Roteiros e lazzi da commedia dell`arte

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Roteiros e lazzi da commedia dell`arte
LABORATÓRIO – PORTAL TEATRO SEM CORTINAS
HISTÓRIA DO TEATRO MUNDIAL – COMMEDIA DELL’ARTE
Título: Lazzi
Arquivo: 03.HTM.0009
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Laboratório-Portal Teatro Sem Cortinas
Lazzi
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Os lazzi (plural da palavra lazzo) são piadas e sequências de ações cômicas
usadas na commedia dell’arte, e que, apesar do roteiro livre e sumário (canovaccio),
são fixas e bem estruturadas. Cada lazzo era a descrição de uma ação estabelecida,
sem diálogo, (lazzo do cumprimento, por exemplo, ir com a mão estendida e desviar;
colocar a cadeira para sentar e puxar para a pessoa cair ao chão...), e eram muito
bem ensaiados pelos atores. Esse recurso de ações ensaiadas e cômicas foi usado
também no teatro de feira e se manifesta muito no circo.
A seguir, uma compilação de alguns roteiros e lazzi da commedia dell’arte:
Alguns roteiros da commedia dell’arte
Il pellegrino fido amante (O fiel amante apaixonado)
Personagens:
Pantaleão – um mercador;
Flamínia – sua filha;
Francheschina – sua criada;
Horário – jovem de boa família, apaixonado por Flamínia;
Fabrizio – seu criado;
Capitão Spazzavento (espalha vento – “peidorento”) – um soldado fanfarrão;
Pedrolino – seu criado;
Peregrino – Flávio disfarçado, seguindo Isabela, a quem ama ;
Arlequim – seu criado;
Doutor Graziano – pai de Isabela.
A cena passa-se em Gênova.
Flamínia está sendo cortejada por Horário, um jovem que tem Fabrizio por criado.
Logo se descobre que, na verdade, Fabrizio é uma moça travestida. Isabela, filha de
Graziano, um doutor milanês, sendo cortejada por um certo Flávio não quer se casar com
ele, achou esse modo de fugir da casa do pai. Flamínio revela-se o amante perfeito e
aparece em Gênova, seguido por seu criado Arlequim, em busca da amada. Uma série de
complicações aparece com a presença de um certo Capitão e seu esperto criado
Pedrolino, mas, no final, o verdadeiro amor vence: o coração de Isabela se deixa
conquistar pela dedicação de Flávio e ela lhe concede sua mão, ao mesmo tempo em que
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Horário conquista Flamínia.
Il vecchio geloso (O velho ciumento)
Personagens:
Pantaleão – um mercador veneziano
Isabela – sua mulher jovem
Pedrolino – seu criado
Doutor Graziano – amigo de Pantaleão, apaixonado por Flamínia
Horário – jovem apaixonado por Isabela
Flávio – seu amigo
Buratino – hortigranjeiro
Pasqualla – sua mulher
Olivetta – sua filha
Cavíquio – um camponês
Flamínia – uma viúva, filha de Pantaleão, apaixonada pelo Capitão Espalhavento
Pantaleão, sabendo que sua mulher, jovem e bonita, está sendo cortejada por
Horário, resolveu levá-la para sua vila distante seis milhas de Veneza. Para grande
irritação sua, no entanto, o apaixonado e seu amigo os seguem, e as boas maneiras
exigem que os dois sejam convidados para um banquete ao ar livre. A primeira cena
apresenta o grupo em clima descontraído. Graziano, instado pelos presentes, conta um
história de Decameron. Ouve-se música. Cavíquio entra, aumentando o clima de
divertimento, cantando umas canções e depois conta uma história divertida. Aos poucos,
em meio a esse clima, as personalidades individuais começam a se revelar. O esperto
Pedrolino oferece-se para ajudar o jovem Horário; Isabela mostra-se atraída por seu
admirador; Pantaleão adverte-a para que preserve sua honra e, quando esta fica zangada,
pede-lhe perdão. Graziano se engraça para o lado de Flamínia. Buratino faz tudo o que
pode para ensinar sua filha Olivetta a cuidar do jardim. O ato termina com Pedrolino
armando uma situação para enganar o marido ciumento e ajudar os amantes, persuadindo
Pasqualla a levar, no momento mais adequado, Isabela para um dos quartos de sua casa
(no qual estará escondido Horário). Suborna Buratino para que ele apresente uma cesta de
figos, supostamente presenteada por um vizinho, chamado Tofano, para criar uma
desculpa para Horário se ausentar da festa. Pantaleão acreditará que ele foi ver Tofano, e
suas suspeitas se acalmarão.
Com a situação armada, a peça continua: cantores ambulantes se exibem, bancos
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e cadeiras aparecem, sendo um número de dança executado por Olivetta e outras moças
da aldeia. Ouve-se trompas ao longe; o Capitão Spavento, que está apaixonado por
Flamínia, entra com os caçadores: seus companheiros. Toda espécie de doces, frutas e
vinhos vão sendo trazidos para as mesas, a alegria vai ficando cada vez mais hilariante,
enquanto que Graziano vai ficando cada vez mais bêbado. Finalmente, quando Pedrolino
dá o sinal, Isabela diz ao seu marido que precisa ausentar-se um pouco, sendo levada por
Pasqualla para dentro de casa, onde, naturalmente, encontra-se com Horário, enquanto o
ciumento Pantaleão monta guarda à porta com o maior empenho.
Ainda há música no último ato. Isabela pede a Horário que toque uma ária romana
em sua guitarra. Pantaleão concorda em deixar Flamínia casar com o Capitão e, então,
cansado, cochila na cadeira. O incansável Pedrolino, engana Graziano, levando-o para a
cama, na casa, com Pasqualla, na ilusão de que seria Flamínia. Pasqualla sai, aos gritos,
dizendo que foi violada – e, nessa altura, Buratino, seu marido, ingenuamente indaga a
Pantaleão se, graças à aventura de Graziano, ele tem, de agora em diante, de se
considerar cornudo. Quando Pantaleão responde que sim, Buratino declara que, nesse
caso, ele não está sozinho, passando a contar a história de um velho ciumento que tinha
ficado tomando conta da porta enquanto a mulher e o amante se encontravam dentro de
uma casa. A história é um paralelo tão fiel do que acabara de acontecer que o pobre
Pantaleão – como era desejo de todos que acontecesse – não pode deixar de
compreender como foi enganado. Seus urros de indignação, no entanto, são finalmente
controlados por Horário, quando este afirma que a verdadeira vítima tem sido Isabela;
Pantaleão havia casado com ela ainda muito jovem, num momento em que ele já sabia que
era impotente. Confessando a verdade, o velho entrega a mulher a Horário, o Capitão
casa-se com Flamínia, e Olivetta é liberada do jardim que odeia para se casar com
Pedrolino.1
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Il pellegrino fido amante e Il vecchio geloso fazem parte da Coleção Scala e foram transcritas da
Revista Tablado, 97, p.18.
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Os trapaceiros
Dois cúmplices entram pela esquerda, rindo e conversando. Pela esquerda, entra uma
terceira personagem chorando. Os cúmplices perguntam por que ele chora. Este afirma ter
perdido tudo no jogo de cartas, restando-lhe apenas um ducado. Pensando tratar-se de um
mal jogador, propõem-se a jogar com ele; assim ele poderá recuperar tudo. Felizes pela
perspectiva de ganhar um ducado de modo tão fácil, jogam. Ao contrário do que os dois
pensavam é o tolo quem ganha, levando todo o dinheiro e as roupas e chapéus dos
cúmplices. Se a encenação for desenvolvida com roupas reais, os cúmplices devem ter
camisões compridos e ridículos.
Os velhos apaixonados (aproximadamente 1555)
Colombina está em uma sacada regando algumas plantas.
PANTALEÃO (na porta de sua casa, ao vê-la)
Maravilhosa Colombina, cada dia que passa fica mais bela. Eu, cada dia que passa, fico
mais apaixonado.
DOUTOR (idem)
Que charme! Que graça! Que beleza!... é adorável. Rendo-me a você.
BRIGHELA (ao ver os dois)
Vou jogar uma boa partida com esses dois idiotas. (Oferecendo uma garrafa a Pantaleão)
Senhor Pantaleão, beba deste vinho mágico, o senhor terá facilmente em seus braços a
pessoa que o senhor ama. Mas atenção, a pessoa
poderá aparecer sob uma forma
inesperada... Até mesmo desagradável! (tempo. Idem para o Doutor) Sim, senhor doutor,
se o senhor beber deste vinho maravilhoso, o senhor verá aparecer, sob uma forma
insólita, a pessoa que o senhor mais quer.
PANTALEÃO (bebendo)
Bebamos! Tenho pressa de afagos minha Colombina! Pergunto-me, entretanto, sob que
forma ela aparecerá.
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DOUTOR (bebendo)
Bebamos! Estou impaciente por abrigar Colombina em meu coração! Mas sob que
aparência ela aparecerá?
BRIGHELA
Que cretinos!
PANTALEÃO (vendo o Doutor)
Oh! Será isso possível? Sob a forma do ignóbel Doutor!
DOUTOR (idem)
Devo acreditar em meus olhos? Ei-la sob a aparência daquele horrendo Pantaleão!
PANTALEÃO
Colombina! Aproxime-se e deixe esta triste embalagem!!!
DOUTOR
Colombina! Avance! Arranque de você esa deplorável crosta!!!
PANTALEÃO (abraçando o Doutor)
Então! É você mesmo?
DOUTOR (idem)
Deixe esta concha absurda!
PANTALEÃO (pensando e ainda abraçado ao Doutor)
Parece até que nem é ela.
DOUTOR (idem)
Ela quer atiçar meu apetite.
PANTALEÃO
Mas enfim, você não é verdadeiramente o Doutor?
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DOUTOR
Claro! Para sua infelicidade. E você é verdadeiramente Pantaleão, para minha desgraça.
PANTALEÃO
Cancro! Velho vazador!!
DOUTOR
Velho roedor. Baderneiro!!!
Colombina joga água nos dois.
Alguns Lazzi
LAZZO DA MOSCA – Um vecchio ao sair pede a um zanni para que este não deixe sequer
uma mosca entrar enquanto estiver ausente. Ao retornar, o patrão indaga sobre sua ordem
e o zanni afirma que nenhuma mosca entrou. Dentro de casa estão várias pessoas...
Justificando-se o zanni afirma, bastante orgulhoso, que as ordens dadas foram
cumpridas...
LAZZO DAS PALAVRAS – Um zanni diz a outro para que preste muita atenção às suas
palavras, tentando pegá-las. Faz um discurso, enquanto o outro vai “pegando” as palavras
daquele. Assim, ao terminar sua fala, o primeiro indaga se o outro pegou as suas palavras,
este, muito contente, afirma que sim, destampando um recipiente para provar. Constata,
decepcionado, que nenhuma palavra permaneceu presa.
LAZZO DO LOGRO – um zanni ensina a outro belas frases de amor (completamente
ridículas), estimulando o segundo a dizê-las a sua amada, que acaba ficando cada vez
mais nervosa.
LAZZO DA REPETIÇÃO – Vecchio está dando ordens ao zanni, que o interrompe três
vezes. Irritado, a cada interrupção o patrão ordena-lhe que cale a boca. Depois de algum
tempo, o patrão chama o zanni que repete três vezes em seguida cala boca.
LAZZO DA ÁGUA – a patroa desmaiou e a criada grita socorro, pedindo água. O zanni,
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cumprindo a ordem traz um tipo de água de cada vez: água de rosa, água benta, água de
jasmim etc. Nada reanima a patroa, entediado, urina em um frasco e joga seu conteúdo na
patroa, que desperta alegre. Cheio de si, diz alegremente: “água destilada pela minha
varinha”.
LAZZO DA ESCOLA DE HUMANIDADE – um zanni declara a todos que em sua casa, sua
irmã montou uma escola de humanidades. Trata-se de um prostíbulo.
LAZZO DO NASCIMENTO – zanni diz a outro ter nascido antes de seu próprio pai.
Demonstrando a veracidade do que diz, conta que um dia seu pai estava passeando por
uma rua quando uma carroça quase o atropelou. O carroceiro disse: “Você, com certeza,
nasceu ontem!”. Emenda, ainda, o zanni que isso aconteceu um ano atrás... assim, como
ele tem mais de vinte anos, com toda a certeza, ele é bem mais velho que seu próprio pai!
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