tierra del fuego, chile

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tierra del fuego, chile
CAPA
Inocuo
>
Ricardo Galésio
>
Ana Elisa
Ângelo Fernandes
Christian Demarco
Clara Tehrani
Cláudio Parentela
Constança Carvalho Homem
Hugo Mortágua
João Pedro Rato
Pedro Palrão
Pedro Rio
Sara Toscano
Sónia Bettencourt
Teresa Cortez
Vanessa Teodoro
Wilson Neto
ONZE
11ELEVEN NOVEMBRO2007
Hoje é novembro. As coisas novas vêm sempre em novembro. Somos agora mais,
fazemos por ser melhores. Acrescidos. Temos outros. Originais. Caixas grandes
por abrir, segredos para contar a toda a gente. Falamos alto nas tascas e comemos
tremoços de boca aberta. Enchemos as goelas para dizer asneiras e não lavamos
o surro debaixo das unhas. Somos porcos. O cheiro é intenso e todos reparam.
Fazemos bolinhas com os macacos do vosso nariz e atiramos às montras das
lojas finas. Saímos do risco e cortamos a direito. Curvamos as costas, olhamos de
esguelha e pensamos em nada. No entanto, há quem goste. Ainda bem.
SÃO
LUIZ
NOV
O7
SONATA DE
OUTONO
INGMAR
BERGMAN
2 A 25 NOV
QUA A SÁB ÀS 21H
DOM ÀS 17H3O
INTERPRETAÇÃO
FERNANDA LAPA
ANA BUSTORFF
VIRGÍLIO CASTELO
MARTA LAPA
ENCENAÇÃO
FERNANDA LAPA
CUCHA CARVALHEIRO
CENOGRAFIA E FIGURINOS
GET OUT
LAUREAR A PEVIDE
LISBOA PORTO ISTAMBUL SANTIAGO AMESTERDÃO
ANTÓNIO LAGARTO
UMA CO-PRODUÇÃO
SLTM – ESCOLA DE MULHERES
/OFICINA DE TEATRO
SESSÃO COM INTERPRETAÇÃO
EM LÍNGUA GESTAL PORTUGUESA:
18 NOV, DOMINGO, ÀS 17H30
LISBOA.EXPOSIÇÃO
ARTE E CULTURA DO IMPÉRIO RUSSO NAS COLECÇÕES DO HERMITAGE
De Pedro, o Grande, a Nicolau II
Palácio da Ajuda
Até 17 de Fevereiro de 2008
LISBOA.CONCERTO
BORDELL
Beat Laden, Silvio Rosado, Luis Simões, Abdul, VJ Alatak e Rui Pregal da Cunha
Fábrica de Braço de Prata
15 de Novembro de 2007, 22h00
LISBOA.EXPOSIÇÃO
ESPONJA #02 - NELSON ARAÚJO
Grémio Lisbonense
De 7 de Novembro a 7 de Dezembro de 2007
PORTO.EXPOSIÇÃO
LOMOFÉRIAS ‘O7
Centro Português de Fotografia
Abertura a 16 de Novembro de 2007
WWW.TEATROSAOLUIZ.EGEAC.PT
SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL
EGEAC, EM
WWW.EGEAC.PT
RUA ANTÓNIO
MARIA CARDOSO, 38
1200-027 LISBOA
BILHETEIRA T: 213 257 650 TODOS OS DIAS DAS 13H00 ÀS 20H00
WWW.TICKETLINE.PT, LOJAS FNAC, AGÊNCIA ALVALADE
€5
PARA
MENORES
DE 30 ANOS
ISTAMBUL.EXPOSIÇÃO
TIME PRESENT TIME PAST
Highlights from 20 years of The International Istanbul Biennale
Istanbul Modern
Até 2 de Dezembro de 2007
A ESCOLA DE MULHERES – OFICINA DE TEATRO É UMA ESTRUTURA
FINANCIADA PELO MINISTÉRIO DA CULTURA / DIRECÇÃO GERAL DAS ARTES
M/16
SANTIAGO.CONCERTO
BJORK
San Carlos de Apoquindo Stadium
10 de Novembro de 2007
AMESTERDÃO.CONCERTO
MARIZA
Muziekgebouw aan het IJ
18 de Novembro de 2007, 20h30
MODALISBOA
ESTORIL
PRIMAVERA VERÃO ‘08
JOÃO PEDRO RATO
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fin.
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- Acho justo que, não tendo sido consultada acerca do meu nascimento, tenha ao menos o direito
de decidir quando e como quero morrer…
Ficámos em silêncio. Ambos a pensar na lógica da afirmação. O chá estava quente demais. Aliás,
a sala estava quente demais… Até no verão lhe conhecia o ambiente sombrio e abafado, lareira
acesa e persianas corridas. O sol só entrava em linhas. Dei um golo a medo. Ao menos estava
delicioso!
- Bem, parece-me justo, de facto!
Alguma coisa rangeu quando se levantou. A cadeira ou os ossos. Talvez ambos. Era impossível
dizer o que existiu primeiro, a casa ou o dono.
- Já volto… Fica à vontade mas não mexas em nada!
Como sempre se resto. Efectivamente, o ar sombrio, o silêncio colado às paredes e aos móveis,
os artefactos cobertos de pó e as velas aromáticas davam à casa uma sensação de santuário.
Acolhedor e confortável mas sério e intimidante.
Merda, o chá estava definitivamente quente demais. Acendi o cachimbo. O fumo massajou-me os
pulmões. Logo apareceu o Zorbas, o gato cinzento, olhos caramelo, sempre afável e gorducho.
O dono remexia a despensa ruidosamente. Habituado ao aconchego do silêncio doce, o barulho
pertubou-lhe o sono e inquietou o pacífico Zorbas. Sentou-se na poltrona ao lado da lareira
a aquecer a alma. Para se acalmar, lambeu uma pata, depois o lombo e desceu até à cauda
felpuda. Dei-lhe uma festinha na cabeça. Como que assegurado que a casa continuava segura
apesar da estranheza do barulho, o Zorbas deitou-se e retomou a sua actividade laboral. Livreime dos agasalhos e sentei-me no chão a seu lado a olhar para o lume.
- Esta é a tua viagem. Ninguém te pode acompanhar. Pensa bem… Não há retorno!
Estendeu-me uma chávena. Bebi-a até ao fim, de um só golo, sem respirar, sem pensar. Nada
aconteceu. Levou-me à porta e despediu-se de mim com um abraço. Inesperadamente. Um
abraço de adeus, boa viagem!
Na rua o Sol estava forte demais. Não tinha óculos de sol… é Inverno porra!
Fui para casa. Estava tudo na mesma mas em breve faltaria lá eu. Estranhamente, era uma
sensação reconfortante. Viajaria e não ia voltar. Cachimbei junto à janela a olhar o movimento
na rua.
Dormi traquilamente. Muito mais tranquilamente…
O dia estava fantástico e a água um espelho transparente. Iria ser fascinante atravessá-lo para
o outro lado.
O choque com a frieza da água lembrou-me o choque com a frieza do mundo quando se nasce.
Lá longe, a margem. Inspirei pela última vez. Cheirava a mar e a sal. Mergulhei.
Enchi as minhas recém formadas guelras de água… funcionou! Tinha apenas umas escassas
horas de vida no meu mundo novo. Inspirei novamente, longamente, saboreando. Fui cada vez
mais fundo, não havia limites agora.
Estou rodeada de peixes multicolor, arco-íris da água olham para mim curiosos, tão apaixonados
como eu.
- Afinal não vou fazer esta viagem sozinha…
CLARA TEHRANI
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CLAUDIO PARENTELA
THE POWER OF COLOR
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ZPAIPGN
ZAPPING
ÂNGELO FERNANDES
#
Tudo começa por uma razão específica, algo que enceta todo um processo de
mutação. Para cada indivíduo há o seu catalizador, a sua razão para perfilhar
um novo percurso – nem sempre o mais desejável. Ainda assim, apesar dos
contratempos que se pode encontrar é necessário percorrer tal caminho para haver
mudança. O meu aconteceu hoje quando cheguei a casa após um dia relativamente
produtivo e pouco cansativo. Em suma um bom dia de trabalho. Como hábito,
mesmo antes de abrir a porta, já o cão ladrava e saltava freneticamente enquanto
me aguardava ansioso. Abri a porta, entrei e dediquei-me a fazer-lhe a vontade até
se acalmar minimamente. Segui até ao quarto de banho, lavei as mãos e dirigi-me
até à sala onde se encontrava Marta, via um dos programas de final de tarde onde
reestruturam uma casa completa em apenas dois dias. Olhou rapidamente para
mim, sorriu feliz, apesar de um sorriso profundamente maquinal e, como sempre,
perguntou-me:
- Como te correu o dia?
- Bem – retorqui automaticamente, fiz uma pequena pausa e continuei – Correume bastante bem.
Sentei-me ao seu lado, na televisão desvendavam o antes e depois da casa em
questão. A cozinha tinha adquirido mais espaço, era notório, contudo esteticamente
era um pesadelo com as paredes pintadas de cores vivas e diferentes. Um circo
culinário.
Marta colocou a sua mão em cima da minha. Já há muito tempo que o seu toque
não provoca em mim qualquer tipo de sensação; nenhum formigueiro ou até a
sensação quente quando duas mãos se tocam. Nada. Indiferença total.
Lentamente retirei a minha mão debaixo da sua. Marta não reparou sequer, ou se
notou não reagiu. Estava hipnotizada com a reacção da feliz dona de casa cuja sala
estava irreconhecível. Entre um dos seus gritos de felicidade histérica virei-me
para Marta e disse-lhe:
- Quero o divórcio.
À nossa frente a dona de casa saltava e batia palmas ao ver o jacuzi que tinha sido
instalado no seu quarto de banho. Naquele momento estava realmente feliz.
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ARRIEROS
EN RUSSFIN
TIERRA DEL FUEGO, CHILE
CHRISTIAN DEMARCO
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Los arrieros de tierra del fuego habitan una de las regiones más remotas del
planeta. Una vasta isla que se extiende desde el Estrecho de Magallanes, frente a
Punta Arenas, hasta la provincia de la Antártica chilena. En la sección Russfin (a
180 kms. de Porvenir, capital de Tierra del Fuego) el día de estos pastores y sus
perros transcurre lento, solitario y nostálgico. Unos recordando siempre los años
de bonanza. otros, los más jóvenes, extrañando su familia o su tierra natal, ambas
abandonadas hace tiempo, para venir aquí a trabajar por un sueldo mínimo.
Con diferentes tareas cada día y sin horarios, los arrieros llegan siempre a tiempo
al galpón que sirve de cocina–comedor en donde se reúnen para comer el plato
único a lo largo de toda la tierra del fuego : el cordero.
Estos hombres (en Russfin vive sólo una mujer), comparten pequeñas casas sin
luz eléctrica ni muebles, solamente un par de sillas hechas de troncos en donde
todas las noches se sientan a compartir amargos mates y cigarrillos traídos de la
frontera argentina, encendiéndolos en una vela que ya se apaga, indicándoles que
es el último pucho antes de ir a dormir.
The “arrieros”* of Tierra del Fuego live in one of the most remotes regions of the
planet. A vast island that begins in the Magallanes strait, in front of the Punta
Arenas city, and ends in the antartic chilean province. In Russfin (180 kms from
“Porvenir”, the main city of Tierra del Fuego), the day of this shepherds goes slowly.
Always nostalgic about the family and the land of their birth, long time abandoned,
to come here and work for a minimun wage.
With different tasks every day and with no schedule, they always arrive on time at
the dinning–kitchen room to eat the principal plate along all Tierra del Fuego: the
lamb. This men (in Russfin lives no women) share a little houses with no electric
light, and no furniture, just a few chairs made with trunks. There, with light candles,
they smokes longs cigarettes (brought from the argentinian border) and drinks
bitters “mates” (a tipical herbal drink) before to sleep.
*arrieros : a kind of shepherds
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o silêncio pesado é a minha única poesia. Porém, o que deveria ser contentamento
tomou o meu corpo em solidão, desejos confusos, desânimo e um pensamento
medíocre que se lamentava egoísta: sentia-me melhor se soubesse que ficavas
bem. E não hesitei em colocar questões para te saber o rumo, a febre e o destino.
“Não me perguntes para onde
vou!”, exclamaste no dissoluto da despedida. Sim, concordo, é demasiado estranho
abandonar uma pessoa e não querer deixá-la sozinha.
Sem intenção me deixei cair numa perplexidade, para não falar no enorme ridículo
e na fúria que despertei em ti. Não havia sentido naquilo tudo, mas cansei-me de
esperar de mim uma vitória ou uma derrota decisiva, porque te amo, as coisas
nunca serão simples e redondas. Fica a loucura, se é que se pode ir tão longe.
Mas não é uma questão de distância apenas. É um acumular de ameaças, uma
Finalmente, acalmei-me um pouco e conformei-me da tua partida. Da tua ausência.
Mais difícil do que saber-te longe, é não saber de ti. E com quem poderás estar. O
ciúme é uma serpente feroz que não se pode entender: uma vez que nos morde o
pensamento deixa de nos considerar.
Todos os dias quando chego a casa finjo não perceber que ali já não moras – é
como uma birra masoquista que me leva a espreitar quarto a quarto, abrir porta
a porta, subir e descer andares, percorrer corredores, deter-me em cada esquina
equivocada pelo teu vulto ou pela tua voz. Por qualquer razão ou circunstância, que
não alcanço, quando percebi que estavas longe, estavas mesmo longe. Então ali
fiquei, outra vez e como sempre, sozinha entre quatro paredes, numa casa imensa
repleta de janelas e portas de vidro, a imaginar o quão distante aquilo significava.
Sempre pensei que tinha tempo. Tempo para ter todo o tempo. Tempo para ti.
Porque no fundo, no âmago, onde agora salta em mim um qualquer bicho estranho
de face horrenda, o qual não consigo agarrar, julgamo-nos imortais. A verdade é
que sempre nos sentimos atraídos para o alto, para o reino das alturas. Quem não
quer libertar-se, para além das suas cadeias e das suas dádivas, da sua vida? Mas
então, o que é que nós queremos nas alturas, se quando chegamos lá em cima,
sempre nos encontramos sozinhos?
Deixei-te apesar de gostar de ti. Deixei-te porque não compreendias o quanto o
mundo é dominado pelo mal, o que se torna um mal maior; o quanto o homem
quer fazer sofrer o que o faz sofrer. Deixei-te porque queria desaparecer diante
de mim mesma; porque as tuas virtudes ainda me contrariavam mais do que os
teus defeitos e as tuas falsidades. Deixei-te porque não compreendias a loucura
de querer abrir caminho para fora do mundo; porque na vida tudo muda num breve
instante gerando contradições. Deixei-te porque éramos dois.
Mais uma palavra seria ver-te chorar, no momento em que te mandei abandonar a
casa, diluída e mínima, agora que não te vejo dormir, que sinto já o vazio da cama e
SÓNIA BETTENCOURT
desistência mais aflitiva de tudo o que nos acontece e nos pode acontecer. O
homem, esse sonhador definitivo, disse André Breton, cada dia mais desgostoso
com o seu destino. Porque leva várias vidas ao mesmo tempo e só o que o exalta é
a liberdade – a sua única aspiração.
Cheguei a casa, e por incrível que pareça, não consegui encontrar o caminho para
o quarto de cama, para a sala de estar, ou para a cozinha. Muitas portas e janelas
à minha volta; móveis, mesas, cadeiras e sofás; quadros, fotografias, peças de
madeiras e de vidro, como se passassem por mim a correr, como se andassem
ao meu redor perdidas e apressadas. Senti-me insegura, quase histérica a
tentar andar pela casa dentro, as paredes desmoronavam-se e todos os objectos
empurravam-me porque queriam passar e eu estava no meio do seu caminho.
Fecho os olhos. E penso: vou te encontrar.
Naquele momento não houve lágrimas. Estava tudo distante de me alcançar, tudo
distante de entrar dentro do tempo e de me tornar parte do irreal presente – voar
e não temer a queda – enquanto caminhava à tua procura.
Lentamente fui me concentrando na minha respiração, nas linhas concretas dos
objectos domésticos, na luz pálida do fim do dia e fiquei estática, ainda sonolenta,
convencida que me esperavas algures, numa divisória qualquer.
Permaneci naquela posição, minha aventura de ser o caos e o labirinto, naquela
casa que abriga o nada, porque ali estarei infinitamente só na tua companhia.
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WILSON, UM AMIGO DE PASSAGEM
OU UM QUADRO CHAMADO MOSAIQUE
Passou por Lisboa. Fugaz, tal como quando poisa na minha caixa de emails,
breve como um pássaro mas sempre cheio de beleza. Falamos sempre com uma
distância de estações, entre as nossas migrações e o tempo que passa. Já me
passou, à despedida, a mão pelos ombros como passou comigo a fronteira entre
cidades, quando eu passei pelo Brasil.
Os seus quadros aterraram em Lisboa, no meu quarto, onde passaram de bocaem-boca, por aqueles que por lá passaram.. Passaram comigo para a Grécia,
quando eu me passei, já lá vai.. Passam agora (que coloridos!) na minha sala de
Amsterdao - uma passa desse cigarro - não passam despercibidos.
Gémeos anoitecidos, cor do fundo do mar. São costuras do mesmo tecido, irmãos
sob o mesmo luar. Tanto Portugal e Quanto Brasil. São distâncias de ondas mil,
extenso oceano febril, sem paragens nem terminal: eu aqui... e lá o meu amigo.
Gémeos anoitecidos, os cabelos arrancados nevam ao fundo, como ondas que só
o mediterrâneo não tem. Salva-os as bochechas de lua, esse sorriso que flutua,
esse azul de ninguem.
Apanhamos um papagaio de papel, é a fralda da bandeira do japão e aterramos em
Liberdade, um S. Paulo amarelo, o olho amendoado, a saudade. Bebemos juntos
um cocktail de raças, a rir. Passa ao lado o rafeiro, vestido de jardim, para infrentar
o inverno de sol hibernado...enfim!
As 4 bacantes - de dionísio amantes - uivam ao deus, que as abençoa de vinho
tinto, cântigos de ginjinhas, mulheres vindimadas que amadurecem antes de
serem brindadas.
No fim desse mosaico somos tu e eu, e um remoto projecto aborígene
SARA TOSCANO
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WILSON NETO
Há projectos
que se
inventam
e outros
que surgem
imbuídos de
urgência e
vitalidade.
www.pauloribeiro.com
SMALL THOUGHTS
BIG
NATURE
TERESA CORTEZ
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PEDRO PALRÃO
VIAGEM
DE COMBOIO
(BEIRUT)
Empacotei as malas porque o comboio estava já à minha espera, encostado ao
apeadeiro cinzento de cimento. A estação era simples, mas eu também não fazia
questão de uma grande decoração. Aliás, a rudeza de tudo o que lá se encontrava
atraía-me e fazia borbulhar um sorriso no canto da minha boca. Fiz questão de
emalar todas as coisas e todas as pessoas que me interessavam num malão
antigo, a fazer lembrar um armário (claro que fiz questão que todos ficassem
confortáveis, a viagem era grande). Arrastei-o com todas as minhas forças e tive
de pedir ajuda a um senhor para poder colocá-lo dentro do comboio. Sabia que o
comboio não se ia embora sem mim, mas eu não gosto de fazer esperar, e além
disso já estava à minha espera há demasiado tempo. Com o tamanho da mala que
levava acabei por ocupar uma cabina sozinho, e tive de eu entrar primeiro para que
a mala coubesse, para além de que eu fazia questão de ir à janela. Não ia perder
a oportunidade de ver o mais importante da viagem, e, afinal, os melhores lugares
são sempre à janela.
Antes de entrar, certifiquei-me de largar o que trazia nos bolsos e de limpar bem
as solas dos sapatos do que restava de memórias que deveriam passar a fronteira
do esquecimento para que pudessem desaparecer…ou, na eventualidade de tal
ser demasiado radical ou mesmo impossível, pelo menos tornarem-se grãos de
pó no areal das minhas memórias ou, pequenas ervas daninhas na floresta do
meu consciente, ou mesmo pequenos insectos no meio da fauna rica que povoava
a minha mente, ou…era melhor parar porque já estava à entrada do comboio há
demasiado tempo e sinceramente a expectativa da viagem roubava-me toda e
qualquer vontade de perder tempo em metáforas pomposas para explicar algo ao
qual eu queria retirar o privilégio da importância.
Ouvi o apitar do comboio em sintonia com o sangue a jorrar-me do coração…
quase como se sentisse o jacto a entrar nas veias e a bombear-me o corpo
todo…arrepiando-me todos os poros à medida que me percorria…Um sorriso tolo
latejava-me nos lábios, e fossem alvos os meus dentes brilhariam a acompanhar
o brilho que eu sentia nos meus olhos (que se marejavam um pouco até, mas
que eu tentava esconder), quase fechados das ganas do meu sorrir… Sentia-o em
toda a parte de mim…estava pronto! O comboio começou a andar aos poucos…
lentamente… lentamente… sentia por baixo dos meus pés o roçar dos carris, a
ferrugem que ouvia pela porta entreaberta (e que não me surpreendia dado o
tempo que eu fizera esperar esta jornada). Com os primeiros movimentos soaram
também os primeiros acordes da música que me acompanharia toda a viagem
(pudesse eu sorrir mais do que sorria…). Soltei um suspiro e não contive o impulso
de entoá-la em uníssono. As melodias que afluíam aos meus ouvidos fluíam por
mim despertando todas as sensações, espicaçando as emoções que me latejavam
por debaixo da pele.
Pela janela via florestas imensas, montes a pique, a correrem lá fora enquanto
eu ficava no meu lugar, quieto, esmagado pelo malão contra o vidro. Por entre a
paisagem que forrava o caminho comecei a distinguir um rol de memórias que se
materializava…comecei a distinguir as imagens que as compunham, as pessoas
e situações que eu escondia na recordação. Finalmente, a nostalgia começava a
fazer efeito e, como num filme, as imagens do passado sucediam-se como num
rolo de fita, começavam a mostrar-se sem pudores…afinal, estava incluído no preço
do bilhete, era algo que qualquer viajante esperaria…só os mais insensíveis tudo
isto deixariam passar despercebido. Via de tudo um pouco e aproveitei até para
comer umas pipocas, parecia que ajudavam a embrenhar-me no que, à partida,
mais ninguém estaria tão embrenhado quanto eu. Como batia o meu peito…como
sentia o pulsar no pescoço das veias que batiam com o coração…Rasgava sorrisos
espontâneos nos lábios cerrados da expectativa… fazia explodir gargalhadas que
irrompiam na garganta e me brotavam com a maior das sinceridades… vertia as
mais tristes e mais felizes lágrimas que alguma vez havia vertido, deixava-as
formar cursos de água nas minhas bochechas vermelhas do calor que começava a
sentir (apetecia-me bebê-las de volta para não as perder e poder chorá-las vezes
e vezes sem conta)… Abri a janela para deixar entrar um pouco de ar, que me
aclarasse o rubor do rosto…e o som do que me perpassava os olhos entrava às
golfadas grandes, ao que eu juntava o barulho das recordações.
De quando em quando olhava para o destino do comboio escrito a letras garrafais
no bilhete e disperso nas paredes da cabina (devia ter feito esperar esta viagem por
mesmo muito tempo) para que eu não me esquecesse… sacudia o rosto e soprava,
como que para disfarçar as lágrimas que corriam, e sorria… sorria por dentro, por
fora… gritava sorrisos em todas as direcções. Se um arrepio de receio, de medo
me corria na espinha, esbofeteava-me com vontade para me acordar…enchia o
peito de ar e expelia tudo o que pudesse manchar a força e a coragem que eu sabia
(tinha de acreditar) estar dentro de mim, pulsar-me a viva força e sempre ao meu
dispor.
Segui de viagem…e ainda sigo….aliás, escrevo estas linhas com o tremor da jornada,
com o coração cheio e as memórias bem guardadas para me acompanharem
em novas paragens…e, sempre que suspeitar da força da minha vontade terei
as memórias desta viagem para dissolver as dúvidas que possam aparecer em
surdina…E, por agora, aqui continuo, olhando, bebendo a paisagem que paira lá
fora, relembrando o que se mostra aos meus olhos…sigo a viagem que demorei
tempo demais a encetar… vou no comboio que deixei tempo demais à espera…
* Inspirado e escrito ao som da música da banda Beirut
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“Nike celebra sus 35 años de historia con una innovadora exposición que une
deporte, arte y cultura. La Sala Vinçon de Paseo de Gracia (BARCELONA) acoge
una exposición de 9 de los mejores artistas gráficos y estudios de diseño de la
generación de los 70: Actop, Toormix, Silvia Prada, Inocuo, Vasava, Area 3, Catalina
Estrada, Diva y Bernat Lliteras, fotografiados por Javier Tles. De esta espontánea
unión entre deporte, cultura y arte salen nueve trabajos que sorprenden por su
frescura y espontaneidad de unos jóvenes que han crecido, vestido e incluso
customizado algunos de estos productos originales de Nike hasta convertirlos en
iconos de toda una generación. La exposición es a su vez un recorrido histórico
por los anales de la historia de Nike, cultural porque asocia los productos con
lugares imborrables de Barcelona y, generacional, porque los 9 artistas que en ella
colaboran son coetáneos de la generación del 70 con la marca.”
>
Escolhemos 4 trabalhos para publicar: VASAVA, INOCUO, AREA 3 E BERNAT
LLITERAS (por ordem de paginação).
Fotografias de JAVIER TLES
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55
57
59
VANESSA TEODORO
SCREAM
DOLLS
BLUE BIRD
NEVER
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Tu és
No espaço que ocupas
Com o teu corpo e o teu sentir.
Tu és
No tempo que acolhe a vida
Que tiveste, tens e terás.
Tu és!
E sem barreiras
Fazes o que fazes na certeza
Do que sentes ser a tua medida.
Nem mais… nem menos,
Cedo ou tarde pouco importa;
Tanto para os pássaros
Que voam alto lá no céu azul,
Como para nós…
Que aguardamos aqui em baixo
Por ti e pelo que crês ser.
Tudo pode acontecer
Sem que tenhas que forçar a tua vontade.
Apenas és.
Afinal de contas...
O mundo é teu...
Tu não te adaptas...
A vida adapta-se a ti
E tu sentes-te bem assim.
CANTIGA
DO BANDIDO
És livre e transbordas grandiosidade,
E enches o coração do povo
Com todos os grandes sentimentos
Que fizeram grandes os homens.
Nada te faz sentir menos que isto:
Tudo parecer acontecer
Para o teu sorriso nascer.
Porquê?
Porque tu és.
HUGO MORTÁGUA
65
QUANDO A.
MORRER
FOTOS DE PEDRO RIO E TEXTO DE CONSTANÇA CARVALHO HOMEM
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Quando A. morrer, é certo, ninguém há-de enviar cartões com tarja preta. A
notícia há-de correr lesta às primeiras horas da manhã, ao abrir das persianas,
quando for notada a sua ausência no circuito habitual. Há-de sentir-se primeiro a
estupefacção própria destas coisas; só depois, o aflorar da água.
Quando A. morrer, é certo, há-de vir de longe uma irmã velar-lhe o corpo. Trará,
para lhe pousar ao ouvido, uma cantiga de roda. Há-de chorar-se um atlântico
entre o lado de lá e o de cá, ainda que nenhum mar a devolva. Há-de encontrar-se
o melhor vestido para a circunstância, ainda que nenhum pareça estar à altura.
Quando A. morrer, é certo, a procissão há-de descer a alameda de Agramonte.
Terra à terra, cinzas às cinzas, flores às flores, como um refrão de todos conhecido.
Há-de passar-se o dia à tona de um soluço. Há-de pedir-se à noite permissão para
adormecer.
Mas quando A. morrer, é certo, ainda antes que passe muito tempo, há-de venderse a casa e partilhar-se o recheio útil.
71
73
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Porque sempre gostei de ler. Os livros são objectos de arte. Escolhi mesmo esta
profissão porque gostava de ler e de estar perto dos livros. Quando era mais nova
lia imenso, livros emprestados, livros dos meus pais…até dos meus avós. Havia
na altura uma carrinha, aliás aquilo chamava-se um biblioteca ambulante, levava
livros aos bairros uma vez por semana e eu lembro-me de ter lido quase todos
os livros que existiam lá. Lembro-me que o senhor João me aconselhava…quase
sempre aventuras.
Sim, sou há uns anos. Desde os 24 ou 25 anos. Adoro. Gosto mesmo. Trabalhei
alguns anos em Faculdades e não gosto tanto, porque as pessoas aí viram-se mais
para os livros técnicos. Eu gosto de estar aqui porque posso aconselhar, porque há
pessoas que vêm buscar livros que não encontram à venda, há leitores assíduos
com quem se pode falar sobre os livros. Claro que há sempre quem venha aos
livros técnicos, ou buscar livros mais antigos e que só existem aqui, esta é uma
granda biblioteca, temos mesmo muita coisa arquivada, mas muitas pessoas vêm
buscar livros comuns. Comuns…ah, não são comuns, mas que não são livros de
estudo.
Os miúdos mais novos não têm gosto pela leitura, os poucos que cá aparecem
gostam só de livros de aventuras, ficção científica, terror. Não tem mal nenhum,
mas são poucos os jovens. Pelos vintes sim, há muita gente. Ohh, tratar mal os
livros?? Muita gente. Livros sublinhados, com anotações, livros que ficam mal
colados porque os fotocopiaram, livros rasgados, com manchas…amachucados, é
muito comum. Eu fico mesmo chateada nessas alturas. Pessoas que não entregam
livros…temos várias. Mas também não é assim um problema tão grande. Qualquer
problema pode ser tratado com calma.
Sei onde estão quase todos os livros. Quase todos. É normal, é a minha casa. Sei
os mais antigos, os mais recentes, os que estão requisitados. Mas isso é normal,
porque eu gosto mesmo disto.
Tenho uma grande biblioteca em casa, com os clássicos todos, e com muitos livros
recentes. Acho que se está a começar a ler outra vez, com os jornais gratis e os
grandes sucessos agora. Mas há muitos livros que me fazem confusão…histórias
demasiado comuns, e muita coisa mal escrita, sem conteúdo nenhum. Acho que
se está a ler mais, sim. Mas acho que se está a ler pior. A qualidade tem vindo a
diminuir. Hoje em dia toda a gente escreve, e a escrita é uma arte, por isso nem
tudo o que aparece é bom. Acredito mesmo que às vezes se perdeu tempo com
aquele livro. Mas pronto.
Histórias peculiares?? Claro que tenho. Recados nos livros, pessoas que
desenvolvem teorias DaVinci e Dante e que procuram mensagens nos livros mais
antigos. Há histórias muito engraçadas. E há alguns leitores fixos que só lêem
aquilo que eu indico. É bom porque se tornaram ao longo dos anos pessoas intimas,
com quem estabeleci uma amizade.
Diga-me você…acha que sou sexy? Isso é o cliché da mulher com aspecto
profissional, mas que depois consegue tranformar-se…
Lisboa, lisboa é uma cidade maravilhosa. Já viu este tempo? Este tempo faz a
diferença. É uma cidade lindíssima. Culturalmente pouco desenvolvida, eu ainda
acho. Mas muito bonita, claro.
Qualquer livro do Eça, “O Idiota”, Isabel Allende, “Don Quixote de la Mancha”…são
tantos. Um livro para Lisboa…hum… “O estrangeiro” de Camus, sem dúvida.
ANA ELISA
B.I.
Madalena
43 anos
Bibliotecária
77

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