AUTOMUTILAÇÃO E POLÍTICAS DE VIDA EM VIDEOS DA

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AUTOMUTILAÇÃO E POLÍTICAS DE VIDA EM VIDEOS DA
AUTOMUTILAÇÃO E POLÍTICAS DE VIDA EM VIDEOS DA INTERNETE:
NO CORPO, SEUS CORTES E DISCURSOS
Vinicius REIS (Labedisco/UESB)
Introdução
Este trabalho emerge a partir da apresentação e discussões produzidas no
simpósio “Discurso, Corpo e Políticas de Vida”, que ocorreu no interior das atividades
do 3º JIED (Jornada Internacional de Estudos do Discurso) e do 2º Encontro
Internacional de Imagem em Discurso. Ali foram gerados espaços adubados que
possibilitou ser problematizadas questões sobre a discursividade das imagens
emaranhadas com a noção teórica foucaultiana de biopolítica, trazendo uma discussão
sobre uma ordem política aos sujeitos por meio de discursos que sustentam práticas que
envolvem o corpo.
O presente trabalho visa analisar e problematizar práticas de automutilação que
circulam e são visíveis na internete por meio de vídeos, que consistem em práticas onde
são encontrados sujeitos utilizando materiais cortantes e pontiagudos para provocar
lesões (cortes) sobre o próprio corpo. Os questionamentos e problematizações
encontradas no texto serão abordados a partir dos posicionamentos teóricos sobre o
corpo, discurso e políticas de vida, construídos sob a luz dos postulados de Michel
Foucault, produzindo diálogos e deslocamentos com teorizações em torno da
materialidade audiovisual, tendo em vista que o corpus levantado para dar base e ser
analisado é composto por vídeos encontrados no site www.heavy-r.com que expõem
sujeitos anônimos cortando e filmando a si mesmos. Objetivamos com este trabalho
evidenciar como a constituição do corpo e seus discursos, em vídeos de automutilação,
estão a serviço de políticas que gerenciam a vida e analisar como os recursos de
produção audiovisual (câmera) podem compor e trazer à tona os discursos regulares
encontrados nos vídeos. Para esta tarefa, tomaremos metodologicamente, a busca por
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dos vídeos e unidades do corpus, alçando indícios sobre as inquietações teóricas e como
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regularidades discursivas e repetições nos vídeos, a partir de batimentos entre extratos
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os recursos de produção do audiovisual podem materializar os discursos sobre o corpo e
políticas de vida.
Serão focalizados os discursos no e para o corpo que constituem uma política de
vida para o sujeito em vídeos de automutilação, mas não esgotaremos os discursos
existentes e constituintes à prática em questão, além disso, terá uma breve e possível
discussão de política de vida diante do extenso trabalho produzido pelo Foucault sobre
biopolítica, ou seja, será um foco e análise dentre inúmeras possíveis. Essa investida
permitirá a problematização do corpo e a constituição do sujeito no interior de um
quadro discursivo, construindo a perspectiva de que o objeto de pesquisa e discurso
presente no trabalho será o corpo, ambientado e materializado em vídeos de práticas de
automutilação que serão o lugar de verificação do objeto. Assim, o caminho percorrido
será produzido em meio à análise do sujeito e suas relações com o corpo, encarnando e
materializando discursos presentes em vídeos de automutilação, pois na prática de
automutilação não temos somente cortes e lesões sobre o corpo, mas por meio desses
vemos emergir discursos que atravessam e cortam o corpo para sua constituição
política.
Faz necessário demarcar teórico-metodologicamente que as discussões trazidas
para somar à problematização do trabalho a partir do audiovisual e suas estratégias de
produção de imagens, serão aqui sinalizadas não somente como suporte material do
objeto a ser analisado, mas também como produtor estratégico que materializa os
discursos (MILANEZ; BARROS-CAIRO; BRAZ, 2014) do corpo e suas políticas de
vida, o audiovisual não será tomado pelos mecanismos que sobressaem meras técnicas
de produção de imagens e sim como esses mecanismos tornam-se estratégias de
composição de materialidades discursivas.
1. O corpo discursivo na prática de automutilação
Antes de iniciarmos as análises de fato, devemos nos concentrar ao que estamos
tratando sobre corpo, ou melhor, qual corpo é automutilado? E em qual corpo estamos
nos debruçando para fomentar análises?
de um quadro discursivo para a automutilação, aqui o corpo é tomado pelos seus moldes
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proposta a ser questionada, o corpo, peça fundamental para compor um quebra-cabeça
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Temos então, um aspecto crucial e de extrema importância teórica para a
discursivos. Para isto, tomaremos discussões sobre o corpo e discurso por meio de
postulados do Foucault, Courtine e Milanez, os quais nos ajudarão a compreender o
corpo enquanto discurso.
Alocando o corpo na história e tratando-o na sua relevância apontaremos juntos
aos indícios de Revel (2005) afirmando que historicamente o corpo sempre foi tomado,
amarrado e constituído por investimentos de poder, as relações de força e poder estão
sempre instaurados sobre ele, o posicionamento de que “o poder penetrou no corpo,
encontra-se exposto no próprio corpo” (FOUCAULT, 1985, p. 82). Assim, o corpo está
sempre inscrito em um jogo de forças entre poder e saber. O saber sobre o corpo é
revestido de poder e o poder sobre o corpo revela e produz um saber. Pensando com
Courtine (2013, p. 8) “a decifração do corpo me parece constituir a preocupação central
da genealogia foucaultiana, esta articulação do corpo e da história; o corpo superfície de
inscrição [...] todo impregnado de história”. É sobre esse corpo investido de poder e
saber atravessado pela história que nos interessa, o como ele é modelado e está sempre
em transformação por conta de saberes e poderes que materializam discursos é que
fomenta nossa discussão, um gerenciamento e funcionamento da composição de corpos
sujeitos e discursos. Logo, a relevância do corpo se dá pelo seu atravessamento histórico
no interior de uma rede de memórias que expõe poderes e saberes que cortam e
modelam-no por meio de uma discursividade (COURTINE, 2013).
É no corpo e sobre este que debruçamos nosso olhar para a constituição dos
sujeitos que emergem do discurso que atravessa a prática da automutilação em vídeos.
Como ficou claro não é o aspecto biológico, a estrutura de carne e osso que nos faz
brilhar os olhos. O corpo deve ser inscrito no campo do discurso, abrindo possibilidades
para sua retomada e remodelações. O espaço corpo, por conseguinte, deve ser pensado
como um espaço de inscrição e emergência de discursos através tecnologias produzidas
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Não é, pois, o corpo que vive as práticas diárias e corriqueiras,
autômatas, ou refletidas como andar, transar, comer, dormir ou ler [...]
Para estarmos diante de um corpo discursivo não basta nos
depararmos com práticas do fazer do nosso dia-a-dia. Precisamos
focalizar a existência material desse objeto que denominamos corpo,
em consonância com suas formas e carnes por meio da representação
sob a qual o identificamos. Para tanto, precisamos considerar esse
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na e pela história. Um locus que privilegia a emergência do sujeito. Segundo Milanez:
corpo do qual falamos, colocando em evidência a sua existência
histórica. (MILANEZ, 2009, p. 215).
Assistindo aos vídeos que compõe o corpus analisado, iremos nos deparar com
imagens que podem ser traduzidas, no sentido de descritas, por sujeitos que mutila a si
mesmo, provocando cortes/lesões ao próprio corpo, em sua dimensão biológica,
podendo confundir qual corpo deve ser olhado e assistido, então, para que não haja esse
equívoco devo reforçar que o corpo que faz aparição e referência neste trabalho está no
campo do discurso, não que o aspecto biológico será esquecido, mas o que move é
como esse aspecto biológico demarca e expõe uma discursividade, onde a existência
material é dada pelas marcas sócio-históricas, devemos, assim “olhar de perto o lugar no
qual esse corpo se insere, a data que ele marca, enfim, estabelecer os limites que fazem
com que ele apareça ali naquele momento, naquele lugar e não em outro” (MILANEZ,
2009, p. 215). Serão essas inscrições e discursos materializados nas imagens dos corpos
nos vídeos, que serão observadas e analisadas.
Pensando com Foucault (1985), podemos pensar nas possibilidades estratégicas,
ferramentas e dispositivos que controlam e outorgam controle ao corpo. Estes
procedimentos legitimados por discursos de poder sobre o corpo que verificamos nas
estratégias discursivas de produção de imagens e na ritualística dos corpos e cortes,
materializando uma faceta da política de vida para os corpos, creditando uma ordem
discursiva de funcionamento às práticas de automutilação em vídeos da internete.
2. Ordens discursivas que gerenciam o corpo e a vida
Iniciaremos aqui as discussões propostas sobre políticas de vida e sobre
discursos que estão a serviço de um gerenciamento dos corpos. Nas composições
discutidas pelo Foucault e nos trabalhos de desdobramentos sobre políticas de vida,
encontraremos uma ampla possibilidade para abordar as noções de políticas de vida ou
biopolítica. Aqui iremos focar em apenas umas das, tomando, assim, o caminho da
política de vida que a toma e a entrelaça com a necessidade do discurso de
sobrevivência dos corpos, é pela ordem de não poder levar o corpo à morte que
(1988) as políticas de vida que deixam na lateral a potência pela morte e passam ser
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em vídeos da internete. Para ilustrar essa noção escolhida, tomaremos segundo Focault
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mobilizaremos os discursos de política de vida nas imagens da prática de automutilação
instigadas por uma administração dos corpos e pela gestão ritualística e calculista da
vida. Para demarcando esse lugar teórico teremos:
As disciplinas do corpo apontam para o desenvolvimento da
organização do poder sobre a vida. As tecnologias voltadas para o
desempenho do corpo e que encara os processos da vida caracterizam
um poder cuja função mais elevada já não é mais matar, mas investir
sobre a vida. (FOUCAULT, 1988, p. 131).
Compreenderemos que os cortes/lesões no corpo ocupam um lugar para vida,
diferente do que se pensa que a automutilação está a um passo para a morte, os sujeitos
que se cortam são tomados como porta voz de um discurso que garantem uma política
de vida, e que não se deve e não pode levar o corpo à morte.
Figura 1 Self Chest Skin Cutting
Figura 2 Ass Self-Cutting And Whipping Part 1
Figura 3 Whipping My Fresh Self Cuttin Wounds
Nestes três fotogramas destacados observamos como o corpo é posto em lugar
de destaque nas imagens dos vídeos. Existe uma exaltação e uma ostentação das partes
cortadas/lesionadas do corpo, essa exaltação do corpo é produzida pela estratégia de
zoom sobre o corpo, uma lente de aumento que nos indica que o corpo tem papel central
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câmera focaliza as partes que estão sendo automutiladas, destacando-as numa espécie de
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enquadramento em plano detalhe dos corpos e das automutilações. O enquadramento da
e relevante no discurso instaurado. O olhar de quem assiste é direcionado e controlado
por meio de uma câmera fixa e do movimento do corpo do sujeito, o close da câmera
sobre o lugar dos cortes no corpo, leva a uma fixação do nosso olhar para o ato da
automutilação, determinando o que devemos olhar.
Só podemos ver e assistir aquilo que é permitido pelos recursos de produção
audiovisual operacionalizados nos vídeos e que nos é dado a partir da materialização
produzida entre a imagem dos corpos e a disposição dos mesmos em relação à câmera.
Veremos que há uma ordem de gerenciamento e funcionamento por meio da
tática discursiva da câmera e do enquadramento que nos induz a focar o olhar para o
corte, o ato da automutilação, e é neste ato que se encontra o discurso enquanto política
para o corpo.
Figura 4 Neck Self Cutting Video
Figura 5 Psycho Girl Cutting Her Face
Nestes fotogramas podemos observar a mesma análise imagética proposta nos
fotogramas expostos anteriormente, com as mesmas regularidades discursivas dispostas
em todos os fotogramas. O plano detalhe e o close das imagens nos dizem que há uma
regularidade na prática de cortar a si mesmo, certa liturgia na qual os cortes são
calculados em ritmo e intensidade, produzindo um corte superficial que garante a vida e
não deixando o corpo ir a óbito, expondo uma ordem do discurso analisado.
Podemos reforçar que a câmera frontal que fixa e foca no recorte do corpo, o
espaço de incisão do corte, exaltando esse lugar/corte do corpo discursivo. Para Dubois
(2004) a estrita frontalidade na câmera televisiva, em seu aspecto jornalístico, o olhar de
o objeto, apresentando um espaço de testemunho. Logo podemos analisar que na prática
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da automutilação e no corpus em questão, há um testemunho da relação do sujeito com
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quem assiste se identifica e se confunde com a própria câmera, quando visa diretamente
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a prática ao seu corpo, ou melhor, de uma política de vida no e sobre o corpo. Um
testemunho que evidencia uma ordem de funcionamento, uma interdição à morte.
A câmera fixa, junto com a ritualística dos cortes calculados e a disposição dos
corpos no enquadramento, materializa sob o discurso do interdito, uma política de vida
para o corpo, marcando uma ordem para o discurso da automutilação, Não morra! É
interditada ao corpo a morte. Para Foucault (1999) a produção de discursos é controlada
e organizada por procedimentos que funcionam para maquinar seus poderes. Dentre os
procedimentos de exclusão, destacamos o da interdição,
Considerações finais
A análise exposta mesmo que de maneira breve e não tão aprofundada
teoricamente na ampla faceta dos trabalhos sobre políticas de vida e análise do discurso
nos traz a abertura de repensar as práticas de automutilação em vídeos da internete,
saindo do que já é dado, a automutilação como sintomatologia de um transtorno mental,
e abrindo caminhos teóricos e analíticos que propõe discursivamente a problematização
do funcionamento e da ordem discursiva que engendra as imagens do corpus analisado,
deixando evidente a relevância do corpo e os poderes e saberes que imprimem nele uma
modelagem discursiva para compreensão das práticas de automutilação. Pois é por meio
da análise do corpo, nosso objeto de pesquisa e discurso, que conseguimos permitir um
alargamento do entendimento do funcionamento da automutilação.
Verifica-se que a constituição do corpo e sua disposição estão atreladas a uma
ordem que maquina e interdita o sujeito à morte, temos uma falsa ideia de liberdade nos
vídeos, onde o sujeito poderia fazer tudo ao seu corpo, inclusive mutilá-lo, porém como
foi analisado, existe uma interdição, uma proibição que não deixa o sujeito levar o corpo
à morte, assim, desconstruindo o efeito de liberdade na materialidade imagética. Essa
interdição é a engrenagem, a ferramenta que sustenta o discurso de uma política de vida,
política essa que está associada à administração dos corpos e sua sobrevivência. É
relevante destacar a importância que as táticas de produção discursiva do audiovisual
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Referências
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tem na composição dos discursos operantes nas práticas de automutilação.
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COURTINE, Jean-Jacques. Decifrar o corpo: pensar com Foucault. Trad. Francisco
Morás. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac
Naify, 2004.
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder (organização e tradução de Roberto Machado).
Rio de Janeiro: Graal, 5ª edição, 1985.
______. História da sexualidade 1. A vontade de saber. Trad. Maria Thereza da Costa
Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 13. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
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Loyola, 6a edição, 1998.
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audiovisual percursos de uma construção teórico-analítica. In: FERNANDES JÚNIOR,
Antônio; SOUSA, Kátia Menezes de (Orgs.). Dispositivos de poder em Foucault:
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REVEL, Judith. Michel Foucault: conceitos essenciais. Trad. Maria do Rosário
Gregolin, Nilton Milanez, Carlos Piovesani. São Carlos: Claraluz, 2005.
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