Arte primitiva mesmo Arte primitiva mesmo

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Arte primitiva mesmo Arte primitiva mesmo
Arte primitiva mesmo
Magníficas pinturas de 20.000 anos de idade, encontradas na caverna de Chauvet, no sul da França,
estão deixando os arqueólogos e antropólogos em estado de graça. É a maior descoberta de pintura
rupestre dos últimos 50 anos.
Magníficas pinturas de 20 000 anos de idade, encontradas na caverna de Chauvet, no sul da França, em
dezembro passado, estão deixando os arqueólogos e antropólogos em estado de graça. É a maior descoberta
de pintura rupestre dos últimos 50 anos. As imagens têm a elegância das melhores obras, de qualquer época.
Por Flávio Dieguez
Não se via tanto entusiasmo desde 1942, quando foram achadas as pinturas da caverna de Lascaux, a
Capela Sistina da pré-história. É que ela ganhou uma grande rival, a caverna de Chauvet, em Vallon-Pontd'Arc, no sul da França. Que foi encontrada em dezembro. O caçador de cavernas Jean Chauvet resolveu
explorar uma brecha na rocha e acabou numa rede de galerias.
Nunca vi nada igual, diz o francês Jean Clottes, responsável científico pelo estudo do tesouro. São mais de
300 imagens que apresentam muitas novidades. Cai, entre outras coisas, o predomínio que os animais de
caça, como bisões, tinham em todas as cavernas conhecidas. Em Chauvet, há feras para todo lado: ursos,
panteras, hienas e dezenas de rinocerontes peludos. Hienas nunca apareciam, e rinocerontes, só em três
desenhos já descobertos. Novas pistas atiçam o apetite investigativo dos cientistas.
Vamos aprender muita coisa, disse por telefone a SUPER a antropóloga Margaret Conkey, da Universidade
da Califórnia, nos Estados Unidos . É o que pensa a maioria dos pesquisadores, garante também Allison
Brooks, antropólogo da Universidade George Washington. A esse consenso, junta-se outro: a de que os
pintores do passado não devem nada aos atuais. SUPER checou com o artista plástico Luiz Paulo Baravelli.
Eles deixaram uma obra da maior qualidade, confirmou.
As pinturas não são a única fonte de dados sobre o passado. Pegadas humanas, tocos que lembram pincéis,
instrumentos de pedra e restos de tochas cobrem o chão das galerias decoradas. São informações preciosas,
afirma a antropóloga Margaret Conkey, interessada em desvendar a organização social dos pintores. Mas terá
de esperar: durante um ano, a porta de aço instalada na caverna ficará fechada. Só a equipe de Jean Clottes
terá acesso, encarregada de preparar a conservação das imagens, que já são hoje as mais bem preservadas
entre todas as cavernas conhecidas. Continuam como foram criadas, escreveu, por fax para SUPER, o
francês Jean Clottes. Ele esclareceu que a idade das pinturas, de 20000 anos, vai ser reexaminada. Ela foi
estimada de acordo com o estilo. A prioridade, agora, é conservar a caverna, reafirmou Clottes. O seu estudo,
certamente, vai demorar muitos anos.
Claro: é impossível saber, com exatidão, quem foram os pintores da caverna de Chauvet. Mas a idade
estimada dos desenhos, 20000 anos, é um bom indício para se ter uma boa idéia sobre eles. O homem
europeu nessa época construía casas cônicas, cobertas com peles de animais, fazia instrumentos de pedra
refinados e também trabalhava em osso, marfim e madeira.
Os donos dessa tecnologia são chamados solutrenses. Solutrense é o nome da penúltima grande fase da
pedra lascada (cultura lítica) desenvolvida pelo Homo sapiens na Europa. A mais antiga cultura lítica do
sapiens no continente europeu é o aurignacense. Ela se prolonga de 35000 a 25000 anos no passado. Em
seguida, vêm a gravettiana (de 30000 a 20000 anos), a solutrense (de 25000 a 18000 anos) e a
magdalenense (de 18000 a 10 000 anos).
Allison Brooks fez para a SUPER um balanço da trajetória inicial desses povos: Datações recentes indicam
que os aurignacenses se estabeleceram primeiro nas regiões centrais da Europa. Daí foram para o norte da
Itália, perto da Espanha, e só então chegaram à França e à Alemanha. Na França e na Espanha, os
aurignacenses são substituídos pelos gravettianos e estes, por sua vez, cedem lugar para os solutrenses.
A arte custou um tempo enorme para ser inventada. Demorou algo em torno de 60000 anos. A conta é feita
da seguinte forma: do ponto de vista anatômico, o homem moderno tem pelo menos 100000 anos. O
problema é que, durante a maior parte desse tempo, ele permaneceu na África ou no Oriente Médio. E,
nesses lugares, aparentemente, não houve uma explosão artística, nos moldes da que aconteceu na Europa,
há 40000 anos.
Por que tanta demora? A arqueóloga Olga Soffer, da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, responde à
pergunta desconversando: não existe ainda uma explicação. Como muitos outros cientistas, Olga acredita que
a arte foi uma conseqüência natural da evolução das sociedades primitivas. Elas se tornaram maiores,
reunindo populações cada vez mais numerosas. Sua tecnologia ficou mais sofisticada e as trocas comerciais
eram feitas com freqüência crescente. Tudo isso serviu para abrir a cabeça dos homens, raciocina Olga.
Sociedades maiores, mais complexas, dependem muito da comunicação. E arte é comunicação do mais alto
grau. Estou convencida de que as pinturas têm a ver com os contatos entre os grupos que precisavam se
comunicar e, a partir de certa época, esses encontros se tornam muito comuns.
As pinturas das caverna foram uma revolução cultural que aconteceu na Europa, há cerca de 40 000 anos.
Mas as suas raízes estão enterradas na África, e começaram a crescer há mais de 100 000 anos. Foi nessa
época, provavelmente na região da Etiópia, que o Homo sapiens surgiu. Até onde se sabe, ele não estava
ainda ligado à arte. A sua cultura consistia numa grande habilidade para lascar a pedra e fazer machados,
lâminas para raspar (couro ou madeira) e pontas agudas, usadas como armas. De fato, a palavra cultura, na
pré-história, refere-se às diversas técnicas de se lascar a pedra.
A técnica usada pelo sapiens africano define uma cultura conhecida como levalloisense. Era muito superior à
cultura anterior, o acheulense, criada pelo Homo erectus.O erectus se espalhou também pela Europa e
desapareceu há cerca de 500000 anos. Se, na África, sua cultura foi substituída pelo levalloisense, na Europa
deu lugar ao mousteriano, uma cultura associada ao homem de neandertal. Aí, na Europa, ocorreram as
quatro etapas seguintes da evolução do homem, com o surgimento do Homo sapiens a: com a invenção de
novas técnicas de lascar a pedra. Batendo pedra contra pedra, a humanidade aprendia a esculpir. Um pouco
mais adiante, aprenderia a pintar.
- Os pintores de Chauvet habitaram a França e a Espanha, então cobertas de gelo, entre 18 000 e 25 000
anos atrás. Pertenciam à cultura solutrense, a penúltima das quatro fases da idade da pedra. Veja o que eles
sabiam fazer.
Casa de nômades
As cavernas eram para pintar, em grandes reuniões. Para dormir, os pintores usavam tendas, provavelmente
de pele de rena. Eram nômades: andavam de um lugar para outro, caçando e colhendo plantas.
Tudo em família
Os bandos teriam entre 20 e 25 indivíduos. Para a antropóloga americana Margaret Conkey, quando vários
bandos se reuniam, pintavam cavernas. Ninguém sabe por quê. Os povos mais primitivos de hoje ainda são
assim.
Alcançar a presa de longe
Há 20 000 anos, os homens fabricavam pequenas peças de pedra que parecem perfeitas pontas de flecha.
Como eram muito numerosas, indicam que o arco já existia. Há arcos desenhados em cavernas, e vestígios
deles conservados no subsolo.
Corte e costura
Juntar pedaços de couro ou pele é mais fácil com uma agulha. De osso, com 5 centímetros de comprimento,
ela parece ter sido inventada justamente há 20 000 anos.
Ossos para pegar peixes
Arpões denteados de osso, com pouco menos de 15 centímetros de comprimento, presos a um cabo longo,
teriam sido usados para pescar. É provável que os ossos viessem das renas ou mesmo de cavalos selvagens.
Técnica de alta precisão
A marca da época são lascas milimétricas tiradas de uma pedra (com golpes de outra pedra) para tornar a
peça final mais plana. Há indícios de que se faziam encaixes para o cabo.
Shopping center da pedra
Conchas, marfim ou pedras talvez fossem trocados por outras mercadorias. Materiais achados em certas
escavações vinham de longe, às vezes de mais de 100 quilômetros, o que dá sustentação a essa hipótese.
Armado para o frio
Os solutrenses progrediram por enfrentar bem o frio. Caçavam muitas renas e cavalos, a julgar pelos fósseis
em seus acampamentos, e usavam suas peles. Podem ter migrado da Europa central para o oeste. Não se
sabe como, sumiram de repente, há 18 000 anos.
As cavernas de todos os tempos
Já são mais de 300 as cavernas pintadas da Europa. A maioria fica na França (150) e na Espanha (125). O
resto, em Portugal, Itália, Rumênia e Rússia.
Veja, aqui, a localização das mais importantes:
A pioneira Altamira
Quase uma centena de desenhos, feitos há 14 000 anos, fazem dessa caverna uma das mais sensacionais
vitrines da arte pré-histórica. Foram os primeiros desenhos descobertos, em 1868. Sua autenticidade, porém,
só foi reconhecida em 1902.
Bascos de Zubialde
Os traços grossos e as cores básicas das formas, nessa gruta, representam o senso estético dos homens que
chegaram ao país basco há mais de 25 000 anos. Foi um dos primeiros locais ocupados, nessa parte do
continente.
Elegante Lascaux
Detalhe dos cavalos chineses, uma cena importante de Lascaux. Suas pinturas, achadas em 1942, têm 17
000 anos e valeram à essa caverna o título de Capela Sistina da pré-história. Talvez ela seja insuperável em
beleza. Mas, em importância, pode perder o lugar para Chauvet, de acordo com a avaliação preliminar.
Receita de Niaux
Niaux, descoberta em 1906, é a caverna mais bem estudada. Os pigmentos usados na feitura de suas tintas
foram analisadas pelo francês Jean Clottes. Elas têm 12 890 anos e seguem uma receita precisa. O preto, por
exemplo, contém carvão moído e dióxido de manganês, como em outras cavernas. Mas o artista de Niaux
incluiu pitadas de talco (um mineral) e de sais de potássio para dar volume à cor.
Cosquer, sob o mar
Em 1993, o francês Henri Cosquer ficou surpreso ao descobrir essa caverna a mais de 30 metros de
profundidade, na costa de Marselha. É que há 16 500 anos, data das pinturas, o nível do mar era mais baixo.
A entrada da caverna, então, ficava ao ar livre.
O que há em outros continentes
Austrália
As pinturas que são feitas ainda hoje pelos aborígenes de Laura, na Austrália, são parecidas com as da préhistória. Elas podem fornecer pistas sobre desenhos do passado.
Rodésia
Existem gruta, na Rodésia, centro da África, com mais de 40 000 anos, é um dos poucos exemplos da
habilidade artística do homem anterior às cavernas européias.
Piauí
Na década de 70, a brasileira Niéde Guidon descobriu, em Pedra Furada, Piaui, pinturas rupestres que,
segundo ela, têm 17 000 anos. Muitos arqueólogos contestam essa idade.
As culturas da pedra existem desde que apareceu o gênero humano
O jeito como o Homo erectus lascava a pedra define a mais antiga cultura lítica, o acheulense. Seus
machados são grosseiros, geralmente com mais de 15 centímetros de comprimento. São relativamente
grandes, comparadas às peças posteriores.
Em seguida, surgem o levalloisense, do Homo sapiens africano, e o mousteriano, do homem de neandertal.
Essas técnicas são equivalentes. Suas peças, de 10 centímetros, denotam maior conhecimento das pedras.
Culturas líticas mais avançadas: aurignacense, gravettiano, solutrense e magdalense. Os instrumentos são
feitos em grande número de estilos e maior precisão, chegando à escala dos 5 centímetros. Depois disso, o
homem adotaria a técnica dos metais.
Homo sapiens
Época: de 100000 anos atrás até hoje
Técnica: levalloisense
volume do crânio: 1350 cc
Homo erectus
Época: de 2 milhões a 500000 anos atrás
Técnica de lascar pedra: acheulense
volume do crânio: 900 cc (centímetros cúbicos)
Homo neanderthalensis
Época: de 300000 a 350000 anos atrás
Técnica: mousteriano
volume do crânio: 1400 cc
(Revista Super Interessante – Edição 91 - Abril 1995)