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SATANÁS E OS DEMÔNIOS
NA BÍBLIA
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SATANÁS E OS DEMÔNIOS
NA BÍBLIA
Ildo Bohn Gass
São Leopoldo
2013
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Sentindo que a violência não dobraria o operário,
Um dia tentou o patrão dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando ao alto da construção
E num momento de tempo mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder e a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue e dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer, dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares o que te faz dizer não.
Trecho do poema “Operário em construção”, de Vinicius de Moraes.
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Sumário
1 QUESTÕES INTRODUTÓRIAS.............................................................7
1.1 A dualidade da vida....................................................................9
1.2 A reflexão bíblica sobre a dualidade da vida...........................11
1.3 Liberdade e teologia da prosperidade.......................................13
1.4 O conteúdo deste livro................................................................15
2 SATANÁS E DEMÔNIOS NO ANTIGO ISRAEL................................19
2.1 Termos genéricos para designar os demônios coletivos........20
2.2 Nomes próprios para designar os demônios individuais.......21
2.3 A serpente, o Leviatã e os serafins.............................................23
2.4 Satanás: adversário, inimigo, acusador, promotor..................24
2.5 A influência da demonologia persa na fé judaica...................27
2.6 O helenismo e a crença em demônios......................................28
3 DIABO E DEMÔNIOS NOS EVANGELHOS SINÓTICOS...............33
3.1 Significado dos termos para os poderes malignos..................33
3.2 Jesus e o diabo/satanás/maligno................................................37
3.3 Jesus, os demônios e os exorcismos..........................................42
3.4 Tabela dos exorcismos praticados por Jesus............................46
4 PRÍNCIPE DESTE MUNDO E DEMÔNIOS EM JOÃO....................51
4.1 Estatísticas dos nomes do maligno em João............................52
4.2 Jesus é acusado de ter um demônio..........................................52
4.3 O diabo é homicida e pai da mentira.......................................54
4.4 Quem está por detrás do príncipe deste mundo?...................56
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5 DIABO E DEMÔNIOS NAS COMUNIDADES CRISTÃS.................59
5.1 Diabo e demônios nos Atos dos Apóstolos.............................60
5.1.1 Diabo e satanás em Atos.................................................... 60
5.1.2 Exorcismos.......................................................................... 61
5.1.3 Demônios associados a doenças....................................... 62
5.2 Diabo e demônios em Paulo................................................. 62
5.2.1 Diabo e demônios no bloco paulino................................ 62
5.2.2 Principado, autoridade e poder no bloco paulino.......... 69
5.3 Diabo e demônios no Apocalipse.............................................72
5.3.1 Satanás e diabo, demônios e espíritos impuros.............. 73
5.3.2 O dragão e as bestas........................................................... 74
6 SEGUIR EXPULSANDO DEMÔNIOS..................................................77
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Questões introdutórias
Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por
causa do ser humano, porque os desígnios do
seu coração são maus desde a sua infância
(Gn 8,21).
O enigma da presença do mal na história humana está na
origem da experiência com satanás, os demônios e poderes diabólicos, poderes contrários a Deus, que é fonte de vida e de todo
o bem. Não é por acaso que a crença em poderes maléficos, em
espíritos malignos é um fenômeno comum a todas as culturas. São
formas de explicar a presença do mal em nossa vida.
Quatro são as razões por que acreditamos ser oportuno fazer esta reflexão sobre satanás e seus serviçais, os demônios, conforme a linguagem bíblica.
• Primeiro, porque é mandato de Jesus, além de anunciar
a boa-nova a toda criatura, também fazer curas e expulsar demônios (Mc 6,7.13; 16,17; Mt 10,1.7-8; Lc 9,1-2). E,
mais do que nunca, as forças maléficas continuam presentes nos corações humanos e nas instituições que organizamos, em suas normas e leis.
• Segundo, porque a prática exorcista é muito atual e está
presente em igrejas cristãs. Além disso, o discurso sobre
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satanás reforça a teologia do medo. E, infelizmente, em vez
de desmascarar as injustiças da sociedade, legitima a sua
opressão. Com Jesus, aprendemos que o medo é o contrário da fé. Daí a sua insistência para não termos medo, mas
creiamos. A teologia do medo é a negação da fé.
• Terceiro, também consideramos importante debruçar-nos
sobre o tema para melhor compreender a prática libertadora de Jesus de Nazaré, expulsando poderes demoníacos
das mentes e dos corações humanos, bem como de instituições. A partir de Jesus, não há mais motivo para ter
medo desses poderes, pois ele revelou os rostos bem concretos de quem promove opressão, possessão e injustiças
de toda ordem. Assim, desmascarava pessoas, grupos de
pessoas, costumes e regras, promovendo a prática do discernimento e a conscientização no povo oprimido.
• Por fim, a presença das forças destrutivas na vida de Jesus foi tão grande que a luta contra o maligno se tornou
parte constitutiva de seu ser e agir. Em todos os dias, ele
teve que tomar decisões, fazer opções entre diferentes caminhos, diferentes projetos. E, na intimidade com o Pai,
discernia, buscava forças para orientar suas motivações
mais profundas em favor da promoção da vida e da solidariedade. Mais que procurar “o próximo”, buscava “tornar-se próximo”, ter compaixão. Por isso, não é por acaso
que incluía “as tentações do maligno” em suas conversas
cotidianas com o Pai. Recomendou-nos também que esse
assunto igualmente fizesse parte de nossa busca de comunhão com Deus: “E não nos conduzas para a tentação;
mas livra-nos do maligno” (Mt 6,13).1
1 A respeito do estudo dos dois últimos pedidos do Pai-nosso, conferir BOHN
GASS, Ildo. A oração de Jesus. Série A Palavra na Vida, n. 300. São Leopoldo:
CEBI, 2012, 64 p.
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1.1 A dualidade da vida
A realidade é dialética, é contraditória. A vida é dual. Esta
é a condição humana na história, bem como de toda a natureza.
Assim como existe o dia, temos também a noite. Há frio e também
calor. Assim, todo verso tem seu anverso. O mesmo acontece com
nossa experiência a respeito do bem e do mal, do amor e do ódio.
Grosso modo, o núcleo da personalidade de uma pessoa, o
ego, o seu desejo, o princípio vital que determina e dinamiza suas
ações, tem basicamente dois polos. No entanto, concordamos com
quem vê a vida como uma realidade bem mais complexa. Em cada
um desses dois campos há uma infinidade de tonalidades em seus
coloridos, de intensidades na forma de vivê-los.
Contudo, para nossa reflexão, tomemos como ponto de partida
esses dois caminhos fundamentais. De um lado, temos o projeto da
lógica egoísta do mal, do amor próprio. Na linguagem das comunidades cristãs originárias, essa lógica se manifesta nas tentações de Jesus
(Lc 4,1-13). Ali, o caminho da injustiça é expresso como busca de
poder, de glória, de riquezas e de satisfação imediata da fome. De
outro, temos o caminho da lógica do amor, da solidariedade.
No primeiro caso, buscamos ser, anulando os outros, colocando-os a serviço de nossas satisfações, de nosso gozo pessoal.
Na linguagem do escriba, é buscar o outro para ser meu próximo
(Lc 10,29). No segundo polo, somos enquanto os outros também
são. É um amor partilhado. A alteridade requer que o desejo das
outras pessoas também seja parte do meu desejo. Ter compaixão é
justamente isso. É sentir com as pessoas. Diferentemente do escriba que pergunta pelo próximo, Jesus inverte a questão e compreende que próximo é quem põe o amor em ação. A questão é tornar-se
próximo do outro (Lc 10,36).
O bem e o mal convivem lado a lado em nosso ser. São duas
forças que fazem parte da condição humana. Qual das duas é mais
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forte? Essa é uma questão que varia de pessoa a pessoa. No entanto, deixar que o bem ou o mal conduza nossas mentes, corações e
instituições sociais depende muito do meio em que cada pessoa
nasce, cresce e vive. Depende também da sua personalidade e da
mística que ela cultiva na busca da liberdade. Aliás, a prática do
mal, a negação do amor, também é escolha nossa, é consequência da nossa liberdade. Nelson Mandela dizia que “ninguém nasce
odiando outra pessoa pela cor de sua pede, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se
podem aprender a odiar, também podem ser ensinadas a amar”.
Assim, o ódio e o amor fazem parte da dualidade da vida. Qual dos
dois adquire maior força para conduzir-nos? Certamente é aquele
a quem alimentarmos melhor.
Para deixar fluir o amor, é preciso domar o tigre que está em
cada um e cada uma de nós. A primeira carta de Pedro descreveria
da seguinte forma essa experiência: “Estai alerta e vigiai, pois o
vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5,8). Para deixar circular o bem, Jesus
nos aponta o alimento, isto é, uma vida de sintonia com a fonte
do amor através da oração. Deixar-se conduzir pelo amor de Deus
é ser radicalmente livre. Por outro lado, empoderar o egoísmo e
a cobiça que habitam o coração humano é beber água em outro
poço, chamado na tradição neotestamentária de satanás ou diabo.
Beber água dessa fonte é tornar-se escravo da cobiça de riqueza,
da ambição de poder e do desejo de prestígio a qualquer custo. É
um espírito, uma ideologia, uma mentalidade, uma cultura e comportamentos que encharcam mentes, corações e estruturas sociais.
O profeta Oseias chamaria essa maneira de pensar de “espírito de
prostituição” (cf. Os 4,12; 5,4). Será por acaso que a comunidade
do profeta João compara a dominação romana, a grande Babilônia,
com uma enorme prostituta sentada sobre a besta, a encarnação do
dragão? (Ap 17)
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