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Mical: o drama de uma princesa.
1- A idade dos sonhos
2- Laçada por belos olhos
3- Um moço de boa família
4- Alguém com muitos dotes
5- Motivações veladas: edificando sobre a areia
6- A desilusão por falsas promessas
7- O pior dos sentimentos: o desprezo
8 - O Adultério real e o virtual
9 - Falsas reconciliações
10- Viúvas de maridos vivos
11- Leito de viçosas folhas
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Mical: o drama de uma princesa.
S
into-me profundamente constrangido ao tratar este assunto, com a
honestidade que ele realmente merece ser tratado, em face da gravidade
e contundência que ele apresenta, mas também desafiado e feliz pela
expectativa de que o seu conteúdo abençoe muitas vidas, libertando-as dos
cativeiros relacionais, emocionais e circunstanciais, impostos pela cultura
vigente e suas regras sociais. Solidarizo-me com as milhares e milhares
“filhas de Saul” espalhadas por esse mundão, casadas e solitárias, amantes e
desprezadas, fiéis e não correspondidas. A história de vida conjugal de Mical
é símbolo avesso do amor, face sombria de uma realidade brilhante e lúdica,
que se fundamenta na própria relação de Cristo com a sua igreja. Ou seja,
uma intrínseca relação de entrega, parceria e cumplicidade, em que ambos se
dão com o propósito de uma santificação mútua, de alimento e cuidado,
idealizada pelo Criador; o verdadeiro sorver da experiência de serem uma só
carne. Tudo o que foi imaginado e eternamente estabelecido por Deus para
uma relação a dois, prazerosa e feliz, foi violentamente torcido no caso dessa
jovem princesa e seu jovem companheiro. Seu mundo, seus sonhos e seus
anelos ruíram, viraram cinzas aos seus pés. As cores vivas e alegres da
primavera da sua vida tornaram-se cinza e bege; as melodias em tons maiores
que envolviam a sua alma modularam para notas longas e tristes. Luto em
vez de riso, solidão em vez de festa, melancolia em vez de dança. Nem
mesmo o brilho do palácio e as regalias de filha do rei lhe renderam espaço
para a poesia e o sonho, antes um cotidiano lúgubre e sem esperança a
envolveu como um manto, fazendo-a enfermar no espírito. Uma história que
se anunciava repleta de belos capítulos, veio a ser um conto trágico para
memorial de futuras gerações; um exemplo a não ser seguido nem desejado.
Os milênios se passaram, séculos, décadas se acumularam e a história de
Mical é cada vez mais atual; parece o último romance dramático de uma série
recém-lançada; retrata em cores vivas o dia a dia de milhares de mulheres
sonhadoras e infelizes, frutos de relacionamentos doentios, precipitados e
mal-arranjados. Muitas dessas mulheres dariam a própria vida por uma nova
oportunidade de recomeço em que tudo fosse diferente. Nem sempre é
possível. Como contador de histórias que sou, aliando o conhecimento
bíblico, a capacidade analítica que Deus me deu e a experiência de longas
horas de aconselhamento pastoral na área de relações familiares, ao longo de
muitos anos, quero esmiuçar e deslindar as vidas de Mical e Davi, lançando
luz sobre textos pouco explorados e detalhes que quase sempre passam
despercebidos aos olhos de leitores apressados ou dos que nada podem ver
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pelas lágrimas do desespero. Não é bastante que se identifique através da
análise um problema, um grande desafio ou uma situação embaraçosa e
prejudicial, mas é mister que sejam apresentadas diretrizes e idéias que
venham devolver o sonho e a perspectiva de mudanças efetivas, significativas
e duradouras. Ao final da leitura deste livro você certamente estará
consciente das grandes verdades relativas ao que Deus pensou e estabeleceu
com respeito ao casamento e diante de grandes e novos desafios que darão
outro impulso à sua vida e ao seu relacionamento afetivo, ainda que seja
aprendendo com os erros dos outros. Não pretendo, com isso e através da
experiência de Mical, macular a imagem daquele que é conhecido nas páginas
da Bíblia Sagrada como o homem segundo o coração de Deus, mas apenas
resgatar, por serem verdadeiras, lições preciosas dos desgovernos e desatinos
de um jovem impulsivo, com relação à mulher da sua mocidade, por se
tratarem de princípios que, atendidos, servirão para ajuste e bênção do seu
casamento e do meu. Mantenha a sua mente aberta, também o seu coração, e
deixe-se ministrar por verdades eternas.
Rev. Itamar S. Bezerra.
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1 – A idade dos sonhos.
“Desci ao jardim das nogueiras, para mirar os renovos do vale, para ver
se brotavam as vides, se floresciam as romeiras. Não sei como, imagineime no carro do meu nobre povo!”. Ct. 6:11, 12.
Q
uinze, dezoito, vinte anos, não sabemos, o texto não nos informa qual
a idade exata de Mical ao ser dada por mulher a Davi. O certo é que
ela era a filha mais nova do rei Saul e habitava em Gibeá, ao lado da
sua mãe Ainoã, dos seus três irmãos Jônatas, Isvi e Malquisua, e da sua irmã
Merabe. No entanto, o perfil psicológico traçado a partir de suas falas verbais
e não verbais, o contexto imediato e vislumbres de textos remotos nos levam
a inferências obvias de que a mesma era ainda muito jovem e, como tal, assaz
sonhadora. A pacata e bela Gibeá dos dias iniciais do reinado de Saul serviu
de ambiente e cenário de toda a sua formação emocional, intelectual e
espiritual. Esta cidade estava situada a apenas seis quilômetros de Jerusalém,
bem próxima de Ramá, também conhecida como Gibeá de Benjamim.
Circundando a cidade sem muros, imponentes Carvalhos e elegantes
Terebintos cerrados saudavam os seus visitantes que, de cansados, buscavam
o frescor de sua sombra. Do sopé do monte Sião, ao norte do monte das
oliveiras, onde ficava a sua residência, da janela do seu quarto, Mical podia
olhar prolongadamente a pródiga paisagem que se descortinava diante da sua
casa: uma bela e insinuante pintura: ao fundo podiam-se ver as formações
montanhosas em verde sumo alternando picos e planuras, emolduradas por
dançantes palmeiras; do lado ocidental de quem olhava da varanda, uma bela
e fértil planície regada por vinte e cinco fontes que desciam das montanhas
misturavam todas as cores e fragrâncias dos seus vinhedos e olivais. Sob o
céu azul profundo as cores fulgiam com extraordinária riqueza: o vermelho
da terra dos vinhedos, o verde delicado das hortas, o ouro pálido da cevada
madura e o amarelo-tostado do deserto; e sob o sol todas essas cores
contrastantes se fundiam num só brilho quente, e na sombra nos tons violeta
do bronze. E para realçar ainda mais a harmonia, aqui e ali grupos de
ciprestes escuros se integravam à paisagem; ou, de repente, a superfície
trêmula dos olivais ressaltava em azul fosco. Nas passarelas, campos e
jardins, esplêndidas e variadas flores davam contornos mágicos à cidade,
como uma tela nas mãos de habilidoso artista. Os aclamados e delicados
Lírios do campo contracenavam com jasmins, felpudas tulipas róseas,
amarelas e carmesins e soberbas anêmonas vermelhas, numa esplendorosa
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aquarela acariciada por suave vento recém-chegado das montanhas. Ao fim
das tardes de primavera, tornava-se quase impossível resistir a uma olhadela
quando a convergência dos ventos oriental e ocidental se fazia sentir nesses
vales floridos promovendo um balé sutil num mar de pétalas, misturando os
seus aromas, perfumando o ar e atraindo as muitas espécies de aves canoras
dos arvoredos em redor. Acrescente-se a isso o banho dourado dos últimos
raios do sol poente por detrás dos montes de Sião, no refrescar do dia. Um
colírio aos olhos, até o próximo e longo verão, quando as multicores se
resumem ao amarelo-tostado da poeira trazida pelos ventos e acumulada em
seus quintais e o cinza pálido dos ramos desnudos. Uma cidade também
marcada por contrastes e contradições ao longo da sua história. A
simplicidade do seu povo e o zanzar lerdo da cidade não condiziam com o
status de capital do império, já que foi ali que Saul fixou as bases do seu
reinado. Da mesma sorte, a bela paisagem e o sossego do lugar nem de longe
dariam a idéia do drama vivido por seus antepassados, quando a cidade foi
varrida por uma onda de fúria e vingança e os seus moradores foram
dizimados. O chão que agora fazia brotar verdor e viço já fora encharcado
com o sangue dos seus filhos. Conta-nos a Escritura Sagrada que um certo
levita e sua concubina, peregrinando pelas terras de Judá e em declinando o
dia, chegaram a Gibeá e não achando quem os acolhesse para pernoitarem,
assentaram-se na praça da cidade. Vindo do campo um certo homem velho,
os acolheu em sua casa. Enquanto eles comiam, bebiam e se alegravam,
saíram os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, batendo à
porta e pedindo que trouxessem para fora o homem que ali havia entrado,
para que abusassem dele. O senhor daquela casa rogou que não fizessem tal
loucura e ofereceu a sua filha virgem ou a concubina. Tomaram, pois, a
mulher do viajante e dela abusaram toda a noite até pela manhã, e ela veio a
falecer. O seu marido, levando-a para casa, despedaçou-a em doze partes e
espalhou os pedaços por entre as tribos de Israel. Houve grande revolta, e
assim os filhos de Israel se ajuntaram como um só homem para vingar o
ultraje feito ao levita. Os homens que praticaram tal crueldade eram todos da
tribo de Benjamim e habitavam Gibeá. Depois de grandes pelejas e
muitíssimas mortes de ambos os lados, Deus concedeu vitória aos
vingadores, que por fim entraram na cidade e mataram ao fio da espada tudo
o que se movia, quer fosse homem ou animal. Era o fim da história dos
moradores de uma cidade. Alguns poucos benjamitas, seiscentos ao todo,
que escaparam fugindo para as montanhas, voltaram a povoar e reconstruir a
cidade, quatro meses depois, iniciando uma nova história. A alma e a história
da cidade são o reflexo às avessas da alma e da história de Mical. O lirismo
dos seus primeiros dias em contraste com a angústia com que teve que
conviver a partir do seu desposamento; passado e presente em conflito de
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expectativas. Sinais de uma ambiência prática que norteou os rumos dos seus
pensamentos, motivações, interesses e desejos. Guizos, pendentes, braceletes
e véus levavam-na, mentalmente, a celebrações românticas sonhadas por
toda jovem desde que o mundo é mundo. “Leva-me à sala do banquete, e o
seu estandarte sobre mim é o amor. Sustentai-me com passas, confortai-me com
maçãs, pois desfaleço de amor; vem, ó meu amado, saiamos ao campo,
passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos cedo de manhã para ir às
vinhas; vejamos se florescem as vides, se se abre a flor, se já brotam as
romeiras; dar-te-ei ali o meu amor”. Cantares 2:4, 5; 7:11,12.
Toda menina-moça está grávida de sonhos. A vida ainda não lhe comunicou
os seus reveses e ela já projeta o seu futuro mágico. Olhos brilhantes e
expressivos dançam em suas órbitas em puro fascínio, a perlustrar paisagens
místicas, ilusões reais. Os seus ouvidos captam sons elevados, ouvem
elogios, buscam verdades relativas, sentem coceiras amiúde. Em suas narinas
só o bom perfume da vida. A sua boca sussurra ao travesseiro segredos
infantis, revelações perigosas de príncipes e castelos. Por trás do seu angélico
sorriso, fluindo da alma, deliciosos e ingênuos contos têm finais felizes. O
seu pensamento voa, transloca-se em extraordinárias viagens. Em todas elas
há regresso, recomeço, saídas perfeitas, tudo se resolve, tudo se encaixa, não
há limites nem barreiras. Asas... Todas elas possuem asas no coração, querem
as alturas. A respeito disso escreveu Benjamim Abdala Jr., em seu poema
“As pombas”:
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
A fantasia faz parte da sua linguagem e o reino encantado das cinderelas
nunca deixa de existir em seu mundo interior; elas sempre estarão às voltas
com príncipes gentis e carruagens que as levem a regalantes banquetes, por
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entre bosques iluminados e lagos inspiradores. Não há ficção em uma mente
juvenil, todo sonho é possível. O desabrochar de suas potencialidades,
ativado por eruptivos hormônios, dá-lhes a idéia de que o mundo é seu. Daí
a intensidade com que experimentam o mundo em volta. É com razão que o
pregador do Eclesiastes traduz a juventude como a primavera da vida. Essa é
a estação do ano responsável pela renovação da flora; fala do verdor, do
viço, da plenitude, da exuberância de cores e perfumes, do embelezamento
da natureza. A primavera é também sinônima de poesia, de romance, de
inspiração. Após um longo e tenebroso inverno, a vida renasce com força e
encanto, soprando o seu hálito sobre cantadores, letristas e pintores, os quais
retratam o seu tempo, com elevada paixão e leveza, movidos pelos acordes
doces dessa estação. Não há como não abrir um sorriso de satisfação, erguer
a cabeça e mudar o ritmo do coração, quando, ao ouvir “as quatro estações”,
de Vivaldi, soarem as alegres e vibrantes cordas anunciando a primavera. É
uma experiência simplesmente transportadora. O tom airoso que impregna o
ar é, de repente, vertido para as vestes, para a alimentação, afeta os hábitos e
relações; afinal, é primavera, não há retoques, nem reparos. É como se todos
fossem convidados a sorver um pouco da fonte da juventude. Realmente é
uma fase diferente. Não se trata de exagero o que vou dizer, nem é
linguagem figurada, mas em nosso hemisfério, mesmo não havendo invernos
tão rigorosos como em outras partes do mundo, pode começar a observar,
no dia 22 de Setembro, o sol nasce com excepcional fulgor: é a primavera.
Há mudanças significativas na face da terra: as marés serenam, os animais
silvestres identificam e saem ao campo, como que a saudar tão grande
bênção; as aves, em inquieto vôo, aos bandos, chilreiam felizes, celebrando o
recomeço; no micro-mundo, insetos e larvas proliferam, servirão de
alimento. O fervilhar da vida entra em ebulição. Essa efervescência que
ocorre no reino natural é um exemplo do que acontece na mente e no
coração dos jovens, a partir da sua puberdade. Mudanças significativas no
corpo, na alma e na mente; substâncias percorrem caminhos ainda não
trilhados, cadeias novas se estabelecem, alterando uma compleição antes
conhecida; sinais de que um tempo novo se inicia são manifestos; é a
primavera da vida. Enquanto refletia sobre estas coisas, ocorreu-me a idéia
de ouvir da própria boca dessas meninas o que pensam e sentem com
respeito à vida: seus sonhos, ideais e valores. Juntei em grupos e também
ouvi individualmente diversas garotas de treze a vinte anos, deixando-as
soltas para conversarem entre si sobre as perguntas que lhes fazia. Uma
delícia, algo encantador. Peles lisinhas, outras com acnes, unhas roídas,
outras pintadas, discorreram sem embaraço sobre uma linha comum a todas:
a busca do novo e do melhor. Perguntas do tipo: “O que vocês pensam
naqueles momentos finais do dia, pouco antes de dormir, quando o
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batimento cardíaco cadencia e se pode ouvir a respiração?”. Com
pouquíssimas variáveis, as respostas foram muito próximas: _ “Ah! A gente
pensa em estar em um lugar mágico, diferente desse em que a gente vive; um
lugar onde a gente é bem tratada, realmente amada, como uma princesa...”.
Pedi-lhes: contem-me um sonho que tenha marcado suas vidas, sonho
normal, desses enquanto vocês estão dormindo. Só como exemplo, uma
delas me disse: _ “Bem, o ambiente do sonho era o condomínio onde moro,
mas eu estava sentada assim em uma relva bem verdinha, sozinha, quando,
de repente, se aproximou um rapaz bem bonito, bem vestido e bem
educado, estendeu as mãos para mim e me levantou, abraçou-me e saímos
andando juntinhos por um lugar bem bonito”. Outra, ainda, descreveu: _
“Eu estava saindo da cozinha da minha casa quando, passando pela porta, o
que seria o pequeno quintal cercado por muros, era agora uma paisagem
belíssima com uma campina estendida em um vale florido, com um rio
sinuoso de águas claras, animais pastando tranqüilamente, e passarinhos que
cantavam músicas conhecidas. Então percebi que vinha um rapaz montado
em um cavalo (branco) e, sorridente, me convidou para passear. Saímos,
então, felizes, subindo e descendo pelas montanhas, até que acordei”.
Percebem? Há sempre um outro lugar, uma viagem, uma fantasia. Se os
sonhos da noite – segundo explica Freud – são uma reprodução das
impressões da alma ou a materialização do desejo, aí está a matéria prima de
uma alma jovem: os sonhos do dia. E no campo das relações, eis o que
povoa o imaginário desses anjos: o primeiro amor. Todas elas suspiram ao
pensar no dia em que serão arrebatadas por um sentimento profundo e
sincero de devoção e cuidado vindo de outra pessoa que lhes encham os
olhos. A paixão será óculos, com os quais enxergarão a vida. Tudo será
perfeito, completo, distinto. Os que já passaram pela experiência sabem, não
dá para esquecer o primeiro amor, a sensação do primeiro encontro, o
primeiro beijo, os primeiros olhares, aquele abraço afetuoso, o segurar a
mão, o escrever a primeira carta, enfim. O universo inteirinho com todas as
suas galáxias cabe num banco de praça; o que importa está ali, nada mais faz
sentido. Assemelha-se a um vulcão adormecido, irrompendo com fúria
incontrolável. Não dá para domesticar este sentimento. Abriram-se portas e
janelas de um coração virgem e a luz vai entrando. Daí o olhar perdido, o
aperto nos lábios e o vagar da mente. Seria uma possessão sentimental? Bem
descreveu Luiz Gonzaga, o rei do baião, em “O xote das meninas”,
resguardando, é claro, a discrepância cultural:
“Mandacaru quando fulora na seca/ é um siná que a chuva chegou no sertão/ toda
menina que enjoa da boneca/ é siná de que o amor já chegou no coração/ meia
comprida não quer mais sapato baixo/ vestido bem cintado não quer mais vestir gibão/
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de manhã cedo já ta pintada/ só vive suspirando sonhando acordada/ o pai leva ao
doutor a filha adoentada/ não come nem estuda não dorme nem quer nada/ mas o
doutor nem examina/ chamando o pai do lado lhe diz logo em surdina/ que o mal é da
idade e pra tal menina/ não há um só remédio em toda a medicina/ ela só quer só
pensa em namorar”.
Imaginemos, então, Mical, vivendo na bela e inspiradora Gibeá, na casa de
seu pai, e experimentando os efeitos dessa fase florescente. De repente, a
convite de seu pai, surge em sua casa um rapaz belo, forte e doce, tocando
com maestria e encanto uma harpa e caindo na graça de todos. Ao que tudo
indica, a química se processou de imediato. A partir dali, Davi passou a fazer
parte dos sonhos de Mical. Mais adiante, quando Saul promete entregá-la em
casamento, o texto sagrado emprega o verbo amar no pretérito imperfeito,
dando a idéia de que aquele sentimento já existia de muito antes: “Mical
amava a Davi”. Embora não sendo legítima a motivação de Saul para esse
casamento, não importava, era tudo o que ela queria, era a concretização do
seu mais guardado desejo, o que de melhor poderia acontecer a uma donzela
nos seus dias: entregar-se a alguém por amor. Isto fazia e faz toda a
diferença. Sem o amor e o sonho a vida não flui, perde o seu brilho e
significado; se nos roubam essas faculdades, morremos.
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2- Laçada por belos olhos
“Era ele ruivo, de belos olhos e boa aparência”. I Samuel 16:12
“O meu amado é alvo e rosado, o mais distinguido entre dez mil. A sua
cabeça é como o ouro mais apurado, os seus cabelos, cachos de palmeira,
são pretos como o corvo. Os seus olhos são como os das pombas junto às
correntes das águas, lavados em leite, postos em engaste”. Cantares
5:10-12
A
o que parece, assim como hoje, a aparência também era fundamental
naqueles dias. Pelo menos do ponto de vista humano. A ruivez
representava o máximo para o padrão de beleza da época. Eram os
“homens dourados” descritos pelo historiador Josefo. A história de Israel
registra detalhes, por exemplo, da vaidade de Absalão, filho de Davi, que
também era ruivo. Diz que era ele perfeito do alto da cabeça à planta do pé;
não havia qualquer defeito. Era celebrado em todo o Israel por sua beleza.
Quando cortava o cabelo, no fim de cada ano, os cachos pesavam duzentos
ciclos, ou seja, dois quilos e setecentos gramas. Isto ocorria por que tendo ele
cabelos ondulados e ruivos, mandava trazer do oriente óleos aromáticos,
com os quais emplastava o cabelo, e depois aspergia ouro em pó. Ao passar
pelas ruas, o seu aspecto reluzia e os cabelos flamejavam ao sol, realçando
ainda mais os seus dotes físicos. A beleza de Davi foi passada geneticamente
para os seus filhos, e disto temos claras informações. Salomão, igualmente, é
descrito pela sulamita como o mais formoso entre milhares; sua pele era
rosada, seus cabelos pretos como o corvo, e os olhos vivos e expressivos
como os das pombas. Tratava-se de homens realmente bonitos e que
chamavam a atenção por onde quer que passavam. No caso em apreço, há
um detalhe em destaque que merece considerações: belos olhos. Não há
como sabermos quais as características ou traços e contornos físicos desses
belos olhos, pois o texto bíblico não define. Se eram verdes, azuis, castanhos
ou pretos, grandes ou pequenos, não é o que realmente importa. O que
marca um olho bonito é, principalmente, a sua expressividade. Olhos
fechados são quase todos iguais. Vou lhes contar um segredinho: Com a
habilidade que Deus me deu para desenhar à mão livre reproduções de
paisagens e rostos, descobri o drama dos pintores e cartunistas que retratam
pessoas: os olhos. Podemos traçar o contorno de um rosto, dar-lhe marcas
definidas, como: orelhas, boca, nariz, queixo, mas enquanto não forem
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definidos os olhos, aquele rosto poderá ser o de qualquer outra pessoa, por
mais semelhantes que sejam os outros traços. Por isso é que muitos
desenhistas, ao esboçar o rosto de alguém no papel, traçam o perfil dos
olhos e os deixam fechados ou em branco até a arte final, quando será
definida com precisão a expressão do olhar. Ali estará a marca da pessoa, o
registro da sua personalidade. Há olhares marcantes, característicos,
surpreendentes. Olhares são falas eloqüentes, verbalizações silenciosas,
comunicações explícitas. Os olhos dizem o que a alma sente, são o seu
espelho. Muitas vezes a boca diz sim, mas os olhos dizem não; gestos e
formulações verbais tentam mostrar alegria, mas o olhar acusa tristeza e
angústia; camufla-se qualquer coisa, mas o olhar é fonte de verdade.
Imaginemos alguém proferindo um belo discurso, tendo os seus olhos
vendados... Como discerniríamos as nuanças e variações emocionais apenas
pela impostação da sua voz? Se não conhecermos profundamente a pessoa
que nos fala, é preciso que lhe observemos o olhar; ele será o decodificador.
O olhar pode gritar tanto quanto um berro histérico. Lembro-me, como
hoje, da minha infância ao lado dos meus irmãos, quando a minha querida e
boa mãe nos disciplinava nos lugares onde havia muita gente, somente com
o olhar. Brincávamos soltos por ali com a criançada, e de vez em quando
olhávamos para ela, em busca de aprovação para os nossos atos. Se ela
apertasse suavemente os lábios e levantasse rapidamente os olhos,
mostrando um pouquinho a parte branca, é por que a coisa estava feia.
Também se ela olhasse detidamente para nós e depois abaixasse o olhar em
sinal de tristeza, alguma coisa errada estava acontecendo. Com o olhar
assentimos, com ele também reprovamos; com o olhar acolhemos, com ele
também desprezamos; com o olhar libertamos, com ele também oprimimos;
com ele ferimos, com ele curamos. Lembremo-nos daquela cena em que o
amado Jesus se encontrava preso na casa do sumo sacerdote, e Pedro
postava-se no pátio, aquentando-se entre judeus e criados da casa. O texto
do evangelista Lucas descreve o crucial momento em que, após a terceira
negativa de Pedro de que fazia parte do grupo de discípulos, “Jesus, voltando-se,
fixou os olhos em Pedro, e ele se lembrou da palavra do Senhor que lhe dissera: Hoje três vezes
me negarás, antes que o galo cante. Então Pedro, saindo dali, chorou amargamente”. Havia
uma história completa narrada e revivida nos eternos segundos daquele
olhar. Ou ainda, quem nunca ouviu falar da história de Charles Finney,
avivalista inglês que, embalado por grande avivamento no país de Gales, foi
certa vez a uma fábrica pregar aos seus funcionários, e ao chegar ali e
contemplar tanta impiedade presente naquelas vidas, postou-se silente e
apenas fitou-os prolongadamente com os olhos enormes que tinha e cheios
de profecia. Um a um, os homens e mulheres que trabalhavam ali foram se
chegando a ele, chorando convulsivamente e implorando o perdão de Deus
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pelos seus pecados, sem que houvesse qualquer palavra vinda da sua boca.
Os olhares estão carregados de significados e são muitas as suas abordagens:
Há olhares altivos, compenetrados, vazios, distantes, curiosos, perspicazes,
saudosos, apaixonados, dengosos, irados, indiferentes, tensos, sedutores,
agitados, sofridos, pidões, ingênuos, maliciosos, enfim, os olhares são as
representações da nossa personalidade ou do momento e do ambiente que
nos domina. Em certa ocasião fui intimado às pressas a comparecer na casa
de irmãos da nossa igreja, para fazer uma oração e conversar com uma moça
– que quero omitir o nome - que se encontrava perturbada por algo que eles
desconheciam. Chegando lá, encaminhei-me até o aposento onde ela estava e
a chamei pelo nome, pois estava deitada e agarrada com firmeza a almofadas.
Ela se sentou e olhou para mim. Nunca vou esquecer aquele olhar. Havia
gritos e pedidos de socorro tão altos e claros que quase se podia ouvir.
Aquela jovem estava acometida da chamada síndrome do pânico. Orei e
ministrei sobre ela a palavra do Jesus que liberta o homem dos seus pavores
e dos efeitos do pecado. Sem dúvida, os olhos são portas através das quais
vemos o mundo e o mundo nos vê. Eles são bem mais que mero órgão do
corpo, composto de globo ocular, pupila, córnea e íris, ou um dos cinco
sentidos, como sendo a capacidade captar a luz e identificar objetos, antes
são faculdades espirituais: “São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem
bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo
estará em trevas”. Mateus 6:22, 23. “Os olhos do sábio estão na sua cabeça”, diz o
pregador. Eclesiastes 2:14. Aqueles belos olhos que prenderam Mical eram
muito, muito mais que algo estético. Eram olhos carregados de história e
poesia, colhidas nos campos em que ele pastoreava os rebanhos de ovelhas.
Eram olhos de alguém altamente espiritual, olhos de um guerreiro potencial,
olhos de um rei. Olhos especiais, como os de Salomão que derreteram a
sulamita, ou os de Marco Antonio que paralisaram Cleópatra, ou os de
Romeu que enfeitiçaram Julieta. É sempre assim, a culpa é dos olhares, são
irresistíveis, são algemas poderosas que imobilizam e amarram pessoas umas
nas outras. E são muitíssimas as que têm como testemunho essa verdade.
Foram fisgadas pelo amor através das sinuosas linhas de um belo olhar. São
os amantes à primeira vista, como Isaque ao ver Rebeca e Jacó ao ver
Raquel. Quando um coração fervente e apaixonado, sedento de amor e
carente de carinhos, olha para o seu objeto de culto, vazam através dos olhos
melodias encantadas e doces que, como ondas, navegam pelo ar em busca da
pessoa amada, agarrando-a e trazendo-a para junto de si. O incauto e
desprevenido dificilmente escapa do seu laço. O sábio Salomão adverte aos
jovens com respeito a isto: “Não cobices no teu coração a sua formosura, nem
te deixes prender com as suas olhadelas”. Provérbios 6:25. Segundos de olhar
platônico podem render um envolvimento emocional irreversível, que tanto
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pode redundar em um grande e sincero amor, como em um drama
interminável. O saudoso poeta-compositor brasileiro Vinícius de Moraes,
envolvido pelas ondas da paixão, decantou o amor na belíssima canção “Pela
luz dos olhos teus”, que diz:
“Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar/ Ai que
bom que isso é meu Deus que frio que me dá o encontro desse olhar/ Mas se a luz
dos olhos teus resiste aos olhos meus só pra me provocar/ Meu amor, juro por Deus
me sinto incendiar. Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos meus já não pode
esperar/ Quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus sem mais lara-lará/ Pela
luz dos olhos teus eu acho meu amor que só se pode achar/ Que a luz dos olhos meus
precisa se casar”.
Todo o mundo assistiu emocionado um dos filmes de maior bilheteria já
produzido por Hollywood, intitulado: Titanic. História real de uma tragédia
ocorrida em 1912, recontada com extrema dramaticidade por James
Cameron, em 1998. Em meio ao drama, dois jovens protagonizam uma
comovente história de amor com um final naufrágico. Porém, tudo começou
– lembra? – quando o rapaz, Leonardo DiCaprio, que viajava na terceira
classe, pôs, demoradamente, os seus belos olhos na moça fina, Kate Winslet,
que estava debruçada na amurada do navio, com o olhar distante e infeliz.
Logo mais, os seus olhos se encontraram num flash de eternos segundos e,
segundo eles, já estavam envolvidos (palavras textuais). Esse envolvimento é
o mais comum entre enamorados. Deixam-se encantar de pronto pelos
atributos externos e suas manifestações explícitas. Um rostinho bonito, belos
olhos, uma boca bem definida, uma voz doce e afinada, ou um corpinho
bem torneado. Tenho ministrado sobre esse tema em muitos lugares, e
conversado com dezenas e dezenas de jovens sobre as implicações de um
relacionamento conjugal responsável, e muito me impressiona a visão que a
juventude atual tem de uma vida a dois, segundo o plano de Deus. Ainda
temos no seio da igreja evangélica muitos namoros por conveniência, jovens
que apenas ficam com suas amigas ou amigos, como um borboletear ou o
um petiscar sentimental, sem compromisso nem responsabilidade, gerando o
baratear de algo tão sublime e caro. E nisto o barato quase sempre sai
caríssimo. Os valores de Deus e de sua palavra são trocados pelos valores
deste século e os efeitos são danosos. Permita-me rasgar o verbo. O que tem
ocorrido no meio da juventude evangélica é que os nossos moços e moças
estão buscando felicidade em relacionamentos fundamentados em aspectos
meramente exteriores, como cabelos sedosos, pele perfeita, corpinho
sensual, etc. E para isto, paga-se qualquer preço. Não importa se a moça ou
o rapaz é de Cristo, se tem bom fundamento moral e ético, se vem de boa
14
formação ou não; o que importa é se são bonitos. Especialmente no caso das
mulheres que são medidas pelo padrão de beleza estabelecido pela televisão e
pelas agências de publicidade, onde aparecem meninas-modelo cadavéricas
ou supergirls turbinadas, fabricadas e modeladas por silicones, como
produtos ambulantes para prenderem os homens. Enquanto isso, nas muitas
igrejas do nosso país, muitas garotas e garotos bem formados, educados,
talentosos e cheios de Deus ficam no canto sem serem notados, porque não
são bonitos como aqueles atores ou garotos-propaganda. Preferem dar
pérolas aos porcos e viver em comunhão com os incrédulos, atraindo a
disciplina do Senhor, do que levar vida mansa e honrada com alguém
respeitável e digno, cheio da graça de Deus. É a síndrome de Sansão que
infecta a muitos dos nossos jovens. Lembro-me de ter encontrado em várias
igrejas muitas moças virtuosas e bonitas, mas solteiras, por não serem
simplesmente lindas e sensuais. Muitos jovens iludidos têm cedido à tentação
de encantar-se com um olho bonito ou uma linda voz. Ocorre que ninguém
casa com um olho bonito ou com uma bela voz, ou com um corpinho
sarado, ou com cabelos de seda; casa-se com uma personalidade e com as
manifestações de um caráter. No dia a dia, quando a crise se instala ou a
tempestade assola, pouco significa a cor dos olhos ou o tom da voz; nesse
momento se o corpo é de violão ou de guitarra é de somenos. Conheço
pessoalmente um rapaz casado com uma mulher lindíssima, mas que vive em
conflitos tão agudos que melhor lhe parece se encontrar com o próprio
farrabaz do que com ela. O meu professor de Homilética costumava contar
em sala de aula, como ilustração, a história do cidadão que passava todos os
dias debaixo da sacada de uma casa onde ouvia uma música muito linda ao
piano, acompanhando uma voz angelical. Os seus passos se atrasavam para
poder ouvir um pouco mais daquela melodia. Encantado por tão bela voz,
desejou conhecer a dona. Passou a observar com mais vagar até que
descobriu a donzela de traços finos e delicados, combinando com o ameno
timbre. Por coisas “do destino”, vieram a se enamorar e logo se casaram. No
convívio ele foi percebendo quem realmente era a nobilíssima pianista: Uma
megerinha iracunda que transformou a sua vida em um verdadeiro inferno.
Em momentos de desespero e saudades dos velhos tempos ele dizia: _ Toca
e canta desgraçada...! Mical provou na própria pele o amargo sabor de ter-se
deixado cativar por belos olhos, a despeito de ser Davi um rapaz de boa
reputação e honrado, de boa formação e cheio do Espírito Santo. Isto por
que um casamento feliz não é prerrogativa de um crente e não vem como
resultado da salvação. É possível alguém ser cheio de Deus e ter um
casamento frustrado, a exemplo de Davi, de Isaque, de Eli, e de tantos
outros servos de Deus contemporâneos nossos, como também é possível
encontrar ateus com casamentos ajustados e filhos equilibrados, num
15
ambiente de respeito e amizade. Uma casa não é edificada com jejum e
oração ou com cultos diários, somente, mas com sabedoria e inteligência
(Provérbios 24:3); ainda não inventaram a oração poderosa que resolve
conflito conjugal; antes, o diálogo, o acerto de contas, o perdão e uma nova
caminhada são as estratégias de Deus para a restauração de um
relacionamento ferido. “Andarão dois juntos, se não houver entre eles
acordo?”. Amós 3:3. Portanto, é necessário que sejam observados muito
mais que olhos bonitos em uma pessoa a quem se pretende entregar o
coração. “Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao
Senhor, essa será louvada”. Provérbios 31:30. Isto confere com o que disse o
Senhor a Samuel, quando este foi à casa de Jessé ungir o novo rei de Israel.
O Senhor lhe disse: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, pois eu o
rejeitei; pois o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o
coração”. Se beleza não põe mesa, como diziam os antigos, não vale a pena
arriscar o melhor das nossas vidas por alguns momentos de prazer e levar o
restante dela gemendo. O melhor, então, é esperar o sinal de Deus, a pessoa
que Ele escolheu para nós, pois a sua vontade é sempre boa, agradável e
perfeita.
16
3- Um moço de boa família
“Disse o Senhor a Samuel: Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei
a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei”. I
Samuel 16:1
“Saí, ó filhas de Sião, e contemplai ao rei Salomão com a coroa com que
a sua mãe o coroou no dia do seu desposório, no dia do júbilo do seu
coração”. Cantares 3:11
E
ra Davi da casa de Jessé, o belemita, que pertencia à tribo de Judá.
Notabilizada por seus nobres feitos, esta foi a tribo da qual veio
Jesus, o Salvador do mundo. Foi Judá quem salvou a vida de José,
propondo a sua venda em vez de ser assassinado por seus irmãos; foi ele
quem propôs ficar detido no Egito em lugar de seu irmão Benjamim, antes
de José se dar a conhecer aos seus irmãos; foi a ele que o velho Jacó escolheu
para ir adiante de si a fim de guiá-lo até a terra de Gósen; Os crimes de
Simeão, Rúben e Levi privaram-nos desta honra, e os privilégios da
primogenitura passaram para Judá. Depois da morte de Josué, a tribo de Judá
foi a primeira a tomar posse do território que lhe foi partilhado, e foi a tribo
que ocupou a maior parte da Palestina meridional. A tribo de Judá foi a que
permaneceu fiel a Davi e se constituiu o principal elemento de estabilidade
para o seu reino. Mais adiante, quando por mãos de Jeroboão o reino foi
dividido, a parte piedosa do que foi fatiado recebeu o nome dessa tribo
identificando o reino. Era o reino sul ou reino de Judá, governado por
Roboão, filho de Salomão. Descendendo dessa tribo vem Boaz, e com ele a
nobilíssima Rute, bisavó de Davi, cuja história é contada em um encantador
livro, onde narra o apego dessa moça à sua sogra Noemi, deixando a sua
terra natal e acompanhando-a a Belém de Judá. Sobre Obede seu avô e seu
pai Jessé, os poucos indícios bíblicos apontam para famílias muito simples,
porém altamente honradas. Note-se, por exemplo, o tratamento de Saul para
com Davi, fruto da irritação pela inveja que tinha dele, levando-o a chamá-lo
de filho de Jessé, como uma forma de lançar em rosto a sua origem humilde.
Esse também foi o tratamento dos revoltosos que não queriam ser
governados pela casa de Davi. Com igual humildade e honra era a sua cidade
natal: Belém-Efrata ou Belém de Judá. Ali viveram os seus antepassados:
Boaz e Rute, Obede e Jessé, seu pai. Casa de pão, significado do seu nome,
prenunciava desde os tempos mais remotos que ali nasceria aquele que é o
pão da vida. Vindo, então, a plenitude dos tempos, Jesus nasceu em Belém.
17
Os pastores que guardavam os rebanhos nos arredores, e os magos que
viram a estrela lá no oriente, para lá afluíram, a fim de saudar o Rei dos reis,
a raiz de Davi que é a raiz de Jessé. “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar
como grupo de milhares de Judá, de ti sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde
os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Miquéias 5:2. Ela, Mical, por sua vez,
era também descendente de um dos filhos de Israel, Benjamim, neta de Quis
e filha de Saul, ambos de famílias humildes, também residentes em
pequenina cidade, Gibeá, os quais eram proprietários de rebanhos de gado e
mulas, como as que Saul procurava, quando foi encontrado por Samuel.
Como se vê, ambos tinham origem semelhante e a juventude também era
peculiar aos dois. O que poderia dar errado no casamento entre esses dois
jovens? A ordem expressa de Deus aos filhos de Israel de que não tomassem
por esposas mulheres de outros povos, para que não prevaricassem, nem
inclinassem o coração aos seus deuses, nem aprendessem os seus maus
caminhos, antes escolhessem mulheres entre os filhos de Israel, a fim de que
fosse perpetuada a linhagem daqueles a quem fez a promessa de bênção e
prosperidade foi satisfeita. O lastro da boa formação familiar em todos os
aspectos psico-sociais ambos possuíam. Sensibilidade afetiva os dois
demonstraram ter, pelo menos na percepção dos traços poéticos com os
quais a vida lhes cercou. Tudo, enfim, apontava para um relacionamento
prazeroso e feliz, duradouro e exemplar. O que poderia dar errado? Nas
minhas aventuras como conselheiro, tive a oportunidade ímpar de
acompanhar um casal – que chamarei de Sandro e Sandra – desde os dias de
seu noivado. Sandro era aquele tipo de rapaz açucarado, meloso, carismático,
nome presente nas rodas de conversa dos seus colegas, o queridinho das
mamães de muitas jovens; daquele tipo de pessoa que desanuvia o ambiente
em que chega. Rapaz de pais bem casados e ajustados e irmãos bem criados e
equilibrados, talhado em berço de sólida formação evangélica, preparado
para ser uma bênção. Sandra, moça formosa, de finos traços, do tipo “a nora
que todos os pais querem ter”, educada e gentil, afamada por seu
comportamento sóbrio e sensato. Também fruto de uma família reconhecida
pelo zelo na criação dos seus filhos. Eis ali o par perfeito. Vieram a ficar
noivos. Decidiram se casar. Casaram-se. Em menos de um ano já havia sinais
de desgaste, e por várias vezes procuraram ajuda no gabinete pastoral. Para
aqueles que, superficialmente, conheciam os conflitos por que passavam esse
jovem casal era incompreensível e inaceitável a idéia de que um par tão
“certinho” viesse a experimentar tanta angústia por conta de desacertos, em
tão pouco tempo. Mas para quem acompanhou de perto os passos desses
jovens desde o início do seu casamento, como fiz, sabe que a resposta não é
tão simplista nem padronizada. Há elementos, expedientes, conceitos e
valores maiores do que a nossa insuficiente filosofia; nem tudo pode ser
18
definido por álgebra, e o selo da confirmação de verdades subjetivas não está
em nossas mãos. Há muitos mitos que envolvem o casamento. Dentre eles,
quero considerar dois que entendo serem pertinentes ao assunto ora em
baila. Em primeiro lugar, não existe o par perfeito. A pessoa ideal existe
apenas na ficção. Todos somos tortos e carregamos defeitos intrínsecos por
conta da natureza caída que herdamos, e embora salvos pela graça já, só
manifestaremos traços da perfeição almejada e projetada por Deus quando
formos transformados de matéria corruptível em incorruptível, pela
manifestação da Sua vinda. Não se pode esperar nada que se assemelhe à
perfeição vindo de seres imperfeitos. O que na verdade pretende-se
comunicar com a idéia de um par perfeito é o conceito de que duas pessoas
se ajustam completamente, como se nascidas para preencher o que falta de
um no outro, como partes precisas de uma engrenagem que se amoldam em
seus encaixes, e que sem um o outro não funciona. Ora, desde que o mundo
é mundo e o homem é homem, carregado de suas idiossincrasias e
contradições, não se pode alcançar concordância e afinação na linguagem,
nos propósitos e ideais entre dois seres diferentes, sem convivência. É a
convivência quem testa os limites e molda o caráter de ambos; quem apara as
arestas e dá contornos aos desejos; quem aplaina os relevos de
temperamentos destemperados e sulca os veios retos de um cotidiano
morno. Por isso a união entre duas pessoas tão diferentes pode dar tão ou
mais certo do que entre duas que, aparentemente, combinam em tudo. É
mais ou menos o que argumenta o professor Luis Palau, em seu livro: “Os
opostos se atraem”. Aquilo em que sou débil é encontrado sobejando em
meu cônjuge, e vice-versa. Até mesmo pequenos detalhes, quando bem
resolvidos, terminam gerando uma divertida aventura. Dou como exemplo a
minha relação com Raquel, minha mulher: Não pode existir casal com mais
diferenças do que as que existem entre nós... Ela “adora” cebola, eu aborreço
com ódio consumado; ela é metódica e eu prático; ela quer romance e eu,
aventura; se ela toma café logo lhe chega o sono, se eu faço o mesmo serão
longas as horas pela madrugada; ela gosta de silêncio e eu gosto de som; para
ela penumbra, para mim luz; ela é sanguínea e eu fleumático, enfim, somos
em tudo diferentes, mas nos amamos e nos respeitamos, apesar dos choques
inevitáveis. Somos felizes, pela graça de Deus. No início não foi fácil, mas a
convivência nos ensinou a arrumar de tal forma esses valores que hoje, mais
de vinte anos depois, o distanciamento antes tão evidente vem, a cada dia,
aproximando-se do centro (com exceção da cebola, é claro). É mais ou
menos assim: o veloz torna-se mais suave e o lerdo mais esperto; o bravo
mais cordeiro e o cordeiro mais valente; é uma experiência meio osmótica. É
tanto que um casal que experimenta a bênção da convivência por longos
anos, até no semblante e traços físicos começam a se parecer.
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Evidentemente, há casos em que virtudes e defeitos pesados apontam para
uma soma positiva; ou seja, o caminho é menos tortuoso e o fardo mais leve
para repartir; não há conflitos graves e há temperança na relação. Outros, no
entanto, desde os primeiros beijos surgem as primeiras querelas, que vão se
acumulando e tornando lento e pesado o giro da engrenagem. A cada novo
dia aumenta o distanciamento entre ambos, tornando-os estranhos. Portanto,
não existe o par perfeito; o que existe é uma conquista diária baseada na
renúncia e na tolerância, e a bênção de Deus que gera quebrantamento e
manifestação de graça, responsáveis pelo perdão e pelo renovo. Em segundo
lugar, ou o segundo mito sobre o qual quero considerar, é que ninguém casa
com a família do seu cônjuge, mas com um indivíduo. Por favor, não pare de
ler. Deixe-me arrazoar e compartilhar sobre isto. É quase certo que você tem
em mente as estatísticas que nos fazem ver que grande parte dos casamentos
desfeitos é fruto das interferências e conveniências familiares. Sim, isto é
verdade. Mas vem apenas ratificar o que pretendo discorrer. Este não é o
plano original de Deus para a constituição de uma família. Disse Ele: “Por
isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma
só carne”. Gênesis 3:24. Aí está: “os dois” deixam pai e mãe e tornam-se
uma só carne. Pena que não me instruíram a respeito disto antes do meu
casamento, o que nos trouxe muitos conflitos. A motivação dos pais é quase
sempre a melhor possível: ajudar, cooperar para que os filhos se
desenvolvam e sejam felizes na nova relação. No entanto, Deus não deixou
um manual prático de convivência para Adão e Eva. Essa é uma experiência
intransferível. Por melhores e mais bem estruturadas que sejam as famílias
que casam seus filhos, compete ao casal encontrar o seu próprio caminho e
definir o seu rumo. O que precisa ficar bem entendido nessa história é o que
vem a ser “casar-se com a família do outro”. Não significa, definitivamente,
casar-se com os familiares do outro, nem com as vontades e caprichos dos
seus parentes, pois já avançamos em muito a era medieval. Não faz sentido
moças e rapazes casarem-se e permanecerem debaixo das ordens,
orientações e supervisão dos seus pais, pois incidem contra a vontade
expressa de Deus: “Deixa pai e mãe”. O que tem ocorrido com bastante
freqüência é encontrarmos jovens recém-casados desencantados com sua
vida conjugal, por causa da interferência ostensiva de pais e parentes
próximos. São manipulações, jogos, cenas, ciúmes, chantagens, boicotes e
retaliações, geralmente pela falta de aceitação do companheiro de sua filha ou
do seu filho. Daí vêm as homéricas e folclóricas rixas entre noras e sogras,
genros, sogros e cunhados. Felizes são os que, pela graça bendita, se
envolvem com famílias de Deus e nutrem bons e sadios relacionamentos,
onde a cruz de Cristo derribou a parede de separação, unindo a todos como
uma grande família. São as façanhas do Evangelho do amor. Mesmo assim, o
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casamento só segue em frente, firme e sossegado, quando os dois têm poder
para decidir livremente cada passo de suas vidas como marido e mulher: Que
tipo, como e quando fazer sua prevenção contra natalidade, como e em que
situação usar o dinheiro que ganham, que amigos devem acolher em sua
casa, e até que cor de enxoval para o bebê devem escolher. Existem casos,
inclusive, em que os moços ficam reféns dos seus pais, pelo fato de terem
recebido casa ou bens como presentes de casamento. Presentes de grego
seria o mais correto se dizer. Casar-se com a família do outro deve ser
entendido tão somente como a inevitável e óbvia transmissão dos valores,
costumes e práticas de berço, quando na mudança de jurisdição da casa
paterna para uma vida a dois. Cada um dos cônjuges vai conviver e
presenciar diariamente cenas, comentários e atitudes próprios do ambiente e
cultura da formação do seu companheiro. Ali estará em demonstrações
explícitas parte do que é o dia a dia daquela outra família, com a qual ele
“casou”. Conheço a história de duas famílias unidas pelo casamento de seus
filhos que quando se reúnem por ocasião de alguma festividade daria uma
peça hilária, se narrada. A família A é composta de gente ruidosa,
conversadeira, solta às gargalhadas, gente pegajosa, que abraça e beija todo
mundo, e quando está à mesa para as refeições é uma celebração. A família B
é caracterizada por elementos compenetrados, gente séria, de pouca
conversa, um povo ressabiado e com tendências ao isolamento. Quando
estão à mesa, o único barulho que se ouve é o dos talheres brigando com os
pratos. Quando, por ocasião de um aniversário, ou coisa que o valha, A e B
se juntam para banquetear-se, ficam expostos dois mundos distintos de
sobrenomes afins. Cada um dos noivos, certamente, irá reconhecer esses
traços na convivência diária. Isto será percebido tanto nas ações graves que
demonstram firmeza ou vacilo de caráter, como no trato corriqueiro das
pequenas coisas. É o caso do rapaz que escova os dentes com o creme
dentro da boca sem deixar cair uma só gota, até cuspi-lo na pia, e a moça que
escova os dentes com a boca aberta deixando espalhar creme pela pia e chão,
fazendo a maior meleira, pois foi assim que aprendeu vendo os pais; ou o
rapaz notívago, que mais parece coruja, pois só consegue dormir pela
madrugada, casado com a moça que adormece tão logo a noite cai, fruto dos
costumes das famílias originais. É o comportamento apreendido, segundo
declara o Dr. Henri Piéron, em seu extenso tratado “Psicologia do
comportamento”. Pois é, ninguém casa com a família ou familiares do outro,
mas com os seus valores e costumes, o que é coisa bem diferente. Um é
tratado apenas no campo das idéias; o outro em nível de relacionamentos.
Este último implica em condicionamentos e novas regras fora dos limites do
lar nascido. Não é fácil. Estou convencido de que um casamento entre dois
jovens não concorre para a sua felicidade, pelo simples fato de eles terem na
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sua retaguarda famílias estruturadas. O desafio do casamento é pessoal,
particular, intransferível. Os Martins Lopes entregam em casamento o seu
filho aos Pereira Fontes; eles, agora Fontes Lopes, serão um novo ramo
genealógico dessa árvore, e seguirão o seu próprio caminho, com os seus
desafios e conquistas, daquilo que será próprio da sua geração. Até porque o
casamento de um filho ou filha é sinal da chegada de um novo tempo, com
sua própria linguagem, riscos e novidades; uma nova abordagem. Já não mais
poderão viver sob a égide de sua progênie. Isto posto, volto o olhar para
Mical e Davi e vejo estampada em sua história esta patente realidade. Jovens
interioranos, puros, piedosos, filhos de pais crentes, criados sob a influência
dos eternos decretos do Deus vivo, mas cujo casamento não pode ser
desejado por mim, nem por você. Os fortes laços familiares e as profundas
marcas espirituais não foram suficientes para fundamentar e dar equilíbrio à
vida conjugal desses amados. A experiência do casamento exige ingredientes
e virtudes horizontais tão indispensáveis quanto os elementos verticais da
ação divina. Sobre eles comentaremos a seguir.
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4- Alguém com muitos dotes
“Conheço um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é forte e
valente, homem de guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o
Senhor é com ele”. I Samuel 16:18.
S
empre houve e há pessoas a quem parece que Deus concedeu todos os
dons; são hábeis em muitas artes e conhecedores de muitas ciências.
Davi era uma dessas pessoas. Poeta por excelência, músico refinado,
hábil escritor, criativo inventor de diversos instrumentos musicais, por que
não dizer, dançarino, estrategista astuto, guerreiro destemido, bom filho,
amigo leal, conselheiro prudente, rei sem igual. O rei Davi tornou-se ícone
da justiça em sua geração e para as subseqüentes, em virtude de o seu
reinado ter o selo da aprovação divina e carregar a marca da conquista e do
estabelecimento da paz nos limites de Israel. Nos quarenta anos em que
reinou sobre Israel, as nações do mundo antigo se renderam em admiração e
respeito e lhe prestaram tributos. Por isso ele assume a tipologia do reinado
messiânico profetizado e decantado nas páginas sagradas. Antes e depois
dele não houve um rei com esse perfil; ele era o homem segundo o coração
de Deus. A história dos reis de Israel e Judá, por exemplo, toma como
fórmula a seguinte expressão: Tal rei não andou nos caminhos do seu pai
Davi; ou: tal rei fez o que era reto como o seu pai Davi. Ele era a referência.
Davi também era distinguido por seu lirismo e a capacidade fluente de tornar
em versos seus sentimentos, sua visão de mundo e suas experiências com
Deus. Desse seu dom maravilhoso, no entanto, resta-nos apenas alguns
poucos salmos, setenta e três ao todo, no centro da Bíblia. Nesses textos ele
desvenda os caminhos da alma humana; traz à tona os recônditos do
coração, mostra a fraqueza dos fortes, a fragilidade dos grandes. São palavras
vivas, que sangram e gemem, que riem e saltam de alegria; são emoções
pulsantes, sentimentos em cores reais. Esses salmos eram hinos entoados no
segundo templo e nas repetidas romarias em direção à casa de Deus, com
multidão de povo. Suas ricas e devocionais estrofes também eram cantadas
nas reuniões familiares para o culto divino, a fim de que a futura geração
aprendesse a respeito dos louvores do Senhor, do seu poder e das maravilhas
que fez. A poesia dos hebreus, mormente os escritos de Davi, transpôs em
muito as suas fronteiras, vindo a ser conhecida e aclamada até por seus
inimigos. O salmo de número 137, que expõe a alma e o ânimo do povo de
Israel enquanto no cativeiro da Babilônia, faz referência ao conhecimento
que essa nação tinha da poesia hebréia. “Pois aqueles que nos levaram cativos nos
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pediam canções, e os nossos opressores, que fossemos alegres, dizendo: Entoai-nos algum dos
cânticos de Sião”. Há registros históricos e confiáveis de que entre os egípcios,
siros e babilônios existem plágios indecentes dos escritos do povo de Israel,
como histórias remontadas sobre eventos extraordinários da ação divina na
caminhada dos israelitas, e das canções poéticas dos seus salmistas. Sem
dúvida, o potencial literário dos sábios escritores do povo hebreu foi
instrumento de Divino para mostrar ao mundo que o Deus de Israel é
Grande. E pela importância e extensão dos seus escritos, podemos afirmar
que foi Davi o maior salmista que a história já conheceu. Diz-nos a Escritura
que os demais atos que não estão registrados no texto canônico constam das
páginas dos livros dos reis de Israel. Não podemos mensurar sua extensão.
Sim, a alma de um poeta não produz apenas páginas isoladas, avulsas,
programadas. A sensibilidade do poeta encontra e dá sentido a tudo que vê e
lança luz sobre o que se não vê. Seja uma folha que vai sendo levada pelo
vento ou o vento que vai levando uma folha, tudo vira história, tudo ganha
sentido. Poetas e compositores vêem o mundo de maneira diferente,
navegam em outra freqüência; a realidade, por mais patente que seja, abstraise aos seus olhos; suas lentes captam o que vistas apressadas não percebem,
e decodificam a história com beleza, quebrando seus traços rígidos, dandolhe contornos. Outros muitos eram os dons e talentos de Davi; virtudes que
foram sobejamente espargidas sobre quantos cruzaram seu caminho. Mas,
não obstante serem tantos os seus dons, e tão marcantes os traços de sua
personalidade, suas relações afetivas, particularmente seu trato conjugal,
foram um verdadeiro desastre. Seguindo o mesmo princípio de que “beleza
não põe mesa”, já comentado, determinadas aptidões e habilidades que
alguns indivíduos têm, conquanto sejam importantes em diversos aspectos
sociais, não têm qualquer relevância efetiva dentro do casamento, pois este
segue em trilhos com suas próprias regras de convivência e mútua
dependência. Isto quer dizer que alguns dons, virtudes, habilidades, atitudes
e atos são imprescindíveis a uma vida a dois; são elementos próprios da
união marido-mulher. Conheço pessoas bem posicionadas, líderes influentes
e carismáticos, moças e rapazes especiais, gente de encher os olhos, cujos
laços do matrimônio são uma tortura constante, apesar das suas muitas
qualidades individuais. Deixe-me destrinçar isto com mais vagar. É o que
costumo chamar analogicamente de “convidados”. Para uma festa de
casamento, geralmente se convida os melhores amigos, aqueles cujas
presenças alegram e embelezam o ambiente. São rostos conhecidos que pela
afinidade estabelecida geram bênção e cura para o coração. Nessa lista de
convidados para o casamento não pode faltar, por hipótese alguma, o senhor
companheirismo, pois é ele quem, nos momentos de solidão e angústia,
estenderá sua destra e se postará ao lado para amparar e encorajar a quem
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tropeçou. Este convidado representa muito mais que doce companhia, é
parceria, cumplicidade, o vestir uma só camisa, defender a mesma bandeira,
seguir para o mesmo alvo, experimentar o ser uma só carne. Também não
pode faltar o senhor romantismo, pois é ele quem enternece e adocica a
relação, quem traz molho, confeito para dentro de casa. Sem o romantismo
tudo fica burocrático, sistemático e enfadonho. É ele quem mantém acesa a
chama do primeiro amor, através de palavras suaves e gestos carinhosos; é
ele quem transpõe o legalismo da aliança, ensejando a magia da paixão. O
que seria do casamento se não fosse convidado o senhor respeito? Ele é
responsável pela estabilidade emocional e psicológica do casal. O significado
do termo não está associado restritamente ao trato, pois este tem a ver com
boas maneiras, berço, educação. O respeito no casamento está ligado,
principalmente, ao reconhecimento e aceitação dos limites do outro. É saber,
de verdade, que o seu companheiro é uma outra pessoa distinta, com suas
próprias vontades, jeitos e velocidades, e não um andróide manipulável à sua
própria vontade. Em um casamento não pode faltar a senhora amizade,
pois sua presença suaviza a convivência. Marido e mulher, acima de tudo,
precisam ser bons amigos, estabelecendo rotas para o diálogo aberto e
saudável, caminhos para a conversa construtiva, portas para o entendimento.
Quando tudo mais falhar a amizade deve prevalecer. É o caso de casamentos
longevos em que o casal de velhinhos, que já não pensa mais em sexo, a cada
dia estreita os laços afetivos em nome da amizade. Deve-se pedir também o
comparecimento da sabedoria. É convidada especial, nem sempre a
encontram. A sua ausência pode causar danos irreparáveis nas grandes e nas
pequenas coisas. “Com a sabedoria se edifica a casa, e com a inteligência ela se firma”.
Provérbios 24:3. É ela quem torna possível acomodar o dissídio e ajustar a
desordem; exercê-la é criar a possibilidade do equilíbrio e da constância, e
promover uma jornada feliz. “A mulher sábia (ou o homem sábio) edifica a sua casa,
mas a (o) insensata (o), com as próprias mãos, a derriba”. Provérbios 14:1. Por fim,
deve-se festejar a chegada da renúncia. Sem ela não há qualquer
possibilidade de convivência. Cada um dos pares traz consigo uma bagagem
imensa de conceitos, valores, virtudes e defeitos, desejos e sonhos os quais
desejam compartilhar. Mas logo se evidencia que os encaixes não são
automáticos e os ajustes deverão ser negociados. Sem um espírito brando,
humildade e a capacidade de abrir mão dos seus direitos e vontades em prol
de um acordo, é impossível seguir adiante. E esta é uma realidade diária, nas
pequenas e grandes coisas, entre casais que insistem em viver casados. O
negar-se a si mesmo e morrer muitas vezes tem sido a razão por que muitos
resolvem desistir do casamento, ou seguem com novas regras, como se
fossem solteiros, sem experimentar o milagre do ser uma só carne. Muitos
outros “convidados” devem ser intimados para as bodas, a fim de que haja
25
sucesso. Do contrário a casa estará vazia e susceptível aos invasores intrusos
e inoportunos. Sem que tenham sido convidados, virão e tomarão lugar à
porta os inimigos do casamento: em lugar do amor, a indiferença começa a
invadir o espaço do coração; em lugar do respeito, intransigência e violência
entrarão de mãos dadas para roubar a paz e a alegria; em lugar do
romantismo a dureza de coração e a grosseria; na cadeira da amizade se
assentará a rivalidade e suas manifestações; o choro em lugar do riso, o
silêncio em lugar da comunicação, a morte em lugar da vida. Não há
evidências, sequer implícitas, de que tenha havido estes elementos decisivos
no relacionamento entre Davi e Mical. Ao que parece, o que invadia e
dominava a mente do rei Davi era a sede de conquista. Não a conquista do
coração de sua mulher, mas a de territórios e posições. Em sua mente, e isto
fica claro, a prioridade era estabelecer e consolidar o reino de Israel,
alargando as suas fronteiras. Ele levou a cabo, cumpriu à risca e foi às
últimas conseqüências no cumprimento do que lhe ordenou o Senhor Deus,
e está registrado nos capítulos sete e oito do segundo livro do profeta
Samuel. Ele foi intenso e veraz, determinado e seguro, obstinado e
competente, mas esqueceu-se da sua casa; cumpriu cabalmente o que lhe foi
exigido, mas abandonou os sentimentos da mulher da sua mocidade. “Onde
está o teu tesouro, ali estará o teu coração”. Mateus 6:21. Você não acha no mínimo
estranho o fato de Davi, um homem de tamanha envergadura espiritual e um
modelo entre os heróis da fé, não fazer qualquer referência à sua vida
conjugal em nenhum dos seus escritos? Se fizermos uma pesquisa até entre
as crianças das classes introdutórias da Bíblia sobre as esposas dos heróis da
fé, elas recitarão sem embaraço desde a criação, como por exemplo: Adão e
Eva, Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Jacó e Raquel, Moisés e Zípora, etc.
Mas engancharão quando chegar em Davi, pois, ao que se sabe, o nome da
sua mulher oficial, depois que saiu de Hebrom e passou a morar em
Jerusalém, era Eglá (2 Samuel 3:5), nome que até nos soa estranho pela
ausência de familiaridade. Até Salomão que acumulou o incrível número de
mil mulheres, entre esposas e concubinas, tinha o seu coração preso a uma
jovem sulamita, já comentado. A arte de estar e permanecer casado exige
certas habilidades, sem as quais a vida a dois não flui. Trata-se, na verdade,
de um dom, e nem todos são aptos para receber este conceito, como diz o
Senhor Jesus (Mateus 19:11, 12).
26
5- Motivações veladas: edificando sobre a
areia
“E diziam uns aos outros: Vistes aquele homem que subiu? Pois subiu
para afrontar a Israel. A quem o matar, o rei o cumulará de riquezas, e
lhe dará por mulher a filha, e à casa de seu pai isentará de impostos em
Israel. Então falou Davi aos homens que estavam consigo, dizendo: Que
farão àquele homem que ferir a este filisteu e tirar a afronta de sobre
Israel? E o povo lhe repetiu as mesmas palavras”. I Samuel 17:25-27
P
ergunto: Qual terá sido a real motivação de Davi ao perguntar por
duas vezes àqueles homens sobre que recompensa seria dada a quem
conseguisse vencer o guerreiro filisteu? Seria o amor de Mical, ou
oferecer ao seu pai o benefício da isenção dos impostos em Israel, ou seria se
tornar rico e famoso? Esta última possibilidade é a menos provável, diante
da nobreza de caráter revelada no perfil de sua personalidade ao longo dessa
história, narrada nas páginas da Bíblia. Mas a segunda menos provável é que
tenha sido o casar-se com a filha do rei. Isto nós concluímos quando
observamos o conjunto da obra. Ninguém iria tão longe para chegar apenas
tão perto. Contrariamente, o patriarca Jacó pagou altíssimo preço pelo amor
que dedicara a Raquel quando, enganado por seu sogro Labão, foi obrigado a
servi-lo por mais sete anos para, enfim, tê-la como esposa. Assim sendo, ele
a amou até o fim, a despeito de ser ela estéril, das constantes disputas e
conflitos entre as irmãs e concubinas pelo seu amor, das enganações dolosas
de Labão, mudando constantemente o seu salário, de conseguir enriquecer
muito, e da crescente culpa que sufocava seu peito, ao se lembrar do seu
irmão Esaú e do que fizera a ele. Na hora crucial da sua vida, quando teve
que enfim encontrar-se com seu ferido irmão, temendo o pior para si e para
os seus, tomou todas as precauções possíveis e montou uma estratégia de
defesa. Depois de enviar adiante de si presentes para aplacar a fúria de seu
irmão, foi estabelecendo blocos de pessoas e animais que os separassem da
comitiva que trazia Esaú. Por fim, mais protegidos ainda, vinham os filhos e
Lia e, por último de todos, quem ele mais amava: Raquel e José. (Gênesis
33:2). O verdadeiro amor deixa as suas inconfundíveis marcas por onde
passa e nenhuma circunstância pode detê-lo. “As muitas águas não poderiam
apagar o amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens da
sua casa pelo amor, seria de todo desprezado”. (Cantares 8:7). A pergunta que
inicialmente fiz por certo não será facilmente respondida, por se tratar de
27
motivação ou intenção velada. Pois, na verdade, só Deus conhece os
corações dos homens e suas maquinações. O que para nós é matéria de
análise e estudo é apenas parte daquilo que vaza e se expõe; são os frutos ou
as evidências verbais, ou não, que apontam para elementos subjetivos que se
efetivam no comportamento. Ou seja, as ações repetidas que formalizam o
conceito. Verdade seja dita, Davi não demonstrou nas ações amar Mical, de
coração; as ações gritam mais alto que o mais ensurdecedor berro; são
eloqüentes e enfáticas, quase sempre o veredicto. O verdadeiro amor não é
demonstrado com palavras apenas, mas com atitudes; o amor consiste em
dar; amor é gesto. Por isso não existe amor sem entrega e sacrifício.
Encontramos isto muito bem claro na declaração verbal e nas ações práticas
de Mical em relação a Davi; o contrário não. Então, por que Davi perguntou,
repetidamente, qual seria o prêmio a quem desse vitória a Israel, e dissimulou
diante de seu irmão, dizendo que fez apenas uma pergunta? (17:26, 30)
Sintomático, não? Não pode ser mera coincidência ou detalhe sem sentido
para render conversa e enxertar o texto. Como seres humanos que somos,
todos, inclusive Davi, imperfeitos, limitados, influenciáveis, inclinados
naturalmente ao pecado e suas manifestações, incapazes de governar os
próprios impulsos e discernir as veredas do coração, não estamos isentos e
imunes às armadilhas da natureza caída que milita em nossos membros,
como ele mesmo disse:
“Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são
ocultas”. Salmos 19:12; ou ainda: “Enganoso é o coração, mais do que todas
as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor,
esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos”.
Jeremias 17:9, 10. Pelo menos nas palavras do seu irmão mais velho, Eliabe,
que o conhecia desde o seu nascimento, encontram-se, ainda que imprecisos,
sinais de possíveis sentimentos presentes nas declarações e gestos de Davi:
“Ouvindo-o Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se-lhe a
ira contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas
ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a tua maldade; desceste apenas
para ver a peleja. Respondeu Davi: Que fiz eu agora? Fiz somente uma pergunta.
Desviou-se dele para outro e falou a mesma coisa; e o povo lhe tornou a responder
como dantes”.
1 Samuel 17:28-30. Uma coisa eu, Itamar Santana Bezerra, não tenho
dúvidas: Pelo contexto que envolve toda essa história, quero afirmar que não
devia haver no coração de Davi apenas a intensa indignação pela insistente
afronta de Golias aos exércitos de Israel, muito bem frisada pela sua reação
28
contundente ao ouvir as palavras do gigante: “Quem é, pois, esse incircunciso filisteu,
para afrontar os exércitos do Deus vivo?”. Vs 26. Havia algo mais; ainda que somente
o conceder vida tranqüila à casa de seu pai, ou mesmo constituir a sua
própria família, o que não significa, necessariamente, casar por amor e
acalentar o doce sonho de ter um lar. Uma casa com pessoas morando
dentro nem sempre é um lar; ter um enlace de papel assinado perante
magistrados não significa que tenha havido um casamento; ter uma mulher
ao seu lado não é a mesma coisa que encontrar a sua companheira, parceira,
o seu grande amor. Assim, muitíssimos ajuntamentos, aos quais chamamos
casamento, lutam desesperadamente em busca de sobrevivência, por já não
mais encontrarem sentimentos que justifiquem a união, nem laços que os
prendam ao coração. Simplesmente ao que chamavam de amor acabou, e o
que restou foi culpa, ressentimento, dívida emocional e prisão psicológica.
Tudo fruto de decisões precipitadas, falta de critério, e o casar-se por
motivações outras que não o verdadeiro amor conjugal. Edificar um lar
sobre fundamentos volúveis é profetizar o caos e apenas aguardar a
derrocada. Se não, vejamos:
“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a
um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva,
transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto sobre aquela casa,
que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas
minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que
edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram
os ventos e deram com ímpeto sobre aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua
ruína”.
Mateus 7:24-27. Muitas são as lições que podem ser tiradas deste texto com
respeito à vida familiar; as tenho usado de forma abundante em minha
própria vida como casado e nas diversas palestras que ministro para casais e
igrejas. Tipo: A casa projetada tanto pelo homem prudente como pelo
insensato ela é edificada. Ela não é encontrada pronta; é fruto de alto preço,
de despender muito, tanto de tempo, como de recursos; implica em
investimento e paciência. Conquanto no projeto e na mente ela já esteja
acabada, linda e maravilhosa, na prática duro trabalho terá que ser efetuado
para que tudo se concretize e se estabeleça. Somente quem já pôs a mão na
massa em uma edificação sabe mensurar o seu valor; alguém que passa por
uma rua e se admira ao ver uma belíssima casa, não tem idéia do quanto foi
gasto para que tudo aquilo viesse a existir, nem mesmo de quantas horas de
angústia e ansiedade foram vivenciadas por seus idealizadores durante o
longo tempo e processo de sua execução. Da mesma forma, uma linda
29
família bem ajustada e feliz, em um casamento onde há amor sincero, e de
cuja relação nascem filhos equilibrados e reverentes, não surge da noite para
o dia, nem ocorre por acaso ou por algum passe de magia, mas de uma
edificação tijolo por tijolo, pedra por pedra, palavra por palavra, regras,
disciplina, renúncia, perseverança, suor e, sobretudo, muita oração. Dá uma
suadeira tremenda, mas é o projeto de Deus. O segundo aspecto importante
deste texto é que caem as chuvas, transbordam os rios, sopram os ventos
com ímpeto tanto sobre a casa do prudente como sobre a casa do insensato.
Os males se abatem sobre ambas; as tempestades acontecem inevitavelmente
sobre ambos. Sejam elas de ordem emocional ou espiritual, ou econômicofinanceira, ou física, como enfermidades, ou de ordem relacional, como
ingerência de parentes e amigos, ou mesmo circunstancial, como situações
do cotidiano que perturbam e desestabilizam a relação. Ninguém está isento
dos vendavais, eles sempre vêm; só que no final uns ficam de pé e outros
não. É sobre isto que quero comentar um pouco: os dois fundamentos, areia
e rocha. Edificar uma família sobre a areia é construir sobre terreno
impróprio, inseguro, instável e movediço; é ancorar o coração em um tronco
sem raiz ou debruçar a alma em um parapeito deslajeado; é tatear hesitante
qual cego pela luz; dentes frouxos, pernas bambas, bala perdida, barco à
deriva. Edificar sobre a areia é casar-se por outros interesses e não por
sincero amor. Há muitos que casam embalados pelo sonho de mudar de
status, tendo em vista que o seu pretendente é de condição social e financeira
relevantes; são os que resolvem arrumar a vida. Há outros que decidem se
casar porque já não sabem mais o que fazer com o corpo que é uma chama
só; a libido alcançou níveis estelares. É o que o Apóstolo Paulo chama de
viver abrasado; não conseguem enxergar outra coisa que não seja sexo. Esse
tipo de relacionamento perdurará até que os seus desejos sejam satisfeitos.
Há também aqueles que se casam por cederem à pressão da família ou do
círculo social a que pertencem; são os que não podem exercer determinadas
atividades sendo solteiros, pois a convenção determinou assim. Eu já ouvi
isso de um seminarista: “Eu tenho que casar logo, pois já estou prestes a me
formar e é inadmissível para a igreja que vou pastorear ter um pastor que não
seja casado”. Sem contar aqueles (principalmente aquelas) que se casam
porque lhes disseram que a partir de tal idade chega o caritó, e entendem que
é melhor estar mal acompanhado do que só. Também há os que se casam
porque a circunstância os força a isso. Houve um envolvimento sexual antes
do tempo permitido e daí uma gravidez indesejada. Muitas vezes cometem
um erro pensando em consertar outro. Enfim, são muitas as razões e
motivações que levam casais a construírem sobre a areia e danificarem suas
vidas. Logo que se inicia o relacionamento, obviamente não se manifestam
os pontos fracos e as incompatibilidades. Mas tão logo surjam os ventos
30
fortes e o transbordar das muitas águas, as estruturas mal firmadas logo
cedem trazendo tudo o que foi construído abaixo. Por isso as pessoas ficam
perplexas e não entendem o que faz um casal separar-se por motivos tão
banais. É que, na verdade, tudo foi edificado sobre areia. Mas edificar sobre
a rocha é bem diferente. Rocha é massa de pedra muito dura, coisa firme,
inabalável, segundo os dicionaristas. É sinônimo de segurança, imutabilidade,
estabilidade. Assim é definido o governo e a assistência do Senhor Deus para
com o seu povo e a postura daqueles que nele confiam:
“Os que confiam no Senhor são como o monte de Sião, que não se abala, firme
para sempre. Como em volta de Jerusalém estão os montes, assim o Senhor em
volta do seu povo, desde agora e para sempre”.
Salmos 125:1, 2. Essa é a idéia; algo em que não há qualquer sombra de
variação ou mudança; algo realmente seguro. “Tirou-me de um poço de perdição, dum
tremedal de lama; colocou os meus pés sobre uma rocha e me firmou os passos”. Sl. 40:2.
Rocha e firmeza estão intimamente associadas. Um casamento firmado na
rocha não se abala, ainda que venham (e vêm) as mais impetuosas
tempestades; lá está ele de pé. A esposa confia em seu marido, cujo
comportamento é sóbrio e maduro, e ele confia em sua esposa, mulher de
uma só palavra, honesta e piedosa; seus filhos descansam na condução dos
seus pais, que lhes transmitem respeito, amor e rumo. Um lar ajustado e
estável, esta é a vontade de Deus. Siga comigo a analogia... A edificação de
uma casa consta de alicerce, colunas, paredes, cobertura e acabamento. Cada
um desses elementos carrega em si significados espirituais e ilustram
perfeitamente os passos dados na edificação de um lar. O alicerce ou o
fundamento representa o lastro ou a raiz sentimental em que todo o
relacionamento afetivo se apóia¸é o começo de tudo, a essência que explica e
justifica o enlace, o ser uma só carne. Para que se lancem os fundamentos é
necessário limpar toda a área em que será construída a casa, retirar entulhos,
aplaná-la, cercá-la, é o namoro, a fase do conhecimento mútuo; depois de
preparado o terreno, vem a hora do projeto, é o noivado; enfim inicia-se a
construção, é o casamento. Fincam-se as colunas de sustentação que serão a
estrutura básica que darão formato à casa. Cada uma dessas colunas
representa um valor no casamento, como: respeito, fidelidade,
companheirismo, amizade, romantismo, cuidado, desvelo, etc. Sem essas
bases toda a construção fica vulnerável e suscetível a abalos. Levantam-se as
paredes, que se estendem ao longo das colunas; elas representam a
continuidade, a rotina, o dia a dia, o colocar bloco após bloco num contínuo
exercício de paciência e perseverança. Cada tijolo é uma história, um fato
vivenciado pelos que fazem essa casa; a massa e o cimento simbolizam a
31
cumplicidade que os une. As portas e janelas são uma representação das
entradas e saídas espirituais, os acessos e contatos com o mundo do lado de
fora; a permissão ou o impedimento que estranhos invadam seus aposentos.
O teto, obviamente, simboliza a proteção espiritual, o cuidado divino que
jamais pode faltar a qualquer casamento. E, por fim, os acabamentos ou os
detalhes que personalizam uma casa; esses são também a forma distinta de
Deus tratar cada indivíduo e cada família, com marcas próprias que tornam
ricas as histórias de cada família, tenham elas finais felizes ou não. Assim são
edificadas as casas, assim são edificadas as famílias. A última peça do
acabamento depende da primeira pedra posta no alicerce. As últimas coisas
são conseqüência das primeiras. Um fundamento malfeito trará implicações
sérias a tudo o que se fizer adiante. O que começa errado tem tudo para
terminar mais errado ainda, a menos que haja preste intervenção e conserto.
Quando, porém, os sinais iniciais apontam para a perfeição, podemos
esperar a bênção. No caso específico do rei Davi, não poderia ter terminado
às mil maravilhas o seu relacionamento com Mical, tendo havido um início
tão desastroso, sem sinais evidentes de reciprocidade no sentimento que é o
alicerce para a construção de um relacionamento saudável e duradouro. Suas
reais motivações ao se oferecer para lutar com o gigante, com absoluta
certeza, não poderemos declarar que foi esta ou aquela, mas os frutos do seu
comportamento em relação à mulher da sua mocidade nos permitem afirmar
que sua vida conjugal foi uma casa edificada sobre a areia. E que essas lições
nos sirvam como exortação e alerta.
32
6- A desilusão por falsas promessas
“Tendo os servos de Saul referido estas palavras a Davi, agradou-se este
de que viesse a ser genro do rei. Antes de vencido o prazo, dispôs-se Davi
e partiu com os seus homens, e feriram dentre os filisteus duzentos
homens; trouxe os seus prepúcios e os entregou todos ao rei, para que lhe
fosse genro. Então, Saul lhe deu por mulher a sua filha Mical”. 1 Samuel
18: 26, 27
U
ma cerimônia de casamento é sempre uma ocasião muito bonita e
inspirativa. Quem há que nunca tenha se emocionado com um
desses eventos? Belos templos são divinamente ornamentados,
cuidadosamente enfeitados para receber em uma noite especial pessoas
especiais. Sofisticação, glamour, charme, encanto pessoal, magnetismo por
toda parte. De flores são escolhidas as mais belas e perfumadas; elas estão
estrategicamente arrumadas, bem posicionadas ao redor do altar; dão o toque
da leveza e do romantismo que inspiram o momento. Vestes alvas remetem
a todos a uma folclórica candura, inocência e pureza nem sempre presentes,
mas simbolizadas no véu e na grinalda que adornam a já maquiada noiva,
tornando-a à semelhança de um anjo. O noivo à espera, sorridentes
convivas, músicas românticas de acordes doces, poesia no ar. Tudo parece
celebrar o amor. Um aperto de mão, um meigo olhar, enquanto o violino
toca Handel, Mozart ou Bach. Ouvem-se os primeiros acordes da marcha
nupcial, todos ficam de pé, ela vem chegando lentamente, é o grande
momento... Corações vão pulsando mais forte, os olhos brilham, é a magia
do amor numa explosão de felicidade. Surgem os anéis, belos e cintilantes;
serão testemunhas de votos muito graves; sim, tudo é muito solene e
circunspecto. No momento áureo do enlace os noivos postam-se frente a
frente de mãos dadas e olhos nos olhos e, atentos, aguardam o esperado
momento do “sim”, enquanto o celebrante, pausadamente, lhes indaga:
“Você, João, recebe a Maria por sua legítima esposa prometendo a amar,
cuidar dela, respeitá-la, ser-lhe fiel, ser seu braço e amparo todos os dias, seja
na alegria ou na tristeza, havendo abundância ou escassez, saúde ou
enfermidade, até que o Senhor os venha buscar? Ele, de peito estufado,
cabeça erguida e voz firme, responde com clareza: Sim! Voltando-se o
celebrante para a Maria, repete as mesmas palavras. Ela, ouvindo-as
atentamente, de olhos marejados fitos no amado, levemente ofegante, com
voz embargada, também diz: Sim! Lindas músicas são tocadas enquanto os
anéis passam da mão direita para a esquerda, sob novas declarações e
33
promessas de fidelidade, amor e respeito eternos. Ao final, a bênção nupcial.
Todos de pé, ao som de alguma melodia alegre, saem os noivos sorridentes,
transbordantes, passos firmes pela mesma passarela ainda coberta de pétalas
de diversas rosas deixadas pelas damas, como que profetizando uma vida
assim; deixando em todos a grata impressão de que tudo ficará bem, de que
serão felizes para sempre, a julgar pela festa oferecida e pelas declarações
feitas no altar. Meia hora depois as luzes são apagadas, a vozearia silencia,
todos voltam para casa, descem do monte da transfiguração. As lindas flores
vão murchando, as belas vestes voltam para os guarda-roupas e de tudo o
que foi vivido naquele dia, de esperança e promessa, fica para sempre
registrado em um álbum de fotografias e em uma fita de vídeo. Em muitos
casos são meras palavras, rito apenas, partes constituintes de uma cerimônia,
votos precipitados e levianos de quem não se ressente de ter que voltar atrás.
São palavras ditas que poderiam ser outras quaisquer; promessas retóricas de
quem não poderia jamais dizer não diante de tantas testemunhas, parentes e
amigos. A solenidade desses votos perdeu-se no tempo e na história. Hoje,
empenhar a honra não significa muita coisa; probidade e dignidade
relativizaram-se. Virou brincadeirinha e piada ir ao altar e fazer de conta que
tudo é verdade; por isso uma moça é capaz de caminhar até o altar vestida de
véu e grinalda carregando no ventre um bebê, fruto de uma vida ativamente
promíscua, sem o menor constrangimento, e igualmente o rapaz, com a
única diferença de que a sua barriga não cresceu. Deus, o Senhor, a tudo vê e
leva a sério o que se faz em seu nome no seu santo templo. Promessas...!
Muitos casamentos sucumbem ante as promessas não cumpridas. Acumulam
expectativas que se rompem como comportas em desilusão. E quanto
maiores forem elas, tão mais forte será a decepção; quanto mais importante o
teor da promessa, mais aguda será a frustração; sendo grande o potencial mal
aproveitado, imenso também será o desencanto. Este foi o caso de Davi.
Todo assombro e cobrança sobre ele no tocante ao seu casamento mal
sucedido com Mical, se deram pelo fato de ser ele quem ele era. Davi era o
homem segundo o coração de Deus. E de um homem com a envergadura
espiritual e moral como a que Davi tinha, e com a sensibilidade artística que
demonstrava ter; um homem em cujas veias circulavam poesias; um alguém
com tantos dons e habilidades, além de uma unção diferenciada desde a
mocidade, não se podia esperar tamanha insensibilidade afetiva, ou pelo
menos em declarar os seus afetos pessoais. Davi era um homem rico em
realizações, mas pobre em demonstrar amor. Mais uma vez: Saul, Jônatas,
Mical, todos verbalizaram o seu amor por Davi, mas em nenhum momento e
em nenhum lugar há qualquer referência do amor dele por ninguém. Como
dizia a minha mãe: “galo gabado, ovo gorado”. Apenas especulamos o que
deve ter povoado os sonhos e a imaginação de Mical ao enamorar-se com
34
Davi. Nossa! Ali estava o exemplo de filho perfeito, obediente e prestativo,
que cuidava alegremente das ovelhas do seu pai, sem reclamar; um homem
admirável, cavalheiro e gentil, por quem todas as mulheres do reino eram
apaixonadas e lhe faziam cânticos; respeitador e submisso, como fiel
escudeiro do seu pai, a ponto de ganhar-lhe a inteira confiança; um artista
fantástico, inventor de instrumentos musicais e instrumentista habilíssimo,
principalmente com a sua harpa (o que mais apreciava); guerreiro bravo,
valente e destemido, lutou até com um leão e um urso e os despedaçou;
estrategista nato e arguto nas palavras; e, como se não bastasse, lindo.
Obviamente, naturalmente, grande expectativa foi gerada no coração de
Mical de que nos braços dele ela seria a mulher mais feliz que já pisou o
planeta terra. Inda mais o homem que se empenhou tanto matando duzentos
guerreiros e lhes arrancando os prepúcios como dote e sinal de bravura para
conquistar o seu coração. Oh! Que homem! Que sorte! Que decepção!
Quanta ilusão! A verdade é essa: quando não se espera nada, o que dali vem
é lucro. Mas quando muito se espera, o muito que vem ainda é pouco.
Temos um exemplo típico narrado pelos evangelistas, no ministério terreno
de Jesus. Certo dia, quando ele voltava de uma aldeia chamada Betânia, teve
fome. E vendo, de longe, uma figueira com folhas, foi ver se nela acharia,
porventura, algum fruto. Não encontrando senão folhas, ele amaldiçoou a
figueira que secou no mesmo instante. Das muitas lições que podem e
devem ser tiradas dessa narrativa, uma em especial me chama muito a
atenção: Jesus condena as falsas promessas. Ele tinha fome e enxergou o que
podia comer; criou enorme expectativa. Caminhou em direção à árvore na
certeza de encontrar frutos, pois a figueira tinha folhas. Quem conhece esse
tipo de planta sabe muito bem o que isso significa. Ela é uma árvore nativa
da Ásia ocidental que precisa de cuidados para produzir frutos. A cada
estação a sua aparência se modifica, acompanhando as alterações climáticas,
chegando a parecer totalmente desidratada e morta no fim do verão, por
exemplo. Segundo nos informa Isaías capítulo 28, o mês de Junho é o mais
favorável à maturação desses frutos, e na primavera os frutos novos
aparecem, pouco antes de as folhas se abrirem. São essas folhas que
protegem os delicados e suculentos figos que não podem receber a
incidência forte dos raios do sol enquanto se desenvolvem. No caso de Jesus,
o texto diz, claramente, que não era tempo de figos, mas as folhas eram o
sinal de que eles estavam lá; se havia folhas deveria haver figos. Essa era a
lógica, mas foi um sorumbático engano. A reação de Jesus ilustra bem a
gravidade de uma falsa promessa. “Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em
cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do
que votes e não cumpras”. Eclesiastes 5:4, 5. As decepções abatem a disposição do
espírito, destroem a capacidade de sonhar e matam a esperança. “A esperança
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que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida”. Provérbios 13:12.
Esta tem sido a realidade de muitos casamentos que cambaleiam e a causa de
muitos outros que sucumbiram: a desilusão por falsas promessas. Em visita a
um casal amigo que se encontrava em grave conflito, presenciei uma
discussão aguda que demonstrava haver um vulcão à beira de uma erupção
violenta. Os olhares faiscavam e os dentes rangiam ferozes; os músculos
visivelmente tensos faziam saltar as veias do pescoço; as mãos gesticulavam
nervosas e se contraiam cerrando os punhos, quem sabe em um contido
desejo de luta; ignoraram a minha presença, ou se aproveitaram dela como
testemunha e árbitro. Longos minutos depois de intenso tiroteio verbal,
frases frias e calculadas foram sendo destiladas com o visível e único intuito
de atingir algum ponto que desestabilizasse o outro. De repente, a esposa
levantou-se de um salto e entrou em um dos aposentos, como que se
lembrando de algo que pudesse resolver a questão. Fiquei meio apreensivo,
até pensando que ela poderia trazer de lá alguma arma, sei lá... Ouvi os seus
passos pesados e decididos batendo o chão, tum, tum, tum! Trazia na mão
uma fita de vídeo e colocava na minha mão, dizendo: “Ta aqui, pastor, eu
queria que o senhor colocasse pra rodar essa fita na nossa presença, pra o
senhor ver e ouvir um monte de mentiras deslavadas”. Era o filme do seu
casamento. Felizmente, horas depois as coisas foram se acalmando e houve
mais uma reconciliação entre ambos. Entre idas e vindas, altos e baixos,
esses irmãos estão caminhando em busca de um terreno plano onde possam
desenvolver suas potencialidades e curar as memórias feridas. A esperança de
que tudo se ajeite é a veia que nutre a rotina desse casal e a de tantos outros
que trilham a mesma senda. Muito mais que um sentimento nostálgico, cada
um deles conserva na mente a expectativa de um milagre, qual seja, por
exemplo, a ressurreição daquela jovem sorridente e carismática, sonhadora e
vívida que arrebatou de súbito o coração do rapaz; os pequenos gestos de
afeto e doçura demonstrados nos momentos menos esperados; as palavras
mágicas que, de tão ternas, desmancharam o coração do moço, quebrandolhe todas as resistências e fazendo-o acreditar que um anjo teria menos
fascínio e esplendor, e que essa torrente de amor e paixão seria a única coisa
presente em cada dia de sua vida, para sempre e sempre; as promessas feitas
no solene e romântico ambiente da cerimônia de casamento apenas viriam
selar de vez essa sua agradável descoberta. Assim, no acumular dos dias, seus
desafios e complexidades, tendo, enfim, ocorrido a inevitável nudez
psicológico-emocional, as contidas facetas da verdadeira personalidade da
jovem se desprendem do seu baú de segredos e reservas, e as primeiras
surpresas despencam sobre o ingênuo rapaz. Como o sonho e a realidade
destoam, ele tentará a qualquer custo reformar e mudar a sua companheira à
imagem original pela qual se apaixonou. Conclusão: Novas expectativas e
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novas frustrações. O mesmo ritual é seguido pela formosa donzela que abre
o seu coração para a vida e no fulgir dos primeiros raios da paixão, logo
encontra alguém que lhe enche os olhos, e lhe parece preencher todas as
lacunas existenciais. Ele demonstra através de gestos e palavras ser um
exemplar diferente de todos os demais homens; afinal, que doçura de pessoa,
agradável, sensível, respeitador, atencioso, incapaz de fazer ou dizer qualquer
coisa que venha a entristecer ou magoar a sua amada; um homem forte e
gentil, em cujos braços qualquer mulher será uma deusa dentro de uma
redoma de amor. Coitada, nunca presenciou nenhum mau hábito ou
qualquer sinal de vulgaridade ou desasseio. Vindo o desgaste natural da
convivência, se não bem cuidada, logo percebe que está casada com um
porco. É o caso da menina que pensou estar casada com o sonhado príncipe
do cavalo branco, e logo percebeu que o príncipe foi embora e quem ficou
em casa foi o cavalo. Ou o rapaz que se casou com a Cinderela e acordou
com a borralheira. Não tem jeito, enquanto o casal não for confrontado pela
verdade e a assimilar, será visitado por freqüentes decepções. A verdade é
que somos seres imperfeitos e formatados individualmente pela cultura que
nos formou. Por mais eloqüente e incisivo que seja o apelo pela mudança do
cônjuge, jamais logrará êxito, pelo contrário, estabelecerá paredes de
separação e ringues para disputas, pois ninguém jamais recebeu diploma do
Espírito Santo capacitando a operar mudanças nos elementos constituintes e
característicos de uma pessoa, nem é esta a idéia de Deus ao ajuntar duas
pessoas diferentes; antes, o respeito e aceitação mútuos criarão um espaço
livre para o crescimento funcional e relacional de ambos, sem cobranças nem
culpa. Até que se descubra e entenda isso haverá sempre a tentativa de se
criar clones de sua própria vontade. Qual será o resultado ao fim? Desilusão.
Um diálogo maduro e humilde estabelecerá uma rota segura e firme para
quem espera chegar ao porto.
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7- O pior dos sentimentos: O
desprezo
“Então, veio Davi a Nobe, ao sacerdote Aimeleque; Aimeleque, tremendo,
saiu ao encontro de Davi e disse-lhe: Por que vens só, e ninguém,
contigo?”. I Samuel 21:1
“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu
trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que
estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois
dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? Se
alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de
três dobras não se rebenta com facilidade”. Eclesiastes 4:9-12.
E
u não posso garantir, mas desconfio que você já deve ter parado
algumas vezes para questionar: De onde esse camarada vem tirando
essas idéias incriminatórias sobre Davi, um homem tão aclamado e
de quem todos nós tomamos exemplo? De onde lhe vem, inclusive, a
coragem para tratar com tanta naturalidade esses assuntos, relacionando-os a
um homem que é um tipo de Cristo? É certo que a literatura religiosa do
mundo inteiro, ao longo dos séculos, tem posto em destaque a vida desse
homem de Deus, no lugar que realmente deve estar. Na história da
humanidade pouquíssimas pessoas viveram apenas próximas ao que Davi
experimentou em toda a sua existência ao lado do Autor da vida, a ponto de
ser conhecido como o homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), pela
obediência e caráter provado em serviço, na maior parte dos seus dias. Mas,
como diz a Escritura, não há um só justo, um sequer, e dos erros cometidos
por Davi tiramos preciosas lições que podem nos livrar de maus caminhos e
danos à nossa vida espiritual. A consciência que ele mesmo tinha da sua
condição de pecador me tranqüiliza quando analiso e exponho aquilo que se
tornou evidente dos seus pecados. “Eu nasci na iniqüidade e em pecado me concebeu
minha mãe”. Salmo 51:5. Quanto ao fato de ser ele um tipo de Cristo, lembrome do patriarca Isaque que segue a trilha dos tipos, sendo exemplo de
obediência até à morte, de onde figuradamente o pai Abraão o recobrou.
Mas não obstante tenha sido ele, Isaque, esse exemplo, a sua relação familiar
também foi desastrosa. Mentiras, traições, desrespeitos, preterições e fugas
marcaram a trajetória da sua casa até o final dos seus dias. Também por seus
pecados outro tipo de Cristo recebeu duríssima pena: Ficou apenas a
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contemplar a terra prometida do alto do monte Nebo, enquanto aqueles a
quem libertou do cruel cativeiro egípcio seguiam para tomar posse da
promessa em Canaã. Moisés foi chamado “o amigo de Deus”, recebeu em
sua face a glória do Altíssimo, mas errou ao ferir a rocha em Meribá, em vez
de falar-lhe. Números 20:7-12. Até mesmo o profeta Elias, homem que a
terra não merecia tê-lo, e por isso foi arrebatado espetacularmente em um
carro de fogo, também cometeu os seus deslizes e fraquezas;
contraditoriamente, ele era da raça de Adão como todos nós e sujeito aos
mesmos sentimentos (Tiago 5:17,18; 1 Reis 18:41ss). Estudando, pois,
cuidadosamente, a vida do rei Davi, descobri senões e atalhos perigosos que
me acenderam a luz vermelha e me ajudaram a observar melhor o meu
casamento e a minha postura como marido e pai. Na narrativa dessa história,
tendo se intensificado a sistemática perseguição de Saul a Davi, com a ajuda
da própria Mical ele escapa por uma janela para não mais voltar a Gibeá.
Exaustiva jornada em fuga é encetada. Dali ele vai a Ramá, avistar-se com
Samuel, na casa de profetas, em busca de refúgio e encorajamento; depois
passa a Belém e a Nobe, onde se encontra com o sacerdote Aimeleque, em
busca de suprimentos e leva consigo a espada que pertencera a Golias. Foge
para Aquis, onde, por medo, finge que é doido deixando escorrer a baba
pelos cantos da boca, e dali corre para refugiar-se na Caverna de Adulão. Sob
pressão, em razão da proximidade dos homens de Saul, passa a Mispa de
Moabe e depois busca lugar seguro nos bosques de Herete. Dali, tendo
ouvido o clamor dos habitantes de Queila que gemiam sob a perversidade
dos filisteus, consulta o Senhor e sobe para livrar essa cidade das mãos dos
seus inimigos. Saul, então, tendo sabido da presença de Davi naquele lugar,
ruma para Queila em perseguição a ele, que foge para o deserto de Zife, até
ser denunciado por pelos zifeus; vai para Em-Gedi e depois para o deserto
de Parã, em lugar seguro. Chega em Carmelo e depois da história com Nabal,
toma por mulher a Abigail e, em seguida, Ainoã, que seguem jornada
consigo, indo habitar por um ano e quatro meses em Gate. Davi e suas duas
mulheres saem dali e vão residir em Hebrom, onde passam sete anos, e onde
são acrescidas à família mais quatro mulheres, a saber: Maaca, filha de
Talmai, rei de Gesur; Hagite, Abital e Eglá, mulher de Davi. (1 Samuel 3:2-5).
Completando a rota de peregrinação, finalmente vai morar em Jerusalém,
onde fica o resto dos seus dias, ou seja, trinta e três anos de reinado sobre
todo o Israel e Judá. Em Jerusalém, portanto, ocorre o dramático adultério
de Davi com a mulher de Urias, chamada Bate-Seba, com a qual tem quatro
filhos, dentre os quais um, a quem chama de Salomão. Este veio a ser o
sucessor do seu trono e o homem mais sábio de toda a terra. Por que estou
dizendo isto? Por que estou seguindo este caminho? O que isto tem a ver
com o título enunciado? É que fica sem resposta o fato de Davi ter deixado
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para trás a mulher da sua mocidade; aquela que arriscou a sua própria vida
para salvá-lo da fúria do seu pai; aquela que não poupou nem lhe escondeu
as suas reservas de amor. _ “Ei, espere um pouco, pastor, ele não a levou
porque não poderia arriscar a vida da sua amada numa aventura tão
perigosa”. Será? Onde ele manifesta isto? Ainda que sutilmente. Pelo
contrário, nenhuma referência é feita, ou qualquer indício sutil de saudade ou
ressentimento por sua falta. Ademais ele não abriu mão de levar consigo as
suas duas novas mulheres, Abigail e Ainoã, mesmo ainda em meio à
perseguição e perigo de morte. Há quem encontre resposta na especulação
de que o rei Saul não permitiu que a sua filha o acompanhasse ou que o
mesmo já teria dado a sua filha a outro homem. Essas duas conjecturas são
facilmente rechaçadas, tendo em vista que Davi morava em sua própria casa
com sua mulher Mical, sem ingerência por parte do rei (1 Samuel 19:8-11), e
ainda por não haver qualquer referência a uma ordem ou decreto do rei para
que isso acontecesse. Quando Mical salvou a vida de Davi, descendo-o por
uma janela, eles ainda eram marido e mulher (19:12-17). Certamente Saul
entregou a sua filha em casamento a Paltiel após a deserção de Davi. Em
contraste com esta atitude nós encontramos a declaração que virou mote em
quase todas as cerimônias de casamento: o compromisso de Rute para com a
sua sogra Noemi.
“Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer
que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu
povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e ai serei
sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a
morte me separar de ti”. Rute 1:16, 17.
Isto comove o nosso coração e nos inspira a viver o real sentimento de afeto
e interdependência que deve haver entre pessoas que se amam. O ser uma só
carne implica nisto; não há como desmembrar um do outro; estão
irremediavelmente presos um ao outro por fortes laços espirituais e
emocionais; mexer com um é comprar briga com o outro; não há sequer a
possibilidade de se considerar a felicidade de um em prejuízo do outro. Que
alegria pode haver no coração de um amante ao ver o sofrimento da sua
alma gêmea? É impossível. Até mesmo entre os animais se pode perceber a
tristeza pela perda do par que os completa ou de alguém bem próximo a eles.
Lembro-me, como se fosse hoje, de um casal de filhotes de rolinhas-caldode-feijão que criei, ainda na minha infância, até que se tornaram adultas. Elas
viviam alegremente soltas no terreiro da nossa casa, e quando chegava o
entardecer, se empoleiravam em uma velha gaiola sem porteira que ficava na
parede externa que dava para o quintal. Certo dia, um gato astuto que
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criávamos, chamado menininho, arrojou-se sobre uma delas, abocanhando-a
e passando a unha de leve no pescoço da outra que conseguiu escapar. Os
dias que se seguiram foram de profunda fossa para a sobrevivente. Postavase inerte no poleiro da velha gaiola, bico encostado no peito e longos
suspiros, em evidente sentimento de perda. (Estaria eu exagerando?) Não
comia, nem saia mais para o seu vôo costumeiro nos horários que nós já
conhecíamos, até que um dia foi embora de vez. Algumas semanas depois ela
aparece no quintal com um companheiro novo; dava para conhecer pelo
penacho arrepiado do pescoço (coisas do reino animal). Quem cria algum
tipo de bicho e lhe dedica amizade sabe perfeitamente do que estou falando.
Há histórias belíssimas e outras tristes desses amiguinhos domésticos. Esse
mesmo gato que citei, o menininho, anos depois quando tive que ir morar
fora de casa para desenvolver os meus estudos, por ser tão apegado a mim e
eu a ele, no dia da minha partida ele, como que pressentindo que seria algo
diferente, miava alto pela casa inteira, se roçava exageradamente em minhas
pernas, rolava pelo chão, uma cena que chamava a atenção de todos que o
conheciam. Logo após a minha partida ele desapareceu de casa por uns dois
meses, voltando todo magro, irritado e taciturno, com um comportamento
totalmente diferente do menininho que conhecíamos. Uns dois meses
depois, saindo eu de férias, fui visitar os meus pais no interior. A festa que
esse gato fez foi algo que merecia ser filmado e guardado com carinho. Pois
é, se animais exprimem esses sentimentos, que diríamos acerca de nós,
humanos, feitos à imagem e semelhança do Criador? Não podemos esperar
festa e folguedo de quem é vítima do abandono e do desprezo, ainda mais
quando muito é repartido e pouco retribuído; quando promessas são feitas e
expectativas criadas. Ouçamos a voz da Sulamita em flagrante
desapontamento:
“O meu amado meteu a mão por uma fresta, e o meu coração se comoveu por amor
dele. Levantei-me para abrir ao meu amado; as minhas mãos destilavam mirra, e
os meus dedos mirra preciosa sobre a maçaneta do ferrolho. Abri ao meu amado,
mas já ele se retirara e tinha ido embora; a minha alma se derreteu quando, antes,
ele me falou; busquei-o e não o achei; chamei-o, e não me respondeu. Conjuro-vos, ó
filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado, que lhe direis? Que desfaleço de
amor”. Cantares 5:4-8.
Desprezar é desinteressar-se, ignorar o valor, considerar algo somenos, ainda
que involuntariamente, e isto toca profundamente a alma de quem dele é
alvo. Como bem disse o inesquecível Rui Barbosa, jurista e pensador baiano,
conhecido mundialmente como o águia de Haia: “Há muitas maneiras de pecar
contra uma pessoa: O desprezo, primeiro, também a indiferença, que é a face mais aguda desse vil
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sentimento. O desdém fere o homem em sua paixão mais irritável: o amor-próprio”. Sim, todo
ser humano tem necessidade de ser aceito, apreciado, valorizado, elogiado e
reconhecido. O desprezo gera um sentimento ruim de inferioridade,
impotência e incapacidade, e pode levar a pessoa desprezada a depressões e
angústias irreversíveis, causar traumas, recalques e complexos, e deixar
seqüelas emocionais e psíquicas para o resto da vida. Entretanto, há
desprezos e abandonos em pequenas doses, mas igualmente lesivos. Tenho
ouvido no atendimento pastoral, prestado no gabinete da igreja, às centenas,
relatos os mais doídos e incríveis de homens e mulheres, mas com
impressionante similaridade na construção dos fatos e na lista de pendências
e carências. Obviamente que não digo isso para os aconselhados, mas em
muitíssimos casos, se fechássemos os olhos ao ouvirmos certas queixas,
poderíamos imaginar que estávamos diante de qualquer outra pessoa dentre
as muitas queixosas, dado ao teor do assunto tratado. É quase sempre a
mesma coisa: As juras de amor eterno que, se juntas, não caberiam em um
trem, as exageradas manifestações de apego e desejo, nos incontáveis beijos e
abraços, e os ludibriosos gestos de romantismo e fino trato, todos
prodigamente gastos no período do namoro e noivado, nada sobrando para a
linear caminhada do casamento. _ “Ah! Pastor, meu marido hoje não me
toca mais, senão na hora do vamos ver; não me beija nem me abraça, senão
com outro interesse; o tempo livre é para os amigos ou para o seu lazer, e o
lado da cama em que dorme é propriedade exclusiva e privada, com uma
plaqueta: não entre sem permissão”. Ou a menos freqüente, porém não
menos legítima queixa masculina: _ “Pastor, depois que nasceram os nossos
filhos, a minha mulher transferiu todo o carinho e atenção que dedicava a
mim para eles. Não há mais espaço nem oportunidade favorável para o
namoro, se eu não forçar a barra. Também percebi que depois das gestações
o desejo sexual despencou a um ponto que parece ter acabado. O que
fazer?”. Estas e outras questões relacionadas ao esfriamento do afeto
conjugal têm sido o tema básico das consultas pastorais, e em muitos deles, o
caso já alcançou níveis tão extremos de abandono da rota prevista que,
humanamente, não parece haver retorno possível. É nessa hora que
invocamos aquele que pode fazer novas todas as coisas e gerar
quebrantamento e humildade, espírito de perdão e renúncia, sem o qual
nenhum conflito chega a termo. Quando, porém, esse esvaziamento de
propósito e sequidão afetiva não são tratados e satisfeitos, os perigos e
conseqüências se manifestam de pronto, trazendo danos, geralmente
escandalosos e mortais, como passarei a comentar no capítulo a seguir.
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8- O adultério real e o virtual
“Uma tarde, levantou-se Davi do seu leito e andava passeando no terraço
da casa real; daí viu uma mulher que estava tomando banho; era ela mui
formosa. Davi mandou perguntar quem era. Disseram-lhe: É Bate-Seba,
filha de Eliã e mulher de Urias, o heteu. Então, enviou Davi mensageiros
que a trouxessem; ela veio, e ele se deitou com ela. Tendo-se ela
purificado da sua imundícia, voltou para a sua casa. A mulher concebeu e
mandou dizer a Davi: Estou grávida”. 2 Samuel 11:2-5
“O que adultera com uma mulher está fora de si; só mesmo quem quer
arruinar-se é que pratica tal coisa. Achará açoites e infâmia, e o seu
opróbrio nunca se apagará”. Provérbios 6:32-33.
F
ui procurado em gabinete pastoral por Daniel, 36 anos, publicitário,
(nome fictício, por óbvias razões éticas) o qual me contou a seguinte
história: Filho de pais separados, desde os nove anos de idade, cresceu
sob a orientação da nem sempre presente mãe, alternando sua estada com os
avós no interior do estado. Chegando a adolescência, com ela vieram
intensas crises de identidade e referência. Sem orientação correta e a
influência de colegas mais velhos, igualmente sem rumo, conheceu a
promiscuidade, dentre outros tantos maus costumes. Adotou a masturbação
como instrumento de prazer e escape, tornando-se dela inteiramente
dependente. Rapaz de humor fleumático, com fortes tendências à
melancolia, aprendeu a dissimular e aparentar equilíbrio e simpatia.
Reservava suas taras e desordens emocionais aos momentos solitários. Veio
a enamorar-se com uma bela jovem, inocente e de boa família, com a qual
casou-se em menos de um ano. Aparentemente tudo corria às mil maravilhas
nos primeiros anos de enlace, tendo em vista que o rapaz a tratava com
refinada cortesia e romantismo, especialmente na presença de amigos e
visitantes. Ao que tudo parecia, a vida íntima do casal também estava em dia,
pois a moça nunca reclamou de nada nesse sentido. Sem aviso prévio, um
mês antes de completarem cinco anos de casados a bomba explodiu: Daniel
havia se envolvido com uma outra mulher casada, cuja relação já durava
quase dois anos. O lar veio abaixo. Sua esposa não conseguiu vencer o
trauma da traição e acabou rompendo com o casamento e voltando a morar
com os pais. O que aconteceu, na verdade? Daniel era viciado em sexo em
um nível muito acima do suportável. Semanalmente, mantinha uma relação
sexual com sua esposa, até saciá-la, e depois se satisfazia alugando fitas de
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vídeo pornográfico e se masturbando os demais dias da semana, chegando a
praticá-la duas ou três vezes em um mesmo dia. Tendo crescido dentro de si
essa sede e a certeza da impunidade, resolveu ceder às investidas cotidianas
de uma amiga de infância e ex-namorada, que também era casada com um
seu colega de trabalho. De encontros rápidos e temerosos foram passando a
passeios e viagens demoradas, até consolidarem o caso como uma filial sem
condições de regresso.
Elaine, 26 anos, contadora autônoma, também me contou a seguinte história:
Morando no interior, aos dez anos de idade, recebia freqüentemente a visita
de um tio de dezenove anos, que morava na capital. De mente depravada,
gostava de reunir à noite a garotada da vizinhança, em lugar isolado, e lhes
contar histórias de aventuras sexuais, que extraía de um caderninho que o
acompanhava sempre, cujo título era “contos e desejos”. Aquelas fantasias
invadiram a alma pura de Elaine e passaram a fazer parte dos seus sonhos e
devaneios adolescentes. Costumava ser surpreendida na sala de aula, por
exemplo, com o olhar vago, como que distante dali. Em seus cadernos de
estudo, nomes fictícios e pequenos trechos de enredos suspeitos. Em seu
diário ultra-secreto eram narrados encontros eróticos de uma adolescente
sem nome sempre com homens mais velhos, e com uma linguagem
incrivelmente obscena e chula. Casou-se aos dezenove anos com um rapaz
apaixonado, de formação evangélica e de temperamento manso e
compreensivo. Logo nos primeiros meses de casamento, quando foram se
acostumando com a intimidade, numa noite de intenso desejo, ela perdeu o
freio e abriu a caverna de horrores, pedindo ao rapaz que fizesse com ela
tudo o que estava na sua mente doente. Eram extravagâncias, taras e fetiches
sexuais que chocaram o recatado rapaz. Depois do susto e das tentativas de
explicações e desculpas, intenso e constrangedor silêncio sobre o assunto
marcou a intimidade do casal. O assunto morreu para os dois, mas as
fantasias para ela não, embora não voltasse mais a fazer referência sobre isso
com ele. Pouco mais de um ano depois desse ocorrido, ela foi apresentada a
um colega de profissão, com quem passou a se avistar quase todos os dias.
Segundo ela me falou, ele era incrivelmente parecido fisicamente com o seu
tio – aquele dos contos – e isto lhe atiçou as fantasias, que cresceram dentro
de si e povoaram os sonhos. Foi-se aumentando a intimidade entre ambos e
terminaram na cama. Ela, enfim, descobriu quem lhe satisfizesse em todas as
suas loucas fantasias. O fim dessa história eu nem preciso narrar, você já
sabe, escândalo, dor, perda, feridas abertas, fim de mais um casamento.
Finalmente, lhes contarei a história de Joana. 33 anos, publicitária,
independente e resolvida. Criada “a pães de Ló”, freqüentou as melhores
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escolas, conheceu as pessoas mais finas, recebeu maná da boa educação e
consistentes valores morais e éticos. Sem crises, sem traumas nem prejuízos
emocionais, fez-se moça e mulher. Conheceu o Evangelho de Cristo, ao qual
passou a servir fervorosamente. Casou-se aos 22 anos com um rapaz
também evangélico e de histórico não muito diferente do seu. Ninguém
apostaria de que algo pudesse dar errado. Vieram os anos, a rotina e o
desgaste. Sem cultivo, o relacionamento veio a esfriar e tornar-se
burocrático, técnico e formal. Cobranças, acusações, tentativas mil de volta
ao primeiro amor houve, mas parecia nada adiantar. Restavam apenas as
aparências para familiares, igreja e sociedade. Mesmo assim, segundo ela me
contou, jamais passou pela cabeça qualquer sombra de idéia de uma traição.
Era algo absurdo e inteiramente anulado do seu conjunto de valores
adquiridos. Certo dia, no ambiente de trabalho, um rapaz mais jovem que
ela, em quem ela não tinha sequer reparado, foi à sua mesa lhe entregar
alguns documentos para apreciação. Respeitosa e elegantemente reparou e
elogiou o seu novo corte de cabelo, dizendo que tinha combinado com os
traços suaves e delicados do seu rosto. Para Joana até aquele momento o dia
estava sendo péssimo e buscava até mesmo sentido para tudo. Aquelas sutis
palavras explodiram em seu coração como que dizendo “alguém aprecia
você”. No dia seguinte ela chegou mais cedo ao trabalho, andou pelos
corredores dissimuladamente, como que procurando algo que perdeu, mas
na realidade desejava ser vista de novo por aquele elegante cavalheiro que ela
nem lembrava o rosto. Ao vê-lo, o seu coração bateu mais forte, desviou o
olhar para não levantar suspeitas e passou o resto do dia maquinando uma
estratégia para encontrar com ele. Não foi preciso, na hora do lanche ele a
procurou e destilou ternura ao declarar que vinha sentindo há muito a sua
tristeza e que partilhava a sua dor. Naquela noite, em casa, Joana não
conseguia conciliar o sono, o seu coração ardia, estava apaixonada. Era algo
forte e involuntário; as suas resistências foram vencidas. Não desejava, a
princípio, ir para a cama com ele, queria ser amada apenas, apreciada,
elogiada e valorizada como sempre fora desde a sua infância. O final desta
história, mais do que previsível, é o de tantos e tantas ontem e hoje.
São apenas três casos específicos em um universo de ocorrências similares.
Mudam-se os personagens e as circunstâncias, mas as histórias são sempre as
mesmas e o final quase sempre o mesmo. As raízes de onde tudo brota
também têm a mesma natureza, com poucas variações. São carências
múltiplas não atendidas, ou desordens psico-emocionais causadas por
manipulações sexuais ainda na infância, ou ainda um enredo satânico maciço,
ou quem sabe uma fraqueza fulminante e inexplicável. Não importando a
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origem ou a circunstância, o final é sempre trágico. Vejamos o que
Aconteceu com o rei Davi:
Lá está Davi em sua casa, no tempo em que os reis costumavam ir
para a guerra. Em uma bela tarde, levantando-se ele do seu leito,
passeava despreocupadamente pelo terraço da casa real; daí viu uma
mulher mui formosa em pleno banho. Procurou saber de quem se
tratava, mandou buscá-la e manteve relação sexual com ela. Algum
tempo depois ela mandou dizer ao rei: Estou grávida. Para encobrir
um erro, o amado Davi incorre em vários outros, cada um mais grave
que outro. Dissimula, mente, trama o mal, revela uma face cruel e
cínica ao tratar pessoalmente com o marido traído, e torna-se
mandante de um crime hediondo. Urias, marido de Bate-Seba, era
nada mais nada menos que um dos trinta heróis valentes de Israel,
juntamente com o seu pai Eliã (2 Samuel 23:8-39); homens da mais
alta nobreza e honra, e de grandíssima intimidade e confiança do rei.
Estes, por sua vez, eram filho e neto de Aitofel que era o conselheiro
de Davi; aliás, muito mais que isso. Diz a Escritura que: “O conselho
que Aitofel dava, naqueles dias, era como resposta de Deus a uma
consulta; tal era o conselho dele, tanto para Davi como para
Absalão”. 2 Sam. 16:23. No capítulo 17 e verso 1 Aitofel dá
conselhos a Absalão e se propõe a escolher doze mil homens e
perseguir Davi, assaltá-lo e matá-lo. Provavelmente ele não tenha
conseguido perdoar Davi pelo que fez aos seus. E o ódio era tanto
que não tendo conseguido o seu intento, voltou para a sua cidade, pôs
em ordem os seus negócios e se enforcou. Uma tragédia atrás da
outra. Morreu Urias, depois a criança fruto do adultério, e depois
Aitofel, e a espada realmente não mais se apartou da casa de Davi,
como bem profetizara Natã ao confrontar o rei. A seqüência dos fatos
históricos na família de Davi revela esse drama: Amnom, o
primogênito, passou a desejar sexualmente a sua irmã caçula Tamar, a
ponto de adoecer e perder a fome; uma tara louca. Seguindo conselho
de Jonadabe, filho de Siméia, irmão de Davi, forçou a barra e estuprou
sua irmã. Esta, violentada e submetida a tão grande vergonha, foi
expulsa da casa, agressivamente, rasgou as vestes em sinal de tristeza,
pôs cinzas na cabeça e saiu pela rua com as mãos na cabeça chorando
e clamando. Logo ali, encontrou seu irmão Absalão que a acolheu e
guardou um ódio mortal por seu irmão Amnom, por dois anos, até
que em uma festa planejada para esse fim, ele assassinou Amnom à
vista de todos. Com isso Davi passou a persegui-lo e o exilou,
tornando-o ainda mais odioso e amargo. Anos depois a perseguição se
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inverteu e Davi passou a fugir, até que Absalão morreu preso pelos
cabelos em uma árvore. Mais uma vez Davi chorou amargamente. No
final dos seus dias, Adonias, em cabala com sua mãe, tentou usurparlhe o trono.
Que história triste; quanta mazela causada por um ato instintivo e
impensado, ainda que não tenha sido fruto de um momento isolado, mas de
um histórico sentimental comprometido. Quero, a partir daqui, analisar as
possíveis causas imediatas dessa tragédia e sobrepô-las a muitos casos
contemporâneos. Acompanhando o impressionante detalhismo da narrativa,
encontramos o seguinte:
1º) Solidão afetiva – “Uma tarde, levantou-se Davi do seu leito...”. Quem estava com
ele? Quem era a sua companheira? Pela inferência óbvia, Davi estava só.
Ora, o plano perfeito do Criador inclui uma companheira idônea, e diz que
não é bom que o homem esteja só. Salomão, em sua sobrenatural sabedoria,
afirma que melhor é serem dois do que um, pois se os dois dormirem juntos, ambos se
aquentarão; mas um só como se aquentará? Eclesiastes 4:11. O Apóstolo Paulo
também reforça esta idéia escrevendo aos coríntios:
“Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por pouco
tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente vos ajuntardes, para que Satanás
não vos tente por causa da incontinência”. 1 Coríntios 7:5.
Essa tem sido uma grande brecha para a tentação e investida maligna na vida
de muitos casais: a solidão emocional e afetiva. São maridos que
praticamente impelem suas mulheres para contatos extraconjugais, por
deixarem-nas sempre desprotegidas, fragilizadas, carentes e sós. A
experiência tem mostrado que nunca falta quem lance uma fagulha na palha
seca. O mesmo acontece com esposas que soltam demais seus maridos e já
não andam mais com eles. As aves de rapina estão soltas e famintas...
2º) Ócio, uma mente desocupada – “... Andava passeando no terraço da casa real”.
Diz o antigo adágio popular que mente desocupada é oficina do diabo. É
claro, alguém acostumado a grandes empreendimentos, batalhas, conquistas,
projetos, confrontos, elaboração de leis, tendo sempre grandes desafios em
mente, não dá conta de ficar em plena tarde deitado em seu leito sem ter
nada pra fazer. Aí entra a maquinação humana, os desvarios da mente, as
fantasias e, com elas, os laços da carne. Muitas são as pessoas infectadas por
esse mal, ao se encontrarem em grande vazio existencial, circunstancial ou
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relacional. A falta de propósito na vida de uma pessoa pode levá-la às ações
menos previsíveis e a danos irrecuperáveis.
3º) A concupiscência dos olhos – “... Daí viu uma mulher que estava tomando banho;
era ela mui formosa”. O que os olhos não vêem o coração não sente, diz o
adágio. No caso específico de Davi, não se trata de Voyeurismo, pois foi um
lance casual; não havia a premeditação e o desejo de dar lugar ao prazer
observando alguém em alguma situação sensual. A casa real ficava em uma
colina, de onde ele podia observar grande parte da cidade, e daquele lugar
estratégico ele podia ver os quintais das casas mais próximas ao palácio.
Essas casas, segundo modelo de construções palestinas, tinham um pátio
central aberto para o céu, em torno do qual se elevavam as construções. Nele
é que ficavam as bacias das purificações; o local conveniente para os banhos,
já que não havia banheiros como os que hoje conhecemos na intimidade de
casa. Não conhecemos as circunstâncias nem as motivações, o certo é que
este foi um caso realmente inédito. Não era comum as pessoas ficarem
observando as outras em sua intimidade. Como fugir dessa tentação os que
vivem nessa geração obcecada e saturada por sexo? Por onde se anda e em
tudo o que se vê há uma elevada apelação por temas sexuais. Programas e
comerciais de televisão, livros e revistas, o modo de vestir das pessoas em
todo lugar, as conversas, o comportamento, tudo parece girar em torno do
sexo. Não dá nem tempo esquecer, o erotismo já faz parte da cultura
humana e nela está impregnado. Só uma mente santificada pode fugir dessa
avalanche impura, como disse e fez Jó:
“Fiz aliança com meus olhos; como, pois, os fixaria em uma donzela? Que
porção, pois, teria eu do Deus lá de cima e que herança, do Todo-Poderoso desde
as alturas?”. Jó 31:1, 2.
4º) Uma incrível sensação de poder – “Então, enviou Davi mensageiros que a
trouxessem; ela veio, e ele se deitou com ela”. Aí está a soberba da vida, o macho
dominador, o grande conquistador, o garanhão invejável. A causa de
muitíssimos assédios sexuais envolvendo patrões e funcionárias, senhores e
servas, tem essa raiz: o poder. Não podemos deixar de considerar a idéia de
que Bate-Seba tenha relutado ao apelo do rei; ela simplesmente não teve
forças para contrariar o todo-poderoso rei. Essa sensação de comando e
estar em plena forma energiza especialmente homens de meia idade que,
para manter a auto-estima elevada, procuram relacionamentos proibidos, a
fim de se perceberem úteis e ativos, com tudo em cima, os mantenedores da
raça. Alguns mantêm um tipo de namoro secreto sem contornos físicos,
somente pela “agradável” sensação de se sentirem apreciados, valorizados,
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percebidos e queridos. É a incontrolável necessidade que o ser humano tem
de ser o centro e estar no controle. E, por fim,
5º) A certeza da impunidade – “Tendo-se ela purificado da sua imundícia, voltou para
sua casa”. É claro que as moléculas de hidrogênio e oxigênio componentes da
água não poderiam jamais lavar o erro daquele ato, nem apagar a culpa dali
resultante. A mulher voltou para sua casa e Davi continuou com os seus
afazeres, como se nada tivesse acontecido. O homem acima de qualquer
suspeita estaria isento de qualquer insinuação de pecado; ninguém ficaria
sabendo do que ocorrera, era a grande expectativa. Certamente todos os
cuidados foram tomados para que ninguém suspeitasse; a visita de Bate-Seba
ao palácio seria como a de tantas outras pessoas que se achegavam ao
soberano. Prova é, que ele encontrou folga para tramar a vinda de Urias e
fazê-lo pai da criança, já que ninguém teria como comentar nada
maldosamente. Essa é a grande esperança de quem comete esses erros, ainda
que conheça as Escrituras que afirmam que não há nada encoberto que não
venha a ser revelado. Essa relação com o perigo é algo que adrenaliza o
homem e embota a sua mente para perceber as reais conseqüências. Afinal o
impulso é mais forte e o prazer prioritário. Depois, porém, o arrependimento
e a culpa fazem-no ver com clareza a feiúra do seu ato, que naquele
momento parecia ser só festa. Estas são apenas algumas das muitas
abordagens a respeito da consumação de um adultério real e suas
conseqüências. O adultério virtual, no entanto, é aquele que se forma apenas
no mundo interior, no campo das intenções. Disse Jesus:
“Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que
olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela”.
Mateus 5:27, 28.
Esse olhar impuro leva às fantasias; essas aos sonhos; esses às maquinações;
e essas ao adultério real. São elos de uma corrente em que um abismo chama
outro abismo. É muito pouco provável que alguém que vive realmente bem
com sua esposa ou seu marido, com a vida sexual em dia, seja vencido pela
tentação do estranho. Porém, os que se deixam laçar pela pornografia, não
importa em que nível, dificilmente escapam das abstrações e comparações, e
podem chegar ao cúmulo de confundir a realidade com a fantasia. Já ouvi
diversos casos de pessoas que em pleno ato sexual se imaginam nos braços
de outras, e só assim atingem o prazer. Somente Deus pelo seu Espírito e
com o poder da sua Palavra pode limpar completamente da mente essas
imagens teimosas e perniciosas. Isto se dá através de um novo compromisso
e uma nova disposição mental, em que se substituem velhos valores por
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aqueles da Santa Palavra, e atitudes viciadas por novo comportamento
balizado nas Escrituras.
“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o
que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se
alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso
pensamento”. Filipenses 4:8.
Agora, se virtual ou real, não importa, o adultério sempre traz graves
conseqüências, pois anda em sentido contrário ao plano perfeito do Eterno
Deus. É fria! Deixo para sua reflexão o alerta dramático do rei Salomão, em
Provérbios capítulos 5, 6 e 7. Ponderar sobre as veredas da vida, atender ao
apelo da sabedoria e temer ao Senhor são os princípios que nos tornarão
continuamente santos e felizes.
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9- Falsas reconciliações
“Respondeu Davi: Bem, eu farei aliança contigo, porém uma coisa exijo:
quando vieres a mim, não verás a minha face, se primeiro me não
trouxeres a Mical, filha de Saul. Também enviou Davi mensageiros a
Isbosete, filho de Saul, dizendo: Dá-me de volta minha mulher Mical, que
eu desposei por cem prepúcios de filisteus. Então, Isbosete mandou tirá-la
a seu marido, a Paltiel, filho de Laís. Seu marido a acompanhou,
caminhando e chorando após ela, até Baurim. Disse Abner: Vai-te, volta.
E ele voltou”. 2 Samuel 3:13-16
E
ssa é uma das cenas mais grotescas em toda essa história. O choro de
Paltiel me comove e me constrange. Ali está, enfim, uma
demonstração masculina explícita de paixão e apreço.
“Senhora, partem tam tristes meus olhos por vós, meu bem,/ que nunca tam tristes vistes outros
nenhuns por ninguém./ Tam tristes, tam saudosos, tam doentes da partida,/ tam cansados, tam
chorosos, da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida./ Partem tam tristes os tristes, tam fora
d’esperar bem,/ que nunca tam tristes vistes outros nenhuns por ninguém (Luis de Camões).
Não é comum na rígida e patriarcal cultura do Antigo Testamento
encontrarmos um homem chorando pelo amor de uma mulher. Se não estou
enganado, o único outro caso desse tipo de choro é o de Jacó ao se
encontrar com Raquel junto ao poço das ovelhas (Gn. 29:11). Aliás, nem
mesmo entre nós ocidentais de sangue latino, em cuja cultura se endeusa a
mulher isto é comum. É que esqueceram de informar a uns e outros que
homem que é homem também chora. E com isso não perde a sua
masculinidade e nem cai nada. Naqueles dias havia guerra entre a casa de
Davi e a casa de Saul. Abner, grande General do exército de Saul, muito se
indignou com Isbosete, filho de Saul, a quem proclamou rei sobre Israel, por
conta de um comentário que fez, e com isso enviou mensagem a Davi no
intuito de fazer aliança com ele, propondo-se ajudá-lo a se tornar rei de todo
o Israel e Judá. Davi, de pronto, acolheu a proposta de aliança, mas lhe fez
uma solene exigência: que lhe trouxesse Mical, a quem desposou ainda na
mocidade. Foi uma exigência dramática e contundente; tão enfática e
romântica que até nos lembra Shakespeare: “Não verás a minha face, se me não
trouxeres a Mical”. Em uma rápida leitura poderíamos entender que se tratava
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de um homem apaixonado que perdera a sua mulher por caprichos invejosos
de Saul, e que aguardava ansiosamente ao longo dos anos a possibilidade e a
oportunidade de reavê-la, por se tratar da mulher da sua mocidade, a sua
primeira namorada, o seu primeiro amor. Isto não é verdade. O desenrolar
dos fatos e o prosseguir da história nos revelam que a última das suas
intenções era abraçar de novo e apaixonadamente aquela que conhecera
ainda com espinhas no rosto. As palavras veementes e interessadas dirigidas
a Abner não combinam com o comportamento frio e indiferente com que
trata Mical ao tê-la de volta em sua casa. Decisivamente, o que parecia uma
reconciliação nada mais era que uma quantificação vaidosa das mulheres que
possuía. Era comum entre os reis o tomar para si mulheres que os servissem,
as quais eram mantidas em um harém, e contadas como sinal de
prosperidade e magnificência em razão das muitas alianças políticas entre os
reis do mundo antigo. Parecia ser muito melhor casar-se com a filha de um
inimigo em potencial. Quanto mais mulheres no harém, muito maior o sinal
de poder e riqueza. Salomão seu filho que o diga. Sim, Mical descobriu logo
que era apenas mais uma dentre tantas outras na vida de Davi. Os anos que
passara em consórcio com Paltiel não foram suficientes para apagar o que
sentia por aquele que lhe abriu as recâmaras do coração. Daí todo o seu
desapontamento. Não deve ter sido fácil para ela olhar de novo para aquele
que era só seu e que agora era de tantas; saber que havia sido “a escolhida”,
mas que agora era apenas uma estatística; ver que a primeira da lista
chamava-se Eglá; ver, depois, todo o chamego dele com Bate-Seba, com
quem teve quatro filhos; ver o leito do seu amado vazio e ter que se
contentar a ser tratada por eunucos. Devemos estranhar também muitíssimo
o fato de Mical não figurar em nenhuma das listas em que constam as
mulheres que Davi teve em Hebrom e em Jerusalém (2 Samuel 3:2-5; 5:13-16
e 1 Crônicas 3:1-9). É certo que Davi a conheceu em Gibeá, mas contando
com o tempo do primeiro casamento e o período em que a recebeu de volta
em Jerusalém, não se justifica em absoluto essa omissão, mesmo sabendo ter
sido o profeta Samuel quem fez os registros da maioria desses fatos. Quem
lê apenas as crônicas sobre os reis de Israel e busca informações sobre a
família de Davi não vai saber que houve uma tal de Mical no seu caminho.
Por que será tão difícil para alguns comentaristas entender a reação de Mical
ao ver Davi entrar em Jerusalém dançando diante da arca? De onde mais
poderia ter vindo aquele sentimento de desprezo que a invadiu, senão de
todo esse contexto de abandono, e de uma nova expectativa criada, e de mais
uma grande decepção? É o que eu poderia chamar de ‘quando o
ressentimento vaza’. Ressentimento é mágoa, é ferida aberta, é dor que não
cessa e que tende a ser crescente. Ressentimento é também o que se diz a
respeito do fruto que começa a apodrecer. Ressentimento é acúmulo de
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tristeza e desconsolo, um fluir de angústia até que vaze. Esse vazar, por sua
vez, percorrerá dutos próprios da personalidade de cada um; ou seja, a
depender do temperamento e formação do indivíduo, virão à tona
manifestações bem diferentes. Para muitos a mágoa aflora de forma aguda e
ácida, em palavras escolhidas e adoecidas, com o intuito de atingir aquele que
é o autor da obra. Rispidez, aspereza, veneno verbal, cova aberta. Para
outros, o ressentimento vaza em gestos e atitudes: agressão física, quebraquebra, retaliações e vinganças violentas em tudo o que possa fazer parte da
vida e história daqueles que lhe ofenderam. Outros, ainda, exprimem este
sentimento de forma passiva e resignada, vertendo rios de lágrimas. Em certa
ocasião em que me sentia profundamente parcimonioso e triste, deixei vazar
ao papel o seguinte poema:
lágrimas
Uma lágrima,
Uma única lágrima,
Volumosa e densa, cálida,
Lenta e tremulante, relutante,
Desprendeu-se de um olhar triste,
Carregada de sentidos, percorreu igual semblante,
Caiu, enfim, mas não ficará só,
Lágrimas tristes não ficam sós,
São solidárias, parceiras da dor,
Não são líquidos dos olhos,
Mas essências da alma,
Caríssimas, preciosíssimas, sim,
Quem há que possa dar seu valor?
Deus
Deus sabe quanto custa uma lágrima,
Ele sabe, sim, o quanto dói,
Ele vê o quanto corrói,
Não ficará impassível,
Tomará providências,
Julgará retamente,
Dará consolo,
Aleluia!
Essas e outras manifestações são linguagens verbais ou não verbais que
exteriorizam o nosso eu que ninguém vê. Ainda que algumas coisas não se
justifiquem, tornam-se legítimas para nós, em razão da dor que sentimos.
Quero me explicar. O caso específico de Jó fundamenta essa idéia. Diante de
todo o seu sofrimento na alma e no corpo, ele desandou a falar contra Deus,
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acusando-o de injustiça e severidade, como se vê nos capítulos sete, dez e
dezesseis do seu livro, e, no entanto, Deus declara que “Em tudo isso Jó não
pecou com a sua boca”. 2:10. O Senhor Deus conhece as limitações da nossa
natureza e identifica as autodefesas que ele mesmo implantou em nós.
Assim, aquelas palavras ressentidas de Mical carregavam em si significados
muito mais profundos do que na verdade aparentavam; havia outros sentidos
embutidos que careciam de uma releitura minuciosa. Certamente ela havia
criado uma enorme expectativa em torno do seu regresso aos braços de
Davi, seu primeiro amor. É sintomático o fato de o texto fazer referência ao
choro de Paltiel e não ao de Mical. Ela contava como certo o resgate de uma
nova vida e uma jornada feliz, talvez um reencontro com choros e abraços e
promessas de amor e ternura. Ora, todos nós sabemos quão quebrantador é
o momento de uma grande reconciliação ou um grande reencontro.
Geralmente o coração se fragiliza, as resistências desmoronam, as pendências
viram desculpas, e as culpas se transformam em pleno perdão. É um campo
arado para novas sementes e o brotar de uma vida nova; o recomeçar,
reconstruir do zero, sonhar de novo com o melhor já alcançado, como
medida mínima para um futuro extraordinário. Pobre Mical... De tão elevado
sonho acordou para o nada. A casa de Davi em Jerusalém foi construída por
Hirão, rei de Tiro, em elevado padrão de conforto para a época, toda em
cedro do Líbano e em pedras trabalhadas por artistas. Não se podia
comparar, é certo, nem de longe, com as imponentes e sofisticadas obras
realizadas por Salomão. Nesse particular, Israel nunca apresentou rigor em
sua arquitetura. Tanto Davi quanto Salomão precisaram da ajuda estrangeira
para suas edificações. A casa real onde Davi fixou sua residência era
composta de dois pavimentos distintos: um primeiro edifício onde ficavam:
uma espécie de salão para reuniões solenes, cercado por pequenas salas para
breves audiências; um pátio térreo adornado por um belo jardim, com
cadeiras dispostas em posições que sugeriam encontros de amigos; e no
andar superior ficava o amplo quarto do rei, seguido de um terraço com vista
para a cidade. No pavimento posterior, separado por um espaçoso vestíbulo
ajardinado, ficava o seu harém onde suas mulheres residiam. Ali funcionava
uma espécie de condomínio com regras específicas e territórios marcados:
horários definidos para cada atividade, espaços limitados por onde se podia
circular, leis claras para convivência pacífica, e atribuições designadas para
cada uma delas. Amas e eunucos cuidavam do andamento geral da casa e das
necessidades das esposas e concubinas do rei; estas cuidavam dos seus filhos.
O contato dessas mulheres com o rei era esporádico, sempre que ele
retornava de suas guerras ou em períodos amenos dentro dos limites do
reino. Sempre que desejava, o rei requisitava a presença de uma de suas
mulheres, obedecendo a uma espécie de escala que ele mesmo estabelecia, ou
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mesmo a presença de todas elas de uma só vez para conferências e acordos.
O que aconteceu com Mical, na verdade, foi que ela deixou de ser tratada
como rainha e única por Paltiel para ser apenas mais uma mulherzinha na
cidadela de Davi. Esse tipo de frustração pode e tem desencadeado amiúde
um processo veloz de desencanto com o casamento, e levado inúmeros
casais aos tribunais em busca de divórcio. É como se a perspectiva de uma
reconciliação plena inspirasse os casais a juntar os cacos, recobrar o ânimo,
buscar as últimas forças, cerrar os dentes e encarar quem sabe uma última
tentativa, na esperança de que tudo se encaixe de novo. Malogrando essa
esperança, é como se tudo mesmo viesse abaixo com força sem restar
qualquer chance de restauração. Recentemente, acompanhei o caso de um
casal que me procurou no gabinete pastoral, não para aconselhamento, mas
para testemunhar a decisão que já haviam tomado de se separarem
definitivamente, por já não haver razão para estarem juntos. Depois de longa
conversa e de pesarmos prós e contras, fui lhes mostrando uma tênue luz no
fim do túnel. Compartilhamos um pouco sobre o texto de Jó 14:7-9, que diz:
“Porque há esperança para a árvore, pois mesmo cortada, ainda se renovará, e não
cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu
tronco, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova”.
Disse-lhes que nós somos essas plantas e essas águas são símbolo do
Espírito Santo que a tudo renova. Bem, saíram dali dispostos a conversar e
orar, e depois me procurar para orientações. No dia seguinte o rapaz me
procurou por telefone e contou que havia feito uma nova aliança com a sua
mulher e que acreditava que tudo iria ser diferente dali para frente e que
contavam com a minha oração e apoio. Menos de dois meses depois a moça
me procurou após um dos cultos da igreja – parecia inquieta – e me contou
que haviam se separado de vez, e que só poderiam voltar a viver juntos se o
próprio Cristo descesse em uma nuvem e lhe falasse com muita ênfase, pois
as promessas de uma retomada ao início ficaram só nas palavras, o que só
fez multiplicar a sua indignação. Até o dia de hoje, pelo que eu sei, esse casal
permanece separado, para tristeza nossa. Como ministro do Evangelho e
contra o divórcio, tenho lutado por muitos lares que teimam em se desfazer.
Mas tenho procurado também discernir, a bem da verdade, aquilo que se
encaixa na vontade de Deus de que o que Ele uniu não separe o homem, e
quando é mera teimosia, porque Deus realmente nunca os uniu. Isto porque
quando é Deus que une, os sinais próprios seguirão; Deus não é Deus de
confusão, e sim de paz. Há muitíssimos ajuntamentos que Deus não passou
nem perto. A estes o homem consegue separar com facilidade.
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10- Viúvas de maridos vivos
“Mical, filha de Saul, não teve filhos, até ao dia da sua morte”. 2 Samuel
6:23
Mal-amada
“Passa das seis e a luz deste dia vai se escondendo, sumindo no céu...
Ele abre a porta sem grande euforia, volta pra casa cumprir seu papel.
Troca de roupa e devora a comida, toda a atenção pro jornal.
Poucas palavras contém nossa vida, pra ele isso é tão normal...
Passa das onze e esta noite ele cisma que os meus carinhos precisa demais.
Muitas palavras, sorriso, sofisma, como se eu fosse objeto e não mais.
Logo ele alcança o que quer e adormece, morre um pedaço de mim.
Choro depois – é o que sempre acontece – e eu vivo morrendo assim,
Morro vivendo assim...
Passa das seis da manhã, novo dia...”. (Guilherme Kerr Neto)
56
É
triste, muito triste, deprimente, constrangedora a situação que
envolveu e ainda envolve a mulher com relação ao seu papel social em
nossa cultura. Sem dúvida, há uma dívida histórica e incalculável do
homem para com a mulher, todos sabem, mas preferem fazer vistas grossas.
Sob o pretexto de que foi ela quem pecou e não Adão, não importando os
efeitos determinantes da vinda do Messias e o tempo da graça com sua Boa
Nova, ao longo dos séculos tem sido a mulher subjugada e subtraída por
caprichos do homem, não tendo o direito, sequer, de ser também imagem e
semelhança do seu Criador. Em muitas civilizações, inclusive, continua essa
mulher a ser proibida do próprio prazer e premida de exercer a sua própria
vida, individualidade, e cada faceta de sua personalidade. Mulheres objeto,
propriedades baratas de seus possuidores, serviçais de luxo. No Brasil, dos
senhores de engenho aos grandes empresários dessa era que celebra a cultura
do descartável, perpetua-se a saga de mulherinhas obedientes e sem nome
que aprenderam a morrer sorrindo e se acostumaram a dar sem nada em
troca. O tipo de patriarcalismo medieval produziu sobre a Europa e a
América uma espécie de machismo embrutecido muito distante daquilo que
foi idealizado por Deus para as relações familiares no elo marido-mulher. E
o que chegou até nós aqui no Brasil foi uma espécie de dominação no
formato senhor-serva. Basta ver as antigas fotografias em que aparecem
marido e mulher em registros oficiais: surge o patriarca assentado numa
espécie de cadeira imponente, bem empertigado e com semblante grave, sua
mulher em pé ao lado, com as mãos para trás e aspecto triste e servil, e seus
filhos ao redor, igualmente cismados. Era o habitual todos só se servirem à
mesa após o homem ter se servido; o melhor prato era sempre o dele, e a
mulher fazia questão que fosse assim, ainda que pouco sobrasse para a prole.
Temor era o sentimento que ancorava a relação delas para com eles, afinal
eram homens. Isso era o que as avós passavam para as mães e essas para as
filhas que, por sua vez, transmitiam às outras gerações. Culturalmente o
homem foi formatado para ser servido, e a mulher para serví-lo. Logo cedo
os pais levavam seus filhos aos bordéis e os induzia a se relacionarem com
mulheres para que aprendessem a ser homens. As meninas eram obrigadas a
ficar em casa para aprender com as mães como cuidar de uma casa. Os
próprios brinquedos dados às crianças eram indicadores do que eles
deveriam ser: para os meninos, carros, bolas, jogos de lutas, etc; para as
meninas, bonecas, jogos de panelinhas, fogoezinhos, vassourinhas e as
comidinhas para fazer. Essas meninas cresceram fazendo as tarefas da casa
auxiliando a mãe, enquanto os meninos brincavam pela rua. Desde muito
cedo a cobrança e a responsabilidade sempre estiveram sobre a menina e
nunca sobre o menino. Ambos cresceram e nada mudou. A idade pouco
importa para o rapaz, mas é um peso para a moça que amadureceu sem se
casar; a virgindade é dever sagrado para ela e qualidade imprescindível de um
caráter sarado, mas para o moço é motivo de vergonha, sinal de fraqueza,
algo quase imoral; a aparência sempre em dia e de acordo com o padrão que
a própria sociedade impõe é o cotidiano desafio das donzelas, mas isso para
os mancebos é algo totalmente secundário e insignificante; cabelo grisalho
para elas é motivo de pânico, mas para eles é motivo de orgulho; para elas
velhice, para eles charme. Os melhores e mais bem pagos empregos sempre
estiveram com eles, e para elas qualquer tarefa inferior, delicada, e que não
ofereça qualquer risco à performance masculina. Com o advento da mídia, o
avanço tecnológico e os efeitos da globalização, que trouxeram em seu bojo
uma nova consciência e uma nova linguagem, os tempos mudaram e giraram
em torno do seu próprio eixo, revelando verdades antigas como se fossem
novas. A mulher se fez ouvir mais alto do que se podia esperar, ocupou não
só o seu espaço, como também as lacunas deixadas pelo sexo oposto.
Presidentas, Governadoras, embaixatrizes, grandes empresárias, lutadoras de
boxe, enfim, não há qualquer restrição, impedimento ou impossibilidade que
possa barrar a escalada da mulher. Mas, não obstante tudo isso, há uma
parcela por demais significativa desse universo feminino que não conseguiu
sair do lugar e ainda se mantém às raias da escravidão funcional e relacional,
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pois não viram o mundo girando ao seu redor e não perceberam que a vida
fluía em seu curso sem parar nem vacilar, e quando acordaram viram que
nada foi construído de sólido em sua vida, e que viveram exclusivamente
para edificar a vida de um alguém que nunca retribuiu a mesma ministração.
São mulheres que por não terem estudado e nem crescido como gente, ao se
perceberem iludidas por seus maridos que as trocaram por outra, nada
puderam fazer, nem mesmo confrontar, pois se deixadas em desamparo não
têm como sobreviver. O melhor que lhes parece é fingir que vai tudo bem,
tocar a vida para frente e se acostumar com a angústia de uma convivência
de pura fachada. Passam a obedecê-los cegamente, em vez de respeitá-los
sendo-lhes submissas, o que não é a mesma coisa. Quando a relação é
adoecida um manda e o outro obedece; quando há saúde e graça, ambos
chegam a um acordo através do diálogo respeitoso. Afinal, Cristo é o cabeça
da casa, a quem ambos devem estar submissos. O governo que está sobre os
ombros do marido é segundo o modelo de Jesus Cristo que também governa
a sua igreja. E esse modelo ele ensinou aos seus discípulos quando lhe
pediram cargos importantes.
“Sabeis que os governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os
seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário,
quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva. Pois o Filho do
Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate
por muitos”. Marcos 10:42-45.
Aliás, toda intenção divina ao instituir a submissão seja de homens como de
mulheres está ligada à própria pessoa do Senhor Deus; como seja: mulheres
submissas ao marido, como ao Senhor; maridos amando sua esposa, como
Cristo ama a sua igreja; filhos obedientes aos pais, no Senhor; servos
obedecendo aos seus senhores, como a Cristo. A coisa é mais séria do que
normalmente se imagina. Quando essa composição sai do trilho anda por
veredas sombrias até chagar a lugares tenebrosos e difíceis de prosseguir.
Tudo fica difícil quando se está fora do plano de Deus. Tenho tido a
oportunidade de conversar em aconselhamento com diversas mulheres de
várias idades que são viúvas de maridos vivos. Mulheres que não conseguem
mais encontrar lágrimas para chorar, nem disfarçam mais seu luto.
Desistiram de sonhar, perderam a esperança e sepultaram suas paixões. O
seu dia a dia é lúgubre, a sua rotina é maçante e enfadonha, os seus projetos
se resumem aos afazeres domésticos e nada mais. E mesmo que haja outros
mais importantes, não há ninguém com quem possa repartir a sua vida. A
sensação real é mesmo de solidão. Se essa mulher está triste, ele não dá a
mínima; deve ser coisa de quem não tem o que fazer e fica inventando
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histórias. Se ela está cansada, ele lhe dá mais carga, afinal que cansaço o
serviçinho doméstico pode trazer? Se ela está estressada e nervosa, ih! Deve
ser piti de mulher, logo passa. Se ela se mostra feliz, o que é raro, logo ele
encontra um jeito lhe falar algo que desmancha todo o prazer. Não há uma
só palavra de apreciação ou elogio, nenhum gesto de carinho ou amizade, só
cobrança e responsabilidades. Muitas dessas mulheres são mães e pais ao
mesmo tempo, e também disciplinadoras, conselheiras, provedoras,
eletricistas, carpinteiras, cozinheiras, costureiras, lavadeiras, tudo ao mesmo
tempo, e ainda trabalham fora, e ainda encontram tempo para cuidar da pele
e dos cabelos, a fim de se manterem atraentes para ele que nem percebeu que
sua mulher deu um trato novo no visual do cabelo. Quando percebe, e é
raro, logo pergunta: quanto custou? Esse tipo de marido geralmente não
percebe quase nada do que se passa na vida de sua casa; não vive a vida
comum do lar com discernimento, como diz a Escritura. Não percebe as
ações e reações de sua esposa; parece nunca ter ouvido falar que existe TPM
e suas conseqüências, por exemplo; não percebe, nem quando são intensas,
nenhuma das necessidades e carências de sua mulher, nem mesmo quando
ela lhe prepara um romântico jantar à luz de velas. Talvez, nesse caso, ele irá
perguntar: o que houve, faltou energia? Se ela manda as crianças para a casa
dos tios e o recebe em casa só de Babydoll, logo ele percebe a intenção, mas
ela vai ter que esperar acabar o fla-flu na TV, já bem perto da meia noite, e
depois forçar a barra para que ele tome um banho. Ele nunca lembra as datas
comemorativas, como: aniversário dela e do casamento, por exemplo. E
quando alguém o lembra, ele dá de presente à sua mulher um jogo de panelas
novinho, ou um espremedor de frutas de última geração. Esse tipo de
marido quase sempre já perdeu o anel de aliança quando lavava as mãos em
algum lugar. E há duas coisas curiosas nisso: a primeira é que fica por isso
mesmo, ele nuca mais arranja outro pelo resto da vida. A segunda é que a
mulher geralmente tem a mão mais delicada e mexe com água a vida inteira e
nunca perde o seu. Deixe-me contar uma historieta que não sei se é para rir
ou chorar. Aliás, nem sei se cabe aqui; se não, me perdoe, mas é que não
resisti. Fala-se de um certo senhor que resolveu dar uma festa aos seus
amigos e assim se fez. Durante a festança, aqui e ali ele dirigia a palavra à sua
mulher, lhe pedindo alguma providência, sempre com muita cortesia.
Exemplo: “Querida, por favor, traga mais copos aqui para nós”; ou “Meu
bem, onde estão os talheres?”. Lá pelas tantas, um dos seus amigos o
chamou à parte e lhe disse: rapaz, eu quero lhe parabenizar pela festa e pela
maneira como você trata a sua mulher, sempre como querida, meu bem,
depois de tanto tempo de casados. Então aquele senhor chamou seu amigo
para bem perto e lhe falou ao ouvido: Não fala pra ninguém, mas é que já faz
mais de dez anos que eu não lembro o nome dela. Viúvas de maridos vivos.
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Esse era o caso de Mical. Além de todo o sofrimento causado por um amor
não correspondido, pelo abandono sofrido e por longo período nos braços
de outro homem, ainda teve que curtir a dor de não poder gerar filhos. Entre
os israelitas, a esterilidade feminina era a pior calamidade que poderia
acontecer às mulheres. Mas o texto diz apenas que Mical não teve filhos, até
ao dia da sua morte. Não há luz suficiente para entendermos se isso veio a
ser uma sentença divina contra ela, por ter se “insurgido” contra aquele que
trazia a arca da aliança para Jerusalém, ou se uma decisão de Davi rejeitandoa como mulher, a fim de puni-la por sua arrogância. Há muitas controvérsias
sobre isso entre os grandes intérpretes e comentaristas. Eu fico com a
segunda opção, em razão de todo o contexto remoto apresentado. Fica aqui
o lamento por essas coisas terem acontecido e continuarem acontecendo a
milhares de Mical espelhadas por esse mundo de Deus, amantes e
desprezadas, sonhadoras desiludidas, viúvas de maridos vivos, teimosas em
continuar vivendo à espera de um milagre. Fica aqui também uma palavra de
esperança: Esse milagre pode acontecer, pois Deus não desaprendeu; a sua
mão não está encolhida que não possa agir, e não há nada que ele não possa
fazer. A Bíblia diz que o coração do homem é como ribeiro de águas; o
Senhor o inclina segundo o seu querer. Ele que sabe sondar os propósitos do
coração e discernir suas inclinações; Ele que retira o coração de pedra e põe
no lugar um de carne pulsante, poderá muito bem fazer de novo algo belo
em suas vidas. Ele que fez brotar jardins no Neguebe, também restaura a
alma do ferido. O Senhor pode transformar ainda água em vinho e mudar
qualquer circunstância, pois é Deus. Não desista, ore, clame ao Senhor,
ponha o seu casamento sob Suas vistas e creia no Seu agir. Como Salomão,
peça sabedoria, entendimento e prudência, ações novas e mudanças práticas
visando o bem, poderão ser o cajado com o qual Deus abrirá o mar
vermelho, trazendo a bênção. Creia.
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11- Leito de viçosas folhas
“Como és formoso, amado meu, como és amável! O nosso leito é de
viçosas folhas”. Cantares 1:16
Leito de folhas verdes (Juca-Pirama)
Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves os passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!
Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou de dia ou de noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!
Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.
A flor que desabrocha ao romper d’alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.
Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arasóia na cinta me apertaram.
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma;
Também meu coração, como estas flores,
Melhor perfume ao pé da noite exala!
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Não me escutas, Jatir! Nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! Lá rompe o sol! Do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!
Que experiência fantástica é e pode ser um casamento vivido sob a égide da
bênção divina! É como orvalho fresco que desce sobre um prado fatigado
pelo sol; como chuva serena que traz viço às campinas. Um jardim fechado
onde brotam lindas flores. Aliás, essa linguagem foi Deus quem inspirou ao
colocar o primeiro casal em um jardim, um belo jardim, o paraíso, o Éden.
Aquele cenário fantástico era o ambiente apropriado e digno de acolher e
celebrar tão nobre união; marido e mulher, imagem e semelhança do
Criador, tipos vivos de Cristo e sua igreja. Um casamento com o selo da
bênção divina tem o frescor e a poesia desse jardim. Envolvido por essa
atmosfera, certo dia eu traduzi em palavras um doce sentimento que invadiu
o meu coração ao refletir sobre essas coisas:
Por entre prados floridos, achei um belo jardim. Belas plantas, lindas flores, pomar de
riquezas tantas, regaço aprazível onde a felicidade arma as suas tendas. Seus inebriantes
aromas sussurram ao vento melodias mágicas, ternas, prolongadas notas de um balé sutil,
convidando a aurora em seus tenros lumes a celebrar com júbilo o vicejar da vida.
Ah! Esse jardim... de cores abundantes, paraíso singular, colírio aos olhos. Quem por
ele tudo não daria, para somente contemplar, perceber, perlustrar sua paisagem, translocarse em mística viagem, sonhar com o tudo que à pobre mente permite-se tocar? Imagens
raras, lúdicas, cenário de luz, movimentos, cores e sons encaixados, simetria divina,
perfeição total.
Santo jardim de frutos excelentes, lugar admirável, manancial de cura e bênção,
alimento sagrado, maná permanente de celestial provisão. Quem nos seus ramos se
alimenta encontra vida e paz. Da sua seiva sorvem fortes galhos, de onde brotam fartos
frutos, virtudes indisfarçáveis, bondades explícitas. Por toda parte ribeiros cantantes,
límpidos e cálidos orvalham frescor e delícia, trazendo harmonia e plenitude; águas que vão
e vêm, fazendo o novo de novo, perpetuando Éden à imagem do Criador.
É bom estar nesse jardim; é bom ser árvore dele; planta viçosa, cuidada, alvo de fino
trato; parceira de outras iguais sob os olhos do habilidoso Agricultor; lavoura de Deus.
Podadas, sim, nunca amputadas; mudadas, sim, quando necessário; puro amor de Deus.
Certas coisas são difíceis de dizer; elas fazem parte somente da linguagem do
coração; são sentimentos inexprimíveis, mas tão reais e verdadeiros quanto
qualquer outro algo objetivo. Lembro-me e guardo com carinho o
sentimento que ocupou o meu jovem coração nos primeiros meses de
casamento com a minha Raquel. Havia uma linda poesia, uma sensação
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deliciosa de conforto e aconchego, um senso de pertencer que não dá
mesmo para definir. Recordo-me, como se fosse agora, de uma certa noite
em que voltava para casa, depois de um dia inteiro ministrando aulas em um
instituto bíblico, e enquanto descia do ônibus com uma pasta na mão uma
frase entrecortou veloz o meu pensamento e enterneceu a minha alma:
“estou voltando para a minha casa”. Puxa! Que coisa mais simples... O que
pode haver de especial nisto? Pois é... É o sentimento, o valor. As coisas têm
o valor que nós lhes damos. Voltar para casa, para muitos pode ser uma
tortura; para outros, no entanto, um presente. Conta-se a respeito de um
senhor que, numa loja de calçados, insistia em comprar e levar um par de
número 39, para seu uso, quando o ideal para ele era o número 41. O
vendedor, sem entender, pois o calçado ficava hiper-apertado no seu cliente,
perguntou-lhe a razão daquela atitude. O senhor lhe respondeu que essa era
a única forma de sentir algum prazer e alívio ao chegar em casa: tirar os
sapatos. Não, isto não é um lar e nem chega a ser um projeto dele. Lar é
lugar de cura e bênção, é ninho de amor e carinho, é onde são repartidos os
fardos e pensadas as feridas. Segundo a rainha Elizabeth II, “cada lar onde
habitam o amor e a amizade é um lugar de ternura e afeição, onde o coração
pode tranqüilamente repousar”. É mais ou menos a mesma opinião de Santo
Agostinho, quando diz: “O lar deve ser um ninho. Pai e mãe podem ser
destituídos de cultura e até relativamente ignorantes. Mas devem ser sábios
de caráter e ricos de virtudes, de modo a inspirar aos filhos respeito,
confiança e amor, no delicioso ambiente do lar”. O grande evangelista Dr.
Billy Graham também teceu semelhante comentário a esse respeito:
“Quando leio a emocionante parábola do Filho Pródigo, nunca posso
esquecer que foi a influência de um lar distante, de um pai amoroso e a
certeza de acolhimento e trato, que permitiram a volta e recuperação
espiritual daquele jovem andrajoso”. É óbvio, um ambiente doentio e
carregado produz sempre relacionamentos, posturas e gestos que combinam
com o tal; um ambiente aonde há saúde, paz, respeito, sincero amor e
abundante carinho, só pode gerar gestos, posturas e relacionamentos lindos,
dignos do Senhor. E tudo isto começa com o casal, na observância dos
deveres matrimoniais exarados na Santa Palavra, como se vê:
“Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido, para que,
se ele ainda não obedece à Palavra, seja ganho, sem palavra alguma, por meio
do procedimento de sua esposa, ao observar o vosso honesto comportamento cheio
de temor. Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com
discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais
frágil, tratai-a com dignidade, porque sois, juntamente, herdeiros da mesma
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graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações”. 1 Pedro 3:1
e 7.
Então é isso. Desejo, de todo o meu coração, que ao findar a reflexão dessas
linhas você tenha sido grandemente abençoado e desafiado a rever atitudes e
comportamentos que possam ter causado danos ao seu casamento,
tornando-o uma engrenagem difícil de girar. Oro também para que o
Espírito Santo que inspirou a Bíblia e a ilumina para que a entendamos, Ele
mesmo aplique em nós cada porção dela aqui citada e os princípios de vida
aqui repartidos, a fim de que tenhamos a grata oportunidade de testemunhar
aqui e ali sobre as grandes maravilhas que Deus tem operado em nosso meio.
Não podemos nos esquecer, no entanto, que nenhuma mudança significativa
ocorre sem que primeiro aconteça conosco; nada muda se não nos
movermos. Que comece já, em oração, e se espraie em ações novas. Deus
fará a sua parte, transformando o nosso singelo ninho em um macio leito de
viçosas folhas.
Rev. Itamar Santana Bezerra.
Dedico:
A quem mais poderia ser?
A Raquel, namorada e esposa amiga, a quem aprendi a amar e
respeitar ao longo de mais de vinte anos de rica convivência.
Obrigado, Quel, por sua ministração, dedicação e exemplo; o
nosso leito é de viçosas folhas.
E a Ana Ruth, minha doce princesa, com quem me divirto tanto.
Desde já lhe desejo uma vida sentimental cheia de poesia e não
drama. Você é tão linda...!
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