odontalgia atípica

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odontalgia atípica
ODONTALGIA ATÍPICA
Como Atender um Paciente com Dor de Dente Persistente?
André Porporatti
Cirurgião-Dentista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Mestre e Doutorando em Reabilitação Oral pela Universidade de São Paulo (USP)
Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SBDOF)
Membro da International Association for the Study of Pain (IASP)
Especialista em Acupuntura Tradicional Chinesa pelo Centro de Estudos em Terapias Naturais (CETN)
andreporporatti.com
CV: http://lattes.cnpq.br/4246950003466601
O profissional que atende pacientes com dores orofaciais necessita ter uma
abrangente apreciação dos diferentes tipos de dores que podem ser
encontrados na região orofacial.1 Certamente o diagnóstico é a parte mais difícil
no atendimento de pacientes com dor, e é somente através de um diagnóstico
correto que um tratamento eficaz pode ser instituído. As neuropatias intraorais são
dores orofaciais de difícil diagnóstico, devido à ausência de qualquer fonte óbvia
de nocicepção. Estudos recentes correlacionam sua etiologia à danos ou lesões
ao próprio sistema nervoso, seja ele periférico ou central.1
As dores neuropáticas representam um grande problema para o clínico, uma
vez que possuem um manejo complexo e geralmente se tornam crônicas.1
Especificamente para a odontologia, existe um tipo de dor neuropática intraoral
conhecida como Odontalgia Atípica (OA) que é provavelmente uma das
condições mais frustrantes que o cirurgião-dentista enfrenta, por se tratar de uma
dor de dente de causa desconhecida.2-6
Quando o paciente queixa-se de dor em um dente ou região específica e
não há qualquer sinal local de patologia dentária, bucal, facial, muscular, sinusal
ou intracraniana, pode estar se deparando com um caso de odontalgia atípica.29
A Associação Internacional para Estudo da Dor (International Association for
the Study of Pain - IASP) definiu OA como uma dor contínua, latejante e severa no
dente sem associação com nenhuma patologia maior.
10, 11
OA é uma condição
dolorosa crônica e incomum, que ocorre nas estruturas dentoalveolares e na
mucosa oral. A dor pode ser de intensidade moderada a grave, e pode
acometer tanto mandíbula quanto maxila.
12
Frequentemente a dor tem estado
presente por meses e até mesmo anos, sem alterações significativas em suas
características clínicas. Tentativas repetidas de tratamento dentário falharão em
resolver a dor.1, 2, 12 A dor pode ocorrer em sítios únicos ou múltiplos.
Alguns dos outros termos utilizados para descrever a OA incluem: dor
dentoalveolar persistente, odontalgia idiopática, dor pós-desaferentação, dor
fantasma, neuralgia trigeminal pós traumática e dor neuropática contínua.12-15 Ela
tem sido descrita como uma dor idiopática por causa dos difíceis dados
encontrados na literatura que tentam explicar sua etiologia.8,
16, 17
Na grande
maioria das vezes a dor fantasma está associada com a perda de um membro
do corpo, como por exemplo um braço, um dente ou uma perna, o qual a dor é
sentida na região onde não existe mais o membro.17
Dor dentoalveolar persistente é uma taxonomia recente que também denota
à pacientes com OA e dita como critérios diagnósticos a presença de dor
persistente localizada em região dentoalveolar não causada por nenhuma outra
patologia.13
Odontalgia Atípica está atualmente incluída na classificação da Sociedade
Internacional de Cefaleia (IHS) na categoria chamada de dor facial idiopática
persistente (IHS 13.18.4).18 O diagnóstico diferencial inclui síndrome do dente
rachado, dor facial atípica, neuralgia migranosa, periodontite apical sintomática,
dores musculoesqueletáis, problemas neurológicos e sinusite.19, 20
Em relação a epidemiologia, a literatura sugere que as mulheres são mais
afetadas que os homens, e a maxila mais frequentemente envolvida que a
mandíbula. Normalmente o paciente pode localizar o dente exato, ou a região
exata tida como responsável pela dor.17 Entretanto em certas vezes é
particularmente difícil localizar o local exato da dor, por estar em um único ou em
múltiplos sítios.
A etiologia da OA já foi associada com alterações vasculares, alterações
neurovasculares e com fatores psicológicos. Entretanto ainda existem poucas
evidências que apoiem esses conceitos. As características clínicas dessa
condição dolorosa a colocam mais precisamente na categoria de dor pósdesaferentação, que é a interrupção periférica de uma via aferente por lesão
acidental ou deliberada.1, 17, 21
Estima-se que a OA ocorra em 3 a 6% dos pacientes que se submetem à
tratamento endodôntico. Tratamentos odontológicos podem provocar danos às
fibras nervosas, o que levaria à interrupção dos impulsos nervosos aferentes
periféricos.12,
19, 22
O déficit sensorial por privação de impulsos aferentes é um
processo conhecido como desaferentação. A hipótese é de que traumas nas
estruturas orofaciais (injúria traumática, cirurgia periodontal, extirpação da polpa,
terapia endodôntica, apicectomia, extração dentária) ou até mesmo o menor
trauma (preparos cavitários, bloqueio do nervo alveolar inferior) possa alterar a
continuidade dos tecidos criando uma desaferentação, e desencadear este tipo
de dor persistente.12, 23-26
Este processo é expresso clinicamente por alterações somatossensoriais de
alodinia, hiperalgesia no local da dor e exacerbação da dor por fatores térmicos,
mecânicos e/ou químicos.9, 16
Para avaliar a presença dessas alterações em pacientes com dor
neuropática, os Testes Sensoriais Quantitativos (Quantitative Sensory testing - QSTs)
são ferramentas apropriadas, que constituem uma sequência de vários subtestes
que avaliam, de forma completa, o sistema condutor de estímulos nervosos,
buscando detectar alterações em fibras responsáveis pela condução de
estímulos de tato, por exemplo, ou de fibras condutoras de dor à estímulos
variados, sejam eles térmicos, químicos e/ou mecânicos.3, 27 Portanto, os estudos
descrevem que os TSQ podem auxiliar ao diagnóstico de várias condições
dolorosas, principalmente (mas não somente) neuropáticas.
O QST envolve testes mecânicos estáticos ou dinâmicos, testes térmicos, testes
elétricos e téstes químicos. Os testes mecânicos estáticos analisam limiares de
detecção à um estímulo inócuo e/ou nocivos; os testes mecânicos dinâmicos
analizam fenômenos sensoriais como alodinia e somação temporal. Já os testes
térmicos analisam limiares de detecção à um estímulo térmico inócuo e/ou
nocivo, seja ele gelado, morno ou quente.11,
28
Os QSTs foram originalmente
criados para pesquisa, mas estudiosos estão em busca de um consenso para uso
clínico. Atualmente, podemos realizar alguns QSTs clínicos com auxílio de
instrumentos específicos (cotonete, rolete de algodão, clipes e sonda milimetrada
são alguns exemplos) Os QSTs são ferramentas fantásticas que estão cada vez
mais sendo citadas, devido também ao seu uso para acompanhar a evolução e
melhora do paciente, através de um mapeamento sensorial.
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