Trabalho IPBeja 30-08

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Trabalho IPBeja 30-08
Ligadura Funcional na Reeducação do Membro
Superior - Procedimento Terapêutico
António José Arsénio Duarte
Trabalho de natureza profissional no âmbito
da área de Terapia Ocupacional para
atribuição do Título de Especialista
Beja, 20 de Julho de 2012
Ligadura Funcional na Reeducação do Membro Superior - Procedimento Terapêutico
António Duarte
SUMÁRIO
Introdução: Nos dias de hoje, as lesões músculo-esqueléticas são consideradas um problema sério
de saúde pública tendo em vista a sua grande incidência sobre a população, incapacitando-a
definitiva ou temporariamente, para o desempenho das respetivas atividades profissionais e
desportivas. De entre as lesões músculo-esqueléticas mais incapacitantes, encontram-se as do
membro superior, pelas funções que este ocupa no desempenho ocupacional. A ligadura funcional
(LF) é caracterizada pela aplicação de algum tipo de fita adesiva como suporte articular e tem sido
aplicada como estratégia terapêutica coadjuvante aos tratamentos da Terapia Ocupacional (TO), no
sentido de melhorar o padrão de participação ocupacional.
Objetivos: 1) Descrever os métodos e técnicas de aplicação de ligaduras funcionais na reabilitação
das lesões mais frequentes do membro superior tratadas no departamento de TO; 2) Identificar o
impacto das LF como método preparatório para a ocupação do utente; 3) Identificar e discutir os
resultados da aplicação das LF a fim de promover, restabelecer, modificar e/ou prevenir disfunções
ocupacionais.
Metodologia: O trabalho constitui uma abordagem descritiva da experiência do autor desde 1996,
na aplicação de LF no membro superior, em particular em lesões neurológicas (luxação do ombro
do utente com hemiplegia), em lesões nervosas e osteoarticulares.
Resultados: Os achados deste estudo apontam para que a maioria destes utentes tenham bons
resultados com o tratamento conservador, com redução da dor, melhoria da funcionalidade e bem
estar. Estes benefícios foram obtidos, tanto na aplicação da LF em casos de luxação antero inferior
do ombro do utente com hemiplegia, coadjuvando a utilização de técnicas de controlo postural e
desenvolvimento do padrão normal de movimento, como na recuperação de lesões no desporto e
traumas osteoarticulares, tais como entorse do polegar, e lesões tendinosas dos dedos, podendo
ser coadjuvada com aplicação de outras técnicas de facilitação e prevenção de lesões por esforço
repetitivo.
Conclusões: Neste trabalho, discute-se a aplicação e os benefícios de diferentes modalidades,
propondo-se um programa de reabilitação, baseado nas atuais orientações terapêuticas. Da
experiência acumulada desde 1996, o autor sugere benefícios na aplicação da LF em lesões do
membro superior, coadjuvando a utilização de outras técnicas de Terapia Ocupacional. Sugere-se
no futuro poder levar a efeito estudos experimentais (ensaios clínicos) que avaliem a efetividade da
aplicação de ligaduras funcionais em diversas condições clínicas, nomeadamente em condições
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pós-operatórias de lesões tendinosas após 6 semanas, na fase de recuperação funcional e
adaptação à vida social e profissional e/ou em substituição das talas.
Palavras-chave: Ligadura Funcional, Membro Superior, Prevenção, Suporte, Reabilitação.
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“O vento é sempre o mesmo, mas sua resposta
é diferente em cada folha. Somente a árvore
seca fica imóvel entre borboletas e pássaros.”
(Cecília Meireles)
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AGRADECIMENTOS
Deste modo, aproveito para agradecer a todos os colegas do serviço, em especial a Paulo Andrade
e Nuno Pinto, o contributo dado na elaboração de toda a parte gráfica deste apontamento
académico.
A Natércia Joaquim, minha colega e amiga de caminhada de docência, o meu muito obrigado por
tudo o que me tem ensinado.
Aos meus familiares, e a ti minha mãe, a oportunidade que me deram de crescer ao vosso lado e
sentir de perto o amor por tudo o que faço na vida.
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ÍNDICE GERAL
1. Introdução .......................................................................................................................... 9
1.1 Contextualização ............................................................................................................ 9
1.2 Objetivos ........................................................................................................................ 10
2. Ligaduras Funcionais ..................................................................................................... 11
2.1 Definição ........................................................................................................................ 11
2.2 Classificação .................................................................................................................. 11
2.3 Efeitos terapêuticos........................................................................................................ 12
2.4. Indicações e contraindicações ...................................................................................... 13
2.5 Aplicações das Ligaduras Funcionais na reabilitação do membro superior ................... 13
3. Materiais e Métodos ......................................................................................................... 15
3.1Tipo de Estudo ................................................................................................................ 15
3.2 Meio ............................................................................................................................... 15
3.3 População e seleção da amostra ................................................................................... 15
3.4 Materiais ........................................................................................................................ 16
3.5 Princípios de aplicação de bandas................................................................................. 17
3.6 Procedimentos de aplicação de Ligaduras Funcionais no membro superior ................. 18
3.6.1 Ombro.................................................................................................................... 19
3.6.2 Cotovelo ................................................................................................................ 20
3.6.3 Antebraço .............................................................................................................. 21
3.6.4 Punho .................................................................................................................... 22
3.6.5 Mão........................................................................................................................ 23
2.6 Modelo de análise .......................................................................................................... 25
2.7 Considerações éticas ..................................................................................................... 25
4. Resultados e Discussão ................................................................................................. 26
5. Considerações Finais....................................................................................................... 28
6. Referências bibliográficas ............................................................................................... 29
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ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1: Posicionamento do membro com colocação do ponto de “encoraje” no braço e proteção do mamilo.
Fonte: do autor ..................................................................................................................................... 19
Figura 2: Posicionamento do membro, colocação das bandas longitudinais. Fonte: do autor. ....................... 20
Figura 3: Posicionamento do membro para colocação da LF. Fonte: do autor ............................................... 20
Figura 4: Colocação dos pontos de ancorage. Fonte: do autor ....................................................................... 21
Figura 5: Ligadura final - Spica ou fechamento e marcação de zona de corte (quando é evidente o garrote
provocado pela pressão da LF); Fonte: do autor.................................................................................. 21
Figura 6: Ligadura final para Epicondilite; Fonte: do autor .............................................................................. 22
Figura 7: Posicionamento do membro; Fonte: do autor ................................................................................... 22
Figura 8: Colocação de pontos de ancorage e das bandas longitudinais e bandas obliquas; Fonte: do autor 22
Figura 9: Ligadura final para entorse dos intrínsecos da mão. Fonte: do autor ............................................... 23
Figura 10: Colocação da banda para limitação da amplitude de abdução; Fonte: do autor ............................ 24
Figura 11 Spica; Fonte: esquema gráfico do autor .......................................................................................... 24
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LISTA DE ABREVIATURAS
LF – Ligaduras Funcionais
TO – Terapia Ocupacional
T.O. – Terapeuta Ocupacional
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1. INTRODUÇÃO
1.1 Contextualização
O trabalho que aqui se apresenta resulta da experiência acumulada no decorrer do desenvolvimento
profissional operado enquanto Terapeuta Ocupacional (T.O.) em contexto hospitalar. Importa pois
apresentar aqui a visão do autor relativamente ao processo de aquisição de saberes no decurso da
sua vida profissional.
Segundo Kielhofner (2002) o sentido do ser humano, que o define como um “ser ocupacional”, é
representado através da personal causation, dos valores e dos interesses. Estes componentes
influenciam, por sua vez, aquilo que o T.O. escolhe fazer e como escolhe fazê-lo, tendo em conta as
áreas do seu desempenho. O estudo do ser humano como um ser ocupacional, permite afirmar que
os modelos de reabilitação mudaram muito, deixando de estar assentes na doença, para explicarem
atualmente que a saúde está para além do corpo, beneficiando do conhecimento dos padrões
ocupacionais, ou seja, o tempo e espaço em que os utentes desenvolvem e recuperam as suas
ocupações após um acidente de percurso limitativo na sua função.
Em nosso entender, todo o terapeuta é um aprendiz e a educação não se pode confinar a uma
política educativa escolar. A identificação das competências do mesmo passa obrigatoriamente pela
valorização dos saberes experienciais e pela valorização do potencial formativo dos contextos de
vida e de trabalho, para além da multiplicidade de interações que aí tem lugar. Assim, a
aprendizagem surge, não só em contextos formais, como também na resolução de problemas
postos por situações novas ou pela complexidade da vida profissional, nas diversas esferas de
pensamento e ação, pessoal, familiar, profissional e social.
É pois na base deste posicionamento filosófico que se enquadra o permanente olhar critico sobre a
forma como atuamos, no sentido de proporcionar melhores serviços ao utente que acorre ao
Departamento de TO. A inquietude da inexistência de respostas adequadas às necessidades dos
utentes leva-nos à procura de estratégias que possam conduzir a melhores soluções.
É neste contexto que em 1996 surge a oportunidade de realizar formação em aplicação de
Ligaduras Funcionais (LF). Não se tratando de uma técnica do domínio da TO, foi necessário
desenvolver a sua aplicação enquanto coadjuvante ao tratamento de reeducação do membro
superior. É o resultado desse trabalho que aqui se apresenta. A LF tem sido vista ao longo destes
anos de experiência do autor, como um procedimento terapêutico que, para além do seu uso,
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pretende expandir o conhecimento e aplicação da mesma, visando a promoção da ocupação do
utente. A visão dos ganhos e da qualidade em saúde ocupacional têm servido de base ao desenho
da estratégia e plano de abordagem da LF na TO. As variáveis de interesse na aplicação da LF são
os atributos dos utentes abordados na TO, como o seu fundamento físico ou psicossocial, o seu
desempenho ocupacional ou a sua satisfação com os resultados obtidos. Os modelos e teorias da
ocupação e da TO fornecem assim a linguagem necessária para identificação das variáveis
ocupacionais.
Das diversas possibilidades de aplicação das LF, destacamos as lesões do membro superior. Os
problemas da mão são difíceis de esconder e de ultrapassar. As mãos têm atividade delicada no
gesto e na expressão, no toque e carinho, no vestir e alimentar (Tubiana et al., 1996). Assim, a
nossa prática tem sido fundamentalmente dedicada à reeducação da mão. Para tal, contribuiu de
forma muito relevante a certificação obtida em 2001 em terapia da mão, que forneceu habilidades
clinicas avançadas, aliadas a uma forte base de conhecimento em TO geral.
A pesquisa formal na área da aplicação das LF na reeducação do membro superior é reduzida, pelo
que, utilizaremos o raciocínio científico juntamente com a melhor evidência atual de estudos de
pesquisa para fundamentar as principais tarefas clinicas (Law, 2002). Por outro lado, os resultados
que aqui se apresentam constituem a evidência obtida pela prática observacional de utentes,
complementada pela entrevista a familiares ou a consulta a outros colegas e especialistas.
Este trabalho pretende assim estimular e incentivar a discussão aberta e mútua de informações e
ideias sobre a aplicabilidade da LF na disfunção ocupacional do individuo.
1.2 Objetivos
Face à contextualização apresentada, este trabalho tem como objetivos:
a) Descrever os métodos e técnicas de aplicação de ligaduras funcionais na reabilitação das
lesões mais frequentes do membro superior tratadas no departamento de Terapia
Ocupacional;
b) Identificar o impacto das LF como método preparatório para a ocupação do utente;
c) Identificar e discutir os resultados da aplicação das LF a fim de promover, restabelecer,
modificar e/ou prevenir disfunções ocupacionais.
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2. LIGADURAS FUNCIONAIS
2.1 Definição
François Fisch, (s/d cit. in Perrin, 2008) deu início às LF dizendo que estas têm o seu lugar nas
técnicas terapêuticas e somente o seu lugar. A LF é caracterizada pela aplicação de algum tipo de
fita adesiva como suporte articular e protege e suporta de forma seletiva determinadas estruturas de
uma unidade funcional, controlando e/ou limitando as componentes do movimento que
desencadeiam ou agravam a lesão, mas permitindo a sua função, adaptando-se e modificando-se
em função da evolução da lesão. Para a realização de uma LF devemos ter em atenção, o tipo de
lesão, a atividade profissional exercida, a morfologia e os hábitos do utente.
2.2 Classificação
Para Perrin (2008), as ligaduras funcionais classificam-se em terapêuticas, profiláticas ou
preventivas. As LF terapêuticas são utilizadas logo após a lesão, podendo ter um efeito controlador
ou de proteção. Numa fase imediata após a lesão, esta LF é utilizada para: 1- Proteger as estruturas
do agravamento da lesão (ex. limitando os movimentos que desencadeiam a lesão); 2- Controlar as
respostas inflamatórias à lesão (ex. controlando o edema e dor) ;3- Criar as melhores condições
para a cicatrização tecidular das estruturas lesionadas. Após a situação controlada, a LF deve ser
concebida para: 1- Criar as melhores condições para o processo de cicatrização da estrutura
lesionada, para que esta venha a readquirir as suas características tecidulares e mecânicas
originais; 2- Proporcionar a função, sem comprometer a Cicatrização; 3- Proteger a estrutura
afetada.
As LF Profiláticas ou Preventivas são utilizadas para prevenir recidivas de lesões anteriormente
adquiridas, bem como, a ocorrência de lesões específicas relacionadas com determinados gestos /
atividades. Servem para: 1- Dar um suporte adicional a uma estrutura previamente lesionada,
minimizando a possibilidade de recidiva; 2- Proteger as estruturas anatómicas, das forças de tensão
e de stress repetidas, inerentes a um determinado gesto/atividade que poderão originar a lesão.
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2.3 Efeitos terapêuticos
Quanto aos efeitos terapêuticos das LF, segundo a National Athletic Trainer´s Association (Rouillon,
1992), a confeção das ligaduras está relacionada com a colocação das bandas (fita adesiva ou
Tape), constituindo uma das mais importantes habilidades da reabilitação. O uso das LF pode evitar
lesões ou facilitar o retorno do utente à vida social e profissional, permitindo a melhoria da função
ocupacional. Evita o uso excessivo ou anormal duma articulação, ao mesmo tempo que fornece
suporte ao músculo comprometido pela lesão. A LF aumenta a resposta propriocetiva à articulação
durante o desempenho ocupacional (Rouillon, 1992), permitindo o retorno do utente à sua vida
social.
Para Rouillon (1992), as LF devem a sua eficácia a quatro efeitos terapêuticos fundamentais:

Efeito mecânico - A LF permite limitar e controlar mecanicamente a mobilidade articular e
tecidular, promovendo a proteção contra a reprodução do mecanismo da lesão, corrigindo
posturas patológicas através do posicionamento das estruturas em encurtamento,
aliviando as tensões mecânicas exercidas.

Efeito Exterocetivo - Quando as componentes da LF são aplicadas diretamente sobre o
plano cutâneo permitem aumentar o fluxo aferente exterocetivo, reforçando as
informações de origem cutânea e subcutânea, quando reproduzido o mecanismo da
lesão. Permite ainda facilitar a atividade dos músculos subjacentes. Estas ações sobre a
exteroceptividade vão depender da confeção da ligadura, mais concretamente do
posicionamento das bandas e da sua qualidade de aderência à pele, bem como, do
comprimento das bandas, respeitando a biomecânica do segmento.

Efeito propriocetivo - Ao posicionar as estruturas em encurtamento, não só se
desencadeia um estímulo propriocetivo de aproximação das superfícies articulares, como
também se promove a informação da postura correta evitando o mecanismo da lesão,
que mais tarde terá interesse para a reeducação dos mecanismos de proteção articular.
Sempre que a ligadura determinar uma compressão circular, ao nível muscular, tendinoso
ou capsular, irá desencadear um aumento do Tónus muscular de base, podendo
melhorar o controlo antecipado de movimento.

Efeito psicológico - Este tipo de efeito é uma constante. As sensações de conforto,
segurança e estabilidade promovidas pelos efeitos acima descritos, vão contribuir para
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um desempenho gestual com menos receios, mais rentáveis e mais harmoniosos,
promovendo de forma mais apropriada a readaptação do utente à sua função
ocupacional.
2.4. Indicações e contraindicações
Para Denegar (2008), as LF estão indicadas para várias áreas de intervenção (Neurologia,
Ortopedia, Pediatria; Reumatologia e outras). São aplicadas com maior frequência para as lesões
Músculo-esqueléticas, ósseas e cartilagíneas. Estão contra indicadas nas ruturas totais de
músculos, tendões e ligamentos (fase aguda e subaguda), em alterações circulatórias graves
(nervosas, sensitivas, vasculares), nas lesões extensas da pele e em alergias ao adesivo, devido ao
seu efeito compressivo sobre a estrutura a tratar.
2.5 Aplicações das Ligaduras Funcionais na reabilitação do membro superior
Nos dias de hoje, as lesões músculo-esqueléticas são consideradas um problema sério de saúde
pública tendo em vista a sua grande incidência sobre a população, incapacitando-a definitiva ou
temporariamente, para o desempenho das respetivas atividades profissionais e desportivas.
De entre as lesões músculo-esqueléticas mais incapacitantes, encontram-se as do membro
superior, pelas funções que este ocupa no desempenho ocupacional. O membro superior é a parte
do corpo que mais se destaca na participação do indivíduo em atividades quotidianas ou de
interesse pessoal. Analisando do ponto de vista fisiológico, a mão constitui o elemento chave deste
engenho de ação representando a extremidade executora do membro superior mas também a
estrutura mais rica em temos de receção sensorial. No entanto, a sua atuação depende da relação
dinâmica entre os restantes segmentos e articulações do membro superior. Assim sendo, as lesões
do membro superior mais comuns localizam-se no ombro (luxação anterior do ombro), cotovelo
(luxação do cotovelo), antebraço (epicondilite), punho (lesão do nervo radial) e mão (entorse dos
músculos intrínsecos da mão, fratura-luxação da base do primeiro metacarpo e tendinite do polegar)
(Freitas,2006).
A reabilitação destas lesões do membro superior pode ser realizada através de diversas estratégias
terapêuticas, nomeadamente na utilização de técnicas de facilitação neuromuscular e
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propriocetivas, com recurso igualmente a procedimentos de crioterapia, de reeducação postural e
de aplicação de talas e produtos de apoio (Colby,1996).
As LF têm sido utilizadas com coadjuvante ao tratamento de diversos tipos de lesões,
principalmente no membro inferior e em lesões decorrentes da atividade desportiva. Mais
recentemente diversos autores têm procurado evidência da efetividade da aplicação das LF na
reabilitação de lesões a diversos níveis no membro superior (Sharmus e Sharmus, 1997; Vicenzino
et al, 2003; Jaraczewska e Long, 2006; Kaneko e Takasaki, 2011; Kaya et al, 2011; Lee et al; 2011).
De forma geral, estes estudos demonstraram que as LF foram eficazes na redução da dor o que
facilitou ganhos mais rápidos em termos de movimento, força e funcionalidade. No entanto, todos
referem que são necessários mais estudos para comprovar os benefícios da aplicação das LF.
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3. MATERIAIS E MÉTODOS
3.1Tipo de Estudo
Este trabalho de investigação teve por base um estudo descritivo, naturalista e interpretativo com o
intuito de apresentar informações recolhidas ao longo de 15 anos de prática clínica de aplicação
protocolada das LF no Departamento de TO. Assim, serão apresentados as regras base de
aplicação das LF bem como os protocolos recomendados por Rouillon (1992) para cada lesão do
membro superior. Finalmente, os resultados obtidos são discutidos à luz dos processos que
orientam os terapeutas na interação dinâmica com o cliente, considerando as suas ocupações, o
seu contexto e seu ambiente, segundo Christiansen & Baum (1997 cit in Duarte, 2004).
3.2 Meio
Os resultados aqui apresentados foram obtidos a partir da prática clínica diária no Departamento de
Terapia Ocupacional do Hospital de Faro, com utentes apoiados pelos T.O.
3.3 População e seleção da amostra
A população-alvo deste estudo foram os utentes que recorreram ao Departamento de Terapia
Ocupacional do Hospital de Faro, desde 1996 até 2011, portadores de lesão do membro superior e
que foram submetidos a tratamento com LF. Por falta de registos informatizados, decorrente da
prática hospitalar, não é possível quantificar a dimensão da amostra pelo que consideramos que a
mesma é coincidente com o universo. Na nossa prática clínica foram selecionados para aplicação
de LF os utentes que reuniram os seguintes critérios de inclusão:
 Disponibilidade para se submeterem à aplicação de LF como complemento ao processo
de recuperação do membro superior;
 Ser um utente que efetuava somente tratamento em Terapia Ocupacional;
 Não apresentar nenhuma lesão da pele.
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3.4 Materiais
Na realização de ligaduras funcionais são diversos os materiais que podem ser aplicados, e que se
encontram indicados a seguir.

Ligadura adesiva não elástica (Tape)
É uma ligadura com grande capacidade adesiva, rígida, sem elasticidade longitudinal nem
transversal, resistente às tensões em todos os sentidos, mas fácil de cortar com os próprios dedos.
É vulgarmente conhecida por Tape. Existem sob várias medidas de largura, dependendo da marca
laboratorial, sendo as mais utilizadas as de 2 cm; 3,57 cm e 5 cm. É utilizada como qualquer tipo de
banda, embora a sua utilização como banda de suporte seja a mais importante, quando se pretende
garantir maior estabilidade articular, controlando a mobilidade.
 Ligadura adesiva elástica
Ligadura com capacidade adesiva, com propriedades elásticas no sentido longitudinal e/ou
transversal. Elas existem sob vários graus de elasticidade, oferecendo-lhes maior ou menor
capacidade compressiva. Várias medidas de largura, dependendo da marca laboratorial, sendo as
mais utilizadas as de 6 cm, 8 cm e 10 cm. De acordo com o seu grau e direção da elasticidade, são
utilizadas para se obter compressão seletiva e contenção. Podem também ter efeito no controlo da
mobilidade, servindo, por vezes, de “guia” do movimento.

Ligadura elástica não adesiva
Com características elásticas semelhantes à da ligadura adesiva elástica, esta não apresenta
qualquer capacidade adesiva. São utilizadas, por vezes, na fase aguda da lesão, com o objetivo de
contenção das estruturas e do edema. Também pode ser usada como LF para lhe criar maior grau
de aderência/consistência. Em algumas técnicas é utilizada sobre o material adesivo. Esta ligadura
deve ser utilizada com precaução, pois pode desencadear um efeito de garrote.

Mousse de proteção
Ligadura de espuma ultrafina, não adesiva mas auto-fixante (aderente sobre si mesma), elástica em
todas as direções e muito frágil. A medida mais utilizada é a de 7cm de largura. A mousse é
colocada na pele com a finalidade de a proteger e/ou evitar alergia às ligaduras adesivas e também
como proteção nas áreas da pele suscetíveis à fricção. É aplicada diretamente sobre a pele, antes
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da ligadura adesiva, o que confere a esta menor aderência, reduzindo a eficácia mecânica e
exteroceptividade da imobilização funcional, contudo evitando os processos de alergia à cola
adesiva da ligadura.
 Spray adesivo
Spray com cola, opcional na elaboração da LF, geralmente com características hipoalergénicas, que
tem como função aumentar a aderência das ligaduras adesivas à pele, e diminuir a intolerância
desta às ligaduras. Este spray pode ser substituído por óleo ou Tintura de Benjoim (efeito
dermoprotetor), produto de uso hospitalar.
 Materiais compressivos
Almofadas de borracha, feltro ou outros produtos, com várias densidades, flexíveis mas com
consistência. São utilizadas para conferirem uma compressão adicional, seletiva e localizada, sobre
a estrutura lesionada, podendo ser adaptadas às diversas regiões anatómicas, sempre que a
superfície a tratar apresenta edema.
3.5 Princípios de aplicação de bandas
De acordo com Rouillon (1992), na confeção da LF utilizam-se bandas de ligadura adesiva não
elástica no controlo da zona lesada. A força exercida pelas bandas é proporcional ao número de
bandas de suporte ativas, sendo que uma banda é igual a uma força e duas bandas igual a duas
forças. É ainda importante ter em consideração que a força passa no meio da banda.
Assim, na aplicação das bandas, devem ser tidos em consideração os seguintes aspetos:
1)
A resistência da fixação em função do tipo de ligadura (Ligadura rígida adesiva,
Ligadura elástica adesiva ou Ligadura com alguma elasticidade);
2)
O braço da alavanca em relação ao eixo articular, dado que, a colocação da LF segue
as regras de física aplicada ao segmento a tratar;
3)
O posicionamento e comprimento das bandas de suporte, dada a pressão fornecida
por uma tensão constante dependendo do raio de cobertura;
4)
As características do material utilizado.
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Segundo Perrin (2008), o terapeuta deve adquirir mestria completa de avaliação e reabilitação de
lesões para melhor identificar a colocação das bandas aquando da confeção da LF. Quanto ao seu
posicionamento, consideram-se 3 tipos:

Longitudinal – é posicionada longitudinalmente à articulação, com o papel de substituição
do ligamento afetado;

Obliquas – duas bandas obliquas colocadas numa articulação, têm o papel de limitar a
articulação ou de a substituir;

Perpendicular – estas bandas têm o papel vascular/circulatório, e são colocadas
perpendicularmente ao segmento.
3.6 Procedimentos de aplicação de Ligaduras Funcionais no membro superior
Nos procedimentos de aplicação das LF têm sido seguidos os princípios e recomendações de
aplicação das LF defendidos por Rouillon (1992). Assim, os seguintes aspetos são aplicados na
realização de cada LF:
1) Verificação das recomendações do uso da LF através da observação da pele,
nomeadamente a presença de edema, prurido ou alergia;
2) Seleção de materiais e do protocolo a aplicar através da análise das funções e estruturas
corporais afetadas, extensão da lesão, dimensão socio-relacional do utente;
3) Realização da LF de acordo com os protocolos de Rouillon (1992)
Assim, para uma prática eficiente, o T.O. terá que conhecer a anatomia e os mecanismos da lesão e
dominar as tarefas psicomotoras da colocação de ligaduras funcionais apropriadas a cada utente.
De seguida são apresentados os protocolos de aplicação das LF adequadas às lesões mais
frequentes do membro superior, em particular em lesões neurológicas (luxação do ombro do utente
com hemiplegia, em lesões nervosas e osteoarticulares).
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3.6.1 Ombro
Desde o início da utilização da LF no Departamento de TO que a sua aplicação na luxação ânteroinferior do ombro no utente com Hemiplegia vem constituindo prática comum. Nestes utentes, o
ombro apresenta baixo tónus e na fase inicial de recuperação sofre uma diminuição do trabalho
muscular da coifa dos rotadores com consequente deslocação inferior e anteriorizada da cabeça do
úmero. O uso dum sling tem mostrado a relativa ineficácia na redução desta sintomatologia aliada à
dificuldade de colocação por parte do utente e cuidadores pelo que, em alternativa, a LF tem sido
aplicada na reeducação do padrão normal do movimento com a recentragem da cabeça umeral. De
referir que a LF deve ser retirada e confecionada novamente num período mínimo de 3 dias, face à
dificuldade de higienização do segmento.
Na sua aplicação devem ser atendidas as seguintes particularidades: bom estado da pele; boa
colocação do membro superior em abdução (fig.1) e manter uma tensão da LF elástica adesiva
correta e homogénea. Depois do posicionamento correto do membro superior é colocado um ponto
de ancorage na extremidade distal do braço. A colocação das bandas elásticas longitudinais (fig.2),
segue a seguinte ordem: 1) com o ombro em abdução; 2) com o ombro em flexão e 3) com o ombro
em ligeira hiperextensão.
Articulação acrómioclavicular
Ponto de ancorage
Proteção do mamilo
Figura 1: Posicionamento do membro com colocação do ponto de “encoraje” no braço e proteção do mamilo. Fonte: do
autor
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Figura 2: Posicionamento do membro, colocação das bandas longitudinais. Fonte: do autor.
3.6.2 Cotovelo
O cotovelo forma um compasso entre o braço e o antebraço, constituindo uma junção mecânica que
possibilita ao indivíduo realizar tarefas, como por exemplo, levar os alimentos à boca. A lesão do
cotovelo mais frequente no Departamento de TO onde é aplicada LF é na limitação da extensão do
cotovelo. Na aplicação da LF o antebraço deve ser colocado em flexão (15 a 20º), supinação e mão
suportada (fig. 3). Seguidamente são colocados os pontos de ancorage no 1/3 inferior do antebraço
e na parte mediana do braço (fig. 4) e depois são colocadas as bandas longitudinais e as oblíquas,
terminando com o spica ou fechamento da ligadura (fig.5).
Figura 3: Posicionamento do membro para colocação da LF. Fonte: do autor
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Pontos de ancorage
Eixo articular
Figura 4: Colocação dos pontos de ancorage. Fonte: do autor
Figura 5: Ligadura final - Spica ou fechamento e marcação de zona de corte (quando é evidente o garrote provocado
pela pressão da LF); Fonte: do autor
3.6.3 Antebraço
Quanto às lesões do antebraço, a Epicondilite tem sido a mais frequente no Departamento de TO,
onde se justifica a aplicação de LF. Na confeção desta ligadura deverá ser tida em atenção a
gravidade da lesão. A LF é efetuada com o antebraço em supinação (fig.6), dado que a pronação
desencadeia a dor característica da epicondilite. A colocação das bandas é efetuada de modo a que
após a finalização da LF, o utente só deverá ser capaz de realizar o movimento do antebraço até à
posição neutra.
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Figura 6: Ligadura final para Epicondilite; Fonte: do autor
3.6.4 Punho
Quanto ao punho, a lesão baixa do nervo radial (Mão Pendente), é o exemplo mais frequente de
colocação de LF no Departamento de TO. Esta LF é aplicada com o antebraço em pronação e mão
suportada numa superfície alta facilitadora da dorsiflexão do punho (fig.7). De seguida, colocam-se
os pontos de ancorage e as bandas longitudinais e obliquas (fig.8). O objetivo geral desta LF é
limitar a flexão do punho. Esta ligadura constitui a alternativa mais comum das aplicações pelo T.O.
nesta lesão, comparativamente ao uso de talas dinâmicas. Tal facto deve-se à melhor aparência
estética da LF e também por permitir um uso funcional da mão mais apropriado às atividades
ocupacionais do utente.
Figura 7: Posicionamento do membro; Fonte: do autor
Figura 8: Colocação de pontos de ancorage e das bandas
longitudinais e bandas obliquas; Fonte: do autor
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3.6.5 Mão
As lesões da mão apresentam-se como as mais frequentes que afetam o membro superior e são
tratadas no Departamento de TO. Assim, apresentam-se de seguida as três LF mais relevantes para
este segmento.

LF para entorse dos músculos intrínsecos da mão
Esta LF e sua confeção constituem para o T.O. uma eficiente ferramenta de trabalho, preparando o
utente para a reeducação da mão com maior eficácia do movimento, sem dor e sem alteração da
estrutura metacarpo-falângica. A banda é colocada no bordo cubital (fig.9), base da interfalange
proximal do 5º dedo, face posterior da mão, bordo radial do 2º dedo até a interfalange proximal,
passa na face dorsal dos quatros dedos, junto às interfalângicas proximais, circunda a face da
palma das interfalanges, terminando no bordo radial do 2º dedo. Em idêntica sintomatologia, o
utente dá preferência a esta ligadura e não à tala de Lasso em termoplástico, pelo facto desta na
sua utilização nas atividades ocupacionais ser mais traumática.
Figura 9: Ligadura final para entorse dos intrínsecos da mão. Fonte: do autor

LF para fratura-luxação da base do primeiro metacarpo
Esta LF permite alinhar o metacarpo, bem como, manter a funcionalidade do polegar. É efetuada
uma banda em 8, para melhor estabilização e limitação da amplitude de abdução (fig.10).
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Figura 10: Colocação da banda para limitação da amplitude de abdução; Fonte: do autor
 LF para tendinite do polegar
Constitui uma das LF com maior aplicabilidade pelo T.O. na reeducação da mão e em situações
traumáticas do 1º dedo da mão. O seu objetivo é limitar a flexão e rotação do metacarpo. Para a sua
realização aplicam-se dois pontos de ancorage seguidos da aplicação de bandas (3) longitudinais,
obliquas e transversais ou circulatórias. O fechamento desta ligadura (Spica) com material colorido
constitui para o utente uma componente gratificante e esteticamente aceitável.
Figura 11 Spica; Fonte: esquema gráfico do autor
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2.6 Modelo de análise
Como já foi referido anteriormente, não se efetuam registos hospitalares dos tratamentos efetuados
aos utentes que recorrem ao Departamento de TO e respetivos efeitos/evolução da reabilitação.
Assim sendo, as informações apresentadas foram obtidas através da observação do processo de
evolução do utente, não só da lesão em si, como também da perceção do mesmo (autoavaliação)
sobre o seu status psicológico e ocupacional (Christiansen & Baum,1997 cit in Duarte, 2004).
2.7 Considerações éticas
Como considerações éticas, este estudo garantiu a confidencialidade e o anonimato dos utentes.
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4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os achados deste estudo apontam para que a maioria destes utentes tenham bons resultados com
o tratamento conservador, com redução da dor, melhoria da funcionalidade e bem estar. Estes
benefícios foram obtidos, tanto na aplicação da LF em casos de luxação antero inferior do ombro do
utente com hemiplegia, coadjuvando a utilização de técnicas de controlo postural e do
desenvolvimento do padrão normal de movimento, como na recuperação de lesões no desporto e
traumas osteoarticulares, tais como entorse do polegar, e lesões tendinosas dos dedos, podendo
ser coadjuvada com aplicação de outras técnicas de facilitação e prevenção de movimentos por
esforço repetitivo.
Quanto à intensidade da dor, os utentes que utilizaram a LF referiram melhorias quanto aos
sintomas da disfunção motora. Os resultados obtidos através da aplicação da ligadura associada a
um programa de treino ocupacional foram efetivos em relação à diminuição da dor, sugerindo-se a
aplicação desta técnica como medida de tratamento do quadro incapacitante e disfuncional doloroso
durante os tratamentos, ficando comprovada a sua eficácia na promoção da independência para a
realização das Atividades de Vida Diária. Estes resultados são coincidentes com os de outros
estudos (Sharmus e Sharmus, 1997; Vicenzino et al, 2003; Jaraczewska e Long, 2006; Kaneko e
Takasaki, 2011; Kaya et al, 2011).
Adicionalmente, foram observadas melhorias na amplitude do movimento, o que parece estar
associado à redução do efeito de sobrecarga nos tecidos periarticulares sem, contudo, inibir a
função muscular normal. Com relação à perceção sensorial, constatou-se melhoria em todas as
integrantes sensitivas. Desta forma, conclui-se que a LF associada a um programa de treino
ocupacional, é uma técnica válida para melhoria do feedback propriocetivo e para a diminuição da
intensidade do quadro doloroso.
Assim, a partir da experiência acumulada desde 1996 na aplicação das LF a utentes com lesões do
membro superior, pode-se referir que a funcionalidade dos membros superiores, composta por grau
de força muscular, amplitude de movimento, flexibilidade e trofismo, melhorou com a aplicação das
LF. Por outro lado, os resultados da autoavaliação por parte dos utentes, revelaram que a aplicação
das LF promove maior aceitação por parte do utente aos tratamentos, uma vez que experimentam
alívio da dor sintomática. A preferência dos utentes pela LF está também associada a questões
estéticas mas acima de tudo à maior facilidade de uso funcional do membro mais apropriado às
atividades ocupacionais do utente. Rappolt (2003) realça que para que os resultados do utente
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sejam maximizados, é fundamental não centrar a TO apenas na função obtida com a ligadura, mas
não descorar as necessidades psicossociais do utente.
Segundo Melo (2001), a identidade ocupacional, refere-se ao conjunto do self que inclui os papéis e
relações, os valores e autoconceito, os desejos e objetivos pessoais. Ele também concorda que a
nossa participação em ocupações nos ajuda a criar a nossa própria identidade. Assim, a identidade
ocupacional é a auto-percepção de quem a pessoa é, e quem quer ser enquanto ser ocupacional,
gerado a partir da sua história de participação ocupacional.
Segundo Marques e Trigueiro (2011), a pessoa é capaz de manter um padrão de participação
ocupacional que reflete a sua identidade ocupacional, ou seja, com significado subjetivo da sua
própria vida, mas a forma como a coloca de modo contínuo, é designado por competência
ocupacional, que inclui o corresponder às expectativas dos papéis e dos próprios valores, e padrões
de desempenho. As motivações são a base de todo o comportamento porque não há
comportamento sem motivação. Um estímulo exterior, por si só, pode não ser suficiente para
conduzir a um comportamento. Na ação do homem pode haver mesmo uma motivação não
imediata mas pensada a longo prazo. É neste contexto de vida e de prática do exercício profissional
que à terapia ocupacional nas suas mais variadas estratégias de intervenção, propõe ao utente o
uso da LF como método preparatório para a ocupação.
Após a referência aos benefícios da aplicação das LF na reeducação do membro superior em
contexto de TO, parece-nos fundamental realçar que o rigor técnico na aplicação das mesmas é
fundamental para o seu sucesso. Ao T.O. enquanto aplicador da LF, exige-se arte, ciência e
domínio psicomotor da técnica. Para tal, o T.O. deve dominar a biomecânica articular, músculos e
suas funções, assim como as técnicas de base de aplicação e seus complementos na reabilitação
do membro superior.
Apesar dos resultados aqui apresentados estarem revestidos de limitações metodológicas
decorrentes dum estudo observacional e pela dificuldade de distinguir a influência da LF e de outras
técnicas decorrentes em simultâneo, estamos convictos de que a aplicação das LF na reeducação
do membro superior no Departamento de TO tem constituído uma mais valia para os utentes com
melhoria evidente dos cuidados prestados aos mesmos. Assim, apesar dos efeitos adversos da
aplicação das LF ainda precisarem ser melhor investigados, a eficácia demonstrada na diminuição
da disfunção ocupacional com o uso de LF sugere a sua utilização terapêutica mais comum nos
diversos Departamentos de TO.
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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho, discute-se a aplicação e os benefícios da LF na reabilitação de lesões do membro
superior, propondo-se um programa de reabilitação, baseado nas atuais orientações terapêuticas.
Da experiência acumulada desde 1996, o autor sugere benefícios na aplicação da LF em lesões do
membro superior, coadjuvando a utilização de outras técnicas de TO. As LF desencadeiam
repercussões positivas no bem-estar do utente, visando a plena adaptação ao trabalho e à
participação social, o que permite dar continuidade à qualidade da assistência prestada ao utente na
TO. Sumariamente, a utilização das LF proporciona redução das lesões mais comuns em TO e que
de alguma forma comprometem a atividade ocupacional, inibindo a função muscular normal. As LF
permitem que o utente volte precocemente à atividade social e laboral, com um limite seguro do
segmento afetado, propiciando uma melhor funcionalidade e assumindo um método preparatório
para a ocupação, demonstrando eficácia no processo de aceitação, no sentido da participação ativa
de resolução dos problemas e competências do desempenho (sociais e de comunicação). O uso
preventivo da LF reduz a incidência e, principalmente, a recorrência e a gravidade das lesões
agudas, sendo importante o seu uso contínuo em atividades que tendem a provocar o aumento da
recidiva das lesões e seu comprometimento nas Atividades de Vida Diária.
Sugere-se no futuro poder levar a efeito estudos experimentais (ensaios clínicos) que avaliem a
efetividade da aplicação de ligaduras funcionais em diversas condições clínicas, nomeadamente em
condições pós-operatórias de lesões tendinosas após 6 semanas, na fase de recuperação funcional
e adaptação à vida social e profissional e/ou em substituição das talas.
Para finalizar realçamos que os elementos recolhidos ao longo de todo o estudo permitem-nos uma
perceção global de que a aplicação das LF no departamento de TO do Hospital de Faro, além de ter
proporcionado melhor tratamento aos utentes, evidenciou uma promoção educativa, sociocultural e
profissional dos T.O. Partindo das contribuições dos T.O deste Departamento, parece ser possível
afirmar que os efeitos formativos, nomeadamente os processos de mudança nas práticas,
constituem um “acrescento” no valor já reconhecido, entre nós, da dinamização da Terapia
Ocupacional no Algarve.
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