João Evangelho de João O Evangelista João, escreveu a

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Transcrição

João Evangelho de João O Evangelista João, escreveu a
COMENTÁRIO DE JOÃO
INTRODUÇÃO
Bem-vindos ao Estudo do Evangelho de João, do Novo Testamento!
O Evangelho de João ocupa um lugar de destaque no Novo
Testamento. Nenhum outro livro nos apresenta Jesus como João o faz. No
decorrer da história, milhares e milhares de comentários a esse magnífico
Evangelho foram escritos.
A primeira obra da qual temos conhecimento apareceu
aproximadamente 50 anos após o Evangelho ser concluído. Foi um herege
gnóstico¹ do século dois, chamado Heraclião, que escreveu um comentário
ao Evangelho de João.
¹A
palavra gnóstico vem do termo grego “gnosis” que significa conhecimento. O gnosticismo se aplica a um
grupo de religiões surgidas do séc. 2 em diante, que enfatizava a importância de receber o conhecimento secreto
para salvar-se do mau: isto é, do mundo material.
Imaginem a quantidade de interpretações escritas no mundo todo
durante os quase dois mil anos decorridos, desde esse primeiro
comentário! Somente no ano 2006, em uma única editora alemã, foram
anunciadas três novas obras sobre João Evangelista.
A grande maioria das interpretações é elaborada por teólogos em sua
linguagem às vezes difícil para leigos. Muitas vezes os comentários se
perdem em questões secundárias, que não são prioridade para leigos.
Falando de igual para igual, cremos ser possível lermos este Evangelho e
sermos abençoados com uma compreensão muito mais profunda da
pessoa e da obra de Cristo. É isso que a UMBET está procurando fazer.
O Evangelho de João é diferente dos três anteriores e exige mais
estudo. Ele foi escrito quando os outros três (Mateus, Marcos e Lucas) já
eram conhecidos, em grande parte das comunidades cristãs, com seus
autores já falecidos há dezenas de anos.
Escrever mais um comentário sobre João somente se justifica com o
nosso propósito de colocar em suas mãos um resumo que aborda algumas
questões que geralmente são ignoradas em comentários não-teológicos
para leigos. Até hoje não há, e provavelmente nunca haverá, um
comentário digno para esse Evangelho divino. O Evangelista João, ao
contrário de seus colegas Mateus, Marcos e Lucas (que nos passaram
suas impressões do homem Jesus Nazareno e de seus feitos
extraordinários), fala do “logos de Deus”, do Deus Encarnado. Como a
razão humana e a língua humana não são capazes de “explicar” o Divino, o
Evangelista João preferiu falar em metáforas. Alguém, com razão, disse
que o Evangelho de João inteiro é uma metáfora (uma mensagem indireta,
através de imagens). Em grande parte encontramos monólogos de Jesus
1
Caro(a) leitor(a)
Esses comentários foram elaborados no intuito de
ajudá-lo(a) no seu estudo do “Evangelho segundo João”,
quer seja estudo pessoal ou em grupo.
Tomamos a liberdade de usar o texto extraído de
diferentes edições da Bíblia, optando por aquela que, fiel ao
original, nos pareceu ser mais fácil para compreensão.
Consultamos as edições RA (Revista e Atualizada) da
“Almeida” (SBB); a NVI (Nova Versão Internacional) da
Ed.VIDA; a “Século 21” da Ed.VIDA NOVA; a “Bíblia de Genebra” da Ed.”Cultura Cristã/SBB” e a “Bíblia de Jerusalém” da Edições Paulinas (veja bibliografia no final do
texto).
Embora tenhamos deixado o texto citado do Evangelho,
na maioria das vezes sem alteração, por uma questão de
respeito, quando comentamos esses textos, tomamos a
liberdade de grafar com a primeira letra em maiúsculo os
termos “Eu”, Ele”, “Seu”, “Sua”, “nEle” etc... , se esses termos se
referirem a Deus, a Jesus, ou ao “Parácleto” (Espírito Santo).
O estudo é de propriedade da “União Missionária
Brasileira – UMBET” e está sendo disponibilizado a todos os
interessados, gratuitamente, em forma de CD.
Para os devidos fins, esclarecemos que é proibida sua venda.
Revisão final: José António de Castro
Mogi das Cruzes, S.P., agosto de 2010 O EVANGELHO
SEGUNDO JOÃO
CONTEÚDO
pág.
Introdução I caps 1-11
> o jovem João
3
> o velho Ap.João 4
> Conteúdo do Ev. 6
> o legado de João 8
> Consid.históricas 9
> quando foi escrito 11
Cap 1.1.
13
Cap 1,2-5
18
Cap 1.6-9
21
Cap 1.10-13
24
Cap 1.14
27
Cap 1.15-18
32
Cap 1.19
35
Cap 1.19-28
40
Cap 1.29-34
45
Cap 1.35-42
48
Cap 1.43-51
53
Cap 2.1-11
55
Cap 2.11-12
60
Cap 2.13-22
63
Cap 2.23-35
67
Cap 3.6-12
72
Cap 3.13-15
75
Cap 3.16-21
81
Cap 3.22-30
84
Cap 3.31-36
87
Cap 4.1-17
91
Cap 4.18-29
96
Cap 4.30-42
100
Cap 4.43-45
105
Cap 4.46-54
108
Cap 5.1-9
112
Cap 5.9-18
117
Cap 5.19-24
125
Cap 5.25-30
129
Cap 5.31-40
132
Cap 5.41-47
137
Cap 6.1-4
140
Cap 6.5-15
144
Cap 6.16-29
148
Cap 6.30-40
152
Cap 6.41-52
156
Cap 6.53-59
161
Cap 6.60-66
165
Cap 6.67-71
168
Cap 7.1-13
Cap 7.14-24
Cap 7.25-36
Cap 7.37-39
Cap 7.40-52
Cap 7.53-8.11
Cap 8.12-20
Cap 8.21-30
Cap 8.31-47
Cap 8.48-59
Considerações I
Considerações II
Cap 9.1-7
Cap 9.8-23
Cap 9.24-34
Cap 9.35-41
Cap 10.1-8
Cap 10.9-18
Cap 10.19-42
Conclusão Parte I
172
177
180
186
190
194
199
206
212
217
223
228
233
238
242
247
251
256
262
269
Introd.II caps 12-21
Cap 11.1
Cap 11.1-16
Cap 11.17-31
Cap 11.32-44
Cap 11. Suplemento
Cap 11.45-57
Cap 12.1-11
Cap 12.12-19
Cap 12.20-28
Cap 12.28-36
Cap 12.37-43
Cap 12.44-50
Cap 13.1-11
Cap 13.12-17
Cap 13.18-30
Anexo: JUDAS
Cap 13.31-38
Cap 14.1-3
Cap 14.4-6
Cap 14.7-14
Cap 14.15
Cap 14.15-24
Cap 14.25-31
Cap 15.1
Cap 15.1-8
Cap 15.9-13
Cap 15.14-16
Cap 15.17-26
275
278
281
285
290
296
301
308
313
318
322
325
330
333
339
342
348
349
355
359
363
367
373
379
384
388
394
398
401
Cap 15.27-16.4a
Cap 16.4b-11
Cap 16.12-15
Cap 16.16-22
Cap 16.23-24
Cap 16.25-33
406
408
412
416
419
422
Cap 17. Introdução
Cap 17.1-5
Cap 17.6-12
Cap 17.13-19
Reflexão caps 1-17
426
431
436
440
446
Cap 18.1-2
Cap 18.3-5
Cap 18.4-13
Cap 18.14-16
Cap 18.17,18/25-27
Cap 18.19-24
Cap 18.24
Cap 18.28-29
Cap 18.30-38
Cap 18.38 – 19.5
Cap 19.6-12a
Cap 19.12b -16
Cap 19.17-18
Cap 19.19-24
Cap 19.25
Cap 19.26,27
Cap 19.28-30
Cap 19.31-37
Cap 19.38-42
450
454
458
462
466
470
475
479
483
489
495
500
505
510
515
519
525
531
536
Cap 20 Introdução
Cap 20.1-10
Cap 20.11-16a
Cap 20.16-18
Cap 20.19,20
Cap 20.21-23
Cap 20.24-29
Cap 20.30,31
Cap 21.1
Cap 21.1-10
Cap 21.10-14
Cap 21.15-19
Cap 21.20-22
Cap.21.23
Cap.21.24,25
543
547
553
556
560
565
569
573
578
583
588
593
598
601
604
Bibliografia
609
trabalhados dentro de narrações que, por si sós, também poderiam ser
metáforas. Nunca sabemos exatamente onde as palavras de Jesus se
transformam em palavras do próprio Evangelista. Tampouco sabemos se o
acontecimento narrado é histórico ou, em parte pelo menos, também uma
metáfora, criada pelo Evangelista para poder transmitir e tornar “visível” a
mensagem do “logos”.
No Evangelho de João, o próprio Deus está nos falando através de
Jesus. Veja o que Jesus respondeu a um de seus seguidores, que almejava
ver a Deus. “Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado
com vocês durante tanto tempo? Quem me ve, ve o Pai” (14,9).
Toda a leitura desse Evangelho e a nossa “especulação” a respeito do
sentido das palavras de João devem acontecer com profundo respeito,
consciente do fato de encontrar o Deus Pai na face e nas palavras do
Cristo joanino.
Antes de começar com a leitura, convidamos você a conhecer algo do
contexto histórico e religioso em que o autor recebeu a inspiração Divina
para a elaboração desse maravilhoso Evangelho. Essas informações nos
ajudarão na compreensão e na formação do nosso próprio entendimento.
A fé que brota como resultado da leitura do Evangelho não consiste
em saber sobre Jesus, mas em conhecer pessoalmente (existencialmente) a
Deus espelhado na pessoa do nosso Senhor e Salvador. Essa fé pessoal
transformará também a sua vida!
Vamos à obra?
2
O JOVEM JOÃ0
O símbolo do Evangelista João é a águia. Com o seu Evangelho, João
alcançou alturas indescritíveis, deixando para trás tudo o que é terreno,
passageiro. Santo Agostinho demonstrou a impressão que esse Evangelho
lhe causou nas seguintes Palavras (tradução livre): “Subiu acima de todas
as alturas terrenas, de todo espaço do ar, passou por todos os astros,
deixou para trás todos os corais e legiões de anjos. Pois, se não tivesse
deixado para trás o que fora criado, nunca teria chegado Àquele pelo qual
tudo fora criado”.
De todos os Evangelistas, a pessoa de João é a mais acessível, tanto
pelos Evangelhos em si como por farta tradição extrabíblica. João nasceu
em uma família de pescadores. Nada ou pouco sabemos de seu pai
Zebedeu - ao contrário da mãe Salomé, uma mulher profundamente
religiosa. Encontramo-la entre as seguidoras do Senhor, sendo
mencionadas várias vezes nos Evangelhos. Salomé assistiu à crucificação
“de longe” e foi ela que comprou as especiarias destinadas a embalsamar o
corpo de Jesus (Marcos 15.40 e 16.1).
Quando o Batista clamou no deserto, João tornou-se seguidor dele e
por ele foi batizado no Jordão. Conheceu desde cedo o radicalismo do
“Batista”. Destacando-se não somente pela roupagem e alimentação, mas
acima de tudo pela sua mensagem, João Batista anunciou “o machado
posto à raiz”, isto é: o Juízo iminente; a eliminação dos maus estava à porta
(Mateus 3.10). Dali vem a fascinação do futuro Evangelista pelo Absoluto.
O período que João passou junto com o Batista lhe serviu de preparo para
algo maior. Naquela época, João era muito jovem, ainda moço. Na
companhia do Senhor, mais tarde, seria conhecido como o mais jovem
entre os Doze. Nas pinturas sempre reconhecemos João pela sua pouca
idade, pelo seu rosto ainda imberbe e seus traços finos.
João nunca esqueceu a hora em que Jesus o chamou. Dezenas de
anos mais tarde ainda se lembrou dos mínimos detalhes daquela “décima
hora do dia”, isto é: duas horas da tarde (João 1.39). Foi quando o jovem
João, junto com seu irmão André, seguiu timidamente atrás de Jesus e
este repentinamente se virou e perguntou aos dois moços: “O que vocês
estão procurando?”(1.38). Embaraçados, não sabendo o que responder,
gaguejaram: “Mestre, onde moras?”. Naquele momento, Jesus olhou fundo
nos olhos de João e este nunca mais esqueceu aquele encontro. Em tudo o
que o futuro Evangelista escreveria mais tarde, ele usaria o termo “ver”
como sinônimo de “compreender na sua totalidade”. O “ver” de João
compreende o homem como um todo, com corpo, alma e espírito. Quando
já idoso, João iniciou sua “Primeira Carta” com as palavras: “... o que
vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos
tocaram da Palavra da vida...essas coisas vos escrevemos, para que o vosso
gozo se cumpra” (1.João.1.1/3).
3
Tudo em João gira em torno da encarnação. Ele a viveu e
testemunhou. Não era sempre o discípulo maduro e sereno, representado
nos seus escritos. Tornou-se “santo” e exemplar somente através de uma
vida longa, onde aprendeu a ser transformado; não numa vida de natureza
do tipo efeminada como a arte gostou de reproduzi-lo. Seu nome, herdado
de seu pai, era “filho do trovão”. Seu temperamento, como convém aos
jovens, era absolutista. Jovens costumam aceitar somente aquilo que
corresponde às suas próprias metas. Jesus teve que lhe ensinar o que
significa ter um coração aberto, quando lhe disse: “Quem não é contra nós,
é por nós” (Marcos 9.40). Na ocasião, quando o grupo não foi bem recebido
numa vila samaritana, o jovem João ficou tão revoltado que sugeriu ao
mestre: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma,
como Elias também fez?” (2 Reis 1,10/Luc.9.54). Ninguém menos que
Elias, o maior dos profetas, era parâmetro para o jovem seguidor. João
queria resolver a questão logo, queimando todos aqueles que não os
acolheram bem. Tinha que ouvir a repreensão que não esperava: “Vocês
não sabem de que espírito vocês são”, ou em outras palavras: “Vocês não
percebem que não é o Espírito de Deus que vos sugere essa resposta?” Para
o jovem João era o “tudo ou nada”. Esse “tudo ou nada” encontramos
também no idoso Evangelista, só que “santificado” (1 João 5,12).
Mais um incidente ilustra a personalidade do jovem João. Quando
sua mãe lançou o pedido para dois lugares especiais em favor de seus dois
filhos no Reino de Deus e Jesus lhe perguntou: “Eles também podem beber
o cálice que eu terei de beber?” o jovem João, sem hesitar, afirmou: “Sim,
posso!” (Mateus 20.22).
João teve que amadurecer na escola do Senhor. Começou pouco a
pouco a entender o ministério de seu Senhor como uma única e infinita
paixão. No jardim Getsêmani, João dormiu também, fugiu também, mas
depois, enquanto Jesus sofria, procurava estar o mais perto possível do
Mestre, como o único dos Doze.
O VELHO EVANGELISTA JOÃO
No seu Evangelho, João revela sua proximidade com Maria, mãe de
Jesus. A tradição diz que João cuidou de Maria até a morte dela, que não
sabemos ter acontecido em Jerusalém ou em Éfeso. A tradição não o
deixou claro. Por sua proximidade com a mãe de Jesus, Orígenes (254
d.C.) viu em João a síntese personalizada de virtudes masculinas e
femininas. É por essa razão que Leonardo da Vinci, na sua conhecida cena
da Ceia no cenáculo, deu a João traços andróginos, representando tanto os
homens como as mulheres. Não é Maria de Magdala recostada em Jesus
como sugere Dan Brown no seu “Código da Vinci”. É o jovem João,
representando o eterno jovem. Correu mais rápido que Pedro, quando a
notícia do túmulo vazio chegou aos amedrontados discípulos trancados no
seu esconderijo. Foi o primeiro a reconhecer Jesus na sua aparição junto
ao mar da Galileia (João 21), quando cochichou ao ouvido de Pedro: ”É o
4
Senhor!”. Sempre reconheceu primeiro, chegou primeiro, sentou mais perto.
Ele entendeu o Evangelho, a “Boa Nova”, como mensagem do Amor de
Deus (3,16). Na Bíblia, “amar” e “conhecer” sempre andam juntos; eles são
sinônimos.
A tradição sabe do ministério final de João em Éfeso, cidade do
filósofo pré-socrático Heráclito. A cidade abrigava o famoso “Templo de
Ártemis” (Vênus), uma das sete Maravilhas do Mundo Antigo. O Apóstolo
passou ali por grande perseguição e da qual a tradição guardou inúmeras
lendas que, em parte, contêm alguma possível essência histórica. Após seu
exílio em Roma e, mais tarde, na ilha de Pátmos (onde escreveu o
“Apocalipse”), o velho João voltou em triunfo para Éfeso. As palavras em
1.João 3.14 expressam bem o que o velho Apóstolo sentiu, quando após
longo exílio voltou à sua Igreja em Éfeso: “Nós sabemos que passamos da
morte para a vida, porque amamos os irmãos”. Durante sua segunda
estadia nessa cidade aconteceu um incidente bem documentado. Irineu o
menciona em sua “Obra contra as Heresias” (III.4) e Eusébio (de Cesaréia)
a incorporou na sua “História da Igreja” (XXVIII): “O Apóstolo João, certa
vez, entrou num banho (público) para se lavar; mas ao saber que Cerinto ali
estava, saltou do lugar e correu pela porta, não suportando estar sob o
mesmo teto que “este”, e exortou os que estavam com ele a fazer o mesmo,
dizendo: ‘Fujamos para que o banho não caia sobre nós, já que Cerinto,
aquele inimigo da verdade, está lá dentro’”. Cerinto era um importante
representante da “Gnose”. Para a ciência da Gnose, espírito e carne nada
têm em comum. O que importa, é o conhecimento (iluminação) espiritual.
Para Cerinto, Jesus não era o Deus encarnado, como João o viu (João 1,15). Por essa razão é, que o Apóstolo, na sua Segunda Carta, verso 10, diz:
“Se alguém vem ter convosco e não traz essa doutrina (que na pessoa de
Jesus veio Deus em forma humana), não o recebais em casa, nem lhe deis
as boas vindas”. O velho João era implacável, quando se tratava da
revelação do mistério da encarnação. No verso 7 da mesma Carta, ele diz:
“Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo afora, os quais não
confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo”.
A Igreja primitiva ainda sabia opor-se a qualquer movimento de
sincretismo (= Fusão de concepções heterogêneas); era uma questão de
sobrevivência, não de mesquinharia. Seria muito bom, se a Igreja de hoje o
soubesse também!
Muitos anos depois da morte do Apóstolo apareceram os assim
chamados “Atos de João”, onde relatos com possíveis cernes de verdade se
misturam com absurdas fantasias gnósticas. Nelas encontramos vários
contos acerca do velho discípulo, dos quais alguns fazem parte da
tradição.
A tradição nos conta que o Apóstolo, quando já idoso, resolveu dar
forma à maior obra hagiográfica de todos os tempos: seu Evangelho.
Naquela época, Marcos já havia morrido, Mateus e Lucas também;
somente João, a última testemunha ocular do ministério de Jesus, estava
5
vivo. Durante seus longos anos de vida, João havia meditado sobre o que
significava tudo aquilo que teve oportunidade de viver e testemunhar.
Agora, perto do fim, essa história havia se tornado
transparente para o velho discípulo. João escreveu seu Evangelho
historicamente longe, mas espiritualmente muito perto do seu Senhor.
CONTEÚDO DO EVANGELHO
No “Evangelho de João”, os diálogos de Jesus muitas vezes passam a
ser monólogo. João era capacitado para tal, porque a “fala joanina”, na
realidade, correspondia à maneira como Jesus falava. Vez e outra no seu
Evangelho não sabemos onde termina a fala de Jesus e começam os
comentários de João (leia João 3.3 até 21, e diga-me até onde o Apóstolo
cita Jesus, e onde começam os comentários de João, Evangelista)!
São as palavras de Jesus, que ocupam no Evangelho o espaço
principal. Nelas se revela a “mística joanina”. Nenhuma Cristologia (=
Definição do Kyrios, “SENHOR”) posterior chegou a tal altura. Cristo se
denomina “Pão da Vida” – o mistério da eucaristia; “Luz do mundo” –
ilumina a nossa existência; “Bom Pastor” – segurança. Ele se diz “Videira
Verdadeira”, sendo seus seguidores as uvas; “a Porta” que leva à vida
eterna. “Eu sou o Caminho” – para o Pai. Ele promete “Outro
Consolador”- que ficará conosco “para sempre”. Em todas essas orações,
Jesus usou símbolos que compreendem a realidade. Sua mensagem real
está muitas vezes nas entrelinhas; podemos compará-la ao “ruído do mar”
que, aparentemente, escutamos quando colocamos uma concha ao nosso
ouvido: um ruído infinito e eterno.
Eusébio († 340 d.C.) refletiu muito sobre o “porquê” João escreveu
um quarto Evangelho, uma vez que já havia três outros, reconhecidos e em
circulação. Os três Evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas são chamados
“sinóticos”, porque semelhantemente tratam da anunciação do Reino
vindouro. Os três trabalham a história, cada um a seu modo.
O Evangelho de João é diferente. Há somente quatro eventos nele
registrados em comum com os Evangelhos sinóticos; no mais, o Evangelho
joanino apresenta uma nova dimensão, desconhecida até então. Não que
ela seja menos exata; pelo contrário, suas indicações geográficas são mais
precisas, o que aponta para uma testemunha ocular. Os Pais da Igreja
procuravam entender em quê João era diferente dos demais Evangelistas.
Eusébio pensou que João, sendo solicitado por muitos, resolveu anotar
tudo o que os outros três Evangelistas deixaram de registrar. Lutero,
meditando sobre a notável diferença entre o estilo dos sinóticos e o de
João, chegou à conclusão que os sinóticos principalmente se ocupavam
com os feitos de Jesus, enquanto João enfatizava suas palavras, em
detrimento das obras. Os dois eruditos notaram diferenças reais, mas não
chegaram ao principal. O evangelho de João é a própria interpretação
6
(exegese) dos sinóticos; é a visão da Salvação contida na história, escrita
por uma testemunha ocular em uma época de desenfreada especulação
gnóstica, que ameaçava engolir a genuína mensagem dos Evangelistas.
No seu Evangelho, João não se contenta com a realidade
pragmática, com acontecimentos notáveis; ele eleva tudo à esfera superior.
Nos diálogos, Jesus sempre responde num nível acima daquele do seu
interlocutor. Jesus sempre conduz a conversa. Tudo na obra joanina gira
em torno da grande questão: “Quem és tu?” (João 8.25). “Até quando nos
deixarás a mente em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-o francamente!”
(10.24). A epifania do Cristo (manifestação de Deus) é o grande tema do
Evangelho, em torno do qual o Evangelista serena e magistralmente
desenvolve a história da Salvação. Ele só conhece um único alvo: a
glorificação de Cristo, cujo advento iluminou a história e cuja hora havia
chegado. João não faz distinção entre um “Jesus humano” e um “Cristo
Divino”; os dois nele são um. “Jesus Nazareno” é, para João, também o
“Senhor glorificado”. Seu santo Evangelho quer tornar visível o Deus
invisível na pessoa de Cristo Jesus; esse é o conteúdo do Evangelho de
João. História e mistério se unem, e a solução do mistério é o “Sou eu”
(6.20).
O Evangelho de João não é uma obra filosófica a ser compreendida
racionalmente. Suas palavras são imagens, raramente termos racionais.
Ao contrário da dialética (arte de dialogar) que o Apóstolo Paulo desenvolve
nos seus escritos, temos em João a meditação, a visão interior, que
correspondem, presumivelmente, ao espírito de Jesus. O que no
pensamento racional é distinto, João vê como unido. Presente e futuro,
temporal e eterno estão juntos. Nas palavras de João encontramos o
“conhecer intuitivo” e o “conhecer discursivo” unidos.
A “mística joanina” é um mistério (João 17.23): “Eu neles e Tu em
mim”. Bonaventura¹ nos deu o seguinte conselho: “se você quer saber
como isso acontece, pergunte à Graça, não à ciência; à saudade, não à
razão; ao gemido da oração e não à leitura investigativa; ao noivo e não ao
professor; a Deus, não ao homem; à escuridão e não à clareza; não à luz
mas sim aquele fogo que se inflama pela unção mística e o amor que,
queimando, transforma-se em Deus. Esse fogo é Deus e seu foco é
Jerusalém” ¹ Bonaventura Somma, compositor italiano, 1893-1960), em seu “Livro do peregrino”.
O grande Orígenes chamou o Evangelho de João de “Evangelho
pneumático”. Santo Agostinho pregava sobre este Evangelho. Lutero, o
Reformador alemão, o considerou “o Evangelho verdadeiro, infinitamente
preferível aos demais”. Zwinglio, o reformador suíço, disse: “Tiram o
evangelho de João e vocês eliminam o sol que ilumina o mundo”.
Quando será que, na história, aparecerá o “cristão joanino”, sem
qualquer ambição ao poder? Se tivesse aparecido, a História da Igreja teria
sido outra. A cristandade, infelizmente, não seguiu ao chamado do
coração, não “viu” e “ouviu” com o coração, como João o fez; ela preferiu o
poder e a fama.
7
O LEGADO DE JOÃO EVANGELISTA
Desde tempos remotos há discussão acerca da pessoa do autor. Foi
João, o discípulo, ou foi um hipotético “João, o Presbítero”? Irineu (125202 d.C.) que ainda conheceu Policarpo (†166 d.C.), que, por sua vez, disse
ainda ter conhecido, pessoalmente, o Apóstolo, afirma: “Finalmente João,
discípulo do Senhor,... escreveu seu Evangelho enquanto estava em Éfeso,
na Ásia Menor”. A tradição sabe de um “João Presbítero”, sucessor do
Apóstolo. O termo “Presbítero”, naquela época não indicava, como hoje,
um cargo ou responsabilidade na hierarquia da Igreja. Ele entende o
mesmo que “ancião”, ou, “pertencendo à geração que ainda conheceu
Jesus”. Será que este, após a morte do discípulo, editou o livro que o
Apóstolo deixou inacabado? Algumas teorias apontam nessa direção.
Outros põem em dúvida a existência desse “João, Presbítero”. Para nós,
neste presente momento, não importa. Trataremos do assunto mais
adiante.
Façamos força para ver e ouvir as palavras que chegaram até nós. O
Evangelho joanino nos leva ao coração do Senhor. Para “os de fora”, ele
continuará mistério. Para “os de dentro”, o Evangelho de João é
transparente (W.Nigg).
Há uma linda anedota que a tradição, bem documentada, nos
transmite. Jerônimo a menciona e ela tem toda a probabilidade de ser
autêntica. Lessing (dramaturga alemã, 1729-1781) denominou-a “o
Testamento de João”.
João, quando velho e já fisicamente debilitado, continuava
firmemente a participar dos cultos na sua Igreja em Éfeso, sendo apoiado
por dois homens, um de cada lado. No fim de cada “culto” (ainda não se
conhecia a “missa” tal qual ela existe hoje), ele costumava sussurrar aos
presentes mais próximos: “Filhinhos, amem-se uns aos outros!” Com o
decorrer do tempo, e João sempre repetindo as mesmas palavras, os
cristãos começavam a reclamar: “Mestre, o que é isso? Por que o senhor
repete sempre a mesma coisa?” João emudeceu, pensou por um tempo,
depois respondeu: “Assim foi que Deus ordenou e cumprir isso é o
suficiente”. E imediatamente emendou: “Filhinhos, amem-se uns aos
outros!”.
O termo “filhinhos” aparece na Primeira “Carta” do Apóstolo e nada
tem a ver com “criancice”. “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos! ... Filhinhos,
já é a última hora...!” (caps. 5.21 e 2.18).
Espiritualmente maduro, João compreendeu como futilidade todo
ativismo religioso, qualificando-o de “presunção infantil” e comparando-o
às criancinhas que, brincando na areia, facilmente partem para briguinhas
desnecessárias.
Corria a fama de que João não morreria antes da volta do Senhor.
No último capítulo do seu Evangelho, o autor do livro procurara corrigir
8
essa opinião, escrevendo: “Tornou-se corrente entre os irmãos o dito de que
aquele discípulo não morreria. Ora, Jesus não dissera (a Pedro) que tal
discípulo não morreria, mas: ‘Se eu quero que ele permaneça até que eu
venha, que te importa?’ ” (21.21-22).
Diz a tradição que João, perto de seu centenário, sentiu a morte se
aproximar. Ele se lembrou da palavra de Cristo: “Quem crê em mim, ainda
que morra, viverá” (11.25). Mandou preparar sua sepultura e quando
pronta, desceu devagar os degraus para sua cripta. O famoso artista
alemão Lucas Cranach, Pai, (1472 – 1553) esculpiu essa serena cena em
madeira. Assim que o ancião se deitou, expirou.
Ainda hoje é mostrado o lugar de sua sepultura nos restos da “Igreja
São João” que sobraram no meio das ruínas da antigamente importante
cidade de Éfeso (Turquia).
Quem ler este santo Evangelho, ainda perceberá o sopro do
Apóstolo. Aquele que olhar a placa simples do jazigo de João nas ruínas de
Éfeso, se lembrará das palavras finais do seu Evangelho: “Muitas outras
coisas Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio que
nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos” (21.25).
Lembrar-se-á também das palavras de Jesus: “Tenho ainda muito que lhes
dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito
da Verdade, ele vos guiará a toda verdade, porque não falará de si mesmo,
mas dirá tudo que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”
(16.12,13).
Nunca chegaremos a esgotar a sabedoria desse Evangelho; sempre
continuaremos perante o “mistério joanino”. Assim como voa a águia, João
voou alto, tão alto que, por pouco, não escapou da nossa vista. Com Santo
Agostinho podemos afirmar: “É João que nos anuncia cousas sublimes,
quando contempla a luz íntima e eterna com seu firme olhar. É necessário às
águias jovens serem provadas, sendo agarradas pelas garras dos pais e
expostas à luz do sol. Aqueles entre eles que olharem firmemente para cima
serão reconhecido como filhos. O que, porém, mesmo por um instante só,
palpitar, será considerado estranho e as garras o soltarão para o abismo.”
(Contra Celso, VI.6).
Grandiosas, e ao mesmo tempo assustadoras, são as palavras de
Agostinho!
Há séculos estamos sendo mantidos suspensos pela visão joanina.
CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS
O quarto Evangelho continua um enigma para qualquer investigação
racional. Como dissemos, ele deve ser lido “vendo” e “ouvindo”. Milhares de
livros a respeito da obra de João foram lançados e nenhum comentário
chegou à altura do Evangelho. Todos eles estão como que só roendo as
margens e devemos mostrar a humildade que nos compete ao procurar
9
ouvir a mensagem do Evangelista. O melhor dos comentários não dispensa
o estudo cuidadoso e pessoal do próprio Evangelho.
Acontece, no entanto, que muitos crentes, ao estudarem a Bíblia e
considerando cada palavra como “inspirada e infalível”, se assustam
quando percebem que a Palavra, assim como ela foi aceita e perpetuada no
Cânon Neo-Testamentário, já é resultado de um longo processo histórico.
Há trechos da Palavra que permitem mais do que uma única maneira de
interpretação. Há trechos que continuam enigmáticos e que não devem ser
“explicados” à força. O pior comentarista é aquele que “explica tudo”.
Sempre corremos o risco de estarmos equivocados; portanto: humildade.
Estamos diante de alguém maior de que nós.
A teologia moderna (contemporânea) está dissecando a Palavra de
Deus, desmistificando-a. Tudo que não tem uma explicação racional, cai
fora. Assim, nada mais restará da mensagem que Deus nos quer passar.
Para estudá-la, é primeiramente necessário ter humildade. Como o próprio
João diz em 3.8: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes
donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito.”
Dependemos desse “sopro” para “ouvir” e “ver” a mensagem de Deus,
principalmente no Evangelho joanino.
Mesmo se começarmos a “ouvir” e a “ver” a mensagem de João,
devemos ter claros na nossa mente alguns fatos, sejam eles históricos ou
culturais. Nada tem a ver com “a mensagem” em si. Essa continua eterna.
As questões que abordaremos hoje se referem às circunstâncias históricas
e culturais em que João compôs a sua obra. De certo modo, podemos vêlos como uma moldura dentro da qual João faz a sua exposição.
O Evangelho de João revela uma visão diferente da dos três
Evangelhos sinóticos. Até aqui, todos concordam.
O cristianismo que nos dá a conhecer o quarto Evangelho, difere do
cristianismo dos sinóticos e das Epístolas de Paulo. Por quê?
Para explicar a diferença entre a visão dos sinóticos e a visão joanina
partiu-se, durante muito tempo, da seguinte hipótese, hoje claramente
descartada:
A)
O cristianismo nasceu do judaismo na Palestina. Era um
movimento judaico-cristão, partindo da situação relativamente
homogênea religiosa e cultural judaica que os sinóticos nos
mostram: Fariseus e Saduceus contra Jesus, e o povo ignorante.
B)
Mais tarde, em terras fora da Palestina, através da influência
grega, teria surgido um cristianismo helenizado, diferente. A tese
comum era que, desse cristianismo helenizado, o Evangelho de
João teria surgido como resultado. Como o Evangelho de João
contém incontestavelmente alguns elementos helenísticos, ele até
10
foi datado em um período mais tardio. Para alguns, o quarto
Evangelho foi escrito só no segundo século. Neste caso seria
pouco confiável quanto ao “Jesus histórico” e mais um resultado
da “Interpretação Cristológica” de uma época posterior.
Hoje, quando sabemos que o Evangelho de João foi escrito ainda no
primeiro século da era cristã (veja abaixo), surge a seguinte pergunta: como
João desenvolveu a sua visão, se ela fora uma contemplação do judaismo
que conhecemos através dos Evangelhos sinóticos, sem nutrir-se de uma
corrente judaica com elementos espiritualistas já presentes?
Os achados de Qumran dos últimos anos trouxeram à luz textos
judaicos com nítidos traços, digamos “esotéricos” (não confunda com o que
hoje se entende por “esotérico”). Como mostra Oscar Cullmann em sua
obra “Das Origens do Evangelho” (Ed. Novo Século. 2000), o Evangelho de
João finca suas raízes neste judaismo “esotérico” já presente quando Jesus
vivia.
Para concluir e para não estender muito essas considerações (pois
nada acrescentam ou tiram do conteúdo da mensagem de João), convém
saber que, no tempo de Jesus e durante o surgimento da igreja judaicocristã, havia muitas e diferentes correntes religiosas judaicas paralelas.
Tivemos o movimento farisaico e com diversas facções; havia os
Essênios, presentes na comunidade; existia a seita de Qumran com a sua
rígida política contrária ao sistema sacerdotal no Templo e mais os assim
chamados “gregos”, judeus hostis ao Templo. O Evangelho joanino tem sua
base numa síntese de alguns desses movimentos presentes na época de
Jesus.
Pouco ou nada ouvimos a respeito desses movimentos nos
Evangelhos sinóticos.
Resumindo: O Evangelho de João não é um produto de uma Cristologia
posterior, tardia, helenizada. Ele é o testemunho genuinamente judaicocristão, mesmo com sua influência do pensamento grego. Quem quer que
seja o autor, o Evangelho foi composto enraizado numa das correntes
judaicas presentes no primeiro século e adaptado para cristãos de origem
gentílica (não judaica).
QUANDO O EVANGELHO FOI ESCRITO?
Baseado na suposição errônea de uma cultura joanina tardia, tinhase como certo que o Evangelho de João datava do segundo ou até terceiro
século cristão, sendo mais “resultado do processo cristológico na igreja
primitiva gentílica” do que “testemunho evangelístico”. As descobertas
arqueológicas trouxeram luz a esta questão.
11
Em Medinet el-Fajum, às margens do deserto da Líbia, local que
pertence ao Egito e, portanto, muito distante da Palestina, foram
encontrados em escavações efetuadas nos anos 20 do século passado
muitos papiros bem conservados. Para você ter uma ideia: o achado mais
antigo é um “Contrato de Casamento” do ano 311 antes de Cristo!!!
Na ocasião, o cientista americano Grenfell adquiriu na região alguns
pequenos pedaços de pergaminho. Não encontrou tempo para examiná-los
a fundo enquanto vivia. Seu sucessor, C.H. Roberts, conseguiu decifrá-los
e, em 1934, determinou a idade do pedaço de papiro com grande precisão.
A surpresa era total: o papiro data dos anos 100-120 d.C.
Na face frontal dele constam algumas frases do texto do cap.18
(versos 31-33) do Evangelho de João. No outro lado do papiro, as palavras
dos versos 37 e 38¹, portanto partes da história da paixão segundo João.
Consta no verso: “Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei.
Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da
verdade. Todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz...”
Imediatamente, o texto foi comparado com o da nossa Bíblia: era idêntico!
Com esse achado encontramo-nos perante partes da cópia mais antiga
conhecida do Evangelho de João!
Resumindo: Com esse e outros achados extraordinários, as teorias de
um “Evangelho joanino tardio” (isto é = escrito no segundo ou terceiro século)
começavam a ruir. Se no ano 125 d.C. já circulavam cópias do Evangelho
joanino no distante Egito, o original certamente foi escrito bem antes, ainda
no primeiro século. Hoje se tem como certo que o Evangelho de João foi
escrito antes do fim do primeiro século, podendo, assim, ter sido
escrito pelo próprio Apóstolo. Historicamente nada prova o contrário,
como demonstrou John A.T.Robinson (um teólogo liberal) na sua grande obra
“Redating the New Testament” (SCM-Press,London, 1976).
¹
a divisão do texto bíblico em capítulos só foi introduzida por Estevão Langton (Arcebispo de Cantuária), em
1214; a divisão em trechos em 1263, por Hugo de Saint-Clair e a divisão em versículos, universalmente aceita,
foi realizada em 1551 por Robert Stevens.
12
O EVANGELHO DE JOÃO (NVI)¹
(1.1)
NO PRINCÍPIO era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.
Watchman Nee († 1972), martirizado pelo regime comunista chinês através
de trabalho forçado e por causa de sua fé, fez uma valiosa observação com
a qual iniciamos o nosso estudo do Evangelho de João.
“Uma sã doutrina pode envaidecer-nos, tornando-nos
orgulhosos de nosso conhecimento ou de nossas opiniões. Ou
podemos esquecer a verdade, afastando-a de nós por meio de
argumentos elaborados ou métodos de terceira categoria. Contudo,
a visão é algo revolucionário. Comparadas a ela, todas as outras
coisas tornam-se pequenas. Uma vez que tenhamos visto o
Senhor, nunca mais iremos esquecê-lo! Diante dos crescentes
ataques de Satanás e dos falhos conselhos de amigos, é somente o
conhecimento interior de Deus que nos manterá firmes em tempos
de provação.
Por um ou dois anos após minha conversão, tive medo de
encontrar um modernista ou um ateu que provasse para mim que a
Bíblia não era perfeita nem confiável. Pensava que, se isso
ocorresse, tudo estaria acabado. Minha fé não teria sentido, e eu
queria crer. Mas agora tudo é paz. Se todos eles aparecessem e
apresentassem o maior número de argumentos contra a Bíblia,
como os projéteis que existem nos arsenais do mundo, minha
resposta seria uma só: “Você tem muita razão naquilo que diz –
mas eu conheço meu Deus. Isto me basta.”
(W.Nee. Uma Mesa no Deserto. Editora dos Clássicos, 2002)
(1.1) NO PRINCÍPIO era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e
era Deus.
O Evangelista Marcos, o primeiro que escreveu um relato sobre
Jesus, começa sua obra com a palavra “Princípio’: “Princípio do Evangelho
de Jesus Cristo”. Marcos se refere ao princípio (início) do ministério terreno
de Jesus de Nazaré.
O Evangelista João também se refere ao “início” (Princípio); só que
ele olha muita mais para trás, ele começa retratando CRISTO NA
ETERNIDADE, antes que o mundo existisse. Podemos dizer: ele olha para
a eternidade passada e ali ele já vê o “Logos de Deus” habitando na
presença de Deus, sendo ele mesmo Deus.
“No Princípio, a “Palavra”(em grego:‘logos’) estava com Deus...”
Compare agora a primeira palavra da Bíblia, no Antigo Testamento: “No
Princípio, Deus criou...” (Gen. 1.1). Quando os céus e a terra foram criados,
o logos “já estava com Deus e “a Palavra” era Deus”. Numa clara referência
13
a Gênesis, o “logos” já existia, e esta é uma maneira de afirmar a
eternidade do “logos” e que só Deus possui.
Quem é essa “Palavra”, o “logos” que sempre existia e que “estava
com Deus e era Deus”? (1.1). O que o termo, com o qual João abre seu
Evangelho, significa?
Conforme a tradição, o Evangelho de João foi composto em Éfeso
enquanto a nova igreja cristã vivia um período de intenso confronto com
heresias gnósticas. A fé dos crentes estava sendo minada pelos erros de
novas teorias “espiritualistas” (gnósticas) a respeito da pessoa de Cristo.
Cerinto, por exemplo, que viveu nos dias do Apóstolo e um dos adversários
mais ferozes de João, gozou de grande influência e ensinava que Jesus era
meramente um ser humano, filho por geração natural de José e Maria; que
não era mais justo ou sábio do que qualquer outra pessoa; e que no
batismo, “O Cristo”, na forma de uma pomba, havia descido sobre ele, mas
o havia deixado novamente antes de seu sofrimento, de tal maneira que
não foi “O Cristo” quem sofreu e foi martirizado, mas sim o homem Jesus,
vindo de Nazaré.
A “gnose” que existe sob muitas formas, até hoje, valoriza “o
conhecimento encoberto”, digamos, o aspecto espiritual desse “Cristo”,
desconsiderando o lado material, humano. Com esse ensino, a gnose está
em rota de colisão com o judaismo (e posteriormente com o cristianismo)
nos quais o homem é uma unidade inseparável.
Por essa razão, João põe tanta ênfase no fato de Jesus Nazareno ser
o Cristo Eterno, o Filho de Deus, e que este Cristo não apenas desceu
meramente sobre Jesus Nazareno (sem ter entrado em uma união real e
profunda com ele), mas que, verdadeiramente, o “Logos” assumiu a forma
humana, se encarnou na pessoa de Jesus Nazareno que o Apóstolo
conheceu e que nunca renunciou sua natureza humana. Quem morreu e
ressuscitou, foi Deus em forma humana, o “Logos encarnado”.
Até meados do século 20, tinha-se como certo que o Evangelho de
João, em parte surgiu, como acima descrito, como reação ou defesa contra
o movimento gnóstico. Hoje sabemos que esse movimento só chegou ao
seu apogeu (maior força) após João e que os termos usados por João não
são emprestados do ambiente gnóstico, mas singelamente joaninos.
O termo “logos” não é um termo semítico. Tanto João quanto os
hereges gnósticos falaram do “logos”. Embora o termo seja o mesmo, o seu
sentido para os gregos era diferente do dos cristãos.
Fílon, judeu, o grande Filósofo Alexandrino († 40.d.C.), usou o termo
logos e de seus sinônimos mais de 1300 vezes em seus escritos, sem
jamais ter tomado conhecimento do movimento cristão. Nas suas alegorias
sobre o Antigo Testamento ele falou, sem conhecer a Cristo, da “sofia”
(sabedoria divina, feminina), através da qual o único e amado filho da
14
divindade, isto é, a criação, veio a ser como fruto maduro, porém, através de
dores. Um século antes, a mística judaica já usou o termo “shekina”
(Glória de Deus) como sinônimo da sofia, e não podendo ser separado de
Deus.
O livro apócrifo de Enoque disse de sofia: “Quando a sofia veio para
estar entre os filhos dos homens e não encontrou moradia, ela voltou ao seu
lugar entre os anjos” (Enoque,42,2). Fílon viu o logos como “a sabedoria
divina”, ou como “ponte entre Deus e o mundo, sem ser idêntico com
nenhum dos dois lados, mas compartilhando a natureza de ambos”. Sem o
saber, ele preparou com seus escritos o terreno para a igreja cristã. Na
filosofia grega, como um todo, “logos” era tido como “razão” ou “lógica”,
força abstrata que representa a ordem perfeita do Universo.
Onde lemos “logos” no grego, o hebraico, anterior ao grego, diz
“dawar” (o que está perfeito), atributo que somente pode ser atribuído a
Deus.
Alguns comentaristas citam as palavras de Provérbios cap. 8.27-30,
como o mais belo comentário da primeira afirmação joanina, já no Antigo
Testamento. Aqui o escritor, falando da sabedoria como pessoa (sofia),
estava anunciando (sem ter consciência do fato) a “Palavra”, o “Logos”:
“Quando ele preparava os céus, aí eu estava;
quando traçava o horizonte sobre a face do abismo;
quando firmava as nuvens de cima; ...
quando compunha os fundamentos da terra;
então, eu estava com ele e era seu arquiteto,
dia após dia eu era suas delícias,
folgando perante ele em todo o tempo”.
Será que a “sabedoria não criada de Deus”, a sofia, é sinônimo de
Cristo? Vejamos um pouco da história da mística sofiana até aos dias de
hoje. Primeiro a encontramos nos livros neotestamentários, embora mais
discretamente. Muitos nem mais a notam. Quem já meditou sobre a
palavra do próprio Jesus em Mateus 11,10b: “... mas a sabedoria é
comprovada por suas obras”. Será que Jesus, conhecedor profundo das
Escrituras, entendeu a si próprio como a sabedoria divina (sofia) – visível
entre os homens, assim como o Evangelista a apresenta no primeiro verso
de seu Evangelho?
Encontramos no Evangelho de Lucas (11,49) uma personificação de
sofia nas palavras do próprio Jesus: “Por isso diz a sabedoria de Deus: eu
lhes mandarei profetas e Apóstolos...eu vos digo, esta geração prestará
contas”.
O Apóstolo Paulo menciona Jesus como sofia de Deus: “...Cristo é o
poder de Deus e sabedoria de Deus” (1 Cor 1,24). Na época de Paulo, a
sabedoria não era vista como algo vago; a sofia de Deus era vista como real
e manifesta em Jesus.
15
Os Pais da Igreja ainda sabiam desse mistério do qual João 1,1 nos
fala. Irineu (Contra... IV, 20,3) disse: “Já demonstramos suficientemente
que o Filho estava permanentemente no Pai. A presença da sofia, isto é, do
Espírito que estava junto, antes da criação, é afirmada por Salomão”.
Percebemos que, para Irineu, a sofia era idêntica ao Espírito Santo. Nisso
ele diverge do entendimento de Paulo, que identifica a eterna sabedoria
com Cristo, como sempre é o caso na mística sofiana.
Não devemos ver discordância nas palavras de Irineu e Paulo no que
diz respeito à Trindade. Os dois entendimentos são aspectos distintos da
mesma realidade. O Espírito de Deus é idêntico com o Filho, e na
concepção que Irineu teve de sofia, ela representava a presença invisível de
Cristo.
No decorrer dos séculos, a mística sofiana desapareceu em maior
parte da vida da igreja do Ocidente. Santo Agostinho ainda falou dela em
“Confissões” (XI,9) e “Soliloquia” (I,22). Depois, ela ficou cada vez mais
esquecida no vasto campo da teologia ocidental. Na Idade Média, ela ainda
veio a brilhar em alguns hinos. Na Igreja Ortodoxa (russa), ela continua
viva. Muitas Igrejas são consagradas a ela. Lembramos da “Hagia Sophia”
(“Sagrada Sabedoria”) em Istambul (Constantinopla)”, levantada entre 532
e 537, sendo até o séc.15 a maior e mais famosa Igreja Cristã do Império
Romano. Em 1453 foi transformada em Mesquita, após ser tomada pelos
turcos. Desde 1935 ela serve como museu. Nos ícones venerados na igreja
ortodoxa, a sofia aparece muitas vezes junto com Maria e João Batista.
Os maiores representantes da sofiologia moderna eram o escritor
Solowjew e também Pawel Florensky, os dois mortos pelos comunistas.
Florensky não mais entendeu a sofia como sinônimo de Cristo. Para sua
mística sofiana, presente ainda hoje na igreja ortodoxa, a sofia “participa
da vida íntima da Trindade, sendo participante do amor divino”, mas não
como um quarto agente da Divindade.
Carson, no seu “Comentário a João” (Shedd), argumenta que o logos
de Fílon (sinônimo de sofia) não tem personalidade distinta e, isso é
decisivo, não se encarnou. De acordo com Carson, o Evangelista João
dificilmente falou de sofia quando usou o termo logos. Sofia e Cristo, para
João, não são sinônimos. Cristo é a sabedoria não criada de Deus que não
pode ser visto como um distinto do outro, como é o caso na concepção da
sofia. O logos de João estava no princípio com Deus; e o logos (= a
Palavra) era Deus.
João era judeu. Com a primeira sentença do seu Evangelho ele deixa
claro que “o logos” não é uma invenção da filosofia grega nem dele mesmo,
quando o aplica a Cristo. “Logos” é traduzido por “verbo” ou “A Palavra”.
Como uma designação neotestamentária vemos Cristo presente já no
Antigo Testamento como “descrição da pessoa, vontade e ação de Deus”. Ali
a “Palavra de Deus” é representada como uma Pessoa. A personificação da
16
“Palavra” torna-se vivida nos escritos judaicos da Antiga Aliança. “Pela
Palavra de Jeová, os céus foram feitos e pelo sopro de sua boca, o exército
dele” (Salmo 33.6). Desde o Princípio, Deus agiu através “da Palavra”.
“Disse Deus: haja...e houve...” (Gênesis 1.3,4,9,...). “A Palavra” expressa
ou reflete a mente de Deus e a revela aos homens. Essa “Palavra”, o
“logos”, a manifestação da Vontade Divina, é assim definido na Nova
Versão Internacional: “... aquele que é a Palavra, Ele estava com Deus,
e era Deus” (1.1).
A “Palavra”, que atuou na Antiga Aliança, entrou na história através
da “encarnação do logos (da Palavra)”.
João afirma que as duas afirmações são verdadeiras: A Palavra
estava com Deus, e ela era Deus. A preposição “pros”, traduzida por “com”
(Deus), aponta em direção a alguém. Nisto entendemos que “a Palavra” está
orientada em direção a Deus (confira João 14,6b), em um relacionamento
bastante íntimo. Assim entendemos que o Evangelista, mais tarde, diz que
a “Palavra” de que ele está falando, é uma pessoa com Deus e, portanto, se
diferencia de Deus, e a qual desfruta de um relacionamento pessoal com
ele (Carson). Confira João 7,28b.
No mais: a Palavra era Deus. Não há como traduzir a sentença de
maneira diferente. Os teólogos se dividem na interpretação desse “era
Deus”. Para nós, leigos, não é a falta de artigo (o Deus) que decide pela
leitura, mas um raciocínio lógico. Se João dissesse que a Palavra era Deus
(ênfase em “Deus”), diria que nenhum ser divino poderia existir separado da
Palavra; o que não é o caso. Se, no entanto, lermos: “a Palavra era Deus”
(ênfase em “era”) não somente confirmamos a declaração do Evangelista
(com Deus), como afirmamos que a “Palavra” em si não constitui toda a
Trindade; não obstante a divindade que pertence ao restante da Trindade
pertence também à Palavra” (Tasker).
“A Palavra estava com Deus, a eterna companheira de Deus; a
Palavra era Deus, o próprio ser de Deus” (Clowney).
Se olhamos como o Evangelista introduz Jesus como “logos” (verbo,
melhor: a Palavra), notamos que pouco se importa com a compreensão
particular do termo logos por seus contemporâneos, sejam eles gnósticos
ou gregos cultos. Ele usa a base que o próprio Antigo Testamento já tinha
colocado. João deseja que todo do seu Evangelho seja lido e interpretado à
luz desse entendimento.
João evita, por enquanto, a denominação “Filho de Deus”. O tempo
dele e a cultura pagã na qual ele está inserido conhecem muitos “filhos de
deuses”, gerados por deuses (gregos). Demonstrando que “o Logos no
princípio e sempre estava com Deus”, João está excluindo qualquer
identificação de Jesus com um dos muitos deuses venerados na época.
17
Cap. 1.2-5
(2) Ele estava com Deus no princípio. (3) Todas as coisas foram feitas por intermédio
dele; sem ele, nada do que existe terá sido feito. (4) Nele estava a vida, e esta era a
luz dos homens. (5) A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.
Os versos 1 até 18 do cap. 1 do Evangelho de João são conhecidos
como “Prólogo”. Nesse Prólogo encontramos definido em poucas e elevadas
sentenças quem o autor reconhece na pessoa de Jesus e o que este
significa para o mundo. O estilo dessa passagem de alto teor poético
contrasta com o resto do Evangelho, escrito em grego simples e claro. Esse
“poema” fala do “Verbo de Deus” que existiu desde o princípio e sempre foi
Deus e se “fez carne” (encarnou) em Jesus Cristo. Nunca mais Jesus é
chamado de “Verbo” em outra passagem do Evangelho. É possível, mas
não provável, que esse “Prólogo”, vindo de outra fonte e trabalhado por
João, ou sendo um hino da Igreja primitiva que fora acrescentado pelo
autor do Evangelho como um início apropriado ao seu livro, já editado na
sua forma inicial.
(2) Ele estava com Deus no princípio. Na eternidade passada, “no
Princípio”, o logos (Palavra) estava com Deus.
Criaturas tornam-se pessoas distintas quando falam. Palavras
enunciadas por alguém revelam e expressam pensamentos, sensações e
vontade. Como acontece conosco, quando falamos, estamos nos
identificando por palavras e esperamos ser ouvidos.
O Verbo, melhor: A “Palavra” (o “logos”), sempre estava com Deus e
agora quer ser ouvido. Quando o autor da “Carta aos Hebreus” inicia sua
epístola aos cristãos de origem judaica, ele diz: “Havendo Deus, outrora,
falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes
últimos dias nos falou pelo Filho...” (Hebr. 1.1). Deus falou através da
encarnação do “logos criador”.
(3) Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele,
nada do que existe terá sido feito. O autor de João diz: “O “logos”, isto é
a “vontade expressa de Deus”, está por trás de toda a criação.
O mesmo “logos” que hoje está por trás de todo o Universo, estava
com Deus antes que houvesse Universo, não importando o ”quando” dessa
criação. Quando o Universo veio a existir, o “logos de Deus” já existia. O
logos não é criado; ele é Deus, e poderíamos dizer que esse “logos” era o
agente de Deus na criação de tudo que existe.
A identificação do logos personificado com a poeticamente
personificada “Palavra de Deus” em Is.55,11 representa uma interpretação
elucidadora do texto do Antigo Testamento.
18
De acordo com Carson, o grego do verso 3 poderia ser mais bem
traduzido como: “Todas as coisas foram feitas por ele, e o que foi feito, de
alguma forma, foi feito sem ele”. “Assim como em Gênesis capítulo 1, em
que, por causa da Palavra falada de Deus tudo veio a ser, e assim como
em Provérbios 3,19; 8,30, em que a Sabedoria (sofia) é o meio
(personificado) pelo qual tudo existe, também aqui, a “Palavra” de Deus,
entendida no Prólogo como um agente pessoal, criou tudo”.
(4) Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens.
A “Vida” (não a vida no sentido da criação), a Vida “estava”
(passado!) nesse “logos” pré-existente. Vida e Luz aparecem como dois
termos condicionais para a criação. Notamos que o verbo está no tempo
passado: “estava”. Luz e Vida como representantes do mistério da criação
não são somente bens escatológicos (das últimas coisas); são bens
protológicos, isto é, bens preexistentes. Eles são a origem de tudo. A Luz
brilhou desde a eternidade. O primeiro livro da Bíblia, Gênesis, inicia o
relato da criação com as palavras: “Disse (logos) Deus: Haja luz; e houve
luz” (Gen.1.3).
A vida do logos de Deus é a luz dos homens. A visão de João é
universal. Para ele não há religiões ou confissões predestinadas a
possuírem Luz e Vida. A luz dos homens... o termo “homem” aparece no
sentido judaico, como “pessoas”. Por essa razão é que a vida contida no
logos de Deus é para todos os homens. O Prólogo fala de “todos” (verso 7);
de “todo homem” (verso 9); e de “todos quantos” (verso 12). Esse logos
divino é a Luz para todos os homens, independentemente de como alguém
viesse a se posicionar: abraçando-a como Luz ou odiá-la e fugir.
Nenhuma cultura ou religião pode separar-nos da presença do
logos; Em todas as circunstâncias ele está presente como Luz.
“Vida” e “Luz” são símbolos religiosos quase universais. Para João
são formas de focalizar as excelências da “Palavra”: “Nele estava a vida, e
esta era a luz dos homens”. Carson chama a atenção ao relacionamento
entre Deus e a “Palavra” no Prólogo. Ela é semelhante ao relacionamento
entre Pai e o Filho no restante do Evangelho. Ambos (1,4 e 5,26) insistem
em que a “Palavra/Filho” (logos) compartilha da vida de Deus, mas tem
existência própria. Mais tarde, Jesus afirma que ele é ambos: a Luz do
mundo (8,12; 9,5) e a Vida (11,25; 14,6). Nas fontes judaicas, tanto a
Sabedoria (sofia) como a Torá são geralmente associadas com Vida e Luz.
O Evangelista João as une a Cristo, a “Palavra” (logos).
O Prólogo nada fala da caída do homem, do pecado original, do
abismo entre Deus e Sua criação. Para João, a Luz brilhou desde a
eternidade passada e continua brilhando. Deus, no Antigo Testamento e
Seu Filho, no Novo Testamento, quando se identificam com o “Eu sou”,
(que sempre simultaneamente é um “Eu serei”) não podem ser reduzidos
19
ou presos a determinada época, seja ela o período antes da queda do
homem ou a época da revelação do logos em forma humana na pessoa de
Jesus Nazareno (ainda não identificado por João). Deus e seu logos não
estão sujeitos a categorias de tempo.
A Luz brilha – e sempre! Essa Luz se fez presente entre os homens,
ela se “encarnou”; ela, que brilha desde a eternidade passada, e agora
resplandece entre os homens!
(5) A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.
Repentinamente aparece o termo “trevas”. Nada nos é dito sobre sua
origem. O Prólogo não está interessado em um dualismo especulativo como
a Gnose, por exemplo. Na Gnose, Luz e Trevas são duas realidades em
constante conflito. E para a “Seita de Qumran”, os “Filhos da Luz” estão
combatendo os “filhos das trevas”.
A forte doutrina judaica da criação evita, radicalmente, o dualismo
do qual o mito e a tradição (cristã) estão impregnados. Para João, a Luz
brilha, serenamente, a despeito das trevas. Não somente “no Princípio” o
Logos estava presente; ela brilha agora, na situação em que a igreja,
melhor, em que você se encontra.
Agora, a Luz é revelada, manifestada, recebe um nome, aparece na
altura da compreensão humana. O Apóstolo não tem palavras dignas o
suficiente para expressar sua exultação. Ele inicia sua “Primeira Carta”
com a afirmação jubilosa: “... o Verbo da Vida, e a vida se manifestaram, e
nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida
eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada” (1.João 1.2).
“As trevas não a derrotaram (ou: não prevaleceram contra ela”...) A
tradução com o termo “compreenderam” apresenta alguma dificuldade,
pois não transmite seu conteúdo com termos usados hoje em dia. Não nos
é dito que as trevas não venceram a Luz. Não havia luta e a luz saiu
vencendo. Na procura da melhor definição aparece o termo “subjugar”. A
Luz está brilhando e treva nenhuma consegue apropriar-se dela. O
propósito de Deus não é alterado ou prejudicado pelas trevas existentes.
O caráter e a capacidade das trevas consistem exatamente na revolta
contra a luz. Não é por acaso, que a primeira Palavra enunciada por Deus,
no primeiro dia da criação (Gen 1,3) criou a Luz e no verso quatro “Deus
fez separação entre a luz e as trevas”. Somente essa separação tornou
presente as trevas como que são (Thyen). Elas, em si, são um “nada”. Elas
existem – implicitamente – como rebelião contra a luz. Como trevas
somente existem como “oposição” a Deus, elas nunca poderão nem
entender, nem reconhecê-lo jamais. Não devemos identificar “o mundo”
com as trevas; o mundo e os homens nele são alvos do amor incondicional
de Deus (João 3,16). A sentença: “e a luz resplandece no mundo” nos
20
afirma que o brilho dessa luz é permanente e onipresente. O Evangelista
fala do caráter vitorioso dessa luz: as trevas não prevaleceram contra ela.
Elas nunca prevalecerão. A mensagem da Luz é uma mensagem de vitória.
No Prólogo (1,1-18), João atribui a luz à “Palavra”, ao logos
personificado de Deus. Citando Carson: no Prólogo, a vida inerente à
“Palavra” (logos) parece estar relacionada com a criação. A vida com
existência própria da “Palavra” foi tão dispensada na criação que ela se
tornou a Luz da raça humana (“de seres humanos”). Por enquanto, João
está mais interessado na fonte da Luz (a Vida da “Palavra”) e seu propósito
para a raça humana, que no modo ou propósito, de sua “distribuição”.
Mais adiante, no resto do Evangelho, os termos “luz” e “vida” se
relacionam com a “salvação”.
• Como você entende a ação de Deus no mundo e,
especificamente, na sua vida? Você a entende como uma luta
entre forças quase iguais, entre o bem e o maligno? Ora ganha
um, ora o outro. Você acha que são os demônios que estragam
tudo? Será que eles são fortes demais?
• Ouça as palavras do Evangelista! A Luz brilha! As trevas não a
impedem, não prevalecem contra ela.
• Assista menos programas “religiosos” da TV que apresentam
“luta livre de ‘pastores’ com as trevas” e releia e medite o texto
de hoje, no seu contexto, no Evangelho de João!
Se há algo impedindo a ação de Deus em sua vida, esse algo é você
mesmo! Pois a Luz brilha e resplandece exatamente nas trevas e as trevas
não podem se apropriar dela.
•
A Luz de Deus está presente. Pense nisso!
Cap.1.6-9
(6) Surgiu um homem enviado por Deus, chamado João. (7) Ele veio como
testemunha, para testificar a respeito da luz; a fim de que por meio dele todos os
homens cressem. (8) Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz. (9)
Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina a todos os homens.
No exato momento em que a “Palavra” (Logos) juntamente com as
palavras “... a luz resplandece nas trevas” entra na história humana, o
Apóstolo João introduz o testemunho de João Batista, ex-eremita e profeta
e que, repentinamente, apareceu na região sul do rio Jordão, chamando
todos para o arrependimento. Este João era o antigo “Mestre” do nosso
Evangelista, antes que este conhecesse Jesus. Lembremos: O Evangelista,
quando jovem, seguiu ao Batista, impressionado com a mensagem
escatológica dele (anunciando a iminente separação dos fiéis verdadeiros
21
dos falsos). Quando o nosso João conheceu Jesus, ele abandonou o
Batista. O “Movimento Batista”, caracterizado pelo “batismo do
arrependimento para perdão dos pecados”, continuava existindo
paralelamente ao de Jesus, mesmo após a morte de seu fundador. Nas
cidades de Alexandria e mesmo em Éfeso onde João provavelmente passou
seus últimos anos de vida, ainda havia discípulos da “seita batista” na
época em que o velho Apóstolo se propôs a escrever seu Evangelho. Os
seguidores do Batista “não conheciam o caminho de Deus” (confira Atos
18.25-28 e 19.1-7) e viam no Batista uma figura messiânica. Assim,
quando João introduz a pessoa do Batista bem no início do “Prólogo”, ele
fala de alguém conhecido entre seus leitores.
(6) Surgiu um homem enviado por Deus, chamado João.
A natureza exata da obra de João Batista precisava ser esclarecida.
O Batista nunca reivindicou para si função messiânica que alguns lhe
atribuíam. Ele era profeta, homem, embora “enviado por Deus” e
comissionado por Deus para testemunhar a respeito “da luz”.
(7) Ele veio como testemunha, para testificar a respeito da luz;
Semelhantemente aos profetas no Antigo Testamento, João Batista fora
escolhido e enviado por Deus para cumprir uma determinada missão
(confira Lucas cap.1.5-23 e 57-80).
O Apóstolo não se refere à atividade desse “último e maior profeta”
(como Jesus implicitamente o chamou em Mateus 11.11) e focalizada nos
Evangelhos sinóticos. Para João, a real função do Batista era “dar
testemunho” a respeito da luz, indicar e apontar “aquele que veio e que era
antes dele”. As palavras do Batista quando apontou para Jesus, estão
registradas no verso 15: “Este é o de quem eu disse: o que vem depois de
mim tem, contudo, a primazia, porque já existia antes de mim”. Apontar
Jesus era a verdadeira missão do Batista, cujo movimento após a sua
morte violenta havia se transformado em seita que praticava o “batismo de
arrependimento”.
“...a fim de que por meio dele todos os homens cressem.
Para o Apóstolo, a única “resposta à altura” diante da luz que veio a
“manifestar-se no tempo” (entrar na história) é “crer”. É interessante
observar que, enquanto João usa o verbo “crer” mais de cem vezes no seu
Evangelho, nenhuma vez ele faz uso da palavra “fé”.
O verbo “crer” indica atividade, dinâmica, vida, implica em resposta;
enquanto “fé” pode ser um posicionamento estático, morto.
O testemunho de João Batista, encravado na história e que no
momento da composição do Evangelho já pertencia ao “passado”, apontou
para a “luz eterna” que, ainda hoje, “alumia, brilha”. O Batista era o
“credencial”, comissionado por Deus para que todos cressem!
22
(8) Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz.
Mais uma vez, em atitude apologética (defesa da fé), o autor procura deixar
claro que a mensagem do “Cristo ressurreto” está acima da do Batista. A
ênfase de João nesse ponto nos mostra que, na época, deve ter havido
certa rivalidade entre os dois movimentos. Resumamos como o Apóstolo
argumenta:
• O Logos era (desde a eternidade) > ... João Batista veio;
• Cristo é a “Palavra” > ... João “era homem”;
• Cristo era o próprio Deus > ... João era “comissionado por
Deus”;
• Ele é a verdadeira luz > ... João veio para testemunhar a
respeito da luz;
• Cristo é o objeto da confiança > ... João era o agente cujo
testemunho deveria levar os homens a crer na verdadeira luz.
(9) Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina a todos
os homens.
O autor do Evangelho mostra a importância do atributo “verdadeiro”.
Ele enfatiza a “verdadeira” luz. Mais adiante, Jesus falará da “videira
verdadeira” (cap.15); dos “verdadeiros adoradores” (cap.4.23); do
“verdadeiro pão” (6.32); do “testemunho verdadeiro” (21.24) etc. A
“verdadeira Luz” contrasta com outras luzes, figuras messiânicas, deuses e
deusas das quais a Antiguidade estava repleta. Todas elas sucumbiram no
tempo. A “luz verdadeira”, porém, da qual João fala, continua a iluminar
“todo homem”.
Há divergências entre os comentaristas quanto à interpretação desse
“todo homem”. Vamos ficar com a versão que nos parece a mais sensata e
verdadeira: O Evangelista não focaliza o homem; ele está falando da luz e
da autoridade e universalidade dela. Essa luz é exclusiva. Não há outra luz
que pudesse iluminar ou concorrer com a verdadeira luz. Não existe
condição humana que pudesse excluir alguém do alcance da verdadeira
luz. Quem se abrir, em qualquer condição, cultura ou época, será
iluminado pela luz verdadeira.
•
Todo homem está sendo iluminado!
•
Você já culpou Deus ou outrem qualquer pela sua condição
miserável ou falta de Deus? Lembre: A verdadeira Luz ilumina
todo homem!
Abra, portanto, sua vida para “A Palavra”; a “luz verdadeira”!
23
Cap.1.10-13
(10) O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo
não o conheceu. (11) Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. (12) Mas, a
todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber,
aos que creem no seu nome; (13) os quais não nasceram do sangue, nem da vontade
da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
(10) O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio
dele, mas o mundo não o conheceu. A partir daqui, o Evangelista passa
a falar do Verbo no tempo passado. O Verbo estava no mundo.
Para os helenistas, mundo (lit.cosmos) significava a “ordem
universal”. João usa o termo “cosmos” para o “Tudo” que fora criado desde
o Princípio, incluindo a humanidade.
O Verbo, pelo qual tudo veio a existir, estava presente nesse cosmos.
João já está falando claramente de “alguém”, embora ainda não o tenha
apresentado. Fala da inexplicável inimizade entre “ele” e seu “cosmos”. Ele
não questiona nem especula sobre o “porquê” dessa incompatibilidade.
Simplesmente consta o fato: A criação não “conheceu” seu criador.
O termo “conheceu” é importante. João usa o termo de acordo com o
pensamento judaico, bíblico, ao contrário do pensamento grego de sua
época e da cultura que ele conhecia e o considerava no sentido científico,
objetivo, racional, sem envolver-se, portanto, no campo subjetivo, ético.
Enquanto o grego pensa com a razão e a Gnose especula, a Bíblia
“conhece” no nível ético-pessoal, desde o Antigo Testamento. Conhecer
significa também “eleger” (confira Jeremias 9.3 ou Isaías 1.3) e sua
negação seria “rejeitar”. Até a relação sexual entre marido e mulher é
chamada “conhecer-se” (que em português é sinônimo de “unir-se”). O uso
negativo do verbo “conhecer”, aplicado à humanidade, acentua o antinatural do seu comportamento. Ela não O conheceu – ela O repudiou!
(11) Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Aqui a
rejeição do “logos histórico” chega ao seu último estágio. Quem eram “os
seus” e o que é considerado “dele”? Contrariando a terminologia da Gnose,
João fala aqui como judeu (hebreu).
Com base no Salmo 24.1, que diz: “Ao Senhor pertence a terra e tudo
o que nela se contém, o mundo e o que nele habitam”, poder-se-ia pensar na
humanidade como um todo, sendo “seu”. É mais provável, porém, que
João, judeu e participante da relação especial de JHWH (Deus) com Israel,
seu povo, esteja aplicando a tragédia do logos encarnado em Cristo ao seu
próprio povo (Salmo 135.4: “Porque o Senhor escolheu a Jacó, a Israel como
seu tesouro pessoal”). A eles, Deus havia confiado toda herança (confira
Romanos 9.4-5).
24
No mais, todo cristianismo primitivo (no sentido de “inicial”) lia o
Antigo Testamento à luz do Cristo encarnado. Existe uma tragédia maior
do que não ser recebido pelos que são “seus”?
(12) Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem
feitos filhos de Deus;...
João não especula sobre a sorte dos que têm rejeitado a Luz. Ele vê
“através do horizonte” (uma afirmação africana para quem vê onde
aparentemente não há nada). Nem todos têm rejeitado a Luz!
A expressão “a todos quantos” equivale a “qualquer um”, seja ele
judeu ou não-judeu, culto ou ignorante, rico ou pobre.
“Receber Jesus”? Se tomamos a palavra “receber” no seu sentido
literal, ela fica mais clara. Veja: não há visitantes que recebemos em nossa
casa e outros que evitamos receber? “Receber Jesus” implica em um
comprometimento pessoal. Se você recebe uma visita, é porque a convidou.
O mesmo se aplica no caso da Salvação. Hoje, o termo “aceitar Jesus” não
tem essa forte conotação, porque aprendemos a pensar de maneira
diferente da do judeu. Aceitar alguém ainda não implica em
relacionamento pessoal com ele. É simplesmente tolerá-lo. Por essa razão,
e porque João conhecia o pensamento helenista (do qual somos herdeiros)
é que João (e com ele todo o Novo Testamento) nunca convida a “aceitar”
Jesus. Você deve “recebê-lO”!
“Mas a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem
feitos filhos de Deus; ...
João entende a salvação como “adoção”. O adotado recebe o direito
de ser chamado pelo nome de seu novo pai. Não é assim no campo social?
Somente honrado pelo “direito de ser chamado filho” alguém se torna filho
legítimo de um pai.
Para João não somos todos filhos de Deus. Somos, sim, todos
criados por ele. “Somos todos filhos de Deus” é pensamento helenista,
como a citação do “Fenômeno de Arato” (séc. 3 a.C.), usada por Paulo em
Atos 17.28.
Ninguém se torna “Filho de Deus” por herança (membro do povo
eleito) como os Rabis ensinavam, nem por esforço ético ou código moral
(religião) ou sabedoria oculta (Gnose = espiritualismo), muito menos por
ritos sacramentais, como batismo e crisma. Somente sendo “agraciados” –
“recebendo dele o poder de ser feito filho” - nós nos tornamos Filhos de
Deus.
Os judeus vangloriavam-se de seus direitos hereditários e chamavam
a si mesmos filhos de Abraão.
25
Agora, os que “recebem a Ele”, recebem um direito (o poder), o direito
de se tornarem filhos (uma comparação tipicamente joanina) não apenas
de Abraão, mas de Deus.
“... a saber, aos que creem no seu nome” Ainda não aparece o
nome Jesus, mas já se torna claro de quem o Prólogo fala. A “adoção”, ou
“o poder para ser feito filho de Deus” corresponde ao “crer em seu nome”.
Esse termo é próprio do Evangelho joanino e mais profundo do que o
“crer” nos três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Nesses, a fé
sempre está relacionada a algum feito, a uma cura, a uma revelação de
poder ou a determinadas palavras de Jesus.
No Evangelho de João e nas suas “Cartas”, o objeto da fé sempre é a
pessoa de Jesus. Na intimidade, a confiança demonstrada ao recebermos a
pessoa de Jesus leva-nos a um relacionamento de confiança filial, ingênua,
com o Deus Pai.
(13) “... os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne,
nem da vontade do homem, mas de Deus”.
A fonte ou a origem da filiação Divina não dependem da ação nem
do homem nem da mulher; ela é contrária a qualquer esfera humana.
Onde lemos “carne”, o original diz: “fluxo sanguíneo” (sangue), o que
identifica a parte feminina. Com essa exclusão genérica da espécie
humana, mais uma vez, fica evidente que a filiação Divina é dádiva Divina
e não resultado de esforço humano.
Em primeiro plano, João nega o pensamento e o ensino rabínico
judaico que condicionam propriedade Divina à filiação israelita, à sucessão
hereditária, à genealogia judaica. João abole, de uma vez por todas, essa
“teologia do sangue” (Schlatter).
Uma leitura antiga da Igreja primitiva, posteriormente não aceita
como autêntica, diz: “... o que não nasceu” (no masculino, singular) ao
invés de “... os quais não nasceram...” (plural, geral). A primeira versão fora
usada para argumentar em favor do nascimento virginal de Cristo, uma
vez que o masculino singular obviamente se referia a Cristo. Apesar de
ignorar “o sangue” (mulher) - que era uma parte no nascimento de Jesus João não argumenta com um nascimento virginal. Simplesmente não lhe
interessa.
“O verbo se fez carne....e a todos quantos O receberam, deu-lhes o
poder de serem feitos filhos de Deus...”: essa é a proclamação solene do
Prólogo.
• Você já pensou a respeito de sua identificação “cristã”?
•
Você é filho de Deus ou - adepto de uma religião?
•
Lembre-se do “...a todos quantos” de João! Convide e receba-O!
26
Cap.1.14
(14) E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.
Um entre seis pastores da Holanda não mais crê em Deus ou nem
acredita que Deus exista (Fonte: Reformierte Presse, outubro 2006). Na Igreja
Católica Romana, a riqueza da liturgia, as regras eclesiásticas e a vivência
rigorosamente estruturada na hierarquia eclesiástica ainda não permitem
ao religioso pensar abertamente, tão livremente; mas como indivíduo, na
solidão do nosso mundo póscristão, nem ele está a salvo dos ataques da
dúvida e da incredulidade. Onde esse “cristianismo contemporâneo”
começou a se desligar de sua fonte?
O cristão só pode falar de “seu Deus” a partir do aparecimento desse
“seu” Deus, até então considerado um “Deus tribal” do povo israelita.
Como e onde é que esse “Deus de Israel” tornou-se Nosso Deus e “habitou
entre nós?” Quem no-lo - garante como Verdadeiro? Para responder a essa
questão voltaremos às palavras de João.
(14) E o verbo se fez carne e habitou entre nós, ...
Até agora, o Evangelista usou termos pouco concretos; falou do
Princípio, do verbo, da luz, da vida. A partir do verso 14 ele muda. O
“estava no mundo” muda para o concreto e real: “se fez carne (físico,
portanto limitado e mortal) e habitou entre nós”. Com essa declaração, o
Apóstolo se distancia de vez da interpretação helenista (em moda, na
época) em que as divindades, deuses e deusas se camuflavam por curto
período de tempo como se fossem homens ou mulheres comuns para, após
realizarem algum feito entre os mortais, voltarem ao seu lugar de origem,
livres do peso da falsa humanidade.
Quando João diz “carne”, ele aponta para a fraqueza e para a
limitação, para o sofrimento e para a realidade da morte inerente à carne.
“Carne” pertence definitivamente a esse mundo. Veja quando Isaías, em
40.6, reflete a respeito da vida humana: “Toda a carne é erva, e toda a sua
glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas
o hálito do Senhor...”
João afirma: O impensável aconteceu: “O Verbo se fez carne e
habitou entre nós”. Somente porque Deus se tornou “carne” houve história,
e o relatório do Evangelista (da Boa Nova) podia ser escrito por João e os
demais Evangelistas. Os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) viam mais em
Jesus o cumprimento das profecias, o “Messias prometido por Deus”. João,
diferentemente deles, vê em Jesus o Deus encarnado. Deus em forma de
pessoa humana? Perguntamos: Isso tem somente valor simbólico? É
possível imaginarmos que Deus, O Eterno, apareça em pessoa humana,
assumindo o peso dessa humanidade, levando-o até ao final mais trágico
e pesado possível?
27
Tudo depende da resposta a essa questão.
Onde está o “limite da possibilidade Divina” de abaixar-se até à Sua
criação humana? Renomados pensadores das religiões judaicas e cristãs
procuravam por alguma elucidação. No melhor dos casos esse esforço
apenas permitia um vislumbre das possibilidades de conhecimento da
verdade.
Filo de Alexandria (30 a.C até 40 d.C.) nada ainda sabia da crença
cristã da encarnação. Confrontado com a tendência do imperador Gaio
Calígula para a “Apoteose” (Divinização do homem), ele sentenciou: “A
transformação da natureza criada e corruptível em natureza Divina e
incorruptível consiste para a nação judaica na mais horripilante blasfêmia.
Antes Deus se transforme em homem que homem em Deus” (LegGai118).
Se Filo houvesse tido conhecimento da crença cristã, certamente
ficaria surpreendido e teria repensado seu pronunciamento.
Em 160 d.C., Justino Mártir argumentou contra a tradição judaica, já
formada, que considerava a encarnação de Deus algo absolutamente
impossível (Dialogus cum Tryphone Judaeo).
Com o cristianismo em ascensão, o judaismo (geralmente com fins
polêmicos), afirmava a impossibilidade da encarnação. Em tempos
posteriores, esporadicamente, Apoteose (movendo de baixo para cima:
homem declarando-se Deus) permaneceu como blasfêmia absoluta (giddûf)
enquanto que, para um judeu, uma encarnação de Deus (movendo de
cima para baixo) poderia ainda ser, de alguma maneira, compreensível.
O professor de filosofia, judeu de linha ortodoxa, Michael Wyshorogod
diz (resumidamente):
“O judeu não pode aceitar a encarnação porque a Palavra como é ouvida
no Judaismo não lha diz e porque a fé judaica não a confessa. Se a
Igreja (cristã) a aceita, acontece não por ela ter descoberto o fato, mas
sim, porque ouviu que essa fora a determinação soberana e isenta de
Deus – uma decisão impossível a ser prevista pelo homem. ..Interessante
é que sob o ângulo de vista da soberana liberdade de decisão de Deus,
que as duas religiões admitem, as diferenças entre as duas religiões não
desaparecem, mas entrem em certa coerência...”
“A encarnação, do ponto de vista do Antigo Testamento, não era nem
anunciada nem esperada. Ela deve ser vista como o presente mais
inesperado e imprevisto. Só após ter acontecido o inesperado, - post
festum – podemos discutir sobre se a encarnação vai contra o Espírito da
Antiga Aliança ou não. Um Deus livre e onipotente; se Ele decidir tornarse homem, quem O pode reprimir ou contradizer?” (§ 151-154 Thoma, Clemens.
Teologia cristã do judaismo).
28
Nenhuma Cristologia (nem a joanina) pode ignorar o ponto principal
judaico: A obra de Cristo não pode ir contra o Domínio e a Autoridade do
Único Deus Pai. O Apóstolo Paulo, como fariseu e bom judeu, não deixou
em nenhum de seus escritos a menor dúvida a respeito. Vemos isso no
trecho de 1.Cor.15.20-28 quando no último cumprimento da história da
redenção, acontece “a sujeição do Filho Àquele que todas as coisas lhe
sujeitou, para que Deus seja tudo em todos”. Leia o texto indicado! Ele lhe
ajudará a entender melhor Jesus em relação a Deus Pai.
(14) E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.
“... e habitou entre nós” O original diz “tabernaculou” entre nós.
Tabernacular é morar “por enquanto”, assim como o povo “tabernaculou”
durante seus 40 anos de peregrinação no deserto, após ter saído do Egito.
Como pode Jesus estar presente entre nós? Cada um de nós tem sua
ideia a respeito. Uns imaginam Jesus como participante invisível numa
reunião; outros O veem pairando sobre a Igreja e outros mais entendem
Jesus habitando “neles”, fazendo parte de seu espírito. Vejamos como a
Bíblia nos mostra os estágios da presença Divina.
Na época antes do primeiro Templo em Jerusalém, Davi, após
apaziguar a cidade de Jerusalém, declarou: “... O SENHOR, Deus de Israel,
deu paz ao seu povo e habitará em Jerusalém para sempre” (1.Cr.23.25).
Quando seu filho Salomão edificou uma casa para o SENHOR (o primeiro
Templo), ele confessou na sua oração de inauguração: “...mas, de fato,
habitará Deus com os homens na terra? Eis que os céus e os céus dos céus
não te podem conter, quanto menos essa casa que eu edifiquei... Quando
houver...ouve tu dos céus, do lugar de tua habitação e perdoa...”
(2.Cr.6.18,30,33,35,39). Diz a Bíblia que “a Glória do Senhor” (shekinah)
encheu o Templo e não Deus pessoalmente.
Agora João anuncia que “O Verbo” pessoalmente habitou entre os
homens. Paulo, na sua “Carta aos Filipenses” explica o que esse fato
significava: “..não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes, a si
mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se
humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fil.26-8). Não
havia dúvida nem em João nem em Paulo da verdadeira “encarnação” do
Verbo. Por um tempo, até a sua execução por parte dos homens, o Verbo
“tabernaculou” entre os homens.
Dali em diante, como ressurreto, Ele continua habitando entre nós,
mas em um nível diferente. Paulo pergunta aos cristãos em Corinto: “...
vocês não sabem que vocês são o santuário de Deus e que o Espírito de
Deus habita em vós?” (1.Cor 3.16). Jesus havia prometido aos seus (João
14.16) que o “Consolador” viria no lugar dele. Popularmente dizendo, o
Consolador viria como sucessor da pessoa de Jesus; não existe sucessor
humano!
29
O final da habitação de Deus, quando o Filho tiver devolvido ao Pai
tudo o que Este lhe sujeitava, como lemos pouco antes (1.Cor.15.20-28),
vemos descrito no Apocalipse: “Então ouvi grande voz, vindo do trono,
dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus mesmo estará com
eles. Eles serão povo de Deus e Deus mesmo estará com eles. E lhes
enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá , já não haverá
luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram”
(Apoc.21.3-4).
Numa intensidade crescente, numa revelação cada vez maior, até
chegar “à nova criação” descrita por João em Apoc. 21, Deus se fez e fará
presente entre os homens.
João, Apóstolo, afirma a respeito dos três anos vividos junto com seu
Mestre: O Verbo habitou entre nós cheio de graça e de verdade, e vimos
a sua glória, glória como do unigênito do Pai.
A Palavra encarnada era cheia de graça e de verdade. João está
dirigindo seus leitores para Êxodo 33-34. Lá Moisés implora a Deus: “Peçote que me mostres a tua glória” (Ex.33,18). O senhor responde: “Diante de
você farei passar toda a minha bondade, e diante de você proclamarei o
meu nome: o SENHOR(YHWH). Terei misericórdia de quem eu quiser ter
misericordia, e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão”
(Ex.33,19). A glória de Deus, portanto, é supremamente sua bondade.
“E passou diante de Moisés, proclamando: SENHOR, SENHOR, Deus
compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que
mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado”
(Ex.34,6-7).
João aplica o termo “Graça” diferentemente do homem. Nós vemos
na graça sinal de compaixão quando olhamos de baixo para cima.
João olha de cima para baixo, ele usa a visão de Deus na Sua
encarnação. No mover-se de cima para baixo, da “Doxa” para “os que estão
nas trevas”, ele reconhece a “Graça” que nos alcançou. Nunca a Glória de
Deus se manifestou nos reinos desse mundo, na pompa ou no poder
temporal. Assim como Deus havia escolhido o mais insignificante e menor
povo para Si, Ele revelou Sua Glória em “fraqueza e loucura” (1.Cor1.25).
A ‘verdade’ é aquilo que é real, contra o que é irreal e engano. O
salmo 89,14 canta da “Graça e Verdade” que precedem a ele. Na tradução
de Lutero o termo “verdade” é interpretado por “fidelidade”. A verdade não
se altera nunca, ela é fiel.
... e vimos a sua glória,...
30
“Até esse ponto, o leitor de João pode ser desculpado por pensar que a
glória manifesta na Palavra encarnada era abertamente visível – que o
Jesus que está para ser apresentado por nome andou pela Galileia e
pela Judeia com um tipo de luminescência que o distinguia, pois não
era um mortal comum, mas o Filho de Deus. Mas, à medida que João
prossegue com seu Evangelho, torna-se cada vez mais claro que a glória
que Cristo manifestou não foi percebida por todos (...); os olhos da fé
eram necessários para ‘ver’ a glória que era revelada pelos sinais. Desse
modo, à medida que o livro avança, a revelação da glória de Jesus está
especialmente ligada à cruz de Jesus e à exaltação (ressurreição) que se
segue...” (Carson, fim da citação)
Nós vimos... Vimos o quê? Muitos haviam visto o Nazareno e
classificado-o de “samaritano” (isto é, infiel); “herege” (traidor da fé);
“endemoninhado”; “louco” (João 7.20;8.48;8.52;10.20) ou simplesmente
“filho de carpinteiro”; um ninguém no mundo da religião. Outros o viam
como homem sábio, um mestre entre muitos outros, cuja sabedoria
possivelmente vinha de Deus.
João via algo totalmente diferente: havia visto a “doxa” (Glória), que
no Antigo Testamento significa “pesado, monumental, honrado”. O Deus do
Antigo Testamento era acima de tudo “pesado, grande, glorioso”. João e
seus amigos viam no homem sofredor que foi torturado e morto “a Glória”
de Deus; do único Deus capaz de sofrer junto com sua criação sem alegar
para si vantagens ou direitos especiais que o libertassem daquilo mesmo
que ele colocara sobre o ombro de suas criaturas. João viu no crucificado
Aquele que devia ser “levantado para que todo o que nele crê, tenha a vida
eterna” (João 3.14,15). A Glória aparece em forma humana.
A glória (doxa) corresponde ao hebráico “kabôd”, uma palavra usada
para denotar a manifestação visível da autorevelação de Deus em uma
teofania (Ex.33,22/ Dt 5,22). Jesus foi supremamente ‘glorificado’ em sua
morte e exaltação (7,39/12,16.23/13,31.32).
... glória como do unigênito do Pai.
João reconheceu na pessoa de Jesus o “Verbo, cheio de graça e de
verdade”, como do “unigênito” do Pai. A palavra estranha “unigênito” é
resultado de um processo de tradução da palavra “mono-genes”. O sentido
mais próximo a essa expressão encontramos em: “único no seu modo de
ser”.
O Evangelista lhe apresentará através desses estudos seu relato a
respeito “... do que temos visto com os nossos próprios olhos, o que
contemplamos e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da
Vida...” (1.Carta de João 1.1).
• Quem é Jesus para você?
• Você enxerga “através do horizonte”?
31
Cap.1.15-18
(15) João testemunha a respeito dele e exclama, dizendo: “Este é o de quem eu
disse: ‘o que vem depois de mim, tem, contudo, a primazia, porque já existia antes
de mim’. (16) Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça.
(17) Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por
meio de Jesus Cristo. (18) Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no
seio do Pai, é quem o revelou”.
(15) João testemunha a respeito dele e exclama, dizendo: Este é
o de quem eu disse: o que vem depois de mim, tem, contudo, a
primazia, porque já existia antes de mim.
Observe que em todo o Evangelho de João nunca aparece o discípulo
com esse nome. O Evangelista, que compôs a obra que estamos
estudando, nunca se apresentou nominalmente. Pelo fim da obra ele
aparece, falando na terceira pessoa, usando o pseudômino “o discípulo que
Jesus amava”. Nos últimos estudos desse Evangelho veremos o porquê. No
presente momento, porém, basta enfatizar que “João” se refere à pessoa de
João Batista e não ao Evangelista João.
João que batizava o povo, o “último e maior profeta” (como Jesus o
chamou em Mat.11,11), era o precursor de Jesus, aquele que teve a honra
de batizar Jesus (Mat. 3,13-17). Não sabemos se o próprio Jesus, por um
tempo, havia sido seguidor do Batista antes de pedir seu batismo. Os
primeiros discípulos de Jesus também vieram do movimento batista, como
veremos mais adiante. O Evangelista João, que agora está dando seu
relato, era seguidor do Batista, mas abandonou o movimento batista para
seguir a Jesus.
O Evangelista, através do Prólogo, descreve a primazia de Jesus
sobre João Batista, seu precursor, cujos seguidores, meio século após a
sua morte ainda viam no seu antigo mestre uma figura messiânica. O
Evangelista volta a lembrar a primazia do Verbo encarnado sobre o
Batista.
Através do “Apocalipse de Adão” (um escrito apócrifo do primeiro
século) sabemos de um “movimento batismal judaico” (do Batista) que se
congregava perto do rio Jordão.
Pelo “Oráculo Sibilino Quarto” (obra apócrifa do fim do primeiro
século) conhecemos sua “teologia”. O batismo era um pré-requisito para a
salvação. O autor da obra acima exorta “os infelizes (judeus) mortais” a
“abandonar a conduta licenciosa” (confira a pregação do Batista) e “a lavar
seus corpos inteiros em rios perenes” (SibOr 4.165). Depois desse batismo
garante-se o perdão e a aceitação de Deus; os justos serão então
ressuscitados para um julgamento que será presidido pelo próprio Deus.
Essa era a doutrina dos grupos batistas na época em que o quarto
Evangelho foi composto.
O Apóstolo João se refere indiretamente a esses grupos, quando no
verso 15 novamente aponta para o fato do “Verbo” ter existido na
32
eternidade passada e, portanto, ser anterior ao Batista, fato que o próprio
Batista teria reconhecido na época. Não sabemos se a afirmação do verso
15 vem do próprio Batista ou se ela é uma conclusão do Evangelista a
respeito do que ele mesmo viu e ouviu.
Lembremos: O Evangelista João conheceu os dois Mestres. Ele
estava presente quando o Batista encontrou-se pela primeira vez com
Jesus. Era testemunha quando Jesus foi batizado por João. Ele viu como o
Batista apontou Jesus a seus próprios seguidores como o “cordeiro de
Deus” e essa indicação levou João, antes discípulo do Batista, a abandonar
seu antigo mestre e seguir a Jesus (João 1.35-36).
(16) Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça
sobre graça. Assim como as ondas na praia do mar se seguem, sem fim,
uma após outra chegando e esvaziando-se por inteiro, assim provém graça
sobre graça da plenitude do Verbo. A Graça não tem fim e não está
condicionada. Recebemo-la sem merecê-la. Para João não existem trevas
que, de alguma forma, pudessem limitar a graça.
Você aprendeu a olhar assim a Graça que vem de Deus? Ou você
conhece “as graças” somente como porções homeopáticas, condicionadas,
cujo efeito benéfico depende do seu esforço e que, ao menor sinal de
fraqueza de sua parte, podem ser canceladas? Não é assim que João viu a
graça vinda da plenitude do Verbo.
(17) Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a
verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Até então, a presença de Deus
estava condicionada à Lei de Deus. De acordo com a obediência ou a
rebeldia a ela, Deus concedia ou retirava Sua graça. Sim, a Lei sabia de
misericórdia e de graça, mas elas eram temporais e reservadas aos que
andavam de acordo com a Lei.
A entrada do Verbo na história humana colocou o relacionamento do
homem com Deus sobre uma base totalmente nova. O fator determinante
não é mais a Lei. A Lei conhecia “obediência” e “desobediência”, “bênção” e
“castigo”; porém ela não conhecia o “perdão”. A Lei exige observância e,
quando essa falha, resta o sacrifício ou a hipocrisia. O hipócrita é a pessoa
que quer observar a Lei, mas não o consegue. Então, opta pelo fingimento.
A Verdade não pode vir junto com a Lei; ela só pode se tornar realidade
quando vem junto com a graça, o perdão.
A Lei foi dada. A graça e a verdade vieram. Na Antiga Aliança os
salmistas já cantaram da graça e misericórdia do Senhor. “Bondade e
misericórdia certamente me seguirão, todos os dias da minha vida...”
(Salmo 23.5). Como posso “alcançar” essa misericórdia, que me segue,
conforme diz o salmista?
A encarnação do Verbo, aqui pela primeira vez chamada pelo seu
nome “Jesus Cristo”, trouxe a graça e a verdade. A imagem de Deus não
33
mais é determinada pela “Santa Lei”, mas pela “Graça”. Isso significa para
você: Para poder relacionar-se com Deus, você é perdoado; recebe Graça.
Você percebe? Comunhão com Deus não mais fica restrita aos que são
perfeitos. Ela se abre para pessoas falhas como você e eu. Com essa nova
base, a Lei não é mais o “tutor” que ameaça com castigo; ela continua
perfeita e boa, mas não mais exclui do amor de Deus, revelada em Jesus
(Leia Romanos 8,38.39). Na pessoa de Jesus, o Evangelista viu essa
comunhão perfeita com Deus Pai, onde graça e verdade se tornaram
realidade.
Nem a criação (natureza) nem a história humana são capazes de
revelar-nos a mente de Deus. Nem a natureza nem a história conhecem
perdão; elas funcionam na base de “causa e efeito”; por si só são cruéis;
não conhecem “graça”, portanto não podem revelar-nos a Verdade. A
pergunta do “por quê?” ficará eternamente sem resposta.
(18) Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no
seio do Pai, é quem o revelou.
João escreveu seu Evangelho quando diferentes filosofias e
especulações gnósticas com seus mitos procuravam definir o abismo entre
o espiritual e o natural. A tese “Ninguém jamais viu a Deus” era comum ao
ensino da Gnose. O Deus desconhecido era parte da Gnose. A Lei de
Moisés, por sua vez, ensinava que era perigoso procurar vê-lo (Deut.
4.11ss). Moisés nunca viu a Deus; a Bíblia diz que Deus falava com Moisés
“face a face”, isto é, diretamente, sem intermediário (confira Paulo em
2.Cor.3.7). Deus é Espírito, nenhuma criatura humana pode “vê-lo”. Deus
nunca e de nenhuma maneira está “disponível” ao homem. Quem então
podia conhecê-lo?
Na íntima comunhão entre Jesus e seu Pai, o posteriormente
Apóstolo conheceu um lado de Deus que a Antiga Aliança não podia
revelar, pois a base dela era a Lei. João entendeu o que era “graça”,
quando o amor do Pai não cessou por causa da cruz. Na revelação dessa
disposição até então desconhecida do Pai – amar o que não merece ser
amado – ele reconheceu Jesus como parte existencial de Deus. A única
comparação adequada ao que ele viu em Jesus era a imagem do Filho
eterno com seu Pai.
Não é mais “mito” ou “revelação” o que determina a relação homemDeus. No seu lugar entrou a experiência da Graça e Verdade na pessoa
histórica de Jesus. A “Lei”, interina (provisória, temporal), confiada a
Moisés, encontrou na pessoa de Jesus seu cumprimento. A mesma
“Palavra” (Verbo) que estava presente quando Deus chamou o Universo a
existir (Gen 1.3) entrou na história, visível na pessoa de Jesus.
O Apóstolo João conhecia bem as palavras do profeta Isaías.
Compare as palavras do profeta com o “Prólogo” do Evangelho de João e
34
que acabamos de estudar. “O povo que caminhava nas trevas viu uma
grande luz. Sobre os que habitavam a terra da sombra, brilhou uma luz. ...
Porque o jugo que pesava sobre eles, a carga de seus ombros, a vara do
exator, tu os quebraste....Porque nasceu para nós um menino, um filho nos
foi dado. Ele tem a soberania sobre seus ombros e será chamado:
Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz...” (Isaías
cap.9).
Somente aquele que veio do Princípio pode nos revelar o coração do
Pai. Agora podemos conhecê-lo. João escreveu para “o mundo”, isto é, para
todos, não somente para Israel. O Verbo revelou-nos um Deus Pai que ama
o mundo (João 3.16). O “Deus de Israel” havia se revelado “Deus do
Universo”. Sua imagem não mais era a de Juiz, ligado à Lei de Moisés, mas
sim de um Pai que emana “graça sobre graça” sobre qualquer homem ou
mulher que clama por ele, independentemente de sexo, raça, cor ou
posição social.
Na Antiga Aliança, Deus não tinha nome que Seu povo podia
pronunciar; Seu nome era “inefável” (não pode ser pronunciado pelo
homem) e quem se atrevia a pronunciá-lo teve que morrer, pois blasfemou
contra Deus (Lev.24.16). O judeu usa atributos Divinos quando se refere a
Deus, como “O que salva”; “O que cura”; “O Eterno”; “Senhor dos Exércitos”,
etc.
Em Jesus, Deus nos deu um nome pelo qual podemos chamá-lo.
Não mais seremos castigados e eliminados ao pronunciar seu nome.
“Manifestei o teu nome aos homens...” (João 17.6).
•
“Abba” (querido Pai)!
• Você pode clamar “ao Pai” e será ouvido!
Cap.1.19
O autor do Evangelho muda o estilo de sua escrita a partir do verso
19. Enquanto o “Prólogo” (1-18) se assemelha a um poema composto em
estilo de alto teor poético (sendo possivelmente um hino cantado nas
primeiras comunidades cristãs), a partir do verso 19 o autor do Evangelho
muda para um grego simples e claro.
Por um bom tempo acreditava-se que, inicialmente, o Prólogo não
fazia parte do Evangelho e tenha sido adaptado e acrescentado
posteriormente por alguma hipotética “escola joanina”. Hoje se sabe que,
tanto o “Prólogo” como o capítulo 21 (considerado um anexo), já faziam
parte das mais antigas cópias de que temos conhecimento.
Você, que junto conosco está lendo e meditando este Evangelho
magnífico, poderia perguntar do por que não copiamos simplesmente um
35
dos milhares de comentários do Evangelho de João que estão no mercado.
Vou procurar indicar-lhe algumas razões.
Um amigo teólogo nosso, com razão nos disse: Esses comentários!...
Eles explicam o que está óbvio e nada dizem a respeito de trechos onde
surgem dúvidas. É fácil encontrar quem pregue a Palavra usando os
chavões conhecidos, decorados, que nada dizem aos leigos: “Jesus morreu
na cruz pelos seus pecados”, por exemplo.
Embora seja essa uma grande verdade, será que alguém pode me
traduzir isso numa linguagem que faça sentido para mim? Nos nossos
estudos estamos tentando pensar junto com você. Não traremos tudo prémastigado. Ajudaremos você a descobrir a mensagem que o Apóstolo
apresenta. Procuraremos, ao máximo, evitar “chavões”. As lições, como
você deve ter percebido, desafiam você a pensar. Crer é pensar, também!
Nessa batalha pela “fé” (no bom sentido) encontraremos dificuldades.
Numa época em que assistimos ao deboche de tudo que é santo e reto,
limpo e verdadeiro, como podemos confiar no que cremos?
O sermão do pastor nunca poderá salvá-lo, mas deve despertar seu
desejo de ir correndo buscar a vida, da qual o pastor falou, na sua fonte.
Essa fonte é Deus. O pastor pode indicar-lhe o caminho, apresentando-lhe
a Palavra de Deus. Essa palavra virá a seu encontro. A compreensão da
Palavra não será imparcial, senão sua resposta a um chamado.
Você se lembra? “A luz brilha nas trevas e as trevas não
prevaleceram contra ela”. Ninguém e nada pode impedir que você encontre
essa vida do qual o Apóstolo fala.
Vêm de lados opostos os perigos que o estudioso da Palavra corre:
Desde o século 19, teólogos renomados estão tentando provar que a vida e
a mensagem de Jesus eram totalmente diferentes do que até então cremos.
Quem lê a Bíblia e a toma por “verdadeira” é considerado fundamentalista
bitolado. Você se lembra dos pastores holandeses do estudo 11, cuja fé em
Deus morreu? Como será que eles conseguem atuar como “pastores” nas
suas paróquias, se nem acreditam em Deus? C.S.Lewis, um dos maiores
pensadores cristãos do século 20, nos contou como os sacerdotes
anglicanos estavam, segundo eles mesmos, lidando com a questão. Os
pastores trabalham com dois tipos de “verdades”: uma expressa em
“imagens”, usada para a pregação e que pode ser interpretada à vontade
pelas ovelhas – a arte da ambiguidade moderna que deixa o crente ouvir o
que ele quer – e a outra “verdade”, usada no intercâmbio entre os religiosos,
livre de lendas e mitos, mas esotérica em sua essência. Segundo esses
teólogos, não há e não houve milagres; esses seriam mitos ou imagens que
deveriam ser devidamente interpretadas pela psicanálise.
Será que esse questionamento das verdades bíblicas “cola”? Veja de
perto a questão do milagre ou da profecia. Se você, a priori, afirma que
36
milagres ou profecias não existem, você de início exclui boa parte dos
Evangelhos. Se há ou não há milagre ou sobrenatural, no entanto, é uma
questão puramente filosófica, não científica. A maior autoridade do mundo
em questão de religião não fala nesta questão com maior autoridade que
você! A premissa: “sobrenatural não existe” é trazida por eles, de fora, aos
textos; não é conclusão do estudo dos mesmos. A conclusão de toda a
autoridade dos críticos da Bíblia junta não tem peso maior do que a sua
própria conclusão; os dois são resultados do espírito da época e os que
sentenciam contra a Palavra o fazem como pessoas influenciadas por ele.
Por isso, não se assuste quando aparecer a próxima manchete
anunciando a morte de Deus ou quando se vir perante o próximo ataque à
autoridade da Bíblia! O Espírito Santo de Deus que fala a você (quando
você der ouvido ao Evangelista) é o mesmo que falará ao maior teólogo do
mundo; portanto ouça e tenha coragem! Deus vai falar com você!
Uma lei da comunicação diz que “a mensagem” sempre é aquela que
a pessoa que a recebe, entende. O Apóstolo escreveu em termos que lhe
foram familiares quando ele, inspirado por Deus, procurou guardar em
palavras humanas o mistério que testemunhara. Pense naquilo que o
Apóstolo afirma e diga-o, usando suas próprias palavras. Procure termos
adequados, que fazem sentido para você, mantendo o sentido da
mensagem do Evangelista. Assim, repentinamente, o autor começa a falar
com você. Antes, você só decorava textos. Não decore somente!
Somente entre os anos 1980 e 1984 foram lançados nada menos de
35 livros de líderes teólogos dedicados à “Pesquisa sobre o Jesus
histórico”. Quem realmente era aquele homem que no Novo Testamento
aparece como “Jesus de Nazaré?”. Será que viveu mesmo? A pergunta em
si é lícita. A procura do “Jesus histórico” trouxe resultados inesperados.
Jesus viveu mesmo! Cada vez mais, temos provas em mãos que trazem à
luz fatos e informações daquele tempo e que até hoje eram desconhecidos,
- circunstâncias culturais, por exemplo, que justificam determinadas
ênfases nos relatórios dos Evangelistas. Sabemos hoje muito mais sobre
costumes, religiosidade e a cultura do povo na época de Jesus do que há
50 anos. Embora interessante, será que as descobertas nos ajudam em
nossa procura do Jesus Vivo?
A História nunca poderá nos revelar o mistério de Jesus, do qual o
Evangelista era testemunha. Ela nunca nos dará a resposta à pergunta:
Quem era esse Jesus? Para responder a isso precisamos de palavras de
testemunhas da época. A história pode nos dar a moldura, nada mais. Ela
até ajuda entender muitos “porquês” dos relatórios evangelísticos. A
imagem dentro da moldura continua sendo o Evangelho, naquele gênero
de literatura distinta, como nos é apresentado. C.S.Lewis, professor de
línguas medievais e antigas, considera impossível uma crítica ou uma
leitura melhor da que os próprios Evangelistas fizeram daquilo que viam e
viviam (Essays on Christianity, Collins, 1975). Segundo Lewis, não é dada ao
37
homem compreensão além do momento presente, do “agora”. Nem essa
realidade ele consegue captar satisfatoriamente, sem cair em contradições.
Cuidado então com “comentários científicos” a respeito da pessoa e
mensagem de Jesus!
Você crê na Bíblia? Crê mesmo? Ouça: nem Deus nem Jesus
mandaram crer “na Bíblia”. Você deve crer (isto é: confiar
incondicionalmente) em Jesus como o Cristo revelado na Bíblia. Quem
confunde as duas coisas, com muita razão está sendo chamado de
“Biblicista”. Nós temos a mensagem da Bíblia e, no nosso caso, do Novo
Testamento, como regra de fé e vida. Ela é luz no caminho na medida em
que nela reconhecemos “a Luz do mundo”. Nós não cremos “na Bíblia”;
cremos, sim, em Jesus.
Provas objetivas (de que Jesus viveu mesmo ou de que a Bíblia é
autêntica) não lhe trarão a fé, pois todo resultado de pesquisa sempre é
por aproximação. Não existe prova matemática em matéria da fé. Nenhum
resultado de pesquisa lhe trará a fé viva, pois resultados são obtidos pelo
estudo “neutro”, sem envolvimento pessoal subjetivo.
Fé pertence ao subjetivo, é tesouro pessoal, é dada ao que anseia
apaixonado pela verdade – a quem arrisca crer “apesar” de... Crer é
suportar a dúvida.
Os Evangelistas eram humanos. Tenha isso sempre em mente. Cada
Evangelho foi escrito por uma pessoa humana, inspirado pelo Espírito de
Deus e com um determinado desígnio. Cada Evangelista tinha sua própria
visão de Jesus e de acordo com essa ele compôs seu relato. É por essa
razão que os quatro Evangelistas, às vezes, parecem não dizer a mesma
coisa.
Marcos enfatizou o completo abandono de Jesus em face da morte
(“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”). Os intérpretes
discordam em suas explicações de por que Marcos escolheu enfatizar isso.
Lucas, por sua vez, ensina uma lição diferente. É possível que ele
tenha querido dar um exemplo aos cristãos perseguidos sobre como eles
deviam encarar a morte, na plena certeza de que Deus está a seu lado em
todos os seus tormentos (“hoje mesmo estarás comigo no paraíso” / Pai, em
tuas mãos entrego o meu espírito”).
Mateus, após provar a seus compatriotas judeus que Jesus era o
Messias prometido, enfatiza o discipulado e o comprometimento pessoal e
voluntário (“venha após mim e farei de vocês pescadores de homens/ quem
não deixar....não pode ser...”). Sobre o “porquê” dessas ênfases distintas, os
comentaristas discordam e há diversas maneiras de entendê-las.
O Evangelho de João é totalmente diferente de cada um dos três
primeiros (chamados sinóticos). O autor tem uma só preocupação:
“estes...sinais foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o
38
Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (20.31). Tudo
que serve a esse propósito, João relata. João vê Jesus na história de Deus
com o mundo, não mais como o Messias dos judeus. João fala do Salvador
do mundo. Meio século após os Evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, ele
já tem outra visão de seu Mestre. Ele pressupõe que seus leitores
conheçam os outros Evangelhos (ou parte deles); não relata o que naqueles
Evangelhos já foi contado, mas acrescenta. No Evangelho todo ele olha
Jesus como a encarnação de Deus. Jesus é Divino. Tudo que poderia levar
seu leitor a duvidar desse fato, João deixa de relatar. Ele não quer suscitar
dúvidas. Assim, o Apóstolo nunca vê seu Senhor em estado de fraqueza;
Jesus sempre é Senhor da situação, até na cruz (“Está consumado!”).
Se queremos “provar” que o os Evangelhos, como um todo, são fiéis e
sem erros, não o fazemos misturando todos os quatro de tal modo que
Jesus acaba dizendo e fazendo tudo o que cada um dos escritores indica.
Por exemplo, juntando as palavras de Jesus dos quatro Evangelhos faladas
numa determinada ocasião e alegando que Jesus falou em seguida tudo
que cada um dos Evangelistas relata a respeito. Quem interpretar os
Evangelhos desse modo está tolhendo a fala de cada autor; quem quer que
faça isso não está lendo os Evangelhos – ele está inventando um novo
Evangelho que nada mais tem a ver com aqueles que nos foram
transmitidos.
Infelizmente, a maioria das pregações que ouvimos se baseia
nessa unificação falsa. Queremos saber mais do que cada um dos
Evangelistas sabia. (Um Exemplo: As sete palavras de Jesus na cruz,
juntando as exclamações transmitidas por todos os Evangelistas.) São
quatro, entre inúmeras visões diferentes, cada uma pertencendo a uma
determinada compreensão do Cristo, “verdadeira” dentro daquela
compreensão. Nenhuma descrição humana é capaz de englobar todo o
mistério de Deus. O que o homem é capaz de perceber, são “flashes” de
luz. Se não fosse assim, não haveria necessidade de revelação,
discernimento e fé.
Sabe como devemos encarar as aparentes diferenças na
apresentação de palavras e atos de Jesus? Deixando a miopia espiritual de
lado (com a qual queremos empurrar todos os registros numa só caixa e
anunciar somente aquilo - com medo de errar -, como “fidedigno”; aquela
única interpretação permitida seja ela ditada pelos inúmeros líderes de
seitas, ou pelo seu representante maior em Roma).
Devemos, sim, saber e reconhecer que tudo aquilo e muito mais
podia ser visto em Jesus, muito mais, e que os relatórios dos Evangelistas
são flashes, frações, imagens às vezes; são aquilo que aquele ser humano
(João) na condição de discípulo, naquela hora, era capaz de perceber.
Havia e há muito mais! Esse “mais” entenderemos somente na eternidade
futura (1.Cor.13.12).
39
“Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas
fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam
os livros que seriam escritos” (João 21.15).
O Evangelista João, com sua distância histórica maior, era capaz de
ver mais nitidamente o Cristo no seu verdadeiro contexto Divino, o que aos
sinóticos, cinquenta anos antes, por estarem perto demais, ainda não fora
possível.
Se você, na leitura do Evangelho de João considerar os dois fatores:
•
a limitação humana: João menciona aquilo que lhe serve para seu
propósito (“...para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de
Deus...”) e
•
a visão ampla e profunda espiritual dada ao velho Apóstolo,
ultrapassando os demais, voando como seu símbolo, a águia,
a visão que você terá de Jesus será assustadoramente real e viva.
Estamos orando para que seja dada a cada um de nós a ousadia
espiritual e a humildade humana, ambas necessárias, para ouvir a
mensagem de João.
Cap.1.19-28
(19) Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém
sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: “Tu quem és?” (20) Ele confessou e não
negou; confessou: “Eu não sou o Cristo”. (21) Então, lhe perguntaram: “Quem és,
pois? És tu Elias?”. Ele disse: “Não sou”. “És tu o profeta?” Respondeu: “Não”. (22)
Disseram-lhe, pois: “Declara-nos quem és, para que demos resposta àqueles que nos
enviaram; que dizes a respeito de ti mesmo?” (23) Então, ele respondeu: “Eu sou a
voz do que clama no deserto: ‘endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta
Isaías”. (24) Ora, os que haviam sido enviados eram de entre os fariseus. (25) E
perguntarem-lhe: “Então, por que batizas, se não és o Cristo nem Elias nem o
profeta?” (26) Respondeu-lhes João: “Eu batizo com água; mas, no meio de vós está
quem vós não conheceis, (27) o qual vem após mim, do qual não sou digno de
desatar-lhe as correias das sandálias”. (28) Estas coisas se passaram em Betânia, do
outro lado do Jordão, onde João estava batizando.
Por duas vezes, João já havia mencionado o Batista. Aqui ele nos
apresenta o testemunho dele. Devemos saber que a fé judaica não conhece
nosso “individualismo cristão”. A fé judaica é uma unidade, assim como o
povo israelita também é um. As pregações e a prática de batismo desse
“Profeta João” (portanto chamado o “Batista”), haviam despertado a
atenção da mais alta corte religiosa em Jerusalém. O “Sinédrio”
(Assembleia composta de 71 membros, presidida pelo sumo sacerdote,
40
responsável pela doutrina da fé), decidiu examinar o movimento que vinha
se espalhando por “toda a Judeia até Jerusalém” (Marcos 1.5).
Contrariando a praxe, o Sinédrio não citou o Batista para prestar
esclarecimentos em Jerusalém, provavelmente porque a atividade dele,
como o Evangelista observa, estava fora da área de sua jurisdição religiosa;
o Batista batizava “do outro lado do Jordão” (28).
(19) Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe
enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: “Tu
quem és?” Jerusalém tinha a obrigação de examinar o movimento batista,
pois este havia se alastrado, tomando forma de um reavivamento religioso.
Quem foi que enviou “sacerdotes e levitas” para examinar o Batista?
Sabemos que somente o Sinédrio tinha essa competência. Sacerdotes e
Levitas eram os especialistas em questões de pureza, um assunto
sobremaneira importante para o judeu. O batismo, como ritual de
purificação, era conhecido para quem entrava para a fé judaica, mas não
para judeus, filhos de Abraão. Para quê estes precisavam de nova
purificação? O assunto era importantíssimo. O Dia a dia do judeu
conhecia, sim, inúmeras purificações rituais, através de um banho, mas
nunca como sinal de arrependimento e rompimento com o passado, como
era no caso de João Batista.
Por que o Evangelista diz: “Os judeus” enviaram..? Não é por antisemitismo, como foi creditado muitas vezes, erroneamente, ao Evangelista.
Ele não era inimigo do seu próprio povo. Mas na época em que o
Evangelho foi escrito, já havia se formado um abismo intransponível entre
“seguidores de Cristo” e “judeus fiéis”. João usa o termo “judeus” fria e
objetivamente. Era o termo para designar “as trevas” que haviam rejeitado
a Luz. A qualquer judeu, porém, que confessou Jesus Senhor, João
reconheceu irmão. Durante o estudo desse Evangelho encontraremos
umas 70 vezes o termo “os judeus”. Ora são as autoridades religiosas, ora
um determinado grupo de pessoas; João sempre identificou com esse
termo geral “pessoas judias que não receberam Jesus”; nunca a nação
como um todo.
Os especialistas em questões de pureza religiosa não queriam saber
a identidade do Batista. Eles precisavam saber “quem” ele era na
qualificação religiosa. “Quem és tu?”
(20) Ele confessou e não negou; confessou: “Eu não sou o
Cristo”. A resposta do Batista implica em uma confissão negativa do
Cristo (Messias), figura esperada pelo povo judeu.
(21) Então, lhe perguntaram: “Quem és, pois? És tu Elias?” O
profeta Malaquias (cap.3.22-24) previa o aparecimento de “Elias” antes da
vinda do Senhor. Como hoje ainda sabemos, perto do lugar onde João
batizava, encontrava-se o “monte” de onde, pela tradição judaica, Elias foi
41
levado ao céu num carro de fogo (2 Reis 2,9-14). Os inquisidores fizeram
as perguntas conforme a ordem do “protocolo”, bem como foram
instruídos. Porém, o Batista também negou ser Elias. Ele disse: “Não
sou”.
Como não judeus que somos, falta-nos o entendimento mais profundo da
pergunta acima. A pergunta por Elias era de grande importância; observe,
que era a primeira opção pesquisada após o Batista ter negado ser o próprio
Messias (o Cristo). O Antigo Testamento conhece duas pessoas do povo de
Israel que foram arrebatadas por Deus; isto é, ninguém sabe o lugar de sua
sepultura. A primeira personalidade é Moisés, doador da Lei. A segunda é
Elias, o maior dos profetas, cujo arrebatamento em carro de fogo está
descrito em 2.Reis 2,1-12. Seu arrebatamento levou a uma forte crença
popular em Israel: O grande profeta não morreu; ele está dormindo em algum
lugar e na hora do maior perigo, reaparecerá! Essa crença faz parte da
religiosidade popular de Israel, presente até aos dias de hoje. Não havia
como aceitar seu desaparecimento! Essa espera pelo reaparecimento do
profeta Elias entrou no Antigo Testamento: “Eis que vos enviarei Elias, o
profeta, antes que chegue o dia do Senhor, grande e terrível” (Mal.3,23).
Também “Jesus Siraque” sabe dele. A ele caberá a grande tarefa de
converter o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os
pais (3,24). O novo Elias não mais seria o homem temido que clamou fogo
dos céus. Sua tarefa seria fundamentalmente outra: a de pacificador. No
judaismo posterior encontramos muitas lendas sobre Elias, cuja
personalidade aparece fundamentalmente transformada. O “profeta do fogo
dos céus” apareceu cada vez mais como figura benévola, bondosa,
despertando no povo o respeito e o amor, a saudade e o orgulho. Conforme a
tradição judaica, após seu arrebatamento o profeta tornou-se o Anjo da
Aliança. Através de sua presença em cada cerimônia de circuncisão (ritual
no 8º dia de vida para cada menino), uma parte da alma de Elias tomaria
lugar no menino circuncidado. Na véspera do pessach (passah), na refeição
solene, há sempre uma cadeira vazia, talher e prato e um copo cheio de
vinho, prontos para Elias, afim de que, quando “ele” entrar pela porta da
casa, tudo encontrasse preparado.
A lenda do retorno de Elias não tem valor de revelação, mas vai além de
ser somente um rumor, um boato. Ela é o sonho religioso sem o qual o povo
de Israel não poderia viver nem suportar sua sofrida existência.
Quando Jesus perguntou aos seus discípulos: “No dizer do povo, quem é o
Filho do homem?” (Mateus 16,14), eles responderam, entre outras: “que sejas
o Elias”. O aparecimento de Jesus, Filho do Homem, deixou o povo tão
impressionado, que o tinham como o Elias reaparecido.
Quando no monte Tabor aconteceu a transfiguração mística de Jesus e seu
rosto “brilhava como o sol e suas roupas se tornaram brancas como a luz”
(Mateus 17,1-13), apareceram-lhe Moisés e Elias. Somente três discípulos
foram testemunhas da revelação do segredo messiânico, aos quais Jesus
proibiu formalmente contar algo do que viam. Eles, porém, perguntaram a
Jesus: “Como, então, dizem os escribas que tem que vir primeiro o Elias?”,
referindo-se à lenda da volta do profeta que deveria aparecer antes do
Messias. Ao contrário do Batista que antes – veja a nossa leitura - o negava,
Jesus lhes respondeu: “Elias já veio e não o reconheceram. Fizeram com
42
eles o que quiseram”. Os discípulos entenderam que Jesus se referiu ao
Batista como o Elias reaparecido. A resposta de Jesus confirma a existência
da lenda do retorno do profeta. Jesus não se interessava pelo “Elias
histórico” – sua interpretação tinha como base o Elias legendário. Para Jesus
o Elias não era uma figura do passado; não, era uma pessoa presente.
Essa saudade judaica se cumpriu no Evangelho. Elias não mais está sendo
esperado; ele já veio. Esta é a diferença de interpretação sobre Elias entre
judaismo e cristianismo.
Outra vez o nome de Elias aparece no Evangelho. Quando Jesus gritou na
cruz, “Eli,Eli, lamá sabactâni” algumas pessoas não entendendo as suas
palavras, opinaram:” Ele está chamando por Elias!”(Mat.27,47). O Apóstolo
Paulo menciona Elias (Romanos 11,2-4) e Tiago em 5,17-18.
O processo místico em volta do profeta Elias chegou ao seu fim com os Pais
da Igreja cristã, baseados nas palavras de Jesus: “Elias já veio” (Mat.17,13).
Na igreja católica ortodoxa o profeta Elias ainda vive nos ícones e festas. O
grande Dostojewski, em sua febre religiosa, escreveu: “traremos o paraíso do
milênio e dele sairão os novos Enoques e Elias” (Fülop-Miller. O Dostojewski
desconhecido, 1926) - Fonte: Nigg, Hagiografias, 1974, Editora Walter,Olten
“És tu o profeta?” Respondeu: “Não”. Na Lei de Deus, em Deut.
18.15-18, Moisés prometeu um profeta escatológico (do fim) “como eu”
(Moisés). Junto com a esperança no aparecimento de “Elias”, a
religiosidade da época conhecia a figura do “grande profeta”, igual à de
Moisés.
Os inquisidores fizeram todas as perguntas que, como
representantes da Lei, deviam fazer. Resultado: o homem cuja mensagem e
atividade batismal haviam chamado a atenção do Sinédrio não era “o
Cristo”, nem “Elias”, nem “o Profeta”.
(22) Disseram-lhe, pois: “Declara-nos quem és, para que demos
resposta àqueles que nos enviaram; que dizes a respeito de ti
mesmo?” O Batista sabia que qualquer autodenominação ou justificação
de sua atividade não seria reconhecida pela corte religiosa. Ele só podia
responder em termos da Torá e dos profetas, comumente chamadas de
“Lei”.
(23) Então, ele respondeu: “Eu sou a voz do que clama no
deserto: ‘endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta
Isaías”. O Batista cita o profeta Isaías, quando este fala da futura
libertação do povo de Israel: “...uma voz clama: Abri no deserto um caminho
para o Senhor, nivelai na estepe uma estrada para nosso Deus ... escala um
alto monte, pregoeira da boa-nova, Jerusalém, ergue a voz sem medo!
Proclama às cidades de Judá: ‘Eis aí o vosso Deus!” Eis que o Senhor Deus
vem com poder e seu braço lhe assegura a soberania...’”(40.3,9,10ª).
Citando Isaías, o Batista respondeu ao comitê inquisidor.
(24) Ora, os que haviam sido enviados eram de entre os fariseus.
Críticos das Escrituras argumentam que os fariseus não tinham
43
autoridade para “enviar uma comissão para averiguação”. Isso, de fato,
confere. Ao contrário dos levitas e sacerdotes, que fizeram seu trabalho de
colheita de informação “profissionalmente” sem envolver-se pessoalmente
com o resultado (essa tarefa cabia ao Sinédrio em Jerusalém), os fariseus
eram o que hoje diríamos “realmente muito religiosos” e preocupados com o
dia a dia da vida religiosa do povo e do cumprimento da Lei. Dos sinóticos
sabemos que havia fariseus vindos ao batista; discutindo com ele e
recebendo duras críticas. De alguma forma, as perguntas que se seguem
não mais visam a pessoa do Batista. Elas questionam a prática dele. Será
que ele tinha autoridade para fazer o que fazia: batizava judeus ?!
(25) E perguntarem-lhe: “Então, por que batizas, se não és o
Cristo nem Elias nem o profeta?” Os fariseus não ficaram satisfeitos
com o resultado do questionamento pelas “autoridades de Jerusalém”.
Eles conheciam as Escrituras e sabiam que os profetas previam um
período de purificação batismal como sinal do anúncio do Reino de Deus
(Jer.4.14; Ez.36.25; Zac.13.1 e outros). De onde vinha a autoridade desse
homem para batizar, se não era nem o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?
Eram teólogos preocupados, questionando.
(26) Respondeu-lhes João: “Eu batizo com água; mas, no meio
de vós está quem vós não conheceis, (27) o qual vem após mim, do
qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias”.
João Batista não batizava porque alguém lhe havia dado autorização
para fazer isso. Implícito na resposta do Batista está o testemunho de uma
missão a cumprir, missão que recebeu de outrem, maior que ele. Este
“outro” estaria tão acima dele que nem para o serviço reservado ao escravo
João se considerava digno. O mais interessante é que nem ele, o Batista, e
muito menos os da comissão inquiridora, conheciam esse “outro”. Com
outras palavras, João Batista agiu em obediência a uma ordem que
recebera de Deus, tendo sido preparado para tal missão durante anos no
deserto (Lucas 1.80). Não sabemos nada sobre as circunstâncias desse
chamado.
Não sabemos se o Batista, mais cedo, teve contato com os essênios, uma seita que
rejeitava o serviço sacerdotal no templo; que dividia os homens em “Filhos da Luz” e
“Filhos das Trevas”, sem condição de reconciliação, e era organizada em comunidades sob
a liderança de um “Mestre da Justiça” e que esperavam duas figuras messiânicas: Uma da
linha de Arão (sacerdotal) e outra para Israel (rei). Mais adiante ouviremos novamente dos
essênios.
(28) Estas coisas se passaram em Betânia, do outro lado do Jordão,
onde João estava batizando.
O autor do Evangelho mostra conhecimentos geográficos e
circunstanciais como nenhum dos outros Evangelistas, o que reforça a
tese do discípulo João ser o autor do Evangelho. Ao mesmo tempo, às
vezes ele generaliza, o que dá margem à tese de “outro ser o autor”, talvez
um discípulo da escola joanina. O uso do termo “os judeus” deixa claro que
o autor mesmo se via distanciado de seu povo. Outras generalizações
podem ter sua razão na pouca importância que o autor lhes atribuía,
tendo em vista a cultura de seus leitores.
44
Indicações exatas quanto a localidades que somente testemunhas
conheciam, encontramos, por exemplo, em 6.59; 8.20; 10.40-42.
Não mais se conhece a localidade “Betânia do outro lado do Jordão”.
O que se sabe é que o local encontrava-se na região sul, nas proximidades
do Mar Morto*. Para o autor era importante mencionar o local. Sua
missão, ao escrever o Evangelho, era colocar a missão do “Verbo
encarnado”, com exatidão, no seu contexto histórico.
•
Veja literatura recente: RIESNER Rainer, Betanien jenseits des Jordans (Betânia do outro
lado do Jordão), Brunnen, 2002.
Cap.1.29-34
(29) No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: “Eis o cordeiro de
Deus, que tira o pecado do mundo! (30) É este a favor de quem eu disse: ‘após mim
vem um varão que tem a primazia’, porque já existia antes de mim. (31) Eu mesmo
não o conhecia, mas, a fim de que ele fosse manifesto a Israel, vim, por isso,
batizando com água”. (32) E João testemunhou, dizendo: “Vi o Espírito descendo do
céu como uma pomba e pousar sobre ele. (33) Eu não o conhecia; aquele, porém, que
me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre quem vires descer e pousar o
Espírito, este é o que batiza com o Espírito Santo. (34) Pois eu, de fato, vi e tenho
testificado que ele é o Filho de Deus.”
Por Marcos (1.9) sabemos que Jesus, ao ouvir sobre a atividade do
Batista, veio da Galileia (norte) ao sul e que provavelmente acompanhou
por um tempo o movimento intenso em volta do Batista: “Saiu a ter com ele
(Batista) Jerusalém, toda a Judeia e toda a circunvizinhança do Jordão e
eram por ele batizados no rio Jordão, confessando seus pecados” (Mateus
3.5,6). Tanto Mateus como Marcos e Lucas mencionam que Jesus também
pediu o batismo por intermédio de João. Lembremos que João, Apóstolo,
inicialmente era um jovem seguidor do Batista. Ele era testemunha dos
vários encontros de seu Mestre com Jesus. Sabemos por Lucas (cap.4)
que Jesus, logo após receber o batismo, procurou a solidão, sendo guiado
pelo Espírito Santo ao deserto, para ser tentado.
(29) No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e
disse: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! No dia
seguinte a quê? Alguns comentaristas entendem “no dia seguinte ao
batismo”. João, porém, não menciona o batismo de Jesus. Este é tido
como conhecido. João não volta a mencioná-lo, porque este fato poderia
ser interpretado como sujeição de Jesus ao Batista (veja estudo João
cap.12). João tampouco menciona a principal atividade do Batista, sua
pregação poderosa, seus batismos de arrependimento. Aquela atividade
servia de preparação para a chegada do Reino de Deus.
O Reino de Deus já veio! Quando o Apóstolo escreveu, toda a
pregação do Batista não mais fazia sentido. O único que ainda importava a
45
João era que o Batista havia apontado a Jesus como “o cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo”.
Há quem questione que houvesse necessidade de Jesus ser batizado
“para o perdão dos pecados”. Essas considerações são antigas. Nas
primeiras décadas do segundo século (aprox. 50 anos após o Evangelho de
João ser escrito) apareceu um falso “Evangelho dos Nazarenos”. Nele,
Jesus se recusa claramente ser batizado. Quando sua mãe O convida ao
batismo, Jesus teria dito: “Onde foi que eu pequei, que me obrigue a ir e ser
batizado por ele?” Nessa escrita apócrifa já percebemos como o fato do
batismo de Jesus por um “homem pecador”, embora profeta, intrigava as
mentes. A resposta simples é dada pelo próprio Batista: “o cordeiro, que
tira o pecado do mundo”. Jesus já havia retornado do deserto onde havia
rejeitado as ofertas de um ministério fácil. Ele havia aceitado sua condição
de instrumento na mão de Deus “para tirar o pecado do mundo”.
Até ao momento em que Jesus pediu seu batismo, João Batista
anunciava julgamento severo, um Juiz que “recolheria o trigo no celeiro,
mas queimaria a palha em fogo inextinguível” (Mateus 3.12). No lugar de
um ser Forte, que botasse ordem na situação religiosa, apareceu “o
Cordeiro”. Em que cordeiro o Batista podia estar pensando? Será nos dois
cordeiros que diariamente sangravam no Templo? (Num. 28.3,4).
O Apóstolo Paulo (1.Cor.5.7) e João (19.36) fazem alguma alusão ao
“cordeiro pascal”. O “pecado do mundo”, no entanto, somente o “servo
sofredor”, o cordeiro levado ao matadouro, de Isaías, cap.53, pode tirar o
pecado. Este “justificaria a muitos porque as iniquidades deles levará sobre
si” (verso 11). O Evangelista reconhece no Jesus histórico, temporal, o
“cordeiro de Deus” de Isaías 53 e o Verbo preexistente em Deus, atemporal,
eterno. (30) É este a favor de quem eu disse: ‘após mim vem um varão
que tem a primazia’, porque já existia antes de mim.
A obra e o destino de Jesus se cumpriram no seio da história
universal, sujeita ao exame do historiador. João, Apóstolo, porém vê no
que Deus fez em Cristo – sua vinda, sua paixão e sua glorificação – o
acontecimento escatológico (determinando o que há de vir). Jesus é “o que
há de vir”, e não temos que “esperar outro” (Mateus 11.3). “Porém, ao
chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus a seu Filho” (Gálatas 4.4);
“Esta é a condenação: que veio a luz veio ao mundo, e os homens amaram
mais as trevas do que a luz...” (João 3.19). O mesmo João, no seu
Apocalipse, viu no seu exílio na ilha de Patmos a Jesus como “o Cordeiro”:
“Digno é o cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria,
e força, e honra, e glória, e louvor” (Apoc. 5.12).
(31) Eu mesmo não o conhecia, mas, a fim de que ele fosse
manifesto a Israel, vim, por isso, batizando com água” (Palavras do
Batista). Na compreensão do Evangelista, a única missão do Batista com
seu ministério de batismo era tornar Jesus manifesto a Israel. Mateus 3.11
confirma que o próprio Batista enfatizava essa missão: “... anunciar aquele
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que, conforme as Escrituras, havia de vir”. Mais tarde, quando preso e na
Solitária, o próprio Batista foi afligido por dúvidas. “És tu (mesmo) aquele
que estava para vir, ou havemos de esperar outro?”(11.3). É interessante
que o Evangelista João nada menciona dessas dúvidas posteriores do
Batista, das quais sabemos pelos Evangelhos sinóticos. A sua visão por
ocasião do batismo de Jesus lhe era suficiente.
(32) E João testemunhou, dizendo: “Vi o Espírito descendo do céu
como uma pomba e pousar sobre ele. (33) Eu não o conhecia; aquele,
porém, que me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre
quem vires descer e pousar o Espírito, este é... Ainda no deserto, Deus
havia passado uma ordem ao Batista: “Aquele sobre quem vires descer e
pousar o Espírito, este é ...”Quando Jesus foi batizado, o Batista recebeu a
visão: ele viu o Espírito “como uma pomba” descer e permanecer sobre
Jesus.
Realidades espirituais só podem ser transmitidas através de imagens
acessíveis às nossas faculdades. Os Evangelistas usam a imagem de uma
pomba suavemente pousando sobre Jesus. O Batista viu e depois
testemunhou: “Vi o Espírito descendo do céu como uma pomba e pousar
sobre ele...” Somente João menciona o “permanecer”, condicional. Na
Antiga Aliança o Espírito “veio sobre os profetas” em determinadas
ocasiões e depois se afastou de novo. (confira 1.Samuel 16.13 e 14 etc).
Agora o Espírito permaneceu. “, ... este é o que batiza com o
Espírito Santo. (34) Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o
Filho de Deus.” Daqui em diante o Evangelista falará muito “do Filho”.
Até agora o Apóstolo desenvolveu, cuidadosamente, a imagem de Jesus,
começando nos termos místicos como Logos, a Palavra, depois apresentou
“o Cordeiro” anunciado pelo Profeta e agora passa das realidades
atemporais (eternas) para o temporal na pessoa histórica de Jesus,
Nazareno, verdadeiro “Filho de Deus”. O “Filho de Davi”, o esperado
Messias dos judeus, não podia “levar o pecado do mundo”. Somente o
“Filho de Deus” o podia. Este não mais seria limitado ao batismo com água
(arrependimento), mas batizaria com o Espírito vivificador. Após a lavagem
(arrependimento), o poder de Deus vivifica qualquer pessoa. Mais uma vez
João pensou em termos universais. Ele deixou para trás a visão
nacionalista dos Evangelhos sinóticos; ele viu o mundo.
João viu a Jesus como o “Filho de Deus” que veio da eternidade, do
“seio do Pai”. Com essa visão ele deixou para trás a tradição de Marcos,
que considerou o batismo como a confirmação do seu chamado (Marcos
1.11). Ainda hoje encontramos as duas visões representadas no
cristianismo.
João escreveu sob a forte impressão de que “muitos enganadores têm
saído pelo mundo afora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em
carne., assim é o enganador e o anticristo” (2João 7). Nos seus muitos anos
de vida, no exílio e na prisão, havia meditado de contínuo sobre o que viu e
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viveu. Na sua mente amadureceu o que tinha testemunhado e hoje temos
em nossas mãos a maior e mais bela obra jamais escrita a respeito da
pessoa de Jesus: vista de cima, como pelo olhar de uma águia, quando ela
voa em direção ao sol.
Cap.1.35-42
(35) No dia seguinte, estava João outra vez na companhia de dois de seus discípulos
(36) e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” (37) Os dois discípulos,
ouvindo-o dizer isto, seguiram Jesus. (38) E Jesus, voltando-se e vendo que O
seguiam, disse-lhes: “Que buscais?” Disseram-lhe: “Rabi (que quer dizer Mestre),
onde assistes? (39) Respondeu-lhes: “Vinde e vede”. Foram, pois, e viram onde
Jesus estava morando; e ficaram com ele aquele dia, sendo mais ou menos a hora
décima. (40) Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que tinham ouvido o
testemunho de João e seguido Jesus. (41) Ele achou primeiro o seu próprio irmão,
Simão, a quem disse: “Achamos o Messias (que quer dizer Cristo), (42) e o levou a
Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: “Tu és Simão, o filho de João; tu serás
chamado Cefas (que quer dizer Pedro).
(35) No dia seguinte, estava João outra vez na companhia de
dois de seus discípulos. No mundo judaico-palestino da época, cada um
dos muitos Mestres religiosos (Rabis) tinha em sua companhia jovens
aprendizes, discípulos que o seguiam, aprendendo e assistindo-o. Às vezes,
o número de “discípulos” era enorme - como no caso de Jesus que, à certa
altura, decide escolher de dentro da multidão doze seguidores “para ficar
com ele” (Marcos 3.14).
O carisma do Batista também fez com que jovens das regiões mais
distantes fossem atraídos; homens que, como o Batista, esperavam o
libertador anunciado. Enquanto, no dia anterior, João aparentemente
havia se dirigido a uma multidão, neste dia em particular estava com dois
de seus jovens aprendizes. (36) ... e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o
Cordeiro de Deus!” Enquanto conversavam, o Batista viu Jesus passar e
imediatamente o apontou aos dois jovens.
(37) Os dois discípulos, ouvindo-o dizer isto, seguiram Jesus.
Esta sentença curta resume uma decisão imediata e um passo decisivo do
qual os dois jovens se lembrariam pelo resto de suas vidas. O Batista havia
dispensado os dois e eles correram atrás de Jesus, que estava indo
embora. Cada Rabi tinha algo como a ”sede” de sua “escola”. Será que esse
homem, intitulado por João Batista como “Cordeiro de Deus” ia para sua
casa? Esta seria uma oportunidade única para ouvir mais dele
pessoalmente. Curiosos e ansiosos ao mesmo tempo, os dois olharam para
Jesus. Será que seriam aceitos a fim de ouvir mais sobre o significado do
misterioso termo “Cordeiro de Deus”? Ainda não eram discípulos; somente
seguiam a um desconhecido. Quando Jesus percebeu que estava sendo
seguido por dois jovens, Ele parou.
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(38) E Jesus, voltando-se e vendo que O seguiam, disse-lhes:
“Que buscais?” Jesus fixou os dois e eles pararam. A pergunta que dirigiu
aos dois jovens é interessante: “O que vocês estão buscando?” Ele não
perguntou a quem estavam procurando, mas o que estavam querendo.
Disseram-lhe: “Rabi (que quer dizer Mestre), onde assistes? A única
pergunta que ocorreu aos dois jovens foi a (parafraseada): “Mestre, onde é
que o senhor mora? Queríamos ter com o senhor uma oportunidade para
conversarmos sem sermos interrompidos. O assunto é importante. Foi nosso
mestre João que nos indicou o senhor”.
“O que vocês buscam?” é a primeira palavra que ouvimos da boca de
Jesus no Evangelho de João. Em certo sentido, esta sempre será a
primeira palavra dirigida a qualquer pessoa, ainda hoje. “O que você
procura em Jesus?” Dependendo do que você procura em Jesus, você vai
encontrar ou não.
A resposta de Jesus foi a melhor que alguém poderia sonhar. (39)
Respondeu-lhes: “Vinde e vede.” “Venham e vejam!” Jesus não começou
examinando, querendo saber quem eram e qual que era o posicionamento
religioso deles. Ele começou convidando. A partir do momento em que,
atendendo ao convite, andavam atrás de Jesus, ainda que ansiosos, já o
estavam seguindo. Ainda não como “discípulos”, mas já como bem-vindos.
Sem convite não há como ser seguidor de ninguém. (Você já percebeu que
o Evangelho todo é um convite, lançado a você, pessoalmente, aqui e
agora?).
Foram, pois, e viram onde Jesus estava morando; e ficaram com
ele aquele dia, sendo mais ou menos a hora décima. Como é sutil a
maneira como o Evangelista relata seu primeiro encontro com Jesus.
Nunca mais o futuro Apóstolo esqueceu aquela hora com Jesus. Ele não
relata a conversa que tiveram. Se o Evangelho tivesse sido inventado, neste
momento teríamos a exposição e defesa da fé. Nada disso acontece. A
conversa ficou gravada nos corações. Quando Jesus fala, Ele fala ao
coração. Cada um de nós tem (se tem) uma história pessoal, distinta e
inconfundível do primeiro encontro com Ele.
João nunca esqueceu aquele momento crucial: Era mais ou menos a
hora décima. (Você tem uma data gravada no seu coração, data ou hora em
que Deus lhe falou, confidencialmente?).
Quanto à hora relatada no Evangelho, os comentaristas nunca
chegarão a um consenso. Pelo método judaico teria sido às quatro da tarde
(a contagem começa às 6 horas da manhã). João, no entanto, escreve para
gentios em terra grega, e muito provavelmente usaria o horário romano
(que conta a partir das doze horas, assim como hoje o fazemos). É mais
provável, portanto, que a “hora décima” do Evangelista indique dez horas
da manhã. Assim faz sentido quando se diz que “ficaram com Ele aquele
dia”.
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Somente a esta altura João nos revela o nome de um dos dois
jovens: (40) Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que
tinham ouvido o testemunho de João e seguido Jesus. O autor tem
como certo que seus leitores sabem quem é “Simão Pedro”, pois André está
sendo identificado como irmão do conhecido grande Apóstolo Pedro.
Quando João escreveu, Pedro já estava morto, mas a lembrança do grande
líder ainda estava viva. O nome do segundo jovem ainda não é revelado.
Os dois jovens ficaram tão impressionados com o que viram e
ouviram que saíram (talvez ainda na mesma noite), cada um correndo à
procura de seus próprios irmãos. (41) Ele (André) achou primeiro o seu
próprio irmão, Simão, a quem disse: “Achamos o Messias (que quer
dizer Cristo), (42) e o levou a Jesus. Entendemos pelo texto que os
irmãos, tanto de André (Pedro), quanto do outro, estavam nas
proximidades, juntos atraídos pelo movimento Batista desde a distante
Galileia.
Imaginemos como André, aproximando-se correndo do seu irmão
exclamou, ainda sem fôlego: “Achamos o Messias!” A pessoa do Prometido
por Deus ocupava a mente de todos os envolvidos no movimento batista;
estavam esperando ansiosamente por “Aquele” anunciado pelo Batista.
Imediatamente Pedro se predispôs a voltar com André, pois se essa notícia
fosse consistente, todo o mais podia esperar.
A compreensão do termo “Messias”, a esta altura, ainda é limitada.
Por enquanto ele é aplicado ao “anunciado por João Batista”. Seu
significado tornar-se-á mais profundo - o que levará tempo - até
novamente ser pronunciada por Pedro em 6.67-69, mas dessa vez com
maior respaldo. Mesmo assim, não persistiria perante a realidade da cruz.
A nossa fé também levará tempo; ela precisa crescer, ser alimentada,
provada, até que “cheguemos ao pleno conhecimento do filho de Deus,... à
medida da estatura completa de Cristo” (Ef.3.14).
Observe: André o levou a Jesus! A relativa intimidade com Jesus já
permitia que André levasse outros a Jesus. Você não pode levar ninguém a
Jesus se não teve primeiro, um encontro pessoal com Ele. E se teve: Você
está levando outros a Jesus?
Olhando Jesus para ele, disse: “Tu és Simão, o filho de João; ...”
Se você prestar atenção à sequência do chamado vocacional dos primeiros
seis discípulos e como este está se desenvolvendo, você notará que João
enfatiza em cada encontro o prévio conhecimento de Jesus da pessoa e da
personalidade daquele que foi “achado”.
Saindo por um instante do relato, pensando na nossa própria visão
de cristão, vemos que nenhum dos seguidores de Jesus se tornou
discípulo por decisão própria. Todos eles foram convidados por Jesus. Se
você se considera cristão, saiba que você somente o é, se sabe que, antes,
50
havia um chamado. Seu cristianismo ou seu “seguir a Cristo” é a resposta
a um chamado. Hoje, na pregação e na leitura, a própria Palavra de Deus
consiste em um chamado, e ser cristão corresponde à resposta pessoal e
responsável.
• Ninguém nasce cristão!
Voltemos ao relato do Evangelista: Jesus sabe quem é o homem
apresentado por André; Ele conhece até a sua descendência. Como?
Aqui se dividem as interpretações. Comentaristas tradicionais veem
em Jesus o “homem-Deus”, que milagrosamente sabe de tudo. Nada lhe
fica oculto. Esse Jesus não é muito diferente de um mágico. Um Jesus
assim não “se esvaziou a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se
semelhante aos homens, e, sendo encontrado em forma humana, humilhouse a si mesmo e foi obediente até a cruz” (Fil. 2.7,8).
Observe que os seis primeiros discípulos, que formarão o núcleo dos
seguidores e posteriores Apóstolos, conforme João, são reconhecidos
imediatamente por Jesus. Vemos nisso a mão de João, cujo objetivo era
convencer o leitor, através de cada detalhe de seu relato, de Jesus ser o
Cristo de Deus. Essa visão do Jesus-Verbo, do Cristo, no entanto, é a visão
da época em que o Evangelista escreve. Mas ela não o era ainda no
momento relatado. A palavra de Jesus: “Tu és Simão, filho de João” pode
bem ser uma resposta à apresentação feita por André, pois Jesus, mirando
atentamente este homem, acrescenta uma promessa: “... tu serás
chamado Cefas” (que quer dizer Pedro). Jesus sabia o que faria deste
homem. Hoje, Cristo sabe o que fará de cada um de nós, caso lhe dermos
espaço. Se olharmos Jesus como um tipo de “mágico”, que tudo sabia de
antemão, invalidamos o fato da encarnação. Em tudo Jesus foi feito
homem, menos no pecado (Hebr.4.15). Jesus de Nazaré havia aceito as
limitações humanas. O que o fez diferente de nós todos era Sua íntima e
permanente comunhão com o Pai. Essa é que o Evangelista quer
demonstrar com o conhecimento prévio de Jesus quanto aos jovens
apresentados.
Por enquanto, seus novos seguidores nada perceberam a respeito;
eles simplesmente ficaram surpresos com o discernimento de Jesus. O
velho Evangelista, com seu conhecimento de Jesus como “Filho de Deus”,
interpreta o passado à luz do depois. Quando Jesus, olhando Simão,
dirigiu-lhe a promessa: “tu serás chamado Pedro”, João reconheceu nela
toda a história posterior do grande Apóstolo inclusa na promessa.
Escrevendo seu Evangelho, João escutou e viu o que os homens àquela
altura não podiam perceber.
O verso 41 diz que “André encontrou primeiro...” A palavra no
original grego não deixa claro se o “primeiro” deve ser seguido por um
“segundo, depois” ou se quer dizer “antes” do seu colega encontrar seu
próprio irmão, Tiago. A segunda opção parece válida, pois está implícito no
51
texto que o outro jovem, ainda sem nome, também partiu à procura de seu
irmão, encontrou-o e o trouxe, pois mais adiante encontramos Tiago, irmão
de João, na lista dos quatro primeiros seguidores. João até ali,
discretamente, omitiu seu próprio nome.
Ainda estamos na região sul onde João Batista pregava e batizava.
Quatro homens, dois pares de irmãos, haviam sido apresentados a Jesus:
André, Pedro e Tiago, João (ainda sem nome). Ao retornar para o norte,
mais dois homens se juntarão ao grupo. Veremos mais adiante.
Quem comparar a história da formação do grupo dos Doze nos
Evangelhos sinóticos com o relato de João, verá que há concordância até
aqui. Pelos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) somos informados que,
após o contato inicial com Jesus, os dois pares de irmãos voltaram à sua
ocupação profissional como pescadores. Ouvimos que o Batista fora preso
por Herodes. Quando Jesus, após seu retorno ao norte (Galileia), andava
junto ao “Mar da Galileia” possivelmente já com outros seguidores, Ele
deparou-se com os dois pares de irmãos que, tempos atrás, havia
encontrado, novamente trabalhando como pescadores e os convocou para
segui-lo de vez. Imediatamente, os quatro deixaram sua profissão e seus
parentes para trás e, dessa vez definitivamente, juntaram-se a Jesus
(Mateus 4.18-22).
Sabemos através da nossa própria história de vida, quantos
encontros com Jesus, quantos chamados e correções são necessários até
que o chamado definitivo nos consegue colocar na nossa carreira atrás do
Mestre.
O Evangelho de João, preocupado com sua mensagem principal, só
dá umas rápidas pinceladas do período inicial do ministério de Jesus. João
não menciona o afastamento temporal dos quatro, e quanto ao
crescimento paulatino do grupo de seguidores, o Evangelista nada mais
informa. As tradições sinóticas discordam entre si quanto à ordem de
escolha e os nomes dos demais discípulos finalmente escolhidos. Fontes de
tradição oral diferentes e caminhos diferentes até serem finalmente
registradas são a razão. Os demais seis discípulos podem ter seguido
Jesus dentre a multidão bem antes de serem escolhidos a dedo, momento
em que o Evangelho os menciona. Para o nosso estudo e para a mensagem
do Evangelho como um todo, isso é insignificante.
João se interessou exclusivamente para o chamado dos primeiros
seis seguidores, todos vindos da esfera de influência do Batista, pois a eles
o Batista havia dado seu testemunho a respeito de Jesus. Quatro deles já
conhecemos; outros dois virão na leitura que se segue.
Cap.1.43-51
(43) No dia imediato, resolveu Jesus partir para a Galileia e encontrou a Filipe, a
quem disse: “Segue-me”. (44) Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e Pedro.
(45) Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: “Achamos aquele de quem Moisés
52
escreveu na Lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José.
(46) Perguntou-lhe Natanael: “De Nazaré, pode sair alguma coisa boa?” Respondeu
Filipe: “Vem e vê”. (47) Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: “Eis
um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!” (48) Perguntou-lhe Natanael:
“Donde me conheces?” Respondeu-lhe Jesus: “Antes de Filipe te chamar, Eu te vi ,
quando estavas debaixo da figueira. (49) Então, exclamou Natanael: “Mestre, tu és o
Filho de Deus, tu és o Rei de Israel! Ao que Jesus lhe respondeu: “Porque te disse
que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas do que estas verás”. (51) E
acrescentou: “Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos
de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.
Chegou o último dia de Jesus nas proximidades do Batista. Ele se
preparou para partir, de volta à sua terra que dista 70 ou 80 quilômetros
em direção norte - a Galileia. Havia encontrado muita gente de sua terra
na companhia do Batista.
(43) No dia imediato, resolveu Jesus partir para a Galileia e
encontrou a Filipe, a quem disse: “Segue-me”. (44) Ora, Filipe era de
Betsaida, cidade de André e Pedro. Entendemos que a ordem de Jesus
foi prontamente obedecida por Filipe, mais ainda tratando-se de um
conhecido, proveniente da mesma região. Betsaida era uma vila na
margem norte do “Mar da Galileia”.
(45) Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: “Achamos aquele de
quem Moisés escreveu na Lei, e a quem se referiram os profetas:
Jesus, o Nazareno, filho de José. (Obs: Natanael, do Evangelho de João,
corresponde ao Bartolomeu nos Evangelhos sinóticos). Natanael era de
Caná, a vinte e cinco quilômetros ao oeste de Cafarnaum, na região
montanhosa da Galileia. Ele também veio pedir o batismo por João Batista
e estava ansioso pelo aparecimento daquele que “batizaria com o Espírito”
(1.33). Observe como Filipe, no seu grande entusiasmo, transmitiu a Boa
Nova: A sentença começa com o “encontramos” e termina com “Nazareno,
filho de José”. Os dois conceitos eram totalmente contraditórios. “Aquele de
quem Moisés e os profetas escreveram”... Natanael entendeu: As promessas
se cumpriram! Grandioso! Mas quando ele ouviu o final da mensagem, “...
filho de José, de Nazaré” – uma vila absolutamente insignificante que nem
constava na Lei e nos profetas - (46) Perguntou-lhe Natanael: “De
Nazaré, pode sair alguma coisa boa?” Natanael conhecia bem as
Escrituras. Da Galileia, e menos ainda de Nazaré, não viria nenhum
Messias. A promessa valia para a pequena “Belém” na Judeia. E quem era
o tal de José, pai desse tal Jesus?
Observe que o Evangelista João nada sabe ou nada menciona de um
“nascimento virginal” de Jesus. Muito naturalmente Jesus é apresentado
como “Filho de José”. Nem Paulo sabe de um nascimento virginal, quando
diz : “... nascido de mulher, nascido debaixo da Lei...” (Gal.4.4). O “Messias”
dos judeus era esperado da linhagem de Judá, descendente de Davi,
portanto humano. Quando João escreveu seu Evangelho, ainda não havia
nenhuma doutrina a respeito, muito embora o texto de Mateus 1.18-25 já
devesse ser conhecido.
53
Filipe ofereceu a Natanael a melhor resposta possível nesta situação:
Respondeu Filipe: “Vem e vê”. Realidades não podem ser passadas a
outros através de argumentação. É preciso verificar para chegar à certeza.
Quando Natanael, sendo levado por Filipe, aproximou-se de Jesus, este o
observou atentamente.
(47) Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: “Eis
um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!” Poderíamos
argumentar que o uso de artimanhas para adquirir vantagens pessoais
caracterizou não somente o velho Jacó (Gen.27.35), mas também seus
descendentes (inclusive a nós). Um judeu realmente honesto,
transparente, sem duplicidade, tinha se tornado uma raríssima exceção. A
imediata disposição de Natanael de ir ver “a coisa vinda de Nazaré”
testemunhou a seu favor. Um homem que tivesse menos integridade
poderia ter, gentilmente, agradecido a Jesus pela forma elogiosa com que
fora cumprimentado. Com grande sinceridade, (48) Perguntou-lhe
Natanael: “Donde me conheces?” Será que Filipe havia suprido Jesus
com informações a seu respeito? Respondeu-lhe Jesus: “Antes de Filipe
te chamar, Eu te vi, quando estavas debaixo da figueira”.
“Estar debaixo da figueira” era sinônimo de “estudar a Lei”. O
Evangelista retorna aqui ao mesmo estilo literário como o verificado na
saudação de Pedro, isto é, ele enfatiza o imediato conhecimento que Jesus
tinha das pessoas que o cercavam. Foi este o caso, pois Natanael, sabendo
que fora observado enquanto estudava, acabou sendo desarmado. Sua
desconfiança
inicial
havia
se
transformado
em
um
grande
deslumbramento. (49) Então, exclamou Natanael: “Mestre, tu és o Filho
de Deus, tu és o Rei de Israel!...
É difícil não reconhecer a mão do autor quando ao escrever seu
Evangelho anos mais tarde, ele acrescenta o título “Filho de Deus” à
resposta entusiasmada de Natanael. Sim, Natanael reconheceu nesse
homem de Nazaré o “Mestre” e “Rei de Israel”. João reforçou a exclamação
de Natanael com o título “Filho de Deus” que acabara de apresentar no seu
Evangelho (1.34). Para que os discípulos chegassem a essa conclusão, no
entanto, ainda haveriam de passar por muitas experiências, provas e
derrotas; a última delas foi quando fugiram em face da prisão de Jesus.
Somente após a ressurreição de Jesus é que a compreensão deles chegará
a tal ponto. João, o Evangelista, na sua paixão pelo seu Senhor, olha o
passado com os olhos da fé madura e assim ele escreve. Ele não está
relatando fatos... ele está pregando!
Ao que Jesus lhe respondeu: “Porque te disse que te vi debaixo
da figueira, crês? Pois maiores coisas do que estas verás”. A base para
a fé de Natanael era estreita demais. Uma única experiência pessoal não
54
sustenta uma vida de fé. Amorosamente, Jesus corrigiu e ampliou a visão
inicial de Natanael.
(51) E acrescentou: “Em verdade, em verdade vos digo que
vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o
Filho do Homem”. Vinte e cinco vezes o Evangelista usará no seu
Evangelho a expressão “em verdade, em verdade”. Esse termo duplo
corresponde ao “Amém, amém” do Antigo Testamento, onde é usado para
confirmar uma maldição ou uma bênção (confira Num.5.22;, aliás Neemias
8.6). Hoje diríamos: “Certamente...”. O que Jesus está prometendo aos
seus primeiros discípulos? O mesmo que Jacó viu no seu sonho (Gen.
28.10-13.7) tornar-se-á realidade para eles. Eles serão testemunhas de um
céu aberto, de uma comunhão perfeita e constante do Pai com o “Filho do
Homem”. O termo “Filho do Homem” em geral é muito controvertido. Aqui
ele está usado de acordo com o pensamento joanino: Através desse Filho
do Homen, Deus mesmo entrará em comunhão permanente com os
homens.
Com essas palavras João encerra a narração do início do movimento.
Os primeiros seis discípulos, como que atraídos por uma força maior,
haviam se juntado ao seu Mestre. Todos os títulos de honra que o
movimento messiânico conhecia e criava foram aplicados a Jesus: O
“Verbo preexistente”; “Cordeiro de Deus”; Habitação do Espírito; “O
que batiza com o Espírito”; “Filho de Deus”; ”Filho do Homem” (Dan.7);
“Rei de Israel”.
Sob este último título, mais tarde, Ele seria condenado à morte
(João 19.19).
Cap.2.1-11
(2.1) Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, achando-se
ali a mãe de Jesus. (2) Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o
casamento. (3) Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais
vinho”. (4) Mas Jesus lhe disse: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é
chegada a minha hora”. (5) Então, ela falou aos serventes: “Fazei tudo que ele lhes
disser”. (6) Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as
purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. (7) Jesus lhes disse: “Enchei
de água as talhas”. E eles as encheram totalmente. (8) Então, lhes determinou:
“Tirai agora e levai ao mestre-sala”. Eles o fizeram. (9) Tendo o mestre provado a
água transformada em vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os
serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo (10) e lhe disse: “todos
costumam por primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o
inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora”. (11) Com este, deu Jesus
princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus
discípulos creram nele.
O Evangelho de João continua sendo um mistério na sua beleza e
sua profundidade espiritual. Como já mostramos em outro lugar,
enquanto o lemos, às vezes não temos como saber quem é que está
55
falando. O velho João, na medida em que meditava, identificou-se a tal
ponto com seu Senhor que, sem que o leitor perceba, acrescenta suas
próprias palavras às de Jesus (Exemplo: 3.5-21). João é Oriental; ele
prefere uma linguagem de imagens e responde a perguntas fundamentais
com uma estória onde a coerência dos fatos externos fica sujeita à
mensagem em si.
Você já percebeu que João não nos transmitiu nenhuma parábola do
Senhor? Parábolas foram o principal meio que Jesus usou para transmitir
verdades. Por que João não as usou? O próprio estilo do seu Evangelho às
vezes se aproxima ao da parábola e, novamente, fica difícil descobrir em
que altura o texto passa da narração de fatos reais ao mundo irreal e
figurativo de uma parábola. João viu além do horizonte; ele leu nas
entrelinhas, e assim é que ele escreveu. Sua obra se assemelha a uma obre
de arte, a um bordado extremamente belo, e com isso encontramos várias
parábolas trabalhadas no próprio texto.
Outra característica desse Evangelho é sua variedade de fontes. Por
razões desconhecidas e sobre as quais só podemos especular, o
Evangelista às vezes inseriu na sua matéria tradições anteriores. O leitor
atento às vezes percebe que não é o estilo do autor. Nesses textos
intercalados João é o redator. O Evangelista usou uma tradição anterior e
a adaptou ao seu fim, introduzindo-a na melhor maneira possível no fluxo
da narração.
Como dissemos, tudo que tornaria manifesta a “glória do SENHOR
revelada em Jesus” interessa ao velho discípulo. Ele quer que o leitor
também saiba e creia no mistério que ele viu e ferozmente defendeu
perante as várias correntes gnósticas de seu tempo. No texto de hoje
estamos, muito provavelmente, diante de uma tradição que não veio da
mão do Apóstolo, mas era redigida e adaptada por ele, assemelhando-se
assim, em parte, a uma parábola.
(2.1) Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia,
achando-se ali a mãe de Jesus. (2) Jesus também foi convidado, com
os seus discípulos, para o casamento.
As especulações sobre o “três dias depois de quê”? não tem
relevância. O verso deveria ser traduzido corretamente “no terceiro dia”.
Cada judeu sabe que casamentos judaicos se celebram “no terceiro dia”
(nossa terça-feira), no único dia do relato da criação (Gênesis 1,10 e 1,12)
no qual Deus duas vezes disse “E viu Deus que isso era bom”. Os Rabis
sábios veem nisso uma benção dupla, uma para a noiva e outra para o
noivo (Fonte: Pinchas Lapide).
Como o Evangelho de João foi escrito para a comunidade gentílica
que não conhecia a cultura judaica, o “terceiro dia” transformou-se em
“três dias depois”.
56
Jesus já se encontrara ao norte, na Galileia, com alguns de seus
seguidores. Nada, também, nos é dito quanto à razão da presença de
Maria na festa. Jesus também foi convidado como filho mais velho,
substituindo o pai, que aparentemente não existia mais. A hospitalidade
oriental tem como certo que “amigos do amigo”, neste caso os discípulos,
naturalmente estivessem incluídos no convite.
O que primeiro chama a atenção é a ignorância do fato da ruptura
de Jesus com sua família biológica, atestada nos Evangelhos sinóticos
(Marcos 3.31-35). Nenhum outro Evangelho sabe de uma convivência de
Jesus com sua família após o encontro com João Batista. Não sabemos,
portanto, onde historicamente encaixarmos o relatório.
Como concluímos através do verso cinco, a mãe de Jesus parecia ter
alguma posição hierárquica na casa dos noivos: ela dava ordens aos
empregados.
(3) Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não
têm mais vinho”.
Festas de casamento judaicas são celebradas na casa do noivo e
perduram, às vezes, até sete dias, durante os quais amigos e parentes
estão chegando e saindo. (Uma dica: Você quer ter uma ideia de um casamento
judaico? Assista em DVD o filme “O violonista no telhado”). Os comentaristas mais
renomados discordam quanto à razão do recado dado a Jesus. Muitos
querem nos fazer crer que Maria, ansiosa para ver um milagre realizado
pelo seu filho, aproveitou a oportunidade. A premissa do conhecimento da
amplitude do chamado de seu filho não tem base bíblica; ela é fruto da
tradição posterior.
Outros, mais sóbrios, veem como absolutamente normal sua
observação. Jesus, como filho mais velho, poderia talvez ajudar na
situação constrangedora? Falta de vinho, no casamento, seria uma
humilhação para o novo casal. É o pedido de ajuda de uma mãe
preocupada que, de alguma forma, fez parte responsável da comunidade
festiva.
(4) Mas Jesus lhe disse: “Mulher, que tenho eu contigo?... A
concluir pela resposta, Maria errou. A expressão “mulher”, nesse contexto,
não revela falta de respeito, mas sim de uma ordem, que pede respeito.
Jesus rejeita com uma expressão clara a intromissão de sua mãe.
Expressões semelhantes são usadas nos textos da Antiga Aliança sempre
que houve intromissão, como em Juízes 11.12; 1 Rei 17.18 ou 2 Crônicas
35.21. Confira também Marcos 1.24.
Com o uso da palavra “mulher” em lugar de “mãe”, Jesus deixou
claro, de uma vez por todas, que os laços biológicos não tinham valia no
seu ministério. Por que, então, Ele estava junto com Maria na festa? Não
sabemos.
57
Ainda não é chegada a minha hora”. A essa altura, a linguagem de
João volta-se para o simbólico. Em todo seu Evangelho a “minha hora” é
tida como sinônimo da hora da morte, da cruz, da glorificação do Pai no
Filho (compare: João 7.30/ 8.20/ 12.23 e 27/13.1 / 17.1). “Essa hora”
Jesus entendeu no seu íntimo como “sua hora”. Ou será que uma dádiva
de vinho teria alguma ligação com a Sua morte? Deixaremos a resposta
para depois.
O texto deixa claro que Maria nada disso considerou. Ela
interpretou a resposta de Jesus como um simples “ainda não”. Disso dá
prova sua ordem aos empregados da casa: (5) Então, ela falou aos
serventes: “Fazei tudo que ele lhes disser”. Uma das características no
Evangelho de João são as repetidas interpretações falhas das palavras de
Jesus. Enquanto Jesus fala em um nível, os discípulos ou seus
interlocutores, não entendendo, respondem em um nível humano, inferior,
inadequado; provas da falta de compreensão deles.
(6) Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para
as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas.
Repentinamente o autor introduz seis enormes talhas de pedra. Uma
metreta corresponde a 39 litros. Seis delas correspondem a um volume
total de aproximadamente 600 litros. Em virtude do conhecimento da
Santidade de Deus e da própria necessidade de purificação, o judeu
conheceu muitos ritos de lavagem ritual (Mat.15.1-20 ou Marcos 7.1-4). A
purificação das mãos, por exemplo, não acontecia através de lavagem.
Deixava-se correr uma pequena quantidade de água pelas mãos, a partir
do pulso, conforme ritual cuidadosamente estabelecido. Não se tratava de
higiene, mas de um ritual.
Até hoje não existe água corrente na região de Caná. Toda a água
vinha do poço e era limitada. Uma festa de casamento de vários dias em
uma região quente, e na qual havia inclusive os obrigatórios banhos
rituais dos noivos, exigia muita água. Como parece, as talhas mencionadas
já estavam vazias, quando o vinho ameaçou faltar.
Nenhum comentarista encontrou até agora uma explicação razoável
para o número de talhas. O número de seis não faz sentido, nem
alegoricamente. Se imaginarmos o tamanho das vasilhas, peças
raríssimas, caras, que casa nobre seria essa?
(7) Jesus lhes disse: “Enchei de água as talhas”. E eles as
encheram totalmente. Encher seis talhas desse tamanho com água
trazida do poço, escasso, leva tempo. Ninguém parece ter percebido.
(8) Então, lhes determinou: “Tirai agora e levai ao mestre-sala”.
Eles o fizeram. (9) Tendo o mestre provado a água transformada em
vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes
que haviam tirado a água), chamou o noivo...
58
Não há descrição do milagre. Esse simplesmente é presumido.
Ninguém percebeu transformação alguma. Quando o mestre-sala
(geralmente um escravo responsável pela ordem na sala) provou a água
(que havia se transformado em vinho), ele não demonstrou conhecimento
do perigo de fim de estoque; ele o provou pensando em se tratar de um
segundo lote que havia sido aberto.
(10) e lhe disse: “todos costumam por primeiro o bom vinho e,
quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém,
guardaste o bom vinho até agora”. Acaba a narração. A crítica do
mestre-sala, contendo um elogio, serve para provar que houve
transformação. Nem o mestre-sala, nem os convidados e muito menos os
noivos percebem o milagre. Saboreiam, sem saber, o precioso líquido. Nada
ouvimos da mãe de Jesus, antes tão preocupada; nada de Jesus. Ele e sua
família desaparecem. E novamente percebemos que estamos envoltos no
irreal, misterioso, contraditório.
O mais estranho é o presente, a quantidade de vinho fino. Como
Jesus (recentemente vindo do encontro com o Batista), que pregava
abstinência e ascetismo (Lucas 1.15), presenteia uma festa de casamento
com tal quantidade de vinho? Isso era responsável?
Alguém, com muita razão disse que, se o tal casamento acontecesse
no Brasil, chamaríamos Jesus para transformar o vinho em água. Crente
não bebe (na presença de outros crentes)! Os pastores, ao querer justificar
esse milagre palavra por palavra, são obrigados a torcer a Palavra. Lemos
os seguintes comentários: Jesus queria presentear o casal com uma reserva
grande de vinho, ou: Somente as camadas superiores nas talhas haviam se
transformado em vinho, ou: O mestre-sala simplesmente se enganou e o
vinho em seguida acabou, e outros consideram que o autor da história
poderia ter exagerado um pouco para aumentar o tamanho do milagre. Tudo
isso não convence, menos ainda quando se alega expor a “Palavra de
Deus” (2 Tim.3.16).
(11) Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da
Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.
Para o Apóstolo parece não existir escrúpulos. Ele menciona que os
seguidores de Jesus creram porque viam nesse milagre um sinal de Sua
glória. Logo em seguida (isso é típico de João), ele relativiza a natureza
dessa fé que nasce de milagres (2.23-25).
Se fechássemos aqui o estudo do milagre do vinho, ficaríamos
insatisfeitos. Temos que admitir que, lendo o texto da maneira como o
fizemos, ele não nos abriu os olhos. Considerando-o como um todo, fica a
impressão de uma irrealidade nebulosa. Ao mesmo tempo, ele nos fornece
dados exatos, detalhes que não sabemos encaixar. Ficam perguntas sobre
59
perguntas, sem respostas. O maior inconveniente em tudo isso é a
motivação do milagre, que não aparece. Enquanto nos outros muitos
milagres relatados nos quatro Evangelhos, a ação de Jesus nasce quase
exclusivamente da misericórdia Divina perante a miséria ou o sofrimento
humano, aqui não podemos, mesmo se formos apreciadores de um bom
vinho, descobrir um sentido real, benéfico.
Em certa altura da narração, a história novamente parece ter
entrado no âmbito de uma parábola. Mas qual seria seu sentido? O enigma
no Evangelho de João ainda continua.
Cap.2.11-12
(11) Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia;
manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. (12) Depois disto, desceu
para Cafarnaum, ele, e sua mãe, e seus irmãos, e seus discípulos, e ficaram ali não
muitos dias.
“Não há nenhuma explicação natural para o que aconteceu”. Esse
comentário não satisfaz.
Uma “pérola” entre os comentários encontrados é a advertência feita
para que alguém, “falhando inteiramente na compreensão da verdade
gloriosa ensinada, ouse usar este texto para advogar indulgência no uso de
bebidas alcoólicas. Essa pessoa deveria ler e guardar no coração as
passagens de 1 Coríntios 8.9;9.12 e 10.23-24,32-33...”
Para justificar bebedeira com esse milagre, haverá, pensamos,
necessidade de uma medida de burrice fora do comum. A esse leitor, o
Evangelho de João certamente jamais dirá nada.
A preocupação com a bebedeira, recorrente nas cartas de Paulo,
pertence ao mundo grego; não é desse vinho que João nos fala na história
do casamento em Caná.
João escreveu seu Evangelho na Ásia Menor, cercado da cultura
grega que conheceu muitas lendas de divindades. Há comentaristas que
chamam a atenção à lenda do culto a Dionísio. Ele era o deus do vinho,
transformava água em vinho e essa “epifania” o credenciava como deus.
João certamente conheceu essa crença. Será que o Evangelista usou uma
antiga tradição síria - porque sabia que Jesus não desprezava a alegria para legitimá-lo como “Filho de Deus”? Tudo que sabemos de João fala
contra essa possibilidade. Jesus nunca seria colocado em pé de igualdade
às “divindades” gregas. Constatamos que tampouco desse vinho João nos
fala.
Onde, então, está a “verdade gloriosa ensinada” nesse texto?
passo, vamos considerá-la:
Passo a
60
(11) Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da
Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.
O Apóstolo chamou o fato ocorrido de “um sinal”. Um sinal aponta
para um fato, uma verdade oculta a ser considerada. Em 20.30-31, o
Apóstolo definiu a razão dos sinais: “... muitos outros sinais, que não estão
escritos neste livro; estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus
é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida em seu
nome”.
(12) Depois disto, desceu para Cafarnaum, ele, e sua mãe, e seus
irmãos, e seus discípulos, e ficaram ali não muitos dias.
A história do casamento em Caná é a única tradição que temos
recebido do período em que a ruptura entre Jesus e a sua família biológica
ainda não havia acontecido (quer dizer antes do início de seu ministério de
pregação pública). Os três Evangelhos sinóticos vão diretamente do
batismo de Jesus ao seu ministério. Fora do relato da festa em Caná nada
sabemos do período entre a volta de Jesus à Galileia e o início de sua
atividade de pregação. Jesus iniciou sua atividade quando ouviu que a voz
do Batista, por ordem de Herodes, havia sido silenciada (Marcos 1.14).
Nesse lapso de tempo entre o batismo e a prisão do Batista, devemos
procurar a festa de casamento em Caná como possível fato histórico.
Não podemos esquecer que os seis primeiros discípulos de Jesus
vieram de entre os seguidores de João, asceta, abstinente radical.
Dificilmente, àquela altura, eles poderiam ver na quantidade de vinho um
sinal da glória de Jesus, uma vez que já haviam aprendido com o Batista a
desprezar a bebida forte. Tudo isso nos leva a crer que se trata de uma
tradição muito antiga, do relato de uma festa da qual Jesus participou,
que foi adaptada por João e transformada em uma parábola. João não diz
que os seus discípulos viram a Sua Glória. Ele diz objetivamente que Jesus
revelou Sua Glória. Dos discípulos ele diz que “creram nele”. Ainda era
uma fé em estágio inicial e imaturo (2.23-25).
Segundo a tradição, Maria, mãe de Jesus, viveu seus últimos dias
em Éfeso, junto com o Apóstolo João. Ali se venera ainda hoje uma
pequena casa na encosta de um morro como “casa de Maria” (simbólica
somente e que o atual papa bem como o anterior visitaram por ocasião de
suas visitas à Turquia). A possibilidade de uma tradição posterior, cuja
fonte é creditada à própria mãe de Jesus, embora improvável, não pode ser
excluída de vez. A historicidade da permanência de Maria em Êfeso é
duvidosa. Os dois ou três primeiros séculos da igreja primitiva conheciam
um túmulo de Maria em Jerusalém (RIESNER, Essener u.Urgemeinde in Jerusalém,
Brunnen,1998).
A primeira chave para o entendimento do texto está ligada de
alguma forma com a palavra misteriosa de Jesus: “minha hora” ainda não
chegou. Aparentemente existe alguma ligação da morte de Jesus com a
doação abundante de vinho. Alguns teólogos procuravam ver no vinho o
61
anúncio do vinho da eucaristia, o que não convence. O entendimento de
João quanto aos sacramentos não o permite.
Outro detalhe que chama a nossa atenção são as vasilhas para
purificação, vazias, que se transformaram em fonte abundante de vinho. A
água, antes, servia para rituais de purificação, meros esforços humanos
simbólicos, que tinham um sentido de poder agradar a Deus. O Filho de
Deus anuncia, através de um “sinal”, que acabou a escravidão do medo.
Não mais há necessidade de “rituais de purificação”. No seu lugar há fonte
de alegria e liberdade no sentido mais amplo. As vasilhas estavam vazias.
Com Jesus há abundância de perdão. O ritual simbólico e ineficaz,
celebrado para ser contemplado com o perdão, foi abolido e substituído
pela realidade do perdão, o que aconteceu quando a “Sua hora” chegou.
João viu a festa em Caná e todo seu passado com Jesus com os
olhos da fé, adquiridos por toda uma longa vida. Ele viu o que nem os
outros, nem ele, naquele momento perceberam. O seu Evangelho tem que
ser lido com os mesmos olhos com que o Evangelho foi escrito. A
abundância do vinho... O vinho como sinônimo de alegria; as bodas como
símbolo da união entre Deus e os homens; a alegria nupcial que marca
uma festa de casamento... João viu seu Evangelho como “o Evangelho das
bodas” (Nigg), da alegria que marca essa festa da qual canta Novalis no seu
hino: “... se eles tivessem provado uma única vez, teriam deixado tudo para
trás”.
Quanto mais avançamos no Evangelho de João, melhor percebemos
a estrutura que o Apóstolo tem dado à sua obra. Vários comentaristas
entendem o milagre de Caná como prelúdio ao capítulo três, logo adiante.
Naquele capítulo, o Evangelista abordará a transformação que o Espírito
Santo opera no homem, levando-o ao “novo nascimento”. A transformação
da água em vinho de melhor qualidade, em abundância, já nos fala
daquilo que acontece quando Jesus é convidado (2.2: ... “Jesus também foi
convidado”). Os primeiros relatos de João assim fundamentam todo seu
Evangelho: abundância de perdão e transformação na presença de Jesus.
As linhas de divisão entre relato histórico e parábola são indistintas;
as duas categorias se confundem. Graças a isso podemos ver “a Glória de
Jesus” revelada de várias maneiras. Com Sua vinda, Sua presença, nos
chegou o anúncio do fim do ritualismo como ordenança perante Deus e
vieram a abundância da Graça e a transformação.
O momento em que se cumpriu a “minha hora” nos trouxe alegria:
“... vós ficareis triste, mas a vossa tristeza se converterá em alegria; ... o
vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar... pedi e
recebereis, para que a vossa alegria seja completa!” (confira cap. 16.20-24).
O próprio Senhor não comparou nas Suas parábolas dos Evangelhos
sinóticos a “Sua Hora” e Sua “Glorificação” com uma festa de bodas?
62
Cap.2.13-22
(13) Estando próxima a Páscoa dos judeus, subiu Jesus para Jerusalém. (14)
E encontrou no Templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os
cambistas assentados; (15) tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do
Templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos
cambistas, virou as mesas (16) e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai daqui
estas coisas; não façais da casa do meu Pai casa de negócio”. (17) Lembraram-se os
seus discípulos de que está escrito: ‘O zelo da tua casa me consumirá’. (18)
Perguntaram-lhe, pois, os judeus: “Que sinal nos mostras, para fazeres estas
coisas?” (19) Jesus lhes respondeu: “Destruí este santuário, e em três dias o
reconstruirei”. (20) Replicaram os judeus: “Em quarenta e seis anos foi edificado
este Santuário, e tu, em três dias, o levantarás?” (21) Ele, porém, se referia ao
santuário de seu corpo. (22) Quando, pois, Jesus ressuscitou dentro os mortos,
lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto, e creram na Escritura e na
Palavra de Jesus
A ação de Jesus no Templo, melhor, no átrio do Templo, consta em
todos os Evangelhos. Mateus, Marcos e Lucas registram a assim chamada
“purificação” do Templo como tendo ocorrido na semana da crucificação de
Jesus. Alguns comentaristas sugerem que Jesus “limpou” o Templo duas
vezes: uma vez no início de seu ministério (relatada em João) e, uma
segunda vez, no final de seu ministério (registrada nos Evangelhos
sinóticos). Eles o fazem porque temem suscitar dúvidas sobre a fidelidade
das Escrituras.
É evidente que os relatos dos sinóticos e de João se referem ao
mesmo acontecimento. Há, porém, diferenças marcantes de “avaliação” da
ação do Senhor. Para que as entendamos, temos que dar uma olhada no
relato de Marcos. Ele representa a visão dos sinóticos. Ali, a ira de Jesus
se volta contra abusos cometidos nos negócios necessários para o
funcionamento do Templo. Seu brado: “Não está escrito: A minha casa será
chamada casa de oração para todos os povos? Mas vocês fizeram dela um
covil de ladrões!”, revela zelo pelo Santuário. Jesus se referiu aos profetas
Isaías (56.7) e Jeremias (7.11). Ao derrubar as mesas dos cambistas,
expulsar comerciantes, não permitindo que se manchasse a santidade do
Templo, Jesus agiu com os melhores motivos em favor dos interesses de
seu Pai, cuja casa era o Templo (Lucas 2.49).
A intervenção de Jesus da qual o Evangelista João nos fala, tem um
enfoque diferente. Nela não se trata de expulsar comerciantes desonestos
do Templo. A Bíblia de Estudo de Genebra recomenda considerar essas
purificações (sinóticos e joanina) como incidentes diferentes. Com isso ela
sugere que devamos pensar em duas ações distintas. Veja, Jesus não agiu
ora com uma motivação e mais tarde com outra, totalmente contrária. É
muito mais provável que os Evangelistas faziam avaliações diferentes e
assim relataram o incidente com significados diferentes, até contraditórios.
Só assim entenderemos a mensagem de João, novamente muito mais
ousada do que a dos outros Evangelistas. Vamos passo a passo:
63
(13) Estando próxima a Páscoa dos judeus, subiu Jesus para
Jerusalém. Por que razão João coloca a subida para Jerusalém e a
intervenção de Jesus no “comércio sagrado” como introdução ao seu
ministério público, quando na realidade aconteceu no seu final? O registro
feito por João da purificação do Templo imediatamente depois do milagre em
Caná oferece uma importante chave para todo o ministério de Jesus. Nos
dois eventos é assinalada a substituição da antiga ordem (água para
purificação cerimonial) e Templo de Herodes pela nova ordem (vinho de
salvação, Is.25.6-9 e o Cordeiro ressurreto como o Novo Templo,
Apoc.21.22), conforme citação da “Bíblia de Estudo de Genebra”.
Para o entendimento dos capítulos seguintes, principalmente caps.3
e 4, haverá necessidade de considerar que, segundo João, com a vinda do
Senhor, o Serviço sagrado no Templo de Herodes havia perdido seu
significado. Esta será a chave para o entendimento do pensamento
joanino dos próximos capítulos. João não escreveu como historiador, ele
está pregando o Evangelho.
(14) E encontrou no Templo os que vendiam bois, ovelhas e
pombas e também os cambistas assentados; João está dando detalhes
que não temos nos sinóticos; ele especifica os tipos de animais
comercializados. Este comércio fazia parte do serviço sagrado, pois aos
peregrinos não era permitido trazer seu animal consigo; tiveram que
comprá-lo no átrio do Templo. Há uma informação antiga de que havia
dois grandes ciprestes no monte e sob um deles havia quatro tendas para
a venda de animais para os sacrifícios. Havia fedor, sujeira, balido e
mugido dos animais destinados ao sacrifício. Sob o outro cipreste havia
pombais. As pombas eram especialmente procuradas, sendo esta a oferta
sacrificial dos proletários que não podiam se permitir ofertas mais caras
(Levítico 5.7). Havia também, sem dúvida, tendas para a venda de incenso,
vinho, óleo e farinha pura – artigos estes concomitantes aos sacrifícios
(Levítico 2.5-7).
Os cambistas convertiam as moedas trazidas pelos peregrinos em
siclos (ou meio-siclos), o único dinheiro que circulava como doação
prescrita no Templo. O “dinheiro judaico” era necessário para a realização
dos vários ritos de purificação.
Todo este aparelho barulhento e mal cheiroso fazia parte
fundamental para o serviço religioso no interior do Templo. Sem os ritos e
cerimoniais de sacrifício, todo o serviço religioso perderia sua razão de ser.
(15) tendo feito um azorrague de cordas,... O ingresso nas
dependências do Templo era proibido até mesmo “com bengalas, sapatos,
maletas ou com pés empoeirados”. Como era proibido entrar com bengala
ou vara, Jesus resolveu improvisar, “in loco”, um chicote (azorrague) de
cordas e expulsou todos do Templo, bem como as ovelhas e os bois,
derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas (16) e
disse aos que vendiam as pombas: “Tirai daqui estas coisas; não façais
64
da casa do meu Pai casa de negócio”. “Tirem daqui estas coisas! Não
façam da casa do meu Pai casa de negócio!” – Tirar daqui “todas estas
coisas” não era nada menos que acabar com o serviço sacrifical. O que
seria do Templo sem os sacrifícios contínuos? Estes, permanentemente,
aplacavam a ira de Deus! Quinhentos anos atrás, o profeta Zacarias já
previu o fim do culto sangrento (14.21,22). E ali estava ele, em pleno
funcionamento!
Enquanto nos sinóticos a intervenção de Jesus parece ser resultado
da constatação de irregularidade comercial, em João é diferente. Jesus não
atacou condições objetivas como transações ilegais; Ele dispensou o
comércio como um todo. A casa de Seu Pai é casa de oração e não lugar de
comércio! Ao opor-se ao espírito de negócio, mesclado ao serviço sagrado,
Ele atacou o culto como um todo. Se o comercio era útil, melhor,
necessário para a manutenção do culto sacerdotal, era insuportável para
Jesus juntar negócio com adoração. As experiências das religiões, e
também da religião cristã, mostram como negócio e religião na prática se
mistura, tornando-se uma só coisa. O pior é que nem mais percebemos
que cometemos pecado grave.
Os discípulos (somente aqui ouvimos que Jesus estava
acompanhado) observam a intervenção enérgica de seu Mestre com
sentimentos mistos, que vão de admiração ao medo. (17) Lembraram-se
os seus discípulos de que está escrito: ‘O zelo da tua casa me
consumirá’. Angustiados, lembravam do salmo 69 que projetava opressão
e dificuldades extremas ao que, “consumido pelo zelo, entrava na casa do
Senhor”. Que final teria essa atitude extrema dele? Para piorar a situação,
apareceram as autoridades responsáveis pela ordem no “átrio dos gentios”,
a “Polícia do Templo” – única tropa permitida aos judeus – ou então,
sacerdotes, pedindo que Jesus justificasse sua ação drástica (que deveria
ter causado um tumulto enorme no já confuso “comércio sagrado”).
Lembramos que as autoridades religiosas interpelaram da mesma maneira
a João Batista quanto à autoridade para sua atuação (João 1.19).
(18) Perguntaram-lhe, pois, os judeus: “Que sinal nos mostras,
para fazeres estas coisas?” Ao contrário dos sinóticos - que situam esse
pedido de sinal para prova de autoridade nas discussões com os religiosos
na Galileia - , João lembra que fora ali no Templo que foi lançado esse
desafio. Pedir um sinal é uma atitude típica judaica (cf. 1 Cor.1.22). Quem
pede sinais é um “racionalista supraracional”; ele quer ver, não crer. Se
queremos levar pessoas a Cristo apresentando “provas”, estaremos
desafiando-as a encontrar argumentos contra. Lembremos que a reação
dos religiosos às expulsões de demônios por Jesus não os convenceram de
nada; somente os levaram à outra conclusão: “ele expele os demônios pelo
maioral deles”.
(19) Jesus lhes respondeu: “Destruí este santuário, e em três
dias o reconstruirei”. A resposta de Jesus, nesta forma, é chamada de
“mashal”, isto é, um dito paradoxal, um comentário velado, um enigma.
Ela, propositalmente, permite duplas interpretações. Jesus, como parece,
65
condiciona seu sinal a uma atitude por parte deles e considerada como
impossível: destruir este Templo, orgulho dos religiosos, sua razão de ser.
Como não puderam entender o significado do “mashal”, eles responderam
questionando-o.
(20) Replicaram os judeus: “Em quarenta e seis anos foi
edificado este Santuário, e tu, em três dias, o levantarás?” As palavras
de Jesus, quando falou em “destruir” e em “reconstruir”, permitem
interpretações diferentes. Elas servem para indicar destruição física ou
restituição, ressurreição. O dito de Jesus ficou marcado nas mentes tanto
dos discípulos como dos sacerdotes, pois mais tarde, no julgamento, ele
será levantado na acusação contra Jesus. (21) Ele, porém, se referia ao
santuário de seu corpo.
Este templo, ao qual Jesus se referiu, “os judeus” destruiriam e com
isso anunciariam, sem o saber, o final do culto no Templo de Herodes.
Você observou como Jesus se expressou quando falou em
“reconstruir”? Ele não disse que Deus o ressuscitaria, mas que “Eu o
reconstruirei”. A visão de João a respeito da autoridade do Filho é absoluta.
Veja as palavras de Jesus em João 10.17,18. “... dou a minha vida para
tornar a tomá-la... ninguém tira a minha vida de mim, eu mesmo a dou;
tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la. ..” Enquanto Paulo e
o Novo Testamento em geral nos trazem a visão de Deus ressuscitando a
Jesus (“...Deus, que também ressuscitou o Senhor, nos ressuscitará a nós
pelo Seu poder”, 1.Cor.6.14), João vê tanto no Pai como no Filho a mesma
Vontade e o mesmo Poder. “O Pai e eu somos um” (João 10.30). A Bíblia
deixa as duas interpretações válidas. São, como sempre, resultados da
limitação humana de compreensão racional, não de contradições bíblicas!
(22) Quando, pois, Jesus ressuscitou dentro os mortos,
lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto, e creram na
Escritura e na Palavra de Jesus.
Só João entendeu com toda a clareza que, com Jesus, o culto
sangrento do Templo de fato chegou ao seu fim. Os sacrifícios
haviam se tornados meros rituais; não mais correspondiam a uma
realidade espiritual. Eles eram indignos da “Casa do Pai” que, por
sua parte, estava condenada à destruição no tempo determinado
(como aconteceu anos 60 d.C.).
•
Na lição anterior entendemos Jesus como fim do ritual
religioso.
• Na leitura de hoje vimos anunciado o fim do culto sacrificial
no templo.
Agora entendemos por que João colocou esse episódio no início do
ministério de Jesus. As verdades sublinhadas por João serão premissas
em todo seu Evangelho.
66
Passo a passo, João abrirá a nossa mente para a visão “do Filho”. Na
sequência do estudo de João perceberemos que segue a futilidade do
esforço religioso. E isso veremos na próxima leitura.
Cap.2.23 - 3.5
(23) Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os
sinais que ele fazia, creram no seu nome; (24) mas o próprio Jesus não se confiava a
eles, porque os conhecia a todos. (25) E não precisava de que alguém lhe desse
testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza
humana.
(3.1) Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos
principais dos judeus. (2) Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: “Rabi,
sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes
sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”. (3) A isto, respondeu Jesus: “Em
verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o
Reino de Deus”. (4) Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo
velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? (5)
Respondeu Jesus: Em verdade , em verdade te digo: quem não nascer da água e do
Espírito não pode entrar no reino de Deus.
(23) Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa,
muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome;
Notamos que o Evangelho de João não desenvolve a história de
Jesus no sentido biográfico, começando no início (batismo) e crescendo
paulatinamente até alcançar o auge de sua popularidade na Galileia (como
em Marcos). João está preocupado em nos mostrar quem era Jesus. Os
acontecimentos e sua ordem cronológica ficam em segundo plano.
Pelo que sabemos a intervenção de Jesus no Templo não causou
nenhuma reação por parte das autoridades. Pelo contrário, “muitos” dos
peregrinos demonstravam simpatia com ele; “seu nome” ficou cada vez
mais popular.
Fé com base em milagre perdura enquanto durar o milagre. Ela não
merece confiança, pois na hora da provação, ela desaparecerá. Os milagres
em si não apagam a ambição pessoal. Pelo contrário, milagres muitas
vezes a reforçam. Em seu Evangelho, João está fazendo uma nova
avaliação da antiga “fé nos milagres”. Fé em milagres não salva, pois fica
presa no “sinal”, ao invés de penetrar até o milagre real: revelação da
perfeita união entre Pai e Filho presente na pessoa de Jesus. Essa revelação
resulta em fé; ela salva, ela nos leva a uma entrega incondicional. De
“observador” passamos para “participante”.
(24) mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os
conhecia a todos. Jesus sabia interpretar a “onda” de simpatia entre os
peregrinos. Não a julgou como fé. Ele a viu como aquilo que era: emoção
temporária, sede do espetáculo místico, hoje tão presente como no tempo
de Jesus.
67
Há um abismo intransponível que separa Jesus de todos nós. Jesus
não podia confiar no homem. Ele só podia morrer a favor do homem,
fechando assim o abismo que separa o homem de Deus.
Parece que os discípulos estranharam o discernimento de seu
Mestre, pois João observou: (25) E não precisava de que alguém lhe
desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o
que era a natureza humana.
Ainda hoje encontramos as mais variadas interpretações e
compreensões distintas dentro do cristianismo. Cada uma alega ser a
verdadeira. E em todas elas se revela somente “o velho homem” como ele é.
Conhecimento parcial, interesses próprios, sede pelo poder, rejeição de
autoridade... A Luz revela quem é esse “ser humano” que, no seu íntimo,
está negando sua origem e continuamente está falhando na sua
destinação, perdido na escuridão.
(3.1) Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos,
um dos principais dos judeus.
O cristianismo, infelizmente, tem desenvolvido uma interpretação
negativa do termo “fariseu”. Nos sermões ouvimos que eles eram astutos,
egoístas, orgulhosos, intolerantes e hipócritas. As imagens que temos
através da interpretação superficial dos Evangelhos é que eles eram uns
legalistas teimosos e inflexíveis. Infelizmente, a partir da separação
definitiva da igreja cristã de sua origem judaica, as duas comunidades
começaram, mutuamente, a desenvolver imagens negativas uma da outra.
Os fariseus, no entanto, não apenas fizeram parte dos “principais
sacerdotes, escribas e anciãos”, que são mostrados como os perseguidores
de Jesus, mas também das massas mostradas como admiradores de
Jesus. A única queixa que as autoridades podem ter tido é a de que Jesus
agira sem autoridade ou competência formal. Não apenas Jesus se movia e
se sentia à vontade na companhia dos fariseus desde a infância (Lucas
2.46); Ele continuou a ensinar diante de “fariseus e mestres da Lei...
vindos de todas as aldeias da Galileia, da Judeia e de Jerusalém (Lucas
5.17) presumivelmente para ouví-lo e com Ele estudar. Jesus fazia suas
refeições ‘shabat’ nas casas dos fariseus e prontamente aceitava seus
convites, o que sabemos por Lucas. Os fariseus eram homens prudentes,
preocupados, sobretudo em guardar toda a Lei de Deus.
O homem que João nos apresenta com o nome de Nicodemos, era
membro do Sinédrio, da mais alta corte religiosa e ainda Rabi, isto é,
Mestre no ensino. Numa ocasião posterior (7.50), na discussão entre
religiosos, Nicodemos tomará abertamente partido em favor de Jesus. Na
ocasião da preparação do corpo de Jesus para o sepultamento (19.39), é
ele que trará uma grande quantidade de bálsamo caríssimo; portanto era
homem rico.
68
(2) Este, de noite, foi ter com Jesus... Aos Rabinos era
recomendado estudar durante a noite. Essa deverá ser a razão principal da
visita noturna e não o medo de ser visto, como, querendo desqualificar
esse homem, se costuma alegar. Um membro venerado da autoridade
religiosa judaica consultou a Jesus. Jesus já fora interpelado pelos
fariseus muitas vezes, nem sempre para ser apanhado em algum erro
(como costumamos interpretar), mas para ouví-lo a respeito de assuntos
controversos entre os fariseus. Estes gostavam de discussões sem fim
sobre cada detalhe da Lei e assim, Nicodemos, quando procurou a Jesus,
veio preocupado com um determinado assunto a ser discutido, importante
o suficiente para conhecer a opinião de Jesus.
... e lhe disse: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de
Deus; ... O título “Rabi” usado por um dos mais altos líderes religiosos
demonstra respeito por Jesus. Embora não autorizado oficialmente como
Rabi (e aborrecendo alguns dentre os fariseus), Jesus estava sendo
reconhecido por Nicodemos e uma facção dentro do Sinédrio, porque o
consideravam “vindo de Deus”. ... porque ninguém pode fazer estes
sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”. Para o judeu, é o
sinal (milagre) que confirma a Palavra profética e a doutrina rabínica, ou
com as palavras de Nicodemos: “prova que Deus estava com Jesus”.
Imaginemos agora os dois homens sentados, à noite, frente a frente,
prontos para um profundo diálogo teológico. João não menciona se houve
testemunha presente que pudesse relatar a conversa entre os dois. Ele só
nos transmite pedaços do início da conversa que, após poucas sentenças,
quase sem que o notemos, passará a ser pregação joanina. A figura de
Nicodemos logo desaparecerá e o Apóstolo desenvolverá o assunto
levantado inicialmente pelos dois homens: “Como entrar no Reino de Deus”.
O termo “Reino de Deus” faz parte da fé judaica; ele aponta o
domínio soberano de Deus, onde Deus, e unicamente Deus, é Senhor
sobre tudo e todos. Só duas vezes o Apóstolo usa esse termo judaico
(versos 3 e 5); mais adiante ele prefere o termo “vida eterna”.
Jesus não esperava elogios, Ele foi direto ao cerne da questão. Antes
que a pergunta certamente pronunciada por Nicodemos aparecesse (João
no-la omite), Jesus já colocou a condição preliminar. (3) A isto,
respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém
não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.
A expressão de Jesus, iniciado com o duplo “amém, amém” descarta
toda e qualquer possibilidade de “melhoramento humano” ou
“aprofundamento espiritual” como condição para perceber (ver) esse
Reinado, esse Domínio de Deus, atuante já agora. Os meios humanos
disponíveis para ter acesso a esse Reinado estão descartados, pois “nascer
de novo” significa que tudo que temos e somos não serve para esse fim. A
69
palavra “de novo” usada por João, no grego, pode significar tanto “de novo”
como “de cima”.
Há uma condição básica para qualquer manifestação de vida cristã:
um “novo nascimento”. Sem esse não teremos nem condição de opinar a
respeito do Domínio de Deus, pois não podemos nem percebê-lo. Jesus
não falou de reencarnação em outra vida; Ele diz respeito a essa vida que
vivemos hoje, aqui e agora.
(4) Perguntou-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer,
sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer
segunda vez?”
Nicodemos, talvez avançado em anos, ficou indignado. Ele veio
preocupado em elaborar, junto com Jesus, uma melhor compreensão da
qualificação necessária para o Reino. Como fariseu e como Mestre,
Nicodemos estava consciente da necessidade de vida irrepreensível. Ele
sabia que havia algo a mais; será que o “Rabi Jesus” tinha uma opinião a
respeito?
A resposta de Jesus o havia deixado perplexo, pois essa condicionou
o acesso ao Reino a nada menos que uma renovação total do ser humano,
desde a sua raiz, semelhante a um novo nascimento. Pior ainda, ela é um
“passivum”; nada podemos fazer a seu favor.
Quem de nós contribuiu para sua própria existência? Se nos é
vetado começar tudo de novo no sentido físico-natural, muito menos o será
no sentido ético, espiritual. Não é possível ao homem determinar a si
mesmo um novo começo, como se nada houvesse tido antes. O ser
humano está preso à sua existência.
O judaismo não conhece reencarnação para uma nova vida terrena.
Jesus rejeitou claramente essa possibilidade de interpretação em Lucas
13.4ss. A reencarnação, como uma esperança do mortal em outra
oportunidade na terra, é a pior forma de escravidão. Sendo herança das
religiões orientais ela condena, ao invés de redimir.
(5) Respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo: ’Quem
não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus’”.
Apesar de reconfirmar a exigência para a entrada no Reino de Deus,
Jesus atende de certa forma ao protesto de Nicodemos, especificando a
natureza do “novo nascimento”. Este é um nascimento “da água e do
espírito”. Com isso ficou claro que o nascimento não acontece na esfera
física, mas é resultado de uma ação “de cima”, portanto espiritual.
Duas linhas de comentários se dividem aqui e as duas, de acordo
com seu ponto referencial, procedem. A maioria dos comentaristas quer
nos dizer que Jesus, nestas palavras, esteja falando sob a visão pós-pentecostal. Ele falaria de acordo com a experiência da igreja após a
70
descida do Espírito Santo. Conforme a profecia de Ezequiel, cap. 36. 2532, o batismo nas águas vai junto com a ação renovadora de Deus. Como
João, nos versos seguintes, não mais menciona a água, falando somente
sobre a ação do Espírito, fica claro que João viu a predominância do
Espírito sobre o sacramento do batismo, embora o considere necessário. O
Espírito Santo, como experiência da igreja, seria o agente que operasse a
mudança de natureza. Essa depende sempre de Deus e nenhum esforço
humano poderá resultar em “nascimento de cima”.
A outra linha de raciocínio vê as palavras tanto de Jesus como de
Nicodemos dentro da realidade histórica em que os dois se encontravam.
Como Jesus poderia falar com Nicodemos de acordo com experiências que
este ainda não teve? Quando falou de água, deve ter falado da água que
Nicodemos conhecia; o mesmo vale para o Espírito. Por duas vezes até
agora, a água apareceu no Evangelho: a primeira vez nas vasilhas usadas
para purificação em Caná. Neles, também os fariseus cumpriram os rituais
de purificação, sabendo que uma purificação parcial era necessária. A
água também lembrava o batismo de João. Todos que foram a ele pedindo
o batismo concordavam com a necessidade de uma lavagem integral,
completa. Todos eles, até mesmo alguns religiosos, apelaram ao perdão de
Deus.
Nicodemos, você foi a João, pedindo “a água”? Você sabe que
também, apesar de ser religioso precisa do perdão integral de Deus?
Esse aspecto seria o significado da água nas palavras de Jesus a
Nicodemos. Este conhecia as Escrituras; ele conhecia a promessa de Isaías
em 44.3 “... porque derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre a
terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha
bênção, sobre os teus descendentes”. A ação do Espírito Santo está sempre
ligada à água, enquanto a água equivaler a “arrependimento”.
Jesus deixou claro que não devemos somente “ver” a Soberania de
Deus: seu Reino; devemos “entrar” nele, viver nele, consciente da
Santidade de Deus (confira Is. 33.14-16).
• Você já sentiu que ser cristão é mais do que ser batizado? Ainda
mais, se você foi batizado sem o seu consentimento, quando
você nem o percebia!?
• Você notou que o batismo clama por outro passo que
independe de seu esforço: a ação do Espírito Santo em sua
vida, transformando-o(a) em uma “nova criatura”?(2.Cor.5.17)
• Você está vivendo sua vida neste Reino, no Reino do Domínio de
Deus? Você entrou nesse Reino na base de quê?
Cap. 3.6-12
(6) O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
(7) Não te admires de eu te dizer: “importa-vos nascer de novo!” (8) O vento sopra
onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é
71
todo o que é nascido do Espírito. (9) Então, lhe perguntou Nicodemos: “Como pode
suceder isto?” Acudiu Jesus: (10) Tu és Mestre em Israel e não compreendes estas
coisas? (11) Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e
testificamos o que temos visto; contudo, não aceitais o nosso testemunho. (12) Se,
tratando de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das
celestiais?”
Carne e Espírito são duas realidades cujos âmbitos mutuamente se
excluem. Eles são termos usados principalmente por Paulo nas suas
doutrinas. No judaismo, o homem é visto como “alma”, como uma
Unidade. Para sublinhar a incompatibilidade do humano com o que é
Divino, João recorreu a esses termos que têm sua origem no pensamento
helenista. “Carne” compreende tudo o que é humano: Fraqueza,
temporalidade, pecado, rebeldia e imperfeição. O humano nunca poderá
ultrapassar seus limites ao ponto de chegar ao âmbito daquilo que tem
sua origem em Deus.
Na 1ª “Carta” de Paulo aos Coríntios, Paulo declara que “carne e
sangue nunca poderão herdar o Reino de Deus (15,50). Tanto o
conhecimento de Deus como o acesso à Sua realidade estão,
definitivamente, vetados ao homem. Carne continuará carne. A religião
com todos os seus ritos religiosos representa a mais sublime tentativa
humana no sentido de aproximar-se a Deus; mas ela continua carne. Ela
sempre será como uma torre de Babel, como uma escada, cujo fim se
perde nas nuvens e nunca chegará ao céu.
Religião pertence ao homem; ela é um fenômeno social que tem sua
raiz na consciência humana que sofre com sua limitação e procura
perfeição. Os rituais mais místicos e solenes pertencem ao que é humano,
ao mundo emocional e sua sede do sobrenatural. A religião atende a
profundos anseios humanos e, com suas cerimônias e práticas, aproximase da magia (observe certos ritos em determinadas Igrejas). Ela nunca
chegará a ser Espírito. O homem não tem Deus na sua mão!
(6) O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do
Espírito é espírito. Enquanto o cristianismo continua sendo somente
“religião”, em nada difere das tantas outras religiões: é ópio para o povo,
serve para mantê-lo dentro de parâmetros morais e éticos. Ela constitui
um dos métodos mais eficientes de manipulação das massas. O
cristianismo somente tornar-se-á diferente quando ele penetra até à
Pessoa de Cristo. Jesus Cristo como “fundador de uma religião” é uma
coisa; Jesus Cristo como Encarnação de Deus, como “Verbo” que nos
deixou Seu Espírito, é outra coisa. Obedecer aos mandamentos da Bíblia
por fidelidade religiosa é uma coisa; obediência aos mandamentos de
Jesus porque neles reconhecemos e vivemos a Vontade do Cristo em nós, é
diferente.
A palavra de Jesus é chocante e clara. Ela acaba de vez com todo
esforço humano, considerando-o insuficiente e nulo quando se trata de
penetrar as coisas espirituais. A vida de Deus não nasce dentro do
homem. Ela vem de cima; ela é dádiva que nos é concedida, não porque a
72
mereçamos, mas porque Jesus no-la concede quando O reconhecemos
Senhor. Essa intervenção de cima é o “novo nascimento”.
As duas áreas “carne” e “espírito” são duas esferas que compõem o
homem. A esfera “carne” é determinada geneticamente, humanamente, ela
recebe sua forma pela cultura, a convivência social e a educacional. Ela é
necessária, mas ela não serve para conquistar o “Reino de Deus”. A esfera
espiritual, por sua vez, é determinada por Deus e pelo que Deus, na Sua
Vontade e determinação, concede a cada um. O homem não se encontra
perante uma bifurcação, com poder para escolher (como a comunidade de
Qumran ensinava). O homem não pode escolher. O batismo pelo Espírito
só lhe vem como dádiva, sobre a qual ele não tem autoridade. O homem só
pode pedir; ele não está em condições de alcançá-lo, exigi-lo ou
providenciá-lo, nem para si mesmo e muito menos para outros! (repare nos
eventos, onde a Igreja e seus representantes alegam providenciar esse
batismo espiritual com hora marcada). Essa dádiva de cima providenciará
ao homem uma nova maneira de ver e uma nova maneira de ser, onde não
mais será a “carne” que predomina, mas o Espírito de Deus. Sem o “novo
nascimento” o homem continuará inevitavelmente excluído do “Reino de
Deus”, isto é, da condição de salvo.
(7) Não te admires de eu te dizer: “importa-vos nascer de novo!”
Nicodemos, pertencendo aos fariseus, chamados “separatistas” por
terem uma vida reconhecida santa e impecável, não compreendia a vida
religiosa dessa forma. Jesus havia declarado como inútil todo seu esforço
para entrar no Reino, subindo degraus de santidade. O homem não pode
chegar a Deus subindo. É Deus que desce e se reconcilia com o homem,
porque Ele assim o quer, não porque o homem assim decidiu.
Sem essa ótica, ritos e cerimônias religiosas são relativados àquilo
que são: expressão de gratidão e submissão a Deus e não moeda com a
qual compramos a entrada no Reino.
Não somente Nicodemos ficou chocado e admirado ao mesmo tempo.
Muitos de nós ainda acreditamos ter a passagem para o céu no bolso:
Fomos batizados; crismados; confirmados; não fazemos mal a ninguém e
nos esforçamos; somos membros da Igreja X... Todos esses dados são
relevantes para a sociologia, mas não impressionam a Deus. “Importa
nascer de novo!” Como?
(8) O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes
donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do
Espírito.
Tanto no grego (pneuma) quanto no hebraico (ruach) o “vento”
mencionado aqui significa “espírito”. O vento é misterioso; não sabemos de
onde vem. Ele tem liberdade total e ninguém pode dispor dele. Assim,
disse Jesus, assim acontece com aquele que nasceu de novo. Você percebe
73
algo diferente nele, mas não sabe o que é. Você não pode negar esse “algo”,
tampouco explicá-lo. Nicodemos era um homem experiente e sábio; ele
conhecia a vida. Certamente percebeu este “algo” na pessoa de Jesus. Foi
isso que o havia atraído ao Mestre. Até nós percebemos em certos crentes
algo que gostaríamos de ter. Mas como chegar lá?
(9) Então, lhe perguntou Nicodemos: “Como pode suceder isto?”
Esse “como?” é a pergunta de todos os homens de todas as épocas.
Nos dias atuais, os livros de autoajuda (“cristã”) que estão em moda,
procuram explicar “como” você chegará lá, tornar-se-á rico, feliz, saudável
e célebre. Os conselhos ficam todos limitados ao que é “humano”.
Nicodemos, porém, procurou investigar o como chegaria ao que é espiritual
se, de acordo com as palavras de Jesus, o espírito era autônomo e “a
religião” não o alcança.
Acudiu Jesus: (10) Tu és Mestre em Israel e não compreendes
estas coisas? Jesus havia acabado de declarar solenemente que, pelo
caminho do esforço humano, ninguém entraria no Reino de Deus; isto é,
ninguém conseguirá viver dentro da realidade do Domínio de Deus. A
pergunta de Nicodemos revela seu bom senso, mas provocou uma resposta
de reprovação da parte de Jesus.
(11) Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que
sabemos e testificamos o que temos visto; contudo, não aceitais o
nosso testemunho. (12) Se, tratando de coisas terrenas, não me
credes, como creireis, se vos falar das celestiais?”
Não sabemos se esta frase ainda fez parte da conversa com o nobre
fariseu, pois Jesus já está usando o plural. Jesus está dizendo,
parafraseado: “Uma coisa lhe direi: Como vocês procuram entender coisas
espirituais, se vocês nem dão crédito às minhas palavras quando lhes falo
de coisas terrestres? Eu tenho autoridade porque falo daquilo que Eu vi e do
qual Eu fui testemunha”.
A Sinagoga havia falhado na questão fundamental da salvação, da
“entrada no Reino de Deus”. A Torá, sua autoridade máxima,
sobrecarregava o homem com as exigências de observância da Santa Lei de
Deus. Nicodemos deve ter entendido que havia um abismo intransponível
entre sua maneira de encarar o “serviço a Deus” e a mensagem de Jesus,
que sujeitava a obediência à Torá ao Domínio do próprio Deus.
(João continua desenvolvendo o assunto, e Nicodemos não mais é
mencionado).
Alguns comentaristas veem nos versos 11 e 12 o Evangelista falando
como representante e responsável na igreja primitiva: “Eu sou testemunha,
falo daquilo que eu vi e “vocês” (provavelmente os leitores do Evangelho)
74
ainda não querem crer naquilo que dizemos”? Observe o plural: “nós”;
“temos visto” ou “vocês não creem”.
Seja como for, a resposta de Jesus serviu para Nicodemos e serve
para toda a Igreja. Queremos santidade e bênção; ousamos sermos
considerados filhos de Deus, mas não atentamos às palavras que o Filho
nos dirige.
• Você é um daqueles cristãos que vivem do “pré-mastigado” de
seus mestres religiosos ou você tem os “ouvidos para ouvir” o
que Jesus lhe fala? Seu Santo Espírito fala através de Sua
Palavra, hoje e agora. Você está disposto a aceitar Suas
palavras?
• Tenha coragem e diga a Deus quem você realmente é e que
você, desesperadamente, precisa da intervenção de cima.
Cap. 3. 13-15
(13) Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o
Filho do Homem (que está no céu). (14) E do modo porque Moisés levantou a serpente
no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, (15) para que todo
o que nele crê, tenha a vida eterna.
Pouco termo na Bíblia e, principalmente, no Novo Testamento tem
levado a interpretações tão controvertidas como o “Filho do Homem” do
verso 3,13.
Encontramos esse “título” umas oitenta vezes nos quatro
Evangelhos, sem exceção, sempre proferidas por Jesus; jamais usado por
discípulos, seguidores ou até inimigos. “Filho do Homem” até parece ter
sido a autodenominação preferida de Jesus e, com exceção de 12,32-36,
sempre na terceira pessoa singular, impessoal.
Em todo o Novo Testamento, fora dos Evangelhos, somente quatro
vezes o encontramos. No Antigo Testamento ele aparece uma única vez. O
que este termo significa?
O verso 3,13 tem causado, desde cedo, enormes dificuldades para os
interpretadores da Bíblia.
Até metade do século passado, (Bultmann e outros) tinham como
certo que foi a igreja primitiva que inventou esse predicado e o aplicou a
Jesus. Segundo a grande maioria de teólogos foi a hipotética “Comunidade
joanina pós-Páscoa” que colocou esse termo na boca de Jesus. Será que
isso é verdade?
Nos últimos 50 anos, melhor, desde o achado de manuscritos
antigos nas cavernas de Qumram, muita coisa mudou. A compreensão do
título honorário “Filho do Homem” sofreu profundas mudanças. Sua
75
história está cheia de suspense. Para termos uma compreensão melhor
dessa predicação temos que mergulhar um pouco na história. Vamos?
Nos livros apócrifos de Enoque (livros que não fazem parte da nossa
Bíblia) se faz referência a esse “Filho do Homem” em forma de parábolas.
1 Enoque 37-71 descreve o filho celestial do Homem, o Messias, o Eleito e o
Justo. É claro que são quatro termos para o mesmo intermediário de Deus.
Enoque falou de um “Filius hominis absconditus”, escondido no presente
tempo no reino celestial e que no dia de sua epifania (aparecimento) em
poder e glória vingar-se-ia nos inimigos de Deus.
Em nosso Antigo Testamento canônico, o termo “Filho do Homem”
aparece uma única vez, em Daniel cap. 7.13-14: “...eis senão quando, com
as nuvens do céu, vinha vindo um como Filho do Homem; ele avançou junto
do ancião (Deus) e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados domínio,
glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu domínio é
eterno e não acabará, seu reino jamais será destruído” (Vozes).
A palavra de Daniel a respeito desse alguém “um como homem” é
anterior a de Enoque, porém parece falar da mesma figura apocalíptica. A
literatura apocalíptica fala da chegada da era futura. Os “apocalipsistas”
tenderam a serem vingativos, apelando muitas vezes a Deus para que
destruísse os inimigos dos judeus. No entanto, semelhantemente a Jesus,
partilharam um interesse pelos oprimidos. Tanto Enoque quanto Jesus
predisseram punição para os ricos (1.En 94:8-9; 96:4-8 confira com
Marcos 10,23-25). Tanto os “apocalipsistas” como Jesus salientaram a
transformação e a redefinição da ordem: por exemplo, o autor de 2
Baruque (outro livro apócrifo) e Jesus disseram que “os primeiros seriam os
últimos”. Os dois, os antigos apocalípticos e Jesus puseram-se ao lado dos
pobres contra os ricos (Marcos 10,21); pregaram conduta justa,
promulgaram bem-aventuranças (p.e. 2En 42; Mat. 5) e exigiram pureza de
coração (cf. 2 Em 45 com Marcos 7,14-23).
O que tudo isso tem a ver com o termo “Filho do Homem”? Os
achados de Qumram provaram que a expressão “Filho do Homem”, que
aparece tão conspicuamente nas Parábolas de Enoque, já era empregada
por judeus palestinos antes e durante o período de Jesus. Não eram
composições cristãs do terceiro século!
O mais surpreendente – e, para os eruditos, espantoso –
acontecimento nas pesquisas sobre os Pseudo-epígrafos, é a mudança
decisiva na avaliação do caráter e da data das Parábolas de Enoque (1 Em
37-71) que descreve o filho celestial do Homem, o Messias, o Eleito de
Deus. Jesus conhecia, sim, esses escritos e a figura apocalíptica do “Filho
do Homem” de Enoque. O termo era popular nos dias de Jesus.
A citação de Daniel cap. 7.13-14 que descreve a entronização do
“Filho do Homem” não interessava ao Evangelista João. Quando Jesus se
76
autodenomina “Filho do Homem”, Ele não se refere a Daniel 7. Por que
não?
Veja o raciocínio do Apóstolo: Por que razão alguém deveria ser
entronizado no céu e lhe serem outorgados todo o poder e glória no fim dos
tempos, a Ele que era com Deus desde o início, sim, que era Deus (João
1,1), alguém que se entende como o “EU SOU” e declara “Eu e o Pai
somos Um” (João 10,30), um pelo qual todas as coisas foram criadas
(1,3)? Para João, a entronização de Daniel já está no passado. Muitas
teorias a respeito foram levantadas; não perderemos nosso tempo com
elas.
No aramaico (idioma que Jesus falava), o termo “Filho do Homem”
(bar-enasch) ou no hebraico (bem-adam) significa simplesmente “filho de
Adão” (qualquer um) ou simplesmente o gênero.
“Filho do Homem” era a autodenominação preferida do próprio Jesus.
Ele nunca se apresentou como “Messias” ou similar; Ele até corrigiu
algumas vezes os seus, substituindo o título “Cristo” (ou “Messias”) pelo
preferido “Filho do Homem” (confira Marcos 8.29-31).
Como já vimos várias vezes na leitura de João, Jesus via além do
horizonte. Embora tenha vindo para “seu povo” e “a salvação vem dos
(através dos) judeus” (1,21 e 4,22), o Evangelista não se cansa em
apresentá-lo como “Salvador do mundo”. Assim, entendemos porque Jesus,
em nenhum lugar, afirma ser o “Messias” que os judeus esperavam. No
momento crucial, quando fora interpelado em julgamento perante o
Sinédrio, se era “o Cristo (Messias) de Deus” (Marcos 14,62), Jesus não
afirmou ser esse Messias projetado e esperado por eles, mas identificou-se
como “Filho do Homem”.
Foi essa a razão de sua imediata condenação. O Sinédrio todo sabia
o que esse termo aparentemente comum (homem) na sua ambiguidade
significava: “...domínio, glória e realeza...” Veja em Atos 7,56, qual a
palavra decisiva que levou (além da relativação da instituição do Templo)
ao apedrejamento de Estevão: “...o Filho do Homem de pé à direita de
Deus”. Eram atributos do Altíssimo!
Jesus conhecia a tradição apocalíptica (o que sabemos somente
desde meados do século 20) e certamente a usou conscientemente e com
plena compreensão do seu significado. Desde os achados dos manuscritos
em Qumram fica difícil argumentar que Jesus não reivindicou autoridade
Divina ou que não sabia quem era. Ele não usou o título “Filho do Homem”
em especulação apocalíptica, com a qual podemos concordar ou não. Ele o
usou como prerrogativa de soberano, como título de majestade do Grande
Desconhecido, vindo de cima, no qual ou cremos ou não.
Após a morte e a ressurreição de Jesus, quando mais e mais judeus
e até “muitíssimos” sacerdotes (Atos 6,7) começavam ajuntar-se aos
Apóstolos, os líderes judaicos que muito bem entendiam o significado do
77
título “Filho do Homem” na boca do maldito crucificado, tomavam
providências para a eliminação desse termo. Assim, já na época apostólica,
os fariseus procuravam por meios contra o autopredicado de Jesus. Era
importante tirar das menções do “Filho do Homem” a ideia de um ser
humano.
O Sinédrio reinterpretou o termo “Filho do Homem” citado no livro
de Daniel e futuramente o aplicava coletivamente ao “povo de Deus”(Israel).
A última menção desse título na literatura judaica (60-80 d.C)
aparece no 4º livro de Esdras. Esse livro fazia parte dos livros lidos na
Sinagoga. Sua leitura e menção nas Sinagogas foram vetadas para evitar a
interpretação que os cristãos lho começavam a dar. O “Grande Sinédrio de
Jannina” (entre 80 e 100 d.C.), sob liderança de Gamaliel II, finalmente
declarou guerra a esse título. Rabi Abbahu, na sua polêmica contra os
cristãos, sentenciou no “Talmude de Jerusalém”: “Se um homem diz: ‘eu
sou o Filho do Homem’ ele terá um fim de que se arrependerá” (j Taan 2,1).
Com isso, o livro ficou oficialmente vetado.
Os primeiros cristãos entre os judeus começavam a aplicar a Jesus o
“Filius hominis incognitus” mencionado em Enoque, pois Ele havia
cumprido muitas das profecias:
! Viveu incógnito no meio de seu povo, seus seguidores,
insignificante, incompreendido e como escândalo, sim,
desprezado (Lucas 7.34;11.31; Marcos 9.9).
! Ele, “Filius hominis incognitus” era Senhor sobre a Torá; tinha
autonomia para julgar e para perdoar pecados (Marcos
2.10,28; João 5.27).
! Ele foi amaldiçoado e condenado (Lucas 6.22ss; 12.10). No
posicionamento perante sua pessoa se decidirá tanto o futuro
de seu povo quanto a sorte eterna do homem (Marcos 8.38;
Lucas 12.8).
! Ele era indefeso e manso, sem casa, perseguido e traído (Lucas
9.58; 22.48). Veio para procurar o que se havia perdido, veio
para salvar e não para escravizar; veio para servir e dar sua
vida para redenção de muitos (Lucas 19.10; Marcos 10.45).
Se Jesus preferia referir-se à sua pessoa como “Filho do Homem”, é
porque assim Ele se considerava. O título “Messias” (grego: Cristo) era
carregado de projeções nacionalistas judaicas. Seria aquele que colocaria
ordem no mundo, restauraria o Reinado da Casa de Davi para sempre e
vingar-se-ia nos inimigos de Deus; exatamente como João Batista o havia
projetado: o “Messias dos judeus”. Mas Jesus não se via assim. Por isso
nunca permitiu ser anunciado como o “Messias” dos judeus.
78
Com o avançar do tempo, a igreja entre os não judeus não mais fazia
uso dogmático do título com que Jesus se autodenominava, pois não mais
o entendeu. Ele não servia na cultura grega. A igreja como um todo
preferiu empregar o título “Cristo (Messias)” em clara oposição aos judeus
para os quais o Messias ainda não apareceu. Os livros de Enoque, no
entanto, continuavam sendo lidos nas igrejas cristãs até o quarto século,
quando o “Cânon” do Novo Testamento foi definido (a escolha dos livros
que fariam parte dele) e os livros de Enoque foram excluídos. Nem nos
Tratados dos primeiros Pais da Igreja aparece mais o título “Filho do
Homem”. Havia se tornado sem sentido para as igrejas cristãs não
judaicas.
(13) Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a
saber, o Filho do Homem (que está no céu = acréscimo posterior).
O Evangelho inteiro deve ser lido como o protocolo de uma
controversa jurídica de Deus com seu povo através da pessoa de Jesus. Por
essa razão é que o Apóstolo apela às Escrituras como testemunha válida
em favor do Enviado.
Quando procuramos pelo testemunho das Escrituras quanto à
afirmação de Jesus em 3,13 que se refere à subida e descida do Filho do
Homem, a melhor interpretação (Burkett) aponta para Prov.30,1-4. O
diálogo ambíguo em Pv.30,4 só tem uma única resposta que é: “Somente
Deus”. Enquanto Jesus se identifica com quem responde às perguntas em
Prov.30,4, reivindicando tudo que compete ao “homem” da parábola, temos
implicitamente o que Jesus, em 10,30, explicitamente afirma: “Eu e o Pai
somos Um”.
O Evangelista fala como quem já conhece toda a história da
Salvação: Vinda, vida, glorificação e volta ao Pai. Nenhum dos deuses
gregos aos quais o povo atribuía subida ao mundo espiritual, nem os
gnósticos, podiam dizer que antes de lá tinham descido. Somente o “Filho
do Homem”, glorificado na cruz, antes já fora “apresentado ao ancião
(Deus) recebendo do mesmo poder, glória e domínio eternos” (Daniel 7).
Os “apocalipsistas” tendiam a situar Deus cada vez mais longe do
mundo humano dos vivos. Diferente deles, Jesus salientara a proximidade,
na verdade a presença de um Pai cheio de compaixão, que podia ser
chamado de forma íntima, Abba (Paizinho querido). O Evangelista João
entendeu: No seu Evangelho, o futuro Reino já se faz presente. (João 1,5 e
12 e 13)
14) E do modo porque Moisés levantou a serpente no deserto,
assim importa que o Filho do Homem seja levantado, (15) para que
todo o que nele crê, tenha a vida eterna.
A referência a Num. 21.8 como tipologia da obra de Deus em Cristo
Jesus é menção única no Novo Testamento. João lembra a serpente
“levantada” no deserto. Todos os que, picados pelas cobras venenosas,
79
ergueram seu olhar à serpente levantada, à espera de ajuda dela, foram
curados.
Em todo seu Evangelho e assim também no contexto da conversa
com Nicodemos, João usa o termo “levantar” quando fala da crucificação,
onde Jesus foi levantado à vista de todos, como à elevação que
corresponde à glorificação do Filho na Sua volta ao Pai. Havia necessidade
de Jesus ser “levantado” como “escândalo”; havia necessidade da cruz
para ser “levantado” à glória. O Espírito Santo, vivificador, não podia vir
antes que a cruz, Páscoa e pentecoste preparassem o caminho. A
reconciliação do mundo, obra de Deus, era prerrogativa para a entrada no
Reino. Essa, em essência, seria a resposta a Nicodemos.
Somente uma única vez o Evangelista lembra como Jesus usou o
termo “Filho do Homem” na primeira pessoa de singular, pessoal (12,3236). Quem, contra toda argumentação racional, olhar àquele que foi
levantado, aceitando a justificação que vem de Deus somente (isto é crer),
terá a “vida eterna”.
(15) para que todo o que nele crê, tenha a vida eterna.
Haverá um escândalo, disse João, em que seu olhar decidirá sobre
vida ou morte. A morte de Jesus, levantado da terra, será um escândalo
para a inteligência (1.Cor.1.23). Ela, no entanto, será o meio através do
qual o poder e a glória de Deus se manifestarão. Pela primeira vez, João
recorre ao termo “vida eterna” como sinônimo da “entrada no Reino de
Deus”. O termo “eterno” aqui não é o contrário filosófico de “tempo”, tempo
sem fim, algo aterrorizador. “Eterno” quer dizer “pertencendo ao novo
‘aeon”’, com as características do mundo por vir, do “Reino de Deus”.
Nós não procuramos uma vida sem fim. O que Jesus nos oferece é
uma vida pertencente ao “aeon” (época, era) de Deus, que desconhecerá
temporalidade e corrupção.
O capítulo 3 de João não é um texto apocalíptico, nem gnóstico. Os
termos “novo nascimento” e “vida eterna” não apontam para alguma
revelação de conhecimento (Gnose). Eles falam de salvação, de libertação,
isto é, da intervenção de Deus na minha vida e no mundo.
Pela fé no que foi “levantado” já temos “vida eterna”, vida pertencente
ao “aeon” de Deus, ao Domínio dele.
• Você pertence a quem ?
Fontes principais (3.13-15): THYEN, Das Johannes-Evangelium. Mohr-Siebeck. 2005
CHARLESWORTH. Jesus dentro do Judaismo. Imago 1992
Cap. 3. 16-21
80
(16) Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (17)
Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas
para que o mundo fosse salvo por ele. (18) Quem nele crê não é julgado; o que não
crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (19) O
julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do
que a luz; porquanto as suas obras eram más. (20) Pois todo aquele que pratica o
mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de que não serem arguidas as
suas obras. (21) Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas
obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.
(16) Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu
Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a
vida eterna.
O termo nessa sentença, que deve exigir a maior atenção, aparece
(em português) no meio da sentença. Ele deveria estar no começo: “de tal
maneira Deus amou”; “assim Deus amou, que deu...” Somente Deus é
capaz de amar de tal maneira um mundo (o cosmo) em estado de
inimizade. Não fomos nós que, analisando o comportamento de Deus,
descobrimos o Seu amor. Através do amor de Deus para com “o mundo”
podemos aprender em que consiste o “amor”. Esse amor de Deus para com
o “cosmos” não tem sua razão no mundo, nem na maneira com que este
eventualmente se posiciona perante Deus. O amor jorra abundantemente e
aparentemente sem motivo, considerando o inimigo como “amado”.
...que deu o seu Filho unigênito... Em outro lugar já mencionamos
que entendemos mais fielmente o “unigênito” se o percebemos como “da
mesma essência”. Deus se deu a si mesmo.
“Todo aquele” que nele crê... incondicionalmente, portanto algo
possível ao mais fraco e indigno, pois não exige poder e força. Todo aquele
não perecerá (não se perderá na escuridão do “aeon” futuro, mas terá “a
vida eterna”). Não se trata de uma eternidade filosófica (tempo sem fim).
Trata-se da vida “sob o domínio do Deus Eterno”, aqui e agora.
A declaração de 3.16 compreende o Evangelho todo. Observe: “Deus
amou o mundo”, um fato que não tem sua origem na compreensão de
João. Em nenhum outro lugar o Apóstolo repete a afirmação de que Deus
amou “o cosmos” que, conforme suas palavras, está nas trevas. A vinda do
Filho tem sua origem no amor de Deus para com esse “mundo”. Quem vê
esse fato e nele “aposta” (confia) já “tem vida eterna”, já entrou no
“Domínio de Deus”, no “Seu Reino”.
(17) Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que
julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Mesmo que Israel, e com ele o Batista, O esperassem como “Aquele
que tem na sua mão o machado e a peneira para limpar e purificar a Israel”
81
(Mat.3.10,12), a mensagem de Deus através do Filho não é Juízo, mas
Salvação. Os Evangelistas sinóticos ainda viam Jesus como futuro Juiz.
João corrigiu: Sua vinda significa salvação – para o mundo!
(18) Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado,
porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
O Julgamento que o Batista e os sinóticos vislumbravam num futuro
distante é reinterpretado por João: de uma ação passiva externa ele é
transformado para o ativo e o “agora”; ele se define no posicionamento
íntimo de cada um. Cada indivíduo se julga a si mesmo, ativamente; essa é
a visão joanina do julgamento. Salvação é a visão da dupla “elevação” do
Filho (compare com a leitura anterior). Quem tiver essa visão, não mais
será julgado, pois “passou da morte para vida” (João 5.24).
A rejeição dessa luz é vista como oposição, cuja raiz é o orgulho do
homem que dispensa a manifestação amorosa de Deus. Esse homem já
está julgado. O julgamento escatológico (futuro) em João 5.29ss somente
ratificará a decisão que o próprio homem tomou a seu tempo.
O Apóstolo Paulo, antigo fariseu, comparou esse momento de
decisão íntima com o radiar da luz em nosso coração “para iluminação do
conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2 Cor 4.6). W.Nee¹ diz:
“O que é Salvação? É o irromper da luz Divina. O apagar desta luz
significa perdição. Contudo, Deus resplandeceu no coração de
pessoas como nós, que estavam perecendo; e a simples visão é
salvação. Somos salvos tão logo vemos a glória no rosto do Salvador.
Se simplesmente entendermos a doutrina e concordarmos com ela,
nada acontece, pois não vimos Aquele que é a Verdade. Entretanto,
tão certo como a impressão sobre um filme se segue à abertura do
obturador de uma câmara fotográfica, assim é o momento em que
realmente O vemos como Salvador – neste momento inicia-se a
transformação interior, e o que era para nós “a visão celestial” (Atos
26.1) torna-se, por sua vez, em “Seu Filho revelado em mim”
(Gal.1.16). Não há necessidade de lembrar-nos desta viva experiência.
Não há como esquecê-la. ¹(W.Nee.Uma Mesa no Deserto, Ed.dos Clássicos, 2004).
(19) O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens
amaram mais as trevas do que a luz; porquanto as suas obras eram
más. (20) Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se
chega para a luz, a fim de que não serem argüidas as suas obras.
Voltando aos termos usados no “Prólogo”, João declara a natureza
do julgamento: a vinda da Luz para esse “cosmos”. A luz preexistente
revela a verdade. O homem natural rejeita essa luz, porque quer viver por
si mesmo. O mal de que João fala não é primordialmente moral. A
condição de escuridão determina as obras do homem; portanto, suas obras
82
também são más. Não porque o homem peca, ele é mal. Ele aborrece a luz
porque dela se esconde na escuridão.
(21) Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as
suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.
Que é a verdade? Você conhece a pergunta de Pilatos. A Verdade é
uma pessoa; ela determina o comportamento daquele que a tem. Aquele
que a pratica é atraído a Jesus. Somente nesse caminho, em direção da
Luz, o homem conhecerá o arrependimento. Somente chegando à Luz ele
se vê como é.
Esse processo acontece de maneiras diferentes de pessoa para
pessoa. Cada um de nós tem sua estrutura, seu passado. A piedade e seu
modo de desenvolvimento é algo tremendamente individual. Veja a
diferença entre o Apóstolo João, ex-pescador e o Apóstolo Paulo, ex-fariseu:
Paulo nunca poderia ter escrito João 3.21. Ele, ex-fariseu, conheceu
a miséria de alguém quebrantado pela Lei. João nada disso sabia. Paulo,
em Romanos 7, aparece torturado na sua luta íntima. Ele conheceu a
ruptura traumática com seu antigo modo de religiosidade. João, no
entanto, parece livre, relaxado. Nada das lutas de Paulo notamos em nosso
Apóstolo. Paulo alcançou a paz através e após uma luta feroz. João, desde
seu chamado, parece repleto de uma permanente sobriedade feliz.
A teologia de Paulo é a Teologia do Livro. A teologia de João é a
Teologia de um desenvolvimento positivo na direção da Luz de Cristo. Os
dois grandes homens dão testemunho da mesma Luz, da mesma paz, da
mesma Salvação. Os dois conheceram uma transformação interior, uma
renovação do ser, operado pelo mesmo Espírito de Deus. Os dois
conhecerem o “Novo Nascimento”, mas de maneiras diferentes.
O “Novo Nascimento” - para encerrar o nosso estudo que deu seu
início com a visita de Nicodemos -, o “Novo Nascimento” não se realiza
através de um ato mágico-sacramental. Não há forças da natureza atuando
nesse processo (como os livros de autoajuda sugerem). Ele acontece aonde
alguém se volta, em decisão responsável e pessoal, ao “Filho de Deus” que
apareceu em forma humana na pessoa de Jesus Nazareno. A marca
daquele que “nasceu de novo” é sua visão de Cristo Jesus e essa visão se
chama “fé”.
• Você já iniciou seu caminho na direção da Luz de Cristo? Você
já sabe quem você é? Você já foi vencido pelo amor revelado em
Cristo Jesus? Você tem a marca do Novo Nascimento?
Caso não, procure alguém com quem falar sobre essa decisão de sua
vida. Vá a alguém em quem você nota aquele “algo” de que tratamos duas
lições atrás! Procure vida, não teologia!
Cap. 3.22-30
83
(22) Depois disto, foi Jesus com seus discípulos para a terra da Judeia; ali
permaneceu com eles e batizava. (23) Ora, João também estava batizando em Enom,
perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e para lá concorria o povo e era
batizado. (24) Pois João ainda não tinha sido encarcerado. (25) Ora, entre os
discípulos de João e um judeu suscitou-se uma contenda com respeito à purificação.
(26) E foram ter com João e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além
do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao
encontro. (27) Respondeu João: O homem não pode receber coisa alguma se do céu
não lhe for dada. (28) Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse : eu não sou o
Cristo, mas fui enviado como seu precursor. (29) O que tem a noiva é o noivo; o
amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do
noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. (30) Convém que ele cresça e que eu
diminua.
(22) Depois disto, foi Jesus com seus discípulos para a terra da
Judeia; ali permaneceu com eles e batizava.
Os três Evangelistas sinóticos pouco sabem das atividades de Jesus
na Judeia. As informações deles parecem sugerir que o ministério de Jesus
não passou de um ano. Informações adicionais que João fornece, às vezes
parecem corrigir os sinóticos, mostrando que o ministério de Jesus
estendeu-se por três anos, aproximadamente.
Em João 1.34 lemos que Jesus, após seu primeiro encontro com o
Batista e seu próprio batismo e experiência no deserto, deixou o
movimento batista, sendo acompanhado nesse ato pelos seus primeiros
seis discípulos, todos oriundos do movimento batista. Ele voltou para o
norte, para sua Galileia. O velho Apóstolo lembra que, posteriormente,
Jesus retornou ao Jordão, permanecendo ali por um bom tempo. A
mensagem do Batista, a anunciação do Reino de Deus por Deus ordenada,
também movia a mente de Jesus. Embora Ele não tenha se ligado
diretamente ao movimento batista, viu o batismo como condição inicial
(indicando o arrependimento) como tão indispensável que, por alguns
meses, permitiu aos seus discípulos uma atividade similar. Ali Jesus foi
procurado por muita gente.
(23) Ora, João também estava batizando em Enom, perto de
Salim, porque havia ali muitas águas, e para lá concorria o povo e era
batizado. Ele havia mudado seu campo de ação mais para o norte.
Jerônimo (350-420 d.C.), trezentos anos mais tarde, ainda identificava o
lugar da atividade do Batista.
(24) Pois João ainda não tinha sido encarcerado. Com essa frase
intercalada João corrige a informação inconsistente de Marcos de que
Jesus somente iniciou sua atividade ministerial após o Batista ser preso
(Marcos 1.14). Por aproximadamente oito meses tanto João Batista como
Jesus ministravam no Jordão, independentes, mas com o mesmo
ministério, embora à certa distância. Os seguidores do Batista não viam de
bons olhos a atividade do grupo de Jesus. Eles entenderam como traição o
fato de alguns de seus antigos companheiros terem aberto outro campo
84
sob a liderança de Jesus. A situação agravou-se quando o movimento de
Jesus começou a crescer, ultrapassando o do Batista.
(25) Ora, entre os discípulos de João e um judeu suscitou-se
uma contenda com respeito à purificação. (26) E foram ter com João
(Batista) e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além do
Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe
saem ao encontro.
Não sabemos exatamente qual foi a “contenda”. Pelo que
entendemos, “um judeu”, provavelmente após ser batizado por Jesus,
resolveu questionar junto aos seguidores do Batista o valor do cerimonial
da purificação destes (o batismo de João). Os seguidores do Batista,
contestados por este tal “judeu” recorreram, então, ao seu mestre em
busca do apoio para as suas argumentações. Levaram a ele não só a
denúncia da atividade “desleal” de Jesus que se realizava a alguns
quilômetros mais ao sul, como também a preocupante informação de que
“todos lhe saem ao encontro”. Em linguagem popular isso quer dizer: “Ele
está virando moda e nós vamos ficar para trás, sobrando, pois todo mundo
corre para lá”.
Para entendermos melhor a atividade paralela de João Batista e de
Jesus durante oito meses aproximadamente, lembramos que o batismo de
João era (conforme Mateus 3,7) um “sacramento escatológico” (que
preparava para o que vinha). O arrependimento e o perdão baseados no ato
batismal de João anunciavam a iminente chegada da “era messiânica”.
Pelo Evangelista sabemos que Jesus não somente aprovava esse
ministério, como permitiu aos seus discípulos cumprirem a mesma tarefa
durante meses. Servia-lhes de preparo. Jesus pessoalmente não batizava
(João 4.2). O batismo posterior, aquele da Igreja, seria em nome de Jesus;
o batismo de quem falamos aqui, ainda era preparativo.
O batismo cristão tem sua raiz no batismo de João Batista, sendo
este substituído e tornado ineficaz com a posterior morte e ressurreição de
Jesus. Mas no presente momento do nosso estudo, os dois movimentos tanto o do Batista como o de Jesus e seu grupo - andavam paralelos e
movidos pelo mesmo Espírito.
Essas correções do Evangelista eram necessárias como argumentos
contra o Movimento Batista, ainda presente no fim do primeiro século,
época em que o Evangelista escreveu sua obra. Como testemunha, o
Evangelista simplesmente dispunha de melhores informações que seus
colegas a respeito do início. Mateus ainda não tinha sido convocado a
juntar-se ao grupo; Marcos e Lucas dependiam de informações de
segunda mão. João é a fonte mais confiável quando as informações nos
quatro Evangelhos não condizem.
Voltemos aos seguidores do Batista que vieram reclamar perante seu
mestre a “deslealdade” do grupo de Jesus, formado por ex-companheiros.
85
O posicionamento do Batista, “o maior dos nascidos de mulher”, como
Jesus o definiu em Mateus 11.11, uma figura impressionante na divisória
das duas épocas, na passagem da Antiga para a Nova Aliança, é
comovente. Livre de orgulho e necessidade de reconhecimento público, ele
reafirma sua posição já dada em 1.22 – 27,30. Ele novamente se definiu
“precursor de outro maior”. Os seus seguidores parecem não ter dado a
devida atenção às palavras de seu mestre.
(27) Respondeu João (Batista): O homem não pode receber coisa
alguma se do céu não lhe for dada. O Batista viu no resultado crescente
de Jesus a obra de Deus. Todo esforço humano nas coisas de Deus dará
em nada, se o próprio Deus não estiver agindo. Para o Batista essa era
uma verdade óbvia.
(28) Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou
o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. Não havia razão alguma
para inquietação entre seus seguidores. João era o precursor, aquele que
abriu o caminho. Ele havia chegado ao limite de sua atuação. O
movimento crescente em volta de Jesus configurava sua própria missão
como cumprida: ele havia anunciado Aquele que seria maior do que ele.
(29) O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está
presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois
esta alegria já se cumpriu em mim.
A imagem de bodas era comum em Israel, quando se referia à
chegada do Messias. As raízes dessa imagem vêm de Cantares. Aquele que
tem a noiva é o noivo. A Jesus pertencia o Reino anunciado, não ao
Batista. No entanto, o “amigo”, a pessoa mais importante do lado do noivo,
a pessoa enviada para buscar a palavra da noiva, era o paraninfo. Assim
que conseguiu conduzir a noiva ao noivo, sua alegria havia chegado ao
clímax. Não havia outra alegria maior. “Esta alegria já se cumpriu em mim”,
disse o Batista.
A imagem das bodas como imagem escatológica entrou também no
Novo Testamento. Jesus a usou várias vezes. João, Apóstolo, compara no
seu Apocalipse o estabelecimento final do “Reino do Senhor nosso Deus” a
uma festa de casamento. “Alegremo-nos, exultemos e demos glória, porque
se aproximam as núpcias do Cordeiro. A Esposa está preparada...”
(Apoc.19.7).
(30) Convém que ele cresça e que eu diminua. Era propósito
divino que o Batista, uma vez concluída sua missão, recuasse. “Convinha”
diminuir. Logo, sem que nesse momento ele o soubesse, irá sucumbir num
cárcere úmido e escuro e perder sua vida por causa do ódio de uma
mulher (Marcos 6.14-29). Não fora isso que ele previa. Queria continuar a
alegrar-se com o crescimento do ministério de Jesus. Não lhe fora
reservada essa alegria. Nas suas últimas horas até dúvidas quanto à sua
86
missão o castigavam, mas Jesus, através dos mensageiros enviados, o
lembrou das profecias. Importava a ele diminuir.
Se desejamos que Cristo cresça em nossa vida, “convém” a nós que
diminuamos. O exemplo do Batista nos mostra que esse “diminuir” não
consiste em martírios voluntários, escolhidos por nós. Deus mesmo se
ocupará em fazer o nosso “ego” murchar; inclusive nas assim chamadas
“atividades religiosas”.
•
•
•
Você está disposto a permitir que Ele cresça?
Você não pode crescer junto com Cristo, enquanto não o segue!
Antes de reinar com Ele, Ele vai ensinar-lhe o “discipulado”, isto
é: seguir atrás.
Uma metáfora contada por R.Wurmbrand ilustra o nosso assunto:
O Rei Ibrahim procurou Deus e não O encontrou. Uma noite, ele ouviu alguém
usando botas pesadas andando no telhado do palácio. Subindo para ver quem era,
viu que era o seu melhor amigo, que conhecia a sua busca espiritual. O Rei
perguntou a ele:
“O que você está fazendo aí em cima?”
“Procuro camelos.”
“Que tolice procurar camelos no telhado de um palácio”, exclamou o Rei, ao que o
amigo respondeu:
“Tolice é procurar Deus sentado num Trono”!
(Richard Wurmbrand. Alcançando as alturas. Ed.Voz dos Mártires, pág.12)
Cap. 3.31-36
(31) Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da
terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos (32) e testifica
o que tem visto e ouvido; contudo, ninguém aceita o seu testemunho. (33) Quem,
todavia, lhe aceita o testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro. (34)
Pois o enviado de Deus fala as palavras dele, pois Deus não dá o Espírito por
medida; (35) O Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiada às suas mãos. (36)
Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde
contra o Filho, não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.
Para quem, atentamente, estuda a vida de Jesus através dos quatro
Evangelhos “canônicos” (aceitos pela Igreja, quando foram nomeados os
livros que fariam parte do Novo Testamento) encontra grandes contrastes.
Enquanto João, por várias vezes (assim em 1.10 ou 3.19), diz que “o
mundo não o aceitou” e que “os homens amaram mais as trevas do que a
luz”, os Evangelistas sinóticos não cansam de mencionar as multidões que
o seguiam, querendo ouví-lo. Entendemos que o fato de alguém “estar em
moda” não diz necessariamente respeito à aceitação do seu testemunho
87
(3.32). Muitos seguiram a Jesus, assim como hoje, quando observamos “a
moda” de usar o nome de Jesus para tudo enquanto rende alguma coisa.
O velho Apóstolo escreveu seu Evangelho com visão retrospectiva.
Ele se lembra de tudo que viveu e na sua avaliação não consegue esconder
sua profunda dor e a horrível impressão de que, afinal de tudo, Israel
como um todo, havia rejeitado seu Senhor. Houve, sim, alguns que o
aceitaram, testemunhando com sua fé a confiança na Palavra do Filho
(1.12).
A figura do Batista merecia especial admiração do Evangelista.
Obediente à missão a ele confiada, não competiu pelo primeiro lugar.
Ainda quando o Apóstolo, no fim de sua carreira, compôs a sua obra, ele
sabia-se em íntima concordância com a visão espiritual que percebeu no
seu antigo mestre.
Ao encerrar suas considerações a respeito do Batista, o Evangelista
resume para a Igreja aquilo que o Batista havia testemunhado perante
seus seguidores.
(31) Quem vem das alturas certamente está acima de todos;
Entre Jesus e o Batista, junto com todos os “Grandes” no Reino de
Deus, não há somente uma diferença gradual naquilo que “de cima”
receberam. O que os diferencia é qualitativo, substancial.
Quem vem da terra é terreno e fala da terra;
Tanto o Batista quanto o Evangelista, você, seu pastor ou bispo ou
papa, todos nós somos daqui, “da terra”. Essa condição determina todo
nosso ser e nem os mais sublimes esforços religiosos e resultados mais
exultantes nos permitem sair dessa condição “terrena”. A nossa autoridade
na fala é limitada pela natureza à qual pertencemos; por aquilo que somos:
humanos.
Quem veio do céu está acima de todos. A superioridade, por assim
dizer, é resultado da procedência. “Ser da terra” ou “vir de cima” constitue
um contraste total e absoluto. Nenhum ser evoluído, partindo da terra,
jamais conquistará no seu testemunho a autoridade daquele que veio “de
cima”.
A Gnose (ainda hoje) está em rota de colisão com as palavras do
Evangelista João. De acordo com a filosofia grega, desde Platão, habita na
alma de cada ser humano algo “de cima”, preso pelo corpo que, por sua
vez, “é da terra”. Libertação da alma do cárcere do corpo significa
“redenção”, assim diz a Gnose.
O “Evangelho de Judas” (escrito meio século após o Evangelho de
João como resposta dos “gnósticos” ao Evangelho de João) reafirma que:
“... o espírito (humano) é uma centelha divina e por meio dele Deus
pode viver no coração de qualquer humano. O corpo é sua prisão e da
qual é desejável libertar-se. Jesus teria confessado a Judas que
qualquer um de nós poderia se tornar um só com Deus por meio do
88
conhecimento do nosso espírito (da centelha divina). Bastaria encontrála, viajando dentro de si. A pessoa de Deus cai fora, pois o que dele
precisamos já temos em nós. Não há necessidade de um sacrifício
substituto (de Jesus); cada um pode livrar-se por si mesmo. Jesus teria
se libertado pela destruição do seu corpo; Judas, por sua vez,
sacrificou-se por lealdade ao mestre (VEJA, 27.12.06, “O homem que compreende
Judas”).
A religião católica romana guarda nas suas doutrinas restos da
Gnose, parte da filosofia grega, quando afirma que em cada pessoa há uma
“centelha” (restinho) “de Deus”. Simplificando poderíamos dizer assim: A
Igreja ajudaria com seus meios no aperfeiçoamento dessa centelha divina e
perdoaria o resto através de méritos, ritos e sacramentos. Não há
necessidade de um “novo nascimento”; a Igreja melhora o que somos o
suficiente para merecermos a entrada no céu. E Cristo crucificado? Na
eucaristia estaria presente, garantindo “manter o padrão”!
O Evangelho de João acaba de vez com esse estranho sincretismo. O
homem todo é da terra. Salvação não é libertação de “algo preso em nós”. O
homem inteiro precisa ser salvo, tanto no nível físico-corporal, psíquico
(alma) quanto espiritual.
(32) (Ele) testifica o que tem visto e ouvido; contudo, ninguém
aceita o seu testemunho. (33) Quem, todavia, lhe aceita o
testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro.
O Evangelista reiterou no verso anterior que Jesus “veio de cima”.
Jesus não é “mensageiro”; Ele representa Aquele que o envia (Deus).
Há quem diz que Jesus se lembrava de como era no céu e graças às
recordações que guardava de cima, enfrentou seu destino. Essa é uma
concepção infantil. Não é isso que João afirma quando diz que Jesus (ao
contrário dos demais servos de Deus) testificava o que tem visto e ouvido.
Não foram “lembranças” que Jesus guardava. Era a comunhão ininterrupta
e perfeita que mantinha com Seu Pai e a dependência (fraqueza) que O fez
falar somente o que o Pai lhe disse e realizar somente aquilo que o Pai lhe
mandou fazer.
O Evangelista resumiu com grande tristeza: “...ninguém aceita Seu
testemunho”; para imediatamente, como antes já fez, lembrar que “havia
alguns” que, com sua decisão de fé, declaravam que Deus é verdadeiro.
O homem pode “certificar” (atestar) que Deus é verdadeiro? Sim, ele
pode: crendo. Com sua fé ele certifica que Deus não engana e não mente.
Certa vez, Jesus classificou a incredulidade o maior pecado possível. Por
que será? A negação de crer nas Palavras do Filho equivale à nossa
declaração de que Deus é mentiroso.
(34) Pois o enviado de Deus fala as palavras dele, pois Deus não
dá o Espírito por medida;
89
Jesus é o verdadeiro Enviado por não falar nada de si; Ele fala
somente “as palavras de Deus”. Somente o Filho pode falar palavras
divinas, porque é Um com o Pai. Os profetas recebiam o Espírito “por
medida”, exatamente para a execução de seu ministério. O Filho, porém, o
recebeu “sem medida”, isto é: inteiro, completo, permanente. Ele não fala
como um vendedor, que mede bem o estoque antes de vender certa
quantidade do seu produto a seu cliente. No Filho temos “abundância”.
(35) O Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiada às suas
mãos. (36) Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; ...
João não diz: “quem crê em Deus...”; tampouco ele diz: “quem crê no
Pai”... Menos ainda ele diz: “quem crê nos dogmas da Igreja...”
Deus quer (ou pode) ser encontrado somente no Seu Filho. “Quem
crê no Filho...”!
Você agora entende melhor a palavra a respeito do caminho que leva
ao Pai: “...ninguém vem ao Pai senão por Mim!”? (João 14.6)
Confiando nas palavras do Filho, “temos a vida eterna”, ou melhor:
vivemos dentro do Domínio de Deus. Não se trata de uma futura vida sem
fim. Quando cremos, entramos no “aeon” (era) de Deus e estamos sob o
Seu domínio.
... o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho, não verá a
vida,
João não diz: “... quem não crê...”. Ele vê fé como “obediência”, assim
como o Apóstolo Paulo o fez em Romanos 1.16. Crer não é a concordância
arbitrária (pode ou não concordar) com certas doutrinas e regras.
Fé é obediência perante Aquele que nos trouxe a Luz. Não crer é
manter-se rebelde, pois o Filho é Autoridade. Chegamos mais perto da
realidade quando entendemos fé como ser conquistado pela verdade à qual
agora obedecemos.
“... mas sobre ele permanece a ira de Deus”.
Esta é a única vez em que João fala da “ira de Deus”. Como pode o
autor do “Evangelho do amor” falar em “ira de Deus”? Veja, o amor de
Deus tem seu valor e eficiência somente quando reconhecemos como a
nossa natureza o encara: rejeitando-o. E, apesar dessa nossa rebeldia,
Deus nos ama.
Esse último verso do capítulo 3 nos torna consciente da séria
consequência que a nossa incredulidade (rebeldia) nos trará. Todos nós
sabemos como é viver o pesadelo de pesadas dívidas. Viver sob a ira de
Deus é incomparavelmente pior, pois vai para a eternidade.
90
É para aplacar a ira de Deus sobre a sua, sobre a minha cabeça, que
Jesus morreu; pois quando aceito que Deus em Cristo o fez por mim, por
amor e não por merecer, estou certificando que Deus é verdadeiro (3.33).
Assim você, com corpo, alma e espírito, está livre para servir ao Deus
verdadeiro. O corpo não é prisão, ele será templo do Espírito de Deus.
Sobre isso falará a nossa próxima leitura.
Cap. 4.1-17
(4.1) Quando, pois, o Senhor veio a saber que os fariseus tinham ouvido dizer
que ele, Jesus, fazia e batizava mais discípulos que João (2) (se bem que Jesus
mesmo não batizava, e sim os seus discípulos) (3) deixou a Judeia, retirando-se
outra vez para a Galileia. (4) Era lhe necessário atravessar a província de Samaria.
(5) Chegou, pois, a uma cidade samaritana, chamada Sicar; perto das terras que
Jacó dera a seu filho José. (6) Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem,
assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta. (7) Nisto, veio uma mulher
samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: “Dá-me de beber”. (8) Pois seus discípulos
tinham ido à cidade para comprar alimentos. (9) Então, lhe disse a mulher
samaritana: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher
samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)? (10) Replicou-lhe
Jesus:” Se conheceras o dom de Deus e que é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe
pediras, e ele te daria água viva”. (11) Respondeu-lhe ela: “Senhor, tu não tens com
que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? (12) És tu, porventura,
maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e ,
bem assim, seus filhos, e seu gado?” (13) Afirmou-lhe Jesus: “Quem beber desta
água, tornará a ter sede; (14) aquele, porem, que beber da água que eu lhe der nunca
mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der, será nele uma fonte a jorrar
para a vida eterna. (15) Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água para que eu
não mais tenha sede, nem precise virar aqui buscá-la”. (16) Disse-lhe Jesus: “Vai,
chama teu marido e vem cá; (17) ao que lhe respondeu a mulher: “Não tenho
marido.” Replicou-lhe Jesus: “Bem disseste, não tenho marido; (18) porque cinco
maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com
verdade”.
O grupo de fariseus responsáveis no Sinédrio já havia observado
com preocupação as atividades de João Batista, examinando-o por uma
comissão enviada a ele (1.24ss). Se o Batista os preocupava, mais ainda foi
o caso com Jesus que, aparentemente aumentando o movimento batista,
continuava ministrando no Jordão.
(4.1) Quando, pois, o Senhor veio a saber que os fariseus tinham
ouvido dizer que ele, Jesus, fazia e batizava mais discípulos que João
(2) (se bem que Jesus mesmo não batizava, e sim os seus discípulos)
(3) deixou a Judeia, retirando-se outra vez para a Galileia.
Jesus procurou evitar uma confrontação antes da hora. Aceitando
que essa fase inicial de seu ministério tinha sido cumprida, voltou para
sua terra ao norte. Assim como hoje a Cisjordânia praticamente divide o
91
Estado de Israel em duas partes (nordeste e sul), assim no tempo de
Jesus, a região dos “Samaritanos” se interpôs entre a Judeia (no sul) e a
Galileia (ao norte). O caminho mais rápido e mais curto do sul para o norte
atravessava a tal “Samaria”. O historiador Josefo relatou: “Os apressados
terão que usar a rota pela Samaria, pois só dessa maneira será possível,
partindo da Galileia, alcançar Jerusalém no prazo de três dias” (Vita 52§
269). O caminho alternativo pelo vale do Jordão era penoso e pouco usado.
Os judeus ortodoxos, os fiéis, porém, o preferiam, pois desprezavam e, pior
ainda, odiavam os Samaritanos. “Quem comer pão dos samaritanos é
semelhante ao que come carne de cachorro” diziam as más línguas
rabínicas. Os judeus fiéis à Torá esmeraram-se em evitar qualquer contato
contaminador com os samaritanos.
(4) Era lhe (Jesus) necessário atravessar a província de Samaria.
Antes de continuarmos e para podermos captar a real mensagem de
João transmitida nesse capítulo quarto, veremos primeiro quem foram os
tais “Samaritanos” e como surgiram no meio da Palestina.
No ano 722 antes de Cristo, os assírios destruíram a antiga Israel
como nação unida, levaram embora a elite do norte e permitiam somente a
um grupo de agricultores analfabetos permanecer no país. Em troca,
trouxeram em cinco levas colonizadores assírios que, com o tempo,
misturaram-se com o restante judeu (confira 2 Reis, 17.41).
Aos olhos dos judeus de “Judá” (Jerusalém e região sul) os
moradores da Samaria eram todos pagãos, pois os assírios haviam trazido
consigo suas divindades. Mesmo assim, os da Samaria lutavam para
serem reconhecidos como judeus. Como o acesso ao Templo em Jerusalém
ficou-lhes vetado e para não continuar sem centro religioso, o governador
assírio Sanballat mandou seu genro Manassés levantar no Monte Gerazim
um templo com um sistema sacerdotal semelhante ao de Jerusalém. Com
isso, a Samaria tornou-se independente quanto ao culto em Jerusalém.
Com o decorrer do tempo, as divindades trazidas da Assíria perderam seu
peso e, quando em 128 a.C. (durante a reforma dos Macabeus no sul), o
sumo sacerdote judaico Hircano I mandou destruir o templo do Monte
Gerazim, os samaritanos ficaram sem santuário para cultuar. Após uma
devastação através de uma invasão de leões, os samaritanos resolveram
retornar à religião antiga, judaica, e declararam o “Pentateuco” (os
primeiros cinco livros do antigo Testamento) como sua “Torá”, sua “Lei”.
Desde então, o culto samaritano com somente o Pentateuco como
“Palavra de Deus”, continua a ser celebrado nas Sinagogas samaritanas.
Foi essa a situação na época de Jesus. Ainda hoje existe na Cisjordânia
uma pequena comunidade samaritana, uns 550 membros, que cultua na
sua Sinagoga tendo como base o Pentateuco, desconhecendo todo o resto
do cânon do Antigo Testamento. O tratado rabínico sobre Kutim (=
samaritano) considera, portanto, uma parte do culto samaritano como
“pagã” e outra como “judaica”.
92
O encontro de Jesus com a mulher samaritana costuma ser
interpretado por alguns comentaristas como exemplo de um
aconselhamento espiritual, psicologicamente bem estruturado, com uma
pobre mulher moralmente arruinada. Como resultado do aconselhamento,
costuma ser apontado o verso 24 (adoração a Deus em espírito e em
verdade). Essa explanação moralista e superficial, pensamos, nada tem a
ver com a mensagem de João.
Veremos as provas do que dissemos:
Não ouvimos nem uma única palavra de reconhecimento de culpa ou
arrependimento da parte da mulher e nada de perdão, que nem é
procurado, nem concedido. Nenhuma censura do relacionamento do
concubinato atual da pobre pecadora que, conforme a Lei de Deus merecia
o apedrejamento. Temos que admitir: Não nos vemos perante um
aconselhamento espiritual ou moral. A interpretação psicológica da
conversa é falha. Tampouco as repentinas mudanças de assunto são
tentativas da pobre mulher para escapar de um julgamento.
Toda a conversa serve ao Evangelista para levar Jesus a revelar-se
perante a samaritana como Aquele que é: “Sou eu, que falo contigo” (v.26) e
a marcar o momento histórico do início do trabalho missionário entre os
samaritanos (conforme Strathmann, Cullmann e outros).
Não há a menor dúvida de que houve um encontro entre Jesus e
uma mulher samaritana. O texto faz parte da tradição “samaritana-cristã”
do início do movimento cristão. Percebemos, no entanto, que a conversa
como um todo, semelhante ao relato do casamento em Caná, deixa a
impressão de que, por detrás do óbvio, existe outra mensagem e que o
Evangelista a transmitiu no seu estilo típico de duplo sentido, usando um
acontecimento para enriquecê-lo com a sua mensagem principal.
(5) Chegou, pois, a uma cidade samaritana, chamada Sicar; perto
das terras que Jacó dera a seu filho José. (6) Estava ali a fonte de
Jacó. Jesus escolheu o caminho mais curto pela Samaria, contrariando
os costumes dos judeus fiéis. Uns vinte minutos a pé antes de chegar à
cidade de Sicar (hoje: Askar), ao pé do Monte Gerazim, encontra-se, ainda
hoje, a “Fonte de Jaco´”. Não há menção direta dessa fonte no Antigo
Testamento, mas tanto os samaritanos quanto os judeus estão seguros de
que fora Jacó que cavara essa fonte. Trata-se de um poço não comum,
cavado na parte inferior da rocha. Sua água, portanto, sobe do lençol
freático, jorra do fundo e é fresca.
Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta
da hora sexta. (7) Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água.
A maioria dos comentaristas quer entender a hora sexta por “meiodia”. Conforme o calendário que se utilizar (que não sabemos qual foi o
93
usado por João) poder-se-ia tratar também tanto de seis da manhã como
das seis da tarde. Costumava se tirar água dos poços no declinar do dia.
Para nosso estudo não é de relevância se foi meio-dia ou seis da tarde:
Veio uma mulher da cidade, embora essa cidade tenha sua própria fonte.
Aqui já vemos como a figura da mulher samaritana começa a representar
“os samaritanos” como comunidade distinta. Ela veio à procura de uma
água melhor.
Disse-lhe Jesus: “Dá-me de beber”. (8) Pois seus discípulos
tinham ido à cidade para comprar alimentos. (9) Então, lhe disse a
mulher samaritana: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim,
que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os
samaritanos)?
A observação do Evangelista quanto aos discípulos ausentes é outro
sinal. Não havia ninguém que nos poderia relatar a conversa, a não ser a
própria tradição samaritana-cristã.
O pedido de um judeu cansado, sentado junto ao poço, provocou a
resposta, tanto admirada quanto cínica, da mulher (parafraseada): “Tu,
judeu, (pois te reconheço pelas “quastas” no teu manto) quebras dois
mandamentos culturais; primeiro, falando com uma mulher e, segundo,
pedindo água a uma samaritana tida como “pagã”? Será que você quer
água de uma samaritana mesmo?”
Não sabemos toda a conversa que se criou entre a mulher e Jesus. A
tradição nos deixou as frases principais que marcaram o encontro.
Jesus respondeu a uma possível imposição da mulher, vendo-se
solicitado por água por um judeu desconhecido, no sentido de que Ele
também poder-lhe-ia oferecer água, mas outra água, melhor.
(10) Replicou-lhe Jesus:” Se conheceras o dom de Deus e que é o
que te pede: dá-me de beber, tu lhe pediras, e ele te daria água viva”.
Ou a mulher não escutou bem ou ela não levou muito a sério “esse
judeu”. Novamente sua resposta demonstrou uma mistura de cinismo e
curiosidade. Como é que “esse judeu” lhe daria água “viva”?
Nas regiões desérticas do Oriente Médio e, portanto, para a mulher,
a “água viva” era a água do fundo, ali onde ela jorrava da pedra. Para pegar
daquela “água viva” havia necessidade de equipamento, cuja presença ela
não notou no judeu. O poço tinha uns trinta metros de profundidade (e
ainda hoje a tem). Costumeiramente se tira água somente da superfície da
água. Isso exige menor esforço. A curiosidade despertada inspirou a
mulher a empregar na sua resposta o título “senhor” (não no sentido
cristológico como SENHOR, mas como sinal de reverência).
(11) Respondeu-lhe ela: “Senhor, tu não tens com que a tirar, e
o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? (12) És tu, porventura,
94
maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele
mesmo bebeu, e, bem assim, seus filhos, e seu gado?”
Outras traduções dizem “tu nem tens balde para tirar...”. A mulher
não se deu por vencida. “O senhor quer ser maior que nosso pai Jacó,
querendo que eu lhe peço por “água viva” uma vez que essa água fora boa o
suficiente para ele, nosso pai, seus filhos e até seu gado?”
(13) Afirmou-lhe Jesus: “Quem beber desta água, tornará a ter
sede; (14) aquele, porem, que beber da água que eu lhe der nunca mais
terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der, será nele uma fonte a
jorrar para a vida eterna.
Novamente percebemos como o Evangelista fala de maneira um
tanto metafórica; na verdade, ele já está pregando. Para nós, que lemos
seu Evangelho, Jesus diz que a “água que Ele der” acaba de vez com a
nossa eterna procura por sentido na vida e tudo que isso implica. Mais
ainda, essa água jorra “para a vida eterna”. Alguns comentaristas querem
entender que a “água” (apontando para os sacramentos) jorraria para a
vida eterna no sentido de “ajuda na conquista” dessa vida. De maneira
alguma era isso que Jesus estava dizendo! A água dada por Ele jorra e
desemboca na vida eterna. Ela já é o penhor da vida eterna.
A mulher, no entanto, entendeu mais uma vez outra coisa. Sua visão
limitada, tanto cultural como socialmente, fez com que ela ouvisse o
seguinte: “Água milagrosa!” Ela imediatamente enxergou a possibilidade de
um fim das andanças diárias, cansativas e repetitivas, em busca de água!
Fim da eterna sede que sempre se renovava. Será que esse “judeu” tinha
poderes mágicos que tornariam possível tudo isso? Supersticiosa, como ela
(e como são todas as pessoas religiosas) era, imediatamente pediu: (15)
Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais
tenha sede, nem precise virar aqui buscá-la.
Ainda hoje muitos cristãos entendem a religião dessa forma.
Prosperidade, que “milagrosamente” livra “o crente” do peso da ética e do
peso da obediência à Palavra. Um milagre tornaria isso tudo
desnecessário. Só importa saber “os truques”!
(Precisamos enumerá-los aqui? Começou com o copo de água; depois
veio a rosa benta; o sal grosso; o corredor dos pastores... e, pode ter
certeza de que nunca acabarão enquanto houver religião como
empreendimento...).
Absolutamente não foi isso que Jesus havia sugerido à mulher
samaritana. O diálogo foi tão impressionantemente mal sucedido, que
entrou na tradição da Igreja e acabamos de tê-lo no Evangelho de João.
A essa altura Jesus resolveu abrir o entendimento da mulher de
outra forma. A imagem da água não conduzia a nada.
95
Quando conversamos com alguém, às vezes temos que mudar “o
caminho” para chegar ao que queremos abordar. Foi esse o caso com a
mulher samaritana.
Aparentemente sem ligação direta com a conversa sobre a “água
viva” (16) Disse-lhe Jesus: “Vai, chama teu marido e vem cá; (17) ao
que lhe respondeu a mulher: “Não tenho marido.”
O que Jesus queria com essa ordem? O que o marido da samaritana
tinha com a questão da “água viva”? Pense a respeito!
Cap. 4.18-29
(16) Disse-lhe Jesus: “Vai, chama teu marido e vem cá; (17) ao que lhe respondeu
a mulher: “Não tenho marido.” Replicou-lhe Jesus: “Bem disseste, não tenho marido; (18)
porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto
disseste com verdade”. (19) “Senhor”, disse-lhe a mulher, “vejo que tu és profeta.
(20) Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é
o lugar onde se deve adorar”. (21) Disse-lhe Jesus: “Mulher, podes crer-me que a
hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. (22) Vós
adorareis o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação
vem dos judeus. (23) Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores
adorarão em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus
adoradores. (24) Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em
espírito e em verdade”. (25) “Eu sei”, respondeu a mulher, “que há de vir o messias,
chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas”. (26) Disse-lhe
Jesus: “Eu o sou, eu que falo contigo”. (27) Neste ponto, chegaram os seus
discípulos e se admiraram de que estivesse falando com uma mulher; todavia,
nenhum lhe disse: “que perguntas?” ou :”por que falas com ela?”. (28) Quanto à
mulher, deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: (29) “Vinde
comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este,
porventura, o Cristo?!”
Como vimos na leitura anterior, a mulher não conseguiu entender o
que Jesus lhe queria dizer com o termo “água viva”. Presa mentalmente ao
seu mundo cotidiano, a imagem de água era uma só. Jesus percebeu a
limitação da mulher e assim Ele mudou o foco da conversa, pedindo à
mulher que lhe apresentasse seu marido.
A partir desse momento, todo o diálogo assume características
metafóricas; isto é, o Evangelista está fazendo uso de imagens para
transmitir sua mensagem. Jesus havia notado que a essa mulher não
interessava tanto a água, mas sim, o que “esse judeu” tinha a mais do que
ela; em que a religião dele era mais correta do que a dela. Se alguém
pudesse ajudá-la na elucidação dessa questão talvez fosse este judeu. Ele
era diferente. Não se envergonhara de dialogar com ela - coisa abominável
para judeus fiéis. Como já sabemos, Jesus havia solicitado à mulher
samaritana a apresentação do marido, ao que esta respondeu que não
tinha.
96
Replicou-lhe Jesus: “Bem disseste, não tenho marido; (18) porque
cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto
disseste com verdade”. Ao invés de demonstrar humilhação ou até
vergonha perante as revelações de Jesus, a mulher concordou,
entusiasmada. Demonstrou espanto e admiração: (19) “Senhor”, disselhe a mulher, “vejo que tu és profeta”. Nenhuma palavra a mais quanto
à sua vida pessoal é proferida e não notamos qualquer interesse de Jesus
em avaliar ou repreender a mulher. Se Ele lhe havia dito o que era
realidade na sua vida particular, seguramente lhe poderia com a mesma
clareza falar da razão do desprezo dos judeus pela sua religião samaritana.
(20) Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis
que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”.
Jesus não se mostrou interessado em definir o lugar certo para
adoração.
O Evangelista veladamente desenhou em seu relato da (suposta?)
conversa de Jesus com a samaritana a situação religiosa dos samaritanos.
Como judeu, ele deve se lembrar que os cinco maridos que a mulher já
teve e o marido atual que “não era seu marido” correspondiam
perfeitamente à situação da Samaria descrita em 2 Reis 17.24-34. Com
efeito, depois da destruição do reino do norte, cinco tribos babilônicas se
estabeleceram na Samaria. Elas trouxeram suas divindades; porém,
depois, adoraram igualmente JHV (Jahwé). As relações matrimoniais da
samaritana têm, sem dúvida, no conjunto do relato, a finalidade de
ilustrar, seguindo o exemplo do profeta Oséias, o culto “ilegítimo” de
Samaria, cujos habitantes, segundo Siraque 1.25-26, “não são um povo”.
O problema dessa mulher era muito mais espiritual do que matrimonial.
(21) Disse-lhe Jesus: “Mulher, podes crer-me que a hora vêm,
quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Antes de tudo, Jesus levantou a esperança da mulher ao anunciar
que certamente viria a hora em que as diferenças entre judeus e
samaritanos não mais seriam essenciais, mas secundárias. Qualquer culto
ligado a um determinado lugar perderá sua validade.
(22) Vós adorareis o que não conheceis; nós adoramos o que
conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.
Na atual situação, mesmo com todo o Pentateuco nas mãos, vocês,
samaritanos, ainda não conhecem Aquele ao qual procuram adorar.
Na segunda parte do verso, o Apóstolo João fala não mais só com a
mulher, mas com toda a Igreja como quem já viu a Salvação. Ele usa o
“nós”. Quem eram esses “nós”? Certamente não os judeus na sua religião
legalista e cega.
97
“Nós adoramos o que conhecemos” (“... o que temos ouvido, o que
temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas
mãos apalparam, com respeito ao Verbo da Vida... e dela damos
testemunho...” 1.João 1.1,2). Você percebe? João não fala mais como
judeu, nem são as palavras de Jesus à samaritana proferidas neste verso:
são as palavras do Apóstolo à Igreja primitiva cristã.
“... porque a salvação vem dos judeus”. Durante o terror nazista,
essa parte do verso teve de ser eliminada em todos os livros e Bíblias
oficiais do “Terceiro Reich” de Hitler. Na constatação acima não se trata de
um anexo posterior, como alguns comentaristas racistas sugerem. Por que
razão a Igreja acrescentaria essa frase “provocante” aos manuscritos,
quando “os judeus” (no sentido usado por João) mais e mais se tornavam
“inimigos” (por causa de Cristo) da nova igreja cristã? Não, Jesus deixou
claro que, apesar de que no Reino de Deus não mais haveria discriminação
racial e que todas as condições humanas, exteriores, se tornariam sem
valor, a Salvação em si viria do povo eleito. Para todos os “não judeus” o
fato de o Salvador vir do povo judeu era e continua sendo um “escândalo”.
Esta realidade faz parte do Evangelho ( 1 Cor 1.23).
(23) Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores
adorarão em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura
para seus adoradores. (24) Deus é espírito; e importa que os seus
adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Em compensação à
resposta negativa do verso 21, o Evangelista fala da adoração verdadeira
que Deus - tanto da parte dos samaritanos quanto da dos judeus e dos
gentios – , quer. Não será esse um culto de adoração mística,
contemplativo, nem de festa e barulho (como já fora condenado na Antiga
Aliança pelos profetas Isaias (1.11) e Amós (5.20ss)).
Qualquer culto exterior não atenderá à adoração em espírito e
verdade, pois é humano e, portanto, inverídico.
Deus é espírito. O que essa afirmação quer dizer? No sentido de
João ela significa que, se Deus é a Luz que alumia o homem, Ele não
deixará o mesmo na escuridão (1João 1.5) ou: se Deus é amor (1.João 4.8),
Ele, incondicionalmente, ama aos homens. Se João diz que “Deus é
espírito”, ele aponta para a maravilhosa obra de Deus no interior do
homem, dando-lhe Seu Espírito e providenciando-lhe o “Novo Nascimento”.
Somente dentro dessas “condições da Graça” podemos, melhor, “devemos
adorar a Deus” (verso 24). Qualquer culto de adoração produzido pelo
homem, fora dessa condição, revela-se ultrapassado com a Vinda do Filho.
(25) “Eu sei”, respondeu a mulher, “que há de vir o Messias,
chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas”. A
mulher entendeu que Jesus estava falando do tempo vindouro, mas não
98
prestou atenção no “... a hora já chegou”. Para a mulher samaritana tudo
ainda era visão escatológica. Ela, como samaritana, também esperava o
Messias (para eles é o “Ta’eb” = “aquele que está retornando”). Mas quando
será que “ele” virá para anunciar também a eles “todas as coisas”?
Você percebe: Agora ela estava na condição de “ouvir” aquilo que,
com a conversa a respeito da “água viva”, não havia sido possível.
(26) Disse-lhe Jesus: “Eu o sou, eu que falo contigo”. A mulher
não mais precisava esperar! A Igreja não mais precisa esperar! A uma
mulher samaritana fora revelado o que ao próprio povo de Jesus ainda
continuava desconhecido. Nessa autorrevelação de Jesus perante uma
“pagã” está o ponto culminante da conversa toda.
A arte literária do Evangelista é fenomenal. Está nos abrindo a
mente, passo a passo, junto com a mulher samaritana. Quem era esse
viajante cansado sentado junto ao poço? Um judeu? Um senhor que
merecia respeito? Um profeta com poderes mágicos? Um judeu que
falava bem das coisas de Deus? Agora ela aceita: É o Messias, esperado
tanto pelos judeus quanto pelos samaritanos.
(27) Neste ponto, chegaram os seus discípulos e se admiraram de
que estivesse falando com uma mulher; todavia, nenhum lhe disse:
“que perguntas?” ou: “por que falas com ela?”.
Magistralmente o Evangelista encerra o diálogo entre Jesus e a
mulher samaritana. Seus seguidores chegam, animados e munidos com
alimentos. Eles estranham encontrar seu Mestre conversando com uma
mulher samaritana. “Indigno para o homem é conversar com mulher”
(Provérbios dos Pais, 1.5). Mas o respeito para com o seu Mestre impede
que lhe abordassem a respeito. Com a chegada dos homens, a mulher se
levanta e sai correndo, esquecendo até seu balde com o qual pensava tirar
água.
(28) Quanto à mulher, deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse
àqueles homens: (29) “Vinde comigo e vede um homem que me disse
tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?!”
Até a chegada dos amigos e vizinhos da mulher, curiosos pelo
estranho relato da samaritana, passará certo tempo. Jesus aproveitará
esse intervalo para ensinar aos seus seguidores alguns princípios básicos
para qualquer serviço missionário.
Você percebeu que Jesus, pessoalmente, iniciou a missão cristã na
terra dos samaritanos?
99
O trecho de 31 a 39 abrirá a nossa visão, pois aparecerão
ramificações no Evangelho de Lucas e nos Atos dos Apóstolos. Quem serão
esses “outros” do verso 38?
•
Você está pronto para outra aventura nos passos do Evangelista
João?
Cap. 4.30-42
(30) Saíram, pois, da cidade e vieram ter com ele. (31) Neste ínterim, os
discípulos lhe rogavam, dizendo: “Mestre, come!” (32) Mas ele lhes disse: “Uma
comida tenho para comer, que vós não conheceis”. (33) Diziam, então, os discípulos
uns aos outros: “Ter-lhe-ia, porventura, alguém trazido o que comer?” (34) Disselhes Jesus: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e
realizar a sua obra. (35) Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu,
porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa.
(36) O ceifeiro recebe desde já a recompensa e entesoura o seu fruto para a vida
eterna; e, destarte, se alegram tanto o semeador como o ceifeiro. (37) Pois, no caso,
é verdadeiro o ditado: “Um é o semeador, e outro é o ceifeiro. (38) Eu vos enviei
para ceifar o que não semeastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu
trabalho. (cont)
(39) Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do
testemunho da mulher, que anunciara: “Ele me disse tudo quanto tenho feito”. (40)
Vindo, pois, os samaritanos ter com Jesus, pediam-lhe que permanecesse com eles;
e ficou ali dois dias. (41) Muitos creram nele, por causa de sua palavra, (42) e diziam
à mulher: “Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós
mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo..
O Apóstolo João se interessava de maneira especial pela origem da
pregação do Cristo ressurreto para um povo que não era o judeu: a missão
em Samaria. Ele quer pôr em evidência que esse trabalho teve como autor
o próprio Jesus, se bem que Este durante sua vida tenha recomendado aos
seus evitar “as cidades de Samaria”.
Esse relato de João 4 respondeu à acusação que certamente foi
suscitada entre os primeiros cristãos de origem judaica após a morte de
Jesus: a missão nesse país semijudeu, tão infiel ao plano divino,
corresponde à vontade de Jesus?
Reinava um forte sentimento de rejeição aos samaritanos e os
discípulos, futuros Apóstolos, não ficaram isentos a ele. Mateus registra a
ordem expressa de Jesus: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em
nenhuma cidade de Samaria” (Mat.10.5). Os Doze guardaram essa
ordem nas suas memórias. Lembramos que os samaritanos não
reconheceram mais do que o Pentateuco, do qual haviam, ademais,
modificado o texto. No mais, recusavam o culto do Templo de Jerusalém.
100
Após a morte de Jesus, Samaria representou a primeira etapa no
trabalho missionário pós-Páscoa. Era sumamente importante para os
primeiros cristãos terem a certeza de trabalharem segundo a vontade de
Cristo quando se dirigirem a esse país.
Lucas, que escreveu seu Evangelho com base em informações
colhidas, nos traz material que não consta nos Evangelhos. Ele lembra,
certa vez, da intenção de Jesus de fazer em sua viagem à Jerusalém um
descanso em Samaria. Enquanto que os discípulos, ante a atitude dos
samaritanos de não quererem recebê-lO e por isso pedem que desça fogo
do céu para eliminar esses samaritanos, são repreendidos por Jesus
(Lucas 9.51ss).
No mesmo Evangelho lemos em 10.30ss a parábola do “bom
samaritano”, que implicitamente condena preconceitos raciais e colocou
os deveres para com o serviço no Templo em segundo plano. Em Lucas
17.1ss lemos que, entre dez leprosos curados por Jesus, somente o
samaritano se prostrou diante dEle para dar-lhe graças.
Temos de um lado a ordem de Jesus aos seus seguidores de não
entrarem na Samaria enquanto Ele viver. Sabemos que esta ordem não fora
resultado de sentimentos de superioridade, pois várias vezes na sua fala
Jesus colocaram o samaritano acima do judeu (veja exemplos acima), fato
esse que deve ter aborrecido bastante seus ouvintes judeus.
Em João 12.20ss lemos de alguns “gregos” que queriam ver Jesus.
Esses “gregos” tinham vários pontos de vista em comum com os
samaritanos; também rejeitaram o culto no Templo. Jesus não os atende,
dizendo que era chegada a hora da glorificação e que o grão tinha que,
primeiro, cair na terra para dar fruto. Em outras palavras, o mesmo Jesus
que, pessoalmente iniciou o trabalho missionário na Samaria (cap.4),
não queria que seus seguidores iniciassem o trabalho ali antes de sua morte
e glorificação.
O texto que lemos hoje nos dará algumas dicas a respeito. Enquanto
Jesus estava acima de ressentimentos religiosos e culturais, seus
discípulos ainda não estavam. Jesus não se revelou interessado na
propagação do “Messias”, pois essa notícia sem a consumação da redenção
(morte e ressurreição) e sem a descida do Espírito Santo levaria a nada. Os
discípulos fora de Israel, em “terra pagã” (e Samaria era vista como tal),
somente anunciariam o Messias judaico, superior ao “Ta’eb” dos
samaritanos. Para atuar entre gentios, anunciando-lhes a Boa Nova da
mesma condição de aceitação no Reino como era válida para os judeus,
Deus ainda tinha muito trabalho a realizar nos próprios discípulos (confira
Pedro em Atos 10)!
Enquanto as pessoas alertadas pela mulher samaritana não
chegaram, o Evangelista aborda no seu estilo metafísico verdades básicas
proferidas por Jesus quanto ao trabalho missionário, especificamente
aplicados ao povo da Samaria.
101
(31) Neste ínterim, os discípulos lhe rogavam, dizendo: “Mestre,
come!” (32) Mas ele lhes disse: “Uma comida tenho para comer, que
vós não conheceis”.
Os discípulos, certamente apressados e com sua mente ocupada
com a refeição merecida, encontraram o Mestre visivelmente
desinteressado. Mais ainda: Ele parecia estar em outro mundo, alheio à
boa vontade dos discípulos. Sua fome já não existia.
Jesus ainda via na sua mente a mulher saindo correndo com a
notícia de que havia encontrado, quem sabe, o Messias anunciado. Nunca
Jesus havia notado no seu próprio povo tal disposição em saber do
Enviado!
(33) Diziam, então, os discípulos uns aos outros: “Ter-lhe-ia,
porventura, alguém trazido o que comer?”
Presos mentalmente, assim como a mulher à água do poço, os
discípulos procuraram interpretar as palavras enigmáticos do Mestre. Será
que alguém os precedeu em alimentá-lo? Podemos imaginar sua decepção;
foram correndo em busca de alimentos e agora o Mestre lhes revela
possuir outra comida, obviamente melhor e desconhecida por eles!
(34) Disse-lhes Jesus: “A minha comida consiste em fazer a
vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.
O que os discípulos podiam perceber era uma mulher que saiu
correndo. Havia conversado com seu Mestre e, como era contra a tradição,
eles não haviam aprovado no seu íntimo essa atitude do seu Mestre. Sim,
a vontade do Pai era santa e sublime e esta seu Mestre estava prestes a
realizar. Conversar com uma mulher pagã era obra do Pai? Desde quando?
Uma conversa valia como alimento?
Antes, na sua caminhada pelo campo rumo a Sicar, eles haviam
observado as plantações à beira do caminho. Na Palestina as semeaduras
acontecem em outubro ou novembro e a colheita é feita em abril. Os
campos que Jesus e seus discípulos viam diante de si quatro meses antes
da ceifa, todavia estavam verdes. Era dezembro; ainda faltavam quatro
meses para a ceifa. Jesus lembrou seus seguidores da conversa que
tiveram enquanto andavam. (35) Não dizeis vós que ainda há quatro
meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os
campos, pois já branquejam para a ceifa.
Enquanto Jesus falava, Ele levantou o braço. “Erguei seus olhos!” –
Ele referiu-se a outro campo: com o dedo Ele intentou assinalar o grupo de
samaritanos aparecendo, vindos correndo de Sicar por causa do
testemunho da mulher. Esses vieram para conhecer o homem do qual a
mulher disse que lhe “dissera tudo”. Empregando a imagem dos campos,
Jesus completou: “veja, já são brancos para ceifa!”. Ele comparou o grupo
que vinha se aproximando com um campo pronto para colheita.
102
(36) O ceifeiro recebe desde já a recompensa e entesoura o seu
fruto para a vida eterna; e, destarte, se alegram tanto o semeador
como o ceifeiro.
Conquanto normalmente decorra um tempo entre semeadura e
colheita, Jesus viu o campo onde o semear e a colheita coincidem: nos
samaritanos, o tempo da colheita já tinha chegado.
A colheita feita por Jesus no momento em que o povo de Sicar aflue
em direção a Ele não foi mais que uma antecipação da verdadeira colheita
que, depois da morte de Jesus, ficou reservada aos Apóstolos em Samaria
(Atos 8.14ss).
(37) Pois, no caso, é verdadeiro o ditado: “Um é o semeador, e
outro é o ceifeiro. No campo de trigo o dito é verdadeiro: um é o
semeador, outro é o ceifeiro. Na visão histórica da Igreja será assim; mas
não para o indivíduo. A história exige tempo. O Apóstolo João, na sua
idade avançada, entrou no campo onde Paulo havia semeado com muitas
dificuldades (Éfeso). Assim um semeou e outro colheu. Na verdade, tanto
semeamos o que outros mais tarde colherão e colhemos o que outros
semearam.
No encontro pessoal com o Filho não é assim. Não, com a Presença
da Palavra, a semeadura e a colheita acontecem juntas. “Em verdade. Em
verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou
tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para vida (João
5.24).
• Você já ouviu o chamado do Senhor Jesus? Siga-O! Você quer tempo
para ver se algo cresce ou não? Não é assim! O campo de trigo é uma
coisa; seu coração é outra. Aqui o chamado e a resposta se unem;
aqui é que acontece o julgamento (confira 3.18).
(38) Eu vos enviei para ceifar o que não semeastes; outros
trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.
Por detrás dos Apóstolos que mais tarde colherão, se encontra,
todavia, Jesus.
O mesmo que aconteceu junto ao poço de Jacó, onde Jesus semeou
e colheu ao mesmo tempo, se repetirá em breve na missão que os
discípulos organizaram depois de sua morte.
Esse verso, dito à Igreja com a autoridade do velho Apóstolo, quer
dissipar os preconceitos existentes relacionados a esta obra missionária
que se embasava, provavelmente sem razão, sobre a frase de Jesus,
referida por Mateus: “Não entreis em nenhuma cidade de Samaria”.
Quem seriam esses “outros” que trabalharão e no campo deles os
Apóstolos depois entrariam?
Como o nosso estudo se limita ao Evangelho de João faremos só um
breve resumo a respeito desses “outros” que precederão os Apóstolos e
mencionados por João.
103
O livro de Atos nos diz que a missão em Samaria foi inaugurada
pelos “helenistas”, em particular por Filipe, um dos “sete” (diáconos) e que
só depois os Apóstolos Pedro e João se fizeram responsáveis pelo seu
campo. “Os Apóstolos em Jerusalém, ouvindo que Samaria havia aceitado a
palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João” (Atos 8.14).
Outro “helenista” da primeira geração cristã era Estevão. Pelo
discurso de Estevão (Atos 7) conhecemos as ideias teológicas particulares
desse grupo; eles condenavam o Templo. Estevão apresentou, como
cúmulo da infidelidade do povo judeu, a construção do Templo de
Salomão, enquanto que “o todo poderoso não habita no que é feito por mãos
humanas”. Essa ideia valeu a Estevão o apedrejamento por parte dos
judeus e estas mesmas ideias estão na base da primeira perseguição aos
cristãos (Atos 8,1).
Os “Doze” não compartilhavam das ideias helenistas sobre o culto do
Templo e não foram solidários com os helenistas no momento da
perseguição, podendo permanecer em Jerusalém. “...e todos, exceto os
Apóstolos, foram dispersados pelas regiões da Judeia e Samaria” (Atos 8.1).
Só conhecemos os nomes dos “sete” (Atos 6.5). Havia mais “outros” que
levaram o Evangelho à Samaria como a primeira região “pagã”. O fato de
os samaritanos também rejeitarem o culto do Templo lhes facilitava o
início de seu trabalho. Posteriormente os Apóstolos assumiram a
responsabilidade. (Mais informações específicas sobre este tema você encontra no livro: Oscar
Cullmann, Os origens do Evangelho, Ed.Novo Século, 2000)
(30) Saíram, pois, da cidade e vieram ter com ele. (39) Muitos
samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho
da mulher, que anunciara: “Ele me disse tudo quanto tenho feito”.
(40) Vindo, pois, os samaritanos ter com Jesus, pediam-lhe que
permanecesse com eles; e ficou ali dois dias. (41) Muitos creram nele,
por causa de sua palavra, (42) e diziam à mulher: “Já agora não é pelo
que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e
sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo.
O título “Salvador do mundo” aparece só duas vezes no Novo
Testamento. Nas duas vezes é João que o emprega. Na segunda vez o
encontramos na sua “Primeira Carta” 4.14. “... temos visto e
testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do
mundo”.Você se lembra de outra menção do mundo como objeto de amor
divino? Certo! João 3.16! “Deus amou o mundo ...”. Você percebe que está
incluso nesse amor incomparável?
O papel da mulher samaritana é reconhecido. Ela serviu de
testemunha. Mas no encontro pessoal com Jesus “muitos samaritanos”
creram nEle, porque O ouviram.
104
• Você creu porque sua amiga, seu amigo lhe falaram? Ou - como
no caso dos samaritanos -, “você mesmo tem ouvido a Sua voz
no Evangelho” e respondido, crendo?
• Comida previamente mastigada
pinguim recém-nascido.
pode
ter utilidade para
• A você, Deus está para falar pessoalmente através de Sua
Palavra que você tem em suas mãos. Não fuja, não se esconda,
não finja “esperar a hora certa”. – Responda a Ele!
Cap. 4.43-45
(43) Passados dois dias, partiu dali para a Galileia. (44) Porque o mesmo Jesus
testemunhou que um profeta não tem honra na sua própria terra. (45) Assim,
quando chegou à Galileia, os galileus o receberam, porque viram todas as coisas que
ele fizera em Jerusalém, por ocasião da festa, à qual eles também tinham
comparecido.
(43) Passados dois dias, partiu dali para a Galileia. (44) Porque o
mesmo Jesus testemunhou que um profeta não tem honra na sua
própria terra. Passados dois dias de extensas conversas com os cidadãos
samaritanos, Jesus dirigiu-se à Galileia, sua terra, ao norte. Os
comentaristas bíblicos, em sua grande maioria, entendem da seguinte
forma algo aparentemente contraditório nos verso 44 e 45: “Porque” Jesus
sabia que em sua própria terra não chamaria tanta atenção (tal qual
acontecera quando ministrava na Judeia onde chamou a atenção perigosa
das autoridades religiosas, cap.4.1,2), e desejando ministrar sem correr o
risco de novos confrontos, Ele decidiu voltar à Galileia. Ali, com exceção de
Nazaré, onde havia sido expulso da Sinagoga (o que sabemos por Marcos
6.1-6), Ele fora bem recebido pelos seus compatriotas.
(45) Assim, quando chegou à Galileia, os galileus o receberam,
porque viram todas as coisas que ele fizera em Jerusalém, por ocasião
da festa, à qual eles também tinham comparecido.
João não especifica quais foram tais “todas as coisas” que Jesus
operava em Jerusalém. Esses feitos, todavia, haviam impressionado
profundamente os peregrinos vindos da Galileia, que agora receberam de
braços abertos o seu compatriota famoso.
• Você considera muito difícil acreditar em tudo que o Evangelista
quer apresentar? Você tem a sua própria opinião? Não estamos,
afinal, naquele tempo obscuro!? Você tem seu próprio
julgamento das palavras da Bíblia - em nosso caso, do
Evangelho?
105
Vamos, mentalmente, dar um salto na história e vir para a metrópole
francesa do século 21. Um turista percorre entediado as galerias de arte do
Louvre, em París, e comenta com um dos guardas: “Não vejo nada de
excepcional nestes quadros”. O guarda lhe respondeu: “Não somos nós,
senhor, quem julgamos os quadros; são eles quem nos julgam”.
Quando consultamos certos teólogos modernos, percebemos que eles
não estão vendo “nada de excepcional” no Evangelho. Dois mil anos após o
fato e sem nenhum conhecimento direto da cultura e das questões
linguísticas da época de João, eles fazem seus julgamentos; ousam saber
discernir o que era fato e o que era mito. São os turistas que nada de
excepcional percebem no “quadro de Cristo” que o Apóstolo nos apresenta.
Trazem o Santo Evangelho ao nível de sua formação intelectual (limitada e
condicionada), ditada pelas correntes da teologia contemporânea. Eles não
enxergam o sol. C.S.Lewis fez um comentário memorável a respeito da
ignorância, cegueira e altivez dos que “desossam” o Evangelho, querendo
julgar seu conteúdo com a mente do século vinte (Fern-seed Elephants and other
Essays on Christianity. Hooper/Collins, 1975).
Quanto mais meditamos no Evangelho segundo João, mais
nitidamente percebemos o enorme cuidado do Evangelista na compilação
dos primeiros capítulos de seu relato enquanto dissecou “o rosto do Cristo
Eterno”. A composição da obra, seguramente, estendeu-se por anos e anos.
João deixou de lado o que os Evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e
Lucas), décadas atrás, já haviam relatado e acrescenta cuidadosamente o
que, de acordo com a sua própria compreensão, ainda faltava. Não foram
os dados biográficos que preocupavam a mente do Discípulo idoso. Pesava
sobre ele a responsabilidade da situação da Igreja que havia começado a se
formar e a desenvolver suas próprias crenças. O Apóstolo viu os perigos
que essas congregações corriam. Era necessária uma abordagem que
definisse de vez quem era Jesus para a Igreja, pois esse reconhecimento
decidiria sua sorte perante as demais crenças ofensivas. Os comentários
cínicos de Celso sobre os “bandos de idiotas e incultos” nos dão uma ideia
de como eram vistas as primeiras congregações cristãs pelos seus
oponentes e como havia necessidade de uma luz (Orígenes contra Celso,
3.44-55).
Veja com que cuidado João estruturou a base da fé nos primeiros
quatro capítulos de seu Evangelho e como ele apresenta a pessoa de Jesus.
Faremos uma breve recapitulação do que, até agora, temos lido:
O leitor sabe, pelo primeiro capítulo, que Jesus é o Verbo Eterno, o
“Logos” de Deus. Jesus não é resultado da evolução. Ele veio de fora, da
Eternidade, do Pai (observação: os textos bíblicos foram divididos em capítulos
aproximadamente mil anos mais tarde; João não conheceu as nossas sub-divisões).
No segundo capítulo entendemos que, com Jesus, o ritualismo
como condição religiosa havia chegado a seu fim (Caná) e que Deus não
exige e nunca exigiu sacrifício, mas sim, obediência. Sacrifício já previa,
106
por si só, desobediência e servia tão somente como meio emergencial para
retornar à presença de Deus. Mas a prática do sacrifício havia assumido o
lugar do verdadeiro “culto”. É por essa razão que o Apóstolo teve a coragem
de colocar o incidente no Templo (a assim chamada “Purificação do
Templo”) no início do seu Evangelho - quando historicamente seria mais
correto deixá-lo como acontecimento anterior à última Páscoa, como o
fazem os Evangelistas sinóticos.
No terceiro capítulo (conversa com Nicodemos) João deu um passo a
mais: A vida eterna, isto é, a vida “sob o domínio de Deus”, não é resultado
de uma subida em degraus na santidade (religião!), mas resultado de
uma renovação completa e radical, um “novo nascimento” operado pelo
Espírito de Deus, aonde há verdadeiro arrependimento (água!). Essa
transformação é fruto da fé.
No capítulo quarto, o Evangelista definiu a natureza da fé. Os
samaritanos, visto como pagãos, “creram” na Palavra de Jesus. Eles não
exigiam sinais como o faziam os da Judeia e como era a fé inicial dos
discípulos (2.11). Fé na Palavra de Jesus é o primeiro estágio, mas não é
seu final.
No texto que segue, o Evangelista dará o último passo rumo à
definição da pessoa de Jesus e da natureza da fé. Não será mais fé por
causa de um milagre (cap.2), nem fé por causa de palavras, mas, sim, fé
na pessoa de Jesus. A fé das comunidades surgidas no tempo de João,
assim como a nossa fé - se verdadeira -, tem sua razão numa pessoa:
Jesus, Filho de Deus. Fé é a obediência (sem questionamento), inabalável,
em Deus; manifestada na prática da vida, fundamentada nos
ensinamentos, ações e atitudes do Senhor Jesus.
Somente essa fé é capaz de crer quando nada se vê, quando nada
acontece, e quando Deus continua calado. A fé em Jesus independe das
circunstâncias. Ela é a confirmação ativa da nossa parte de que “Deus é
verdadeiro” (João 3.33).
• Reflita sobre o caráter de sua fé! Compare-a à confiança de uma
criança pequena na sua mãe. A pequena não questiona nem
exige prova. Ela descansa na presença da mãe. Sua fé é assim?
• ou ela está cobrando alguma coisa de Deus para ser “efetiva”?
• Você crê nos milagres, bênçãos, promessas e respostas de
oração ou você crê na pessoa de Jesus, assim como o neném crê na
presença e onipotência da mãe?
• Você agora entende por que “crer” é “descansar”?
“Senhor, ajuda-me na minha falta de fé!” (Marcos 9.24).
107
Cap. 4.46-54
(46) Dirigiu-se, de novo, à Caná da Galileia, onde da água fizera vinho. Ora,
havia um oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum. (47) Tendo ouvido
dizer que Jesus viera da Judeia para a Galileia, foi ter com ele e lhe rogou que
descesse para curar seu filho, que estava à morte. (48) Então, Jesus lhe disse: “Se,
porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis”. (49) Rogou-lhe
o oficial: “Senhor, desce, antes que meu filho morra. (50) “Vai”, disse-lhe Jesus,
“teu filho vive”. O homem creu na palavra de Jesus e partiu. (51) Já ele descia,
quando os seus servos lhe vieram ao encontro, anunciando-lhe que o seu filho vivia.
(52) Então, indagou deles a que hora o seu filho se sentira melhor. Informaram:
Ontem, à hora sétima a febre o deixou. (53 Com isto, reconheceu o pai ser aquela
precisamente a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua
casa. (54) Foi este o segundo sinal que fez Jesus, depois de vir da Judeia para a
Galileia.
(46) Dirigiu-se, de novo, à Caná da Galileia, onde da água fizera
vinho. João atesta que Jesus voltou à Caná, vilarejo de onde veio seu
discípulo Natanael (21.2) e onde Jesus e sua família foram convidados a
um casamento – dias ou semanas atrás (cap.2). A notícia da chegada do
famoso “operador de milagres” logo chegou à Cafarnaum, cidade de Tiago e
João. Ali havia um Centro de Coleta de Impostos e provavelmente alojava
um posto militar romano.
Ora, havia um oficial do rei, cujo filho estava doente em
Cafarnaum. O “oficial do rei” mencionado por João era oficial do tetrarca
Herodes Antipas, o mesmo “Herodes” dos Evangelhos (exceto Mateus 2 e
Lucas 1). O filho desse homem importante encontrava-se gravemente
enfermo. A medicina, naquela época, conheceu poucos recursos. Não
sabemos se o homem era judeu (pouco provável) ou se ele pertencia aos
“gentios”. Em nosso Estudo de Marcos citamos algumas práticas dos
curadores judaicos daquele tempo.
Sem artifícios mecânicos ou químicos à disposição, o Talmude (Livro
da Tradição Judaica) reconheceu como métodos lícitos:
•
•
“murmurar” sobre o doente, sempre que a doença não indicava
implicação demoníaca;
imposição das mãos; tocar a parte enferma do corpo ou
massagem ou esfregar saliva com as mãos.
•
Como melhor recurso para o judeu havia a prece, pois o êxito de
uma cura sempre dependia da graça Divina. Não sabemos se o
oficial era romano; neste caso o pai não se via em condições de
recorrer à ajuda de curadores judaicos, pois, por causa da
contaminação cerimonial, a nenhum judeu era permitido entrar na
casa de gentios. Os romanos tinham suas próprias práticas, talvez
um pouco mais adiantadas, mas, no caso específico, a febre do filho
gravemente enfermo não baixava, apesar de todo o esforço do
desesperado pai (confira verso 52).
108
(47) Tendo ouvido dizer que Jesus viera da Judeia para a
Galileia, foi ter com ele e lhe rogou que descesse para curar seu filho,
que estava à morte. O autor mostra conhecimento geográfico. O próprio
oficial, tendo recebido a notícia da chegada do homem curador nas
montanhas da Galileia, se pôs a caminho. No seu desespero venceu a
subida tortuosa e cansativa até Caná, a 27 km de distância em linha reta.
Esse oficial era um homem acostumado a dar ordens. Enquanto
apressadamente subiu, martelava na sua mente o seguinte pensamento:
Esse Jesus terá que descer imediatamente, pois meu filho esta à morte. Se
Jesus atrasar e o filho vier a morrer, tudo está perdido. Diz João, que o
oficial exausto “rogou para que Jesus descesse para curar seu filho”.
Imagine a cena! Uma só preocupação movia o oficial: Curador Jesus,
salve meu filho!
Há alguns comentaristas que querem ver falto de fé “reta” no
homem, porque estava interessado somente na cura de seu filho. Até o
acusam de não ter tido levado em conta que Jesus também poderia
ressuscitar o filho caso esse morresse antes da chegada de Jesus e que,
portanto, não havia razão para tanta pressa! Ridículo!
Pergunto: Estamos com os nossos pés no chão ou não? Quem de nós
não clamaria, da maneira como o oficial o fez? Este nem exigiu uma prova
do desconhecido curador para recorrer a ele. Assim, portanto, não revelou
fé? Sim, foi fé no poder milagroso de Jesus. O que mais o oficial poderia
apresentar?
O que ele fez de errado para provocar o seguinte desabafo de Jesus?
(48) Então, Jesus lhe disse: “Se, porventura, não virdes sinais e
prodígios, de modo nenhum crereis”.
O Apóstolo usou esse incidente (e deve ter havido muito outros
semelhantes) para levar o leitor, passo a passo, à compreensão da
natureza da verdadeira fé. Só pela forma gramatical usada por João
(plural) vemos que Jesus não repreendeu o oficial. Seu clamor é o clamor
do Apóstolo João contra a mentalidade reinante. Nem na sua Galileia
Jesus ficara em paz! De todos os lados as pessoas vieram procurá-lo. O
Evangelho de Marcos que nos fornece muitos detalhe sobre o ministério de
Jesus na Galileia, não cansa de relatar como “as multidões O seguiam”,
clamando por ajuda.
Agora que o oficial, ao cair da noite e exausto da longa e cansativa
caminhada, clama por ajuda, Jesus arrancou do íntimo de sua alma uma
constatação válida tanto naquele tempo quanto hoje (parafraseando): “Se
vocês (!) não virem milagres e maravilhas (a seu favor), vocês não estão
interessados na fé”. Ou, talvez, a dura constatação: “A vocês só interessam
milagres!”
109
O oficial imediatamente reforçou seu pedido. Ele não queria milagre,
ele quis ver seu filho salvo. Ele o amava; talvez fosse seu filho único. O
lamento de Jesus permite presumir que, no momento em que o oficial lhe
lançou seu pedido, às sete da noite, Jesus já tinha sido solicitado por
outros muitos. (49) Rogou-lhe o oficial: “Senhor, desce, antes que meu
filho morra”. A confiança e o sofrimento do homem comoveram a Jesus.
(50) “Vai”, disse-lhe Jesus, “teu filho vive”. Ao invés de atender o
oficial, dispondo-se a acompanhá-lo – o que era de se esperar –, Jesus,
certamente cansado, fitando-o com seu olhar, só disse uma única frase.
“Teu filho vive”. Não disse: “Seu filho viverá”.
Novamente, imagine-se na situação do oficial! Foi praticamente um
ultimato que Jesus lhe deu. Ou creia e vá – ou, volte as costas ao falso e
insensível milagreiro! O oficial teve que decidir. Como militar era
acostumado a tomar decisões. A reação, transmitida por João em poucas
palavras foi: O homem creu na palavra de Jesus e partiu. Que prova
maior de fé o oficial poderia ter dado? O Apóstolo sabiamente introduziu
com essa frase o primeiro estágio da fé, do qual falamos na lição passada:
deu crédito à Palavra de Jesus.
Nunca esqueça: o oficial não sabia que esse Jesus era o Verbo, o
Salvador, quem morreria e ressuscitaria no terceiro dia. Facilmente
erramos quando julgamos a fé de pessoas mencionadas nos Evangelhos. A
disposição deles em crer, às vezes, era fantástica. Nós é que estamos em
falta. Sabemos tudo sobre a história da salvação. Temos os quatro
Evangelhos, o testemunho dos Apóstolos e suas Cartas, nas quais os
aspectos práticos da vida cristã são abordados, e mesmo assim alegamos
ter dificuldades em poder crer como deveríamos.
Voltemos ao relato do Evangelista!
(51) Já ele descia, quando os seus servos lhe vieram ao
encontro, anunciando-lhe que o seu filho vivia. (52) Então, indagou
deles a que hora o seu filho se sentira melhor. Informaram: Ontem, à
hora sétima a febre o deixou. Você leu que o oficial creu e partiu. A que
horas ele partiu, se os seus servos observavam que a febre desapareceu
“ontem à hora sétima”, sendo essa a hora em que Jesus falou com o
oficial?
Com a maneira civil romana de computar as horas, a “sétima hora”
corresponde às sete horas da noite. Não mais havia como alcançar
Cafarnaum até o dia seguinte, pois a passagem dos aproximadamente 30
quilômetros de “estrada” em zona rural montanhosa levaria pelo menos
seis a sete horas.
Assim temos que imaginar que o oficial, depois de ouvir dos lábios
de Jesus que seu filho estava vivo, decidiu pernoitar em Caná e partir logo
na manhã seguinte. Depois de ter caminhado apressadamente por alguns
quilômetros, encontrou os seus servos à sua procura. Ouvindo a notícia da
melhora de seu filho, a fé do oficial se transformou. Até então ela se
110
sustentava na Palavra de Jesus. Agora, porém, ele não creu mais em uma
palavra, mas passou a crer na pessoa. A partir daquele momento, tudo
que Jesus lhe diria teria validade, vendo ou não um resultado momentâneo.
(53 Com isto, reconheceu o pai ser aquela precisamente a hora
em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa.
Com as palavras acima, o Evangelista pode definir a fé. Fé nasce da
Palavra e a Palavra aponta para a pessoa de Cristo. Quando João diz que
“toda a casa do oficial veio a crer”, ele não quis dizer que toda a casa creu
em determinadas palavras enunciadas por Jesus (ou, no caso da Igreja à
qual João dirigiu seu Evangelho, em “doutrinas” elaboradas), mas sim, que
toda a casa veio a confiar na pessoa de Jesus. O que mais é a fé do que
uma ilimitada confiança em alguém?
(54) Foi este o segundo sinal que fez Jesus, depois de vir da
Judeia para a Galileia. Na composição da obra, além de suas próprias
recordações, o velho Apóstolo recorreu a outras fontes de tradição que se
unem no seu Evangelho. Enquanto na leitura anterior ouvimos de “muitos
feitos” (milagres) por ocasião da festa em Jerusalém, João retorna neste
relato a uma outra fonte anterior, onde os milagres de Jesus eram
enumerados. Após o sinal em Caná, considerado o primeiro milagre
realizado por Jesus na Galileia, esta tradição considera a cura do filho do
oficial como “o segundo sinal desde que voltou para a Galileia”. Qual foi,
então, o terceiro? Não precisamos perder tempo com hipóteses a respeito.
Fato é que João não deu continuação a essa contagem. O Apóstolo não
cedeu à tentação de tentar provar a Divindade de Jesus com a enumeração
de “sinais”. Como primeiro “teólogo” do cristianismo ele os observou “de
cima”, como a águia – seu símbolo, e a qual, durante seu voo, tem a visão
da paisagem como um todo. João procurou decifrar a mensagem que estes
sinais, em conjunto com as palavras, lhe trouxeram. Vistas na perspectiva
de Deus, as peças se juntaram e o Evangelista podia concluir sua obra
mais tarde com as palavras que usou: “... muitos outros sinais que não
estão escrito neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em
seu nome” (20.30,31).
Os comentaristas, em geral, entendem que o episódio corresponde à
narração de Mateus em cap. 8.5-13. Pequenas diferenças não invalidam
essa hipótese. Para João, teólogo, o acontecimento com o oficial serviu-lhe
como exemplo de fé madura. Será que, de propósito, escolheu esses
estágios crescentes no seu Evangelho? Partiu da incredulidade e “fé” em
milagres entre os judeus em Jerusalém e subiu para a fé na palavra, sem
necessidade de milagres, dos samaritanos desprezados pelos judeus,
chegando à fé madura da parte de um oficial romano. Os exemplos de fé
vieram todos de “não Judeus”! Será que a sequência alude à sua
observação em 1.11,12: “... veio para o que era seu, e os seus não O
111
receberam; mas a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem
feitos filhos de Deus; aos que creem no Seu nome” ?
O Evangelista definitivamente tirou Jesus do contexto judaico e O
apresenta como Senhor e Salvador de todos os povos e nações, enquanto
nos Evangelhos sinóticos era visto, primeiramente, como o Messias dos
judeus, no qual as antigas profecias se cumpriam.
Ainda hoje encontramos verdadeira fé não necessariamente
circunscrita às Igrejas nominais. Essas, no curso da história, têm negado
demais a Jesus e comercializado e administrado o eterno “Logos” através
de seus rituais e seu poder, seja este místico, político ou financeiro. Que
equívoco!
A fé em Jesus com base na Palavra pode nascer em você agora e ela
não conhece a necessidade de “pré-santidade”, como provam os casos dos
samaritanos e do oficial romano.
Olhe para Jesus; procure a Jesus!
• Não O confunda com os que dizem representá-lO!
• A verdadeira Igreja é o conjunto de todos que nele creem!
• Na Palavra de Deus, no Evangelho, na sua Bíblia, Ele ainda lhe
fala!
Cap. 5.1-9
(5.1) Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu para
Jerusalém. (2) Ora, existe ali, junto à Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em
hebraico Betesda, o qual tem cinco pavilhões. (3) Nestes, jazia uma multidão de
enfermos, cegos, coxos, paralíticos (4) esperando que se movesse a água. Porquanto
um anjo descia em certo tempo, agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez
agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse. (5) Estava ali um homem
enfermo havia 38 anos. (6) Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim há
muito tempo, perguntou-lhe: “Queres ser curado?” (7) Respondeu-lhe o enfermo:
“Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada;
pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim. (8) Então, lhe disse Jesus:
“Levanta-te , toma o teu leito e anda”. (9) Imediatamente, o homem se viu curado e,
tomando o leito, pôs-se a andar.
No segundo século, certo Tatiano colocou na sua compilação dos
quatro Evangelhos o texto do capítulo sexto antes do capítulo quinto.
Realmente, o primeiro verso do cap. 6 parece ser a continuação de 4.54.
Vários comentaristas, ainda hoje, defendem a inversão dos capítulos 5 e 6.
O teólogo U. Wilckens apresenta uma teoria que, de vez, responderia a
muitas perguntas. Segundo Wilckens, o Apóstolo podia ter deixado sua
obra incompleta quando veio a falecer. Na ocasião, tanto os trechos que
compreendem os caps. 5 e 6 quanto o trecho de 7.15-24 ainda não haviam
sido colocados em ordem e os discípulos do grande Evangelista, por uma
112
questão de respeito ao Apóstolo, haviam deixado a obra sem alterar a
sequência dos relatos. Várias questões, até teológicas, assim ficariam mais
claras. Contra essa hipótese pesa o fato de que até os mais antigos
manuscritos desde sempre nos apresentam o Evangelho na ordem atual.
Seja quem for a quem devemos essa obra, apesar de vários “vazios”
cronológicos, o autor deve ter lançado o Evangelho convencido da
coerência e da veracidade do seu conteúdo. Seguiremos, portanto, à
ordem tradicional dos capítulos.
(5.1) Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus
subiu para Jerusalém. O calendário festivo judaico conhecia três festas
de peregrinação, dias em que os israelitas procuravam ir a Jerusalém,
seguindo a ordem contida em Deuteronômio 16.16: “Três vezes por ano,
todos os seus homens se apresentarão ao SENHOR, o seu Deus, no local
que ELE escolher...”. São a Páscoa, a Pentecoste e a Festa dos
Tabernáculos. A festa em que os judeus fiéis, impedidos de peregrinar três
vezes por ano, de maneira alguma podiam faltar no Templo, era a Páscoa.
Com o artigo indefinido “uma festa”, o Evangelista não nos revela qual era
a festa e quando é que Jesus subiu para Jerusalém, que fica a 818 metros
acima do nível do mar. Qualquer caminho para a cidade Santa trilhava
montanha acima. Assim, a ida a Jerusalém na Bíblia sempre é
apresentada como “subir à cidade”. O Evangelista tampouco nos dá
alguma indicação a respeito da duração do período que se passou desde
que se deram os últimos acontecimentos que foram relatados no capítulo
quarto. Entendemos que pelo menos nove meses se passaram, período que
compreende a extensa atividade de Jesus na Galileia apresentada nos
Evangelhos sinóticos. Nada nos é dito a respeito dos discípulos e não
sabemos se Jesus subiu sozinho.
(2) Ora, existe ali, junto à Porta das Ovelhas, um tanque,
chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco pavilhões. Os
primeiros restos do reservatório que formava o referido “tanque” foram
descobertos em 1888 por ocasião da obra de restauração da “Igreja de
Sant’Ana”, ao norte do antigo Templo. Nos dias de Jesus, ele tinha cinco
pavilhões ou “colunas cobertas”. Escavações posteriores trouxeram à luz
restos de dois tanques, separados por uma parede de 6,5 metros de
largura. A área do banho, que cobria aproximadamente 5000 m², era
circundada por quatro pavilhões, um de cada lado. O quinto pavilhão
encontrava-se por cima da parede larga de separação.
A “Porta das Ovelhas” cujos restos foram identificados perto do
atual “Portão de Santo Estevão”, não distante das instalações do banho,
deve ter recebido seu nome porque através dela muitas ovelhas eram
conduzidas, diariamente, para serem sacrificadas no átrio do Templo.
Pela “Porta das Ovelhas” chegava-se ao bairro de “Bezethá” (cit.
Josefo). Quanto ao nome do banho, os manuscritos antigos divergem. O
texto grego de “Nestlé” menciona “Bethzatá”. Somente em fevereiro de
113
1952, quando nas cavernas de Qumran foi descoberto o “Rolo de Cobre”
(3Q), confirmou-se a tradição bíblica. Este rolo hoje está exposto no Museu
de Amman (Jordânia). Nele, o tanque é mencionado com seu nome
“Betesda” (Casa da Misericórdia) na forma gramatical dupla, o que
confirma a existência de um tanque duplo. Como explicamos
anteriormente, os nomes citados estão todos em aramaico, idioma da
época e não em hebraico.
(3) Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos,
paralíticos. Nos cinco pavilhões cobertos em volta dos dois tanques, os
enfermos podiam descansar, protegidos do clima inclemente. Imagine a
sala de espera de qualquer hospital público em dias de greve. Uma
multidão de inválidos, de diversas categorias (particularmente cegos, coxos
e paralíticos - esses últimos chamados na Bíblia de “ressequidos”), jazia
nessas galerias a espera de um milagre.
(4) ... esperando que se movesse a água. Porquanto um anjo descia em certo
tempo, agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava
de qualquer doença que tivesse.
Dificilmente o Apóstolo escreveu o texto do verso quatro que
encontramos hoje nas Bíblias. Este não consta em nenhum dos mais
antigos manuscritos. O primeiro autor que menciona o conteúdo do verso
4 foi Tertuliano (145-220 d.C). Trata-se de uma observação baseada na
religiosidade popular, acrescentada à margem da Escritura e incluída
posteriormente numa cópia subsequente (o que na Bíblia várias vezes
aconteceu). A observação de João em 9.32 mostra claramente que não se
conhecia em toda Jerusalém algo como um tanque cuja água curava
“qualquer doença”. Com a observação no verso quatro, o copista
certamente visava explicar melhor ao leitor da época do Evangelista sobre
o que consta no verso sete, isto é, a convicção pessoal do homem doente.
(5) Estava ali um homem enfermo havia 38 anos. O Evangelista
nem se interessa pela crença popular da força mágica da água, mas
imediatamente aponta um homem, enfermo há 38 anos, jazendo ali. Não
sabemos quanto tempo esse homem já esperava nas instalações do banho;
o que sabemos é que há 38 anos ele estava doente. Você já imaginou o que
trinta e oito anos de doença significam em uma época em que não se
conhecia bons remédios e nenhum sistema de saúde pública, por pior que
fosse? Já os Pais da Igreja meditaram sobre esse lapso de tempo. Na
margem de um antigo manuscrito consta a observação de Deuteronômio
2.14,15: “Passaram-se trinta e oito anos entre a época em que partimos de
Cades-Barneia, ... período no qual pereceu do acampamento toda aquela
geração de homens de guerra, conforme o Senhor lhes havia jurado. A mão
do SENHOR caiu sobre eles e por fim os eliminou completamente do
acampamento”. É o tempo da história do pecado de Israel, tempo em que,
por causa de seu pecado, vagaram no deserto até a total eliminação
daqueles que saíram do Egito, exceto Josué e Calebe. Os 38 anos do
doente lembram o tempo que Israel perdeu no deserto por causa de sua
114
rebelião. As palavras de Jesus dirigidas ao homem curado e contidas no
verso 14, talvez também tenham algo a dizer-nos a respeito.
(6) Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim há muito
tempo, perguntou-lhe: “Queres ser curado?” Por alguma razão, Jesus
olhou exatamente esse homem no meio da multidão. Observe o conteúdo
da breve sentença: “... vendo-o deitado ...” Por que razão Jesus focalizou
exatamente este homem entre todos os demais que ali jaziam? Por que
razão Jesus olha para você, exatamente, quando há milhares e milhões do
seu lado? É o mistério da Graça!
Certamente sendo informado do período de sofrimento daquele
homem pelos outros em situação semelhantemente triste, Jesus lhe dirigiu
uma pergunta, que a primeira vista parece tola: “Queres ser curado?”
A psicologia das profundidades sabe que há doentes que, apesar de
todas as suas lamentações, temem no seu íntimo o restabelecimento da
saúde porque, com ele, a sua condição especial, que os tornam protegidos
perante os múltiplos desafios da vida, terá fim. Será que Jesus, com sua
pergunta, chamou o doente para fora de sua letargia, apelando à vontade
de ser curado? Cremos que havia mais na pergunta de Jesus do que o
simples desejo de um diálogo. Para Jesus havia alguma relação, misteriosa
para nós, entre a doença desse homem e seu pecado. Não que Jesus, ao
contrário de seus discípulos, em 9.2, acreditasse no dogma farisaico da
vingança Divina, mas sua advertência ao curado constante no verso 14
aponta nessa direção.
Alguns críticos da Bíblia querem ver uma incoerência de Jesus na
advertência ao curado (v.14), vendo nela a convicção farisaica do “Dogma
da Vingança Divina” confirmada, quando em 9.2, Jesus explicitamente
nega qualquer correlação entre os dois. Mais um tiro a esmo! Nem no caso
do homem paralítico que estamos estudando, nem no do que nasceu cego
(cap.9) trata-se de leis absolutas. Trata-se de situações reais e pessoais de
indivíduos. Como Aquele que é Um com seu Pai (10.30) e que não depende
do testemunho de outrem, porque “bem sabia o que havia no homem”
(2.25), Jesus fala ao curado em Betesda como quem conhecia sua história
de pecado e, no cap.9, Ele contradirá o “Dogma da Vingança Divina”
alegado pelos seus discípulos para encontrar culpa no caso do homem
cego, afirmando que nem o pecado do cego nem o de seus pais consistiram
na causa de sua doença.
(7) Respondeu-lhe o enfermo: “Senhor, não tenho ninguém que
me ponha no tanque, quando a água é agitada; pois, enquanto eu vou,
desce outro antes de mim”. Parece que a regra naquele tanque era:
“Cada um por si e Deus por todos!”. Ninguém jamais ajudara esse pobre
homem a locomover-se, quando conforme a crença popular, chegara o
momento certo para receber a cura.
(8) Então, lhe disse Jesus: “Levanta-te, toma o teu leito e anda”.
115
Ao contrário da situação do paralítico constante em Marcos cap.2,
onde amigos, vencendo obstáculos tremendos, levaram o doente à
presença de Jesus, esse doente não tinha ninguém. A sua mente estava
presa à superfície da água no tanque. Nem sabia quem era o homem que
ora o abordou com a sua curiosa pergunta: “Queres ser curado?” Ele não
tinha nenhuma razão para demonstrar fé. Ao contrário, ele havia
expressado sua frustração quanto à impossibilidade de ter a sua chance
de cura. Da mesma forma como em João 2.7 e em 4.50, a ajuda ao homem
acontece em forma de uma ordem: “Levanta-te, toma o teu leito ( melhor:
colchonete) e anda!” No texto original em grego, o termo usado tem uma
conotação um tanto vulgar, como se disséssemos: “Pega a tua trouxa e sai
daqui!” (H.Thyen). O que nos chama atenção, é que João usa literalmente
os mesmos termos com os quais Jesus se dirigiu ao paralítico em Marcos
2.9! Como já lembramos na introdução ao Evangelho de João, temos boa
razão para crer que os três Evangelhos sinóticos não só eram conhecidos
por João, mas até citados nas congregações. Quando Mateus e Lucas
relatam o milagre de Marcos 2, eles, discretamente, substituíram o termo
um tanto vulgar - “trouxa” - por um termo mais respeitoso (o termo usado
por João aparece no NT somente ainda em Mc. 6.55 e Atos 5.15 e 9.33).
Ao invés de procurar alguma fonte ominosa anterior a João e aos
sinóticos (Q, Semeia ou outra), preferimos crer que o Apóstolo,
propositalmente, tirou os termos do Evangelho de Marcos, que lhe era
familiar.
O homem doente tinha duas opções, semelhantemente ao oficial
romano citado no capítulo anterior. O ato de “crer” não acontece como
resultado de meditação e cuidadosa avaliação, mas sim numa resposta
imediata, responsável e sem medida do ser humano à Palavra ouvida.
Surpreso, e sem saber o que lhe acontecia, o homem obedeceu.
(9) Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito,
pôs-se a andar. João raramente usa o termo “imediatamente” tão familiar
a Marcos. Neste caso, a obediência foi imediata. O homem levantou-se e se
foi. Também a brevidade do relato é impressionante. E mais: o Apóstolo
não chama esse milagre de “sinal”, como tem feito até então. Alguns
teólogos querem ver nisso um propósito do autor. Ele quer demonstrar
que, após ter sido recebido bem na Samaria e na Galileia (sua terra
desprezada pelos que moravam na capital), no centro religioso, na própria
Jerusalém, Jesus não recebeu o reconhecimento devido. Com essa hipótese
(não é mais do que isso) eles interpretam o texto que se segue de várias
maneiras.
Jesus, ao contrário do caso do paralítico constante em Marcos 2,
não disse: “...e vai para casa”. Ele disse: “anda!”. Será que Jesus
simplesmente o despachou (no sentido de “vá”) ou será que Ele mandou
que o homem com seu colchonete sujo andasse pelas ruas, chamando a
atenção? O texto no original permite as duas maneiras de interpretação.
116
A continuação na próxima leitura mostrará as implicações das duas
maneiras de entender a ordem de Jesus.
Cap. 5.9-18
(9) Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar. E
aquele dia era sábado. (10) Por isso, disseram os judeus ao que fora curado: “Hoje é
sábado, e não te é lícito carregar o leito”. (11) Ao que ele lhes respondeu: “O mesmo
que me curou me disse: Toma o teu leito e anda”. (12) Perguntaram-lhe eles: “Quem
é o homem que te disse: Toma teu leito e anda? (13) Mas o que fora curado não
sabia quem era; porque Jesus havia se retirado, por haver muita gente naquele
lugar. (14) Mais tarde, Jesus o encontrou no Templo e lhe disse: “Olha que já estas
curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior”. (15) O homem retirouse e disse aos judeus que fora Jesus quem o havia curado. (16) E os judeus
perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado. (17) Mas ele lhes disse: “Meu
pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. (18) Por isso, pois, os judeus ainda
mais procuravam matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia
que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.
Terminamos nosso estudo anterior com a pergunta: Será que Jesus
simplesmente despachou o homem curado (“se vá!”) ou Ele mandou que o
homem, com sua esteira suja, andasse pelas ruas chamando a atenção?
Magistralmente, João faz uma simples observação adicional no
verso 9, criando uma nova dimensão de conflito: “E aquele dia era
sábado”.
O mandamento da guarda do sábado era o mais importante de
todos, pois era “sinal da aliança entre Deus e Israel”. Êxodo 31.13.s diz:
“Diga aos israelitas que guardem os meus sábados. Isso será um sinal entre
mim e vocês, geração após geração ...”. O profeta Jeremias já havia
determinado: “Assim me disse o SENHOR: ‘Vá colocar-se à porta do povo ...
e diga-lhes: Ouçam a palavra do SENHOR: ... Por amor à vida de vocês,
tenham o cuidado de não levar cargas nem de fazê-las passar pelas portas
de Jerusalém no dia de sábado. Não levem carga alguma para fora de casa
nem façam nenhum trabalho no sábado, mas guardem o dia de sábado
como dia consagrado ...’” (Jer.17.19-27). A guarda do sábado tinha
significado escatológico. Enquanto ele não for totalmente observado, o
Messias não podia vir. Tinha-se como certo que, se Israel, por uma única
vez, guardasse o sábado da maneira como Deus o previu, o Messias
apareceria. Assim, qualquer transgressão, mesmo que fosse leve, era
punida com o apedrejamento (Num.15.32-36).
Por amor à causa, os escribas haviam determinado minuciosamente
o que era considerado “trabalho proibido” e o que era permitido fazer no
sábado. Carregar um colchonete, indubitavelmente, era proibido. O que o
homem curado estava fazendo era uma transgressão pesada à Lei de Deus.
117
(10) Por isso, disseram os judeus ao que fora curado: “Hoje é
sábado, e não te é lícito carregar o leito”. João, como judeu, conheceu
bem a “Mishna” (hebr. “schana” = aprender repetindo). A Mishna, porém,
só reconhecia uma acusação se a transgressão era precedida de uma
advertência. Essa advertência da parte dos “judeus” está sendo feita ao
homem curado no verso 10: “Hoje é sábado, e não te é lícito carregar o
leito”. Somente a partir daí e se ele insistisse em pecar cairia no
julgamento.
(11) Ao que ele lhes respondeu: “O mesmo que me curou me
disse: ‘Toma o teu leito e anda’”. O homem havia recebido a cura
exatamente obedecendo à ordem de Jesus de ir carregando seu colchonete.
“Alguém que me devolveu a saúde após 38 longos anos tem o direito, mesmo
no dia de sábado, de dizer o que era para fazer”; assim o homem deve ter
argumentado na sua mente.
(12) Perguntaram-lhe eles: “Quem é o homem que te disse: Toma
teu leito e anda? “Quem é esse “camarada” que se opõe ao que Deus
mandou?” A cura do homem não interessava aos “judeus”; eles
precisavam, para o bem de Israel, chegar ao culpado e extirpar o grande
mal.
(13) Mas o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus
havia se retirado, por haver muita gente naquele lugar. O homem
curado, por sua vez, não sabia responder. Nunca antes havia visto Jesus e
esse tinha desaparecido na multidão.
Aqui voltamos à questão deixada em aberto na leitura anterior. O
que, exatamente, Jesus ordenou ao homem, quando lhe disse: “... anda!” ?
Lutero entendeu que Jesus simplesmente liberou o homem no sentido “vá
embora!” Algumas traduções interpretam a ordem de outra forma: “... anda
por aí ”. Nesse caso, Jesus teria, conscientemente, ordenado a quebra da
Lei sabática. A pergunta fica sem resposta.
Comentaristas liberais dizem que João “inventou” o sábado para
criar a oportunidade para encaixar uma coleção de Palavras de Jesus,
onde Ele dá testemunho de Sua autoridade (versos 19 – 47).
Aproximadamente meio século depois dos Evangelhos sinóticos,
João ainda lembra que a quebra do sábado era a razão principal da
inimizade e da crescente perseguição que Jesus sofria da parte dos
“judeus” (confira Marcos 3.6). Na ocasião do paralítico curado num dia de
sábado, o Evangelista menciona (pela primeira vez na sua obra) esse fato.
(14) Mais tarde, Jesus o encontrou no Templo e lhe disse: “Olha
que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa
pior”.
Não notamos qualquer acusação contra o homem curado, nem da
parte de Jesus nem do autor. A frase “olha, que já estás curado; não
118
peques mais...” indica que, junto com a cura física houve perdão dos
pecados. A advertência de Jesus faz sentido, se nos lembramos dos 38
anos no deserto. A sua nova vida deveria ser nova também no que tange ao
seu relacionamento com Deus; caso contrário, a “coisa pior” seria a mesma
que acontecera à geração de seus pais no deserto: não viria a terra
prometida; não haveria comunhão íntima com Deus.
A presença do homem no Templo nos sugere que ele foi apresentarse aos sacerdotes como testemunha de cura ou para agradecer através de
uma oferta qualquer.
Observe que a iniciativa do encontro com o curado novamente partiu
de Jesus. Sempre é com a misericórdia de Deus que alguém inicia o
caminho, nunca será com a ameaça do inferno. Somente quando
compreendemos o tamanho do amor incondicional de Jesus teremos
condições de “não pecar mais” e de andar em um novo caminho.
(15) O homem retirou-se e disse (lit. anunciou) aos judeus que
fora Jesus quem o havia curado.
A observação no verso 15 é ambivalente. O Evangelista deixa em
aberto como devemos interpretá-la. Será que o homem confessou
publicamente Jesus como seu médico? O nome de Jesus já era conhecido
nos arredores do Templo. O fato é que o verbo usado por João no verso 15
(anunciar), assim como em 4.24 e 16.13,14,15, sempre tem conotação
positiva e leva a essa conclusão. Ele não denunciou aquele que o autorizou
para carregar seu colchonete (esteira); ele anunciou quem o curou.
Alguns comentaristas veem na atitude do homem curado, em reação
à advertência, uma denúncia com o fim de livrar-se da pena pela
profanação do sábado. Tendo sido obrigado por Jesus a desobedecer à Lei,
ele mesmo escaparia do castigo. Seja como for, o Evangelista deixa em
aberto a resposta a essa questão.
(16) E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no
sábado. Novamente João fala dos “judeus”. Na situação política/social em
que Israel se encontrava, o judaismo tinha nos fariseus seu alicerce. O
movimento dos fariseus zelava pela Lei de Deus. Com que autoridade Jesus
podia passar por cima da Lei de Moisés? Os versos 16 e 17 têm de ser lidos
juntos. Não sabemos como e onde, mas entendemos que “os judeus”
exigiram de Jesus se explicasse (talvez numa reunião fechada). No verso
17 temos a resposta dada aos “judeus”.
(17) Mas ele lhes disse: “Meu pai trabalha até agora, e eu
trabalho também”. Podemos parafrasear a resposta do “acusado” da
seguinte forma: “Assim como meu Pai trabalha sem interrupção, assim
também eu trabalho sempre” (Thyen). O tempo gramatical no imperfeito,
usado por João no verbo trabalhar, mostra que a afirmação de Jesus não
se restringiu somente à cura recente; ela é característica pelo seu
posicionamento perante a Torá. Karl Barth, o maior teólogo protestante do
século vinte, parafraseou a declaração de Jesus da seguinte forma: “Eu
119
faço ...o que, como Filho de meu Pai, tenho obrigação de fazer e o posso, sem
levar em consideração a Lei dada aos homens e válida para eles, como
dever do Filho e direito de Salvador conforme o direito que não quebra a Lei
de Moisés nem a revoga, mas como “ius divinum” determina tanto sua
origem quanto seu limite (Decl. 275). Embora difícil de entender, a
declaração acima nos dá uma ideia da autocompreensão de Jesus. Releiaa e reflita sobre ela!
(18) Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo,
porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era
seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.
A discussão dos Rabinos com respeito a Gen. 2.3, chegava à
conclusão de uma ação ininterrupta de Deus, uma vez consumida a
criação inicial. A blasfêmia de Jesus consistiu em advogar para si mesmo o
atributo que, única e exclusivamente, cabia a Deus. No mais, “os judeus”
ouviram muito bem como Jesus não falava de Deus “nosso Pai”, mas
explicitamente o chamou de “Meu Pai”.
Uma leve quebra do sábado talvez pudesse ser abolida através de
um sacrifício ritual no Templo; a blasfêmia enunciada por Jesus, “fazendose igual a Deus”, porém, exigia o apedrejamento conforme Lev. 24,10ss e
Num. 15.30ss.
Deut. 21.22s ainda previa que o cadáver do executado fosse
pendurado em uma árvore até ao anoitecer. Essas práticas ainda estavam
em discussão no tempo de Jesus (conforme Josefo e Filon) mas não
sabemos até que ponto eram praticadas. Posteriormente, os registros
rabínicos (Mishna Sanhedrin 7.4) limitavam o apedrejamento à enunciação
consciente do inefável nome de Deus (Deut. 24.15s).
Pode ser que você, até hoje, nunca prestou atenção à declaração de
Jesus no verso 17 e nunca pensou em suas implicações. Peço-lhe que leia
novamente este verso e a interpretação que o segue.
Fica-nos a pergunta: Jesus era louco, megalômano, colocando-se no
mesmo nível de autoridade de Deus?
Mateus, Marcos e Lucas observavam a pessoa de Jesus na visão
horizontal: na Sua ação social, no Seu poder extraordinário, no Seu amor
ao próximo e na Sua fidelidade até à cruz.
Como lhe dissemos na introdução, João entendeu Jesus
diferentemente. Sua visão se assemelha à da águia - seu símbolo na
história da igreja. A visão de João é vertical, de cima para baixo.
120
Certamente você já encontrou dificuldades em compreender como e
por que Jesus seria Deus, como a Igreja o professa. Pergunto: Jesus é
Deus mesmo ou são duas pessoas distintas? O que João nos quer dizer?
Essas e outras perguntas que surgirão, procuraremos deixar mais
claras através das leituras seguintes.
Antes, porém, teremos que fazer uma breve consulta histórica.
Quem são esses “judeus” que o Evangelista sempre nos apresenta como
inimigos de Jesus? O Novo Testamento, principalmente o Evangelho de
João, tem conotação antissemita, como dizem na atualidade? Com a visão
histórica correta a respeito entenderemos melhor as observações do
Evangelista e as implicações das (para ouvidos judaicos) declarações
chocantes e blasfemas de Jesus.
• voltemos ao verso 18!
(18) Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não
somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se
igual a Deus.
Quem são “os judeus” apontados no Evangelho de João como
inimigos de Jesus?
Cada época histórica deixa suas características nas suas obras
literárias. Portanto, faremos uma rápida análise da situação em que o
cristianismo recém-nascido se encontrava, quando o Evangelho de João foi
escrito.
Tanto nos próprios Evangelhos quanto nos escritos dos rabinos e
dos Pais da Igreja encontramos a partir dos anos 70 d.C. indícios de um
crescente afastamento do movimento cristão do próprio judaismo. O medo
dos judeu-cristãos perante os judeus, que rejeitavam a crença em Jesus e
a ameaça de serem excluídos das Sinagogas, reflete-se nos quatro
Evangelhos. Marcos e Mateus já consideravam o perigo de, por causa da fé
em Jesus, alguém ser açoitado nas Sinagogas (Mc 13.9; Mat. 10.17). O
Evangelista João relata em 9.22 que seria expulso da Sinagoga quem
confessar Jesus como o Cristo (confira também João 7.13/ 12.42/ 19.38/
20.19). Em João 16.1s, o próprio Jesus projeta esse futuro para seus
seguidores. Com todos esses textos, os Evangelistas procuravam preparar
seus leitores para futuras perseguições.
Textos que, com certeza, datam de antes de 70 d.C. já mostram que,
desde o início do ministério de Jesus, havia confrontos isolados com
determinados grupos ou pessoas. Ninguém, porém, pensava em excluir
Jesus ou seus seguidores da comunhão do povo de Israel; as polêmicas
eram sinais de confrontos internos, dentro do próprio judaismo.
Os textos de João datam de após 70 d.C. e são redações que, em
parte, refletem a tradição que o jovem movimento cristão já havia recebido.
São expressões do susto da igreja primitiva. A crescente perseguição e
121
dificuldades internas na igreja existentes no fim do primeiro século
(quando João escreveu), e a rápida ascensão do farisaísmo que, após a
destruição do Templo deixou a condição de seita para trás e assumiu com
mão firme a liderança espiritual do judaismo, tudo isso significava para a
igreja judáica-cristã o fim da comunhão nas Sinagogas.
Atos 15.5 diz que vários fariseus haviam crido (reconhecendo Jesus
SENHOR) e criado, com sua inclusão no movimento judaico-cristão, não
poucos problemas. A problemática coexistência entre judeus “crentes” e
judeus fiéis à Torá fora testada muitas vezes. Um exemplo é a execução de
Tiago, irmão do SENHOR, no ano 63, sob Agrippa II. Não devemos
confundir essa execução com a de Tiago, irmão do Apóstolo João, sob
Herodes, em 44 d.C. (relatado em Atos 12.2), com motivação política.
Josefo Flávio nos relata a respeito do acontecimento, motivado pela
questão religiosa entre judeus pró ou contra o movimento cristão
(resumindo):
“... Ananus, sumo sacerdote, membro da seita dos saduceus,
aproveitou o período entre a morte de Festo e a chegada de seu sucessor
Albino para estabelecer um exemplo. Convocou em caráter de urgência o
Sinédrio e apresentou o irmão daquele, que da parte dos cristãos é chamado
Cristo, junto com alguns outros transgressores da Lei e mandou apedrejálos...”.
O interessante é que um grupo “dos mais fiéis observadores da Lei”
(Fariseus/Essênios?)) protestou perante Albino tanto contra a convocação
ilegal do Sinédrio como contra o assassinato “jurídico” de Tiago,
representante da facção cristã dos judeus no Templo. Talvez os fariseus
protestassem por causa de seu zelo pela Lei somente, ou contra a ação
ilegal e precipitada dos saduceus, mas quem sabe, talvez alguns estavam a
favor do ilegalmente executado líder da comunidade judaica-cristã, Tiago.
Se essa hipótese for correta, tratou-se da última manifestação
farisaica em favor dos compatrícios cristãos (a versão de Eusébio da morte
de Tiago merece menos confiança, pois é parcial e Eusébio era inimigo dos
judeus Hist.Eccl. II,23). A partir desse momento, as portas das Sinagogas
(e até a destruição, também as do Templo) ficaram fechadas para os
judeus-cristãos.
Durante os anos do ministério do ex-fariseu Saulo, até sua morte em
67(?), a distância entre as duas comunidades aumentou. Com sua teologia
que rejeitava toda e qualquer necessidade de pré-requisitos, lugares
santos, locais ou qualidade racial para receber a Graça soberana de Deus,
Paulo cravou uma cunha profunda no caráter comunal do judaismo. Na
mensagem cristã, a Graça alcança o indivíduo; no judaismo alcança a
comunidade.
Perante o rápido crescimento do movimento cristão, passando de
uma seita judaica para um movimento supranacional e perdendo suas
características judaicas, o movimento farisaico decidiu, entre 60 e 100
d.C., declarar herética a condição judaica-cristã. Nos anos 90/100, época
122
na qual o Evangelho de João é datado, aconteceu sob a liderança do
Patriarca Gamaliel II um sínodo, no qual, entre outros assuntos fora
discutido e aprovado uma maldição formal e a excomunhão dos judeus que
confessassem Jesus SENHOR. O último assunto tratado no sínodo foi a
hoje denominada “birkat há-mînîm”, uma maldição contra os “Nazarenos“
(Nosrîm). Existem várias versões dessa maldição, chamada “Bênção sobre
a heresia”. Ela foi colocada como 12ª Beracha na oração que, com essa
inclusão, tornou-se a atual “Oração das 18”, oração principal que cada
judeu fiel faz três vezes ao dia.
Há versões diferentes da maldição. A mais conhecida é a recensão
palestinense, encontrada em 1890 na Geniza do Cairo (Egito). Ela diz: “Aos
renegados e traidores (Mesûmmadim) nenhuma esperança. Desarraiga o
reino da arrogância (makhût zadôn), rapidamente, nos nossos dias! Os
Nosrîm
(Nazarenos = cristãos judeus) e os Mînîm (hereges), sejam eles
aniquilados num único instante. Apagados sejam do livro da vida. Não
sejam eles inscritos juntos com os justos. Louvado sejas Tu, SENHOR, que
abaixas os insolentes” (cit. Salomon Schechter, JQR 10, 1898). A “recensão
babilônica” do século três já não mais menciona explicitamente os
Nazarenos. Nela, estes estão incluídos nos “traidores em geral”.
Da parte dos cristãos havia várias reações. Justino, Mártir,
menciona entre 150 e 161 d.C. a maldição no seu “Dialogus cum
Tryphone” e o Bispo Epiphanius (315-403) escreveu em Haer 24.9 que: “...
... três vezes por dia, quando os judeus oram nas suas Sinagogas, eles
amaldiçoam os crentes em Cristo, dizendo que Deus os repudia”. Em outro
lugar ele diz: “Amaldiçoam dia e noite o Redentor e, como já disse outra vez,
sob o nome de Nazarenos cobrem os cristãos com ultrajes todo dia”.
Essas e muitas outras citações nos mostram o ambiente hostil que
se foi estabelecendo entre judeus (de onde Cristo veio) e a Igreja cristã.
Apesar de ser triste vemos, porém, que naquela época os cristãos se
identificavam plenamente com Cristo (e não com uma doutrina). Maldições
contra eles eram maldições contra Jesus. Hoje em dia, o nome e a pessoa
de Jesus estão sendo ultrajados sem limites e a própria Igreja nem reage
mais. Se alguém ainda levanta a voz, é a liderança da Igreja Católica
Romana. As outras igrejas cristãs nem se tocam mais. Que testemunho
triste!
O único que, aparentemente, percebeu um crescente antissemitismo, dentro da igreja de Roma da época, foi o Apóstolo Paulo. Com esse
fundo histórico e preocupado, ele escreveu os magníficos capítulos 9 – 11
da “Carta aos Romanos”, tratando da questão, aproximadamente 30 anos
antes de João compor seu Evangelho. Paulo vinha dos fariseus e sentiu na
carne o grande drama do afastamento mútuo. Leia Romanos 9-11!
Naquele momento da história, o “escândalo da cruz” (1.Cor.1.1.23)
era a única razão da cisão entre judeus e cristãos. A invocação do
“Nazareno” como SENHOR ia diretamente contra o conceito judaico do
Monoteísmo. A UM só pertencia o direito de ser chamado SENHOR (Êxodo
123
20.3-7). A Carta escrita pelo meio-irmão do Senhor Jesus, martirizado em
63 d.C. (a “Carta de Tiago”) no N.T., pelo seu conteúdo, bem podia
pertencer ao Antigo Testamento, se não mencionasse duas vezes a Jesus,
chamando-o de SENHOR (1.1 e 2.1). Era o que separava os judeus.
Infelizmente, no decorrer da história, inúmeros “escândalos
desnecessários” foram acrescentados pela igreja cristã. Com a tentativa de
descrever (definir) o caráter de Deus foi elaborado dois séculos mais tarde
o “Dogma da Trindade de Deus” (que não consta assim no N.T.). Esse
Dogma deu e está dando, até hoje, razão para muitos mal-entendimentos
entre judeus, muçulmanos e cristãos. Não que estivesse errado, mas é (que
me perdoem) a definição “menos falha” possível do Deus no N.T. (“Quem
jamais ousasse definir o Deus desconhecido?”).
Deus nos deu Jesus para conhecermos a Ele! (confira Col. 2.9). Com
o verdadeiro “panteão” de “mãe de Deus” e centenas ou milhares de Santos
e Santas venerados em Templos dedicados a eles, o “cristianismo” não
merece mais se enquadrar entre as religiões “Monoteístas” (confira
Ex.20.3-6). Essa é a visão do judeu.
O nosso Evangelho foi escrito quando a crescente controvérsia entre
“Judaismo fiel à Torá” e a “Igreja com o escândalo da cruz de Jesus”
marcou o ambiente. Como desde os anos 70 d.C. não mais havia diferentes
seitas e autoridades religiosas no Judaismo, como Saduceus, Escribas,
Sacerdotes nem Sinédrio, somente o “Rabinato dos Fariseus” como única
autoridade, os leitores do Evangelho só conheciam uma autoridade
judaica e o Apóstolo não faz diferença exata entre facções que, por ora, não
mais existiam. Ele simplesmente disse “os judeus” e, hoje, o leitor do
Evangelho, para não cair no pecado do passado, tem de perguntar cada
vez que aparecem os tais “judeus”, quem realmente eles representavam na
ocasião. Sejam quem forem; nunca foi o povo judaico como um todo. Esse
amava Jesus!
Hoje, a “Bênção sobre a heresia” (Ketzersegen), isto é, a maldição na
“oração das 18” do judeu, usa termos gerais. Na edição de 1920, ela diz:
“Permita aos errantes que voltem para ti, faça desaparecer logo toda a
brutalidade da terra e acaba com a loucura injuriosa nos nossos dias.
Louvado sejas Tu, Eterno, que quebras a violência e humilhas a arrogância”
(Trad. livre, cit.Clemens Thoma. Christliche Theologie des Judentums, §181).
A nova “Teologia do Holocausto” procura esclarecer o como e o
porquê do antissemitismo surgiu dentro da própria Igreja e se consumou
no Holocausto do “Terceiro Reino” de Hitler (1930-1945), justificando o
extermínio de seis milhões de judeus com a aprovação indireta da Igreja
Oficial. A Igreja, a partir do quarto século d.C., quando se tornou “Estado”,
começou a perseguir e humilhar “os judeus” de todas as formas possíveis,
justificando seu comportamento vergonhoso com citações dos Evangelhos,
identificando “os judeus” como raça de assassinos do Senhor Jesus. Quem
tem alguma dúvida sobre o tratamento dado aos judeus em geral pela
124
Igreja Católica Romana até o passado recente leia o livro: David I.Kertzer.
O VATICANO E OS JUDEUS. Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 2003. A Igreja
protestante, no seu todo, não ficou muito atrás. Eram poucos os que se
levantaram contra o assassinato em massa.
Os autores de hoje que alegam encontrar a fonte do
antissemitismo nos Evangelhos, (por exemplo Marcos 12.1-12; Mat. 22.114; Mat. 27.24; Lucas 23.27-31 e principalmente João 8.44), devem
estudar melhor a história judaica e colocar as palavras nos seus contextos,
tanto formal quanto de tradição.
“O clarão do forno de cremação de Auschwitz* é para mim o
farol que conduz todos meus pensamentos. Ó, meus irmãos judeus, e
também vós, meus irmãos cristãos, vocês não creem que esse clarão
se confunde com outro clarão, o da cruz?”
* Campo de concentração e extermínio de judeus na Polônia.
São essas as duas últimas frases do livro de Jules Isaak, escritas
nos anos de 1943- 46, no anonimato (ISAAK JULES. Jésus et Israel, Paris, 1946).
Fontes: Clemens Thoma, Christliche Theologie dês Judentums, Pattoch-Verlag, Aschaffenburg,
Band 4ª/b, 1978 e Franz Mussner, Traktat über die Juden, Kösel, München, 1979.
Cap. 5.19-24
(19) Então, lhes falou Jesus: em verdade, em verdade vos digo que o Filho
nada pode fazer de si mesmo, senão aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que
este fizer, o Filho também semelhantemente o faz. (20) Porque o Pai ama ao Filho, e
lhe mostra tudo o que faz, e maiores obras do que estas lhe mostrará, para que vos
maravilheis. (21) Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim
também o Filho vivifica aqueles a quem quer. (22) E o Pai a ninguém julga, mas ao
Filho confiou todo julgamento, (23) a fim de que todos honrem o Filho do modo por
que honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que O enviou. (24) Em
verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me
enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.
A partir do verso 19 até o término do capítulo, no verso 49, Jesus
está falando. Você pode perguntar: “Como o Apóstolo podia lembrar-se de
todas as palavras de Jesus, meio século mais tarde” (quando o Evangelho
foi composto)? Assim, muitos teólogos veem nas palavras acima
meramente palavras de João. Segundo eles, o “Jesus histórico” não pode
ter dito o que acabamos de ler; seriam meras considerações do autor do
Evangelho. A nossa resposta é a seguinte:
Primeiro: Não existe prova negativa. Ninguém pode provar o
que alguém não disse. Podemos, sim, procurar ouvir o que Jesus disse,
ainda que meio século separe o autor do evento.
Segundo: É obvio que no nosso texto o Evangelista esteja
falando. Ele relata as palavras que ouviu e que durante dezenas de anos
ocupavam a sua mente. Quando Jesus as pronunciava, os discípulos
125
deram pouca atenção ou simplesmente não entenderam (fato que os
Evangelistas sinóticos afirmam várias vezes). O “discípulo amado” (João)
ouviu diferente.
Não sabemos se Jesus pronunciou de uma só vez o que consta do
verso 19 até 49. Muito provavelmente temos diante de nós uma compilação
de palavras, pronunciadas em ocasiões diferentes. João, o mais sensível
entre os discípulos, ouviu aquilo que os sinóticos não captaram. Na época
em que João escreveu seu Evangelho, ele se viu na obrigação de não deixar
nenhuma dúvida a respeito de Jesus, pois o movimento cristão estava
sendo atacado de todos os lados. Somente TODA a verdade salvaria a
igreja.
João não procurava salientar pontos em que a crença cristã estava
de acordo com seus oponentes. Não afrouxou as declarações de Jesus.
Principalmente hoje suas palavras nos colocam na parede. Rendemo-nos a
esse Jesus apresentado por João, ou preferimos manter a ideia do “nosso
Jesus”?
Na maioria das Igrejas encontramos hoje “outro Jesus” (se ainda o
encontramos). Leia com atenção e descubra se o Jesus que você diz
conhecer é idêntico ao Jesus a respeito do qual João está dando seu
testemunho. Você está disposto a submeter-se a esse Jesus? A maioria
dos cristãos de hoje olham desconfiados ou até assustados, se você afirma
que Jesus é Deus encarnado.
Nós, cristãos, estamos diante de um julgamento pesado da parte de
um professor contemporâneo de teologia, judeu - portanto não cristão – , a
respeito da nossa RELIGIÃO VAZIA. Ouça o que o professor observa:
“Os ‘cristãos’ não levam à sério, não creem realmente no mistério da
encarnação de Deus, assunto deste Evangelho. A aceitação desse fato, a
encarnação de Deus no ‘Nazareno’, junto com todas as suas implicações
palpáveis, traria vida, colocaria carne nos secos ossos doutrinários dos
teólogos. O cristianismo novamente se tornaria uma realidade de fato, o
que hoje não é mais.”
(Pinchas Lapide. Interpretação judaica dos Evangelhos. GTB.2002).
(19) Então, lhes falou Jesus: em verdade, em verdade, vos digo
que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão aquilo que vir fazer o
Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o
faz.
A alegação (pretensão ou ilusão de ser igual a Deus) representava (e
representa) para o judeu “O” pecado em si, presente, portanto, já no
Jardim do Éden (Gen.3.5). Na cura do paralítico (verso 18) Jesus havia
reivindicado autoridade divina ao curar em dia de sábado, chamando Deus
de seu próprio Pai. Na exposição que se segue (provavelmente na Sinagoga,
sendo questionado pelos religiosos escandalizados), Jesus passa a usar a
terceira pessoa do singular, quando fala de si mesmo. Com isso, faz do
acontecimento concreto da cura um sinal objetivo de sua missão. Por três
vezes encontramos da parte deles a acusação contra Jesus: “tu te fazes
126
Deus a ti mesmo” na mesma forma gramatical do verbo. Confira 5.18;
10.33 e 19.7. Enquanto “os judeus” veem na afirmação de Jesus um
pecado, pelo qual não havia possibilidade de expiação, o leitor do
Evangelho já sabe que eles estavam errados. Sabemos desde as primeiras
sentenças do Evangelho que “O Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”
(João 1.1).
Jesus não precisava “fazer-se” algo que Ele já era desde a
eternidade passada e consistiu na destinação de sua missão. Vejamos
como Jesus defendeu as suas palavras e ações, começando com o solene
“amém, amém”, que indica autoridade de revelação. Assim como uma
criança nada pode fazer senão imitar aquilo que está vendo o pai fazer,
assim Ele estava agindo. O Filho viu permanentemente o Pai perante si.
Quando falava, não se referia a um passado, ao tempo místico preexistencial; não se referia a lembranças do Pai. Jesus se referia ao olhar,
agir e falar no presente momento (confira 3.11 e 3.32). Jamais Jesus foi
mero observador e depois “imitador” do Pai na terra. Desde a eternidade
passada, o Pai tudo fez por e através dele (1.2,10). Vemos que o Apóstolo
não está falando de duas pessoas, de Pai e Filho como pessoas distintas.
Ele quer nos mostrar como Pai e Filho agem “igual” (“simultaneamente” ou
“sincronizadamente”). Quem vê o Filho, vê o Pai (confira 14.9).
(20) Porque o Pai ama ao Filho, e lhe mostra tudo o que faz, e
maiores obras do que estas lhe mostrará, para que vos maravilheis.
Em 3.35 já lemos que, por amor, o Pai confiou tudo ao Filho. Pela
mesma razão revelará “maiores obras” do que estas. Quais seriam essas
obras maiores? Será que o Evangelista, dentro de seu Evangelho, se referiu
a 2.23 ou à ressurreição de Lázaro ainda por vir (cap.11)? Provavelmente
familiarizado com os Evangelhos sinóticos, o Evangelista poderia pensar
na posterior ressurreição da filha de Jairo (Marcos 5.22) ou na do filho da
viúva de Naím (Lucas 7.11). Não sabemos. Todas essas obras seriam obras
maiores, convidando “os judeus” a se maravilharem. Note: a promessa de
ver obras maiores estava sendo dada aos “judeus” presentes na
interpelação, a seus acusadores. O Evangelista não falou de obras num
futuro indefinido, mas do iminente.
(21) Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim
também o Filho vivifica aqueles a quem quer. À primeira vista
aparecem nesse verso duas pessoas distintas: o Pai e o Filho e as duas
parecem ter poder diferenciado.
A segunda Berakha da oração Schmone Esre do judeu, na reza que
desde a época dos Macabeus era feita diariamente, o judeu proclama a
esperança na “vivificação” (ressurreição) dos mortos. Citamos uma parte:
“...Tu, Eterno, que vivificarás os mortos, ... que abasteces os vivos e vivificas
os mortos, venha a nos socorrer subitamente, louvado sejas Tu, JHWH,* que
vivificas os mortos” (Versão palestinense). O fariseu sempre manteve a
esperança da ressurreição dos mortos para o Juízo no último dia deste
aeon. Somente a Deus competia ressuscitar mortos.
127
*(JHWH – Jahwe- nome de Deus, lido pelos judeus como se estivesse escrito “adonai” (Senhor), por
precaução para não pecar contra o terceiro Mandamento, Ex.20.7)
O escândalo causado pela afirmação de Jesus de ter parte nesse
atributo que somente pertencia a Deus já era enorme, mas a afirmação
seguinte levou o espanto dos religiosos ao clímax: (22) E o Pai a ninguém
julga, mas ao Filho confiou todo julgamento, (23) a fim de que todos
honrem o Filho do modo por que honram o Pai. Quem não honra o
Filho não honra o Pai que O enviou.
Pela declaração de Jesus, o poder escatológico de vivificar mortos foi
confiado a Ele pelo próprio Pai com uma finalidade específica: “a fim de
que todos honrassem o Filho do modo como honram ao Pai”. As obras
maiores anunciados aos “judeus” seriam sinais somente; sejam elas a
posterior ressurreição de Lázaro ou outras obras quaisquer. Esses
milagres espontâneos eram sinais de alguém que passou adiante e deixou
suas pegadas, como rastros na areia. Somente o Espírito pós-Páscoa
abriria os olhos aos “Seus”, ainda cegos a essa altura, permitindo-lhes ler
nas pegadas, as quais têm sido a Glória de Deus (Shekinah) e que, na
pessoa “Daquele que o Pai enviou”, havia passado. O Evangelista sabia que
as palavras de Jesus perante seus oponentes naquela hora ainda não
faziam sentido. Escrevendo, ele se posiciona no lugar dos leitores de seu
Evangelho após Pentecoste, aos quais o Espírito de Deus tinha aberto os
ouvidos, antes surdos, aos irmãos que nas palavras do Filho puderam ouvir
a voz do Pai. Eles, sim, foram capazes de honrar o Filho assim como
honram o Pai.
(24) Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha
palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em
juízo, mas passou da morte para a vida.
Aos que O acusaram de blasfêmia, Jesus lançou, solenemente, o
convite para a fé e vida eterna. A você, que lê neste presente momento o
Evangelho, o mesmo convite está sendo feito. Observe que, no verso 24, o
passado e o presente se fundem, apontando para o futuro.
A promessa de vida eterna contrasta com a condição dos que não
creem. A palavra no texto grego, traduzida com “não entra em juízo”, quer
dizer “que não haverá julgamento” para os que ouvem o Pai nas palavras de
Jesus. A condição contrária não será um processo judicial com
possibilidade de defesa (alegando-se obras ou outros méritos), mas
condenação.
Você, como tem “ouvido” as palavras do Filho? Tem reconhecido
nelas a voz do Pai? Tem honrado o Filho, porque nele somente você
conhecerá ao Deus desconhecido?
Ou tem, na sua vida diária, dispensado essa voz, pensando poder
barganhar diretamente com Deus através de sacramentos, por exemplo?
128
•
Na “Boa Nova” dos Evangelhos você ainda hoje pode ouvir a voz de
Deus através das palavras do Filho!
Cap. 5.25-30
(25) Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os
mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão. (26) Porque
assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si
mesmo. (27) E lhe deu autoridade para julgar, porque é Filho do Homem. (28) Não
vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos
túmulos ouvirão a sua voz e sairão: (29) os que tiverem feito o bem, para a
ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para ressurreição do juízo.
(30) Eu nada posso fazer de mim mesmo. Julgo como ouço e meu juízo é justo pois
não procuro minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.
Continuemos assistindo a Jesus na defesa de sua ação perante “os
judeus” (neste caso provavelmente fariseus). Não vemos as palavras
relatadas como meras reflexões do Evangelista, mas como “resumo” do que
Jesus proferiu perante os religiosos escandalizados.
(25) Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já
chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a
ouvirem viverão. Quem seriam os mortos que “ouvirão a voz do Filho de
Deus e viverão”?
Calvino, o grande Reformador, estava convencido de que Jesus
tenha se referido aos “espiritualmente mortos” e que “ouvir a voz do Filho de
Deus e começar a viver” corresponderia ao ato da conversão, ao Novo
Nascimento. A maioria dos comentaristas, até hoje, tem seguido essa
interpretação. Excepcionalmente, ousemos discordar do grande teólogo da
Reforma.
A interpretação dada por Calvino não corresponde à terminologia
bíblica, melhor, judaica. Os judeus não conheciam uma “morte espiritual”,
como o Apóstolo Paulo a usava figurativamente nas suas Cartas à Igreja
helenizada. Na boca de Jesus, essa terminologia soaria muito estranha.
Jesus era judeu. O Antigo Testamento não conhece a morte espiritual.
Este é um termo que mais aponta para a Gnose e somente faria sentido
muitos anos mais tarde. No presente momento, nós nos encontramos entre
judeus, cuja referência era o Antigo Testamento (Lei e Profetas) e Jesus,
que se expressou dentro da visão escatológica do Antigo Testamento.
A palavra “ouvir”, usada no verso 25, no original grego significa
“escutar atentamente, ou concordar”. O mesmo termo encontramos em 3.8
(voz do vento); em 10.3,4,5,16,27 (voz do bom pastor); 18.37 (...aquele que
é da verdade, ouve a minha voz); 3.29 (...o amigo se regozija na voz do
noivo) ou em 11.43 onde Lázaro ouve a voz de Jesus. No verso 25 temos “...
a voz de Jesus que chama alguns.” e no verso 28 será a mesma voz que
129
chamará todos à vida. Todos esses eventos falam de uma voz conhecida e
reconhecida a qual merece confiança.
Não devemos, portanto, “espiritualizar” o trecho que estamos
estudando. Ele não se refere à “volta do filho pródigo” (Lucas 15), tampouco
à imagem da “morte em pecado e vivificado junto com Jesus” da teologia
paulina, mas sim da segurança da fé de quem ouvir a voz do Pai,
reconhecida no Filho. Quem ouvir e reconhecer essa voz, será vivificado
quando Ele vier. Somente no contexto farisaico da ressurreição geral no fim
dos dias, as palavras de Jesus podiam, embora não aceitas, serem
contextualizadas pelos “judeus”, eles que, diariamente, clamaram pela
chegada desse “último dia”.
Você observou uma diferença nos assuntos “dos últimos dias” entre
os Evangelhos sinóticos e o de João? Nos Evangelhos sinóticos vemos
Jesus vivendo a expectativa escatológica iminente (a qualquer momento). Os
primeiros cristãos participavam dessa esperança das “últimas coisas à
porta”. Jesus os advertia por várias vezes a vigiarem (confira Mateus
24.36). O grande Apóstolo Paulo contava com o retorno de Jesus ainda
durante seu tempo de ministério. Agora, meio século mais tarde, com o
último dos Apóstolos (João) ainda vivo e Jesus ainda não tendo voltado e,
portanto, não ter chamado os mortos à vida, João entende que já
podemos ter parte desse Reino de Deus a ser revelado, quando
“ouvimos e cremos nas Palavras do Filho”.
A escatologia (“esperança das últimas coisas a acontecerem”) perdeu
no decorrer do tempo seu lugar prioritário na igreja, sendo substituído
paulatinamente pelo “sacramentalismo”, no qual a igreja alegava (e alega)
possuir e ministrar aquilo que os primeiros cristãos ansiosamente
esperavam do céu. De onde a Igreja recebeu essa autoridade?
Após dessa observação histórica voltemos ao texto. Jesus se dirigiu a
judeus dentro do que lhes era conhecido, pelas Escrituras, portanto dandolhes uma nova, absolutamente nova dimensão.
(26) Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também
concedeu ao Filho ter vida em si mesmo.
O que para os “judeus” soou como blasfêmia, digna de morte, o leitor
do Evangelho já conhece como realidade (confira 1.4). O Filho tem vida em
si mesmo assim como o Pai a tem. Não há como pensar ou expressar mais
radicalmente a unidade de Pai e Filho. Se levássemos esse pensamento até
ao fim, poderíamos até nos perguntar quem ressuscitou Jesus dos mortos?
Considerando a unidade de Pai e Filho, não há contradição. As Escrituras,
na sua maioria, dizem que “Deus O ressuscitou”. Em outros trechos, elas
não deixam claro se Jesus se ressuscitou a si mesmo ou se foi Deus que O
chamou. Encontramos até o “neutro:” “Ele ressuscitou”. Deixemos esse
mistério com Deus. O importante é o fato, não sua interpretação humana.
130
(27) E lhe deu autoridade para julgar, porque é Filho do Homem.
Não ao apocalíptico “um como Filho do Homem” (Daniel 7.13), que
“apareceu junto com as nuvens e é conduzido até à presença do ancião”
(Deus), mas sim, ao Filho amado foi dado o poder de julgar. Ainda não fora
respondida a pergunta do “porquê” do verso 22. O verso 27 nos responde:
“Porque era homem” (confira Atos 17.31).
O sentido do verso 27 é o seguinte: Exatamente porque o Deus
encarnado no Filho (Jesus Nazareno) tornou-se homem igual a nós (Hebr.
2.17 e 4.15), o Pai entregou a esse Filho-homem o poder de julgar os
homens.
A acusação “dos judeus” de que Ele se fazia igual a Deus – ele,
homem como era – encontra seu clímax na resposta do verso 27:
Exatamente por ser homem entre homens, Deus lhe podia delegar a “maior
de todas as obras”, isto é a ressurreição no final dos tempos, quando
todos os mortos serão chamados para o Juízo Final.
(28) Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos
os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: (29) os que
tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem
praticado o mal, para ressurreição do juízo.
A ressurreição de todos os mortos está além do alcance do nosso
Evangelho, pois não mais se restringirá à mencionada em 4.23 e 5.25.
Assim como a voz do Filho dará aos que a ouçam uma nova condição de
vida (2.Cor.5.17), incluirá todos os mortos desde o tempo de Adão, sejam
eles enterrados, queimados, engolidos ou simplesmente “sumidos”.
O Evangelho de João foi escrito para cristãos aflitos, colocando em
primeiro plano os homens e sua reação à palavra e missão do Filho.
Cremos que a nova criação abranja o cosmo como um todo, uma vez que
este propositalmente está ligado no Prólogo com Gênesis 1.
A palavra do verso 30 reconduz ao início dessa primeira parte das
palavras de Jesus, reforçando o dito no verso 19, fazendo a ponte para a
seguinte “legitimação” nos versos 31-40, onde Jesus não mais fala na
terceira pessoa singular, mas identificando-se como “eu”.
(30) Eu nada posso fazer de mim mesmo. Julgo como ouço e
meu juízo é justo, pois não procuro minha vontade, mas a vontade
daquele que me enviou.
O juízo dele é justo porque Sua ação está fundamentada no
ininterrupto “ouvir” (presente!) da voz do Pai. Ele age como Deus
encarnado e, portanto, com justiça.
131
Cap. 5.31-40
(31) Se eu testifico a respeito de mi mesmo, o meu testemunho não é
verdadeiro. (32) Outro é que testifica a meu respeito, e sei que é verdadeiro o
testemunho que ele dá de mim. (33) Mandastes mensageiros a João, e ele deu
testemunho da verdade. (34) Eu, no entanto, não aceito humano testemunho; digovos, entretanto, estas coisas para que sejais salvos. (35) Ele era a lâmpada que ardia
e alumiava, e vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz. (36) Mas eu
tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me confiou
para que eu as realizasse, essas que eu faço testemunham a meu respeito de que o
Pai me enviou. (37) O Pai que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho
de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma. (38) Também não
tendes a sua palavra permanente em vós, porque não credes naquele a quem ele
enviou. (39) Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas
mesmas que testificam de mim. (40) Contudo, não quereis vir a mim para terdes
vida.
As palavras que se seguem podem ser vistas como “legitimação” do
próprio Jesus. Lembremos que, na presente exposição, temos um judeu se
identificando perante outros judeus. As duas partes são conhecedoras da
Lei e dos Profetas; as duas partes estão interessadas e zelando pelas coisas
de Deus.
De um lado temos Jesus, tido por sábio entre muitos dos fariseus,
até “enviado por Deus, não temendo os homens” (confira 3.2).
Do outro lado, religiosos, escandalizados pela aparente profanação
do dia de sábado e com a autoridade que Jesus demonstrara nas palavras
e ações. Não sabemos exatamente quando e onde os “mestres da Lei”
confrontaram Jesus, mas com certeza aconteceu após a cura do homem
paralítico no tanque de Betesda (confira na primeira parte do capítulo 5).
Tampouco ouvimos da reação dos “judeus” às palavras proferidas por
Jesus. Olhando, porém, o conjunto dos versos 19 a 47 como um todo,
percebemos que, na medida em que o acusado (Jesus) fala, defendendo
sua missão e legitimando-se, os próprios interrogadores transformam-se
em acusados.
(31) Se eu testifico a respeito de mi mesmo, o meu testemunho
não é verdadeiro.
A credibilidade de testemunhas, isto é, sua “legitimação”, é básica e
decisiva na legislação forense. No Evangelho de João podemos perceber a
importância que o autor confere a “testemunhas” e “testemunhos”. Através
de suas declarações, denominadas “testemunhos”, o autor quer tornar
“judicialmente válido” – provar - aquilo que diz (veja como João resumiu
seu Evangelho, por exemplo, em 21.24).
Como bom judeu, Jesus concorda com seus oponentes no princípio
de que o testemunho do próprio acusado em favor de si mesmo é inválido.
(32) Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que
ele dá a respeito de mim é verdadeiro.
132
No Evangelho todo, Jesus aparece como testemunha em causa
própria, porém sempre sob a premissa de, por si mesmo, não falar ou fazer
alguma coisa (5.19; 30). Na realidade, não é Ele que advoga em causa
própria: é “outro” que o faz. O teólogo suíço, Karl Barth (1909-1968) o
expressou da seguinte forma: “Nisso consiste a soberania de Jesus... A
tarefa, o fardo, a preocupação de dizer, de anunciar, de proclamar: ‘estou
aqui e sou Eu’ – não pesa sobre Ele. ‘Um outro’ faz tudo isso para Ele...”
(Barth, Decl.289).
Inicialmente, somos levados a identificar João Batista com “esse
outro”. Os versos seguintes parecem confirmar essa hipótese. Mesmo
assim, pressentimos desde já, o que no verso 37 virá a ser explicado: ‘O
outro’ – e nisso consiste o paradoxo – é o Pai que, pela boca, por palavras e
obras desse Seu Filho testifica a Seu favor. Em 8.14, em um contexto
semelhante, Jesus novamente se refere ao seu testemunho e
imediatamente explicita a razão da validade de seu testemunho (confira
8.15-19). Não é o testemunho do “filho de José, carpinteiro”, o qual os
judeus dizem conhecer (6.42), mas sim, o testemunho do Pai. O “lógico,
judicialmente correto” de 5.31 transforma-se em “irreal lógico” pela
revelação de 8.16 (confira!)
(33) Mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da
verdade. João Batista fora martirizado (Marcos 6,14ss). Jesus fez se
lembrarem desse homem. Àquela altura, os religiosos haviam enviado uma
comissão de inquisição a João, querendo saber quem, no plano de Deus,
ele seria. Foi feito um interrogatório (confira 1.19ss). Através da “confissão
negativa” do Batista de “não ser nem o Messias, nem Elias e nem o profeta
anunciado por Moisés”, quem “tinha ouvidos para ouvir”, naquele tempo já
poderia ver o Batista apontar para um “outro” no seu meio, ainda
anônimo. Mais ainda: pela “confissão positiva” do Batista, os judeus foram
informados de que ele nada mais era do que um precursor e sua
mensagem não podiam ir além do “Arrependei-vos, pois depois de mim vem
o mais forte do que eu... que batizará com o Espírito Santo” (Marcos 1). O
Batista havia dado testemunho da verdade. Jesus, sabiamente, antes de
revelar a identidade desse ‘outro’ cujo testemunho seria decisivo, lembrou
seus colegas religiosos do testemunho do profeta, reconhecido por eles
como homem de Deus.
A voz do Batista, há anos, silenciara. Seu solene testemunho de não
ser nem o Messias, nem Elias nem “o profeta” anunciado por Moisés em
Deut.18.18ss implicava em reconhecer que, agora, visível para todos, com
Jesus todas as promessas mosaicas estavam sendo não só cumpridas,
mas superadas. Eles, fariseus e mestres da Lei, que reconhecidamente e
com grande esforço perscrutavam as Escrituras, deveriam ter, pelo menos,
olhos abertos para entender o que se deu com a aparição de Jesus: o
cumprimento da palavra de Moisés (Deut.18,18): “Vou suscitar para eles
(judeus) um profeta como tu (Moisés), do meio de seus irmãos. Colocarei as
minhas palavras na sua boca e ele lhes comunicará tudo o que eu lhes
133
ordenar. Caso haja alguém que não ouça as minhas palavras, que este
profeta anunciar em meu nome, eu próprio irei acertar contas com ele...”.
Quem, senão esses religiosos, que estavam se escandalizando com
Jesus, deveriam saber que nenhum profeta jamais poderia legitimar-se de
outra maneira do que apontar para O que o enviou, destinando-o para a
dura tarefa de profeta. Ser enviado por Deus não é tarefa fácil; não serve
para abastecer o “Ego”, como nos “Apóstolos” atuais. Pelo contrário, é dura
tarefa. Veja Amós 3.8 no Antigo Testamento. Veja as palavras do Apóstolo
Paulo em 1.Cor. 9.16!
(34) Eu, no entanto, não aceito humano testemunho; digo-vos,
entretanto, estas coisas para que sejais salvos.
Com a menção do Batista e de seu testemunho altruísta a favor da
verdade, junto com a declaração de que “outro” testificaria em favor dele,
Jesus parecia identificar o Batista como “aquela outra testemunha” a seu
favor.
Ao dizer que não depende de testemunho de mortal, Jesus descartou
tal conclusão através de duas observações. Primeiro: No verso 32 Jesus
falou do testemunho a seu favor no tempo presente: agora mesmo “aquele
outro” estaria testificando a seu favor, enquanto o testemunho do Batista
pertence ao passado. Segundo: Jesus fez menção do Batista com o intuito
de chamar atenção às palavras dele, para que esses seus compatriotas
“sejam salvos” aceitando as palavras do Batista.
O que Jesus queria, trazendo o Batista à memória e depois se
distanciando dele? Parafraseando com Karl Barth poderíamos dizer assim:
“Não como palavras de homem aceito o testemunho do Batista a
meu favor, nem reconheço nas palavras dele o testemunho “daquele
outro”. Homem nenhum é capaz de dar a favor de outrem o testemunho
do qual Eu preciso. Nem João Batista o podia. Não estou falando do
testemunho de um homem, quando vos lembro do Batista. Estou
lembrando do testemunho dele a fim de que vocês sejam salvos! Ser
salvo, porém, ninguém pode, a não ser “por aquele” que através do
Batista já lhes falava; não o Batista, mas sim “aquele outro”. Vocês não
ouviram “aquele outro” quando o Batista lhes falava?” (Barth, Decl.
291s).
(35) Ele era a lâmpada que ardia e alumiava, e vós quisestes, por
algum tempo, alegrar-vos com a sua luz.
Jesus não estava falando de qualquer luminária, quando mencionou
a candeia que era João. Falando a judeus conhecedores das Escrituras,
todos sabiam a que trecho Jesus se referia: “... seus fiéis exultarão de
alegria. Ali farei brotar uma linhagem de Davi,e prepararei uma lâmpada ao
meu Messias...” (Salmo 131.16b,17ª) ou Bíblia católica Salmo 132.
134
O Batista era a luminária colocada por Deus a fim de iluminar o
Cristo, o Messias; essa era sua real missão, o conteúdo da verdade pela
qual ele dava testemunho.
Mas, ao invés de exultar de alegria “por aquele” que foi enviado por
Deus e apontado pelo Batista e cegos, como eram, “alegraram-se por um
pouco de tempo” na trêmula luz do próprio João Batista.
Ao reconhecer a alegria temporária dos judeus no Batista – mesmo
que não tenham compreendido a finalidade dessa luz –, o próprio autor do
Evangelho deixa claro que sua obra se opõe primeiramente a um judaismo
que há muito incorporou a figura do profeta Batista como “seu”, mesmo
não entendendo sua mensagem. Da mesma maneira a Igreja hoje nomeia
(incorpora) “Santos” sem se minimamente preocupar com a mensagem da
parte de Deus através daquelas pessoas extraordinárias.
(36) Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque
as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço,
testificam de mim, que o Pai me enviou.
Não havia dúvida de que o testemunho de Jesus, do Filho de Deus,
que batiza com o Espírito Santo e ressuscita mortos, era maior do que o de
João, cuja ratio essendi (razão, função) era diminuir, enquanto “aquele
outro” tinha que crescer (3.30).
O Batista não era qualquer um. Era o homem eleito por Deus para
dar testemunho daquele que, desconhecido ainda, havia aparecido no meio
de Israel como “a luz do mundo” (1.5/8.12). Por essa razão, Jesus lhes
apontou a possibilidade de “salvação”. Os dois, o Batista e Jesus, foram
mal entendidos; os dois encontravam ouvidos fechados, surdos para a voz
“dAquele outro” e cegos para a obra que no Filho fora consumada. Ao invés
disso, haviam incorporado o profeta como um deles e a Jesus também
consideravam como um “igual a eles”, embora merecedor de morte por
causa de suas palavras.
Se você ainda considera Jesus mero “alguém”, ainda que grande,
importante, evoluído, sábio conselheiro ou seja lá o que for, mas não vê e
escuta nele “Aquele outro”, você perde tudo.
“A vida histórica de Jesus (o “Jesus histórico”) sem revelação de seu
significado teológico e escatológico; toda a “história de Jesus”, - enquanto
o testemunho “dAquele outro” está sendo rejeitado (ou ignorado) ... não é
mais de que qualquer outra história”. (K.Barth).
Pergunto: O que visa o ensino na sua “Escola Dominical? Ele traz
conhecimento ou salvação? Ele abre seu entendimento a fim de poder
“ouvir” e “ver” “Aquele outro” na pessoa do Nazareno? Ouvir e ver é
diferente de “aprender”!! Ouvindo e vendo, você está ligado à fonte.
Aprendendo, você só repete e, como sabemos, até papagaios conseguem tal
façanha!
135
(37) O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado
testemunho de mim.
O próprio Pai dera testemunho pelas obras realizadas por Jesus. Os
judeus, conhecedores das Escrituras, não viram sendo cumpridos os
sinais que os profetas anunciavam? O próprio profeta João Batista não
realizou nenhum milagre; nenhum sinal dele consta nas Escrituras. Era o
Batista que anunciara o “maior” que viria após ele. E agora não querem
aceitar o cumprimento e testemunho do próprio Pai! Como podiam crer
nas Escrituras se não as reconhecem sendo cumpridas?
Também não tendes a sua palavra permanente em vós, porque
não credes naquele a quem ele enviou. Jamais tendes ouvido a sua
voz, nem visto a sua forma. (38) E a sua palavra não permanece em
vós, porque naquele que ele enviou, não credes.
Quanto às afirmações de nunca terem ouvido ou visto a Deus, os
Rabinos certamente concordariam com Jesus. Na época do Novo
Testamento, os Rabinos, zelando pela absoluta transcendência de Deus,
(pertencendo a outra realidade) haviam migrado para a interpretação de
todas as “teofanias” (aparições de Deus) das Escrituras como
manifestações do “Anjo do Senhor”.
Onde as Escrituras mencionam a voz de Deus, eles a entendiam
como “eco da voz de Deus” (Thyen). O próprio Deus de Abraão, Isaque e
Jacó não podia nem devia ser identificado nem pela sua voz nem pela sua
forma de aparência. Quando Jesus declara que seus oponentes nunca
tinham visto a Deus, Ele estava de pleno acordo com seus oponentes
(“Deus nunca foi visto por alguém”, João 1.18). A declaração de nunca terem
ouvido a Sua voz, no entanto, deve ser considerada como dita a
determinadas pessoas antagônicas, numa determinada ocasião, e nunca
como negação generalizada referente ao povo de Deus.
Jesus sabia que Deus, qualquer que tenha sido a forma, tinha falado
com Israel, seu povo, e com Moisés, pessoalmente, “como um homem fala
com outro, face a face” (Êxodo 33.11). Quando Moisés entrou na Tenda da
Reunião, ouviu a voz falando, e quando Moisés no Sinai falou com Deus,
“Este lhe respondeu no trovão”.
Abraão e Isaías viam Sua Glória. O Evangelista não podia negar as
Escrituras. Moisés ouviu a voz que falou da sarça ardente, revelando-lhe
seu nome “Eu sou aquele que é” (Êxodo 3). Podemos nos perguntar se o
que os Rabinos interpretavam como aparições do “Anjo do Senhor”, não
eram manifestações da Glória do “Verbo”, do Filho, do único no qual Deus
se revelou ao homem?
Independentemente do que alguém diz, o “som” de sua voz identifica
a pessoa que fala. Antes de a mensagem ser captada, aquele que fala é
identificado pela sua voz. O Deus transcendental (do outro lado) não pode
136
ser identificado pela voz com que fala, nem pela sua aparência, pois é
Espírito Criador; não pode ser definido. Os acusadores de Jesus nunca
podiam ter a palavra desse Deus “permanecendo” neles. A mensagem, sim,
a Sua Palavra na Torá, eles conheciam. Eles podem ouvi-la (através da
Torá) e guardá-la, bem como esquecê-la.
Somente o Filho pode ser reconhecido pela sua voz. “As ovelhas
ouvem a Sua voz e O seguem... pois conhecem a Sua voz” (10.4). A esse
enviado, no qual vemos o Pai, não cremos?!
(39) Examinais as Escrituras, porque cuidais ter nelas a vida
eterna, e são elas que de mim testificam. (40) E não quereis vir a mim
para terdes vida.
O Salmo 1 fala do homem que “dia e noite medita na Lei de Deus,
pois nele tem o seu prazer”. Neste sentido positivo, Jesus está afirmando
aos que O ouvem que estejam realmente perscrutando as Escrituras. Só
que, ao invés de procurar vida Naquele do qual essas Escrituras dão
testemunho, eles procuram “a vida” na própria Escritura.
Exatamente como fizeram com João Batista. Alegraram-se na luz do
profeta, mas não percebiam que a luz do profeta foi dada por Deus para
que, através dela, notificassem a presença do Cristo de Deus.
Cap. 5.41-47
(41) Eu não aceito glória que vem dos homens, (42) sei, entretanto, que não
tendes em vós o amor de Deus. (43) Eu vim em nome do meu Pai, e não me recebeis;
se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis. (44) Como podeis crer,
vós que aceitais glória uns dos outros, e, contudo, não procurais a glória que vem de
Deus único? (45) Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é
Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. (46) Porque, se, de fato, crêsseis
em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. (47)
Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?
No trecho de hoje, os papéis se invertem. Aquele que pelos “judeus”
fora rejeitado e acusado de transgredir a Lei de Moisés, repentinamente
assume papel de acusador.
Novamente não sabemos onde e quando esse confronto aconteceu e
que João, no seu Evangelho, resumiu em poucos versos, porém pesados.
Notamos como o Evangelista praticamente assumiu a personalidade de
Jesus, falando por ele. Toda a consternação do Evangelista contra os
religiosos, bitolados na Lei e cegos para aquilo e Aquele que veio de Deus,
está contida nos versos 41 a 47.
O assunto é atualíssimo. Não conheço você, que está lendo este
texto. Não sei se você anda contente e se jubilando com sua igreja ou se
você sofre com ela. Qual a doença das nossas igrejas, como um todo?
137
Onde é que começa aquilo que acaba com tudo onde estamos: onde todos
falam de Deus, todos falam em nome de Deus, prometem, proclamam e
assumem perante seus seguidores ares divinos, glória, títulos e honrarias
e, claro, o bem-estar e o reconhecimento do mundo?
Não é à toa que determinado comentarista secular definiu toda essa
atividade frenética (limitemo-nos aos “evangélicos, pois não somos
chamados para avaliar os irmãos católicos) como uma “masturbação
religiosa”, dando e recebendo a si mesmo. Com que autoridade os nossos
líderes evangélicos falam de Deus – se eles jamais ouviram a voz do Filho?
Se tivessem ouvido e obedecido, o nosso “mundinho evangélico” daria
outro “testemunho” perante um mundo espiritualmente faminto. E nós,
simples “cordeirinhos”, daríamos outro exemplo na nossa vida diária.
(41) Eu não aceito glória que vem dos homens, (42) sei,
entretanto, que não tendes em vós o amor de Deus. Pouco antes, no
verso 34, Jesus havia declarado que não aceita humano testemunho a seu
favor. Agora Ele parece dizer: “Não estou atrás de vosso reconhecimento.
Entendi muito bem todos vocês! Vocês não têm nenhum amor singelo para
com Deus nos seus corações”.
O teólogo Karl Barth diz:
“Se os judeus pensavam que o Nazareno estivesse interessado em
lhes provar no sentido histórico sua autoridade, falando como humano e
procurando reconhecimento também humano, estariam redondamente
enganados... Jesus estava se referindo unicamente ao testemunho
“daquele outro” e para tanto, levantou “o testemunho” do Batista, para
lembrá-los que aquele “outro” testemunho já lhes havia sido dado, e
através de homens...”
Continuando parafraseando as palavras de Jesus por Karl Barth:
“Vocês podem admirar o Batista, podem ficar espantados com meus
sinais (milagres), lembrar das antigas promessas das Escrituras, estudar
teologia – mas vocês não amam a Deus! O Sujeito de todos esses
testemunhos não lhes interessa! Outrossim, não seria possível não me
reconhecer, não aceitar, eu que vim em o nome desse Sujeito, em o nome
do Deus Único – não como outra testemunha, mas sim, como Aquele de
quem todos os testemunhos falavam” (Decl. 295).
Quando Jesus disse “vós”, Ele não se referiu à nação judaica como
um todo. Ele apontou aos oponentes nesse seu discurso. É deles que Jesus
não procura honra; das testemunhas das Escrituras, no entanto (sejam
eles Moisés ou o Batista), Ele já as recebeu, porque nas vozes deles já fora
possível ouvir a Palavra do Pai.
(43) Eu vim em nome do meu Pai, e não me recebeis;...
No solene “em nome do meu Pai” ouvimos mais do que uma mera
qualificação de profeta. O “meu Pai” aponta para o mistério do “Filho
Único”. Na oração de Jesus, quando estava para voltar ao Pai, Ele resumiu
todo seu ministério nas palavras: “Manifestei o teu nome aos homens que
138
me deste do mundo” e na mesma oração pouco depois (36): “Eu lhes fiz
conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que
me amaste esteja neles e eu neles também”. Não podemos deixar de
lembrar da “voz de Deus” na sarça ardente (Ex.3.14): “EU SOU O QUE
SOU” sem lembrar das várias declarações de Jesus: “Eu sou...” lembradas
por João no seu Evangelho.
... se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis.
Muita especulação já foi feita tentando entender quem seria “este
outro” que viria em seu próprio nome. Será que João (que com grande
probabilidade conheceu bem o Evangelho de Marcos) se refere aos
mencionados em Marcos 13.6? Ou ele falou de experiências próprias, ou
dos “zelotes” na grande rebelião contra Roma, ou até mesmo do levante
sob “Bar-Kochba (último Príncipe de Judá), quando muitos dos judeus
criam ter nele “o Messias” prometido? (Schlatter). Outro comentarista
apontou para o próprio diabo com base em 8.44 (Odebrecht). O problema
nas hipóteses históricas está em que o Evangelho foi escrito anos antes
desses acontecimentos.
Ao invés de especular, faremos bem em, humildemente, entender
que somos vulneráveis a “outros” em detrimento do Verdadeiro.
(44) Como podeis crer, vós que aceitais glória uns dos outros, e,
contudo, não procurais a glória que vem de Deus único?
Se perdemos de vista a Glória devida ao Deus Único - revelado na
pessoa de Jesus somente -, tendemos a procurar e aceitar honras uns dos
outros e em nenhuma esfera isso se constata melhor do que na da religião.
Essa sentença é geral, e durante toda a história da Igreja ela tem sido um
juízo contra ela. Não precisamos apontar para Roma, onde honras devidas
a Deus estão sendo perpetuamente roubadas. Basta olhar para os
milhares de gordos “minipapas” do mundo Evangélico, tidos como “Anjos
do Senhor” e muito mais...
(45) Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos
acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança.
A missão de Jesus não é a de acusar. Sua missão é a de salvar
(3.17). Os judeus têm plena confiança na missão atribuída a Moisés, a de
ser em favor do povo no dia do Juízo Final; isto é, na sua intervenção como
mediador ou advogado perante Deus. Assim ocorreu no passado durante a
peregrinação no deserto, quando Moisés várias vezes conseguiu desviar a
ira de Deus (por exemplo, em Êxodo cap. 32). Este advogado, em que os
judeus confiam, é quem os acusará. A esperança do judeu em Moisés é vã.
(46) Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também
creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. (47) Se,
porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas
palavras?
139
Não cremos que temos de “colher” determinados versos do
“Pentateuco” (livros de Moisés) para provar que eles apontam para o
Cristo. O Apóstolo João viu toda a Escritura, da primeira até a última
palavra, como “a história de Deus com o seu povo”. Já o Prólogo do
Evangelho faz referência à Criação. Podemos ver em João 1.16-17 o
paralelismo entre a figura de Moisés, intermediador da Graça Divina
limitada para seu povo, e a pessoa de Jesus que, pela Graça escatológica
revelada em si, supera a Graça de Deus na Antiga Aliança. Assim, Moisés
já falava de Jesus, embora indiretamente, anonimamente.
Assim como Moisés vivia a tensão entre a Lei de Deus, a eleição do
povo e seu testemunho para o mundo, assim também Jesus viveu. Há
uma identidade íntima entre a figura do legislador anterior (Moisés) e o da
nova (Jesus). É obvio que não se trata de uma relação histórica, mas, sim,
de conhecimento ou revelação. Quem entender a figura de Moisés
conhecerá a Jesus. Da mesma forma, há uma relação íntima entre o
profeta Isaías (que escreveu, sem O conhecer, sobre Jesus) e o Salvador.
Finalizando o conjunto das palavras de Jesus, lembramos que o
Evangelista introduziu Jesus (cap.1) como o “Logos”, trans-subjetivo,
qualificativo. Para o Evangelista, não há como conhecer Deus sem o Cristo.
O nosso, o seu encontro com Jesus, revelará, seja onde for, se
devidamente ouvimos e entendemos a Palavra do Eterno Pai.
No encontro de Jesus com Filipe (1.45), este imediatamente
reconheceu em Jesus Aquele de quem Moisés já escrevera.
Cap. 6.1-4
(6.1) Depois destas coisas, atravessou Jesus o mar da Galileia, que é o de
Tiberíades. (2) Seguia-o numerosa multidão, porque tinham visto os sinais que ele
fazia na cura dos enfermos. (3) Então, subiu Jesus ao monte e assentou-se ali com
os seus discípulos. (4) Ora, a Páscoa, festa dos judeus, estava próxima.
Para quem estuda mais a fundo o Evangelho segundo João, não há
como ignorar o parentesco, às vezes literal, com o Evangelho de Marcos, o
mais antigo dos três sinóticos. O capítulo 6 serve para muitos
comentaristas como “prova” do conhecimento e seu uso por João. Nos dois
Evangelhos encontramos não somente as mesmas palavras (6.7,20,69),
mas sobretudo a mesma ordem literária. Temos no capítulo 6 do
Evangelho de João uma abordagem joanina, portanto simbólica, daquilo
que Marcos nos relata no seu próprio estilo, tecnicamente preciso, até nos
detalhes.
Na sua visão cristológica, João segue a mesma ordem dos
acontecimentos que Marcos, dezenas de anos atrás, havia escolhido e que
formam uma unidade temática. São eles, na ordem seguinte: o milagre do
pão (Marcos 6,32-44); o andar sobre as águas (Marcos 6,45-52); o pedido
140
de um sinal por parte dos fariseus (Marcos 8,11-13); as palavras de Jesus
a respeito do pão (Marcos 8,14-21); a confissão de Pedro (Marcos 8,27-30);
o anúncio do sofrimento por Jesus (Marcos 8,31) e, finalmente, a palavra
quanto a Satanás (Marcos 8,32s).
No decorrer do estudo faremos referências a Marcos onde nos
parecem fazer sentido.
(6.1) Depois destas coisas, atravessou Jesus o mar da Galileia,
que é o de Tiberíades. O grande lago, chamado nos quatro Evangelhos
comumente “Mar da Galileia”, aparece só três vezes relacionado com a
cidade de Tiberíades e, as três vezes, somente no Evangelho joanino
(6,1;23 e 21,1).
A cidade de Tiberíades, na margem oriental do lago, foi fundada por
Herodes Antipas nos anos 26/27 d.C. em homenagem a César Tibério,
como cidade helenista (= com costumes gregos). Como ela fora levantada
na região de um antigo campo de túmulos, foi considerada “impura” pelos
judeus e Herodes teve que usar a força da lei para que ela fosse habitada,
preferencialmente por não-judeus.
Somente no século 3º a cidade foi declarada “pura” pelos fariseus e tornou-se, sob
Jehuda Há-Nasi, sede do patriarcado judaico.
A menção dessa cidade recém-levantada nos dias de Jesus, no
presente contexto, permite-nos entender que Jesus havia se retirado para
um lugar seguro, perto de sua terra natal, a Galileia. Os discursos no
capítulo anterior dão margem à ideia do perigo que Jesus corria em
Jerusalém, principalmente por causa de suas declarações, que acabamos
de estudar nas lições anteriores. Devemos ter bem claro que havia vários
momentos em que Jesus, literalmente, teve que fugir. Os Evangelhos não
usam esse termo (confira em Mateus 15,21; Marcos 3,7; Lucas 4,29.30;
5,16 e 9,10 e João 6,15). Eles, respeitosamente, dizem “retirou-se”. Na
referência de Lucas 4.29,30 tratou-se claramente de uma fuga. Jesus
escapou aos que lhe foram no encalço.
(2) Seguia-o numerosa multidão, porque tinham visto os sinais
que ele fazia na cura dos enfermos. Não nos é dito por qual caminho
Jesus havia chegado à margem oriental do Mar da Galileia. A numerosa
multidão que O seguia (“porque tinham visto os sinais que Ele fazia”)
constituiu-se provavelmente dos mesmos peregrinos festivos que já O
acompanhavam com suas famílias quando Ele subiu para a festa (cap.
5.1). João menciona “os sinais” que Jesus fazia “na cura dos enfermos”.
Pelo seu Evangelho, no entanto, sabemos somente de dois (a cura do servo
do oficial e a do paralítico em Jerusalém), mas podem ter sido muitos
mais. O Evangelista não se interessava em enumerar curas. Ele citou
alguns sinais, provavelmente os dos quais teve informações concretas ou
de que fora testemunha ocular, e usou-os para levar o leitor à conclusão
que tinha em mente ao escrever seu Evangelho: Abrir os olhos deles para a
“Glória de Deus” na pessoa de Jesus de Nazaré.
O termo grego que o Evangelista usou para qualificar a “multidão”
mencionada é um termo quase técnico e que mais precisamente significa:
141
“seguidores” (não: “discípulos”). Com este termo ele os qualificou, desde já,
como pessoas que O seguiam enquanto viam nisso alguma utilidade, mas
logo depois O abandonaram, considerando Suas palavras “duras demais”
(6.60s).
(3) Então, subiu Jesus ao monte e assentou-se ali com os seus
discípulos. (4) Ora, a Páscoa, festa dos judeus, estava próxima.
Jesus chegou a subir a uma colina (monte) com seus discípulos
(somente), provavelmente procurando descanso. É neste momento, em que
o Evangelista observa a proximidade da festa da Páscoa.
Todo o Evangelho de João deve ser lido na perspectiva da Páscoa.
Desde o começo, o autor mostra Jesus como Aquele que cumpre a missão
que o Pai lhe outorgou. A Páscoa, por assim dizer, já estava acontecendo
espiritualmente quando o Batista anunciou: “Eis o cordeiro de Deus, que
tira o pecado do mundo” (1.29) e ela se consumiu quando Jesus, por amor
aos seus, morreu na cruz, exatamente na hora da matança dos cordeiros
pascais no Templo. Ainda mais: como ordena a “Halacha da Páscoa”
(ordem cultual judaica), não lhe fora quebrada nenhuma perna (19.31s).
A denominação “Páscoa, a festa dos judeus” corresponde ao uso
comum e não indica que João quer se distanciar “dos judeus”. Além de ser
usada várias vezes (2.13; similarmente em 7.2), o historiador judaico
Josefo também a usou na sua descrição da Festa dos pães asmos, quando
disse que esta era chamada “Páscoa pelos judeus”. Essa Páscoa é o grande
tema do Evangelista: a hora em que o Pai mesmo faria expiação pelo seu
povo e pelo mundo. Confira neste contexto Hebr. 9,11-22, antes de
continuar o estudo. Assim, você entenderá melhor o significado dessa
Páscoa do Senhor para o judeu cristão.
Levantando os olhos, Jesus vê uma multidão se aproximando. De
longe O haviam seguido e nem o cansaço os havia levado a desistir de ir
atrás desse “Jesus de Nazaré”.
Antes de olhar a própria descrição do “sinal dos pães” (na próxima
lição) convém pensar a respeito de dúvidas sempre levantadas e
dificilmente respondidas num sermão dominical. Comparando os quatro
Evangelhos, encontramos várias contradições. O sinal em si não é
contestado: aconteceu, mas não foi compreendido logo, nem pelos
discípulos, nem pelo povo saciado.
O que chama a nossa atenção é que Marcos relata duas
alimentações, enquanto João só conhece uma. Além do mais, nos detalhes
há diferenças. No relato de João é Jesus aquele que age, ordena, observa,
enquanto em Marcos a iniciativa parcialmente parte dos discípulos.
O sinal em si é o único milagre que todos os quatro Evangelhos
contam. Ele está fora de dúvida; aconteceu e foi compreendido somente
muito mais tarde. A tradição reconheceu neste sinal o clímax do ministério
de Jesus, o que, de fato, é o caso. Assim, cada Evangelista procurou
descrever da melhor maneira e servindo ao propósito de seu Evangelho
142
aquilo que, de fato, aconteceu naquele dia. Todos os Evangelistas sabem
que, após a refeição, Jesus ordenara que os restos fossem recolhidos. Só
que em Marcos, no relato mais remoto, foram 12 cestos na primeira e sete
na segunda alimentação enquanto João somente conhece doze cestos. Não
há dúvida de que os Evangelistas querem transmitir uma mensagem
através do número de cestos cheios recolhidos das sobras.
Não somente isso: Marcos sabe de 5 pães e dois peixes na primeira e
de 7 pães e “alguns peixinhos” na segunda alimentação, enquanto João
lembra de 5 pães e dois peixinhos disponíveis inicialmente para a
alimentação da multidão. O que significam esses números contraditórios?
Como pertencemos a uma geração estranha ao simbolismo judaico,
sendo uma “geração racional”, que desaprendeu a entender símbolos e
está presa a números exatos, encontramos dificuldades no texto. Não as
resolvemos apenas mandando “crer” que sete é igual a doze. Dependemos,
de um lado, do conhecimento das Escrituras da Antiga Aliança e, de outro,
de humildade perante o mistério.
Como já mencionamos, podemos ter como certo que João
conheceu o Evangelho de Marcos e o usou como fonte de informação.
Observamos que o nosso Evangelista nada repete do que Marcos já disse.
Uma possível explicação das diferenças encontradas é a seguinte,
apresentada por H.Thyen no seu “Comentário do Evangelho de João
(2005):
Parece que João reuniu os dois relatos de Marcos (6,35s e 8,1-9) num
só. Marcos, por sua vez, parece ter usado o caminho contrário: da tradição e
do conhecimento mais remoto, ele por razões que ora não podem ser
definidas, criou dois acontecimentos. Chamam atenção os números
diferentes de cestos nos dois acontecimentos relatados por Marcos. A
alimentação dos cinco mil com 12 cestos cheios parece apontar para a
esperada reunião dos doze tribos (ainda espalhados) de Israel, enquanto os
sete cestos na alimentação dos quatro mil representam a totalidade dos
povos, vindos dos quatro cantos do mundo. Marcos compreendeu, ao
escrever seu Evangelho, que a Páscoa apontava para a consumação do
tempo. João, por sua vez, meio século mais tarde, entendeu que a reunião e
consumação só seriam possíveis pelo Senhor ressurreto e Seu Espírito,
concedido a Seu povo. Portanto reuniu as duas narrações de Marcos numa
só.
Salientamos que as considerações acima devem ser vistas como uma
hipótese provável, não como instrução bíblica.
João, Evangelista, conheceu com certeza as Escrituras e, ao relatar a
alimentação, lembrou-se do mesmo sinal (milagre do pão) do profeta Eliseu
(2.Rei 4,42-44) quando menciona os “pães de cevada” do menino (6.9).
143
O autor do livro de 2 Reis 4.42 conta que “veio um homem de BaalSalisa e trouxe ao homem de Deus pães das primícias, vinte pães de
cevada, e espigas verdes no seu alforje. Disse Eliseu:’Dá ao povo para que
coma’. (43) Porém, seu servo lhe disse: ‘Como hei de por isto diante de cem
homens?’ Ele (Eliseu) tornou a dizer: ‘Dá-o ao povo, para que coma; porque
assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará. (44) Então, lhes pôs diante;
comeram, e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor”.
No capítulo anterior ouvimos como Jesus apontou “as Escrituras”
como testemunha fiel a seu favor. Sendo assim, a semelhança do
acontecimento acima não pode ser desprezada.
Mais ainda: Pão de cevada era comida típica de gente pobre: comida
de disciplina para maus soldados, alimento para escravos e gente
insignificante. Fonte: Bauer, Com.92.
Sendo assim, entendemos melhor que Deus do “nada” faz alguma
coisa para sua Glória. Ele não precisa do pão de ricos; Ele usa você e eu e
nos transforma de acordo com Sua soberana vontade.
Cap. 6.5-15
(5) Então, Jesus erguendo os olhos e vendo que grande multidão vinha ter
com ele, disse a Filipe: “Onde compraremos pães para lhes dar a comer?” (6) Mas
dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que estava para fazer. (7)
Respondeu-lhe Filipe: “Não lhes bastariam duzentos denários de pão, para receber
cada um seu pedaço.” (8) Um de seus discípulos, chamado André, irmão de Simão
Pedro, informou a Jesus: (9) Está aí um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois
peixinhos; mas isto que é para tanta gente?” (10) Disse Jesus: “Fazei o povo
assentar-se; porque havia naquele lugar muita relva. Assentaram-se, pois, os homens
em número de quase cinco mil. (11) Então, Jesus tomou os pães, e, tendo dado
graças, distribuiu-os entre eles; e também igualmente os peixes, quanto queriam.
(12) E, quando já estavam fartos, disse Jesus aos seus discípulos: Recolhei os
pedaços que sobraram, para que nada se perca. (13) Assim, pois, o fizeram e
encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobraram aos que
haviam comido. (14) Vendo, pois, os homens o sinal que Jesus fizera, disseram:
“Este é, verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo”. (15) Sabendo, pois,
Jesus que estavam para vir com o intuito de arrebatá-lo para o proclamarem rei,
retirou-se novamente, sozinho, para o monte.
(5) Então, Jesus erguendo os olhos e vendo que grande multidão
vinha ter com ele, disse a Filipe: “Onde compraremos pães para lhes
dar a comer?” (6) Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem
sabia o que estava para fazer.
Semelhante ao relato de Marcos foi Jesus quem tomou a iniciativa.
Agora, no momento em que o Evangelista compõe seu Evangelho, olhando
para trás, ficou-lhe fora de dúvida que aquela pergunta de Jesus não foi
lançada à procura de um conselho, mas sim, para “experimentar” Filipe.
Como Filipe iria encarar a situação de tanta gente, seguramente faminta
144
após a longa caminhada? Como sabemos de João 1,43-45, fora Filipe que
havia anunciado a Natanael que acabara de encontrar aquele de quem
Moisés havia escrito, quando prometeu um profeta que seria igual a ele.
Não sabemos se Jesus lhe dava oportunidade de confirmar sua convicção
inicial; ou isso já seria especulação? Não sabemos.
Respondeu-lhe Filipe: “Não lhes bastariam duzentos denários de
pão, para receber cada um seu pedaço.” Enquanto em Marcos os
discípulos ainda perguntaram se era para ir comprar pão por duzentos
denários, João já de início declara que nem tanto ia ser o suficiente.
Duzentos denários correspondiam praticamente ao salário anual de um
trabalhador. O Evangelista transmite ao seu leitor a situação de fato: uma
total impossibilidade de socorrer com alimento ao povo.
(8) Um de seus discípulos, chamado André, irmão de Simão
Pedro, informou a Jesus: (9) Está aí um rapaz que tem cinco pães de
cevada e dois peixinhos; mas isto que é para tanta gente?”
A impossibilidade perante a qual Jesus com seu grupinho de
discípulos se encontrou, é reforçada com a observação da presença de
uma quantidade totalmente insignificante de pães e peixinhos; um lanche
somente estava disponível.
(10) Disse Jesus: “Fazei o povo assentar-se; porque havia
naquele lugar muita relva. Assentaram-se, pois, os homens em
número de quase cinco mil.
Com essa observação, magistralmente o Evangelista leva o leitor de
seu relato a duas conclusões: primeiro, que Jesus sabia o que faria e,
segundo, por mencionar o número aproximado de pessoas ao derredor,
deixou evidente a situação crítica. Observe que Marcos (e Mateus)
menciona o grande número de pessoas somente após a refeição. João, ao
contrário, aumentou o suspense com a informação da grande quantidade
de gente que esperava algo “do profeta”. Somente um sinal do céu podia
lhes mostrar uma saída.
Lembre que o relato foi escrito depois que o Evangelista havia
testemunhado, refletido e compreendido a manifestação “do pão”. Por essa
razão, ele escolheu compor o relato dessa forma. Na hora do
acontecimento, porém, não sabemos como ele avaliou a situação.
(11) Então, Jesus tomou os pães, e, tendo dado graças,
distribuiu-os entre eles; e também igualmente os peixes, quanto
queriam.
Enquanto Marcos (com base em relatório de Pedro) diz que Jesus
mandou os discípulos distribuírem os alimentos, João (provável
testemunha ocular) lembra que Jesus, segundo a tradição judaica, deu
graças pelo pão e, em seguida, distribuiu Ele mesmo o alimento. João
sempre se lembra de seu Senhor como Aquele que agiu, decidiu, ordenou.
Ele não podia mais, na altura em que compôs o seu Evangelho, ver no seu
145
antigo e amado mestre somente o homem Jesus de Nazaré. Escrevendo, ele
vê perante si o Filho, o Verbo, o Deus encarnado. Dessa visão, que os
Evangelistas sinóticos ainda não tinham alcançado, nascem muitas das
diferenças em detalhes que encontramos nos quatro Evangelhos. João
escreveu vendo.
Lembre-se do símbolo que a igreja concedeu a João: a águia. Os
demais
Evangelistas
escreveram
como
quem
relata
fielmente
acontecimentos e palavras.
Há opiniões divergentes quanto ao significado eucarístico do verso
11, apontando para o cap. 21,12.13, onde Jesus ressurreto novamente
aparece como Aquele que distribui o pão e o peixe. Não cremos que aqui
houvesse base para o “partir do pão” (eucaristia), pois no “partir do pão da
igreja” temos o pão como lembrança do corpo do Senhor, que está sendo
dado, enquanto aqui, à margem do Mar da Galileia, o Senhor dava
alimento perecível, cujos restos tinham que ser guardados.
Discussões desse tipo não trazem crescimento espiritual. Na Igreja
Romana é somente o padre que, como ministro, está apto para distribuir o
pão, enquanto a Igreja Protestante reconhece o “sacerdócio universal” e, no
partir do pão (embora infelizmente, na prática, ela tenha andado para
trás), os próprios crentes participam e não precisam de ministrante. O Novo
Testamento não conhece ministrante na ceia. É a mesa do Senhor; não é da
Igreja e nem da denominação.
Seja como for, aprendamos do nosso Evangelista João! Somente
aquilo que vemos com os nossos olhos espirituais tem algum valor.
Tradição nunca trará vida! Ela sempre será somente a concha. Essa
concha pode tanto estar vazia ou, se nela habitarem “a graça e a verdade”,
estar cheia de vida (1,14).
(12) E, quando já estavam fartos, disse Jesus aos seus discípulos:
Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. (13)
Assim, pois, o fizeram e encheram doze cestos de pedaços dos cinco
pães de cevada, que sobraram aos que haviam comido.
Nem os cinco mil, nem os discípulos e menos ainda nós, leitores,
podemos dizer a que altura ou onde ou como “o milagre” aconteceu. A
denominação “multiplicação dos pães” não é correta, pois em nenhum
lugar o Evangelista diz que os pães se multiplicaram!
O sinal não aponta para os pães e nem para os cestos cheios de
restos, que podem ter seu significado na linguagem metafórica. O sinal
aponta para Aquele que agiu. Quem olha para os pães não vê nada que
possa aplicar na sua vida diária. Agora, quem olhar para Aquele que
alimentou a multidão de tal forma, que sobrava mais do que inicialmente
estava disponível, talvez seja capaz de entender também os
acontecimentos seguintes e as palavras de Jesus nas próximas lições.
146
Há inúmeras tentativas para explicar esse sinal; do ridículo (que
cada um havia trazido seu lanche) até à completa negação do
acontecimento. A luz nunca se impõe; ela nasce no coração daquele que a
procura na própria pessoa de Jesus.
A dádiva que o homem não é capaz de produzir, também não é capaz
de dar nem de administrar, já está, contudo, presente no Verbo, na
Palavra, na alimentação dos cinco mil, metaforicamente na suprassuficiência (mais que necessário) do pão, ou no sinal em Caná, na suprassuficiência (quantidade) e qualidade incrível do vinho. Não precisamos
esperar para “um dia”, no futuro, em que tivéssemos o nosso encontro com
Jesus como Senhor e Salvador. Hoje é dia de salvação!
O que o Apóstolo nos diz em todo seu Evangelho bendito é que “ o
Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de Graça e de verdade, glória
como do unigênito do Pai (1,14). E mais: “... e todos quantos O receberam,
deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no
seu nome” (1.12). Tudo como fatos consumados. Tudo para que você, que é
chamado a dar seu passo, o dê também!
(14) Vendo, pois, os homens o sinal que Jesus fizera, disseram:
“Este é, verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo”.
As pessoas entenderam corretamente que com o “Logos” (ainda
oculto), o profeta prometido por Moisés tinha chegado (Deut.15,15.18).
Como somente enxergaram a qualificação mosaica em Jesus,
interpretaram aquilo que correspondia ao seu ponto de vista humano,
portanto errado. Jesus não veio como rei para libertar Israel do pesado
jugo romano, mas sim, usando suas próprias palavras perante Pilatos,: “
... para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da
verdade” (18.37b).
(15) Sabendo, pois, Jesus que estavam para vir com o intuito de
arrebatá-lo para o proclamarem rei, retirou-se novamente, sozinho,
para o monte.
Assim como Jesus não podia ou queria fazer-se “igual a Deus”, uma
vez que já o era desde a eternidade (5,18s), tampouco podia ser
proclamado rei dos judeus, pois já o era (1.49).
Novamente Jesus teve que “retirar-se”, deixando seus discípulos
talvez ocupados com a multidão. Ele precisava ficar a sós com seu Pai. O
sinal tinha seu significado principalmente e primeiramente para Ele mesmo!
147
Cap. 6.16-29
(16) Ao descambar o dia, os seus discípulos desceram para o mar. (17) E,
tomando um barco, passaram para o outro lado, rumo à Cafarnaum. Já se fazia
escuro, e Jesus ainda não viera ter com eles. (18) E o mar começava a empolar-se,
agitado por vento rijo que soprava. (19) Tendo navegado uns vinte e cinco a trinta
estádios, eis que viram Jesus andando por sobre o mar, aproximando-se do barco; e
ficaram possuídos de temor. (20) Mas Jesus lhes disse: “Sou eu. Não temais!”. (21)
Então, eles, de bom grado O receberam, e logo o barco chegou ao seu destino.
(22) No dia seguinte, a multidão que ficara do outro lado do mar, notou que
ali não havia senão um pequeno barco e que Jesus não embarcara nele com seus
discípulos, tendo estes partindo sós. (23) Entretanto, outros barquinhos chegaram
de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, tendo o Senhor dado graças. (24)
Quando, pois, viu a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos,
tomaram os barcos e partiram para Cafarnaum à sua procura. (25) E, tendo o
encontrado no outro lado do mar, lhe perguntaram: “Mestre, quando chegaste
aqui?” (26) Respondeu-lhes Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me
procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes”.
(27) Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida
eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o
seu selo. (28) Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: “Que faremos para realizar as
obras de Deus?” (29) Respondeu-lhes Jesus: “A obra de Deus é esta: “que creiais
naquele que por Ele foi enviado.”
(16) Ao descambar o dia, os seus discípulos desceram para o
mar. Ao cair da noite, tendo perdido Jesus de vista e sem Ele, os
discípulos desceram para onde possivelmente haviam deixado o barco
ancorado.
(17) E, tomando um barco, passaram para o outro lado, rumo a
Cafarnaum. A forma gramatical do original diz que “pretendiam passar”
para o outro lado. É possível que a travessura tenha sido iniciada às
pressas, no intuito de encontrar Jesus talvez em Cafarnaum, de onde
saíram.
Já se fazia escuro, e Jesus ainda não viera ter com eles. (18) E o
mar começava a empolar-se, agitado por vento rijo que soprava. O
esforço físico em lutar contra o vento deixava os discípulos apreensivos.
(19) Tendo navegado uns vinte e cinco a trinta estádios... Um
“estádio” corresponde exatamente ao cumprimento do famoso estádio
olímpico em Atenas, isto é, entre 185 e 192 metros. Quando já tinham
vencido mais da metade do caminho, mais ou menos cinco quilômetros,
repentinamente viram algo muito estranho: ... eis que viram Jesus
andando por sobre o mar, aproximando-se do barco; e ficaram
possuídos de temor.
Era noite. Marcos, no seu relato que corresponde ao que Pedro lhe
passou, diz que os homens temiam que se tratasse de um fantasma e
gritaram de medo. Para poder enxergar alguém, à noite, no meio de uma
tempestade e com a água das ondas salpicando em seus rostos, esse
alguém deveria ter irradiado alguma luz.
148
O Evangelista João é menos detalhista que Marcos e Mateus. Ele
não viu necessidade de detalhar novamente o que os sinóticos já tinham
feito. Pelo relato de Marcos temos a impressão que as palavras desse
“fantasma” ainda aumentaram o horror dos homens, pois ele anotou que
eles ficaram “atônitos”. Enquanto Marcos e com ele Mateus, além do “sou
Eu” nos transmitiram outras sentenças, João se limita às poucas palavras
que importavam e que, na ocasião, os discípulos angustiados não
conseguiam compreender “porque seus corações estavam endurecidos”,
como disse Marcos (8,52).
(20) Mas Jesus lhes disse: “Sou eu. Não temais!” Ao contrário de
Marcos, em cujo relato ainda havia alusão à possibilidade de um
“fantasma”, para João não restava dúvida. Tanto nós quanto os leitores
que na época de João liam seu Evangelho, ao terminar a leitura da obra
não terão mais dúvidas: aquilo que os discípulos angustiados ouviram era
nada mais nada menos do que a identificação do “Sou eu”; era a mesma
identificação que Moisés ouviu da sarça ardente (Ex. 3,14). Era o mesmo
“EU SOU” dos capítulos João 8,24.28.58; 13,19 e 18,5.7.8 (confira!).
Lembre-se das palavras iniciais cada vez quando Deus falava com
alguém! Somente alguns exemplos no NT: Lc.1,30/Luc 2,10/Atos 18,9. O
Evangelista viu claramente o que chamamos de uma “teofania” (quando
Deus, sob alguma forma, manifestava-se “presente”).
Anos mais tarde, quando João compôs seu Evangelho, ficou evidente
para ele a ligação do “sinal do pão” com esse encontro. No corre-corre
daquele momento não havia como entender a presença do Deus Vivo, mas
para João, refletindo, tudo ganhou sentido: era outro sinal de Deus,
confirmando seu Filho.
As descrições do que aconteceu junto com o aparecimento de Jesus,
são contraditórias. Parece que não havia lembrança exata do que e como
aconteceu, o que é bem compreensível. João percebeu outra circunstância
misteriosa: (21)Então, eles, de bom grado O receberam, e logo o barco
chegou ao seu destino. A nossa tradução não é exata. O texto diz que, no
mesmo instante em que receberam Jesus, já haviam chegado ao seu
destino. Onde ficaram os mais ou menos quatro quilômetros a serem
remados? Há algo como que um véu sobre o acontecimento. O sinal do pão
e o da teofania no lago estão intimamente ligados. João, ao contrário de
Mateus, não enriqueceu o relato do encontro no meio da tempestade com
detalhes dramáticos. A visão do “Filho glorificado” era suficiente, e era o
que lhe importava salientar.
No decorrer do tempo surgiram as mais tolas teorias, como por
exemplo, de uma “camada de gelo, sobre a qual Jesus andava”
(“Seminários de Jesus”) e outras; ou considerações de que tudo não
passava de uma fantasia, ilusão ou simplesmente de um mito.
149
Para quem, como João Evangelista, reconhece na aparição de Jesus
“como andando sobre as águas” uma manifestação da pessoa de Deus
(teofania), não mais é necessário especular sobre “como” e “o quê”, como
fazem alguns comentaristas que não aceitam Jesus como o “Logos de
Deus”. Uma solene segurança inunde o coração daqueles que, como João,
tem seus olhos espirituais abertos.
(22) No dia seguinte, a multidão que ficara do outro lado do mar,
notou que ali não havia senão um pequeno barco e que Jesus não
embarcara nele com seus discípulos, tendo estes partindo sós.
Este verso, desde cedo, tem dado razão para muita confusão e
tentativas de interpretação. De que lado do mar João estava falando? A
versão mais plausível é a seguinte: No lugar onde o povo fora alimentado
na tarde anterior havia um só barco, e as pessoas se lembravam de que os
discípulos, sim, mas não Jesus havia nele embarcado. O certo seria: “...no
dia anterior haviam notado que ali (no lugar da alimentação) não havia
senão um pequeno barco.
O Evangelista muda seu foco e continua a contar o que aconteceu
com as pessoas que presenciaram a distribuição do pão. Muitas delas, a
esta altura, já deviam ter voltado para o lugar de sua origem. Os que
pernoitaram no lugar, notaram a ausência tanto de Jesus quanto de seus
seguidores mais íntimos.
(23) Entretanto, outros barquinhos chegaram de Tiberíades,
perto do lugar onde comeram o pão, tendo o Senhor dado graças. (24)
Quando, pois, viu a multidão que Jesus não estava ali nem os seus
discípulos, tomaram os barcos e partiram para Cafarnaum à sua
procura.
Não havia ocupação tão urgente que impedisse um número não
definido de pessoas resolverem ir atrás “do profeta”. A alimentação no
campo tinha sido uma experiência tão maravilhosa; quem sabe, outras
manifestações estariam à vista!?
(25) E, tendo o encontrado no outro lado do mar, lhe
perguntaram: “Mestre, quando chegaste aqui?”
Pela resposta de Jesus concluímos que a pergunta, aparentemente
motivada pela curiosidade e querendo descobrir o como e quando “o
profeta” tinha chegado, era puro disfarce. O que os interessava eram mais
maravilhas!
O Evangelista deixou para seus leitores bem claro aquilo que lhe
havia causado a mais profunda impressão: a revelação do “Logos”. Essa
revelação seria verbalizada pouco depois por Pedro (verso 6.69).
A multidão aqui, em complementação com a mencionada no verso
15, não havia visto nenhum sinal apontando para a pessoa de Jesus; o
que a interessava era a satisfação física: o alimento, raro e valioso.
150
(26) Respondeu-lhes Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo:
vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos
pães e vos fartastes”.
O duplo “amém, amém” de Jesus na sua resposta não admitiu
contestação. Jesus não censurou o povo pelo fato de ter sido saciado e,
portanto, satisfeito. Ele lhes apontou sua incapacidade de pensar além do
pão e não ter reconhecido o doador, o Pai, nem ter-lhe dado graças.
(27) Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que
subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque
Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo. Parafraseando: Não gastem
suas forças e seu tempo na procura do pão que rapidamente perece. Vão
atrás daquele alimento que lhes dá vida eterna (= comunhão no Reino de
Deus)!
Eles não haviam notado o sinal através do qual o Pai acabara de
confirmar diante da multidão Aquele que lhes daria esse outro “pão”!
Certamente alguns dos presentes se lembravam do maná “do céu”
que Moisés no deserto havia dado aos israelitas. Ali Deus já os avisou:
“Ele (Deus) te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o
maná, que tu não conhecias, para te dar a entender que não só de pão
viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR, viverá o
homem” (Deut.8,3). A lição do maná aparentemente ainda não havia
transformado a mente das pessoas ao redor de Jesus.
(28) Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: “Que faremos para
realizar as obras de Deus?”
Na medida em que os presentes perceberam que Jesus estava
referindo-se à “outra comida”, a “algo da religião”, eles imediatamente
concluíram que essa referência espiritual deveria estar relacionada com
algum esforço, cumprimento de voto, promessa, sacrifício. Jesus corrigiu
essa interpretação tipicamente judaica.
(29) Respondeu-lhes Jesus: “A obra de Deus é esta: “que creiais
naquele que por Ele foi enviado.” Deus não exige e nem espera uma
determinada quantia de boas obras (pois essa ética é a tônica da religião
mosaica, do judaismo); Ele unicamente espera e exige que creiamos na
“obra dEle” , isto é, na pessoa do Seu amado Filho, através do qual ELE se
revelou e continua se revelando.
•
•
Quais as suas obras para “merecer” o céu? Será que elas são
suficientes?
ou você está disposto a colocar toda sua confiança unicamente
no Filho amado, no qual Deus também se revela a você?
O próximo estudo lhe dirá por que você estará seguro, confiando
naquilo que Deus fez por você.
151
Cap. 6.30-40
(30) Então, lhe disseram eles: “Que sinal fazes para que o vejamos e
creiamos em ti? Quais são os teus feitos?” (31) Nossos pais comeram o maná no
deserto, como está escrito: ‘Deu-lhes a comer pão do céu.’” (32) Replicou-lhes Jesus:
“Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; o
verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá. (33) Porque o pão de Deus é o que
desce do céu e dá vida ao mundo. (34) Então, lhe disseram: “Senhor, dá-nos sempre
desse pão.” (35) Declarou-lhes, pois, Jesus: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim
jamais terá fome; e o que crê em mim, jamais terá sede. (36) Porém eu já vos disse
que, embora me tenhais visto, não credes. (37) Todo aquele que o Pai me dá, esse
virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. (38) Porque eu
desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que
me enviou. (39) E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de
todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. (40) De fato,
a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida
eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.
(30) Então, lhe disseram eles: “Que sinal fazes para que o
vejamos e creiamos em ti? Quais são os teus feitos?” (31) Nossos pais
comeram o maná no deserto, como está escrito: ‘Deu-lhes a comer
pão do céu.’”
A teologia farisaica tinha como certo que o milagre do pão do céu
durante a peregrinação no deserto, sob a liderança de Moisés, novamente
se manifestaria na era messiânica. O pão que Moisés lhes tinha dado
vinha do céu; assim eles entendiam, pois Êxodo 16.4 diz: “... eis que vos
farei chover pão do céu; sairá o povo e colherá a porção de cada dia, a fim
de que...”. A Sinagoga farisaica reconhecia em Moisés o seu primeiro
libertador e esperava o segundo libertador - o “Messias”.
Aquilo que as pessoas ao redor de Jesus haviam comido no dia
anterior era pão somente, pão de pobres, pão de centeio, enquanto que o
pão que Moisés lhes havia dado era pão do céu, conforme o Salmo
78.24,25: “pão dos anjos”. No mais, Moisés lhe tinha dado o “pão do céu”
diariamente; não uma só vez, como foi o caso de Jesus no dia anterior.
É interessante notar que ontem haviam crido na pessoa de Jesus de
tal forma que já pretendiam proclamá-lo “Rei de Israel”. No dia seguinte, a
impressão causada pela alimentação inexplicável, mas real, já não mais
era suficiente. É assim que acontece com a fé baseada em milagres. Hoje,
ela é suficiente, mas amanhã já não basta mais. Sempre ela exige outro
milagre, e nenhum, por maior e maravilhoso que seja, será suficiente para
convencer a tal ponto que, daí em diante, a fé seja equivalente ao
descanso, à certeza inabalável, não mais dependendo daquilo que se vê.
A legitimação da afirmação incrível de Jesus de que Deus não
esperava uma multidão de obras, mas uma só, a saber, dar crédito a esse
Rabi, lhes soou estranha demais e exigia uma confirmação maior. Será que
Jesus era capaz de lhes providenciar novamente pão, mas “pão do céu”,
dessa vez?
152
(32) Replicou-lhes Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo:
não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; o verdadeiro pão do céu é
meu Pai quem vos dá. (33) Porque o pão de Deus é o que desce do céu
e dá vida ao mundo.
A réplica de Jesus aberta com o duplo “amém, amém”, excluindo
assim qualquer contradição, vai de encontro a duas falhas na
argumentação. Primeiro não foi Moisés, mas sim Deus, que no deserto,
dava aos seus pais o maná (pão), como Êxodo 16.4 deixa claro. Toda a
devoção a Moisés não justificava confundi-lo com Deus, o verdadeiro
doador.
No mais, aquilo não era “pão do céu”, pois era perecível (não mais
servia no dia seguinte). Verdadeiro “pão do céu” daria vida ao mundo, isto
é, geraria vida no reino desse mundo onde impera a morte. João observa
bem: esse pão dará vida não somente aos judeus, mas ao mundo.
Pão, vindo de Deus, sempre vem “hoje” e não perece. Se aquilo no
deserto tivesse sido “pão do céu”, ainda estaria perfeito, presente. Você
notou como Jesus chama Deus “seu Pai”, algo estranho e impossível para
o ouvido judeu.
O verso 33 também pode ser traduzido (literalmente) assim: “O Pão é
aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”. Assim, Jesus já seria
identificado como esse pão. Nos dois casos, porém, o Apóstolo estaria
passando a mesma mensagem.
(34) Então, lhe disseram: “Senhor, dá-nos sempre desse pão.” A
resposta dada nos revela dois fatos. Os ouvintes parecem começar a
suspeitar que houvesse algo mais em Jesus, pois, enquanto antes o
chamaram Rabi (Mestre), agora se dirigem a Ele com o título de “Senhor”.
No entanto, continuavam vendo a dádiva separada do doador. João
sabiamente usou aqui o mesmo artifício literário que empregou na
conversa de Jesus com a mulher samaritana (confira em 4.15). Tanto
aquela mulher como agora “os judeus”, ambos tiveram dificuldades de
entender que o dom e o doador não podiam ser separados.
(35) Declarou-lhes, pois, Jesus: “Eu sou o pão da vida; o que vem
a mim, jamais terá fome; e o que crê em mim, jamais terá sede.
A resposta de Jesus, a primeira entre as sete ocasiões em que Ele
usou a identificação reveladora do “Eu sou” (Ex.3.14), é impossível de ser
ignorada. Na Sua pessoa veio o dom escatológico messiânico, pelo qual
todo o cosmos esperava. Não somente no dia final e reservado para os
justos e fiéis Ele viria; mas agora, já hoje, Ele “está”. Assim, o milagre não
está no que Jesus fez ou fará; o milagre está no “EU SOU”, agora, presente
no crente. Não e nunca será um ensino perfeito, um dogma ou um
sacramento que nos dará a vida eterna, tampouco a eucaristia que dará a
vida – é o Filho, o Verbo, Jesus, que no-la dá. A eucaristia é a
demonstração de um fato que já existe, de um dom que já veio, da
153
presença daquele que nos convidou e que nos passou vida: Jesus. ELE É o
pão da vida.
Este Jesus faz um convite. É simplesmente “vir” a Ele. Quem vem a
Jesus, sai do lugar onde está, deixa um tipo de vida para trás e se junta ao
Senhor. Não podemos comer e beber no lugar em que antes estávamos.
Temos que ir até ele. Só então que nunca mais teremos fome ou sede –
uma imagem de necessidades humanas bem familiares ajudaria a seus
ouvintes entenderem.
(36) Porém eu já vos disse que, embora me tenhais visto, não
credes. O Evangelista parece relembrar-se do que já disse no verso 26,
isto é, que seus interlocutores somente O estavam procurando porque no
dia anterior ficaram saciados. Não foram à procura da pessoa, mas da
bênção. Dessa forma, mesmo que hajam visto o milagre não o
compreenderam e, consequentemente, não lhes serviu para despertar a fé.
Nos versos 37-40, o Apóstolo desenvolve a doutrina joanina da
Predestinação Divina.
(37) Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a
mim, de modo nenhum o lançarei fora.
Você notou que, com poucas exceções (p.ex. nos primeiros versos do
cap.1), João costuma falar de duas pessoas aparentemente distintas: o Pai
e o Filho. O Filho depende do Pai, vive em absoluta dependência dele e
executa a vontade do Pai. Às vezes, o Filho e o Pai são Um só (10.30).
Lembramos que o Apóstolo desenvolveu seu Evangelho de acordo
com aquilo que ele, como homem, podia discernir. Ele conheceu Jesus
como pessoa humana, como Rabi, que de um modo todo diferente de tudo
que a religião judaica até então conhecia, vivia em harmonia com Deus
Pai. Às vezes, João não mais consegue ver duas pessoas distintas; são os
momentos raros, em que é revelado Deus Pai no Filho.
Muitos livros foram escritos com o intuito de entender a
compreensão joanina da pessoa de Jesus, tão distinta da dos outros três
Evangelistas. Mais adiante no texto retornaremos a esse assunto.
Nos próximos quatro versos, João procura mostrar “o porquê” da
incapacidade dos judeus de reconhecer em Jesus a presença do Pai. “Os
judeus”, como taxativamente denomina seus interlocutores no episódio
que estudamos, são os Galileus, seus compatriotas. A murmuração e a
descrença deles se dirigem contra a revelação do “EU SOU” de Jesus. O
desafio contido nessa revelação lhes parece um escândalo religioso. Esse
escândalo consiste em Jesus ter vindo ao seu encontro na história, de
modo concreto. Eles bem conheciam “os pais” de Jesus. Eram humanos, e
o filho deles também nada mais podia ser do que um humano. A alegação
de Jesus de ter vindo dos céus lhes parecia blasfêmia ou loucura. Nenhum
humano podia alegar ser a Revelação do Pai (em pessoa), pensavam eles.
154
Em nada eram diferentes de muitas pessoas de hoje em dia, para os quais
Jesus é escândalo e pedra de tropeço.
Percebemos que o Apóstolo João nada sabe de um nascimento
virginal de Jesus. Ele não usou esse argumento para defender a natureza
de Jesus. Ele mostra que vir a crer não está na mão do homem, mas na de
Deus. “Todo aquele que o Pai me dá...”. Quem são esses “aqueles”?
Ter os olhos abertos para entender e “receber a Jesus” não é uma
iniciativa ou decisão minha. É um presente, uma dádiva, ou simplesmente
graça, quando nossos olhos se abrem e vemos “o Filho” na pessoa do
desprezado galileu. A esses, aos quais Deus abriu o entendimento e que
vieram a prostrar-se, vale a promessa de não serem nunca lançados fora.
A nossa tradução não é muito feliz. O texto não afirma que Jesus
não recusaria ninguém que viesse a ele, através da ação de Deus. Os
melhores comentaristas entendem que não se trata de recusar, mas de
guardar. Todos aqueles que o Pai lhe deu, Jesus guardará para sempre.
Os versos seguintes confirmam essa interpretação: (38) Porque eu
desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade
daquele que me enviou. (39) E a vontade de quem me enviou é esta:
que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o
ressuscitarei no último dia.
Se o Pai nos atrai para reconhecê-lO em Jesus, Este cuida para que
não nos percamos nunca. Esta é a vontade do Pai em Jesus, e na
consumação dos tempos não nos perderemos em algum lugar ou no nada:
seremos reconhecidos e chamados, ressuscitados por Jesus.
Uma única preocupação marca todo o Evangelho de João: que
reconheçamos a revelação do Deus invisível, Espírito, na pessoa de Jesus.
Jesus entrou na história humana, e dela nos resgatará quando tudo
acabar. Não podemos falar de Deus se não O reconhecemos na pessoa de
Jesus.
(40) De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o
Filho e nele crer, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último
dia.
Que segurança temos em Jesus! Abra seus ouvidos e permita que o
Pai o leve à plena revelação de Jesus. O Evangelista aqui menciona o “ver”
e depois o “crer”. A fé não aparece milagrosamente ou através de algum
esforço humano. A fé não é um pulo no escuro. A obra de Deus no homem
acontece no âmbito da fé, que é resultado da revelação que temos, quando
vemos Jesus.
A tarefa mais urgente não é servir. A tarefa mais urgente é conhecer
Aquele que, quando é visto como o que é, salva e guarda.
155
Hoje, em dias difíceis, onde tantos “Jesuses” são anunciados para
remediar tantas necessidades temporais, procure conhecer o Jesus que o
Apóstolo João anuncia! NEle há vida, hoje, agora, e para toda a eternidade.
Uma observação:
O filósofo e teólogo dinamarquês, Soeren Kierkegaard, tratou do problema de
como, filosoficamente, uma salvação eterna (pertencendo ao metafísico) pode estar ligada
a um fato histórico (portanto terreno). Para a razão humana, nenhum fato histórico pode
nos dar certeza de uma salvação eterna. Kierkegaard desenvolveu essa questão de
maneira fantástica na sua pequena obra “Migalhas filosóficas” (Vozes). Se você gosta de
filosofia, trabalhe esse pequeno, mas pesado livro, onde a necessidade de um salvador
humano aparece como necessário. O livro não “prova” nada e não nega nada; são
pensamentos objetivos muito interessantes e de maneira alguma há o perigo de
perdermos a nossa fé; pelo contrário!
Cap. 6.41-52
(41) Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do
céu. (42) E diziam: “Não é este Jesus, o filho de José? Acaso, não lhe conhecemos o
pai e a mãe? Como, pois, agora diz: Desci do céu? (43) Respondeu-lhes Jesus: Não
murmureis entre vós. (44) Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o
trouxer ; e eu o ressuscitarei no último dia. (45) Está escrito nos profetas: E serão
todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e
aprendido, esse vem a mim. (46) Não que alguém tenha visto o Pai, salvo aquele que
vem de Deus; este o tem visto. (47) Em verdade, em verdade vos digo: “Quem crê
em mim, tem a vida eterna. (48) Eu sou o pão da vida. (49) Vossos pais comeram o
maná no deserto e morreram. (50) Este é o pão que desceu do céu, para que todo o
que dele comer não pereça. (51) Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém
dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha
carne”. (52) Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este dar-nos a
comer sua própria carne?
(41) Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o
pão que desceu do céu.
Pelo que consta, desde o verso 26 do presente capítulo, as palavras
de Jesus não refletem uma discussão, pois não constam respostas dos
“judeus” (em nosso caso, galileus, compatriotas de Jesus). Trata-se, na
verdade, de vários pronunciamentos de Jesus perante judeus piedosos.
Mais adiante, no verso 59, João observa que “disse Jesus estas coisas
quando ensinava na Sinagoga de Cafarnaum”. A permissão para ensinar
na Sinagoga não se dava a qualquer um.
Não sabemos a que altura a fala de Jesus iniciada à beira-mar (6.24)
teve sua continuação na Sinagoga, lugar onde a Torá era lida e assuntos
quanto à Santa Lei de Deus eram discutidos. Pela observação do verso
acima, entendemos que Jesus falava na condição de Rabi (ou “mestre”) e a
murmuração mencionada eram considerações dos ouvintes entre si, em
voz baixa. A alegação de ser Ele “o pão do céu” lhes parecia, se não
blasfêmia, uma afronta contra o bom senso.
156
(42) E diziam: Não é este Jesus, o filho de José? Acaso, não lhe
conhecemos o pai e a mãe? Como, pois, agora diz: Desci do céu?
Os judeus presentes na Sinagoga não responderam diretamente a
Jesus. Discutiam reservadamente, entre si, a respeito desse cidadão tão
bem conhecido, filho de José que, como lhes parecia, obviamente mostrava
sinais de alteração do “Alter Ego”; confundindo-se com o que,
“obviamente”, não era. Falaram sobre Ele na terceira pessoa, mostrando
com isso que continuavam considerando-o um deles, em nada maior.
(43) Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós. (44)
Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer ; e eu
o ressuscitarei no último dia.
A palavra “não murmureis entre vós” soava como um convite. Não
deveriam escandalizar-se de Suas Palavras. A murmuração, a
demonstração de descontentamento, era algo conhecido na tradição
judaica. Era a razão dos israelitas terem perecido no deserto, não
chegando a ver a terra prometida. Murmurar era e é perigoso,
principalmente quando demonstra revolta contra Deus. Os judeus
conheciam bem a passagem em Números 14,26-30 e o castigo severo
contra os que murmuraram contra o Senhor. No entanto, neste caso não
perceberam nada do incompreensivelmente maior
(divino) “naquele
homem”, através do qual Deus lhes estava tão próximo.
Sem a ação de Deus atuando no coração humano ficamos na
condição desses “judeus”. Não vemos nada em Jesus, estamos
“murmurando” contra sua autoridade.
Por essa razão, Jesus logo lhes chamou sua atenção para Deus Pai
que eles conheciam e temiam. É como se Jesus dissesse: “Se vocês não
atentam para Deus Pai, nunca poderão entender quem eu sou. Só Ele
próprio lhes abrirá o entendimento. Com o próprio bom senso e boa vontade
somente, vocês nunca vão poder crer. Deus terá que trazê-los a mim.”
Os teólogos tem considerado muito a respeito da pergunta: a quem
caberia a responsabilidade final sobre a salvação ou não do indivíduo ou,
digamos, se o homem é capaz de (pelo bom senso e sua vontade), de “ver
Jesus”? “Ver Jesus” não é o mesmo que “decidir-se por Jesus”, como se faz
na Igreja após um apelo do dirigente. Decidir-se é uma coisa. Agora, “ver”
Jesus, isto é, compreender profundamente quem Ele era e é, é outra coisa. A
compreensão de quem é Jesus pode ser dada a um, e negada a outro.
Quem, afinal, decide sobre a salvação de uma pessoa? É ela mesma
ou é Deus?
O teólogo Schnackenburg opinou que qualquer pessoa de boa
vontade e bom senso pode decidir-se pela fé. Não! A fé como condição
básica para a salvação não se pode “fazer, produzir, decidir”. Ela continua
sendo uma dádiva imerecida, dada graciosamente por Deus. Deus não se
157
revela obedecendo à nossa ordem. Quando Ele se revela, é porque Ele o
concedeu.
“Todo o que é nascido de Deus vence o mundo, e esta é a vitória que
vence o mundo: a nossa fé” (1 João 5.4). Pense: como o mundo pode nos
dar a capacidade de decidirmos pela vitória contra ele?
“Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o
trouxer...”
O ser “trazido por Deus a Jesus” permite resistência da nossa parte.
Podemos resistir ao chamado. Outra tradução válida do “ser trazido” é “ser
puxado” e aqui fica até mais visível a possibilidade de disconcordância.
Podemos emperrar, negar.
Assim, entendemos bem a visão de João quanto à predestinação
Divina. Ela não é uma “dupla”, como no Calvinismo. Não há pessoas
destinadas por Deus para salvação (1a categoria) e outros tantos
predestinados à perdição (2ª categoria).
João conhece somente uma predestinação... para a salvação. Deus
quer se revelar a todos na pessoa do “Logos encarnado”. Ele nos empurra,
traz, puxa para a condição que nos permite ver Jesus como quem era e
continua sendo. Essa ação de Deus se chama “Graça adiantada”. Ela
acontece por várias vezes na vida de todos os seres humanos, não importa
onde estejam. Mas podemos resistir a ela.
Jesus continuou provando com a própria Escritura, citando e
comentando Isaías 54.13: (45) Está escrito nos profetas: E serão todos
ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem
ouvido e aprendido, esse vem a mim.
“Vir a mim” corresponde a “crer”. Observe a sequência de “ouvir” e
“aprender”. Podemos muito bem ouvir, mas deixar de obedecer, não é?
Ouvir e aprender da Lei e dos Profetas era exatamente o que interessava ao
judeu fiel. Mas nesse caso, no caso do mestre da Galileia como revelação
do Pai, o escândalo era demasiado grande. Jesus continou:
(46) Não que alguém tenha visto o Pai, salvo aquele que vem de
Deus; este o tem visto.
O tempo do verbo indica que Jesus não se referiu a uma vaga
lembrança pré-natal de Sua condição pré-temporal, eterna. Tampouco se
tratava de um “ver” ótico, nem de uma visão mística. Confira 1.18:
“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é
quem o revelou”. Jesus falou tendo o Pai permanentemente perante seus
olhos.
(47) Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê em mim, tem a
vida eterna. (48) Eu sou o pão da vida.
158
Retornando ao assunto principal: ao do “pão da vida”, sinal exigido
pelos seus ouvintes, Jesus solenemente afirmou, parafraseando: “Amém,
amém: aquele que ouve a voz de Deus, seja através dos profetas, da Lei
mosaica (ou no nosso caso, pela Palavra do Evangelho), e permite que Deus
lhe mostre o Filho, torna-se participante da fé. A esse tal é dada a promessa
de ser guardado para sempre. Novamente Jesus desafiou seus ouvintes,
declarando ser Ele esse pão exigido pelos judeus, o pão que não morre e
dará vida ao mundo.
Com uma nova comparação, Jesus volta ao assunto do pão,
contrapondo o pão no deserto com a pessoa dEle.
(49) Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. (50) Este
(que está perante vocês) é o pão que desceu do céu, para que todo o
que dele comer não pereça. (51) Eu sou o pão vivo que desceu do céu;
se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela
vida do mundo é a minha carne.
Nesse jogo das palavras, Jesus confronta a morte física daqueles que
comeram do maná no deserto com a permanência na presença do Pai
daqueles que comem do “pão do céu”, representado por Ele. Mesmo
morrendo fisicamente, serão guardados na presença de Jesus até o dia da
ressurreição. Não desaparecerão, diluindo-se no nada.
Os pais israelitas no deserto não morreram porque o maná teria sido
uma comida inferior. Morreram por terem murmurado contra o Deus e
Moisés, seu enviado. “Assim JHWH disse:... nenhum dos homens que,
tendo visto a minha glória e os prodígios que fiz no deserto, todavia, me
puseram à prova já dez vezes e não obedeceram à minha voz, nenhum deles
verá a terra que, com juramento, prometi a seus pais, sim, nenhum daqueles
que me desprezaram a verá... neste deserto se consumirão e aí falecerão”
(Num 14,22,23,35b).
O Evangelista não se refere à morte como destino da criação
humana; ele se refere ao que o Apóstolo Paulo chamou de “morte como
salário do pecado” (Romanos 6.23). Invertendo o pensamento fica claro que
aquele que, ao dar sua vida (pão do céu), pagaria de uma vez esse “salário”
na condição de “cordeiro de Deus, que leva o pecado do mundo” (1,29).
Todos os que “comerão desse pão” (isto quer dizer, creem nele), viverão
eternamente. A morte natural nada mais altera nesse compromisso divino,
pois Jesus os ressuscitará (versos 39,40,44,54). Quando isso será?
O teólogo Marquart comenta na sua Cristologia II as palavras acima
da seguinte forma: “No Jesus ressuscitado vemos “o homem ao qual Deus
abriu todas os aeons (tempos) de par a par”; portanto, não adianta
especular acerca do quando será que Ele nos ressuscitará. Desde que Jesus
passou pela porta da morte, temos nele todos os dias de cada indivíduo
sincronizadas com o ‘último dia’ do Universo.”
159
Assim, o verso 51, no seu contexto, deve ser compreendido como
metáfora. Parafraseando: Quem ouve a Palavra e não a deixa entrar por
uma das duas orelhas e sair pela outra, mas a “incorpora”, assim como
Ezequiel “comeu” o livro que lhe foi dado por Deus (Ez.2,8-3,3), tornar-se-á
de uma vez participante da vida eterna. Fica patente que, neste trecho,
Jesus não se referiu à eucaristia, onde sempre de novo se “come” o pão
eucarístico. É um acontecimento único!
(52) Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este
dar-nos a comer sua própria carne?
Trata-se de uma das repetidas interpretações errôneas das palavras
de Jesus por parte dos “judeus”, típicas para o nosso Evangelista. Em
nenhum momento Jesus desafiou os judeus à pratica do canibalismo. O
“pão” que Jesus lhes daria (futuro!), aponta para a morte única na Cruz,
para a salvação do mundo. Não temos nenhuma referência à eucaristia
que se repete sem fim, até que Ele volte. “Comer”, isto é, incorporar o Logos
encarnado, é o mesmo que, na Antiga Aliança, encontramos nas Palavras:
“Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua
alma e de toda a tua força” (Deut.6,5). Nesse livro creditado a Moisés, já
encontramos o entendimento de que “não só de pão viverá o homem, mas
de tudo que procede da boca do Senhor viverá o homem” (Deut.8,3).
Jeremias, por sua vez, declarou: “Achadas as tuas palavras, logo as comi;
as tuas palavras me foram gozo e alegria para meu coração...” (Jer. 15,16).
A Lei de Deus e os Profetas já usaram a metáfora que Jesus aplicou
para lhes falar da vida eterna. Só que “os judeus”, conhecendo tão bem as
Escrituras, por murmurarem contra a pessoa na qual Deus se lhes fez
conhecido, não a entenderam. Lembre-se da advertência de Jesus: “Bem
aventurado (muito feliz) é aquele que não achar em mim motivo de tropeço”,
isto é: “não se escandaliza na minha pessoa) Mateus 11,6 e Lucas 7,23.
Ainda hoje, Jesus representa um escândalo para a maioria das
pessoas e, com essa “murmuração”, eles se excluem daqueles que “veem”.
Você já sentiu em sua vida que Deus lhe queria falar, mostrando-lhe
o Filho, e você deixou para mais tarde ou simplesmente ignorou esses
momentos?
Há amargura no seu coração, murmuração contra o Altíssimo?
Nessa condição, Deus dificilmente poderá levar você a “ver” Jesus,
compreender quem Ele era e é.
Confesse essa sua atitude e submeta-se ao Seu tratamento; assim
Ele poderá abrir-lhe seus olhos. Diga a ele: “Pai, quero ver Jesus!”
160
Cap. 6.53-59
(52) Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este dar-nos a comer sua
própria carne?
(53) Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a
carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós
mesmos. (54) Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e
eu o ressuscitarei no último dia. (55) Pois a minha carne é verdadeira comida, e o
meu sangue é verdadeira bebida. (56) Quem comer a minha carne e beber o meu
sangue, permanece em mim, e eu, nele. (57) Assim como o Pai, que vive, me enviou,
e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá.
(58) Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais
comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente. (59)
Estas coisas disse Jesus, quando ensinava na Sinagoga de Cafarnaum.
(52) Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este
dar-nos a comer sua própria carne?
A murmuração de antes havia se transformado em discussão aberta.
O termo “Sinagoga”, como é usado no original, permite duas
interpretações: uma que indica o prédio, o edifício onde a Lei de Deus era
lida e discutida e, outra, que simplesmente significa “Assembleia” ou
“ajuntamento” ou “reunião”. No auditório, ou onde quer que tenha sido,
(em Cafarnaum), surgiram opiniões diferentes quanto ao significado real
das palavras de Jesus.
(53) Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Se
não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu
sangue, não tendes vida em vós mesmos.
Antes de começarmos a estudar esse trecho do capítulo 6 queremos
definir como entendemos toda a fala de Jesus, do verso 25 a 65. Há uma
linha teológica que considera o trecho acima, do verso 53 a 56 (onde Jesus
menciona o sangue), como posteriormente introduzido pela igreja
primitiva, para justificar a prática da eucaristia. De fato, se você olhar
bem, o verso 57 parece fazer continuação direta do 51. Essa interpretação
até facilita a leitura mas, na realidade, ela leva a uma tremenda má-interpretação das palavras de Jesus e, consequentemente, a uma
desvalorização da fé.
Vamos, então, olhar o texto de acordo com todos os manuscritos e
textos originais, assim como ele está na sua Bíblia.
O verso 51 (Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele
comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a
minha carne) é a chave do “discurso joanino do pão” (cap.6) e que se refere,
como hoje a maioria dos eruditos admite, à morte redentora de Jesus,
nada tendo a ver com a eucaristia.
É pelo menos absurdo interpretar as palavras de Jesus, que era
judeu, sendo dirigidas a um auditório composto de judeus, na Galileia,
161
como instruções quanto à eucaristia cristã, algo que somente tomou forma
após Pentecoste. Tampouco é uma reinterpretação do rito da eucaristia por
João, encaixada na fala de Jesus. É muito importante ter isso em mente
quando estudamos o texto.
Nos versos 26-50, o auditório fora desafiado a crer nAquele que, por
Deus, foi enviado como “pão da vida”. Agora, nos versos seguintes, 51-59,
João acentua (intensifica) o paradoxo, mostrando que a fé na missão do
Filho, em si, não é suficiente. Deve ser “inteirado”, incorporado “Àquele que
daria sua carne e verteria seu sangue” para salvação do mundo. Assim, a
fome e a sede de uma vez para sempre serão aplacadas (6,35).
Jesus está falando de sua obra consumada na cruz. Se não
deixarmos claro esse fato, abrimos a porta para todo tipo de más-interpretações.
Escolhemos o comentário de Karl Barth a respeito das palavras de
Jesus no capítulo 6: “Não temos nem relatório a respeito da instituição da
Ceia (eucaristia) e menos ainda um ensino sobre a tal, mas sim, um
equivalente para os dois, uma apresentação do mistério divino, isto é, do
comer e do beber, da alimentação da qual a fé recebe sua vida; se, de todo,
houver fé: da alimentação pelo Cristo entregue, pela crucificação de sua
carne, pelo derramamento de seu sangue” (Decl. 313s).
(54) Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a
vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.
As palavras de Jesus intencionalmente provocaram o auditório.
Comer sua carne já não fazia sentido, mas beber seu sangue? A essa
altura, ou os judeus começavam a entender que Jesus falava em metáfora,
pois, caso contrário, fica difícil acreditar nas palavras de João. Comer
carne com sangue já era proibido taxativamente (e continua sendo até
hoje), quanto mais beber sangue!!! Em Levítico 7,26.27 lemos: “Não
comereis sangue em qualquer das vossas habitações, quer de aves, quer de
gado. Toda pessoa que comer algum sangue, será eliminado de seu povo”.
Não fazia o menor sentido para o judeu beber sangue de uma pessoa. Por
essa razão, concluímos que os judeus começavam a entender o sentido
metafórico das palavras de Jesus. Nem por isso o escândalo ficou menor. O
que Jesus estava exigindo era que se inteirassem completamente da
aceitação da revelação que tiveram diante si, na pessoa do filho de José.
Calvino, o grande reformador de Genebra, comenta o verso 54 assim:
“Teria sido não somente tolo como absolutamente fora de tempo falar, a
essa altura da santa ceia, algo que nem ainda havia instituído (Com.171).
A interpretação do “sermão do pão” (João cap. 6) é o real obstáculo
que impossibilita, de vez, uma união da igreja Protestante (evangélica) com
a Romana. Na Igreja Romana, as referências de Jesus ao “pão” e carne,
162
que daria pela vida do mundo (e semelhantemente do sangue) são todas
interpretadas como referências à eucaristia. Enquanto Jesus falou de uma
entrega que Ele faria (e fez uma vez na cruz, sendo glorificado) e que o
crente deve “comer” (inteirar), essa é uma realidade quando ele crê; na
Igreja Romana acontece esse “inteirar” na eucaristia, repetida inúmeras
vezes e nunca sendo suficiente. Encontramos na Igreja Romana a visão
dos judeus, só levemente espiritualizada, pois a Igreja Romana insiste em
que o pão (hóstia) e o vinho se transformam em carne e sangue do Senhor
e, assim, o católico fiel “come” a carne e “bebe” o sangue em todas as
missas, recebendo dessa forma a vida com Deus (sendo, assim, a única
religião na qual se come seu Deus). Aquilo que Deus fez no Seu Filho,
independentemente do homem, a missa alega repetir. Com essa
interpretação na Igreja Romana, humanos (e, portanto, pecadores!),
“administram” o dom de Deus e determinam quem faz parte dos eleitos.
Mais ainda: vista dessa forma, a religião cristã seria a única na qual se
come o seu deus a cada domingo – concepção essa totalmente pagã.
Os reformadores chamavam essa interpretação, onde tudo se
engloba na eucaristia como meio de vida, de “blasfêmia”. A ceia, o “partir
do pão” aponta para a consumação do tempo, quando novamente com Ele,
estaremos unidos. A ceia é celebrada “em memória do ‘pão do céu’”
(Jesus). O poder que dá vida não está na hóstia, mas sim no “pão do céu”,
dado nAquele que disse “Eu o darei pela vida do mundo” (Verso 51).
(55) Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é
verdadeira bebida.
Encontramos, principalmente no Brasil, outra corrente cristã,
espiritualista, que conhece um Jesus espiritualizado. Preferem o
Evangelho de João pois ele mostra um Cristo espiritual. As palavras acima
chocam e são até repugnantes. O Cristo como ser espiritual é bem-visto. O
que João apresenta é um Cristo sacrificado, crucificado, mortificado,
dando sua carne para a vida de um mundo perdido. Não é qualquer
“elevada comunhão espiritual com Cristo” que nos salva, dando-nos vida
eterna. Quem assim pensa do nosso Senhor, ainda não tem a si mesmo
reconhecido como “mundo”, “escuridão”, “pecado”, “amaldiçoado”
(Gal.3,10). Para os “sem Deus”, pecadores, inimigos (Romanos 5.5s), o
Jesus espiritualizado não pode ser a “comida que dá vida”. Jesus salva
somente através de “quem comer a minha carne e beber o meu sangue...”
(54).
(56) Quem comer a minha carne e beber o meu sangue,
permanece em mim, e eu, nele.
Nos versos 54 e 56, no original o termo “comer” é substituído por
“mastigar”, “trincar com os dentes”, termos usados quando animais
devoram sua comida. Parece-nos que o Apóstolo quis mesmo forçar a
expressão, a fim de excluir qualquer interpretação “gnóstica”,
espiritualizada. Muitos querem “estar em Cristo”, interpretando isso com
um estado de elevação espiritual, místico. Estar em Cristo, no entanto, é o
mesmo que “Cristo em nós”, e somente naquele que entender que tem que
163
aceitar o sacrifício (sangrento) do Logos, feito homem; quem incorporar
essa realidade transformadora, terá o precioso dom de ter Cristo nele
habitando e, consequentemente, é guardado em Jesus.
(57) Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu
vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá.
Encontramos essa relação mútua entre o crente em Jesus e Jesus
no crente, várias vezes nos escritos de João (14,20/15,14-17/17,23.26/ 1
João 3,6.24). Essa imanência está assegurada na mútua imanência entre
Pai e Filho.
(58) Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele
que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este
pão viverá eternamente.
Retornando ao verso 32 e 49, entendemos que Jesus outra vez
exortava seu auditório a crer nAquele que Deus enviou do céu, como “pão
da vida”. O paradoxo nos versos 51-58 intensifica a mensagem, deixando
claro que a simples “fé” na missão do Filho não é suficiente. Deve, sim, ser
incorporada, transformada em vida (existencial), assim como o pão que
comemos nos dá vida.
Existem teólogos que veem os versos 53 – 57 como acréscimo da
igreja primitiva, forçando assim uma base para a prática do “partir do pão
e do cálice”. Não há nenhuma base histórica para essa interpretação,
embora ela nos simplifique bastante a compreensão do trecho. Os mais
antigos manuscritos já contêm todos esse versos na ordem que as
acabamos de ler. Portanto, passemos pela porta estreita que as palavras de
Jesus colocam à nossa frente: Não será suficiente “crer”; a exigência é “ser
transformado, comendo e bebendo”, metaforicamente, o Filho. Assim
seremos reconhecidos e guardados por ele. A nossa fé deve ser existencial,
não objetiva somente (conhecimento), ela deve transformar, moldar a
nossa vida na prática.
Aceitando a exortação de Jesus, fica evidente que nenhuma igreja,
nenhuma seita ou denominação e nenhum outro ser humano pode fazer
isso em seu favor. Não existe “despachante” nas coisas da fé. Não importa
o “título” desse “despachante em matéria de fé, nem suas vestiduras. É
você que crê e come e bebe, ou ninguém jamais vai fazê-lo em seu lugar.
Devemos, outrossim, reconhecer que, a partir da ceia instituída na
noite em que Jesus foi traído, e desde então celebrada pelos seus, abre-se
para nós uma compreensão mais profunda do texto lido, pois, em memória
da morte única, uma vez por todas, comemos e bebemos até que Ele venha
(Lucas 22,19).
(59) Estas coisas disse Jesus, quando ensinava na Sinagoga de
Cafarnaum.
164
Como já mencionamos, a palavra usada no original grego para
“Sinagoga” pode apontar tanto para a Sinagoga como o local de encontro e
leitura e discussão da Santa Lei de Deus, quanto para uma assembleia de
pessoas. Seja como for, o Evangelista nos lembra que todo esse discurso
de Jesus perante um auditório de judeus fiéis se deu na cidade de
Cafarnaum, na Galileia. Como veremos na próxima leitura, fora ele a razão
da ruptura definitiva dos Galileus com seu cidadão ilustre. No
entendimento deles, desta vez, o filho de José tinha ido longe demais nas
suas afirmações.
Cap. 6.60-66
Muitos de seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este
discurso; quem o pode ouvir? (61) Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles
murmuravam a respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? (62)
Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?
(63) O Espírito é que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos
tenho dito são espírito e são vida. (64) Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus
sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair. (65) E
prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém pode vir a mim, se, pelo
Pai, não lhe for concedido. (66) À vista disso, muitos de seus discípulos o
abandonaram e já não andavam com ele.
(60) Muitos de seus discípulos, tendo ouvido tais palavras,
disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?
O discurso na Sinagoga de Cafarnaum já era passado. Novamente
Jesus encontrou-se a sós com um grande número de seguidores. Erramos
se imaginamos Jesus sempre na companhia “dos Doze” somente. Ele era
visto como “Rabi” e, como tal, sendo seguido por muitos admiradores ora
mais, ora menos. Até esse ponto de seu Evangelho, João nunca fez menção
dos “Doze” que, geralmente, vemos como Seus únicos discípulos. Eram
muitos, mas variando em número de um dia para outro.
Agora que Ele está a sós com seus seguidores, ocorre novamente
aquilo que vimos por ocasião do discurso de Jesus na Sinagoga: nenhum
dos homens teve a coragem de abordá-lo, expondo sua frustração ou
revelando abertamente o que pensava. Conversavam, cochichavam entre
si, à parte. Dava para perceber que a maioria deles viu-se escandalizada.
Não era o mesmo motivo para escândalo que perturbara os judeus
na Sinagoga. Aqueles tiveram seus problemas em aceitar Jesus como o
“pão do céu”. Estes, que estavam seguindo a Jesus, já estavam
acreditando nEle; criam nas palavras dEle. Queriam vê-lO grande e
reconhecido. Ainda estava presente a esperança de que o Mestre
subitamente assumisse abertamente a liderança de um movimento, pondo
fim à situação de opressão política e social reinante.
Não que duvidassem da vinda de Jesus “dos céus”. O que lhes
parecia inadmissível, escandaloso ou uma imbecilidade, era a visão que
165
Jesus acabara de revelar quanto ao futuro de seu ministério: a
necessidade salvadora de sua morte; a dádiva de sua carne para o mundo
pecador; o derramamento de seu sangue para a vida do mundo! E seus
seguidores se julgaram muito acima daqueles “do mundo” – para que esse
desperdício!?
Uma única vez em todo o Evangelho, João usou a palavra traduzida
como “duro” (... é ouvir esse discurso). Sim, era duro mesmo!... Todas as
suas aspirações alimentadas como seguidores do grande Rabi Jesus
prometiam dar em nada! Haviam investido suas esperanças na pessoa
errada!
(61) Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles murmuravam a
respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza?
Havia chegado a hora para que os seguidores (com intenções
diversas das de Jesus e do Pai) acordassem. Parafraseando, poderíamos
colocar as palavras de Jesus dessa forma: “Somente agora vocês percebem
qual a minha missão?”
(62) Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o
lugar onde primeiro estava?
O verso 62 permite diferentes interpretações. Será que se trata de
uma pergunta ou trata-se de uma proclamação?
Alguns intérpretes entendem a fala como uma pergunta, anunciando
um escândalo ainda maior. Eles pensam na ascensão de Jesus, quando
Ele deixaria os seus sozinhos na terra, de certa forma abandonados e
aumentando dessa forma o escândalo projetado.
Outros veem nas palavras de Jesus uma proclamação. Mais tarde,
quando Ele estiver ali, entenderiam de onde Ele veio. Alguns intérpretes
observam que, como o Evangelista relata detalhadamente a ressurreição
de Jesus mas nada escreve a respeito da ascensão, Jesus tenha se referido
ao Espírito Santo, através do qual viriam a entender tudo.
Em todo o seu Evangelho, João usou a crucificação como momento
de Sua volta ao Pai, quando pela sua oferta e aceitação da morte violenta,
não só foi “elevado” mas também “glorificado”. Confira os textos em João
7,33; 8,14.21f; 13,1.3; 14,28; 16,5.28. Cremos que as palavras de Jesus
relatadas no verso 62 devem ser vistas, de alguma forma, neste contexto.
(63) O Espírito é que vivifica; a carne para nada aproveita; as
palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.
Mais diversificadas ainda do que no verso anterior são as
interpretações que encontramos para essa palavra, onde Jesus
subitamente declara a carne como de nenhuma utilidade. Não disse, há
pouco, que devemos comer sua carne para termos vida ?
166
Se relacionarmos o verso 63 com o anterior, as palavras soam como
uma maravilhosa conclusão. Ainda não há como “ver” que sua carne era
“pão do céu”. Somente como carne “dada voluntariamente como sacrifício”
(confira Hebr. 9,14), ela terá utilidade. A carne em si para nada aproveita.
Tudo que Jesus tinha dito nos versos 29 a 58 era “vida”. Todas aquelas
palavras se tornariam vida quando o Espírito Santo fosse dado. Para tanto,
Jesus tinha que voltar ao Pai, “levantado” na cruz e “glorificado”, nas
palavras de João.
Desta forma, os dois versos 62 e 63 formam uma unidade que
aponta para o que, hoje, nos é conhecido; mas para os seguidores, naquele
momento, ainda não fazia sentido.
(64) Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus sabia, desde o
princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair.
Como Jesus já disse no verso 37, Ele sabia que o mistério da
salvação estava (e continua estando) nas mãos de seu Pai. Nem todos
crerão! O Apóstolo acrescenta uma de suas típicas observações. Ele, o
discípulo, tinha certeza de que seu Mestre conhecia quem finalmente lhe
daria crédito ao ponto de “inteirar o pão da vida” e quem não. João estava
convencido de que, desde já, Jesus sabia quem dos Doze ia traí-lo. João
nunca fez segredo da aversão que nutria contra o colega de ministério que
teve a ousadia de trair seu amado Mestre. Faz parte do mistério divino que
essa traição tenha sido necessária para a “glorificação” de Jesus. Mas João
escreveu como homem; percebemos e entendemos sua emoção ao lembrar
daquilo que, humanamente, era uma tragédia.
(65) E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito:
ninguém pode vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido.
Jesus não havia deixado claro na Sua palestra em Carfarnaum que
somente aqueles que por Deus Lhe seriam dados é que O reconheceriam?
Quem conhecer o Pai certamente reconhecerá o Filho! (João 8,47: Quem é
de Deus, ouve as palavras de Deus...).
Se você não vê nada de especial e divino em Jesus, faça uma
avaliação de seu relacionamento com Deus! Você O reconhece como Deus?
Você está ouvindo o que Ele lhe diz? Será que Ele pode lhe apontar seu
Filho, ou você ainda está cheio demais de religião?
(66) À vista disso, muitos de seus discípulos o abandonaram e já
não andavam com ele.
Jesus sabia: nada mudaria o plano de seu Pai. A responsabilidade
cabia ao Pai e a Ele, Jesus, cabia a obediência. Era necessário descansar
nessa certeza frente à ameaça da debandada dos “muitos” que até então O
haviam seguido.
Se estudarmos a fala de Jesus no capítulo seis, com cuidado,
perceberemos o desempenho magistral do relato do Evangelista.
167
O Evangelista escolheu e compeliu as palavras de Jesus numa
sequência de seis degraus, todos com a mesma estrutura. Cada degrau ou
etapa começa com uma curta observação ou pergunta da parte do
auditório, à qual Jesus responde adequadamente. As etapas se seguem
crescendo em intensidade, aparentemente provocando cada vez mais.
Tudo começa com uma pergunta como que de curiosidade (“Mestre,
quando chegaste aqui?”), e vai crescendo até à excitada disputa no verso
52 e a debandada dos seguidores resignados que se sentiam iludidos nas
suas projeções pessoais.
As necessidades postas por Jesus começam com o convite à fé no
enviado de Deus e crescem até chegar à exigência, aparentemente
repugnante, de comer sua carne e beber seu sangue como caminho para a
vida e mistério revelado na indicação da ação do Espírito, uma vez
consumados o sacrifício e a entrega de seu corpo em favor do mundo.
Da mesma forma observamos uma constante alteração no auditório.
Enquanto inicialmente “os judeus” formavam uma massa indefinida
melhor, um grupo de curiosos na beira do lago, na medida em que a
conversa avança, as faces tomam a forma de inimigos. E como final restam
os rostos profundamente desiludidos e tristes de muitos dos antigos
seguidores que agora O abandonam.
O que sobra é um grupinho insignificante de homens, doze em
número; aqueles que, tempo atrás, Jesus pessoalmente havia escolhido e
dessa forma comprometido para com ele. Todos os demais, desiludidos, lhe
viraram as costas.
•
E onde fica você nessa história?
Cap. 6.67-71
(66) À vista disso, muitos de seus discípulos o abandonaram e já não andavam
com ele. (67) Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós
outros retirar-vos? (68) Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu
tens as palavras da vida eterna; (69) e nós temos crido e conhecido que tu és o
Santo de Deus. (70) Replicou-lhe Jesus: Não vos escolhi eu em número de doze?
Contudo, um de vocês é diabo. (71) Referia-se ele a Judas, filho de Simão Iscariotes;
porque era quem estava para traí-lo, sendo um dos doze.
(67) Então, perguntou Jesus aos doze: ... Pela primeira vez, no
seu Evangelho, João menciona “os doze”. Ao contrário dos Evangelhos
sinóticos, o Evangelista não menciona o momento em que Jesus escolheu
os doze para estarem com Ele (confira Marcos 3,14). João nunca usou o
atributo “Apóstolo” quando se referia aos doze, pois, para ele, quem os
designou para serem Apóstolos foi o Cristo ressurreto. Por enquanto, os
doze são seguidores ou discípulos somente.
168
Devemos imaginar os doze em meio à expressão “muitos
admiradores”, sempre que os Evangelistas mencionam “uma multidão”. No
nosso Evangelho, os doze escolhidos nominalmente por Jesus do meio
desses “muitos” que O seguiam, já apareceram discretamente no episódio
da refeição milagrosa, que deu início ao longo discurso sobre “o pão do
céu”. No fim da refeição, Jesus havia pedido a seus discípulos que
recolhessem as sobras, para que nada se perdesse. Foi esse grupo dos
doze que, cada um, procurava sobras, para que “nada se perdesse”,
somando doze cestos. Esse “nada se perdesse” é importante. Somente
João o diz, e esse cuidado em relatar tudo e não perder nada do que viu e
ouviu caracteriza o nosso Evangelista.
Vimos como na leitura anterior (verso 66), após ouvir as condições
que Jesus impôs à fé, a multidão se dispersava, seja por não compreender
o sentido metafórico da fala ou simplesmente por não gostar de tal
compromisso com a pessoa de Jesus. Este, que observava o afastamento
dos “muitos”, voltou-se para seu grupinho. Será que eles realmente
estavam dispostos a permanecer com ele, mesmo quando a projeção do
futuro apontava para o sofrimento? Ou não haviam compreendido?
Perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós
outros retirar-vos? Será que esses doze, escolhidos pessoalmente por ele,
haviam compreendido suas palavras?
(68) Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu
tens as palavras da vida eterna; ... Como na maioria das vezes, Pedro se
adiantou aos demais. Representando o grupo todo, ele expressou o que, na
sua opinião, todos eles sentiam. No verso 72 Jesus tinha exortado seus
ouvintes a pensarem não somente em comida perecível, mas procurar pela
comida “...que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos
dará...”.Pedro havia encontrado em Jesus essa comida que não perece.
Para onde iriam, após terem reconhecido em Jesus uma autoridade que
não era humana, mas de alguma forma era divina?
... (69) e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus.
Todos os quatro Evangelhos relatam a confissão de Pedro. Há, no
entanto, diferenças notáveis na fala de Pedro. No Evangelho de Marcos, o
mais antigo e, portanto, o mais fiel à compreensão judaica, Pedro chama
Jesus o “Cristo” (Messias). Ele era o esperado Messias do Antigo
Testamento, do qual os profetas falaram. Em Lucas, Pedro declara Jesus
“o Cristo (Messias) de Deus”. Ainda prevalece a visão judaica do Messias.
Quando olhamos em Mateus, que foi escrito tendo o Evangelho de Marcos
como base, percebemos que o escritor acrescentou (ou os copiadores
acrescentaram) a expressão Filho do Deus Vivo ao título “o Cristo”. Aqui já
temos “teologia”, uns conhecimentos posteriores, colocado para melhor
esclarecimento do leitor da época.
169
Como é que o Evangelista João se lembra da fala de Pedro? O
Evangelista João confirma com as palavras de Pedro o que já sabemos do
prólogo: Jesus é O Santo de Deus; não a figura do Messias judaico
somente, mas, sim, acima da condição de criatura, portanto “Santo”, como
Deus é Santo. Na procura de uma expressão digna para Jesus advinda da
boca de Pedro, o Evangelista lhe atribuiu a condição que somente concede
a Deus.
O Evangelista João entendeu que Jesus não somente era o Messias
dos judeus, mas, sim, “o Logos” de Deus, em forma humana. Portanto, ele
aponta através da afirmação de Pedro para “o Santo de Deus”. Aquela
confissão de Pedro, o qual teve seu lugar na história e da qual todos os
Evangelistas falam, é relatada por cada um dos quatro Evangelistas de
acordo com o contexto cultural, histórico e teológico no qual cada
Evangelho foi composto.
O mais importante é que Pedro afirma ter “crido e conhecido” essa
realidade. Você pode crer (e muitas vezes cremos sem vermos o
cumprimento de uma promessa de Deus), simplesmente confiando. O
conhecer inicia-se com a fé na pessoa de Jesus. “Conhecer” é um processo
lento, mas necessário. Aqui Pedro afirmou conhecer “o Santo de Deus”. Na
sua “Segunda Carta” à igreja primitiva, anos mais tarde, ele encerra sua
mensagem com a seguinte exortação: “Crescei na graça e no conhecimento
de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2.Pedro 3,18). Todos nós
devemos crescer, não somente na doutrina, mas na vida. Você está
crescendo no conhecimento do Senhor Jesus? A fé é primeiramente
existencial, portanto dinâmica, não estática; ela é vida.
(70) Replicou-lhe Jesus: Não vos escolhi eu em número de doze?
Contudo, um de vocês é diabo. Jesus entendeu a manifestação de Pedro
como a de todos os doze, como percebemos na sua resposta, onde se
dirigiu a todos. A eleição da qual Jesus falou no verso 44 (ninguém pode vir
a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxer) continua um mistério. Já
falamos sobre eleição na compreensão joanina. Aqui, no entanto, Jesus
lembra os seus de que por Ele foram eleitos pessoalmente, escolhidos da
multidão após uma noite de oração. Parece simples demais dizer que Jesus
conscientemente escolheu Judas Iscariotes para que este O traísse. Jesus
escolheu os doze após falar com seu Pai. Foram escolhidos para serem
seus seguidores; todos eles, inclusive Judas.
Jesus foi traído! Se Ele o soubesse desde o início, não teria sido
traição. Ser traído é ser entregue por aquele em quem confiava. Sabemos
como a traição dói. Jesus havia escolhido a dedo seus doze. No decorrer do
tempo cresceu-lhe a certeza de que seria traído por um de seus próximos,
mas nunca Ele apontou Judas como o traidor. A frase “um de vocês é
diabo” não isentou nenhum deles. Vale lembrar que a palavra “diabo”
(diabolos) significa literalmente “acusador / caluniador/ aquele que cria
confusão” e só mais tarde ganhou o sentido que hoje atribuímos a esse
termo.
170
Jesus conheceu os seus, assim como eles começavam a conhecê-lO.
Havia observado o comportamento de cada um deles. Quando anunciou
veladamente o sofrimento e a morte, quando falou do pão e do sangue,
cada um dos discípulos tinha que posicionar-se intimamente. Sabemos
que a grande maioria O abandoou ante essa perspectiva de sofrimento e
morte e que até os doze começavam a argumentar entre si a respeito.
Se, para Jesus, havia certeza de que somente um de seus mais
próximos poderia entregá-lo, para os doze não valia o mesmo. A frase “um
de vocês” deixou todos eles em suspense. A pergunta “porventura, sou eu”?
(Marcos 14,19) pairava sobre todos. A “incerteza salutar” é condição
necessária para a certeza da fé (Kierkegaard).
Como em nenhum outro Evangelho, notamos em João cap.6 a
ruptura entre “seguidores” e discípulos. Essa debandada deixou o
Evangelista João profundamente impressionado. Na sua “Primeira Carta”
(escrita provavelmente mais tarde), ele a aplicou à igreja, quando escreve: “
...saíram do nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se
tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco...” (1 João. 2,19).
Um alerta silencioso ganhou voz para todos que estão com Jesus: tanto o
escritor sagrado como o que recebe a promessa divina pode ter plena
certeza de que nenhum poder desse mundo será capaz de arrancá-los da
mão de Deus (confira Romanos 8,38.39). Dificilmente, porém, terão a
mesma certeza no que diz à sua própria fé e convicção e quanto à fidelidade
em permanecer com Jesus até ao fim. O teólogo e filósofo Kierkegaard
definiu essa incerteza invencível como “complemento invariável e necessária
da certeza da fé”.
Veja, a relação entre certeza de salvação e certeza da fé é
determinada pela incerteza. No momento em que eu tiro o fator da
incerteza – a fim de obter uma certeza maior – não ganho uma fé
caracterizada por humildade, uma fé mantida em temor e tremor
(Filipenses 2,12), mas, sim, me transformo num malvado e obstinado ser
que se julga apto para fraternizar com Deus, mas nada dEle conhece.
Verdadeiro relacionamento com Deus só existe junto com essa “salutar”
incerteza (Kierkegaard).
“Senhor, será que sou eu”? Faria muito bem se cada um de nós se
conscientizasse das duas condições: da absoluta certeza da fidelidade de
Deus e da “salutar” incerteza quanto à nossa própria fidelidade – condição
do discípulo que luta para andar sempre perto do Senhor e dEle depende
em tudo. Esse discípulo não brinca com o pecado.
(71) Referia-se ele a Judas, filho de Simão Iscariotes; porque
era quem estava para traí-lo, sendo um dos doze.
Mais uma vez, João pensa em voz alta. Naquele momento histórico
ainda não sabia quem seria o traidor. Na última ceia, anuindo ao pedido
171
de Pedro, este inclinou-se para Jesus, procurando saber quem seria o
traidor. Nunca João escondeu a profunda frustração e condenação por
aquele seu ex-colega que ousou trair seu Mestre. Parece-nos que antes
nunca havia desconfiado de Judas. O tratamento hostil dado a ele no seu
Evangelho nos permite tirar essa conclusão. Com a observação acima, ele
adianta ao leitor uma informação que, por enquanto, não era do
conhecimento dos doze.
Será um deles que trairá Jesus, mas quem? Senhor, serei eu que te
trairei?
•
Procure andar perto do Senhor e submeta-se ao que Ele lhe diz
ou destina. Ele será fiel!
Cap. 7.1-13
(01) Passadas estas coisas, Jesus andava pela Galileia, porque não desejava
percorrer a Judeia, visto que os judeus procuravam matá-lo. (2) Ora, a festa dos
judeus, chamada de Festa dos Tabernáculos, estava próxima. (3) Dirigiram-se, pois,
a ele os seus irmãos e lhe disseram: Deixa este lugar e vai para a Judeia, para que
também os teus discípulos vejam as obras que fazes. (4) Porque ninguém há quem
procure ser conhecido em público e, contudo, realize os seus feitos em oculto. Se
fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. (5) Pois nem seus irmãos criam nele. (6)
Disse-lhes, pois, Jesus: O meu tempo ainda não chegou, mas o vosso sempre está
presente. (7) Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu dou
testemunho a seu respeito de que as suas obras são más. (8) Subi vós outros à festa;
eu, por enquanto, não subo, porque o meu tempo ainda não está cumprido. (9)
Disse-lhes Jesus estas coisas e continuou na Galileia.
(10) Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, então, subiu ele também, não
publicamente, mas em oculto. (11) Ora, os judeus o procuravam na festa e
perguntavam: Onde estará ele? (12) E havia grande murmuração a seu respeito
entre as multidões. Uns diziam: Ele é bom. E outros: Não, antes, engana o povo. (13)
Entretanto, ninguém falava dele abertamente, por ter medo dos judeus.
(01) Passadas estas coisas, Jesus andava pela Galileia,... Após a
ruptura na sua popularidade, Jesus permaneceu por pelo menos seis
meses na Galileia. Esta região afastada de Jerusalém (Judeia) era
desprezada pelos judeus mais cultos. O movimento em torno de Jesus
encolheu. Não mais o seguiam aquelas multidões como antes o faziam.
... porque não desejava percorrer a Judeia, visto que os judeus
procuravam matá-lo.
O Evangelista entendeu essa permanência na “província” com o
cuidado de Jesus em não se expor desnecessariamente ao perigo. No
capítulo 5 vimos como a cura de um paralítico no tanque de Betesda num
dia de sábado havia causado tumulto e áspera discussão com os
religiosos. Vimos também como Jesus havia justificado a cura (confira
estudo João 36).
172
A interpretação da “guarda do sábado” era um assunto de extrema
importância entre os fariseus. Havia opiniões divergentes entre eles em
torno “do que era e do que não era agradável a Deus” no dia sagrado. Os
fariseus nunca chegaram a uma definição final; portanto, havia um espaço
amplo para opiniões divergentes.
Jesus não foi crucificado por ter transgredido a Lei do sábado.
Quando, após a prisão de Jesus, o Sinédrio procurava acusações contra
ele, não encontraram nenhuma transgressão digna de morte (Marcos
14.55). Como Jesus não recuava nas suas afirmações, finalmente foi
entregue como caso político à autoridade romana, onde sofreu a pena
capital segundo a Lei Romana. Se tivesse sido condenado por ofensa
contra a Lei de Moisés (por exemplo a quebra de sábado), a pena teria sido
de apedrejamento. Retornaremos ao assunto no devido tempo.
O nosso Evangelista justificou a permanência de Jesus na Galileia,
com o perigo que Jesus provavelmente correria em Jerusalém. Pelas
afirmações de Jesus (7.30) entendemos que a demora na província tinha
sua razão no fato de ainda não ter chegado a “sua hora”. O Pai ainda não
lhe havia dado liberdade para subir (novamente) à capital. A partir desse
capítulo, o termo “a hora” sempre aponta para o momento do Seu sacrifício
(confira em João 7.30; 8,20;12,23;12,27;16,32). Jesus sabia que o Pai
ainda não lhe havia dado certeza quanto ao momento de Sua entrega.
(2) Ora, a festa dos judeus, chamada de Festa dos Tabernáculos,
estava próxima.
Não sabemos por que os Evangelhos sinóticos nunca mencionam
essa festa. Existem muitas teorias a respeito. Como cada um dos quatro
Evangelhos só relata determinados momentos, nem temos total certeza
quanto à duração do ministério de Jesus. Foi um ano somente (os relatos
dos três sinóticos cabem todos em um único ano) ou foram três, como
entendemos pelo Evangelho de João?
Nos três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), Jesus sobe
uma só vez para Jerusalém, onde O espera a Sua Páscoa. As atividades de
Jesus na Galileia e nas regiões fora de Israel, em terras gentias, hoje
pertencendo ao Líbano, à Síria e à Jordânia (“região das Dez Cidades”), são
amplamente documentadas. O Evangelista João, porém, focaliza mais a
relação entre Jesus e o Templo, para onde por várias vezes subiu,
observando e cumprindo a tradição religiosa. João dedica poucos relatos à
atividade de Jesus na sua própria terra, a Galileia.
A festa mais importante do ano, a “Festa dos Tabernáculos”, havia
chegado. Durante a época do segundo Templo em Jerusalém era a festa
mais popular e querida dos judeus. A celebração remonta a Levítico 23,3943 e era celebrada entre os dias 15 e 23 do sétimo mês, equivalendo
aproximadamente ao nosso mês de outubro. Era uma festa alegre, de ação
de graças, relembrando a orientação divina nos anos de peregrinação no
173
deserto e festa de colheita. Como era celebrada imediatamente após o dia
da expiação, o senso de alegria pela redenção era proeminente. Numa
escala diária decrescente era feito um sacrifício especial de setenta
novilhos. As trombetas eram tocadas todos os dias. Havia a cerimônia do
derramamento de água de Siloé em comemoração a Êxodo 17.1-7. O pátio
interior do Templo era iluminado e a luz de um grande candelabro
lembrava a coluna de fogo que, durante as noites no deserto, tinha servido
como guia do povo (Num.14,14). Havia uma procissão de tochas. Acima de
tudo, os israelitas armavam suas tendas feitas de galhos de árvores nas
praças e nos telhados das casas e acolhiam milhares de peregrinos que
chegavam de todas as regiões do país.
A razão pela qual João menciona essa festa é que ela servia de palco
para Jesus, quando proferiu suas palavras em que interferiu nos ritos da
água e no da luz, proclamando-se a Si mesmo a verdadeira luz e a fonte de
água viva (7,37 e 8,12). Veremos mais sobre isso daqui a pouco.
(3) Dirigiram-se, pois, a ele os seus irmãos e lhe disseram: Deixa
este lugar e vai para a Judeia, para que também os teus discípulos
vejam as obras que fazes. (4) Porque ninguém há quem procure ser
conhecido em público e, contudo, realize os seus feitos em oculto. Se
fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. (5) Pois nem seus irmãos
criam nele.
Sabemos de Mateus 12,46, Marcos 3,31 e Lucas 8,19.29, que Jesus
tinha irmãos e irmãs. Existe um relatório de Jerônimo (c.Pelag.III/2)
segundo o qual os irmãos de Jesus o admiravam. Eles o teriam incentivado
positivamente a revelar-se perante o povo, assumindo o trono da realeza
judaica por ocasião da festa. Esse relatório é bem posterior ao nosso
Evangelho e de pouca credibilidade.
Tudo indica que João quis deixar evidente a ironia e a descrença dos
irmãos de Jesus. Parecem não saber nada dos sinais que Jesus operou na
região, ou são descrentes e O desprezam. Por Sua própria família, Jesus
era tido como “fora de si” e, até após a ressurreição, nada mais ouvimos da
família dEle no nosso Evangelho. Sua mãe nunca aparece nos Evangelhos
participando em favor dEle, mas certamente observava, com angústia, o
comportamento estranho de seu filho. Ela não havia esquecido o que lhe
fora dito pelo Anjo, em Lucas 1,39-55 (perpetuado no “Magnificat” da
igreja), ou por Simão (Lucas 2,25-35), e que aparentemente ainda não fazia
sentido. Ela não compartilhava com ninguém, mas o Evangelista diz que
ela “guardou aquilo no coração”. Maria só aparecerá mais tarde debaixo da
cruz onde seu Filho agonizava.
(6) Disse-lhes, pois, Jesus: O meu tempo ainda não chegou, mas
o vosso sempre está presente.
O Evangelista, usando a mesma
tipificação de “tempo” (kairós) tanto para Jesus quanto para seus irmãos,
deixou muito claro o abismo que os separava. A “hora”, em que Seu
sacrifício mudaria o rumo do mundo, ainda não havia chegado. A hora
174
deles, no entanto, sempre estava presente. Para eles, como para nós, vale o
que o salmista diz no salmo 95,7.8: “Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não
endureçais o coração...” Enquanto é hoje, há oportunidade de procurar a
Deus e ouvir a exortação de 2.Coríntios 5,20 (confira!).
(7) Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu
dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más.
O Evangelho de João deve ser lido da frente para trás e, retornando
de trás ao início, novamente. O leitor “ideal” do Evangelho sabe que as
palavras do verso 7 são as palavras de despedida de seus discípulos (caps.
15 e16). “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me
odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como,
todavia não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o
mundo vos odeia” (15,18.19).
O irmãos (meio-irmãos biológicos) de Jesus, a essa altura do relato
do Evangelista, ainda não faziam parte daqueles que Jesus “escolheu do
mundo”. Ainda faziam parte dele e, portanto, não podiam ser odiados.
Tiago (meio-irmão de Jesus e posterior líder da Igreja em Jerusalém),
diz no capítulo 4,4 de sua Carta: “Aquele, pois, que quiser ser amigo do
mundo, constitui-se inimigo de Deus”. Temos que escolher a quem
pertencemos.
Uma pergunta: Será que os Apóstolos erraram? Por que a Igreja de
hoje procura ser amiga desse mundo, recebendo dele honras e dinheiro?
Quem dos dois está errado: Tiago e João ou esse nosso novo Evangelho da
prosperidade que proclama as proezas do mundo?
A sentença: “o mundo...as suas obras são más” é marca
característica do estilo joanino. Não menos que 19 vezes, nas mais
variadas formas, João menciona esse fato nos seus escritos (confira
também na “Primeira Carta” de João).
A igreja primitiva procurava, através de escritos apócrifos, santificar
também os irmãos de Jesus. Parecia-lhe inconveniente demais apresentar
à igreja um Senhor que, durante seu ministério, nem era reconhecido nem
pela sua própria família. Dois séculos após o Evangelho de João ter sido
escrito surgiram, entre outros, o “Evangelho dos Hebreus” e o “Evangelho
de Tomé”, nos quais o irmão mais velho de Jesus, Tiago, citado acima,
aparece como participante da última ceia. No Evangelho de Tomé, Jesus
até aponta a “Tiago, o Justo” como razão da criação da terra e dos céus.
Na realidade, Tiago juntou-se à igreja judaico-cristã somente após a
ressurreição de Jesus e foi martirizado em 62 pelos enfurecidos sacerdotes
do Templo.
Não permita que as “descobertas” periódicas de “novos” Evangelhos,
exploradas amplamente na mídia, perturbem você!! Esses produtos
175
apócrifos foram reconhecidos como falsos já no século quarto e, por isso,
não fazem parte do Cânon do nosso Novo Testamento.
(8) Subi vós outros à festa; eu, por enquanto, não subo, porque o
meu tempo ainda não está cumprido.
A palavras de João têm um duplo sentido (ambíguo). Jesus
incentivou seus irmãos a subirem a Jerusalém. Toda ida à Jerusalém era
“subir”, pois a capital se encontra a aprox. 700 metros acima da região da
Galileia (uma subida aproximada a da “Serra do mar” na região de Santos).
Quando Jesus se referiu à Sua pessoa, a palavra “subir” tinha um
segundo sentido, ainda oculto. Ainda não havia chegado o “Kairós” (kairós
= época) para subir ao Pai. Parafraseando os melhores intérpretes, Jesus
lhes dissera: “Não subo (para o Pai) durante esta festa”. Para Aquele que
João apresentou como “cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, a
festa alegre dos Tabernáculos não era “o tempo”. A imagem do “cordeiro”
está intimamente ligada à festa da Páscoa e, não, à dos Tabernáculos. Se a
morte de Jesus significava o cumprimento final da Páscoa, ritual ordenado
por Deus em Êxodo 12, ela deveria acontecer naquele momento.
(9) Disse-lhes Jesus estas coisas e continuou na Galileia. (10)
Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, então, subiu ele
também, não publicamente, mas em oculto.
Encontramos uma contradição maior ainda que a de João 2,4 e 7.
Dias após a partida de seus irmãos à Jerusalém, Jesus aparentemente
mudou de ideia. O que o Evangelista pretendeu com a estranha
contradição? Ela demonstra a “dependência”, por parte de Jesus, do Pai.
Quando o Pai lhe revelou que ainda havia espaço para testemunho, antes
de “subir”, Jesus partiu para Jerusalém também. A peregrinação do povo
festivo costumava levar semanas, mas Jesus evitou qualquer companhia e
seguiu por outros caminhos, anonimamente, como o Evangelista observa.
A saída da Galileia era definitiva; Jesus não voltaria mais. Sua saída da
Galileia significava o ponto de transição para o aparente fracasso. Essa
consciência pesava; Ele preferiu a solidão.
Somente no capítulo 21 ouviremos como ele, após Sua morte e
ressurreição, aparece aos seus à margem do “mar da Galileia”.
(11) Ora, os judeus o procuravam na festa e perguntavam: Onde
estará ele? O Evangelista revela um grande dom como escritor pelo tom
dramático contido em poucas sentenças. O termo usado no verso 11 para
indicar “os judeus” não permite a identificação do povo festivo. Quem
ansiosamente observava a multidão para identificar o Nazareno eram os
círculos farisaicos, preocupados com uma eventual intervenção de Jesus
nos rituais do Templo. Quem O procurava, eram as autoridades religiosas.
176
(12) E havia grande murmuração a seu respeito entre as
multidões. Uns diziam: Ele é bom. E outros: Não, antes, engana o
povo.
O Evangelista revela a razão da preocupação do clero. A atmosfera
de angústia e ansiedade entre a multidão dos peregrinos o preocupava.
Todos falavam com voz baixa “dele”, esperando “vê-lo”. Jesus era famoso e
conhecido o suficiente. O impessoal “Ele” já O identificava. Esse povo não
pensou em termos teológicos, como o faziam as autoridades nas
discussões com o Galileu (caps.6 e 8). A eles interessava o geral. Ou era
“bom” ou “ruim”!? As multidões de peregrinos “ignorantes”, vistas pelos
fariseus com desprezo (cap.7,49: “... esta plebe, que nada sabe da Lei, é
maldita”) era uma fonte permanente de preocupação para os fariseus e os
sacerdotes do Templo. Enquanto o Evangelista se referiu no verso anterior
à elite que temia o poder do povo, mas o via com desdém, vemos nesse
verso a indefinição “do mundo”, representada pela massa de peregrinos
com suas discussões às escondidas e sua murmuração, apostando às
escondidas na chegada “dEle” ou não.
(13) Entretanto, ninguém falava dele abertamente, por ter medo
dos judeus. A multidão havia tomado conhecimento do fato de que o alto
clero não via Jesus de bons olhos. Mas temendo o poder do clero, preferia
esperar para ver, sem se expor.
Cap. 7.14-24
(14) Corria já em meio a festa, e Jesus subiu ao templo e ensinava. (15) Então, os
judeus se maravilhavam e diziam: Como sabe este letras, sem ter estudado? (16)
Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou. (17)
Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de
Deus ou se eu falo de mim mesmo. (18) Quem fala por si mesmo está procurando a
sua própria glória; mas o que procura a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro, e
nele não há injustiça. (19) Não vos deu Moisés a lei? Contudo, ninguém dentro vós o
observa. Por que procurais matar-me? (20) Respondeu a multidão: Tens demônio.
Quem é que procura matar-te? (21) Replicou-lhes Jesus: Um só feito realizei, e todos
vos admirais. (22) Pelo motivo de que Moisés vos deu a circuncisão (se bem que ela
não vem dele, mas dos patriarcas), no sábado circuncidais um homem. (23) E, se o
homem pode ser circuncidado em dia de sábado, para que a lei de Moisés não seja
violada, por que vos indignais contra mim, pelo fato de eu ter curado, num sábado,
ao todo, um homem? (24) Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça.
Aqui vamos interromper a leitura por alguns momentos. O
Evangelho de João deixa muitas perguntas “técnicas” em aberto. São
perguntas típicas para o ocidente com seu pensamento racional. João não
escreveu a biografia de Jesus. Não o interessava muito a ordem dos
acontecimentos; nem mais era possível determinar com exatidão o
desenrolar da história. O que o interessava era nada perder do que ele
sabia; ser um fiel administrador daquilo que Deus lhe tinha dado para
testemunhar.
177
Desde os primeiros séculos da igreja há especulações quanto à
ordem dos capítulos 5,6 e 7. A fala de Jesus, no presente momento,
encaixa-se muito bem como continuação de 5,47, onde Jesus também
discutiu com os religiosos. Assim, há vários comentaristas que defendem
uma troca acidental de capítulos ou trechos durante a composição final da
obra, o que não iremos considerar no nosso estudo. Ficaremos com a
ordem que os manuscritos nos deram desde o início, sem com isso fazer
um julgamento histórico. O conteúdo nos interessa muito mais do que
uma certeza da sequência histórica. Essa nunca nos revelará o “Logos de
Deus”. Mencionamos essa questão somente para que você não se assuste
caso encontre defensores da teoria de uma “intervenção tardia da igreja
primitiva”, nos textos. Não é a ordem cronológica dos acontecimentos que
nos salva.
(14) Corria já em meio a festa, e Jesus subiu ao templo e
ensinava.
No meio da festa que durava sete dias, mais um dia final especial,
Jesus apareceu repentinamente no Templo. Não ouvimos nada de seus
discípulos. No pátio interno havia espaço e ali Jesus começou a ensinar
publicamente e com toda ousadia. Cada israelita tinha o direito de tomar a
palavra no meio da Assembleia. Jesus não somente fez uso de seu direito
como judeu. Ele ensinava. Ensinar significa expor a Lei de Deus com
autoridade.
(15) Então, os judeus se maravilhavam e diziam: Como sabe este
letras, sem ter estudado? Não foram alguns conhecimentos elementares
que Jesus expôs à multidão; foram conhecimentos específicos, como os
que os escribas e fariseus discutiam e transmitiam nas suas escolas.
Todos sabiam que Jesus nunca seguiu a um Rabi reconhecido ou
frequentou uma escola rabínica. E mesmo assim Ele agia como um Rabi!?
O verbo traduzido por “maravilhar” não indica que ficaram
entusiasmados. A resposta de Jesus, no próximo verso, demonstra que
ficaram meio desconfiados.
(16) Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu, e sim
daquele que me enviou. A tradição judaica vê como obrigação de um Rabi
passar adiante o conhecimento dele sem acrescentar ideias próprias. O que
lhe dá autoridade é a escola que ele representa. Quem se apresenta sem
ter “cursado” com os fariseus é suspeito de apresentar ideias próprias.
Jesus recusou a acusação que o Evangelista no seu texto não transmitiu,
mas presumiu. O ensino de Jesus realmente não era uma repetição do
ensino farisaico; nem por isso era invenção própria. Como Jesus disse: Ele
ouve sempre a voz de Deus que O enviou (confira também 8,26s/38s/
2,49s/14,10.24). Jesus podia apontar para as Escrituras pela autoridade
de quem foi enviado por Deus. Moisés já lhes havia declarado em
Num.16,28 como reconhecer a quem fala da parte de Deus.
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Filon de Alexandria (25.a.C. – 50 d.C.), baseando-se em Deut. 18,15
havia previsto que: o profeta enviado por Deus, quando repentinamente
aparecesse, nada dele mesmo diria, pois o profeta é portador da fala de
Deus, que está livre para usar os órgãos do profeta para proclamação se
Sua vontade (spec.leg.1,65). A resposta de Jesus era sólida e convincente.
(17) Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito
da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo. (18) Quem
fala por si mesmo está procurando a sua própria glória; mas o que
procura a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro, e nele não há
injustiça.
O caráter do conhecimento necessário para poder julgar as palavras
de Jesus não é teórico, mas essencialmente prático. Somente quem se
entregar com alma e corpo nas mãos de Deus, disposto a fazer a vontade
dEle, saberá discernir as palavras de Jesus. Será necessária uma decisão
moral, ética, a favor da vontade de Deus ou, em outra palavra: obediência.
Cada judeu conhecia essa premissa da Lei mosaica, como logo adiante
Jesus lembrará. Não o “saber”, mas, sim, somente a execução da vontade
de Deus abrirá os olhos. O fato de não procurar sua própria honra
testemunhou a favor de Jesus; pois como Ele já disse em outro lugar:
quem fala de si mesmo, procura ser ele mesmo reconhecido e honrado.
(19) Não vos deu Moisés a lei? Contudo, ninguém dentro vós o
observa. O Deus de Israel lhes havia dado a Lei através de seu servo
Moisés par ser observada. Nem o mais básico eles, os religiosos,
observavam. Faltava-lhes a disposição para reconhecer o que vinha da
parte de Deus; procuravam sua própria honra... e por que procurais
matar-me? Não é que Jesus chorava misérias. Ele acusou, apontando
de um lado para a Lei e simultaneamente para o interesse deles em livrarse de Jesus. A grande maioria dos peregrinos imediatamente contestou
Jesus: (20) Respondeu a multidão: Tens demônio. Quem é que procura
matar-te? A multidão nada sabia de planos sinistros do clero. Esse Jesus
lhes parecia louco. Foram imediatamente corrigidos por Jesus. (21)
Replicou-lhes Jesus: Um só feito realizei, e todos vos admirais. Uma
única cura Jesus realizou num dia de sábado – cuja interpretação ainda
era assunto de discussões sem fim – e esse ato foi suficiente para optar
pela sua eliminação. Novamente encontramos o “admirar” no sentido de
“escandalizar”. Vocês ficam escandalizados com uma única cura realizada
no dia de sábado, uma ação que Moisés autorizou na sua Lei?
(22) Pelo motivo de que Moisés vos deu a circuncisão (se bem
que ela não vem dele, mas dos patriarcas), no sábado circuncidais um
homem.
Jesus se revela profundo conhecedor da Lei, superando em muito
seus acusadores. A Torá determina em Levítico 12,3 a necessidade da
circuncisão dos meninos no oitavo dia, sinal da aliança com Deus (a
circuncisão consiste no corte do prepúcio do pênis nos meninos). Se esse
oitavo dia cai num sábado, ele suplanta (prevalece) sobre sábado e a Lei é
179
cumprida. “A circuncisão após esse dia levará à eliminação do povo”, assim
disse o Rabi Eliezer e concluiu: “Não podemos concluir partindo do mais
leve para o mais pesado? Se por um só membro o sábado é suplantado (não
considerado), não será também quando se trata da pessoa toda? Rabi
Eleazar b.Azarja (100 d.C.) determinou assim: “Se a circuncisão, que trata
de um só dos 448 membros do corpo humano, suplante o sábado, quanto
mais o sábado é suplantado quando uma pessoa inteira está em perigo de
vida”.
(23) E, se o homem pode ser circuncidado em dia de sábado,
para que a lei de Moisés não seja violada, por que vos indignais contra
mim, pelo fato de eu ter curado, num sábado, ao todo, um homem?
A acusação contra Jesus de quebrar o sábado, fazendo-se
mesmo Deus, carecia de qualquer fundamento. Como a Torá era a base da
discussão tanto para os fariseus quanto para Jesus, toda a discussão se
reduziu à interpretação da Lei e Jesus provou como as acusações contra
Ele careciam de fundamento; mais ainda: era procedimento dentro dos
limites colocados pelos próprios fariseus .
(24) Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça. A
própria lei dos fariseus aprovou aquela cura no tanque de Betesda. Como
agora queriam usá-la contra Jesus? Faltava-lhes reta intenção e assim
foram duramente censurados por Jesus.
A intensa discussão no meio do átrio começou a chamar a atenção
dos responsáveis pela ordem. Veremos na próxima leitura como os fariseus
tentavam silenciar a voz que, abertamente, os acusava em dia de festa.
Cap. 7.25-36
(25) Diziam alguns de Jerusalém: Não é este aquele a quem procuram matar? (26)
Eis que ele fala abertamente, e nada lhe dizem. Porventura, reconhecem
verdadeiramente as autoridades que este é, de fato, o Cristo? (27) Nós, todavia,
sabemos donde este é; quando, porém, vier o Cristo, ninguém saberá donde ele é.
(28) Jesus, pois, enquanto ensinava no Templo, clamou, dizendo: Vós não somente
me conheceis, mas também donde eu sou; e não vim porque eu, de mim mesmo, o
quisesse, mas aquele que me enviou é verdadeiro, aquele a quem vós não conheceis.
(29) Eu o conheço, porque venho da parte dele e fui por ele enviado. (30) Então,
procuravam prendê-lo; mas ninguém lhe pôs a mão, porque ainda não era chegada a
sua hora. (31) E, contudo, muitos de entre a multidão creram nele e diziam: Quando
vier o Cristo, fará, porventura, maiores sinais do que este homem tem feito? (32) Os
fariseus, ouvindo a multidão murmurar estas coisas a respeito dele, juntamente com
os principais sacerdotes enviaram guardas para o prenderem. (33) Disse-lhes Jesus:
Ainda por um pouco de tempo estou convosco e depois irei para junto daquele que
me enviou. (34) Haveis de procurar-me e não me achareis; também aonde eu estou,
vós não podeis ir. (35) Disseram, pois, os judeus uns aos outros: Para onde irá este
que não o possamos achar? Irá, porventura, para a Dispersão entre os gregos, com o
fim de os ensinar? (36) Que significa, de fato, o que ele diz: Haveis de procurar-me e
não me achareis; também aonde eu estou, vós não podeis ir?
180
(25) Diziam alguns de Jerusalém: Não é este aquele a quem
procuram matar? (26) Eis que ele fala abertamente, e nada lhe dizem.
Os peregrinos da capital que estavam presentes por causa da
festa e, como parece, sabendo que Jesus não fora bem visto ensinando no
átrio do Templo, não entendiam mais nada. Surpresos em vê-lo falar
livremente à presente multidão, sem que as autoridades da Casa de Deus
(a saber, a “Polícia do Templo”), interviessem, não arriscavam formar sua
própria opinião. Para eles importava saber o que “eles” lá em cima (os
fariseus e os sacerdotes do Templo) que não intervinham, pensavam a
respeito. Entre os de Jerusalém havia “os mais informados” (como sempre)
que ouviram boatos a respeito de um plano para a eliminação de Jesus.
De novo não falavam “com” Jesus, mas “sobre ele”, da mesma
forma como se referiam aos “lá de cima” através de uma referência
impessoal. Esse “eles” (ao invés de “as nossos autoridades”), demonstra
bem o abismo que separava o alto clero do povo (semelhante aos dias de
hoje).
Porventura, reconhecem verdadeiramente as autoridades
que este é, de fato, o Cristo? A pergunta não era necessariamente
irônica. Será que “eles” haviam mudado de opinião e dado a “ele”
permissão para ensinar publicamente durante as celebrações da festa? As
circunstâncias apontavam nessa direção. Pois, caso “eles” agora O
reconhecessem, seria também mais fácil para eles, os peregrinos,
manifestar abertamente sua concordância, ou a sua fé no que “ele” estava
dizendo. Imediatamente, alguns dos mais instruídos dentre a multidão
tomaram a palavra, contestando a possibilidade dele ser o Cristo.
(27) Nós, todavia, sabemos donde este é; quando, porém,
vier o Cristo, ninguém saberá donde ele é.
A crença messiânica popular vigente no judaismo da época
tinha como certo que ninguém saberia de onde o Messias viria. A crença
apocalíptica judaica (4.Esdras 7,8;13,22) tinha como certo que o Messias
ficaria escondido em algum lugar antes de seu aparecimento. Segundo
Justino, Mártir (decapitado em 165 d.C.), o rei Tryphon, um judeu
helenizado, já havia especulado, 140 anos antes de Jesus nascer, que o
verdadeiro Messias provavelmente já nascera e, desconhecido, estaria
pronto para sua missão em algum lugar oculto (semelhantemente a hoje
em dia, em que alguns dizem que o Anticristo já nascera e estaria
escondido em “algum lugar”).
Se o Cristo realmente surgir do anonimato, “este aqui” muito
claramente não podia ser o Messias prometido, pois todos em Jerusalém
sabiam de onde “ele” veio; era filho de José de Nazaré, um vilarejo
insignificante na Galileia.
181
A ideia do Messias oculto não se espelhava na real doutrina
farisaica quanto à pessoa do Cristo. Por Gênesis 49,10 sabia-se que Ele
viria da tribo de Judá; mais tarde foi revelada sua descendência da
linhagem de Davi (Sal.Salom.17,21) e o profeta Miquéias apontou Belém
como lugar do seu nascimento (Miquéias 5,1). Assim, a tal “religiosidade
popular”, até aos dias de hoje, nem sempre corresponde com as Escrituras
e as autoridades nada fazem, pois para eles não importa muito o que “esta
plebe, que nada sabe” (7,49) pensa.
Jesus respondeu à alegação de que não podia ser o Messias
esperado por causa de sua ascendência conhecida:
(28) Jesus, pois, enquanto ensinava no Templo, clamou,
dizendo: Vós não somente me conheceis, mas também donde eu sou;
e não vim porque eu, de mim mesmo, o quisesse, mas aquele que me
enviou é verdadeiro, aquele à quem vós não conheceis.
O nosso Evangelista usou o mesmo verbo, como em 1,15, onde
o Batista dava testemunho de Jesus “clamando”. Era uma proclamação! A
resposta de Jesus revelou a profunda ironia. Sim, eles sabiam de onde Ele
veio: de Nazaré. Seus pais lhes eram conhecidos. Mas, na realidade, nada
sabiam. Assim, até a argumentação da origem desconhecida do Messias se
cumpria nele. Sua origem lhes era desconhecida; eles nem conheciam
Aquele pelo qual Ele foi enviado. “O Verdadeiro” (Deus) lhes era estranho.
O Evangelista deixou isso bem claro: A ignorância dos que com Ele
discutiam na festa era consequência natural da falta de conhecimento do
Deus Verdadeiro pelo qual Jesus fora enviado. Somente se conhecessem a
este Deus verdadeiro que O enviou saberiam quem era Jesus. Até a
teologia popular, com a qual alguns haviam argumentado contra ele,
estava se cumprindo. João Batista, quando interrogado pelas autoridades
enviadas a ele (1,26.31.33), apontava “o desconhecido no meio de vocês”
como “o cordeiro de Deus” – enviado por Deus.
Imaginem vocês o impacto causado por estas palavras! No
Templo, no Santo lugar onde, como criam, Deus estava presente, Jesus
lhes declarou que nada dele sabiam.
(29) Eu o conheço, porque venho da parte dele e fui por ele
enviado. Aumentando mais a indignação entre seus ouvintes, Jesus lhes
afirmou que, ao contrário deles, Ele conhecia esse Seu Deus. Por este Seu
Deus Ele foi enviado. Esse “conhecer” de Jesus tem sua origem na préexistência dele com o Pai (confira 1,1e 2). Os originais do texto variam entre
“par autou”, que significa “da parte dele” e “par auto”, o que seria “com
ele”. Não importa como lemos o texto, Jesus afirmou ter um
relacionamento único e singular com o Deus adorado no Templo. Da parte
desse Deus que diziam conhecer, Jesus veio, e nele afirmou estar em cada
momento de Sua vida.
Como um mortal podia afirmar ser “da parte de Deus” e
simultaneamente “estar com Ele” durante seus dias nessa terra? Ao judeu,
palavras como essas só podiam soar como usurpação, presunção, e causar
182
um “ódio santo”. Convenhamos: A única alternativa seria uma entrega
incondicional, confessando: “meu Senhor, meu Deus” (João 20,18).
Não somente naquele momento histórico Jesus forçou um
posicionamento daqueles que O ouviam. O Apóstolo Paulo, antigo fariseu,
sabia que ele, você e eu só podemos ou dizer “Kyrios Jesus” (SENHORDEUS Jesus) ou então “Anátema Jesus” (maldito Jesus!). Confira em 1
Coríntios 12. Não há meio-termo.
(30) Então, procuravam prendê-lo; mas ninguém lhe pôs a
mão, porque ainda não era chegada a sua hora.
Os representantes do alto clero entenderam muito bem a
reivindicação de Jesus. Para eles, só havia um caminho: deter esse homem
antes que Ele causasse mais dano.
Jesus não procurou o entendimento, Ele não tentou convencer
os seus oponentes aos poucos. Muito pelo contrário, vinha forçando uma
decisão, uma crise, sabendo como esta necessariamente terminaria. O fato
da não intervenção da Polícia do Templo naquele momento crítico foi visto
pelo Evangelista como prova de que “a Sua hora” (a de Jesus) ainda não
tinha chegado. Podemos imaginar que a popularidade de Jesus, no
presente momento, impedia a intervenção das autoridades. Estas não
estavam interessadas em criar uma cisão no povo, o que seria um
resultado inevitável de uma prisão de Jesus durante a festa. A opinião
pública estava a Seu favor!
(31) E, contudo, muitos de entre a multidão creram nele e
diziam: Quando vier o Cristo, fará, porventura, maiores sinais do que
este homem tem feito?
Há um lapso de tempo (talvez um dia ou dois) que separa o
verso 31 do anterior.
Enquanto os de Jerusalém se opunham Àquele que, na visão
farisaica, era um galileu presunçoso e estranho, um número cada vez
maior dentre os peregrinos festivos revelou sua confiança na pessoa desse
Jesus, questionando seriamente se não seria Ele mesmo o “Ungido de
Deus” que tanto aguardavam.
Por várias vezes, o Evangelista já havia mencionado que “muitos
creram nele”. Os próprios “sinais”, maneira como o Apóstolo denominou os
milagres, foram vistos por ele próprio como evidências do senhorio de
Jesus. João não menosprezou a “fé” resultante de sinais. Propositalmente
havia citado no seu Evangelho alguns deles e encerrou sua obra com a
seguinte declaração: “ ...muitos outros sinais, que não estão relatados nesse
livro; esses, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo...”
(20,30.31). O primeiro estágio da fé é o posicionamento positivo perante à
mensagem de Jesus.
183
Voltemos à situação no Templo. Os peregrinos estavam em
desacordo entre si. Segundo a crença popular, o Messias faria inúmeros
milagres. Alguém, por acaso, poderia operar mais milagres do que “este”?
A ideia da legitimação do Messias por muitos milagres, no
entanto, não era correta conforme a doutrina oficial dos fariseus. Estes
exigiam do Messias uma prova de sua legitimação e não aquilo que lhes
fora dado em Jesus: o testemunho da presença de Deus.
A crescente adesão dos peregrinos à ideia de que “este” Jesus
pudesse ser “o Cristo” deixou as autoridades cada vez mais preocupadas.
Os peregrinos levariam essas ideias perigosas para seu povoado... e
então?! Na sua opinião, o povo não tinha a capacidade necessária de
discernimento (confira Mateus 12,23).
(32) Os fariseus, ouvindo a multidão murmurar estas coisas
a respeito dele, juntamente com os principais sacerdotes enviaram
guardas para o prenderem.
O texto do original diz que os fariseus tomavam conhecimento
do fato de “o povo falava a respeito dele reservadamente”, isto é, a
popularidade de Jesus crescia “às escondidas”. Os fariseus, para poder
acionar a Polícia do Templo (que era a única tropa sob liderança judaica e
cuja ação fora restrita à área do Santuário), precisavam entrar em
concordância com a casta dos saduceus e os sacerdotes do Templo.
Enquanto os fariseus eram, em geral, bem vistos pelo povo, pois eram
pobres; verdadeiros judeus que, inclusive, se opunham à opressão política
e militar dos romanos, os saduceus fizeram alianças políticas com os
dominadores e eram ricos, portanto desprezados pelo povo. Embora em
número menor que os fariseus, mantinham junto com os principais
sacerdotes o poder político nas suas mãos, representado pelo sumoSacerdote.
O texto nos diz que os fariseus, preocupados com a crescente
popularidade do galileu e temendo pela perda de sua influência no povo,
procuravam o entendimento com o “alto clero” (saduceus e sacerdotes). O
Evangelista menciona a convocação das autoridades e uma ordem de
detenção, mas deixa no seu relato um lapso de tempo suficientemente
grande para o relato dos acontecimentos no último dia da festa. Somente
depois a tropa do Templo aparecerá, cumprindo a ordem para prender
Jesus.
De algum modo Jesus havia tomado conhecimento do esforço
dos fariseus em favor de uma ação da Polícia do Templo e programada
para depois da festa, possivelmente, como já dissemos, para evitar tumulto
entre os peregrinos que lotaram o Templo na última e mais excitante
celebração festiva.
(33) Disse-lhes Jesus: Ainda por um pouco de tempo estou
convosco e depois irei para junto daquele que me enviou. (34) Haveis
184
de procurar-me e não me achareis; também onde eu estou, vós não
podeis ir.
Ainda por um pouco de tempo... A advertência a respeito do
“pouco de tempo” será o tema que dominará a partir de agora todos os
assim chamados “discursos de despedida” de Jesus (confira 12,35/ 13,33
/ 14,19 / 16,16s).
Sempre de novo o Evangelista procura salientar a revelação
única, histórica de Deus. Essa “única” revelação consiste no envio
escatológico do Filho. Há um “tarde demais!” Existe, sim, a possibilidade
de chegar tarde demais! Haverá os que O procurarão e não mais
encontrarão. Seu retorno será o julgamento do mundo.
Mesmo se aplicarmos esse “tarde demais” somente à presença
física da pessoa de Jesus Nazareno, o retorno da pessoa do Espírito Santo
será juízo, pois Ele “convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo...”
(João 16,8).
Pela primeira vez no seu Evangelho, Jesus falou abertamente de
Seu retorno ao que O enviou, ao Pai. O tempo urgia! Percebemos o peso
dessa afirmação pouco adiante, quando Jesus, em 12,35, exorta: “Ainda
por um pouco a Luz está convosco. Andai enquanto tendes a luz, para que
as trevas não vos apanhem...”. O clamor de Jesus lembra às palavras de
Isaías: “Buscai o Senhor enquanto se pode achar!” (Is.55,6). O que mais
pesou na palavra de Jesus era o: “... aonde estou, vós não podeis ir”. Jesus
usou a forma gramatical do presente. Ele sempre está com o Pai e, quando
não mais estiver entre eles em forma humana, não haverá mais como
seguí-lO. Não poderemos entrar na Glória do Pai como humanos.
(35) Disseram, pois, os judeus uns aos outros: Para onde irá
este, que não o possamos achar? Irá, porventura, para a Dispersão
entre os gregos, com o fim de os ensinar?
É fácil perceber como Jesus fora mal-interpretado. Ironizando,
eles “uns aos outros”, isto é, entre si, gozavam das palavras de Jesus. Por
acaso, “este” vai à diáspora (aos judeus no exterior)? O problema dos
ouvintes estava no fato deles terem reduzido a advertência de Jesus ao
próprio horizonte limitado, não atentando ao “... junto daquele que me
enviou”.
Através de uma carta escrita por Gamaliel I, em grego, sabemos
que os judeus aqui não se referiam, como à primeira vista pudéssemos
pensar, a compatriotas no exterior, mas, sim, aos “pagãos gregos”
(Schlatter, Gen.R 76,3). Todo o desprezo que, repentinamente
manifestaram, está contido na argumentação: “Ele está desesperado! Como
nós o desmascaramos; ele poderá tentar ver se os pagãos caem na cilada
da sua pregação!? Que ensine a estes!”
(36) Que significa, de fato, o que ele diz: Haveis de procurar-me
e não me achareis; também onde eu estou, vós não podeis ir?
185
As palavras de Jesus, no entanto, continuavam martelando a mente
dos ouvintes. O que Ele queria, mesmo, dizer? Para o Evangelista, o verso
35 já soou como profecia cumprida. Na época em que ele escreveu seu
Evangelho, a igreja entre os gregos já tomara forma. Jesus tinha chegado a
eles também.
Cap. 7.37-39
(37) No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se
alguém tem sede, venha a mim e beba. (38) Quem crer em mim, como diz a
Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. (39) Isto ele disse com respeito
ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele
momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.
Qual era o “último, o grande dia?” Não temos como chegar a uma
resposta conclusiva sobre se era o sétimo ou o oitavo dia da festa.
Mencionamos brevemente qual era o ritual nesses dias e veremos em que o
oitavo dia era distinto dos anteriores.
Os sete dias da Festa dos Tabernáculos eram caracterizados, entre
outras coisas, pela habitação em tendas, pela entrega de ofertas numa
escala decrescente - no primeiro dia, além dos outros sacrifícios, treze
novilhos; no segundo dia, doze novilhos; no terceiro dia, onze novilhos, etc
(Números 29,12-34) e pela retirada de água do poço de Siloé. Nos
primeiros seis dias, um sacerdote enchia uma jarra de ouro com água
desse poço. Ele retornava ao Templo acompanhado por uma procissão
solene; e, em meio ao som de trombetas e gritos de alegria da multidão,
derramava a água, junto com o conteúdo de uma taça com vinho, através
de um funil, que a conduzia até ao altar dos sacrifícios. O povo estava
jubiloso, pois a cerimônia os fazia lembrar as bênçãos que haviam sido
concedidas a seus pais no deserto quando a água brotou da rocha, como
também apontava para o futuro, para as bênçãos da era messiânica:
“Vocês, com alegria, tirarão água das fontes da salvação” (Isaías 12,3).
Um detalhe interessante nos mostra a rigidez com que era guardada
a tradição. O sacerdote levava na mão direita um ramo de murta, um
galho de carvalho e um ramo de palmeira; na esquerda, uma cidra ou
outra fruta semelhante. Os ramos de árvores cítricas, ou os frutos cítricos
que o sacerdote carregava na mão esquerda estavam ali, prontos para
serem usados como corretivo, quando um sacerdote tentasse aperfeiçoar,
por conta própria, o ritual estabelecido da festa (como um tal sacerdote de
nome Alexandre Janneus, 104-78 a.C., descobriu, para sua consternação,
quando estava sendo golpeado por eles).
No sétimo dia, havia sete procissões ao redor do altar, enquanto que
nos dias anteriores, havia apenas uma. Nessas procissões, os sacerdotes
cantavam: “Salva-nos, ó Senhor, nós te pedimos: ó, Senhor, concede-nos
prosperidade” (Salmo 118,25). Era o dia do grande “hosana”.
186
Era o último dia em que o sacerdote tirava água do poço de Siloé e
também o último dia em que as pessoas moravam em tendas (uma
lembrança das estadias no deserto). Disseram em Israel:” Quem nunca viu
a alegria do apanhamento da água não viu alegria nenhuma”(cit.Thyen).
O oitava dia era o dia de descanso e de “assembleia solene” ou
“santa convocação”. 2 Macabeus 10,6 lembra que a festa durava oito dias,
e o historiador Flávio Josefo (Antiquities of the Jews III,x,4), também.
Como as citações na Lei de Deus falam de sete dias de festa, acrescentado
o oitava dia solene (Lev.23,36) preferimos entender o sétimo dia da festa
como “o grande” que o Apóstolo menciona.
Há aproximadamente 550 anos antes de Jesus, o profeta Ageu
trouxe “no sétimo mês, ao vigésimo primeiro dia do mês”, uma mensagem
de conforto aos judeus, entristecidos com as condições precárias em que o
pequeno segundo Templo ainda se encontrava (Ag.2,6-9). Essa palavra de
ânimo do profeta deve ter sido proclamada não muito distante do mesmo
lugar onde Jesus, agora, mais de cinco séculos depois, se encontrava (“no
sétimo mês, no vigésimo primeiro dia”), também e clamou, convidando os
sedentos a irem a Ele para beber.
(37) No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e
exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba.
Imaginemos ver Jesus sentado, observando a cerimônia final com o
derramamento da água. As águas da salvação ... derramadas no altar... A
palavra de Isaías estava presente na Sua mente: “Vocês, com alegria,
tirarão água das fontes da salvação...” (Isaías 12,3).
Assim, no momento mais solene da procissão, Jesus se levantou e
“exclamou” em alta voz! Sua voz ecoou enquanto o sacerdote derramava a
água do poço sobre o altar. A atenção dos peregrinos foi desviada da
cerimônia e atraída para o Galileu! Escândalo!
Lembramos o que Jesus dissera à mulher samaritana (cap. 4,14):
“... aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede;
pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a
vida eterna”. Agora, por ocasião do derramamento da água pelo sacerdote,
Ele clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”. Você percebe a
provocação contida nessa afirmação contra todo o cerimonial no Templo?
Note também o condicional “se”. Cada um pode ser “esse alguém”
com sede. Não há precondições no convite de Jesus. Outrossim,
percebemos o porquê nem todos virão. “Somente quem tiver sede” irá a ele.
– Por acaso, alguém, querido seu, não quer ouvir de Jesus? Ore por sede e
fome. Deus tem meios para criar nessa pessoa a sede. Somente que tem
fome é que come, e, semelhantemente, somente quem tiver sede, beberá.
187
(38) Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior
fluirão rios de água viva (tradução comum).
Uma das mais recentes publicações teológicas sobre o Evangelho de
João dispende nada menos do que cinco páginas (em letras minúsculas)
na questão do entendimento do verso 38. A pergunta é a seguinte: O termo
“do seu interior” se refere a Jesus ou, ao que nele crer?
Desde os primeiros anos do cristianismo, até aos dias de hoje, há
opiniões diferentes. Orígenes (185-253 d.C.), optou por ”Jesus” e Cypriano
(? - 258.d.C.) optou por “ao que crê”. Os Pais da Igreja já pensavam
diferente a respeito. Jesus acabou referindo-se às Escrituras. Só que não
encontramos nelas nenhuma sentença neste sentido.
Como nos textos originais não havia pontuação, e existem três
versões diferentes que fazem jus ao texto. Duas delas fazem sentido. Qual
será a “certa”? A nossa tradução convencional “... “do seu interior”,
pensando no crente, vem de Lutero. Jesus proferiu essas palavras em
aramaico, seu idioma, e o que temos como texto original é somente a
tradução para o grego. Da forma que a exclamação de Jesus consta nas
nossas Bíblias, e como está comumente usada nas pregações e promessas,
é do crente que fluirão rios de água viva; uma compreensão totalmente
oposta ao que, até agora, entendemos. Como um crente poderia assumir o
que somente é concedido ao Filho? Esse aparente erro na tradução (vindo
de um copista, talvez) não resiste quando o comparamos com as demais
palavras de Jesus. Para encurtar a discussão, traremos somente a versão
que hoje é compartilhada pela maioria dos eruditos e que condiz com as
demais afirmações de Jesus.
O verso 37 deve fazer parte do verso anterior e, na tradução
excessivamente literal do aramaico para o grego, ele deve ter sofrido uma
inversão de seu sentido. Se compreendemos pelo verso 37 (como em 19,34)
que Jesus, o Messias, traz a água da vida, fica evidente que é do interior
de Jesus que fluirão rios de água viva para quem vier a ele. O
Apóstolo Paulo entendeu a palavra também assim. Ele identificou a pedra
que seguia a Israel no deserto, jorrando água, com Cristo: “... e a pedra era
Cristo” (1.Cor 10,4). Nas catacumbas romanas, a rocha da qual jorrava
água é o símbolo que mais aparece (Braun,Komm.I,150). Os Rabis
judaicos viam na profecia de Zacarias, quando se referia à fonte aberta
para remoção de pecado e aos dois rios de água viva nascendo em
Jerusalém a representação da rocha no deserto; portanto, a imagem da
rocha que jorra água era intimamente ligada com a Festa dos
Tabernáculos. Eles interpretavam a Festa com seus apanhamentos de
água como representação da visão escatológica do derramamento do
Espírito de Deus e o início da época messiânica (veja Zacarias 13,1 e 14,8).
O que o Apóstolo nos quer dizer com as palavras transmitidas de
Jesus? Em termos teológicos, entendemos que Jesus Nazareno, o Filho de
188
Deus, como figura histórica (e não Jesus como hoje O conhecemos, como o
Glorificado, como Deus), pôs fim ao simbolismo do culto judaico porque com
suas palavras a profecia da vinda da era messiânica se cumpriu ( Zac.
14,8).
(39) Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de
receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não
fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.
O Evangelista falou partindo de sua perspectiva pós-pascal do crente
e na certeza da presença do “Glorificado”. A “glorificação” de Jesus e Sua
ressurreição e o cumprimento da profecia da vinda do Espírito de Deus no
fim dos tempos haviam se realizado na Sua glorificação a ser consumada
(Ez.39,29, Joel 2,28); elas aconteceram “no tempo” e são acontecimentos
históricos.
Permita-me uma observação necessária para nós, que lemos o
Evangelho composto pela mão de João. Quando ele mencionou a
proclamação de Jesus quanto aos rios de água viva fluindo, ele e seus
leitores já pertenciam ao tempo pós-Páscoa. As águas fluindo do Jesus
glorificado já eram realidade; as Escrituras se haviam cumprido. Quando
Jesus Nazareno as proclamou no Templo (e como o Espírito “até aquele
tempo o Espírito ainda não fora dado”), as palavras ainda anunciavam a
realidade futura, quando Ele for “glorificado”.
Veremos mais tarde, a partir do capítulo 13, como João começa cada
vez mais nitidamente a ver a realidade da igreja, Cristo e Deus e Espírito
não mais reduzida à categoria “tempo”. O que seguirá para a igreja não
mais será preso a acontecimentos, ao tempo, à dimensão na qual todos
nós, como humanos, ainda vivemos.
O Evangelista escreveu para sua igreja, melhor, para todas as
igrejas. Seus leitores já sabiam da morte e da ressurreição do Senhor e
ainda da descida do Espírito Santo no Pentecoste. Com o verso acima, o
Evangelista procurou fazer a ponte entre a situação descrita (portanto
histórica) da nossa leitura, versos 37 até 39, e da realidade espiritual,
atemporal, na qual a igreja de todos os tempos vive.
189
Cap. 7.40-52
(40) Então, os que dentre o povo tinham ouvido estas palavras diziam: Este é
verdadeiramente o profeta; (41) outros diziam: Ele é o Cristo; outros porém,
perguntavam: Porventura, o Cristo virá da Galileia? (42) Não diz a Escritura que o
Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi? (43)
Assim, houve uma dissensão entre o povo por causa dele; (44) alguns dentro eles
queriam prendê-lo, mas ninguém lhe pôs as mãos. (45) Voltaram, pois, os guardas à
presença dos principais sacerdotes e fariseus e estes lhe perguntaram: Por que não o
trouxestes? (46) Responderam eles: Jamais alguém falou como este homem. (47)
Replicaram-lhes, pois, os fariseus: Será que também vós fostes enganados? (48)
Porventura, creu nele alguém dentre as autoridades ou algum dos fariseus? (49)
Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é maldita. (50) Nicodemos, um deles, que
antes fora ter com Jesus, perguntou-lhes: (51) Acaso, a nossa lei julga um homem,
sem primeiro ouví-lo e saber o que ele fez? (52) Responderam eles: Dar-se-á o caso
de que também tu és da Galileia? Examina e verás que da Galileia não se levanta
profeta.
(40) Então, os que dentre o povo tinham ouvido estas palavras
diziam: Este é verdadeiramente o profeta; ...
Em Êxodo 16, Deus, através de seu servo Moisés, revelou seu poder
através do milagre do Maná (pão) e, no capítulo seguinte (Ex.17), os
sedentos beberam da água que jorrava da pedra. A sequência desses dois
milagres constituía o clímax da tradição bíblica-judaica (confere Salmo
105,40.41).
Em Deut. 18,15.18, Moisés havia prometido ao povo um “outro
profeta, semelhante a ele, a quem deveriam ouvir, caso não queiram
morrer”. Alguns de entre o povo que ouviram a Jesus clamar, refletindo,
mostraram-se convencidos de que “este” realmente era “O profeta”
anunciado por Moisés.
Na interrogação do Batista pela delegação enviada de Jerusalém
(1,19s), a figura desse profeta era distinta da do Cristo. No “profeta” não se
tratava do Messias (em grego: o Cristo), libertador intensamente esperado.
Existia extensa literatura sobre essas duas figuras na crença judaica.
(41) ... outros diziam: Ele é o Cristo; Quando falava de Jesus, o
nosso Evangelista nunca se referiu à figura prometida do profeta. Quando o
povo, após a “multiplicação do pão” queria ver em Jesus “o profeta
prometido” e procurou proclamá-lo rei (6,14), Jesus teve que retirar-se às
pressas. Ele não permitiu ser instrumentalizado pelo povo. O nosso
Evangelista sempre fez clara distinção entre “o profeta como Moisés” e “o
Messias, da descendência de Davi” (1,21s/6,14s/7,40-44). Nunca
ouvimos, no seu Evangelho, qualquer referência dos discípulos ou de
outras pessoas quanto a Jesus ter sido tratado como o profeta escatológico.
Havia somente algumas conjecturas de pessoas desconhecidas quanto à
possibilidade de Jesus poder sê-lo.
190
Muito ao contrário, ouvimos que o reconhecimento de Jesus como o
Cristo (Messias) levaria à excomunhão (exclusão) da Sinagoga (9,22/34!/
12,42) e conforme 16,1s, até ao martírio. Ao apresentar Jesus, desde o
início de seu Evangelho, como o “Logos” que está (presente!) no seio do
Pai, o nosso Evangelista considerou Jesus infinitamente mais digno do que
“o profeta”. Tampouco encontramos em lugar nenhum alguma indicação
que permitisse interpretar “o bom pastor” como “o profeta como Moisés”.
Quando João apresenta a figura do bom pastor, ele muito claramente se
referia a Ezequiel 34,23s: (“... suscitarei para elas um só pastor, e ele as
apascentará; o meu servo Davi é que as apascentará; ele lhes servirá de
pastor”). A identificação de Jesus por João culmina em João 10,30 com a
sentença que resume o Evangelho todo : “Eu e o Pai somos Um”.
... outros porém, perguntavam: Porventura, o Cristo virá da
Galileia? (42) Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de
Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?
Um terceiro grupo questionava as duas interpretações com
indicações que revelaram algum conhecimento das Escrituras. Enquanto
na discussão durante a Festa haviam negado a Jesus seu título porque,
como diziam, do Messias ninguém saberia de onde Ele viesse, agora
negaram-lhe a condição messiânica por causa de sua descendência da
desprezada Galileia.
É evidente que são as pessoas que argumentam, e não o Evangelista.
Este, junto com os leitores de seu Evangelho sabiam pelos sinóticos do
nascimento em Belém e de sua ascendência de Judá. É interessante notar
que João não argumentou contra, não lembrou seus leitores dos fatos
reais, como costumava fazer quando “explicava fatos”, como p.ex. na
leitura anterior, quando lembrou a respeito da descida do Espírito Santo.
Na tradição messiânica e na crença judaica, o nome de Belém não tinha
nenhuma importância e Miquéias 5,2, em relação ao nascimento do
Messias, nunca fora citado pelos Rabinos antes do quarto século cristão.
Com uma certa ironia, o Evangelista perpetuou a ignorância “dos
judeus” na sua crença falha de que, como Jesus cresceu na Galileia,
também teria nascido ali. Para João era de pouca ou nenhuma
importância o lugar onde Jesus nasceu. Para ele, a única questão era se,
de fato, Ele vinha da presença de Deus, da eternidade, ou não. Da mesma
forma, João nunca argumentou com o nascimento virginal como prova de
coisa alguma. A ele, como para o Apóstolo Paulo, interessava a revelação
de Deus em si. A fé que precisa de provas não subsiste.
Quando queremos ganhar pessoas para Cristo, a enumeração de
“provas” não as levará à fé verdadeira. O dom humano de convencer, tão
enfatizado hoje em dia, não levará à água viva de Deus. As pessoas
precisam conhecer Aquele que vive para poder responder com sua fé. Você
191
percebe o quanto dependemos da ação do Espírito Santo na tarefa de
evangelização?!
Somente podemos e devemos apontar para Cristo. Não podemos
intermediá-lo. “Quando Ele – o Espírito Santo – vier, convencerá o mundo
do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da
justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o
príncipe deste mundo já está julgado” (16,8-11).
(43) Assim, houve uma dissensão entre o povo por causa dele;
(44) alguns dentro eles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe pôs as
mãos.
A multidão continuou confusa. Formara-se uma cisão entre os que
lhe deram algum crédito e outros que exigiam Sua prisão. Mas onde
estavam os responsáveis pela ordem, enviados para pôr fim à pregação do
Galileu?
(45) Voltaram, pois, os guardas à presença dos principais
sacerdotes e fariseus e estes lhe perguntaram: Por que não o
trouxestes? (46) Responderam eles: Jamais alguém falou como este
homem.
No verso 32 ouvimos que os fariseus, junto com os saduceus e
sacerdotes, haviam acionado a Polícia do Templo. Essa, após observar por
algum tempo o movimento em volta de Jesus, retornou com mãos vazias
aos responsáveis pela ordem de prisão, justificando seu procedimento com
uma sentença curta e precisa, que deixou evidente o quanto ficaram
impressionados pela pessoa e as palavras de Jesus. Enquanto prestavam
atenção, haviam simplesmente “esquecida” a ordem dada pelos seus
mandantes.
(47) Replicaram-lhes, pois, os fariseus: Será que também vós
fostes enganados? A perplexidade dos fariseus perante a desobediência e
a justificação dada pelos seus subordinados se espelhou na pergunta
retórica que questionava a fidelidade deles: “Será que vocês apostataram
da fé verdadeira também? Caíram na cilada daquele que continua a seduzir
o povo?” Eram pesadas as acusações contra o Galileu: fazia-se igual a
Deus (5,18); fazia a si mesmo Deus (10,33), seduziu o povo à apostasia de
JHWH, do único Deus verdadeiro! A denominação de Jesus como sendo um
“sedutor” ou embusteiro parece ter sido praxe por parte das autoridades.
(48) Porventura, creu nele alguém dentre as autoridades ou
algum dos fariseus? (49) Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é
maldita.
Os fariseus responderam, eles mesmos, à sua pergunta com uma
arrogância sem igual: Somente esta plebe que não conhece a Lei e, portanto,
não as autoridades, dava crédito a “ele”. Malditos que são! O termo
traduzido com “plebe” (na literatura rabínica: am-há-arez) indicava
inicialmente o povo como um todo, sem sentido pejorativo, ou então o povo
distinto daqueles que o governavam. Na época em que os exilados
192
voltavam da Babilônia, sucedeu uma mudança considerável. Sob Esdras e
Neemias, mais tarde representados pelos Rabinos, o termo no plural
apontava de forma depreciativa para aqueles que durante o exílio da elite
judaica permaneciam na sua terra. Eles ficaram longe do desenvolvimento
do conhecimento e da sabedoria da Torá dos que voltaram. As mudanças
da religião de JHWH sob a influência do Deuteronômio e do Exílio lhes
eram totalmente estranhas e assim nasceu o significado desprezível do
termo “plebe”, não somente aplicado aos das regiões da Galileia e da
Samaria, mas, aos poucos, a todos os iletrados.
A projeção do clero quanto à pessoa do Messias tinha sua base na
Lei Mosaica. O novo profeta, de acordo com a profecia mosaica, traria a Lei
Messsiânica e, ao mesmo tempo, numa pessoa só, seria também o Rei
poderoso que livraria Israel da opressão dos estrangeiros e daria início, a
partir de Israel, à era messiânica e ao domínio do mundo. De maneira
nenhuma Jesus se encaixava nessa projeção!
O Evangelista João não aceitou a ideia do Messias com suas bases
na Lei de Moisés ou nas esperanças e crenças do povo judaico. A Lei de
Moisés não conhece um Salvador vindo de preexistência com Deus para o
mundo, e que aceitaria a forma e as limitações humanas e que caminharia
na terra como estranho até que a consumação de sua missão se desse
numa cruz romana, voltando então ao Seu Pai.
A visão de João transmitida no seu Evangelho não encontrava base
na Lei de Moisés. Ela era e continua sendo considerada “mitologia
blasfema” até aos dias de hoje e inaceitável nas Sinagogas do mundo
inteiro.
A glorificação de Cristo (chamada “Cristologia”) já fazia parte da
igreja primitiva cristã antes do Evangelho de João ser escrito. Os trechos
de Filipenses 2,5s; 1.Cor.2,8; Romanos 8,3 e Gálatas 4,4s. (confira!) foram
todos compostos ou registrados por Paulo pelo menos 30 anos antes do
Evangelho de João nascer. A grande contribuição de João consiste em ter
dado à jovem igreja a base histórica da Cristologia através de seu
Evangelho.
(50) Nicodemos, um deles, que antes fora ter com Jesus, perguntoulhes: (51) Acaso, a nossa lei julga um homem, sem primeiro ouví-lo e
saber o que ele fez?
Havia exceções entre os membros do Sinédrio. Lemos em 12,42.43:
“Contudo, muitos dentro das próprias autoridades creram nele, mas, por
causa dos fariseus, não O confessaram, para não serem expulsos da
Sinagoga”. Nicodemos, um deles, que procurou Jesus durante a noite (veja
cap.3), era um deles. Este nobre membro do Sinédrio recorreu às normas
da Lei (Deut. 1,16s; 17,4) que proíbe condenar alguém antes de ouví-lo,
mas sua intervenção foi em vão.
193
Sabemos de 18,15 que o então discípulo João era conhecido do
sumo sacerdote. Por alguma via de parentesco ou amizade ele tinha
trânsito entre os “de cima”. Os detalhes nos encontros ou rixas com as
autoridades (às vezes impressionando pela sua exatidão e relatados
somente no Evangelho de João), permitem a hipótese de informações
dadas pós-Páscoa por membros do Sinédrio e sacerdotes que se juntavam
à igreja primitiva judaico-cristã (José de Arimateia; Nicodemos e outros,
conf. Atos 6,7).
(52) Responderam eles: Dar-se-á o caso de que também tu és da
Galileia? Examina e verás que da Galileia não se levanta profeta.
Os Sinedristas, julgando-se com a razão, apontaram para resultados
dos estudos farisaicos quanto ao Messias. Nenhum texto messiânico das
Escrituras fez referência à afastada Galileia, se bem que 2.Reis 14,25
menciona um profeta de nome “Jona bem Amittai” como vindo daquela
região.
Aparentemente, os Sinedristas estavam com a razão. Não havia
necessidade de atender à petição de Nicodemos; para eles, Jesus era e
continuava sendo considerado um embusteiro, um profeta falso, cuja
eliminação rápida só podia contribuir para o bem de Israel.
Cap. 7.53- 8.11
(53) E cada um foi para sua casa. (8.1) Jesus, entretanto, foi para o monte das
Oliveiras. (2) De madrugada, voltou novamente para o Templo, e todo o povo ia ter
com ele; e, assentado, os ensinava. (3) Os escribas e fariseus trouxeram à sua
presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de
todos, (4) disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante
adultério. (5) E na Lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu,
pois, que dizes? (6) Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas
Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. (7) Como insistissem na
pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado,
seja o primeiro que lhe atire pedra. (8) E, tornando a inclinar-se, continuou a
escrever no chão. (9) Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria
consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos
últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. (10) Erguendo-se Jesus e
não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão
aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? (11) Respondeu ela: Ninguém,
Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques
mais.
Nos estudos recentes vimos Jesus envolvido em uma veemente
discussão com os religiosos na área do Templo. Celebrava-se a Festa dos
Tabernáculos.
Lembramos que a longa discussão apresentada nos capítulos 7 e 8
do Evangelho de João tiveram seu início em 7.15., quando os peregrinos
ficaram perplexos perante a autoridade com a qual Jesus publicamente
ensinava no pátio do Templo, sem nunca ter estudado numa escola
194
rabínica. Vimos, mais adiante, como a tentativa dos responsáveis pela
ordem no santuário fracassou em acionar a “Polícia do Templo”. Não lhes
fora possível pôr fim à agitação. Os próprios guardas haviam ficado
maravilhados de tal forma, pelo que ouviram, que não ousaram prender
Jesus.
Somente no capítulo oitavo, verso 12, o Evangelho voltará à
discussão em andamento no Templo, a qual mais tarde, abruptamente,
teve fim com a tentativa de apedrejamento de Jesus. Este era o castigo
exigido pela Lei de Moisés em casos de blasfêmia ou, mais exatamente,
caso alguém ousasse pronunciar o inefável nome de Deus. O Evangelista
observou que, a essa altura, “Jesus se ocultou, saindo do Templo” (versos
52 e 53). Em outros termos, Jesus teve de sumir apressadamente para não
correr risco de vida. Mas isso será o tema das próximas leituras.
Hoje, continuando na leitura do texto assim como o encontramos
nas nossas Bíblias, nos deparamos com um acontecimento que nada tem a
ver com a discussão no Templo, que ora acompanhamos.
A “história da mulher adúltera” (versos 1-11 do capítulo oitavo)
originalmente não fazia parte do Evangelho de João, ainda que se encontre
neste lugar na maioria dos manuscritos. Outros originais encontrados
trazem-na no Evangelho de Lucas, capítulo 21, após o verso 38. Eusébio,
na sua “História da Igreja” (III 39,170), a considerava parte do “Evangelho
dos Hebreus”, obra que não entrou no Cânon do Novo Testamento e se
perdeu. O manuscrito “Bodmer II” (um dos mais antigos, datado do século
2º) nem conhece esse episódio.
O incidente com a mulher é indubitavelmente verídico; ele respira o
Espírito de Jesus de modo soberano. Seu estilo de linguagem é estranho
ao grego simples usado por João. O estilo literário é diferente também; ele
é similar ao que encontramos nos Evangelhos sinóticos. Por alguma razão
desconhecida, o episódio com a mulher flagrada em adultério entrou nos
manuscritos do Evangelho de João, no lugar onde hoje a encontramos e
antes da definição do cânon, realizada no século 4º.
O estilo do trecho que vamos ler é o dos sinóticos. Nos Evangelhos
sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) seguem-se “perícopes” (histórias
sequenciadas), ligando assuntos distintos um ao outro. O Evangelho de
João é diferente. Ele trata, dos primeiros versículos até seu fim, de um
único tema, de uma única questão, a saber: da revelação do Logos, da
encarnação de Deus no homem Jesus de Nazaré. Até os poucos “sinais”
(mais facilmente visíveis no capítulo 2, nas bodas de Caná com Seu
milagre da transformação da água em vinho) são envoltos em mistério; são
metáforas que fazem parte da revelação principal. Em João, tudo aponta
para a “Glorificação do Filho”.
Quanto aos termos, o relato do encontro de Jesus com a “mulher
adúltera” aplica qualificações que João nunca usou, como “escribas” (verso
3) ou indicações geográficas, como “monte das Oliveiras” (verso 1). Na
195
época de João não mais havia nem escribas, nem saduceus e nem
sacerdotes. Todos eles desapareceram com a destruição do Templo
ocorrida nos anos 70, quer dizer, antes do Evangelho de João ser
composto. Portanto, a história da mulher fazia parte de uma obra anterior
ao Evangelho de João e, por razões hoje desconhecidas, foi incluída nele
mais tarde por ser reconhecida como autêntica.
Hoje se acredita (hipótese) que a história da mulher perdoada fora
colocada nesse exato lugar do Evangelho de João por causa da
declaração de Jesus na discussão com os religiosos: “eu a ninguém julgo”,
como consta mais adiante, no verso 15, e como veremos na próxima lição.
Voltemos agora a nossa atenção para o texto.
(53) E cada um foi para sua casa. Não sabemos a que este verso se
refere; se é um resto que pertencia à perícope original anterior ou se foi
concebido como meio de introdução ao que segue.
(8.1) Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras. (2) De
madrugada, voltou novamente para o Templo, e todo o povo ia ter
com ele; e, assentado, os ensinava.
Os versos 8,1-2 lembram muito a Lucas 21,37ss momentos antes da
Páscoa: “Jesus ensinava todos os dias no Templo, mas à noite, saindo, ia
pousar no monte das Oliveiras. E todo o povo madrugava para ir ter com ele
no templo, a fim de ouví-lo”.
A história que segue só podemos imaginar ou ao ar livre ou dentro
de um dos muitos átrios exteriores do Templo (com chão batido). Num
desses dias de ensino, (3) Os escribas e fariseus trouxeram à sua
presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de
pé no meio de todos, (4) disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi
apanhada em flagrante adultério.
Jesus ainda é chamado de “Mestre” pelos fariseus. Isso indica que o
acontecimento se deu antes do momento atual (Festa dos Tabernáculos),
onde Jesus não mais era reconhecido como “Mestre”, mas abertamente
acusado de embusteiro pelo clero.
Conforme manda a Lei mosaica em Lev.20,10 e Deut.22,22, o
adultério devia ser punido com a morte. Observamos que nas duas
referências, tanto o homem como a mulher deviam ser mortos: “Se um
homem adulterar com a mulher de seu próximo, será morto o adúltero e a
adúltera” (Lev.20,10). Geralmente a execução era pública e acontecia por
apedrejamento (exatamente como ainda hoje é praticada, sob a lei da
Sharia islâmica, no Irã e na Arábia Saudita e países africanos islâmicos). O
corpo do condenado é enterrado até a cintura com os braços para trás. A
parte superior do corpo é coberta por um saco. Importa que as pedras
196
sejam atiradas a começar pela maior autoridade presente e durasse até a
total deformação do corpo da vítima (não exposta por causa do saco).
Imagine a situação: Escribas (estes eram fariseus em posição de
destaque) e fariseus, zelosos pelo cumprimento da Lei de Moisés, arrastam
uma mulher e a apresentam à multidão, ”fazendo-a ficar de pé no meio de
todos”.
Aqui estava a mulher adúltera, exposta à vergonha (e, onde estava,
por acaso, o adúltero, igualmente responsável segundo a Lei? Ninguém
parecia lembrar-se dele).
(5) E na Lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam
apedrejadas; tu, pois, que dizes?
Uma mulher pega em flagrante era um caso resolvido e o veredicto
definido por Moisés. Os responsáveis pela observação da Lei que, por
inúmeras vezes já se tinham aborrecido ao tomar conhecimento da
amizade do Nazareno com os “pecadores”, perguntavam pela opinião do
“Mestre”. (6) Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar.
O escritor procura chamar a atenção do leitor à situação embaraçosa em
que o Mestre se encontrava. Esta parecia fazer com que Jesus negasse a
obediência à Lei Mosaica ou perdesse de vez a fama de “amigo de
pecadores e publicanos” e, com isso, toda a sua popularidade. “Tu, pois,
que dizes?” Ali estavam os guardiões da Lei, em posição de autoridade e
exigindo o veredicto.
Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo.
Ao invés de responder-lhes e nem dando atenção à ordem dos
representantes da Lei, Jesus abaixou-se e começou a “escrever” na terra.
Jesus não só não respondeu, mas ignorou por completo os representantes
do clero. Não parecia interessado em expor-lhes o seu ponto de vista sobre
o caso. O verbo traduzido por “escrever” pode, também, significar “pintar”.
Jesus começou a desenhar linhas ou círculos no pó do chão; não escreveu
nenhum veredicto. Muito pelo contrário, através de sua atitude aparentou
um total desinteresse. Não foi um desesperado “ganha-tempo” como
poderíamos pensar. Era pura provocação. Enquanto Jesus continuou
escrevendo no pó da terra, os venerandos fariseus começavam a perder a
paciência. Perguntavam de novo, e de novo,...
(7) Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes
disse: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro que
lhe atire pedra”. (8) E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no
chão.
Como insistissem na pergunta... Jesus se levantou e, ao invés de
proclamar o veredicto da mulher, fitou seus acusadores e com uma única
e inesperada sentença, desmoralizou por completo os acusadores, os
quais, através dessa mulher, queriam registrar um exemplo que, de vez,
fizesse cair o Nazareno em desprezo público. Sim, a Lei Mosaica estava
valendo. A mulher merecia ser apedrejada. Que começassem com o
linchamento!
197
As poucas palavras de Jesus haviam transformado os acusadores
em acusados. De maneira soberana e aparentemente desinteressada,
Jesus novamente abaixou-se, dispensando dessa forma os fariseus e
escribas e voltou à sua “atividade sem importância”, mexendo com seu
dedo no pó da terra. Era impossível haver uma humilhação maior para os
acusadores presunçosos.
(9) Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria
consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais
velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde
estava.
O autor somente procurou registrar fatos, mas não resistiu e
acrescentou o obvio: “... acusados pela própria consciência...”.
(10) Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da
mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores?
Ninguém te condenou? (11) Respondeu ela: Ninguém, Senhor.
Soa como ironia santa a palavra de Jesus. Então, lhe disse Jesus:
Nem eu tampouco te condeno;... Parecia dizer: se nem esses homens
santos e rigorosos, quanto à Lei, te condenam, nem eu preciso fazê-lo.
Consenti com a Lei e o castigo, mas também concordo com o perdão
concedido pelos responsáveis da Lei.
Observe: O Único que podia jogar a pedra, não o fez. Com autoridade
de juiz Ele proferiu o “vai” e como Salvador acrescentou o “e não peques
mais”. Um comentarista, opinando sobre isso, disse que talvez nem Jesus
se sentia suficientemente sem pecado algum e por isso não iniciou a
matança. O pobre teólogo parece não ter lido e nada “visto” do que o
Evangelho de João nos revela sobre o Filho!
Não percamos tempo em opinar sobre o porquê da ausência do
adúltero, sobre o possível machismo apesar da Lei ser específica. Há algo
muito mais importante para quem procura conhecer esse Jesus, do qual
os Evangelhos nos dizem, e que hoje é Senhor.
O relato da mulher apanhada em adultério novamente nos coloca
perante o paradoxo na vida de Jesus. No sermão da montanha (Mateus
caps. 5-7) Ele radicalizou os mandamentos de Deus e, ao mesmo tempo,
era amigo de “pecadores e publicanos”. Ou, invertendo: Como ele, que no
caso dessa mulher em adultério concordou com o pleno perdão podia
declarar que um único olhar com intenção impura já era “adultério
consumado”? (Mateus 5,28).
Jesus viu, vê e considera o pecado como algo tão radical, vindo de
raízes profundas, que torna sem razão qualquer distinção entre “justos” e
“pecadores”. Esta distinção não existe na visão de Jesus. O Apóstolo Paulo
definiu essa visão revolucionária e a função do Evangelho assim: “... não
há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo
198
justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em
Cristo Jesus...” (Romanos 3,23.24s).
Os homens santos entre os fariseus da nossa história certamente
guardaram-se do adultério. Mesmo assim, eles caíram sob o julgamento de
Deus. Eles, a mulher apanhada, eu e você, ninguém entrará na presença
do Pai, a não ser: “...sendo justificados gratuitamente, por sua graça,
mediante a redenção que há em Cristo Jesus...”. Esse verso da “Carta aos
Romanos” levou o Reformador Lutero à redescoberta do Evangelho que,
pela tradição humana, havia se pervertido em “religião de merecimentos”,
religião comprada e vendida, como novamente é o caso nos dias de hoje
entre evangélicos e católicos.
A mulher ouviu a palavra de perdão porque ficou em pé perante
Jesus. Ela não fugiu. Você já fez o mesmo, apresentando-se a Deus e
reconhecendo-se pecador?
Então ouça o que o Evangelho hoje lhe apresenta: “Justificados, pois,
mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus
Cristo...”. Não está escrito: “teremos”; esta escrito: “temos”. Também está
escrito: “... por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (uma obra consumada),
(Ro.5,1s), e não “por meio da intercessão de quem quer que seja” ou por
“piedade, rezas”, etc., sempre relativas e nunca eficientes o suficiente.
Você já agradeceu, seja qual for o seu passado, por você ter em
Jesus um Deus que hoje ama você, aceita você, justifica você, ouve você e
responde a você no tempo oportuno? Se ainda não teve coragem para tanto,
faça-o agora!
Cap. 8.12-20
(12) De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue,
não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida. (13) Então, lhe objetaram
os fariseus: Tu dás testemunho de ti mesmo; logo, o teu testemunho não é
verdadeiro. (14) Respondeu Jesus e disse-lhes: Posto que eu testifico de mim
mesmo, o meu testemunho é verdadeiro, porque sei donde vim e para onde vou;
mas vós não sabeis donde venho, nem para onde vou. (15) Vós julgais segundo a
carne, eu a ninguém julgo. (16) Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não
sou eu só, porém eu e aquele que me enviou. (17) Também na vossa Lei está escrito
que o testemunho de duas testemunhas é verdadeiro. (18) Eu testifico de mim
mesmo, e o Pai, que me enviou, também testifica de mim. (19) Então, eles lhe
perguntaram: Onde está teu pai? Respondeu Jesus: Não me conheceis a mim nem a
meu Pai; se conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai. (20) Proferiu ele
estas palavras no lugar do gazofilácio, quando ensinava no Templo; e ninguém o
prendeu, porque não era ainda chegada a sua hora.
A noite do último dia da Festa (algumas fontes indicam o primeiro
dia) impressionava a todos. O pátio das mulheres ficara todo iluminado
por tochas. Como o Templo se encontrava no topo do monte Sião, ele podia
ser visto de longe, irradiando sua luz na escuridão. A tradição festiva dos
Tabernáculos juntava o pensamento bíblico da água da vida e o da luz,
199
vendo nela simbolicamente confirmada a profecia de Isaías 60,1.19:
“Dispõe-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a Glória do Senhor nasce
sobre ti.- Nunca mais te servirá o sol para luz do dia, nem como o seu
resplendor a lua te iluminará; mas o Senhor será a tua luz perpétua, e o teu
Deus, a tua glória.” A alegria dos festivos se baseava na consciência de
posse desses valiosos bens. Eles “tinham” a luz, enquanto sobre os povos
sem JHWH pairava a noite.
Não sabemos quanto tempo de discussões e debates o Evangelista
João resumiu nos capítulos 7 e 8. Certamente não lhe era possível trazer
tudo à memória no seu Evangelho. No entanto, alguns momentos cruciais
das proclamações de Jesus por ocasião da Festa dos Tabernáculos ficaram
guardados na sua mente e na sua obra. No capítulo 7 encontramos Jesus
falando à multidão, tendo por trás os representantes do clero que
observavam preocupados a agitação causada pelas declarações de Jesus.
Agora, no capítulo 8, a situação é outra. Jesus não mais fala aos
peregrinos festivos. A festa já pertencia ao passado e a multidão se foi.
Percebemos que Jesus parte para o confronto direto com os representantes
da Lei. O ambiente fica pesado e o capítulo termina com a tentativa de
apedrejamento do Nazareno e do qual, mais uma vez, milagrosamente
escapa.
Numa das leituras anteriores vimos como os fariseus, entre si,
haviam silenciado a Nicodemos com as palavras: “Examina e verás que da
Galileia não se levanta profeta”. Para eles, o simples fato de Jesus proceder
da Galileia “gentia” lhes servia de prova contra ele.
O Evangelista João conheceu bem o livro de Isaías. Ele viu que o
profeta, no capítulo 42, descreveu o que agora, em Jesus, estava para se
tornar história. A profecia de 8,23-9,1 cumprindo-se (apesar do julgamento
falho dos fariseus): “... mas a terra que estava aflita não continuará a
obscuridade. Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de
Zebulom e a terra de Naftali; mas, nos últimos (isto é, agora!) tornará
glorioso o caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo
que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da
sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz ...”)
Sim, a Galileia estava no plano de Deus!
(12) De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo;
Jesus entrou pessoalmente na discussão, enfrentando os fariseus.
Como um trovão ecoou sua autoproclamação, usando o predicado EU SOU
(o nome de Deus) perante os religiosos escandalizados.
Vejamos a razão desse escândalo: O Deus de Israel era Senhor
Único. Com as palavras: “...EU SOU o Senhor, e não há outro” (Is.45,18); e:
“Eu, o Senhor, falo a verdade e proclamo o que é direito” (v.19) e, em 22:
200
“Olhai para mim e sedes salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu
sou Deus, e não há outro”, Ele não deixava margem para outro EU SOU.
Não havia e não há outro Deus; essa confissão é absoluta, exclusiva,
e constitui-se a base da religião judaica. Enquanto os judeus esperavam a
figura do Messias como salvador exclusivamente para o seu povo, o mesmo
Deus Espírito, invisível, que ninguém jamais viu e ninguém poderá ver,
também dera promessas para todas as nações. E mais: somente através da
revelação desse Salvador (e não através de supremacia judaica) os não
judeus teriam acesso a Deus. Isto era impensável para os representantes
da Lei de Moisés. Não havia, para os sacerdotes, necessidade de incluir os
não judeus no pacto da salvação.
O profeta Isaías viu esse “príncipe da paz” (cap.9) através do qual o
Deus Único se revelaria a Israel. Em 42,6 ele profetizou a respeito desse
Alguém: “Eu, o Senhor, te chamei em justiça, tomar-te-ei pela mão, e te
guardarei, e te farei mediador da aliança com o povo e luz para os
gentios” – “... pouco é o seres meu servo, para restaurares os tribos de Jacó
e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz
para os gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da
terra”(Is.49,6).
Com a proclamação de Jesus: “EU SOU a luz do mundo” estava se
cumprindo o que o profeta havia previsto. A proclamação de Jesus
também era absoluta, exclusiva, como as do próprio Deus. Pura agressão
aos ouvidos dos sacerdotes, cuja função profissional era administrar “as
coisas de Deus”.
Eu sou a luz do mundo... Era inaudito! Aquilo que Israel pensava
possuir, celebrando no seu Templo, Jesus advogava para si mesmo. E
mais: Não que Ele brilhasse como luz somente. Ele pessoalmente era essa
luz!
Os conhecedores das Escrituras imediatamente se lembravam do
Salmo 27,1: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei
medo...” ... quem me segue, não andará nas trevas; pelo contrário, terá
a luz da vida.
O simbolismo da Festa dos Tabernáculos lembrava ao auditório essa
luz que os ancestrais tinham experimentado como guia no deserto.
Aqueles que a tinham seguido tinham chegado à Canaã; os outros ficaram
prostrados no deserto.
A luz física (como a que havia no Templo) provia somente a
iluminação exterior. Jesus Cristo, como nossa luz e o objeto de nossa fé,
torna-se nossa possessão interior: nós O temos, e O teremos para sempre!
Nem todos seguem o caminho da luz. Há uma separação, uma
divisão de caminhos, uma antítese absoluta, como indicam as palavras
201
“quem me segue não andará em trevas; pelo contrário, terá a luz da vida”.
Alguns seguem à luz; muitos permanecem nas trevas.
João introduziu aqui o dualismo que marca seu Evangelho: a luz
como oposto à escuridão. Esses dois termos, mutuamente excluindo-se,
eram conhecidos nas comunidades de Qumran, na região do Mar Morto, e
no movimento da Gnose. É importante percebermos que a visão de João
era contrária à da Gnose. Para João, o dualismo no seu Evangelho está
subordinado ao único Deus. Deus está acima dos dois caminhos.
Na gnose (como no recentemente publicado livro apócrifo “Evangelho
de Judas”) existe um deus ruim, o Demiurgo, o Deus tirano da Antiga
Aliança, e um Deus bom, atrás, oculto, verdadeiro, mais poderoso. Há dois
reinos, o da luz e o das trevas. Os dois reinos estão em conflito. O dualismo
na Gnose entende-se de forma absoluta e cosmológica (= determinando a
ordem no Universo). Na gnose, cada caminho tem seu deus.
O Evangelista chama a atenção do leitor à responsabilidade pessoal.
Haverá necessidade de uma decisão entre um caminho ou outro. Os
religiosos, que entendem religião como um complexo de regras de conduta
podem andar na escuridão, porque a Lei a ninguém justifica; ela condena.
Os que, religiosamente ou não, andam atrás de outras luzes, caminham
nas trevas.
Os que seguem à luz representada por Jesus, terão a luz.
O entusiasmo contido nas palavras de Jesus quando disse “EU SOU
a luz do mundo”, anunciou a chegada da salvação, a salutar presença de
Deus entre os homens, hoje.
Na possibilidade de seguí-lo, a salvação já chegou ao homem;
“salvação” não mais está em algum lugar do futuro. Somente a fé pode
corresponder à revelação escatológica da Luz na pessoa de Jesus. O futuro
em “... terá a luz da vida” não é mais no sentido apocalíptico (tempo do
fim); esse futuro se refere à caminhada da fé diária e à “chegada em casa”,
como veremos nos capítulos 13 – 17, onde Jesus se despede de seus
discípulos.
(13) Então, lhe objetaram os fariseus: Tu dás testemunho de ti
mesmo; logo, o teu testemunho não é verdadeiro.
Os fariseus nem mesmo entraram no assunto da luz, mas
questionaram a validade geral de suas palavras. Como se Jesus não
soubesse que o testemunho em seu favor, conforme a legislação judaica,
não era válido! Nas discussões após a cura do paralítico em 5,31, fora Ele
mesmo que o disse: “Se eu testifico a respeito de mim mesmo, o meu
testemunho não é verdadeiro”. Por isso, havia acrescentado em 32: “Outro
202
é que testifica a meu respeito, e sei que é verdadeiro o testemunho que Ele
dá de mim”.
Naquela oportunidade foram as obras (milagres) através dos quais “o
Outro” (Deus) havia confirmado o testemunho de Jesus.
Na circunstância atual, Jesus não argumenta contra. O testemunho
de Jesus necessariamente tinha de ser o testemunho próprio, tal qual foi
dado na proclamação do “EU SOU a luz do mundo” anterior. Como palavra
do próprio Deus, somente podia ser testemunho sobre si mesmo. Se
precisasse de qualquer confirmação não seria palavra divina! Como o
“Verbo encarnado” podia apelar à confirmação humana ou mesmo à de
autoridades religiosas? O Evangelista deixa o leitor, por si mesmo, chegar
a essa única conclusão possível.
(14) Respondeu Jesus e disse-lhes: Posto que eu testifico de mim
mesmo, o meu testemunho é verdadeiro, porque sei donde vim e para
onde vou; mas vós não sabeis donde venho, nem para onde vou.
A afirmação de Jesus era, assim, o testemunho do próprio Deus a
Seu respeito. A “verdade” de seu testemunho a seu próprio favor tem seu
fundamento no seu conhecimento de sua origem e lugar. Como Ele sabe de
sua missão “porquanto Deus enviou seu Filho ao mundo, não para que
julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (3,17) e, como
já afirmou em 5,34, que não aceita testemunho humano, é inevitável que
tenha de testemunhar por si mesmo. “Vós, nem sabeis donde venho, nem
para onde vou”.
(15) Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo. Em outras
palavras: “Embora vocês não tenham o conhecimento necessário para me
julgar estão constantemente me julgando de acordo com a aparência
exterior e seus preconceitos religiosos. Por vocês, não há nada de “luz do
mundo”, mas, sim, apenas o cidadão da Galileia, filho de José. Por meu
lado, embora Eu saiba da minha missão e seja capaz de julgar, a ninguém
julgo”.
Como os antagonistas de Jesus nada sabem da missão do Filho
(3,16) só podem julgar segundo as aparências.
(16) Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só,
porém eu e aquele que me enviou.
Complementando o que disse no verso 15 (Eu não julgo ninguém),
Jesus afirma que, quando é obrigado a julgar, julgará segunda a verdade,
pois não é Ele somente a julgar, mas consigo está Aquele que O enviou.
Esse “julgamento verdadeiro” não acontecerá em algum futuro longínquo,
mas agora, tanto na hora da composição do Evangelho quanto no dia de
hoje; sempre no “hoje”.
203
Como podemos conciliar a aparente contradição entre os versos 15 e
16? Vimos em 3,18 (“quem nele crê não é julgado; o que não crê já está
julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”) que a
recusa do Filho consiste em julgamento. Dessa forma também
interpretamos 5,22 onde Jesus afirmou que o Pai confiou todo julgamento
ao Filho.
(17) Também na vossa Lei está escrito que o testemunho de duas
testemunhas é verdadeiro. (18) Eu testifico de mim mesmo, e o Pai,
que me enviou, também testifica de mim.
Em Deut.17,6, a Lei de Moisés determina que “ pelo depoimento de
duas ou três testemunhas será morto o que houver de morrer”.
Quanto à referência à Lei, mencionada como “vossa” Lei, não há
concordância entre os estudiosos. Alguns, principalmente os tradicionais,
querem ver na qualificação “vossa Lei” um consciente distanciamento de
Jesus da Torá (“é vossa Lei, não a que Eu considero”). Projetamos assim
uma argumentação “cristã” na boca de Jesus!
Teólogos contemporâneos (Thyen, Augenstein) veem o contrário: o
compromisso afirmado “ad hominem” tanto de Jesus como o de seus
oponentes com a Lei. A indicação da Lei (Deut.19,15), neste contexto, deve
ser interpretada como um “argumentum a minore ad maiorem” (do menor
para o maior). Se, conforme a Lei já basta o testemunho de duas pessoas
humanas para confirmar uma decisão como verdadeira, quanto mais
compromete o testemunho análogo do Pai e de Seu Filho: “Eu testifico de
mim mesmo, e o Pai, que me enviou, também testifica de mim”!?
(19) Então, eles lhe perguntaram: Onde está teu pai?
Em discussões, às vezes uma das partes envolvidas repentinamente
chega à conclusão de que não adianta continuar argumentando; é “falar
com surdos”. A sardônica pergunta no intuito de ridicularizar o Galiléu, de
vez, revela que não entenderam nem estavam interessados em
compreender. A pergunta: Onde está teu Pai? (que você alega como
responsável), talvez até acompanhada com gestos de desdém, revelou que
Jesus, de fato, estava falando com “surdos”. No caso dos fariseus,
envolvidos na atividade mais perigosa que pode existir entre os seres
humanos, isto é, alegar representarem os interesses de Deus, a surdez
espiritual era evidente. O mesmo acontece hoje, a começar pelos próprios
“representantes de Deus” do século 21.
Endurecimento produz cegueira e ignorância (arrogância) espiritual.
Você nota isso quando acompanha a mídia em questão de cristianismo ou
quando se trata de Jesus ou do próprio Deus. Os maiores perigos para a
igreja não vêm do “mundão”. O próprio João escreveu na sua primeira
carta, cap.4º : “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que
204
confessa que Jesus Cristo veio em carne (na forma de humano) é de Deus; e
todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus...” (2,3). Onde
estão os representantes cristãos que estão “cativos pela revelação de Deus
em Cristo Jesus”? “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo
afora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o
enganador e o anticristo” (2 João 7). Quem, hoje em dia, leva a sério as
palavras de João e reconhece em Jesus de Nazaré o Cristo de Deus, o
“Logos”, é tido como “fundamentalista”, termo depreciativo nos círculos
teológicos mais liberais. Os homens não querem curvar-se perante o Filho,
mas alegam servir a Deus.
“Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo,
e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos
ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto conhecereis o
espírito da verdade e o espírito do erro” (essas palavras são do próprio
Evangelista na sua 1ª “Carta” 4,5.6).
Respondeu Jesus: Não me conheceis a mim nem a meu Pai; se
conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai.
Aqui, sim, a Lei de Moisés está sendo relativada. O acesso a Deus
Pai não mais é pela Torá (Lei de Moisés). Essa somente O mostrou “de
trás”. Em Jesus, Deus nos chegou “de frente”.
Aos religiosos que, como nos dias atuais, estão preocupados em
manter o “status quo” da administração do que é divino, Jesus atestou
total desconhecimento de Deus.
Endurecimento e ignorância quanto a Deus é a fonte da ignorância
quanto ao Filho.
(20) Proferiu ele estas palavras no lugar do gazofilácio, quando
ensinava no Templo; e ninguém o prendeu, porque não era ainda
chegada a sua hora.
Para o Evangelista, era importante mencionar o lugar onde essa
disputa ocorreu: era no lugar do gazofilácio (do tesouro). Havia na parede
do pátio das mulheres (que não podiam passar além desse lugar) treze
cofres em forma de trombetas, nas quais as pessoas depositavam suas
doações.
O Templo, além de ser o lugar de culto, era também o mais
importante centro financeiro judaico. Nesse espaço, Jesus encontrou-se à
mercê de seus oponentes. O Evangelista deixou registrada sua surpresa
em ver, mais uma vez, Jesus sendo guardado. Ele entende essa proteção
como divina. “Ainda não era chegada a Sua hora”.
Foi exatamente no Templo onde a total ignorância dos fariseus se
revelou. Para os judeus, o Templo era lugar e moradia de Deus; nele foram
celebrados os inúmeros sacrifícios exigidos pela Torá.
205
Com suas palavras, Jesus, indiretamente, também deu seu veredicto
sobre o culto em templos. O “EU SOU” de Jesus levou e leva ao fim
escatológico não somente do Templo judaico e de seu serviço sangrento,
mas da própria religião em si. Na “religião”, o homem serve a um Deus que
nem conhece.
• Você conhece o Deus a quem diz servir?
Cap. 8.21-30
(21) De outra feita, lhes falou, dizendo: Vou retirar-me, e vós me procurareis, mas
perecereis no vosso pecado; para onde eu vou, vós não podeis ir. (22) Então, diziam
os judeus: Terá ele, acaso, a intenção de suicidar-se? Porque diz: Para onde eu vou,
vós não podeis ir. (23) E prosseguiu: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois
deste mundo, eu deste mundo não sou. (24) Por isso, eu vos disse que morrereis nos
vossos pecados; porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados.
(25) Então, lhe perguntaram: Quem és tu? Respondeu-lhes Jesus: Que é que desde o
princípio vos tenho dito? (26) Muitas coisas tenho para dizer a vosso respeito e vos
julgar; porém aquele que me enviou é verdadeiro, de modo que as coisas que dele
tenho ouvido, essas digo ao mundo. (27) Eles, porém, não atinaram que lhes falava
do Pai. (28) Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do Homem, então,
sabereis que EU SOU e que nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me
ensinou. (29) E aquele que me enviou está comigo, não me deixou só, porque eu faço
sempre o que lhe agrada. (30) Ditas estas coisas, muitos creram nele.
Talvez você esteja se perguntando porque o Evangelista registrou
tanta discussão e não contou mais detalhes da vida de Jesus. Na cultura
judaica, principalmente entre os fariseus, discussões sem fim eram
comuns, necessárias e, sim, indispensáveis. Cada ponto, ou vírgula, na Lei
era assunto digno de interpretação. Jesus foi consultado, questionado e
tentado pelos religiosos. O Evangelista entendeu que, através da
transmissão das discussões, efetuada do modo mais fiel possível, a
verdadeira missão do Filho, do Verbo podia ser revelada. A crescente igreja
cristã precisava de definições claras quanto à pessoa de Jesus: quem Ele
era e o que Ele significava para sua igreja meio século após a Sua morte. A
obra de João revelou ser uma epístola indispensável, não somente para a
igreja iniciante, mas para toda a igreja de todas as épocas.
Nos capítulos 7 e 8 vemos, passo a passo, como a tensão entre os
fariseus e Jesus aumenta. Nas discussões travadas, Jesus identificou-se
como o “EU SOU”, a denominação do próprio Deus. Ao clero, finalmente,
não mais sobrou alternativa a não ser tratar de como eliminar o Galileu
sem causar tumulto entre o povo, que O amava.
Os versos 25 e 26 do trecho de hoje são considerados, para sua
interpretação, as “talvez mais difíceis” palavras de João (Burkett).
Apresentaremos algumas opções válidas, sem poder determinar com
206
certeza a interpretação “certa”. No entanto, indicaremos a que nos parece a
mais correta.
(21) De outra feita, lhes falou, dizendo: Vou retirar-me, ...
Jesus está falando com o mesmo grupo de pessoas e pouco tempo
havia passado desde o final da leitura anterior.
A tradução do verso 21 para o português não é feliz. No original
grego, a frase começa com um enfático “Eu” (Eu vou retirar-me...). Esse
“EU” dominará todo o trecho e alcançará seu clímax com seu duplo e
absoluto “EU SOU” nos versos 24 e 28. O distanciamento entre Jesus e
seus oponentes aumenta.
... lhes falou, dizendo: (EU) Vou retirar-me, e vós me procurareis, mas
perecereis no vosso pecado; para onde eu vou, vós não podeis ir.
Veladamente, Jesus apontou para sua morte. Ela será uma
“retirada” (confira 7,33) e levará a uma separação total. Essa Sua
“retirada” terá consequências fatais. “Eles” (os judeus) morrerão nos seus
pecados. Há quem veja nessa sentença uma profecia apontando para a
catástrofe dos anos 70, quando Jerusalém e o Templo foram destruídos
(Strathmann). Será que “os judeus”, a nação toda do tempo de Jesus,
como uma massa “perditionis”, morrerá nos seus pecados? Todos que não
creram no “Jesus homem” enquanto Ele estava com seu povo, morreriam
nos seus pecados? Claro que não. Conforme João 7,39, será exatamente
aquela “retirada”, a “glorificação”, que abriu a possibilidade de, sob a
condução do Espírito Santo, se crer e se ter parte na vida eterna. Será que
por trás das palavras de Jesus há mais um chamado ao arrependimento,
uma mão estendida outra vez, uma última convocação para escolher a
vida?
Os melhores intérpretes veem no termo “retirada” uma alusão à
visão contida no verso 21 do livro do profeta Amós, cap.8,11s: “Eis que vêm
dias, diz o Senhor Deus, em que enviarei fome sobre a terra, não de pão,
nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. Andarão de mar a
mar e do Norte ao Oriente; correrão por toda parte, procurando a palavra do
Senhor, e não a acharão”.
(22) Então, diziam os judeus: Terá ele, acaso, a intenção de suicidarse? Porque diz: Para onde eu vou, vós não podeis ir.
“Então diziam os judeus...”; novamente não se arriscaram em
perguntar-lhe diretamente, mas cochicharam entre si: “Terá ele, acaso, a
intenção de suicidar-se, porque diz: para onde eu vou, vós não podeis ir”?
Eles não entenderam que Jesus
Mesmo assim, as suas considerações
caminho para o Pai o levará à morte. No
tem poder para tirar-lhe a vida ou, de
lhes falou da volta para o Pai.
serão ironicamente exatas: seu
entanto, como cf. 19,18, ninguém
certo modo, Ele morrerá porque
207
assim quer, porém como oferta, em sacrifício, como o bom pastor que dá
sua vida pelas ovelhas (10,11).
(23) E prosseguiu: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois
deste mundo, eu deste mundo não sou. (24) Por isso, eu vos disse que
morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que EU SOU,
morrereis nos vossos pecados.
Jesus apontou à razão mais profunda do antagonismo (contrário)
que, irremediavelmente, os separava: a esfera do mundo com seus valores
é contrária às de cima: “Vocês são desse mundo e por isso vão morrer nos
seus pecados”. A repetição da morte futura em pecados não significa um
julgamento geral, nem sobre o povo judeu como um todo, nem sobre os
fariseus. Ser da esfera desse mundo, portanto cair sob o julgamento, é a
condição de toda a humanidade adâmica. Só existe uma maneira de
escapar dessa condenação geral. É aquela que Jesus apontou a Nicodemos
(3.3): o caminho da fé que tem seu início no novo nascimento “de cima”.
“Pois, se vocês não creem que EU SOU, todos vocês vão morrer nos seus
pecados” (parafraseando o verso 24).
Pela terceira vez, Jesus identificou-se com o nome de Deus revelado
em Ex.3,14, e conhecido como “EU SOU” desde a época da segunda parte
do livro do profeta Isaías. A primeira vez foi em 4,26 perante a mulher
samaritana; a segunda vez foi na identificação perante os discípulos
angustiados durante a tormenta (6,20) e a terceira é a que consta do verso
24 acima. A identificação teofánica (visualização de Deus) seguirá mais
duas vezes: nos versos 28 e 58 do nosso capítulo.
Na Antiga Aliança, Deus mesmo havia se manifestado com esse
nome. Jesus afirmou a respeito de si mesmo o que só compete a Deus. Por
estar em condição humana, Ele revelava Sua total dependência do Pai.
Jesus não se identificou com um deus estranho, mas com o “Deus da
Antiga Aliança”. No seu Evangelho “o Deus conhecido de Abraão, Isaque e
Jacó testificou em favor de seu Filho desconhecido” (K.Barth, Decl.364s).
Poucos anos após a composição do nosso Evangelho, um certo Marcion (* 85 d.C.)
cristão, profundamente impressionado por Jesus, criou uma cisão ensinando que o Deus
anunciado por Jesus era amor, não sendo, portanto o Deus do Antigo Testamento,
chamado por ele “O Estranho”, e que seria vingativo e mau. A igreja condenou essa
heresia.
(25) Então, lhe perguntaram: Quem és tu? Quem és tu, para nos
ensinares? Não sabes, por acaso, com quem estás falando? A pergunta
cética ou irônica dos fariseus deixou evidente que sua resistência e
negação eram conscientes e nunca seriam vencidas com palavras. Cada
palavra a mais de Jesus era revelação jogada fora.
Respondeu-lhes Jesus: Que é que desde o princípio vos tenho dito?
208
Na procura do real sentido da resposta de Jesus aparecem diversas
opiniões. O texto no original grego não nos permite definir com exatidão o
que Jesus queria dizer. Três opções nos são apresentados pelos
estudiosos.
A primeira vê a resposta como uma pergunta aborrecida: “para quê,
de todo, ainda falo com vocês”? ... cada palavra era palavra jogada fora!
A segunda interpretação é a de uma exclamação: “parece incrível que
ainda falo com vocês”!
Essas duas opções, no entanto, não fazem ligação com o verso
seguinte. Damos preferência à terceira opção que vê uma declaração e
uma resposta à pergunta ‘quem és tu?’: “Eu sou o que, desde o início, vos
digo” ou, ainda, “desde o começo Eu sou o que vos digo”. Reparemos que
Jesus, na Sua resposta, não disse quem Ele era mas o que Ele é. Jesus não
somente pronuncia a palavra de Deus; Ele pessoalmente é a palavra de
Deus!
(26) Muitas coisas tenho para dizer a vosso respeito e vos julgar;
porém aquele que me enviou é verdadeiro, de modo que as coisas que
dele tenho ouvido, essas digo ao mundo. Aquele que me enviou é
verdadeiro e Eu (enfático, no original) só digo ao mundo o que dele tenho
ouvido.
No decorrer do tempo, muita especulação surgiu querendo
especificar onde e quando Jesus tinha ouvido do Pai aquilo que disse estar
transmitindo.
Uma linha de interpretação (Bousset) quer entender que Jesus
pregava o que, na eternidade passada, tinha visto no Pai, antes de Sua
encarnação. Esse pensamento é místico. O Evangelho não desenvolve em
nenhum lugar pensamentos mitológicos a respeito da entrada de Jesus no
mundo.
Outra linha de interpretação (Zahn) quer entender que o “ver” e o
“ouvir” de Jesus eram as aprendizagens paulatinas, crescentes, do Jesus
homem a respeito de Deus Pai (confira Lucas 2,52: E cresceu Jesus em
sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens).
Bultmann, finalmente, quer entender as palavras de Jesus, quando
ele se refere ao “ouvir” e “ver” do Pai, somente como “instrumento do autor
para sublinhar o significado das palavras de Jesus”. Conforme Bultmann,
João simplesmente estaria descrevendo a vida e a experiência do homem
Jesus e nada mais.
Todas essas alternativas não convencem. Aquilo que Jesus “viu e
ouviu” não podemos transferir como um todo para uma preexistência
mitológica (Prólogo cap.1), nem localizar em algum lugar na vida do Jesus
homem. De pouco adianta procurar o “ver” e “ouvir”, a cada vez, de acordo
209
com a forma gramatical (tempora verbi) que o Evangelista usou nas
diversas referências.
O fato da preexistência de Jesus determina o caráter da palavra
como palavra não vinda da esfera humana, mas como desafio ao que a
ouve, tornando-se em julgamento sobre vida ou morte.
Não podemos facilitar a fé através da localização da origem do
conhecimento de Jesus; pelo contrário, suas palavras são escândalo para
o homem por serem reivindicações do próprio Deus (Leia Kierkegaard!).
No Evangelho de João, as reivindicações de Jesus não têm sua base
em alguma “recordação” do tempo antes da encarnação. Elas provêm do
conhecimento de Sua existência, de sua submissão ao Pai enquanto
homem e da obediência à missão a Ele confiada.
(27) Eles, porém, não atinaram que lhes falava do Pai.
Eles não entenderam quando Jesus lhes declarou (verso 24) Sua
identidade com o Pai. Será que realmente não captaram a reivindicação
contida nas palavras acima? Desentendimento proposital é uma arma
poderosa. O mesmo acontece hoje em muitos corações.
(28) Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do Homem,
então, sabereis que EU SOU e que nada faço por mim mesmo; mas falo
como o Pai me ensinou. (29) E aquele que me enviou está comigo, não
me deixou só, porque eu faço sempre o que lhe agrada.
A discussão a respeito da verdadeira identidade de Jesus
domina a cena desde o capítulo 7. Com o seu “... quando levantardes o
Filho do Homem, ...”, o Evangelista resumiu (em uma única frase dirigida
aos judeus nas diversas referências dos Evangelhos sinóticos) o quanto se
refere ao “Filho do Homem”. Lemos p.ex. em Marcos 8,31: “... então, ele
começou a ensinar-lhes (os seus discípulos) que era necessário que o Filho
do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos
principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três
dias, ressuscitasse”.
A designação “ser levantado” tem duplo sentido: popularmente
significava a morte por crucificação e, para o Evangelista João, de maneira
similar significa a “glorificação”, o retorno ao Pai.
Considerando essa constatação, vemos o verso 28 como uma
promessa. A promessa de Zacarias 12,10 tem a mesma estrutura como a
do verso 28. Nas duas citações, o sujeito são aqueles que levaram Jesus à
morte. O olhar nas duas referências é dirigido a Jesus e “ver” (conhecer) e
“reconhecer” apontam na mesma direção. “... olharão para aquele a quem
210
traspassaram...” A LXX (latim) diz: “... olharão para mim ...”. Essa direção
não aponta a uma ameaça de julgamento, mas de salvação.
Dificilmente o Evangelista poderia sugerir a esperança de que os
fariseus, após a crucificação (quando se sentirão culpados por terem
maquinado a “elevação” do Filho do Homem), entendessem e
reconhecessem quem era Jesus. Pela sua própria experiência de vida pósPáscoa, Ele sabia que a grande maioria deles não o fez. Mais ainda: na
época em que ele compôs o seu Evangelho, “os judeus” como um todo,
haviam se transformado, sob a liderança farisaica, em inimigos declarados
da jovem igreja cristã. Por que, então, diz que então “saberão quem era o
EU SOU”?
Os intérpretes veem duas explicações como possíveis. Ou o
Evangelista não se expressou claramente e está falando de seus leitores, e
não dos judeus, ou ele quer dizer, genericamente, que os judeus
aprenderão a verdade “tardiamente” (compare o que o Apóstolo Paulo
escreveu a respeito nos capítulos 9 – 11 da “Carta aos Romanos”).
A cruz era a resposta última e definitiva dos fariseus a Jesus e sua
palavra. “Sempre que o mundo escolhe incredulidade como resposta última,
ele “levanta” aquele que lhe trouxe a revelação e assim o terá como juiz”
(Bultmann).
A essa altura Jesus via, com clareza, o caminho que tinha de andar
até ao fim. Ele sentiu-se seguro, pois estava obedecendo. A obediência
completa era o segredo de sua confiança total.
Entendemos agora por que o Evangelista João não incluiu o brado
do crucificado na escuridão das profundezas da morte e abandonado por
Deus (Marcos 15,34). Ele não via de que forma aquele grito de desespero
(“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”) pudesse fortalecer
àqueles aos quais estava apresentando o Filho na total confiança ao Pai.
Assim, ele omitiu o grito de Jesus na sua epístola.
(30) Ditas estas coisas, muitos creram nele. Não sabemos o que
aconteceu com esse grupo que creu, mas sobre ele certamente estava a
promessa acima mencionada de reconhecimento do Salvador.
Você sabe que através da morte e da ressurreição de Jesus, fatos
consumados, você também tem seu caminho aberto a Deus? A mesma
promessa que acabamos de ler, vale também em sua vida!
•
Já a reconheceu? Já agradeceu por ela?
211
Cap. 8.31-47
(31) Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós
permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; (32) e
conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (33) Responderam-lhe: Somos
descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis
livres? (34) Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que
comete pecado é escravo do pecado. (35) O escravo não fica sempre na casa; o filho,
sim, para sempre. (36) Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.
(37) Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque
a minha palavra não está em vós. (38) Eu falo das coisas que vi junto de meu Pai;
vós, porém, fazeis o que vistes em vosso pai. (39) Então, lhe responderam: Nosso pai
é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão. (40)
Mas agora procurais matar-me, a mim que vos tenho falado a verdade que ouvi de
Deus; assim não procedeu Abraão. (41) Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseramlhe eles: Nós não somos bastardos; temos um pai, que é Deus. (42) Replicou-lhes
Jesus: Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar; porque eu
vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. (43)
Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes
de ouvir a minha palavra. (44) Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis
satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na
verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é
próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. (45) Mas, porque eu digo a verdade,
não me credes. (46) Quem dentre vós me convence de pecado? Se vos digo a
verdade, por que razão não me credes? (47) Quem é de Deus ouve as palavras de
Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus.
(31) Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós
permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus
discípulos; (32) e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
O grupo, ao qual Jesus se dirigiu no verso acima e que no final da
conversa procura apedrejá-lo, não parece idêntico ao da leitura passada.
No verso 30 ouvimos que “muitos creram em Jesus”, o que é mais do que
“crer no que Ele disse”. Creram na Sua pessoa.
As palavras relatadas no trecho acima também foram dirigidas a
pessoas que “haviam nele crido”. No entanto, assim que Jesus começou a
colocar as condições do discipulado, esse grupo revelou-se opositor.
Alguns comentaristas querem ver como “apóstatas” pessoas que, no
entusiasmo do momento, tinham se juntado ao Senhor, mas logo haviam
retornado à aparente segurança da Sinagoga.
O apóstata costuma (quando expõe sua posição e a deixa para trás)
transformar-se no mais radical contestador daquilo que antes julgou ser
verdade. A esses apóstatas Jesus lembrou: “Se vocês permanecerem na
minha palavra, vocês serão verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis
a verdade, e a verdade vos libertará”.
Não foi o “permanecer” que encontrou contestação. Foi o termo
“verdade”. O que Jesus disse é o seguinte: somente se vocês permanecerem
no que Eu digo, conhecerão a verdade.
212
Na visão bíblica-judaica, a “verdade” está fundamentada no que
Deus fala. Na pessoa de Jesus, essa palavra estava presente.
Normalmente temos por verdade aquilo que julgamos real. Assim há
verdades distintas para pessoas diferentes. Verdade é um conceito da
filosofia do conhecimento, ideológico, portanto relativo.
Jesus não falou da verdade relativa como resultado de um
julgamento humano. Se Ele, em outro lugar (14,6), disse que Ele próprio é
a verdade, a verdade não é predicado (qualificação), mas sujeito. Se
disséssemos: “Jesus é verdadeiro”, faríamos um julgamento. Jesus
deixaria de ser sujeito (objeto) e conteúdo da verdade e teria que competir
com alegações concorrentes, submetendo-se a uma escala de valores com
a qual seria avaliado. Conhecer “a verdade” nos termos de Jesus é
conhecer quem Ele é. Esse é o primeiro passo para poder falar de liberdade.
Liberdade acontece onde reconhecemos em Jesus o EU SOU de Deus.
(33) Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais
fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?
O grupo não gostou da ligação que Jesus fez entre verdade e
liberdade, pois essa conjuntura pressupõe a sua necessidade de
libertação. A raiz do orgulho nacional e religioso do judeu, sua liberdade
religiosa, fora atacada. O judeu não se via como “preso”. Como
descendentes do patriarca Abraão não somente possuíam a grande
promessa de bênção (Gen. 22,17), mas eram o povo eleito de Deus,
propriedade do altíssimo (Deut.14,1/1 Pedro 2,9). De posse da Lei nunca
se curvaram sob o jugo alheio. Mesmo sob o domínio político/militar
romano não perderam a liberdade íntima, religiosa, e a posse da Lei.
“Como dizes tu: “sereis livres?” Somos livres!!
(34) Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo
o que comete pecado é escravo do pecado.
João Batista já havia feito a advertência aos judeus: “... não comeceis
a dizer entre vós mesmos: Temos por pai Abraão...” (Mat.3,9). Enquanto
pecam não são livres; são escravos, escravos do pecado. O chamado ao
arrependimento se estendia também a eles. Jesus usou como ilustração a
alusão bem conhecida da expulsão da escrava Agar e de seu filho da casa
paterna de Abraão:
(35) O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre.
“Vendo Sara que o filho de Agar, a egípcia, o qual ela dera à luz a Abraão,
caçoava (literalmente “brincar com”), disse a Abraão: Rejeita essa escrava
e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque,
meu filho” (Gen 21,9.10).
213
O Senhor da casa (aqui metaforicamente visto em Abraão) é o Deus
de Israel. Como escravos do pecado, nem eles, judeus, ficariam na casa do
Pai a não serem libertos, antes, pelo Filho.
(36) Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.
O Evangelista João, em toda sua Epístola, somente aqui usa o verbo
“libertar”. Ele nem emprega o substantivo “liberdade”. Os judeus acabaram
de afirmar sua liberdade e Jesus lhas a negou por serem pecadores. A
liberdade, e com isso a permanência na casa paterna, somente o Filho lhes
podia trazer. O Filho não anularia a autoridade do Pai da casa. Ele liberta
da escravidão do pecado e, com isso somente, garante a permanência na
casa do Pai.
(37) Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo,
procurais matar-me, porque a minha palavra não está em vós.
Não havia nenhuma dúvida da descendência biológica desses judeus
de Abraão. Jesus no entanto, junto com o Batista (em Mt.9,3), não dava
valor a essa relação. Substancial era a obra deles: Ao contrário da
hospitalidade de Abraão quando JHWH lhe apareceu na pessoa de três
homens em Manre (Gen 18,1s) e lembrando a constatação dolorosa do
Prólogo “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (1,11), esses
apóstatas agora procuravam eliminá-lO. Nem negaram a intenção (como
ainda o fizeram em 7,19).
(38) Eu falo das coisas que vi junto de meu Pai; vós, porém,
fazeis o que vistes em vosso pai. (39) Então, lhe responderam: Nosso
pai é Abraão.
De Abraão, os judeus não tinham mais nada além da descendência
biológica. Parafraseando: “A comprovação de que vocês não mais são filhos
de Abraão está no fato de vocês aceitarem as insinuações de seu verdadeiro
pai (cujas palavras vocês não rejeitam), da mesma forma como eu (Jesus)
estou fazendo exatamente o que vi em Meu Pai” – uma expressão pesada e
de duplo sentido, sendo imediatamente repelida com a resposta: “Nosso
Pai é Abraão”!
Disse lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de
Abraão. (40) Mas agora procurais matar-me, a mim que vos tenho
falado a verdade que ouvi de Deus; assim não procedeu Abraão.
Jesus argumentou semelhantemente a João Batista em Lucas 3,7-9:
“Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois,
frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer entre vós mesmos:
Temos por pai a Abraão...”. A afirmação dos apóstatas de que eram
semente de Abraão constituía-se em mentira, uma vez que havia uma
intenção fatal por trás. O crime que acusaram em Jesus era o de lhes ter
comunicado a verdade que Ele ouvia de Deus.
214
Mais uma vez, a tradução para o português é falha,
propositadamente talvez. O texto do verso 40, não só no original, mas nos
outros idiomas também, diz: “... procurais matar-me, homem, que vos
tenha...”. O tradutor talvez tenha feito o que muitos antigos copistas
fizeram: procurou evitar um mal-entendido, alterando palavras ou
omitindo-as.
Com o termo “homem”, o Evangelista prepara o chão para o verso 44
onde o diabo será chamado de “homicida”, de assassino.
(41) Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe eles: Nós não
somos bastardos; temos um pai, que é Deus.
Sem ter dado ainda nome ao suposto “pai” do grupo de judeus em
oposição a ele, Jesus lhes declarou: “vocês fazem as obras de vosso pai!”
Não lhes cabia fazer referência a Abraão como seu pai. O Evangelista João
diz noutro lugar, referindo-se aos cristãos: “Nisto conhecerão todos que sois
meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”(13,35). O mesmo estava
ordenado na Lei oral dos judeus: “Ao que se compadecer dos homens, a
este está assegurado a descendência da semente do nosso pai Abraão e o
que não se compadecer dos homens, a ele está (não menos) assegurado que
não faz parte da semente do nosso pai Abraão” (TSota 15,10).
Dessa forma, quem intentar matar um homem porque este lhes
disse o que ouviu de Deus, não pode pertencer “à semente de Abraão”,
mas, sim, é filho de outro.
A resposta “não somos bastardos; temos um pai que é Deus” pode ser
uma expressão do orgulho judaico, porém, como eles fizeram referência a
“bastardo” (lit. mamser , o que fora gerado ilegalmente com culpa de
sangue) pode ter sido “uma indireta” à pessoa de Jesus. “Não somos
bastardos (como tu)”.
Fontes (como ‘Mishna Tratado 4,13’; ‘Orígenes contra Celsum I, 28’),
que registram o uso desse argumento contra Cristo, levaram alguns
intérpretes a entender a observação dos judeus como uma indireta
discriminatória (Barrett, Schwarz). Outros interpretam que os judeus
entenderam muito bem que Jesus questionava Deus ser o pai deles,
quando se referenciou ao “pai deles”. Na opinião desses outros intérpretes,
os judeus negaram que eram filhos de um adultério espiritual com outra
divindade. No Antigo Testamento, os profetas sempre viam a relação de
Deus para com seu povo como a de um casamento, com JHWH como
esposo e Israel Sua única e amada esposa. A quebra do segundo
mandamento lhes era como infidelidade matrimonial (Oséias1,1-9). Desse
ponto de vista, o protesto dos judeus no verso 41 constituir-se-ia na
pergunta: “será que ele, questionando a dependência de Abraão, até nos
nega Deus como nosso Pai”?
215
(42) Replicou-lhes Jesus: Se Deus fosse, de fato, vosso pai,
certamente, me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou;
pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. (43) Qual a razão
por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois
incapazes de ovir a minha palavra.
O comportamento do grupo contradisse sua afirmação. Se de fato
fossem filhos de Abraão, teriam que ouví-lo, reconhecê-lO e não procurar
livrar-se dEle. A argumentação de Jesus nos mostra o grau de sua
segurança e da ausência de qualquer dúvida quanto à sua missão.
Qual fora a razão dessa surdez espiritual dos judeus? Ela não era
proveniente do acaso; havia uma incapacidade objetiva presente.
(44) Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe
os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na
verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala
do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.
A declaração presente é de um rigor assustador. No encontro com a
mulher samaritana, Jesus somente disse: “vós adorais o que não
conheceis...” e nada disse de diabo. O fato é que a intenção de matar
revelou o outro “pai”. Eles realmente não podiam ouvir.
“A incredulidade consiste no verdadeiro ser do incrédulo; o homem não
existe como algo neutro atrás de sua incredulidade” (Bultmann).
No verso 44 temos “o diábolos” como o pai da mentira, homicida
desde o início e cuja vontade encontrou ouvidos nos oponentes de Jesus.
Há muita controvérsia entre os teólogos a respeito do termo “vós sois do
diabo” porque no original grego, traduzido literalmente, se entende: vocês
são do pai do diabo”. Extensas pesquisas levaram a diferentes conclusões.
Nelas também aparece a figura de Caim, cujo assassinato (Gen.4,8s) deu
início à “história infinita das matanças universais” até o dia de hoje, fato
esse lembrado pelo Evangelista na sua primeira carta, cap.3,12.
(45) Mas, porque eu digo a verdade, não me credes. O “eu” é
enfático. Vendo a obra do “diábolos” por detrás da rejeição dos “judeus”
(não importando se a menção acima aponta para Caim, ou para a serpente
do paraíso, ou para o próprio “diábolos”) não há como esperar que eles
dessem ouvidos à verdade. Por trás de toda rejeição e negação de Jesus
está o “EU” com seus ouvidos abertos para “o outro”.
(46) Quem dentre vós me convence de pecado?
Como justo, Ele podia lançar-lhes a pergunta retórica: “qualquer de
vocês, por acaso, pode acusar-me de pecado”? O fato de ninguém ser capaz
para tal já pressupõe a seguinte declaração:
216
Se (eu) vos digo a verdade, por que razão não me credes? (47)
Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais
ouvidos, porque não sois de Deus.
Dar ouvidos é mais do que “ouvir” somente. Na linguagem bíblica do
nosso autor, “dar ouvidos” é sinônimo de “obedecer”. Desobedecer a Deus é
obedecer a outro que se apresenta na forma do “EU” a todos nós.
A transcrição das discussões de Jesus com seus oponentes nos
servem como apelo máximo a fim de não nos fecharmos ou resistirmos à
palavra de Jesus e que nos decidamos pela verdade e contra a mentira.
No fim da carreira de cada um de nós ficara manifesta a
substancialidade da nossa escolha.
Cap. 8.48-59
(48) Responderam, pois, os judeus e lhe disseram: Porventura, não temos
razão em dizer que és samaritano e tens demônio? (49) Replicou Jesus: Eu não
tenho demônio; pelo contrário, honro a meu Pai, e vós me desonrais. (50) Eu não
procuro a minha própria glória; há quem a busque e julgue. (51) Em verdade, em
verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte
eternamente. (52) Disseram-lhe os judeus: Agora, estamos certos que tens demônio.
Abraão morreu, e também os profetas, e tu dizes: Se alguém guardar a minha
palavra, não provará a morte, eternamente. (53) És maior do que Abraão, o nosso
pai, que morreu? Também os profetas morreram. Quem, pois, que te fazes ser? (54)
Respondeu Jesus: Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é; quem me
glorifica é meu Pai, o qual vos dizeis que é vosso Deus. (55) Entretanto, vós não o
tendes conhecido; eu, porém, o conheço. Se eu disser que não o conheço, serei
como vós: mentiroso; mas eu o conheço e guardo a sua palavra. (56) Abraão, vosso
pai, alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se. (57) Perguntaram-lhe, pois, os
judeus: Ainda não tens 50 anos e viste Abraão? (58) Respondeu-lhes Jesus: Em
verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão existisse, EU SOU. (59) Então,
pegaram em pedras para atirarem nele; mas Jesus se ocultou e saiu do Templo.
A avaliação dos representantes dos judeus, à qual João tem chegado
no fim do capítulo oito, é a seguinte: Jesus lhes veio como Verdade de
Deus em forma humana. Eles, portanto, decidiram pela mentira. Ele veio
como Salvador do mundo. Eles escolheram o homicídio desde o início.
Fecharam-se perante à Graça revelada.
Como isso fora possível? O Evangelista não pode ver outra
explicação a não ser a de uma decisão consciente contra a Luz. O Apóstolo
Paulo, 50 anos antes, ainda nutria esperança para o seu povo e via a
recusa de Jesus pelo seu povo como cegueira espiritual. O Evangelista
João já não mais nutre esperança alguma.
No capítulo 8 do seu Evangelho se espelha a situação no fim do
século 1º; um abismo intransponível entre as comunidades judaicas e
cristãs.
217
Leia, se possível, os capítulos 9 – 11 da “Carta” de Paulo “aos Romanos” e
observe a dor e a tristeza do Apóstolo por causa dessa situação. Veja também o
que João não viu e conheça a visão de Paulo: o avivamento futuro de seu próprio
povo e o que esse acontecimento significará para a igreja cristã, quando se
cumprir.
(48) Responderam, pois, os judeus e lhe disseram: Porventura,
não temos razão em dizer que és samaritano e tens demônio?
Os judeus sabiam da descendência de Jesus (6,42/7,52). Eles
sabiam que Jesus não era samaritano. Assim, o sentido da frase pode ser:
“Não temos razão em dizer que você parece um samaritano possesso de
demônio” ou, como os samaritanos eram desprezados: “Você nem é melhor
que um samaritano” Morris). O argumento de possessão demoníaca já fora
usado contra Jesus em 7,20. Em 8,52 e 10,20 ela aparecerá de novo. Pelos
Evangelhos sinóticos sabemos da acusação levantada pelos escribas:
Jesus é possesso pelo maioral dos demônios e com essa força expele os
demônios de outros.
Em nenhum lugar o Evangelho de João faz alusão aos exorcismos
praticados por Jesus. Não sabemos por que razão João, ao contrário dos
sinóticos, não os mencionou. Sem dúvida, eles pertencem aos “muitos
outros sinais, que não estão escritos neste livro” (20, 30).
“Samaritano possesso” pode também ser o “troco” dos judeus, uma
vez que Jesus os havia qualificado “filhos do diabo”.
(49) Replicou Jesus: Eu não tenho demônio; pelo contrário, honro a
meu Pai, e vós me desonrais. (50) Eu não procuro a minha própria
glória; há quem a busque e julgue. (51) Em verdade, em verdade vos
digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte
eternamente.
A resposta, com o ”Eu” enfático no início, pode ser parafraseada
assim: “Eu (pela minha pessoa) de maneira nenhuma sou possesso por um
demônio. Antes, estou dando a honra a meu Pai, honra que vocês me
negam, embora sendo eu seu enviado. Ao contrário de vocês, não procuro a
minha própria honra. Há outro que está cuidando disso e que julgará (a
vocês que me desonram). Digo-vos com toda certeza: Se alguém guardar
minha palavra, não verá a morte eternamente” (Thyen).
A condicional “se” torna a promessa acessível a qualquer um. Não
mais é uma promessa dirigida únicamente às pessoas com as quais Jesus
estava discutindo.
(52) Disseram-lhe os judeus: Agora, estamos certos que tens demônio.
Abraão morreu, e também os profetas, e tu dizes: Se alguém guardar a
minha palavra, não provará a morte, eternamente.
218
Você pode imaginar o que significa “não ver a morte eternamente”?
“Não ver a morte”, no uso semita, é sinônimo metafórico de “ter vida
eterna”.
Os judeus não entendiam. Será que Ele até proclamava imortalidade
para si e seus seguidores!? Eles viam confirmado seu julgamento: ele
estava louco mesmo!
O que eles não observavam era que Jesus havia ligado a sua
promessa às palavras pronunciadas imediatamente antes; eles não
consideravam o contexto. Neste, Jesus falou dAquele que os julgaria pelo
seu posicionamento contra ele. Todos os que mantivessem a palavra dele
não seriam julgados e nunca apagados da memória de Deus. A promessa
de Jesus estava sendo dada no contexto da honra do Pai.
Eternidade não é um acúmulo de tempo. Até mesmo inúmeras vezes
muito tempo não são eternidade. A diferença com o tempo é qualitativa, não
quantitativa. O sempre presente “EU SOU” se destaca perante à vida
limitada e definida de Abraão.
(53) És maior do que Abraão, o nosso pai, que morreu? Também
os profetas morreram. Quem, pois, que te fazes ser?
Jesus não prometia imortalidade, como os judeus a entendiam.
Abraão morreu. Os profetas morreram. Quem era “esse Galileu” que se viu
acima de seus pais? “Você está se fazendo o quê?”
Essa é a pergunta que através dos séculos, até hoje, separa e une.
Para alguns, Jesus era e continua sendo nada mais do que um homem,
talvez endemoninhado e com uma presunção doentia. Se, por outro lado,
reduzimos Jesus a um homem extremamente religioso e bom, exemplar,
anulamos suas palavras. Ele foi morto exatamente por não ser um
religioso. Em todos os sentidos Jesus rompe os parâmetros. Você tem
coragem de levar a sério as Suas palavras?
Para você e eu nunca sermos riscados da memória de Deus, Jesus,
como homem, teve que morrer. Como sabemos, várias vezes e cada vez
com maior clareza Ele havia declarado que daria sua vida pela vida do
mundo; que teria de ser “levantado” – “... importa que o Filho do Homem
seja levantado, para que todo que nele crê tenha vida eterna” (João 3,14b).
Não devemos espiritualizar o que Deus provou na pessoa de Jesus.
“Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em
favor de seus amigos” (15,13). Em Jesus, Deus se comprometeu
brutalmente com esse mundo empírico. A encarnação não é componente
teatral, “o exemplo da possibilidade de um ser divino assumir forma
humana” (como diz Käsemann), não, a encarnação de Jesus foi revelação
com todas as suas dolorosas consequências: o Cordeiro de Deus, morto,
levou o pecado do mundo.
219
(54) Respondeu Jesus: Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha
glória nada é; quem me glorifica é meu Pai, o qual vos dizeis que é
vosso Deus. (55) Entretanto, vós não o tendes conhecido; eu, porém, o
conheço. Se eu disser que não o conheço, serei como vós: mentiroso;
mas eu o conheço e guardo a sua palavra.
Se Jesus procurasse ser conhecido como milagreiro, tal qual os
curadores ambulantes do seu tempo, Ele nada seria. Jesus via em tudo o
Pai. O Pai lhe era presente, Ele lhe falou, e os sinais operados por Jesus
eram manifestação do poder do Pai.
O Deus cultuado no Templo era um Deus oculto; os judeus
sacrificaram a um Deus desconhecido. Sua religião era regida pela Lei, por
letras e por liturgias. Para poderem se comunicar com esse Deus
precisavam de sacerdotes, de intermediadores. Estes sacrificavam
diariamente pelos seus “clientes” a fim de apagar a ira de Deus. Assim, o
Deus chamado pelos judeus de “nosso Deus” lhes era estranho. No
passado, Ele havia falado através de seus profetas. Mas agora mantinha
silêncio. Há mais de 300 anos não mais se levantou profeta em Israel.
Quando recentemente apareceu João Batista, não deram ouvidos ao
anúncio da chegada do “Cordeiro de Deus”. O Batista silenciou. Seu
clamor não havia encontrado ressonância no clero. Assim, eles mentiam
quando afirmaram conhecer seu Deus. Nunca sabiam se esse seu Deus
lhes era favorável; tiveram que interpretar a sorte e o azar para poder
concluir se eram bem vistos lá em cima ou não (como também na nova
“Teologia da Prosperidade”).
O Pai ao qual Jesus se referia era um Pai presente, conhecido e vivo.
Quando Jesus falava do Pai, enunciava as palavras do Pai. Essas eram
verdadeiras, ao contrário das dos judeus.
(56) Abraão, vosso pai, alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijouse.
Jesus, assim como seus oponentes, viviam na história de Israel.
Abraão, Isaque e Jacó, como pais, eram sempre presentes nas suas
avaliações religiosas. O que será que Jesus quis dizer quando afirmou que
Abraão viu “seu dia”?
No judaismo, esperava-se o Messias na sua função humana como
libertador e futuro rei de Israel. Assim se falava dos “dias do Messias”, de
uma nova “era” (plural de dias).
Os profetas, por sua vez, falavam do “dia de JHWH” (singular)
quando olhavam para o futuro. Eles viam a consumação das promessas de
Deus na história humana.
Quando Jesus menciona “meu dia”, Ele se referiu a essa ação
soberana de Deus, não a “dias” (plural) em que as esperanças messiânicas
do povo fossem concretizadas. Esse “seu dia” seria o dia de Sua
220
glorificação por Deus, quando Ele fosse “levantado”, isto é, Sua morte e Sua
ressurreição. Era “o dia” que os profetas anunciavam.
É importante observar que Jesus usou o singular: “meu dia”. Esse
dia, Abraão viu. Viu e depois regozijou-se. O Evangelista não nos dá a
menor “dica” de quando, como e onde Abraão pode ter visto “o dia” de
Jesus. Assim, há lugar para muita interpretação fantasiosa. Os Rabinos
conhecem tradições que falam de revelações dadas por Deus a Abraão,
quanto ao futuro.
Rabi Jochanan B.Zakkai disse: “Deus revelou a Abraão este mundo,
mas não o futuro”, enquanto que o Rabi Akiba afirmou: “Deus revelou a
Abraão este mundo e o vindouro”. Como que olhando do céu, outros
interpretam a alegria de Abraão como sendo sua participação no
cumprimento das profecias. Há teólogos que querem ver o momento da
alegria de Abraão quando este, já morto, fora testemunha, do céu, da
encarnação de Jesus (Bernard), e assim por diante.
A relação entre Jesus e Abraão é histórica. Quando Jesus disse que
Abraão viu e depois regozijou-se, devemos procurar dois eventos na vida
de Abraão. Após as promessas dadas a Abraão (Gen 12,3, 15,5s, 17,17)
podemos identificar o regozijo dele, quando no lugar de seu filho, um
cordeiro escolhido por Deus fora sacrificado (Gen 22,16s).
(57) Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens 50 anos e
viste Abraão?
Com 50 anos, os sacerdotes estavam saindo do serviço no Templo;
com 50 anos, a obrigação do imposto para o Templo cessava (Mat.17,24).
Os judeus, em nosso caso, pareciam mais interessados em cuidar do
memorial de Abraão do que atentar ao que Jesus lhes disse. Abraão se
alegrou com a promessa “do dia” e depois, quando o viu simbolicamente
em Gen.22,16, alegrou-se. O que os judeus aqui levantam é a inversão da
proclamação. Não que Jesus tenha visto a Abraão; este viu “o dia” de
Jesus, o dia em que todas as promessas que Deus lhe tinha dado se
cumpriam. No entanto e sem saber, os judeus apontaram para uma
realidade (7,35; 8,22; 11,50), e essa realidade da preexistência de Jesus foi
confirmada formalmente por Ele.
(58) Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: antes
que Abraão existisse, EU SOU.
Tampouco como no Prólogo (1,1s), o “EU SOU” aqui tem o sentido
narrativo (era uma vez...). O Prólogo define o “Logos” quanto à Sua
existência (no princípio era), Sua relação com Deus (estava com Deus) e
Sua predicação como Deus (era Deus). Não se trata de narrar uma “história
de tempos passados” quando falamos de Jesus. “Era” e “veio a ser” são o
eixo em torno do qual todo o Evangelho de João se desenvolve. Esses
termos exaltam o ser eterno do “Logos” além de existência e tempo. O “ser”
221
do Logos está além do “vir a ser” e do “acontecimento”. Enquanto tudo na
terra tem seu início e também seu fim, o “Eu sou” é sem início e sem fim.
Deus, no Antigo Testamento e seu Filho, no Novo Testamento,
através do verbo “ser” possuem direitos específicos. Com seus “EU SOU”
eles fazem valer seus “direitos divinos” (Kermode).
Este “EU SOU” sempre inclui o “EU ERA” e o “EU SEREI”. Assim não
há como reduzir o “era” do Prólogo, projetando-o em alguma época
temporal, seja no tempo antes da caída do homem (Gen.3) ou até no
período do Jesus homem.
Não se trata somente do uso de meios de estilo literário de
retrospecção, prolepse e antecipação. Deus e seu Logos são Senhores do
tempo e não confinados por categorias temporais (Marquard).
Em palavras mais simples: Jesus não é sujeito ao tempo que marca
a nossa vida. Ele tanto era, é e será.
O grupo de pessoas que discutia com Jesus teve de ouvir que não
eram verdadeiros filhos de Abraão; que eram filhos do diabo e, portanto,
mentirosos que tramavam um assassinato. Tudo isso fazia parte de um
bom debate. Agora porém, o limite fora ultrapassado.
(59) Então, pegaram em pedras para atirarem nele; mas Jesus se
ocultou e saiu do Templo.
No momento, em que a honra do Deus da Antiga Aliança, o Deus de
Abraão, Isaque e Jacó estava sendo tocado por alguém que se declarava
eterno como Deus, o zelo religioso dos judeus se fez presente. Levítico 24,16
ordena: “Aquele que blasfemar o nome do Senhor será morto; toda a
congregação o apedrejará...”. (Sanhedrin 5,3s.)
O historiador Josefo (Ant.XVII, 216) sabia de vários apedrejamentos
ocorridos dentro da área sagrada do Templo. É algo difícil de se imaginar
por nós, que imaginamos o Templo sempre como “lugar de Deus” e tudo
nele como santo e ao mesmo tempo metafórico. Durante a vida de Jesus, o
Templo estava em constante reforma (por Herodes) e havia pedras o
suficiente para tal ação. Sangue, zelo religioso e culto se misturavam.
Mais uma vez Jesus escapou. Percebemos o espanto do Evangelista
quando ele anota: Jesus se ocultou e saiu do Templo. Por alguma razão, o
linchamento não aconteceu.
Esse episódio e a paixão de Jesus como um todo, nos revelam a cruz
de Jesus como consequência inevitável do encontro de “religião” com
Deus. Foram os defensores da religião os que, covardemente, armaram a
trama. Ficaram pessoalmente com as mãos limpas, mas passaram “o
trabalho sujo” para o “braço secular”, neste caso, os romanos.
222
No decorrer da história, a Igreja “cristã” sempre tem se mantido
intocável, dessa mesma maneira, quando desafiada por alguém que amava
Jesus mais do que a letra da Lei da instituição denominada “Igreja”. E que,
através de todas as suas representações, em todas as épocas, tem
eliminado esses “hereges” através das mais horríveis métodos de tortura e
assassinatos – em nome de guardiã da “religião”. Os “Reformados”
(Protestantes) matavam menos que Roma sim, mas matavam também os
que ousaram estar discordando de sua doutrina.
Segundo a mídia, nunca morreram no mundo tantas pessoas como
vítima de conflitos religiosos como hoje (Spiegel).
•
•
Como você encara alguém que questiona a sua fé?
Você tem a disposição necessária para ouvir e reavaliar sua
maneira de crer de acordo com as palavras de Jesus?
Considerações (I)
capítulos 7 e 8
Cara amiga, caro amigo,
Será que você teve tempo e disposição para acompanhar os estudos,
principalmente os últimos, mais difíceis, onde o Evangelista relata as
discussões de Jesus com os fariseus? Você os considera difíceis demais?
Temos procurado abordar o texto não em linguagem teológica, mas de
uma maneira acessível a pessoas comuns, como você e nós aqui.
Será que você dispõe de um lugar na sua casa (ou fora), onde ninguém
o (a) interrompa quando tenta estudar o texto? Incentivamos você a
procurar um cantinho e um horário que lhe facilitem a leitura. Sem
“mastigar” o alimento, ele para nada serve; ele só infla. Assim acontece
também com o alimento espiritual; ele precisa ser transformado em vida.
Vamos interromper o estudo do Evangelho na procura de uma
compreensão melhor de alguns termos que o Evangelista João usou e cujo
significado está deformado, seja pela nossa cultura, pela religião ou pelo
tempo, simplesmente. Há, também, questões que, com grande
probabilidade, se levantam na mente de quem estuda as Escrituras;
perguntas que valem a pena serem mencionadas na procura por uma
resposta.
•
Uma ou duas pessoas?
Você percebeu que o Evangelho de João inteiro parece falar de duas
pessoas que são Uma. Temos o Pai e temos o Filho e, pelas palavras de
Jesus, um é distinto do outro. Porém ouvimos Jesus reivindicar o “EU
223
SOU” do Pai. Surgem as perguntas: Deus e Jesus são pessoas distintas?
Como podem ser Um só? Jesus se referia sempre ao Pai como autoridade
superior - não é assim? Hoje, Deus Pai e Cristo ainda são duas pessoas
ou uma só?
A igreja, na sua procura por uma definição, chegou através de muita
luta à seguinte afirmação: O Pai e o Filho são de uma mesma “substância”
(ano 325 d.C.). O que significa isso? Significa que tanto o Pai quanto o
Filho são Deus; não deuses, mas um só e o mesmo Deus. Difícil, não é?
Faremos umas considerações no intuito de entender melhor quem, na
visão do Evangelista João, é o Pai e quem é o Filho.
Crer é pensar, também. Há muitas pessoas que têm medo de pensar
porque temem a dúvida que consideram “pecado”. Veja: a certeza surge
como resposta a uma dúvida e não através de uma imposição, mesmo no
campo da religião. Quando em assuntos espirituais chegamos ao limite
daquilo que o nosso intelecto é capaz de captar, a melhor resposta ainda é
o silêncio que, melhor do que a discussão, ajuda separar a verdade da
mentira.
Olhemos alguns termos e pensemos a respeito!
• Deus Pai
Em Jesus não tivemos “o Pai” na terra. Deus continuou Deus, Espírito,
invisível, Eterno e Único. Deus não tem tamanho definido ou limitado; Ele
não ficou menor enquanto Jesus esteve na terra. O “lugar” de Jesus no
céu não ficou vazio. Deus continuou Deus, ilimitado e Único.
• Jesus do Evangelho
Jesus de Nazaré era humano, portanto visível e sujeito a todas as
limitações que caracterizam a criatura humana. Jesus morreu a morte
física, a qual cada um de nós terá que aceitar e passar.
O mistério e a maravilha que o Evangelista João proclama, é a
“encarnação” de Deus na pessoa de Jesus humano. João não trabalhou
com fatos místicos; não argumentou com um nascimento virginal de
Jesus. O Evangelista simplesmente afirmou o fato: Em Jesus, o Pai se
tornou visível, dando testemunho em palavras humanas e
compreensíveis.
Em Jesus ouvimos a voz do Pai. Jesus era mais que um profeta que
enunciava palavras e cujo conteúdo o profeta mesmo, às vezes, nem podia
encaixar nas circunstâncias em que vivia como, por exemplo, ocorre com o
profeta Isaías. Os profetas falavam do que Deus lhes “sussurrou”, e assim
transmitiam mensagens ao povo.
Em que Jesus era diferente? Jesus não recebia “mensagens” de
Deus. Em Jesus, o próprio Pai nos falou. Percebemos nas leituras
anteriores que Jesus e o Pai estavam em constante comunhão, pensando
juntos. Jesus era a Palavra de Deus em forma humana, da mesma
categoria qualitativa de Deus.
224
Não havia o “era” (uma vez...). Era sempre o “é ” que caracteriza Deus.
•
Relação entre Deus e Jesus
Se Deus estava conosco em forma humana, é obvio que “quem não
honra o Filho não honra o Pai” (5,23). Essa é a razão da vital importância
de conhecermos Jesus. Ele é a imagem do Deus invisível. (Col.1,15ª).
Se Deus nos abençoa com uma mente disposta a crer na pessoa de
Jesus, essa pessoa começa a ganhar forma através das palavras do
Evangelho de João.
•
Quem é Jesus após a sua morte e ressurreição?
Somente aos poucos, os novos cristãos entenderam que, na pessoa
do Nazareno, fora o próprio Deus que estivera presente. O Evangelista
João interpretou a “ascensão”, isto é, o momento a partir do qual Jesus
não fora mais visto pelos seus seguidores (Atos 1,6-11), como retorno de
Jesus ao lugar onde estava desde a eternidade passada, com Deus
(confira João 1,1s).
Com esse retorno nasce a pergunta: o cristão tem duas autoridades no céu?
Há, por exemplo, pontos de vista diferentes a respeito sobre a quem
deveríamos dirigir a nossa oração. Alguns, com base no “Pai Nosso”,
defendem que todas as orações devem ser dirigidas a Deus Pai, em nome
do Filho.
Pelo fato de ter sido reconhecido Deus enquanto na terra, e
baseando-se em algumas frases do Novo Testamento nas quais Jesus é
chamado de Deus (Tito 2,13), outros têm liberdade para dirigir-se a Jesus,
quando oram. Qual o modo certo de orar?
Se foi na pessoa de Jesus que Deus se nos fez conhecer, por que razão
não nos podemos dirigir a Ele, a quem amamos acima de todas as coisas?
Se Ele era e é “um” com o Pai, não pode receber nossa adoração?
• Escândalos desnecessários e necessários
O cristianismo nasceu do judaismo. Ele é um ramo, não o tronco. Paulo,
o ex-fariseu, deixou isso claro na sua “Carta aos Romanos” (11,11s).
Através do judeu Jesus de Nazaré é que o Deus de Israel se tornou
acessível também a nós, não judeus, gentios, “ímpios” (na linguagem dos
judeus). Para desgosto deles chamamos o Deus deles, o Deus de Abraão,
Isaque e Jacó, o nosso Deus, também.
Há um escândalo desnecessário para o judeu que crê no Deus da
Bíblia, quando ele vê como nós, os cristãos, fizemos da quebra de sua
confissão básica, diária, o pecado maior que ele conhece: uma religião!
Uma religião com imagens (quebra do segundo mandamento, Ex.20,4.5),
225
com homens e mulheres sendo venerados, adorados; numa religião que se
assemelha às religiões pagãs.
A esse escândalo triste e desnecessário se junta outro, necessário:
Confessar Jesus como SENHOR, e tê-lo “à direita do Pai” (...) é o grande
escândalo que o Evangelho não pode evitar de ser (1.Cor.1,22.23s; Gal
3,13).
• Deus único e soberano – e Cristo Jesus?
O autor do livro “Teologia Cristã do Judaismo”, Clemens Thoma,
Professor em Teologia Judaística e consultor para questões da relação
entre a igreja cristã e o judaismo, escreve quanto à questão da divindade
de Jesus (§ 155):
Nenhuma cristologia (aquilo que o Evangelho de João desenvolve)
deve ignorar uma posição básica do judaismo: A função de Jesus nunca
pode colocar em questão a do único Senhorio de Deus. O ex-fariseu e
visionário, o Apóstolo Paulo, prestava meticulosa atenção em todas as
suas declarações bíblicas quanto a Cristo, procurando sempre confessar o
Senhorio de Deus Pai em toda sua cristologia. Podemos demonstrar isso
da forma mais propícia em 1.Cor.15,20-28 (leia!).
O teólogo Oskar Cullmann vê nesse trecho de 1.Cor.15 uma
“declaração cristológica imensamente elucidativa”. Ele considera como
extremamente instrutivo o fato de que, em 1.Cor.15,20-28, o último
cumprimento final de toda história da Salvação está descrito como “última
submissão do Filho sob o Pai...” Aqui está a chave de toda cristologia
neotestamentária. Ela só faz sentido por só podermos falar do Filho
considerando a obra salvadora de Deus, não o “ser”, não a posição dele.
Nessa ação, na história da salvação, o Pai e o Filho são “um” (João
10,30).
•
Até quando?
Franz Rosenzweig (1886-1929), judeu, escreveu a respeito do trecho de
1.Cor.15,28:
“Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho
também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja
tudo em todos”; e João 14,6: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém
vem ao Pai senão por mim”:
O cristianismo não reconhece o Deus do judaismo como Deus, mas como
Pai de Jesus Cristo. O cristianismo se orienta no “Senhor”, porque sabe
que somente Ele é o caminho para o Pai. Ele (Jesus Senhor) continua como
SENHOR junto com sua igreja todos os dias até o fim dos tempos, quando,
então, Ele pára de ser SENHOR e se sujeitará ao Pai e Este será, então,
tudo em todos.
226
Quanto a isso, no que Cristo e Sua igreja significam nesse mundo, nós,
judeus e cristãos, temos o mesmo entendimento: Ninguém vem ao Pai,
senão por Ele (Cristo)
O Israel (de Deus), eleito pelo seu Pai, espreita inflexivelmente, além de
todo mundo e toda história, na direção daquele último ponto, muito
distante, onde este seu Pai, Ele mesmo, o Um e Único será “tudo em
todos”!
> Nesse instante, quando Cristo deixa de ser Senhor,
> Israel deixa de ser eleito;
> neste dia, Deus deixa de ter o nome através do qual somente Israel
o conhece: o Eu sou,
> e ELE será tudo em todos...”
(Final das citações).
A visão escatalógica maravilhosa de Rosenzweig contém um
pensamento anticristão, válido para o judeu: a constatação de que o
cristianismo não reconhece o Deus de Israel como seu Deus, mas somente
como Pai de Cristo. Do ponto de vista cristão, podemos corrigir da seguinte
maneira: O cristianismo reconhece o Deus do judaismo, mas como Deus
e Pai de Jesus Cristo.
O Evangelista João escreveu sua Epístola para sua igreja, a igreja do
segundo século. Este Evangelho revelou-se Evangelho para toda a igreja e
valendo até o fim dos tempos, quando Deus será tudo em todos.
O Apocalipse de João, semelhantemente ao seu Evangelho, mostra
as duas pessoas: Deus e o Cordeiro. Embora o capítulo 4 enfatize a posição
de Deus como Único Deus, como o “Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim”,
(22,9-15), ele fala do trono de Deus e do Cordeiro” (22,3).
O visionário do Apocalipse não viu até onde o Apóstolo Paulo
enxergou; ele escreveu “dentro do nosso tempo”. Quanto à ação salvadora
(função) do Cordeiro e a posição de Deus como Deus temos a mesma visão
tanto no Evangelho como no Apocalipse.
Você percebe como a visão escatológica do “iletrado pescador” João e
a do “intelectual ex-fariseu” Paulo não são exatamente a mesma? Lembrese do fato de que, cada uma deles, tinha sua função na história da
salvação e a unidade e infalibilidade da Palavra de Deus não está na letra
escrita, parcial, no “livro de papel” que temos nas nossas mãos. A
infalibilidade da Palavra de Deus está em Deus, que é infalível. A nossa
visão e compreensão sempre serão parciais.
•
Portanto, nunca brigue sobre trechos isolados das Escrituras! São
todas partes de um maravilhoso “todo” e perfeito, como o próprio Deus
é perfeito.
227
Na continuação veremos o que a Torá significa para o judeu. Para
aquele leitor do Evangelho de João que não conhece a função da “Lei de
Moisés, o termo “Torá” corre perigo de ganhar uma conotação negativa.
Lembre-se: estamos procurando entender o Evangelho dentro do seu
contexto, que é um contexto judeu, para mais adiante fazer um resumo
daquilo que, definitiva e tragicamente, separava Jesus dos “judeus” e,
aparentemente, da Torá.
Considerações (II)
Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os meus caminhos.
(Salmo 119,105)
A Torá – a Lei de Deus
FONTE: Mussner, Franz. Traktat über die Juden. Kösel, München, 1979
Durante o estudo do Evangelho de João, vez e outra temos
encontrado Jesus em discussão com os fariseus, questionando as suas
interpretações da Lei (Torá).
Para que nós, cristãos, entendamos melhor o judaismo e a maneira
de pensar do judeu, temos que conhecer a relação entre este e a Lei de
Deus. O termo “tõrã” encontra-se 220 vezes no Antigo Testamento
hebraico. Torá significa “lei, instrução”. No campo religioso devemos
distinguir entre a “Torá de Deus” e “Torá de Moisés”. 2 Crônicas 15,3
(“Israel esteve por muito tempo sem o verdadeiro Deus, sem sacerdote que o
ensinasse, e sem lei”), mostra a equivalência da ausência de um sacerdote
que ensinava à ausência do próprio Deus e Sua Torá. A Torá sacerdotal
era tida como Torá de Moisés; ela era transmitida oralmente e permitia ao
leigo diferenciar entre santo e profano, puro e contaminado, sobre Pessach
(Páscoa), lepra, nasireu (votos) etc. O sacerdote se orientava pela tradição e
instruções escritas no passado (veja 2.Reis,22,8s). Há uma hipótese de
que, sob Esdras, a já presente Torá (de Moisés) foi redigida, conhecida e
anunciada no seu todo.
Em oposição à interpretação da Torá do sacerdote, os profetas
Oséias e Jeremias falavam com determinção da “Torá de JHWH” (de
Deus). Oséias não mais a via como o conjunto de instruções para o povo,
mas como “revelação inteira da vontade de JHWH”, registrada e imutável.
Isaías acusava o povo de desprezar a “Torá de Deus” “... porquanto
rejeitaram a lei do SENHOR dos Exércitos e desprezaram a palavra do
Santo de Israel”(5,24). Jeremias aplica o termo “Torá de Deus” de forma
polêmica contra os sacerdotes e o povo (6,19; 8,8). A alegria da “Torá de
Deus” sustenta a base dos “Salmos da Torá”, especialmente do salmo 119.
Neste salmo, exalta-se a alegria do justo e do piedoso na Torá e que levou
à celebração da “Festa da alegria na Torá” logo após a Festa dos
228
Tabernáculos. A piedade da “Torá de Deus“ constante nos salmos está
relacionada com o indivíduo, ao contrário da compreensão anterior da Torá
como legislação para o povo como um todo.
Vejamos alguns versos desse salmo:
•
•
•
“Mais me regozijo com o caminho dos teus testemunhos do que com
todas as riquezas” (119,14);
“Terei prazer nos teus decretos; não me esquecerei da tua palavra”
(119,16); “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer, são os
meus conselheiros”(119,24);
“Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!”(119,97) e
outros mais (versos 47,77,98,105,111,117165,167 e 174).
O conceito “Torá” começou a ser relacionado com o nome de Moisés,
principalmente no Deuteronômio e nas Crônicas. Ali não mais
encontramos mais instruções específicas, mas, sim, a revelação integral da
vontade de Deus para Israel. Isso se expressa em termos como “essa Torá
(toda) (Deut.1,5;4,8;17,18 etc; assim como “...todas as palavras desta
lei...” (17,19;27,3.8.26 etc).
A “Torá de Moisés” (a que Moisés nos deu) (1,5;4,8.44) transformouse paulatinamente em “vontade escrita e imutável de Deus”. Nas Crônicas,
encontramos a “Torá de Deus” e a “Torá de Moisés” lado a lado. A partir de
então, os dois termos aparecem juntos. Aos poucos, o termo “Torá” tornouse sinônimo de todo o Pentateuco (5 primeiros livros da Bíblia, “livros de
Moisés”). A tendência para a interpretação casuística crescia. Aquilo que
teve seu início com os profetas Oséias e Jeremias e no Deuteronômio, a
saber, a visão do conjunto universal da “Lei”, levou ao entendimento de que
a Torá se identificava com todo o antigo Testamento, fato esse bem visível
nos muitos salmos que cantam a beleza da Torá, da “Lei de Deus”.
O termo “Torá”, podendo ser inicialmente visto como instrução,
testemunho, decreto, aparece na tradução do Antigo Testamento para o
grego (LXX) sempre como “Lei”, o que faz salientar o caráter legalista da
Torá.
No judaismo antigo, a Torá veio a tornar-se a base para o
relacionamento do povo de Israel para com seu Deus. O compromisso, a
obrigatoriedade da Lei, sobrepujavam todas as demais instituições
religiosas como o Templo, o conhecimento das Escrituras, ou a atividade
sacerdotal.
O levante dos Macabeus (revolta dos judeus contra a ocupação grega
e romana ocorrida durante os dois séculos antes de Cristo) partiu do zelo
pela “Lei” e foi ali que um grupo de homens se formou (ganhando o nome
de “fariseus”), comprometendo-se a “guardar a Lei”, custe o que custar e
com todas as suas consequências. Na época de Jesus, a “Lei” havia se
tornado a instância defensiva e separadora contra o movimento helenista,
sendo vista como “parede de separação”, capaz de proteger a cultura e a
229
religião judaica num contexto cultural hostil. A civilização helenista como
poder secular em Israel representava um real perigo para o judaismo,
perigo que tinha de ser enfrentado. O instrumento de maior eficácia para
tal era “a Lei”, junto com todo ensino de sabedoria, o que fez nascer a
“Toralogia” (Ontologia “Toraica”). A “sabedoria” (que era a “norma” no
mundo antigo) passou a sua função cósmica para a Torá.
A visão dos fariseus quanto à Torá era essa: (e continua a ser para o
judeu fiel até hoje):
• A Torá fora criada antes do mundo vir a ser.
• A Torá estava com Deus.
• A Torá é de procedência divina (lit: a filha de Deus).
• A Torá é o instrumento divino para toda a criação.
• A Torá traz vida.
• A Torá é luz.
• A Torá é verdade.
• A Torá é o meio de presença de Deus no mundo.
• A Torá representa o próprio Deus.
Através do processo de evolução do conceito da “Torá”, ela mesma se
transformou em magnitude cósmica. Assim como o mundo era regido pela
sabedoria de Deus, a Torá era “Lei mundial”, representando a ordem da
criação. Assim, qualquer ataque à Torá necessariamente tinha de ser visto
como ataque contra a ordem divinamente instituída. Deus não mais fora
visto fora, ou melhor, acima de suas ordens (acima da Torá); Ele mesmo
se revelava na Torá.
A catástrofe nacional (o exílio), no século 6 antes de Cristo, foi vista
pelos profetas como consequência das muitas transgressões do povo
contra a “Lei de Deus” (Jeremias, Ezequiel).
Após as catástrofes nacionais do primeiro e do segundo século
cristão, quando os judeus perderam não somente o Templo mas a própria
pátria, além de suas festas lhes sobrou somente a Torá como fator de
identificação perante às demais nações.
Para o sentimento judaico, a Torá não é “letra morta”, mas sim, a
legislação de seu Deus que deve ser observada, caso não se queira trazer
maldição divina sobre si mesmo.
Aliança e Torá nunca podem ser vistas separadas uma da outra.
“Nossa Aliança (com Deus) é nada mais do que entender a Torá” (Mekhilta
Ex 12,6). “Moisés nos prescreveu a lei por herança da congregação de Jacó”
(Deut.33,4). Lei, estatuto e Aliança sempre foram vistos juntos,
inseparáveis: “... porquanto transgridem as leis, violam os estatutos e
quebram a aliança eterna” (Is.24,5).
A Torá não é um fardo; ela é graça. Para o judeu, cumprir as
instruções da Torá é consequência de seu relacionamento com seu Deus e
que tem sua base na “emunã” e na obediência perante Deus.
230
O comentário de Habacuque 2,4 “... mas o justo viverá pela sua fé” é
visto pelos reformadores protestantes como “viver pela fé no Filho”
(revelado em Jesus Nazareno).
Este verso é lido diferentemente pelo judeu. A palavra traduzida por
“fé” é “emunã”. “O justo viverá pela sua “emunã”. O comentário de
Qumran diz o seguinte quanto a este verso: “... a intenção da frase vale
para todos os cumpridores da lei na casa de Judá, enquanto Deus os salva
da casa do juízo por causa de seus sofrimentos e sua fidelidade perante o
mestre da justiça (VIII,1).
O judeu vê a vida de acordo com a Lei de Deus de modo totalmente
diferente do que, muitas vezes, lhe está sendo atribuído pelos cristãos. Ele
não vê a vida “debaixo da Lei” como viver debaixo de um fardo pesado, ou
como “juntar méritos” ou “esforço a fim de ser honrado por Deus”.
A vida debaixo da Torá, até hoje, se define nos elementos
fundamentais que fazem a fé judaica: “emunã”, isto é: concretização (da
vontade de Deus) nas obras, santificação do dia a dia. O termo hebraico
para “fé” (emunã”) significa, em primeiro plano, “confiar, (melhor: julgar
Deus capaz de algo).
Fé, segundo o entendimento judaico, é a obediência à Torá que Deus
deu a Israel e com isso lhe abriu o caminho para a santificação do dia a dia.
No pensamento racional judaico, o verdadeiro sentido das instruções da
Torá é esse: Quem diariamente e em tudo se submete ao jugo da Lei,
desprofana com isso o dia a dia e santifica a vida inteira em todas as suas
manifestações. Judaismo é religião da santidade. A Torá, não sujeita ao
tempo, se manifesta no tempo e na história (Friedländer H.).
“A Lei do judeu abre um caminho de vida de ascese pessoal.
Nenhuma parte da existência humana ou do mundo está sendo excluso”
(E.Simon). A vida humana não é sem valor ou banal; ela merece ser
dirigida consequentemente, até nas suas menores manifestações, sendo
desta forma penetrada divinamente. Cumprir a Lei não acontece debaixo
do chicote do legislador. A obediência bem compreendida está na felicidade
de, através do cumprimento da ordenança divina, poder agraciar o que é
temporal com valor eterno. Nisso se baseia a alegria do judeu na Torá: seu
prazer no poder cumprir as instruções de Deus.
Não se trata de uma mera obediência formal, ética, como nós,
cristãos, muitas vezes atribuímos ao judeu. Vejamos como um verdadeiro
judeu pensa da obediência à Torá:
“Se você tem cumprido a Torá em tudo, não se ufane, pois para isso
mesmo você foi criado” (Rabban Jochanan bem Zakkai), Abot II,8b).
231
“O SANTO, Ele seja louvado, procurou apreciar Israel, e para tanto lhes
multiplicou as Suas instruções e mandamentos, pois diz: O SENHOR,
pela Sua graça, tinha prazer em fazer grande e maravilhosa sua
instrução” (Rabi Chanina, filho de Akaschja; Mishna Makkot III,16).
Rabi Jehoschua, filho de Levi, disse: “Quem estiver de caminho e
sem companhia, ocupe-se com a instrução, pois ela está contigo” Quem
tiver dor de cabeça, ocupe-se com a instrução, pois ela diz: “...ela será
diadema de graça para tua cabeça” (1,9b). Quem tiver dor de pescoço,
ocupe-se com a instrução, pois ela diz: ‘...é colar para teu pescoço
(1,9c). Quem tiver dor no corpo, ocupe-se com a instrução, pois ela diz:
“...será saúde para teu corpo” (3,8ª). Quem tiver dores nos membros,
ocupe-se com a instrução, pois ela diz:’... será refrigério para os teus
ossos” (3,8b) etc.
Olhando a história, temos que admitir que o povo judeu sobreviveu
como nação e religião somente graças à Torá e, baseado nela, pela guarda
do sábado. Ainda hoje a Torá tem seu lugar de honra em cada Sinagoga.
Os velhos Rabinos pensavam muito sobre o “porquê” a Torá (Lei de
Moisés) ter sido dada não na terra de Israel, mas no deserto, no Sinai. A
primeira resposta que encontraram, foi:
“Para não dar aos povos do mundo um pretexto para dizer: ‘por ser
dada naquela terra, não a reconheceremos’”. Outra resposta: “para
evitar brigas entre as tribos; para que um não diga: ‘ela foi dada no
meu terreno’ e outro: ’não, foi no meu’”.
Por isso foi dada no deserto, como bem de todos, publicamente, num
lugar sem dono. Em três coisas a Torá foi dada: no deserto, no fogo e
na água. Como essas são comuns e gratuitas para todos os
habitantes do mundo, assim também (as instruções) serão sem preço
para todos os habitantes do mundo (Mekhilta de Ex.20,1, J.Winter).
O caminho escolhido por Deus, para poder chegar com suas
instruções a “todos os habitantes do mundo”, vemos apresentado no
Evangelho de João. Foi o próprio Deus que abriu este caminho. Os
fariseus não perceberam a mão divina trabalhando, apesar de toda Torá.
Além da cegueira espiritual que o Evangelista lhes atribuiu, fatores
humanos como os que conhecemos por experiência própria, trabalhavam
juntos: o legalismo; a obediência, tendo em vista recompensas; méritos; a
briga entre uma interpretação e outra. Tudo isso já estava presente na
época de Jesus. O passo da “alegria na Torá” para o legalismo e o
fanatismo era e sempre será curto; assim que a obediência à Lei se torna
mais importante do que o próprio Deus, acabamos no legalismo morto.
Não é isso que notamos também no cristianismo?
232
Mais adiante, ao termos mais claro em quê o ensino de Jesus era
contrário ao dos fariseus (homens dispostos a obedecer à Lei em tudo,
custe o que custar), falaremos da morte expiatória de Jesus. Ali faremos
outra consideração sobre a Lei, adicional ao Evangelho, tendo em vista a
declaração chocante do Apóstolo Paulo, radical e contrária ao
entendimento judaico: “... se a justiça (perante Deus) é perante a Lei,
segue-se que morreu Cristo em vão”.
A finalidade do texto de hoje fora abrir a nossa mente para um
entendimento mais profundo do nosso Evangelho, isto é, no seu contexto
judaico. Jesus era judeu, observava a Lei, mas viu seu Pai acima da Lei.
Dessa aparentemente pequena diferença nasceu o conflito que estamos
acompanhando, passo a passo, através da nossa leitura.
Foi com base nessa Lei que Jesus fora julgado e condenado.
Pense! “... se a justiça é perante a Lei (através do nosso esforço de
obedecer), segue-se que morreu Cristo em vão” (Gal. 2,21b).
•
Permita-me fazer uma pergunta: “em quê se baseia sua justiça
perante Deus?”
Observação
09 de março de 2008: Notícia de Jornal após um atentado contra uma Escola rabínica
em Jerusalém. A escola vetou a visita de condolência do Primeiro-Ministro israelense
Olmert, como segue:
“Não podemos receber um Primeiro-Ministro que atua contra o espírito da Torá e aceita que Israel
se retire de uma parte da terra de Israel”, declarou à radio pública um dos diretores da Instituição,
o rabino Haim Steiner.
“A Torá nos proíbe formalmente de entregar a estrangeiros uma só polegada da terra de Israel”,
acrescentou o rabino, que acusou Olmert de transgredir os mandamentos divinos e exigiu a
retomada da colonização da Cisjordânia.
Cap. 9.1-7
(9.1) Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. (2) E os seus
discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse
cego? (3) Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se
manifestem nele as obras de Deus. (4) É necessário que façamos as obras daquele
que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. (5)
Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. (6) Dito isso, cuspiu na terra e,
tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego, (7) dizendo-lhe: Vai, lavate no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo.
Fora dos relatos do Evangelho (Mat.9,27s; 12,22s; 15,30s; 21,14s;
Marcos 8,22s; 10,46s; Luc.7,21s e João 9) não se conhece nenhum
testemunho de uma cura de cego em toda a Antiguidade (Morris Com.475).
233
A cura da cegueira era tida como impossível; somente uma ação milagrosa
de Deus a tornaria possível.
O Salmo 146,8 diz: “O Senhor abre os olhos aos cegos” e tal
maravilha faz parte da obra salvadora escatológica (das últimas coisas). O
profeta Isaías, quando apontava para o futuro redentor, sempre
mencionava esse fato. Confira em Isaías 29,18; 35,4s; 42,6s. O texto em Is.
49,6 já liga o que lemos no capítulo 8 de João com aquilo que agora
acontece no nono capítulo. Aquele, sobre o qual “repousará o Espírito do
Senhor” (Is.11,2; 42,1) é o mesmo que se apresenta como “luz do mundo”
(João 8,12). Ele executa a obra escatológica de Deus num cego de
nascença. A designação “de nascença” é de origem grega. O hebreu dizia:
cego desde o ventre materno.
(9.1) Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. Se
entendemos o relato de João como narrativa de algo que aconteceu, não há
como perguntar (como o fazem alguns) como é que Jesus sabia que o
homem era cego de nascença. Obviamente tratou-se de uma pessoa
conhecida. Um cego não tinha opção a não ser a de esmolar sentado, de
preferência na proximidade do Templo, onde havia movimento. O
Evangelista pressupõe que tanto Jesus como seus discípulos, como
veremos logo adiante, sabiam do fato. Jesus não estava sozinho. Seus
Doze o acompanhavam, discutindo o caso desse homem.
(2) E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este
ou seus pais, para que nascesse cego?
Como já mencionamos no comentário de 5,14, há uma correlação
misteriosa entre doença e pecado. O título “Rabi” (Mestre) nos mostra que
o diálogo seguinte se desenvolveu a nível teológico, religioso e Jesus foi
consultado como autoridade no assunto. O dilema, teoricamente insolúvel,
consiste em que as Escrituras mencionam a advertência divina de que
Deus vingará os pecados dos pais nos filhos até a terceira ou quarta
geração (Ex.20,5; Deut.5,9; Num.14,33) e, ao mesmo tempo, declaram
cada um como responsável por si.
A medicina de hoje sabe que certos desvios, vícios por exemplo,
alteram a carga hereditária e futuras gerações pagam por isso. Naquele
tempo ainda não havia o conhecimento da causa, mas sim, notava-se o
efeito. Filhos e netos pagavam pelo pecado de seus pais ou avós.
Contra essa aparente e injusta “responsabilização do parentesco” em
nome da justiça, os profetas haviam levantado a sua voz, como Jeremias
em 31;29-30:” Naqueles dias, já não dirão: Os pais comeram uvas verdes, e
os dentes dos filhos é que se embotaram. Cada um, porém, será morto pela
sua iniquidade ; de todo homem que comer uvas verdes os dentes se
embotarão”. Em Deut.24,16 a Lei determina que “os pais não serão mortos
em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais; cada qual será morto
pelo seu pecado”.
234
A questão da misteriosa relação causa/efeito era assunto de
intermináveis discussões entre os fariseus. O povo, em geral, considerava
as doenças como castigo divino. As pessoas acreditavam que uma
enfermidade ou incapacidade física era uma punição de Deus, seja pelo
pecado da própria pessoa ou pelo pecado de seus ancestrais, ou então um
mal sinistro, causado pelo inferno. As fontes da época sugerem que a
doença física era vista como intervenção divina, enquanto a mental sugeria
intervenção satânica (possessão). Essa convicção era tão enraizada nos
corações que, ao avistar uma pessoa sofredora, um cego ou paralítico por
exemplo, tornou-se habitual exclamar em alta voz: ”Louvado sejas Tu, juiz
da verdade” (Boor).
A questão da capacidade de um embrião pecar, ainda no ventre de
sua mãe, era assunto digno de estudos entre os fariseus – pois, quando
alguém nascia com defeito, restavam apenas duas opções: ou, o recémnascido havia pecado ou então, necessariamente, seus pais!
Especulações essas nos lembram das hipóteses católicas a respeito
do “limbo” e do lugar dos recém-nascidos não batizados. Ensinos espíritas
quanto à relação obras/sofrimento pertencem à mesma família de
raciocínios enganosos.
(3) Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi
para que se manifestem nele as obras de Deus.
Jesus não se mostrou interessado em discutir a questão da
correlação entre pecado e doença, da mesma forma como o fez em outra
ocasião, quando uma construção ruiu e matou dezoito pessoas (Lucas
13,4-5). Ele considerou o caso conforme Sua estrita visão da economia
salvadora de Deus. Ao invés de procurar a definição de causa e efeito,
Jesus apontou para o alvo: a vontade de Deus nessas circunstâncias.
Quando nós nos vemos em dificuldades ou em situações de
desespero, bem-aventurados seremos se, ao invés de nos afundarmos na
insolúvel questão da equação causa/efeito, aprendamos dizer tal qual
Jesus em 11,4: “essa doença (dificuldade) não é para morte ( fiasco ou
humilhação total), e sim, para glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus
seja glorificado (que a fé em Jesus se revele viva e Ele seja glorificado
nessas circunstâncias).
De certo modo podemos dizer que, para o cristão, todas as
dificuldades se constituem oportunidade para, ou glorificar a Deus ou a
desonrar seu nome. Glorificar a Deus é possível quando o nosso olhar
continua direcionado para ele. Isso não acontece automaticamente com o
crente; a glorificação do Filho consiste no exercício da fé e da obediência.
235
(4) É necessário que façamos as obras daquele que me enviou,
enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. (5)
Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.
A sabedoria dos Rabis judaicos conhecia muitos provérbios que
recomendam aproveitar o tempo de vida limitada pela certeza da morte.
Aqui porém, devemos ver uma ligação com o prólogo (João 1,3: “E disse
Deus: Haja luz! E houve luz”), reforçado com 8,12 (“Eu sou a luz do
mundo...”).
Devemos considerar o plural “nós” no verso 4. Somente mais tarde,
no dia da ressurreição, quando lhes soprava o Espírito Santo, Jesus se
dirigirá dessa forma aos seus (20,21).
O verso seguinte usa o artigo definido quando menciona a noite, que
significa uma determinada noite e não “uma noite qualquer...”. Haverá um
final escatológico: quando Deus fechar a porta. “Aquela noite” virá para o
mundo, mas, enquanto é dia, haverá luz e Jesus estará conosco. Há uma
ligação no sentido escatológico da noite com a sentença do verso 1,3 de
Gênesis: “... fez Deus separação entre a luz e as trevas” (1,4). Cada início
traz consigo a certeza de um fim.
A palavra traduzida no verso 5 por “enquanto” deve ser interpretada
literalmente, assim como ela está no original significando “toda vez que”
(Thyen). Não podemos ver o usual “enquanto” como se, com a morte de
Jesus, a luz se apagasse de vez. Pelo contrário, Sua morte abriu a porta
para a vinda do “Parácleto” (Espírito Santo = Consolador) e assim,
definitivamente, assegurou a permanência dEle com os homens... até que
“aquela” noite venha, determinada por Deus.
(6) Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicouo aos olhos do cego, (7) dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé
(que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo.
O clamor silencioso do cego havia encontrado resposta em Jesus,
sem que o homem formulasse qualquer pedido de ajuda. A iniciativa partiu
exclusivamente de Jesus, muito ao contrário da cura do cego na saída de
Jericó (Marcos 10,46-52) quando Jesus dirigia-se com determinação rumo
à Jerusalém e onde foi interpelado pelo cego, de tal forma que teve de
interromper sua marcha.
Os relatos dos milagres nos Evangelhos não são, como as más
línguas dizem, “variações de um tema” que, além do mais, nunca
aconteceram na realidade. A falta de qualquer relato paralelo nos
Evangelhos sinóticos desse acontecimento do capítulo nono é a prova do
que a cura foi testemunhada por alguém que a deixou registrada neste
Evangelho. Essa cura é única.
236
Após as advertências aos seus discípulos presentes e justificar seu
proceder como a manifestação necessária da glória de Deus, Jesus fez um
lodo do pó da terra e sua saliva.
Os Rabinos há muito tempo conheciam a saliva como remédio.
Segundo a sua tradição, a saliva do primogênito deveria curar a cegueira
do pai, mas não a da mãe (Baba Bathra 126b, Bill.II, 15). No entanto, a
cura de um cego de nascença era algo fora de tudo do que se tinha
conhecimento.
Os primeiros “Pais da Igreja” pensaram muito a respeito da relação
saliva/lodo. O lodo feito do pó da terra lembrava-os da criação do homem
do necessariamente úmido pó da terra (Gen.2,7). Irineu, Bispo de Lyon, na
França (125-202), viu na cura do cego desde o ventre materno a ação
complementar do Logos naquilo que, no ventre materno, ainda não podia
fazer para glorificar a Deus (Adv.Haer 15,2).
Após a destruição do Templo (70 d.C.) chegaram notícias aos
fariseus, as quais relatavam a cura de um cego por Vespasiano (o novo
imperador romano, 69-79), através da aplicação de lodo nos olhos. Então,
o Rabi Akiba, líder religioso dos judeus, proibiu aos fariseus que
sobreviveram à catástrofe dos anos 70 a aplicação de lodo nos olhos por
ser uma “prática mágica dos gentios”. Aquele judeu que continuasse a
praticá-la, seria excluído do aeon vindouro, isto é, do Reino vindouro de
Deus (Bill, Beasley-Murray, Com 155).
Após aplicar o lodo aos olhos do cego, Jesus lhe ordenou que ele se
lavasse no tanque de Siloé. O que significa o acréscimo do Evangelista na
identificação do tanque “que quer dizer ‘Enviado’”? A água do tanque de
Siloé construído por Ezequias (2.Reis 20,20) servia primeiramente para
atividades rituais, como a dupla retirada de água diária durante os oito
dias da Festa dos Tabernáculos (cap.7). O tanque era abastecido por um
túnel subterrâneo com 514 metros de extensão, que trazia a água da fonte
de Gihon. A palavra Siloé, em hebraico, significa “enviado, condução ou
escoadouro”, o que, à primeira vista, faz referência à própria água do
tanque considerada pelos judeus como “viva, doce e abundante” (Josefo).
Observando melhor, percebemos que o acrescimo do Evangelista
serviu para, discretamente, uma vez mais aplicar o conceito de “enviado”
(ao todo nada menos que 28 vezes no seu Evangelho) à pessoa de Jesus.
Ele era o Enviado, que se havia apresentado como fonte de água viva (7,38
e 4,13). A cura do cego não estava na água do tanque, mas no Enviado.
Assim, a lavagem no tanque (denominado “enviado”) se transforma em
metáfora da identificação com Jesus, o Enviado do Pai.
O cego se foi, apalpando ou sendo guiado por alguém, até ao tanque
e se lavou. Ainda não disse palavra alguma e não havia nenhuma
manifestação de fé da parte dele. O que caracterizou o momento foi a
237
autoridade de Jesus, que manifestou a obra de Deus, e a obediência do
homem cego.
O Evangelista resumiu em poucas palavras: ele foi, lavou-se e voltou,
vendo.
A partir da próxima leitura, desencadeia-se um longo processo de
profundo sentido espiritual, que nos levará a compreender melhor a
natureza do homem natural (cego para com Deus) e da fé como sinônimo
de “ter aberto os olhos”.
•
•
•
Quais são os obstáculos que impedem alguém de crer?
Por que alguns creem e outros não?
Em que difere a fé inicial da fé madura?
Não desista! Continue conosco descobrindo o Evangelho de João!
Cap. 9.8-23
(8) Então, os vizinhos e os que dantes o conheciam de vista, como mendigo,
perguntavam: Não é este o que estava assentado pedindo esmolas? (9) Uns diziam:
É ele. Outros: Não, mas se parece com ele. Ele mesmo, porém, dizia: Sou eu. (10)
Perguntaram-lhe, pois: Como te foram abertos os olhos? (11) Respondeu ele: O
homem chamado Jesus fez lodo, untou-me os olhos e disse-me: Vai ao tanque de
Siloé e lava-te. Então, fui, lavei-me e estou vendo. (12) Disseram-lhe, pois: Onde
está ele? Respondeu: Não sei. (13) Levaram, pois, aos fariseus o que dantes fora
cego. (14) E era sábado o dia em que Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos. (15)
Então, os fariseus, por sua vez, lhe perguntaram como chegara a ver; ao que lhes
respondeu: Aplicou lodo aos meus olhos, lavei-me e estou vendo. (16) Por isso,
alguns dos fariseus diziam: Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado.
Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tamanhos sinais? E houve
dissensão entre eles. (17) De novo, perguntaram ao cego: Que dizes tu a respeito
dele, visto que te abriu os olhos? Que é profeta, respondeu ele. (18) Não acreditaram
os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais (19)
e os interrogaram: É este o vosso filho? Como, pois, vê agora? (20) Então, os pais
responderam: Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego; (21) mas não
sabemos como vê agora; ou quem lhe abriu os olhos também não sabemos.
Perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo. (22) Isto disseram seus pais porque
estavam com medo dos judeus; pois estes já haviam assentado que, se alguém
confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da Sinagoga. (23) Por isso, é que
disseram os pais: Ele idade tem, interrogai-o.
(8) Então, os vizinhos e os que dantes o conheciam de vista, como
mendigo, perguntavam: Não é este o que estava assentado pedindo
esmolas? (9) Uns diziam: É ele. Outros: Não, mas se parece com ele.
Ele mesmo, porém, dizia: Sou eu.
Os quatro episódios, que seguem, são cuidadosamente trabalhados
pelo Evangelista e desenvolvem as contendas em volta da cura que
acabara de acontecer. Neles fica evidente que os líderes religiosos do povo
(que a si mesmos julgaram os únicos possuidores de discernimento
espiritual, uma vez que, propositadamente, fecharam seus olhos perante
Aquele que é “a luz do mundo”) eram os verdadeiros cegos. Eles foram
julgados pelo seu próprio comportamento.
238
Somente agora o leitor do Evangelho está sendo informado do fato
que o cego anônimo era um pedinte conhecido na cidade. As opiniões
divergentes dos vizinhos quanto à identidade do homem curado não
querem dizer que havia alguma dúvida quanto à pessoa dele. O julgamento
negativo de alguns, que alegavam haver somente uma semelhança com o
pedinte conhecido, tinha sua razão de ser pela sua firme convicção da
impossibilidade de uma tal cura. Uma cura desse porte contrariaria toda a
sua experiência de vida: portanto, a única explicação razoável seria a de
algum engano quanto à pessoa. Como “o que não pode ser, não deve ser”
(Morgenstern), a lógica exigia a existência de um equívoco. O
comportamento dessas pessoas, que conheciam o pedinte há anos,
confirma o fato de que realmente aconteceu algo “impossível”.
(10) Perguntaram-lhe, pois: Como te foram abertos os olhos? (11)
Respondeu ele: O homem chamado Jesus fez lodo, untou-me os olhos
e disse-me: Vai ao tanque de Siloé e lava-te. Então, fui, lavei-me e
estou vendo. (12) Disseram-lhe, pois: Onde está ele? Respondeu: Não
sei.
O diálogo do homem curado com seus vizinhos atesta um
relacionamento de certa confiança habitual entre vizinhos. As perguntas
são diretas e o homem curado não procura disfarçar em nada. Assim,
como afirmava ser ele mesmo o conhecido, relata o que houve. O pedinte
cego, enquanto esmolava, já devia ter ouvido rumores sobre um tal Jesus
que operava milagres mas, pessoalmente, não o conhecia e Jesus não mais
se encontrava no local. A pergunta imediata dos vizinhos: “onde ele está?”,
permite-nos perceber que a história toda lhes soava suspeita. Como leigos,
não lhes cabia fazer o julgamento do “impossível”. Além disso, era dia de
sábado e aquilo que o homem curado relatou, isto é, fazer lodo e aplicá-lo
era considerado “trabalho”, portanto proibido de se realizar. Era melhor
levá-lo imediatamente à autoridade religiosa para a devida investigação.
(13) Levaram, pois, aos fariseus o que dantes fora cego. (14) E era
sábado o dia em que Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos. (15) Então,
os fariseus, por sua vez, lhe perguntaram como chegara a ver; ao que
lhes respondeu: Aplicou lodo aos meus olhos, lavei-me e estou vendo.
(16) Por isso, alguns dos fariseus diziam: Esse homem não é de Deus,
porque não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem
pecador fazer tamanhos sinais? E houve dissensão entre eles.
Somente no verso 16, o leitor está sendo informado do fato da cura
ter sido realizada num dia de sábado. Os fariseus, como autoridade
religiosa, viam-se responsáveis pela guarda de toda a Lei (Torá) e o povo os
respeitava. Competentes em questões da interpretação da Lei, os fariseus
imediatamente interrogaram o homem. Por enquanto não se interessaram
pelo milagre em si; o que os preocupou fora o modo pelo qual a cura foi
realizada. O homem repetiu, com poucas palavras, talvez, e já um tanto
aborrecido, aquilo que já havia relatado a seus vizinhos. Parece que, por
239
alguém de fora, os fariseus já tinham sido cientificados de que a cura
impossível havia sido feita em dia de sábado.
A avaliação desse fato importantíssimo pelos religiosos levou-os a
um cisma sério. Indiferentes e cegos pelo que este sinal pudesse indicar,
alguns viam “nesse homem” um transgressor da “parede de separação”
(veja pág.228, Considerações II), e pela qual a Lei do sábado estava sendo
guardada para o bem do povo e o agrado de Deus. Sua conclusão, baseada
no legalismo, foi: “esse homem não é de Deus; ele é pecador, pois não
guarda o sábado”. Outros opunham-se ao veredicto de seus colegas com o
argumento de que “sinais” como esse homem realizava não podiam ser
feitos por um pecador: “como um homem pecador pode fazer tamanhos
sinais”? O plural “sinais” indica que alguns de entre os líderes religiosos,
há um bom tempo, estavam observando Jesus, procurando entender de
modo correto o significado dos milagres denominado pelo Evangelista de
“sinais”, pois, através deles é que o Apóstolo procurou demonstrar que
Jesus era o Cristo, o Filho de Deus (20,31). Já no capítulo terceiro
ouvimos de um desses homens preocupados com a vinda do Reino, e
atentos às palavras e obras de Jesus: Nicodemos, um dos “principais” dos
judeus.
Uma leitura superficial do Evangelho e a costumeira interpretação
negativa do termo “fariseu” podem induzir-nos a uma compreensão
incorreta. Os fariseus aplicavam a Lei de Deus sem dó e desse modo
procuravam poupar o povo da influência desastrosa da cultura pagã
imposta pelos romanos. Sua intenção era correta; sua cegueira espiritual,
porém, trágica.
Aqui vale uma observação. O crente de hoje não corre menos perigo
que esses fariseus quando insensível à ação do Espírito de Deus no tempo
presente, defende os “versos bíblicos”. A letra não matou só no tempo do
Apóstolo Paulo (2 Cor.3,6)! Quando ministrada sem o necessário
discernimento espiritual, ela ainda hoje mata, e sua aplicação “cega”
espanta as pessoas do caminho, ao invés de atraí-las para Jesus.
(17) De novo, perguntaram ao cego: Que dizes tu a respeito dele, visto
que te abriu os olhos? Que é profeta, respondeu ele.
Como se não pudessem acreditar que o antes cego havia se
transformado em alguém que agora estava enxergando, perguntaram
novamente “ao cego” (!). Sua formal investigação a respeito da impressão
que “este que te abriu os olhos” lhe havia causado levou à simples e clara
declaração do homem: “que é profeta!”.
Ainda que Jesus certamente é mais que profeta, temos que entender
que com Ele surgira um profeta em Israel. Por trezentos anos Israel ficara
sem a voz de um profeta até que, finalmente, com João Batista surgiu um,
anunciando outro, maior. Que Jesus era profeta, o homem cego
experimentou quando se lavou no tanque de Siloé. O mesmo
240
testemunharam a mulher samaritana (4,19) e a multidão saciada com pão
em 6,14 (um dos nossos corinhos cantados antigamente nas igrejas,
confere a Jesus os títulos de Profeta, Sacerdote e Rei).
(18) Não acreditaram os judeus que ele fora cego e que agora via,
enquanto não lhe chamaram os pais (19) e os interrogaram: É este o
vosso filho? Como, pois, vê agora? (20) Então, os pais responderam:
Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego; (21) mas não
sabemos como vê agora; ou quem lhe abriu os olhos também não
sabemos. Perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo.
Como já explicamos em outro lugar, o Evangelista usou o termo
“judeus” sem distinção exata de quem se tratava na ocasião.
O que seguiu era um interrogatório formal dos pais do homem
curado pelos “judeus”, neste caso os fariseus. Assim como alguns vizinhos,
também os representantes do clero não podiam aceitar o fato de alguém
cego “desde o ventre materno” ter sido curado. Semelhantemente ao
procedimento em um processo forense foram citadas testemunhas; neste
caso, os pais do homem curado. A pergunta quanto à paternidade era fácil
de responder. Sim, tratou-se do filho deles. Quanto ao “porquê”, nada
sabiam e nada queriam saber. Nitidamente percebemos a aversão dos pais,
pessoas simples, e seu medo de serem envolvidos em complicações sem
fim. Não queriam ter nada a ver com toda essa história. Que os fariseus se
informassem diretamente da pessoa em questão!
(22) Isto disseram seus pais porque estavam com medo dos
judeus; pois estes já haviam assentado que, se alguém confessasse ser
Jesus o Cristo, fosse expulso da Sinagoga. (23) Por isso, é que
disseram os pais: Ele idade tem, interrogai-o.
Na época em que o Evangelho foi composto, era obrigatório a cada
judeu amaldiçoar os seguidores “do Nazareno”. No ano 85 d.C. (época em
que o Evangelho foi composto) saiu publicado oficialmente a nova versão
da “Oração dos 18 pedidos”, na qual o judeu diariamente rezava no
“Pedido 12” assim: “... que disperses e que sejam aniquilados os Nazarenos
e os minim num ai; que sejam apagados do livro da vida, que nada tenham
em comum com os justos...”. Através da oração dos 18, que era obrigatória
a cada judeu, concluímos que havia exclusão de todos aqueles que
confessavam a Cristo Senhor da comunidade judaica e, necessariamente,
das Sinagogas.
No presente momento em que os pais do homem curado estavam
sendo interrogados pelos fariseus, ainda não existia essa ordem oficial. O
que havia, era uma instrução interna do clero por vigilância e cuidado
perante os seguidores do Nazareno.
O Evangelista apontou a seus leitores a origem da condição
humilhante que ora sofriam, sendo excluídos da comunidade judaica e
amaldiçoados por eles. Ele projetou essa ordem de volta à memorável cura
241
do cego. Desde aquele acontecimento os seguidores do Nazareno eram
discriminados. Os pais do homem curado, com medo de serem contados
entre os tais, procuravam manter-se longe das investigações.
•
Como você está sendo visto na comunidade em que vive? Você,
semelhantemente aos pais do homem curado, procura
permanecer “no anonimato”?
•
Você tem vergonha de ser contado entre os que confessam
Jesus seu Senhor e Salvador?
Cap. 9.24-34
(24) Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e lhe
disseram: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador. (25) Ele
retrucou: Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo. (26)
Perguntaram-lhe, pois: Que te fez ele? Como te abriu os olhos? (27) Ele lhes
respondeu: Já vo-lo disse, e não atendestes; por que quereis ouvir outra vez?
Porventura, quereis vós também tornar-vos seus discípulos? (28) Então, o
injuriaram e lhe disseram: Discípulo dele és tu; mas nós somos discípulos de Moisés.
(29) Sabemos que Deus falou a Moisés; mas este nem sabemos de onde é. (30)
Respondeu-lhes o homem: Nisto é de estranhar que vós não saibais donde ele é, e,
contudo me abriu os olhos. (31) Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas,
pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende. (32)
Desde que há mundo, jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego
de nascença. (33) Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter feito. (34) Mas
eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o
expulsaram.
(24) Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e
lhe disseram: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é
pecador.
A interrogação dos pais do jovem curado havia fracassado. Mudando
de tática e pela segunda vez, os representantes religiosos convocaram o
homem “que fora cego”. Com sua áurea de competência e demonstrando
superioridade em assuntos de religião, usaram a fórmula habitual no
Rabinato que exigia obediência e confissão de toda a verdade. Foi dessa
maneira que Josué, séculos atrás, solenemente havia inquirido a Acã
(Josué 7,19). Procuraram intimidar o homem, que agora os encarou. “Dar
glória a Deus”, para eles, implicava em calar-se; parar de falar de uma tal
cura pois, como “nascido totalmente em pecado” - a prova disso eles viam
no seu nascimento como cego –, seu testemunho de cura certamente
acobertava algum complô contra a verdade. O julgamento do caso, para
eles, já fora concluído. Esse homem, Jesus no caso, era um pecador
perigoso, pois mais uma vez não havia guardado o sábado ao fazer e
aplicar o lodo - atitude proibida no dia de descanso. Agora tratou-se de dar
à investigação um ar de justiça e objetividade.
242
(25) Ele retrucou: Se (ele) é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era
cego e agora vejo.
O homem antes cego não mostrou-se impressionado pelo
procedimento autoritário daqueles que se julgaram no direito de interrogálo. Com sua nova capacidade de enxergar seus próximos, aprendeu
distinguir entre pessoas e com isso descobriu seu próprio “eu”. Ele era
capaz de manter-se e defender seu ponto de vista. Nem entrou no assunto
“pecador”, acusação ridícula demais para um cego desde o ventre materno
e que teve seus olhos abertos. O que lhe valeu era o seguinte: ele era cego
e agora via.
(26) Perguntaram-lhe, pois: Que te fez ele? Como te abriu os olhos?
(27) Ele lhes respondeu: Já vo-lo disse, e não atendestes; por que
quereis ouvir outra vez? Porventura, quereis vós também tornar-vos
seus discípulos?
Os fariseus perceberam que nada podiam levantar contra o jovem
curado; assim tentaram, pelo menos, transformá-lo em testemunha contra
o acusado, voltando à pergunta feita no primeiro interrogatório (Verso 15):
“O que ele (contigo) fez ? Como ele abriu seus olhos?” Demonstrando uma
crescente consciência de seu próprio valor e usando da ironia, o homem
voltou-se contra seus oponentes (parafraseando): “Já lhes contei tudo, mas
parece que vocês não querem entender. Para que ouvir de novo? Porventura
estarão interessados em segui-lo também?”
Se observamos bem, percebemos como o homem, cego há pouco,
discretamente já tomou posição em favor de seu benfeitor. Olhando
novamente para a primeira fase do interrogatório notamos que antes
testemunhou com alegria perante seus vizinhos, isto é, como o homem
chamado Jesus lhe havia aberto os olhos. Perante os fariseus, no entanto,
nem mencionou o nome de Jesus, nem falou do “trabalho” dele ou da
ordem de ir lavar-se. Somente disse: “Me colocou lodo nos olhos e eu me
lavei e fiquei vendo” (15).
(28) Então, o injuriaram e lhe disseram: Discípulo dele és tu; mas nós
somos discípulos de Moisés.
Ao invés de continuarem com a conversa, os religiosos passaram a
insultá-lo, usando de toda a sua presunçosa superioridade. Deixando de
lado a impressão de uma investigação objetiva revelaram toda a sua
animosidade e insegurança ao começarem a desprezar o curado como
seguidor de uma pessoa de origem desconhecida – não quanto à família e
lugar – , mas quanto à autoridade de Jesus em assuntos espirituais,
negando-lhe a qualidade de “Enviado”.
“Você é seguidor daquele homem – observe o sentido pejorativo no
indicativo! Nós... (no original posto no início da frase), Nós porém, somos
discípulos de Moisés!
243
Ao contrário de seguidor “daquele homem”, os fariseus se
orgulhavam de serem seguidores de Moisés - autoridade em revelação fora
de dúvida! (29) Sabemos que Deus falou a Moisés; mas este nem
sabemos de onde é.
A Moisés Deus havia legitimado, pois falava com ele. A Torá o afirma
por várias vezes (confira Ex.33,11s; Deut.34,10). Eles, os fariseus, estavam
de posse das palavras de Moisés, escritas, preto no branco. Ao contrário
desse homem que fazia parte da plebe que nada sabe da Lei (7,49), eram
eles os intérpretes competentes da Lei.
O questionamento da origem de Jesus de acordo com 8,14 é a chave
para qualquer compreensão de Sua missão. Há uma conexão de Sua
autoridade comparada com a de Moisés.
A origem terrena de Jesus (7,27) eles conheciam, e a usaram como
argumento contra sua missão de “Enviado”. O julgamento quanto à missão
de Jesus estava decidido há muito tempo: como transgressor da Torá era
pecador e por isso não podia ser de Deus.
Nós que lemos o Evangelho de João sabemos que Moisés testificou e
escreveu de Jesus. Não se pode jogar Moisés contra Jesus, uma vez que os
dois, mutuamente, dão testemunho um do outro. Vale a palavra em 5,45s:
“Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés,
em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em
Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito...”
O leitor do Evangelho também sabe que Deus não somente “falou”
com Jesus, como foi no caso de Moisés, senão estava falando o tempo todo
e que Jesus somente fez o que viu o Pai fazer, e falou o que o Pai lhe estava
dizendo, permanentemente. Assim como o Pai, também o Filho era “Senhor
sobre o sábado”; pois a manutenção e consumação da criação não
permitem nenhuma interrupção (5,17).
(30) Respondeu-lhes o homem: Nisto é de estranhar que vós não
saibais donde ele é, e, contudo me abriu os olhos. (31) Sabemos que
Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a
Deus e pratica a sua vontade, a este atende. (32) Desde que há mundo,
jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de
nascença. (33) Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter
feito.
O interrogado demonstrou cada vez mais audácia. Com escárnio
pouco disfarçado mostrou-se surpreso quanto à ignorância dos
representantes do clero numa questão tão básica da fé judaica. O termo
mais ousado é o plural “sabemos”. Este homem, que em breve veremos
isolado e excluído novamente, incluiu esses seus acusadores no povo como
um todo, lembrando-os do conhecimento comum e básico de todo judeu:
que Deus não atende pecadores, mas sim somente os que O temem e que
244
fazem Sua vontade (Is.1,15; Sl.65,18; 108,7; Pv.15,29; Jó 27,8s e outros).
Esse “nós” não está limitado aos que, por ora, disputaram, nem aos
judeus; ele atinge todas as nações do mundo. A ironia do texto está em
que um homem que, aparentemente, não conheceu as Escrituras, tinha
que lembrar àqueles que se julgavam administradores (ou donos) dela, de
conhecimentos elementares, isto é, que somente Deus e seu “Servo
Amado” - que Ele colocou como luz para o mundo - são capazes de abrir os
olhos dos cegos (Is.42,6).
Grande era o espanto do jovem curado quanto à ignorância dos
representantes da Lei a respeito da origem desse Jesus.
Tempo atrás, um desses representantes, Nicodemos, confessou
saber o que agora os representantes no caso ignoravam: “Rabi, sabemos
(nós, os fariseus) que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém
pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (3,2).
Agora, um anônimo homem do povo confessou, à luz do dia, o que
Nicodemos disse na escuridão da noite: “Se este homem não fosse de Deus,
nada poderia ter feito.”
(34) Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos
ensinas a nós? E o expulsaram. A reação dos fariseus à crítica
sarcástica do homem curado foi exatamente aquela que seus pais haviam
esperado: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? Os
especialistas em religião não haviam aprendido a lição que Jesus, bem no
início, havia dado aos seus seguidores, isto é: nem esse homem, nem seus
pais, haviam pecado; a criança nascera cega a fim de que nela fosse
revelada a obra de Deus.
Pelo contexto entendemos que a expulsão não se limitava ao local
onde a discussão fora travada. “Expulsão” significava justamente o que os
pais do jovem haviam temido: a ratificação da ordem interna de negar aos
seguidores de Jesus a convivência religiosa e social judaica.
Incapazes de alegrar-se junto com o jovem que antes era cego e
agora via, os fariseus revelaram-se os “verdadeiros cegos” – o que Jesus
lhes declarará mais adiante.
Sob a influência dos fariseus e escribas, a atmosfera entre o povo (no
que diz respeito à tolerância perante os seguidores desse Jesus) mudou
rapidamente. Os pais do jovem sabiam disso. Enquanto à altura do
cap.12,19, considerando a opinião pública favorável, ainda não havia como
atacar os “do caminho”, vemos no livro de Atos como isso mudou
rapidamente. Caps.4,21 e 5,26 ainda mostram um ambiente favorável; em
7,56 já nada mais impede o apedrejamento de Estêvão e, em 12,1-2, o rei
Herodes matou o Apóstolo Tiago “porque assim agradava aos judeus” e, em
seguida, encarcerou Pedro. A opinião pública havia mudado e os
245
seguidores de Jesus estavam sendo excluídos definitivamente do convívio
nas Sinagogas.
É possível que o nosso autor se lembrou de Lucas 6,22 (escrito bem
antes do Evangelho de João), onde Jesus declarava “bem aventurado”
todos aqueles que, por causa de seu nome, seriam odiados e expulsos:
“Bem aventurados sois quando os homens vos odiarem e quando vos
expulsarem da sua companhia, vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome
como indigno, por causa do Filho de Homem” (Lucas 6,22).
A ratificação da decisão de expulsão torna claro que “confessar
Jesus como o Cristo” não é o mesmo que ver em Jesus o “Messias
esperado dos judeus”. Durante os anos 132 – 135 depois de Cristo,
milhares de judeus viam em Simon Bar Kochba o esperado Messias e
libertador de seu povo e cegamente se submetiam a ele. Rabi Akiba
confirmava: “Este agora é o Rei Messias” – baseado na palavra em
Números 24,17 (“...uma estrela avança de Jacó, um cetro se levanta de
Israel, quebra as têmporas de Moab e o crânio de todos os filhos de Set...”).
Num último levante militar contra os romanos, Bar Kochba (filho da
estrela) conseguiu manter Jerusalém, por três anos, sob seu comando,
mas em 135, ele e seus seguidores foram brutalmente eliminados pelos
romanos. Os judeus, convencidos de que este seria agora o verdadeiro
Messias, nesse ínterim já haviam cunhado moedas com a imagem do
Templo (destruído em 70) a ser levantado novamente e sobre ele colocaram
a “estrela de Jacó” (veja imagem). Cidade por cidade foi tomada pelos
soldados romanos em luta feroz. O último refúgio para Bar Kochba e os
seus foi Bethar, localizada a 10 km de Jerusalém. 580.000 combatentes
foram mortos e perto de um milhão de mulheres e crianças judias foram
massacradas. Foi o último levante do povo judeu. Bar Kochba e seus
seguidores ficaram esfomeados e tiveram a água cortada; assim todos eles
morreram e nenhum sobreviveu. Em consequência, e definitivamente
eliminados como nação, os sobreviventes mudaram o nome de Bar Kochba
para Bar Kosiba (filho da mentira).
Provas da existência de Bar Kochba e do seu verdadeiro nome, em
forma de restos de manuscritos com ordens militares, placas e moedas,
foram encontradas numa caverna somente em maio de 1960 e
apresentadas ao então Ministro-Presidente David Bem Gurion e ao alto
escalão do Governo do novo Israel, em 11 de maio de 1960. Na ocasião, o
Prof. Yagin dirigiu-se ao Ministro-Presidente com as palavras: “Excelência,
tenho a honra de apresentar-lhe escritos do último presidente da antiga
nação
de
Israel,
datados
de
1800
anos
atrás”.
(A.Schick/Prof.O.Beck/Prof.M.Cross em “Jesus e os rolos de Qumran”,
Ed.Schwengeler, 1966).
Em nenhum momento encontramos nos diálogos do capítulo nono o
termo “Messias” (dos judeus). A ordem de segregação e expulsão tem a ver
com a confissão do nosso Evangelho, isto é, que Jesus vinha da parte de
Deus (confira 20,31). O Logos, o Verbo, era muito mais do que o Messias
246
esperado pelos judeus - um libertador político (uma figura que nunca
apareceu, nem aparecerá).
Não basta você crer que Jesus era o Messias dos judeus. Jesus era o
Messias de Deus (em grego: Cristo de Deus), o Enviado da parte do Pai,
para que todas as nações e raças tivessem acesso a Deus por meio de
Jesus. (João 1,12-14).
Moeda de 162 d.C. sob Bar Kochba
/ futuro terceiro templo com a estrela
Cap. 9.35- 41
(35) Ouvindo Jesus que o tinham expulsado, encontrando-o, lhe perguntou:
Crês tu no Filho do Homem? (36) Ele respondeu e disse: Quem é, Senhor, para que
eu nele creia? (37) E Jesus lhe disse: Já o tens visto, e é o que fala contigo. (38)
Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou. (39) Prosseguiu Jesus: Eu vim a este
mundo para juízo a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem
cegos. (40) Alguns dentre os fariseus que estavam perto dele, perguntaram-lhe:
Acaso, também nós somos cegos? (41) Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não
teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado.
(35) Ouvindo Jesus que o tinham expulsado, encontrando-o, lhe
perguntou: Crês tu no Filho do Homem?
Antes, o homem encontrou-se excluído da sociedade por causa de
sua cegueira e seu status de “nascido todo em pecados”; agora excluiramno outra vez. A razão da nova discriminação e rejeição era o que ele se
tornou vendo – vendo, no duplo sentido. Não somente sua condição física
havia mudado e ele podia enxergar seus próximos. Sua condição espiritual
também se transformou: ele viu e reconheceu “o sinal”, vindo de Deus.
Não sabemos por que caminhos Jesus ficou sabendo do escândalo e
da seguinte exclusão do homem da “comunidade dos justos”. Notícias
como tais correm rapidamente. No encontro dos dois (se foi proposital da
247
parte de Jesus ou acidental, não sabemos), Jesus outra vez tomou a
iniciativa. Ele abordou o homem que ainda não o conhecia de vista.
Nas nossas Bíblias encontramos duas versões da pergunta. Lutero
traduziu: “Crês tu no Filho de Deus?” A outra versão: “Crês tu no Filho do
Homem”, sem dúvida é a forma original da pergunta e aparece na maioria
das Escrituras (Exceção: Scofield e King James).
O que o título “Filho do Homem”, nestas circunstâncias, nos diz?
Sabemos que, no livro do profeta Daniel (7,13), aparece entre as nuvens
“alguém como um Filho do Homem”, um ser celestial e, pelo “ancião dos
dias” (Deus), lhe está sendo entregue o domínio eterno. Será que Jesus
referiu-se a esse misterioso “Filho do Homem”?
Observe que tratamos do termo “Filho do Homem” exaustivamente no cap.3,13-15 (releia!)
(36) Ele respondeu e disse: Quem é, Senhor, para que eu nele creia?
Sabemos de João 5,27 que a Jesus foi dada autoridade para julgar
não porque era o “Juiz universal” de Daniel 7,13, mas sim por ser um
homem, um ser igual a nós. Se o “Filho do Homem” fosse o ser
escatológico de Daniel 7,13, o homem curado não poderia perguntar por
ele, pois sua pergunta pressupôs que este Filho do Homem estivesse
presente entre eles.
Quando Jesus foi questionado, em 12,34-36, a respeito de sua
identidade e foi perguntado pelo “Filho do Homem”, Ele se identificou como
Luz, estando todos os dias no Templo, ensinando, isto é presente como
pessoa humana.
O Evangelista João, desde o Prólogo, passando por Nicodemos (cap.
3) até o cap.12, usa o predicado “Filho do Homem” reciprocamente com a
“luz”, a “vida”, a “Palavra”, a “glorificação”, o “juízo” e “comida celestial”.
Jesus nunca aplicou este título diretamente a si mesmo na primeira
pessoa do singular.
Quando Jesus perguntou ao homem curado se ele cria no Filho do
Homem, Ele não quis saber se o jovem estava convencido da existência do
“Filho do Homem”. Ele queria saber se o jovem estava disposto a depositar
toda a sua confiança no Filho do Homem presente, na pessoa de Jesus
presente. A pergunta contida na resposta dada a Jesus demonstra
claramente que o assunto da fé se desenvolve no aqui e no agora. O cego
curado não perguntou pelo ser celestial de Daniel 7,13 mas, sim, por
alguém presente, junto com ele.
Muitas vezes nos é dito que devemos aplicar títulos messiânicos e
escatológicos a Jesus, honrando-O desse modo e crer concordando com
estruturas dogmáticas pré-moldadas que, às vezes, nem entendemos.
248
Não é desse modo que chegamos a uma compreensão interior do
misterioso predicado “Filho do Homem” contido nas Escrituras.
Encontramos na literatura abordagens e opiniões muito distintas para
esse título. Para chegarmos a entender melhor a identidade do misterioso
“Filho do Homem”, devemos observar e aprender com o Jesus homem, sua
vida na carne, suas palavras e suas atitudes na interdependência do Pai.
(37) E Jesus lhe disse: Já o tens visto, e é o que fala contigo.
Diferentemente da mulher samaritana (4,26) com quem Jesus se
identificou na primeira pessoa, Ele usou a terceira pessoa do singular
quando se revelou ao homem curado da cegueira. Isso corresponde às
referências ao “Filho do Homem” em que Jesus sempre usa a indicação na
terceira pessoa. “Você o tem perante seus olhos e Ele fala contigo!” O Logos
encarnado se manifestou no Ver e no Falar. Assim restou ao homem
novamente discriminado uma única resposta:
(38) Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou (lit. caiu aos seus
pés). O verso 38 e a introdução no verso 39 faltam em alguns manuscritos
antigos. O contexto, contudo, não permite admitir (como alguns fazem) que
a confissão: “Eu creio, Senhor” fosse somente um acréscimo da liturgia da
igreja primitiva. O homem agora está cumprindo o que antes os fariseus
dele exigiam: ele deu glória a Deus pelo que vivenciou.
O Evangelista João emprega o título “Senhor” sempre para designar
a majestade do Enviado de Deus, do Jesus homem presente. O antes cego
reconheceu em Jesus, o Enviado, o Cristo de Deus, presente, chamando-o
“Senhor” digno de adoração.
Nos escritos do Apóstolo Paulo, diferentemente de João, o mesmo
título é usado para O Glorificado-Presente (invisível): O Senhor. Quando,
pessoalmente, estudamos as Cartas de Paulo e fazemos comparações com
o Evangelho de João, devemos nos lembrar desse fato.
(39) Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo a fim de que os
que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.
Encontramos na história do cego curado um princípio básico da
teologia joanina e uma inversão radical das nossas ilusões religiosas: os
cegos chegam a ver e os que têm a presunção de ver revelam-se cegos para
com Deus.
A breve conversa com o homem curado deve ter ocorrido em
particular, sem a presença dos fariseus. Logo, porém, alguns deles
novamente se aproximaram e a eles foram dirigidas as palavras de Jesus
dos versos 39 a 41.
249
(40) Alguns dentre os fariseus que estavam perto dele,
perguntaram-lhe: Acaso, também nós somos cegos? (41) Respondeulhes Jesus: Se fosseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque
agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado.
A nova intromissão dos fariseus permitiu ao Evangelista ilustrar os
acontecimentos em torno da cura com aquilo que já havia dito a
Nicodemos em 3,17s: “Deus enviou seu Filho ao mundo, não para que
julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele
crê, não é julgado; o que não crê, já está julgado, porquanto não crê no nome
do unigênito Filho de Deus”. Onde brilha a luz do mundo, ali aparecem as
sombras escuras. Na criação nada foi feito sem a palavra de Deus agora
encarnado em Jesus (1,1s). À palavra “haja luz” seguiu a separação entre
luz e trevas (1,4).
O mesmo “julgamento” das trevas pela luz continua acontecendo
permanentemente na obra do Pai através de seu Filho – até no dia de
sábado, até hoje.
Desde o terceiro século da era cristã os comentaristas do Evangelho
de João apontam para o alto teor alegórico nos seus relatos. “Ver” e “estar
cego” são conceitos baseados em “luz” e “escuridão”. Fechar-se para com
Deus corresponde ao estar na escuridão; aliás, à condição de cego. No
Evangelho de João não encontramos o metafórico e o real em mundos
distintos; o simbólico e o literal se constituem mutuamente. Nisso consiste a
magistral composição do Evangelista. Quando ele escreveu seu Evangelho,
ele literalmente creu no que guardou para a posterioridade. Não há como,
dois mil anos mais tarde, separar o simbólico do real.
R. Bultmann, um teólogo moderno, vê nos milagres relatados no NT
somente mitos, não acontecimentos reais. Embora não concordemos com a
visão de Bultmann, lembramos de um comentário justo e útil desse
famoso teólogo a respeito do que acabamos de estudar nas últimas lições:
“Sim, na verdade, todos eram cegos até o presente momento; pois o
verso 41 mostra que os que viam eram somente aqueles que
presumiram estar vendo, enquanto os que eram cegos até então foram
aqueles que sabiam de sua cegueira, assim como estar cego
corresponde com o permanecer na escuridão - sendo a única condição
antes da revelação (12,46). Porém, todos eram cegos num determinado
sentido provisório. Pela vinda da luz ganha tanto o ver quanto o estar
cego um sentido novo e definitivo. Nisso consiste o julgamento: os cegos
ganham a condição de ver “crendo na luz”, e cuja capacidade de ver não
mais consiste no seu poder próprio de orientar-se na presunção de
poder enxergar, mas sim em serem iluminados pela revelação. A
condição de cego não mais consiste só em vadiar na escuridão, sempre
consciente de sua condição de cego e portanto, sempre havendo a
possibilidade de cura, mas tendo exata e definitivamente perdido essa
250
possibilidade. Quem não crê está julgado (3,18) e, exatamente na
perseverança da presunção de estar vendo, cumpre-se nele o
julgamento. Aos que, desse modo, permanecem conscientemente na
condição de cegos, vale a palavra de Jesus: “subsiste o seu pecado”.
Esse o paradoxo (a aparente contrariedade) da revelação: para poder
continuar sendo Graça, tem que consistir em escândalo e assim tornarse julgamento. Para poder ser Graça, ela deve revelar o pecado e aquele
que não permite que este seja descoberto insiste nele e, assim, pela
revelação, o pecado definitivamente se torna pecado de fato” (com.259f)
(Trad.do autor).
•
Responda para si mesmo: Sua “vista espiritual” lhe foi concedida pela
revelação do Filho de Deus?
•
ou, como você é “muito religioso, você entende “essas coisas” ? Nisso,
somente, consiste o julgamento.
Cap. 10.1-8
(10.1) Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no
aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. (2) Aquele,
porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. (3) Para este, o porteiro
abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as
conduz para fora. (4) Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante
delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; (5) mas de modo nenhum
seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.
(6) Jesus lhes propôs esta parábola, mas eles não compreenderam o sentido daquilo
que falava. (7) Jesus, pois, lhes afirmou de novo: em verdade, em verdade vos digo:
eu sou a porta das ovelhas. (8) Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e
salteadores; mas as ovelhas não lhes deram ouvido.
A grande maioria dos intérpretes entende o capítulo 10 como
continuação imediata da controvérsia anterior. A indiscreta pergunta de
alguns dos fariseus presentes (9,40): “Acaso, também nós somos cegos”?
levou Jesus à abordagem do mesmo assunto, não mais no simbolismo de
“luz” e “escuridão”, mas através de uma história, num assim chamado
“dito enigmático” ou “dito figurativo” de uma situação comum na época,
numa mensagem claramente dirigida aos fariseus.
Ao contrário da fala de Jesus no capítulo nono, esse dito figurativo
(erroneamente chamado de “parábola”) dispensava uma interpretação, pois
refletia a vida diária do camponês, com todas as suas características.
Através do solene “Amém! Amém!” que destaca algo muito
importante dentro de um determinado assunto, Jesus partiu para o
ataque.
251
(10.1) Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta
no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e
salteador.
A imagem de pastor e de rebanhos de ovelhas era familiar a todos
e amplamente usado no Antigo Testamento para definir o relacionamento
entre Deus e seu povo através de seus representantes e reis. A situação
cotidiana que Jesus expôs nesse dito enigmático serviu para ilustrar,
melhor confrontar o bom pastor com o mau pastor, mercenário e ladrão.
Vejamos alguns exemplos onde as Escrituras falam:
•
do bom pastor Salmo 23.1 “O Senhor é meu pastor...”; Salmo 79,13;
Salmo 80,1; Salmo 95,7; Ez. 34,15 inteiro; Is.40,11;
•
da tendência das ovelhas para se desviar e que, portanto,
precisam de pastor, Salmo 119,176 e Is. 53,6;
•
do mal pastor, que apascenta a si mesmo, ao invés das ovelhas
(que realidade!) Jer 23,1s; Ez.34,2; Zac.11,16.
O aprisco era um curral sem cobertura, situado em campo aberto.
Consistia de um quintal rodeado de um muro de pedras brutas de um
metro e meio de altura aproximadamente, com uma porta pesada.
Conforme o hábito da época, ovelhas de vários proprietários passavam a
noite na segurança desse aprisco. A porta ficava vigiada por um porteiro.
Um ladrão (determinado a roubar propriedade alheia) ou um salteador
(que usaria violência para obtenção de bens cobiçados) não entrariam pela
porta, pois essa encontrava-se fechada e vigiada, mas subiriam pelo muro.
Após mencionar as particularidades de pessoas que não usam a
porta para entrar no aprisco, Jesus altera o foco da história para o
verdadeiro pastor e suas ovelhas, situação comum no dia a dia do criador
de gado ovino da época, e familiar a todos os seus ouvintes.
(2) Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas.
(3) Para este, o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama
pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. (4) Depois
de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o
seguem, porque lhe reconhecem a voz; (5) mas de modo nenhum
seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz
dos estranhos.
Na situação histórica concreta da qual o nosso “dito enigmático”
emana, não há necessidade de encontrar um significado claro para cada
detalhe. O que está focado são: o pastor, as ovelhas e os estranhos que
fazem o papel de pastor. Não há um significado espiritual claro para o
porteiro; ele está presente na história porque, na realidade, ele sempre faz
parte da situação.
252
Somente aquele pastor que mantém um relacionamento com suas
ovelhas, entra pela porta. O porteiro o conhece e lhe abre o portão quando
o pastor, cedo de manhã, vier buscar as suas ovelhas. Tanto na nossa
história como na prática, há animais de vários donos no pátio. Como o
pastor reconhece aqueles que lhe pertencem? A solução, ainda hoje, é
surpreendentemente simples. O pastor chama as suas ovelhas pelo nome e
estas reconhecem a sua voz! As que são dele procuram o portão, onde o
pastor as espera e o seguem para fora. “... ele chama pelo nome as suas
próprias ovelhas e as conduz para fora”(3).
Esse “conhecer” atribuído às ovelhas do pastor não implica
somente no reconhecimento de seu senhorio; ele se revela na confiança
plena, fato que as leva à obediência, ansiosa pelo bem que as espera.
Jesus lembrou de outro fato conhecido de todos: se um estranho as
chamar, nenhuma ovelha se moverá. Pelo contrário, elas se afastarão dele;
o medo e a desconfiança natural da ovelha se manifestarão.
Até aqui, Jesus não fez nenhuma aplicação direta; o que Ele
contou era do conhecimento de todos. Não se trata de uma “parábola”,
portanto não havia necessidade de interpretação. O “dito enigmático” se
assemelha a um espelho no qual cada um, conforme sua capacidade e
vontade (coragem!), pode reconhecer a si mesmo.
Jesus não falava de coisas novas ou estranhas para os fariseus
quando fez a comparação do pastor com estranhos e ladrões. A Mishna
(shanah = “estudo por repetição”), uma compilação seletiva ainda em
formação, conhecia quatro tipos de “porteiros/pastores” e define as
obrigações da cada um nas mais diferentes situações (Schebuot 8 e Baba
Mezia 7). As comparações de um bom pastor com o mercenário e seu
relacionamento com as suas ovelhas até faziam parte de seus livros de
ensino religioso.
(6) Jesus lhes propôs esta parábola (melhor: “dito egmático”), mas eles
não compreenderam o sentido daquilo que falava.
O Evangelista observa que “eles” (os religiosos) não entenderam o
que Jesus lhes queria falar. Não sabiam fazer nada com a imagem da vida
pastoral do campo. Como não entenderam, se seu mundo e suas
metáforas religiosas estavam repletas de comparações pastor/rebanho?
A cada conhecedor das Escrituras era familiar a promessa divina
de Isaías 40,11: “Como pastor apascentará o seu rebanho...”. assim como o
contraste: “... o boi e o jumento conhecem seu dono, mas Israel não tem
conhecimento, o meu povo não entende” (Is.3,1). A Palavra também
compara a situação dos líderes infiéis e surdos em Is.13,14,53; e Zac,10,2
“...contam sonhos enganadores e oferecem consolações vazias; por isso,
anda o povo como ovelha, aflita, porque não há pastor”. Perante tal
fracasso, razão da futura extinção da nação, Deus prometeu que Ele
253
mesmo encarregar-se-ia da tarefa de cuidar de seu povo, dando-lhe um
pastor segundo o coração de Deus (Jer.3,15; Ezequ.34,11-16; 34,23; Mi
5,3), assim como no passado fez através de Moisés e Davi.
Desse modo, os religiosos tiveram todas as condições a seu favor
para entender a fala de Jesus. Agora, olhe você mesmo: o entendimento de
um fato depende principalmente do nosso posicionamento interior, como
vimos no cap.8, não é!? Aquilo que não queremos escutar, não ouvimos! O
nosso “ouvir” depende involuntariamente do nosso “EU”. Jesus, já na
primeira sentença (10,1) havia questionado esse “eu” dos fariseus. Eles
ficaram atônitos! Como eles, venerados líderes e pastores do povo podiam
ser comparados a “ladrões e salteadores”? Esse pensamento lhes parecia
tão monstruoso que, já de início, fecharam seus ouvidos. Para eles, tudo
estava bem estruturado; o “status quo” lhes dava segurança e eles, de
maneira nenhuma, almejavam mudanças.
Ao contrário “daquele homem”, eles é que haviam entrado pela
porta de um bom ensino religioso e, em seguida, sendo aprovados e
autorizados oficialmente, receberam seu título de pastor. Se alguém, (assim
eles pensavam) não entrou pela porta, era exatamente esse Jesus que, de
maneira escandalosa, usurpou a posição de líder e pastor, negando-lhes,
como autoridade que eram, qualquer “exame” ou prova (2,18).
Assim não se viam em condições nem estavam dispostos a
considerar o fato de que Jesus se referiu a eles.
(7) Jesus, pois, lhes afirmou de novo: em verdade, em verdade
vos digo: eu sou a porta das ovelhas.
Durante os últimos 50 anos, uma infinidade de intérpretes do
capítulo 10 de João partem do pretexto de que o autor do Evangelho, neste
exato lugar, tenha feito uma fusão entre duas tradições distintas: uma na
qual Jesus falava da porta para o aprisco (versos 1-5) e, outra, do pastor e
das ovelhas (7-18). O resultado de todo esse esforço deu-se no seguinte: o
suposto Evangelista “estragou” toda a “história”, enevoou os termos e
impossibilitou uma interpretação correta dos dois supostos textos
originais. Ao invés de procurarem o conteúdo do texto, assim como ele está
nos manuscritos, eles têm se perdido na busca de supostos originais e da
elucidação da intenção de João, quando este, supostamente, juntara as
duas tradições.
Com os mais recentes e importantes pesquisadores (Thyen, Sänger,
Mell, 2005 e 2006) preferimos estudar o texto assim como ele está no
nosso Evangelho. As repentinas mudanças nos significados apontam para
um consciente desenvolvimento, como é próprio no Evangelista quando,
passo a passo, leva seu leitor à conclusão que é suprema em toda sua
obra: a identificação de Jesus, ponto central e decisivo da obra.
254
“...eu sou a porta...” A essa altura, Jesus introduziu uma
interpretação (exegese) que muda o foco da história contada. O que agora
está sendo visado é a legitimação do pastor (não mais das ovelhas, como no
trecho anterior). Se somente Jesus é a porta, não há outro acesso às
ovelhas reunidas - senão essa porta. Em outras palavras: somente aquele
que fora escolhido e chamado e que entrou pela porta, pode ser pastor de
ovelhas. O contraste está entre o ladrão e o pastor. Qualquer um que
passou pelo muro e alega autoridade sobre as ovelhas é enganador.
Há extensa variação na interpretação do verso 8. Para encurtar a
discussão há que se dizer somente o seguinte: se lemos o “dito enigmático”
(João não registrou nenhuma parábola) como uma parábola, ela
necessariamente precisa de uma interpretação. A palavra de Jesus quanto
à porta faz parte dessa explicação, ela não é parte de uma fala reveladora,
mas sim, faz parte da elucidação da parábola. Somente se o verso 8 não se
encontrasse no Evangelho de João, com suas concretas revelações do “ani
hui”, do “EU SOU”, e se o sujeito não fosse o próprio Jesus afirmando cujas afirmações sempre foram concretizações da fórmula bíblica e não
interpretações de qualquer designação sagrada oriental - , somente então
poderíamos entender que, na presente história, trata-se de uma parábola.
Na história do pastor aparece por quatro vezes a identificação “Eu
Sou” de Jesus como elemento usado na narrativa (verso 7 em paralelo com
o verso 8; verso 11 em paralelo com o verso 12). Portanto, estamos diante
uma fala reveladora, embora enigmática. A palavra no verso 11 nos parece
realizar a mais clara identificação: o nome revelador do EU SOU (eu sou o
bom pastor, veja mais adiante ).
(8) Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas
as ovelhas não lhes deram ouvido.
À primeira vista, essa afirmação soa estranha. Nem se deixarmos
por fora as três palavras (“antes de mim”) – que faltam nos importantes
manuscritos “Koiné” e “Sinaíticos” – podemos entender a afirmação
categórica de Jesus. O próprio plural constante em “vieram” já inclui os de
“antes”. Será que Moisés, Davi ou o próprio João Batista eram “ladrões” e
desclassificados para cuidar do povo de Deus? Mesmo se considerarmos
que a voz profética em Israel, com Malaquias emudeceu em 450 a.C., não
entendemos a afirmação de Jesus.
O erro consiste em lermos esse trecho (igual a muitos dos
modernos intérpretes) como alegoria, isto é, como uma fala cifrada a
respeito de objetos reais. O erro está na interpretação historiada (colocada
na história) e assim julgada.
Temos de ouvir e entender todo o dito enigmático na sua lógica
metafórica: Como era o dia a dia do pastor? Jesus apresentou-se como o
pastor. A primeira tarefa de um pastor era dirigir-se ao aprisco, cedo, pela
255
manhã, antes do nascer do sol e entrar pelo portão vigiado pelo porteiro
(verso 2).
Portanto, todos que antes dele vieram, de qualquer lugar obscuro
e na proteção da escuridão da noite, vieram para roubar, pulando o muro!
A prova dessa conclusão está no quando Jesus diz: “são ladrões” – e não
“eram ladrões”. Jesus estava falando da situação atual na qual se
encontrava. Estava pensando nos homens de seu tempo, daqueles que
agiram sem ele ou contra ele, alegando serem os únicos pastores e líderes
autorizados do povo.
Como judeu fiel, Jesus viu que os líderes religiosos, os seus
pastores, arbitrariamente manipulavam o povo como os ladrões que
pulavam o muro.
Estamos perante uma realidade inquietante, pois sabemos que nas
igrejas de Deus há gente que trabalha com entusiasmo, com grande
autoestima, vendo-se e considerando-se pastor, mas sendo julgado “ladrão
e salteador” por Deus. Somente pela porta se pode chegar ao rebanho, ao
“povo de Deus” e, como tal, reconhecido por Ele. Nenhuma doutrina, por
mais reta que seja, é porta para o ministério. Jesus mesmo, sua pessoa,
seu Espírito, seu amor, são a “porta”. Na pessoa de Jesus é que se decide
quem é pastor e quem não o é.
Nenhuma votação de Assembleia Geral de sua Igreja
necessariamente decidirá quem é pastor conforme a visão de Deus. Para
Deus não valem meios democráticos, não vale o voto da maioria, mesmo se
a lei desse mundo nos obriga a proceder dessa maneira. Lembre-se disso
quando você levanta uma candidatura para a eleição de pastor!
“... mas as ovelhas não lhes deram ouvido.” Tudo que vemos parece
contradizer a palavra de Jesus. Cada vez menos pessoas O seguiam, ao
ponto dEle consultar seus Doze: “Vocês também querem ir”? Os fariseus e
escribas, tanto naquele tempo quanto no tempo de hoje, estão em alta
consideração. Não parece que o mundo todo corre atrás deles? Não se
contam em milhões os crentes, quando aparecem as pessoas que se
autodenominam “bispos”, “Apóstolos” e “pastores” das ovelhas?
•
Seu “pastor” entrou pela porta ou – pulou pelo muro?!
Cap. 10.9-18
(9) Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e
achará pastagem. (10) O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim
para que tenham vida e a tenham em abundância. (11) Eu sou o bom pastor. O bom
pastor dá a vida pelas ovelhas. (12) O mercenário, que não é pastor, a quem não
pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as
arrebata e dispersa. (13) O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado
com as ovelhas. (14) Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me
conhecem a mim, (15) assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e
256
dou a minha vida pelas ovelhas. (16) Ainda tenho outras ovelhas, não desde aprisco;
a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho
e um pastor. (17) Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a
reassumir. (18) Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou.
Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandamento recebi
de meu pai.
Até o presente momento, a fala de Jesus teve como figuras centrais o
pastor e seus adversários. Agora, o foco passa para a condição da ovelha e
sua segurança em entrar e sair do aprisco. “Eu sou a porta. Se alguém
entrar por mim, será salvo”. Entrar pela porta significava para as ovelhas
encontrar segurança para as horas da noite, enquanto fora do aprisco
andavam o lobo e outras feras do campo à procura de comida. Entrar pela
porta podemos interpretar como o iniciar da vida cristã.
Não por
nascimento, por costume ou pela tradição, nem por sacramento (batismo)
passamos a fazer parte do rebanho; somente ao “entrar pela porta”, que é
Jesus, nos tornamos parte do rebanho!
Pode, sim, haver uma infinidade de caminhos até a porta; a
variedade e a originalidade na história das pessoas com Deus são
impressionantes. Há, sim, muitas maneiras para chamar atenção para a
porta, mas existe somente Uma porta que leva ao aprisco. Não há várias
portas para a vida. Há somente uma – e passar por ela equivale a delegar
toda a nossa confiança na pessoa de Jesus.
Entrar pela porta significa o começo, o “novo nascimento”. A porta,
porém, serve também como saída. Por ela, a ovelha sai e encontra
pastagem. Durante toda a sua existência, as ovelhas, a cada dia, entram
para encontrar segurança e diariamente saem a fim de encontrar alimento.
Enquanto a ovelha vive, não importando sua idade ou experiência, ela
somente encontrará pastagem enquanto segue ao pastor para fora.
Nenhuma ovelha descobre e explora o campo por conta própria.
Um certo Simonis procurou interpretar o “sair do curral pela porta,
que é Jesus” como analogia à saída dos não judeus (pagãos) do aperto
opressivo que os cristãos de origem gentia encontravam na comunidade
judaica – um processo histórico que teve seu lugar durante a época da
compilação do Evangelho. Não cremos que essa analogia ao Êxodo seja o
que o Evangelista procurou lembrar.
(10) O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu
vim para que tenham vida e a tenham em abundância.
O “sair” e encontrar pastagem na presença do pastor acontece sob
constante ameaça. Enquanto os falsos pastores (na igreja de todas as
épocas) procuram seus próprios interesses, engordando ao custo das
ovelhas (processo em que vale “matar e destruir”), as ovelhas sob a
responsabilidade do verdadeiro pastor encontram alimento em
abundância. O acontecimento recente com o homem curado da cegueira e
257
o tratamento cruel dado a ele e a seus pais serviam como ilustração. A
ovelha não encontrou pasto, ... foi expulsa.
(11) Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. (12)
O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê
vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e
dispersa. (13) O mercenário foge, porque é mercenário e não tem
cuidado com as ovelhas.
Os versos 11 – 13 devem ser considerados no seu amplo contexto.
Se Jesus falou do “bom pastor”, Ele deve ter pensado no contraste que as
Escrituras do Antigo Testamento desenharam entre o “bom pastor” e
aquele que unicamente está preocupado com sua vida regalada e seu
próprio lucro. A maior afinidade da palavra profética com a fala do bom
pastor em João 10 devemos encontrar em Ezequiel 34. Com esse trecho
em mente, abre-se a compreensão das palavras de Jesus. Para facilitar o
estudo, mencionamos a passagem de Ez.34:
“Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Filho do homem, profetiza contra os
pastores de Israel; profetize e dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de
Israel que se apascentam a si mesmos! Não apascentarão os pastores as ovelhas?
Comeis a gordura, vesti-vos de lã e degolais o cevado; mas não apascentais as
ovelhas! A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a
desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes; mas dominais sobre
elas com rigor e dureza. Assim, se espalharam, por não haver pastor, e se tornaram
pasto para todas as feras do campo. As minhas ovelhas andam desgarradas por todos
os montes e por todo elevado outeiro; as minhas ovelhas andam espalhadas por toda
a terra, sem haver quem as procure ou quem as busque.
Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor: Tão certo como eu vivo, diz o
Senhor Deus, visto que as minhas ovelhas foram entregues à rapina e se tornaram
pasto para todas as feras do campo, por não haver pastor, e que meus pastores não
procuraram as minhas ovelhas, pois se apascentam a si mesmos e não apascentam
minhas ovelhas, - portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor: Assim diz o Senhor
Deus: Eis que eu estou contra os pastores e deles demandarei as minhas ovelhas;
porei termo no seu pastoreio, e não se apascentarão mais a si mesmos; livrarei as
minhas ovelhas da sua boca, para que já não lhes sirvam de pasto. Porque assim diz o
Senhor Deus: Eis que eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei. Como o
pastor busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim
buscarei as minhas ovelhas ; livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram
espalhados no dia de nuvens e de escuridão...Apascentá-las-ei de bons pastos, e nos
altos montes de Israel será a sua pastagem e terão pastos bons nos montes de
Israel...A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a
enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com
justiça...suscitarei para elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu bom servo
Davi é que as apascentará; ele lhes servirá de pastor.... Já não servirão de rapina aos
gentios, e as feras da terra nunca mais as comerão; e habitarão seguramente, e
ninguém haverá que as espante...Vós, pois, ó ovelhas minhas, ovelhas do meu pasto;
homens sois, mas eu sou o vosso Deus, diz o Senhor Deus
(Ez.34,112.14.16.23.28.31)
Considerando também as palavras em Zac.11,7-15, vemos que
Jesus, de modo inequívoco, identificou-se com “o bom pastor ...
único...conforme meu servo Davi “ prometido por Deus e apascentando em
o nome de Deus.
258
O bom pastor dá a vida pelas ovelhas! – Esta única e
inconfundível característica identifica o “bom pastor”. Será mesmo?
A palavra traduzida por “vida” significa “näphäsch” no hebraico e
“psyche” no grego. Ela tanto permite-nos entender que o bom pastor dá
sua vida, bem como sua “alma”, pelas suas ovelhas. Se lemos (somente)
“vida” (como aparece na maioria das traduções) teríamos de aceitar que
Jesus somente fora o “bom pastor” na hora da sua morte na cruz ou
através de sua morte.
Se, porém, olhamos para o que o Evangelista diz na sua “Primeira
Carta” em 3,16 (que devemos dar nossa vida pelos irmãos) ele, com
certeza, não quis dizer que devamos morrer uns pelos outros. A “vida”
(psyche”) engloba mais; ela abrange toda a nossa empreitada de vida, tudo
que somos e temos. Numa entrega assim, a morte, sim, pode ser a última
perfeição.
A obra de Jesus como nosso “bom pastor” consiste na luta
incessante e radical em favor das ovelhas, sempre em perigo de serem
desviadas e mortas pelos “ladrões e salteadores”.
O contrário do bom pastor, representado por Jesus, é o mercenário
(“misthotos”) que, por um certo salário é contratado para cuidar das
ovelhas. Essas não lhe pertencem; portanto, o mercenário não tem um
interesse genuíno por elas. Cuida delas, providenciando comida e
proteção, mas de forma nenhuma está comprometido em dar sua vida em
troco de um miserável salário. Não podemos nem esperar dele outra
atitude além da de fugir, quando a ameaça coloca em perigo sua própria
vida. “O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê
vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa.
(13) O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as
ovelhas”
Ainda não entendemos a lógica do Evangelista quando este declara
que, dando sua vida, um bom pastor cuidaria das ovelhas. A dissonância
do argumento, transportada para a realidade, fica evidente: um verdadeiro
bom pastor, para o bem de suas ovelhas, faria melhor em preservar sua
própria vida e não ofertá-la por causa de algumas poucas ovelhas. Se o
pastor morrer, todas as demais ovelhas estarão condenadas. Onde está o
suposto erro de avaliação?
Lembremos que o Evangelho todo foi composto com a finalidade
eclesiológica (em favor da Igreja). O conhecimento íntimo e recíproco entre
pastor e ovelhas na história contada reflete o conhecimento íntimo e
recíproco entre Pai e Filho, tendo sua mais elevada demonstração na
entrega da vida do Filho, na cruz. O Evangelho todo, desde as primeiras
palavras, foi composto olhando a partir da cruz (da glorificação) e visando a
cruz, o apogeu da história do Pai com o Filho (João 1, 10-12).
259
(14) Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me
conhecem a mim, (15) assim como o Pai me conhece a mim, e eu
conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.
No Evangelho sinótico de Marcos (11,17) lemos que Jesus, para o
desgosto dos principais sacerdotes e escribas, havia reivindicado o Templo
como lugar para “todas as nações” (lit.gões= pagãos) e suscitado com essa
declaração o ódio mortal por parte dos religiosos. Nas palavras do
Evangelista João encontramos na boca do pastor uma conclusão
semelhante.
(16) Ainda tenho outras ovelhas, não desde aprisco; a mim me convém
conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um
pastor.
Teria sido possível aumentar ainda mais a fúria do clero do que
com essa declaração secundária? O salmo 95,7 não declarava ao judeu
categoricamente: “Ele é o nosso Deus, e nós, povo de seu pasto e ovelhas
de sua mão” – ou “...foi ele que nos fez, e dele somos; somos o seu povo e
rebanho do seu pastoreio” (100,3)?
A ideia da exclusividade de Israel, vista em algumas profecias do
Antigo Testamento, já fora corrigida por Isaías (42,6 e outros). Israel havia
de se transformar em “luz para os gentios”. Em oposição a Deut.23,2s,
proclamava o livro do profeta Isaías a futura abertura da comunidade do
povo de Deus para antigos gentios e bastardos (Is.56,7)!
A inclusão de outras ovelhas de outros apriscos está sendo
enunciada por Jesus como um direito ainda a ser exercido (“a mim me
convém...”). Conforme 12,20-28, a realização da glorificação do Filho será
a condição para tal unificação. “Se o grão de trigo, caindo na terra, não
morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” (12,24; 17,20).
Para essas ovelhas, bem como para as demais, vale o paradoxo de
que somente a sua voz fará deles escolhidos, enquanto ao mesmo tempo,
somente serão capazes de segui-lo como escolhidos. Essa relação nunca
poderá ser dividida em ontologia de causa/efeito, como todo o ensino da
“predestinação”. Ela faz parte do mistério da salvação.
(17) Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a
reassumir. (18) Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu
espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também
para reavê-la. Este mandamento recebi de meu pai.
Surpreendentemente Jesus não disse: “O Pai me ama porque eu dou
a minha vida”, mas sim, “... a dou para a reassumir”. Tanto o morrer como
o reassumir a vida estão contidos na obediência ao Pai. Ainda para
260
acontecer, a morte já estava certa, porém, não debaixo de pressão. A morte
de Jesus será o Seu feito, parte de Sua obediência.
O amor do Filho para com seu Pai está contido no fato de Jesus não
morrer para ficar sem vida, mas, sim, para reassumi-la; passar pela morte
- salário inevitável do pecado desde Adão. A obediência de Jesus trará a
vitória sobre a morte. Na visão de João, a morte de Jesus consiste na oferta
voluntária dela. Não como mera demonstração de poder, mas para poder
trazer ao aprisco ovelhas de outro curral. “A mim convém trazer outras
ovelhas...” (16). Assim, a morte do bom pastor ganha seu sentido. Já em
outro lugar Jesus falou desse ato, quando disse em 5,26: “assim como o
Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si
mesmo”.
Obra e luta de Jesus tem sido sempre em favor de seu povo: Israel.
Lembremos que Jesus estava falando como judeu a judeus. Nunca
projetemos ideias e conceitos cristãos nas Suas palavras!! Até a sua morte,
Jesus manteve sua fidelidade de judeu para com seu povo Israel. Morreu
como “rei dos judeus”, denominação sarcasticamente eternizada por
Pilatos através da inscrição na cruz.
Jesus estava falando como profeta quando, como “o bom pastor de
Israel”, incluiu outros na sua missão: os “de fora da parede da separação”,
(da Torá), aqueles que até então estavam “separados da comunidade de
Israel e estranhos à aliança da promessa, não tendo esperança e sem Deus
no mundo” (Ef.2,12 nas palavras de Paulo).
Toda essa missão estava ligada intimamente com a cruz, com o
sacrifício, com a morte do bom pastor em favor de suas ovelhas.
Não devemos rebaixar as palavras do verso 17: “por isso, o Pai me
ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir” para o nível trivialhumano. Nesse seu sacrifício, o amor do Pai se tornou real – quando não
vingou a morte de seu Filho nos homens – mas a aceitou como sinal de
obediência e amor do seu Filho. A união entre Pai e Filho desde a
eternidade passada, desde a fundação do mundo, não permitia que um
dEles tratasse o Outro como mero objeto.
•
Você entende o que a morte do pastor das ovelhas lhe
trouxe?
“Mas Deus prova seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo
morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Ro 5,8).
261
Cap. 10.19-42
(19) Por causa dessas palavras, rompeu nova dissensão entre os judeus. (20)
Muitos deles diziam: Ele tem demônio e enlouqueceu; por que o ouvis? (21) Outros
diziam: Este modo de falar não é de endemoninhado; pode, porventura, um demônio
abrir os olhos aos cegos?
(22) Celebrava-se em Jerusalém a Festa da Dedicação. Era inverno. (23) Jesus
passeava no Templo, no Pórtico de Salomão. (24) Rodeavam-no, pois, os judeus e o
interpelaram: Até quando nos deixarás a mente em suspenso? Se tu és o Cristo,
dize-o francamente. (25) Respondeu-lhes Jesus: Já-vo-lo disse, e não credes. As
obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. (26) Mas vós não
credes, porque não sois das minhas ovelhas. (27) As minhas ovelhas ouvem a minha
voz; eu as conheço, e elas me seguem. (28) Eu lhes dou a vida eterna; jamais
perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. (29) Aquilo que meu Pai me deu é
maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. (30) Eu e o Pai somos
um. (31) Novamente, pegaram os judeus em pedras para lhe atirar. (32) Disse-lhes
Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me
apedrejais? (33) Responderam-lhe os judeus: Não é por obra boa que te apedrejamos,
e sim por causa da blasfêmia, pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. (34)
Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses? (35) Se ele
chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode
falhar, (36) então, daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, dizeis: Tu
blasfemas; porque declarei: Sou Filho de Deus? (37) Se não faço as obras de meu Pai,
não me acrediteis; (38) mas, se faço, e não me credes, crede nas obras; para que
possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou no Pai. (39) Nesse
ponto, procuravam, outra vez, prendê-lo; mas ele se livrou das suas mãos. (40)
Novamente, se retirou para além do Jordão, para o lugar onde João batizava no
princípio; e ali permaneceu. (41) E iam muitos ter com ele e diziam: Realmente,
João não fez nenhum sinal, porém tudo quanto disse a respeito deste era verdade.
(42) E muitos ali creram nele.
(19) Por causa dessas palavras, rompeu nova dissensão entre os
judeus. Já por duas vezes (7,43 e 9,16) houve um cisma (divisão), uma
dissensão entre os ouvintes. Quem, livre de pressuposições, havia avaliado
as palavras de Jesus, não via nelas sinais de doença mental ou de
blasfêmia. Todos porém, que vieram ouví-lo com pontos de vista definidos,
tiveram que constatar que a fala do Nazareno continha dinamite.
A fala de Jesus no seu “dito enigmático do pastor” consistia numa
revelação, e como isso não podia deixar de provocar uma crise de
consciência nos seus ouvintes. Como veremos, este foi o último “sermão
público” (se assim podemos dizer) de Jesus relatado por João, trazendo
como resultado a radicalização definitiva.
(20) Muitos deles diziam: Ele tem demônio e enlouqueceu; por que o
ouvis? Em lugar nenhum o Evangelista João mencionou o exorcismo
como uma das atividades de Jesus. Demônios não eram assunto para
João. Entre os ouvintes de Jesus havia quem simplesmente o descartou
como “enlouquecido” (dos quais nunca haverá falta) conforme as
acusações já feitas em 8,48 e 52 e também relatadas por Marcos (3,21).
(21) Outros diziam: Este modo de falar não é de endemoninhado;
pode, porventura, um demônio abrir os olhos aos cegos?
262
Os mais ponderados entre os religiosos, pensando bem, não viam
sinais de possessão demoníaca. Para eles, o feito com o homem cego desde
o ventre materno os havia deixado pensativos. Eles se lembravam daquela
cura impressionante ocorrida algumas semanas atrás.
(22) Celebrava-se em Jerusalém a Festa da Dedicação. Era inverno.
Enquanto a cura do cego, com a controvérsia que a seguiu e a
história do bom pastor pertencem à época da Festa dos Tabernáculos ou
pouco depois, encontramo-nos agora na semana da “Festa da Dedicação”,
dois meses mais tarde. O que, historicamente, estava separado por 60 dias
aproximadamente, encontramos no relato de João separado por umas
poucas linhas somente. Não sabemos se Jesus, nesse intervalo (que
corresponde ao período entre outubro e dezembro), havia retornado à
Galileia ou permanecido na região da capital.
A “Festa da Dedicação” remontava à purificação e rededicação do
Templo por Judas Macabeus no ano 165 a.C., três anos após o Templo ter
sido profanado por Antíoco Epífanes com a intenção de humilhar os judeus
e ridicularizar sua religião e seu culto (1.Mc.4,36s; 2.Mc.1,9s;10,1s). Esta
festa não fazia parte do calendário festivo da Lei, mas mesmo assim,
tratava-se de uma festa alegre de oito dias de duração, marcada pela
iluminação das habitações. Por isso, também era chamada “Festa das
Luzes” e continua sendo lembrada nas casas, até hoje, através do
candelábrio, denominado Chanukká, de oito braços. A Festa reunia muita
gente na capital.
(23) Jesus passeava no Templo, no Pórtico de Salomão. Era época das
chuvas. Assim não é de admirar que Jesus estivesse andando sob a
colunata ao longo da parede oriental do Templo, tida como única parte
remanescente do Templo original de Salomão. Por causa disso era
chamado “Pórtico de Salomão” (Josefo, Antiquitates XX 9,7 § 220s). Esse
mesmo lugar servirá mais tarde (cf. Atos 5,12) como lugar de encontro à
primeira Igreja judaica-cristã.
O “Segundo Templo” (esse que Jesus conhecia) foi destruído
completamente em 70 d.C. (quarenta anos após o episódio ora relatado)
por Tito, general do exército romano encarregado de dar fim definitivo a
esse culto considerado “primitivo e ultrapassado” pelos romanos e visto
como responsável pelas constantes rebeliões contra o poder do Império
Romano.
(24) Rodeavam-no, pois, os judeus e o interpelaram: Até quando nos
deixarás a mente em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-o francamente.
O contexto deixa evidente que esse “rodear” tinha o caráter de uma
confrontação. A paciência com as palavras aparentemente desconcertantes
de Jesus esgotou; agora, “eles” exigiam uma definição clara e inequívoca.
Jesus devia abandonar sua incompreensível contenção quanto à definição
de sua missão. Agora, ou finalmente convocava seu povo como o tão
esperado Messias para a luta em favor da liberdade e grandeza do povo
263
israelita (como o fez mais tarde Bar Kochba), ou silenciava de vez. Era hora
de arrancar-lhe a palavra decisiva. De qualquer maneira, essa palavra final
lhes serviria de arma contra Ele próprio, caso surgisse perigo da parte dos
romanos.
Caso se declarasse “O Ungido” (o Messias), todas as promessas
proféticas da Torá deixariam de serem histórias; tornar-se-iam presença,
exigindo obediência ilimitada de toda nação de Israel e, mais, de toda a
humanidade, pois tudo lhe seria por Deus colocado nas suas mãos.
Mas, caso tivesse tal ousadia, qual seria a prova para tal
reivindicação, negada já por duas vezes?(Mat.16,1; Marcos 8,11;
Luc.11,16; João 6,30)
(25) Respondeu-lhes Jesus: Já-vo-lo disse, e não credes. As obras que
eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. (26) Mas vós
não credes, porque não sois das minhas ovelhas. (27) As minhas
ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.
Em circunstâncias totalmente diferentes, Jesus havia se declarado
ser o esperado “Ungido”. Foi em conversa particular, de coração aberto
com uma mulher (4,25s). Agora, a situação era outra. Em caráter de
ameaça, “os judeus” (neste caso os representantes do clero) exigem uma
definição. Como resposta, Jesus apontou às obras feitas em o nome do Pai;
Ele não declarou aquilo que fora exigido. Ele respondeu no nível da fé. Não
devia nenhuma explicação ao clero e, assim, não lhes ofereceu “uma
ponte”, através da qual religiosos pudessem chegar a compreendê-lo. Que
diferença, se nos lembrarmos da mulher samaritana ou do homem curado
da cegueira, onde, pacientemente, passo a passo, Jesus lhes havia aberto
o caminho até à identificação. O caso desses “judeus” era diferente.
Chegaram a Ele exigindo, tendo por base a Lei; e nessa base foi que Jesus
não lhes respondeu. Por que não?
Eles não faziam parte das ovelhas, propriedades suas. Jesus não
lhes devia satisfação nenhuma. Em João 6,37. 44 e 65 vemos o motivo que
livrou Jesus da obrigação de dar satisfação aos que o interrogaram. Este
era o segredo da segurança e da calma com que Jesus trilhava seu
caminho em direção à paixão.
Esses especialistas teológicos não podiam nem ouvir nem observar,
porque Deus não os trouxe (confira 6,44) e porque eles eram cá desse
mundo (8,23); portanto não pertenciam às suas ovelhas. Sem este
pensamento joanino da predestinação não podemos nem desenvolver nem
entender o ensino dogmático contido no seu Evangelho: a reunião e
unificação dos que a Ele pertencem aqui na terra.
A visão da predestinação por João não entrega o homem a uma
decisão metafísica (e incompreensível), tomada antes da fundação do
264
mundo; ela acontece na liberdade escatológica do indivíduo perante o
anúncio da mensagem de Cristo.
Talvez você tenha observado um pensamento que, aparentemente,
não parece ser uma solução lógica, um círculo fechado. Esses judeus não
criam porque não eram suas ovelhas; porém, não tinham desculpa, pois
não eram ovelhas porque não criam. – Crer não é algo que eu possa a
qualquer hora quando assim o quiser. Antes de ouvir “como que o discípulo
ouve” (Is.50,4), Deus tem que me abrir os ouvidos! Assim, abre-se o
círculo. É por isso que chamamos o início da fé de “Novo Nascimento”
(João cap. 3). “ Nadar só se aprende nadando – e andar também”
(Schlatter).
(28) Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as
arrebatará da minha mão. (29) Aquilo que meu Pai me deu é maior do
que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. (30) Eu e o Pai
somos um.
Como num monólogo e não mais como uma resposta direta a seus
oponentes, e como quem procura alegria e força numa outra esfera, Jesus
desenvolveu o pensamento quanto às ovelhas, propriedades dele, ligadas a
ele através de uma confiança mútua. Tão pouco como a incredulidade dos
judeus o perturbou, a condição de suas ovelhas lhe pesou. Pois, do mesmo
modo como ovelhas estranhas não podiam encontrar o bom pastor (para
serem salvas), as suas não podiam correr o perigo de perder-se, pois o Pai
as preservava. Tudo isso está fundamentado na vontade do Pai, maior do
que qualquer inimigo e “Um com Jesus”.
Os versos 29 e 30 estão intimamente ligados. À primeira vista
parece que “aquilo que o Pai me deu” (as minhas ovelhas) fosse maior do
que tudo, contradizendo o fato do Pai ser maior que tudo. Há pequenas
diferenças nas palavras acima nos diversos manuscritos, mas que em
nada alteram o sentido; portanto não os consideremos.
A unidade de Pai e Filho está exatamente nisso: aquilo que o Pai
deu nas mãos de Jesus e que nessa sua mão descansa é maior do que
tudo, “pois o Pai e eu, somos Um”.
Nas duas frases, em 29 e 30, vemos de modo inconfundível a
profecia de Ez.34,23s confirmada em Jesus como o único pastor, suscitado
por Deus para apascentar o seu povo.
A questão da Unidade de Pai e Filho tem causado muita conversa
inútil. O neutro “UM” já fala da unidade de distintos. “UM” não é o mesmo
que “UM SÓ”. Não podemos afirmar que Deus Pai (Espírito, conforme João
4,24) e o homem Jesus de Nazaré, como seu Logos encarnado, fossem o
mesmo. A Unidade na diversidade é explícita também com Paulo na
metáfora do corpo com seus membros, e assim vale para o relacionamento
dos discípulos, pelos quais Jesus pediu: “... Eu lhes tenho transmitido a
glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos” (João
265
17,22). Essa unidade do Pai com o Filho não pode ser definida como
existente somente no nível moral, nem metafísico, e menos ainda místico.
Temos a demarcação negativa, como dissemos: nem moral, nem
metafísica, mística ou mitológica. Ela, em si, não é suficiente. Precisa não
só da definição negativa, mas da complementação positiva na questão do
“em quê” a Unidade de Pai e Filho poderia ser descrita ou vista.
Desde o segundo século cristão, os apologistas, com boa intenção
mas com consequências desastrosas, fizeram o casamento dos textos
bíblicos com a ontologia platônica-estoica. Resultado desse casamento
infeliz foi a tentativa dos apologistas (defensores da fé) em vencer as
acusações, vindas das religiões pagãs que viam na fé cristã somente mitos
com provas provenientes da razão.
O erro fundamental dos apologistas era tentar enfrentar e vencer o
inimigo exatamente com as armas dele: argumentos, regidos por regras e
orientando-se nas qualidades dos assuntos tratados.
Para não nos perdermos na discussão sobre Unidade de Pai e Filho
– pois o crente comum prefere não pensar sobre o assunto, muito menos
confessar que tem dúvidas, com medo de ser “excluído da Sinagoga” (para
usar essa metáfora) – propomos uma maneira de pensar, possível e útil
para nós, leigos.
A realidade como um todo só pode ser lida, partindo da “história” –
do Evangelho de Deus. Cristo é homem enquanto Ele, como Jesus
Nazareno, aparece na evolução da “velha e boa história” como homem. Ele
sempre o é, mas O vemos como Deus somente quando neste nosso mundo,
na sua transcendência (aqui entendida como a fusão do humano com o
divino), O percebemos revelado.
(31) Novamente, pegaram os judeus em pedras para lhe atirar. (32)
Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do
Pai; por qual delas me apedrejais? (33) Responderam-lhe os judeus:
Não é por obra boa que te apedrejamos, e sim por causa da blasfêmia,
pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo.
Se considerarmos como bárbaros os judeus que trouxeram pedras,
não seremos melhores; pelo contrário, muito abaixo deles. O nosso Deus
cristão é difuso e vulgar; usamos o Seu nome à toa a cada hora. Não mais
temos a menor compreensão de Sua Santidade e Unicidade. Nem reagimos
se outros fazem piadas, usando o Seu nome.
Em outras palavras: não conhecemos deus nenhum. Em nada nos
escandalizaria se hoje em dia alguém dissesse ser igual a Deus. O máximo
que faríamos seria considerá-lo mentalmente confuso e infantil.
266
O judeu, ao contrário, por sua longa e difícil caminhada, aprendeu
o que diariamente por duas vezes reza: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus,
é o único Senhor” (Deut.6,4.5). Isso arde no coração de cada judeu; a fé no
Único Deus verdadeiro (que não deve ser confundido com Alá). Até hoje é
insuportável para o judeu imaginar um “outro” ao lado de Deus; mais
ainda, quando este “outro” é homem; e em Jesus eles viam (e veem) o
homem Nazareno.
Somente quando nos aproximamos da compreensão judaica de
Deus como Deus Único e Santo (não aquele que invocamos, pecando, a
cada momento: - “meu deus, sujou sua roupinha?”), somente então
entendemos o peso da declaração de Jesus “Eu e o Pai somos um” para o
ouvido de um judeu. Ainda mais: o “EU” mencionado antes do “Pai”
consistia em outra blasfêmia.
Num início de um tumulto, alguns começaram a pegar em pedras
sem a menor preocupação com o processo forense exigido pelo Sinédrio,
necessário em casos de blasfêmia.
Duas perguntas irônicas com nítido caráter irritante permitiam a
Jesus ganhar tempo. A primeira era de pura ironia com a intenção de
chamar atenção ao absurdo da confusão instalada. As boas obras, as
curas, realmente mereciam uma tal condenação? A argumentação com
obras confundiu, mas foi imediatamente descartada apontando novamente
a blasfêmia como razão do ódio:
(34) Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois
deuses?
Como bom conhecedor das Escrituras, Jesus citou um trecho do
salmo 82, (verso 6.7), onde juízes humanos e aparentemente injustos são
citados como sendo “deuses”. A eles é dito que, em breve, haverão de
sucumbir. Jesus sabia que seus acusadores não se atreveriam em
contradizer essa passagem – “de vossa lei”, - como Jesus ironicamente
observou.
(35) Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de
Deus, e a Escritura não pode falhar, (36) então, daquele a quem o Pai
santificou e enviou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas; porque declarei:
Sou Filho de Deus? (37) Se não faça as obras de meu Pai, não me
acrediteis; (38) mas, se faço, e não me credes, crede nas obras; para
que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou
no Pai.
A argumentação de Jesus era genial. Parafraseando: Se as
Escrituras chamam juízes injustos de “deuses” – e a Escritura não pode
falhar - quem são vocês para me acusar, a mim, que faço as obras de meu
Pai? Vocês não as reconhecem? - Dessa forma, o assunto mudou para
obras e saiu da esfera da blasfêmia.
267
(39) Nesse ponto, procuravam, outra vez, prendê-lo; mas ele se livrou
das suas mãos.
Desarmados pela sua própria lei, a tentativa de apedrejamento
ilegal perdeu o ímpeto. O caso devia ser analisado com maior atenção pelo
Sinédrio; pelos mestres entre os fariseus. Na confusão causada pela
tentativa de prendê-lo para o interrogatório necessário, mais uma vez Jesus
escapou.
(40) Novamente, se retirou para além do Jordão, para o lugar onde
João batizava no princípio; e ali permaneceu. (41) E iam muitos ter
com ele e diziam: Realmente, João não fez nenhum sinal, porém tudo
quanto disse a respeito deste era verdade.
Não era essa a hora em que Jesus, “glorificando o Pai”, se
entregaria aos que o rejeitaram. Ele entendeu, porém, que a situação
exigia cuidado. Portanto, retornou ao lugar onde tudo começou; onde Ele
foi batizado por João Batista. Por algum tempo, Ele permaneceu ali em
segurança. O testemunho do Batista, anunciando alguém maior que ele,
havia se cumprido. Os de Jerusalém não o entenderam (5,33s). No lugar
de seu batismo, muitos ainda procuravam a Jesus. Nada ouvimos de seus
discípulos. A maior parte do tempo, eles e a atividade deles não são
mencionados; era Jesus que interessava, e o testemunho dEle que havia
de ser guardado para a posteridade através do relato escrito, o
“Evangelho”.
(42) E muitos ali creram nele.
Com esta constatação termina o que os intérpretes, na sua grande
maioria, consideram o “Primeiro livro” do Evangelho. Após o clímax no
confronto com “o sistema” em Jerusalém, sua tensão e a declaração de
Jesus; após a sua identificação final à qual o Evangelista, passo por passo,
tem guiado o leitor: “Eu e o Pai somos Um”, parece que houve uma curta
calmaria antes da paixão que terá seu início com o capítulo 11. “Muitos ali
creram nele”.
•
Você já faz parte desses “muitos” ?
•
Você percebeu como não há meio-termo; ou reconhecemos
Jesus como o Logos encarnado e mudamos a nossa concepção
de “religião”, tornando-nos discípulos, ou
•
abandonemos de vez a religião que venera um homem
lunático (julgamento de muitos entre os que temiam pela sua
posição de poder religioso)!
268
Conclusão parte I
Antes de passar adiante na nossa leitura do Evangelho de João
vamos fazer uma análise daquilo que lemos. Procuremos relembrar as
características típicas deste maravilhoso Evangelho.
Primeiramente, aquela pergunta de sempre: como era possível a João,
com sua idade avançada, relatar de maneira fidedigna palavras e atos de
Jesus e de seus discípulos?
Para responder satisfatoriamente, temos que considerar o seguinte:
É fato conhecido que as pessoas, na medida que avançam em idade,
começam a perder a memória curta (acontecimentos recentes). Em
contrapartida, aparecem mais nítida e claramente lembranças dos anos
anteriores, da mocidade e da infância. No mais, devemos considerar que o
Evangelista João não começou a falar sobre essas coisas somente na idade
avançada, quando compôs sua obra. Como “coluna” da igreja primitiva (do
início) - confira em Gal. 2,9, - participou do “Ensino dos Apóstolos” (Atos
2,42). Nessa condição, ele relatava sempre de novo tudo o que ouviu e viu
durante sua convivência com Jesus, lembrando e testemunhando. Como
mencionamos já anteriormente, nota-se um núcleo fiel a lugares e
costumes judaicos contido no seu Evangelho e impressionantemente
preciso. Essa parte, acredita-se, já fora composta ainda em Jerusalém e,
mais tarde, havia servido como base ao Evangelho todo.
Aquilo que João, nos seus últimos anos de vida talvez, compôs, era
resultado do ensino de muitos anos. Em João 14,26, ele fala da garantia de
uma lembrança segura e compreensão adequada da história do Cristo.
Essa “garantia” assumiu o Espírito Santo: “Mas o conselheiro, o Espírito
Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes
fará lembrar tudo o que eu lhes disse”.
Se João escreveu seu Evangelho após longos anos de pregação,
podemos entender o porquê de seu estilo típico, chamado de joanino. Não
dizemos que João usou de liberdade literária, compondo livremente os
discursos de Jesus. João sabia que sua missão era ser testemunha de
Jesus (15,27). Nenhuma testemunha inventa ou constrói o que ela
transmite; ela usa o máximo de fidelidade naquilo que diz quanto ao que
viu e ouviu. Alguns intérpretes entendem que o estilo da fala de João, tão
diferente do dos sinóticos, era a de seu Mestre. João vivia e pensava tanto
nas palavras de seu Senhor que, finalmente, as usava da maneira do seu
Senhor, seja nas suas pregações ou nas Cartas ou, como aqui, no seu
Evangelho.
Nos cap. 11 até 21 encontraremos as principais confirmações da
fidelidade histórica do relato de João.
269
O Evangelista viveu nos seus últimos anos de vida a dramática
situação de ameaça e perseguição da igreja por parte do Império Romano
com seu culto idólatra a César. O seu Apocalipse (último livro do NT) deve
ser entendido desse ponto de vista. No Evangelho, no entanto, a situação é
outra. O que nele está dito a respeito de perseguição e dificuldades
vindouras (15,22-25 e 16,1-4) aplica-se exclusivamente à situação judaica
daquela época (em que Jesus viveu) e não menciona o que o velho João
testemunhara na época do imperador Domiciano (81-96). Se ele tivesse
escrito no espírito da época que ele viveu, ele teria pintado uma imagem de
Jesus muito diferente, e colocado na boca de Jesus respostas à situação
atual. Mas não é esse o caso.
João lembrou fielmente aquilo que Jesus, uns 50 anos atrás, disse a
respeito do futuro imediato que esperava os discípulos; exatamente aquilo
que Atos, nos capítulos 4,5,7 e 8 nos registram, como palavras cumpridas.
Outro indício importante da fidelidade histórica: João escreveu na
mesma época em que também surgiu a “Primeira Carta de Clemente” à
Igreja em Roma. Nesta Carta já vemos sinais de uma Igreja como
“instituição”. Nas cartas de Ignácio, poucos anos mais tarde, aparece a
igreja cristã como Instituição forte e notamos um alto apreço quanto ao
cargo de bispo.
Se João tivesse escrito com liberdade literária, Jesus teria, nas suas
palavras de despedida, dado conselhos quanto à estruturação necessária
da Igreja local (Instituição) e mencionado os cargos (presbítero, bispo,
ancião). Nada disso encontramos no seu Evangelho. Jesus viu a igreja
como uma vinha, em que cada cacho está ligado sem intermediação a Ele
pessoalmente, de maneira direta e produzindo seu fruto. Normativos para
a vida dos discípulos entre si são: o amor mútuo e a disposição total de
“lavar um os pés dos outros” (13,12-17; 13,34s).
Embora a Pedro (como sinal da nova aceitação após seu fracasso em
negar a Jesus) fora delegado pastorear as ovelhas de Jesus, nenhuma
posição de hierarquia lhe foi outorgada; pelo contrário, quando ele
questionou seu Senhor a respeito da obrigação de João, foi bruscamente
refutado na sua intromissão: “... o que lhe importa? Quanto a você: sigame!” (21,21s)!
Outro indício da fidelidade histórica do Evangelho de João
encontramos nas três “Cartas de João”, que estão no final do Novo
Testamento, antes do Apocalipse. Nelas encontramos o Apóstolo falando à
Igreja da época. Em nenhum lugar ele menciona palavras de Jesus
referente à situação crítica em que a igreja se encontrava. Nas “Cartas”, ele
aconselha a igreja como instituição. Se ele escrevesse como escritor
somente, teria aproveitado a oportunidade de “citar” palavras de Jesus
referente à situação que ele, como velho Apóstolo, estava enfrentado.
270
Tudo isso comprova grandemente a fidelidade histórica com que o
Evangelista lembrou, o que realmente Jesus havia dito, sem amoldar o
texto às exigências do momento em que era escrito ou lido. No Evangelho
de João não se trata, portanto, de composições livres do nosso Evangelista.
O Apóstolo inseriu nos caps. 18-21 as palavras de despedida de
Jesus a seus Doze. Ele os queria preparar para a missão deles. No
Evangelho de João, a Ontologia (a ciência do ser ) está no centro; o ensino
do “ser”, do “ente” (criatura) de Jesus. O quê, ou quem era Jesus? Quem
Ele é hoje? Faltavam critérios para entender a natureza do Nazareno. Os
sinóticos raramente iluminam esse ponto. Neles encontramos uma única
exceção, que chama atenção pois soa como uma anotação joanina que se
perdeu em algum lugar: Mateus 11,27s: “Todas as coisas me foram
entregues por meu Pai. Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém
conhece o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar.”
Talvez os versos 28,29 também façam parte dessa anotação realizada no
estilo joanino!!
Não sabemos como essas palavras entraram no Evangelho de
Mateus, escrito muito antes do de João. Os estudiosos recorrem a fontes
anteriores, no entanto hipotéticas, usadas tanto por Mateus como por
João. Mas são hipóteses somente. Outra explicação aponta o cerne do
posterior Evangelho, escrito por João ainda em Jerusalém e usado mais
tarde na composição da obra. Dessa anotação (nos tempos dos Apóstolos,
em Jerusalém) pode vir a “frase perdida”.
No Evangelho de João, Jesus é visto como “a Palavra eterna do Pai”,
Único na Sua maneira de ser. Portanto, as exclamações do “EU SOU”
(nome de JHWH) dominam a obra. As obras, chamadas “sinais”, são dicas
que apontam para o “ser” de Jesus, sua missão, seu “ser enviado pelo Pai”
e da revelação da qual todas as obras e palavras provêm.
O reconhecimento desse “ser” de Jesus é equivalente, é sinônimo de
“Salvação”; somente Ele pode salvar do pecado. Não é a cruz que salva; é
Aquele que na cruz foi pendurado. Se esse crucificado não for o “EU SOU”,
sua crucificação e toda a nossa religião para nada servem.
Por essa razão, João não perde muito tempo com atos ou palavras
isoladas. Ele procura levar o leitor a compreender o “ser” de Jesus: Sua
pessoa. Até sua visão da fé é ontológica: significa compreender o ser de
Jesus. O conteúdo da fé é dinâmico, é uma pessoa e não um dogma.
Fé
O Evangelho trata, do começo até ao fim, de fé versus incredulidade.
Julgamentos morais não encontramos em nenhum lugar. Os judeus não
são “filhos do diabo” por causa de algum feito maligno; eles o são por
271
causa de sua incapacidade de reconhecer a Jesus, Seu “ser” e por causa de
sua firme decisão de eliminação do Filho.
A fé, como já dissemos, não é estática, mas dinâmica. Ela, como
realidade viva, conhece crescimento, estágios diferentes, crescentes ou
decrescentes. Lemos na primeira parte do nosso Evangelho várias vezes
que “muitos creram nele”. Havia, sim, algo que podia ser chamado de “fé”
mas que não verdadeiramente o era. No final (12,37) valeu o julgamento do
Evangelista: “Mesmo depois que Jesus fez todos aqueles sinais miraculosos,
não creram nele...” Existe crescimento para cima ou crescimento para
baixo!
Após a refeição milagrosa (6,14s), muitos “criam” e queriam
proclamar Jesus como Rei. Estavam dispostos a ariscar algo por causa de
sua “fé”. Mas Jesus fugiu desse tipo de fé. Vimos que o abandono
finalmente valeu até para os até então constituíam-se em hordas de
“discípulos” (6,66s). O Evangelista observou nitidamente como a vaidade e
a ambição atropelam a fé (5,44). Há fé esquisita que “crê em Jesus” e pode,
por causa de alguém ou algo, assistir sem mais nem menos a morte do
Filho (12,42). Essa fé particular nada vale.
Lemos da fé de um número de judeus, cuja fé somente transformarse-ia em fé viva “se eles permanecessem na palavra” (8,31). Nada mais
ouvimos deles. Em 7,31s encontramos fé em Jesus, entusiasmo que, no
entanto, não conseguiu chegar ao “sim inequívoco”.
Nos discípulos encontramos aparentes contradições. Bem no início
(1,41; 1,50) eles creem no Messias e em 2,11 novamente lhes é creditada fé
em Jesus. Porém, somente em 6,69, a fé deles parece encontrar raízes
mais profundas. Na despedida, pouco dessa fé restou, porque não haviam
entendido quem Jesus era; não entendiam ainda seu “ser”. Jesus sabia da
fé vacilante; veja só seu comentário em 16,31,32: “Agora vocês creem?
Aproxima-se a hora, e já chegou, quando vocês serão espalhados, cada um
para sua casa. Vocês me deixarão sozinho. Mas eu não estou sozinho, pois
meu Pai está comigo”.
Havia a necessidade do quebrantamento completo e da morte da fé
humana. Através da ressurreição e Pentecoste lhes fora dada fé como
presente de cima, como um dom. Ninguém mais lhes podia roubar essa fé
por meio de argumentos, pois chegaram a compreender o “ser” de Jesus.
Por essa razão é que o velho João chama a fé “vencedor” sobre o mundo.
(“Primeira Carta de João” cap. 5,4).
“Deus é amor”
Embora o amor de Deus constitua o cerne no Novo Testamento,
notamos que os Apóstolos falam dele com uma certa discrição. Paulo, por
exemplo, inicia sua “Carta aos Romanos” (considerada a exposição
272
fundamental da fé cristã) com a justiça de Deus. Somente em 5,5s, ele
apresenta o amor de Deus no contexto da fé. A tão famosa composição de
1.Cor.13, que considera o amor como fato decisivo na vida do crente e
tudo o mais como nulo na sua ausência, não é o tema central da “Carta
aos Coríntios”. Os Apóstolos perceberam logo o perigo de equívocos no uso
desse termo.
O Evangelho de João menciona o “amor de Deus” como razão do
Envio do Filho. João 3,16 é, assim, considerado “o Evangelho dentro do
Evangelho”, o seu “coração”. Mesmo assim, o Evangelista não desenvolveu,
em seguida, o argumento do amor de Deus. O termo “amor” não se torna
assunto nas argumentações de Jesus; não é apresentado como motivo no
engajamento de Deus pelo seu povo. Somente nas palavras de despedida,
na intimidade com os discípulos é que Jesus volta a falar do amor do Pai
para com o Filho (15,9), Seu próprio amor para com eles, Seus seguidores
(15,10) e do amor do Pai para com todos os que creem (16,27; 17,23-26).
Ficamos surpresos quando lemos, em 13,1, do amor de Jesus para
com os seus, amando-os até a consumação na morte violenta na cruz. Sem
dúvida foi o amor que determinou todo o relacionamento de Jesus para
com os Seus discípulos. Porque é que em nenhum lugar lemos algo que
explicitasse esse amor no relacionamento mútuo entre Jesus e os
discípulos ou determinadas pessoas? Em nenhum lugar vemos Jesus
procurando conquistar alguém; pelo contrário, o nosso Evangelista relata
muitos momentos de aparente dureza de Jesus, como em 8,41-45; 9,3941; 10,8 e 11,6.21.32 e 33. Tudo isso nos leva a entender que o
Evangelista tratou na sua obra o assunto amor conscientemente com
discrição e sensibilidade.
A vida toda de Jesus e sua missão eram baseadas no amor para com
o Pai. A palavra, em 5,19.20, expressa bem o amor mútuo entre Pai e
Filho. Mesmo assim, a palavra amor nunca é usada por Jesus, quando se
refere a seu Pai. Somente em 14,31, uma única vez, Jesus menciona seu
amor pelo Pai como fato determinante por seu caminho até à cruz. É nas
palavras de despedida, que ouvimos do amor dos discípulo para com seu
mestre, sem, contudo, apresentar detalhes de como esse amor se
manifestara. A declaração do “Novo mandamento”, em 13,34, aparece
repentinamente, de súbito. Em nenhum outro lugar havia sido
mencionada.
Contudo, o assunto “amor” é a realidade decisiva em todo o
Evangelho (3,16; 13,1; 13,34s; 14,15; 14,31; 15,9.10; 16,27; 17,23-26;
21,15-17).
Se confundirmos amor com sentimento, com algo manso e suave,
mole e emocional, o Apóstolo João não é o “Apóstolo do Amor” como
geralmente é visto. Amar significa dar-se totalmente em favor de outrem ao
ponto de determinar a própria existência. O chavão usado hoje em dia:
273
“Deus é Amor” não só é contrário ao que o “Apóstolo do Amor” nos
transmite, como também desvaloriza o Evangelho todo!
A teologia liberal, moderna (Bultmann e outros), declara que não
pode existir um relacionamento direto entre Aquele que revela (Jesus) e um
amor direcionado diretamente a Deus. Segundo esse entendimento, o amor
para com O que revela não pode ser outra coisa senão fé. Conforme
Bultmann, esta fé não pode ser comparada a um relacionamento direto e
pessoal para com Jesus, pois Jesus não é realmente Deus conosco (!).
É nesse ponto que se define o entendimento da vida de fé. Se a
afirmação da teologia liberal, moderna, for correta, não haveria explicação
alguma para a vida de mulheres e homens que viviam esse amor para com
Deus servindo e dEle tiraram força para a “diaconia”, o serviço e o
sofrimento. Todos eles teriam sido e seriam vítimas de um mal-entendido
trágico e monumental.
O amor custa caro.
•
•
•
Como você entende esse amor revelado em Jesus? Como você
responde a ele?
A sua fé se relaciona a quê ou a quem? Igreja? Dogmas, Eucaristia?
Serviço? Representantes de Deus?
ou ao “Logos encarnado”, isto é, uma pessoa real?
Com a próxima leitura iniciaremos a Parte II do Evangelho de João, qual
intitulamos “O LIVRO DA GLÓRIA DE JESUS”.
FIM DO PRIMEIRO LIVRO
274
INTRODUÇÃO II
aos caps. 12 – 21 do Evangelho segundo João.
O LIVRO DA DOXA (da Glória de Deus)
Caro(a) leitor(a):
Ao iniciar a leitura da parte que, voluntariamente e seguindo a
alguns intérpretes, intitulamos “O Livro da Glória de Deus”, relembramos
alguns fatos que nós, cristãos, costumamos esquecer.
Há leitores que se aborrecem com a constante menção dos judeus,
do judaismo etc. A eles gostaríamos de lembrar que o cristianismo nasceu
do judaismo (Romanos 17,17-22).
Sem o judaismo, o cristianismo perderia sua razão de ser. Só
podemos falar de Deus (dos cristãos) porque, através de Jesus e seus
Apóstolos (judeus), os “povos gentios” (não judeus) foram alcançados e
incluídos no plano da Salvação. O Deus que nós adoramos (se o fazemos) é
o Deus de Israel também.
Sempre devemos ter em mente o que o Apóstolo Paulo escreveu tão
claramente nos capítulos 9 a 11 da “Carta aos Romanos”. Paulo era um
ex-fariseu, judeu, que sabia que a história da Salvação teria seu fim
quando judeus e não judeus juntos reconheceriam a Deus, Senhor, e a
Jesus Aquele de quem os profetas falaram. Era através de judeus que as
profecias de salvação para todos os povos se realizaram. Temos a porta
aberta ao Pai pela obra de Jesus, judeu.
O Novo Testamento, do qual o Evangelho de João faz parte, foi
escrito no contexto de Israel por judeus do primeiro século d.C. em grego
(versão Koinê), idioma geral daquela época. Jesus, no entanto, falava o
aramaico.
Traduzir o espírito de uma época é impossível. Muito do “hebraísmo”
(do espírito judaico, dos termos, dos costumes da época, do idioma que
Jesus falava) desapareceu na edição grega, pois não havia sempre
sinônimo dos termos hebraicos (aramaicos) com o mesmo significado
cultural. Mais tarde, na tradução do grego para as línguas
contemporâneas, essa tendência continuou.
Quando lemos os Evangelhos, imaginamos Jesus como alguém
semelhante a nós. Esquecemos que Ele era semita, tinha pele escura e
pertencia a uma cultura da qual não temos nenhum, ou pouco
conhecimento. Ele cumpriu todos os rituais judaicos, se vestia como judeu
ortodoxo daquele tempo e frequentou a Sinagoga, lugar de culto longe do
Templo.
275
Representar fielmente uma cultura nos termos de uma outra, é
problemático. A tradução de um idioma (Koinê, que hoje não existe mais)
para outro é difícil e deixa marcas.
Hoje, felizmente, há judeus ortodoxos que estudam o Novo
Testamento junto com pesquisadores cristãos. Graças à contribuição dos
judeus (“Hebreus”) podemos entender melhor o sentido de certas frases ou
palavras de Jesus, que pertencia ao Oriente Médio e a uma cultura
diferente da nossa.
Portanto, quando fazemos os nossos comentários, procuramos
aproveitar do melhor que atualmente se sabe dessas raízes judaicas na
fala de Jesus. Para você ter uma ideia de como a contribuição hebraica
mudou o entendimento de trechos bíblicos, traremos alguns poucos
exemplos, fornecidos pelo Prof. Dr. Pinchas Lapide, judeu, que trabalhava
na interpretação do Novo Testamento para judeus.
•
Os Rabis dizem que existem para todas as revelações e Leis das
Escrituras 70 versões diferentes de interpretação, todas válidas. O
número 70 corresponde ao número bíblico que simbolicamente
representa a totalidade dos povos. Portanto, não há uma autoridade
religiosa judia que declare um modo de interpretação como certo, e
os 69 demais como errados.
•
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” – essa famosa frase significa, no
hebraico, exatamente isto: “não interpretam literalmente; procurem
entender a profundidade que está atrás de cada palavra”.
•
“Três dias depois...” – ou outra tradução: “No terceiro dia houve um
casamento...” (João 2,1): Cada judeu sabe que se trata de uma terça-feira, pois no relato da criação (Gen.1,10 e 1,12) e somente nesse
dia Deus disse duas vezes: “E Deus viu que era tudo bom”. Os Rabis
entendem que o casamento no terceiro dia inclui duas bênçãos: uma
para a noiva e outra para o noivo.
•
Mateus 6,22s e Lucas 11,34: Nós interpretamos de maneira
diferente da que Jesus ensinou, pois na cultura hebraica significa
um “olho bom” não um olho que enxerga; significa benevolência, ou
simpatia. O “olho mal” não é um olho que não enxerga, mas, sim,
significa inveja. – Já os tradutores para o grego erraram, pois não
mais sabiam o sentido original das palavras.
•
Jesus escolheu 12 discípulos (em referência às 12 tribos), embora
no Seu tempo só restassem duas tribos. Quando enviou 70
discípulos (Lucas 12,1), Ele escolheu este número conforme o
número que simboliza a totalidade dos povos que Deus incluiria no
seu plano de salvação, pois a cada ano foram imolados, durante a
Festa dos Tabernáculos, setenta touros pela remissão dos países
pagãos.
276
•
Nem no hebraico nem no aramaico (idioma de Jesus) existe o verbo
“ser”. Todas as brigas dos reformadores em volta da “Santa Ceia”
teria sido outra se, naquela época, houvesse um melhor
conhecimento do hebraico. O que Jesus disse foi: “esse meu corpo”
– o que abre a porta para um entendimento muito diferente. Na
discussão dos reformadores, quando Lutero enfrentou seu colega
Zwinglio, em 1592, Lutero bateu três vezes na mesa com as
palavras: Está escrito “est, est, est”! Estava errado! Lutero mantinha
o entendimento católico romano a respeito da transformação de pão
e vinho baseando-se no “est”, que não havia!
Uma infinidade de pequenos desentendimentos ficam resolvidos quando
conhecemos os termos aramaicos. Você quer alguns exemplos? Vejamos,
então:
Marcos 9,23: Na nossa Bíblia (tradução do grego) Jesus diz ao pai do filho
doente: “se podes”! o que não faz sentido. O termo “há-im-tuchal” porém
diz: se tu pudesses só!
Os famosos “2000 porcos” de Marcos 5,13: o termo ka’alafim, sem vogais,
significa “um bando”. Lido como ke’alpim entende-se “cerca de 2000”.
Uma das mais famosas má-iterpretações está em Mateus 22,21: “Dai, pois,
a Cezar o que é de César e a Deus o que é de Deus”. O desconhecimento da
cultura religiosa da época e demonstrada na tradução para o grego, deu
origem à famosa teologia dos “Dois Reinos”. O Papa Bonifácio lançou, em
1308, a primeira bula a respeito; Agostinho, Lutero... todos defendiam a
convivência dos “dois reinos”: o espiritual e o terreno, e a necessária
submissão do cristão ao reino desse mundo, com consequências fatais. O
que Jesus disse foi (resumidamente): “Devolva (joga) a moeda blasfema do
imperador (pois tinha a sua imagem impressa na moeda) na cara dele e
entrega a Deus tudo, pois a Ele você e tudo que tens pertence!” Observe
que Jesus menciona primeiro César e depois Deus; isso seria impossível
caso se tratasse de uma divisão entre “duas autoridades distintas” – em
qualquer outro caso, Deus seria mencionado primeiro!!
Resumindo:
Durante 2000 anos, a cristandade se contentou com a “Vulgata” (o
texto dos Evangelhos em latim), que nada mais é que a tradução de uma
tradução, para devagarzinho começar a compará-la com o texto grego. Hoje
sabemos que, sem o conhecimento do Hebraico e o aramaico, não podemos
interpretar corretamente o texto no espírito da época de Jesus. Lemos coisas
no texto que nem ali estão e damos por “não históricos” outros, cujo
significado em aramaico não conhecemos.
277
Somente a desaparecida “Hebraica Veritas”, tão elogiada por
Jerônimo, poderia nos levar de volta ao texto. As novas descobertas de
manuscritos antigos, no século passado, nos ajudam, em parte, na
reconstrução deles.
Vejamos o que o Reformador Lutero disse a respeito (no séc 16):
“A língua hebraica é tão simples e tem poucas palavras, porém muito
está nelas contido; nenhum outro idioma lhe pode ser igual... se eu fosse
mais jovem gostaria de aprender esse idioma, pois sem ele não é possível
entender as Escrituras do modo certo. O NT, embora escrito em grego,
ainda está cheio de hebraísmos e fala na maneira hebraica. É por isso
que disseram bem: “Os hebreus bebem da fonte; os gregos de um regato
que sai da fonte (LXX); os latinos (Vulgata), portanto, de uma poça (ou
charco)” (Conversas à mesa WA, I, pag 525s).
•
Se você briga por palavras ao “interpretar” a Bíblia... atenção!!
Cap. 11.1
Marta.
(11,1) Estava enfermo Lázaro, de Betânia, da aldeia de Maria e de sua irmã
Na procura por um convincente e fiel comentário a respeito do relato
da ressurreição de Lázaro (pois o presente não pode pretender ser mais do
que isso) encontramos uma variedade enorme de hipóteses, afirmações e
deduções. Não resta dúvida de que a história da ressurreição de Lázaro
coloca o leitor moderno perante os inúmeros questionamentos. O nosso
bom senso nos diz que a volta de um corpo em decomposição à vida é
simplesmente impossível; nem um milagre, seja qual for a concepção desse
feito, o fará imaginável. Mesmo se o relato do capítulo 11 consistisse em
mensagem codificada, não mais saberiamos lê-la. A nossa perda da visão
mística já nos fez de espiritualmente aleijados. A nossa religião se tornou
racional e, ultimamente, pragmática. Cremos aquilo que nos traz lucro
imediato. Não estamos interessados em alguma coisa a mais. É o “EU” no
trono e Deus como o nosso devedor. Como estamos longe da visão que
João teve de Cristo!
Quando o nosso Evangelista compôs essa história magistralmente
elaborada, ele não a trabalhou como historiador. Como clímax da atividade
de Jesus, a ressurreição de Lázaro contém toda a pregação contida no seu
Evangelho. Não existe nada similar nos Evangelhos sinóticos.
Sim, Lucas relatou a ressurreição do filho da viúva de Naim
(Luc.7,11-17) e Marcos a da filha de Jairo (Marcos 5,35-43). Mas a nossa
razão, mutilada como é, não mais admite acontecimentos inexplicáveis.
Mesmo se falamos de “sinais” que Jesus operava, a nossa fé procura
278
sempre uma portinha que nos dá acesso às explicações que o nosso bom
senso exige.
No nosso texto, essa “portinha” definitivamente está fechada. Este é o
fato: Lázaro encontrava-se em estado de decomposição (disse Marta)
quando foi chamado de volta para a vida. Nos relatos de Lucas e Marcos,
quem sabe a química do corpo da menina sem vida voltou a funcionar
quando Jesus a chamou. Mas no caso de Lázaro?
A nossa interpretação do Evangelho quer abrir a nossa visão para a
realidade da qual o Apóstolo dava seu testemunho. De algum modo é
preciso poder concordar no nosso íntimo com o que lemos. Fé viva nunca
acontece cegamente, atendendo a uma ordem; ela é vida, ela vibra,
investiga e enxerga “através do horizonte”. Assim como “ser salvo” é
sinônimo de “compreender, ter os olhos abertos para a natureza do Filho,
para o “ser” de Jesus, deveria haver um conteúdo na ressurreição de
Lázaro, ao qual se possa, surpreso, dizer: sim! Pode não ser toda a
revelação, mas pelo menos uma luz! Não podemos imaginar que o “EU SOU
a luz do mundo” não nos permitisse ver uma faísca, pelo menos, dessa luz
nesse acontecimento incrível.
Se não cremos literalmente... acontece o quê? Senhor, eu quero ver!
Encontrei um comentarista que exorta admitir, palavra por palavra, a
veracidade histórica do que nos é relatado. Mas é uma exposição
superficial e forçada; ela não combina com seres pensantes. Lembra-nos
do “Super-Homem”; lembra daquelas pessoas às quais Jesus não causa
nenhum espanto, nenhum escândalo; não provoca conflito interior que
pudesse levar da escuridão para a luz, a uma compreensão mais profunda
de Cristo. É o tipo de argumentação: “é lógico, Ele era o Filho de Deus. Ele
tudo sabia e tudo podia”. Era tudo muito simples, é só crer: Jesus ordenou e
aconteceu! - E, com esse comentário, que dispensa qualquer procura,
ninguém é desafiado por Deus. Podemos tranquilamente virar-nos de lado
e continuar o nosso sono, convencidos da posse da verdade.
Certamente não foi isso que o Evangelista pretendia com a história
da ressurreição de Lázaro que, aliás, não é mencionada em nenhum outro
Evangelho. Por que somente João a lembra? Vejamos as conclusões
possíveis a respeito desse magistral feito.
A história torna difícil separar tradição da redação. Temos uma
composição compacta com muitos detalhes, escrito no estilo típico de
João, aumentando gradualmente o suspense. Os intérpretes até pouco
tempo atrás falavam de uma “fonte hipotética” da qual o nosso Evangelista
recebeu algumas informações e que, em cima dela, construía o que hoje
temos no capítulo 11. Sabiam até quais o versos que João recebeu e quais
os que ele acrescentou.
279
Hoje já se pensa de modo diferente: nenhuma das inúmeras
tentativas, contraditórias entre si, que postulavam uma fonte anterior a
João, trabalhada pelo Evangelista, convence hoje (Hennebery/Thyen).
Tem-se como certo que o texto todo foi elaborado por João. Se este é
o caso, João certamente trabalhou a história de tal forma que nela temos
revelada, por ocasião do final do ministério público de Jesus, a maior e
mais gloriosa confirmação tanto da pessoa de Jesus, como de suas
palavras.
A grande maioria dos comentaristas vê na história do capítulo 11
uma “variação joanina” de textos dos sinóticos. Eles entendem a história
de Lázaro como uma variação em cima do relato do filho da viúva
(Luc.7,11-17); da parábola de Lucas 16,19s (do rico e de Lázaro); da visita
de Jesus na casa de Marta e Maria (Lucas 10,38-42) e, finalmente, da
unção de Jesus em Marcos 14,3-9. Seria, então, algo como uma parábola
com profundo sentido espiritual e não um acontecimento real? Pode ser este
o caso?
Vimos, de fato, no capítulo dois, três e quatro como João trabalhou o
texto de tal forma, que não se sabe onde a redação assume e suprime os
acontecimentos reais, sempre com a única finalidade de expressar
verdades espirituais, sinais que apontam para o que a João interessava: a
revelação da glória do Filho.
Ao contrário dos Evangelhos sinóticos, João não relata uma única
parábola. O Evangelista Lucas conta mais de vinte e duas. Sabemos que
era esta a forma preferida de Jesus, quando falou com seus discípulos
(confira Mateus 13,34 e Marcos 4,11). Será que o nosso Evangelista, que
não traz nenhuma, trabalhou as parábolas dentro de seu texto, sempre
com a finalidade acima? Como o alvo de João era outro, diferente dos alvos
dos sinóticos e bem específico (20,31), será que por essa razão é que eram
poucas, e tecidas dentro de seu texto?
Várias perguntas ficarão sem resposta convincente. É melhor deixálas assim, ao invés de levantar hipóteses que, sem dúvida, mais tarde
darão lugar a outras, igualmente inseguras.
Se, em algum texto do nosso Evangelho devemos ler nas entrelinhas,
será no texto seguinte. Ele contém mensagens, exemplifica as palavras de
Jesus e desenha a compreensão joanina da vida eterna.
Um dos melhores comentaristas contemporâneos vê uma estrutura
cuidadosamente elaborada no Evangelho de João:
“À proclamação de Jesus “EU SOU a luz do mundo” segue, no cap.8, o
sinal da cura do homem cego desde o ventre materno.
Semelhantemente, segue à Festa da Dedicação (10,22), no cap.11, a
ressurreição de Lázaro, confirmando as palavras de Jesus de que as
280
suas ovelhas conhecem a sua voz (10,4.16.27); que chama suas ovelhas
pelo nome (10,3 confira com 11,43) e de que ninguém – nem a morte –
as tira de sua mão (10,28b). Muito além, João liga, no capítulo 11, à
palavra em 5,19ss (...sim, para admiração de vocês, ele lhe mostrará
obras ainda maiores do que estas. Pois, da mesma forma que o Pai
ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá vida a quem ele
quer). Por ocasião da morte de Lázaro, o Pai mesmo dá seu testemunho
pela verdade das palavras de Jesus”.
(H.Thyen, Das Johannes-Evangelium, Mohr-Siebeck,2005)
Hoje em dia, percebemos que o Evangelho de João é uma obra
literária magistral e não somente uma sequência de episódios mais ou
menos independentes, como é o caso nos sinóticos.
Veremos agora o que o Evangelista nos conta, verso por verso.
Cap. 11.1-16
(11,1) Estava enfermo Lázaro, de Betânia, da aldeia de Maria e de sua irmã Marta. (2)
Esta Maria, cujo irmão Lázaro estava enfermo, era a mesma que ungiu com bálsamo
o Senhor e lhe enxugou os pés com os seus cabelos. (3) Mandaram, pois, as irmãs de
Lázaro dizer a Jesus: Senhor, está enfermo aquele a quem amas. (4) Ao receber a
notícia, disse Jesus: Esta enfermidade não está para morte e sim para a glória de
Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado. (5) Ora, amava Jesus a
Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. (6) Quando, pois, soube que Lázaro estava doente,
ainda se demorou dois dias no lugar onde estava. (7) Depois, disse aos seus
discípulos: Vamos outra vez para a Judeia. (8) Disseram-lhe os discípulos: Mestre,
ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e, voltas para lá? (9) Respondeu
Jesus: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê
a luz deste mundo; (10) mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz. (11)
Isto dizia e depois lhes acrescentou: Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para
despertá-lo. (12) Disseram-lhe, pois, os discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo.
(13) Jesus, porém, falara com respeito à morte de Lázaro; mas eles supunham que
tivesse falado do repouso do sono. (14) Então, Jesus lhes disse claramente: Lázaro
morreu; (15) e por vossa causa me alegro de que lá não estivesse, para que possais
crer; mas vamos ter com ele. (16) Então, Tomé, chamado Dídimo, disse aos
condiscípulos: Vamos também nós para morrermos com ele.
(11,1) Estava enfermo Lázaro, de Betânia, da aldeia de Maria e de sua
irmã Marta. (2) Esta Maria, cujo irmão Lázaro estava enfermo, era a
mesma que ungiu com bálsamo o Senhor e lhe enxugou os pés com os
seus cabelos.
“Estava enfermo Lázaro...” O nome Lázaro é uma abreviação de Elazar, que significa “aquele a quem Deus ajudou”.
A menção das duas irmãs sugere que o autor presume como certo
que os leitores de seu Evangelho estariam familiarizados com a história de
Maria e Marta registrada em (Lucas 10,38-42). O Evangelista ainda indica
o nome da aldeia mencionada em Lucas: era Betânia, distante a cinco
quilômetros, aproximadamente, de Jerusalém. Do Evangelho de Marcos,
281
largamente conhecido, os leitores do Evangelho de João também sabiam
da unção do Senhor por uma mulher (Marcos 14,3). Lázaro, doente, aqui
apresentado como irmão de Maria, serve para identificar a mulher sem
nome (nos sinóticos) que ungiu o Senhor, quando este caminhava rumo à
Jerusalém. O nome dela era Maria. Mais adiante, o nosso Evangelista a
lembrará também (12,1-11).
Com esses dados, meio desajeitados, pois presumem referência a
outras informações, João abre seu relato:
(3) Mandaram, pois, as irmãs de Lázaro dizer a Jesus: Senhor, está
enfermo aquele a quem amas.
O texto no original dá certa ênfase à solicitação contida na
mensagem. “Veja”, ou “escuta”, aquele a quem amas, está enfermo!”.
Lembramos de 10,40 que Jesus, com seus discípulos, havia se retirado
para o lugar também identificado como Betânia, mas “Betânia da Peréia”,
isto é, do outro lado do Jordão, a uma boa distância da casa das irmãs.
A procura por essa “Betânia além do Jordão” ainda dá muita dor
de cabeça aos arqueólogos, pois parece indicar o lugar onde João Batista
batizava; onde Jesus fora batizado e, de acordo com a tradição, de onde
Elias (2 Reis 2,11ss) subiu ao céu num redemoinho (RIESNER R. Bethanien
jenseits des Jordan, Brunnen, 2002)
As duas irmãs conheciam a Jesus e existia, como percebemos, um
relacionamento fraternal e íntimo, mútuos. Assim se explica o fato das
irmãs saberem do lugar onde Jesus se encontrava. Essa “Betânia além do
Jordão” era um lugar seguro, fora da soberania judaica, procurado por
Jesus em consequência do conflito vivido por ocasião da festa
(cap.10,39.40).
A solicitação de ajuda, na esperança de salvar a vida de Lázaro, era
evidente. Mais adiante, temos a confirmação da própria boca das duas
irmãs: “Senhor, se estivesses aqui (a tempo), meu irmão não teria morrido”
(21e 32b). As duas irmãs lembraram do amor de Jesus para com o doente:
“...aquele a quem amas, está doente”. A necessidade de pressa para uma
possível cura era óbvia.
Não vamos perder tempo com a extensa discussão entre os
comentaristas sobre quando era que o mensageiro havia partido, e quando
Lázaro teria morrido. A menção dos “quatro dias” (39) permite opiniões
diferentes que, no entanto, nada mudam no contexto geral.
A resposta Jesus ao mensageiro não foi nada edificante.
(4) Ao receber a notícia, disse Jesus: Esta enfermidade não está para
morte e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja
por ela glorificado.
282
Atentos, ouvimos a afirmação de Jesus de que a doença de Lázaro
não resulte em morte, mas que nela o Filho de Deus fosse glorificado.
Alguns comentaristas veem na história da ressurreição de Lázaro
como um todo uma metáfora, onde a doença de Lázaro corresponde ao
pecado que leva para a morte e onde, através da Glorificação do Filho (“...é
necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele
crer, tenha a vida eterna”, 3,14.15), a salvação e o dom da vida eterna são
evidenciados na simbólica ressurreição de Lázaro. Podemos olhar assim.
Porém, se fosse essa somente a intenção do autor, por que razão
os detalhes intrigantes que seguem:
(5) Ora, amava Jesus a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. (6) Quando,
pois, soube que Lázaro estava doente, ainda se demorou dois dias no
lugar onde estava.
Não encontramos uma explicação convincente para a demora de
Jesus. Sem dúvida, esta demora contém uma mensagem. Descartamos
interpretações fantasiosas, como a de que Jesus propositalmente esperava
a morte para poder mostrar um sinal ainda maior do que até agora
(Schnelle, Haenchen e.o.) ou a interpretação até ridícula de que, durante
os dois dias, Jesus teria pedido de Deus a morte de Lázaro (Stimpfle) para
poder agir.
Procurando por uma explicação (pois, quem conhece a mente do
Senhor?), pode haver um “Codex textual” para a atitude de Jesus no livro
do profeta Oséias, cap. 6,1s: “Venham, voltemos para o Senhor. Ele nos
despedaçou, ele nos feriu, mas sarará nossas feridas. Depois de dois dias
ele nos dará vida novamente; ao terceiro dia nos restaurará...”. A pergunta
fica sem resposta óbvia.
Desde 2,3s, onde Jesus com uma rudez assustadora censurou a
sua mãe: “O que temos em comum, mulher (trad.literal), minha hora ainda
não chegou!” (confira também 7,2ss e 10), sabemos que Jesus somente
agiu depois que o Pai lhe indicou o tempo e, tendo chegado essa hora,
somente fez o que o Pai já lhe mostrou (5,20).
(7) Depois, disse aos seus discípulos: Vamos outra vez para a Judeia.
(8) Disseram-lhe os discípulos: Mestre, ainda agora os judeus
procuravam apedrejar-te, e, voltas para lá?
No terceiro dia após receber a notícia da doença de Lázaro, Jesus
propôs aos seus a volta para a Judeia. Ele não fez menção de Lázaro e
seus seguidores, ainda com a lembrança viva de como fugiram de
Jerusalém, o questionaram. Um retorno à Judeia, a essa altura, lhes
parecia suicídio na certa.
283
(9) Respondeu Jesus: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar
de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; (10) mas, se andar
de noite, tropeça, porque nele não há luz.
A resposta de Jesus reinterpreta o que ele, em 9,4, já disse.
Naquela ocasião, “o dia” era sinônimo do tempo limitado de ministério a
ser usado por Jesus no serviço ao Pai que O enviou. Aqui, ao contrário da
interpretação de Bultmann e.o. entendemos que Jesus respondeu aos seus
Doze, apavorados pela visão de retorno a Jerusalém. Quando Jesus
mencionou as doze horas do dia (em comparação com a noite), Ele chamou
a atenção dos discípulos à duração do dia e à segurança para quem andar
enquanto este durava. Ele, Jesus, indo adiante dos Doze, lhes seria como
luz e bom pastor. Na presença dele havia luz; ao contrário dos que
andavam sem luz.
O aviso dos Doze quanto ao perigo que seu mestre podia enfrentar
na Judeia não era tão altruísta como parece à primeira vista; eles mesmos,
os Doze, não estavam de maneira alguma querendo correr perigo.
(11) Isto dizia e depois lhes acrescentou: Nosso amigo Lázaro
adormeceu, mas vou para despertá-lo.
Após um certo intervalo e tendo acalmado os Doze, Jesus lhes
falou claramente do motivo de sua ida à Judeia. Não era Jerusalém que
Ele visava; era Betânia. Jesus usou a forma com que no Antigo
Testamento se falava veladamente da morte dos “justos” (2.Sam.7,12; 1
Reis 2,10) e de sua intenção de “despertar a Lázaro”. A tradição judaica
vétera-testamentária, a apocalíptica e o cristianismo primitivo usaram o
termo “dormir” quando se referia aos “justos” mortos na expectativa de um
pacífico “acordar” no dia final (confira 1 Tess.4,13-16; 1 Cor. 7,39 e.o.m). A
igreja cristã primitiva, mais tarde, também via a morte como passageira,
sendo vencida definitivamente através da ressurreição de Jesus.
(12) Disseram-lhe, pois, os discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo.
(13) Jesus, porém, falara com respeito à morte de Lázaro; mas eles
supunham que tivesse falado do repouso do sono.
Os Doze, nada empolgados com a visão de um retorno à Judeia,
responderam aliviados com o dito da velha sabedoria popular: “se dorme,
está salvo”. Não mais havia razão para um retorno imediato, pensaram.
(14) Então, Jesus lhes disse claramente: Lázaro morreu; (15)
Imagine o susto dos Doze, que se sentiram aliviados (e ignorantes)
e já tendo descartado a viagem no seu íntimo.
... e por vossa causa me alegro de que lá não estivesse, para que
possais crer; mas vamos ter com ele.
284
Os Doze mal ouviram que Jesus havia prometido acordar a Lázaro.
As palavras do sono de Lázaro, para Jesus, eram reais. Para os Doze não.
Enquanto Jesus parecia decidido e satisfeito com a visão do
encontro com Lázaro, os seus seguidores ficaram apavorados. Ainda não
era Lázaro que ocupava suas mentes; era a perspectiva do retorno à
Judeia. Betânia se situava perto demais de Jerusalém!
(16) Então, Tomé, chamado Dídimo, disse aos condiscípulos:
Vamos também nós para morrermos com ele.
Tomé, possivelmente o primeiro que havia desconfiado quando
Jesus falou da luz do dia, arriscou enunciar o que todos sentiam: sentença
de morte de martírio na certa, junto com o seu mestre. Na situação em que
se encontravam, de certo modo banidos do Templo, fora dos limites de
Judá, Lázaro morto... talvez o melhor seria morrer junto com seu Senhor
sob as pedradas dos judeus. Devemos lembrar de Tomé não somente sob o
ângulo de 20,24-27, como “Tomé, o incrédulo”.
Ele se via ligado ao seu Senhor, fiel e inseparável.
•
Até onde vai a sua identificação com o Senhor?
Cap. 11.17-31
(17) Ao chegar, Jesus verificou que Lázaro já estava no sepulcro havia quatro dias.
(18) Betânia distava cerca de três quilômetros de Jerusalém, (19) e muitos judeus
tinham ido visitar Marta e Maria para confortá-las pela perda do irmão. (20) Quando
Marta ouviu que Jesus estava chegando, foi encontrá-lo, mas Maria ficou em casa.
(21) Disse Marta a Jesus: “Senhor, se estivesses aqui meu irmão não teria morrido.
(22) Mas sei que, mesmo agora, Deus te dará tudo o que pedires”. (23) Disse-lhe
Jesus: “O teu irmão vai ressuscitar”. (24) Marta respondeu: “Eu sei que ele vai
ressuscitar na ressurreição, no último dia”. (25) Disse-lhe Jesus: “Eu sou a
ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; (26) e quem
vive e crê em mim , não morrerá eternamente. Você crê nisso?” (27) Ela lhe
respondeu: “Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que
deveria vir ao mundo”. (28) E depois de dizer isso, foi para casa e, chamando à parte
Maria, disse-lhe: “O Mestre está aqui e está chamando você”. (29) Ao ouvir isso,
Maria levantou-se depressa e foi ao encontro dele. (30) Jesus ainda não tinha
entrado no povoado, mas estava no lugar onde Marta o encontrara. (31) Quando
notaram que ela se levantou depressa e saiu, os judeus, que a estavam confortando
em casa, seguiram-na, supondo que ela ia ao sepulcro, para ali chorar.
(17) Ao chegar, Jesus verificou que Lázaro já estava no sepulcro havia
quatro dias.
Os termos: “Jesus verificou” indicam que, ao chegar após a longa
marcha nos arredores do povoado, Jesus tinha indagado sobre Lázaro e foi
informado de que o irmão de Marta e Maria já estava sepultado há quatro
285
dias. A menção de “quatro dias” é importante: segundo uma tradição
rabínica, a alma de uma pessoa morta permanece junto ao corpo por três
dias na esperança de uma nova união, e somente depois faz a sua partida
final, quando o corpo começa a entrar em decomposição. Encontramos
aqui a mais remota confirmação dessa crença rabínica constante de
escritos do séc. 3º d.C. (Leviticus Rabbah).
A situação era desesperadora. Com a chegada do quarto dia,
qualquer esperança de uma volta de Lázaro à vida havia se desvanecido.
(18) Betânia distava cerca de três quilômetros de Jerusalém, (19) e
muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria para confortá-las pela
perda do irmão.
O corpo de uma pessoa falecida era enterrado ou colocado em
sepultura no mesmo dia de sua morte. O cerimonial de luto, no entanto,
segundo as leis rabínicas, durava sete dias. Faziam parte dele a visitação e
o choro comum de mulheres em alta voz, e contratadas para esse fim. A
proximidade da capital Jerusalém permitia a presença de amigos e
conhecidos das duas irmãs. A observação de que “muitos judeus” vieram
confortar Marta e Maria, vindos de Jerusalém, sugere que a família era
bastante proeminente e conhecida na cidade.
Obs. O passado usado no verbo “distar” – distava - levou os estudiosos à conclusão de
que, já no tempo da composição do Evangelho, anos após a destruição total de Jerusalém
e do Templo, não mais se sabia com exatidão a localização dessa aldeia, ainda hoje
discutida).
(20) Quando Marta ouviu que Jesus estava chegando, foi encontrá-lo,
mas Maria ficou em casa.
A notícia da chegada de Jesus com seu grupo corria velozmente.
Marta (que significa Senhora ou patroa), ao ouvir as primeiras notícias da
aproximação de Jesus, levantou-se e correu ao seu encontro, enquanto
Maria permanecia em casa recebendo e cumprimentando as visitas,
conforme o ritual da época. Não devemos explorar a permanência de Maria
com a suposta fé pequena dela; havia necessidade de alguém receber os
visitantes.
(21) Disse Marta a Jesus: “Senhor, se estivesses aqui meu irmão não
teria morrido.
A expressão de Marta no verso 21 não era uma censura; ela sabia
muito bem que teria sido difícil, senão impossível, que Jesus chegasse a
tempo para curar Lázaro. Humanamente falando, a notícia – na visão dela
– havia alcançado Jesus demasiadamente tarde. Ficara a expressão de
profundo pesar: “se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”.
(22) Mas sei que, mesmo agora, Deus te dará tudo o que pedires”.
Quando Marta mandou chamar Jesus que estava longe, apesar do
que mencionamos em 21 acima, o fez com uma confiança ilimitada. Pela
frase do verso 22, Marta dava a entender que, possivelmente, Jesus ainda
286
podia trazer Lázaro de volta à vida. Tratou-se de um pedido indireto,
formulado não como pedido, mas feito em forma de confissão. Suas
palavras revelaram um coração revolvido até às profundezas e oscilando
entre a tristeza e a esperança. A fé de Marta, embora obscurecida pelas
dúvidas, dispersava as trevas do desespero momentâneo com a sua
declaração.
Marta, como judia, sabia que somente a Deus compete o poder de
reviver os mortos. Sua fé no poder de Jesus constituía-se em fé no poder
da oração. Quando ela disse, “eu sei que, mesmo agora, Deus te dará tudo o
que pedires”, ela usou uma palavra que nunca encontramos nos lábios de
Jesus: o verbo “pedir”. O termo que Marta usou, era apropriado nos lábios
de um inferior que pede um favor a um superior. Os termos que Jesus
empregava com respeito aos seus próprios “pedidos” ao Pai geralmente
denotavam equidade entre duas pessoas. Equidade entre pessoas quer
dizer que elas são do mesmo nível em autoridade ou posição.
Jesus e o Pai eram “iguais”? Como devemos entender a afirmação
ousada de Jesus: “Eu e o Pai somos Um” (10,30)?
Orígenes (185-254 d.C.) via a unidade como “Unidade Ontológica”
(de ser) entre Pai e Filho, de modo que o Filho representava o Pai e o Pai
era idêntico ao Filho. Segundo essa versão, tudo que se atribuía a Deus
também valia para o Filho.
Não era bem assim que a igreja definiu “o ser” de Jesus. O Pai
“aconteceu” com Sua presença salvadora e justificadora na pessoa do
judeu de nome Jesus (de Nazaré), em palavras e atos. São duas pessoas,
embora uma contida na outra (confira “Considerações”, após o cap.8: “Uma
ou duas pessoas”?)
(23) Disse-lhe Jesus: “O teu irmão há de levantar-se novamente”.
A resposta de Jesus às palavras de Marta lhe foram como um
balde de água fria! A tristeza e o desalento mais uma vez lograram a vitória
antes timidamente vislumbrada. Marta imediatamente entendeu as
palavras de Jesus como referentes à “ressurreição no fim dos tempos”,
elemento da crença judaica. Essa referência à ressurreição na grande
consumação era (e é) um tipo de consolo convencional quando, para
consolar enlutados, não sabemos o que dizer.
(24) Marta respondeu: “Eu sei que ele vai ressuscitar na
ressurreição, no último dia”. Era a confissão usual dos fariseus,
apocalípticos e essênios; somente os saduceus a negavam. O olhar de
Marta, ouvindo a palavra “ressurreição”, perdeu-se na futura e distante
“ressurreição” do “dia final”. No momento que ela estava vivendo, essa
confissão da fé lhe era de pouco valor, uma luz muito distante e por
demais fraca.
287
(25) Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê
em mim, ainda que morra, viverá; (26) e quem vive e crê em mim, não
morrerá eternamente.
Neste exato momento entra o Evangelista, pregando. Aquele que se
encontrou diante de Marta é, para os que nele creem, ressurreição e vida
eterna. Vida que não somente será concedida no dia final, longínquo, mas
sim, agora, como posse, presente. Jesus, da parte de Deus, concede vida,
vida eterna (5,26) aos que nele confiam. A presença ou perda da vida
terrena, portanto passageira, não tem importância quando se trata da
posse dessa vida eterna.
As palavras de Jesus em 25 e 26, pareciam nada ter a ver com a
questão da ressurreição de Lázaro. Pelo contrário, elas até deixaram a
esperança da volta do falecido à vida em segundo plano.
O comentário referente a 25 e 26, dado pelo próprio Jesus,
encontra-se em 5,21-29, especialmente no verso 24: “... quem ouve a
minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será
condenado, mas já passou da morte para a vida”. Todo esse trecho
encontramos resumidamente nos versos 25 e 26 do nosso capítulo:
“Importa crer no Filho”.
Jesus não disse se essa ressurreição estava para acontecer já, nem
que a faria acontecer agora mesmo. Marta não sabia da intenção do
Senhor de “acordar” Lázaro (verso 11). Assim, sua resposta ao trecho que
podemos entender como pregação do Evangelista ou palavras
pronunciadas, dirigidas a Marta, era pré-programada. Jesus até a
provocou: Você crê nisso?”
(27) Ela lhe respondeu: “Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o
Cristo, (o Filho de Deus) que deveria vir ao mundo”.
A resposta de Marta, embora um pouco abatida e mais rendida do
que confiante quanto à ajuda solicitada, declarou tudo o que ela, neste
momento, podia compreender. “Eu tenho crido que tu és ...” Não sabemos
se ela conseguiu fazer uma ligação de sua confissão com o episódio do seu
irmão falecido.
Assim como para Marta, também para nós leitores, o
questionamento não pode ser evitado: Jesus, nas palavras de João, havia
transportado os termos “ressurreição” e “vida” para o mundo espiritual,
transcendente, pessoal. O assunto Lázaro parece ser secundário ou até
suprido. O que Jesus pretendia com suas palavras de duplo significado?
Procuremos aplicar a afirmação de Jesus “... ainda que morra,
viverá” ao contexto do falecido Lázaro. Jesus acabou de reconhecer a
morte como um fato: “... ainda que morra ...”. Porém, notamos uma
contradição retumbante com a continuação da frase: “... e quem vive e crê
em mim, não morrerá eternamente” (26).
288
Como o próprio Jesus não se contradiz na mesma sentença, seguese que o termo “morrer” nas duas sentenças não se refere ao mesmo nível.
Havemos de lê-las num sentido diferenciado:
25b (“... ainda que morra ...”) fala da morte física, como a de
Lázaro; 26b, no entanto, (“... não morrerá eternamente”) fala da morte
espiritual. Essa última sentença, na tradução correta como negação
empática (“certamente não haverá de morrer”) só podia significar que a
vida eterna daquele que crê é indestrutível e também não cessa com
a morte física.
A negação não se refere à realidade da morte natural; negado é a
“segunda morte” da qual João, no Apocalipse 2,11; 20,6.14 e 21,8, nos
fala, e que é a condenação na ressurreição geral dos mortos no dia final
(Mateus 25,31-46).
Dessa forma, a visão joanina da vida eterna não anula a
ressurreição dos mortos e o julgamento final em troca de uma escatologia
individual e presente, como alguns teólogos afirmam.
O Evangelista, como parte da época em que escreveu, conhecia de
perto (tanto pessoalmente quanto como igreja) a contestação, o sofrimento,
a perseguição, a tortura e a morte. Seu interesse preliminar era
conscientizar seus leitores potenciais do fato de que, com a obra de Jesus,
com sua glorificação e ressurreição, a nova criação de Deus e a nova vida
não mais sujeita à escravidão da morte já entrara no aeon presente.
Essa fé que nasceu na ressurreição de Jesus (e desde então é
nutrida pelo Espírito Santo), continua sendo fé contestada; ainda não é o
contemplar do “eschaton” (leia 1ª “Carta de João”, cap 3,2). A fé ainda se
baseia nos pilares do amor e da esperança.
(28) E depois de dizer isso, foi para casa e, chamando à parte
Maria, disse-lhe: “O Mestre está aqui e está chamando você”. (29) Ao
ouvir isso, Maria levantou-se depressa e foi ao encontro dele.
Mal terminara de confessar sua fé em Jesus como o Cristo, Marta
correu de volta para a casa enlutada e, “chamando Maria à parte”, isto é,
cochichando, lhe passou o convite que recebeu de Jesus, implícito no
texto. Assim como Ele teve a oportunidade de conversar com Marta à
parte, Jesus queria fazer o mesmo com sua irmã. Note que Marta, ao
passar o convite, se referiu ao “Mestre”, um termo que indica intimidade e
respeito.
(30) Jesus ainda não tinha entrado no povoado, mas estava no lugar
onde Marta o encontrara. Como não se podia evitar, a pressa com que
Maria (grego = Mirjam) se levantou e correu, chamou a atenção dos
presentes:
289
(31) Quando notaram que ela se levantou depressa e saiu, os judeus,
que a estavam confortando em casa, seguiram-na, supondo que ela ia
ao sepulcro, para ali chorar.
Pelo contexto entendemos que o lugar onde Jesus permanecia era
próximo ao túmulo. Ele não estava interessado em entrar na casa enlutada
com sua intensa movimentação de luto.
Como mandava a tradição, os visitantes logo se levantaram,
seguindo a Maria para, junto com ela, chorar o morto. Dessa forma, o
diálogo entre Jesus e Maria que se segue, não será mais em particular,
como fora o com Marta. Os visitantes serão testemunhas daquilo que havia
de acontecer.
Cap. 11.32-44
(32) Chegando ao lugar onde Jesus estava e vendo-o, Maria prostrou-se aos
seus pés e disse: “Senhor, se estivesses aqui meu irmão não teria morrido”. (33) Ao
ver chorando Maria e os judeus que a acompanhavam, Jesus agitou-se no espírito e
perturbou-se. (34) “Onde o colocaram”, perguntou ele. “Vem e vê, Senhor”,
responderam eles. (35) Jesus chorou. (36) Então os judeus disseram: “Vejam como
ele o amava!” (37) Mas alguns deles disseram: “Ele, que abriu os olhos do cego, não
poderia ter impedido que este homem morresse?” (38) Jesus, outra vez
profundamente comovido, foi até o sepulcro. Era uma gruta com uma pedra
colocada à entrada. (39) “Tirem a pedra”, disse ele. Disse Marta, irmã do morto:
“Senhor, ele já cheira mal, pois já faz quatro dias”. (40) Disse-lhe Jesus: “Não lhe
falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?” (41) Então, tiraram a pedra. Jesus
olhou para cima e disse: “Pai, eu te agradeço porque me ouviste. (42) Eu sei que
sempre me ouves, mas disse isso por causa do povo que está aqui, para que creia
que tu me enviaste”. (43) Depois de dizer isso, Jesus bradou em alta voz: Lázaro,
venha para fora!” (44) O morto saiu, com as mãos e os pés envolvidos em faixa de
linho e o rosto envolto num pano. Disse-lhes Jesus: “Tirem as faixas dele e deixemno ir”.
(32) Chegando ao lugar onde Jesus estava e vendo-o, Maria
prostrou-se aos seus pés e disse: “Senhor, se estivesses aqui meu
irmão não teria morrido”.
Maria corria para o lugar fora da aldeia, onde Jesus a esperava.
Deixou-se cair aos pés de Jesus e de seus lábios brotaram as mesmas
palavras usadas por Maria, revelando o mesmo pensamento que havia
torturado intimamente as duas irmãs: “Senhor, se estivesses aqui meu
irmão não teria morrido”. Faltava-lhe o pedido indireto por ajuda que Marta
acrescentara; as lágrimas corriam pela face de Maria. Após um momento
de silêncio constrangedor, os intensos lamentos dos judeus que haviam
seguido à Maria, voltaram a dominar a cena. Todos olharam para Jesus,
aos cujos pés Maria chorava.
Não cremos que a fé de Maria teria sido inferior à de Marta, como
alguns defendem. Muito ao contrário, o Evangelista desenhou Maria como
a mais sensível, a mais atenta.
290
(33) Ao ver chorando Maria e os judeus que a acompanhavam, Jesus
agitou-se no espírito e perturbou-se.
Maria chorava aos pés de Jesus. Marta, aparentemente (v.39),
havia retornado junto com os visitantes. Estes, lamentando em alta voz,
com seu olhar em Jesus e seu grupo, ficaram na expectativa de alguma
ação. Tudo isso levou Jesus a um estado íntimo que Lutero traduziu como
“agitou-se no espírito e perturbou-se”.
Há vasta literatura a respeito dessa “agitação”, pois o termo usado
no original permite várias interpretações, todos apontando na mesma
direção. Ele aparece no NT em Mateus 9,30; Marcos 1,43; 14,5 e aqui em
11,33 e 38 e, uma única vez, no Antigo Testamento (Dan.11,30). Na
literatura secular grega da época (Aeschylos), ele significa “bufar” e tem
sua raiz no “resfolegar” (de um cavalo). Nos diversos trechos do NT, ele
está sendo traduzido (sempre no seu contexto) com “perturbar-se”;
“comover-se profundamente”; “repreender severamente” ou “despejar fúria”.
A Bíblia é discreta e econômica quando se trata de sentimentos e
emoções. Observações quanto ao estado emocional de Jesus são raras.
Neste trecho é diferente.
O que será, que o Evangelista queria transmitir com o termo
semelhante a “resfolegar”? Por que Jesus “agitou-se” profundamente?
•
•
•
Será que a sua revolta íntima era causada pela presença provocante
do poder da morte que trazia consigo tanta mágoa?
Ou será que Jesus ficou indignado perante alguma falta de fé?
Porém, qual seria a real esperança que sobrava para os presentes?
Ou por ter sido o choro de Maria, agarrando-se a seus pés, sem
considerar quem Ele era?
Encontramos o mesmo termo no original em 12,27 e 13,21. Ali Ele
abre a visão em outra direção: “Agora, meu coração está perturbado e, o
que direi? Pai, salva-me desta hora?”(12,17) ou “... Jesus perturbou-se em
espírito e declarou: “Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá!”
Neste último contexto, a “perturbação” de Jesus nasce da visão da
traição eminente e da cruz. Assim podemos fazer uma ligação com o nosso
texto acima: Jesus entendeu a situação em relação ao seu caminho para a
cruz, como o verso 4º já deixou avisado. A “revolta íntima” e a
“perturbação” valiam para esse mundo de pecado e de morte, esse mundo
de incredulidade, esse seu próprio povo cego de Israel. Foi “o mundo” a
razão de seu “ser levantado” e de sua morte na cruz: “Este pão é a minha
carne, que eu darei pela vida do mundo” (6,51b). Na morte de seu amigo
Lázaro, nas lágrimas de Maria e no clamor dos judeus presentes, Jesus se
viu confrontado e desafiado por este mundo, onde reina a morte.
(34) “Onde o colocaram”, perguntou ele. “Vem e vê, Senhor”,
responderam eles.
291
Frente a frente com a realidade da morte, da capitulação que esta
representava e conturbado com o lamento dos judeus (a quantidade e
volume desse pranto era proporcional ao reconhecimento da importância
do falecido), Jesus viveu uma revolta íntima tão intensa e comoção que se
expressa na frase mais curta do NT inteiro: (35) Jesus chorou.
O verbo usado por João quando mencionou o choro de Jesus, é
único em todo o NT. Em nenhum outro lugar ele é aplicado quando se fala
de choro e de lágrimas. No AT há os dois salmos, 42 e 43, nos quais o
autor fala das lágrimas que, de dia e de noite, são o pão do justo. Alguns
intérpretes entendem que o Evangelista, que usualmente fez trocas
intertextuais, pensara neste salmo como referência ao choro de Jesus.
Um teólogo, de nome Barrett, apresenta uma explicação diferente,
senão teimosa, para o fato de Jesus chorar. Barrett observou que o mesmo
termo traduzido com “perturbação” foi usado onde Jesus proibia propagar
seus milagres ou anunciá-lo como Messias (Evangelhos sinóticos, Marcos
1,43 e Mat. 9,30). Jesus teria reconhecido que a tal situação, assim como
ela se apresentou, quase o obrigava a realizar um milagre. Da mesma
maneira como o pedido de Maria (2,4) havia provocado uma áspera e dura
repreensão, a situação descrita pelo nosso texto gerava a mesma
indignação. Jesus sempre ficara atento ao que o Pai lhe dizia e mandou
fazer; no presente momento, porém, a situação parecia obrigá-lo a agir,
sem uma ordem de cima. E mais: o milagre que a situação exigia, de
maneira nenhuma podia ficar no anonimato; pelo contrário, seria a causa
imediata de Sua própria morte. Dessa forma, as lágrimas de Maria não
teriam a mesma razão – a perda do irmão – como as de Jesus, causadas
pela “raiva e emoção” quanto à quase obrigação que lhe era imposta de
revelar-se como Messias e, com isso, assinar sua morte. Barrett parece
partir da premissa equivocada de que Jesus não sabia, no momento do
pedido de socorro das duas irmãs, que com o caminho para a sepultura de
Lázaro, também o caminho para a sua própria morte teria seu início.
A razão da espera de dois dias antes de atender ao pedido das
duas irmãs, de alguma forma, pode estar ligada com a “espera” da ordem
do Pai. Dificilmente Jesus teria ido “acordar a Lázaro” sem saber-se Um
com a vontade do Pai. Seus discípulos haviam-no alertado quanto ao
perigo que correria na Judeia, e o que Ele faria na sepultura de Lázaro
sem ordem de Seu Pai?
(36) Então os judeus disseram: “Vejam como ele o amava!” Enquanto
alguns dos visitantes em luto consideravam as lágrimas de Jesus como
causadas pela emoção perante a perda de um amigo, outros, de modo
tipicamente humano, não deixaram de interpretar o choro de Jesus como
hipócrita. Não havia Ele demonstrado indiferença em demorar tanto,
enquanto ainda havia esperança para o seu amigo?
292
(37) Mas alguns deles disseram: “Ele, que abriu os olhos do cego, não
poderia ter impedido que este homem morresse?”
A recente cura do cego de nascença em Jerusalém ainda estava na
boca de muita gente, inclusive na dos visitantes. Essas considerações em
meio ao lamento, talvez em voz alta, fizeram acender ainda mais a
indignação de Jesus. Não eram as pessoas pelas quais Ele estava sendo
desafiado. Era a visível e real presença da morte, da demonstração do
poder de seu último inimigo, da morte que Ele, fonte da vida da parte de
Deus, teria que provar também.
(38) Jesus, outra vez profundamente comovido, foi até o sepulcro. Era
uma gruta com uma pedra colocada à entrada. Na época, usualmente,
serviam cavernas ou grutas, às vezes naturais, como sepulturas. Nas duas
paredes laterais da caverna havia bancos talhados, nos quais os mortos,
envoltos em panos, descansavam. Uma grande pedra colocada na entrada
evitava a entrada de animais silvestres e outros predadores. A região
montanhosa nos arredores de Jerusalém era rica em cavernas.
(39) “Tirem a pedra”, disse ele. Disse Marta, irmã do morto: “Senhor,
ele já cheira mal, pois já faz quatro dias”.
Não há como enfatizar melhor a irreversibilidade da morte física e
com isso a impossibilidade de ajuda, como Marta o fez com as suas
palavras de protesto. A experiência provava que, no quarto dia, um cadáver
já está em decomposição.
Pouco antes, Marta ouvia de Jesus as palavras: “teu irmão há de
ressurgir”. Há intérpretes que entendem o protesto de Marta como prova de
que não esperava nada mais; outros apontam para sua falta de fé e usam
duras palavras contra a fé que precisa de “sinais” (como é fácil e hipócrita
apontar a fé falha de outros!).
(40) Disse-lhe Jesus: “Não lhe falei que, se você cresse, veria a glória
de Deus?”
Qual, afinal, foi o objetivo do “Evangelho de João”? “... estes sinais
foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e,
para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Todos nós precisamos de
“sinais” para crermos. A fé de Marta, frente ao túmulo de seu irmão morto,
necessitava da recordação e advertência do Senhor. Se Marta cresse, assim
disse Jesus, ela veria não o horror da morte, mas sim “a glória de Deus”.
(41) Então, (eles) tiraram a pedra. “Eles”, possivelmente os visitantes em
conjunto com Marta, tiraram a pedra pesada. O suspense chegou ao
máximo. Ao invés de espiar atentamente para dentro da gruta, Jesus
olhou para cima e disse: “Pai, eu te agradeço porque me ouviste. (42)
Eu sei que sempre me ouves, mas disse isso por causa do povo que
está aqui, para que creia que tu me enviaste”.
293
As testemunhas lembravam desse “olhar para cima”. O Evangelista
não nos conta da conversa de Jesus com o seu Pai, por cujo atendimento
lhe agradeceu. No seu agradecimento, Jesus usou a expressão simples e
exclusiva de “Pai” (como em Luc.11,2).
O relacionamento de Jesus com seu Pai era diferente do de todas
as demais pessoas. Somente após a sua “glorificação” Ele enviará sua
primeira testemunha pascal, Maria Madalena, com a seguinte mensagem a
seus discípulos: “... vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu
Pai e para vosso Pai, para meu Deus e para vosso Deus” (20,17). Somente
através de sua passagem pela morte e sepultura, Jesus se fez irmão para
os seus discípulos. Seu Pai se tornou o nosso Pai e, por essa razão, hoje
podemos orar também: “Pai nosso...”.
Após agradecer por ter sido ouvido na sua oração, Jesus a
encerrou afirmando: “... eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por
causa da multidão, para que creiam que tu me enviaste”. As mãos e o olhar
levantados enquanto orava, fizeram que todos entendessem onde Jesus
buscava seu poder.
(43) Depois de dizer isso, Jesus bradou em alta voz: Lázaro, venha
para fora!”
Jesus chamou Lázaro pelo seu nome. O leitor do Evangelho lembra
o que Jesus disse do bom pastor: ele chama suas ovelhas pelo seu nome
(10,3.27); que conhece os seus e é conhecido pelos seus, assim como o Pai
conhece o Filho e esse o Pai (10,1); de cuja mão ninguém as arrebatará
(10,28-30). Do mesmo modo o leitor se lembra da afirmação de Jesus em
5,24, onde Ele advertiu que: “... vem a hora, e já chegou, em que os mortos
ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão”.
Na situação presente do relato do Evangelista esse momento havia
chegado, e com um brado alto Jesus ordenou: “Lázaro, vem para fora”!
(44) O (que era) morto saiu.
Jesus não levantou a sua voz para acordar a Lázaro. Nenhuma
ordem alcança aquele que está morto. Quando Jesus bradou em alta voz, o
morto que não podia nem ouvir nem obedecer, ouviu e obedeceu.
O (que era) morto saiu, com as mãos e os pés envolvidos em
faixa de linho e o rosto envolto num pano. Disse-lhes Jesus: “Tirem as
faixas dele e deixem-no ir”.
Saiu da gruta aquele cujo corpo e pernas estavam envoltas com
panos de linha e cuja visão era, pelo menos, altamente dificultada pelo
lenço que cobriu seu rosto. Novamente nenhuma explicação ou descrição
do Evangelista de “como” Lázaro saiu. Nenhuma tentativa de ajuda para
que entendêssemos o que estava acontecendo. João não fez o mínimo
esforço para explicar ao leitor aquilo que havia testemunhado.
294
Paralisados pelo que viram, ninguém havia se lembrado do mais
necessário, isso é, de livrar o ressuscitado das faixas. O próprio Jesus teve
que dar a ordem de soltar a Lázaro, cujos movimentos estavam altamente
dificultados, cremos.
Após essa ordem de Jesus há um vazio no relato do Evangelista. É
como se ele, repentinamente, perdesse o interesse no assunto. Lázaro
desaparece sem mais nem menos e nada ouvimos do espanto das pessoas
presentes; nada ouvimos de louvor ou agradecimento das duas irmãs.
Ninguém se interessava em saber o que ele, Lázaro, havia visto lá, “no
outro lado”. Essa quebra na história tem causado perplexidade desde o
início da igreja.
Tudo isso que gostaríamos de saber, não interessava ao nosso autor;
era um só tema que o movia ao escrever: Jesus, o Filho de Deus. Por essa
razão ele lembrou tão exaustivamente da oração que precedia à ordem
dada a Lázaro. Ela exemplifica o caráter do relacionamento entre Pai e
Filho: a demonstração da comunhão pessoal existente entre Pai e Filho,
definindo e sustentando todo o seu ministério.
“Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma que eu ouço, eu julgo
(5,30); “... as obras que o Pai me confiou para que as realizasse, essas que
eu faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou” (5,36), não
somente as obras, mas também as palavras testificam, pois, “o que tem
visto e ouvido ele testifica” (3,32); “... as coisas que tenho ouvido dele, essas
digo ao mundo” (8,26); “... vos tenho falado a verdade que ouvi de Deus”
(8,40). Suas palavras são as palavras de Deus (8,47) e tudo, Ele recebe da
parte de Deus. “Minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me
enviou e realizar sua obra”(4,34).
Como toda a sua vontade se orientou no Pai, assim também a sua
oração. Ele sabia que o Pai sempre o ouvia, e por isso Ele agradeceu
(11,42.41). Sua oração era oração porque não era algo estático, definitivo,
rezado e acabado, mas algo pessoal, renovando-se permanentemente e
publicamente testemunhado frente ao tumulo de Lázaro.
A grande pergunta para o leitor de hoje é a seguinte: Devemos ver
na história de Lázaro um relato histórico? A ressurreição física de Lázaro
realmente aconteceu? Ou estamos diante de uma história simbólica,
baseada em elementos da tradição (de Lucas, principalmente) que
exemplifica verdades espirituais?
As pregações que ouvimos sobre Lázaro costumam ser ambíguas,
isto é: cada um pode entender o que quer. Ninguém ousa perguntar:
Lázaro ressuscitou mesmo? Há como saber, com exatidão, o que
aconteceu? Porque os Evangelhos sinóticos nada sabem desse
acontecimento supremo? Será que a razão humana e o bom senso são
capazes de julgar esse relato? Perguntas sobre perguntas se levantam.
Existem respostas convincentes?
A partir da próxima leitura as procuraremos.
295
Suplemento para Cap. 11.32-44
O morto saiu, com as mãos e os pés envolvidos em faixa de linho e o rosto
envolto num pano. Disse-lhes Jesus: “Tirem as faixas dele e deixem-no ir”.
A história da ressurreição de Lázaro é um osso duro de roer para o
cidadão do século 21. Muitas perguntas ficam sem respostas e há algo
estranho na compilação da história. Os três Evangelhos sinóticos não
conhecem uma pessoa real de nome Lázaro. Somente Lucas menciona um
Lázaro, mendigo que morreu, que é um personagem de uma parábola e não
da vida real (Lucas 16,19-31).
Não há a menor dúvida de que o autor do Evangelho e os leitores da
obra seriamente criam na ressurreição corporal de Lázaro. Como é que
estamos entendendo o relato hoje em dia?
A tradição sinótica, anterior a João, conhecia duas ressurreições (a
da filha de Jairo em Marcos 2,35s, e a do filho da viúva de Naim, em Lucas
7,11-17). Nas duas, Jesus agiu comovido pela dor, usando de misericórdia.
Na ressurreição de Lázaro não vemos nada disso; ela se constitui em
ato demonstrativo e sensacional. Esse sinal operado por Jesus, porém, não
está em harmonia com a sua premissa. Nos versos 25 e 26, Jesus havia
dito à Marta: “EU SOU a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim,
ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá
eternamente”. Como efeito vemos o retorno de Lázaro à vida terrena,
continuando sob o domínio da morte, enquanto a palavra de Jesus
prometia vida da parte de Deus, superior, e não dependendo da vida
terrena ou da morte física, vista como secundária. Fica difícil entendermos
a relação entre a promessa metafísica e a demonstração de um retorno à
vida biológica, temporária. Esse aparente desencontro é o que mais intriga
os comentaristas.
Vamos falar francamente sobre nossas dúvidas e fazer uma
avaliação dos pensamentos em torno desse último milagre de Jesus.
Queremos saber se aquilo que encontramos no capítulo 11 são fatos
fidedignos, observados e relatados por uma testemunha ou se a história de
Lázaro é simbólica, que somente transmitem algumas verdades espirituais.
Comecemos com a pergunta: Por que nenhum dos demais Evangelistas
sabe da ressurreição de Lázaro?
Não encontramos nenhuma resposta convincente. Segundo João,
Jesus estava na companhia dos Doze quando chamou Lázaro de volta à
vida. Mesmo se João fosse o único deles e que tenha escrito um Evangelho
(pois sobre a autoria do Evangelho de Mateus existem várias hipóteses e
Marcos e Lucas não faziam parte dos discípulos), a tradição não poderia
ter silenciado as vozes a respeito desse maior dos sinais.
296
Para termos uma visão de uma hipótese possível retornamos aos
capítulos 2,3 e 4 do nosso Evangelho. Ali vimos como o autor usou de
grande liberdade literária para colocar a base de sua mensagem
fundamental (20,31). Lembramos que naqueles três capítulos, o
Evangelista ignorou qualquer sequência histórica.
No milagre do vinho no casamento em Caná, cap.2,1-11, vimos como
João usou seu relato da festa para simbolicamente demonstrar a
superabundância da Graça e a ineficácia de rituais. Percebemos como, no
clímax da festa, a história sucumbe no irreal e misterioso. Subitamente
desaparecem a mãe, os irmãos e todos os atores da história,
semelhantemente ao que acontece no capítulo 11. O Evangelista encerra
seu relato com a sentença: “Com este, deu Jesus princípio aos seus
sinais...”.
No capítulo seguinte, o Evangelista usou o início de uma entrevista
para, cortando-a logo em seguida sem que nos fosse possível determinar
com exatidão a que altura isso acontece, para desenvolver a sua própria
mensagem, chegando em 3,16 ao coração do seu Evangelho.
Mais à frente, no capítulo quarto, o Evangelista trabalhou o encontro
de Jesus e sua conversa com uma mulher samaritana para revelar-se
Aquele que é (4,25.26), e isso na ausência de testemunhas (seus discípulos
tinham ido à cidade). O mesmo vale para o que chamamos a “purificação
do Templo”, cuja narração é interrompida no clímax do acontecimento
(2,17), dando ao Evangelista a oportunidade de lançar a primeira luz sobre
a missão da redenção (V.19).
A mão do Evangelista modelou todos estes acontecimentos históricos
(reais) para fazer neles sobressair aquilo que ele define em 20,31 como a
finalidade de seu Evangelho.
O que tudo isso tem a ver com a história de Lázaro?
Se nela o Evangelista queria mostrar uma antecipação do sinal de
Jonas e o poder de Jesus sobre a morte, ele o fez com maestria. Você deve
ter notado que João sempre apresenta Jesus triunfando. Pouco à frente,
porém, Jesus será entregue nas mãos do inimigo que escraviza este
mundo desde a caída do homem no Éden: a morte. Será cortada, pela
primeira vez, a até então ininterrupta comunhão do Filho com o Pai.
Para não deixar seu leitor interpretar a crucificação como vitória da
morte (embora temporária), a história de Lázaro exemplifica que
exatamente aquilo que parece derrota se transformou, através de Jesus, em
vitória. João sempre interpretou a crucificação como “glorificação”, pois
através dela, Deus confirmou ser Senhor também da morte, ressuscitando
a Jesus. A morte, vista como irreversível, foi vencida e essa promessa
passará a valer para todos os que “pertencem ao bom pastor”. A história de
297
Lázaro (caso seja uma metáfora) exemplifica que nem a morte física nos
deixará fora do alcance da mão do Pai (11,25.26). Na sua obediência,
Jesus glorificou ao Pai e foi glorificado por Ele.
Será que agora podemos entender melhor o uso realizado pelo
Evangelista do conceito da glorificação ?
Se João “trabalhou” a na época conhecida parábola de Lázaro (Lucas
16,19ss), exemplificando as palavras de Abraão: “Se não ouvem a Moisés e
aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém
dentro os mortos” e deu forma ao que Jesus havia declarado a respeito do
bom pastor, no capítulo anterior, fica evidente por que os Evangelhos
sinóticos não conhecem a ressurreição de Lázaro.
A escola teológica atual entende a história de Lázaro não como um
acontecimento histórico, verdadeiro, mas, sim, como uma compilação livre
do nosso autor. Ele teria usado elementos de algumas tradições anteriores,
principalmente a parábola do homem rico e de Lázaro, mendigo, do
Evangelho de Lucas. O Evangelista teria criado a história desse “sinal”
extraordinário para demonstrar “a realidade da exclusividade salvadora de
Jesus” conforme sua promessa nos versos 25 e 26, mencionada acima.
Essa declaração de Jesus, em si, compreende tudo aquilo que nos
capítulos anteriores já nos fora dito. O simbolismo da história
demonstraria de forma convincente a fé no poder da vida do Cristo, capaz
de socorrer onde não há mais vida nem esperança e tudo parece perdido e
morto. Conforme a escola de Strathmann, o capítulo 11 é um testemunho
poderoso da fé vencedora cristã. Ele sentencia: Este poder somente se
revela efetivo quando desistimos de nos atormentar com a procura do
entendimento apologético-histórico (isto é, literal).
Segundo Strathmann não há como nos convencer da veracidade do
relato, pois essa história contradiz em tudo o nosso “bom senso e vai
contra a razão” (!) Ele aconselha abandonar a apologética (defesa da fé)
ultrapassada, pois esta nunca nos levará a uma convicção real. A
interpretação histórica, quando muito, nos sossega.
C.S.Lewis (1898 – 1963) nos confiou como os pastores fazem para
poder pregar a ressurreição (por exemplo) quando nem nela creem. Os
pastores, assim diz Lewis, retomavam o velho ensino medieval das duas
verdades: uma verdade simbólica, com a qual é possível pregar de tal
forma que cada um possa entender aquilo que quer; e a outra, esotérica,
para o intercâmbio entre si, pastores e teólogos.
Na sua palestra de 11 de maio de 1959, em Cambridge, ele fez uma
profecia que já se tornou realidade. Ele disse: “Antigamente, os leigos
procuravam esconder o fato deles crerem menos que seus pastores; hoje, o
leigo procura esconder que ele crê muito mais que seu pastor. A tarefa de ser
298
missionário para os pastores de sua própria igreja será uma tarefa muito
desagradável” (Modern Theology and Biblical Criticism, 1959).
Essas são as “soluções” apresentadas na teologia. Elas valem para
todos os milagres, até para a ressurreição de Jesus. Não devamos procurar
faticidade histórica (pois, dizem, o que ela nos diria?), mas, sim, atentar ao
que nos é dito com relação à importância teológica.
Será que podemos agradecer por essa solução? Não o podemos,
pois ela nos levaria a um dilema perigoso. Se a teologia moderna
(Strathmann e o. m.) falasse sério, quando diz que a fé no poder da vida do
Cristo seja capaz de socorrer onde não há mais vida nem esperança e tudo
parece perdido e morto, não vemos razão alguma para não crer que esse
Cristo poderoso chamou a Lázaro para fora do sepulcro!
Se, no entanto, a afirmação do poder é somente simbólica, segue
que, na vida real, temos um Jesus tão desamparado e sem forças perante
o poder terrível da morte como qualquer um de nós o somos!
Neste caso, a frase “Cristo pode ajudar até onde não há mais vida
nem esperança” revela-se papo sem fundamento.
Um “história simbólica” só nos pode mediar um “poder simbólico” da
parte de Jesus.
No início do capítulo (v. 4) vimos como a morte de Lázaro havia
colocado Jesus perante à questão decisiva. Até então, o poder de Jesus
sobre a doença se revelava real. Mas, como seria a situação perante o
poder da morte? A morte, conforme o Apóstolo Paulo, é o último inimigo a
ser vencido (1 Cor 15,26).
A questão é a seguinte: Jesus tinha que calar-se inoperante frente à
demonstração da morte, igual a nós? Ou seu poder operava também no
âmbito da morte? Essa questão não pode ser respondida com uma história
simbólica.
No Evangelho de Lucas, cap 16,19-31, está registrado a parábola do
homem rico e de Lázaro, mendigo. Vejamos o que J.Ratzinger (Bento XVI)
nos diz à respeito:
Nesta parábola “... muitos homens de hoje dizem ou gostariam de dizer a
Deus: se quiseres que acreditemos e que organizemos a nossa vida segundo a
palavra da revelação da Bíblia, então deves ser mais claro! Mande-nos alguém
do além (de volta) que nos possa dizer que de fato assim é realmente. O
problema da exigência de sinais, da exigência de uma maior evidência de
revelação, percorre todo o Evangelho. A resposta de Abraão bem como a
resposta de Jesus à exigência de sinais dos seus contemporâneos fora do
mistério é clara: quem não acredita na palavra da Escritura também não
acreditará em alguém que venha do além...
299
... Se virmos na história (da ressurreição) de Lázaro a resposta de Jesus à
exigência de sinais de sua geração, então nos encontramos em harmonia com a
resposta central que Jesus deu a esta exigência. Em S.Mateus diz assim: Esta
geração má e perversa exige um sinal. Mas nenhum sinal lhe será dado exceto o sinal do
profeta Jonas. Pois, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe,
assim também o Filho do Homem estará três dias e três noites no interior da terra”
(Mat.12,39s). Em Lucas, lemos:”Esta geração é má. Ela exige um sinal; mas nenhum
outro sinal lhe será dado exceto o sinal de Jonas...” (Lucas 11,29s). Não precisamos
aqui analisar a diferença destas duas versões. Uma coisa é clara: O sinal de
Deus para os homens é o Filho do Homem, é Jesus. ... Ele mesmo é “o sinal de
Jonas”. Ele, o crucificado e o ressuscitado, é o verdadeiro Lázaro...” (Ratzinger
Josef. Jesus de Nazaré, Planeta, 2007).
O papa, diplomaticamente, deixou nas suas palavras em aberto se a
ressurreição de Lázaro era real ou figurativa. O Evangelista afirmou:
Lázaro, irmão de Marta e Maria, voltou à vida. Ele constitui a “sombra
antecipada” do sinal de Jonas.
Nem por isso todas as pessoas que viram o fato chegaram à fé,
exatamente como Jesus previa. Muito pelo contrário: o milagre da
ressurreição de Lázaro, o acontecimento, o “sinal” em si, não conduziu à fé,
mas sim, ao endurecimento (João 11,45s). Mais sobre isso na próxima
leitura.
Numa narração como a de Lázaro, onde temos “a história” em si
como único meio para termos informação a respeito da realidade física e a
transcendental, teríamos que dizer: Não sei como separar o acontecimento
de sua realidade transcendente!
Se separarmos aquilo que entendemos como “simbólico”
acontecimento básico, sobrará uma mera alegoria, sem conteúdo real.
do
Aceitar o relato do Evangelho literalmente não precisa significar
entender tudo como realidade física, palpável. Se interpretamos as
palavras de revelação da Bíblia deste modo, elas nem mais são religiosas,
não mais terão conteúdo espiritual, elas são mortas. Esse é o perigo que
correm aqueles que procuram interpretar a Bíblia literalmente.
A própria encarnação de Deus tem a sua dimensão humana,
substancial, aquela que vimos: o homem de Nazaré. É dele que o
Evangelho nos fala. Tem a dimensão espiritual e essa não expressamos em
palavras. Ela é acessível unicamente pela fé no Filho.
Pensando na história de Lázaro, podemos afirmar o seguinte: Se
Jesus é aquele que, desde o Prólogo, nos está sendo apresentado no
Evangelho joanino; se, “sem ele, nada que existe teria sido feito (1,3s), não
vejo por que esse Jesus, o doador da vida, não podia inverter o processo
orgânico e chamar Lázaro de volta à vida biológica e mental!
300
A questão do “como” não teremos respondida a contento enquanto
permanecermos humanos. Se um dia O conhecerei (1.Cor.13,9s) assim
como eu fui conhecido por Ele, saberei com certeza quais as partes da
“história” (e também da de Lázaro) foram simbólicas (se é que foram) e
quais não o foram. Então entenderei que “a realidade transcendental não
exclui espaço ou forma, acontecimento e pessoas” (C.S.Lewis).
Por enquanto sabemos da revelação de Deus através do relato do
Evangelho, escrito por humanos e cuja mensagem mudou o mundo – mas
chegará a hora em que entenderemos até o “como”; será no momento em
que não haverá mais a mínima necessidade de “interpretação”.
Cada escola teológica tem seu tempo. Até a de hoje! Ela será
substituída por outra, e assim, ad infinitum, enquanto Deus tiver paciência
e nos der tempo para pensar. Devemos ter em mente essa relatividade do
conhecimento quando procuramos interpretar a Palavra de Deus, que,
por si, é eterna.
Cap. 11.45-57
(45) Muitos dos judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que Jesus
fizera, creram nele. (46) Mas alguns deles foram contar aos fariseus o que Jesus
tinha feito. (47) Então os chefes dos sacerdotes e os fariseus convocaram uma
reunião do Sinédrio. “O que estamos fazendo”, perguntaram eles, “Aí está esse
homem realizando muitos sinais miraculosos. (48) Se o deixarmos, todos crerão
nele, e então os romanos virão e tirarão tanto o nosso lugar como a nossa nação”.
(49) Então, um deles, chamado Caifás, que naquele ano era o sumo sacerdote, tomou
a palavra e disse: “Nada sabeis! (50) Não percebeis que vos é melhor que morra um
homem pelo povo , e não pereça toda a nação. (51) Ele não disse isso de si mesmo,
mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação
judaica, (52) e não somente por aquela nação, mas também pelos filhos de Deus que
estão espalhados, para reuni-los num povo. (53) E daquele dia em diante, resolveram
tirar-lhe a vida. (54) Por essa razão, Jesus não andava mais publicamente entre os
judeus. Ao invés disso, retirou-se para uma região próxima do deserto, para um
povoado chamado Efraim, onde ficou com os seus discípulos. (55) Ao se aproximar a
Páscoa judaica muitos foram daquela região para Jerusalém a fim de participarem
das purificações antes da Páscoa. (56) Continuavam procurando Jesus e, no Templo,
perguntavam uns aos outros: “O que vocês acham? Será que ele virá à festa?” (57)
Mas os chefes dos sacerdotes e os fariseus tinham ordenado que, se alguém
soubesse onde Jesus estava, o denunciasse, para que o pudessem prender.
(45) Muitos dos judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que
Jesus fizera, creram nele.
Mais uma vez ouvimos como “muitas pessoas” chegaram a crer em
Jesus. Havia muita gente que o amava. A palavra, ou neste caso a
experiência de ver Lázaro voltando à vida, deixou-as espantadas e
desarmadas. Não que tivessem um entendimento teológico a respeito do
que viram, mas seus corações se abriram. Eles aceitaram o fato que, por
alguma maneira extraordinária, Deus estava agindo através desse Mestre
de Nazaré.
301
(46) Mas alguns deles foram contar aos fariseus o que Jesus
tinha feito.
O maior milagre não consegue vencer uma disposição
contrária do indivíduo. O texto não diz que esses “alguns” que, apressados,
foram informar os fariseus (responsáveis pela manutenção e pureza da fé),
não ficaram impressionados; pelo contrário: eles foram informar o fato
incrível que aconteceu. O milagre não os havia levado à fé; isto seria
reconhecer Jesus e colocar-se do seu lado. O milagre os fez entender o
perigo que o acontecimento significava para o clero.
(47) Então os chefes dos sacerdotes e os fariseus convocaram uma
reunião do Sinédrio.
Os fariseus não necessariamente eram inimigos de Jesus. Eles,
junto com os sacerdotes, muitas vezes interpelavam Jesus; outrossim já
procuravam prendê-lo, tudo sem êxito. O Sinédrio1, convocado às pressas,
não tomou conhecimento somente do milagre. Ele também foi informado
do fato de que cada vez mais judeus começavam a crer nesse Jesus. Sua
reação deixa a impressão de que entenderam bem onde estava o perigo.
1
Havia dois Sinédrios: o “Grande dos Setenta e hum” (membros), e o “Pequeno
Sinédrio”.
O “Grande Sinédrio dos Setenta e hum” (membros) era, em
essência, um órgão legislativo, presidido pelo sumo sacerdote. Era lei
judaica que o sumo sacerdote fosse designado vitaliciamente, sendo
indicado pelo “Grande Sinédrio dos Setenta e hum”, mas os governadores
romanos introduziram a novidade de que a nomeação seria feita e desfeita
por eles, ao seu bel-prazer. Dessa forma, os sumos sacerdotes sempre
eram romanófilos (simpáticos aos romanos). Ao mesmo tempo o sumo
sacerdote era o símbolo do orgulho e das aspirações nacionais judaicas e
de sua superioridade religiosa, e elevado guardião e supremo comandante.
O “Grande Sinédrio dos Setenta e hum” era composto de saduceus
(minoria) e fariseus (maioria). O sumo sacerdote, da linha dos saduceus
por nascimento, procurou aliar-se sempre que possível aos fariseus, porque
esses, pobres e patriotas, gozavam da afeição e da confiança da grande
massa da população, ao contrário dos saduceus, ricos e politiqueiros.
Através dos fariseus, o sumo sacerdote buscou atingir o povo. Como o
sumo sacerdote era nomeado por Roma e destituível a qualquer hora, ele
se interessou em dirigir os assuntos internos dos judeus tão branda e
eficientemente que não haveria qualquer fundamento para uma
interferência militar romana. O sumo sacerdócio limitava-se a umas
poucas famílias da aristocracia saducéia, constituídas de um único clã em
Jerusalém e que tinha os recursos necessários para pagar os elevados
custos decorrentes do cargo. Sabemos que a nomeação para o sumo
sacerdote tornara-se uma fonte lucrativa de receita privada para os
governadores romanos – se um ocupante do posto não podia ou não queria
pagar o preço, seria deposto e um mais acessível o substituiria.
302
Por outro lado, lhe seria de pouca ajuda ser reconhecido como
sumo sacerdote pelo governador romano se como tal não fosse aceito pelos
próprios judeus e reconhecido por eles como supremo chefe e porta-voz
nos assuntos de interesse do povo judaico. Ele era o único homem “eleito”
e qualificado para entrar no Sagrado dos Sagrados (Santo dos Santos), no
Templo, uma vez por ano (Lev.16,32); ele, que estava “mais próximo de
Deus” e ungido para representar o povo perante de Deus.
A situação do sumo sacerdote era curiosa e ambivalente:
desprezado pelos judeus como fantoche dos romanos tinham de usar (e
usava) os bons ofícios sacerdotais em mediação com as autoridades
romanas. Os judeus desprezavam o sumo sacerdote por suas relações
saducéias e por seus defeitos morais e profissionais; por outro lado,
tinham que reconhecê-lo como ocupante legal do mais alto posto nacional
e religioso. O “Grande Sinédrio” tratava de todos os assuntos políticos
em que interesses judaicos interferiam em interesses romanos.
A jurisdição penal, inclusive a que se aplicava em casos
capitais, era exercida pelo chamado “Pequeno Sinédrio”, de vinte e três
juízes. O Pequeno Sinédrio podia julgar qualquer judeu, por qualquer
crime que fosse, segundo a lei judaica, condená-lo à morte e praticar a
execução sem que o governador romano interferisse de qualquer maneira
(por exemplo, a morte de Estêvão). O crime de profanar o sábado, por
exemplo, ou de idolatria (Num.15,35/Dt.21,21), não interessava aos
romanos; como crimes de acordo com a lei judaica incorreriam somente na
exclusiva jurisdição dos tribunais judaicos e o governador romano nunca
reivindicaria jurisdição sobre eles, pois o direito romano não considerava
qualquer um dos dois atos como crime (Cohn).
“O que estamos fazendo”, perguntaram eles, “Aí está esse homem
realizando muitos sinais miraculosos. (48) Se o deixarmos, todos
crerão nele, e então os romanos virão e tirarão tanto o nosso lugar
como a nossa nação”.
A inimizade da liderança religiosa que, até agora, por bem ou por
mal, tolerava o Nazareno, passou a ser perigosa no momento em que para
os fariseus ficou evidente que, aos poucos, sua posição como líderes estava
sendo minada. Nem era “Ele” o problema, nem os sinais que operava; era o
movimento crescente em volta desse homem que ameaçava a posição
religiosa deles, tolerada pelos romanos. Qualquer aparente movimento
messiânico considerado pelos romanos como político, imediatamente
enfrentaria o poderio militar das legiões romanas. Esses iam agir sem
demora e acabar com o que restava de independência judaica – da prática
religiosa e de sua posição na hierarquia religiosa.
O perigo era real. “Os romanos tirarão o nosso lugar”! “Nosso lugar”,
termo técnico para o Templo (usado somente aqui e em 4,20). Esse não se
podia perder! Com ele, dinastias de sacerdotes, escribas e fariseus iam
perder sua existência, sua razão de ser. E com a perda “do lugar” eles
303
perderiam o povo; pois era da fé que todos eles viviam e era o dinheiro do
povo que mantinha funcionando todo este aparelho religioso.
Você percebe alguma semelhança com o que temos hoje em termos de
“Igreja”?
Após algumas tentativas fracassadas de detenção eles haviam
deixado Jesus pregar. O povo o admirava, mas agora, diante dos rumores
de Betânia (Lázaro), tudo parecia em jogo. Como agir para não perder a
simpatia do povo? Seus milagres contavam a seu favor. Mesmo entre eles,
fariseus, nem todos odiavam o Nazareno. O problema se tornara político.
Percebemos que o assunto era da alçada do “Grande Sinédrio”.
(49) Então, um deles, chamado Caifás, que naquele ano era o sumo
sacerdote, tomou a palavra e disse: “Nada sabeis! (50) Não percebeis
que vos é melhor que morra um homem pelo povo, e não pereça toda
a nação.
Muitos comentaristas apontaram o verso 49 como prova contra a
autoria de João Evangelista. Como judeu, João sabia que o cargo do sumo
sacerdote era vitalício. Como ele pode escrever “naquele ano”? A
observação “naquele ano” não constitui prova contra a autoria do
Evangelista, mas atesta que o comentarista está mal informado quanto aos
hábitos políticos e religiosos da época. Da mesma forma como João sabia
que o cargo era vitalício, também sabia da prática romana. Após Caifás,
que ocupava o cargo durante longos dezoito anos (18-36), os sumos
sacerdotes ficaram somente poucos anos, alguns até por poucos meses no
cargo! A observação do Evangelista simplesmente identifica o sumo
sacerdote naquele ano memorável: Caifás. Este não fez segredo do seu
desprezo após acompanhar a discussão, e notando que havia mais
desespero e perplexidade do que evidência de responsabilidade política nos
votos dos fariseus. Portanto sentenciou: “Ignorantes! Esqueceram o
princípio político de que o bem do povo exige o sacrifício do indivíduo? Ou
‘ele’ ou nós todos!”
(51) Ele não disse isso de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote
naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação judaica, (52) e
não somente por aquela nação, mas também pelos filhos de Deus que
estão espalhados, para reuni-los num povo.
Este comentário do Evangelista encontra as mais diversas
interpretações. Quem são esses filhos de Deus espalhados? O que os
separa dos demais?
Há quem vê nos versos 51 e 52 a mão de um autor posterior,
querendo limitar a salvação “ao povo de Deus e a alguns eleitos de entre os
gentios”. O nosso Evangelista sempre defendeu a universalidade da obra
redentora de Jesus. Será que 51 e 52 dão margem para a doutrina da
predestinação?
304
No Prólogo era dito que “aos que o receberam, aos que creram no seu
nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus” (1,12).
Perguntamos: Essa palavra implica em uma condição que nós tenhamos
que cumprir? Não é Deus que aparece como quem oferece e dá? Receber
não é cumprir uma exigência! A promessa é condicional, sim, mas no
sentido de “dar razão a Deus”. Receber a Jesus implica em concordar com
Ele; não em cumprir exigências!
Quem ou o quê determina quais são esses filhos de Deus
espalhados? Jesus disse em 10,16: “Tenho outras ovelhas que não são
deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a
minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. Será que João
entendeu essa designação referindo-se a alguns “predestinados” –
escolhidos à parte? Somente alguns são escolhidos? Pensamos que não.
Todos nós somos potenciais candidatos para o céu. Se João fala dos
espalhados, ele não contradiz sua visão da redenção do mundo.
Não é Deus que exclui alguém da salvação. Lembremos de 9,41 que
define a razão da cisão entre uns e outros: “... se vocês fossem cegos, não
seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa
de vocês permanece”.
Há cegos e há surdos para com Jesus e há os que ouvem e que veem.
Qual a razão de alguns ouvirem enquanto outros não? A controvertida
questão da predestinação ou eleição não encontrará resposta racional
enquanto o nosso conhecimento for parcial (1.Cor.13,12).
João vê nos “filhos de Deus espalhados” a Eclésia, a totalidade dos
que Deus chamou “para fora”, escondida entre povos e nações, como o
Apóstolo a viu em Apoc.7,9: “... uma grande multidão que ninguém podia
contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé, diante do trono e
do Cordeiro, com vestes brancas ...”
Há ambiguidade dos termos usados por João. Na boca de Caifás
seriam Israel e os judeus na diáspora. Para o Evangelista era o povo de
Deus, composto de judeus e gentios. Os versos 51 e 52 não são palavras de
Caifás; são o comentário do Evangelista que viu a profecia cumprida, pois
a igreja de seu tempo já era composta majoritariamente por gentios
convertidos.
... o sumo sacerdote naquele ano, profetizou... Aquele que no
cálculo político declarou que o fim santifica os meios, sem querer ou saber
tornou-se ferramenta na mão de Deus. O Evangelista se referiu à crença
judaica de que o sumo sacerdote, enquanto no cargo, profetiza. Duas
menções no AT falam de um sumo sacerdote profetizando (Num 27,21 e
2.Sam.15,27ss). Filo, historiador e contemporâneo de João, declarou que
cada verdadeiro sacerdote era profeta de Deus.
(53) E daquele dia em diante, resolveram tirar-lhe a vida.
305
Após diversas tentativas fracassadas de eliminação, o Sinédrio
oficializou a determinação de eliminar o Nazareno. O texto pode ser
traduzido também da seguinte forma: “... daquele dia em diante, estavam
se consultando em como tirar-lhe a vida”, o que dá mais sentido à frase.
(54) Por essa razão, Jesus não andava mais publicamente entre os
judeus. Ao invés disso, retirou-se para uma região próxima do deserto,
para um povoado chamado Efraim, onde ficou com os seus discípulos.
A decisão tomada, embora ainda sem definição de como e quando,
feriu a Torá, porque foi tomada na ausência do acusado e sem ouví-lo,
como manda a Lei. Tempos atrás, um dos membros do Sinédrio,
Nicodemos, já havia protestado e apontado essa falha jurídica no
julgamento, mas foi silenciado (7,50ss).
Más notícias correm rápido! Avisados do perigo em Jerusalém, Jesus
e seu grupo desapareceram. Jesus não mais andava publicamente. De
acordo com pesquisadores, a região de refúgio chamada Efraim, localiza-se
a aproximadamente 20 quilômetros ao NE de Jerusalém. Hoje é uma vila
com nome árabe et-tajjbeh (A.Guilding, Jewish Worship 150).
(55) Ao se aproximar a Páscoa judaica muitos foram daquela região
para Jerusalém a fim de participarem das purificações antes da
Páscoa.
O autor chamou a festa: “Páscoa dos judeus”, usando um termo
neutro. Os “não judeus” eram excluídos expressamente desse ritual. O
historiador Josefo relata da Páscoa do ano 66, durante o cerco a
Jerusalém, poucos anos antes da sua destruição:
“... sacrifica-se da nona à décima primeira hora – para cada sacrifício era
necessária a presença de pelo menos dez homens pois, individualmente, não
podiam comer. Contaram-se 255.600 animais sacrificados. Isso fazia
2.700.000 participantes, todos purificados e consagrados, pois leprosos ou
mulheres no rito da purificação pós menstrual e outros impuros não podiam
participar, assim como não judeus (Bell.VI.423-427)...”
A situação dessa festa em tempo de guerra era singular e o número
de participantes parece duvidoso, porém o número era enorme também
nos anos comuns. Conforme cuidadosa avaliação de J.Jeremias, a cada
ano subiram em média 100.000 peregrinos à Jerusalém, uma cidade
com 25.000 habitantes. Imaginem o aperto nas vielas estreitas,
principalmente na região do Templo! Fica evidente a razão da necessidade
do peregrino chegar em tempo e encontrar uma casa para a necessária
purificação e consagração com os rituais conforme 2.Crônicas 30,17e
Num.9,10.
(56) Continuavam procurando Jesus e, no Templo, perguntavam uns
aos outros: “O que vocês acham? Será que ele virá à festa?” (57) Mas
os chefes dos sacerdotes e os fariseus tinham ordenado que, se
alguém soubesse onde Jesus estava, o denunciasse, para que o
pudessem prender.
306
Pela pergunta “será que Ele virá à festa?” subentende-se, que entre
os peregrinos já corria a notícia da busca ordenada pelas autoridades
religiosas. O suspense no ar, o corre-corre da festa, o boato do mandado
de busca, tudo isso fez fervilhar o ambiente. Onde Ele estaria? O mandado
de busca pelo Sinédrio obrigava a todo judeu fiel denunciar o paradeiro
dEle, caso o encontrasse. “Ele” teria a ousadia de comparecer? O povo o
amava. Teriam a ousadia de prender aquele que operava tantas curas e
falava de Deus de modo tão diferente dos fariseus?
É da terceira Páscoa que o Evangelho de João nos fala no cap.11
(2,13ss; 6,4ss). Nas três vezes, o autor inicia seu relato com as palavras:
“... estava perto (chegando) a Páscoa dos judeus”. Os três Evangelhos
sinóticos só conhecem um único ano de ministério e uma só Páscoa. O
Evangelho de João passa a impressão de três festas e três anos de
ministério. Onde está a verdade?
A hipótese de Thyen (2005) tem alguns indícios a favor. Ela entende
o Evangelho de João como o ministério de Jesus estendido de um a três
anos, usando de grande liberdade literária. João teria distribuído o
conteúdo da semana da Páscoa em três. Ninguém pode descartar de vez
essa hipótese. Ela explicaria algumas situações que, sem ela, continuam
obscuras.
Vejamos por exemplo: Já no segundo capítulo, “quando já estava
chegando a Páscoa...” Jesus ligou sua ação no Templo com a sua morte.
Ele faria isso no início do seu ministério? “Destruam este Templo e eu o
levantarei em três dias”. Os judeus responderam: “Este Templo levou
quarenta e seis anos para ser edificado, e o senhor vai levantá-lo em três
dias?” Mas o Templo do qual Ele falava era seu corpo. Depois que
ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se do que Ele tinha
dito (2,19-22).
Com a hipótese de Thyen ficaria elucidado o porquê da purificação
do Templo no início de seu Evangelho, quando nos três sinóticos ela consta
no final, ocasião em que realmente aconteceu.
O sexto capítulo fica ligado através do verso 6,4 à Páscoa final, onde
João menciona as palavras de Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu.
Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne,
que eu darei pela vida do mundo” (6,51). O texto que segue pode ser visto
como a versão joanina da instituição da ceia dos sinóticos, que João não
traz.
No conteúdo e no significado do Evangelho nada fica alterado
através da extensão de um ano (sinóticos) para três. Continuaremos,
portanto, a leitura com a tradicional interpretação de três anos de
ministério de Jesus.
307
Cap. 12.1-11
(12.1) Seis dias antes da Páscoa, Jesus chegou a Betânia, onde vivia Lázaro, a quem
ressuscitara dos mortos. (2) Ali prepararam um jantar para Jesus. Marta servia,
enquanto Lázaro estava à mesa com ele. (3) Então Maria pegou um frasco de nardo
puro, que era um perfume caro, derramou-o sobre os pés de Jesus e os enxugou com
os seus cabelos. E a casa encheu-se com a fragrância do perfume. (4) Mas um de
seus discípulos, Judas Iscariotes, que mais tarde ia traí-lo, fez uma objeção: (5) Por
que este perfume não foi vendido, e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos
denários. (6) Ele não falou isso por se interessar pelos pobres, mas porque era
ladrão; sendo responsável pela bolsa de dinheiro, costumava tirar o que nela era
colocado. (7) Respondeu Jesus: “Deixa-a em paz; que o guarde para o dia do meu
sepultamento. (8) Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim nem
sempre terão”. (9) Enquanto isso, uma grande multidão de judeus, ao descobrir que
Jesus estava ali, veio, não apenas por causa de Jesus, mas também para ver Lázaro,
a quem ele ressuscitara dos mortos. (10) Assim, os chefes dos sacerdotes fizeram
planos para matar também Lázaro, (11) pois por causa dele muitos estavam se
afastando dos judeus e crendo em Jesus.
(12.1) Seis dias antes da Páscoa, Jesus chegou a Betânia, onde vivia
Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. (2) Ali prepararam um jantar
para Jesus.
O período de silêncio e a falta de informação a respeito da
permanência de Jesus na região de Efraim (11,54) abrange
aproximadamente dois meses. Agora, “seis dias antes da Páscoa”, Jesus
apareceu em Betânia, vilarejo onde Ele chamou Lázaro de volta à vida.
As diversas linhas de interpretação discordam na contagem dos dias.
Sigamos a linha que identifica o dia de sábado como o dia do nosso
“jantar” em Betânia, jantar festivo portanto (conferindo com Marcos), e não
percamos tempo com outras considerações à respeito e sem importância
para o nosso estudo.
Na época de Jesus, refeições comuns eram feitas com as pessoas
sentadas; para jantares festivos ou rituais, no entanto, deitava-se em forma
de U em torno de uma mesa baixa, apoiando-se pelo braço esquerdo num
travesseiro e com as pernas esticadas para trás, seguindo à prática grecoromana.
Todos os quatro Evangelistas relatam o jantar oferecido em Betânia
em honra de Jesus de forma parecida, porém discordando em vários
detalhes. Percebe-se claramente que os Evangelistas falam do mesmo
acontecimento. Se compararmos as quatro versões, perceberemos que a
versão de Mateus 26,6-13 e a de Marcos 14,3-11 em grande parte são
idênticas com a versão de João.
A versão de Lucas (7,36-50) não se encaixa muito bem no relato de
João. Com um mínimo de bom senso temos que admitir que, pelo menos
as descrições de Mateus, Marcos e João falam do mesmo acontecimento (se
quiser conferir: Mateus 26,6s; Marcos 14,3s; Lucas 7,36s).
308
Vamos fazer uma outra consideração interessante: Quais dos nossos
Evangelistas estavam presentes no evento? O Evangelista João, na
condição de discípulo, provavelmente sim. Pedro, discípulo, era
testemunha também, e sua versão encontramos no Evangelho de Marcos.
Mateus, como largamente se aceita, usou o Evangelho de Marcos
quando trabalhou a sua versão original de “logias” (palavras e ditos) do
Senhor. Ele copiou alguns capítulos inteiros de Marcos sem alterá-los. Se
Mateus mesmo for o autor do Evangelho que leva o seu nome (há diversas
teorias a respeito), temos o testemunho de outro discípulo, Mateus. Esses
três relatos (Marcos, Mateus e João) falam do mesmo acontecimento; cada
um da forma como seu autor se lembrou daquele jantar em que eles se
escandalizaram tanto por causa de uma mulher para, em seguida, serem
censurados pelo Senhor Jesus.
Lucas, por sua vez, levantou na sua pesquisa (confira Lucas 1,1-4)
uma versão diferenciada que, por ora, não procuramos interpretar.
É possível que João procurou corrigir ou acrescentar, enriquecendo
dessa forma a comovente narração, dando a ela a profundidade metafísica
que caracteriza todo seu Evangelho. Percebemos também como alguns
elementos, por exemplo a pessoa de Judas Iscariotes, foram ganhando
forma mais acurada com a maior distância histórica de João.
Marta servia, enquanto Lázaro estava à mesa com ele.
Existem várias teorias quanto ao lugar e à casa onde este jantar fora
oferecido. Não vamos nos perder nesse detalhe. Marcos a identificou como
“a casa de Simão, o leproso” (homem possivelmente curado por Jesus).
Pelo número de presentes deveria ter sido uma casa ampla.
Havia pelo menos quinze convidados: Jesus, os Doze, Lázaro e o
dono da casa, Simão. Em público, não era considerado correto que
mulheres se reclinassem à mesa junto com homens. Entre as mulheres
presentes na casa tanto Marta como Maria são figuras proeminentes na
história, embora não estivessem reclinadas com os convidados.
(3) Então Maria pegou um frasco de nardo puro, que era um perfume
caro, derramou-o sobre os pés de Jesus e os enxugou com os seus
cabelos.
Imagine este jantar, composto somente de homens. As conversas
foram certamente meio pesadas, pois não ficara muito claro o que o Mestre
pretendia. Considerações sobre a possível subida à capital e as opiniões
diferentes foram discutidas. Repentinamente e sem que a maioria dos
presentes o percebesse, uma mulher aproximou-se discretamente por
detrás de Jesus (pela ordem em que se deitava na mesa só era possível
aproximar-se de alguém por trás, por onde as pernas descansavam). Nas
suas mãos, ela segurou um vaso de alabastro. Com um movimento
309
inesperado ela virou o vaso e deixou seu valioso conteúdo derramar sobre
os pés de Jesus. Era nardo puro, extrato da raiz de uma planta da Índia,
portanto um extrato extremamente caro. Todos ficaram estarrecidos. Não
somente isso fez os homens presentes ficarem sem palavras: sem
pronunciar alguma palavra, a mulher abaixou-se e cuidadosamente
começou a limpar e secar com seu longo cabelo os pés de Jesus.
Em Marcos e Mateus, a mulher que se expôs no meio dos homens de
tal forma contrária aos bons costumes, ficou sem nome. João nos revela o
seu nome, era Maria de Betânia, irmã de Marta. Enquanto João
discretamente menciona que o perfume foi derramado, Marcos especificou:
o frasco (vaso) foi quebrado, o que implica em perda total do valioso
perfume.
Enquanto os sinóticos dizem que o nardo fora despejado sobre a
cabeça de Jesus (um gesto de profundo sentido religioso), João somente
menciona os pés: ... derramou-o sobre os pés de Jesus... e os enxugou com
os seus cabelos.
O que João quis transmitir quando, em oposição aos sinóticos,
somente lembra dos pés? Vejamos primeiro o aspecto simbólico da ação e
somente depois o social.
João parece criar um paralelo com outro relato exclusivamente dele:
da lavagem dos pés dos discípulos. Jesus, um ou dois dias mais tarde,
lavará os pés de seus seguidores. Tanto a lavagem feita por Maria quanto a
lavagem dos pés dos discípulos por Jesus eram contrárias aos costumes.
Aconteceram não antes, como mandou a tradição, mas durante o jantar
festivo. Quando João fala, ele nunca escreve simplesmente relatando um
acontecimento. Suas palavras escondem sentido duplo, são símbolos de
realidades espirituais. Tudo em João toca e às vezes confunde-se no
metafísico. A mesma mensagem que Maria transmitiu com sua lavagem
dos pés do Mestre encontraremos pouco mais tarde quando Jesus
explicará aos seus este gesto (no capítulo 13).
Em toda a antiguidade, assim como no judaismo do tempo de Jesus,
o rito da lavagem dos pés era sinal de hospitalidade. Ao visitante da casa
sempre era oferecido uma bacia com água. O trabalho da lavagem em si
era visto como desprezível. Somente escravos não judeus faziam este
serviço. Nenhum judeu podia ser obrigado a lavar os pés de alguém.
Conheceu-se, sim, a lavagem dos pés do pai pelo filho, ou pela mulher
como sinal de respeito e amor. Também os alunos de grandes Rabis
podiam evidenciar seu respeito através da lavagem dos pés do Mestre.
Há quem vê na lavagem dos pés de Jesus (ao contrário da cabeça,
que significa chamamento, coroamento, cf. Salmo 23,5) evidenciado o
grande respeito de João perante o Senhor. Ninguém (nem Maria), seria
digno de ungir seu Senhor, o Logos de Deus. Assim (ao contrário dos
sinóticos que mencionam a cabeça e podem, de fato, estar certos), João se
contenta com os pés, colocando-se na condição de servo.
310
E a casa encheu-se com a fragrância do perfume.
Nenhum dos outros Evangelistas mencionou este fato. Todos, porém,
passaram a mesma mensagem. João a passou através de um símbolo. Os
sinóticos Mateus (26,13) e Marcos (14,9) usaram palavras. João falou
através da metáfora da fragrância: assim como a fragrância agradável
encheu “toda a casa”, o Evangelho com sua mensagem de redenção se
espalhará pelo mundo todo. Os sinóticos fizeram o mesmo através da
palavra de Jesus (que não consta em João): “... onde for pregado em todo
mundo o Evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua”
(Mc.14,9).
Socialmente visto, o gesto de uma mulher em soltar seus cabelos na
presença de homens era totalmente desconsiderado pelos costumes
orientais de bom comportamento. Era mais, era um escândalo! E, como tal
foi transmitido por gerações e, quando Lucas fez a sua pesquisa, a história
chegou ao seu conhecimento como escândalo mesmo. Só podia ter sido
uma grande pecadora que se atrevia a tal ato durante uma ceia e perante
homens honrados e justos (cf. Lucas 7,36ss). Você vê como a tradição
altera valores?
(4) Mas um de seus discípulos, Judas Iscariotes, que mais tarde ia traílo, fez uma objeção: (5) Por que este perfume não foi vendido, e o
dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários.
Vejamos como o fator “tempo” trabalhou na tradição! O relato mais
antigo (Marcos 14,4) ainda disse: “... alguns dos presentes começavam
dizer aos outros, indignados... “. Anos mais tarde, Mateus já identifica um
grupo: “... os discípulos, vendo isso, ficaram indignados...”. João, meio
século depois, lembra bem quem era que se escandalizou: “... um dos seus
discípulos, Judas Iscariotes, que mais tarde iria traí-lo...”. Notamos que
João desenvolveu durante seus longos anos de ministério uma verdadeira
aversão àquele que traiu seu Mestre. Como ladrão que “aquele” era, tinha
calculado rapidamente o valor desperdiçado: era o salário de um ano
inteiro de trabalho de um homem comum!
(6) Ele não falou isso por se interessar pelos pobres, mas porque era
ladrão; sendo responsável pela bolsa de dinheiro, costumava tirar o
que nela era colocado.
Na época em que escreveu, João estava convencido do fato de que
Judas, tesoureiro do grupo, tenha sido desonesto. Quem era capaz de trair
Jesus tampouco era transparente quando se tratava de dinheiro! João viu
as trevas se opondo à luz. Na visão dele, Judas não era ladrão por amor ao
dinheiro, não, era instrumento na mão de Satanás. Assim, nunca chamou
Judas de “traidor”, sempre se referia “àquele que traíra”. Não fora Judas
que estipulara as trinta moedas de prata; eram os sacerdotes que lhe
ofereceram esta quantia (Mat 26,15). João nada sabe do famoso “beijo de
311
Judas” e não menciona seu suicídio. Em 13,27, ele categoricamente diz:
“... Satanás entrou nele”. Tendo visto seu ex-colega na mão de Satanás,
nada mais o interessou a seu respeito.
(7) Respondeu Jesus: “Deixa-a em paz; que o guarde para o dia do meu
sepultamento.
Por onde Maria olhou, encontrou nos rostos só desaprovação e
desprezo. Jesus, porém, a defendeu com as palavras acima. O texto no
original do verso 7 confunde os intérpretes: Temos a impressão de que
havia um resto de bálsamo e que Jesus pediu para guardá-lo para seu
sepultamento!?
Colocando uma vírgula no texto original no lugar onde
aparentemente deveria estar, o sentido da palavra de Jesus muda.
Parafraseando, segundo Nestlé/Aland, fica: “Deixa-a em Paz! Ela não
vendeu este bálsamo (referindo-se às palavras de Judas) porque quis
guardá-lo para a preparação no dia do meu sepultamento”.
A proposta oposta de interpretação do original cf. Zahn/Bauer:
“Deixe que ela agora guarde o resto para meu sepultamento” deixaria o
protesto de Judas sem sentido. Não, a graça das palavras proféticas de
Jesus consistia exatamente no derramamento, no desperdício nessa
estranha lavagem dos pés.
Em Marcos e Mateus, a frase está mais clara: “Deixai-a; por que a molestais? Ela
praticou boa ação para comigo....Ela fez o que pode: antecipou-se a ungir-me para a
sepultura” (Mc.14,6,7)
Por Marcos sabemos que Maria quebrou o vaso; nada sobrou. Maria
ofereceu tudo ao Senhor. O que mais ela podia fazer para expressar seu
amor e sua abnegação perante seu Mestre? Faria sentido guardar um
resto?
Após a poderosa manifestação com Lázaro ela via o Senhor a
caminho de Jerusalém, onde certamente seria coroado e reconhecido
Senhor! Na visão de Maria, a unção não era para a morte, mas para o
coroação!
Ou será que Maria, com a intuição própria da mulher que ama,
sentiu que esta talvez fosse a última oportunidade de honrá-lo? Os boatos
da ordem de captura certamente já haviam chegado a Betânia. Será que foi
essa a razão do jantar festivo: uma despedida? Não o sabemos. Sabemos
sim, que os discípulos não haviam entendido a hora e ainda esperavam
alguma revelação que os compensasse pela sua fidelidade. A menção do
sepultamento na resposta de Jesus certamente deixou os presentes
pensativos. Sua defesa de Maria perante a objeção de Judas fez ruir
esperanças.
Não sabemos qual foi a reação de Maria. O amado Mestre
demonstrou com suas palavras que reconhecia sua atitude. Ele aceitou de
bom grado ser ungido por ela. Mas por que falou em sepultamento?
312
Quem escutou bem, era Judas. Sua última esperança de que as
circunstâncias que esperavam o Mestre em Jerusalém obrigassem a Jesus
revelar quem era, morreu. Na visão dele estava na hora de subir no trono e
este Jesus permitiu ser ungido por uma mulher para seu sepultamento!
Não é difícil sentir o que se passou no coração desse homem que deixou
tudo para trás a fim de seguir a Jesus, na firme esperança de ver Israel
libertada. Não nos surpreende que seu coração, a partir desse momento,
tenha ficado receptível a propostas do outro lado. Seu Mestre não estava
disposto para lutar pelo Reino? Que engano o seu, em seguí-lo!
(8) Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim nem
sempre terão”.
Como selando suas palavras, este seu Mestre ainda colocou o
desperdício do perfume acima da ordenança da Torá, que exige cuidar dos
pobres e de órfãos e viúvas! (Em alguns manuscritos falta o verso 8).
Como é próprio a João Evangelista, a história subitamente sucumbe.
O relato de João permite interpretações que levam ao infinito.
(9) Enquanto isso, uma grande multidão de judeus, ao descobrir que
Jesus estava ali, veio, não apenas por causa de Jesus, mas também
para ver Lázaro, a quem ele ressuscitara dos mortos. (10) Assim, os
chefes dos sacerdotes fizeram planos para matar também Lázaro, (11)
pois por causa dele muitos estavam se afastando dos judeus e crendo
em Jesus.
A notícia do aparecimento de Jesus em Betânia fez muita gente
correr para lá. Foram os curiosos, querendo ver com seus próprios olhos
“aquele morto ressuscitado” e outros, sedentos para ouvir Jesus; era tanta
gente que as autoridades logo chegaram a saber do paradeiro atual “do
procurado”.
Sobrará para os chefes dos sacerdotes elaborar o esquema de
eliminação dos dois, sem público, e acima de tudo não durante a festa.
Qualquer tumulto podia lhes custar sua cabeça, pois os romanos haviam
dobrado a atenção perante as multidões desses “judeus fanáticos” que não
paravam de chegar na capital religiosa, Jerusalém.
Cap. 12.12-19
(12) No dia seguinte, a grande multidão que tinha vindo para a festa ouvir falar que
Jesus estava chegando a Jerusalém. (13) Pegaram ramos de palmeiras e saíram ao
seu encontro, gritando: “Hosana!” – “Bendito é o que vem em nome do Senhor!”
“Bendito é o rei de Israel!” (14) Jesus conseguiu um jumentinho e montou nele,
como está escrito: (15)”Não tenha medo, ó cidade de Sião; eis que o seu rei vem,
montado num jumentinho”. (16) A princípio seus discípulos não entenderam isso.
Só depois que Jesus foi glorificado, eles se lembraram de que essas coisas estavam
escritas a respeito dele e lhe foram feitas. (17) A multidão que estava com ele,
quando mandara Lázaro sair do sepulcro e o ressuscitara dos mortos, continuou a
espalhar o fato. (18) Muitas pessoas, por terem ouvido falar que ele realizara tal
sinal miraculoso, foram ao seu encontro. (19) E assim os fariseus disseram uns aos
outros: “Não conseguimos nada. Olhem como o mundo todo vai atrás dele!”
313
Com referência ao presente texto, vários intérpretes suspeitam que
foram baseados em fontes pré-joaninas. Como a nossa tarefa é interpretar
o texto do Evangelho e não especular a respeito de fontes hipotéticas,
ficaremos como o nosso texto assim como o temos em mãos. Ele
basicamente corresponde ao texto de Marcos; a possibilidade do uso desse
Evangelho por João, que o adaptou de acordo com seus pontos de vista
teológicos, parece evidente.
(12) No dia seguinte, a grande multidão que tinha vindo para a festa
ouvir falar que Jesus estava chegando a Jerusalém.
Tendo como provável que o jantar festivo em Betânia (leitura
anterior) fora um jantar sabático, o “dia seguinte” seria o nosso domingo
(Domingo de Ramos). Marcos mencionou a multidão de peregrinos que
subia junto com Jesus partindo de Jericó, rumo à Jerusalém. João nada
diz sobre a atividade de Jesus nos aproximadamente dois meses fora de
Jerusalém na região além-Jordão (sinóticos).
Quando entre os milhares de peregrinos já presentes na cidade,
começou a correr a notícia da aproximação de Jesus, muitos deles foram
tomados por grande excitação messiânica. “Ele” aparentemente estava
vindo, disposto a enfrentar o clero e os romanos! O antigo sonho do
Messias que, de acordo com a tradição religiosa apareceria por ocasião da
Páscoa, parecia estar se concretizando.
(13) Pegaram ramos de palmeiras e saíram ao seu encontro, ...
O termo traduzido com “sair ao seu encontro” era um “terminus
technicus” usado em recepção de Rei e de autoridade política.
Pegaram ramos de palmeiras... Quem conhece os Evangelhos
sinóticos sabe (por Mateus 21,8) que o povo cortou ramos de árvores ou
pegou ramos arrancados do campo (Marcos 11,8). Por que razão João nos
fala especificamente de “ramos de palmeiras”? Críticos tem levantado o
argumento de que, ao contrário de Jericó, localizada na baixada do Jordão
e onde havia muitas palmeiras, na região de Jerusalém (com sua altitude
de 750 metros acima do nível do mar e seu clima seco), palmeiras não
vingavam. De fato, o acesso à Jerusalém não era lugar de palmeiras. O
mais provável é que o texto se refira aos ramos de palmeiras usados como
sinal de vitória na Festa dos Tabernáculos e que eram guardados em casa
e agora pegos e usados para cumprimentar “o rei messiânico Jesus” (cit.
Strathmann).
Os cânticos com ramos de palmeiras na mão vinham de longa
tradição. No primeiro livro de Macabeus, surgido no último período de
independência e liberdade nacional judaica, ocorrida no período histórico
entre AT e NT, lemos no cap.13,51s,: “... os judeus nela fizeram sua
entrada ...,entre aclamações e ramos de palmeiras, ao som de cítaras,
címbalos, harpas, hinos e cânticos, porque um grande inimigo fora extirpado
314
de Israel. Simão determinou que anualmente se comemorasse aquela data
com alegria”.
(Como este e mais alguns livros tidos como “não inspirados” não foram incluídos no
Cânon do NT, eles não fazem parte das Bíblias Protestantes; mas constam das Bíblias
usadas na Igreja Católica).
Nos Evangelhos todos, o termo “ramos de palmeira” aparece uma
única vez, exatamente por ocasião da entrada triunfal de Jesus em
Jerusalém e de acordo com o Evangelista João. A palmeira (também
podendo ser interpretada como ramo) ainda é mencionada, uma única vez,
no Apocalipse (de João) cap.7,9. Vejamos por que o Evangelista João
especifica os “galhos” citados pelos sinóticos como “ramos de palmeira”.
“Sair ao encontro”, isto é receber o rei, exigia a manifestação dos ramos de
palmeiras, pois somente estes eram dignos de serem usados nesta ocasião.
Não se trata de mais uma invenção de João; trata-se da linguagem
metafórica usual por esse Evangelista.
... gritando: “Hosana!” – “Bendito é o que vem em nome do Senhor!”
“Bendito é o rei de Israel!”
Em João 1,47 Jesus havia chamado Natanael de “um verdadeiro
israelita em quem não há falsidade”, referindo-se a Sofonias 3,13. Esse
conferiu na sua resposta a Jesus o predicado escatológico de “rei de Israel”
(“... tu és o rei de Israel”). Com sua preferência por ligações intertextuais, o
nosso Evangelista via a entrada de Jesus em Jerusalém como a entrada do
Logos vindo ao mundo e JHWH “em Um”, conforme Sof.3,15: “O Rei de
Israel, o Senhor, está no meio de ti”.
Na “procissão da água” durante a Festa dos Tabernáculos, o povo
cantava o salmo 118, saudando com ramos de palmeira. O mesmo
aconteceu agora: na sua exaltação, a multidão de peregrinos começou a
cantar esse salmo, cumprimentando a Jesus e seu grupo e acenando com
ramos de palmeira: “... Hosana (=“Salva-nos, Senhor!”), Salva-nos,
SENHOR! Nós imploramos. Faze-nos prosperar, SENHOR! Nós suplicamos.
Bendito é o que vem em nome do SENHOR. Da casa do SENHOR nós os
abençoamos. O SENHOR é Deus, e ele fez resplandecer sobre nós a sua luz.
Juntem-se ao cortejo festivo, levando ramos até as pontas do altar...”(Salmo
118,25-27).
Os peregrinos que subiam junto com Jesus, e os outros que vinham
de Jerusalém ao seu encontro, estavam eufóricos. Finalmente havia
chegado o grande dia! O texto do salmo que cantavam com suas palavras
“Bendito é que vem em nome do SENHOR”, historicamente era o louvor
devido na chegada do rei de Israel, Rei político, libertador do povo do jugo
dos odiados romanos; Rei, vindo para instituir o tão esperado domínio
messiânico-escatológico mundial de Israel!
Não poderia haver maior equívoco!! O nosso Evangelista, ao
contrário de Marcos, deixou fora as palavras de louvor referindo-se ao
reinado político: “... o reino de Davi, nosso pai”! (Marcos 11,10). João tinha
315
claro que o reino de Jesus não era desse mundo (18,36). Dessa forma, no
Evangelho de João os peregrinos somente aclamam Jesus como “Rei de
Israel”.
(14) Jesus conseguiu um jumentinho e montou nele, como está
escrito: (15) ”Não tenha medo, ó cidade de Sião; eis que o seu rei vem,
montado num jumentinho”.
João ignora a história da procura do jumentinho relatada em Marcos
11,1-7. O termo “conseguiu” (encontrou), no entanto, permite a
interpretação de uma procura intencional por um jumentinho. Jesus
escolheu esse animal pacífico para cumprir a promessa a seu respeito.
Qual era a promessa que Jesus reivindicou para si?
O Evangelista, quando escreveu, corrigiu a interpretação da
chegada de Jesus junto ao povo, dada naquele momento, apontando à
palavra profética de Zacarias 9,9s: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta,
ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador humilde,
montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta”.
Jesus não veio à Jerusalém para libertar através de violência e
revolta como o povo esperava, mas como Príncipe da paz! “ Os profetas, em
Zac.9,10 e Isaías 9,6ss, já previam a vitória da paz sobre a guerra:
“Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de
guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se
estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até às extremidades da terra...”
(16) A princípio, seus discípulos não entenderam isso. Só depois que
Jesus foi glorificado, eles se lembraram de que essas coisas estavam
escritas a respeito dele e lhe foram feitas.
João, um desses seus discípulos, confessa que eles mesmos, que
acompanharam o seu Mestre, não entendiam o que se passava. Horas
atrás, em Betânia, Jesus fez menção de seu sepultamento e agora parecia
que tudo indicava vitória: Jesus sendo aclamado com júbilo e dança, como
na chegada de um rei. Nenhum de seus discípulos se lembrava da palavra
dita por Zacarias que, centenas de anos atrás, já apontara o modo, como o
rei de Israel ia chegar à cidade: não montado em cavalo como sinal de
força, mas sentado num animal que andava mais devagar que o homem,
sinal de humildade.
Após a Páscoa do Senhor começou da parte dos discípulos a procura
frenética de menções e profecias do Antigo Testamento que haviam se
cumprido em Jesus. Aos poucos, o entendimento do mistério do Senhor
começou a formar-se. Somente após a glorificação do Senhor, detalhes,
como sua entrada em Jerusalém montado em jumentinho, começavam a
fazer sentido. Quantas vezes os Apóstolos devem ter pensado: “Se naquela
hora eu tivesse entendido...”!
316
Mais tarde, Pedro exortou a seus ouvintes: “Antes (de tudo), cresçam
na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe
3,18). A vida com Deus tem seu começo quando Deus nos abre a visão e os
ouvidos para o seu Filho. Conhecer a Deus é antes crescer no
conhecimento de Jesus; uma experiência que tem início, mas não tem
fim. Conhecimento não é o mesmo que “ensino”! Conhecimento é pessoal,
toca a pessoa; enquanto que “ensino” é objetivo sempre neutro; ele não
necessariamente toca o coração; é saber; é “teologia” – que não salva
ninguém!
• Você vai à igreja para “aprender mais um pouco” ou para “conhecer a
Jesus”? A diferença entre aprender e conhecer é decisiva!
(17) A multidão que estava com ele, quando mandara Lázaro sair do
sepulcro e o ressuscitara dos mortos, continuou a espalhar o fato. (18)
Muitas pessoas, por terem ouvido falar que ele realizara tal sinal
miraculoso, foram ao seu encontro.
Com poucas palavras o Evangelista justifica o entusiasmo da
multidão, que se havia formado. João dispensou a entrada de Jesus em
Jerusalém em si, relatada detalhadamente pelos sinóticos. Para ele pesou
outro fato:
(19) E assim os fariseus disseram uns aos outros: “Não conseguimos
nada. Olhem como o mundo todo vai atrás dele!”
De onde o Evangelista sabia da reação do alto clero ao tumulto nas
ruas?
Perguntas como essas não tem respostas. As hipóteses são tantas,
que qualquer uma pode valer. Algumas delas: João tinha laços (de
parentesco?) com o sumo sacerdote e por isso sabia mais (18,15); ou:
alguns da “grande multidão de sacerdotes que aderiram à fé” (Atos 6,7)
posteriormente podem ter relatado o que se passara nas reuniões do
Sinédrio naqueles dias; ou: o próprio Nicodemos, membro importante do
Conselho, ou o rico e influente José de Arimeteia (João 19,38), encontrados
entre os primeiros judeus-cristãos, podem ter dado informações...
Reforcemos o que de início dissemos: Interpretamos o Evangelho assim
como ele chegou a nós. Especulações sobre onde e como e por que nada
acrescentam. Neste caso o Evangelista diz que havia consternação no clero.
Não somente seu apelo para denúncia do paradeiro do Nazareno (11,57)
ficou sem resultados, não; o povo abertamente colocou-se do lado “dEle”!
Sabemos dos sinóticos que, no mesmo dia ou no dia seguinte, Jesus
foi ao Templo e com furor contra as negociatas no lugar de oração
resolutamente interferiu no “esquema”. A razão por que João colocou esse
acontecimento no início do seu Evangelho temos abordado na leitura de
João 2,13-22.
Jesus estava de volta à Jerusalém. A grande festa da Páscoa estava
para ser celebrada e ninguém ousava pôr a mão nEle. A esperança
messiânica do povo ainda O protegia.
317
Cap. 12.20-28
(20) Entre os que tinham ido adorar a Deus na festa da Páscoa, estavam alguns
gregos. (21) Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, com um
pedido: “Senhor, queremos ver Jesus”. (22) Filipe foi dizê-lo a André, e os dois
juntos o disseram a Jesus.
(23) Jesus respondeu: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem. (24)
Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer,
continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto. (25) Aquele que ama sua vida, a
perderá; ao passo que, aquele que odeia sua vida neste mundo, a conservará para
vida eterna. (26) Quem me serve precisa seguir-me; e, onde estou, o meu servo
também estará. Aquele que me serve, o Pai o honrará. (27) Agora meu coração está
perturbado, e o que direi? Pai, salva-me desta hora? Não, eu vim exatamente para
isto, para esta hora. (28) Pai, glorifica teu nome!”
No Evangelho de Marcos encontramos entre a entrada de Jesus em
Jerusalém (11,1-11) e sua última ceia (14,22-26) um relato extenso sobre
suas últimas atividades na cidade: a intervenção no mercado adjunto ao
Templo, a maldição sobre a figueira estéril; várias parábolas e discussões
com os fariseus; o grande discurso sobre o final dos tempos e sua segunda
vinda como Juiz.
O Evangelista João, em contrapartida, guardou “somente” um
discurso extenso de Jesus sobre sua morte e um olhar retrospectivo sobre
seu ministério público. Após os dois eventos anteriores (jantar festivo em
Betânia e entrada em Jerusalém), conhecidos pelos sinóticos e trabalhados
por João de acordo com sua visão teológica, ele apresenta no trecho
seguinte material novo que os sinóticos não conheciam, ou simplesmente
ignoravam.
Trata-se de um ponto crucial na interpretação do ministério de
Jesus pelo quarto Evangelista. Somente João captou o significado do
pequeno incidente com os “gregos” – sumamente importante para quem vê
Jesus pela ótica de João.
Você se lembra de como o nosso Evangelista trabalhou incidentes
para, através deles, abrir a visão de seus leitores para seu significado
transcendente mais amplo. Em todos esses casos, o Evangelista aproveitou
de um acontecimento real como abertura, e logo passou para dimensões e
verdades espirituais, deixando o incidente para trás, inacabado. Suas
pregações são evoluções que partem de acontecimentos reais (como, por
exemplo, do casamento em Caná, cap.2; da conversa com Nicodemos,
cap.3; do encontro com a mulher samaritana, cap.4 ou até da ressurreição
de Lázaro, cap.11). Nunca conhecemos o fim daquelas histórias em si,
porque o Evangelista já nos levou embora para sua mensagem espiritual,
representada pelo evento.
Os sinóticos viam Jesus sob o vínculo estreito do mundo judaico.
Mateus até relatou um diálogo em volta de um pedido de cura por uma
mulher cananeia (não judia), onde Jesus argumentou dizendo “eu fui
enviado apenas às ovelhas perdidas de Israel” (Mat.15,25).
318
O quarto Evangelista (ao contrário dos sinóticos) vê Jesus, desde o
primeiro capítulo, como salvador “do mundo”. Esta sua função também
está sendo insinuada quando Jesus se apresenta como “luz do mundo”.
João deixou claro que “a salvação vem dos judeus” (4,22, menção eliminada
nas Bíblias durante o “3º Reich” de Hitler, 1933-45). Ela vem dos judeus para o
mundo. “Mundo” era sinônimo de “mundo grego”, cultura pagã dominante
na época de Jesus.
Lembramos que durante todo o ministério de Jesus e que até agora
conhecemos, Ele sempre entendeu que “sua hora” ainda não havia
chegado. O momento, em que “o mundo grego” começou a interessar-se
por Jesus, é visto por João como o sinal de que esta “sua hora” chegara.
Vejamos o texto:
(20) Entre os que tinham ido adorar a Deus na festa da Páscoa,
estavam alguns gregos.
Como aos não judeus fora terminantemente proibido participar da
festa, o texto deve fazer referência a judeus da diáspora (do exterior), cujo
idioma era o grego, ou prosélitos, isto é: nascidos gregos que aceitaram e
observavam a religião judaica.
Trata-se dos mesmos “gregos” mencionados em 7,35, para os quais,
segundo o escárnio dos fariseus, Jesus poderia ir para convencê-los, uma
vez que neles, nos representantes do clero, não encontrou respaldo.
Estes “gregos” não devem ser confundidos com os “helenistas”
mencionados em Atos 6,1, e que são judeus de fala grega.
(21) Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galileia,
com um pedido: “Senhor, queremos ver Jesus”. (22) Filipe foi dizê-lo a
André, e os dois juntos o disseram a Jesus.
Pelo cerimonial meio complicado, na tentativa de ver Jesus
concluímos que no pedido desses gregos tratava-se de algo extraordinário,
que deveria ser bem ponderado. Filipe é um nome grego, e por essa razão
os gregos, respeitosamente, chamando-o de senhor, dirigiram-se a esse
homem de confiança de Jesus. Sabemos de Marcos que os discípulos, em
geral, procuravam formar um cordão de segurança em volta do Mestre por
causa das muitas pessoas que Ele atraía, aonde quer que aparecesse.
Filipe, por sua vez, dirigiu-se a outro colega com nome grego: André.
Juntos, os dois resolveram apresentar o pedido por uma “entrevista” a
Jesus. Com isso, “os gregos” desaparecem da nossa história. Nem sabemos
se a entrevista veio a ser concretizada ou não. João já disse o que fora
necessário para apontar o que queria: a reação extraordinária de Jesus
frente ao pedido.
(23) Jesus respondeu: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do
Homem.
319
Como se existisse alguma ligação secreta entre a chegada desses
gregos e o ministério de Jesus, este lhes respondeu com um “mashal”
(palavra de sentido enigmático, misterioso). O pedido dos gregos deixou
Jesus profundamente impressionado. Por que será ?
Até então, durante todo seu ministério (2,4; 7,6.30.44; 8,20.59 e
10,39, essa “sua hora” não havia chegado, mas agora sim. A limitação da
mensagem do Evangelho a Israel acabou. O Evangelista entendeu o
aparecimento dos gregos como sinal que agora “o mundo” estava sendo
alcançado e a missão pública de Jesus cumprida.
(24) Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na
terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito
fruto.
À primeira vista reconhecemos alguma proximidade com as
parábolas constantes nos sinóticos: Marcos 4,3-9.26-29.30-32, Mateus
(cap.13) e Lucas (cap.8). A novidade focalizada por João é a necessidade
da morte do grão.
A literatura da igreja primitiva, anterior aos Evangelhos, já conheceu
essa interpretação: 1 Cor.15,36s e 1ª “Carta de Clemente”, 24,4 9 (uma
Carta não incluída no Cânon do NT). O grão tem que cair na terra e
morrer para trazer fruto. Jesus entendeu o grão que morre como metáfora
de sua morte e seu sepultamento. Sua forma existencial de vida presente
deveria ser abdicada pela morte e ser entregue, para abrir caminho à vida
eterna.
Devemos diferenciar entre o que Jesus diz e a interpretação gnóstica
dessa metáfora. A Gnose viu a necessidade da morte como parte do
caminho da centelha divina (luz) do homem de volta para sua origem.
Encontramos restos da doutrina gnóstica da centelha divina no
Catolicismo em geral.
Quando Jesus falou da necessidade da morte do grão para abrir o
caminho para o fruto, Ele referiu-se à reunião dos muitos filhos de Deus
aqui na terra: a Eclésia.
(25) Aquele que ama sua vida, a perderá; ao
odeia sua vida neste mundo, a conservará para
me serve precisa seguir-me; e, onde estou,
estará. Aquele que me serve, o Pai o honrará.
A linha de pensamento, por algum
interrompida para continuar em 27.
passo que, aquele que
vida eterna. (26) Quem
o meu servo também
instante,
está
sendo
Os versos 25 e 26 tem similares nos sinóticos; eles não se referem
a Jesus, mas aos que lhe querem seguir. Para eles vale exatamente o que
vale para o seu Mestre. Aos “filhos do rei” da “teologia” de hoje, que “tem
direito” a tudo que o mundo lhes oferece, é dito que perderão sua vida para
sempre (25). O caminho do Mestre será o caminho do servo. Discipulado
como caminho para vida eterna exclui obrigatoriamente a prioridade do
amor à própria vida (terrena).
320
Devemos ler estas palavras como ditas aos que O cercavam
naquela hora: peregrinos e discípulos, gente entusiasmada e gente curiosa.
O verbo traduzido com “servir” usado por Jesus nessa palavra
aparece só três vezes no Evangelho todo. É Marta “servindo” à mesa (12,2)
e duas vezes no verso 26.
Outra observação interessante é a palavra que Jesus usa para
designar aqueles que O seguem. João usa o mesmo termo do capítulo 2
para os que, de acordo com a instrução de Maria (“façam tudo que ele lhes
mandar” (2,5)) obedeciam, isto é, os “serviçais”. Jesus usou o termo
“serviçais” para designar aqueles que nas Igrejas de hoje se denominam
“filhos do rei”. Interessante! ... como os valores da igreja mudaram!?
Seja onde for que Jesus estiver, ali também estará seu “serviçal”.
Seja na vida ou na morte, na pobreza, no medo ou na glória, ali estará seu
serviçal também, longe das “honras” pelas quais o mundo religioso
avidamente procura e liberalmente concede. Ali somente ... o Pai o
honrará.
(27) Agora meu coração está perturbado, e o que direi? Pai, salva-me
desta hora? Não, eu vim exatamente para isto, para esta hora. (28)
Pai, glorifica teu nome!”
O Apóstolo João não descreveu a luta de Jesus em Getsêmani
(Marcos 14,32-41). Ele não nos apresenta aquele momento de profunda
agonia de seu Mestre. Essas breves palavras, no entanto, lembram a luta
no jardim e a tentação.
À primeira vista, Jesus, solene e calmo na descrição feita por João,
contrasta com a imagem do Jesus angustiado, aflito, tomado de uma
tristeza mortal em Getsêmani segundo Marcos (14,32-40