NO PAÍS DAS MARAVILHAS: A EXPERIÊNCIA DA VIAGEM EM UM

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NO PAÍS DAS MARAVILHAS: A EXPERIÊNCIA DA VIAGEM EM UM
REVISTA LUMEN ET VIRTUS
ISSN 2177-2789
VOL. IV
Nº 9
SETEMBRO/2013
NO PAÍS DAS MARAVILHAS: A
EXPERIÊNCIA DA VIAGEM EM UM
JOGO DE MÚLTIPLAS FACES
Profª Drª Maria Auxiliadora Fontana Baseio1
http://lattes.cnpq.br/8808067037267950
RESUMO – O presente estudo analisa o simbolismo da viagem no livro Alice no País das
Maravilhas, de Lewis Carroll. Ao reunir aventura e travessia iniciática, a personagem acena
para um desejo profundo de transformação: em si mesma e na sociedade que a cerca. Sob o
signo da razão cientificista que alimenta o paradigma da época, Alice não hesita em nos
oferecer, em contrapartida, a experiência onírica e inventiva que compõe o homo ludens,
sinalizando a possibilidade de uma nova forma de ver.
PALAVRAS-CHAVE – viagem, aventura; lúdico; sociedade vitoriana.
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ABSTRACT – This article presents the symbolism of the journey in the book Alice in
Wonderland, by Lewis Carroll. By bringing together adventure and journey, Alice shows the
desire of changing: in herself and in the society that surrounds her. Under the sign of the
reason that feeds the scientistic paradigm of the time, the character does not hesitate to
offer us, however, the dream and inventive experience that compose homo ludens, signaling
the possibility of a new way of viewing.
KEYWORDS: journey; adventure; ludic; Victorian Society.
Introdução
Desde que a obra Alice no País das Maravilhas foi publicada pela primeira vez, na
Inglaterra, em 1865, muito se tem discutido e escrito sobre ela. A história da menina que
vive aventuras em uma viagem imaginária surpreendente em um lugar inusitado e com
gente estranha é uma das mais conhecidas, lidas, traduzidas, adaptadas, encenadas e
filmadas. Essa obra-prima, de autoria do reverendo inglês Charles Lutwige Dodgson, com
Doutora pela Universidade de São Paulo e Pesquisadora do Grupo Produções Literárias e Culturais para crianças
e jovens (USP) e coordenadora do grupo Arte, Cultura e Imaginário (UNISA).
1
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pseudônimo de Lewis Carroll, cativa leitores e provoca reflexões há muitos anos, dada a
sua complexidade.
Nascido na Inglaterra do século XIX, Lewis Carroll conviveu com os
acontecimentos e descobertas da época vitoriana – era de grandes mudanças econômicas,
sociais e políticas, marcadas substancialmente pela Revolução Industrial e pelo
fortalecimento de um império que jamais vira o sol se pôr. Ao mesmo tempo, descobertas
filosóficas, científicas e tecnológicas colocavam em risco o moralismo conservador e
conformista que subjugava as paixões do homem desta época.
Entre as tantas traduções da obra inglesa no Brasil e de grande qualidade, ressaltase, trabalharemos com a de Ana Maria Machado, com ilustrações de Jô de Oliveira,
publicada pela Editora Ática, uma vez que, além de tradutora, Ana Maria Machado já tem
um caminho traçado na escrita para crianças e jovens. Em sua tradução integral do texto,
ao adequar à sociedade brasileira atual, ela não perde de vista nem o leitor, nem a intenção
do autor, muito menos a natureza lúdica da linguagem literária quando ela efetivamente se
faz arte. Seguem algumas palavras da tradutora:
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Fazer esta tradução de Alice no País das Maravilhas foi muito trabalhoso e muito
divertido. Como já existem várias Alices em Português, só valia a pena partir para
mais uma se ela fizesse falta. E nós achávamos que sim, porque até agora
nenhuma tinha sido como esta. Quase todas as traduções, tradicionalmente,
mesmo as melhores, procuravam se dirigir às crianças e, para isso, achavam que
tinham só que contar a história e deixar de lado os trocadilhos, as piadas
linguísticas, as alusões literárias – principalmente porque era muito difícil
traduzir isso. Mas aí a história ficava sem pé nem cabeça e o nonsense típico de
Carroll virava insensatez, já que grande parte da história é um resultado direto
desses jogos de palavras, nasce deles, e seria completamente diferente se o autor
tivesse escrito em outra língua. (MACHADO, 1997, p.133)
Ao mergulhar no texto, o leitor lança-se em uma espécie de jogo de múltiplas faces.
Jogo, aqui, tem como referência a noção de Johan Huizinga (1996, p.4-11), que o define
como fenômeno cultural que “transcende as necessidades imediatas da vida e confere um
sentido à ação.”, “não é vida corrente nem vida real”. O jogo possui realidade autônoma e
é capaz de, a qualquer momento, absorver o jogador inteiramente, por ser desinteressado.
Trata-se de atividade voluntária, livre, cujo espaço é limitado e nele se respeitam as regras.
Quanto ao tempo, pela duração, é limitado, entretanto, ao terminar, prolonga-se como
criação do espírito, como tesouro a ser conservado pela memória.
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Em primeiro lugar, a leitura do texto literário assume natureza lúdica porque rompe
com o tempo e com o espaço cotidianos e arremessa o leitor em outra dimensão. A palavra
literária de Lewis Carroll absorve e transporta o leitor para a vivência de um jogo entre a
realidade e o sonho, alimentado por profundos e complexos elementos do imaginário.
Nosso objetivo neste artigo é analisar alguns elementos simbólicos associados ao
imaginário da viagem, como trajetória de amadurecimento e individuação.
A história das aventuras de uma menina curiosa, cheia de questionamentos e
insatisfações - daí o título original Alice in Wonderland – (o verbo wonder traduz-se como
querer saber; então, literalmente, ficaria Alice na Terra do querer saber), capaz de vencer
desafios, para os quais têm que dar resposta sozinha, pode ser a história de cada um de nós
em nossa trajetória existencial. Alice, à nossa semelhança, realiza sua jornada arquetípica em
busca de si mesma.
A narrativa inicia com a menina sentada ao lado de sua irmã no momento em que
esta lia um livro sem diálogo nem figura. Subitamente, passa correndo junto dela um
coelho branco, de olhos cor-de-rosa, falando, sozinho, que estava atrasado depois de olhar
em um relógio que tirara do bolso do colete. Ao sair, curiosa, atrás do coelho, adentra a
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toca do animal, no interior da qual a aventura se realiza.
O coelho é o primeiro signo a ser analisado, uma vez que ele a insere na travessia
iniciática. De natureza simbólica similar às lebres, conforme Chevalier e Gheerbrant (1996,
p.541), os coelhos são animais lunares. Muitas são as culturas que o associam a mitos dessa
natureza. Quanto à lua, observa-se que ela atravessa diferentes fases no seu ciclo durante o
qual muda de forma, renova-se. É um astro que cresce, decresce, desaparece, está em
permanente vir-a-ser, do nascimento à morte. Ela é o astro dos ritmos da vida. Portanto,
nessa condição, é possível inferir que o coelho sinaliza esse caminho renovador da busca
para a menina. Como um intermediário entre o mundo terreno – carrega o relógio, objeto
do mundo ordinário – e o transcendente, o coelho insere Alice no ponto exato de partida
para essa trajetória de transformações que suas vivências lhe promoverão. Leva-a à entrada
de sua toca. Ao correr atrás do animal, a protagonista acaba por adentrar um buraco que se
abre em um túnel, dentro do qual ela cai.
A toca era a entrada de um túnel, que continuava um pouco para adiante e depois
descia pela terra adentro, tão de repente que Alice nem teve tempo de pensar,
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antes de começar a cair numa coisa que parecia ser um poço muito
fundo.(MACHADO, 1997, p.14)
Toca, túnel, poço são lugares que se assemelham simbolicamente. Para Chevalier e
Gheerbrant (1996, p.915), o túnel é “via de comunicação, coberta e escura, na superfície,
subterrânea ou supraterrestre que conduz, através da escuridão, de uma zona de luz a outra;
via de passagem que encontramos em todos os ritos de iniciação.” O poço, ainda para esses
estudiosos (1996, p.726), é “uma espécie de síntese de três ordens cósmicas: céu, terra,
inferno, água, terra e ar; ele é uma espécie de via vital de comunicação”. A entrada na toca
do coelho é a entrada em um caminho de iniciação – o próprio jogo da vida -, permeado de
escuridão e de luz, de obstáculos e de descobertas.
Nessa travessia permeada de travessuras, a menina vive situações insólitas em que o
medo, a angústia, o desespero, o mistério, a surpresa, a solidão, a dúvida comparecem
como oportunidades para lhe proporcionar mudanças.
- Ai, meu Deus! Quanta bobagem que eu estou falando! Bem nesse momento, a
cabeça dela bateu no teto do salão. Na verdade, estava com mais de três metros de
altura. Pegou logo a chave de ouro e correu para a portinhola do jardim.
Pobre Alice! O máximo que ela conseguia fazer, se deitasse de lado com a cara no
chão, era botar um olho diante da porta e olhar o jardim. Entrar tinha ficado mais
impossível do que nunca. Então ela sentou e começou a chorar de novo. [...] Alice
estava tão desesperada que estava disposta a pedir socorro a qualquer um.
(MACHADO, 1997, p.23)
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Na marcha para a iniciação, Alice constitui-se como heroína, reconhecendo sua
coragem.
- Puxa! – disse Alice para si mesma. – Depois de uma queda dessas posso rolar
qualquer escada que não vai ser nada! O pessoal em casa vai me achar muito
corajosa! [...]
- Quantos quilômetros será que eu já caí? – perguntou ela, em voz alta. – Já devo
estar quase chegando ao centro da Terra.
arquétipo da viagem traduz-se como aventura e travessia. Esse simbolismo,
segundo Chevalier (1996), refere-se à busca de um Centro. De fato, a viagem realiza-se no
interior do próprio ser. Conforme o autor: “A viagem que é uma fuga de si mesmo nunca
terá êxito” (CHEVALIER, 1996, p.951). Constitui-se de provas preparatórias para a
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iniciação e “exprime-se muitas vezes como um deslocamento ao longo do Eixo do
Mundo”- neste caso, o poço ou o túnel em que cai.
Mircea Eliade, em sua obra O Sagrado e o Profano, esclarece que o axis mundi é um
eixo, uma abertura que estabelece a ligação e permite a passagem entre regiões cósmicas
(do Céu a Terra e vice-versa; da Terra para o mundo inferior). Trata-se de um lugar sagrado
que se constitui como uma ruptura na homogeneidade do espaço profano. Essa ruptura é
simbolizada por uma abertura, por meio da qual se tornou possível a passagem de uma
região cósmica a outra (do Céu a Terra e vice-versa; da Terra para o mundo inferior). O
eixo encontra-se no umbigo da Terra, no Centro do Mundo. A viagem iniciática de Alice
começa quando ela cai entra na toca do coelho, passa pelo túnel e chega ao poço. O
percurso permite o desejo de mudança, pela necessidade de viver sempre novas
experiências.
Ao visitar as profundezas, Alice permanentemente se vê diante de portas pelas
quais deseja transitar, muda de pequena a grande, de grande para pequena, motivada por
insatisfações e questionamentos de toda ordem. É a experiência arquetípica da Viagem que
se constata. Nela, uma nova imagem simbólica se associa: a do labirinto:
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Em toda volta do salão havia portas. Mas todas elas estavam trancadas. E depois
que Alice passou por todas elas, experimentando uma a uma, sentou-se muito
triste no meio do salão, sem saber como é que ia sair dali.
Falta-lhe o fio de Ariadne. Ressalta Chevalier e Gheerbrant (1996, p.530), o
labirinto é um entrecruzamento de caminhos cheio de obstáculos diante dos quais é preciso
descobrir a rota que leva ao centro, “[...]o labirinto e sua associação com a caverna o
mostra bem – deve, ao mesmo tempo, permitir o acesso ao centro por uma espécie de
viagem iniciatória”.
Em sua travessia, Alice está sempre em movimento, sem um destino definido,
abrindo-se ao desconhecido e saboreando o diverso. Seu desejo é permanentemente o
outro lugar. Observa-se a conversa com o gato:
- Por favor, poderia me dizer qual o caminho para sair
- Depende muito de para onde você quer ir - disse o Gato.
Não
importa
muito
para
onde...
disse
- Então não importa muito o caminho - disse o
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daqui?
Alice.
Gato.
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- ... desde que eu chegue em algum lugar - acrescentou Alice , explicando.
- Ah, mas com toda certeza, você chega – disse o Gato - se caminhar
bastante (CARROLL, 1997, p.66).
O túnel, que marca o início da trajetória desta heroína, é uma estrada escura e
subterrânea. Símbolo das travessias, eixo do mundo, assemelhado ao poço, símbolo da
abundância, fonte de vida e de conhecimento (vale lembrar as expressões: poço de
conhecimento; a verdade está sempre no fundo do poço), são canais para a descida de
Alice, para sua viagem vertical e profunda, em direção às origens de si mesma. Nesse
percurso labiríntico, ela nunca sabe quem é e sempre tem certeza de que não é a mesma.
Vale lembrar a conversa com a lagarta:
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- Quem é você?
[...]
A senhora me desculpe, mas no momento eu não tenho muita certeza. Quer
dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma
porção de vezes desde que isso aconteceu.
- O que quer dizer com isso? – perguntou a Lagarta, severa.
- Explique-se.
- Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que
está o problema. Posso explicar uma porção de coisas. Mas não posso explicar a
mim mesma. Porque não estou sendo eu mesma, entende?
- Não entendo coisa nenhuma – disse a Lagarta.
- Acho que não consigo ser mais clara – respondeu Alice, muito bem educada –
porque, para começar, eu mesma não estou entendendo. E, além disso, confunde
muito a gente esse negócio de ter diferentes tamanhos no mesmo dia.
- Não confunde nada – disse a Lagarta.
- Bom, talvez a senhora ainda não tenha passado por isso e não tenha
descoberto.Mas quando se transformar numa crisálida – porque isso vai acontecer
um dia, sabe? – e, depois disso, numa borboleta, acho que vai se sentir meio
esquisita, não vai?
- Nem um pouquinho – disse a Lagarta
-Pode ser que seus sentimentos sejam diferentes – disse Alice. – mas eu tenho
certeza de que seria esquisitíssimo para mim.[...](MACHADO, 1997, p.50).
O encontro de Alice com a lagarta é significativo nesse percurso de transformações.
Assemelhada a um verme, como um animal rastejante, a lagarta é o estado de feiura daquele
que ainda não se transformou em borboleta. Observa-se que a metamorfose é destino de
todo aquele que vive. Os momentos de mudança trazem a sensação de caos, até que uma
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nova ordem se estabeleça. Por isso, Alice verbaliza que não está entendendo nada e se
sente esquisita.
A busca de sua identidade e a consciência despertada por todos os seus
questionamentos na viagem ao país das maravilhas constituem-se como condição essencial
para intervenção, transformação em si e na realidade.
Mesmo sendo o país das maravilhas o lugar em que o maravilhoso se faz presente,
ou seja, em que a ordem insólita das coisas não seja questionável, Alice faz suas
intervenções. No encontro com o Gato, lê-se:
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- Naquela direção, disse o gato, acenando com a pata direita - mora um
Chapeleiro. E naquela -, mostrou com a outra pata - mora a Lebre de Março.
Você pode visitar qualquer um dos dois, à sua escolha. Tanto faz. Todos dois são
malucos.
- Mas eu não quero me meter com malucos, observou Alice.
- Não dá para evitar - disse o Gato, Aqui somos todos malucos. Eu sou maluco,
você é maluca...
-Como você sabe que eu sou maluca?
- Só pode ser - disse o Gato. – Senão, não tinha vindo para cá. (MACHADO,
1997, p.68)
No país das maravilhas, tudo pode acontecer. Esse espírito lúdico legitima todo
tipo de subversão da ordem cotidiana das coisas, como se constata na discussão que segue:
- Como é que você sabe que é maluco?
- Bom, para começar – explicou o Gato – um cachorro não é maluco. Concorda?
- Acho que sim.
-Pois, então... – continuou o Gato. – A gente vê que um cachorro rosna quando
está zangado e abana o rabo quando está satisfeito. Mas eu não. Eu rosno quando
estou satisfeito e abano o rabo quando estou com raiva. Portanto, sou maluco.
(MACHADO, 1997, p.68)
O território pelo qual transita Alice é o lugar mágico do inesperado, do
surpreendente, do inimaginável, lugar em que natural e sobrenatural convivem, tornando
possível, por exemplo, um gato aparecer e desaparecer, ora ser um gato sem sorriso, ora ser
um sorriso sem gato. Essa é uma das várias situações em que se faz presente o nonsense, que
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não se constitui como ausência de lógica, mas como uma lógica outra que se avizinha do
absurdo.
Essa realidade onírica, grávida de extraordinário, é o lugar que Lewis Carroll
escolheu para colocar em xeque a realidade ordinária de seu tempo.
O chá com o Chapeleiro é uma passagem que coloca em questão o Tempo, o
tempo cronológico e objetivo do relógio em contraste com o tempo incontável da criação.
O Chapeleiro sugere a criatividade associada à loucura, por sua postura de visionário capaz
de romper paradigmas. Quando a Rainha grita para o Chapeleiro: “ele está só matando o
tempo! Cortem-lhe a cabeça”!, percebe-se a crítica à arte da criação pelo perigo de sua força
transformadora. Em um tempo em que a arte, e a literatura em especial, era utilitária,
realizada para ensinar dogmas e moralizar, tudo que fugia a essa regra, seria melhor
extirpar.
A voz de comando era a da Rainha Vermelha, manipuladora, controladora de
dogmas e crenças que desejava fazer vingar. Nessa época rígida de moralidade puritana,
Carroll mostra as possibilidades de um mundo mágico por meio do qual as mudanças
poderão se fazer. Tudo isso é apresentado em atmosfera de jogo, como no capítulo “O
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campo de Croquet da rainha”, cujas personagens levam os nomes das cartas de baralho, ou
mesmo em tom lúdico, em linguagem que brinca em jogo das palavras.
É surpreendente o poder de questionamento e de resistência que Alice vai
desenvolvendo no decurso da história, como no capítulo “A Falsa Tartaruga”, em que
ironiza o excesso de moralidade que intervém a todo momento até mesmo no pensar das
pessoas. Enquanto a Duquesa via moralidade em tudo, Alice retruca.
- Pensando, outra vez? – perguntou a Duquesa, com mais uma cutucada de seu
queixinho pontudo.
- Tenho o direito de pensar – respondeu a menina começando a ficar um pouco
preocupada. .(MACHADO, 1997, p.94)
No final da história, ao ser chamada para depor no tribunal, acaba por enfrentar
destemidamente a autoridade do Rei, da Rainha.
- Pode sim – disse Alice (que tinha crescido tanto nos últimos minutos que não
tinha mais medo de interrompê-lo). – Se algum dos jurados for capaz de explicar
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do que se trata. Dou um doce a quem conseguir. Eu acho que é só um
amontoado de eles, elas, tu e nós, muito confuso e sem um pingo de sentido.
O júri anotou nas lousas:”Ela acha que não tem um pingo de sentido”.Mas
nenhum dos jurados se aventurou a tentar explicar o que estava
escrito.(MACHADO, 1997, p.125)
- Como é que alguém pode querer ter a sentença antes?
- Cale a boca! – disse a Rainha, roxa de raiva.
- Não calo! – disse Alice.
- Cortem-lhe a cabeça! – berrou a Rainha, o mais alto que podia. (MACHADO,
1997, p.126)
Nota-se que, cada vez mais, ela cresce em tamanho e em nível de consciência. A
viagem termina com Alice despertando de um sonho, denotando ser o mundo onírico o
lugar de seu amadurecimento para a vida vígil.
Considerações finais
Sabemos que os verdadeiros viajantes são heróis e partem porque estão
insatisfeitos, são ávidos pelo conhecimento do novo, sonham com novas possibilidades.
De acordo com Machado e Pageaux (1988, p.48), “não há aventura sem viagem, não há
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herói que não seja viajante”.
Nesse caminho iniciático, que se faz como uma errância imaginária ou onírica, a
protagonista vai se transformando, em uma dinâmica pouco coerente com a lógica
costumeira, reinaugurando, com isso, o pensar mágico, aquele que põe à revelia a lógica
convencional. Desse modo, Alice traz à mostra a qualidade da infância como um
verdadeiro reino de possibilidades e seu crescimento, processo de individuação e tomada de
consciência de si e do mundo que a rodeia.
Cumpre lembrar que esse lugar dos possíveis, o país das maravilhas, é verdadeiro
apenas no plano do sonho, enquanto dura o jogo. E o sonho é o locus do desejo. Ora, o
sonho de Alice metaforiza, então, o sonho de Lewis Carroll. Se no plano individual essa
viagem da heroína é o desejo (porque sonho) e a busca de um centro para si mesma, no
plano coletivo essa jornada acena para o desejo – porque “sonho em vigília” de Carroll de um paradigma outro, cuja lógica se distancie da convencional e cientificista. Nesse
sentido, trata-se de uma crítica ao próprio racionalismo que sustenta a sociedade do século
XIX.
Além disso, Lewis Carroll tece suas críticas às convenções e ao moralismo era
vitoriana.
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Por meio desse sonho, o autor recusa o canônico em favor do anômico. Mergulhar
no poço é mover-se para o reino noturno de dionísio, lugar perturbador da ordem
estabelecida e das certezas instituídas. Nesse ponto,Carroll inova, mas não arrisca muito,
uma vez que, no fim de tudo, a personagem acorda do sonho. Fosse um sonho em vígília,
tudo seria muito distinto.
Essa sede do outro lugar apresentada por Alice – e que também é nossa – desperta
o desejo da errância. No dizer de Maffesoli (2001, p.108):
É assim que, diante de um mundo que se pretende positivo, um mundo
exigindo realismo, um mundo aparentemente uniformizado, sente-se
nascer o desejo do “outro lugar”. De múltiplas maneiras se expressa a
preocupação de estar “à parte”, de não aderir aos valores comumente
admitidos, ou tidos como tal. Talvez se trate, para retomar uma fórmula de
Durkheim que merece ser repetida, da volta de uma espécie de “sede do
infinito” que uma civilização verdadeiramente racional, até mesmo
racionalista, tinha acreditado que devia e podia eliminar. Aí está bem
delimitado um imaginário da errância que dá ênfase à vida em seu
perpétuo recomeço:uma vida sempre e outra vez antiga e atual.
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Nesse sentido, a obra de Lewis Carroll é transgressora, pois, diferentemente da
maioria das criações literárias destinadas a crianças naquele século, ela não visa transmitir
uma determinada moral ou educar os pequenos leitores conforme ditames sociais. Ao
contrário, seu texto desafia a lógica e as normas estabelecidas com críticas ao poder, aos
valores, aos preceitos que sustentavam a cultura da época. Embora em franco
desenvolvimento industrial e científico, a Inglaterra de Lewis Carroll era um país ainda
bastante conservador no que dizia respeito às relações sociais e à educação de crianças,
consideradas seres absolutamente sem expressão.
Carroll presenteia Alice com as qualidades de uma nova criança - um ser em busca,
um ser inteiro, curioso, com voz própria, capaz de fazer descobertas - e nos presenteia,
também, com uma literatura que põe formas de ver e de viver em revelia. Em suma, o
escritor nos oferece e nos fortalece com uma arte literária que se faz como experiência
lúdica, como fonte de prazer e como verdadeira aventura.
O escritor inglês soube realizar sua vocação artística na construção de uma trama
lúdica com uma linguagem de brincar. E sua tradutora soube transcriar. Nessa obra, o leitor
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pensa sorrindo e sorri pensando. Sua arquitetura expressiva nos revela uma inusitada
competência em fazer jogar e fazer fruir o texto e a vida.
A célebre frase “de que adianta um livro sem figuras ou diálogos?” acena para a
verdadeira função da literatura para a juventude: as figuras, as imagens, para nutrir o sonho
e os diálogos para tecer relações entre o sonho e a realidade, entre os homens e suas várias
experiências, entre a literatura e a vida.
Ainda que projetada em sonho, sempre em trânsito, atravessando diferentes
passagens
e
paisagens,
perambulando
em
espaços
sempre
novos,
mudando
permanentemente de tamanho e posição, Alice é a encenação do próprio jogo da vida e da
construção de nossa identidade, ou melhor, de nossas várias identidades.
Lewis Carroll traduz essa experiência onírica e lúdica por meio de uma linguagem
inventiva. O jogo de imagens e de palavras, objetos que falam e são dotados de poderes
extraordinários, mudanças de tamanho, cartas de baralho pintando flores de vermelho,
desafios, charadas, entre outras, são manifestações de um humor criativo e crítico.
A viagem de Alice, como afirmamos, projeta a viagem onírica de Carroll, seu
sonho em vigília, disposto a acenar para o futuro, revela seu questionamento e crítica de
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um paradigma fechado, moralista, conservador e esclerosado. Com plena consciência de
linguagem, ele nos aponta que uma mudança de paradigma torna-se possível por meio de
experiências de aventura e travessia - ainda que elas estejam no universo do sonho. Assim,
com sua palavra literária, Lewis Carroll movimenta-nos no sentido de resgatar, de fazer
reviver e compreender uma nova forma de razão: a razão lúdica da infância, aquela que
brinca sem medo de se aventurar em novas possibilidades: uma razão aventureira. Essa sim
seria capaz de inaugurar um novo paradigma para a sociedade cientificista de Lewis Carroll
e também para a nossa. Para isso, ressalva-se, é preciso resgatar nossa face ludens e demens –
para lembrar Edgar Morin (2001) - qualidades que transbordam na obra.
É fato que a leitura de Alice no país das maravilhas nos chega como uma aventura e
uma travessia – de toda forma iniciática - porque rompe paradigmas – proporcionando-nos
a possibilidade de chegar ao Centro – tanto no plano individual quanto coletivo - uma
experiência difícil, cheia de obstáculos e de provas. O que para Alice e para Carroll era
sonho, para nós tem de se tornar realidade.
Para finalizar, ensina Mafesoli (2001, p.139):
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Por um paradoxo apenas aparente, nos sonhos, a aventura parece se opor
à vida real, quando na verdade a aventura exprime a totalidade da vida real,
pois o sonho na verdade é uma contração de todas as nossas experiências,
de todas as nossas potencialidades. Seria preciso ver se, pela memória
coletiva, pelas recordações sociais, pelas representações e outros mitos, a
aventura não é, justamente, o coração pulsante de toda a sociedade. A
aventura garante a mobilidade no próprio seio daquilo que está petrificado.
Com seu aspecto de removedor, a aventura permite o olhar exterior.
E continua o referido autor (2001, p.139): “Ao princípio da realidade, no que tem
de limitado, opõe-se o ilimitado dos possíveis” – o país das maravilhas.
É assim que a obra de Carroll, considerada jogo onírico de complexas faces,
prolonga-se como tesouro a ser preservado pela memória e, ao mesmo tempo, como força
impulsionadora para novas reinvenções do homem e da realidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Paulo: Ática, 1997.
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costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Trad. Vera da Costa e Silva et al.
10. ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1996.
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Ática, 2001.
ELIADE, Mircea.
Mito do eterno retorno. Trad. José Antônio Ceschin. São Paulo:
Mercuryo, 1992.
_____. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Trad. Rogério Fernandes.
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_____. Tratado de história das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 1996.
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MAFFESOLI, Michel. Notas sobre a pós-modernidade: o lugar faz o elo. Rio de
Janeiro: Atlântica, 2004.
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VOL. IV
Nº 9
SETEMBRO/2013
_____. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record,
2001.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 3. ed. São Paulo:
Cortez, 2001.
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Maria Auxiliadora Fontana Baseio