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- Jornal Beira do Rio
issn 1982-5994
12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009
Entrevista
Fotos Mácio Ferreira e Acervo Pessoal
JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO VII • N. 69 • Fevereiro, 2009
Música e história no MUFPA
Entrevista
Os professores Ândrea Ribeiro
dos Santos, Luci Pereira e
Pedro Walfir Souza Filho
falam sobre a indicação
para Academia Brasileira de
Ciências. Pág. 12
Para os professores, indicação significa
reconhecimento e visibilidade.
Ândrea, Pedro e Luci representam a UFPA na Academia Brasileira de Ciências
Ândrea Ribeiro dos Santos, Luci Pereira e Pedro Walfir Souza Filho
estão entre os 27 jovens cientistas escolhidos para pertencer aos quadros da
Academia Brasileira de Ciência (ABC) pelos próximos cinco anos. Professores da Universidade Federal do Pará, eles atuam no Laboratório de Genética
Humana e Médica do Instituto de Ciências Biológicas, no Laboratório de
Oceanografia Costeira Estuarina e no Instituto de Geociências da Faculdade
de Oceanografia, respectivamente.
Os jovens cientistas de hoje foram alunos curiosos e aplicados. Aproveitaram a Iniciação Científica para dar os primeiros passos no ambiente acadêmico.
Em entrevista ao BEIRA DO RIO, os professores falam sobre a importância da
indicação da ABC, dos projetos desenvolvidos atualmente e afirmam que, para
despertar o interesse da juventude pela ciência, é preciso promover o diálogo
entre universidade e sociedade.
Beira do Rio – Desde agosto, vocês
integram a seleta lista de jovens
cientistas da Academia Brasileira
de Ciências (ABC). O que isso
significa para a carreira de vocês?
Ândrea Ribeiro dos Santos – É
muito mais visibilidade perante a sociedade acadêmica, no sentido de que
têm sido desenvolvidos trabalhos e
projetos de qualidade na Região Norte
especificamente. Essa visibilidade é
importante para abrir portas e, enfim,
poder discutir em outro nível, talvez
um pouco mais denso. É o reconhecimento entre os pares.
Luci Pereira – Fazer parte da lista
de jovens cientistas da ABC é uma
honra e uma gratificante recompensa pelo esforço de manter uma boa
publicação científica, de conseguir
angariar recursos, de exercer cargos
administrativos e de ser professor.
Trabalhar nas ações promovidas pela
Academia, com grandes pesquisadores brasileiros e estrangeiros, membros da ABC, será bastante importante para minha carreira científica.
Pedro Walfir Souza Filho – Significa
reconhecimento de toda uma trajetória científica, que começou quando eu
entrei na Universidade. É o reconhecimento de todo o esforço que você faz
para fazer ciência e pesquisa no país e,
principalmente, na Região Norte.
BR – Como foi o percurso acadêmico de vocês? Quando começou esse interesse pela pesquisa?
Ândrea – Meu pai era geógrafo,
então, essa paixão que eu tenho por
contar a história das populações foi
muito influenciada pela presença
dele. Quando entrei na Universidade,
procurei me engajar em um grupo de
pesquisa, inicialmente, como estágio
voluntário. Depois de um ano, conseguimos uma bolsa no CNPq. Quando
terminei a graduação, entrei para o
mestrado e, em seguida, para o doutorado. Em 1996, fui contratada pela
Universidade com uma bolsa recémdoutor e logo surgiu o concurso na
área em que eu atuo, fiz e passei.
Luci – Fui bolsista de Iniciação
Científica do CNPq por três anos. Durante esse período, tive oportunidade
de participar, publicar e apresentar
trabalhos em congressos nacionais e
internacionais. Durante minha Iniciação Científica, publiquei meus dois
primeiros artigos científicos e, sem
dúvida, essa bolsa foi uma excelente
oportunidade para minha iniciação no
meio científico.
Pedro – Entrei na Universidade em
1988, no curso de graduação em
Geologia. Desde 1989, tive interesse
em participar de projetos de pesquisa.
Comecei como voluntário, sem bolsa.
Nessa época, tive oportunidade de
embarcar num navio de pesquisa na
foz do Amazonas e despertei para
a questão da aventura, da coleta de
amostras, de ir para o laboratório e
descobrir algo, isso foi a maior motivação na época de estudante. Durante a minha trajetória, sempre tive
uma convicção: estudar a Amazônia.
Quando fiz o mestrado e o doutorado,
fiz em Belém pela falta de possibilidade de fazer fora e estudar a região. Em
2002, prestei concurso para a geologia
e ingressei na Universidade.
BR – De que maneira o ambiente da Universidade teve
influência para vocês seguirem adiante com a pesquisa?
Ândrea – Quando você se dedica a
uma determinada área, no meu caso
a Genética de Populações Humanas e
Médicas, começa a ler artigos, livros,
assiste à palestra daquele que é o ícone na sua área, acaba se apaixonando
ainda mais. Esse contato acadêmico
acaba influenciando a rota, o direcionamento que você quer dar para sua
vida. Sempre tive em mente que gostaria de fazer pesquisa, nunca pensei
em ficar atrás de uma mesa, fazendo
algo rotineiro. Gosto de coisas dinâmicas, de poder viajar para campo e
conhecer as populações. Entender um
pouco a cultura, a dispersão demográfica, a epidemiologia daquela região,
para contribuir de alguma forma
Luci – A Universidade sempre me estimulou a fazer pesquisa, entretanto,
sempre procurei trabalhar em laboratórios produtivos cientificamente,
e esse fato foi fundamental para que
eu sempre me sentisse incentivada a
aprender e publicar cada vez mais.
Pedro – O Instituto de Geociências
sempre teve uma atmosfera carregada
de ciência, de pesquisa. Esse foi o meu
mundo universitário desde a graduação. Aqui você é aluno de professores
que fazem pesquisa. Você tem acesso
aos livros – que têm o conhecimento estabelecido – mas também tem
acesso à atividade de campo para que
você gere o conhecimento que um dia
estará nos livros. Isso coloca o aluno
como protagonista, alguém capaz de
produzir o conhecimento.
BR – Falem um pouco mais sobre o projeto de pesquisa em
que vocês atuam no momento?
Ândrea –Trabalhar com Genética
de Populações Humanas e Médicas
é entender um pouco a dinâmica de
origem do homem. Hoje, você consegue saber quais as doenças genéticas
que estão presentes na Amazônia em
função da sua ocupação miscigenada.
O que eu gosto, nesse trabalho, é que
eu conto a história das populações,
mas pelo DNA. É preciso entender
que o genoma humano nada mais é
do que um livro que tem seus códigos
próprios para decifrar, é disso que
eu gosto.
Luci – Atualmente, trabalho em alguns projetos científicos financiados
pelo CNPq e pela FAPESPA, sendo o
gerenciamento costeiro o foco principal. A área de abrangência é o litoral
paraense e maranhense e as três linhas de pesquisa são: Gerenciamento
Costeiro Integrado; Hidrodinâmica
e Morfodinâmica em praias e estuários; Uso e Ocupação Territorial em
praias e bacias hidrográficas.
Pedro – Hoje, o foco da minha
pesquisa é interpretar os dados de
sensores remotos, que estão a bordo
de satélites em torno da terra. Ou
seja, como os satélites enxergam os
manguezais e, a partir daí, quais são
as propriedades que eu posso extrair
dessas imagens: densidade, biomassa, extensão em área que eles ocupam. Eu trabalho com esse enfoque
de aquisição de dados espaciais com
validação de dados em campo. De
que forma o clima, a temperatura da
atmosfera, a variação do nível do mar
têm afetado os ambientes costeiros.
BR – O que poderia ser feito
para incentivar a curiosidade e o interesse do público
infanto-juvenil pela ciência?
Ândrea – É aproximar a sociedade
daquilo que é desenvolvido dentro da
universidade. É levar a sala de aula
até o Ensino Médio, levar o resultado
de pesquisa, enfim, é sair dos muros
da universidade. Nós, professores,
técnicos, pesquisadores, não sabemos como chegar à sociedade. A
linguagem que aprendemos é científica e acadêmica. Nós precisamos
construir outra maneira de diálogo,
que faça as pessoas entenderem o que
se faz aqui dentro.
Luci – A bolsa Pibic-Júnior é uma
excelente oportunidade que os alunos de escolas públicas têm para
participar de projetos de pesquisa.
Aumentar a divulgação desse programa e o número de bolsas poderá
despertar o interesse de um maior
público infanto-juvenil.
Pedro – O maior incentivador é a
leitura. No Brasil, as crianças leem
muito pouco. É preciso desenvolver
um programa que leve a universidade
ao Ensino Fundamental e Médio para
demonstrar a carreira científica, que
é extremamente atraente. Hoje, as
crianças têm contato com um grande
conteúdo de geologia, mas não têm
viagens de campo. Esse despertar,
desde pequeno, é o que falta para
peneirar novos talentos.
Coluna do Reitor
Alex Fiúza de Mello
discute a burocracia e
o legalismo na Gestão
Pública. Pág. 2
Opinião
O professor Miguel Santa
Brígida analisa o samba como
a produção de conhecimento
nas universidades. Pág. 2
Intercâmbio
Casa de
Estudos
Germânicos
Para comemorar aniversário, CEG
faz programação especial em homenagem aos 20 anos da queda do
muro de Berlim. Pág. 8
Música
Acervo da EMUFRA
Rosyane Rodrigues
Mácio Ferreira
Novos cientistas na
Academia Brasileira
de Ciências
Acervo com partituras originais, CDs e vinis estão disponíveis na Biblioteca do Museu da Universidade
U
ma viagem ao mundo da música, com parada
especial para conhecer raridades de compositores paraenses. Isso é possível graças ao
trabalho da equipe coordenada pelo maestro Jonas
Arraes, responsável pelo Projeto “Recuperação e difusão do acervo musical da Coleção Vicente Salles”, a
qual catalogou e organizou a coleção adquirida desde
1984 pela UFPA. Com patrocínio do Governo Federal,
por meio da Petrobrás e da Lei Rouanet, discos, fitas
cassete e de rolo, partituras originais e editadas, vinis e
CDs estão disponíveis para todos os que têm interesse
pela história da música na Amazônia. Pág. 4
Orquestra sinfônica da EMUFPA
Novos sons na
cena musical
da cidade
São 49 profissionais e mais de
500 alunos divididos em corais,
orquestras e grupos de música da
EMUFPA. Pág. 6
História
Geocronologia
Escola de Teatro e Dança
profissionaliza categoria
Desde a década de 60, ETDUFPA
tem contribuído para a formação
dos profissionais de artes cênicas no
Pará. Hoje, seus espetáculos envolvem desde o público infanto-juvenil
até a terceria idade. Pág. 3
Laboratório
é o único da
Região Norte
Pág. 11
BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009 –
Geocronologia
Coluna do REITOR
Alex Fiúza de Mello
O
Mácio Ferreira
N
mento criterioso, o diálogo. As leis e
as normas que regem a administração
pública são cada vez mais complexas
e detalhistas; não obstante, a corrupção
aumenta – como a ineficácia. Pagam
o preço os pequenos infratores, que se
arriscam em benefício da causa pública, normalmente aqueles que não têm
dinheiro ou prestígio para se defender
da fúria dos tribunais; continuam impunes os grandes contraventores, que
usam a máquina em benefício próprio,
graças à posse dos recursos que faltam
aos primeiros. Os órgãos de controle
– conquista importante da democracia
moderna em vista da transparência da
prestação de contas e da responsabilização da gestão dos recursos públicos
(accountability) – apequenam-se e se
desvirtuam ao priorizar a obediência a
processos (por suposição) formalmente corretos do ponto de vista jurídico
em detrimento do atendimento a resultados. Mas a própria hermenêutica
do que seja “juridicamente correto”
é dúbia e, regra geral, conservadora.
O meio se torna mais importante
que o fim. As filigranas formais mais
apreciadas que as realizações efetivas.
Detalhes secundários se sobrepõem
ao essencial. E nessa modernização
do atraso, o “bom gestor” passa a ser
tão-somente aquele que não transgride
a forma, ainda que não resolva os problemas. E o que poderia e deveria ser o
controle, a supervisão e a luta contra o
desperdício, a ineficiência e a corrupção – presença saudável de um Estado
modernizado e anti-patrimonialista
–, transforma-se, mesmo involuntariamente, no seu oposto, graças aos
exageros e às exigências descabidas.
Instala-se, silenciosamente, um estado
de terror, onde impera a ditadura do
jurídico.
O Brasil corre na contramão da
história. Já faz décadas que o mundo
desenvolvido percebeu que o gestor
público contemporâneo deve ser
técnico e, ao mesmo tempo, político,
porque o tempo social – voltado à
solução dos problemas dos cidadãos
– não corresponde (nunca mais!) ao
tempo da burocracia. Propalam-se
e experimentam-se, alhures, novos
paradigmas de gestão pública em
nome da qualidade, da eficiência, da
produtividade, da economicidade,
da liberdade, da responsabilidade da
tomada de decisões em tempo hábil,
tudo em favor do interesse social
maior. A impressão que se tem, contudo, no Brasil e na América Latina é
que essa nova filosofia, concepção e
sentido de serviço público transitam
muito mais no papel e na retórica
(vazia) do que na realidade dos fatos.
Em terras verde-amarelas, ninguém se
entende. Os Poderes não se acertam
entre si. Muitas vezes se repelem.
Os Tribunais de Contas mandam no
Executivo. O Judiciário legisla. O
Legislativo executa. Vive-se sob a
tutela de um Estado esquizofrênico.
Os egos prevalecem sobre o interesse geral. Todos querem ser reis.
Distancia-se a república; amordaça-se
a democracia.
OPINIÃO
Hoje, os órgãos que verdadeiramente decidem pelo país são aqueles de Controle e as Procuradorias.
Mas essas, muitas vezes, ao invés de
exercerem o sadio e nobre exercício
do enfrentamento hermenêutico – a
única ciência do Direito –, por medo
ou por insegurança não raramente
se metamorfoseiam em verdadeiras
auditorias, preferindo a facilidade da
submissão passiva aos acórdãos (formalmente explícitos), nem sempre
justos ou inteligentes, ao risco de sua
contestação ativa, em favor dos interesses legítimos de seus representados
e segundo o espírito da justiça. Nem
a Lei é mais cumprida e respeitada
pelos seus hermeneutas de plantão,
pois a sua interpretação – draconiana – cria, desnecessariamente, mais
obrigações e empecilhos que a própria
letra do texto. Submerge a res pública;
impõe-se o corporativismo.
Assim ainda teimam em sobreviver, no Brasil, em pleno alvorecer
do terceiro milênio, as instituições
da administração pública (institutos,
universidades, agências de fomento)
criadas, justa e paradoxalmente, para
inovar o futuro: tuteladas, fragilizadas, amordaçadas. E enquanto os
demais países continuam a expandir
o seu domínio sobre o mundo, com o
progresso das revoluções científicas e
das inovações, ficamos sempre mais
para trás, dependentes e à deriva,
com o retrocesso da conservação burocrática e do obscurantismo – data
venia.
[email protected]
Miguel Santa Brígida
O samba como produção de conhecimento
o universo da Academia
Brasileira é recente o acolhimento e reconhecimento de
estudos e pesquisas que apresentem
temas voltados às culturas populares
como produtoras de conhecimento,
ainda herança do positivismo e suas
perspectivas racionalistas que predominaram até as primeiras décadas do
século XIX.
No Brasil de tantas tradições
e traduções, as travessuras de nossa
maior festa popular - o carnaval! - tem
derramado seu rio de alegria e arrebatamento no ambiente universitário
de forma transgressora e singular,
abrindo um novo caminho de análise
desse complexo e instigante ritual
de grande densidade espetacular.
Notadamente, o carnaval das escolas
de samba vem engendrando uma
diversidade de estudos em diferentes
áreas do conhecimento.
No Rio de Janeiro, destacamos
o Laboratório das Artes Carnavalescas da UERJ, que vem promovendo
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
Rua Augusto Corrêa n.1 - Belém/PA
[email protected] - www.ufpa.br
Tel. (91) 3201-7577
e divulgando estudos e pesquisas
voltados à produção das diversas
linguagens artísticas que compõem
o processo criativo das escolas de
samba, tanto em sua dimensão técnica, quanto artística. Nessa mesma
universidade, foi recém inaugurado
o Centro de Referência do Carnaval
Carioca, que apresenta um perfil
mais estruturado e complexo de acolhimento, geração e divulgação de
estudos sobre as escolas de samba,
com ênfase nos estudos acadêmicos.
Ambas as iniciativas são coordenadas
pelo Prof. Dr. Felipe Ferreira.
Em Belém, onde possuímos a
quarta escola de samba mais antiga
do país, o Rancho Não Posso me
Amofiná, que, no carnaval de 2009,
celebrará 75 anos de resistência cultural, a produção de conhecimento em
nossas universidades tem se revelado
em consonância com esse novo perfil
acadêmico nacional.
Investigando a escola de
samba jurunense, a UEPA produziu,
Laboratório é o único na Região Norte
[email protected]
Estado esquizofrênico e a ditadura do Jurídico
legalismo e a burocracia,
como valores dominantes,
tornaram-se os pilares de legitimação política no Brasil do século
XXI, em detrimento da vontade geral.
Se na maioria das nações desenvolvidas evolui-se da velha mentalidade da
administração rígida e presa a formalismos para um modelo de gestão mais
flexível e pragmático da coisa pública,
ainda que com controle social, entre
nós o gestor público goza, cada vez
menos, de autonomia e liberdade para
o desempenho de suas funções finalísticas. A nova gestão pública, inovadora
e flexível, como exige a dinâmica do
tempo presente – em plena Era Global
do Conhecimento –, está condenada,
a priori e infelizmente, em nosso país,
pelos donos do poder: a burocracia
oligárquica.
As instituições estão paralisadas; as obras, atrasadas; os serviços,
sucateados. De repente, tudo parece
ser proibido. Todo gestor é corrupto,
até prova em contrário. Os honestos
pagam pelos culpados. Não há espaço
ou permissão para inovação, para decisão urgente. Quando não é a Lei que
proíbe, são as Portarias, os Acórdãos,
as interpretações conservadoras das
Procuradorias país afora, mais realistas
que a própria Lei. Todos temem a hermenêutica do formalismo exacerbado,
da cultura da desconfiança, da caça às
bruxas, como se não houvesse mais
distinção entre arranjo e dolo, heterodoxia e má-fé, criatividade e burla.
Evaporou-se o bom-senso, o discerni-
11
em 2008, a dissertação de mestrado
do Prof. Leopoldo Santana Junior,
intitulada “Quem é do Rancho Tem
Amor Não se Amofina: Saberes e
Cultura Amazônicos presentes nos
Sambas Enredos da Escola de Samba
Rancho Não Posso me Amofiná”, um
singular e original estudo que aborda
os sambas enredos como forma de
educação. A Profa. Dra. Carmem Izabel Rodrigues lançou, em dezembro,
o livro “Vem do Bairro do Jurunas:
Sociabilidade e Construção de Identidades em Espaço Urbano”, uma reflexão resultante do seu doutoramento
na UFPE, que investigou as práticas
culturais cotidianas, dentre elas, as do
Rancho jurunense.
O samba também gerou “O
Auto do Círio: A Carnavalização
Imagética do Espetáculo”, trabalho
de conclusão do curso de Eduardo
Wagner, que estudou a carnavalização
do espetáculo produzido pela Escola
de Teatro e Dança em intercorrência
com a estética das escolas de samba
paraenses. Integra, também, esse
corpus teórico a tese de doutoramento
de nossa autoria “O Maior Espetáculo da Terra: O Desfile das Escolas
de Samba do Rio de Janeiro como
Cena Contemporânea na Sapucaí”
que investigou as matrizes dramáticas, coreográficas e performáticas
do espetáculo carioca. Apresentado
em 2006, por meio de uma parceria
UFPA/UFBA, esse estudo gerou o
Grupo de Estudo em Carnaval e Etnocenologia ligado ao ICA.
Esse panorama reafirma a importância do samba como produção de
conhecimento e, fundamentalmente,
como contribuição de um novo olhar
que nos desloque para um avanço
e alargamento do pensar, refletir e
ensinar nas universidades e na sociedade brasileira em suas dimensões
culturais contemporâneas.
Miguel Santa Brígida é doutor em Artes Cênicas, carnavalesco e
professor da ETDUFPA.
Reitor: Alex Bolonha Fiúza de Mello; Vice-Reitora: Regina Fátima Feio Barroso; Pró-Reitora de Administração: Simone
Baía; Pró-Reitor de Planejamento: Sinfrônio Brito Moraes; Pró-Reitor de Ensino de Graduação: Licurgo Peixoto de Brito;
Pró-Reitora de Extensão: Ney Cristina Monteiro de Oliveira; Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-graduação: Roberto Dall´Agnol;
Pró-Reitora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal: Sibele Bitar Caetano; Prefeito do Campus: Luiz Otávio Mota Pereira.
Assessoria de Comunicação Institucional JORNAL BEIRA DO RIO Coordenação: Luciana Miranda Costa; Edição: Rosyane Rodrigues; Reportagem: Ana Carolina Pimenta (013.585- DRT/MG) Andréa Mota/ Glauce Monteiro/ Jéssica Souza
(1.807-DRT/PA)/ Raphael Freire/ Rosyane Rodrigues (2.386- DRT/PE)/ Suzana Lopes/ Tamiles Costa/ Tatiara Ferranti; Fotografia:
Alexandre Moraes/Mácio Ferreira; Secretaria: Isalu Mauler/Elvislley Chaves/Gleison Furtado; Beira on-line: Leandro Machado/Camilo Rodrigues; Revisão: Júlia Lopes/Glaciane Serrão; Arte e Diagramação: Rafaela André/Omar Fonseca; Impressão: Gráfica UFPA.
Pesquisadores integram a maior rede de geociências da América Latina
Raphael Freire
C
omo saber a idade das
rochas e do planeta Terra?
Qual seria o fóssil mais
antigo do planeta? Essas e outras
perguntas podem ser facilmente
respondidas pela Geocronologia,
campo da Geologia Isotópica,
que estuda os métodos para determinar o tempo geológico e a
ordem cronológica de formação
das rochas, fósseis, sedimentos e
os diferentes eventos da história
da Terra. As primeiras propostas
para esse tempo geológico datam
de antes da Revolução Industrial
e se baseavam em escritos bíblicos, tanto que o Arcebispo Irlandês James Ussher (1581-1656)
declarou que a Terra teria sido
criada na noite anterior ao dia 23
de outubro, do ano 4004, antes
de Cristo.
A ciência evoluiu e outros
meios foram desenvolvidos para
se determinar a idade da Terra
e de materiais naturais sólidos
da crosta terrestre. Um deles foi
calcular o tempo necessário que
os oceanos levaram para se tornar
salgados, presumindo-se que esses
teriam sido doces no início e que
o sal teria sido levado pelos rios,
a partir da dissolução das rochas
aflorantes nos continentes. Mas,
com o tempo, os pesquisadores
descobriram que parte do sal não
permanece nos oceanos, sendo
removido por precipitação, ventos
e evaporação. Além disso, descobriram que a salinidade da água do
mar é constante no tempo. Ainda
houve outras tentativas, como calcular o tempo pela espessura das
camadas de areia ou pela perda de
calor da Terra, nenhuma, porém,
teve sucesso.
Atualmente, para se saber a
idade de uma rocha, existem dois
métodos. O método relativo, o
qual observa a relação temporal
entre camadas geológicas e a
presença de fósseis de organismos
que viveram em um período de
tempo bem definido. Nesse caso, a
camada geológica em que o fóssil
foi encontrado possui a mesma
idade do fóssil e é mais nova que
a camada que está abaixo dela
e mais velha que a camada que
está acima. Já o método absoluto
utiliza os princípios físicos da
radioatividade e fornece a idade
da rocha com exatidão. Esse método está baseado nos princípios
da desintegração (ou decaimento)
radioativa e o cálculo da idade de
uma rocha é possível porque as
rochas são formadas por minerais constituídos por elementos
químicos, entre eles, alguns radioativos, que se transformam por
decaimento radioativo, em uma
velocidade constante chamada
meia-vida.
Alexandre Moraes
LURDINHA RODRIGUES
2 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009
Macambira: pesquisa analisa terrenos da região
n Diversos métodos permitem datação de rochas
Entre os diversos métodos que
permitem datar a idade das rochas e
da Terra, a datação de monocristais
de zircão – um mineral resistente,
que permite a datação por meio do
elemento químico urânio, contido
em seu interior – por evaporação de
chumbo, é um método recente que
tem fornecido resultados com bastante precisão, rapidez e segurança.
Funciona da seguinte maneira: o urânio contido no zircão se transforma,
gradativamente, em chumbo, por decaimento ou desintegração radioativa.
Imagine uma ampulheta (relógio de
areia) em que, na parte superior, esteja
um determinado elemento químico
radioativo, no caso o urânio. Com o
passar do tempo este elemento vai
desaparecendo e o chumbo, neste
exemplo, vai surgindo, como os grãos
de areia da ampulheta.
Esse método, entre outros, é
aplicado pelo Laboratório de Geologia Isotópica – Pará-Iso - do Instituto
de Geociências da Universidade Federal do Pará. O Pará-Iso entrou em
funcionamento no ano de 1983, coordenado pelo professor francês Ariel
Provost e por Moacir Macambira, na
época, bolsista e atualmente, chefe
do laboratório. O laboratório atua nas
áreas de geologia isotópica aplicada à
Petrologia, Geoquímica, Geotectôni-
ca, Prospecção Mineral, Exploração
de Petróleo e Meio Ambiente.
Na época da montagem, o
laboratório passou por algumas dificuldades que foram solucionadas
com o apoio de empresas e órgãos
financiadores de pesquisa. “Nós não
tínhamos laboratórios nem especialistas para se fazer pesquisa em
geocronologia”, conta Macambira.
Hoje, o Pará-Iso tem crescido e conta
com equipamentos que custam em
torno de US$ 1 milhão, além de uma
grande e capacitada equipe, entre
químicos e geólogos, que desenvolve
diversas pesquisas na área da geologia
isotópica.
tos, formaram-se na mesma época.
Dessa forma, como os meteoritos são
corpos extraterrestres que caem na
superfície da Terra, eles podem ser
datados e sua idade é a mesma da
formação do planeta. Essa idade foi
determinada, pela primeira vez, por
Claire Patterson, em 1956, usando
os isótopos de chumbo. Rochas terrestres mais jovens, analisadas pelo
mesmo método, confirmaram esses
cálculos.
Os isótopos são átomos com
o mesmo número de prótons e diferente número de nêutrons. Quando
radioativos, como o urânio, eles se
decompõem produzindo posteriormente outros elementos, como o
chumbo, pela emissão de partículas
e radiações. O tempo necessário à
decomposição de metade da massa desses elementos radioativos é
chamado meia-vida. Sabendo-se as
quantidades dos elementos radioativos e do material deles derivados,
calcula-se a idade de um mineral.
Esse método chama-se datação
radiativa. Assim, a idade da Terra
foi determinada a partir da relação entre dois isótopos de chumbo
formados pela decomposição de
isótopos de urânio.
Qual a Idade da Terra?
Como a Terra está em constante mudança e sua crosta está continuamente sendo criada, modificada
e destruída, as rochas que registram
a história embrionária do planeta
não foram encontradas e provavelmente não existam mais. Portanto, a
idade da Terra – que, calculada pelo
método absoluto, indica que o nosso
planeta tem 4,56 bilhões de anos não pode ser obtida diretamente de
material terrestre.
Mas como saber se a terra
possui essa idade? Os cientistas
presumem que todos os corpos do
Sistema Solar, inclusive os meteori-
n Mapa
geológico
Uma dessas pesquisas é sobre
a formação da crosta da Amazônia.
Existe a suposição de que essa região
se formou em épocas diferentes e
em várias etapas, e na tentativa de
se comprovar essa hipótese, foi elaborado um mapa geológico sobre o
crescimento da Região Amazônica.
Esse mapa abrange o Cráton Amazônico – região que vai da Venezuela ao
Mato-Grosso do Sul – e é resultado de
alguns anos de pesquisa nessa área.
“O objetivo da pesquisa é estudar a
evolução da Amazônia, especialmente
em relação aos terrenos mais antigos.
A geocronologia ajuda no sentido de
definir a idade dos terrenos e permitir
a reconstrução da história geológica
do cráton”, conta Macambira, que
divide a autoria do mapa com o Prof.
Colombo Tassinari, da Universidade
de São Paulo (USP). Podemos tomar
como exemplo a região de Carajás,
que é tida como a região mais antiga
da Amazônia e que bem próximo dela
existe um terreno mais jovem, é essa
aproximação dos dois terrenos que a
pesquisa quer saber quando aconteceu.
O Pará-Iso é o único laboratório de
geocronologia das Regiões Norte e
Nordeste do país. Junto com a USP, a
Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS) e a Universidade de
Brasília (UnB), integra a Rede Geochronos – Rede Nacional de Estudos
Geocronológicos, Geodinâmicos e
Ambientais, que é uma parceria do
Ministério de Minas e Energia, da
Petrobrás, do Ministério de Ciência
e Tecnologia e de outras instituições
brasileiras, configurando-se como a
maior rede de geociências já concebida na América Latina.
10 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009
BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009 –
História
Paixão de LER
U
São 52 capítulos com diagnósticos e condutas terapêuticas
sem a pretensão de esgotar os
assuntos ou de compilar todas as
doenças que compõem a medicina do adulto, mas sim abordar
os temas mais comuns de cada
especialidade clínica. “Espera-se
que seja um primeiro trabalho de
muitos outros e que, de tempos
em tempos, ele possa ser revisa-
do, entendendo a dinâmica e a
necessidade de atualização, sem
a qual se tornará obsoleto”.
AUTORIA - Ao todo, são cinquenta e dois capítulos e em
todos, houve a participação do
médico residente, juntamente
com um especialista ou estudio-
so na área, representado pelos docentes
e preceptores do Programa de Residência
Médica, seja do próprio Hospital, seja de
outra instituição de ensino de saúde.
Os primeiros vinte e seis capítulos
tratam de: Acidente Vascular Encefálico, Anemia Hemolítica, Anemias nãohemolíticas, Artrite Reumatóide, Asma
Brônquica, Bradiarritmias, Carcinoma
Hepatocelular, Cefaléias Primárias, Cirrose Biliar Primária, Choque, Colangite
Esclerosante Primária, Coma, Complicações Agudas do Diabetes, Complicações da Cirrose Hepática, Convulsões,
Dermatopolimiosite, Diabetes Mellitus,
Diagnóstico Laboratorial das Hepatites,
Dislipidemia, Distúrbio do Equilíbrio
Ácido-Básico, Distúrbio do Metabolismo
do Potássio, Distúrbio do Metabolismo
do Sódio, Doença Arterial Coronariana,
Doença Dispéptica, Doença do Refluxo
Gastroesofágico e Doença Hepática
Crônica.
Já os outros vinte e seis capítulos
tratam de: Doença Inflamatória Intestinal, Dor, Exacerbação Aguda do DPOC,
Esclerose Sistêmica, Febre Reumática, Hemorragia Digestiva Alta Não–
Varicosa, Hemorragia Digestiva Baixa,
Hipertensão Arterial, Hipertireoidismo,
Hipotireoidismo, Insuficiência Cardíaca
Congestiva, Insuficiência Renal Aguda,
Insuficiência Renal Crônica, Lúpus Eritematoso Sistêmico, Morte Encefálica,
Osteoporose, Pancreatite Aguda, Pancreatite Crônica, Parada Cardio-Pulmonar,
Pneumonias Adquiridas na comunidade,
Pneumonias Hospitalares, Profilaxia de
Úlcera de Estresse, Sepse, Taquiarritmias, Tromboembolismo Pulmonar e
Tuberculose.
O livro “Tópicos em clínica médica: diagnóstico e terapêutica”, lançado
pela EDUFPA, pode ser adquirido na livraria do Campus e na livraria da Praça.
Museus
Tesouros guardados no Campus Guamá
Museu de Anatomia Prof. Manuel
da Silva Braga
O Museu de Anatomia foi inaugurado
em 1982 e possui uma coleção didática composta por modelos anatômicos, painéis, material humano seco e
em meio líquido. O acervo auxilia o
ensino-aprendizagem de Anatomia,
contribuindo para a qualificação de
estudantes de graduação.
Serviço
Responsável: Profa. Isaura Vieira
Valinnoto
Endereço: Instituto de Ciências Biológicas – ICB, das 9h às 17h.
Contato: 3201-7546
Museu de Geociências
Fundado em 1973, o Museu de Geociências é composto de 2.344 amostras, entre elas, mapas geológicos,
diferentes tipos de rochas, minerais,
fósseis, gemas (pedras preciosas), ar-
tesanatos e biojóias em Jarina. Todo
o acervo também está disponível em
arquivo digital.
Serviço
Responsável: Joana da Silva Ribeiro
Endereço: Instituto de Geociências –
IG, das 8h às 18h.
Contatos: 3201-7428
Museu de Zoologia
O Museu de Zoologia existe desde
1992 e é composto por diversas espécies de animais, insetos, coleções
botânicas e etnográficas, formando
uma vasta coletânea didático-científica da zoologia regional. O acervo
tem uma videoteca com documentários sobre a fauna amazônica,
que podem ser apresentados em
seminários e jornadas, evidenciando
o aspecto educativo da interação
homem-ambiente. O material serve,
também, para subsidiar as aulas
práticas das disciplinas de Zoologia,
ofertadas aos cursos de graduação
em Ciências Biológicas da UFPA.
O Museu, que anualmente é visitado
por cerca de 1.200 pessoas, também
dispõe de animais empalhados e
conservados em formol que podem
servir à comunidade estudantil das
escolas públicas e privadas de todo
o Estado para utilização em exposições, feiras de ciências e outros
eventos culturais.
Serviço
Responsável: Prof. Max Reis
Endereço: Instituto de Ciências Biológicas – ICB, 2° andar, das 9h às
18h.
Contato: 3201-8274, falar com Raquel ou Adriana.
Reserva Técnica do Laboratório de
Antropologia – Prof. Arthur Napoleão Figueiredo
A reserva é composta por 200 mil
peças divididas em coleções etnográficas e arqueológicas, compostas por
trabalhos de cestaria e arte plumária
indígena, materiais de cultos afrobrasileiros, documentos etnológicos,
entre outros.
O material disponível é fruto de
pesquisas antropológicas e arqueológicas e serve de objeto de estudo
para estudantes e pesquisadores,
podendo ser visto fora da reserva,
em escolas, exposições e mostras,
estabelecendo o intercâmbio entre
estudiosos e produtores. Atualmente,
a reserva passa por uma reforma e
não está recebendo visitas.
Serviço
Responsável: Profa. Jane Felipe
Beltrão
Endereço: IFCH – Lab. de Antropologia
Contato: [email protected]
Jéssica Souza
B
rasil, década de 60. Dentre
projetos culturais e manifestações ideológicas
alternativas nascidas em oposição
ao moralismo rígido da ditadura
militar, a literatura modernista, o
rock de garagem no ritmo do iê iê
iê, o cinema e o teatro de vanguarda compõem a cena cultural dos
anos rebeldes. No Pará, o cenário
não é diferente. Foi justamente nos
idos desse movimento caracterizado pela mobilização e contestação
social, denominado de contracultura, que surgiu, em Belém, a Escola
de Teatro e Dança da Universidade
Federal do Pará (ETDUFPA), primeiramente chamada de Serviço
de Teatro Universitário.
“Foi a partir da visita de
Pascoal Carlos Magno, teatrólogo
e chefe de gabinete do Governo
de Juscelino Kubitschek, em viagem pelo país inteiro pregando
a renovação do teatro brasileiro,
que um grupo de jovens artistas
e intelectuais paraenses procurou
o então Reitor José da Silveira
Netto para propor a criação da
graduação em Artes Cênicas na
UFPA”, rememora Wlad Lima,
docente do Instituto de Ciências da
Arte (ICA/UFPA) e pesquisadora
da história dos grupos de teatro da
Região Norte.
Para dar voz a tais manifestações, em 1962, a Universidade criou um curso experimental
visando à futura implantação da
primeira graduação em Teatro da
Amazônia. Em 1970, o Serviço
de Teatro Universitário passou
a chamar-se Escola de Teatro,
consolidando-se como Escola de
Teatro e Dança, em 1993. Após
transformar-se em curso técnico,
em 2003, o projeto só foi concretizado 45 anos depois, com a
criação da Faculdade de Teatro, em
2008, que já ofertou 30 vagas no
Processo Seletivo 2009. Os sonhos
dourados de uma juventude revolucionária que viveu naquela Belém dos anos 60, portanto, foram
decisivos para a construção do cenário cultural vasto e diversificado
que conhecemos hoje, o qual tem
como palco teatros que levam os
nomes dos mesmos paraenses que
se mobilizaram para oficializar as
revelações artísticas de seu Estado
e de seu tempo.
APRENDIZADO – Segundo
Wlad Lima, o teatro paraense não
seria o mesmo, atualmente, não
fosse o Serviço de Teatro Universitário. Dentre os muitos nomes
de destaque nas artes cênicas regionais, estão atores e atrizes que
foram alunos e, mais tarde, professores e dirigentes do curso livre,
ofertado pela UFPA que, além de
ensinar o teatro como expressão
artística, oferecia espaço para o
aprendizado do cinema. Para citar
alguns nomes: a teatróloga Maria
Sílvia e seu marido, o filósofo Benedito Nunes; o bailarino Augusto
Rodrigues; o músico e compositor
Waldemar Henrique; o ator e
sacerdote Cláudio Barradas e o
também ator Walter Bandeira.
“A Escola de Teatro e Dança veio dar vez e voz a categorias
que há muito vinham gritando por
oportunidades no Estado”, ressalta
Wlad. A pesquisadora destaca que
a cena cultural da UFPA passou por
três períodos históricos marcantes.
“A década de 60 foi o tempo áureo
do teatro, passando por um longo
período de abandono e fragilidade
nos idos de 70 e 80. Em 1990,
houve uma fase de reconstrução,
em que essa decadência foi superada com a criação do Núcleo de
Arte, hoje ICA, que contextualizou a ETDUFPA em um período
de valorização da arte como área
acadêmica de produção de conhecimento”, sintetiza.
A partir de 2000, pode-se
falar em um momento de consolidação, em que a ETDUFPA se
afirma como a principal formadora
de artistas cênicos no Pará. “Hoje,
a ETDUFPA se caracteriza pela
diversidade cênica e estética que
marcou seu surgimento e oportuniza a seus aprendizes beber de
várias matrizes de conhecimento
em um ritmo alucinante de produção de espetáculos, seja no que se
refere à atuação, à cenografia, seja
a apresentações coreográficas”, explica Wlad Lima. Em dezembro, a
Escola organizou oito espetáculos
teatrais, mobilizando um público
que vai desde o infanto-juvenil até
a melhor idade.
Acervo pessoal
Laïs Zumero e
Giselda Fagundes.
Por aqui passaram grandes nomes do teatro paraense
Acervo pessoal
Artigos abordam enfermidades mais comuns entre a população
Escola de Teatro e Dança
n Teatro Universitário Experimental
Com a transformação do
curso livre de Teatro da UFPA em
curso técnico, em 2003, a formação
artística em Belém ganhou, então,
uma dimensão profissionalizante,
era necessário adaptar a atuação em
teatro às exigências do mercado do
século XXI. Assim, foram criados
os cursos técnicos de bailarinos,
atores e cenógrafos. O programa
de formação profissionalizante
abriu caminhos para o programa de
graduação. Os primeiros a serem
contemplados foram os alunos
do grupo coreográfico, que já em
2008 puderam ingressar na UFPA
como graduandos de Licenciatura
Plena em Dança, a única ofertada
em uma instituição federal na
Amazônia.
E as conquistas do ICA, em
2009, foram além, com a criação
da graduação em Teatro e o início
das atividades da primeira turma
do Mestrado em Artes, criado
pelo Programa de Pós-Graduação
do ICA . Para 2010, está prevista
a criação dos cursos em nível superior de Museologia e de Cinema
e Vídeo. Os projetos não param
por aí, está prevista, para março,
a inauguração do Teatro Universitário Experimental. O projeto
conta com recursos da Secretaria
de Educação Superior/MEC no
valor de dois milhões, terá todo o
aparato cenotécnico necessário e
receberá o nome do grande mestre
e ator Cláudio Barradas.
Mácio Ferreira
Um manual prático de rotinas médicas
m desafio foi lançado pelos
médicos residentes da Clínica
Médica do Hospital Universitário
João de Barros Barreto, da Universidade
Federal do Pará, Ana Carolina de Souza,
Camila Marca, Flávia Marques, Lidiana
Bandeira, Lilian D’Albuquerque, Lorena
Capeline, Luciana Monteiro e Rodolfo
Cavalcante aos seus preceptores do programa de residência médica: elaborar um
manual de rotinas médicas, enfocando os
aspectos de diagnósticos e condutas terapêuticas, baseados nas mais fortes evidências científicas atuais, coadunando-as
com realidades regionais.
O resultado desse desafio realizado
pelos médicos do Hospital Barros Barreto, em parceria com a Fundação Santa
Casa de Misericórdia, pode ser conferido
no livro “Tópicos em clínica médica:
diagnóstico e terapêutica”, organizado
pelos médicos Simone Regina Souza da
Silva Conde e Karlo Edson Carneiro Santana Moreira. “Esse manual é resultado
de um esforço conjunto de todos os que
acreditam na união de conhecimento e
experiências para uma prática médica de
qualidade”, relatam os organizadores.
Simone e Karlo dizem, ainda, que a
produção do conhecimento perpassa pela
busca da informação, seu entendimento,
sua apropriação e posterior aplicação com
possibilidade de transformar a realidade.
Portanto, incentivar atividades, nesse
sentido, deve ser sempre uma das missões
de uma docência compromissada, seja
qual for o seu nível.
Ainda segundo os organizadores,
esse livro tem como principal objetivo ser
um guia prático para consultas rápidas a
todos os que lidam com as mais prevalentes enfermidades clínicas da população,
3
As grandes produções da ETDUFPA:
Anos 60: Maria Sílvia Nunes
dirige a primeira montagem brasileira de Morte e Vida Severina,
inspirada na obra de João Cabral de Melo Neto. O espetáculo
inova e recebe inúmeras premiações por sair do tradicional para
levar a poesia e a literatura ao
palco paraense.
Anos 70: Cláudio Barradas faz
a sua versão de Cobra Norato,
com elenco formado por nomes
como Eloy Iglesias e Astréa
Lucena. O espetáculo ganhou
prêmios nacionais e latino-ameri-
canos por trazer um trabalho essencialmente corporal, marcado
pela nudez e o teatro físico, só
incorporados como tendência no
Brasil nas décadas de 80 e 90.
Anos 2000: Wlad Lima e Karine Jansen, atual diretora da
ETDUFPA, dirigem a peça Paixão
Barata Madalenas, espetáculo
inspirado na via-crúcis de Cristo,
marcado pelo que se denomina
carpintaria teatral desconstruída, em que a dramaturgia versa
sobre temas polêmicos e de intensa crítica político-social.
Curiosidade: O primeiro acervo comprado pelo então Reitor
José da Silveira Netto para a
biblioteca da Escola de Teatro
e Dança da UFPA era referência científica sobre o tema das
artes em toda a América Latina.
A ETDUFPA também possuía um
arquivo exclusivo de filmes históricos que eram exibidos no seu
Clube do Cinema. Porém, todo
o material foi destruído em um
incêndio no ano de 1969. Hoje,
a biblioteca se reconstrói aos
poucos.
Wlad Lima: diversidade cênica e estética
4 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009
BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009 –
Patrimônio
Identidade
Projeto recupera Coleção Vicente Salles
Nação Jurunense é tema de pesquisa
Com 66 mil habitantes,Jurunas ainda é bairro de parentes e amigos
Tamiles Costa
N
Maestro Jonas Arraes: "Nosso trabalho foi facilitar o acesso às fontes originais e o seu manuseio"
e conquistou patrocínio do Govenro
Federal por meio da Petrobrás e da
Lei Rouanet do Ministério da Cultura. De fevereiro de 2007 a junho de
2008, uma equipe multiprofissional
composta por mais de 20 musicólogos, bibliotecários, fotógrafos e
técnicos de diferentes áreas atuaram
nas diversas etapas de preservação e
organização do acervo.
ACERVO – O resultado desse trabalho corresponde a 1.064 partituras
manuscritas higienizadas; 2.058
partituras editadas catalogadas; 396
partituras originais digitalizadas e
convertidas em arquivos de áudio
em formato MP3 e WAV; um levantamento biográfico que identificou
70 compositores paraenses dentre os
562, cujas obras compõem o acervo,
e 461 LPs, 117 vinis compactos, 175
vinis de 10 polegadas e 129 fitas de
rolo magnético digitalizadas e gravadas em CDs.
“Temos bons pesquisadores
sobre a história social e musical na
Amazônia que enfrentam dificuldade
de acesso às fontes primárias. Nosso
trabalho foi facilitar o acesso às fontes
originais e o seu manuseio, ao mesmo
tempo em que criamos mecanismos
para garantir a preservação do material histórico. Antes, um pesquisador
precisava de autorização para reproduzir ou fotografar a partitura original
e levá-la até um músico para poder
ouvir a melodia. Hoje, ele pode sair da
biblioteca com uma cópia da partitura
impressa e aqui mesmo ouvir a melodia com o auxílio de um programa de
computador”, explica o maestro.
n Vicente Salles: herói da memória musical paraense
Um ilustre membro faz parte
do projeto, o pesquisador, historiador, folclorista e musicólogo Vicente
Salles. “Vicente Salles é um homem
único na históra da pesquisa no Pará.
A coleção inteira foi reunida por ele,
que até hoje faz inúmeras contribuições”, revela Carmem Affonso,
organizadora da coleção.
Além do acervo músical que
faz parte do projeto de recuperação,
livros, periódicos, correspondências e
vários documentos sociais e culturais
compõem a coleção. “Calculamos
mais de quatro mil documentos e
mais de 70 mil recortes de jornal
sobre temas como música, folclore,
negro, artes cênicas e literatura, além
de uma coleção de cartuns, fotografias
de época, cordéis, peças de teatro do
repertório regional e nacional, teses,
folhetos e cartazes”, revela a organizadora.
“Graças a ele, temos uma coleção riquíssima que traz composições
de Waldemar Henrique a Pinduca,
isso porque ele compreende a música
por seu sentido social, cultural e estético e não a classifica, simplesmente,
Carmem Affonso organizou a coleção
em gêneros musicais. Por diversas
vezes, Vicente Salles veio a Belém
e esteve pessoalmente na Biblioteca,
orientando sobre o material e contribuindo de diferentes formas com o
trabalho”, relembra Jonas Arraes.
Existem muitas obras raras no
acervo. “As partituras manuscritas do
século XIX, as partituras editadas no
período da Belle Époque, as fitas de
rolo e os discos vinis de 78 rpm com
gravações de melodias e entrevistas
com compositores e músicos estão
entre as obras mais interessantes do
acervo. Esse material, muitas vezes,
é singular. Além disso, o ineditismo
e originalidade de várias obras garantem sua raridade”, conta Jonas
Arraes.
O acervo imortaliza os principais compositores paraenses e
residentes na capital paraense durante a época da Borracha como
Paulinho Chaves, Eulálio Gurjão,
Meneleu Campos e muitos outros. O
coordenador do projeto explica que
“os discos revelam muitas obras e
interpretações importantes, como a
interpretação de ‘A Casinha Pequenina’, por Bidu Sayão”. Música que,
aliás, os documentos da Biblioteca
do Museu comprovam ser de autoria
do paraense Bernardino de Souza.
“Temos a primeira edição, ainda da
década de 1920. Hoje, essa música é
de domínio público, mas sempre foi
atribuída a um compositor sulista.
No entanto, guardamos uma partitura original como prova de que a
composição é de um paraense”, conta
Carmem Affonso.
A catalogação do acervo revelou obras importantes da música
paraense e para a história da música
brasileira. “No decorrer do trabalho,
nos encantamos com as descobertas, que são tantas que poderíamos
permanecer anos estudando e nos
deslumbrando com a magia desse
acervo. Mas precisávamos concluir o
projeto para permitir a outras pessoas
a chance de pesquisar esse material.
Agora, o encantamento será dos que
poderão consultar o acervo musical da
coleção e fazer descobertas incríveis”,
deseja o maestro Jonas Arraes.
Serviço
A coleção Vicente Salles está disponível para consulta de 2ª a 6ª,
das 9 às 17 horas, na Biblioteca
do Museu da UFPA, localizado na
Avenida José Malcher. Telefones:
3242 6240 / 3242 6233.
um domingo de janeiro de
1999, os compositores da
Escola de Samba Rancho
Não Posso me Amofiná estavam
reunidos em torno de uma mesa
no espaço lateral da escola. Entre
músicas e cervejas, Pedrinho do
Cavaco compunha uma canção para
ser executada antes da entrada do
Rancho na avenida. A letra dizia
“pois o ideal de um sonhador/ é ver
meu Rancho em primeiro lugar”,
imediatamente o sambista foi orientado a trocar a palavra “sonhador”
por “jurunense”. Houve consenso
entre os músicos.
Foi nesse cenário de festa,
alegria e muito samba que a pesquisadora Carmem Izabel Rodrigues,
do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da UFPA, chegou ao Jurunas, bairro que tem não só a maior
Escola de Samba do Estado, mas
também uma organização social que
traduz bem a relação entre tradição e
modernidade. Segundo Carmem, “a
chegada do antropólogo ao lugar é
como uma descoberta”, neste caso,
o achado rendeu a publicação “Vem
do bairro do Jurunas: sociabilidade
e construção de identidades em espaço urbano”, editada pelo Núcleo
de Altos Estudos Amazônicos, fruto
de sua tese de doutorado, defendida
em 2006.
Carmem conta que sempre
gostou do carnaval e ressalta que
esse foi um ponto fundamental para
o desenvolvimento da pesquisa,
“sempre assisti às escolas e percebia
nos desfiles oficiais uma diferença
entre o Rancho, do Jurunas, e as outras. A presença forte dos moradores
do bairro era o diferencial”. Ela explica que, no Jurunas, foi constituída
a ideia de “nação jurunense”. Essa
adjetivação aparece o tempo todo
quando os moradores falam de si ou
do bairro, logo se nota uma valorização extrema do lugar em que vivem.
“Normalmente, quando se pergunta
a alguém onde mora, a pessoa se
n Tradição e
modernidade
Fotos acervo pessoal
I
magine músicas clássicas e populares. Sinfonias e cantigas de
ninar. Composições de autores
paraenses, nacionais e internacionais.
Partituras originais de melodias e concertos famosos. Imagine uma época
em que uma partitura era um presente
tão comum como um CD e as jovens
donzelas passavam suas tardes debruçadas sobre o piano e costumavam
colecionar canções. Viajar no tempo
e vivenciar a história da música no
Pará e na Amazônia e sua relação
com a sociedade, nos séculos XIX e
XX, é possivel ao consultar o Acervo
Musical da Coleção Vicente Salles na
Biblioteca do Museu da Universidade
Federal do Pará.
Cerca de sete mil títulos entre
discos, fitas cassetes, fitas de rolo,
vinis, CDs, livros e partituras editadas e originais de grandes nomes
da música regional fazem parte da
Coleção adquirida pela Universidade,
em 1984, e que guarda documentos
datados desde 1880 aos dias atuais.
“Todo esse material esteve muito bem
guardado ao longo dos anos, mas era
preciso organizá-lo para conhecê-lo
mais profundamente e também para
facilitar a consulta a todo esse registro histórico”, explica o maestro
Jonas Arraes, coordenador do Projeto
“Recuperação e difusão do acervo
musical da coleção Vicente Salles da
Bibloteca do Museu da UFPA”.
O projeto elaborado em agosto
de 2006 venceu um concurso nacional
Fotos Mácio Ferreira
Acervo com sete mil títulos conta história da música na Amazônia
Glauce Monteiro
9
Carmem Izabel Rodrigues: moradores valorizam o lugar onde vivem
limita a dizer o local, o nome da rua,
mas se você pergunta ao morador do
Jurunas, ele diz ‘eu moro no Jurunas,
eu sou jurunense”, relata.
A pesquisadora fala que os
moradores mais antigos, grande
parte migrante ou filhos de migrantes, enxergam como um equívoco
as pessoas que saíram do Jurunas
para morar em lugares mais distantes. “Há famílias que nunca saíram
desse espaço, que mudaram várias
vezes de áreas mais problemáticas
em busca de lugares mais centrais,
porém sempre dentro do bairro”.
n Urbanização estabilizou crescimento do bairro
O período de maior expansão
do Jurunas se deu na metade do século XX, mais especificamente entre
os anos de 50 e 60, quando o bairro
duplicou seu número de habitantes,
porém foi na década de 80 que ele
chegou até a população que tem hoje,
aproximadamente, 66 mil habitantes. “Da década de 80 para cá, não
aumentou, pelo contrário, teve uma
pequena diminuição em função da
valorização dos imóveis. Graças à
urbanização, o crescimento do bairro
estabilizou”, analisa Carmem.
O bairro do Jurunas apresenta
imagens distintas dentro e fora do
seu espaço. As concepções interna
e externa estão articuladas tanto no
sentido de ser um bairro perigoso
quanto no de ser um bairro festivo.
No entanto, a violência é estrutural, não está só no bairro pobre, na
periferia, mas sim em toda parte,
inclusive nos centros. Para Carmem,
as representações construídas a partir dos jornais contribuíram não só
para a imagem da violência, como
também para a imagem festiva. A
violência é deixada de lado durante
as festas. “Gostar de festas é um dos
componentes dessa identidade jurunense, assim como gostar do movimento, de estar junto com os outros.
O Jurunas é o bairro do encontro”,
afirma a pesquisadora. No bairro,
estilos musicais variados como o
technobrega e o pagode convivem
com o samba, que se mistura com
formas musicais locais nos eventos
festivos. “Mesmo nas festas, você
percebe as diferenças de classe, as
hierarquias, as relações de poder.
Elas não são somente uma expressão
lúdica, mas também um espaço de
reflexão”, observa Carmem.
O Jurunas é um local onde
modernidade e tradição residem no
mesmo espaço. O grau de sociabilidade entre as pessoas atinge o nível
típico de lugares periféricos ou de
cidades do interior, Carmem chega a
dizer que esse seria um bairro de parentes, vizinhos e amigos. Ao mesmo
tempo, a modernidade se expressa a
partir da apropriação da tecnologia
e da dinâmica frenética dos bairros
modernos. “O Jurunas não dorme”,
acrescenta.
A antropóloga conta que,
durante a pesquisa, trabalhou com
o conceito de localidade, “acho que
o Jurunas é uma comunidade no
sentido dessa recorrência do conceitual mais tradicional, com laços
primários em oposição à sociedade,
porém uso muito mais a noção de
localidade para articular o local
que mantém a tradição e também
interage com o global”, ressalta. A
pesquisadora enfatiza que, nesse
contexto, a identidade jurunense
não é étnica, mas é, principalmente,
uma identidade ligada ao lugar. Ela
explica que esse elemento também
faz parte da construção de identidade, logo, o termo “jurunense” remete
duplamente à questão do local e ao
aspecto lúdico das festas. Nesse
sentido, a Escola de Samba Rancho
Não Posso me Amofiná é como um
pilar dessa identidade e dessa característica festiva dos moradores
do bairro.
Quanto às correntes teóricas
estudadas para analisar o Jurunas,
Carmen diz que a teoria clássica
sociológica da Escola de Chicago,
de algum modo, via separadamente
tradição e modernidade, “o sujeito,
ao chegar à cidade, seria afetado
pelo ritmo da metrópole moderna,
tornando-se mais laico e afastado
dos laços primários, da família, dos
parentes, dos vizinhos, enfim, ficaria
mais anônimo em sua individualidade”. Em oposição a esse quadro
de individualismo, a pesquisadora
afirma que, em bairros como o Jurunas, esses laços permanecem ainda
que as pessoas convivam também
com a modernidade, logo, elas têm
diversas identidades articuladas em
variados contextos.
“O que já é bastante claro para
as teorias sociológicas e antropológicas de hoje é que essa modernidade
não destrói os laços primários. Eles
são modificados, transformados, mas
permanecem. Não se pode pensar,
por exemplo, que na modernidade
as pessoas se tornaram mais laicas,
menos religiosas, pelo contrário,
hoje, o número de procissões é impressionante”, ressalta Carmem.
8 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará –Fevereiro, 2009
BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009 –
Oficina de Criação
Intercâmbio
Núcleo intensifica as relações
culturais e acadêmicas entre Brasil e
Alemanha.
Suzana Lopes
Q
uarenta anos de intercâmbio
acadêmico e cultural. Foi o
que completou, em 2008, a
Casa de Estudos Germânicos (CEG).
Inicialmente, como um curso livre
de Língua Alemã. A partir de 1972,
a Casa tornou-se o núcleo da cooperação assinada entre a Alemanha e a
UFPA, na gestão do Reitor José da
Silveira Netto. Desde então, multiplicam-se programações culturais,
bolsas de estudo, cursos e outros
serviços que a CEG disponibiliza à
comunidade.
Desde o acordo de cooperação,
Agência universitária revela talentos
Fotos Alexandre Moraes
a Casa foi dirigida por Leitores, que
são representantes do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico, cuja
sigla em alemão é DAAD. No Brasil,
trabalham cerca de 430 Leitores nas
várias áreas do conhecimento e oito
deles dedicam-se ao ensino da Língua Alemã. Na CEG, o representante
era responsável pelas questões administrativas, burocráticas e culturais.
A partir de 2008, a gestão da
Casa foi dividida em Direção Administrativa, a ser exercida por um
brasileiro, e em Direção Cultural, de
responsabilidade de um Leitor. Os
atuais coordenadores da CEG são,
respectivamente, o filósofo e profes-
Alunos colocam em prática o aprendizado da sala de aula
Raphael Freire
B
Biblioteca: DVDs, revistas, dicionários e romances estão disponíveis para usuários
sor Ernani Chaves e o Leitor Sigurd
Jennerjahn.
PROGRAMAÇÃO – Ambos estão
empenhados em montar uma programação especial para comemorar as quatro
décadas da Casa. “Nós queremos fazer
entrevistas com pessoas que acompanharam a história da CEG”, conta Sigurd
Jennerjahn. A ideia é montar um documentário que congregue depoimentos
sobre esses quarenta anos de atividades,
de forma que a história seja narrada
pelas mesmas pessoas que a fizeram e
a viveram.
O professor Ernani Chaves, por
sua vez, lembra um dado importante:
“Em 2009, completam-se vinte anos da
queda do Muro de Berlim, um fato que
marcou a história do mundo inteiro”. Em
memória aos acontecimentos de 1989 na
capital alemã, o professor planeja organizar uma série de eventos para refletir e
discutir tais fatos e, principalmente, suas
implicações vinte anos depois.
Na programação, o professor já
pensa em um evento: uma exposição
de fotógrafos paraenses que tiraram
ou tiram fotos de Berlim, como Otávio
Cardoso, que possui registros de 1990;
Reinaldo Lobato, que fotografou a
cidade entre 1996 e 1998; e, mais recentemente, em 2008, o fotógrafo Mariano
Klautau Filho.
n Certificado de
Proficiência
Ernani Chaves e Sigurd Jennerjahn são responsáveis pelas atividades da Casa de Estudos Germânicos
n Programa de bolsa atende alunos e professores
Além da programação especial
dos 40 anos da CEG, as atividades
cotidianas da Casa prosseguem. Como,
por exemplo, a concessão de bolsas
de estudos a alunos da graduação e da
pós-graduação. “Nós temos convênios
com muitas universidades da Alemanha, como a de Bremen, de Leipzig,
de Erlangen, de Berlim, de Munique,
entre outras”, afirma Ernani Chaves.
Por meio desses acordos, é possível
oferecer programas de intercâmbio
acadêmico tanto de estudantes como
de professores e cientistas.
Também está disponível para
toda a comunidade a Biblioteca da
CEG. Com um acervo estimado em
1.800 livros, mais DVDs e revistas, o
local está aberto à consulta, de segunda
a sexta-feira, das 9h às 13h e das 14h
às 18h. Os títulos mais encontrados são
de literatura, romances, dicionários e
livros de filosofia, com destaque para
a Coleção Gesammelte Werke (Obras
Reunidas) de Sigmund Freud.
Para os interessados na área de
saúde, a Biblioteca ainda dispõe do
Atlas Digital de Medicina Sobotta,
em alemão. E para atualizar o intercâmbio cultural, foi feita a assinatura
da revista semanal Der Spiegel (O
Espelho), é como uma revista Veja
alemã.
Ainda que as atividades da
Casa de Estudos Germânicos estejam
cada vez mais diversificadas, o Curso
Livre de Alemão continua sendo sua
marca registrada. Disponível desde
1968, o curso possui seis etapas
semestrais do nível fundamental da
Língua Alemã. As etapas também podem ser feitas de forma intensiva nos
meses de férias. O aluno ainda cursa
uma sétima etapa de preparação para
a prova que concede o certificado de
proficiência na língua, emitido pelo
Instituto Goethe, da Alemanha. No
Pará, a única instituição que realiza o
teste é a UFPA, por meio da CEG.
Atualmente, estão matriculados 300 alunos no curso livre, divididos em 16 turmas. O corpo docente é
formado por nove professores, dentre
eles, alemães e graduados no curso de
Letras, com habilitação em Língua
Alemã.
As inscrições acontecem na
Secretaria da CEG, nos altos do
bloco L, no Setor Profissional do
Campus do Guamá, das 8h às 18h. O
valor do curso varia de acordo com o
vínculo do interessado com a UFPA.
Estudantes da graduação em Letras
ou em Filosofia pagam taxa única de
R$75,00. Discentes em geral, professores e servidores pagam R$145,00.
Para a comunidade externa, a taxa é
R$ 195,00.
randing, logomarca, briefing,
slogan, layout, brainstorm
esses e outros termos são
comumente usados na área da publicidade e, principalmente, em uma
agência publicitária como a Oficina
de Criação, que funciona há cinco
anos na UFPA.
As idealizadoras, Ana Petrucceli e Lívia Barbosa, pretendiam
criar uma agência de comunicação
que prestasse serviços de jornalismo
e publicidade. No começo, a Oficina
era uma pasta de ideias que percorria
a Universidade à procura de serviços e
clientes. Eis que, em outubro de 2003,
a Oficina conseguiu sua primeira sede
no então Centro de Letras e Artes, atual
Instituto de Letras e Comunicação.
Naquela época, não havia bolsistas,
somente alunos voluntários. Com o
tempo, percebeu-se que a demanda
de serviços para publicidade e propaganda era bem maior, tornando a
Oficina uma agência de publicidade.
Atualmente, a agência funciona nos
altos do prédio da Gráfica da UFPA
com uma equipe de oito alunos bolsistas e dois publicitários, além das
coordenadoras.
A seleção de bolsistas ocorre
duas vezes por ano e conta com uma
prova prática que envolve habilidade
com desenho à mão livre, domínio
de programas gráficos de edição de
imagem e desenho vetorial, como Photoshop e Corel Draw, que são usados
no dia a dia da criação publicitária.
Existem alguns pré-requisitos para
estar apto a concorrer a uma vaga: o
candidato precisa ser aluno do curso de
Comunicação Social – habilitação em
Publicidade e Propaganda e ter cursado
a disciplina de Laboratório de Criação
Publicitária I.
PRÁTICA – A Oficina oferece a
oportunidade de aprofundar o que
foi aprendido em algumas disciplinas
durante o percurso do aluno no curso.
Como nas agências publicitárias, tudo
é feito em função de prazos. Para o
bolsista Haroldo França, o estágio é
uma oportunidade de criar e inovar.
EM DIA
Mácio Ferreira
Casa de Estudos
Germânicos
completa 40 anos
Homologação
Layout de sites e projetos gráficos fazem parte do portifólio
“Na Oficina, podemos respirar
melhor para criar coisas diferentes,
enfim, experimentar mais”. Entre
os trabalhos que já foram desenvolvidos pela Oficina, estão cartazes –
como o das Quintas de Ciências do
NAEA – folders, panfletos, textos
e campanhas publicitárias, projetos
gráficos para capas e miolos de livros, criação de logomarcas, design
de cardápios, calendários, layout
de sites como o do Encontro Universitário de Diversidade Sexual,
entre outros.
A agência atende tanto quem
está na Universidade quanto quem
está fora dela. De acordo com a
coordenadora Lívia Barbosa, todos
os serviços e produtos são entregues
no prazo e com um diferencial: os
preços estão bem abaixo dos praticados pelo mercado. Alguns serviços,
como a produção de materiais gráficos para a semana do calouro da
UFPA, não são cobrados, pois fazem
parte da política de colaboração institucional. O objetivo é que eventos,
serviços e produtos da Universidade tenham uma divulgação mais
eficiente para os públicos interno e
externo, além de permitirem que os
diversos setores aprimorem a sua
comunicação.
As coordenadoras da Oficina
almejam abrir outras frentes de trabalho, agora na área de jornalismo,
para atender à demanda externa e
interna, que hoje é maior que há
cinco anos. Os alunos de Jornalismo
produziriam textos, trabalhariam
em cima de publicações, banco de
dados, comunicação institucional,
entre outros serviços. Mas isso
ainda não está definido. “A Oficina
de Criação precisa de infraestrutura
maior, um coordenador que fique
responsável por esses bolsistas de
Jornalismo e o desenvolvimento de
um projeto consistente”, esclarece
Lívia Barbosa. Para Haroldo França,
o contato entre alunos dessas duas
habilitações na Agência seria enriquecedor, “seria muito bom dividir
o ambiente da Oficina de Criação
com estudantes de Jornalismo, eles
acrescentariam um tom diferente à
atmosfera de trabalho, sem falar na
troca de experiências”.
Com a aliança entre as duas
áreas, poderia haver um trabalho que
possibilitasse a integração entre linguagens diferentes, a elaboração de
planos de comunicação mais completos, fazendo da Oficina de Criação uma agência de comunicação,
como foi pensado inicialmente.
Como funciona uma agência publicitária
A agência de publicidade é
responsável pela criação, planejamento, produção e veiculação de
campanhas publicitárias, ou seja,
por todo o gerenciamento dos processos relacionados à publicidade
e propaganda. Ela é responsável
por assessorar o anunciante em
suas necessidades de propaganda,
executando trabalhos para a sua
realização, coordenando o trabalho
dos fornecedores e produtoras, e
intermediando as relações entre o
cliente e o veículo de comunicação.
Toda agência funciona em departamentos, conheça os principais:
Atendimento – é responsável pela
ligação entre o cliente (anunciante)
e a agência. É quem traz todas
as informações (briefing) sobre o
cliente.
Planejamento – trabalha com os
planos de marketing, comunicação,
utilização da verba, entre outros.
Em reunião extraordinária, o Conselho Universitário da Universidade Federal do Pará homologou o
resultado da eleição para reitor e
vice-reitor da Instituição, realizada
em 03 de dezembro de 2008. Dos
81 membros presentes no Conselho,
47 votaram a favor da homologação
do relatório da Comissão Eleitoral
– que apontou o nome do Prof. Dr.
Carlos Edilson de Almeida Maneschy como o candidato que obteve o
maior número de votos na consulta
à comunidade acadêmica, enquanto
30 se posicionaram em defesa do
recurso que pediu a recontagem de
votos e 4 se abstiveram. O novo
reitor, após ser nomeado pelo Presidente Lula, tomará posse em julho
deste ano.
Destaque
O professor Júlio Augusto de Alencar Júnior, do Instituto de Tecnologia, recebeu o Prêmio Destaque
Científico em mérito aos seus 20
anos dedicados à pesquisa científica.
A iniciativa é do CREA, do Clube
de Engenharia e do Sindicato das
Indústrias da Construção Civil, três
das mais expressivas representações de classe da engenharia civil
no Pará.
Incentivo
A dissertação “Casas de Saúde e
Assistência Farmacêutica: desafios
da saúde indígena em Belém e Macapá” recebeu a Menção Honrosa no
Prêmio de Incentivo em Ciência e
Tecnologia para o SUS, do Ministério da Saúde. O trabalho, de autoria
de Jocileide Gomes, foi defendido
no programa de Mestrado Multiinstitucional em Saúde, Sociedade e
Endemias da Amazônia (FIOCRUZ/
UFPA/UFAM), sob a orientação do
Prof.Dr. Flávio Leonel Abreu da
Silveira.
Certificação
Criação – responsável pela elaboração das ideias que serão
utilizadas nas campanhas (anúncios
impressos, filmes para televisão,
entre outros). Engloba também a
produção que materializa, ou seja,
dá vida aos anúncios.
Mídia – área que estuda e indica os melhores meios, veículos,
volumes, formatos e horários
para veicular as mensagens publicitárias.
O Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação da UFPA
(CTIC) é a segunda instituição de
ensino do país e a primeira da Região
Norte a conquistar o Certificado de
Qualidade da Melhoria de Processos
de Software (MPS.BR), gerenciado
pela Associação para Promoção da
Excelência do Software Brasileiro.
O Certificado reconhece a excelência da Universidade na produção de
programas de computador.
5
6 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009
BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Fevereiro, 2009 –
Educação Musical
Escola dinamiza cena musical da cidade
Alunos dos cursos básicos e técnicos encantam as platéias mais exigentes
Agora, Música é disciplina obrigatória
Desafio é qualificar a mão de obra necessária para atender à nova Lei
Andréa Mota
No mês de dezembro, alunos da Escola de Música realizaram mais de 350 concertos em diversos palcos de Belém
D
esde Aristóteles a teóricos
modernos, a função da arte
sempre foi motivo de questionamento e estudo. Entretanto,
o que se conclui é que o homem
tem uma disposição congênita para
qualquer manifestação artística, para
encontrar prazer intelectual e de reconhecimento nas artes. É um prazer
inquestionável, de origem desconhecida, uma realização do próprio eu e
com o outro, que contagia e completa. É isso que, há 45 anos, a Escola
de Música da Universidade Federal
do Pará (EMUFPA) proporciona aos
seus alunos e à sociedade.
“Cadastradas na Secretaria de
Educação Profissional e Tecnológica
(Setec/MEC), incluindo as escolas
vinculadas às universidades federais,
só existem a Escola de Música da
UFPA e a Escola de Música da Uni-
versidade Federal do Rio Grande do
Norte, em Natal”, diz a diretora da
Escola de Música da UFPA, Lúcia
Uchôa, referindo-se ao privilégio
da Instituição de poder contar com a
Escola. Com uma equipe de 49 profissionais e 581 alunos, a EMUFPA
é composta pelas orquestras infantil,
infanto-juvenil e sinfônica; pelo
coral infanto-juvenil e por vários
grupos de música, como o Grupo de
Percussão, Grupo de Flauta Doce
Arlete Pinheiro, Banda Jovem, SAM
BAND, Orquestra de Música Latina,
Orquestra de Violoncelistas da Amazônia, Cantores Contemporâneos,
entre outros.
Em julho de 2008, em comemoração aos 50 anos da UFPA, a
orquestra sinfônica se apresentou no
Theatro da Paz e foi muito elogiada
por várias autoridades presentes. “Todos ficaram encantados e disseram
que nunca tinham visto no Brasil e
numa universidade uma orquestra tão
boa quanto a nossa”, lembra Lúcia
Uchôa. Em 2003, os professores da
Universidade de São Paulo (USP)
também ficaram entusiasmados com
a produção da Escola e chegaram a
pensar que os alunos eram da graduação. “Teve um professor que comentou comigo ‘puxa, professora, são tão
jovens pra estar no bacharelado!’, aí
eu disse que eles não eram do bacharelado, mas sim dos cursos básico e
técnico”, conta a diretora.
As apresentações não estão limitadas ao ambiente acadêmico. Em
dezembro, foram mais de 350 concertos nos mais diversos palcos. Por
isso, a Escola de Música tornou-se, ao
lado do Conservatório Carlos Gomes,
uma das maiores dinamizadoras da
manifestação musical da cidade.
Os professores da Escola de
Música recebem qualificação diferenciada por meio de convênios
com outras instituições de ensino
superior. De 2003 a 2007, 40 professores obtiveram o título de mestre
em Musicologia, Artes Visuais ou
Artes Cênicas pela USP e federais
do Rio de Janeiro, do Rio Grande do
Sul e da Bahia. “Os professores de
outras universidades vinham aqui em
Belém qualificar nossos professores.
Eu, inclusive, fiz mestrado na USP
graças ao convênio”, afirma Lúcia.
Esse convênio ainda perdura. Atualmente, os professores mestres da
EMUFPA estão fazendo doutorado
na UFBA e os que não tinham pósgraduação estão no mestrado.
Ainda neste semestre, a Escola
receberá cerca de R$ 300 mil para
construção da nova sede. O local ainda não foi decidido, mas é certo que
o novo ambiente terá um laboratório
de informática, que vem atender a
uma antiga necessidade de alunos e
professores.
n Seleção inclui testes teóricos e práticos
Música para os servidores
Para estudar na Escola de
Música, o candidato deve participar
da seleção e submeter-se a testes teóricos e práticos. Nos cursos básicos
e técnicos, os alunos são avaliados
pela frequência e devem ter média
bimestral igual a seis. De acordo
com Lúcia Uchôa, ficou constatado
que o curso de Música, depois do de
Medicina, é o que apresenta o maior
custo para a Universidade, por isso os
alunos dos cursos básicos pagam uma
mensalidade. “A taxa é em torno de
R$260 por ano. Cobramos esse valor
porque a manutenção dos nossos
instrumentos é altíssima, mas temos
alunos que não têm condição de pagar
e damos bolsa”, justifica.
Os cursos básicos têm duração
Além do coral da Escola de
Música, a UFPA tem o coral “Flor de
Lótus”, composto por servidores de
diferentes setores da Universidade.
Criado em 2006, pela Pró-Reitoria
de Desenvolvimento e Gestão de
Pessoal (PROGEP), o “Flor de Lótus”
está sob a regência do professor
Dione Lima dos Santos. Os ensaios
acontecem no Auditório do Prédio
da Reitoria e estão abertos aos interessados.
Segundo Maria Josefa Quadros, da Diretoria de Saúde e
Qualidade de Vida, da PROGEP, o
objetivo do Projeto Canto Coral é
proporcionar conhecimentos sobre
música, além de contribuir com a
integração e o desenvolvimento de
novas habilidades.
de quatro anos em todas as modalidades; já os cursos técnicos, de três
anos; com exceção de alguns, como
o de canto lírico, que dura dois anos.
“Só pode entrar no curso técnico
quem estiver cursando o Ensino Médio ou quem o tenha concluído, por
mais que a pessoa tenha base e toque
bem”, explica Lúcia Uchôa.
As crianças do coral assistem à
aula duas vezes por semana. É realizado um trabalho de percepção rítmica,
vocal e corporal, além do trabalho de
respiração. Nessa fase de preparação,
buscam-se atividades lúdicas, ou seja,
a criança aprende as técnicas por meio
de brincadeiras e não por repetições.
Já para a orquestra, os ensaios são
duas vezes na semana. Há também
ensaios individuais para desenvolver
questões de afinação e de aperfeiçoamento técnico.
Para a professora do coral,
Valdecíria Lamego, com dez anos
de experiência nessa área, a música
é importante para a vida de qualquer
pessoa, “a música traz um amadurecimento na vida emocional, na
questão da cognição, da alegria... Na
segunda semana de aula, nós já sentimos certa modificação positiva nas
crianças. Enfim, a música funciona
como um remédio, que traz prazer e
mais motivação para a vida”, revela.
A professora diz que, além da música,
outros aspectos são trabalhados, como
a pontualidade, a disciplina, a responsabilidade e o trabalho coletivo.
Ouvimos música todos os dias,
aquela que escolhemos ou aquela
imposta pelo ambiente. A música já
está tão presente na vida das pessoas,
é difícil defini-la em uma frase. Entretanto, se questionados sobre o que
ela representa na vida de cada um, um
apanhado de lembranças, gostos musicais, instrumentos e muitos outros
argumentos aparecem para embasar
a resposta. Imagine, então, se música
fizesse parte da vida das pessoas desde os primeiros anos, como parte da
matriz curricular? Isso é o que prevê
a Lei n. 11.769, publicada no Diário
Oficial da União (DOU), em 18 de
agosto de 2008. De acordo com essa
lei, o ensino musical passará a ser
obrigatório nos níveis Fundamental e
Médio das escolas de todo o país.
Como a maioria das leis já
criadas, a Lei n. 11.769 é motivo de
reflexão e discussões nada recentes.
Ana Maria de Castro Souza, professora do curso de Licenciatura em
Música da Universidade do Estado
do Pará e regente do grupo Cantores
Contemporâneos da Escola de Música
da UFPA, afirma que os debates sobre
a importância da educação musical no
Brasil ganharam força pelas mãos do
compositor Heitor Villa-Lobos, quando este foi nomeado Superintendente
de Educação Musical e Artística, em
1932. “Ele considerava que a Educação Musical poderia contribuir para
a elevação da cultura no Brasil e que
a reforma do ensino seria solução
Elza Fiúza/ Agência Br
Acervo da EMUFRA
Música
Tatiara Ferranti
7
Escolas públicas e particulares de todo o país terão três anos para adequar seus projetos pedagógicos
para os problemas educacionais brasileiros”.
O ensino das artes é parte do
currículo escolar desde sua aprovação, em 1973. Com a nova Lei de
Diretrizes e Bases (LDB), a obrigatoriedade da arte nas escolas foi
reformulada pela Lei n. 9.394/96,
ou Lei Darcy Ribeiro, que inclui o
ensino da arte como componente
curricular obrigatório, nos diversos
níveis de educação básica, de forma
a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. Artes visuais, teatro,
dança e até música fazem parte das
propostas metodológicas que visam
aproximar o aluno das artes. Para
Ana Maria Souza, o que muda com a
obrigatoriedade do ensino musical é
que a música passa a compor o quadro
de disciplinas, juntamente com cantos
cívicos nacionais, instrumentos de
orquestra, danças folclóricas, dentre
outras. Assim, os alunos passam a
conhecer a diversidade cultural do
Brasil e as demais disciplinas de arte
permanecem em caráter optativo.
n Mais professores serão necessários para atender à demanda
Mácio Ferreira
Ana Maria: desenvolvimento intelectual
Com nova lei, vêm os novos desafios. Durante os três anos
de adequação – prazo dado para
que todas as escolas públicas e
particulares implantem a disciplina – o MEC terá uma missão: aumentar a mão de obra qualificada
para ministrar o ensino de música.
Segundo os dados recentes do
Censo da Educação Superior do
MEC, o Brasil tem 42 cursos de
licenciatura em música, que oferecem 1.641 vagas. Entretanto,
o desafio posto ao Ministério da
Educação não é apenas quantitativo. Com um mercado do ensino
musical em ascensão e o veto ao
parágrafo que incluía a necessidade de professores com formação
específica, quem será esse novo
profissional e o que ele pode fazer
para transformar obrigatoriedade
em importante viés na formação
do cidadão?
Ana Maria afirma que,
quanto à graduação, inúmeras reformulações já beneficiaram as licenciaturas. Dentre as habilidades
que o profissional deve desenvol-
ver, há “o preparo e conhecimento
em música, a questão didáticopedagógica e ainda o equilíbrio
emocional para lidar com os
relacionamentos interpessoais”.
Além disso, deve ter domínio de
regência de coral, de regência
de banda e, pelo menos, de dois
instrumentos entre flauta doce,
violão, teclado e percussão.
Vale ressaltar que cada
região tem sua particularidade
em se tratando de história e simbologia musical. O Brasil, por
exemplo, abriga em seu território
uma variedade de ritmos, estilos
e danças. Essa diversidade foi
objeto de estudo de Adelson da
Silva Leal e Antônio Éder Palheta
Moraes, graduandos em Licenciatura em Música. Orientados
por Ana Maria, eles produziram
“A Educação Musical nas Escolas de Ensino Fundamental no
Município de Vigia de Nazaré”
e “A música desenvolve o nível
cultural e intelectual do cidadão,
contribuindo para sua integração
e realização na sociedade em que
vive” como Trabalhos de Conclusão de Curso.
Com a finalidade de aprimorar e congregar a educação musical em cada região, em 1991, foi
criada a Associação Brasileira de
Educação Musical (ABEM), considerada um marco para o ensino
de música no país. “A Associação
tem gerado um grande número de
publicações na área e favorecido
a troca de experiências entre
educadores musicais de várias regiões e contextos educacionais do
Brasil”, afirma Ana Maria Souza.
Hoje, a Associação trabalha na
valorização e defesa do ensino
de música nas escolas de todo o
país. “Quando a educação musical
se efetivar e todos os brasileiros
tiverem a oportunidade de estudar
música desde a infância, certamente os cidadãos reconhecerão
o papel que a música representa
na formação global do homem”,
afirma Ana Maria Souza. Para o
MEC, a nova lei deve articular a
música com outros setores da vida
do aluno.

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