos – e os helenísticos). Por fim, o estudo das
vasilhas não é relevante apenas para o entendimento
desses tipos de peças: devem ser examinadas “como
objetos que carregam em si as técnicas aplicadas na
execução de outros objetos de bronze”304.
 Trabalhos em prata
Petrônio, em meados do século I d.C.,
escreveu em sua famigerada passagem acerca de
Trimalquião, na obra Satiricon (“A ceia de
Trimalquião”):
A prata, eis o que me agrada. Eu possuo vasos
desse metal que são, mais ou menos, de tamanho de uma
urna: neles está esculpida Cassandra no ato de matar os seus
filhos; e os pequenos cadáveres são tão bem feitos que se nos
afigura tê-los a nossa frente. Possuo ainda uma ânfora,
deixada pelo meu patrão, na qual se vê Dédalo fechando
Níobe no cavalo de Tróia, e copos com os combatentes de
Hermeros e Petraites, todos maciços. Ah! Por ouro nenhum
me privarei desses vasos, que meu bom gosto me torna tão
caros!
Objetos em prata representavam o luxo no
cotidiano romano, sendo fabricados para os mais
302
Op. cit., pp. 113-114.
Maria Isabel D‟Agostino Fleming, O vasilhame de bronze...,
pp. 114-115.
304
Maria Isabel D‟Agostino Fleming, “A manufatura do
vasilhame de bronze...”, in: Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia, p. 97.
303
300
Maria Isabel D‟Agostino Fleming, O vasilhame de bronze...,
p. 109.
301
Ibidem, pp. 110-111.
diferentes propósitos. No mesmo capítulo em que há o
banquete na casa do liberto Trimalquião, há várias
menções a artefatos em prata, por exemplo: um vaso
como repositório de urina; pratos; os Lares feitos em
prata; grelha; palito de dentes; pequeno esqueleto
articulado; pequeno forno portátil; coroa de prata.
Vejamos, agora, quais as principais técnicas
empregadas no trabalho com esse tipo de metal.
Plínio nos oferece um retrato sobre as jazidas
de prata da Antiguidade (XXXIII, 31):
Prata é achada em jazidas penetradas no chão
profundamente, não havendo nenhuma indicação para
aumentar as esperanças de sua existência, nenhuma centelha
esplendente, como no caso de ouro. A terra na qual é achada
às vezes é vermelha, às vezes é de uma cor cinzenta. É
impossível, também, de ser derretida, exceto em combinação
com o chumbo ou com a galena; esta última sendo o nome
dado ao veio de chumbo – que é principalmente encontrado
correndo junto aos veios do minério prateado. Quando
submetido à ação de fogo, parte do minério [da galena] se
precipita na forma de chumbo, enquanto a prata flutua na
superfície, como óleo em água.
Prata é encontrada em quase todas as nossas
províncias, mas a melhor prata de todas é a da Hispânia; onde
é achada, como o ouro, em terras não cultivadas, e nas
montanhas. Onde quer que um veio de prata seja achado,
outro será encontrado seguramente não longe do local: uma
coisa que foi observada, na realidade, é o caso de que quase
todos os metais que surjam nesta circunstância parecem ter
derivado o seu nome do grego metalla. É um fato notável que
os poços abertos por Aníbal na Hispânia ainda sejam
trabalhados; os seus nomes derivam das pessoas que foram as
primeiras a descobri-los. Uma destas minas, que atualmente
ainda é chamada de Baebelo, enriqueceu Aníbal com o peso
de trezentas libras de prata ao dia. A montanha já está
escavada com uma extensão de mil e quinhentos passos; e ao
longo de toda esta distância há os “portadores de água”
parados noite e dia, jogando fora a água em turnos, auxiliados
pela luz de tochas, e assim formando um tranqüilo rio.
O veio de prata que é achado próximo à superfície é
conhecido pelo nome de crudaria. [...] As exalações as minas
de prata são perigosas a todos os animais, mais
particularmente aos cachorros [...].
A Hispânia e a Britânia foram as principais
fontes de prata do Império romano; a Península Ibérica
já era grande extratora desse minério desde os tempos
das Guerras Púnicas, enquanto que a Britânia tornou-se
importante na economia romana poucos anos após a
invasão feita pelo imperador Cláudio.
Plínio menciona a galena e a prata nela
contida. O arqueólogo David Sherlock em seu texto
“Silver and silversmithing”, da obra Roman crafts,
explica que os romanos utilizavam a cupelação para
separar a prata (e o ouro) dos demais metais presentes
na galena: aquecia-se no forno a galena que, ao chegar
à temperatura de 1000ºC, dividia-se em óxido de
chumbo (litargírio – PbO) e prata.
A prata pura extraída pelos romanos era muito
macia para ser trabalhada sozinha, portanto,
adicionava-se a ela uma pequena percentagem de
cobre, ouro ou chumbo. Amostras de vasilhas de prata
apresentam uma taxa de 92 a 98% de prata pura
misturada aos demais metais. A quantidade de cobre
acrescida, por exemplo, não mudava em nada a
coloração da prata, embora auxiliasse na maleabilidade
da amálgama.
- Modelagem:
O artesão contava, basicamente, com uma
bancada de trabalho para as atividades que
necessitassem maior pormenorização, um grande bloco
de madeira para o martelamento da prata, e martelos
feitos em ferro e madeira.
O primeiro passo era, cuidadosamente,
martelar a placa de prata, evitando ao máximo os
arranhões em sua superfície. Na fabricação de uma
tigela feita por Sherlock, o autor começou por martelar
uma placa circular sobre a depressão existente no bloco
de madeira, fazendo com que se tornasse côncavo: o
processo partia das bordas da placa para o seu centro,
em movimentos circulares (Figura 102). Porém, a
prata martelada a frio pode sofrer mudanças em sua
estrutura; por isso, a placa de metal era sempre
aquecida antes do martelamento.
Depois de tomada a forma final, o objeto era,
então, trabalhado em sua outra superfície, a convexa,
num processo denominado alisamento (planishing, em
inglês). Diz David Sherlock: “Este é um processo
básico no trabalho com prata e fundamental ao
artesanato. O martelo de alisamento é plano e é usado
com batidas leves para trabalhar em torno da tigela, em
espirais da borda até o centro; cada pancada deve
justamente ser dada após a antecessora e entre as
batidas da linha anterior, assim, formam-se faces quase
hexagonais em toda a extensão do objeto”305. Essa
técnica exige uma habilidade grande do artesão, e
também certa quantidade de paciência, já que são
centenas de batidas com o martelo no objeto que
repousa sobre uma estaca de ferro com ponta
arredondada (Figura 103).
As marcas deixadas pelo martelo podem ser
completamente removidas durante o polimento. Esse
acabamento era feito com limas de ferro de pequena
aspereza e depois com uma pedra abrasiva lubrificada
com água – removiam-se, assim, as marcas das limas e
arranhões acidentais. O polimento também podia ser
feito com a ajuda de um torno.
Quando as peças eram segmentadas, a
soldagem tornava-se necessária. Limavam-se ambas as
extremidades dos objetos separados para melhor
aderência da solda – feita com uma liga de duas partes
de prata para uma de cobre. Então se aplicava uma
camada de bórax (borato de sódio) que atuava de modo
a impedir a oxidação das peças quando fossem
aquecidas. A prata e a solda eram levadas juntas ao
fogo em uma temperatura suficiente para fundir a solda
e deixá-la escorrer pela junção da peça. Uma soldagem
bem feita, praticamente não deixava rastros de sua
feitura. O romano Plínio escreveu em sua História
Natural sobre a soldagem (XXXIII, 29):
Os ourives também empregavam a chrysocolla
[malaquita] em seu trabalho, com o propósito de soldar o
ouro; e é desta chrysocolla, dizem, que todas as demais
substâncias que apresentam coloração esverdeada receberam
seu nome. Sua preparação é feita a partir do azinhavre do
cobre, da urina de um jovem que não chegou à puberdade
ainda, e de uma porção de óxido nitroso (N2O). Essa mistura
305
“Silver and silversmithing”, in: Donald Strong e David Brown
(eds.), Roman crafts, p. 13.
70
é amassada junto a cobre cipriota, e o nome dessa mistura é
santerna. É desta maneira que o ouro conhecido como
“prateado” é soldado [...]. Se, por outro lado, o ouro é
impregnado com cobre, ele se contrai, se ofusca e torna-se
difícil de ser soldado; de fato, para este tipo de ouro existe
uma solda particularmente empregada, feita de ouro e uma
sétima parte de prata [...].
Uma vez fria, a peça unida tinha as sobras de
solda removidas, estando pronta para o polimento.
- Alçamento:
Essa técnica consiste em alçar uma placa de
prata de acordo com o intento do artesão; vasos,
garrafas e tigelas podiam ser feitos dessa maneira. Para
tanto, o artesão utilizava um martelo próprio, com sua
cabeça em formato retangular (tendo seus cantos
arredondados para prevenir arranhões no metal).
Um objeto com forma de copo, por exemplo,
começava a ser trabalhado a partir de uma placa
circular de prata; o artesão, com a ajuda do martelo e
do bloco de madeira como apoio, dava a concavidade
que desejava à placa. Depois marcava o fundo do
artefato e o levava à estaca de ferro arredondada para
criar a base. Isso feito, o objeto tinha sua circunferência
martelada contra a estaca de ferro ou na parte bicuda da
bigorna, girando-o a cada batida, para deixar uniforme
e alçar as paredes sem maiores erros (Figura 104).
O artesanato era levado ao torno, para receber
o polimento: assim, as marcas oriundas do alçamento
desapareciam, num processo similar ao aplicado aos
vasilhames de bronze acima mencionados. Para
produções em larga escala, e com rapidez, os artesãos
mais habilidosos poderiam fazer suas peças
diretamente no torno, com martelamento306.
- Derretimento:
A arqueóloga Lucia Stefanelli aponta uma
técnica de fabricação de peças em prata por meio da
fusão do metal307: “Outro procedimento consistia no
uso de matrizes nas quais o metal fundido estava
despejado. Tal método não só era aplicado para o
vasilhame enfeitado, mas também para cálices, taças e
pratos lisos. De acordo com o tipo de vaso a ser
fabricado, a técnica de matrizes variava ligeiramente.
No caso de formas abertas como taças e pratos, o metal
era despejado dentro um orifício especial entre duas
matrizes de pedra, uma para a superfície exterior, outra
para a interior; no caso de formas fechadas como os
jarros e ânforas, as matrizes eram postas entre um
núcleo de argila [...]. Os objetos assim finalizados iam
até o torno mecânico, removendo da superfície o metal
em excesso”. Após a forma final, a peça recebia suas
decorações.
- Decoração com repoussé:
Essa
técnica
denominada
repoussé
(“empurrado”, em francês) consistia em um dos mais
difundidos meios de se aplicar relevos em vasilhas de
306
David Sherlock, “Silver and silversmithing”, in: Donald
Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, pp. 16-17.
307
L’argento dei romani, pp. 30-31.
prata. O trabalho era feito pelo avesso, ou seja, o
artesão cuidadosamente batia um pequeno martelo no
interior da vasilha para que as figuras se formassem.
De tempos em tempos, a decoração tinha de ser
suspensa para que o objeto sofresse uma nova seção de
martelamento a fim de conservar a forma original da
peça, sem deformações provenientes do repoussé. Esse
tipo de decoração “foi especialmente popular na
decoração de taças com florais e cenas figuradas, mas
deixa uma superfície desigual no interior do objeto,
sendo uma prática normal fixar um revestimento por
dentro da peça, soldado ao restante do corpo na
borda”308 (Figura 105).
- Decoração com entalhamento:
Ao contrário do repoussé, o entalhamento era
feito a partir da superfície do objeto que se desejava
decorar, por isso, o entalhamento pode ser entendido
como a técnica do “apertar”. Esse baixo-relevo era
aplicado com martelo e formão, desenhando
ornamentos sobre a peça. Um dos melhores exemplos
de entalhamento pode ser observado na travessa
Oceanus, do tesouro de Mildenhall, Inglaterra (Figura
106).
- Decoração com estampas e carimbos:
Por vezes, o artesão utilizava um molde já
pronto da figura que desejava, bastando apenas calcá-lo
sobre a prata. A tigela do imperador Licínio nos mostra
que cada uma das letras estampadas foi feita com
formões que possuíam o contorno desejado (Figura
107)309.
No período romano, era muito comum achar
carimbos nas bases dos objetos de prata que
informassem o peso do produto. Nos séculos V e VI
d.C., algumas peças eram carimbadas com um selo
imperial, como garantia de qualidade (Figura 108).
- Nielo, incrustação e brilho:
O nielo foi uma técnica muito difundida a
partir do século I d.C.. Era um sulfureto de prata, sendo
obtido da escaldadura da prata com enxofre. Esse
material era deixado para secar e logo após
transformado em pó. Aplicava-se nielo sobre a
superfície da peça de prata e o aquecia: sua
consistência tornava-se plástica, deixando uma fina e
brilhante camada negra sobre o objeto (Figura 109)310.
A prata também servia como adorno. Era
incrustada em peças de madeira, mobiliário, encaixes
de marfim e de bronze e em estátuas. Segundo David
Sherlock: “Em particular, no primeiro século, foi muito
comum estatuetas de bronze serem embelezadas com
pequenas peças de incrustações; os olhos e os lábios
eram os lugares favoritos, assim como os detalhes das
vestimentas (botões e tiras de sandálias). Incrustações
308
David Sherlock, “Silver and silversmithing”, in: Donald
Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 19.
309
David Sherlock, “Silver and silversmithing”, in: Donald
Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 21.
310
Lucia Stefanelli, L’argento dei romani, p. 30.
71
desse tipo fixavam-se nos sulcos a elas reservados por
martelamento.
Os objetos em prata podiam receber dois tipos
de brilho. O primeiro utilizava uma fina camada de
ouro que era colada à peça com algum tipo de adesivo
especial. Já no segundo método, o mercúrio atuava
como o responsável para o brilho: ouro e mercúrio
eram amalgamados e aplicados sobre a superfície; a
peça era aquecida, fazendo com que o mercúrio
evaporasse, restando apenas o ouro no local311.
 Joalheria
A criação da identidade dos cavaleiros
(equites) frente ao resto da população romana, segundo
a tradição, deu-se no reinado de Tarquínio Prisco, ao
presentear com um anel de ouro. Diz Plínio, o Velho
(História Natural, XXXIII, 4):
Tarquínio Prisco, no entanto, sendo bem conhecido,
foi o primeiro que presenteou seu filho com uma bulla312 de
ouro na ocasião em que assassinou um inimigo que não havia
ainda vestido a pretexta; período do qual o costume de se
portar a bulla continuou: uma distinção limitada às crianças
daqueles que haviam servido à cavalaria (as outras pessoas
portavam simplesmente uma tira de couro).
Durante a República, o anel de ouro foi
utilizado somente em missões diplomáticas, tomandose a preocupação de apenas usá-lo em público
(História Natural, XXXIII, 4):
Aqueles que receberam anéis de ouro na ocasião de
embaixada, só podiam o portar em público: em suas casas
carregaram o anel de ferro. É desse costume que, hoje em dia,
um anel de ferro é mandado como presente a uma mulher
quando pedida em noivado, sem pedra alguma nele.
Ainda é Plínio quem discorre sobre alguns
usos dos anéis (XXXIII, 6):
Era o costume, no princípio, só usar anéis em um
único dedo, o “um”, isto é, aquele que está próximo ao dedo
mindinho; e isto nós vemos no caso das estátuas de Numa e
Sérvio Túlio. Em tempos posteriores, se tornou a prática de
pôr anéis no dedo próximo ao polegar, até mesmo no caso
das estátuas dos deuses; e mais recentemente, novamente, foi
a moda de usá-los no dedo mindinho. Entre os povos de Gália
e Britânia, o dedo médio, é dito, é usado para este propósito.
Porém, entre nós, este é o único dedo que é excluído hoje em
dia, todos os outros estão carregados com anéis; até mesmo
anéis menores foram adaptados separadamente para as juntas
menores dos dedos. Há alguns que amontoam vários anéis só
no dedo mindinho; enquanto outros, novamente, usam
somente um anel neste dedo, o anel sigilar, sendo mantido
cuidadosamente como um objeto de raridade, muito precioso
ser usado comumente (...).
Alguns, também, fazem uma ostentação do peso de
seus anéis, enquanto outros labutam para usar mais que um
de cada vez: alguns, para a segurança de suas pedras
preciosas, fazem o arco de ouro enfeitado e o enchem com
um material mais claro do que o ouro, pensando diminuir os
riscos de uma queda. Outros, por sua vez, têm o hábito de
311
312
David Sherlock, Op. cit., p. 20.
“Bolha; botão”, em latim.
incluir venenos embaixo das pedras dos anéis e assim os
usam como instrumentos de morte (...). Quantos dos crimes
que, estimulados por cobiça, fazem-se com o auxílio de
anéis! Como eram felizes os tempos em que nenhum selo era
posto em qualquer coisa! (...).
De fato, as transações mais importantes da vida são
agora feitas de maneira a depender deste instrumento (...).
Nós podemos, então, muito seguramente, concluir que tão
logo foi introduzido o dinheiro entre nós, o uso de anéis foi
estabelecido logo após.
Com um uso tão difundido na sociedade
romana, sorte dos artesãos que fabricavam esses anéis.
Lucia Stefanelli em sua obra L’oro dei romani
explica a terminologia aplicada aos artesãos do ouro313:
“Aurifex é, na realidade, um termo genérico já que a
epigrafia romana atesta outras figuras que têm funções
especializadas no trabalho com o ouro (...): há
testemunhado o brattiarius – artesão especializado no
martelamento do ouro; o barbaricarius – decorador de
ouro e, em época tardia, de armas também; o inaurator,
dourador. (...) Outros artesãos são especializados na
fabricação de determinadas jóias, como o anularius,
para os anéis, e o armillarius para os braceletes”. As
pedras preciosas e as pérolas eram comerciadas e
trabalhadas pelo gemmarius e o margaritarius,
respectivamente.
O arqueólogo Reynold Higgins em seu
capítulo “Jewellery” no livro Roman crafts aponta as
evidências da produção joalheira romana 314: “fontes
escritas,
que
são,
no
entanto,
raramente
compreensíveis; representações em esculturas e
pinturas de artesãos no trabalho315; ferramentas
sobreviventes; evidência similar de civilizações
relacionadas, como a minoana, a micênica e a grega; e
tecnologia comparativa. Essa última fonte tem se
mostrado a mais produtiva (...)” 316.
Os maiores centros de produção joalheira do
Império romano foram Alexandria e Antioquia (atual
Antaquia, na Turquia), embora oficinas de trabalho em
ouro sejam encontradas por toda a Roma.
O trabalho do artesão começava com o
recebimento dos lingotes de ouro, geralmente vindos
dos Balcãs, Gália, Hispânia ou Britânia. Todo o metal
usado quente era aquecido em fornos abertos à base de
carvão; sendo o fogo alimentado por foles. Além do
forno, os artesãos usavam diversas outras ferramentas
para o manuseio dos produtos, sendo as principais,
segundo Higgins: bigorna; martelos variados;
estampas; cunhos e modelos; punções; marcadores;
cinzéis e ferramentas de entalhamento; formas;
alicates; balanças e pedras de polimento; abrasivos;
cadinhos de terracota; e tigelas de resina317.
As técnicas aplicadas na ourivesaria eram
semelhantes, em grande parte, às da prata. Acima já
313
Página 39.
Página 53.
315
Ver Figura 110.
316
Para um entendimento da tecnologia empregada no século XX
para o fabrico de jóias, ver o manual de William T. Baxter,
Jewelry, gem cutting and metalcraft.
317
“Jewellery”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 54.
314
72
foram mencionados os modos de se aplicar repoussé,
entalhamento e estampagem, além do derretimento
(despejado em moldes ou por meio da “cera perdida”),
e por isso não serão agora repetidos; contudo, as
Figuras 111 a 113 auxiliam no esclarecimento sobre o
que foi explicado.
Devemos, pois, nos centrar nas decorações e
métodos de fabrico específicos da joalheria, ou seja, a
granulação, a filigrana, as correntes e a aplicação de
gemas.
François de Callataÿ explica as hipóteses
existentes para a fabricação dos grânulos de ouro 318: A)
método no qual o metal derretido é derramado, a uma
determinada altura, sobre uma superfície lisa; B) a
descrição de Agricola, em De re metallica (1556),
dizendo sobre a necessidade de se derramar o metal
fundido sobre uma tábua debaixo de água corrente,
para acelerar o esfriamento; C) grânulos formados a
partir do despejamento do metal em um pote com água,
passando por uma peneira; D) aquecimento da
extremidade de um fio de ouro até seu gotejamento; E)
verter o metal sobre um pote com pó de carvão; F)
colocar pedaços de ouro entre camadas de cinzas em
um cadinho e aquecer o conjunto até o derretimento do
metal; G) Cortar pedaços de fios de ouro em tamanhos
parecidos e aquecê-los. O método, porém, que obtém
grânulos mais satisfatórios, ou seja, produzidos com
certa uniformidade de tamanho e peso, é o que se
assemelha ao “F”. Callataÿ cita o trabalho empírico do
autor Thouvenin 319 para se fabricar o material: “o ouro
é martelado em finas folhas; estas são cortadas de
modo a formar delgadas lâminas e depois lascas. As
lascas são postas no fogo e se contraem. Por essa
reação metálica, pequenos erros na hora do corte
desaparecem e os grânulos adquirem o mesmo
tamanho. Thouvenin atesta que produziu milhares de
grânulos dessa maneira. Isso condiz com os antigos
grânulos, que eram feitos aos milhares por hora. Ele
atenta para demonstrar que o uso de carvão é inútil
[assim como qualquer outro combustível]”320.
Com os grânulos prontos, era necessário fixálos na peça antes de soldá-los. Uma das maneiras de
colá-los é descrita pelo monge germânico Teófilo, no
século XII, em sua obra Schedula Diversarum Artum
(III, 53):
Você irá ter, também, farinha de trigo ou centeio,
com a qual você irá misturar água em uma pequena taça, e
colocá-la sobre carvões, aquecendo-a um pouco: nisto, você
mergulha [os grânulos] levemente, um a um, em sua parte
mais baixa, e depois os fixa em seus lugares. Tudo deve ser
feito rápido (...) antes de a mistura de farinha secar.
Postos em seus lugares, os grânulos estão
aptos à soldadura. É justamente nesse ponto em que os
estudiosos da granulação mais divergem. Soldar os
grânulos é extremamente difícil, e torna-se penosa a
318
“Granulation”, in: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold
jewelry, p. 185.
319
A. Thouvenin, “La sodure dans la construction des oeuvres
d‟orfèvrerie antique et ancienne”, in: Revue Archéologique de
l’Est et du Centre Est, 24, 1973, p. 45.
320
“Granulation”, in: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold
jewelry, p. 186.
tarefa de tentar distinguir quais métodos de soldagem
foram aplicados em um artefato (Figura 114). Callataÿ
aponta possíveis respostas à questão321: A) grânulos
fixados em, no máximo, 13 unidades por centímetro
podem ser soldados com uma fina tira de liga metálica
(formada por cobre, prata e ouro); porém, essa hipótese
não dá conta de peças que possuem, por exemplo, 70
grânulos por centímetro; B) o ouro possui duas
temperaturas de fundição, sendo a mais baixa
conseguida em objetos pequenos, como os grânulos; no
entanto, essa técnica só funciona em ouros
extremamente puros, e sabemos que, na Antiguidade,
os minérios não eram livres totalmente de impurezas;
C) finalmente, o método que talvez mais se aproxime
do original, seja um híbrido dos descritos
anteriormente: utiliza-se um preparo não-metálico à
base de propriedades do cobre – essa amálgama é
aplicada nos grânulos, tendo seu ponto de fusão mais
baixo do que o do ouro (graças ao cobre). Callataÿ
menciona cinco tipos de substâncias que contêm cobre
em sua fórmula e que poderiam ser utilizadas para a
soldadura: a chrysokolla, também conhecida por
malaquita
(CuCO3.CuOH3),
a
azurita
[2CuCO3.Cu(OH)2], o azinhavre [Cu(OH3Co2.5H2O)],
o vitríolo (CuSO4.5H2O), e santerna – palavra de
origem etrusca –, um composto de chrysokolla,
azinhavre, urina e nitra.
A filigrana, por sua vez, é usada na joalheria
para designar ornamentos feitos de fios de metal
preparados por várias técnicas (Figura 115). Esses fios
poderiam ser fabricados por: martelamento – método
mais simples, onde o lingote é martelado até a
obtenção do fio; e torcedura – martela-se o lingote até
adquirir a forma de um caniço com secção quadrada, e
depois se torce e rola-se o material entre duas peças de
madeira; a torcedura também podia ser obtida ao
enrolar-se uma tira de metal em uma haste cilíndrica322.
Essas técnicas eram adaptadas a diferentes usos, de
acordo com a necessidade do artesão (Figura 116).
O ouro, comparado com os demais metais, é o
que possui maior ductibilidade. Graças a essa
característica, os artesãos podiam conseguir fios de
ouro muito longos, garantindo uma produção de
filigrana mais eficiente. O instrumento usado para
tanto, era uma placa de puxar, descrita por Teófilo
como (III, 8):
Dois utensílios de ferro de três dedos de largura,
com topo e base estreitos, possuindo uma espessura
constante, e perfurados com três ou quatro buracos através
dos quais os fios são puxados.
Os diâmetros dos buracos são graduais, como
podemos notar no instrumento do período viking
achado em Estocolmo (Figura 117).
Para puxar os fios, fazia-se uso de resistentes
alicates. Dessa maneira, o conjunto era formado: do
cabestrante, uma corda era presa ao alicate que
segurava o fio de ouro; ao girar o cabestrante, o alicate
puxava o fio através dos buracos da placa acima
mencionada (Figura 118).
321
Ibidem, pp. 187-188.
Frédérique De Cuyper, “Filigree”, in: Tony Hackens e Rolf
Winkes (eds.), Gold jewelry, pp. 197-199.
322
73
Correntes e colares era feitos a partir da
habilidade dos artesãos em entrelaçar aros de metal.
Primeiramente, o fio de ouro era enrolado na haste
cilíndrica até tomar a espessura e a forma desejada.
Então os aros eram tirados do cilindro com a ajuda de
uma serra e estavam prontos para serem trabalhados
(Figura 119).
As correntes se formavam por diferentes
técnicas de junção dos aros, destacando-se, de acordo
com Anne Catherine Lemaigre323: A) corrente simples
– aros com formas circulares, ovais ou retangulares,
cada qual inserido no próximo e soldados juntos
(Figura 120); B) aro-no-aro simples – laços de fio que
ganham forma elíptica, e depois são dobrados ao meio,
enlaçando-se um aro no meio do outro (Figura 121), e
que também poderiam ser laços com forma semelhante
ao oito (Figura 122); C) aro-no-aro duplo – cada aro é
passado através de outros dois; D) corrente serpente –
um misto de aro-no-aro simples com o duplo (Figura
123); E) corrente de faixa – composto de aro-no-aro
duplo com o simples, unidos pelo lado, formando uma
faixa. Assim sendo, finalizava-se a corrente de ouro
(Figura 124).
Para decorar os trabalhos em ouro com pedras
preciosas os artesãos, em primeiro lugar, tinham de
selecionar e preparar a gema. Cortar e polir as pedras
poderia ser um processo executado de duas maneiras
diferentes: chips (“lasca”) – sem superfícies planas, as
pedras recebiam polimento por meio de um abrasivo
acoplado em um torno; cabochão – gemas polidas que
possuem a parte superior convexa e a parte inferior
plana324.
As ferramentas utilizadas na colocação de
gemas consistiam em cinzéis de variadas espessuras,
pinças para alargar buracos e posicionar pedras,
tenazes, furadores e malhos.
O modo mais simples de se fixar as gemas às
jóias era trespassar a pedra com um buraco e nele
adentrar com um fio de metal cuja extremidade
terminaria em protuberância a fim de segurar a gema
no lugar (Figura 125). Para as pedras sem faces planas
a melhor maneira de firmá-las era estabelecer uma fina
coroa de metal em seu contorno e soldá-lo à peça
(Figura 126). Cabochões eram mais fáceis de fixar:
bastava prendê-los aos engastes feitos nas jóias325.
Terminadas, as jóias passavam por um
acabamento
e
polimento
antes
de
serem
comercializadas pelos artesãos (Figura 127).
 Moedas
As moedas são as evidências que talvez
melhor orientem os arqueólogos para a confirmação de
uma datação absoluta. Muitas foram as oferendas na
Antiguidade e, do mesmo modo, muitas foram as
323
“Chains and Necklaces”, in: Tony Hackens e Rolf Winkes
(eds.), Gold jewelry, pp. 206-208.
324
Christiane Larock, “Stone setting”, in: Tony Hackens e Rolf
Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 193.
325
Ibidem, p. 194.
guerras que obrigaram as pessoas a enterrarem seus
pertences com o intento de se livrarem de pilhagem;
assim, a descoberta de “tesouros” em sítios
arqueológicos representa grande expectativa por parte
dos estudiosos.
As moedas carregam consigo não apenas um
valor monetário, mas, também, simbologias complexas
que permitem a nós estabelecer um diálogo com o
passado. Como bem aponta Christopher Howgego –
curador responsável pelas moedas romanas do
Ashmolean Museum (Oxford) – em seu artigo presente
na obra Coinage and identity in the Roman provinces:
“As moedas são o mais proposital de todos os símbolos
de identidade pública (...). [No entanto] essa identidade
não é uma qualidade inata, mas é constituída na
representação: as identidades nas moedas são, por
definição, aquelas pertencentes à elite. As explícitas
representações nas moedas – e as identidades implícitas
na decoração da iconografia e na estrutura da moeda –
pertencem a aqueles que controlam a cunhagem” 326.
As moedas, portanto, podem representar seis
grandes grupos, de acordo com a tipologia feita por
Howgego. A religião foi o meio mais comum de
representação de identidade nas moedas. No Império, a
iconografia religiosa foi enormemente diversificada nas
províncias, tendo moedas cunhadas com deuses “préromanos”, sendo a recíproca verdadeira, como
podemos reparar na moeda do período de Domiciano
(81-96 d.C.), a qual representa Zeus Laodiceo (ou seja,
da cidade helena de Laodicea) entre a antiga tríade
capitolina (Figura 128). As decorações com edifícios
romanos, a monumentalidade, é outra característica
presente nas moedas: a representação de monumentos
em moedas pode sugerir, pela visão romana, que suas
moedas faziam parte de seus próprios monumenta
(“monumentos”) – exemplo pode ser visto na Figura
129. O passado possui a vantagem de representar, ao
mesmo tempo, tanto uma especificidade de um local
como localizar algum lugar dentro da universalidade do
mito/história – a Figura 130 celebra o aniversário de
número 900 de Roma, estabelecendo, assim, um local
no passado. A estrutura do tempo também serve como
marco de identidade; Laodicea, por exemplo,
estabeleceu nova contagem de tempo a partir da
visitação e refundação da cidade feita pelo imperador
Adriano na primeira metade do século II d.C. (Figura
131). Por sua vez, a geografia é utilizada como
representação administrativa do poder imperial
romano, delineando a divisão entre capital e províncias
– figuradas nas moedas de acordo com as suas
características locais (Figura 132, representação da
Dácia). A territorialidade romana abarcava uma gama
muito grande de línguas; essa linguagem representava
um conjunto de identidades comuns a um determinado
povo e continuou a ser expressa em algumas moedas
(Figura 133, inscrição feita em linguagem céltica, na
Gália), embora a administração romana possuísse dois
idiomas “oficiais”, o latim no Oeste e o grego no Leste
do Império327.
A temática da iconografia das moedas é
extensa e pormenorizá-la não é o objetivo deste
326
327
“Coinage and identity in the Roman Provinces”, p.16.
Op. Cit., pp. 02-13.
74
trabalho. O que devemos, agora, atentar é para quem as
produzia e como eram fabricadas essas moedas.
A cunhagem se dava nas casas da moeda
espalhadas pelo mundo Antigo. As maiores casas,
aquelas que cunhavam com mais regularidade,
certamente possuíam edifícios erigidos para esse
propósito, como é o exemplo da casa da moeda de
Atenas: foi identificada, entre os séculos V e I a.C., ao
leste do lado sul da agora; vestígios de metais usados
para cunhagem foram ali encontrados e o edifício
possuía 27m x 38m, com fundações de espessuras de
1m (consistindo em um conjunto de salas de diversos
tamanhos ao redor de um pátio aberto); sua produção
era executada por escravos públicos328. Já em “Roma a
casa da moeda estava no Capitolino durante a
República. A casa foi movida, provavelmente após o
incêndio de 80 d.C., para uma parte da Domus Aurea
de Nero, que foi devolvida ao poder público sob a
dinastia Flaviana. Um fragmento da Forma Urbis – um
mapa de Roma feito em mármore – nos dá alguma
idéia de sua planta. Sobrevivências do edifício foram
localizadas sob a igreja de S. Clemente, cerca de 400m
ao leste do Coliseu. Era uma longa construção
retangular com uma largura de aproximadamente 30m
e de comprimento desconhecido. Possuía duas lojas
principais, sendo a mais baixa dividida em dois pisos
na fase mais antiga do edifício. O exterior do conjunto
era formado por um muro substancial, provavelmente
com uma única entrada, sem outras aberturas. O piso
mais baixo era composto de um grande número de
salas dispostas ao redor de um pátio com peristílo. O
complexo exerceu sua função como casa da moeda até
o fim do século IV d.C.”329.
As menores casas da moeda pulverizaram-se
no território do Império romano. Embora não tão
opulentas, essas casas tinham papel fundamental na
economia antiga uma vez que a centralização da
fabricação de moedas causava um sério incômodo:
durante guerras ou até mesmo assaltos cotidianos uma
única casa de produção saqueada poderia significar um
grave golpe ao conjunto da cidade; portanto, cunhagem
em diversos pontos era uma estratégia de segurança.
Outra questão relevante é o fato de não
necessariamente a casa da moeda de uma determinada
cidade produzir o seu objeto apenas para a localidade:
cunhos de diferentes motivos foram encontrados em
uma mesma casa ou, então, moedas semelhantes foram
achadas em duas ou mais cidades330.
Mencionemos, então, como as moedas em si
eram produzidas.
David Sellwood em seu capítulo “Minting” na
obra Roman crafts afirma que a maioria das técnicas
utilizadas no fabrico de moedas foi desenvolvida na
Mesopotâmia, refinada na Grécia e então adaptada à
produção em massa pelos romanos331. Três são os
elementos presentes na cunhagem de moedas: disco de
metal a ser amoedado; cunhos; martelamento.
O primeiro passo era fazer o disco de metal.
Na Antiguidade, os metais mais usados eram o ouro, a
prata, o cobre, o estanho, o zinco, e o chumbo (além do
níquel e do antimônio, que aparecem ocasionalmente).
Devido ao alto valor do ouro e da prata, seu uso estava
intimamente ligado à preparação de ligas metálicas –
que diminuem o ponto de fusão, ganhando, assim, em
economia de energia, e tornavam desnecessária a
aplicação de grandes porcentagens de metais mais
nobres para a cunhagem.
As peças poderiam ser feitas por derretimento:
despejava-se o metal fundido dentro de um molde de
duas partes produzido em argila cozida; o problema de
moldes era que a entrada na qual o metal era derramado
acabava, do mesmo modo, por deixar o ar entrar no
conjunto, causando imperfeições na peça (as variações
de temperatura durante o esfriamento do molde
também culminavam no mesmo incômodo). Os discos
de metal também poderiam ser fabricados a partir de
moldes singulares como os da Idade do Ferro
encontrados na Inglaterra– que, por sua irregularidade,
geravam discos com forma de cogumelo (Figura 134)
– ou então em moldes abertos, com suas depressões
interligadas por pequenos canais (Figura 135):
vestígios das hastes produzidas por essa técnica são
visíveis nas moedas (Figura 136) 332. Além dos
moldes, os discos de metal podiam ser obtidos
derramando o líquido sobre uma superfície lisa, como a
de uma chapa de metal. O contato do quente com o frio
faz com que o estado fluido concentre-se em cadinhos
sólidos (Figura 137). Esse disco era então martelado
para adquirir uma espessura homogênea. Por fim,
devido às impurezas que surgiam na superfície do
disco durante o processo de esfriamento, o artesão
necessitava mergulhar a peça em algum ácido
removedor dessas partículas ou utilizar um instrumento
que cortava a superfície por igual ao ser girado (Figura
138); esse instrumento, no entanto, deixava um buraco
no centro peça que, mesmo após a cunhagem,
continuava visível (Figura 139).
Os discos de metal eram submetidos ao brilho
da prata, para disfarçar a aparência do cobre puro (que
era um empecilho à circulação porque o público não
gostava de seu aspecto). O brilho era obtido de três
maneiras principais: 1) colocando-se o disco num ácido
que removia o cobre, deixando apenas o que
interessava; 2) derramando-se prata derretida sobre a
peça; 3) espalhando-se prata sobre a peça e levando-a
ao forno para o seu derretimento e conseqüente
enraizamento.
Outra característica marcante é o fato de
muitas moedas que deveriam ser de prata, na realidade,
não o serem. Casas da moeda que passavam por
dificuldades (ou necessitavam obter maior lucro)
costumavam colocar uma cobertura de prata em
núcleos originais de cobre (Figura 140). A oferta
dessas moedas era tamanha, que foi preciso começar a
fazer uma série de cortes radiais nos discos de metal
antes da cunhagem para atestar a autenticidade de uma
moeda (Figura 141). Ainda sobre a falsificação,
encontram-se moedas toscas feitas a partir de moldes
328
Christopher Howgego, Ancient history from coins, pp. 26-27.
Christopher Howgego, Ancient history from coins, p. 27.
330
Ibidem, pp. 28-30.
331
Página 63.
329
332
David Sellwood, “Minting”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, pp. 64-66.
75
de argilas advindos de material original (Figura 142)
333
.
Os discos de metal tinham de ser colocados
entre cunhos e depois martelados para adquirirem a
forma final de moeda. Os cunhos, por sua vez, eram
fabricados com um bronze bem enrijecido, que
continha em sua fórmula: 75,1% de cobre, 23,1% de
estanho, 0,9% de antimônio, 0,3% de bismuto, e 0,2%
de ferro. Quando frio, o cunho sofria em sua face a
aplicação de um trabalho. O problema, porém, para os
artesãos era como trabalhar um metal duro com um
outro mais macio. A solução encontrava-se no uso de
abrasivos como o corindo (ou corundum), um mineral à
base de óxido de alumínio com grau nove na escala de
Mohz: as partículas desse mineral, quando
pressionadas, agrupam-se de modo a formar “dentes” –
os artesãos aplicavam corindo sobre uma base e, com o
auxílio de um furador, friccionavam a superfície a fim
de obter uma área escavada (Figura 143). Essa
depressão estava, então, apta a receber a gravação das
figuras que iriam compor a moeda (processo realizado
a partir do entalhe feito com ferramentas pontiagudas).
O cunho inferior era o mais pesado e geralmente estava
preso a uma base de madeira ou bigorna. Já o cunho
superior deveria ser manuseado e, por isso, suas
dimensões eram menores; no entanto, o cunho superior
tinha de ser fabricado com metais que pudessem
suportar o impacto do martelo e o contato com o disco
de metal quente – comumente o cunho de bronze era
protegido por uma cobertura de ferro (Figura 144) 334.
Para se ter uma moeda completa, restava
apenas martelar o disco entre os cunhos. Com o tenaz
manipulava-se o disco de metal – que era aquecido no
forno para tornar-se maleável ao trabalho –, colocandoo sobre o cunho inferior. Posicionava-se o cunho
superior sobre o conjunto e martelava-se sua base. Não
havia muito cuidado com a centralização dos cunhos,
sendo comum encontrarem-se moedas com anverso e
reverso gravados fora do espaço destinado à imagem.
As moedas eram produzidas aos milhares e isso
implicava em uma distribuição no processo. David
Sellwood aponta que uma equipe de quatro
trabalhadores (escravos, muitas vezes) era o suficiente
para uma grande produção em massa: “O primeiro
operador transferia o disco de metal do forno (para um
martelamento quente) ou de algum receptáculo
(martelamento a frio) para o cunho inferior. O segundo
agora segurava o cunho superior na posição correta
para que o terceiro posicionasse o martelo sobre o
conjunto e o martelasse. O quarto removia a moeda
completa e o ciclo recomeçava” 335. Assim, a moeda
estava pronta para o seu uso (Figura 145).
333
Ibidem, pp. 68-69.
David Sellwood, “Minting”, in: Donald Strong e David
Brown (eds.), Roman crafts, pp. 69-71.
335
Ibidem, p. 71.
334
76
Parte VI
 O trabalho em vidros.
Plínio, o Velho, é o autor que mais detalha a
fabricação de vidro durante sua época (século I d.C.).
Diz o naturalista (XXXVI, 65-67):
A costa na qual esta areia é juntada não tem mais
que meia milha de extensão, e ainda, para muitas eras, este
foi a único local que proveu o material para se fazer vidro.
A história é que os comerciantes de um navio
carregado com soda atracado nesse local, enquanto
preparavam sua refeição na praia, não achando nenhuma
pedra à mão para apoiar seus caldeirões, empregaram para
esse propósito alguns pedaços de soda que eles haviam
levado do navio. Ao ser sujeitado à ação do fogo, em
combinação com a areia da praia, observaram jorros
transparentes de um líquido desconhecido: isto, é dito, foi a
origem do vidro.
No decorrer do tempo, como o gênio humano é
inventivo, não estava contente apenas com a soda: calcário
começou a ser adicionado devido à crença de que ele atrai
vidro liquidificado como o faz com o ferro336. De uma
maneira semelhante, também, pedras brilhantes de vários
tipos chegaram a ser somadas ao derretimento, e, por fim,
conchas e areia fóssil. Alguns autores nos falam, que o vidro
da Índia é feito de cristal de pedra quebrado, e que, por
conseguinte, não há nenhum que possa ser comparado a este.
Cobre e soda, especialmente a egípcia, são
adicionados a essa mistura que é fundida por um fogo obtido
de madeira leve e seca. É derretida, como o cobre, em uma
série de fornos e forma pedaços escurecidos. O vidro
derretido é tão afiado que, antes que se possa sentir alguma
dor, já terá atravessado até o osso qualquer parte do corpo em
que tenha esbarrado337. Estes pedaços de vidro são fundidos
novamente nas oficinas e coloridos; depois, o vidro é soprado
em várias formas, trabalhado em torno, ou entalhado como a
prata (...).
Tal era o método antigo de fazer vidro: mas, hoje
em dia, é achada uma areia muito branca para esse propósito
na foz do rio Volturno, na Itália. Ela é encontrada ao longo
das seis milhas de costa entre Cumas e Literno. A areia é
depositada em um pilão; então é misturada com três quartos
(tres partes; III partibus) de soda (...), e, após a fusão, a
mistura, em seu estado fundido, é levada a outros fornos.
Neles, forma-se uma massa denominada hammonitrum
(“areia-soda”); que é submetida novamente à fusão e se torna
uma massa de puro vidro. Atualmente, nas províncias da
Gália e da Hispânia encontramos a areia sendo trabalhada
desse mesmo modo. Durante o principado de Tibério, contase, uma combinação foi inventada e produziu um vidro
flexível; mas a oficina do artesão foi totalmente destruída
pelo medo de que isso diminuísse o valor do cobre, da prata e
do ouro. Porém, esta história foi, por muito tempo, mais
amplamente difundida do que bem autenticada. (...) No
tempo do imperador Nero, um processo foi descoberto em
que duas pequenas taças de vidro, chamadas petroti, valiam
6000 sestércios!
(…)
Mas, embora o vidro tenha substituído o ouro e a
prata como material para o fabrico de vasilhas para bebidas,
ele não pode conter líquidos quentes antes de ter sido
resfriado com água gelada. Aqueles recipientes de vidro
globulares, cheios com água, quando em contato com os raios
do sol, são aquecidos de tal maneira que chegam a queimar
336
Aqui Plínio comete um engano ao igualar o calcário à
magnetita (magnes lapis).
337
Obviamente, essa passagem não é verdadeira. Mas lascas de
vidro podem adentrar a pele sem causar dor imediata.
vestimentas. Quando aquecidos a uma temperatura moderada,
pedaços de vidro quebrado podem ser unidos, mas não
fundidos completamente (...). Se o vidro for fundido com
enxofre, ficará tão duro quanto pedra.
O local que, por muitas eras, segundo Plínio,
foi o único produtor de vidro é a cidade de Sidon, na
antiga Pérsia. Porém, essa lembrança pertence a uma
tradição no mundo clássico, e o romano a repetiu. É
improvável que Sidon tenha sido, isoladamente, o
maior centro de vidraria da Antiguidade. Os egípcios,
cerca de 6000 a.C., já produziam vidros 338.
Outra característica do texto de Plínio é a
simples descrição dos materiais empregados na
fabricação. Parece desconhecer a importância da cal na
produção dos vidros, mencionando o uso de conchas
(fontes calcárias) sem maior relevância, deixando claro
que apenas a areia e a soda eram constituintes centrais
do processo. Uma confusão aparece no documento com
as “séries de fornos”: Plínio não faz a distinção entre
eles, aparentando, nesse caso, a expressão se referir a
uma combinação de processos, quando, na verdade,
como veremos, há três tipos diferentes de etapas com
uso de forno.
Os “pedaços escurecidos” a que se refere o
romano dão-nos a certeza da fabricação de vidros
soprados durante a sua época: os glóbulos de vidro
derretido, quando retirados do forno enrolados na
cana339, primeiro têm uma aparência amareloavermelhada e, ao esfriarem, adquirem a coloração
escura (vermelho opaco).
As petroti a que se refere Plínio são
conhecidas, hoje, por grês (stoneware, em inglês), uma
mistura de cerâmica com vidro, possuindo a aparência
final de rocha; ainda é debatido entre os estudiosos
qual seria o grau de conhecimentos dos romanos sobre
essa técnica. Já a menção ao fato de fragmentos de
vidro não poderem ser unidos, mostra o
desconhecimento do autor. Vidros são completamente
fundidos, sem falhas, quando aquecidos à temperatura
correta de trabalho340.
A composição básica de um vidro, da
Antiguidade até hoje, baseia-se na sílica (cerca de
75%), na soda (18%) e na cal (7%)341. Diferentemente
dos metais, que ao serem trabalhados sofrem
principalmente mudanças em seus estados físicos, o
vidro é essencialmente a transformação de seus
constituintes em outra matéria.
Quando sólidos, os átomos dos materiais
tendem a se arranjar de maneira bastante regular,
formando uma espécie de rede ou treliça repetitiva. Ao
passarem para o estado líquido, os átomos se arranjam
de modo aleatório e fluido. Os vidros representam um
curioso estágio intermediário nesses processos de
mudanças de estados físicos: são sólidos que têm, em
sua estrutura, um arranjo aleatório típico dos líquidos,
338
John F. Healy, Pliny the Elder on science and technology, pp.
353-354.
339
Haste de ferro pela a qual o artesão sopra o vidro.
340
John F. Healy, Pliny the Elder on science and technology, pp.
352-358.
341
Ver Figura 146.
sendo
considerados,
então,
como
líquidos
“superesfriados”. A arqueóloga Mônica Ieda Bertelle
em sua dissertação Vidro soprado no Império Romano
pormenoriza essa transformação342: “Quando a sílica
[dióxido de silício] é aquecida a temperaturas entre
750ºC e 800ºC, na presença de cal e soda ou potassa,
são introduzidos no sistema mais átomos de oxigênio,
rompendo o equilíbrio rígido em que cada átomo de
oxigênio está ligado a dois de silício, que é observado
nas estruturas cristalinas de sílica pura. Os átomos de
oxigênio podem, então, ligar-se a apenas um de silício,
em ligações chamadas não-pontes, que são
estabilizadas eletronicamente pela presença de íons dos
óxidos metálicos de sódio (Na2O) ou óxido de cálcio
(CaO). A continuidade da rede é, desta forma,
quebrada, resultando uma estrutura que é menos fixa,
tornando mais fácil a quebra das ligações, e,
conseqüentemente provocando o abaixamento da
temperatura necessária para liquefazer o sistema de
1500ºC (sílica pura) para aceitáveis 750ºC – 800ºC
(vidro), o que torna a produção de artigos mais
acessível”. Porém, para que não haja problemas como
rachaduras ou tensões interatômicas muito elevadas, a
peça de vidro deve esfriar lentamente, deixando as
moléculas
arranjarem-se
aleatoriamente,
onde
estiverem; a isso se dá o nome de têmpera.
A temperatura de trabalho é fundamental na
fabricação de vidro, pois é ela que rege a viscosidade
do material. A viscosidade é a resistência interna que as
partículas de uma substância oferecem ao
escorregamento de uma sobre as outras; ou seja,
viscosidade é o oposto de fluidez. Quanto mais quente
estiver o vidro, menor será sua viscosidade; quanto
mais frio, maior a viscosidade (Figura 147). Os
artesãos antigos baseavam-se na coloração do vidro
para reconhecer a temperatura e, em conseqüência, o
grau de viscosidade do material: incandescência
vermelha; incandescência laranja; e incandescência
dourada (a temperatura mais elevada). Birgit SchlickNolte e E. Marianne Stern, ao fazerem o estudo da
coleção de vidros antigos de Ernesto Wolf na obra
Early glass of the Ancient world, explicitam os
diversos estágios de temperatura e suas relações com o
trabalho em vidro: dobradura – por volta de 650ºC ou
mais, o vidro consegue ser dobrado com o seu próprio
peso; fusão – vidro consegue se fundir a outro em
735ºC; achatamento – aquecido entre 830ºC e 875ºC, o
vidro começa a perder sua forma original e passa a
sofrer um processo de achatamento, o qual o deixa com
cerca de 70 mm de espessura; amolecimento – em
930ºC, o vidro se torna mole o bastante para ser
puxado e empurrado, ou trabalhado com outras
ferramentas; inflação – o vidro pode ser inflado na
temperatura entre 970ºC e 1020ºC, se o vidro está frio,
mais força será despendida para inflá-lo, se estiver
muito quente, torna-se difícil controlar a bolha;
derretimento – dependendo da composição, a
temperatura para fundição fica em torno de 1050ºC e
1150ºC343 (Figura 148).
342
343
Página 15.
Páginas 22 e 23.
- Coloração:
A coloração do vidro, quando em estado
natural, é verde água, devido à presença de impurezas
de ferro nas substâncias trabalhadas. O artesão, para
conseguir variações nos tons, podia atuar de duas
maneiras: controlar a queima das peças ou acrescentar
minérios triturados à fornada. As impurezas reagem de
formas diferentes de acordo com o oxigênio presente
na queima do vidro: colocar o forno em estado de
redução, ou seja, com pouca entrada de oxigênio,
juntamente com combustível oriundo da madeira verde
estimula a formação dos componentes de ferro e
enxofre contidos nas impurezas344. A adição de
minérios na frita auxiliava a obtenção de outras
colorações: “Cobre produzia azuis, verdes e vermelhos;
manganês produzia rosas e púrpuras; e cobalto (usado
ocasionalmente no Egito, obtido do Irã ou Ásia Menor)
produzia azuis-escuros. (...) Antimônio combinado com
chumbo produzia amarelo opaco; antimônio mais
cálcio produzia branco opaco. (...) Para obter
colorações claras, as impurezas de ferro tinham de ser
neutralizadas. Os agentes para descolorir mais comuns
na Antiguidade eram o antimônio e o manganês,
adicionados em pequenas quantidades” 345 (Figura
149).
- Fornos:
Segundo a arqueóloga Jennifer Price em seu
capítulo “Glass” da obra Roman crafts, pouco é
conhecido sobre os fornos vidreiros da Antiguidade.
Contudo, acredita-se que os fornos fechados tenham
sido inventados antes do desenvolvimento da técnica
do vidro soprado (século I d.C.), uma vez que, para
esse procedimento, era necessário atingir alta
temperatura.
Os vestígios arqueológicos dos fornos não são
completos, portanto, encontram-se apenas as bases da
estrutura, porém, a decoração de duas lamparinas
iguais, uma descoberta em Ferrara, Itália, e a outra em
Asseria, Dalmácia (região da atual Croácia)346, nos
mostram o conjunto completo dos fornos romanos e
indicam a existência de uma câmara de recozimento –
tão importante para o resfriamento gradual da peça a
fim de se evitar problemas de tensão e rachaduras
(Figura 150).
A estrutura dos fornos pouco variou do
passado até hoje: uma das representações mais antigas
é a ilustração do monge franco beneditino Rábano
Mauro em sua obra De rerum naturis347, redigida no
século IX d.C. (Figura 151). O combustível usado
pelos romanos era a madeira principalmente, embora a
destruição das florestas já no fim do século I d.C.
344
Mônica Bertelle, Vidro soprado no Império Romano, p. 13.
Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the
Ancient world, pp. 20-21.
346
Importante lembrar o que já foi dito sobre a dinamicidade do
comércio no mundo romano e, principalmente, as explanações
sobre as produções de artigos semelhantes a partir de um mesmo
molde que poderia ser exportado por todas as regiões do Império
(Parte IV).
347
Também conhecida por De universo.
345
78
obrigasse os artesãos a utilizarem carvão vegetal
quando preciso, como afirma Jennifer Price348.
Com o forno bem aquecido – para evitar os
inconvenientes já mencionados – iniciava-se o trabalho
de modificação da matéria-prima.
- Trabalhos a quente e a frio:
Retomando as “séries de fornos” mencionadas
por Plínio, a arqueóloga E. Marianne Stern em Roman
mold-blown glass explica os seus usos para fazer a frita
e a fundição: “Durante toda a Antiguidade e Idade
Média, a fabricação de vidro foi um processo de dois
estágios que requeria um forno diferente para cada um.
Primeiro, uma reação de estado sólido entre a sílica e
os álcalis (soda ou potassa) era necessária, mas essa
reação não permitia à massa sofrer derretimento por
causa dos gases que poderiam existir no vidro fundido.
Esse processo é também denominado frita. Após
esfriar, a frita era peneirada e misturada a outros
ingredientes como corantes, descorantes e outros; o
segundo estágio consistia em derreter essa mistura” 349.
Essa etapa de trabalho não necessariamente tinha de ser
feita pelo artesão que daria à matéria-prima o seu
aspecto final. Era comum o comércio de lingotes e
pedaços grossos de vidro entre produtores e
transformadores. Sendo assim, o vidro passava por um
último forno antes de ser comercializado: o forno
presente na oficina do artesão vidreiro.
Com o vidro em mãos, os artesãos utilizavam
diversas técnicas para o fabrico de objetos. Uma das
mais antigas e populares – embora o vidro soprado
tenha sido o carro-chefe da produção após o século I
d.C. no Império – era a do ajuntamento de nacos de
vidro. O fragmento de um papiro egípcio do século III
d.C. relata350:
Primeiro, [o vidreiro] aquecia a extremidade do
pontil, então apanhava um pedaço (bolos, em grego) de vidro
brilhante e o posicionava habilmente na abertura do forno. E
o cristal ao provar o calor do fogo era amaciado por batidas
como as de Hefesto... De sua boca partia um rápido sopro...
como um homem ensaiando a mais deliciosa arte da flauta. O
vidro recebia a força de seu sopro a se tornava inchado como
uma esfera (...).
Além do aquecimento do pontil351 para
conseguir apanhar o vidro, este também deveria ser
pré-aquecido na câmara de recozimento a fim de evitar
rachaduras provenientes de seu contato frio com a
haste. À temperatura de amolecimento conseguida por
meio do forno, o vidro podia, então, ser trabalhado com
ferramentas, enrolado e esticado para formar caniços
ou ser soprado (Figura 152).
Outra maneira de se prender os nacos de vidro
ao pontil consistia em segurá-lo sobre o fogo e, com o
auxílio de tenazes, apanhar os pedaços derretidos e
grudá-los à extremidade, como afirmou o poeta da
primeira metade do século II d.C. Mesomedes de
Creta:
O trabalhador corta o vidro e o traz. Ele coloca o
pedaço – duro como ferro – no fogo e o vidro, incandescendo
nas chamas devoradoras, começa a derreter como cera. Para
as pessoas era uma maravilha observar o rastro fluindo do
fogo e o artesão temendo deixá-lo cair e quebrar. Então ele
352
coloca o naco de vidro sobre as pontas da tenaz.
As vantagens dessa técnica são: 1) não há
desperdício de vidros que ficam grudados ao cadinho;
2) a temperatura não precisa ser constante, variando de
acordo com a operação realizada; 3) a temperatura
máxima necessitada gira em torno de 940ºC a 970ºC;
ou seja, o trabalho requer menos energia e,
conseqüentemente, menos combustível, trazendo
economia ao artesão.
A modelação sobre o núcleo foi uma técnica
amplamente difundida na Mesopotâmia e no Egito,
tendo exemplares datados desde o século XV a.C.. O
conceito é simples, embora exija a habilidade do
artesão: um núcleo feito com materiais orgânicos 353 tais
como grama, folhas e sementes e misturado à argila era
envolvido com panos ou vidros e tinha sua superfície
coberta por vidro fundido. Logo após, o vidro era posto
sobre o núcleo, podendo esse processo se dar das
seguintes maneiras: 1) fragmentos de vidro frio eram
presos ao núcleo e depois o conjunto era aquecido para
derreter a camada superficial; 2) mergulhava-se o
pontil com o núcleo em sua extremidade em vidro
fundido; 3) enrolavam-se fios de vidro sobre o núcleo.
“O núcleo era mantido em rotação pelos movimentos
para frente e para trás do pontil (tubo de ferro no
interior do núcleo) apoiado em uma superfície lisa.
Novas faixas de vidro amolecido podiam ser enroladas,
uma após outra, até se obter a espessura desejada,
sendo seguras pela rotação do núcleo. Quando toda a
superfície já tinha sido recoberta, era consolidada
através de fusão e alisada por rotação sobre uma
superfície lisa” 354.
A decoração era aplicada com ferramentas
variadas e a peça era deixada para esfriar. Com a
contração do metal, a haste se soltava do gargalo do
objeto e o núcleo era despejado (Figuras 153 e 154).
Outra técnica muito famosa na Antiguidade
era a da modelagem. Utilizando argila principalmente,
o artesão fabricava uma peça escavada no bloco com o
formato do objeto desejado, o molde. Quando seco,
esse molde era queimado para criar rigidez e, antes de
servir ao vidro derretido, era aquecido novamente.
Objetos menores poderiam ser feitos com essa
técnica normalmente. Contudo, quando o artesão
queria fabricar utensílios como jarros e tigelas, deveria
352
348
“Glass”, in: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman
crafts, p. 115.
349
Página 23.
350
Apud E. Marianne Stern, Roman mold-blown glass, pp. 36-37.
351
Haste de ferro semelhante à cana.
Apud Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of
the Ancient world, p. 28.
353
A adição de materiais orgânicos permitia certa elasticidade ao
núcleo, evitando tensões entre ele e o vidro durante a
manipulação.
354
Mônica Bertelle, Vidro soprado no Império Romano, pp. 2425.
79
trabalhar um pouco mais em seu molde. Quando
vasilhas eram feitas, por exemplo, despejava-se vidro
quebrado no molde de argila pré-escavado e depois se
levava tudo ao forno; quando esfriado, o artesão
quebrava o molde e, com a ajuda de um furador,
tornava oco o interior sólido da peça (Figura 155).
Porém, para contornar o problema de se criar peças
ocas e com paredes finas, os artesãos tiveram de
recorrer ao método empregado na metalurgia: a cera
perdida – derretia-se o vidro e despejava-o no espaço
existente entre as duas paredes do molde. A principal
característica dessa técnica é a ausência de brilho na
superfície do artefato.
Os moldes também eram usados com a pasta
vítrea: o vidro “opaco azulado ou esverdeado era
triturado e pulverizado, sendo então misturado a
líquido adesivo formando uma pasta grossa que podia
ser modelada como argila, e depois queimada” 355. Os
moldes serviam, pois, como base de apoio ao objeto:
pressionava-se a pasta vítrea contra sua superfície para
que adquirisse forma356. A pasta também podia ser
modelada livremente, para se fabricar contas e
amuletos, por exemplo.
Graças à maleabilidade do vidro quando
aquecido, facilmente se obtinham fios de sua
estrutura357. Esses caniços eram muito usados para a
fabricação de mosaicos dos mais diversos tipos. A base
do processo é juntar duas ou mais cores em um mesmo
fio que, ao ser seccionado, apresenta um mosaico já
pronto. Para tanto, os artesãos aplicavam pequenos fios
de vidro sobre a superfície de uma massa de vidro que
serviria como núcleo (Figura 156), ou então, acontecia
a sobreposição de um pontil com vidro em forma de
cone sobre outro, de cor diferente, sendo o conjunto,
depois, rolado sobre alguma superfície lisa para melhor
junção das camadas (Figura 157) 358. Igualmente, o
mosaico era obtido enrolando-se um núcleo sobre uma
placa de vidro, como um rocambole; o desenho desse
tipo de mosaico seria espiralado (Figura 158). Por fim,
formando um cilindro a partir da união de outros
cilindros menores conseguia-se um composto de
caniços, similar a alguns trabalhos feitos com biscuit
atualmente, onde o estreitamento das extremidades do
conjunto dita o tamanho da secção a ser trabalhada
(Figura 159).
- Vidro soprado:
A maioria das técnicas acima descritas foi
suplantada no século I d.C. com o surgimento do vidro
soprado. O uso da cana para inflar vidros chegou ao
Império Romano através do Oriente Próximo, mais
precisamente na região da Síria e da Palestina. As
evidências arqueológicas demonstram que os primeiros
tubos de sopro eram feitos em argila e, somente com o
355
Ibidem, p. 40.
Do mesmo modo, podia colocar-se um disco de vidro
aquecido sobre um molde e torneá-lo, com a ajuda de
ferramentas para darem o desenho e o acabamento à peça.
357
Conhecidos por millefiori.
358
Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the
Ancient world, pp. 55-57.
356
aperfeiçoamento do fabrico em ferro, este material
passou a ser utilizado também em larga escala. Birgit
Schlick-Nolte e E. Marianne Stern pormenorizam
muito bem a fabricação e a utilização das canas 359:
“Tubos de argila queimados em altas temperaturas são
mais propensos a quebraduras do que os cozidos em
baixa temperatura, porque estes têm maior elasticidade
e, por conseguinte, respondem melhor às altas
temperaturas necessárias
para inflar o vidro.
Diferentemente dos tubos de metal, os de argila tinham
de ser curtos, cerca de 30 a 60 cm, a fim de haver força
elástica o suficiente para agüentar o peso do vidro na
extremidade. (...) Há muitas diferenças entre inflação
com canas de metal e com canas de cerâmica. A mais
significativa reside na fricção do conjunto tubo-vidro
contra a superfície lisa: a pressão pode quebrar a cana
de cerâmica”.
Restava, pois, ao artesão, manejar habilmente
a cana com o pedaço de vidro em sua ponta, soprando e
trabalhando a força centrífuga do tubo a fim de se obter
a forma do vidro desejada (Figura 160).
A técnica do vidro soprado se aperfeiçoou
muito no mundo romano, mas a produção em massa,
como a ocorrida no século I d.C. nos diversos setores
artesanais, obrigou os artesãos a adaptarem o molde à
fabricação de vidro soprado. Os moldes, porém,
apresentavam um problema: ao contrário da cerâmica,
o vidro costumava grudar nas paredes do molde
fechado, pois não se contraía quando seco, o que o
impedia de soltar-se. Evita-se esse inconveniente se se
retirar o vidro rapidamente do molde, logo após inflá-lo
(ação feita verticalmente pelo artesão com o auxílio da
cana)360.
Foi o que os artesãos romanos fizeram.
Contudo, o molde passou a ser fabricado especialmente
para essa tarefa, sendo dividido em duas ou mais partes
que, juntas, formavam o quebra-cabeça do molde da
peça. O molde deveria ser resistente o bastante à
temperatura do vidro quente, por isso, geralmente era
feito em argila cozida, embora existam exemplares em
gesso, rocha, madeira e metal. Dois pontos devem ser
ressaltados sobre a produção e o uso de moldes, como
diz E. Marianne Stern: “O primeiro é fechar muito bem
o molde ao redor da bolha soprada antes de ela se
expandir e o segundo é abrir o molde rapidamente após
o vidro ser soprado. Esses pontos afetam o número e o
posicionamento das secções e requer a construção de
travas para prevenir que o vidro extravase o molde com
a pressão do sopro. (...) As partes dos moldes deveriam
ter alças para facilitar a sua remoção depois de o vidro
estar expandido” 361.
Os arqueólogos, ao examinarem séries de
vidros do mesmo formato, deparam com a sutil
mudança no tamanho das peças: elas ficam menores.
Isso é explicado pelo uso constante dos moldes:
pequenas porções de vidro iam se acumulando nas
paredes e nas bases dos moldes e, quando estes
quebravam, um novo era confeccionado a partir de uma
das peças feitas, diminuindo seu tamanho. Outra
característica que se nota é a deformidade em muitos
359
Ibidem, p. 83.
Ver Figura 161.
361
Roman mold-blown glass, p.47.
360
80
objetos advinda da concentração de cristais de vidro
presos às junções das partes do molde 362 (Figura 162).
O vidro depois de soprado – em molde ou não
– estava apto a receber a decoração e/ou o restante de
seu conjunto (alças, pescoços, bordas e bases).
Comumente, os vidros soprados em moldes já saíam da
forma com a decoração desejada, bastando apenas fazer
as bordas (Figura 163).
Segundo Robert James Forbes em seu quinto
volume da coleção Studies in the Ancient technology,
há três técnicas principais de decoração em vidros 363:
1) uso de ferramentas enquanto o vidro está quente; 2)
entalhamento e pintura em vidros frios; 3) aplicação de
traçados de vidro quando está quente. As ferramentas
utilizadas pelos artesãos sobre os vidros ainda em
temperaturas altas consistiam em pinças para puxões e
mandris para cortes, empurrões e alisamentos; com elas
se aplicavam bordas, puxadores e arestas por meio de
pressionamento da superfície do vidro364. Pescoços e
alças poderiam ser feitos com ferramentas, puxando-se,
porém, é mais provável que peças feitas em moldes
separados dominassem a produção em massa: a junção
das partes distintas se dava com todas elas aquecidas.
Isso também valia para a aplicação de relevos e
adornos na superfície do vidro.
A decoração em vidros que não estivessem
quentes era praticamente a mesma usada com trabalhos
a frio. Como já foi dito, trabalhadores podiam fabricar
lingotes de vidro e vendê-los aos artesãos que os
transformariam; no caso do vidro frio, o artesão
comprava um bloco de vidro do tamanho que desejava
e trabalhava sobre ele, com ferramentas de corte e
entalhe, em uma operação muito semelhante à dos
escultores de rochas. Toda a obra era fabricada de uma
única peça original, deixando claro o quão hábil
deveria ser a pessoa que o manipulasse. Para a
decoração em objetos já frios, as técnicas eram as
mesmas: perfuração, corte, desgaste e polimento.
Perfurava-se o interior da peça a fim de se criar o local
de armazenamento do recipiente; o furador era usado
verticalmente, atacando o bloco maciço. Com a ajuda
de entalhadores e cinzéis, a superfície do vidro ganhava
gravuras. Também poderia receber os adornos quando
posto sobre um torno: cortes e enfeites contínuos como
listras tornam-se mais fáceis de serem feitos dessa
maneira, e deixam marcas visíveis da rotação do torno
em sua superfície. O polimento ocorria, igualmente, no
torno, com uso de abrasivos.
Terminada, a peça de vidro estava pronta para
ser comercializada (Figura 164).
362
Mônica Bertelle, Vidro soprado no Império Romano, pp.6667.
363
Página 175.
364
Jennifer Price, “Glass”, in: Donald Strong e David Brown
(eds.), Roman crafts, p. 122.
81
Conclusão
Como o próprio título explicita, o tema central
de nosso trabalho foi a plebe romana, mais
especificamente, a urbana. Pensou-se na abordagem
panorâmica sobre essa questão, tratando de alguns
aspectos que achamos serem profícuos para o estudo
dessa categoria da sociedade romana. Antes de nos
atermos aos produtos, focamos os produtores.
A importância de se analisar quem eram os
plebeus, suas origens, seus embates políticos, suas
moradias e seus ofícios é crucial para o entendimento
do planejamento – ou adaptação – das cidades antigas.
Vimos de que maneira Roma teve de se “reformular
internamente” durante e após a Segunda Guerra
Púnica: o inchaço populacional, aliado às políticas
populares para melhoria da condição de vida em troca
de alistamento militar, estabeleceu a necessidade de
resolução sobre a distribuição espacial. Os bairros de
Roma tornaram-se, com o decorrer dos anos,
amontoados de gentes trabalhando e sobrevivendo. Por
maior que tenha sido a preocupação do Senado em
tentar manter seu domínio sobre a população, foi
inevitável o surgimento de forças paralelas entre os
plebeus, que acabaram por atuar significativamente na
política e economia romanas: grupos de partidários se
faziam presentes em épocas de eleições e
salvaguardavam – por vezes, fisicamente – as figuras
de seus contratantes, pertencentes à elite da sociedade.
Também cabia a essas administrações locais a
repartição dos alimentos; contudo, em momentos de
carência, a alimentação – deficiente do ponto de vista
nutricional – era passível de manipulação política e
aqueles que, de alguma maneira, conseguiam sanar a
plebe, caíam nas graças da população.
População essa que possuía sua maior
porcentagem constituída de plebeus, libertos e escravos
e que foram os grandes responsáveis pela produção
material que hoje a Arqueologia escava. Depois de
traçar as características mais humanas da camada
social, objeto de nossa análise, iniciamos o trabalho
pormenorizado de explicitar as técnicas empregadas na
fabricação de moradias e artefatos diversos. Se
havíamos discorrido sobre a distribuição espacial
urbana em um primeiro momento, fez-se necessário,
agora, observar como eram formadas as unidades de
moradia, as suas superestruturas e seu conteúdo
interno. O porquê do estudo foi mostrar as
possibilidades de residir e trabalhar em um mesmo
local e como isso poderia gerar renda aos que locavam
cômodos em sua domus, por exemplo. Aqueles que não
possuíam meios de arcar com o aluguel de um pequeno
anexo na casa de um rico, deviam labutar em suas
próprias moradias, as insulae, transformando-as, ao
mesmo tempo, em uma oficina para confecção de
artesanatos ou uma taberna para venda de alimentos e,
ao cair da noite, em um espaço familiar comum, onde
conviviam e descansavam.
Seguindo nossa tentativa de adentrar o
máximo possível na categoria dos artesãos plebeus
romanos, buscamos entender quem eram os artesãos e
como as fontes textuais legadas até nós os tratavam.
Para tanto, um amplo levantamento dos textos
redigidos pelos romanos antigos foi realizado a fim de
nos trazer melhor compreensão sobre os temas
analisados. A sociedade romana foi extremamente
frutífera no campo da escrita e essa característica
jamais deve ser esquecida, sem hierarquizar, então, o
documento material sobre o textual. Temos de estar
cientes das especificidades de cada uma, fontes textuais
e materiais.
Os textos são essencialmente subjetivos.
Escritos sempre com algum propósito – mesmo que
esse não seja o de deixar para a posteridade as palavras
redigidas (como é o caso de documentos quantitativos,
fiscais) –, os textos estão imersos em uma carga
ideológica que, por sua vez, está atrelada ao contexto
histórico de quem os escreveu; ou seja, as fontes
textuais possuem um objetivo claro do porquê de serem
feitas, são interpretações, pontos de vistas. Devido a
esse caráter, o trabalho literário é representativo de sua
cultura produtora, refletindo aspectos sociais, políticos
e econômicos. As fontes textuais antigas não são
indiferentes a isso: os autores romanos, pertencentes à
elite, redigiram com o claro propósito de defesa de um
argumento. Porém, o principal problema está na
maneira em que esses documentos chegaram até nós:
diversos foram os filtros pelos quais passaram, desde
fragmentação física a interpolações oriundas dos
séculos posteriores. Os estudiosos se debruçam sobre
essa problemática a fim de estabelecer a autenticidade
dos textos à qual devemos sempre estar atentos. No
entanto, o historiador e arqueólogo precisa saber lidar
com essa questão, trabalhando com parcimônia,
justamente para não permitir a valorização de uma
fonte documental em detrimento de outra por causa de
sua característica ideológica ou filtros seculares. O
arqueólogo que estuda sociedades possuidoras de
escrita alfabética deve, também, se ater aos textos
existentes produzidos pelo seu objeto de análise,
buscando entender sua cultura, na concepção mais
ampla do termo (política, social e economicamente).
As fontes materiais, por sua vez, estão menos
sujeitas aos filtros do tempo, sofrendo mais
modificações graças aos processos de formação
arqueológicos (geológicos ou de trabalho humano
sobre a terra) do que modificações claramente físicas.
Assim como os textos, a cultura material está inserida
em um contexto histórico que sempre irá ditar as
normas de sua produção: importações, exportações,
motivos, decorações, matérias-primas, moldes, técnicas
de produção, tudo faz parte das características de um
determinado período em uma determinada localidade.
Os homens produzem sua materialidade com
propósitos claros, indo de objetos utilizados para a
alimentação até a elevação de altos edifícios. E
também, como no caso dos textos, utilizam a cultura
material com valor ideológico, muitas vezes
distinguidor entre as camadas de uma sociedade, sendo
o uso de alguns objetos exclusivos a apenas um seleto
grupo de pessoas, por exemplo. Semelhantemente às
fontes textuais, caberá ao pesquisador a escolha dos
documentos materiais com os quais irá trabalhar;
estando ele próprio inserido no contexto histórico de
sua contemporaneidade.
Tendo precaução, então, com a carga
ideológica presente em autores romanos antigos como
Cícero, Tito Lívio, Sêneca e Suetônio, por exemplo,
82
utilizamo-nos de seus escritos para esclarecer o
contexto histórico da população de Roma. A leitura das
entrelinhas, por assim dizer, é fundamental para
ressaltar as particularidades que desejamos, ou seja,
muitas propriedades da plebe romana e a sua relação
com a elite dominante podem ser obtidas a partir da
leitura das fontes: é o caso dos embates políticos entre
as classes (Apiano), dos conflitos armados entre grupos
de partidários (Salústio e Plutarco), e do uso político da
distribuição de alimentos (Suetônio e Augusto), para
mencionar alguns casos. Quando explanamos o
cotidiano da cidade de Roma é imprescindível ler as
obras daqueles que viveram todos os problemas
advindos de uma falta de planejamento urbano mais
cuidadoso; assim, temos os valiosos relatos de Juvenal
e Marcial, poetas satíricos que tão bem nos passaram a
imagem caótica do dia-a-dia romano, com suas ruas
estreitas e insalubres, com artesãos vendendo seus
produtos entre carros de transporte de mercadorias.
Ao tratar das técnicas de construções romanas,
entendemos a fragilidade dos materiais utilizados na
elevação de moradias a partir de Tácito, narrando o
grande incêndio no governo de Nero, devastador de
residências construídas com materiais inflamáveis.
Também foi possível confrontar os vestígios materiais
com o tratado de arquitetura redigido por Vitrúvio. Sua
obra tem tamanha influência que, ainda hoje, é base
para os estudiosos dessa área de conhecimento. O
arquiteto de Augusto explicitou as características
necessárias para se erigir monumentos e moradias,
deixando claro em sua obra a urgência da construção
de edifícios em altura para tentar solucionar os
problemas do aumento demográfico ocorrido na urbe
em sua época.
No campo do artesanato em si, o autor de
maior destaque é Plínio, o Velho. Sua contribuição é de
leitura obrigatória para quem pretende entender o
conhecimento que os romanos tinham da natureza ao
seu redor, dos seus usos diversos. A influência de
Plínio marcou toda a Idade Média, como podemos
notar no texto do monge Teófilo do século XII d.C., o
qual mantém a descrição da fabricação de vidro muito
semelhante à do romano antigo, mostrando-nos que
Plínio relatou de maneira verossímil o conjunto de
produção tecnológica de sua época. Contudo, se a
superestrutura das fabricações é correta, deve-se ter
precaução com a leitura mais específica, quando o
autor narra pormenores da composição dos materiais
feitos. Obviamente, muitos dos conhecimentos sobre
metais, por exemplo, só foram conhecidos tardiamente,
com o aperfeiçoamento das técnicas laboratoriais e não
podemos negar que Plínio comete deslizes ao afirmar
determinadas proporções de minérios utilizados em
amálgamas: por meio das fontes materiais, constata-se
que os artesãos possuíam, dentro do possível a sua
contemporaneidade, entendimentos muito específicos
que diferem daquilo escrito por Plínio.
Dessa forma, ressaltamos a importância da
leitura atenta das fontes textuais antigas e a riqueza de
informações que nos apresentam. Sendo que esses
entendimentos oriundos dos escritos devem sempre ser
confrontados com a Arqueologia, tão rica de
informações materiais sobre o mundo do artesanato
(foco de nosso trabalho). Ao fazermos isso, reparamos
nitidamente que os dados literários espelham as visões
da elite, que não são as melhores sobre a figura do
artesão e menosprezam qualquer trabalho manual
(principalmente o que não esteja ligado à terra), por
isso, a arqueologia preenche as lacunas deixadas sobre
o cotidiano dessa plebe. E os vestígios são abundantes.
Felizmente, a cultura popular romana era forte o
suficiente na sociedade para sobreviver ao desprezo
senatorial e eqüestre, permitindo aos arqueólogos
encontrarem muitas inscrições parietais e testemunhos
do dia-a-dia, desde placas com preços de alimentos a
declarações de amor.
Mas o maior número de vestígios do mundo
romano e de sua plebe advém da cultura material
produzida nas oficinas de artesanato. Assim sendo,
centramos a maior parte de nosso trabalho sobre a
questão de como foram fabricados esses objetos. Uma
indagação que se mostrou mais ampla do que o simples
fabrico manual de um vaso, no entanto: o mundo
material romano era extremamente dinâmico, refletindo
exportações, importações e adaptações das mais
variadas. Um artefato da região palestina poderia muito
bem cair no gosto dos italianos e, assim, serem
copiados os seus modelos; solução criativa, também,
era o artesão vender cópias, em argila, de objetos mais
caros, feitos em metal ou vidro, tornando viável um
plebeu pobre ter uma imitação de um artesanato
esteticamente desejado. Tendo em mente o complexo
sistema de produção artesanal da Antiguidade romana,
optamos por separar a explanação das técnicas a partir
das matérias-primas principais empregadas em cada
uma.
Começamos pela argila, cujo artesanato,
especialmente o vasilhame cerâmico, é abundante nos
registros arqueológicos. A análise dos vestígios
esclarece o grau de conhecimento técnico que os
artesãos romanos tinham sobre o longo e trabalhoso
preparo da argila, a modelagem livre ou em tornos, o
uso de moldes, a construção de fornos, a queima das
peças e a utilização de verniz.
Inserida no contexto de aumento demográfico
na orla do Mediterrâneo entre os séculos I a.C. e I d.C.,
a metalurgia também alcançou quantidades expressivas
de objetos fabricados. Chamou-nos a atenção o
cotidiano dos mineiros descrito por Plínio e Vitrúvio,
fazendo com que dedicássemos algumas palavras sobre
os perigos das minas e, principalmente, os meios de
extração e refinamento dos minerais, parte tão essencial
para o trabalho correto com metais. Esse estudo dá
mostras da rede de comércio na Antiguidade Clássica,
uma vez que as minas, geralmente, ficavam distantes
dos centros manufatureiros, obrigando a transformação
de minerais em lingotes ali mesmo, no campo de
extração. O artesão, na cidade, comprava essa matéria
bruta e realizava uma segunda transformação, dando
forma a objetos de ferro, bronze, prata e ouro, por meio
de fusões, moldes e modelagens a frio. Os artesanatos
serviam de base à vida dos romanos e podiam ser desde
simples utensílios de cozinha até ornamentos luxuosos
que a elite poderia carregar consigo sempre. Os vidros
também se popularizaram no período citado, sendo,
muitas vezes, alternativas aos objetos de cerâmica e
metal; tendo sido enorme a contribuição dos romanos,
especialmente nas técnicas de fabricação com o
aperfeiçoamento do uso da pasta vítrea e o
desenvolvimento do vidro soprado em moldes, fato que
83
tornou a produção em série mais eficiente, tendo em
vista a enorme demanda desse vasilhame.
Assim, pode-se notar que a estruturação de
nosso trabalho foi pensada para ser uma via dupla de
entendimento sobre a plebe urbana romana. Pode-se
partir do macro, ou seja, da pessoa do plebeu (com
todas as características explanadas ao longo da
análise), para o micro, a produção de uma simples
taça em cerâmica, metal ou vidro. A recíproca é
verdadeira, indo-se do micro, daquilo que é
encontrado em campo escavado pelo arqueólogo, ao
macro, o grupo dos produtores desses vestígios. Desse
modo, intentamos contribuir para um conhecimento
em conjunto da heterogeneidade, vida e trabalho da
plebe urbana. Se conseguimos deixar o mais claro
possível o dinamismo existente no mundo da
produção artesanal romana, ou seja, a vida e as
instalações dos plebeus pela orla do Mediterrâneo,
além das técnicas que continuamente eram absorvidas
e exportadas pelas diversas regiões do Império,
movimentando suas economias, cremos ter alcançado
nosso objetivo inicial.
84
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90
Figuras
Figura 1
Hispânia e África.
In: H. H. Scullard, A History of the Roman World: from 753 to 146 B.C.. London : Methuen, 1951.
91
Figura 2
Uilla.
In: Maria Luzia Corassin, A reforma agrária na Roma antiga, p. 19.
Figura 3
Roma Arcaica.
In: Frank Kolb, La ciudad en la antigüedad, p. 143.
92
Figura 4
Colônias Marítimas.
In: Paul Zanker, “The City as symbol: Rome and the creation of an urban image”, JRA: 38, p. 26.
O perímetro retangular é típico das cidades fundadas por Roma. Note também a simetria no traçado das ruas, característica hipodamiana herdada
dos gregos.
Figura 5
Estrada atravessando as cidades.
In: Paul Zanker, “The City as symbol: Rome and the creation of an urban image”, JRA: 38, p. 27.
O destaque da Via Emilia na figura foi feito pelo autor deste trabalho.
93
Figura 6
Uillae ao longo das vias.
In: Paul Zanker, “The City as symbol: Rome and the creation of an urban image”, JRA: 38, p. 32.
Figura 7
Estrada principal atravessa a área do Capitólio.
In: Paul Zanker, “The City as symbol: Rome and the creation of an urban image”, JRA: 38, p. 28.
94
Figura 8
Anfiteatro adaptado à cidade.
In: Paul Zanker, “The City as symbol: Rome and the creation of an urban image”, JRA: 38
Figura 9
Entrada da Domus Aurea.
In: Wiki Classical Dictionary: http://www.ancientlibrary.com/wcd/Domus_Aurea
95
Figura 10
Estátua de uma Musa no interior da recém re-aberta Domus Aurea, em Roma.
In: Wikipedia, foto por Howard Hudson (Fev. de 2007): http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Da_statue_hh.jpg
Figura 11
Comparação de tamanhos dos tijolos romanos.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.138.
Figura 12
Opus craticum (“obra engradada”): uma estrutura de madeira preenchida com pedregulhos e argamassa. Uma solução barata, mas
notoriamente inflamável.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.138.
96
Figura 13
Fundação de um edifício. Camadas de concreto entre alicerce de madeira.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.139.
(A)
(B)
(C)
Figura 14
(A) Opus incertum; (B) Opus reticulatum; (C) Opus testaceum.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.139.
97
Opus reticulatum
Opus mixtum
Opus testaceum
Opus vittatum
Figura 15
Técnicas de construções de muros romanos.
In: Ostia: harbour city of ancient rome, http://www.ostia-antica.org/dict/topics/glossary.htm
Figura 16
Frente e costa de uma telha (tegula) e uma telha semi-cilíndrica (imbrex), usada para cobrir a junção entre as tegulae (“telhas”).
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.139.
98
Figura 17
Hipogeu de Trebius Justus, século IV d.C., Roma.
Embora de um período tardio, esse mural nos apresenta uma cena cotidiana do trabalho nas construções de monumentos e/ou
residências, exibindo as técnicas da época para a construção de andaimes (em madeira) e de alvenaria (provavelmente opus
testaceum), além das ferramentas de mão (espátula) e o transporte de tijolos em cesta, sobre o ombro.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.139.
Figura 18
Átrio Toscano,Casa de Salústio II a.C., Pompéia.
In: Virtual Roma, http://www.vroma.org
Figura 19
Átrio Tetraslito, Casa das Bodas de Prata, II a.C., Pompéia.
In: Dartmouth College, http:// www.dartmouth.edu/~classics/rome2005
99
Figura 20
Átrio Coríntio. Casa de Epidius Rufus, II-Ia.C., Pompéia.
In: Virtual Roma, http://www.vroma.org
Figura 21
Átrio Duas Águas (Despluviado), modelo encontrado em Clusium.
In: I. M. Barton (ed.), Roman domestic buildings, p. 40.
Figura 22
Implúvio e cisterna (puteal). Casa de Júlio Políbio, II a.C., Pompéia.
In: The Stoa Consortium, http:// www.stoa.org
Figura 23
Sistema de drenagem da água do implúvio para a cisterna.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.137.
100
Figura 24
Lararium no canto do átrio. Casa de Menandro, III a.C., Pompéia.
In: John R. Clarke, The houses of roman Italy: 100 B.C. – A. D. 250, p. 11.
Figura 25
Janela com grade de ferro, Herculano.
In: Simon P. Ellis, Roman Housing, lâmina.
101
(A)
(B)
Figura 26
Casa de Treliça, I d.C., Herculano. (A) Vista externa; (B) Detalhe do opus craticum.
In: Virtual Roma, http://www.vroma.org
102
Figura 27
Planta de uma domus. 1) fauces; 2) taberna; 3) atrium; 4) impluuium; 5) tablinum; 6) hortus (“jardim”); 7) triclinium; 8) ala; 9)
cubiculum.
In: http://home.att.net/~b.b.major/itdomus3.jpg
(A)
(B)
Figura 28
Mapa de Óstia imperial mostrando os quarteirões estudados (A). Em (B), o detalhe do quarteirão 3, no qual aparecem as unidades
arquiteturais/residenciais, as insulae, indicadas na figura pelos números menores.
In: American Journal of Archaeology (AJA), vol. 105, nº 3, 2001, pp. 391 e 394.
103
Mesa de bronze e mármore
com uma perna. Pompéia.
Mesa circular de madeira.
Herculano.
a) pote de bronze e base de ferro
b) pote de bronze
c) grelha de ferro
d; e) potes de terracota f) panela de bronze
g) concha de bronze
h) coador de bronze
Mesa de mármore com apoios decorados.
Pompéia.
Divã de madeira (carbonizado).
Herculano.
a; b; c) jarros de vidro coloridos
d) porta-ovo de prata
e) copo de prata
f) panela de bronze
g) prato de prata
h) colheres de prata i) vasilha de prata
Figura 29
Artesanatos utilizados em casas romanas.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, pp. 145; 147; 148.
104
Figura 30
Cena cotidiana da plebe moradora das insulae. No térreo, as tabernae, e a fonte de água (lacus).
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.135.
Figura 31
Planta da insula Arriana Polliana. É possível perceber claramente o acréscimo de cômodos ao redor da domus, que ocupa o eixo
central da estrutura.
In: Journal of Roman Archaeology (JRA), nº 22, 1997, p. 167.
105
(A)
(B)
(C)
Figura 32
(A) Alimentos encontrados em Herculano, intactos; (B) Forno de Sextus Patulcus Felix e seu detalhe (C).
In: Joseph Jay Deiss, Herculaneum. Italy’s buried treasure, pp. 122; 124-125.
106
Figura 33
Lanchonete.
In: Joseph Jay Deiss, Herculaneum. Italy’s buried treasure, p. 121.
Figura 34
Pormenorização de um conjunto de insulae. Tabernae no térreo.
In: Peter Connolly & Hazel Dodge, The ancient city, p.142.
107
Figura 35
Figura em vaso ático de um torno sendo girado manualmente por um aprendiz.
In: Carl Roebuck (ed.), The muses at work, p. 123.
Figura 36
Dois tipos de tornos usados pelos romanos.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 76.
Figura 37
Marcas internas no pote denotam o sentido anti-horário de rotação do torno.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 76.
108
Figura 38
Método de limpeza da argila.
Figura 39
Marcas de dedos no pote, mostrando onde foi segurado quando mergulhado no verniz.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 83.
(A)
(B)
Figura 40
(A) Vista completa de um forno com câmara de queima oval, século IV d.C. (B) Fornos experimentais feitos por Geoffrey Bryant
após a queima.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, pp. 84 e 90.
109
Figura 41
Tipos de lamparinas.
In: H. B. Waters, History of Ancient Pottery, pp. 25-26.
(A)
(B)
(C)
(D)
Figura 42
(A) Duas visões de um arquétipo básico. (B) Escrita cursiva em arquétipo de argila, séc. II d.C, Cnido. (C) Estampa do nome do
artesão em um arquétipo italiano de argila, séc. II d.C. (D) Arquétipo de argila ateniense, séc. I a.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, pp. 94-95.
110
(A)
(B)
Figura 43
(A) Molde de argila da parte de baixo de uma lamparina ateniense, I-II d.C. (B) Molde prensado da parte superior de uma
lamparina de Éfeso, séc. I a.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, pp. 97-98.
Figura 44
Marcas no molde mostram a maneira correta de se unir as duas partes da lamparina.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 98.
Figura 45
Marca de forno na base de uma lamparina.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 100.
111
Figura 46
Lamparinas descartadas de Éfeso, I-II d.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 101.
Figura 47
À esquerda, lamparina italiana; à direita, cópia cipriota. Ambas da segunda metade do século I d.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 102.
(A)
(C)
(B)
(D)
Figura 48
(A) Cunhagem da argila.
(B) Centralizando a argila no torno em movimento.
(C) Buraco central é feito.
(D) O objeto toma seu contorno final.
In: Carl Roebuck (ed.), The muses at work, pp. 126-127.
112
Figura 49
Cordão corta o objeto da base do torno.
In: Carl Roebuck (ed.), The muses at work, p. 130.
Figura 50
Detalhe da curvatura em espiral deixada pelo cordão.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 77.
Figura 51
Colocação do pé e da alça do vaso.
In: Carl Roebuck (ed.), The muses at work, p. 128.
113
(A)
(B)
Figura 52
(A) Exterior e interior da junção de um pescoço com duas asas a um corpo de garrafa.
(B) Garrafas e um frasco de Chipre. Os pescoços finos são feitos separadamente e adicionados ao corpo.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 88.
Figura 53
Duas visões de um punção de argila com figura feminina, de Arezzo. À direita, a alça para segurar o molde.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 78.
114
Figura 54
Visão externa e interna de um molde de argila com relevos prensados.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 79.
Figura 55
Fragmento de uma cerâmica aretina com a cabeça da figura deformada por má secagem no molde.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 80.
Figura 56
Potes cerâmicos coloridos e com decoração em barbotina, sécs. I-IV d.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, lâmina VI.
115
Figura 57
Appliqué de cabeça de leão em pote cerâmico, Gália central, II d.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 81.
Figura 58
Marcas de rolo estampadas na superfície da tigela do leste gaulês.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 81.
Figura 59
Estampa rolada em uma tigela de Trier, IV d.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 82.
116
Figura 60
Estampa da figura de um monograma Chi-Rho, Egito.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 82.
Figura 61
Dolia enterradas, Óstia.
In: http://www.leicatime.com/OstiaAnticaDoliumInterrSevSmall.jpg
Figura 62
Etapas de fabricação de uma ânfora.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 89.
117
(A)
(B)
Figura 63
Poço de Laurion, Grécia.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 92.
Galeria superior
Galeria inferior
Figura 64
Galeria situada em Carmarthen, País de Gales. Sua extração minerária começou no século I d.C.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, pp. 104-105.
118
Figura 65
Parafuso de Arquimedes, séc. I d.C., encontrado em Sotiel Coronada, Portugal.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 109.
Figura 66
Seção do Parafuso de Arquimedes. El Centenillo, Espanha.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 110.
Figura 67
Pormenor do Parafuso de Arquimedes.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 110.
119
Figura 68
Terracota alexandrina da época ptolomaica. O escravo faz o parafuso girar com os pés; o fato de não estar inclinado é
provavelmente devido ao desconhecimento da técnica por parte do artesão. Londres, Museu Britânico.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 16.
(A)
(B)
Figura 69
Roda hidráulica. (A) Reconstrução da roda da mina de ouro de Dolaucothi, no País de Gales. (B) Planta da roda encontrada em Rio
Tinto, Portugal.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, pp. 112-113.
120
Figura 70
Baixo relevo de Palazuelos. Grupo de mineiros.
In: Site da Universidad de Granada. www.ugr.es/~arqueol/docencia/doctorado/ArqyT/Imagenes/Imags2/cArboled/Arboled4.jpg.
Acessado em 28/12/2007.
(A)
(B)
Figura 71
(A) Mesa de lavagem, em parte restaurada, de Agrileza, Laurion; (B) Cisterna próxima à mesa de lavagem.
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, pp. 184-185.
121
Figura 72
Aparelhagem de lavagem de Laurion (planta).
In: John F. Healy, Miniere e metallurgia nel mondo greco e romano, p. 187.
Figura 73
Vulcano forjando a armadura de Aquiles. Afresco, Palazzo Ducale, Mantua.
In: http://www.kunstkopie.de/a/romano-giulio/vulcan-forging-the-armour.html.
Acessado em 28/12/2007.
122
Figura 74
A forja de Vulcano. Óleo sobre tela, Museu do Prado, Madri.
In: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9d/La_fragua_de_Vulcano_1630_Vel%C3%A1zquez.jpg
Acessado em 28/12/2007.
Figura 75
Fornos sem escoamento da escória.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p.133.
Figura 76
Fornos com escoamento da escória.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p.133.
123
(A)
(B)
Figura 77
(A) Vista da parte de baixo da câmara mais o arco de entrada frontal do forno. (B) Plano das escavações mostrando fornos com
evidências de sucessivas reconstruções sinais de escória foram encontrados em frente a muitos deles (II-III d.C.). Sussex, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 135.
Figura 78
Florescimento de ferro. Cranbrook, Kent, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 137.
Figura 79
Assistente trabalhando no fole atrás do fogo (protegendo-o do calor).
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 144.
124
Figura 80
Pá de ferro com haste torcida; 70 cm. Newstead, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 144.
(A)
(B)
Figura 81
(A) Estela de Aquileia representando as ferramentas e os artesãos trabalhando no fogão e na bigorna.
In: http://www.uni-tuebingen.de/uni/ymu/sqhm/werkzeug/bilder/werka00.jpg
(B) Desenho da estela.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 144.
Figura 82
Vista lateral e do topo de uma bigorna “bicuda”; 32,5 cm. Silchester, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 145.
125
Figura 83
Tipos de alicates. Londres, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 146.
(A)
(B)
Figura 84
(A) Malho; 21 cm. (B) Martelos de mão; 17,5 e 15 cm. Silchester, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 147.
Figura 85
Mandril. Silchester; , Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 150.
126
Figura 86
Cinzel com aparência de machado; 21cm. Caistor, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 150.
Figura 87
Furador; 21cm. Newstead, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 150.
Figura 88
Lima; 20 cm. Newstead, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 151.
Figura 89
Utensílio para fazer cabeças de cravos. Silchester, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 152.
127
Figura 90
Etapas do processo de cera perdida. Um modelo de cera é preparado e coberto com argila; a cera é derretida e o bronze preenche o
vazio; por fim, o manto é quebrado, revelando a peça sólida.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 27.
Figura 91
Núcleo de argila da estátua de Hórus Imperador. Século II d.C. Egito.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 28.
128
Figura 92
Fragmentos de duas camadas de argila sobrepostas, de uma figura nua. Gestingthorpe, Essex, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 28.
Figura 93
Estátua de bronze de sacerdotisa. Nemi, Itália.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 30.
Figura 94
Marcas internas de solda em um braço de estátua.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 31.
129
Figura 95
As duas pedras de um molde para fabricação de uma tigela em peltre; 12,5 cm de diâmetro. Leswyn St. Just, Cornualha, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 34
.
Figura 96
Torno construído por Alfred Mutz.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 34.
Figura 97
Sulcos circulares na base de uma caçarola; séculos I-II d.C.; 11 cm de diâmetro.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 34.
130
Figura 98
Marcas de compasso nas costas de um prato de peltre; século IV d.C. Tesouro de Appleford, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 35.
Figura 99
Fabricação de uma vasilha com molde em duas partes e sem base para o núcleo.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 37.
Figura 100
Junção entre corpo e pescoço de jarro; 26,25 cm de altura. Lesmahagow, Lanarkshire, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 37.
131
Figura 101
De cima para baixo, esquerda para direita: ahenum; ânfora; caçarola; caccabus; catinus; colum; enócoa; fôrma ou molde; jarra;
lanx; pátera; peluis; sartago; simpulum; sítula; urceus; vasilha elíptica.
In: Maria Isabel D‟Agostino Fleming, O vasilhame de bronze..., pp. 38-63.
132
Figura 102
Artesão “afundando” a placa de prata na depressão do bloco de madeira.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 13.
Figura 103
Alisamento do objeto.
In: Wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Planishing.svg
(A)
(B)
Figura 104
(A) Artesão alçando as paredes do objeto. (B) Martelando as bordas do objeto em sua forma final.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 15.
133
(A)
(B)
Figura 105
(A) Vista interna de cálice com decoração repoussé. (B) A vista interna após a soldagem do revestimento.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 19.
Figura 106
Travessa Oceanus com figures em baixo-relevo feitas por entalhamento; século IV d.C.. Mildenhall, Inglaterra.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, lâmina colorida I.
134
Figura 107
Tigela estampada com letras do imperador Licínio; 317 d.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 21.
Figura 108
Carimbo de controle de Heráclio (613-630 d.C.) na base de uma tigela. Lampsacus, Grécia.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 21.
Figura 109
Suástica em nielo pertencente a prato de prata do século I d.C.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 20.
135
Figura 110
Relevo de um aurifex brattiarus martelando uma lâmina de ouro; à sua direita, outras chapas empilhadas esperando o
martelamento. Museu do Vaticano, Roma.
In: Lucia Stefanelli, L’oro dei romani, p. 40.
Figura 111
Punção para estampamento.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 176.
Figura 112
A) Gravação em relevo; B) Entalhamento com cinzel; C) Perfil do traço de gravação; D) Perfil do traço de entalhamento.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 177.
136
Figura 113
Tipos de punções.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 179.
Figura 114
Detalhe da granulação de um brinco romano dos séculos I-II d.C.. Museu da RISD.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 179.
Figura 115
Detalhes de diferentes filigranas aplicadas em brincos. Museu da RISD.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 196.
Figura 116
Diferentes tipos de filigrana.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 198.
137
Figura 117
Placa de puxar fios da Era Viking. Estocolmo, Suécia.
In: ArkeoDok: http://www.arkeodok.com/News1.html
Acessado em 17/05/2008.
Figura 118
Conjunto de placa de puxar fios, alicate e cabestrante.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 202.
Figura 119
Manufaturando aros.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 205.
Figura 120
Corrente simples.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 206.
138
Figura 121
Aro-no-aro duplo.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 206.
Figura 122
Aro-no-aro duplo em forma de oito.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 208.
Figura 123
Corrente serpente.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 207.
Figura 124
Colar do século I d.C., Pompéia. Nápoles, Museu Arqueológico Nacional.
In: Lucia Stefanelli, L’oro dei romani, p. 107.
139
Figura 125
Detalhe de um brinco helenístico: reparar no fio que prende a gema pelo centro. Museu da RISD.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 192.
Figura 126
Detalhe de um brinco romano: reparar no engaste que prende o cabochão. Museu da RISD.
In: Tony Hackens e Rolf Winkes (eds.), Gold jewelry, p. 192.
(A)
(B)
Figura 127
A) Brincos de ouro em formato esférico com granadas; B) Anel de ouro com adorno em gema; século I d.C., Pompéia.
Nápoles, Museu Arqueológico Nacional.
In: Lucia Stefanelli, L’oro dei romani, pp. 134 e 136.
140
Figura 128
Figura 131
Figura 129
Figura 132
Figura 130
Figura 133
Moedas. Ashmolean Museum, Oxford.
In: Christopher Howgego (ed.), Coinage and identity in the Roman provinces, lâminas.
141
Figura 134
Figura 137
Figura 135
Figura 136
Figura 138
Figura 139
Figura 140
Figura 141
Figura 142
Técnicas de fabricação de discos de metal e moedas.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, pp. 65-67.
142
Figura 143
Fricção das partículas de corindo.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 70.
Figura 144
Conjunto formado por cunho inferior, disco de metal e cunho superior.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 71.
Figura 145
Denarius de Júlio César martelado a frio.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, lâmina colorida 4.
Figura 146
Composição padrão do vidro romano.
143
Figura 147
Viscosidade e temperaturas do vidro antigo de soda e cal.
In: E. M. Stern, Roman mold-blown glass, p. 34.
A
B
Figura 148
A) Viscosidades de trabalho em vidro; B) Temperaturas de trabalho em vidro de sílica-soda-cal.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, p. 23.
144
Figura 149
In: Mônica Bertelle, Vidro soprado no Império Romano, p. 13.
Figura 150
Decoração em lamparina mostrando dois artesãos vidraceiros e forno. Século I d.C., Dalmácia.
In: Donald Strong e David Brown (eds.), Roman crafts, p. 115.
Figura 151
Forno para produção de vidro; ilustração de Rábano Mauro no século IX d.C.
In: http://www.hebrewhistory.info/factpapers/fp005_robles.htm
145
A
B
C
D
Figura 152
Pega-se o naco de vidro (A) e o aquece na abertura do forno (B); depois dá-se a forma ao vidro aquecido manipulando a cana (C)
ou friccionando o material sobre uma superfície lisa (D).
In: E. Marianne Stern, Roman mold-blown glass, p. 36.
Figura 153
Enrolando fios de vidro em um núcleo.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, p. 40.
Figura 154
Técnica de núcleo.
In: Mônica Bertelle, Vidro soprado no Império Romano, p. 25.
146
Figura 155
Técnica de uso de molde para a fabricação de peças sólidas em vidro.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, p. 51.
Figura 156
Caniços colocados sobre um núcleo de vidro.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, p. 57.
147
Figura 157
Mosaico feito a partir de sobreposição de camadas de vidro.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, p. 57.
Figura 158
Técnica para fazer mosaico espiralado.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, p. 58.
Figura 159
Mosaico composto de cilindros.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, p. 60.
148
Figura 160
Etapas de fabricação de vidro soprado com cana de argila.
In: Birgit Schlick-Nolte e E. Marianne Stern, Early glass of the Ancient world, pp. 84-85.
149
Figura 161
Vidro soprado em molde.
In: E. Marianne Stern, Roman mold-blown glass, p. 46.
Figura 162
Problemas do molde.
In: Mônica Bertelle, Vidro soprado no Império Romano, p. 67.
150
Figura 163
Caneca do período romano feita com vidro soprado em molde.
In: E. Marianne Stern, Roman mold-blown glass, p. 51.
Figura 164
Jarro cilíndrico do período romano.
In: E. Marianne Stern, Roman mold-blown glass, p. 55.
151
152

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