Exclusão e medo - Online UNISANTA

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Exclusão e medo - Online UNISANTA
JORNAL-LABORATÓRIO DO QUARTO ANO DE JORNALISMO DA FACULDADE DE ARTES E COMUNICAÇÃO DA UNISANTA
ANO XVI - N° 124 - JUNHO 2011 - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA - SANTOS (SP)
TABATA TUANY
Exclusão e medo
CARINA SELES
O resultado do
crescimento do número
de moradores de rua e
do consumo de drogas,
que antes podia ser
observado apenas em
pontos específicos,
ultrapassou essas
barreiras e avança na
região.
Enquanto isso, a
criminalidade e
a violência criam
um ambiente de
insegurança e de
preocupação geral na
população.
EDITORIAL
Montanha-russa
de contradições
Perrenoud acredita que o Brasil perdeu a luta contra as drogas e deve discutir a legalização
Ana Flora Toledo
Atualmente, marchas a
favor da liberação da maconha acontecem por todo
o País, gerando a discussão
do tema entre autoridades
e população. Segundo o secretário de Segurança de
Santos, Renato Perrenoud,
o debate também precisa
acontecer na região para
que a liberação controlada
da droga possa ajudar na
diminuição do tráfico.
Em entrevista concedida
a estudantes do 4º ano de
Jornalismo da Universidade Santa Cecília, Perrenoud
afirmou que o Brasil perdeu
a luta contra as drogas. “O
governo e a polícia já tentaram coibir o uso de entorpecentes, mas hoje sabemos
que essa é uma guerra perdida. Na região, temos um
grande número de usuários,
principalmente de maconha.
Por isso, acredito que a liberação controlada é o melhor
caminho para resolvermos a
questão”, disse.
O assunto é polêmico e
o debate ganhou força com
o lançamento do documentário Quebrando Tabu , em
que o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, defende que
CARINA SELES
Nem todos estão preparados para entender e,
muitas vezes, aceitar viciados. A sociedade está fechada para qualquer tipo de comportamento em
que o ser humano perde a racionalidade e não consegue mais ter controle. Na mesma proporção em
que o tráfico de drogas é um ramo de negócios que
só no Brasil movimenta bilhões de reais, é muito difícil que um dependente consiga largar as drogas ou
qualquer outro vício sem ajuda.
Vencer o poder que o vício exerce é uma tarefa
árdua e são necessárias muitas mãos para respaldar
o caminho, desde familiares até grupos de apoio.
Muitas vezes, quem oferece ajuda são pessoas que
já conseguiram se livrar do mesmo problema e compreendem a situação. Mas, para que existam essas
pessoas “limpas” e prontas para ajudar, foi necessário que lá atrás alguém que nunca tivesse passado
por isso sentisse compaixão e a vontade de ajudar o
próximo apenas pela prazer de ver o outro florescer.
Algo que chamamos de solidariedade, um sentimento que consegue salvar inúmeras vidas — apoiando
dependentes químicos, alcoólatras, quem vive em
estado de miséria ou que sofreu algum tipo de violência, como estupro ou agressão física.
O vício em entorpecentes é um dos problemas socioeconômicos mais graves que o País enfrenta hoje.
Diariamente, reportagens alertam para os perigos
do tráfico, a invenção de novas drogas como o oxi e
os problemas enfrentados pelos dependentes químicos. Políticas públicas são implantadas a cada ano
e nada muda. Os traficantes continuam com os bolsos borbulhando de dinheiro e o número de viciados
aumentando na mesma proporção. É a nossa guerra
particular e ninguém parece preparado para salvar
o dia.
Então, como poderemos apontar o dedo acusatoriamente para as pessoas que se referem a “esses drogados de rua”? Mas como virar as costas a
quem entrou no mundo do vício como um subterfúgio para os próprios demônios? Estamos diante de
um problema muito mais complexo do que parece.
Enquanto não se desenvolverem políticas eficazes
para ajudar os dependentes e exterminar o tráfico
de uma vez por todas, a sociedade estará ao léu
Secretário de Segurança de Santos defende
liberação controlada da maconha
Per renoud: “Na região, temos um
grande número de usuários”
os governos pensem sobre a
questão. Do filme, também
participam outras autoridades, como o ex-presidente
americano Bill Clinton.
Perrenoud alertou para
problemas que podem surgir
com a legalização completa
da maconha. “Muitos países
que adotaram a legalização
completa estão repensando se isso realmente vale a
pena. Precisamos colocar em
prática a legalização para
saber se teremos algum benefício ou não, para termos
noção se a questão vai causar o estrago que muitos imaginam”. Ele explicou ainda
como acredita ser o método
ideal. “Precisamos receber os
usuários e direcioná-los a um
local onde possam utilizar os
entorpecentes, não podemos
permitir que esse uso seja ir-
restrito. Sabemos que uma
pessoa que faça uso de drogas pode trazer problemas
para o sistema de saúde, e
o sistema não quer assumir
isso”, condenou.
Sobre Santos, o secretário afirmou que a Cidade
está igualmente tomada
pelos usuários. “Não temos
um ponto específico de tráfico, percebemos que em
vários bairros isso acontece. Não está mais restrito a
morros ou periferias, acontece tanto em faculdades,
quanto na orla da praia. É
de maneira geral e nós não
conseguimos combater. O
que apreendemos de droga
é um número muito inferior
ao que chega pelo tráfico”,
explicou.
Para Perrenoud, o único meio de diminuir o interesse pelas drogas está na
escola. “Não temos solução
para nós, mas podemos ter
para as próximas gerações.
As escolas devem resgatar
os valores que hoje em dia
os jovens não têm mais, tornando-se parte da comunidade e acolhendo também
policiais dentro do local de
ensino. Assim, com certeza,
podemos ter uma melhora
nesse quadro futuramente”,
finalizou.
Análise do professor
A questão das drogas - tema tão atual quanto complexo - foi abordada pelos alunos
Ana Flora Toledo e Lucas Shiomi, haja vista a gravidade deste verdadeiro flagelo social
e que é motivo de preocupação geral. Exatamente por isso, impõe-se um amplo debate
acerca de eventual liberação e descriminalização, como defendem lideranças e especialistas. Os textos escolhidos refletem bem esses aspectos. (Francisco La Scala Júnior)
Prata da casa, Luiz Fernando Menezes
Ser jornalista para mudar de vida “Drogas são o principal
Mariana Benjamin
Ex-taxista, Luiz Fer nando hoje
atua no fotojornalismo esportivo
fissional e conheci o pessoal
que trabalhava na área. A
partir daí, consegui meus
primeiros frilas, para jornais
da Cidade, como A Tribuna ,
Jornal da Orla e Boqueirão
News”.
Desde então, a carreira
deste ex-motorista de táxi
só floresceu. “Acredito que
tudo nesta vida acontece
porque uma força superior,
Deus, quer que aconteça.
É ele quem me dá forças e
faz por mim aquilo que não
consigo fazer sozinho. É o
que me deixa mais tranquilo para enfrentar um dia de
cada vez. Para mim, o passado acabou e o presente é
o mais importante. Por isso
é que leva o nome de pre-
CARINA SELES
Abandonar o trânsito,
as horas incontáveis parado em frente aos semáforos da Cidade e as corridas
noturnas era tudo o que o
fotojornalista Luiz Fernando Menezes queria quando
decidiu cursar Jornalismo na
Universidade Santa Cecília,
em 2001. “Passaram-se 10
anos desde que escolhi ter a
oportunidade de mudar de
vida. Antes, eu era motorista de táxi, mas mantinha o
desejo de me tornar um profissional da área da comunicação”, contou.
E foi exatamente o que
aconteceu. Luiz Fernando se
apaixonou pela notícia em
forma de imagem e hoje cobre diversos jogos de futebol,
incluindo da seleção brasileira para a agência Fotoarena, de São Paulo, que distribui o seu trabalho para os
principais jornais e revistas
do País. “Quando descobri
que era de fotojornalismo
que eu gostava fiz um curso
de especialização, comprei
um equipamento semi-pro-
sente. E o futuro
ainda não chegou”, disse.
Luiz Fernando
conta que atualmente está focado no futebol,
área que cobre
para sua agência
Fotoarena. Mas
trabalhos anteriores
também
marcaram sua vida, como
a importante foto de um
suposto OVNI encontrado
na Rodovia dos Imigrantes
e também da filha de um
escravo que encontrou em
uma de suas matérias. Além
disso, seu nome também foi
lembrado em exposição no
Conjunto Nacional, em São
Paulo, dentro do projeto
Respectiva Jornalística 2010,
no qual mais de 50 profissionais tiveram suas melhores
fotos escolhidas para expôlas. O critério era fazer parte
dos acontecimentos mais importantes do País e a única
foto escolhida de Santos foi
a dele, retratando um praticante do esporte Le Parkour,
na Praia do Boqueirão.
problema da Cidade”
Lucas Shiomi
O secretário de Segurança de Santos, Renato Perrenoud, classificou as drogas
como um problema grave
no município.
“Hoje já não existem
pontos críticos de consumo
de drogas. Toda a Cidade
está em estado crítico! E entre esses usuários, há desde
crianças de doze anos até
idosos”, afirmou.
Segundo ele, que já tentou sem sucesso desenvolver
projetos de prevenção nas
escolas do município, “as
maiores concentrações estão
nas imediações de escolas e
universidades, e também na
praia, nas regiões de periferia e nos morros”.
Perrenoud se mostrou a
favor da legalização da maconha, desde que rigorosamente controlada. “É comprovado que a maconha
tem propriedades medicinais. Por isso, concordo com
a legalização para esse uso,
EXPEDIENTE - Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação da UNISANTA - Diretor da FaAC:
Prof. Humberto Iafullo Challoub - Coordenador de Jornalismo: Prof. Dr. Robson Bastos – Responsáveis: Prof. Dr. Adelto Gonçalves, Prof. Dr.
Fernando De Maria, Prof. Francisco La Scala Júnior e Prof. Marcio Calafiori. Design gráfico e diagramação: Prof. Fernando Cláudio Peel,
Fotografia: Prof. Luiz Nascimento – Redação, fotos, edição e diagramação:alunos do 4º ano de Jornalismo – Primeira página: Thaís Cardim
– Editora de arte: Joana Ribeiro – Coordenador de Publicidade e Propaganda: Prof. Alex Fernandes - As matérias e artigos contidos
neste jornal são de responsabilidade de seus autores. Não representam, portanto, a opinião da instituição mantedora – UNISANTA
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Edição e diagramação: Joana Ribeiro
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
como medicamento controlado, o que é muito diferente de ir até a esquina fumar
um baseado e depois sair dirigindo por aí...”, observou.
De acordo com o secretário, 90% dos homicídios têm
relação com as drogas. “A
maioria é resultado de acertos de contas ou disputas por
pontos de tráfico. E como a
cidade possui muitos pontos,
esses assassinatos acabam
acontecendo em todo lugar”, disse Perrenoud.
“A pessoa vai até a esquina comprar droga e acha
que não está fazendo nada
demais. Mas, fazendo isso, ela
está fortalecendo a figura do
traficante, primeiro aquele
que anda armado, depois
aquele que anda de terno
e gravata. Tem muito traficante tomando uísque em
cobertura na orla da praia”,
acrescentou o secretário.
“Não existe lugar em Santos que esteja dominado por
traficantes, como acontece
no Rio de Janeiro”, garantiu.
Existe sensação de segurança na
Baixada, diz delegado regional
Waldomiro Bueno Filho destaca que Santos tem a melhor estatística do Estado de São Paulo
Glenda Poletto
O delegado regional
da Polícia civil e diretor
do Departamento de Polícia Judiciária (Deinter
6), Waldomiro Bueno Filho, diz que existe, sim, a
sensação de segurança na
Baixada Santista: “Isso eu
afirmo com orgulho. Santos tem a melhor estatística em questão de segurança pública do Estado
de São Paulo. Ficamos durante três anos no primeiro
lugar”.
Segundo ele, o índice de
crimes investigados com
êxito pela Polícia civil na
região é de quase 65% em
homicídios e cerca de 30%
em furtos e roubos. “Há 11
meses que não temos registro de sequestros. Estamos tentando melhorar o
índice de furtos e roubos”,
acrescenta.
Em relação aos homicídios, o delegado se baseia
em dados da Organização
das Nações Unidas (ONU),
que admite como regular
dez mortes para cada cem
mil habitantes. “Em Santos, temos três mortes para
cada cem mil habitantes”,
diz.
Questionado sobre qual
crime é o mais comum na
região, Bueno afirma ser o
de tráfico de drogas: “assim como em todo o Estado de São Paulo, o tráfico
de drogas é o maior problema. É o tráfico que desencadeia todos os outros
crimes”.
De acordo com o delegado, o índice de roubo e
furto de veículos na Baixada é baixo: “Existe, sim,
roubo de veículos na região, mas não é uma proporção que ocasiona uma
preocupação a mais para
nós.”
O diretor do Deinter-6
destaca a negligência dos
turistas e estudantes como
justificativa para a incidência dos furtos de veículos. “No verão, época em
que as praias ficam lotadas, os turistas param os
carros em qualquer lugar,
de qualquer jeito. Não se
preocupam em fechar e
travar corretamente os veículos, deixando tudo mais
à vontade.
O mesmo ocorre com os
estudantes. “Estes têm a característica de serem mais
desligados. Isso facilita a
ação do marginal. aqui, o
número de estudantes que
utilizam veículo próprio é
muito grande”, avalia.
Sobre as principais dificuldades enfrentadas pela
Polícia civil em combater a criminalidade, Bueno critica o que chama
de “incompreensão do Judiciário” em autorizar interceptações telefônicas e
pedidos de prisão: “alguns
juízes exigem coisas que
não estão na mão da polícia. além disso, o código
Penal dificulta, e muito,
as ações policiais”. Ele diz
o que mudaria na legislação, se pudesse: “Voltaria
com o mandado de busca
caRINa SELES
ores índices
Bueno Filho: Santos tem um dos men
lo
de violência do Estado de São Pau
domiciliar, por exemplo.
Era uma ‘arma’ que tínhamos. Hoje, temos que
pedir mandado de busca
para o juiz. Muitas vezes,
isso atrasa o procedimento
e o criminoso escapa”.
Em casos de furtos, Bueno explica que, muitas vezes, a polícia não recupera
o bem da vítima porque
não existe uma lei que
obrigue o ladrão a falar.
“O criminoso foi pego em
flagrante, por exemplo. Se
ele mente, deveria ser preso com dez anos de cadeia.
a lei do perjúrio resolveria
isso. Nos Estados Unidos
é assim e funciona muito
bem. a nossa legislação
beneficia o criminoso. as
leis deveriam ser modificadas”, diz.
Segundo o delegado, a
pena de morte é algo que
não funcionaria no Brasil:
“Jamais funcionaria pelo
próprio espírito brasileiro,
pois o primeiro condenado,
depois de um tempo, seria
canonizado. Sou a favor de
penas mais ásperas, como
a prisão perpétua. O criminoso não teme a morte.
Se temesse, não cometeria
tantos crimes”, analisa.
O diretor também comenta sobre como lida
com a corrupção policial:
“a corrupção é mal do homem e não da instituição.
a corrupção policial aparece mais porque é a única
que lava a sua roupa suja
em público. a Polícia civil
publica os erros que comete. Diferentemente do
Ministério Público e da Polícia Militar, que não pu-
blicam nada. Por sermos
‘transparentes’, há uma
sensação de que a corrupção se alastra. Mas não é
uma coisa que assusta a
nossa atividade. Há muito
mais policiais ordeiros do
que corruptos”.
Waldomiro Bueno Filho revela-se incomodado
com os crimes que envolvem crianças. E desabafa:
“Em toda a minha carreira,
poucos crimes não esclareci.
Dois deles foram com crianças. São dois ‘fantasmas’
que me acompanham até
hoje. Muitas vezes, quando
os crimes envolvem crianças, o policial não quer ver
nem o cenário do crime.
Sempre me lembro disso e
me questiono se não tive a
frieza necessária para solucionar esses crimes”.
Roubos e furtos crescem na região
Mariana Ayumi
Sentir-se seguro nos dias
de hoje é um desafio para
os moradores da Baixada Santista. Os relatos de
roubos, homicídios, apreensões de drogas, entre
outros tipos de ocorrências,
que aparecem diariamente nos jornais e TVs fazem
com que as pessoas tenham receio até mesmo de
ir à esquina das ruas onde
moram.
Os dados da criminalidade na região assustam
até os mais precavidos. De
acordo com informações
da Secretaria de Estado da
Segurança Pública, de janeiro a abril deste ano, foram contabilizadas 15.658
ocorrências de roubo (subtração de objeto mediante
ameaça ou violência) ou
furto (subtração de objeto
sem que a vítima perceba), o que daria a proporção de pouco mais de 130
delitos por dia na Baixada
Santista.
O secretário de Segurança de Santos, Renato
Perrenoud, atribuiu o aumento de roubos e furtos
ao crescimento do número
de moradores de rua e viciados em drogas. “Existe
uma parcela da população
que pratica estes pequenos
tes traz dados alarmantes.
Santos encabeça a lista
de cidades com maiores
apreensões, com 143 ocorrências; seguida de Praia
casos de estupro é alto em
Guarujá, com 54 casos denunciados; depois, vêm São
Vicente, com 45; e Praia
Grande, com 41.
caRINa SELES
na
Consumo de drogas: cena que virou roti
furtos e a receptação desses objetos está muito solta”, disse Perrenoud.
O tráfico de entorpecen-
Grande, com 82; e Peruíbe,
com 73. as mulheres também temem pela violência
na região. O número de
Muito visados por ladrões, os carros foram
um dos maiores alvos das
ações, segundo os índices
da Secretaria. Em média,
por dia, 19 veículos foram
roubados ou furtados na
região. Santos continua
sendo a cidade com maior
incidência de ocorrências,
com 733; seguida de Praia
Grande, com 542; e São Vicente, com 349.
Queda de homicídios
Mesmo com o aumento dos índices de roubos e
furtos, um dado chama a
atenção das autoridades:
a queda no número de homicídios dolosos nos últimos dez anos. No Estado, a
taxa de homicídios caiu de
35,27 por grupo de 100 mil
habitantes, em 1999, para
10,95 por 100 mil habitantes, em 2009.
Na Baixada, a redução
também é percebida em
números expressivos. De
1999 a 2010, Guarujá, São
Vicente e cubatão foram as
cidades que tiveram maior
diminuição da taxa de delitos, passando de 40,71
para 5,81/100 mil habitantes; 40,71 para 7,25/100 mil
habitantes; e 51,13 para
20,20/100 mil habitantes,
respectivamente.
Edição e diagramação: Vanessa Simões
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Santos tem taxa de homicídios de
primeiro mundo, diz secretário
Renato Perrenoud também aborda as mudanças na Guarda Municipal
FERNANDA BARRETO
Fernanda Barreto
A Guarda Municipal de
Santos, agora gerida pela Secretaria Municipal de Segurança, está se reinventando
com o objetivo ampliar as suas
ações e não só cuidar do patrimônio público. A afirmação é
do secretário Renato Penteado Perrenoud: “A proposta de
trabalho da Guarda Municipal está mudando. Ela deixou
de ser apenas uma guarda
patrimonialista, para agora
defender também a população, atender a comunidade
e prestar serviços públicos em
áreas públicas”. A secretaria
também engloba os cuidados
da segurança civil e a Junta do
Serviço Militar, além da corregedoria e o sistema monitorado de segurança.
Segundo as estatísticas estaduais, Santos registra taxa
de 5.6 homicídios a cada 100
mil habitantes. O número é
menor do que as registradas no Estado, de 9.8, e bem
abaixo da taxa nacional, de
25 homicídios. “A taxa de homicídios de Santos é pequena
e se compara à de cidades
de alguns países de primeiro
mundo”, destaca Perrenoud.
Segundo ele, em grande parte dos crimes que incorporam
essa taxa são 90% de acerto
de contas entre traficantes. Os
outros 10% são de crimes passionais.
O secretário assinala que
houve uma reestruturação da
Guarda Municipal, que teve
como meta principal a visão
é
Per renoud: a maior parte dos crimes
tes
can
trafi
e
de acerto de contas entr
moderna de segurança municipal, com um equilíbrio entre
a mão de obra qualificada e
a tecnologia aliada ao conhecimento do policial: “Estamos
em processo de reestruturação,
incluindo propostas de plano
de carreira e ingresso na guarda, por concurso publico”.
A reestruturação envolveu
também equipamentos de uso
pessoal. “Os guardas usam colete à prova de bala, algemas,
gás de pimenta, uniforme sinalizado e crachá”. De acordo
com o secretário, a Guarda
Municipal também usará armas. “A guarda vai começar
com a pistola Taser, de choque
elétrico. Mais adiante teremos
armas de fogo. Mas antes de
colocar armas de fogo nas
mãos dos guardas eles terão
treinamento qualificado”, garante o secretário.
Para reforçar a segurança
municipal, foi criada a forçatarefa que agrega os órgãos
policiais e de fiscalização do
município. “Com a força tare-
fa combatemos a prostituição
infantil, a venda de gasolina
e combustível adulterado e
a receptação de objetos roubados, além de outros casos”,
cita. A ação conjunta com a
PM ocorre todos os dias: “As
Forças Armadas, Polícia Militar, Civil, Federal e Guarda
Portuária estão trabalhando
com a Guarda Municipal em
conjunto”, afirma.
Além da Guarda, o secretário revela que tem projetos
para ampliar o sistema de
monitoramento, as câmeras
de vigilância que funcionariam 24 horas por dia por todo
o município, inclusive na Área
Continental. “Por enquanto,
apenas 30 câmeras foram
instaladas na Cidade (na orla
da praia, em torno do Centro
e na Alemoa), mas estamos
em processo de ampliação do
monitoramento e chegaremos a 250 câmeras até o fim
do governo”, adianta.
Acrescenta que o ideal para
um bom trabalho de segurança no município é o equilíbrio
entre o treinamento da polícia
e a tecnologia utilizada para
o combate ao crime: “A segu-
rança não é feita só com homem ou com tecnologia, tem
que haver um equilíbrio entre
ambos. Temos que ter capacidade de equilibrar bem os dois
com inteligência”.
Atualmente, todos os locais
públicos estão mapeados e lugares como escolas, hospitais e
outros equipamentos públicos
possuem alarme de segurança.
Quanto à ocupação de alguns
pontos, como os morros, pelos
traficantes, ele adianta: “Esse
foco é da polícia, mas a Prefeitura atua apoiando e criando
‘equipamentos’ municipais no
local. Com a ocupação do território pela Prefeitura, é fundamental ter policiais por lá;
assim, o tráfico é inibido”, disse.
Segundo ele, há uma força-tarefa de prevenção ao uso
de crack: atuação diária com a
Guarda, a PM, Assistência Social
e até mesmo a limpeza pública.
A intenção é coibir a ocupação
do território e oferecer o tratamento aos viciados. Mas o secretário informs que a procura
por tratamento é baixíssima e o
índice de recuperação também
é baixo nas áreas onde há viciados. “Infelizmente, este índice é
Serviço
Quer denunciar algum caso de uso de drogas perto da
sua casa? Denuncie pelo 0800 177766, o telefone da Emergência Social, serviço disponibilizado pela Prefeitura de
Santos. Para denunciar um crime que acabou de ocorrer,
ligue para a Polícia Militar no 190. Mas se o caso é freqüente e você não sabe para onde ligar, ligue para o Disque
Denúncia, o 181. Esse telefone é para casos de crimes que
já aconteceram ou acontecem com freqüência e ninguém
Guarda Municipal se prepara para
usar pistola paralisante
Pâmela Isis
A Guarda Municipal de
Santos foi criada de acordo
com a Constituição Federal,
artigo 144. Sua principal função é zelar pelo patrimônio
público municipal, como escolas e postos de saúde. Mas,
com o tempo esse conceito
vem sendo gradativamente
ampliado. Hoje, cabe à corporação também cuidar da
segurança da população em
geral. Agora, a corporação
está se preparando para receber as pistolas elétricas paralisantes - as chamadas pistolas Taser - que serão usadas
como ataque e defesa.
Atualmente, a Guarda
mantém integrantes fixos em
vários pontos da Cidade, além
de escolas e postos de saúde. Há
guardas também na recéminaugurada Arena Santos e
no conjunto Poliesportivo Dale
Coutinho e outros pontos da
Cidade que merecem atenção
diferenciada. É o que garante
o comandante Maurício Soares
de Novaes: “Antes, cuidávamos
do patrimônio público. Hoje,
porém, aumentou muito o nosso leque de ações. Não somos
mais só guardas municipais,
mas sim agentes de segurança
em apoio às polícias Civil e Militar. Com esta, fazemos forças-
4
tarefas no combate ao crack.
Auxiliamos também a Secretaria de Assistência Social abordando moradores de rua, com
os quais muitas vezes achamos
drogas. Enfim, temos uma série
de atividades que caracterizam
o nosso crescimento”.
Neste ano, o governo estadual, por intermédio da Secretaria de Segurança Pública,
enviou novos equipamentos,
como algemas, bastões tonfas (cassetetes) e espargidores
de gás pimenta chamados de
Equipamento de Proteção Individual (EPI). Tudo isso a fim
de equipar e garantir a ação
da corporação, que já usa coletes à prova de balas. O comandante explica que cada
material recebido tem um
padrão de operação específico para saber como utilizá-lo
corretamente. “Todas às segundas-feiras à tarde fazemos
uma reciclagem com os guardas. Isso inclui o treinamento de abordagem, de revista
pessoal, o uso de algemas, dos
bastões tonfas e dos espargidores de espuma e de gás pimenta”, diz.
Além dos EPIs, está prevista
desde o ano passado a chegada das pistolas elétricas paralisantes, da marca Taser, uma
arma não-letal cujo tempo de
descarga elétrica é de cinco
Edição e diagramação: Thaís Cardim
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
segundos, o tempo necessário para que guardas treinados imobilizem e algemem os
agressores. Alguns municípios
paulistas como Botucatu e
Araçariguama receberam o
equipamento. Já outras guardas importantes do Estado,
como a Metropolitana de São
Paulo e a de Guarulhos, optaram por armas de fogo.
Para o comandante da
Guarda de Santos, a chegada
das pistolas Taser representa
um grande passo para a corporação, até a implantação
das armas de fogo, ainda sem
data prevista. “Primeiro, vamos equipar os guardas com
as pistolas Taser, para que eles
comecem a sentir a responsabilidade sobre o armamento.
Não é tão simples armar 400
homens que, em sua maioria,
estão há mais de 20 anos na
corporação e nunca utilizaram um armamento. Além
deste dar certo poder, também acaba deixando o guarda mais visado por marginais.
É preciso ter preparo e apoio,
não é só armar e colocar na
rua. Vamos dar um passo de
cada vez”, diz Novaes.
A Guarda Municipal de
Santos conta também com
o Sistema Informatizado de
Monitoramento, operado pela
Secretaria de Segurança, em
PÃMELA ISIS
Novaes: pistolas Taser representam um
grande passo para a GM
conjunto com a Polícia Militar
e a CET. Ao todo, são 20 câmeras fixas do José Menino à
Ponta da Praia, além de quatro no Centro Histórico, três na
Alemoa e uma na base móvel.
Os equipamentos funcionam
24 horas. “No SIM, estãoum
policial militar, um agente da
CET e guardas municipais.
Por meio do monitoramento,
conseguimos visualizar muitas
irregularidades que, dependendo da situação, são atendidas pela PM, pela CET ou
pela Guarda Municipal. Após
a concretização do acordo firmado com a Petrobras o número de câmeras será duplicado”, garante Novaes.
Além de sua base, que fica na
Praça Iguatemi Martins, a Guarda Municipal possui mais seis
coordenadorias, cada qual equipada com carros, motos, bikes e
guardas. “A do Emissário Submarino atende a toda a orla da
praia; a da Rua São Paulo atua
nos morros; existem também a
da Zona Noroeste, da área Continental e a do Centro Histórico”,
explica o comandante.
Atos seguros podem
reduzir ações criminosas
Em meio ao crescimento da criminalidade, pequenas ações evitam que pessoas atentas se tornem alvos do crime
Michael Gil
Como andar, prevenir-se, evitar
riscos pelas ruas, sendo que a criminalidade cresceu?
Dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP)
apontam que, nos últimos três anos,
os índices da violência subiram em
Santos. De acordo com a SSP, dois
indicadores tiveram crescimento
considerável: furtos e roubos
Em relação ao primeiro, comparando as ocorrências registra-
das em 2008 (6.483 casos) e 2010
(7.106), o aumento de furtos foi de
623 ocorrências notificadas à polícia – aumento de 9,6%. Quanto a
roubos, a diferença é ainda maior.
Em 2008, foram 3.187, enquanto
em 2010, o total chegou a 4.047,
ou seja, 860 casos a mais – crescimento de 27%.
Segundo o secretário de Segurança de Santos, Renato Perrenoud,
estes fatos acontecem por causa de
pequenas ações de ladrões e até de
moradores de rua, que se utilizam
disso para bancar o uso de drogas.
Perrenoud classificou as intervenções dos assaltantes como pequenos assaltos, pois os objetos saqueados são aparelhos celulares,
carteiras e bolsas.
Apesar do crescimento dos índices de criminalidade, evitar a violência pode ser simples, desde que
pequenas ações sejam seguidas,
como as orientações da Polícia Militar. O primeiro tenente da PM de
Santos, Elisário da Costa Chaves
Netto, aponta algumas ações bá-
sicas para que qualquer cidadão
sinta-se seguro.
Dentre as recomendações, segundo a Polícia Militar, a atenção
é o melhor recurso. No entanto, o
tenente pontua alguns procedimentos para cada momento, seja
enquanto se anda pela rua, nas
compras, durante o uso de caixas
eletrônicos e no interior dos veículos.
Veja algumas dicas nos quadros
abaixo:
Nas ruas
SóCRAtES PuNtEL
SóCRAtES PuNtEL
• Evite a ação dos marginais,
não ostentando correntinhas,
relógios, medalhas, braceletes e
outras jóias;
• não carregue objetos de valor, grandes quantias em dinheiro ou cartões de crédito, se não
houver necessidade;
• evite andar por ruas ou praças mal iluminadas;
• separe previamente o dinhei-
ro necessário para pequenas despesas, como café, cigarro e condução;
• se você achar que está sendo
seguido, atravesse a rua ou entre
em algum estabelecimento movimentado para buscar ajuda;
• procure caminhar no centro da
calçada e contra o sentido do trânsito. É mais fácil perceber a aproximação de algum veículo suspeito.
Nas compras
Em caso dE assalto:
• Comunique-se e faça movimentos lentos;
• responda com calma somente
ao que lhe for perguntado ou para
avisar sobre qualquer gesto ou movimento a ser realizado;
• não discuta. Entregue ao criminoso o que ele exigir. Assim, o tempo do roubo será menor;
• faça o que o criminoso mandar;
Nos caixas
ALiNE DELLA tORRE
ALiNE DELLA tORRE
• Evite fazer compras sozinho. Leve sempre uma companhia, porque é mais seguro;
• prefira pagar com cheque
ou cartão. Assim, não é preciso levar grandes quantias em
dinheiro, diminuindo os riscos;
• não deixe a bolsa, carteira
ou objetos comprados em locais que possam ser roubados;
• procure fazer compras em
• não olhe diretamente para os
marginais - isso é visto como uma
ameaça;
• procure memorizar todos os detalhes possíveis, como fisionomia,
modo e frases usadas, roupas, gírias, trajetos e locais visitados, veículos utilizados;
• não tente fugir ou reagir. É comum pessoas estarem efetuando
cobertura.
horários de menor movimento;
• não é aconselhável mostrar dinheiro em público, principalmente
em bares, restaurantes, lojas, cinemas e carrinhos de pipoca;
• bolsas, carteiras ou sacolas de
compras devem ser transportadas
junto ao corpo, do lado de dentro
da calçada;
• evite carregar muitos pacotes
ou sacolas para não ter as duas
mãos ocupadas.
• Se houver necessidade de realizar saques à noite, prefira caixas instalados em locais iluminados e com
grande movimentação de pessoas;
• não se dirija sozinho ao caixa eletrônico. Leve acompanhantes adultos e peça que aguardem fora da
cabine, como se estivessem na fila.
Completada a operação, guarde
o numerário em diferentes bolsos e
abandone o local o mais rápido possível;
• evite estacionar o carro e andar até o caixa. Caso seja necessário, não deixe ninguém no interior
do veículo;
• não demore no interior de caixas eletrônicos. Planeje antecipadamente a operação desejada;
• não perca tempo. Quando
completar a transação, guarde seu
cartão e seu dinheiro imediatamente. Confira o dinheiro em local
seguro.
Outras recomendações no www.policiamilitar.sp.gov.br
Edição e diagramação: Michael Gil
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
5
Quem tem medo
da Guarda Noturna
?
Instituição, que já teve poder de Polícia Militar, atualmente está esquecida pela população
Mariana Aquila
Antigamente, a população de Santos ficava apreensiva e. logo em seguida, mais
tranquila ao ouvir um apito
tocar durante a noite. Sabe
por quê? Eram os guardas noturnos entrando em
ação. “A Guarda Noturna
já teve poder e autoridade
igual à da Polícia Militar.
Podia atender qualquer
tipo de ocorrência, prender e levar o detido para
o distrito policial. Hoje em
dia, nem armamento usamos mais, depois da lei do
desarmamento de 1988”, diz
o inspetor geral Miguel Dias
de Souza, que trabalha na
guarda há 40 anos.
Em 23 de dezembro de
1940, no governo Adhemar
de Barros, a Guarda Noturna
foi oficializada, mas existem
registros de que já existia há
mais tempo. Apesar dessa ligação com o Estado, a única
fonte de renda vem agora de
quem contrata os serviços. “A
SÓCRATES PUNTEL
grande diferença que sinto
é que, anos atrás, existia
uma dependência da população em relação a esses
profissionais. O trabalho
era de rondar quarteirões
e, em uma época, fiscalizar os patrimônios da Cidade. Hoje em dia, isso não
acontece mais. Perdeu-se o
poder. Eles trabalham em
prédios e estabelecimentos, por exemplo: em transportadoras, controlando o
acesso”, explica Souza.
As atividades atuais se
resumem em zelar pela segurança de quem contrata o
serviço e das pessoas envolvidas. “Os guardas auxiliam as
vítimas.
Caso uma viatura esteja por perto, eles relatam o
ocorrido; se não, entram em
contato com o inspetor geral
e encaminham a vítima à
delegacia”, conta Renato Soares Prestes, diretor da G.N.
há 11 anos.
Para se tornar guarda
noturno é preciso apresentar
um currículo. Os que se encaixam no perfil são chamados
para uma entrevista. “Antes,
éramos 600 trabalhadores.
Agora, somos 120”, lamentou
Miguel Souza.
São quatro divisões dentro da Guarda Noturna: o
diretor, que é eleito pelo secretário de Segurança Pública; o inspetor geral, inspetor
plantonista e os guardas. A
sede atual fica na Avenida
Conselheiro Nébias, 676, mas
já passou pela Praça da República e pela Avenida Ana
Costa.
O guarda Nick
Quando estive na sede
da Guarda Noturna, fui
surpreendida por uma presença canina na sala do inspetor geral. Conheci o Nick,
um cachorro que mora lá e
usa até roupa de segurança. “Ele está aqui há sete
anos. É super dócil e muito
companheiro”, define Miguel Dias Souza, de quem o
cão é fiel parceiro.
za, tem a ajuda de Nick,
O guarda noturno, Miguel Dias de Sou roupa de segurança
até
um cachorro que mora na sede e usa
O perigo está em toda a parte
SÓCRATES PUNTEL
is perigosos, com furtos e roubos,
Gonzaga e Boqueirão são bairros ma
Santos, Renato Per renoud
segundo o secretário de Segurança de
6
Edição e diagramação: Ivan De Stefano
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
Bruna Garcia
“Em relação à violência,
Santos não tem pontos críticos específicos. Na verdade,
ela está espalhada por toda
a cidade”. A afirmação é do
secretário de Segurança de
Santos, Renato Perrenoud.
Segundo ele, as drogas estão em todos os lugares. Perto de escolas e faculdades, na
praia, na periferia, nos morros,
nos diques. “Hoje, você encontra traficantes em qualquer
ponto da cidade, inclusive em
bairros mais abastados”, diz o
coronel reformado da PM.
Furtos e roubos acontecem com mais frequência em
centros comerciais, como os
shoppings, e nos bairros do
Boqueirão e do Gonzaga. “A
violência doméstica e os homicídios ou acertos são mais
na periferia, mas podem
ocorrer em qualquer lugar”.
Segundo o secretário, existem
bairros em que a população
é coibida de sair de casa pelos traficantes.
A segurança individual é
um fator primordial para poder circular tranquilamente
por todas as regiões da cidade.
Segundo Perrenoud, deve-se
tomar cuidado com a maneira de se vestir e tentar não se
destacar, para evitar assaltos
e outras manifestações violentas, em qualquer parte,
principalmente à noite.
O secretário disse ainda
que existe um projeto para
a instalação de 250 câmeras
de monitoramento por toda
a cidade. Por enquanto,
apenas 30 estão em funcionamento.
O prefeito João Paulo Tavares Papa assinou recentemente um acordo com a Petrobras que irá ceder mais 18
câmeras.
Família é o foco central da Seas,
afirma secretário
Carlos Teixeira fala sobre as principais demandas de inclusão social no município
ALINE DELLA TORRE
Mayra Ramos
Atendimento social,
verbas, adolescentes
infratores, vítimas de
violência doméstica
e cadastramento de
candidatos ao BolsaFamília. Estes são
alguns dos temas que o
secretário de Assistência
Social, Carlos Teixeira
Filho, abordou nesta
entrevista ao Primeira
Impressão. Confira
detalhes sobre a pasta,
cuja demanda social é
crescente, e que atende
cerca de 12 mil famílias.
PI – Quais são as maiores demandas da secretaria?
A principal demanda de
inclusão social da pasta é
o Restaurante Bom Prato,
que serve 1.200 refeições
diárias ao custo unitário
de R$ 1,00. O cardápio é
elaborado por nutricionistas, que seguem o nível de
calorias preconizado pela
Organização Mundial da
Saúde. O espaço é cedido
pela prefeitura. A administração é da ONG Estrela do
Mar e os alimentos são fornecidos pela Secretaria de
Abastecimento do Estado
de São Paulo.
Em seguida, estão os programas de transferência de
renda do Bolsa Família —
em parceria com o governo federal — e Programa
Nossa Família, municipal.
Os candidatos ao benefício procuram os Centros de
Referência da Assistência
Social, a partir de onde são
avaliados por operadores
sociais que examinam o
Danilo Netto
Juliana Fernandes
Visto como “quartel
militar” pelos moradores de
rua e abrigo pela população
santista, a Sociedade Amiga dos Pobres Albergue
Noturno oferece orientação e
cursos para os desabrigados.
Segundo a assistente social
Rosalice Rosário, a entidade
promove aulas de artesanato
todos os dias, entre outras
atividades.
O local disponibiliza 60
vagas: 40 são para homens
e 20 para mulheres. Muitos,
porém, preferem ficar nas
ruas e as vagas não são
preenchidas na totalidade.
Todas as noites, a perua da
Prefeitura passa pelas ruas
de Cidade para recolher
os moradores. Muitos se
recusam. “Eles dizem que
na rua têm mais liberdade,
não têm regras”, diz
Rosalice.
O morador de rua tem
direito de ficar cinco dias
no albergue. Se precisar
ficar um tempo maior,
para esperar, por exemplo,
culdades que a Seas enfrenta?
A violência doméstica
aumentou, principalmente entre crianças e adolescentes. A questão dos moradores de rua também
nos preocupa bastante. A
sociedade precisa se conscientizar que não pode dar
esmolas, nem roupas, nem
alimentos ao morador de
rua. Isso só vai mantê-lo
naquela situação. O que
nós percebemos também é
que há um aumento no número de moradores de rua
na Baixada Santista, coisa
que não existia. Geralmente, são pessoas que vêm de
outras regiões para procurar emprego e melhorar de
vida.
ção do SUAS, que
Secretário aposta na implanta efícios às famílias
oferece ser viços, programas e ben
corte de renda e as condições materiais, caso a caso,
encaminhando ou não os
solicitantes aos programas.
Em terceiro, há a demanda do benefício auxílioaluguel (R$ 400,00), direcionado atualmente a 178
famílias. Serve para vítimas de sinistros (incêndios,
enchentes, desmoronamentos) e que perderam seus
imóveis. O benefício é pago
diretamente ao locador.
O que mudou desde
que o sr. assumiu a secretaria, em 2005?
Estamos tentando implantar o Sistema Único de Assistência Social
(Suas), que oferece serviços, programas, projetos e
benefícios especiais para
a família. Hoje nosso foco
principal é a família. Nós
implantamos o Centro de
Referência de Assistência
Social (Cras), que tem uma
política voltada para as
pessoas que estão vivendo
em vulnerabilidade social,
ou seja, para atender as
necessidades do munícipe.
O Centro de Referência Especializada da Assistência
Social (Creas) atende o cidadão que teve um direito
violado. Nós atendemos indivíduos vítimas das diversas formas de violência.
O que falta para o
SUAS ser aprovado?
Está na última comissão
no Congresso. Todos os estados estão trabalhando
para o Suas se tornar lei.
Quando isso acontecer, vai
ser possível contratar ou até
pagar os recursos humanos
com verba do Governo Federal.
O orçamento destinado
à secretaria de Assistência Social é suficiente?
Nós temos uma discussão
que também está no Congresso para que a Assistência Social tenha um percentual dentro dos municípios.
Assim como a saúde, em
torno de 20% e a educação, 25%. A discussão é que
a assistência social tenha
5% deste orçamento. Mas
acredito que o foco não seja
este. Precisamos nos preocupar em como este dinheiro está sendo aproveitado.
Não adianta ter uma verba de R$50 milhões e não
executar o seu orçamento.
Hoje, para suprir as nossas
necessidades, o orçamento
é suficiente. Claro que sempre pleiteamos mais, afinal
nós estamos investindo e
implantando as políticas.
Mas também temos um
convênio com os governos
do Estado e o Federal, o
que acaba complementando o nosso orçamento.
Quais as maiores difi-
Moradores de rua rejeitam
Albergue Noturno
a família mandar a passagem
de volta, ou para fazer uma
entrevista de trabalho, o caso é
analisado separadamente. “Se
for caso de emprego, damos
“Nessa profis-
são, é preciso ser
neutro para não se
envolver e sofrer
ASSISTENTE SOCIAL
ROSALICE ROSÁRIO
um mês para elas ficarem e
conseguir alugar um quarto
com o salário. Ou então,
quando estão aguardando a
passagem para voltarem à
cidade natal”.
Com 95 anos de história o
Albergue recebe pessoas de
diversas cidades que vieram
almejando um melhor emprego
ou encontrar parentes. Nessa
jornada, muitos perdem os
documentos. “Então eles
vêm, ficam dormindo na rua,
acabam sem nada e, por esse
motivo, começam a beber e se
drogam”.
Também existem casos de
jovens usuários de drogas ou
alcoólatras que são expulsos
de casa, pois a família já
deu auxílio, mas mesmo
assim eles continuam com
o vício e começam a roubar
objetos dentro da própria
casa. “Teve um caso, mês
passado de um rapaz que
pediu para que eu ligasse
para a sua mãe. Durante
a ligação, a mãe do rapaz
me respondeu que já estava
cansada de ajudar o filho e
que, infelizmente, não ia
lhe dar a mão dessa vez
e começou a chorar. Isso
me deixa muito triste. No
começo, eu ia para casa
angustiada. Nessa profissão,
é preciso ser neutro para
não se envolver e sofrer”,
desabafa a assistente social.
Os albergados entram às
19 horas, vão tomar banho,
colocam o pijama, jantam e
a seguir vão se deitar. No dia
seguinte, acordam às 6 horas,
tomam café, são orientados
pela assistente social e depois
saem para procurar emprego
ou retomar outra atividade
dentro do albergue. Uma
norma imposta é que não
cheguem alcoolizados ou
drogados. “Todas as noites
oferecemos higiene pessoal:
pasta de dente, escova,
sabonete,
desodorante,
roupas”, diz Rosalice.
O albergue se mantém
com verba da Prefeitura e do
governo federal. Outra forma
de arrecadação é o bazar,
um terreno alugado e um
estacionamento. A entidade
No orçamento para
2010, a secretaria tinha à disposição R$30,1
milhões (2,74% do total
da receita). Neste ano,
a parte diminuiu para
R$29,5 milhões (2,39%
do orçamento). Por sua
vez, a Câmara aumentou sua participação
de R$38,9 milhões para
R$50,9 milhões (de 3,5%
para 4%). A Câmara tirou dinheiro da secretaria?
Não. É um órgão totalmente independente do
Executivo. Agora, cada
vereador vai receber uma
verba para investir dentro
da área social. Existe uma
norma operacional básica
dentro dos recursos humanos que analisa a necessidade da contratação de
funcionários e da implantação das políticas. O custo
da folha de folha de pagamento desses funcionários
absorve quase a metade do
nosso orçamento.
também participa do Festa
Inverno vendendo pizzas.
Segundo Rosalice, o
albergue aceita qualquer
tipo de doação. Elas podem
ser entregues no próprio
local (Rua Brás Cubas,
289, Vila Mathias). “Se for
doar algo maior, é preciso
telefonar. Agendamos e
vamos buscar em casa.
Essas doações são recolhidas
às terças e sextas- feiras”.
Como começou
A
quantidade
de
mendigos e migrantes
andando pelas ruas da
cidade fez com que a
Câmara
Municipal
e
entidades se unissem para
criar uma entidade que
atendesse aos necessitados.
No dia 7 de abril de 1916,
na sede da Associação
Comercial de Santos, foi
realizada a assembleia de
fundação da nova entidade.
Com representantes de 40
instituições da sociedade
santista
foi
fundada
oficialmente a Sociedade
Amigo dos Pobres Albergue
Noturno.
Edição e diagramação: Willian Guerra
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
7
E-drugs,
o som que
vem da rede
Programa de computador produz ondas sonoras que interferem no cérebro
GABRIEL MARTINS
droga virtual
Adolescentes estão usando uma
oras
que produz “doses” de ondas son
Gabriel Martins
Deitado no quarto, uma pessoa coloca os fones de ouvido e
escuta um som aparentemente
inofensivo. Depois de um tempo,
o usuário começa a sentir uma
sensação fora do comum.
Esta é a descrição de como
os adolescentes estão usando
uma droga virtual, chamada de
I-Doser ou E-Drugs, que nada
mais é do que um programa de
computador que produz “doses”
de ondas sonoras. Estas ondas
interferem nas ondas cerebrais,
simulando o efeito de várias drogas reais em seres humanos.
A universitária B.G., 20 anos e
usuária por seis meses, conta que
usa estas drogas apenas para relaxar. “Gosto delas porque não
são pesadas, não vejo ninguém
morrendo no Jornal Nacional por
causa delas. Minha preferida é a
quick happy.”
No site da I-Doser Experience, principal marca que disponibiliza esse tipo de arquivo na
rede, existem diversos pacotes
diferentes, cujo download custa
muito menos que as drogas convencionais. Entre as mais famosas pode-se encontrar maconha,
cocaína, ópio e peyote.
Os criadores do site empregam a técnica binaural beats
(batidas bineurais, em português), descoberta pelo físico
alemão Heinrich Dove em 1839.
A tese afirma que caso duas freqüências semelhantes, mas não
iguais, sejam reproduzidas em
cada um dos ouvidos, haverá
estímulos auditivos ao cérebro.
Essas batidas são utilizadas, por
exemplo, em sessões de meditação e até em algumas músicas.
Na década de 70, foi descoberto que elas poderiam diagnosticar o Mal de Parkinson, pois
a maioria dos que sofrem do
problema não consegue perceber as batidas.
Em resposta por e-mail o Núcleo de Pesquisas em Psicologia
e Informática (NPPI) da Pontifícia Universidade de São Paulo
(PUC-SP) informa que “o I-doser é um programa que procura
simular a sensação da ingestão
de algumas substâncias.” Segundo o site que o distribui, não existem contra-indicações. Algumas
pessoas descrevem como sendo
uma auto-sugestão, outras não
sentem os sintomas descritos”.
Não é difícil encontrar vídeos
e relatos de pessoas que usam as
E-drugs. Em uma comunidade do
Orkut com mais de 28 mil membros há um tópico com as mais variadas experiências. A mais famosa
é uma chamada Nitrous, segundo
R.P., usuário há pelo menos três
anos. “Ela não é forte nem fraca, é
moderada. Recomendo, já a usei
e fiquei rindo que nem louco por
vários minutos”, lembra.
Já a mais famosa dentre as
doses se chama Gate of Hades,
dose da qual B.G. conta que sempre morreu de medo dela, mas
tinha curiosidade para ver como
era. “Nunca criei coragem para
usá-la. Até o dia em que resolvi
tentar. No começo, eu não senti
muita coisa, apenas uma agonia
muito grande e um medo. Mas
eu tentava me manter calma,
dava trabalho. Eu tentava me
concentrar para não sentir tanto medo. Funcionou até chegar
aos 23 minutos. A partir daí, a
frequência da dose aumenta. Eu
tive um ataque de pânico. Senti
um medo incontrolável, tirei o
fone, dei um grito, joguei longe
e saí do quarto procurando um
ambiente com luz. Depois disso,
fiquei uma hora tremendo e
ainda sentindo bastante medo.”
Lei busca inserir dependente
químico na sociedade
Letícia Schumann
Reinserir dependentes
químicos na sociedade é
um dos problemas mais
graves que o País enfrenta hoje. Com o objetivo
diminuir as consequências
sociais que um viciado em
drogas enfrenta foi aprovada, em 23 de agosto de
2006, a Lei 11.343, mais
conhecida como a Lei do
Usuário.
8
A advogada Luciana
Rocha Silva explica que a
lei tem como objetivo reinserir o dependente químico na sociedade e punir
corretamente o traficante.
“Atualmente, para a legislação, o usuário é um doente que precisa da ajuda
do Estado e não de punição. Não existe uma quantidade ‘x’ que caracterize
tráfico ou uso. As circunstâncias do caso é que aju-
Edição e diagramação: Ivan De Stefano
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
darão as investigações”,
explica.
Luciana cita um exemplo segundo o qual a quantidade não seria o determinante para a polícia saber
se se trata de dependente
ou de traficante: “Um usuário que viaja não tem
como buscar a droga todos
os dias. Ele então acaba
comprando uma quantidade maior para consumir
nas férias, por exemplo. Se
for pego, e analisado apenas o quesito quantidade,
ele seria preso em flagrante por tráfico. Assim, tudo
depende do contexto. O
vício também é facilmente percebido pelos policiais
que acompanham o flagrante. Eles vão em busca
de indícios que levem ao
tráfico”, diz.
Caso um dependente
seja detido, não há aplicação de pena. “A Lei
11.343/06 visa a recolocação deste indivíduo na
sociedade, ou seja, prevê
programas de tratamento e ajuda psicológica”.
Luciana explica que só se
pune o bandido e não a vítima. “Privar o dependente de sua liberdade não
é o remédio. A lei inovou
neste ponto. Afinal, quem
disse que no sistema prisional não existe tráfico?
Os doentes continuariam
viciados”.
Ela diz que a lei dá a
oportunidade aos dependentes químicos de se redimirem e consequentemente a marginalização deles
sob o ponto de vista social
também diminui. Já os traficantes podem, muitas vezes camuflar situações para
se passar por usuários. “Al-
guns conseguem driblar a
lei”, reconhece a advogada.
Para Luciana Rocha Silva, a lei não incentiva o uso
de entorpecentes: “O consumo e a venda continuam
sendo proibidos. A droga é
ilícita, mas dá a chance de
verdadeiros doentes e vítimas de traficantes não
terem o mesmo destino de
criminosos”.
A advogada conclui que
a droga é um problema
a ser combatido, punindo
traficantes e não os dependentes. “O aumento ou não
do consumo é proporcional
ao diálogo com a família,
educação, prevenção. Não
é pela lei antidrogas. Se tirarmos um retrato atual da
sociedade, veremos o oposto
do que o País precisa para
se livrar deste problema”.
Lembrando que há poucos dias houve a marcha
para a legalização da maconha, Luciana comenta
que tornando esse tipo de
droga legal, o tráfico não
acabaria. “Existem outros
entorpecentes que não possuem nenhuma chance de
legalização, como o crack e
a cocaína. O tráfico continuará a fazer vítimas com ou
sem legalização”, conclui.
Consumo de álcool e cigarro
pode levar a outras drogas
Segundo o presidente do Conselho Municipal Antidrogas, custo baixo dificulta ação das autoridades
CARINA SElES
Nathalia Pio
Bebidas alcoólicas e cigarro
podem sim ser uma porta de
entrada para o consumo de
drogas ilícitas, segundo Eustázio Pereira Filho, presidente
do Conselho Municipal Antidrogas (Comad) de Santos.
O consumo exagerado desses
entorpecentes prejudica não
só consumidor, mas a sociedade. Em mortes ocorridas em
acidentes de trânsito no Brasil,
70% apresentavam alto teor
etílico na necropsia e o tabaco,
no ano 2000, foi responsável
por 25% dos leitos ocupados no
Sistema Único de Saúde (SUS),
conforme um estudo realizado
pela Unifesp.
“Ninguém chega ao crack diretamente. Todo o caso
começa pelo cigarro e álcool,
cada dia mais precocemente, passa pela maconha, que
abre às compulsões, e chega à
cocaína, ao crack, etc.”, alerta
Pereira Filho.
Na Baixada Santista, o álcool também é a droga mais
consumida entre adolescentes
que frequentam o ensino médio público, 69% ingerem bebidas alcoólicas regularmente,
seguida pelo tabaco com 23%
tabaco, 15% usam solventes,
12% maconha e 3% cocaína.
rro
O consumo excessivo do álcool e do ciga
tas
ilíci
gas
dro
as
facilita o contato com
Na última pesquisa realizada
pela UNISANTA em parceria
com o Comad em 2005, ainda
não aparecia o crack dentro
do ensino sistemático, usado,
na época, apenas pela popu-
lação em situação de rua.
Nos dias atuais a situação
está diferente. O crack e o
mais recente oxi estão disseminados em todas as classes sociais e faixa etária. Esses entor-
pecentes viciam mais rápido
e são mais devastadores para
o organismo, “A cocaína chega ao cérebro, passando pelo
aparelho digestivo, via corrente sanguínea, isto leva cerca
de dez minutos. O crack e o oxi
levam dez segundos para que
surjam os efeitos. Portanto, são
drogas altamente compulsivas
levando o indivíduo à perda
de lucidez parcial”, explica o
presidente do Comad.
O baixo custo desses entorpecentes dificulta a ação das
autoridades, “Não há como evitar o acesso”, admite o Pereira
Filho. Porém, há tratamento
disponível em Santos para os
dependentes. Os consultórios
de rua, em Santos chamados
de Ruas de Cidadania, prestam
atendimento aos usuários que
moram nas ruas. O Centro de
Atenção Psicossocial em Álcool
e Outras Drogas, Senat/Caps.
E ainda Grupos de Apoio de
Anônimos como Amor Exigente, que oferece orientação aos
familiares, Pastoral da Sobriedade, entre outros.
Apesar de ser difícil a recuperação de dependentes
químicos, Pereira Filho conta
que não é impossível, “Felizmente, tenho acompanhado
vários casos de recuperação.
Trata-se de uma doença crônica e progressiva, mas totalmente controlável, desde
que exista a aprendizagem
das ‘ferramentas’ para que a
pessoa passe a ter controle e
se mantenha recuperado”.
Núcleo atende dependentes
PATRíCIA ROSSETO
Patrícia Rosseto
O idealizador e fundador
do Núcleo Jama, o engenheiro
civil José Antônio Marques Almeida, diz que o interesse em
ajudar dependentes químicos
começou há 20 anos, quando
organizou um desfile de modas e cobrou ingressos dos participantes, convertendo a renda completa para o Desafio
Jovem, organização cristã que
acolhe dependentes químicos
que desejam recuperar-se.
Durante um tempo, continuou a dar sua contribuição daquela maneira até
que decidiu fundar o Núcleo
Jama, que ele não gosta de
chamar de instituição nem
de organização. Prefere que
se chame de núcleo mesmo,
pois “não existe ligação com
nenhuma igreja ou organização”. O apoio financeirao
é dado por ele com a ajuda
de voluntários, como pessoas
dedicadas e até profissionais
da área, como psicólogos.
Qualquer pessoa pode
participar das reuniões do
núcleo, ainda que não seja
dependente químico. Já conversar com a psicóloga só
quem pode fazê-lo é o dependente. Segundo Jama,
não existe nenhum tipo de
vínculo entre quem decide
participar das reuniões e o
núcleo. “Não há registros,
contribuições, obrigações”,
tem
Engenheiro diz que a entidade não
ligação com igreja ou organização
afirma. “O problema que as
pessoas enfrentam com as
drogas é uma questão existencial e espiritual”, acrescenta.
Para ele, as pessoas não
podem se limitar ao materialismo. “Devemos acreditar
naquilo que não vemos também. A própria questão da
morte é um exemplo disso. A
busca pela fé e a esperança
fortalece a vida e a vida é o
caminho”, diz.
Na opinião de Jama,
qualquer dependente pode
se libertar das drogas. “Todos
querem largar, sem exceção. A vontade pessoal puxa
para fora da situação”, diz,
lembrando que a dificuldade
é maior para quem não encontra apoio, como a ajuda
e compreensão da família,
de pessoas especializadas e,
principalmente, a “aproximação a Deus, à fé”.
Outro detalhe importante que ele ressalta é que o
apoio deve ser situado socialmente para que haja uma
real mobilização e aproximação dos dependentes, e, acima de tudo “solidariedade”.
A história humana se repete,
cada um tem sua realidade
e suas angústias, diz. “Quem
está de pé deve cuidar para
que o outro não caia”, recomenda, lembrando que a
recaída de um dependente
o coloca no mesmo ponto em
que parou.
A participação da família
também é apontada por
ele como fator que contribui
para a cura. Para Jama, a
sociedade está muito alheia
à expansão das drogas na sociedade. “A sociedade exige
muito do governo, que não
é eficaz nem consegue resolver a situação sozinho”, diz.
“Em Santos, por exemplo, a
questão está praticamente
abandonada”, acrescenta,
argumentando que a sociedade que não usa droga
não produz o tráfico.
Para Jama, a população
devia ser mais solidária com
o dependente. “os religiosos
também estão apáticos. Estamos em uma situação de
guerra e na guerra todos são
convocados. Não é uma tarefa simples, mas também não é
impossível”, conclui.
Edição e diagramação: Thaís Cardim
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
9
A batalha
contra o vício
Casas de recuperação investem em terapias de grupo para que usuários consigam largar as drogas
10
Pescaria é uma das atividades de lazer a qual os usuários possuem
na clínica de reabilitação Razão de Viver...
autorizadas pela família no
ato da internação. A reclusão varia de seis meses para
casos de álcool e nove para
drogadição. O método adotado pela entidade é o de
afastamento, que, segundo
o coordenador, exige muita
dedicação por parte do paciente. “Nos casos mais graves, o usuário tem crises de
abstinência com convulsões,
sente fortes dores pelo corpo
nda
Legenda legenda legenda legenda lege
e necessita de tratamento
legenda legenda legenda legenda
médico. Mas o equilíbrio e
o esforço são peças fundamentais”.
ço proporcionado para o
Os internos participam
... que contam também com amplo espa
de atividades como labotedescanso e bem estar dos dependentes
rapia; terapia ocupacional,
em grupo e individual; mú- tou-se da família e se juntou finaliza.
sica; reuniões que tratam a outros usuários, passando
A Razão de Viver recebe
de assuntos pessoais como vários dias sob o efeito das mensalmente o auxílio de
partilha de sentimentos e drogas. “Cheguei a ir a uma 20 cestas básicas de uma
confronto de ideias e dinâ- festa em que o bolo de ani- entidade de São Paulo e
micas de grupo etc. Segun- versário era feito com cem trabalha com a venda simdo o coordenador, a média gramas de cocaína. De tan- bólica (R$ 1,00) de jornais
de recuperação da entida- to cheirar, passei três dias informativos da clínica.
de está compatível com a com o nariz sangrando e
Das vagas disponíveis,
da Organização Mundial perdi a consciência”.
cinco são para pessoas que se
de Saúde (OMS). Neste priDepois de muitas tenta- encontram em situação de
meiro trimestre, por exem- tivas, M. conseguiu se recu- rua ou sem condições para
plo, foram cinco os casos perar do vício e, então, há arcar com os custos. Do resbem-sucedidos.
11 anos deu início ao projeto tante, o interno paga inicialO coordenador da clíni- Razão de Viver. Hoje, aos mente R$ 300,00 por mês e
ca tem uma razão especial 35, espera que sua histó- mais uma cesta básica.
para seguir com o projeto. ria sirva de exemplo para
A Casa fica à Avenida
Ele sabe melhor do que nin- quem acredita que a dro- Itália, 666, no Jardim Coroguém as difiga seja um nel, Itanhaém. Contato: (13)
culdades que
refúgio da 3594-2683.
um depenTratamento Gratuito
Quando sabem mente. “A
dente tem
família
é
Para quem precisa de
das responsabilipara largar
quem mais ajuda, mas não tem posdades que terão
as
drogas.
sofre com sibilidade de custear um
“Fui usuário de cumprir, alguns essa triste tratamento, em São Vicendesistem antes de
de todas as
s i t u a ç ã o . te existe o Centro de Apoio
substâncias
tentar
Hoje, o que Psicosocial – Álcool e Drogas
possíveis,
ANDREZZA GALACHO
eu
puder (Caps AD). O local atende
LOPES, psicóloga
menos
as
mudar na a dependentes químicos e
drogas injeforma
de oferece várias formas de
táveis. Dos 14
pensar das atendimento, como, por
aos 21 anos,
pessoas eu exemplo, medicação assistipassei muito tempo fora de tento, pois sei o quanto é da; terapia de grupo; oficimim”, explica.
triste tal realidade. Só que- nas; atendimento individual
Entre altos e baixos, M. ria dizer que foi muito di- e tratamento intensivo diáchegou a morar na rua, co- fícil para mim, aos 14 anos, rio (Hospital Dia) que obrimer lixo para sobreviver e ler no atestado de óbito de ga o paciente a passar o dia
se tornar escravo do crack. meu pai que a morte havia todo no local e voltar para
Durante esse percurso, afas- sido fruto do alcoolismo”, casa no final da tarde.
“
Edição e diagramação: Willian Guerra
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
ALINE PORFíRIO
O dependente químico,
por vezes, parece não acreditar na possibilidade de
largar o vício. Porém, existem entidades que apostam no contrário e trabalham intensivamente com a
desintoxicação e reinserção
dessas pessoas na sociedade.
É o caso da clínica Razão de
Viver, situada em Itanhaém, que trabalha com a
recuperação para usuários
de álcool e drogas. A casa
atende a pessoas de 18 a 50
anos, somente do sexo masculino, que possuem algum
tipo de transtorno com a
dependência química.
“A maioria dos casos são
de usuários de crack, que
é, sem dúvida, uma das
piores substâncias”, explica
Marcello Nunes de Oliveira,
coordenador da clínica. Oliveira conta que até pouco
tempo a entidade ficava no
bairro Parque das Américas,
em Praia Grande. Mas, devido ao rápido crescimento
da população na área, teve
que se mudar para a zona
rural de Itanhaém, em busca de um lugar mais isolado para o tratamento, que
é intenso e delicado. “Para
se curar, o paciente tem
que possuir muita vontade
e acreditar em si. E, infelizmente, as zonas urbanas
favorecem a desistência
devido à facilidade para se
encontrar entorpecentes. A
terapia interna, entre eles, é
um dos pontos mais importantes do tratamento”.
Ele explica que das 30
vagas disponíveis, atualmente, 29 estão preenchidas. E a procura cresce cada
dia mais, principalmente
por menores de 18 anos. O
coordenador explica que
a casa não comporta esse
perfil de pacientes, pois teria que possuir outra área
isolada para esse atendimento. “Quando abrimos a
casa, há 10 anos, a procura
de mulheres em busca de
tratamento era de uma a
cada dois meses. Hoje, 30%
das ligações são para pedido de internação ao sexo
feminino”.
Para se tratar no Razão
de Viver, os usuários passam por uma bateria de
exames para a constatação
de doenças infectocontagiosas, como a tuberculose,
por exemplo, além de testes psicológicos para que
tenham a certeza de que
estão dispostos a enfrentar
a abstinência. A casa também aceita soropositivo. Na
entidade, os pacientes têm
o direito de receber a visita
da família uma vez por mês
e a ligação de um parente
ou amigo toda sextas-feiras,
desde que este conste de
uma lista com seis pessoas
ALINE PORFíRIO
Aline Porfírio
A psicóloga e responsável-técnica do Caps AD,
Andrezza Galacho Lopes,
explica que, para receber
o tratamento, o dependente deve passar por uma
triagem, para que sejam
identificados os melhores
cuidados para ele. “Muitos
passam por aqui querendo
escolher o seu tratamento,
ou seja, achando que só medicação basta. Quando sabem das responsabilidades
que terão de cumprir, como
comparecer às consultas
com psicólogos e psiquiatras, participar de reuniões
e atividades da entidade,
alguns desistem antes de
tentar”, diz Andrezza.
O equipamento realiza,
em média, 25 triagens por
semana e 35 atendimentos
de tratamento diários. No
local, o paciente não fica
internado, mas deve comparecer todos os dias para
acompanhamento. Lá também desenvolve uma série
de atividades que auxiliam
no afastamento do vício e a
socialização, principalmente
com a família. Para mais informações, o Caps AD fica à
Rua Diego Pires de Campos,
35, na Vila São Jorge, em São
Vicente, e o telefone para
contato é o (13) 3561-1993.
Oxi:
a mais devastadora
das drogas
Pior do que o crack e a cocaína, a nova droga se espalha pelo País como um rastro de pólvora
CARINA SELES
Rafael Cicconi
Mais barato que o crack. E,
também, mais agressivo. Esse
é o oxi, uma nova droga que
se espalha pelo Brasil e vem se
tornando um problema para
a saúde pública. Derivada de
uma mistura de cocaína, querosene e cal virgem, ela é utilizada da mesma forma que o
crack. Porém, é mais barata,
pois para a composição do
crack são utilizados, além da
cocaína, bicarbonato de sódio
e amoníaco.
Apesar do mesmo princípio ativo, o oxi causa problemas maiores aos usuários. Segundo a psicóloga Iara Bega
de Paiva, responsável pelo
Caps-AD, setor da Prefeitura
de Guarujá responsável por
tratar de pessoas com problemas de álcool e drogas,
o preço e seu efeito são mais
prejudiciais que o do crack.
“O oxi é comprado por um
valor baixo (entre R$5,00 e
R$10,00) e em maior quantidade. Como é uma droga
ingerida pelo sistema respiratório, tem um acesso mais
rápido ao organismo”, ressalta a psicóloga.
A necessidade do usuário é
graças ao tempo de queima
da droga. Como o querosene
tem uma combustão rápida,
o oxi tem um efeito curto no
organismo do usuário, sendo
de aproximadamente 15 minutos. Por isso, a necessidade
da pessoa fumar mais vezes.
“Essa quantidade excessiva é
que vicia o usuário. Enquanto o efeito do crack tem uma
duração de 40 minutos, o oxi
tem apenas um terço disso.
Centro, é um
o túnel Rubens Fer reira Martins, no
ça sobreLegenda
A praLegenda
de drogas
dos locais preferidos para o consumo
Além do fato de ser mais barata e vir em maior quantidade que a outra”, explica.
E com a velocidade que a
droga se espalha, ela já chegou à Baixada Santista, inclu-
O efeito do crack
dura 40 minutos.
O oxi, cerca de 15
minutos
sive com apreensão em São
Vicente. Entretanto, segundo
a Delegacia de Investigação
Sobre Entorpecentes (Dise),
ainda não há casos na região.
Porém, o surgimento rápido da nova droga torna o
conhecimento de especialistas ainda vago. “Não temos
muito conhecimento sobre o
oxi. Sabemos de casos na região, porém é difícil saber de
usuários, pois eles não chegam até nós para procurar
ajuda”, comenta Iara.
O agravante desta situação é a forma que os casos
chegam aos médicos. “Os usuários apresentam um quadro
de tuberculose ou qualquer
outro problema respiratório”,
aponta Iara. “O uso do oxi deixa a pessoa muito vulnerável e
até mesmo uma simples gripe
torna-se uma grande doença
para o dependente desta droga”, conclui a especialista.
Composição
Concentração
de cocaína
Aparência
(cor)
Efeitos no
organismo
Santos: pioneira na
implantação do Naps
Luiz Felipe Lima
O Núcleo de Apoio ao Psicossocial (Naps) é órgão da Prefeitura que atende a diversas
pessoas que possuem depressão,
transtornos psicóticos, neuróticos
graves, transtornos persistentes e outras doenças da saúde
mental. Ele surgiu logo após a
intervenção feita em 1989 pela
Prefeitura na Casa de Saúde
Anchieta, uma instituição particular de hospital psiquiátrico
que atendia a Baixada Santista, mas que, por falta de estrutura, abrigava os pacientes em
condições subumanas.
O Naps existe no Brasil por
causa de um processo histórico
da lei nº 10.216, que regulariza
o efeito substitutivo da reforma psiquiátrica. Este núcleo
atende a três categorias de
acordo com o nível de complexidade do atendimento: o
de nível 1 é ambulatorial, o de
nível 2 é de atendimento hospital-dia que fecha às 18 horas
e o de nível 3 que atende 24
horas sete dias por semana e
conta com três leitos femininos
e três masculinos.
Cada Naps atende a uma
parte da região em suas proximidades, por exemplo: o
Naps 5 fica localizado à Rua
Gonçalves Ledo, 29, no Campo Grande, atendendo aos
moradores dos bairros do
José Menino, Campo Grande,
Marapé, Morro do Marapé e
Pompéia, desde a divisa até
a Rua Joaquim Távora.
Este órgão prioritariamente atende a pessoas do nível
três, como psicóticos, neuróticos graves e transtornos persistentes. Desde a inauguração,
o Naps 5 atendeu a cerca
de 3.700 pacientes e, hoje, o
número de pessoas em tratamento é de aproximadamente 1.800, sendo que 35 pessoas
freqüentam diariamente.
O Naps 5 conta com 13 auxiliares de enfermagem, três
médicos psiquiátricos, duas
assistentes sociais, uma enfermeira, dois acompanhantes
terapêuticos, um terapeuta
ocupacional, três psicólogos e
um farmacêutico.
Cláudia Rodrigues Montei-
Crack
Oxi
Pasta-base de cocaína, com amoníaco e
bicarbonato de sódio
Pasta-base de cocaína,
com querosene ou gasolina, e cal virgem
40%
80%
Branca
Amarela (com mais
querosene ou gasolina),
branca (com mais cal virgem) ou roxa (quando a
composição de querosene
e cal virgem é idêntica)
Dobro do efeito da
Os mesmos do crack,
cocaína, aumento da porém, como o efeito da
pressão arterial, alto
droga passa rapidamenrisco de infarto e AVC. te, o potencial de causar
A longo prazo, pode
dependência é maior.
causar perda de
Como o querosene e a cal
memória, diminuisão substâncias altamente
ção da capacidade
tóxicas, os órgãos internos
de concentração e
são queimados, podendo
raciocínio
levá-los à falência
LuIZ fELIPE LIMA
SErviçO
Naps 1 – Rua Luiz Gomes
Cruz, s/nº - Zona Noroeste.
Tel: 3299-4368/ 3299-3524/
3209-8000
Naps 2 – Avenida Conselheiro Nébias, 325 – Encruzilhada.
Tel: 3222-1217
Naps 3 – Avenida Coronel Joaquim Montenegro,
329 – Ponta da Praia.
Tel: 3222-1217
Naps 4 – Avenida Pinheiro Machado, 718 – Jabaquara.
Tel: 3225-5796
do
A cidade conta com cinco unidades
Naps, núcleo criado em 1989
ro Bezerra, chefe do Naps 5,
comenta que não existem dados a respeito de pessoas curadas. “O que pode acontecer
a uma pessoa que possui um
transtorno é ter um controle
da doença. Muitas vezes, os
pacientes abandonam o tratamento no meio por estarem
se sentindo bem, mas, depois,
acabam voltando”, diz.
“Se estivermos falando de
depressões mais leves, algu-
mas pessoas que vêm aqui
são curadas e conseguem
sair, mas, entre aquelas que
apresentam transtornos mais
graves como psicose, só uma
paciente nunca mais voltou”.
Cláudia recorda apenas de
uma paciente que, depois de
anos em tratamento na unidade, ficou curada.
O Naps e as drogas
Em seu primeiro atendi-
Naps 5 – Rua Gonçalves
Ledo, 29 - Campo Grande.
Tel: 3251-2094
mento no Naps, o drogado
precisa contar sua história
pessoal, antes de ser encaminhado ao órgão que oferece
um atendimento específico
ao usuário, a Seção Núcleo
de Atenção ao Dependente
(Senat). Pessoas usuárias de
drogas que possuem um nível
psicótico alto recebem tratamento diferenciado em relação a pessoas que não possuem distúrbios mentais.
Edição e diagramação: Thaís Cardim
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
11
“Dentro da minha casa, a droga”
Largar a droga não é difícil. Complicado mesmo é não sofrer uma recaída, que significa a volta de todo um drama já vivido.
Na comunidade São Francisco, em Pedro de Toledo, essa luta é diária, como o leitor pode constatar no depoimento da repórter
Tábata Tuany, autora também das reportagens que compõem esta e as duas páginas seguintes
Tábata Tuany
Todo mundo já deve ter
escutado casos sobre pessoas
que tiveram algum contato
com as drogas, tantas são
as histórias narradas na TV
e tantas as pessoas afetadas
por isso. Mas hoje eu vou
contar uma história que não
passou na televisão, porque
ela aconteceu dentro da
minha casa, tomando conta
da minha família. Foi quando descobri aos 16 anos que
o meu padrinho era doente,
um doente químico.
É domingo, e assim como
nas cadeias, este é o dia em
que os internos esperam
por suas famílias. Algumas
aparecem, outras tardam a
chegar. M. A. espera ansioso
pela chegada dos familiares.
Por uma questão de sorte,
ele faz parte da pequena
porcentagem de dependentes químicos que perderam
muitas coisas, menos a família. Todo domingo de visita, seja de chuva ou de sol,
ele sempre tem alguém que
lhe leva frutas, um punhado de lágrimas e sorrisos.
A família vem de muito
longe e, assim como M. A.,
todos estão ansiosos para
o reencontro. Às vezes, são
três as mulheres que vão,
uma amiga, a irmã e a mãe,
outras vezes, a cunhada, a
irmã, o marido da irmã e
novamente a mãe, sempre
a mãe, nunca o pai e o irmão. E mais três jovens, os
de sempre: uma adolescente, um pré-adolescente e
uma criança.
Uma vez por mês, era assim: o dia de domingo era
diferente, pois alguém em
algum lugar estava nos esperando. E o que levar para
alguém que chegou ao fundo do poço? O que fazer
quando a doença se alastrou por sua cwasa, como
reagir à cruel realidade dos
dependentes químicos?
Quando eu tinha de 9
para 10 anos, percebi que o
meu padrinho apresentava
alguns comportamentos estranhos. Lembro-me, principalmente, do dia em que
ele foi a minha casa e percebi que andava um pouco
alterado, mas até aí achei
normal, pois boa parte da
minha família também tinha problemas de comportamento, especialmente em
razão do consumo excessivo
de álcool, mas, em relação
a drogas, nunca soubera
que alguém tão próximo
poderia estar nesse mundo
tão cruel e avassalador.
Algum tempo depois,
quando eu e meus pais mudamos para Praia Grande,
fomos a uma festa organizada para meu primo, em
Pedro de Toledo. A festa
era num sitio bem bonito e
iluminado. Fazia tempo que
eu não via a minha família
reunida e fiquei feliz em saber que todos estavam presentes.
Combinamos de dormir
na casa da minha avó paterna, mãe do meu tio-padrinho. Estava quase tudo
certo: assim que a festa
terminasse, iríamos para lá.
Mas, no meio da festa, chegou o meu padrinho drogado e fazendo escândalo. No
momento, não sabia que
era o efeito da droga, pois
nem sabia o que era droga,
só de olhar na televisão.
FEIÇÕES DEMONÍACAS
Tudo o que eu tinha escutado até ali sobre feições
demoníacas vi naquela festa. Como pode uma droga,
um cigarrinho de maconha
ou uma pedrinha de crack
mudar tanto a feição de alguém?
Quando eu cursava o
Ensino Médio, cerca de cinco anos depois, o meu padrinho pediu para se internar e foi se tratar em uma
comunidade em Guarujá.
E nós também tivemos que
nos tratar. Assim, todas as
segundas-feiras a gente
revezava para as reuniões
temáticas na Comunidade
São Francisco de Assis.
Antes de terminar o terceiro ano do Ensino Médio,
tive que fazer um trabalho
de conclusão de curso e o
tema de meu trabalho foi
sobre dependência química. Convidei um especialista para dar uma palestra e
consegui reunir varias casos.
Fiz uma boa seleção de vídeos para mostrar o que era
as drogas.
Muitos dos que estavam
presentes ali haviam tido
algum contato com a droga. Dois amigos haviam se
envolvido com entorpecentes, mas tudo começara
quando se reuniam para
beber. Talvez seja por isso,
ou seja, por todas as coisas
que presenciei em razão da
bebida, que tenho tanto repúdio ao álcool.
Foi aí que percebi que a
dependência alcoólica era
algo muito mais sério e que
havia tantas outras famílias
com o mesmo problema. E,
principalmente, que o álcool é uma porta aberta para
todos os outros vícios. Em
toda reunião familiar ou
com amigos, eu pedia muito a Deus para que ele não
retornasse às drogas. Todas
as nossas buscas, todos os
nossos sacrifícios até agora,
valeram a pena, ainda que
ele continue dependente,
mas hoje é o que se pode
chamar de dependente químico em abstinência.
Com todas as pessoas
com as quais conversei sobre as drogas, muitas dis-
seram que começaram com
um simples copo de bebida,
uma droga lícita e de acesso
muito fácil. Venho de uma
família que tem o álcool no
sangue e a dependência no
organismo.
Nunca experimentei drogas, não bebo e não fumo e
procuro sempre me afastar
desse caminho. Afinal, eu
e meus primos temos uma
carga genética pesada, ou
seja, temos uma tendência
maior a sermos dependentes. Mesmo que isso ainda
não seja comprovado, sabemos que o nosso organismo
pode sofrer influencia genética.
Sei que se experimentar,
correrei um grande risco,
maior do que outras pessoas que não têm essa carga
genética, essa propensão
em virar doente químico.
Como seria, se isso acontecesse? Será que eu poderia
me recuperar? Será que eu
viveria para depois contar a
minha historia?
Hoje, é muito fácil falar sobre isso, às vezes dói,
mas as pessoas precisam
saber que a droga mata,
que a droga destrói e que,
algumas vezes, é um caminho sem volta. Então,
quem tiver a oportunidade
de experimentar que tenha
também a oportunidade de
recusar e dizer não às drogas: “Drogas, nem morto”.
TABATA TUANy
s
o
n
a
1
3
s
o
a
8
2
s
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d
”
só
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Depen
a dr og a, fu i at rá s”
“N ing ué m m e of er ec eu
his tó ria de J. L., de 47
É as sim qu e co m eç a a
do s re sp on sá ve is pe la
an os , qu e ho je é um
ut ica Sã o Fr an cis co de
Co m un id ad e Te ra pê
led o. J. L. co nt a qu e
As sis , em Pe dr o de To
s
o di fe re nt e da s ou tra
su a vid a fo i um po uc
as
is ele “só ” us ou dr og
his tó ria s de vid a, po
os .
do s 28 an os ao s 31 an
er a al co óla tra , m as
J. L. co nt a qu e o pa i
em su a es co lha “E ra
qu e iss o nã o int er fe riu
be re m em ca sa , m as
co m um as pe sso as be
m eu pa i m e inf lu en a vid a pr om ísc ua do
28 an os , ele di z qu e
cio u” , re co nh ec e. Co m
ce di do , po is tra ba lha
er a um tip o be m su
sim
Hi stó ria , m as , as
va e fa zia o cu rso de
ele ta m bé m te ve um
co m o os ou tro s ca so s,
co m eç ar a se dr og ar :
pe qu en o m ot ivo pa ra
i
tin ha 17 an os . Bu sq ue
“E m oc ion al m en te , eu
cia liz ar ”, ju sti fic a.
as dr og as pa ra m e so
a m inh a pr ai a, po u“M ac on ha nu nc a fo i
s
ha ”, di z, ex ib ind o no
ca s ve ze s us ei m ac on
es co lha qu e fe z. Er a
br aç os as m ar ca s da
pr im eir o as pi ra da e,
us uá rio de co ca ína ,
de po is, inj et áv el.
e no co nv ívi o so As pe rd as no tra ba lho
ir
e aj ud ar am J. L. a sa
cia l fo ra m fa to re s qu
sto , ao se u go sto , ele
da s dr og as . A co nt ra go
ou tro s. “E u nã o qu er ia
re ce be u a aj ud a do s
gu lho de la do , po is a
pa ra r, m as bo te i o or
er am pa ra r”, di z.
vid a e as do re s m e fiz
po nt o de re fe rê n“A fa m ília é o ún ico
,
ga ra nt e. Se gu nd o ele
cia pa ra o do en te ”,
ta m bé m pa sse po r
é cru cia l qu e a fa m ília
se ja , de sd e o m om en
um tra ta m en to , ou
te es tiv er int er na do ,
to em qu e o de pe nd en
en ta r as re un iõe s te
a fa m ília de ve fre qu
un id ad e, pa ra po de r
m át ica s em ou tra co m
. “À s ve ze s, os fa m ilia
vis ita r o de pe nd en te
e
, m as tê m po stu ra s
re s nã o us am dr og as
en
af et am o de pe nd co m po rta m en to s qu e
de tra ta m en to ”, re ste qu e es tá no es tá gio
sa lta . (T T) .
O itinerário de um ex-viciado
“Se você não pode ajudar um amigo drogad o,
que droga de amigo é você?” É o que diz hoje o
estudan te de Serviço Social, M. A., de 43 anos, cinco
anos depois daquel es doming os em que se preparava para receber a visita dos familia res. Hoje, sua
ocupaç ão é trabalh ar na preven ção do álcool e das
drogas, para ajudar depend entes químico s.
“Nunca tinha visto maconh a, mesmo quando vi
alguns amigos usando , não experim entei, mas, depois de uma semana , comece i a usar, porque eu vi
que eles ficavam alegrin hos”. Foi assim que M. A.
começo u a usar drogas. Na época, ele tinha 18 anos
e acabar a de cumpri r o serviço militar. Foi neste
período que M. A. descob riu o efeito da droga e,
12
Edição e diagramação: Joana Ribeiro
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
desde então, tornou- se dependen te químico .
Segund o M. A., a maioria
dos depend entes químico s
usa algum tipo de droga
ilícita juntam ente com uma
droga lícita. “Chegu ei a ser
um depend ente cruzad o,
usava maconh a com álcool
e, para nós, a primeir a droga sempre é o álcool” .
Depois de experim entar
a maconh a, passou a usar
cocaína e, por último, em
2003, chegou ao estágio avança do da doença : o
crack. “Chegu ei ao famoso mescla do, usando crack e maconh a”, diz. Em 2006, M. A. pediu para
se interna r: “Quis parar porque estava no fundo
do poço e cada um sabe a profund idade do seu
poço”.
Depois do tratam ento, ele passou a ser membr o
ativo da Igreja Nossa Senhor a Sant’An a e, hoje,
também particip a do ministé rio de canto. Dois anos
depois, M. A. fez um curso de capacit ação de coordenado res e monito res em Campin as, na Federa ção
Brasilei ra de Comun idades Terapê uticas (Febra ct).
“Não há recupe ração, se não houver convers ão”,
diz. “Recup eração é para quem quer”. (TT).
A.C:damaconhaaocrack
“Hoje, eu tenho que
aprender a resolver as coisas sem a droga”. É assim
que A. C., de 33 anos, encara a vida depois de ter
parado de usar droga há
um ano e meio. Ela conta
que, quando começou a
usar drogas, era muito tímida. Embora não tenha
sido rica, levava uma vida
confortável, pois os avós
paternos tinham boas condições financeiras. “Na escola, muita gente já usava
maconha”, lembra.
No início, a droga fazia com que ela driblasse
a timidez, mas, ao longo
do tempo, acabou tirando
muitas coisas boas de sua
vida. A. C. começou a beber e a usar maconha aos
14 anos e, depois de quatro anos, conheceu a cocaína. Dez anos mais tarde,
chegou ao crack: “A única
coisa que não usei foi picada”.
Em decorrência do uso
do crack, chegou a ficar
morando três meses na
rua. “Acabei ficando sem
amigos, revirando lixo na
rua. É uma coisa horrível
passar fome por causa da
droga”.
Um fator muito difícil a
ser enfrentado por usuários
são os relacionamentos entre dependentes químicos.
No período de gestação da
única filha, de 9 anos, A. C.
deixou de usar drogas e estava disposta a continuar
“limpa”, porém, ela conta
que via o pai de sua filha
consumindo e ficava com
vontade. Após a separação, ela se afundou mais
nas drogas.
“Minha mãe sempre dizia que eu ia me arrepender dos meus sumiços porque, algum dia, iria voltar
TAbATA TUANy
como o doente, pois é fundamental que a família
esteja preparada para receber o dependente depois
do tratamento.
A. C. admite que fez
muitas “besteiras” que
acabaram magoando muita gente, principalmente a
sua família, pois a relação
acabou destruída. “Na última vez em que fiquei internada, só a minha mãe
vinha me visitar”, conta.
Para ela, a conquista da
confiança é um trabalho
árduo. A. C. conta que até
hoje a mãe tem receio de
que ela tenha uma recaída; então, vire e mexe,
quando ela vai visitá-la,
fica trancada dentro de
casa. “Não tiro a razão de
minha mãe. É um trauma”.
je, sem o
14 anos. Ho
A C (costas) usou dogras a partir dos
vício, tenta dar a volta por cima
para casa e ver que alguém já não estava lá”. A.
C. tinha o costume de ir à
casa da madrinha quando
batiam os efeitos do crack:
fome e sono. Jamais contou
para a madrinha sobre o
seu vicio.
Em novembro de 2009,
após o seu último sumiço,
ela foi até a casa da madrinha, como de costume.
Foi quando abriu a porta
do quarto e viu a madrinha morta: “Chamei-a,
mas ela não respondia, devia estar morta havia alguns dias, pois morava sozinha e o corpo estava em
estado de decomposição”,
conta. “Eu não conseguia
chorar, aquilo me travou
e, assim que enterrei a minha madrinha, voltei para
a Comunidade Terapêutica São Francisco de Assis,
em Pedro de Toledo”.
A. C. chegou a ser internada seis vezes desde
2006, mas foi depois da
sua última internação que
resolveu mudar de vida.
“Cheguei a ficar internada
em clínicas de rico que mais
pareciam um spa, chegando a pagar R$ 9 mil. Mas
o meu tratamento foi na
Comunidade
Terapêutica”, diz.
A. C. comenta que chegou a ser a única mulher
internada na comunidade
e ressalta um fator fundamental no tratamento: “É
complicado ficar em uma
casa onde só há homens: é
importante conseguir impor respeito e eu consegui
impor esse respeito”.
RELACIONAMENTOS
“Tudo começou com uma
amizade”. Foi na comunidade que A. C. conheceu o
atual companheiro. Pelas
normas da comunidade,
não é permitido manter
relacionamentos
dentro
da casa. “Ele sempre disse
que gostava de mim e disse que, assim que a gente
terminasse o tratamento,
poderíamos ficar juntos”.
Seu companheiro saiu um
mês antes e, desde então,
eles estão juntos. “Todo
mundo diz que é impossível um relacionamento
de dependentes químicos,
mas até agora está dando
certo”, garante.
Um dos pilares fundamentais de qualquer relacionamento é a reconquista da confiança entre
o dependente químico e a
família, o que acaba sendo muito difícil devido aos
traumas. Por isso, é tão
importante que a família também se trate assim
O ESPORTE
“Às vezes, a vida nos dá
uma rasteira”, reconhece
A. C., que está há oito anos
sem jogar capoeira. Ao final de maio, ela foi convidada a participar de uma
papoeira (conversa entre
capoeiristas). A capoeira
está presente na vida de A.
C. desde os 10 anos. “Uma
vez, vi um pessoal na praia
jogando e decidi que era
isso o que eu queria fazer”,
diz.
“Vou matar um leão todos os dias e correr de dois
que vêm atrás”, diz. Antes,
tudo era motivo para usar
drogas. Hoje, a confiança
da família está sendo reconstruída. Desde março,
ela é voluntária na Igreja
Nossa Senhora Sant’Ana,
em Pedro de Toledo, e dá
aulas de Informática. A. C.
deu a volta por cima. (TT).
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Aimpor
TAbA TA TUAN y
O cap oei rist a e pro fessor de Edu caç ão Físi ca,
Cíc ero Tat u, da Aca demia Cap oei ra Aru and a,
cria da no dia 15 de fever eiro de 198 5, diz que
a “pa poe ira” sur giu da
nec essi dad e de inte gra ção ent re cap oei rist as de
seg me nto s afin s ou não .
A. C. foi um a con vid ada
esp ecia l e pod e vol tar a
um a rod a de cap oei ra.
Des de os 14 ano s, A. C.
já dav a aul a e che gou
a ens ina r a art e par a a
mã e. A cap oei ra é um a
das pai xõe s del a.
Cíc ero ress alta a impor tân cia da con ver sa
com a “pr ofe ssor a A. C”:
“A pap oei ra de hoj e foi
mu ito boa . Nó s, cap oeiri sta s, me dim os nos sas
açõ es, por me io do axé
(en erg ia) que sen tim os ali
naq uel e mo me nto ”, diz .
“Co nhe ço A. C. des de
cria nça , aco mp anh ei o
seu des env olv ime nto na
desde os 14 anos, hoje
A C, que pratica capoeira te
a ar
orienta jovens a lidar com
sab end o
cap oei ra e, de lon ge, fica mo s
em odo dra ma que ela viv eu. Fiq uei
C. ao
cio nad o com a cor age m da A.
mo .
ínti
do,
abo rda r um tem a del ica
ver daSua s pal avr as fluí ram com o um
is imma
e,
dei ro ens ina me nto a tod os
oei ra” .
por tan te, por inte rmé dio da cap
bai rO pro jeto foi des env olv ido no
ca de
ro do Ma cuc o e ate nde a cer
est ava
30 cria nça s – boa par te del as
iram
pre sen te na “pa poe ira” e inte rag
sse
“Ne
C..
A.
mu ito com a pro fess ora
dese
tem po em que o pro jeto est á
dos
uns
alg
os
sen vol ven do, já per dem
O ape alu nos par a o car a da esq uin a.
. Ele s
lo é mu ito gra nde , for te me smo
pas sam um a hor a, dua s
vez es por sem ana , com a
gen te, apr ove itam os esse
tem po par a util iza rmo s
a cap oei ra com o ferr ame nta de inc lusã o soc ial,
lev and o noç ões de cid adan ia àqu ela gar ota da. ..
Ma s, às vez es, per dem os” ,
rec onh ece o pro fess or.
Cíc ero con ta que per gun tou par a as cria nça s
se ela s tinh am gos tad o da
rod a e, com o resp ost a, escut ou que tinh am gos tad o
ma is do bat e-p apo com
a pro fess ora A. C. “El es
que rem ouv ir sim , que rem info rma ção e, com o
me stre de cap oei ra, isso
me dá um a sen saç ão do
dev er cum prid o. Só pre cisa m de opo rtu nid ade
par a con hec er o lad o bom
e as con seq uên cia s das
esc olh as err ada s. Alg uns
daq uel es me nin os viv em
esse dra ma tam bém com
os pai s”. (TT ).
Edição e diagramação: Joana Ribeiro
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
13
A dor da mãe de uma dependente
“Nunca desconfiei de
A. C., ela sempre foi uma
excelente filha, nunca foi
agressiva,
desobediente,
mas sempre foi retraída”,
ressalta a mãe de A. C., M.
E., de 50 anos. M. E. conta
o drama que a sua única
filha passou por causa das
drogas e as conseqüências
que isso trouxe.
M. E. conta que a filha,
quando era mais jovem,
parecia um menino, porque ela tinha uma tremenda vergonha por ser
bem magra, era do tipo
de garota retraída a tudo.
Aos 16 anos, A. C. começou
a mudar, começou a usar
biquíni e roupas mais femininas.
Na época do Ensino Médio, A. C. começou a ter dificuldade nos estudos, mas
M. E. achou que era coisa
de adolescente, porque, ao
contrário de outras jovens,
A. C. sempre cumpria as
ordens da mãe.
M. E. conta que a filha
tinha um hábito comum,
o de dormir muito, a que
nunca deu muita importância, pois a família paterna de A. C. sempre gostou muito de dormir, mas
aí estava o perigo, ressalta
ela, lembrando que o efeito da maconha é a sonolência. “Na verdade, ela
começou a usar drogas no
colégio”.
A. C. chegou a cursar
seis meses de Publicidade e
Propaganda, mas não gostou do curso e parou. Mais
tarde, começou a fazer
Educação Física. M. E. conta que a avó paterna de A.
C. dava o cheque para pagar a faculdade, mas ficou
sabendo que A. C. estava
há dois meses sem pagar
o curso e sem ir às aulas.
“A. C. nessa época já namorava e o seu namorado
tinha um jipe que sempre
quebrava. Foi aí que ela
começou a mentir e falava que os cheques haviam
sido usados para consertar
o jipe”.
A mãe de A. C. só descobriu que a filha usava drogas quando uma amiga
fotógrafa viu a sua filha
em uma situação errada,
andando com uma turma estranha, e a avisou.
M. E. fala que foi quando
ela começou a correr atrás
da filha, mas essa loucura,
aparentemente, teve fim
quando A. C. ficou grávida. Foi quando ela sossegou e ficou “limpa”.
Quando a neta de M. E.
nasceu, a filha foi morar
com a sogra, mas, quando
a neta tinha dois anos, A.
C. voltou a usar drogas. M.
E. conta que a filha chegou a deixar, muitas vezes,
a neta sozinha dentro de
casa para buscar drogas
no morro.
“Um belo dia, o ex-marido da minha filha me
liga e diz que a A. C. tinha
pegado o rádio do serviço dele para vender por
causa do crack”, conta, dizendo que, nesse dia, testemunhou uma das piores
cenas de sua vida: quando
ela entrou na casa, a filha
estava atirada ao chão totalmente dopada.
“Uma das piores coisas foi ter de ficar cara a
cara com um traficante e
ter que pagar pela droga”, ressalta. M. E. conta
que o casamento de A. C.
se desfez, houve a separação e ela voltou para casa.
Quando o pai de M. E. faleceu, em 2006, ela, a sua
mãe e A. C. foram morar
por uns tempos com a irmã
e o cunhado. Mas A. C., de
uma forma ou de outra,
sempre encontrava um jeito de ter acesso a drogas
“Ela dava a desculpa de
dar uma volta com o cachorro e sempre conseguia
pegar droga”.
Foi quando a filha tinha
27 anos que M. E. percebeu
a gravidade do problema.
Nessa época, começaram as
internações. A. C. chegou a
ficar em um spa em Embu
das Artes. Segundo M. E., a
clínica deu um deslize, pois
os funcionários deixaram
a enfermaria aberta. Não
deu outra: A. C. conseguiu
se dopar.
Chegou uma hora que
M. E. teve que procurar
ajuda e fez laboratório
sobre drogas. Foi quando
descobriu a comunidade São Francisco de Assis,
em Pedro de Toledo. A. C.
chegou a cumprir sete meses de reclusão, mas teve
nova recaída. M. E. conta
que a avó paterna cansou
da vida da neta e disse que
não ia mais ajudá-la.
VIVENDO NAS RUAS
M. E. chegou a arrumar
as malas para a filha ir morar na rua e, de uma das
vezes em que ela sumiu, A.
C. só apareceu quando a
madrinha já estava morta.
Então, M. E. teve que ser
dura com A. C.
“Vou enterrar a sua
madrinha e, se você quiser
a minha ajuda, vou ajudála, mas se você não quiser,
pode voltar agora para
rua”, disse-lhe.
M. E. conta que foi um
alívio ver que a filha aceitou a condição, porém reconhece que, se A. C. dissesse que não queria, ela
iria ter que aceitar a escolha da filha, pois só assim ela deixaria as drogas.
“Deus que me perdoe, mas
minha tia faleceu para
ajudá-la. Foi o susto que
a impulsionou a deixar as
drogas”, ressalta.
“Comi o pão que o diabo amassou”, diz. Houve
um dia que M. E. foi a uma
festa de aniversario no Juá
e fazia três meses que A.
C. estava morando na rua.
No caminho, M. E. viu a fi-
lha com um casacão, uma
roupa suja e sozinha. A
mãe de A. C. estava com
uma amiga que não conhecia a história de sua
filha. “Era dez para meianoite, lembro-me bem, e,
se eu a parasse, ela iria
sair correndo. Essa foi uma
das piores visões que tive
na vida e não pude fazer
nada”, reconhece.
“Quem cuida fica louco”, diz M. E., que decidiu
reunir as amigas e contar o
caso da filha. Hoje, ela se
diz cansada: “A gente cansa
de lutar porque não é possível que uma pessoa com
tanta capacidade possa
entrar nesse mundo”, diz,
ressaltando que as pessoas
próximas acabam ficando
dependentes em relação
ao usuário químico.
Mesmo hoje, M. E. tranca toda a casa quando a
filha está, pois a confiança
foi quebrada. “Quem está
do lado de cá não se acalma, ainda a sigo dentro de
casa, pois tenho medo que
fuja”.
A mãe de A. C. diz que
fica mais tranquila por a
filha morar em outra cidade, porque assim não tem
a necessidade de trancála. “Lá há drogas, mas ela
não vai procurá-las. Agora
acabou, ela não vai mais
fugir”, diz. Hoje, a filha de
A. C. mora com a sua avó
paterna e a mãe de A. C.
vive mais sossegada. (TT)
Em vez de remédios, uma palavra de conforto
E. R., de 62 anos, hoje é coordenador-geral da Comunidade Terapêutica São Francisco de Assis, em Pedro de
Toledo. “Comecei a usar drogas aos 10 anos, pois me deixaram de foguete nessa idade, após me oferecerem cachaça”, diz, admitindo que, aos 12 anos, já usava droga
injetável.
E. R. fala sobre as marcas das drogas, primeiro por deixar uma família destruída e, depois, porque destruíram
outras coisas das quais ele gostava muito. E. R. veio de
uma família de dependentes químicos. “Se alguém me
chamava para uma festa, tinha que ter bastante droga”,
ressalta.
Ele conta que gostava da picada, da sensação
que a agulha lhe dava e, por isso, o seu maior prazer
era injetar droga em suas veias. Foram 23 anos de
uso de drogas -- dos 10 anos até os 33 anos. A última
droga que largou foi o cigarro há 18 anos. “Por sinal,
eu fumava, aproximadamente, 60 cigarros por dia”,
diz, com ironia.
E. R. chegou a ser farmacêutico em Porto Alegre
e cursou três anos de Medicina, mas, por causa da
droga, foi “convidado” a se retirar da faculdade. “Na
frente havia uma farmácia, mas, no fundo, funcionava um prostíbulo onde rolavam tráfico de droga
e sexo. Rasgaram o meu diploma, nem existe mais o
meu número de farmacêutico”.
E. R. fala pouco, mas conta de seu relacionamento
com dois filhos. Depois de 30 anos, há um ano, ele foi
visitar um filho no Sul. “Tive que engolir meu filho
me apresentando para meu neto como se eu fosse o
tio dele: - Cumprimenta o tio, aí, ele não disse cum-
primenta o teu avô. Depois de 30 anos, o
que eu pude fazer?”
E. R. perdeu o pulmão direito aos 12 anos
de idade, aos 21 anos chegou a ficar 34 dias
numa clinica Pinel e, assim que saiu, bebeu
oito copos de cachaça. Ele conta que o irmão também tinha problemas com drogas.
TAbATA TUANy
A religião serve como apoio espiritual
“Meu irmão só usava cartão de crédito,
era alcoólatra e só bebia uísque, ele dizia que cachaça era para pobre, e ele
era rico”.
Um dia, a mãe de E. R. pediu para
que ele adivinhasse quem estava internado na clínica. Ele conta que ficou
tirando uma onda com a mãe, dizendo
o nome dos outros irmãos, mas era o
irmão que estava na Pinel. “E ela disse
o teu irmão, ela não disse o meu filho.
Ele era o meu Deus e o meu mundo
caiu”.
E. R. conta que já esteve na Califórnia, nos Estados Unidos e na Alemanha
e já trabalhou em várias clínicas, mas
diz que se rendeu à questão da comunidade terapêutica porque acredita
que seja possível tratar um dependente químico sem remédios, oferecendo
uma palavra de conforto. “Aqui é possível falar olho no olho”, diz.
Faz 29 anos que E. R. não usa mais
drogas e, hoje, ele ajuda outros dependentes químicos a superar as perdas que
a droga traz. Mais do que isso, ele contribui com todas as suas dores na alma nas
reuniões temáticas freqüentadas pelas
famílias. “Não perdi nada, joguei tudo
fora, estou vivo, sem família. Agora a
minha família é aqui”. (TT).
“Se o travesseiro falasse...”
P. S., de 63 anos, també m é coorde nador da comun idade e conta que quase
perde u as perna s devido ao uso das drogas. No meio da conve rsa, ele levant a as
barra s da calça e mostr a muita s marca s
na perna . P. S. injeta va droga s nas pernas, na virilha e em muito s outros lugares para que ningu ém pudes se descob rir
14
o seu vício.
Ele conta que começ ou a usar droga s
por volta dos 10 anos, usand o um fortifi cante famos o que estimu lava a crianç a a
ter fome.
A mãe era alcoól atra e fuman te e,
como a avó traba lhava na casa de gente
rica, P. S. tinha acesso à residê ncia e, as-
Edição e diagramação: Joana Ribeiro
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
sim, encon trava facilid ade para beber vinho e
licor. Aos 16 anos, começ ou a usar macon ha
e, depoi s, chego u às droga s injetá veis. Com 40
anos, resolv eu fazer tratam ento, já sem um
pulmã o e a ponto de perde r as perna s. Desde
então , não usa mais droga s. “Só a gente sabe
das seqüe las... Ah, se o traves seiro falasse ...”,
diz. (TT).
Igrejas evangélicas investem na
recuperação de dependentes
A iniciativa é desenvolvida por ex-dependentes e contribui para a redução da violência social
LUCAS SHIOMI
Lucas Shiomi
Algumas igrejas evangélicas da região desenvolvem
trabalhos voltados para a
recuperação de viciados em
drogas. Apesar de trabalharem individualmente o caso de
cada pessoa que procura ajuda, o serviço contribui para a
redução da violência de uma
forma geral.
O presbítero Sílvio Carlos
de Brito coordena o projeto Operação Vida, da igreja
Cristo é a Resposta. De terça
a sexta-feira, das 9h30 às 11
horas, são realizados encontros com debates, músicas de
louvor e testemunhos, voltados para a recuperação de
dependentes. O trabalho é
desenvolvido nos fundos da
sede do projeto, que fica à
Avenida Conselheiro Nébias,
735, em Santos.
“Nós, como igreja, entendemos que o problema de
um viciado é de natureza espiritual. A gente entende que
cada vida que passa por essa
dificuldade possui um vazio
existencial, e esse vazio, na
nossa visão, é a falta de Deus”,
explicou Brito. “Então, nós trabalhamos no íntimo da pessoa
para mostrar que o que falta
para ela é um relacionamento
sério com Deus”.
Segundo o presbítero, que
trabalha há mais de 20 anos
na recuperação de dependentes químicos, a cura para
o vício não está na medicina.
Para ele, a cura está na própria vontade da pessoa de se
libertar, voluntariamente.
“Eu costumo dizer que a
recuperação de um dependente químico é 100%. Se essa
pessoa quiser e levar a sério,
ela sai dessa vida e não volta
mais”, afirmou.
“Digo isso, pois sou um
exemplo vivo. Tenho 60
anos, sou recuperado há 32.
Usei drogas durante 14 anos
da minha vida. Usei cocaína,
maconha e vários tipos de
drogas injetáveis. O primeiro
baseado que eu fumei foi aos
13 anos, quando eu morava
em Minas Gerais. Um amigo
meu chegou na praça com
um e disse ‘Isso aqui é pra
homem. Só homem fuma
isso aqui!’, e foi assim que eu
comecei” contou Brito. “Hoje
sou um homem feliz. Meu
casamento, que esteve por
um fio antes da minha recuperação, hoje está perfeito.
Tenho meus filhos formados
e trabalhando, bem casados.
Hoje saio às ruas de cabeça
erguida, tranqüilo. Não devo
para traficante, não devo
para ninguém”, revelou.
O presbítero mostrou duas
pastas com cerca de 200 fichas cadastrais, com o registro
de cada pessoa que procurou
ajuda no programa Operação
Vida no ano de 2010. Noventa
por cento dos usuários afirmaram ter começado a usar drogas por curiosidade, quase todos na adolescência. No campo
reservado ao endereço de
muitas dessas fichas está escrito “rua” ou “abrigo”. Segundo
o local reúne a ajuda necessária
Por meio de histórias e depoimentos,
das drogas
para que as pessoas vençam e se afastem
“Nós, como igreja, entendemos que o
problema de um viciado é de natureza
espiritual. A gente entende que cada vida
que passa por essa dificuldade possui um
vazio existencial e esse vazio, na nossa visão, é a falta de Deus
PRESBÍTERO SÍLVIO CARLOS DE BRITO
Brito, muitas pessoas fichadas
ali se recuperaram, mas outras
abandonaram o tratamento, e
algumas ainda estão em processo de recuperação.
“Hoje nós temos 54 pessoas internadas em casas de
recuperação, mantidas pela
igreja. Temos um convênio
com três casas, uma em Itanhaém, outra em Penápolis,
e uma feminina em Praia
Grande”, contou. “Há também, no momento, outras seis
pessoas que saíram da casa
de recuperação e que encaminhamos para uma pensão,
onde continuamos bancando
tudo até que ela arrume emprego e tenha condições de
se manter sozinha”.
Além das aulas, Brito atende individualmente em sua
sala cada participante. “Nosso
plano é levar essas pessoas a
compreender o valor da vida,
e assim recuperar a auto-estima, a dignidade, a saúde, a
credibilidade, tudo o que elas
perderam lá fora. Aqueles que
têm necessidade de uma internação, nós internamos. Pagamos tudo, damos um enxoval,
se a pessoa não tem um documento, nós tiramos para ela;
se a pessoa não tem dentes,
nós pagamos um tratamento
dentário. Nós recuperamos a
pessoa completamente”.
“Caminho da perdição”
Trabalho semelhante é desenvolvido pelo mecânico Cristiano Brasil da Silva na Igreja
Batista Peniel, que tem sede
à Avenida Martins Fontes, 781,
em São Vicente.
Brasil é o responsável por
fazer a triagem dos dependentes químicos que procuram a igreja e encaminhá-los
para uma casa de recupera-
ção conveniada, que fica em
Itanhaém.
“Em cerca de quatro anos
desenvolvendo esse trabalho, quase 500 pessoas foram recuperadas. Muitas
hoje já constituíram família,
tem emprego fixo. Algumas
que nós tiramos das ruas
eram mendigos e hoje estão
bem na vida”, disse o mecânico. “Além de contarmos
com a ajuda de voluntários e
alguns empresários, a igreja
também investe nessa iniciativa. Só neste ano, cerca de
dez pessoas já foram internadas pela Peniel”.
Brasil tem 39 anos e foi
usuário de drogas entre os
15 e os 33 anos. Ele é outro
exemplo vivo dessa história
e justamente por ter vivenciado essa experiência, foi
escolhido para desenvolver o
trabalho na igreja. “Usei maconha, cocaína, cheirei cola.
Cheguei até a ser preso com
armas, em um dia em que
eu estava com umas ‘ideias
de rato’. Eu roubava para
alimentar o vício, vendia as
coisas da minha casa...” contou o mecânico, que hoje é
casado e sonha ser pai.
“A droga é o caminho da
perdição, de onde muitos não
conseguem sair. Por isso, há
sempre muitas mães que nos
procuram desesperadas, com
seus filhos no mundo das drogas. Mas só podemos internar
quem realmente quer ir. Na
triagem, a gente tem que ter
certeza de que o usuário quer
mudar de vida mesmo, senão
não adianta”, afirmou.
Quem ajuda Brasil nesse
trabalho é o vendedor Ronald Venâncio dos Santos, de
37 anos, também ex-dependente químico.
“Fui usuário dos 16 aos
24 anos. Quando comecei,
usava escondido e achava
que podia parar quando
quisesse, mas uma hora vi
que não conseguia. Quando
minha família descobriu, foi
um abalo. Um dia meu pai
virou para mim e ‘me pediu
para esquecê-lo’, contou Venâncio. “Eu estava rejeitado
pelos meus pais, pelos meus
amigos e pela sociedade. Foi
quando conheci um missionário e decidi mudar”.
O vendedor faz pregações
e dá seu testemunho nas ruas,
em casas de recuperação e na
própria igreja. “A igreja investe nessas vidas por acreditar
que só Deus pode libertá-las
das drogas. Eu mesmo estou
liberto há 13 anos, e hoje sou
uma nova criatura”.
Seringas descartáveis são aliadas no combate à Aids
L.G. Rodrigues
As seringas descartáveis
são responsáveis por prevenir
o contágio de doenças infecciosas como a Aids e sua distribuição é benéfica tanto para
usuários de drogas quanto
para pessoas que necessitem
injetar remédios, como pacientes com diabetes.
A lei 1692/07, aprovada
em 2008 garante a distribuição de seringas descartáveis a
usuários de drogas injetáveis.
Chamado de política favorável à redução de danos, o
projeto tenta conter o alastramento da Aids transmitida
por meio do consumo de drogas injetáveis. Isso se deve à
pratica de reutilização constante da seringa e agulha por
parte de usuários que chegavam até mesmo a dividir
a injeção com um grupo de
pessoas que também se utilizam desse tipo de droga.
Mas não são só os usuários que se beneficiaram
dessa política de distribuição
de seringas descartáveis. A
enfermeira Geralda Graças
trabalha há pouco tempo na
profissão, mas também aprova a medida. “Serve tanto
para quem usa quanto para
nós profissionais da área, pois
é bem mais segura e higiênica”, diz. As seringas podem ser
coletadas em postos de saúde, sem nenhuma cobrança.
O Primeira Impressão esteve
no Pronto-socorro da Zona
Noroeste e não teve dificuldades para retirar seringas
com agulhas. Não foram feitos questionamentos.
“Serve tanto
para quem
usa quanto para
nós profissionais da
área, pois é bem
mais segura e
higiênica
GERALDA GRAÇAS
A medida também acaba por ajudar quem precisa
de seringas para manter a
própria saúde em dia, sendo mais comum no caso de
pacientes diabéticos como o
estudante Alexandre Vieira,
que precisa de insulina no
tratamento contra o diabetes. “Como não tenho dinheiro para a injeção especial
para diabéticos, uso as seringas descartáveis, pois são
baratas”. O paciente ainda
revela preocupação com a
higiene. “Não é nem o caso
de contrair doenças sexualmente transmissíveis, mas a
própria agulha pode ficar
contaminada após a utilização, portanto é mais seguro
usar uma nova a cada injeção que eu aplico”, finaliza.
Edição e diagramação: Willian Guerra
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
15
A luta contra a doença do
alcoolismo e das drogas
Grupos atuam em igrejas da região para ajudar os dependentes e as famílias a terem uma vida melhor
ALINE DELLA TORRE
Gabriela Pomponet
A aposentada
E.M.
sofreu por mais de 15 anos
com o marido A.C., alcoólatra e viciado em cocaína.
“Ele começou a frequentar
o bar por lazer com os amigos depois do serviço. Em um
ano já tinha se tornado dependente do álcool. Chegava em casa completamente
bêbado, muitas vezes desequilibrado. As drogas foram
oferecidas por aqueles que
ele considrava como amigos.
Passou a depender das drogas também”, conta.
A.C. era um bom marido, tratava bem os três filhos e tinha um bom emprego — era encarregado em
uma siderúrgica. A bebida o
transformava em uma pessoa amargurada e agressiva,
apesar de nunca ter batido
na mulher e nos filhos. O vício
fez com que fosse afastado
do emprego. A dependência
o levou a ingerir qualquer
produto que tivesse álcool na
composição. Certo dia, chegou a consumir perfume e
produto de limpeza no próprio emprego. Ficou internado por dois dias.
As drogas e o álcool a
cada dia se tornam problemas mais graves, atingindo
homens e mulheres, independentemente de cor, raça, credo ou nível social. Segundo
a Organização Mundial da
Saúde, o alcoolismo é uma
doença incurável, mas pode
ser contida. O problema do
vício é interno e psicológico,
o organismo condicionado
a trabalhar com essas substâncias se torna um grande
rival no desafio de largar a
dependência.
Antes de levar à loucura ou morte prematura, a
dependência química ou de
álcool humilha, maltrata e
desgraça com a vida do doente. As ressacas, o remorso,
os “apagamentos” e o desconsolo acompanham os usuários. “Levei o meu marido
por três vezes aos Alcoólicos
Anônimos, pois estava disposto a mudar. Infelizmente,
já era tarde e ele veio a falecer por problemas de saúde
causados pelo vício. Se tivesse vontade de mudar antes,
talvez estivesse vivo até hoje.
Esses grupos são bons e podem mudar e até mesmo salvar a vida de uma pessoa”,
reconhece a aposentada.
Dois grupos que visam o
tratamento do alcoolismo
se reúnem na Paróquia do
Imaculado Coração de Maria, em Santos. Os Alcoólatras
Anônimos são uma irmandade que para fazer parte
basta ter o desejo de querer
parar de beber. Não é preciso fazer qualquer tipo de
cadastro. Ninguém pode ser
expulso do grupo, não é cobrada nenhuma taxa de seus
integrantes, além de a entidade não aceitar doações
externas. Mantém-se com a
contribuição espontânea dos
membros.
O Al-Anon é um grupo de
autoajuda; homens e mulheres cujas vidas foram afetadas pela maneira de beber
de um familiar ou amigo são
os integrantes das reuniões.
Compartilhar experiências,
força e esperança é a forma
que utilizam para tentar solucionar seus problemas.
Os integrantes do A.A. e
Al-Anon não podem declarar o nome completo, só
podem aparecer de costas
ou com a imagem distorcida na mídia. A regra é se
manter no anonimato. É
o que explica a voluntária
Sueli, cujo marido, já falecido, era alcoólatra. Ela
frequenta Al-Anon há 17
anos. “A maior dificuldade
que enfrentamos é a negação por parte das famílias,
que muitas vezes acabam
desistindo de frequentar o
grupo. O pensamento das
pessoas é de que não foram
elas que beberam e nem estão doentes, então não há
necessidade de fazer parte
das reuniões. Os A.A. começam as reuniões com o lema
‘só por hoje não darei o primeiro gole’”, conta.
Sueli diz que muitas famílias chegam destruídas pelas
drogas: “Com a nossa experiência, vemos que a maioria
dos dependentes químicos
começou o vício pelo álcool.
O grupo iniciou focado no alcoolismo, mas hoje aceitamos
a dependência cruzada que
agrega a utilização de drogas
também”.
O Al-Anon, assim como o
A.A., é divulgado por meio
de palestras, visita a escolas, folhetos e por indicações
e participação da assistência social. “Todos os que estão na sala têm problemas.
As reuniões com dez pessoas
ocorrem uma vez por semana, às quartas-feiras, a partir
das 19h30. Fico contente em
ver os resultados positivos.
Quem está há mais tempo
na reunião se identifica com
as novas histórias. Vemos a
progressão no decorrer dos
encontros. Os integrantes
mudam o jeito de falar e até
mesmo o modo de se vestir.
Tentamos também curar a
raiva, os ressentimentos e a
culpa que a família carrega”,
diz Sueli.
sua filha foi o ponto inicial para
sua recuperação. “Eu trabalhava em uma boa empresa,
tinha esposa e filhos, mas não
havia percebido que minha
vida estava desmoronando.
Estava sempre em bares, festas
e jogos de futebol consumindo
drogas. Um dia, cheguei em
casa, fui abraçar minha filha e
ela correu, se escondeu de mim
e começou a chorar de medo.
Percebi o estado em que estava e procurei ajuda”, conta.
As histórias de vida são relatadas pelos ex-usuários nas
reuniões que ocorrem de segunda a sábado na sede dos
Narcóticos Anônimos e servem
de auxílio na recuperação dos
participantes.
Há dois meses sem consumir drogas, M. era usuário desde os oito anos. A sua
internação em uma clínica
de recuperação fez com que
buscasse auxílio do grupo.
“Eu não acreditava em Deus
e achava que, se eu morresse, iria para o inferno.
Eu usava drogas desenfreadamente para que minha
morte fosse mais rápida.
Quando eu parava de usar
sozinho, depois de duas semanas, voltava a usar drogas cada vez mais pesadas.
Hoje me sinto melhor e tenho buscado um rumo em
minha vida”, enfatiza.
Os participantes dos Nar-cóticos Anônimos seguem 12
passos e 12 tradições, chamadas
de literaturas e lidas em todos
os encontros. O único requisito
para se tornar um membro é
ter o desejo de parar de usar
drogas.
J., usuário há 40 anos, tornou-se um adicto em recuperação há dois meses. Com os
olhos fixos no chão, ele relatou
sua história. “Sou um adicto
em recuperação há dois meses,
ficava na ‘fissura’ e, depois que
passava o efeito, os problemas
vinham junto. Tentava parar
e não conseguia. Hoje, estou
mais um dia sem usar drogas”,
ressalta.
Os próprios membros são
responsáveis pelas reuniões e
pelas atividades realizadas.
Não há profissionais da saúde
auxiliando na recuperação dos
participantes. O processo de recuperação funciona por meio
da força de vontade e dos passos seguidos por eles.
O Narcóticos Anônimos surgiu em 1953, nos Estados Unidos, e chegou ao Brasil no fim
da década de 1980. Entre a
Capital, Grande São Paulo e
Baixada Santista existem 160
grupos.
ento do alcoolismo
Dois grupos que visam o tratam
ão de Maria
se reúnem na Paróquia Coraç
Reuniões auxiliam a recuperação
Adriele Ramos
Quando uma pessoa se torna dependente química seu
ambiente familiar e profissional é completamente afetado. A adicção, termo bastante
utilizado entre os participantes
dos grupos de Narcóticos Anônimos, caracteriza os dependentes como doentes controlados pelo uso da droga. Cada
dia que o usuário passa sem
consumir drogas é único e considerado uma vitória. Assim,
galgando dia após dia, muitos
permanecem anos sem consumir drogas.
C. é dependente quí-mico e
está em tratamento há 18 anos.
Segundo ele, uma reação de
16
Contato
O telefone para entrar em contato com o Narcóticos
Anônimos na Baixada Santista é o (13) 3289-8645, de
segunda a sábado, das 20 às 22 horas.
Edição e diagramação: Nathalia Pio
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
Senat já tratou
JULIA MAGALHAES
seis
mil
dependentes químicos
A Seção Núcleo de Atenção ao Toxicodependente, da
Prefeitura de Santos, atende atualmente 600 pacientes
Soraya Santos
A Seção Núcleo de Atenção ao Toxicodependente (Senat) ajuda a recuperar
dependentes químicos em Santos. Este é
um órgão que existe desde 1995 e já auxiliou mais de 6 mil pessoas. Segundo o
chefe administrativo Vlamir Mateus Leite, 600 pessoas recebem tratamento no
Senat e só este ano foram atendidos 177
novos casos, em que 136 são dependentes
também de álcool, além de entorpecentes variados como, por exemplo, maconha, crack ou cocaína.
Os pacientes chegam até ao local
por conta própria ou encaminhados
por outros órgãos da Prefeitura. Assim que o toxicodependente se apresenta, ele passa pelo primeiro estágio
chamado acolhimento. “É construído
um plano para cada paciente que irá
especificar se ele deve passar por um
médico, por um assistente social ou
por um psicólogo, de acordo com cada
caso”, afirmou Leite.
Ainda nessa primeira fase, o atendimento pode ser feito individualmente ou
em grupo. Assim que a pessoa consegue se
manter, sem utilizar as drogas por aproximadamente quatro meses, ela passa
para o grupo de referência, freqüentando
atividades que fortalecem a vontade de
superar o vício. Por último, se o paciente
continua sem usar qualquer substância
tóxica, ele passa para o grupo de manutenção, recebendo apenas o acompanhamento da abstinência. “Cada um tem o
seu tempo para poder administrar essa
abstinência. Não podemos falar em cura,
porque essa é uma doença crônica incurável”, explicou o administrador.
O tratamento, que abrange desde
adolescentes até idosos, não atua apenas
na recuperação do
dependente químico, mas também na
informação sobre os
materiais utilizados
para o consumo de
determinadas drogas, para que não
haja contaminação
e proliferação de
doenças.
Hoje, o índice de
reincidência é de 50% dos casos, dos
que haviam recebido alta. De acordo com
Leite, em situações de nervosismo, depressão ou estresse, o dependente procura recursos externos e acaba tendo uma recaída. “A droga para o dependente é como
o espinafre do Popeye. Com o espinafre,
ele ficava com a Olívia, era respeitado e
não apanhava do Brutus. Se o dependente não consegue vencer alguns obstáculos
da vida, ele precisa de alguma substância
para conseguir se salvar”, ressaltou.
Para Leite, a predisposição do toxicodependente para fazer o tratamento
é essencial, mas a família tem um papel
fundamental para que ele se recupere
em menos tempo. “Nós temos o grupo
de terapia semanal para as famílias
dos nossos pacientes, mas infelizmente
a maioria não participa”, afirmou.
Ele ainda explicou que o sucesso no
tratamento depende do ponto de vista
de cada um. Em alguns casos, somente pelo fato de diminuir o consumo das
drogas, o paciente já evoluiu. Principal-
mente se já estiver retomando a vida
normal, apesar de continuar utilizando
substâncias químicas.
Segundo o administrador, o serviço prestado no Senat ainda precisa ser
aperfeiçoado, pois como não existe um
modelo de atendimento predefinido,
eles vão se adequando aos poucos a
um modelo, que eles mesmos criaram
e que vem dando certo. “Os casos que
chegam aqui no Senat são variados.
Alguns pacientes, além de usarem drogas, têm problemas psiquiátricos e não
podem participar de debates só nas
oficinas de artes. Outros já podem fazer atividades de reflexão. Portanto,
nós vamos construindo um modelo de
atendimento conforme o caso”, disse.
Uma pessoa somente pode ser considerada viciada quando a droga começar a atrapalhar o desenvolvimento
das atividades diárias, como trabalho
ou estudo, e o convívio com a família e
sociedade em geral.
CASOS BEm SuCEDiDOS
Há um ano, um casal de aproximadamente 40 anos, viciado em álcool,
cocaína e crack, procurou o Senat para
se recuperar. Porém havia uma dificuldade no processo, pois um atrapalhava o tratamento do outro. Quando
um melhorava, o outro chamava para
consumir as drogas.
Um certo dia, técnicos do Senat
convenceram a mulher a se internar.
“Quando nós separamos os dois, uma
equipe discutiu como faria para sensibilizar a moça de modo a que ela recebesse os cuidados sem que fosse forçada
e acabasse desistindo”, contou Leite.
A internação foi bem sucedida e
JOANA RIBEIRO
Senat funciona à
Rua Paraíba, 110
na Pompéia
os dois conseguiram evoluir. Hoje, eles
continuam recebendo cuidados e freqüentando o Senat para manter a
abstinência. “Eles venceram o vício e
hoje vivem uma vida normal”, disse.
Um outro caso é de um adolescente
de 17 anos, dependente de crack, que
não estava estudando nem trabalhando. Posto para fora de casa, ele procurou o Senat e realizou oito meses de
tratamento. Hoje, parou com o crack
e apenas utiliza maconha, que, segundo Leite, foi uma evolução, mais ainda
continua em tratamento.
O adolescente foi encaminhado
para o outro projeto da Prefeitura
chamado Tô Ligado e faz oficina de
teatro junto com outros meninos e
meninas que não usam entorpecentes.
Leite explicou que ele foi ressocializado
e voltou a estudar e trabalhar. “Nós o
ajudamos a se afastar da morte e o Tô
Ligado o está ajudando a promover a
vida”.
Para aqueles que necessitarem do tratamento é só procurar pelo Senat,
das 8 às 18 h, à rua Paraíba, 110 na Pompéia. Telefone: (13) 3237-2681.
Os documentos que devem ser apresentados são RG, cartão do SUS e
comprovante de residência. Somente serão atendidos moradores de Santos.
com o apoio
Cadeirantes contam ove cursos e
om
da associação, que pr rtes
es
prática de po
Entidades tentam reduzir
exclusão
Júlia Paiva
A inclusão é um importante conjunto de ações que combatem as diferenças e promovem os benefícios em
sociedade. Em Guarujá, o Lar Espírita
Cristão Elizabeth oferece serviços à população da Vila Baiana e imediações,
e é referência no atendimento às famílias, crianças, adolescentes, moradores
de rua, idosos, gestantes e deficientes.
Atualmente, a entidade conta com
mais de duas mil famílias cadastradas
em vários projetos gratuitos.
“Oferecemos almoço diário para
toda a comunidade, com cardápio
elaborado por nutricionistas. Aqui, os
moradores cortam o cabelo, a barba
e tomam banho. Temos atendimento
médico com clínico geral, ginecologista,
odontologista e pediatra. As gestantes
também recebem atenção especial.
Elas têm todo o acompanhamento prénatal, recebem orientação sobre cuidados com saúde e higiene, e aprendem
a fazer os próprios enxovais”, conta o
presidente da entidade, João Elias.
Para as coordenadoras que trabalham na casa, os projetos Pés de Cristal
e Esperança e Luz são os destaques. O
primeiro oferece cursos de balé clássico e
dança livre para crianças e adolescentes
e, o segundo, capacita adolescentes com
até 18 anos com cursos de informática,
panificação, garçom, garçonete, teatro
e corte e costura, a fim de inseri-los no
mercado de trabalho. “Já servimos café
da manhã e bufê em eventos empresariais, fazemos uma média de 1.500
atendimentos por mês. Os meninos estão muito felizes”, conta Mônica Maria
dos Santos, uma das coordenadoras do
projeto Esperança e Luz.
O presidente falou também da importância de outros projetos, como o
Dignidade e Vida: “Este foi criado para
atender moradores de rua e tem por
objetivo resgatar a dignidade, reintegrando-os na família, na sociedade e
no mercado de trabalho. Oferecemos
curso de marcenaria e recuperação de
móveis”, diz. Qualquer pessoa pode fazer doações para ajudar esses projetos.
Ainda na Vila Baiana, uma iniciativa do estudante de enfermagem Tiago
Santos da Silva com a Associação de
Moradores do Bairro visa trazer mais
qualidade de vida e saúde pra idosos do
Bairro, com o projeto Idoso Nota 10.
“Eu nasci aqui e sei das necessidades do pessoal da comunidade, por isso
fundei esse projeto. Eu faço exames de
hipertensão neles, e muitos nem sabem
que têm a doença. Então, converso
com eles e os encaminho para o trata-
mento em postos de saúde. Muitos deles são sedentários também e eu os levo
para caminhar na praia”, diz Tiago. O
projeto é realizado na própria associação, todos os fins de semana, a partir
das oito horas da manhã.
Sebastião da Silva, presidente da Associação dos Moradores da Vila Baiana,
aproveitou essa ação e, agora, a entidade também oferece cursos de pedreiro e eletricista, além do projeto Caça
Talentos, onde jovens aprendem a tocar
violão. “Não precisa ser morador só da
Vila Baiana, podem vir os das comunidades Pedreira e Canta Galo”, diz Silva.
As inscrições são feitas no local.
SOBRE RODAS
Os deficientes físicos também têm
vez na Cidade. A Associação de Deficientes da Ilha de Santo Amaro, a
Adisa, promove diversas ações. “Aqui,
os assistidos aprendem a ler a escrever,
pois o índice de analfabetismo é alto
entre eles, já que, por falta de adaptações em escolas e locais públicos, eles
foram, de alguma maneira, impedidos
de entrar e freqüentar aulas como as
outras pessoas. Muitas famílias de deficientes também não têm dinheiro para
os cuidados deles, então a associação
faz doações de cadeiras de rodas, por
exemplo. Por isso, pedimos a colaboração de todos”, diz Valdinei Santos, o
presidente da entidade.
O projeto Basquete Sobre Rodas
vem chamando a atenção da sociedade guarujaense, pois funciona como
um incentivo ao esporte para os cadeirantes. “Fazemos competições abertas
à população, que comparece sempre e
nos ajuda”, conta Santos.
Serviços
Lar Espírita Cristão Elizabeth
Endereço: Rua Vereador Orlando Falcão, 172 - Jardim Praiano
- Guarujá/SP
Telefone: (13) 3351-5477
e-mail: [email protected]
Associação dos Moradores da
Vila Baiana
Endereço: Rua Argentina, s/ n°,
Jardim Praiano, Guarujá/SP.
Telefone: (13) 8806-6550 e (13)
9613-6341.
Associação dos Deficientes da
Ilha de Santo Amaro — Adisa
Endereço: Rua Josefa Hermínia
Caldas, 205 - Jardim Progresso,
Guarujá/SP.
Telefone: (13) 3352-6461.
Edição e diagramação: Thaís Cardim
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
17
Casa da Criança oferece abrigo
temporário para menores abandonados
Com 122 anos de existência, a associação é a segunda mais antiga da Cidade
ARUCHA FERNANDES
Arucha Fernandes
O ambiente familiar é
o mais adequado para o
desenvolvimento de uma
criança, mas, por vezes, esse
convívio precisa ser reavaliado.
Dentro deste contexto, a
Associação Casa da Criança
de Santos abriga crianças e
adolescentes afastados de suas
famílias biológicas.
“A entidade atende a
menores que estejam em
situações
que
coloquem
em risco a sua segurança e
integridade física”, explica o
presidente do conselho diretor
da Casa da Criança, Charles
Artur Santos de Oliveira.
O papel de acompanhar e
decidir o encaminhamento
para a instituição é da Vara
da Infância e da Juventude.
As 20 crianças e pré
adolescentes,
atualmente
internadas na associação
recebem, além dos cuidados
básicos,
atendimento
pedagógico,
psicológico,
fonoaudiológico e prática de
esportes. “A intenção é preparar
esses jovens para a vida em
sociedade, nutrindo todas as
necessidades que estavam
sendo negligenciadas”, afirma
Oliveira.
Com 122 anos de existência,
completados no último dia 13
de maio, a Casa da Criança,
situada no bairro do Macuco,
ocupa quase um quarteirão
inteiro. Isso porque, além do
abrigo, a entidade conta com
dois salões de festas, quadra
poliesportiva e piscina. Para
se manter, a instituição recebe
ajuda de empresas privadas,
escentes
Entidade atende a 397 crianças e pré - adol
por meio de parcerias e
projetos sociais, e também
verbas públicas. Fora isso,
ainda conta com os recursos
da locação dos salões de festas.
A associação também
mantém a escola de Educação
Infantil Treze de Maio e a
creche Casa da Criança,
ambas gratuitas. No total, são
397 alunos, sendo que ainda
estão sobrando vagas para
crianças de até 4 anos. “Muitas
pessoas ainda acreditam que
nossos serviços são exclusivos
para a parcela carente da
Cidade, mas, na verdade,
atendemos crianças de todas
as classes sociais”, explica o
presidente.
O espaço reservado para
o abrigo tenta reproduzir ao
máximo uma casa comum.
Entre os ambientes, estão
quatro quartos, berçário,
lavanderia, cozinha, refeitório,
duas salas de TV, dois
banheiros coletivos e sala
de estudos. “Os quartos são
separados por famílias, para
que não ocorra a separação
de irmãos. A cada nova
turma, a decoração é mudada
por conta das próprias
crianças, que conseguem dar
personalidade e uma sensação
mais caseira aos dormitórios”,
explica
Cléia
Aparecida
Pinheiro Palma, gerente-geral
da Casa. O tempo máximo de
permanência no lar é de dois
anos.
Reintegração familiar
A função do abrigo é
a de ser uma alternativa
provisória.
“As
crianças
recebem semanalmente visitas
dos familiares. O objetivo é
Vó Benedita:
trabalho social
Carina Seles
“Tia, me dá um beijo?”.
Essas, normalmente, são as
primeiras palavras ouvidas
ao entrar no local, seguidas
de olhares curiosos e abraços.
Localizada à Rua Carlos
Caldeira, 675, próxima à
Avenida Nossa Senhora de
Fátima, na Zona Noroeste de
Santos, a Unidade I da Casa
Vó Benedita (CVB) abriga
crianças e adolescentes de zero
a 18 anos, órfãos, em situação
de risco, violência, maus tratos
ou abandono.
Segundo a coordenadora
Cláudia Ribeiro, a entidade
foi fundada em 1976 por
Benedita de Oliveira e
reconhecida oficialmente em
1986, dois anos depois de Vó
Benedita falecer. “Ela cuidava
das crianças que eram
deixadas em sua residência,
primeiramente
por
um
período, a trabalho. Porém,
ao longo do tempo, algumas
mães não voltaram mais e ela
continuou cuidando”, conta.
A antiga casa, residência da
Vó Benedita ficava à Rua
Bittencourt, 171, no centro.
Atualmente, a entidade é
18
comandada pela guardiãpresidente Elizabeth Rovai
de França, que desde o
começo era voluntária do
local, juntamente com a Vó
Benedita.
Cláudia conta que o processo
básico de acolhimento e
adoção ocorre, normalmente,
após denúncia ao Conselho
Tutelar.
“É feita uma
investigação. Se confirmada
a situação, a criança é trazida
para um dos abrigos parceiros
da Prefeitura. A criança
passa por um estudo familiar,
pela assistente social e por
profissionais qualificados da
entidade que determinam
as principais necessidades
médicas e psicológicas da
criança.
As que possuem família
recebem visitas às quartasfeiras, das 16 às 18 horas. As que
não possuem nenhum familiar
ou quando estes não oferecem
o apoio necessário e não
comparecem às visitas, por
exemplo, são encaminhadas
para adoção. “Porém, diante
de todo esse processo difícil
que a criança passa, nossa
casa oferece alimentação,
acomodações e assistência
Edição e diagramação: Nathalia Pio
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
trabalhar individualmente os
problemas enfrentados por
essas famílias”, afirma Cléia,
que completa: “Apesar da
associação oferecer todas as
condições adequadas para o
desenvolvimento da criança,
o sonho dela sempre vai ser
voltar para casa”.
Em casos de abandono ou
em que a família biológica
esgota
os
recursos
de
recuperação, o próximo passo
é procurar a família extensiva,
ou seja, outros parentes que
possam garantir os direitos
da criança. “No momento,
inclusive, localizamos em
Goiânia a avó materna de
um bebê de três meses que
foi abandonado. A Casa está
providenciando a vinda dela
para Santos”, revela Cléia.
Mas quando todas estas
alternativas são exploradas
e não há resposta positiva, a
opção é encontrar uma família
substituta. “Embora a adoção
seja sempre o último recurso,
contabilizamos muitos casos
bem sucedidos de adoções,
até mesmo para famílias que
moram fora do Brasil”, diz Cléia.
Serviço - Para se tornar
voluntário da Casa é necessário
passar por uma entrevista
com um técnico, conhecer a
entidade para identificar em
que poderá ajudar e, depois,
fazer um contrato, de acordo
com a lei do voluntariado.
Para
obter
mais
informações é só acessar o site
www.casadacriancasantos.
org.br ou pelo telefone 32224500. O endereço é Avenida
Conselheiro Rodrigues Alves,
120, Macuco.
CARINA SELES
Casa da Vó Benedita atende a
43 crianças e adolescentes
educacional, médica, além
do carinho e atenção dos
voluntários e funcionários”,
explica Cláudia.
As crianças permanecem no
abrigo até que sejam adotadas
ou retornem às suas casas,
conforme a determinação da
Justiça.
Creche Noturna
A Unidade II localizada na
Vila Nova, à Rua Uruguai, 11,
funciona como uma creche
noturna. Das 19 às 23h30,
as crianças podem ficar
no local enquanto mães
de baixa renda realizam
cursos de capacitação ou
trabalham. No período da
manhã, o local oferece cursos
profissionalizantes às mães e
atividades lúdicas e culturais às
crianças. Outras informações
pelo telefone 3223-6659.
Doações
Mantendo cerca de 43
crianças e adolescentes, além
dos funcionários, a entidade
necessita
constantemente
de doações. “Precisamos
de
fraldas,
pomadas
contra assaduras, lenços
umedecidos,
alimentos,
produtos de higiene pessoal,
roupas, agasalhos e material
de limpeza”, ressalta a
coordenadora.
O abrigo 24 horas se
sustenta com a realização
de eventos como jantares,
bingos e chás beneficentes,
bazar,
campanhas
e
doações. Outras informações
pelo telefone 3299-5415.
Mesa Brasil: mais de
sete mil atendidos na região
Programa do Sesc arrecada 24 toneladas de alimentos por mês
FOTOS: MARIANA BEDA
Mariana Beda
O Mesa Brasil é um programa nacional do Sesc que combate a fome e o desperdício.
O objetivo é coletar alimentos
que estão esteticamente fora
do padrão para venda, mas
que ainda estão próprios para
o consumo. Em 2010, o programa arrecadou 325 toneladas de
produtos.
Coordenadora do programa, a nutricionista Fabíola
Freire explica que os alimentos
doados ou coletados são primeiramente selecionados. Os que
realmente têm condições de ser
aproveitados para consumo é
que são levados às instituições
que fazem parte do programa.
O Mesa Brasil só atende entidades que servem as refeições na
própria sede. “Precisamos garantir que os alimentos serão
bem aproveitados, preparados
e servidos, e sempre acompanhamos o processo para assegurar a qualidade do atendimento à comunidade”, diz Fabíola.
A nutricionista diz também
que as instituições sociais precisam seguir alguns critérios, como
ser legalmente constituídas, ter
um local adequado para preparar, servir e armazenar os
alimentos: “É exatamente por
isso que o Mesa Brasil tem esse
nome. O símbolo do programa
— um prato com faca e garfo
— simboliza o resgate da cidadania e a dignidade das pessoas
ao sentarem à mesa, com prato
e talheres”.
Os alimentos que chegam ao
Sesc são in natura, ou seja aqueles que não sofrem nenhum processo de manipulação. Noventa
por cento das doações são de
hortifruti — legumes, verduras e
frutas, — que são os que mais as
instituições precisam.
O programa e o processo de
coleta urbana surgiu há 15 anos,
no Sesc Carmo, em São Paulo.
A partir disso, outras unidades
começaram a implantar o programa. Em Santos, já existe há
10 anos. O diferencial da Baixada Santista é que há parceria
com o comércio de peixes e feiras livres. O Mesa Brasil atende
Cubatão, Guarujá, Santos, São
Vicente e Praia Grande.
O processo educativo é muito importante, pois o programa
possui uma equipe de coleta
com dois veículos refrigerados,
profissionais como nutricionista
e administradores de acompanhamento, estagiárias de nutrição. Para a coleta, há um roteiro pré- estabelecido ao longo
da semana. O volume de doações é sempre indefinido. “Nunca se sabe quanto será coletado
no dia. As instituições cadastradas não são obrigadas a doar,
somente se tiverem o alimento
disponível”, explica Fabíola.
São 70 parcerias, contando com os feirantes, padarias, sacolões, supermercados,
feiras livres e o comércio do
pescado.
Existem 60 instituições cadastradas. As coletas são feitas
de segunda a sábado. As atividades e despesas são pagas
pelo Sesc, que promove oficinas
culinárias que ensinam as entidades a preparar os alimentos e
a evitar o desperdício.
excedentes, por
Programa Mesa Brasil coleta alimentos
venda
estarem esteticamente fora do padrão para
Para a coleta, há um roteiro préestabelecido ao longo da semana
Pão de casca de banana
INGREDIENTES
6 bananas
1 xícara de água
1 xícara de leite
30 g de fermento fresco
½ xícara de óleo
1 ovo
½ pitada de sal
½ quilo de farinha de trigo
MODO DE PREPARO
Bater as cascas de bananas e a água no liquidificador. Juntar o óleo, os ovos, o fermento e bater mais um pouco. Acrescentar farinha, sal e o
açúcar e misture. Por último, colocar na massa
as bananas em rodelas. Colocar a massa em uma
forma untada com margarina e farinha de trigo.
Deixar crescer até dobrar o volume e levar para
assar em forno pré-aquecido.
para consumo
Alimentos que podem ser aproveitados
rama
são levados às instituições parceiras do prog
Quebra da Bolsa de 29 originou o Prato de Sopa
Viviana Ramos
Com a quebra da Bolsa
de Valores de Nova Iorque,
em outubro de 1929, a economia santista, intimamente ligada aos negócios do
café, mergulhou em grave
crise financeira.
Os trabalhadores portuários, que moravam no
Morro da Nova Cintra, começaram a enfrentar o problema da fome. Passaram
então a bater de porta em
porta, em busca do que comer. A iniciativa de servir
diariamente uma refeição
gratuita aos desempregados santistas partiu de um
grupo de senhoras. Nascia
assim, em 1930, a Associação Prato de Sopa Monsenhor Moreira, em junho de
1930.
Com o passar dos anos, a
instituição passou a desenvolver projetos direcionados para a inclusão social
e o resgate da cidadania.
“Muitas instituições estão
voltadas apenas à questão
assistencialista, alimento e
roupas. Queremos ir além
da necessidade imediata,
queremos reinserir essas
pessoas na sociedade”, diz
a assistente social do Prato
de Sopa, Raquel Nunes de
Souza Dias.
Por muitos anos, o Prato
de Sopa, assim como outras
instituições, só ofereceu a
alimentação, como destaca
Raquel: “Eles vinham às 10
horas, comiam e iam embora, a gente não sabia nem
o nome deles”. A ampliação
parece que foi bem aceita. “Quando reformamos a
cozinha, avisamos que não
poderíamos oferecer alimentação por um tempo e
eles disseram: a gente não
vem aqui só por causa da
comida. Assim a sopa, deixou de ser o atrativo maior
e deu espaço para às atividades e oficinas”.
A casa tem seis funcionários e atende 50 moradores
de rua por dia. “Eles chegam às 9 horas e ficam até
ao meio-dia. Participam
das atividades e em seguida almoçam”, diz Raquel.
Às segundas-feiras tem banho e corte de cabelo; às
terças, eles recebem atendimento psicológico voltado à
capacitação profissional e,
no caso dos alcoólicos, auxílio psicológico. As quartasfeiras são preenchidas com
a presença de uma poeta
que estimula a produção de
textos. A psicóloga da casa
atende quinta-feira, dia destinado também ao banho.
Às sextas-feiras, os moradores de rua participam da
oficina de música.
Raquel explica que as
atividades são mantidas
por voluntários. “Procuramos manter parcerias para
os projetos da casa e contamos com uma verba anual
da prefeitura”.
No período da tarde, um
projeto em parceira com a
Petrobras e o Senac oferece capacitação no trabalho
doméstico para mulheres
vítimas de violência no lar.
“Montamos uma casa completa para que elas aprendam fazendo o trabalho in
loco”, diz
E se engana quem pensa que os moradores de rua
atendidos pela Associação
Prato de Sopa são analfabetos. “A maioria é composta por homens e com bom
nível de escolaridade. Alguns com ensino superior”,
conta Raquel, que destaca
os motivos que levam essas pessoas a viverem nas
ruas: “As adversidades da
vida contribuem para que
eles percam o vínculo familiar. Entre os principais
responsáveis estão o álcool e as drogas”. De acordo
com Raquel, a casa tenta
estreitar as distâncias entre os moradores de rua e
a sociedade. “Os resultados
vêm com o tempo. Pessoas
que voltam a trabalhar, a
encontrar suas famílias e a
terem os seus direitos respeitados. Cabe a nós, assistentes sociais, encurtar essas
distâncias”.
Em uma das oficinas foram produzidos dois livros,
um deles reúne as histórias
de vida dos assistidos. “Pretendo equilibrar a minha
vida, deixar de ser apenas
uma mobília velha na decoração do mundo (...) quero
voltar à sociedade e poder
desempenhar meus conhecimentos (...) quero voltar a
abraçar meu filho e andar
ao seu lado como amigo,
como aluno, como professor,
como pai”, escreveu R. M. J.,
que há mais de dois anos
vive nas ruas de Santos.
Para o estagiário de Serviço Social, Bruno Jaar Karam, a maior dificuldade
para os moradores de rua é
superar o preconceito. “Há
várias lacunas nas políticas
públicas. Aqueles serviços
que dizem ser para todos,
na realidade não são. Eles
têm dificuldades para recuperar documentos perdidos
e arrumar emprego. Sempre olhados com preconceito, principalmente pela falta de higienização”, diz.
Na Associação, Karam
desenvolve atividade voltada para o emprego. “Perguntei para eles no que poderia ajudá-los na procura
por uma vaga no mercado
de trabalho. Resolvemos começar pela preparação dos
currículos”.
Quem quiser ajudar a
instituição pode entrar em
contato pelo telefone (13)
3232-5468.
O endereço é Rua Sete
de Setembro, 52, Vila Nova,
Santos.
Edição e diagramação: Ivan De Stefano
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011
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CARINA SELE
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CARINA SELES
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CARINA SE
A TORRE
ALINE DELL
CARINA SELES
ENSAIO
Em 1916, o número excessivo
de mendigos e migrantes que
perambulavam pelas ruas de Santos
levou a Câmara Municipal e outras
entidades civis a criarem o Albergue
Noturno. Quase um século depois,
a entidade continua a cumprir as
finalidades para as quais foi criada,
com trabalho redobrado ano a ano.
Mas as ruas de Santos e cidades
vizinhas mostram que os números
da exclusão social são cada vez mais
dramáticos — seriam mais de 300,
segundo dados da Secretaria de
Assistência Social.
ALINE DELLA TO
RRE
SÓCRATES PUNTEL
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Edição e diagramação: Joana Ribeiro
PRIMEIRA IMPRESSÃO • Junho de 2011

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