girândola de amores - aluísio azevedo

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GIRÂNDOLA DE AMORES
por
Aluísio Azevedo
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Sobre a Edição Este e­texto pode ser livremente:
1º Distribuído com ou sem fins comerciais.
2º Modificado, desde que retirado o título, o nome do autor e do editor.
Obra sob domínio público.
Última revisão: sáb 27/dez 14 — 22:57:16 Edição eletrônica por Rafael Palma
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I
O RAPTO
Clorinda acabava de pôr o seu véu de noiva e, de costas para o espelho, olhava por sobre o ombro a cauda do vestido.
A velha Januária pregava­lhe com muita solicitude o último alfinete dourado, e, como representasse para ela o papel de mãe, repetia­
lhe baixinho, com a voz comovida e os óculos embaçados pelas lágrimas, os invariáveis conselhos adequados à situação.
Aos pés de Clorinda, ajoelhada no tapete, uma mucama arranjava­lhe cuidadosamente a barra do vestido, compunha e ordenava os folhos e desfazia e ajeitava as pregas do cetim.
E a noiva, toda enlevada na cerimônia daquela roupa, sorria sem saber de quê e sentia enrubescerem­se­lhe as faces por uma delicada previsão do seu pudor.
Estava linda assim toda de branco, com o seu longo véu de filó, que lhe envolvia o busto gracioso, deixando todavia perceber o doce relevo da cabeça, engrinaldada de pálidas flores de laranjeira.
Tinha os olhos azuis, muito transparentes, a tez de uma brancura imaculada, os cabelos entre louro e castanho, os dentes adoráveis e a boca um mimo cor­de­rosa.
Terminado o vestuário, a mucama saiu da alcova para saber se o noivo já tinha chegado. E a velhinha, a sós com a pupila, cruzou as mãos na cintura e ficou a olhar para ela, longamente, com a expressão carinhosa de quem se revê num filho.
Ah! a pobre velha Januária também fora bem bonita e também fora noiva no seu tempo! Aquele corpinho vergado de existência e 3 de 371
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deformado pela velhice, provocara outrora desejos desenfreados e acendera em mais de um peito paixões tempestuosas.
Triste viagem é a da vida, que termina sempre por um naufrágio; ou da qual ainda ninguém saiu sem levar a mastreação partida, o farol apagado, e as velas estraçalhadas pelos terríveis vendavais que se encontram no caminho. Um por um, vamos deixando esparsos pelas correntes revoltosas da existência todos os dotes com que nos amaram, e todos os bens com que íamos avassalando os corações alheios. E ao cabo da viagem, sem dentes, sem cabelos, sem brilho nos olhos, com a pele encarquilhada e as pernas trôpegas, ficamos a esperar o túmulo, esquecidos e desprezados no mundo, como o casco inútil do navio que naufragou na costa e vai aos poucos despindo as cavernas e mostrando a quilha.
O contraste entre as duas mulheres que estavam na alcova — uma tão fresca e bela, outra tão fraca e decrépita, levava o espírito àquelas considerações.
As duas quedaram­se a cismar por algum tempo; a velha embevecida a olhar para o passado; a moça a sonhar­se nas felicidades futuras. E como dois viajantes que se encontram no mesmo porto, um a partir, outro a voltar, as duas sorriam; mas o sorriso da que ia era todo de esperanças, enquanto o da outra só transpirava desilusão e cansaço.
— Por que está tão triste, mãezinha? perguntou a moça, tomando as mãos da velha.
— Nem eu sei... respondeu esta, procurando disfarçar o constrangimento. Talvez seja nervoso, mas sinto alguma coisa no coração, alguma coisa que me oprime!
— Não se deixe levar por essas cismas!... Lembre­se de que hoje é o dia do meu casamento...
— É por isso mesmo... E acrescentou, mudando de tom: É verdade! E o noivo, já teria chegado?
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A mucama entrou na alcova para dizer que ainda não.
Esta demora ia sendo já comentada, na sala de jantar pela madrinha de Clorinda e algumas amigas de D. Januária.
— Não fora bonito da parte do noivo fazer­se esperar daquele modo! Eram já quatro horas da tarde e o casamento estava marcado para as cinco !...
Parou uma carruagem à porta, e quase todos correram a ver quem chegava.
— Deve ser ele, considerou a madrinha, armando um sorriso. Mas teve logo de desarmá­lo, vendo entrar o comendador Portela, velho amigo da casa.
O comendador entrou apressado, a pedir mil perdões pela demora.
Queria vir antes, mas um negócio de alta importância exigira a sua presença.
E, segundo o seu costume, pôs­se logo a falar de si, das suas grandes preocupações comerciais, do dinheiro que tinha naquele momento arriscado em várias transações perigosíssimas, e, afinal, da prosperidade da sua casa, do bom trato que dava aos seus empregados, do projeto de desenvolver certas indústrias e de criar certos estabelecimentos importantes.
— Bons desejos não me faltam! afirmava ele a rir imodestamente.
E, como se achasse ali em um meio relativamente acanhado, empertigava ainda mais a cabeça, remetia para a frente a barriga e com o polegar levantava pretensiosamente a gola condecorada de sua casaca.
— Vai­se fazendo pela vida! vai­se fazendo! repisava ele, sempre com o mesmo riso.
Deram cinco horas, e o noivo nada de aparecer!
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— É demais! exclamou a madrinha, que afinal perdera a paciência e abrira a falar abertamente contra aquela demora grosseira e imperdoável.
Os ânimos foram­se a pouco e pouco sobressaltando. Havia já no comendador um risinho velhaco de má­fé, e a noiva, sem querer sair da alcova, sentiu avultar­lhe na garganta um novelo estranho que a sufocava.
A madrinha expedira secretamente um portador à casa do noivo. O portador voltara, declarando que o Sr. Gregório, havia coisa de uma hora, saíra para a casa da noiva em companhia de um senhor velho e de boa aparência que o fora buscar. E declarou mais que na porta da rua estava um cocheiro, que viera da casa do Sr. Gregório, com a recomendação de esperá­lo aí.
Ninguém mais se animou a dar palavra, à exceção da madrinha, que nunca perdia ocasião de falar mal dos homens.
— Todos eles leem pela mesma cartilha! considerou ela, trejeitando um ar desdenhoso. Bem fiz eu em nunca tomar a sério semelhante gente! Nada! Antes só do que mal acompanhada! Prefiro ficar solteira toda a vida!
— Descanse, D. Josefina, que ninguém a contrariará! respondeu um sujeitinho magro e ativo, que parecia muito empenhado no bom êxito do casamento.
Nisto foram interrompidos pelo padrinho do noivo, o dr. Roberto, que vinha da igreja, farto, como os outros que lá estavam, de esperar pelos desposados.
— Pois se ele ainda nem apareceu por cá!... exclamou a madrinha, vermelha de cólera.
— Não veio?! Gregório não apareceu ainda?! disse o doutor muito admirado. Parece incrível!
— Pois é a pura verdade!
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— Ter­lhe­ia sucedido alguma coisa?! Estará ele doente?!
— Se está doente não sei, gritou a terrível madrinha; em casa é que lhe afianço que não está, porque agora mesmo mandei lá saber!
— Mas como então se explica tudo isto? Eu às três e meia estive com Gregório, e disse­me ele que ia preparar­se para o casamento.
E o doutor, depois de refletir um instante, tomou o chapéu e saiu, com a intenção de procurar o amigo.
Daí a pouco, todas as pessoas que esperavam pelos noivos na igreja invadiram a casa de D. Januária, e começou­se então a tratar francamente do escândalo.
Clorinda desfez­se do véu e da grinalda, pediu à mãe adotiva que fechasse a porta da alcova, e depois atirou­se­lhe nos braços a chorar desorientadamente.
Entretanto, Gregório, o causador inconsciente de todo aquele desgosto, acabava nessa ocasião de ser carregado, sem sentidos, por dois lacaios de libré escura, para uma sala de bela aparência, na Tijuca.
Acompanhava­o um homem de uns cinquenta anos, alto, magro, todo vestido de negro, barba inteira dividida no queixo, ar distinto e maneiras extremamente delicadas.
Ao chegarem à sala, o homem magro disse aos lacaios que depusessem Gregório sobre um divã, e ordenou que um deles fosse chamar a condessa.
Apareceu então uma senhora já velha, sumamente simpática, aspecto fino e bem educado.
—Ei­lo! Disse o cavalheiro à condessa, apontando para Gregório, que, irrepreensivelmente vestido de casaca, continuava prostrado no divã. Os lacaios afastaram­se discretamente.
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— Ah! exclamou ela, correndo para o desfalecido. Estou agora mais tranquila!...
E, ajoelhando­se ao lado do divã em que estava o moço, tomou as mãos deste e ficou a observar­lhe a fisionomia.
Gregório era uma bela figura de vinte e três anos. Feições puras bem conformado de corpo, um todo singularmente meigo e bondoso. O sono dava­lhe à fisionomia tal suavidade que o fazia parecer ainda mais moço do que era.
A condessa, depois de contemplá­lo por algum tempo, com muita ternura, passou­lhe a mão pelos cabelos e beijou­o na fronte.
— Veja, conde, disse ela ao homem vestido de preto; como é formoso!
— É o retrato da pobre Cecília! respondeu aquele com um ar pensativo.
E depois de uma pausa:
— Onde o devemos acomodar?
— Na sala amarela, disse a condessa, erguendo­se. O que me sobressalta um pouco é este sono. Não vá fazer­lhe mal...
— Pode ficar tranquila, condessa, não lhe sucederá mal nenhum. E, se houvesse alguma novidade, bem sabe que o nosso médico é homem de inteira confiança.
Gregório foi conduzido para a sala amarela e só voltou a si às dez horas da noite.
Ao acordar, circunscreveu o olhar em torno. Todos os objetos que o cercavam lhe punham nos sentidos, ainda estonteados pelo sono, um estranho sabor de constrangimento e sobressalto.
E, sem consciência do lugar em que estava, percorria demoradamente a vista pelas velhas tapeçarias suspensas da 8 de 371
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parede, pelos vários quadros, simetricamente dispostos nos intervalos das portas, e pelos móveis luxuosos, guarnecidos de metal amarelo, que pousavam elegantemente sobre a felpa macia do tapete, cintilando à luz aristocrática das velas. Seus olhos sindicavam de tudo aquilo com a insistência dos do juiz que interroga as testemunhas de um crime, mas nada correspondia ao inquérito, à exceção de um velho relógio de bronze, que, de um dos ângulos do aposento, lhe apontava as horas com o dedo de ouro e lhe dizia os segundos no seu coaxar monótono.
— O quê?! dez horas?! perguntou­lhe Gregório, impaciente por alguma explicação.
O relógio não respondeu, mas continuou a apontar para o X.
— Dez horas! exclamou o rapaz, levantando­se de um pulo. Só então lhe passara pelo espírito a ideia lúcida do seu malogrado casamento.
E todas as outras ideias, aproveitando a brecha que deixara a primeira, lhe invadiram turbulentamente o cérebro, como se até aí estivessem só à espera de que lhes abrissem a porta.
Perturbou­se a princípio, mas tratou logo de reconstruir pacientemente tudo o que fizera nesse dia. Dividiu as horas e deu a cada uma a sua aplicação justa; determinou o tempo gasto com o padre, com o cabeleireiro e com as pessoas em companhia de quem esteve; chegou a lembrar­se do assunto de suas conversas, o que dissera a tal e tal amigo, e recordou­se expressivamente da impressão que lhe assaltava de vez em quando o espírito, sempre que se imaginava no momento feliz de apoderar­se da noiva.
Esta ideia trouxe­lhe o mal­estar que nos causa a não realização de um projeto por muito tempo afagado. E Gregório, como se duvidasse ainda dos seus próprios raciocínios, procurou fixar bem nas horas que precederam de perto o momento em que lhe escapou a razão.
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Às três e meia entrara na casa em que morava nas Laranjeiras, a gritar para o Jacó, seu criado, que lhe desse imediatamente o fato da casaca e lhe aprontasse um banho morno. Às quatro e meia, na ocasião de sair para ir buscar a noiva, Gregório lembrava­se perfeitamente de que um homem, de modos graves e distintos, se lhe apresentara em casa, pretextando interessar­se muito pelo futuro de Clorinda, falando sobre mil coisas concernentes ao casamento, entre muitos protestos de simpatia e de respeito. Esse homem depois insistiu com Gregório que aceitasse um lugar na sua carruagem e despediu a que já estava à porta. Gregório consentiu e tomou lugar ao lado dele. Recordava­se ainda de que, preocupado com a ideia do seu casamento, não atentara para a direção tomada pelo carro e que, em certa altura, na ocasião de abaixar­se para apanhar o claque que lhe caíra das mãos, o homem misterioso lhe passara rapidamente um lenço úmido no rosto, e Gregório perdera os sentidos.
Só até aí chegavam as suas reminiscências. Havia por conseguinte em tudo aquilo um plano premeditado e posto em prática, do qual era ele a vítima, covardemente iludida e ludibriada. E Gregório por um impulso do orgulho, sentiu um estremecimento de cólera.
Estava neste ponto, quando se abriu a porta do quarto, deixando passar um dos lacaios que vimos às ordens do conde.
— V. Exa. ordena alguma coisa? perguntou o fâmulo, curvando­se humildemente.
— Ordeno que me expliques o que faço aqui e onde estou!
— Infelizmente não posso...
— Nesse caso abre as portas, e eu irei procurar quem me responda.
— Infelizmente, também não posso franquear­lhe a saída...
— Visto isso estou preso?!...
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— Não sei, não senhor.
— Então que diabo sabes tu?!
— Sei que estou aqui para servir a V. Exa.
— Obrigado pela solicitude, mas confesso que preferia, antes de mais nada, uma explicação do que quer dizer tudo isto.
E, depois de dirigir inutilmente mais algumas perguntas ao criado, declarou­lhe que podia retirar­se quando quisesse. E o pobre rapaz tomou a resolução de deixar que as coisas corressem por si.
— Eu não terei certamente de ficar aqui o resto de minha vida, considerava ele; por conseguinte, o melhor é aguardarmos tranquilamente os acontecimentos.
O pior era a dúvida em que estava a respeito de Clorinda. Ter­lhe­
ia também sucedido alguma coisa, ou, se nada sucedera, que não pensaria ela daquela estranha ausência de seu noivo?... E os amigos, e os padrinhos do casamento, e os convidados?!...
— Ora, que papel ridículo me obrigam a fazer! dizia ele, gesticulando sozinho; mas foi a pouco e pouco se habituando à sua estranha situação e, nestas circunstâncias, vestiu­se, calçou­se, acendeu um charuto, foi a uma biblioteca que havia no quarto, tirou um volume de versos e pôs­se a ler, disposto a esperar pelo que desse e viesse.
Reparou então que estava caindo de fraqueza e lembrou­se de que os sobressaltos do casamento não lhe permitiram jantar. Correu à campainha elétrica e tocou.
Apareceu logo o mesmo criado de há pouco.
— Dá­me o que cear, disse­lhe Gregório e acrescentou consigo: Ao menos ficarei entretido enquanto estiver comendo.
O criado voltou com uma ceia, caprichosamente preparada, e perguntou que vinho usava Gregório.
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— Deixo isso à tua vontade. Traze o que entenderes.
Terminada a refeição, apareceu de novo o criado, perguntando, em nome do Sr. conde, se Gregório podia recebê­lo naquela ocasião.
— Pois não! respondeu o interrogado. Seja quem for esse Conde, ardentemente desejo entender­me com ele. Diz­lhe que estou absolutamente à sua disposição.
Pouco depois penetrava o conde no quarto. Gregório mediu­o de alto a baixo, sem se poder furtar a certa impressão de respeito causada pelo ar do fidalgo.
— Muito boas noites, disse este entrando.
— Obrigado, respondeu o outro, curvando­se com delicadeza; mas, se me permite uma pergunta, tenha a bondade de dizer com quem tenho a honra de falar...
— Fala com o conde de S. Francisco, irmão da desventurada Cecília, falecida há quinze anos no convento de Santa Clara no Porto.
— Minha mãe?!
— Justamente, Sr. Gregório de Souto Maior; antes porém de lhe explicar as estranhas ocorrências desta tarde, tenho de declarar­
lhe que foi para seu interesse que o constrangeram a entrar nesta casa. Era preciso evitar a todo transe o seu casamento com a menina Clorinda...
— Mas, por que, senhor?
— Ouça­me primeiro, e depois compreenderá tudo.
O conde puxou duas cadeiras, e convidou Gregório a assentar­se defronte dele.
— É natural que não lhe seja agradável ouvir a maior parte do que 12 de 371
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lhe vou relatar, principiou o velho, dando uma expressão benévola às suas palavras; como é natural também que nunca o fizesse, se a isso não fosse eu agora forçado pelas circunstâncias; mas cumpro um dever, e tanto me basta para completa tranquilidade da minha consciência...
Gregório fez um gesto de assentimento e ouviu a escandalosa narração do seguinte:
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II
CONFIDÊNCIAS
“Tinha eu apenas dez anos de idade, principiou o conde, quando meu pai, cinco anos depois de enviuvar, recolheu em casa, nas suas terras do Alto Douro, uma senhora ainda moça, gentil de maneiras, cultivada no trato e no espírito, mas totalmente desamparada de recursos pecuniários.
“O marido, pois que era casada, havia­se de tal modo incompatibilizado com ela, que a infeliz resolveu abandoná­lo e procurar, só por si, com o que sabia de música, desenho, inglês e francês, os meios de viver modestamente em qualquer província de Portugal ou do Brasil.
“Chamava­se Helena.
“Era uma criatura loura, franzina de corpo, feições muito expressivas e olhar inteligente. Parece que ainda estou a vê­la!
“Meu pai, que a princípio só lhe confiara a educação primária dos filhos mais novos, foi, à proporção que se deixava tomar de simpatias pela professora, resignando em suas mãos primeiro a direção espiritual de minhas irmãs, depois o governo da casa, e afinal o governo absoluto do seu próprio coração. Escravizou­se.
Desse cativeiro nasceu uma filha, que se converteu nos últimos encantos do pobre velho. E a contar de então, meu caro hóspede, se Helena já era senhora absoluta de todo o palácio, que não ficaria sendo com o nascimento da filha?... Sua vontade, incisiva e nervosa, conquistou e dominou desde o conde até ao último dos nossos lacaios.
“As desavenças e os desgostos entre a família não se fizeram esperar: minhas duas irmãs, que se tornavam mulheres, foram as 14 de 371
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primeiras a reagir contra a ditadura que lhes queriam impor. Uma casou logo, para fugir ao jugo da falsa madrasta; a outra exigiu que a metessem em um convento, donde só saiu para unir­se ao homem que a tomou por esposa.
“Meu pai não pôde sobreviver por muito tempo à ausência de minhas duas irmãs e à desorganização da sua casa, agravaram­se­
lhe os padecimentos de que sofria, e faleceu pouco depois, legando à amante e à filha ilegítima uma boa parte dos seus bens.
“Eu que por esse tempo fazia meus estudos em Coimbra, corri à casa paterna e tratei do inventário de meu pai.
“Helena havia­se afastado já com a filha, que nessa ocasião teria quinze anos, e veio a casá­la alguns anos depois com um capitão de marinha, conhecido pela alcunha de “Leão Vermelho”.
— Meu pai! exclamou Gregório.
— Sim, confirmou o conde; o senhor é filho desse casal. Sua mãe, porém, foi abandonada na cidade do Porto pelo marido, ficando­
lhe apenas do matrimônio, além dos desgostos de uma viuvez forçada, um filho de dois anos. O fim dessa pobre mulher já o senhor conhece naturalmente: foi o convento e a loucura.
— Sim, disse Gregório.
— Mas o que talvez não saiba, acrescentou o conde, é que, antes disso, teve ela ocasião de salvar a vida da pessoa com quem depois me casei.
— Ah!
— Foi a enfermeira incansável e desvelada da filha de um velho amigo de meu pai, a qual sem dúvida teria sucumbido sem a dedicação e os sacrifícios de Cecília.
— E o filho, a criança de que o senhor falou?
— Essa criança, logo que a mãe perdeu a razão, foi reclamada 15 de 371
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pela família de minha noiva, e, depois do meu casamento, veio em companhia de minha mulher para o Brasil, onde foi entregue aos cuidados de certa senhora.
— A senhora que me educou, D. Florentina de Aguiar...
— Justamente, respondeu o conde.
— E o capitão, o pai dessa criança?!
— É de quem vamos tratar agora...
E o conde, tendo­se levantado, bebido alguns goles d’água e afagado a barba, continuou:
— Leão Vermelho, depois de repudiar a mulher, o que a levou ao desespero da loucura, partiu para as Antilhas espanholas, levando consigo um marinheiro fiel e brioso, que sempre o acompanhara e tinha por ele uma adoração sem limites. Conheci esse valente marinheiro; chamavam­lhe “Tubarão”. Depois da viagem às Antilhas, Leão Vermelho meteu­se no Rio de Janeiro, e aí travou relações com uma Henriqueta, com quem pouco mais tarde veio a casar.
— A casar?! Mas então minha mãe havia já morrido?!...
— Ainda não; e essa é a causa da perseguição que sofreu seu pai no Rio de Janeiro e da sua fuga rápida para Buenos Aires. Era bígamo. A segunda mulher ficou aqui no Rio com uma filha por nome Clorinda.
— Clorinda!
— A mesma com quem ontem ia o senhor casar...
— Clorinda, visto isso, é minha irmã?!...
— Perfeitamente, sua irmã.
— E foi por isso que me conduziram para cá?
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— Isso foi uma das razões. A outra vai o senhor conhecer agora.
E o conde, depois de uma pausa, acrescentou:
— O senhor tem sem saber uma enorme riqueza à sua disposição.
— Como assim?
— A herança de seu pai.
— De meu pai? Mas, perdão, meu pai morreu há seis anos em Montevidéu, e pobre.
— Foi o que ele fez constar, para não ser perseguido, mas a verdade é que se passou a Portugal com o nome suposto de “João Brasileiro” e apenas há dois meses faleceu.
— Meu pai ainda vivia?
— Sim, eu e minha mulher, somos aqui os únicos senhores desse segredo. Sei de toda a vida de seu pai e acompanhava os seus últimos passos, porque a condessa muito se interessa por tudo o que diz respeito à falecida Cecília, sua mãe. Diga­me, não lhe consta que Clorinda recebesse uma mesada?...
— Pois não, confirmou Gregório; sei que a velha Januária recebia uma pensão misteriosa, da qual ela própria dizia não saber a procedência; como sei igualmente que esse dinheiro era o único recurso que tinham as duas para viver.
— Esse recurso vai desaparecer com a morte de seu pai.
— Pobre Clorinda! Mas eu, se deixo de ser seu marido, principio a ser seu irmão, e...
— Não se trata disso agora. Eu me encarrego de fazer continuar a mesada. Amanhã mesmo remeterei a primeira.
— Mas...
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— Não haja escrúpulos! É com o seu dinheiro que vou socorrê­las... Não lhe disse há pouco que o senhor tem uma fortuna à sua disposição?! Pois faça o favor de ler isto...
E passou­lhe um jornal português, indicando­lhe um certo ponto marcado a lápis.
— Será possível?! exclamou o rapaz, lendo as primeiras palavras.
— Leia tudo, disse o conde. E se estiver disposto a aceitar uma proposta, amanhã mesmo partirá comigo para a Europa.
Gregório leu a notícia da morte de seu pai e a confirmação de que este deixara uma grande soma de bens, que seriam recolhidos pelos poderes competentes, até aparecer um filho, existente no Brasil, segundo declarações exatas.
— E sabe o senhor a quanto montam esses bens? perguntou o conde ao rapaz. Excedem a quatrocentos contos fortes!
— Bem, disse Gregório; amanhã mesmo principio a preparar­me. Vou a...
— Nada! contrariou o outro; nada disso! O senhor parte daqui mesmo; eu darei as providências necessárias para que não venha a faltar coisa nenhuma.
— Mas preciso ao menos despedir­me do lugar em que trabalho; reunir os objetos que me possam servir para a viagem e dar a Clorinda uma explicação da minha ausência...
— É justamente o que não convém de forma alguma. Estas coisas decidem­se assim!
E o conde calcou o botão da campainha elétrica.
Veio o criado.
— Prepara as minhas malas e previne à senhora de que lhe desejo falar ainda esta noite.
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O criado curvou a cabeça e saiu.
— Mas eu hei de partir assim sem mais nem menos?... observou Gregório, ao último ponto contrariado.
— É para o seu interesse, meu amigo: a perda de um paquete podia acarretar consigo a da ocasião. Lembre­se do velho provérbio indiano: “A fortuna só tem cabelos na frente da cabeça e é calva na nuca”; se a não agarrarmos de frente, ela se irá por uma vez e nunca mais a pilharemos. O senhor só sairá daqui para bordo!
— Mas os meus interesses, os meus compromissos, que me esperam lá fora?...
— Tudo isso não vale a vigésima parte do tesouro que o reclama com urgência!
— Mas uma coisa não elimina o outra; bem podíamos conciliar as duas e...
— Deixemo­nos de meias medidas, meu caro senhor; já lhe disse o que tinha a dizer; agora só me resta acrescentar que, nas condições apresentadas, estou pronto a acompanhá­lo; noutras, não! Lembre­se, porém, de que, sem o meu concurso, lhe será muito difícil chegar a qualquer resultado prático a respeito da herança de seu pai!...
— Mas, Sr. conde, objetou Gregório; se eu fizer o que V. Exa. me aconselha, fico absolutamente sem recursos: abandono meu emprego, abandono tudo!
— E que falta lhe podem fazer essas coisas? E o conde, depois de uma pausa, disse com a mais resoluta calma: Enfim, senhor, eu sigo amanhã no paquete que parte para a Europa, quer ou não quer acompanhar­me?!
— Bem! respondeu Gregório, inspirado pelo ar resoluto do conde. Estou às suas ordens!
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— Neste caso, vou apresentá­lo à minha família, que irá também.
O rapaz consertou rapidamente o laço da gravata, passou a mão pelos cabelos, e, pouco depois, em companhia do conde, era anunciado nos aposentos da condessa.
Ao chegar à porta sentiu logo um doce perfume de paz honesta. Tudo ali era castamente tranquilo; havia na atmosfera o aroma grave de flores secas, esquecidas no fundo de uma velha gaveta de família. Os móveis, o tapete, os quadros e as cortinas revelavam a mesma sobriedade de gosto, o mesmo recato de simpatias, as mesmas inclinações finas e aristocráticas.
Não se encontravam ali as fantasias baratas do luxo moderno; não havia as fragilidades douradas da falsa opulência; tudo era bom e sincero. O biscuit não substituía o mármore, o gesso pintado não tomava o lugar do bronze e o cromo litográfico não fazia as vezes da aquarela e da pintura a óleo. Cada objeto dizia sinceramente a sua espécie e a sua qualidade.
Predominava em tudo a mesma singeleza bem educada. Nada de arrebiques, nada de frisos de pinho envernizado, nada de guarnições impertinentes. As boas gravuras inglesas e as magníficas águas­fortes destacavam­se perfeitamente da nudez austera das paredes. Os móveis de madeira sem lustro tinham cada um a sua utilidade imediata. Não havia os preguiçosos divãs que conduzem à volúpia e ao dolce far niente; não havia as dúbias cadeiras que obrigam o corpo a uma posição enervante e sem­cerimônia.
Gregório transpôs a porta daquele santuário, inteiramente penetrado pela alma misteriosa que daí se evaporava, como o perfume religioso de um templo.
A condessa, assentada junto à mesa, lia um grosso volume de capa azul à luz vermelha de um candeeiro de alabastro. Vestia uma roupa inteira e afogada de casimira indiana, e tinha a cabeça resguardada por uma touca de renda de Valença. Não se lhe via luzir uma joia Ao lado dela, em uma cadeira mais baixa, 20 de 371
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bordava a filha, toda preocupada com o seu trabalho.
Maria Luísa, é este o nome da menina, teria dezessete anos, não travessos e ruidosos, mas angélicos e tranquilos, como tudo o que a cercava. À luz do candeeiro destacava­se bem a sua cabecinha loura, redonda, encimada pelas tranças, que a envolviam à moda das velhas estátuas. Sentia­se o azul dos seus olhos por debaixo das pálpebras abaixadas sobre o trabalho.
Não houve o menor alvoroço com a entrada de Gregório. A condessa marcou com uma fita a página que lia, e pousou devagar o livro sobre a mesa; depois estendeu a mão para o moço e, com um sorriso muito amável, ofereceu­lhe um lugar perto de si, enquanto o conde o apresentava às duas senhoras.
— Minha mulher e minha filha, disse o velho, indicando as duas.
Gregório cumprimentou­as, possuído de um forte sentimento de respeito, e foi sentar­se ao lado da condessa.
— Até que afinal o temos conosco, disse ela, descansadamente. E, voltando­se mais para ele, acrescentou, fazendo um ar sério: Fui muito amiga de sua mãe! Era uma excelente pessoa; entre outros obséquios, devo­lhe a vida!
— O Sr. conde já teve a bondade de contar­me isso mesmo, sustentou Gregório um pouco perturbado.
— Sim, volveu a condessa, eu própria lhe havia recomendado que o fizesse.
E depois de dar a entender à filha que se retirasse:
— Não temos tempo a perder. O conde naturalmente já lhe falou sobre a herança de seu pai, não é verdade?
— Sim, minha senhora.
— E está disposto a partir?
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— Amanhã mesmo.
— Bem, neste caso darei daqui a pouco as providências para a viagem; por enquanto falemos do senhor...
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III
POLÍCIA E CÓCEGAS
Justamente no dia do malogrado casamento de Gregório, o Dr. Ludgero, então chefe de polícia da Corte, acabava de entrar na casa de sua residência à rua da Ajuda, quando o ordenança lhe entregou, por mandado do ativo delegado Benevides, a parte de um grande crime, que nessa mesma tarde se havia cometido nos armazéns de rapé do popular fabricante Paulo Cordeiro.
Ludgero levantou­se incontinenti da mesa, tomou apressado o chapéu e a bengala, meteu­se no carro e disse ao cocheiro que tocasse para a ladeira da Conceição.
O carro parou à entrada de uma espécie de corredor, que conduzia sinistramente a um lugar apertado, sujo e abafado pelo teto. Era aí que a polícia detinha os cadáveres complicados em qualquer crime. Ainda não existia o Necrotério.
Fazia péssima impressão entrar naquela pocilga da morte, cujo aspecto repulsivo dizia todos os mistérios da miséria humana. Constava de um pequeno quarto, estreito e úmido, com duas mesas de pau. Havia também, na parede do fundo, uma cruz negra, que abria na sombra os braços, muito triste, como se estivesse em vão à espera do seu crucificado.
Sobre uma das mesas, jazia, glacial e rígido, o corpo ensanguentado de um homem branco. Ao lado, dentro de um caixão de forma especial e com as tábuas ensebadas pelo hábito de carregar os despojos das autópsias, viam­se matérias informes, de uma cor estranha e repugnante, dentre as quais sobressaíam vísceras humanas, gordas e brancas como carne de porco, e um crânio, cerrado ao meio, deixando transbordar a massa compacta dos miolos. Em torno de tudo isto zumbiam moscas.
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Veio à porta receber o chefe de polícia um homenzinho magro e amarelo, tão feio e tão morto de fisionomia, que lembrava os próprios defuntos que lhe cabia vigiar.
O ofício comera­lhe o pavor natural que todo o homem sente à vista da morte, e familiarizara­o com as degradações pavorosas da carne sem vida. Dava­se perfeitamente bem no meio de tudo aquilo: ali comia, ali dormia e ali amava. Quando pilhava algum dinheiro para comprar luz, corria à venda a bebê­lo de aguardente, e à noite deixava­se ficar no escuro com os inalteráveis companheiros de casa, que seguro não o incomodariam durante o sono.
O Ludgero disse­lhe alguma coisa; e o guarda, sem nada responder, conduziu­o para defronte da mesa em que estava o cadáver.
Então o chefe de polícia armou as suas lunetas de vidro graduado, e ficou a observar o morto por algum tempo.
Era um defunto comprido, magro, com barbas empastadas de sangue pelo lado inferior. Estava descalço e tinha o corpo nu, ligeiramente esverdeado. O assassino rasgara­lhe a garganta à faca e puxara o golpe até às regiões dérmicas do tórax.
O chefe mandou chamar o escrivão e o médico, procedeu ao corpo de delito, e, depois de apoderar­se de um farrapo de casimira cinzenta, encontrado na mão direita do morto, meteu­se de novo no carro, e tomou o caminho da Secretaria de Polícia, que nesse tempo era ainda na rua do Sabão.
Aí procurou logo o delegado, com quem conversou algum tempo, terminando por entregar­lhe o farrapo de casimira e recomendar­
lhe que procedesse às preliminares do inquérito no local do crime, e desse as providências para as competentes pesquisas.
Nessa ocasião acabava de chegar o Caixa da Casa Paulo Cordeiro, sobre quem recaía o prejuízo causado pelo roubo que dera lugar ao crime. O delegado tomou­o de parte, e os dois 24 de 371
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ficaram a falar a meia voz.
O chefe entretanto passara à sala de audiência, onde, entre outras pessoas, foi introduzida uma senhora ainda moça, de boa aparência, que dizia querer soltar um escravo seu, preso na véspera.
O chefe ouviu­a com toda a atenção, chamou um empregado e mandou lavrar o alvará de soltura. A senhora levantou­se, e agradeceu, mas, na ocasião em que transpunha a porta para sair, foi detida por uma frase que ouvira destacada da conversa do delegado.
Parou, e protegida por um reposteiro, prestou toda a atenção.
— É o que lhe digo, Sr. delegado, repisava o queixoso. Nada podemos fazer sem primeiro ouvirmos o rapaz.
— Mas onde mora esse Gregório?
— Mora nas Laranjeiras.
— Em que se ocupa?
— É zangão da praça.
— O senhor viu­o hoje?
— Nem hoje, nem ontem.
— E ele então sabia que o senhor recebeu ontem à tarde os vinte contos de réis?
— Foi a única pessoa estranha ao negócio, que soube disso.
— Bem, disse o delegado; escreva o nome e a moradia desse rapaz, e deixe tudo mais por minha conta.
A mulher que os escutava, aproveitou o momento em que os dois se afastaram, para sair do seu esconderijo e descer 25 de 371
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precipitadamente a escada.
À rua tomou um carro e seguiu para a casa de Clorinda. Pelo sobressalto em que ia e pelo ar de dolorosa ansiedade espalhado em todo o seu rosto, pálido e simpático, conhecia­se facilmente que a pobre mulher estava sob a influência de uma grande emoção.
Antes porém de voltarmos com ela à casa da noiva, que em tão triste situação deixamos no primeiro capítulo, cumpre dizermos alguma coisa a respeito deste novo personagem.
Imagine o leitor uma mulher cheia de corpo, um tanto baixa, porém esbelta e garrida; dê­lhe um par de olhos castanhos, vivos e graciosos, uma boca risonha, um narizinho arrebitado, uns cabelos da cor dos olhos, um pescoço carnudo e bom torneado; e terá o leitor, pouco mais ou menos, a figura simpática que se dirigia para a casa de Clorinda.
Chamava­se Júlia Guterres; fora atriz por muito tempo e afinal, a instâncias do homem com quem casara, teve de abandonar por sua vez o palco.
O marido faleceu cinco anos depois do casamento, deixando à viúva um legado que lhe assegurava o resto da vida.
Júlia Guterres reuniu o que possuía, vendeu alguns bens que lhe não convinham, alugou o prédio em que morara com o marido, dispôs de alguns escravos, comprou um belo chalezinho na Tijuca, e meteu­se aí, com a intenção de envelhecer tranquilamente
Foi nessa casa que ela travou relações de amizade com Gregório. Viram­se os dois à primeira vez por ocasião do batizado da filha de uma amiga. Gregório teria então vinte anos, gozava de alguma fama de estróina e figurava na vida romântica de uma tal Olímpia, a quem o leitor mais tarde virá a conhecer perfeitamente.
Um dia, sentia­se ela aborrecida e nervosa, sem saber o que tinha, nem o que queria; tudo nessa ocasião parecia enfastiá­la 26 de 371
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profundamente. Vestiu­se, mas não teve a coragem de sair; abriu um livro e não leu uma página sequer; acendeu um cigarro e arremessou­o logo pela janela.
Nisto entrou o criado no seu quarto e disse­lhe que o Sr. Gregório a procurava.
— Não estou em casa! respondeu a senhora, de mau humor.
Mas, quando o criado ia a sair, acrescentou consigo:
— Que ideia!...
E mandou que se abrisse a porta ao rapaz. O chalezinho da viúva compunha­se de poucas peças. Havia a sala de visitas, uma alcova, a sala de jantar, um gabinete de trabalho e mais dois ou três pequenitos cômodos de utilidade secundária.
Mas tudo isto estava disposto e mobiliado com muito apuro e muita preocupação de gosto. Desde o jardim, à entrada, que se mostrava logo sentimento artístico na escolha e colocação dos jarros e das estátuas; sentia­se a mão caprichosa que encaminhara as hastes das trepadeiras para as grades da janela, e confrangera as parasitas a se encaracolarem pitorescamente pelos troncos colunares das palmeiras e pelos seixos grotescos do repuxo.
O aspecto rico das plantas, os canteiros moldurados de grama e desenhando pequeninas ruas de cascalho, diziam muito bem com o chalezinho alegre, a rir por entre a exuberância da verdura, e todo ele enfeitado de cores e arabescos, ao sabor particular das chácaras fluminenses; sabor que resulta naturalmente da fisionomia característica das paisagens da Corte.
Quem, com efeito, atravessa as províncias do norte do Brasil e procura compreender o caráter quente das suas múltiplas paisagens, onde predominam os rios e as planícies, chegando ao Rio de Janeiro não se pode furtar à estranha mas agradável impressão que produz ao espírito esta bela cidade, com a sua opulência de palmeiras, a sua variedade pompadouriana de 27 de 371
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folhagens, a sua pedra original, que aparece por toda a parte, e as suas montanhas, tristes e silenciosas, que se vão perder no céu por entre nuvens.
Gregório penetrou na sala de Júlia, tomado já de certo desânimo: ele há tanto fazia por agradar àquela mulher, e ela sempre a desdenhar dos seus protestos, a chamar­lhe criança e a rir dos seus desgostos, dos seus suspiros, das suas atitudes apaixonadas.
— Meu amigo! disse­lhe uma vez a viúva; o senhor perde o seu tempo! já não vivo de ilusões! passou a época dos sonhos! hoje, toda a minha felicidade consiste na certeza de que não tenho absolutamente a quem dar satisfação de meus atos!
— Mas quem deseja escravizá­la? perguntou em resposta, Gregório, procurando pôr uma intenção sutil nas suas palavras. Quem é?
— Quem? interrogou ela, abrindo para o moço apaixonado seus belos olhos de cor híbrida. Quem?! O senhor, meu querido sonso. Ande lá! Tenho muito medo destes inocentes!... parece que não são capazes de quebrar um prato, entretanto...
E fazendo um gesto de graciosa impaciência:
— Homem, menino! mudemos de conversa! Falemos antes de D. Olímpia...
Gregório fez que não ouviu este nome e insistiu em que a viúva acabasse a sua frase.
— Já nem me lembra o que queria dizer...
— E até onde pode chegar o espírito da tirania! Bem! não a importunarei mais! Adeus.
— Vai suicidar­se ou vai para a casa de Olímpia?! perguntou a viúva, com um espanto exagerado. Se vai suicidar­se, previna, que preciso preparar o sentimento!
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— Não me fale desse modo! Para que há de fingir aquilo que não é?! Sei que a senhora tem muito e muito coração! Não se queira fazer indiferente e cínica, quando possui aliás tesouros de amor e de ternura...
— Mau!... replicou ela; o senhor vai por mau terreno...
— Por quê?...
— Porque já se tinha despedido e deixa­se ficar.
— Nesse caso...
— Adeus.
— Até quando, ingrata?...
— Até à primeira ausência da lua.
E a viúva fechou a porta com uma risada.
Depois deste significativo tiroteio, Gregório fez ainda duas ou três tentativas de assédio, mas de todas elas saiu derrotado. É por conseguinte de supor que ele não contasse já absolutamente com o triunfo, quando a criada lhe foi dizer à porta do chalé que a senhora consentia em ser vista.
Entrou vacilante e um pouco entalado na dúvida de mais algum desbaratamento. Júlia recebeu­o sem perturbação. Estava prostrada sobre uma otomana de cetim e aí se deixou ficar, com os olhos meio cerrados de preguiça ou de tédio, as pernas cruzadas indolentemente, e a cabeça esquecida sobre duas almofadas.
— Vim importuná­la mais uma vez...
— Não. Assente­se e converse. Traz­me alguma novidade? Que há por esse mundo do espírito?
— Trago­lhe um novo poeta, Teófilo Dias, conhece?
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— Dê cá.
E a viúva abriu o livro e leu algumas estrofes.
— Que tal o acha?...
Ela não respondeu e ficou com os olhos cravados no teto; depois pousou­os de novo sobre o livro e continuou a leitura.
Gregório foi a pouco e pouco se aproximando e tomou­lhe uma das mãos. Ela consentiu ou não deu por isso, muito empenhada na leitura.
Gregório recolheu a mãozinha que tinha entre as suas e levou­a aos lábios com a sofreguidão de um faminto.
Ela continuou a ler.
Gregório aproximou­se mais e, todo vergado para a frente, chegou os lábios à cabeça da viúva e beijou­lhe a polpa macia do pescoço.
— Então? Que é isso! Deixe­me! disse ela, erguendo­se melindrada e deixando escapar o livro das mãos.
Gregório levantou­se também, mas prendeu a viúva nos braços.
— Não seja assim! Perdoe! disse ele com a voz cheia de súplica. Tenha pena de mim! Repare que sofro deveras por sua causa...
A viúva abaixou a cabeça e ficou a pensar.
Esta transição desconcertou um tanto o pobre namorado.
— Então?! disse ele afinal; em que pensa?...
— É o diabo... resmungou a bonita viúva, como se falasse só consigo. É o diabo!...
— O diabo o quê?... perguntou Gregório com o ar muito infeliz.
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— Você tem vinte anos e eu tenho mais de trinta!
— Oh! exclamou ele.
— Oh! não! protestou ela; você no fim de contas é uma criança e eu sou mais que uma mulher!...
— Lá vem a mania de chamar­me criança!
— Mas se é!
— E quer responsabilizar­me por uma falta de que não sou culpado?!
— Culpada seria eu se não pensasse um pouco!
— Júlia!
— Não! Não!
— Meu amor!
— Então?!
— Eu te adoro!
— Tenha juízo!
— Tu me pões louco! — Mas contenha­se, ou chamo a criada!
— Julinha!
— Solte­me o braço! Pior! Não faça cócegas!
Mas Gregório não respeitou a ordem; e Júlia, sem poder sustentar a sério, abriu a rir, a rir muito, a torcer­se toda nas mãos do rapaz, e afinal caiu prostrada na otomana, sem forças para nada, a chorar de riso, nervosamente, sem poder falar.
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E tudo felizmente acabou em pura galhofa.
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IV
CORAÇÃO DE MULHER
Entre a cena pitoresca das cócegas e a sensaborona e triste cena do frustrado casamento de Gregório, medeia o período dos amores deste com a simpática viúva da Tijuca. Foram dois belos anos, durante os quais o amor teve tempo para percorrer toda a órbita do seu caprichoso sistema planetário, fazendo, já se sabe, as cabriolas que o endemoninhado costuma dar sempre que se apanha em revolução.
Dois anos! Oh! nesse lapso o amor tem tempo para muita coisa! Com as asas de que dispõe, pode ir ao zênite da paixão, pairar um pouco no espaço e precipitar­se afinal no pélago morno da indiferença e do tédio.
Todavia, se isto era aplicável a Gregório, não o era certamente à outra parte interessada — a viúva. Em questões de amor é com efeito muito difícil encontrar dois partidos iguais; em geral, um quer e o outro apenas consente.
E o mais curioso é que a mulher é quase sempre quem representa a parte mais ativa e mais importante no conflito.
Entre o amor da mulher e o amor do homem há uma diferença capital: o amor do homem tende a diminuir com o tempo; e o da mulher, quanto mais vive, mais avulta e mais espalha e aprofunda as suas raízes pelo coração. É que em geral o homem, à semelhança do fogoso corcel, que dispara na arena com todo o fogo da carreira, gasta logo no princípio do tiro a melhor parte da atividade de que dispõe, e começa a minguar de forças; ao passo que a mulher, partindo vagarosamente, vai pouco e pouco se animando na luta, e deixa­se afinal arrebatar pelo ardor e pelo entusiasmo.
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O homem, à proporção que desvenda os mistérios do coração da sua amante, à proporção que lhe vai devassando a alma e penetrando familiarmente por todas as sutilezas e todos os esconderijos do seu caráter, do seu gênio, do seu temperamento e da sua ternura, sente desfalecer­lhe no sangue o primitivo impulso, e só continua a amar por hábito ou por gratidão. Violada a última gaveta da alma de uma mulher, o homem cai prostrado pela indiferença.
Doces e apaixonadas Margaridas! se quiserdes conservar a adoração de vossos inconsistentes sacerdotes, correi duas voltas à fechadura e guardai bem convosco as preciosas chaves!
O homem gosta de ser iludido: meia verdade o prende, a verdade inteira o repele. A mulher, ao contrário, só chega a amar deveras depois de muito conviver, depois de muito se identificar com o homem a quem se deu. E se alguma grande desgraça os torna solidários das mesmas dores e das mesmas lágrimas; se ela tem ocasião de pôr à disposição do amado a meiga substância da sua abnegação, do seu sacrifício e do seu heroísmo, então o que era amor se converte em fanatismo, e a mulher deixa de ser amante para ser escrava submissa.
O homem principia sempre por dar o seu amor e acaba, quando este se esgota, por oferecer a sua amizade. A mulher, não! a mulher começa por estimar, e a sua estima vai se consolidando, vai se encarecendo, até que se transforma em amor veemente, fecundo e duradouro.
Foi isso justamente o que sucedeu com a viúva a respeito de Gregório — partiram do mesmo ponto, ela a passo, ele a galope; mas, quando a primeira se sentia arrebatada pelo ardor da carreira, já o outro jazia prostrado de cansaço, a suplicar, por amor de Deus, que o deixassem em repouso. E daí as consequências — o ciúme, o despeito, a raiva, o desespero, a sede de vingança.
Mas a mulher, coitada! parece que veio ao mundo predestinada para o sacrifício e para a dedicação. Uma vez presa pelo sentimento, ou pela sensualidade, quanto mais a fazem sofrer, 34 de 371
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quanto mais a pisam e maltratam, tanto mais ela estremece e adora o objeto do seu amor.
Cimo certas plantas aromáticas, que mais recendem quanto mais são trituradas, a mulher que ama, se logra uma folga no cativeiro com que se oprime o seu verdugo, não é para gemer, é para beijar­lhe os pés e repetir­lhe que o adora.
Júlia, nestas condições, soube que Gregório ia casar. Seu ímpeto instantâneo foi correr ao primeiro homem e oferecer­se para ser amada aos olhos do ingrato que assim tão cruelmente a apunhalava. Esqueceu­se de tudo, posição, interesses, tranquilidade, para só pensar nessa vingança absurda, que lhe parecia tão necessária à sua cólera como o vinho a um ébrio.
E cega, desvairada, às tontas, queria deixar bem patente que a traição de Gregório não a atormentava, e que ela se sentia, como nunca, feliz e indiferente.
— Sofrer?... mas por quê?! monologava a infeliz, a rir forçadamente, com a voz entalada na garganta. Acaso não previa eu tudo isto?... não é ele moço, livre e cheio de esperanças? A mim que importa pois seu casamento? Que se case quantas vezes quiser! Que faça o que entender!
Mas os soluços rebentavam com explosão, e a mísera deixava­se cair sobre o divã, a chorar apaixonadamente, sacudida por um formidável desespero.
Depois, sem que ela as chamasse, vinham de enfiada as recordações dolorosas do seu amor. Os episódios felizes de outrora lhe enchiam agora o coração com uma argamassa de desgostos. Via Gregório em todas as situações venturosas de outro tempo; sentia­lhe perfeitamente o cheiro dos cabelos, a luz dos olhos e a doçura embriagadora dos seus beijos. E perseguida, aguilhoada por estas ideias, queria fugir de si mesma, escapar à própria memória, esconder­se das reminiscências que lhe rugiam de dentro; mas todo o seu passado, em alvoroço, se enroscava por ela, a chupá­la para si, como um enorme polvo. Definitivamente 35 de 371
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era indispensável uma vingança! Era preciso inventar um cúmplice, um instrumento, uma arma, com que pudesse fulminar o infame!
Pobre visionária! Não calculava que o verdadeiro amor só sabe perdoar e não conhece os segredos do ódio e da maldade. Não sabia que o lábio que conserva o calor dos beijos que o aqueceram, não se pode converter rapidamente em lâmina fria de vingança. E tanto assim, que foi bastante lhe constar um mês depois desse desespero, o crime de que suspeito o objeto do seu amor, para esquecer­se dos planos de vingança e só se lembrar de correr a prevenir Gregório e afastá­lo de qualquer perigo.
Foi nessa resolução que a vimos partir rapidamente da polícia para a casa de Clorinda. Sabia a viúva que era naquela tarde o casamento; Gregório estaria lá com certeza... Que lhe importava o desespero de ver a mulher que a preterira? que importava o espetáculo de uma felicidade que a humilhava e enlouquecia de dor? que lhe importava tudo isso, contanto que o seu Gregório não sofresse coisa alguma, contanto que ele fosse prevenido a tempo do grave perigo que o ameaçava?
O carro de Júlia parou à porta da noiva. A viúva conchegou para o colo as pontas do seu mantelete de seda preta, e subiu resolutamente as escadas da rival.
— A noiva?! perguntou ela à primeira pessoa que encontrou. Não se queria entender com Gregório, por um natural impulso de ressentimento.
A noiva estava no quarto e não podia receber ninguém.
— Mas é também para o interesse dela que lhe desejo falar. Trata­
se de Gregório!
— Como?! Do noivo?!
— Sim.
— Oh! nesse caso, entre!
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E a pessoa gritou logo para os que estavam na sala de jantar:
— Temos notícias do noivo!
Júlia foi conduzida para a alcova de Clorinda, enquanto os outros curtiam de fora a mais impaciente e viva curiosidade. Ao encarar a noiva do amante, sentiu a viúva percorrer­lhe no corpo um vivo estremecimento de ódio, mas a ideia do perigo em que estava Gregório, acalmou­lhe o sangue.
Clorinda, entretanto, a quem disseram que a recém­chegada trazia notícias de seu noivo, precipitou­se ao encontro de Júlia, exclamando aflita:
— Que sucedeu com Gregório?! Diga­me por piedade!
— Como?! Pois já sabe que lhe ia suceder alguma coisa?!...
— Mas o que é?! Diga! diga depressa!
— Ele então não está cá?!...
— Não! Ainda não apareceu!
— Não apareceu?! exclamou a viúva, empalidecendo. Oh! Nada consegui evitar! Foi preso!
— Quem?! interrogou a noiva. Quem? Gregório?! Gregório preso! mas por quê, senhora?! Explique­se! explique­se, por amor de Deus!
E Clorinda, vendo o abatimento em que caía a outra, sacudiu­a com força:
— Então, senhora?! Que há?! Diga!
Mas a viúva continuava na sua prostração e repetia como num delírio:
— Preso! Nada consegui!
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— Ó senhora! explique­se por uma vez! Não vê o estado em que me acho? Não vê que tenho olhos cheios d’água? não vê como tremo? não vê como sofro?!
— E que me importa a mim o seu sofrimento?! também eu sofro e já padeci bastante! Sua mágoa tem saída; a minha não. Se Gregório voltar, é para os seus braços e não para os meus!... Que vale por conseguinte a sua tristeza de criança, comparada à dor enorme que neste momento me dilacera o coração?!
— Eu não a compreendo! observou a noiva.
— Nem se pode compreender nada disto na sua idade, como também na sua idade ainda não se pode avaliar a força indominável e fatal de um verdadeiro amor! Criança! O amor nos quinze anos é pouco mais que o último folguedo da meninice, atrás dele não existe um passado, existe quando muito uma boneca!
— Senhora!
— Oh! Não vim cá para disputar seu noivo; vim com a intenção de salvá­lo; nada consegui. Paciência! Volto resignada com a vontade de Deus!
Clorinda segurou­a pelo braço.
— Mas, por piedade, explique­me o que há? diga­me o que foi feito de Gregório!
— É acusado de roubo e assassinato! declarou a viúva, finalmente.
— Ah! gritou a outra, como se só esperasse por aquela frase para ter a confirmação de uma terrível suspeita.
E caiu de costas.
O quarto encheu­se logo. Todos queriam saber o que havia. D. Januária correu a apoderar­se da filha, e os mais principiaram a cruzar entre si olhares interrogativos e desconfiados.
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Júlia, sem dar mostras do que se passava em torno de si, afastou­se distraidamente e saiu a dizer entre dentes:
— Preso e acusado! Preso talvez para sempre!
E ao entrar no carro que a esperava na porta, abriu a soluçar com desespero.
Recolheu­se a casa, mas não pôde sossegar. A dúvida sobre o destino de Gregório trazia­lhe o espírito em doido sobressalto. Era urgente obter notícias dele naquela mesma noite, fosse de quem fosse, custasse o que custasse, contanto que Júlia soubesse o que era feito do seu Gregório!
E nesta impaciência percorria toda casa; ora ia à janela, ora de um quarto para outro. Chamou duas vezes a criada para mandar à polícia, mas, receando complicar ainda mais a situação, resolveu nada fazer. Afinal pediu a capa e o chapéu, e deliberou sair. Eram já oito horas da noite.
— Lá embaixo talvez conseguisse saber alguma coisa a respeito de Gregório... calculava a viúva, descendo comovida a escadinha do chalé. Mas ao chegar ao jardim, soltou um grito: pareceu­lhe haver distinguido, encostado ao muro e meio escondido na sombra, o vulto de um homem que a observava atentamente.
— Ângela! bradou ela para dentro da casa. Ângela! traze luz!
E não pôde acrescentar mais nada, porque as pernas lhe tremiam já e a voz se lhe embaraçava na garganta.
A criada, também, já possuída de susto, apareceu com uma lanterna.
Júlia não se havia enganado. Escondido nas moitas do jardim, estava um homem, que logo se dirigiu humildemente para ela, com o chapéu na mão.
— Ah! interjeicionou a viúva, recuando aterrada.
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— Não se assuste, minha senhora, disse o desconhecido, com muita brandura. Eu não faço mal a ninguém... Sou um pobre velho inofensivo...
E Júlia, ainda não de todo calmada, viu­lhe com efeito as longas barbas e os cabelos brancos.
— Mas o que fazia você aí? perguntou ela com dificuldade. Fiquei sobressaltada deste modo!...
— Perdoe, minha senhora, foi sem sequer... respondeu o velho.
— Mas, enfim, que deseja?
— Eu vinha dar um recado de certo moço que foi preso agora à noite...
— Gregório?! exclamou a viúva, perturbando­se toda. Oh! fale! fale! Diga o que é!
— Mas ele me recomendou que só desse o recado a certa moça, com quem tem relações há coisa de dois anos...
— Sou eu mesma! Fale!
— A senhora então é a viúva Júlia Guterres, a mesma que esteve na secretaria de polícia hoje à tarde?...
— Sou. Pode dar o seu recado!
Mas o velho, em vez de obedecer, endireitou o corpo, avançou dois passos, e soprou em um apito que trazia consigo.
— Que é isto?! perguntou Júlia, de novo aflita.
— A senhora está citada para depor hoje mesmo na polícia o que sabe a respeito de certa pessoa!
E o falso velho dirigiu­se a um soldado, de quatro que acudiram ao seu apito, e ordenou­lhe que acompanhasse aquela senhora à 40 de 371
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presença do chefe na secretaria de polícia.
— Sim, Sr. delegado! respondeu a praça.
— Bom! agora vamos nós à casa da noiva! acrescentou o disfarçado às praças que restavam, tirando as barbas e a cabeleira.
E seguiram para a casa de Clorinda.
Júlia entretanto, caminhava resignadamente para a polícia. Não proferiu durante o caminho uma única palavra. Aquela situação, se por um lado a constrangia, por outro lhe alegrava o espírito, prometendo pôr a limpo tudo o que havia a respeito de Gregório.
O chefe recebeu­a em um gabinete onde já esperava por ela; fê­
la assentar­se, disse­lhe que podia descansar, e, depois de chamar o escrivão e ordenar que se preparasse, principiou O seguinte interrogatório:
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V
DEPOIMENTOS
— Seu nome, minha senhora? perguntou o chefe de polícia à viúva.
— Júlia Guterres, respondeu esta, sem titubear.
— Seu estado?
— Viúva.
— Profissão?
— Vivo dos meus rendimentos.
— Quais são eles?
— Tenho ações, prédios e escravos.
— Conhece Gregório de Souto Maior?
— Muito.
— Desde quando?
— Há dois anos.
— E essa pessoa em que lhe diz respeito?
— Em tudo.
— Como assim? Tenha a bondade de explicar­se.
— Eu o amo!
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— Perdão, observou o Dr. Ludgero, limpando no lenço as lunetas, que acabava de desarmar do nariz; pergunto se essa pessoa se acha porventura implicada de qualquer forma em seus interesses...
— De que espécie de interesses fala o senhor?
— Dos interesses pecuniários.
— Absolutamente, respondeu Júlia com um gesto de impaciência.
— E quais são os seus interesses em que ela se acha implicada? Sim! Visto ter a senhora, quando lhe falei dos interesses pecuniários, lembrando outros, é porque...
— Referia­me aos interesses de meu coração, de minha felicidade! — Ah!
— Posso dizê­lo abertamente, porque sou livre e senhora de minhas ações; peço­lhe todavia que não insista nesse terreno... Há certas coisas na existência de uma mulher, que lhe não poderiam ser arrancadas do coração sem um grande abalo do pudor, ou talvez de dignidade!...
— Compreendo perfeitamente, respondeu o chefe de polícia, colocando de novo as lunetas; mas a senhora deve saber que eu, no lugar em que estou, cumpro um dever sagrado! A justiça, minha senhora, tem por obrigação do cargo violar friamente todos os recintos e todos os segredos. Quanto não me custa ouvir às vezes os pormenores de uma desgraça vergonhosa ou de alguma negra miséria de família? Mas assim é preciso; eu aqui não sou um homem, sou simplesmente um instrumento da Lei. Tenha pois a bondade de abrir o coração e dizer­me tudo o que sabe a respeito de Gregório, que me poupará dessa forma o sacrifício de torturá­la com o meu interrogatório.
— Mas o que quer o Sr. que lhe diga?... Do que serve a minha pobre opinião a respeito de uma pessoa, a quem acabo de confessar que adoro?... Gregório, por pior que fosse para os outros, 43 de 371
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seria sempre para mim o ideal dos homens! O senhor, que naturalmente conhece o coração da mulher, deve compreender o que há de sincero e verdadeiro nas minhas palavras. Nós quando amamos, desejamos por tal modo descobrir boas qualidades e brilhantes dotes no objeto do nosso amor, que, seja ele a mais ruim das criaturas, nos aparece, à luz maravilhosa de nossa dedicação, radiante e belo como o sol!
— Conclui­se do que a senhora acaba de dizer, que, apesar de supor Gregório o melhor dos homens, não sustentará que ele seja incapaz de cometer um crime...
— Não tive semelhante ideia! Considero Gregório com os defeitos da sua idade e do seu temperamento. Ele seria capaz de cometer qualquer leviandade, qualquer tolice, mas nunca uma infâmia!...
— Sabe do que o suspeitam?
— Ouvi vagamente dizer, aqui mesmo, que se trata de um roubo e de um assassínio.
— E o que mais sabe a esse respeito?
— É justamente por não saber mais nada, que lhe vou pedir o obséquio de dizer o que há. Constou­me agora à noite que ele fora preso, mas tudo isso é tão vago e tão incerto que...
— Conhece este anel?
E o chefe passou a Júlia um anel de homem com pedra de cornalina.
— Sim, disse ela a examiná­lo; parece­me que o reconheço. É o mesmo ou é muito parecido com um que dei a Gregório no dia de seus anos.
— Este anel foi encontrado no lugar do crime e corrobora as suspeitas sobre Gregório.
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— Valha­me Deus! exclamou Júlia; mas pode não ser o mesmo!...
— Temos ainda um outro corpo de delito. Examine bem este farrapo de casimira e queira ver se lembra de ter visto algum dia Gregório vestido com um paletó da cor desta fazenda.
A viúva tomou nas mãos o farrapo que lhe passou o chefe, e ficou a examiná­lo atentamente.
— Então?.. disse a autoridade, vendo que ela não respondia. Lembra­se? — Não sei. Sr. doutor; é isto uma circunstância tão pequena, que foge inteiramente da memória...
— É destas pequeninas circunstâncias que se tiram as conclusões lúcidas sobre qualquer crime, minha senhora; não podemos desprezar nada. Tenha a bondade de declarar se recorda de ter visto Gregório algum dia vestido desta fazenda.
— Ele usava frequentemente roupas escuras, mas algumas vezes, muito poucas, a passeio no campo ou de volta de um jantar de amigos, creio que o vi vestido de cor alvadia...
— Mas desta cor, precisamente desta, não o viu nunca, minha senhora?
— Não me recordo absolutamente, Sr. chefe.
— Ele era pródigo, extravagante?
— Para ser pródigo é preciso ter fortuna, e Gregório vivia do que ganhava com o trabalho...
— Não sabe se ele gostava de prazeres ruidosos?...
— Não; ao que suponho, não.
— Nunca o viu ébrio?...
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— Nunca!
— Recebeu dele muitos obséquios?
— De que espécie?...
— Obséquios de valor, em presentes, em dádivas de preço...
— Os objetos que conservo dele, só têm valor para mim, porque vieram de suas mãos...
— Ele então não despendia muito com a senhora?...
— Não havia necessidade disso...
— Em que qualidade frequentava a sua casa?
— Na qualidade de meu amigo, a quem me aprouve franquear toda a minha existência e todo o meu coração.
— Desejava vê­lo ainda?...
— Com muito gosto!
— Sabe onde ele está?
— Disseram­me hoje que estava preso.
— Sabe que de tinha um casamento marcado para hoje à tarde?
— Sei, respondeu a viúva, deixando transparecer o desgosto que lhe causava tal pergunta.
— E sabe o resultado desse casamento?
— A noiva esperou inutilmente; Gregório não apareceu.
— E por que ele não apareceu?
— Naturalmente porque o haviam prendido...
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— Entretanto, ele não foi preso. Escondeu­se ou fugiu, justamente pouco depois do crime.
— Não se sabe então onde ele está?!
— Não, minha senhora, respondeu friamente o Dr. Ludgero, levantando­se, e acrescentou: — Bem, por ora nada mais temos a perguntar. Pode retirar­se e esperar que a citem para um novo interrogatório.
Júlia saiu e a segunda testemunha foi introduzida no gabinete do chefe.
Era o velho Jacó, criado de Gregório.
— Espere um instante, disse a autoridade, indo até à porta, por onde vira passar um polícia secreta.
— Então?... perguntou a este em voz baixa; descobriu alguém que possa esclarecer o negócio?...
— Sim, Sr. chefe.
— Quem é?
— A menina do Bandolim, uma mocinha italiana, que, em companhia do irmão, toca bandolim no café de Java.
— Ah! fez o Dr. Ludgero.
Antes de prosseguirmos, é necessário, porém, dar dois dedos de explicação a respeito do que há de comum entre a menina do Bandolim e o suspeito Gregório.
Uma noite, sete horas em ponto, o nosso herói, vestido com esmero e correção de quem deseja agradar a olhos exigentes, meteu­se no bonde em caminho da cidade, e só apeou para tomar o da Tijuca. Escusado dizer que não era o rico panorama do arrabalde o que atraía o moço àquelas horas. E não menos escusado é declarar que espécie de ímã o puxava para ali com tanta força.
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Em certa altura Gregório saltou em terra defronte de um chalé, pintadinho de novo e meio apadrinhado do sol, pela folhagem de algumas árvores; apadrinhado durante o dia, bem entendido, porque durante a noite o padrinho era um formidável cão negro, que bradava armas a todo o vulto, suspeito ou não, que passasse pela esquina.
E tanto assim que, mal Gregório se aproximou do portão, já o tal padrinho ladrava a bom ladrar.
— Está quieto, Netuno! exclamou o moço, fazendo vibrar a campainha.
Veio logo a criada e Gregório perguntou:
— Ela está em casa?
Este modo de saber se a pessoa que vamos a visitar está em casa, prova alguma coisa, prova, pelo menos, que Gregório era já tão familiar da criada quanto o era de Netuno, e por conseguinte que aquela visita poderia ter todos os méritos, menos o da novidade.
— Saiu, respondeu a criada, abaixando o rosto.
O moço não retorquiu, mas também não se foi; ficou a sacudir a perna, apoiado na bengala, assobiando.
A criada, com o rosto metido entre dois varais da grade, em que se sustinha com ambas as mãos, esperava que ele resolvesse qualquer coisa.
— Então saiu, hein?... insistia Gregório, interrompendo o assobio e bamboleando a perna com mais força.
— É, disse a criada, bocejando.
E os dois ficaram calados por algum tempo; afinal Gregório mostrou tomar uma resolução e acrescentou:
— Ora vá dizer­lhe que eu bem sei que ela está em casa...
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— Minha ama saiu! sustentou a criada, a rir­se.
— Homem, faça o que lhe digo!
— Gentes! Ela não está!...
— Você então não quer ir?! Bem...
E Gregório fez o movimento de quem se afasta, levando uma intenção de vingança.
— Eu vou ver! exclamou a criada, largando os varais do portão.
Gregório voltou logo, como se fosse puxado por todo o corpo.
A criada desapareceu nas sombras duvidosas do jardim e, pouco depois, ouviu­se o som de uma voz de mulher que parecia ralhar dentro do chalé.
Gregório sorriu sozinho e retomou o fio da música que assobiava.
Quando havia gasto já uns dois minutos de assobio, abriu­se uma das janelas do chalé e desenhou­se contra luz da sala a figura simpática da viúva.
— Já voltou?! disse Gregório, transpondo o portão e indo postar­se debaixo da janela.
— Você não disse que não voltava mais aqui?! perguntou a outra por sua vez.
E como Gregório não respondesse:
— Também olhe que ninguém o iria buscar!...
— Disso sei eu!... observou o rapaz, armando um gesto de quem medita. E acrescentou
depois: — Bem tolo seria se acreditasse em amores... de viúvas.
— Nesse caso, por que voltou?...
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— Voltei... nem sei porque... Antes com efeito não tivesse vindo!...
— Pois ainda está em tempo de voltar por onde veio!...
— Tem razão! respondeu Gregório. Boa noite!
— Não vê que era capaz...
— Você duvida?
— Duvidava! respondeu Júlia.
Gregório deu uma volta sobre os calcanhares e encaminhou­se para o portão, sem dizer palavra.
— Nhonhô! gritou a viúva, quando o rapaz já transpunha a saída.
— Que é? perguntou ele, voltando­se com afetada indiferença.
— Vem cá...
— Que deseja de mim?
— Entre...
— Para quê?
A viúva fez um movimento de ombros e foi abrir a porta da sala.
Gregório subiu e ela o recebeu com um beijo.
— Não! disse ele; olhe que a senhora às vezes tem coisas bem esquisitas!
— Presumido!...
— Ainda não me esqueci do que se passou aqui no outro dia... — Aí vem a tolice!...
— Tolice não! A senhora riu­se para ele!
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— Bem caso faço eu agora daquele tipo! Um esganiçado!
— Sim! mas a senhora não lhe tirava os olhos de cima!...
— Foi para isso que veio cá?...
— Eu não queria entrar...
— Então para que entrou?!...
— Queria ver se me encontrava com o tal barão!...
— Com que fim? se faz favor...
— Para pedir­lhe que a tratasse com toda a delicadeza!...
— Não era preciso; o barão é a cortesia personificada!
— Pois case­se com ele!
— Quem sabe, hein?!
E os dois continuaram a altercar meio dessentidos, meio alegres, até que Gregório tomou o chapéu, despediu­se e saiu, sem fazer pazes completas.
Entre o largo de S. Francisco e o ponto dos bondes de Botafogo, onde tinha ele de tomar o das Laranjeiras, ao passar pelo café de Java, descobriu alguém que o fez parar. Encostou­se à parede da Notre­Dame e ficou a olhar muito para um sujeito de idade duvidosa, cabelos e barba exageradamente pretos e lustrosos, olhar vivo, gestos cerimoniosos e chapéu alto.
Era o barão.
A um dos cantos do café a Menina do Bandolim dedilhava as cordas do seu instrumento ao lado do irmão, e parecia inteiramente preocupada com a música.
O barão devorava­a com os olhos, enquanto em outra mesa mais 51 de 371
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afastada, um rapaz louro, bastante magro, de monóculo, gestos braçais muito angulosos, falava a um grupo de quatro ou cinco amigos que o escutavam com interesse; tratava­se de política revolucionária.
No fim de meia hora, o barão saiu do café, e, depois de alguns passos pelo largo de S. Francisco, falou em particular a um homem que parecia esperar por ele, e seguiu tranquilamente na direção da rua do Teatro.
Gregório viu tudo isto e principiou a seguir com a vista o novo personagem.
Todavia, a Menina do Bandolim, que acabava de recolher o instrumento a um saco de baeta escura, retirava­se por sua vez com o irmão.
Gregório acompanhou­os a certa distância.
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VI
PRIMEIRO ENCONTRO
Enquanto Gregório acompanha em distância a Menina do Bandolim, temos que ver ainda alguma coisa no café donde ela saiu.
Vários sujeitos se ergueram logo, e lá se foram retirando vagarosamente; outros se deixaram ficar ainda a beber e a dar à língua. A mesa do rapaz louro de monóculo não sofreu a menor alteração; continuava o orador a falar, sempre com loquacidade, e os outros continuavam a ouvi­lo com a mesma atenção.
Dois novos consumidores acabavam de entrar, conversando em voz baixa, muito animadamente. Pelo modo que discutiam, adivinhava­se facilmente que o mesmo interesse os prendia a um só assunto.
Eram ambos de meia­idade; um, porém, apresentava ser mais velho e de melhores costumes que o companheiro. Em si nada tinham afinal que pudesse chamar a atenção ao primeiro lance de vista; trajavam vulgarmente roupas baratas e cada qual trazia o seu chapéu de sol, como um símbolo de paz burguesa.
Assentaram­se defronte um do outro, pediram cerveja nacional e prosseguiram na conversa com o mesmo cauteloso empenho.
Deu meia­noite. Os sujeitos que ainda ocupavam as mesinhas do café, foram desaparecendo, até que o dono da casa, dirigindo­se aos dois últimos, lhes participou que desejava fechar as portas.
Então o que parecia menos velho atirou os olhos para o relógio, fez um sinal afirmativo e, sempre a conversar, ganhou com o companheiro a rua.
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— É o que lhe digo, segredou­lhe o outro, quando saíam; pode contar comigo! Diga ao comendador que estou pronto para o que der e vier...
— Posso então dizer ao comendador Portela que você quer?!...
— Pode.
— Bem, nesse caso, precisamos amanhã mesmo entender­nos com ele. Onde nos devemos encontrar?...
— Onde quiser. Aqui no café por exemplo.
— Está dito. Então até lá.
— Até! respondeu o companheiro, tomando o largo de S. Francisco.
Mas voltou pouco depois, para perguntar ainda alguma coisa ao ouvido do outro.
— Não! respondeu este; o melhor é levar você uma boa navalha! Deixemo­nos de inovações! Cada um com o que aprendeu!
— Bem...
E separaram­se.
Entretanto, a Menina do Bandolim seguia pela rua do Teatro, com o passo seguro e apressado de quem não deseja demorar­se pelo caminho. Um homem saindo de uma esquina, pretendeu apoderar­se dela: Gregório porém não lhe dera tempo para isso, colocando­se entre os dois e repelindo o agressor a bengaladas.
A mocinha soltou um grito, chegou­se para o irmão, e deitou com este a correr em direção contrária à que levavam.
— Diga ao barão que ainda não foi desta vez! gritou Gregório para o sujeito a quem espancara, e seguiu o rumo que tomara a sua protegida.
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Quando se convenceu de que ela estava fora de perigo, retirou­se para casa.
A menina, com o sobressalto em que ficou na ocasião de ser agredida, não pôde agradecer a generosidade de Gregório, mas guardou bem na memória a sua fisionomia e desde então principiou a distingui­lo intimamente com certa estima.
Só dois meses depois do conflito se tornaram a encontrar. Ela, como nessa ocasião estivesse em meio de uma peça que tocava, limitou­se a cumprimentá­lo com a cabeça e a sorrir para ele de modo reconhecido; mas, terminada a música, pousou o bandolim sobre uma cadeira e, depois de receber a espórtula das mesas, foi agradecer­lhe de viva voz o obséquio que havia recebido.
— Nunca mais lhe sucedeu outra? perguntou­lhe Gregório.
— Não, senhor. Depois daquela vez faço­me acompanhar sempre por mais um parente meu, que me vem buscar aqui.
E ficaram um instante a conversar, quando Gregório reparou que uma mulher havia parado à porta do café, a olhar investigadoramente para ele. Reconheceu­a logo e correu ao seu encontro. Era a viúva.
— Muito bonito!... disse esta, quando Gregório conseguiu alcançá­
la. Pode voltar para onde estava!...
E como Gregório ficasse a rir com ar de pouco caso:
— O senhor nem precisava levantar­se para vir ter comigo!... era melhor que ficasse lá mesmo!...
— Deixa­te disso!
— Vou deixar­me é de ligar tanta importância a quem não o merece!
Neste ponto foram interrompidos por duas senhoras que pararam para falar com Júlia.
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Gregório despediu­se e seguiu a direção contrária ao café da Menina do Bandolim. No fim da rua parou, comprou charutos e, à vista de um anúncio de espetáculo, resolveu ir ao teatro.
Ao entrar na plateia teve de afastar­se para dar passagem a uma família, composta de três senhoras e um cavalheiro.
— Oh! O Gregório! exclamou este ao vê­lo, e escancarou os braços expansivamente.
— Roberto! gritou o rapaz, atirando­se­lhe nos braços. Não sabia que tinhas voltado!
— Vim ontem.
— Mas como foste lá pelo norte? Que fizeste? Que me contas de novo?...
— Nada, isto é, casei­me. Olha, aqui tens minha mulher... E voltando­se para uma das senhoras:
— Sinhazinha, este é o Gregório, um menino que deixei quase do tamanho desta bengala e venho encontrar mais alto do que eu! E acrescentou, cortando uma risada e designando as outras senhoras: — D. Januária, velha amiga de minha mulher, e sua bela filha adotiva, D. Clorinda. Amanhã hás de ir jantar comigo e ficas prevenido de que te não dispenso um só domingo!
E o espetáculo passou­se todo em conversa.
Ao levantar­se no dia seguinte, Gregório notou que sentia no coração um desejo vago, e, nesta dúvida, neste estado vacilante da vontade, passou a manhã inteira e passou também todo o jantar, apesar da alegria ruidosa de Roberto.
Só à noite, com a chegada de D. Januária e da pupila, é que Gregório conseguiu descobrir o que tanto desejava ele esse dia — era ver Clorinda.
Não esperou segundo convite para jantar todos os domingos com 56 de 371
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o amigo. Duas razões o levaram a isso: a primeira porque aquele costumava reunir em casa algumas pessoas, entre as quais D. Januária e sua adorável filha adotiva; a segunda razão saberá o leitor daqui a pouco. Por enquanto precisamos falar de outra coisa.
As reuniões do Dr. Roberto eram muito limitadas; pouca gente aparecia além da que acabamos de citar.
A mulher, D. Carolina, não dava muito para etiquetas, se bem que fosse de seu natural amiga de agradar e servir. Gostava, porém, que não a tirassem da sua liberdade e do seu cômodo.
Isso mesmo dizia o ar descansado e bondoso da sua figura gorda e linfática; contudo, era muito raro se lhe surpreender nos lábios o menor gesto de contrariedade.
Gregório, quando a visitou pela primeira vez, passou algumas horas assentado ao seu lado, e sentiu­se durante esse tempo ir pouco a pouco penetrando do ar morno, indiferentemente satisfeito, que respirava dela toda, como a própria temperatura do corpo.
Carolina não se levantara sequer para o receber, mas demorara nas suas mãos algum tempo a do rapaz e indagara­lhe da saúde com um riso esparrinhado por todo o rosto. Às vezes parecia que ela se deixava ficar assim a sorrir indeterminadamente, por esquecimento ou por preguiça de suspender o sorriso.
Suas feições estavam sempre abertas, como as gavetas de um desmazelado; mas olhava­se para dentro delas, com o desinteresse com que se olha para o interior de gavetas vazias.
Nada a sobressaltava, nada a afligia. Pela manhã, às dez horas, a criada ia ajudá­la a sair da cama para o banho morno; servia­lhe depois uma papa de leite e farinha de mandioca, e passava a penteá­la, calçá­la e vesti­la. Durante esse tempo as duas, senhora e criada, conversavam, devagar, molemente, assuntos bambos, sem interesse para ninguém e maçadoramente virgulados de grandes pausas.
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Carolina gostava em extremo que lhe mexessem na cabeça, estimava que a criada demorasse bem o arranjo de seus cabelos, durante o qual se repoltreava ela na cadeira, toscanejando uma voluptuosidade surda e espessa, de gata saciada.
Às vezes adormecia nessas ocasiões e era preciso que a criada a chamasse depois para o almoço.
Comia muito compassadamente, aos bocadinhos, como uma criança gulosa. Era doida por doces e quitutes. Quando passava pelo açucareiro tirava em geral um pouco de açúcar, com que cobria a língua. Fazia muita questão na escolha dos pratos. Recomendava de véspera, durante o almoço ou o jantar, o que lhe apetecia comer no dia seguinte, e a algumas iguarias mais do seu gosto, como por exemplo a moqueca de peixe, ela só saboreava sem talher, à mão.
O marido por muito tempo procurou reagir contra esses hábitos sedentários; expôs à mulher os inconvenientes de uma existência sem exercício, sem preocupação de espécie alguma, ofereceu­lhe livros, lembrou­lhe a jardinagem, falou de tudo o que podia honestamente prender o espírito de uma senhora ou obrigá­la a qualquer esforço físico; mas nada conseguiu; Carolina não se abalara e, quando o marido insistia muito nas suas costumadas censuras, ela respondia com todo o descanso:
— Ora, seu Roberto, deixe cada um com seu gênio!...
E Carolina ficou no que era.
Esteve grávida, e a gravidez só lhe parecia antipática, porque a obrigava a sair um tanto dos seus hábitos sedentários. O filho tomou a resolução de morrer antes do nascimento. E fez bem.
Contrastava vivamente com o tipo da dona da casa, uma de suas visitas mais constantes e mais da sua intimidade — D. Josefina de Brito; a mesma que no primeiro capítulo, por ocasião do gorado casamento de Gregório, tão indignada se mostrou, na qualidade de madrinha, com o estranho procedimento do noivo.
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D. Josefina era a antítese perfeita da amiga. O que tinha esta de flácida e moleirona, tinha a outra de ativa, impaciente, curiosa e ralhadeira. Nunca ficava sossegada num lugar: de manhã à noite vivia a saracotear pela casa, a dar fé de tudo, até que enfiava o vestido, punha a capa e corria às amigas para boquejar sobre os conhecidos.
Falava de tudo e de todos sem o menor escrúpulo, e desconfiava de toda a espécie de homem, passados, presentes e futuros. O longo e rigoroso celibato, a que sempre vivera amarrada e que por muito tempo lhe zurzira os nervos, acabara por torná­la frenética e ruim. Josefina tudo perdoava a qualquer pessoa, menos a felicidade do amor, nem admitia que alguém tomasse a sério isso a que ela chamava “Mal de tolos!”
Nesse ponto extremava perfeitamente com a outra, que se comprazia em acompanhar voluptuosamente o progresso de qualquer namoro, e até a auxiliá­lo; o que muito devia aproveitar a Gregório, como efetivamente teremos ocasião de ver mais adiante.
Mas deixemos tudo isso à margem, para nos ocuparmos da segunda razão que levou Gregório a jantar todos os domingos com o Dr. Roberto.
Essa razão era a circunstância especial de haver se retirado para a Europa a família com quem morava o rapaz.
Tal razão aparecerá pouco óbvia à primeira vista, porém não é. O leitor, se nunca morou em família ou se nunca teve de separar­se daquela com quem convivera indefinidamente, não poderá avaliar o alcance do que avançamos; mas, se ao contrário, o leitor é um desses muito infelizes, que de um momento para outro se veem privados das pessoas com quem habitava, para seguir um destino de desordem e boêmia, o leitor nesse caso avaliará o peso de nossas considerações e sentirá o valor da opressão em que ficou o nosso pobre herói com a partida da família entre a qual vivia.
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É preciso ter experimentado o que isso é, para saber quanto custa. Antes da separação não seríamos capazes de imaginar o estado em que ficamos; então, até se nos afigurava que a coisa não havia de ser objeto de pena e mágoa. Suponhamos que a vida exterior, com seus teatros, as suas palestras de café, os seus almoços ruidosos e cheios de riso, as suas aventuras picantes, as suas peripécias, as suas alegrias efêmeras, compensariam perfeitamente a convivência habitual e burguesmente amiga daqueles com quem morávamos. Ilusão! pura ilusão! A rua, o teatro, as soirées, os passeios, a conversa descuidosa dos amigos, não substituem absolutamente o que nos falta em casa. Todo esse conjunto de impressões, todo esse barulho de gozos, mais ou menos passageiros, não nos enchem o vácuo insondável deixado por aqueles, em cujos corações nos podíamos refugiar confiantemente, quando voltávamos desiludidos e cansados de percorrer toda a escala das falsas sensações exteriores.
Abençoados lares. Quão pouco é necessário para o bom resultado de vosso mister sagrado e consolador! Uma pequena vivenda humilde e pobre, um pouco de sol, um pouco de ar, o produto de algumas horas de trabalho, tudo isto iluminado de amor e boa vontade — e eis aí os elementos de uma felicidade completa.
Comparai os dois sentidos. De um lado o desafeiçoado pândego, que vive au jour le jour, comprando fôlego a fôlego a sua vida inútil e egoísta; de outro lado o trabalhador modesto, que moureja durante o dia para prover a subsistência da mulher que ama e a dos filhinhos que à noite o esperam. Um vai aos teatros, bebe, ri, galanteia as mulheres, mas volta para a cama do hotel em que mora ou da amante que lhe pertence na ocasião, com o corpo cansado e gasto e a alma desconfortada e fria. Tudo lhe causa aborrecimento, tudo o enche de tédio: os amigos, os prazeres e o próprio vício. Acorda sempre de mau humor, não encontra em coisa alguma um lado que o seduza e prenda. Enquanto o outro, o burro de carga, aquele que durante o dia, em vez de gastar, ganhou; aquele que devia ao chegar à noite sentir­se cansado e indisposto, esse entra em casa quase sempre cantarolando e sempre sorrindo; abraça a mulher, beija os filhos, afaga o cão, dá 60 de 371
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uma vista de olhos pelo jardim e assenta­se ao lado dos seus para cear, feliz, confortado, fortalecido pela dignidade do seu esforço, abençoado por aqueles que vivem da sua atividade e do seu amor, e afinal deita­se a dormir, tranquilamente, com o coração despreocupado, o sangue fresco e a consciência lisonjeada.
Tais foram as considerações que fez Gregório, quando se sentiu só e desamparado de qualquer afeição doméstica.
Que terrível noite a primeira que ele passou depois que partiu a família com quem morava! Tudo lhe parecia triste e insociável; tudo o encarava com uma fisionomia dura e antipática; os mesmos trastes da casa, dantes tão familiares e amigos nas conversas de depois do jantar, se mostravam agora concentrados e macambúzios, como se tivessem alguma razão de queixa contra ele; parecia que os moradores haviam morrido todos e que andavam seus espíritos a pairar nos ares silenciosamente, como o fumo preso dentro de uma sala.
Foi nestas circunstâncias que viu pela primeira vez Clorinda e que aceitou sem discutir o convite para jantar aos domingos em casa do Dr. Roberto.
Gregório sonhara quanto não seria bom fazer existência ao lado de uma mulher moça, bonita e carinhosa.
— Definitivamente era preciso casar! pensava de; aquela vida miserável de homem solteiro não lhe poderia convir! ganhava o bastante para si e para a mulher; não tinha por conseguinte razões que o forçassem a contrariar as suas aspirações e... diga­se tudo, o seu amor, porque afinal de contas já amava Clorinda e já não podia imaginar a felicidade senão em companhia dessa criatura adorável.
A viúva, sem que ninguém lho dissesse, compreendeu e avaliou tudo o que se passava no espírito do seu amante. Como mulher de experiência, adivinhara, ao primeiro sintoma dos novos amores de Gregório, a tempestade que se armava, e, ainda como mulher de experiência, tratou de disfarçar o seu sobressalto e desviar a nuvem 61 de 371
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carregada de eletricidade.
Mas tudo foi debalde: pouco depois Gregório pediu Clorinda em casamento e as coisas tomaram o caminho que o leitor já conhece.
Mal sabiam, coitados! o que lhes estava reservado ainda!
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VII
APALPADELAS
Júlia, ao sair da secretaria de polícia, levava o coração encharcado de sobressaltos; as dúvidas, os terrores, as saudades do amante, enchiam­na toda de uma grande tristeza histérica.
Entrou em casa sem dar uma palavra à criada, que a seguia com os olhos espantados. Depois, arremessou o chapéu, a capa, e afinal a roupa, e deitou­se de bruços na cama, a soluçar desesperadamente.
Às sete horas da manhã, quando a criada penetrou no seu quarto, para lhe entregar um papel que vinha da polícia, achou­a já de pé e vestida em trajos de sair.
— Que mais teremos?! perguntou ela consigo, sem disfarçar o aborrecimento.
Era uma nova intimação policial.
— Ainda está aí o portador disto? perguntou à criada, depois de correr os olhos pelo papel que tinha nas mãos.
— Não, senhora; retirou­se.
— Bem. Eu saio depois do almoço. Olha, se na minha ausência vier procurar­me quem quer que seja, dize­lhe que tenha a bondade de esperar um pouco. Não me demorarei.
Mal tinha acabado de pronunciar estas palavras, quando vibrou fora a campainha. A criada correu ao portão, e voltou logo, dizendo que um homem de meia­idade e bem vestido procurava pela senhora.
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— Faze­o entrar para a sala.
E a criada fez entrar o Dr. Roberto.
— Desculpe­me, se tomo a liberdade de incomodá­la, minha senhora, sem ter a honra de conhecê­la, mas desde ontem que ando doido por saber qualquer notícia a respeito de Gregório; e, já porque me consta que ele não lhe é igualmente indiferente, como porque sei que V. Exa. conversou com a noiva e conversou também com a polícia, não resisti ao desejo de vir pessoalmente pedir­lhe que me diga com franqueza o que é feito desse pobre moço, a quem estimo como se fosse meu filho. Ia ser seu padrinho de casamento e fui por bem dizer o padrinho do seu amor...
— Ah!
— Ele conheceu Clorinda em minha casa, e eu, convencido de que só a família traz consigo certa estabilidade e certo amor pelo trabalho, procurei o melhor que pude aproximá­los um de outro.
— Ah!
— Gregório, continuou o Dr. Roberto, tem bom caráter, muito coração, algum talento, mas muito pouco juízo. É dos meus! A vida de solteiro acabaria por inutilizá­lo completamente; sonhei aquele malogrado casamento como se fosse eu próprio o noivo! Calcule, por conseguinte, minha senhora, como não estarei desapontado, tonto, com o que se passou, e como não estarei louco por saber que fim levou o nosso pobre Gregório!
— Ele amava muito a noiva? — Extraordinariamente.
— Sabe disso com toda certeza?...
— Que interesse o poderia levar a casar senão o amor?...
— E ela correspondia a esse afeto?
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— Creio que com o mesmo entusiasmo. Por que me pergunta isso, minha senhora?
— Naturalmente porque isso me interessa. O senhor foi o único encaminhador do casamento de Gregório?
— Pelo menos o mais empenhado para que ele se realizasse.
— E tem ainda esperanças nessa realização?
— Terei depois que V. Exa. mas der, declarando o que sabe a respeito de Gregório...
— Eu sei tanto como o senhor.
— Não sabe nada a esse respeito?!
— Nada?! Pois o senhor não está a par das pesquisas policiais sobre Gregório? não sabe que ele é acusado de um crime de morte e de roubo?!
— É impossível! exclamou o doutor, fazendo um gesto de indignação.
— É a verdade! sustentou Júlia com tristeza. Infelizmente, é a pura verdade!
— Mas o que os leva a supor semelhante coisa?
— Sei cá! O fato de haver ele desaparecido por ocasião do crime, o fato de ter ele sabido que a vítima recebera nesse dia vinte contos em dinheiro, e enfim o fato de ser encontrado no lugar do delito um anel que pertencia ao acusado.
— É inacreditável!...
— O que mais me admira é não estar o senhor a par de tudo isto!
— Como poderia estar, se ainda não voltei à casa da noiva; tenho gasto o meu tempo a procurar Gregório por toda a parte. Quando 65 de 371
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soube que ele desaparecera, corri às Laranjeiras; o Jacó, porém, não me adiantou a menor ideia..
E os dois conversaram ainda largamente sobre o mesmo assunto, sem que nenhum deles conseguisse achar o fio do enigma.
O Dr. Roberto retirou­se afinal para casa, torturado de incertezas e receoso de uma grande calamidade.
Júlia compareceu ao novo inquérito.
— Conhece a Menina do Bandolim? perguntou­lhe o chefe de polícia ao cabo de seu interrogatório.
— Pode ser, mas se a conheço, não ligo o nome à pessoa.
— Tenha a bondade de ver este desenho; ele dá uma ideia perfeita de quem falamos.
E o chefe passou à viúva um quarto de papel branco, onde havia um esboço a pena.
Júlia mal olhou para o papel, exclamou:
— Ah! Já sei! Agora sei quem é.
E, apesar da situação, não pôde deixar de rir.
Era uma excelente caricatura da Menina do Bandolim, desenhada a traços largos pelo Raul Pompéia. Esse desenho mais tarde foi reproduzido pelo próprio autor e oferecido à galeria da saudosa Gazetinha, donde o subtraiu naturalmente algum polícia secreta.
— Donde a conhece? perguntou em seguida o chefe.
— De uma noite, em que por acaso a vi conversando com Gregório à mesa do café de Java.
— Sabe quais eram as relações entre ela e o acusado?
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— Absolutamente; calculo, porém, que não passariam de um ligeiro namoro sem consequências Essa menina é honesta...
— Conhece a letra do acusado?
— Perfeitamente.
— Tenha a bondade de ver esta carta.
E passando­lhe uma carta que tirou de um maço de papéis:
— Parece­lhe escrita por ele?
— Sim, esta letra é de Gregório ou muito se assemelha à dele.
— Faça o favor de ler, disse o chefe.
— “Querida Teresa”.
Mas como fizesse logo um ar de dúvida, o chefe esclareceu:
— Teresa é o nome da Menina do Bandolim.
— Ah! disse a viúva, e continuou a leitura: “Ontem não me foi possível ver­te um só instante: o trabalho prendeu­me até tarde; hoje, porém, creio que terei a ventura de contemplar­te por muito tempo. Se até lá não me houverem já devorado as saudades, aproveitarei a ocasião para te comunicar que chegou o momento de transformarmos a nossa sorte. Vai realizar­se aquilo, e com isso se realizará também o nosso casamento. Ah! quanto sou feliz só com pensar em semelhante coisa... Adeus, até logo, pensa um pouquinho em mim e tem confiança na minha coragem. — Teu G.”
Seguia­se a data.
— Essa carta foi escrita justamente na véspera do crime, afirmou o chefe.
— Mas eu então nada entendo de tudo isto, porque a véspera do 67 de 371
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crime era igualmente a véspera do casamento de Gregório.
— A senhora possui a letra do acusado?
— Sim, senhor, e creio que a tenho aqui mesmo, respondeu a viúva, remexendo na sua bolsa. Ah! cá está um bilhete seu, acrescentou ela, passando uma tira de papel ao chefe de polícia.
O bilhete constava apenas disto:
“Nhanhã. — Não posso ir, como prometi, fazer­te companhia domingo ao jantar. Chegou da Europa um velho amigo meu, o Dr. Roberto, e tenho de estar com ele esse dia. Desculpa e recebe saudades. — Do teu.”
Não havia assinatura. O chefe perguntou quem era aquele Roberto e, depois de sair a viúva, ordenou que o intimassem para comparecer à sua presença.
Continuava pois o processo, mas a polícia principiava a desesperar do nenhum êxito dos seus trabalhos de investigação. Os depoimentos seguiam­se quase sem intermitência; nada porém de aparecer o autor do crime! Os corpos de delito destruíam­se uns aos outros. Fez o interrogatório do velho Jacó, da noiva, dos padrinhos, dos convidados para o casamento e nada!
Gregório não aparecia, nem tampouco aparecia algum indício que servisse de orientação.
Entretanto Clorinda foi pouco a pouco se habituando à ideia da ausência do seu noivo e voltando aos hábitos primitivos de menina. A viuvez sem luto não é viuvez. Regressavam­lhe em breve os sorrisos ao rosto, como voltam as flores na primavera.
Passaram o primeiro e o segundo mês, ao terceiro já as coisas pareciam novamente metidas nos seus eixos. A casa de D. Januária retomava o ar que possuía antes do malogrado casamento; veio de novo o comendador Portela, sempre muito preocupado com a sua pessoa, veio D. Josefina com o seu mau 68 de 371
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gênio, veio o Dr. Roberto, acompanhado pela sua inalterável esposa, e veio o João Rosa, aquele sujeitinho magro e ativo, que no primeiro capítulo parecia muito empenhado no bom êxito do consórcio.
Aos domingos, à noite, reuniam­se eles invariavelmente em casa de D. Januária, ou em casa do Dr. Roberto.
É em uma dessas noitadas de palestras, que os vamos encontrar agora todos juntos em casa da boa velha.
São oito horas. O comendador acabara de entrar, de fitinha ao peito, e corre um por um os circunstantes a cumprimentá­los com enormes frases.
— Oh! A nossa querida Sra. D. Januária, como tem passado, depois da última vez em que tive o prazer de vê­la? perguntava ele à mãe adotiva de Clorinda, apertando­lhe a mão, todo vergado para frente, a bambolear o corpo.
— Assim, assim... respondeu aquela, dando um suspiro.
— Ah! os tempos não andam bons! não andam! Ainda ontem, conversando em uma soirée do Ministro da Fazenda, com a viscondessa da Boa Estrela, disse­me ela que ultimamente tem uma pequena febre todas as noites...
E voltando­se para os outros:
— É verdade! Sabem quem está também incomodado? o barão de Mesquita! Terça­feira, quando jantávamos juntos... jantar simples, íntimo, sem­cerimônias! Ah! Ele é muito meu camarada! tanto como o visconde do Bom Retiro! Mas bem! jantávamos juntos e o barão de repente leva a mão ao estômago e empalidece. Coitado! Não lhes digo nada! Só ontem conseguiu deixar a cama!
— Sim? perguntou por condescendência o João Rosa, a quem mais diretamente parecia dirigir­se o comendador.
— Pois não! confirmou o gabarola. Mas o que quer o senhor?!... nós 69 de 371
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todos estamos sobre um grande pântano! Sim! o Rio de Janeiro é um grande pântano! Não acha, doutor?
— Está visto! respondeu Roberto.
— Pois bem, quais são as medidas empregadas para sanar o mal? Nenhuma! Projetos não faltam, mas quanto à realização... Encarregasse­me eu de providenciar sobre isso, e viriam os resultados! Havia de arriscar bom dinheiro, havia! Mas juro­lhe que o trabalho apareceria! Oh! nós aqui não temos iniciativa de espécie alguma!... Uma vez, em Paris, quando visitei o Thiers, disse­
me ele que o Brasil estava fadado a representar um papel importantíssimo nos séculos futuros; eu lhe respondi, batendo­lhe no ombro: “Meu bom Sr. Thiers, não julgue o Brasil pelos relatórios oficiais e pelas descrições europeias O Brasil...”
Mas foi nisto interrompido por dois rapazes, que acabavam de entrar na sala.
— Ah! disse D. Januária, reconhecendo um deles; sempre veio? E acrescentou para os outros: É o Sr. Duque Estrada, filho de uma das famílias que me honram com a sua estima.
— É parente do senador?...
— Não, senhor, respondeu o rapaz; não temos parentesco algum.
E chegando­se mais perto da dona da casa, disse­lhe, indicando o companheiro:
— Tenho a honra de apresentar­lhe o meu distinto amigo Adelino Fontoura, um belo talento!
— Oh! disse o Fontoura, vergando­se reverentemente, dentro do seu croisé preto.
E, depois de uma troca geral de cumprimentos, os dois recém­
chegados foram colocar­se no vão de uma janela.
— Muito se parece este rapaz com o filho de um lorde que conheci 70 de 371
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nos salões da princesa Rattazi, disse o comendador, mostrando o Duque Estrada.
Era este um moço magro, espigado, barba loura partida no queixo; vestia­se à moda, mas com simplicidade, e tinha na fisionomia o ar condescendente e atencioso dos homens educados no seio da família.
O outro era de menor estatura, feições mais varonis, mais reforçado de membros, um pouco áspero de rosto, cabeça grande, achatada no crânio e cabelos pretos muito curtos e lustrosos.
— Aquela é que é a tal menina do célebre casamento?... perguntou Fontoura discretamente ao companheiro, indicando Clorinda, que em um dos ângulos da sala conversava animadamente com o João Rosa.
— É, respondeu o outro.
— Encantadora! acrescentou o Adelino. E aquele esquisito do Urbano Duarte havia dito, no seu folhetim de domingo, que ela era feia!...
— Ora!.. desdenhou o Estrada, que havia chegado o ouvido perto da boca do amigo; tu bem sabes quem é Urbano para julgar mulheres! O Augusto Off, por exemplo, juro­te que é de minha opinião.
— Mas então está ela já de namoro com aquele sujeito?...
— Não sei.
— Pelo menos conversam muito animadamente! O que são as mulheres... disse o Adelino, sacudindo filosoficamente a cabeça! Ainda não há quatro meses que ia casar com o tal Gregório, e já parece hoje resolvida a aceitar outro. Quem é aquele sujeito, conheces?
— Aquele que conversa com ela?
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— Sim.
— Ah! de vista. É um tipo aí do comércio; creio que empregado em uma casa de café. Parece estimado.
— Acho­o com cara de tolo!
— Dizem que não, que é um sujeito muito fino para negócios.
Clorinda levantou­se e foi para o piano.
— Já me tardava! resmungou Adelino, quando ouviu as primeiras notas de música.
Na ocasião em que os dois companheiros se retiraram, um deles fez notar ao outro a insistência com que João Rosa olhava para Clorinda.
— Fiem­se em mulheres!... resmungou Adelino.
Clorinda com efeito recebia agora com menos severidade a corte de João Rosa. Resistira a princípio, chegou a repeli­lo uma vez com energia, ele porém voltara pacientemente, humilde, a repetir os seus protestos de amor. Ela hesitou; não disse abertamente que não, mas também não disse que sim. Ficaram no talvez.
D. Januária é que pouco se mostrou preocupada com o novo pretendente da pupila; outra ideia a atormentava: é que há dois meses não recebia a mesada, que até aí lhe chegava às mãos, e esta circunstância a vinha colocar presentemente em sérios embaraços.
Mais um mês sem mesada e a miséria abriria as fauces medonhas e patentearia as unhas desapiedosas.
Foi o que veio a suceder. A suspensão da mesada colocou D. Januária em formidáveis apuros. A pobre senhora teve logo de encurtar a mão sobre umas tantas despesas e tomar encomendas de engomagem e costura.
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Mas isso não bastava; o trabalho da mulher, por mais valioso que seja, é sempre estreito e mal recompensado. Embalde, mãe e pupila, puxaram heroicamente pela agulha e pelo ferro de engomar; embalde velavam grandes serões à luz de um bico de gás; nada chegava. Os recursos iam minguando de dia para dia, e a casa ia perdendo o ar próspero que até aí gozara.
Conchegavam­se os horizontes, e as duas mulheres estremeciam, sentindo já de perto o tossir impertinente da miséria e o terrível estalar das suas sórdidas moletas. Para onde fugiriam elas do espectro sinistro que se avizinhava a passos fúnebres? No deserto da sua pobreza não avistavam refúgio, nem uma só palmeira amiga, que de longe lhes acenasse, chamando­as à sombra hospitaleira.
E, assim, mais e mais se foram ambas retraindo. Fecharam­se às visitas que lhes pudessem acarretar a qualquer despesa; privaram­
se de tudo que não fosse restritamente indispensável. Em breve seria necessário, depois de vendidas as joias, arrancar do fundo da gaveta alguns desses objetos de valor, que às vezes certas velhas conservam como a última lembrança de um passado feliz.
Ah! é como se os arrancássemos do fundo do coração! Qual é a mãe, qual é a avozinha que não guarda, embrulhados em papel de seda, os brincos com que casou ou a medalha em que guardava o retrato do marido ou do filho? Quem não possui um desses legados da felicidade, que, por mais insignificante não represente toda uma existência extinta?...
Depois de vendido o piano, a mobília da sala de visitas e o mais que podia dar alguma coisa, D. Januária, na contingência de obter dinheiro, resignou­se à separação de poucos objetos de luxo que conservara do tempo do marido. Abriu a velha gaveta de sua cômoda, mas, ao tocar em uma caixinha de madeira polida, embalsamada pela antiguidade, as mãos principiaram­lhe a tremer e as lágrimas saltaram­lhe dos olhos.
Estava aí um colar de pérolas, que o marido lhe atara ao colo na noite do casamento. Nesse tempo ela era formosa, moça cheia de 73 de 371
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esperanças. Como assentavam bem aquelas pérolas na sua pele morena e fresca! mas como desmereciam de brilho e brancura, quando ela sorria e mostrava as outras pérolas da boca! Estas entretanto amareleceram e caíram, como as folhas no outono, e aquelas conservavam o mesmo brilho primitivo e a mesma sedutora alvura.
Ao ver esses objetos, testemunhas da sua extinta mocidade e cúmplice discretos da sua longínqua ventura, a pobre senhora transportou­se ao passado e ficou a meditar longamente. Que lhe restava de tudo isso?... Que ficou de tanto amor, de tanta beleza, de tanta juventude?...
— Nada! Só ela! Ela que, por bem dizer, já não existia!...
E, tomando nas mãos trêmulas os objetos que tirara da caixinha, beijou­os repetidas vezes, a abafar os soluços, para que Clorinda não os ouvisse da sala próxima.
— Mas é sempre certo que te tens de separar deles? perguntava­
lhe o coração, a gemer. Não reparas, velha desalmada! que esses objetos são a única coisa que te fala do passado? não reparas que em torno de ti já morreram todos aqueles que viveram no teu tempo, aqueles que te amaram e te viram bela?! Despede­os, vende­os, mas vai­te também embora para a tua cova, que nada mais tens de fazer cá no mundo!
Clorinda, que se aproximara da mãe, sem ser sentida, encontrou­a a gesticular neste mudo diálogo, a mexer com os braços e a sacudir a cabeça, desvairadamente, em grande transbordamento de lágrimas.
— Que é isto, mãezinha?! Que tem a senhora?!
A velha olhou­a com sobressalto, e guardou contra o seio despojado o cofre das suas estremecidas relíquias.
— Mãezinha! Valha­me Deus! Diga o que tem!
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A velha não respondeu e continuou a encará­la com desconfiança.
Havia desaparecido de seu rosto a doce expressão de bondade e ternura, e os olhos dela cintilaram com fúria.
Clorinda recuou, tomada de um grande terror. O vulto esquelético da mãe fazia­lhe medo naquele momento. A velha afastou­se, a olhar sempre desconfiadamente para os lados, e foi meter­se no canto mais sombrio da casa, abraçada à caixinha que levava consigo.
Clorinda não se animou a segui­la; a ideia de que a velha enlouquecera e fosse capaz de estrangulá­la no mesmo instante, atravessou­lhe o espírito e agitou­lhe o corpo inteiro num estremecimento de medo. Quis chamar por alguém, quis pedir socorro, mas nada lhe ocorria nesse momento; afinal, ouvindo no interior da casa os passos trôpegos de Januária, ganhou o corredor e atirou­se para a rua.
Já não era a mesma rapariga. Principiava a emagrecer e descorar. O trabalho exagerado e as noites de fadiga queimaram­lhe os olhos, ainda pouco antes tão transparentes; as faces secaram com o mau trato; a boca resfriou com a ausência do riso, que era a sua alma; e o rosto despiu­se daquela frescura virginal, como a flor sem sol perde o perfume e deixa pender tristemente seu cálice emurchecido.
Ela parou no meio da rua, atônita.
Era a primeira vez que se achava assim, em trajos de casa, às vistas brutais dos vizinhos e dos transeuntes.
Mas o que lhe competia fazer?! Para onde devia ir?! Ah!
Teve uma ideia Procurar o Dr. Roberto, contar­lhe o que se passara e pedir­lhe socorro.
Mas o Dr. Roberto morava no Rio Comprido, não sabia ela em que 75 de 371
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altura, eram mais de seis da tarde, faltava­lhe dinheiro para tomar um carro, e D. Januária precisava de cuidados imediatos.
E, nesta conjuntura, aguilhoada pelo pudor e pelo medo, encostou­se à parede da casa, e escondeu o rosto para que não vissem as suas lágrimas.
Neste estado sentiu que alguém lhe tocara no ombro, voltou­se rapidamente, e deu, face a face, com Júlia Guterres.
— Ah! disse a pobre menina.
— A senhora não é a noiva de Gregório? perguntou a outra.
— Sim, sou eu! Não me estranhe ver aqui! Mãezinha creio que enlouqueceu! Tenho medo. Veja como tremo!
— Como está mudada!... Mas o que tenciona fazer a senhora?
— Não sei! Não conheço as ruas, não conheço ninguém! Tenho medo de voltar. Se visse como ela está!...
— Sua mãe?
— Sim; está furiosa! Não sei o que faça!
— Quer ir comigo?
— Não tenho ânimo de abandonar mãezinha!
— Vamos buscar um médico?
— Pois sim. E a viúva chamou o primeiro carro que atravessou a rua e meteu­se dentro dele com Clorinda.
Mas logo depois de dobrar a esquina, Júlia fez parar o carro e gritou para aquele rapaz louro que vimos conversar em uma roda no café em que tocava a Menina do Bandolim:
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— Dr. Trovão! Dr. Trovão! tenha a bondade!...
E depois de falar­lhe em voz baixa, seguiram os três para a casa de D. Januária.
Anoitecia.
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VIII
AQUI ANDA COISA!
Não trocaram uma palavra durante a viagem. Clorinda, a um canto da carruagem, resfolegava dos sobressaltos que sofrera essa tarde; o Dr. Trovão meditava sobre o que lhe dissera a viúva; e esta, concentrada e triste, perdia­se a contemplar silenciosamente o rosto desfeito e sombroso da outra.
Não era somente o desejo de fazer bem a Clorinda o que a levara a oferecer­lhe serviços com tanta solicitude; havia nisso também uma parte de interesse próprio: a viúva precisava ouvir falar de Gregório.
O leitor, se algum dia se deixou absorver por um amor sem limites, e se, depois de haver resignado no objeto dessa paixão todos o condutos da felicidade e da paz, se viu constrangido a consentir que ele fugisse e que o deixasse, só, a braços com o desejo, que consome, e a braços com a saudade, que alimenta, deve ter notado que a essa dolorosa ruptura lhe sobreveio ao coração um desejar constante de ver e ouvir tudo aquilo que lhe recordasse o ente fugitivo e saudoso.
Nesse estado passamos a descobrir grande interesse naquilo que há pouco nos era alheio e indiferente. Parece que o coração, não podendo possuir inteiro o objeto amado, quer reconstruí­lo pelos fragmentos do seu ser espalhados pela natureza. E assim vamos apanhando, aqui e ali, tudo que lhe diz respeito, tudo o que o recorde, tudo o que revele um sinal da sua passagem. As palavras de alguém que o conhece e que teve ocasião de lhe falar, dão­
nos um prazer extraordinário. A simples presença de alguma pessoa que nos lembre a mulher amada, faz­nos pulsar com mais força o coração. A cadeira em que ela se assentava quando estávamos juntos, o espelho em que se mirava, endireitando os 78 de 371
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cabelos antes de partir, tudo isso nos fala do nosso amor e da nossa saudade, tudo isso nos transporta para as épocas felizes em que a possuíamos.
Júlia, com respeito a Gregório, estava justamente nesse caso. Desde que ele se ausentara, a desditosa viúva principiou a sentir­se atraída para tudo aquilo que lhe recordava o amante. Gostava de encontrar­se com o Dr. Roberto, procurava relacionar­se com alguns outros amigos de Gregório.
E nestas circunstâncias bem se pode calcular o interesse próprio que a levou a socorrer Clorinda.
Todavia, estava bem longe de imaginar a verdadeira situação da pobre menina. Ao ver de perto a dura miséria que a cercava, sentiu­se deveras comovida.
A casa parecia abandonada; não se ouvia ali o menor rumor. Salas sem trastes, paredes nuas, armários vazios, cozinha fria; tudo lhe dava o melancólico aspecto de uma velha casa sem dono.
Os três subiram afinal e foram encontrar a velha Januária estendida no chão do mesmo quarto em que a deixara a filha adotiva.
Estava imóvel, com a cabeça pendida para o lado esquerdo e com os braços cruzados sobre o peito, apertando contra ele a caixinha das joias Descobria­se­lhe a vida somente por um esforço, quase imperceptível, que fazia o corpo para respirar.
Os três aproximaram­se dela, e a velha, ao sentir o médico segurar­
lhe um dos pulsos, tentou gritar e apertou mais a caixinha contra o seio.
Clorinda contou as circunstâncias que precederam àquela crise.
— Compreendo! disse o facultativo, não resistiu à provação! Pobre criatura!...
E, depois de examiná­la por algum tempo, declarou que só um tratamento muito sério a podia salvar.
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Clorinda não respondeu, e as lágrimas correram­lhe dos olhos.
— E se fossem lá para minha casa?... lembrou a viúva com muito interesse.
— Iríamos incomodá­la, respondeu Clorinda no auge da aflição.
— Aqui é que ela não se poderá curar, observou o Dr. Trovão, se não vier alguém ao seu auxílio.
— Eu ficarei com ela... disse Clorinda.
— Mas V. Exa. não precisa menos de tratamento. Se não tomar cuidado não lhe dou muito tempo para cair de cama.
— Nesse caso aceito, pelo menos até que mãezinha se restabeleça, concordou afinal a menina, com o ar acanhado de quem se vê na dependência dos obséquios de um estranho.
— Pois a mudança se fará hoje mesmo, e o doutor irá visitá­la com regularidade.
O Dr. Trovão receitou, tomou nota do número da casa da viúva e saiu, prometendo mandar imediatamente alguém que se encarregasse de transferir para lá a doente e cuidar do mais que fosse necessário.
Nesse mesmo dia D. Januária e a filha ficaram aboletadas no pitoresco chalezinho da Tijuca em que morava Júlia.
Clorinda comunicou o ocorrido ao Dr. Roberto e pediu­lhe que aparecesse para ver a enferma. D. Januária só no dia seguinte voltou a si, mas ainda com muita febre e fraqueza de razão. Uma semana depois apareceu João Rosa; Clorinda o recebeu com frieza. Falaram vagamente sobre vários assuntos, mas, logo que a conversa se encaminhava para o casamento, ela a desviava como por instinto. João Rosa, porém, não desistia e continuava de pé firme no seu propósito.
Júlia, considerando o estado desvantajoso de Clorinda, achava 80 de 371
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aquela insistência extraordinária em um homem que não parecia talhado para os sacrifícios e para a dedicação. O ar aventureiro de João Rosa, o seu olhar cobiçoso e móbil, a sua boca apertada e quase sem lábios, o seu todo furão, seco, inquieto, não podiam esconder um coração terno e generoso.
A viúva desconfiou dele, foi talvez a primeira que se atreveu a suspeitar das intenções de João Rosa. Até aí, à exceção do Dr. Roberto, todos os mais censuravam a rapariga por não aceitar o novo partido que se lhe oferecia.
— Mas, que levará este homem a desejar com tanto interesse a mão de Clorinda?... pensava a viúva. Por que a ama?... não é possível; aquele tipo não ama senão o dinheiro! Será por capricho? Não! porque os entes tacanhos não têm caprichos!...
E Júlia, por mais tratos que desse ao espírito, não conseguia descobrir coisa alguma.
Uma vez, sem querer, ouviu na própria casa, o seguinte diálogo, travado entre ele e Clorinda:
— Posso então ter ao menos uma esperança? perguntava João Rosa.
— Mudemos de conversa... respondeu ela.
— Não! A senhora hoje vai dar­me uma resposta. Já esperei por muito tempo.
— Pois a resposta é que não. Não o aceito para marido!
— Mas reflita um pouco, D. Clorinda... Lembre­se da posição falsa em que se acha... Não seria melhor que, em vez de chegarem as coisas a este extremo, tivesse a senhora resolvido a casar comigo e assim evitado vir morar aqui nesta casa por obséquio?... Não lhe parece que eu lhe poderia proporcionar uma existência mais segura e mais definida?...
— Mas é que eu não quero casar com o senhor!
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— E por quê? Por que me não ama?!
— Não é só isso. Tenho­lhe amizade, mas não me posso casar com o senhor.
— Mas por quê?...
— Porque já estou comprometida. Meu noivo desapareceu, mas, enquanto não me constar a sua morte, só a ele pertenço.
— E se nunca lhe constar semelhante coisa?!
— Paciência!...
— Pois eu não desanimo! Esperarei! esperarei sempre! retorquiu João Rosa com firmeza.
— É o que digo! considerou a viúva. Anda nisto qualquer segredo, que obriga aquele homem a perseguir Clorinda.
E a viúva tinha razão. João Rosa era muito da casa de D. Januária e fazia o possível por agradar a Clorinda, quando apareceu Gregório e com este a sua completa derrota.
Se até aí a rapariga pouco se lhe mostrava propensa, quanto mais depois da chegada do novo pretendente; virou­lhe as costas por uma vez, voltando­se abertamente para o outro. João Rosa ficou furioso; mas, como não era homem de desistir ao primeiro obstáculo tratou de retirar­se e preparar traiçoeiramente as armas para um combate sem tréguas.
Gregório mal podia desconfiar de semelhante coisa, e continuava a cultivar a flor, donde esperava colher o fruto saboroso da sua felicidade. Não faltava uma noite à casa da noiva e aí passava horas da mais doce e tranquila esperança.
Clorinda agradava­lhe por todos os motivos. Era bonita, simpática, tinha bom coração e parecia muito inteligente; não seria por conseguinte de esperar que desse de si uma dessas mulheres caprichosas, cheia de exigências, sequiosas de luxo e atrofiadas 82 de 371
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pela vaidade. Uma vez colocada no lar, daria com certeza um belo modelo de virtudes domésticas e conjugais.
Afinal pediu­a, e, como D. Januária guardasse sobre a procedência da filha adotiva o mais rigoroso sigilo, ele por seu lado se absteve de indagações, e guardou para mais tarde qualquer deslindamento. Sabia, entretanto, que a noiva não era filha de D. Januária e sim de uma senhora de Pernambuco, cujo nome nunca lhe disseram.
Ora, o motivo daquelas reservas da velha, já o leitor sabe qual é, nada mais, nada menos, que a bigamia do Leão Vermelho, isto é, do pai de Clorinda e de Gregório, como bem se viu pelas confidências que a este fez o conde no seu palacete da Tijuca.
Ficou todavia marcado o casamento, e os noivos pareciam nada mais esperar do que o dia feliz da sua união.
Amavam­se e amavam­se deveras. Mas, João Rosa não dormia; a princípio lançara mão de meios pequeninos para afastar Gregório de Clorinda; escrevia cartas anônimas, metia em circulação certas notícias escandalosas, que pudessem provocar a desconfiança da parte de D. Januária e mais tarde da noiva. Mas nada disso produziu efeito.
Os dois moços continuavam a amar­se mutuamente, alheios a tudo que se agitava em torno deles; tinham os olhos cravados no disco luminoso da sua felicidade, e o clarão que daí vinha os ofuscava tanto que lhes não deixava perceber mais nada.
João Rosa estudou com paciência o talho da letra do rival, e com tal jeito se houve em falsificá­la, que conseguiu enganar à própria polícia, e, o que é mais extraordinário, à própria viúva Júlia, que de muito se havia já familiarizado com as cartas de Gregório.
O leitor deve lembrar­se daquela carta amorosa, dirigida fantasticamente por Gregório à Menina do Bandolim, e que mais tarde figurou nos autos policiais. Pois essa carta era produto daquela espécie.
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Gregório nunca dispensara à Menina do Bandolim mais do que certa simpatia respeitosa, inspirada pelo desejo de perseguir o barão, que a requestava, e talvez um tanto pelo seu espírito romântico, sempre propenso a intervir no que tivesse ressaibos de fantasia. A João Rosa não escaparam as poucas vezes que ele se encontrara e conversara com tal menina, e procurou tirar disso algum partido. Daí a carta; carta, que nunca chegou às mãos da pessoa a quem era dirigida, mas que foi maquiavelicamente parar em poder do chefe de polícia. Nada disso, porém, tem valor algum ao lado do que ainda produziu o espírito perverso e ambicioso de João Rosa.
Antes do aparecimento de Gregório em casa de D. Januária, já ele o conhecia de vista no comércio e sabia de seus negócios; de sorte que, começando depois a persegui­lo na sombra, sabia perfeitamente o rumo dos passos do inimigo e fazia com mais segurança as pontarias do seu ódio.
Mas, ainda assim, nada conseguiu; Gregório parecia protegido por mão misteriosa que o afastava de todos os perigos. Nestas circunstâncias viu João Rosa chegar a véspera do casamento e teve ímpetos de cometer tudo para destruí­lo; lembrou­se dos maiores disparates, pensou em assassinar Gregório, mas faltou­lhe para tanto resolução e coragem.
Na impotência suprema deste desespero, o vaso veio protegê­lo, permitindo que fosse ele um dos primeiros contempladores da vítima assassinada perto dos armazéns de rapé de Paulo Cordeiro. João Rosa sabia perfeitamente que Gregório estava muito a par do dinheiro, que na véspera entrara para aquela casa, dando lugar ao crime; e, como pouco antes havia intencionalmente subtraído o anel de Gregório, sem contudo saber ainda que partido tiraria dele, colocou­o ao lado do morto e tratou em conversas de encaminhar as suspeitas para o dono da joia
E, como isso talvez não chegasse a tempo de transformar as núpcias, enviou logo uma denúncia ao chefe de polícia, e correu para a casa da noiva com a ideia de preparar por lá o terreno.
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Calcule agora o leitor qual não foi a princípio o seu contentamento, quando viu que Gregório não aparecia, e depois qual não foi a sua surpresa, ao saber que o rapaz não fora apanhado pela polícia e que desaparecera, sem que ninguém soubesse explicar por que e para onde.
Mas qual era o motivo que levava João Rosa a desejar com tanta insistência unir­se a Clorinda?!
O amor não podia ser! como observou já a viúva. Que seria pois?
Eis o que convém quanto antes pôr às claras:
João Rosa, de seu natural curioso e bisbilhoteiro, logo que se deu em casa de D. Januária, ficou mordido de interesse por descobrir donde vinha aquela estranha e gorda mesada, com que ela e a pupila subsistiam tão decentemente. E desde então não descansou. Era preciso descobrir a fonte daquele mistério ou ele ficaria devorado pela curiosidade. Mas o pior é que a velha, por mais que fizesse o bisbilhoteiro, nunca deixava escapar uma única palavra que o encaminhasse no segredo.
João Rosa indagava para todos os lados, espiava de esguelha as gavetas, apanhava sorrateiramente os fragmentos de papéis que caíam no chão, quando em sua presença D. Januária abria qualquer carta. Mas nada conseguia. Afinal, depois de muito excogitar, chegou a descobrir o portador da mesada: era um português velho e gordo, proprietário de um pequeno armazém de secos e molhados para os confins da rua da Quitanda. Meteu­se de amizade com o homem, e tanto fez, tanto virou, que conseguiu enfim saber que aquele dinheiro era enviado pelo próprio pai de Clorinda, que vivia em Portugal e passava por morto no Brasil, em virtude de umas tantas coisas que ele narrador ignorava.
E terminou declarando que esse tal sujeito de Portugal era homem de grande fortuna e havia naturalmente de legá­la à única filha que possuía — Clorinda.
Tanto bastou para acender no onzenário coração de João Rosa a 85 de 371
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cobiça daquela menina, E, quando mais tarde veio a saber que o Leão Vermelho falecera em Portugal com o nome de João Brasileiro, deixando um único herdeiro existente no Brasil, justamente como disse o conde a Gregório, João Rosa, que ignorava a relação deste com o falecido, guardou o seu segredo contra D. Januária e Clorinda, e tratou de, a todo transe, apoderar­se da suposta legatária.
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IX
O COMENDADOR PELO AVESSO
Tratemos agora de esclarecer os verdadeiros trâmites do crime, de que foi injustamente suspeito o pobre Gregório, e puxemos às vistas de quem nos lê a figura do seu principal autor e a daqueles que lhe serviram de cúmplices.
Deve ainda estar lembrado o leitor de dois tipos de meia­idade, que dialogavam no café da Menina do Bandolim e, tão empenhados se achavam no assunto de sua conversa, que só resolveram levantar o voo, quando lhes foi dizer o dono da casa que desejava fechar as portas. Um desses dois tipos, justamente o que parecia mais moço, estava há muitos anos ao serviço do comendador Portela. Chamava­se Pedro Sarmento e era na sua roda conhecido pelo cognome de Talha­certo. Fora na infância aprendiz marinheiro, depois serviu na guerra do Paraguai, como voluntário do exército, e, afinal, sem profissão, nem padrinhos, caíra na dependência do comendador, a quem servia de guarda­
costas.
O comendador Portela tinha hábitos muito especiais, muito seus; hábitos de viver na intimidade, totalmente oposto àquelas jactâncias que lhe vimos blasonar em casa de D. Januária.
No privado de sua casa era outro homem. Despia­se então das fumaças da rua e dava­se todo ao prazer de estar às soltas com o criado. Aí não armava posições, não peneirava a frase, não lembrava a sua importância social, nem as suas franquias de homem rico; ao contrário, parecia farejar o que houvesse de mais banal e de mais decotado para lhe servir de palestra com o fâmulo.
E, uma vez achado o fio do assunto, espojava­se nele, 87 de 371
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voluptuosamente, como se quisesse refocilar das fidalgas que lhe impunha o seu artificioso viver social.
Ele, que nas salas, ao ouvir falar da quebra do banco tal, da falência deste ou daquele negociante, do bom ou mau êxito de tais e de tais empresas, sacudia sempre os ombros com desdém e dizia entre dentes que tudo isso eram “Bagatelas! Bagatelas!”; ouvia, entretanto, com muito interesse as frioleiras que à noite, ao despi­lo para a cama, lhe contava em camaradagem o seu Talha­
certo. E, quando mais frívolo era o assunto, tanto mais ele o esmiuçava, o esmerilhava, interrompendo­o com perguntas curiosas, e fazendo exclamações de surpresa, e obrigando o criado a repetir o fato com mais minudência e convicção.
Depois atirava­se à cama e, todo retraído nos lençóis e abraçado aos travesseiros, deixando só de fora o seu carão afogueado, provocava Talha­certo a novos esclarecimentos, e saboreava as palavras do criado com um gosto pueril de criança mexeriqueira.
O Talha­certo, que já lhe conhecia as manhas, dava­lhe a lambiscar somente coisinhas lisonjeiras e, com muita adulação, arranjava sempre meios de incensar o vaidoso. Ora lhe contava o que a seu respeito lobrigara de tal dama; ora referia um fato ridículo de algum sujeito, que pretendesse competir em fortuna com o Portela; ora, finalmente, tirava ele mesmo do turíbulo e passava a defumar o patrão por conta própria.
E estes pequeninos encômios, obscuros e sem garantia, punham no mal­educado coração do comendador um prazer delicioso.
— Então o tal sujeito gostava de me ouvir falar, hein, Talha­certo?...
— O quê?! ficou abismado! disse que vossemecê falava que nem um padre!...
— Deixa­os lá! Ainda não ouviram nada!...
— Não! Mas olhe que vossemecê tem um modo às vezes de dizer as coisas, que faz a gente ficar mesmo pasmado!
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— Achas, Talha­certo?...
— Não sou eu só quem acha, são todos!
— Coisas!
No dia seguinte, Portela envergava a sobrecasaca, metia­se no chapéu alto de castor, enfiava as luvas, tomava a bengala de castão de ouro e, quando ganhava a rua com o seu passo arrogante, a sua grande figura aprumada e sobranceira, ninguém seria capaz de adivinhar que ia ali a mesma tola criatura, que adormecera na véspera a babar­se com os gabos de um criado inepto.
Também era só o Talha­certo quem desfrutava as privanças do comendador e quem lhe devassava tais fraquezas de intimidade; para os mais era Portela o mesmo personagem cioso da sua “alta estimação” e da sua “irrecusável valia”.
E quem precisasse obter qualquer coisa das mãos dele, nunca a alcançaria senão por intermédio do seu privado. Mas, em compensação, com esse tudo se obtinha, desde uma simples carta de fiança até ao melhor empenho para qualquer ministro.
Foi em uma daquelas conversas pueris que o comendador veio a saber que Pedro Ruivo estava no Rio de Janeiro.
— Pedro Ruivo?! exclamou Portela, saltando da cama e desfazendo o semblante piegas, com que costumava ouvir as confidências do criado. Pedro Ruivo?! Não estás enganado, Talha­
certo?
— Não estou, não senhor. Era ele em pessoa; apenas tinha as barbas mais crescidos e a cabeça mais calva. Quando o vi, reconheci­o logo, por aquele sestro antigo de sacudir a cabeça para a esquerda ...
— Ora esta! rosnou o comendador.
— Quando digo que vossemecê me devia ter deixado aviar com 89 de 371
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uma boa navalhada aquela peste!... Escusava agora de o ter de novo pela proa, porque o demônio é muito capaz de lembrar­se ainda do passado e...
— Tens razão! interrompeu o Portela, muito preocupado; precisamos desembaraçar­nos de semelhante homem! Só a ideia de que o posso encontrar na rua e sofrer dele qualquer desfeita, faz­me perder a cabeça!... Olha cá!
E chegando­se mais para o criado, passou­lhe o braço no ombro e perguntou­lhe brandamente, quase com ternura:
— Tu és capaz de desempenhar uma comissãozinha de que te quero encarregar?...
— Sempre fui. Adiante!
— Trata­se de despachar o Ruivo, mas de modo que ninguém venha a suspeitar de ti, e muito menos de mim...
— Já se vê!...
— Mas onde o terás a jeito?!
— Isso indaga­se! Sei que ele é empregado dos armazéns de rapé de Paulo Cordeiro.
— Mas como se arranjará o negócio?... compreendes que estas coisas não se podem fazer no ar...
— Deixe tudo por minha conta!
— Que tencionas fazer?...
— Não se importe com isso! Amanhã mesmo falo ao Tubarão.
— Mau! Já queres tu meter mais um na história!... O melhor seria fazeres tudo por ti ...
— Mas eu posso lá deixar de falar ao Tubarão?!... Vossemecê bem 90 de 371
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sabe que nada fazemos sem combinarmos primeiro os dois. Foi o nosso trato! Nada! juramos sobre as Horas Marianas! Quando ele tem qualquer coisa, diz­me logo, e quando eu tenho, também lhe digo! Não! não sou homem de tratar uma coisa e fazer outra! O trato é trato!
— É o diabo! É mais um que fica sabendo da coisa!...
— Quem?! o Tubarão?! Ora, senhor! Então vossemecê não sabe o que está ali! Aquilo é fazenda muito boa! Não! por esse lado não tenha receios! O Tubarão é coisa séria: dali não sai um pio quando é preciso guardar segredo!
— Vê lá o que vais fazer!...
— Deixe tudo por minha conta, já lhe disse! Descanse que tudo se fará, com a ajuda de Deus!
O comendador acabou por concordar, e Talha­certo, na seguinte noite, encontrou­se com o companheiro à mesa do café de Java, como já sabemos.
Esse companheiro era o Tubarão, um marinheiro reformado, sujeito corpulento e vigorosíssimo, por cujo ar modesto e pacífico ninguém calcularia que estivesse ali o homem de maior força muscular do Rio de Janeiro. Contavam dele muitas façanhas, que deixavam em grande distância as do Nogueira lutador e de outros famigerados pulsos, dos quais rezam algumas costelas e vários narizes a mais imperecível das memórias.
De uma feita, o comendador Ascole e o Dr. Figueiredo Magalhães, que sentiam pelo Tubarão o interesse que experimentamos por um belo fenômeno, quiseram medir­lhe toda a extensão da força de um dos seus socos e para isso puseram à disposição dele um desses dinamômetros, vulgarmente conhecidos pelo nome de “Cabeça de turco”.
O Tubarão negou­se a princípio, sorrindo com o seu ar de bondade ingênua, mas, instigado pelos outros, deu um passo atrás, recolheu 91 de 371
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vagarosamente o braço e depois disparou com este um formidável murro contra a almofada de marroquim.
Ouviu­se apenas um ranger e estalar de ferros. E a balança caiu aos pés do Tubarão, em pedaços.
De uma outra vez, querendo Tubarão arrancar um gancho da parede, pôs­lhe a mão e puxou; mas o gancho estava bem seguro e fez resistência. Tubarão firmou um pé contra o muro e empregou toda a força. Veio o gancho afinal, mas Tubarão havia varado a parede com a perna.
Como esses, mil outros fatos diziam a riqueza dos seus músculos; contudo, não havia homem que menos gostasse de brigar. Sofria às vezes em silêncio as mais grosseiras provocações, aconselhava quase sempre ao adversário que o deixasse em paz e recorria a todos os meios para evitar o choque; até que por fim lhe faltava a paciência e com um murro mandava o provocador passear a dez metros de distância.
As suas relações com o Talha­certo vinham de certa vez em que Tubarão o encontrou no meio de seis urbanos, a tomar bordoada de todos eles. Meteu­se logo no barulho, escudou com o corpo o que apanhava, e despediu os outros a pontapés.
Desde então ficaram amigos. Todavia muito se dissimilavam no caráter: Talha­certo era mau, tinha maus instintos, gostava de perseguir, abusava da navalha e vendia­se para qualquer crime; o outro não: arriscava­se quase sempre para socorrer alguém; ressentia­se, é verdade, do meio em que vivia ultimamente e da falta de educação, mas era dedicado e susceptível de brio.
O companheiro, sabendo que ele nunca abanava as orelhas quando qualquer colega pedia o seu auxílio, contava com esse apoio certo, e tal confiança o tornava mais atrevido e mais impertinente.
— Mas o que quer você de mim?... perguntara Tubarão ao outro, naquela noite em que os vimos a conversar no café de Java.
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— Quero que você me ajude...
— Em quê?...
— Na função do Pedro Ruivo!
— Ah! O Pedro Ruivo está aí?! Ora até que afinal o vou pilhar às direitas! Deixa estar que não me escaparás esta vez, grande velhaco!
Estas exclamações do Tubarão significavam que entre ele e o Ruivo havia sem dúvida contas velhas a ajustar.
— Sim! disse o Talha­certo; mas o patrão quer ver­se livre dele por uma vez!
— Quer que o mates? perguntou o outro.
— É! Falou­me nisso. Você sabe que o Ruivo tem em seu poder aqueles documentos do comendador e pode pregar­lhe alguma peça!...
— Mas tomam­se­lhe os documentos, e não é lá preciso matar o pobre diabo!...
— Como não é preciso?... Você sabe quem é o Ruivo! Homem, quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre!...
— Não é tanto assim. Pode arranjar­se tudo sem sangue! Eu me encarrego de arrancar­lhe os documentos! Deixe­o comigo!
— Isso não basta! segredou­lhe o Talha­certo. Se lhe estou a dizer que o comendador se quer desfazer daquela bisca! — Pois então vá você e mais seu patrão para o inferno! Cá por mim não vejo necessidade alguma de matar aquele pedaço de asno!
— Ah! Eu cuidei que você ainda era o mesmo para ajudar os companheiros!... Neste caso, porém, fica o dito por não dito! Ora adeus!
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— Espere, homem! Eu estou disposto a ajudá­lo! Você bem sabe que nunca desamparei os amigos! Mas, com os diabos! o que não vejo é necessidade de matar ninguém! Se a gente só precisa dos papéis, para que lhe dá de tirar também a vida?!...
— Para maior segurança! Mas uma vez que você põe dificuldades, já cá não está quem falou! Não se trata mais disto!
— Não! eu vou! Vou para o que der e vier, porém achava melhor não sangrar o sujeito...
E quando os dois súcios se levantaram da mesinha do café, estavam perfeitamente combinados.
Pedro Ruivo costumava sair às seis e meia do trabalho, Talha­certo sabia a direção que ele tomava sempre e iria esperá­lo no melhor ponto para um ataque. E estava convencido de que uma vez assassinado o Ruivo, os tais documentos, presumidos em seu poder, perderiam todo o valor, porque só por ele podiam ser explorados.
Antes, porém, de pormenorizarmos o resultado daquele conchavo, temos que dizer alguma coisa a respeito de Tubarão.
Leão Vermelho, ainda no começo da sua carreira marítima, distinguia, a bordo da corveta em que estava, um grumete de dezesseis anos, vivo, dedicado e forte; quando mais tarde Leão Vermelho ganhou as suas dragonas de 1º tenente e mudou de navio, levou consigo o rapaz e tomou­o para seu criado.
Nunca mais se separaram, até que o oficial, cansado de vagar pelo oceano, requereu reforma, arranjou um lugar em terra, na cidade do Porto, e casou pouco tempo depois com a irmã bastarda do conde de S. Francisco, Cecília, a filha da interessante professora Helena, de quem já falamos.
Para o leitor não é também novidade saber que, do consórcio de Leão Vermelho com a filha de Helena, resultou o nascimento de Gregório.
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Por esse tempo Leão Vermelho era ameaçado de perder o emprego e correu para a capital, com a intenção de colocar­se sob a proteção imediata do ministro da marinha. Nada obteve; e, em um assomo de raiva, arrancou as dragonas e fez delas presente ao monarca, pedindo que lhe desse quanto antes a demissão da armada. Nisto foi logo atendido. E então, desempregado e tendo de prover a subsistência da família, resolveu aventurar­se na marinha mercante e partir para o Brasil.
Antes, porém, era preciso dar um pulo ao Porto, tranquilizar a mulher e abraçar o filho. Não gastou muito tempo com isso, e, já na ocasião de partir, a bordo, no segredo do seu beliche, abraçou o seu antigo criado, aquele que nunca o abandonara, e disse­lhe com os olhos cheios d’água:
— Tubarão! confio­te minha mulher e meu filho; não os percas de vista. Sei que és louco pelo pequeno e isso faz­me partir tranquilo
Aproximou­se mais dele e disse­lhe depois, em segredo, alguma coisa que o fez estremecer ligeiramente.
— Pode ir descansado, capitão! respondeu o ex­grumete, prometo que cumprirei as suas ordens!
— Então toma lá! é o presente que te deixo...
E passou­lhe um embrulho que tirou do bolso.
— Obrigado! disse Tubarão, ao examinar o objeto recebido.
Era uma boa navalha de marinheiro.
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ALGAS
Tubarão deixou a bordo o seu antigo comandante e voltou cabisbaixo e triste para casa. As últimas palavras que lhe segredara Leão Vermelho, obrigavam­no a cair em meditações de sabor estranho e amargo.
— Não! não é possível!... resmungava ele consigo. O capitão não tem razão! são desconfianças! não pode deixar de ser!...
Podia lá acreditar que a Sra. D. Cecília, tão meiga, tão simples, fosse capaz disso?!... Não! definitivamente o capitão não tinha a cabeça no lugar quando lhe recomendou que vigiasse a mulher!...
E, desta forma, ia o Tubarão, caminho de casa, a gesticular consigo no seu monólogo.
Nesse tempo teria ele vinte o oito anos. Era então uma bela estampa, destro e rijo, afeito aos temporais e às duras fadigas do oceano. A vida do mar dera­lhe à fisionomia esse ar contemplativo e doce que se nota quase sempre nos marujos, como se lhes acumulasse no semblante o ressaibo das velhas saudades da pátria e dos amores que ficam em terra.
O marinheiro é fatalmente generoso e bom; ama os seus semelhantes, porque os não conhece; entre eles se antepõe o oceano, onde não chegam intrigas e paixões mesquinhas. E o imponente aspecto do mar fortalece e alarga o coração; a alma forma seus horizontes pelos horizontes que os olhos avistam.
Tudo mar! Tudo céu! Qual é aí o monumento que nos denuncie o prestígio enfermo de algum monarca, a quem a inconsciência entregou um cetro e ergueu um trono? Qual o mausoléu que nos diga a importância da vaidade de algum nababo submergido 96 de 371
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naqueles inóspitos desertos? Qual é o conquistador que tem lá a sua estátua? qual é a religião que tem lá o seu templo? qual o déspota que tem lá o seu cada­falso?!
Nada! O velho monstro antediluviano não admite prerrogativas; eternamente indomável e altivo não quer que no seu dorso se ergam capitólios e oblações. E é dessa austera independência que o mareante forma o seu caráter e o seu coração. Forte como o mar, brando como as águas, ele maneja tão bem os segredos do ódio, como regula e dirige os impulsos da dedicação e do sacrifício.
Ninguém ama com tantos desvelos, mas também ninguém odeia com tanta impetuosidade.
Para o Tubarão semelhantes leis tinham aplicação muito justa. Ele era homem de arriscar a vida pelos seus amigos e de arrancá­la brutalmente àqueles que os traíssem. Então pelo seu ex­
comandante, que não seria capaz de fazer?! Leão Vermelho representava para Tubarão um ídolo sagrado; a solidariedade nos perigos e nas canseiras do mar identificara aquelas duas almas, ásperas e compassivas ao mesmo tempo.
Depois que os dois abandonaram o navio e se foram refugiar tranquilamente à sombra da família, o marinheiro sentiu­se possuído de grandes nostalgias: faltavam­lhe as melancólicas sestas que ele outrora desfrutava à proa, cantando à guitarra ao lado dos companheiros, enquanto o sol, ao longe, descambava no poente, atufando­se nos limbos afogueados do horizonte.
E o marinheiro em terra, como a ave que arrancaram do seu bosque, entristeceu e principiou a depor a substância de sua dedicação aos pés da esposa do comandante. Amava­a com um respeito religioso, uma quase adoração. Vivia preocupado a afastar de em redor dela tudo aquilo que de leve a pudesse contrariar.
Durante o tempo em que Cecília estava para dar à luz Gregório, só o dedicado marinheiro sabia corresponder às exigências e aos 97 de 371
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caprichos da enferma. Procurava cercá­la de distrações, como se ela fosse uma criancinha doente; cantava­lhe as modas de sua terra, naquela toada monótona dos marujos e, muitas vezes, como estivessem no verão, iam espairecer um pouco para o terraço, e aí o marinheiro contava as lendas melancólicas do mar, onde fugiram louros príncipes encantados que vão prear sereias nas costas da Normandia. Falava­lhe das brancas miragens que, em noites de luar, flutuam pelas águas, e entre as quais o navegante apaixonado descobre o vulto estremecido da mulher amada.
Cecília, com os olhos presos no céu, os lábios mal cerrados, e toda ela ressentida da profunda ternura que a gravidez traz consigo, ficava embevecida a ouvir as histórias do marujo. Um dia perguntou­lhe se ele nunca tivera também o seu amor.
Tubarão não respondeu, coçou a cabeça, e depois limpou com as costas da mão duas lágrimas, que lhe corriam pelas faces tostadas do sol.
— Conte­me antes a sua história... pediu Cecília com a voz quebrada; teria prazer em ouvi­la. Vamos! Conte a história dos seus amores...
— Não, patroazinha! Marinheiro não tem amores... Pobre de nós se nos fica o coração cá em terra, quando temos de embarcar. Às vezes, no dia em que saltamos em um porto estranho, sem conhecer ninguém, sem encontrar um rosto amigo, lá vemos entre a multidão os olhos formosos de alguma mulher que nos cativa, levamos a saudade para bordo; são mágoas para toda a viagem!
— Mas você comoveu­se ainda há pouco, Tubarão, quando lhe falei nos seus amores...
— Lembrei­me de minha mãe! A pobrezinha chorava quando eu parti, e ninguém lhe tirava da cabeça que ela nunca mais me veria...
— E depois?
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— Quando voltei à minha aldeia, já ela estava no cemitério. O vigário mostrou­me a sepultura: era no chão, debaixo de uma grande árvore, perto da capela...
— E o que fez você?...
— Eu ajoelhei­me e rezei as orações que ela me ensinara, quando eu era pequenino. Depois, como o serviço me esperava a bordo, às pressas colhi as flores que havia por ali, espalhei­as sobre a sepultura, e voltei para o trabalho. Fui muito triste; era tão boa aquela velhinha!...
À proporção que corria o tempo, ia Tubarão mais e mais se afeiçoando a Cecília. Só os homens do mar, essas almas ingênuas e criadas longe da terra e ao correr franco dos ventos, conhecem os mistérios do amor desinteressado e heroico Para o marujo, a mulher aparece por um prisma muito melhor do que para os outros homens; pois só lhe conhece ele a influência feminil e doce por intermédio da saudade: a mulher é sempre para o marujo um ente adorável, que se deve amar de joelhos. Um sorriso de seus lábios cor­de­rosa é o bastante para prostrar o leão valente, que pouco antes afrontava a fúria dos vendavais e a sanhuda cólera dos mares.
Tubarão estava nestas circunstâncias a respeito de Cecília, quando o capitão, ao partir para o Brasil, lhe segredada aquelas palavras que o fizeram estremecer.
O marinheiro chegou à casa possuído de grande pesar. Seria possível que o seu comandante tivesse qualquer razão para dizer aquilo?... Não! não era possível!...
Mas o pobre marujo, disposto a seguir os passos da patroa, como lhe ordenara o amo, tinha mais tarde de sofrer as mais dolorosas das decepções.
Quando Leão Vermelho partiu para o Brasil, seu filhinho Gregório tinha apenas dois anos. Tubarão, que, ouvia da criança os primeiros vagidos, foi por tal forma lhe tomando carinho, que 99 de 371
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acabou por fazer dela toda a sua preocupação e todo o seu enlevo.
Passava horas esquecidas com o pequenito ao colo ou a brincar com ele, a suspendê­lo no ar e a rolá­lo entre as suas grossas mãos. O bebê desfazia­se em risadas com o marinheiro e puxava­lhe as barbas, na sua infantil e graciosa irracionalidade.
Assim, quando o amo chegou a partir, já o pobre homem estava preso àquela gente por uma amizade sem limites, cuja transparência só as palavras do comandante, segredadas a bordo, vinham toldar pela primeira vez.
Todavia era forçoso obedecer. O marinheiro principiou então a seguir os passos de Cecília, sem jamais a perder de vista; os menores gestos da senhora, a mais leve alteração do seu humor, tudo o marujo observava com cuidado e reserva.
Um dia achou­a sumamente triste e concentrada. À mesa não dera Cecília uma palavra, e à noite, depois de passar longas horas fechada no quarto, apareceu com os olhos inchados e vermelhos. O próprio filho, nesse dia não conseguiu distraí­la; ela, ao contrário, parecia não lhe poder suportar os gritos e as travessuras.
— Vossemecê sente alguma coisa, D. Cecília?... perguntou­lhe o Tubarão, quando a pilhou de jeito.
— Estou nervosa! respondeu ela, afetando desprendimento.
— Hão de ser as saudades do capitão! aventou o marinheiro, torcendo nas mãos o seu pesado gorro de baeta azul.
Aquela observação perturbara sobremaneira a rapariga e trouxera­lhe às faces uma leve cor­de­rosa.
— Há seis meses que ele se foi... acrescentou Tubarão, com os olhos baixos e o semblante entristecido. Seis meses? Quase sete. Ora espere! (E depois de contar pelos dedos.) É isso, são seis meses e dezoito dias...
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— Deve ser isso mesmo! disse Cecília, quase com impaciência
E os dois calaram­se, sem encontrar mais nada para dizer.
— Vossemecê precisa de mim para alguma coisa?...
— Não. Podes recolher­te quando quiseres. Não preciso hoje de companhia.
O marinheiro afastou­se, sacudiu os ombros, e foi para o seu quarto; mas não pôde conciliar o sono: a insólita preocupação da patroa e as recomendações do comandante tiravam­lhe o sossego do espírito.
— Não! dizia ele de si para si. Não, não é possível! Além disso, com quem?... Aqui só aparece o velho capitão Rego e outros tão inofensivos como este! Ela pouco sai!... Onde, por conseguinte, poderia apanhar uma relação que autorizasse aquelas palavras do comandante?... Não! definitivamente o que ela tem são saudades do marido! Nem podia ser de outro modo! Sete meses não são sete dias, coitada!
E a fazer destes raciocínios, o Tubarão virava­se de um para o outro lado da sua maca de lona, sem conseguir dormir.
Deram onze horas, doze, uma; e nada! O sono não queria chegar. Tubarão levantou­se, ia acender um cigarro, mas, antes de riscar o fósforo, sentiu rumor de passos no jardim.
— Olé! disse consigo. Há mais quem não consiga ficar na cama?... Ora, vamos ver quem é o meu companheiro de insônia...
E, com muito cuidado, espreitou pela janela de modo que não fosse percebido.
Efetivamente, um vulto negro, que parecia de homem pela estatura, acabava de saltar a grade e se dirigia para um maciço de verdura, justamente por debaixo das janelas de Cecília.
O marujo sentiu o coração agitar­se­lhe por dentro, como se 101 de 371
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quisesse saltar­lhe pela boca. Tremeram­lhe as pernas, faltou­lhe quase a respiração, e a pele crispou­se­lhe toda em um calafrio de febre.
O vulto chegara à janela de Cecília e roçara levemente a ponta da bengala pelas gelosias fechadas.
O marinheiro espiava, com uma ansiedade crescente. À semelhança dos náufragos que, sentindo escaparem­lhe os meios de salvamento, vão refugiando a esperança em tudo que lhes acode à fantasia, ele contava ainda poder, no fim de tudo aquilo, justificar a inocência de sua querida ama.
Mas, ao quarto sinal do vulto misterioso, abriu­se discretamente uma das folhas da janela, e a cabeça encantadora de Cecília assomou à luz melancólica das estrelas.
Conversaram os dois, mas Tubarão não conseguiu ouvir mais que um confuso sussurrar de vozes, perdido no sonolento rumorejo da noite. Ao fim de meia hora fechou­se de novo a janela e o vulto encaminhou­se cautelosamente para o portão.
O marinheiro havia já colocado à cinta a navalha que lhe dera o comandante. Abriu a porta e, colando­se à parede, ganhou, a passo de gato, o jardim, pelo lado contrário ao que seguia o vulto.
Só o conseguiu avistar já na rua, ao dobrar de uma esquina. Tubarão correu para ele, mas, antes de alcançá­lo, saíram­lhe ao encontro dois homens.
— Que deseja daquela pessoa? perguntou­lhe um destes com acento muito espanhol.
— Quero pôr­lhe a mão!
— Pois entenda­se conosco!
O marinheiro respondeu desta vez com um formidável arranco de corpo inteiro, que atirou por terra os dois sujeitos. E lançou­se de novo a perseguir o vulto do jardim.
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Este, porém, havia aproveitado o conflito para fugir, e o marinheiro não conseguiu mais apanhá­lo.
Entretanto, os dois outros homens seguiam de perto Tubarão, a falar em voz baixa, e a bater nas pedras da rua com as suas grossas bengalas.
O marinheiro, quando se convenceu de que já não alcançaria o fugitivo, parou, à espera dos dois que vinham atrás.
Estes pararam por sua vez, e suspenderam a conversa. Só se puseram de novo a caminhar quando o marinheiro caminhou também.
— Ora raios! bradou Tubarão, avançando de um pulo sobre eles. Já me vão azedando os fígados! e num relance segurou­os a ambos, pelo gasnete e atirou­os de cambolhada contra a parede.
Os dois cambalearam por algum tempo, um desabou afinal sobre a calçada e o outro, sacando uma faca, investiu contra o marinheiro.
— Ah! Ele é isso? rosnou este, desviando o corpo. Pois manda de lá tua faquinha, que te quero dar a resposta!
O outro, porém, em vez de mandar a faca, limitou­se a responder:
— Hombre! siga su camiño, y no me embrome usted!
— Ainda bem! resmungou Tubarão.
E afastou­se lentamente, com ar de desprezo.
Também já era tempo, porque o céu principiava a vestir os prenúncios da aurora.
Tubarão entrou em casa apoquentado pelos próprios raciocínios.
— É o demo! considerava ele. Se a patroa dá para tolices, eu cá faço o que me manda a consciência! se descobrir que ela 103 de 371
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engana ao meu comandante, coso­a com uma naifada e levo o pequeno ao patrão! Ora, aí está!
— Mas como diabo podia aquilo acontecer!... reconsiderava ele depois, já estendido na sua estreita cama de lona. Aquela criatura que parecia uma santa!... Ah! peste de mulheres! Fosse lá um homem entender semelhantes demônios!
E quando Tubarão se ergueu no dia seguinte, sem haver dormido, tinha já a sua resolução tomada.
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XI
PEDRO RUIVO
Cecília, quando tinha apenas quinze anos e recebia de sua própria mãe a educação relativamente boa, que mais tarde fez dela o encanto de algumas salas do Porto, conheceu um rapaz ainda muito novo, bonito, janota, boa mão de rédea e herdeiro presuntivo de uma das famílias mais ricas daquela cidade.
Esse rapaz era Pedro Ruivo. Teria então vinte e cinco anos e gozava já na sua província de uma enorme fama de “homem perigoso” para as mulheres de toda a espécie.
Cecília um mimo de frescura, de graça e de inocência, não lhe poderia passar despercebida. Pedro fez o possível por conquistar a sua simpatia; passara­lhe muitas vezes pela porta, picara o cavalo defronte da sua janela, oferecera­lhe em todas as ocasiões para dançar a valsa e fizera­lhe repetidos protestos de amor. Mas a bela menina sorria de tudo isso e não parecia resolvida a tomar a sério os juramentos do seu ruidoso namorado.
Pedro Ruivo, ferido no amor­próprio, sentia­se cada vez mais estimulado pela indiferença de Cecília, e, longe de desistir, redobrava de atrevimento e perseverança nos ataques.
Mas qual! O demônio da menina era intransigente. Ria­se com ele, conversava, aceitava­o para uma, duas e três valsas, porém não lhe dava a menor esperança a respeito de amor.
— Não me quer então definitivamente?... perguntou­lhe uma vez Pedro Ruivo.
— Se o quero? para quê?... interrogou ela, em vez de responder.
— Ora para quê?... exclamou o janota. Para tudo! inclusive para 105 de 371
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seu marido...
— Marido! O senhor não me parece que sirva para isso...
— Julga­me então assim tão sem préstimo?!...
— Não é isso, mas é que ainda lhe falta o juízo.
— Não sei o que a leva a supor semelhante coisa!...
— Pois se não sabe, procure alguém que lho ensine. Eu confesso que não tenho muita paciência para ensinar!...
— É porque não saiu à sua mãe!... observou o Ruivo, com intenção.
— Nem a meu pai, respondeu a menina, tornando­se vermelha; meu pai, que era um insigne picador!...
— Ah!
— Com licença! disse Cecília, erguendo­se do lugar em que estava; creio que procuram por mim lá dentro.
E Pedro Ruivo ficou só na sala, entalado pela situação.
— Oh! exclamou ele consigo. Esta rapariga há de abaixar a proa ou, não serei eu quem sou!
No dia seguinte pediu a um seminarista seu amigo que lhe arranjasse uns versos de amor e publicou­os na folha mais lida do Porto, com o seguinte título: “Àquela por quem morro e que tanto despreza os meus protestos; a ti, Cecília de minha alma!” Assinava. “P. R.” A menina leu e compreendeu a intenção do suposto poeta. Daí a quatro dias apareceu outra dose de lirismo. Esta agora trazia o seguinte rótulo: “Ainda! Ainda!”
E continuou, duas, três e quatro vezes por mês. Cecília habituou­se àquela música, e todos os conhecidos principiaram a tratar dos amores ingratos do Ruivo e do pertinaz retrai mento da filha de Helena.
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O namorado teve afinal de sair do Porto para fazer uma viagem ao Minho, em companhia da família, e, durante ano e meio que lá esteve, grandes mudanças se tinham de operar no objeto da sua paixão. É que Cecília se tornara de todo mulher; a flor desabrochara. Já não era o mesmo botão de rosa, petulante e empertigado, que parecia sorrir e zombar de tudo; agora a flor desabotoara aos raios de estranhas aspirações e deixava­se pender melancolicamente para a haste. Vieram os sobressaltos dos dezenove anos; os sonhos não definidos das noites de vigília e as vagas tristezas dessas horas em que o sol parece ir se deixando morrer de volúpia no horizonte.
Cecília sentia acordar­lhe no corpo uma nova alma, que já se não contentava só com os folguedos da menina e só com as doces afeições dos seus parentes.
Alguma coisa pedia­lhe no coração um afeto mais exclusivo e mais dela. Já não podia observar sem comoção o arrulhar de dois pássaros no mesmo ninho. Toda a natureza lhe apresentava agora um novo aspecto de vida e fecundidade: as árvores pareciam­lhe mais flácidas e mais afetuosas nos seus requebros ao roçar da brisa; as noites de luar falavam­lhe agora em linguagem para ela desconhecida até aí; e o ar, o céu, as águas de qualquer regato, tudo sobre que ela pousava os olhos e demorava os sentidos, vaporava de si uma alma sensual e misteriosa que a envolvia toda como em uma atmosfera de perfumes inebriantes.
Pedro Ruivo voltou ao Porto justamente nessa época. Cecília não o recebeu em ar de mofa, como até aí costumava fazer; e ele, pelo seu lado, não trazia também aquele aspecto banal de estróina relapso.
É que, durante a ausência, Pedro Ruivo sentira pela primeira vez o dente canino da adversidade. Seu pai, que estava à morte no Minho, chamara­o de parte e falara­lhe muito seriamente sobre o futuro.
— Se eu morrer, dizia o pobre velho a chorar; vais tu, meu Pedro, ficar pobre e desprecatado no mundo. Tens todos os hábitos da 107 de 371
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prodigalidade, sem possuíres nenhum dos agentes da riqueza. Que será de ti, meu filho, se desde já não mudares de rumo e não cuidares de arranjar meios de vida?!
Pedro Ruivo procurou serenar o pai; prometeu­lhe uma completa regeneração e chegou a falar em casamento com Cecília.
— Casar?! interrogou o velho, franzindo a fronte despojada. Sabes lá o que isso é!...
O filho apresentou as suas razões, pintou o caráter da sua pretendida e descreveu o modo pelo qual resistira ela a todos os meios de sedução por ele empregados.
O velho conformou­se mais com aquela notícia, quando Pedro lhe disse que a menina era filha bastarda do conde de S. Francisco e teria um sofrível dote pela morte da mãe.
— Bem, meu filho, disse ele. Já que tanto o desejas, casa­te. Pode ser que esteja aí a tua regeneração e a tua felicidade!...
E alguns dias depois Pedro Ruivo partia para o lugar em que estava Cecília.
Desta vez não andaram as coisas como nos primeiros tempos. Pedro Ruivo desprezou as velhas amizades da pândega e deixou­
se das extravagâncias que dantes escandalizavam o Porto; deixou­
se de correrias e de namoros arriscados, para se entregar exclusivamente ao amor de Cecília.
E ela, no fim de contas, já o amava; Pedro Ruivo surpreendera­lhe a alma, justamente quando esta, à semelhança das flores, abria ao amor os seus delicados pistilos; nessa ocasião em que o coração da mulher está em branco e pronto a receber para toda a vida a grande impressão que o fecundará para sempre. Outras virão depois, mas a primeira há de predominar até à morte.
Cecília palpitou nos primeiros arroubos de mulher sob a impressão de Pedro Ruivo, entregando­lhe o segredo dos seus sonhos e o 108 de 371
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ideal de seus desejos. Ele povoou todo o seu espírito com a insubstituível vantagem do primeiro que o ocupava. Apoderou­se dela, uniu­a ao seu destino, antes mesmo de uni­la ao seu corpo.
As coisas neste ponto, pediu­a em casamento e D. Helena concedeu­a de muito boa vontade, indo por bem dizer ao encontro do pedido, como se com este já contasse.
Havia nos planos da professora uma sutil intenção de conveniência. O futuro genro, como já tivemos ocasião de declarar, passava por homem rico e pressuposto de herdar todos os bens de seu pai; Cecília faria neste caso uma boa aquisição, porque não tinha dote e só com a morte de Helena receberia alguma coisa, se recebesse.
Pedro Ruivo, por sua vez, desde que percebeu a miséria que lhe estava iminente, via em Cecília uma tábua de salvação. Havia por conseguinte, de parte a parte, a intenção de se iludirem. E o receio que tinha cada qual de entrar em claras explicações a respeito dos próprios bens, a ambos tolhia de indagar sobre os do outro.
Desta forma caminhavam imperturbavelmente as circunstâncias para a segura realização do consórcio. Helena desfazia­se em obséquios e franquezas com o noivo, que supunha destinado a trazer, para sua filha, um futuro opulento e, para ela própria, a segurança e o descanso da velhice. Por outro lado, o rapaz não perdia ocasião de cercar de obséquios e desvelos àqueles a quem julgava dever a salvação e a felicidade.
Nunca houve talvez no mundo tanta harmonia e tanta gentileza entre um noivo e a família da respectiva noiva. Era bastante que algum deles revelasse qualquer desejo, para todos os outros se precipitarem a satisfazê­lo. Ora, cabia a Pedro esta ventura com respeito à rapariga, ora, cabia a Helena com respeito ao futuro genro. E neste círculo de galanteios viviam os três em perene dedicação uns pelos outros.
Dentre eles, só a encantadora Cecília andava de boa fé. Essa não procurava armar ao efeito para ninguém e deixava­se 109 de 371
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simplesmente arrastar pelos impulsos do próprio coração; tudo o que fazia era perfeitamente por seu gosto, sem constrangimento e sem cálculo.
Pedro Ruivo julgava ter encontrado a porta do céu.
— Não é que sou um demônio deveras feliz?... considerava ele sozinho; tive dinheiro, esbanjei­o e, quando podia sofrer as consequências disso, eis que me aparece este anjo, um verdadeiro anjo salvador, a resgatar­me do castigo de meus vícios e da minha prodigalidade! Oh! definitivamente sou um homem feliz!... Queixe­
se quem quiser da existência, que eu cá por mim continuarei a achá­la encantadora!
E quando Pedro Ruivo, depois de conversar calorosamente com a noiva, se recolhia ao seu quarto de rapaz solteiro, acendia o charuto, atirava as pernas para sobre a mesa e ficava, ou a rever­
se nas correrias escandalosas do passado, ou a sonhar­se na tranquilidade endinheirada do seu futuro conjugal.
Mas... (aqui temos um mas, para autorizar aquele provérbio que sustenta não haver gosto completo nesta vida) uma intempestiva notícia do Minho veio perturbar os sonhos felizes do Ruivo. Seu pai não deitaria mais que alguns dias e era necessário que o filho fosse lá para despedir­se dele.
— Ora, com a fortuna! bradou o Ruivo ao receber a notícia. Lá se vai tudo quanto Marta fiou! Se o velho comete a imprudência de morrer agora, fico completamente desmoralizado às vistas da família de minha noiva e arrisco­me a perder o jogo, pois que logo se espalhará a verdade concernente ao estado de meus haveres!
— Nada! considerou ele, receoso de perder o dote da noiva, é preciso quanto antes providenciar de modo a que a morte de meu pai não me destrua os projetos!
E, enquanto o velho agonizava no Minho, talvez demorando a morte para ver e abençoar o filho pela última vez, este meditava junto de Cecília novos planos de especulação, os quais foram, 110 de 371
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com efeito, realizados.
Estavam na primavera. Ruivo combinara com a noiva um passeio no campo. Iria também D. Helena e mais um casal, muito amigo da casa, o Lobato e a mulher. Cecília recebeu o convite com grande alvoroço, tanto gostava ela de passear de vez em quando ao ar livre, sob o trêmulo murmurejar das folhas.
Partiram todos às quatro horas da madrugada. Ruivo fizera vir de véspera um grande carro, apropriado para os conduzir à quinta de um seu parente, que nessa ocasião estava a banhos na Figueira da Foz.
A excursão foi muito alegre, havia em todos o bom humor peculiar às matinadas. O dia apresentava­se cheio de luz e temperado por um doce calor voluptuoso. Os cinco companheiros não se calaram um instante. Tudo era pretexto para fazer riso.
Cecília parecia desfrutar o melhor momento de sua vida: toda risonha, nas suas rendas de linho e no seu claro vestido de fustão, estava como nunca encantadora de frescura e singeleza. O chapéu de palha de Itália dava­lhe à cabeça, esperta e redonda, uma expressão particular de travessura ingênua. Parecia uma pensionista que voltava do colégio a passar férias com a família. Sentia­se feliz e disposta a descobrir encantos em tudo o que a cercava. Durante a viagem quase que não teve uma só ocasião de esconder os belos dentes brancos.
— Como tens hoje tão boa cor!... observava D. Helena, a rever­se com orgulho na formosura da filha.
E em continuação de uma conversa, que pouco antes sustentava com a senhora do Lobato, disse com referência à filha:
— Ultimamente está mais animada...
— Acho até mais gordinha... observou a outra.
— É, confirmou a professora; ela agora come com mais apetite.
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— Pudera! disse o Lobato, fazendo um ar cheio de intenção. Está noiva!...
Cecília abaixou os olhos, sorrindo, mas ergueu­os logo para ir com eles ao encontro dos de Pedro, que nessa ocasião acabava de tocar com o pé a ponta do pezinho da menina.
— É a melhor época do amor! considerou o Lobato filosoficamente, deixando escapar o gesto para cima da mulher.
— Má língua! respondeu esta a rir­se. E continuou na sua conversa com Helena, que lhe ficava de frente.
Pedro Ruivo é que parecia preocupado exclusivamente com a noiva.
— Não sei o que tanto têm os namorados para dizer um ao outro!... observou o Lobato, em voz baixa, à mãe de Cecília.
— Homem! respondeu a mulher, deixe lá os outros! Quem sabe se você no seu tempo não fez a mesma coisa?...
O Lobato protestou em ar de galhofa. Helena expendeu algumas considerações a respeito de namoros, e os noivos continuaram a conversar, muito unidos, muito seguros da sua felicidade.
— Quando é o dia? perguntou Lobato a Helena.
— No princípio do mês que vem, respondeu Pedro, interrompendo a sua conversa com Cecília.
— Ah! então é sempre daqui a uma semana?...
— Infalivelmente.
— Está tudo pronto, acrescentou a professora, com ar de satisfação. Daqui a oito dias sou sogra...
— E em breve talvez avó! profetizou o Lobato, rindo.
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Cecília abaixou de novo os olhos, corou, enquanto o Ruivo lhe apertava uma das mãos, como para dar cópia da sua impaciência.
E desta forma continuou o passeio, até que chegaram afinal à quinta. Era um casarão velho e sem cuidados de arte, mas em compensação cercado de belas árvores frondosas e de enormes tabuleiros de verdura, que alegravam o ar com o cheiro fresco das hortaliças.
Pedro foi o primeiro a saltar e oferecer a mão às senhoras. Estava elegante; vestia um fato alvadio, de casimira­cambraia, tinha polainas, um grande laço na gravata de linho e o chapéu de palha um pouco derreado sobre a orelha esquerda à Marialva. Ia muito bem esse trajar com a sua fisionomia alourada e com os seus olhos vivos e enfeitados pelas lunetas de cor. Destacava­se­lhe bem da pele branca do rosto o bigode retorcido e bem alinhado, e de todo ele recendia um bom ar de asseio e trato.
Fez­se logo o almoço ao ar livre, debaixo de uma árvore, e à sobremesa acudiram os brindes à felicidade dos noivos e a tudo aquilo que é de costume brindar nessas ocasiões. Depois, o Lobato estendeu­se sobre a relva, tirou um jornal do bolso das calças e pôs­se a toscanejar sobre o artigo de fundo; enquanto Helena, de camaradagem com a mulher dele se entretinha a adiantar um trabalho de agulha que levava dentro da sua cesta.
Os namorados, sempre juntos, ficaram a conversar.
O sol estava já um tanto alto. Fazia calor. As árvores, agora, pareciam convidar a gente para ir deitar à tepidez aprazível das suas sombras. Reinava um grande silêncio pela quinta; só se ouviam os rumores confusos do campo e a voz longínqua de algum pastor, tangendo além o seu rebanho pelas montanhas.
Helena estendera­se mais na cadeira de balanço em que se havia assentado, deixou cair esquecida sobre os joelhos a costura, e foi pouco a pouco adormecendo no gozo plácido da digestão do almoço. A mulher de Lobato, mal a viu fechar os olhos, levantou­se 113 de 371
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e foi ter com o marido, que, às voltas com seu jornal, estava prestes a fazer o mesmo que Helena; assentou­se ao lado dele, tomou­lhe no colo a cabeça e começou a acariciar­lhe os cabelos. O Lobato aninhou­se melhor no regaço da mulher, e adormeceu de todo.
Cecília, entretanto, passeava do lado oposto pelo braço do noivo. Pedro Ruivo falava­lhe do seu amor e dizia a impaciência que o devorava naqueles últimos longos dias.
Ela sorria, olhando para o chão, e deixava que o rapaz lhe apertasse apaixonadamente o braço carnudo e bem feito.
— Se soubesse quanto sofro!... disse ele, aproximando o rosto do de Cecília. É um tormento! Hei de ver chegar o instante de minha felicidade e ainda me parecerá um sonho!...
— Falta tão pouco!... murmurou ela, com um sorriso adorável.
— Oh! faltam séculos! exclamou ele, beijando­lhe a mão. Faltam séculos!
E, arrastados pelo prazer de estar juntos, iam andando por debaixo das árvores, esquecidos de tudo e só cuidosos do seu amor.
A certa altura Cecília quis voltar, mas Pedro pediu­lhe que não, com um olhar úmido de ternura.
— Ainda não voltemos... É tão bom estarmos assim unidos, a conversar sozinhos! Tão poucas ocasiões temos tido para as nossas confidências ...
— Sim, mas é que podem reparar. Voltemos! Não é bonito ficarmos aqui!...
— Espera! disse o moço, segurando Cecília pela cintura; espera um instante...
E puxou­a para si:
— Não te vás! Ouve!
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Ela fugiu com o rosto, toda vergada para trás, nos braços do noivo, e suplicava:
— Não! Não insista! Podemos ser vistos! Deixe­se disso!...
Mas ele não atendeu, perseguindo­lhe o rosto com os lábios estendidos.
— Não! repetia ela. Não! não insista! Oh! Eu fico zangada.
— Mas, meu bem, tu não deves ser assim comigo! Nós somos quase casados!...
— Mas ainda não somos! — Tens medo de qualquer coisa?... — Tenho medo de tudo!
— Ora!... resmungou Pedro Ruivo.
E ficou muito sério.
— Estás zangado?... perguntou ela com meiguice.
— Não sei. É melhor não falarmos nisso!
E continuaram a andar para diante de braço dado.
Não trocaram uma palavra.
— Estás zangado comigo?... perguntou Cecília novamente, vergando o rosto para encarar o rapaz.
Ele respondeu dando­lhe um beijo em cheio nos olhos.
Ela recuou com um grito, mas Pedro Ruivo empolgou­lhe de novo a cintura e puxou Cecília para um banco de pedra que havia próximo.
Quando tornaram para casa, Helena notou a filha um tanto 115 de 371
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sobressaltada.
— Aconteceu­te alguma coisa? perguntou­lhe. Parece que te assustaste.
Cecília negou.
— Era do calor naturalmente.
E logo que se achou sozinha, cobriu o rosto com as mãos e desatou a soluçar nervosamente.
Contudo o resto do dia correu em paz, e à tarde arrumaram­se as cestas e puseram­se todos de novo a caminho para a cidade.
Pedro Ruivo encontrou em casa uma carta tarjada de preto: era a notícia da morte de seu pai. Pouco se impressionou, esperava já por isso mesmo, e, como estivesse muito fatigado do passeio do dia, adiou para depois os transportes do seu amor filial; deitou­se, e daí a instantes dormia profundamente.
Causou no Porto e no Minho grande espanto a toda a gente o saber que o pai de Pedro Ruivo, em vez de deixar ao filho uma boa fortuna, apenas lhe deixara algumas dívidas. D. Helena não o queria acreditar, e só se capacitou da verdade, quando a ouviu narrada entre lágrimas pelo próprio órfão.
— Com que o Sr. ficou inteiramente pobre?! exclamou ela, com um ar que nunca até então lhe vira o futuro genro.
— É verdade! respondeu este, sacudindo muito triste a cabeça; infelizmente, é verdade!...
— Ora essa!... resmungou a professora, pálida de raiva. Há coisas neste mundo!...
— É a sorte, D. Helena... acrescentou o Ruivo, limpando os olhos.
— E agora?! interrogou ela.
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— Resta a resignação! Eu por mim saberei conformar­me com o destino!
— Mas é que nem todos pensam como o senhor! Há de permitir­
me observar­lhe que era do seu dever de cavalheiro prevenir­nos em tempo da desgraça que o ameaçava. Ora essa!
— Mas se eu não sabia de coisa alguma, D. Helena...
— É impossível, senhor!
— Mas se lhe digo que é a verdade, minha senhora?!
— Diga o que quiser... eu não acredito!
— Pois não acredite, exclamou Pedro Ruivo, perdendo a paciência. Ora pílulas!
— Faltar­me ao respeito! bradou Helena, possuída de cólera... Ainda bem que o senhor mostrou as unhas antes do casamento. Olha do que escapamos!
— Sim! agora tenho eu todos os defeitos, mas quando me supunham rico, era “um Santo Antoninho onde te porei!” Pois se não me quiser dar a mão de Cecília, não dê! Só lhe afianço é que não serei eu só a perder com isso!...
— Hein?! Que quer dizer na sua?!...
— Não posso dar explicações, minha senhora! Sua filha é quem está mais no caso de esclarecer o assunto...
— Minha filha?! Mas o Sr. graceja, com certeza!
— Pode ser! V. Exa. falará com Cecília. E já agora declaro que não me casarei sem ser eu o requestado! Até logo. Quando precisarem de mim, que me chamem; antes disso não voltarei!
E Pedro Ruivo afastou­se, no firme propósito de não voltar sem ser chamado. Aquele desespero de Helena com a notícia de sua 117 de 371
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pobreza estava previsto há muito tempo.
— Olha se não trato com atividade do negócio!... Achava­me a estas horas posto à margem! disse ele consigo, quando se viu na intimidade do seu quartinho de rapaz solteiro.
Entretanto, ao que Helena ouvira de Pedro Ruivo, sobreveio­lhe uma grande febre; aquelas ameaças lhe perturbavam o espírito. A viúva procurou inteirar­se do que havia e, com facilidade, chegou a um resultado. Cecília estava desonrada.
A desesperada mãe não pôde resistir ao golpe, e caiu fulminada por uma terrível congestão cerebral. Nada lhe valeu, nem a dedicação de Cecília, nem os socorros médicos. Expirou no dia seguinte, às duas horas da tarde.
Foi então que Pedro Ruivo se apresentou de novo à órfã, oferecendo­lhe, com um gesto heroico a sua mão de esposo. Cecília recebeu­o entre soluços.
— Ele era a última felicidade que lhe restava!
— Pelo menos farei o possível de merecê­la, Cecília! Amo­a ardentemente e todo meu sonho dourado é possuí­la como esposa!
— Casaremos quanto antes, disse ela; será um casamento de luto, mas assim é necessário! Só ele me poderá salvar!
No dia seguinte, porém, Pedro Ruivo chegou ao conhecimento de que Helena apenas legara à filha uma pequena nesga de terra herdada de seu pai no Alto Douro.
— Raios me partam! exclamou o Ruivo, quando recebeu esta notícia.
E preparou logo as malas, fugindo no mesmo dia para Lisboa, com a intenção de passar ao Brasil.
Cecília oprimida de desgostos, de remorsos e de sofri­montes, foi 118 de 371
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recolhida à casa daquele velho amigo de seu avô, de quem fala o começo deste romance. Aí teve ela ocasião de servir de enfermeira à filha do seu benfeitor, como dissera o conde de S. Francisco a Gregório, quando este se achava detido no palacete da Tijuca.
Mas a desgraça não podia ficar tranquila: o fruto do crime de Pedro Ruivo teria que patentear­se, mais cedo ou mais tarde, aos olhos de todos, e por conseguinte só na morte ela encontraria refúgio!
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XII
A VÍTIMA DE PEDRO RUIVO
O velho conde de S. Francisco, o pai putativo de Cecília, na ocasião em que se sentiu ir resvalando para a sepultura, estava desacompanhado de sua família legítima e completamente desprovido das consolações e dos confortos de qualquer afeto. A ausência das filhas e a desorganização da sua casa, dantes tão metódica e bem dirigida, haviam lhe emborcado no coração esse amargor, espesso e lúgubre, que nos dá, aos últimos dias da existência, um estranho antegosto da morte e nos conduz a sonhar com uma outra vida feita de paz e de esquecimento.
Felizes os que plantam previdentemente na mocidade os colmos com que mais tarde terão de cobrir seus derradeiros dias, e à sombra afetuosa dos quais lhe será permitido abrigar o coração contra os ventos frios da velhice e contra os primeiros sobressaltos da morte. Desgraçados dos que descem deste mundo sem calor de beijos, que lhes aqueçam as mãos enregeladas, e sem ter um peito amigo que lhes recolha o último gemido e a última palavra!
O conde de S. Francisco foi um desses desgraçados. Helena era mãe, mas não era esposa. Só estas sabem ligar heroicamente o seu destino ao destino do pai de seus filhos; só estas sabem resistir às grandes tempestades do lar e às extremas provações do amor. Para morrer abraçado ao navio é preciso ser legítimo comandante: é preciso que a dignidade do seu cargo e a responsabilidade moral da posição o prendam ao teu posto de honra. O falso capitão não está na altura desses sacrifícios e dessas abnegações.
Foi justamente o que sucedeu com Helena. Quando rebentaram as primeiras desavenças no seio da família do amante, ela puxou a filha para si e afastou­se, deixando que o apaixonado velho tragasse, no segredo do seu desespero, as dores lancinantes da 120 de 371
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soledade.
Vieram logo os padecimentos do corpo, a agravação das enfermidades adormecidas até aí; e o conde caiu prostrado no leito em que tinha de expirar. O filho em Coimbra; as filhas, uma casada e longe com o marido; a outra recolhida ao convento; só lhe restavam fâmulos e enfermeiros de aluguel.
Lembrou­se então de escrever a um seu velho amigo, que noutro tempo fizera com ele a campanha contra os franceses. Era um veterano reformado com a patente de coronel, e que há seis anos descansava em terras que possuía no Porto.
Foi um espalhafato a sua chegada ao castelo do conde. Os dois velhos precipitaram­se nos braços um do outro e começaram a chorar como duas crianças. O conde não podia pronunciar palavra; as lágrimas corriam­lhe em borbotão pelas barbas brancas. E, todo trêmulo, a soluçar, humilhado pela nimiedade daquela comoção, sentiu faltarem­lhe as derradeiras forças e caiu agonizante.
O coronel, estonteado pela situação, maldizendo a ideia de apresentar­se tão de surpresa, procurava consolar o amigo. Pedia­
lhe que sossegasse um instante e jurava não abandoná­lo tão cedo.
— Sim! sim, meu velho camarada, preciso de alguém que me ajude a morrer na fé em que me criei! Não te roubarei muito tempo! És o único que ainda vive dos nossos belos tempos da mocidade! Bem dizia eu cá comigo que não faltaria à entrevista da minha morte! Obrigado! obrigado, meu bom amigo!
Mas o coronel pouco tempo teve que ficar ao lado do seu velho camarada: o conde morreu quatro dias depois de chegar ele ao castelo. Assistiram­lhe os sacramentos; o moribundo, após as palavras do confessor, parecia confortado e disposto a deixar o mundo em paz.
Antes porém de morrer, conversou largamente com o amigo a 121 de 371
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respeito dos seus que deixava:
— Meus filhos legítimos, disse ele, estão abrigados por natureza, têm o que herdar e não lhes faltará lugar na sociedade. Mas eu tenho uma filha natural, uma filha que adoro e que, apesar da ingratidão com que ela e a mãe me deixaram neste isolamento, não me sai da memória um só instante. Tu já sabes de quem falo! Pois bem; pensa um pouco em Cecília; a infeliz pode algum dia vir a precisar dos teus socorros. Guarda bem estas minhas recomendações! bem sei por que tas faço... Deixo­lhe alguma coisa, mas receio que a mãe não queira que isso aproveite à filha. Por conseguinte, meu velho amigo, segue­a com a tua experiência; é este o único serviço que te imploro para depois da minha morte!
— Descansa, respondeu o coronel; prometo, sob palavra, fazer o que me recomendas!
— Bem! posso então fechar os olhos em paz. Cecília era o meu último cuidado.
— Não te aflijas! Eu velarei pelo seu destino.
— Obrigado! muito obrigado!
E o conde morreu no dia seguinte, repetindo ao coronel as suas recomendações.
Foi desta forma que, por ocasião da morte de Helena e da miserável fuga de Pedro Ruivo, Cecília recebeu em casa a visita do velho coronel.
A figura austera e encanecida do veterano, a calma resolução do seu porte marcial, e a singela energia das suas palavras, inspiraram a órfã imediata confiança. Ela, porém, não se podia furtar a certa estranheza que lhe causava semelhante visita, principalmente depois de saber que o velho ia resolvido a levá­la para a companhia de sua família. O coronel compreendeu a surpresa da menina e acrescentou:
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— Cumpro um dever sagrado, minha filha; seu pai recomendou­
me que a não desamparasse quando a visse carecedora de algum auxílio. Creio que chegou a ocasião: está órfã e sem arrimo... Cumpre­me ampará­la; serei seu pai de hoje em diante!
Cecília aceitou comovida a generosa mão que se lhe estendia; mas a ideia dolorosa do seu estado perturbava­lhe o espírito e a fazia recear de qualquer consequência má de tudo aquilo. Entretanto, que remédio tinha ela senão aceitar de olhos fechados aquele recurso ou voltar então à primitiva ideia do suicídio?...
Mas é tão difícil morrer, pelas próprias mãos, naquela idade!... é tão difícil abandonar a vida, quando ainda temos o coração cheio de ilusões!... Se aceitasse, porém, como suportar a exibição da sua falta?... como patentear o corpo de delito, que mais tarde lhe avultaria nas entranhas? como conseguiria justificar­se de tamanha criminalidade?! Se ao menos pudessem avaliar, julgava a infeliz consigo, quanto nós, as mulheres, somos escravas do coração; quanto a natureza nos fez passivas e crédulas! se pudessem avaliar o modo pelo qual sucumbimos à primeira falta; se soubessem como acreditamos no homem que nos assalta o coração pela primeira vez! Mas não! ninguém criminará o sedutor e todos amaldiçoarão a vítima! ninguém se lembrará de que minha culpa vem da minha inocência, da minha própria virgindade e da singela espontaneidade do meu amor! Todos escarnecerão de mim, todos rirão da minha desgraça, só porque não fui tão friamente calculada, tão previdentemente refletida, que soubesse empregar as astúcias e artimanhas necessárias para equilibrar o amor do meu noivo, de modo que este não me fugisse por uma vez desesperançado, nem tampouco me abandonado por haver conseguido já o que desejava. E porque não tive o talento de ser hipócrita, de fazer negaças e de tirar partido da minha mocidade e da minha beleza, hei de passar por uma criatura ruim, por uma mulher de maus instintos, por um ente desprezível e perverso, a quem a sociedade fecha as suas portas!
Mas se assim é, continuava ela a considerar, por que singular capricho criou a natureza o amor com toda a sua cegueira, com 123 de 371
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toda a sua boa fé e com todos os seus irremediáveis perigos?... Se tínhamos de fazer calar todas as vozes interiores, para que então inventaram na natureza outras tantas vozes que às nossas correspondem, e que nos ensinam a descobrir no pecado o objeto dos nossos primeiros sonhos de mulher?...
E Cecília revoltava­se de antemão contra a injustiça que pressentia à sua espera. Na própria consciência e no próprio coração nada a acusava; ela não sentia apetites de vingança contra ninguém. Se tinha algum desejo, era de perdoar o homem a quem se barateou tão ingenuamente e pedir­lhe que não amaldiçoasse o filho.
Resolveu seguir imediatamente para a casa do coronel.
Morava este retirado da cidade, em uma bela e simples vivenda campestre, na companhia de uma irmã, tão velha como ele, e de uma filha, que era o encanto de seus olhos já amortecidos e o sol da sua longa viuvez.
Chamava­se a moça Margarida. Um sonho de vinte e dois anos: olhos azuis, de uma grande doçura ingênua, cabelos louros, quase sempre enastrados em uma trança solitária que lhe caía singelamente ao comprido das costas.
Contradizia um tanto do seu sorrir triste, de mulher, o doce ar de menina enferma, que obrigava o velho soldado a constantes sobressaltos pela saúde da filha. Receava que ela não tivesse forças para viver: Margarida fora sempre propensa às moléstias pulmonares; em pequenina os médicos a desenganaram, e, desde então, sua vida era tratada como objeto delicadíssimo que se pode quebrar com o menor abalo. E seria isso o que sem dúvida teria sucedido se, com a viuvez do coronel, não se apresentasse a irmã deste, disposta a servir de mãe a Margarida.
O coronel enviuvara quando a filha tinha apenas cinco anos, e desde então nunca mais D. Germana, sua irmã, os desamparou. Pode­se, por conseguinte, calcular o estado em que ficou o coronel, sabendo, ao chegar à casa, que Germana estava perigosamente enferma, e que Margarida não lhe abandonava a 124 de 371
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cabeceira e passava em claro noites consecutivas.
Mas não tinha de ficar aí a sua amargura. Dias depois morria a mãe adotiva de Margarida, e esta por sua vez caía seriamente prostrada pela moléstia. Foi então que, de volta dos estudos, apareceu em casa do coronel o conde de S. Francisco. Ia agradecer os últimos obséquios prestados pelo veterano a seu pai. Levava de companheiro um capitão de marinha ainda bastante moço, com quem travara relações no mar e de quem se tornara muito amigo.
O conde ofereceu à irmã bastarda os seus serviços e apresentou­
lhe o oficial de marinha com as palavras mais lisonjeiras que encontrou para este. Esse oficial de marinha era o Leão Vermelho.
Tencionavam os dois amigos, uma vez desempenhados da obrigação delicada que os levara ali, voltar imediatamente, cada um para o seu destino. Mas assim não sucedeu. Os desvelos de Cecília à cabeceira de Margarida, o modo carinhoso, a abnegação, o amor com que ela disputava a amiga às garras da morte, foram laços que os seduziram e prenderam.
Cecília com efeito havia, desde logo, tomado muito interesse pela enferma. Uma certa afinidade de temperamentos, e como que uma estranha necessidade de padecer pelos outros, a jungiam à cabeceira de Margarida. Suas dores escondidas, talvez já o seu arrependimento de ter sido tão crédula e tão fraca, pediam­lhe aqueles trabalhos penosos, como o remorso pede ao criminoso a dura expiação dos seus delitos.
A vítima de Pedro Ruivo comprazia­se naquela dedicação; achava prazer, conforto, no martírio em que se impusera por um reclamo da sua consciência. E dessa forma não abandonava um só instante a câmara da enferma, pronta sempre a correr ao seu mais leve gemido e a sustentá­la nos braços horas esquecidas, sempre risonha, sempre meiga, sempre consoladora.
Quando a doente, um mês depois, principiou a convalescer, adorava a sua enfermeira. O conde de S. Francisco e o seu amigo 125 de 371
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da marinha foram encontrá­las nessa situação. Margarida acabava de erguer­se pelo braço de Cecília.
Principiou então uma nova época para todos eles. Os dois rapazes se tinham apaixonado pelas duas belas amigas. O conde pretendia a filha do coronel e o oficial a outra.
Mas Cecília ignorava tudo isso. Uma tarde Margarida tomou­lhe as mãos e disse­lhe que tinha um pedido a fazer­lhe.
— Só um?... perguntou aquela, beijando­lhe na face.
— Só, porém tão sério, que vale por muitos...
— Que é?
— É o pedido de tua mão...
— De minha mão? exclamou Cecília, empalidecendo.
— Sim, e tu já sabes para quem, disfarçada!...
— Para o Leão Vermelho!...
— Justamente; para esse rapaz, que tanto estima teu irmão, quanto te adora...
Cecília não respondeu e deixou­se possuir de um fundo embaraço. A outra insistiu, dizendo­lhe, entre afagos, as vantagens que poderiam vir desse casamento.
Começou então para a filha de Helena uma grande luta interior. Seu caráter leal e generoso revoltara­se contra a mentira e a falsidade; mas o perigo iminente da sua falsa posição, a vergonha que a esperava, sobressalto em que ela vivia, acabaram por lhe sufocar os bons impulsos.
Entretanto Leão Vermelho tinha de partir e precisava de uma resposta definitiva.
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— É muito cedo! interveio o coronel, lembrando que Cecília apenas o conhecia havia poucos dias.
— Estas coisas, ou se resolvem assim ou se não resolvem nunca, respondeu o oficial. Tenho muito em breve de partir para uma viagem longa, talvez a última que faça, e desejo saber se vou feliz e casado, ou se vou triste e consumido pelas saudades que daqui levo!
Cecília concordou finalmente. Daí a dois dias se casava com Leão Vermelho e seguiam juntos.
A sua ausência causou enorme tristeza em casa do coronel, mas o conde procurava suavizá­la do melhor modo possível, o que em grande parte conseguiu.
O médico aconselhara a Margarida uma viagem a bons climas antes do casamento. Partiram os três, os noivos e o coronel, dentro de quinze dias. Atravessaram a Espanha, passaram­se depois a Nice, foram a Nápoles e à Sicília. De volta a Portugal recolheram­se ao antigo castelo da família do conde; reuniram­se então os parentes deste e celebrou­se afinal o casamento com muita pompa e com muita alegria.
Entretanto, Leão Vermelho voltava ao Porto com a mulher, que já se achava em adiantado estado de gravidez.
O comandante, como vimos, tratou então de obter a sua reforma, e com ela um lugar que lhe deixasse gozar em terra firme o descanso e a felicidade do lar doméstico.
Conseguiu, enfim, realizar esse desejo, mas por outro lado principiou a sofrer na sua vida íntima com Cecília. A mulher parecia­lhe estranhamente reservada; dir­se­ia dissimular algum segredo que a fazia sofrer constantemente. Embalde, porém, o comandante a espreitou por muito tempo; embalde procurara apanhar­lhe um gesto, uma palavra, qualquer coisa, que lhe indicasse a ponta do mistério. Nada! Um dia, afinal, surpreendeu­a a fazer, com muito empenho, uma carta e, na ocasião em que, pé 127 de 371
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ante pé, foi espiar o que ela escrevia, Cecília soltou um grito, cobriu o papel com ambas as mãos e empalideceu.
— Deixe­me ver esta carta! disse Leão Vermelho secamente
Cecília respondeu que tinha vergonha de mostrá­la; era uma futilidade, uma tolice!...
— Não faz mal! quero ver!
— Não... objetou a mulher, procurando compor um gesto de meiguice e de sangue frio.
— Pior! exclamou o comandante, encolerizando­se. Dê­me isso por bem, se não quiser dar à força!
— Pois aí a tens!
E Cecília sacudiu os ombros, resignadamente.
Leão Vermelho leu a carta com visíveis sinais de cólera na fisionomia. Os olhos parecia crescerem­lhe debaixo das sobrancelhas crespas e negras, e os lábios contraíam­se lhe, mostrando cada vez mais os dentes fuliginosos de tabaco.
— A quem era isto dirigido?! perguntou ele, cerrando as pálpebras e atravessando a mulher com um olhar frio e penetrante.
— Para que o queres tu saber?! Não vês, pelo que está escrito, a digna posição que tomava eu para quem me dirigia?.
— Nada tenho a ver com isso! Quero saber para quem era esta carta!
— Mas que lucras tu em saber a quem era ela dirigida?!
— Mau! responda à minha pergunta e guarde as considerações para depois!...
— Pois então declaro que te não digo coisa alguma!
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Leão Vermelho segurou Cecília pelo braço e repetiu a sua pergunta, mas ainda assim nenhuma resposta obteve.
— Bem! disse ele, saberei por outro lado!
Todavia a carta, longe de depor contra a mulher, dizia o seguinte:
“Caro senhor. — Se como diz, é cavalheiro, peço­lhe que não insista na sua perseguição; se é meu amigo, como também o diz, poupe­me a inquietação a que me obrigam os seus mal­
entendidos protestos de amor. Lembre­se de que sou casada e procuro todos os dias esquecer­me do passado, desse passado que me acabrunha, não pelo remorso, mas pelo desgosto e pela aflição. Já sofri em demasia por sua causa, pague­me agora de tudo isso, deixando­me em paz; não queira aumentar os motivos de queixas que tenho contra o Sr. Se supõe que algum laço ainda nos une, está completamente iludido, porque meu...” Leão Vermelho guardou a carta consigo, e principiou desde então a desconfiar de Cecília. Foi por esse tempo que lhe apareceram as ameaças de perder o emprego e que ele se viu obrigado a seguir para Lisboa, a ir entender­se com o ministro da marinha.
Sabe já o leitor qual foi o resultado da sua viagem e da má vontade do governo português. Leão Vermelho demitiu­se e, depois de ir ter com a mulher e o filho, resolveu dar velas para o Brasil em um navio mercante. Sabe também que ele, na ocasião de seguir, já no beliche, fez ao seu fiel servo recomendações especiais a respeito de Cecília e lhe entregou uma boa navalha de marujo.
O marinheiro, como vimos depois, ficou deveras impressionado pelas palavras do comandante. Não lhe saíam elas da cabeça; parecia­lhe estar ainda a ouvir Leão Vermelho dizer­lhe com a voz engrossada pela comoção: “Não te descuides, meu amigo! o horizonte anda turvo; cheira­me que teremos borrasca! Olho na bússola e mão no leme! Se desconfiares da senhora, comunica­me qualquer sinal, e, se descobrires coisa série, já sabes, não precisas esperar por mim... dá­lhe duas naifadas e manda­a de presente 129 de 371
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aos melros!”
Tubarão não queria ligar muita importância às suspeitas do comandante, mas a cena do jardim, aquela entrevista fora de horas com um vulto mais que suspeito, vieram justificar no ânimo do bom marinheiro a recomendação de Leão Vermelho.
Quem o havia de acreditar?... dizia ele consigo. Uma pessoa tão séria e tão meiga, que era mesmo a imagem de Nossa Senhora do Socorro!... Ah! mas, tanto ela como aquele maldito papa­figos, que tenham paciência; se os pilho, trabalha a faca!
E nunca mais se descuidou, a respeito da patroa, nas suas observações e na sua espionagem.
Entretanto Cecília não era absolutamente culpada do que­ presenciara Tubarão: Pedro Ruivo saíra do Porto com o intento de seguir para o Brasil, como dissemos, mas, chegando a Lisboa, recolheu­se à casa de uma família que fora muito da amizade de seu pai, e aí se deixou ficar ao saber que Cecília afinal havia casado, e que de por conseguinte não seria perseguido. De volta ao Porto, dois anos depois daqueles acontecimentos, Pedro Ruivo, certa manhã em que passeava pelo jardim das Virtudes, encontrou Cecília acompanhada de uma bela criança loura.
Ela não o viu; ele porém reconheceu­a logo e começou de segui­
la a distância.
Cecília, depois de fazer o seu passeio, recolheu­se a casa, e Pedro Ruivo ficou sabendo ao certo onde residia a sua noiva de outro tempo.
— E não é que o demônio da rapariga está ainda mais bonita do que era?!... considerou ele ao voltar pelo mesmo caminho. E, possuído de estranhas comoções, principiou desde então a sentir­
se pender para Cecília, por esse estímulo traiçoeiro que aos homens comuns faz desejar as coisas proibidas Ela nunca lhe pareceu tão desejável, tão bela, tão digna de ser gozada. Dantes a extrema inocência, a franca confissão do seu amor sem cálculos 130 de 371
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e sem artifícios, a candura de suas palavras quase infantis, faziam de Cecília um tesouro tão fácil de alcançar, que Pedro Ruivo nunca se lembrara de calcular­lhe o valor.
Procurou um pretexto para poder aproximar­se dela. Mas a coisa não seria assim tão fácil, pensou ele. Cecília devia guardar fundo ressentimento da sua desgraça; não era natural que a presença de Pedro Ruivo lhe fosse muito agradável. Foi então que o miserável se lembrou do filho.
— Ora esta! exclamou, abrindo os braços com entusiasmo; tenho o melhor condutor que se pode desejar e não me lembrava disso!.. . Nem há de ser preciso grande esforço; ela será talvez até a mais interessada em me tornar a ver!
E, certo de que o filho era um instrumento seguro para os seus projetos, escreveu uma extensa carta a Cecília, na qual procurava pintar o arrependimento que o pungia nessa ocasião, as saudades que o arrebatavam para ela, e o desejo apaixonado de ver e de beijar o seu querido filhinho. “Contento­me com pouco’ dizia ele; desejo apenas, uma outra vez, contemplar o inocente fruto dos nossos amores infelizes. Sei que deve haver no seu coração, Cecília, muito ressaibo de desgosto mas, se soubesse quanto tenho sofrido por amor disso, perdoava­me tudo! Oh! sofri muito! os remorsos não me desampararam um só instante o coração. Chorei muita lágrima! amarguei muito soluço! Entretanto era preciso resignar­me ao destino sombrio, que eu mesmo preparara para mim. Fui culpado! fui muito culpado, mas o arrependimento foi maior que a culpa. Não lhe peço que me ame; não lhe peço até que me perdoe, contanto que, se ainda existe no seu coração alguma coisa daquela ternura compassiva de outrora; se não se apagaram de todo aqueles piedosos sentimentos, que faziam da senhora uma santa e que depois fizeram de mim um mártir pelo remorso de não a ter adorado como devia e de não a ter merecido em castigo da minha maldade e da minha cegueira; se ainda existe no seu coração algum resíduo dessas virtudes, permita, por quem é, permita, pelo amor que tem naturalmente ao lindo ser que lhe saiu das entranhas, que eu abrace meu pobre 131 de 371
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filhinho! Estou convencido de que as lágrimas de um pai desgraçado não terão em resposta a indiferença e o desprezo... Oh! só agora acredito na cólera divina!”
Seguiam­se ainda algumas considerações sobre a fatalidade, sobre o destino e outros pretextos de que se costumam servir os sedutores malandros, terminando a carta por um formidável “Adeus”, com ponto de admiração e reticências.
Pedro Ruivo contava seguro o efeito daquele chorrilho de falsidades.
— Em lendo isto, calculava ele, as lágrimas saltam­lhe dos olhos, e Cecília abre­me logo os braços. E, se assim não fosse, para que diabo servia então manter­se a gente a aprender um bocado de retórica?...
Mas enganou­se: Cecília leu a carta sem a menor comoção e não deu resposta.
Depois de cinco dias encontraram­se de novo na rua:
Desta vez o Ruivo não esperou que ela o lobrigasse, foi ao seu encontro; mas sofreu nova decepção, porque tinha como certo o sobressalto e o espanto de Cecília, quando esta aliás lhe falou sem se perturbar absolutamente.
— Que frieza!... disse consigo o velhaco, mordido no seu amor­
próprio.
E vaidosamente procurou descobrir naquela própria indiferença um certo cunho de afetação, que traduzia o medo feito por ele a Cecília.
— Não quis então responder à minha carta?...
— Não, senhor.
— E por quê?...
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— Porque assim o entendi.
— Não consente então que eu de vez em quando abrace esta criança?...
— Não, e por quê?
— Por quê?! Ora essa! porque é meu filho!
— O senhor está gracejando com certeza!...
— Cecília! nega então que eu seja pai de seu filho?!
— Com licença.
E a senhora afastou­se muito tranquilamente
Pedro Ruivo ficou deveras pasmado com aquela indiferença.
— Além de tudo, pensou ele, gesticulando sozinho; tem a finória o cinismo de negar que sou eu o pai do pequeno!... Ora esta! Confesso que não a supunha tão matreira!...
E depois de cogitar um plano de ataque, bateu com a mão na testa, e exclamou:
— Ah! Tenho uma ideia!
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XIII
AS MÃES DE GREGÓRIO
O plano de Pedro Ruivo era atemorizar Cecília, ameaçá­la com um escândalo, obrigá­la a ceder pelo medo.
Aquele homem, que desprezara a ocasião em que a bela rapariga lhe franqueara a alma, impregnada de todos os perfumes da inocência e do amor, sentia­se agora estimulado brutalmente por um árdego desejo de possuí­la. A mesma fisionomia, os mesmos olhos, a mesma boca, o mesmo cabelo; tudo que dantes lhe parecia nela vulgar e sem interesse, agora ressurgia defronte do seu desejo por um prisma novo de sedução. A resistência de Cecília, o nenhum caso que ela mostrou pela aproximação de Pedro Ruivo, a sua desdenhosa indiferença, tão sincera e legítima quanto fora o primitivo arrebatamento, do seu amor, caíram sobre o coração do perjuro, espremendo­lhe de dentro todas as fezes da maldade.
“Se não consentires em falar comigo, escreveu ele, depois de outras tentativas, farei público o segredo de nosso filho; contarei a história do nosso amor e atrairei sobre tua cabeça a cólera de teu marido. Amo­te, já o sabes perfeitamente; não é meu filho o que me arrasta para ti, és tu própria! Se me quiseres atender, terás em mim um escravo submisso; se não quiseres, podes então contar com um inimigo implacável. Escolhe! Amanhã à noite estarei debaixo de tua janela; se me não apareceres, juro­te que farei o que disse. Não tens pretexto de recusa: teu marido está em caminho para o Brasil; previno­te de que qualquer cilada contra mim urdida, recairá sobre ti, que és a mais compromissível nesta empresa.”
Essa ameaçadora carta produziu o efeito há tanto ambicionado pelo Ruivo: Cecília teve medo; teve medo e foi à entrevista, como 134 de 371
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já sabe o leitor.
— Que deseja o senhor de mim? perguntou ela com voz trêmula, ao aparecer entre as folhas da janela mal aberta.
— Desejo dizer­te o que sinto por ti; o que sofro; contar­te os meus tormentos e pedir­te que me ames, que te compadeças do meu desespero e da minha dor!
— Era só isso o que desejava?...
— Não me trate com essa frieza, Cecília; lembra­te da passada ventura; lembra­te dos nossos primitivos amores!
Cecília não respondeu.
— Não me dás então uma palavra?! insistiu Pedro Ruivo ao fim de uma pausa.
— Que lhe hei de dizer? Nada tenho absolutamente para lhe comunicar... O senhor ameaçou­me de perturbar a paz de minha casa, de envergonhar­me aos olhos da sociedade, de tornar conhecida a única falta que cometi, de incompatibilizar­me enfim com meu marido, se eu não consentisse em lhe falar. Pois bem: eu tive medo de suas ameaças e cá estou. Se com isto não se dá por satisfeito, faça então o obséquio de dizer o que ainda quer de mim; mas tenha a bondade de apressar­se porque este ar frio da noite pode causar­te mal...
— Bem! visto isso, preferes que eu publique o nosso segredo, não é verdade?! Queres que amanhã todos saibam que sou o pai de teu filho?! Pois eu te farei a vontade!
— Valha­me Deus! disse Cecília, deveras impacientada. Como posso preferir semelhante coisa, se cá estou; se consenti, bem a contragosto, em falar­lhe a estas horas e nestas circunstâncias?!
— Isso não basta! Tu bem sabes que o verdadeiro amor não se contenta com tão pouco! Minha ameaça continua de pé, se me não deixares aproximar de ti!...
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— Nesse caso, respondeu Cecília, com um gesto de resignação, o remédio que tenho é abaixar a cabeça e sujeitar­me à sua vingança. O senhor dirá o que quiser, fará o que bem entender! Pela minha parte, lancei mão do que estava dignamente ao meu alcance para evitar uma calamidade; nada consegui, paciência! Não me posso queixar de ninguém!
— Não! deves queixar­te de ti mesma, porque com uma palavra tua, com um sorriso, eu cairia a teus pés, escravo e submisso.
— Se ainda tem alguma esperança a esse respeito, pode perdê­la. Eu não me desviarei dos meus deveres.
— Cecília, reflete um instante!
— É justamente porque muito refleti sobre isso, que me sinto agora tão segura na minha resolução.
— És cruel!
— Não, sou razoável; nada lucraria em esconder uma falta com outra maior. Em vez de uma teria duas! Pois o senhor que me não perdoa a única culpa que cometi em minha vida, e essa porque fui crédula e inocente, quanto mais se possuísse o segredo de uma outra, perpetrada agora, quando já conheço os homens e tenho alguma experiência das coisas!...
— Sim, disse Pedro Ruivo, dominado pelas palavras de Cecília; mas é que as duas faltas se destruiriam mutuamente, e eu passaria do papel de acusador ao de cúmplice, tendo, por conseguinte, tanto empenho quanto tens tu em esconder o nosso mistério...
— Não! prefiro a sua raiva, a sua guerra, a toda e qualquer cumplicidade entre nós dois!
— Não me amas então?
— De certo que não!
— Nesse caso entrega­me meu filho!
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— Não tenho em meu poder nada que lhe pertença!
— Cecília, é perigoso zombar dessa forma com a minha cólera!
— Faça o que entender!
E Cecília retirou­se, fechando a janela.
— Escuta! disse ainda Pedro Ruivo, mas não recebeu resposta alguma. O jardim havia caído de novo no triste silêncio da noite; só se ouvia o confuso sussurrar de algumas árvores que se espreguiçavam na sombra.
Como sabe o leitor, Tubarão presenciou aquela cena, sem contudo ouvir o sentido da conversa dos supostos namorados; e perseguiu Pedro Ruivo, tendo de bater­se com os dois sujeitos que a este guardavam as costas.
No dia seguinte o marinheiro levantou­se da cama, sem ter dormido, saiu de casa antes que os mais acordassem. Sentia­se muito acabrunhado: a decepção que lhe causaram as cenas da véspera empolgava­lhe o coração com uma formidável mão de ferro.
— Não há que hesitar! pensava o pobre homem na sua brutal compreensão do dever. O remédio que tenho é despachá­la e levar o pequeno ao comandante!
Mal porém assentava nesta deliberação, logo lhe assistia um profundo desgosto de não poder justificar de qualquer modo o procedimento de Cecília e convencer­se afinal da sua inocência.
Neste estado de hesitação, entrou em uma hospedaria para almoçar, certo de que, durante o almoço, se decidiria por qualquer partido. Tubarão, como todo o homem do mar, não tinha o hábito de raciocinar andando pela rua. Só podia concentrar as suas ideias em pleno isolamento, ou assentado no fundo de alguma taverna, com os cotovelos fincados à mesa e a cabeça segura por ambas as mãos. Às vezes era­lhe até necessário fechar 137 de 371
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os olhos como se só quisesse olhar para dentro do cérebro, sem esperdiçar nenhuma partícula da sua atenção com os objetos externos.
Foi o que ele fez. Meteu­se no fundo de uma casa de pasto e pediu de comer.
— Verdade ... verdade... principiou no seu raciocínio; eu ainda não sei bem do que se trata... Quem sabe lá se a mulher do comandante já precisa ser castigada ou precisa ser simplesmente aconselhada?... Sim, porque no fim de contas, ela apenas conversou com o tal pelintra e não o recebeu em casa. Ora, se eu for logo às do cabo, posso talvez ser precipitado; o melhor então é espreitar mais algum tempo, porque se houver qualquer coisa, eu então saberei o que faça!...
Nesse ponto, Tubarão ouviu perto de si uma voz que lhe chamou logo a atenção. Era nada menos, que a voz de um dos sujeitos a quem ele esbordoara na véspera.
— Olá! disse consigo o marinheiro, procurando ocultar­se o melhor possível às vistas do que falava. Não pensei encontrá­lo tão depressa! Ouçamos o que canta este melro...
Era com efeito um dos homens de Pedro Ruivo, que acabava de entrar em companhia de um súcio, e ficara assentado de costas para o marinheiro.
Traziam a conversa principiada de fora, e versava esta justamente sobre os acontecimentos da véspera.
— Mas enfim? perguntou o que ainda não era conhecido do Tubarão. Que quer você de mim?...
— Quero que venha comigo; eu já não me fio naquele espanhol! É um chorincas! Se não fora ele, afianço que o sujeito não me saía tão fresco da brincadeira!...
— Mas então vocês não lhe fizeram nada?!...
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— Pois se lhe estou a dizer que o espanhol era o único que estava armado e, em vez de sangrar logo o tratante, pôs­se a remanchar e deixou­o ir como veio!...
— Ora, isso contado não se acredita! Eu não o deixaria sair, sem provar o feitio cá da menina! disse o outro com presunção, a bater sobre a algibeira em que guardava a sua faca.
E perguntou, depois de uma pausa:
— Para quando então precisam vocês de mim?!...
— Para depois de amanhã.
— Bem. Nós nos podemos reunir aqui mesmo ou em casa de Pedro Ruivo.
— Pedro Ruivo?... disse consigo o Tubarão. Ora espere!...
E ficou a pensar. Lembrava­se perfeitamente de ter já ouvido muitas vezes o nome de Pedro Ruivo, quando alguns conhecidos da família de Cecília falavam a respeito desta, com referência ao passado.
— É o tal sujeito que esteve para casar com ela... concluiu o marinheiro, depois de muito puxar pela memória. Pretenderá persegui­la ainda? Maus raios o partam, se são essas as suas intenções, porque lhe torço o pescoço enquanto o demo esfregar um olho!
E só se retirou quando os dois da outra mesa haviam já saído.
Ao chegar à casa foi logo se encaminhando para a sala de jantar, onde Cecília costumava trabalhar àquelas horas. E com efeito ela lá estava, assentada a uma mesinha de costura, aparentemente toda preocupada com o serviço que tinha em mão. O marinheiro parou à porta, sem ser sentido pela patroa.
— Quem pode lá acreditar que aquilo seja uma pecadora!... disse ele consigo, a contemplar a casta figura da rapariga. Ela nunca 139 de 371
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lhe parecera tão senhora de si, tão tranquila Tinha a fisionomia fresca e louçã como quem vive sem pesos na consciência.
O filhinho brincava a seus pés, entre um montão de alegres destroços; bonecos decepados, um pedaço de urna, espada de pau, um tambor inválido e uma cornetinha já sem feitio.
— A patroa dá licença? disse da porta o criado com a sua voz rude de marujo.
— Ah! é você, Tubarão? Entre. Como está?
— Eu, graças à Virgem, não vou com mau vento! E vossemecê?
— Bem obrigada, respondeu Cecília, estalando um suspiro.
E como Tubarão ficasse calado:
— Você saiu hoje muito cedo...
— É verdade, resmungou o marujo, coçando a cabeça, sem encontrar um modo de principiar o que desejava dizer. É verdade...
— Que tem você hoje, Tubarão? Estou o estranhando...
— São cá coisas. Eu não preguei olho esta noite!...
— Hein?! perguntou Cecília com sobressalto.
— É, respondeu o outro; passei­a em claro e de pé!...
— De pé?! No seu quarto naturalmente?...
— Sim; à minha janela...
— À sua janela, mas...
— Das onze às três da madrugada...
— Ah! fez Cecília, sem levantar os olhos.
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E os dois ficaram mudos, defronte um de outro. Ela principiou a coser com mais empenho, porém a agulha tremia­lhe nos dedos.
— Vou escrever ao patrão!... disse afinal o marinheiro.
— Vai escrever? exclamou a senhora, erguendo­se e deixando cair no chão a costura. Mas que tem você para dizer ao capitão?! Fale com franqueza!
— Eu vi tudo! explicou secamente o marinheiro.
— E por que então não veio ao meu socorro?! Se soubesse o serviço que me teria prestado!
— Como?! O serviço?... vossemecê então não estava por seu gosto a aturar aquele sujeito de ontem?!...
— Oh! Deus sabe por que o aturei!
— E por que foi?...
— Infelizmente não lhe posso dizer nada, mas juro­lhe que sou incapaz de faltar com meus deveres de esposa!
— E consente que um homem penetre fora de horas em sua casa, patroa?... Ah! Isso não se faz!
— Em minha casa, não!
— Mas no seu jardim!...
— Oh! não me crimine por amor de Deus! Juro­lhe que não sou culpada!
— Sim! eu acredito, mas...
— As aparências acusam­me; bem sei! repito­lhe porém que sou incapaz de enganar meu marido!
— Que quer dizer então a visita daquele homem?... Desculpe 141 de 371
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vossemecê, mas eu tenho de dar contas ao comandante! Não! lá o que me está em confiança há de ser vigiado! Se aquele sujeito é um velhaco, eu o afasto com dois murros; se ele aqui veio autorizado pela dona da casa, então é com ela que me tenho de haver!
— Que quer dizer você?
— Quero dizer que eu aqui represento a pessoa do meu patrão! Se ele é atraiçoado, tenha vossemecê paciência, mas eu o vingarei!
— Uma ameaça?! Mas...
— Não tem mais, nem menos! É pôr em pratos limpos o que há! Cartas na mesa! Ou então faço justiça a meu modo!
— Meu Deus! exclamou Cecília, segurando a cabeça. Que humilhação! que vergonha! E, vendo que o marinheiro parecia firme nas suas ameaças, procurou abrandá­lo com ternura. — Mas, Tubarão, reflita, lembre­se de que há coisas, segredos, que se não podem contar assim tão facilmente!...
— Uma mulher honesta não tem segredos para seu marido!
— E se for um segredo que venha do tempo em que eu ainda não era casada?... Acaso me poderão agora responsabilizar por ele?...
— Conforme!... respondeu Tubarão, inalterável. Em todo o caso não admito que se engane ao meu comandante! Se vossemecê não me quer dizer o que há, Pedro Ruivo há de dizê­lo à força!
— Ah! exclamou Cecília, empalidecendo. Estou perdida! Sabe tudo! murmurou ela.
— Que há entre Pedro Ruivo e vossemecê, D. Cecília?!
— Oh! se sabe tudo, não me obrigue a corar em sua presença! Poupe­me essa vergonha!
O pequenito levantara­se atraído por aquela cena e olhava 142 de 371
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espantado para Tubarão.
— Eu não sei coisa alguma! respondeu este. Fale vossemecê!
— O meu Deus! Mas que quer que lhe diga?!...
— Quero que me fale com franqueza ou comunico o que sei ao comandante. Se vossemecê for inocente, não lhe farei mal algum... pode ficar descansada...
— E jura­me, Tubarão, que, se eu lhe provar a minha inocência, poderei contar com o seu auxílio para fugir à perseguição de Pedro Ruivo?...
— Palavra de marinheiro!
— Nesse caso vou contar­lhe tudo.
E Cecília narrou francamente os fatos de sua vida, já sabidos pelo leitor. Tubarão ouviu­os com interesse e, terminada a narração, corriam­lhe as lágrimas dos olhos.
— Com mil raios! exclamou ele afinal; há muito homem ruim por este mundo!
E, tendo refletido um instante, perguntou se Gregório não era então filho do comandante.
— Não! respondeu Cecília; não é.
— Raios me partam! que não sei o que faça! A senhora devia ter declarado isso logo, no momento de casar!...
— Faltou­me a coragem, meu amigo...
— Agora, ou hei de mentir ao patrão, ou tenho de acusá­la; o que deveras me faz pena, porque no fim de contas, o culpado é aquele maroto! Ah! ele é que devia receber uma boa lição!... E há de recebê­la ou não sou eu quem sou!
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Cecília, quando o Tubarão se despediu, recolheu­se ao quarto muito acabrunhada. À noite apareceram­lhe febres, e no dia seguinte não se pôde levantar da cama.
Entretanto, o marinheiro embalde procurou encontrar­se com Pedro Ruivo. Este nem só faltara à entrevista de que falaram os dois homens da taverna, como não aparecia em parte alguma; só no fim de quinze dias constou que ele já não estava no Porto.
— O velhaco parece que adivinhou! disse consigo o Tubarão, e adiou para mais tarde o que reservava para o Ruivo. Mas não pôde ficar tranquilo; Cecília continuava doente, desde o terrível dia em que o rude marinheiro lhe arrancou a confissão da sua falta.
— Fui um bruto! considerava ele; devia ter feito a coisa de outro modo! Fui logo às do cabo!
E, para penitenciar­se, desfazia­se em desvelos com a enferma. A moléstia, porém, não cedia, e o médico de Cecília principiava a desanimar.
Assim correram dois meses e meio, até que a chegada inesperada do comandante veio transformar completamente a situação. Leão Vermelho trazia consigo uma carta anônima em que lhe patenteavam as culpas da mulher. Pedro Ruivo cumprira a sua promessa: Cecília estava denunciada. O comandante, que vivia já sobre desconfiado com a primeira carta surpreendida nas mãos da esposa, acabou por se julgar traído e ultrajado, principalmente à vista dos sobressaltos da acusada, quando ouviu falar do crime em que era suspeita, e à vista dos embaraços de Tubarão, quando o amo o interpelou sobre o que se passara com Cecília na sua ausência.
— És um canalha! bradou­lhe Leão Vermelho, quando percebeu que Tubarão não lhe contava tudo o que sabia.
— Serei, com mil raios! mas não abro a boca para dizer uma palavra!
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— És então o cúmplice daquela miserável?!
— Não! sou o cão que lhe guarda a porta! Ninguém entrará ali para lhe fazer o menor mal!
Ouviu­se então uma gargalhada estranha. E o vulto de Cecília, pálido e transformado, assomou à porta do seu quarto.
Parecia vir da sepultura.
Leão Vermelho recuou assustado, e Tubarão olhou com grande espanto para a figura esquálida, que acabava de surgir no esvazamento da porta.
Cecília parecia um espectro; a magreza extrema secara­lhe as cores provocadoras do rosto; seus olhos bailavam nas cavadas órbitas, sinistros na travessa inconsciência da loucura; os cabelos caíam­lhe desgrenhadamente pelo rosto e pelas costas, dando­lhe a expressão fantástica de uma fúria de Góia; o peito, despojado pela moléstia, aparecia na sua profunda palidez por entre os rasgões da camisa, e os braços esqueléticos moviam­se vagarosamente, quase sem forças para suportar o próprio peso.
Os dois homens sentiram­se aterrados à vista daquela aparição inesperada. O pequenito, ao encarar com o medonho espectro da mãe, abriu a chorar de medo e a segurar­se nas pernas do marujo.
Cecília, entretanto, continuava a rir estranhamente e a fazer para os dois momices ininteligíveis. O marinheiro cobriu o rosto com as mãos e abafou os soluços; só se lhe via arfar o largo peito, debaixo das grossas barbas rodadas pelo pranto. O comandante passeava os olhos de um para o outro, como se lhes perguntasse a ambos o que haviam feito da sua felicidade. Depois apoiou­se à parede e caminhou tropegamente para o quarto; o pequenito quis acompanhá­lo, mas ele o desviou com a mão, sem voltar o rosto.
Cecília apontou para o filho e soltou uma nova risada. Então o marinheiro tomou ao colo a criança e começou a ameigá­la, 145 de 371
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como fazia dantes nos tempos mais felizes; Gregório só se consolou de todo com a promessa de que o marujo lhe contaria a história da sereia que furtava os meninos endiabrados. Mas o pobre homem tinha de interromper de vez em quando a sua narrativa, porque um áspero novelo lhe tolhia a voz na garganta.
— Você está chorando?... perguntou o pequeno, muito admirado.
— É que tenho pena dos meninos que a sereia carrega ...
— Coitadinhos! disse aquele interessado na história, e pediu ao marujo que lhe cantasse certa modinha de que ele gostava muito.
— Não! hoje não se canta!
Mas o pequeno insistiu, chorou; e o marinheiro afinal, para não ser ouvido pela patroa, carregou com ele para o terraço e principiou a cantar a mesma loa com que procurava antigamente distrair Cecília. A voz rude e grossa tremia­lhe na garganta. O pequenito, assentado nas pernas do marujo, olhava para este embebido naquela toada monótona, com que tantas vezes adormecera.
Quando Tubarão acabou, soluçando, a última estrofe da cantiga, deu com a louca, que ali fora atraída por uma vaga reminiscência das suas tardes de verão. Essa não chorava.
Veio o médico mais tarde e declarou que a doente precisava sair daquela casa. Tubarão não sabia o que fazer; procurou falar ao amo; este, com um formidável grito, exigiu que o deixassem em paz, depois tornou a fechar a porta do quarto e não apareceu a mais ninguém nesse dia.
Em tais apuros, saiu de casa o marinheiro para providenciar sobre o que urgia, quando, ao dobrar uma esquina, deu cara a cara com Margarida, que passeava pelo braço do marido.
— É o Tubarão! exclamou o conde, quando o marinheiro se aproximou dele.
— Creio que sim! porque eu mesmo já não sei a quantas ando!
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— Você já não mora em companhia de Cecília? perguntou Margarida.
— Pois é por causa dela mesma, coitada! que ando nesta dobadoura...
E o marinheiro em poucas palavras contou o que havia.
— Conde, depressa! gritou a boa senhora; corramos a socorrer a pobre Cecília!
O conde deu­lhe o braço e seguiram todos para a casa de Leão Vermelho.
Margarida havia chegado na véspera ao Porto, e tinha de partir daí a três dias. O médico aconselhara ao marido que a fizesse viajar, e o conde, que adorava a mulher, tremia só com a ideia de que lhe voltassem a ela os antigos padeci­montes Mas desta vez era necessário um clima mais quente, e, como Margarida não se dava bem com os ares do sul da Itália, ficara resolvido seguirem para o Brasil.
O conde chamou um carro que passava na ocasião, e daí a pouco eram conduzidos pelo marujo ao lado da louca. Cecília não os reconheceu, ou pelo menos não mostrou o menor interesse em tornar a vê­los. Leão Vermelho atirou­se nos braços do amigo, e então desabafou em lágrimas o desgosto que se lhe havia acumulado no coração.
— Sou um desgraçado! disse ele, com a cabeça no peito do conde; imaginei que o casamento me traria a paz na velhice e a consolação para as injustiças que recebi de toda a parte, quando aliás só me serviu ele para carretar novos dissabores e para me amargurar de todo o resto da existência!
O conde interrogou por vários modos o comandante, mas este não lhe quis dar explicações. Ficou decidido que Cecília entraria para uma casa de alienados e passaria, quando melhorasse, para o convento de Santa Clara; quanto a Gregório, a condessa o 147 de 371
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reclamou para si e encarregou­se de educá­lo.
Daí a três dias seguiam o conde, a esposa e o pequenito para o Brasil; Leão Vermelho, acompanhado do seu fiel marinheiro, tomava passagem para as Antilhas espanholas, onde tencionava especular no comércio, e a pobre louca recolhia­se ao hospital.
Gregório demorou­se três anos em poder da condessa, e durante esse tempo recebeu a mais desvelada educação que se podia proporcionar a um filho querido. Margarida tomou­lhe verdadeiro carinho e só consentiu em separar­se dele, quando deu à luz a única filha que teve, Maria Luísa, aquela bela menina loura, que no começo desta narrativa costurava à luz do candeeiro de alabastro no palacete da Tijuca.
Gregório passou então para o colégio do barão de Totœpheus, onde cursou os seus primeiros estudos. A condessa, mal convalesceu do parto, voltou com o marido a Portugal, deixando tomadas todas as providências necessárias para que no Brasil nada faltasse ao filho adotivo, e sendo ao lado deste substituída por uma sua amiga, D. Florentina de Aguiar.
E agora, que Gregório está aboletado perfeitamente no colégio, com o seu belo enxoval de roupas brancas, os seus livros novos, a sua cama de ferro, a sua mesinha de cedro e a sua pequenina estante de madeira pintada, deixemos que ele se desenvolva e se vá preparando para entrar mais tarde nas cenas que o esperam; por enquanto, vamos acompanhar o Leão Vermelho, cuja vida transcendente tem de explicar muito dos episódios ocorridos nos passados capítulos e muitos episódios ainda não conhecidos do leitor.
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XIV
OS PAIS DE GREGÓRIO
Leão Vermelho pouco tempo se demorou pelas Antilhas; percorreu Cuba e Porto Seguro; foi feliz no comércio de tabaco, e tentou alargá­lo, entregando­se a novas especulações.
Os desgostos de família, a ausência de carinhos, a falta absoluta de alguém a quem se dedicasse ele de coração, deram­lhe ao caráter esse espírito ganancioso que se nota principalmente nos judeus desmanados ou nos padres católicos, aos quais as leis canônicas proíbem constituir o lar, a dedicação íntima e o amor.
Mas o pai oficial de Gregório tinha inegável queda para fazer família. E a prova disso vai ver o leitor.
Dissemos que de se lembrara de ampliar as suas especulações, e acrescentamos agora que Leão Vermelho não poderia encontrar melhor época para pôr em prática semelhante resolução. A guerra do Paraguai estava no seu apogeu; os comissários de todos os matizes enriqueciam da noite para o dia; chegar ao Paraguai com um carregamento de víveres e objetos de uso vulgar era haver como certo o valor desses objetos dobrado vinte vezes a peso de ouro.
Leão Vermelho fez um grande carregamento com todo o dinheiro que ganhara nas Antilhas, e resolveu seguir para o Rio da Prata.
Teve porém de demorar­se no Rio de Janeiro mais tempo do que supunha, porque fora acometido pela febre amarela. Morava para as bandas de Catumbi, numa casa de pensão, dirigida por uma viúva ainda moça. Foi esta que se encarregou de o tratar, e com tanto empenho se dedicou a tão displicente tarefa, que o capitão, ao convalescer da febre, havia adoecido de uma outra enfermidade, cujos lenitivos só a própria enfermeira lhos podia 149 de 371
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ministrar.
E ministrou­os. Não a medir sovinamente as doses, como fazem os médicos, mas a franqueá­las liberalmente, como se quisesse utilizar as suas drogas, que se iam desvirtuando sem aproveitar a ninguém. De sorte que Leão Vermelho, ao partir para o Rio da Prata, já levava saudades da corte e já se sentia consolado quase das suas primeiras adversidades conjugais.
Os ressentimentos desapareceram afinal, mas as saudades foram avultando de tal forma, que o comissário acabou por acreditar que já lhe não era possível dispensar a consoladora companhia da viúva. Isso mesmo deixava ele provocado no calor das suas cartas e no interesse que punha nas palavras, sempre que falava em voltar para a casa de pensão da Sra. D. Henriqueta dos Santos. Esta, pelo seu lado, não podia deixar de ter na memória o querido hóspede, porque Leão Vermelho se fazia representar na sua ausência por um fenômeno fisiológico muito conhecido, que ia roubando à viúva uma grande parte da elegância, e dando à sua cintura uma certa dilatação suspeita e respeitável ao mesmo tempo.
Quando, um ano depois, o comissário voltou ao Rio de Janeiro, em vez de ser recebido simplesmente pelos dois belos braços carnudos de D. Henriqueta, foi também recebido por mais outros dois, não tão provocadores, porém talvez mais belos e com certeza mais adoráveis: eram os bracinhos de uma filha.
O leitor não precisará fazer um grande esforço de inteligência para adivinhar que essa criança é Clorinda, a formosa criatura que havia de mais tarde cair nas garras do nosso Gregório.
Leão Vermelho continuava a prosperar; as especulações do Paraguai enchiam­lhe fartamente as algibeiras. D. Henriqueta desfez a casa de pensão, e dela conservou somente uma velha amiga de muitos anos: D. Januária; cumprindo deste modo, não só um dever de gratidão para com essa pobre senhora que fora por longo tempo o seu braço direito, como também evitando assim ficar só com a filhinha, durante as repetidas viagens do capitão.
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O comissário comprou uma confortável casinha no Campo de Santana, preparou­a com o desvelo dos homens dados à família, e dispôs­se a encontrar, nesse modesto refúgio, a paz e a felicidade que não conseguiu gozar nos braços da esposa legítima.
Clorinda foi batizada muito modestamente; convidou­se para padrinho um rapaz da vizinhança, que já em algum tempo fora pensionista de Henriqueta: o Portela, belo moço do comércio, pacífico e apresentando bons costumes. Diziam dele coisas muito lisonjeiras, e entre os da mesma classe passava por espírito claro e vantajosamente cultivado.
Foi desse modesto padrinho que brotou aquele pretensioso comendador, com que travamos conhecimento desde o primeiro capítulo. Trazia já consigo certa pontinha de empáfia; já naquele tempo, se bem que os meios lhe não permitissem ainda ablaquear grande figura, gostava ele de empinar o nariz e de emitir opinião sobre assuntos de sua ignorância. Para madrinha convidou­se quem era de esperar: D. Januária. A boa senhora morria de amores pela filhinha da amiga; ficou satisfeita com a escolha. E tudo correu muito bem.
Leão Vermelho, ainda não saciado, voltou ao campo de suas especulações e, ao que parece, não com menor fortuna do que da primeira vez, porque ao voltar agora tratou de desenvolver a sua casa; cercou­se de opulência, abriu as salas e procurou estender as suas relações com a melhor sociedade.
O diabo era o fato de não ser casado ou, por outra, de ser já casado e não poder, assim, justificar as suas relações com Henriqueta e apresentá­la limpamente nos salões que em torno dele se abriam. Entretanto ninguém no Brasil parecia estar ao fato do seu casamento em Portugal, e ele próprio ia jurar que Cecília havia já morrido no tal convento a que afinal se recolhera, pois nunca mais lhe constou a menor novidade a respeito da pobre louca.
Sob esta impressão recebeu a notícia de que acabava de morrer em Minas Gerais um tio materno de Henriqueta, do qual nem a 151 de 371
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própria sobrinha se lembrava. Nada menos de uma herança de cem contos de réis! Este fato o decidiu a contrair casamento com a herdeira e partir depois em companhia dela para o lugar onde tinha de receber o legado; mas a fortuna, que até aí não o desamparara, entendeu desta vez virar­lhe as costas. O tio de Henriqueta deixara alguns parentes afastados; esses parentes cobiçaram também o dinheiro do defunto e trataram de guerrear a pretensão da sobrinha. Leão Vermelho foi perseguido; os inimigos, no furor de prejudicá­lo, descobriram a sua bigamia, levaram o escândalo para a imprensa e mais tarde para os tribunais. O comissário, aflito com semelhante perseguição, deixara a província e, sendo acossado igualmente no Rio de Janeiro, fugira para Buenos Aires, ficando a mulher, a filha e D. Januária na Corte.
Definitivamente a estrela do pobre Leão Vermelho principiava de novo a assombrar­se, porque pouco depois da sua partida, Henriqueta falecia de um terrível aborto.
Contudo as perseguições continuaram, e Leão Vermelho resolveu voltar à pátria e reclamar depois a filha. Constou então que ele havia morrido e os inimigos para sempre se apaziguaram. Clorinda ficara em companhia da madrinha, D. Januária, que desde então principiou a servir­lhe de mãe. Foi nessas condições que a encontramos já mulher no primeiro capítulo, a vestir­se para o malogrado casamento de Gregório. O pai fazia chegar misteriosamente às mãos de Januária uma mesada, que chegava perfeitamente para ela e Clorinda. O leitor sabe já qual o efeito da suspensão dessa mesada com a morte real do comissário. Mas o que ainda não dissemos, e o leitor talvez não desdenhe saber, é o que foi feito de Tubarão, e quais as circunstâncias que o colocaram mais tarde ao lado de Talha­certo, envolvendo­o no crime da casa Paulo Cordeiro. É o que vamos ver.
O marinheiro acompanhou o amo ao Paraguai e, por ordem dele, aí ficou para o secundar nos seus negócios; depois, com a segunda viagem de Leão Vermelho, terminaram as especulações deste, e o marujo conseguiu encartar­se a bordo de um navio brasileiro. Só voltou à Corte com o fim da guerra e passou então a 152 de 371
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trabalhar como calafate no arsenal de marinha. Nesse estado é que o encontramos no café da Menina do Bandolim.
Sabe agora o leitor a verdadeira causa do espanto, e talvez da alegria, de Tubarão ao ouvir dizer pelo Talha­certo que Pedro Ruivo estava no Rio de Janeiro. O marinheiro nunca perdoara o mal que o tratante fizera a Cecília e aguardava ainda, com o mesmo empenho, um seguro momento de vingar a sua querida ex­ama. Cumpre também esclarecer um outro ponto: quais as relações que existem entre o comendador Portela e o tal Ruivo; relações estas que implicam com uns certos documentos desfavoráveis ao comendador e que se supunham em poder do Ruivo.
Vamos a isso, mesmo porque é tempo de acentuarmos melhor este tipo, cujo desenho foi até agora apenas esboçado por alguns fatos de sua vida.
Ruivo era uma dessas figuras indefinidas e duvidosas, das quais é muito difícil determinar, só pelas aparências físicas, o caráter, as intenções e a idade. A expressão da sua fisionomia variava conforme a situação; nadavam­lhe às vezes os olhos em um mar de ternura, às vezes cintilavam de esperteza e ganância, e às vezes amorteciam indiferentes e distraídos E todo o rosto acompanhava essa ginástica dos olhos, fazendo­se, ora compassivo, ora carrancudo, ora imbecil. A tez, tão facilmente aparecia corada e lustrosa, como se tornava pálida e baça. Os lábios mexiam­se de mil modos e davam à boca toda as expressões da dor, da alegria, da maldade e do heroísmo; só um traço se conservava fiel aos seus lábios: era um certo arquear do canto da boca, como se nota em geral nos velhos cômicos, habituados ao falso riso.
Pedro Ruivo talvez tivesse dado de si um bom ator. Ninguém como ele governava tão despoticamente a fisionomia, e ninguém sabia conduzir as inflexões da voz com tanta arte e com tanta felicidade. Quando queria enganar alguém, arrancava da garganta maviosos queixumes doloridos, ou então gritos indignados, agudas exclamações de cólera, de amor e de pasmo.
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Tudo isto sem o menor esforço, sem o menor estudo. Conhecia por natureza todos os segredos da ciência de agradar, de abrir os corações e ir penetrando familiarmente por eles, como quem dispõe do que é seu.
Entretanto não tinha amigos e era incapaz de fazer o menor serviço desinteressado, fosse ele o mais simples deste mundo. Quando se mostrava indignado defronte de alguma injustiça ou de qualquer perversidade, ninguém acreditaria que ali estivesse o mais cínico dos homens; da mesma forma, quando tinha de desagravar o suposto brio de qualquer ofensa, ninguém, pelo seu aspecto resoluto e digno, seria capaz de perceber o poltrão que se escondia debaixo dele.
Com semelhantes dotes conseguiu sobreviver ao destroço dos seus bens e conseguiu inspirar simpatia a muita gente. Logo que empobreceu, principiou a tirar partido do jogo; não jogava sem trapacear. Uma noite, justamente no tempo em que perseguia a mulher de Leão Vermelho, foi pilhado em ladroeira, e teve que fugir do Porto. Assim se explica a sua desaparição, quando o marinheiro pretendia lançar­lhe as unhas.
Pedro Ruivo conseguiu passar ao Rio de Janeiro. O Brasil sorria­lhe de longe, como um vasto campo onde podia ele exercer livremente a sua arriscada indústria. Começou logo a correr as províncias, já engajado em uma companhia dramática, como secretário; já à sombra de algum amigo remediado de fortuna; já como fac totum de alguma estrela de brilho suspeito.
E assim se escoaram quinze anos; apareceram­lhe as rugas e os cabelos brancos. O libertino compreendeu então que havia esbanjado todos os bens com que viera ao mundo, e caiu em um grande desânimo. Sentia­se cansado de não haver feito coisa alguma; a ideia da sua maldade e da sua influência perversa sobre aqueles com quem convivera, encheu­lhe o coração de um profundo desgosto envergonhado. Pensou no suicídio. A morte apareceu­lhe como aparece a ideia de deserção ao mau soldado; queria fugir da vida, porque esta se convertera para ele em uma mochila difícil de suportar. Mas não teve ânimo de morrer; 154 de 371
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não teve coragem de separar­se por uma vez daquela matéria vil, que lhe reclamava dia a dia o necessário para alimentá­la. Que inferno! considerava ele nos seus momentos terríveis. Que inferno! ter eu de sustentar esta besta!
Era o egoísmo na sua suprema expressão. E a existência tornara­se­
lhe assim um verdadeiro tormento. Vivia mal cuidado, mal nutrido, às vezes sem casa, sempre sem esperanças e sem alegrias. A felicidade dos outros o torturava de modo cruel; não podia ver ninguém desfrutar a vida satisfeito.
A mulher, esse ente imperfeito e adorável, que dantes o levava a cometer tamanhos desatinos, convertera­se agora, para ele, no mais feio objeto de desprezo; quanto mais bela fosse, quanto mais terna, mais digna de ser amada, tanto mais Pedro Ruivo a execrava. Agora, a um beijo preferia um par de botas e, de bom grado, trocaria todos os sorrisos feminis do mundo por uma miserável nota de cinco mil réis. A fome, o mau trato, os vícios dele e os do seu sangue, transformaram­lhe completamente o corpo. Já nada existia daquele tipo asseado e simpático que vimos no Porto passear de braço dado à Cecília no domingo da excursão à quinta. Seus olhos tinham perdido o brilho sensual dos outros tempos, e deixavam­se agora engolir sonolentamente pelas pálpebras bambas e amortecidas; o nariz, de fino e bem feito que fora, transformara­se em um torpe objeto, informe, gorduroso e vermelho; a boca perdera dentes e descaíra pelo hábito do cachimbo; o velho abuso do álcool principiava também a reclamar os seus direitos e sacudia­lhe já com delirium tremens os membros narcotizados pela aguardente.
Todo ele era inchação, tosse, reumatismo e maus humores. Já não podia beber um trago sem ficar logo embriagado e trêmulo. E, sem roupa, sem dinheiro, sem vontade de viver, escrofuloso e porco, arrastava­se pelas tavernas, dormia pelas calçadas, bebia nos chafarizes e pedinchava pelas casas de pasto.
Neste estado, dormitava uma tarde nos bancos do Passeio Público, quando ouviu perto de si a conversa de dois tipos, que falavam animadamente. Um era o comendador Portela; o outro o leitor 155 de 371
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reconhecerá depois.
— Mas onde estão os papéis?... perguntou o Portela, chegando a boca ao ouvido do companheiro.
— Estão ainda no hotel do Caboclo, dentro da minha mala. Posso ir buscá­los hoje mesmo e entregá­los ao senhor, contanto que, no ato da entrega, o amigo...
— Caia com o continho de réis!... Está dito, pode ficar descansado! Leve­me os papéis e terá o dinheiro!
— Bem, vou então buscar a mala, prometeu o sujeito ao comendador; e levo­lhe depois os documentos.
— Ou então, olhe! o melhor é seguirmos juntos; vamos lá para casa, e mandamos buscar a mala por uma pessoa de confiança. Lá no hotel saberão entregá­la?
— Isso é o menos. Não tenho outra malinha de ferro em meu quarto, mas, é que certos objetos não devemos confiar a ninguém...
— Bom! bom! volveu o comendador; escusa de desconfiar com a gente! Já cá não está quem falou. Vá você mesmo buscar a sua mala...
E os dois, depois de conversarem ainda por algum tempo, saíram vagarosamente do Passeio Público.
Mas, Pedro Ruivo, que ouvira toda a conversa, havia já disparado com direção ao hotel do Caboclo.
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XV
AVENIDA ESTRELA
Pedro Ruivo, chegado que foi ao hotel, tratou logo de saber reservadamente como se chamava o hóspede que ele vira a conversar no Passeio Público com o comendador Portela.
— João Rosa, disseram­lhe.
O embusteiro dirigiu­se então ao gerente da casa e explicou­lhe que a pessoa daquele nome mandava que lhe entregassem ali uma pequena caixa de ferro, que estava no seu quarto.
— Vá você mesmo buscá­la, respondeu o gerente. É aquele o quarto.
E mostrou uma porta ao fundo de um corredor sombrio e mal arejado.
— A chave! reclamou Pedro Ruivo.
— A chave? pois você não a traz? O hóspede desse quarto nunca a deixa no hotel...
Pedro Ruivo deu aos diabos a sua má estrela. Queixou­se de João Rosa, do gerente, de si próprio, e afinal desceu muito desapontado as escadas e colocou­se à porta do hotel, para ver se mariscava alguma coisa.
— Ora bolas! dizia ele consigo; quando um diabo dá para caipora é isto que se vê!...
E reconhecendo João Rosa em um sujeito que acabava de entrar, apartou­se, receoso de que descobrissem a sua tentativa de há pouco. Todavia ninguém no hotel notou sequer a rápida entrada e 157 de 371
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a imediata saída daquele. Fora simplesmente buscar o cofre ao seu quarto. Pedro Ruivo estava assentado ao canto, quando o viu passar todo atarefado a sobraçar o precioso cofre.
— Ali vai o meu tesouro! resmungou o gatuno e, ferido por uma ideia súbita, levantou­se rapidamente, tirou o chapéu e disse ao Rosa com uma doce voz de bom homem: Ó patrãozinho! dê esse carretinho a ganhar à gente! V. S. vai aí a molestar­se...
João Rosa hesitou a princípio, mas julgando bem do peso do cofre pela má impressão que principiava a sentir no braço, perguntou ao carregador quanto queria para levá­lo até à rua Direita e, depois de ajustar, passou­o para as mãos do Ruivo.
Quem visse o modo simples pelo qual este recebeu aquele objeto; o ar modesto com que ele, de pé, esperava humildemente que o outro abrisse caminho, não seria capaz de suspeitar nem de leve das suas intenções.
O Rosa seguiu adiante, Ruivo acompanhou­o a pequena distância; mal porém tinham feito uns quarenta passos, já o último se havia enfiado pela porta de um café, que ficava na esquina, e saído pela porta da outra rua, enquanto Rosa mais adiante o procurava com a vista.
Pedro Ruivo ganhou a primeira viela da Cidade Nova, meteu­se no primeiro bonde que passou, e seguiu para o Rio Comprido. Só parou defronte da antiga estalagem da Avenida Estrela. Ele aí não conhecia ninguém, mas o aspecto do lugar pareceu­lhe magnífico para um segredo. Entrou.
A Avenida Estrela é uma velha chácara situada ao sopé de umas montanhas que ficam à esquerda de quem sobe o Rio Comprido. Há na entrada um grande portão de ferro, talhado entre um extenso gradeamento, onde de espaço a espaço avultam colunas de pedra e cal, quadradas e encimadas por uma espécie de tulipa aberta para o céu. Algumas dessas colunas despiram já a camisa de estuque e mostravam a cor da pedra e a cor do barro; em outras se nota a ausência do capitel e das cimalhas.
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Mas quem entra na Avenida Estrela esquece­se de tudo isso, arrebatado pela exuberante vegetação que a cerca. De todos os lados a mesma pujança e a mesma opulência da natureza! Os montes afogam­se em um oceano de verdura; as árvores amontoam­se desde longe, acumuladas umas sobre outras, formando matizes admiráveis e planos que se vão amortecendo, à proporção que se afastam de nossos olhos, até se confundirem com o violeta das longínquas serras, lá no extremo do horizonte, por entre os vapores do céu.
Principia a chácara por um renque de palmeiras, que parecem brotar dos maciços cercilhados da murta e das compactas moitas de margaridas. Esses maciços formam pequenas ruas, que se entranham pela chácara e vão dar aos tabuleiros de hortaliça e às valas de agrião. Depois é que surge a velha escadaria de pedra rajada, e afinal o casarão antigo, misterioso e triste como um medieval castelo abandonado.
Pedro Ruivo enveredou­se por uma daquelas ruas e caminhou à toa por entre a verdura. Quando se julgou em lugar seguro, pousou no chão o cofre e principiou a contemplá­lo, assentado ao seu lado.
— Que estaria ali dentro?... papéis sem dúvida! mas papéis que valiam pelo menos um conto de réis para o comendador Portela!...
E Pedro Ruivo, sem conseguir domar a fantasia, principiou a fazer soberbos castelos de fortuna, entre, os quais se sonhava nadando em muito dinheiro. Era impossível que ali só estivessem os tais documentos que sobressaltavam o comendador! Com certeza havia muito mais! O cofre não era tão peque­no!... O pior porém é que o Ruivo não o conseguia abrir: as quatro faces lisas daquela estranha caixa não apresentavam o menor sinal de fechadura, não davam o menor indício por onde devia ser ela aberta; eram quatro lâminas de aço, formando um perfeito paralelepípedo. Havia ali com certeza algum segredo sutil, alguma mola, com o qual o gatuno não atinava. E o Ruivo possuído inteiramente pela sua presa, olhava­a por todos os lados e experimentava­lhe todos os cantos, sem conseguir descobrir coisa alguma.
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A noite formou­se de todo. Uma bela noite luminosa, cheia de estrelas, Pedro Ruivo continuava a tatear o cofre, quando de repente sentiu fugir­lhe debaixo dos dedos a extremidade do ângulo de uma das lâminas.
— Ah! exclamou ele sem poder conter a alegria.
Estava tudo descoberto! Tudo, até o próprio Ruivo, porque o seu grito chamara a atenção do estalajadeiro, Papá Falconnet, que naquela ocasião passeava pela chácara a refazer­se com o fresco da noite.
Papá Falconnet era um alegre velho francês de setenta e tantos anos, porém ainda muito senhor de todas as suas faculdades físicas e intelectuais. Homem de pouca estatura, grosso de ombros, pulsos rijos, cabeça perfeitamente coberta de cabelos grisalhos, curtos e crespos, bigode e barba à Cavaignac, olhos vivos, pescoço reforçado e dentes ainda vigorosos. Tinha certa vaidade do seu vigor. “Pois olhem que não foi porque não aproveitasse eu bem a minha mocidade!” exclamava ele a quem lhe elogiava os seus belos setenta e dois anos. E afiançava sempre que, antes de engolir os trinta e tantos que tinha no Rio de Janeiro, já havia gramado vinte em Paris, dez na Bélgica e outros dez em Bordeaux; e que durante todo esse período só duas coisas conhecera que verdadeiramente o deixaram assombrado: Era Napoleão Bonaparte e a portentosa natureza do Brasil.
Falconnet, nascendo com o século, palpitara na sua mocidade sob a impressão dos dramas napoleônicos e nunca mais pudera fugir à romântica influência desse tempo. Ainda agora, quando alguém lhe falava de Austerlitz, de Marengo, Ratisbonne ou de outra qualquer vitória do feliz capitão, os olhos enchiam­se­lhe de entusiasmo; erguia a cabeça e, com um braço no ar, principiava ele a cantar a Marselhesa.
Os hóspedes tratavam­no todos com liberdade amiga; batiam­lhe no ombro e perguntavam­lhe: “Como iam os seus amores”. Falconnet ria, fingia zangar­se, ralhava, mas daí a pouco se metia de troça com os rapazes e não se lembrava mais de que tinha o 160 de 371
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triplo da idade de cada um deles.
Pois foi esse homem de setenta e tantos anos quem descobriu Pedro Ruivo escondido por entre as árvores da alameda.
— Que faz você aí?! perguntou ele, aproximando­se.
— Estou a descansar, patrão... disse o gatuno, procurando esconder o cofre.
— Pois venha descansar cá para dentro, aconselhou o velho, aproximando­se mais, disfarçadamente.
E quando o Ruivo ia abrir carreira por entre o mato, já o francês ganhara de um salto a distância que os separava e o empolgava pelos braços. Não foi preciso sustê­lo durante muito tempo, porque apareceu logo o hortelão, que estava perto, e pouco depois os hóspedes a cujos ouvidos chegaram os gritos do hoteleiro.
Mas, na ocasião em que conduziam Pedro Ruivo para a casa, deu este um arranco das mãos que nessa ocasião o seguravam, e ganhou o mato, pelo lado das montanhas.
— Não o deixemos fugir! gritou um dos rapazes que o perseguiam. Anglada! Augusto! Afonso! Por aqui! Cerquem o gatuno!
E os rapazes precipitaram­se no alcanço de Pedro Ruivo.
Se o leitor, em vez de ler simplesmente o que vai escrito, ouvisse também o metal da voz que gritou, ficaria sabendo que ali estava Gregório.
Pedro Ruivo continuou a subir de carreira o monte. Mas o cofre dificultava­lhe a fuga; as pernas principiavam­lhe a tremer, o cansaço tomava­lhe a respiração, e ele, já sem forças, ia render­
se, quando descobriu a gruta.
As pessoas que conhecem a Avenida Estrela sabem a que gruta nos referimos, e, se o leitor a não conhece, ficará fazendo dela ideia completa pela descrição que mais adiante lhe diremos.
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Pedro Ruivo ocultou o cofre ali, em um canto sombrio. Era tempo, porque caiu logo prostrado. A ideia, porém, de que a sua presença nesse lugar podia conduzir a atenção para o objeto que ele acabava de esconder, obrigou­o a afastar­se, com dificuldade, até chegar a um ponto, onde se assentou à espera dos perseguidores.
Gregório, que ia à frente dos outros rapazes, ao ver a calma do perseguido e o ar triste de miséria e fraqueza espalhado por todo ele, não pôde conter uma desagradável impressão de vergonha.
— Pois era para perseguir aquele desgraçado, que se fazia tanto alarme?!...
— Não se fie muito!... sentenciou o Anglada, a procurar as suas lunetas que lhe haviam escapado no furor da carreira.
O Augusto e o Afonso tomaram a deliberação de encarar o episódio pelo lado ridículo e abriram a rir ao mesmo tempo.
Entretanto Gregório se aproximara do gatuno e o examinava com muito interesse. Aquela figura triste e repugnante enchia­o de estranha compaixão. Sem saber porque, sentia­se atraído para aquele destroço de homem, que lhe parecia representar ali tudo o que há de doloroso e resignado na miséria humana.
— Com efeito! considerava ele; quanto não haverá de extraordinário na vida deste homem!... que obscuras circunstâncias não o teriam arremessado a tal extremo?... que não lhe teria sucedido para chegar a todo este aviltamento?... Será simplesmente um gatuno?... será um grande libertino ou será uma pobre vítima de mil infortúnios?!...
E Gregório, ou fosse por impulso do seu temperamento, ou fosse por qualquer outro motivo, sentiu­se sumamente interessado pelo miserável a quem há pouco perseguia; tanto que, depois do seu longo exame, lhe perguntou amigavelmente o que viera fazer ali.
Pedro Ruivo sacudiu os ombros.
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— Em que se ocupa o senhor? Onde mora? interrogou Gregório.
— Eu não me ocupo e não moro, respondeu o vagabundo.
— E então como vive? insistiu o rapaz.
— Não vivo, respondeu o outro, com um acento de profunda tristeza.
— E por que não procura trabalhar?... Por que se não ocupa em qualquer serviço?...
— Porque me falta a coragem para tanto... Eu sou um desgraçado. Estou completamente perdido!
— Entretanto não me parece um homem inteiramente sem habilitações...
— Ah! isso são modos de ver... Todo homem tem habilitações, desde que a tal se disponha. Eu podia dar um bom saltimbanco, mas o maldito reumatismo não me deixa senhor de minhas pernas...
— Por que então não se arranja aí em qualquer coisa? Hoje no Rio de Janeiro é muito fácil ganhar a vida...
— Espero tirar um prêmio na loteria...
— Não tem parentes?
— Tenho.
— Ah!
— Mas estão mortos...
— Pergunto­lhe se tem algum vivo.
— Também tenho disso. Tenho um filho...
— Ah! Tem um filho? E o que é feito dele?
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— Não sei...
— E o que mais tem além desse filho?
— Uma fome devoradora. Há trinta e tantas horas que não como...
— Pois venha para cá. Vou dar­lhe o que comer.
— Obrigado, disse Pedro Ruivo, levantando­se, disposto a acompanhar Gregório.
E daí a pouco entravam os dois no hotel, seguidos dos outros rapazes, que já haviam chegado.
O tipo miserável de Pedro Ruivo causou nos hóspedes uma terrível impressão; desafinava desastradamente do aspecto sossegado e burguesmente farto da casa do Papá Falconnet.
Vieram logo todos os hóspedes para a sala em que estava Pedro Ruivo.
O velho havia já referido os pormenores do seu encontro na chácara, e, como de costume, exagerara um pouco as circunstâncias do fato. Principiou­se a cochichar sobre o recém­
chegado e ninguém parecia disposto a perdoar a esquisitice de Gregório, recolhendo à casa um vagabundo, desprezível por todos os motivos.
Todavia Gregório ordenou que dessem de comer a Pedro Ruivo e voltou à sala para a palestra.
Nessa ocasião acabava de chegar o padre Almeida. Era um homem forte, sanguíneo, com uma ruidosa voz de baixo profundo. Não gostava de hipocrisias, contava, no estrondo de formidáveis gargalhadas, as escapulas que fazia, e não tinha pelos maçons, pelos positivistas e pelos ateus a menor sombra de prevenção ou de ódio. À noite, nas palestras em casa do Papá Falconnet, o demônio do padre não ficava calado um só instante, sem jamais esgotar o seu 164 de 371
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repertório de anedotas e pilhérias. Miravam estas quase sempre o jovial estalajadeiro ou a sua não menos jovial consorte, que as ouvia tranquilamente, com um pequeno riso de mofa, saracoteando as suas vigorosas ilhargas na preocupação dos arranjos da casa.
Além de Gregório foi o padre Almeida o único hóspede que atentara mais fixamente para Pedro Ruivo. Enquanto este na cozinha devorava o que lhe deram para cear, o padre o observava a certa distância.
Terminada a refeição, o vagabundo procurou o seu benfeitor para lhe agradecer o obséquio e pedir licença para se ir embora.
— Este homem cometeu hoje um crime, disse o padre em tom seco, com a sua voz de estrondo.
Pedro Ruivo estremeceu e olhou energicamente para ele. A fisionomia do gatuno havia mudado de expressão.
— Juro­o! sustentou o padre.
— E o que o leva a avançar semelhante coisa?! Perguntou o Ruivo, erguendo dramaticamente a cabeça e cruzando os braços.
— Sua própria cara, respondeu o interrogado, sem lhe tirar os olhos de cima.
— Foi então para isto que me conduziram aqui?! Antes mo tivessem dito, porque não aceitaria a esmola.
— Este homem roubou! acrescentou o padre. E o fruto do seu roubo está escondido na gruta!
— Ah! bradou o gatuno, saltando para a porta, enquanto os circunstantes repetiam estupefatos as últimas palavras do padre.
Não sabiam que este, logo ao entrar em casa, pedira ao Papá Falconnet informações sobre os fatos concernentes ao homem suspeito que acabava de ser introduzido no hotel, e por eles tirara 165 de 371
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a lúcida consequência que tanto assombrava Pedro Ruivo.
O embusteiro, ao ver­se denunciado, fugiu sem dar tempo a que o agarrassem, e precipitou­se pelos fundos da casa em direção à gruta.
— Prendam­no! gritou o padre, avançando. Mas foram baldados todos os esforços, porque Pedro Ruivo ganhara a chácara e logo desaparecera nas sombras da floresta que principiava ali mesmo a pequena distância.
Gregório recolheu­se ao quarto, envergonhado de ter protegido um intrujão daquela ordem. Ele ali no hotel sempre fora muito estimado de todos, se bem que para alguns passasse, debaixo do ponto de vista social, por um simples visionário. Gregório, como todo o rapaz inteligente, na idade que o nosso herói contava nessa ocasião, tinha as suas convicções republicanas e entusiasmava­se loucamente por tudo aquilo que dissesse respeito à liberdade. Não podia pactuar com a ideia do servilismo e da escravidão; contudo sabia governar perfeitamente o seu temperamento e passava por moço sossegado e comedido. Morava havia dois anos na Avenida e, durante esse tempo, ninguém tivera mal que dizer do seu procedimento. Nunca o viram exceder­se nas libações do jantar, nem o viram apoquentar com sorrisos intencionados e com olhares pretensiosos as raras mulheres que por lá apareciam; e até, se dermos crédito ao próprio dono da casa, Gregório levava o seu puritanismo ao ponto de nunca haver (por acaso, bem entendido) dado algum encontrão na criada, que aliás era uma moçoila das ilhas, corada como um pêssego maduro e rija como um pêssego verde.
E cremos que as coisas continuariam eternamente nesse pé, se o mesmo acaso, que nunca quis fazer abalroar com a rapariga cor­
de­pêssego, não se lembrasse de arrastar até à sossegada Avenida Estrela, um formoso lírio cor­de­neve, doce e melancólico como um suspiro de amor.
Mas não precipitemos os acontecimentos; ainda nos falta dizer o que foi feito do nosso herói, depois que o deixamos perfeitamente 166 de 371
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aboletado no colégio do barão de Tetœpheus.
Gregório chegou aos quinze anos de idade com muito boa disposição de corpo e menos mau aproveitamento intelectual. Os cuidados imediatos de D. Florentina e os desvelos, não menos valiosos, que de longe lhe enviava a condessa, foram­lhe de grande valimento. Mas até aí nunca recebera ele de quem quer que fosse uma explicação lúcida a respeito dos seus antecedentes, nem a respeito das pessoas a quem devia a sua educação. Ia quase sempre passar os domingos em companhia de D. Florentina de Aguiar; sabia que não era seu filho, mas ignorava completamente que espécie de relações havia entre ela e ele, e quais as razões que a faziam tão solícita a seu respeito.
As coisas neste ponto, caiu gravemente enferma D. Florentina, e Gregório, ao visitá­la, recebeu a notícia de que ia sair do colégio e passar a praticar na Alfândega, como caixeiro de um despachante geral parente daquela senhora.
— Chegaste à idade em que tens de principiar por ti mesmo a ganhar a vida, disse D. Florentina. Eu me sinto ir acabando muito apressadamente, e só desejo ver­te empregado antes que me fechem os olhos; de hoje em diante, meu filho, não deves contar no mundo com mais ninguém além de ti. Já não precisas do auxílio da pessoa que até agora provia a tua subsistência; por conseguinte, meu rapaz, faze por ter juízo e por ser homem. Não queiras nunca barulhentas glórias; não te queiras fazer saliente e notável, antes procura a doce paz de uma obscura felicidade. E isto, só a boa mediocridade nos pode proporcionar de um modo verdadeiramente seguro e constante. É possível que ainda venhas algum dia a conhecer teu pai ou tua mãe; pede­lhes que te abençoe, e tu, perdoa­lhes alguma falta que eles porventura hajam cometido a teu respeito.
Gregório pediu, embalde, ainda mais alguns esclarecimentos da sua procedência, e desde então principiou a sentir uma vaga tristeza, produzida pela falta de alguma coisa que ele não conseguia determinar bem o que fosse. Era um desejar indeciso e duvidoso, do qual não conhecia a origem; uma espécie de 167 de 371
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saudade, sem motivo e por isso mesmo mais dolorosa. Sentia estranhas nostalgias de um mundo desconhecido, que seu coração sonhava e antevia por entre outras mentiras.
E foi neste melancólico pungir de mágoas indefinidas, que ele assistiu à morte de sua mãe adotiva. Sobreveio­lhe uma enorme crise nervosa, chorou extraordinariamente; chorou com a sofreguidão de quem precisa desabafar tristezas acumuladas no peito há muito tempo, e até chegara a gozar certo prazer voluptuoso com lhe correrem aquelas lágrimas dos olhos. Entretanto alguma coisa lhe dizia de dentro que toda essa dor e todo esse pranto não eram formados só pelo muito amor que ele tivesse a D. Florentina. Ele a estremecera muito, não havia dúvida, mas podia perfeitamente se conformar com a ideia da sua morte. O que o fazia sofrer tanto, o que o punha nervoso e triste daquele modo, era outra coisa, era a falta prematura da sua verdadeira mãe.
Foi com o espírito enfermado por estas apreensões que Gregório, uma tarde, em que estava assentado debaixo dos bambus da Avenida Estrela, viu subir vagarosamente a velha escadaria de pedra rajada que conduzia à casa do Papá Falconnet, uma senhora ainda moça, extremamente pálida e cheia de lânguidas tristezas.
Ia pelo braço de um velho, maior de sessenta anos, que parecia preocupado exclusivamente com ela. O velho desfazia­se em solicitudes e carinhos; a moça sorria às vezes para ele, apenas por condescender.
Era uma mulher de trinta anos talvez; esbelta, não muito magra, fisionomia insinuante; olhos voluptuosos, úmidos, de um brilho singular, cabelos negros, brilhantes e volumosos, dentes claros, boca bem talhada, mas ligeiramente constrangida por um desdenhoso gesto de indiferença. Ao vê­la de relance, toda envolvida no seu longo paletó de casimira alvacenta, sem joias no pescoço e nas orelhas, com o rosto nublado na penumbra do seu largo chapéu de palha, com o seu triste caminhar de convalescente, o seu descair de cabeça, as suas mãos cor­de­
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neve, como que esquecidas e sem movimento, sentia­se a gente atrair para ela por uma plácida simpatia compassiva. A expressão resignada de seus olhos, aliás talhados para os segredos da ternura, o melancólico sorrir dos seus lábios, que entretanto pareciam feitos somente para executar a música ideal dos beijos, o seu ar abatido e fraco, a sua respiração quebrada, a sua voz suplicante e humilde; tudo que respirava dela penetrava os sentidos com a voluptuosa impressão que nos produzem os perfumes da igreja, os sons plangentes do órgão, e os místicos arroubos religiosos.
A tarde ia já descaindo no crepúsculo. O sol havia mergulhado na fímbria vulcânica do horizonte, mas toda a natureza ainda palpitava sob a sensação dos seus últimos beijos fecundos e ardentes. As aves recolhiam­se ao mistério dos seus ninhos, e do fundo sombrio dos arvoredos exalava­se o estridular monótono das cigarras, sobressaindo dentre os primeiros rumores da noite como um interminável gemido solto no espaço.
É essa a hora das profundas concentrações, dos êxtases voluptuosos. Tudo parece que tem uma saudade a carpir; de cada moita de roseiras, de cada grupo de bambus, partem ternos suspiros e queixumes dolorosos. A natureza como que chora a partida do seu fogoso amante, que desapareceu nas dobras luminosas do ocidente. Tudo é viuvez! tudo é saudade!
E nessa hora, transitória, e dúbia, que nos é dado surpreender a natureza nos segredos do seu amor; é entre o último sorriso do sol e a primeira lágrima da noite, que podemos penetrar no fundo do coração de nossa mãe comum! Ela como que abre para chorar à vontade, e sente­se então o orvalho do seu pranto, e ouvem­se os seus gemidos abafados.
Gregório deixava­se arrebatar por estes devaneios, quando contemplou o vulto melancólico, que subia lentamente a escadaria de pedra pelo braço do velho; e desde então aquela triste figura de mulher não lhe saiu mais da memória.
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XVI
OLÍMPIA
Uma semana depois, Gregório havia já travado relações com os dois novos hóspedes e possuía alguns esclarecimentos a respeito deles, se bem que o velho, isto é, o comendador Ferreira, por índole natural se mostrasse com todos muito reservado.
A senhora que o acompanhava era sua filha; chamava­se Olímpia e vivia, havia já quatro anos, separada do marido, aquele mesmo sujeito, caixa da casa Paulo Cordeiro, que vimos queixar­se na secretaria de polícia, ao delegado Benevides, do roubo que acabava de sofrer o referido estabelecimento. Foi esse sujeito quem chamou sobre Gregório a atenção das autoridades policiais.
Olímpia era um espiritozinho muito caprichoso. Educada sentimentalmente, nunca chegara a compreender a vida positiva que lhe oferecia o marido e nunca se identificava com os interesses deste e com o seu caráter prático. Daí nasceu a separação. Mas o pai, a quem não faltavam recursos e que seria capaz de tudo sacrificar por amor da filha, não hesitou em recebê­
la nos braços e fazer dela toda a preocupação e todo o encanto da sua velhice.
O pior porém é que, depois da separação, Olímpia principiou a padecer extraordinariamente dos nervos. Dentro de seis meses logo se lhe operou grande mudança em todo o corpo; ficou muito mais magra, mais pálida e mais apreensiva e afinal caiu em tal abatimento, que o velho teve sérios receios de perdê­la. Ela já não ria, já não gostava como dantes de conversar com as amigas, já não pulava de contentamento quando lhe traziam o camarote do lírico ou algum novo romance do Alencar, e nem mais pensava em danças e modas. Seu piano adormeceu abandonado a um canto do salão, e ninguém mais lhe ouviu uma daquelas romanças de 170 de 371
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que a sua bela voz tirava tanto partido.
As amigas de má língua, quando souberam do seu rompimento com o marido, bradaram logo que tal fato era de esperar, e profetizaram que Olímpia principiaria, depois disso, a cultivar abertamente a sua paixão pelo luxo e pela opulência. Pois saiu tudo ao contrário; desde a desunião do casal, o vulto encantador da festejada senhora desertou, por uma vez, dos salões do Cassino e dos grupos aristocráticos das suas relações. Ninguém mais aprendeu com ela a pôr ou tirar uma capa, a trazer um novo chapéu, a escolher uma flor, a combinar duas cores num vestido ou a servir uma chávena de chá.
— Estará apaixonada pelo marido?... perguntava­se à boca pequena. E esta pergunta provocava as mais desencontradas respostas. Uns admitiam perfeitamente tal esquisitice, considerando o gênio caprichoso de Olímpia; outros negavam, lembrando o tipo vulgar e peco do marido; alguns falavam de uma paixão romântica, que teria justamente sido a causa do divórcio; outros afirmavam que a impostora só desejava armar ao efeito e chamar sobre si a atenção de todos. E assim se inventaram mil romances, predominando sempre a singular hipótese de que Olímpia estivesse deveras apaixonada pelo esposo. Mas desnortearam logo, quando souberam por fonte limpa, que este acabava de propor à mulher uma boa reconciliação e que tal proposta fora prontamente rejeitada. A verdade é que ela não mais apareceu em nenhuma festa, e nunca mais mandou iluminar a sala nas quintas­feiras, que era o seu dia de recepção. E como se ainda não bastasse tudo isso e receasse que as antigas amizades a fossem importunar no seu isolamento, exigiu do pai que a tirasse de Botafogo para um lugar modesto e sem vizinhos.
O comendador Ferreira recuou assombrado.
— O quê, minha filha?! perguntou ele muito comovido. Que caprichos são esses? pois já não chega a reclusão em que vives?... Tu, tão moça, tão bela, tão querida da sociedade, queres enterrar­
te, em um lugar obscuro, ignorado... Para quê e por quê?! Não tens vergonha que te impeçam de aparecer publicamente!... não tens 171 de 371
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desgostos que te privem de gozar!...
E o velho, depois de passear muito agitado, acrescentou:
— Não! isso lá, tem paciência, não se há de fazer! Ir para um lugarzinho modesto!... que ideia!... Antes entrar logo para um convento!
— Quem sabe mesmo se não seria melhor!... disse Olímpia, com os olhos cravados no ar.
— Melhor o quê, minha filha?... Não quero que te mortifiques dessa forma! Fala­me antes com franqueza; abre esse coração a teu pai, dize­me o que sofres! se te falta alguma coisa, confessa­me tudo! Sabes quanto te amo; sabes que tu és toda a minha vida, toda a minha felicidade! Não vês que estou comovido?... não vês que tu me matas com essa tua mágoa fechada e egoísta?...
E o pobre velho não pôde continuar, porque a comoção lhe cortara com efeito a voz. E, com medo de provocar à filha alguma crise nervosa, procurou mostrar­se tranquilo e principiou a afagar­
lhe brandamente os cabelos; mas Olímpia sacudiu com frenesi a cabeça e atirou­se nos braços do pai, com uma explosão de soluços.
— Então, minha filha, que é isto?... Vamos! não te aflijas deste modo!
Ela, porém, nada respondia e continuava a soluçar histericamente.
Terminada a crise, Olímpia caiu num grande abatimento. Embalde procurava o pai distraí­la, falando­lhe de tudo o que lhe vinha à fantasia; ela continuava na sua postura indiferente, a estalar suspiros na garganta e a menear tristemente a cabeça de um para outro lado.
À noite, por chamado do velho, viera o Dr. Roberto, a quem o leitor já conhece; Olímpia sobressaltou­se com a visita.
— Ora! para que chamar médico?!... disse ela, visivelmente 172 de 371
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contrariada, quando o pai a foi prevenir de que o doutor a esperava na sala.
E acrescentou, sem sair do lugar em que se achava:
— Eu não estou doente! Eu não preciso absolutamente de médico.
— Bem, considerou o comendador, procurando abrandá­la; não recebas o médico, mas isso não impede que fales ao Dr. Roberto. Sabes que de é amigo velho da casa. Não seria bonito que...
— Ora, senhores! eu não estou para visitas!...
— Mas, minha filha, isto é uma questão de delicadeza!...
— Aí está por que desejo esconder­me em qualquer modesto retiro... É para não ser apoquentada constantemente por semelhantes importunos!... Sempre a delicadeza! sempre a cortesia! sempre as exigências sociais! Mas que diabo tenho eu com tudo isso?! Acaso peço à sociedade mais alguma coisa além de que me deixe em paz e não me aborreça?!
E depois de assentar­se a uma mesinha e apoiar a cabeça na mão esquerda, principiou a bater nervosamente com o pé no tapete.
— É muito boa! exclamou ela afinal, com a cara fechada. Não procuro ninguém não cultivo amizade de espécie alguma! por que então não me deixam ficar em paz?!
E voltando­se para o pai, disse resolutamente:
— Não apareço ao Dr. Roberto! Para o médico estou de perfeita saúde e não preciso dele; para o amigo da casa estou doente e não posso recebê­lo!
— Mas, minha filha, disse o comendador, beijando­a na cabeça; tu te precisas tratar... Não te quero ver assim frenética e aborrecida. Vamos, vem ver o Dr. Roberto...
— Tem muito gosto nisso? perguntou ela, passando o braço na 173 de 371
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cintura do pai.
— Se tenho, meu amor...
— Bom; então faça­o entrar...
O médico declarou que Olímpia precisava de um bom regime; que estava muito anêmica e muito debilitada. Falou da alimentação, lembrou os calcários, os ferruginosos, recomendou os banhos de mar, os passeios ao ar livre e as distrações do espírito.
— Exercício! bastante exercício! dizia ele; e de vez em quando um pouco de música, não da italiana, da alemã, da boa música alemã! Mas o que ele entendia mais conveniente era uma viagem à Europa. Olímpia precisava tomar interesse por qualquer coisa. Ela estava muito mais enferma do que supunha e tinha os nervos em petição de miséria!
E, quando ficou só com o velho, disse­lhe em voz baixa:
— Não é bom contrariá­la!... naquilo que o Sr. lhe puder fazer a vontade, faça! Se ela tiver algumas fantasias, alguns caprichozinhos, procure satisfazê­los! A contrariedade podia vir a prejudicá­la extraordinariamente e talvez ocasionar um desarranjo cerebral.
— Minha filha então está muito mal, doutor?! Fale com franqueza! disse o comendador em sobressalto, aparando com os olhos as palavras que caíam da boca do facultativo.
— Hum! hum!... resmungou este, a bambalear a cabeça.
E depois de fitar por algum tempo as tábuas do teto, disse batendo com a biqueira do guarda­chuva na ponta da botina:
— Esta senhora precisava fazer as pazes com o marido! Isso é que seria o verdadeiro remédio...
— Acha, então, Dr.?...
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— Indispensável!... disse o médico, dilatando a palavra e os olhos.
— E é justamente o que ela não quer! balbuciou o pai de Olímpia, com um ar triste. Ainda ontem falaram­lhe nisso e ela teve um acesso nervoso...
— Sim, mas talvez venha a resolver­se!...
— Qual! tornou o velho; conheço aquele geniozinho: quando lhe dá a cabeça para um lado, não há quem a tire daí... Saiu nisso tal qual a mãe... Teimosas como só elas!
— Em todo o caso, acrescentou o médico, despedindo­se do comendador, ela não perdia nada em fazer uma viagem... E, já ao sair, ainda repetiu da escada: Não se esqueça! Distrações, exercícios, boa alimentação e banhos de mar!
O velho voltou para o lado da filha, com a cabeça baixa e as mãos nas algibeiras do seu rodaque.
— Sabes? disse logo que chegou perto dela; vamos à Europa...
— Hein?! perguntou a rapariga, arregaçando os lábios e franzindo o belo narizinho.
— Sim... respondeu o pai; o Dr. Roberto acha que devemos fazer uma viagem...
— Aí está por que eu não queria visitas de médico! exclamou ela. Eu não saio do Rio de Janeiro! Logo vi que havia de aparecer alguma contrariedade!
— Bem, minha filha, não falemos mais nisso! Ele, coitado! se recomenda uma viagem, é porque acha naturalmente que isso te aproveitaria. Ora! também estás agora com umas esquisitices que...
— Que se não podem aturar! Não é isso o que o senhor quer dizer, meu pai?!
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— Não senhora, não é isso! nem admito que estejas agora aqui a imaginar tolices. Não queres fazer a viagem, pois não a faremos!... E o mesmo sucederá com os banhos, com os passeios e com as distrações!...
No dia seguinte o comendador falou em três meses de Petrópolis. Estava aí o verão e não havia necessidade de suportar o calor da Corte.
— Não quero ir, respondeu laconicamente a filha.
E não se falou mais nisso.
Foram depois lembrados outros passeios, mas Olímpia recusou­os igualmente.
— Para onde então queres ir? perguntou o velho, lembrando­se da recomendação que lhe fizera o médico de a não contrariar.
— Não sei, disse ela sacudindo os ombros. Podemos passear todos os dias de manhã aqui mesmo pela Corte. Iremos hoje a um arrabalde, amanhã a outro... Quanto aos tais banhos, não! deixemo­nos de banhos de mar!
No dia seguinte o comendador tratou de adquirir sege e alimárias próprias para os passeios campestres. Sairiam cedo de casa e, quando estivessem em pleno campo, entrariam a andar de pé por entre a vegetação. Olímpia não podia suportar o bonde e tomara medo de montar a cavalo desde que abriu a sofrer dos nervos.
Uma vez passeavam pelo Rio Comprido. O carro ficara com o cocheiro à espera no caminho da Tijuca. Olímpia pelo braço do pai, caminhava vagarosamente, entretida a olhar para os objetos que a cercavam. Em certa altura parou, impressionada por um canto monótono, que lhe chegava aos ouvidos de modo estranho.
— Que é isto?... perguntou ao comendador.
— Devem ser os trabalhadores de alguma pedreira por aqui perto. É assim que eles cantam quando brocam a pedra, para lhe 176 de 371
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introduzir a pólvora e lançar fogo depois.
— Ah! disse Olímpia muito interessada. E onde é a pedreira?...
— Não sei, mas é naturalmente para este lado. É daqui que vem o canto. E o velho apontou para a sua direita.
— Vamos lá! propôs Olímpia.
O pai não se animou a contrariá­la e os dois continuaram a caminhar na direção do canto dos trabalhadores.
Depois de andarem por algum tempo, acharam­se com efeito à fralda de uma grande pedreira, que fica situada aos fundos da Avenida Estrela.
Olímpia parou dominada pelo espetáculo grandioso que tinha defronte dos olhos. A montanha com o seu ventre já muito retalhado, surgia da terra, como um gigante de pedra, e arrojava­
se, imponente para o céu. Via­se o âmago branco e azulado da rocha reverberar aos primeiros raios do sol. Embaixo amontoavam­
se as enormes avalanches de granito, ruídas e arrojadas impetuosamente pela explosão da pólvora. De todos os lados, ouviam­se a trabalhar o picão e o macete; e além, sobre o calvo píncaro da montanha, quatro homens cantavam agarrados a um imenso furão de ferro com que penosamente abriam uma nova mina.
Todas as vezes que suspendiam a pesada barra de ferro, repetiam o seu coro monótono e triste, que ouvido de longe, parecia uma súplica religiosa.
Foram esses os sons que impressionaram Olímpia. E, com efeito, havia algum encanto melancólico, naquela cansada cantilena dos trabalhadores.
— Vamos lá! disse ela ao pai.
— Onde, minha filha?... perguntou o velho assustado.
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— Lá em cima, onde aqueles homens estão abrindo a pedra. Eu quero ir ver aquilo...
— Estás sonhando!... respondeu o comendador; não sou tão louco que consinta em semelhante imprudência! Esta pedreira é muito alta; tu sentirias vertigens e serias capaz de perder os sentidos!...
— Não faz mal; eu quero ir!
— Não! deixa­te disso!
— Ora, meu pai, não me contrarie por amor de Deus!
E Olímpia soltou­se­lhe do braço e foi perguntar ao trabalhador que ficava mais perto por onde se subia para a pedreira. Depois de informada, encaminhou­se para o lugar indicado.
— Espera aí! gritou o pobre velho, tentando alcançá­la. Espera, Olímpia! eu te acompanho, minha filha!
E correu para ela.
Olímpia havia já galgado o primeiro lance da pedreira.
A subida foi penosa. O caminho era estreito, irregular e seixoso, às vezes o pé não encontrava resistência, porque o cascalho rolava sob ele. Olímpia, sem querer dar parte de fraca, segurava arquejante ao braço do comendador, mas este mesmo sabe Deus com que esforços conseguia não perder o equilíbrio!
Pararam três vezes para descansar, à última nenhum dos dois podia articular palavra; o suor corria­lhes da fronte e as pernas tremiam­lhes convulsivamente. Mas Olímpia não desistiu do seu propósito; queria a todo transe chegar ao alto da montanha. Felizmente, o caminho em cima era plano até conduzir ao pequeno cômoro onde trabalhavam cantando os quatro homens.
Olímpia chegou aí exausta completamente de forças; sacudiu­lhe o corpo inteiro um arrepio, feito ao mesmo tempo de medo e de gosto; experimentava ela certa sensualidade em defrontar o 178 de 371
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abismo que se precipitava debaixo de seus pés. Precisava descansar, mas não tinha ânimo de desviar por um segundo a vista do belo panorama que se descortinava em torno. E, presa ao espaço pelos olhos, sentia­se arrebatar por um êxtase delicioso, como se estivesse desprendida da terra e pairasse voluptuosamente nos ares.
Assim se quedou por alguns instantes, enquanto o pai ao seu lado descansava, sentado sobre uma pedra.
Depois, Olímpia começou a empalidecer gradualmente; foi pouco a pouco fechando os olhos, e teria caído de costas, se a não amparassem os homens que ali perto trabalhavam.
— Eu já previa isto mesmo, considerou o pai, ainda não restabelecido do cansaço. Lembrar­se de subir a estas alturas!... E agora a volta?
— Pode vossemecê ficar tranquilo, disse um dos britadores; eu me encarrego de descer esta senhora, sem que lhe aconteça a ela a menor lástima.
— Ainda bem! respondeu o velho.
O trabalhador, que acabava de oferecer­se para levar Olímpia, era um moço de uns vinte e cinco anos. Forte, belo de vigor. Estava nu da cintura para cima, e a riqueza dos seus músculos patenteava­se ao sol com um arrojo de estátua. Os cabelos, empastados de suor, caíam­lhe em desalinho sobre a fronte tostada.
— Vamos! disse­lhe o comendador; não convém demorar­nos aqui... Veja se a pode trazer carregada!
O rapaz passou um dos braços na cintura de Olímpia e com o outro a suspendeu pelas curvas dos joelhos, chamando­lhe todo o corpo contra o seu largo peito nu. Ela, na inconsciência da síncope, deixou pender a cabeça sobre o ombro dele e continuou adormecida.
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E os dois seguiram pela irregularidade íngreme do caminho. Era preciso muito cuidado para não rolarem juntos. Às vezes em um solavanco mais forte, o rosto gelado de Olímpia ia de encontro à face esfogueada do trabalhador.
Ela afinal soltou um gemido e abriu vagarosamente os olhos. Não perguntou onde estava, não indagou quem a conduzia, apenas esticou nervosamente os membros num estremecimento preguiçoso, para de novo se estreitar ao peito do rapaz, cingindo­
lhe os braços em volta do pescoço. E tornou a cair no seu entorpecimento; ficou com os olhos a meio cerrados, as narinas sôfregas, os seios ofegantes e os lábios molemente separados por um espasmo voluptuoso. Sentia­se muito bem no aconchego tépido daquele corpo de homem, penetrada pelo calor lascivo e vivificante do colo másculo que a sustinha. O contato daquela vigorosa carnação, criada ao ar livre e enriquecida pelo trabalho, sacudia­lhe os sentidos e acordava­lhe em sobressalto o sangue entorpecido pela ociosidade.
A descida tornava­se cada vez mais penosa. O moço fazia milagres de equilíbrio para não lhe faltar o pé. Olímpia parecia escorregar­lhe dos braços; ele a puxou mais para o ombro e a cingiu mais estreitamente contra o peito. Ela suspirava de leve, como em um sonho de amor, sentindo no rosto a respiração quente e acelerada do cavouqueiro, e nas carnes macias da garganta o roçagar das suas barbas ásperas e mal tratadas.
Quando chegaram embaixo, já o Papá Falconnet, que assistira ao episódio dos fundos do seu hotel, os esperava com duas cadeiras.
O velho assentou­se logo em uma delas; enquanto na outra o trabalhador depunha Olímpia.
Foi então que ela abriu de todo os olhos.
— Ah! exclamou, cobrindo o rosto com as mãos, sem poder encarar para o rapaz que a trouxera ao colo. Fazia­lhe mal agora olhar para aquele homem de corpo nu, que defronte dela limpava com os dedos o suor da testa. As faces tingiram­se lhe de pronto 180 de 371
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rubor e uma aflição terrível apoderou­se­lhe da garganta. Olímpia chamou com um gesto o pai para junto de si e entre gritos começou a estrebuchar nervosamente.
Foi uma crise fortíssima. Ela nunca havia sofrido igual. O Papá Falconnet apresentou logo um frasquinho de sais e deu providências para que se recolhesse a enferma à casa dele, sem que fosse necessário dar a volta pela rua. Abriu­se de improviso, uma passagem na cerca do fundo da avenida, e Olímpia, carregada na cadeira, era daí a pouco conduzida a um aposento preparado às pressas.
A crise cessou pouco depois, mas Olímpia sentiu febre, dores de cabeça e vontade de vomitar. Mandou­se chamar o médico que ficava mais próximo, e dentro de três horas a enferma voltava no seu carro para Botafogo.
No dia seguinte, ainda o pai de Olímpia não tinha perdoado a si mesmo a sua condescendência da véspera de consentir a maldita ascensão à pedreira, e já a filha lhe surgiu no quarto, intimando­o para voltarem incontinenti ao Rio Comprido.
— O quê?!... exclamou o velho, muito espantado; pois ainda não ficaste satisfeita de Rio Comprido?... Queres fazer outra visita à pedreira?!...
— Não, disse ela de melhor humor que nos outros dias; quero apenas passar algum tempo naquela casa onde me recolheram.
— Na Avenida Estrela?! Ora, minha filha!
— É verdade, respondeu ela; é o único lugar que agora me convém...
— Mas, Olímpia, que ideia é essa tão extravagante?! Pois então tu queres ir meter­te ali, minha filha?... Ora não penses em semelhante coisa!
Mas, como a caprichosa se mostrasse inabalável na sua resolução, 181 de 371
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o velho cedeu afinal, e na tarde desse mesmo dia entraram os dois na Avenida Estrela, como vimos pelo fecho do capítulo passado.
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XVII
A PEDREIRA
O comendador Manuel Furtado Ribeiro, só por muito amor à filha, e só por muito respeito às recomendações do Dr. Roberto, é que podia consentir naquela mudança para a Avenida Estrela. O bom velho, que havia feito excelente pecúlio no alto comércio donde se achava agora retirado, tinha as suas bazófias e gostava de aparecer e luzir; folgava em ver cintilar ao gás das suas salas as comendas de alguns ministros e as calvas de alguns senadores; lisonjeava­se muito com a amizade do Bom Retiro, com a intimidade de Otaviano Rosa e de outros graúdos do tempo que sempre o distinguiram. Era conservador às direitas; tinha muito respeito e muita veneração pelo seu Imperador, e nos dias de grande gala mandava iluminar o frontispício da casa. Não poderia por conseguinte consentir de cara alegre naquele novo capricho da filha.
— Meter­se na Avenida Estrela!... dizia ele consigo, furioso por não poder destruir semelhante ideia Onde se viram caprichos de tal ordem?!...
Já por ocasião do casamento de Olímpia, o comendador sofrera um grande choque no seu amor­próprio: sonhara para a filha um partido muito mais brilhante e muito mais honroso do que o caixa do Paulo Cordeiro; tanto assim que, na primeira desavença do casal, disse francamente, que o genro afinal não passava de um “Caixa­de­rapé”.
O marido de Olímpia nunca perdoou ao sogro semelhante qualificação e, se até aí não morria de amores por ele, de então em diante quase que o não podia suportar. Verdade é que esse casamento nunca se teria realizado, se não fosse já nesse tempo andar o velho perseguido pela necessidade de casar a filha.
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O fato porém é que o comendador Ferreira se mudou com Olímpia para a Avenida Estrela.
O pobre homem, quando entrou na antiga chácara, bem mostrava pelo rosto o sacrifício que ia a fazer; só aquela caprichosa seria capaz de constrangê­lo a tanto! Foi com o coração oprimido e com o semblante fechado que ele transpôs a saia do hotel. As velhas paredes, os móveis decrépitos, o trêmulo assoalho, a melancólica aparência de tudo aquilo, lhe enchiam o coração de uma tristeza dura, de um mal­estar grosseiro e doloroso. Tudo aquilo lhe falava em desconforto, em falta de recursos, em digestões mal feitas e em noites mal dormidas.
O comendador, como todo o homem que logrou posição à custa dos próprios esforços, ligava extraordinária importância às suas comodidades. Queria a sua boa cama, o seu bom prato, o seu banho fácil e pronto e a sua liberdade plena em certas ocasiões. Não compreendia a existência sem robe­de­chambre, sem chinelas, sem a bela preguiçosa depois da refeição, o palito ao canto da boca e os olhos amortecidos pela digestão tranquila do jantar. Além disso (para que negar?), gostava que lhe admirassem a casa; que lhe falassem das plantas, dos gansos que ele tinha no tanque do jardim; que lhe elogiassem a mobília das salas; que lhe perguntassem qual era o posto de seu pai, cujo retrato lá estava no salão, fardado, dentro da custosa moldura cor­de­ouro. Todas estas nonadas lhe davam muito gozo e lhe faziam amar a vida.
Mas o médico lhe recomendara que não contrariasse a enferma!... que diabo havia ele de fazer?... E que não seria capaz de sacrificar por aquela filha?... Ele a estremecia tanto!... De todas as suas afeições, Olímpia era tudo o que lhe restava. À proporção que elas se foram extinguindo, a rapariga ia herdando de cada uma dose de ternura que lhe dava o comendador; de sorte que, ao desaparecer a última, Olímpia ficou senhora do coração inteiro de seu pai. Ela, só, representava todos aqueles a quem o bom homem amara durante a sua longa vida.
O comendador fora casado duas vezes. A primeira mulher, justamente a que ele mais estimara, ou, talvez, a única que ele 184 de 371
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amou, dera­lhe ainda um outro filho, que nasceu pouco depois de Olímpia; a segunda mimoseou­o com duas raparigas gêmeas. Mas tudo isso morreu; tudo isso desertou; aquele aos treze anos e estas duas antes dos cinco. Só Olímpia resistiu e se conservou fiel ao infeliz patriarca. Não admira, pois, que ele a amasse com tanto extremo. E esse belo amor de pai, fazia com que a gente não desse grande atenção a algum ridiculozinho, que porventura turvasse o tipo simpático do comendador.
Quanto lhe não seria penoso por conseguinte habitar a Avenida Estrela, para que o pobre velho ainda se não tivesse habituado a semelhante ideia e ainda se não mostrasse de todo resignado. Definitivamente era enorme o sacrifício! A filha nunca lhe tinha exigido até ali tão grande provação.
E o comendador, pensando assim, deixava­se entristecer. O Papá Falconnet, entretanto, mal o pilhou desacompanhado da filha, correu ao seu encontro e principiou a falar­lhe minuciosamente da casa:
— V. Exa. aqui ficará melhor do que em parte alguma!... afirmava este convicto. Não me fica bem dizê­lo, mas juro­lhe que escolho do melhor para servir meus hóspedes!
E, desfazendo­se em cortesias, obrigava o comendador a acompanhá­lo.
— Tenha a bondade! dizia ele; tenha a bondade de passar um instante à nossa sala de bilhar. É o que se vê! Asseio, simplicidade e cômodo completo! Agora temos ali a sala de jantar! Faça o favor de ir entrando... Aqui janta­se defronte das árvores! É como se fosse em plena floresta!... Ouvem­se da mesa cantar os passarinhos. Veja, Sr. comendador, tenha um pouco mais de paciência e olhe V. Exa. para isto: é a nossa cozinha... Pouco luxo, mas limpeza por toda a parte. Agora vou mostrar­lhe os banheiros!...
— Não! dispense­me, respondeu o comendador com delicadeza. Estou muito fatigado e preciso de recolher­me.
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E, antes que Papá Falconnet o detivesse, já ele se tinha afastado para ir visitar a filha.
Os hóspedes, que foram entrando pouco a pouco à proporção que anoitecia, olhavam com certa surpresa para o comendador e faziam entre si perguntas a seu respeito. Olímpia mostrou­se no dia seguinte, e dispensou que lhe servissem o almoço no quarto.
Era um domingo, a mesa encheu­se de hóspedes, que só nesse dia comiam no hotel. O comendador assentou­se contrariado ao pé da filha, depois de cumprimentar os outros comensais. Gregório estava entre estes e não tirava os olhos de Olímpia.
Esta impunha, sem saber, uma inusitada cerimônia. Fez constrangimento; ninguém se queria servir sem passar o prato ao vizinho. A figura nutrida do comendador destacava­se, amplamente, dentre dois rapazes magrinhos que pareciam irmãos. O Falconnet ocupava a cabeceira e falava, em tom reservado, sobre a excelência do almoço.
— Não me fica bem dizê­lo, repetia ele, mas incontestavelmente estes camarões estão soberbos!
E voltando­se para Olímpia:
— V. Exa. não quer repetir, minha senhora?
Olímpia respondeu que não com o garfo.
Mme. Falconnet distribuía pratos aos seus hóspedes. A conversa em breve começou a estalar de vários pontos da mesa, a princípio apenas murmurada, depois em tom mais alto, e afinal livremente solta. Os assuntos chocavam­se no ar. De um lado discutia­se a respeito da guerra franco­prussiana, que ainda nessa ocasião tinha cheiro de novidade; falava­se de outro a respeito da última estação da febre amarela; os dois rapazinhos parecidos disputavam uma questão sobre um tal Mateus, um deles afirmava que o Mateus era filho da Bahia, e o outro sustentava que era fluminense. Às vezes falavam pela frente do comendador e 186 de 371
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estendiam­se sobre o prato, quase a tocar nariz contra nariz; às vezes derreavam a cadeira para trás e gesticulavam agitando os braços pelas costas do seu vizinho comum do centro. O comendador, entalado entre os dois, ora se chegava para a frente, ora se empinava para trás, sem querer interromper com seu volumoso corpo as vistas dos contendores.
Dava­se com o comendador nessa ocasião um fenômeno muito vulgar. Ele ali, entre aquela gente singela e pouco escrupulosa na prática das etiquetas, se sentia, mais do que nunca, disposto a conservar a sua austera atitude de homem fino; o contraste estabelecido entre ele e os companheiros da mesa instigava­o a sustentar com muito empenho um grande ar diplomático que nem sempre era o seu. Em outros lugares, onde aliás qualquer sem­
cerimônia não seria perdoada, o bom comendador nunca se mostrava tão fiel aos rigores da cortesia e parecia até disposto a abrir mão contra alguns deles.
Todavia Gregório não tirava os olhos de Olímpia. Sua imaginação cabriolava doida em torno da formosa criatura, procurando puxar­
lhe pelos olhos, pelo riso ou pelo perfume dos cabelos, o fio de algum segredo, o segredo de alguma paixão, que a tivesse posto assim tão preocupada e tão triste, e lhe tivesse dado aquele ar melancólico de rola sem companheiro.
Depois do almoço apareceu o Dr. Roberto. O comendador carregou com este para o quarto e desabafou então com ele as suas penas da dor carregou com este para o quarto e desabafou então com ele as suas penas. Se fez então uma vida muito especial. Olímpia acordava cedo, três horas antes do que era seu costume em Botafogo, banhava­se n’água fria, enfiava um paletó de casimira e saía a passear pelo braço do pai. Voltava à hora de almoço, depois do qual lia o seu romance, ou tentava alguma música em um velho piano adormecido às moscas na sala de bilhar. Às vezes dormia, de outras vezes costurava ou não fazia coisa alguma, até que o Papá Falconnet vibrava afinal a campainha chamando para a mesa. Depois do jantar saía de novo a passeio ou ficava entretida a olhar para os trabalhos da 187 de 371
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pedreira no fundo da chácara.
Era bem singular o que sentia Olímpia à vista dos trabalhadores da pedreira. Seu espírito, finamente educado entre carinhos de família e amimado pelos costumes de uma vida feliz, contrariava­se sobremaneira com a ausência do meio superior em que se desenvolvera; mas o corpo, ao contrário, forcejava por saltar fora desses arraiais e precipitar­se aventurosamente nos domínios do desconhecido.
Uma vez olhava para os trabalhadores da pedreira, quando viu aproximar­se deles uma rapariga. Era ainda moça, forte, e rica de quadris. Levava uma cesta no braço e parecia alegremente empenhada pelo serviço que fazia. Um dos trabalhadores, ao vê­
la, soltou uma estrondosa exclamação de prazer e correu ao seu encontro.
A mocetona depôs a cesta ao chão e estendeu­lhe a cara. Ele a beijou em cheio na boca e abraçou­lhe a cintura. Depois seguiram juntos para o lado dos companheiros; sentaram­se todos em volta de uma pedra, despejaram a cesta e principiaram a comer alegremente, ao sol.
Esta cena produziu na filha do comendador uma impressão penosa e ao mesmo tempo agradável. Fizera­lhe mal aos nervos o espetáculo daquela ternura grosseira e sincera, mas sentira apetite de participar do almoço daquela pobre gente. Ela, com quem já não iam os imaginosos acepipes da mesa de seu pai, desejou comer do bocado dos trabalhadores, beber do seu vinho ordinário e palestrar com eles, em torno daquela mesa de pedra, informe e tosca, mas tão alta e tão alevantada, que Olímpia não podia chegar até lá sem perder os sentidos.
E tão empenhada ficou a ver aquele espetáculo, que a não conseguiram tirar daí senão quando os trabalhadores, depois de beberem pela mesma garrafa, deram o almoço por findo e despediram a rapariga.
Só então Olímpia reparou que, a pequena distância dela, estava 188 de 371
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Gregório, assentado debaixo de uma árvore, com uma pasta sobre as pernas cruzadas, na atitude de quem copiava a pedreira. A histérica ficou logo tomada duma grande curiosidade por aquele desenho, e foi pouco a pouco se aproximando do rapaz. Ele a sentia chegar perfeitamente, mas fingia não dar por isso e afetava grande preocupação com o seu trabalho; ela afinal estacou discretamente por detrás do desenhista e ficou a observar­lhe o debuxo por cima do ombro. Gregório prosseguiu no seu desenho, como se continuasse inteiramente só; todavia a presença de Olímpia lhe perturbava de leve o espírito e lhe punha no coração um doce enleio amoroso. Ele se penetrava dela sem a ver, aspirando­lhe o perfume sensual do corpo e o hálito suave da respiração oprimida.
E ela, presa pelo interesse do desenho, ia cada vez mais se aproximando de Gregório, sem notar que já lhe tocava com o rosto na cabeça. O rapaz voltou­se finalmente e cumprimentou­a com toda a delicadeza.
— Ah! disse a senhora, em ar de quem pede desculpa. Perdão! não desejava interromper o seu trabalho...
— Oh! respondeu ele, procurando disfarçar a comoção; nem vale a pena falarmos a respeito disso... este pobre desenho não merece tanto!...
E fez um gesto de querer inutilizá­lo.
— Não! disse Olímpia, defendendo o álbum em que trabalhava Gregório; não estrague! Faça­me antes presente dele...
— Oh! coitado! não merece semelhante honra!...
— Mas eu quero! disse a caprichosa, com o seu habitual modo de impor. Preciso deste desenho!
— Está às ordens de V. Exa., balbuciou o moço, desprendendo a folha. E acrescentou em tom mais baixo: — É inspirado pelo almoço dos trabalhadores da pedreira...
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— O senhor então gosta de contemplar a natureza?... perguntou ela, com os olhos muito abertos sobre Gregório.
— Ainda não consegui perder essa mania, respondeu ele, desculpando­se.
— Mania?! Não sei por quê! só as almas grosseiras e vulgares não se comovem defronte de certos espetáculos da natureza! Quanto a mim, se me não permitissem contemplar o céu, as árvores, o mar, o sol e as montanhas, creio que desistiria da vida! Que vale este mundo sem o que ele tem de belo?... Suprimam a música, as flores os sonhos e o amor, e verão o que restará depois!... Nada! uns destroços de vida estúpida e sem graça!...
— Oh! V. Exa. tem um coração de poeta!...
— Poeta?! Esta palavra para mim não tem a significação que em geral lhe emprestam. Todo o homem é poeta enquanto não atrofia a sua alma com as paixões brutais. Poeta! Mas o que é não ser poeta?!... Como se pode admitir um coração insensível ao que há de divino espalhado por toda a natureza?... Como é possível conceber a ideia de que alguém passe nesta existência, sem notar o que ela tem de ideal?!...
— Mas a realidade de nossa vida é tão dura e prosaica!... objetou Gregório.
— Que realidade? As que eu conheço são todas encantadoras! A vida, quanto mais difícil, quanto mais trabalhosa, quanto mais áspera, tanto mais me fascina! Eu seria incapaz de amar verdadeiramente um homem feliz! Eu amo a todos os desgraçados!
— Quem me dera ser o mais desgraçado dos homens!... balbuciou Gregório, com os olhos perdidos pelo espaço.
— Para quê?... interrogou Olímpia, quase sem mexer com os lábios.
— Para merecer o amor de um coração como o seu! para esquecer­me de tudo, pensando nesse amor ideal, independente, 190 de 371
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sem leis e sem senhor! para poder um dia adormecer embalado por um dos seus sorrisos e despertar cantando, esquecido deste miserável mundo em que vegeto!
— O senhor tem ideias de louco!
— Talvez. Mas a respeito da loucura, digo o que V. Exa. me disse a respeito da poesia: Quem não será louco?! Que é não ser louco?! Que é esquecer as leis das conveniências e calcar debaixo das suas asas tudo aquilo de que os homens vulgares fizeram o seu ideal e a sua ambição?! Que é isso senão loucura?!...
— O Sr. delira! disse Olímpia.
— Sim! confirmou Gregório. Que é o amor senão um delírio?...
Nisto, foram interrompidos pelo comendador. Os dois moços calaram­se de súbito. O velho observou o desenho, cumprimentou o autor, falou de amigos seus que desenhavam também com muito gosto, e profetizou lisonjeiramente que Gregório seria um segundo Mota.
Só na seguinte semana, um acontecimento, verdadeiramente imprevisto por todos, colocou aqueles dois, com as suas filosofias, em situação muito mais delicada e séria.
Foi um passeio à gruta.
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XVIII
A GRUTA
A gruta! Mas saberá o leitor porventura o que é a gruta que nos referimos? Acaso já viajou o leitor pelos difíceis montes do Rio Comprido, para saber onde fica esse belo tesouro de pedra, que jaz oculto por entre a luxuriante vegetação daquele arrabalde? Se ainda não gozou tal espetáculo, como é muito natural, tenha a bondade de seguir os passos de Gregório, porque este, de braço dado à cismadora Olímpia, vai empreender essa bela excursão.
Estamos em dezembro. O duvidoso relógio do Papá Falconnet balbuciou há pouco duas horas da tarde. É domingo, e, apesar da estação, o sol não constrange a quem deseja passear. Há um doce recolhimento na floresta, que nasce aos fundos da Avenida Estrela; dir­se­ia que está para anoitecer, tão nuviosa vai a atmosfera. As aves saltam cantando na espessura da folhagem e a luz do céu filtra­se por entre as nuvens, derramando­se suavemente pela terra.
Faz gosto sair de casa; meter uma flor na gola do paletó de brim, tomar um guarda­sol de linho, derrubar o chapéu de palha sobre os olhos, e enveredar por entre os tortuosos caminhos do campo.
É bom levar consigo uma forte bengala ou pedaço de bambu, porque o terreno é muito acidentado e sujeito a cobras. Às vezes quase que se torna impraticável a viagem: encontram­se ângulos de pedra nua, que surgem por entre a verdura como os cotovelos de um mendigo por entre mangas rotas.
Em tais casos o remédio é subir de gatinhas e passar depois a ponta do bambu ao companheiro para lhe poupar aquele incômodo. Outras vezes são os espinhos que se apresentam para obstar a passagem; entra então a gente, deixando­­se arranhar à 192 de 371
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vontade pelos espinhos, e grita para trás aos companheiros que se acautelem.
Se estes porventura são pessoas de expediente, afastam com a bengala os galhos espinhosos, e passam adiante; se o não são, melhor será que voltem para casa e se deixem de passeios à gruta, porque depois dos espinhos aparecem cipós da grossura de todos os dedos, e os quais se nos enredam pelas pernas, pelo tronco e pelo pescoço, só nos deixando continuar o passeio depois de os havermos cortado com um facão.
Foi nestas circunstâncias que se achou Olímpia no tal domingo a que nos referimos.
À mesa do almoço, em conversa, se falara da gruta.
— Que gruta?... perguntou ela, já mordida de curiosidade.
O Papá Falconnet tratou logo de explicar o que vinha a ser a gruta, encarecendo­lhe o valor, conforme era de seu costume sempre que se referia a qualquer objeto relacionado com a Avenida Estrela.
— Vou visitá­la, disse a filha do comendador, com um gesto resoluto.
— Mau! resmungou o pai, sem ânimo de a contrariar. E acrescentou em voz alta: — Faço ideia do que não será a tal gruta!...
— Em todo o caso tenho vontade de ir vê­la, e irei! respondeu Olímpia.
— Não sei se V. Exa. fará bem... observou o padre Almeida, que até aí parecia não haver prestado atenção à conversa. Aqueles caminhos são perigosos...
E, como Olímpia o interrogasse com um gesto, ele acrescentou:
— É que V. Exa. pode perder­se...
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— Não deve ser tanto assim, replicou ela.
— Todavia, é bom não se fiar muito, minha senhora! volveu o padre, pondo intenção nas suas palavras.
— Não tenho medo! disse Olímpia, sacudindo os ombros. E resolveu que depois do almoço faria uma excursão à gruta. Gregório ofereceu­se logo para acompanhá­la.
— Aceito com muito prazer, respondeu ela, agradecendo­lhe o oferecimento.
Outras pessoas aderiram em seguida à ideia, e ficou decidido o passeio.
— Queira Deus que te não suceda alguma coisa!... observou o pai de Olímpia, assim que a pilhou só. Tu andas fraquinha, minha filha; não deves abusar muito!...
— Ora! redarguiu ela, sacudindo os ombros; não hei de morrer de velhice!... Além de que, o médico me aconselhou fazer exercício!...
— Mas não indo à tal gruta, que, ouvi dizer, é muito longe daqui e quase inacessível!
— Não deve ser tanto assim!...
E às duas horas puseram­se todos a caminho. O comendador não resistiu ao desejo de acompanhar a filha; mas, depois de subir uns duzentos passos, já não podia ir adiante e debalde procurava convencê­la de que devia voltar com ele. Olímpia, apesar de muito cansada, declarou que o pai queria um absurdo, e continuou a excursão.
O comendador ainda tentou prosseguir na viagem, mas toda a sua boa vontade foi inútil. Assentou­se por terra com outros companheiros que haviam desistido igualmente, e pouco depois voltava com estes para casa.
Só três não desistiram: Olímpia, Gregório e o Augusto.
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Este último ia à frente rompendo a marcha, o que aliás pouco lhe custava, graças à destreza de que dispunha e ao seu vivo instinto de fragueiro. Às vezes o caminho se fechava de todo ou tomava uma direção despercebida à primeira vista, Augusto suspendia­se então por um cipó, ou singrava por entre o mato, gritando pouco depois aos companheiros.
— Tomem a esquerda! Cá está o caminho! Cuidado com os espinhos à direita!
Outras vezes era a ladeira que se fazia mais íngreme, e Augusto tinha de improvisar um corrimão para que os outros dois a pudessem galgar.
E, só depois de muito matejar, foi que os três chegaram a um ponto mais elevado da montanha, planalto que se debruçava pitorescamente sobre um vale profundo e sombrio.
— É ali em baixo a gruta! exclamou Augusto, apontando para a várzea. É preciso agora descobrirmos a descida. Ah! ei­la! Por aqui! por aqui! Cuidado no sentar o pé, porque esta pedra escorrega muito!
Gregório dava a mão a Olímpia, para ajudá­la a descer.
Ela quase não falava por toda a viagem, mas sentia um grande encanto em tudo aquilo. Nunca fizera um passeio tão penoso e tão agradável; nunca houvera visto de perto os rebentões das matas, formando os mais caprichosos arabescos; nunca se penetrara desse ar embalsamado dos campos, que nos alegra o sangue e nos faz amar a natureza; nunca ouvira os sons eólios da floresta, que nos despertam na alma as notas adormecidas da infância; nunca bebera a luz do sol depois de filtrada por uma abóbada de verdura, e nunca ouvira tão perto o concerto amoroso dos pássaros e o crepitar harmonioso das folhas secas estalando ao sol.
Ao chegarem ao fundo sombroso do vale, Olímpia não pôde conter a comoção. Era um lugar ameno, misterioso, cheio de 195 de 371
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encantos. De lá não se via a terra nem se via o céu; tudo era verdura. O chão desaparecia, alastrado pelas trapoerabas, que recamavam a grama com as suas mimosas florzinhas azuis. Das árvores só se viam as grandes copas aveludadas, porque os troncos desciam obliquamente dos montes que sitiavam o vale; algumas se equilibravam de cima, presas pelos pés, como enormes ramalhetes voltados para a terra. As infinitas trepadeiras, as caprichosas parasitas vingavam e serpenteavam por todos os lados, como se quisessem enastrar interiormente aquele ninho ideal de verdura pelo modo por que fazem os pássaros seus ninhos.
Por todos lados rebentavam flores, por todos lados se penduravam cipós, entrelaçados de avenca, e se agitavam as palmas esteladas dos coqueiros, forcejando para romper por entre as largas palhetas dos tinhorões e as línguas espinhosas da babosa.
A luz do sol só penetrava naquele doce interior de verdura depois de peneirada pela folhagem, pálida e amortecida como a claridade melancólica de um crepúsculo.
Os três excursionistas estacaram sem dar palavra, inteiramente dominados pelo religioso aspecto daquele rústico santuário panteísta. Tudo ali respirava uma grande paz, que ia, pouco a pouco, voltando nossos olhos para Deus, chamando nossos joelhos para a terra e nos abrindo o coração aos êxtases da prece.
Depois de mais alguns instantes de mística contemplação, os três seguiram para a gruta.
Entrava­se nela por uma abertura natural, indicada pela própria folhagem, que nesse ponto se tornava mais sombria. Mal porém transposta essa passagem, afastando com ambas as mãos os ríspidos galhos que a defendiam achava­se a gente num lugar inteiramente contrário ao que se acabava de deixar. Era uma estreita galeria em pedregal escuro e úmido, feita de penhascos acumulados uns sobre os outros, formando medonhas cavernas, onde apenas de espaço a espaço escorria algum trêmulo fio de luz.
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Os negros pedregulhos, como sustidos por uma força estranha, empinavam­se muitos metros fora da sua base, serpenteando por entre eles um corredor irregular e trevoso. Augusto seguiu por aí e os outros dois o acompanharam. À proporção que avançavam, ia o ar se tornando mais frio e o silêncio mais intenso. De todos os rumores de fora só chegava lá dentro um vozear confuso, que esfuziava de rocha em rocha. Olímpia parecia encantada pelo passeio e apertava no seu o braço de Gregório.
Depois de andarem um quarto de hora, deram a um lugar mais amplo e descoberto. Via­se então o céu por entre o rendilhado da floresta, que lá em cima crescia zombando dos rochedos. Algumas árvores se debruçavam no abismo e estendiam pela aridez da pedra seus retorcidos braços de gigante.
Mais alguns passos e começaram a ouvir o murmúrio de uma pequena cascata que corria lá embaixo. Era preciso agora segurar­se a gente com mais cuidado, porque o limo dificultava o caminho transformado em ladeira. A pedra aparecia rachada em vários pontos, cujas fendas só se podiam galgar com um salto.
Olímpia principiava a cansar de novo; as fendas reproduziam­se mais amiudadamente. Vão agora rareando as pedras; vão avultando as fisgas d’água. Terminou afinal a descida; já se não está sobre uma rocha, passeia­se num lago, guarnecido de ilhotas negras, que surgem aqui e ali, como para facilitar a viagem.
É este o ponto mais bonito da gruta. A vegetação surge de cima com mais abundância; os despenhadeiros são enfeitados com as trepadeiras e parasitas, que sobem e descem por eles, numa variedade riquíssima de flores. A água corre placidamente debaixo de nossos pés; ouvem­se cantar os pássaros e sentem­se os sopros embalsamados da floresta. De um lado principia de novo o campo, vê­se a terra e ouve­se o marulhar das folhas; do outro se agrupam penhascos, por entre os quais já não é possível transitar sem risco de vida.
Gregório deu a mão a Olímpia, fê­la subir a uma das pedras que se erguiam defronte deles e mostrou­lhe a cascata. A rocha era 197 de 371
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fendida em toda a sua extensão, formando magnífico efeito com os pedregulhos que se entremetiam por ela.
Augusto galgou uma das arestas do rochedo, disse aos companheiros que o esperassem um instante, enquanto ia ele observar se havia saída pelo outro lado da gruta. Olímpia e Gregório opuseram­se; achavam muito arriscada semelhante tentativa: a rocha era lisa de todo e escorregadia. Mas antes que os dois tivessem tempo de despersuadi­lo disso, já o temerário havia atingido uma das pedras que ficavam entaladas na fenda, e procurava, equilibrando­se, alcançar uma outra adiante. Afinal conseguiu e desapareceu pelo lado contrário do penedo.
Os companheiros ficaram sobressaltados. Gregório fez Olímpia assentar­se; procurou distraí­la conversando e ofereceu­lhe uns cajus, que nessa ocasião acabava de colher. Mas Augusto não reaparecia e a senhora tornava­se cada vez mais inquieta.
Afinal ouviu­se lhe a voz, chamando pelos outros. A voz saía justamente da parte mais baixa da rocha, no lugar em que principiava a enorme fenda.
— Onde estás tu? perguntou­lhe Gregório, aproximando­se o mais que pôde do lugar donde vinham os gritos de Augusto.
— Estou aqui embaixo! Só há uma fenda, por onde nem um gato pode passar!
— E por que não voltas por onde foste?!
— Impossível! Vim deixando­me escorregar e não consigo subir! Já tentei várias vezes!
— E agora?!
— Agora é seguirem vocês por aí, que eu os vou encontrar mais adiante!
— Mas eu não conheço estes caminhos!...
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— Não há que errar, disse Augusto, procurando meter a cabeça na fenda da rocha; tomas esse caminho, onde estão as palmeiras, e vais sempre seguindo à esquerda, até chegares à pedreira. Vão. Eu não posso ficar aqui por mais tempo, tenho água até aos joelhos! É verdade! não esqueças de levar o saco que trazia eu a tiracolo e que tirei para passar a rocha. Até logo!
— Até logo, repetiu Gregório.
— Sempre à esquerda! ainda recomendou o outro.
Olímpia não deu uma palavra durante o diálogo dos dois rapazes, mas deixou pela fisionomia bem patente o seu sobressalto.
— Nós o encontraremos ali mais adiante... disse Gregório, dando­
lhe o braço. Vamos.
E puseram­se a andar silenciosamente. O caminho por onde voltavam era encantador, mas muito agreste. Olímpia por duas vezes queixou­se de que os espinhos lhe feriam o rosto. Gregório contentou­se em lembrar­lhe a coragem com que ela empreendera o passeio.
— É que tenho medo de nos perdermos aqui!... respondeu a senhora, com um princípio de mau humor. Além disso já estou fatigada e sinto sede!
— Tome um pouco de vinho, e se quiser podemos descansar um instante.
— Não! não! prefiro ir adiante; estou impaciente por chegar ao tal ponto em que nos encontraremos com o Augusto.
— Mas que mudança tão rápida foi essa?... ainda há pouco estava de tão bom humor, e agora...
— Parece­lhe que não devo estar aflita?...
— Não sei porquê...
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— Imagine que não damos com o caminho e nos desencontramos do Augusto!
— Havíamos de achar saída!...
E, assim conversando, encontraram­se defronte de três picadas. Gregório hesitou qual devia escolher entre as duas que ficavam à esquerda.
— Que lhe dizia eu!... observou Olímpia, cruzando os braços.
— Deve ser esta. Não se mortifique... É por aqui com certeza!
E seguiram. Mas pouco depois tiveram novo embaraço: todos os caminhos deparados tomavam para a direita.
— Com certeza já estamos perdidos! observou Olímpia.
— É melhor seguirmos por aqui, disse Gregório. Esta picada vai com certeza dar ao ponto de que nos falou o Augusto.
A viagem, entretanto, ia cada vez se tornando mais difícil. Reproduziam­se os obstáculos. Olímpia observou que antes tivessem voltado pelo mesmo caminho. E continuaram a andar. De repente, porém, acharam­se defronte de mato virgem; era preciso voltar atrás, mas na volta já não encontraram o lugar por onde haviam ido: tomaram o primeiro caminho que apareceu, e desde então se puseram a andar à toa, ora para a esquerda, ora para a direita. Gregório gritou várias vezes, na esperança de ser ouvido por Augusto ou por qualquer outra pessoa; nada veio em seu auxílio. A floresta continuava a sussurrar indiferentemente.
Assim se escoaram duas horas talvez. Olímpia afinal declarou que não podia dar mais um passo sem ter descansado. Gregório conduziu­a para debaixo de uma árvore e fê­la repousar. Depois abriu o saco de Augusto, tirou uma garrafa de vinho, encheu um copo e passou­o à companheira.
— Temos aqui também o que comer, disse ele, apresentando uma empada, queijo e frutas.
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Olímpia aceitou sem responder. Gregório foi buscar duas palmas largas de pindoba, estendeu­as defronte da rapariga e assentou­se ao lado dela.
Começaram a comer silenciosamente. Olímpia parecia muito preocupada; percebia­se todavia que a dificuldade de achar o caminho não era a causa principal do seu mau humor, e Gregório sentia­se constrangido por aquela situação a ponto de não encontrar o que dizer.
Nunca a influência amorosa, que aquela estranha mulher exercia sobre ele, o perturbara tanto, e nunca ele se achou tão tímido como naquela ocasião.
Depois da merenda, Gregório convidou Olímpia a prosseguir na jornada.
— Estou tão abatida!... disse ela, erguendo custosamente as pálpebras e estendendo os braços ao moço, para que a levantasse.
— Sente­se indisposta?... perguntou este com solicitude, segurando­lhe a mão.
— Não, disse ela suspirando e tentando pôr­se de pé. Mas Gregório teve que ampará­la, porque a histérica fechou os olhos e, empalidecendo, cambaleou.
— Que sente, minha senhora?... interrogou ele, empolgando­lhe a cintura.
Olímpia não respondeu e deixou­se cair no colo do rapaz. Vieram logo os soluços e os suspiros estalados na garganta.
Gregório, na candura dos seus dezoito anos e na predisposição lírica do seu pobre espírito, não podia apreciar o alcance daquela crise: todos os fatos da vida real e todos os fenômenos humanos tinham para ele uma explicação romântica. Mal­educado pela metafísica do colégio em que se desenvolveu, e dominado pela 201 de 371
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corrente sentimentalista da sua época, repugnava­lhe a verdade fria e tudo aos seus olhos se prestigiava de um sedutor caráter de idealismo poético.
Para ele, Olímpia, com os seus ásperos arrebatamentos e com as suas míseras ternuras de rola enferma, não podia deixar de ser um mito irresistível e adorável. Gregório a amava, mas não a compreendia; aspirava­lhe o doce perfume através do véu nebuloso que a envolvia, aceitando­a na sua cega adoração, como o crente religioso aceita um dogma.
Que estranhas comoções não se apoderaram dele enquanto sustinha no ombro a formosa cabeça de Olímpia; enquanto lhe via de perto a fresca brancura do pescoço, e lhe sorvia os perfumes do cabelo, e lhe bebia o salmodiar do pranto?...
Ela parecia ir serenando à proporção que lhe fugiam as lágrimas e os soluços. Gregório, cheio de hesitação e receoso de afligi­la, mal ousava passar­lhe a mão à flor dos seus cabelos.
— Veja se consegue tranquilizar­se um pouco... aconselhava ele com a voz trêmula, todo possuído de uma deliciosa agonia.
E, como se tivesse nos braços uma criança nervosa, batia­lhe carinhosamente nas costas e dizia­lhe todas as meiguices do seu amor ingênuo.
Olímpia, sem responder, continuava, não ainda a soluçar, mas a embalar­se num fluxo e refluxo de suspiros, que lhe faziam arfar o corpo inteiro, como a ressaca ao navio depois que a tempestade passou.
— Eu talvez a esteja constrangendo... arriscou Gregório, procurando delicadamente desviá­la dos seus braços.
— Não! respondeu ela, puxando­se para ele e chegando o rosto para os lábios do rapaz. Mas logo o repeliu, como se arredasse da sua carne palpitante um cadáver já frio.
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Entretanto a tarde principiava a encher a natureza de sombras. As aves despediam­se do sol com os seus últimos gorjeios, e as árvores se retraíam no misterioso recolhimento do crepúsculo.
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XIX
O ACROBATA
Só às sete e meia conseguiram alcançar a casa. Todos os esperavam com ansiedade. Augusto havia chegado muito antes, mas ao saber que os dois companheiros não tinham aparecido, e receoso de que estivessem perdidos no campo, voltou à procura deles e trouxe­os consigo. Olímpia, com grande espanto geral, longe de chegar aborrecida e contrariada, entrou em casa muito satisfeita, atirou­se rindo aos braços do pai, e ordenou gracejando ao hoteleiro que lhe servisse o jantar.
Vinha tão expansiva e folgazã que a todos causou verdadeira surpresa. O sol emprestara­lhe às faces um vivo cor­de­rosa, que lhe enfeitava o rosto com muita graça; os seus olhos jamais luziram com tanta vida, e ela toda nunca parecera tão bem disposta e tão sã.
O comendador, que havia passado o dia em sobressaltos com a demora da filha, era de todos o mais encantado por aquela metamorfose. Olímpia parecia­lhe agora como nos bons tempos, quando governara com o espírito toda a sociedade em que se achasse.
— O Dr. tinha razão! dizia o velho consigo; os exercícios são de evidente efeito! Hei de fazê­la, uma vez por outra, visitar a gruta! Se as melhoras continuarem deste modo, em breve tenho minha filha perfeitamente curada!
E o comendador chorava de alegria.
O jantar foi de uma animação sem exemplo na Avenida Estrela; os mesmos hóspedes que haviam comido já, voltaram à mesa atraídos pelas gargalhadas explodidas em torno da descrição que Olímpia fazia do seu passeio. Gregório, entretanto, não parecia o 204 de 371
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mesmo: estava abatido e concentrado. Por duas vezes seus olhos cruzaram­se no ar com os da caprichosa senhora, e ele por duas vezes os abaixara, dominado pelo mais estranho acanhamento.
— Pois eu pensei que chegasses aqui sem uma hora de vida! observou o pai, embebido a olhar para a filha, enquanto lhe servia a sobremesa.
— Nunca me senti tão bem disposta! respondeu ela, a estender o copo ao Falconnet para que lhe desse vinho. Sinto­me tão bem que estou resolvida a ir hoje a qualquer teatro!
— Que dizes?! exclamou o comendador, arredando a cadeira, com um salto.
— Que espanto! observou a rir a filha.
— Se te lembra cada loucura!
— Oh! Pois não é o senhor mesmo que me tem pedido todos os dias para ir aos teatros, aos bailes e aos passeios?...
— Sim, mas não depois de um dia como este!...
— Pois em outra qualquer ocasião não me lembraria semelhante coisa. Se recusei das outras vezes e aceito agora, é porque só agora tenho vontade de ir...
— Mas é que talvez venha a fazer­te mal!...
— Isso mesmo me dizia o senhor antes do passeio à gruta.
— Não desejo contrariar­te, mas...
— Vai sempre me contrariando, não é verdade?
— É que já são oito horas; tu deves naturalmente estar muito fatigada e...
— Ora, valha­me a paciência! Sinto­me, ao contrário, 205 de 371
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perfeitamente disposta.
E Olímpia, ameigando o pai, ordenou­lhe que se fosse vestir.
O comendador obedeceu, a dar de ombros. Papá Falconnet trouxe para a mesa os jornais do dia e discutiu­se qual seria o espetáculo preferível. Olímpia, sem se pronunciar por nenhum, recolheu­se ao quarto com a criada, enquanto ia chamar­se um carro e às dez horas partia com o pai para a cidade.
Em caminho decidiram­se pelo teatro S. Luís, onde trabalhava essa noite o Furtado Coelho, mas, no momento de comprar os bilhetes, Olímpia tomara outra resolução: queria ir ao Chiarini.
E o carro voltou para a Guarda Velha.
Funcionava o segundo ato, quando ela entrou no circo pelo braço do pai. Havia uma grande enchente; o entusiasmo explodia por toda a parte e todos os lados gritavam:
— Scott! À cena o Scott!
Dois sujeitos de libré azul com alamares dourados conduziam para o interior do teatro um cavalo que acabava de servir. Muitos espectadores estavam de pé. Das galerias trovejava um barulho infernal: batiam com as bengalas, com os pés; gritavam, gesticulavam. E por entre aquela descarga contínua e atroadora, só um nome sobressaía, exclamado por mil vozes:
— Scott! Scott!
Olímpia sentiu­se aturdida no meio daquele pandemônio. De repente, um grito uníssono partiu da multidão estalaram de novo as palmas, choveram os chapéus, agitaram­se os lenços, arremessaram­se os leques, os ramalhetes e as bengalas.
Scott havia reaparecido.
— Bravo! gritavam. Bravo!
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E os aplausos estouraram com mais intensidade.
— Bravo, Scott! Bravo, Scott!
O acrobata, que entrara de carreira, parou em meio do circo, aprumou o corpo, sacudiu a cabeleira, e, voltando­se para todos os lados, atirava beijos e agradecia sorrindo, entre uma tempestade de aplausos.
Era um belo americano, rijo, atlético, ágil e robusto ao mesmo tempo. Olímpia, do lugar em que estava, via­lhe perfeitamente o azul dos olhos, a linha pura do perfil e a cintilação dos dentes.
Ele, depois de agradecer, estalou graciosamente os dedos e despediu­se, a dar cambalhotas no ar.
Rebentou de novo a tempestade das palmas, e as bocas dispararam uma sonora descarga de bravos.
Olímpia, entretanto, com a cabeça pendida para frente, olhar fito, a boca mal cerrada, caía na sua habitual tristeza e parecia a tudo indiferente.
Quando se retirava do teatro com o pai, um menino à saída apregoava a dez tostões, fotografias de Scott.
Ela comprou uma.
No dia seguinte, levantou­se muito tarde e de mau humor. Sua primeira frase, quando se encontrou com o pai, foi para lhe dizer que não ficava nem mais um dia na Avenida Estrela.
— Fizeram­te alguma coisa? perguntou o extremoso velho, esquecendo­se por um instante do prazer que lhe dava aquela resolução.
O comendador estava, como se costuma dizer, pelos cabelos, para deixar a casa do Papá Falconnet. Olímpia respondeu que não, com um gesto de cabeça, e acrescentou depois muito aborrecida:
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— Estou farta de tudo isto! Preciso sair daqui quanto antes!
— Como quiseres, minha filha!
E ficou resolvido que partiriam naquele mesmo dia. Às duas horas da tarde apareceu o Dr. Roberto; o comendador tomou­o de parte e relatou­lhe minuciosamente as caprichosas mudanças de humor que a filha experimentara desde a véspera.
O médico ficou pensativo depois de o ouvir.
— A que horas voltou ela do tal passeio? perguntou afinal.
— Às sete e meia da noite.
— Jantou logo que veio?...
— Logo, e com uma boa disposição que há muito tempo não tinha. Depois quis ir ao teatro, coisa de que ela não podia ouvir falar... A que teatro foram?
— Ao circo, ao Chiarini.
— Ah! resmungou o médico. Talvez ficasse nervosa à vista dos equilíbrios arriscados.
— Não sei... disse o pai; o fato é que ela estava ontem muito bem disposta e hoje, ao contrário, está impertinente como nunca!
E, depois de se conservarem ambos calados por algum tempo, o comendador acrescentou:
— Agora entendeu que não pode suportar mais esta casa e quer mudar­se hoje mesmo.
— E o comendador está resolvido a fazer a mudança?
— Pois não! já está tudo pronto. Partiremos daqui a pouco.
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Olímpia apareceu já em trajos de sair. O Dr. Roberto foi pressurosamente ao seu encontro e perguntou­lhe pela saúde.
— Assim... respondeu ela sacudindo os ombros. Estou muito aborrecida.
— Tem tido dores de cabeça?...
— Um pouco, mas ontem passei muito melhor.
— Por que não dá de vez em quando um passeio como o de ontem? Eles lhe são de grande utilidade!...
— Talvez não seja tanto assim...
— Voltou muito fatigada?
— Muito menos do que supunha. Quando cheguei à gruta, sim, estava tão prostrada, que me parecia impossível voltar a casa.
— Veio depois a reação?
— É verdade, e fiquei então muito bem disposta.
— Foi em companhia de muita gente?
— A princípio, respondeu Olímpia, impacientando­se com as perguntas insistentes do médico; depois ficamos três, apenas.
E, como se quisesse fugir daquela conversa, saltou logo para outros assuntos muito diversos, e afinal pediu licença e afastou­se quase com arremesso.
O médico a viu ir, pensativo.
— É esquisito! disse ele consigo, e passou a prestar atenção ao Papá Falconnet, que ao seu lado lhe fazia rasgados cumprimentos em francês. O hoteleiro precisava que o doutor fizesse uma visita a um de seus locatários que amanhecera doente.
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Tratava­se de Gregório. O médico foi conduzido ao quarto deste. Entrou quase às apalpadelas, porque vinha da grande claridade de fora. Só ao fim de algum tempo começou a distinguir o que tinha defronte dos olhos. Papá Falconnet o acompanhava, sempre a desfazer­se em cortesias e palavras agradáveis.
— Abra um pouco aquela janela, recomendou­lhe o médico.
Falconnet correu a cumprir a ordem.
Gregório estava assentado na cama, com os travesseiros entalados nas costas. Tinha o ar muito abatido e preocupado.
— Quem é? perguntou ele, ao sentir os passos do médico.
— É o doutor, respondeu Falconnet, entrando. Veio ver D. Olímpia e aproveitou a ocasião para fazer­lhe uma visita.
— Que tem ela? interrogou o rapaz.
— Está, como sempre, sofrendo dos nervos, explicou o Dr. Roberto.
— Mas não tem alguma novidade?
— Não, disse o médico sacudindo os ombros.
E, assentando­se à cabeceira do doente, indagou do que este sofria.
— Indisposição de corpo, respondeu Gregório. Nem valia a pena o incômodo de vir cá. Afinal não estou doente...
O Falconnet havia se aproximado e explicava que aquilo devia ser da soalheira apanhada na véspera.
— Ah! o Sr. foi ao tal passeio da gruta? perguntou­lhe o médico.
— É verdade, respondeu o enfermo.
O Falconnet principiou então a narrar o que a respeito do passeio 210 de 371
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ouvira na véspera contado por Olímpia.
— A ela entretanto fez bem!... considerou o Dr. Roberto, tomando o pulso de Gregório. E depois de examiná­lo, receitou e prometeu voltar.
Olímpia retirou­se com o pai nesse dia, como estava combinado. Não se despediu de Gregório, mas o comendador foi à procura dele para agradecer o incômodo que tomara o rapaz na véspera com a filha.
Gregório ficou surpreendido com a notícia da partida de Olímpia. Não podia acreditar! Pois ela ia assim, sem mais nem menos, sem lhe dar uma palavra, como se nada tivesse havido entre eles dois?...
Entretanto o comendador lhe oferecera a casa, e Gregório pensava com prazer em aproveitar esse obséquio. No dia seguinte, sem ter aliás experimentado melhoras, levantou­se da cama, vestiu­se e saiu. Na ocasião em que ganhava a rua deu com o Dr. Roberto, que o ia visitar.
— Pois o senhor já de pé? perguntou­lhe este com um gesto de censura.
— Estou perfeitamente bom, respondeu o outro.
— Não me parece. Ainda ontem tinha febre...
— Não era coisa de monta... O passeio há de fazer­me bem. Vou visitar o comendador.
— Ah! nesse caso vamos juntos; eu tencionava também ir para lá quando daqui saísse.
E os dois começaram a descer a rua do Rio Comprido. O Dr. Roberto ia preocupado: a singular moléstia de Gregório e aquela pressa do rapaz em visitar, ainda doente, o comendador; as melhoras efêmeras de Olímpia, a circunstância de haver Gregório tomado parte no passeio à gruta; tudo isso dava tratos à 211 de 371
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imaginação do médico.
— Ah, rapazes, rapazes, dizia ele consigo. E oh, mulheres! mulheres!
Em casa do comendador foram surpreendidos por uma novidade: Olímpia não queria ficar em Botafogo e exigia agora que o pai a levasse para a Tijuca.
Estavam tratando da nova mudança quando os dois entraram. Olímpia recebeu Gregório com muita frieza, mal lhe deu as pontas dos dedos e não lhe dirigiu palavra durante o tempo em que estiveram juntos. Parecia que nunca houvera absolutamente nada entre eles. Gregório ficou enfiado; no seu raciocínio aquele procedimento significava nada menos que cinismo. Olímpia aparecia­lhe agora ao espírito como uma mulher vulgar, friamente dissimulada e capaz de todas as hipocrisias. Mas se ela o tratava desse modo, o comendador, pelo contrário, procurava cercá­lo de obséquios e cortesias.
— Apareça­nos sempre, dizia o bom velho. O senhor dá­nos muito prazer com a sua visita.
Gregório chegou a casa possuído de um aborrecimento extraordinário; tudo o enfastiava, tudo o constrangia. Já não podia suportar as palestras do Papá Falconnet, quando este disparava no seu entusiasmo a falar de Bonaparte; já não encontrava prazer nos jogos de exercício com os outros rapazes da Avenida. Tudo o contrariava, tudo o enchia de tédio, porque tudo lhe recordava a ausência de Olímpia.
O velho divã da sala de jantar, onde ela às vezes se quedava esquecida com um livro abandonado no regaço, as flores que ela preferia para as suas jarras, a escada em que ela subira no momento em que Gregório a viu pela primeira vez; tudo o atormentava, tudo o mergulhava numa nostalgia insuportável e sem fundo. Quanto mais se convencia de que ela o desprezava; quanto mais se compenetrava de que ela o não queria; mais assanhado o desejo lhe trincava o coração e lhe chibateava os sentidos.
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O Dr. Roberto foi o único que compreendeu tudo isso.
Nestas condições Gregório resolveu abandonar a Avenida Estrela. A preocupação do seu amor infeliz absorvia­lhe a melhor parte da atividade; já não estudava, pouco trabalhava, sentia­se ir enfraquecendo e acovardando todos os dias. O desgosto secara­
lhe a coragem com que até aí cometia qualquer empresa e que lhe assegurava o bom êxito antes de dar o primeiro passo. Estava mais magro, mais descorado e mais tímido.
O Dr. Roberto principiou então a interessar­se por ele. Gregório piorava, só um bom tratamento o salvaria; o pobre moço tinha os pulmões fracos e predispostos para a tísica, porque, participando moralmente do caráter generoso e do gênio dócil de Cecília, herdada, pelo lado paterno, as consequências mórbidas da vida libertina de Pedro Ruivo.
O médico, quando o viu em risco de vida, carregou com ele para casa e transformou­o no objeto dos seus cuidados. É que Roberto ainda não tinha família e precisava dedicar a alguém essa porção de ternura e generosidade que traz consigo todo o coração bem construído, pronto a franqueá­lo ao primeiro que se apresente disposto a conquistá­la. Em pouco tempo os ligava a mais inquebrantável amizade.
E, de resto, não era difícil amar Gregório: ele dispunha em alto grau dessa irresistível simpatia, que é como o perfume das almas cândidas e que em geral se manifesta pelo sentimento da justiça. Não tinha os encantos brilhantes do homem de talento; não possuía a capitosa sedução de um espírito original e criador, mas cativava com a doçura da sua voz, com a simplicidade dos seus costumes e com a meiga ingenuidade do seu coração. Ele não deslumbrava, mas seduzia.
No fim de algum tempo o Dr. Roberto tinha por ele a afeição que se pode ter por um filho adotivo. O comendador Ferreira, a quem Gregório frequentava com mais assiduidade depois que se restabeleceu, fora também pouco a pouco se penetrando do mesmo sentimento pelo rapaz e acabou por não poder dispensar 213 de 371
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a companhia dele.
Só faltava Olímpia, mas a respeito desta não devemos adiantar ideia, sem primeiro voltarmos ao ponto em que a deixamos à saída do espetáculo. Todavia, para fazer justiça a Gregório, convém declarar que este, ao saber com certeza da posição da sua bem­
amada, e logo que reconheceu a afeição com que o comendador o acolhia, se sentiu envergonhado e tratou de retrair os impulsos que o impeliam para Olímpia. Foi o pior. É muito perigoso contrariar uma mulher nas circunstâncias daquela. Mas deixemos por enquanto tudo isso de parte e vamos colher a caprichosa filha do comendador na ocasião em que ela entra no carro que a esperava à porta do circo Chiarini.
O pai havia já por duas vezes lhe dirigido a palavra, perguntando­
lhe o que a fazia preocupada e triste. Olímpia respondera sacudindo os ombros, e durante o caminho não articulou palavra.
Mal, porém chegou ao seu quarto, atirou­se sobre o divã e abriu a chorar com desespero.
A nova casa que eles foram habitar na Tijuca era um pequeno e elegante chalé pintado de azul, com guarnições de mármore branco. Havia no jardim um belo renque de palmeiras, que ia desde o portão de ferro até à varanda da sala de visitas.
Olímpia quase nunca se mostrava agora, comprazia­se em ficar no quarto, entretida com algum romance ou a bordar à luz da janela. Saía às vezes à noite com o pai, para ir ao circo Chiarini, mas isso mesmo já principiava a enfará­la. Gregório ia aos domingos jantar com eles; a senhora o tratava com frieza, e muitas vezes nem vinha à sala. O Dr. Roberto teve de fazer uma viagem ao norte e partira, deixando a roda do comendador mais reduzida e mais fria. Olímpia piorava.
Uma vez estavam no circo, ela, o comendador e Gregório. Olímpia não dava uma palavra; tinha os olhos presos em Scott. O acrobata fazia nessa ocasião o seu melhor e mais arriscado trabalho.
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Era a sorte dos voos Tomava um trapézio, deixava­se arrebatar por ele, depois soltava as mãos, dava uma cambalhota no ar e ia agarrar­se afinal a um outro trapézio que o esperava do lado oposto.
A cada um desses saltos seguia­se uma explosão de palmas.
Scott havia já por duas vezes feito o seu voo arriscado, faltava­lhe só o último e o mais difícil. Consistia este no mesmo que os primeiros, com a diferença de que o acrobata, em vez de se arrojar de frente, tinha de atirar­se de costas e voltar­se no espaço para alcançar o trapézio fronteiro.
Scott assomara no trampolim armado além das torrinhas, ao pé do teto. Havia um grande silêncio comovido nos espectadores, os corações batiam com sobressalto. Todos os olhos estavam cravados na esbelta figura do acrobata, que, lá do alto, nas suas roupas justas de meia, parecia uma bela estátua de mármore. Destacava­se­lhe bem o peito largo e abaulado, via­se­lhe a riqueza dos braços e a nervosa musculatura das coxas.
Scott tomou o trapézio com uma das mãos, enquanto limpava com a outra o suor da testa; depois colocou o lenço a cintura, esfregou pez nas palmas das mãos e agarrou­se ao braço do trapézio. Ouvia­se a respiração ofegante do público. Scott sacudiu o corpo, experimentou o trapézio e deixou­se arrebatar por este, de costas. Em meio do círculo desprendeu­se, gritou: “Hop!”, deu uma volta no ar, e lançou­se de braços estendidos para o outro trapézio. Mas o voo fora mal calculado e o acrobata não encontrou onde agarrar­se.
Um terrível bramido ecoou por todo o teatro. Viu­se a bela e máscula figura de Scott, solta no espaço, virar para baixo a cabeça e cair estatelada no chão, com as pernas abertas. O recinto do circo encheu­se logo. Nos camarotes mulheres desmaiavam em gritos; algumas pessoas fugiam do teatro, espavoridas como se houvesse um incêndio; outras jaziam pálidas, a boca aberta e a voz gelada na garganta. Ninguém mais se entendia; davam­se encontrões. Nas torrinhas passavam uns por 215 de 371
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cima dos outros para poder ver se distinguiam o acrobata. Este, entretanto, sem acordo e quase sem vida, agonizava por terra, a vomitar sangue.
Olímpia, sem saber como, estonteada, trêmula da cabeça aos pés, achou­se ao lado dele. Ajoelhou­se no chão, tomou a cabeça do acrobata e pousou­a no regaço.
Scott estremeceu, esticou os membros, torceu a cabeça para trás, revirou os olhos, contraiu a boca e deu o último suspiro.
Olímpia soltou um grito, caiu de costas e começou a estrebuchar.
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XX
D. TERESINHA
Olímpia só acordou de si em casa, ao lado do pai.
Acompanhara­os desde o circo um médico ainda moço, que se achava no teatro por ocasião do desastre. Era o Dr. Dermeval da Fonseca.
Dos três parecia ser este o único que conservava o sangue frio na alcova a que recolheram a desfalecida. O comendador nada mais fazia do que ir de um para outro lado, sem nunca acertar com os objetos que lhe pedia o assistente. Expediram­se receitas para a botica, vieram os remédios, e às onze horas a enferma voltava a si. Abriu os olhos, olhou espantada por algum tempo para o pai e para o Dr. Dermeval; depois, reconstruindo as ideias, lembrou­se do fato que a fizera desmaiar, soltou um novo grito e recaiu em convulsões. O Dr. Dermeval e o comendador apoderaram­se dela. Olímpia queria morder os pulsos e gritava, agatanhando­se.
Gregório, na sala próxima, passeava muito agitado, impacientado por descobrir um meio de ser útil àquela situação. Mas não tinha ânimo de aproximar­se do quarto de Olímpia; receava com isso cometer erro maior. Ao mesmo tempo o seu amor­próprio se sentia acirrado pelo desastre do acrobata: Gregório sentira ciúmes desde a primeira vez que observara o modo apaixonado pelo qual Olímpia acompanhava com a fisionomia as difíceis e graciosas evoluções do gentil funâmbulo.
Não é que ele contasse ou ambicionasse merecer algum dia o amor da caprichosa senhora; não, porque estava no firme propósito de nunca deixar transparecer o menor vislumbre dos seus desejos, ainda que para isso fosse necessário afogá­los em sangue. 217 de 371
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Mas o coração também vive desse dúbio querer e não querer; desse vago desejar, que nasce e avulta em nossos sentidos, sem o menor concurso do raciocínio. Gregório era sem dúvida um espírito sumamente romântico e sempre voltado para o ideal, mas era latino e tinha dezoito anos; não podia, por conseguinte, furtar­se às tendências naturais do meio em que nascera e à fatal idiossincrasia de sua raça; educara o seu caráter e o seu gosto artístico pelos velhos moldes líricos, cuja influência lhe chegava ao espírito por intermédio de alguns livros, às vezes mal escolhidos, e de alguns jornais quase sempre pouco escrupulosos. Lamartine foi um dos primeiros que se apoderaram dele, que lhe, fascinaram a alma com a sua sedutora tristeza apaixonada; depois Musset, Gautier e Vítor Hugo terminaram a obra. Gregório não resistiu ao desejo de sentir com eles. Era tão agradável chorar na sua idade! É tão bom sofrer quando sofremos por gosto!...
Olímpia, depois da morte de Scott, ficou muito pior; o pai já não contava com ela e deixava­se mergulhar em fundo e surdo desespero.
O Dr. Dermeval não poupava esforços para salvá­la. Fizeram­se várias conferências médicas; a opinião predominante era que Olímpia, se escapasse da morte, viria a sofrer para sempre das faculdades mentais. Só o Dr. Dermeval discordava.
E principiou este, mais do que nunca, a interessar­se por ela. Ia visitá­la todos os dias, procurava distraí­la, contava­lhe histórias espirituosas, oferecia­lhe de vez em quando um livro e falava­lhe de teatros e bailes. Olímpia, com efeito, ao fim de pouco tempo, experimentava melhoras, e daí a dois meses passeava no jardim pelo braço do pai.
Depois da moléstia ficara muito amiga de Gregório, tratava­o agora com extrema condescendência, quase com amor. Uma vez apareceu ele mais cedo que de costume (acabava­se de tirar a mesa e o comendador fazia a sesta no gabinete). Olímpia, ao ver entrar aquele, soltou logo uma exclamação de prazer e correu ao seu encontro com os braços abertos.
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— Oh! disse ela; o senhor foi hoje verdadeiramente amável...
E abraçou­o.
O rapaz ficou perplexo com semelhante recepção, e nada mais conseguiu do que gaguejar algumas palavras de agradecimento. Em seguida, assentaram­se os dois no mesmo divã e puseram­se a conversar. Olímpia mostrava­se aquela tarde de uma estranha expansão, e Gregório, ao contrário, parecia como nunca retraído e contrafeito.
Falaram vagamente sobre todos os assuntos de que se podiam lembrar para encher a conversa. Ela ofereceu­lhe café, e foi pessoalmente buscar uma garrafa de licor; pediu­lhe depois que lhe desenhasse alguma coisa no álbum. Gregório obedeceu; mal, porém, tinha principiado o desenho e já a caprichosa lhe arrancava o lápis dos dedos e lhe pedia para fazer­lhe antes um pouco de leitura. Gregório foi à biblioteca, tomou os Primeiros cantos de Gonçalves Dias e principiou a recitar o episódio do Pirata.
— Não! disse Olímpia, pousando­lhe a mão na boca. Leia­me outra coisa... faz­me mal esse poeta!... Não gosto de lhe ouvir os versos senão quando preciso chorar...
Gregório lembrou Casimiro de Abreu, ofereceu Castro Alves, intercedeu por Fagundes Varela. Ela, porém, não aceitou nenhum deles.
— Olhe! cá está o Machado de Assis! Quer?...
Olímpia respondeu que não, sorrindo com faceirice e agitando o indicador da mão direita.
— O Luiz Guimarães?...
— Não...
— Ah! Cá está o Muniz Barreto!
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— Não! não!
— Quer antes um poeta francês?... prefere ouvir um trecho de prosa?...
— Não! Já não quero nada disso. Dê­me aquele álbum que ali está...
Gregório foi buscar sobre o piano o álbum indicado.
— Agora sente­se aqui. Aqui justamente, neste banquinho. Bem; vejamos juntos estes desenhos.
Gregório ficara muito encostado ao divã em que estava Olímpia. Esta abriu o álbum sobre os joelhos e passou a primeira folha.
— Sabe quem fez isto? perguntou sorrindo.
Gregório inclinou­se mais para ver.
— Fui eu, explicou Olímpia. Não está bem feito?...
— Está muito bonito, disse o rapaz, prestando pouca atenção ao desenho.
— E este?... Que tal acha? continuou ela, voltando a folha.
— É, respondeu Gregório, quase sem olhar para a página.
— Olhe para cá! repreendeu Olímpia, segurando­lhe a cabeça e obrigando­o a olhar para o álbum.
Gregório riu­se.
— Chegue­se mais! acrescentou ela ainda em ar de repreensão. Parece­me tolo!...
— A senhora está hoje muito amável!...
— Faça­se engraçado! Pensa que não sou capaz de puxar­lhe as orelhas!...
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E terminou esta frase, segurando amorosamente a cabeça do rapaz e puxando­a para junto dos lábios.
Gregório retirou a cabeça de suas mãos e ergueu­se.
— Não! não! balbuciava ele a desprender­se­lhe dos braços.
— Você é um idiota! exclamou Olímpia, repelindo­o com raiva. E afastou­se da sala muito apressada.
Nessa ocasião acabava o comendador a sua sesta no gabinete e preparava­se para apresentar­se, como sempre, de colarinho limpo, barba feita e cabelo bem escovado.
Ele não era homem capaz de aparecer mal a ninguém. A filha nunca o vira em mangas de camisa. Apurava­se muito na roupa; tratava cuidadosamente dos dentes, que os tinha magníficos; e trazia frequentemente, na algibeira do seu colete de seda preta, um canivetinho com que às vezes se entretinha a brunir as unhas.
Jacó era o seu braço direito. Era o Jacó quem lhe fazia a barba, quem o vestia, quem lhe cuidava dos sapatos, quem lhe metia os botões na camisa. Ninguém mais fazia isso a gosto do comendador.
Ainda em vida da mãe de Olímpia, já o desvelado doméstico invadia todas essas atribuições e gozava do valimento do amo. Foi ele, até, entre os íntimos do comendador, quem tomou parte mais ativa no segundo casamento deste. O comendador consultara a opinião do criado.
Jacó achava a noiva um pouco moça demais para o amo. O comendador já não estava criança!...
O pai de Olímpia opunha então a circunstância de que tinha filhos, de que precisava de uma senhora que lhe tomasse conta da casa e dirigisse a educação das crianças.
— Ora, replicava o velho criado; a Sinhazinha não está tão pequena que precise de madrasta!... (Esta Sinhazinha, a que se 221 de 371
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referia o bom Jacó, era Olímpia). E o Nhonhô, acrescentava ele, sai do colégio apenas duas vezes por ano...
Mas, apesar de tudo, o comendador contraiu novo matrimônio, do qual lhe resultaram aquelas duas malogradas gêmeas de que já tratamos. Não foi feliz nas segundas núpcias: o criado tinha razão quase inteira. Ao casar, o comendador não estava totalmente velho, mas caminhava muito de perto para isso. A velhice às vezes é uma janela que se abre de repente, e por onde fogem no mesmo instante os últimos raios da mocidade.
A segunda mulher do comendador orçava então pelos vinte anos e era rapariga muito bem constituída de corpo. Sem ser bonita, ostentava esse encanto inestimável da saúde e da força, que tem para o homem as mesmas qualidades atrativas que a brilhante clorofila das flores, segundo Darwin, tem para os insetos voláteis.
Pelos seus olhos vivos e travessos, pelo moreno quente das suas faces coradas e viçosas, pelos seus lábios carnudos e vermelhos, pelo vigor da sua larga respiração e pela sedutora frescura dos seus dentes, a segunda mulher do comendador estava a pedir um marido mais esperto e mais senhor de si; de sorte que, por ocasião de escancarar­se a janela de que há pouco falamos, se escaparam logo, de envolta com os últimos raios da mocidade do infeliz marido, as estopinhas da fidelidade conjugal, cujos votos a esposa do comendador principiava a romper com toda a força dos seus ricos vinte anos.
Uma janela aberta e que se não pode fechar, é um perigo constante para a casa a que pertence, principalmente se nesta houver uma flor, porque os insetos andam soltos lá por fora.
O primeiro inseto que entrou pela janela foi o Portela, aquele morigerado e belo moço do comércio, convidado por Henriqueta e Leão Vermelho para servir de padrinho de batismo à nossa Clorinda, e o qual, mais tarde, vimos transformado em comendador, a conversar em companhia do Adelino Fontoura e do Duque­Estrada em casa da afilhada.
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Portela estava por esse tempo no vigor dos anos; teria quando muito vinte e cinco, porque justamente na mesma época batizara ele a filha natural de Leão Vermelho.
Vejamos agora quais foram as circunstâncias que o aproximaram da mulher do comendador Ferreira, porque elas se ligam às futuras cenas desta narrativa.
O pai de Olímpia ainda então se achava no comércio ativo, de sociedade com um tal João Figueiredo, tão comendador como ele, porém muito menos fino e menos traquejado nas salas. O nosso Portela era caixeiro da casa. Nesse tempo, como deve saber o leitor, os empregados do comércio não gozavam em geral de certas regalias, que só mais tarde lhes foram conferidas pelos patrões. O bigode, a gravata, o fraque, por exemplo, eram fruto proibido para os caixeiros.
Entrar em um café, fumar um charuto, saber dançar uma quadrilha francesa, tudo isto, para os infelizes moços, eram verdadeiros crimes de lesa­moralidade comercial. Mas o comendador Ferreira não se deixava levar por tão mesquinhos preconceitos e dava aos seus empregados plena liberdade de deixar crescer o bigode, vestir um fraque, penetrar nos raros cafés dessa época e fumar os charutos que quisessem.
O Figueiredo opunha­se amargamente contra semelhante liberdade do sócio.
— Você me quer estragar os rapazes!... dizia ele, penetrado de um grande desgosto. Pois você não vê, seu Ferreira, como tudo por aí anda já tão desmoralizado!... Não vê como hoje só há pelintras?! Não vê que hoje em dia os rapazes, em vez de aproveitarem o domingo para ir à missa, querem ir fumar charutos ao Passeio Público e meter­se à tarde na patifaria do teatro?!...
E o Figueiredo, possuído cada vez mais da sua indignação, revoltava­se contra o sócio; mas o comendador Ferreira não se deixava catequizar e continuava a dar folga aos rapazes.
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É porém seguro que, entre os caixeiros da casa, só um se aproveitava verdadeiramente dessas regalias, e esse era o Portela. Aos domingos, em vez de ir para o canto da rua, como faziam seus companheiros, assentar­se a um banco de pau e ver quem passava, o pretensioso caixeiro ataviava­se com roupas de casimira francesa, metia um charuto entre os dentes, e punha­se de passeio pelas ruas. Estas especialidades davam­lhe aos olhos das moças suas conhecidas certa distinção simpática: Portela era citado por ela como a flor dos rapazes do comércio.
E o fato é que ficava um rapagão, quando envergava o fraque de pano fino, vestia um par de calças novas, armava o seu chapéu alto e ganhava a rua, rangendo as botinas e picando a calçada com a biqueira da bengala. Dos empregados do nosso comendador foi ele o único que compareceu ao casamento do patrão. O Figueiredo teve uma vertigem quando o viu chegar de carro e casaca.
— Ora com efeito!... resmungou o caturra, a sacudir a cabeça. E afastou­se para não disparatar ali mesmo com o sócio.
Portela dirigiu­se mais de uma vez à noiva, felicitou­a, disse­lhe palavras muito bonitas e pediu­lhe que lhe reservasse um dos seus alfinetes dourados. À mesa ergueu­se com desembaraço para brindar o patrão, e seu discurso foi muito bem recebido. Desde esse dia o comendador o convidou para jantar aos domingos, e Portela não faltou a nenhum deles. Às vezes havia dança e ele dançava; se havia jogos de prenda, brincava; e, se havia meninas solteiras, namorava.
D. Teresinha, como tratava ele a mulher do patrão, não lhe votava entretanto mais do que uma pequena estima, mais generosa que outra coisa, e perfeitamente compreendida no círculo dos seus deveres conjugais.
Por essa época já ela estava grávida das duas gêmeas a que nos referimos. O tempo passou; nasceram as meninas, e Portela sempre a frequentar a casa do comendador, cada vez mais considerado e mais querido.
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Quando a peste, que nessa época assolava o Rio de Janeiro, entrou em casa do bom negociante e lhe arrebatou dos braços os adoráveis frutos do seu segundo matrimônio, o pobre homem recebeu o golpe em cheio no coração e caiu desanimado e sem forças. Portela foi o único que teve o segredo de distraí­lo da desgraça, chamando­o de novo à vida.
Foi então que uma forte rajada dos ventos da velhice se atirou de súbito contra a tal janela e abriu­a de par em par. O comendador envelheceu da noite para o dia.
A transição da virilidade para a decrepitude é tão sobressaltada como a passagem da meninice para a puberdade. O desgraçado sentiu faltar­lhe a coragem para tudo; não queria festas, não queria distrações; o próprio trabalho já não tinha para ele nenhum dos atrativos de outrora. E, enquanto os fatos assim se sucediam, o Portela empregava todos os esforços para alcançar a mão de Olímpia, cujos encantos principiavam a vestir as galas da mulher, resplandecendo dentro da auréola de seus quinze anos. Distinta, rica, inteligente e formosa, a filha do comendador representava, para o caixeiro, o melhor partido que este poderia ambicionar.
O comendador estava por tudo; só faltava que a menina se resolvesse. Ela recusou. O pai tentou ainda defender a pretensão do amigo; Olímpia voltou­lhe as costas.
Foi por esse tempo que o comendador, sentindo­se esgotado e precisando descansar, resolveu sair do comércio ativo. João Figueiredo, logo que liquidou as contas do sócio e ficou só, declarou ao Portela que não o suportaria nem mais uma semana em sua casa.
— Até ali era preciso respeitar a vontade do comendador Ferreira; agora não havia razão para aturá­lo!
O comendador, sabendo do fato, ficou furioso e chamou o rapaz para sua companhia.
— Havemos de arranjá­lo, prometeu ele; mas enquanto não 225 de 371
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aparecer emprego, ficará ao meu serviço. O senhor terá um ordenado, casa e comida.
Portela mudou­se logo para a casa do comendador. De muito pouco serviço dispunha este para lhe dar a fazer; não passava todo ele das contas de suas propriedades alugadas e uma ou outra carta comercial exigida pelas pendências com a praça. Compreende­se, por conseguinte, que o rapaz tinha folga e grande folga.
Trabalhava no próprio escritório do patrão, ao lado da biblioteca, perto da sala de jantar, onde Teresinha costurava. Às vezes o Portela punha de lado a pena, fechava a sua costaneira e ia dar dois dedos de palestra à patroa. Ela o tratava com muita deferência.
Um dia, seriam duas horas da tarde e o comendador não estava em casa. Teresinha parecia entretida de todo com a sua máquina de costura, e Olímpia passeava na rua do Ouvidor com as amigas.
Fazia muito calor: outubro nunca estivera tão insuportável e tão cheio de moscas.
O ar morno e pesado produzia quebrantes no corpo e convidava a gente a estender­se no chão, sobre a esteira, e deixar­se ficar de olhos fechados em plena preguiça. Quase que se não podia respirar. As cortinas da janela tinham uma imobilidade de pedra.
O comendador morava já em Botafogo, na mesma casa donde mais tarde o arrancou Olímpia para dar com ele na Avenida Estrela e depois no modesto chalezinho da Tijuca. Via­se da sala de jantar a baía defronte reverberar aos raios do sol: o Pão de Açúcar, completamente nu de nuvens, se refletia por inteiro no ardente espelho das águas, e o céu, descoberto e brilhante, parecia feito de porcelana azul!
Teresinha largara o trabalho para resfolegar e refrescar as faces com a palma de sua mão gorda e macia. Portela apareceu à porta do gabinete e fez uma exclamação sobre o calor, 226 de 371
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despregando com os dedos abertos o seu rico cabelo, preto e anelado, que o suor grudava ao casco da cabeça.
— É! respondeu ela; está horrível!
— Não se pode trabalhar, considerou Portela, soprando afrontado. E foi assentar­se perto de Teresa.
— Então, como passou desde ontem dos seus incômodos nervosos? perguntou a mulher do comendador, referindo­se a uma conversa da véspera.
— Ah! ainda se lembra disso?...
— O senhor queixou­se tanto!...
— Qual! Eram manhas; o meu mal é outro. Não sei se mais difícil ou mais fácil de curar!... E, depois de fazer um gesto de convicção, acrescentou: Nasci para ser casado; não me serve a vida de solteiro...
— Não caia nessa asneira!... aconselhou Teresinha, fazendo­se muito séria.
— Mas asneira, por quê?...
— Ora! É uma desilusão! Eu preferia estar ainda hoje solteira e vivendo como dantes em casa de minha madrasta...
— Todavia a senhora não tem razão de queixa...
Teresinha respondeu dando um grande suspiro.
— Não vive então satisfeita?... perguntou ele, pondo na voz uma extrema doçura.
— Ai, ai! Mudemos antes de conversa...
E passou abruptamente a falar sobre uma bela tartaruga amazonas, que o comendador, dias antes, recebera de presente.
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— Era um bicho esquisito, muito grande, fazia aflição olhar para ele! Uma verdadeira raridade!
Portela mostrou desejo de ver o animal, e os dois desceram à chácara.
Levaram algum tempo à borda do tanque, ao lado um do outro, acompanhando os movimentos preguiçosos do anfíbio. Portela declarou que de cara o achava parecido com o João Figueiredo, e esta rancorosa comparação fez rir à senhora.
— Ali sempre era melhor de estar que lá em cima, considerou depois o rapaz.
— É mais fresco, disse Teresinha, dirigindo­se para uma rua de bambus que costeava a casa e ia dar afinal a um agrupamento de árvores no fundo da chácara. Portela acompanhou­a, oferecendo­lhe o braço. Ela aceitou, e puseram­se ambos a passear muito vagarosamente por entre a rumorosa sombra da alameda.
Ouviam­se estalar as folhas secas debaixo de seus pés. Teresinha não dava uma palavra, toda segura ao braço do rapaz caminhava vergada para ele, como se prestasse atenção a uma conversa de muito interesse. A certa altura pararam; e ela parecia fatigada, a julgar pela dificuldade com que respirava. Os dois olhares se encontraram, mas ao mesmo tempo se fugiram, porque cada um compreendeu de relance o que se passava no pensamento do outro.
E tornaram a caminhar, sempre em silêncio, mas desta vez Portela tinha entre as suas uma das mãos de Teresinha. Chegados ao fundo da chácara, sentaram­se juntos debaixo de uma mangueira, sobre um banco que aí havia. A senhora, de olhos baixos, fitava com insistência um ponto no chão, e suspirava de vez em quando, como se um pensamento doloroso a torturasse.
Portela chegou­se mais para ela, passou­lhe meigamente um braço sobre o ombro e perguntou­lhe com muito carinho o que a 228 de 371
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fazia assim tão triste.
— Não era nada!... segredos de sua pobre vida!... Coisas que não poderiam interessar a ninguém...
E Teresinha continuava de olhos imóveis, quase a chorar.
— Não! insistia o rapaz com a voz cada vez mais doce; a senhora sofre qualquer coisa. Não me diz o que é, porque não lhe mereço confiança, mas sofre...
E afagava­lhe os cabelos e o pescoço. Teresinha sentia­lhe o tremor nervoso da mão e percebia­lhe a comoção da voz.
— Não é feliz com o comendador?... perguntou Portela em voz baixa, chegando a boca ao ouvido dela.
— Foi uma asneira este casamento! respondeu Teresa. Eu passo uma vida de viúva. Ele, por bem dizer, não é meu marido. Entretanto, juro­lhe que desejava ser a esposa mais fiel e dedicada deste mundo!...
E começou a chorar aflita.
— É mesmo desgraça de cada um! acrescentou soluçando.
— Não se aflija dessa forma! disse o rapaz, puxando a cabeça de Teresinha para o seu ombro. Tenha uma pouco de resignação!...
— Mas não acha que devo passar uma vida estúpida e aborrecida?! Ando nervosa, sem apetite, tenho vertigens! tenho coisas de que nunca sofri até agora! Além disso, ele, porque já aborreceu os divertimentos, entende que os mais também não se devem divertir! Eu não vou a um baile, não vou a um teatro, não apareço a ninguém... Que diabo! eu tenho apenas vinte seis anos!
Portela dava­lhe toda a razão, e pedia­lhe que não se mortificasse.
— E você ainda pensa em casar... continuou ela, já em outro tom, não caia nessa! É uma asneira! É um engano! Se quiser aceitar o 229 de 371
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meu conselho, fique solteiro toda a vida! Ah! se eu fosse homem!...
E Teresinha suspirou de novo, e sacudiu a cabeça com um gesto cheio de intenções.
— Se fosse homem não se casaria? perguntou ele.
— Eu?! exclamou a rapariga, apertando os olhos, nunca!
— E a velhice depois, o abandono, as moléstias?...
— Ora! eu sei que não chegaria à velhice!... Além de que há muito quem cuide da gente, sem ser preciso casar.
— Mas também a vida assim, sem termos uma companheira constante ao nosso lado...
E, passando o braço na cintura de Teresinha, concluiu:
— Não pode ser grande coisa!
Ela continuou a queixar­se, falou amargamente da sua vida; disse que naquela casa representava o papel de um “dois de paus”; a verdadeira senhora era Olímpia!
— Já tenho medo de dar qualquer ordem aos criados, acrescentou com um gesto desabrido; porque posso ser desmoralizada mais uma vez. Isto é vida!? Como senhora não tenho força moral, como mulher não tenho marido! Não tenho nada!
E as recriminações recrudesciam, acompanhadas de soluços. Portela, todas as vezes que lhe puxava a cabeça para junto dele, sentia­lhe o nariz frio e os lábios trêmulos.
Quando o comendador voltou, daí a uma hora, encontrou­os já dentro de casa; Teresinha a costurar na sala de jantar, e Portela a fazer escrituração mercantil no gabinete.
Desde esse dia, a mulher do comendador principiou a melhorar 230 de 371
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dos nervos; em breve não se queixava mais das tais vertigens, comia com apetite, dormia muito bem e cantarolava durante a costura. Só quatro meses depois que o Portela se hospedara em casa do comendador, conseguiu este arranjá­lo em uma empresa comercial que se acabava de criar. Tal fato veio alterar um pouco a vida do caixeiro e enchê­lo de enormes saudades pelas horas sobressaltadas e felizes que conseguia passar ao lado da amante. O amor de Teresa constituíra­se para ele em hábito, em necessidade, sem todavia perder o encanto dos primeiros tempos, graças às circunstâncias que o dificultavam e que faziam dele um objeto proibido.
No dia em que se lhe cortassem as dificuldades e lhe suprimissem o perfume do mistério, Portela haveria de aborrecer­se e de enfastiar­se da amante, como sucede fatalmente em todos os casos idênticos.
Mas, nem ele, nem ela, se lembraram de fazer semelhante reflexão, pois se a fizessem, não cometeriam a leviandade de praticar o que vamos expor no capítulo seguinte.
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XXI
À BEIRA DO PRECIPÍCIO
O comendador principiava a sarar das suas mortificações; voltava pouco a pouco aos seus antigos hábitos; ia­se finalmente restituindo ao amor pela vida e aos gozos tranquilos que lhe permitiam os anos.
A dura morte das suas duas adoradas filhinhas anuviara­lhe o semblante, azedara­lhe o gênio, mas não lograra quebrar­lhe a linha.
Nas crises do seu mais fundo desgosto jamais desmanchara o penteado ou amarrotara os punhos. Chorou sempre engravatado e limpo; as lágrimas correram­lhe livremente pelo rosto escanhoado, e os suspiros saíram­lhe da boca impregnados de cheiroso dentifrício. Por triste e magoado não esqueceu ele nenhum dos requisitos do cavalheirismo com as pessoas que lhe foram dar pêsames; e, no meio da grande opressão, encontrou galanterias sutis para oferecer às damas que o acompanharam naquele inconsolável transe.
Não perdeu o prumo, o que ele perdeu foi o apego da esposa, porque entre os dois cônjuges se havia intrometido a pujante figura do Portela.
Meter no coração de qualquer família um homem, que não seja parente imediato e por conseguinte solidário natural da sua dignidade e da sua honra, equivale quase sempre a meter um poraquê num tanque de outros peixes. O choque produzido pelo elétrico intruso é o bastante para destruir os companheiros de casa.
Teresinha descobriu no Portela todas as regaladoras qualidades físicas que não encontrou no marido. Até aí fazia ela um juízo bem 232 de 371
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triste do amor; julgava­se desiludida a esse respeito.
— Sempre supunha que fosse outra coisa! confidenciara a uma amiga poucos dias depois do casamento.
O amante, porém, logo lhe invertera radicalmente tão falso ponto­
de­vista, apresentando­lhe o amor pelo brilhante prisma da mocidade, da força e do arrebatamento da paixão. Teresinha ficou surpreendida, ficou maravilhada.
— Quanto havia sido injusta! dizia depois consigo, toda palpitante de felicidade.
E, desde então, tudo se transformou em torno dos seus sentidos: o mundo exterior apresentava­lhe agora encantos inesperados; tudo lhe sorria, tudo a namorava, tudo lhe falava com uma voz afetuosa e doce. Os seus gostos e as suas aptidões intelectuais foram acordando, como ao toque da varinha encantada de uma fada. Achava prazer na leitura, nos divertimentos, no trabalho, na preocupação dos arranjos da casa, e até, o que é mais extraordinário, principiava a experimentar pelo marido certa simpatia respeitosa e compassiva. O comendador, até então, era perfeitamente insuportável a Teresa; ela não o podia ver com a sua calva escondida nos longos fios de cabelos emplásticos, com o seu inalterável ar de diplomata aposentado, e com o seu olhar entorpecido através dos óculos. Antes de raiar a aurora do seu amor com o caixeiro, ela por mais de uma vez tivera ímpetos de esbordoar o marido, quando o via de costas, meio vergado sobre a mesa de trabalho, com o pescoço embainhado no enorme e teso colarinho. O cheiro da água­de­colônia fazia­lhe engulhos, porque esse era o perfume predileto do comendador.
Entretanto, à proporção que Portela lhe despertava os sentidos entorpecidos e lhe acordava nas veias o latente calor do sangue, Teresa ia se conformando com o marido e a ele se prendendo por uma espécie de amizade filial.
Dormiam em quartos separados. Pela manhã, Teresa saltava da cama, fazia a toilette cantarolando, enfiava uma flor no cabelo e 233 de 371
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ia logo cumprimentar o marido, que a essas horas, já pronto e preparado, tornava o seu chá preto no gabinete de trabalho.
Ela o beijava na face, perguntava com pieguices de criança, como o seu “paizinho” havia passado a noite e depois de fazer­lhe uma festinha no queixo escanhoado, afastava­se, muito sacudida e escorreita, para a chácara, onde suas plantas a esperavam.
O comendador notava com satisfação as mudanças que a mulher ultimamente apresentava. Nunca a vira tão meiga, tão satisfeita e tão carinhosa com ele; já não o tratava secamente como dantes, agora, ao contrário, tinha sempre uma palavra afetuosa, um riso agradável para recebê­lo e já não lhe chamava mais “Seu Ferreira”, como antigamente; agora ela só o tratava por “Seu velho”, por “Seu paizinho”, por “Seu nhonhôzinho”.
Mas, uma noite, o comendador, aproximando­se da mulher, ficou muito surpreendido de a encontrar esquiva.
— Não! dizia Teresa, com um gesto entre meigo e repreensivo; não!... Deixe disso!...
Parecia que o comendador lhe propunha alguma coisa ilícita. O fato afigurava­se a Teresa como uma espécie de incesto. Queixou­
se de que estava indisposta, fingiu muito sono, e, como o marido insistisse, levantou­se zangada e deixou escapar uma frase grosseira. O comendador ficou pasmado.
No dia seguinte houve frieza entre o casal; e a graça é que Teresinha era justamente dos dois a que se mostrava mais ressentida. O desventurado marido contou discretamente o fato ao Jacó.
— Hum! hum! resmungou o criado com um profundo ar de desconfiança. E aconselhou ao amo que abrisse os olhos com a mulher.
Por esse tempo deixara o Portela a casa do comendador. Teresa muito sentida com a mudança, não pôde esconder totalmente o 234 de 371
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seu desgosto; mas o rapaz aparecia de vez em quando e havia de passar os domingos em sua companhia.
Ele com efeito cumpriu a promessa; porém as suas visitas, longe de acalmarem a mulher do dono da casa, traziam­na em constante martírio. Não havia meio de ficarem a sós; ora Olímpia, ora o comendador, ora o Jacó, não os deixavam um momento em liberdade. Portela era de uma discrição e de uma prudência desesperadoras; estava sempre receoso de que lhe surpreendessem alguma palavra ou algum gesto comprometedor
À mesa Teresinha tocava­lhe nos pés e nas pernas, e ele se retraía todo, a olhar para os lados. Se ela se demorava um pouco a apertar­lhe a mão, quando Portela chegava ou se despedia, ele lhe opunha um olhar severo e não lhe dava mais palavra.
E Teresa sofria muito com tais contrariedades. Aquele amor era toda a sua preocupação, o seu bem, a coisa boa de sua vida; era aquele amor o que lhe dava a alegria, o apetite, o sono; privarem­
na dele seria privá­la da saúde e por bem dizer da existência. Levassem­lhe tudo, com a breca! posição social, regalias de dinheiro, joias, casa, o que quisessem; contanto que lhe deixassem aquele amor! Sem ele do que lhe poderia servir o resto?!
E, quanto mais lhe obstavam o curso dos desejos, quanto mais lhe cortavam a ela os meios de se aproximar do amante, mais este lhe enchia o coração e lhe tomava o espírito. A corrente ameaçava transformar­se em pororoca; o amor, se insistissem em represá­lo, podia de súbito converter­se em paixão louca e desenfreada.
Um mês depois de sair da casa do comendador, Portela recebeu o seguinte bilhete:
“Meu Luiz. — Arranja, por amor de Deus, uma casa, um lugar, qualquer parte, onde nos possamos encontrar. Não posso mais! Marca uma hora e eu lá estarei sem falta. —Tua T.”
Portela sentiu um grande prazer ao receber estas palavras, mas ao mesmo tempo teve medo.
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— Não fossem vir a saber!... considerava ele. Era o diabo!
Durante toda a noite não pensou noutra coisa. Seu desejo, estimulado pela falta dos carinhos da amante, encarecia­lhe as saudades e fazia avultarem na sua memória os encantos de Teresa. Não podia sossegar: o corpo pedia­lhe aquele amor com uma exigência irracional; desejava amar como o faminto deseja comer.
No dia seguinte, quando foi à casa da mulher do comendador, levava pronta a resposta em um pedacinho de papel, receoso de não ter ocasião de falar com ela.
Arranjara de antemão um cômodo no campo de Santana. O lugar nesse tempo prestava­se maravilhosamente para as empresas desse gênero.
A entrevista seria às onze e meia da manhã. Portela apresentara­se às dez, muito aflito.
Nunca se sentira tão sobressaltado: desde a véspera que o coração lhe pulsava agoniadamente; não pudera comer, nem pudera dormir. Doía­lhe levemente a cabeça e amargava­lhe na boca o gosto do fumo de que ele, naquelas últimas horas, abusara. Não tinham decorrido dez minutos, quando se ouviram duas pancadinhas na porta da saleta.
Portela correu a abrir.
Ainda não era Teresa; era o homem encarregado de limpar a casa.
Luiz Portela atirou­lhe um olhar interrogativo.
— Vinha varrer o quarto, explicou aquele, um pouco perturbado por não conhecer o novo locatário.
— Deixe isso para outra ocasião, aconselhou este.
E, quando o outro ia a sair, acrescentou entregando­lhe uma nota de dois mil reis:
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— Traga­me uma garrafa de cerveja e guarde o resto.
O homem voltou com a garrafa, abriu­a, encheu um copo de cerveja e retirou­se. Portela fechou de novo a porta, depois de ter recomendado que precisava ficar só.
Mas não podia sossegar um instante: ia da alcova à janela, da janela à sala; abria um livro sobre a mesa, não conseguia ler duas linhas; sentava­se, para se levantar logo ao menor rumor que sentia na escada.
E Teresa nada de aparecer. Portela tornava­se cada vez mais inquieto e mais sobressaltado. Estava indisposto; os goles de cerveja caíam­lhe no estômago como pedras.
Os minutos arrastavam­se lentamente. Ele acendia cigarros consecutivos; e passava de vez em quando pelo espelho, olhando a sua figura um pouco desfeita pela irregularidade daquele dia.
Deram as doze. Portela perdeu a paciência.
— Ora! exclamou ele, gesticulando consigo. Isto não se faz! Há duas horas que estou aqui a olhar para as moscas! Mas suspendeu as suas considerações, porque sentiu parar na rua uma carruagem e ouviu, logo em seguida, passos agitados subirem a escada.
O rapaz deu uma carreira para a porta; abriu­a; e disse apressadamente para quem acabava de chegar:
— Aqui! É aqui!
Teresa vinha vestida de preto; um véu cobria­lhe o rosto, e toda ela tremia de comoção. Ao entrar, descobriu logo a cabeça; estava muito pálida e assustada. Portela recebeu­a nos braços e levou­a para o sofá. Ela não podia dar uma palavra.
— Descansa, descansa um pouco, dizia ele, a desafrontá­la do chapéu e da capa.
— Ah! suspirou a mulher do comendador, como quem descarrega 237 de 371
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a consciência de um grande peso e, sem dar uma palavra, pendurou­se ao pescoço do rapaz e ficou a olhar para ele com a voluptuosidade de quem bebe com muita sede. Depois principiou a conversar; disse que estivera arriscada a não poder vir ter ali: todos pareciam acertados em contrariá­la. Narrou pormenores, contou as pequeninas circunstâncias que precederam à sua saída de casa.
Portela ouviu tudo isso com muito interesse, mas o seu sobressalto, longe de diminuir com a chegada de Teresa, avultava cada vez mais.
— Felizmente, acrescentou ela, tenho uma amiga íntima, uma rapariga de muita confiança, que foi minha companheira de colégio e a quem revelei todo o nosso segredo...
— O quê? interrompeu Portela contrariado. Pois meteste mais alguém neste negócio?!...
— Ah! É que tu não conheces a Chiquinha... daquela não temos que recear coisa alguma... Não! lá por esse lado estou segura!
— Sim, sim, volveu o rapaz, cada vez mais preocupado; mas é que as coisas podem mudar de um dia para outro! Quem nos diz a nós que a tua Chiquinha há de ser sempre a mesma discreta?...
Teresa censurou aqueles receios do amante.
— Ó homem, disse ela, você também tem medo de tudo! Safa! nem eu que sou mulher! Ah! se eu fosse homem!...
— Mas bem, disse ele; como afinal conseguiste vir?
— A Chiquinha foi buscar­me a casa para darmos um passeio. Eu estou passando o dia com ela.
— Sim, mas isso é um expediente de que se não deve abusar. No fim de pouco tempo desconfiariam...
— Não tenho medo por esse lado. Além disso, eu não podia deixar 238 de 371
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de estar hoje contigo! Se soubesses como tenho passado!... Ah! é uma coisa horrível! Era impossível resistir por mais tempo! Ando estonteada, louquinha!
E, tomando a cabeça de Luiz Portela, disse­lhe com os lábios encostados aos dele:
— Tu me enfeitiçaste! Tu és a minha perdição!
— E o comendador?... perguntou Portela, sem corresponder àquelas carícias; não desconfia ainda de coisa alguma?...
Teresa respondeu com um gesto muito expressivo. E acrescentou depois, com um ar mais sério:
— Coitado! nem lhe passa semelhante coisa pela ideia!
Portela fez ainda várias perguntas sobre o Jacó, sobre Olímpia, sobre as pessoas que apareciam em casa do comendador. Teresa respondia por comprazer.
Aquele assunto frio e cheio de prudências a irritava:
— Deixa lá isso! respondeu ela. Ainda não me deste um beijo!...
Portela apressou­se a cumprir essa ordem, mas a rapariga notou que o impulso não era natural. O amante parecia fora de si.
— Estás insuportável, exclamou ressentida.
Portela confessou que se achava sobressaltado.
— Não sei o que tenho! disse ele. É a primeira vez que me acho neste estado. Sinto tremores pelo corpo. Olha como tenho as mãos frias!
— Eu também estou assim! respondeu ela, abraçando­se ao rapaz. Mas não podia deixar de vir! Afigurava­se me que morreria se não estivesse hoje contigo... Ah! tu não calculas o que isto é! Que noite! Que dias! Tudo me enjoava, tudo me fazia nervosa! Não podia 239 de 371
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suportar ninguém! Se soubesses como eu ficava, quando te via perto de mim sem te poder falar! Oh! Luiz! um verdadeiro suplício!
E interrompeu­se, reparando que o rapaz, em vez de lhe prestar atenção, parecia preocupado com outra coisa.
— Mas que diabo tens tu hoje?! Estás distraído! Quase que não olhas para mim!
Portela respondeu puxando­a para os joelhos e cobrindo­a de carícias. Naquela ocasião fazia ele essas coisas por condescendência, por honra da firma. E Teresa compreendeu tudo perfeitamente.
— Já não gostas de mim! queixou­se ela, tornando­se igualmente pensativa.
— Que ideia a tua! respondeu o outro, procurando fazer­se apaixonado. Nunca te amei tanto! Nem sei mesmo onde isto irá parar!...
— Mas então por que estás assim tão esquisito?!...
— Sei lá, disse ele, mas não me sinto bem...
Dai a duas horas Teresa entrava de novo no carro e seguia para a casa da tal amiga.
Ia furiosa. Portela naquela entrevista não levara, absolutamente, nenhuma vantagem ao comendador.
— Já me não ama! repisava consigo a leviana no seu desapontamento. Já me não ama!
E as lágrimas saltaram­lhe dos olhos.
Ao contrário do que sucedera com o marido, a frieza incidental de Portela, em vez de a fazer aborrecê­la, puxava­a cada vez mais para ele com todos os liames do desejo e do ciúme.
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Depois daquela entrevista, Teresa de novo piorou de gênio, tornou­
se frenética e nervosa; voltou a tratar o marido por “Seu Ferreira”, e a não poder suportar Olímpia, nem o Jacó. As suas plantas na horta foram abandonadas; afinal já não cantarolava à costura e estava sempre a pedir que a não importunassem.
Portela, como todo homem fútil, ficara igualmente muito preocupado com o malogro da entrevista, e tratou de realizar uma nova, só com a vaidosa intenção de destruir o mau efeito da primeira. Depois seguiram­se outras, e outras; até que o rapaz alugou em Catumbi uma casinha adequada aos seus amores e principiou a receber a amante, regularmente, duas vezes por semana. No fim de dois meses já se riam eles dos seus primeiros sobressaltos.
Teresa tornara­se um pouco descuidada com a vizinhança. Já não tinham entre si a menor cerimônia; tratavam­se já como velhos amigos, à vontade, cônscios de que qualquer um faria falta ao outro, por uma questão de hábito. Já não havia entro eles frases apaixonadas, havia agora as pilhérias da intimidade velhaca e pagodista.
Teresa possuía uma chave do latíbulo, entrava sem sobressaltos, mudava de roupa, porque ela já tinha roupa em casa do Portela, e depois esperava que chegasse o amante.
Um dia apareceu fora da hora em que costumava, e disse resolutamente que não estava disposta a voltar para o lado do marido.
Portela fez um grande ar de surpresa.
— É o que te digo! sustentou ela; não volto!
— Mas filha, pense um pouco antes de fazer semelhante asneira! Tu sabes que nem tudo neste mundo são rosas!...
— Ora! respondeu ela, sacudindo os ombros. Estou farta de ouvir conselhos!
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— Mas é que eu...
— Não podes ter mulher, não é isso?... Ora escuta lá e depois me darás a resposta...
— Então já tens um programa?! perguntou Portela, a sorrir.
— Um programa? Sim, e tenho também coisa ainda melhor! tenho um dote, disse ela; um dote em ações, que me fez meu marido por ocasião de casarmos...
— E daí?... perguntou o rapaz.
— Daí é que deixamos o Rio de Janeiro; metemo­nos em qualquer província ou onde melhor te pareça, e tu te estabeleces com o meu dote, o que será fácil, pois, com o talento que possuis para o comércio...
— Isso é asneira!
— Asneira, por quê?!
— Porque, desde que abandones o comendador, nenhum direito terás ao dote que ele te fez.
— Diz a Chiquinha que não.
— A Chiquinha não entende disto!
— Eu então não tenho direito a coisa alguma?!
— Sei cá; só um advogado o poderia dizer...
— O que me parece é que tu não tens vontade de ficar comigo...
— Não sejas tola! Se não tivesse já o teria declarado há mais tempo.
E, depois de guardarem ambos um silêncio de alguns segundos, Portela disse vagamente:
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— Se o comendador se lembrasse de morrer agora!... Isso é que seria obra!...
Teresa olhou para o rapaz com um ar cheio de interrogações.
— É! justificou ele; se o comendador morresse, as coisas correriam naturalmente... Eu casava­me contigo, estabelecia­me, e iríamos viver juntos, independentes e felizes...
E acrescentou, depois de uma pausa:
— Imagina que amanhã teu marido amanhece indisposto. Vem o médico e declara que a moléstia não é de cuidado. “Achaques da velhice!” Recomenda regularidade na vida, abstinência de uns tantos prazeres e receita qualquer calmante. O comendador principia a tomar o remédio, mas, de dia para dia, se vai sentindo pior. Afinal, uma bela manhã, quando ninguém espera por isso, encontra­se o homem morto... O médico passa o seu atestado; tu te cobres de luto, recebes as visitas de pêsames das amigas, choras naturalmente em presença de algumas delas, e, um ano depois, os nossos amigos leem com prazer a notícia do nosso casamento... Uma vez casados, iríamos morar aí em qualquer arrabalde, escolheríamos um chalezinho próprio para a lua de mel... Eu tratarei de te fazer esquecer a perda de teu comendador, e tu serias minha, minha, sem sobressaltos, nem receios ridículos, pertencendo­me a todas as horas e a todos os momentos!
E Portela, depois de beijar e abraçar a amante, continuou como se falasse em um sonho:
— Parece que já me vejo dentro dessa felicidade, voltando à tarde aos teus braços, cansado do trabalho, comido pela fadiga, mas com o coração satisfeito por encontrar­te em casa alegre, viva, contente com o nosso amor! Parece que pressinto as nossas noites de casados: calmas, doces, descansadas!
Teresa suspirou.
— Devia ser delicioso!... continuou Portela. Uma existência 243 de 371
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completa entre nós dois!... A mesa bem provida; a casa bem iluminada; o amor bem confortado!...
— Cala­te! disse Teresa.
— Além disso, os passeios, os bailes, as noitadas de palestra com os amigos, em volta à mesa de chá. Depois a nossa independência, o nosso bem­estar, a nossa felicidade!...
Teresa ficou pensativa.
— Não achas que tudo isso seria muito melhor?... perguntou­lhe o rapaz, beijando­lhe os braços carnudos.
— Se acho!...
— Pois olha que está tudo em tuas mãos! segredou ele.
— Hein?! Como?! Estás gracejando!
— Não! Para tudo isso era bastante que o comendador morresse.
Teresa estremeceu e abaixou os olhos, receosa de compreender o pensamento do amante.
— Vês este frasquinho? perguntou Portela, tirando um frasco de uma gaveta. Tem cinquenta gotas. Dando­se uma delas por dia ao comendador, no fim de um mês ele morreria, sem que ninguém soubesse qual o motivo...
— Veneno!
— Sim, mas muito lento!... É um veneno quase inocente...
— Não tenho ânimo de fazer isso! balbuciou Teresa, perturbada em extremo.
— Nem eu te aconselho que o faças; apenas disse que, se nos tivéssemos de desembaraçar dele, devíamos preferir este expediente a outro qualquer...
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— Ele me ama tanto!...
— Pois então, filha, deixa­te ficar como estás. Ora essa!
— Mas eu não o posso suportar!
— Não o suportes!
— Mas não posso mais viver sem o teu amor!
— Então não sei o que te faça!
— Antes, fugíssemos! Ficaríamos, bem sei, em uma posição muito mais falsa, mas teríamos ao menos a consciência tranquila..
— Pois isso é que não estou disposto a fazer! Lá fugir, ser talvez perseguido, vir a sofrer qualquer afronta, ter, quem sabe? de comparecer a tribunais, não é comigo! Gosto muito de ti, não há dúvida! tu és a única mulher pela qual seria eu capaz de fazer uma infâmia; mas arranjar as coisas de modo que, afinal de contas, viesse a ficar privado tanto de ti como da minha liberdade, isso é o que não faço! porque, vamos e venhamos! continuando o comendador a existir, que diabo de felicidade pode ser a nossa?!... vivermos por aí odiados, escondidos, sem poder gozar coisa alguma?! Ora seria isso um inferno para qualquer um de nós! Ao passo que, não existindo o comendador, fico eu herdeiro de todos os seus direitos. Tu nesse caso, não serás minha amante, serás minha esposa; eu te poderei levar para toda a parte, apresentar­te dignamente em todas as rodas, e, o que é melhor, viver sossegado, sem ter de evitar conversas a teu respeito, sem ter de quem recear e de quem fugir!...
— Mas é abominável matar uma criatura! considerou Teresa, ofegante.
— Ora, filha! abominável é um velho daqueles lembrar­se de casar contigo! Que diabo! quem não quer ser lobo não lhe veste a pele! Pois aquele homem não devia logo compreender que tu não te poderias contentar com ele?... Para que então casou?! Se algum 245 de 371
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de vocês dois tem razão, és tu, minha tola, porque tu foste a lesada, foste a vítima! Casando­te, levaste um capital de mocidade, de frescura e de amor; tinhas direito a exigir de teu noivo uma parte correspondente! Se o matares, não farás com isso mais do que cortar a grilheta com que te amarraram os pés! Eras inexperiente, não tinhas sequer ideia do que fosse a vida, a felicidade conjugal; teu corpo de virgem nada exigia, porque nada conhecia. Entretanto; um homem, decrépito e inútil, ambicionou amarrar o teu destino ao dele; pediu­te à tua família; ele era rico: deram­te ou, melhor, venderam­te. Mas tu, um belo dia, acordaste, mulher; tiveste então as tuas aspirações, os teus desejos; o amor reclamou os seus direitos! Bem; o que te competia decidir em semelhante caso?! Das duas uma: ou abraçares o papel de vitima e resignar­te a aturar o trambolho a que te prenderam; ou então reagires, entregando­te francamente ao homem que escolhesses. Tu escolheste um; fui eu! Agora está dado o passo; voltar atrás seria loucura, e para prosseguir, só há um meio: é dar cabo do comendador!
— Mas isso é um crime horrível! respondeu Teresa, segurando a cabeça com ambas as mãos.
— Crime horrível, torno­te a dizer, foi o teu casamento com aquele velho! Isso é que é um crime horrível, porque é a morte sem a morte, é a morte sem a insensibilidade e sem o esquecimento!
— Em todo o caso, considerou a rapariga, desafrontando o peito com um enorme suspiro; se ele se casou comigo, é porque me amava e porque supunha fazer­me feliz!...
— Criança! exclamou o outro com um gesto de compaixão. Porque te amava! Grande fúria, na verdade! Compreendo que houvesse nesse amor alguma porção de generosidade e abnegação, se fosses uma mulher feia e difícil de suportar; mas tu, moça, encantadora e cheia de atrativos; tu que tens esses olhos, esses dentes e essas carnes, não podes, nem deves receber como um obséquio o amor que porventura te consagrem. Não! porque esse amor nada mais é que urna manifestação do egoísmo! O comendador casou­se contigo, não para te prestar um serviço, 246 de 371
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mas sim para prestar um serviço a ele próprio. Amou­te por amor dele e não por amor de ti! Não há por conseguinte no ato de teu marido a menor ideia de sacrifício e de abnegação. Mas, dada a hipótese que ele não se limitasse a dar­te unicamente o nome de esposa e te desse também todos os regalos que se possam imaginar na vida, ainda assim não haveria nas suas ações a menor intenção altruísta, porque, se ele fizesse tudo isso, era simplesmente porque sentiria muito prazer em te agradar e estaria, por conseguinte, tratando de deliciar o seu próprio gosto!
— Acredito!... volveu Teresa meio convencida; mas é que...
— Em todo caso, filha, uma coisa única tenho a dizer­te e é que, no pé em que estamos, eu, só me casando contigo, tomarei conta de ti; de outro modo, não! Não quero, porque sei que iria criar futuras dificuldades. Vai para casa, pensa bem no que me ouviste, e depois então decidiremos!...
— É que já não me amas! disse Teresa, limpando os olhos.
— Ó senhores! não te amo! Mas eu estou justamente disposto a casar contigo, e dizes que não te amo?! Ora deixa­te de tolices!
Teresa retirou­se para casa muito abatida e contrariada. O amante colocara a questão em pé deveras espinhoso para ela; mas enfim, era preciso tomar uma deliberação. No dia seguinte estaria tudo decidido.
Os desgraçados, porém, não sabiam que Jacó havia seguido a mulher do patrão nesta última entrevista e, oculto, ouvira tudo o que os dois disseram.
Vejamos agora como chegou ele a fazer semelhante coisa, e quais foram as tempestuosas consequências do seu ato.
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XXII
TEMPESTADE SOLTA
Jacó desde o momento em que desconfiara que Teresa enganava o marido, nunca mais a perdeu de vista. Os passeios ao campo de Santana e depois à nova casa de Portela em Catumbi não lhe passaram despercebidos; uma ocasião acompanhou de perto a mulher do amo e ficou inteirado do lugar onde ela ia. Saber ao certo do objeto dessas visitas clandestinas era toda a sua preocupação; de sorte que, na última, em que vimos Portela falar tão cinicamente a respeito da vantagem de matar o comendador, o fiel Jacó se havia precisamente introduzido, pela primeira vez, em casa do sedutor, e escutara o conluio entre os dois amantes.
Jacó, chegando a casa, sem mais rodeios contou tudo ao patrão.
— Hein?! E impossível! exclamou o comendador.
— Pois se lhe estou a dizer, meu rico amo!... Vossemecê estaria de passagem tomada para o outro mundo, se a fortuna não me pusesse a par dos projetos daquele malvado. Ele quer dar cabo de vossemecê, para ao depois tomar conta da Sra. D. Teresinha...
O comendador passeou agitado no quarto por alguns segundos, e tornou logo a interrogar o criado. Jacó explicou­lhe tudo.
— Bem! disse o pai de Olímpia. Obrigado. Eu tratarei de defender a minha vida!
Teresa nesse dia apareceu ao marido muito mais expansiva e risonha. Todavia, um espírito observador teria notado que a sua alegria era fingida e que toda aquela expansão encobria algum projeto traiçoeiro.
O comendador, às horas do chá, queixou­se de que estava indisposto e recolheu­se ao quarto; Teresa não lhe abandonou a 248 de 371
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cabeceira da cama, senão quando o doente declarou que precisava ficar só.
No dia seguinte, na ocasião em que a esposa lhe foi dar os costumados bons dias, ele a encarou de modo estranho e disse­
lhe, com uma resolução que Teresa lhe conhecia:
— Veja ali o papel e a pena!
— Quer escrever?... perguntou a manhosa, fingindo grande solicitude. Não vá isso lhe fazer mal!...
— Não sou eu quem tem de escrever; é a senhora! Vamos! faça o que lhe digo!
A porta do quarto estava previamente fechada. Teresa foi buscar o que o marido lhe ordenara.
— Bem, disse o velho, estendendo­se no leito; agora escreva o que lhe vou ditar.
— Para quê?! perguntou Teresa, empalidecendo.
— Mais tarde o saberá... Alguém duvida que a senhora seja uma esposa virtuosa e eu desejo provar o contrário. É um capricho da velhice ou talvez uma fantasia da enfermidade.
— Estou às suas ordens, balbuciou a mulher com a voz trêmula.
— Nesse caso faça o favor de escrever: “Meu caro Luiz”. Teresa sentiu um calafrio percorrer­lhe o corpo; quis opor qualquer razão à ordem do marido, mas não encontrou uma palavra.
— Escreveu? perguntou ele.
— Está escrito, respondeu ela; mas confesso­lhe que não compreendo o que tudo isto quer dizer...
— Nem é necessário, afirmou o comendador tranquilamente E continuou a ditar: “Estou por tudo o que desejas...”
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Teresa hesitou.
— Então?!... reclamou o marido. A senhora escreve ou não escreve?!
— Mas o senhor exige de mim um sacrifício superior às minhas forças; eu não sei a quem isto será dirigido!...
— A senhora sabe perfeitamente... Continue!
— Não! disse ela; não posso continuar! O senhor com certeza delira sob a influência da febre!
— É possível... disse o velho sorrindo ironicamente. Pode ser que tudo isto não passe de um delírio... em todo caso, a senhora há de escrever o que lhe estou ditando ou me obrigará a tomar resolução mais séria!
— Mas para que exige o senhor que eu escreva semelhante coisa?!
— Já disse que mais tarde o saberá! Por enquanto basta que me obedeça! E o comendador, possuído de inesperada energia, levantou­se de um salto da cama e, segurando a mulher por um dos pulsos, exclamou arremessando­a contra a mesa:
— Escreva, ou eu a mato aqui mesmo!
— Socorro! gritou Teresa.
— Pode gritar à vontade, bramiu ele. A única pessoa que está em casa é o Jacó, e esse não se importará com os seus gritos!
— Nesse caso é melhor que o senhor me dê logo cabo da existência, em vez de obrigar­me a sofrer desta forma!
— Nessa não caio eu! exclamou o marido. Hei de amar­rá­los, um ao outro, e tanto me bastará para minha vingança! No dia em que 250 de 371
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qualquer responsabilidade os unir, estarei mais que vingado, porque vocês dois, miseráveis, hão de odiar­se em breve! e cada um se encarregará então de punir o companheiro de crime!
— Não o compreendo! disse a mulher, afetando grande surpresa.
— Não seja hipócrita! gritou o velho procurando reaver o seu sangue frio. Já sei de tudo. Ele espera uma resposta sua para remeter o veneno com que a senhora me tinha de assassinar!
— Valha­me Deus! exclamou Teresa. Isso é uma terrível calúnia!
— Pois se é calúnia, escreva; que nesse caso a sua carta lhe servirá de defesa...
— Mas como hei de eu escrever uma coisa que não sinto?!
— Não me interrogue, porque não estou disposto a dar­lhe explicações. A senhora, ou escreve o que lhe vou ditar, ou não sairá viva deste quarto!
— O senhor não pode dispor assim de minha vida!
— E poderia a senhora, por acaso, dispor de minha honra como dispôs?
— Eu não o desonrei!
— Veremos agora. Escreva!
— Pois escrevo! O senhor ficará convencido de que sou inocente.
O comendador ditou então:
— “Estou por tudo o que me propuseste. Manda o frasquinho e...”
— Não faço semelhante coisa, exclamou Teresa, arremessando a pena e levantando­se com ímpeto.
— Pois farei eu... disse o comendador, tomando o lugar que a 251 de 371
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mulher acabava de deixar. E gritou para fora: — O Jacó!
O criado bateu à porta.
— Abre e entra, respondeu o amo.
Ouviu­se ranger a fechadura, e em seguida surgiu no aposento o respeitável vulto do velho flâmulo.
— Tens de arranjar um portador para este bilhete, ordenou­lhe o comendador. Já sabes do que se trata. Recomenda que esperem pela resposta e entrega­ma logo que chegar.
E voltando­se para a mulher, acrescentou:
— A senhora não sairá daqui enquanto não vier a decisão!
Teresa atirou­se aos pés do marido, a soluçar.
— Perdoa exclamou ela, abraçando­lhe os joelhos; perdoa! Eu não sei o que digo! eu não sei o que faço! Juro­te entretanto que não sou tão culpada como pareço! Desejava ser honesta; desejava ser o modelo das esposas; todo meu sonho era cumprir à risca os meus deveres! mas a natureza me arrebatava para os crimes de que me acusas; tudo me impelia para o mal, tudo me puxava para o adultério! Ah! tu não sabes decerto o que é ter a minha idade, o meu temperamento, o meu sangue! Tu não sabes o quê é a mulher! o que é a natureza! o que são estes nervos, esta carne, e tudo isto que grita dentro de nós, como bocas com fome! Já agora falo­te com toda a franqueza. Eu nunca tive a ideia de faltar­te ao respeito; estimava­te, como se fosses meu pai; desejava o teu bem­
estar, a tua felicidade, a tua alegria, como se deseja a ventura do melhor amigo mas eu precisava de amor, não do amor frio e adormecido que me proporcionavas, mas de um amor ardente, fecundo, apaixonado, de alguém que tivesse a minha idade. Sei que fiz mal em sucumbir aos reclamos desta miserável matéria; mas que queres tu?! não fui eu quem me fez e quem decretou as leis que haviam de reger os meus sentidos! Sucumbi, mas não sou a responsável pela minha queda! Se quiseres, mata­me; faze o que 252 de 371
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entenderes de mim; eu te não amaldiçoarei; mas, por amor de Deus! poupa aquele moço, que de nenhuma culpa tem do que sucedeu. Fui eu quem o arrastou, quem o seduziu! Ele não seria capaz de cometer essa infâmia, porque é homem e não está como nós outras, míseras mulheres, seguro pelas carnes e pelos cabelos às unhas do pecado!
— Tu o adoras, desgraçada! exclamou o comendador, ferido no coração.
— Sim! respondeu Teresa, pondo­se de pé e olhando friamente para o marido. Eu o adoro! Se me tivessem casado com um moço, é natural que me não lembrasse de ter um amante; mas tu és um velho, tu és um destroço; a ti poderia dedicar minha alma, mas meu corpo, esse teria de pertencer fatalmente a alguém que o escravizasse, a alguém que lhe pudesse domar os ímpetos!
E Teresa, ao terminar estas palavras, caiu arquejante sobre uma cadeira, a resfolegar aliviada, como se acabasse de despejar um grande peso da consciência.
O marido, imóvel ao lado dela, não lhe tirava de cima o seu frio olhar de cólera ciumenta.
— Já nada existe de comum entre nós... disse afinal a desgraçada, passando a mão pelo rosto. Foi até melhor que nos entendêssemos por uma vez! Eu, confesso, não podia suportar o senhor por mais tempo... Pesava­me enganá­lo; não sirvo para a traição e para o embuste: sou capaz de uma loucura, mas repugna­me praticar uma covardia...
— Por que então se casou comigo!?... perguntou o comendador com a voz trêmula. Para que consentiu, se me não podia suportar, que ligassem o meu triste destino ao seu? Se me não amava, ou se não sentia a coragem de conservar­se fiel aos votos do matrimônio, por que o não declarou com franqueza antes de arriscar meu nome e minha honra? Para que me iludiu?! Oh! a senhora é perversa! Um pouco de bondade a teria levado a proceder de outro modo; se o marido, se o homem, não lhe 253 de 371
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merecia amor e dedicação, o pobre velho devia ao menos inspirar­lhe dó ou piedade! Que lhe custava esperar um pouco que eu fechasse os olhos?... Não tenho tanto a viver... e a senhora depois poderia fartar à vontade todos os seus instintos desordenados. Mas não! preferiu amargurar­me o resto da vida, preferiu cobrir­me a velhice de vergonha e desgostos; não consentiu que eu pudesse retirar­me para a sepultura sem ir amortalhado nos farrapos da minha pobre dignidade, que a senhora estraçalhou nos seus momentos desenfreados de luxúria!
— Oh! exclamou Teresa, cobrindo o rosto com as mãos. É demais!
— Tarde, bem tarde lhe assiste o pudor, minha senhora! continuou o velho, fazendo um gesto de desprezo. Não acredito que minhas palavras, por muito duras e grosseiras, possam encontrar eco em coração tão corrompido!
— Mas para que me há de o senhor insultar desta maneira? perguntou Teresa, erguendo­se de novo. Se me casei com o senhor, se consenti em ligar­me ao seu destino, não foi, repito, porque o quisesse enganar; foi porque não conhecia absolutamente os segredos do meu destino de mulher. Podia eu, porventura, prever o que me esperava? sabia eu por acaso o que é amar ou aborrecer um homem?... Uma criatura nas circunstâncias em que me casei nada entende dessas coisas. Aceita o primeiro marido que atiram sobre ela, como aceitaria qualquer outro! Por que o iludi? perguntou o senhor; e eu, porventura, não fui também iludida?...
— Iludida?! interrogou o comendador, escancarando os olhos.
— Decerto! respondeu a adúltera. O senhor, durante o tempo em que me procurou agradar, não denunciou nenhum dos seus defeitos, nenhum dos seus achaques, nenhum dos seus lados antipáticos; fez, ao contrário, todo o possível para os encobrir com artifício e grande habilidade. Escondeu­me as suas misérias de velho, disfarçou a sua decrepitude e afetou entusiasmo pelas coisas do espírito; volveu­se moço, terno, apaixonado, estudou frases sedutoras, recitou versos, falou de prazeres ideais, fingiu 254 de 371
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abnegação, heroísmo, coragem, enfeitou­se enfim de poesia; e, entretanto, uma vez apoderado de mim, uma vez que me julgou segura para todo o resto de sua vida, atirou com os disfarces pela janela e pôs à minha disposição um resto de homem, egoísta, fraco, cheio de asma, rabugento e inútil!
— Senhora!
— É essa a verdade! Iludir! iludir! Iludida fui eu, porque eu era justamente a mais ingênua, a mais cândida e passiva, a mais fácil de enganar! Acredito que o senhor fosse igualmente iludido, mas foi por si próprio, porque se acreditou capaz de inspirar amor a uma mulher da idade que eu tinha então!
— Não foi isso o que me cegou, disse o comendador. Todo o meu erro foi supô­la virtuosa.
— Ora, meu caro senhor, a virtude é sempre uma coisa muito relativa; é sempre uma consequência e nunca um princípio. Toda mulher é virtuosa, desde que ela tenha a quem dedicar essa virtude; é uma questão de gratidão, de reciprocidade e às vezes de interesse próprio. Mas por onde fez o senhor para merecer minha virtude?... Por que era meu marido? Mas que espécie de marido era o senhor?! Admito que me lançasse em rosto aceitar o amor de um estranho, se eu tivesse à minha disposição o amor que o senhor me dedicasse. Mas onde está ele? por onde mo revelou? Trazendo­me para esta casa e dando­me o que comer?! Isso não basta!
— Belas teorias! não há dúvida!... disse o comendador, sacudindo a cabeça.
— São pelo menos verdadeiras! respondeu Teresa, já cansada de falar.
E, depois de tomar fôlego, acrescentou:
— E ainda vem o senhor dizer, no seu fraseado cheio de afetação, que eu devia ao menos ter dó ou piedade do pobre velho, já que 255 de 371
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o homem, o marido, não me havia merecido amor! Mas valha­me Deus! Eu não me casei para ter dó de quem quer que fosse!... Eu não me propus ser uma irmã de caridade; eu apenas me propus dar amor em troca de amor; ceder o meu valimento de mulher em troca da competência de um homem! “Devia ao menos ter dó do pobre velho!” E o velho teve porventura dó de mim?! Não sabia ele que, o ligar­se a uma rapariga forte, perfeita, em plena saúde e em pleno vigor do sangue, equivalia a encarcerá­la num convento, entregue aos sobressaltos da sua mocidade e ao jugo inquisitorial dos seus desejos?! Se entre nós houver um mau, sem piedade e sem dó, foi o senhor, porque, jungida como me achei ao seu destino triste e desconsolado, tinha eu fatalmente, ou de me conformar com o círculo de ferro que o senhor traçou em volta dos meus sentidos, ou tinha de romper com ele e cair no desprezo da sociedade, sem nunca mais poder arrancar de mim o terrível estigma do adultério!
— E é isto naturalmente o que me está reservado... acrescentou ela, depois de uma pausa, enquanto o comendador meditava; com a diferença de que o senhor continuará a frequentar as suas relações, jogará o seu voltarete, ouvirá o seu bocado de música em casa dos amigos, terá a sua chávena de chá, como dantes, e continuará a ser respeitado, ouvido e galanteado pela sociedade; ao passo que eu, desde que transponha aquela porta, terei de renunciar a tudo isso e de conformar­me com a obscuridade e com o abandono do meu novo estado. Qualquer um se julgará, desde então, com o direito de me lançar em rosto a falta pela qual aliás não sou responsável, e todos me apontarão às filhas e às esposas como um monstro venenoso e traiçoeiro que é preciso evitar com o maior desvelo! Para o senhor: toda a indulgência, toda a compaixão, todas as simpatias de vítima; para mim: todo o desprezo, todo o ódio, toda a indignação e toda a repugnância! Oh! Esta teoria sim, esta teoria é que o senhor acha sem dúvida razoável!...
— E então o seu amante?! Esqueceu­se de que deve contar com ele?! Pois esse grande amor, que os impeliu um para o outro até ao crime, não é quanto basta para encher a vida de ambos?!...
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E o comendador sorriu sarcasticamente.
— O senhor faz­me perder a paciência! respondeu Teresa com tédio. A que vem agora semelhante pergunta?! Está bem claro que o amor é indispensável para a vida da mulher e que sem ele não encontramos encanto em coisa alguma; mas a nossa vida compõe­se de duas partes: a privada e a exterior; nascem ambas à porta de nossa casa, uma, porém, se estende para dentro e a outra para fora. A primeira, com efeito, baseia a sua felicidade essencialmente no amor, mas a segunda precisa de outros alicerces; sem as considerações sociais, sem a estima de umas tantas pessoas, sem o concurso de umas tantas coisas, não poderá esta última existir e nem terá razão de ser. Não se confundem as duas, é verdade, mas auxiliam­se mutuamente. Uma é o complemento da outra. Se a vida exterior nos fatiga, a privada nos retempera; e vice­versa. De sorte que, por maior felicidade íntima de que possamos gozar, esta nunca produzirá o seu verdadeiro efeito, se não a pudermos constatar de vez em quando com as regalias do meio exterior; da mesma forma se converterá este em puro martírio e aborrecimento se, ao sair dele, não encontrarmos em casa o consolo tépido de um amor legítimo e duradouro.
E Teresa, recuperando inteiramente o sangue frio, acrescentou ainda, como se conversasse com um estranho:
— Vê o senhor, por conseguinte, pelos meus raciocínios e por esta calma, que, antes de sucumbir, calculei bem o alcance da minha queda. Sabia eu de antemão tudo o que ia perder e tudo o que tinha de afrontar; e, tão grande reconheci meu sacrifício, que desdenhei compadecer­me de mais ninguém que não fosse eu própria. Incontestavelmente, meu caro, quem mais perde e quem mais sofre em tudo isto, não é decerto, o senhor... o senhor continuará a ser: “O Sr. comendador Ferreira” e eu irei ser: “Uma mulher de reputação suspeita...
— Queixe­se de si própria, disse o comendador.
— Não! não é de mim que me tenho de queixar; é do senhor, que nunca devia ter sido meu marido; é de meus pais, que consentiram 257 de 371
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neste casamento imoral e disparatado; é da sociedade, que não sabe fazer justiça a ninguém; e é, finalmente, das leis que não nos facultam o direito de desfazer­nos licitamente de um marido, quando este nos sai errado e se torna incompatível conosco!
O comendador ia replicar, mas foram ambos interrompidos pelo velho Jacó, que voltava com o resultado da sua delicada missão contra o Portela.
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XXIII
PORTELA EM APUROS
Portela saía do escritório para almoçar, quando lhe entregaram a carta, principiada por Teresa e terminada pelo comendador. Sorriu ao recebê­la; já contava com aquilo. Teresa, estava segura, havia de sacrificar tudo por amor dele.
E, na sua presunção de homem sagaz, sentia­se lisonjeado pelo bom êxito daqueles planos. Foi com um riso vitorioso que ele abriu a carta e leu o seguinte:
“Meu caro Luiz.
Estou por tudo o que desejas. Manda o frasquinho pelo portador e escreve­me como hei de ao certo ministrar as doses a meu marido. Hoje mesmo podemos principiar a obra. Tua Teresa.”
— Venha comigo, disse Luiz ao portador da carta, logo que terminou a leitura e, sem mais pensar no almoço, tomou a direção da casinha em que morava.
Ia muito agitado com as palavras da amante.
— Agora sim! considerava ele pelo caminho; tudo se vai transformar em torno da minha vontade! O comendador daqui a dois meses já não existirá... Algum tempo depois estarei amarrado à viúva e entrando na fortuna do defunto!
E o velhaco, sacudido por estas ideias, sonhava­se já em todas as regalias do dinheiro. Via­se rico, cercado de adulações, no meio da opulência de um bom palacete; imaginava a cor da libré dos seus lacaios, o feitio do seu cupê, a estampa dos seus cavalos. Sentia­se já estendido nos custosos divãs de damasco, a olhar para os quadros e para os ricos espelhos do seu salão. Via­se em viagem 259 de 371
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para a Europa; imaginava­se em Paris, a passear nos bulevares o seu vigoroso tipo meridional.
E Portela, sem parar na rua, sentia despejar­se­lhe no coração uma abundante cornucópia de deslumbramentos e de prazeres de todos os gêneros, cujos vapores lhe subiam à cabeça como uma vaga sufocadora, tomando­lhe a respiração e produzindo­lhe um princípio de vertigem. Carruagens, dançarinas, bailes, espetáculos, cavalos, baixelas de prata, diamantes, crachás, banquetes, brindes, todo o bric­à­brac da sua ambição e da sua fantasia, lhe dançava confusamente dentro do cérebro. Em torno do seu delírio passavam as sombras dos transeuntes. Tudo lhe parecia pequeno, miserável, ao lado dos seus futuros esplendores. Olhava com desdém para os vultos que se cruzavam pela rua, e a sua fisionomia armava já insensivelmente o ar superior dos ricos fartos e aborrecidos.
Ao entrar em casa, acompanhado pelo portador da carta, atirou­
se a uma cadeira.
— Espera um pouco, disse ao outro, procurando acalmar­se; e foi a alcova, encheu um cálice de conhaque e bebeu. Depois assentou­se à secretaria e escreveu o seguinte:
“Teresinha. Aí vai o frasco. Uma gota por dia é o bastante. No caso que chamem o médico, procura evitar que ele veja e analise qualquer líquido já preparado por ti.
Ânimo! Lembra­te da felicidade que nos espera. Teu Luiz.”
— Pronto! exclamou, fechando a carta. E passou­a juntamente com o frasco, ao sujeito que estava à espera, entregando­se ele de novo aos seus sonhos de ambição, logo que o portador saiu.
Apesar da grande sobre­excitação em que se achava, uma ideia 260 de 371
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fria atravessou­lhe o espírito. Era a leviana facilidade com que entregara àquele homem desconhecido o veneno e a resposta à carta de Teresa.
— Ora! não haverá novidade! disse, levantando­se disposto a ir almoçar.
Mal porém tinha chegado à porta, quando foi surpreendido pelo barulho de passos apressados no corredor.
— Oh! exclamou Portela, vendo Teresa entrar esbaforida e atirar­se sobre a primeira cadeira. Tu aqui?! Que significa isto?!
Ela não podia responder logo; vinha ofegante. O caixeiro empalideceu.
— Tudo perdido! disse afinal a desgraçada entre dois arquejos.
— Hein?! Como?! perguntou o miserável, sem poder ordenar suas ideias Perdido?!. Explica­te!
— Meu marido sabe de tudo!
— E a tua carta então?
— Foi escrita por ele...
— E a minha resposta?!
— Não sei...
— Jesus! exclamou Portela, segurando a cabeça com ambas as mãos.
— Eu disparatei com ele! acrescentou Teresa, respirando com dificuldade. O Jacó, escondido aqui, ouvira toda a nossa conversa àquela tarde em que combinávamos dar cabo da peste! Meu marido quis obrigar­me a escrever­te uma carta e eu não consenti...
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— Mas por que não me preveniste, criatura?!
— Não pude. Ele prendeu­me no quarto. Só agora consegui sair, arrombando uma porta. Não volto mais ali, nem à ponta de espada!
— Ora esta!... exclamou o rapaz, atirando­se no sofá e escondendo a cabeça nas palmas das mãos.
Ouvia­se Teresa resfolegar de tão cansada que estava.
— E agora?!... disse afinal Portela, descobrindo o rosto.
— Agora é que estou resolvida a sujeitar­me a tudo... Fico contigo! respondeu a mulher do comendador.
— É impossível, filha! sentenciou o perverso, erguendo­se e pondo­
se a passear em todo o comprimento da sala.
— Hein?! interrogou ela, fazendo­se lívida.
— Eu te preveni! Só casado podia tomar conta de ti!...
Teresa ergueu­se; deu dois passos para a frente.
— Tu és um canalha! gritou com a voz arrastada, e deixou­se cair sem sentidos.
Portela correu a suspendê­la do chão. A infeliz havia batido com a cabeça contra um móvel, fazendo uma pequena brecha no crânio, donde corria sangue.
— Com todos os diabos! praguejou o caixeiro, sentindo­se entalar cada vez mais pela situação. E eu que nunca me vi nestes apuros!... Ó seu Antônio!! seu Antônio! principiou ele a gritar.
Antônio era um sujeito da vizinhança, que se encarregava de fazer­lhe a limpeza da casa. Ninguém respondeu.
— Isto não é para pôr um homem doido?! exclamou Portela, no 262 de 371
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auge da perplexidade.
Rebentaram então duas palmas na porta.
— Quem é?! perguntou ele.
— Da parte da justiça bradou de fora uma voz.
Portela estremeceu.
— Abra!
— Já vai! respondeu o caixeiro, arrastando Teresa para a alcova.
O sangue, que escorria da cabeça desta, desenhava no chão arabescos vermelhos.
— Abra! insistiu a voz, fazendo­se desta vez acompanhar por duas fortes pancadas na porta. Portela abriu finalmente, e deu de cara com um homem magro e alto, vestido de negro até ao pescoço.
— O senhor é Luiz Portela? perguntou o recém­chegado.
— Como?...
O homem fez um gesto de impaciência e repetiu a pergunta.
— Que deseja dele? indagou o caixeiro, sem conseguir disfarçar a sua perturbação.
— Venho intimá­lo a comparecer em presença do chefe de polícia.
— Para quê?...
— Saberá depois.
— Eu agora não posso ir! Estou muito ocupado...
O oficial de justiça afastou­se um pouco da porta, fez um sinal para fora, e apareceu então o comendador, acompanhado de duas 263 de 371
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praças.
É este o homem? perguntou aquele ao comendador.
— Justamente, disse o velho, que havia entrado na sala e olhava atentamente para as manchas de sangue no soalho.
— Guardem esse homem à vista! ordenou o oficial aos dois soldados, franqueando­lhes a entrada. Um destes foi defender as janelas, e o outro se conservou de vigia à porta da sala.
— Naquele quarto está alguém, que acaba talvez de ser ferido neste instante! disse o comendador, apontando para a alcova. Este sangue ainda não coagulou. E dizendo isto investiu para o quarto onde Portela escondera a amante.
— O senhor não pode entrar aqui! opôs o dono da casa, atravessando­se na porta da alcova.
— Ali dentro está talvez o corpo do delito de algum novo crime!
— Vejamos! disse o homem da justiça. Creio que não será preciso empregar a força, acrescentou ele, desviando Portela.
— Pois entrem, respondeu este; mas peço­lhes que me deixem ao menos explicar a razão por que esta senhora se acha aqui neste estado.
— Descanse que terá ocasião oportuna de explicar tudo. A mim não compete sindicar de semelhante coisa.
E dizendo isto, o oficial de justiça principiou a tomar notas.
O comendador havia parado perto da cama em que estava Teresa, e olhava para a desfalecida com um frio olhar de ódio.
— Conhece esta senhora? perguntou­lhe aquele.
— É minha mulher, respondeu secamente o comendador.
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— Ah!... disse o outro, mostrando certa solicitude. Que tem ela?... — Perdeu os sentidos e quebrou a cabeça, explicou Portela. E preciso socorrê­la. Os senhores não me deram tempo para isso...
— Bem, disse o marido, isso lá com o senhor; eu nada mais tenho que ver com essa mulher.
— Sr. comendador, suplicou­lhe Portela em voz baixa; peço­lhe que não proceda contra mim, antes de ouvir­me...
— Eu nada tenho a lhe ouvir, senhor! Sei, pelos documentos em meu poder, que alguém tentou dar­me cabo da vida; não faço mais do que a defender e entregar os criminosos à justiça.
— Mas eu não quero fugir à punição da lei, explicou o rapaz, com um aspecto infeliz; desejo apenas que o senhor não me fique julgando um monstro; desejo apenas explicar­lhe as circunstâncias que me colocaram na atual situação...
— E que se adiantava com isso?...
— Adiantava­se muita coisa, para mim e para o Sr. comendador. Ao menos ficaria bem patente que eu lhe não tenho ódio e que lamento em extremo lhe haver causado tamanho desgosto...
— Mas afinal o que quer o senhor de mim?!
— Quero que me ouça a sós por alguns instantes. Tenha a bondade de afastar esses homens.
O comendador ordenou aos soldados que se retirassem para o corredor. Portela cerrou a porta do quarto em que estava Teresa, e chegando­se para junto do velho, disse­lhe com voz alterada e trêmulo:
— Minha vida está em suas mãos! O senhor vai decidir da minha sorte!
E acrescentou, tirando um revólver da gaveta da secretária:
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— Estou resolvido a matar­me aqui mesmo, em sua presença, se o senhor não me conceder o seu perdão...
O comendador sacudiu os ombros, com a mais profunda indiferença.
— Do que me pode servir a vida, continuou Portela, tendo eu de representar no mundo o papel de um criminoso, de um homem mau e corrompido? Entretanto, juro­lhe comendador, que o que acaba de suceder não foi consequência da perversidade, nem da baixeza de sentimentos. Sei que procedi como um infame, mas sei igualmente que não podia proceder de outro modo. Na situação em que me colocou a fatalidade desta desgraça, eu não tinha outro caminho a seguir! Fui talvez mau e desumano; juro­lhe porém que não o fui por cálculo e premeditação. Para cumprir o meu destino, precisei abafar todas as vozes que me arguiam de dentro, precisei de amargar todas as lágrimas envenenadas pela consciência do crime. Quantas vezes não amaldiçoei este amor insensato, que me fazia esquecer tudo o que eu devia à sua generosidade e à sua filantropia? Oh! sofri! sofri muito! Para sua completa vingança bastava que o senhor pudesse avaliar a dor, o remorso, a vergonha, a humilhação, que me pungiam constantemente, ao lembrar­me de quanto era eu ingrato e desconhecido! Uma terrível mão de ferro empolgara­me o coração e espremia de dentro dele todo o fel das minhas negras dores. Tudo me atormentava, tudo me perseguia! Dormindo ou acordado, tinha sempre defronte dos olhos o fantasma do meu cruel segredo. Nem uma hora de repouso! nem uma hora de felicidade! Não podia encarar para o senhor, sem sofrer todos os tormentos do inferno; a sua figura, austera e veneranda, produzia­
me o efeito de punhaladas no coração; o seu calmo ar de bondade, brandura do seu gênio, a franqueza do seu caráter, eram para mim um suplício constante! Pensei na morte; quis por uma vez destruir esta vida inútil e miserável, e só Deus sabe quanto me custou não poder consumar esse desejo!...
— Faltava­lhe coragem para suicidar­se, disse o comendador; mas não lhe faltava para matar­me...
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— Juro­lhe que me custaria muito mais destruir a sua vida do que a minha própria!
— Nega então que tentou contra os meus dias?...
— Não, não nego. Afianço­lhe, porém, que o fazia, não por mim, mas pelos seus próprios interesses e pelo interesse de sua mulher.
— Explique­se!
— Eu não podia fugir da fascinação que Teresa exercia sobre mim, mas igualmente não queria aviltá­la, fazendo dela minha amante; como não queria que o senhor em qualquer tempo corasse defronte da adúltera. Matando­o, ela passaria a ser minha esposa legítima, e a memória do primeiro marido ficaria intacta e respeitada...
— De sorte que ainda lhe tenho de agradecer essa delicadeza?... observou o outro, com um ligeiro sorriso de ironia amarga.
— Não zombe, Sr. comendador. Juro­lhe que é sincero o que acabo de dizer; eu queria evitar a sua desonra! Entretanto, está tudo perdido; está tudo acabado! Resta­me apenas propor­lhe uma última coisa...
— Uma proposta?!...
— E verdade. Estou convencido de que o senhor não me perdoará. Pois bem! Tomarei outro expediente: mato­me no mesmo instante, e o comendador, depois de minha morte, releva minhas culpas e recolhe de novo Teresa à sua proteção. Aceita?!
E, dizendo isto, Portela engatilhou o revólver e aproximou­o da boca.
— Nunca! respondeu o comendador. Para Teresa não há perdão possível!
— Nem com a minha morte? interrogou o rapaz, desviando a arma.
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— O senhor não morrerá! exclamou o velho. Prefiro que viva e tenha de trazer aquela miserável às costas. É essa a minha vingança! Mais tarde, ou o senhor a desprezará ou ela lhe dará de beber as mesmas amarguras que me entornou ao coração! Em qualquer dos casos, eu me julgarei satisfeito. O amante será enganado muito mais facilmente do que foi o marido...
— Mas, disse Portela, se era esse o seu propósito, para que então me denunciou à polícia?... para que me perseguiu desta forma?...
— Descanse que não o quero punir judicialmente; quero obrigá­lo a tomar conta da sua cúmplice. Foi para isso que vim prevenido!
— Não era necessário tanto! respondeu Portela, com um gesto de orgulho. Eu sei cumprir com os meus deveres...
— Mas eu tenho pouco confiança em tais promessas, e prefiro assegurar melhor o negócio...
— Que diz o senhor?
— Digo­lhe que exijo uma obrigação por escrito, um termo de responsabilidade em que se comprometa o senhor a tomar conta de Teresa e manter­lhe os meios de vida enquanto ela existir. Eu tinha preparado tudo isso para mais tarde, o senhor porém precipitou os acontecimentos. É o mesmo! O que tinha de ser feito por intimação da autoridade policial, far­se­á por minha simples intimação. Leia!
E o comendador tirou da algibeira um papel selado que passou ao rapaz.
— Mas para que toda essa formalidade?... perguntou Portela, depois de ler.
— Caprichos de marido enganado respondeu o comendador. Assine!
— Eu não assino semelhante coisa!
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— Bem! nesse caso o entregarei à justiça. Escolha!
— Prefiro isso! Este papel, assinado por mim, seria uma terrível arma com que o senhor poderia perseguir­me em qualquer tempo!
— Bom, meu caro senhor, visto isso, deixemos seguirem as coisas o caminho que eu lhes havia traçado, e repito então o que disse no princípio da conversa: “Nada tenho a ouvir do senhor”. Entenda­se com as autoridades competentes!
— Espere! atalhou Portela, quando o viu disposto a sair. Pense um instante! Que interesse tem o senhor em perseguir­me deste modo?!... Para que exige a minha assinatura em um documento humilhante e vergonhoso para mim?!... Sei perfeitamente que o comendador não está seguindo os impulsos do seu coração... Não queira fazer­se mau! Não queira fingir o que não é! Lembre­se de que sou pobre e preciso conservar limpa a minha reputação para poder ganhar a vida...
— Oh! disse o comendador. E a sua bela resolução de suicidar­se?!
O outro abaixou a cabeça. E o comendador acrescentou:
— Quanto à sua reputação... se o senhor não se importou com ela, quanto mais eu!
— Mas do que lhe pode servir esse documento assinado por mim? — Isso é cá comigo! respondeu o marido de Teresa, e, fazendo nova menção de sair, acrescentou resolutamente:
— Então, assina ou não assina?!
— Assino, malvado, mas juro­te que te hás de arrepender desta violência!
— Pode ser! disse o comendador, perfeitamente calmo.
Portela assinou o documento.
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— Aí o tem! exclamou, empurrando o papel com arremesso.
— Bem! respondeu o comendador, dobrando o escrito e guardando­o na algibeira. Está o senhor livre! Deixo­o em plena liberdade!
E saiu, depois de despedir os soldados.
Portela deixou­se cair em uma cadeira.
— Não há de ser como supões, meu pedaço de asno! monologou ele. Tu não sabes com quem te meteste!
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XXIV
TIA AGUEDA
Quando Teresa voltou a si, inutilmente chamou repetidas vezes pelo amante; afinal levantou­se, apoiando­se aos móveis, e foi até à sala próxima. Não havia viva alma em casa.
— Com efeito! disse ela.
Portela antes de sair, pensara­lhe a pequena ferida da cabeça com esparadrapo.
— Que teria sucedido na ausência da sua razão? considerava a infeliz, consultando a memória; recordava­se vagamente de ter escutado, na sonolência do desmaio, o som de passos repetidos no corredor e a voz do marido com as de outras pessoas que pareciam altercar. Mas tudo isso podia ser causado simplesmente pelo delírio...
De repente uma ideia lhe atravessou o espírito. Calculou que Portela, denunciado pelo comendador, estivesse àquela hora detido na polícia.
— Com certeza não é outra coisa! pensou ela aflita a contemplar as suas roupas sujas de sangue. E como havia de sair daquela situação?... No estado em que se achava, não tinha ânimo de aparecer na rua... Portela não poderia vir naturalmente em seu auxílio... Ah! se chegasse ao menos o tal Antônio que fazia a limpeza da casa!...
E Teresa arrastava­se de um para outro lado, cada vez mais ansiada e oprimida. O sangue que derramara, produzia­lhe certa fraqueza, e os olhos enfumaçavam­se­lhe como por efeito de uma formidável enxaqueca.
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— Além de tudo, sinto vertigens! disse ela, deitando­se na cama.
E, daí a pouco, dormia de novo.
Vejamos, entretanto, o que por esse tempo fazia Portela.
Logo que se retirou o comendador, o astucioso caixeiro, depois de curar a cabeça da amante, meteu o revólver na algibeira e ganhou a rua com direção à casa do seu compadre Leão Vermelho, que então, como se deve lembrar o leitor, morava no Campo de Santana, em companhia daquela nossa conhecida Henriqueta, de cuja extinta casa de pensão, já outrora fizera parte o amante de Teresa.
Leão Vermelho sofria por essa época a implacável perseguição de que falamos, e partia no dia seguinte para Buenos Aires.
— Compadre, exclamou Portela, assim que se achou defronte dele; venho disposto a seguir com você!
O comissário fez um gesto de espanto e pediu ao outro que se explicasse.
— Vai sempre amanhã? perguntou o padrinho de Clorinda.
— Definitivamente.
— Pois vamos juntos. Não me convém ficar mais tempo no Rio de Janeiro. Tenho poucos recursos; irei como seu empregado, serve­
lhe?
— Mas que resolução foi essa? interrogou Leão Vermelho.
— Questões de amor! explicou Portela, fazendo­se contrariado. Não posso ficar aqui... Já deixei o emprego. Já liquidei todos os meus negócios. Só desejo saber se posso ou não contar com você...
— Pois não; eu até estimo. Nunca lhe propus semelhante coisa, porque sempre me pareceu que ela lhe seria pouco vantajosa; 272 de 371
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mas uma vez que você o quer...
— Posso então preparar­me?
— Decerto.
— Pois até amanhã.
E Portela saiu da casa do compadre para se ir despedir do emprego, que lhe havia arranjado o comendador; recolheu as suas economias, pagou uma ou outra pequena dívida, e seguiu afinal para Catumbi.
Encontrou Teresa dormindo.
— O quê?! disse ele entrando assustado no quarto. Pois esta mulher ainda não voltou a si?!...
Ela acordou logo, fez um grande espanto quando o viu e desfez­se em perguntas; queria saber tudo o que havia sucedido, os perigos a que o amante se expusera.
— Tu deves estar caindo de fome! observou ele. É quase noite. Eu vou arranjar­te o que comer. Espera.
— Não, conta­me primeiro o que há, o que se passou aqui. Estou louca por saber de tudo!
— Resume­se tudo em duas palavras, disse Portela: Teu marido procedeu contra mim, tenho a justiça sobre a cabeça e fujo amanhã mesmo do Rio de Janeiro...
— Eu vou contigo! exclamou ela, abraçando­o.
— Impossível! respondeu o rapaz. Para fazer semelhante viagem, precisei arranjar­me como secretário de um sujeito que sai, amanhã ou talvez depois, para a Europa; ele consente em levar­
me com a condição de que eu vá só...
— E eu?! perguntou a mulher do comendador, empalidecendo.
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— Tu voltas para a companhia de teu marido. Ele está resolvido a perdoar­te tudo e a receber­te de novo.
— Isso é que é impossível, nem tampouco me convém!
— Mas, filha, olha que é o único recurso que há!
— Pois então mato­me!
— Deixa­te de tolices!
— Duvidas?!
— Não duvido, mas reprovo.
E ficaram calados por algum tempo.
— Eu vou buscar­te a ceia, disse afinal Portela, erguendo­se da cama, onde se tinha assentado.
— Não quero nada! respondeu ela de mau humor.
— Deixa­te disso comigo! pediu o outro, ameigando­a por condescendência.
— Solta­me! resmungou ela, empurrando­o. Deixa­me! Deixa­me!
E pôs­se a chorar.
— Agora temos choro! disse o rapaz, coçando a cabeça.
Teresa soluçava a chamar­se desgraçada, a maldizer­se, a pedir que a matassem.
— Tu me fazes perder a paciência! exclamou Portela, zangando­se afinal. Estou a dizer­te os apuros em que me vejo; e tu a te fazeres desentendida! Ora sebo!
E depois de passear pelo quarto, com as mãos nas algibeiras, parou defronte da amante e disse­lhe em voz áspera:
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— Pois, filha, se não queres ir para a casa de teu marido, vai para o inferno! Eu não posso tomar conta de ti! Aí tens!
— Tu és um vilão! respondeu ela, quase sem alento.
— É melhor não puxarmos pela língua! replicou Portela, porque te sairias muito mal!
— Quem sabe se tenho medo de ti?!
— Pior!
— Se te parece dá­me agora bordoada! Também é só o que falta!
— Ó mulher! cala­te com todos os diabos!
— Foi bem feito! Quem me mandou acreditar em um canalha de semelhante espécie!?
— Não! Isso agora tenha a paciência... Foi a senhora quem me provocou... Eu estava perfeitamente sossegado!
— Hein?! Como?! Você não me provocou?! É a quanto pode chegar o cinismo!...
E, ambos, de fato convencidos que o sedutor era o outro e não ele próprio, discutiram, a palavrões, ainda por algum tempo. Teresa afinal declarou que não saía daquela casa e que o Portela não faria a tal viagem, ou ela o havia de acompanhar!
— Esta casa está paga somente até amanhã. Tu hás de ir hoje mesmo para a companhia do comendador!
— Eu não hei de apresentar­me lá neste estado! Você não vê que estou toda suja de sangue?!
Ficou resolvido que Teresa iria primeiramente para a casa da madrasta, que morava nesse tempo no Catete, e daí então escreveria ao marido. Com muita repugnância aceitava ela esse alvitre, porque entre as duas senhoras houvera antes do 275 de 371
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casamento constantes desavenças, e depois deste poucas vezes se visitaram.
A madrasta de Teresa era mulher de mau gênio, muito inculta; não sabia estar em sociedade e dizia asneiras na conversa. O comendador a recebeu sempre com uma indiferença repulsiva; às vezes dava festas e nunca se lembrava de convidá­la. Quando havia visitas então, era uma desgraça! Conhecia­se na cara do homem toda a sua má vontade para com a sogra.
Nessas condições, Teresa tinha sérios receios de pedir socorros à madrasta. Parecia­lhe já estar a ver a terrível matrona a olhá­la por sobre os óculos, indignada, com as mãos nas cadeiras, a boca muito aberta e um grande espanto na fisionomia.
— Definitivamente não serei bem recebida!... observou Teresa ao entrar no carro, que Portela fora buscar. Assentaram­se ao lado um do outro. Ele a acompanharia até à porta.
À proporção que caminhavam, Teresa parecia cada vez mais sobressaltada. Que não diria a velha?! Que não suporia?! E daí, se a madrasta entendesse de não a receber?! Sim! porque aquela víbora era capaz de tudo! Não gostava de incomodar­se por ninguém e, quando a coisa então lhe cheirava, a responsabilidade, não havia meio de obter dela o menor serviço!
— Há de arranjar­se tudo! disse Portela impaciente. O suor caía­lhe em bagas pela testa.
Mas Teresa, ao passar em certa travessa do Catete, teve uma ideia: recolher­se de preferência à casa da preta que a criara, tia Agueda. Era uma boa mulher, fora escrava de seu pai e sempre a conservara na mesma estima respeitosa. Essa também ficaria espantada com a sua visita, mas ao menos havia de prestar­se a socorrê­la com muito boa vontade.
O diabo era que a pobre mulher morava em uma espécie de cortiço, onde vendia angu. Teresa talvez não encontrasse lá um lugar decente para esconder­se.
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— Tudo se arranjará! repetiu Portela.
E, com efeito, ficou tudo arranjado. Teresa recolheu­se ao domicilio da boa preta, e Portela voltou a casa para tratar das malas.
Tia Agueda, ao lobrigar a sua querida filha de criação, que ela há tanto tempo não via, duvidou dos próprios olhos e ficou perplexa, a fitá­la com grande enlevo; afinal abriu os braços e exclamou sinceramente comovida:
— Gentes! Olha Neném!...
Teresa quis pedir­lhe que não fizesse espalhafato; quis falar, mas não pôde; ao ouvir o doce tratamento familiar que lhe davam em pequenina, as lágrimas saltaram­lhe logo dos olhos e os soluços tomaram­lhe a garganta.
Ah! nesse bom tempo seu pai ainda era vivo e seu coração ainda era feliz! Que de transformações se não tinham produzido entre esse passado de inocência e aquele presente de dissabores?... Que de mudanças não sofrera sua alma! que de novas informações não padecera seu corpo! Quantas decepções em tão pouco tempo!... Quantos desgostos em tão pequena existência!... Dantes não conhecia Teresa as frias responsabilidades da vida, não suportava as duras necessidades do sangue, não compreendia outro amor que não fosse o da família e o dos folguedos da infância. Mas tudo se transformara em torno e dentro dela; as suas mais gratas afeições, as suas mais simpáticas ilusões se foram pouco a pouco dissolvendo como as nuvens transparecendo em dias de estio.
Foi tudo isso o que a presença da pobre negra disse de relance ao coração oprimido de Teresa. As saudades do passado e as apreensões do presente chocaram­se no espírito da infeliz, produzindo­lhe uma grande crise nervosa, que parecia preparada durante o dia e só à espera daquele sinal para rebentar.
Não havia meio de suster­lhe as lágrimas e os soluços; embalde tia Agueda procurava tranquilizá­la Teresa não podia dar uma 277 de 371
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palavra.
— Mas, Neném, que é isto?! que lhe sucedeu?!...
E a negra, vendo que Teresa não respondia, carregou­a para o quarto, fê­la deitar­se na cama e ajoelhou­se aos seus pés, beijando­lhe as mãos e afagando­lhe os cabelos.
— Sossega, Neném! sossega! dizia ela com a mesma ternura dos outros tempos em que a acalentava no berço.
Só meia hora depois Teresa sossegou um pouco. Suas primeiras palavras foram para pedir o que comer.
Tia Agueda improvisou logo uma ceia.
Descobria­se nela, na sua presteza, nos seus movimentos, a boa vontade com que fazia tudo aquilo. Em breve, de um quarto próximo ao em que estava a mulher do comendador, vinha um cheiro picante de peixe que se frigia e chilrava ao fogo. A segurança do lugar, a boa hospitalidade e a expectativa da ceia principiaram a reanimar totalmente as forças de Teresa. Quando a negra acendeu mais um candeeiro, cobriu a mesa com uma branca toalha de algodão e trouxe o primeiro prato, já não havia sinal de lágrimas.
— Você está se incomodando muito, tia Agueda! balbuciou a senhora.
— Hê, Neném! Não diga tolice! repreendeu a preta, a saracotear pela sala.
E declarou que só o que sentia era não ter uma casa melhor para receber a sua querida filha de leite.
— Está tudo muito bom, emendou Teresa, procurando já tentar um sorriso.
Agueda era uma preta muito asseada. As paredes da sua pobre casa estavam limpas, o chão cuidadosamente varrido e os raros 278 de 371
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trastes escovados. Havia uma cômoda, já velha, com puxadores de vidro verde, sobre a qual se estendia uma clássica toalha de rendas e se perfilavam várias imagens de santos. Pelas paredes viam­se litografias de assuntos religiosos emolduradas em madeira. A um canto destacava­se um pequeno oratório, forrado de papel de cor e guarnecido de galões amarelos; duas velas o iluminavam e faziam sobressair de dentro a figura mal talhada de um Santo Antônio, vivamente colorido e cercado de alecrim seco e de flores viçosas.
Uma mesa forrada de lençóis e um tabuleiro cheio de camisas engomadas, denunciavam o trabalho desse dia; e, ao lado, um grande cesto, pejado de roupa lavada, prometia o serviço do dia seguinte. Tia Agueda vestia saia e camisa. Viam­se­lhe as grandes espáduas gordas, o pescoço forte, enfeitado de corais e contas redondas de ouro. Os braços saíam nus das rendas do cabeção em toda a sua negra exuberância; os quadris jogavam rijamente quando ela apressava o passo nos arranjos da ceia.
Teresa parecia já consolada e gozava intimamente da novidade daquela situação. O estômago reclamava alimento e o corpo pedia repouso. Foi com prazer que ela se deixou conduzir para a mesa pela carinhosa mulher. Os pratos escaldados, as facas de ferro reluzente, os copos nitidamente areados, faziam apetite. Uma travessa de peixe frito enchia o ar com o seu aroma apimentado e quente.
Tia Agueda foi ao armário buscar mais o que havia, e convidou Teresa a principiar.
— Sente­se então aqui, ao pé de mim, reclamou a amante do Portela.
— Já vai Neném; deixa primeiro ver uma garrafa de vinho aqui dentro...
Ela há muito tempo que possuía e guardava com cuidado essa garrafa. Dera­lhe o seu ex­senhor por ocasião de uma festa.
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— Ainda é lá de casa, declarou a preta, mostrando a Teresa a preciosa garrafa. Presente de sinhô velho!...
— E mal sabia você, tia Agueda, que o seu presente ainda havia de servir para mim...
— Então?! É para uma ocasião destas que se guardam as coisas!
Aberta a garrafa de vinho, Agueda encheu o copo da querida hóspede, e foi assentar­se ao lado dela.
— Ah, tia Agueda! disse Teresa, comendo com muita vontade; se você soubesse o que me tem sucedido ultimamente!...
— Está bom, come primeiro, que depois se conversa...
Mas a rapariga, quando acabou de saciar a sua fome, declarou que se sentia incomodada; tinha o corpo mole e aborrecido, a comida caíra­lhe na fraqueza.
— Descansa, Neném, aconselhou a negra.
Teresa deitou­se; pediu à amiga que a despisse e descalçasse, e recomendou­lhe depois que fosse à casa do comendador e se entendesse com a criada Rosa para lhe trazer roupa limpa.
— Seu Ferreira não precisa saber que você foi lá buscar roupa... ouviu?... disse ela bocejando, com os olhos fechados.
— Não durma sem tomar café! objetou tia Agueda, apresentando­
lhe a xícara. Teresa tomou o café, quase dormindo.
— Bem, vá, recomendou ela; não se demore, ouviu?
E, voltando­se na cama, adormeceu.
No dia seguinte, quando acordou, o sol entrava já pela janela e projetava no chão grandes manchas luminosas. Teresa dormira um sono completo e acordara bem disposta. Agueda preparou­lhe o banho, e, como desjejum, café com leite e pão com manteiga.
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— Veio a roupa? perguntou aquela.
— Está tudo aí, Neném; mas há o diabo em casa de seu Ferreira ...
— Conta! conta o que há!
— Ele caiu doente esta noite...
— Doente? de quê?
— Ataque. Jacó é quem sabe da história; diz que estava despindo seu Ferreira, quando o homem cambaleou, cambaleou, e caiu como morto.
— Uma congestão! exclamou Teresa em sobressalto. E depois, como ficou ele?!
— O Dr. Roberto está lá...
— Dá­me a capa, tia Agueda; vou já para casa!
E Teresa, agradecia interiormente ao marido aquela moléstia, que vinha de qualquer forma desviar as atenções assestadas sobre ela.
Mas também, ter de apresentar­se assim em casa, sem mais nem menos, era o diabo: considerava a leviana, enquanto ajustava o chapéu e endireitava a roupa. Olímpia sem dúvida estaria lá! Que não ficariam julgando de tudo aquilo?!...
— Ora! concluiu ela, completamente resolvida; é preciso tomar uma deliberação! Luiz afiançou­me que Ferreira está pronto a receber­me; vou! Não tenho outro recurso; além disso, já estou arrependida!... Agora é ter coragem!
E depois de abraçar a ama e lhe agradecer os obséquios recebidos, meteu­se no carro, que se fora buscar, e mandou tocar para casa.
À proporção porém que se aproximava, contraía­se lhe o coração e a sua coragem ia minguando. Teresa tinha já defronte dos olhos 281 de 371
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a fisionomia repreensiva de Olímpia, o riso sarcástico de Jacó e a recriminadora figura do comendador; mas contava com o auxílio da Rosa, a criada que lhe remetera a roupa, que lhe protegera sempre os amores com Portela e que, naquela ocasião, já estaria seguramente à sua espera no portão traseiro da chácara.
Rosa era muito discreta e muito fina; falcatruas arranjadas por ela produziam sempre bom resultado. Teresa dava­lhe roupas, vestidos pouco usados, sapatos ainda novos, leques à moda; mandara ornar­lhe a cama com um cortinado e cedera­lhe até um dos tapetes de seu quarto. Sabia que a criada usava dos seus perfumes, dos seus sabonetes e dos seus cosméticos, mas fechava os olhos a tudo isso e ainda intercedia por ela sempre que o comendador a acusava.
O carro afinal parou defronte do portão, e Teresa apeou­se, ligeiramente trêmula.
Seriam oito horas da manhã e o dia estava magnífico.
Ficou por um instante à porta, sem querer entrar.
A chácara apresentava­lhe uma fisionomia repreensiva e severa; a casa, as árvores, o repuxo do tanque, tudo tinha então para ela um duro aspecto de censura e de queixa.
A luz penetrante do sol, derramando­se por toda parte, parecia ralhar, arguir, fazer reprovações. Toda a natureza a intimidava com a sua mudez austera e com a sua inalterável tranquilidade
Teresa sentia­se envergonhada, corrida; não tinha ânimo de levantar a cabeça. Os empregados públicos desciam para os seus empregos, devagar, no passo metódico dos homens que regulam a vida pelo ordenado, a caminharem na imperturbabilidade de funcionários pagos por mês. Passavam os bondes, cheios, pesados; singravam os caixeiros de cobrança, os pretos de carga, os vendedores de jornal, as carroças de pão, os estudantes, os meninos de colégio e as costureiras. E todo esse mundo da atividade e do trabalho esfervilhava ao sol, como um exemplo 282 de 371
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humilhante.
Teresa fechou os olhos para não ver esse doloroso espetáculo. A vida real entrava­lhe na imaginação como um jato de água fria. Ainda na véspera, ela se persuadira que ia por uma vez desprezar tudo aquilo; que nunca mais veria tal vizinho passar a horas certas para a sua repartição; que não ouviria tal piano de casa próxima tocar certa e determinada música; que não suportaria mais a voz da preta que de manhã passava impreterivelmente na rua a apregoar frutas; julgara que nunca mais daria com os olhos no vizinho da frente, um taverneiro barrigudo, de perninhas curtas e barbas debaixo do queixo; persuadira­se enfim que se havia por uma vez libertado de todas aquelas misérias positivas, que a constrangiam, que a matavam de vergonha e de tédio.
As próprias casas da vizinhança, a má pintura das tabuletas, o desenho de um boi impassível na parede de um açougue que ficava defronte, as desgraçadas alegorias da taverna da esquina, o farmacêutico pequenino, magro, amarelo, que vinha todas as tardes assentar­se debaixo de um flamboyant fronteiro à farmácia; tudo isso a enjoava, tudo isso lhe produzia efeitos insuportáveis.
A malograda fuga com o Portela havia sorrido ao espírito de Teresa mais pelo lado do imprevisto, do desconhecido, do aventuroso, do que mesmo pelo amor que ela lhe pudesse ter. Desejara aquela fuga como um doente deseja mudar de um lugar para obter novos ares; outro qualquer moço, igualmente vigoroso e bem disposto, é natural que produzisse nela iguais efeitos. A sua imaginação precisava de atividade dramática, como seu corpo precisava de atividade sexual.
Mas, as decepções da véspera faziam­na por um instante esquecer tudo isso, para só pensar na possibilidade de restituir­se de novo ao lar doméstico.
— Ah! se Deus me tivesse deixado uma de minhas filhas... dizia ela consigo, a subir muito apressada a pequena escada de pedra que conduzia da chácara para o jardim; não estaria eu agora com certeza a sofrer deste modo: haveria de sentir­me escudada por 283 de 371
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ela e pelo meu amor de mãe...
Rosa veio ao seu encontro e, sem lhe dar uma palavra, sem fazer um gesto de espanto, abriu com pressa a porta da cozinha que dava para o jardim, e fê­la passar, empurrando­a familiarmente pelas costas.
— Entre aí para o meu quarto, ordenou a criada. Eu já lhe venho dizer quando deve subir. Espere um pouco!
E Rosa, apanhando as saias, ganhou a primeira escada e desapareceu.
Teresa ficou só, à espera, com o chapéu na cabeça, a capa nas costas, imóvel, como se estivesse muito empenhada em observar os objetos que tinha defronte dos olhos. E, sem querer, começou a calcular o efeito da sua aparição ao lado do marido; via­se toda confusa a fazer­lhe festinhas, a consolá­lo do que havia sucedido, a adulá­lo. E, ainda sem querer, começou a considerar como devia entrar, se depressa ou vagarosamente; se devia deixar embaixo o chapéu e apresentar­se inalterável, como se não houvesse a menor novidade; ou se deveria entrar com espalhafato, fingindo indignação por qualquer coisa; se devia não dar palavra ao marido e esperar que tudo voltasse por si mesmo aos seus eixos, ou se devia lançar­se­lhe aos pés e pedir­lhe perdão com palavras ardentes, com soluços e gestos teatrais.
Mas antes de chegar a qualquer conclusão, já a criada voltava a dizer­lhe apressadamente da porta:
— Agora! Agora! Passe agora. Ande! Não há ninguém na varanda! Suba e vá para o seu quarto!
Teresa cumpriu aquela ordem, como se a recebesse de um superior.
— Ligeiro! gritou­lhe Rosa, assim que ela atravessou a cozinha e ganhou a escada. E logo que a viu desaparecer, espocou uma risada surda e soltou entre dentes uma exclamação injuriosa.
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Depois, muito satisfeita com aquele episódio que humilhava a senhora, entrou no seu quarto, donde acabava de sair Teresa, e principiou por desfastio a arrumar os objetos sobre os móveis e a cantar em voz alta, com desembaraço, uma chula sua favorita.
Quando saiu do quarto, disse “Ai, ai!” e subiu a escada lentamente, com maneiras de dona de casa.
Teresa não apareceu à mesa, almoçou nos seus aposentos, esperando que Olímpia deixasse a cabeceira do pai, para então apresentar­se ela.
Mal, porém, havia feito a refeição, soaram duas pancadinhas à porta. A leviana retraiu­se.
— Sou eu, abra, disse de fora uma voz amiga.
Era Olímpia.
Teresa corou; a outra, porém, passando­lhe um braço na cintura, beijou­a na face.
A madrasta estranhou muito aquela inesperada amabilidade. A enteada fora sempre muito seca para com ela; e a sua surpresa cresceu, quando a filha do marido começou a declarar que estava muito aflita, receando que mãezinha não voltasse, e que desejava ser a primeira a dar ao pai a boa notícia da sua chegada.
— Não! disse Teresa; ele deve estar muito zangado comigo... o melhor é esperarmos que...
— Qual! eu obtenho de papai o que bem quero... Hei de falar­lhe por tal modo a seu respeito, mãezinha, que ele nem só a receberá de braços abertos, como ainda me ficará reconhecido.
— Não; é melhor esperar. Talvez que a minha presença agora lhe faça mal...
— Nesse caso vou consultar primeiro o Dr. Roberto! lembrou a outra 285 de 371
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com um repente de menina esperta.
— Está doida! Meter nisto um estranho?!...
Mas Olímpia afiançava que havia de arranjar tudo. E, com crescente surpresa da outra mostrava­se cada vez mais interessada pela madrasta. Não parecia a mesma; aquela falta ridícula e censurável de Teresa, longe de lhe produzir indignações, como era de esperar, despertava nela estranhas simpatias e inexplicáveis condolências.
Entretanto, Olímpia fazia tudo isso sem compreender bem por quê. Teresa ganhava a seus olhos certa auréola de poesia e sofrimento; a sua penosa situação dava­lhe, aos olhos da romântica menina, uns tons sedutores de heroína de romance; sem prever a pobre criança que, toda essa desordem moral e toda essa desorganização doméstica, haviam fatalmente de influir na sua própria educação e determinar, mais tarde, os lamentáveis sucessos de que já o leitor tem notícia desde as primeiras cenas da Avenida Estrela.
Nenhuma lição é tão poderosa como a do exemplo. Filtra­se ela pelo nosso espírito sem que o sintamos; e ela nos invade, nos conquista, nos possui totalmente, sem que possamos determinar ao certo qual foi o fato, o acontecimento que em nós estabeleceu este ou aquele sintoma, esta ou aquela inclinação, sem que possamos dizer o que foi que nos trouxe tal vício, tal idiossincrasia, tal propensão boa ou má. Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam na alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.
Teresa, sem que ela fosse responsável por isso, não por maldade, mas unicamente em consequência das circunstâncias especiais do seu temperamento, da sua má educação e da desproporção de sua idade com a do marido, havia fatalmente de ser um elemento de corrupção ao lado de Olímpia.
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A filha do comendador beijou ainda uma vez a madrasta, e saiu, com destino ao quarto do pai. Ia sondar em que disposição de espírito se achava ele para receber a mulher.
O pobre homem permanecia estendido na cama. Tinha os olhos cerrados, mas não dormia, porque os abriu logo que a filha pisou na alcova com o seu andar sutil de ave impúbere.
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XXV
O MARIDO DE OLÍMPIA
O comendador levantou­se da moléstia pelos braços da filha e da esposa. Olímpia havia triunfado: o pobre doente consentira em receber de novo a leviana. Mas, ah! nunca mais lhe dispensou a mesma ternura dos outros tempos; tratava­a agora com cerimoniosa indiferença, quase com desprezo; apenas a suportava por condescendência à filha que, desde logo, se convertera na sua única preocupação e no seu único afeto. Não gostava até que lhe falassem da mulher, poucas vezes a via e, quando se encontravam juntos à mesa, não trocavam entre si sequer um olhar.
Ela, entretanto, muito se transformara depois da partida do cúmplice. Já não ostentava os mesmos gostos e as mesmas inclinações; parecia indiferente às festas e aos passeios; não caprichava na escolha das roupas e saía poucas vezes de casa. Vivia triste, concentrada; estava muito mais magra, porém aparentemente resignada. Ninguém lhe ouvia uma queixa contra o marido; agora ao contrário, parecia procurar descobrir­lhe as intenções, as mais pequeninas vontades, para correr a satisfazê­las; adivinhava­lhe os desejos, armava­lhe boas surpresas e mostrava­
se para com ele de uma solicitude e de uma amabilidade de que nunca dera exemplo em outras épocas.
Mas o comendador afetava não atentar para isso; recebia os obséquios que vinham da mulher com a mesma indiferença com que ouvira falar de qualquer assunto que absolutamente lhe não dissesse respeito. Não a contrariava, não desdizia, não a aconselhava, se ela quisesse sair, que saísse; se quisesse ficar em casa, que ficasse; se quisesse morrer, que morresse! Para ele era tudo a mesma coisa; contanto que lhe deixassem a sua querida, a sua adorada Olímpia.
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Para esta, sim, tinha o comendador bons sorrisos, palavras afetuosas e rasgos de amizade. Sempre que entrava em casa perguntava logo por ela e nunca saía sem receber um beijo dos seus lábios finos e perfumados.
Assim se passaram seis meses.
Um dia Olímpia comunicou­lhe que a madrasta estava doente.
— Sim? resmungou o pai. E continuou a falar do assunto de que tratava.
— Oh! disse a menina. Há dois dias!... Pois papai não vê que ela não tem vindo à mesa?...
— Não reparei, afirmou o velho secamente.
— E por que não lhe vai fazer uma visita?... perguntou Olímpia, ameigando­o. Ela havia de estimar tanto, coitada!...
— Sim, sim, eu hei de lá ir, prometeu ele para contentar a filha.
Mas três dias se passaram depois da promessa, sem que o comendador aparecesse no quarto da mulher.
— Antes me castigasse de outro modo! disse esta à enteada em continuação a uma conversa. Nunca pensei que teu pai fosse tão pacificamente mau! Estou arrependida de ter aqui voltado, crê!
Olímpia não se animou a objetar uma palavra em defesa do comendador.
— Sei que mereço censura, acrescentou a enferma, com a voz fraca e infeliz; sei que cometi uma grande falta, mas a minha conduta de então para cá devia obter o seu perdão. Ele vê perfeitamente que estou bem arrependida, por que então nesse caso não me trata de outro modo?... Oh! eu me sinto triste com a ideia da sua vingança, e, todavia, precisava agora, mais que nunca, de desvelos e de amparo... Estou doente, sinto que estou muito mal, por que pois ele me não vem ver?... por que não me 289 de 371
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vem dar duas palavras de piedade?... Isso não seria também tão grande sacrifício... seria uma simples obra de misericórdia...
E, depois de fitar por algum tempo um mesmo ponto, com as mãos entre as de Olímpia, disse­lhe sem transição:
— Nunca te cases senão com um homem de idade proporcionada à tua... Não cometas nunca semelhante leviandade! Por melhor que seja o teu caráter, por mais perfeito que seja o teu coração, por mais senhora que fores do teu temperamento, dos teus desejos e das tuas aspirações, nunca darás uma esposa perfeita, se ao teu casamento não presidirem, o amor em primeiro lugar, depois a harmonia completa de idades, de espírito, de bens e de educação. Não calculas o inferno em que vive uma mulher moça casada com um velho! Não é simplesmente o fato de lhe não dar o marido o amor de que ela precisa para viver, mas também a desgraçada circunstância de que esse casamento a inutiliza de todo para o amor de qualquer outro homem!
Olímpia ouvia as palavras da madrasta com os olhos muito abertos e a fisionomia transbordante de curiosidade. Era a primeira vez que Teresa se queixava do comendador e deixava transparecer francamente o azedume dos seus desgostos.
— O amante, prosseguiu a madrasta, também não satisfaz, porque não nos pode dar o que constitui a nossa melhor felicidade em questões de amor. O marido velho está em uma extremidade, o amante está na outra; não podem atingir ao meio termo, o centro calmo de um amor legítimo, digno e completo, que é onde encontramos a verdadeira ventura, o gozo plácido e duradouro da existência. Só um marido moço, amigo, com o seu destino ligado ao nosso, a sua dignidade entrelaçada com a nossa dignidade, pode colocar­se nesse meio termo ideal. É preciso que os dois caminhem de mãos dadas para a velhice, unidos, seguros; o seu amor deve ir custodiado, como um perfume sutil e precioso que se pode derramar pelo caminho. E isso só se consegue com o casamento proporcionado. Ao contrário, no melhor da viagem, um deixará o outro no meio da estrada. O amante não pode sequer compreender o valor dessa afeição solidária, útil e sem 290 de 371
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transportes; ele nada arrisca, nada compromete no seu amor, para desejar conservá­lo puro e digno. A ideia de que o marido consiga agradar à mulher com as suas ternuras, é o bastante para levá­lo a imaginar meios e modos de suplantar o rival e, como o jogador que arrisca sobre a mesa os capitais alheios, comete o que o marido nunca teria ânimo de fazer. O que vier é lucro! Por outro lado, as circunstâncias que o trazem afastado da amante, lhe facultam acumular por um mês, dois, e às vezes por mais tempo, a porção de ternura que o marido vai diariamente dispensando à mulher em doses pequenas; de sorte que, na ocasião de se apresentar, gasta brilhantemente, em uma só entrevista, tudo o que o outro consome durante um prazo longo. As mulheres, em geral, deixam­se iludir com isso e supõem o amante muito mais amoroso que o marido; não se lembram, as desmioladas, que só o fogo lento é suscetível de duração. O amante tem chama periódica como os vulcões; o marido conserva constantemente aceso o modesto braseiro do lar, o lume da sua casa.
Teresa acrescentou depois:
— Não te cases com um velho, minha querida Olímpia; mas, se porventura vier a suceder­te tamanha desgraça, nunca procures remediar esse mal com o mal muito maior de adotares um amante. O homem que é capaz de aceitar semelhante papel, não é digno da nossa menor estima, porque o fato de ser amante de uma mulher casada já é prova irrecusável de deslealdade e de falta de caráter...
Nisto foi interrompida pelo Dr. Roberto que vinha visitá­la.
O médico achou­a mais abatida e gravemente pior, segundo o que disse depois Olímpia.
O comendador recebeu essa notícia sem lhe dar a menor importância. E quando, à noite, Olímpia insistiu com ele para que fosse fazer uma visita à Teresa, o velho respondeu asperamente que não, esquecendo­se por um instante do modo carinhoso por que costumava tratar a filha.
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Dois dias depois o Dr. Roberto declarou que Teresa precisava mudar de ares; e a enferma mudou­se para um hotel que se acabava de abrir no morro da santa de seu nome. Foi só; o marido não a quis acompanhar.
Olímpia iria ter com ela de vez em quando.
O comendador mostrava­se cada vez mais diferente; todavia não pôde esconder o abalo que lhe causou a figura transformada da mulher, quando a viu aparecer, pelo braço de Olímpia e de uma escrava, para tomar o carro.
Ele não a teria reconhecido em outro lugar. Estava completamente desfeita; os olhos mortos, a pele de uma palidez cadavérica, o ar cansado e aflito, os cabelos embaraçados e ressequidos pela febre. Não podia quase andar, arrastava os pés inchados, e gemia, a tomar respiração com muita dificuldade.
Ao passar perto do marido, ela o cumprimentou, procurando dificilmente transformar a expressão agoniada do rosto em um sorriso de amabilidade, mas teve logo de cortar o sorriso com um gemido doloroso.
O comendador avançou automaticamente dois passos e procurou ajudá­la.
— Não se incomode! murmurou ela. Eu vou bem!...
E continuou a manquejar, gemendo ofegante.
Nessa ocasião chegava um caixeiro da casa do Figueiredo, que o comendador mandara pedir para acompanhar Teresa ao hotel.
Era o João Rosa; teria nesse tempo uns catorze ou quinze anos. Já denunciava porém o que havia de ser para o futuro; cintilava­lhe nos olhos de criança a cobiça adquirida em contato com os companheiros de trabalho. Era amarelo, seco, com a cabeça grande demais para o corpo, a boca apertada, o nariz grosso, o cabelo cortado à escovinha, unhas e dentes sujos. Passava por 292 de 371
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muito esperto e aproveitável: os patrões gostavam dele.
— Acompanhe essa senhora ao lugar aí indicado, disse­lhe o comendador, passando­lhe um cartão com o número e o nome do hotel.
E acrescentou­lhe em voz baixa, de modo que a mulher o não ouvisse:
— Demore­se um pouco às ordens dela; pergunte­lhe se precisa de alguma coisa e, dado este caso, comunique­me o que for. Não despeça o carro; se houver qualquer novidade, meta­se nele e venha logo falar comigo. Tome lá para alguma despesa imprevista.
Entregou­lhe uma nota de cinquenta mil réis.
João Rosa guardou o dinheiro e despediu­se do comendador com uma mesura humilde.
— Viva! respondeu este; e recolheu­se ao quarto, inalteravelmente, como sempre, teso, limpo, bem penteado.
Mas, depois de fechar a porta por dentro, assentou­se à secretária, fincou os cotovelos na mesa, segurou a cabeça com ambas as mãos, e começou a chorar.
Jacó passeava de um para o outro lado na sala de espera. Estava preocupado. Ouvia­se sobre o tapete o som discreto dos seus grandes sapatos de bezerro, muito engraxados e quase sem salto.
Um gemido mais forte, fizera­o correr para junto dele. Jacó era o único que havia compreendido bem a perturbação do comendador. Para ele o amo não podia dissimular a mais passageira impressão, o velho criado adivinhava­lhe os pensamentos, lia­lhe no rosto tudo o que se passava naquele coração amargurado e cheio de rugas.
Teresa chegou muito fatigada ao hotel, uma enfermeira de contrato trouxe­lhe um caldo e fê­la recolher­se à cama.
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— Que horas são?... perguntou a doente, com ar de fastio.
— Deram duas agora mesmo.
— Bem. Dê­me aquele livro de capa encarnada. Esse que tem uma cruz em cima. Justamente!
— A senhora precisa ainda de mim para alguma coisa?... perguntou o João Rosa, de quem Teresa já se havia esquecido.
— Ah! disse ela. Se voltar lá em casa, diga a Olímpia que apareça o mais depressa possível.
— Sim, senhora.
— Adeus. Obrigado.
O comendador não aparecera à mesa de jantar, e à noite pouco conversou com a filha.
O pobre velho sofria.
Criaram­se então duas existências bem diversas, mas igualmente duras e desconfortadas; a do comendador ao lado da filha, e a de Teresa à mercê dos cuidados mercenários de um hoteleiro.
A esposa faz muita falta ao homem em qualquer situação da vida, mas essa falta só toma um caráter verdadeiramente perigoso e lamentável, quando o homem tem uma filha. E principalmente se a filha for da idade de Olímpia e, como esta, tiver um caráter impressionável e romanesco.
Os pequeninos serviços domésticos, os cuidados do lar, os desvelos para com o dono da casa, os quais exercidos por uma esposa, feitos de mulher a marido, são destinados a prendê­los de parte a parte, a identificá­los cada vez mais e a torná­los indispensáveis um para o outro; tudo isso que, entre um casal, significa virtude e garantia de felicidade, uma vez arrancado das mãos da esposa, para ser confiado às de uma filha, se converte em elemento de efeitos diametralmente opostos.
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O que servia para chamar a consciência da mulher aos seus deveres, só serve, no outro caso, para desencaminhar a delicada ingenuidade da filha, chegando até a lhe desvirtuar o pudor.
O comendador Ferreira, à semelhança de muitos pais, viúvos ou separados da mulher, entregou à filha a direção da sua casa.
Foi então que ela viu pela primeira vez o homem a quem veio a esposar: o caixa da casa Paulo Cordeiro, o tal Gonçalves, vítima de Pedro Ruivo no roubo dos vinte contos; homem forte, trabalhador, econômico, senhor de boas economias e apenas com trinta e tantos anos de idade.
Olímpia o encontrou em casa de um velho amigo do pai, um conselheiro dessa época. O Gonçalves ficou logo muito impressionado por ela; Olímpia tocou e cantou. No dia seguinte ele fez uma visita ao comendador. No primeiro domingo voltou e aceitou o convite para jantar. Daí a quinze dias pediu a moça em casamento.
A filha do comendador consentia, sem repugnância, mas também sem o menor entusiasmo. O comendador estava no mesmo caso, permitia por não ter outro remédio; o Dr. Roberto havia declarado que Olímpia, se não tratasse logo de casar, podia vir a padecer muito dos nervos, e então seria mais difícil combater a moléstia.
Todavia esse casamento estava destinado a transformar a casa do comendador e o caráter de Olímpia.
Gonçalves iria morar com o sogro, fazendo assim a vontade ao comendador, que não queria separar­se da filha por coisa alguma deste mundo.
Maior que fosse a família, havia lugar de sobra no preventivo casarão de Botafogo.
O velho, sobre estar muito agarrado ao seu canto, vivia ultimamente aborrecido e enfermiço. A própria filha, de algum tempo àquela parte, não parecia tomar pelo pai o mesmo 295 de 371
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afetuoso interesse com que dantes lhe arrimava os dissabores e as desilusões. Andava distraída; não tinha as alegrias da sua idade, fugia das amigas, poucas vezes saía de casa, e mesmo assim quase sempre para visitar Teresa. Só os romances franceses e, às vezes, o piano, conseguiam prendê­la por mais algum tempo. Não lhe falassem em festas, passeios e ajuntamentos.
O comendador chamou sobre ela a atenção do Dr. Roberto. Esse declarou que tudo aquilo desapareceria com o casamento.
Foi essa, como já vimos, a única razão que moveu aquele a consentir na união de Olímpia com o Gonçalves. Não é que desdenhasse das qualidades do pretendente, mas o Gonçalves estava longe de ser o ideal que o comendador sonhava para genro. Preferia um homem mais distinto, mais cultivado no trato e nas coisas do espírito; mais brilhante, em suma. E Gonçalves era ao contrário um sujeito modesto e chão; homem de bom senso, mas de ambições estreitas. O que o puxava mais insistentemente para Olímpia, não foi a beleza da rapariga, que ela nessa ocasião até estava quase feia; nem também o dote, porque Gonçalves não seria capaz de casar por especulação, mas foi justamente aquela indiferença pela vida exterior, aquele desquerer das coisas ruidosas que ele, à primeira vista, descobriu logo na filha do comendador.
Pobre homem! como se havia enganado! O que supunha congênito e natural em Olímpia, não passava de uma crise, de um estado mórbido, que desapareceria prontamente com o matrimônio.
Para qualquer outro seria isso um motivo de felicidade, para ele era um transtorno.
Com efeito, pouco depois do casamento, a menina insociável e bisonha foi desaparecendo, e Olímpia, a verdadeira Olímpia, a mulher formosa, de ombros torneados e peito colombino, surgia entre os braços do marido.
Nela tudo se transformou, como por encanto: a pele fez branca e macia; encheu­se o colo e encorparam­se­lhe os braços; as linhas 296 de 371
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dos quadris serpentearam com mais arrojo; os olhos esparsaram­se, rociados de ternura, e a boca desabrochou em belos sorrisos ao toque dos primeiros beijos sensuais.
E, se por um lado o corpo se aformoseava, por outro o espírito se desapertava e distendia. Quatro meses depois de casada, Olímpia principiou a sentir­se atrair para as salas, seus encantos pediam a admiração e o aplauso dos homens de bom gosto; precisava de aparecer, precisava de luzir.
Reclamou jornais de moda, frequentou as modistas do tom, exigiu um cabeleireiro, comprou joias, tomou carruagem, escolheu cavalos, e dentro em pouco foi ela a ordem do dia na rua do Ouvidor e nos salões de Botafogo.
Os folhetins do Otaviano Rosa, no Correio Mercantil falavam de Olímpia; descreviam­lhe a toilette, endeusavam­lhe as graças. Suas frases foram repetidas, seus gostos imitados.
O comendador não se podia furtar à influência de todas as transformações e com o que essas refletiam. Era com orgulho que agora acompanhava ele a filha ao Cassino, ao Lírico e à Campesina.
Já ninguém o via triste e apoquentado. Os alegres hábitos do outro tempo foram ressurgindo simultaneamente. À casa retornou o ar feliz que havia perdido. Bastou que Olímpia se casasse, se fizesse verdadeira dona de casa, para encontrar facilidade em governar os criados, em dirigir tudo o que estava sujeito à sua vontade. Os fornecedores deixaram de roubar, os fâmulos já não esbanjavam como dantes, a chácara voltou ao que era primitivamente. Tudo endireitou, tudo entrou nos eixos. Reapareceram as visitas, iluminaram­se as salas, distribuíram­se chávenas de chá, desarrolharam­se garrafas de vinho caro.
O único descontente era Gonçalves; aquela mulher, que a todos deslumbrava com os seus encantos pessoais, aquela adorável Olímpia de quem se falava com tanto entusiasmo por toda a parte, não lhe convinha a ele para esposa.
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Não era essa a mulher que havia sonhado.
Imaginara ter descoberto na singela filha do comendador uma companheira sossegada e amiga do lar; quando de repente lhe surgiu aquela doidejana, a reclamar sedas, carruagens, bailes, e o diabo a quatro!
— Fui lesado! dizia ele consigo, plenamente arrependido do casamento. Se adivinhasse semelhante coisa, nunca a teria tomado para mulher!... Mas também quem poderia desconfiar que em tal songamonga estivesse escondida a Olímpia de hoje?...
E o pior é que o pobre Gonçalves não tinha ânimo de contrariar a esposa. Esta o arrastava para Petrópolis, para Nova Friburgo; obrigava­o a perder noites, a bocejar, assentado em uma cadeira na sala de jogo, enquanto ela dançava pelo braço dos melhores valsistas do tempo.
— Isso não pode continuar assim!... resmungava o pobre homem, entre bocejos. Pois eu tenho lá jeito para essas cousas...
Além disso era um gastar sem conta. Ora, ele que se casara justamente para metodizar a vida e ver se conseguia assegurar o futuro com algum pecúlio, não podia suportar de cara alegre semelhantes imposições de Olímpia. Para deixá­la sozinha, também era o diabo; havia tantos olhos assestados sobre ela; havia tanta cobiça a lhe farejar aqueles ombros nus, que o marido não se animava a arredar pé.
— Antes me ficasse ela feiazita e magra como era dantes... suspirava o infeliz; ao menos não gostaria tanto de aparecer!...
E, apesar de ninguém até aí ter ousado arriscar a menor palavra contra o procedimento de Olímpia, o triste marido sentia zelos cruéis apertarem­lhe silenciosamente o coração.
Um dia, não mais se pôde ter, e procurou o comendador para desabafar.
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— Não é possível, seu Ferreira! dizia ele muito desgostoso; não é possível continuarem as coisas como vão!... Eu não me casei para perder as noites em pagodes e andar por aí em correrias altas!... Não sou nenhum nababo! não posso com semelhante vida!
E passeava agitado pelo gabinete do sogro.
— Mas que quer você, homem de Deus?!...
— Quero endireitar a minha vida! está aí o que eu quero! Pois meu sogro acha que não tenho razão para estar aborrecido?!...
— Mas que é que lhe falta?!
— Falta­me a paciência para andar todas as noites de casaca, a fazer mesuras pelas salas e a aturar massadas consecutivas. Sua filha, ao que parece, não desejava um marido; desejava ter um pajem, um criado às ordens dos seus caprichos!... Ora, eu estou lá disposto a semelhante coisa!
— Você fala de boca cheia, meu genro, respondeu o comendador, a sacudir a cabeça. Sabe lá você a mulher que tem!... Renda graças a Deus, meu amigo, porque principio a acreditar que você nunca a mereceu.
— Antes mesmo nunca a tivesse merecido! Dou­lhe a minha palavra de honra que preferia isso!
O outro mordeu os beiços e conteve a impaciência.
— É melhor pararmos aqui, disse ele; nada lucramos em estar a trocar palavras. O senhor, meu genro, me falará quando estiver mais tranquilo!...
— Já não tenho momentos de tranquilidade! exclamou desabridamente o Gonçalves. Apre! preciso desabafar! Há cinco meses que estou cheio até aqui! (E mostrava a garganta com a mão aberta). Ou entramos em um acordo ou vai cada um para seu lado! Safa! Não posso mais!
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— Pois então vá plantar batatas! gritou o comendador, perdendo de todo a paciência. Quer fazer reclamações, faça­as à sua mulher. Que diabo!
— Ela faz mesmo muito caso do que lhe digo!...
— Pois então queixe­se de si próprio, meu caro senhor! Quando o marido não se sente com forças para governar a mulher, não pode exigir que o sogro a governe! O que lhe afianço é haver por aí muito homem casado que não se queixa como o senhor, tendo muito mais razão para isso! Você ao menos não pode dizer que sua mulher o ilude!...
— Sei cá! respondeu o marido de Olímpia, sacudindo os ombros.
— Hein?! exclamou o comendador, furioso. Não sabe?! Pois o senhor se atreve a duvidar da conduta de minha filha?... Insolente! bradou o velho, trêmulo de cólera. Não sei onde estou que...
Olímpia estava nessa ocasião a passeio. Quando voltou, soube logo da contenda entre o pai e o marido.
— O senhor foi então queixar­se de mim a meu pai?!... perguntou ela a Gonçalves quando o viu.
— Não! é que a senhora...
— Não seja idiota! bradou­lhe a mulher, franzindo o nariz. Quando quiser pode­se ir embora!
— E sou muito capaz de o fazer!... Não sei o que parece andar agora uma criatura a correr seca e meca, para ver danças e ouvir tocar piano!...
— Eu é que não estou para aturá­lo! Tenha a bondade de me não aborrecer! disse Olímpia friamente e recolheu­se ao quarto, sem querer ouvir a réplica do marido.
Jacó assistia a toda esta cena, encostado ao aparador com uma toalha no braço.
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— Não te parece que eu tenho razão, Jacó?... perguntou­lhe Gonçalves, aproximando­se dele.
— Não me envolva nessas histórias... respondeu o velho doméstico, fugindo por sua vez para outro lado.
Gonçalves cruzou os braços e sacudiu a cabeça sozinho, no meio da sala.
— Então?! que me dizem a isto?! exclamou ele.
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XXVI
CAÇA AOS DOCUMENTOS
E, desde então, não se passava um dia em que não houvesse alguma nova rezinga entre o casal; mas o marido, por muito que protestasse contra os costumes da mulher, nada conseguira. O comendador tomou abertamente o partido da filha e principiou a tratar o genro com frieza.
— Logo vi que este homem não poderia convir a Olímpia, dizia e repetia ele consigo. Grande parvo! em vez de agradecer a Deus o presente que lhe fez, ainda tem o desplante de lamentar­se! Idiota.
E, quando se achava a sós com a filha e vinha a pêlo falarem de Gonçalves, repisava o comendador com o seu ar aprumado:
— Não faças caso, minha flor! diverte­te, brinca, dança à vontade, que és moça! Brilha, minha Olímpia; brilha, que és bonita, espirituosa e rica! Deixa falar o tolo de teu marido; ele o que tem é ciúmes! Não faças caso! Preza o teu nome, defende a tua reputação, cumpre com os teus deveres de senhora honesta, mas continua a ofuscar! Mata de inveja essas presumidas que estão todos os dias a descobrir defeitos em ti!
E o velho sentia­se cada vez mais satisfeito com ela. Para ele não havia em todo o mundo outro ente tão completo, tão belo, tão agradável como a filha. Olímpia, depois que mudara de gênio e que se alindara de corpo, era o seu enlevo e a sua vaidade. Quando a via, decotada no rico vestido de seda, a chamar a atenção de todos, a jogar com muita graça o leque, a responder sorrindo às palavras que choviam da direita e da esquerda, o feliz pai ficava embevecido, a acompanhar­lhe com a fisionomia os menores gestos e os mais ligeiros movimentos.
— E queria o senhor meu genro que este mimo de graças não 302 de 371
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aparecesse nas salas e ficasse em casa, talvez a jogar a bisca! Tinha que ver...
Por essa época sofreu o comendador um novo desgosto: a morte de seu filho, que estava já nos estudos em S. Paulo. Este fato alterou de alguma forma, e por algum tempo, a vida da família, servindo de paliativo aos desgostos de Gonçalves. Mas, acabado o luto, Olímpia cingiu de novo o seu diadema e reapareceu nas salas.
O pobre homem já não podia suportar semelhante existência. Era preciso que a esposa se decidisse por uma vez a mudar de vida, ou ele pediria a sua demissão de marido.
Olímpia declarou que não estava disposta a alterar de forma alguma os seus hábitos. Se ela, com as suas fantasias, obrigasse o marido a sacrifícios e privações, muito bem! seria a primeira a fugir da sociedade exigente e a submeter­se a uma vida proporcionada à estreiteza dos seus recursos; mas não! o marido nem precisava tocar nos bens que trouxera: Olímpia era rica, tinha muito com que sustentar o seu luxo e os seus caprichos; Gonçalves, por conseguinte, que deixasse de ser egoísta e não a estivesse contrariando daquele modo, porque isso podia ter lamentáveis consequências..
Gonçalves opunha carradas de razão: dizia que se casara para viver com a mulher e não para proporcionar mais um bom par aos dançadores de valsa; que era homem sossegado, amigo dos seus cômodos, gostando de passar os domingos na sua chácara, e que não se achava disposto, por conseguinte, a andar por aí, num torniquete, de casaca, a cochilar, que nem o Imperador; que estava já muito farto de bailes, de jantares e de teatros líricos; que as tais ceias fora de horas, os sorvetes, os ponches, que o obrigavam a ingerir todas as noites, lhe punham o estômago em petições de miséria e lhe haviam de dar com os ossos no Caju, se ele não mudasse quanto antes de regime; e, afinal, quando por mais nada fosse, era porque ele não podia admitir que uma senhora casada tivesse adoradores, e ouvisse galanteios, e se 303 de 371
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deixasse, nas tais danças, abraçar por uns pelintras que ele nem sequer conhecia; como também não podia tolerar que o nome de sua mulher andasse por aí, de boca em boca, de jornal em jornal, tratado por tu, como se ela fosse alguma dançarina ou alguma cômica! Não! Gonçalves não estava por nenhuma dessas coisas e, se a mulher não pretendesse mudar de sistema de vida, que lhe falasse então com toda a franqueza, porque nesse caso quem disparava era ele!
Olímpia não respondeu uma só palavra e deixou que o marido ainda acrescentasse muitas outras queixas. À noite encarregou o pai de tratar da separação, se é que Gonçalves estava com efeito a isso disposto; mas, caso estivesse, ficasse ele desde logo prevenido de uma coisa, e era que, em nenhuma hipótese, voltaria ela a fazer pazes com o marido. Gonçalves, portanto, que meditasse antes de dar o grande passo. Quanto a ela não alteraria, de forma alguma, o seu modo de viver! Daí a três dias estavam separados.
Sabe já o leitor o que se seguiu ao rompimento: Olímpia principiou a emagrecer, foi ficando triste e perdendo, pouco a pouco, o gosto pelas festas ruidosas e pelos prazeres opulentos. Ficou nervosa, doente, aborrecida, e dentro de seis meses desertou totalmente da sociedade.
O comendador embalde procurou persuadi­la de voltar aos seus hábitos primitivos; embalde lhe falou do triunfo que outras obtinham já na ausência dela; embalde a cercou de objetos da moda, jornais de figurinos, programas de concertos, camarotes de teatros e provocações de todo o gênero.
Olímpia não se moveu, e em menos de dois anos ninguém mais lhe citava o nome.
Todavia, os seus incômodos recrudesciam; o nervoso tomava proporções muito sérias; o monstro histérico escancarava as fauces.
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O Dr. Roberto, como também já sabe o leitor, aconselhou viagens, falou em banhos de mar, lembrou passeios ao campo, mas disse positivamente que o verdadeiro remédio para Olímpia seria fazer, quanto antes, as pazes com o marido.
Não fez. E mais dois anos decorreram, até o dia em que a vimos subir, pelo braço do pai, a escadaria do Papá Falconnet.
Pela confrontação das cenas da Avenida Estrela, com as cenas igualmente mal esboçadas deste capítulo, pode o leitor sem dificuldade calcular os progressos que fez nesses dois anos a moléstia de Olímpia.
Mas saltemos por sobre isso e vamos revê­la no momento em que a deixamos ao lado de Gregório.
Antes, porém, cumpre explicar o que foi feito de Teresa. O Dr. Roberto fazia­lhe de vez em quando uma visita. Achou­a sempre pior; propensa a sofrer das faculdades mentais. Teresa dera­se ultimamente à devoção e estava muito amiga de rezas e de igrejas. Olímpia já não encontrava nela a mesma amiga e a mesma conselheira; a pobre doente parecia agora estúpida e mostrava­se desconfiada, de mau humor, às vezes impertinente e grosseira.
Rosa, aquela criada que na época dos amores de Portela, lhe protegia as escapulas, fora substituída ao lado dela por tia Agueda.
A infeliz pouco se demorou no hotel; queria um lugar mais obscuro e mais modesto; transferiu­se para Cascadura. O marido mandava­
lhe lá, todos os meses, uma pensão de cem mil réis. Estava feia, sumamente feia; a febre crestara­lhe a pele, empobrecera­lhe o cabelo e desfeiara­lhe as feições. Não dava já ideia do que fora; magra, encanecida, meio calva, com os olhos sem expressão, a boca desadornada de sorrisos, o pescoço bambo, as costas arqueadas, parecia mais uma freira velha, comida pelos rigores da vida monástica, do que uma simples devota de trinta e oito anos.
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Não saía de casa, senão para ir à igreja. Ninguém a via à janela; apenas, em algumas noites de luar, a custo lobrigavam o seu vulto magro, vestido de chita preta, a passear como um espectro por entre as pobres árvores do seu quintal. Duas vezes fora acometida por crises nervosas, que a deixaram prostrada durante muito tempo com todos os sintomas da loucura.
E o comendador recomendava sempre ao Dr. Roberto que a não deixasse de ver de quando em quando, e pedia­lhe constantemente notícias dela.
— Vai naquilo mesmo... dizia o médico. Dali para pior... coitada!
— Mas pode viver?... perguntava o velho, com os olhos iluminados por um sinistro brilho de vingança.
— Ah! lá viver pode, e até muito; mas o que não conseguirá é restabelecer­se totalmente. Está perdida!
— Bem! dizia o velho consigo; minha vingança será completa... Aquele miserável há de casar­se com ela logo que eu feche os olhos!
Uma tarde, passeava a mísera, como sempre triste, por entre as solitárias plantas do seu quintal quando um vulto de homem parou às grades do portão.
— Saberá dizer­me onde mora por aqui uma senhora chamada Teresa?... perguntou o sujeito, apoiando­se aos varais da grade.
Pelo seu todo fatigado via­se logo que de vinha de longe, a fazer até ali a mesma pergunta pelas outras casas daquela rua. Teresa aproximou­se lentamente sem responder; mas, ao chegar perto da grade, soltou um grito e exclamou:
— Luiz!
— Meu nome?!... disse o outro muito surpreso. 306 de 371
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E sem ter tempo de procurar reconhecer a lastimosa figura que tinha defronte dos olhos, transpôs o portão, para amparar Teresa, prestes a cair desfalecida.
— Já me não conheces?... perguntou ela com um tom de profunda tristeza, logo que pôde falar. É natural! Eu já não sou a mesma.
— Esta voz!... Será possível?! balbuciou Portela, sem querer acreditar no que via. E ficou a olhar, muito aflito, para a pobre mulher.
— Está aqui o que resta daquela tua Teresa dos outros tempos, tão fresca e tão bonita! explicou ela. E acrescentou com os olhos cheios d’água e a voz muito alterada pela comoção: — Contigo, meu Luiz, tudo fugiu! já nada resta do que fui... Estes olhos já não falam de amor; estes lábios esqueceram o riso; este colo não provoca em mais ninguém desejos desenfreados... Depois que tu partiste, nunca mais tive um momento de ventura; tudo se converteu em remorso. Cheguei a amaldiçoar o nosso amor; cheguei a duvidar se a memória dele me causava saudade ou me causava tédio... Principiei a tomar aborrecimento por tudo; meu marido apunhalava­me todos os dias com a sua indiferença e com o seu desprezo... E o meu sofrimento foi crescendo, crescendo, até me reduzir a isto que aqui vês!
Portela escutava, sem desviar os olhos. Tudo aquilo produzia nele uma grande tristeza e um grande constrangimento. Como era possível conceber semelhante transformação?... Como, em doze anos, se podiam extinguir tanta formosura e tanta graça?... Oh! é terrível, pensava ele, vermos assim de perto os destroços de uma felicidade que, um dia, passou por nós e nos encheu a vida com todos os brilhos da paixão e do amor. Amor? não! instinto. Um pouco de carne palpitante, cabelos, sangue, dentes, olhos, tudo isso disposto de certo modo, ordenado com certo encanto, eis quanto basta para nos enlouquecer, para nos arrastar a todas as loucuras e a todas as degradações! Entretanto, ali estava aquela mesma mulher que o fizera delirar um dia!... Como a nossa matéria é fraca ou como a natureza é hábil! Como esta sabia impor as suas 307 de 371
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leis de reprodução e da vida! E queriam os homens do rigor e da austeridade que se pudesse fugir despoticamente a todas essas armadilhas tão finamente preparadas, tão sabiamente urdidas debaixo de nossos pés!...
E, depois destas considerações, uma tristeza profunda, um aborrecimento doloroso, negro, úmido, entrou­lhe no coração e começou a inchar lá dentro como um sapo entalado num cano de esgoto.
O coração daquele homem era com efeito um cano de esgoto, por onde lhe desfilavam todas as imundícies da alma. Não se teria demorado de um instante ao lado de Teresa, se não precisasse dela para alguma coisa que diretamente o interessava. O triste espetáculo daquela ruína revoltava o seu egoísmo; Portela sentia­
se impaciente por conseguir o que desejava da mulher do comendador e pôr­se a caminho para longe, para bem longe, onde não chegasse o inquietante cheiro daquela desgraça e daquela miséria. Sentia­se tão apressado que não esperou pelo fim das divagações de Teresa; interrompeu­a, declarando francamente que ia ali levado pela necessidade de alcançar das mãos do comendador um papel assinado por ele.
— Que papel? perguntou a mísera.
— Pois não te lembras que deixei um documento em poder de teu marido, declarando os obséquios que recebi dele, as relações que tive contigo, aquele projeto de envenená­lo e ainda outras coisas de que já não me recordo?!...
Essas tais coisas de que ele já se não recordava, não lhe fazia conta declarar quais fossem, porque implicava diretamente com o futuro de Teresa.
— Mas afinal, perguntou ela, que desejas de mim?...
— Desejo em primeiro lugar saber se esse papel não está em teu poder, respondeu ele.
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— Pois se eu até ignorava da existência de semelhante coisa...
— Bem, pois então o que eu desejo é que o obtenhas de teu marido, que o subtraias a todo o transe do lugar em que está. Preciso apoderar­me desse documento! Não poderei dar um passo aqui no Rio de Janeiro, enquanto ele existir nas mãos do comendador...
— Mas eu não vou à casa do Ferreira. Além disso...
— Bom. Nesse caso, adeus.
— Já te queres ir?... perguntou Teresa.
— Desculpa; tenho alguma pressa. Eu te aparecerei mais vezes.
— Espera ao menos que venha tia Agueda para fazer café...
— Não! não! Tenho de estar cedo na cidade. Adeus!
— Visto isso, adeus. Olha, espera! vou dar­te uma flor; leva­a para te lembrares de mim...
E foi buscar ao oratório uma rosa, que murchava aos pés de um santo.
— Está benta! disse ela.
Portela sentia­se cada vez mais impaciente. Na ocasião de sair, já no corredor, voltou­se e deu com Teresa a fazer­lhe momices por detrás dele. Só então desconfiou que a desgraçada sofria de qualquer desarranjo cerebral.
Pôs­se a caminho com vontade. Iria dali à casa de um conhecido; talvez lhe desse este informações a respeito do comendador e lhe fizesse encontrar alguém capaz de subtrair os documentos de que ele tanto precisava.
Portela, nas suas viagens, arranjara algumas economias e vinha estabelecer­se na Corte com um sócio bastante endinheirado. 309 de 371
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Tinha em vista um casamento; o futuro sorria­lhe como nunca auspicioso: fora com Leão Vermelho mais feliz do que contava. O compadre facilitou­lhe os meios pecuniários para especular em compras de vinho no Porto, e recolheu­se, sequioso de descanso, à sua província natal, onde tencionava acabar a existência.
Com este, pouco mais temos que ver. Quanto ao Portela, podemos afiançar que andou com lisura nas suas especulações e que se despediu limpamente do protetor, retirando­se com um forte carregamento de vinhos para o Brasil, em cuja capital pretendia agora estabelecer uma casa especial daquele gênero.
O bom desempenho de suas transações granjeara­lhe crédito na península, de sorte que, com muita facilidade e pouco capital, poderia sortir o seu estabelecimento, sem encontrar competidor no Rio de Janeiro.
Por esse tempo contava ele uns trinta e tantos anos, e sentia­se vigorosamente disposto a fazer carreira. Estava moço e fortalecido de esperanças. Com os elementos materiais de que dispunha, podia ir muito longe; sonhava já com a comenda. O diabo era aquele documento em poder do marido de Teresa!... Se o demônio do velho saísse dos seus cuidados e mandasse publicá­lo no Jornal do Comércio, Portela estaria perdido. O comendador, apesar de retirado da vida ativa, gozava de muito crédito na praça e era sumamente considerado pelos negociantes de mais peso; qualquer acusação que viesse dele teria, fatalmente, um curso vertiginoso entre os seus colegas.
Convinha, por conseguinte, que Portela, antes de assentar os alicerces das suas especulações no Rio de Janeiro, tratasse prontamente de desarmar o inimigo, sob pena de mais tarde ser precipitado no chão no melhor do voo Mas de que modo havia ele de alcançar semelhante coisa?... A questão era tão delicada que, sem dúvida, daria volta ao espírito mais audacioso e mais fino.
Principiou a sondar, de longe, o comendador.
— O homem, pensou de, talvez já se não lembrasse do passado, 310 de 371
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nem dos seus planos de vingança. Mas qual! Portela conhecia perfeitamente o gênio rancoroso do seu antigo patrão, para se não iludir por esse lado. O único expediente a tomar era apoderar­
se do tal documento, fosse como fosse, custasse o que custasse!
Em todo caso, nada disso o incomodaria tanto, se Portela não tivesse em vista mudar de estado, casando­se com uma rapariga de bons recursos, que encontrou em casa de D. Januária, quando aí foi visitar a afilhada, pela primeira vez, depois da sua volta.
Para esse projeto de casamento é que o comendador se tornava verdadeiramente perigoso, porque Portela, na obrigação que assinou, se comprometia, sob palavra de honra, a tomar conta de Teresa e a casar­se com ela, logo que o marido falecesse.
Ora, incontestavelmente, havia em tudo isto uma grande dose de tolice. Não se poderia obrigar um homem a casar, assim sem mais nem mais, só porque, em certa época, declarou por escrito que o faria. Mas o fato é que a sua assinatura lá estava, naturalmente reconhecida já pelo tabelião, e, se o maldito papel aparecesse pela morte do comendador, ligado ao importante testamento deste, podia, pelo menos, cobri­lo de ridículo, e dificultar­lhe a carreira, chamando sobre ele as suspeitas e a desconfiança de pessoas, para as quais lhe convinha passar por homem de vida imaculada.
— Maldito fosse o momento em que se lembrou de requestar a mulher do comendador! Antes tivesse quebrado uma perna na ocasião em que se aproximou dela pela primeira vez!
Em tais circunstâncias, visitava uma ocasião D. Januária, quando um rapaz magrinho, feio, de vinte e tantos anos, se aproximou dele tratando­o pelo nome.
Portela recordava­se de ter visto já aquela cara, mas não conseguia determinar onde e quando.
— Não se lembra do João Rosa?... perguntou­lhe o rapaz. Aquele que quando o senhor estava em casa do comendador, só 311 de 371
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chamava o “João Cabeça”?!...
E riu.
— Ah! exclamou Portela. É isso mesmo! Ora senhores! como você mudou! está um homem. Barbado!...
E depois de medir por algum tempo a pequena estatura de João Rosa, perguntou­lhe com amigável interesse:
— Então, que se faz agora?...
— Continuo lá! disse o outro, armando uma careta.
— Ainda está lá?... insistiu Portela, admirado, mas possuído já da ideia de aplicar o João Rosa aos seus projetos.
— Ainda, resmungou o outro.
— Interessado na casa?...
— Qual. Já perdi as esperanças disso. O Figueiredo não me tem querido proteger. Um moço, que entrou muito depois de eu lá estar, faz parte há um ano da sociedade e eu ainda continuo como empregado...
— Você casou­se?...
— Não. Estou ainda solteiro.
— Ah! quem sabe se você tem as suas pretensões cá por casa de D. Januária!...
— Não. Dou­me com ela há muito tempo, mas não passa disso.
— Pois, seu João Rosa, eu vou estabelecer­me aqui no Rio com uma casa de vinhos. Tome o cartão. Se você quiser, apareça por lá, talvez tenhamos o que conversar. Olhe, amanhã à noite, você está ocupado?
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— Não.
— Nesse caso vá amanhã...
— Pois bem.
No dia seguinte os dois encontraram­se de novo. Falaram muito sobre o passado. João Rosa fez referências aos escândalos de Teresa.
O Portela, sacudiu os ombros com desdém.
— Não! replicou o outro, o senhor andava nesse tempo muito mordido por ela...
— Tolices!
— Coitada! Está feia, magra ao último ponto, descabelada, meio idiota...
— Sim?... disse, Portela, fingindo ignorar essas coisas.
— Se o senhor a visse não reconheceria!...
— Coitada. Era muito doida aquela rapariga!...
— Era da pele do diabo, acrescentou o João Rosa, com o ar de quem tem opinião segura sobre o fato.
Desde então principiaram a encontrar­se com mais frequência João Rosa passeava alguns domingos com o Portela e patenteava­lhe, nessas ocasiões, como uma submissão de dependência e amizade. Tinha muito em conta o que lhe dizia o amigo e seguia à risca os conselhos que dele recebia.
João Rosa deu a Portela notícias completas a respeito da casa do comendador; falou do casamento de Olímpia com o Gonçalves; disse a vida desordenada que os dois levaram durante quatro anos; contou os pormenores da separação dos cônjuges; circunstanciou as mudanças de gênio que fizera Olímpia depois do 313 de 371
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rompimento, os desgostos do velho, a proposta de reconciliação apresentada por Gonçalves, a recusa da mulher, e enfim as tristezas e o recolhimento em que esta por último vivia.
— E o Jacó?... que fim levou? quis saber o Portela.
— Lá está! no mesmo! Não faz a menor mudança!
— O Jacó!... reconsiderou aquele, com um ar cheio de recordações. E disse depois: Deve estar bem velho!
— Mas forte... Parece muito mais moço que o comendador!
— E este? Sempre o mesmo, hein?
— Sempre. Eu vou lá duas vezes por semana fazer­lhe a escrita. Pouca coisa!
— Ah! você é quem faz agora a escrita do comendador?!...­
— Sim, por quê?
— Por nada...
E Portela ficou a pensar.
Na primeira ocasião em que esteve de novo com o João Rosa, abriu­se francamente com este a respeito do famoso documento que estava em poder do comendador.
— Você sabe o que são estas coisas!... disse em confidência muito amigável. Eu estou no comércio... Aquele velho é muito capaz de cortar­me a carreira... Ele é rancoroso!...
— Oh!... fez o outro, estalando os dedos. — Por conseguinte, se você me conseguisse arranjar esses papéis... eu saberia recompensar o seu trabalho...
— Não sei, homem! Eles devem estar muito bem guardados! em 314 de 371
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todo o caso...
— Ora, na sua posição ser­lhe­á muito fácil de os descobrir; e o comendador, quando der pela falta deles, não acreditará que você os tenha subtraído, porque aquilo não representa nenhum valor. Para que diabo podia você precisar de papéis velhos?... Não são documentos de dívida; não representam dinheiro, nem objeto de preço!... O mais que o velhote poderia supor, é que alguém os tivesse inutilizado sem saber do que se tratava.
— Isso é verdade...
— E eu lhe daria um conto de réis, se você me arranjasse o que lhe digo. É preciso notar: com o documento assinado por mim, deve estar uma carta, também minha, dirigida a Teresa, e um frasquinho de vidro com um líquido transparente. Arranja­me isso e dou­lhe um conto de réis. Depois, como para ambos convém guardar o segredo, a coisa ficará só entre nos. Hein? Serve­lhe?...
— Eu vou ver se encontro...
— Você, querendo, acha...
— Pode ser.
E, quando os dois se separaram, já estavam perfeitamente combinados.
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XXVII
O BEIJO
Coincidiram com a chegada do Portela ao Rio de janeiro os primeiros sintomas nervosos que se apoderaram de Olímpia, pouco depois do rompimento dos laços conjugais. O comendador, preocupado com os incômodos da filha, não pensava em outra coisa. Passeios, distrações, romances, tudo lembrava ele para distrair a enferma. Ora em Petrópolis, ora em Teresópolis, ora em Barbacena, andaram os dois, perto de dois anos, em inútil e constante peregrinar.
Isso explica a razão por que Portela não foi logo, desde a sua chegada, perseguido pelo comendador. Não havia tempo para cuidar da vingança; o velho andava arredado de casa, esquecido de si e só cuidoso da sua adorada Olímpia.
Entretanto, Portela, que compreendera perfeitamente a situação, tratou de não perder tempo e firmar na Corte os seus alicerces, de modo a poder mais tarde resistir aos golpes do marido de Teresa, quando este porventura o quisesse derrocar. Uma vez firmado em terreno sólido, não tinha que recear do inimigo, e quase que podia de antemão contar com a vitória.
Nesta convicção se estabeleceu e abriu a trabalhar com a fúria de quem foge de um grande perigo. Todo o seu empenho era granjear simpatias, ganhar posição e juntar dinheiro. Tudo isso conseguiu ele em muito pouco tempo. Portela não esperdiçava um segundo, acumulava quase todo o trabalho do seu armazém, fazia a correspondência, a escrita e a venda ao balcão. Dentro de um ano estava a sua casa já perfeitamente acreditada; o comércio dos vinhos desenvolvia­se com um impulso prodigioso. Portela aumentou então o pessoal, alargou o armazém, e de novo foi a Portugal. Quatro meses depois era de volta, com um novo 316 de 371
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carregamento e novas especulações. Antes de chegar o terceiro ano de seu comércio no Rio de Janeiro, já lhe havia pingado da pátria sobre a gola do casaco a vermelha teteia por que de tanto suspirava.
Portela definitivamente era um homem feliz. O documento em poder do outro, longe de o prejudicar, servira, como vemos, para lhe incutir no ânimo resolução e coragem. Dois anos depois o Sr. comendador Portela gozava das melhores simpatias, estava já arranjadinho de fortuna, e olhava de frente para um futuro de causar inveja.
Não tardaria a abrir­se em torno dele as boas relações, os bons sorrisos, as boas rodas fluminenses. No Rio de Janeiro, com uma casa de negócio, uma casaca e uma comenda, vai­se a toda parte e percorre­se familiarmente toda a escala social, desde os bailes da Princesa, até às bacanais das irmandades carnavalescas.
E o certo é que o demônio do Portela tinha um tipo que se apresentava maravilhosamente às suas aspirações. Ninguém daria melhor um comendador. Desde que lhe chegou o título, principiou a transformar­se. Caminhava agora mais teso, empinava a cabeça, esticava as pernas e dilatava os lábios nesse risinho discreto e malicioso dos ricaços condecorados. Uma vez raspado o bigode, talhada a suíça e desfalcados pela calva os cabelos da cabeça, terá logo o leitor defronte dos olhos aquele legítimo comendador, com quem tão boas relações travou no primeiro capítulo deste romance.
Mas, como já temos o comendador Ferreira, seja­nos permitido continuar a tratar o segundo simplesmente pelo nome. Continuará a ser “O Portela”.
Quando o Portela chegou ao Rio, justamente ao tempo em que se via o comendador atrapalhado com a moléstia da filha, João Rosa, ficou exclusivamente encarregado dos negócios do pai de Olímpia. Não podia pois desejar melhor ocasião para cumprir o que prometera ao amigo: a casa estava toda em suas mãos; 317 de 371
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ninguém o surpreenderia enquanto desse a busca.
João Rosa por conseguinte começou a procurar os tais documentos com toda a calma e toda segurança; e, com tanto jeito e minuciosidade mexeu e remexeu nas gavetas e nos segredos do patrão, que, em vez de achar o objeto procurado, achou coisa muito melhor; achou um pequeno cofre de ferro, que jazia cuidadosamente oculto num esconderijo, feito de propósito para isso na parede, por detrás da burra.
O cofre pesava e tinha um segredo na fechadura. João Rosa não descansou enquanto o não abriu.
Estava cheio de libras esterlinas. Ninguém sabia a procedência desse dinheiro, nem o destino que o comendador lhe tencionava dar. Não constava dele em nenhum dos livros de sua escrituração e em nenhuma das notas esparsas.
João Rosa teve uma tentação diabólica. O comendador só mais tarde poderia dar por falta do cofre, e aquele dinheiro representava perfeitamente a independência do caixeiro. Lembrou­se de tomar passagem no primeiro vapor e fugir do Brasil com o seu tesouro, mas reconsiderou: Para que fugir?... Aquele dinheiro estava por tal forma bem escondido, que o comendador não poderia imaginar que alguém desse por ele... e daí, quem sabia lá se o próprio comendador tinha ciência de semelhante coisa?... se aquele belo segredo não existia ali antes dele tomar conta da casa?... De qualquer forma, concluiu o velhaco: não era preciso fugir; tudo se poderia arranjar limpamente, sem espalhafatos de viagens.
E adotadas estas reflexões, João Rosa procurou o Figueiredo, pediu a sua conta e deu­se por despedido. Só lhe faltava pôr em dia o exíguo trabalho que estava a seu cargo e esperar pelo comendador, para se despedir deste também por sua vez.
Portela, sempre que o via, lhe perguntava logo pelo resultado daquilo que os dois haviam combinado entre si. O outro se desculpava; não descobria os tais documentos, mas que Portela 318 de 371
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podia ficar descansado, que, se estivessem eles em casa do comendador, lhe haviam de chegar às mãos.
Dias depois o encontrou por acaso. Esteve quase a fazer que o não via, tão pouca importância ligava ele agora a semelhante bagatela. Mas uma súbita ideia de especulação, fê­lo apoderar­se dos documentos e guardá­los cuidadosamente consigo.
O comendador chegou nesse dia, sem ser esperado. Vinha aflito; a filha estava pior, o Dr. Roberto acompanhava­os, prevendo qualquer capricho da moléstia. Receava a paralisia, o idiotismo e até a morte.
João Rosa declarou que não podia continuar ao serviço do comendador, disse que já não estava em casa do Figueiredo e precisava tratar­se dos pulmões em Barbacena. O velho aborreceu­se muito com isso. Pois o caixeiro queria abandoná­lo naquela situação? O Dr. Roberto entendia que o João Rosa não tinha necessidade de partir com tanta pressa. Mas o rapaz insistiu, queixou­se de que estava muito mal, tossiu, disse que já expectorava sangue, e dois dias depois recebeu o saldo que lhe tocava e entregou em dia o trabalho ao seu substituto.
Constou­lhe no dia seguinte que o comendador ia chamá­lo ainda para pedir algumas explicações sobre o trabalho; João Rosa, a quem não convinha entrar em mais esclarecimentos, apressou a viagem e partiu na primeira madrugada, sem ter entregue os papéis a Portela, a quem escreveu um bilhete com as seguintes palavras: “Pode ficar tranquilo; acha­se tudo em meu poder. Em breve estarão com o senhor”. Portela não se satisfez com isso e foi ao encontro de João Rosa. Já não o alcançou e retrocedeu para a Corte porque tinha de fazer a viagem de que falamos.
Decorreu um ano, Olímpia não tinha melhoras, o comendador continuava sobressaltado.
João Rosa voltou cautelosamente à capital, hospedou­se no Hotel do Caboclo e tratou logo de procurar Portela.
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Encontraram­se na rua e seguiram juntos para o Passeio Público, porque aí conversariam mais à vontade.
O que se segue já o leitor sabe. Pedro Ruivo, que fingia dormir em um banco do Passeio, ouviu a conversa dos dois e empregou meios e modos de furtar os documentos do Portela; depois foi dar consigo na Avenida Estrela, donde afinal saiu, ameaçado e perseguido, para se esconder na gruta com o fruto do seu roubo.
Pois bem; acompanhemos o gatuno e vejamos o que fez de dos papéis. Pedro Ruivo, logo que retomou o cofre na gruta, ganhou o mato e desapareceu por entre as folhas, como a ligeira cotia, quando sente perto de si algum rumor estranho.
É preciso observar que a gruta do Rio Comprido se estende por todo o sopé do monte e abre várias gargantas, oferecendo diversos caminhos, uns mais curtos e às vezes mais difíceis, outros longos e naturalmente mais pitorescos e agradáveis
Olímpia, Gregório e Augusto, naquele passeio que descrevemos, foram pelo caminho mais comprido e pitoresco, e penetraram na gruta justamente pelo lugar onde esta principia. Pedro Ruivo ao contrário, chegou lá pelo caminho mais curto e entrou por uma das gargantas laterais, que abrem obscuramente para as bordas da floresta.
O gatuno, uma vez senhor do seu cofre, atravessou obliquamente a gruta e embrenhou­se no mato pelo lado oposto àquele por onde havia entrado. Fazia um belo luar, mas a vegetação enredava­se por tal forma, que os raios da lua muito a espaço se coavam por entre a mole balsâmica da folhagem. Entreteciam­se os cipós e as parasitas, formando cortinas de verdura e como fechando aos forasteiros a passagem da mata.
Se a viagem era difícil, também era perigosa, porque as cobras descem à noite dos seus covis, arrastando­se pelo morro à procura do que comer e beber.
Mas Pedro Ruivo, aguilhoado pelo medo, varava o mato que nem 320 de 371
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uma anta assustada.
Atravessou o morro e, depois de caminhar três horas seguidas, achou­se em um pântano sombreado de árvores. Palhoças esparsas branquejavam aqui e ali por entre o silêncio melancólico da noite. Percebia­se a vizinhança de algum arrabalde pelo longínquo barulho de cães, que ladravam à lua.
Pedro Ruivo continuou a andar. Estava em Catumbi. Em breve o paredão comprido do cemitério começou a estender­se diante de seus olhos como, uma mortalha que se desdobra. O bairro modorrava deserto. Ouvia­se ao longe a cansada música de uma festa, e um burro inválido passeava silenciosamente pela estrada, a manquejar da perna.
O gatuno continuou a andar na direção do Campo de Santana. Não se arreceava da polícia, porque já a conhecia de perto. Em certa altura da Cidade Nova parou defronte de uma casa, em cuja porta brilhava um miserável farol de folha com a seguinte inscrição “Hospedaria do Gato”.
Pedro Ruivo tirou do bolso um pouco de dinheiro, que escamoteara do quarto de Gregório, e pôs­se a contá­lo.
— Chega, disse ele consigo. E bateu à porta da hospedaria.
Veio abrir um homem magro e macilento, com a camisa por fora das ceroulas e uma lanterna na mão.
— Ó Estica! Como vai essa força?
— Vai se rolando, e você?
— Mais morto que vivo! Ainda há lugar por aí?
— Sim, mas você já deve duas dormidas e sabe que...
— Ó, seu vinagre! Eu não lhe disse que queria fiado!
— Também não é preciso zangar­se... Suba!
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Pedro Ruivo caminhou na frente, enquanto o Estica fechava a porta, e estendia depois a lanterna para iluminar a escada.
— Isto por cá está preto como o padre! gritou Pedro Ruivo, já em cima, dando um encontrão.
— Espere lá, criatura! Não faça barulho que pode acordar os hóspedes!
Daí a pouco se introduziam os dois por um estreito corredor formado de tapumes de madeira. E depois de uns trinta passos, chegaram ao quarto que o estalajadeiro destinava ao Ruivo.
— Pronto! disse o homem, pousando a lanterna no chão e procurando matar uma pulga que sentiu na perna.
Pedro Ruivo tirou do bolso uma nota de dez tostões e passou­a ao outro, dizendo­lhe que pagasse as três dormidas e lhe trouxesse parati. Em seguida assentou­se na espécie de cama que havia no quarto e colocou ao lado de si o cofre.
O Estica, que se tinha afastado, voltou com um pequeno copo de aguardente e entregou­o ao Ruivo.
— O troco? reclamou este.
— Que troco?...
Seis tostões do que eu devia, trezentos réis de hoje, três vinténs de parati; ainda tenho quarenta réis. Venha!
— Você sabe que depois da meia­noite o parati é um tostão!...
— Ladrões como ratos! resmungou Pedro Ruivo, tirando do bolso um pedaço de vela, que acendeu na lanterna do hospedeiro.
— Boa noite! disse este, afastando­se.
Pedro Ruivo fechou a porta, acendeu o cachimbo e grudou a vela no chão com alguns pingos da mesma.
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O quarto teria doze palmos sobre seis de largura. A cama, único objeto que lá se achava, além de um moringue esborcinado, era de ferro e sem lençóis.
Ruivo assentou­se no chão, abriu o cofre e, depois de beber um gole de aguardente, começou a examinar­lhe minuciosamente o conteúdo. Encontrou a declaração assinada pelo Portela, a carta em que este remetia o veneno à amante, e mais uma fotografia de cada um dos criminosos, completamente emolduradas.
— Ora! disse o gatuno quando se convenceu de que mais nada havia. Para tão pouca coisa não era preciso uma caixa deste tamanho! (E passou a ler com dificuldade os papéis, tendo examinado minuciosamente os retratos).
— Este deve ser daquele sujeito gordo do Passeio Público, considerou ele, procurando mentalmente comparar a fotografia do Portela com o original. E acrescentou, passando a examinar a de Teresa: — Esta outra não conheço, mas deve ser gente graúda, a julgar pele luxo com que está vestida! Enfim, haveríamos de ver quanto tudo isto poderá dar!...
Em seguida, tirou um cordão do bolso e com ele fez um só pacote dos papéis e dos retratos.
— Amanhã temos tempo para tratar disso!...
E meteu o pacote na algibeira do paletó, do qual fez uma rodilha e improvisou um travesseiro; em seguida deitou­se e adormeceu logo, porque estava muito cansado.
Só daí a três dias conseguiu encontrar­se com o Portela. Este, que já vivia desesperado com o sumiço dos documentos, e supunha que João Rosa pretendia especular com eles, ficou muito satisfeito com as primeiras palavras do Ruivo.
— Está tudo aqui! disse o gatuno, mostrando o pacote. Se quiser fazer negócio, é questão decidida!...
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— Eu dou­lhe uma boa gorjeta...
— De quanto? perguntou o gatuno.
— Deixe estar que por isso não havemos de brigar...
E apresentou uma nota de cem mil réis.
— O que é lá isso!... Um conto dava o senhor ao outro!
— Pois você imaginou que eu seria capaz de lhe dar um conto de réis?
— Foi o senhor mesmo quem marcou o preço, lá no Passeio Público.
— Sim, mas isso era para descontar o que me deve aquele sujeito. Com você o caso muda de figura. Tenho de pagar em dinheiro!
— Pois eu só entrego os papéis por um conto de réis.
— Não! dessa forma não quero.
— Bom, nesse caso farei deles o que bem entender. Já sei quem nos há de comprar...
— Não seja tolo, porque esses papéis não têm valor para mais ninguém.
— Paciência! Ficarão comigo. Eu também gosto de fotografias..
— Quer duzentos mil réis?
— Nem quatrocentos.
— Pois então faça o que entender!
— Adeus, disse Ruivo, afastando­se.
— Olhe! volveu o outro. Dou­lhe quinhentos...
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— Não vai nada! respondeu o Ruivo. Quer dar o conto ou não quer?
— Ora, vá pentear monos! exclamou Portela certo de que o gatuno havia de voltar, quando se convencesse de que não alcançaria maior pagamento.
Mas Pedro Ruivo não voltou, e Portela, que por essa época havia tomado a seu serviço o Talha­certo, encarregou a este tratante de alcançar os papéis das mãos do súcio.
— Nem é preciso dar­lhe nada! afirmou o capanga com ar de quem confia muito em si. Pode ficar descansado, patrão, que os papéis hão de aqui chegar, quer aquele bisbórria queira, quer não queira!
A coisa, porém, não era assim tão fácil. Talha­certo não conseguiu, como supunha, alcançar imediatamente os papéis do poder de Pedro Ruivo. E Portela, poucos dias depois, ao passar pela rua dos Ourives, teve que esconder­se no primeiro corredor, porque o gatuno, logo que o viu principiou a gritar­lhe com as mãos nas cadeiras:
— Então, comendador, seu capanga está encarregado de arrancar­me os seus documentos, hein?! Quer ver se pilha a coisa sem puxar pela bolsa! Está enganado, meu amigo, ou o senhor cai com o cobre, ou tudo aquilo vai publicadinho no jornal. É escolher!
E, desde então, o Pedro Ruivo se converteu para o negociante de vinhos em uma sombra perseguidora. Portela já estava resolvido a dar­lhe o conto de réis, ou mais, contanto que se visse livre dele por uma vez; porém, temia agora entrar em qualquer ajuste, porque o maldito se punha aí a gritar e a fazer escândalos.
Talha­certo ofereceu­se ainda para o despachar com uma boa navalhada.
— Isso é pior! respondeu o Portela; você não lhe dava cabo da pele e o homem afinal ficava mais assanhado! Além do que não 325 de 371
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me convém assassinar pessoa alguma... O melhor é dar­lhe o dinheiro e ficarmos livres por uma vez dessa massada.
E assim resolveram. Talha­certo começou a procurar Pedro Ruivo; mas este não aparecia. Ninguém sabia dar notícias dele.
Pedro Ruivo não era encontrado na capital pelo simples fato de haver partido poucos dias antes para S. Paulo, à sombra de um fazendeiro de boa­fé, que se deixou comover pelas lábias do velhaco. O aventureiro ainda possuía o talento de impressionar, quando estava de maré para jogar com a fisionomia. O Portela é que não podia ficar tranquilo, enquanto não estivesse senhor dos documentos, e recomendava sem cessar ao seu capanga que se não descuidasse nas pesquisas.
Mas deixemos tudo isso de parte. Tenha a bondade o leitor de unir os pés, encolher os braços, dobrar ligeiramente as pernas e dar ao corpo o impulso necessário para um novo salto. Vamos pular por cima dos episódios, que medeiam desde as cenas da Avenida Estrela até àquela crítica situação em que deixamos Gregório ao lado de Olímpia no pequenino chalé da Tijuca.
Não precisa empregar o leitor toda a sua força de músculos, porque o salto, se comporta muitas cenas, não abrange todavia muito tempo.
Pronto! Estamos novamente em casa do comendador Ferreira. O Dr. Roberto segue viagem para o norte. Olímpia parecia já consolada da morte de Scott, e o velho Jacó acompanha fielmente aos amos.
São sete horas da tarde. O sol mergulhou no horizonte, ensanguentando o céu. A natureza envolve­se no crepúsculo da noite para adormecer. O canto da cigarra vai amortecendo, à proporção que recrudesce no fundo dos vales o coaxar das rãs.
Na rua acendem­se os lampiões, os bondes passam de um quarto em um quarto de hora, e um piano da vizinhança soluça o Spirito gentil da Favorita.
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Penetramos no gabinete, onde deixamos Gregório, assentado aos pés de Olímpia. Ela acaba de erguer­se e de afastar­se, abandonando o pobre rapaz estarrecido de pasmo sob a impressão daquela terrível frase: “Você é um idiota!” O álbum, que os dois folheavam, jaz estatelado no chão. Gregório permanecia estático no seu tamborete, e olha com espanto para a cortina da porta, que ainda treme com o repelão que lhe deu Olímpia ao sair.
O comendador, que acabava de fazer a sua sesta, aparecia então na sala de jantar. A filha correra para ele, alvoroçada, passara­lhe os braços em volta do pescoço, e dera­lhe um beijo na face.
O velho, meio perturbado pela efusão daquela carícia brusca, ia pedir explicação dela, quando a rapariga lhe cortou a palavra, perguntando em que dia saía o primeiro paquete para a Europa.
— Hein?! o primeiro paquete?! Queres viajar?!
— Quero; quando sai o primeiro vapor?
— Não sei ao certo; talvez só no princípio do mês que vem...
— Não me serve! Quero antes. Que viagem há por estes dias?
— Mas que resolução é essa?...
— Ó meu Deus! Sempre os mesmos espantos! Pois o médico, e o senhor mesmo, não têm aconselhado constantemente que faça viagens?!...
— Sim, mas tu mostravas uma tal repugnância!...
— Mas já não mostro, ora essa!
— Bem. Vamos tratar disso...
— Então seguimos no primeiro vapor que sair!
— Para onde?! perguntou o pai, assustado.
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— Seja lá para onde for... O destino do primeiro que sair!
— Isso é loucura!
— Pois então seja! Não viajo! Acabou­se!
E Olímpia afastou­se para o seu quarto, de mau humor.
O velho foi encontrar­se com Gregório na sala de visitas. Jacó acabava de acender o gás.
Depois dos cumprimentos, o comendador, que vinha ainda impressionado pelas palavras da filha, principiou logo a falar sobre o projeto da viagem.
— Ah! D. Olímpia quer viajar?... perguntou Gregório.
— Quer, e é sangria desatada; quer meter­se no primeiro vapor que sair!...
— E a causa dessa resolução?
— Ora! a causa! nervos! Tudo aquilo são os nervos que estão trabalhando. Eu só peço a Deus que me dê paciência, ao menos até vê­la completamente restabelecida.
E o paciente velho, depois de dar uma volta pela sala, acrescentou com um gesto de contrariedade:
— E logo agora é que não está aí o Dr. Roberto. Ao menos se o Dermeval aparecesse!...
— O comendador o que resolveu?
— Eu, já se sabe, faço­lhe a vontade. O doutor disse que a não contrariasse!...
— Então sempre seguem no primeiro vapor?...
— Não sei se no primeiro, mas se Olímpia não mudar de resolução, 328 de 371
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iremos quanto antes. É o diabo, porque eu até precisava estar aqui por este tempo à testa de umas tantas coisas; além de que muito me custa deixar a casa assim ao desamparo, como aliás ela se acha desde que Olímpia caiu doente.
E, depois de urna pausa em que ambos ficaram a pensar, o comendador acrescentou:
— Homem, o senhor é que podia vir conosco!...
— Eu, exclamou o rapaz. É impossível! Posso lá viajar!...
— Não! isso até lhe seria muito útil... O senhor está em excelente idade de conhecer a Europa. Olhe, para não ir com as mãos abanando, eu o encarregaria da minha correspondência, pagando­lhe o trabalho. Então? Que tal lhe parece a ideia?...
— Não, não é possível, respondeu Gregório, perturbado. Tenho muito desejo de visitar a Europa, mas não nessas condições...
— É que o senhor nunca encontrará ocasião melhor.
— Sim, mas...
— O senhor não tem aqui família que o prenda; seu emprego não depende do governo; que, pois, o poderia impedir de fazer­nos companhia?...
— Não há dúvida, balbuciava Gregório, sem ânimo de resistir; mas é que não sei se farei bem em aceitar o seu convite...
— Ora, deixe­se de histórias, Gregório! eu conto com o senhor! Não me diga que não!
— Mas...
— Não admito razões! Sei que será para seu bem!
— Ora esta!... disse consigo Gregório, logo que se afastou o comendador. Isto não é o demônio? Pois eu a fugir do perigo, e o 329 de 371
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próprio pai a empurrar­me cada vez mais ao lado da filha!...
E, tendo refletido por alguns instantes, resolveu aceitar a situação.
— Vou! concluiu ele; aconteça o que acontecer! Aquela mulher não me tornará a chamar idiota!
Mas daí a pouco, quando se servia o chá, o comendador disse à filha:
— Sabe, sinhazinha? O Gregório vai conosco.
— Hein? perguntou ela, apertando os olhos. Conosco para onde?
— Ora essa! Já te não lembras? replicou o velho, rindo. Pois não estamos com uma viagem projetada?
— Ah! já nem pensava em semelhante coisa. E, se fôssemos, eu não consentiria que esse senhor se incomodasse em acompanhar­
nos...
— Oh! minha senhora, disse Gregório levantando­se; eu teria o maior prazer em...
— Sim, mas eu, repito, é que não consentiria!
E, quando ela ficou só com o pai, lhe perguntou logo que ideia extravagante era aquela de convidar um estranho para a viagem.
— Estranho é o que estás dizendo, menina? É a primeira vez que te vejo falar assim desse pobre moço. Tu te mostravas tão amiga dele; ficavas tão satisfeita quando ele te aparecia; sempre achavas bem escolhidos os livros, os jornais e as gravuras que ele te ofertava, e agora chamas extravagância convidá­lo para nos fazer companhia! Pensei até que, convidando­o te fosse eu muito agradável; além de que, eu e o Jacó nem sempre poderíamos em viagem estar ao teu lado, conversar contigo, e o Gregório coitado, parecia­me excelente para isso; mas, uma vez que já não pensas em viajar, nem precisamos estar aqui a falar ainda em semelhante coisa!...
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— Não. Eu estou disposta a fazer a viagem; ainda há pouco disse aquilo para não ter de declarar francamente que não aceitava a companhia de Gregório.
— Isso agora é que é o diabo! resmungou o comendador; já convidei o rapaz, ele não queria ir; insisti, afinal aceitou. Ora, com que cara vou eu dizer­lhe que fica o dito por não dito?! que diabo de desculpa lhe posso eu dar?!
— Pois então não dê desculpa nenhuma! não se fará a viagem!
— Mas tu tens alguma razão de queixa do Gregório?...
— Eu não tenho razão de queixa de ninguém!
— Mas então por que não queres que ele vá, minha filha? Se a tua viagem é um pretexto de distração, que mal faz mais um companheiro?
— Temos outra! disse ela. Pode o senhor provar quantas vezes quiser que será melhor levarmos o Gregório em nossa companhia, eu entendo que não e declaro que não estou disposta a ser contrariada!
— Está bom, não te zangues, minha filha, Gregório não irá conosco! Eu retirarei o convite que fiz.
No dia seguinte, com efeito, o comendador remeteu ao moço uma carta muito atenciosa, dizendo que havia pensado bem no sacrifício que exigira dele e estava agora resolvido a não o aceitar.
Gregório compreendeu tudo, mas dissimulou. À noite apareceu em casa do comendador e Olímpia o recebeu friamente. Durante o serão não lhe dirigiu a caprichosa uma só vez a palavra.
O rapaz voltou dessa visita muito contrariado e triste.
Não pôde dormir; a imagem de Olímpia não lhe saía da cabeça.
— Sou mesmo um idiota! repetia ele, a voltar­se de um para outro 331 de 371
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lado da cama. Sou um idiota! ela tem toda a razão! Pois se a desejo, se a adoro e se me não posso fazer seu marido, por que a repeli tão asnaticamente?
No dia imediato apresentou­se de novo em casa do comendador, às mesmas horas do célebre episódio do álbum. O velho, como então, fazia a sua sesta; Olímpia passava os olhos por um livro, assentada no jardim, debaixo de um caramanchão.
Gregório entrou sem ser sentido, encaminhou­se para ela, pé ante pé, e, quando a teve ao seu alcance, deu um salto para a frente e surpreendeu­a com um beijo na boca.
Pela noite desse mesmo dia, quando Gregório se retirou da casa do comendador, Olímpia disse ao pai que já estava resolvida a consentir na viagem em companhia do rapaz.
— Então para que me obrigaste a destruir o meu convite?... Ora aí está uma dessas coisas com que deveras me aborreço!
— Mudei de resolução! respondeu Olímpia, sem erguer os olhos.
— Tanto pior para ti, replicou o pai, porque agora o passo está dado! Eu não hei de voltar atrás ainda uma vez! Havia de parecer caçoada; além do que, ele com certeza não aceitaria!...
— Encarrego­me eu do convite, disse Olímpia, sem se perturbar.
— Estou pressentindo é que acabarás por me fazeres ridículo aos olhos daquele moço.
No dia seguinte estavam de mudança para Botafogo. A viagem ficara resolvida para a primeira quarta­feira. Iriam para Lisboa em um paquete francês que havia de sair nesse dia.
Não fizeram itinerário. Demorar­se­iam em cada lugar o tempo que lhes apetecesse. Se Olímpia aproveitasse com a viagem, eles seguiriam adiante, iriam a Paris, talvez chegassem à Inglaterra. Não sabiam ainda se teriam de demorar meses ou anos.
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A casa de Botafogo ficara em uma grande desordem. Durante os poucos dias que precediam à viagem, o comendador não podia descansar um instante. Era preciso ordenar seus negócios, escrever cartas para a direita e para a esquerda, passar procurações, fechar o testamento e deixá­lo em poder do Figueiredo.
Quatro dias era muito pouco tempo para tanta coisa. Mas o velho não descansava.
Olímpia parecia reanimada com os sobressaltos daquela viagem. Vivia alegre, esperta, falava com vivacidade, preparava­se com muito interesse, consultava os guias de viajantes, estudava mapas da Europa, discutia sobre as roupas que mais convinha levar. À mesa não se tratava doutra coisa; imaginavam­se peripécias, calculavam­se os episódios que haveriam de surgir quando se afastassem do Brasil.
Dois dias antes da saída do vapor, o comendador passara a manhã todo ocupado no seu gabinete. Interrompeu o trabalho para almoçar, porém mal sorveu o último gole de chá, recolheu­se de novo, fechando a porta sobre si, depois de recomendar que o não interrompessem.
Gregório ficou à mesa com Olímpia. Não disseram palavras por alguns segundos, mas quedaram­se a olhar um para o outro, embevecidos, enamorados.
— Tu gostas muito de mim?... murmurou ele afinal, segurando­lhe uma das mãos.
— Se gosto!... respondeu ela, ameigando os olhos.
Mas tiveram logo de mudar de atitude, porque o copeiro apareceu para levantar a mesa.
Olímpia propôs que se passassem para a sala de trabalho. Gregório acompanhou­a.
— Sabes de uma coisa? segredou­lhe a filha do comendador, 333 de 371
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assim que se viu a sós com ele. Tu ainda és muito tolo!...
— Por quê? perguntou Gregório, tomando­a pela cintura.
— Por muitas coisas... respondeu ela, com a voz alterada... Às vezes tenho receio do futuro! Tu és muito criança!...
— Que tem isso, se te adoro, minha Olímpia?
— Tenho medo das consequências! Quando me lembro do modo austero pelo qual eu própria acusava as mulheres levianas... fico envergonhada, acredita!
— Não penses nisso!...
— Não posso deixar de pensar. É tão bonito uma mulher conservar­
se honesta!...
— Não penses nisso, repetiu Gregório, procurando chamá­la ao amor.
Olímpia ia abandonar­se, quando um barulho surdo, de corpo que cai no soalho, a sobressaltou.
— Que é isto?! exclamou ela, correndo para a porta, trêmula.
Jacó e os outros servos haviam já acudido ao estranho ruído. O choque partira do quarto do comendador. Jacó começou a bater na porta do gabinete. Ninguém respondia.
— Que sucedeu a meu pai?! gritou Olímpia, já muito pálida, sem poder dar mais um passo, porque o corpo lhe tremia todo.
Ouviram­se então uns roncos guturais dentro do gabinete.
— Ai! gritou Olímpia, perdendo os sentidos e estrebuchando. Gregório apoderou­se dela, enquanto os criados arrombavam a porta do quarto do comendador.
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Encontraram­no estendido no chão, roxo, com os olhos no branco, a boca aberta, a língua inchada, e os membros contraídos. A burra estava afastada do seu lugar, via­se o segredo da parede aberto e vazio. Sobre a mesa papéis revoltos. O quarto em desordem, denunciava que pouco antes houvera ali a busca desesperada de qualquer objeto.
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XXVIII
PERPÉTUAS, VIOLETAS E CAMÉLIAS
A casa ficou logo numa grande atrapalhação. Olímpia foi conduzida em gritos para o seu quarto. Dois criados correram a chamar o primeiro médico que encontrassem, e Jacó ajoelhou­se soluçando ao lado do amo.
Ninguém mais se entendia. Figueiredo, que fora prevenido da catástrofe, apresentou­se esbaforido, a perguntar o que sucedera naquela casa. Ninguém sabia explicar o que era.
Chegou afinal o médico. O comendador passou carregado para a alcova, e o seu ex­sócio, com o bom senso prático de que dispunha, tratou logo, inalteravelmente, de vedar a quem quer que fosse a entrada no gabinete.
Mais tarde apareceram outros facultativos e começaram logo a chegar visitas de amizade.
Olímpia ficou prostrada de febre; as crises repetiam­se lhe quase sem intermitência. O Dr. Dermeval não lhe abandonava a cabeceira.
O comendador expirara à meia­noite, depois de esgotados todos os recursos da medicina; e, como não pudessem contar com a filha, que continuava sem dar acordo de si, o subdelegado da freguesia, acompanhado de competente escrivão, mandou proceder à aposição dos selos nas portas do gabinete em que se achava o incompleto testamento do morto.
Só dois dias depois, quando alcançaram cinco testemunhas, a mesma autoridade tornou a abrir as portas, para se formar o testamento nuncupativo.
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Olímpia por esse tempo havia sido conduzida já para a casa do Figueiredo. Não lhe disseram que o pai deixara de existir.
O enterro saiu às cinco horas da tarde do dia imediato ao falecimento do comendador. Foi muito concorrido. O comércio abalou­se; os carros formaram uma serpente negra, que se estendia por toda a praia de Botafogo. Um poeta da época, amigo de algum dos caixeiros do Figueiredo, recitou uma poesia, de que se falou depois, entre negociantes, com muito agrado, e o Jornal do Comércio publicou, na sua parte ineditorial, um artigo sério a respeito do falecido, pondo­lhe em relevo as qualidades práticas, as suas virtudes de pai de família e os serviços que ele em vida prestara ao Brasil, como sócio benemérito de várias instituições filantrópicas.
O testamento do comendador Ferreira causou muita impressão; era um testamento original. O pobre homem fora surpreendido pela morte, justamente na ocasião em que reunia os seus papéis e formulava as suas disposições. Encontraram um aglomerado de notas e declarações.
Havia várias referências. O falecido deserdava a mulher, porque se casara com escritura de separação perpétua de bens. Referia­se o testador a uma declaração de Luiz Portela, a qual não apareceu no lugar indicado; havia também uma referência acerca de certo cofre de ferro, contendo cinco mil libras esterlinas, que o falecido legava à sua filha Olímpia. O cofre não apareceu igualmente.
Deram­se logo as providências para se proceder a inquérito no empregado que se encarregara da escrita do comendador e no pessoal da casa. João Rosa estava ausente.
Constava ainda, nas disposições do morto, de um legado de vinte contos destinados ao advogado que se quisesse encarregar de proceder contra Portela. E, no caso que esse dinheiro não pudesse ter semelhante aplicação, deveria reverter, no fim de dez anos, em benefício do Gabinete Português de Leitura. Isso mesmo dizia o falecido em uma carta dirigida à redação do Jornal do Comércio.
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O mais eram disposições sobre bens móveis e imóveis.
Portela achou muito prudente ir à Europa buscar um novo sortimento de vinhos. Mas um amigo seu, entendido em tricas do foro, afiançou­lhe que as declarações do comendador não faziam fé perante a lei.
— Portela que estivesse descansado: não lhe poderia suceder por aí violência alguma.
O homem, porém, não se tranquilizou com isso, e deu de velas para Portugal. O que ele temia não era precisamente ter de cumprir com as determinações do defunto; mas era cair no ridículo e desmoralizar­se aos olhos da mulher a quem pretendia para esposa: aquela agregada da casa de D. Januária, de quem vamos agora tornar a falar.
Chamava­se Matilde.
Não conhecera os pais. O tutor havia três anos, quando ela tinha quinze, retirou­a do colégio para a confiar aos cuidados da velha Januária.
Esse tutor era um velho farmacêutico, que enriquecera a curar feridas de mau caráter a cinco mil réis por cabeça. Homem de inalterável economia e de uma saúde inquebrantável. Poucas pessoas, raríssimas, o conheceram mais moço. Há vinte anos era aquilo mesmo que se via agora.
Cabelos curtos, grisalhos, cara toda raspada, boca seca, dentes magníficos, ombros largos, pouca barriga e pouca estatura. Enviuvara aos quarenta anos para nunca mais casar. Agora tinha setenta. A esposa não lhe deixara filhos, mas ele arranjara dois naturais, um dos quais trabalhava em sua companhia na farmácia; o outro nunca tomara caminho, caíra na vagabundagem e era de vez em quando recolhido à estação de polícia, bêbedo.
O velho chegara­lhe ao pêlo por várias vezes uma bengala de cana da Índia, que trazia sempre consigo. Mas da última o peralta 338 de 371
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ganhara a rua, gritando ao pai que, em vez de lhe abrir feridas nas costelas, melhor seria que as fosse fechar aos fregueses! E nunca mais apareceu.
O farmacêutico também não queria ouvir falar em semelhante biltre: “Que o leve o diabo!” resmungava ele, quando alguém lhe levava notícias do filho. “O governo é que há muito tempo lhe devia ter pregado o côvado e meio de cano às costas. Para não ser ruim! Peste de um vadio!”
O farmacêutico era muito excêntrico, era um tipão: não tirava da cabeça o seu grande chapéu de pêlo de seda, cuidadosamente alisado. Às seis horas da manhã já estava de pé ao balcão da botica, a curar feridas, a despachar receitas, a misturar unguentos e embolar pílulas; às nove horas subia para almoçar, e mal terminado o almoço, voltava ao trabalho, sem nunca descobrir a cabeça. O jantar era justamente a mesma coisa que o almoço, com a diferença das horas. De resto não ia a teatros, não visitava ninguém que estivesse de saúde, e o tiro das nove da noite já o encontrava dormindo, não de chapéu, mas de barrete de algodão; o outro, o seu companheiro de todo o dia, o chapéu, esse descansava então ao lado da cama, dentro de uma caixa de couro.
Era muito popular, muito conhecido, se bem que pouco estimado. Contavam dele algumas anedotas engraçadas e pequeninos fatos de grande miséria.
As circunstâncias que fizeram dele tutor de Matilde, não podem interessar a ninguém. A rapariga era filha de um sujeito, outrora seu caixeiro, e que lhe pedira na hora da sua morte tomasse conta da pequenita. Como o agonizante deixava para aí fortuna superior a quatrocentos contos, o farmacêutico encarregou­se da tutoria, chegando­se mais tarde a dizer até, pela boca pequena, que ele especulava com os bens da órfã.
Contos largos! O certo é que Moreira, tal se chamava o farmacêutico, por mais de uma vez dera aos demônios semelhante massada, e jurara, sem tirar o chapéu da cabeça, que nunca mais 339 de 371
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cairia na esparrela de se fazer tutor de ninguém! “Nem de meu próprio pai, que se apresentasse!” bradava ele cheio de indignação. Entretanto Matilde bem pouco lhe poderia dar que fazer, porque era de seu natural não exigente e sumamente dócil.
Nada tinha ela de bonita, nem de espirituosa, mas dispunha de um todo simpático e bondoso. Não atraía pelos encantos, mas encantava pela simplicidade dos seus gostos, pela doçura da sua voz e pela docilidade do seu gênio.
O áureo cheiro do dote dava­lhe a muitos olhos certo prestígio, e puxava sobre ela as vistas cubiçosas de uma matilha de galfarros. Mas de todos os pretendentes era Portela o que até aí parecia preferido, tanto pela abastada rapariga, como por D. Januária, cuja opinião não devia ser para desprezar em semelhante assunto.
D. Januária gozava para o Moreira, e para muita gente, imaculada reputação de honesta. Em sua longa e pobre viuvez ninguém achara jamais com que lhe enodoar a pureza dos costumes e a austeridade da conduta.
Ser honesta ao lado de um marido moço, e forte, e de cujas mãos caíam nas da mulher os recursos necessários para manter confortável e decentemente a vida, muito pouco será; mas ser honesta, quando é preciso tirar da agulha e do ferro de engomar os meios de subsistência; ser honesta aos vinte anos, quando temos a bolsa pobre e o sangue rico; quando o armário está vazio, mas a imaginação cheia; quando a cozinha está gelada, mas o coração encandecido; ser honesta com os cabelos pretos, a tez limpa e fresca, os olhos brilhantes e formosos; ser honesta quando se tem todos os dentes e não se tem o que comer; quando se tem um colo branco e macio e não se tem com que o resguardar — isso é muito, isso é extra­ordinário!
Januária foi assim. Enviuvou pouco depois de casar e, aos vinte anos, em plena mocidade, na primavera dos seus encantos, quando lhe verdejavam e floresciam as esperanças no coração, 340 de 371
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ela resistiu a todas as vozes sedutoras, que lhe suspiravam e gemiam em torno dos ouvidos, como se a alma apaixonada de Tenório andasse errante pelo espaço, a cantar eternamente os seus amores egoístas.
Ofereceram­lhe sedas, joias; falaram­lhe em carruagens; mostraram­lhe, da miserável janela da sua mansarda, o mundo feliz que lá embaixo se embriagava de prazer. E o marulhar daquele oceano de gozos, e o crepitar dos risos e dos beijos, e o ruído quente dos almoços no campo, pelas manhãs de verão, à sombra das mangueiras ou ao sussurrar das cascatas da Tijuca; nada venceu conquistá­la.
Embalde o champanha transbordou das taças o seu aljôfar inebriante; embalde Offenbach atirou aos ares as notas endemoninhadas das suas partituras; embalde os carnavais, os vaudevilles, os hotéis, os circos e as corridas estridularam por toda a parte, chamando à loucura, ao prazer, ao riso! A pobre viúva fechou­se a tudo isso e continuou a aviar encomendas de costura, ao lado de uma velha patativa, que possuía do tempo do marido.
Foi nesse tempo que conheceu o farmacêutico. Januária, quando escassearam as encomendas de costura, desfiava linho usado, para vender o fio nos hospitais e nas casas de caridade. Moreira era um dos seus bons fregueses. Já por essa época explorava ele, com muito sucesso, as feridas do próximo.
Era moço então — teria trinta e cinco anos; não sabemos se já gozava da singular mania do chapéu, mas podemos afirmar que foi ele um dos primeiros demônios dos que tentaram desviar a formosa e ríspida viúva da perfumada e santa obscuridade em que vivia.
A princípio, o farmacêutico, cujos negócios da botica iam já perfeitamente encaminhados, supôs a coisa muito fácil de resolver e declarou francamente a Januária as intenções que mantinha a seu respeito.
— A senhora deve ter uma casita melhor e mais guarnecida do 341 de 371
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que está, disse ele, com o aspecto desinteressado e superior de quem gosta de fazer o bem pelo bem; deve igualmente passar melhor de boca e poder contar com certas comodidades e certos arranjos domésticos. Roupa, por exemplo: a senhora quase que não tem o que vestir! O querosene estraga­lhe a vista; e este trabalho, tão puxado, pode vir a dar­lhe com os ossos no cemitério! Deve a gente trabalhar para viver e não para matar­se! A senhora puxa demais pelas forças, abusa do trabalho; é impossível que isso não lhe venha a fazer mal!...
— Que remédio!... respondeu ela, com um gesto de resignação; as costuras dão agora tão pouca coisa!...
— Mas para que só conta com as costuras?... A senhora precisava de alguém que a ajudasse; algum rapaz decente e de bons costumes que a protegesse...
— De que modo? perguntou ela, talvez compreendendo já a intenção do farmacêutico.
— Ora, de que modo! Há tantos modo de proteger uma pessoa!...
— É por isso mesmo que eu pergunto qual deles é...
— Que modo há de ser?... ligando­se à senhora... Diga­me uma coisa: se lhe aparecesse um rapaz nessas condições e que estivesse disposto a fazer o que eu disse, a senhora não o aceitaria?
— Ah! se ele fosse boa criatura e caso se agradasse de mim... não digo que não... mas qual! interrompeu ela com um sorriso triste e ao mesmo tempo gracioso; quem hoje escolhe uma viúva pobre como eu?...
— Quem?! exclamou o Moreira esquentando­se. Um rapaz que eu cá sei!...
— O senhor está gracejando!... observou ela.
— Por Deus que falo a sério!
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— E esse rapaz quem é?
— A senhora o conhece...
— Pode ser, mas eu conheço tanta gente!...
— Ele não está longe daqui...
— Não entendo...
— Um pobre farmacêutico, chamado Moreira; não é rico, nem tem dotes físicos, mas passa por boa pessoa...
— O senhor?! perguntou ela, franzindo as sobrancelhas.
— Sim, minha querida Januária, respondeu ele procurando segurar­
lhe uma das mãos. Há muito tempo que estou doido por dizer­te isto, mas...
— Mas como, se o senhor é casado?!
— E que tem isso?... Acaso, por ser casado, não posso tomar conta de uma mulher a quem ame?...
A viúva afastou­se tranquilamente, sem um gesto de indignação, e, quando chegou à entrada do seu quarto, voltou­se e disse ao Moreira com toda a calma:
— O senhor pode retirar­se e tenha a bondade de não voltar aqui, porque não o receberei. Diga a sua mulher que o vestido de fustão está pronto, e que me desculpe não lhe aparecer mais em casa para ir buscar as outras encomendas.
E fechou­se no quarto.
O farmacêutico ficou a olhar um instante para a porta fechada.
— Ora esta! disse ele afinal e ganhou a rua, aborrecido com aquela decepção, mas instintivamente penetrado de respeito pelo caráter da viúva; o que aliás não impediu que, daí por diante, nem 343 de 371
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só não lhe desse mais trabalho e não lhe comprasse o fio, como também ainda se empenhasse com alguns seus conhecidos para que fizessem outro tanto.
O resultado foi que a viúva, ao fim de pouco tempo, se achava a braços com um milhão de dificuldades e via, aflita, chegar o momento terrível em que fosse preciso um pedaço de pão para matar a fome, e não houvesse.
Então resolveu alugar­se como criada em casa de alguma respeitável família. Apareceu­lhe arranjo. Era uma gente que morava para além do Campo de Santana, nesse tempo ainda muito pouco concorrido.
A princípio custou­lhe bastante afazer­se ao seu novo estado, mas o desejo de viver honestamente, a necessidade ingênita de conservar­se virtuosa, triunfaram de todos os obstáculos, e Januária conseguiu passar alguns anos a servir sem nunca relaxar os seus princípios de peregrina austeridade.
Quando lhe principiaram a secar as faces, e os lábios começaram a empobrecer de frescura e rubor, foi solicitada por D. Henriqueta dos Santos (aquela com quem se casou Leão Vermelho) para ajudá­la no serviço da sua casa de pensão.
Só a morte da mãe de Clorinda conseguiu separá­las. As duas, como já sabe o leitor, se tinham feito muito amigas. Januária possuía o segredo de viver bem com uma pessoa do seu sexo, o que aliás é muito raro entre mulheres. Era muito condescente asseada, ativa, amiga de servir e agradar. Ninguém lhe ouvia uma frase de cólera, ninguém lhe surpreendia um momento de mau humor. O sorriso parecia fazer parte intrínseca de seus lábios; seus olhos eram doces e transparentes como os olhos de uma criança. Naquela fisionomia calma e cheia de bondade, não havia ressaibo de ressentimento ou de ódio; nela tudo respirava resignação e paciência. As necessidades mortificadoras da sua triste vida não lograram azedar­lhe o sangue e derramar­lhe bílis no coração.
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Como não seria bom o homem que nascesse dessa mulher. Como não seria feliz a criatura que fosse em pequenina aquecida nas asas daquele anjo! E ela, que possuía todas as sutilezas da ternura, todos os mistérios do amor legítimo e fecundo; ela, que parecia ter vindo à terra só para cumprir um destino de sacrifícios e de abnegação; ela, como não saberia ser mãe! como não saberia dar­se toda ao entezinho querido que lhe saísse das entranhas!
Entretanto Januária nunca desfrutou essa ventura; e quando nasceu Clorinda, ela deu à filha da amiga, à sua afilhadinha, todo o farto tesouro de ternura maternal que lhe enchia o coração.
Não precisa o leitor de que lhe lembremos os sucessos determinados pelo casamento de Leão Vermelho, e sabe decerto, tão bem como nós, que, depois da morte de Henriqueta, a pequenina Clorinda ficou entregue aos cuidados da madrinha, enquanto o desventurado pai fugia para a pátria, desesperado e perseguido.
Foi pouco depois disso que o farmacêutico, já então viúvo e adiantado em anos, vendo­se na contingência de retirar Matilde do colégio e confiá­la a alguma senhora verdadeiramente honesta, se lembrou de procurar a velha Januária e lhe pedir que tomasse conta da abastada órfã.
D. Januária aceitou; o que mais tarde abriu lugar ao namoro de Portela com Matilde.
Mas, deixemos por hora tudo isso de mão, para darmos conta final dos outros personagens que foram ficando abandonados pelo caminho, e irmos encontrar­nos de novo com Olímpia e espreitar a posição que, ao lado dela, toma o nosso Gregório.
À filha do comendador muito custou consolar­se da perda do pai. O Dr. Dermeval viu­se em sérias dificuldades para a erguer do estado de abatimento em que ficara.
Olímpia transformou­se durante os quinze dias que sucederam à morte do comendador; fez­se muito abatida, muito mais magra e 345 de 371
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mais nervosa. Eram precisos mil cuidados para evitar­lhe as crises. Em algumas rodas dizia­se até que a mulher do Gonçalves não estava muito boa da cabeça. Isso, porém, não tinha fundamento algum; o que ela estava era sumamente hipocondríaca, profundamente aborrecida e desconsolada.
Gregório ficou desapontado com semelhantes transformações; supunha ele que, depois da morte do comendador, Olímpia lhe pertenceria mais exclusivamente; que desapareceriam os sobressaltos, os riscos, as torturas de todo o instante. E não se lembrava o inexperto de que é precisamente desses pequeninos casos, excitantes e provocativos, dessas galantes contrariedades, desses passageiros obstáculos, que se alimentam os amores, cujas raízes grassam mais pela fantasia do que pelo coração.
Olímpia, logo que se sentiu independente, logo que pôde estar à vontade com o amante todas as vezes que lhe apetecia, começou a enfraquecer de interesse por ele, a possuir­se de fastio por aquele amor que ia amornecendo e caindo a pouco e pouco na vulgaridade das coisas fáceis e obscuras.
E, quanto mais Olímpia se retraía, mais se empenhava Gregório em chamá­la ao seu afeto; já procurando lembrar­lhe os sonhos venturosos do passado, já provocando, com artifício, novas situações armadas ao sabor do espírito romanesco do amante. Tudo, porém, era debalde. Olímpia não se mostrava menos enfastiada e parecia suportar o rapaz apenas por condescendência.
Um belo dia Gregório apareceu pouco antes do que era de costume.
— Ah! é você?... disse ela com o ar fatigado.
— Sei que não devia vir, respondeu ele, da porta, sem largar o chapéu; já não sou desejado...
E depois de observar o efeito que produziu a sua frase em Olímpia, acrescentou, pondo uma expressão de queixa nas palavras:
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— Agora chego sempre cedo demais!... Reconheço que só posso ser agradável pela ausência!...
A caprichosa não respondeu, e ficou a olhar demoradamente para as unhas da mão direita. Houve um silêncio de alguns segundos.
Gregório afinal aproximou­se dela e passou­lhe um braço na cintura.
— Para que me tratas deste modo? perguntou ele. Que fiz eu para merecer tamanha indiferença... Por que me fazes padecer tanto, Olímpia?... Sabes perfeitamente que és a única consolação que me resta na vida! a minha única ventura, minha única...
Ela o interrompeu para lhe perguntar onde se encontraria um jardineiro que se quisesse encarregar da chácara, porque o preto velho que lhe fazia esse serviço, dera ultimamente para beber e estava insuportável; ainda na véspera se apresentara tão embriagado que, na ocasião de entrar no jardim, fora de encontro a um belo jarro de louça vidrada e lançara­o por terra.
Olímpia não se podia conformar com semelhante perda! O seu querido jarro fazia imensa falta na chácara! Ela o estimava muito! Fora um presente do Porto, de um amigo de seu pai. Aqueles jarros ali estavam havia anos; era preciso que viesse a lesma do jardineiro para reduzir um deles a cacos!
— Bruto! resumiu ela, empenhada na sua indignação! Quebrar um objeto que eu prezava tanto!...
As palavras da filha do comendador caíram sobre Gregório como um jato de água fria dentro de uma caldeira a ferver. Ele empalideceu de raiva ou talvez de vergonha, e fez um movimento brusco para sair.
— Já vai? perguntou a rapariga, com um ar entre delicado e indiferente.
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— Decerto! respondeu Gregório; que fico eu fazendo aqui?...
— Então não se esqueça do que lhe disse; e, se puder descobrir um jarro parecido com o que ficou na chácara, tenha a bondade de comprá­lo. Olhe, o melhor é ir lá abaixo vê­lo antes de sair. Venha comigo; faço muito empenho nisto! Venha!
E largou da sala, a encaminhar­se para a chácara.
Gregório prometeu ir em outra ocasião; naquele momento estava com pressa.
Olímpia dispunha­se a insistir no seu pedido quando a criada apareceu, muito esbaforida, dizendo que o Guterres acabava de expirar.
— Coitado! Já!? perguntou a senhora, com o ar de quem esperava por aquela notícia. E voltando­se para Gregório:
— É um vizinho aí defronte. Estava muito mal. Há quinze dias que penava!...
— Ah! balbuciou Gregório.
— Bom homem. Muito sossegado, muito agarrado à mulher. Ele esteve aqui, dizem, por ocasião da morte de papai e ofereceu­se para ajudar no que fosse necessário.
E depois de uma pausa, acrescentou:
— A Júlia, coitada! deve estar muito aflita... É a mulher, explicou ela, em resposta a um gesto de Gregório. Bela moça, muito dada, muito amiga de obsequiar. Já esteve aqui duas vezes. Eu vou fazer­
lhe companhia esta noite...
— Talvez isso não lhe faça bem!... observou Gregório.
— Ora! desdenhou Olímpia. Já não estou doente; além de que, tenho obrigação de ir. Ela se mostrou sempre tão minha amiga!... Está a mandar­me constantemente lembrançazinhas de amizade. 348 de 371
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Vou mostrar­lhe um açafate de papel, com o retrato dela. Deu­mo na semana passada. Quer ver?...
Gregório disse que sim por comprazer.
Olímpia foi buscar o açafate. O retrato, em fotografia, estava no fundo, entre uma cercadura de papel bordado.
— Eu conheço esta mulher! disse Gregório logo que olhou para o retrato. Esta é a Júlia Guterres!
— Ah! já a conhecia?
— Já. Uma atriz...
— É exato, ela foi do teatro; mas o marido não quis que continuasse. Você algum dia a viu representar?
— Não.
Gregório saiu afinal, resolvido a não tornar ao lado de Olímpia.
Uma semana depois, recebeu dela uma carta. Pedia­lhe que aparecesse. “Ele estava um ingrato; também isso não admirava, porque, segundo o que Olímpia ouvira dizer, Gregório não perdia uma noite do Alcazar, e andava apaixonado por uma francesa. Ela sabia de bonitas coisas a seu respeito!” Falou em certa orgia no Hotel Paris. A carta terminava pedindo ao rapaz que fosse domingo jantar com Olímpia. A viúva Guterres estaria presente e desejava conhecê­lo.
Gregório leu cinco ou seis vezes aquelas palavras.
— Devia ou não devia ir?...
Não foi. Mandou um bilhete, pedindo desculpas, e não apareceu.
Um mês depois, nova carta. Era mais extensa e mais recriminatória; Olímpia queixava­se amargamente do proceder de Gregório e pedia­lhe ternamente que a fosse ver. Ele ainda desta vez não foi.
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Entretanto Gregório principiava a ganhar reputação de estroina. Um dos seus companheiros da pândega era o padre Beleza; padre ainda moço e levado da breca. À noite metia­se em roupas seculares, escondia a coroa e atirava­se para o Alcazar, onde floresciam nesse belo tempo as pernas da Aimé. O Beleza era quase sempre cabeça de motim e jogava capoeira como os mais entendidos da matéria. Contavam dele façanhas terríveis. O bispo não conseguia corrigi­lo.
Olímpia escreveu ainda duas cartas a Gregório, sem ter melhor êxito que das primeiras. Na última jurara que, se ele não lhe aparecesse nesses dias, nunca mais lhe daria uma palavra.
Foi então, isto é, seis meses depois do rompimento de Gregório com Olímpia, que o padre Beleza o convidou para uma festa.
Era o batizado da filhinha de uma das suas comadres.
O rapaz aceitou e foi, sem prever que esse passo tinha de representar um importante papel na sua vida.
Só depois de lá estar, soube que a madrinha da criança se chamava Júlia Guterres.
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XXIX
O BATIZADO
A casa da festança era em Catumbi, pouco adiante do lugar até onde mais tarde havia de chegar a linha de bondes.
Um casarão antigo e abafadiço, com janelas de peito e dois degraus de cantaria à porta da rua.
Para se chegar lá, subia­se uma pequena ladeira à esquerda, enquanto se deixava à direita um correr de casas, que lá se iam estendendo, até confinarem com o pardacento e melancólico muro do cemitério de S. Francisco de Paulo.
Seriam quatro horas da tarde quando os dois se apearam do carro que os conduzia. O padre Beleza deu o braço a Gregório e seguiram.
— É ali! disse ele, apontando para o casarão. O outro olhou indiferentemente na direção indicada pelo companheiro.
O tempo estava duvidoso; parecia vir chuva. O céu cor de pérola, apenas em alguns pontos mais vizinhos do horizonte abria rasgões de uma claridade desbotada e brancacenta.
Os montes de Santa Teresa, atufados na verdura felpuda e trêmula, enchiam­se de sombra. Palmeiras, destacadas e solitárias, abriam para o céu, aqui e ali, as suas estrelas irrequietas e murmurosas. Toda a natureza se ressentia de um triste aspecto de recolhimento; só os carrapateiros quebravam a uniformidade melancólica da verdura com o seu verde Paris, cru e alegre. Em vários lugares, por entre o relvejar do capim, aparecia a custo uma nesga de terra avermelhada, cor de carne em conserva. Mais para o sopé dos montes, casinhas, pintadas de claro, apareciam no sombrio das matas com os ângulos das suas fachadas de madeira.
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Não havia raios de sol, nem sombras projetadas no chão. As montanhas desenhavam minuciosamente no fundo plúmbeo do céu o seu contorno acidentado e guarnecido de árvores.
Gregório e o companheiro acabavam de entrar na casa de batizado.
Veio recebê­los à porta um sujeito gordo e muito alto, cheio de vermelhidão, olhos claros, azulíssimos, cara raspada, pouco cabelo na cabeça e o pouco que havia quase todo branco. Esse sujeito tocava trompa nas orquestras de teatros e, pelo entrudo, trabalhava de enderecista para as sociedades carnavalescas. Era homem popular, prezava­se da estima de algumas pessoas de gravata lavada, mas não desdenhava a amizade dos colegas.
— Olá! olá! Viva o nosso reverendo padre Beleza! exclamou ele. E puxou familiarmente o padre para o corredor, enquanto esse lhe apresentava Gregório. Vão subindo! vão subindo! Aqui não se faz cerimônias! Estejam em sua casa! A troça está toda na dança lá em cima... Vão entrando!
Ouvia­se com efeito barulho de música.
Gregório, ao chegar à sala, sentiu­se constrangido. Não conhecia aquele meio. Nunca havia penetrado em casa de uma família de artistas brasileiros; ignorava da existência desse gênero de pessoas, incontestavelmente dignas, mas entre as quais a pilhéria decotada tem bom curso, a dança toma um caráter assombroso de cancã, e as mulheres discutiam simultaneamente sobre tudo, desde os assuntos mais familiares e mais castos até às últimas extravagâncias da meretriz que estiver na moda.
Ninguém todavia fala tanto em conveniências, e ninguém se esforça tanto para cumprir com os rigores da hospitalidade. As pequenas obrigações da cortesia, nessas casas, tomam às vezes as proporções de verdadeiros suplícios — obrigam­nos a comer e a beber sobre posse. Não nos consentem rejeitar nada do que nos oferecem. Há uma febre terrível de obsequiar.
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Gregório todavia passara quase despercebido, porque um acontecimento prendia a atenção dos que não dançavam. Era a chegada do pequenino, que acabavam de batizar, e mais a dos padrinhos e dos convidados que o acompanharam à igreja. Havia reboliço por toda a casa.
Em torno do bebê forma­se um grupo enorme de homens e mulheres, sôfregos por fazerem festinhas ao pequenino herói da festa. Este toscanejava babando­se, a resmungar, fatigado pela cerimônia do batizado.
Daí a pouco chamaram em gritos para a mesa.
Houve então um rumor ainda mais alegre, e as pilhérias da ocasião choveram de todos os lados.
Entretanto, Gregório era nesse momento apresentado à dona da casa pelo padre, com exagerados rasgos de cortesia.
Sobre a mesa enorme, que se havia arranjado especialmente para aquela ocasião e que parecia entalada na estreiteza da sala, destacavam­se as grandes peças de forno. Via­se o leitão inteiro com os dentes à mostra e os olhos substituídos por azeitonas, ao lado o peru empertigava o peito recheado; tortas, do tamanho da aba do chapéu do padre Beleza, recamavam a branca toalha de fustão. As garrafas cintilavam alegremente; liam­se vistosos rótulos de Bordeaux, Porto e descobriam­se garrafas de vinho branco, cheias de Colares e vinho virgem. As compoteiras de doce de caju, abacaxi, e laranja, jaziam meio escondidas nos tinhorões dos grandes jarros de porcelana. Os quartos de carneiro, as galinhas assadas e os pastelões esperavam resignadamente a hora do ataque. Um cheiro farto e gorduroso de comida enchia o ambiente.
A dona da casa disse em voz alta a Gregório que se fosse assentando à mesa. Ali não havia cerimônia! Ela, como quase todos os atores antigos, tinha o costume de falar sempre em voz alta.
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Gregório assentou­se.
As mulheres olharam logo para ele com interesse. O seu pequeno rosto branco embelezado de frescura e de mocidade, sobressaía ali, como uma coisa rara e bem trabalhada. O rapaz fazia esforços supremos envergonhado da natural distinção das suas maneiras.
Os convidados não cabiam todos à mesa; Gregório ergueu­se duas vezes para oferecer o seu lugar, mas de ambas o obrigaram a ficar assentado, empurrando­o pelos ombros. Sentia­se ele cada vez mais constrangido no meio daquela gente mesclada e ruidosa; fusão de família e boêmia, argamassa de sorrisos discretos, olhares pundonorosos, gestos cheios de escrúpulo e amplos movimentos de caixa de teatro misturados com frases de botequim e pilhérias de sociedade carnavalesca.
Luzia Pereira, a dona da casa, apesar de idosa, ainda mostrava ter sido bonitona na sua época.
Fora atriz por muitos anos, enviuvara de um ator do tempo de João Caetano e vivera sempre entre gente de teatro. Era em geral estimada como mulher honesta e querida por muitas famílias do Rio de Janeiro.
A gordura desformara­lhe um pouco os membros e a fazia parecer mais baixa e menos elegante; mas os olhos brilhavam ainda com o fulgor dos outros tempos, e os lábios conservavam o fino sorriso espiritual, com que ela arrebatara as plateias de 1840.
Luzia Pereira era tia legítima da nossa bem conhecida Júlia Guterres, que representava uma das principais figuras do batizado.
A atmosfera tornava­se mais e mais abafada. O calor, anunciativo da tempestade que se formava lá fora, quase que não consentia no agrupamento dos comensais naquela sala estreita e coagida pelo teto. Das janelas, abertas sobre o quintal, não entrava o menor sopro de ar novo; as luzes do petróleo agravavam a situação.
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Gregório desfazia­se em finezas com Júlia Guterres, que lhe ficara ao lado direito, mas impacientava­se por sair daquele forno.
Principiaram a comer. Não havia método no jantar; algumas pessoas iam logo se servindo dos assados antes de tudo; outras tomavam à sopa os vinhos da sobremesa. Mas todos os copos se esvaziavam alegremente. Foi preciso fechar as janelas porque começavam a cair as primeiras gotas do aguaceiro, que lá fora trovejava já sobre as montanhas.
Redobrou então o calor. Um sujeito gordo erguera­se, pedindo que o acompanhassem em um brinde a uma pessoa, que se achava presente, muito distinta e digna de todas as considerações.
Fez­se logo um respeitoso silêncio, e o orador declarou que se referia a D. Luzia Pereira. Seguiu­se uma enfiada de elogios, e os hurras rebentaram de todos os lados.
Desde então os brindes apareciam sem intervalo. Os comensais erguiam­se a dar vivas, e estendiam o braços, oferecendo os copos aos vizinhos, para tocar.
Ainda não estava terminado o jantar, quando Gregório pediu licença e se retirou ofegante para a sala de visitas.
A chuva percutia com força nas vidraças e no telhado. O rapaz assentou­se no canapé e ficou a olhar para as fotografias suspensas da parede.
Lá estava o João Caetano, o Martinho, o Costa, e outros contemporâneos. Por um álbum, que Gregório se pôs a folhear, via­se que era enorme a família da Luzia Pereira. Algumas filhas e netos estavam presentes à festa.
Terminada a primeira mesa, assentaram­se os que ainda não haviam jantado, e a sala, onde estava Gregório, encheu­se logo de pessoas a palitarem os dentes.
Em uma alcova contígua, dez rapazes preparavam estantes de 355 de 371
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músicas e acendiam velas. Pouco depois, cada um desses dez tocavam o seu instrumento de sopro, e um grande barulho metálico, ensurdecedor, encheu totalmente a sala, impedindo qualquer conversa.
Era uma polca, composta por um dos músicos e oferecida ao pequeno que se batizara naquele dia.
Gregório foi obrigado a dançar, escolheu Júlia Guterres. Ela deixara­se conduzir com certo desprendimento gracioso. Era louca pela dança.
Quando acabou a música, houve uma carga de vivas ao autor, vivas ao batizado, vivas à dona casa. Abriram­se garrafas de cerveja nacional, e os copos espalharam­se por todos os convidados.
Gregório sentia­se ir agitando pouco a pouco: tudo aquilo começava a perturbá­lo; a música, o ar quente, os perfumes de Júlia, produziam­lhe vertigens e chamavam­lhe o sangue à cabeça. O padre Beleza não tinha um momento de descanso, ria, saltava, gritava fazendo troças, pregando caçoadas às velhas, abraçando as mulheres, pisando de propósito os homens e rebolando na dança. Todos lhe achavam graça.
Entretanto Júlia, depois que dançou a segunda vez com Gregório, lhe pediu que não reparasse naquela desordem: as festas em casa da tia eram sempre assim... Não havia meio de obter certa seriedade! Ela ia ali, porque a tia era o único parente a que estimava deveras no mundo, mas fazia com isso um verdadeiro sacrifício; aquilo era uma gente levada do diabo! Em seguida começaram a falar a respeito de Olímpia, a princípio por meias palavras, depois abertamente. A viúva sabia muita coisa que lhe contara a vizinha.
— Gregório não havia procedido bem...
— A culpa foi só ela, justificou­se o rapaz; Olímpia se quisesse teria feito de mim um escravo! Eu não pensava em mais nada que não 356 de 371
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fosse nela...
— E ainda hoje, observou a outra, pelo entusiasmo com que diz isso, percebe­se que...
— Qual! respondeu ele, sacudindo os ombros. Está tudo acabado!
— Ela, porém, ainda o estima muito!...
— Não sei! É verdade que a mulher só ama quando o homem amado a despreza...
— Isso são histórias! contradisse Júlia. O senhor, se não gosta mais dela, é porque gosta de outra!...
— Juro­lhe que não! afirmou vivamente Gregório, lançando sobre a viúva um olhar que era já um programa.
Ela havia compreendido perfeitamente o efeito que produzia no rapaz, e não procurou destruí­lo. As mulheres têm sempre um gostinho muito particular em possuir um homem amado pelas outras.
Quando, às seis horas da manhã, dissolvia­se a festa, e cada um procurava às tontas o seu chapéu e a sua bengala, Júlia e Gregório invadiram um pequeno quarto que ficava ao lado da varanda e, na febre de achar os chapéus, seguraram duas vezes por engano as mãos um do outro e, por estar o quarto ainda escuro, cremos que os seus lábios também se esbarraram.
Gregório saiu palpitante de esperanças.
O diabo era a vizinhança de Olímpia e o fato de frequentar esta a casa da viúva. Oh! mas tudo se haveria de arranjar. Gregório estava muito satisfeito com a sua nova conquista: notava em Júlia certa graça desdenhosa e satânica, um modo petulante de dizer liberdades, uma sem­cerimônia peculiar às atrizes, uma espécie de encantadora malignidade, que a filha do comendador nunca possuíra.
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E já no dia seguinte principiou ele a formar o seu plano de batalha. Fez­lhe uma visita, mas a viúva, muito ao contrário do que esperava o assaltante, recebeu­o friamente e não insistiu para que se demorasse.
Foi a primeira esporada. Gregório saltou. Depois da faísca, a explosão seria fatal.
Principiou a persegui­la por toda a parte, a escrever­lhe cartas apaixonadas, a pedir­lhe ternura por amor de Deus.
Nesse tempo morava ele em Santa Teresa.
Uma noite, mal havia chegado à casa, quando sentiu parar à porta uma carruagem e logo em seguida alguém que subia apressadamente a escada.
Era Olímpia. Gregório a reconheceu imediatamente e fê­la entrar.
Vinha ofegante, pálida de raiva, com a fisionomia endurecida por qualquer grande contrariedade.
Era a primeira vez que se animava a tanto; nunca havia penetrado em casa de um rapaz. De sorte que, logo depois dos primeiros passos, toda a energia que ela trazia engatilhada para fulminar o pérfido amante, rebentou em soluços.
Gregório correu a socorrê­la; foi repelido com um murro.
— Deixa­me! exclamou ela. E tirou da algibeira uma das ultimas cartas dirigidas por ele à viúva.
— Você é um infame!
Gregório estava perplexo e achava tudo aquilo muito estranho. Havia já seis meses que ele se não entendia com Olímpia. Ela, da última vez em que estiveram juntos, tratara­o mal... Que diabo queria então tudo aquilo dizer??... Porventura era ele casado para ter de dar contas dos seus atos!? Se escrevia cartas era porque assim o entendia! Ora essa!
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Olímpia não teve uma palavra para lhe opor. Gregório nunca a tratara daquele modo. Até aí sempre lhe dispensara delicadeza e consideração.
— A senhora é que fez muito mal em vir cá! disse ele, passeando agitado pelo quarto. Não sei o que a autoriza a supor que ainda existe alguma coisa entre nós dois!
— Tem razão! respondeu Olímpia, afastando­se, na esperança de que ele a chamasse.
Mas Gregório contentou­se em fazer um gesto de despedida.
Ela, assim que se convenceu de que o amante não a ia buscar, voltou sorrindo humildemente.
Já não chorava, nem parecia contrariada.
Quando chegou junto de Gregório, atirou­se­lhe nos braços e principiou a soluçar com a cabeça pousada no colo do rapaz.
Ele, comovido, beijou­a na face.
As pazes estavam feitas.
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ÚLTIMO CAPÍTULO
Eis aí como decorreu a inútil mocidade de Gregório até aos vinte e dois anos. Mais um passo e chegaremos ao ponto em que principia este pobre romance e onde justamente há de ele acabar; quer dizer, refluiremos à cena do malogrado casamento de Clorinda.
Durante esse rápido ano, que liga o primeiro capítulo ao último, sucederam­se poucos mas palpitantes acontecimentos, que justificam muitas outras cenas.
Nesse pequeno espaço de tempo, Olímpia sofreu, por amor de Gregório, todos os martírios que nos podem influir nos ciúmes. Quanto mais ele se esquivava, tanto mais atraída ela se sentia.
Olímpia estava na idade em que o amor toma o caráter de moléstia; na idade em que a mulher é capaz de todas as loucuras pelo objeto amado; em que ela é capaz de todos os sacrifícios, de todas as abnegações, menos a de consentir que o herói dos seus sonhos a despreze por outra. E foi isso justamente o que fez Gregório, desde aquela cena absurda de cócegas no pitoresco chalezinho de Júlia Guterres.
Como já sabe o leitor, a viúva, logo que perdeu o marido, tratou de recolher os bens que lhe ficaram, e retirou­se para a Tijuca, onde nós e a polícia, a encontramos, quando se tratava de descobrir esclarecimentos a respeito de Gregório; da mesma forma, não ignora o leitor qual foi a direção que tomaram os novos amores do inconstante rapaz, e como chegou ele a armar casamento com Clorinda.
Pois bem; tratemos de esclarecer o que falta e apressemos o passo, para chegarmos, quanto antes, aos resultados das cenas dos primeiros capítulos.
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Olímpia não pôde disfarçar por muito tempo o seu martírio, e a dor dos ciúmes transformou­se para ela em cruel enfermidade, acelerando o embranquecer do cabelo, o enrugar da tez e o desbotamento das faces. Quando o Dr. Roberto voltou do norte, o que proporcionou a Gregório o seu primeiro encontro com a bela Clorinda, quase que não a reconheceu e declarou que muito pouco lhe daria de vida.
Gregório correu então para junto dela, mas a sua presença não conseguiu espantar a morte, que estendia já sobre a infeliz a sombra negra de suas asas.
Ele, por sua parte, não levava o coração ainda cativo dos amores da viúva, mas já suavemente impregnado pela nova afeição que lhe inspirara a filha de Leão Vermelho.
Estava outro: não era o mesmo folgazão das correrias com o padre Beleza; ao contrário, convertido e civilizado, forcejava agora por vencer as últimas ondas da mocidade, e abrigar­se enfim no casamento, cujas praias via branquejarem além, iluminadas por um doce luar de tranquila ventura.
Olímpia faleceu numa noite de inverno, depois de grande agonia. O Dr. Roberto não lhe abandonara durante muitos dias a cabeceira, e o Figueiredo mandara dois de seus empregados para ajudarem nos trabalhos do enterro.
Gregório chorava ao lado do cadáver. Nunca se persuadiu que sentisse tanto aquela morte. Olímpia entrara na sua vida como um incidente fantástico e romanesco no meio de um livro de apontamentos banais; arrependia­se agora de não ter sido com ela melhor, mais generoso, mais grato; sentia remorso de não a ter amado um pouco mais!
E, para fugir a essas ideias aborrecidas, chamava egoisticamente em seu socorro a imagem adorada de Clorinda. Ah! esta era o futuro, a esperança de felicidade, era a aurora do dia seguinte.
E só a lembrança destas novas claridades lhe secava os últimos 361 de 371
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orvalhos daquela noite que fugia, perdendo­se nas sombras inalteráveis do passado.
De todos, enfim, quem parecia mais sentido com tudo aquilo era o velho Jacó. O pobre homem viu, em torno de si, caírem, a pouco e pouco, as árvores queridas, a cuja sombra abrigava a fraqueza da sua velhice.
Gregório ofereceu­lhe a casa e insistiu com ele para que fosse fazer­lhe companhia. Jacó aceitou, e por isso o vimos figurar no interrogatório policial logo no começo do romance
Em breve, Gregório não tinha outra ideia que não fosse a da sua querida noiva, e Júlia Guterres principiava a curtir os mesmos tormentos por que passara Olímpia.
Se as mulheres, e principalmente aquelas que já se despiram das primeiras ilusões, soubessem quanto é perigoso amar deveras um rapaz que ainda não pagou todos os tributos da mocidade, não se deixariam tão facilmente prender aos efêmeros transportes de um namorado de vinte anos.
O coração nessa idade está ainda muito verde para arder. É preciso que o tempo e as lentas decepções da vida o ressequem, sem o que não pegará fogo.
E dizem os irrefletidos que o coração dos velhos é que é frio. Que injustiça! ninguém ama com tanto ardor, ninguém se apaixona com tanto entusiasmo! Parece até que o homem, à proporção que envelhece, vai refugiando no coração todo o calor que lhe foge do resto do corpo. À proporção que lhe caem os dentes, que lhe deserta o cabelo, que se lhe entorpecem as pernas e se lhe tornam mais e mais trêmulas as mãos, tanto mais o coração se enrija e fortifica, para conservar inalterável e firme o seu derradeiro amor. Desaparece o olfato, apagam­se os olhos, somem­se o tato e o paladar, e o coração cada vez mais sente, mais deseja e mais vê!
Por que estranho ódio teria a natureza formado assim o coração 362 de 371
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do homem? Se lhe rouba do corpo as forças, os sentidos, as faculdades, se lhe toma os dentes, o sangue dos lábios e a frescura dos cabelos; se o torna feio, velho, insuportável, para que lhe deixa então o coração a pulsar cada vez com mais veemência e a pedir um amor que ninguém lhe dá?!
Júlia Guterres não se lembrara de fazer considerações destas, ao abrir os braços a Gregório, e depois teve com sacrifício de impor ao seu coração que se calasse, quando soube pela primeira vez que o desleal amante estava de casamento justo com Clorinda.
Corriam as coisas neste ponto, quando se realizou aquela conversa entre Portela e o seu capanga Talha­certo, ao saberem da reaparição de Pedro Ruivo.
O gatuno havia­se arranjado lá por S. Paulo com o tal fazendeiro de boa­fé, a quem se agarrara com tamanho afinco, que a pobre vítima, para se ver livre dele, tratou de empregá­lo na casa Paulo Cordeiro, na qualidade de pregador de rótulos.
Mas Portela é que não ficou muito tranquilo desde que o viu, e recomendou ao seu Talha­certo que lhe não perdesse a pista.
Talha­certo tratou imediatamente de procurar Tubarão e pedir o seu auxílio, porque Pedro Ruivo da primeira vez conseguira ­escapar­lhe das unhas. E o leitor já sabe o ajuste que houve entre aqueles dois no café da Menina do Bandolim, onde ficaram de encontrar­se no dia seguinte para realizarem a terrível incumbência de Portela.
Tubarão acompanhara o flâmulo deste, pelo simples fato de tratar­
se do Ruivo; ele não era homem que se prestasse a fazer mal a quem quer que fosse, se o coração não se envolvesse nisso. Talha­
certo sabia perfeitamente da velha rixa que havia entre os dois e, desde o seu malogrado bote contra o Ruivo, tratara de preparar o ânimo do outro para a primeira vez que viesse a precisar do seu auxílio.
Chegara afinal o momento, e Tubarão cedera.
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Vejamos agora como se saíram eles dessa empresa.
Pedro Ruivo parecia regenerado depois que se arranjara na fábrica. Trabalhava pontualmente e recolhia­se para dormir a hora certa. Morava com um companheiro num cortiço perto do Campo de Santana. E nos primeiros tempos, tão enfronhado viveu no serviço, que Portela ignorava completamente a sua presença no Rio de Janeiro.
O velhaco, entretanto, meditava novos planos de ladroeira; queria angariar a simpatia e a confiança dos superiores, para fazer com mais certeza a sua pontaria, quando porventura se apresentasse uma boa ocasião.
Essa ocasião apareceu. O caixa da casa, aquele Gonçalves, viúvo de Olímpia, teve uma vez de demorar consigo uma quantia superior, vinte contos de réis. Pedro Ruivo não o perdeu mais de vista, e preparou­se.
Se fosse necessário, o caixa seria assassinado. Mas assim não sucedeu, porque o gatuno encontrou ensejo de achar­se a sós com o dinheiro. Entrou pelos fundos da casa e penetrou engenhosamente no gabinete do caixa, tendo para isso preparado de antemão os fechos de uma das janelas que davam para esse lado.
Uma vez senhor do dinheiro, tratou de ganhar a rua e de encaminhar­se para o seu cortiço.
Mal porém teria feito alguns cinquenta passos, quando um homem lhe saiu ao encontro e lhe arremessou uma formidável cabeçada contra o ventre. Era Talha­certo.
Pedro Ruivo perdeu o equilíbrio e caiu de costas.
O outro, trepando nele, lhe perguntou pelos documentos de Portela. O agredido, em vez de responder, soltou um grito e segurou com ambas as mãos o peito, como se quisesse defender alguma coisa que aí trouxesse escondida.
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Talha­certo, conduzido por esse movimento espontâneo, imaginou que ali estivessem os papéis que procurava, e intimidou o Ruivo a que se deixasse revistar. O Ruivo resistiu.
Talha­certo chamou então o marinheiro em seu auxílio e, depois de vendarem a boca do Ruivo, dispuseram­se a revistar­lhe o peito.
O Ruivo debatia­se furiosamente.
— Tratante! gritou­lhe Tubarão; dá­me por bem esses papéis, se não quiseres ficar aqui mesmo reduzido a postas!
Ruivo, em vez de responder, arrancou­se das mãos de Talha­certo e sacou do bolso uma navalha.
Talha­certo, porém, havia de um salto avançado para ele, e cortara­lhe a garganta com uma navalhada. O Ruivo rosnou por baixo da venda que tinha na boca e, depois de tentar em vão segurar­se nas pernas, caiu de borco sobre a calçada.
O assassino revistou­lhe o peito; mas, em vez dos documentos do comendador Portela, encontrou os contos de réis, que a sua vítima havia pouco antes roubado.
— Como vinha o ladrão carregado! disse o Talha­certo, sacudindo de alegria pela descoberta que acabava de fazer.
— E os documentos?... perguntou Tubarão.
— Não estão naturalmente com ele, mas temos aqui coisa melhor: Um dinheirão! O maroto havia feito hoje uma linda colheita!
— Então tudo isso é dinheiro? perguntou o Tubarão, admirado por sua vez.
— Em magníficas notas do tesouro! respondeu o Talha­certo.
— Então foi algum roubo... não te parece?...
— Sei cá; o que te afianço é que isto não nos fará peso nas 365 de 371
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algibeiras...
— Não sou dessa opinião! resmungou o seu cúmplice. Dinheiro roubado pesa sempre, quando menos na consciência!
— Ora! replicou o Talha­certo, depois de acabar a revista das algibeiras do Ruivo, e tratando de afastar­se com o dinheiro para longe. Quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão!
— Estás enganado! gritou­lhe o outro. Quem rouba a ladrão, fica ladrão como ele! Esse dinheiro será entregue ao dono, quer queiras, quer não queiras!
— Essa agora tinha graça!... considerou o outro. Era melhor que fôssemos nós daqui direitinhos entregar­nos à polícia.
— Podemos fazê­lo chegar às mãos do dono, sem que se saiba donde ele procede...
— Nesse caso, restituirás tu a tua parte. Vamos dividi­lo; cada um dará o destino que quiser aquilo que lhe tocar.
— Não! contradisse o Tubarão. Havemos de entregá­lo todo ao dono!
— Isso agora já passa à birra, replicou Talha­certo, impacientando­
se. Que você faça fúrias com o que é seu, vá lá, mas com o que é dos outros!..
— Aqui não há meu, nem teu! nós não temos direito a ficar com aquilo que não ganhamos, nem tampouco nos deram!
— Mas que achamos! replicou ainda Talha­certo. Em todo o caso, vamos a casa dividir o cobre, e você da sua parte fará o que quiser... A minha pertence­me!
— Não! Tu me vais passar todo o dinheiro. Eu me encarregarei de restitui­lo ao dono.
— Ora veja se tenho algum T na testa!
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— Eu é que te afianço que o dinheiro se há de restituir! Vamos! em teu poder não ficará ele!
Talha­certo, vendo que não conseguiria nada pela arrogância, resolveu comover o companheiro.
— Então, que é isso, Tubarão?... Que mania de escrúpulo é essa de tua parte com um velhaco daquela ordem? Olha! quem o mau poupa nas mãos lhe morre...
— Não se trata agora disso! replicou Tubarão: não se trata de dar cabo de nenhum mau; trata­se é de entregar um valor que nos não pertence. Enquanto querias uma ajuda para despachar aquele maroto, pronto! e não me arrependo disso; mas lá para roubar é que não me presto! Ou tu me entregas o dinheiro, ou eu te denuncio à polícia. Escolhe!
— Ora, deixa­te disso, pediu ainda o outro, procurando torcer o caráter do marinheiro.
— Já te disse o que tinha a dizer! volveu este. Ou entregas o cobre, ou vai tudo ao ouvido do Dr. Ludgero. Eu cá não sirvo de capa a ladroeiras! Não sou santo, mas nunca estas mãos se sujaram com o alheio!
E Tubarão, com ar firme de homem resoluto, ia forçar o companheiro a que lhe entregasse o roubo, quando este, recuando na ação destra da capoeiragem, acometeu contra de, procurando abrir­lhe o pescoço com a navalha.
Mas Tubarão desviou­se prontamente, e a lâmina, mudando de direção, entranhou­se­lhe pelo pequeno peitoral do lado direito.
Talha­certo recuou com um novo salto e de novo investiu contra o companheiro, ferindo­o então no braço, porque o rijo marujo, apesar do sangue que lhe saltava da ferida, ainda se aguentava bem nas pernas e ainda se defendia, tentando apoderar­se do facínora.
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Este deitou a correr, Tubarão tentou persegui­lo, mas a vista principiou a escurecer­lhe, as pernas a lhe fraquejarem, e com muito custo conseguiu de chegar onde morava pobremente com um seu velho companheiro do mar.
O companheiro não estava em casa. Tubarão recolheu­se à cama e perdeu de todo os sentidos. Só os recuperou muito depois, quando a febre principiou a ceder. O médico, que o companheiro de casa fora buscar, recomendara que o não obrigassem a falar e não lhe dessem a beber senão os medicamentos receitados.
Entretanto, sabe já o leitor o caminho que, durante esse tempo, tomaram as coisas concernentes ao assassínio do Pedro Ruivo e ao roubo perpetrado na casa Paulo Cordeiro. A polícia continuava a trabalhar, mas trabalhava muito reservadamente e quase sem resultado algum.
De Gregório ninguém dava notícias.
Nestas circunstâncias, chegaram as coisas ao ponto em que as deixamos, quando a desventurosa Clorinda se recolheu à casa de Júlia Guterres, onde a pobre velha Januária conseguia escapar ao peso dos seus sofrimentos.
Como vimos, a penetrante viúva foi a única que suspeitou das intenções de João Rosa e principiou a estudar a atitude que o antipático rapaz tomava ao lado da sua hóspede.
Por então, um paquete europeu ancorava na Guanabara e uma família saltava no cais Pharoux.
Nada menos que o conde de S. Francisco, a esposa, a filha e um moço de uns vinte e cinco anos, no qual o leitor, se o visse, reconheceria logo o nosso Gregório.
Ao lado deste caminhava o Dr. Ludgero, com o ar satisfeito de quem alcança vitória.
Seguiu­se então o mais estranho e enovelado processo de que se 368 de 371
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pode gabar a justiça brasileira. Nesse tempo não se falava noutra coisa: o escândalo agitou por muitos dias a curiosidade do público e fechou todos os personagens deste romance no mesmo círculo de interesse.
O conde de S. Francisco trazia consigo, felizmente, os documentos justificativos da herança que Gregório acabava de receber do Minho. Entretanto, era necessário descobrir os verdadeiros autores do roubo e do assassínio. O processo continuava.
Apresentaram a Gregório a fotografia de Pedro Ruivo. Gregório disse francamente o que sabia da vida daquele homem, contou as aventuras da Avenida Estrela; o delegado fez vir à sua presença o Papá Falconet, o padre Almeida, o Augusto e o Afonso, mas nenhum deles adiantou o menor esclarecimento.
Estava reservado a Tubarão destruir as trevas acumuladas em torno do crime. Foi ele quem chamou a atenção da justiça sobre o comendador Portela, quem falou nos documentos deste, quem contou a intervenção de João Rosa, o motivo do ataque que sofreu Pedro Ruivo e, finalmente, o roubo cometido pelo Talha­
certo, que Tubarão afirmou se achar naquele momento escondido em casa do Portela.
Talha­certo, com efeito, foi encontrado ali e conduzido imediatamente para a casa de correção. O Gonçalves reembolsou parte do dinheiro roubado; o ladrão e assassino foi condenado a galés perpétuas, e o Portela gramou quatro meses de prisão e multa correspondente, além de perder de todo a esperança de casar com Matilde, a rica pupila do boticário Moreira, a qual havia coisa de um ano deixara a casa de D. Januária, para acompanhar uma família conhecida da sua, que seguia para S. Paulo.
Bem previa Portela que os tais documentos ainda lhe haviam de dar água pela barba!
O que causou grande impressão nos tribunais, foi a vida do marinheiro, contada por ele próprio, com toda a eloquente 369 de 371
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singeleza da sua linguagem expressiva e grosseira.
Tubarão disse tudo o que sabia a respeito do seu saudoso comandante e falou em Clorinda, em Henriqueta e D. Januária. Esta circunstanciou o que havia a respeito de sua filha adotiva e relatou as particularidades da mesada, cuja suspensão coincidia com a morte de Leão Vermelho.
O conde pediu perdão a Clorinda por lhe haver tão violentamente arrancado o noivo dos braços, e disse que, daquele dia em diante, ela devia olhar para Gregório como para um irmão, pois que eram filhos do mesmo pai. Mas o marinheiro, com uma simples carta de Cecília, dirigida no Porto a Pedro Ruivo, provou que os dois moços nenhum parentesco tinham entre si e, na sua rude franqueza, patenteou a verdadeira procedência de Gregório.
Este compreendeu tudo, compreendeu que era filho do ladrão assassinado, e afastou­se do júri sumamente triste.
No dia seguinte, quando o velho Jacó, que acompanhava Gregório no palácio do conde de S. Francisco na Tijuca, entrou de manhã no aposento do amo, encontrou­o morto e coberto de sangue. Ao lado, sobre o velador, havia uma carta dirigida ao dono da casa.
A carta explicava minuciosamente que Clorinda era a única pessoa que tinha direito a herdar os bens de Leão Vermelho.
Esta inesperada e nobre morte abalou o Rio de Janeiro. O processo havia já atraído sobre Gregório a atenção do público e ligado aos fatos românticos de sua vida a curiosidade dos homens e o voluptuoso interesse das mulheres.
Não se falou noutra coisa durante muitos dias.
Alguns meses depois do enterro, que foi deslumbrante, encontramos Teresa. Estava muito acabada, muito desfeita. Com a morte de Olímpia, que era o seu único socorro, ficou completamente ao desamparo. Andava tirando esmolas e rezava 370 de 371
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na porta das igrejas ajoelhada sobre as pedras da rua.
Às vezes viam­na dormindo nos degraus do convento da Ajuda.
Ninguém mais soube dar notícias do João Rosa, e consta que o Dr. Roberto continua a viver muito bem com a sua inalterável e moleirona esposa, que ultimamente o presenteou de uma só vez com dois pequenitos.
Júlia Guterres vendeu a Clorinda o seu chalezinho da Tijuca, e retirou­se para Niterói. Jacó acompanha a família do conde de S. Francisco, e, ao que parece ainda hoje vive.
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