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caderno-revista de poesia
Natal – RN, Ano 3. Edição 6. Jul-Dez. 2012
ISSN 2177 0794
Obra da homenageada
Poesia
Andanças (1970)
Uma via de ver as coisas (1973)
Menina seu mundo (1976)
Jardins (esconderijos) (1979)
Talhamar (1982)
Retratos da origem (1988)
Poemas da estrangeira (1996)
Poemas em fuga (1997)
Poesia Reunida (1999)
Hídrias (2005)
O leque (2007)
Appassionata (2008)
Transpoemas (2008)
Ensaio
Tauler e Jung: o caminho para o centro (escrito em parceria com Hubert
Lepargneur) (1997)
Cartografia do imaginário (2003)
7faces
caderno-revista de poesia
Natal – RN
Sucumbo a essa linguagem
que ultrapassa palavra, silêncio
e é vida.
Dora Ferreira da Silva, Appassionata
sumário
Apresentação
A poesia, uma via de ver as coisas 11
Por Pedro Fernandes
O lirismo dos afetos e da memória na poesia de Dora Ferreira da Silva 22
Por Alexandre Bonafim Felizardo
Vias de ver as coisas 1
Ricardo Dantas 40
Davi Araújo 47
Tiago Duarte Dias 60
Adriano Winter 62
Guerá Fernandes 71
Joice Berth 78
Marco Polo Guimarães 81
Dora Ferreira da Silva: recortes 1 89
Entremeio
O projeto criador em Dora Ferreira da Silva 99
Por Euryalo Cannabrava
Vias de ver as coisas 2 117
Ianê Mello
Pedro Belo Clara 119
Rosane Carneiro 125
Carina Carvalho 129
Paulo Lima 134
Natalia Turini 137
Luís Garcia 148
Estudos e devaneios 152
Por Jordny
Um caderno para Dora 161
Vias de ver as coisas 3
Paula Cajaty 172
Nuno Júdice 174
Amosse Muscavele 183
Carlos Margarido 188
Amélia Luz 192
Paulo Vitor Grossi 196
Renata Bomfim 200
Dora Ferreira da Silva: recortes 2 207
Dora Ferreira da Silva: inéditos 225
O mundo em poesia 241
Por Inês Ferreira da Silva Bianchi
apresentação
A POESIA, UMA VIA DE VER AS COISAS
No começo de tudo, quando a palavra e o mundo estavam fundidos e
as linhas entre um e outro, portanto, não se difundiam, a poesia
estava na matéria do gesto, no pulso do corpo em êxtase, no lugar do
divino, numa dimensão, por isso, dada a poucos. Todo poeta, é por
essa razão primordial, um geômetra do universo, e o seu exercício
escritural nunca poderá está reduzido ao movimento da letra
desdobrada uma após outra no espaço amplo do branco da página.
Se assim ocorre o universo será estrutura opaca, um defeito, uma
mancha dispersa presa no papel. Aliás, a poesia não pode está
reduzida ao desenho da forma informe ou do sentido invertebrado
do texto. Ela deve conspirar e ter pulso para saltar da superfície lisa
da folha e ser matéria pulsante, suspensa, atmosfera capaz de atuar
no desempenho do corpo humano, pela lágrima, pelo riso, pelo gozo.
É nesse instante que ganha, a palavra, seu real lugar no complexo
sistema a que pertence e se ilumina a ponto de refundar o sujeito e o
ser.
O poeta enquanto feitor do poema, instante em que primeiro se
prime em suas fronteiras as possibilidades da poesia, é somente
aquele capaz de conviver no limiar de uma epifania constante que lhe
permita está cercado do tempo primordial; epifania que é um
fenômeno do espírito e diz uma maneira de estar locado e
simultaneamente deslocado. Um pulso de iluminação. Não há, para
isso, leis próprias, fórmulas prontas de se ensinar. Há para isso a
necessidade do poeta ser feito pela vivência da palavra e seu denso
universo fulgurativo.
7faces – Pedro Fernandes │ 11
Não é poeta aquele que se derrama pelos cantos, que faz histórias de
histórias pintando o papel de ponta leste a oeste de berros de amor,
de factoides vazios, porque o amor e as vivências são coisas
moventes, sentidas mas impossíveis de sua partilha como cópia fiel
pelo dorso da palavra. Nunca o poema será mímesis se o poema é
sempre criação.
Também não é poeta o que quer ser qualquer coisa que o valha,
inclusive poeta; poeta não é profissão, é modo de estar no mundo. A
busca cega pela forma, fruto de um encantamento pela palavra e uso
inadequado das maneiras do tecnicismo que suprime o próprio pulso
da letra, da voz que lhe antecede, é vã; terá e tem levado muitos por
descaminhos que nada tem do poeta e da gesta do poema. A busca
do poeta que deve se dá pelo dorso da palavra é a de se reaproximar
do estágio genesíaco do universo e os únicos guias nessa empreitada
são ele próprio e sua vontade de experimentar-se pela boca dos seus
antepassados, aqueles que fundaram e ultrapassaram a esfera do
tempo comum e se fizeram eles mesmos tempo.
Por motivos como estes, ninguém melhor que Dora Ferreira da Silva
para ser homenageada neste caderno-revista. Não é que a poeta
tenha uma obra alheia a si e ao mundo empírico, mas ela é o
constante estágio de epifania entre este e o lugar genesíaco. Sua
poesia parte das dissonâncias existenciais, e só este instante já é de
natureza poética, para ultrapassá-las e alcançar um instante único na
extensa rede de vozes dos seus antepassados. Alimenta-se de um
teor estético e renova o diálogo esquecido pelos estetas da forma, o
que não quer dizer que esse trabalho de elaboração esteja ausente
na sua obra; do contrário, talvez até esteja mais que em outros,
porque a poesia de Dora se guia pela experimentação e refiguração
do simbólico que ora se manifesta no poema através da composição
linguística, ora através do corpo estrutural do texto. Sente-se, que
sua poesia é muito estudada e talvez por isso consiga cumprir o seu
papel no universo da linguagem e fora dele: que é o de promover o
reencontro do sujeito com outros lugares e a partir daí seja
encorajado pela descoberta do universo primordial reencontrado por
Dora.
Pedro Fernandes
Poeta e editor da ideia
Dora Ferreira da Silva (1918-2006)
Arquivo de Dora Ferreira da Silva do Instituto Moreira Salles
a homenageada
“Acho que o papel do poeta é parecido com o daqueles que levam a tocha na
Olimpíada. Mesmo que o mundo esteja dessacralizado, temos que acreditar que a vida
é forte, transforma-se e cria novas saídas. Penso na imagem de uma flor brotando nos
interstícios de uma pedra. Acredito nas diversas manifestações do divino, no anima
mundi. Temos que viver este não-ser, esta noite, esta dor como uma passagem. A
fidelidade de cada um a si mesmo é o que se pede. Dar o pouco que se tem, ser fiel à
sua voz interior, é o que se pede aos poetas na tentativa de suprir essa carência dos
deuses.”
Dora Ferreira da Silva. Entrevista a Donizete Galvão publicada na Revista Cult, maio de
1999.
Dora Ferreira da Silve teve, dos 87 anos que viveu, mais de 50 deles dedicados
à poesia. É autora de uma voz única na literatura brasileira e, por esta razão,
está ao lado de grandes nomes, como o do amigo de correspondências Carlos
Drummond de Andrade, poeta que, na sua grandeza é matéria única de
comparação na nossa cena literária. Além de poeta, foi ensaísta e tradutora,
devendo, nós os leitores brasileiros, o contato direto com nomes com Rilke, T.
S. Eliot, D. H. Lawrence, Hölderlin e Jung. Como editora coordenou juntamente
com o seu marido, Vicente Ferreira da Silva, a revista Diálogos. Em sua casa,
coordenou o Centro de Estudos de Poesia Cavalo Azul, nome que lhe servirá
para um periódico editado a partir do grupo. Sua obra foi premiada três vezes
com o Prêmio Jabuti e em 2000 recebeu da Academia Brasileira de Letras o
prêmio pelo conjunto da obra, representado na antologia Poesia Reunida.
© Vicent Van Gogh. Almond Blosson. 1890
Nascimento do poema
É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.
É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.
E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranquila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.
Dora Ferreira da Silva, Andanças
O vento
Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?
Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).
Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.
Dora Ferreira da Silva, Jardins (Esconderijos)
Capa de Poesia Reunida, de Dora Ferreira da Silva publicado em 1999.
Imagem: Arquivo 7faces
Órfica
Não me destruas, Poema,
enquanto ergo
a estrutura do teu corpo
e as lápides do mundo morto.
Não me lapidem, pedras,
se entro na tumba do passado
ou na palavra-larva.
Não caias sobre mim, que te ergo
ferindo cordas duras,
pedindo o não-perdido
do que se foi. E tento conformar-te
à forma do buscado.
Não me tentes, Palavra,
além do que serás
num horizonte de Vésperas.
O lirismo dos afetos e da
memória na poesia de
Dora Ferreira da Silva
Por Alexandre Bonafim Felizardo
Dora Ferreira da Silva, em parte considerável de sua obra, rendeu
grande importância às temáticas da finitude da vida, do transcorrer
do tempo, da força pulsante da memória, força essa capaz de
resgatar experiências mortas e de desafiar a inexorabilidade da
morte. Com efeito, pode-se afirmar que a sensibilidade poética de
Dora sempre esteve atenta ao furor do tempo, à efemeridade da
existência humana. Dessa forma, em muitos de seus poemas, o
tempo torna-se fonte de seu lirismo, a matéria poética essencial de
sua escrita.
Em decorrência disso, a memória também assume grande
importância na obra da escritora paulista. Em muitos poemas, a
reminiscência é responsável pelo resgate do que já não mais existe. O
eu lírico dos textos de Dora tem uma sede imensa de passado, um
desejo de resgatar o que se esfacelou na poeira do tempo. Há,
portanto, na obra de Ferreira da Silva, um embate do ser contra o
tempo, do ser contra o próprio nada. Ante o vácuo das ausências,
ante os escombros do vivido, a poeta intenta instaurar a totalidade
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 24
da vida, ou seja, a poesia. Dessa forma, em muitos textos, o lirismo
delineia as forma do não vivido, do inexistente, e fixa, na malha da
escrita, instantes reveladores da existência, instantes de plenitude e
iluminação. Uma aguda consciência do instante delineia essa busca
pelo passado e emoldura o momento, revelando-lhe toda a carga
lírica e a beleza.
Dessa forma, o passado irrompe no presente como uma verdadeira
fulguração, como um rasgo de luz que ilumina, por pouquíssimo
tempo, o presente. O passado torna-se símbolo, linguagem,
revelação. Ele conduz o presente e norteia-o, revelando-lhe
significados e sentidos. O pretérito torna o agora fecundo,
transforma a existência em um reservatório de experiências. Com
efeito, o eu lírico da poesia de Dora adquire uma grande sabedoria,
uma vivência aguda da condição humana. Conforme aponta Arrigucci
Júnior, o esquecimento transforma o vivido em sombra passageira,
em símbolo instantâneo do viver do homem:
O presente pode então ser apreendido na forma
de um momento poético, convertendo-se em
símbolo: síntese de uma totalidade ausente que,
no entanto, se presentifica por um resgate da
memória numa súbita iluminação do espírito,
numa imagem fulgurante e instantânea, que se vai
perder em seguida. O que passa se faz símbolo. E
na breve fulguração dos símbolos, se recobra o
que se esfumava na zona de penumbra da
memória ou jazia de todo adormecido no
esquecimento. Plenitude passageira do que foi ou
está indo e agora vira imagem [...]. Contra o fundo
de sombras da memória, que é também da morte
e do esquecimento, brilham por um instante as
imagens simbólicas. As imagens, passageiras como
as sombras. (ARRIGUCCI JÚNIOR, 1987, p.32)
A memória sempre resgata um instante iluminado, epifania viva do
passado a se incrustar no presente, aprofundando as vivências
existenciais do agora. Entretanto, a acompanhar esse prazer do
agora, ou melhor, do passado presentificado no presente, há sempre
a corrosiva consciência da efemeridade de tudo o que existe.
Conforme aponta Arrigucci Júnior, a “memória épica recupera para a
contemplação lírica o que passou, trazendo de volta à consciência e à
luz do presente um instante dissolvido na corrente do tempo [...]”
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 25
(ARRIGUCCI JÚNIOR, 1987, p.33). Esse senso de transitoriedade fará
com que Dora passe a perceber o agora com maior afinco. A
percepção do momento presente torna-se aguçada, intensa. Dessa
maneira, o eu lírico de muitos poemas da autora paulista passa a
usufruir o presente, esgotando-lhe as possibilidades de vivência. O
instante é desfrutado com todo o furor, com toda a intensidade, pois
em breve ele se tornará cinza morta, ruína perdida. A velha temática
do carpe diem ressurge nos poemas de Ferreira da Silva, imprimindo
um senso de aventura ao agora. Eis o que novamente pontua
Arrigucci Júnior: “[...] a necessidade de gozar o presente antes que a
vida fuja parece adquirir [...] a dimensão materialista do velho tema
pagão do carpe diem, pois se liga diretamente ao prazer material dos
sentidos, numa espécie de negaceio erótico que torna o instante
presente inadiável.” (ARRIGUCCI JÚNIOR, 1987, p.33).
Há um livro de Dora, sobretudo, em que a temática da memória é
essencial, é o próprio cerne da escritura. Referimo-nos à bela obra
intitulada Retratos da origem. Nesse volume, Dora faz uma
escavação não apenas de sua memória pessoal, subjetiva, mas de
toda a sua linhagem familiar, indo ao tempo mais remoto, instante
fecundo e originário de onde irrompeu o primeiro homem, o ser
primevo universal que gerou a humanidade inteira. Esse limiar
originário, intraduzível, é metaforizado por uma porta onde o eu
lírico bate, na busca do enigma da existência: “Arco etrusco/ lanterna
alta/ aldrava/ Bato à porta da origem/ lá/ onde nenhum passo
ressoa/ vindo ao encontro/ lá/ onde nenhuma voz ecoa/ no alegre
dialeto/ que ri” (SILVA, 1999, p. 187). O resgate desse passado
longínquo desvela por sua vez o tempo auroral das origens, instante
forte da cosmogonia, em que tudo é nascimento, esplendor,
regeneração. Esse instante zero do existir de tudo, conforme Mircea
Eliade, é reatualizado pelos mitos, reincerindo tal plenitude das
origens no agora morto e envelhecido. Assim, o tempo mítico, tal
como o tempo dos textos de Retratos da origem, é cíclico, não linear.
Daí a consciência sacra desse momento primevo e a percepção da
degenerescência de nosso mundo atual, capitalizado e conspurcado:
“Sinto no ar o odor de um fogo arcaico/ sacro/ estou com frio/ nesse
mundo pós-atômico de cinzas” (SILVA, 1999, p. 187-188). Tal livro,
portanto, inicia-se com o mergulho, enfim, pelo interior além dessa
porta, numa metáfora pela qual a busca da perenidade encontra uma
simbologia de sensível plasticidade e lirismo: “e entro/ na Origem
solar/ aquém (além)/ do mundo em trevas” (SILVA, 1999, p.188).
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A partir de então, nos poemas que se seguem, Dora irá narrar a saga
dos Bulliarattis, família arcaica de suas origens genéticas, até atingir o
momento de sua infância, em Conchas, e de sua vida madura, em
Itatiaia. No ínterim dessa longa travessia de uma memória iluminada
pela imaginação, a poeta de Retratos da origem lega-nos momentos
de altíssima poesia, em que os antepassados mortos surgem
resgatados pela força nomeadora da palavra lírica, palavra essa capaz
de fazer renascer os que já não mais existem, tornando-os poesia.
Com efeito, cenas da infância do eu lírico (fulgurações biográficas da
própria autora), irrompem da página, em instantes de iluminação, em
metáforas configuradoras do fluir do tempo e da busca da
perenidade:
O rio de Conchas
Sua margem de conchinhas
corre descuidado
Nele flutuou
uma pluma mínima
que a Menina viu
chorando por esse destino incerto
à deriva
com saudades de lá e de cá
Ela corria
seu avô dizia: “Pra que chegar à estação antes do
trem?”
Mas quem
- Luigi Locchi –
não quer voltar à concha
de um princípio qualquer
seu próprio fim?”
(SILVA, 1999, p.215)
A pluma a correr pelo rio serve como correlato objetivo da saudade,
nesse poema tão ao estilo de Eliot, em que imagens díspares são
justapostas num mosaico fluido como a própria memória afetiva.
A pergunta final entrecruza os tempos primordiais do existir,
metaforizados pela concha, e o instante da morte expresso pela
palavra fim. No princípio está o início e vice-versa, na exposição
daquilo que Ivan Junqueira intitulou de pantempo, instante epifânico
em que a poesia desvela a agudeza do existir humano.
Junqueira chama a atenção para a mistura temporal que marca o
início do poema “Four quarterts” de Eliot. De acordo com o poeta
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 27
brasileiro, nesse poema de Eliot, o passado, o presente e o futuro
embaralham-se, quebrando a linearidade cronológica da existência.
Tem-se, dessa forma, no poema de Eliot, aquilo que Junqueira (1998,
p.84) chamou de pantempo. O pantempo seria um momento
totalizador, em que se aglutinam, em um único bloco, as sequências
temporais: futuro-presente-passado. Evidentemente, o pantempo
não acontece na realidade objetiva, mas sim na imaginação lírica.
Trata-se de um mito poético capaz de aliviar a angústia ante a
finitude humana. Eis o início do poema de Eliot, na tradução de
Junqueira:
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
(ELIOT, 2000, p.199)
Dora, portanto, em seu livro, cria uma obra circular, em que tempos
díspares se consubstanciam, formando um tempo privilegiado, o
tempo da poesia.
O ciclo de poemas que encerra Retratos da origem, os “Cantares do
Itatiaia”, possui um tom erótico eloquente, em que o passado
amoroso é configurado como um carpe diem, um idílio bucólico
vivido no seio da natureza. Dessa forma, toda a palpitação, todo o
frêmito desse instante regresso irrompe, com grande plasticidade,
pela força pictórica da palavra lírica:
As estradas eram vazias
nasciam súbitos jardins
ao passarmos abraçados
Nos entrançados da mata
ferias ramos e folhas
com espada de prata
para abrir-me caminho
Gritavas
(tua voz ecoava):
- Dai-lhe passagem
é minha Amada e Origem!
Numa clareira pousaste
(eu me lembro)
um cravo
Entrancei estranha melodia
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© Joshua Sam Frank
ao canto das rolas
ao murmúrio dos rios
e o timbre mais cálido
suscitava amoras
Tudo o que foi parece
mais forte
que esta hora [...]
(SILVA, 1999, p. 222-223)
O apelo da memória presentifica o passado, dando uma concretude
viva e plena à experiência pregressa. Dessa forma, nos três versos
finais do excerto citado, o que se perdeu na vacuidade do passado
torna-se mais forte que o agora. O passado configura-se amplo,
agudo, como um fato que se dá no instante já. Conforme José Paulo
Paes:
[...] na parte final do livro Cantares de Itatiaia,
presente e passado se misturam intimamente,
como o dá a perceber a constante alternância do
imperfeito e do perfeito da rememoração com o
presente do indicativo da sensação. Selando essa
unidade, que faz do “foi” um “ainda é”
indistinguível do “é” puro e simples, está o Amor,
no entanto celebrado como ausência do Outro e
incompletude por falta dele [...] (PAES apud SILVA,
1999, p.412)
Retratos da origem, portanto, é o livro em que Dora mais esmiúça
sua memória, numa elaboração poética de fina arquitetura, em que
tempo e espaço flutuam no embaralhamento dos versos, quebrandose, assim, a linearidade histórica e a imanência concreta dos espaços.
Assim, passado, presente e futuro consubstanciam-se numa mesma
unidade, da mesma forma que os mais diversos espaços pretéritos
são presentificados, como cenários vivos de uma escrita a arder o
passado como um presente perene. Daí a configuração do eu lírico
como uma “mendiga de lembrança”:
Uma flecha trespassa a manhã
de brumas
mendiga da lembrança
(nada se perdeu
de música e vento!)
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 30
Mas o timbre de vozes
agora
soa estranho
ao som de outras manhãs
que tempo e espaço
quiseram separar
de um tecido eterno
(SILVA, 1999, p. 225)
Apesar do tempo e do espaço apartarem as manhãs do “tecido
eterno”, o poema, contraditoriamente ganha a alta tarefa de
justamente fazer o contrário, ou seja, de tecer as manhãs pretéritas
num instante perene. Escrever para Dora, portanto, é um gesto que
rastreia o sagrado, na procura de uma permanência capaz de
resguardar o vivido da voracidade do tempo. O poema, assim, não é
apenas um registro da memória, é, antes, uma escritura que desafia a
contingência e a caducidade da condição humana. A palavra, para
além de sua limitação, ganha corporalidade na página, como um
registro vivo, pleno, a resgatar o instante de sua precariedade.
Com efeito, conforme podemos notar, o tempo é uma das forças
temáticas de Dora e ela faz da condição humana o motivo central de
sua poética. Confirmando, assim, as palavras de Weisskopf, para
Ferreira da Silva, o mistério do tempo revela-se como algo instigante
e, a despeito de sua natureza incompreensível, serve-lhe como fonte
de questionamentos:
O ser humano, supostamente vinculado aos trilhos do tempo, questiona e
interroga sem cessar. A dor e a alegria são as companheiras que fermentam
suas expectativas, suas descobertas e ilusões. A necessidade de conhecer,
no entanto, de penetrar o âmago do mistério, é maior e mais forte do que
todas as vicissitudes que nos acompanham. Vivemos no tempo e não
sabemos o que ele é. As especulações vêm de muito longe, de antigamente,
no tempo de sempre ser. Da Antigüidade Clássica à Idade Média, do
alvorecer do pensamento científico aos paradoxos inconciliáveis da ciência
dos nossos dias, o tempo permanece hierático, como o maior de todos os
mistérios, maior que os mistérios do amor e da morte, porque o mistério do
tempo é da mesma estirpe do mistério de Deus. (WEISSKOPF in HOISEL,
1998, p.56)
Todo saber, sistemático ou não, apenas roça a superfície desse
grande mistério que é o tempo. Por isso todo conhecimento sobre o
tempo, acumulado pela humanidade desde a era clássica, nunca se
torna ultrapassado. O saber sobre o tempo é um saber autocentrado,
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 31
que se multiplica, nunca havendo um desvendamento total da
natureza da temporalidade. O que o filósofo pré-socrático Heráclito
de Éfeso afirmou sobre o tempo persiste, ainda hoje, como uma
verdade. Da mesma forma, a concepção existencialista do tempo
encontra guarida em nossa era e não ultrapassa nada do que foi
afirmado sobre o tempo anteriormente. Eis o que afirma Weisskopf:
O mistério do tempo é tão profundo e sério, que
nem mesmo aquilo que já foi pensado antes sobre
ele pode ser refutado ou substituído por idéias
novas que tornem obsoletas as mais antigas: tudo
o que já se disse sobre o tempo continua válido –
ou não tem validade alguma. Suspeita-se que o
estudo do tempo seja como um novelo sem
pontas, uma meada sem começo nem fim: podese iniciar sua abordagem por qualquer ponto e o
final, se houver, talvez seja o mesmo lugar por
onde começamos. Os pássaros voam no ar e não o
vêem, os peixes vivem na água e não a percebem,
o espírito do homem está inserido no tempo, mas
tem sido incapaz de compreendê-lo. (WEISSKOPF
in HOISEL, 1998, p.56-57)
Dessa forma, a preocupação com o tempo é arquetípica. Ela pertence
à mesma natureza das indagações sobre o mistério do amor, do ódio
e da morte. É um tema metafísico que está no cerne da vida, mas que
ao mesmo tempo mantém o homem à margem de sua verdade.
Dora, assim, aguçando sua perplexidade, a surpresa sempre viva
diante dos fenômenos da existência, legará à preocupação existencial
sobre a efemeridade da vida parte considerável de sua escrita, num
permanente questionamento sobre a condição do homem, num
arrebatado jogo corpóreo com o próprio mistério do tempo.
Há um poema, sobretudo, dentre vários, em que a questão do
mistério do tempo é esboçada com ênfase. Trata-se do terceiro
poema de um ciclo intitulado “Ribeirão das Conchas, minha cidade”.
Nesse texto, o tempo é desvelado no seu avassalador mistério, em
sua alteridade intransponível. Ele é de certa forma espacializado,
ganhando uma dimensão concreta. Dessa forma, pela memória
arrebatada de um regresso à sua cidade, o eu lírico se percebe além
do próprio tempo, no cerne do incognoscível:
Desci a ladeira da rua principal
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olhos semicerrados. Sol do meio-dia
despejava luz e sombra nas calçadas.
Não sei para onde eu ia, acho que te procurava
por toda a parte e não te via.
Conchas não é passado
presente futuro.
Conchas é todo mistério:
ruas claras cemitério.
Conchas é amor reencontrado
mudada a fisionomia
de outra tarde outro dia
outra noite com estrelas.
Não sei o que foi então
aquela taquicardia –
meu coração galopava
em alguma direção.
(Houve um tremor de terra
em escala bem modesta).
Era Conchas refletida
num pequeno coração?
E nós duas abraçadas
chegamos ao fim da ladeira
uma sentindo na outra
o tremor da mesma vida.
(SILVA, 1999, p. 288)
A memória da voz lírica, perante a cidade do passado, plasma um
tempo sem tempo, instante vivo da memória, em que o mistério se
insinua como uma verdade plena. Essa constatação do tempo
entranhado no espaço, da memória viva a vertê-lo como uma
aparição mágica, exerce sobre o eu lírico um sentimento sísmico, de
violenta comoção. Tal epifania nasce da perplexidade de se
reconhecer o passado ainda vivo, palpitando na carnadura das ruas
da cidade natal.
Para Dora, portanto, perceber o transcurso temporal é intrigante, é
uma fonte viva de perplexidade e encantamento.
Com efeito, invisível, o tempo marcha suas horas sobre os corpos
humanos, transformando faces límpidas em rostos repletos de sulcos
e tristezas. Silencioso, ele invade os objetos, danificando,
pulverizando o que existe. O tempo parece estar sempre ausente da
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vida humana, como se fosse um companheiro que, por sua constante
presença, torna-se imperceptível; um companheiro invisível que, no
entanto, repentinamente, grita a todos os ouvidos a sua existência. A
ampulheta é a representação cabal do tempo. Como os grãos da
areia, o tempo transcorre plácido e calmo. Entretanto, cada grão é
um pedaço da vida que se despede.
Atenta a tal realidade, Dora faz dessa vivência um manancial de
inspirações, um instigante tema sempre aceso no centro de suas
preocupações. Dessa forma, podemos chamar a autora de Poemas
da estrangeira de poeta da memória e do tempo, pois para Dora a
existência humana em toda sua amplidão é a fonte de sua escrita.
Por sua vez, também os filósofos indagam sobre a capacidade do
homem de perceber o tempo, questionam se os seres humanos
seriam dotados de algum órgão especial, capaz de detectar a
presença temporal. Nesse aspecto, o filósofo Robert Hooke, em
pleno século XVII, já pontuava suas indagações sobre a proeza
humana que é perceber o tempo:
Eu gostaria de saber qual o sentido que nos dá
informação sobre o Tempo; pois todas as
informações que recebemos dos sentidos são
momentâneas, mantêm-se apenas durante as
impressões causadas pelo objeto. Portanto, falta
ainda um sentido para apreender o Tempo; nós
temos uma Noção, mas nenhum de nossos
sentidos, nem todos juntos, nos dão a idéia do
Tempo, porém nós o concebemos como uma
Quantidade... Considerando isso, temos a
Necessidade de imaginar algum outro Órgão para
apreender a Impressão feita do Tempo. E isso,
creio que não passa do que geralmente
chamamos de Memória; e imagino que essa
Memória seja um Órgão como o ouvido, o Olho ou
o Nariz, e que tenha sua Situação em algum ponto
próximo ao Lugar onde os nervos de outros
Sentidos coincidem e se encontram. (HOOKE apud
WHITROW, 2005, p.35-36)
Hooke, portanto, coloca a memória em situação de prestígio: é ela
que capta o tempo, é ela que nos faz perceber o transcurso das
horas. A memória é, portanto, a aptidão essencialmente humana que
nos faz sentir a duração temporal. Sem memória, nós não teríamos a
consciência do tempo e nem da morte. Hooke coloca a memória
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 34
como um atributo mais importante que a percepção do futuro. O
futuro só pode ser apreendido pela imaginação ou por previsões, pois
ele é, sobretudo, o desconhecido, o imponderável. Já o passado
registrado pela memória é o tempo adentrado, encravado no cerne
do humano, é o tempo íntimo das recordações, tempo
demasiadamente humano. A memória dá ao homem a noção de
profundidade que o tempo possui.
Dora simplesmente explora tal questão, numa entrega arrebatada a
reminiscências vivas, plenas de um sentido fecundo, de uma
compreensão clarividente de nossa realidade física e espiritual. Por
isso a memória ganha tanta expressão em sua obra, é por ela que a
poeta, portanto, recorta-se no fluxo do tempo, para expressá-la no
congelamento de instantes simbólicos, repletos de emoção e
arrebatamento.
Nesse aspecto, muito semelhante à escrita dos simbolistas, os
cenários de Dora, em alguns textos, ganham a expressividade dos
apelos sinestésicos, como se a memória precisasse arder pelos
cheiros, pelo olhar, pelo som. A poesia da escritora paulista é,
portanto, densamente plástica, pictórica, conforme podemos antever
no Poema “O aroma...”, texto no qual a memória ganha viva
expressão plástica graças aos apelos sensoriais:
O aroma circunda pessegueiros
em meio à chuva. Lembranças
sopram mais que o vento
e a Criança desata os cabelos.
Rostos esparsos sorrisos afagos
de mãos tão leves que a neblina
pesada parece e tudo se avizinha
de um espaço talvez sonhado.
Os nomes revoam pássaros;
pareciam esquecidos
mas em curvas aéreas se revelam
tão belos e lembrados.
(SILVA, 1999, p. 301-302)
No poema, o aroma, a profusão de cores, as texturas e os sopros
formam um tecido sensorial de grande imagismo. Nesse sentido, a
memória, tão proustiana, ganha ímpeto avassalador: “Lembranças/
sopram mais que o vento”. Os nomes, por sua vez, com a força de
pássaros, adejam pelo ar, numa metáfora de grande beleza plástica.
A memória está no mundo e o mundo está no eu lírico, formando,
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 35
dessa forma, entre ser, espaço e tempo um rendilhado uníssono,
inconsútil.
Conforme apontam Jean-Yves e Marc Tadié, “é a memória que faz o
homem”, (TADIÉ, 1999, p.9). A memória dá identidade ao homem, é
ela que lhe molda a vida, dá nuanças que individualizam o sujeito.
Sem memória não há ser, não há paixões, não há amor. A memória
torna o mundo habitável, pois ela familiariza os espaços para o
homem, permitindo-o identificar o aconchego da casa, do quarto,
dos lugares aprazíveis. Sem memória não há amizade, pois sem ela
não se poderia identificar e singularizar o rosto querido em meio à
multidão. A memória, portanto, é fundamental para o
funcionamento da lucidez e da consciência humanas. No poema “O
aroma...”, Dora singulariza tais particularidades da memória, ao
torná-la cósmica, universal.
Com efeito, para Dora, a memória permite, ao homem, encontrar-se
enquanto ser; ela agrega os vários eus, as várias personas que
tresmalham a subjetividade, permitindo a harmonia, o equilíbrio
necessário para a formação do indivíduo. O eu lírico do poema “O
aroma...” só se torna possível porque ele se reconhece no passado,
porque ele tem na memória elementos que lhe afirmam a própria
personalidade. Se não existisse a memória também não existiria a
natureza humana, o ser do homem. A dispersão dos acontecimentos
o tragaria para uma inconsciência total, para um verdadeiro nada. O
ser só pode se confrontar com a morte, com a sua finitude, porque
ele pode lembrar-se, pode encontrar-se no mundo enquanto ser.
Um outro aspecto da memória dos poemas de Dora seria as suas
relações com a imaginação. A memória também se associa ao
devaneio, transfigurando o real, imiscuindo no passado um toque de
ficção. Nesse aspecto, lembrar é inserir poesia na vida. O passado
transfigurado pela imaginação torna-se uma realidade poética. Basta
lembrar a importância que a imaginação teve para Baudelaire, que
chegou a chamá-la de “rainha das faculdades”. Sem imaginação não
há poesia e também não há memória. Nesse sentido, a memória é
emoção, sentimento a germinar no espírito de quem lembra. Todo
homem possui “uma memória apaixonada que chora, treme e ri, ou
que se prende num ódio por ela mesma » (TADIÉ, p.15, 1999). A
literatura irá explorar essas relações entre memória e imaginação,
fazendo da memória poética (ou da poesia memorialista) uma das
suas linhas de força. Conforme aponta Le Goff, é no romantismo que
os escritores tomarão consciência do poder artístico da memória:
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 36
O romantismo reencontra, de um modo mais
literário que dogmático, a sedução da memória.
Na tradução do tratado de Vico, De antiquissima
Italorum sapientia (1710), Michelet pôde ler este
parágrafo Memoria et phantasia: ‘Os latinos
designam a memória por memoria quando ela
reúne as percepções dos sentidos, e por
reminiscentia quando os restitui. Mas designavam
da mesma forma a faculdade pela qual formamos
imagens, a que os Gregos chamavam phantasia, e
nós imaginativa, e os latinos memorale... Os
Gregos contam também na sua mitologia que as
Musas, as virtudes da imaginação, são filhas da
memória’. [...] Ele encontra aí a ligação entre
memória e imaginação, memória e poesia. (LE
GOFF, 1996, p.463)
A memória é, com toda certeza, uma imagética. Nesse aspecto, o ato
mnemônico torna-se muito semelhante à própria poesia, discurso
pautado, sobretudo, pela imagem. Conforme aponta Bosi, “a
instância poética parece tirar do passado e da memória o direito à
existência; não de um passado cronológico puro [...], mas de um
passado presente cujas dimensões míticas se atualizam no modo de
ser da infância e do inconsciente. A épica e a lírica são expressões de
um tempo forte (social e individual) que já se adensou o bastante
para ser reevocado pela memória da linguagem” (BOSI, 2000, 131132). Alfredo Bosi irá colocar a busca pelo passado, a força poética da
memória, como uma das linhas de força da lírica do Ocidente. A
memória, na lírica moderna e contemporânea, simboliza uma recusa
ao tempo atual, massificado, tempo em que a reificação do homem
torna-se um imperativo. Para o autor de O ser e o tempo da poesia,
ao retomar as obras poéticas de Manuel Bandeira e Jorge de Lima, a
memória é “uma forma de pensamento concreto e unitivo, é o
impulso primeiro e recorrente da atividade poética. Ninguém se
admira se a ela se voltarem os poetas como defesa e resposta ao
‘desencantamento do mundo’ que, na interpretação de Max Weber,
tem marcado a história de todas as sociedades capitalistas” (BOSI,
2000, p.177). Memória, portanto, é para Bosi, o cerne da própria
atividade poética.
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 37
Referências
ARRIGUCCI Jr., David. "Braga de novo por aqui". In: BRAGA, Rubem. Os
melhores contos. 7 ed. São Paulo: Global, 1997.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das Letras,
2000.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1991.
ELIOT, T. S. Poesia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
HOISEL, Beto. Anais de um simpósio imaginário: entretenimento para
cientistas. São Paulo, 1998.
SILVA, Dora Ferreira. Poesia Reunida. Rio de Janeiro. Topbooks, 1999.
TADIÉ, Marc; Jean-Yves. Le sens de la mémoire. Paris: Gallimard, 1999.
WHITROW, G. J. O que é o Tempo? Uma visão clássica sobre a natureza do
tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
7faces – Alexandre Bonafim Felizardo │ 38
Vias de ver as coisas 1
Ricardo Dantas
Itabuna – BA
Ricardo Santos Dantas nasceu em Itabuna – Bahia, em 1967. Graduado em
Letras pela Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna – FESPI, atual
UESC. Especialista em Língua Portuguesa, em Alfabetização e em Educação em
História e Cultura Africana e Afrodescendente. Autor do livro de poesias
Lembranças de uma infância, publicado em 2004 pela FICC: Fundação
Itabunense de Cultura e Cidadania. É professor de Língua Portuguesa, Artes,
Teatro e LIBRAS.
Cândido
O prisma
da tua pele
candeia
o meu velejar
em teu corpo.
Apego-me
às ternuras
frívolas, toscas
e irreverentes do prazer.
Não enxergo o vagão
da razão
e deixo-me,
propositalmente,
ser o foco
da tua luz insana,
vil e desumana.
7faces – Ricardo Dantas │ 41
Fé
Acendi a luz
aos pés da terra,
conclui oferendas,
entreguei palavras
e, súbito,
vi milagres
de uma lança
que, como quilha,
rompeu o oceano
entre dois mundos.
7faces – Ricardo Dantas │ 42
Tecer prazer
uma fenda
uma renda
no corpo...
o vestido e o nu
pincelam
do olhar
peniano
o prazer
Disritmia
O passo
sem compasso
quebrou a vértebra
da língua
malsã.
Vitae
O líquido
cardíaco
jorrou,
milimetricamente,
a vida.
7faces – Ricardo Dantas │ 44
© Ian Crawford (detalhe)/ Reprodução.
Criação
Se grilos
e argila
fundissem
sonhos
teríamos a terra,
essa dona senhora,
imaculada
em música
e herança
ancestral.
7faces – Ricardo Dantas │ 46
Davi Araújo
São Paulo – SP
Poeta, ficcionista, tradutor, ghostwriter e conselheiro editorial. Autor do blog
Não Fique São; traduziu Natureza, de Emerson, e Caminhada, de Thoreau
(Dracaena, 2010). Atualmente, conclui dois livros de poemas, continuações da
trilogia iniciada com Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal.
.
© Robinson Machado. Eunoia 1. Técnica mista sobre canson.
7faces – Davi Araújo │ 48
Eunoia
Piso, benevolente, dentro da Boa Vontade
e o reino inteirinho arde em meus olhos quando acendo a luz.
Metade dos quinze pedreiros guilhotinados volta
para o cândido céu de azul e neve madura
de algum fevereiro futuro,
mas a obra em fúria continua de cima para baixo
já que de tão raso só o teto há longe.
Temos vertigem o bastante para mim e o gordo rei xadrez
que se joga uma casa por vez.
Sou novo, belo e forte.
Sou o que eu quiser ser e tudo roço naquela que me endurece.
Estou de frente para o meu lado de fora
e transaparece que esse castelo vem rubro em minha direção.
Tiro da cabeça uma toalha molhada de óptica tinta e o toureio.
Ele passa espiralado aos gritos de “olé” dos não-numes.
Fantasia fétida, quente, de pedra mesmo. Merda de dragão.
É de um bonito dos mais grandes.
Tem no meio um roseiral em chamas perfumadas;
e em baixo sabe-se de árvores
cujas tranças-raízes se tocam comunicantes na superfície, alertando-se em tempo de fugir de tudo o
que não é iminente;
e, o que é muito natural,
modernos bobos parados, aos milhares ao redor do que é tudo.
Não? Vai às mil maravilhas o restauro, informa desde o futuro
a propaganda rupestre
daquela indústria ideal que já fora a menos finita fortificação
de que se tem remembrança
em cada coração do centauro.
E certo deus,
aquele que engenha, que por hobby faz filosofias,
sai para almoçar
justamente quando chego (ou me evita);
vai agora quente e apetitoso, na garupa do cavaleiro negro,
ser entregue à Senhora Pizza,
as bordas de ouro inca emoldurando a circunferência
meia banguela, meia burguesa.
Um acidente inesperado os atrapalha, e acabam por despencar
da minha orelha direita;
mas se dou de ombros
é que por coincidência não os conhecia
e por ter muita caspa, simultaneamente.
E por mais normal que isso possa parecer,
tive fome quando meio dia.
Escalo a flor mais baixa e me estendo deitado
sobre a maior de suas treze delicadas pétalas,
para, glutão, sorver o pólen.
Não sem luta contra o grupo terrorista de abelhas muçulmanas
com planos maniqueístas de “bem me quer, mal me quer”,
e eu “foda-se”.
Foram três vírgula quatorze rounds
do meu mais puro fundamentalismo
contra os heróis.
Depois a sobremesa sem pressa e o café expresso,
cem por cento integrais,
é lógico.
E então um repouso necessário
para reatrelar o esqueleto por cima desta minha alma
que dura.
Desafio-me. Não me amoles.
Isto pois estão a reprisar o Tédio no canal 5,
com intervalos comerciais
e ainda dublado em ornitorrinquês.
Defeco um figo inteiro na penúltima parte.
Desarvoro aquela maldição. Não é este o mundo do imediato?
Faço de conta que entendo tudo o que vejo,
mas apenas para ser do contra.
É uma era que se ainda não foi, será desistida. Sei-o; saco!
Como não desconfiar de tantos tempos instantâneos
e lugares logo ali? Refugos fugazes.
Em poder de um remoto controle
sobre o que me entra pelas vistas,
deixo-me possuir.
Vendido, vou às últimas consequências dos meus atos falhos,
subliminarmente mental,
sedentário sem sequer piscar,
até que afinal me dou por ligado aos telefonemas sem fundos.
Vocálicos, meus dedos da mão
sentidos como se cinco cores
desde a laringe. Vibração.
Oníricos, uns pássaros
a despertar acordes.
Então, passo a tarde em busca do fantástico,
a visitar bibliotecas, museus e zoológicos.
Desconfiado, descortino os números e ingresso no espetacular:
esquinas de ângulos retos,
chãos aprumados pelos ires e vires do devir,
tragédias aéreas
e velórios fosforescentes,
definições de amor de dicionário,
conexão rápida e segura como um genital plastificado,
a cura para a ruga e a fuga para o nunca,
águas de colônia, colônias de férias,
voto nulo,
as casas próprias e os carros usados,
sorteios milionários com dez chances de ganhar,
tanques de pesca e diversões eletrônicas,
viagens parceladas, sucessos de bilheteria,
todo o porvir que conheço de longa data,
todo o todo o todo o todo,
todas as igrejas do deus único funcionando trinta horas por dia.
A vida não acontecendo.
Não sei nada disso de cor, digo-o cordialmente.
Eis tudo que me é caro demais,
desmascarado.
Seja obra de mão de barata, seja massa de manobra pacata,
“Consumir é comparecer!” “Faça isso!” “Venha conosco!”
Antes de se matar,
experimente fumar pedra e saltar sem paraquedas!
Um lê: o fim da saciedade é a felicidade comum da sociedade.
Os outros aplaudem felizes. É o começo.
Cópias do que apenas parece original, nenhuma metamorfose
nem defeitos especiais.
Sonha-se em série na velocidade do verossímil.
Supersim, megaé, hiperjá.
Por que não?
É quando quebro a máquina na quina da queda.
E apenas não vomito o que não comi.
Dado meu hálito ruim demais,
recomenda-se aos nobres limparem muito bem os narizes.
Aos plebeus já não se recomenda coisa alguma,
por já não serem medievais o suficiente.
Há tecnologias como magias.
Várias parafernálias ferrosas com estrondos silenciadores.
Precipito-me em câmera lenta. Vou indo andar de pé,
no que há passos e giro o caminho-verbo.
Distancio-me dos cansativos trabalhos
que deixo ao léu aberto
do próprio andamento.
O céu franze a testa em tempestade sobre mim
e sobre o que é mais telúrico sob mim.
Rendo culto úmido aos campos cultivados
pelas centenas de milhares de minhocas que me saúdam
sem que eu saiba diferenciar se o fazem com a boca ou o cu.
E é uma dúvida recíproca.
A paisagem é tão salutar que até tem certo ar de oxigênio.
Intangível, porém tragável.
Tanto que, de repente, de forma estranha chego a respirar
quase que involuntariamente.
Um gesto sutilíssimo
que não passa despercebido por ela,
uva que passa:
a Mulher Magenta.
Está vestida apenas com a poeira da vinda,
os cabelos se embaraçando no vento,
linda.
Ser de carne, muita.
Reconheço em sua mirada sanguinolenta
o dom de tocar cachimbo.
Veio de não sei quando até o onde exato.
Sou ali entre ela, que claramente se aproxima,
e a sombra que cresce atrás de mim a cada passo seu.
[Atrás de mim, andei quilômetros].
Com olhos novos a cada piscada,
ela pisa displicente [sente] sobre o que ainda nos separava.
Aprofundando-se em meu espírito,
acha graça por eu me perder em seu tão pequenino sorriso.
Toma-me pela mão de escrever (a de colar),
que lava com as lágrimas mais quentes de carinho e dó.
Não se pronuncia, mas cala em mim.
Corta-me os dois dedos de prosa e,
sem fazer doer,
tampa com eles os meus ouvidos.
Então empunha seu instrumento, o grande cachimbofone.
Preenche-o com suas grossas sobrancelhas
que um raio mergulha do alto para acender.
Traga com demora a mais longa nota
e assopra no ar a turva melodia esfumaçada
que apenas vejo.
E logo o entorno enlouquece e toma as cores daquele som,
as nuvens, o sol e o céu.
Faz treva com intensidade e estamos sós.
Beija-me, então, em silêncio sem paixão,
pois tampouco tem língua.
Toda a construção em andamento resumia-se à minha ereção,
que ato contínuo ela afaga
para introduzir em si
com a delícia morna daquela sucção.
Há então os movimentos [os movimentos], para ela e para mim,
de pé e sobre o chão.
Até o improvável, quando todo o corpo da Mulher Magenta
é ejaculado para dentro do meu sexo atônito.
Mais impossível ainda se dá quando,
ao tomar meu próprio pulso,
já agora dobrado,
percebo não estar mais sozinho.
Destapo os ouvidos e ouço-a, ríspida,
dizer desde o meu ser:
“não ouse morrer, pois nascerá de novo!”
Depois do que a sua voz apenas silencia,
pelas próximas milhões de horas esparsas em que envelheci
em companhia do Nada,
cantando este relato,
mentalmente.
“Aprisione-me fora de mim”,
meu último desejo,
era a frase que dava início ao término disso aqui,
uma confissão de culpa derradeira.
Para só em seguida se dar a verdadeira perda de contato
com quaisquer das realidades,
inclusive aquelas das quais eu ainda me orgulhava um pouco,
apesar de tudo.
Era um erro.
Aconteceu que, por falta de outra saída,
fui obrigado a recorrer àquilo ainda verde em mim,
que em seu egoísmo encarnava
tudo ao que eu mesmo estava
indissoluvelmente suscetível.
E afinal a voz, já então velha, sem antes me chamar,
apenas a atender o meu Eu terminal,
ressurge desde o meu interior nunca esquecido e já arrependido
a me dizer “siga-me”.
E então ando trôpego tateando o vazio,
tateandando através do que já não era Eu em mim,
na absoluta escuridão a lutar contra o luto do que já fui
por uma chance
além do alcance,
em meio a incerteza de cada penúltimo e último passo adiante,
só no meu próprio plano,
humano, maníaco.
Até que um medo por não estar só
outra vez
me levou de novo ali,
àquela dúvida de infinitos pontos finais.
E a desconfiar até dos meus pensamentos,
pensei estar sendo seguido.
Foi quando bati a cabeça
contra algum vazio mais sólido,
tão denso de Nada quanto o resto Dali,
e igualmente tenebroso.
Eu terminava bem ali. A li.
Nada me restava, e fartava.
E sem qualquer vontade
que não fosse um ato de automisericórdia,
invoco o que me resta de vida
com a intenção de expulsar da cabeça essa mesma vida.
E por um instante, ao longo do gesto fatal,
duro toda uma nova juventude e há experiânsia.
Uma morte completa,
mera aniquilação do ser
que investe de cabeça contra si mesmo
rumo a tão sonhada
e senhada
ataraxia
encontra meu fim
sem meios de não recomeçar,
pois, assim que piso lá,
[de si,
dó]
ascendo à Luz.
Parque Novo Mundo
- Outono de MMXII
7faces – Davi Araújo │ 58
© Robinson Machado. Eunoia 2. Técnica mista sobre canson
7faces – Davi Araújo │ 59
Tiago Duarte Dias
Niterói – RJ
Tiago Duarte Dias tem vinte e dois anos, morador de Niterói, RJ. Atualmente
cursa Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense. Escreve com
alguma regularidade em seu blog pessoal desde 2007, e tem a paixão pela
literatura e pela poesia desde a sua adolescência.
Estou vivo há vinte e dois anos.
Estou vivo há vinte e dois anos,
formado em frustrações, decepções e ilusões.
Com um diploma em incertezas,
e uma série de promessas não cumpridas,
além de paixões e amores de capricho.
Tenho a frustração de minha época:
como a flor de uma árvore infrutífera,
cuja a vida é apenas beleza e aparência.
E que se o Tempo, apesar de lento, nos consome,
nós zombamos do Tempo, o ignorando...
Carrego as decepções de meus pais e avós:
metodologia empírica da impotência humana.
Todas as suas tentativas de um paraíso,
levaram a um inferno um pouco mais palatável,
com rancor e tristeza pelo passado perdido.
Sou feito de ilusões e de sonhos.
Sou mais de um em um só, levado por desejos,
que eu mesmo não consigo compreender,
e eu, vendo a vida vir verde e veloz:
tomo decisões que não consigo mensurar.
Tenho vinte e dois anos,
e com sorte, mais de meia década de vida
anos em que estarei dividido
entre dúvidas de ocasião,
e recriações em um passado romantizado.
7faces – Tiago Duarte Dias │ 61
Adriano Winter
Porto Alegre – RS
Nasceu e reside em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Foi vencedor do Femup
2010 e integrou sua antologia. Tem outras coletâneas publicadas nas revistas
Germina, Aliás, Eutomia, La Gioconda, Sibila, Separata (México), Triplov
(Portugal), Cinosargo (Chile) e Experimenta (Argentina), além de poemas no
Jornal Poesia Viva e na série Alfa (Espanha).
O açúcar é
fúsil
se alumens diluem
sua armadura mascava
acro
se cáustico ataque
parte a mandíbula frágil
albino
se fios de refino
esfolam aminoácidos
inviso, líquido, místico
se luz ou amor destilam
gotas etílicas de seus átomos
7faces – Adriano Winter │ 63
A roca
vara ou cana, tira
estreita, rocha, fabuloso
pássaro, penhasco
marítimo, tala
em torno de um
mastro, armação
de madeira sob
imagens sacras
7faces – Adriano Winter │ 64
Meu câmbio
melhor
moeda
é o fogo
remunera
o amor
e a arte
tanger
o maravilhoso
custa caro
e ávido
é o imposto
da felicidade
queres ser
milionário?
arde
7faces – Adriano Winter │ 65
© Hélio Jesuíno
Filmagem
(tempestade)
brisas esgrimam gramas
frondes como ondas
panos flanam em arames
trovões temblam ao longe
temporal repercute
no pote de plástico
(bonança)
longo pássaro
dos fachos
pousa em
penínsulas de
lajes
aragens
lantejoulam
águas
(passeio)
sumiço
do gris
gotas grifam
as flores
veleiro de aves
à deriva na íris
(19h)
roxo colosso
da noite
estrelas detêm
desesperos
7faces – Adriano Winter │ 68
Reconciliação
exilado
num relâmpago
atiro cabos
em teu corpo
ponta de língua
borda de boca
qualquer laço
que reconecte
meu ser ao teu
num fio de fogo
mas só o amor
(atrátil força)
põe cumulus nimbus
de acordo
eu te perdoo – tu me perdoas
cintilo livre
beijo-estouro
Visão beatífica
se a treva despisse
seu mistério
morreríamos de luz
conforme Eliot:
“o gênero humano
não pode
suportar tamanha
realidade”
7faces – Adriano Winter │70
Guerá Fernandes
Durandé – MG
Guerá nasceu em 1968, em Durandé, Minas Gerais. Em 2001 lançou olivro Na
Antessala da Fala, um trabalho independente. Do encontro com Editora
Multifoco: Mares de ilhas e cores se chove (2008) e Infinito berrante (2009)
fechando uma trilogia poética. Em 2010, experimentou um trabalho em prosa,
o romance O poço. Em 2012, a nova poesia do poeta está em Pedra de ser
canto.
lágrima
cara tenho essa lágrima
levo esse jeito sem jeito
de olhar pro chão do meu pai
de olhar de lado da minha mãe
e a minha gente se gaba
de não ter medo de gente
se o papo é reto é olho no olho
no tato meu povo é gente do bem
cara tenho essa lágrima
pra chorar depois das palavras
7faces – Guerá Fernandes │ 72
o vermelho do charme
tenho jogado tinta nas coisas
cantado aos extremos de mim
e terrivelmente por pouco
não solto ribanceiras poéticas
dos meus rasantes indomáveis
nossos guerreiros e suas guerras
somos todos bem quixotescos
em inconfessáveis batalhas
e ainda cumpre se preocupar
com cartão de apresentação!
eu não reconheço esse baralho
silêncio às vezes é o atalho
deixo esse verso sobre a mesa
e mais uma vez saio à francesa
7faces – Guerá Fernandes │ 73
casal moderno
ela fala alto
ele usa salto
simulacro
trans porte
- se
parte
par
arte
ou ímpar
7faces – Guerá Fernandes │ 74
©Hélio Jesuíno
paisagem
o meu barco tem
um arco
o seu lábio tem
um mato
capim com íris
nossos matizes
mergulho o tiro
seu hálito de pás
saro
ferido
o seu voar
descalço
no ar de vidro
no fruto o gosto
porque o tempo quis assim
sol lá no sem-fim sem fim
buscar nas folhas esquecidas
o amor com seu flautim
assaltar rente à flor a cor
da cor e a voz do que diz
verde o que sente na raiz
madurar a luz que pulsa
apurar no fruto o gosto
no seu movimento lento
sede nua no doce da coisa
pele que salta e rosa
no alvorecer das vertentes
mapear montanhas no Saara
7faces – Guerá Fernandes │ 77
Joice Berth
São Paulo – SP
É arquiteta e urbanista, poeta e escritora amadora, colaboradora de dois blogs
sobre literatura além de ter seu próprio blog de poesias e contos; está em fase
de revisão de seu primeiro livro de poemas e trabalhando em projeto de poesia
e artes visuais em parceria com alguns artistas plásticos e fotógrafos.
Ladainha
A mesma reza e meus excessos não se medem
Ao contrário das virtudes da conveniência: imensuráveis.
Quando todos oferecem o riso sincero, a leveza mete o pé na porta
A vida como uma obra expressionista,
Não permite conter afetos
Como numa cena de novela antiga, as verdades esperam beijos finais
Estive também esperando um sinal
No final dos tempos
A ventania inaudível da angustia
Meu tempo calou-se, de tanto eco que fez,
Não percebi tua partida
Ainda aprecio teu fel
Na ânsia de indeterminar tua subida
Da última vez que estivemos de frente
Eu, arrefecida pela tua verdade, estremeci.
Minha coragem expirou-se, criou asas!
Desculpe dizer, mas tua inocência é uma farsa
Do mesmo lugar de onde sai
Vou plantar minhas decadências
Com dúzias de crianças, vou sentar na terra.
Esperar brotar o que produz saudade
Dentro da minha insanidade
A alegria do teu irretocável retorno
Beirando o contorno do meu incrédulo sorriso.
7faces – Joice Berth │ 79
Inverso
Da lágrima salgada que umedece a lápide
Ao desconforto da contração do útero
O retorno absoluto
Ao mundo reincidente no pecado
A voz do perdão me pariu
Um pedaço em cada esquina
A cada anjo lúcido que me escolheu
Minha divina inspiração
Nos quartos sombrios do ego
A memória traída
O que derrota
O que acolhe
O que questiona
O que apodrece
Em cada certeza uma agonia
Em cada luz o dissimulado acaso
Do fim ao início
O doce caminho da morte
E de certo só a esperança
Que ainda sustenta ofegante
O peso da vida
7faces – Joice Berth │ 80
Marco Polo Guimarães
Recife – PE
Nasceu no Recife. É jornalista, escritor e compositor. Trabalhou no Diário da
Noite, Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, Jornal da Tarde (SP),
Editora Bloch (RJ) e revista Continente. Publicou os livros: Voo, Subterrâneo,
Brilho, Palavra clara, A superfície do silêncio, Caligrafias, Sax Áspero,
Corpointeiro e Oficina do avesso, todos de poesia. Como compositor gravou o
disco Ave Sangria e participou das coletâneas Asas da América – Frevo I e II.
Tem músicas gravadas por Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Teca Calazans e Zezé
Motta, entre outros. Atualmente é superintendente de produção editorial da
Companhia Editora de Pernambuco, CEPE.
Recife
Recife, cidade pantera,
fera de lata e latão,
gume de foice, severa
esfera de ferro, ferrão.
Recife, cidade minério,
rios, vento, luz e chão,
poço cavado no aéreo
areal da imaginação.
7faces – Marco Polo Guimarães │ 82
A Anunciação, de Botticeli
O anjo tenta acalmá-la
de joelhos, menos por reverência
que para mostrar submissão;
mas ela foge, quase tropeçando,
está profundamente assustada
e o quadro em que o pintor a vê
é pequeno para ela.
Seu gesto também é cortês
como se dissesse: Muito obrigada,
é muita distinção, fico grata,
mas ser mãe de um Deus é demasiada responsabilidade.
O anjo insiste, insidoso, insinuante.
Apesar de todo o pânico,
ele sabe que ela vai conceder.
A firme árvore que se vê pela janela
e o rigoroso ladrilho vermelho que se estende pelo chão
confirmam a realidade
e o irrevogável transcurso dos fatos predeterminados.
Sob o luar
que vem das tuas
duas luas altas
há uma pausa
é nesta fresta
é nesta fenda
é nesta senda
é nesta sombra
por onde entro
seta
para fora do tempo
7faces – Marco Polo Guimarães │ 84
Noturno árabe
Se a nádega clara sobre a seda escura
retém um tom de rosa. Se a penugem da coxa
doura a pele. Se a carne rosa e fina
da virilha guarda um perfume quente.
Se a cova da clavícula detém o sal
do suor. Se a onda dos pelos reluz
seu sol negro. Se o dente branco rasga
a polpa da canela. Se o perfume quente
umedece as coxas duras da menina.
Se a nádega clara treme ao toque da língua.
Se o suor escorre pela espinha fina
onde os pelos. Se a virilha rosa.
Se a ponta dos peitos brilha como estrela.
Se a noite se move sob o corpo alvo.
7faces – Marco Polo Guimarães │ 85
Lázaro
Não acordem Lázaro
ele não quer
está livre do mundo.
Suas irmãs não sabem
é puro egoísmo
desejá-lo vivo.
Não acordem Lázaro
ele está feliz.
Seus instantes de febre
sua gula e jejum
tudo está ultrapassado.
Lázaro só pensa
em campos de neve
em disneylândias
em sorvetes de araçá.
Acordar Lázaro seria
suprema desumanidade.
Ainda assim
acordaremos Lázaro.
7faces – Marco Polo Guimarães │ 87
Litania
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Velas roxas, seda roxa, roxas feridas de dor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Muita pedra, muita queda, muito perdão por favor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor
Sobe ladeira, desce ladeira, onde for
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Serpente de fé, emblema da dor
Do homem na terra caminhador
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Bang bang de fogos, flores, palmas, cânticos de amor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Pelo mangue, pela praia, pela praça, pela rua, pela avenida
Pela vida
Lá vai a procissão com seu andor
Lá vai a procissão do Santo Sangue
Santo Sangue do Senhor
7faces – Marco Polo Guimarães │ 88
Dora Ferreira da Silva
recortes 1
Órfica
Não me destruas, Poema,
enquanto ergo
a estrutura do teu corpo
e as lápides do mundo morto.
Não me lapidem, pedras,
se entro na minha tumba do passado
ou na palavra-larva.
Não caias sobre mim,
que te ergo, ferindo cordas duras,
pedindo o não perdido
do que se foi. E tento conformar-te
à forma do buscado.
Não me tentes, Palavra,
além do que serás
num horizonte de Vésperas.
Quatro poemas em rosa
I
ROSA-MOURO
Peço-te novas, amor, da Criança que gerámos um dia
junto a um canteiro de rosas. Era de noite,
mal víamos as cores de nosso filho antigo.
Rosa-mouro, seu nome: sua alcunha, o Cigano.
Num carroção o levámos a passear pelo mundo.
Na aurora era lindo, Rosa-lindo o apelidámos
e nunca o vestimos. Rosa-nu, chamaram-no meninos
que caçavam pássaros. De noite,
escurecia tudo: Rosa-escuro fremindo
em nosso abraço. Rosa-noite, segredámos
sem que ninguém ouvisse. E num aro de criança
o rodamos, tangendo com varas finas nosso Menino.
Mal sabíamos que se afastaria. No canteiro de rosas –
seu berço – a geada pousou dia incerto um beijo mais frio.
Rosa-mouro, gritámos! Cigano! Ecos se foram
em muitas direcções. Rosa-lindo e Nu e Noite, gritámos!
Ninguém respondeu. Não se fora, aéreo, nem morrera
pétreo de desentendimento, nem sufocara em lágrimas,
nem morrera de rir. Desconfio das rosas,
das rosas de todos os caminhos. Nosso filho sincrético
em tudo que é rosa parece dormir.
7faces – Dora Ferreira da Silva │ 92
II
ROSAMOR
Nem mesmo o Angélico achou tal cor em asa
ou manhã. Nenhum acorde tocou tal cor.
Nas palmas dos recém-nascidos dizem
que pode ser encontrada se a estrela for propícia.
Em pétalas, se a Natureza doar-se, amando
a flor dilecta. Um Poeta a descobriu na hora mais tardia
e ofertou-a em silêncio à visão derradeira.
Temerária, a procuro; interrogo os sentidos:
o tacto, em pêssegos pousando e amando;
o gosto confuso e escuro aprofundando
a carne da romã; o olhar, demasiado à superfície
das rosas que têm nome, e escapam; o ouvido,
ébrio de vinho róseo esquecendo a música.
Interrogo os sentidos. Nenhum responde a meu chamado.
Despeço o poema à porta, é inútil tentar
dizer tal rosa, estando viva e incerta
em tantos caminhos por onde começar.
III
ROSALÉM
Ajoelhada, num gesto simples de colher flores,
rósea. O alvo abrigou-se além
e deixou-a no jardim das rosas. NO LI ME TANGERE.
Colhe o que quiseres na campina rasa,
essas folhas e ramos e aromas.
Enlaça-te em teus xales, descansa
de soluços e sustos. Recolhe teu gesto
aéreo. Volta ao róseo da aurora.
Do Amado, era a hora madura;
não a tua, Amorosa.
7faces – Dora Ferreira da Silva │ 93
IV
ROSADEUS
Num escrínio de vidro levavas a rosa.
Os caminhos eram vazios, depois de chuvas prolongadas.
Contra o peito apertavas o tesouro frágil;
ria-me de teus cuidados, de teu medo. “Somos os últimos.
dizias, aos que foi confiada a rosa.”
Eu cantava tudo que nascia
e em nossas bocas os frutos se acendiam.
Debatia-se o sol em teus cabelos;
abraçados na clareira fria, ouvia em teu peito
o rio escuro. E de lágrimas me vestia,
na extrema nudez
que só tu viste e velaste
entre a rosa e o vazio.
Esse tempo existiu, de sendas tão secretas?
Que delírio o retém? Partiu-se o vidro,
perdeu-se a rosa, o atalho na floresta?
7faces – Dora Ferreira da Silva │ 94
Vivem os ventos...
Vivem os ventos o puro viver
fuga incessante dos elementos.
Abrem-se pétalas de ar
gritam nuvens arrastadas
riem gostas de luz na altura límpida:
o branco novilho – cascos de ouro – escarva
entre céu e terra.
Dissipa-se o impuro. Dilata-se a luz
que incita o desencadear constante
e nas flâmulas do éter – rubra –
floresce a rosa
distante e presente
pétalas abertas ao duplo viver:
raízes na terra
e odor que no alto se dissipa
em viagem além de porto ou ilha
ao sabor do saber ou não-saber das quilhas.
Doada e casta em seu prumo
das altas transparências às grotas
de obscuros corações (sôfregas raízes).
A rosa: farta e indigente
entregue aos rios de vento e de carência.
7faces – Dora Ferreira da Silva │ 95
A Euryalo Cannabrava
Sem lápide pesada
à beira de águas fluentes
– rápidas palavras –
roladas ao fio dos pensamentos
que fundamente habitaste
mas principalmente à beira do livro de imagens
do teu Fabulário – homem forte habitado
pela Criança dos inícios –
eu te evoco ao sol da nítida lembrança
(foi o Início teu porto aberto à descoberta)
à beira de águas sempre renovadas
configuradas na líquida flor dos pensamentos
do homem divinamente criador a imagem
teu instante perene e as fibras do Imaginado.
O hausto do silencioso sentimento
em tudo se torna e se derrama
e contigo permanece.
Os poemas aqui publicados nesta sessão aparecem em edições de 1972
(n.10) e 1978 (n.44) da Revista Colóquio/Letras da Fundação Calouste
Gulbenkian e foram cedidos para reprodução nesta edição
D
entremeio
O projeto
criador em
Dora Ferreira
da Silva*
Por Euryalo Cannabrava
1
Dizer que certo soneto de Rainer Maria Rilke é existencialista significa
o mesmo que atribuir-lhe determinada relação temática não
substancial. Na obra de Dora, porém, o existencialismo não
comparece, porque a sua trama foi urdida na base de vivências
pessoais e intransferíveis, de contactos imediatos e direto com as
vicissitudes da “humana natureza”, no dizer de Zurara.
Nem seria possível, na base de teses existencialistas, analisar a
riqueza desbordante da poética Doriana. Os fundamentos da crítica
existencialista ou fenomenológica de poesia, por outro lado, são
vacilantes, como se verifica através de Alessandro Pellegrini na sua
monumental obra sobre Hölderlin.
O que acontece com o crítico existencialista ou fenomenologias é que
ele parte de uma perspectiva doutrinária para examinar o que
sòmente pode ser encontrado no poema. A posição do
Existencialismo ou da Fenomenologia é fundamentalmente
problemática. Em primeiro lugar, são filosofias exortativas que
costumam substituir, em certas oportunidades, a reflexão crítica pelo
É assim tanto Heidegger como os seguidores de Husserl proclamam
ser a poesia nada mais ou nada menos do que disciplina filosófica.
Esta confusão básica entre mensagem especulativa e mensagem
poética torna-se evidente no ensaio de Heidegger sobre Hölderlin.
Ora, tal exegese retira, de início, a originalidade do poema,
considerado como subproduto da atividade filosófica. A distinção
básica, porém, entre Poética e Filosofia decorre, como se verifica a
propósito do poema “Metafísica”, precedentemente comentado, de
que toda construção filosófica é problemática, ao passo que todo
poema autêntico pode conter problemas, embora não seja
problemático em si mesmo. A natureza do método filosófico seria
transformar soluções em problemas. A Matemática interessa ao
filosófico precisamente no sentido de que as suas soluções,
transmutadas em problemas, constituem a base do progresso na
rainha das ciências.
Nada disso se verifica com a obra de arte: enquanto ela se manifesta
apenas como projeto criador, a sua essência é a aleatoriedade. A
transição do objeto estético (programação criativa) para a obra de
arte (produto necessário) constitui a base da realização artística. A
necessidade da obra de arte consiste precisamente no faço de que do
teatro de Shakespeare, da fuga de Bach ou da estátua de
Michelangelo nada se pode retirar ou acrescentar. Ao passo que na
teoria cientifica, como a relatividade einsteiniana, as amputações e
os acréscimos se tornam inevitáveis.
Há, portanto, uma necessidade estética tanto ou mais rigorosa do
que a necessidade lógica. Esta necessidade estética permeia os
poemas de Dora, em que o famoso “sentido” direto, referencial e
simbólico sofre a coação do fundo imagístico no repertório das
palavras. Assiste-se, ao vivo, ao conflito entre os ingredientes
simbólicos e imagísticos que, contrapondo-se, geram tensão
conotativa de ressonância estética profunda. É o que se observa,
depois de “Metafísica”, nos versos
fala da alma que me desabita
do meu corpo ausente quanto não estás
e em
cega li
teu nome em meu sangue
e as estrelas confirmaram
7faces – Euryalo Cannabrava │ 100
seguidas por
no escuro divinatório
reconheço
o perfil da tua origem
E, a propósito do Sol:
clara divindade
nua a carnação sob o manto escarlate.
Mais adiante, em “Manhã I”:
Esqueço os hieróglifos da alma,
há campânulas azuis, ânforas, pássaros.
há campos a percorrer.
Em todos esses paradigmas líricos, as violações semânticas do
“sentido” dicionarizável atingem o seu objetivo de coarctar o obvio e
o prosaico, nas referências simbólicas, para atingir o inusitado e o
insólito da expressividade poética.
Em “Manhã II”:
No espelho do lago semeado de folhas
ondulam os corpos entre hastes de trigo
o sentido literal e léxico não representa o objetivo, dissimulado pela
neutralidade da descrição natural.
Esta dissimulação do incomunicável, sob a aparência da forma
intuitiva e espontânea, manifesta-se em
Nos grãos do vento
partiram pombos em tumulto e brancura
que explicita raízes intersensoriais de inspeção sensível, denunciando
no poeta contacto interno dos sentidos com a realidade do mundo
exterior. Aos “grãos de vento”, distribuídos em partículas minúsculas,
corresponde a revoada dos “pombos” que confunde “tumulto” e
“brancura”. Pensamento poético, de raízes sensoriais, pressupõe
análise discriminativa, pelo conhecimento inspectivo, ingredientes
psicodinâmicos ativo, que sublinham a vida ao mesmo tempo
7faces – Euryalo Cannabrava │ 101
contemplativa e nostálgica em que se integram elementos de
presença e ausência em síntese secreta:
nos vales da distância
rumina em silêncio
teu rebanho tranquilo.
Nestes dois versos de “Noturno II”:
A noite já desfere
seu punhal de trevas,
nota-se o mesmo artesanato, que impregna a imagem de
sensorialidade concreta, para torná-la drástica até o ponto da
visualização direta. Os versos acima atuam como projetor, criando a
ilusão eidética dos braços da noite desferindo golpes de treva.
Mesmo neste exemplo, como em outros anteriormente citados, não
há metáfora, nem tropo, pois o sentido figurado no uso das palavras
seria o máximo de realização antipoética.
A drasticidade desta imagem provém diretamente do seu poder
galvanizador e energizante. A figura de retórica é abstrata, atua como
símbolo, em que a palavra transfere o seu sentido para outra, como
por exemplo a relação entre “flor” e “mulher”. Ora, “a noite já
desfere” “seu punhal de trevas” nada figura ou compara, mas
simplesmente, através da carga imagística, suscita a presença da
“noite”, densa e concentrada, vibrando o “punhal” feito de “trevas”.
2
A experiência concretista de Dora, incorporada em “Lunimago”,
coletânea de poemas de vanguarda, tem a significação de imprimir à
sua obra feitio experimental em matéria de linguagem. Os poemas
breves e incisivos, valorizam a palavra isolada por meios mecânicos
de técnica tipográfica no espaço em branco.
Ora, em Mallarmé, no poema Um coup de dês, a riqueza da
expressividade lírica consiste precisamente na variedade da
distribuição de palavras no texto poético. As distribuições
obedeceram a uma programação rigorosa, em que o poeta procurou
obter, segundo suas palavras, “esta conjunção suprema com a
probabilidade”.
7faces – Euryalo Cannabrava │ 102
Os objetivos mallarmeanos eram complexos, como demonstra a
leitura de Igitur. A realização, porém, como poesia pura, ultrapassou
o projeto criador no sentido de poemas absoluto, sem condições
restritivas. Os concretistas, porém, daqui e do estrangeiro, são de
méritos desiguais, pois a sua programação, muitas vezes ingênua,
empobrece o poema de valores estéticos, circunscrevendo o seu raio
de ação a um mínimo de interações de palavra para palavra. Além
disso, observa-se uma espécie de desestruturação do espaço poético
pelo estrangulamento das imagens nas palavras, que passam a atuar,
simbòlicamente, como veículo de ideias ou de conceitos.
Na eliminação do sentido conceitual da palavra no poema consiste
precisamente a tarefa do artesanato poético que o concretismo
abole por completo. É verdade que Dora consegue, em alguns de
seus poemas concretistas, a transfiguração do substrato simbólico,
nos vocábulos, em pura imagem concreta. Mas estes acertos são
relativamente raros.
No poema concretista em que as palavras “infância”, “ânsia”,
“distância” são colocadas em diagonal à direita, tenho a impressão
de que o coeficiente simbólico, puramente conceitual, desses termos
sobreleva, vantajosamente, o seu repertório imagístico. Mas, seja
como for, a inserção de poemas concretistas em Andanças indica, na
autora, virtuosidade artesanal que valoriza o livro em vez de diminuílo.
De “Lunimago” transita-se, sem tropeços, para a sutil e difusa
“Elementária”, rapsódia lírica de elementos e objetos, congérie de
átomos verbais, cortejo de formas e de ritmos, teoria de sons e de
figuras. Confesso que “Elementária” representou, para mim,
experiência entrópica no mundo da desagregação e do caos. A
desordem impera, nestas regiões mágicas, em que Dora faz surgir de
furna esconsa trasgos e duendes, com letreiros na testa.
Trata-se de um polipeiro de imagens saltitantes: saltos quânticos e
acrobacias verbais que lembram pantomima de circo. A experiência
atinge todos os seus objetivos, com centelhas, fulgurações, enredos,
cipós bracejantes, parasitas, conglomerados, partículas e ondas. O
poema é polivalente, tumultuário, cresço e rugoso na superfície, com
estratos inacessíveis à inspeção armada de microscópio.
É certo que ao verso final
SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI
corresponde, em “Elementária”, a obra realizada, o fecho e o remate de
uma tarefa ciclópica, em que o mágico, o telúrico e o lúdico se associam em
comum empreitada.
Depois de “Elmentária” plenamente realizada, vem “Tapeçarias”, onde são
entretecidos poemas em prosa.
Não há nada que me faça compactuar com este monstro bifronte: o
poema em prosa. É evidente que a poesia, excluindo a sua paráfrase
em prosa, com os elementos lógico-racionais, inerentes à exposição
oral ou escrita, não se adapta ao tratamento prosaico. A prosa, sendo
simbólica, não evade o sentido senão em determinados trechos,
como acontece com Proust, em que o estilo, galvanizando a
expressividade temática, adquire certo teor poético inconfundível.
A imagem, entretanto, em Joyce, Malcolm Lowry, Guimarães Rosa,
adquire tonalidades descritivas, funciona como epítome ou resumo
dos traços de personagens, exercendo função drástica como no
poema, embora eriçada de ingredientes simbólicos. Esta economia
interna do repertório imagístico, no romance, se explicita em Proust,
ao afirmar de Albertine: “Ela era única e, portanto, inumerável.”
Este poema em miniatura, quando isolado, perde seu conteúdo
poético pela função que exerce no romance proustiano. O leitor já se
sente saturado de informações vagas ou precisas sobre Albertine,
figura caleidoscópica, cujas metamorfoses ovidianas excedem o
número de estrelas nas galáxias. Mas, de repente, tudo que foi dito
ou ficou subentendido acerca de Albertine – o seu temperamento de
lésbica ou de heterossexual, ou seus impulsos, os seus passos
rítmicos pela praia, as suas alegrias incontidas de jeune fille em fleur,
os seus retraimentos, as suas traições, os seus subterfúgios – se
condensa na imagem esplêndida: “Ela era única e, portanto,
inumerável.”
O que distingue a imagem poética do símbolo prosaico reside no
caráter autotélico (que tem o fim em si mesmo) da primeira, e o feito
heterotélico (que tem o fim fora de si mesmo) do segundo. Eis
porque a imagem poética, sendo espontânea e natural, surge no
poema com os atributos flagrantes da presença física, da densidade,
do volume, do peso especifico.
7faces – Euryalo Cannabrava │ 104
Ela é auto-referencial, concentrada e não hetero-referencial,
desconcentrada, centrípeta como o símbolo. A confusão entre
imagem e símbolo, perpetrada por Cassirer, como endosso posterior
de Suzanne Langer, está na base dos tortuosos tramites das doutrinas
estéticas.
Em Andanças, as imagens proliferam como enxames de abelhas.
Entre inúmeras delas, citarei estratègicamente “águas taciturnas”,
como exemplo vivo de propriedades interativa, em que o dissílabo
“águas” atua sobre o quadrissílabo “taciturnas”, com efeito
reversível. É claro que as “águas”, não sendo humanas, não podem
ser “taciturnas”; no máximo seriam escuras ou sombrias. Se o sentido
dicionarizável tivesse importância em poesia, a autora poderia ter
dito “águas silenciosas”, o que não atinge o alvo, nem se enleva até o
nível da expressividade poética.
Mas “águas taciturnas”, embora represente expressão
semanticamente imprópria, traz, no seu bojo, suficiente lastro de
carga imagística, audiovisual, para suscitar o surto da evidência
heurística que serve de suporte ao juízo estético. O poema autêntico,
como “Metafísica”, tem na força das imagens, na sua drasticidade
como sensações condicionadas, os dados intuitivos, as evidências de
natureza criativa que a linguagem lírica explicita e veicula.
Vejam bem: a “águas taciturnas” nada pode corresponder no mundo
exterior. O coeficiente de realidade desta expressão decorre
exclusivamente da representação visual de “águas” que, por serem
“taciturnas”, nada ou pouco comunicam. O repertório visualizante de
“águas” aglutina-se ao repertório auditivo de “taciturnas” e, através
de contínuas interações, surge a imagem luminosa, rítmica e musical,
ao mesmo tempo. O estudo da estratégia da decisão, em Dora, do
seu sistema de preferências, dos seus critérios seletivos, constitui o
cerne do juízo crítico como arte de penetração analítica.
É esta estratégia da decisão, explicitada nos poemas em prosa, que
será investigada nos seus variados aspectos. Em primeiro lugar, ainda
a propósito do poema “Metafísica”, o paradoxo que ele gera decorre
de que o seu título, prometendo uma temática que não será nem
sequer tocada em qualquer dos versos, se torna, por isso mesmo,
“metafísica”. A táctica Doriana de decisão consiste em fraude ou dolo
consumado, que começa por enganar o leitor, desviado de seu rumo,
à procura do “sentido” nas palavras, embaído nas suas expectativas,
7faces – Euryalo Cannabrava │ 105
com promessas que não se cumprem e intentos que não se realizam.
E, com isso, Dora põe a nu a essência mítica do poema, a sua
quididade ou natureza interna: o ludíbrio, o artifício, a deformação
do real, o jogo lúdico, a trama caleidoscópica, embora conserve
intactas as raízes sensoriais na base das imagens.
Este jogo entre o concreto e o abstrato, entre a sensibilidade e a
inteligência, entre o empírico e o racional consubstancia a técnica de
decisão Doriana na factura equívoca e polivalente do poema.
Surpreendê-la na ação mesma de elaborar seus artefatos líricos
constitui tarefa da crítica, orientada por princípios técnicos, embora
mantendo o seu privilégio de exercício livro nos domínios
estratégicos da decisão.
Em cursos sobre “Tecnologia e Decisão Estética”, procuro reivindicar
para a crítica todas as características da Operação-Cultura. O método
crítico, como o instrumento tecnológico, fornece aquilo que Matthew
Arnold denominou a “atmosfera da atividade criadora”. Ora, a
atividade criadora, sendo estética por sua natureza, investigada pelo
crítico, transforma-se em arquitetônico estilística. Criação, em Arte, é
expressão da forma, modulada pelo ritmo.
Daí os liames apertados que ligam a Tecnologia à Arquitetônica
Estilística e esta à construção da forma, gerada através de
galvanização da expressividade temática pelo estilo. Receio muito
que haja excesso de “programatismo” nas afirmações anteriores,
apesar de poder alegar que não disponho de espaço para a podagem
das arestas, amplificando as considerações sob aspectos relevantes.
Fixando-me, porém, na estratégia de decisão do artista,
complementada pela estratégia de decisão do crítico, certos pontos
fundamentais devem ser esclarecidos. O primeiro diz respeito à
situação singular dos poemas em prosa de Dora que pretendem
ocupar posição intermediária no complexo de relações entre prosa e
poesia. A autora, entretanto, até neste ponto faz obra original,
porque esta parte de Andanças destoa de todas as experiências já
feitas neste sector.
A originalidade de Dora, que constitui a marca de Andanças, consiste
precisamente em atingir, nestes poemas, certa posição que,
participando do lirismo romântico exacerbado até o ponto de fusão,
7faces – Euryalo Cannabrava │ 106
faz poesia transfigurada em prosa, e prosa metamorfoseada em
poesia.
Tais metamorfoses, porém, preservam o clima poético através das
imagens que, por não serem simbólicas, acabam eliminando, na
textura lírica, o coeficiente prosaico de referências e de informações
precisas. O clima comunicativo de “Tapeçarias”, que nada informa
através de referências prosaicas, transmite o inefável, termo
insubstituível para traduzir o que, no poema, não se pode veicular
por outras palavras.
O absurdo de se considerar o poema como um sistema cibernético,
com seus mecanismos, auto-regulações e retroações, consiste
precisamente em se admitir que ele veicule unidades informativas.
Mesmo porque as unidades informativas do poema seriam
elementos ou processos, por ele construídos, que não figuram
explìcitamente no seu contexto.
Ora, tudo que não figura no poema, nas suas palavras transfiguradas
em imagens, seria completamente espúrio e inoperante, simples
resíduos referenciais e simbólicos. Esses remanescentes simbólicos
constituiriam a parte dicionarizável das palavras que o poeta elimina,
pelo menos parcialmente, com a sua decisão metamorfoseante.
É o que acontece em “Tapeçarias”, escrita provàvelmente com a
intenção de mostrar a impossibilidade do monstro bifronte: poema
em prosa. As rimas repetidas e cruzadas, o elance da textura lírica, o
tom romântico de balada medieval, os motivos, arabescos e
desenhos na tecelagem das tapeçarias, tudo isso, congregado na
decisão de eliminar o supérfluo para reter o essencial, resulta na
comunicação do inefável. Esta comunicação do incomunicável,
através de estratégias de decisão, que criam vias de acesso ao
inacessível, constitui o cerne e o núcleo da realização estética.
7faces – Euryalo Cannabrava │ 107
© Arcangelo Ianelli. Vibrações em vermelho 200-2001
© Arcangelo Ianelli. Vibrações em azul 200-2001
© Arcangelo Ianelli. Vibrações em branco 200-2001
3
A poética de Dora, assediada pelo mistério, pelo apelo inaudível das
forças telúricas, expande-se, nesta última parte de Andanças,
intitulada “Margens”, através do verbo concentrado em estruturas
densas de tensão interior, de vivências sôfregas de libertação e de
desafogo. É esta contínua necessidade de libertar-se de si mesma, de
ir além de seus próprios limites, que impregna os poemas de Dora do
vigor dramático da litania, do canto litúrgico, do rito mágico nas aras
de um templo pagão.
Em “As palavras partiram”, a sua técnica artesanal, enriquecida de
sutileza e de subintenções, explora o aleatório, o contingente e o
acidental nos vocábulos para extrair a necessidade da ordem
estética. Eis porque a estratégia de decisão, na base destes poemas,
se transfigura em atividade criadora no arranjo, no ajustamento, na
sequência concatenativa das palavras.
O domínio exercido por Dora sobre as palavras explica a sua arte de
convertê-las em evidencias heurísticas do seu artesanato, trabalhado
interiormente por processos psicodinâmicos, que transformam crises
e conflitos em serenas renúncias e abdicações. A calma e o repouso,
em Dora, apesar do intenso fervor dramático de suas vivências, são
aquisições do seu espírito filosófico, firmemente ancorado no porto
existencialista.
No primeiro poema de “Margens”, apesar da incerteza do rumo que
as “palavras” poderiam tomar, ocorrem versos como estes:
É preciso partir. A dúvida aborrece, enlanguesce com suas
sábias indicações.
Não há caminho preestabelecido. Nosso mapa é confuso.
Nossa boca, uma pobre coisa para enumerar perigos, as boas
ocasiões, os caminhos e descaminhos...
E diante de nós, essa grande proa, um corpo de mulher com
seus panejamentos encharcados.
O traço básico de versos como estes, que têm qualquer coisa de
goetheano, na sua serenidade olímpica, parece resultar da árdua
conquista de uma quietude feita de desalento e de profunda
renúncia. Renúncia diante de tudo, do seu próprio ser, de alegrias
primeiras na infância, de revelações na adolescência, de exultado
alvoroço na mocidade. Renúncia e fidelidade ao verbo lírico, ao ato
7faces – Euryalo Cannabrava │ 111
de criar, plasmando a forma densa na plástica e no modelo do poema
absoluto, liberto de restrições.
É o que Dora realiza em
Essa alma que lavra em nossos peitos com suas garras sem
piedade, essa alma equina, do Mar, neptuniana terá um dia
seu porto de chegada?
onde se observa a sua técnica de pôr entre parênteses o “sentido”
direto e imediato das palavras para explorar a sua imagem de
indeterminação no mundo do discurso poético.
Mais adiante, em outros poemas, Dora introduz
Logo a manhã nascerá
sacudindo o seu manto crivado de pássaros
e páginas depois:
De novo semeamos a amanhecida messe
e ainda:
semente da infância, lírio da primeira aurora,
campo onde o arado da dor não se imprimiu.
Depois, em “Igreja de Ouro Preto”, adverte:
Se entrares,
verás no bojo escuro de vísceras sinuosas
anjos de sexuada forma,
de sorriso enigmático
e nestes, como em outros versos, Dora projeta a igreja ouropreteana no
emaranhado de suas impressões subjetivas:
Lasciva torna-se a doçura
das imagens que dançam na matéria alada.
Aqui é registrada com a marca e a garra da gravura lírica, o misto de
luxúria e de sentimento místico que a escultura e a talha do
Aleijadinho misturaram com incomparável virtuosidade.
7faces – Euryalo Cannabrava │ 112
O juízo crítico que os versos citados transmitem se evola na forma
intencionalmente drástica e, ao mesmo tempo, saturada de
expressividade poética através do seu realismo intersensorial. O
achado “Lasciva [...] doçura”, a que se acrescentam “imagens [...]
dançam na matéria alada”, exprime, ao vivo, o barroco religioso, não
através de símbolos prosaicos, mas sim através de transfigurações e
de metamorfoses.
O poema “Hölderlin”, embora não seja o último do livro, deverá
fechar estas considerações sobre a poética Doriana, multifacetada,
rica de aspectos, versátil em matéria de recursos e de técnicas. A
versatilidade, característica da verdadeira poesia, as mutações
bruscas, o imprevisto da combinação verbal, o inusitado e o
predomínio dos “valores de choque” sobre os “valores de repouso”,
segundo Valéry, tudo isso representa a essência da linguagem lírica.
Mas o poema autêntico, como este sobre Hölderlin, nos faz
defrontar, na base do realismo sensorial de imagens concretas, a
figura do poeta alemão na força de sua presença física e na plenitude
do seu estro:
Onde não há chão
tua raiz se adentra
sugando a terra – seio apojado de tudo que será.
Sòmente a leitura acurada das odes, dos hinos e das grandes elegias
faz perceber o que há de profundamente hölderliniano nos versos
citados. Dora adentra-se em Hölderlin, penetrando em seus
mananciais, bebe o mesmo líquido que embriagou o poema
germânico, despertando as suas visões. Comunga da mesma hóstia e,
com sutileza e engenho, apreende a natureza última da mensagem
hölderliniana:
Sobre ti o Éter inclina, paterno,
a fronte pensativa,
tocando-te.
E Hölderlin, tocado pelo Éter, dissolve o seu espírito conturbado em
exaltações líricas:
Tu, feito fonte, colina,
ou rio corrente em meandros sussurrantes,
tu, rocha, arquipélago,
água oscilante das cisternas,
ou disperso nas flores da campina,
fruto e mão que o recolhe,
criança dedilhando velha cítara
no centro de um paraíso inviolado,
cercado de muralhas e pássaros cantantes nas ameias.
É certo que Dora só extrai poesia da linguagem hölderliniana, sem
aludir à formação filosófica do Poeta através da amizade de Hegel e
de Schelling. O que interessa à autora de Andanças é o verbo lírico
em plena efervescência, o surto do canto heroico em plena
madrugada, o pean entoado por hordas dispersas, o destino trágico
do Poeta ao mergulhar na loucura:
Feriu-te o raio a fronte
na invisível tormenta
dos caminhos dispersos,
das sendas, setas desferidas
em confusos voos sem destino.
Scardanelli curvo e lasso
entre a poeira dos livros indistintos –
amável, melancólica sombra
ofuscada por seu próprio ser – sol desmesurado.
Nestes versos, Dora feriu a tónica hölderliniana, majestosa e selvática
ao mesmo tempo, o pathos helênico, a textura lírica impregnada de
exaltação dionisíaca, através de hexâmetros e pentâmetros.
Conseguiu o timbre inimitável do verso hölderliniano, o sentido
plástico da forma, a estilística e o trajeto interplanetário.
Em Hölderlin, o gosto pela Filosofia foi incutido por Hegel, que
recebeu do seu amigo, em retono, o influxo da inspiração poética. Na
obra de Alessandro Pellegrini acerca do autor de Patmos e de Brot
und Wein, é assinalada a influência da dialética hegeliana sobre a
dialética lírica de Hölderlin.
Verifica-se, porém, que Hegel atou muito mais na poética
hölderliniana como teólogo do que como filósofo ou dialética. O
pensador germânico, na sua juventude e na sua maturidade –
assinala Pellegrini –, pretendeu conciliar os dogmas cristãos com as
imagens dos deuses da mitologia grega. O curso da dialética
hölderliniana não era conceitual, nem demonstrativo, como em
Hegel, pois se baseava nos mitos, nas apoteoses e nas alegorias.
7faces – Euryalo Cannabrava │ 114
Admite-se, entretanto, que a dialética hölderliniana seja
psicodinamizada por processos, enquanto a dialética hegeliana é
logicizada por operações. Seja como for, Hölderlin era um pensador,
nem Hegel, apesar de ter escrito poemas, era um poeta.
Apesar disso, há nos problemas hölderlinianos o jogo diabético,
haurido em Hegel, mas completamente transfigurado pela carga
sensorial das imagens. Ainda mais: embora o autor de Hyperion não
desenvolvesse, na sua poética, o pensamento sistemático, como
observa o ensaísta Hoffmeister, torna-se evidente que ele soube
transformar a “ideia profunda em criação viva”.
Ora, esta rara aptidão de retirar da ideia ingredientes sensíveis, que
lastreiam o corpo da imagem, parece ser o núcleo mesmo do
pensamento poético. É o que se observa nos versos hölderlinianos,
extraídos de Sokrates und Alcibiades:
Wer das Tiefste gedacht, liebst das Lebendigste
(Quem pensa o mais profundo, ama o mais vivo)
em que o Poeta, segundo Haering, “não exprime a ideia, mas encarna
a própria ideia”. Não há expressão mais clara do que as palavras, no
poema, como forma simbólica: veiculam conceitos ou ideias, mas
através de seu repertorio imagístico coarctam o seu poder
referencial, até o ponto de quase eliminar-lhes o sentido. a ideia,
portanto, integra o poema, através da tensão conotativa entre
símbolo e imagem, de que resulta o clima poético e o processo
comunicativo do dialeto lírico.
É o que se observa em Andanças, onde os nexos ideativos se diluem
na carga imagística, condensada até o ponto crítico da irrupção
através dos interstícios das palavras. O que Dora conseguiu realizar –
em matéria de virtuosidade técnica – coloca-se na primeira linha da
poesia feminina em nosso país, entre Cecília Meireles, a maga, e
Henriqueta Lisboa, a sacerdotisa.
* Este texto aparece publicado pela primeira vez na Revista Colóquio/Letras da Fundação
Calouste Gulbenkian, edição 9, em setembro de 1972 e foi cedido pela Fundação para esta
edição.
7faces – Euryalo Cannabrava │ 115
Vias de ver as coisas 2
Ianê Mello
Rio de Janeiro – RJ
Nascida no Rio de Janeiro. É educadora e pós-graduada em Pedagogia.
Identificada com as diversas propostas em textos literários, escreve também
com resultados diversificados. Seus textos incluem contos, crônicas, aforismos,
haicais e poesias. Alguns deles são publicados na internet, em sites, blogs e
revistas eletrônicas. Dentre os blogs que mantém estão Labirintos da alma,
Outros poemas de expressão, Diálogos poéticos.
Encontro predestinado
Assim quando me quedo
em sonhos desfalecida
em murmúrios inaudíveis
me vem a ânsia de tudo querer
Assim quando a espera
se faz tarde sombreada
nas palavras que se vestem
numa esperança inquieta
Assim quando me ponho a pensar,
vestígios de um dia em sobressalto,
assoladas incertezas se aquietam,
desejos em vontades transformados
Assim, somente assim, vislumbro
numa luz difusa o fim do caminho,
em passos percorridos outrora,
sementes que plantei sem aviso.
7faces – Ianê Mello │ 118
Pedro Belo Clara
Lisboa– Portugal
Pedro Belo Clara, nascido em Lisboa, Portugal, é autor dos livros de poesia A Jornada
da loucura e Nova era. Além de colunista, membro de portais artísticos e prelector de
sessões literárias, participou ainda, com suas poesias, em várias exposições de pintura
e em coletâneas do gênero. Atualmente, é colaborador nas revistas literárias
Fantástica e Amanhã ou Depois.
CIDADE
I. A Neblina
A neblina, em translúcidas caravelas,
Para si reclama os domínios nocturnos,
Assomando aos telhados e às janelas
Num leve bulir de sussurros soturnos.
Dormitando ao sabor de um cansaço,
Jazendo em firmes colunas de betão,
Num tempo em que o futuro é baço
E o passado uma indisfarçável solidão,
Encontro-te, cidade de melancolia,
Covil de vultos ignóbeis e ardilosos
Que anseiam pelo homicídio do dia
Em recantos sombrios e silenciosos;
E respiro o teu esboço progressista,
Uma indefinição desprovida de viço,
Uma palavra de inverosímil conquista
Em elegia digna de povo submisso.
São filhos teus essas sombras vadias,
Essas brisas abatidas em final de revolta,
Esses incontáveis corpos e almas vazias
Toscamente cintilando à minha volta –
Os homens, mudos como peregrinos
Das estradas dos infindáveis caminhos,
Na convergência dos pesarosos hinos
Carpem as doridas mágoas sozinhos;
As mulheres que, nas desertas vielas,
Se vendem a quem as quiser obter,
Das esquinas são pertinazes sentinelas
Perdidas e entregues a um falso prazer.
Cidade, morada de valores degradados,
De Homens livres em rotineiras prisões,
És presa fácil sob os olhares depravados
Das rudes e desalinhadas habitações…
7faces – Pedro Belo Clara│ 120
II. Os Caminhos
Embrenho-me no labirinto urbano.
Como se fugindo da sombria investida,
Atravesso as longas galerias do profano
Na perene presença da luz desvanecida.
Sem rumo algum, levado pelo instante,
Estendo a mão ao que é indistinguível,
Deixando que me guiem, hesitante,
À mais oculta e pura verdade possível.
Tanto pulsar e sentir contraditório!
Estagnada ideia entre partir e ficar…
Pobres cobaias – lívidas! – do ilusório
Ideal aludido em prol de um governar,
Espectros de tempo nenhum errando
Por lugares só por eles conhecidos,
Ávidos sem porquê, assim lamentando
Todos os lamentos já esquecidos.
Sem permitir que a fadiga me vença,
Decidido vou, como transporte fiel
Da tocha que atiçará a vital crença,
Trilhar as rotas dos caminhos do fel.
Compadeço-me pelos rostos quietos
Que por detrás das pálidas vidraças
Miram o absurdo, de ânsia repletos,
Embora reféns das próprias carapaças.
Há mais do que a simples e traiçoeira
Realidade que aqui vive aparenta…
Assim, entre nós, na noite marinheira,
Nasce uma conversa que acalenta,
Em sua mudez, cada chama singela
Que, de novo, parece brilhar viçosa.
Talvez esta tocha tenha sido vela,
Presença amiga na mágoa silenciosa.
7faces – Pedro Belo Clara│ 121
© Arcangelo Ianneli. Geometric composition
III. As Vidas
Vidas a ti chegaram e partiram, cidade,
E muitas continuarão ainda sua jornada –
Intrépidos viajantes de generosidade
Pela frivolidade da alucinação quebrada,
Em busca do que todos, por fim, almejam.
Foste casa para quem em ti se abriga?
Ou foste veneno das ervas que verdejam,
Foice implacável de cada vida inimiga?
Senhor de rosto enrugado e cansado,
Vós que fostes um emigrante na fantasia,
Vós que rejeitaste o vosso próprio fado,
Dizei-me se espera pelo nascer do novo dia;
Jovem de olhar alienadamente perdido,
Que cheiras ao labor que aqui plantaste,
Teu nome foi extinto e teu querer rendido?
É ele que ecoa nas muralhas que criaste?
Atravesso bairros, subo e desço colinas:
Onde está a centelha que outrora brilhou?
A pronta canção nos lábios das varinas,
O saudar de cada rosto… Quem os furtou?
Quem se esqueceu do sabor daquele vento,
Aquele jeito tão singelo das altivas gentes,
Aquele rio, desafiador a cada momento,
A crença que cativava até os indiferentes?
Suspiro, ainda que em efémero desânimo.
Os raios da lua, brilhando por toque divinal,
Trespassam a neblina. Que súbito ânimo!
Benditos dedos de reflexos em puro cristal!
Por ti me compadeço, triste cidade minha,
Por teu doce olhar de azul tão profundo
Que, agora, cansado de sonhar, definha.
Ainda és quem abriu as portas do mundo?
7faces – Pedro Belo Clara│ 123
IV. O Renascer
Ornada pela luz das constelações míticas,
Outrora as guias de gloriosas epopeias,
Pareces – benditas essas forças místicas! –
Querer tocar de novo as delicadas areias
Das praias cujos aromas por ti pairaram
Em tempos tão imensamente queridos –
Padrões que os memoriais evocaram
Em memórias de brilhos desvanecidos.
Mas que se soltem as recordações antigas
E se pronunciem esses nomes admiráveis!
Que se quebrem barreiras, cantem cantigas
De tempos verdadeiramente memoráveis!
Navegadores, Poetas, Príncipes, Soberanos,
Estadistas, Militares, Filósofos, Cientistas –
Haverão outros modelos supra-humanos?
Que valiosas e incontáveis conquistas!
Ah, cidade que beija o rio, como desejaria
Que hoje despertasses da noite eterna!...
Em teu âmago tens a chave, a única via,
Que de novo te incitará, capital fraterna.
Mas, pelo forte e húmido vento da cidade,
Uma guitarra vai, suavemente, tocando,
Como um lágrima de imensa saudade
Que por seu rosto se vai derramando…
Das muralhas deste castelo observo eu
Lisboa em pranto deveras silencioso,
Como quem esquece o que outrora viveu
E se entrega ao receio mais tenebroso.
Não vês a nova manhã a querer romper?
Que possa banhar esta Deusa, esquecida
Na letargia de que agora está a perecer!
Chegou a hora da missão ser cumprida…
7faces – Pedro Belo Clara│ 124
Rosane Carneiro
Londres – Reino Unido
É autora de Excesso (edição da autora, 1999), Prova (Ibis Libris, 2004), Corpo estranho
(Editora da Palavra, 2009) e Vate (Selo Orpheu, 2012). Editora e redatora com
formação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestre em Literatura
Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente doutoranda e
pesquisadora em Letras do King’s College London. Participante de antologias e
publicações impressas e virtuais diversas.
Transmissão
pelo rádio chegam novas aladas de ti
microfonia wireless de um
provável irresistível estranhamento
há muito não mais em voga por aqui
misto de onda e alta frequência
captação inequívoca de alguns bens do querer
amplitudes moduladas pelo que não vejo
mas percebo –
de novo a longínqua e máxima voz
a voz a voz a voz
de um desejo
7faces – Rosane Carneiro│ 126
Faltou a palavra
pulou a cerca
livre das amarras
da lógica dicionária
Escapou a palavra
daquela frase vã
e enfática a servir
à rotina reacionária
Foi-se a palavra
escorregou escapuliu
– e está certa:
7faces – Rosane Carneiro│ 127
Dama de espadas na fronte
Não é plausível olhar – examinar apenas
Técnica e tecnologicamente o amor
é para ases
velozes
Esgrima sobre gelo, a dama vive
exata sobre saltos altos
de racionalidade: naipe de valetes
a seu dispor, maquinariamente
sexy e só
emociona-se no entanto quando
chamada rainha
─ sua meta é o rei
do xadrez
7faces – Rosane Carneiro│ 128
Carina Carvalho
São Paulo – SP
Carina Carvalho mora em São Paulo; é formada em Letras e trabalha com livros.
Dança pelos dias e escreve desde que acreditou ser feita da matéria dos sonhos.
Tem textos publicados no Portal Cronópios e nas revistas eletrônicas
Mallarmargens, Trevo e Um Conto. Boa parte do que produz pode ser lida no
seu blog Desastres Líricos.
floreios bem servem ao campo
. caatinga
o tipo de vegetação, me perguntas quando a íris fica amarela de sanidades e pende para o
solo.
afundei, digo.
penso ser pedra interrompendo placidez, lançada com duas mãos e um coração úmido,
tamanha a pancada no vão dos musgos. escorrego em cada desejo flutuante e escapa às
falanginhas o mato rasteiro nas margens para ajudar a travessia. se minha boca se enche em
verde, admito lascas nos dentes; a tua alegria sai aos borbotões pelas frinchas da arcada, e sob
controle (para que na poça formada caibam dois apenas, isto decidi).
mas baixo os olhos... é tão cristalina esta água! e a posse abranda. em corredeiras tudo se
engole.
a pergunta foi por conta do bom dia fechado em espinheiros,
atinei.
tudo era seco, e sobre isso que faria eu?
7faces – Carina Carvalho│ 130
. maritacas
desisti dos pêssegos
por medo aos ferimentos.
pesam muito à natureza as dores que os homens carregam em sacolas abafadas.
às outras frutas fiz buracos na casca,
e me movi branca pela polpa.
pela manhã descobri que cantava com coragem:
há no sumo quando desce a goela um quê de amor pelos que viajam.
este dia quis sumir-se sonoro-suculento nas montanhas antes que lhe viesse o podre pelos
maus-tratos.
ou que maltratasse a si: o bico descendo forte no tórax, arrancando as penas desde o cálamo.
7faces – Carina Carvalho│ 131
. esturricado
quisera ele, do focinho pontudo à coda,
um todo intacto.
(de corpo quis perto o teu,
para o lamento pelos que desconhecem estrada.)
éramos perigo em zigue-zague nas duas vias
do sonho imenso.
carimbaram-no em vermelho, pois, no fim de um raio de sol.
pudesse antes, pulularia: veja, cidadã, um gambá é isto!
7faces – Carina Carvalho│ 132
. para não calejar
ao fim e ao cabo, eram-me fortes as marcas nos pés. mapas da calmaria impressa: ficou
gravado teu equilíbrio nas pedras.
era o verde vasto, e era tanto, que a carne em contraluz pareceu esmaecer.
quando não éramos fato, e éramos pouco, fiquei com ideia de títeres: de cada membro sairiam
galhos finos cujo controle da outra ponta a alegria desconhece e sobre ele não se aflige.
tanto ofereço para que escrevas... à minha sola e à palma chamo papiro.
7faces – Carina Carvalho│ 133
Paulo Lima
Aracaju – SE
Paulo Lima estudou economia, mas cedo desistiu do equilíbrio dos números e preferiu
o desequilíbrio das palavras. Tornou-se jornalista. Escreve poesia e contos.
acaso
o inseto
traça o traço
como uma seta
meu braço
é
sua meta
miro o mistério
que me visita
meu braço
é
sua pista
um inseto que
cai da árvore
é coisa banal
mas se tal criatura
me toca o braço
eis que pedra filosofal
mistério etéreo
7faces – Paulo Lima│ 135
inventório
escrevinhar
poemares
palavrárias
registrário
caminhares
estradárias
arfãs
cotidianário
percepçãs
7faces – Paulo Lima│ 136
Natalia Turini
Londrina – PR
Artista visual multimídia. Natural de Jaú, interior de São Paulo, sempre transitou
entre os diversos meios de expressão artística, mas foi após sua mudança para
Londrina - cidade onde reside desde 2006 - que começou a relacionar-se mais
intensamente com outras linguagens, sobretudo depois de ingressar no curso
de Artes Visuais Multimídia. Dentre suas produções estão fotografias, poesias,
ilustrações, instalações artísticas e objetos de arte.
© Natalia Turini. Solúveis - Passagem
SOLÚVEIS
I - Passagem
Restituindo-me
do real.
Vou ali sonhar.
Sou o estado de entrega
fora da normalidade.
Desvanecendo lentamente
a carne em vigília
passagem
introspecção diária-noturna.
Despeço-me.
7faces – Natalia Turini│ 139
© Natalia Turini. Solúveis - Devaneio
II – Devaneio
Frames
de um modo imaginoso.
O ato de devanear
em sublime estado da alma
extra-sensorial.
Fluidos inorgânicos
solventes utópicos.
Lugares completamente cheios de imagens
são pixels sobrepostos na liquides da tinta
transparências com gosto
o passado já vivido
encontro-me.
7faces – Natalia Turini│ 141
© Natalia Turini. Solúveis - Pesadelo
III – Pesadelo
Ruídos
depararam-me
eles estavam ali
e dali não saíam.
Marasmos
cascos, cacos e restos estagnados
progressivos
transitórios.
Sinto-me desconfortável
aonde estou.
Despeço-me
7faces – Natalia Turini│ 143
© Natalia Turini. Solúveis - Memória
IV – Memória
Incorporação das brumas:
nevoeiro, fumaça e incertezas.
Reminiscências
armazenadas pela existência,
mesmices vitais
desgastadas pelo tempo
agora reconhecida.
Vejo imagens despercebidas,
arquivos esquecidos.
Tenho lembranças de palavras
palavras que nunca foram pronunciadas.
São nuvens liquidas em transe.
Perco-me em memória.
7faces – Natalia Turini│ 145
© Natalia Turini. Solúveis - Despertar
V – Despertar
A despedida
o inarmônico do despertar
na profundidade da coisa imaginada.
Lembro do gosto daquilo que não vi.
Escuto o som daquela manhã,
sinto cheiro de realismos.
Dissolvo –me
em impressões efêmeras.
A flor que murchou no mesmo dia em que desabrochou.
7faces – Natalia Turini│ 147
Luís Garcia
Tomar – Portugal
Natural de Linhaceira, Luís Garcia nasceu em 1973 na cidade de Tomar. Mestre
em Informática Educacional pela Universidade Portucalense é Consultor de
Informática e Formador nas áreas de Informática e Formação de Formadores.
Premiado em diversos concursos literários nas categorias de Prosa e Poesia
entre 1989 e 2011, publica o primeiro livro de ficção em 2008, A lenda contada
de uma vida escondida. Tem prosa e poesia publicadas em Revistas Culturais e
Coletâneas no Brasil, Portugal, Espanha, Uruguai e Colômbia. Publica em 2010 O
encenador de vidas, um romance que obtém o 3º lugar no I Concurso Literário
Best Seller Bubok.
Sentidos
Queimei a ponta dos dedos,
passei a mão
pelas tuas palavras
e o tapete preencheu-me
a desenho de fumo e outras cores!
Os meus olhos saíram
e correram daqui para fora,
o chão mexe-se com demasiada
insensatez,
se eu pudesse segurava-me
nas tuas mãos.
Dei por mim a calar
um sorriso ridículo, teimava
em assaltar-me, um exército
de concertinas,
um sabor antigo enche-me
de surrealismo.
Sou o estranho que me observa.
Os cães ladram ao fundo da rua.
Acordei a pensar
numa arma e fui lavar
as janelas da sala.
Deste lado posso espreitar-te
nos meus ouvidos.
Agachei a tua imagem e adormeci.
Que sobra afinal para lá do pavor?
Os outros amaram-se na estrada
mas agora já ninguém sabe…
O herói da máscara envelheceu
e existe um aplauso para a nossa ficção.
Está frio agora, mas daqui a nada
a verdade é do avesso.
Sou eu de certeza,
mas também não sou!
7faces – Luís Garcia│ 149
Meia dúzia de coisas podem deprimir uma pessoa feliz
Perdeu os lábios
entre a pele e a carne.
Levantou paredes
para contornar uma pergunta.
Não se fazem diálogos
sem sinais de pontuação!
Ouviu o segredo
e desembrulhou o sotaque,
depois engoliu
o sabor a nada
de um trago apenas,
como se soubesse
tudo de cor.
Inventou um futuro
e entrou nele,
daqui a pouco
tocam as doze,
mas podiam ser três.
As mãos foram lá
e voltaram.
Puxaram a porta
com força
e desfilaram vaidades
do tamanho
de uma noz moscada.
Ficou a sensação
de doce,
bem fechada,
talvez seja tudo
o que se guardou.
7faces – Luís Garcia│ 150
In-somnia
A sala do tempo enfeitada.
Esquecido pelas paredes
vai o pormenor;
abafado num ritmo crescente,
seco, de quem corre,
ainda, com um sentido!
No aumento produzem-se insónias!
Talvez demore menos
a contagem dos lugares.
Somos tão poucos
quando fugimos do sono.
Turva a mente,
aquela sequela de momentos
em que se percebe
exatamente,
qual a fatia de realidade
que nos calhou.
Bate a porta do frigorifico,
a madrugada
já se soltou.
Adoça os lábios
e conforta o apetite,
acontece uma pequena viagem
no tempo e no chão frio
até me abraçar de novo,
na cama podiam ser equações quânticas.
Desdobrei os dedos,
invencíveis companheiros do medo,
quantas foram as vezes
que me encontrei assim?
7faces – Luís Garcia│ 151
Estudos e
devaneios
por Jordny
Jordny.
Artista nascido em 1988 em Planaltina, uma cidade satélite de Brasília DF.
Aprendeu a desenhar muito cedo e desde então vive lado a lado com essa que considera um dos pilares
para seu desenvolvimento pessoal , como pensador e humano.
Atualmente
o último
de Arquitetura
e Urbanismo
nasceu
emcursa
1988
em ano
Planaltina,
uma
cidadee continua a produzir suas obras pintadas e
desenhadas."
Jordny
satélite de Brasília, Distrito Federal. Aprendeu a
e peço que me mande o link para conhecer seu trabalho.
desenhar muito cedo e desde então vive lado a lado
com essa que considera um dos pilares para seu
desenvolvimento pessoal , como pensador e
humano. Atualmente cursa o último ano de
Arquitetura e Urbanismo.
Para esta edição do caderno-revista 7faces, o autor
cedeu um conjunto de trabalhos já apresentados
publicamente no seu blog Jordny Art. A esse
conjunto o próprio Jordny intitula por Estudos e
devaneios, seja pela marca do traço inacabado, seja
pelo tom simbolista e surreal dos desenhos.
© Jordony. Sem título. Fev. 2011.
© Jordony. O artista e sua quimera. Abril 2011.
© Jordony. Girassol menor. Abril 2011.
© Jordony. Árvore musical. Março. 2011.
© Jordony. Jornada ao subconsciente com nuvens invertidas. Março. 2011.
© Jordony. Devaneios n.5 Fev. 2010.
© Jordony. Devaneios n.15 (de baixo para cima). Março. 2010.
Um caderno
para Dora
O cavalo azul
Por Alexandre Bonafim
à memória de Dora Ferreira da Silva
Um cavalo corta o corpo
de meus ancestrais perdidos
um cavalo corta o peito,
fere o coração ferido
Lara de Lemos
Et beaucoup n'ont pas la chance
De le voir passer un jour
Le cheval bleu
Gilbert Becaud
Um tropel de silêncio e eternidade
desdobra o ar em acordes levíssimos,
feitos de orvalho e bruma.
As crinas vão desatando o infinito,
as estrelas, a solidão mais aguda.
Eis o instante do cavalo azul.
Eis a sagração do céu em nós.
De seu dorso nascem os desastres.
Procelas tatuam o seu plexo.
Nos seus flancos levitam violinos de água,
teclas de pólen, sinfonias de esquecimento.
Jamais a morte poderia nos assaltar
com maior doçura, com mais bela música.
Jamais o sofrimento teve olhos tão dóceis,
cílios de mel e vinho.
Nunca o instante teve essa luz raríssima,
desenhada pelas puras formas
de um relâmpago cego,
diamante vivo a deslumbrar a noite.
A rutilância dos segundos galga nossa pele,
a terra olorosa do corpo.
Em chamejante espiral de nuvens,
o cavalo azul nos enlaça em seu fulgor,
na ternura de uma violência incontida,
dança de galáxias e sóis delirantes,
vórtice febril, iluminado.
Ao toque do seu pêlo de súbitos incêndios,
Na década de setenta,
Dora Ferreira da Silva
consagrou à sua
importante revista o
nome Cavalo Azul. Tal
título ela extraiu dos
mitos etruscos. De
acordo com esses
mitos, o cavalo azul
era o ser mágico
responsável por levar
a alma dos mortos à
morada celeste. Em
homenagem à grande
poeta, à criadora da
revista Cavalo azul,
Alexandre Bonafim
escreveu este poema.
queimamos nossa alma no eterno,
aderimos nossa pele ao infindável.
Festa múltipla, embriaguês da febre,
somos a celebração dessa sonâmbula magia,
pulsar sagrado desnudando-nos para as tempestades,
para a decantação dos mares selvagens.
Eis o instante da morte aguda.
Eis o êxtase do tempo soberano.
O cavalo azul nos visita
com sua aparição de lanças desnudas,
de lâminas agudas, mil raios
a trespassarem nossas feridas.
Quando suas patas arpejam a terra,
as sementes fecundam os sonhos,
despontam do pó ramos e milagres,
frutos abençoam a encantação do amor:
a cavalo marinho e os oceanos,
o cavalo turquesa e os mares,
o cavalo de âmbar e os corais ardentes.
Reluz na noite um fulgor de adaga desnuda,
fulgente aparição a cortar o sonho dos mortos,
o sono das estrelas marinhas: cavalo azul
a relampejar pelos caminhos o tempo das cicatrizes.
Sua crina flamejante, seu ígneo peito, seduzem o luar,
ampliam pelo infinito a cintilação das marés.
Espectro de labirintos vazios,
ele galga a espuma das praias,
a agonia dos condenados à morte.
Ele dardeja a dança dos barcos,
o bordado das ondas,
a solidão dos marinheiros em febre.
Os náufragos, os miseráveis, os afogados,
clamam pela salvação desse sopro de chuvas,
desse maremoto de coices ardentes.
Serenamente soa pela brisa seu pulsar de sândalo,
o seu galope de prismas, delicado aroma
do vinho a incendiar os crepúsculos.
Ele adeja sobre o desespero, salvando-nos
da carne, do medo, do tempo.
Ele nos resgata do pó humano, soerguendo-nos
à sagração das searas fecundas.
Quando seu resfolegar nos arrebata,
nos resgata de nossos pulsos,
ressuscitamos no clarão dos rubis,
na magnitude da aurora boreal.
Desde o nascimento estamos consagrados
a essa epifania de silêncio e mel:
o cavalo andaluz e o eclipse lunar,
o cavalo cigano e os cometas partidos,
o cavalo de absinto e o mercúrio dos astros.
Galopo no dorso das marés,
meu corpo costurado nos ciclones,
meu torso cravado em tua pele, em teu pelo lunar.
Galopante aridez, eu só sei pulsar no teu plexo,
na fecundidade dos abismos.
Corpos em sôfrega transpiração,
corpos em uníssono, rios a confluírem
num delta de vertigens, foz de enchentes
desvairadas, de correntezas alucinadas.
Possuído pela lâmina dessa fúria,
transmuto-me na energia a cegar
as lanças, os ocasos, os labirintos.
Sou o ser pleno a exaltar-te,
és o que sou, o que fui e serei.
Consagro-me à graça dessa comunhão,
pela qual sou o universo e o nada.
Nessa terra me deito, navego,
nessa pedra me enterro, respiro,
perco-me nesse instinto, nesse espasmo,
para ser o fogo dos corais,
azul febril de infinita iluminura.
Cavalo marinho, dardejante quartzo,
em tuas crinas de ágata, de prata,
queimo a palavra da última estrela,
rasgo o fulgor do teu transe,
da tua clarividência,
pois a morte se fez para os eleitos,
para os profetas, os que sabem da finitude
pelo íntimo do fruto, pelo cerne da chuva.
Eis o pulsar da fúria e das catástrofes:
o cavalo opalino e as estrelas,
o cavalo candente e a poeira dos astros,
o cavalo de vidro e os veleiros incendiados.
Soou a hora derradeira e primeira.
Eis o momento dos vendavais,
do estertor dos cataclismas.
Eis o que em nós germinou
antes do nascer das sementes:
nossa morte, cavalo azul a cortar o céu,
a lançar nosso destino aos astros,
onde a infância nos abraça novamente;
nossa morte, corcel cravejado de safiras,
noite mais densa que as rochas,
onde o azul é harpa de cristais partidos,
batel de marinhas esmaecidas.
A sombra extrema desenha nosso rosto
no vazio de outro rosto.
A sombra extrema, fruto túmido,
pleno, explode nosso íntimo,
dissolvendo-nos na fulguração do eterno.
Eis o momento do cavalo azul.
Eis a hora da ressurreição das marés.
Um tropel de sinfonias e plumas
dardeja nossa carne, rasga nosso sêmen.
O cavalo azul aflora dos abismos,
submerge dos desastres, germina das montanhas.
Em sua sede bebemos nosso avesso.
Em sua fome sorvemos nosso mistério.
Eis a travessia impossível,
onde todo homem não caminha,
porque não tem pernas, nem pés.
Eis a travessia amputada,
pasto de enigmas, partitura dos sonhos,
onde somos cegos em nosso destino cego.
Do fecundo nada, do absoluto silêncio,
nasce essa música cristalina, puríssima:
o cavalo celeste e as enchentes,
o cavalo etrusco e os anéis de saturno,
o cavalo de água e os arquipélagos selvagens.
Cumplicidade
Por Soares Feitosa
para Dora Ferreira da Silva
Chamar pássaros
com alpiste de amá-los livres,
procuradores eles serão,
ad juditia,
ad negotia,
pleni,
plenipotenciários,
procuradores meus,
asas livres aos meus azuis.
Eles me pousam os parapeitos:
uma sombra,
tem que haver uma sombra cúmplice:
seja de aproximar,
seja de chegar bem perto
– parece que é.
o que garante o medo
é o gesto das duas mãos,
as duas,
conchadas de pegar
em quase...
a alma do pássaro
– não, não:
"avoe, meu bichim",
que não lhe devo... –
A intimidade é sutil
(dos pássaros),
não só o deles:
é sutil
quando estremece
e pousa.
Sempre.
Tzvietáieva e o céu do poeta
Por Donizete Galvão
Para Dora Ferreira da Silva
Aproveite agora que o filho bateu a porta
e saiu a trabalhar para seus senhores:
arme a forca com precisão e calma de poeta.
Que país ouvirá sua voz dissonante,
sempre em vigília, a quem nada contenta?
Que o corpo seja jogado na vala-comum,
sem necessidade de qualquer cerimônia.
A poesia
- corpo que ganha espírito
espírito em corpo encarnado entrará inteira, imaculada,
no reino onde não existe julgamento.
Último outono
Por Donizete Galvão
à Dora Ferreira da Silva
A acácia insiste em derramar seus cachos amarelos.
O verão já passou e deixou os estragos de uma ventania.
Em vão, espalmei as mãos em busca de um contato.
Choveu forte em seu jardim nestas últimas semanas.
Nenhuma mensagem ultrapassou a barreira dos tijolos,
nem impregnou os tubos e metais de sua cama fria.
Não peço um outono a mais para você.
Só mais um pedido: Átropos, que tanto hesita e demora,
corta logo o fio que se esgarça em agonia.
Este poema tem uma história
estranhíssima como tudo o que envolve a
Dora. Eu escrevi no dia da sua morte, dia
6 de abril de 2006. Acabei lá pelo meio dia
e uma hora ou duas depois soube de sua
morte. Ela estava em coma há vários dias.
Eu não acredito muito nessas coisas de
comunicação, mas ela sim. Tentei, então,
me comunicar com ela. Pedia para sonhar
alguma coisa. Não aconteceu nada. Nossa
ligação sempre foi através da poesia. Eu
fiz um plaquete para a missa de sétimo
dia e acho que li na homenagem na
própria casa dela, em primeiro de julho,
rua José Clemente.
Eu ainda acho doloroso recordar a minha
amizade com a Dora. Comecei a
frequentar a casa dela em 96. Ela saía
pouco. Dos poetas que conheci, ela era o
único que respirava poesia
permanentemente. Estava sempre com a
mente aberta para a poesia. Diferente de
nós, que temos sucessivas crises com a
palavra, ela tinha verdadeira convicção do
poder da palavra poética. De uma certa
maneira, não era moderna. Era eterna.
Não tinha a negatividade que o poeta
moderno traz consigo. Era solar. Estava
muito ligada aos poetas românticos
alemães como Hölderlin, a poetas difíceis
como Rilke e Saint John Perse. A poesia
dela é sempre de alto voo, sublime, mas
nunca parece forçada. Às vezes, penso
que uma parenta dela é a Sophia de Mello
Breyner-Andresen. Ambas têm a mesma
paixão pela Grécia, pela natureza, pela luz
mediterrânea. Dora nunca perdia tempo
com frivolidades ou fofocas. Sempre
ensinava muito, mas sem ter um jeito
professoral. Bastava entrar na casa dela,
rodeada de verde, e a realidade da rua
parecia ficar distante. Ela sempre
trabalhando, sempre traduzindo. Da
última vez que a vi traduzia os líricos
gregos. Sempre animada, vitalista, cheia
de energia criativa. Quem conviveu com a
Dora sabe o privilégio que isto significava.
Um tanto aérea para vida prática, mas
ligadíssima e intensa nas questões da
poesia. Nas cartas para ela, Drummond a
chamava de “Dora Poesia”.
Dozinete Galvão em Entrevista a Antônio Donizete Pires e
Solange Cardoso Yokozawa. Revista Texto poético, out.
2010.
Vias de ver as coisas 3
Paula Cajaty
Rio de Janeiro – RJ
Paula Cajaty, escritora carioca nascida em 1975, é advogada por formação
acadêmica, mas desde cedo se assumiu escritora. Em 1995 venceu o “Por um
poema de amor – concurso de poemas: coletânea”, organizado pela Prefeitura
do Rio de Janeiro, com Ferreira Gullar e Suzana Vargas no corpo de jurados. Em
2008, publicou pela Editora 7Letras seu livro de estreia Afrodite in verso; depois,
em 2010, lança Sexo, tempo e poesia, pela mesma editora. É, hoje,
colaboradora da Revista Aliás e da Revista MundoMundano, parceira da
agência Shahid Produções Culturais e colabora no Jornal Rascunho.
o corpo sobre tudo
o corpo sobretudo
limite e fronteira
filtro pó estrada
caminho trincheira
o corpo sobre o corpo
novo
onde se alcança
outro
onde suporta
chão
onde se cala
fogueira
silêncio. sobretudo quando
o corpo jaz
sobre a poeira
sobre a chama toda
sobre a aurora silenciosa
alvissareira
de uma madrugada de junho.
7faces – Paula Cajaty│ 173
Nuno Júdice
Lisboa – Portugal
Nuno Júdice nasceu em abril de 1949. Licenciou-se em Filologia Romântica pela
Universidade de Lisboa, doutorado pela Universidade Nova. É Conselheiro
Cultural da Embaixada de Portugal e Diretor do Instituto Camões em Paris
(França). Estreou na poesia em 1972 com A noção de poema. Em 1985 recebeu
o Prêmio Pen Clube, e cinco anos mais tarde, o Prêmio D. Dinis da Casa Mateus;
em 1994, recebeu o prêmio da Associação Portuguesa de Escritores pela
publicação de Meditação sobre ruínas, livro que também foi finalista no Prêmio
Europeu de Literatura Aristeion. Como tradutor, verteu ao português autores
como Corneille e Emily Dickinson. Tem extensa obra, com mais de três dezenas
de títulos em poesia, mais de dezesseis livros de ficção, uma dezena de ensaios
e quatro peças de teatro, entre outras publicações esparsas em revistas e
antologias. O conjunto de poemas enviados à 7faces é inédito.
À noite, a cabeça é um quarto escuro
À noite, a cabeça é um quarto escuro
para quem entra nela sem uma luz acesa,
e sente os travesseiros a voarem pelo ar,
as portas a baterem sem se saber porquê,
e gritos que vêm de dentro de quartos
e salas que ficam lá para o fundo, onde
só os sonhos se passeiam.
Adormeço e acordo, à noite, e a cabeça
não muda, com sombras a correrem de
um lado para o outro, mascarados a
espreitarem por trás de velhas cortinas, e
palavras que andam à volta das mesas,
à espera que alguém as apanhe, e faça
com elas bolas de sabão que se desfazem
de encontro aos pensamentos.
À noite, fecho à chave a porta da cabeça,
e ninguém lá entra, nem eu próprio, para
não tropeçar em tudo o que lá tenho.
7faces – Nuno Júdice│ 175
© Hélio Jesuíno
Enigma quotidiano
Avanças lentamente ao longo do muro da estação,
já na rua. Fumas um cigarro que deixas durar, para
que possa chegar ao fim do passeio que dá para
a estrada. O vento entra pelas mangas da blusa
sem botões na manga, e abre-as como se fossem
velas, transformando o teu corpo em barco. O dia
de sol cai sobre ti, e quase poderia ouvir a tua voz
sem atravessar a rua, para te perguntar quem és,
porque andas tão devagar, porque fazes o cigarro
durar até ao fim do caminho. Mas o vento levaria
para longe as tuas palavras, e a única resposta
seria a inquietação dos teus olhos perante um
desconhecido, a querer saber o que nem tu,
alguma vez, saberás. Volto-me, então, e sigo
o meu caminho para não te ver chegar ao fim
da esquina, e voltar atrás, como se quisesses
saber quem eu sou, e porque andei tão devagar,
do outro lado da rua, a olhar para ti como
se te conhecesse, e soubesse o que querias de mim.
7faces – Nuno Júdice│ 177
© Hélio Jesuíno
Marcadores de livro
De dentro de um livro há muito arrumado,
caíram dois bilhetes para o segundo
balcão de um cinema que já não
existe, e para um filme que não sei qual
foi. O que sei é como se subia para esses balcões,
de mão dada, já com a sala às escuras,
e o que se fazia enquanto o filme corria,
e talvez visse melhor o rosto de quem estava
ao meu lado, à luz que vinha do ecrã, do
que o próprio filme. Vendo a data do bilhete,
o que vejo é a sombra de quem me acompanhou
nessa ida ao cinema, e a queixa por o filme
ter acabado demasiado depressa, com
a corrida para o autocarro e o regresso
a casa. Assim, volto a meter os dois bilhetes
de cinema dentro do livro que andava
a ler na altura, e ao ver as páginas que
ficaram por ler, posso contar cada minuto da vida
que ganhei ao poupar nessa leitura, que só
hoje recomeço, para novamente a interromper
quando me tiras o livro da mão.
7faces – Nuno Júdice│ 179
Uma imagem do ser
Na sua última, na sua mais completa
visão, traçou o que lhe pareceu ser
um retrato do fundo do seu espírito,
onde lhe parecia ter apercebido
uma sombra do que seria a própria
alma. Queria provar a sua existência,
demonstrar claramente que não
era embuste, crença, simples
ilusão, o que outros consideravam
ser o reflexo do divino no homem,
ou seja, aquilo que do corpo se distingue
não por ser outra coisa, mas a sua
verdade. No entanto, quando olhou
para o papel, estava em branco.
Distraíra-se. Escrevera no vazio; ou
esquecera-se de encher a caneta.
7faces – Nuno Júdice│ 180
© Hélio Jesuíno
O piloto da barra
Tinha o ar distante e austero de quem recebe
no rosto os ventos do mar, e se dizia uma palavra
só ele a ouvia. No canto da mesa onde estava,
olhando para as conversas e sacudindo
a cabeça por nada ouvir, fazia parte de outro
mundo. «Foi o rio que o pôs surdo», disse
alguém; «foram os gritos das gaivotas»,
corrigiu a mulher que saiu de ao pé dele e
atravessou a sala, com o olhar dos homens
a persegui-la. «Faz versos», disse-me
o amigo, «e guarda-os só para ele». A noite
continuava o seu caminho. A mulher
não voltou. E ele segurava o copo ainda
cheio de bagaço, como quem segura o leme
e não sabe quando, nem onde, irá chegar.
7faces – Nuno Júdice│ 182
Amosse Muscavele
Maputo – Moçambique
Amosse Eugenio Mucavele nasceu aos 8 de julho de 1987 em MaputoMoçambique; membro fundador do Movimento Literario Kuphaluxa, sonha em
ser poeta, cronista, e contador de sonhos. Faz parte da equipe editorial da
Revista Literatas – Revista de literatura moçambicana e lusófona, colabora no
Pavilhão Literário Singrando Horizontes, Academia de Letras do Paraná, Jornal
Coruja. Organizou a antologia da nova poesia moçambicana publicada na
Revista Zunai. Tem poemas publicados na Revista Eutomia e Linguística da
Universidade Federal de Pernambuco. É membro correspondente da Academia
de Letras Teófilo Otoni, Minas Gerais.
Atravessar o Silêncio
Ao Cláudio Daniel
A memória é um inferno provisório onde os nossos dias visitam constantemente. na
penumbra de um mar de esquecimento ladeado de flores que brilham ao som do
silêncio. e ao entardecer. a neve embarca no murmúrio da água que bate nas pálpebras
das pedras na solene viagem do nada.e para além do sal derramado nas margens, não
via-se mais nada, pois o cinzento abacanhou a melancolia do céu que outrora fora azul.
e difícil é, descortinar este lado invisível da distância que nos assiste. A ilha que nos
espera é feita de papel que baloiça livremente nos olhos do mar-mil uma visões
espalhadas no útero do passado, uma música embalada de presentes toca
incansavelmente na febre do navio-onde é minha casa?
E no colo do futuro procuraremos acender as nossas identidades com o anzol que
perdeu-se nas ondas da tempestade.
7faces – Amosse Muscavele│ 184
Lembrança
Ao Rui Knopfil
‫ڻ‬
Havia uma pétala vermelha que crescia no fumo de um cigarro. onde um homem
puxava incansavelmente na esperança de querer vencer o medo que se instalava na porta
dos seus devaneios
E
Dentro da casa onde os sonhos eram
Guardiões .
Havia uma pedra encostada a janela onde sussurrava nos ouvidos de Inhambane
(quando lembra-se de alguém de olhos abertos deve-se sonhar de boca fechada).
Mas
Ninguém deu ouvidos ao sussurro da pedra.
Encostado a inocência da pedra um
sujeito levantou a mão no meio da multidão que pescava predicados e outros silêncios
na sala da casa. ( Eu quero aprender a doutrina das cores que se manifestam nas pedras).
‫ڥڦ‬
A pincel a saudade relampeja no arquipélago da insónia do meu poema (quando durmo
sinto a sensação de acordar no terceiro dia ,e quando morro passa-me pela cabeça a
ideia de acordar no anoitecer das manhãs)
‫ڥ‬
Na corda da lembrança há um mar que desagua os incensos das suas ilhas , há uma
cegueira que se assiste o suicido do arquipélago na insónia dos mangais.
Há uma L
A
G
R
I
M
A
que
cai.
nos solavancos das ondas que ondulam na sepultura onde jaz a flor murcha de
abandono.
7faces – Amosse Muscavele│ 185
©Malangatana. A Noiva da Ilha. (Reprodução)
Poegrafia a Malangatana
A ilha ao acordar escuta sempre a monotonia que a solidão do mar canta. Assiste com
os olhos dos xipocos que a namoram sem tréguas a uma velocidade da luz.
A luz acende o amor que se esconde no poente das mãos do homem que está aborto do
xitarutaru a caminho da ilha. Nos remos transborda um sonho vulcânico que explodirá
quando atingir o núcleo do destino. Onde flores tomam o brilho do sol que clareia as
margens de um sentimento que sobrevoa no dócil olhar dos ilhéus. Onde a bravura do
mar transformar-se-á num paraíso construído pelas sombras do amor, alegria, sob a
alçada dos ramos do embondeiro que dão mel e maça (não proibida).
No cais da ilha os homens e os animais esperam eufóricos pelo brilho da aliança.
Cantam, dançam a mesma música agora com retoques do sopro do mosquito, e do árduo
trabalho de fabricar prazer a cor do mel das abelhas.
Batuques acompanham as ovações da multidão, com crianças no colo das mulheres que
preservam a beleza com os lenços na cabeça. A noiva já não sente os pés no chão, mas
vê o barco que se aproxima. Sente o futuro e a cor do vento do matrimónio a beijarem a
sua face, e por último a mulher diz:
É hoje que o carvão que arde no meu corpo. O mel que derrama na minha boca terá
dono.
Amor até que o mar nos separe.
xipoco: fantasma
xitarutaru: barco artesanal da zona sul de Moçambique
7faces – Amosse Muscavele│ 187
Carlos Margarido
Torres Novas – Portugal
Carlos Manuel Alves Margarido nasceu 24 de Fevereiro de 1970; cresceu e vive
em Torres Novas. Tem predileção e escreve poesia desde pequeno.
Idade
Demorei a minha idade
Para acordar hoje.
Levantei-me, já velho.
Espreguiço os dias
Honrada roupa que visto
Bilhete, palco vazio do tempo
Jamais, bati no mal da porta
Ato os atacadores,
Calço os segredos.
De quem, dei tantas vezes à sola.
Caminho lento, e demorado
Tão bem, tão mal passado
Lavo a cara, penteio
O rosto no espelho
Desta idade.
7faces – Carlos Margarido│ 189
Chave
Embato em paredes maciças
Esconderijo que te esconde
Nas traseiras dos meus olhos
Nestas grades do tempo
Onde me sinto prisioneiro
De braços amarrados
Resta-me tirar esta mordaça
Para te poder dizer
Que mais um igual a tantos outros
Os dias que em mim esperam por ti
Nestes barcos de papel
Que se afundam no ensopar da água
Ou este anjo de papel e entusiasmo
Que o ar faz bater no chão
Neste brilho que te olha
Num sorriso nunca visto
Nesta chave que não abre o sonho
De um momento sequer
Desabitado
Não são lágrimas
Os instantes em que choro
Na transparência que recebemos
No fogo que faz o luar
Transpiro neste corpo despido
Sem braços ou dedos
Que se perdem
No silêncio das paredes
Nas sombras que habito
No morrer iludido
Que o passo deixa passar
Sem andar
Há muito que a minha nuvem
Se esvaziou em chuva
Nas lágrimas
Que molham o corpo já nu
Desvanecido sem sentido
Desabito-me
7faces – Carlos Margarido│ 191
Amélia Luz
Pirapetinga – MG
Nasceu em Pirapetinga, Zona da Mata, Minas Gerais. Escreve poemas, trovas,
crônicas e contos, com várias premiações.
Poesia para a anciã
A mulher como palha seca
o banco frio da praça
O xale de lã
o coque, os grampos,
os cabelos brancos...
O velho casaco
o vestido de bolso
os sapatos gastos
de tantas caminhadas!
O rosto, as rugas,
o sorriso costumeiro.
A idade, a face, o desenlace,
o “rouge”, o pó de arroz,
a vaidade apesar do tempo!
O coração cansado se despedia,
Maria ria, ria...De tudo ria...
Da vida nada mais temia
esperando o vento forte
que a levaria para sempre
naquele marcado dia!
Soltava-se com leveza
De tudo que vivera.
A cigarra não mais cantava
a canção da juventude.
O corpo voltava solitário
para o ventre escuro da terra
mas a sua alma segura, com o Pai
encontrava-se no jardim da eternidade...
7faces – Amélia Luz│ 193
Ventos da Infância
Pião, xadrez, gamão
Pula-carniça, cabra-cega,
Boneca de pano, peteca,
Perna-de-pau, pau-de-sebo,
Festa de jeca, paçoca, pipoca,
Amendoim, coisas assim,
Que lembram a infância!
Palhaço, circo, picadeiro,
Espetáculo verdadeiro,
O engole-fogo, o joga-facas,
O leão domado, o cão ensinado,
O elefante dançando valsa!
“E o palhaço, o que é?
É ladrão de mulher”!
Doce de leite, quindim,
Puxa-puxa, chocolate, pudim,
Batata frita, a turma grita:
- Quero mais! Quero mais!
Jabuticaba, manga madura,
Amor em pedaços, ternura,
Goiaba ou goiabada,
Carambola ou carambolada,
Marmelo ou marmelada!
Picolé, sorvete de limão,
Pão com manteiga, requeijão,
Leite quente e beijo de mãe,
Acordando a gente!
Escola, brincadeiras,
Uniforme, carteiras,
Livros e quadro de giz,
Não levo pau por um triz!
Recreio, pátio, alvoroço!
Pula corda: um, dois, três!
“Rosa branca”! “Macarronada”!
Cada um na sua vez!
Ciranda, todos na roda,
Sem saber que assim girando,
Rodando, rodando o tempo levava,
Os doces anos da meninice!
7faces – Amélia Luz│ 195
Paulo Vitor Grossi
Rio de Janeiro – RJ
Paulo Vitor Grossi nasceu no Rio de Janeiro em novembro de 1985; é formado
em Turismo e escreve poesia, contos, pequenos romances entre outros
gêneros. Os Sonhos, Nicolas; Volume II: Adiós, Lite de Ratura; Santa Cruz; Carne
Viva; Rara (Volume três), o hotel m tá infestado de pragas & “A Faca e o Queijo
na mão” são seus livros. É o autor, e ilustrador de suas obras.
cura: poema “I”
Um teor de intimidade
Reminiscências com odores
Via-se o pássaro violador
Sempre dentro de você
Por vezes a te lembrar
Cálida como incestuosa
Essa figura ideal
Desfaz-se ante o presente
Encerra em si o divino
7faces – Paulo Vitor Grossi│ 197
cura: poema “IV”
A Questão do Equilíbrio das Coisas
poema cláusula, ou prosa solidária.
depende de como maneja
A frase é móvel, quebradiça
depende da entonação.
A noção de união move blocos.
A todos que acreditarem nos desafios.
Razão e princípios
Razão e princípios ao povo brasileiro.
Conhecimento e força. Valores
Que venham pelos ventos.
7faces – Paulo Vitor Grossi│ 198
cura: poema “XIV”
Teu ato e sangue
pois fotos são eternas
Estrela da apresentação
Escrevo uma nota
Gosto tanto, ouço mais
sinto pura Moira
Te juro, merda
Melhor seria dizer
Que enrolada está!
cura: poema “XXIV”
A guitarra exala microfonia
Em bloco, vem a canção ao fundo
Poupar é pros medrosos
7faces – Paulo Vitor Grossi│ 199
Renata Bomfim
Vitória – ES
Renata Bomfim nasceu na Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo, Brasil. Poeta,
Artista plástica, ativista socioambiental, a escritora é mestre em Letras e,
atualmente, desenvolve uma tese de doutorado na qual dialoga as poéticas de
Rubén Dario e Florbela Espanca. Membro da Academia Feminina EspíritoSantense de Letras. Publicou as obras Mina, Arcano Dezenove, e seu terceiro
livro de poemas, Colóquio das árvores, encontra-se no prelo. Autora do Blog
literário Letra e Fel.
Joana D’arc
Joana, precisas ser marginal,
Ser santa te fará igual
a tantas. És diferente, Joana!
O fato é que incomoda
O teu existir, a potência de tua fé.
És mulher, Joana, não esquece!
Tira essa armadura, essa calça feia,
Veste-te de luz e de prazer.
Talvez fosse isso o que as vozes
queriam te dizer.
Liberta-nos, libertando a ti mesma.
Vejo que queimas, ainda, em agonia,
Sob a ira dos homens da igreja.
Pelejaste contra as injustiças,
Teu alimento: entradas e bandeiras,
Do povo, foste guia.
Em retribuição te prepararam
uma fogueira. E foste linda
morrer, de vestido branco e chapéu.
Teu corpo virgem foi macerado
como um lírio, um cardo,
O sol, envergonhado, se pôs ao meio dia.
E eu gritava:
─Pula daí, Joana. Cai fora!
Mas, minhas mãos estavam atadas
Não pude te ajudar.
Àqueles que amam a maldade,
O poder, e se alegram com a crueldade
Precisam saber:
Tudo perdeu a cor e ficou cinza
Quando você se foi, mas,
Puída, a tua bandeira tremula ainda.
Só não vê quem não quer!
7faces – Renata Bonfim│ 201
O prazer de Salomé
Depois de dançar
Ao som da lira negra
A réptil inviolada
Fez amor pela primeira vez.
Seu corpo era todo um jardim
Recé- nascido da paleta de Moreau
Dos seus seios fatais brotavam
Safiras, ágatas, pérolas e rubis.
Salomé trazia no sangue a fúria
De Herodíade e a morte
Nos olhos de prata.
Naquela noite
Feita de angústias estéreis
(e solitárias)
Dois homens perderam
A cabeça.
© F. Markham Skipworth. Salomé. 1897.
Campos desconhecidos
Dentro de mim há paisagens
Voam livres e barulhentos
os corvos de Van Gogh
sobre os campos de trigo.
Me persegue uma nostalgia do não vivido
Os rios, sempre inéditos aos olhos de Heráclito,
aos meus são um tédio.
Há ainda, nos meus confins, canyons, mangues,
Matas e cerrados, por onde caminham
os lobos e suas crias e outros animais.
Este espaço é ambíguo, as vezes me amedronta.
Há também muitos penhascos,
Há céu azulado,
há prazer, dor, fome, mágoa,
histórias sórdidas e livros que não ouso ler.
A Morte, mocinha refinada,
mora bem perto de todos os meus descampados
é possível ouvir o som, rouco, do seu riso.
Até aonde alcança a vista
Eu quero chegar, e ir mais longe ainda.
Quero explorar esse território estranho.
Sou nômade!
Desse mundo pouco sei,
dizem que é meu, mas duvido,
me pertence apenas a poeira no sapato
Que trouxe das terras por onde andei.
Conto com a benevolência da memória
que não me deixa esquecer
as alegrias e nem as desgraças vividas.
Talvez seja por ela, ou por isso,
que eu ainda esteja aqui, assim, sonhando
com a falácia da unidade.
7faces – Renata Bomfim│ 204
Campo comum
Nada nos é alheio,
Dentro de mim e de ti há
um amor irrestrito
o ódio dos assassinos
os atos dos santo
a covardia dos bandidos.
a poeira da primeira estrela e
resquícios das águas:
do grande dilúvio
do mar da Galiléia
do rio Benares
do Tietê
do mar japonês
imantado pela radioatividade.
Um mundo de caos iludido
por imagens edênicas
nos convidam para viagens
ilusórias e paradisíacas.
Há no âmago do nosso ser
a videira
vinho e pão a ceia inteira, e santa
o ódio
o perdão
Tudo isso nós compartilhamos
mas, leitor, há dentro de mim
uma angústia que desconheces:
o assombro de estar viva
contemplando a beleza bruta
e há o desejo incontido de
desabrochar, qual rosa mística,
no coração do Cristo.
7faces – Renata Bomfim│ 205
A neta de Mery Wollstonecraft
Herdei de minha avó
O gosto por homens instáveis e
A fibra de quem não tem nada a perder
Lembro ainda dos seus olhos
Profundos e suicidas
De como ela gostava de se sentir asfixiada
Pelo trabalho e por coisas dolorosas
Quanto prazer lhe dava mergulhar os dedos
No abismo do tinteiro para depois
Macular as folhas sedosas e carentes de papel
Mulher de côrte e de cais
A sua pena traçou a minha sina
As bancas das esquinas, hoje, vendem exemplares
Do seu livro de miséria e solidão
(A preços populares)
Ah! Se minha avó me visse agora
Quanto orgulho teria da sua linhagem
Mulheres mais rotas que alinhavadas
Condenadas a nunca se juntar
Irremediavelmente cindidas e secas
E orgulhosas como bestas que pastam
Em terrenos baldios.
7faces – Renata Bomfim│ 206
Dora Ferreira da Silva
recortes 2
Epidauro
O ensinamento básico de Thoreau
era o de carregar nada ou pouca coisa
ao abandonar a própria casa em chamas.
És um americano pobre, Henry Miller,
não estranharás minhas sapatilhas
meu cabelo preso e o rosto limpo.
Serei a solidão a teu lado.
Katsímbalis mal notará uma mulher
a caminho de Epidauro. Sabes, és o único
hóspede de sua pátria e coração.
Grega nas mais antigas ramagens do sangue,
acaso depare comigo, pensará que sou
uma pequena coluna, ou um perfil apagado de hídria
e não me dará atenção.
Teu gosto de ser só, Miller, não o perturbarei,
também o conheço e a paisagem conspira:
poucos arbustos, pedras e o pó.
O carro alugado avança com as hesitações
de um inseto. O tempo voa no espaço.
Dessa máquina sacolejante encaramos
a mesma paz de um mundo quieto e parado.
Que luz etérea! Epidauro anuncia o céu?
Há mais Mozart aqui do que em qualquer outro lugar.
Estamos a caminho da Criação, basta ouvir
o sussurro de princípios misteriosos,
se falarmos seremos melodiosos:
nada a esconder, capturar ou preservar,
ruíram muros que aprisionavam o espírito,
instalou-se a paisagem nos campos
do coração. Não passamos pela natureza – digamos –
somos a debandada das forças da ambição, maledicência,
inveja, egoísmo, despeito, intolerância, orgulho, arrogância,
mesquinharia, duplicidade and so on.
É a manhã do primeiro dia da grande paz,
a paz do coração, porque nos rendemos.
Isto não é o oposto da guerra,
porque a morte também não é o oposto da vida.
A linguagem, que pobreza! Pobreza da imaginação
7faces – Dora Ferreira da Silva│ 208
do homem, de sua vida interior com seus trastes inúteis.
A paz que encontramos em Epidauro
ultrapassa a compreensão da maioria: um cessar
de hostilidades, uma pausa negativa.
A paz do coração que encontramos – Miller e eu –
(Katsímbalis a possuía) é positiva, invencível,
nada requer, nem pede proteção. É. Só.
Vitória? Se o for, muito especial, baseada numa rendição
especificamente voluntária. Ah, grande centro terapêutico
do mundo antigo – EPIDAURO! –
Aqui, o próprio curandeiro se curava –
início de uma arte, não médica, mas religiosa.
A Natureza – ensinam os grandes curandeiros –
é a maior das curandeiras. Mas é preciso, Dora (diz Miller)
que o homem reconheça seu lugar no mundo e este
não é a Natureza (domínio do animal)
mas o reino humano, ligação entre o animal e o divino.
“Epidauro” foi
publicado na Revista
Brasileira da
Academia Brasileira
de Letras, Edição 28
do trimestre julhosetembro de 2001.
Epidauro? Pura charlatanice, dizem os cientistas.
Progredimos assustadoramente. Nossos progressos
conduzem à mesa de operação, aos manicômios, às trincheiras.
O culto médico funciona mais ou menos como o Ministério
da Guerra – os triunfos escondem morte e desastre.
A alegria de viver vém através da paz, que não é estática,
mas dinâmica. Não há alegria sem paz e sem alegria
não há vida, mesmo que você tenha uma dúzia de carros,
seis mordomos, um castelo, uma capela particular
e um abrigo anti-aéreo. Ao que quer que nos apeguemos
– seja esperança ou fé – eis a doença à espreita!
Rendição absoluta, é isso. Quem agarrar-se à mínima migalha
estará nutrindo o germe prestes a devorá-lo.
Quanto a agarrar-se a Deus, Ele nos abandonou há tempos
para descobrirmos a alegria de alcançar o Bem.
Todo esse barulho, toda essa súplica pela paz
crescerá à medida em que dor e miséria crescerem
e a nada levará. Onde encontrar a paz? Imaginas
que ela é algo a ser estocado como trigo ou milho?
Algo para ser preso e devorado, carcaça entre lobos famintos?
Os que falam de paz têm semblantes carregados de raiva,
ódio, desprezo, orgulho, arrogância. Enquanto o assassinato
não for arrancado da mente e do coração não haverá paz.
O assassinato é o cume da pirâmide, cuja base mais larga
7faces – Dora Ferreira da Silva│ 209
é o Ser. O que está de pé ruirá. Tudo aquilo pelo que o homem
lutou, deve ser posto de lado, se quiser viver humanamente.
Até agora não passou de uma besta sanguinária
e mesmo suas divindades não prestam. Mestre de muitos mundos
é um escravo no seu mundo. O que comanda o universo
não é a mente, é o coração.
Em Epidauro, na quietude que sobre nós três baixou
ouvimos bater o coração do mundo.
Então sabemos qual é a cura: desistir, renunciar,
render-se para que nossos pequenos corações batam em uníssono
com o grande coração do mundo.
NOTA DA AUTORA. Poema inspirado no livro de Henry Miller (O Colosso de
Marússia). Refizemos juntos a viagem a Epidauro, Henry Miller e eu, com o poeta
grego Katzímbalis, que se manteve silencioso, mas não descontente.
© Chagall. A sua (detalhe) Reprodução
A sibila
Nas praças, nos templos e olivais
um grito de louvor à Terra, dançai!
Vim sem esplendor da aurora, mendiga,
não como as musas de outrora, dadivosas Diotimas,
vim mendigar o que há muito vos ofertei, Poetas:
sopro-vos à garganta dilatada, vossos olhos ceguei
para que o fundo olhar se liberte. Sibila em agonia,
há tanto silenciada, falarei por vossas bocas,
em vossos versos, arquejará minha voz embriagada, rouca –
sustos e soluços, gritos, silvos, neblinas de esgares,
mares de canto e pranto. No tempo além do tempo
meus lábios murmuram por ti e perto dos templos derruídos,
a respiração do velho Mar, seus haustos e gemidos.
Mostra-me o silêncio o lacre escarlate, verbo indigente
dos mitos que sempre me uniram às setas de Apolo.
Há tanto minha palavra foi calada, os deuses recuavam...
Mas os poetas mantiveram-me viva. O mais ínfimo
deu-me de beber e em sua hídria refresquei meu rosto.
Sensíveis a meu sopro, os maiores coroaram-me de folhas verdes.
O nascimento do Poema é o silvo que Apolo harmoniza e Orfeu faz cantar.
Rompendo as cisternas escuras vim, raiz coleante
por entre as pedras e a secura. Dilacerada, arquejante,
acolhe-me Apolo em seus braços de névoa.
Gemidos rasgam mil caminhos na gruta: Ai, ai, oh...
A Sibila arrasta-se no pó, soluça, seus lábios deliram,
traça no ar os gestos incertos dos agonizantes, colhe flores
na neblina. Ai, ai, oh... Foram-se os deuses da Grécia,
só espelhos refletem espelhos, o eterno assim se dá e esconde.
Onde Afrodite, a de rosáceos tornozelos, ungida de óleo incorruptível,
com seus perfumes, colares e pulseiras cintilantes?
Onde Ártemis, a doçura selvagem? Foram-se as ninfas
e hamadríades! Nunca mais a vida estuante dos bosques,
suas flores e clareiras, onde Zeus e Hera adormeciam ao calor do dia.
Ai, ai, neblina da neblina, o que enlaçarão agora nossos braços?
Não mais que névoa e vento. Apolo, assim te afastas, e me deixas presa
à teia indecifrável destes sons selvagens? Aaa, Oooo...
Em teu ombro dourado me apoiava, inventando poemas que ditavas
a meu secreto entendimento. Infeliz de mim! Agora
só posso tocar névoa e memória. Dissiparam-se Mundo e Palavra.
A Sibila chorou.
Nesse momento as coisas cessam, silenciosas,
atemorizadas. Os ventos param de soprar,
nas árvores as folhas não se move.
Os rios adormecem e gigantesco Mar
é liso e sem ondas. Paira sobre tudo um
SANTO SACRO SILÊNCIO
Perde-se na neblina a medida do Tempo,
tudo se abisma no silêncio, à espera
do alto Deus, meta dos séculos.
A Sibila abre os grandes olhos
e vê o Deus que nasce.
“A Sibila” foi
transcrito por
Constança
Marcondes César
num texto
publicado na
Revista do Instituto
de Letras da
Pontifícia
Universidade
Católica de
Campinas, edição
16, de dezembro de
1997.
A Mãe, junto ao menino, parece uma vinha
e enquanto a Lua surge, clara, ela adora
o Filho em seus braços. De ouro vivo é a Criança
e em resplendores toda a gruta se ilumina.
Luz nascida como o orvalho descendo do Céu à Terra
e em torno, suavíssimo aroma.
Anjos perpassam, alígeras borboletas
e cantam: Amém.
A Sibila sorri.
Um cântico novo brota em seus lábios, mas não é seu,
o infinito o modulou:
O aroma de teus perfumes é delicado
e teu nome, óleo que se derrama.
Serás nosso júbilo e alegria...
Não repares em minha tez morena, que o sol queimou.
Irados, meus irmãos fizeram-me guardas as vinhas,
eu, esquecida da Vinha!
Ouço a voz do meu Amado batendo à porta
Lentos são meus pés e ao abrir a porta
o Amado já se foi. Corre minha alma
e o busca por toda a parte. Não respondes, Amor,
ao meu chamado?
Eu vos suplico, filhas de Jerusalém,
se o encontrardes
dizei-lhe que estou doente de amor.
O que tem ele – elas perguntam –
o que tem o teu Amado mais do que os outros
para que assim o busques, quase morta?
Meu Amado é róseo e brilhante,
meu Amado vermelho. Sua cabeça é de ouro puro,
seus cachos, negro-azulados.
Seus olhos são duas rolas
perto de um lento riacho.
Destila mirra
o lírio de seus lábios.
Sei que habita um jardim,
companheiros, ouvem sua voz...
Oh, faze que eu também te escute!
Quem é essa que vem do deserto
como um cântaro apoiado a um peito amoroso?
Ele é um selo sobre seu coração,
sobre seu braço moreno,
pois o Amor é forte como a Morte,
suas centelhas são de fogo:
uma chama divina!
Dissipa-se na névoa um rosto efêmero,
mas a face do Amado permanece.
7faces – Dora Ferreira da Silva│ 214
Fac-símile da capa de 1ª edição do primeiro livro de Dora Ferreira da Silva,
“Andanças” publicado em 1970 e reunindo poemas escritos entre 1948 e
1970 numa edição custeada pelo própria autora.
Imagem: Arquivo Vilém Flusser.
Noturno I
Estrelas pendem da noite,
videira delirante.
Coroada de espelhos e ametistas
transmutas a carne em nudez
guardiã, sacerdotisa,
nos vales da distância
rumina em silêncio
teu rebanho tranquilo.
7faces – Dora Ferreira da Silva│ 216
Noturno II
Nossos olhos nos pertencem –
não o dia.
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
no flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.
A noite já desfere
seu punhal de trevas.
Noturno III
Pétala da noite
pálpebra fixa dos que olham para sempre a morte
nave perdida e sem memória
pérola marinha
arremessada às águas.
Rosa intranquila
pólen do amor sem pouso
mênade errante, os longos cabelos torturados,
tu, sublevada, que me prendeste em teu anel de insônias
e que desfias no espaço
o claro colar de águas:
por que acordas no meu peito a sede dos desertos
e me aprisionas, pássaro, em teu arco de prata?
Transpoema
De onde vens, quem sabe,
quem te sopra ao meu ouvido?
É o transpoema e seu ressaibo
é lembrança e olvido.
É um fruto oriundo
de algum ser – o mais profundo –
entre mim e tudo o mais.
É a curva de um caminho
é a urze, o rosamaninho
é o amor mais esquecido
que sabe o mais querido.
É a flauta muito doce
é a canção de sempre e agora
é a carência e a pletora
a vida me fez assim.
O transpoema serpenteia
na minha alma-lua-cheia
e transborda tantos frutos...
Mas quem sopra em meu ouvido?
É lembrança e é olvido.
7faces – Dora Ferreira da Silva│ 219
Capa da edição de Transpoemas. O livro é uma publicação póstuma
editada pelo Instituto Moreira Salles.
Imagem: Arquivo 7faces
O leque
(variações)
Linha oblíqua
oculta desoculta
o instante breve
cores exalta
do negro ao escarlate.
Ela e o leque: a aragem esconde
em poço de sombra
a curva do pescoço
o colo branco.
Capa da edição de O leque. Assim como Transpoemas o livro é uma
publicação póstuma editada pelo Instituto Moreira Salles.
Imagem: Arquivo 7faces
Appassionata
(fragmento)
É preciso desdobrar
asas de amor conhecimento
liberar o tato
de todas as coisas
que esperam,
pois o eco fugiria
das palavras vãs.
Sem pólen,
os pássaros voltariam
aos ninhos de sombra
se teu coração
recuasse
e os cabelos
não soltasses
Appassionata
Capa da edição de Appassionata. O livro é uma publicação póstuma
editada pelo Instituto Moreira Salles juntamente com Transpoemas e
O Leque .
Imagem: Arquivo 7faces
Dora
Ferreira
da Silva
inéditos
© Edmar José de Almeida. Dora Ferreira da Silva
(retrato) Detalhe de um quadro óleo.
Manuscrito do poema que abre o livro Transpoemas, de Dora Ferreira da
Silva, publicação póstuma editada pelo Instituto Moreira Salles. Escrito entre
2005 e 2006, o livro “nos surpreende com uma reflexão delicada sobre o
poema. Toda a sequência é uma interrogação sobre o fazer poético e o papel
reservado ao poeta. Numa clave metalinguística, Dora mostra o poeta como
um vaso comunicante por onde o poema se transporta.” – afirma Dozinete
Galvão.
Imagem do Arquivo de Inês Ferreira da Silva Bianchi. Cedida. Proibida reprodução sem
autorização responsável.
Manuscrito do poema II do livro Appassionata de Dora Ferreira da Silva,
publicação póstuma editada pelo Instituto Moreira Salles. “Uma noite me ligou
[Dora Ferreira da Silva] especialmente feliz e leu o poema que considerou seu
trabalho mais importante – Appassionata. Eu fiquei sem palavras, era o poema
mais lindo que jamais ouvira... Ele havia nascido de um mergulho incondicional
na Sonata n.23 de Beethoven, e o que ela queria era que as palavras se
tornassem música.” – Inês Ferreira da Silva Bianchi.
“Appassionata é uma obra de puro arrebatamento, calcada naquele
enthousiasmós (ou transporte divino) de que nos falam os antigos gregos. É
também, como se vê no orfismo, uma tentativa no sentido de que as palavras
posam transformar-se em música, embora a música da poesia, como entendia
T. S. Eliot, seja definida a partir de critérios bastante distintos, os quais
ensinam que ela não seria que existisse à margem do significado. Mas a
verdade é que, nos poemas de Appassionata, cumpre-se à risca aquele
conceito eliotiano de que a música de uma palavra está, por assim dizer, num
ponto de intersecção, já que ela ‘emerge de sua relação, primeiro, com as
palavras que imediatamente a antecedem e a ela se seguem, e
indefinidamente com o restante do contexto; e de outra relação, a de seu
imediato significado nesse contexto com todos os demais significados que haja
possuído em outros contextos, com sua maior ou menor riqueza de
associação’.” – Ivan Junqueira
Imagem do Arquivo de Inês Ferreira da Silva Bianchi. Cedida. Proibida reprodução sem
autorização responsável.
“Dora foi uma das pessoas mais luminosas que conheci. A casa da Rua
José Clemente foi um dos corações intelectuais do Brasil. Corrijo: a
palavra intelectual acaba de me incomodar. Aquela casa era a casa do
ser. Uma clareira aberta. Uma realização plena do que possa vir a ser a
experiência do desvelamento. Havia algo de muito especial naquele
lugar. Nunca consegue identificar o quê. Continuo tentando. Mas ainda
não consigo. Convivemos todas as semanas durante os últimos três ou
quatro anos de sua vida. Coordenávamos juntos o centro de estudos
que ela fundou, o Cavalo Azul. Os encontros eram justamente na
biblioteca, antigo escritório de trabalho de Vicente Ferreira da Silva.
Estávamos sempre a um passo de cruzar o umbral. É essa a impressão
mais forte que guardo dos encontros com Dora e da casa e que tentei
fixar em um depoimento: entrar em sua casa e em sua poesia era cruzar
um umbral. Tudo às costas se dissolvia, como na descida de Orfeu. É
difícil falar dela. São muitas coisas. Desde conversas que tínhamos
sobre poesia e arte até sinuosos devaneios sobre a vida após a morte, a
imortalidade, a alma e visões e presságios em sonho. A sua poesia era
ela e apontava na direção de tudo o que ela conseguiu mobilizar ao seu
redor. No modo de falar, nos grandes olhos redondos, na palma da mão
sempre elevada como uma sacerdotisa. A poesia de Dora, a obra de
Vicente e aquela casa persistem em mim como um sonho continuado. E
vez por outra me apalpo pra saber de fato de que lado estou desse
limiar.” – Rodrigo Petrônio. “A poesia é o paraíso do paradoxo. In:
Revista Texto poético.
Imagem. Dora Ferreira da Silva. Arquivo de Inês Ferreira da Silva Bianchi. Cedida.
Proibida reprodução sem autorização.
Vilém Flusser e Dora Ferreira da Silva mantiveram durante larga data,
desde que se conheceram estreitos diálogos entre poesia e filosofia.
Parte desses diálogos se deram no grupo formado por Dora, “Cavalo
Azul”, e se estenderam pela obra; tanto Vilém escreveu sobre Dora
quanto Dora escreveu sobre Vilém. Nesse intercâmbio de
conhecimentos, os dois também mantiveram a largo sua ponte de
correspondências por escrito.
Imagem Carta de Vilém Flusser para Dora Ferreira da Silva e resposta de Dora para
ele. Arquivo de Vilém Flusser Studies. Cópia.
Arquivo de Dora Ferreira da Silva do Instituto Moreira Salles
Dora Ferreira da Silva encostada em pedra, na praia de Mongaguá, São
Paulo, 1940.
O mundo
em poesia
Minha mãe traduzia o mundo em poesia. A música, os
fatos cotidianos, sua própria história familiar, os poetas
que ela admirava, pintores, a natureza, mitos, todos esses
elementos se transfiguravam em matéria poética, e o
poema era o resultado dessa experiência, ou melhor, desta
vivência.
Inês Ferreira da Silva Bianchi
fala sobre si e a relação com sua
mãe, Dora Ferreira da Silva.
Inês por Inês
“Nasci em 1953 em São Paulo, e fui uma filha temporã, uma vez que
meu irmão Luiz Vicente, falecido no ano passado, já tinha 12 anos
quando cheguei. Segundo minha mãe falou, foi uma gravidez de alto
risco, fruto de sua teimosia diante das recomendações médicas em
contrário. Até os 10 anos de idade estive muito próxima de meu pai,
uma pessoa essencialmente solar, que me levava em sua romizeta
para todos os lugares. Costumava ficar sentada no braço de sua
poltrona enquanto ele escrevia páginas e páginas de filosofia, num
papel finíssimo e colorido. Sua letra era incompreensível, e só minha
mãe conseguia decifrá-la. Ela batia a máquina e fazia a revisão. Desde
cedo, percebi que a minha casa e minha família eram bem diferentes
das de minhas amigas. Durante a noite aconteciam reuniões e meu
pai dava aulas para muitas pessoas. Dos degraus da escada,
escondida, eu não ouvia muito bem o que se falava, mas mesmo que
ouvisse não entenderia nada. Havia música, e um clima de grande
entusiasmo nas discussões. Depois de adulta, vim a saber que esses
encontros filosóficos foram inesquecíveis para todos os que
estiveram lá.
Meu pai morreu de forma trágica em 1963, num acidente de carro, e
foi muito difícil para mim sua perda. Nessa época, minha tia, irmã de
minha mãe me chamou para uma conversa, daquelas que nunca se
esquece na vida. Disse-me que eu teria uma grande responsabilidade
dali em diante, cuidar de minha mãe. Falou que ela era uma pessoa
sensível, com pouco senso de realidade - uma poetisa - e que caberia
a mim a tarefa de ser seu fio terra. De certa forma, esse foi meu
papel por muitos e muitos anos. Como meu irmão se casou logo após
a morte de meu pai, ficamos só nós duas, e nossa relação foi marcada
pela não ortodoxia, em todos os aspectos. Ser mãe ou filha era uma
condição variável, determinada pelas circunstancias e pela maior ou
menor habilidade de cada uma frente à tarefa. O universo prático, via
de regra, cabia a mim. Fomos muitas vezes para Itatiaia, e a
convivência naquele chalé no alto da montanha sempre foi repleta de
aventuras: enfrentamos aranhas caranguejeiras, cobras, banhos
gelados de cachoeira, e passamos a noite perdidas numa trilha no
meio do mato. Também em Itatiaia ela realizou um grande sonho
meu – ter um cavalo. Passávamos as tardes pintando pedras, e numa
vitrola a pilha ouvíamos Mozart e Bach. Ainda hoje o chalé de Itatiaia
se mantém intacto, assim como a capela de São Francisco, que minha
mãe construiu ao lado da casa, feita com a ajuda de muitos amigos,
com pedras e telhas de demolição.
Quando entrei na faculdade, em 1973, pensava fazer o curso de
Letras, e me tornar, quem sabe, uma escritora. Na PUC, o primeiro
ano era integrado para todos os cursos, e apenas duas matérias eram
específicas. Ao final do ano conversei com uma professora, e como
não estava gostando nada de latim e de linguística, e não pretendia
ser professora de Português, ela me aconselhou a fazer uma reopção
para outro curso. A Psicologia me pareceu um caminho interessante,
pois reunia uma atividade prática que me atraía (o atendimento
clínico), e um espaço criativo bem abrangente que me permitiria
desenvolver a literatura. Psicologia não havia sido nenhuma das
minhas opções no vestibular, e por isso precisei fazer uma prova
especial para conseguir a vaga. Escolhi montar uma peça de teatro: A
prostituta respeitosa, de Jean Paul Sartre. Foi uma experiência
fantástica, que não só me valeu a vaga na Psicologia como também
algumas reapresentações para o público no teatro da PUC.
Minha vivência como psicóloga foi longa: após a faculdade, fiz um
curso de especialização em Gestalt no Instituto Sedes Sapientiae, e
uma formação completa em Psicodança com seu criador, Rolando
Toro. Trabalhei duas décadas como psicoterapeuta em consultório
particular, dei cursos de Gestalt-terapia, de Psicodança, fui perita
judicial em Varas de Família e atuei na Casa da Mulher (instituição
que apoia mulheres em situação de risco doméstico). Fiz também
revisões de texto em capítulos de livros de psicologia e também na
Revista Cavalo Azul, editada por minha mãe.
Em 1998 dei uma guinada radical em minha vida. Junto com meus
dois filhos e meu marido me mudei para Ilhabela. Estávamos
morando todos juntos na casa da José Clemente, e a relação familiar
não era harmoniosa. Eu estava cansada de tentar resolver os
problemas que surgiam a todo o momento. Sentia-me angustiada,
prisioneira de uma situação incômoda, e com um desejo imenso de
me libertar. Por outro lado, tinha compromissos, trabalhos em
andamento, e o sentido de responsabilidade me dizia que era uma
loucura largar tudo e ir embora. O grande responsável pela tomada
de decisão foi meu filho mais velho, Gabriel, que na época tinha 15
anos. Sua única preocupação era não conseguir voltar para São Paulo
quando chegasse a hora. Curiosamente, ele foi o único que voltou
para fazer História na USP, trabalhar como professor e morar na
capital.
O desligamento com minha mãe – em função dessa mudança - foi
extremamente conturbado. De imediato ela se sentiu abandonada,
mesmo reconhecendo as dificuldades de relacionamento que
existiam no contexto familiar. Como se tratava de uma decisão
tomada, e irreversível, nos anos seguintes fomos desatando os nós
que essa revolução causou.
Eu demorei um ano para realizar internamente a mudança, sentir que
de fato morava em Ilhabela. Como tinha construído uma casa para
veraneio, era muito presente a sensação de que depois do fim de
semana nós voltaríamos para São Paulo. Procurar trabalho como
psicóloga, no único Centro Médico da cidade, foi a primeira medida
concreta para me enraizar, além de colocar os filhos numa escola.
Mas, meu rumo profissional seria em breve alterado para uma nova
direção que eu nem imaginava. Um Festival de Dança num palco
montado no centro de Ilhabela foi o elemento que deflagrou o
processo de mudança. Por isso posso garantir – por tudo o que se
sucedeu – que a arte da dança é mágica. Fui tocada profundamente
pelo espetáculo, senti uma emoção que há muito tempo não
experimentava, e como escrevia semanalmente artigos num jornal da
cidade, fiz um texto enaltecendo a iniciativa de se promover um
evento com aquela qualidade artística em nossa pequena cidade. Era
época de eleições municipais, e como sempre acontece nas
mudanças de gestão, joga-se fora tudo o que o antigo prefeito
construiu, principalmente o que ele fez de melhor. O resultado é que
o grupo responsável pelas ações culturais da antiga gestão foi
demitido. Esse baque fez com que eu me aproximasse dessas
pessoas, e juntos fomos em busca de um local onde se pudesse dar
andamento às atividades de dança de um grupo de alunas, ainda
pequenas, que integravam o projeto de arte-educação Pés no Chão.
Nessa procura, chegamos uma manhã a um imenso galpão, um
boliche desativado. Ao entrarmos, raios de luz invadiam o espaço.
Todos nós ficamos mudos e tomados por sonhos: era preciso criar ali
um espaço cultural, um teatro, o primeiro em nossa cidade. Sem
dinheiro algum, tivemos 24 horas para achar um doador maluco que
se dispusesse a dar R$ 1000 reais por mês, para pagar pelo período
de um ano o valor do aluguel. O proprietário, outro doido, rasgou o
contrato que iria assinar com uma mecânica de motores de barco e
embarcou em nossa empreitada delirante. Um mês depois o Espaço
Cultural Pés no Chão estava criado, com CNPJ, uma conta bancária
quase vazia no Banco do Brasil, e centenas de crianças inscritas nas
atividades oferecidas. Por dois anos, todos que trabalharam na
instituição foram voluntários.
Hoje o Pés no Chão tem quase 12 anos e cresceu muito. Ele
conquistou sua sede própria (um teatro-escola) a custo de muito
trabalho, do respeito da comunidade e de dezenas de projetos
realizados. Profissionalmente ele fez com que me desenvolvesse na
área de elaboração de projetos, como professora de cursos de
poesia, e como redatora de um modo geral, uma vez que a escrita da
organização está sob minha responsabilidade. Participo desta
iniciativa desde sua fundação, e aquele Festival de Dança que me fez
mudar de rumo já está em sua 16ª edição, agora dentro de nosso
teatro e também espalhado pela cidade inteira. Conta com o
patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e da
Prefeitura Municipal de Ilhabela.
Estou prestes a completar 60 anos. Sinto-me profundamente
enraizada em Ilhabela. Da janela de meu escritório vejo árvores,
gaivotas e roseiras – descendentes de roseiras da minha mãe. Guardo
comigo objetos preciosos, como a placa do número da casa da Rua
José Clemente, os Prêmios Jabuti conquistados pela minha mãe, e as
Obras Completas de meu pai que infelizmente minha mãe não
chegou a ver publicadas.”
A relação de Dora Ferreira da Silva
com a escrita, sobretudo, com a poesia
e sobre as influências na formação de
Inês
“Minha mãe traduzia o mundo em poesia. A música, os fatos
cotidianos, sua própria história familiar, os poetas que ela admirava,
pintores, a natureza, mitos, todos esses elementos se transfiguravam
em matéria poética, e o poema era o resultado dessa experiência, ou
melhor, desta vivência. Em uma entrevista à TV Cultura em 2005, ela
disse que o mundo era uma fome das coisas serem percebidas. Neste
sentido, tudo tinha o potencial de se transformar em substancia de
sua poesia.
Quando viajamos para a Grécia, em 1972, ela sentou-se nas pedras
do Parthenon, tocou-as com as mãos como se estivesse buscando
absorver a memória aprisionada nessas pedras. Em Itatiaia, todos os
seus sentidos bebiam as forças da natureza, numa perspectiva de
comunhão profunda. Cenas do cotidiano, como as do vendedor de
rosas nos faróis de São Paulo, também a comoviam, sendo tema de
um de seus poemas.”
Há uma nova profissão...
Há uma nova profissão nesta cidade: o mendigo das rosas.
Investe perigosamente, na engrenagem do trânsito,
em pé de vento, bailarino, atrás dos automóveis.
Bate no vidro fechado quando há chuva.
E em troca da nota esquálida
faz a oferenda das rosas.
“A casa da Rua José Clemente 324 sempre teve como vocação ser um
centro de estudos, desde a época do meu pai. Essa tarefa foi
retomada por minha mãe com um foco maior no campo da poesia e
da psicologia. Entre os anos 60 e 70 alguns poetas da geração dos
beatniks lá se reuniam, e liam poemas e filosofia até altas
madrugadas. Lembro-me de Roberto Piva, Lindolf Bell, Claudio Willer,
Rodrigo de Haro, Celso Paulini, Alan Mayer, e muitos outros. A partir
Arquivo do Acervo Dora Ferreira da Silva do Instituto Moreira Salles.
dos anos 90 minha mãe formou um grupo de estudos com o qual
trabalhou até o fim de sua vida.”
Dora fazendo leitura pública de poesias, em frente e Livraria Brasiliense, na Barão de
Itapetininga. São Paulo, década de 1970.
Os Encontros na Casa de Dora
Por Raïssa Cavalcanti
A lembrança e a saudade desses encontros me vêm a memória com
nitidez. Os alunos iam chegando aos poucos e sendo recebidos na
biblioteca pela calorosa amizade de Dora Ferreira da Silva.
Sentávamos todos, em seguida, em volta da grande mesa da sala de
jantar Dora nos transportava ao tempo poético, mítico e filosófico, o
qual Dora conhecia bem os caminhos.
As reuniões se estendiam ao longo da noite e perdíamos a noção do
tempo, já que Dora não costumava transitar no tempo cronológico e
profano. Ela era uma frequentadora do tempo sagrado, dos meandros
desconhecidos. Dora realizava o seu ministério calmamente, fazendo
reflexões em torno das questões essenciais da filosofia, do mito da
arte e da psicologia.
O seu público era de pessoas jovens curiosas e interessadas pelo
conhecimento e pela cultura. Nos encontros na casa de Dora, os
jovens tinham a oportunidade de encontrar a mestra que os podia
guiar pelos trajetos de outros mestres, poetas, místicos e sábios.
Dora não somente nos levava a conhecer o conteúdo das obras
analisadas, mas ensinava, sobretudo a ter amor, respeito e admiração
pelo saber dessas pessoas que dedicaram a sua vida em prol do
desenvolvimento e da ampliação da consciência humana. Era visível e
manifesta a sua alegria em poder compartilhar com pessoas
interessadas em conhecer, tudo o que conhecia, amava e valorizava.
A nossa anfitriã era uma entusiasta das ideias de Carl Gustav Jung,
Mircea Eliade e Joseph Campbell. Mostrava respeitosa reverência
pela filosofia de Sócrates, Platão, Plotino, Spinoza e Martin
Heidegger. A mesma consideração demonstrava pela obra do marido,
o filósofo e escritor Vicente Ferreira da Silva, já falecido, cuja obra
enfileirada nas prateleiras da sua biblioteca, nos causava grande
admiração.
Dora possuía uma alma mística, por isso, a sua perfeita afinidade
com as ideias dos filósofos e poetas místicos. Com a concepção do
universo como uma criação divina e o relacionamento e
interdependência entre todas as coisas. Com Hildegard von Bingen
compartilhava a ideia da natureza ser a obra criativa de Deus e
existir uma interrelação entre a alma do homem, a natureza e Deus,
dentro de um perfeito equilíbrio. “O mundo todo foi acariciado pelo
beijo do criador.”
“Deus beija a alma
Bem seu íntimo.
Graça e Bênçãos
São concedidas,
Quando há ardente desejo interior.”
Seguindo os passos de Mestre Eckhart concebia o coração como o
lugar de encontro entre a alma e o Espírito que deve ser purificado
das impurezas do ego. Todas as doenças do ego, o egocentrismo,
todas as afirmações egóicas são impedimentos para o reconhecimento
da alma e de Deus, que habitam o interior do coração.
Escreveu sobre Johann Tauler e compartilhava com ele a defesa do
envolvimento com a vida cotidiana e com a natureza para o alcance
da união da alma com Deus.
Com a poesia de Santa Tereza D’Ávila sobre a alma se emocionava.
A alma como criação divina que foi colocada no coração do homem.
“Foste por amor criada
formosa, bela e assim
em meu coração pintada;
se te perderes, minha amada
alma, buscar-te-ás em Mim.”
Escreveu ainda sobre San Juan de la Cruz e comungava com o seu
sentimento de que é através do amor que a alma se une a Deus.
“O amor une a alma à Deus
E, quanto mais amor ela possui
Com mais força se funde com Ele
E nele está concentrada.”
Dora demonstrava amor e perfeita familiaridade com os seus
escritores, poetas e artistas preferidos. Juana Inês de la Cruz, Jan
Van Ruysbroeck, Jacob Böehme, Angelus Silesius e William Blake
eram frequentadores da intimidade da sua casa há bastante tempo.
Muitos dos temas e autores examinados foram apresentados pela
primeira vez, aos jovens presentes, que tiveram oportunidade de os
conhecer através da mestra. Dora era o exemplo vivo do verdadeiro
mestre, daquele que ama o conhecimento porque reconhece o seu
valor para a formação do homem. Transmitia o seu saber com grande
entusiasmo e alegria. Somente podia se entusiasmar, porque a sua
sensibilidade transcendia a visão comum e porque a sua busca do
conhecimento havia lhe trazido a descoberta do significado maior da
vida. O seu entusiasmo e alegria eram inspiradores, tinha o poder de
insuflar na alma dos alunos o desejo, o amor pelo conhecimento.
Dora Ferreira da Silva era uma amante do conhecimento, no sentido
platônico. Ela era uma filósofa, aquela que ama e busca a sabedoria,
a verdade. A sabedoria procurada por Dora era a inspirada pela
alma, por isso, podia ser chamada de sophia e Dora podia ser
chamada de filósofa. Acreditava que para obter o verdadeiro
conhecimento é necessário eliminar a visão aparente, afastar tudo
aquilo que impede de ver a realidade como ela é e ter a coragem de ir
mais fundo nas coisas. O maior impedimento para a apreensão da
verdade é a percepção superficial e convencional, determinada pelos
condicionamentos sociais e culturais.
A inspiração e a aspiração para os encontros ela encontrava em
Platão. A finalidade dos encontros na casa de Dora era preencher a
necessidade da filósofa de comunhão. Era oferecer alimento para a
sua alma e para a de seus ouvintes. O seu desejo como anfitriã era
compartilhar a sabedoria de sophia. Era oferecer um banquete com
as mais ricas iguarias do conhecimento, o saber que alimenta a alma
e a transforma.
Nesses encontros, Dora convidava os participantes a uma reflexão
profunda sobre as questões humanas. Com a atitude não
convencional, estimulava os alunos a sair da periferia da vida, a
olhar para além da superfície das coisas, a penetrar na profundidade
da alma, para se autoconhecerem, para apreenderem a verdade que
reside por trás de todas as aparências. A verdade buscada era aquela
que só pode ser percebida segundo a perspectiva espiritual da alma,
pois habita na interioridade e profundidade de cada um.
Inspirada pelos seus mestres de alma, Sócrates e Jung, Dora
considerava que o verdadeiro mestre é aquele que sabe suscitar no
aluno a necessidade da autoinvestigação, o desejo pela busca da
verdade interior e o amor por essa prática. Dora fazia do seu anseio
de saber, do seu amor pelo conhecimento uma prática de vida, um
exercício diário que acreditava ser benéfico para a saúde espiritual
da alma.
O seu modo de vida era fundamentado por uma visão de mundo e de
homem inspirada nos grandes mestres, ela se nutria de modelos
exemplares, como Sócrates e Platão. Eram eles quem motivavam a
sua busca especulativa e reflexiva, por que realizaram a condição
humana, de uma forma exemplar. Deixaram um modelo de homem, de
excelência humana e de humanismo.
Acreditava que o conhecimento torna o homem melhor, e que aquele
que conhece, no sentido mais profundo, pode contribuir para a
construção de um mundo mais humano. Dora Ferreira da Silva era
uma humanista, acreditava na capacidade de transformação do
homem. Como admiradora de Heidegger, o seu humanismo também
buscava nele a sua inspiração. Consistia em refletir e cuidar para que
o homem se tornasse humano e não desumano, um bárbaro, que nega
a sua própria essência.
O humanismo de Dora estava baseado na necessidade de reflexão e
também, no cuidado, no velar pela essência da natureza humana para
que essa não se perca ou se deturpe. O seu desejo de cuidar era
motivado pela percepção da crise ética e humanística pela qual o
mundo estava passando e que afeta, principalmente os jovens em
formação.
A finalidade do humanismo de Dora Ferreira da Silva era restaurar a
ideia de homem que foi reduzido em sua humanidade, pelas
concepções racionalistas. Recuperar a concepção humanista era
essencial para preservar o entendimento profundo sobre o homem e
manter a sua integridade.
Nos seus “symposium”, Dora procurava transmitir a crença
inspirada em Joseph Campbell. O homem é, potencialmente, o herói
que procura vencer a banalidade e realizar a sua transcendência, a
sua excelência, a sua virtude, a sua aretê. A necessidade do homem é
cumprir com plenitude a sua potência, as suas possibilidades e
potencialidades.
O homem se transforma e transforma o mundo, através da ação
criativa. A natureza humana é essencialmente criadora, e aí está a
sua liberdade e a sua força de transformação. Mas, como dizia
Spinoza, em cuja fonte Dora também se alimentava, esse caminho só
se realiza através do “Magnum Labore”, através do esforço pessoal e
da introdução no mundo da medida humana, de um universo de
sentido e de valores.
Dora é a representante de uma época que parece ter terminado. Uma
época na qual o conhecimento profundo era valorizado e o saber e a
experiência dos que conhecem profundamente, daqueles que amam a
sabedoria, os verdadeiros mestres. Uma época de pessoas devotadas
ao amor pelo conhecimento, que percebiam a vida como plena de
significado, de possibilidades de realização do homem em harmonia
consigo mesmo e com o mundo.
O que observamos, atualmente é a banalização do conhecimento. O
saber buscado é o aparente, superficial, ou o conhecimento rápido
que instrumentalize tecnicamente, com a exclusiva finalidade
profissional. O homem vive atualmente em um universo despido dos
valores fundamentais e carente de sentido.
O que se assiste hoje é a inversão dos valores humanos, uma crise do
humanismo com o reinado da objetividade e da tecnificação. Na vida
contemporânea, a atividade prática e utilitária é prioritária, não
sobra espaço para o cultivo da humanidade do homem.
Não existe mais espaço para o humanismo, nem para o cuidado das
humanidades, consideradas sem objetividade. Os lugares de
encontros, para a reunião de pessoas com interesses culturais e
humanísticos se esvaziaram, o público se tornou escasso.
Não existem mais encontros como os da casa de Dora.
As identificações que levaram Inês
você a compartilhar com Dora a
escrita. As cumplicidades estéticas de
mãe para filha.
Ser filha de Vicente Ferreira da Silva e Dora Ferreira da Silva, duas
pessoas excepcionais, evidentemente é motivo de orgulho, mas
também gera certo peso, em função das expectativas das pessoas em
relação a mim. Meu caminho foi diferente do deles, e tenho
essencialmente para com os dois um sentimento de filha, de tê-los
amado como pais e de ter sido muito amada por ambos.
Sistematicamente minha mãe lia seus poemas para mim, e queria
saber minha opinião. Eu me identificava com os menos eruditos.
Gosto muito de “Praça com árvore”.
Na praça Jorge de Lima
há uma árvore sozinha;
em seus ramos vê-se o vento
movendo as folhas;
e os pássaros
movendo as folhas e o vento.
Jorge de Lima no centro
era excessivo na sala.
Por si se abriam janelas
para seus poemas passarem.
A voz macia abrigava
as penas de muitos poemas
nascidos de alma e vento.
Quem passa na praça agora
vê um círculo pequeno;
no centro, ergue-se a árvore,
em seus ramos vê-se o vento
movendo as folhas;
e os pássaros
movendo as folhas e o vento.
Dora Ferreira da Silva. Reprodução
O texto que escrevi para o Appassionata foi um depoimento sobre o
período em que estava profundamente envolvida na publicação dos
três últimos trabalhos inéditos de minha mãe. Após o lançamento de
Transpoemas, o que se seguiu foi um sentimento de desamparo, e de
falta absoluta de interlocução. O IMS tornou-se uma instituição
cultural distante e despersonalizada com a saída do Franceschi, e
quanto à publicação do meu livro, mencionada também no
depoimento a que você se refere, é uma promessa sem prazo para
ser cumprida.
Com certeza ela era minha maior incentivadora, e nunca mais
encontrei alguém que se dispusesse a me ajudar, seja na seleção dos
poemas, na sua organização, dando opiniões ou quem sabe se
dispondo a ler o material para escrever um prefácio ou uma
apresentação do trabalho. Fiz uma tentativa, mas a resposta foi
negativa. Não tentei novamente. Como também não disponho de
recursos para fazer uma edição, parei.
Entre 2006 e 2008 o Instituto
Moreira Salles deu ao público três
inéditos de Dora. Inês revela que há
entre os manuscritos inéditos e fala
sobre o que vem sendo feito para
ampliar a divulgação da obra da
poeta.
Há uma série ainda inédita chamada Pássara. Encontrei, num
pequeno caderno artesanal, um conto ilustrado por ela mesma,
chamado A Casa e a Tenda, e existem alguns poemas dispersos.
Em minha opinião, está mais do que na hora de fazer uma publicação
sobre Dora Ferreira da Silva, nos moldes dos Cadernos de Literatura
que o IMS fez. É inegável a qualidade dessa coleção, que além de
textos reúne diversos outros materiais como fotografias,
depoimentos e correspondências. Há muito material disponível de
minha mãe espalhado em revistas, no próprio acervo do IMS, jornais,
mas o que falta é uma iniciativa para reunir e produzir essa edição.
Existem teses de mestrado e doutorado sobre Dora Ferreira da Silva
em andamento, em Minas Gerais e em Campinas. Ela recebeu
premiações de destaque como três Jabutis e o Prêmio Machado de
Assis, mas esse reconhecimento a que você se refere, talvez esteja
mais ligado a uma disseminação de sua obra, ou até mesmo, a sua
popularização. Alguns poemas seus foram inseridos em coletâneas,
como a da Boa Companhia/Poesia, da Companhia das Letras, e na
coleção Como e Por Que Ler – A Poesia Brasileira do Século XX, da
editora Objetiva. Um de seus trabalhos foi selecionado para compor
o volume Os cem melhores poemas brasileiros do século, organizado
por Ítalo Moriconi, também da editora Objetiva. Essa forma de
divulgação é bem interessante, no sentido de fazer com que o
trabalho do poeta atinja um público maior. Mas em minha opinião,
esta é uma tarefa demorada, que será realizada através de muitas
mãos, muitos amigos e admiradores de sua obra. Quem sabe através
das universidades e editoras surjam outras oportunidades... De
minha parte, estou sempre aberta e interessada em tornar minha
mãe uma “poeta conhecida”.
Dora Ferreira da Silva. Reprodução.
O Centro Cultural São Paulo promoveu em 2007 "Lilás - Mulheres de
Todas as Artes", um ciclo de conversas sobre o papel da mulher na
produção cultural brasileira. Em sua abertura foi feita uma
homenagem à Dora Ferreira da Silva e eu fui convidada a dar um
depoimento. Transcrevo abaixo um trecho do texto que li, e que
divertiu bastante o público presente, principalmente os que me
conheciam e também à minha mãe.
Tínhamos nossas diferenças, porque em certos aspectos
éramos de fato, muito diferentes. Minha mãe sempre foi
muito vaidosa, e adorava sedas. Eu sou uma adepta
contumaz do algodão. Quando íamos ao Shopping, eu
ficava indignada com os preços das lojas em que ela
entrava. Certa vez, eu disse em alto e bom som que
deveria ser colocada uma bomba numa loja em que ela
estava experimentando uma blusa. A vendedora ficou
perplexa. Depois que saímos de lá, demos boas risadas
de minhas fantasias terroristas.
Dora Ferreira da Silva
em foto de estúdio. São
Paulo, 26 março de
1946.
De certa maneira, este fato ilustra não apenas nossos gostos, mas
nossa forma de viver. É importante destacar que sempre nos
respeitamos, e jamais quisemos convencer uma à outra de qualquer
coisa. A riqueza de nossa relação residia justamente nessas
diferenças, que eram compartilhadas com riso e amor.
Inês poeta,
um inédito
Baía de Castelhanos
Canoas atentas vigiam.
É hora de ganhar o peixe,
garimpar a vida furtiva
sob a jazida do mar.
Há cardumes de peixes-galo,
lulas, cações e espadas,
há cercos cravados nas pedras
e redes na urgência da espera.
Gaivotas chamam:
lancem as garateias – venham
brincar!
No mato,
o legado agarra-se ao musgo
o monjolo soca o milho
ébrios, os náufragos cantam
respondem bem-te-vis
e um coro de sabiás.
Longe do rugido da cidade
gira a roda da farinha
floresce a paina da mata,
a infância, o que vem da terra,
as crias.....
©Rubem Bianchi
OS CONVIDADOS
Alexandre Bonafim Belizário
Possui graduação em Licenciatura Plena em Letras pelo Centro Universitário
Claretiano de Batatais (2001). É especialista em Fundamentos da Crítica
Literária (2002) e mestre em Estudos Literários, ambos pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - Araraquara (2006). É doutor em
Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é
professor adjunto de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade
Estadual de Goiás, unidade de Morrinhos. Tem experiência na área de
Letras, com ênfase em Literatura Portuguesa e Brasileira, atuando
principalmente nos seguintes seguimentos: poesia portuguesa, literatura
portuguesa, literatura brasileira, poesia brasileira.
Donizete Galvão
Nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, Brasil, em 1955. Publicou Azul
navalha (T.A. Queroz, Editor, 1988), As faces do rio (Água Viva Editores,
1991), Do silêncio da pedra (Arte Pau-Brasil, 1996), A carne e o
tempo (Nankin Editorial, 1997), Ruminações (Nankin Editorial, 1999), Mundo
mudo (Nankin Editorial, 2003). Tem trabalhos publicados nos principais
jornais e revistas do Brasil, entre eles Folha de S. Paulo, Poesia Sempre,
Dimensão, Inimigo Rumor e Cult. Publicou também nas revistas Babel
(Venezuela), Blanco Móvil (México), Matérika (México), tsé-tsé (Argentina),
Anto (Portugal) e Helicóptero (México/USA), entre outras.
Soares Feitosa
Nasceu em 1944, Ipu, Ceará. Foi jornalista na juventude, em Fortaleza;
caixeiro-viajante no Piauí; depois funcionário do Banco do Brasil. Viveu no
Recife de 1980 a 1994. Transferido para Salvador, divide hoje residência
entre as três grandes capitais nordestinas. Em 1993, às vésperas do meio
século de vida, escreveu seu primeiro poema. Em 1996 iniciou a publicação
artesanal do livro Réquiem em Sol da Tarde. Ainda em 1996, fundou, na
Internet, o Jornal de Poesia. Em 1997 publica o seu primeiro livro.
Inês Ferreira da Silva Bianchi
Nasceu em São Paulo em 1953. Formada em Psicologia pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. Tem especialização em Gestalt no
Instituto Sedes Sapientieae e trabalhou por duas décadas como
psicoterapeuta em consultório particular. Foi perita judicial em Varas de
Família e atuou na Casa da Mulher, instituição que apoia mulheres em
situação de risco doméstico. Editou com sua mãe, a poeta Dora Ferreira da
Silva a revista Cavalo Azul. Atualmente mora em Ilhabela onde conduz o
espaço cultural Pés no Chão.
AGRADECIMENTOS
Ao Instituto Moreira Salles pelo acesso ao arquivo de Dora Ferreira da
Silva e pela parceria para esta edição.
À Revista Colóquio/Letras da Fundação Calouste Gulbenkian pela
cessão do texto de Euryalo Cannabrava reproduzido neste número na
sessão entremeio e dos poemas de Dora Ferreira da Silva.
À Inês Ferreira da Silva Bianchi pela disponibilidade e
acompanhamento no processo de informações sobre o acervo de sua
mãe Dora Ferreira da Silva e pela cessão dos arquivos reproduzidos
na sessão inéditos.
Ao Alexandre Bonafim Belizário pelo texto inédito sobre a obra de
Dora Ferreira da Silva e pelo poema publicado na sessão Um caderno
para Dora; nesse mesmo rol, ao Donizete Galvão e ao Soares Feitosa.
À todos que enviaram material para o caderno-revista.
7faces
caderno-revista de poesia
set7aces.blogspot.com
O caderno-revista de poesia 7faces é uma produção semestral independente
projetada, diagramada e editada pelo poeta Pedro Fernandes.
Organização desta edição
Pedro Fernandes
Convidados para esta edição
Alexandre Bonafim Felizardo
Donizete Galvão
Soares Feitosa
Inês Ferreira da Silva Bianchi
Colaboradores (por ordem de apresentação)
Ricardo Dantas
Paulo Lima
Davi Araújo
Natalia Turini
Tiago Duarte Dias
Luiz Garcia
Adriano Winter
Paula Cajaty
Guerá Fernandes
Nuno Júdice
Joice Berth
Amosse Muscavele
Marco Polo Guimarães
Carlos Margarido
Ianê Mello
Amélia Luz
Pedro Belo Clara
Paulo Vitor Grossi
Rosane Carneiro
Renata Bomfim
Carina Carvalho
Agradecimentos
A todos que enviaram material para a ideia e em especial a Claudicélio Rodrigues da
Silva e Ítalo Meneghetti que se dispuseram a escrever sobre Salgado Maranhão.
Contato
Pelo correio eletrônico do editor, [email protected], ou através
do correio eletrônico da redação [email protected]
7faces. Caderno-revista de poesia.
Natal – RN. Ano 3. Edição n. 6. Jul.-Dez. 2012.
ISSN 2177-0794
Licença Creative Commons.
Distribuição eletrônica e gratuita. Os textos aqui publicados podem ser reproduzidos
em quaisquer mídias, desde que seja preservada a face de seus respectivos autores e
não seja para utilização com fins lucrativos.
Os textos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus respectivos
autores e fica disponível para download em set7aces.blogspot.com
O editor deste caderno-revista é isento de toda e qualquer informação que tenha
sido prestada de maneira equivocada por parte dos autores aqui publicados,
conforme declaração enviada por cada um dos autores e arquivadas no sistema
7faces.
Capa/Contracapa: Cláudio Cretti. Sem título. 35×45 cm – Tinta óleo e
grafite em pó sobre pergaminho – 2012
Claudio Cretti nasceu em 1964 em Belém, PA. Com menos de um ano,
muda-se com a família para Pirassununga, interior de São Paulo, cidade
onde vive até os quinze anos Em 1979, vai morar em São Paulo. Dois anos
depois, ingressa na escola técnica IADE — Instituto de Arte e Decoração,
iniciando um período de formação que vai determinar a sua escolha
definitiva pela arte. Nessa época, estabelece frutíferas relações com
professores como Lenora de Barros, Guto Lacaz e Cássio Michalani, entre
outros. Principiou Artes Plásticas na Escola de Belas Artes, mas abandonou o
curso antes do término do primeiro ano. Em 1985 realizou trabalhos com o
Grupo Ponkã, encabeçado por Paulo Yutaka. Atuou no espetáculo O próximo
Capítulo e concebe a performance Criptoprismática, apresentada no III Salão
Paulista de Arte Contemporânea, no qual recebe o Prêmio Estímulo, na
Pinacoteca do Estado e na Funarte, em São Paulo. Depois, trabalhou no
espetáculo Bodas de Sangue, de García Lorca, com o grupo Dramáticos.
Paralelamente, começou a desenhar com regularidade, enviando trabalhos
para salões. Além disso, estudou medicina oriental e formou-se massagista
na Associação de Massagistas Orientais. Depois de várias mostras e da
exposição individual Luz de ouvido foi ser professor na Escola da Vila, em
São Paulo, onde se mantém até hoje.
Arte interna a partir de Maurício Nogueira. Sem título
Maurício Nogueira Lima nasceu no Recife (PE) em 1930 e morreu em
Campinas (SP) em 1999. Pintor, arquiteto, desenhista, artista
gráfico, professor. Estudou Artes Plásticas entre 1947 e 1950 no Instituto de
Belas Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, em
Porto Alegre. Frequentou os cursos de comunicação visual, desenho
industrial e propaganda no Instituto de Arte Contemporânea do Museu de
Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP. Em 1953, integrou o Grupo
Ruptura. Estuda arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em
São Paulo, entre 1953 e 1957. EM 1960, realiza as primeiras grandes
instalações ambientais para indústrias automobilísticas no Salão do
Automóvel. A partir de 1974, leciona, entre outras escolas, na Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU/USP, onde
conclui mestrado e doutorado na área de estruturas ambientais urbanas.
Nas décadas de 1980 e 1990, realiza diversos trabalhos em espaços públicos,
como a praça Roosevelt, largo São Bento, estações de metrô e no elevado
Costa e Silva, todos em São Paulo.
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a fonte de todas as obras aqui disponibilizadas. Em caso de violação de direitos,
mau uso, uso inadequado ou erro entrar em contato; nos comprometemos a
atender as exigências no prazo legal de 72 horas contadas do momento em que
tomarmos conhecimento da notificação.
Para participar da ideia, deve o poeta consultar o espaço
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solicitar ao editor através do contato [email protected] o envio
das regulagens.
é preciso que venha o impreciso
inesperado como a rosa
ou como o rio
o poema necessário
Dora Ferreira da Silva, Andanças
Selo Letras in.verso e re.verso

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