Morre Margaret Thatcher, ícone de ferro do liberalismo

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Morre Margaret Thatcher, ícone de ferro do liberalismo
Disciplina - História -
Morre Margaret Thatcher, ícone de ferro do liberalismo
História
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Postado em:08/04/2013
Os soviéticos a apelidaram de “Dama de Ferro”. O ex-presidente americano Ronald Reagan a
chamou de “o melhor homem da Inglaterra”. O socialista francês François Mitterand a definiu por
seus “olhos de Calígula e lábios de Marilyn Monroe”. Na ficha de seleção para um emprego, ela foi
rejeitada por ser “teimosa, obstinada e perigosamente dona de opiniões próprias”. Margaret
Thatcher, primeira-ministra da Grã-Bretanha que mais tempo permaneceu no cargo no século
passado, morreu nesta segunda-feira, aos 87 anos, deixando um papel bem definido na história: o
de líder da revolução liberal que, na década de 1980, desmontou programas sociais deficitários,
cortou impostos e gastos públicos, privatizou estatais perdulárias e tirou da paralisia a economia
britânica para, depois, se espalhar pelo mundo. A causa da morte da ex-premiê, segundo seu
porta-voz, lorde Bell, foi um derrame cerebral. Ela já havia deixado a vida pública em 2002 por
causa de um pequeno derrame, e sofreu vários outros depois deste. “É com grande tristeza que
Mark e Carol Thatcher anunciaram que sua mãe, baronesa Thatcher, morreu em paz após um
derrame nesta manhã. Um comunicado será anunciado mais tarde”, afirmou Bell. Os pequenos
derrames dos últimos anos lhe deixaram sequelas, como confusões ocasionais e perdas de
memória. Seu estado de saúde estava se deteriorando desde então, e ela chegou a sofrer de
demência. Segundo sua filha, Carol, em suas crises, Thatcher tinha dificuldades em terminar suas
frases e esquecia que seu marido, Denis Thatcher, morreu em 2003. A morte de seu mais próximo
confidente e companheiro por 50 anos intensificou seu isolamento do mundo. A última vez em que
ela foi internada foi em dezembro de 2012, quando passou por uma cirurgia na bexiga. Primeira
mulher a chefiar um governo parlamentar na história da Europa, Thatcher ficou onze anos e meio no
poder, de 1979 a 1990, tempo mais do que suficiente para os princípios que defendia (menos
governo, menos despesas e independência em relação à União Europeia) se fixarem
profundamente no modo de vida britânico. Vinte anos depois do fim de seu governo, o
“thatcherismo” continua tão atual na Grã-Bretanha quanto a monarquia, o peixe com batata frita e a
cerveja quente dos pubs – mais do que uma convicção política, é uma instituição nacional. Em três
décadas de carreira política, ela lutou contra a intervenção do estado na economia e combateu a
inflação. Eleita primeira-ministra em 1979, fez a taxa cair de um pico de 27% para 2,5% seis anos
depois. Privatizou as indústrias estatais de petróleo e gás, aeroportos e companhias aéreas,
telefone e energia elétrica, estimulando o crescimento econômico mesmo com o aumento do
desemprego e criando um paradigma de competitividade até hoje seguido no planeta. Sua receita
para recuperar a economia incluiu a crença de que sindicatos com muito poder político
estrangulavam as empresas em nome de interesses eleitorais. Com isso em mente, Thatcher
enfrentou líderes sindicais, retirou privilégios fiscais das organizações trabalhistas e enfrentou
greves que duraram mais de um ano, até vencê-los. Vencer, afinal, era sua especialidade. Na
democracia mais antiga do planeta, ganhou três eleições consecutivas para a chefia do governo –
algo até então inédito, repetido depois por Tony Blair. Seu primeiro triunfo nas urnas veio aos 33
anos, quando elegeu-se pela primeira vez para o Parlamento pelo Partido Conservador. Em 1970,
quando o partido derrotou os trabalhistas e voltou ao poder com o premiê Edward Heath, foi
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nomeada ministra da Educação. Quatro anos depois tornou-se a primeira mulher a ganhar a
liderança do partido, passo que a conduziu ao cargo de premiê após vencer as eleições gerais de
1979. A década seguinte trouxe seu primeiro desafio além das fronteiras da Grã-Bretanha: a invasão
das Ilhas Malvinas pela Argentina do ditador Jorge Videla em 1982. Thatcher ouviu os chefes das
Forças Armadas e não titubeou. No campo de batalha, os soldados britânicos arrasaram os
argentinos e recuperaram a soberania sobre o arquipélago em dois meses e meio. Nas relações
exteriores, Thatcher cultivou uma estreita relação política e pessoal com o então presidente dos
EUA, Ronald Reagan. A defesa do livre mercado era o princípio em comum e a luta contra o
comunismo selou a aliança. Curiosamente, foram os inimigos soviéticos que criaram a imagem de
“mulher forte” que Thatcher incorporou. Ainda em 1976, três anos antes de ela se tornar
primeira-ministra, o jornal Estrela Vermelha, publicado pelo Exército soviético, chamou-a de “Dama
de Ferro” ao comentar um discurso de Thatcher sobre a Otan, a aliança militar do Atlântico Norte.
Com ironia, ela acabou usando a seu favor o que era para ser uma afronta sexista: “Estou aqui
diante de vocês com meu vestido de gala de seda vermelha, meu rosto levemente maquiado e meu
cabelo gentilmente escovado, a Dama de Ferro do mundo ocidental. Uma guerreira da Guerra Fria”,
disse em outro discurso. “Sou esse tipo de coisa? Sim, se é assim que querem interpretar minha
defesa dos valores e liberdades fundamentais do nosso modo de vida”. Dona de casa –
Transformar o que muitos podiam ver como ponto fraco em argumentos a seu favor foi algo que
Thatcher dominou desde o início de sua vida pública. Numa época em que a maioria das mulheres
era destinada apenas a casar, criar uma família e cuidar de uma casa, ela jamais se apresentou
como feminista nem rejeitou a ideia de que as mulheres deviam ser donas de casa. Pelo contrário,
em toda campanha eleitoral, fazia questão de aparecer fazendo compras no supermercado e
gostava de ser fotografada fazendo tarefas domésticas. “Qualquer mulher que entende os
problemas de administrar uma casa estará próxima de entender os problemas de administrar um
país”, declarou. Para seu biógrafo, Charles Moore, nesse ponto nada podia ser mais equivocado do
que a famosa frase de Ronald Reagan – “Ela é o melhor homem da Inglaterra” – porque Thatcher
considerava o sexo feminino superior. Não à toa, uma de suas frases mais conhecidas é: “Em
política, se você quiser que algo seja dito, peça a um homem. Se quiser algo feito, peça a uma
mulher”. Esse traço de sua personalidade foi plantado por seu pai, Alfred Roberts, dono de duas
mercearias na pequena cidade de Grantham, no leste da Inglaterra, onde Margaret Hilda Roberts –
nome de batismo – nasceu em 13 de outubro de 1925. “Nunca deixe os outros dizerem o que você
deve fazer”, era um dos conselhos paternos resgatados em suas memórias. O pensamento
independente está na raiz de suas escolhas profissionais: após terminar o colegial, Thatcher foi
estudar na Universidade de Oxford aos 17 anos. Era a primeira da família a entrar para o ensino
superior e se formou em química, algo então pouco usual para uma mulher – anos depois, estudaria
direito e se tornaria advogada. Com o diploma de cientista, mudou-se para Colchester, a cerca de
80 quilômetros de Londres, e foi trabalhar em uma indústria de plásticos, época em que iniciou sua
carreira política ao entrar para a Associação Conservadora da cidade. Após se aproximar de
lideranças locais do Partido Conservador e conquistá-las com sua capacidade de debate,
candidatou-se a uma vaga no Parlamento, mas foi derrotada em suas duas primeiras tentativas.
Suas atividades políticas levaram-na a conhecer o rico empresário Denis Thatcher, de quem adotou
o sobrenome após o casamento, em 1951. Dois anos depois da união, ela deu à luz um casal de
gêmeos, Carol e Mark, seus únicos filhos. Por 52 anos, viveu com Denis, de quem ficou viúva em
2003. Troca da guarda – O fim da era Thatcher está diretamente ligado à ascensão da União
Europeia, que dividiu o Partido Conservador, e ao desgaste de sua imagem perante a opinião
pública britânica após mais de uma década de governo. Ainda assim, ela não perdeu nenhuma
eleição antes de deixar a liderança dos conservadores. Preferiu renunciar em 1990, após vencer a
disputa pela chefia do partido por uma margem estreita, que obrigava a realização de um segundo
turno. Antes mesmo de colocar à prova o favoritismo dos trabalhistas na eleição seguinte, seu
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discurso separatista da União Europeia a derrubou do governo e ela foi sucedida por John Major.
Em seu discurso de renúncia, caiu atirando contra os trabalhistas: "Eles querem uma Europa de
subsídios, uma Europa de restrições socialistas, uma Europa de protecionismo". Por quase dois
anos, a Dama de Ferro continuou na Câmara dos Comuns, até ser nomeada para a Câmara dos
Lordes com o título de baronesa. Durante algum tempo, continuou criticando os adversários e dando
discursos, palestras e entrevistas pelo mundo – numa delas, defendeu suas ideias nas páginas de
VEJA. Até que uma série de pequenos derrames e falhas de memória a afastaram da vida pública
em 2002, por recomendação médica. Seis anos depois, a filha Carol revelou que a mãe sofria de
demência. A doença havia sido diagnosticada em 2000 e se agravou pouco a pouco. Seu biógrafo
Charles Moore relata um encontro revelador entre a líder aposentada e um menino de sete anos –
filho de Moore. Sentado em um sofá diante de Thatcher, o garoto pergunta: “Você gostou de ser
primeira-ministra?”. Sem se mostrar surpresa, ela responde: “Bem, tivemos a chance de tomar
decisões importantes e melhorar a vida do país, então, sim, gostamos muito”. O entrevistador não
se dá por satisfeito: “Você fez alguma lei boa?”. Thatcher resume o próprio legado: “Sim, fizemos!
Fizemos a Grã-Bretanha mais forte na defesa, reduzimos o poder dos sindicatos e cortamos
impostos, de modo que as pessoas pudessem ficar com mais do que ganham. E se as pessoas
ficam com uma parcela maior do que ganham, elas ganham mais”. Esta notícia foi publicada em
08/04/2013 no site veja.abril.com.br. As informações contidas são de responsabilidade do autor.
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