Podsemfio n.96 – Tradutores e Profissões Solitárias

Transcrição

Podsemfio n.96 – Tradutores e Profissões Solitárias
 Podsemfio n.96 – Tradutores e Profissões Solitárias [início da vinheta de abertura] BIA: Quem hoje em dia não tem uma vida agitada? Trabalho, estudo, família e ainda curtir umas horinhas de prazer. Mas quem disse que para ter uma vida produtiva é preciso ficar amarrado ao computador? Mobilidade é liberdade. Sejam bem vindos ao Podsemfio. Eu sou Bia Kunze, a Garota Sem Fio, falando da tecnologia móvel no dia-­‐a-­‐dia. [fim da vinheta de abertura] BIA: Olá! Este é o pod sem fio nº 96 para o dia 02 de Julho de 2010. Mais uma edição sobre a nossa série de profissões. Lembrando que se você usa tecnologia móvel no seu trabalho, se diferencia profissionalmente ou simplesmente se você quer contar o uso da mobilidade na sua profissão, escreva para mim: [email protected] [barulho de teclas de telefone] A convidada de hoje vai falar sobre seus dispositivos móveis, fixos; vai falar de tecnologia digital na profissão dela. Estamos continuando a nossa série sobre profissões. A Ana Iaria é brasileira, mas mora na Inglaterra, mais especificamente em Crownley, há onze anos e é tradutora. E ela vai contar para gente como é que a tecnologia móvel, a tecnologia digital ajuda no trabalho dela. Pelo que ela andou me falando parece que melhorou muita coisa, de pouco tempo para cá. Tudo bom, Ana? ANA: Tudo bem, Bia. É um grande prazer conversar com você. Eu sigo o seu blog há anos, sigo você no Twitter, adoro suas dicas. Não leio o blog todos os dias, porque não dá tempo. Eu não tenho blog porque sou preguiçosa... BIA: Você já trabalha o dia inteiro escrevendo, vai começar um blog ainda? ANA: [risos] É uma das razões, você sabe? Eu tenho uma preguiça tão grande de escrever... Quando eu fiz o mestrado, ah, eu tinha que sentar e escrever os essays, porque eu escrevo o dia inteiro, aí eu tinha que sentar, ler um livro, preparar os essays... Eu desisti de estudar porque não tenho mais paciência para escrever. E desisti do blog também. BIA: Então, como é que está o seu trabalho hoje em relação à tecnologia? Como é que a tecnologia te ajuda? ANA: Bom, eu comecei a trabalhar com tradução formalmente, profissionalmente, há vinte anos. Antes eu já fazia tradução. Eu era advogada numa multinacional americana e como eu falava bem inglês, eu mais ou menos fiquei responsável, digamos, pela tradução de contratos, documentos, etc. Aí eu saí da empresa e continuei traduzindo para eles numa máquina de escrever. BIA: Uau... ANA: Uau! Eu sou do tempo do chip lascado, Bia! Eu trabalhava numa máquina IBM... BIA: Eu também fiz curso de datilografia quando eu tinha 14 anos! ANA: Pois é... e eu trabalhei num terminal burro IBM no Citibank. Nós tínhamos processadores de texto, correio eletrônico, tudo lá dentro. Era uma maravilha! Fax interno, tudo pela rede. Aqueles computadores imensos, ar condicionado gelado...
Aí voltando um pouquinho,
instalaram um computador no meu departamento. Quem quer aprender? Aí eu me candidatei. Ninguém queria, todo mundo morria de medo. Mas a leonina com ascendente em Aquário, que cresceu lendo ficção científica, foi lá. Eu comecei a trabalhar na verdade antes do DOS que era o CPM, depois aprendi o DOS e fiquei trabalhando em DOS muitos anos e descobri a facilidade para a vida normal. Por exemplo: você precisava de uma carta, você colocava uma carta ali no Wordstar e você podia reutilizar a carta, trocando só alguns dados, ou seja, o trabalho nosso caía pela metade. A produção era muito maior. A produtividade era muito maior. Depois que eu saí do banco eu comecei a traduzir numa máquina de escrever e foram duas traduções. Na terceira tradução eu consegui um acordo com um cliente, ele foi para os Estados Unidos, me trouxe um computador portátil, que eu tenho até hoje, um Toshiba XT... e funciona até hoje! Grande, 648kb de memória. BIA: Noossa! ANA: Pois é! E durante alguns anos eu trabalhei em DOS. Trabalhei com ele. Depois eu fui trabalhar numa editora como tradutora também, onde eu conheci o MAC e fiquei no MAC durante oito ou nove anos. Não conhecia outro computador. A primeira vez que eu tive um PC foi quando eu mudei para cá, para a Inglaterra. Era um Windows 98. Para quem estava acostumado com um MAC aquilo era uma carroça literalmente. A primeira oportunidade que eu tive eu comprei um MAC portátil. Eu sempre tive um PC e um MAC. Agora, no ano passado eu comprei um iMac e faço tudo nele. A parte toda de internet, pesquisa do meu trabalho eu faço no MAC. E tenho o Windows instalado para usar os programas específicos que preciso para tradução. Como a minha vida mudou? Radicalmente! Se não fossem as ferramentas de tradução que nós temos hoje a nossa produtividade seria mínima. BIA: Então, as ferramentas que você está falando seriam internet, não é? Porque sair da máquina de escrever para a vida digital já foi uma coisa, mas a internet... ANA: A internet foi outra história. Eu fiz um estágio em São Paulo, logo que a internet começou, num provedor. Fui trabalhar lá para fazer um... me pediram para fazer umas traduções, eu fui lá e acabei ficando. E aprendi ali. Isso foi em 95. Eu ia duas vezes por semana lá, e ficava na internet, maravilhada. Imagina, a gente lá no Brasil com aqueles telefones à lenha que a gente tinha, conexão discada. Aquilo era uma maravilha, né. Aí eu passei a ter contato com outros tradutores, porque a nossa profissão é solitária. Nós ficamos o dia inteiro dentro de casa e acabou! E eu passei a ter contato com outros tradutores em listas de tradutores, e passei a conhecer as ferramentas dos tradutores. As nossas ferramentas não são só o Google ou a pesquisa na internet. Não. Nós temos softwares específicos para tradução. Na verdade são bancos de dados gigantescos com que nós trabalhamos. Por exemplo, eu tenho um texto em inglês, uso um software desses, traduzo o texto e ele cria o que nós chamamos de memória de tradução. E essa memória é um banco de dados. E eu posso trabalhar em conjunto com o glossário ou criar um glossário específico para aquele trabalho. Então digamos assim, por exemplo, na área de Direito, eu tenho uma memória “big mamma” e a parte de Direito, Banco e Finanças. Eu trabalho muito com essa parte. Para um trabalho mais específico eu crio uma segunda memória, que vai alimentando e trabalhando em conjunto com a outra. Então para a área de Medicina, eu tenho uma outra memória; para a área de Petróleo eu tenho uma outra memória. E então, é o meu banco de dados. Por exemplo: se eu traduzo “e por estarem justo e contratados”, como eu traduzi isso a última vez? Eu vou lá na memória, vejo isso e vejo como eu traduzi. Pronto! Com a ajuda do glossário, existe uma função em alguns programas de auto-­‐assemble e o programa pega segmentos de texto e monta frases para você. Então, digamos, um tradutor traduz em média de 2.000 a 2.500 palavras por dia. Com um programa desse, dependendo, um manual técnico, por exemplo, dá para fazer o dobro. Então a produtividade nossa e o tempo para o cliente diminui fantasticamente. Se você tem dez dias para o manual, você tem cinco. A maior parte das traduções técnicas atualmente, principalmente em grandes empresas, a União Européia principalmente, que tem um dos maiores Departamentos de Tradução do mundo, é tudo automatizado. BIA: E funciona bem? ANA: Funciona. Muita gente confunde um CAT tool com a tradução automática. Um CAT (Computer-­‐aided translation; computer-­‐assisted translation) são essas ferramentas específicas que eu crio o meu próprio banco de dados. Um programa de tradução automática como Google Translate, por exemplo, ele tem um banco de dados e ele traduz. Existem dois tipos principais de tradução automática: existe a tradução automática estatística, que é a que o Google usa, e existe uma chamada EDMT, que é baseada em exemplo. O programa compara exemplos parecidos dentro do banco de dados deles e produz a tradução. Em milesegundos que você tem a tradução feita. Existem vários desses programas. Existe um chamado Systran, que foi desenvolvido pela IBM. É muito bom, e você trabalhando com um bom glossário, em determinados assuntos, você consegue um resultado entre 35 e 40% utilizável. BIA: Você está sempre com livros e papers ... ANA: Sim. O tradutor antigamente aprendia aquele ofício e ficava ali. Hoje, se você perder um bonde desse, Bia, você está fora da profissão. A primeira coisa que o cliente pergunta é: você trabalha com qual ferramenta? Você faz pós-­‐edição? Pós-­‐edição é uma coisa nova. Ele me manda um texto pré-­‐traduzido numa máquina e eu faço uma revisão com pente fino. Existem cursos na Europa que preparam tradutores para pós-­‐
edição já. É uma nova área na tradução. E se eu não ficar a par dessas inovações, olha, eu estou fora do mercado em dois anos. Então realmente, é altamente intensivo em termos de tecnologia. Nós dependemos muito. E, para mim, eu faço o computador trabalhar para mim, e não eu para ele. Eu dependo dele. BIA: Verdade. E é o bom uso da tecnologia, não é? ANA: Exatamente. Eu aprendi a fazer tudo o que eu preciso no computador sozinha ou com a ajuda de um grande amigo de São Paulo, que me ensinou muita coisa. E se precisar eu até abro e troco a memória, se precisar. BIA: Ah ... legal! ANA: Ah ... imagina! Eu faço meus backups, eu formato, eu instalo tudo. Eu tenho backup em disco, tenho sistema de backup no Dropbox. Até daqui duas semanas eu vou dar um curso em York, exatamente sobre isso: Tecnologia para Tradutores. Vou dar uma palestra em São Paulo também sobre isso. Aliás, eu vou falar sobre arquivos PDF. BIA: Quando você vier para São Paulo me convida, eu quero assistir, heim! ANA: Ah! Eu mando avisar, sim. Vai ser uma Conferência sobre Tradução. A outra colega minha, também de São Paulo, a Valéria, vai falar sobre Tecnologia. As duas são as “misses gadgets da tradução”. Então eu faço o computador trabalhar para mim. BIA: E os dispositivos móveis? O que é que você tem hoje? ANA: Eu tenho um iPod Touch. Até fiz a atualização hoje do software. É uma maravilha. Eu leio meus PDFs nele, eu preparo as minhas aulas, coloco o PDF lá, vou lendo. Eu dou aula também, já falo disso. Acabei de comprar o HTC Desire. Na verdade eu tinha um telefone celular pré-­‐pago. Eu não saio de casa. Mas eu estava sentindo a necessidade de ter esse maior contato, porque às vezes eu posso até levar o meu computador comigo, ou o iPod, mas você tem que pagar uma conexão wi-­‐fi. BIA: Eu sei que tem muitas cidades ai em torno de Londres e região que tem wi-­‐fi do próprio município. Inclusive muitas pessoas falam “eu não tenho celular, eu tenho o iPod Touch, nem iPhone eu compro, ligo no Skype e falo”. ANA: É. É exatamente. É assim mesmo. Aqui, por exemplo, você tem lugares como McDonalds, a conexão é gratuita. Starbucks. Eu tenho um cartão Starbucks. E pré-­‐pago, que eu carrego para pagar café... e com esse cartão eu posso usar o wi-­‐fi, é gratuito. Tem redes de lanchonetes e restaurantes com wi-­‐fi. O lugar onde eu vi muito wi-­‐fi gratuito em hotéis e restaurantes, praticamente em todos que eu fui, foi Budapeste. É muito disseminado o wi-­‐fi por lá. Então eu comprei esse telefone porque eu posso ver meus emails no trem, eu posso usar uma conexão no trem. Vou para Londres por qualquer motivo, dar aulas, ou conversar com meus alunos. É um telefone fantástico. O meu marido tem um outro HTC, um branquinho, e eu achei maravilhoso. Eu já baixei nele... quer ver ... eu já tenho dicionários ... BIA: Ele roda Android ou Windows? ANA: Android... Windows não, Bia!!! [risos] BIA: [risos] Eu tenho que perguntar!! Porque os ouvintes estão se perguntando! Não é nenhuma heresia ... ANA: Não é heresia, mas daqui logo, logo, eu vou ser Windows free. [risos] Eu já fui uma época. Eu tenho, por exemplo, nele, um QuickOffice, posso abrir um arquivo que um cliente manda pedindo uma tradução, eu tenho um Skype, eu posso ligar para você no Brasil, se eu quiser. O meu marido instalou no dele o GPS, ele diz que é fantástico. Eu tenho instalado ... deixa eu, ver o que mais eu tenho tanto instalado aqui ... tirando o Bejeweled, todo mundo tem um Bejeweled que se preza, né? Eu tenho dicionários, tenho dicionário médico, tenho conversores de medidas, que eu preciso muito disso ... BIA: Muita gente que está passando a usar Android, principalmente da área médica, estudantes também, estão meio perdidos na questão de aplicativos. Já tem dicionários bons para a plataforma? ANA: Tem. Tem dicionários bons. Tem o Merriam-­‐Webster médico. Ele não custa caro e é um dicionário muito bom. Eu tenho um Webster em CD, para MAC, inclusive. É o médico. BIA: E de idiomas, assim, também tem? ANA: Tem. Tem dicionário de idiomas. Inclusive eu tenho mais alguns no iPod Touch. Na Apple Store tem vários dicionários. BIA: É. Eu tenho dois do SlovoEd, que eu adoro, do tempo do Palm ... ANA: Exatamente. Então, você sabe, você está às vezes você está ali ... ai, meu Deus, eu preciso de uma palavra e estou sem conexão de internet, pega o telefone, abre lá e eu vejo lá o que eu preciso. O que mais eu tenho instalado aqui, deixa eu ver ... Tenho um PDF viewer, que eu preciso muito de PDF ... BIA: Como é que é PDF no dispositivo móvel? Eu detesto ... ANA: Eu também detesto. Mas, por exemplo, eu estou no meio da rua, chega um trabalho ... você pode traduzir isso? Eu nunca digo sim sem ver o que é antes. BIA: E sempre vem em PDF, né? Já está universalizado, não é? ANA: Nem me fale! Tem uns clientes bonzinhos que já mandam convertido. Agora tem uns, como esses estudos clínicos que eu fiz, entreguei hoje, vieram em PDF e eu tive o maior trabalho com as tabelas, por causa da conversão, aí tem que converter. Para converter eu uso um programa de OCR, ABBYY Fine Reader, que eu acho que é o melhor de todos. Eu nunca assisti televisão nele. Mas eu já vi gente no trem assistindo filmes, tanto no Android como no iPod ... eu não gosto, não. BIA: É passatempo, não é? ANA: E passatempo, né ... BIA: E dispositivos para leitura, como o Kindle, o próprio iPad ... ANA: Eu na verdade queria comprar um, né. Eu tinha visto o Sony Reader e não gostei muito dele, achei muito pobre. Eu não cheguei a ver o Kindle ainda. Eu cheguei a ver o Nook no ano passado em Nova York mas não valia a pena porque os livros tinham que ser comprados na Barnes & Noble e não tinha conexão aqui. Então .. eu estou namorando um iPad, claro. Quem tem um iPod Touch quer um iPad. BIA: O iPad hoje é no namorado de todo mundo ... todo mundo paquera ele ... ANA: Eu fiquei encantada com ele. A velocidade de mudança das páginas. Eu testei com o New York Times. Eu fiquei assim, fascinada com ele. Eu acho que é uma ferramenta que vai ter futuro. E não é ideal para trabalhar obviamente, é um pouco pesada, em termos assim para segurar na mão ... BIA: Isso que eu ia te perguntar. Você que anda com muito material de referência, de consulta, tem que ir para algum curso ou então viajar. Como é que você mexe com esse material todo digital quando você está se deslocando? ANA: MacBook Pro. Eu tinha um 15” e aí quando eu fui ao Brasil no ano passado eu já tinha três compradores na fila ... que quando eu vou para o Brasil, eles perguntam: você vai vender seu Mac? Então eles compram. Porque é muito mais caro aí, né. BIA: É. Você vende e compra um outro para você, um mais novo, claro! ANA: Então eu comprei um de 13” agora. Eu nunca tive um tão pequeno. Eu tive um de 15”, comprei um de 13”. Ele já tem milhagem. Ele já foi para New York, já foi para Budapeste ... aonde mais que ele foi? Ah ... andou por aí... BIA: Já passeou bastante ... ANA: Já passeou bastante. E eu carrego tudo lá dentro. O ano passado, por exemplo, eu fiquei quase três meses no Brasil ... eu levei o meu computador, o teclado, porque eu não gosto de digitar muito tempo no teclado portátil, por causa da postura. São muitas horas, né? Levei meu tecladinho do iMac e quando cheguei na casa do meu irmão conectei na internet, no monitor grande dele, no meu Dropbox e fiquei trabalhando. Totalmente mobile. Eu sou totalmente móvel. Trabalho móvel onde precisar. Já no ano passado eu já fui de férias para a Itália com o meu computador embaixo do braço e um livro de medicina para traduzir. BIA: Que bom você pode trabalhar de qualquer lugar. Você falou que fica muito tempo em casa, tal ... eu agora estou nessa vida, meio a meio, com consultoria e odontologia, tem dias que tenho que ficar direto em casa trabalhando. Eu não estou acostumada com isso. ... É horrível, é horrível. Às vezes não vem aquela inspiração. Aí eu vou para um café e pronto! É só de mudar de ambiente e aí já pumba ... ANA: É. Eu faço isso quando eu vou dar aula. Eu dou aula em duas faculdades em Londres. Eu fiz Mestrado em Tradução e Tecnologia da Tradução. Eu fiz no Imperial College. É uma tendência dos mestrados modernos da Europa oferecer esse componente tecnológico. Os alunos realmente aprendem os programas, aprendem a mexer com tradução automática, a usar dicionários online, a fazer pesquisa online, porque tem uma ciência para pesquisar no Google. Não é só você escrever e ir embora, não. Tem uma ciência ... tem um truque. Então a gente aprende isso, aprende a mexer na invisible web. Nós temos ainda os recursos da universidade. Aqueles journals caríssimos, nós temos acesso a muitos deles. E depois que eu me formei, que terminei o mestrado a minha dissertação foi sobre tecnologia, obviamente, e eles me convidaram a dar aula no curso e eu estou lá desde 2004 dando aula no mestrado. E numa outra universidade também, é o que eles chamam de visiting lecture, é contrato. Agora eu estou com um monte de coisas de alunos para corrigir, exames, essays. Então, é isso! Quer dizer, a minha vida hoje em dia vira em volta da tecnologia. Eu levo o meu computador, trabalho no trem, trabalho lá entre uma aula e outra. É mobile worker. Eu acho que é o futuro da gente. É o que eles chamam de telecommuter, né ... trabalhar de casa. Eu acho uma coisa excelente, principalmente quando está chovendo, está nevando, tá muito quente. BIA: E hoje em dia o trânsito, né ... que virou um grande inimigo dos profissionais ... ANA: Olha, uma vez eu fui a São Paulo na época do Natal, e nunca mais. Nunca mais .... BIA: É traumatizante mesmo ... ANA: Então a vida de um tradutor profissional, hoje, por exemplo, nós temos as redes sociais, Facebook, Orkut, Linkedin, Twitter. Nós estamos em todas elas. Onde você for você vai nos encontrar. O nosso grupo ... a nossa panela tradutória, e é uma maneira de aproximar pessoas que você conhece, assim, e de repente se tornam amigas. De buscar no aeroporto, oferecer: olha você quer ficar aqui em casa ... Vamos para São Paulo, vamos para o Rio de Janeiro, vamos não sei aonde, sabe ... então aonde você vai você tem esses contatos. BIA: Você é uma pessoa que usa realmente a tecnologia a seu favor. Não só trabalho, mas também no relacionamento. Porque na mídia a gente vê esse clichê aí que a internet separa as pessoas, e isola. É só saber usar, não é? ANA: É saber usar. Eu digo que, uma profissão como a nossa, que é muito solitária, eu, por exemplo, não tenho filhos. Outros colegas meus tem filhos. Então é uma forma de você ocupar o seu dia também. Porque você já pensou, você ficar o dia inteiro olhando a tela de um computador, quieta? Não, não dá! Você imagina, é deprimente! Com essa interação, com o Skype (eu sou da época do ICQ, imagina, né?), Msn, Twitter. Nossa, outro dia a gente estava batendo o maior papo no Twitter durante o jogo do Brasil. Foi o jogo do Brasil, foi ontem ... Meu Deus! Estava o maior furduncio ontem no Twitter. Comentando dos jogos, jogos de tênis, Copa do Mundo, sabe. E é uma turma que fica ali trocando idéias. E é muito bacana, inclusive você indica alguém para um trabalho, você pede para alguém, você está ali: olha, dá para você me ajudar aqui, você pode rever esse texto para mim? Quanto você cobra? Quer dizer, mais e mais as pessoas estão usando essas redes sociais. BIA: Ter contato com outros profissionais constantemente, coisas que a gente não podia imaginar a tanto tempo né, há pouco tempo aliás ... ANA: Não. Há dez anos atrás você não imaginaria isso. Eu acredito que a mudança nossa, para a nossa profissão começou a ocorrer no final da década de 90 não só com a internet, porque antes nós tínhamos dois dicionários e um primo pra atormentar quando queria saber alguma coisa. O primo engenheiro, o primo médico. Você deve ter passado por isso. O primo advogado, o pai advogado, paiê ... hoje nem tanto, hoje nós temos ... eu fico muito, muito agastada. Uma coisa assim que me dá vontade, sabe, falar: que a internet é perniciosa, internet corrompe, só tem gente maluca, pervertida ... não, eles não vêem o lado bom da internet. Sabe, é só aquelas notícias de jornal, assim: conheceu pela internet e foi morta por não sei quem, sabe ... aquelas coisas assim de notícias de tablóide. BIA: Agora com pedofilia então, parece que pedofilia não existia antes da internet. ANA: Não, não existia. É coisa de internet. Então, sabe, é isso mesmo. É esse comportamento, é isso que as pessoas vêem. E para quem ouve isso aqui eu quero dizer: não gente! A internet é mais que isso. A internet é uma ferramenta de trabalho. É uma ferramenta de conhecimento, que você pode aprender uma língua, você pode viajar pela internet. Hoje com o Google Maps, o Google 3D ... antes disso já tinha outros sistemas. Eu já passei por Roma inteirinha por um mapa desses aí há uns anos atrás. Eu adoro Roma e ainda vou voltar para lá de novo. E, então é isso ... o profissional hoje, de qualquer área, tem que fazer a tecnologia trabalhar para ele. Não pode ter medo. Quando eu comecei a trabalhar em firmas, que começaram os computadores as pessoas tinham medo. Medo da máquina, não do que a máquina representava. Medo da máquina. BIA: Maravilha. Olha, adorei a entrevista. Você deu o seu perfil de trabalho que com certeza é inspirador para muita gente. Não necessariamente tradutores, mas quem tem essas profissões solitárias, como você mesma falou, que passa muito tempo escrevendo. E tem mais, eu vou pedir para você passar para mim por email dicas de dicionários, esses programinhas mais básicos. O bê-­‐a-­‐bá pro pessoal aí, né ... ANA: Com prazer. Eu passo sim, com o maior prazer. BIA: Seu twitter para contato? ANA: @anaiaria. Só isso. Foi um grande prazer. E adorei saber que você tem um gato preto também! BIA: [risos] [vinheta de passagem] BIA: E assim, encerramos essa edição do Podsemfio. Se você quiser mandar sua sugestão, sua dúvida, seu feedback, escreva para [email protected], ou então deixe um recado de áudio no meu skype, ou no meu gtalk, no nome de usuária biakunze. E a novidade, é que agora temos o Podsemfio transcrito. Se você conhece alguém que por algum motivo não pode acompanhar em áudio, recomende em texto. O link para download é o mesmo que está no post desta edição. O blog é http://garotasemfio.com.br/blog, e o meu twitter, @garotasemfio. Bom pessoal, este ano a Copa do Mundo não foi pra gente. Então, eu vou encerrar este Podsemfio com uma música para a nossa Seleção Brasileira, que teve que voltar para casa antes da hora. John Denver, Living on a Jetplane. Beijocas sem fio a todos e até 2014 ... ôpa ... até a próxima. [música de encerramento] [vinheta de encerramento] Bia Kunze agradece à Maria Lucia Bueno pela transcrição deste podcast. 

Documentos relacionados

Podsemfio n.94 -‐ Deficientes audi vos [início da

Podsemfio n.94 -‐ Deficientes audi vos [início da Podsemfio  n.94  -­‐  Deficientes  audi4vos [início  da  vinheta  de  abertura]   BIA:   Quem   hoje   em   dia   não   tem   uma   vida   agitada?   Trabalho, ...

Leia mais

Podsemfio n.95 -‐ Desenvolvedores [início da

Podsemfio n.95 -‐ Desenvolvedores [início da que  elas   tem  que   oferecer  uma  porção   de  coisas   e   atrapalha,   entendeu?   Isso   vai  ser   legal  quando  todo   mundo  já  es=ver  com  ...

Leia mais

Podsemfio n.98 -‐ Sustentabilidade [início da

Podsemfio n.98 -‐ Sustentabilidade [início da Mobilidade   é   liberdade.   Sejam   bem   vindos   ao   Podsemfio.   Eu   sou   Bia   Kunze,  a  Garota  Sem  Fio,  falando  da  tecnologia  móvel  no  di...

Leia mais