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Como analisar blogs jornalísticos: uma proposta de
Como analisar blogs jornalísticos: uma proposta de investigação1 Juliana Colussi2 Katarini Miguel3 Resumo: O trabalho apresenta um percurso investigativo para análise de blogs jornalísticos (j-­‐blogs) nas webs de meios de comunicação, resultado de intensa observação e análise comparativa de diferentes j-­‐blogs de jornalistas brasileiros e espanhóis. Foi composta uma proposta metodológica que combina o uso de uma série de técnicas de investigação, tais como a análise de conteúdo web, a observação sistemática aberta, a pesquisa de campo e a entrevista em profundidade. Foi constatada que a análise de conteúdo web tem maior capacidade de amplitude e profundidade, e permite ao pesquisador verificar tanto os elementos próprios do blog como os componentes jornalísticos do conteúdo publicado. As demais técnicas atuam de forma complementar. Ao aplicar e problematizar a proposta metodológica descrita neste artigo, pudemos verificar sua eficácia na apreciação de diferentes aspectos relativos ao formato, conteúdo e elementos jornalísticos. Palavras-­‐chave: Blog jornalístico; Jornalismo digital; Metodologia; Análise. 1
Artigo enviado na modalidade Apresentação de Trabalho Jornalista. Doutora em jornalismo pela Universidade Complutense de Madri 3
Doutora em Comunicação pela Universidade Metodista de S.Paulo. Professora adjunta do curso de Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
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INTRODUÇÃO Desde que os blogs ganharam protagonismo na Internet, mais especificamente a partir de 2003, quando representantes de diversos veículos de comunicação passaram a utilizar a ferramenta para publicar atualidades sobre a guerra do Iraque (RECUERO, 2003), os acadêmicos passaram a investigar o blog como fenômeno jornalístico (SINGER, 2005; ROBINSON, 2006; ARAÚJO, 2006; NOGUERA VIVO, 2006; DOMINGO; HEINONEN, 2008; FOLETTO, 2009), mas usando de técnicas de investigação que não necessariamente contemplavam a análise dos elementos jornalísticos. Focando esse problema de investigação, o trabalho apresenta uma proposta metodológica para análise de blogs jornalísticos (que chamamos aqui de j-­‐blog, do inglês, journalist blog) integrados nas páginas web dos meios de comunicação. A metodologia aqui apresentada parte de uma investigação mais ampla e foi resultado da análise e da observação sistemática de dez blogs jornalísticos de profissionais do Brasil e da Espanha (RIBEIRO, 2013)4, que nos permitiram construir categorias de análise, testar a proposta e compilá-­‐la para apresentar como proposta de metodologia para outros estudos. Justamente ao longo do desenvolvimento da investigação surgiram determinadas perguntas de investigação: Como delimitar as categorias de análise considerando o blog como ferramenta, mas sem esquecer os elementos jornalísticos? A análise de conteúdo para web é suficiente para responder as perguntas de investigação? Qual deve ser o período de análise? Quantos posts são necessários analisar? Com o objetivo de responder mais precisamente a essas questões desenhamos uma proposta metodológica que combina diferentes técnicas de investigação como a observação sistemática aberta, a investigação de campo, a entrevista em profundidade e a análise de conteúdo web (HERRING, 2010). Além das técnicas citadas, procuramos ampliar o debate 4
Os 10 j-­‐blogs analisados foram os brasileiros Blogs do Noblat, Josias de Souza, José Roberto de Toledo, João Bosco Rabello, além do Presidente 40 e Diário de uma Repórter. E os espanhóis: Escolar.net; ¡Que paren las máquinas! La sombra del poder e La trincheira digital. A analise sistemática fez parte da tese de doutorado “ El blog periodístico como mini diario digital” (RIBEIRO, 2013) e é centralizada no presente texto, mas conta com contribuições e adaptações que são fruto de observações em blogs de organizações ambientalistas, em especial do Greenpeace Brasil (MIGUEL, 2014) 2
propondo subcategorias, considerando 1) Análise de formato dos blogs, 2) Análise de conteúdo y 3) Análise jornalística A primeira parte denominamos como análise de formato dos blogs, examinando os elementos que estão contribuindo com o desenho e estrutura dos blogs jornalísticos, um aspecto fundamental para compreender os elementos personalizados pelos jornalistas-­‐
blogueiros. Nesse caso, dividimos em quatro categorias: apresentação, conteúdo, acessibilidade e elementos. O segundo momento se refere à análise quantitativa, para conhecer os dados de acesso por semana, a média de palavras por post , título, comentários e a quantidade de hiperlinks. A interpretação desses dados serve como complemento para avaliar também o estilo de redação, o nível de interatividade dos jornalistas-­‐blogueiros com os usuários e entre os próprios usuários. Por último, alocamos a análise jornalística propriamente, com o objetivo de conhecer o estilo de redação, a narrativa e outros elementos do conteúdo dos j-­‐blogs. Para tanto, consideramos dez categorias 1) Manual de estilo, 2) Origem do conteúdo 3) Gêneros dos posts, 4) Estrutura do texto, 5) Narrativa dos posts, 6) Gramática e ortografia, 7) Número e tipos de fontes informativas, 8) Número, tipo e destino dos hiperlinks 9) Fomento à participação 10) Capacidade de produção. Iremos discutir essas categorias na narrativa que se segue. 1. Técnicas empregadas: investigação de campo, observação sistemática, entrevista em profundidade e análise de conteúdo web Para traçar a presente proposta nos embasamos, principalmente, em quatro referências bibliográficas que abordam técnicas investigativas: Cibermedios: métodos de investigación, de Díaz y Palácios (2009); Web content analisys: expanding the paradigm, de Herring (2010); Métodos de pesquisa para Internet, editado por Fragoso et al. (2011); y Ferramenta para Análise de Blogs em Cibermeios, de Meso et al. (2011). A análise de conteúdo web se mostrou com nível de profundidade adequado para ser aplicada aos blogs (HERRING, 2010), abarcando diferentes itens como os posts, os comentários, os links, recursos multimídias. Para complementar a análise, sugerimos outras técnicas de investigação. A observação sistemática que contribui com investigações empíricas 3
(DÍAZ NOCI; PALÁCIOS, 2009). A entrevista em profundidade que permite confirmar dados, informações e levanta dados de caráter qualitativo. Com isso, temos aqui a combinação de uma séria de técnicas investigativas, identificadas separadamente por Fragoso, Recuero e Amaral (2011) em estudos sobre blog. E, por fim, a investigação de campo do tipo exploratória-­‐descritiva que tem por objetivo descrever o processo de geração de conteúdos dos j-­‐blogs, incluindo a narrativa, a redação, o rigor jornalístico e a interação entre profissional e usuários. Marconi e Lakatos (2006) colocam que a investigação empírica consiste em formular questões com tripla finalidade: desenvolver hipóteses, aumentar a familiaridade do investigador com o ambiente, modificar ou clarificar conceitos. Com essa investigação empírica se pode obter tanto descrições quantitativas como qualitativas do objeto de estudo. E permite que o pesquisador relacione as propriedades do fenômeno com o ambiente observado. Para visualizar melhor as técnicas, desenvolvemos um passo a passo, que não busca rigor ou exposição de grade sistemática, mas apresentar uma proposta que pode contribuir para o embasamento de estudos empíricos de análise de blogs jornalísticos. 2. Como observar os blogs Antes de iniciar a observação sistemática do objeto de estudo, indicamos selecionar a amostra dos blogs que serão analisados. O uso da observação sistemática aberta possibilita contribuir para o processo de delimitação das categorias de análise referente ao formato, conteúdo e elementos jornalísticos. Sem a etapa de observação, as categorias podem não refletir todos os elementos necessários. Tratamos de uma observação direta intensiva, de acordo com o conceituado por Marconi e Lakatos (2006). Para realização da observação, consideramos a tendência dos estudos atuais de jornalismo, conforme Quandt (2008)5, e o enfoque científico, ou seja, observação que sirva a um propósito de investigação formulados, planejados de forma 5
As investigações jornalísticas mais recentes costumam aplicar o método incluindo uma observação estruturada e automatizada (com o uso de base de dados) ou mais aberta, com enfoque qualitativo. “Atualmente, nos estudos de comunicação e jornalismo, a observação se reduz a um tipo de método qualitativo, exploratório” (Quandt, 2008, p. 132, tradução nossa). 4
sistemática e registrando os dados de maneira sistemática. Uma das principais contribuições de Quandt corresponde a descrição dos cenários jornalísticos, observando a redação das notícias e o que ele denomina como entrada-­‐processo-­‐saída (a informação bruta, o processo de edição e a publicação de conteúdo) e os estudos de acessibilidade (utilizados para realizar estudos de audiência em meios de comunicação digital). A principal justificativa para aplicação da observação sistemática aberta na determinação das categorias de análise, se deve ao fato de blogs jornalísticos serem objeto de investigação em construção e, portanto, precisam de observação e pesquisa exploratória para compreensão do fenômeno de estudo. A partir da observação sistemática, podemos delimitar as categorias para análise de conteúdo web6 dos blogs jornalísticos. A proposta foi dividida em três partes, paramentadas de acordo com os objetivos específicos de investigação, sendo a análise de formato, de conteúdo e jornalística, que detalhamos na sequência. a) Análise de formato: trata-­‐se de estudar os elementos que estão propiciando a evolução do desenho e a estrutura, a personalização das páginas, considerando para isso: •
Apresentação 1) Perfil dos blogueiros (sexo, idade, carreira profissional) 2) Apresentação do blog. Ambas as subcategorias servem para conhecer a experiência profissional e a própria autodescrição divulgada. •
Conteúdo: 1) Elementos multimídias; 2) Personalização de conteúdos; 3) Uso de imagens estáticas e dinâmicas; 4) Serviços; 5) Documentos arquivados 6) Atualização. Estas categorias contribuem para verificar os diferentes elementos referentes ao tipo conteúdo, armazenamento e atualização dos j-­‐blogs. •
Acessibilidade: 1) Buscador interno/ externo; 2) Normas do blog; 3) Possibilidades de feedback y 4) Hiperlinks. Com isso, conseguimos identificar as propostas de participação e se há alguma regra para acesso. 6
Alguns investigadores utilizam a análise de conteúdo para examinar os blogs como um novo gênero de comunicação (Herring et al., 2004, 2005; Papacharissi, 2004). Outros estudos optam pela análise da retórica (Miller y Shepherd, 2004) e entrevista (Nardi, Schiano, y Gumbrecht, 2004) para caracterizar as formas, as funções e a audiência dos blogs (Herring et al., 2006). 5
•
Elementos: 1) Cabeçalho 2) Publicidade; 3) Infografía; 4) Integração com redes sociais/ agregadores de conteúdo (RSS); 5) Lista de blogs dos próprios blogueiros (blogroll) 6) Descrição geral do layout do blog. Esta parte consiste em fazer uma descrição dos elementos que podem interferir no conteúdo informativo, como anúncios publicitários e integração com as redes sociais (como Twitter e Facebook). b) Análise de conteúdo: corresponde a uma etapa quantitativa e mais precisa para conhecer dados como o nível de interatividade, quantidade de acesso, estilo de redação. Elencamos principalmente: •
Posts por semana. •
Palavras por post e por título das postagens •
Comentários por post •
Média de hiperlinks c) Análise jornalística: com o objetivo de conhecer a redação e o uso de técnicas próprias da narrativa jornalística, elegemos as seguintes categorias: 1. Manual de estilo: para verificar se o jornalista dispõe de um guia, se está sujeito ao manual de estilo do jornal a qual está hospedado ou mesmo se não tem nenhum tipo de padronização, permitindo maior liberdade editorial. O uso de um manual indica a estandardização do conteúdo, a homogeneidade nos estilos, na redação e edição. 2. Origem do conteúdo: o item permite averiguar se o conteúdo do post foi gerado pelo jornalista, extraído de outros meios de comunicação ou enviado por colaboradores, e com isso classificar os tipos de produção do blog. 3. Gêneros dos posts: a proposta é classificar os posts em informativos, interpretativos e opinativos. Verificamos também a adaptação e a criação de novos gêneros de ciberjornalismo7. A análise dos gêneros tem como base autores da área e a divisão elementar entre informativo, interpretativo e opinativo. 7
Depois de relacionar as referências bibliográficas sobre os gêneros informativos, interpretativos e opinativos, e avaliando os formatos no âmbito da web, optamos por usar o termo gêneros ciberjornalísticos porque não se observa os mesmos na imprensa escrita. Nos j-­‐blogs ou nos cibermeios uma notícia pode se estruturar mediante a inserção de recursos hipermídias, com estruturas não lineares, o que não é viável em um veículo impresso. Esses elementos diferenciados se mesclam aos tradicionais gêneros e formatos jornalísticos como a coluna de opinião, a crônica, a reportagem e compõem as narrativas ciberjornalísticas. 6
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Gêneros informativos A mensagem informativa permite conhecer os fatos de maneira mais objetiva possível, sem que o jornalista expresse nenhum juízo de valor ou adjetivação. O gênero esta relacionado com a notícia propriamente dita e faz uso do lead (o primeiro parágrafo que responde as principais perguntas) e da hierarquia da informação, com priorizando o mais importante, com uso da técnica conhecida como pirâmide invertida. No caso dos blogs, ainda que antecipamos a presença inerente do eu profissional, é possível construir informações sem necessariamente emitir opinião explícita. Entre os gêneros ciberjornalísticos de informação, destacamos a notícia, notas informativas, notas curtas – caso do Twitter, com 140 caracteres. •
Gêneros interpretativos A principal característica do gênero interpretativo é a contextualização dos fatos, contudo, excluindo juízos de valor. A estrutura pode conter o lead, as informações hierarquizadas, mas de maneira mais completa se interpretam os fatos e dados, usando elementos externos ao texto como infográficos, fotografia, além de recursos multimídias, hipermídias e links, no caso das páginas web. Os formatos mais comuns são a reportagem, a reportagem hipermídia e a entrevista. Esta última pode ser em formato pergunta e resposta ou em texto corrido, e tem como objetivo decifrar uma personalidade por meio de uma interação dialógica. •
Gêneros de opinião Nesse caso, os textos apresentam opinião, argumentos e juízos de maneira explícita. Entre os formatos opinativos estão o editorial, o artigo, a coluna, comentário e critica. O editorial, em específico, se caracteriza por expressar a linha ideológica do meio de comunicação sobre diferentes temas da atualidade. Corresponde a voz da publicação (Díaz et al., 1996) apesar de não ser assinado. Já no artigo sobressai a assinatura, o estilo e a posição do autor, e é justamente o que atrai o leitor. Pode ser escrito por jornalista, especialista ou escritor que “colabora com seu nome e seu estilo para realçar o prestigio e acentuar a qualidade do diário” (GOMIS, 2008, p. 180, tradução nossa). Se o artigo aparece em uma seção do site de forma periódica, já 7
podemos classificar como coluna, mas nas características não se difere do artigo propriamente, são textos autorais. O comentário e a crítica também são pessoais e, geralmente, fazem apresentação, valoração de obra, acontecimento, informando e opinando. Uma das variantes da crítica, a resenha, é elaborada no intuito de avaliar produtos normalmente culturais. •
Gêneros dialógicos São composições que possibilitam a conversação, a interatividade, troca. Incluimos nesse item a pesquisa online (que permite interação entre jornalista e usuários) a partir de uma pergunta com opções de respostas e com resultado contabilizados automaticamente. Também podem ser enquadrados como dialógicos os comentários, chats online, ferramentas que caracterizam a aposta de participação na internet e que não são contempladas pelos gêneros e formatos tradicionais do jornalismo. Esses elementos também podem ser analisados no quesito do fomento à participação. •
Gêneros anexos ou complementares Os posts que não se alocam diretamente nos gêneros expostos, e que são frutos do potencial multimídia da rede, podem ser classificados como gêneros anexos (YANES, 2004) ou complementares (LÓPEZ HIDALGO, 2002). São os casos das vinhetas, vídeos, músicas, discursos oficiais. A classificação aqui proposta foi originada pela observação e considerando aqueles gêneros verificados no escopo do j-­‐blogs8 analisados. Ainda na análise ciberjornalística, levantamos as seguintes características, pertinentes para entender a narrativa do ciberespaço. 4. Estrutura do texto: trata-­‐se de analisar a estrutura dos textos dos posts. Em conjunto com a média de palavras por texto, os dados proporcionados nesse campo contribuem para a identificação das técnicas utilizadas para elaborar as mensagens 8
Identificamos os gêneros e formatos jornalísticos a partir dos 10 j-­‐blogs, 976 posts analisados, que apresentaram os gêneros de informação, opinião, interpretação dialógico e complementares, com os formatos de notícia, nota, nota curta, crônica, reportagem, reportagem hipermídia, entrevista, análise, artigo, coluna, comentário, crítica, pesquisa digital, conteúdo audiovisual. 8
informativas e interpretativas. Por exemplo, se pode verificar se as notícias dos blogs jornalísticos seguem a estrutura da pirâmide invertida, e como se constroem as notas e reportagens. Também contabilizamos o número de palavras dos textos opinativos, para conhecer sua extensão, mas não nos preocupamos em analisar a estrutura propriamente, já que eles se caracterizam justamente pela maior liberdade de estilo. 5. Narrativa dos posts: por meio dessa categoria podemos identificar os diferentes tipos de narrativa empregadas nas chamadas dos blogs jornalísticos, que dividimos em: textual, hipertextual, hipermídia e visual. As chamadas que reproduzem um estilo de redação particular da imprensa escrita, por exemplo, se apresentam em linguagem textual de leitura linear. Já quando agregam links aos conteúdos caracterizam uma narrativa hipertextual de leitura não linear ou multilinear (DÍAZ NOCI, 2001; EDO, 2002; SALAVERRÍA, 2005). Aqueles que além dos links exploram também recursos multimídias como audiovisual constroem uma narrativa hipermídia (SALAVERRÍA, 2005; LARRONDO, 2008). Por último, estão as chamadas que publicam conteúdos visuais, como as vinhetas. 6. Gramática e ortografia: considerando que os blogs, em geral, permitem a publicação de conteúdo independente da qualidade, a categoria busca averiguar o rigor dos profissionais quando se refere a normas gramaticais do conteúdo publicado. Sustenta-­‐se um discurso de que o conteúdo na web não atende normas cultas da língua ou mesmo que se escreve por gírias e sem regras, portanto, pretendemos verificar se essa assertiva se respalda nos posts dos jornalistas blogueiros, ou seja, se há falta ortográfica. 7. Número e tipos de fontes: tendo em conta que o relato jornalístico deve indicar de forma precisa as fontes de informação consultadas (MARTÍNEZ ALBERTOS; SANTAMARÍA, 1993) ou mesmo os dados e documentos disponíveis na Internet que também servem de fontes documentais para jornalistas (MENCHER, 2000; MARTÍNEZ-­‐FRESNEDA, 2004), buscamos identificar os tipos de fontes utilizadas pelos blogueiros. No caso dos j-­‐blogs, seus autores não costumam ser testemunhas dos fatos que noticiam, mas se baseiam em fontes de segunda mão (aquela que vivenciou fato e fala sobre ele) ou ainda terceira mão (quando alguém passa a informação a uma fonte e essa a transmite) (MENCHER, 2000). Nesse sentido, 9
interessa saber quais são as fontes informativas consultadas para construção da informação, caracterizando, dessa forma, as maneiras de obtenção da informação que podem ser desde a própria observação de um fato, uma testemunha, uma nota de imprensa, um conteúdo publicado em outro cibemeio. E até analisar se as fontes do ciberjornalismo se diferem daquelas usadas pelos meios convencionais9. 8. Número, tipo e destino dos links: o hipertexto oferece ao usuário uma leitura não linear, podendo construir diferentes percursos de leitura e percepções de acordo com a trajetória escolhida. Nesse sentido, é importante conhecer os tipos e os destinos dos links, assim como o número de links inseridos em cada chamada, para averiguar a estrutura informativa e o número de possibilidades ofertadas, se aproveitam o potencial da rede. 9. Incentivo à participação: para verificar o nível de interação dos jornalistas com os usuários e o espaço de comentários do blog, na tentativa de identificar o diálogo entre o profissional e sua audiência. Ou seja, se há interação, resposta, fomento a participação cidadã no ambiente online10. 10. Capacidade de produção: conhecer quantos jornalistas trabalham na geração de conteúdos do blog e o objetivo dessa categoria. Ao desenhar a base de dados para realização das análises, recomendamos deixar um espaço para anotar observações sobre o autor de cada post, para contabilizar o número de jornalistas que desenvolvem conteúdos e verificar se há mais de um jornalista que atualiza o conteúdo, o que vem acontecendo em blogs profissionais 11. 3. As entrevistas com os jornalistas blogueiros 9
Na análise dos j-­‐blogs verificamos que as informações são construídas, principalmente, a partir de fontes ou publicações de outros meios de comunicação. 10
O fomento a participação é uma categoria negligenciada. Verificamos que apenas um blogueiro, o espanhol Ignacio Escolar, de Escolar.net, respondia a comentários de usuários, ainda assim de forma muito incipiente. Nos outros blogs não há real interação. 11
Na nossa observação, por exemplo, constatamos que a maioria dos blogs é mantida apenas com o trabalho do jornalista responsável. As exceções foram o Blog do Noblat que no momento da pesquisa contava com um repórter colaborador e um revisor de comentários, e chegou a contar com dois repórteres; e Presidente 40 que, por ser um blog da seção de Política do jornal Folha de S.Paulo, traz diferentes colaboradores da própria redação do jornal. 10
Com o objetivo de complementar e contrastar as informações e os dados obtidos durante as três etapas da análise de conteúdo, é pertinente a realização de entrevistas em profundidade, no estilo semi-­‐aberta, com os jornalistas blogueiros. A entrevista é fundamental para conseguir informações diretamente dos produtores do blog, compará-­‐las com os dados levantados empiricamente, além de revelar outros dados. A comparação se converte em uma etapa importante para a compreensão do universo de conteúdo dos blogs e para conhecimento das próprias rotinas produtivas. A “entrevista em profundidade é um recurso metodológico que busca, com base em teorias e pressupostos definidos pelo investigador, conseguir respostas a partir da experiência subjetiva de uma fonte” (DUARTE, 2005, p.62). Por meio da entrevista em profundidade podemos compreender vários aspectos: como os jornalistas percebem o produto informativo; explicar a produção de notícias; identificar as principais fontes de informação de jornalistas. O roteiro das entrevistas deve estar fundamentado com base nos resultados das análises, obtidos em cada caso específico. 4. Coleta de dados Para sistematizar a análise, sugerimos a construção de uma base de dados para coletar as informações e no passo seguinte, interpretá-­‐las. Criamos como experiência uma base dividida em três vertentes, seguindo as categorias propostas pela análise de conteúdo web dos blogs jornalísticos. O item “Posts”, no cabeçalho, corresponde ao espaço para registrar os dados referentes, que integram a análise jornalística. Em “Dados do blog”, registramos a informação relativa ao jornalista-­‐blogueiro e ao blog. Por último, em “Análise Formato”, anotamos as especificidades de cada j-­‐blog quanto aos elementos do formato. O uso de uma base de dados elaborada especificamente para a investigação facilita a organização do trabalho, além de sistematizar a coleta e o tratamento dos dados. A ferramenta garante a organização e o rigor para análise dos blogs jornalísticos, e a melhor visualização, como mostra a figura abaixo (original, em espanhol): 11
5. BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta proposta metodológica reúne diferentes técnicas de investigação indicadas para análise dos blogs jornalísticos e que nos pareceram adequadas e forneceram dados importantes quando aplicadas. Dividimos em três diferentes tipos de análise (formato, conteúdo e jornalístico), de acordo com o que Herring (2010) denomina análise de conteúdo web. A partir das variáveis da análise, se consegue definir demais categorias a serem analisadas de acordo com os objetivos específicos de cada investigação. Colocamos em prova a proposta metodológica em uma investigação empírica em 10 blogs jornalísticos de grande notoriedade no Brasil e na Espanha. E com isso, identificamos que a análise de conteúdo web pode não ser suficiente para responder a todas as perguntas de investigação. Com isso, optamos pela entrevista em profundidade com os jornalistas para esclarecer aspectos relevantes e comentar o resultado das analises. Nessa entrevista é possível conhecer detalhes que a análise não é possível alcançar, como o motivo por qual preferem manter determinado elemento no blog ou quais critérios utilizam para responder o comentário feito por um usuário sobre as publicações. As entrevistas complementam a análise, de caráter majoritariamente quantitativo, dando para a investigação um aporte mais qualitativo. Vale ressaltar que essa descrição do percurso de uma proposta metodológica, para a realização de um estudo exploratório de blogs jornalísticos, nos parece determinante para 12
conhecer os elementos do objeto de investigação em profundidade. Consideramos não ser possível adaptar metodologias tradicionais para análise de cibermeios, já que os blogs têm suas peculiaridades enquanto produto jornalístico que devem ser levadas em consideração. Por último, destacamos que a construção de uma base de dados específica para o estudo dos blogs jornalísticos se converte em uma ferramenta fundamental para realizar o tratamento dos dados com eficácia. Com os dados inseridos, os gráficos e tabelas são gerados de forma automatizada, o que evita erros de contabilidade. Mas o elemento crucial dessa trajetória é a interpretação que o investigador fará desses dados. 6. REFERÊNCIAS ARAÚJO, Artur. Weblog e jornalismo: os casos de No Mínimo Weblog e Observatório da Imprensa (Bloi). 2006. 582 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação – Jornalismo). Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo. COLUSSI RIBEIRO, Juliana. El blog periodístico como mini diario digital. 2013. 494 f. Tesis (Doctorado en Periodismo). Facultad de Ciencias de la Información, Universidad Complutense de Madrid. DÍAZ NOCI, Javier et al. El periodismo electrónico. Información y servicios multimedia en la era del ciberespacio. Barcelona: Ariel, 1996 _________. La escritura digital: hipertexto y construcción del discurso informativo en el periodismo electrónico. Bilbao: Servicio Editorial de la Universidad del País Vasco, 2001. __________,PALÁCIOS, Marcos (eds.). Ciberperiodismo: métodos de investigación. Una aproximación multidisciplinar en perspectiva comparada. Bilbao: Servicio Editorial de la Universidad del País Vasco, 2009. DOMINGO, David, HEINONEN, Ari. Weblogs and journalism. A typology to explore the blurring boundaries. Nordicom Review, v. 29, p.3-­‐15, 2008. DUARTE, Jorge. Entrevista em profundidade. In: DUARTE, Jorge. (org.). Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. São Paulo: Atlas, v. 1, 1ª ed., p. 62-­‐83, 2005. EDO, Concha. Del papel a la pantalla: la prensa en Internet. Sevilla: Comunicación social, 2002. FOLETTO, Leonardo F. O blog jornalístico: definição e características na blogosfera brasileira. 2009. 161 f. Dissertação(Mestrado em Jornalismo). Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina. FRAGOSO, Suely, RECUERO, Raquel, AMARAL, Adriana. Métodos de pesquisa para Internet. Porto Alegre: Sulina, 2011. GOMIS, Lorenzo. Teoría de los géneros periodísticos. Barcelona: UOC, 2008. HERRING, Susan. Web content analysis: Expanding the paradigma. In: HUNSINGER, Jeremy. et al. (eds.): International Handbook of Internet Research. London: Springer Verlag, p. 233-­‐249, 2010. LÓPEZ HIDALGO, Antonio. Géneros periodísticos complementarios. Sevilla: Comunicación Social, 2002. 13
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