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ENTRE
VISTA
ENTREVISTA
AnaCris Bittencourt
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Irineu Guimarães
Aos 77 anos, liderança tradicional da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro – onde
viveu por mais de 50 anos e ajudou a fundar sua primeira associação de moradores
– Irineu tem muito para contar. Presidente
da Federação de Favelas do Estado do Rio
de Janeiro (Faferj) por três mandatos, integrante do Movimento Revolucionário Oito
de Outubro (MR-8), aliou com maestria mobilização comunitária e formação política
em plena ditadura militar. Comunista por
convicção, sindicalista por vocação, favelado com muito orgulho, é pai de quatro
filhos, avô nove vezes e bisavô cinco. Sua
trajetória se confunde com a do próprio
movimento de favelas no Brasil. A seguir,
um pouco dessa história de lutas e, certamente, de muitas vitórias.
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Democracia Viva
(DV) – Quando e
onde você nasceu
e passou sua
infância?
acabei aprendendo praticamente todo o trabalho de uma cerâmica. Foi esse o meu trabalho até os 17 anos.
Irineu Guimarães –
Sou mineiro, nasci na
divisa com o Espírito
Santo, no Vale do Rio
Doce. Na época que eu
era criança, a estrada
de ferro que, hoje, carrega todo nosso minério, da companhia Vale
do Rio Doce, chamavase Vitória–Minas, porque começava em Vitória e ia até Minas.
Nasci no dia 18 de junho de 1930, na cidade Aimorés. Por isso,
tenho uma aparência
de índio.
Irineu Guimarães – Podemos dizer que
sim, pois, tive ali meu primeiro arranca-rabo
com os proprietários. Foi quando surgiu aquela lei para assinar carteira e eles não queriam
assinar. Nessa época, ouvia falar muito sobre
o Rio de Janeiro e eu queria sair, voar. Minha
mãe era contra porque eu era muito novo.
Procurei um camarada na cidade, o seu Benedito, que representava o Ministério do Trabalho. Disse a ele: ‘Estou saindo, mas nunca assinaram minha carteira’. Seu Benedito fez uma
visita à olaria e os proprietários ficaram
bronqueados. E, apesar de ser o mais novo,
fui eu que espalhei para todo mundo da cerâmica que tínhamos esse direito e criei uma
confusão generalizada lá dentro. Depois, fui
morar no Espírito Santo, atrás de dois irmãos
mais velhos que tinham ido para Colatina trabalhar numa cerâmica.
Comecei a trabalhar lá também, mas como
entendia de cerâmica (meus irmãos não eram
tão curiosos como eu), percebi que o trabalho
estava sendo feito de forma errada. Conversei
com seu Prestes, dono do negócio, explicando que tinha que haver modificações para os
tijolos saírem certos. Com isso, passei a ser o
encarregado da cerâmica. Seu Prestes gostava
muito de mim, mas tive problemas com meu
irmão mais velho, que não gostou. Ele era nervoso, coitado, brigava por tudo. Disse que ia
quebrar a minha cara e seu Prestes quis mandálo embora. Aí, tive que contornar a situação.
Não quis sair logo da empresa por causa do
meu irmão, deixei assentar a poeira e um dia
saí, sem falar nada para seu Prestes. Simplesmente desapareci, voltei para Aimorés.
DV – Sua
família
trabalhava
em quê?
Irineu Guimarães –
Eram todos camponeses. Meu pai mexia com terra e na época do
plantio de café, chegou a ter uma espécie de
fazenda. Naquele tempo era mole, era igual
ocupar terra aqui no Rio de Janeiro há 50, 60
anos. Depois, ele veio para a cidade de
Aimorés, onde nasci. Sou o 11º filho! Ali vivemos por um bom tempo. Mas ele brigou
com a família e foi morar em Itapina, no Espírito Santo. Minha mãe ficou em Aimorés
conosco. Tivemos uma época de pobreza muito grande. Aos poucos, minha mãe foi se reabilitando. Depois de um tempo, a família se
dividiu: minhas irmãs foram morar com meu
pai no Espírito Santo; minha mãe ficou comigo e com meus irmãos. De vez em quando, a
gente fazia um intercâmbio, ia lá e tal. Minha
vida toda foi por ali.
DV – Também chegou a trabalhar
com terra?
Irineu Guimarães – Não, nunca trabalhei na lavoura, não sei mexer com planta,
não sei plantar nada. Meu contato direto
com a terra acontecia quando eu passava uns
dias em um sítio de amigos lá de Aimorés.
Meu primeiro trabalho foi como oleiro, com
13 anos. Queria defender um dinheirinho e
fazia um serviço mais leve na olaria. Assim,
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DV – Foi quando começou sua
liderança como sindicalista?
DV – Mas você não queria mais
viver lá. Foi assim que acabou
indo para o Rio de Janeiro?
Irineu Guimarães – Fiz um tour até chegar ao Rio. Em Aimorés, reencontrei um amigo, que também tinha vontade de voar mais
alto, e fomos para Governador Valadares. Ele
era um ótimo marceneiro, mas não encontrou
emprego lá. Fomos, então, para outra cidade,
Acesita, e também não conseguimos emprego. Acabamos indo parar em Belo Horizonte.
Todo mundo sem dinheiro, duro. Ficamos lá
uns dias, fazendo uns biscates. Em Valadares,
já tinha trabalhado numa empresa americana,
no negócio de tirar curva das linhas para o
IRINEU GUIMARÃES
trem de minério andar mais rápido. Fiquei sabendo que essa empresa estava construindo
uma casa de força em Barra do Piraí, no Rio de
Janeiro. Aí, fomos para lá. Mas o único emprego que tinha era trabalhar com cimento. Troço
pesado, difícil, eu era magrinho, sofri que só
trabalhando naquilo. Conversando com o pessoal, descobrimos que a empresa tinha um time
de futebol. Isso salvou a gente, fomos aprovados no treino e fui promovido a apontador. Eu
batia uma bola direitinho.
DV – Foi ser apontador do time
de futebol da empresa?
Irineu Guimarães – Não, apontador dos
trabalhadores na empresa. Mesmo assim, por
causa do meu amigo, não ficamos lá muito
tempo, só uns dois meses. Tinha outro irmão
mais velho que trabalhava para a Aeronáutica.
Ele encontrou um emprego bom na profissão
dele, ganhava bem. Fomos morar, temporariamente, na empresa onde ele trabalhava. Foi aí
que conheci o Jacarezinho, a empresa era
numa rua lá. Mas minha primeira morada no
Rio foi em Nilópolis. Eu consegui um emprego
na fábrica de garrafas e copos Cisper. Isso foi
em 1951, estava com 20 anos. Tínhamos que
pegar o trem todo dia de madrugada, era um
sufoco desgraçado. Aí, mudamos para a rua
Dois de Fevereiro, no Engenho de Dentro.
DV – Antes de começar a
trabalhar, como foi o Irineu
estudante?
Irineu Guimarães – Fui um péssimo estudante, já fui até expulso da escola. Tinha
um cunhado que gostava muito de mim, me
dava toda cobertura, mas não estudei, não
gostava de estudar. Fui estudar à noite e continuei sendo um péssimo estudante, brincava, namorava, mas não estudava. Aí, resolvi
trabalhar. Trabalhei em vários setores, em serviços braçais, porque não tinha uma profissão. Assumo que não parava em emprego
nenhum porque sempre criava muito problema. Gostava muito de política, mas não tinha
nenhuma ideologia revolucionária.
DV – E quando passou a ter?
Irineu Guimarães – Quando conheci o
marxismo, ainda muito mal, em 1955. Tinha
um concunhado comunista, mas era um comunista devagar, não lia muito, não fazia nada.
A gente vivia conversando sobre futebol e assim ficamos amigos. Depois, ele acabou se tornando meu concunhado. Eu namorava a irmã
da mulher dele. Um dia, ele me disse: ‘Você
está perdendo seu tempo conversando só sobre futebol, falando do Vasco’. Sempre fui
vascaíno, desde a infância. Até porque, na minha cidade morava um cara que jogava no
Vasco e todo mundo, nessa época, virou
vascaíno lá. Depois dessa conversa, decidi ler,
conversar com outros companheiros e fazer
movimentos políticos, comecei a participar
mesmo. Cheguei em um ponto que entrei numa
base política no Jacarezinho.
DV – Base política do Partido
Comunista?
Irineu Guimarães – Sim, do PCB. Depois,
fui membro do regional da Leopoldina e, aí,
minha atividade política passou a ser no Jacaré e na Leopoldina.
Era bastante ativo e,
em pouco tempo,
passei a ser o secretário político da
base. Na época do
golpe militar, estava
trabalhando numa
fábrica de escovas.
Trabalhei duas vezes
nessa fábrica, um
ano e meio de cada
vez. Da segunda
vez, depois que me
tornei socialista,
comunista, fiz um
movimento na fábrica. Na verdade,
eu mandava lá. Tinha cento e poucos
empregados e alguns companheiros
eram estabilizados,
naquele tempo ainda havia estabilidade no emprego. Eu,
que não era estabilizado, botava esse
pessoal para falar
em nome da classe
operária, reivindicar. Com o movimento político que criamos ali dentro, a gente parava a fábrica a hora que queria. Paramos várias vezes.
Trabalhei em vários
setores, em serviços
braçais, porque
não tinha
profissão. Assumo
que não parava em
emprego porque
sempre criava
problema. Gostava
muito de política,
mas não tinha
nenhuma ideologia
revolucionária
DV – Qual a sua visão sobre
aquele momento político
do Brasil?
Irineu Guimarães – Nunca me conformei
muito com Getúlio, apesar de o pessoal falar
muito. Até hoje, tenho divergência com pessoas que defendem que o Prestes fez bem
quando fez aquela aliança com Getúlio. Eu não
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penso assim, achei que aquela aliança não
merecia nenhum tipo de consideração por
parte dos comunistas. Não podia ter. Getúlio
entregou a mulher dele para os nazistas matarem. Que negócio é esse? Como apoiar um
cara desse? É um cara que traiu, matou muito
comunista, matou muito operário. Bastava não
ser getulista, ser oposição para ele tachar de
comunista e mandar matar o cara.
O Jango não era um socialista, mas era
bem-intencionado. Em um ano e sete meses
que esteve no governo, fez mais do que todos
os outros governos
que se diziam progressistas. E ele saiu
do governo exatamente por isso. Foi
autor do salário mínimo, brigou pela
reforma agrária na
beira de estradas,
porque não adianta
fazer reforma agrária
lá dentro da Amazônia, tem que fazer
nas áreas com escoamento. Ele também
deu o primeiro salto
para controlar a remessa de lucro. Porque os gringos fazem o que querem
aqui, dominam tudo
e levam o lucro todo
para fora. Essas medidas contrariaram
enormemente o imperialismo americano. Foi essa a razão
dele ter sido deposto. Na minha opinião, foi também
um erro muito grande do Partido Comunista, que botava
muita lenha na fogueira, sem nenhuma preparação de base para a revolução. Falava em
revolução sem estar preparado para isso. Isso
foi um dos grandes erros que cometemos.
A cúpula do Partido
Comunista estava
toda no Sindicato
dos Metalúrgicos.
Olha a nossa visão
de resistência:
enchemos a frente
do sindicato de
sacos de areia,
fizemos a maior
barricada. Mas lá
dentro não tinha
um canivete
DV – Que tipo de preparação
deveria ter sido feita?
Irineu Guimarães – Não se pode falar em
revolução sem ter um militante que saiba o
que é uma guerrilha no campo ou urbana. Os
caras não sabiam nem dar um tiro, como é
que se vai falar em revolução? Um outro grave
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erro foi cometido pelo próprio Prestes. No último aniversário antes do golpe de 1935, assisti ao discurso que ele fez. Dizia o seguinte:
no Brasil, não há clima para haver golpe de
direita. Se houver golpe, só poderá ser de esquerda. Ele acreditava nos generais. Dali a dois
meses, aconteceu o golpe. Não foi de direita
não, foi de ultradireita.
DV – Onde estava durante
o golpe de 64?
Irineu Guimarães – No Sindicato dos
Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Depois que
me tornei sindicalista, meu assistente sindical era o Roberto Morena, um dirigente de
confiança do Partido Comunista no Brasil.
Toda a cúpula do partido freqüentava o sindicato, vários atos foram feitos ali. O Roberto
Morena me orientava porque eu pertencia a
um sindicato deste tamanhozinho, onde toda
a diretoria era pelega junto com o patrão e
eu queria derrubá-los.
DV – Qual era o sindicato?
Irineu Guimarães – Sindicato de Escova,
Junco e Vime, pequenininho. Enfim, a cúpula
do Partido Comunista estava toda ali no Sindicato dos Metalúrgicos. Agora, veja o que
fazíamos, olha a nossa visão de resistência:
enchemos a frente do sindicato de sacos de
areia, fizemos a maior barricada. Mas lá dentro não tinha um canivete. Com isso, despertamos a ira da reação, que dizia: ‘Os homens
estão com tudo lá dentro’. Levaram até carro
de combate. Aí, foi cada um por si, nunca
mais encontrei as pessoas que estavam ali comigo. O deputado João Macena, por exemplo, que ajudamos a eleger, estava lá. Nos
despedimos na porta do sindicato, ele disse:
‘Temos que sacudir a poeira e dar a volta por
cima. Eu saio por aqui, você sai por lá’. Fui
embora a pé, não sei para onde ele foi, ninguém nunca mais viu João Macena. Pegaram
e mataram.
DV – Então, vocês fizeram a
barricada e a ordem foi se mandar
porque não tinha mais jeito?
Irineu Guimarães – Que nada, o que estávamos discutindo era como iríamos organizar a festa da vitória. Era o Movimento de Favelas reunido ali para discutir como faríamos a
festa da vitória do Jango. Dali a pouco, veio
um cara e disse: ‘Ih, rapaz, acabaram de tirar
nossa emissora do ar, entrou o Lacerda falando do golpe’. Aí, começamos a correr. Fui para
o Jacarezinho, organizamos nosso pessoal.
Ficamos de plantão três noites e três dias esperando, porque o Brizola estava fazendo a
IRINEU GUIMARÃES
resistência no Sul, e pensamos: ‘Devem vir armas por parte do Brizola’. Mas cadê? Depois,
desmobilizamos, fazer o quê?
DV – Como o Jacarezinho recebeu
esse impacto?
Irineu Guimarães – A favela não participava muito disso. Lá, todo mundo sabia que eu
era comunista porque eu fazia isso abertamente. A gente estava praticamente na legalidade.
Minha casa era uma sapataria que tinha um
cômodo na parte de cima. O pessoal da favela
falava: ‘Aquele prediozinho ali deve ter uma rádio que fala diretamente com Moscou’. Eu era
tachado de comunista mesmo. Depois, o padre
Nelson, da paróquia local, começou a me perseguir. Mais tarde, ficamos amigos, mas fui preso várias vezes a pedido dele. Às vezes, estava
tudo tranqüilo e de repente chegava alguém
do Dops [Departamento de Ordem Política e
Social] e me levava para perguntar alguma coisa, dormia lá. Já fui preso também por fazer
várias pichações, em Botafogo, no centro da
cidade. Fomos levando, mas para voltar à normalidade era difícil.
DV – E o trabalho de mobilização
das bases, continuou?
Irineu Guimarães – Nunca deixamos de
fazer o trabalho comunista no Jacarezinho,
mesmo durante a ditadura. Só que o padre Nelson incomodava muito a gente. Por exemplo,
ele cismou de mudar o nome do Jacarezinho
para bairro Dom Bosco e nós fomos contra. Começamos a organizar o pessoal para o contra,
tínhamos uma boa aceitação na comunidade.
No Jacarezinho, tudo o que existe de melhoria,
água, luz, canalização de rios, fomos nós que
participamos de tudo, por isso somos bem-conceituados. Isso tudo aconteceu em 1964.
Nossa primeira associação, o Centro Social
do Jacarezinho, foi fechada. Eu era diretor junto com mais dois lacerdistas, meus amigos. O
presidente também era lacerdista, mas cismou
de dar uma de ditador, dedurava os outros,
pintava o caneco, tinha que ser o que ele queria. Aí, os próprios lacerdistas brigaram com
ele. Conclusão: a associação morreu. Ficamos
sem associação por dois anos.
DV – Foi difícil fundar outra?
Irineu Guimarães – Sim, fizemos um grande movimento para fundar a outra associação,
que saiu em 1966. Foi quando houve a briga,
porque o padre entrou na disputa da associação com a gente e ganhou. A gente achou que
o momento não era propício para nós. Aí, tiramos outra posição: ‘Não vamos ganhar mais a
associação, vamos dirigir’. Conclusão: o padre
cismou de mudar o nome do bairro e aí ganhamos aquele pessoal, o pessoal ama o
Jacarezinho, é tradicional, ficou fácil ganhar.
Também ganhamos o presidente da escola
de samba, um amigo nosso que era policial aposentado, o Ney, que já morreu. Depois, na grande assembléia que tivemos, o presidente fui eu,
eleito por aclamação. Botei minha banca dentro da igreja, aquilo virou uma praça de guerra,
e chamaram os policiais de choque. Wilmar
Pales, um direitão, era nosso amigo e tinha interesse político no Jacarezinho, era administrador regional. Ele ficou do nosso lado. Isso nos
deu um cacife maior, saímos por cima. Mas a
perseguição do padre aumentou. Estava sempre em cana por causa dele. Fomos levando até
tomar a decisão política de não participar mais
da associação. A última vez que assumimos, já
foi com outro caráter.
DV – Qual era a nova meta?
Irineu Guimarães – Nosso trabalho era
unificar a comissão de luz. Deu certo. Elegemos nossa chapa, depois elegemos a diretoria da associação, a diretoria da comissão de
luz e unificamos. Era proibido entrar luz da
Light em comunidade, em favela. Fazíamos
um trabalho tipo Robin Hood, roubávamos
luz da Light e repassávamos. Mesmo assim,
um morador denunciou a gente e deu uma
confusão. A gente negou. A luz só entrou
porque já tínhamos essa reivindicação. Como
a ditadura estava muito desgastada e estavam querendo eleger o pessoal da Arena,
houve um acordo para eles entrarem e botarem luz direto na favela.
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DV – No período da ditadura, você
tinha que ficar escondido?
Irineu Guimarães – Não, andava por aí
tudo. A classe média não acreditava na nossa
capacidade, não ligava muito para a gente.
Nunca fui hostilizado, eles nunca acreditaram
que tivéssemos capacidade de incomodá-los.
Acredito nisso porque outras pessoas foram
muito perseguidas, não é? O único lugar onde
havia eleição nessa época, no Brasil, era nas
favelas. Levamos até o Tribunal Regional Eleitoral para o Jacarezinho. Foi uma troca de interesses, eles precisavam de votos, mas nós fazíamos eleição. Até usávamos isso no discurso:
‘Aqui é uma democracia. Mas lá fora não é’.
DV – Continuou vinculado ao PCB?
Irineu Guimarães – Sim, mas eu fiquei
mesmo foi no Movimento Revolucionário
Oito de Outubro (MR-8). Em 1981, fizemos
o primeiro grande encontro dos metalúrgicos. Em 1979, foi meu segundo mandato no
Jacaré, fui eleito de 77 a 79, depois de 79 a
82. No primeiro mandato, fizemos um trabalho muito grande, compramos caminhãocaçamba, betoneira. Chegamos a ter dez mil
sócios na associação, tinha grupos jovens,
políticos, tinha tudo. Cheguei a acumular
Jacarezinho e Faferj.
DV – Como foi seu envolvimento
com a Faferj?
Irineu Guimarães – Foi, na verdade, um
movimento de retomada, e não fui eu, foi um
grupo político, porque ninguém faz nada só.
Tenho a honra de ter sido o cara que falava
mais em nome dessas pessoas, mas, na verdade, não fiz nada. Vou dizer mais: a Faferj era
uma antes de nós e se tornou outra depois.
Antes, tinha um trabalho incipiente, não encarava as coisas. Botamos muita banca por esse
Rio de Janeiro afora.
DV – Qual o objetivo dessa
retomada?
Irineu Guimarães – Só fui para a associação de moradores e para a Faferj porque sou
comunista, fui fazer trabalho político. Transformávamos trabalho comunitário em político. Retomamos a Faferj com a intenção de revolucionar os favelados. Com o golpe militar,
a Faferj ficou acéfala. Ficou com três diretores
muito ruins. Só em 77, treze anos após, começamos a retomada. Junto conosco estava a Pastoral de Favelas, a Pastoral Operária. A Igreja
ajudou muito. Acho que o grande lance desse
momento foi a articulação entre as igrejas,
pastorais e as organizações de esquerda para
poder enfrentar e retomar a Faferj. Mas tenho
um arrependimento profundo porque fundamos mais de cem associações, e não fizemos
base política em nenhuma. Esse foi o grande
erro, tinha que ter base em todo lugar e fazer
um trabalho político.
DV – Como era a relação entre
o MR-8 e a o trabalho de
mobilização de favelas?
Irineu Guimarães – Ligação total! No movimento de favelas, tínhamos a nossa política
clandestina, mas a gente discutia tudo no MR-8.
Só consegui fazer esse trabalho todo na favela graças ao MR-8 e também à Igreja, que ajudou em certo período. Sozinho, jamais faria isso, de jeito
nenhum. Esse mérito que o pessoal
atribui a mim é muito mais do coletivo, fui só o porta-voz.
DV – Nessa época, vocês já
lutavam contra as remoções?
Irineu Guimarães – Sim, encaramos
várias remoções, desapropriamos,
ocupamos terras, entraram na justiça contra nós, mas, com ajuda da
Igreja, fizemos um movimento tão
grande que desapropriamos essas
áreas por 99 anos. A gente lutava
muito, fazia passeata, pegava esse
pessoal todo e enfiava no Palácio da
Justiça, com criança mijando lá dentro. Eles ficavam doidos com a gente. Como tínhamos apoio da Igreja,
eles não podiam baixar o pau na
gente, e isso em plena ditadura.
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Quando estava na Faferj e ocupávamos
muita terra, um problema eram os aproveitadores. A gente ocupava as terras, eles iam
junto com a gente, daqui a pouco estavam
vendendo o terreno e a gente era obrigado
a não criar muito problema para não enfraquecer o movimento. A gente tinha que engolir algumas coisas.
DV – Dessas lutas, alguma
marcou mais?
Irineu Guimarães – Muitas marcaram, especialmente a primeira, da Charitas, em
Niterói. Fomos para lá junto com a Pastoral.
Mas a situação estava braba. O juiz tinha mandado remover e fomos tentar barrar a remoção. A advogada que estava nos acompanhando falava para o oficial de justiça: ‘O doutor
juiz mandou que o senhor ouvisse minhas
ponderações’. E ele: ‘Pode ponderar doutora’,
e continuava derrubando tudo. Dava vontade
de chorar. Foi a primeira que a gente encarou
e lá nós perdemos.
Já na Pedra Lisa, na Central, resistimos e
ganhamos. Foi uma resistência grande, estavam lá donos de empresas de ônibus, foi uma
briga danada, mas a favela permaneceu. Outra marcante foi a do Bosque da Barra, foi uma
pedreira. Duzentos PMs e conseguimos barrar.
Com a mobilização da comunidade, apoio da
Pastoral, apoio de mais gente.
DV – Esse movimento aconteceu
simultaneamente em várias
favelas, não é?
Irineu Guimarães – Sim, fizemos três grandes encontros. Aquele dos metalúrgicos, com
13 mil pessoas, e fizemos outros com 5 mil
pessoas em outros lugares. Tínhamos uma mobilização muito grande e crédito nas favelas. A
Faferj adquiriu isso, era uma coisa viva, tinha
muita reunião, era uma disputa na eleição.
DV – Nesse momento, também
surge a Federação das Associações
de Moradores do Estado do Rio de
Janeiro (Famerj). Vocês tinham
uma relação política?
Irineu Guimarães – Eles não deram muita importância para nós. Achavam que já éramos da Faferj: ‘O que esses favelados vêm fazer aqui?’. Não deram aquele respeito de
considerar que a gente era uma federação e
eles seriam outra, mas fomos nós que orientamos os primeiros passos da Famerj, de certa
forma, demos a luz para a fundação. Eu também nunca me interessei em participar da
Famerj porque me orgulhava mais de ser favelado. Nem se me chamassem, não iria.
Até hoje, me considero proletário da favela.
Acho a favela brilhante, tem tudo ali. Desde o
traficante até um grande profissional, o professor. Não tenho a menor dúvida, o marxismo
também foi fundado pela classe média. O Lênin
era de classe média, o Marx, muito mais. Para
escrever O Capital, o que fez? Teve que ir para o
seio da classe operária para entender esta contradição: a transformação da sociedade só interessa ao proletário, não interessa à classe média. A classe média quer ascendência, é burguesa
e quer ser mais ainda. Já o proletário só
tem a mão-de-obra,
só tem a força de
trabalho, então, é
revolucionário por
excelência.
DV – Como
vocês
conciliavam
o trabalho
político e a
sobrevivência?
Orientamos os
primeiros passos
da Famerj, demos
a luz para a
fundação. Nunca
me interessei em
participar porque
me orgulhava mais
de ser favelado.
Até hoje, me
considero
proletário da
favela. Acho a
favela brilhante
Irineu Guimarães – Passei a trabalhar por conta própria
porque depois do
golpe militar ficou difícil. E também já estava com uma idade
mais avançada, já não
estava muito a fim. Tinha uma pequena
firma, tive vários negócios. Fui dono de
aviário, de bar, tive
barraca na rua e depois montei um fabrico de calçados com
um companheiro que
é sapateiro e comunista. Eu tinha a casa
e ele tinha a sabedoria. A gente trabalhava artesanalmente. Só vendíamos em Copacabana. Ganhamos dinheiro pra caramba porque a
gente via a moda nas revistas, fazia e vendia tudo.
Aí, ganhei dinheiro e prejudiquei o pessoal do
Jacaré que fabricava chinelo. Tinha uma porção
de fábricas de chinelão lá. Quando montamos
o fabrico de sapatos, pagávamos ao sapateiro
todos os direitos que o empregado tinha que
ter, aí o pessoal ficou com raiva porque todo
mundo queria ter os mesmos direitos. Foi mais
ou menos como aconteceu em Minas.
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DV – A década de 1980 foi um
período bastante conturbado para
os partidos políticos. O que isso
significou em sua trajetória
comunista?
Irineu Guimarães – Tive muita desilusão com partidos políticos. Fui de alguns partidos: do PMDB, do PCB... Isso atrapalha
qualquer cidadão porque a gente começa a
fazer o jogo político do partido. Se estou
naquele partido e você chega lá vendendo
seu peixe, não vou criticar porque seria falta
de ética dentro do partido, assim vamos fazendo concessões adoidado. Foi o que sempre fiz muito: concessão eleitoral, não política. Por exemplo,
hoje, na TV, aparece muita gente falando da grandeza
do seu partido e
elogiando o governo Lula. Na verdade, trata-se de um
jogo de interesses.
Eles só estão com
Lula por interesse e
não porque admiram a política que
ele faz, porque ele
é o presidente. São
as tais concessões
políticas.
Todo mundo fez
quando estávamos
na Faferj. Tinhamos
uma política eleitoral, eu era do PMDB,
ainda sou filiado, e
fazia muita concessão. Por exemplo,
achava que Garotinho era uma boa
pessoa e hoje reconheço que foi um
erro. Garotinho é
um aprendiz do
Brizola, um cara que
quer mandar sozinho. E mesmo que ele tivesse boa vontade,
no sistema todos os partidos políticos são
iguais. Ninguém consegue me apontar um
partido que não tenha sido feito debaixo da
ditadura militar. Todos foram. Tem partido de
ultradireita com pontos no estatuto mais
avançados do que nos partidos de esquerda,
só que não aplica, não pratica. Quando o ne-
Brizola foi um
governador igual
aos outros. Nunca
foi um democrata.
No governo dele,
quem mandava era
ele e mais alguns
amigos a quem ele
autorizava. Ele foi
altamente
autoritário, por
isso, nunca fui
brizolista
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oliberalismo começou também era assim, os
neoliberais não diziam o que fariam de ruim,
só falavam da parte boa.
DV – Destacaria alguma mudança
substantiva no movimento de
favelas durante os dois mandatos
de Brizola como governador do
Rio de Janeiro?
Irineu Guimarães – Não, Brizola foi um
governador igual aos outros. Nunca foi um
democrata. No governo dele, quem mandava
era ele e mais alguns amigos a quem ele autorizava. Ele foi altamente autoritário, por isso
nunca fui brizolista. Cheguei a conversar com
Brizola umas duas horas quando ele voltou
do exílio. Fui conversar com ele, em nome do
MR-8, pedindo para ele não criar um partido,
e sim entrar em um partido já existente, mas aí
todo mundo já sabe o resultado. Em outro
momento, Brizola me chamou para inaugurar
um Ciep e eu recusei. Ele ficou danado comigo, nunca me perdoou.
Brizola também lançou a campanha de
um lote para cada família da favela. Aquilo
só deu confusão. Na verdade, o político mais
amigo dos favelados, por incrível que pareça, foi o Marcelo Allencar. Ele dava prestígio aos dirigentes comunitários, ajudava
mesmo. Quem construiu a sede da Faferj
foi ele, a gente reivindicou e ele atendeu.
Tínhamos ótima relação com Marcelo
Allencar porque tínhamos ideologia, e olha
que nem votamos nele.
DV – Chegou a se candidatar para
algum cargo político?
Irineu Guimarães– Sim, em algumas ocasiões, mas sempre fui indicado pelo MR-8.
Muitas vezes, nem era para eu ser eleito, era
para fazer denúncia.
DV – Ainda está ligado ao
movimento comunista?
Irineu Guimarães – Não, mas ainda me
considero comunista. Só acredito que vai haver justiça no dia em que o mundo for comunista. Na minha opinião, não tem outra
forma. Enquanto houver a exploração do homem pelo próprio homem não pode haver
justiça. Hoje, tenho muitas restrições aos partidos comunistas do mundo. Um partido não
pode ser comandado por uma pessoa, tem
que ter um comitê central e todo mundo tem
que falar em nome do comitê. Sou admirador do Fidel, mas não concordo com a concentração de poder na mão dele. Amanhã,
ele morre e fica igual ao Mao Tsé Tung, que
morreu sem deixar um sucessor. Um partido
IRINEU GUIMARÃES
tem que ser construído na base da crítica e
da autocrítica, seja para quem for, mas isso
não ocorre muito. O cara acumula tanto poder que todo mundo fica com medo de falar
com ele. Isso é um erro, partido não deve ter
dono. Fui do comitê central do MR-8 e vi as
mazelas que aconteciam, os erros que a gente cometeu. O movimento acabou por isso.
Foi havendo uma série de divergências, todo
mundo foi saindo. Só pode haver justiça se
for realmente coletiva. É do ser humano ser
um pouco ditador, a gente é vaidoso por excelência. E, às vezes, fica danado da vida com
a crítica, sem compreender que a crítica é
melhor que um elogio.
DV – O estigma de morar em
favela sempre foi forte, a ponto
de começaram a usar a palavra
comunidade em vez de favela.
Mas você tem muito orgulho de
ser favelado. Pode falar mais
sobre essa identidade?
Irineu Guimarães – Sei que ser favelado
não tira o prestígio de ninguém, gosto de dizer que sou favelado em todo lugar que vou,
nunca neguei. E quando alguém critica, converso, discuto: ‘Os desembargadores não são
favelados e meteram a mão no dinheiro do
povo, só que ninguém os chama de marginais’. Não sei se vocês já repararam nisso, nenhuma pessoa da classe média que tenha dado
um desfalque é chamada de marginal, de fora
da lei. O povo não está gostando desse negócio. Como uma pessoa pode se aposentar ganhando R$ 25 mil por mês? O povo está vendo isso. Ora, a pessoa roubou e ainda vai se
aposentar assim? Enquanto isso, a maioria não
tem dinheiro, não consegue ganhar nem o
salário mínimo porque não tem trabalho.
O pessoal que mora em favela não tem ideologia, são trabalhadores que vieram, na maioria, do interior de Minas ou do Nordeste,
onde não tinham participação política e não
interagiam com a classe média ou com as autoridades de um modo geral. Todo mundo
malha favelado, diz que favelado é ladrão, desonesto. Se tiver dez pessoas e um favelado
em um local e sumir algo, vão culpar o favelado. Se, num grupo, a pessoa faz algo mal-educado, dizem: ‘Esse cara parece favelado’. Por
isso, as pessoas têm vergonha de dizer que
moram em favela, quando vão procurar emprego, por exemplo. Eu mesmo mudei da favela por causa da minha mulher, que também
é da favela do Jacarezinho e não queria mais
passar por isso.
DV – E onde mora agora?
Irineu Guimarães – Moro no bairro do
Jacaré, não moro mais na favela. Morei na favela por mais de 50 anos, mudei para o bairro
há uns quatro anos. Em julho, no mesmo dia
do aniversário da Faferj, completo 50 anos de
casamento, temos quatro filhos, nove netos e
cinco bisnetos, o mais velho já está com 8 anos.
Mas brigo com minha mulher por causa disso,
eu gosto é de lá, onde tenho amigos, converso com todo mundo, apesar de já ter saído do
movimento de favelas há algum tempo. Tem
sempre alguém que me conhece por causa do
trabalho que realizamos lá.
DV – O que pensa sobre religião?
Irineu Guimarães – Não sou religioso e
não sou contra as religiões. Minha mulher é
crente e converso com ela: ‘Aquilo lá é de vocês’.
Tenho ótima relação com a Igreja Católica, fui
criado na Igreja Católica. É aquele negócio: todo
mundo que não é muito ligado em religião diz
que é católico. Todo mundo deve ser o que
quiser, mas, se pudesse, lutaria para que as pessoas fossem menos religiosas e mais políticas.
Tudo é política, mas a religião exclui a política.
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E N T R E V I S TA
DV – E sobre o aborto?
Irineu Guimarães – Se fosse liberado,
eu não estaria aqui. Sou 11º filho! Sou a favor da vida. O aborto é um negócio ruim para
a mulher, faz mal à saúde da mulher. Mas não
sou contra preservativos, camisinha. Tem que
haver uma solução porque ou nos organizamos para crescer muito ou para crescer pouco. Do jeito que está, fica difícil segurar. O
Brasil que está aí tem uma concentração de
renda fora do comum. É um dos mais ricos do
mundo e tem também os pobres mais pobres
do mundo. Não sei porque o ser humano tem
esta idéia: se tem dinheiro, quer ganhar mais. Se já
tem tudo, ainda
briga, mata. O capitalismo é assim,
não se pode ter
pena de ninguém.
O movimento
político libertador
tem que ser
organizado.
Sem organização,
não adianta.
Sem base,
não há
consistência,
não há
objetividade
DV – O que a
associação de
moradores do
Jacarezinho
guarda do
tempo de
mobilização?
Irineu Guimarães – Nada, o presidente da associação hoje não faz
um trabalho político. É uma pessoa
com quem me dou,
mas hoje nas favelas não existe mais
aquele tipo de presidente que discutia uma série de
medidas em benefício das comunidades. Quase não existe
mais isso.
DV – Então, qual é o papel
da associação de moradores
na favela hoje?
Irineu Guimarães – Viver da associação de moradores, ser bem-enturmado,
benquisto e levar a vida. É difícil encontrar
hoje presidente de associação organizando
o pessoal para fazer passeata. Esse tempo
acabou. Naquele tempo, fazíamos mobilização para reivindicar água, luz e imaginávamos a construção de uma outra sociedade. Hoje, o governo pode tomar qualquer
medida que não há protesto. Nem os depu-
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DEMOCRACIA VIVA Nº 35
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tados protestam. Esse presidente operário
foi a melhor jogada para o imperialismo,
porque nunca se fez no Brasil o que se faz
agora. Juntaram-se todas as forças dentro
do governo, não há contradição no país.
Tem que haver um movimento para moralizar os hospitais, para o povo ter direito pelo
menos a se tratar, ir ao médico. Não sei como
se pode chamar a pessoa de cidadão se não
tem emprego. Que cidadão é esse? Não tem
emprego, não tem subsistência. E ninguém
protesta, ninguém faz nada.
DV – Tem alguma chance de o
movimento de favelas inflamar
novamente?
Irineu Guimarães – Olhando assim, praticamente, não vejo saída, mas há fatos que
acontecem alheios a nossa vontade. Tem
uns políticos que nem são revolucionários,
têm uma idéia, levantam um negócio e dali
a pouco todo mundo começa a falar sobre
aquilo, o próprio povo também. Só que
acontece sempre do lado errado. O movimento político libertador tem que ser organizado. Sem organização, não adianta. Vamos subir e depois voltar para o mesmo
lugar. Sem base, não há consistência, não
há objetividade. Mas acredito que temos
que recomeçar com pouco, um pouquinho
no Jacarezinho, um pouquinho no Alemão,
um pouquinho em outra favela. Temos que
recomeçar por aí.
DV – Tem acompanhado as
polêmicas sobre os jogos do
Pan? Acha que vai sobrar alguma
coisa para as comunidades?
Irineu Guimarães – Acho que não sobra nada. Fico imensamente triste de a gente aceitar isso assim, de mão beijada. Os
deputados foram a favor, o prefeito foi a favor, o Lula também. Lá no Jacarezinho, o prefeito não manda nem os garis limparem os
ralos para evitar enchentes, mas está gastando para o Pan. O estádio que foi
construído para isso é moderníssimo, mas
vamos ao hospital e não tem nem uma aspirina para o doente tomar. E ele quer remover
todas as comunidades, para limpar aquilo
ali, porque o pobre faz mal a ele.
DV – E a falta de segurança
pública no Rio de Janeiro,
também tem a ver com
mobilização?
Irineu Guimarães – Sobre isso, nunca
vi tanto cinismo como no discurso do Sérgio Cabral. Ele disse que acabaria com o
IRINEU GUIMARÃES
caveirão, que as favelas não iriam mais sofrer com isso, que a polícia passaria a respeitar os favelados. O maior desrespeito foi
logo no começo do mandato. Ele foi em tudo
quanto é lugar buscar reforço para acabar
com a violência no Rio de Janeiro: Exército,
Marinha. O governo dele não tomou nenhuma medida para beneficiar o povo nem
na saúde, nem no social, nem na questão
da infra-estrutura para consertar uma favela, nem nada. Quando ele fala do projeto
de pegar dinheiro do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] para urbanizar a
Rocinha, o Complexo do Alemão e Manguinhos, é balela também. Vila Cruzeiro é uma
comunidade urbanizada. Não sei se vocês
conhecem, não tem nenhuma rua de barro,
em quase todas as ruas passa carro, na principal passa até ônibus. Quem disse que abrir
ruas na Rocinha e no Alemão vai ajudar a
acabar com a violência?
DV – Qual é a grande diferença
entre a favela de ontem e
a de hoje?
Irineu Guimarães – A diferença é que
o movimento político social na favela hoje
não existe. Os presidentes de associação
não são preparados para isso. No nosso
tempo, também influenciávamos na escolha do presidente. A gente observava nas
assembléias o camarada mais progressista
e influenciava, botava na cabeça dele que
ele tinha que ser presidente da associação.
Ajudamos a fazer muito presidente assim.
Hoje, nós não participamos mais disso, até
porque os presidentes não têm política para
fazer isso. Quer força política maior do que
a mulher? Mas elas quase não participam.
Hoje, o movimento nas associações teria que
ser diferente: um movimento para empregos, outro para construir creches para as
mulheres poderem trabalhar. Tem muita tarefa para se fazer ainda.
plinava as favelas. Fomos contra isso e vencemos. Fizemos um movimento: ‘quando vierem derrubar, a gente não deixa. Isso aqui
é seu, é o lugar para criar sua família e seus
filhos’. Fomos botando isso na cabeça do
pessoal. Antes, ninguém podia ter muro,
era proibido. Aos poucos, mudamos esse
negócio todo.
Quando fui eleito presidente da associação, em 77, uma pessoa da fundação me chamou para dizer quais normas eu tinha que
obedecer. Mas também nessas normas diziam que quem mandava era o presidente da
associação. Uma das grandes brigas que criei
com a fundação foi essa. Fazíamos de outra
maneira, não aceitávamos a fundação.
Participaram desta
entrevista:
Convidados: Milton
Gomes Pereira (Diquinho)
e Gilson Cardoso.
Do Ibase: AnaCris
Bittencourt, Cândido
Grzybowski, Dulce
Pandolfi, Itamar Silva e
Jamile Chequer.
Fotos: Marcus Vini.
Sonorização: Douglas
Vieira e Gilberto
Nascimento.
DV – Você está envolvido em
algum movimento agora?
Irineu Guimarães – Não, às vezes me
chamam para algum aniversário de uma associação, mas faço questão de dizer que
não estou participando mais. Em reunião
gosto de ir, quero fazer reunião nas favelas, mas é reunião política, não é comunitária. Não adianta começar trabalho com quem
não tem ideologia.
DV – Era mais fácil morar
na favela no passado?
Irineu Guimarães – Adoro morar na favela, lá a luz é baratinha, telefone, não precisa pedir licença para fazer nada, constrói
um, dois, três andares sem falar com ninguém. Antes, era proibido fazer isso, fomos
nós que levamos essa mudança para a favela. Quando entrei na favela era proibido fazer casa de alvenaria. Tinha um departamento na Fundação Leão XIII encarregado de
fazer as remoções e tomar conta das favelas, por meio do Decreto 3.330, que disci-
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