Géneros e estilos

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Géneros e estilos
 Géneros e estilos O que é a dança? Os antropólogos da dança tentaram, nos anos 1960, apresentar uma definição universal, aplicável a todas as formas encontradas pelo mundo. Entre eles, a americana Adrienne Kaeppler propõe considerar a dança um «sistema de movimentos estruturados». Um sistema? Eis, garantidamente, um elemento chave para nos orientarmos entre os diversos géneros e estilos de dança que a cena coreográfica oferece. Porque, por trás dos termos «clássica», «contemporânea», «jazz»..., distinguem-­‐se conjuntos de traços característicos sobre o plano gestual, dinâmico, musical, espacial e mesmo do vestuário. São «sistemas» que se organizam segundo os princípios fundadores e são suportados por valores e ideais. Uma vez munido dos códigos e convenções que regem um género específico, o espetador consegue identificar e apreciar todo o conteúdo. A intenção deste Thema está presente: fornecer algumas chaves de leitura que permitam definir a especificidade dos géneros de dança principalmente representados hoje em dia. Porém, entre dançarinos de «hip hop», de «flamenco», de «contemporânea»…, também existem diferenças de estilo que estão ligadas à personalidade, à sensibilidade do intérprete ou às aspirações criativas de cada um. Alguns efetuam misturas, indo procurar inspiração em diferentes línguas. Outros começam a explorar novas vias, contribuindo, desta forma, para o surgimento de novas correntes. Arte viva, a dança continua a ser única no seu género! Clássica antes de mais! Samanvaya / Le Lac des cygnes /Wheel in the middle of the field Quando se pensa na «dança clássica», imagina-­‐se inevitavelmente uma bailarina em pontas, envergando um vaporoso tutu. Essa visão ocidental oculta ainda outras formas de dança institucionalizadas, como as que encontramos na Índia. Nesse país onde toda arte é sagrada, existe efetivamente uma dança clássica que tem origem nos grandes textos mitológicos. Codificada num tratado milenar, o "Natya Shastra", ela assenta em sete estilos principais, entre os quais "Bharata Natyam" e "Odissi". Em Samanvaya, Alarmel Valli, que representa o primeiro (à esquerda da imagem), e Madhavi Mudgal, o segundo (à direita) põem em perspetiva esses dois estilos, fazendo assim sobressair as suas singularidades e as suas semelhanças. A postura muito direita de uma contrasta com a curva ondulosa da outra, marcada por três pontos de flexão: cabeça, peito, ancas. Se a linguagem gestual das mãos transmite o mesmo simbolismo, vejam como os gestos são diferentes! Geométrico aqui, e ali, arredondado. Cada estilo exprime a energia da www.numeridanse.tv www.evdhproject.eu 1 divindade com a qual está relacionado. Potência e vigor na primeira, à imagem do deus Shiva. Graça e sensualidade na segunda, mais de acordo com o temperamento de Vishnu. Regressamos à Europa com um dos ballets mais emblemáticos do reportório clássico: O Lac des cygnes. Como dissemos, tutus e pontas caracterizam a linguagem académica. Mas não apenas ! Baseado no princípio do en-­dehors e do equilíbrio, desenvolve-­‐se em linhas puras e harmoniosas: verticalidade da perna de apoio, arabesque da perna traseira, diagonal de braços, num prolongamento gracioso da mão. Essa lógica do movimento encontra-­‐se na deslocação do corpo de ballet, que corta o espaço cénico em formas lineares, circulares, retangulares. Chegar a um resultado desta natureza exige um alinhamento perfeito e uma execução impecavelmente sincronizada das bailarinas. Cada uma deve adaptar-­‐se ao todo. Esse jogo de uniformidade, também é um dos recursos da dança clássica! Um «développé», um «arabesque», uma corrida em pontos? Este «pas de deux» tem um ar muito clássico! E, portanto, esta coreografia do americano Alonzo King demonstra um maior «neoclassicismo». Como prova disso, a maneira como a bailarina relaxa a parte de cima das costas, mantém os braços ou afasta o chão da mão: retrai mesmo os joelhos para dentro e coloca o pé em «flex», ou seja, em ângulo reto. São muitos os elementos que emancipam os códigos académicos! Utilizar vocabulário clássico, tendo simultaneamente algumas liberdades com as suas convenções, sempre que elas perturbam a intenção artística, é o que pretendem durante o século XX, coreógrafos russos, como Michel Fokine ou George Balanchine. É preciso dizer que a dança moderna instilou o espírito da renovação. O termo «neoclássico» não aparece até 1949, sob a batuta de Serge Lifar. Desde então, vários artistas exploraram esta via, desenvolvendo um estilo singular. Inclui, entre os mais conhecidos, William Forsythe, Jiri Kylian e Mats Ek. Outrora «moderna», agora «contemporânea» Blue lady / Marlon É em oposição bem mais radical ao academicismo que se constituiu a dança moderna, no início do século XX. Forjada pelo crítico americano John Martin nos anos 30, a denominação dá conta de um conjunto heterogéneo de iniciativas, sendo que cada uma delas visa inventar a sua própria língua gestual em função de intenções expressivas específicas. 1980 marca a explosão da dança contemporânea francesa. Com este novo termo, a geração jovem que frequentou as escolas modernas americanas e alemãs reivindica o direito de existir na cena coreográfica. Sem semelhanças entre as diferentes assinaturas que são então reveladas, a não ser, entranhada no corpo, uma mesma conceção da dança www.numeridanse.tv 2 www.evdhproject.eu como expressão, através do movimento do seu ser no mundo. Breve, uma dança de autor, que inclui tantos rostos como coreógrafos. O estilo de Carolyn Carlson é reconhecível. Como aqui, em Blue lady, mítico solo criado em 1983: fluidez do corpo, projeção multidirecional de braços e pernas; impulso com volta, enrolados, parados; saltos com roda e movimentos lentos. O alargamento de qualidades no movimento torna a dança de Carlson imprevisível e fantasiosa. É extravagante Aude Lachaise, quando tem a palavra em palco e afirma o que o gesto dançado nunca revela: a condição dos bailarinos no mercado da dança contemporânea. Outra maneira de conceber o espetáculo como lugar para fazer questões. Dirigindo-­‐se aos espetadores, impacientes por a ver dançar – será que o custo valerá a pena? -­‐ ela questiona a esperanças implícitas do público, mas também as relações equívocas dos coreógrafos -­‐ chefes bailarinos – trabalhadores. Entre uma conferência dançada e um one woman show, Marlon insere-­‐se na base de uma corrente surgida nos anos 90, a «não-­‐dança», expressão do desencantamento em relação às promessas da dança contemporânea. Do jazz ao Hip Hop Jazz tap ensemble / Onqôto / Agwa O jazz é, antes de mais uma música e depois uma série de danças com ritmos sincopados. Entre elas, o sapateado, ou «tap dance», tem a particularidade de usar o pé como um verdadeiro instrumento de percussão. Fruto do cruzamento de técnicas de sapateado inglesas (clog), irlandesas (reels) e de danças dos escravos africanos deportados na América, elas desenvolvem uma complexidade de combinações rítmicas e sonoras, consoante se o impacto no solo passa pelo calcanhar, pela ponta do pé ou pela sola do sapato. Para tal, os bailarinos, como os do Jazz Tap Ensemble, variam os pés, sem parar, passando de uma perna para a outra, de maneira às vezes audaz, deslizando, saltando, com troca-­‐passos e cruzados. Assim que a orquestra faz silêncio, dão asas à improvisação, rivalizando com destreza, antes de retomarem juntos a mesma sequência. Se bem que não se trata de jazz, encontramos uma qualidade semelhante de recuperação e suspensão em Onqôto, do Grupo Corpo, uma das companhias mais importantes do Brasil. O seu coreógrafo, Rodrigo Pederneiras, criou uma linguagem original que funde elementos do ballet clássico com danças e folclores nascidos da cultura afro-­‐brasileira. Os gingados e passos típicos do samba conjugam-­‐se com os grandes movimentos laterais, saltos à retaguarda, às piruetas em meia-­‐ponta. Quanto às flexões da cabeça e do peito e aos movimentos curvos da bacia, estes dão um toque africano à coreografia. Os bailarinos de Agwa também são brasileiros. Mas o coreógrafo desta peça é mesmo Mourad Merzouki. Grande artista da cena Hip Hop francesa, não tem por hábito limitar-­‐
www.numeridanse.tv 3 www.evdhproject.eu se a um só território. Pelo contrário! O seu reencontro com a Companhia Urbana de Dança, composta por breakers e capoeiristas nascidos nos bairros desfavorecidos do Rio, estimulou a sua criatividade. Sob o tema da água, preciosa fonte de via, concebeu uma dança que mistura as figuras do Smurf (pointing, waving...) e do Break Dance (acrobacias no chão) com as da capoeira (rotações alargadas das pernas) e do samba. Quanto à banda sonora, composta por diversos estilos musicais, um pouco insólitos nesta linguagem gestual, ela participa na escalada da energia dos bailarinos. Danças sociais ou tradicionais encenadas Tango Vivo / El cielo de tu boca / Perles noires Jazz, samba, Hip Hop: originalmente, essas danças eram praticadas na altura das festividades, em salões de baile, discotecas ou na rua. Só após um processo de teatralização é que as danças ditas «sociais» sobem ao palco, adotando um formato espetacular para ser alvo de uma escrita coreográfica. Ao intensificar-­‐se no século XX, o fenómeno não tem nada de novo! Recordemos que o ballet clássico também nasce das danças populares e camponesas, das quais a nobreza se apropriou. Nos anos 1980, a prática do tango renasce em França. Esta dança de pares, nascida na Argentina no século XIX, já tinha suscitado entusiasmo quando desembarcou na Europa, em 1905. Esse interesse renovado traduz-­‐se, principalmente na criação de espetáculos sobre o universo do tango. Tango Vivo, da companhia Union Tanguera, alterna as sequências coreografadas de grupo com momentos que permitem aos pares improvisar, como fariam num contexto de baile. Com base numa marcha com várias figuras, como o corte (suspensão) ou o duplo oito (trajeto desenhado no chão com os pés), o tango organiza-­‐se à volta do desequilíbrio dos parceiros. Estes abraçam-­‐se e afastam-­‐se num jogo de contrastes entre a lentidão e a velocidade, a aproximação e a separação. Sozinho em cena, Andrés Marin cria um diálogo sábio com a orquestra que o acompanha. Para o espetáculo «El Cielo De Tu Boca», o bailarino sevilhano convocou o músico experimental Llorenç Barber e os seus sinos, prova de que o flamenco, dança cigana da Andaluzia que se tornou uma arte teatral no limiar do século XX, continua a explorar novas vertentes. Andrés Marin encarna um flamenco que podemos qualificar de «contemporâneo», pela sua estética cénica, apurada, mas também pelo seu estilo singular. A sua maneira de bater com o pé no chão (sapateado) é delicada e matizada. Os seus braços desenham um espaço um tanto linear. Alternando entre a tensão intensa e o relaxamento, a dança permanece, no entanto, fiel à energia do flamenco, uma característica que, por vezes, confina à transcendência: essa coisa intraduzível a que chamamos o «duende». Fervor, exaltação, vigor, também é o que os bailarinos do Honvéd Ensemble transmitem. Encontramos também as batidas com os pés, as palmas ou o peito. Nada surpreendente, www.numeridanse.tv 4 www.evdhproject.eu pois são danças ciganas, originárias desta vez da Hungria! Mas, aqui, o objetivo do espetáculo é outro! Trata-­‐se de trazer para o palco danças que são normalmente praticadas em contexto social: festas, celebrações, bailes... Os grupos folclóricos comprometem-­‐se assim a recolher, reconstituir e depois adaptar ao palco, com o intuito de preservar, um património coreográfico e musical, cujo desaparecimento se deve à civilização industrial. O resultado desta abordagem obteve o nome de «dança tradicional», embora as danças incluídas nesta categoria não se insiram mais no modo de vida e sociedade correspondente. Créditos Selecção de Excertos Olivier Chervin Selecção de textos e bibliografia Anne Décoret-­‐Ahiha Produção Maison de la Danse O tema “Géneros e estilos” foi lançado graças ao apoio do Secretariado Geral de Ministérios e Coordenação de Políticas para a Inovação Cultural. www.numeridanse.tv www.evdhproject.eu 5 

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